summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/old/modern/contos.htm
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to 'old/modern/contos.htm')
-rw-r--r--old/modern/contos.htm10351
1 files changed, 10351 insertions, 0 deletions
diff --git a/old/modern/contos.htm b/old/modern/contos.htm
new file mode 100644
index 0000000..323464b
--- /dev/null
+++ b/old/modern/contos.htm
@@ -0,0 +1,10351 @@
+<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-transitional.dtd">
+<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="en" lang="en">
+<head>
+
+
+
+
+
+ <title>Contos para a Inf&acirc;ncia Escolhidos dos Melhores Autores</title>
+ <meta name="AUTHOR" content="Guerra Junqueiro" />
+
+
+
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" />
+
+
+
+ <style type="text/css">
+body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;}
+h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;}
+h1 {font-size: 30px;}
+h2 {font-size: 14pt;}
+h3 {font-size: 40px; letter-spacing: 6px;}
+h4{font-size: 10pt;font-variant: small-caps;}
+h5 {font-size: 20px;}
+.fbox {border: solid black 2px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 15%; margin-right: 2%;}
+.break {
+width: 40%;
+margin-left:30%;}
+.poetry {margin-left:30%;}
+.pagenum { position: absolute; right: 35%;
+font-size: 75%;
+text-align: right;
+text-indent: 0em;
+font-style: normal;
+font-weight: normal;
+color: silver; background-color: inherit;
+font-variant: normal;}
+ </style>
+</head>
+
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the<br />original version, already available at Project Gutenberg. / Actualiza&ccedil;&atilde;o<br />ortogr&aacute;fica da vers&atilde;o original, j&aacute; dispon&iacute;vel no Project Gutenberg.)<br /><br /><br />NOTA: Este texto tem duas vers&otilde;es em l&iacute;ngua portuguesa de acordo com o<br />livro original, a que pode ser aceder clicando numa das seguintes op&ccedil;&otilde;es:<br /> <a href="../../16429-8.txt"><big><b>TEXT</b></big></a> <a href="../16429.htm"><big><b>HTML</b></big></a><br /></pre>
+
+
+<div>
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h1>CONTOS</h1>
+
+
+<h2>PARA A</h2>
+
+
+<h3>INF&Acirc;NCIA</h3>
+
+
+<h2>ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES</h2>
+
+
+<h2>POR </h2>
+
+
+<h1>GUERRA JUNQUEIRO</h1>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2>LISBOA</h2>
+
+
+<h4>TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOM&Aacute;S QUINTINO ANTUNES,<br />
+
+
+IMPRESSOR DA CASA REAL</h4>
+
+
+<h2>Rua dos Calafates, 110</h2>
+
+
+<h2>1877</h2>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2> <a name="1"></a>A m&atilde;e</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estava uma m&atilde;e muito aflita, sentada ao p&eacute; do
+ber&ccedil;o do seu filho, com
+medo que lhe morresse. A criancinha p&aacute;lida tinha os olhos
+fechados.
+Respirava com dificuldade, e &agrave;s vezes t&atilde;o
+profundamente, que parecia
+gemer; mas a m&atilde;e causava ainda mais l&aacute;stima do
+que o pequenino
+moribundo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto bateram &agrave; porta, e entrou um pobre homem muito velho,
+embu&ccedil;ado
+numa manta de arrieiro. Era no Inverno. L&aacute; fora estava tudo
+coberto de
+neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre homem tremia de frio; a crian&ccedil;a adormecera por
+alguns instantes,
+e a m&atilde;e levantou-se a p&ocirc;r ao lume uma caneca com
+cerveja. O velho
+come&ccedil;ou a embalar a crian&ccedil;a, e a m&atilde;e,
+pegando numa cadeira, sentou-se
+ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
+vez com mais dificuldade, pegou-lhe na m&atilde;ozinha descarnada e
+disse para
+o velho:<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! Nosso Senhor n&atilde;o mo h&aacute;-de levar!
+n&atilde;o &eacute; verdade?&#8213;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[4]</span>E o velho, que era a
+Morte, meneou a cabe&ccedil;a duma maneira estranha, em
+ar de d&uacute;vida. A m&atilde;e deixou pender a fronte para o
+ch&atilde;o, e as l&aacute;grimas
+corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso
+de
+cabe&ccedil;a; estava sem dormir havia tr&ecirc;s dias e
+tr&ecirc;s noites. Passou
+ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a
+tremer de frio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que &eacute; isto! exclamou, lan&ccedil;ando &agrave;
+volta de si o olhar alucinado. O
+ber&ccedil;o estava vazio. O velho tinha-se ido embora,
+roubando-lhe a crian&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pobre m&atilde;e saiu precipitadamente, gritando pelo filho.
+Encontrou uma
+mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. &laquo;A Morte
+entrou-te em
+casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
+depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a
+entregar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Por onde foi ela? gritou a m&atilde;e. Diz-mo pelo amor de
+Deus!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto.
+Mas s&oacute; to ensino, se me cantares primeiro todas as
+can&ccedil;&otilde;es que cantavas
+ao teu filho. S&atilde;o lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou
+a Noite e
+muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em l&aacute;grimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a m&atilde;e. Agora
+n&atilde;o me
+demores, porque quero encontrar o meu filho.&#8213;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A Noite ficou silenciosa. A m&atilde;e ent&atilde;o, desfeita
+em l&aacute;grimas, come&ccedil;ou a
+cantar. Cantou muitas can&ccedil;&otilde;es, mas as
+l&aacute;grimas foram mais do que as
+palavras.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[5]</span>No fim disse-lhe a
+Noite: &laquo;Toma &agrave; direita, pela floresta escura de
+pinheiros. Foi por a&iacute; que a Morte fugiu com o teu
+filho.&raquo;
+<br />
+
+
+A m&atilde;e correu para a floresta; mas no meio dividia-se o
+caminho, e n&atilde;o
+sabia que direc&ccedil;&atilde;o havia de seguir. Diante dela
+havia um matagal,
+cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
+cristalizada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="break">
+<hr /> </div>
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o viste a Morte que levava o meu filho?&raquo;
+perguntou-lhe a m&atilde;e.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vi, respondeu o matagal, mas n&atilde;o te ensino o caminho,
+sen&atilde;o com a
+condi&ccedil;&atilde;o de me aqueceres no teu seio, porque
+estou gelado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a m&atilde;e estreitou o matagal contra o
+cora&ccedil;&atilde;o; os espinhos
+dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se
+de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite
+de Inverno frigid&iacute;ssima, tal &eacute; o calor
+febricitante do seio duma m&atilde;e
+angustiosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
+andando, at&eacute; que chegou &agrave; margem dum grande lago,
+onde n&atilde;o havia nem
+barcos, nem navios. N&atilde;o estava suficientemente gelado para
+se andar por
+ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo,
+querendo encontrar o seu filho, era necess&aacute;rio
+atravess&aacute;-lo. No del&iacute;rio
+do seu amor, atirou-se de bru&ccedil;os a ver se poderia beber toda
+a &aacute;gua do
+lago. Era imposs&iacute;vel, mas lembrava-se que Deus, por
+compaix&atilde;o, faria
+talvez um milagre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[6]</span>&#8213;N&atilde;o!
+n&atilde;o &eacute;s capaz de me esgotar, disse o lago.
+Sossega, e
+entendamo-nos
+amigavelmente. Gosto de ver p&eacute;rolas no fundo das minhas
+&aacute;guas, e os teus
+olhos s&atilde;o dum brilho mais suave do que as p&eacute;rolas
+mais ricas que eu
+tenho possu&iacute;do. Se queres, arranca-os das &oacute;rbitas
+&agrave; for&ccedil;a de chorar, e
+levar-te-ei &agrave; estufa grandiosa, que est&aacute; do outro
+lado: essa estufa &eacute; a
+habita&ccedil;&atilde;o da Morte; e as flores e as
+&aacute;rvores que est&atilde;o l&aacute; dentro,
+&eacute; ela
+quem as cultiva; cada flor e cada &aacute;rvore &eacute; a vida
+duma criatura
+humana.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! o que n&atilde;o darei eu, para reaver o meu filho!&raquo;
+disse a m&atilde;e. E
+apesar de ter j&aacute; chorado tantas l&aacute;grimas, chorou
+com mais amargura do
+que nunca, e os seus olhos destacaram-se das &oacute;rbitas e
+ca&iacute;ram no fundo
+do lago, transformando-se em duas p&eacute;rolas, como ainda as
+n&atilde;o teve no
+mundo uma rainha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O lago ent&atilde;o ergueu-a, e com um movimento de
+ondula&ccedil;&atilde;o depositou-a na
+outra margem, aonde havia um maravilhoso edif&iacute;cio, com mais
+de uma l&eacute;gua
+de comprido. De longe n&atilde;o se sabia se era uma
+constru&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica ou
+uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre m&atilde;e
+n&atilde;o podia ver nada;
+tinha dado os seus olhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu
+filho!&raquo; bradou
+ela desesperada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;A Morte ainda n&atilde;o chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que
+andava dum
+lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
+vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus &eacute; misericordioso. <span class="pagenum">[7]</span>Compadece-te
+de mim, e diz-me onde est&aacute; o meu filho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu n&atilde;o o conhe&ccedil;o, e tu &eacute;s cega, disse
+a velha. H&aacute; aqui muitas plantas
+e muitas &aacute;rvores, que murcharam esta noite: a Morte
+n&atilde;o tarda a&iacute; para
+as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste
+s&iacute;tio uma &aacute;rvore ou uma flor, que representam a
+sua vida e que morrem
+com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes,
+sente-se bater um cora&ccedil;&atilde;o. Guia-te por isto, e
+talvez reconhe&ccedil;as as
+pulsa&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o de teu
+filho. E que davas tu por eu te ensinar o
+que tens ainda de fazer?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;J&aacute; n&atilde;o tenho nada que te dar, disse a pobre
+m&atilde;e. Mas irei at&eacute; ao fim
+do mundo buscar o que tu quiseres.&#8213;&laquo;Fora daqui n&atilde;o
+preciso de nada,
+respondeu a velha. D&aacute;-me os teus longos cabelos negros; tu
+sabes que
+s&atilde;o belos, e agradam-me. Troc&aacute;-los-ei pelos meus
+cabelos
+brancos.&raquo;&#8213;N&atilde;o pedes mais nada do que isso? disse a
+m&atilde;e. A&iacute; os tens,
+dou-tos de boa vontade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E arrancou os seus magn&iacute;ficos cabelos, que tinham sido
+outrora o seu
+orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e
+inteiramente brancos da velha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esta levou-a pela m&atilde;o &agrave; grande estufa, onde
+crescia exuberantemente uma
+vegeta&ccedil;&atilde;o maravilhosa. Viam-se debaixo de
+camp&acirc;nulas de cristal jacintos
+mimos&iacute;ssimos ao lado de pe&oacute;nias inchadas e
+ordin&aacute;rias. Havia tamb&eacute;m plantas
+aqu&aacute;ticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em
+cujas ra&iacute;zes
+se enovelavam cobras asquerosas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[8]</span>Mais longe
+erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e pl&aacute;tanos
+frondosos; depois num outro s&iacute;tio isolado havia canteiros de
+salsa,
+tomilho, hortel&atilde; e outras plantas humildes que representavam
+o g&eacute;nero de
+utilidade das pessoas que elas simbolizavam.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
+pareciam rebentar; mas viam-se tamb&eacute;m florzitas
+insignificantes, em
+vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com
+esmero delicad&iacute;ssimo. Tudo isso representava a vida dos
+homens, que a
+essa hora existiam no mundo, desde a China at&eacute; &agrave;
+Groenl&acirc;ndia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a
+m&atilde;e
+impacientada pediu-lhe que a levasse ao s&iacute;tio onde estavam
+as plantas
+pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
+cora&ccedil;&atilde;o, e, depois de ter tocado em milhares
+delas, reconheceu as
+pulsa&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o do seu
+filho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; ele!&raquo; exclamou, lan&ccedil;ando a
+m&atilde;o a um a&ccedil;afroeiro, que, pendido sobre
+a terra, parecia completamente estiolado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o lhe toques, disse a velha. Fica neste s&iacute;tio;
+e quando a Morte
+vier, que n&atilde;o tarda, pro&iacute;be-lhe que arranque esta
+planta; amea&ccedil;a-a de
+arrancar todas as flores que est&atilde;o aqui. A Morte
+ter&aacute; medo, porque tem
+de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu
+consentimento.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto sentiu-se um vento glacial, e a m&atilde;e adivinhou que era
+a Morte,
+que se aproximava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[9]</span>&#8213;Como &eacute;
+que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
+primeiro do que eu! Como o conseguiste?&#8213;&laquo;Sou
+m&atilde;e&raquo; respondeu ela.
+<br />
+
+
+E a Morte estendeu a sua m&atilde;o ganchosa para o pequenino
+a&ccedil;afroeiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas a m&atilde;e protegia-o violentamente com ambas as
+m&atilde;os, tendo o cuidado de
+n&atilde;o ferir uma s&oacute; das pequeninas
+p&eacute;talas. Ent&atilde;o a Morte soprou-lhe nas
+m&atilde;os, fazendo-lhas cair inanimadas. O h&aacute;lito da
+Morte era mais frio do
+que os ventos enregelados do Inverno.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o podes nada comigo!&raquo; disse a Morte.&#8213;Mas Deus
+tem mais for&ccedil;a do que
+tu, respondeu a m&atilde;e.&raquo;&#8213;&laquo;&Eacute;
+verdade, mas eu n&atilde;o fa&ccedil;o sen&atilde;o aquilo
+que
+ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas,
+&aacute;rvores e
+arbustos, quando come&ccedil;am a murchar, transplanto-as para
+outros jardins,
+um dos quais &eacute; o grande jardim do Para&iacute;so.
+S&atilde;o regi&otilde;es desconhecidas;
+ningu&eacute;m sabe o que se l&aacute; passa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Miseric&oacute;rdia! miseric&oacute;rdia! solu&ccedil;ou a
+m&atilde;e. N&atilde;o me roubem o meu filho,
+agora que acabo de o encontrar!&raquo; Suplicava e gemia. A Morte
+conservava-se impass&iacute;vel; agarrou ent&atilde;o
+instantaneamente em duas flores
+lind&iacute;ssimas e disse &agrave; Morte: &laquo;Tu
+desprezas-me, mas olha, vou arrancar,
+despeda&ccedil;ar n&atilde;o s&oacute; esta, mas todas as
+flores que est&atilde;o aqui!<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o as arranques, n&atilde;o as mates, bradou a Morte.
+Dizes que &eacute;s
+desgra&ccedil;ada, e querias ir partir o
+cora&ccedil;&atilde;o de outra m&atilde;e!&#8213;&laquo;Outra
+m&atilde;e!&raquo;
+disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente.
+<span class="pagenum">[10]</span>&#8213;Toma, aqui tens os
+teus olhos, disse a Morte. Brilhavam t&atilde;o suavemente que os
+tirei do lago. N&atilde;o sabia que eram teus.
+Mete-os nas &oacute;rbitas, e olha para o fundo deste
+po&ccedil;o; v&ecirc; o que ias destruir,
+se arrancasses estas flores. Ver&aacute;s passar nos reflexos da
+&aacute;gua, como numa miragem,
+a sorte destinada a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o
+teu filho, se
+porventura vivesse.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Debru&ccedil;ou-se no po&ccedil;o, e viu passar imagens de
+felicidade e alegria,
+quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terr&iacute;veis
+de
+mis&eacute;ria, de ang&uacute;stias e de
+desola&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nisto que eu vejo, disse a m&atilde;e aflit&iacute;ssima,
+n&atilde;o distingo qual era a
+sorte que Deus destinava ao meu filho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em
+tudo isto
+que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu
+filho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&atilde;e desvairada, lan&ccedil;ou-se de joelhos
+exclamando: Suplico-te, diz-me:
+era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? N&atilde;o
+&eacute; verdade! Fala!
+N&atilde;o me respondes? Oh! na d&uacute;vida, leva-o, leva-o,
+n&atilde;o v&aacute; ele sofrer
+desgra&ccedil;as t&atilde;o horr&iacute;veis. O meu querido
+filho! Quero-lho mais que &agrave; minha
+vida. As ang&uacute;stias que sejam para mim. Leva-o para o reino
+dos c&eacute;us.
+Esquece as minhas l&aacute;grimas, as minhas s&uacute;plicas,
+esquece tudo o que fiz
+e tudo o que disse.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te
+entregue o teu
+filho ou que o leve para a regi&atilde;o desconhecida de que
+n&atilde;o posso
+falar-te!&raquo; Ent&atilde;o a m&atilde;e alucinada,
+convulsa, torcendo os bra&ccedil;os,
+deitou-se de joelhos e dirigindo-se <span class="pagenum">[11]</span>a
+Deus exclamou: &laquo;N&atilde;o me ou&ccedil;as,
+Senhor, se reclamo no fundo do meu cora&ccedil;&atilde;o contra
+a tua vontade que &eacute;
+sempre justa! N&atilde;o me atendas meu Deus!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E deixou cair a cabe&ccedil;a sobre o peito, mergulhada na sua
+agonia
+dilacerante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a Morte arrancou o pequenino a&ccedil;afroeiro, e foi
+transplant&aacute;-lo no
+jardim do para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[12]</span>
+<h2><a name="2"></a>O ouro</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de
+ouro,
+empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o
+resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma
+grande
+fome no pa&iacute;s.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
+segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
+e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro,
+com
+que ele ficou todo satisfeito, porque n&atilde;o compreendeu ao
+princ&iacute;pio
+qual era o sentido da rainha; mas, vendo que n&atilde;o lhe traziam
+mais nada
+de comer, come&ccedil;ou a zangar-se. Pediu-lhe ent&atilde;o a
+rainha, que visse bem
+que o ouro n&atilde;o era alimento, e que seria melhor empregar os
+seus
+vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
+traz&ecirc;-los nas minas &agrave; busca do ouro, que
+n&atilde;o mata a fome nem a sede, e
+que n&atilde;o tem outro valor al&eacute;m da
+estima&ccedil;&atilde;o que lhe &eacute; dada pelos homens,
+estima&ccedil;&atilde;o que havia de converter-se em desprezo,
+logo que ouro
+aparecesse em abund&acirc;ncia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A rainha tinha ju&iacute;zo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[13]</span>
+<h2><a name="3"></a>Do&ccedil;ura e bondade</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+H&aacute; entre v&oacute;s, meus filhos, &iacute;ndoles
+violentas, que n&atilde;o sabem dominar-se,
+e que s&atilde;o arrastadas pelas primeiras impress&otilde;es.
+&Eacute; uma p&eacute;ssima
+disposi&ccedil;&atilde;o, que &eacute;
+necess&aacute;rio corrigir; d&aacute; lugar a disputas, e a que
+se
+cometam ac&ccedil;&otilde;es, cujo arrependimento chega
+demasiadamente tarde.
+Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
+dele, volta-se e d&aacute;-lhe uma bofetada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num
+cego!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns
+camponeses grosseiros come&ccedil;aram a apup&aacute;-lo e a
+bater no burro, para o
+fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a
+sua perna aleijada, disse-lhes: &laquo;Se soub&eacute;sseis que
+eu era coxo, n&atilde;o
+ter&iacute;eis sido t&atilde;o covardes.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma
+palavra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que vos parece estas duas li&ccedil;&otilde;es? Estou
+convencido que aproveitaram a
+quem as recebeu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+<h2><a name="4"></a>O malmequer</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ouvi com aten&ccedil;&atilde;o esta pequenina
+hist&oacute;ria!<br />
+
+
+<br />
+
+
+No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+deveis ter visto muitas vezes. H&aacute; na frente um jardinzinho
+com flores,
+rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no
+meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
+olhos vistos, gra&ccedil;as ao sol, que repartia igualmente a sua
+luz tanto por
+ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela
+manh&atilde;, j&aacute; inteiramente aberto, com as folhinhas
+alvas e brilhantes,
+parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe
+dava
+que o vissem no meio da erva e n&atilde;o fizessem caso dele, pobre
+florinha
+insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
+sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira,
+sentia-se t&atilde;o feliz como se fosse um domingo. Enquanto as
+crian&ccedil;as
+sentadas nos bancos da escola estudavam a li&ccedil;&atilde;o,
+ele, sentado na haste
+verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
+o que <span class="pagenum">[15]</span>sentia
+misteriosamente, em sil&ecirc;ncio, julgava ouvi-lo traduzido com
+admir&aacute;vel nitidez nas can&ccedil;&otilde;es alegres
+da cotovia. Por isso p&ocirc;s-se a
+olhar com uma esp&eacute;cie de respeito, mas sem inveja, para essa
+avezinha
+feliz que cantava e voava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Eu vejo e oi&ccedil;o, pensou o malmequer; o sol
+aquece-me e o vento
+acaricia-me. Oh! n&atilde;o tenho raz&atilde;o de me
+queixar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocr&aacute;ticas;
+quanto menos
+aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As d&aacute;lias
+inchavam-se para
+parecerem maiores do que as rosas; mas n&atilde;o &eacute; o
+tamanho que faz a rosa.
+As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se
+pretensiosamente. N&atilde;o se dignavam de lan&ccedil;ar um
+olhar para o pequeno
+malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando:
+&laquo;Como s&atilde;o
+ricas e bonitas! A cotovia ir&aacute; certamente
+visit&aacute;-las. Gra&ccedil;as a Deus,
+poderei assistir a este belo espect&aacute;culo.&raquo; E no
+mesmo instante a
+cotovia dirigiu o seu voo, n&atilde;o para as d&aacute;lias e
+tulipas, mas para a
+relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria n&atilde;o
+sabia o que
+havia de pensar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O passarinho p&ocirc;s-se a saltitar &agrave; roda dele,
+cantando: &laquo;Como a erva &eacute;
+macia! oh! que encantadora florinha, com um
+cora&ccedil;&atilde;o de oiro, vestida de
+prata!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave
+acariciou-o com
+o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do
+firmamento. Durante mais de um quarto de hora n&atilde;o
+p&ocirc;de o malmequer
+reprimir a sua como&ccedil;&atilde;o. Meio envergonhado, mas
+todo contente, olhou
+<span class="pagenum">[16]</span>para as outras
+flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
+acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas
+as
+tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
+pontiaguda manifestava o despeito. As d&aacute;lias tinham a
+cabe&ccedil;a toda
+inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem
+desagrad&aacute;veis
+ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
+grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
+uma a uma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Que desgra&ccedil;a! disse o malmequer suspirando;
+&eacute; horr&iacute;vel; foram-se
+todas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se
+por
+ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando
+reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
+adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte de manh&atilde;, assim que o malmequer abriu as
+suas folhas ao
+ar e &agrave; luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto
+era triste,
+muit&iacute;ssimo triste. A pobre cotovia tinha boas
+raz&otilde;es para se afligir:
+haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela
+aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas
+antigas viagens atrav&eacute;s do espa&ccedil;o ilimitado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
+dif&iacute;cil. A compaix&atilde;o pelo pobre passarinho
+prisioneiro, fez-lhe
+esquecer <span class="pagenum">[17]</span>inteiramente
+as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e
+a alvura resplandecente das suas pr&oacute;prias folhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na
+m&atilde;o
+uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
+tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que n&atilde;o podia
+compreender o
+que desejavam.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Podemos arrancar daqui um peda&ccedil;o de relva para a
+cotovia, disse um dos
+rapazes, e come&ccedil;ou a fazer um quadrado profundo &agrave;
+volta da florinha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Arranca a flor, disse o outro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era
+morrer; e nunca tinha aben&ccedil;oado tanto a
+exist&ecirc;ncia, como no momento em
+que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o; deixemo-la, disse o mais velho.
