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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:48:50 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Contos para a infância + Escohidos dos melhores auctores + +Author: Guerra Junqueiro + +Release Date: August 4, 2005 [EBook #16429] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA *** + + + + +Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), +Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + + + + + + +CONTOS PARA A INFANCIA + +ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES POR GUERRA JUNQUEIRO + + +LISBOA + +TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL + +Rua dos Calafates, 110 + +1877 + + + + +*A mãe* + + +Estava uma mãe muito afflicta, sentada ao pé do berço do seu filho, com +medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados. +Respírava com difficuldade, e ás vezes tão profundamente, que parecia +gemer; mas a mãe causava ainda mais lastima do que o pequenino +moribundo. + +N'isto bateram á porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado +n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de +neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha. + +O pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns instantes, +e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho +começou a embalar a creança, e a mãe, pegando n'uma cadeira, sentou-se +ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada +vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mãosinha descarnada e disse para +o velho: + +--Oh! Nosso Senhor não m'o hade levar! não é verdade?-- + +E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça d'uma maneira extranha, em +ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas +corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de +cabeça; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou +ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a +tremer de frio. + +--Que é isto! exclamou, lançando á volta de si o olhar hallucinado. O +berço estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creança. + + * * * * * + +A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma +mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em +casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais +depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar.» + +--Por onde foi ella? gritou a mãe. Dize-m'o pelo amor de Deus!» + +--Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto. +Mas só t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas +ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e +muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas. + +--Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me +demores, porque quero encontrar o meu filho.-- + +A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou a +cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais do que as +palavras. + +No fim disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de +pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.» + +A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não +sabia que direcção havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal, +cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve +cristallisada. + + * * * * * + +--Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe. + +--Vi, respondeu o mattagal, mas não te ensino o caminho, senão com a +condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.» + +E a mãe estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos +dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se +de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite +d'inverno frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe +angustiosa. + +E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando, +andando, até que chegou á margem d'um grande lago, onde não havia nem +barcos, nem navios. Não estava sufficientemente gelado para se andar por +elle, e era demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo, +querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio +do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do +lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria +talvez um milagre. + +--Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos +amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus +olhos são d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu +tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas á força de chorar, e +levar-te-hei á estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a +habitação da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro, é ella +quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida d'uma creatura +humana.» + +--Oh! o que não darei eu, para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E +apesar de ter já chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do +que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo +do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no +mundo uma rainha. + +O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na +outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua +de comprido. De longe não se sabia se era uma construcção artistica ou +uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada; +tinha dado os seus olhos. + +--Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou +ella desesperada. + +--A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um +lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como +vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?» + +--Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso. Compadece-te +de mim, e dize-me onde está o meu filho.» + +--Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas +e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para +as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este +sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem +com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes, +sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as +pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o +que tens ainda de fazer?» + +--Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim +do mundo buscar o que tu quizeres.--«Fóra d'aqui não preciso de nada, +respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que +são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos +brancos.»--Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Ahi os tens, +dou-t'os de boa vontade.» + +E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu +orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e +inteiramente brancos da velha. + +Esta levou-a pela mão á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma +vegetação maravilhosa. + +Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado +de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas +cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam +cobras asquerosas. + +Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos +frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa, +tomilho, ortelã e outras plantas humildes que representavam o genero de +utilidade das pessoas que ellas symbolisavam. + +Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que +pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em +vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com +esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a +essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlandia. + +A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe +impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas +pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do +coração, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as +pulsações do coração do seu filho. + +--É elle!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre +a terra, parecia completamente estiolado. + +--Não lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte +vier, que não tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de +arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem +de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o seu +consentimento.» + +N'isto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte, +que se approximava. + +--Como é què deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda +primeiro do que eu! Como o conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ella. + +E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro. + +Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de +não ferir uma só das pequeninas petalas. Então a Morte soprou-lhe nas +mãos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do +que os ventos enregelados do inverno. + +--Não pódes nada comigo!» disse a Morte.--Mas Deus tem mais força do que +tu, respondeu a mãe.»--«É verdade, mas eu não faço senão aquillo que +elle manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e +arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins, +um dos quaes é o grande jardim do Paraizo. São regiões desconhecidas; +ninguém sabe o que se lá passa.» + +--Misericordia! misericordia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho, +agora que acabo de o encontrar!» Supplicava e gemia. A Morte +conservava-se impassivel; agarrou então instantaneamente em duas flores +lindissimas e disse á Morte: «Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar, +despedaçar não só esta, mas todas as flores que estão aqui! + +--Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és +desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra mãe!» +disse a pobre mulher, largando as flores immediatamente.--Toma, aqui +tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei +do lago. Não sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o +fundo d'este poço; vê o que ias destruir, se arrancasses estas flores. +Verás passar nos reflexos da agua, como n'uma miragem, a sorte destinada +a cada uma d'essas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se +porventura vivesse.» + +Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria, +quadros risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de +miseria, d'angustias e de desolação. + +--N'isto que eu vejo, disse a mãe afflictissima, não distingo qual era a +sorte que Deus destinava ao meu filho.» + +--Não posso dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto +que te appareceu viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.» + +A mãe desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me: +era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade! Falla! +Não me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, não vá elle soffrer +desgraças tão horriveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que á minha +vida. As angustias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos. +Esquece as minhas lagrimas, as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz +e tudo o que disse.» + +--Não te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu +filho ou que o leve para a região desconhecida de que não posso +fallar-te!» Então a mãe allucinada, convulsa, torcendo os braços, +deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: «Não me ouças, +Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua vontade que é +sempre justa! Não me attendas meu Deus!» + +E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua agonia +dilacerante. + +E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi transplantal-o no +jardim do paraiso. + + + + +*O ouro* + + +Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas d'ouro, +empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas minas; e o +resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande +fome no paiz. + +Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em +segredo frangos, pombos, gallinhas e outras iguarias todas de ouro fino; +e quando o rei quiz jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com +que elle ficou todo satisfeito, porque não comprehendeu ao principio +qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada +de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem +que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus +vassallos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que +trazel-os nas minas á busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e +que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens, +estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro +apparecesse em abundancia. + +A rainha tinha juizo. + + + + +*Doçura e bondade* + + +Ha entre vós, meus filhos, indoles violentas, que não sabem dominar-se, +e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma pessima +disposição, que é necessario corrigir; dá lugar a disputas, e a que se +commettam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde. +Citar-vos-hei dois exemplos de que fui testemunha. + +Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante +d'elle, volta-se e dá-lhe uma bofetada. + +--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vae ter! bateu n'um +cego!» + +Um homem ainda novo montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns +camponezes grosseiros começaram a apupal-o e a bater no burro, para o +fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a +sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubesseis que eu era coxo, não +terieis sido tão covardes.» + +Os camponezes, envergonhados, córaram, afastando-se sem pronunciar uma +palavra. + +Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a +quem as recebeu. + + + + +*O malmequer* + + +Ouvi com attenção esta pequenina historia! + +No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que +deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores, +rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no +meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a +olhos vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por +elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella +manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes, +parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava +que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre florinha +insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do +sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares. + +N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira, +sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças +sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle, sentado na haste +verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo +o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com +admiravel nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a +olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha +feliz que cantava e voava. + +«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento +acaricia-me. Oh! não tenho rasão de me queixar.» + +Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos +aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para +parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa. +As tulipas brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se +pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno +malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: «como são +ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visital-as. Graças a Deus, +poderei assistir a este bello espectaculo.» E no mesmo instante a +cotovia dirigiu o seu vôo, não para as dalias e tulipas, mas para a +relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria não sabia o que +havia de pensar. + +O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando: «Como a herva é +macia! oh! que encantadora florinha, com um coração d'oiro, vestida de +prata!» + +Não se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com +o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do +firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde o malmequer +reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou +para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que +acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as +tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e +ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabeça toda +inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis +ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste. + +Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma +grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as +uma a uma. + +«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se +todas.» + +E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrára-se por +ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando +reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas, +adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia. + +No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao +ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste, +muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rasões para se affligir: +haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella +aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas +antigas viagens atravez do espaço illimitado. + +O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era +difficil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe +esquecer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e +a alvura resplandecente das suas proprias folhas. + +N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão +uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as +tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o +que desejavam. + +«Podemos arrancar d'aqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos +rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha. + +--«Arranca a flor, disse o outro.» + +A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era +morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existencia, como no momento em +que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia. + +«Não; deixemol-a, disse o mais velho. Está ahi muito bem.» + +Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia. + +O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia +com as azas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus +desejos, articular-lhe uma palavra de consolação. + +Passou-se assim toda a manhã. + +«Já não tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me +deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre +terrivel, sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do +sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da +creação!» + +Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu +então o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe, +afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo +inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva, +e a ti só por unica companhia. Cada pésinho de relva substitue para mim +uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah! +como me fazes recordar de todas as coisas que perdi! + +--Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o +minimo movimento. + +Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume; +a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a +arrancar a herva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na +flor. + +Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua á +desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas azas, sacudindo-as +convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha melancolica; a sua +cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e +d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer +não pôde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se +para o chão, doente de tristeza. + +Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto, +rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro +d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e +cobriram o tumulo com folhas de rosas. + +Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e +deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram +e lhe fizeram honrarias pomposissimas. + +A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle +que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou. + + + + +*Não quero* + + +Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito +alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» Parei e +perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu rapaz?--«Não quero dizer +á mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar, +mas antes quero que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe +eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto que o outro +pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora +todo envergonhado. + +D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o +professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois +pequenos; o que não quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro, +vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os +dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro, è um magnifico +estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a +confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a reparal-as. O outro +pelo contrario, é mentiroso, covarde e incorrigivel.»--Não me espanto, +disse eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças; e +contei-lhe o que tinha ouvido. + + + + +*Piloto* + + +Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos cães, e o +infatigavel companheiro dos brinquedos das creanças da quinta. + +Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe +lançava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na bocca e +trazia-o á margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã +Joaninha. + +Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cançar nunca a paciencia do +Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o +assobio do creado da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações: +partia então como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos +pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho. + +Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda +da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse á noite a parede da +quinta. + +Uma vez deu prova d'uma extraordinaria sagacidade; um jornaleiro, que se +empregava muitas vezes em levar saccos de trigo da quinta para casa, +tentou de noite roubar um sacco. + +Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade +emquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou +tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o +largar. + +Era como se dissesse: «Onde vaes tu com o trigo de meu dono?» + +O ladrão quiz pôr então outra vez o sacco d'onde o tinha tirado; Piloto +não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de +manhã; o quinteiro foi dar com elle n'esta difficil posição, +reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não +deshonrar. + +Mas o homem ficou com odio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a +ausencia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para +elle sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até á +margem do ribeiro. + +Atou uma grande pedra á outra extremidade da corda e levantando o animal +atirou-o á agua; mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforço, +caiu tambem. + +Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o +corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e +desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes +e trazido para terra o seu mortal inimigo. + +Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o +cão que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida. + +Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si +mesmo e combateu as suas más inclinações. + +O exemplo do cão corrigiu o homem. + + + + +*O rico e o pobre* + + +Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um +dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e +deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da +estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar, +quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu +preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos +viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo, +e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de +vinho. + +Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua +codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e +suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino tão rico, +em vez do desgraçado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu +dentro d'aquella carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia +Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lançando a cabeça fóra da +carruagem, chamou Martinho com a mão. + +--Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a +minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho +córando, o que eu disse não foi por mal.»--Não estou zangado comtigo, +replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.» + +--Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar +no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando +muitas leguas por dia, como pão secco e batatas, emquanto que o senhor +anda n'uma carruagem, póde comer frangos e beber vinho.»--Pois bem, +volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu +não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho +ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o +preceptor continuou: «Acceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho, +ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada +de me ver entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a +idéa da entrada triumphante na sua aldeia. + +O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a +descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma +perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em +duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou +que era muito pallido e que tinha cara de doente. + +Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:--Então sempre +desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas +valentes e as tuas faces córadas, pelo prazer de ter uma carruagem e +andar bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou +Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se +tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro +os meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças a Deus +pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia. + +«Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, +tens força e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que não +podem comprar-se com dinheiro. + + + + +*Como um camponez aprendeu o Padre Nosso* + + +Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o +confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso. + +«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.» + +«Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a +credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da +minha parte.» + +No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre. + +«Como te chamas? perguntou-lhe o camponez. + +«Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, respondeu o pobre.» + +«E o teu appellido?» + +«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.» + +E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo. + +Ao outro dia chega segundo pobre. + +«Como te chamas? + +«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.» + +«E o teu appellido?» + +«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.» + +E partiu com o seu alqueire de trigo. + +Veiu terceiro pobre. + +«Como te chamas?» + +«Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.» + +«E o teu appellido?» + +«Dae-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.» + +E levou o seu alqueire. + +Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma +forma até chegar ao _Amen_. + +Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão. + +«Então já sabes o Padre Nosso?» + +«Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei +o meu trigo.» + +«Quaes são? tornou o padre.» + +E o aldeão enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha +apresentado. + +«Já vês, disse o confessor, que não era muito difficil aprender o Padre +Nosso, porque já o sabes perfeitamente.» + + + + +*O talisman* + + +Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas +com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o +que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com +uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue +inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da +sua casa. + +«Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual é a razão +porque a sorte nos trata de um modo tão differente? Vendemos as mesmas +mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apezar +d'isso, emquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu +seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não +terás tu por acaso algum precioso talisman.» + +«Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma +virtude incomparavel. Trago-o ao pescoço, e ando assim com elle todo o +dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o +celleiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.» + +«Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia +preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de que t'a +restituo.» + +«Pois vem buscal-a ámanhã de manhã.» + +Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, +apresentou-lhe este uma avellã, através da qual tinha tinha passado um +fio de seda. + +O nosso homem pòl-a immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a +casa com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a +parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na +cozinha o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o +feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos +cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal +escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio, +comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por +terceira pessoa na direcção dos seus negocios. + +Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman, +agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em +segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado. + + + + +*A alma* + + +«Mamã, nem todas as creanças que morrem vão para o Paraizo. O outro dia +vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu papá e as +suas duas irmãsinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me +fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, não é +verdade?» + +«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus +paes e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraizo.» + +«A alma? mamã; não sei o que é; não comprehendo bem.» + +«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas +pequerruchas.» + +«Tive sim, mamã, tive muita pena.» + +«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os +braços?» + +«Não, mamã.» + +«Eram as orelhas?» + +«Oh! não mamã, era _cá dentro_.» + +«Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece, +que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando +praticas o bem. + + + + +*Alberto* + + +Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus +irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer +sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico +feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de +batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava +com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no +quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. «Ha +de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará libras como uma +cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá, que ficará muito +contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não +rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por +fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto. + +«Vi papá; achei-a e fui semeal-a.» + +«Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve?» + +«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.» + +«É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.» + +Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe +não pertencia. + +Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe +produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como +é? é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira. + + + +*A canção da cerejeira* + + +Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!» E a cereijeira +cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e +verdejantes. + +A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se, +abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as +folhinhas tenras, dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem é +que me arranjou este banquete?» + +Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a cereijeira +cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores delicadas e +brancas. + +E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas, +dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o +deitaram!» + +Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o +assucar!» + +No verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira +cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos. + +«Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião; temos appetite, +e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No +outono disse Deus: «Levantae a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento +frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore. + +As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o +vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar. + +Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos +ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descança. + + + + +*Os gigantes da montanha e os anões da planicie* + + +Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na +montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um +alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície a ver o que +faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões. +Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido á caça e sua mãe estava +dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os +jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os +lavradores, coisas inteiramente novas para ella. «Oh! que lindos +brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que +quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavallos, a +charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello, +onde seu pae estava a jantar. + +--Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle. + +--Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os +mais bonitos que tenho visto.» + +E pol-os em cima da mesa, a um e um,--os cavallos, a charrua e os +trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem +tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha +poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante +fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso +não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e +respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o +immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da +montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de lavrar +a terra e de semear o trigo. + + + + +*A creança, a anjo e flôr* + + +Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos braços, e +desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que +ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de +quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam +no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe +todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor +escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros +maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma +creança morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro +sobre a casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins +deliciosos, cobertos de flores. + +«Qual é a flor que desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo. + +Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, +magnifica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de +botõesinhos lindissimos pendiam estiolados para o chão. + +«Pobre roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa +reflorir no paraiso.» + +O anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas flores +brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres. + +A colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus. Caiu +a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam ainda por +cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia +de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de +immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores +com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos +campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-n'a +atirado para a rua como inutil e morta. + +«Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando, +te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquella +rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creança miseravel e +doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar +com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias +de verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. +Então a creança sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do +andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca +verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do +visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o ramo +verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava +com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe +flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda +raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da +cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e +todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico +thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe +aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em +sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e +ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que se +voltou. + +«Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida +flor, esquecida á janella desde então, murchou, estiolou-se e +atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca é o +thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os +canteiros d'um jardim realengo.» + +«Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o anjo levava para o céo. + +--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava +em moletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!» + +A creança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam +no céo onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, +levou-as ao coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre, +despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar +com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe, +formando circulos que vão augmentando successivamente, multiplicando-se +até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos +harmoniosamente--desde a creança abençoada até á humilde florinha do +campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e +tortuosa. + + + + +*Presente por presente* + + +Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite +á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi +a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que +pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque +eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama não a +tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava +morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões, +e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao +outro dia pela manhã disse isto mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao +despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha +dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponeza julgou +que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a +trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o +que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro +examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher: + +«Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe! + +E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter +achado as suas batatas melhores do que faisões. + +«É necessário confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha +talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das +batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas. + +E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de batatas +escolhidas. + +Os lacaios e as sentinellas ao principio não o queriam deixar entrar; +mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo +contrario vinha trazer alguma cousa. + +Foi, pois, introduzido na sala da audiencia. + +«Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente +pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca +d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar +demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis +o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das +batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos +acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá +as encontrareis sempre ao vosso dispor.» + +A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava +n'um momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta +geiras de terra. + +Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que, +sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não me ha +de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo +qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer +presente d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra, +simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de +recompensar ainda mais generosamente.» + +Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do +palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar +altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia. + +«Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; não +tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o +offereça.» + +O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse +comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces: + +Depois dirigindo-se a elle: + +«Acceito a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh! +espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que +faisões. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom +preço para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.» + +E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora. + + + + +*O pinheiro ambicioso* + + +Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh! +dizia elle, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas +verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais +orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido +de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!» + +O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o +pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, +pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, +mais sensatos do que elle, não invejavam a sua rapida fortuna. Á noite +passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um +sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés á cabeça. + +«Oh! disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça +dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a +floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro; +o oiro attrae as ambições. + +Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu +avarento não me teria despido.» + +No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao +sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, +fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de +nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as +folhas de cristal. + +«Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em +pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir +as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria +menos brilhante, mas viveria descansado.» + +Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado ás vaidades +primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os +outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e +vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as +todas sem deixar uma unica. + +O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar á sua +fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da +sua sorte. + + + + +*Perfeição das obras de Deus* + + +_A filha_.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha. + +_A mãe_.--Vou-te dar outra. + +_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mamã? + +_A mãe_.--Vê se adivinhas. + +_A filha_.--Nã sei, mamã. + +_A mãe_.--Conheces os metaes? + +_A filha_.--Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de +uma caixa. + +_A mãe_.--Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de +marmore? + +_A filha_.--Oh! não; são de metal; mas de que metal? + +_A mãe_.--Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas +primeiro. + +_A filha_.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não é de prata, porque +não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarello muito +brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarello muito feio, que +cheira mal... Então é de ferro, mamã? + +_A mãe_.--Adivinhaste. + +_A filha_.--Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas. + +_A mãe_.--É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já +se não chama ferro, é aço. + +_A filha_.--Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que +as fazem. + +_A mãe_.--É impossivel, não és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma +fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar +muito. + +_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que +nos servimos. + +_A mãe_.--Tens razão; é uma vergonha ignoral-o. + +_A filha_.--Mamã, deixe-me ver as suas agulhas. + +_A mãe_.--Olha, ahi tens o meu estojo. + +_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão +fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para +fazer uma coisinha tão delicada! + +_A mãe_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por +uma pulga, presa por uma cadeia de oiro? + +_A filha_.--Lembro, mamã; era tão bonito! + +_A mãe_.--Li n'um jornal allemão que um operario chamado Nerlinger fez +um copo de um grão de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais +doze... + +_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um +grão de pimenta! + +_A mãe_.--E ainda não é tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas +doiradas, e sustentava-se no pé. + +_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso! + +_A mãe_.--Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É +effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam +certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração. + +_A filha_.--Quaes, mamã? + +_A mãe_.--Já t'o digo. (_Levanta-se_.) + +_A filha_.--Que quer, mamã? + +_A mãe_.--Quero que vejas o microscopio de teu papá. + +_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio. + +_A mãe_.--Este é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes +ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina, +lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês? + +_A filha_.--Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão grosseira! + +_A mãe_.--Vês-lhe buracos, riscos, asperesas, não é verdade? + +_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito. + +_A mãe_.--Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na +agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por ellas. + +_A filha_.--O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a +visse ao microscopio. + +_A mãe_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa. + +_A filha_.--O quê, mamã? + +_A mãe_.--O aguilhãosinho de uma abelha. + +_A filha_.--Oh! que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é +brilhante!... Mas já sei que visto ao microscopio ha de acontecer o +mesmo que com a agulha. + +_A mãe_.--Prompto: olha. + +_A filha_ (olhando).--É exquisito, mamã! + +_A mãe_.--Então? + +_A filha_.--Augmentou, augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo +contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não tinha ponta, +e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabello. Porque +será isto, mamã? + +_A mãe_.--É porque o operario que fez este aguilhão é muito mais habil +do que o que fez a agulha. + +_A filha_.--Quem é esse operario tão habil? + +_A mãe_.--É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as +creaturas. + +_A filha_.--É Deus. + +_A mãe_.--Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os +animaes? + +_A filha_.--De certo. + +_A mãe_.--Foi elle por conseguinte que fez o aguilhão d'esta abelha; e +ahi tens porque o aguilhão é superior á agulha: é obra de Deus. Mas +continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de +musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês? + +_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita. + +_A mãe_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima. + +_A filha_.--Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo +microscopio. + +_A mãe_.--Então? + +_A filha_.--É horrorosa... Parece feita de pellos grosseiros com grandes +buracos deseguaes. + +_A mãe_.--As obras do homem são todas assim. + +_A filha_.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus. + +_A mãe_.--Sabes o que é isto? + +_A filha_.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda. + +_A mãe_.--Os fiosinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha +pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes. + +_A filha_ (olhando pelo microscópio).--Não, mamã; os fios são todos +eguaes, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante. + +_A mãe_.--É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha +sobre este papel? + +_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas +também com tinta. + +_A mãe_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente +redondos? + +_A filha_.--Sim, mamã, perfeitamente redondos. + +_A mãe_.--Vê-os agora ao microscopio. + +_A filha_.--Oh! já não são redondos, são todos deseguaes. + +_A mãe_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma aza de borboleta; +vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo +microscopio; o que é que vês? + +_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a differença +que agora é maior. Que bellas que são as obras de Deus! + +_A mãe_.--Merece bem a pena estudal-as. + +_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras +dos homens. + +_A mãe_.--E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do +homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais +perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a +primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a +segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem +fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras +mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as +obras do Creador. + + + + +*João e os seus camaradas* + + +Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso, +possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a +correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou +o gallo, e disse-lhe: + +«O que é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, ou toda +com a minha maldição?» + +«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no +mundo eu quereria a tua maldição.» + +«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te +abençôe.» + +E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha +caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair. + +«Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a +afogar-me.» + +«Espera, respondeu João.» + +E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o +quadrúpede do atoleiro. + +«Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te posso ser util, +aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?» + +--«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha vida.» + +«Queres tu que eu te acompanhe? + +«Anda d'ahi.» + +E puzeram-se a caminho. + +Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da +eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre +animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de +tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir. + +«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa te for +prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?» + +«Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.» + +«Queres que te acompanhe?» + +«Anda d'ahi.» + +Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a +merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva +que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar +lastimosamente. + +Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango. + +--«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser util. Aonde +vaes tu? + +--«Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.» + +--De boa vontade. + +Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um +grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um +gallo na bocca. + +«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão. + +E no mesmo instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em +perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente +disse a João: + +--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?» + +--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco? + +--«De boa vontade.» + +--Então anda. Se te cançares, empoleira-te no jumento.» + +Os viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro. +Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma quinta, nem +uma cabana. + +--«Paciencia, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos +hoje a dormir ao ar livre; além d'isso a noite está socegada, e a relva +é macia.» + +Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o cão +e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo +empoleirou-se n'uma arvore. + +Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou +a cantar. + +--«Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque é que +estás a gritar?» + +--«Porque já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a luz da +madrugada, que vem rompendo?» + +--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é d'uma lanterna. +Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto +da noite.» + +Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez +dos campos, até que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo, +d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e +blasphemias horriveis. + +--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem +é que está lá dentro.» + +Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam +alegremente, sentados a uma mesa principesca. + +--«Que bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do +conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este +porteiro. Á sua saude!» + +--«Á saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões. + +E d'um trago despejaram os copos. + +João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa: + +--«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der +signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.» + +O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao peitoril +d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o gato á cabeça do cão e o +gallo á cabeça do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do +jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do +gallo. + +--«Agora, bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar +armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!» + +No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando +cada vez mais; os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo +precipitadamente por uma porta falsa. + +João e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um +excellente jantar, e deitaram-se em seguida--João n'uma cama, o burro na +cavallariça, o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e +o gallo n'um poleiro. + +Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e +salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir. + +--«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão humida, disse um +d'elles.» + +--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.» + +--«E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.» + +--«E o que é mais lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o +dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das +gavetas.» + +--Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão. + +--Bravo! exclamaram os ladrões. + +E poz-se a caminho. + +Já não havia luz na casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se +para o fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as garras. +Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o +rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu +por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo +atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas. + +--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!» + +Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma +parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do chão. + +Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem +pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta. + +--Então? então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram. + +--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para +me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que o trago +n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado +por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o +cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta, +um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a sovella. Logo +depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras. +Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não +acreditam, vão lá, e experimentem.» + +--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo +ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.» + +Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excellentemente, e +partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões +lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos, +com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram á +porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com +uma libré esplendida, meias de seda, calções escarlates e cabello +empoado. + +Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João. + +--Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se embora?» + +--Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castello far-nos-ha +um bom acolhimento. + +--Fóra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a +andar immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os meus cães de +fila.» + +--Perdão, só um instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do +jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite +passada a porta do castello?» + +O porteiro córou. O conde que estava á janella, disse-lhe: + +--Ó Bernabé, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar. + +--Senhor, replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui eu que +abri a porta aos seis ladrões. + +--Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis? + +Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado, +pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite, +porque vimos cançados do caminho. + +--Ficae certos que sereis bem tratados. + +O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na +cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés á +cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e +disse-lhe: + +--Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.» + +João acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si. +Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo. + + + + +*O rabequista* + + +Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma +egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos. + +As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O +vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro, +feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava +constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria +um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha +sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge não havia pão nem +dinheiro no bolso para o comprar. + +Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca com tal +suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vel-o +tão pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa +Cecilia abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o +ao pobre musico, que tonto d'alegria, dançando, cantando, chorando, +correu á loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o +sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do +juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado á morte. + +Chegára o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo +poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim não +chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como +ultima graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento. +O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam +supplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua +derradeira melodia. + +Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou, +ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lagrimas começou a tocar. +Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de +novo, descalçar o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á +vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o +rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente +prestar-lhe as mais honrosas homenagens. + + + + +*Os pecegos* + + +Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos +magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos, +extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. Á +noite o pae perguntou-lhes: + +--Então comeram os pecegos? + +--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei +de plantal-o para nascer uma arvore.» + +--Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar no futuro.» + +--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mamã ainda me deu +metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.» + +--Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade não admira; +espero que quando fores maior te has de corrigir.» + +--Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou +fóra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi +o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á +cidade.» + +O pae meneou a cabeça: + +--Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo. + +--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego? + +--Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho, +ao Jorge, que está coitadinho com febre. Elle não o queria, mas +deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora. + +--Ora