+Est&aacute; a&iacute; muito bem.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia
+com as asas nos arames da gaiola. O malmequer n&atilde;o podia,
+apesar dos seus
+desejos, articular-lhe uma palavra de consola&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passou-se assim toda a manh&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;J&aacute; n&atilde;o tenho &aacute;gua, exclamou
+a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
+deixarem ao menos uma gota de &aacute;gua. A garganta queima-me,
+tenho uma febre
+terr&iacute;vel, sinto-me abafada! Ai! N&atilde;o h&aacute;
+rem&eacute;dio sen&atilde;o morrer, longe do
+sol espl&ecirc;ndido, longe da fresca verdura e de todas as
+magnific&ecirc;ncias da
+cria&ccedil;&atilde;o!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[18]</span>Depois enterrou o
+bico na relva h&uacute;mida para se refrescar um pouco. Viu
+ent&atilde;o o malmequer; fez-lhe um sinal de cabe&ccedil;a
+amig&aacute;vel, e disse-lhe,
+afagando-o: &laquo;Tamb&eacute;m tu, pobre florinha,
+morrer&aacute;s aqui! Em vez do mundo
+inteiro, que eu tinha &agrave; minha
+disposi&ccedil;&atilde;o, deram-me um pedacito de relva,
+e a ti s&oacute; por &uacute;nica companhia. Cada pezinho de
+relva substitui para mim
+uma &aacute;rvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor
+odor&iacute;fera. Ah!
+como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Se eu pudesse consol&aacute;-la! pensava o malmequer, incapaz de
+fazer o
+m&iacute;nimo movimento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume;
+a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
+arrancar a erva, teve todo o cuidado em n&atilde;o tocar nem sequer
+de leve na
+flor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Caiu a noite; n&atilde;o estava ali ningu&eacute;m, para trazer
+uma gota de &aacute;gua &agrave;
+desditosa cotovia; Estendeu ent&atilde;o as suas belas asas,
+sacudindo-as
+convulsivamente, e p&ocirc;s-se a cantar uma
+can&ccedil;&atilde;ozinha melanc&oacute;lica; a sua
+cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu
+cora&ccedil;&atilde;o quebrado de desejos e
+de ang&uacute;stias cessou de bater. Vendo este triste
+espect&aacute;culo, o malmequer
+n&atilde;o p&ocirc;de como na v&eacute;spera fechar as suas
+folhas para dormir; curvou-se
+para o ch&atilde;o, doente de tristeza.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os rapazitos s&oacute; voltaram no dia seguinte, e, vendo o
+passarinho morto,
+rebentaram-lhe as l&aacute;grimas e abriram uma cova. Meteram o
+cad&aacute;ver dentro
+de uma caixa vermelha, lind&iacute;ssima, fizeram-lhe um enterro de
+pr&iacute;ncipe, e
+cobriram o t&uacute;mulo com folhas de rosas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[19]</span>Pobre passarinho!
+Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e
+deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto &eacute; que
+o choraram
+e lhe fizeram honrarias pompos&iacute;ssimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A relva e o malmequer lan&ccedil;aram-nas para a poeira da estrada;
+daquele
+que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ningu&eacute;m se
+lembrou.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[20]</span>
+<h2><a name="5"></a>N&atilde;o quero</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito
+alto: &laquo;N&atilde;o, dizia um com voz en&eacute;rgica,
+n&atilde;o quero.&raquo; Parei e
+perguntei-lhe:&#8213;O que &eacute; que tu n&atilde;o queres, meu
+rapaz?&#8213;&laquo;N&atilde;o quero dizer
+&agrave; mam&atilde; que venho da escola, porque &eacute;
+mentira. Sei que me h&aacute;-de ralhar,
+mas antes quero que me ralhe do que mentir.&raquo;&#8213;E tens
+raz&atilde;o, disse-lhe
+eu. &Eacute;s um rapaz como se quer.&raquo; Apertei-lhe a
+m&atilde;o, enquanto que o outro
+pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
+todo envergonhado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Da&iacute; a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de
+falar com o
+professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois
+pequenos; o que n&atilde;o quis mentir, sorria-me, enquanto que o
+outro,
+vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
+dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, &eacute; um
+magn&iacute;fico
+estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a
+confessar as suas faltas e o que &eacute; ainda melhor, a
+repar&aacute;-las. O outro
+pelo contr&aacute;rio, &eacute; mentiroso, covarde e
+incorrig&iacute;vel.&raquo;&#8213;N&atilde;o me espanto,
+disse eu, j&aacute; tinha tirado o hor&oacute;scopo destas duas
+crian&ccedil;as; e
+contei-lhe o que tinha ouvido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+<h2><a name="6"></a>Piloto</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos c&atilde;es, e
+o
+infatig&aacute;vel companheiro dos brinquedos das
+crian&ccedil;as da quinta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fazia gosto v&ecirc;-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que
+Jo&atilde;o lhe
+lan&ccedil;ava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca
+e
+trazia-o &agrave; margem, com grande alegria do pequerrucho e da
+sua irm&atilde;
+Joaninha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esta brincadeira recome&ccedil;ava vinte vezes sem cansar nunca a
+paci&ecirc;ncia do
+Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos,
+at&eacute; que o
+assobio do criado da quinta chamava o fiel animal &agrave;s suas
+obriga&ccedil;&otilde;es:
+partia ent&atilde;o como um raio, para escoltar as vacas, que
+levavam aos
+pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando o hortel&atilde;o ia vender os legumes ao mercado, era o
+Piloto o guarda
+da carro&ccedil;a; e muito atrevido seria quem saltasse
+&agrave; noite a parede da
+quinta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma vez deu prova de uma extraordin&aacute;ria sagacidade; um
+jornaleiro, que se
+empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa,
+tentou de noite roubar um saco.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Piloto, que o conhecia, n&atilde;o fez a menor
+demonstra&ccedil;&atilde;o de hostilidade
+em quanto o homem seguiu o <span class="pagenum">[22]</span>caminho
+da quinta, mas, desde que se afastou
+tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem
+o
+largar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era como se dissesse: &laquo;Onde vais tu com o trigo de meu
+dono?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O ladr&atilde;o quis p&ocirc;r ent&atilde;o outra vez o
+saco donde o tinha tirado; Piloto
+n&atilde;o consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir,
+at&eacute; de
+manh&atilde;; o quinteiro foi dar com ele nesta dif&iacute;cil
+posi&ccedil;&atilde;o,
+repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o
+n&atilde;o
+desonrar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o homem ficou com &oacute;dio ao c&atilde;o, e muito tempo
+depois, aproveitando a
+aus&ecirc;ncia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que
+correu para
+ele sem desconfian&ccedil;a; atou-lhe uma corda ao
+pesco&ccedil;o e arrastou-o at&eacute; &agrave;
+margem do ribeiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Atou uma grande pedra &agrave; outra extremidade da corda e
+levantando o animal
+atirou-o &agrave; &aacute;gua; mas arrastado ele
+pr&oacute;prio com o peso e com o esfor&ccedil;o,
+caiu tamb&eacute;m.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Como n&atilde;o sabia nadar, teria sido despeda&ccedil;ado pela
+roda do moinho, se o
+corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e
+desembara&ccedil;ando-se da pedra mal atada, n&atilde;o tivesse
+mergulhado duas vezes
+e trazido para terra o seu mortal inimigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o
+c&atilde;o que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Teve vergonha de seu acto miser&aacute;vel; e desde esse dia,
+violentou-se a si
+mesmo e combateu as suas m&aacute;s
+inclina&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O exemplo do c&atilde;o corrigiu o homem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[23]</span>
+<h2><a name="7"></a>O rico e o pobre</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
+dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
+deitou-se debaixo de uma &aacute;rvore, &agrave; porta de uma
+estalagem, junto da
+estrada. Estava comendo um bocado de p&atilde;o que tinha trazido
+para jantar,
+quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
+preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos
+viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que n&atilde;o
+tinham tempo,
+e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
+vinho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua
+c&ocirc;dea de p&atilde;o, para a sua velha jaqueta, para o seu
+chap&eacute;u todo roto, e
+suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino
+t&atilde;o rico,
+em vez do desgra&ccedil;ado Martinho! Que fortuna se ele estivesse
+aqui, e eu
+dentro daquela carruagem!&raquo; O preceptor ouviu casualmente o
+que dizia
+Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lan&ccedil;ando a
+cabe&ccedil;a fora da
+carruagem, chamou Martinho com a m&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ficarias muito contente, n&atilde;o &eacute; verdade, meu <span class="pagenum">[24]</span>rapaz, podendo trocar a
+minha sorte pela tua?&raquo;&#8213;Pe&ccedil;o que me desculpe
+senhor, replicou Martinho
+corando, o que eu disse n&atilde;o foi por
+mal.&raquo;&#8213;N&atilde;o estou zangado contigo,
+replicou o fidalguinho, pelo contr&aacute;rio, desejo fazer a
+troca.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! est&aacute; a divertir-se comigo! tornou Martinho,
+ningu&eacute;m quereria estar
+no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando
+muitas l&eacute;guas por dia, como p&atilde;o seco e batatas,
+enquanto que o senhor
+anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.&raquo;&#8213;Pois
+bem,
+volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu
+n&atilde;o tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que
+possuo.&raquo; Martinho
+ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
+preceptor continuou: &laquo;Aceitas a troca?&raquo;&#8213;Ora essa!
+exclamou Martinho,
+ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada
+de me ver entrar nesta bela carruagem!&raquo; E Martinho desatou a
+rir com a
+ideia da entrada triunfante na sua aldeia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram
+a
+descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma
+perna de pau e que a outra era t&atilde;o fraca, que se via
+obrigado a andar em
+duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou
+que era muito p&aacute;lido e que tinha cara de doente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sorriu para o rapazito com ar ben&eacute;volo, e
+disse-lhe:&#8213;Ent&atilde;o sempre
+desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas
+valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter <span class="pagenum">[25]</span>uma carruagem e
+andar bem vestido?&raquo;&#8213;Oh! n&atilde;o, por coisa nenhuma!
+replicou
+Martinho.&#8213;&laquo;Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria
+pobre, se
+tivesse sa&uacute;de. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e
+doente, sofro
+os meus males com paci&ecirc;ncia e fa&ccedil;o por ser alegre,
+dando gra&ccedil;as a Deus
+pelos bens que me concedeu na sua infinita miseric&oacute;rdia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se
+&eacute;s pobre e comes mal,
+tens for&ccedil;a e sa&uacute;de, coisas que valem mais que uma
+carruagem, e que n&atilde;o
+podem comprar-se com dinheiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[26]</span>
+<h2><a name="8"></a>Como um campon&ecirc;s
+aprendeu o Padre Nosso</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tinha o cora&ccedil;&atilde;o duro, e n&atilde;o dava
+esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
+confessor deu-lhe por penit&ecirc;ncia rezar sete vezes o Padre
+Nosso.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o
+alde&atilde;o.&raquo;
+<br />
+
+
+&laquo;Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por
+penit&ecirc;ncia dar a
+cr&eacute;dito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem
+pedir da
+minha parte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte de manh&atilde; apresentou-se o primeiro pobre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como te chamas? perguntou-lhe o campon&ecirc;s.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Padre&#8213;Nosso&#8213;Que&#8213;Estais&#8213;No&#8213;C&eacute;u, respondeu o
+pobre.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;E o teu apelido?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Seja&#8213;Santificado&#8213;O&#8213;Vosso&#8213;Nome.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao outro dia chega segundo pobre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como te chamas?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Venha&#8213;A&#8213;N&oacute;s&#8213;O&#8213;Vosso&#8213;Reino.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;E o teu apelido?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Seja&#8213;Feita&#8213;A&#8213;Vossa&#8213;Vontade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[27]</span>E partiu com o seu
+alqueire de trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Veio terceiro pobre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como te chamas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Assim&#8213;Na&#8213;Terra&#8213;Como&#8213;No&#8213;C&eacute;u.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;E o teu apelido?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Dai-nos&#8213;Hoje&#8213;O&#8213;P&atilde;o&#8213;Nosso&#8213;De&#8213;Cada&#8213;Dia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E levou o seu alqueire.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma
+forma at&eacute; chegar ao <i>Amen</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pouco tempo depois o confessor encontrou o alde&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Ent&atilde;o j&aacute; sabes o Padre
+Nosso?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o, sr. cura, sei s&oacute; os nomes e
+apelidos dos pobres a quem emprestei
+o meu trigo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Quais s&atilde;o? tornou o padre.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o alde&atilde;o enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada
+um se tinha
+apresentado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;J&aacute; v&ecirc;s, disse o confessor, que
+n&atilde;o era muito dif&iacute;cil aprender o Padre
+Nosso, porque j&aacute; o sabes perfeitamente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[28]</span>
+<h2><a name="9"></a>O talism&atilde;</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma
+ind&uacute;stria, mas
+com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
+que n&atilde;o era de espantar, porque o primeiro zelava os seus
+neg&oacute;cios com
+uma actividade infatig&aacute;vel, enquanto que o segundo, entregue
+inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da
+direc&ccedil;&atilde;o da
+sua casa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Explica-me, disse um dia este &uacute;ltimo ao seu
+colega, qual &eacute; a raz&atilde;o
+porque a sorte nos trata de um modo t&atilde;o diferente? Vendemos
+as mesmas
+mercadorias, a minha loja est&aacute; t&atilde;o bem situada
+como a tua, e apesar
+disso, enquanto tu ganhas, eu n&atilde;o fa&ccedil;o
+sen&atilde;o perder. E n&atilde;o &eacute; porque eu
+seja estroina; n&atilde;o bebo, nem jogo. J&aacute; tenho
+pensado algumas vezes se n&atilde;o
+ter&aacute;s tu por acaso algum precioso
+talism&atilde;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um
+talism&atilde; de uma
+virtude incompar&aacute;vel. Trago-o ao pesco&ccedil;o, e ando
+assim com ele todo o
+dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o
+celeiro. E o caso &eacute; que tudo me corre
+perfeitamente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[29]</span>&laquo;Ol&eacute;
+meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa
+rel&iacute;quia
+preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta
+restituo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Pois vem busc&aacute;-la amanh&atilde; de
+manh&atilde;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
+apresentou-lhe este uma avel&atilde;, atrav&eacute;s da qual
+tinha passado um
+fio de seda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O nosso homem p&ocirc;-la imediatamente ao pesco&ccedil;o, e
+come&ccedil;ou a correr toda a
+casa com o talism&atilde;. Observou ent&atilde;o a completa
+desordem que por toda a
+parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
+cozinha o p&atilde;o, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o
+trigo, o
+feij&atilde;o; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das
+manjedouras dos
+cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
+escriturados; viu tudo isto, e que era necess&aacute;rio dar-lhe
+rem&eacute;dio,
+compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substitu&iacute;do
+por
+terceira pessoa na direc&ccedil;&atilde;o dos seus
+neg&oacute;cios.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso
+talism&atilde;,
+agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em
+segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[30]</span>
+<h2><a name="10"></a>A alma</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Mam&atilde;, nem todas as crian&ccedil;as que morrem
+v&atilde;o para o Para&iacute;so. O outro dia
+vi levar para o cemit&eacute;rio um menino que tinha morrido; o seu
+pap&aacute; e as
+suas duas irm&atilde;zinhas acompanhavam o caix&atilde;o, e
+choravam tanto que me
+fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau,
+n&atilde;o &eacute;
+verdade?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma,
+enquanto choravam seus
+pais e suas irm&atilde;s, j&aacute; estava vivendo feliz no
+Para&iacute;so.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;A alma? mam&atilde;; n&atilde;o sei o que
+&eacute;; n&atilde;o compreendo bem.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as
+duas
+pequerruchas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Tive sim, mam&atilde;, tive muita pena.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Ora bem, o que &eacute; que no teu corpo estava
+desconsolado e triste? eram os
+bra&ccedil;os?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o, mam&atilde;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Eram as orelhas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Oh! n&atilde;o mam&atilde;, era <i>c&aacute;
+dentro</i>.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Esse <i>l&aacute; dentro</i>, Maria,
+&eacute; a tua alma que se alegra ou se entristece,
+que te repreende quando fazes o mal, e que est&aacute; satisfeita
+quando
+praticas o bem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[31]</span>
+<h2><a name="11"></a>Alberto</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus
+irm&atilde;os, que eram activos e laboriosos, plantar
+&aacute;rvores e fazer
+sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um
+&uacute;nico
+feij&atilde;o produzir cem feij&otilde;es e muitas vezes mais,
+e de uma talhada de
+batata nascerem quarenta batatas magn&iacute;ficas; sabia que a
+terra pagava
+com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
+quarto do pai, e foi enterr&aacute;-la imediatamente no seu
+jardinzinho. &laquo;H&aacute;-de
+nascer uma &aacute;rvore, dizia ele consigo, que dar&aacute;
+libras como uma
+cerejeira d&aacute; cerejas, e irei entreg&aacute;-las ao
+pap&aacute;, que ficar&aacute; muito
+contente.&raquo; Todas as manh&atilde;s ia ver se a libra tinha
+nascido, mas n&atilde;o
+rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte.
+Por
+fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vi pap&aacute;; achei-a e fui
+seme&aacute;-la.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como, seme&aacute;-la? doido! julgas talvez que vai
+nascer como uma couve?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Mas, pap&aacute;, ouvi dizer que o oiro se encontrava na
+terra.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;&Eacute; verdade, mas n&atilde;o nasce como uma
+semente; o oiro n&atilde;o tem vida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[32]</span>Desenterrou-se a
+libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
+n&atilde;o pertencia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+H&aacute; contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro,
+fazendo-lhe
+produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como
+&eacute;? &Eacute; dando-o aos pobres. Faz-se no
+Para&iacute;so a colheita dessa sementeira.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[33]</span>
+<h2><a name="12"></a>A
+can&ccedil;&atilde;o da cerejeira</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Disse Deus na Primavera: &laquo;Ponham a mesa &agrave;s
+lagartas!&raquo; E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de folhas, milh&otilde;es de folhas,
+fresquinhas e
+verdejantes.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou,
+espregui&ccedil;ou-se,
+abriu a boca, esfregou os olhos e p&ocirc;s-se a comer
+tranquilamente as
+folhinhas tenras, dizendo: &laquo;N&atilde;o se pode a gente
+despegar delas. Quem &eacute;
+que me arranjou este banquete?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ent&atilde;o Deus disse de novo: &laquo;Ponham a mesa
+&agrave;s abelhas!&raquo; E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de flores, milh&otilde;es de flores
+delicadas e
+brancas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas,
+dizendo: &laquo;Vamos tomar o nosso caf&eacute;; e que
+ch&aacute;venas t&atilde;o bonitas em que o
+deitaram!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Provou com a linguita, exclamando: &laquo;Que deliciosa bebida!
+N&atilde;o pouparam o
+a&ccedil;&uacute;car!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No Ver&atilde;o disse Deus: &laquo;Ponham a mesa aos
+passarinhos!&raquo; E a cerejeira
+cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[34]</span>&laquo;Ah! ah!
+exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasi&atilde;o; temos
+apetite,
+e isto dar-nos-&aacute; novas for&ccedil;as para podermos
+cantar uma nova can&ccedil;&atilde;o.&raquo; No
+Outono disse Deus: &laquo;Levantai a mesa, j&aacute;
+est&atilde;o satisfeitos.&raquo; E o vento
+frio das montanhas come&ccedil;ou a soprar, e fez estremecer a
+&aacute;rvore.<br />
+
+
+<br />
+
+
+As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, ca&iacute;ram uma a
+uma, e o
+vento que as lan&ccedil;ou ao ch&atilde;o erguia-as novamente,
+fazendo-as esvoa&ccedil;ar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegou o Inverno e disse Deus: &laquo;Cobri o resto!&raquo; E
+os turbilh&otilde;es dos
+ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[35]</span>
+<h2><a name="13"></a>Os gigantes da montanha e
+os an&otilde;es da plan&iacute;cie</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma fam&iacute;lia de gigantes, que viviam num castelo
+na
+montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum
+&aacute;lamo. Era curiosa e andava com vontade de descer
+&agrave; plan&iacute;cie a ver o que
+faziam l&aacute; em baixo os homens, que de cima do monte lhe
+pareciam an&otilde;es.
+Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido &agrave;
+ca&ccedil;a e sua m&atilde;e estava
+dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os
+jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os
+lavradores, coisas inteiramente novas para ela. &laquo;Oh! que
+lindos
+brinquedos!&raquo; exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o
+avental, que
+quase que cobriu o campo. Lan&ccedil;ou-lhe dentro os homens, os
+cavalos, a
+charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo,
+onde seu pai estava a jantar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que trazes a&iacute;, minha filha?&raquo; perguntou ele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos.
+S&atilde;o os
+mais bonitos que tenho visto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E p&ocirc;-los em cima da mesa, a um e um,&#8213;os cavalos, a charrua e
+os
+trabalhadores, que estavam <span class="pagenum">[36]</span>todos
+espantados, como formigas a quem
+tivessem transportado dum formigueiro para um sal&atilde;o. A
+gigantinha
+p&ocirc;s-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o
+gigante
+fez-se s&eacute;rio e franziu o sobrolho. &laquo;Fizeste mal,
+disse-lhe ele. Isso
+n&atilde;o s&atilde;o brinquedos, mas coisas e pessoas que
+devem estimar-se e
+respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e
+p&otilde;e-no
+imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
+montanha, morreriam de fome, se os an&otilde;es da
+plan&iacute;cie deixassem de lavrar
+a terra e de semear o trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+<h2><a name="14"></a>A crian&ccedil;a, a
+anjo e flor</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando morre uma crian&ccedil;a, desce um anjo do c&eacute;u,
+toma-a nos bra&ccedil;os, e
+desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os
+s&iacute;tios que
+ela amara durante a sua pequenina exist&ecirc;ncia; o anjo
+abaixa-se de
+quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que
+flores&ccedil;am
+no para&iacute;so ainda mais belas do que tinham sido na terra.
+Deus recebe
+todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os l&aacute;bios, e
+a flor
+escolhida, adquirindo voz imediatamente, come&ccedil;a a cantar os
+coros
+maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma
+crian&ccedil;a morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram
+primeiro
+sobre a casa em que a crian&ccedil;a brincara, e depois sobre
+jardins
+deliciosos, cobertos de flores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Qual &eacute; a flor que desejas para plantar no
+para&iacute;so?&raquo; perguntou o anjo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
+magn&iacute;fica; mas quebraram-lhe o p&eacute;, e todos os
+seus ramos cheios de
+bot&otilde;ezinhos lind&iacute;ssimos pendiam estiolados para o
+ch&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Pobre roseira! disse a crian&ccedil;a ao anjo; vamos
+busc&aacute;-la para que possa
+reflorir no para&iacute;so.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[38]</span>O anjo foi
+busc&aacute;-la, e abra&ccedil;ou a crian&ccedil;a.
+Colheram muitas flores
+brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A colheita estava terminada, e contudo n&atilde;o voavam ainda para
+Deus. Caiu
+a noite silenciosa, e a crian&ccedil;a e o seu guia Divino andavam
+ainda por
+cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
+de cacos de lou&ccedil;a, de vidros partidos, de farrapos, de toda
+a casta de
+imund&iacute;cie. Entre estes destro&ccedil;os distinguiu o
+anjo um vaso de flores
+com a terra pelo ch&atilde;o, onde pendiam as longas
+ra&iacute;zes duma flor dos
+campos, j&aacute; murcha, e que parecia n&atilde;o poder
+reverdecer: tinham-na
+atirado para a rua como in&uacute;til e morta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vale a pena levant&aacute;-la disse o anjo; levemo-la, e
+pelo caminho, voando,
+te contarei a hist&oacute;ria da florinha. L&aacute; ao fundo,
+l&aacute; ao fundo, naquela
+rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma crian&ccedil;a
+miser&aacute;vel e
+doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear
+com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos
+dias
+de Ver&atilde;o os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante
+meia hora.
+Ent&atilde;o a crian&ccedil;a sentada &agrave; janela,
+aquecida pelo sol, sem o cansa&ccedil;o do
+andar, imaginava-se passeando; n&atilde;o conhecia da floresta, da
+fresca
+verdura da primavera, sen&atilde;o o ramo de faia, que uma vez o
+filho do
+vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabe&ccedil;a
+o ramo
+verdejante, e, supondo-se debaixo das &aacute;rvores abrigadas do
+sol, sonhava
+com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe
+flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda
+ra&iacute;zes; <span class="pagenum">[39]</span>o
+pequerrucho plantou-a num vaso, e p&ocirc;-lo &agrave; janela,
+junto da
+cama. A flor plantada por m&atilde;o aben&ccedil;oada, cresceu,
+tornou-se grande, e
+todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu
+&uacute;nico
+tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
+aproveitar os raios do sol at&eacute; ao &uacute;ltimo. A flor
+aparecia-lhe em
+sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e
+ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se
+voltou.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no
+para&iacute;so; a sua querida
+flor, esquecida &agrave; janela desde ent&atilde;o, murchou,
+estiolou-se e
+atiraram-na &agrave; rua finalmente. E contudo esta flor quase seca
+&eacute; o
+tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
+canteiros dum jardim realengo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como sabes tu isso?&raquo; perguntou a
+crian&ccedil;a, que o anjo levava para o c&eacute;u.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
+em muletas; como n&atilde;o havia de eu reconhecer a minha flor bem
+amada!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A crian&ccedil;a abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo
+quando entravam
+no c&eacute;u onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas
+flores,
+levou-as ao cora&ccedil;&atilde;o, mas a que ele beijou foi a
+florinha silvestre,
+desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente,
+p&ocirc;s-se a cantar
+com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe,
+formando c&iacute;rculos que v&atilde;o aumentando
+sucessivamente, multiplicando-se
+at&eacute; ao infinito, povoados de <span class="pagenum">[40]</span>seres
+inteiramente felizes, cantando todos
+harmoniosamente&#8213;desde a crian&ccedil;a aben&ccedil;oada
+at&eacute; &agrave; humilde florinha do
+campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e
+tortuosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[41]</span>
+<h2><a name="15"></a>Presente por presente</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite
+&agrave; choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda
+n&atilde;o tinha chegado, foi
+a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
+p&ocirc;de, desculpando-se da miser&aacute;vel hospitalidade
+que lhe ia dar, porque
+eram batatas cozidas a &uacute;nica coisa que lhe poderia oferecer;
+cama n&atilde;o a
+tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
+morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que
+fais&otilde;es,
+e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de
+pr&iacute;ncipes. Ao
+outro dia pela manh&atilde; disse isto mesmo &agrave; pobre
+mulher, gratificando-a ao
+despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
+dito que a guardasse como uma pequena lembran&ccedil;a, a boa
+camponesa julgou
+que seria uma medalha, e sentiu que n&atilde;o tivesse um buraquito
+para a
+trazer ao pesco&ccedil;o. Quando o carvoeiro chegou a casa,
+contou-lhe logo o
+que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
+examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[42]</span>&laquo;Esse
+forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso pr&iacute;ncipe!<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o bom do homem n&atilde;o podia conter-se de alegria, por sua
+alteza ter
+achado as suas batatas melhores do que fais&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;&Eacute; necess&aacute;rio confessar, disse ele com
+um ar triunfante, que n&atilde;o h&aacute;
+talvez no mundo um terreno mais favor&aacute;vel do que este para a
+cultura das
+batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, j&aacute; que as acha
+t&atilde;o boas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E partiu imediatamente para o pal&aacute;cio com uma
+provis&atilde;o de batatas
+escolhidas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os lacaios e as sentinelas ao princ&iacute;pio n&atilde;o o
+queriam deixar entrar;
+mas insistiu energicamente, dizendo que n&atilde;o vinha pedir
+nada, e que pelo
+contr&aacute;rio vinha trazer alguma coisa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi, pois, introduzido na sala da audi&ecirc;ncia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Meu senhor, disse ele ao pr&iacute;ncipe: Vossa alteza
+dignou-se recentemente
+pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma pe&ccedil;a de
+ouro, em troca
+duma enxerga miser&aacute;vel e de um prato de batatas cosidas. Era
+pagar
+demasiadamente, apesar de serdes um pr&iacute;ncipe muito rico e
+poderoso. Eis
+o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
+batatas, que vos souberam melhor do que os vossos fais&otilde;es.
+Dignai-vos
+aceit&aacute;-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso
+hospede, l&aacute;
+as encontrareis sempre ao vosso dispor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A honrada simplicidade do campon&ecirc;s agradou ao
+pr&iacute;ncipe, e, como estava
+num momento de bom humor, fez-lhe doa&ccedil;&atilde;o de uma
+quinta com trinta
+jeiras de terra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[43]</span>Ora o carvoeiro
+tinha um irm&atilde;o muito rico, mas invejoso e avarento, que,
+sabendo da fortuna do irm&atilde;o mais novo, disse consigo:
+&laquo;Porque n&atilde;o me h&aacute;
+de suceder a mim outro tanto? O pr&iacute;ncipe gosta do meu
+cavalo, pelo
+qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer
+presente dele: se deu ao Jo&atilde;o uma quinta com trinta jeiras
+de terra,
+simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me
+h&aacute; de
+recompensar ainda mais generosamente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
+pal&aacute;cio; recomendou ao criado que o segurasse, e,
+atravessando com ar
+altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audi&ecirc;ncia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo;
+n&atilde;o
+tenho querido troc&aacute;-lo a dinheiro, mas dignai-vos
+permitir-me que vo-lo
+ofere&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pr&iacute;ncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria
+chegar, e disse
+consigo: &laquo;Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que
+mereces:<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois dirigindo-se a ele:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Aceito a tua d&aacute;diva, mas n&atilde;o sei como
+agradecer-ta condignamente. Oh!
+espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
+fais&otilde;es. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que
+&eacute; um bom
+pre&ccedil;o para um cavalo, que eu poderia ter comprado por
+sessenta libras.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[44]</span>
+<h2><a name="16"></a>O pinheiro ambicioso</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um pinheiro, que n&atilde;o estava contente com a sua
+sorte. &laquo;Oh!
+dizia ele, como s&atilde;o horrorosas estas linhas uniformes de
+agulhas
+verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
+orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar
+vestido
+de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O G&eacute;nio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela
+manh&atilde; acordou o
+pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
+pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
+mais sensatos do que ele, n&atilde;o invejavam a sua
+r&aacute;pida fortuna. &Agrave; noite
+passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num
+saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos p&eacute;s
+&agrave; cabe&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Oh! disse ele, que doido que eu fui! n&atilde;o me tinha
+lembrado da cobi&ccedil;a
+dos homens. Fiquei completamente despido. N&atilde;o h&aacute;
+agora em toda a
+floresta uma planta t&atilde;o pobre como eu. Fiz mal em pedir
+folhas de oiro;
+o oiro atrai as ambi&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ah! se eu arranjasse um vestu&aacute;rio de vidro! Era <span class="pagenum">[45]</span>deslumbrante, e o judeu
+avarento n&atilde;o me teria despido.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
+sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e
+orgulhoso,
+fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o c&eacute;u
+cobriu-se de
+nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as
+folhas de cristal.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra
+todo feito em
+peda&ccedil;os o seu manto cristalino. O oiro e o vidro
+n&atilde;o servem para vestir
+as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria
+menos brilhante, mas viveria descansado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cumpriu-se o seu &uacute;ltimo desejo, e, apesar de ter renunciado
+&agrave;s vaidades
+primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
+outros pinheiros seus irm&atilde;os. Mas passou por ali um rebanho
+de cabras, e
+vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas
+todas sem deixar uma &uacute;nica.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, j&aacute; queria
+voltar &agrave; sua
+forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
+sua sorte.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[46]</span>
+<h2><a name="17"></a>Perfei&ccedil;&atilde;o
+das obras de Deus</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! mam&atilde; quebrou-se-me a agulha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Vou-te dar outra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Como se fazem as agulhas, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc; se adivinhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;N&atilde;o sei, mam&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Conheces os metais?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Conhe&ccedil;o mam&atilde;; tenho
+l&aacute; dentro muitos bocadinhos dentro de
+uma caixa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ora muito bem, diz-me
+l&aacute;, as agulhas s&atilde;o de pau, de pedra, de
+m&aacute;rmore?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! n&atilde;o; s&atilde;o de
+metal; mas de que metal?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Antes de perguntar qualquer coisa,
+v&ecirc; sempre se a adivinhas
+primeiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Ora espere!... uma agulha &eacute; de
+metal: n&atilde;o &eacute; de prata, porque
+n&atilde;o &eacute; branca; n&atilde;o &eacute; de
+oiro, porque n&atilde;o &eacute; de um lindo amarelo muito
+brilhante; n&atilde;o &eacute; de cobre, porque n&atilde;o
+&eacute; de um amarelo muito feio, que
+cheira mal... Ent&atilde;o &eacute; de ferro, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Adivinhaste.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Mas, mam&atilde;, o ferro
+n&atilde;o &eacute; liso e brilhante como as agulhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[47]</span><i>A
+m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; que &eacute; primeiro polido
+e preparado de certo modo, e depois j&aacute;
+se n&atilde;o chama ferro, &eacute; a&ccedil;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Bem, as agulhas s&atilde;o de
+a&ccedil;o. Agora quero adivinhar como &eacute; que
+as fazem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute;
+imposs&iacute;vel, n&atilde;o &eacute;s capaz disso; mas
+hei de levar-te a uma
+f&aacute;brica onde se fazem agulhas. H&aacute;s-de
+v&ecirc;-las fazer, e h&aacute;s-de gostar
+muito.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Tinha vontade de saber como se fazem todas
+as coisas de que
+nos servimos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tens raz&atilde;o;
+&eacute; uma vergonha ignor&aacute;-lo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Mam&atilde;, deixe-me ver as suas
+agulhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Olha, a&iacute; tens o meu
+estojo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que
+lindas! S&atilde;o t&atilde;o
+fininhas, t&atilde;o fininhas!... Muita habilidade h&aacute;-de
+ser necess&aacute;ria para
+fazer uma coisinha t&atilde;o delicada!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Lembras-te de ver na feira um
+carrinho de marfim puxado por
+uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Lembro, mam&atilde;; era t&atilde;o
+bonito!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Li num jornal alem&atilde;o
+que um oper&aacute;rio chamado Nerlinger fez
+um copo de um gr&atilde;o de pimenta, e que dentro deste copo havia
+mais
+doze...<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Que pequeninos deviam ser os doze copos
+para caberem num
+gr&atilde;o de pimenta!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;E ainda n&atilde;o
+&eacute; tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas
+doiradas, e sustentava-se no p&eacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Que vontade eu tinha de ver isso!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tens raz&atilde;o de te
+admirares da habilidade dos homens. &Eacute;
+efectivamente espantoso, e <span class="pagenum">[48]</span>deve
+saber-se, o modo porque se fabricam
+certas coisas; contudo ainda h&aacute; outras obras mais dignas de
+admira&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Quais, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;J&aacute; to digo. (<i>Levanta-se.</i>)<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Que quer, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Quero que vejas o
+microsc&oacute;pio de teu pap&aacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Pois sim; eu gosto de olhar pelo
+microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Este &eacute;
+magn&iacute;fico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais
+ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como
+&eacute; fina,
+lisa e brilhante... Agora olha; o que &eacute; que v&ecirc;s?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Meu Deus, que coisa t&atilde;o feia!
+Que agulha t&atilde;o grosseira!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc;s-lhe buracos, riscos,
+asperezas, n&atilde;o &eacute; verdade?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Parece um prego muito grande e muito mal
+feito.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Pois todas essas
+imperfei&ccedil;&otilde;es s&atilde;o verdadeiras, existem
+na
+agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, &eacute; que
+n&atilde;o d&aacute; por elas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;O oper&aacute;rio que fez esta agulha
+ficaria envergonhado, se a
+visse ao microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tiremos a agulha, e vejamos outra
+coisa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;O qu&ecirc;, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;O aguilh&atilde;ozinho de uma
+abelha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! que pequenino, que bonito!... Como
+&eacute; liso, como &eacute;
+brilhante!... Mas j&aacute; sei que visto ao microsc&oacute;pio
+h&aacute; de acontecer o
+mesmo que com a agulha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[49]</span><i>A
+m&atilde;e.</i>&#8213;Pronto: olha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha</i> (olhando).&#8213;&Eacute; esquisito,
+mam&atilde;!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ent&atilde;o?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Aumentou, aumentou como a agulha, mas
+n&atilde;o &eacute; &aacute;spero, pelo
+contrario, &eacute; perfeitamente liso... A agulha parecia que
+n&atilde;o tinha ponta,
+e o ferr&atilde;ozinho da abelha tem uma ponta t&atilde;o fina
+como um cabelo. Porque
+ser&aacute; isto, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; porque o
+oper&aacute;rio que fez este aguilh&atilde;o &eacute; muito
+mais h&aacute;bil
+do que o que fez a agulha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Quem &eacute; esse oper&aacute;rio
+t&atilde;o h&aacute;bil?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; o mesmo que fez o
+c&eacute;u, os astros, a terra, as plantas e as
+criaturas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;&Eacute; Deus.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Exactamente. Pois n&atilde;o
+&eacute; Deus que fez as abelhas e todos os
+animais?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;De certo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Foi ele por conseguinte que fez o
+aguilh&atilde;o desta abelha; e
+a&iacute; tens porque o aguilh&atilde;o &eacute; superior
+&agrave; agulha: &eacute; obra de Deus. Mas
+continuemos a olhar pelo microsc&oacute;pio. Aqui est&aacute;
+um pedacinho de
+musselina fin&iacute;ssima. Olha pelo microsc&oacute;pio; o que
+&eacute; que v&ecirc;s?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal
+feita.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Aqui tens agora um pedacinho de
+renda delicad&iacute;ssima.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Essa estou bem certa que h&aacute; de
+ser linda, mesmo vista pelo
+microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ent&atilde;o?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;&Eacute; horrorosa... Parece feita de
+pelos grosseiros com grandes
+buracos desiguais.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;As obras do homem s&atilde;o
+todas assim.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[50]</span><i>A filha.</i>&#8213;Oh!
+mam&atilde;, vejamos agora as obras de Deus.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Sabes o que &eacute; isto?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Sei, mam&atilde;, &eacute; um
+casulo de bicho de seda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Os fiozinhos que o
+comp&otilde;em s&atilde;o muito finos, muito lisos; olha
+pelo microsc&oacute;pio a ver se te parecem desiguais.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha</i> (olhando pelo
+microsc&oacute;pio).&#8213;N&atilde;o, mam&atilde;; os fios
+s&atilde;o todos
+iguais, e o casulo &eacute; sempre muito liso, muito brilhante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; porque &eacute;
+obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que h&aacute;
+sobre este papel?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas
+redondas feitas
+tamb&eacute;m com tinta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Estes pontinhos e estas manchas
+parecem-te perfeitamente
+redondos?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Sim, mam&atilde;, perfeitamente
+redondos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc;-os agora ao
+microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! j&aacute; n&atilde;o
+s&atilde;o redondos, s&atilde;o todos desiguais.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tira o papel; vejamos a obra de
+Deus. &Eacute; uma asa de borboleta;
+v&ecirc;s que est&aacute; mosqueada de pequeninas manchas
+redondas; olha pelo
+microsc&oacute;pio; o que &eacute; que v&ecirc;s?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Vejo a mesma coisa que via sem o vidro,
+s&oacute; com a diferen&ccedil;a
+que agora &eacute; maior. Que belas que s&atilde;o as obras de
+Deus!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Merece bem a pena
+estud&aacute;-las.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;De certo. Farei sempre por isso,
+comparando-as com as obras
+dos homens.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;E sempre e em tudo
+h&aacute;s-de encontrar defeitos nas obras do
+homem, enquanto que <span class="pagenum">[51]</span>as
+obras de Deus, quanto mais se observam, mais
+perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
+primeira &eacute; que Deus merece tanto a nossa
+admira&ccedil;&atilde;o como o nosso amor; a
+segunda &eacute; que os homens orgulhosos s&atilde;o
+insensatos, porque n&atilde;o podem
+fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras
+mais primorosas s&atilde;o cheias de
+imperfei&ccedil;&otilde;es, se as compararmos com as
+obras do Criador.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[52]</span>
+<h2><a name="18"></a>Jo&atilde;o e os seus
+camaradas</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma vi&uacute;va com um filho &uacute;nico. Ao cabo
+dum Inverno rigoroso,
+possu&iacute;a apenas um galo, e meio alqueire de farinha.
+Jo&atilde;o resolveu-se a
+correr mundo, &agrave; busca de fortuna. A m&atilde;e cozeu o
+resto da farinha, matou
+o galo, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;O que &eacute; que preferes: metade desta merenda com a
+minha b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, ou toda
+com a minha maldi&ccedil;&atilde;o?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros
+h&aacute; no
+mundo eu quereria a tua maldi&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Bem, meu filho, replicou a m&atilde;e carinhosamente.
+Leva tudo, e Deus te
+aben&ccedil;oe.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E partiu. Foi andando, andando, at&eacute; que encontrou um
+jumento, que tinha
+ca&iacute;do num atoleiro, donde n&atilde;o podia sair.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Oh! Jo&atilde;o, exclamou o burro, tira-me daqui, que
+estou quase a
+afogar-me.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Espera, respondeu Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, formando uma ponte com pedras e ramos de &aacute;rvores,
+conseguiu tirar o
+quadr&uacute;pede do atoleiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[53]</span>&laquo;Obrigado,
+disse-lhe ele, aproximando-se de Jo&atilde;o. Se te posso ser
+&uacute;til,
+aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha
+vida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Queres tu que eu te acompanhe?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Anda da&iacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E puseram-se a caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao passarem por uma aldeia, viram um c&atilde;o perseguido pelos
+rapazes da
+escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
+animal correu para Jo&atilde;o que o acariciou, e o jumento
+p&ocirc;s-se a ornear de
+tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Obrigado, disse o rafeiro a Jo&atilde;o. Se para alguma
+coisa te for
+prest&aacute;vel, aqui me tens &agrave;s tuas ordens. Aonde
+vais tu?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha
+vida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Queres que te acompanhe?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Anda da&iacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando sa&iacute;ram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno
+tirou a
+merenda do alforge, e repartiu-a com o c&atilde;o. O burro pastou
+alguma erva
+que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar
+lastimosamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Coitado, exclamou Jo&atilde;o!&raquo; E deu-lhe uma asa do
+frango.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Obrigado disse o gato. Oxal&aacute; que um dia eu te
+possa ser &uacute;til. Aonde
+vais tu?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;De boa vontade.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[54]</span>Os quatro viajantes
+puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um
+grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
+galo na boca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Agarra! agarra!&raquo; bradou o pequeno ao
+c&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E no mesmo instante o c&atilde;o atirou-se atr&aacute;s da
+raposa, que, vendo-se em
+perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente
+disse a Jo&atilde;o:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde
+vais tu?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Arranjar trabalho. Queres vir connosco?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;De boa vontade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o anda. Se te cansares, empoleira-te no
+jumento.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro.
+Sentiram-se todos fatigados e n&atilde;o avistavam &agrave;
+roda nem uma quinta, nem
+uma cabana.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Paci&ecirc;ncia, disse Jo&atilde;o, outra vez
+seremos mais felizes. Resignemo-nos
+hoje a dormir ao ar livre; al&eacute;m disso a noite
+est&aacute; sossegada, e a relva
+&eacute; macia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dito isto estendeu-se no ch&atilde;o; o jumento deitou-se ao lado
+dele, o c&atilde;o
+e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo
+empoleirou-se numa &aacute;rvore.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dormiam todos um sono profund&iacute;ssimo, quando de repente o
+galo come&ccedil;ou
+a cantar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Que dem&oacute;nio! disse o jumento acordando todo
+zangado. Porque &eacute; que
+est&aacute;s a gritar?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Porque j&aacute; &eacute; dia, respondeu o galo.
+N&atilde;o v&ecirc;s ao longe a luz da
+madrugada, que vem rompendo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[55]</span>&#8213;&laquo;Vejo
+uma luz, disse Jo&atilde;o, mas n&atilde;o &eacute; do sol,
+&eacute; duma lanterna.
+Provavelmente h&aacute; ali alguma casa, onde nos
+poder&iacute;amos recolher o resto
+da noite.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando,
+atrav&eacute;s
+dos campos, at&eacute; que parou junto da casa do guarda dum grande
+castelo,
+donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
+blasf&eacute;mias horr&iacute;veis.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Escutem, disse Jo&atilde;o; vamos devagarinho, muito devagarinho,
+a ver quem
+&eacute; que est&aacute; l&aacute; dentro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram seis ladr&otilde;es armados de pistolas e de punhais, que se
+banqueteavam
+alegremente, sentados a uma mesa principesca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Que bom assalto acab&aacute;mos de dar, disse um deles,
+ao castelo do
+conde, gra&ccedil;as ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que
+&eacute; este
+porteiro. &Agrave; sua sa&uacute;de!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;&Agrave; sa&uacute;de do nosso amigo!&raquo;
+repetiram em coro todos os ladr&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E dum trago despejaram os copos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz
+baixa:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que
+vos der
+sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria
+diab&oacute;lica.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O burro, levantando-se nas patas traseiras, lan&ccedil;ou as
+m&atilde;os ao peitoril
+duma janela, o c&atilde;o trepou-lhe &agrave;
+cabe&ccedil;a, o gato &agrave; cabe&ccedil;a do
+c&atilde;o e o
+galo &agrave; cabe&ccedil;a do gato. Jo&atilde;o deu o
+sinal, e estoirou &agrave; uma o ornear do
+jumento, os latidos do c&atilde;o, o miar do gato e os gritos
+estridentes do
+galo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p56">[56]</a></span>&#8213;&laquo;Agora,
+bradou Jo&atilde;o, fingindo que comandava um destacamento,
+carregar
+armas! Dai-me cabo dos ladr&otilde;es; fogo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando
+cada vez mais; os ladr&otilde;es atemorizados refugiaram-se no
+bosque, saindo
+precipitadamente por uma porta falsa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o e os seus companheiros penetraram na sala abandonada,
+comeram um
+excelente jantar, e deitaram-se em seguida&#8213;Jo&atilde;o numa cama, o
+burro na
+cavalari&ccedil;a, o c&atilde;o numa esteira ao p&eacute;
+da porta, o gato junto do fog&atilde;o e
+o galo num poleiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao principio os ladr&otilde;es ficaram muito contentes, por se
+verem s&atilde;os e
+salvos na floresta. Mas depois, come&ccedil;aram a reflectir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Era bem melhor a minha cama, do que esta erva
+t&atilde;o h&uacute;mida, disse um
+deles.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Tenho pena do frango que eu come&ccedil;ava a saborear,
+disse um outro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;E o que &eacute; mais lament&aacute;vel, exclamou
+um quarto, &eacute; ficar-nos l&aacute; todo o
+dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, t&iacute;nhamos
+tirado das
+gavetas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vou ver se torno l&aacute; a <a href="#e1">entrar!</a>
+disse o capit&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bravo! exclamaram os ladr&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E p&ocirc;s-se a caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+J&aacute; n&atilde;o havia luz na casa; o capit&atilde;o
+entrou &agrave;s apalpadelas, e dirigiu-se
+para o fog&atilde;o; o gato saltou-lhe &agrave; cara e
+esfarrapou-lha com as garras.