bem, perguntou o pae, qual de vós é que empregou melhor o pecego +que eu lhe dei? + +E os três pequenos disseram á uma: + +--Foi o mano Eduardo. + +Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos +arrazados de lagrimas. + + + + +*A urna das lagrimas* + + +Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem +adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só momento; mas +um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu e morreu. A +desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um +momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades. +Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava +acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido, +abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua +querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos +uma urna, que vinha cheia até ás bordas. + +--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo +das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais, +transbordará, e as tuas lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no +tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso. + +A pequenina desappareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não +affligir. + + + + +*Reconhecimento e ingratidão* + + +Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos paes. +E é natural. As creanças veem diariamente o que fazem seus paes, e +imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a +benção ou a maldição d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos, +terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem +ser meditados. + +Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito +satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois +d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que +trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O +principe, que para as suas despezas d'administração e representação +necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, +como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima +satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu: + +«Gasto diariamente comigo a terça parte d'essa quantia; outro terço é +para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas +economias.» + +Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o +d'este modo. + +«Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não podem +trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força para isso. Aos +primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha +infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando os annos +tiverem pesado sobre mim.» + +O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se +da educação de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos +paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando +egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação. + +Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma +maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve +de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato +recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde +foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse +muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima +esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito. +O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de +dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas +notou que a creança ao partir tinha escondido um dos lençoes a um canto, +atraz da porta. + +Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo. + +«Foi, respondeu a creança desabridamente, para me servir mais tarde +d'este lençol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital. + + + + +*O fato novo do sultão* + + +Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento. + +Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao +theatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava +de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Está no conselho; +dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade +muito alegre, graças á quantidade d'estrangeiros que por ali passavam; +mas chegaram lá um dia dois larapios, que, dando-se por tecelões, +disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não +só eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além +d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade +maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos +aquelles que não exercessem bem o seu emprego. + +--São vestuarios impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles, +saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade +dos ministros. Preciso d'esse estofo!» + +E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada, +para que podessem começar os trabalhos immediatamente. + +Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que +trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras. +Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso +muito bem guardado, trabalhando até á meia noite com os teares vasios. + +--«Preciso saber se a obra vae adiantada». + +Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos +idiotas. E, apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente +em todo o caso mandar alguem adiante. + +Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do +estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto. + +--Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um +grande talento, e por isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o +estofo. + +O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam +com os teares vasios. + +--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, não vejo +absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões +convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os +desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, +olhava, mas não via nada, pela rasão simplicissima de nada lá existir. + +--Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? É necessario que +ninguém o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá +confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.» + +--«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões: + +--«Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este +desenho... estas cores... magnifico!... Direi ao sultão que fiquei +completamente satisfeito.» + +--«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e +mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma +descripção minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois +repetir tudo ao sultão. + +Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; +precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no +bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam +sempre. + +Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funccionario, homem +honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a +este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não +via nada. + +--Não acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o +magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente +de não existir. + +--Mas que diabo! eu não sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois não serei +eu capaz de desempenhar o meu lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o +deixo eu.» + +Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo +desenho e o bem combinado das cores. + +--É d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sultão. E toda a +cidade começou a fallar d'esse tecido extraordinario. + +Emfim o proprio sultão quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande +acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois +honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois +velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de +especie alguma. + +--Não acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho +e as cores são dignos de vossa alteza.» + +E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam +podessem ver alguma cousa. + +--Que é isto! disse comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível! +serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça que me +acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnifico! Testemunho-vos a +minha satisfação.» + +E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se +atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do +mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto +repetiam como o sultão: «É magnifico!» Até lhe aconselharam a que se +apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnifico! é +encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era +geral. + +Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos +tecelões. + +Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à +luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, +cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio, +e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido. + +O sultão com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores +levantando um braço, como para sustentar alguma cousa, disseram: + +«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha; +ó a principal virtude d'este tecido.» + +--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma. + +--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios, +provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.» + +O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, +depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do +espelho. + +--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos. +Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!» + +Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias. + +--Está á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á procissão, +disse elle.» + +--Bom! estou prompto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.» + +E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do +seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não +querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a. + +E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a +gente na rua e ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que +cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber, +que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. +Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados. + +--Mas parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do +pae. + +--É a voz da innocencia, disse o pae. + +--Ha ali uma creança que diz que o sultão vae em cuecas. + +«Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente. + +O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era +verdade. Entretanto tomou a energica resolução de ir até ao fim, e os +camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda +imaginaria. + + + + +*Boa sentença* + + +Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma +quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis +d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado +camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse: + +--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no +alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste +adiantados os cem mil réis d'alviçaras: estamos pagos por conseguinte.» + +O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem +devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, +que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença: + +--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge +apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o +ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se julga com +direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que +encontraste, e guarda-o até que appareça o individuo que perdeu sómente +setecentos mil réis. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que +tenhas paciencia até que appareça alguem que tenha achado os teus +oitocentos mil réis. + + + + +*Os animaes agradecidos* + + +Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem +perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este +respondeu: + +--«Senhor: eu sou um desgraçado, um miseravel; nasci no vosso reino, e +chamo-me _Ingratidão_.» + +--«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu +serviço.» + +O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. +Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se +tão esperto e tão solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que +o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa. +Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então não +conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos +desventurados. + +Ora, na visinhança do palacio havia uma floresta cheia d'animaes +selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a +parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo +dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a +floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se +precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas. + +Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um +lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O +governador, ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão +horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança de +salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, +ninguem o vinha soccorrer. + +Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, +chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para +ganhar o pão necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem +lá foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da +cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção não tardou a +ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava +ali. + +--«Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto +encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma +enorme serpente.» + +--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não tendo para +sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava +um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se +cumpres a tua promessa? + +O intendente continuou: + +--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que +cumprirei a minha palavra.» + +Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda +muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão atirou-se a +ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era +o intendente. + +Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior +amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome. + +Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o +governador, enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a +serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o +governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr +para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o +que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes +promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre +homem bater à porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria. + +--«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente +que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.» + +O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou: + +--«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na floresta; que se +ponha a andar, porque o não conheço.» + +O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito. + +O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou á mulher a +odiosa perfidia de que tinha sido victima. + +A mulher disse-lhe: + +--«Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e +foi talvez por isso que te não pôde receber.» + +Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças. + +Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á porta do palacio. +Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que não tornasse +ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado a empregar meios +violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o: + +--«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o +inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais +n'isso.» + +No dia seguinte o bom do homem voltou á carga; e tendo o porteiro +consentido á força de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este +encolerisado atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre +homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do +chão. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um +burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas +levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se +obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente +tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para +fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle +tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e +este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leão, +vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso +agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal +de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal +para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico. + +No dia seguinte, voltando de novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que +o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto +lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado +o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha +tirado do fôjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em +que brilhavam três côres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a +serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto +d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio +levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que +propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho, +afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este, +assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia. +Antonio respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se +seria boa. + +O velho respondeu: + +--«São três as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria +imperturbavel e luz sem trevas. Se alguém t'a comprar por menos dinheiro +do que vale, tornará immediatamente para a tua mão.» + +Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da +sciencia maravilhosa, e correu a contar á mulher a sua felicidade. Como +se imagina, graças á virtude da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em +diante, nem honras nem riquezas. + +Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou +chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman. + +Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu: + +--«Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me não for paga +pelo que vale, tornará ella mesma para o meu poder.» + +--«Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.» + +E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã, +Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto +disse-lhe: + +--«Torna a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se que +lh'a furtaste.» + +O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou á presença de sua +magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra +preciosa. + +--«Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro, +fechado com sete chaves, disse o rei.» + +Antonio mostrou-lhe então a joia preciosa, e o rei ficou +extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido +semelhante thesouro. + +Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o +reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu +intendente, e disse-lhe: + +--«Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratidão_, +porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste +com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a Antonio as +tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres +enforcado.» + +Admiraram todos a sentença do rei, e Antonio desempenhou as suas altas +funcções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi +escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos +gloriosos. + + + + +*O ermitão* + + +Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou +retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao +trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os +seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa de Deus. Depois de ter +assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que já tinha +merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os +santos mais notaveis. + +Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe: + +--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola +e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas. + +O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no +seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe: + +--Irmão, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e +penitencias te tornaste agradavel a Deus. + +--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não +zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, +pobre de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em casa a +divertir os outros.» + +O austero ermitão continuou a insistir: + +--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum +acto de virtude.» + +--Em verdade não poderia citar nem um só.» + +--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido +loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente +o teu patrimonio e o producto do teu officio?» + +--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e +filhos tinham sido condemnados á escravidão para pagar uma divida. Essa +mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa, +protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a +sua familia, e levei-a á cidade, onde ella devia encontrar-se com seu +marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?» + +A estas palavras o ermitão poz-se a chorar, e exclamou: + +--Nos meus setenta annos de solidão nunca pratiquei uma obra tão +meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu não +passas d'um pobre musico.» + + + + +*Carlos Magno e o abade de S. Gall* + + +Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall, +preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da abadia, fresco, +rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e +activos, e o abade era indolente. Além d'isso o imperador tinha mais +d'um motivo de queixa contra elle. + +--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á +sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a bondade de me +responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão solemne do +nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em +dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo; +em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. +rev.^{ma} vier á minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate +d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás deixa de ser abade de S. +Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada +para o rabo.» + +O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas +os doutores mais famosos pela sua sciencia, não lhe souberam dar +resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal +aproximava-se; já não faltava senão um mez, já não faltavam senão +semanas, e afinal só dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e +anafado, estava magro como um esqueleto. Perdèra o somno e o appetite. +Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se +encontrou com o seu pastor. + +--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?» + +--Estou, meu caro Felix, estou muito doente.» + +--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.» + +--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta ás minhas tres +perguntas.» + +--É então latim?» + +--Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.» + +--Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe +era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.» + +Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o +barrete ao ar, e disse-lhe: + +--Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma} +póde continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu +habito.» + +Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o habito do abade de S. +Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho +imperial. + +--Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que +pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto +valho eu em dinheiro?» + +--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por +trinta dinheiros, sua magestade vale á justa vinte e nove, só um +dinheiro menos.» + +--Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não posso +deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda pergunta, não ha de +ser tão facil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a +dar a volta ao mundo?» + +--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir +constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e +quatro horas.» + +--Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finorio, e d'esta vez, +confesso-me vencido; mas a terceira, não d'essas á que se responde com +supposições. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha +de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.» + +--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está +enganado, porque eu sou o seu pastor.» + +--Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas +sendo.» + +--Não sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor, +peco-lhe outra cousa.» + +--Não tens mais que fallar.» + +--Peço a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.» + +Carlos Magno não era homem que faltasse á sua palavra. + + + + +*A boneca* + + +Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma +boneca! + +Não ha muitos annos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno +jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o +sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o espirito a vista dos dois +monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades, +que podem aniquillar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda não ha +muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da +feira, divertindo-me a meu modo. + +Cançado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella +especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo, +quando novos personagens me chamaram a attenção. + +Eram os meus visinhos _ricos_. + +Aqui é preciso uma rapida explicação. + +Das famílias da minha visinhança, só conheço tres. + +Qual d'estas tres familias será mais feliz?... + +Pelo que tenho notado, não tem que invejar umas ás outras. + +São todas felizes; cada qual a seu modo. + +Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_. + +Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e +dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou, +tomou nos braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em +seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e +com a menina para a barraca onde eu estava. + +Não havia ali segredo a surprehender. + +Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que +parecia agradecer áquella formosa criança a manifestação de qualquer +desejo. + +No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a +felicidade de dez crianças menos abastadas. + +Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca... +_rica_. + +Faltava apenas a dona da casa--a boneca. + +Todo risos e attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor. + +Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar +a mamã, a gentil creança acabou por escolher uma magnifica boneca de +dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues. + +Uma boneca como as outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica +recheada, braços e pernas de páu. + +Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribu de crianças, que fazem +o martyrio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado +sapateiro. + +Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem +anjos, caidos do céo sobre um monte de lama. + +São os meus visinhos _pobres_. + +A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa +immediata. + +É como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_. + +A filha que terá dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas, +cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à +pressão. + +São os meus visinhos _remediados_. + +A terceira é a dos meus visinhos _ricos_. + +Casa nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas +listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do +estado--nada falta áquella ditosa gente! + +Compõe-se egualmente de marido, mulher e filha. + +Que formosa criança!... Terá oito annos. + +Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e +scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e +esguios, terminados por unhas d'uma côr de rosa transparente, que não +sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a +crescer--que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos. + +Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas +aquellas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do +carro. + +A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criança. + +Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadissimas +considerações, suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina +recebèra brinquedos, que representavam um par de moedas. + +Que contraste com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da +mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel +artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois pontos +de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por +outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã preta! + +Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos remediados não havia luz. + +Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de +tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar, +provocavam os ralhos da mãe. + +Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas da manhã. + +Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na +casa immediata não se via ninguem--estava a pequena na mestra; no +palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda, +divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma +linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos. + +Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida. + +--«Ahi está a tua caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim +para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!... +Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...» + +Retirei-me da janella. + +Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena. + +A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se +vestia tres e quatro vezes! + +Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a +tratava! + +Chamava-lhe sr.ª D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente +com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que +se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma. + +Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos +_ricos_--ouvi um grito de susto. + +Era devido a um accidente, a que está sujeito quem anda de carro. + +Voltára-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janella. + +O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo, +porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e +lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra +nova, agarrou-a pelos pés e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais +perto de mim bradou voz timida e suplicante: + +«Não atire!... Dê-m'a.» + +Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra fé até +então. + +Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e +lançou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica. + +Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, +encolhendo os hombros, respondeu: + +--«Já não presta!... Está esmurrada!...» + +--É o mesmo!... Dá-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de +cubiça. + +--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os hombros. + +E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da +visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse +despedaçar-se nas lages da rua. + +Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a +outra, para mostrar á mãe a que ella ainda não podia acreditar, que +fosse sua! + +Por espaço de mezes foi a boneca a principal occupação da nova dona. + +A pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro +vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excellencia! Chamavam-lhe +sr.ª D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da +creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente +estranhas para ella! + +E a desgraçada perdia as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos +azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia +se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma! + +Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo, +ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores. + +Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, fitas velhas, rendas +amarelladas, chapéos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do +vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira. + +Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle +as ondulações do _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de +cassa---no inverno!--chaile e manta na cabeça. + +Muito mal lhe ficava aquillo!... Áquella boneca custava-lhe de certo o +vêr-se tão mal arranjada. + +Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei: + +--É justo!... Cada qual segundo as suas posses.» + +Por esse tempo, entrei em relações com o meu visinho sapateiro. + +O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos +faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra a primeira occasião, para me +pedir desculpa. + +Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a +aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem +grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade. + +Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze annos, com +quem sympathisei logo á primeira vista. + +Chama-se Maria. + +Por um d'estes acasos da Providencia, que parece ás vezes comprazer-se +em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos. + +Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro, +fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou. + +E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, porque havia +verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a +minha Maria!» + +E tinha razão! + +Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo era. + +--É quem vale á mãe!...--accrescentou o velho.»--Ali, onde a vê, faz o +serviço d'uma mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve +doente--bem pensei que não arribasse!--a pequena era quem cosinhava e +olhava pelos irmãos!... E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella +pequena esteve tres dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi +preciso eu obrigal-a, que ella não a queria deixar!...» + +E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que, +havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar. + +Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a +cabeça coberta por um lenço branco. + +Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais +passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias á +pequena. + +Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca +deitada nos joelhos. + +--Eu conheço aquella boneca!...--disse eu de mim para mim. + +E, não podendo resistir á curiosidade, bradei: + +--Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?... + +Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, córando de prazer. + +Era escusado dizer-m'o. + +Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não podia +duvidar... Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel +na fronte. + +De tempos a tempos, nas raras horas de descanço, Maria entretinha-se com +ella. + +--Quem te viu e quem te vê!...--pensava eu. + +Ás vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que +tratos que sofria a desgraçada! + +Roçada por aquellas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia, +empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim, +singularissimo o aspecto da triste! + +Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a +fraternisar com o povo. + +A misera mudára mais uma vez de nome!... + +De sr.ª D. Anna passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê. + +Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça. + +Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com +a boneca. + +Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, +encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre +boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de +trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que +mais familiares eram á pequena. + +Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a, +mandavam-n'a buscar agua á fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e +acabavam por a despedir. + +Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára de ser feliz. + +Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho! + +Desmaiada de côres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos, +desfeito o carmim dos labios, a boneca não promettia longa duração. + +Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi, +tentando em vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera. + +Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim! + +Um dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, +espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem mil +immundicies. + +Eu estava á porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava +melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que +partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto... Um objecto, +arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no +leito do enxurro... + +Olhei... Era a boneca!... + +A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo até esbarrar n'uma +pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou +quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e +o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas +profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem! + +Será pieguice, será o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me +impressionou o fim da pobre boneca. + +Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á vidraça do +sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa: + +--Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!? + +--Não fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!... + +--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?... + +--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e +feia!... + +Curvei a cabeça ante aquella razão, e segui o meu caminho. + +Pobre boneca! + + + + +*Inconveniente da riqueza* + + +Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi +surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para +outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já +todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo +estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual +com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso +Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma quinta, e bateu á +porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir. + +--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite? +Não se havia de arrepender.» + +E accrescentou: + +--Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a +trabalhar?» + +--Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser perseguido +por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã o que lhe devo, +portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para +o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto não nos fica +nada, e não sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus +quizer!» + +Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão pelos +olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e disse-lhe: + +--«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te +havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.» + +Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e +approximou-a do trigo. + +--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a +tudo!» + +Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se, +de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. Á vista d'um tal +milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos. + +--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua +pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, serás +recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te +enriquece.» + +Dito isto desappareceu. + +E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto +como a egreja. + +O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella +casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e +seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que +se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, +ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera +enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o +enriquecêra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na +candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a +casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais +absoluta. + + + + +*Querer é poder* + + +--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por +experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira. + +Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade. + +--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e +solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas +vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei +uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei. + +O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido. + +O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma +semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu +fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão +extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei: + +--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia, +pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são +os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te +distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor +extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor +incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha. + +O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do +rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e +deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e +horas, punha-se a resar. + +Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que +chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho. + +--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.» + +--Encontrar um diamante que caiu ao rio.» + +--Então, respondeu o velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque +vejo qual é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar +as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.» + +Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha +do rei. + + + + +*Qual será rei?* + + +Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o +successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia pertencer, +não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno. + +Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse posto de pé contra um +muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle +alvo, seria o escolhido para successor. + +Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito +tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defuncto. O principe +soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos atirariam peór, e que +por conseguinte seria elle quem viria a reinar. + +O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais +alegre do que o outro principe. + +O terceiro varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho +quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar melhor. + +Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mãos as +flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas +longe de si, e desatou a chorar: + +--«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jámais +consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus +proprios filhos!» + +Os grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais +digno. + + + + +*Os tres véos de Maria* + + +O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve. +Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de +seda tão bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em +cima. + +Este véo branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão. + +O segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que +sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, sem amparo, na casa triste e +abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de +marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas +lagrimas. + +O véo negro só o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de +Jesus no convento da Ave-Maria. + +O terceiro véo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado +d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos. + +Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou +no paraizo. + + + + +*Os pequenos no bosque* + + +Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos +outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos +para o bosque que encontremos lá toda a especie de lindos bichinhos, que +não fazem outra cousa senão brincar, e nós brincaremos com elles.» + +Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da +abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar, +disse-lhes: + +--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a +outra já não está solida.» + +--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.» + +--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu +ninho.» + +--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda +hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a +minha _toilette_.» + +E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo +a saltar e a tagarellar, tambem não queres brincar comnosco?» + +--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam +que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanço nem um +momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, ás colinas, +aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios, +tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje +acabára, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder +um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.» + +Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um +pintasilgo, em cima d'um ramo. + +--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?» + +--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo +o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além d'isso que tomar +parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o +meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com uma outra cantiga, +que á noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora, +preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incommodar os +habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.» + +Os pequenos aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só é +ligitimo, quando é a recompensa do trabalho. + + + + +*O chapellinho encarnado* + + +Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua +mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, que passava o +tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, deu-lhe um dia um chapéo +de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéo +novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do +chapellinho encarnado. + +A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia +legua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita: + +--Tua avó está doente, e não pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae +levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a +garrafa, não andes a correr, vae devagarinho e volta logo.» + +--Sim, mamã, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.» + +Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se +a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita, +que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum. + +--Bons dias, chapellinho encarnado.» + +--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.» + +--Onde vaes tão cedo?» + +--A casa da minha avó que está doente.» + +--E levas-lhe alguma cousa?» + +--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe +dar forças.» + +Dize-me onde mora a tua, avó, que tambem a quero ir ver.» + +--É perto, aqui no fim da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito +grandes, e no jardim ha muitas nozes.» + +--Ah! tu é que és uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava +de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e +que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que +quantidade de plantas medicinaes que se encontram!» + +--O senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita, +visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma +que fizesse bem a minha avó.» + +--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e +aquella.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas +venenosas. A pobre creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó. + +--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com +grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.» + +E poz-se a correr em direcção da casa da avó, emquanto que a pequerrucha +se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado. + +Quando o lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a +avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?» + +--É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da +pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.» + +--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.» + +Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira, +e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama. + +Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a +porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter +fechada. + +O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do +focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel. + +--Ai! avósinha, disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?» + +--É para te ouvir melhor, minha filha.» + +--E porque estás com uns olhos tão grandes?» + +--É para te vêr melhor.» + +--E para que estás com os braços tão grandes?» + +--É para te poder abraçar melhor.» + +--E Jesus! para que tens hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão +agudos?» + +--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se á pobre +pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a +resonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e +que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha está com um +pesadelo, está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, e +vê o lobo estendido na cama. + +--Olá, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.» + +Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a +dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o +animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe +cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e +saltou para o chão, gritando: + +--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada! + +A avó saiu também contentissima por ver outra vez a luz do dia. + +O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador metteu-lhe então +duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a +neta para verem o que se ia passar. + +Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se +para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e +não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e +affogou-se. + +O caçador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha +e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado +prometteu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o +prohibisse. + + + + +*Os cinco sonhos* + + +Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva numerosa, perseguiu +um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, que, apesar da +ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só +então que viu que estava só, tendo a sua côrte ficado muito para traz; +sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria +no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões. +Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da +entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe +quizeram logo contar. + +O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira: + +--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que acaba de entrar +aqui, e punha-o na minha cabeça.» + +--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.» + +--E eu que estava pondo o seu manto.» + +--E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do +meu pescoço aquella pesada cadeia d'ouro, da qual está pendurada a sua +trompa de caça.» + +--Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar tudo, e +mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e +qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço senão uma cousa, é que +me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caça.» + +Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido +d'um moribundo deve ser respeitado. + +Carlos Magno levou á boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou +d'ella sons tão fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os +seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé d'elle. + +--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem +eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser +enforcados diante d'este casebre.» + +E o sonho realisou-se immediatamente. + + + + +*A egreja do rei* + + +Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da +Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para +a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se +concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do +marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só elle, e mais +ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite +seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e substituido por o +d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar +pôr o seu nome na inscripção, e de novo foi substituido pelo da pobre +mulher; á terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou +então que lhe trouxessem a mulher á sua presença: + +--Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem +fosse com o que fosse para a edificação d'esta egreja; vejo que não +cumpriste as minhas ordens.» + +--«Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas +ordens, apesar da magua que sentia por não poder offerecer o meu +pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa +magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, +que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas +à construcção da egreja.» + +--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na +inscripção do monumento, disse-lha o rei.» + +Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na lapide da egreja +o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda. + + + + +*O valente soldado de chumbo* + + +Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos +terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que attitude marcial, +d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos! +A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da +caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!» +que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado +de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a +mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam +maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de +menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo lugar, e já não havia +chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros não estavam mais +firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e é este o que +precisamente nos interessa. + +Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros +brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de +papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos salões. +Á volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia +poeticamente n'um pedaço d'espelho que fingia um lago, onde nadavam +pequeninos cysnes de cêra. Tudo isto era encantador, mas não tanto como +uma menina que estava á porta, e que era tambem de papel, vestida com um +lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina +tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha +levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e +imaginou que, como elle, não tinha senão uma perna. + +--Ali está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma grande +fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e +quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No entantanto +preciso conhecel-a.» + +Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a +elegante dançarina, que estava sempre n'um pé só, sem perder o +equilibrio. + +Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas +da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram +a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de +chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas +como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas +e saltos mortaes, o lapis traçou mil arabescos phantasticos n'uma louza, +emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar. +Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a +dançarinasinha. Ella no bico do pé, e elle n'uma perna só, a +espreital-a. + +Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar +de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza. + +--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro +sitio.» + +Mas o soldado fez que não ouvia. + +--Espera até ámanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.» + +No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de +chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por +causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a +perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta +enterrada entre duas lages. + +A creada e o rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a +esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!» +tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva +começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois +do aguaceiro passaram dois garotos. + +--Olà! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o +navegar.» + +Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de +chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois +garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! +Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava +d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se +impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro. + +De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a +escuridão como na caixa dos soldados. + +--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me +metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina +estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas +vezes maior.» + +D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do +cano. + +--Venha o teu passaporte.» + +Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na +espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, +rangendo os dentes, e gritando ás palhas, e aos cavacos:--Façam-n'o +parar, façam-n'o parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.» + +Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e +sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente. +Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para elle, +como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem +poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a +queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se +atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto. + +O barco, depois de ter andado á roda durante muito tempo, encheu-se +d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do +soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a +agua passou por cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo, +pensou na gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia: + +--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.» + +O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi +devorado por um grande peixe. + +Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que +talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado +estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro. + +O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim +parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia, +e alguem exclamou: + +--Olha um soldado de chumbo!» + +O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a +cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no +soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a +gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na +barriga d'um peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso. +Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto é verdade que acontecem +cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de cuja +janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam +em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina sempre de perna +no ar. O soldado de chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria +derramado lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella, +ella olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro. + +De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no +fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé. + +O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um clarão +sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres lhe tinham +desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas +viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a +dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre +intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma +porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que +desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, já não era mais +que uma pequena massa informe. + +No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um +objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e tudo o que +restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha +ennegrecido. + + + + +*João Pateta* + + +João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A +gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe +mandou-o á feira comprar uma foice. Á volta, começou a andar com a foice +á roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a. + +--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em +um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.» + +--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais +esperto.» + +Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que +as não perdesse. + +--Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.» + +--Então, João, onde estão as agulhas?» + +--Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a +passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá as agulhas, não +podem estar em sitio melhor.» + +--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de as +tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.» + +--Perdão, respondeu João, para a outra vez, heide ser mais esperto.» + +Na outra semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar +uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz a +manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. Imagine-se o estado em +que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida. + +A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia +resolveu-se a mandal-o á feira vender duas gallinhas. + +--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam +outro.» + +--Está entendido, respondeu João.» + +Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle. + +--Queres seis tostões por essas gallinhas?» + +--Ora adeus! minha mãe recommendou-me, que não acceitasse o primeiro +preço, mas que esperasse o segundo.» + +--E tens muita rasão. Dou-te um cruzado.» + +--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro, +mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ella não tem que me ralhar.» + +Depois d'isto, João foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que +mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma +experiencia, e disse-lhe: + +--Vae vender este carneiro á feira. Mas não te deixes enganar. Não o +entregues senão a quem te der o preço mais elevado.» + +--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.» + +--Quanto queres por esse carneiro? + +--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado. + +--Quatro mil réis?» + +--É o preço mais elevado?» + +--Pouco mais ou menos.» + +--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára a uma escada. + +--Quanto?» + +--Dez tostões:» + +--É menos, respondeu timidamente o João.» + +--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não ha um +preço mais elevado.» + +--Tem rasão. É seu o carneiro.» + +Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou +comprar cousa alguma. + + + + +*Branca de Neve* + + +Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia +d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de vez em +quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão, +distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue. + +--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos +como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros +como este ébano.» + +Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha, +que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão branco, +que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito +tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher +d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos extraordinario. Era tão +formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas +vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho +magico dizia-lhe: + +--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no +mundo?» + +--És tu, respondia o espelho.» + +No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais +formosa. Tinha apenas sete annos, e já ninguem a podia ver sem ficar +maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu +espelho, disse-lhe: + +--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no +mundo?» + +--Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.» + +A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dôr aguda, +como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela +innocente Branca. Não podia socegar nem de dia, nem de noite. Para +satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe: + +--Quero quo Branca desappareça. Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me +provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o +coração.» + +O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e +dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança chorava e +lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella não tinha feito +mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas +lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se +as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas sim da rainha. Assim +fez, e para mostrar o coração de Branca á rainha, matou um cabrito, e +tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou +contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma +mulher no mundo é tão bella como eu. + +A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava +cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e +andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez +tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o +deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas. + +Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome +e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito +limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de +brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas, +e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco +do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo, +deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente. + +Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros +pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo +que tinham gente em casa. Um d'elles disse: + +--Quem comeu o meu pão?» + +E os outros successivamente: + +--Quem pegou no meu garfo?» + +--Quem comeu o meu caldo?» + +--Quem bebeu o meu vinho?» + +E emfim um d'elles: + +--Quem está ahi deitado na minha cama?» + +Reuniram-se todos á roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz +das lanternas viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente, +e affastaram-se sem fazer bulha, para a não accordar. Branca no dia +seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si +aquelles sete anões das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura, +que não tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava. +Branca contou a sua triste historia, e os anões disseram-lhe: + +--Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?» + +--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.» + +Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias. +Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as +minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem. + +Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não +tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, +e disse-lhe: + +--Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda +que ha no mundo?» + +E o espelho respondeu: + +--Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete +montanhas, e Branca é mais linda do que tu.» + +Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, +e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que +modo? Uma manhã partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto +cheio d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu á +porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas joias?» + +Os anões tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras +estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser +prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no +cesto, esqueceu-se das suas promessas. + +--Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao +pescoço.» + +Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os +anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente +inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas +gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si pouco +a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido. + +--Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira não era +outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, não deixes +entrar aqui ninguem, quando não estivermos em casa.» + +Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do +espelho, e disse-lhe: + +--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no mundo? +Responde. + +E o espelho respondeu: + +--És tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está +nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.» + +A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a +infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou ás sete +montanhas, e bateu á porta da cabana. + +--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á janella, e respondeu: + +--Vá-se embora, aqui não entra ninguem.» + +--Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. Já +viu outro tão bonito?» + +Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a +porta. + +--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o na cabeça.» + +Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e +Branca caiu morta. + +Á noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria. +Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e +tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente. + +No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio. +Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que +o espelho respondeu como antecedentemente. + +--Ah! é preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me +sacrificar. + +Vestiu-se de camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que +estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.» + +--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?» + +--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar +ninguem, nem compro coisa alguma.» + +--Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão +bonita, quero dar-lhe uma.» + +--Obrigada, não posso acceitar.» + +--Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa +que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora +mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se +tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu fulminada. + +--Ahi tens, para castigo da tua formosura.» + +Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e +perguntou-lhe: + +--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?» + +E o espelho respondeu: + +--És tu, és tu.» + +--Até que emfim!» + +Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o +licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava +fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos +da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não podiam +acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquillo, +as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quizeram +enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de cristal, e escreveram em cima. +«Aqui jaz a filha d'um rei;» puzeram o caixão n'uma das sete montanhas, +e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se +assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais +pequena alteração. + +Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar á +caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lh'o cedessem, fosse por preço +que fosse. + +--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixão, que +é o nosso thesouro.» + +--Então dêem-m'o, já não posso viver sem contemplar este rosto de +mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me +façam isto.» + +Os anões, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para +o levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu um +balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha +engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O +joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O +casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e +rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de +Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos +os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha: + +--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?» + +E o espelho respondeu: + +--Branca é mais formosa que tu. + +A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes +fossem descobertos, que morreu de repente. + +Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de +princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus bemfeitores. + + + + +*A rapariguinha e os phosphoros* + + +Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de +dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão +passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os +pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas +tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já +tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua +a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; +quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a intenção de fazer +d'elle um terço para o seu primeiro filho. + +A pequenita caminhava com os pésinhos nús, arroxeados pelo frio; tinha +no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na +mão um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido +compradores, e por isso não apurára cinco réis. + +Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos +longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoço; mas +pensava ella porventura nos seus cabellos annelados? + +As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos +manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava. + +Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada +vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia, +porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em sua casa +fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento +atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas +mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso +lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o +aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como +ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que +luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro +de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão suavemente, que era um regalo. + +A pequerrucha ia já a estender os pésitos para os aquecer tambem, quando +a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma +pontita de phosphoro consumido. + +Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu +a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse +muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha +alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha +assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume +delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do +prato, e caíu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca +espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de +si a parede fria e tenebrosa. + +Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo +de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a +que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem +sumptuoso. + +Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões accesos, e as estampas +coloridas, como as que ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. +Quando ia agarral-as com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os +balões da arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se +tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo +um longo rasto de fogo. + +--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que +lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando +cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.» + +Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe +appareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo. + +--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes +embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a panella de +ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal. + +Accendeu o rosto do masso, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e +os phosphoros espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua +avó tinha sido tão formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas +alegres, no meio d'este deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que +já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso. + +Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram a pequerrucha, entre os +dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios... +morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu +alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que +faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se, +disse um homem que passou.» E ninguem soube nunca as lindas coisas que +ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua +velha avó no dia do Anno Novo. + + + + +*O primeiro peccado de Margarida* + + +Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus +tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde +acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.» + +Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como +ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha +ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha +joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho. + +Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar. + +E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção +d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia +sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez. + +N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho, +á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento. + +Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das +suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo. +Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o +collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse +bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda +contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que +inquietou no paraizo o seu anjo da guarda. + +O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de +Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das +mãos. + +Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si +um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo +preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a +respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, +perguntou-lhe: + +--Qual é o caminho da cidade?» + +Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se +tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma +estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que +o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com +um sorriso estranho e diabolico. + +N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de +Margarida, e pediu-lhe uma esmola. + +Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado. + +O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre +Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda +disfarçado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que +tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste. + + + + +*Um nome inscripto no céo* + + +Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde cabana a +pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem +ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu +então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse: + +--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.» + +E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater á mesma +porta. + +--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada +que te dar.» + +--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo. + +E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em +cima da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que +lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez. + +--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se +embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.» + +Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-hão no +Paraizo, e mais tarde nós o viremos a saber. + + + + +*O linho* + + +O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e +transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre +elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o +d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo. + +--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, +e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me feliz. Não ha +ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello +futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou +feliz, feliz a mais não poder ser!» + +--Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não conheces o +mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.» + +E rangendo lastimosamente, cantaram: + + --Cric, crac! cric, crac! crac! + --Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bella +manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e +florir. Sou muitissimo feliz.» + +Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela +cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de +polé. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e +depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade! + +--Não se póde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessario +soffrer, o soffrimento é a mãe da experiencia.» + +Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o, +cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois, +puzeram-n'o n'uma roca, e então perdeu a cabeça inteiramente. + +--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas +torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.» + +E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a metter no tear e a +transformal-o n'uma peça de panno. + +--Isto é extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que +grandes tolas aquellas silvas quando cantavam: + + Cric, crac! cric, crac! crac! + Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso +tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto, +tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida, +ninguem trata da gente, e não bebemos outra agua a não ser a da chuva. +Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as +manhãs, e á noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura +fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a +melhor peça da parochia. Não posso ser mais feliz.» + +Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e +picaram-n'o com uma agulha. Não era lá muito agradavel, mas em +compensação fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas. + +--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é +abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para se viver em +paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um +só grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade! + +O panno das camisas foi-se gastando com o tempo. + +--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas não +se fazem impossiveis.» + +E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era +finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem +adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel +branco magnifico. + +--Oh que agradável surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino +do que d'antes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima +de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!» + +E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de +numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores. + +--Ora aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, +quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que +ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei +explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe +perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha +sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á maior gloria. +Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se» +tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou +viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e +instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora +as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz, +immensamente feliz!» + +Mas o papel não foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá +estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, +que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de +papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta á roda +do mundo. A meio caminho já estaria gasto. + +--É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou +ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as +palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os +livros vão por esse mundo fóra. A sua missão é realmente bella, e eu +estou contente, e julgo-me feliz. + +O papel foi empacotado, e lançado para uma estante. + +--Depois do trabalho é agradável o descanço, pensou elle. É n'este +isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que +eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira +perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.» + +Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o +que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as +creanças da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também, +depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir, +e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel +foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande +chamma, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra as +suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho +semilhante. + +Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as +palavras, todas as idèas desappareceram em linguas de fogo. + +--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da lavareda, que +pareciam mil vozes reunidas n'uma só. A chamma saiu pela chaminé, e no +meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do +homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado. +Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu, +quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda elles dançavam +sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas +encarnadas. + +As creanças cantavam á roda da cinza inanimada: + + Cric, crac! cric, crac! crac! + Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que +é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.» + +As creanças não poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas +tambem não era necessario, porque as creanças não devem saber tudo. + + +FIM. + + + + +*INDICE* + + +A mãe +O ouro +Doçura e bondade +O malmequer +Não quero +Piloto +O rico e o pobre +Como um camponez aprendeu o Padre Nosso +O talisman +A alma +Alberto +A canção da cerejeira +Os gigantes da montanha e os anões da planície +A creança, o anjo e flôr +Presente por presente +O pinheiro ambicioso +Perfeição das obras de Deus +João e os seus camaradas +O rabequista +Os pecegos +A urna das lagrimas +Reconhecimento e ingratidão +O fato novo do sultão +Boa sentença +Os animaes agradecidos +O ermitão +Carlos Magno e o abade de S. Gall +A boneca +Inconveniente da riqueza +Querer é poder +Qual será rei? +Os três véos de Maria +Os pequenos no bosque +O chapellinho encarnado +Os cinco sonhos +A egreja do rei +O valente soldado de chumbo +João Pateta +Branca de Neve +A rapariguinha e os phosphoros +O primeiro peccado de Margarida +Um nome inscripto no céo +O linho + + +[A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade, +residente no Rio de Janeiro.] + + + + + +End of Project Gutenberg's Contos para a infância, by Guerra Junqueiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA *** + +***** This file should be named 16429-8.txt or 16429-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/6/4/2/16429/ + +Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), +Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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A criancinha pálida tinha os olhos +fechados. +Respirava com dificuldade, e às vezes tão +profundamente, que parecia +gemer; mas a mãe causava ainda mais lástima do +que o pequenino +moribundo.<br /> + + +<br /> + + +Nisto bateram à porta, e entrou um pobre homem muito velho, +embuçado +numa manta de arrieiro. Era no Inverno. Lá fora estava tudo +coberto de +neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha.<br /> + + +<br /> + + +O pobre homem tremia de frio; a criança adormecera por +alguns instantes, +e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com +cerveja. O velho +começou a embalar a criança, e a mãe, +pegando numa cadeira, sentou-se +ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada +vez com mais dificuldade, pegou-lhe na mãozinha descarnada e +disse para +o velho:<br /> + + +<br /> + + +Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar! +não é verdade?―<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[4]</span>E o velho, que era a +Morte, meneou a cabeça duma maneira estranha, em +ar de dúvida. A mãe deixou pender a fronte para o +chão, e as lágrimas +corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso +de +cabeça; estava sem dormir havia três dias e +três noites. Passou +ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a +tremer de frio.<br /> + + +<br /> + + +―Que é isto! exclamou, lançando à +volta de si o olhar alucinado. O +berço estava vazio. O velho tinha-se ido embora, +roubando-lhe a criança.<br /> + + +<br /> + + +A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. +Encontrou uma +mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte +entrou-te em +casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais +depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a +entregar.»<br /> + + +<br /> + + +―Por onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo pelo amor de +Deus!»<br /> + + +<br /> + + +―Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto. +Mas só to ensino, se me cantares primeiro todas as +canções que cantavas +ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou +a Noite e +muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas.<br /> + + +<br /> + + +―Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora +não me +demores, porque quero encontrar o meu filho.―<br /> + + +<br /> + + +A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita +em lágrimas, começou a +cantar. Cantou muitas canções, mas as +lágrimas foram mais do que as +palavras.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[5]</span>No fim disse-lhe a +Noite: «Toma à direita, pela floresta escura de +pinheiros. Foi por aí que a Morte fugiu com o teu +filho.» +<br /> + + +A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o +caminho, e não +sabia que direcção havia de seguir. Diante dela +havia um matagal, +cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve +cristalizada.<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /> </div> + + +<br /> + + +―Não viste a Morte que levava o meu filho?» +perguntou-lhe a mãe.<br /> + + +<br /> + + +―Vi, respondeu o matagal, mas não te ensino o caminho, +senão com a +condição de me aqueceres no teu seio, porque +estou gelado.»<br /> + + +<br /> + + +E a mãe estreitou o matagal contra o +coração; os espinhos +dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se +de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite +de Inverno frigidíssima, tal é o calor +febricitante do seio duma mãe +angustiosa.<br /> + + +<br /> + + +E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando, +andando, até que chegou à margem dum grande lago, +onde não havia nem +barcos, nem navios. Não estava suficientemente gelado para +se andar por +ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo, +querendo encontrar o seu filho, era necessário +atravessá-lo. No delírio +do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda +a água do +lago. Era impossível, mas lembrava-se que Deus, por +compaixão, faria +talvez um milagre.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[6]</span>―Não! +não és capaz de me esgotar, disse o lago. +Sossega, e +entendamo-nos +amigavelmente. Gosto de ver pérolas no fundo das minhas +águas, e os teus +olhos são dum brilho mais suave do que as pérolas +mais ricas que eu +tenho possuído. Se queres, arranca-os das órbitas +à força de chorar, e +levar-te-ei à estufa grandiosa, que está do outro +lado: essa estufa é a +habitação da Morte; e as flores e as +árvores que estão lá dentro, +é ela +quem as cultiva; cada flor e cada árvore é a vida +duma criatura +humana.»<br /> + + +<br /> + + +―Oh! o que não darei eu, para reaver o meu filho!» +disse a mãe. E +apesar de ter já chorado tantas lágrimas, chorou +com mais amargura do +que nunca, e os seus olhos destacaram-se das órbitas e +caíram no fundo +do lago, transformando-se em duas pérolas, como ainda as +não teve no +mundo uma rainha.<br /> + + +<br /> + + +O lago então ergueu-a, e com um movimento de +ondulação depositou-a na +outra margem, aonde havia um maravilhoso edifício, com mais +de uma légua +de comprido. De longe não se sabia se era uma +construção artística ou +uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe +não podia ver nada; +tinha dado os seus olhos.<br /> + + +<br /> + + +―Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu +filho!» bradou +ela desesperada.<br /> + + +<br /> + + +―A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que +andava dum +lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como +vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho?»<br /> + + +<br /> + + +―Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus é misericordioso. <span class="pagenum">[7]</span>Compadece-te +de mim, e diz-me onde está o meu filho.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu não o conheço, e tu és cega, disse +a velha. Há aqui muitas plantas +e muitas árvores, que murcharam esta noite: a Morte +não tarda aí para +as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste +sítio uma árvore ou uma flor, que representam a +sua vida e que morrem +com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes, +sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e +talvez reconheças as +pulsações do coração de teu +filho. E que davas tu por eu te ensinar o +que tens ainda de fazer?»<br /> + + +<br /> + + +―Já não tenho nada que te dar, disse a pobre +mãe. Mas irei até ao fim +do mundo buscar o que tu quiseres.―«Fora daqui não +preciso de nada, +respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabelos negros; tu +sabes que +são belos, e agradam-me. Trocá-los-ei pelos meus +cabelos +brancos.»―Não pedes mais nada do que isso? disse a +mãe. Aí os tens, +dou-tos de boa vontade.»<br /> + + +<br /> + + +E arrancou os seus magníficos cabelos, que tinham sido +outrora o seu +orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e +inteiramente brancos da velha.<br /> + + +<br /> + + +Esta levou-a pela mão à grande estufa, onde +crescia exuberantemente uma +vegetação maravilhosa. Viam-se debaixo de +campânulas de cristal jacintos +mimosíssimos ao lado de peónias inchadas e +ordinárias. Havia também plantas +aquáticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em +cujas raízes +se enovelavam cobras asquerosas.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[8]</span>Mais longe +erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e plátanos +frondosos; depois num outro sítio isolado havia canteiros de +salsa, +tomilho, hortelã e outras plantas humildes que representavam +o género de +utilidade das pessoas que elas simbolizavam.<br /> + + +<br /> + + +Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que +pareciam rebentar; mas viam-se também florzitas +insignificantes, em +vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com +esmero delicadíssimo. Tudo isso representava a vida dos +homens, que a +essa hora existiam no mundo, desde a China até à +Groenlândia.<br /> + + +<br /> + + +A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a +mãe +impacientada pediu-lhe que a levasse ao sítio onde estavam +as plantas +pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do +coração, e, depois de ter tocado em milhares +delas, reconheceu as +pulsações do coração do seu +filho.<br /> + + +<br /> + + +―É ele!» exclamou, lançando a +mão a um açafroeiro, que, pendido sobre +a terra, parecia completamente estiolado.<br /> + + +<br /> + + +―Não lhe toques, disse a velha. Fica neste sítio; +e quando a Morte +vier, que não tarda, proíbe-lhe que arranque esta +planta; ameaça-a de +arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte +terá medo, porque tem +de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu +consentimento.»<br /> + + +<br /> + + +Nisto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era +a Morte, +que se aproximava.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[9]</span>―Como é +que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda +primeiro do que eu! Como o conseguiste?―«Sou +mãe» respondeu ela. +<br /> + + +E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino +açafroeiro.<br /> + + +<br /> + + +Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as +mãos, tendo o cuidado de +não ferir uma só das pequeninas +pétalas. Então a Morte soprou-lhe nas +mãos, fazendo-lhas cair inanimadas. O hálito da +Morte era mais frio do +que os ventos enregelados do Inverno.<br /> + + +<br /> + + +―Não podes nada comigo!» disse a Morte.―Mas Deus +tem mais força do que +tu, respondeu a mãe.»―«É +verdade, mas eu não faço senão aquilo +que +ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, +árvores e +arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para +outros jardins, +um dos quais é o grande jardim do Paraíso. +São regiões desconhecidas; +ninguém sabe o que se lá passa.»<br /> + + +<br /> + + +―Misericórdia! misericórdia! soluçou a +mãe. Não me roubem o meu filho, +agora que acabo de o encontrar!» Suplicava e gemia. A Morte +conservava-se impassível; agarrou então +instantaneamente em duas flores +lindíssimas e disse à Morte: «Tu +desprezas-me, mas olha, vou arrancar, +despedaçar não só esta, mas todas as +flores que estão aqui!<br /> + + +<br /> + + +―Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. +Dizes que és +desgraçada, e querias ir partir o +coração de outra mãe!―«Outra +mãe!» +disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente. +<span class="pagenum">[10]</span>―Toma, aqui tens os +teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os +tirei do lago. Não sabia que eram teus. +Mete-os nas órbitas, e olha para o fundo deste +poço; vê o que ias destruir, +se arrancasses estas flores. Verás passar nos reflexos da +água, como numa miragem, +a sorte destinada a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o +teu filho, se +porventura vivesse.»<br /> + + +<br /> + + +Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de +felicidade e alegria, +quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terríveis +de +miséria, de angústias e de +desolação.<br /> + + +<br /> + + +―Nisto que eu vejo, disse a mãe aflitíssima, +não distingo qual era a +sorte que Deus destinava ao meu filho.»<br /> + + +<br /> + + +―Não posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em +tudo isto +que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu +filho.»<br /> + + +<br /> + + +A mãe desvairada, lançou-se de joelhos +exclamando: Suplico-te, diz-me: +era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não +é verdade! Fala! +Não me respondes? Oh! na dúvida, leva-o, leva-o, +não vá ele sofrer +desgraças tão horríveis. O meu querido +filho! Quero-lho mais que à minha +vida. As angústias que sejam para mim. Leva-o para o reino +dos céus. +Esquece as minhas lágrimas, as minhas súplicas, +esquece tudo o que fiz +e tudo o que disse.»<br /> + + +<br /> + + +―Não te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te +entregue o teu +filho ou que o leve para a região desconhecida de que +não posso +falar-te!» Então a mãe alucinada, +convulsa, torcendo os braços, +deitou-se de joelhos e dirigindo-se <span class="pagenum">[11]</span>a +Deus exclamou: «Não me ouças, +Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra +a tua vontade que é +sempre justa! Não me atendas meu Deus!»<br /> + + +<br /> + + +E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua +agonia +dilacerante.<br /> + + +<br /> + + +E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi +transplantá-lo no +jardim do paraíso.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[12]</span> +<h2><a name="2"></a>O ouro</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de +ouro, +empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o +resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma +grande +fome no país.<br /> + + +<br /> + + +Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em +segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino; +e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, +com +que ele ficou todo satisfeito, porque não compreendeu ao +princípio +qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam +mais nada +de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a +rainha, que visse bem +que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os +seus +vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que +trazê-los nas minas à busca do ouro, que +não mata a fome nem a sede, e +que não tem outro valor além da +estimação que lhe é dada pelos homens, +estimação que havia de converter-se em desprezo, +logo que ouro +aparecesse em abundância.<br /> + + +<br /> + + +A rainha tinha juízo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[13]</span> +<h2><a name="3"></a>Doçura e bondade</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Há entre vós, meus filhos, índoles +violentas, que não sabem dominar-se, +e que são arrastadas pelas primeiras impressões. +É uma péssima +disposição, que é +necessário corrigir; dá lugar a disputas, e a que +se +cometam acções, cujo arrependimento chega +demasiadamente tarde. +Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.<br /> + + +<br /> + + +Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante +dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num +cego!»<br /> + + +<br /> + + +Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns +camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a +bater no burro, para o +fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a +sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubésseis que +eu era coxo, não +teríeis sido tão covardes.»<br /> + + +<br /> + + +Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma +palavra.<br /> + + +<br /> + + +Que vos parece estas duas lições? Estou +convencido que aproveitaram a +quem as recebeu.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[14]</span> +<h2><a name="4"></a>O malmequer</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Ouvi com atenção esta pequenina +história!<br /> + + +<br /> + + +No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que +deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho +com flores, +rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no +meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a +olhos vistos, graças ao sol, que repartia igualmente a sua +luz tanto por +ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela +manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas +alvas e brilhantes, +parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe +dava +que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, pobre +florinha +insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do +sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.<br /> + + +<br /> + + +Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira, +sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as +crianças +sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, +ele, sentado na haste +verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo +o que <span class="pagenum">[15]</span>sentia +misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com +admirável nitidez nas canções alegres +da cotovia. Por isso pôs-se a +olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa +avezinha +feliz que cantava e voava.<br /> + + +<br /> + + +«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol +aquece-me e o vento +acaricia-me. Oh! não tenho razão de me +queixar.»<br /> + + +<br /> + + +Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocráticas; +quanto menos +aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dálias +inchavam-se para +parecerem maiores do que as rosas; mas não é o +tamanho que faz a rosa. +As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se +pretensiosamente. Não se dignavam de lançar um +olhar para o pequeno +malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: +«Como são +ricas e bonitas! A cotovia irá certamente +visitá-las. Graças a Deus, +poderei assistir a este belo espectáculo.» E no +mesmo instante a +cotovia dirigiu o seu voo, não para as dálias e +tulipas, mas para a +relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria não +sabia o que +havia de pensar.<br /> + + +<br /> + + +O passarinho pôs-se a saltitar à roda dele, +cantando: «Como a erva é +macia! oh! que encantadora florinha, com um +coração de oiro, vestida de +prata!»<br /> + + +<br /> + + +Não se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave +acariciou-o com +o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do +firmamento. Durante mais de um quarto de hora não +pôde o malmequer +reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas +todo contente, olhou +<span class="pagenum">[16]</span>para as outras +flores do jardim, que, como testemunhas da honra que +acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas +as +tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e +pontiaguda manifestava o despeito. As dálias tinham a +cabeça toda +inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem +desagradáveis +ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.<br /> + + +<br /> + + +Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma +grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as +uma a uma.<br /> + + +<br /> + + +«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; +é horrível; foram-se +todas.»<br /> + + +<br /> + + +E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se +por +ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando +reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas, +adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as +suas folhas ao +ar e à luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto +era triste, +muitíssimo triste. A pobre cotovia tinha boas +razões para se afligir: +haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela +aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas +antigas viagens através do espaço ilimitado.<br /> + + +<br /> + + +O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era +difícil. A compaixão pelo pobre passarinho +prisioneiro, fez-lhe +esquecer <span class="pagenum">[17]</span>inteiramente +as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e +a alvura resplandecente das suas próprias folhas.<br /> + + +<br /> + + +Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na +mão +uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as +tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia +compreender o +que desejavam.<br /> + + +<br /> + + +«Podemos arrancar daqui um pedaço de relva para a +cotovia, disse um dos +rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à +volta da florinha.<br /> + + +<br /> + + +―«Arranca a flor, disse o outro.»<br /> + + +<br /> + + +A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era +morrer; e nunca tinha abençoado tanto a +existência, como no momento em +que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.<br /> + + +<br /> + + +«Não; deixemo-la, disse o mais velho. +Está aí muito bem.»<br /> + + +<br /> + + +Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.<br /> + + +<br /> + + +O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia +com as asas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, +apesar dos seus +desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.<br /> + + +<br /> + + +Passou-se assim toda a manhã.<br /> + + +<br /> + + +«Já não tenho água, exclamou +a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me +deixarem ao menos uma gota de água. A garganta queima-me, +tenho uma febre +terrível, sinto-me abafada! Ai! Não há +remédio senão morrer, longe do +sol esplêndido, longe da fresca verdura e de todas as +magnificências da +criação!»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[18]</span>Depois enterrou o +bico na relva húmida para se refrescar um pouco. Viu +então o malmequer; fez-lhe um sinal de cabeça +amigável, e disse-lhe, +afagando-o: «Também tu, pobre florinha, +morrerás aqui! Em vez do mundo +inteiro, que eu tinha à minha +disposição, deram-me um pedacito de relva, +e a ti só por única companhia. Cada pezinho de +relva substitui para mim +uma árvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor +odorífera. Ah! +como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!<br /> + + +<br /> + + +―Se eu pudesse consolá-la! pensava o malmequer, incapaz de +fazer o +mínimo movimento.<br /> + + +<br /> + + +Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume; +a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a +arrancar a erva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer +de leve na +flor.<br /> + + +<br /> + + +Caiu a noite; não estava ali ninguém, para trazer +uma gota de água à +desditosa cotovia; Estendeu então as suas belas asas, +sacudindo-as +convulsivamente, e pôs-se a cantar uma +cançãozinha melancólica; a sua +cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu +coração quebrado de desejos e +de angústias cessou de bater. Vendo este triste +espectáculo, o malmequer +não pôde como na véspera fechar as suas +folhas para dormir; curvou-se +para o chão, doente de tristeza.<br /> + + +<br /> + + +Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o +passarinho morto, +rebentaram-lhe as lágrimas e abriram uma cova. Meteram o +cadáver dentro +de uma caixa vermelha, lindíssima, fizeram-lhe um enterro de +príncipe, e +cobriram o túmulo com folhas de rosas.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[19]</span>Pobre passarinho! +Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e +deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto é que +o choraram +e lhe fizeram honrarias pomposíssimas.<br /> + + +<br /> + + +A relva e o malmequer lançaram-nas para a poeira da estrada; +daquele +que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguém se +lembrou.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[20]</span> +<h2><a name="5"></a>Não quero</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito +alto: «Não, dizia um com voz enérgica, +não quero.» Parei e +perguntei-lhe:―O que é que tu não queres, meu +rapaz?―«Não quero dizer +à mamã que venho da escola, porque é +mentira. Sei que me há-de ralhar, +mas antes quero que me ralhe do que mentir.»―E tens +razão, disse-lhe +eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a +mão, enquanto que o outro +pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora +todo envergonhado.<br /> + + +<br /> + + +Daí a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de +falar com o +professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois +pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que o +outro, +vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os +dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um +magnífico +estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a +confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a +repará-las. O outro +pelo contrário, é mentiroso, covarde e +incorrigível.»―Não me espanto, +disse eu, já tinha tirado o horóscopo destas duas +crianças; e +contei-lhe o que tinha ouvido.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[21]</span> +<h2><a name="6"></a>Piloto</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e +o +infatigável companheiro dos brinquedos das +crianças da quinta.<br /> + + +<br /> + + +Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que +João lhe +lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca +e +trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da +sua irmã +Joaninha.<br /> + + +<br /> + + +Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a +paciência do +Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, +até que o +assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas +obrigações: +partia então como um raio, para escoltar as vacas, que +levavam aos +pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.<br /> + + +<br /> + + +Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o +Piloto o guarda +da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse +à noite a parede da +quinta.<br /> + + +<br /> + + +Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade; um +jornaleiro, que se +empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, +tentou de noite roubar um saco.<br /> + + +<br /> + + +Piloto, que o conhecia, não fez a menor +demonstração de hostilidade +em quanto o homem seguiu o <span class="pagenum">[22]</span>caminho +da quinta, mas, desde que se afastou +tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem +o +largar.<br /> + + +<br /> + + +Era como se dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu +dono?»<br /> + + +<br /> + + +O ladrão quis pôr então outra vez o +saco donde o tinha tirado; Piloto +não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, +até de +manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil +posição, +repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o +não +desonrar.<br /> + + +<br /> + + +Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo +depois, aproveitando a +ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que +correu para +ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao +pescoço e arrastou-o até à +margem do ribeiro.<br /> + + +<br /> + + +Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e +levantando o animal +atirou-o à água; mas arrastado ele +próprio com o peso e com o esforço, +caiu também.<br /> + + +<br /> + + +Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela +roda do moinho, se o +corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e +desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse +mergulhado duas vezes +e trazido para terra o seu mortal inimigo.<br /> + + +<br /> + + +Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o +cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.<br /> + + +<br /> + + +Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse dia, +violentou-se a si +mesmo e combateu as suas más +inclinações.<br /> + + +<br /> + + +O exemplo do cão corrigiu o homem.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[23]</span> +<h2><a name="7"></a>O rico e o pobre</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um +dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e +deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma +estalagem, junto da +estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido +para jantar, +quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu +preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos +viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não +tinham tempo, +e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de +vinho.<br /> + + +<br /> + + +Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua +côdea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu +chapéu todo roto, e +suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino +tão rico, +em vez do desgraçado Martinho! Que fortuna se ele estivesse +aqui, e eu +dentro daquela carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o +que dizia +Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lançando a +cabeça fora da +carruagem, chamou Martinho com a mão.<br /> + + +<br /> + + +―Ficarias muito contente, não é verdade, meu <span class="pagenum">[24]</span>rapaz, podendo trocar a +minha sorte pela tua?»―Peço que me desculpe +senhor, replicou Martinho +corando, o que eu disse não foi por +mal.»―Não estou zangado contigo, +replicou o fidalguinho, pelo contrário, desejo fazer a +troca.»<br /> + + +<br /> + + +―Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, +ninguém quereria estar +no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando +muitas léguas por dia, como pão seco e batatas, +enquanto que o senhor +anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.»―Pois +bem, +volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu +não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que +possuo.» Martinho +ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o +preceptor continuou: «Aceitas a troca?»―Ora essa! +exclamou Martinho, +ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada +de me ver entrar nesta bela carruagem!» E Martinho desatou a +rir com a +ideia da entrada triunfante na sua aldeia.<br /> + + +<br /> + + +O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram +a +descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma +perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via +obrigado a andar em +duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou +que era muito pálido e que tinha cara de doente.<br /> + + +<br /> + + +Sorriu para o rapazito com ar benévolo, e +disse-lhe:―Então sempre +desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas +valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter <span class="pagenum">[25]</span>uma carruagem e +andar bem vestido?»―Oh! não, por coisa nenhuma! +replicou +Martinho.―«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria +pobre, se +tivesse saúde. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e +doente, sofro +os meus males com paciência e faço por ser alegre, +dando graças a Deus +pelos bens que me concedeu na sua infinita misericórdia.<br /> + + +<br /> + + +«Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se +és pobre e comes mal, +tens força e saúde, coisas que valem mais que uma +carruagem, e que não +podem comprar-se com dinheiro.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[26]</span> +<h2><a name="8"></a>Como um camponês +aprendeu o Padre Nosso</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Tinha o coração duro, e não dava +esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o +confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o Padre +Nosso.<br /> + + +<br /> + + +«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o +aldeão.» +<br /> + + +«Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por +penitência dar a +crédito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem +pedir da +minha parte.»<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.<br /> + + +<br /> + + +«Como te chamas? perguntou-lhe o camponês.<br /> + + +<br /> + + +«Padre―Nosso―Que―Estais―No―Céu, respondeu o +pobre.»<br /> + + +<br /> + + +«E o teu apelido?»<br /> + + +<br /> + + +«Seja―Santificado―O―Vosso―Nome.»<br /> + + +<br /> + + +E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.<br /> + + +<br /> + + +Ao outro dia chega segundo pobre.<br /> + + +<br /> + + +«Como te chamas?<br /> + + +<br /> + + +«Venha―A―Nós―O―Vosso―Reino.»<br /> + + +<br /> + + +«E o teu apelido?»<br /> + + +<br /> + + +«Seja―Feita―A―Vossa―Vontade.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[27]</span>E partiu com o seu +alqueire de trigo.<br /> + + +<br /> + + +Veio terceiro pobre.<br /> + + +<br /> + + +«Como te chamas?»<br /> + + +<br /> + + +«Assim―Na―Terra―Como―No―Céu.»<br /> + + +<br /> + + +«E o teu apelido?»<br /> + + +<br /> + + +«Dai-nos―Hoje―O―Pão―Nosso―De―Cada―Dia.»<br /> + + +<br /> + + +E levou o seu alqueire.<br /> + + +<br /> + + +Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma +forma até chegar ao <i>Amen</i>.<br /> + + +<br /> + + +Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.<br /> + + +<br /> + + +«Então já sabes o Padre +Nosso?»<br /> + + +<br /> + + +«Não, sr. cura, sei só os nomes e +apelidos dos pobres a quem emprestei +o meu trigo.»<br /> + + +<br /> + + +«Quais são? tornou o padre.»<br /> + + +<br /> + + +E o aldeão enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada +um se tinha +apresentado.<br /> + + +<br /> + + +«Já vês, disse o confessor, que +não era muito difícil aprender o Padre +Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[28]</span> +<h2><a name="9"></a>O talismã</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma +indústria, mas +com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o +que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus +negócios com +uma actividade infatigável, enquanto que o segundo, entregue +inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da +direcção da +sua casa.<br /> + + +<br /> + + +«Explica-me, disse um dia este último ao seu +colega, qual é a razão +porque a sorte nos trata de um modo tão diferente? Vendemos +as mesmas +mercadorias, a minha loja está tão bem situada +como a tua, e apesar +disso, enquanto tu ganhas, eu não faço +senão perder. E não é porque eu +seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho +pensado algumas vezes se não +terás tu por acaso algum precioso +talismã.»<br /> + + +<br /> + + +«Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um +talismã de uma +virtude incomparável. Trago-o ao pescoço, e ando +assim com ele todo o +dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o +celeiro. E o caso é que tudo me corre +perfeitamente.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[29]</span>«Olé +meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa +relíquia +preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta +restituo.»<br /> + + +<br /> + + +«Pois vem buscá-la amanhã de +manhã.»<br /> + + +<br /> + + +Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, +apresentou-lhe este uma avelã, através da qual +tinha passado um +fio de seda.<br /> + + +<br /> + + +O nosso homem pô-la imediatamente ao pescoço, e +começou a correr toda a +casa com o talismã. Observou então a completa +desordem que por toda a +parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na +cozinha o pão, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o +trigo, o +feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das +manjedouras dos +cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal +escriturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe +remédio, +compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substituído +por +terceira pessoa na direcção dos seus +negócios.<br /> + + +<br /> + + +Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso +talismã, +agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em +segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[30]</span> +<h2><a name="10"></a>A alma</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +«Mamã, nem todas as crianças que morrem +vão para o Paraíso. O outro dia +vi levar para o cemitério um menino que tinha morrido; o seu +papá e as +suas duas irmãzinhas acompanhavam o caixão, e +choravam tanto que me +fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau, +não é +verdade?»