+<span class="pagenum">[57]</span>Soltou um grito
+doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
+rabo do c&atilde;o, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo,
+e conseguiu
+por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo
+atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Anda o diabo nesta casa! exclamou o capit&atilde;o, como poderei
+eu sair!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julgou encontrar ref&uacute;gio na estrebaria; mas o burro
+atirou-lhe uma
+parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do ch&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que n&atilde;o
+tinha nem
+pernas nem bra&ccedil;os partidos, ergueu-se e tornou para a
+floresta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o? ent&atilde;o?&#8213;perguntaram-lhe os camaradas assim
+que o viram.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para
+me deitar e cataplasmas de linha&ccedil;a para p&ocirc;r neste
+corpo, que o trago
+num feixe. N&atilde;o podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui
+assaltado
+por uma velha que estava a cardar l&atilde;, e arrumou-me na cara
+com o
+sedeiro, deixando-me neste miser&aacute;vel estado. Quando ia a
+sair a porta,
+um dem&oacute;nio dum remend&atilde;o atravessou-me as pernas
+com a sovela. Logo
+depois Satan&aacute;s em pessoa atirou-se a mim,
+despeda&ccedil;ando-me com as garras.
+Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se
+voc&ecirc;s me n&atilde;o
+acreditam, v&atilde;o l&aacute;, e experimentem.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
+ensanguentado: N&atilde;o seremos n&oacute;s que l&aacute;
+tornaremos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pela manh&atilde;, Jo&atilde;o e os seus camaradas
+almo&ccedil;aram <span class="pagenum"><a name="p58">[58]</a></span>ainda excelentemente,
+e
+partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os
+ladr&otilde;es
+lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos,
+com que carregou o jumento. Foram andando, andando, at&eacute; que
+chegaram &agrave;
+porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com
+uma libr&eacute; espl&ecirc;ndida, meias de seda,
+cal&ccedil;&otilde;es escarlates e cabelo
+empoado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a <a href="#e2">Jo&atilde;o:</a><br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que vindes aqui buscar? N&atilde;o h&aacute; lugar para os
+recolher, v&atilde;o-se <a href="#e3">embora.</a>&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o queremos nada de ti, respondeu Jo&atilde;o. O dono
+do castelo far-nos-&aacute;
+um bom acolhimento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
+andar imediatamente, quando n&atilde;o atiro-lhes j&aacute;
+&agrave;s pernas os meus c&atilde;es de
+fila.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Perd&atilde;o, s&oacute; um instante, replicou o galo
+empoleirado na cabe&ccedil;a do
+jumento; n&atilde;o me poderias dizer quem &eacute; que abriu
+aos ladr&otilde;es na noite
+passada a porta do castelo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O porteiro corou. O conde que estava &agrave; janela, disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Oacute; Bernab&eacute;, responde ao que esse galo te acaba de
+perguntar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, replicou Bernab&eacute;, este galo &eacute; um
+miser&aacute;vel. N&atilde;o fui eu que
+abri a porta aos seis ladr&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como &eacute; ent&atilde;o, meu velhaco, tornou o conde, que
+tu sabes que eram seis?<br />
+
+
+<br />
+
+
+Seja como for, disse Jo&atilde;o, aqui lhe trazemos o <span class="pagenum">[59]</span>dinheiro roubado,
+pedindo-lhe unicamente que nos d&ecirc; de jantar e nos recolha
+esta noite,
+porque vimos cansados do caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ficai certos que sereis bem tratados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O burro, o c&atilde;o e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato
+ficou na
+cozinha. E enquanto a Jo&atilde;o, o conde reconhecido, vestiu-o
+dos p&eacute;s &agrave;
+cabe&ccedil;a com um vestu&aacute;rio magn&iacute;fico,
+deu-lhe um rel&oacute;gio de ouro, e
+disse-lhe:<br />
+
+
+&#8213;Queres ficar comigo? &Eacute;s esperto e honrado, ser&aacute;s
+o meu intendente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha
+m&atilde;e para o p&eacute; de si.
+Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre
+felic&iacute;ssimo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[60]</span>
+<h2><a name="19"></a>O rabequista</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma
+igreja magn&iacute;fica a Santa Cec&iacute;lia, padroeira dos
+m&uacute;sicos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+As rosas mais vermelhas e os l&iacute;rios mais c&acirc;ndidos
+enfeitavam o altar. O
+vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de
+oiro,
+feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava
+constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi l&aacute;
+em romaria
+um pobre rabequista, p&aacute;lido, magro, escaveirado. Como a
+jornada tinha
+sido muito longa, estava cansado, e j&aacute; no seu alforge
+n&atilde;o havia p&atilde;o nem
+dinheiro no bolso para o comprar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim que entrou na capela, come&ccedil;ou a tocar na sua rabeca
+com tal
+suavidade, com tanta express&atilde;o, que a santa ficou
+enternecida ao v&ecirc;-lo
+t&atilde;o pobre e ao escutar aquela m&uacute;sica deliciosa.
+Quando terminou, Santa
+Cec&iacute;lia abaixou-se, descal&ccedil;ou um dos seus ricos
+sapatos de ouro, e deu-o
+ao pobre m&uacute;sico, que tonto de alegria, dan&ccedil;ando,
+cantando, chorando,
+correu &agrave; loja dum ourives para lho vender. O ourives,
+reconhecendo o
+sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o &agrave;
+presen&ccedil;a <span class="pagenum">[61]</span>do
+juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado
+&agrave; morte.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegara o dia da execu&ccedil;&atilde;o. Os sinos dobravam
+lastimosamente, e o cortejo
+p&ocirc;s-se em marcha ao som dos c&acirc;nticos dos frades,
+que ainda assim n&atilde;o
+chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como
+&uacute;ltima gra&ccedil;a, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca
+at&eacute; ao &uacute;ltimo momento.
+O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam
+suplicou o triste desgra&ccedil;ado, que o levassem l&aacute;
+dentro para tocar a sua
+derradeira melodia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
+ajoelhou aos p&eacute;s da santa, e debulhado em
+l&aacute;grimas come&ccedil;ou a tocar.
+Ent&atilde;o o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa
+Cec&iacute;lia curvar-se de
+novo, descal&ccedil;ar o outro sapato e met&ecirc;-lo nas
+m&atilde;os do infeliz m&uacute;sico. &Agrave;
+vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o
+rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente
+prestar-lhe as mais honrosas homenagens.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[62]</span>
+<h2><a name="20"></a>Os p&ecirc;ssegos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco
+p&ecirc;ssegos
+magn&iacute;ficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes
+frutos,
+extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria.
+&Agrave;
+noite o pai perguntou-lhes:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o comeram os p&ecirc;ssegos?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o
+caro&ccedil;o, e
+hei-de plant&aacute;-lo para nascer uma
+&aacute;rvore.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fizeste bem, respondeu o pai, &eacute; bom ser
+econ&oacute;mico e pensar no futuro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse o mais novo, o meu p&ecirc;ssego comi-o logo, e a
+mam&atilde; ainda me deu
+metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade
+n&atilde;o admira;
+espero que quando fores maior te h&aacute;s-de corrigir.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pois eu c&aacute;, disse um terceiro, apanhei o caro&ccedil;o
+que o meu irm&atilde;o deitou
+fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz.
+Vendi
+o meu p&ecirc;ssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando
+for &agrave;
+cidade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pai meneou a cabe&ccedil;a:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[63]</span>&#8213;Foi uma ideia
+engenhosa, mas eu preferia menos c&aacute;lculo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E tu, Eduardo, provaste o teu p&ecirc;ssego?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho,
+ao Jorge, que est&aacute; coitadinho com febre. Ele n&atilde;o
+o queria, mas
+deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora bem, perguntou o pai, qual de v&oacute;s &eacute; que
+empregou melhor o p&ecirc;ssego
+que eu lhe dei?<br />
+
+
+<br />
+
+
+E os tr&ecirc;s pequenos disseram &agrave; uma:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Foi o mano Eduardo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Este no entanto n&atilde;o dizia palavra, e a m&atilde;e
+abra&ccedil;ou-o com os olhos
+arrasados de l&aacute;grimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[64]</span>
+<h2><a name="21"></a>A urna das
+l&aacute;grimas</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma vi&uacute;va, que tinha uma filhinha muito linda, a
+quem
+adorava sobre todas as coisas. N&atilde;o se separava dela um
+s&oacute; momento; mas
+um dia a pobre pequerrucha come&ccedil;ou a sofrer, adoeceu e
+morreu. A
+desditosa m&atilde;e, que tinha passado as noites e os dias, sem
+repousar um
+momento, &agrave; cabeceira da filha, julgou endoidecer de
+m&aacute;goa e de saudades.
+N&atilde;o comia, n&atilde;o fazia sen&atilde;o chorar e
+lamentar-se. Uma noite em que estava
+acabrunhada, chorando no mesmo s&iacute;tio em que a filha tinha
+morrido,
+abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua
+querida filha, sorrindo com uma express&atilde;o
+ang&eacute;lica e trazendo nas m&atilde;os
+uma urna, que vinha cheia at&eacute; &agrave;s bordas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Oh! minha querida m&atilde;e, disse-lhe ela,
+n&atilde;o chores mais. Olha, o anjo
+das l&aacute;grimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais,
+transbordar&aacute;, e as tuas l&aacute;grimas
+correr&atilde;o sobre mim, inquietando-me no
+t&uacute;mulo e perturbando a minha felicidade no
+para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pequenina desapareceu, e a m&atilde;e n&atilde;o tornou a
+chorar para a n&atilde;o
+afligir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[65]</span>
+<h2><a name="22"></a>Reconhecimento e
+ingratid&atilde;o</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os vossos filhos ser&atilde;o para v&oacute;s como
+v&oacute;s tiverdes sido para vossos pais.
+E &eacute; natural. As crian&ccedil;as v&ecirc;em
+diariamente o que fazem seus pais, e
+imitam-nos. Justifica-se desta maneira o prov&eacute;rbio que
+diz,&#8213;que a
+b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o ou a
+maldi&ccedil;&atilde;o dum pai cai sobre a cabe&ccedil;a de
+seus filhos,
+terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem
+ser meditados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um pr&iacute;ncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que
+andava muito
+satisfeito, a lavrar a terra. P&ocirc;s-se a conversar com ele.
+Depois
+de algumas perguntas, soube que o campo n&atilde;o pertencia ao
+homem, mas que
+trabalhava nele mediante um sal&aacute;rio de doze
+vint&eacute;ns por dia. O
+pr&iacute;ncipe, que para as suas despesas de
+administra&ccedil;&atilde;o e
+representa&ccedil;&atilde;o
+necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
+como se vivia com doze vint&eacute;ns di&aacute;rios,
+andando-se ainda por cima
+satisfeito. Manifestou o seu espanto ao alde&atilde;o, que lhe
+respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Gasto diariamente comigo a ter&ccedil;a parte dessa
+quantia; outro ter&ccedil;o &eacute;
+para pagar as minhas dividas; <span class="pagenum">[66]</span>e
+o resto &eacute; para ir juntando algumas
+economias.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era um novo enigma para o pr&iacute;ncipe. Mas o alegre
+campon&ecirc;s explicou-lho
+deste modo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que
+j&aacute; n&atilde;o podem
+trabalhar, e com os meus filhos, que ainda n&atilde;o t&ecirc;m
+for&ccedil;a para isso. Aos
+primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
+inf&acirc;ncia; e espero que os segundos n&atilde;o me
+abandonem, quando os anos
+tiverem pesado sobre mim.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pr&iacute;ncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado
+campon&ecirc;s; encarregou-se
+da educa&ccedil;&atilde;o de seus filhos; e a
+b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o que lhe deram os seus velhos
+pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando
+igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna
+dedica&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas posso desgra&ccedil;adamente citar-vos outro filho, que
+procedeu duma
+maneira t&atilde;o indigna com seu velho pai doente e aleijado, que
+este teve
+de pedir que o levassem para o hospital da miseric&oacute;rdia. O
+filho ingrato
+recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde
+foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
+muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como
+&uacute;ltima
+esmola, um par de len&ccedil;&oacute;is, para cobrir a palha
+que lhe servia de leito.
+O mau filho escolheu os len&ccedil;&oacute;is mais usados, e
+disse ao seu pequeno, de
+dez anos de idade, que os fosse levar <i>a esse velho rabujento</i>.
+Mas
+notou que a crian&ccedil;a ao partir tinha escondido um dos
+len&ccedil;&oacute;is a um canto,
+atr&aacute;s da porta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[67]</span>Quando voltou
+perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Foi, respondeu a crian&ccedil;a desabridamente, para me
+servir mais tarde
+deste len&ccedil;ol, quando pela minha vez te mandar
+tamb&eacute;m para o hospital.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[68]</span>
+<h2><a name="23"></a>O fato novo do
+sult&atilde;o</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um sult&atilde;o, que despendia em vestu&aacute;rio
+todo o seu rendimento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
+teatro, n&atilde;o tinha outro fim sen&atilde;o mostrar os seus
+fatos novos. Mudava
+de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Est&aacute;
+no conselho;
+dizia-se dele: Est&aacute;-se a vestir. A capital do seu reino era
+uma cidade
+muito alegre, gra&ccedil;as &agrave; quantidade de estrangeiros
+que por ali passavam;
+mas chegaram l&aacute; um dia dois lar&aacute;pios, que,
+dando-se por tecel&otilde;es,
+disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo.
+N&atilde;o
+s&oacute; eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores,
+mas al&eacute;m
+disso os vestu&aacute;rios feitos com esse estofo,
+possu&iacute;am uma qualidade
+maravilhosa: tornavam-se invis&iacute;veis para os idiotas e para
+todos
+aqueles que n&atilde;o exercessem bem o seu emprego.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;S&atilde;o vestu&aacute;rios impag&aacute;veis, disse
+consigo o sult&atilde;o; gra&ccedil;as a eles,
+saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
+dos ministros. Preciso desse estofo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E mandou em seguida adiantar aos dois charlat&atilde;es <span class="pagenum">[69]</span>uma quantia avultada,
+para que pudessem come&ccedil;ar os trabalhos imediatamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que
+trabalhavam, apesar de n&atilde;o haver absolutamente nada nas
+lan&ccedil;adeiras.
+Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo
+isso
+muito bem guardado, trabalhando at&eacute; &agrave; meia noite
+com os teares vazios.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Preciso saber se a obra vai adiantada&raquo;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo n&atilde;o podia ser
+visto pelos
+idiotas. E, apesar de ter confian&ccedil;a na sua
+intelig&ecirc;ncia, achou prudente
+em todo o caso mandar algu&eacute;m adiante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
+estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vou mandar aos tecel&otilde;es o meu velho ministro, pensou o
+sult&atilde;o; tem um
+grande talento, e por isso ningu&eacute;m pode melhor do que ele
+avaliar o
+estofo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
+com os teares vazios.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, n&atilde;o vejo
+absolutamente nada!&raquo; Mas no entanto calou-se. Os dois
+tecel&otilde;es
+convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opini&atilde;o
+sobre os
+desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
+olhava, mas n&atilde;o via nada, pela raz&atilde;o
+simplic&iacute;ssima de nada l&aacute; existir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu Deus! pensou ele, serei realmente est&uacute;pido?
+&Eacute; necess&aacute;rio que
+ningu&eacute;m o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas
+l&aacute;
+confessar que n&atilde;o vejo nada, isso &eacute; que eu
+n&atilde;o confesso.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[70]</span>&laquo;Ent&atilde;o
+que lhe parece?&raquo; perguntou um dos tecel&otilde;es:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Encantador, admir&aacute;vel! respondeu o ministro,
+pondo os &oacute;culos. Este
+desenho... estas cores... magn&iacute;fico!... Direi ao
+sult&atilde;o que fiquei
+completamente satisfeito.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Muito agradecido, muito agradecido&raquo;, disseram os
+tecel&otilde;es; e
+mostraram-lhe cores e desenhos imagin&aacute;rios, fazendo-lhe
+deles uma
+descri&ccedil;&atilde;o minuciosa. O ministro ouviu
+atentamente, para ir depois
+repetir tudo ao sult&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
+precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no
+bolso, &eacute; claro; o tear continuava vazio, e apesar disso
+trabalhavam
+sempre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passado algum tempo, mandou o sult&atilde;o um novo
+funcion&aacute;rio, homem
+honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a
+este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e
+n&atilde;o
+via nada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o acha um tecido admir&aacute;vel?&raquo;
+perguntaram os tratantes, mostrando o
+magn&iacute;fico desenho e as belas cores, que tinham apenas o
+inconveniente
+de n&atilde;o existir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas que diabo! Eu n&atilde;o sou tolo! dizia o homem consigo. Pois
+n&atilde;o serei
+eu capaz de desempenhar o meu lugar? &Eacute; esquisito! mas
+deix&aacute;-lo, n&atilde;o o
+deixo eu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua
+admira&ccedil;&atilde;o pelo
+desenho e o bem combinado das cores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; duma magnific&ecirc;ncia incompar&aacute;vel,
+disse <span class="pagenum">[71]</span>ele ao
+sult&atilde;o. E toda a
+cidade come&ccedil;ou a falar desse tecido
+extraordin&aacute;rio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Enfim o pr&oacute;prio sult&atilde;o quis v&ecirc;-lo
+enquanto estava no tear. Com um grande
+acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois
+honrados funcion&aacute;rios, dirigiu-se para as oficinas, em que
+os dois
+velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem
+de
+esp&eacute;cie alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o acha magn&iacute;fico? disseram os dois honrados
+funcion&aacute;rios. O desenho
+e as cores s&atilde;o dignos de vossa alteza.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali
+estavam
+pudessem ver alguma coisa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que &eacute; isto! disse consigo mesmo o sult&atilde;o,
+n&atilde;o vejo nada! &Eacute; horr&iacute;vel!
+serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que
+desgra&ccedil;a que me
+acontece!&raquo; Depois de repente exclamou:
+&laquo;&Eacute; magn&iacute;fico! Testemunho-vos a
+minha satisfa&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E meneou a cabe&ccedil;a com um ar satisfeito, e olhou para o tear,
+sem se
+atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu
+s&eacute;quito olharam do
+mesmo modo, uns atr&aacute;s dos outros, mas sem ver coisa alguma,
+e no entanto
+repetiam como o sult&atilde;o: &laquo;&Eacute;
+magn&iacute;fico!&raquo; At&eacute; lhe aconselharam a que
+se
+apresentasse com o fato novo no dia da grande prociss&atilde;o.
+&laquo;&Eacute; magn&iacute;fico! &eacute;
+encantador! &eacute; admir&aacute;vel!&raquo; exclamavam
+todas as bocas, e a satisfa&ccedil;&atilde;o era
+geral.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
+tecel&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na v&eacute;spera do dia da prociss&atilde;o passaram a noite
+em claro, trabalhando &agrave;
+luz de dezasseis velas. <span class="pagenum">[72]</span>Finalmente
+fingiram tirar o estofo do tear,
+cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem
+fio,
+e declararam, depois disto, que estava o vestu&aacute;rio
+conclu&iacute;do.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O sult&atilde;o com os seus ajudantes de campo foi
+examin&aacute;-lo, e os impostores
+levantando um bra&ccedil;o, como para sustentar alguma coisa,
+disseram:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Eis as cal&ccedil;as, eis a casaca, eis o manto. Leve
+como uma teia de aranha;
+&eacute; a principal virtude deste tecido.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os
+lar&aacute;pios,
+provar-lhe-&iacute;amos o fato diante do espelho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O sult&atilde;o despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe
+as cal&ccedil;as,
+depois a casaca, depois o manto. O sult&atilde;o tudo era voltar-se
+defronte do
+espelho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os
+cortes&atilde;os.
+Que desenho! que cores! que vestu&aacute;rio
+incompar&aacute;vel!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto entrou o gr&atilde;o-mestre de cerim&oacute;nias.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; &agrave; porta o dossel sobre que vossa alteza
+deve assistir &agrave; prociss&atilde;o,
+disse ele.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bom! estou pronto, respondeu o sult&atilde;o. Parece-me que
+n&atilde;o vou mal.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do
+seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto,
+n&atilde;o
+querendo confessar que n&atilde;o viam absolutamente nada, fingiam
+arrega&ccedil;&aacute;-la.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, enquanto o sult&atilde;o caminhava altivo sob um <span class="pagenum">[73]</span>dossel deslumbrante, toda a
+gente na rua e &agrave;s janelas exclamava: &laquo;Que
+vestu&aacute;rio magn&iacute;fico! Que
+cauda t&atilde;o graciosa! Que talhe elegante!&raquo;
+Ningu&eacute;m queria dar a perceber,
+que n&atilde;o via nada, porque isso equivalia a confessar que se
+era tolo.
+Nunca os fatos do sult&atilde;o tinham sido t&atilde;o
+admirados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas parece que vai em cuecas&raquo;, observou um pequerrucho, ao
+colo do
+pai.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; a voz da inoc&ecirc;ncia, disse o pai.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;H&aacute; ali uma crian&ccedil;a que diz que o
+sult&atilde;o vai em cuecas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vai em cuecas! vai em cuecas!&raquo; exclamou o povo
+finalmente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O sult&atilde;o ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente
+era
+verdade. Entretanto tomou a en&eacute;rgica
+resolu&ccedil;&atilde;o de ir at&eacute; ao fim, e os
+camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
+imagin&aacute;ria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[74]</span>
+<h2><a name="24"></a>Boa senten&ccedil;a</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma
+quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil
+r&eacute;is
+de alv&iacute;ssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em
+casa um honrado
+campon&ecirc;s levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro,
+e disse:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Deviam ser oitocentos mil r&eacute;is, que foi a quantia que eu
+perdi; no
+alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
+adiantados os cem mil r&eacute;is de alv&iacute;ssaras: estamos
+pagos por conseguinte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O bom campon&ecirc;s, que nem por sombras tocara no dinheiro,
+n&atilde;o podia nem
+devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o
+juiz,
+que, vendo a m&aacute; f&eacute; do avarento, deu a seguinte
+senten&ccedil;a:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Um de v&oacute;s perdeu oitocentos mil r&eacute;is; o outro
+encontrou um alforge
+apenas com setecentos: Resulta da&iacute; claramente que o dinheiro
+que o
+&uacute;ltimo encontrou n&atilde;o pode ser o mesmo a que o
+primeiro se julga com
+direito. Por consequ&ecirc;ncia tu, meu bom homem, leva o dinheiro
+que
+encontraste, <span class="pagenum">[75]</span>e
+guarda-o at&eacute; que apare&ccedil;a o indiv&iacute;duo
+que perdeu somente
+setecentos mil r&eacute;is. E tu, o &uacute;nico conselho que
+passo a dar-te, &eacute; que
+tenhas paci&ecirc;ncia at&eacute; que apare&ccedil;a
+algu&eacute;m que tenha achado os teus
+oitocentos mil r&eacute;is.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[76]</span>
+<h2><a name="25"></a>Os animais agradecidos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
+perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este
+respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Senhor: eu sou um desgra&ccedil;ado, um
+miser&aacute;vel; nasci no vosso reino, e
+chamo-me <i>Ingratid&atilde;o</i>.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei,
+tomava-te ao meu
+servi&ccedil;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
+Desde que chegaram a pal&aacute;cio, deu tais provas de habilidade,
+mostrou-se
+t&atilde;o esperto e t&atilde;o sol&iacute;cito, que o rei
+afei&ccedil;oou-se-lhe de tal modo, que
+o nomeou seu intendente, confiando-lhe a
+administra&ccedil;&atilde;o da sua casa.
+Deslumbrado por uma fortuna t&atilde;o r&aacute;pida, o seu
+orgulho desde ent&atilde;o n&atilde;o
+conheceu limites; maltratava os inferiores, e n&atilde;o tinha
+compaix&atilde;o dos
+desventurados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ora, na vizinhan&ccedil;a do pal&aacute;cio havia uma floresta
+cheia de animais
+selvagens e perigos&iacute;ssimos. O intendente mandou
+a&iacute; fazer por toda a
+parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras,
+caindo
+dentro, pudessem ser agarradas. <span class="pagenum">[77]</span>Um
+dia que o intendente atravessava a
+floresta, ia t&atilde;o absorvido pelos seus pensamentos
+orgulhosos, que se
+precipitou ele mesmo dentro duma das covas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passado um instante, caiu um le&atilde;o dentro do mesmo
+po&ccedil;o; caiu depois um
+lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
+governador, ao ver-se em t&atilde;o extraordin&aacute;ria
+companhia, ficou t&atilde;o
+horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a
+esperan&ccedil;a de
+salva&ccedil;&atilde;o lhe parecia inteiramente perdida, porque
+por mais que gritasse,
+ningu&eacute;m o vinha socorrer.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
+chamado Ant&oacute;nio, que todos os dias ia rachar lenha
+&agrave; floresta, para
+ganhar o p&atilde;o necess&aacute;rio &agrave; sua mulher e
+aos seus filhos. Ant&oacute;nio tamb&eacute;m
+l&aacute; foi nesse dia, como de costume, e p&ocirc;s-se a
+trabalhar n&atilde;o longe da
+cova em que ca&iacute;ra o intendente, cujos gritos de
+afli&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tardou a
+ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
+ali.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Sou o governador do pal&aacute;cio do rei, e, se me
+tirares daqui, prometo
+encher-te de riquezas; estou em companhia dum le&atilde;o, dum lobo
+e duma
+enorme serpente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Eu, respondeu o lenhador, sou um miser&aacute;vel
+jornaleiro, n&atilde;o tendo para
+sustentar a minha fam&iacute;lia, mais que o produto do meu
+trabalho; bastava
+um dia perdido para me causar um grande desarranjo; v&ecirc;
+l&aacute; pois, se
+cumpres a tua promessa?<br />
+
+
+<br />
+
+
+O intendente continuou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Pela f&eacute; que devo a Deus e a el-rei nosso senhor,
+<span class="pagenum">[78]</span>juro-te que
+cumprirei a minha palavra.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Confiado nisto o rachador de lenha foi &agrave; cidade, e voltou
+com uma corda
+muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O le&atilde;o
+atirou-se a
+ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
+o intendente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou acima, o le&atilde;o agradeceu ao seu salvador com a
+maior
+amabilidade, e foi-se embora &agrave; procura de jantar, porque
+tinha fome.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio deitou outra vez a corda ao fundo do
+po&ccedil;o, e, julgando tirar o
+governador, enganou-se, porque era o lobo; &agrave; terceira vez
+subiu a
+serpente; foi necess&aacute;rio fazer uma quarta tentativa, para
+sair o
+governador. Este n&atilde;o perdeu tempo em agradecimentos, e
+partiu a correr
+para o pal&aacute;cio. O jornaleiro voltou para casa, e contou
+&agrave; mulher tudo o
+que se tinha passado, n&atilde;o lhe esquecendo, &eacute;
+claro, as brilhantes
+promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manh&atilde;,
+foi o pobre
+homem bater &agrave; porta do pal&aacute;cio. O porteiro
+perguntou-lhe o que queria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Fa&ccedil;a-me o favor, respondeu o rachador de dizer a
+s.ex.&ordf; o intendente
+que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja
+falar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Vai dizer a esse homem, que eu n&atilde;o vi
+ningu&eacute;m na floresta; que se
+ponha a andar, porque o n&atilde;o conhe&ccedil;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre homem tornou para casa mui descor&ccedil;oado, <span class="pagenum">[79]</span>e contou &agrave;
+mulher a
+odiosa perf&iacute;dia de que tinha sido vitima.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A mulher disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Tem paci&ecirc;ncia; o sr. intendente estava hoje
+decerto muito ocupado, e
+foi talvez por isso que te n&atilde;o p&ocirc;de
+receber.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu
+esperan&ccedil;as.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na manh&atilde; seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo
+&agrave; porta do pal&aacute;cio.
+Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos &aacute;speros, que
+n&atilde;o tornasse
+ali a aparecer, quando n&atilde;o ver-se-ia obrigado a empregar
+meios
+violentos. A mulher ainda desta vez procurou consol&aacute;-lo:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Experimenta terceira e &uacute;ltima vez, disse-lhe
+ela, talvez Deus o
+inspire melhor. E se assim n&atilde;o for, ainda que te custe,
+n&atilde;o penses mais
+nisso.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte o bom do homem voltou &agrave; carga; e tendo o
+porteiro
+consentido &agrave; for&ccedil;a de suplicas em
+anunci&aacute;-lo ainda ao governador, este
+encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre
+homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do
+ch&atilde;o. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com
+um
+burro, p&ocirc;s-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As
+feridas
+levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se
+obrigado a contrair dividas para pagar ao m&eacute;dico. Quando
+finalmente
+tinha recobrado algumas for&ccedil;as, voltou ao bosque segundo o
+costume para
+fazer alguma lenha. Apenas l&aacute; chegou, apareceu-lhe o
+le&atilde;o, que ele
+tinha ajudado a sair do po&ccedil;o. O le&atilde;o conduzia um
+burro diante de si, e
+<span class="pagenum">[80]</span>este burro estava
+carregado de sacos cheios de preciosidades. O le&atilde;o,
+vendo Ant&oacute;nio, parou e inclinou-se diante dele com um ar de
+respeitoso
+agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal
+de que ficasse com o jumento. Ant&oacute;nio doido de alegria levou
+o animal
+para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte, voltando de novo &agrave; floresta, apareceu-lhe o
+lobo, que
+o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto
+lhe era agradecido. Quando a tarefa estava conclu&iacute;da, e
+tinha carregado
+o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha
+tirado do f&ocirc;jo, e que trazia na ponta da l&iacute;ngua
+uma pedra preciosa, em
+que brilhavam tr&ecirc;s cores,&#8213;o branco, o preto e o vermelho.
+Quando a
+serpente chegou ao p&eacute; do rachador de lenha, deixou cair a
+pedra junto
+dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal.
+Ant&oacute;nio
+levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
+propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho,
+afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
+assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia.
+Ant&oacute;nio respondeu-lhe que a n&atilde;o queria vender,
+mas simplesmente saber se
+seria boa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O velho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;S&atilde;o tr&ecirc;s as virtudes desta pedra:
+abund&acirc;ncia cont&iacute;nua, alegria
+imperturb&aacute;vel e luz sem trevas. Se algu&eacute;m ta
+comprar por menos dinheiro
+do que vale, tornar&aacute; imediatamente para a tua
+m&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio ficou muito contente com esta resposta, <span class="pagenum">[81]</span>agradeceu ao velho da
+ci&ecirc;ncia maravilhosa, e correu a contar &agrave; mulher a
+sua felicidade. Como
+se imagina, gra&ccedil;as &agrave; virtude da famosa pedra,
+n&atilde;o lhe faltaram da&iacute; em
+diante, nem honras nem riquezas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou
+chamar Ant&oacute;nio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso
+talism&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio, vendo que semelhante desejo era uma ordem,
+respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me
+n&atilde;o for paga
+pelo que vale, tornar&aacute; ela mesma para o meu poder.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Hei de pagar-ta bem, disse o rei.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de
+manh&atilde;,
+Ant&oacute;nio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher
+sabendo isto
+disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Torna a lev&aacute;-la ao rei imediatamente;
+n&atilde;o v&aacute; ele persuadir-se que
+lha furtaste.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou &agrave;
+presen&ccedil;a de sua
+majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
+preciosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de
+ferro,
+fechado com sete chaves, disse o rei.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio mostrou-lhe ent&atilde;o a j&oacute;ia
+preciosa, e o rei ficou
+extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido
+semelhante tesouro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio contou-lhe tudo que tinha havido, a
+ingratid&atilde;o do governador e o
+reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o
+seu
+intendente, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[82]</span>&#8213;&laquo;Homem
+perverso, com justo motivo te puseram o nome de <i>Ingratid&atilde;o</i>,
+porque &eacute;s mais falso e mais p&eacute;rfido que os
+animais ferozes, e pagaste
+com o mal o bem que te fizeram. Mas justi&ccedil;a ser&aacute;
+feita. Dou a Ant&oacute;nio as
+tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
+enforcado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Admiraram todos a senten&ccedil;a do rei, e Ant&oacute;nio
+desempenhou as suas altas
+fun&ccedil;&otilde;es com tanta sabedoria e bondade, que depois
+da morte do rei foi
+escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos
+gloriosos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[83]</span>
+<h2><a name="26"></a>O ermit&atilde;o</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um homem, animado pela mais ardente cren&ccedil;a religiosa,
+deliberou
+retirar-se a uma gruta solit&aacute;ria para se consagrar
+inteiramente ao
+trabalho da sua salva&ccedil;&atilde;o. Jejuando sempre,
+orando, ciliciando-se, os
+seus pensamentos n&atilde;o se desviavam nunca da ideia de Deus.
+Depois de ter
+assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que
+j&aacute; tinha
+merecido um lugar glorioso no para&iacute;so, e podia ser contado
+entre os
+santos mais not&aacute;veis.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;H&aacute; no mundo um pobre m&uacute;sico, que anda de porta
+em porta, tocando viola
+e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O ermit&atilde;o, at&oacute;nito, ao ouvir estas palavras,
+levantou-se, agarrou no
+seu bord&atilde;o, foi em busca do m&uacute;sico e mal o
+encontrou disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Irm&atilde;o, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que
+ora&ccedil;&otilde;es e
+penit&ecirc;ncias te tornaste agrad&aacute;vel a Deus.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora, respondeu-lhe o m&uacute;sico, abaixando a cabe&ccedil;a,
+santo padre, n&atilde;o
+zombes de mim. Nunca fiz <span class="pagenum">[84]</span>boas
+obras, e quanto a ora&ccedil;&otilde;es n&atilde;o as sei,
+pobre de mim, que sou um pecador. O que fa&ccedil;o &eacute;
+andar de casa em casa a
+divertir os outros.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O austero ermit&atilde;o continuou a insistir:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Estou certo que, no meio da tua exist&ecirc;ncia vagabunda,
+praticaste algum
+acto de virtude.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Em verdade n&atilde;o poderia citar nem um
+s&oacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o como chegaste a este estado de pobreza? Tens
+vivido
+loucamente como os que exercem a tua profiss&atilde;o? Dissipaste
+frivolamente
+o teu patrim&oacute;nio e o produto do teu
+of&iacute;cio?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo
+marido e
+filhos tinham sido condenados &agrave; escravid&atilde;o para
+pagar uma d&iacute;vida. Essa
+mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa,
+protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possu&iacute;a
+para resgatar a
+sua fam&iacute;lia, e levei-a &agrave; cidade, onde ela devia
+encontrar-se com seu
+marido e com seus filhos. Mas quem n&atilde;o teria feito outro
+tanto?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras o ermit&atilde;o p&ocirc;s-se a chorar, e
+exclamou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nos meus setenta anos de solid&atilde;o nunca pratiquei uma obra
+t&atilde;o
+merit&oacute;ria, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto
+que tu n&atilde;o
+passas dum pobre m&uacute;sico.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[85]</span>
+<h2><a name="27"></a>Carlos Magno e o abade de
+S. Gall</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
+pregui&ccedil;osamente reclinado sobre almofadas &agrave; porta
+da abadia, fresco,
+rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens
+en&eacute;rgicos e
+activos, e o abade era indolente. Al&eacute;m disso o imperador
+tinha mais
+dum motivo de queixa contra ele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter
+&agrave;
+sua esclarecida raz&atilde;o tr&ecirc;s perguntas,
+&agrave;s quais ter&aacute; a bondade de me
+responder daqui a tr&ecirc;s meses, contados dia a dia, em
+sess&atilde;o solene do
+nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
+dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao
+mundo;
+em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+rev.<sup>ma</sup> vier &agrave; minha
+presen&ccedil;a, pensamento que deve ser um erro. Trate
+de arranjar resposta satisfat&oacute;ria a tudo, ali&aacute;s
+deixa de ser abade de S.
+Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada
+para o rabo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O abade n&atilde;o sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as
+escolas, mas
+os doutores mais <span class="pagenum">[86]</span>famosos
+pela sua ci&ecirc;ncia, n&atilde;o lhe souberam dar
+resposta. No entanto os dias iam correndo, e a &eacute;poca fatal
+aproximava-se; j&aacute; n&atilde;o faltava sen&atilde;o um
+m&ecirc;s, j&aacute; n&atilde;o faltavam sen&atilde;o
+semanas, e afinal s&oacute; dias. O abade, que noutro tempo era
+gordo e
+anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite.
+Andava errante nos bosques lamentando a sua desgra&ccedil;a, quando
+se
+encontrou com o seu pastor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bons dias senhor abade. Parece que est&aacute; mais magro!
+Est&aacute; doente?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Estou, meu caro F&eacute;lix, estou muito doente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa
+curar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Infelizmente n&atilde;o s&atilde;o ervas que eu preciso, mas
+resposta &agrave;s minhas tr&ecirc;s
+perguntas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; ent&atilde;o latim?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; latim, sen&atilde;o os
+doutores tinham-me arranjado tudo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Visto que n&atilde;o &eacute; latim, queira v. rev.<sup>ma</sup>
+dizer-me o que &eacute;: minha m&atilde;e
+era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando o abade lhe formulou as tr&ecirc;s perguntas, o pastor
+atirou com o
+barrete ao ar, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Se &eacute; apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v.
+rev.<sup>ma</sup>
+pode continuar a engordar; mas para isso &eacute;
+necess&aacute;rio que eu vista o seu
+h&aacute;bito.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou o dia, o pastor disfar&ccedil;ado com o
+h&aacute;bito do abade de S.
+Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
+imperial.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o, senhor abade, parece que est&aacute; mais magro,
+deu-lhe muito que
+pensar a chave do <span class="pagenum">[87]</span>enigma?
+Vamos l&aacute; a ver a primeira pergunta: Quanto
+valho eu em dinheiro?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por
+trinta dinheiros, sua majestade vale &agrave; justa vinte e nove,
+s&oacute; um
+dinheiro menos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bravo, senhor abade, a resposta &eacute; h&aacute;bil, e na
+realidade n&atilde;o posso
+deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos &agrave; segunda
+pergunta, n&atilde;o h&aacute; de
+ser t&atilde;o f&aacute;cil dar a resposta. Vamos l&aacute;
+a ver: quanto tempo levaria eu a
+dar a volta ao mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir
+constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
+quatro horas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Decididamente, v. rev.<sup>ma</sup> &eacute; um grande
+fin&oacute;rio, e desta vez,
+confesso-me vencido; mas a terceira, n&atilde;o dessas &agrave;
+que se responde com
+suposi&ccedil;&otilde;es. Quem lhe h&aacute; de dizer o que
+eu estou pensando, e como me h&aacute;
+de provar que este pensamento &eacute; um erro? Tem a palavra
+senhor abade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall;
+est&aacute;
+enganado, porque eu sou o seu pastor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o tu &eacute; que deves ser o abade de S. Gall,
+e desde j&aacute; o ficas
+sendo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um
+favor,
+pe&ccedil;o-lhe outra coisa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o tens mais que falar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pe&ccedil;o a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos Magno n&atilde;o era homem que faltasse &agrave; sua
+palavra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+<h2><a name="28"></a>A boneca</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma hist&oacute;ria&#8213;a
+hist&oacute;ria duma
+boneca!<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o h&aacute; muitos anos, mas ainda n&atilde;o era
+a Cordoaria do Porto o ameno
+jardim, onde a inf&acirc;ncia folga por entre maci&ccedil;os de
+flores e sob o
+sorriso do sol, sem que lhe enegre&ccedil;a o esp&iacute;rito a
+vista dos dois
+monumentos, que a meu ver simbolisam as duas mais horr&iacute;veis
+calamidades,
+que podem aniquilar um homem&#8213;o hospital e a cadeia!&#8213;ainda
+n&atilde;o h&aacute;
+muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
+feira, divertindo-me a meu modo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cansado das in&uacute;meras figuras, que tinha visto passar por
+aquela
+esp&eacute;cie de lanterna m&aacute;gica, dispunha-me a dar por
+findo o espect&aacute;culo,
+quando novos personagens me chamaram a aten&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram os meus vizinhos <i>ricos</i>.
+<br />
+
+
+Aqui &eacute; preciso uma r&aacute;pida
+explica&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Das fam&iacute;lias da minha vizinhan&ccedil;a, s&oacute;
+conhe&ccedil;o tr&ecirc;s.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Qual destas tr&ecirc;s fam&iacute;lias ser&aacute; mais
+feliz?...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pelo que tenho notado, n&atilde;o t&ecirc;m que invejar umas
+&agrave;s outras.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[89]</span>S&atilde;o
+todas felizes; cada qual a seu modo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vi, pois, chegar os meus vizinhos <i>ricos</i>.
+<br />
+
+
+Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chap&eacute;u
+na m&atilde;o e
+dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou,
+tomou nos bra&ccedil;os a filhinha e dep&ocirc;-la no
+ch&atilde;o, e oferecendo, em
+seguida, a m&atilde;o &agrave; esposa, para a ajudar a apear,
+dirigiu-se com ela e
+com a menina para a barraca onde eu estava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o havia ali segredo a surpreender.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
+parecia agradecer &agrave;quela formosa crian&ccedil;a a
+manifesta&ccedil;&atilde;o de qualquer
+desejo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No fim de meia hora possu&iacute;a a minha pequena vizinha com que
+fazer a
+felicidade de dez crian&ccedil;as menos abastadas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tinha o necess&aacute;rio para montar completamente a casa duma
+boneca...
+<i>rica</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Faltava apenas a dona da casa&#8213;a boneca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todo risos e aten&ccedil;&otilde;es, o lojista apresentou o que
+tinha de melhor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois de muita hesita&ccedil;&atilde;o e de, j&aacute; com
+os olhos, j&aacute; com a voz, consultar
+a mam&atilde;, a gentil crian&ccedil;a acabou por escolher uma
+magn&iacute;fica boneca de
+dois palmos de altura, com cabelo em <i>bandeaux</i> e
+olhos azuis.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma boneca como as outras: cabe&ccedil;a e colo de massa, corpo de
+pelica
+recheada, bra&ccedil;os e pernas de pau.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma vive na loja da casa, que habito. &Eacute; uma tribo de
+crian&ccedil;as, que fazem
+o mart&iacute;rio e a alegria da pobre m&atilde;e, e tem por
+chefe um honrado
+sapateiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[90]</span>Alguns deles, se
+andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
+anjos, ca&iacute;dos do c&eacute;u sobre um monte de lama.<br />
+
+
+<br />
+
+
+S&atilde;o os meus vizinhos <i>pobres</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A segunda comp&otilde;e-se de marido, mulher e filha, e ocupa a
+casa
+imediata.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; como se costuma dizer, gente <i>que vai muito bem
+com a sua vida</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A filha que ter&aacute; dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e
+carnudas,
+cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem
+&agrave;
+press&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+S&atilde;o os meus vizinhos <i>remediados</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A terceira &eacute; a dos meus vizinhos <i>ricos</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Casa nobre, jardim espa&ccedil;oso, cavalos, criados, nome inscrito
+nas
+listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+estado&#8213;nada falta &agrave;quela ditosa gente!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Comp&otilde;e-se igualmente de marido, mulher e filha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que formosa crian&ccedil;a!... Ter&aacute; oito anos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Franzina e p&aacute;lida, com os cabelos negros, os olhos grandes e
+cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas m&atilde;os de dedos
+compridos e
+esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que
+n&atilde;o
+sinta antecipada inveja do feliz namorado&#8213;provavelmente ainda a
+crescer&#8213;que h&aacute;-de um dia ter o direito de lhas cobrir de
+beijos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas
+aquelas preciosidades de sobre o balc&atilde;o da barraca para
+dentro do
+carro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocr&aacute;tica
+crian&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[91]</span>Sa&iacute;
+dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo at&eacute; casa
+variad&iacute;ssimas
+considera&ccedil;&otilde;es, sugeridas pela quase
+indiferen&ccedil;a, com que aquela menina
+recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que contraste com os olhares de cobi&ccedil;a, com que outras
+raparigas da
+mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabe&ccedil;a de pano,
+horr&iacute;vel
+artefacto portugu&ecirc;s, em que os olhos s&atilde;o
+representados por dois pontos
+de linha azul, o nariz por um alinhavo de retr&oacute;s cor de
+rosa, a boca por
+outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de l&atilde; preta!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando cheguei a casa, j&aacute; na dos meus vizinhos remediados
+n&atilde;o havia luz.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na dos meus vizinhos <i>pobres</i>, o pai batia a sola,
+cantando ao som de
+tr&ecirc;s assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos,
+por lavar,
+provocavam os ralhos da m&atilde;e.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando, no dia seguinte, cheguei &agrave; janela, seriam onze horas
+da manh&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na rua agenciavam nova camada de imund&iacute;cie os filhos do
+sapateiro; na
+casa imediata n&atilde;o se via ningu&eacute;m&#8213;estava a pequena
+na mestra; no
+pal&aacute;cio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da
+varanda,
+divertia-se a minha pequena milion&aacute;ria fazendo rodar, com
+aux&iacute;lio duma
+linha, uma magn&iacute;fica <i>caleche</i> descoberta,
+puxada por cavalos brancos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dentro da <i>caleche</i> pavoneava-se a boneca
+opulentamente vestida.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;A&iacute; est&aacute; a tua caricatura, minha
+feiticeira!...&raquo;&#8213;disse eu de mim
+para mim. &laquo;Ensaias <span class="pagenum">[92]</span>nas
+bonecas o que v&ecirc;s no mundo a que pertences!...