<br /> + + +<br /> + + +«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, +enquanto choravam seus +pais e suas irmãs, já estava vivendo feliz no +Paraíso.»<br /> + + +<br /> + + +«A alma? mamã; não sei o que +é; não compreendo bem.»<br /> + + +<br /> + + +«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as +duas +pequerruchas.»<br /> + + +<br /> + + +«Tive sim, mamã, tive muita pena.»<br /> + + +<br /> + + +«Ora bem, o que é que no teu corpo estava +desconsolado e triste? eram os +braços?»<br /> + + +<br /> + + +«Não, mamã.»<br /> + + +<br /> + + +«Eram as orelhas?»<br /> + + +<br /> + + +«Oh! não mamã, era <i>cá +dentro</i>.»<br /> + + +<br /> + + +«Esse <i>lá dentro</i>, Maria, +é a tua alma que se alegra ou se entristece, +que te repreende quando fazes o mal, e que está satisfeita +quando +praticas o bem.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[31]</span> +<h2><a name="11"></a>Alberto</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus +irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar +árvores e fazer +sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um +único +feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, +e de uma talhada de +batata nascerem quarenta batatas magníficas; sabia que a +terra pagava +com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no +quarto do pai, e foi enterrá-la imediatamente no seu +jardinzinho. «Há-de +nascer uma árvore, dizia ele consigo, que dará +libras como uma +cerejeira dá cerejas, e irei entregá-las ao +papá, que ficará muito +contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha +nascido, mas não +rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte. +Por +fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.<br /> + + +<br /> + + +«Vi papá; achei-a e fui +semeá-la.»<br /> + + +<br /> + + +«Como, semeá-la? doido! julgas talvez que vai +nascer como uma couve?»<br /> + + +<br /> + + +«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na +terra.»<br /> + + +<br /> + + +«É verdade, mas não nasce como uma +semente; o oiro não tem vida.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[32]</span>Desenterrou-se a +libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe +não pertencia.<br /> + + +<br /> + + +Há contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, +fazendo-lhe +produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como +é? É dando-o aos pobres. Faz-se no +Paraíso a colheita dessa sementeira.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[33]</span> +<h2><a name="12"></a>A +canção da cerejeira</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Disse Deus na Primavera: «Ponham a mesa às +lagartas!» E a cerejeira +cobriu-se imediatamente de folhas, milhões de folhas, +fresquinhas e +verdejantes.<br /> + + +<br /> + + +A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, +espreguiçou-se, +abriu a boca, esfregou os olhos e pôs-se a comer +tranquilamente as +folhinhas tenras, dizendo: «Não se pode a gente +despegar delas. Quem é +que me arranjou este banquete?»<br /> + + +<br /> + + +Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa +às abelhas!» E a cerejeira +cobriu-se imediatamente de flores, milhões de flores +delicadas e +brancas.<br /> + + +<br /> + + +E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas, +dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que +chávenas tão bonitas em que o +deitaram!»<br /> + + +<br /> + + +Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! +Não pouparam o +açúcar!»<br /> + + +<br /> + + +No Verão disse Deus: «Ponham a mesa aos +passarinhos!» E a cerejeira +cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[34]</span>«Ah! ah! +exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasião; temos +apetite, +e isto dar-nos-á novas forças para podermos +cantar uma nova canção.» No +Outono disse Deus: «Levantai a mesa, já +estão satisfeitos.» E o vento +frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a +árvore.<br /> + + +<br /> + + +As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caíram uma a +uma, e o +vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, +fazendo-as esvoaçar.<br /> + + +<br /> + + +Chegou o Inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E +os turbilhões dos +ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[35]</span> +<h2><a name="13"></a>Os gigantes da montanha e +os anões da planície</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez uma família de gigantes, que viviam num castelo +na +montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum +álamo. Era curiosa e andava com vontade de descer +à planície a ver o que +faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe +pareciam anões. +Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido à +caça e sua mãe estava +dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os +jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os +lavradores, coisas inteiramente novas para ela. «Oh! que +lindos +brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o +avental, que +quase que cobriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os +cavalos, a +charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo, +onde seu pai estava a jantar.<br /> + + +<br /> + + +―Que trazes aí, minha filha?» perguntou ele.<br /> + + +<br /> + + +―Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos. +São os +mais bonitos que tenho visto.»<br /> + + +<br /> + + +E pô-los em cima da mesa, a um e um,―os cavalos, a charrua e +os +trabalhadores, que estavam <span class="pagenum">[36]</span>todos +espantados, como formigas a quem +tivessem transportado dum formigueiro para um salão. A +gigantinha +pôs-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o +gigante +fez-se sério e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, +disse-lhe ele. Isso +não são brinquedos, mas coisas e pessoas que +devem estimar-se e +respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e +põe-no +imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da +montanha, morreriam de fome, se os anões da +planície deixassem de lavrar +a terra e de semear o trigo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[37]</span> +<h2><a name="14"></a>A criança, a +anjo e flor</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Quando morre uma criança, desce um anjo do céu, +toma-a nos braços, e +desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os +sítios que +ela amara durante a sua pequenina existência; o anjo +abaixa-se de +quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que +floresçam +no paraíso ainda mais belas do que tinham sido na terra. +Deus recebe +todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os lábios, e +a flor +escolhida, adquirindo voz imediatamente, começa a cantar os +coros +maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma +criança morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram +primeiro +sobre a casa em que a criança brincara, e depois sobre +jardins +deliciosos, cobertos de flores.<br /> + + +<br /> + + +«Qual é a flor que desejas para plantar no +paraíso?» perguntou o anjo.<br /> + + +<br /> + + +Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, +magnífica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os +seus ramos cheios de +botõezinhos lindíssimos pendiam estiolados para o +chão.<br /> + + +<br /> + + +«Pobre roseira! disse a criança ao anjo; vamos +buscá-la para que possa +reflorir no paraíso.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[38]</span>O anjo foi +buscá-la, e abraçou a criança. +Colheram muitas flores +brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.<br /> + + +<br /> + + +A colheita estava terminada, e contudo não voavam ainda para +Deus. Caiu +a noite silenciosa, e a criança e o seu guia Divino andavam +ainda por +cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia +de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda +a casta de +imundície. Entre estes destroços distinguiu o +anjo um vaso de flores +com a terra pelo chão, onde pendiam as longas +raízes duma flor dos +campos, já murcha, e que parecia não poder +reverdecer: tinham-na +atirado para a rua como inútil e morta.<br /> + + +<br /> + + +«Vale a pena levantá-la disse o anjo; levemo-la, e +pelo caminho, voando, +te contarei a história da florinha. Lá ao fundo, +lá ao fundo, naquela +rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criança +miserável e +doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear +com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos +dias +de Verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante +meia hora. +Então a criança sentada à janela, +aquecida pelo sol, sem o cansaço do +andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da +fresca +verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o +filho do +vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabeça +o ramo +verdejante, e, supondo-se debaixo das árvores abrigadas do +sol, sonhava +com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe +flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda +raízes; <span class="pagenum">[39]</span>o +pequerrucho plantou-a num vaso, e pô-lo à janela, +junto da +cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, +tornou-se grande, e +todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu +único +tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe +aproveitar os raios do sol até ao último. A flor +aparecia-lhe em +sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e +ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se +voltou.<br /> + + +<br /> + + +«Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no +paraíso; a sua querida +flor, esquecida à janela desde então, murchou, +estiolou-se e +atiraram-na à rua finalmente. E contudo esta flor quase seca +é o +tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os +canteiros dum jardim realengo.»<br /> + + +<br /> + + +«Como sabes tu isso?» perguntou a +criança, que o anjo levava para o céu.<br /> + + +<br /> + + +―Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava +em muletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem +amada!»<br /> + + +<br /> + + +A criança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo +quando entravam +no céu onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas +flores, +levou-as ao coração, mas a que ele beijou foi a +florinha silvestre, +desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente, +pôs-se a cantar +com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe, +formando círculos que vão aumentando +sucessivamente, multiplicando-se +até ao infinito, povoados de <span class="pagenum">[40]</span>seres +inteiramente felizes, cantando todos +harmoniosamente―desde a criança abençoada +até à humilde florinha do +campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e +tortuosa.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[41]</span> +<h2><a name="15"></a>Presente por presente</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite +à choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda +não tinha chegado, foi +a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que +pôde, desculpando-se da miserável hospitalidade +que lhe ia dar, porque +eram batatas cozidas a única coisa que lhe poderia oferecer; +cama não a +tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava +morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que +faisões, +e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de +príncipes. Ao +outro dia pela manhã disse isto mesmo à pobre +mulher, gratificando-a ao +despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha +dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa +camponesa julgou +que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito +para a +trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, +contou-lhe logo o +que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro +examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[42]</span>«Esse +forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso príncipe!<br /> + + +<br /> + + +E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua +alteza ter +achado as suas batatas melhores do que faisões.<br /> + + +<br /> + + +«É necessário confessar, disse ele com +um ar triunfante, que não há +talvez no mundo um terreno mais favorável do que este para a +cultura das +batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, já que as acha +tão boas.<br /> + + +<br /> + + +E partiu imediatamente para o palácio com uma +provisão de batatas +escolhidas.<br /> + + +<br /> + + +Os lacaios e as sentinelas ao princípio não o +queriam deixar entrar; +mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir +nada, e que pelo +contrário vinha trazer alguma coisa.<br /> + + +<br /> + + +Foi, pois, introduzido na sala da audiência.<br /> + + +<br /> + + +«Meu senhor, disse ele ao príncipe: Vossa alteza +dignou-se recentemente +pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de +ouro, em troca +duma enxerga miserável e de um prato de batatas cosidas. Era +pagar +demasiadamente, apesar de serdes um príncipe muito rico e +poderoso. Eis +o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das +batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. +Dignai-vos +aceitá-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso +hospede, lá +as encontrareis sempre ao vosso dispor.»<br /> + + +<br /> + + +A honrada simplicidade do camponês agradou ao +príncipe, e, como estava +num momento de bom humor, fez-lhe doação de uma +quinta com trinta +jeiras de terra.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[43]</span>Ora o carvoeiro +tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que, +sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse consigo: +«Porque não me há +de suceder a mim outro tanto? O príncipe gosta do meu +cavalo, pelo +qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer +presente dele: se deu ao João uma quinta com trinta jeiras +de terra, +simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me +há de +recompensar ainda mais generosamente.»<br /> + + +<br /> + + +Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do +palácio; recomendou ao criado que o segurasse, e, +atravessando com ar +altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiência.<br /> + + +<br /> + + +«Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; +não +tenho querido trocá-lo a dinheiro, mas dignai-vos +permitir-me que vo-lo +ofereça.»<br /> + + +<br /> + + +O príncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria +chegar, e disse +consigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que +mereces:<br /> + + +<br /> + + +Depois dirigindo-se a ele:<br /> + + +<br /> + + +«Aceito a tua dádiva, mas não sei como +agradecer-ta condignamente. Oh! +espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que +faisões. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que +é um bom +preço para um cavalo, que eu poderia ter comprado por +sessenta libras.»<br /> + + +<br /> + + +E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[44]</span> +<h2><a name="16"></a>O pinheiro ambicioso</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua +sorte. «Oh! +dizia ele, como são horrorosas estas linhas uniformes de +agulhas +verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais +orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar +vestido +de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»<br /> + + +<br /> + + +O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela +manhã acordou o +pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, +pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, +mais sensatos do que ele, não invejavam a sua +rápida fortuna. À noite +passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num +saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés +à cabeça.<br /> + + +<br /> + + +«Oh! disse ele, que doido que eu fui! não me tinha +lembrado da cobiça +dos homens. Fiquei completamente despido. Não há +agora em toda a +floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir +folhas de oiro; +o oiro atrai as ambições.<br /> + + +<br /> + + +Ah! se eu arranjasse um vestuário de vidro! Era <span class="pagenum">[45]</span>deslumbrante, e o judeu +avarento não me teria despido.»<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao +sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e +orgulhoso, +fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o céu +cobriu-se de +nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as +folhas de cristal.<br /> + + +<br /> + + +«Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra +todo feito em +pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro +não servem para vestir +as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria +menos brilhante, mas viveria descansado.»<br /> + + +<br /> + + +Cumpriu-se o seu último desejo, e, apesar de ter renunciado +às vaidades +primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os +outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho +de cabras, e +vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas +todas sem deixar uma única.<br /> + + +<br /> + + +O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria +voltar à sua +forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da +sua sorte.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[46]</span> +<h2><a name="17"></a>Perfeição +das obras de Deus</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Vou-te dar outra.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Como se fazem as agulhas, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Vê se adivinhas.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Não sei, mamã.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Conheces os metais?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Conheço mamã; tenho +lá dentro muitos bocadinhos dentro de +uma caixa.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Ora muito bem, diz-me +lá, as agulhas são de pau, de pedra, de +mármore?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Oh! não; são de +metal; mas de que metal?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Antes de perguntar qualquer coisa, +vê sempre se a adivinhas +primeiro.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Ora espere!... uma agulha é de +metal: não é de prata, porque +não é branca; não é de +oiro, porque não é de um lindo amarelo muito +brilhante; não é de cobre, porque não +é de um amarelo muito feio, que +cheira mal... Então é de ferro, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Adivinhaste.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Mas, mamã, o ferro +não é liso e brilhante como as agulhas.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[47]</span><i>A +mãe.</i>―É que é primeiro polido +e preparado de certo modo, e depois já +se não chama ferro, é aço.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Bem, as agulhas são de +aço. Agora quero adivinhar como é que +as fazem.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―É +impossível, não és capaz disso; mas +hei de levar-te a uma +fábrica onde se fazem agulhas. Hás-de +vê-las fazer, e hás-de gostar +muito.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Tinha vontade de saber como se fazem todas +as coisas de que +nos servimos.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Tens razão; +é uma vergonha ignorá-lo.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Mamã, deixe-me ver as suas +agulhas.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Olha, aí tens o meu +estojo.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que +lindas! São tão +fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade há-de +ser necessária para +fazer uma coisinha tão delicada!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Lembras-te de ver na feira um +carrinho de marfim puxado por +uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Lembro, mamã; era tão +bonito!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Li num jornal alemão +que um operário chamado Nerlinger fez +um copo de um grão de pimenta, e que dentro deste copo havia +mais +doze...<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Que pequeninos deviam ser os doze copos +para caberem num +grão de pimenta!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―E ainda não +é tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas +doiradas, e sustentava-se no pé.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Que vontade eu tinha de ver isso!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Tens razão de te +admirares da habilidade dos homens. É +efectivamente espantoso, e <span class="pagenum">[48]</span>deve +saber-se, o modo porque se fabricam +certas coisas; contudo ainda há outras obras mais dignas de +admiração.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Quais, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Já to digo. (<i>Levanta-se.</i>)<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Que quer, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Quero que vejas o +microscópio de teu papá.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Pois sim; eu gosto de olhar pelo +microscópio.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Este é +magnífico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais +ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como +é fina, +lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Meu Deus, que coisa tão feia! +Que agulha tão grosseira!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Vês-lhe buracos, riscos, +asperezas, não é verdade?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Parece um prego muito grande e muito mal +feito.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Pois todas essas +imperfeições são verdadeiras, existem +na +agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que +não dá por elas.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―O operário que fez esta agulha +ficaria envergonhado, se a +visse ao microscópio.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Tiremos a agulha, e vejamos outra +coisa.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―O quê, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―O aguilhãozinho de uma +abelha.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Oh! que pequenino, que bonito!... Como +é liso, como é +brilhante!... Mas já sei que visto ao microscópio +há de acontecer o +mesmo que com a agulha.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[49]</span><i>A +mãe.</i>―Pronto: olha.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha</i> (olhando).―É esquisito, +mamã!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Então?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Aumentou, aumentou como a agulha, mas +não é áspero, pelo +contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que +não tinha ponta, +e o ferrãozinho da abelha tem uma ponta tão fina +como um cabelo. Porque +será isto, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―É porque o +operário que fez este aguilhão é muito +mais hábil +do que o que fez a agulha.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Quem é esse operário +tão hábil?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―É o mesmo que fez o +céu, os astros, a terra, as plantas e as +criaturas.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―É Deus.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Exactamente. Pois não +é Deus que fez as abelhas e todos os +animais?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―De certo.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Foi ele por conseguinte que fez o +aguilhão desta abelha; e +aí tens porque o aguilhão é superior +à agulha: é obra de Deus. Mas +continuemos a olhar pelo microscópio. Aqui está +um pedacinho de +musselina finíssima. Olha pelo microscópio; o que +é que vês?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal +feita.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Aqui tens agora um pedacinho de +renda delicadíssima.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Essa estou bem certa que há de +ser linda, mesmo vista pelo +microscópio.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Então?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―É horrorosa... Parece feita de +pelos grosseiros com grandes +buracos desiguais.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―As obras do homem são +todas assim.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[50]</span><i>A filha.</i>―Oh! +mamã, vejamos agora as obras de Deus.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Sabes o que é isto?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Sei, mamã, é um +casulo de bicho de seda.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Os fiozinhos que o +compõem são muito finos, muito lisos; olha +pelo microscópio a ver se te parecem desiguais.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha</i> (olhando pelo +microscópio).―Não, mamã; os fios +são todos +iguais, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―É porque é +obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que há +sobre este papel?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas +redondas feitas +também com tinta.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Estes pontinhos e estas manchas +parecem-te perfeitamente +redondos?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Sim, mamã, perfeitamente +redondos.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Vê-os agora ao +microscópio.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Oh! já não +são redondos, são todos desiguais.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Tira o papel; vejamos a obra de +Deus. É uma asa de borboleta; +vês que está mosqueada de pequeninas manchas +redondas; olha pelo +microscópio; o que é que vês?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, +só com a diferença +que agora é maior. Que belas que são as obras de +Deus!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Merece bem a pena +estudá-las.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―De certo. Farei sempre por isso, +comparando-as com as obras +dos homens.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―E sempre e em tudo +hás-de encontrar defeitos nas obras do +homem, enquanto que <span class="pagenum">[51]</span>as +obras de Deus, quanto mais se observam, mais +perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a +primeira é que Deus merece tanto a nossa +admiração como o nosso amor; a +segunda é que os homens orgulhosos são +insensatos, porque não podem +fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras +mais primorosas são cheias de +imperfeições, se as compararmos com as +obras do Criador.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[52]</span> +<h2><a name="18"></a>João e os seus +camaradas</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez uma viúva com um filho único. Ao cabo +dum Inverno rigoroso, +possuía apenas um galo, e meio alqueire de farinha. +João resolveu-se a +correr mundo, à busca de fortuna. A mãe cozeu o +resto da farinha, matou +o galo, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +«O que é que preferes: metade desta merenda com a +minha bênção, ou toda +com a minha maldição?»<br /> + + +<br /> + + +«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros +há no +mundo eu quereria a tua maldição.»<br /> + + +<br /> + + +«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. +Leva tudo, e Deus te +abençoe.»<br /> + + +<br /> + + +E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um +jumento, que tinha +caído num atoleiro, donde não podia sair.<br /> + + +<br /> + + +«Oh! João, exclamou o burro, tira-me daqui, que +estou quase a +afogar-me.»<br /> + + +<br /> + + +«Espera, respondeu João.»<br /> + + +<br /> + + +E, formando uma ponte com pedras e ramos de árvores, +conseguiu tirar o +quadrúpede do atoleiro.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[53]</span>«Obrigado, +disse-lhe ele, aproximando-se de João. Se te posso ser +útil, +aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?»<br /> + + +<br /> + + +―«Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha +vida.»<br /> + + +<br /> + + +«Queres tu que eu te acompanhe?<br /> + + +<br /> + + +«Anda daí.»<br /> + + +<br /> + + +E puseram-se a caminho.<br /> + + +<br /> + + +Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos +rapazes da +escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre +animal correu para João que o acariciou, e o jumento +pôs-se a ornear de +tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.<br /> + + +<br /> + + +«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma +coisa te for +prestável, aqui me tens às tuas ordens. Aonde +vais tu?»<br /> + + +<br /> + + +«Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha +vida.»<br /> + + +<br /> + + +«Queres que te acompanhe?»<br /> + + +<br /> + + +«Anda daí.»<br /> + + +<br /> + + +Quando saíram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno +tirou a +merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou +alguma erva +que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar +lastimosamente.<br /> + + +<br /> + + +Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do +frango.<br /> + + +<br /> + + +―«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te +possa ser útil. Aonde +vais tu?<br /> + + +<br /> + + +―«Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.»<br /> + + +<br /> + + +―De boa vontade.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[54]</span>Os quatro viajantes +puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um +grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um +galo na boca.<br /> + + +<br /> + + +«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao +cão.<br /> + + +<br /> + + +E no mesmo instante o cão atirou-se atrás da +raposa, que, vendo-se em +perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente +disse a João:<br /> + + +<br /> + + +―«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde +vais tu?»<br /> + + +<br /> + + +―Arranjar trabalho. Queres vir connosco?<br /> + + +<br /> + + +―«De boa vontade.»<br /> + + +<br /> + + +―Então anda. Se te cansares, empoleira-te no +jumento.»<br /> + + +<br /> + + +Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro. +Sentiram-se todos fatigados e não avistavam à +roda nem uma quinta, nem +uma cabana.<br /> + + +<br /> + + +―«Paciência, disse João, outra vez +seremos mais felizes. Resignemo-nos +hoje a dormir ao ar livre; além disso a noite +está sossegada, e a relva +é macia.»<br /> + + +<br /> + + +Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado +dele, o cão +e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo +empoleirou-se numa árvore.<br /> + + +<br /> + + +Dormiam todos um sono profundíssimo, quando de repente o +galo começou +a cantar.<br /> + + +<br /> + + +―«Que demónio! disse o jumento acordando todo +zangado. Porque é que +estás a gritar?»<br /> + + +<br /> + + +―«Porque já é dia, respondeu o galo. +Não vês ao longe a luz da +madrugada, que vem rompendo?»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[55]</span>―«Vejo +uma luz, disse João, mas não é do sol, +é duma lanterna. +Provavelmente há ali alguma casa, onde nos +poderíamos recolher o resto +da noite.»<br /> + + +<br /> + + +Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, +através +dos campos, até que parou junto da casa do guarda dum grande +castelo, +donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e +blasfémias horríveis.<br /> + + +<br /> + + +―Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, +a ver quem +é que está lá dentro.»<br /> + + +<br /> + + +Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhais, que se +banqueteavam +alegremente, sentados a uma mesa principesca.<br /> + + +<br /> + + +―«Que bom assalto acabámos de dar, disse um deles, +ao castelo do +conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que +é este +porteiro. À sua saúde!»<br /> + + +<br /> + + +―«À saúde do nosso amigo!» +repetiram em coro todos os ladrões.<br /> + + +<br /> + + +E dum trago despejaram os copos.<br /> + + +<br /> + + +João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz +baixa:<br /> + + +<br /> + + +―«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que +vos der +sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria +diabólica.»<br /> + + +<br /> + + +O burro, levantando-se nas patas traseiras, lançou as +mãos ao peitoril +duma janela, o cão trepou-lhe à +cabeça, o gato à cabeça do +cão e o +galo à cabeça do gato. João deu o +sinal, e estoirou à uma o ornear do +jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos +estridentes do +galo.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p56">[56]</a></span>―«Agora, +bradou João, fingindo que comandava um destacamento, +carregar +armas! Dai-me cabo dos ladrões; fogo!»<br /> + + +<br /> + + +No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando +cada vez mais; os ladrões atemorizados refugiaram-se no +bosque, saindo +precipitadamente por uma porta falsa.<br /> + + +<br /> + + +João e os seus companheiros penetraram na sala abandonada, +comeram um +excelente jantar, e deitaram-se em seguida―João numa cama, o +burro na +cavalariça, o cão numa esteira ao pé +da porta, o gato junto do fogão e +o galo num poleiro.<br /> + + +<br /> + + +Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se +verem sãos e +salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.<br /> + + +<br /> + + +―«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva +tão húmida, disse um +deles.»<br /> + + +<br /> + + +―«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, +disse um outro.»<br /> + + +<br /> + + +―«E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.»<br /> + + +<br /> + + +―«E o que é mais lamentável, exclamou +um quarto, é ficar-nos lá todo o +dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tínhamos +tirado das +gavetas.»<br /> + + +<br /> + + +―Vou ver se torno lá a <a href="#e1">entrar!</a> +disse o capitão.<br /> + + +<br /> + + +―Bravo! exclamaram os ladrões.<br /> + + +<br /> + + +E pôs-se a caminho.<br /> + + +<br /> + + +Já não havia luz na casa; o capitão +entrou às apalpadelas, e dirigiu-se +para o fogão; o gato saltou-lhe à cara e +esfarrapou-lha com as garras. +<span class="pagenum">[57]</span>Soltou um grito +doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o +rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, +e conseguiu +por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo +atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas.<br /> + + +<br /> + + +―Anda o diabo nesta casa! exclamou o capitão, como poderei +eu sair!»<br /> + + +<br /> + + +Julgou encontrar refúgio na estrebaria; mas o burro +atirou-lhe uma +parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do chão.<br /> + + +<br /> + + +Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que não +tinha nem +pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a +floresta.<br /> + + +<br /> + + +―Então? então?―perguntaram-lhe os camaradas assim +que o viram.<br /> + + +<br /> + + +―Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para +me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr neste +corpo, que o trago +num feixe. Não podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui +assaltado +por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara +com o +sedeiro, deixando-me neste miserável estado. Quando ia a +sair a porta, +um demónio dum remendão atravessou-me as pernas +com a sovela. Logo +depois Satanás em pessoa atirou-se a mim, +despedaçando-me com as garras. +Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se +vocês me não +acreditam, vão lá, e experimentem.»<br /> + + +<br /> + + +―Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo +ensanguentado: Não seremos nós que lá +tornaremos.»<br /> + + +<br /> + + +Pela manhã, João e os seus camaradas +almoçaram <span class="pagenum"><a name="p58">[58]</a></span>ainda excelentemente, +e +partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os +ladrões +lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos, +com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que +chegaram à +porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com +uma libré esplêndida, meias de seda, +calções escarlates e cabelo +empoado.<br /> + + +<br /> + + +Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a <a href="#e2">João:</a><br /> + + +<br /> + + +―Que vindes aqui buscar? Não há lugar para os +recolher, vão-se <a href="#e3">embora.</a>»<br /> + + +<br /> + + +―Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono +do castelo far-nos-á +um bom acolhimento.<br /> + + +<br /> + + +―Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a +andar imediatamente, quando não atiro-lhes já +às pernas os meus cães de +fila.»<br /> + + +<br /> + + +―Perdão, só um instante, replicou o galo +empoleirado na cabeça do +jumento; não me poderias dizer quem é que abriu +aos ladrões na noite +passada a porta do castelo?»<br /> + + +<br /> + + +O porteiro corou. O conde que estava à janela, disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Ó Bernabé, responde ao que esse galo te acaba de +perguntar.<br /> + + +<br /> + + +―Senhor, replicou Bernabé, este galo é um +miserável. Não fui eu que +abri a porta aos seis ladrões.<br /> + + +<br /> + + +―Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que +tu sabes que eram seis?<br /> + + +<br /> + + +Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o <span class="pagenum">[59]</span>dinheiro roubado, +pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha +esta noite, +porque vimos cansados do caminho.<br /> + + +<br /> + + +―Ficai certos que sereis bem tratados.<br /> + + +<br /> + + +O burro, o cão e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato +ficou na +cozinha. E enquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o +dos pés à +cabeça com um vestuário magnífico, +deu-lhe um relógio de ouro, e +disse-lhe:<br /> + + +―Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás +o meu intendente.»<br /> + + +<br /> + + +João aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha +mãe para o pé de si. +Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre +felicíssimo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[60]</span> +<h2><a name="19"></a>O rabequista</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma +igreja magnífica a Santa Cecília, padroeira dos +músicos.<br /> + + +<br /> + + +As rosas mais vermelhas e os lírios mais cândidos +enfeitavam o altar. O +vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de +oiro, +feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava +constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá +em romaria +um pobre rabequista, pálido, magro, escaveirado. Como a +jornada tinha +sido muito longa, estava cansado, e já no seu alforge +não havia pão nem +dinheiro no bolso para o comprar.<br /> + + +<br /> + + +Assim que entrou na capela, começou a tocar na sua rabeca +com tal +suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou +enternecida ao vê-lo +tão pobre e ao escutar aquela música deliciosa. +Quando terminou, Santa +Cecília abaixou-se, descalçou um dos seus ricos +sapatos de ouro, e deu-o +ao pobre músico, que tonto de alegria, dançando, +cantando, chorando, +correu à loja dum ourives para lho vender. O ourives, +reconhecendo o +sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o à +presença <span class="pagenum">[61]</span>do +juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado +à morte.<br /> + + +<br /> + + +Chegara o dia da execução. Os sinos dobravam +lastimosamente, e o cortejo +pôs-se em marcha ao som dos cânticos dos frades, +que ainda assim não +chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como +última graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca +até ao último momento. +O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam +suplicou o triste desgraçado, que o levassem lá +dentro para tocar a sua +derradeira melodia.<br /> + + +<br /> + + +Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou, +ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em +lágrimas começou a tocar. +Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa +Cecília curvar-se de +novo, descalçar o outro sapato e metê-lo nas +mãos do infeliz músico. À +vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o +rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente +prestar-lhe as mais honrosas homenagens.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[62]</span> +<h2><a name="20"></a>Os pêssegos</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco +pêssegos +magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes +frutos, +extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria. +À +noite o pai perguntou-lhes:<br /> + + +<br /> + + +―Então comeram os pêssegos?<br /> + + +<br /> + + +―Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o +caroço, e +hei-de plantá-lo para nascer uma +árvore.»<br /> + + +<br /> + + +―Fizeste bem, respondeu o pai, é bom ser +económico e pensar no futuro.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu, disse o mais novo, o meu pêssego comi-o logo, e a +mamã ainda me deu +metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.»<br /> + + +<br /> + + +―Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade +não admira; +espero que quando fores maior te hás-de corrigir.»<br /> + + +<br /> + + +―Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço +que o meu irmão deitou +fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. +Vendi +o meu pêssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando +for à +cidade.»<br /> + + +<br /> + + +O pai meneou a cabeça:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[63]</span>―Foi uma ideia +engenhosa, mas eu preferia menos cálculo.<br /> + + +<br /> + + +―E tu, Eduardo, provaste o teu pêssego?<br /> + + +<br /> + + +―Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho, +ao Jorge, que está coitadinho com febre. Ele não +o queria, mas +deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.<br /> + + +<br /> + + +―Ora bem, perguntou o pai, qual de vós é que +empregou melhor o pêssego +que eu lhe dei?<br /> + + +<br /> + + +E os três pequenos disseram à uma:<br /> + + +<br /> + + +―Foi o mano Eduardo.<br /> + + +<br /> + + +Este no entanto não dizia palavra, e a mãe +abraçou-o com os olhos +arrasados de lágrimas.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[64]</span> +<h2><a name="21"></a>A urna das +lágrimas</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez uma viúva, que tinha uma filhinha muito linda, a +quem +adorava sobre todas as coisas. Não se separava dela um +só momento; mas +um dia a pobre pequerrucha começou a sofrer, adoeceu e +morreu. A +desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem +repousar um +momento, à cabeceira da filha, julgou endoidecer de +mágoa e de saudades. +Não comia, não fazia senão chorar e +lamentar-se. Uma noite em que estava +acabrunhada, chorando no mesmo sítio em que a filha tinha +morrido, +abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua +querida filha, sorrindo com uma expressão +angélica e trazendo nas mãos +uma urna, que vinha cheia até às bordas.<br /> + + +<br /> + + +―«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ela, +não chores mais. Olha, o anjo +das lágrimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais, +transbordará, e as tuas lágrimas +correrão sobre mim, inquietando-me no +túmulo e perturbando a minha felicidade no +paraíso.<br /> + + +<br /> + + +A pequenina desapareceu, e a mãe não tornou a +chorar para a não +afligir.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[65]</span> +<h2><a name="22"></a>Reconhecimento e +ingratidão</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Os vossos filhos serão para vós como +vós tiverdes sido para vossos pais. +E é natural. As crianças vêem +diariamente o que fazem seus pais, e +imitam-nos. Justifica-se desta maneira o provérbio que +diz,―que a +bênção ou a +maldição dum pai cai sobre a cabeça de +seus filhos, +terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem +ser meditados.<br /> + + +<br /> + + +Um príncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que +andava muito +satisfeito, a lavrar a terra. Pôs-se a conversar com ele. +Depois +de algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao +homem, mas que +trabalhava nele mediante um salário de doze +vinténs por dia. O +príncipe, que para as suas despesas de +administração e +representação +necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, +como se vivia com doze vinténs diários, +andando-se ainda por cima +satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe +respondeu:<br /> + + +<br /> + + +«Gasto diariamente comigo a terça parte dessa +quantia; outro terço é +para pagar as minhas dividas; <span class="pagenum">[66]</span>e +o resto é para ir juntando algumas +economias.»<br /> + + +<br /> + + +Era um novo enigma para o príncipe. Mas o alegre +camponês explicou-lho +deste modo.<br /> + + +<br /> + + +«Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que +já não podem +trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não têm +força para isso. Aos +primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha +infância; e espero que os segundos não me +abandonem, quando os anos +tiverem pesado sobre mim.»<br /> + + +<br /> + + +O príncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado +camponês; encarregou-se +da educação de seus filhos; e a +bênção que lhe deram os seus velhos +pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando +igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna +dedicação.<br /> + + +<br /> + + +Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que +procedeu duma +maneira tão indigna com seu velho pai doente e aleijado, que +este teve +de pedir que o levassem para o hospital da misericórdia. O +filho ingrato +recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde +foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse +muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como +última +esmola, um par de lençóis, para cobrir a palha +que lhe servia de leito. +O mau filho escolheu os lençóis mais usados, e +disse ao seu pequeno, de +dez anos de idade, que os fosse levar <i>a esse velho rabujento</i>. +Mas +notou que a criança ao partir tinha escondido um dos +lençóis a um canto, +atrás da porta.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[67]</span>Quando voltou +perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo.<br /> + + +<br /> + + +«Foi, respondeu a criança desabridamente, para me +servir mais tarde +deste lençol, quando pela minha vez te mandar +também para o hospital.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[68]</span> +<h2><a name="23"></a>O fato novo do +sultão</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário +todo o seu rendimento.<br /> + + +<br /> + + +Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao +teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus +fatos novos. Mudava +de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Está +no conselho; +dizia-se dele: Está-se a vestir. A capital do seu reino era +uma cidade +muito alegre, graças à quantidade de estrangeiros +que por ali passavam; +mas chegaram lá um dia dois larápios, que, +dando-se por tecelões, +disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. +Não +só eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, +mas além +disso os vestuários feitos com esse estofo, +possuíam uma qualidade +maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para +todos +aqueles que não exercessem bem o seu emprego.<br /> + + +<br /> + + +―São vestuários impagáveis, disse +consigo o sultão; graças a eles, +saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade +dos ministros. Preciso desse estofo!»<br /> + + +<br /> + + +E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães <span class="pagenum">[69]</span>uma quantia avultada, +para que pudessem começar os trabalhos imediatamente.<br /> + + +<br /> + + +Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que +trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas +lançadeiras. +Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo +isso +muito bem guardado, trabalhando até à meia noite +com os teares vazios.<br /> + + +<br /> + + +―«Preciso saber se a obra vai adiantada».<br /> + + +<br /> + + +Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser +visto pelos +idiotas. E, apesar de ter confiança na sua +inteligência, achou prudente +em todo o caso mandar alguém adiante.<br /> + + +<br /> + + +Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do +estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.<br /> + + +<br /> + + +―Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o +sultão; tem um +grande talento, e por isso ninguém pode melhor do que ele +avaliar o +estofo.<br /> + + +<br /> + + +O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam +com os teares vazios.<br /> + + +<br /> + + +―Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, não vejo +absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois +tecelões +convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião +sobre os +desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, +olhava, mas não via nada, pela razão +simplicíssima de nada lá existir.<br /> + + +<br /> + + +―Meu Deus! pensou ele, serei realmente estúpido? +É necessário que +ninguém o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas +lá +confessar que não vejo nada, isso é que eu +não confesso.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[70]</span>«Então +que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:<br /> + + +<br /> + + +―«Encantador, admirável! respondeu o ministro, +pondo os óculos. Este +desenho... estas cores... magnífico!... Direi ao +sultão que fiquei +completamente satisfeito.»<br /> + + +<br /> + + +―«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os +tecelões; e +mostraram-lhe cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe +deles uma +descrição minuciosa. O ministro ouviu +atentamente, para ir depois +repetir tudo ao sultão.<br /> + + +<br /> + + +Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; +precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no +bolso, é claro; o tear continuava vazio, e apesar disso +trabalhavam +sempre.<br /> + + +<br /> + + +Passado algum tempo, mandou o sultão um novo +funcionário, homem +honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a +este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e +não +via nada.<br /> + + +<br /> + + +―Não acha um tecido admirável?» +perguntaram os tratantes, mostrando o +magnífico desenho e as belas cores, que tinham apenas o +inconveniente +de não existir.<br /> + + +<br /> + + +―Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois +não serei +eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! mas +deixá-lo, não o +deixo eu.»<br /> + + +<br /> + + +Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua +admiração pelo +desenho e o bem combinado das cores.<br /> + + +<br /> + + +―É duma magnificência incomparável, +disse <span class="pagenum">[71]</span>ele ao +sultão. E toda a +cidade começou a falar desse tecido +extraordinário.<br /> + + +<br /> + + +Enfim o próprio sultão quis vê-lo +enquanto estava no tear. Com um grande +acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois +honrados funcionários, dirigiu-se para as oficinas, em que +os dois +velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem +de +espécie alguma.<br /> + + +<br /> + + +―Não acha magnífico? disseram os dois honrados +funcionários. O desenho +e as cores são dignos de vossa alteza.»<br /> + + +<br /> + + +E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali +estavam +pudessem ver alguma coisa.<br /> + + +<br /> + + +―Que é isto! disse consigo mesmo o sultão, +não vejo nada! É horrível! +serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que +desgraça que me +acontece!» Depois de repente exclamou: +«É magnífico! Testemunho-vos a +minha satisfação.»<br /> + + +<br /> + + +E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, +sem se +atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu +séquito olharam do +mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem ver coisa alguma, +e no entanto +repetiam como o sultão: «É +magnífico!» Até lhe aconselharam a que +se +apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. +«É magnífico! é +encantador! é admirável!» exclamavam +todas as bocas, e a satisfação era +geral.<br /> + + +<br /> + + +Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos +tecelões.<br /> + + +<br /> + + +Na véspera do dia da procissão passaram a noite +em claro, trabalhando à +luz de dezasseis velas. <span class="pagenum">[72]</span>Finalmente +fingiram tirar o estofo do tear, +cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem +fio, +e declararam, depois disto, que estava o vestuário +concluído.<br /> + + +<br /> + + +O sultão com os seus ajudantes de campo foi +examiná-lo, e os impostores +levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, +disseram:<br /> + + +<br /> + + +«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve +como uma teia de aranha; +é a principal virtude deste tecido.»<br /> + + +<br /> + + +―Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.<br /> + + +<br /> + + +―Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os +larápios, +provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.»<br /> + + +<br /> + + +O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe +as calças, +depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se +defronte do +espelho.<br /> + + +<br /> + + +―Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os +cortesãos. +Que desenho! que cores! que vestuário +incomparável!»<br /> + + +<br /> + + +Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias.<br /> + + +<br /> + + +―Está à porta o dossel sobre que vossa alteza +deve assistir à procissão, +disse ele.»<br /> + + +<br /> + + +―Bom! estou pronto, respondeu o sultão. Parece-me que +não vou mal.»<br /> + + +<br /> + + +E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do +seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, +não +querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam +arregaçá-la.<br /> + + +<br /> + + +E, enquanto o sultão caminhava altivo sob um <span class="pagenum">[73]</span>dossel deslumbrante, toda a +gente na rua e às janelas exclamava: «Que +vestuário magnífico! Que +cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» +Ninguém queria dar a perceber, +que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se +era tolo. +Nunca os fatos do sultão tinham sido tão +admirados.<br /> + + +<br /> + + +―Mas parece que vai em cuecas», observou um pequerrucho, ao +colo do +pai.<br /> + + +<br /> + + +―É a voz da inocência, disse o pai.<br /> + + +<br /> + + +―Há ali uma criança que diz que o +sultão vai em cuecas.<br /> + + +<br /> + + +«Vai em cuecas! vai em cuecas!» exclamou o povo +finalmente.<br /> + + +<br /> + + +O sultão ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente +era +verdade. Entretanto tomou a enérgica +resolução de ir até ao fim, e os +camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda +imaginária.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[74]</span> +<h2><a name="24"></a>Boa sentença</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma +quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil +réis +de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em +casa um honrado +camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, +e disse:<br /> + + +<br /> + + +―Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu +perdi; no +alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste +adiantados os cem mil réis de alvíssaras: estamos +pagos por conseguinte.»<br /> + + +<br /> + + +O bom camponês, que nem por sombras tocara no dinheiro, +não podia nem +devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o +juiz, +que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte +sentença:<br /> + + +<br /> + + +―Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro +encontrou um alforge +apenas com setecentos: Resulta daí claramente que o dinheiro +que o +último encontrou não pode ser o mesmo a que o +primeiro se julga com +direito. Por consequência tu, meu bom homem, leva o dinheiro +que +encontraste, <span class="pagenum">[75]</span>e +guarda-o até que apareça o indivíduo +que perdeu somente +setecentos mil réis. E tu, o único conselho que +passo a dar-te, é que +tenhas paciência até que apareça +alguém que tenha achado os teus +oitocentos mil réis.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[76]</span> +<h2><a name="25"></a>Os animais agradecidos</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem +perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este +respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―«Senhor: eu sou um desgraçado, um +miserável; nasci no vosso reino, e +chamo-me <i>Ingratidão</i>.»<br /> + + +<br /> + + +―«Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, +tomava-te ao meu +serviço.»<br /> + + +<br /> + + +O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. +Desde que chegaram a palácio, deu tais provas de habilidade, +mostrou-se +tão esperto e tão solícito, que o rei +afeiçoou-se-lhe de tal modo, que +o nomeou seu intendente, confiando-lhe a +administração da sua casa. +Deslumbrado por uma fortuna tão rápida, o seu +orgulho desde então não +conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha +compaixão dos +desventurados.<br /> + + +<br /> + + +Ora, na vizinhança do palácio havia uma floresta +cheia de animais +selvagens e perigosíssimos. O intendente mandou +aí fazer por toda a +parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, +caindo +dentro, pudessem ser agarradas. <span class="pagenum">[77]</span>Um +dia que o intendente atravessava a +floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos +orgulhosos, que se +precipitou ele mesmo dentro duma das covas.<br /> + + +<br /> + + +Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo +poço; caiu depois um +lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O +governador, ao ver-se em tão extraordinária +companhia, ficou tão +horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a +esperança de +salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque +por mais que gritasse, +ninguém o vinha socorrer.<br /> + + +<br /> + + +Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, +chamado António, que todos os dias ia rachar lenha +à floresta, para +ganhar o pão necessário à sua mulher e +aos seus filhos. António também +lá foi nesse dia, como de costume, e pôs-se a +trabalhar não longe da +cova em que caíra o intendente, cujos gritos de +aflição não tardou a +ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava +ali.<br /> + + +<br /> + + +―«Sou o governador do palácio do rei, e, se me +tirares daqui, prometo +encher-te de riquezas; estou em companhia dum leão, dum lobo +e duma +enorme serpente.»<br /> + + +<br /> + + +―«Eu, respondeu o lenhador, sou um miserável +jornaleiro, não tendo para +sustentar a minha família, mais que o produto do meu +trabalho; bastava +um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê +lá pois, se +cumpres a tua promessa?<br /> + + +<br /> + + +O intendente continuou:<br /> + + +<br /> + + +―«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, +<span class="pagenum">[78]</span>juro-te que +cumprirei a minha palavra.»<br /> + + +<br /> + + +Confiado nisto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou +com uma corda +muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O leão +atirou-se a +ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era +o intendente.<br /> + + +<br /> + + +Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a +maior +amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque +tinha fome.<br /> + + +<br /> + + +António deitou outra vez a corda ao fundo do +poço, e, julgando tirar o +governador, enganou-se, porque era o lobo; à terceira vez +subiu a +serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para +sair o +governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e +partiu a correr +para o palácio. O jornaleiro voltou para casa, e contou +à mulher tudo o +que se tinha passado, não lhe esquecendo, é +claro, as brilhantes +promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, +foi o pobre +homem bater à porta do palácio. O porteiro +perguntou-lhe o que queria.<br /> + + +<br /> + + +―«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a +s.ex.ª o intendente +que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja +falar.»<br /> + + +<br /> + + +O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:<br /> + + +<br /> + + +―«Vai dizer a esse homem, que eu não vi +ninguém na floresta; que se +ponha a andar, porque o não conheço.»<br /> + + +<br /> + + +O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.<br /> + + +<br /> + + +O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, <span class="pagenum">[79]</span>e contou à +mulher a +odiosa perfídia de que tinha sido vitima.<br /> + + +<br /> + + +A mulher disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―«Tem paciência; o sr. intendente estava hoje +decerto muito ocupado, e +foi talvez por isso que te não pôde +receber.»<br /> + + +<br /> + + +Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu +esperanças.<br /> + + +<br /> + + +Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo +à porta do palácio. +Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos ásperos, que +não tornasse +ali a aparecer, quando não ver-se-ia obrigado a empregar +meios +violentos. A mulher ainda desta vez procurou consolá-lo:<br /> + + +<br /> + + +―«Experimenta terceira e última vez, disse-lhe +ela, talvez Deus o +inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, +não penses mais +nisso.»<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte o bom do homem voltou à carga; e tendo o +porteiro +consentido à força de suplicas em +anunciá-lo ainda ao governador, este +encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre +homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do +chão. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com +um +burro, pôs-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As +feridas +levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se +obrigado a contrair dividas para pagar ao médico. Quando +finalmente +tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o +costume para +fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, apareceu-lhe o +leão, que ele +tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um +burro diante de si, e +<span class="pagenum">[80]</span>este burro estava +carregado de sacos cheios de preciosidades. O leão, +vendo António, parou e inclinou-se diante dele com um ar de +respeitoso +agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal +de que ficasse com o jumento. António doido de alegria levou +o animal +para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte, voltando de novo à floresta, apareceu-lhe o +lobo, que +o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto +lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluída, e +tinha carregado +o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha +tirado do fôjo, e que trazia na ponta da língua +uma pedra preciosa, em +que brilhavam três cores,―o branco, o preto e o vermelho. +Quando a +serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a +pedra junto +dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal. +António +levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que +propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho, +afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este, +assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia. +António respondeu-lhe que a não queria vender, +mas simplesmente saber se +seria boa.<br /> + + +<br /> + + +O velho respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―«São três as virtudes desta pedra: +abundância contínua, alegria +imperturbável e luz sem trevas. Se alguém ta +comprar por menos dinheiro +do que vale, tornará imediatamente para a tua +mão.»<br /> + + +<br /> + + +António ficou muito contente com esta resposta, <span class="pagenum">[81]</span>agradeceu ao velho da +ciência maravilhosa, e correu a contar à mulher a +sua felicidade. Como +se imagina, graças à virtude da famosa pedra, +não lhe faltaram daí em +diante, nem honras nem riquezas.<br /> + + +<br /> + + +Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou +chamar António, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso +talismã.<br /> + + +<br /> + + +António, vendo que semelhante desejo era uma ordem, +respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―«Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me +não for paga +pelo que vale, tornará ela mesma para o meu poder.»<br /> + + +<br /> + + +―«Hei de pagar-ta bem, disse o rei.»<br /> + + +<br /> + + +E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de +manhã, +António achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher +sabendo isto +disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―«Torna a levá-la ao rei imediatamente; +não vá ele persuadir-se que +lha furtaste.»<br /> + + +<br /> + + +O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou à +presença de sua +majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra +preciosa.<br /> + + +<br /> + + +―«Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de +ferro, +fechado com sete chaves, disse o rei.»<br /> + + +<br /> + + +António mostrou-lhe então a jóia +preciosa, e o rei ficou +extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido +semelhante tesouro.<br /> + + +<br /> + + +António contou-lhe tudo que tinha havido, a +ingratidão do governador e o +reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o +seu +intendente, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[82]</span>―«Homem +perverso, com justo motivo te puseram o nome de <i>Ingratidão</i>, +porque és mais falso e mais pérfido que os +animais ferozes, e pagaste +com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será +feita. Dou a António as +tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres +enforcado.»<br /> + + +<br /> + + +Admiraram todos a sentença do rei, e António +desempenhou as suas altas +funções com tanta sabedoria e bondade, que depois +da morte do rei foi +escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos +gloriosos.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[83]</span> +<h2><a name="26"></a>O ermitão</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, +deliberou +retirar-se a uma gruta solitária para se consagrar +inteiramente ao +trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, +orando, ciliciando-se, os +seus pensamentos não se desviavam nunca da ideia de Deus. +Depois de ter +assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que +já tinha +merecido um lugar glorioso no paraíso, e podia ser contado +entre os +santos mais notáveis.<br /> + + +<br /> + + +Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Há no mundo um pobre músico, que anda de porta +em porta, tocando viola +e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.<br /> + + +<br /> + + +O ermitão, atónito, ao ouvir estas palavras, +levantou-se, agarrou no +seu bordão, foi em busca do músico e mal o +encontrou disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Irmão, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que +orações e +penitências te tornaste agradável a Deus.<br /> + + +<br /> + + +―Ora, respondeu-lhe o músico, abaixando a cabeça, +santo padre, não +zombes de mim. Nunca fiz <span class="pagenum">[84]</span>boas +obras, e quanto a orações não as sei, +pobre de mim, que sou um pecador. O que faço é +andar de casa em casa a +divertir os outros.»<br /> + + +<br /> + + +O austero ermitão continuou a insistir:<br /> + + +<br /> + + +―Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda, +praticaste algum +acto de virtude.»<br /> + + +<br /> + + +―Em verdade não poderia citar nem um +só.»<br /> + + +<br /> + + +―Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens +vivido +loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste +frivolamente +o teu património e o produto do teu +ofício?»<br /> + + +<br /> + + +―Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo +marido e +filhos tinham sido condenados à escravidão para +pagar uma dívida. Essa +mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa, +protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuía +para resgatar a +sua família, e levei-a à cidade, onde ela devia +encontrar-se com seu +marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro +tanto?»<br /> + + +<br /> + + +A estas palavras o ermitão pôs-se a chorar, e +exclamou:<br /> + + +<br /> + + +―Nos meus setenta anos de solidão nunca pratiquei uma obra +tão +meritória, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto +que tu não +passas dum pobre músico.»<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[85]</span> +<h2><a name="27"></a>Carlos Magno e o abade de +S. Gall</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall, +preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta +da abadia, fresco, +rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens +enérgicos e +activos, e o abade era indolente. Além disso o imperador +tinha mais +dum motivo de queixa contra ele.<br /> + + +<br /> + + +―Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter +à +sua esclarecida razão três perguntas, +às quais terá a bondade de me +responder daqui a três meses, contados dia a dia, em +sessão solene do +nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em +dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao +mundo; +em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. +rev.<sup>ma</sup> vier à minha +presença, pensamento que deve ser um erro. Trate +de arranjar resposta satisfatória a tudo, aliás +deixa de ser abade de S. +Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada +para o rabo.»<br /> + + +<br /> + + +O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as +escolas, mas +os doutores mais <span class="pagenum">[86]</span>famosos +pela sua ciência, não lhe souberam dar +resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal +aproximava-se; já não faltava senão um +mês, já não faltavam senão +semanas, e afinal só dias. O abade, que noutro tempo era +gordo e +anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite. +Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando +se +encontrou com o seu pastor.<br /> + + +<br /> + + +―Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! +Está doente?»<br /> + + +<br /> + + +―Estou, meu caro Félix, estou muito doente.»<br /> + + +<br /> + + +―Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa +curar.»<br /> + + +<br /> + + +―Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas +resposta às minhas três +perguntas.»<br /> + + +<br /> + + +―É então latim?»<br /> + + +<br /> + + +―Não, não é latim, senão os +doutores tinham-me arranjado tudo.»<br /> + + +<br /> + + +―Visto que não é latim, queira v. rev.<sup>ma</sup> +dizer-me o que é: minha mãe +era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.»<br /> + + +<br /> + + +Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor +atirou com o +barrete ao ar, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. +rev.<sup>ma</sup> +pode continuar a engordar; mas para isso é +necessário que eu vista o seu +hábito.»<br /> + + +<br /> + + +Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o +hábito do abade de S. +Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho +imperial.<br /> + + +<br /> + + +―Então, senhor abade, parece que está mais magro, +deu-lhe muito que +pensar a chave do <span class="pagenum">[87]</span>enigma? +Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto +valho eu em dinheiro?»<br /> + + +<br /> + + +―Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por +trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove, +só um +dinheiro menos.»<br /> + + +<br /> + + +―Bravo, senhor abade, a resposta é hábil, e na +realidade não posso +deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda +pergunta, não há de +ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá +a ver: quanto tempo levaria eu a +dar a volta ao mundo?»<br /> + + +<br /> + + +―Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir +constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e +quatro horas.»<br /> + + +<br /> + + +―Decididamente, v. rev.<sup>ma</sup> é um grande +finório, e desta vez, +confesso-me vencido; mas a terceira, não dessas à +que se responde com +suposições. Quem lhe há de dizer o que +eu estou pensando, e como me há +de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra +senhor abade.»<br /> + + +<br /> + + +―Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; +está +enganado, porque eu sou o seu pastor.»<br /> + + +<br /> + + +―Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, +e desde já o ficas +sendo.»<br /> + + +<br /> + + +―Não sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um +favor, +peço-lhe outra coisa.»<br /> + + +<br /> + + +―Não tens mais que falar.»<br /> + + +<br /> + + +―Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.»<br /> + + +<br /> + + +Carlos Magno não era homem que faltasse à sua +palavra.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[88]</span> +<h2><a name="28"></a>A boneca</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma história―a +história duma +boneca!<br /> + + +<br /> + + +Não há muitos anos, mas ainda não era +a Cordoaria do Porto o ameno +jardim, onde a infância folga por entre maciços de +flores e sob o +sorriso do sol, sem que lhe enegreça o espírito a +vista dos dois +monumentos, que a meu ver simbolisam as duas mais horríveis +calamidades, +que podem aniquilar um homem―o hospital e a cadeia!―ainda +não há +muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da +feira, divertindo-me a meu modo.<br /> + + +<br /> + + +Cansado das inúmeras figuras, que tinha visto passar por +aquela +espécie de lanterna mágica, dispunha-me a dar por +findo o espectáculo, +quando novos personagens me chamaram a atenção.<br /> + + +<br /> + + +Eram os meus vizinhos <i>ricos</i>. +<br /> + + +Aqui é preciso uma rápida +explicação.<br /> + + +<br /> + + +Das famílias da minha vizinhança, só +conheço três.<br /> + + +<br /> + + +Qual destas três famílias será mais +feliz?...<br /> + + +<br /> + + +Pelo que tenho notado, não têm que invejar umas +às outras.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[89]</span>São +todas felizes; cada qual a seu modo.<br /> + + +<br /> + + +Vi, pois, chegar os meus vizinhos <i>ricos</i>. +<br /> + + +Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapéu +na mão e +dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou, +tomou nos braços a filhinha e depô-la no +chão, e oferecendo, em +seguida, a mão à esposa, para a ajudar a apear, +dirigiu-se com ela e +com a menina para a barraca onde eu estava.<br /> + + +<br /> + + +Não havia ali segredo a surpreender.<br /> + + +<br /> + + +Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que +parecia agradecer àquela formosa criança a +manifestação de qualquer +desejo.<br /> + + +<br /> + + +No fim de meia hora possuía a minha pequena vizinha com que +fazer a +felicidade de dez crianças menos abastadas.<br /> + + +<br /> + + +Tinha o necessário para montar completamente a casa duma +boneca... +<i>rica</i>.<br /> + + +<br /> + + +Faltava apenas a dona da casa―a boneca.<br /> + + +<br /> + + +Todo risos e atenções, o lojista apresentou o que +tinha de melhor.<br /> + + +<br /> + + +Depois de muita hesitação e de, já com +os olhos, já com a voz, consultar +a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma +magnífica boneca de +dois palmos de altura, com cabelo em <i>bandeaux</i> e +olhos azuis.<br /> + + +<br /> + + +Uma boneca como as outras: cabeça e colo de massa, corpo de +pelica +recheada, braços e pernas de pau.<br /> + + +<br /> + + +Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribo de +crianças, que fazem +o martírio e a alegria da pobre mãe, e tem por +chefe um honrado +sapateiro.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[90]</span>Alguns deles, se +andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem +anjos, caídos do céu sobre um monte de lama.<br /> + + +<br /> + + +São os meus vizinhos <i>pobres</i>.<br /> + + +<br /> + + +A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a +casa +imediata.<br /> + + +<br /> + + +É como se costuma dizer, gente <i>que vai muito bem +com a sua vida</i>.<br /> + + +<br /> + + +A filha que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e +carnudas, +cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem +à +pressão.<br /> + + +<br /> + + +São os meus vizinhos <i>remediados</i>.<br /> + + +<br /> + + +A terceira é a dos meus vizinhos <i>ricos</i>.<br /> + + +<br /> + + +Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito +nas +listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do +estado―nada falta àquela ditosa gente!<br /> + + +<br /> + + +Compõe-se igualmente de marido, mulher e filha.<br /> + + +<br /> + + +Que formosa criança!... Terá oito anos.<br /> + + +<br /> + + +Franzina e pálida, com os cabelos negros, os olhos grandes e +cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos +compridos e +esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que +não +sinta antecipada inveja do feliz namorado―provavelmente ainda a +crescer―que há-de um dia ter o direito de lhas cobrir de +beijos.<br /> + + +<br /> + + +Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas +aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para +dentro do +carro.<br /> + + +<br /> + + +A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrática +criança.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[91]</span>Saí +dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa +variadíssimas +considerações, sugeridas pela quase +indiferença, com que aquela menina +recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.<br /> + + +<br /> + + +Que contraste com os olhares de cobiça, com que outras +raparigas da +mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabeça de pano, +horrível +artefacto português, em que os olhos são +representados por dois pontos +de linha azul, o nariz por um alinhavo de retrós cor de +rosa, a boca por +outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de lã preta!<br /> + + +<br /> + + +Quando cheguei a casa, já na dos meus vizinhos remediados +não havia luz.<br /> + + +<br /> + + +Na dos meus vizinhos <i>pobres</i>, o pai batia a sola, +cantando ao som de +três assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, +por lavar, +provocavam os ralhos da mãe.<br /> + + +<br /> + + +Quando, no dia seguinte, cheguei à janela, seriam onze horas +da manhã.<br /> + + +<br /> + + +Na rua agenciavam nova camada de imundície os filhos do +sapateiro; na +casa imediata não se via ninguém―estava a pequena +na mestra; no +palácio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da +varanda, +divertia-se a minha pequena milionária fazendo rodar, com +auxílio duma +linha, uma magnífica <i>caleche</i> descoberta, +puxada por cavalos brancos.<br /> + + +<br /> + + +Dentro da <i>caleche</i> pavoneava-se a boneca +opulentamente vestida.<br /> + + +<br /> + + +―«Aí está a tua caricatura, minha +feiticeira!...»―disse eu de mim +para mim. «Ensaias <span class="pagenum">[92]</span>nas +bonecas o que vês no mundo a que pertences!... +Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...»<br /> + + +<br /> + + +Retirei-me da janela.<br /> + + +<br /> + + +Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.<br /> + + +<br /> + + +A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se +vestia três e quatro vezes!<br /> + + +<br /> + + +Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao +respeito com que a dona a +tratava!<br /> + + +<br /> + + +Chamava-lhe sr.<sup>a</sup> D. Luísa; dava-lhe +excelência; sustentava finalmente +com a boneca um destes diálogos de senhoras da alta +sociedade, em que +se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.<br /> + + +<br /> + + +Um dia,―estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos +<i>ricos</i>―ouvi um grito de susto.<br /> + + +<br /> + + +Era devido a um acidente, a que está sujeito quem anda de +carro.<br /> + + +<br /> + + +Voltara-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra +da janela.<br /> + + +<br /> + + +O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a +vítima; vendo, +porém, que a ferida havia forçosamente de deixar +cicatriz, e +lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe +dessem outra +nova, agarrou-a pelos pés e ia atirá-la com +despeito à rua, quando mais +perto de mim bradou voz tímida e suplicante:<br /> + + +<br /> + + +«Não atire!... Dê-ma.»<br /> + + +<br /> + + +Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu não +dera fé até +então.<br /> + + +<br /> + + +Assim invocada, a menina <i>rica</i> franziu levemente <span class="pagenum">[93]</span>as sobrancelhas e +lançou um olhar de rainha para o sítio donde +vinha a súplica.<br /> + + +<br /> + + +Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou +e, +encolhendo os ombros, respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―«Já não presta!... Está +esmurrada!...»<br /> + + +<br /> + + +―É o mesmo!... Dá-ma?...―bradou a outra, cujos +olhos brilhavam de +cobiça.<br /> + + +<br /> + + +―«Dou...»―volveu a rica, encolhendo novamente os +ombros.<br /> + + +<br /> + + +E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas +mãos da +vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse +despedaçar-se nas lajes da rua.<br /> + + +<br /> + + +Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a +outra, para mostrar à mãe a que ela ainda +não podia acreditar, que +fosse sua!<br /> + + +<br /> + + +Por espaço de meses foi a boneca a principal +ocupação da nova dona.<br /> + + +<br /> + + +A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro +vezes em quatro horas!... Já lhe não davam +excelência! Chamavam-lhe +sr.<sup>a</sup> D. Ana; falavam-lhe de arranjos +domésticos, do desmazelo da +criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente +estranhas para ela!<br /> + + +<br /> + + +E a desgraçada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe +cada vez menos +azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia +se tornava mais escura: parecia uma nódoa, um estigma!<br /> + + +<br /> + + +Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, <span class="pagenum">[94]</span>que trouxera no corpo, +ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.<br /> + + +<br /> + + +Não tardou, porém, que arrebiques de mau gosto, +fitas velhas, rendas +amareladas, chapéus impossíveis, viessem +contrastar com a elegância do +vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira.<br /> + + +<br /> + + +Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele +as ondulações do <i>moiré</i>, +até que, um belo dia, vi a boneca vestida de +cassa―-no Inverno!―xaile e manta na cabeça.<br /> + + +<br /> + + +Muito mal lhe ficava aquilo!... Àquela boneca custava-lhe de +certo o +ver-se tão mal arranjada.<br /> + + +<br /> + + +Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:<br /> + + +<br /> + + +―É justo!... Cada qual segundo as suas posses.»<br /> + + +<br /> + + +Por esse tempo, entrei em relações com o meu +vizinho sapateiro.<br /> + + +<br /> + + +O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos +faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasião, +para me +pedir desculpa.<br /> + + +<br /> + + +Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a +aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de +casa nem entro, sem +grave risco de sofrer as consequências da sua travessa +familiaridade.<br /> + + +<br /> + + +Entre os filhos do sapateiro, porém, há uma +pequenita de onze anos, com +quem simpatizei logo à primeira vista.<br /> + + +<br /> + + +Chama-se Maria.<br /> + + +<br /> + + +Por um destes acasos da Providência, que parece <span class="pagenum">[95]</span>às vezes +comprazer-se +em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os +irmãos.<br /> + + +<br /> + + +Acostumado às travessuras e desalinho dos outros filhos do +sapateiro, +fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.<br /> + + +<br /> + + +E bem verdade que ele conhecia o valor daquela criança, +porque havia +verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: +«Esta é a +minha Maria!»<br /> + + +<br /> + + +E tinha razão!<br /> + + +<br /> + + +Não podia ser mais discreta do que já nesse tempo +era.<br /> + + +<br /> + + +―É quem vale à mãe!...―acrescentou o +velho.»―Ali, onde a vê, faz o +serviço duma mulher!... Há seis meses, quando a +minha santa esteve +doente―bem pensei que não arribasse!―a pequena era quem +cozinhava e +olhava pelos irmãos!... E caridade como ela tem!?... Olhe +que aquela +pequena esteve três dias sem se deitar... ali... ao +pé da mãe! Foi +preciso eu obrigá-la, que ela não a queria +deixar!...»<br /> + + +<br /> + + +E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma +lágrima, que, +havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.<br /> + + +<br /> + + +Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a +cabeça coberta por um lenço branco.<br /> + + +<br /> + + +Desde que o pai me deu tão boas +informações da rapariga, nunca mais +passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias +à +pequena.<br /> + + +<br /> + + +Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca +deitada nos joelhos.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[96]</span>―Eu +conheço aquela boneca!...―disse eu de mim para mim.<br /> + + +<br /> + + +E, não podendo resistir à curiosidade, bradei:<br /> + + +<br /> + + +―Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...<br /> + + +<br /> + + +Foi ali a menina da vizinha!―respondeu a pequenita, corando de prazer.<br /> + + +<br /> + + +Era escusado dizer-mo.<br /> + + +<br /> + + +Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. Não +podia +duvidar... Era ela; lá estava a mancha, o estigma cada vez +mais visível +na fronte.<br /> + + +<br /> + + +De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se +com +ela.<br /> + + +<br /> + + +―Quem te viu e quem te vê!...―pensava eu.<br /> + + +<br /> + + +Às vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lha +podiam apanhar, que +tratos que sofria a desgraçada!<br /> + + +<br /> + + +Roçada por aquelas mãos, de que um carvoeiro se +envergonharia, +empregada como péla, submetida a torturas, era, ainda assim, +singularíssimo o aspecto da triste!<br /> + + +<br /> + + +Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a +fraternizar com o povo.<br /> + + +<br /> + + +A mísera mudara mais uma vez de nome!...<br /> + + +<br /> + + +De sr.<sup>a</sup> D. Ana passara a ser sr.<sup>a</sup> +Rosinha e tratavam-na por vossemecê.<br /> + + +<br /> + + +Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e lenço +na cabeça.<br /> + + +<br /> + + +Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com +a boneca.<br /> + + +<br /> + + +Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, +encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre +boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver <span class="pagenum">[97]</span>falta de +trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que +mais familiares eram à pequena.<br /> + + +<br /> + + +Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na, +mandavam-na buscar água à fonte, pagavam-lhe, +regateando, a soldada, e +acabavam por a despedir.<br /> + + +<br /> + + +Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, +deixara de ser feliz.<br /> + + +<br /> + + +Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no palácio +vizinho!<br /> + + +<br /> + + +Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos, +desfeito o carmim dos lábios, a boneca não +prometia longa duração.<br /> + + +<br /> + + +Foi este pelo menos, o prognóstico que fiz a +última vez que a vi, +tentando em vão agradar à última dona +que o seu destino lhe dera.<br /> + + +<br /> + + +Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!<br /> + + +<br /> + + +Um dia chovia a cântaros!―o enxurro, mal cabendo nas valetas +da rua, +espadanava em cachão para cima dos passeios, arrastando na +passagem mil +imundícies.<br /> + + +<br /> + + +Eu estava à porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e +olhava +melancolicamente para a água negra, que corria. Nisto ouvi +um grito, que +partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um +objecto, +arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e +foi cair no +leito do enxurro...<br /> + + +<br /> + + +Olhei... Era a boneca!...<br /> + + +<br /> + + +A mísera, arrastada pela água, vogou rua abaixo +até esbarrar numa +pedra; mas o redemoinho envolveu-a, <span class="pagenum">[98]</span>e, +depois de a fazer girar três ou +quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado +entre a pedra e +o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir +sumir-se nas +profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!<br /> + + +<br /> + + +Será pieguice, será o que o leitor quiser; mas, +confesso-lhe, que me +impressionou o fim da pobre boneca.<br /> + + +<br /> + + +Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado à +vidraça do +sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:<br /> + + +<br /> + + +―Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?<br /> + + +<br /> + + +―Não fui eu...―balbuciou a pequena, chorando.―Foi ali o +Joaquim!...<br /> + + +<br /> + + +―E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...<br /> + + +<br /> + + +―Ora!...―respondeu o garoto com enfado.―Ora!... Estava velha... e +feia!...<br /> + + +<br /> + + +Curvei a cabeça ante aquela razão, e segui o meu +caminho.<br /> + + +<br /> + + +Pobre boneca!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[99]</span> +<h2><a name="29"></a>Inconveniente da riqueza</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, foi +surpreendido pela noite à entrada duma aldeia. Procurou dum +lado para +outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam +já +todas fechadas, não se via nem um raio de luz +através das janelas, tudo +estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual +com que se bate o trigo, e nesse sítio havia uma pequena +luz. Nosso +Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro +duma quinta, e bateu à +porta. Foi um camponês que lha veio abrir.<br /> + + +<br /> + + +―Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite? +Não se havia de arrepender.»<br /> + + +<br /> + + +E acrescentou:<br /> + + +<br /> + + +―Visto que já todos estão deitados, para que +é que você está ainda a +trabalhar?»<br /> + + +<br /> + + +―Ora, respondeu o camponês, soube ontem à noite +que ia ser perseguido +por um credor desapiedado, se lhe não pagasse +amanhã o que lhe devo, +portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para +o vender no mercado, e pagar a minha dívida. Depois disto +não nos fica +nada, <span class="pagenum">[100]</span>e +não sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que +Deus +quiser!»<br /> + + +<br /> + + +Ao dizer isto o camponês limpava o suor da testa, e passava a +mão pelos +olhos arrasados de lágrimas. O Senhor teve dó +dele, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, +disse-te que não te +havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.»<br /> + + +<br /> + + +Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e +aproximou-a do trigo.<br /> + + +<br /> + + +―Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a +tudo!»<br /> + + +<br /> + + +Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se, +de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. +À vista dum tal +milagre os camponeses maravilhados caíram de joelhos.<br /> + + +<br /> + + +―Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua +pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, +serás +recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que +te +enriquece.»<br /> + + +<br /> + + +Dito isto desapareceu.<br /> + + +<br /> + + +E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e +fez um monte tão alto +como a igreja.<br /> + + +<br /> + + +O camponês pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu +uma bela +casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e +seus filhos adquiriram costumes perdulários, tanto e tanto +fizeram, que +se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, +ninguém os ajudou na sua miséria. Uma noite o +velho camponês, que bebera +enormemente, entrou <span class="pagenum">[101]</span>no +celeiro, e, recordando-se do milagre que o +enriquecera, imaginou que também ele o poderia fazer. +Agarrou na +candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a +casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na +miséria mais +absoluta.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[102]</span> +<h2><a name="30"></a>Querer é poder</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +―Quem procura sempre encontra, diz um velho provérbio; quero +ver por +experiência, disse um dia um rapaz, se esta máxima +é verdadeira.<br /> + + +<br /> + + +Pôs-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma +grande cidade.<br /> + + +<br /> + + +―Senhor, disse-lhe ele, há muitos anos que vivo tranquilo e +solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas +vezes―<i>Quem procura sempre encontra</i>, e <i>quem +porfia mata caça</i>. Tomei +uma grande resolução. Quero casar com a filha do +rei.<br /> + + +<br /> + + +O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.<br /> + + +<br /> + + +O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante +uma +semana, sempre com a mesma vontade inabalável, +até que o rei ouviu +falar o rapaz da sua louca pretensão. Surpreendido com uma +ideia tão +extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:<br /> + + +<br /> + + +―Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela +ciência, +pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais +são +os teus títulos? Para seres o marido <span class="pagenum">[103]</span>de minha filha +é necessário que te +distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor +extraordinário. Ouve. Perdi há muito tempo no rio +um diamante dum valor +incalculável. Aquele que o encontrar obterá a +mão de minha filha.<br /> + + +<br /> + + +O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do +rio; logo de manhã começava a tirar +água com um balde pequeno, e +deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e +horas, punha-se a rezar.<br /> + + +<br /> + + +Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e +receando que +chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.<br /> + + +<br /> + + +―Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»<br /> + + +<br /> + + +―Encontrar um diamante que caiu ao rio.»<br /> + + +<br /> + + +―Então, respondeu o velho rei, sou de opinião que +lho entreguem, porque +vejo qual é a têmpera da vontade deste rapaz; mais +fácil seria esgotar +as últimas gotas do rio, do que desistir da sua +empresa.»<br /> + + +<br /> + + +Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha +do rei.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[104]</span> +<h2><a name="31"></a>Qual será rei?</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o +sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer, +não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.<br /> + + +<br /> + + +Resolveram além disso que o cadáver do rei fosse +posto de pé contra um +muro, e que o príncipe que acertasse melhor com uma flecha +naquele +alvo, seria o escolhido para sucessor.<br /> + + +<br /> + + +Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou +durante muito +tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defunto. +O príncipe +soltou grito de alegria, cuidando que seus irmãos atirariam +pior, e que +por conseguinte seria ele quem viria a reinar.<br /> + + +<br /> + + +O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais +alegre do que o outro príncipe.<br /> + + +<br /> + + +O terceiro varou o coração de seu pai, e os seus +gritos de triunfo +quase que chegavam ao céu, porque lhe parecia +impossível acertar melhor.<br /> + + +<br /> + + +Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas +mãos as +flechas e o arco: mas, <span class="pagenum">[105]</span>desde +que olhou para o alvo, arrojou as armas +longe de si, e desatou a chorar:<br /> + + +<br /> + + +―«Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu +jamais +consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão +de teus +próprios filhos!»<br /> + + +<br /> + + +Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais +digno.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[106]</span> +<h2><a name="32"></a>Os três +véus de Maria</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +O primeiro véu de Maria era dum linho mais alvo do que a +neve. +Bordara-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de +flores de +seda tão bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham +pousar-lhe em +cima.<br /> + + +<br /> + + +Este véu branco só o trouxe uma vez, no dia da +sua primeira comunhão.<br /> + + +<br /> + + +O segundo véu de Maria era de lã negra. +Principiou-o no mesmo dia em que +sua mãe lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa +triste e +abandonada. Era bordado de perpétuas roxas, como as dos +sepulcros de +mármore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas +as suas +lágrimas.<br /> + + +<br /> + + +O véu negro só o trouxe uma vez,―no dia em que se +tornou esposa de +Jesus no convento da Avé-Maria.<br /> + + +<br /> + + +O terceiro véu era feito dum retalho do azul celeste, +bordado +de estrelas, e perfumado com aromas suavíssimos.<br /> + + +<br /> + + +Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou +no paraíso.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p107">[107]</a></span> +<h2><a name="33"></a>Os pequenos no bosque</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um dia três pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns +aos +outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que +estudar: «Vamos +para o bosque que <a href="#e4">encontraremos</a> +lá toda a espécie de lindos bichinhos, que +não fazem outra coisa senão brincar, e +nós brincaremos com eles.»<br /> + + +<br /> + + +Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa +formiga e da +abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar, +disse-lhes:<br /> + + +<br /> + + +―Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a +outra já não está +sólida.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para +o Inverno.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu +ninho.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, +mas ainda +hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que +fazer a +minha <i>toilette</i>.»<br /> + + +<br /> + + +E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, <span class="pagenum">[108]</span>que passas o tempo +a saltar e a tagarelar, também não queres brincar +connosco?»<br /> + + +<br /> + + +―Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? +Vocês então imaginam +que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, +não descanso nem um +momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, às +colinas, +aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os +incêndios, +tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje +acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. Não +posso perder +um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»<br /> + + +<br /> + + +Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um +pintassilgo, em cima dum ramo.<br /> + + +<br /> + + +―Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar +connosco?»<br /> + + +<br /> + + +―Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, +disse o pintassilgo. Todo +o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além disso +que tomar +parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o +operário com o +meu chilrear, e tenho que adormecer as crianças com uma +outra cantiga, +que à noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. +Ide-vos embora, +preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não +tornem a vir incomodar os +habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a +desempenhar.»<br /> + + +<br /> + + +Os pequenos aproveitaram a lição, e compreenderam +que o prazer só é +legítimo, quando é a recompensa do trabalho.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[109]</span> +<h2><a name="34"></a>O chapelinho encarnado</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem +sua +mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da +avozinha, que passava o +tempo a imaginar o que poderia agradar à neta, deu-lhe um +dia um chapéu +de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o +seu chapéu +novo, que já não queria pôr outro, e +começaram a chamar-lhe a menina do +chapelinho encarnado.<br /> + + +<br /> + + +A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por +uma floresta de meia +légua de comprido. Uma manhã a mãe +disse à pequenita:<br /> + + +<br /> + + +―Tua avó está doente, e não +pôde vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai +levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não +quebres a +garrafa, não andes a correr, vai devagarinho e volta +logo.»<br /> + + +<br /> + + +―Sim, mamã, respondeu ela, hei-de fazer tudo como +deseja.»<br /> + + +<br /> + + +Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e +pôs-se +a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita, +que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[110]</span>―Bons dias, +chapelinho encarnado.»<br /> + + +<br /> + + +―Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»<br /> + + +<br /> + + +―Onde vais tão cedo?»<br /> + + +<br /> + + +―A casa da minha avó que está doente.»<br /> + + +<br /> + + +―E levas-lhe alguma coisa?»<br /> + + +<br /> + + +―Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe +dar forças.»<br /> + + +<br /> + + +Diz-me onde mora a tua, avó, que também a quero +ir ver.»<br /> + + +<br /> + + +―É perto, aqui no fim da floresta. Há ao +pé uns carvalhos muito +grandes, e no jardim há muitas nozes.»<br /> + + +<br /> + + +―Ah! tu é que és uma bela noz, disse consigo o +lobo. Como eu gostava +de te comer.» Depois continuou em voz alta:―Olha, que bonitas +árvores e +que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e +então que +quantidade de plantas medicinais que se encontram!»<br /> + + +<br /> + + +―O senhor, é com certeza um médico, respondeu a +inocente pequenita, +visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma +que fizesse bem a minha avó.»<br /> + + +<br /> + + +―Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta +também, e +aquela.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram +plantas +venenosas. A pobre criança, queria-as apanhar para as levar +a sua avó.<br /> + + +<br /> + + +―Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com +grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»<br /> + + +<br /> + + +E pôs-se a correr em direcção da casa +da avó, enquanto que a pequerrucha +se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[111]</span>Quando o lobo +chegou à porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a +avó não se podia levantar da cama, e perguntou: +Quem está aí?»<br /> + + +<br /> + + +―É o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz +da +pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de +vinho.»<br /> + + +<br /> + + +―Procura debaixo da porta disse a avó, que +encontrarás a chave.»<br /> + + +<br /> + + +Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira, +e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama.<br /> + + +<br /> + + +Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a +porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a +costumava ter +fechada.<br /> + + +<br /> + + +O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma +parte do +focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrível.<br /> + + +<br /> + + +―Ai! avozinha, disse a criança, porque tens tu as orelhas +tão grandes?»<br /> + + +<br /> + + +―É para te ouvir melhor, minha filha.»<br /> + + +<br /> + + +―E porque estás com uns olhos tão +grandes?»<br /> + + +<br /> + + +―É para te ver melhor.»<br /> + + +<br /> + + +―E para que estás com os braços tão +grandes?»<br /> + + +<br /> + + +―É para te poder abraçar melhor.»<br /> + + +<br /> + + +―E Jesus! para que tens hoje uma boca tão grande e uns +dentes tão +agudos?»<br /> + + +<br /> + + +―É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo +arremessou-se à pobre +pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e +começou a +ressonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto +da casa, e +que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha está +com um +pesadelo, <span class="pagenum">[112]</span>está +pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.» Entra, e +vê o lobo estendido na cama.<br /> + + +<br /> + + +―Olá, meu menino, diz ele: há muito tempo que te +procuro.»<br /> + + +<br /> + + +Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse ele, +não vejo a +dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o +animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe +cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e +saltou para o chão, gritando:<br /> + + +<br /> + + +―Ai! que sítio medonho onde eu estive fechada!<br /> + + +<br /> + + +A avó saiu também contentíssima por +ver outra vez a luz do dia.<br /> + + +<br /> + + +O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador +meteu-lhe então +duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a +avó e a +neta para verem o que se ia passar.<br /> + + +<br /> + + +Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se +para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e +não podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no +lago, e +afogou-se.<br /> + + +<br /> + + +O caçador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho +com a velha +e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapelinho +encarnado +prometeu não tornar a passar na floresta, quando sua +mãe lho +proibisse.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[113]</span> +<h2><a name="35"></a>Os cinco sonhos</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Andando um dia Carlos Magno à caça com uma +comitiva numerosa, perseguiu +um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da +ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi +só +então que viu que estava só, tendo a sua corte +ficado muito para traz; +sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana +solitária +no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro +ladrões. +Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da +entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe +quiseram logo contar.<br /> + + +<br /> + + +O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:<br /> + + +<br /> + + +―No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro à pessoa que +acaba de entrar +aqui, e punha-o na minha cabeça.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua +couraça.»<br /> + + +<br /> + + +―E eu que estava pondo o seu manto.»<br /> + + +<br /> + + +―E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava +em roda do +meu pescoço aquela <span class="pagenum">[114]</span>pesada +cadeia de ouro, da qual está pendurada a sua +trompa de caça.»<br /> + + +<br /> + + +―Vejo bem, disse o imperador, que têm +tenção de me roubar tudo, e +mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de +vocês, e que toda e +qualquer resistência seria inútil. Não +lhes peço senão uma coisa, é que +me deixem tocar pela última vez na minha trompa de +caça.»<br /> + + +<br /> + + +Os salteadores responderam que consentiam, visto que o +último pedido +dum moribundo deve ser respeitado.<br /> + + +<br /> + + +Carlos Magno levou à boca a sua magnífica trompa +de marfim, e tirou +dela sons tão fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos +todos os +seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao +pé dele.<br /> + + +<br /> + + +―Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora +também +eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam +ser +enforcados diante deste casebre.»<br /> + + +<br /> + + +E o sonho realizou-se imediatamente.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[115]</span> +<h2><a name="36"></a>A igreja do rei</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnífica +em honra da +Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse +contribuir para +a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o +edifício se +concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do +mármore uma inscrição em letras de +ouro, que dizia que só ele, e mais +ninguém, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na +noite +seguinte o nome do rei foi apagado da inscrição, +e substituído por o +duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar +pôr o seu nome na inscrição, e de novo +foi substituído pelo da pobre +mulher; à terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de +cólera, ordenou +então que lhe trouxessem a mulher à sua +presença:<br /> + + +<br /> + + +―Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que +contribuíssem +fosse com o que fosse para a edificação desta +igreja; vejo que não +cumpriste as minhas ordens.»<br /> + + +<br /> + + +―«Senhor, respondeu a velhinha toda trémula, eu +respeitei as vossas +ordens, apesar da mágoa <span class="pagenum">[116]</span>que +sentia por não poder oferecer o meu +pequenino óbolo em honra da Virgem; mas julguei +não desobedecer a vossa +majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, +que eu levava às escondidas aos bois que conduziam as pedras +destinadas +à construção da igreja.»<br /> + + +<br /> + + +―«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar +em letras de ouro na +inscrição do monumento, disse-lhe o +rei.»<br /> + + +<br /> + + +Mas na noite seguinte uma mão invisível +restabeleceu na lápide da igreja +o nome do rei, que desde então lá se conserva +ainda.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[117]</span> +<h2><a name="37"></a>O valente soldado de +chumbo</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, +por todos +terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial, +de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e +vermelhos! +A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da +caixa em que eles estavam, foi este grito: «Olha soldados de +chumbo!» +que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado +de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era +formá-los sobre a +mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam +maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de +menos, porque o tinham deitado na forma em último lugar, e +já não havia +chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros não +estavam mais +firmes nas duas pernas do que ele na sua única, e +é este o que +precisamente nos interessa.<br /> + + +<br /> + + +Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil +outros +brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindíssimo +castelo de +papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe <span class="pagenum">[118]</span>o interior dos +salões. +À volta era circundado duma floresta em miniatura, que se +reflectia +poeticamente num pedaço de espelho que fingia um lago, onde +nadavam +pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas não +tanto como +uma menina que estava à porta, e que era também +de papel, vestida com um +lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina +tinha os braços arqueados, porque era dançarina, +e tinha uma perninha +levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia +ver, e +imaginou que, como ele, não tinha senão uma perna.<br /> + + +<br /> + + +―Ali está a mulher que me convém, pensou ele, mas +é uma grande +fidalga. Mora num palácio, eu numa caixa em companhia de +vinte e +quatro camaradas, e não haveria cá lugar para +ela. No entanto +preciso conhecê-la.»<br /> + + +<br /> + + +Deitou-se atrás duma caixa de tabaco, e dali podia ver +à sua vontade a +elegante dançarina, que estava sempre num pé +só, sem perder o +equilíbrio.<br /> + + +<br /> + + +À noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e +as pessoas +da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, +começaram +a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados +de +chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam +lá ir; mas +como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar +cabriolas +e saltos mortais, o lápis traçou mil arabescos +fantásticos numa lousa, +enfim o barulho tornou-se tal que o canário acordou, e +pôs-se a cantar. +Os únicos que <span class="pagenum">[119]</span>estavam +quietos eram o soldado de chumbo e a +dançarinazinha. Ela no bico do pé, e ele numa +perna só, a +espreitá-la.<br /> + + +<br /> + + +Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé +levanta-se, e em lugar +de rapé, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de +surpresa.<br /> + + +<br /> + + +―Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro +sítio.»<br /> + + +<br /> + + +Mas o soldado fez que não ouvia.<br /> + + +<br /> + + +―Espera até amanhã, e verás o que te +acontece, continuou o feiticeiro.»<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de +chumbo à janela, mas de repente ou por influência +do feiticeiro ou por +causa do vento caiu à rua de cabeça para baixo. +Que tombo! Ficou com a +perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta +enterrada entre duas lajes.<br /> + + +<br /> + + +A criada e o rapazito foram lá abaixo procurá-lo, +mas estiveram quase a +esmagá-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado: +«Cautela!» +te-lo-íam achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda. +A chuva +começou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro +dilúvio. Depois +do aguaceiro passaram dois garotos.<br /> + + +<br /> + + +―Olá! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos +fazê-lo +navegar.»<br /> + + +<br /> + + +Construíram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o +soldado de +chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois +garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo +Deus! +Que força de corrente! Mas também tinha chovido +tanto! O barco jogava +<span class="pagenum">[120]</span>duma maneira +horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se +impassível, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro.<br /> + + +<br /> + + +De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão +grande a +escuridão como na caixa dos soldados.<br /> + + +<br /> + + +―Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me +meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina +estivesse no barco, não importava, ainda que a +escuridão fosse duas +vezes maior.»<br /> + + +<br /> + + +Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de água; era um +habitante do +cano.<br /> + + +<br /> + + +―Venha o teu passaporte.»<br /> + + +<br /> + + +Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais +força na +espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, +rangendo os dentes, e gritando às palhas, e aos +cavacos:―Façam-no +parar, façam-no parar! Não pagou a passagem, +não mostrou o passaporte.»<br /> + + +<br /> + + +Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do +dia, e +sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais +valente. +Havia na extremidade do cano uma queda de água +tão perigosa para ele, +como é para nós uma catarata. Aproximava-se dela +cada vez mais, sem +poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se +sobre a +queda de água, e o pobre soldado firmava-se o mais +possível, e ninguém se +atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.<br /> + + +<br /> + + +O barco, depois de ter andado à roda durante muito tempo, +encheu-se +de água, e estava a ponto <span class="pagenum">[121]</span>de +naufragar. A água já chegava ao +pescoço do +soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a +água passou por cima da cabeça do nosso +herói. Nesse momento supremo, +pensou na gentil dançarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz +que dizia:<br /> + + +<br /> + + +―Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»<br /> + + +<br /> + + +O papel rasgou-se, e o soldado passou através dele. Nesse +momento foi +devorado por um grande peixe.<br /> + + +<br /> + + +Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do +cano. E além disso, que +talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrépido, o +soldado +estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.<br /> + + +<br /> + + +O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, +até que enfim +parou, e pareceu que o atravessava um relâmpago. Apareceu a +luz do dia, +e alguém exclamou:<br /> + + +<br /> + + +―Olha um soldado de chumbo!»<br /> + + +<br /> + + +O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e +levado para a +cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no +soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a +gente quis admirar esse homem extraordinário, que tinha +viajado na +barriga dum peixe. No entretanto o soldado não se sentia +orgulhoso. +Colocaram-no em cima da mesa, e ali―tanto é verdade que +acontecem +coisas extraordinárias neste mundo―achou-se na mesma sala, +de cuja +janela tinha caído. Reconheceu os pequenos e os brinquedos +que estavam +em cima da mesa, o lindo palácio, e a adorável +dançarina sempre <span class="pagenum">[122]</span>de +perna +no ar. O soldado de chumbo ficou tão comovido, que de boa +vontade teria +derramado lágrimas de chumbo, mas não era +conveniente. Olhou para ela, +ela olhou para ele, mas não disseram uma palavra um ao outro.<br /> + + +<br /> + + +De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no +fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.<br /> + + +<br /> + + +O soldado de chumbo lá estava perfilado, alumiado por um +clarão +sinistro, e sofrendo um calor terrível. Todas as cores lhe +tinham +desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas +viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a +dançarina, que também olhava para ele. Sentia-se +derreter, mas, sempre +intrépido, conservava a espingarda ao ombro. De repente +abriu-se uma +porta, o vento arremessou a dançarina ao fogão +para junto do soldado, que +desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, já +não era mais +que uma pequena massa informe.<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um +objecto que tinha o feitio dum pequeno coração de +chumbo, e tudo o que +restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume +tinha +enegrecido.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[123]</span> +<h2><a name="38"></a>João Pateta</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +João era filho duma pobre viúva, bom rapaz, mas +um pouco simplório. A +gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um +dia sua mãe +mandou-o à feira comprar uma foice. À volta, +começou a andar com a foice +à roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e +matou-a.<br /> + + +<br /> + + +―Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era +pôr a foice em +um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos.»<br /> + + +<br /> + + +―Perdão, mãe, respondeu humildemente +João, para a outra vez serei mais +esperto.»<br /> + + +<br /> + + +Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que +as não perdesse.<br /> + + +<br /> + + +―Fique descansada. E voltou todo orgulhoso.»<br /> + + +<br /> + + +―Então, João, onde estão as +agulhas?»<br /> + + +<br /> + + +―Ah! estão em lugar seguro. Quando saí da loja em +que as comprei, ia a +passar o carro do vizinho carregado de palha; meti lá as +agulhas, não +podem estar em sítio melhor.»<br /> + + +<br /> + + +―De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que +não há meio de as +tornar a ver. Devias tê-las espetado no +chapéu.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[124]</span>―Perdão, +respondeu João, para a outra vez, hei-de ser mais +esperto.»<br /> + + +<br /> + + +Na outra semana, por um dia de calor, João foi dali uma +légua comprar +uma pouca de manteiga. Lembrando-se do último conselho de +sua mãe, pôs a +manteiga dentro do chapéu e o chapéu na +cabeça. Imagine-se o estado em +que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.<br /> + + +<br /> + + +A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer +recado. No entanto um dia +resolveu-se a mandá-lo à feira vender duas +galinhas.<br /> + + +<br /> + + +―Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera +que te ofereçam +outro.»<br /> + + +<br /> + + +―Está entendido, respondeu João.»<br /> + + +<br /> + + +Foi para a feira. Um freguês chegou-se a ele.<br /> + + +<br /> + + +―Queres seis tostões por essas galinhas?»<br /> + + +<br /> + + +―Ora adeus! minha mãe recomendou-me, que não +aceitasse o primeiro +preço, mas que esperasse o segundo.»<br /> + + +<br /> + + +―E tens muita razão. Dou-te um cruzado.»<br /> + + +<br /> + + +―Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o +primeiro, +mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ela não +tem que me ralhar.»<br /> + + +<br /> + + +Depois disto, João foi condenado a ficar em casa. Sua +mãe sabia que +mangavam com ele, e se riam dela. Uma manhã quis fazer uma +experiência, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Vai vender este carneiro à feira. Mas não te +deixes enganar. Não o +entregues senão a quem te der o preço mais +elevado.»<br /> + + +<br /> + + +―Está bem, agora entendo, e sei o que hei de +fazer.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[125]</span>―Quanto queres por +esse carneiro?<br /> + + +<br /> + + +―Minha mãe disse-me que o não vendesse +senão pelo preço mais elevado.<br /> + + +<br /> + + +―Quatro mil réis?»<br /> + + +<br /> + + +―É o preço mais elevado?»<br /> + + +<br /> + + +―Pouco mais ou menos.»<br /> + + +<br /> + + +―É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que +trepara a uma escada.<br /> + + +<br /> + + +―Quanto?»<br /> + + +<br /> + + +―Dez tostões:»<br /> + + +<br /> + + +―É menos, respondeu timidamente o João.»<br /> + + +<br /> + + +―Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda +a feira não há um +preço mais elevado.»<br /> + + +<br /> + + +―Tem razão. É seu o carneiro.»<br /> + + +<br /> + + +Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser +encarregado de vender ou +comprar coisa alguma.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[126]</span> +<h2><a name="39"></a>Branca de Neve</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. +Um dia +de Inverno, enquanto bordava num bastidor de ébano olhando +de vez em +quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no chão, +distraída, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue.<br /> + + +<br /> + + +―Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços +tão vermelhos +como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros +como este ébano.»<br /> + + +<br /> + + +Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu à +luz uma filha, +que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo +tão branco, +que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz +mãe não gozou muito +tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher +duma grande beleza, e dum orgulho não menos +extraordinário. Era tão +formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas +vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho +mágico dizia-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda +que há no +mundo?»<br /> + + +<br /> + + +―És tu, respondia o espelho.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[127]</span>No entanto Branca +de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais +formosa. Tinha apenas sete anos, e já ninguém a +podia ver sem ficar +maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu +espelho, disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda +que há no +mundo?»<br /> + + +<br /> + + +―Não és tu, não és tu. +Branca de Neve é mais linda.»<br /> + + +<br /> + + +A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no +coração uma dor aguda, +como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um ódio mortal +pela +inocente Branca. Não podia sossegar nem de dia, nem de +noite. Para +satisfazer o seu ódio, chamou um criado, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Quero que Branca desapareça. Conduze-a à +floresta, mata-a, e, para me +provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o +coração.»<br /> + + +<br /> + + +O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e +dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre criança +chorava e +lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ela +não tinha feito +mal a ninguém, e queria viver. O criado, comovido com +aquelas +lágrimas, não teve coragem, e abandonou-a na +floresta, pensando que se +as feras a devorassem a culpa não era dele, mas sim da +rainha. Assim +fez, e para mostrar o coração de Branca +à rainha, matou um cabrito, e +tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aqueles +despojos sangrentos ficou +contentíssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, +e nenhuma +mulher no mundo é tão bela como eu.