+Est&aacute;s a aprender a copiar... Sempre este mundo!...&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Retirei-me da janela.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
+vestia tr&ecirc;s e quatro vezes!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao que eu, por&eacute;m, achava mais gra&ccedil;a, era ao
+respeito com que a dona a
+tratava!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chamava-lhe sr.<sup>a</sup> D. Lu&iacute;sa; dava-lhe
+excel&ecirc;ncia; sustentava finalmente
+com a boneca um destes di&aacute;logos de senhoras da alta
+sociedade, em que
+se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia,&#8213;estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos
+<i>ricos</i>&#8213;ouvi um grito de susto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era devido a um acidente, a que est&aacute; sujeito quem anda de
+carro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Voltara-se este, e a boneca ca&iacute;ra, ferindo a fronte na pedra
+da janela.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a
+v&iacute;tima; vendo,
+por&eacute;m, que a ferida havia for&ccedil;osamente de deixar
+cicatriz, e
+lembrando-se de que s&oacute; lhe bastava querer, para que lhe
+dessem outra
+nova, agarrou-a pelos p&eacute;s e ia atir&aacute;-la com
+despeito &agrave; rua, quando mais
+perto de mim bradou voz t&iacute;mida e suplicante:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o atire!... D&ecirc;-ma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu n&atilde;o
+dera f&eacute; at&eacute;
+ent&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim invocada, a menina <i>rica</i> franziu levemente <span class="pagenum">[93]</span>as sobrancelhas e
+lan&ccedil;ou um olhar de rainha para o s&iacute;tio donde
+vinha a s&uacute;plica.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vendo uma crian&ccedil;a, pouco mais ou menos da sua idade, serenou
+e,
+encolhendo os ombros, respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;J&aacute; n&atilde;o presta!... Est&aacute;
+esmurrada!...&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; o mesmo!... D&aacute;-ma?...&#8213;bradou a outra, cujos
+olhos brilhavam de
+cobi&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Dou...&raquo;&#8213;volveu a rica, encolhendo novamente os
+ombros.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas
+m&atilde;os da
+vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse
+despeda&ccedil;ar-se nas lajes da rua.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
+outra, para mostrar &agrave; m&atilde;e a que ela ainda
+n&atilde;o podia acreditar, que
+fosse sua!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por espa&ccedil;o de meses foi a boneca a principal
+ocupa&ccedil;&atilde;o da nova dona.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro
+vezes em quatro horas!... J&aacute; lhe n&atilde;o davam
+excel&ecirc;ncia! Chamavam-lhe
+sr.<sup>a</sup> D. Ana; falavam-lhe de arranjos
+dom&eacute;sticos, do desmazelo da
+criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
+estranhas para ela!<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a desgra&ccedil;ada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe
+cada vez menos
+azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
+se tornava mais escura: parecia uma n&oacute;doa, um estigma!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, <span class="pagenum">[94]</span>que trouxera no corpo,
+ainda n&atilde;o poderia enganar olhos pouco conhecedores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o tardou, por&eacute;m, que arrebiques de mau gosto,
+fitas velhas, rendas
+amareladas, chap&eacute;us imposs&iacute;veis, viessem
+contrastar com a eleg&acirc;ncia do
+vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele
+as ondula&ccedil;&otilde;es do <i>moir&eacute;</i>,
+at&eacute; que, um belo dia, vi a boneca vestida de
+cassa&#8213;-no Inverno!&#8213;xaile e manta na cabe&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Muito mal lhe ficava aquilo!... &Agrave;quela boneca custava-lhe de
+certo o
+ver-se t&atilde;o mal arranjada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; justo!... Cada qual segundo as suas posses.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por esse tempo, entrei em rela&ccedil;&otilde;es com o meu
+vizinho sapateiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
+faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasi&atilde;o,
+para me
+pedir desculpa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
+aproximar-se de n&oacute;s e, desde ent&atilde;o, nunca saio de
+casa nem entro, sem
+grave risco de sofrer as consequ&ecirc;ncias da sua travessa
+familiaridade.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entre os filhos do sapateiro, por&eacute;m, h&aacute; uma
+pequenita de onze anos, com
+quem simpatizei logo &agrave; primeira vista.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chama-se Maria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por um destes acasos da Provid&ecirc;ncia, que parece <span class="pagenum">[95]</span>&agrave;s vezes
+comprazer-se
+em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os
+irm&atilde;os.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acostumado &agrave;s travessuras e desalinho dos outros filhos do
+sapateiro,
+fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E bem verdade que ele conhecia o valor daquela crian&ccedil;a,
+porque havia
+verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse:
+&laquo;Esta &eacute; a
+minha Maria!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E tinha raz&atilde;o!<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o podia ser mais discreta do que j&aacute; nesse tempo
+era.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; quem vale &agrave; m&atilde;e!...&#8213;acrescentou o
+velho.&raquo;&#8213;Ali, onde a v&ecirc;, faz o
+servi&ccedil;o duma mulher!... H&aacute; seis meses, quando a
+minha santa esteve
+doente&#8213;bem pensei que n&atilde;o arribasse!&#8213;a pequena era quem
+cozinhava e
+olhava pelos irm&atilde;os!... E caridade como ela tem!?... Olhe
+que aquela
+pequena esteve tr&ecirc;s dias sem se deitar... ali... ao
+p&eacute; da m&atilde;e! Foi
+preciso eu obrig&aacute;-la, que ela n&atilde;o a queria
+deixar!...&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma
+l&aacute;grima, que,
+havia muito, hesitava sobre se sim ou n&atilde;o se devia despenhar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
+cabe&ccedil;a coberta por um len&ccedil;o branco.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desde que o pai me deu t&atilde;o boas
+informa&ccedil;&otilde;es da rapariga, nunca mais
+passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias
+&agrave;
+pequena.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
+deitada nos joelhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[96]</span>&#8213;Eu
+conhe&ccedil;o aquela boneca!...&#8213;disse eu de mim para mim.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, n&atilde;o podendo resistir &agrave; curiosidade, bradei:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Oacute; Maricas!... Quem te deu a boneca?...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi ali a menina da vizinha!&#8213;respondeu a pequenita, corando de prazer.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era escusado dizer-mo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. N&atilde;o
+podia
+duvidar... Era ela; l&aacute; estava a mancha, o estigma cada vez
+mais vis&iacute;vel
+na fronte.<br />
+
+
+<br />
+
+
+De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se
+com
+ela.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem te viu e quem te v&ecirc;!...&#8213;pensava eu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave;s vezes, se Maria se descuidava e os irm&atilde;os lha
+podiam apanhar, que
+tratos que sofria a desgra&ccedil;ada!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ro&ccedil;ada por aquelas m&atilde;os, de que um carvoeiro se
+envergonharia,
+empregada como p&eacute;la, submetida a torturas, era, ainda assim,
+singular&iacute;ssimo o aspecto da triste!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a
+fraternizar com o povo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&iacute;sera mudara mais uma vez de nome!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+De sr.<sup>a</sup> D. Ana passara a ser sr.<sup>a</sup>
+Rosinha e tratavam-na por vossemec&ecirc;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e len&ccedil;o
+na cabe&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
+a boneca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
+encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre
+boneca a lastimar-se por estar tudo t&atilde;o caro, por haver <span class="pagenum">[97]</span>falta de
+trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que
+mais familiares eram &agrave; pequena.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na,
+mandavam-na buscar &aacute;gua &agrave; fonte, pagavam-lhe,
+regateando, a soldada, e
+acabavam por a despedir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+J&aacute; o leitor v&ecirc; que, apesar da bondade Maria,
+deixara de ser feliz.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no pal&aacute;cio
+vizinho!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos,
+desfeito o carmim dos l&aacute;bios, a boneca n&atilde;o
+prometia longa dura&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi este pelo menos, o progn&oacute;stico que fiz a
+&uacute;ltima vez que a vi,
+tentando em v&atilde;o agradar &agrave; &uacute;ltima dona
+que o seu destino lhe dera.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia chovia a c&acirc;ntaros!&#8213;o enxurro, mal cabendo nas valetas
+da rua,
+espadanava em cach&atilde;o para cima dos passeios, arrastando na
+passagem mil
+imund&iacute;cies.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu estava &agrave; porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e
+olhava
+melancolicamente para a &aacute;gua negra, que corria. Nisto ouvi
+um grito, que
+partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um
+objecto,
+arremessado de dentro da loja, atravessou o espa&ccedil;o voando, e
+foi cair no
+leito do enxurro...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Olhei... Era a boneca!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&iacute;sera, arrastada pela &aacute;gua, vogou rua abaixo
+at&eacute; esbarrar numa
+pedra; mas o redemoinho envolveu-a, <span class="pagenum">[98]</span>e,
+depois de a fazer girar tr&ecirc;s ou
+quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, tra&ccedil;ado
+entre a pedra e
+o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, at&eacute; ir
+sumir-se nas
+profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&aacute; pieguice, ser&aacute; o que o leitor quiser; mas,
+confesso-lhe, que me
+impressionou o fim da pobre boneca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado &agrave;
+vidra&ccedil;a do
+sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o fui eu...&#8213;balbuciou a pequena, chorando.&#8213;Foi ali o
+Joaquim!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora!...&#8213;respondeu o garoto com enfado.&#8213;Ora!... Estava velha... e
+feia!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Curvei a cabe&ccedil;a ante aquela raz&atilde;o, e segui o meu
+caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pobre boneca!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[99]</span>
+<h2><a name="29"></a>Inconveniente da riqueza</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Als&aacute;cia, foi
+surpreendido pela noite &agrave; entrada duma aldeia. Procurou dum
+lado para
+outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam
+j&aacute;
+todas fechadas, n&atilde;o se via nem um raio de luz
+atrav&eacute;s das janelas, tudo
+estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual
+com que se bate o trigo, e nesse s&iacute;tio havia uma pequena
+luz. Nosso
+Senhor dirigiu-se para l&aacute;, chegou ao p&eacute; do muro
+duma quinta, e bateu &agrave;
+porta. Foi um campon&ecirc;s que lha veio abrir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
+N&atilde;o se havia de arrepender.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E acrescentou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Visto que j&aacute; todos est&atilde;o deitados, para que
+&eacute; que voc&ecirc; est&aacute; ainda a
+trabalhar?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora, respondeu o campon&ecirc;s, soube ontem &agrave; noite
+que ia ser perseguido
+por um credor desapiedado, se lhe n&atilde;o pagasse
+amanh&atilde; o que lhe devo,
+portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
+o vender no mercado, e pagar a minha d&iacute;vida. Depois disto
+n&atilde;o nos fica
+nada, <span class="pagenum">[100]</span>e
+n&atilde;o sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que
+Deus
+quiser!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao dizer isto o campon&ecirc;s limpava o suor da testa, e passava a
+m&atilde;o pelos
+olhos arrasados de l&aacute;grimas. O Senhor teve d&oacute;
+dele, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o desanimes. Quando te pedi hospitalidade,
+disse-te que n&atilde;o te
+havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e
+aproximou-a do trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a
+tudo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se,
+de cada espiga, desceu uma chuva de gr&atilde;os prodigiosa.
+&Agrave; vista dum tal
+milagre os camponeses maravilhados ca&iacute;ram de joelhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
+pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo,
+ser&aacute;s
+recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, &eacute; Deus que
+te
+enriquece.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dito isto desapareceu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a chuva dos gr&atilde;os n&atilde;o parou em toda a noite, e
+fez um monte t&atilde;o alto
+como a igreja.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O campon&ecirc;s pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu
+uma bela
+casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e
+seus filhos adquiriram costumes perdul&aacute;rios, tanto e tanto
+fizeram, que
+se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
+ningu&eacute;m os ajudou na sua mis&eacute;ria. Uma noite o
+velho campon&ecirc;s, que bebera
+enormemente, entrou <span class="pagenum">[101]</span>no
+celeiro, e, recordando-se do milagre que o
+enriquecera, imaginou que tamb&eacute;m ele o poderia fazer.
+Agarrou na
+candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a
+casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na
+mis&eacute;ria mais
+absoluta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[102]</span>
+<h2><a name="30"></a>Querer &eacute; poder</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem procura sempre encontra, diz um velho prov&eacute;rbio; quero
+ver por
+experi&ecirc;ncia, disse um dia um rapaz, se esta m&aacute;xima
+&eacute; verdadeira.<br />
+
+
+<br />
+
+
+P&ocirc;s-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma
+grande cidade.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, disse-lhe ele, h&aacute; muitos anos que vivo tranquilo e
+solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
+vezes&#8213;<i>Quem procura sempre encontra</i>, e <i>quem
+porfia mata ca&ccedil;a</i>. Tomei
+uma grande resolu&ccedil;&atilde;o. Quero casar com a filha do
+rei.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante
+uma
+semana, sempre com a mesma vontade inabal&aacute;vel,
+at&eacute; que o rei ouviu
+falar o rapaz da sua louca pretens&atilde;o. Surpreendido com uma
+ideia t&atilde;o
+extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela
+ci&ecirc;ncia,
+pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais
+s&atilde;o
+os teus t&iacute;tulos? Para seres o marido <span class="pagenum">[103]</span>de minha filha
+&eacute; necess&aacute;rio que te
+distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
+extraordin&aacute;rio. Ouve. Perdi h&aacute; muito tempo no rio
+um diamante dum valor
+incalcul&aacute;vel. Aquele que o encontrar obter&aacute; a
+m&atilde;o de minha filha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
+rio; logo de manh&atilde; come&ccedil;ava a tirar
+&aacute;gua com um balde pequeno, e
+deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
+horas, punha-se a rezar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os peixes inquietos ao verem t&atilde;o grande tenacidade, e
+receando que
+chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Encontrar um diamante que caiu ao rio.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o, respondeu o velho rei, sou de opini&atilde;o que
+lho entreguem, porque
+vejo qual &eacute; a t&ecirc;mpera da vontade deste rapaz; mais
+f&aacute;cil seria esgotar
+as &uacute;ltimas gotas do rio, do que desistir da sua
+empresa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
+do rei.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[104]</span>
+<h2><a name="31"></a>Qual ser&aacute; rei?</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
+sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer,
+n&atilde;o ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Resolveram al&eacute;m disso que o cad&aacute;ver do rei fosse
+posto de p&eacute; contra um
+muro, e que o pr&iacute;ncipe que acertasse melhor com uma flecha
+naquele
+alvo, seria o escolhido para sucessor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Come&ccedil;ou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou
+durante muito
+tempo, e a flecha foi atravessar a m&atilde;o esquerda do defunto.
+O pr&iacute;ncipe
+soltou grito de alegria, cuidando que seus irm&atilde;os atirariam
+pior, e que
+por conseguinte seria ele quem viria a reinar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
+alegre do que o outro pr&iacute;ncipe.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O terceiro varou o cora&ccedil;&atilde;o de seu pai, e os seus
+gritos de triunfo
+quase que chegavam ao c&eacute;u, porque lhe parecia
+imposs&iacute;vel acertar melhor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas
+m&atilde;os as
+flechas e o arco: mas, <span class="pagenum">[105]</span>desde
+que olhou para o alvo, arrojou as armas
+longe de si, e desatou a chorar:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu
+jamais
+consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela m&atilde;o
+de teus
+pr&oacute;prios filhos!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais
+digno.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[106]</span>
+<h2><a name="32"></a>Os tr&ecirc;s
+v&eacute;us de Maria</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O primeiro v&eacute;u de Maria era dum linho mais alvo do que a
+neve.
+Bordara-o com as suas m&atilde;os, e ornara-o com uma grinalda de
+flores de
+seda t&atilde;o bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham
+pousar-lhe em
+cima.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Este v&eacute;u branco s&oacute; o trouxe uma vez, no dia da
+sua primeira comunh&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O segundo v&eacute;u de Maria era de l&atilde; negra.
+Principiou-o no mesmo dia em que
+sua m&atilde;e lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa
+triste e
+abandonada. Era bordado de perp&eacute;tuas roxas, como as dos
+sepulcros de
+m&aacute;rmore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas
+as suas
+l&aacute;grimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O v&eacute;u negro s&oacute; o trouxe uma vez,&#8213;no dia em que se
+tornou esposa de
+Jesus no convento da Av&eacute;-Maria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O terceiro v&eacute;u era feito dum retalho do azul celeste,
+bordado
+de estrelas, e perfumado com aromas suav&iacute;ssimos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou
+no para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p107">[107]</a></span>
+<h2><a name="33"></a>Os pequenos no bosque</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia tr&ecirc;s pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns
+aos
+outros, que n&atilde;o havia nada no mundo mais aborrecido que
+estudar: &laquo;Vamos
+para o bosque que <a href="#e4">encontraremos</a>
+l&aacute; toda a esp&eacute;cie de lindos bichinhos, que
+n&atilde;o fazem outra coisa sen&atilde;o brincar, e
+n&oacute;s brincaremos com eles.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foram logo, e passaram sem fazer caso ao p&eacute; da activa
+formiga e da
+abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar,
+disse-lhes:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
+outra j&aacute; n&atilde;o est&aacute;
+s&oacute;lida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provis&otilde;es para
+o Inverno.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu
+ninho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com voc&ecirc;s,
+mas ainda
+hoje n&atilde;o lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que
+fazer a
+minha <i>toilette</i>.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, <span class="pagenum">[108]</span>que passas o tempo
+a saltar e a tagarelar, tamb&eacute;m n&atilde;o queres brincar
+connosco?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Estes pequenos s&atilde;o tolos, disse o regato. Como?
+Voc&ecirc;s ent&atilde;o imaginam
+que eu n&atilde;o tenho que fazer? De noite ou de dia,
+n&atilde;o descanso nem um
+momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, &agrave;s
+colinas,
+aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os
+inc&ecirc;ndios,
+tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje
+acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. N&atilde;o
+posso perder
+um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um
+pintassilgo, em cima dum ramo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Olha! tu, que n&atilde;o tens nada que fazer, queres brincar
+connosco?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nada que fazer? voc&ecirc;s est&atilde;o a mangar comigo,
+disse o pintassilgo. Todo
+o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho al&eacute;m disso
+que tomar
+parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o
+oper&aacute;rio com o
+meu chilrear, e tenho que adormecer as crian&ccedil;as com uma
+outra cantiga,
+que &agrave; noite e de madrugada celebre a bondade do Criador.
+Ide-vos embora,
+pregui&ccedil;osos, ide cumprir o vosso dever, e n&atilde;o
+tornem a vir incomodar os
+habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a
+desempenhar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os pequenos aproveitaram a li&ccedil;&atilde;o, e compreenderam
+que o prazer s&oacute; &eacute;
+leg&iacute;timo, quando &eacute; a recompensa do trabalho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[109]</span>
+<h2><a name="34"></a>O chapelinho encarnado</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem
+sua
+m&atilde;e e sua av&oacute; adoravam extremosamente. A boa da
+avozinha, que passava o
+tempo a imaginar o que poderia agradar &agrave; neta, deu-lhe um
+dia um chap&eacute;u
+de veludo vermelho. A pequenita andava t&atilde;o contente com o
+seu chap&eacute;u
+novo, que j&aacute; n&atilde;o queria p&ocirc;r outro, e
+come&ccedil;aram a chamar-lhe a menina do
+chapelinho encarnado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&atilde;e e a av&oacute; moravam em duas casas separadas por
+uma floresta de meia
+l&eacute;gua de comprido. Uma manh&atilde; a m&atilde;e
+disse &agrave; pequenita:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tua av&oacute; est&aacute; doente, e n&atilde;o
+p&ocirc;de vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai
+levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado n&atilde;o
+quebres a
+garrafa, n&atilde;o andes a correr, vai devagarinho e volta
+logo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sim, mam&atilde;, respondeu ela, hei-de fazer tudo como
+deseja.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e
+p&ocirc;s-se
+a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita,
+que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[110]</span>&#8213;Bons dias,
+chapelinho encarnado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Onde vais t&atilde;o cedo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;A casa da minha av&oacute; que est&aacute; doente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E levas-lhe alguma coisa?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
+dar for&ccedil;as.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Diz-me onde mora a tua, av&oacute;, que tamb&eacute;m a quero
+ir ver.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; perto, aqui no fim da floresta. H&aacute; ao
+p&eacute; uns carvalhos muito
+grandes, e no jardim h&aacute; muitas nozes.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! tu &eacute; que &eacute;s uma bela noz, disse consigo o
+lobo. Como eu gostava
+de te comer.&raquo; Depois continuou em voz alta:&#8213;Olha, que bonitas
+&aacute;rvores e
+que lindos passarinhos. Como &eacute; bom passear nas florestas, e
+ent&atilde;o que
+quantidade de plantas medicinais que se encontram!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;O senhor, &eacute; com certeza um m&eacute;dico, respondeu a
+inocente pequenita,
+visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma
+que fizesse bem a minha av&oacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Com certeza, minha filha, olha, aqui est&aacute; uma, e esta
+tamb&eacute;m, e
+aquela.&raquo; Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram
+plantas
+venenosas. A pobre crian&ccedil;a, queria-as apanhar para as levar
+a sua av&oacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
+grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E p&ocirc;s-se a correr em direc&ccedil;&atilde;o da casa
+da av&oacute;, enquanto que a pequerrucha
+se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[111]</span>Quando o lobo
+chegou &agrave; porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
+av&oacute; n&atilde;o se podia levantar da cama, e perguntou:
+Quem est&aacute; a&iacute;?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz
+da
+pequerrucha. A mam&atilde; manda-te bolos e uma garrafa de
+vinho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Procura debaixo da porta disse a av&oacute;, que
+encontrar&aacute;s a chave.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira,
+e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a
+porta aberta, porque sabia o cuidado com que a av&oacute; a
+costumava ter
+fechada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O lobo tinha posto uma touca na cabe&ccedil;a, que lhe escondia uma
+parte do
+focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horr&iacute;vel.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ai! avozinha, disse a crian&ccedil;a, porque tens tu as orelhas
+t&atilde;o grandes?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te ouvir melhor, minha filha.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E porque est&aacute;s com uns olhos t&atilde;o
+grandes?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te ver melhor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E para que est&aacute;s com os bra&ccedil;os t&atilde;o
+grandes?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te poder abra&ccedil;ar melhor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E Jesus! para que tens hoje uma boca t&atilde;o grande e uns
+dentes t&atilde;o
+agudos?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te comer melhor.&raquo; A estas palavras o lobo
+arremessou-se &agrave; pobre
+pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e
+come&ccedil;ou a
+ressonar muito alto. Um ca&ccedil;ador que passava por acaso, perto
+da casa, e
+que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha est&aacute;
+com um
+pesadelo, <span class="pagenum">[112]</span>est&aacute;
+pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.&raquo; Entra, e
+v&ecirc; o lobo estendido na cama.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ol&aacute;, meu menino, diz ele: h&aacute; muito tempo que te
+procuro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Armou a sua espingarda, mas parando logo: N&atilde;o, disse ele,
+n&atilde;o vejo a
+dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o
+animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
+cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e
+saltou para o ch&atilde;o, gritando:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ai! que s&iacute;tio medonho onde eu estive fechada!<br />
+
+
+<br />
+
+
+A av&oacute; saiu tamb&eacute;m content&iacute;ssima por
+ver outra vez a luz do dia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O lobo continuava a dormir profundamente, e o ca&ccedil;ador
+meteu-lhe ent&atilde;o
+duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a
+av&oacute; e a
+neta para verem o que se ia passar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se
+para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
+n&atilde;o podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no
+lago, e
+afogou-se.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O ca&ccedil;ador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho
+com a velha
+e a sua neta. A velha sentia-se remo&ccedil;ar, e o chapelinho
+encarnado
+prometeu n&atilde;o tornar a passar na floresta, quando sua
+m&atilde;e lho
+proibisse.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[113]</span>
+<h2><a name="35"></a>Os cinco sonhos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Andando um dia Carlos Magno &agrave; ca&ccedil;a com uma
+comitiva numerosa, perseguiu
+um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da
+ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi
+s&oacute;
+ent&atilde;o que viu que estava s&oacute;, tendo a sua corte
+ficado muito para traz;
+sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana
+solit&aacute;ria
+no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro
+ladr&otilde;es.
+Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
+entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe
+quiseram logo contar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro &agrave; pessoa que
+acaba de entrar
+aqui, e punha-o na minha cabe&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua
+coura&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E eu que estava pondo o seu manto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E eu, disse o quarto ladr&atilde;o, para lhe fazer favor, passava
+em roda do
+meu pesco&ccedil;o aquela <span class="pagenum">[114]</span>pesada
+cadeia de ouro, da qual est&aacute; pendurada a sua
+trompa de ca&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vejo bem, disse o imperador, que t&ecirc;m
+ten&ccedil;&atilde;o de me roubar tudo, e
+mesmo a vida. Reconhe&ccedil;o que estou em poder de
+voc&ecirc;s, e que toda e
+qualquer resist&ecirc;ncia seria in&uacute;til. N&atilde;o
+lhes pe&ccedil;o sen&atilde;o uma coisa, &eacute; que
+me deixem tocar pela &uacute;ltima vez na minha trompa de
+ca&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os salteadores responderam que consentiam, visto que o
+&uacute;ltimo pedido
+dum moribundo deve ser respeitado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos Magno levou &agrave; boca a sua magn&iacute;fica trompa
+de marfim, e tirou
+dela sons t&atilde;o fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos
+todos os
+seus companheiros de ca&ccedil;a e a sua comitiva estavam ao
+p&eacute; dele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora
+tamb&eacute;m
+eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que voc&ecirc;s todos iam
+ser
+enforcados diante deste casebre.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o sonho realizou-se imediatamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[115]</span>
+<h2><a name="36"></a>A igreja do rei</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magn&iacute;fica
+em honra da
+Virgem, decretando que ningu&eacute;m nos seus estados pudesse
+contribuir para
+a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o
+edif&iacute;cio se
+concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do
+m&aacute;rmore uma inscri&ccedil;&atilde;o em letras de
+ouro, que dizia que s&oacute; ele, e mais
+ningu&eacute;m, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na
+noite
+seguinte o nome do rei foi apagado da inscri&ccedil;&atilde;o,
+e substitu&iacute;do por o
+duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
+p&ocirc;r o seu nome na inscri&ccedil;&atilde;o, e de novo
+foi substitu&iacute;do pelo da pobre
+mulher; &agrave; terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de
+c&oacute;lera, ordenou
+ent&atilde;o que lhe trouxessem a mulher &agrave; sua
+presen&ccedil;a:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que
+contribu&iacute;ssem
+fosse com o que fosse para a edifica&ccedil;&atilde;o desta
+igreja; vejo que n&atilde;o
+cumpriste as minhas ordens.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Senhor, respondeu a velhinha toda tr&eacute;mula, eu
+respeitei as vossas
+ordens, apesar da m&aacute;goa <span class="pagenum">[116]</span>que
+sentia por n&atilde;o poder oferecer o meu
+pequenino &oacute;bolo em honra da Virgem; mas julguei
+n&atilde;o desobedecer a vossa
+majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
+que eu levava &agrave;s escondidas aos bois que conduziam as pedras
+destinadas
+&agrave; constru&ccedil;&atilde;o da igreja.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;O teu nome &eacute; mais digno do que o meu de figurar
+em letras de ouro na
+inscri&ccedil;&atilde;o do monumento, disse-lhe o
+rei.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas na noite seguinte uma m&atilde;o invis&iacute;vel
+restabeleceu na l&aacute;pide da igreja
+o nome do rei, que desde ent&atilde;o l&aacute; se conserva
+ainda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[117]</span>
+<h2><a name="37"></a>O valente soldado de
+chumbo</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irm&atilde;os,
+por todos
+terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial,
+de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e
+vermelhos!
+A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da
+caixa em que eles estavam, foi este grito: &laquo;Olha soldados de
+chumbo!&raquo;
+que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado
+de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era
+form&aacute;-los sobre a
+mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
+maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
+menos, porque o tinham deitado na forma em &uacute;ltimo lugar, e
+j&aacute; n&atilde;o havia
+chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros n&atilde;o
+estavam mais
+firmes nas duas pernas do que ele na sua &uacute;nica, e
+&eacute; este o que
+precisamente nos interessa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil
+outros
+brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lind&iacute;ssimo
+castelo de
+papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe <span class="pagenum">[118]</span>o interior dos
+sal&otilde;es.
+&Agrave; volta era circundado duma floresta em miniatura, que se
+reflectia
+poeticamente num peda&ccedil;o de espelho que fingia um lago, onde
+nadavam
+pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas n&atilde;o
+tanto como
+uma menina que estava &agrave; porta, e que era tamb&eacute;m
+de papel, vestida com um
+lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
+tinha os bra&ccedil;os arqueados, porque era dan&ccedil;arina,
+e tinha uma perninha
+levantada a tal altura, que o soldado de chumbo n&atilde;o a podia
+ver, e
+imaginou que, como ele, n&atilde;o tinha sen&atilde;o uma perna.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ali est&aacute; a mulher que me conv&eacute;m, pensou ele, mas
+&eacute; uma grande
+fidalga. Mora num pal&aacute;cio, eu numa caixa em companhia de
+vinte e
+quatro camaradas, e n&atilde;o haveria c&aacute; lugar para
+ela. No entanto
+preciso conhec&ecirc;-la.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deitou-se atr&aacute;s duma caixa de tabaco, e dali podia ver
+&agrave; sua vontade a
+elegante dan&ccedil;arina, que estava sempre num p&eacute;
+s&oacute;, sem perder o
+equil&iacute;brio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave; noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e
+as pessoas
+da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto,
+come&ccedil;aram
+a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados
+de
+chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam
+l&aacute; ir; mas
+como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes come&ccedil;ou a dar
+cabriolas
+e saltos mortais, o l&aacute;pis tra&ccedil;ou mil arabescos
+fant&aacute;sticos numa lousa,
+enfim o barulho tornou-se tal que o can&aacute;rio acordou, e
+p&ocirc;s-se a cantar.
+Os &uacute;nicos que <span class="pagenum">[119]</span>estavam
+quietos eram o soldado de chumbo e a
+dan&ccedil;arinazinha. Ela no bico do p&eacute;, e ele numa
+perna s&oacute;, a
+espreit&aacute;-la.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deu meia noite, e z&aacute;s, a tampa da caixa de rap&eacute;
+levanta-se, e em lugar
+de rap&eacute;, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de
+surpresa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
+s&iacute;tio.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o soldado fez que n&atilde;o ouvia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Espera at&eacute; amanh&atilde;, e ver&aacute;s o que te
+acontece, continuou o feiticeiro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de
+chumbo &agrave; janela, mas de repente ou por influ&ecirc;ncia
+do feiticeiro ou por
+causa do vento caiu &agrave; rua de cabe&ccedil;a para baixo.
+Que tombo! Ficou com a
+perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta
+enterrada entre duas lajes.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A criada e o rapazito foram l&aacute; abaixo procur&aacute;-lo,
+mas estiveram quase a
+esmag&aacute;-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado:
+&laquo;Cautela!&raquo;
+te-lo-&iacute;am achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda.
+A chuva
+come&ccedil;ou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro
+dil&uacute;vio. Depois
+do aguaceiro passaram dois garotos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ol&aacute;! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos
+faz&ecirc;-lo
+navegar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Constru&iacute;ram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o
+soldado de
+chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois
+garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo
+Deus!
+Que for&ccedil;a de corrente! Mas tamb&eacute;m tinha chovido
+tanto! O barco jogava
+<span class="pagenum">[120]</span>duma maneira
+horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
+impass&iacute;vel, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+De repente o barco foi levado para um cano, onde era t&atilde;o
+grande a
+escurid&atilde;o como na caixa dos soldados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me
+meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina
+estivesse no barco, n&atilde;o importava, ainda que a
+escurid&atilde;o fosse duas
+vezes maior.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de &aacute;gua; era um
+habitante do
+cano.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Venha o teu passaporte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o soldado de chumbo n&atilde;o disse nada, e agarrou com mais
+for&ccedil;a na
+espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
+rangendo os dentes, e gritando &agrave;s palhas, e aos
+cavacos:&#8213;Fa&ccedil;am-no
+parar, fa&ccedil;am-no parar! N&atilde;o pagou a passagem,
+n&atilde;o mostrou o passaporte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via j&aacute; a luz do
+dia, e
+sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais
+valente.
+Havia na extremidade do cano uma queda de &aacute;gua
+t&atilde;o perigosa para ele,
+como &eacute; para n&oacute;s uma catarata. Aproximava-se dela
+cada vez mais, sem
+poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lan&ccedil;ou-se
+sobre a
+queda de &aacute;gua, e o pobre soldado firmava-se o mais
+poss&iacute;vel, e ningu&eacute;m se
+atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O barco, depois de ter andado &agrave; roda durante muito tempo,
+encheu-se
+de &aacute;gua, e estava a ponto <span class="pagenum">[121]</span>de
+naufragar. A &aacute;gua j&aacute; chegava ao
+pesco&ccedil;o do
+soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
+&aacute;gua passou por cima da cabe&ccedil;a do nosso
+her&oacute;i. Nesse momento supremo,
+pensou na gentil dan&ccedil;arinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz
+que dizia:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Soldado: o perigo &eacute; enorme, a morte espera-te.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O papel rasgou-se, e o soldado passou atrav&eacute;s dele. Nesse
+momento foi
+devorado por um grande peixe.<br />
+
+
+<br />
+
+
+L&aacute; &eacute; que era escuro, ainda mais que dentro do
+cano. E al&eacute;m disso, que
+talas em que ele estava metido! Mas, sempre intr&eacute;pido, o
+soldado
+estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo,
+at&eacute; que enfim
+parou, e pareceu que o atravessava um rel&acirc;mpago. Apareceu a
+luz do dia,
+e algu&eacute;m exclamou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Olha um soldado de chumbo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O peixe tinha sido pescado, exposto na pra&ccedil;a, vendido, e
+levado para a
+cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
+soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
+gente quis admirar esse homem extraordin&aacute;rio, que tinha
+viajado na
+barriga dum peixe. No entretanto o soldado n&atilde;o se sentia
+orgulhoso.
+Colocaram-no em cima da mesa, e ali&#8213;tanto &eacute; verdade que
+acontecem
+coisas extraordin&aacute;rias neste mundo&#8213;achou-se na mesma sala,
+de cuja
+janela tinha ca&iacute;do. Reconheceu os pequenos e os brinquedos
+que estavam
+em cima da mesa, o lindo pal&aacute;cio, e a ador&aacute;vel
+dan&ccedil;arina sempre <span class="pagenum">[122]</span>de
+perna
+no ar. O soldado de chumbo ficou t&atilde;o comovido, que de boa
+vontade teria
+derramado l&aacute;grimas de chumbo, mas n&atilde;o era
+conveniente. Olhou para ela,
+ela olhou para ele, mas n&atilde;o disseram uma palavra um ao outro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no
+fog&atilde;o; eram obras do feiticeiro da caixa do rap&eacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O soldado de chumbo l&aacute; estava perfilado, alumiado por um
+clar&atilde;o
+sinistro, e sofrendo um calor terr&iacute;vel. Todas as cores lhe
+tinham
+desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas
+viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
+dan&ccedil;arina, que tamb&eacute;m olhava para ele. Sentia-se
+derreter, mas, sempre
+intr&eacute;pido, conservava a espingarda ao ombro. De repente
+abriu-se uma
+porta, o vento arremessou a dan&ccedil;arina ao fog&atilde;o
+para junto do soldado, que
+desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, j&aacute;
+n&atilde;o era mais
+que uma pequena massa informe.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um
+objecto que tinha o feitio dum pequeno cora&ccedil;&atilde;o de
+chumbo, e tudo o que
+restava da dan&ccedil;arina era a fivela do cinto azul que o lume
+tinha
+enegrecido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[123]</span>
+<h2><a name="38"></a>Jo&atilde;o Pateta</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o era filho duma pobre vi&uacute;va, bom rapaz, mas
+um pouco simpl&oacute;rio. A
+gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira Jo&atilde;o Pateta. Um
+dia sua m&atilde;e
+mandou-o &agrave; feira comprar uma foice. &Agrave; volta,
+come&ccedil;ou a andar com a foice
+&agrave; roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e
+matou-a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pateta, disse-lhe sua m&atilde;e, o que deverias ter feito era
+p&ocirc;r a foice em
+um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Perd&atilde;o, m&atilde;e, respondeu humildemente
+Jo&atilde;o, para a outra vez serei mais
+esperto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que
+as n&atilde;o perdesse.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fique descansada. E voltou todo orgulhoso.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o, Jo&atilde;o, onde est&atilde;o as
+agulhas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! est&atilde;o em lugar seguro. Quando sa&iacute; da loja em
+que as comprei, ia a
+passar o carro do vizinho carregado de palha; meti l&aacute; as
+agulhas, n&atilde;o
+podem estar em s&iacute;tio melhor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;De certo, est&atilde;o em lugar de tal modo seguro, que
+n&atilde;o h&aacute; meio de as
+tornar a ver. Devias t&ecirc;-las espetado no
+chap&eacute;u.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[124]</span>&#8213;Perd&atilde;o,
+respondeu Jo&atilde;o, para a outra vez, hei-de ser mais
+esperto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na outra semana, por um dia de calor, Jo&atilde;o foi dali uma
+l&eacute;gua comprar
+uma pouca de manteiga. Lembrando-se do &uacute;ltimo conselho de
+sua m&atilde;e, p&ocirc;s a
+manteiga dentro do chap&eacute;u e o chap&eacute;u na
+cabe&ccedil;a. Imagine-se o estado em
+que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&atilde;e j&aacute; tinha medo de o mandar fazer qualquer
+recado. No entanto um dia
+resolveu-se a mand&aacute;-lo &agrave; feira vender duas
+galinhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ouve bem, n&atilde;o vendas pelo primeiro pre&ccedil;o. Espera
+que te ofere&ccedil;am
+outro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; entendido, respondeu Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi para a feira. Um fregu&ecirc;s chegou-se a ele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Queres seis tost&otilde;es por essas galinhas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora adeus! minha m&atilde;e recomendou-me, que n&atilde;o
+aceitasse o primeiro
+pre&ccedil;o, mas que esperasse o segundo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E tens muita raz&atilde;o. Dou-te um cruzado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o
+primeiro,
+mas, como cumpro as ordens de minha m&atilde;e, ela n&atilde;o
+tem que me ralhar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois disto, Jo&atilde;o foi condenado a ficar em casa. Sua
+m&atilde;e sabia que
+mangavam com ele, e se riam dela. Uma manh&atilde; quis fazer uma
+experi&ecirc;ncia, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vai vender este carneiro &agrave; feira. Mas n&atilde;o te
+deixes enganar. N&atilde;o o
+entregues sen&atilde;o a quem te der o pre&ccedil;o mais
+elevado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; bem, agora entendo, e sei o que hei de
+fazer.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[125]</span>&#8213;Quanto queres por
+esse carneiro?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Minha m&atilde;e disse-me que o n&atilde;o vendesse
+sen&atilde;o pelo pre&ccedil;o mais elevado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quatro mil r&eacute;is?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; o pre&ccedil;o mais elevado?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pouco mais ou menos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; minha a l&atilde; e o carneiro, disse um rapaz que
+trepara a uma escada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quanto?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Dez tost&otilde;es:&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; menos, respondeu timidamente o Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sim, mas v&ecirc;s at&eacute; onde chega esta escada. Em toda
+a feira n&atilde;o h&aacute; um
+pre&ccedil;o mais elevado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o. &Eacute; seu o carneiro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desde esse dia o Jo&atilde;o Pateta n&atilde;o tornou a ser
+encarregado de vender ou
+comprar coisa alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[126]</span>
+<h2><a name="39"></a>Branca de Neve</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma rainha, que se lastimava por n&atilde;o ter filhos.
+Um dia
+de Inverno, enquanto bordava num bastidor de &eacute;bano olhando
+de vez em
+quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no ch&atilde;o,
+distra&iacute;da, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns bei&ccedil;os
+t&atilde;o vermelhos
+como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros
+como este &eacute;bano.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu &agrave;
+luz uma filha,
+que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo
+t&atilde;o branco,
+que lhe chamavam Branca de Neve. Por&eacute;m esta feliz
+m&atilde;e n&atilde;o gozou muito
+tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
+duma grande beleza, e dum orgulho n&atilde;o menos
+extraordin&aacute;rio. Era t&atilde;o
+formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
+vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho
+m&aacute;gico dizia-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, responde-me: qual &eacute; a mulher mais linda
+que h&aacute; no
+mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute;s tu, respondia o espelho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[127]</span>No entanto Branca
+de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
+formosa. Tinha apenas sete anos, e j&aacute; ningu&eacute;m a
+podia ver sem ficar
+maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
+espelho, disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, responde-me: qual &eacute; a mulher mais linda
+que h&aacute; no
+mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute;s tu, n&atilde;o &eacute;s tu.
+Branca de Neve &eacute; mais linda.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no
+cora&ccedil;&atilde;o uma dor aguda,
+como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um &oacute;dio mortal
+pela
+inocente Branca. N&atilde;o podia sossegar nem de dia, nem de
+noite. Para
+satisfazer o seu &oacute;dio, chamou um criado, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quero que Branca desapare&ccedil;a. Conduze-a &agrave;
+floresta, mata-a, e, para me
+provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o
+cora&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e
+dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre crian&ccedil;a
+chorava e
+lamentava-se, e pedia-lhe que a n&atilde;o matasse, porque ela
+n&atilde;o tinha feito
+mal a ningu&eacute;m, e queria viver. O criado, comovido com
+aquelas
+l&aacute;grimas, n&atilde;o teve coragem, e abandonou-a na
+floresta, pensando que se
+as feras a devorassem a culpa n&atilde;o era dele, mas sim da
+rainha. Assim
+fez, e para mostrar o cora&ccedil;&atilde;o de Branca
+&agrave; rainha, matou um cabrito, e
+tirou-lhe o cora&ccedil;&atilde;o. A rainha ao ver aqueles
+despojos sangrentos ficou
+content&iacute;ssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival,
+e nenhuma
+mulher no mundo &eacute; t&atilde;o bela como eu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[128]</span>A pobre Branca,
+abandonada na floresta, n&atilde;o tinha morrido, mas estava
+cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os p&eacute;s
+nas pedras, e
+andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
+tamb&eacute;m via animais ferozes. Mas as feras n&atilde;o lhe
+faziam mal algum, o
+deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave; noite chegou ao p&eacute; duma casinha muito
+pequenina. Estava morta de fome
+e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
+limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha
+de
+brancura irrepreens&iacute;vel, sete pratos pequenos, sete garrafas
+pequenas,
+e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
+do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
+deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
+pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
+que tinham gente em casa. Um deles disse:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem comeu o meu p&atilde;o?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E os outros sucessivamente:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem pegou no meu garfo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem comeu o meu caldo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem bebeu o meu vinho?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E enfim um deles:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem est&aacute; a&iacute; deitado na minha cama?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Reuniram-se todos &agrave; roda do pequeno leito em que dormia
+Branca. &Agrave; luz
+das lanternas viram o doce rosto da crian&ccedil;a, que dormia
+tranquilamente,
+<span class="pagenum">[129]</span>e afastaram-se sem
+fazer bulha, para a n&atilde;o acordar. Branca no dia
+seguinte de manh&atilde; ficou um pouco assustada, quando viu perto
+de si
+aqueles sete an&otilde;es das montanhas. Mas eles disseram-lhe com
+brandura,
+que n&atilde;o tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como
+se chamava.
+Branca contou a sua triste hist&oacute;ria, e os an&otilde;es
+disseram-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente
+sossegada.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Come&ccedil;ou logo o seu servi&ccedil;o, e continuou-o
+regularmente todos os dias.
+Limpava os m&oacute;veis, e fazia o jantar. Os an&otilde;es iam
+trabalhar para as
+minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que
+j&aacute; n&atilde;o
+tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
+e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, n&atilde;o &eacute; verdade que eu sou agora
+a mulher mais linda
+que h&aacute; no mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sim, nos teus pal&aacute;cios e nos teus castelos, mas Branca
+est&aacute; nas sete
+montanhas, e Branca &eacute; mais linda do que tu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe
+cruel,
+e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que
+modo? Uma manh&atilde; partiu disfar&ccedil;ada em vendedeira
+ambulante, com um cesto
+cheio de objectos de fantasia. Foi direita &agrave;s sete
+montanhas, e bateu &agrave;
+<span class="pagenum">[130]</span>porta da casinha,
+gritando: &laquo;Quem quer comprar bonitas
+j&oacute;ias?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os an&otilde;es tinham recomendado a Branca que desconfiasse das
+caras
+estranhas, receando os emiss&aacute;rios da rainha, e ela tinha
+prometido ser
+prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no
+cesto, esqueceu-se das suas promessas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou p&ocirc;r ao
+pesco&ccedil;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
+an&otilde;es voltaram, viram a infeliz Branca estendida no
+ch&atilde;o e completamente
+inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos l&aacute;bios
+algumas
+gotas dum licor amarelo. Branca come&ccedil;ou a respirar, voltou a
+si pouco
+a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira
+n&atilde;o era
+outra pessoa, sen&atilde;o a tua inimiga, a rainha. Toma cautela,
+n&atilde;o deixes
+entrar aqui ningu&eacute;m, quando n&atilde;o estivermos em
+casa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao entrar no seu pal&aacute;cio toda contente, colocou-se a rainha
+diante do
+espelho, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho: Qual &eacute; agora a mulher mais linda que
+h&aacute; no mundo?
+Responde.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute;s tu nos teus grandes pal&aacute;cios e nos teus
+castelos, mas Branca est&aacute;
+nas sete montanhas, e Branca &eacute; mais linda do que
+tu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
+infeliz Branca. Tornou-se a disfar&ccedil;ar <span class="pagenum">[131]</span>em vendedeira. Chegou
+&agrave;s sete
+montanhas, e bateu &agrave; porta da cabana.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem quer comprar lindas j&oacute;ias? Branca veio &agrave;
+janela, e respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;V&aacute;-se embora, aqui n&atilde;o entra
+ningu&eacute;m.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro.
+J&aacute;
+viu outro t&atilde;o bonito?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Branca n&atilde;o p&ocirc;de resistir ao desejo de possuir
+aquela j&oacute;ia. Abriu a
+porta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! minha linda menina, deixe-me p&ocirc;r-lho na
+cabe&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao dizer isto enterrou-lhe na cabe&ccedil;a o pente, que estava
+envenenado, e
+Branca caiu morta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave; noite quando regressaram os an&otilde;es, acharam-na
+p&aacute;lida e fria.
+Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e
+tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No entanto a cruel rainha voltava content&iacute;ssima para o seu
+pal&aacute;cio.
+Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a
+que
+o espelho respondeu como antecedentemente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! &eacute; preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha
+de me
+sacrificar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vestiu-se de camponesa com um cesto de ma&ccedil;&atilde;s.
+Entre elas havia uma que
+estava envenenada dum lado. Foi, e bateu &agrave; porta da
+cabana.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, n&atilde;o deixo
+entrar
+ningu&eacute;m, nem compro coisa alguma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; bem, n&atilde;o faltar&aacute; quem compre
+estas ricas ma&ccedil;&atilde;s. Mas por ser t&atilde;o
+bonita, quero dar-lhe uma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[132]</span>&#8213;Obrigada,
+n&atilde;o posso aceitar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Imagina que est&aacute; envenenada. Olhe, eu vou comer um
+peda&ccedil;o. Ah! que boa
+que &eacute;! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas
+palavras, a traidora
+mordia no lado da ma&ccedil;&atilde;, que n&atilde;o estava
+envenenado. Branca deixou-se
+tentar, levou &agrave; boca o outro peda&ccedil;o, e caiu
+fulminada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;A&iacute; tens, para castigo da tua formosura.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou ao pal&aacute;cio a rainha foi direita ao espelho, e
+perguntou-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, quem &eacute; agora a mulher mais
+linda?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute;s tu, &eacute;s tu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;At&eacute; que enfim!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os an&otilde;es estavam inconsol&aacute;veis. Debalde tinham
+tentado reanim&aacute;-la com o
+licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca
+continuava
+fria e inanimada. Choraram por ela durante tr&ecirc;s dias, e os
+passarinhos
+da floresta choraram tamb&eacute;m. No entanto as boas avezinhas
+n&atilde;o podiam
+acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto t&atilde;o
+tranquilo,
+as suas faces t&atilde;o frescas, parecia que estava a dormir.
+N&atilde;o quiseram
+enterr&aacute;-la. Meteram-na num caix&atilde;o de cristal, e
+escreveram em cima.
+&laquo;Aqui jaz a filha dum rei;&raquo; puseram o
+caix&atilde;o numa das sete montanhas,
+e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
+assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais
+pequena altera&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar
+&agrave;
+ca&ccedil;a, viu o caix&atilde;o, e pediu aos an&otilde;es
+que lho cedessem, fosse por pre&ccedil;o
+que fosse.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[133]</span>&#8213;Somos muito
+ricos, e por nada deste mundo venderemos este caix&atilde;o, que
+&eacute; o nosso tesouro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o d&ecirc;em-mo, j&aacute; n&atilde;o posso
+viver sem contemplar este rosto de
+mulher. Guard&aacute;-lo-ei na melhor sala do meu
+pal&aacute;cio. Pe&ccedil;o-lhes que me
+fa&ccedil;am isto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os an&otilde;es, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no
+caix&atilde;o para
+o levarem. Um deles trope&ccedil;ou numa raiz, e o
+caix&atilde;o sofreu um
+balan&ccedil;o, que fez cair o bocado da ma&ccedil;&atilde;
+envenenada, que Branca n&atilde;o tinha
+engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou.
+O
+jovem pr&iacute;ncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela.
+O
+casamento fez-se com grande pompa. O pr&iacute;ncipe convidou todos
+os reis e
+rainhas dos diferentes pa&iacute;ses, e entre elas a rainha inimiga
+de
+Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos
+os olhares, p&ocirc;s-se diante do espelho, e disse a rainha:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que h&aacute; do
+mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Branca &eacute; mais formosa que tu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus
+crimes
+fossem descobertos, que morreu de repente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu pal&aacute;cio
+de
+princesa n&atilde;o se esqueceu dos an&otilde;es que tinham
+sido os seus benfeitores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[134]</span>
+<h2><a name="40"></a>A rapariguinha e os
+f&oacute;sforos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que frio! a neve ca&iacute;a, e a noite aproximava-se; era o
+&uacute;ltimo de
+Dezembro, v&eacute;spera de Ano Bom. No meio deste frio e desta
+escurid&atilde;o
+passou na rua uma desgra&ccedil;ada pequerrucha, com a
+cabe&ccedil;a descoberta e os
+p&eacute;s descal&ccedil;os. &Eacute; verdade que trazia
+sapatos ao sair de casa, mas
+tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua
+m&atilde;e j&aacute;
+tinha usado, t&atilde;o grandes, que a pequenita perdeu-os ao
+atravessar a rua
+a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
+quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a
+inten&ccedil;&atilde;o de fazer
+dele um ber&ccedil;o para o seu primeiro filho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha
+no seu velho avental uma grande quantidade de f&oacute;sforos, e
+levava na
+m&atilde;o um ma&ccedil;o deles. O dia correra-lhe mal;
+n&atilde;o tinha havido
+compradores, e por isso n&atilde;o apurara cinco r&eacute;is.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
+longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do
+pesco&ccedil;o; <span class="pagenum">[135]</span>mas
+pensava ela porventura nos seus cabelos anelados?<br />
+
+
+<br />
+
+
+As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos
+manjares; era a v&eacute;spera de dia de Ano Bom: eis no que ela
+pensava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
+vez mais, mas n&atilde;o se atrevia a voltar para casa: o pai
+bater-lhe-ia,
+porque n&atilde;o tinha vendido os seus f&oacute;sforos.
+Al&eacute;m disso em sua casa
+fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o
+vento
+atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
+m&atilde;ozinhas j&aacute; quase que as n&atilde;o sentia.
+Ai! como um fosforozinho aceso
+lhe faria bem! Se tirasse do ma&ccedil;o apenas um, um
+&uacute;nico, e ascendendo-o
+aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: <i>ritche</i>!
+como estoirou! como
+ardeu! Era uma chama t&eacute;pida e clara, como uma pequena
+lamparina. Que
+luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro
+de ferro, cujo lume magn&iacute;fico aquecia t&atilde;o
+suavemente, que era um regalo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pequerrucha ia j&aacute; a estender os pezitos para os aquecer
+tamb&eacute;m, quando
+a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na
+m&atilde;o uma
+pontita de f&oacute;sforo consumido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu segundo f&oacute;sforo, que ardeu, que brilhou, e o muro
+onde bateu
+a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando
+atrav&eacute;s desse
+muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha
+alv&iacute;ssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual
+uma galinha
+assada com recheio de ameixas e de batatas <span class="pagenum">[136]</span>fumegava
+exalando um perfume
+delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do
+prato, e caiu no ch&atilde;o ao p&eacute; da pequerrucha, com o
+garfo e a faca
+espetada no lombo. Nisto apagou-se o f&oacute;sforo, e viu apenas
+diante de
+si a parede fria e tenebrosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu terceiro f&oacute;sforo, e achou-se imediatamente sentada
+debaixo
+de uma magn&iacute;fica &aacute;rvore do Natal; era ainda mais
+rica e maior do que a
+que tinha visto no ano passado atrav&eacute;s dos vidros de um
+armaz&eacute;m
+sumptuoso.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nos ramos verdes brilhavam centenares de bal&otilde;es acesos, e as
+estampas
+coloridas, como as que h&aacute; &agrave;s portas das lojas,
+pareciam sorrir-lhe.
+Quando ia agarr&aacute;-las com as duas m&atilde;os, apagou-se
+o f&oacute;sforo; todos os
+bal&otilde;es da &aacute;rvore do Natal come&ccedil;aram a
+subir, a subir, e viu ent&atilde;o que se
+tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no
+c&eacute;u
+um longo rasto de fogo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; algu&eacute;m que est&aacute; a morrer, disse a
+pequerrucha; porque a sua av&oacute;, que
+lhe queria tanto, mas que j&aacute; morrera, dissera-lhe muitas
+vezes: &laquo;Quando
+cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu ainda outro f&oacute;sforo: deu uma grande luz, no meio da
+qual lhe
+apareceu sua av&oacute;, de p&eacute;, com um ar radioso e
+suav&iacute;ssimo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Minha av&oacute;, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei
+que te vais
+embora quando se apagar o f&oacute;sforo. Desaparecer&aacute;s
+como a panela de
+ferro, a galinha assada, e a bela &aacute;rvore do Natal.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu o rosto do ma&ccedil;o, porque n&atilde;o queria <span class="pagenum">[137]</span>que sua av&oacute; lhe
+fugisse, e
+os f&oacute;sforos espalharam um clar&atilde;o mais vivo que a
+luz do dia. Nunca sua
+av&oacute; tinha sido t&atilde;o formosa. P&ocirc;s ao colo
+a pequerruchinha, e ambas
+alegres, no meio deste deslumbramento, voaram t&atilde;o alto,
+t&atilde;o alto, que
+j&aacute; n&atilde;o tinha nem frio, nem fome, nem agonias:
+haviam chegado ao Para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os
+dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos
+l&aacute;bios...
+morta, morta de frio na &uacute;ltima noite do ano. O dia de Ano
+Bom veio
+alumiar o pequenino cad&aacute;ver, sentado ali com os seus
+f&oacute;sforos, a que
+faltava um ma&ccedil;o, que tinha ardido quase inteiramente.&#8213;Quis
+aquecer-se,
+disse um homem que passou.&raquo; E ningu&eacute;m soube nunca
+as lindas coisas que
+ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
+velha av&oacute; no dia do Ano Novo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[138]</span>
+<h2><a name="41"></a>O primeiro pecado de
+Margarida</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chamava-se Margarida, e estavam &agrave; espera dela no
+c&eacute;u, porque Deus
+tinha dito:&#8213;&Eacute; uma boa alma, e, como l&aacute; em baixo
+no mundo lhe pode
+acontecer alguma desgra&ccedil;a, vou traz&ecirc;-la um destes
+dias para o para&iacute;so.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Margarida era uma virgem c&acirc;ndida, matinal como a aurora,
+fresca como
+ela; todos os dias ao acordar rezava as ora&ccedil;&otilde;es,
+que sua m&atilde;e lhe tinha
+ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como
+n&atilde;o tinha
+j&oacute;ias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela
+can&ccedil;&atilde;o
+de amor e de gl&oacute;ria, que j&aacute; embalara muitos
+ber&ccedil;os, e que podia
+sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Numa tarde de Ver&atilde;o, estava ela sentada &agrave; porta
+de casa fiando linho,
+&agrave; hora em que as estrelas come&ccedil;am a aparecer, uma
+a uma no firmamento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estava Margarida cantando a sua can&ccedil;&atilde;o, quando <span class="pagenum">[139]</span>passou por ali uma das
+suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido
+novo.
+Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
+colar de ouro que levava ao pesco&ccedil;o; apertou-lhe a
+m&atilde;o para que visse
+bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
+contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que
+inquietou no para&iacute;so o seu anjo da guarda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O fio de linho j&aacute; n&atilde;o passava t&atilde;o
+rapidamente entre os dedos de
+Margarida, a roda cessara o seu barulho mon&oacute;tono, e o fuso
+ca&iacute;ra-lhe das
+m&atilde;os.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao cair o fuso despertou do &ecirc;xtase, abriu os olhos, e viu
+diante de si
+um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na m&atilde;o um gorro
+de veludo
+preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a
+respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
+perguntou-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Qual &eacute; o caminho da cidade?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Margarida estendeu a m&atilde;o para lho indicar, e o forasteiro
+inclinando-se
+tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma
+estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que
+o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se
+ent&atilde;o com
+um sorriso estranho e diab&oacute;lico.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
+Margarida, e pediu-lhe uma esmola.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre
+desgra&ccedil;ado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O cavaleiro ent&atilde;o, soltando um grito de c&oacute;lera,
+ia lan&ccedil;ar-se sobre
+Margarida, mas o mendigo&#8213;<span class="pagenum">[140]</span>que
+era o seu anjo da guarda
+disfar&ccedil;ado&#8213;cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto
+&eacute; Satan&aacute;s, que
+tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do
+esp&iacute;rito celeste.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[141]</span>
+<h2><a name="42"></a>Um nome inscrito no
+c&eacute;u</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um pobre mendigo, que bateu &agrave; porta duma humilde
+cabana a
+pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas n&atilde;o
+vendo, nem
+ouvindo ningu&eacute;m, abriu a porta de mansinho e entrou no
+casebre; viu
+ent&atilde;o uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Ai! n&atilde;o te posso dar nada, porque nada
+tenho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater
+&agrave; mesma
+porta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, j&aacute; te disse que
+n&atilde;o tenho nada
+que te dar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Foi por isso que eu voltei&#8213;disse em voz baixa o mendigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
+cima da mesa, muitos bocados de p&atilde;o e algumas moedas de dez
+r&eacute;is, que
+lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Aqui te fica isto, santinha&#8213;disse-lhe ele afectuosamente, indo-se
+embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos
+escrev&ecirc;-lo-&atilde;o no
+Para&iacute;so, e mais tarde n&oacute;s o viremos a saber.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[142]</span>
+<h2> <a name="43"></a>O linho</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e
+transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios
+sobre
+ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o
+dum filho quando a m&atilde;e o lava e lhe d&aacute; um beijo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
+e serei brevemente uma rica pe&ccedil;a de pano. Sinto-me feliz.
+N&atilde;o h&aacute;
+ningu&eacute;m que seja mais feliz do que eu sou. Tenho
+sa&uacute;de e um belo
+futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
+feliz, feliz a mais n&atilde;o poder ser!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como &eacute;s ing&eacute;nuo! disseram as silvas do valado;
+tu n&atilde;o conheces o
+mundo, de que n&oacute;s outras temos uma larga
+experi&ecirc;ncia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E rangendo lastimosamente, cantaram:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">&#8213;Cric, crac! cric, crac! crac!<br />
+
+
+&#8213;Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div>
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o t&atilde;o cedo como voc&ecirc;s imaginam,
+respondeu o linho; est&aacute; uma bela
+manh&atilde;, o sol resplandece, <span class="pagenum">[143]</span>e
+a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+florir. Sou muit&iacute;ssimo feliz.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
+cabeleira, arrancaram-no com ra&iacute;zes e tudo, e deram-lhe
+tratos de
+pol&eacute;. Primeiro mergulharam-no em &aacute;gua, como se o
+quisessem afog&aacute;-lo, e
+depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si;
+&eacute; necess&aacute;rio
+sofrer, o sofrimento &eacute; a m&atilde;e da
+experi&ecirc;ncia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no,
+cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois,
+puseram-no numa roca, e ent&atilde;o perdeu a cabe&ccedil;a
+inteiramente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Era feliz de mais, pensava o desgra&ccedil;ado linho no meio
+daquelas
+torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades
+perdidas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E ainda estava dizendo&#8213;perdidas, e j&aacute; o estavam a meter no
+tear e a
+transform&aacute;-lo numa pe&ccedil;a de pano.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Isto &eacute; extraordin&aacute;rio, nunca o imaginei; que boa
+sorte a minha, e que
+grandes tolas aquelas silvas quando cantavam:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Cric, crac! cric, crac! crac!<br />
+
+
+Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div>
+
+
+<br />
+
+
+Agora &eacute; que eu principio a viver. Padeci muito, &eacute;
+verdade, mas por isso
+tamb&eacute;m agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me
+t&atilde;o forte, t&atilde;o alto,
+t&atilde;o macio! Ah! isto &eacute; bem melhor do que ser
+planta, mesmo florida,
+ningu&eacute;m trata da gente, e <span class="pagenum">[144]</span>n&atilde;o
+bebemos outra &aacute;gua a n&atilde;o ser a da chuva.
+Agora &eacute; o contr&aacute;rio: que cuidados! As raparigas
+estendem-me todas as
+manh&atilde;s, e &agrave; noite tomo o meu banho com um
+regador. A criada do sr. cura
+fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
+melhor pe&ccedil;a da par&oacute;quia. N&atilde;o posso ser
+mais feliz.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Levaram o pano para casa, e entregaram-no &agrave;s tesouras.
+Cortaram-no e
+picaram-no com uma agulha. N&atilde;o era l&aacute; muito
+agrad&aacute;vel, mas em
+compensa&ccedil;&atilde;o fizeram dele uma d&uacute;zia de
+camisas magn&iacute;ficas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Agora decididamente come&ccedil;o a valer alguma coisa. O meu
+destino &eacute;
+aben&ccedil;oado, porque sou &uacute;til neste mundo.
+&Eacute; preciso isso para se viver em
+paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze peda&ccedil;os, &eacute;
+verdade, mas formamos um
+s&oacute; grupo, uma d&uacute;zia. Que incompar&aacute;vel
+felicidade!<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas
+n&atilde;o
+se fazem imposs&iacute;veis.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
+finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem
+adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em
+papel
+branco magn&iacute;fico.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh que agrad&aacute;vel surpresa! exclamou o papel, agora sou
+muito mais fino
+do que dantes, e v&atilde;o cobrir-me de letras. O que
+n&atilde;o escrever&atilde;o em cima
+de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E escreveram nele as mais belas hist&oacute;rias, que foram lidas
+diante de
+in&uacute;meros ouvintes, e os tornaram mais s&aacute;bios e
+melhores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[145]</span>&#8213;Ora aqui
+est&aacute; uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
+quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
+ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! N&atilde;o
+sei
+explicar o que me est&aacute; acontecendo, mas &eacute;
+verdade. Deus sabe
+perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
+sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, at&eacute; chegar
+&agrave; maior gl&oacute;ria.
+Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: &laquo;Acabou-se,
+acabou-se&raquo;
+tudo pelo contr&aacute;rio se me apresenta debaixo do aspecto mais
+risonho. Vou
+viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
+instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora
+as minhas flores s&atilde;o os mais elevados pensamentos. Sinto-me
+feliz,
+imensamente feliz!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o papel n&atilde;o foi viajar; entregaram-no ao
+tip&oacute;grafo, e tudo que l&aacute;
+estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
+que recrearam e instru&iacute;ram uma infinidade de pessoas. O
+nosso bocado de
+papel n&atilde;o teria prestado o mesmo servi&ccedil;o, ainda
+que desse a volta &agrave; roda
+do mundo. A meio caminho j&aacute; estaria gasto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; justo, disse o papel, n&atilde;o tinha pensado nisso.
+Fico em casa, e vou
+ser considerado como um velho av&ocirc;! fui eu que recebi as
+letras, as
+palavras ca&iacute;ram directamente da pena sobre mim, fico no meu
+lugar, e os
+livros v&atilde;o por esse mundo fora. A sua miss&atilde;o
+&eacute; realmente bela, e eu
+estou contente, e julgo-me feliz.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O papel foi empacotado, e lan&ccedil;ado para uma estante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Depois do trabalho &eacute; agrad&aacute;vel o descanso, <span class="pagenum">[146]</span>pensou ele. &Eacute;
+neste
+isolamento que a gente aprende a conhecer-se. S&oacute; de hoje em
+diante &eacute; que
+eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a n&oacute;s mesmo
+&eacute; a verdadeira
+perfei&ccedil;&atilde;o. Que me ir&aacute; ainda acontecer?
+Progredir, est&aacute; claro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passados tempos, o papel foi atirado ao fog&atilde;o para o
+queimarem, porque o
+que o n&atilde;o queriam vender ao merceeiro para embrulhar
+a&ccedil;&uacute;car. E todas as
+crian&ccedil;as da casa se puseram &agrave; roda; queriam
+v&ecirc;-lo arder, e ver tamb&eacute;m,
+depois da labareda, as milhares de fa&iacute;scas vermelhas, que
+parecem fugir,
+e se apagam instantaneamente uma ap&oacute;s outra. O
+ma&ccedil;o inteiro de papel
+foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande
+chama, que se erguia t&atilde;o alto, t&atilde;o alto como o
+linho nunca erguera as
+suas flores azuis; a pe&ccedil;a de pano nunca tinha tido um brilho
+semelhante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
+palavras, todas as ideias desapareceram em l&iacute;nguas de fogo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Vou subir at&eacute; ao sol;&raquo; dizia uma voz
+no meio da labareda, que
+pareciam mil vozes reunidas numa s&oacute;. A chama saiu pela
+chamin&eacute;, e no
+meio dela volteavam pequeninos seres invis&iacute;veis para os
+olhos do
+homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha
+dado.
+Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu,
+quando n&atilde;o restava do papel sen&atilde;o a cinza negra,
+ainda eles dan&ccedil;avam
+sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas
+encarnadas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+As crian&ccedil;as cantavam &agrave; roda da cinza inanimada:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[147]</span>
+<div class="poetry">Cric, crac! cric, crac! crac!<br />
+
+
+Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div>
+
+
+<br />
+
+
+Mas cada um dos pequeninos seres dizia: &laquo;N&atilde;o,
+n&atilde;o se acabou; agora &eacute; que
+&eacute; o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+As crian&ccedil;as n&atilde;o puderam ouvir, nem compreender
+estas palavras; mas
+tamb&eacute;m n&atilde;o era necess&aacute;rio, porque as
+crian&ccedil;as n&atilde;o devem saber tudo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;">FIM.<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h5>&Iacute;NDICE</h5>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div>
+<a href="#1">A m&atilde;e</a><br />
+
+
+<a href="#2">O ouro</a><br />
+
+
+<a href="#3">Do&ccedil;ura e bondade</a><br />
+
+
+<a href="#4">O malmequer</a><br />
+
+
+<a href="#5">N&atilde;o quero</a><br />
+
+
+<a href="#6">Piloto</a><br />
+
+
+<a href="#7">O rico e o pobre</a><br />
+
+
+<a href="#8">Como um campon&ecirc;s aprendeu o Padre
+Nosso</a><br />
+
+
+<a href="#9">O talism&atilde;</a><br />
+
+
+<a href="#10">A alma</a><br />
+
+
+<a href="#11">Alberto</a><br />
+
+
+<a href="#12">A can&ccedil;&atilde;o da cerejeira</a><br />
+
+
+<a href="#13">Os gigantes da montanha e os
+an&otilde;es da plan&iacute;cie</a><br />
+
+
+<a href="#14">A crian&ccedil;a, o anjo e flor</a><br />
+
+
+<a href="#15">Presente por presente</a><br />
+
+
+<a href="#16">O pinheiro ambicioso</a><br />
+
+
+<a href="#17">Perfei&ccedil;&atilde;o das obras de
+Deus</a><br />
+
+
+<a href="#18">Jo&atilde;o e os seus camaradas</a><br />
+
+
+<a href="#19">O rabequista</a><br />
+
+
+<a href="#20">Os p&ecirc;ssegos</a><br />
+
+
+<a href="#21">A urna das l&aacute;grimas</a><br />
+
+
+<a href="#22">Reconhecimento e ingratid&atilde;o</a><br />
+
+
+<a href="#23">O fato novo do sult&atilde;o</a><br />
+
+
+<a href="#24">Boa senten&ccedil;a</a><br />
+
+
+<a href="#25">Os animais agradecidos</a><br />
+
+
+<a href="#26">O ermit&atilde;o</a><br />
+
+
+<a href="#27">Carlos Magno e o abade de S. Gall</a><br />
+
+
+<a href="#28">A boneca</a><br />
+
+
+<a href="#29">Inconveniente da riqueza</a><br />
+
+
+<a href="#30">Querer &eacute; poder</a><br />
+
+
+<a href="#31">Qual ser&aacute; rei?</a><br />
+
+
+<a href="#32">Os tr&ecirc;s v&eacute;us de Maria</a><br />
+
+
+<a href="#33">Os pequenos no bosque</a><br />
+
+
+<a href="#34">O chapelinho encarnado</a><br />
+
+
+<a href="#35">Os cinco sonhos</a><br />
+
+
+<a href="#36">A igreja do rei</a><br />
+
+
+<a href="#37">O valente soldado de chumbo</a><br />
+
+
+<a href="#38">Jo&atilde;o Pateta</a><br />
+
+
+<a href="#39">Branca de Neve</a><br />
+
+
+<a href="#40">A rapariguinha e os f&oacute;sforos</a><br />
+
+
+<a href="#41">O primeiro pecado de Margarida</a><br />
+
+
+<a href="#42">Um nome inscrito no c&eacute;u</a><br />
+
+
+<a href="#43">O linho</a><br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<table style="width: 449px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto; height: 210px;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr align="right">
+
+
+ <td style="width: 99px; height: 23px;"></td>
+
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 148px; height: 23px;">Original</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 23px;"></td>
+
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 158px; height: 23px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e1"></a><a href="#p56">#p&aacute;g.
+56</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">entrar?</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">entrar!</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e2"></a><a href="#p58">#p&aacute;g.
+58</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">Jo&atilde;o.</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">Jo&atilde;o:</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e3"></a><a href="#p58">#p&aacute;g.
+58</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">embora?</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">embora.</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e4"></a><a href="#p107">#p&aacute;g.
+107</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">encontremos</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">encontraremos</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A propriedade deste livro pertence no Brasil ao sr. Lu&iacute;s de
+Andrade,
+residente no Rio de Janeiro.<br />
+
+</body>
+</html>