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[128]</span>A pobre Branca, +abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava +cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés +nas pedras, e +andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez +também via animais ferozes. Mas as feras não lhe +faziam mal algum, o +deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.<br /> + + +<br /> + + +À noite chegou ao pé duma casinha muito +pequenina. Estava morta de fome +e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito +limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha +de +brancura irrepreensível, sete pratos pequenos, sete garrafas +pequenas, +e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco +do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo, +deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente.<br /> + + +<br /> + + +Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros +pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo +que tinham gente em casa. Um deles disse:<br /> + + +<br /> + + +―Quem comeu o meu pão?»<br /> + + +<br /> + + +E os outros sucessivamente:<br /> + + +<br /> + + +―Quem pegou no meu garfo?»<br /> + + +<br /> + + +―Quem comeu o meu caldo?»<br /> + + +<br /> + + +―Quem bebeu o meu vinho?»<br /> + + +<br /> + + +E enfim um deles:<br /> + + +<br /> + + +―Quem está aí deitado na minha cama?»<br /> + + +<br /> + + +Reuniram-se todos à roda do pequeno leito em que dormia +Branca. À luz +das lanternas viram o doce rosto da criança, que dormia +tranquilamente, +<span class="pagenum">[129]</span>e afastaram-se sem +fazer bulha, para a não acordar. Branca no dia +seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto +de si +aqueles sete anões das montanhas. Mas eles disseram-lhe com +brandura, +que não tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como +se chamava. +Branca contou a sua triste história, e os anões +disseram-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa?»<br /> + + +<br /> + + +―Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente +sossegada.»<br /> + + +<br /> + + +Começou logo o seu serviço, e continuou-o +regularmente todos os dias. +Limpava os móveis, e fazia o jantar. Os anões iam +trabalhar para as +minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.<br /> + + +<br /> + + +Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que +já não +tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, +e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora +a mulher mais linda +que há no mundo?»<br /> + + +<br /> + + +E o espelho respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―Sim, nos teus palácios e nos teus castelos, mas Branca +está nas sete +montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»<br /> + + +<br /> + + +Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe +cruel, +e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que +modo? Uma manhã partiu disfarçada em vendedeira +ambulante, com um cesto +cheio de objectos de fantasia. Foi direita às sete +montanhas, e bateu à +<span class="pagenum">[130]</span>porta da casinha, +gritando: «Quem quer comprar bonitas +jóias?»<br /> + + +<br /> + + +Os anões tinham recomendado a Branca que desconfiasse das +caras +estranhas, receando os emissários da rainha, e ela tinha +prometido ser +prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no +cesto, esqueceu-se das suas promessas.<br /> + + +<br /> + + +―Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou pôr ao +pescoço.»<br /> + + +<br /> + + +Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os +anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no +chão e completamente +inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lábios +algumas +gotas dum licor amarelo. Branca começou a respirar, voltou a +si pouco +a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.<br /> + + +<br /> + + +―Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira +não era +outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautela, +não deixes +entrar aqui ninguém, quando não estivermos em +casa.»<br /> + + +<br /> + + +Ao entrar no seu palácio toda contente, colocou-se a rainha +diante do +espelho, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que +há no mundo? +Responde.<br /> + + +<br /> + + +E o espelho respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―És tu nos teus grandes palácios e nos teus +castelos, mas Branca está +nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que +tu.»<br /> + + +<br /> + + +A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a +infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar <span class="pagenum">[131]</span>em vendedeira. Chegou +às sete +montanhas, e bateu à porta da cabana.<br /> + + +<br /> + + +―Quem quer comprar lindas jóias? Branca veio à +janela, e respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―Vá-se embora, aqui não entra +ninguém.»<br /> + + +<br /> + + +―Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro. +Já +viu outro tão bonito?»<br /> + + +<br /> + + +Branca não pôde resistir ao desejo de possuir +aquela jóia. Abriu a +porta.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lho na +cabeça.»<br /> + + +<br /> + + +Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava +envenenado, e +Branca caiu morta.<br /> + + +<br /> + + +À noite quando regressaram os anões, acharam-na +pálida e fria. +Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e +tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente.<br /> + + +<br /> + + +No entanto a cruel rainha voltava contentíssima para o seu +palácio. +Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a +que +o espelho respondeu como antecedentemente.<br /> + + +<br /> + + +―Ah! é preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha +de me +sacrificar.<br /> + + +<br /> + + +Vestiu-se de camponesa com um cesto de maçãs. +Entre elas havia uma que +estava envenenada dum lado. Foi, e bateu à porta da +cabana.»<br /> + + +<br /> + + +―Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?»<br /> + + +<br /> + + +―Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, não deixo +entrar +ninguém, nem compro coisa alguma.»<br /> + + +<br /> + + +―Está bem, não faltará quem compre +estas ricas maçãs. Mas por ser tão +bonita, quero dar-lhe uma.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[132]</span>―Obrigada, +não posso aceitar.»<br /> + + +<br /> + + +―Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um +pedaço. Ah! que boa +que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas +palavras, a traidora +mordia no lado da maçã, que não estava +envenenado. Branca deixou-se +tentar, levou à boca o outro pedaço, e caiu +fulminada.<br /> + + +<br /> + + +―Aí tens, para castigo da tua formosura.»<br /> + + +<br /> + + +Quando chegou ao palácio a rainha foi direita ao espelho, e +perguntou-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais +linda?»<br /> + + +<br /> + + +E o espelho respondeu: +<br /> + + +―És tu, és tu.»<br /> + + +<br /> + + +―Até que enfim!»<br /> + + +<br /> + + +Os anões estavam inconsoláveis. Debalde tinham +tentado reanimá-la com o +licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca +continuava +fria e inanimada. Choraram por ela durante três dias, e os +passarinhos +da floresta choraram também. No entanto as boas avezinhas +não podiam +acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto tão +tranquilo, +as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. +Não quiseram +enterrá-la. Meteram-na num caixão de cristal, e +escreveram em cima. +«Aqui jaz a filha dum rei;» puseram o +caixão numa das sete montanhas, +e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se +assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais +pequena alteração.<br /> + + +<br /> + + +Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar +à +caça, viu o caixão, e pediu aos anões +que lho cedessem, fosse por preço +que fosse.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[133]</span>―Somos muito +ricos, e por nada deste mundo venderemos este caixão, que +é o nosso tesouro.»<br /> + + +<br /> + + +―Então dêem-mo, já não posso +viver sem contemplar este rosto de +mulher. Guardá-lo-ei na melhor sala do meu +palácio. Peço-lhes que me +façam isto.»<br /> + + +<br /> + + +Os anões, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no +caixão para +o levarem. Um deles tropeçou numa raiz, e o +caixão sofreu um +balanço, que fez cair o bocado da maçã +envenenada, que Branca não tinha +engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. +O +jovem príncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela. +O +casamento fez-se com grande pompa. O príncipe convidou todos +os reis e +rainhas dos diferentes países, e entre elas a rainha inimiga +de +Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos +os olhares, pôs-se diante do espelho, e disse a rainha:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que há do +mundo?»<br /> + + +<br /> + + +E o espelho respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―Branca é mais formosa que tu.<br /> + + +<br /> + + +A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus +crimes +fossem descobertos, que morreu de repente.<br /> + + +<br /> + + +Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu palácio +de +princesa não se esqueceu dos anões que tinham +sido os seus benfeitores.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[134]</span> +<h2><a name="40"></a>A rapariguinha e os +fósforos</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Que frio! a neve caía, e a noite aproximava-se; era o +último de +Dezembro, véspera de Ano Bom. No meio deste frio e desta +escuridão +passou na rua uma desgraçada pequerrucha, com a +cabeça descoberta e os +pés descalços. É verdade que trazia +sapatos ao sair de casa, mas +tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua +mãe já +tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao +atravessar a rua +a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; +quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a +intenção de fazer +dele um berço para o seu primeiro filho.<br /> + + +<br /> + + +A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha +no seu velho avental uma grande quantidade de fósforos, e +levava na +mão um maço deles. O dia correra-lhe mal; +não tinha havido +compradores, e por isso não apurara cinco réis.<br /> + + +<br /> + + +Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos +longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do +pescoço; <span class="pagenum">[135]</span>mas +pensava ela porventura nos seus cabelos anelados?<br /> + + +<br /> + + +As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos +manjares; era a véspera de dia de Ano Bom: eis no que ela +pensava.<br /> + + +<br /> + + +Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada +vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pai +bater-lhe-ia, +porque não tinha vendido os seus fósforos. +Além disso em sua casa +fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o +vento +atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas +mãozinhas já quase que as não sentia. +Ai! como um fosforozinho aceso +lhe faria bem! Se tirasse do maço apenas um, um +único, e ascendendo-o +aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: <i>ritche</i>! +como estoirou! como +ardeu! Era uma chama tépida e clara, como uma pequena +lamparina. Que +luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro +de ferro, cujo lume magnífico aquecia tão +suavemente, que era um regalo.<br /> + + +<br /> + + +A pequerrucha ia já a estender os pezitos para os aquecer +também, quando +a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na +mão uma +pontita de fósforo consumido.<br /> + + +<br /> + + +Acendeu segundo fósforo, que ardeu, que brilhou, e o muro +onde bateu +a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando +através desse +muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha +alvíssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual +uma galinha +assada com recheio de ameixas e de batatas <span class="pagenum">[136]</span>fumegava +exalando um perfume +delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do +prato, e caiu no chão ao pé da pequerrucha, com o +garfo e a faca +espetada no lombo. Nisto apagou-se o fósforo, e viu apenas +diante de +si a parede fria e tenebrosa.<br /> + + +<br /> + + +Acendeu terceiro fósforo, e achou-se imediatamente sentada +debaixo +de uma magnífica árvore do Natal; era ainda mais +rica e maior do que a +que tinha visto no ano passado através dos vidros de um +armazém +sumptuoso.<br /> + + +<br /> + + +Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões acesos, e as +estampas +coloridas, como as que há às portas das lojas, +pareciam sorrir-lhe. +Quando ia agarrá-las com as duas mãos, apagou-se +o fósforo; todos os +balões da árvore do Natal começaram a +subir, a subir, e viu então que se +tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no +céu +um longo rasto de fogo.<br /> + + +<br /> + + +―É alguém que está a morrer, disse a +pequerrucha; porque a sua avó, que +lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas +vezes: «Quando +cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.»<br /> + + +<br /> + + +Acendeu ainda outro fósforo: deu uma grande luz, no meio da +qual lhe +apareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e +suavíssimo.<br /> + + +<br /> + + +―Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei +que te vais +embora quando se apagar o fósforo. Desaparecerás +como a panela de +ferro, a galinha assada, e a bela árvore do Natal.<br /> + + +<br /> + + +Acendeu o rosto do maço, porque não queria <span class="pagenum">[137]</span>que sua avó lhe +fugisse, e +os fósforos espalharam um clarão mais vivo que a +luz do dia. Nunca sua +avó tinha sido tão formosa. Pôs ao colo +a pequerruchinha, e ambas +alegres, no meio deste deslumbramento, voaram tão alto, +tão alto, que +já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: +haviam chegado ao Paraíso.<br /> + + +<br /> + + +Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os +dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos +lábios... +morta, morta de frio na última noite do ano. O dia de Ano +Bom veio +alumiar o pequenino cadáver, sentado ali com os seus +fósforos, a que +faltava um maço, que tinha ardido quase inteiramente.―Quis +aquecer-se, +disse um homem que passou.» E ninguém soube nunca +as lindas coisas que +ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua +velha avó no dia do Ano Novo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[138]</span> +<h2><a name="41"></a>O primeiro pecado de +Margarida</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Chamava-se Margarida, e estavam à espera dela no +céu, porque Deus +tinha dito:―É uma boa alma, e, como lá em baixo +no mundo lhe pode +acontecer alguma desgraça, vou trazê-la um destes +dias para o paraíso.»<br /> + + +<br /> + + +Margarida era uma virgem cândida, matinal como a aurora, +fresca como +ela; todos os dias ao acordar rezava as orações, +que sua mãe lhe tinha +ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como +não tinha +jóias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.<br /> + + +<br /> + + +Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.<br /> + + +<br /> + + +E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela +canção +de amor e de glória, que já embalara muitos +berços, e que podia +sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.<br /> + + +<br /> + + +Numa tarde de Verão, estava ela sentada à porta +de casa fiando linho, +à hora em que as estrelas começam a aparecer, uma +a uma no firmamento.<br /> + + +<br /> + + +Estava Margarida cantando a sua canção, quando <span class="pagenum">[139]</span>passou por ali uma das +suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido +novo. +Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o +colar de ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a +mão para que visse +bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda +contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que +inquietou no paraíso o seu anjo da guarda.<br /> + + +<br /> + + +O fio de linho já não passava tão +rapidamente entre os dedos de +Margarida, a roda cessara o seu barulho monótono, e o fuso +caíra-lhe das +mãos.<br /> + + +<br /> + + +Ao cair o fuso despertou do êxtase, abriu os olhos, e viu +diante de si +um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro +de veludo +preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a +respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, +perguntou-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Qual é o caminho da cidade?»<br /> + + +<br /> + + +Margarida estendeu a mão para lho indicar, e o forasteiro +inclinando-se +tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma +estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que +o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se +então com +um sorriso estranho e diabólico.<br /> + + +<br /> + + +Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de +Margarida, e pediu-lhe uma esmola.<br /> + + +<br /> + + +Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre +desgraçado.<br /> + + +<br /> + + +O cavaleiro então, soltando um grito de cólera, +ia lançar-se sobre +Margarida, mas o mendigo―<span class="pagenum">[140]</span>que +era o seu anjo da guarda +disfarçado―cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto +é Satanás, que +tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do +espírito celeste.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[141]</span> +<h2><a name="42"></a>Um nome inscrito no +céu</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez um pobre mendigo, que bateu à porta duma humilde +cabana a +pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não +vendo, nem +ouvindo ninguém, abriu a porta de mansinho e entrou no +casebre; viu +então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:<br /> + + +<br /> + + +―«Ai! não te posso dar nada, porque nada +tenho.»<br /> + + +<br /> + + +E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater +à mesma +porta.<br /> + + +<br /> + + +―Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que +não tenho nada +que te dar.»<br /> + + +<br /> + + +―Foi por isso que eu voltei―disse em voz baixa o mendigo.<br /> + + +<br /> + + +E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em +cima da mesa, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez +réis, que +lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.<br /> + + +<br /> + + +―Aqui te fica isto, santinha―disse-lhe ele afectuosamente, indo-se +embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»<br /> + + +<br /> + + +Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos +escrevê-lo-ão no +Paraíso, e mais tarde nós o viremos a saber.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[142]</span> +<h2> <a name="43"></a>O linho</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e +transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios +sobre +ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o +dum filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.<br /> + + +<br /> + + +―Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, +e serei brevemente uma rica peça de pano. Sinto-me feliz. +Não há +ninguém que seja mais feliz do que eu sou. Tenho +saúde e um belo +futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou +feliz, feliz a mais não poder ser!»<br /> + + +<br /> + + +―Como és ingénuo! disseram as silvas do valado; +tu não conheces o +mundo, de que nós outras temos uma larga +experiência.»<br /> + + +<br /> + + +E rangendo lastimosamente, cantaram:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">―Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> + + +―Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div> + + +<br /> + + +―Não tão cedo como vocês imaginam, +respondeu o linho; está uma bela +manhã, o sol resplandece, <span class="pagenum">[143]</span>e +a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e +florir. Sou muitíssimo feliz.»<br /> + + +<br /> + + +Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela +cabeleira, arrancaram-no com raízes e tudo, e deram-lhe +tratos de +polé. Primeiro mergulharam-no em água, como se o +quisessem afogá-lo, e +depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!<br /> + + +<br /> + + +―Não se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; +é necessário +sofrer, o sofrimento é a mãe da +experiência.»<br /> + + +<br /> + + +Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no, +cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois, +puseram-no numa roca, e então perdeu a cabeça +inteiramente.<br /> + + +<br /> + + +―Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio +daquelas +torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades +perdidas.»<br /> + + +<br /> + + +E ainda estava dizendo―perdidas, e já o estavam a meter no +tear e a +transformá-lo numa peça de pano.<br /> + + +<br /> + + +―Isto é extraordinário, nunca o imaginei; que boa +sorte a minha, e que +grandes tolas aquelas silvas quando cantavam:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> + + +Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div> + + +<br /> + + +Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é +verdade, mas por isso +também agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me +tão forte, tão alto, +tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser +planta, mesmo florida, +ninguém trata da gente, e <span class="pagenum">[144]</span>não +bebemos outra água a não ser a da chuva. +Agora é o contrário: que cuidados! As raparigas +estendem-me todas as +manhãs, e à noite tomo o meu banho com um +regador. A criada do sr. cura +fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a +melhor peça da paróquia. Não posso ser +mais feliz.»<br /> + + +<br /> + + +Levaram o pano para casa, e entregaram-no às tesouras. +Cortaram-no e +picaram-no com uma agulha. Não era lá muito +agradável, mas em +compensação fizeram dele uma dúzia de +camisas magníficas.<br /> + + +<br /> + + +―Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu +destino é +abençoado, porque sou útil neste mundo. +É preciso isso para se viver em +paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é +verdade, mas formamos um +só grupo, uma dúzia. Que incomparável +felicidade!<br /> + + +<br /> + + +O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.<br /> + + +<br /> + + +―Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas +não +se fazem impossíveis.»<br /> + + +<br /> + + +E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era +finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem +adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em +papel +branco magnífico.<br /> + + +<br /> + + +―Oh que agradável surpresa! exclamou o papel, agora sou +muito mais fino +do que dantes, e vão cobrir-me de letras. O que +não escreverão em cima +de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»<br /> + + +<br /> + + +E escreveram nele as mais belas histórias, que foram lidas +diante de +inúmeros ouvintes, e os tornaram mais sábios e +melhores.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[145]</span>―Ora aqui +está uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, +quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que +ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não +sei +explicar o que me está acontecendo, mas é +verdade. Deus sabe +perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha +sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, até chegar +à maior glória. +Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, +acabou-se» +tudo pelo contrário se me apresenta debaixo do aspecto mais +risonho. Vou +viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e +instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora +as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me +feliz, +imensamente feliz!»<br /> + + +<br /> + + +Mas o papel não foi viajar; entregaram-no ao +tipógrafo, e tudo que lá +estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, +que recrearam e instruíram uma infinidade de pessoas. O +nosso bocado de +papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda +que desse a volta à roda +do mundo. A meio caminho já estaria gasto.<br /> + + +<br /> + + +―É justo, disse o papel, não tinha pensado nisso. +Fico em casa, e vou +ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as +letras, as +palavras caíram directamente da pena sobre mim, fico no meu +lugar, e os +livros vão por esse mundo fora. A sua missão +é realmente bela, e eu +estou contente, e julgo-me feliz.<br /> + + +<br /> + + +O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.<br /> + + +<br /> + + +―Depois do trabalho é agradável o descanso, <span class="pagenum">[146]</span>pensou ele. É +neste +isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só de hoje em +diante é que +eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo +é a verdadeira +perfeição. Que me irá ainda acontecer? +Progredir, está claro.»<br /> + + +<br /> + + +Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o +queimarem, porque o +que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar +açúcar. E todas as +crianças da casa se puseram à roda; queriam +vê-lo arder, e ver também, +depois da labareda, as milhares de faíscas vermelhas, que +parecem fugir, +e se apagam instantaneamente uma após outra. O +maço inteiro de papel +foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande +chama, que se erguia tão alto, tão alto como o +linho nunca erguera as +suas flores azuis; a peça de pano nunca tinha tido um brilho +semelhante.<br /> + + +<br /> + + +Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as +palavras, todas as ideias desapareceram em línguas de fogo.<br /> + + +<br /> + + +―«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz +no meio da labareda, que +pareciam mil vozes reunidas numa só. A chama saiu pela +chaminé, e no +meio dela volteavam pequeninos seres invisíveis para os +olhos do +homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha +dado. +Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu, +quando não restava do papel senão a cinza negra, +ainda eles dançavam +sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas +encarnadas.<br /> + + +<br /> + + +As crianças cantavam à roda da cinza inanimada:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[147]</span> +<div class="poetry">Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> + + +Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div> + + +<br /> + + +Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, +não se acabou; agora é que +é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»<br /> + + +<br /> + + +As crianças não puderam ouvir, nem compreender +estas palavras; mas +também não era necessário, porque as +crianças não devem saber tudo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;">FIM.<br /> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h5>ÍNDICE</h5> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div> +<a href="#1">A mãe</a><br /> + + +<a href="#2">O ouro</a><br /> + + +<a href="#3">Doçura e bondade</a><br /> + + +<a href="#4">O malmequer</a><br /> + + +<a href="#5">Não quero</a><br /> + + +<a href="#6">Piloto</a><br /> + + +<a href="#7">O rico e o pobre</a><br /> + + +<a href="#8">Como um camponês aprendeu o Padre +Nosso</a><br /> + + +<a href="#9">O talismã</a><br /> + + +<a href="#10">A alma</a><br /> + + +<a href="#11">Alberto</a><br /> + + +<a href="#12">A canção da cerejeira</a><br /> + + +<a href="#13">Os gigantes da montanha e os +anões da planície</a><br /> + + +<a href="#14">A criança, o anjo e flor</a><br /> + + +<a href="#15">Presente por presente</a><br /> + + +<a href="#16">O pinheiro ambicioso</a><br /> + + +<a href="#17">Perfeição das obras de +Deus</a><br /> + + +<a href="#18">João e os seus camaradas</a><br /> + + +<a href="#19">O rabequista</a><br /> + + +<a href="#20">Os pêssegos</a><br /> + + +<a href="#21">A urna das lágrimas</a><br /> + + +<a href="#22">Reconhecimento e ingratidão</a><br /> + + +<a href="#23">O fato novo do sultão</a><br /> + + +<a href="#24">Boa sentença</a><br /> + + +<a href="#25">Os animais agradecidos</a><br /> + + +<a href="#26">O ermitão</a><br /> + + +<a href="#27">Carlos Magno e o abade de S. Gall</a><br /> + + +<a href="#28">A boneca</a><br /> + + +<a href="#29">Inconveniente da riqueza</a><br /> + + +<a href="#30">Querer é poder</a><br /> + + +<a href="#31">Qual será rei?</a><br /> + + +<a href="#32">Os três véus de Maria</a><br /> + + +<a href="#33">Os pequenos no bosque</a><br /> + + +<a href="#34">O chapelinho encarnado</a><br /> + + +<a href="#35">Os cinco sonhos</a><br /> + + +<a href="#36">A igreja do rei</a><br /> + + +<a href="#37">O valente soldado de chumbo</a><br /> + + +<a href="#38">João Pateta</a><br /> + + +<a href="#39">Branca de Neve</a><br /> + + +<a href="#40">A rapariguinha e os fósforos</a><br /> + + +<a href="#41">O primeiro pecado de Margarida</a><br /> + + +<a href="#42">Um nome inscrito no céu</a><br /> + + +<a href="#43">O linho</a><br /> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +<table style="width: 449px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto; height: 210px;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + + <tbody> + + + <tr align="right"> + + + <td style="width: 99px; height: 23px;"></td> + + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 148px; height: 23px;">Original</td> + + + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 23px;"></td> + + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 158px; height: 23px;">Correcção</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e1"></a><a href="#p56">#pág. +56</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">entrar?</td> + + + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">entrar!</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e2"></a><a href="#p58">#pág. +58</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">João.</td> + + + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">João:</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e3"></a><a href="#p58">#pág. +58</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">embora?</td> + + + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">embora.</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e4"></a><a href="#p107">#pág. +107</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">encontremos</td> + + + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">encontraremos</td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<br /> + + +<br /> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +A propriedade deste livro pertence no Brasil ao sr. Luís de +Andrade, +residente no Rio de Janeiro.<br /> + +</body> +</html> diff --git a/old/modern/contos.txt b/old/modern/contos.txt new file mode 100644 index 0000000..e29ba95 --- /dev/null +++ b/old/modern/contos.txt @@ -0,0 +1,4000 @@ + + + + +Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the +original version, already available at Project Gutenberg. / Actualização +ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg.) + + + + + + + + +CONTOS PARA A INFÂNCIA + +ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES POR GUERRA JUNQUEIRO + + +LISBOA + +TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOMÁS QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL + +Rua dos Calafates, 110 + +1877 + + + + +*A mãe* + + +Estava uma mãe muito aflita, sentada ao pé do berço do seu filho, com +medo que lhe morresse. A criancinha pálida tinha os olhos fechados. +Respirava com dificuldade, e às vezes tão profundamente, que parecia +gemer; mas a mãe causava ainda mais lástima do que o pequenino +moribundo. + +Nisto bateram à porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado +numa manta de arrieiro. Era no Inverno. Lá fora estava tudo coberto de +neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha. + +O pobre homem tremia de frio; a criança adormecera por alguns instantes, +e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho +começou a embalar a criança, e a mãe, pegando numa cadeira, sentou-se +ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada +vez com mais dificuldade, pegou-lhe na mãozinha descarnada e disse para +o velho: + +--Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar! não é verdade?-- + +E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça duma maneira estranha, em +ar de dúvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lágrimas +corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de +cabeça; estava sem dormir havia três dias e três noites. Passou +ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a +tremer de frio. + +--Que é isto! exclamou, lançando à volta de si o olhar alucinado. O +berço estava vazio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a criança. + + * * * * * + +A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma +mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em +casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais +depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a entregar.» + +--Por onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo pelo amor de Deus!» + +--Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto. +Mas só to ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas +ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e +muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas. + +--Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me +demores, porque quero encontrar o meu filho.-- + +A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lágrimas, começou a +cantar. Cantou muitas canções, mas as lágrimas foram mais do que as +palavras. + +No fim disse-lhe a Noite: «Toma à direita, pela floresta escura de +pinheiros. Foi por aí que a Morte fugiu com o teu filho.» + +A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não +sabia que direcção havia de seguir. Diante dela havia um matagal, +cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve +cristalizada. + + * * * * * + +--Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe. + +--Vi, respondeu o matagal, mas não te ensino o caminho, senão com a +condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.» + +E a mãe estreitou o matagal contra o coração; os espinhos +dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se +de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite +de Inverno frigidíssima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe +angustiosa. + +E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando, +andando, até que chegou à margem dum grande lago, onde não havia nem +barcos, nem navios. Não estava suficientemente gelado para se andar por +ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo, +querendo encontrar o seu filho, era necessário atravessá-lo. No delírio +do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a água do +lago. Era impossível, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria +talvez um milagre. + +--Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Sossega, e entendamo-nos +amigavelmente. Gosto de ver pérolas no fundo das minhas águas, e os teus +olhos são dum brilho mais suave do que as pérolas mais ricas que eu +tenho possuído. Se queres, arranca-os das órbitas à força de chorar, e +levar-te-ei à estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a +habitação da Morte; e as flores e as árvores que estão lá dentro, é ela +quem as cultiva; cada flor e cada árvore é a vida duma criatura +humana.» + +--Oh! o que não darei eu, para reaver o meu filho!» disse a mãe. E +apesar de ter já chorado tantas lágrimas, chorou com mais amargura do +que nunca, e os seus olhos destacaram-se das órbitas e caíram no fundo +do lago, transformando-se em duas pérolas, como ainda as não teve no +mundo uma rainha. + +O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na +outra margem, aonde havia um maravilhoso edifício, com mais de uma légua +de comprido. De longe não se sabia se era uma construção artística ou +uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada; +tinha dado os seus olhos. + +--Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou +ela desesperada. + +--A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava dum +lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como +vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho?» + +--Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus é misericordioso. Compadece-te +de mim, e diz-me onde está o meu filho.» + +--Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Há aqui muitas plantas +e muitas árvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda aí para +as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste +sítio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem +com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes, +sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as +pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o +que tens ainda de fazer?» + +--Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim +do mundo buscar o que tu quiseres.--«Fora daqui não preciso de nada, +respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabelos negros; tu sabes que +são belos, e agradam-me. Trocá-los-ei pelos meus cabelos +brancos.»--Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Aí os tens, +dou-tos de boa vontade.» + +E arrancou os seus magníficos cabelos, que tinham sido outrora o seu +orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e +inteiramente brancos da velha. + +Esta levou-a pela mão à grande estufa, onde crescia exuberantemente uma +vegetação maravilhosa. Viam-se debaixo de campânulas de cristal jacintos +mimosíssimos ao lado de peónias inchadas e ordinárias. Havia também plantas +aquáticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raízes se +enovelavam cobras asquerosas. + +Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e plátanos +frondosos; depois num outro sítio isolado havia canteiros de salsa, +tomilho, hortelã e outras plantas humildes que representavam o género de +utilidade das pessoas que elas simbolizavam. + +Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que +pareciam rebentar; mas viam-se também florzitas insignificantes, em +vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com +esmero delicadíssimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a +essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlândia. + +A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a mãe +impacientada pediu-lhe que a levasse ao sítio onde estavam as plantas +pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do +coração, e, depois de ter tocado em milhares delas, reconheceu as +pulsações do coração do seu filho. + +--É ele!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre +a terra, parecia completamente estiolado. + +--Não lhe toques, disse a velha. Fica neste sítio; e quando a Morte +vier, que não tarda, proíbe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de +arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem +de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu +consentimento.» + +Nisto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte, +que se aproximava. + +--Como é que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda +primeiro do que eu! Como o conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ela. + +E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro. + +Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de +não ferir uma só das pequeninas pétalas. Então a Morte soprou-lhe nas +mãos, fazendo-lhas cair inanimadas. O hálito da Morte era mais frio do +que os ventos enregelados do Inverno. + +--Não podes nada comigo!» disse a Morte.--Mas Deus tem mais força do que +tu, respondeu a mãe.»--«É verdade, mas eu não faço senão aquilo que +ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, árvores e +arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins, +um dos quais é o grande jardim do Paraíso. São regiões desconhecidas; +ninguém sabe o que se lá passa.» + +--Misericórdia! misericórdia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho, +agora que acabo de o encontrar!» Suplicava e gemia. A Morte +conservava-se impassível; agarrou então instantaneamente em duas flores +lindíssimas e disse à Morte: «Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar, +despedaçar não só esta, mas todas as flores que estão aqui! + +--Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és +desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra mãe!» +disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente.--Toma, aqui +tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei +do lago. Não sabia que eram teus. Mete-os nas órbitas, e olha para o +fundo deste poço; vê o que ias destruir, se arrancasses estas flores. +Verás passar nos reflexos da água, como numa miragem, a sorte destinada +a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se +porventura vivesse.» + +Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria, +quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terríveis de +miséria, de angústias e de desolação. + +--Nisto que eu vejo, disse a mãe aflitíssima, não distingo qual era a +sorte que Deus destinava ao meu filho.» + +--Não posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto +que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu filho.» + +A mãe desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Suplico-te, diz-me: +era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade! Fala! +Não me respondes? Oh! na dúvida, leva-o, leva-o, não vá ele sofrer +desgraças tão horríveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que à minha +vida. As angústias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos céus. +Esquece as minhas lágrimas, as minhas súplicas, esquece tudo o que fiz +e tudo o que disse.» + +--Não te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu +filho ou que o leve para a região desconhecida de que não posso +falar-te!» Então a mãe alucinada, convulsa, torcendo os braços, +deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: «Não me ouças, +Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua vontade que é +sempre justa! Não me atendas meu Deus!» + +E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua agonia +dilacerante. + +E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi transplantá-lo no +jardim do paraíso. + + + + + +*O ouro* + + +Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de ouro, +empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o +resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande +fome no país. + +Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em +segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino; +e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com +que ele ficou todo satisfeito, porque não compreendeu ao princípio +qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada +de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem +que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus +vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que +trazê-los nas minas à busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e +que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens, +estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro +aparecesse em abundância. + +A rainha tinha juízo. + + + + +*Doçura e bondade* + + +Há entre vós, meus filhos, índoles violentas, que não sabem dominar-se, +e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma péssima +disposição, que é necessário corrigir; dá lugar a disputas, e a que se +cometam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde. +Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha. + +Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante +dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada. + +--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num +cego!» + +Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns +camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a bater no burro, para o +fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a +sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubésseis que eu era coxo, não +teríeis sido tão covardes.» + +Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma +palavra. + +Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a +quem as recebeu. + + + + + +*O malmequer* + + +Ouvi com atenção esta pequenina história! + +No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que +deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho com flores, +rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no +meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a +olhos vistos, graças ao sol, que repartia igualmente a sua luz tanto por +ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela +manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes, +parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe dava +que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, pobre florinha +insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do +sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares. + +Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira, +sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianças +sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, ele, sentado na haste +verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo +o que sentia misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com +admirável nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso pôs-se a +olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa avezinha +feliz que cantava e voava. + +«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento +acaricia-me. Oh! não tenho razão de me queixar.» + +Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocráticas; quanto menos +aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dálias inchavam-se para +parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa. +As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se +pretensiosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno +malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: «Como são +ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visitá-las. Graças a Deus, +poderei assistir a este belo espectáculo.» E no mesmo instante a +cotovia dirigiu o seu voo, não para as dálias e tulipas, mas para a +relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria não sabia o que +havia de pensar. + +O passarinho pôs-se a saltitar à roda dele, cantando: «Como a erva é +macia! oh! que encantadora florinha, com um coração de oiro, vestida de +prata!» + +Não se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com +o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do +firmamento. Durante mais de um quarto de hora não pôde o malmequer +reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou +para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que +acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as +tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e +pontiaguda manifestava o despeito. As dálias tinham a cabeça toda +inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradáveis +ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste. + +Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma +grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as +uma a uma. + +«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrível; foram-se +todas.» + +E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se por +ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando +reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas, +adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia. + +No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao +ar e à luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste, +muitíssimo triste. A pobre cotovia tinha boas razões para se afligir: +haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela +aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas +antigas viagens através do espaço ilimitado. + +O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era +difícil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe +esquecer inteiramente as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e +a alvura resplandecente das suas próprias folhas. + +Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão +uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as +tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia compreender o +que desejavam. + +«Podemos arrancar daqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos +rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha. + +--«Arranca a flor, disse o outro.» + +A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era +morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existência, como no momento em +que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia. + +«Não; deixemo-la, disse o mais velho. Está aí muito bem.» + +Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia. + +O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia +com as asas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus +desejos, articular-lhe uma palavra de consolação. + +Passou-se assim toda a manhã. + +«Já não tenho água, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me +deixarem ao menos uma gota de água. A garganta queima-me, tenho uma febre +terrível, sinto-me abafada! Ai! Não há remédio senão morrer, longe do +sol esplêndido, longe da fresca verdura e de todas as magnificências da +criação!» + +Depois enterrou o bico na relva húmida para se refrescar um pouco. Viu +então o malmequer; fez-lhe um sinal de cabeça amigável, e disse-lhe, +afagando-o: «Também tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo +inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva, +e a ti só por única companhia. Cada pezinho de relva substitui para mim +uma árvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorífera. Ah! +como me fazes recordar de todas as coisas que perdi! + +--Se eu pudesse consolá-la! pensava o malmequer, incapaz de fazer o +mínimo movimento. + +Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume; +a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a +arrancar a erva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na +flor. + +Caiu a noite; não estava ali ninguém, para trazer uma gota de água à +desditosa cotovia; Estendeu então as suas belas asas, sacudindo-as +convulsivamente, e pôs-se a cantar uma cançãozinha melancólica; a sua +cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e +de angústias cessou de bater. Vendo este triste espectáculo, o malmequer +não pôde como na véspera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se +para o chão, doente de tristeza. + +Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto, +rebentaram-lhe as lágrimas e abriram uma cova. Meteram o cadáver dentro +de uma caixa vermelha, lindíssima, fizeram-lhe um enterro de príncipe, e +cobriram o túmulo com folhas de rosas. + +Pobre passarinho! Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e +deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram +e lhe fizeram honrarias pomposíssimas. + +A relva e o malmequer lançaram-nas para a poeira da estrada; daquele +que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguém se lembrou. + + + + + +*Não quero* + + +Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito +alto: «Não, dizia um com voz enérgica, não quero.» Parei e +perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu rapaz?--«Não quero dizer +à mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me há-de ralhar, +mas antes quero que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe +eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, enquanto que o outro +pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora +todo envergonhado. + +Daí a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de falar com o +professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois +pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que o outro, +vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os +dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um magnífico +estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a +confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a repará-las. O outro +pelo contrário, é mentiroso, covarde e incorrigível.»--Não me espanto, +disse eu, já tinha tirado o horóscopo destas duas crianças; e +contei-lhe o que tinha ouvido. + + + + +*Piloto* + + +Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e o +infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da quinta. + +Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe +lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e +trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã +Joaninha. + +Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do +Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o +assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações: +partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos +pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho. + +Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda +da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da +quinta. + +Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade; um jornaleiro, que se +empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, +tentou de noite roubar um saco. + +Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade +em quanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou +tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o +largar. + +Era como se dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu dono?» + +O ladrão quis pôr então outra vez o saco donde o tinha tirado; Piloto +não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de +manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição, +repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não +desonrar. + +Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a +ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para +ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até à +margem do ribeiro. + +Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e levantando o animal +atirou-o à água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço, +caiu também. + +Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o +corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e +desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes +e trazido para terra o seu mortal inimigo. + +Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o +cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida. + +Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse dia, violentou-se a si +mesmo e combateu as suas más inclinações. + +O exemplo do cão corrigiu o homem. + + + + +*O rico e o pobre* + + +Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um +dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e +deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma estalagem, junto da +estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar, +quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu +preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos +viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo, +e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de +vinho. + +Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua +côdea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapéu todo roto, e +suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino tão rico, +em vez do desgraçado Martinho! Que fortuna se ele estivesse aqui, e eu +dentro daquela carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia +Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lançando a cabeça fora da +carruagem, chamou Martinho com a mão. + +--Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a +minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho +corando, o que eu disse não foi por mal.»--Não estou zangado contigo, +replicou o fidalguinho, pelo contrário, desejo fazer a troca.» + +--Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguém quereria estar +no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando +muitas léguas por dia, como pão seco e batatas, enquanto que o senhor +anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.»--Pois bem, +volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu +não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho +ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o +preceptor continuou: «Aceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho, +ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada +de me ver entrar nesta bela carruagem!» E Martinho desatou a rir com a +ideia da entrada triunfante na sua aldeia. + +O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a +descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma +perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em +duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou +que era muito pálido e que tinha cara de doente. + +Sorriu para o rapazito com ar benévolo, e disse-lhe:--Então sempre +desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas +valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter uma carruagem e +andar bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou +Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se +tivesse saúde. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e doente, sofro +os meus males com paciência e faço por ser alegre, dando graças a Deus +pelos bens que me concedeu na sua infinita misericórdia. + +«Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, +tens força e saúde, coisas que valem mais que uma carruagem, e que não +podem comprar-se com dinheiro. + + + + + +*Como um camponês aprendeu o Padre Nosso* + + +Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o +confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o Padre Nosso. + +«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.» + +«Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitência dar a +crédito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da +minha parte.» + +No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre. + +«Como te chamas? perguntou-lhe o camponês. + +«Padre--Nosso--Que--Estais--No--Céu, respondeu o pobre.» + +«E o teu apelido?» + +«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.» + +E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo. + +Ao outro dia chega segundo pobre. + +«Como te chamas? + +«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.» + +«E o teu apelido?» + +«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.» + +E partiu com o seu alqueire de trigo. + +Veio terceiro pobre. + +«Como te chamas?» + +«Assim--Na--Terra--Como--No--Céu.» + +«E o teu apelido?» + +«Dai-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.» + +E levou o seu alqueire. + +Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma +forma até chegar ao _Amen_. + +Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão. + +«Então já sabes o Padre Nosso?» + +«Não, sr. cura, sei só os nomes e apelidos dos pobres a quem emprestei +o meu trigo.» + +«Quais são? tornou o padre.» + +E o aldeão enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha +apresentado. + +«Já vês, disse o confessor, que não era muito difícil aprender o Padre +Nosso, porque já o sabes perfeitamente.» + + + + +*O talismã* + + +Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma indústria, mas +com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o +que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negócios com +uma actividade infatigável, enquanto que o segundo, entregue +inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da +sua casa. + +«Explica-me, disse um dia este último ao seu colega, qual é a razão +porque a sorte nos trata de um modo tão diferente? Vendemos as mesmas +mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apesar +disso, enquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu +seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não +terás tu por acaso algum precioso talismã.» + +«Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um talismã de uma +virtude incomparável. Trago-o ao pescoço, e ando assim com ele todo o +dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o +celeiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.» + +«Olé meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa relíquia +preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta +restituo.» + +«Pois vem buscá-la amanhã de manhã.» + +Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, +apresentou-lhe este uma avelã, através da qual tinha passado um +fio de seda. + +O nosso homem pô-la imediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a +casa com o talismã. Observou então a completa desordem que por toda a +parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na +cozinha o pão, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o trigo, o +feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjedouras dos +cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal +escriturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remédio, +compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substituído por +terceira pessoa na direcção dos seus negócios. + +Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talismã, +agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em +segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado. + + + + +*A alma* + + +«Mamã, nem todas as crianças que morrem vão para o Paraíso. O outro dia +vi levar para o cemitério um menino que tinha morrido; o seu papá e as +suas duas irmãzinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me +fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau, não é +verdade?» + +«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, enquanto choravam seus +pais e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraíso.» + +«A alma? mamã; não sei o que é; não compreendo bem.» + +«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas +pequerruchas.» + +«Tive sim, mamã, tive muita pena.» + +«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os +braços?» + +«Não, mamã.» + +«Eram as orelhas?» + +«Oh! não mamã, era _cá dentro_.» + +«Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece, +que te repreende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando +praticas o bem. + + + + +*Alberto* + + +Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus +irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar árvores e fazer +sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um único +feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de +batata nascerem quarenta batatas magníficas; sabia que a terra pagava +com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no +quarto do pai, e foi enterrá-la imediatamente no seu jardinzinho. «Há-de +nascer uma árvore, dizia ele consigo, que dará libras como uma +cerejeira dá cerejas, e irei entregá-las ao papá, que ficará muito +contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não +rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte. Por +fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto. + +«Vi papá; achei-a e fui semeá-la.» + +«Como, semeá-la? doido! julgas talvez que vai nascer como uma couve?» + +«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.» + +«É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.» + +Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe +não pertencia. + +Há contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe +produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como +é? É dando-o aos pobres. Faz-se no Paraíso a colheita dessa sementeira. + + + + +*A canção da cerejeira* + + +Disse Deus na Primavera: «Ponham a mesa às lagartas!» E a cerejeira +cobriu-se imediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e +verdejantes. + +A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se, +abriu a boca, esfregou os olhos e pôs-se a comer tranquilamente as +folhinhas tenras, dizendo: «Não se pode a gente despegar delas. Quem é +que me arranjou este banquete?» + +Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa às abelhas!» E a cerejeira +cobriu-se imediatamente de flores, milhões de flores delicadas e +brancas. + +E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas, +dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o +deitaram!» + +Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o +açúcar!» + +No Verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cerejeira +cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos. + +«Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasião; temos apetite, +e isto dar-nos-á novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No +Outono disse Deus: «Levantai a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento +frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a árvore. + +As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caíram uma a uma, e o +vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar. + +Chegou o Inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos +ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa. + + + + +*Os gigantes da montanha e os anões da planície* + + +Era uma vez uma família de gigantes, que viviam num castelo na +montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum +álamo. Era curiosa e andava com vontade de descer à planície a ver o que +faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões. +Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido à caça e sua mãe estava +dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os +jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os +lavradores, coisas inteiramente novas para ela. «Oh! que lindos +brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que +quase que cobriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavalos, a +charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo, +onde seu pai estava a jantar. + +--Que trazes aí, minha filha?» perguntou ele. + +--Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os +mais bonitos que tenho visto.» + +E pô-los em cima da mesa, a um e um,--os cavalos, a charrua e os +trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem +tivessem transportado dum formigueiro para um salão. A gigantinha +pôs-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante +fez-se sério e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso +não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e +respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-no +imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da +montanha, morreriam de fome, se os anões da planície deixassem de lavrar +a terra e de semear o trigo. + + + + +*A criança, a anjo e flor* + + +Quando morre uma criança, desce um anjo do céu, toma-a nos braços, e +desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os sítios que +ela amara durante a sua pequenina existência; o anjo abaixa-se de +quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam +no paraíso ainda mais belas do que tinham sido na terra. Deus recebe +todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os lábios, e a flor +escolhida, adquirindo voz imediatamente, começa a cantar os coros +maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma +criança morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram primeiro +sobre a casa em que a criança brincara, e depois sobre jardins +deliciosos, cobertos de flores. + +«Qual é a flor que desejas para plantar no paraíso?» perguntou o anjo. + +Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, +magnífica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de +botõezinhos lindíssimos pendiam estiolados para o chão. + +«Pobre roseira! disse a criança ao anjo; vamos buscá-la para que possa +reflorir no paraíso.» + +O anjo foi buscá-la, e abraçou a criança. Colheram muitas flores +brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres. + +A colheita estava terminada, e contudo não voavam ainda para Deus. Caiu +a noite silenciosa, e a criança e o seu guia Divino andavam ainda por +cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia +de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de +imundície. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores +com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raízes duma flor dos +campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-na +atirado para a rua como inútil e morta. + +«Vale a pena levantá-la disse o anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando, +te contarei a história da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquela +rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criança miserável e +doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear +com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias +de Verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. +Então a criança sentada à janela, aquecida pelo sol, sem o cansaço do +andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca +verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do +vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabeça o ramo +verdejante, e, supondo-se debaixo das árvores abrigadas do sol, sonhava +com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe +flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda +raízes; o pequerrucho plantou-a num vaso, e pô-lo à janela, junto da +cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e +todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu único +tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe +aproveitar os raios do sol até ao último. A flor aparecia-lhe em +sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e +ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se +voltou. + +«Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no paraíso; a sua querida +flor, esquecida à janela desde então, murchou, estiolou-se e +atiraram-na à rua finalmente. E contudo esta flor quase seca é o +tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os +canteiros dum jardim realengo.» + +«Como sabes tu isso?» perguntou a criança, que o anjo levava para o céu. + +--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava +em muletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!» + +A criança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam +no céu onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, +levou-as ao coração, mas a que ele beijou foi a florinha silvestre, +desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente, pôs-se a cantar +com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe, +formando círculos que vão aumentando sucessivamente, multiplicando-se +até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos +harmoniosamente--desde a criança abençoada até à humilde florinha do +campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e +tortuosa. + + + + + +*Presente por presente* + + +Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite +à choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi +a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que +pôde, desculpando-se da miserável hospitalidade que lhe ia dar, porque +eram batatas cozidas a única coisa que lhe poderia oferecer; cama não a +tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava +morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões, +e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de príncipes. Ao +outro dia pela manhã disse isto mesmo à pobre mulher, gratificando-a ao +despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha +dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponesa julgou +que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a +trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o +que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro +examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher: + +«Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso príncipe! + +E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter +achado as suas batatas melhores do que faisões. + +«É necessário confessar, disse ele com um ar triunfante, que não há +talvez no mundo um terreno mais favorável do que este para a cultura das +batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, já que as acha tão boas. + +E partiu imediatamente para o palácio com uma provisão de batatas +escolhidas. + +Os lacaios e as sentinelas ao princípio não o queriam deixar entrar; +mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo +contrário vinha trazer alguma coisa. + +Foi, pois, introduzido na sala da audiência. + +«Meu senhor, disse ele ao príncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente +pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca +duma enxerga miserável e de um prato de batatas cosidas. Era pagar +demasiadamente, apesar de serdes um príncipe muito rico e poderoso. Eis +o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das +batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignai-vos +aceitá-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá +as encontrareis sempre ao vosso dispor.» + +A honrada simplicidade do camponês agradou ao príncipe, e, como estava +num momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta +jeiras de terra. + +Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que, +sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse consigo: «Porque não me há +de suceder a mim outro tanto? O príncipe gosta do meu cavalo, pelo +qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer +presente dele: se deu ao João uma quinta com trinta jeiras de terra, +simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me há de +recompensar ainda mais generosamente.» + +Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do +palácio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com ar +altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiência. + +«Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; não +tenho querido trocá-lo a dinheiro, mas dignai-vos permitir-me que vo-lo +ofereça.» + +O príncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse +consigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces: + +Depois dirigindo-se a ele: + +«Aceito a tua dádiva, mas não sei como agradecer-ta condignamente. Oh! +espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que +faisões. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que é um bom +preço para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.» + +E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora. + + + + + +*O pinheiro ambicioso* + + +Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh! +dizia ele, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas +verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais +orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar vestido +de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!» + +O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o +pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, +pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, +mais sensatos do que ele, não invejavam a sua rápida fortuna. À noite +passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num +saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés à cabeça. + +«Oh! disse ele, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça +dos homens. Fiquei completamente despido. Não há agora em toda a +floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro; +o oiro atrai as ambições. + +Ah! se eu arranjasse um vestuário de vidro! Era deslumbrante, e o judeu +avarento não me teria despido.» + +No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao +sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, +fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o céu cobriu-se de +nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as +folhas de cristal. + +«Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra todo feito em +pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir +as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria +menos brilhante, mas viveria descansado.» + +Cumpriu-se o seu último desejo, e, apesar de ter renunciado às vaidades +primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os +outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e +vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas +todas sem deixar uma única. + +O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar à sua +forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da +sua sorte. + + + + + +*Perfeição das obras de Deus* + + +_A filha_.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha. + +_A mãe_.--Vou-te dar outra. + +_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mamã? + +_A mãe_.--Vê se adivinhas. + +_A filha_.--Não sei, mamã. + +_A mãe_.--Conheces os metais? + +_A filha_.--Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de +uma caixa. + +_A mãe_.--Ora muito bem, diz-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de +mármore? + +_A filha_.--Oh! não; são de metal; mas de que metal? + +_A mãe_.--Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas +primeiro. + +_A filha_.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não é de prata, porque +não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarelo muito +brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarelo muito feio, que +cheira mal... Então é de ferro, mamã? + +_A mãe_.--Adivinhaste. + +_A filha_.--Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas. + +_A mãe_.--É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já +se não chama ferro, é aço. + +_A filha_.--Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que +as fazem. + +_A mãe_.--É impossível, não és capaz disso; mas hei de levar-te a uma +fábrica onde se fazem agulhas. Hás-de vê-las fazer, e hás-de gostar +muito. + +_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que +nos servimos. + +_A mãe_.--Tens razão; é uma vergonha ignorá-lo. + +_A filha_.--Mamã, deixe-me ver as suas agulhas. + +_A mãe_.--Olha, aí tens o meu estojo. + +_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão +fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade há-de ser necessária para +fazer uma coisinha tão delicada! + +_A mãe_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por +uma pulga, presa por uma cadeia de oiro? + +_A filha_.--Lembro, mamã; era tão bonito! + +_A mãe_.--Li num jornal alemão que um operário chamado Nerlinger fez +um copo de um grão de pimenta, e que dentro deste copo havia mais +doze... + +_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem num +grão de pimenta! + +_A mãe_.--E ainda não é tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas +doiradas, e sustentava-se no pé. + +_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso! + +_A mãe_.--Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É +efectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam +certas coisas; contudo ainda há outras obras mais dignas de admiração. + +_A filha_.--Quais, mamã? + +_A mãe_.--Já to digo. (_Levanta-se_.) + +_A filha_.--Que quer, mamã? + +_A mãe_.--Quero que vejas o microscópio de teu papá. + +_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscópio. + +_A mãe_.--Este é magnífico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais +ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina, +lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês? + +_A filha_.--Meu Deus, que coisa tão feia! Que agulha tão grosseira! + +_A mãe_.--Vês-lhe buracos, riscos, asperezas, não é verdade? + +_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito. + +_A mãe_.--Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na +agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por elas. + +_A filha_.--O operário que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a +visse ao microscópio. + +_A mãe_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa. + +_A filha_.--O quê, mamã? + +_A mãe_.--O aguilhãozinho de uma abelha. + +_A filha_--Oh! que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é +brilhante!... Mas já sei que visto ao microscópio há de acontecer o +mesmo que com a agulha. + +_A mãe_.--Pronto: olha. + +_A filha_ (olhando).--É esquisito, mamã! + +_A mãe_.--Então? + +_A filha_.--Aumentou, aumentou como a agulha, mas não é áspero, pelo +contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não tinha ponta, +e o ferrãozinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabelo. Porque +será isto, mamã? + +_A mãe_.--É porque o operário que fez este aguilhão é muito mais hábil +do que o que fez a agulha. + +_A filha_.--Quem é esse operário tão hábil? + +_A mãe_.--É o mesmo que fez o céu, os astros, a terra, as plantas e as +criaturas. + +_A filha_.--É Deus. + +_A mãe_.--Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os +animais? + +_A filha_.--De certo. + +_A mãe_.--Foi ele por conseguinte que fez o aguilhão desta abelha; e +aí tens porque o aguilhão é superior à agulha: é obra de Deus. Mas +continuemos a olhar pelo microscópio. Aqui está um pedacinho de +musselina finíssima. Olha pelo microscópio; o que é que vês? + +_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal feita. + +_A mãe_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadíssima. + +_A filha_,--Essa estou bem certa que há de ser linda, mesmo vista pelo +microscópio. + +_A mãe_.--Então? + +_A filha_.--É horrorosa... Parece feita de pelos grosseiros com grandes +buracos desiguais. + +_A mãe_.--As obras do homem são todas assim. + +_A filha_.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus. + +_A mãe_.--Sabes o que é isto? + +_A filha_.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda. + +_A mãe_.--Os fiozinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha +pelo microscópio a ver se te parecem desiguais. + +_A filha_ (olhando pelo microscópio).--Não, mamã; os fios são todos +iguais, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante. + +_A mãe_.--É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que há +sobre este papel? + +_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas redondas feitas +também com tinta. + +_A mãe_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente +redondos? + +_A filha_.--Sim, mamã, perfeitamente redondos. + +_A mãe_.--Vê-os agora ao microscópio. + +_A filha_.--Oh! já não são redondos, são todos desiguais. + +_A mãe_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma asa de borboleta; +vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo +microscópio; o que é que vês? + +_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a diferença +que agora é maior. Que belas que são as obras de Deus! + +_A mãe_.--Merece bem a pena estudá-las. + +_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras +dos homens. + +_A mãe_.--E sempre e em tudo hás-de encontrar defeitos nas obras do +homem, enquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais +perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a +primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a +segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem +fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras +mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as +obras do Criador. + + + + +*João e os seus camaradas* + + +Era uma vez uma viúva com um filho único. Ao cabo dum Inverno rigoroso, +possuía apenas um galo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a +correr mundo, à busca de fortuna. A mãe cozeu o resto da farinha, matou +o galo, e disse-lhe: + +«O que é que preferes: metade desta merenda com a minha bênção, ou toda +com a minha maldição?» + +«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros há no +mundo eu quereria a tua maldição.» + +«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te +abençoe.» + +E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha +caído num atoleiro, donde não podia sair. + +«Oh! João, exclamou o burro, tira-me daqui, que estou quase a +afogar-me.» + +«Espera, respondeu João.» + +E, formando uma ponte com pedras e ramos de árvores, conseguiu tirar o +quadrúpede do atoleiro. + +«Obrigado, disse-lhe ele, aproximando-se de João. Se te posso ser útil, +aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?» + +--«Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha vida.» + +«Queres tu que eu te acompanhe? + +«Anda daí.» + +E puseram-se a caminho. + +Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da +escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre +animal correu para João que o acariciou, e o jumento pôs-se a ornear de +tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir. + +«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma coisa te for +prestável, aqui me tens às tuas ordens. Aonde vais tu?» + +«Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha vida.» + +«Queres que te acompanhe?» + +«Anda daí.» + +Quando saíram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno tirou a +merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva +que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar +lastimosamente. + +Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango. + +--«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser útil. Aonde +vais tu? + +--«Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.» + +--De boa vontade. + +Os quatro viajantes puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um +grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um +galo na boca. + +«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão. + +E no mesmo instante o cão atirou-se atrás da raposa, que, vendo-se em +perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente +disse a João: + +--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vais tu?» + +--Arranjar trabalho. Queres vir connosco? + +--«De boa vontade.» + +--Então anda. Se te cansares, empoleira-te no jumento.» + +Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro. +Sentiram-se todos fatigados e não avistavam à roda nem uma quinta, nem +uma cabana. + +--«Paciência, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos +hoje a dormir ao ar livre; além disso a noite está sossegada, e a relva +é macia.» + +Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado dele, o cão +e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo +empoleirou-se numa árvore. + +Dormiam todos um sono profundíssimo, quando de repente o galo começou +a cantar. + +--«Que demónio! disse o jumento acordando todo zangado. Porque é que +estás a gritar?» + +--«Porque já é dia, respondeu o galo. Não vês ao longe a luz da +madrugada, que vem rompendo?» + +--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é duma lanterna. +Provavelmente há ali alguma casa, onde nos poderíamos recolher o resto +da noite.» + +Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, através +dos campos, até que parou junto da casa do guarda dum grande castelo, +donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e +blasfémias horríveis. + +--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem +é que está lá dentro.» + +Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhais, que se banqueteavam +alegremente, sentados a uma mesa principesca. + +--«Que bom assalto acabámos de dar, disse um deles, ao castelo do +conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este +porteiro. À sua saúde!» + +--«À saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões. + +E dum trago despejaram os copos. + +João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa: + +--«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der +sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria diabólica.» + +O burro, levantando-se nas patas traseiras, lançou as mãos ao peitoril +duma janela, o cão trepou-lhe à cabeça, o gato à cabeça do cão e o +galo à cabeça do gato. João deu o sinal, e estoirou à uma o ornear do +jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do +galo. + +--«Agora, bradou João, fingindo que comandava um destacamento, carregar +armas! Dai-me cabo dos ladrões; fogo!» + +No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando +cada vez mais; os ladrões atemorizados refugiaram-se no bosque, saindo +precipitadamente por uma porta falsa. + +João e os seus companheiros penetraram na sala abandonada, comeram um +excelente jantar, e deitaram-se em seguida--João numa cama, o burro na +cavalariça, o cão numa esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e +o galo num poleiro. + +Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e +salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir. + +--«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão húmida, disse um +deles.» + +--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.» + +--«E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.» + +--«E o que é mais lamentável, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o +dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tínhamos tirado das +gavetas.» + +--Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão. + +--Bravo! exclamaram os ladrões. + +E pôs-se a caminho. + +Já não havia luz na casa; o capitão entrou às apalpadelas, e dirigiu-se +para o fogão; o gato saltou-lhe à cara e esfarrapou-lha com as garras. +Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o +rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu +por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo +atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas. + +--Anda o diabo nesta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!» + +Julgou encontrar refúgio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma +parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do chão. + +Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem +pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta. + +--Então? então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram. + +--Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para +me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr neste corpo, que o trago +num feixe. Não podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui assaltado +por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o +sedeiro, deixando-me neste miserável estado. Quando ia a sair a porta, +um demónio dum remendão atravessou-me as pernas com a sovela. Logo +depois Satanás em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras. +Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não +acreditam, vão lá, e experimentem.» + +--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo +ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.» + +Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excelentemente, e +partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões +lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos, +com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram à +porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com +uma libré esplêndida, meias de seda, calções escarlates e cabelo +empoado. + +Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João. + +--Que vindes aqui buscar? Não há lugar para os recolher, vão-se embora?» + +--Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castelo far-nos-á +um bom acolhimento. + +--Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a +andar imediatamente, quando não atiro-lhes já às pernas os meus cães de +fila.» + +--Perdão, só um instante, replicou o galo empoleirado na cabeça do +jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite +passada a porta do castelo?» + +O porteiro corou. O conde que estava à janela, disse-lhe: + +--Ó Bernabé, responde ao que esse galo te acaba de perguntar. + +--Senhor, replicou Bernabé, este galo é um miserável. Não fui eu que +abri a porta aos seis ladrões. + +--Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis? + +Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado, +pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite, +porque vimos cansados do caminho. + +--Ficai certos que sereis bem tratados. + +O burro, o cão e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato ficou na +cozinha. E enquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés à +cabeça com um vestuário magnífico, deu-lhe um relógio de ouro, e +disse-lhe: + +--Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.» + +João aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si. +Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicíssimo. + + + + +*O rabequista* + + +Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma +igreja magnífica a Santa Cecília, padroeira dos músicos. + +As rosas mais vermelhas e os lírios mais cândidos enfeitavam o altar. O +vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de oiro, +feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava +constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria +um pobre rabequista, pálido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha +sido muito longa, estava cansado, e já no seu alforge não havia pão nem +dinheiro no bolso para o comprar. + +Assim que entrou na capela, começou a tocar na sua rabeca com tal +suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vê-lo +tão pobre e ao escutar aquela música deliciosa. Quando terminou, Santa +Cecília abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos de ouro, e deu-o +ao pobre músico, que tonto de alegria, dançando, cantando, chorando, +correu à loja dum ourives para lho vender. O ourives, reconhecendo o +sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o à presença do +juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado à morte. + +Chegara o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo +pôs-se em marcha ao som dos cânticos dos frades, que ainda assim não +chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como +última graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao último momento. +O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam +suplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua +derradeira melodia. + +Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou, +ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lágrimas começou a tocar. +Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecília curvar-se de +novo, descalçar o outro sapato e metê-lo nas mãos do infeliz músico. À +vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o +rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente +prestar-lhe as mais honrosas homenagens. + + + + +*Os pêssegos* + + +Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pêssegos +magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos, +extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria. À +noite o pai perguntou-lhes: + +--Então comeram os pêssegos? + +--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e +hei-de plantá-lo para nascer uma árvore.» + +--Fizeste bem, respondeu o pai, é bom ser económico e pensar no futuro.» + +--Eu, disse o mais novo, o meu pêssego comi-o logo, e a mamã ainda me deu +metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.» + +--Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade não admira; +espero que quando fores maior te hás-de corrigir.» + +--Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou +fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi +o meu pêssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for à +cidade.» + +O pai meneou a cabeça: + +--Foi uma ideia engenhosa, mas eu preferia menos cálculo. + +--E tu, Eduardo, provaste o teu pêssego? + +--Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho, +ao Jorge, que está coitadinho com febre. Ele não o queria, mas +deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora. + +--Ora bem, perguntou o pai, qual de vós é que empregou melhor o pêssego +que eu lhe dei? + +E os três pequenos disseram à uma: + +--Foi o mano Eduardo. + +Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos +arrasados de lágrimas. + + + + +*A urna das lágrimas* + + +Era uma vez uma viúva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem +adorava sobre todas as coisas. Não se separava dela um só momento; mas +um dia a pobre pequerrucha começou a sofrer, adoeceu e morreu. A +desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um +momento, à cabeceira da filha, julgou endoidecer de mágoa e de saudades. +Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava +acabrunhada, chorando no mesmo sítio em que a filha tinha morrido, +abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua +querida filha, sorrindo com uma expressão angélica e trazendo nas mãos +uma urna, que vinha cheia até às bordas. + +--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ela, não chores mais. Olha, o anjo +das lágrimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais, +transbordará, e as tuas lágrimas correrão sobre mim, inquietando-me no +túmulo e perturbando a minha felicidade no paraíso. + +A pequenina desapareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não +afligir. + + + + +*Reconhecimento e ingratidão* + + +Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos pais. +E é natural. As crianças vêem diariamente o que fazem seus pais, e +imitam-nos. Justifica-se desta maneira o provérbio que diz,--que a +bênção ou a maldição dum pai cai sobre a cabeça de seus filhos, +terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem +ser meditados. + +Um príncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito +satisfeito, a lavrar a terra. Pôs-se a conversar com ele. Depois +de algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que +trabalhava nele mediante um salário de doze vinténs por dia. O +príncipe, que para as suas despesas de administração e representação +necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, +como se vivia com doze vinténs diários, andando-se ainda por cima +satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu: + +«Gasto diariamente comigo a terça parte dessa quantia; outro terço é +para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas +economias.» + +Era um novo enigma para o príncipe. Mas o alegre camponês explicou-lho +deste modo. + +«Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que já não podem +trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não têm força para isso. Aos +primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha +infância; e espero que os segundos não me abandonem, quando os anos +tiverem pesado sobre mim.» + +O príncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado camponês; encarregou-se +da educação de seus filhos; e a bênção que lhe deram os seus velhos +pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando +igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação. + +Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu duma +maneira tão indigna com seu velho pai doente e aleijado, que este teve +de pedir que o levassem para o hospital da misericórdia. O filho ingrato +recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde +foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse +muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como última +esmola, um par de lençóis, para cobrir a palha que lhe servia de leito. +O mau filho escolheu os lençóis mais usados, e disse ao seu pequeno, de +dez anos de idade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas +notou que a criança ao partir tinha escondido um dos lençóis a um canto, +atrás da porta. + +Quando voltou perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo. + +«Foi, respondeu a criança desabridamente, para me servir mais tarde +deste lençol, quando pela minha vez te mandar também para o hospital. + + + + +*O fato novo do sultão* + + +Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário todo o seu rendimento. + +Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao +teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava +de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Está no conselho; +dizia-se dele: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade +muito alegre, graças à quantidade de estrangeiros que por ali passavam; +mas chegaram lá um dia dois larápios, que, dando-se por tecelões, +disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não +só eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas além +disso os vestuários feitos com esse estofo, possuíam uma qualidade +maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para todos +aqueles que não exercessem bem o seu emprego. + +--São vestuários impagáveis, disse consigo o sultão; graças a eles, +saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade +dos ministros. Preciso desse estofo!» + +E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada, +para que pudessem começar os trabalhos imediatamente. + +Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que +trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras. +Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso +muito bem guardado, trabalhando até à meia noite com os teares vazios. + +--«Preciso saber se a obra vai adiantada». + +Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos +idiotas. E, apesar de ter confiança na sua inteligência, achou prudente +em todo o caso mandar alguém adiante. + +Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do +estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto. + +--Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um +grande talento, e por isso ninguém pode melhor do que ele avaliar o +estofo. + +O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam +com os teares vazios. + +--Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, não vejo +absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões +convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os +desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, +olhava, mas não via nada, pela razão simplicíssima de nada lá existir. + +--Meu Deus! pensou ele, serei realmente estúpido? É necessário que +ninguém o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas lá +confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.» + +«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões: + +--«Encantador, admirável! respondeu o ministro, pondo os óculos. Este +desenho... estas cores... magnífico!... Direi ao sultão que fiquei +completamente satisfeito.» + +--«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e +mostraram-lhe cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe deles uma +descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois +repetir tudo ao sultão. + +Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; +precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no +bolso, é claro; o tear continuava vazio, e apesar disso trabalhavam +sempre. + +Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funcionário, homem +honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a +este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não +via nada. + +--Não acha um tecido admirável?» perguntaram os tratantes, mostrando o +magnífico desenho e as belas cores, que tinham apenas o inconveniente +de não existir. + +--Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois não serei +eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! mas deixá-lo, não o +deixo eu.» + +Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo +desenho e o bem combinado das cores. + +--É duma magnificência incomparável, disse ele ao sultão. E toda a +cidade começou a falar desse tecido extraordinário. + +Enfim o próprio sultão quis vê-lo enquanto estava no tear. Com um grande +acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois +honrados funcionários, dirigiu-se para as oficinas, em que os dois +velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de +espécie alguma. + +--Não acha magnífico? disseram os dois honrados funcionários. O desenho +e as cores são dignos de vossa alteza.» + +E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali estavam +pudessem ver alguma coisa. + +--Que é isto! disse consigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível! +serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que desgraça que me +acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnífico! Testemunho-vos a +minha satisfação.» + +E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se +atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu séquito olharam do +mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem ver coisa alguma, e no entanto +repetiam como o sultão: «É magnífico!» Até lhe aconselharam a que se +apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnífico! é +encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era +geral. + +Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos +tecelões. + +Na véspera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à +luz de dezasseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, +cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fio, +e declararam, depois disto, que estava o vestuário concluído. + +O sultão com os seus ajudantes de campo foi examiná-lo, e os impostores +levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, disseram: + +«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha; +é a principal virtude deste tecido.» + +--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma. + +--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larápios, +provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.» + +O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, +depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do +espelho. + +--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortesãos. +Que desenho! que cores! que vestuário incomparável!» + +Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias. + +--Está à porta o dossel sobre que vossa alteza deve assistir à procissão, +disse ele.» + +--Bom! estou pronto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.» + +E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do +seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não +querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçá-la. + +E, enquanto o sultão caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a +gente na rua e às janelas exclamava: «Que vestuário magnífico! Que +cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguém queria dar a perceber, +que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. +Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados. + +--Mas parece que vai em cuecas», observou um pequerrucho, ao colo do +pai. + +--É a voz da inocência, disse o pai. + +--Há ali uma criança que diz que o sultão vai em cuecas. + +«Vai em cuecas! vai em cuecas!» exclamou o povo finalmente. + +O sultão ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente era +verdade. Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até ao fim, e os +camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda +imaginária. + + + + +*Boa sentença* + + +Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma +quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil réis +de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado +camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse: + +--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no +alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste +adiantados os cem mil réis de alvíssaras: estamos pagos por conseguinte.» + +O bom camponês, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem +devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, +que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença: + +--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge +apenas com setecentos: Resulta daí claramente que o dinheiro que o +último encontrou não pode ser o mesmo a que o primeiro se julga com +direito. Por consequência tu, meu bom homem, leva o dinheiro que +encontraste, e guarda-o até que apareça o indivíduo que perdeu somente +setecentos mil réis. E tu, o único conselho que passo a dar-te, é que +tenhas paciência até que apareça alguém que tenha achado os teus +oitocentos mil réis. + + + + +*Os animais agradecidos* + + +Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem +perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este +respondeu: + +--«Senhor: eu sou um desgraçado, um miserável; nasci no vosso reino, e +chamo-me _Ingratidão_.» + +--«Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu +serviço.» + +O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. +Desde que chegaram a palácio, deu tais provas de habilidade, mostrou-se +tão esperto e tão solícito, que o rei afeiçoou-se-lhe de tal modo, que +o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa. +Deslumbrado por uma fortuna tão rápida, o seu orgulho desde então não +conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos +desventurados. + +Ora, na vizinhança do palácio havia uma floresta cheia de animais +selvagens e perigosíssimos. O intendente mandou aí fazer por toda a +parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo +dentro, pudessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a +floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se +precipitou ele mesmo dentro duma das covas. + +Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um +lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O +governador, ao ver-se em tão extraordinária companhia, ficou tão +horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a esperança de +salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, +ninguém o vinha socorrer. + +Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, +chamado António, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para +ganhar o pão necessário à sua mulher e aos seus filhos. António também +lá foi nesse dia, como de costume, e pôs-se a trabalhar não longe da +cova em que caíra o intendente, cujos gritos de aflição não tardou a +ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava +ali. + +--«Sou o governador do palácio do rei, e, se me tirares daqui, prometo +encher-te de riquezas; estou em companhia dum leão, dum lobo e duma +enorme serpente.» + +--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miserável jornaleiro, não tendo para +sustentar a minha família, mais que o produto do meu trabalho; bastava +um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se +cumpres a tua promessa? + +O intendente continuou: + +--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que +cumprirei a minha palavra.» + +Confiado nisto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda +muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O leão atirou-se a +ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era +o intendente. + +Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior +amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome. + +António deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o +governador, enganou-se, porque era o lobo; à terceira vez subiu a +serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o +governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr +para o palácio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o +que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes +promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre +homem bater à porta do palácio. O porteiro perguntou-lhe o que queria. + +--«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente +que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja falar.» + +O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou: + +--«Vai dizer a esse homem, que eu não vi ninguém na floresta; que se +ponha a andar, porque o não conheço.» + +O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito. + +O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou à mulher a +odiosa perfídia de que tinha sido vitima. + +A mulher disse-lhe: + +--«Tem paciência; o sr. intendente estava hoje decerto muito ocupado, e +foi talvez por isso que te não pôde receber.» + +Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças. + +Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo à porta do palácio. +Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos ásperos, que não tornasse +ali a aparecer, quando não ver-se-ia obrigado a empregar meios +violentos. A mulher ainda desta vez procurou consolá-lo: + +--«Experimenta terceira e última vez, disse-lhe ela, talvez Deus o +inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais +nisso.» + +No dia seguinte o bom do homem voltou à carga; e tendo o porteiro +consentido à força de suplicas em anunciá-lo ainda ao governador, este +encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre +homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do +chão. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com um +burro, pôs-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas +levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se +obrigado a contrair dividas para pagar ao médico. Quando finalmente +tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para +fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, apareceu-lhe o leão, que ele +tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e +este burro estava carregado de sacos cheios de preciosidades. O leão, +vendo António, parou e inclinou-se diante dele com um ar de respeitoso +agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal +de que ficasse com o jumento. António doido de alegria levou o animal +para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico. + +No dia seguinte, voltando de novo à floresta, apareceu-lhe o lobo, que +o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto +lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluída, e tinha carregado +o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha +tirado do fôjo, e que trazia na ponta da língua uma pedra preciosa, em +que brilhavam três cores,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a +serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto +dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal. António +levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que +propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho, +afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este, +assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia. +António respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se +seria boa. + +O velho respondeu: + +--«São três as virtudes desta pedra: abundância contínua, alegria +imperturbável e luz sem trevas. Se alguém ta comprar por menos dinheiro +do que vale, tornará imediatamente para a tua mão.» + +António ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da +ciência maravilhosa, e correu a contar à mulher a sua felicidade. Como +se imagina, graças à virtude da famosa pedra, não lhe faltaram daí em +diante, nem honras nem riquezas. + +Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou +chamar António, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talismã. + +António, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu: + +--«Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me não for paga +pelo que vale, tornará ela mesma para o meu poder.» + +--«Hei de pagar-ta bem, disse o rei.» + +E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã, +António achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto +disse-lhe: + +--«Torna a levá-la ao rei imediatamente; não vá ele persuadir-se que +lha furtaste.» + +O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou à presença de sua +majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra +preciosa. + +--«Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de ferro, +fechado com sete chaves, disse o rei.» + +António mostrou-lhe então a jóia preciosa, e o rei ficou +extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido +semelhante tesouro. + +António contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o +reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu +intendente, e disse-lhe: + +--«Homem perverso, com justo motivo te puseram o nome de _Ingratidão_, +porque és mais falso e mais pérfido que os animais ferozes, e pagaste +com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a António as +tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres +enforcado.» + +Admiraram todos a sentença do rei, e António desempenhou as suas altas +funções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi +escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos +gloriosos. + + + + +*O ermitão* + + +Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou +retirar-se a uma gruta solitária para se consagrar inteiramente ao +trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os +seus pensamentos não se desviavam nunca da ideia de Deus. Depois de ter +assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que já tinha +merecido um lugar glorioso no paraíso, e podia ser contado entre os +santos mais notáveis. + +Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe: + +--Há no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola +e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas. + +O ermitão, atónito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no +seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe: + +--Irmão, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e +penitencias te tornaste agradável a Deus. + +--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não +zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, +pobre de mim, que sou um pecador. O que faço é andar de casa em casa a +divertir os outros.» + +O austero ermitão continuou a insistir: + +--Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda, praticaste algum +acto de virtude.» + +--Em verdade não poderia citar nem um só.» + +--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido +loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente +o teu património e o produto do teu oficio?» + +--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e +filhos tinham sido condenados à escravidão para pagar uma divida. Essa +mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa, +protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuía para resgatar a +sua família, e levei-a à cidade, onde ela devia encontrar-se com seu +marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?» + +A estas palavras o ermitão pôs-se a chorar, e exclamou: + +--Nos meus setenta anos de solidão nunca pratiquei uma obra tão +meritória, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu não +passas dum pobre musico.» + + + + +*Carlos Magno e o abade de S. Gall* + + +Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall, +preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta da abadia, fresco, +rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enérgicos e +activos, e o abade era indolente. Além disso o imperador tinha mais +dum motivo de queixa contra ele. + +--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à +sua esclarecida razão três perguntas, às quais terá a bondade de me +responder daqui a três meses, contados dia a dia, em sessão solene do +nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em +dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo; +em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. +rev.^{ma} vier à minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate +de arranjar resposta satisfatória a tudo, aliás deixa de ser abade de S. +Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada +para o rabo.» + +O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas +os doutores mais famosos pela sua ciência, não lhe souberam dar +resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal +aproximava-se; já não faltava senão um mês, já não faltavam senão +semanas, e afinal só dias. O abade, que noutro tempo era gordo e +anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite. +Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se +encontrou com o seu pastor. + +--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?» + +--Estou, meu caro Félix, estou muito doente.» + +--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.» + +--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta às minhas três +perguntas.» + +--É então latim?» + +--Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.» + +--Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe +era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.» + +Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor atirou com o +barrete ao ar, e disse-lhe: + +--Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma} +pode continuar a engordar; mas para isso é necessário que eu vista o seu +habito.» + +Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o hábito do abade de S. +Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho +imperial. + +--Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que +pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto +valho eu em dinheiro?» + +--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por +trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove, só um +dinheiro menos.» + +--Bravo, senhor abade, a resposta é hábil, e na realidade não posso +deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda pergunta, não há de +ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a +dar a volta ao mundo?» + +--Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e poder seguir +constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e +quatro horas.» + +--Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finório, e desta vez, +confesso-me vencido; mas a terceira, não dessas à que se responde com +suposições. Quem lhe há de dizer o que eu estou pensando, e como me há +de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.» + +--Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está +enganado, porque eu sou o seu pastor.» + +--Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas +sendo.» + +--Não sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor, +peço-lhe outra coisa.» + +--Não tens mais que falar.» + +--Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.» + +Carlos Magno não era homem que faltasse à sua palavra. + + + + +*A boneca* + + +Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma história--a história duma +boneca! + +Não há muitos anos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno +jardim, onde a infância folga por entre maciços de flores e sob o +sorriso do sol, sem que lhe enegreça o espírito a vista dos dois +monumentos, que a meu ver simbolismo as duas mais horríveis calamidades, +que podem aniquilar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda não há +muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da +feira, divertindo-me a meu modo. + +Cansado das inúmeras figuras, que tinha visto passar por aquela +espécie de lanterna mágica, dispunha-me a dar por findo o espectáculo, +quando novos personagens me chamaram a atenção. + +Eram os meus vizinhos _ricos_. + +Aqui é preciso uma rápida explicação. + +Das famílias da minha vizinhança, só conheço três. + +Qual destas três famílias será mais feliz?... + +Pelo que tenho notado, não têm que invejar umas às outras. + +São todas felizes; cada qual a seu modo. + +Vi, pois, chegar os meus vizinhos _ricos_. + +Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e +dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou, +tomou nos braços a filhinha e depô-la no chão, e oferecendo, em +seguida, a mão à esposa, para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e +com a menina para a barraca onde eu estava. + +Não havia ali segredo a surpreender. + +Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que +parecia agradecer àquela formosa criança a manifestação de qualquer +desejo. + +No fim de meia hora possuía a minha pequena vizinha com que fazer a +felicidade de dez crianças menos abastadas. + +Tinha o necessário para montar completamente a casa duma boneca... +_rica_. + +Faltava apenas a dona da casa--a boneca. + +Todo risos e atenções, o lojista apresentou o que tinha de melhor. + +Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar +a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma magnífica boneca de +dois palmos de altura, com cabelo em _bandeaux_ e olhos azuis. + +Uma boneca como as outras: cabeça e colo de massa, corpo de pelica +recheada, braços e pernas de pau. + +Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribo de crianças, que fazem +o martírio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado +sapateiro. + +Alguns deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem +anjos, caídos do céu sobre um monte de lama. + +São os meus vizinhos _pobres_. + +A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a casa +imediata. + +É como se costuma dizer, gente _que vai muito bem com a sua vida_. + +A filha que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e carnudas, +cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à +pressão. + +São os meus vizinhos _remediados_. + +A terceira é a dos meus vizinhos _ricos_. + +Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito nas +listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do +estado--nada falta àquela ditosa gente! + +Compõe-se igualmente de marido, mulher e filha. + +Que formosa criança!... Terá oito anos. + +Franzina e pálida, com os cabelos negros, os olhos grandes e +cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e +esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que não +sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a +crescer--que há-de um dia ter o direito de lhas cobrir de beijos. + +Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas +aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do +carro. + +A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrática criança. + +Saí dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadíssimas +considerações, sugeridas pela quase indiferença, com que aquela menina +recebera brinquedos, que representavam um par de moedas. + +Que contraste com os olhares de cobiça, com que outras raparigas da +mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabeça de pano, horrível +artefacto português, em que os olhos são representados por dois pontos +de linha azul, o nariz por um alinhavo de retrós cor de rosa, a boca por +outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de lã preta! + +Quando cheguei a casa, já na dos meus vizinhos remediados não havia luz. + +Na dos meus vizinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de +três assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar, +provocavam os ralhos da mãe. + +Quando, no dia seguinte, cheguei à janela, seriam onze horas da manhã. + +Na rua agenciavam nova camada de imundície os filhos do sapateiro; na +casa imediata não se via ninguém--estava a pequena na mestra; no +palácio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda, +divertia-se a minha pequena milionária fazendo rodar, com auxílio duma +linha, uma magnífica _caleche_ descoberta, puxada por cavalos brancos. + +Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida. + +--«Aí está a tua caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim +para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!... +Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...» + +Retirei-me da janela. + +Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena. + +A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se +vestia três e quatro vezes! + +Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a +tratava! + +Chamava-lhe sr.ª D. Luísa; dava-lhe excelência; sustentava finalmente +com a boneca um destes diálogos de senhoras da alta sociedade, em que +se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma. + +Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos +_ricos_--ouvi um grito de susto. + +Era devido a um acidente, a que está sujeito quem anda de carro. + +Voltara-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janela. + +O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a vítima; vendo, +porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e +lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra +nova, agarrou-a pelos pés e ia atirá-la com despeito à rua, quando mais +perto de mim bradou voz tímida e suplicante: + +«Não atire!... Dê-ma.» + +Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu não dera fé até +então. + +Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e +lançou um olhar de rainha para o sítio donde vinha a súplica. + +Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, +encolhendo os ombros, respondeu: + +--«Já não presta!... Está esmurrada!...» + +--É o mesmo!... Dá-ma?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de +cobiça. + +--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os ombros. + +E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da +vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse +despedaçar-se nas lajes da rua. + +Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a +outra, para mostrar à mãe a que ela ainda não podia acreditar, que +fosse sua! + +Por espaço de meses foi a boneca a principal ocupação da nova dona. + +A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro +vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excelência! Chamavam-lhe +sr.ª D. Ana; falavam-lhe de arranjos domésticos, do desmazelo da +criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente +estranhas para ela! + +E a desgraçada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos +azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia +se tornava mais escura: parecia uma nódoa, um estigma! + +Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, que trouxera no corpo, +ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores. + +Não tardou, porém, que arrebiques de mau gosto, fitas velhas, rendas +amareladas, chapéus impossíveis, viessem contrastar com a elegância do +vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira. + +Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele +as ondulações do _moiré_, até que, um belo dia, vi a boneca vestida de +cassa---no Inverno!--chaile e manta na cabeça. + +Muito mal lhe ficava aquilo!... Àquela boneca custava-lhe de certo o +ver-se tão mal arranjada. + +Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei: + +--É justo!... Cada qual segundo as suas posses.» + +Por esse tempo, entrei em relações com o meu vizinho sapateiro. + +O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos +faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasião, para me +pedir desculpa. + +Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a +aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem +grave risco de sofrer as consequências da sua travessa familiaridade. + +Entre os filhos do sapateiro, porém, há uma pequenita de onze anos, com +quem simpatizei logo à primeira vista. + +Chama-se Maria. + +Por um destes acasos da Providencia, que parece às vezes comprazer-se +em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos. + +Acostumado às travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro, +fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou. + +E bem verdade que ele conhecia o valor daquela criança, porque havia +verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a +minha Maria!» + +E tinha razão! + +Não podia ser mais discreta do que já nesse tempo era. + +--É quem vale à mãe!...--acrescentou o velho.»--Ali, onde a vê, faz o +serviço duma mulher!... Há seis meses, quando a minha santa esteve +doente--bem pensei que não arribasse!--a pequena era quem cozinhava e +olhava pelos irmãos!... E caridade como ela tem!?... Olhe que aquela +pequena esteve três dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi +preciso eu obrigá-la, que ela não a queria deixar!...» + +E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lágrima, que, +havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar. + +Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a +cabeça coberta por um lenço branco. + +Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais +passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias à +pequena. + +Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca +deitada nos joelhos. + +--Eu conheço aquela boneca!...--disse eu de mim para mim. + +E, não podendo resistir à curiosidade, bradei: + +--Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?... + +Foi ali a menina da vizinha!--respondeu a pequenita, corando de prazer. + +Era escusado dizer-mo. + +Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. Não podia +duvidar... Era ela; lá estava a mancha, o estigma cada vez mais visível +na fronte. + +De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com +ela. + +--Quem te viu e quem te vê!...--pensava eu. + +Às vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lha podiam apanhar, que +tratos que sofria a desgraçada! + +Roçada por aquelas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia, +empregada como péla, submetida a torturas, era, ainda assim, +singularíssimo o aspecto da triste! + +Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a +fraternizar com o povo. + +A mísera mudara mais uma vez de nome!... + +De sr.ª D. Ana passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-na por vossemecê. + +Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e lenço na cabeça. + +Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com +a boneca. + +Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, +encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre +boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de +trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que +mais familiares eram à pequena. + +Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na, +mandavam-na buscar água à fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e +acabavam por a despedir. + +Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixara de ser feliz. + +Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no palácio vizinho! + +Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos, +desfeito o carmim dos lábios, a boneca não prometia longa duração. + +Foi este pelo menos, o prognóstico que fiz a última vez que a vi, +tentando em vão agradar à última dona que o seu destino lhe dera. + +Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim! + +Um dia chovia a cântaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, +espadanava em cachão para cima dos passeios, arrastando na passagem mil +imundícies. + +Eu estava à porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava +melancolicamente para a água negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que +partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um objecto, +arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no +leito do enxurro... + +Olhei... Era a boneca!... + +A mísera, arrastada pela água, vogou rua abaixo até esbarrar numa +pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar três ou +quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e +o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas +profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem! + +Será pieguice, será o que o leitor quiser; mas, confesso-lhe, que me +impressionou o fim da pobre boneca. + +Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado à vidraça do +sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa: + +--Porque deitaste fora a boneca, Maricas!? + +--Não fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!... + +--E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?... + +--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e +feia!... + +Curvei a cabeça ante aquela razão, e segui o meu caminho. + +Pobre boneca! + + + + +*Inconveniente da riqueza* + + +Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, foi +surpreendido pela noite à entrada duma aldeia. Procurou dum lado para +outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam já +todas fechadas, não se via nem um raio de luz através das janelas, tudo +estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual +com que se bate o trigo, e nesse sítio havia uma pequena luz. Nosso +Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro duma quinta, e bateu à +porta. Foi um camponês que lha veio abrir. + +--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite? +Não se havia de arrepender.» + +E acrescentou: + +--Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a +trabalhar?» + +--Ora, respondeu o camponês, soube ontem à noite que ia ser perseguido +por um credor desapiedado, se lhe não pagasse amanhã o que lhe devo, +portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para +o vender no mercado, e pagar a minha dívida. Depois disto não nos fica +nada, e não sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que Deus +quiser!» + +Ao dizer isto o camponês limpava o suor da testa, e passava a mão pelos +olhos arrasados de lágrimas. O Senhor teve dó dele, e disse-lhe: + +--«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te +havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.» + +Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e +aproximou-a do trigo. + +--Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a +tudo!» + +Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se, +de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. À vista dum tal +milagre os camponeses maravilhados caíram de joelhos. + +--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua +pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, serás +recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te +enriquece.» + +Dito isto desapareceu. + +E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto +como a igreja. + +O camponês pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bela +casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e +seus filhos adquiriram costumes perdulários, tanto e tanto fizeram, que +se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, +ninguém os ajudou na sua miséria. Uma noite o velho camponês, que bebera +enormemente, entrou no celeiro, e, recordando-se do milagre que o +enriquecera, imaginou que também ele o poderia fazer. Agarrou na +candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a +casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miséria mais +absoluta. + + + + +*Querer é poder* + + +--Quem procura sempre encontra, diz um velho provérbio; quero ver por +experiência, disse um dia um rapaz, se esta máxima é verdadeira. + +Pôs-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma grande cidade. + +--Senhor, disse-lhe ele, há muitos anos que vivo tranquilo e +solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas +vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei +uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei. + +O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido. + +O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma +semana, sempre com a mesma vontade inabalável, até que o rei ouviu +falar o rapaz da sua louca pretensão. Surpreendido com uma ideia tão +extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei: + +--Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela ciência, +pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais são +os teus títulos? Para seres o marido de minha filha é necessário que te +distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor +extraordinário. Ouve. Perdi há muito tempo no rio um diamante dum valor +incalculável. Aquele que o encontrar obterá a mão de minha filha. + +O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do +rio; logo de manhã começava a tirar água com um balde pequeno, e +deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e +horas, punha-se a rezar. + +Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receando que +chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho. + +--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.» + +--Encontrar um diamante que caiu ao rio.» + +--Então, respondeu o velho rei, sou de opinião que lho entreguem, porque +vejo qual é a têmpera da vontade deste rapaz; mais fácil seria esgotar +as últimas gotas do rio, do que desistir da sua empresa.» + +Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha +do rei. + + + + +*Qual será rei?* + + +Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o +sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer, +não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno. + +Resolveram além disso que o cadáver do rei fosse posto de pé contra um +muro, e que o príncipe que acertasse melhor com uma flecha naquele +alvo, seria o escolhido para sucessor. + +Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito +tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defunto. O príncipe +soltou grito de alegria, cuidando que seus irmãos atirariam pior, e que +por conseguinte seria ele quem viria a reinar. + +O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais +alegre do que o outro príncipe. + +O terceiro varou o coração de seu pai, e os seus gritos de triunfo +quase que chegavam ao céu, porque lhe parecia impossível acertar melhor. + +Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas mãos as +flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas +longe de si, e desatou a chorar: + +--«Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu jamais +consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus +próprios filhos!» + +Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais +digno. + + + + +*Os três véus de Maria* + + +O primeiro véu de Maria era dum linho mais alvo do que a neve. +Bordara-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de +seda tão bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham pousar-lhe em +cima. + +Este véu branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira comunhão. + +O segundo véu de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que +sua mãe lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa triste e +abandonada. Era bordado de perpétuas roxas, como as dos sepulcros de +mármore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas as suas +lágrimas. + +O véu negro só o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de +Jesus no convento da Avé-Maria. + +O terceiro véu era feito dum retalho do azul celeste, bordado +de estrelas, e perfumado com aromas suavíssimos. + +Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou +no paraíso. + + + + +*Os pequenos no bosque* + + +Um dia três pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos +outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos +para o bosque que encontremos lá toda a espécie de lindos bichinhos, que +não fazem outra coisa senão brincar, e nós brincaremos com eles.» + +Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da +abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar, +disse-lhes: + +--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a +outra já não está sólida.» + +--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o Inverno.» + +--Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu +ninho.» + +--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda +hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a +minha _toilette_.» + +E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo +a saltar e a tagarelar, também não queres brincar connosco?» + +--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam +que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanso nem um +momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, às colinas, +aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incêndios, +tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje +acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder +um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.» + +Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um +pintassilgo, em cima dum ramo. + +--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar connosco?» + +--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo +o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além disso que tomar +parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operário com o +meu chilrear, e tenho que adormecer as crianças com uma outra cantiga, +que à noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. Ide-vos embora, +preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incomodar os +habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.» + +Os pequenos aproveitaram a lição, e compreenderam que o prazer só é +legítimo, quando é a recompensa do trabalho. + + + + +*O chapelinho encarnado* + + +Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua +mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avozinha, que passava o +tempo a imaginar o que poderia agradar à neta, deu-lhe um dia um chapéu +de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéu +novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do +chapelinho encarnado. + +A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia +légua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita: + +--Tua avó está doente, e não pôde vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai +levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a +garrafa, não andes a correr, vai devagarinho e volta logo.» + +--Sim, mamã, respondeu ela, hei-de fazer tudo como deseja.» + +Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e pôs-se +a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita, +que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum. + +--Bons dias, chapelinho encarnado.» + +--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.» + +--Onde vais tão cedo?» + +--A casa da minha avó que está doente.» + +--E levas-lhe alguma coisa?» + +--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe +dar forças.» + +Diz-me onde mora a tua, avó, que também a quero ir ver.» + +--É perto, aqui no fim da floresta. Há ao pé uns carvalhos muito +grandes, e no jardim há muitas nozes.» + +--Ah! tu é que és uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu gostava +de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas árvores e +que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que +quantidade de plantas medicinais que se encontram!» + +--O senhor, é com certeza um médico, respondeu a inocente pequenita, +visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma +que fizesse bem a minha avó.» + +--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta também, e +aquela.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas +venenosas. A pobre criança, queria-as apanhar para as levar a sua avó. + +--Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com +grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.» + +E pôs-se a correr em direcção da casa da avó, enquanto que a pequerrucha +se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado. + +Quando o lobo chegou à porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a +avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está aí?» + +--É o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da +pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.» + +--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.» + +Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira, +e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama. + +Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a +porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter +fechada. + +O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do +focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrível. + +--Ai! avozinha, disse a criança, porque tens tu as orelhas tão grandes?» + +--É para te ouvir melhor, minha filha.» + +--E porque estás com uns olhos tão grandes?» + +--É para te ver melhor.» + +--E para que estás com os braços tão grandes?» + +--É para te poder abraçar melhor.» + +--E Jesus! para que tens hoje uma boca tão grande e uns dentes tão +agudos?» + +--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se à pobre +pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a +ressonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e +que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha está com um +pesadelo, está pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.» Entra, e +vê o lobo estendido na cama. + +--Olá, meu menino, diz ele: há muito tempo que te procuro.» + +Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse ele, não vejo a +dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o +animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe +cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e +saltou para o chão, gritando: + +--Ai! que sítio medonho onde eu estive fechada! + +A avó saiu também contentíssima por ver outra vez a luz do dia. + +O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador meteu-lhe então +duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a +neta para verem o que se ia passar. + +Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se +para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e +não podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no lago, e +afogou-se. + +O caçador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha +e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapelinho encarnado +prometeu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lho +proibisse. + + + + +*Os cinco sonhos* + + +Andando um dia Carlos Magno à caça com uma comitiva numerosa, perseguiu +um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da +ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só +então que viu que estava só, tendo a sua corte ficado muito para traz; +sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana solitária +no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões. +Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da +entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe +quiseram logo contar. + +O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira: + +--No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro à pessoa que acaba de entrar +aqui, e punha-o na minha cabeça.» + +--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.» + +--E eu que estava pondo o seu manto.» + +--E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do +meu pescoço aquela pesada cadeia de ouro, da qual está pendurada a sua +trompa de caça.» + +--Vejo bem, disse o imperador, que têm tenção de me roubar tudo, e +mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e +qualquer resistência seria inútil. Não lhes peço senão uma coisa, é que +me deixem tocar pela última vez na minha trompa de caça.» + +Os salteadores responderam que consentiam, visto que o último pedido +dum moribundo deve ser respeitado. + +Carlos Magno levou à boca a sua magnífica trompa de marfim, e tirou +dela sons tão fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos todos os +seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé dele. + +--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora também +eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser +enforcados diante deste casebre.» + +E o sonho realizou-se imediatamente. + + + + +*A igreja do rei* + + +Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnífica em honra da +Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse contribuir para +a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edifício se +concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do +mármore uma inscrição em letras de ouro, que dizia que só ele, e mais +ninguém, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na noite +seguinte o nome do rei foi apagado da inscrição, e substituído por o +duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar +pôr o seu nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da pobre +mulher; à terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera, ordenou +então que lhe trouxessem a mulher à sua presença: + +--Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que contribuíssem +fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo que não +cumpriste as minhas ordens.» + +--«Senhor, respondeu a velhinha toda trémula, eu respeitei as vossas +ordens, apesar da mágoa que sentia por não poder oferecer o meu +pequenino óbolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa +majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, +que eu levava às escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas +à construção da igreja.» + +--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras de ouro na +inscrição do monumento, disse-lhe o rei.» + +Mas na noite seguinte uma mão invisível restabeleceu na lápide da igreja +o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda. + + + + +*O valente soldado de chumbo* + + +Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos +terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial, +de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e vermelhos! +A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da +caixa em que eles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!» +que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado +de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era formá-los sobre a +mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam +maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de +menos, porque o tinham deitado na forma em último lugar, e já não havia +chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros não estavam mais +firmes nas duas pernas do que ele na sua única, e é este o que +precisamente nos interessa. + +Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros +brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindíssimo castelo de +papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe o interior dos salões. +À volta era circundado duma floresta em miniatura, que se reflectia +poeticamente num pedaço de espelho que fingia um lago, onde nadavam +pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas não tanto como +uma menina que estava à porta, e que era também de papel, vestida com um +lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina +tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha +levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e +imaginou que, como ele, não tinha senão uma perna. + +--Ali está a mulher que me convém, pensou ele, mas é uma grande +fidalga. Mora num palácio, eu numa caixa em companhia de vinte e +quatro camaradas, e não haveria cá lugar para ela. No entanto +preciso conhecê-la.» + +Deitou-se atrás duma caixa de tabaco, e dali podia ver à sua vontade a +elegante dançarina, que estava sempre num pé só, sem perder o +equilíbrio. + +À noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e as pessoas +da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram +a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de +chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas +como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas +e saltos mortais, o lápis traçou mil arabescos fantásticos numa lousa, +enfim o barulho tornou-se tal que o canário acordou, e pôs-se a cantar. +Os únicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a +dançarinazinha. Ela no bico do pé, e ele numa perna só, a +espreitá-la. + +Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar +de rapé, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de surpresa. + +--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro +sítio.» + +Mas o soldado fez que não ouvia. + +--Espera até amanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.» + +No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de +chumbo à janela, mas de repente ou por influência do feiticeiro ou por +causa do vento caiu à rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a +perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta +enterrada entre duas lajes. + +A criada e o rapazito foram lá abaixo procurá-lo, mas estiveram quase a +esmagá-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado: «Cautela!» +te-lo-íam achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda. A chuva +começou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro dilúvio. Depois +do aguaceiro passaram dois garotos. + +--Olá! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazê-lo +navegar.» + +Construíram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o soldado de +chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois +garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! +Que força de corrente! Mas também tinha chovido tanto! O barco jogava +duma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se +impassível, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro. + +De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a +escuridão como na caixa dos soldados. + +--Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me +meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina +estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas +vezes maior.» + +Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de água; era um habitante do +cano. + +--Venha o teu passaporte.» + +Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na +espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, +rangendo os dentes, e gritando às palhas, e aos cavacos:--Façam-no +parar, façam-no parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.» + +Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e +sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais valente. +Havia na extremidade do cano uma queda de água tão perigosa para ele, +como é para nós uma catarata. Aproximava-se dela cada vez mais, sem +poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a +queda de água, e o pobre soldado firmava-se o mais possível, e ninguém se +atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto. + +O barco, depois de ter andado à roda durante muito tempo, encheu-se +de água, e estava a ponto de naufragar. A água já chegava ao pescoço do +soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a +água passou por cima da cabeça do nosso herói. Nesse momento supremo, +pensou na gentil dançarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia: + +--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.» + +O papel rasgou-se, e o soldado passou através dele. Nesse momento foi +devorado por um grande peixe. + +Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além disso, que +talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrépido, o soldado +estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro. + +O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, até que enfim +parou, e pareceu que o atravessava um relâmpago. Apareceu a luz do dia, +e alguém exclamou: + +--Olha um soldado de chumbo!» + +O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a +cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no +soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a +gente quis admirar esse homem extraordinário, que tinha viajado na +barriga dum peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso. +Colocaram-no em cima da mesa, e ali--tanto é verdade que acontecem +coisas extraordinárias neste mundo--achou-se na mesma sala, de cuja +janela tinha caído. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam +em cima da mesa, o lindo palácio, e a adorável dançarina sempre de perna +no ar. O soldado de chumbo ficou tão comovido, que de boa vontade teria +derramado lágrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ela, +ela olhou para ele, mas não disseram uma palavra um ao outro. + +De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no +fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé. + +O soldado de chumbo lá estava perfilado, alumiado por um clarão +sinistro, e sofrendo um calor terrível. Todas as cores lhe tinham +desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas +viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a +dançarina, que também olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre +intrépido, conservava a espingarda ao ombro. De repente abriu-se uma +porta, o vento arremessou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que +desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, já não era mais +que uma pequena massa informe. + +No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um +objecto que tinha o feitio dum pequeno coração de chumbo, e tudo o que +restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha +enegrecido. + + + + +*João Pateta* + + +João era filho duma pobre viúva, bom rapaz, mas um pouco simplório. A +gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe +mandou-o à feira comprar uma foice. À volta, começou a andar com a foice +à roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e matou-a. + +--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em +um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos.» + +--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais +esperto.» + +Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que +as não perdesse. + +--Fique descansada. E voltou todo orgulhoso.» + +--Então, João, onde estão as agulhas?» + +--Ah! estão em lugar seguro. Quando saí da loja em que as comprei, ia a +passar o carro do vizinho carregado de palha; meti lá as agulhas, não +podem estar em sítio melhor.» + +--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não há meio de as +tornar a ver. Devias tê-las espetado no chapéu.» + +--Perdão, respondeu João, para a outra vez, hei-de ser mais esperto.» + +Na outra semana, por um dia de calor, João foi dali uma légua comprar +uma pouca de manteiga. Lembrando-se do último conselho de sua mãe, pôs a +manteiga dentro do chapéu e o chapéu na cabeça. Imagine-se o estado em +que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida. + +A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia +resolveu-se a mandá-lo à feira vender duas galinhas. + +--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te ofereçam +outro.» + +--Está entendido, respondeu João.» + +Foi para a feira. Um freguês chegou-se a ele. + +--Queres seis tostões por essas galinhas?» + +--Ora adeus! minha mãe recomendou-me, que não aceitasse o primeiro +preço, mas que esperasse o segundo.» + +--E tens muita razão. Dou-te um cruzado.» + +--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o primeiro, +mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ela não tem que me ralhar.» + +Depois disto, João foi condenado a ficar em casa. Sua mãe sabia que +mangavam com ele, e se riam dela. Uma manhã quis fazer uma +experiência, e disse-lhe: + +--Vai vender este carneiro à feira. Mas não te deixes enganar. Não o +entregues senão a quem te der o preço mais elevado.» + +--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.» + +--Quanto queres por esse carneiro? + +--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado. + +--Quatro mil réis?» + +--É o preço mais elevado?» + +--Pouco mais ou menos.» + +--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepara a uma escada. + +--Quanto?» + +--Dez tostões:» + +--É menos, respondeu timidamente o João.» + +--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não há um +preço mais elevado.» + +--Tem razão. É seu o carneiro.» + +Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou +comprar coisa alguma. + + + + +*Branca de Neve* + + +Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia +de Inverno, enquanto bordava num bastidor de ébano olhando de vez em +quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no chão, +distraída, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue. + +--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos +como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros +como este ébano.» + +Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu à luz uma filha, +que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo tão branco, +que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito +tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher +duma grande beleza, e dum orgulho não menos extraordinário. Era tão +formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas +vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho +magico dizia-lhe: + +--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que há no +mundo?» + +--És tu, respondia o espelho.» + +No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais +formosa. Tinha apenas sete anos, e já ninguém a podia ver sem ficar +maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu +espelho, disse-lhe: + +--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que há no +mundo?» + +--Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.» + +A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dor aguda, +como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um ódio mortal pela +inocente Branca. Não podia sossegar nem de dia, nem de noite. Para +satisfazer o seu ódio, chamou um criado, e disse-lhe: + +--Quero que Branca desapareça. Conduze-la à floresta, mata-a, e, para me +provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o +coração.» + +O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e +dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre criança chorava e +lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ela não tinha feito +mal a ninguém, e queria viver. O criado, comovido com aquelas +lágrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se +as feras a devorassem a culpa não era dele, mas sim da rainha. Assim +fez, e para mostrar o coração de Branca à rainha, matou um cabrito, e +tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou +contentíssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma +mulher no mundo é tão bela como eu. + +A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava +cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e +andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez +também via animais ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o +deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas. + +À noite chegou ao pé duma casinha muito pequenina. Estava morta de fome +e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito +limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha de +brancura irrepreensível, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas, +e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco +do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo, +deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente. + +Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros +pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo +que tinham gente em casa. Um deles disse: + +--Quem comeu o meu pão?» + +E os outros sucessivamente: + +--Quem pegou no meu garfo?» + +--Quem comeu o meu caldo?» + +--Quem bebeu o meu vinho?» + +E enfim um deles: + +--Quem está aí deitado na minha cama?» + +Reuniram-se todos à roda do pequeno leito em que dormia Branca. À luz +das lanternas viram o doce rosto da criança, que dormia tranquilamente, +e afastaram-se sem fazer bulha, para a não acordar. Branca no dia +seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si +aqueles sete anões das montanhas. Mas eles disseram-lhe com brandura, +que não tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como se chamava. +Branca contou a sua triste história, e os anões disseram-lhe: + +--Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa?» + +--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada.» + +Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias. +Limpava os móveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as +minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem. + +Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não +tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, +e disse-lhe: + +--Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda +que há no mundo?» + +E o espelho respondeu: + +--Sim, nos teus palácios e nos teus castelos, mas Branca está nas sete +montanhas, e Branca é mais linda do que tu.» + +Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, +e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que +modo? Uma manhã partiu disfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto +cheio de objectos de fantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu à +porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas jóias?» + +Os anões tinham recomendado a Branca que desconfiasse das caras +estranhas, receando os emissários da rainha, e ela tinha prometido ser +prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no +cesto, esqueceu-se das suas promessas. + +--Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou pôr ao +pescoço.» + +Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os +anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente +inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lábios algumas +gotas dum licor amarelo. Branca começou a respirar, voltou a si pouco +a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido. + +--Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira não era +outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautela, não deixes +entrar aqui ninguém, quando não estivermos em casa.» + +Ao entrar no seu palácio toda contente, colocou-se a rainha diante do +espelho, e disse-lhe: + +--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que há no mundo? +Responde. + +E o espelho respondeu: + +--És tu nos teus grandes palácios e nos teus castelos, mas Branca está +nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.» + +A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a +infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou às sete +montanhas, e bateu à porta da cabana. + +--Quem quer comprar lindas jóias? Branca veio à janela, e respondeu: + +--Vá-se embora, aqui não entra ninguém.» + +--Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro. Já +viu outro tão bonito?» + +Branca não pôde resistir ao desejo de possuir aquela jóia. Abriu a +porta. + +--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lho na cabeça.» + +Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e +Branca caiu morta. + +À noite quando regressaram os anões, acharam-na pálida e fria. +Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e +tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente. + +No entanto a cruel rainha voltava contentíssima para o seu palácio. +Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que +o espelho respondeu como antecedentemente. + +--Ah! é preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha de me +sacrificar. + +Vestiu-se de camponesa com um cesto de maçãs. Entre elas havia uma que +estava envenenada dum lado. Foi, e bateu à porta da cabana.» + +--Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?» + +--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, não deixo entrar +ninguém, nem compro coisa alguma.» + +--Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão +bonita, quero dar-lhe uma.» + +--Obrigada, não posso aceitar.» + +--Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa +que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora +mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se +tentar, levou à boca o outro pedaço, e caiu fulminada. + +--Aí tens, para castigo da tua formosura.» + +Quando chegou ao palácio a rainha foi direita ao espelho, e +perguntou-lhe: + +--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?» + +E o espelho respondeu: + +--És tu, és tu.» + +--Até que enfim!» + +Os anões estavam inconsoláveis. Debalde tinham tentado reanimá-la com o +licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava +fria e inanimada. Choraram por ela durante três dias, e os passarinhos +da floresta choraram também. No entanto as boas avezinhas não podiam +acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquilo, +as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quiseram +enterrá-la. Meteram-na num caixão de cristal, e escreveram em cima. +«Aqui jaz a filha dum rei;» puseram o caixão numa das sete montanhas, +e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se +assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais +pequena alteração. + +Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar à +caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lho cedessem, fosse por preço +que fosse. + +--Somos muito ricos, e por nada deste mundo venderemos este caixão, que +é o nosso tesouro.» + +--Então dêem-mo, já não posso viver sem contemplar este rosto de +mulher. Guardá-lo-ei na melhor sala do meu palácio. Peço-lhes que me +façam isto.» + +Os anões, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para +o levarem. Um deles tropeçou numa raiz, e o caixão sofreu um +balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha +engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O +jovem príncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela. O +casamento fez-se com grande pompa. O príncipe convidou todos os reis e +rainhas dos diferentes países, e entre elas a rainha inimiga de +Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos +os olhares, pôs-se diante do espelho, e disse a rainha: + +--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que há do mundo?» + +E o espelho respondeu: + +--Branca é mais formosa que tu. + +A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes +fossem descobertos, que morreu de repente. + +Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu palácio de +princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus benfeitores. + + + + +*A rapariguinha e os fósforos* + + +Que frio! a neve caía, e a noite aproximava-se; era o último de +Dezembro, véspera de Ano Bom. No meio deste frio e desta escuridão +passou na rua uma desgraçada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os +pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas +tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já +tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua +a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; +quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a intenção de fazer +dele um berço para o seu primeiro filho. + +A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha +no seu velho avental uma grande quantidade de fósforos, e levava na +mão um maço deles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido +compradores, e por isso não apurara cinco réis. + +Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos +longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do pescoço; mas +pensava ela porventura nos seus cabelos anelados? + +As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos +manjares; era a véspera de dia de Ano Bom: eis no que ela pensava. + +Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada +vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pai bater-lhe-ia, +porque não tinha vendido os seus fósforos. Além disso em sua casa +fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento +atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas +mãozinhas já quase que as não sentia. Ai! como um fosforozinho aceso +lhe faria bem! Se tirasse do maço apenas um, um único, e ascendendo-o +aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como +ardeu! Era uma chama tépida e clara, como uma pequena lamparina. Que +luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro +de ferro, cujo lume magnífico aquecia tão suavemente, que era um regalo. + +A pequerrucha ia já a estender os pezitos para os aquecer também, quando +a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma +pontita de fósforo consumido. + +Acendeu segundo fósforo, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu +a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando através desse +muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha +alvíssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma galinha +assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exalando um perfume +delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do +prato, e caiu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca +espetada no lombo. Nisto apagou-se o fósforo, e viu apenas diante de +si a parede fria e tenebrosa. + +Acendeu terceiro fósforo, e achou-se imediatamente sentada debaixo +de uma magnífica árvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a +que tinha visto no ano passado através dos vidros de um armazém +sumptuoso. + +Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões acesos, e as estampas +coloridas, como as que há às portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. +Quando ia agarrá-las com as duas mãos, apagou-se o fósforo; todos os +balões da árvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se +tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no céu +um longo rasto de fogo. + +--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que +lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando +cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.» + +Acendeu ainda outro fósforo: deu uma grande luz, no meio da qual lhe +apareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavíssimo. + +--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei que te vais +embora quando se apagar o fósforo. Desaparecerás como a panela de +ferro, a galinha assada, e a bela árvore do Natal. + +Acendeu o rosto do maço, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e +os fósforos espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua +avó tinha sido tão formosa. Pôs ao colo a pequerruchinha, e ambas +alegres, no meio deste deslumbramento, voaram tão alto, tão alto, que +já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraíso. + +Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os +dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos lábios... +morta, morta de frio na última noite do ano. O dia de Ano Bom veio +alumiar o pequenino cadáver, sentado ali com os seus fósforos, a que +faltava um maço, que tinha ardido quase inteiramente.--Quis aquecer-se, +disse um homem que passou.» E ninguém soube nunca as lindas coisas que +ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua +velha avó no dia do Ano Novo. + + + + +*O primeiro pecado de Margarida* + + +Chamava-se Margarida, e estavam à espera dela no céu, porque Deus +tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe pode +acontecer alguma desgraça, vou trazê-la um destes dias para o paraíso.» + +Margarida era uma virgem cândida, matinal como a aurora, fresca como +ela; todos os dias ao acordar rezava as orações, que sua mãe lhe tinha +ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha +jóias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho. + +Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar. + +E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela canção +de amor e de glória, que já embalara muitos berços, e que podia +sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez. + +Numa tarde de Verão, estava ela sentada à porta de casa fiando linho, +à hora em que as estrelas começam a aparecer, uma a uma no firmamento. + +Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por ali uma das +suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido novo. +Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o +colar de ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse +bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda +contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que +inquietou no paraíso o seu anjo da guarda. + +O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de +Margarida, a roda cessara o seu barulho monótono, e o fuso caíra-lhe das +mãos. + +Ao cair o fuso despertou do êxtase, abriu os olhos, e viu diante de si +um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de veludo +preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a +respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, +perguntou-lhe: + +--Qual é o caminho da cidade?» + +Margarida estendeu a mão para lho indicar, e o forasteiro inclinando-se +tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma +estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que +o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se então com +um sorriso estranho e diabólico. + +Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de +Margarida, e pediu-lhe uma esmola. + +Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre desgraçado. + +O cavaleiro então, soltando um grito de cólera, ia lançar-se sobre +Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda +disfarçado--cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto é Satanás, que +tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espírito celeste. + + + + +*Um nome inscrito no céu* + + +Era uma vez um pobre mendigo, que bateu à porta duma humilde cabana a +pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem +ouvindo ninguém, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu +então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse: + +--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.» + +E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater à mesma +porta. + +--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada +que te dar.» + +--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo. + +E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em +cima da mesa, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que +lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez. + +--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe ele afectuosamente, indo-se +embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.» + +Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevê-lo-ão no +Paraíso, e mais tarde nós o viremos a saber. + + + + +*O linho* + + +O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e +transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre +ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o +dum filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo. + +--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, +e serei brevemente uma rica peça de pano. Sinto-me feliz. Não há +ninguém que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saúde e um belo +futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou +feliz, feliz a mais não poder ser!» + +--Como és ingénuo! disseram as silvas do valado; tu não conheces o +mundo, de que nós outras temos uma larga experiência.» + +E rangendo lastimosamente, cantaram: + + --Cric, crac! cric, crac! crac! + --Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bela +manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e +florir. Sou muitíssimo feliz.» + +Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela +cabeleira, arrancaram-no com raízes e tudo, e deram-lhe tratos de +polé. Primeiro mergulharam-no em água, como se o quisessem afogá-lo, e +depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade! + +--Não se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessário +sofrer, o sofrimento é a mãe da experiência.» + +Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no, +cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois, +puseram-no numa roca, e então perdeu a cabeça inteiramente. + +--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio daquelas +torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades perdidas.» + +E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a meter no tear e a +transformá-lo numa peça de pano. + +--Isto é extraordinário, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que +grandes tolas aquelas silvas quando cantavam: + + Cric, crac! cric, crac! crac! + Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso +também agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto, +tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida, +ninguém trata da gente, e não bebemos outra água a não ser a da chuva. +Agora é o contrário: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as +manhãs, e à noite tomo o meu banho com um regador. A criada do sr. cura +fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a +melhor peça da paróquia. Não posso ser mais feliz.» + +Levaram o pano para casa, e entregaram-no às tesouras. Cortaram-no e +picaram-no com uma agulha. Não era lá muito agradável, mas em +compensação fizeram dele uma dúzia de camisas magníficas. + +--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é +abençoado, porque sou útil neste mundo. É preciso isso para se viver em +paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um +só grupo, uma dúzia. Que incomparável felicidade! + +O pano das camisas foi-se gastando com o tempo. + +--Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas não +se fazem impossíveis.» + +E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era +finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem +adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel +branco magnífico. + +--Oh que agradável surpresa! exclamou o papel, agora sou muito mais fino +do que dantes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima +de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!» + +E escreveram nele as mais belas histórias, que foram lidas diante de +inúmeros ouvintes, e os tornaram mais sábios e melhores. + +--Ora aqui está uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, +quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que +ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei +explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe +perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha +sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, até chegar à maior glória. +Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se» +tudo pelo contrário se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou +viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e +instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora +as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz, +imensamente feliz!» + +Mas o papel não foi viajar; entregaram-no ao tipógrafo, e tudo que lá +estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, +que recrearam e instruíram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de +papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta à roda +do mundo. A meio caminho já estaria gasto. + +--É justo, disse o papel, não tinha pensado nisso. Fico em casa, e vou +ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as +palavras caíram directamente da pena sobre mim, fico no meu lugar, e os +livros vão por esse mundo fora. A sua missão é realmente bela, e eu +estou contente, e julgo-me feliz. + +O papel foi empacotado, e lançado para uma estante. + +--Depois do trabalho é agradável o descanso, pensou ele. É neste +isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só de hoje em diante é que +eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira +perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.» + +Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o +que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar açúcar. E todas as +crianças da casa se puseram à roda; queriam vê-lo arder, e ver também, +depois da labareda, as milhares de faíscas vermelhas, que parecem fugir, +e se apagam instantaneamente uma após outra. O maço inteiro de papel +foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande +chama, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguera as +suas flores azuis; a peça de pano nunca tinha tido um brilho +semelhante. + +Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as +palavras, todas as ideias desapareceram em línguas de fogo. + +--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da labareda, que +pareciam mil vozes reunidas numa só. A chama saiu pela chaminé, e no +meio dela volteavam pequeninos seres invisíveis para os olhos do +homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado. +Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu, +quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda eles dançavam +sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas +encarnadas. + +As crianças cantavam à roda da cinza inanimada: + + Cric, crac! cric, crac! crac! + Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que +é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.» + +As crianças não puderam ouvir, nem compreender estas palavras; mas +também não era necessário, porque as crianças não devem saber tudo. + + +FIM. + + + + +*INDICE* + + +A mãe +O ouro +Doçura e bondade +O malmequer +Não quero +Piloto +O rico e o pobre +Como um camponês aprendeu o Padre Nosso +O talismã +A alma +Alberto +A canção da cerejeira +Os gigantes da montanha e os anões da planície +A criança, o anjo e flor +Presente por presente +O pinheiro ambicioso +Perfeição das obras de Deus +João e os seus camaradas +O rabequista +Os pêssegos +A urna das lágrimas +Reconhecimento e ingratidão +O fato novo do sultão +Boa sentença +Os animais agradecidos +O ermitão +Carlos Magno e o abade de S. Gall +A boneca +Inconveniente da riqueza +Querer é poder +Qual será rei? +Os três véus de Maria +Os pequenos no bosque +O chapelinho encarnado +Os cinco sonhos +A igreja do rei +O valente soldado de chumbo +João Pateta +Branca de Neve +A rapariguinha e os fósforos +O primeiro pecado de Margarida +Um nome inscrito no céu +O linho + + +[A propriedade deste livro pertence no Brasil ao sr. Luís de Andrade, +residente no Rio de Janeiro.] + + |
