summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/old/modern/contos.txt
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to 'old/modern/contos.txt')
-rw-r--r--old/modern/contos.txt4000
1 files changed, 4000 insertions, 0 deletions
diff --git a/old/modern/contos.txt b/old/modern/contos.txt
new file mode 100644
index 0000000..e29ba95
--- /dev/null
+++ b/old/modern/contos.txt
@@ -0,0 +1,4000 @@
+
+
+
+
+Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the
+original version, already available at Project Gutenberg. / Actualização
+ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg.)
+
+
+
+
+
+
+
+
+CONTOS PARA A INFÂNCIA
+
+ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES POR GUERRA JUNQUEIRO
+
+
+LISBOA
+
+TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOMÁS QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL
+
+Rua dos Calafates, 110
+
+1877
+
+
+
+
+*A mãe*
+
+
+Estava uma mãe muito aflita, sentada ao pé do berço do seu filho, com
+medo que lhe morresse. A criancinha pálida tinha os olhos fechados.
+Respirava com dificuldade, e às vezes tão profundamente, que parecia
+gemer; mas a mãe causava ainda mais lástima do que o pequenino
+moribundo.
+
+Nisto bateram à porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado
+numa manta de arrieiro. Era no Inverno. Lá fora estava tudo coberto de
+neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha.
+
+O pobre homem tremia de frio; a criança adormecera por alguns instantes,
+e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho
+começou a embalar a criança, e a mãe, pegando numa cadeira, sentou-se
+ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
+vez com mais dificuldade, pegou-lhe na mãozinha descarnada e disse para
+o velho:
+
+--Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar! não é verdade?--
+
+E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça duma maneira estranha, em
+ar de dúvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lágrimas
+corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de
+cabeça; estava sem dormir havia três dias e três noites. Passou
+ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a
+tremer de frio.
+
+--Que é isto! exclamou, lançando à volta de si o olhar alucinado. O
+berço estava vazio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a criança.
+
+ * * * * *
+
+A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma
+mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em
+casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
+depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a entregar.»
+
+--Por onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo pelo amor de Deus!»
+
+--Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto.
+Mas só to ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas
+ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
+muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas.
+
+--Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me
+demores, porque quero encontrar o meu filho.--
+
+A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lágrimas, começou a
+cantar. Cantou muitas canções, mas as lágrimas foram mais do que as
+palavras.
+
+No fim disse-lhe a Noite: «Toma à direita, pela floresta escura de
+pinheiros. Foi por aí que a Morte fugiu com o teu filho.»
+
+A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não
+sabia que direcção havia de seguir. Diante dela havia um matagal,
+cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
+cristalizada.
+
+ * * * * *
+
+--Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe.
+
+--Vi, respondeu o matagal, mas não te ensino o caminho, senão com a
+condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»
+
+E a mãe estreitou o matagal contra o coração; os espinhos
+dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se
+de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite
+de Inverno frigidíssima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe
+angustiosa.
+
+E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
+andando, até que chegou à margem dum grande lago, onde não havia nem
+barcos, nem navios. Não estava suficientemente gelado para se andar por
+ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo,
+querendo encontrar o seu filho, era necessário atravessá-lo. No delírio
+do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a água do
+lago. Era impossível, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria
+talvez um milagre.
+
+--Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Sossega, e entendamo-nos
+amigavelmente. Gosto de ver pérolas no fundo das minhas águas, e os teus
+olhos são dum brilho mais suave do que as pérolas mais ricas que eu
+tenho possuído. Se queres, arranca-os das órbitas à força de chorar, e
+levar-te-ei à estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a
+habitação da Morte; e as flores e as árvores que estão lá dentro, é ela
+quem as cultiva; cada flor e cada árvore é a vida duma criatura
+humana.»
+
+--Oh! o que não darei eu, para reaver o meu filho!» disse a mãe. E
+apesar de ter já chorado tantas lágrimas, chorou com mais amargura do
+que nunca, e os seus olhos destacaram-se das órbitas e caíram no fundo
+do lago, transformando-se em duas pérolas, como ainda as não teve no
+mundo uma rainha.
+
+O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na
+outra margem, aonde havia um maravilhoso edifício, com mais de uma légua
+de comprido. De longe não se sabia se era uma construção artística ou
+uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada;
+tinha dado os seus olhos.
+
+--Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou
+ela desesperada.
+
+--A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava dum
+lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
+vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho?»
+
+--Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus é misericordioso. Compadece-te
+de mim, e diz-me onde está o meu filho.»
+
+--Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Há aqui muitas plantas
+e muitas árvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda aí para
+as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste
+sítio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem
+com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes,
+sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as
+pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o
+que tens ainda de fazer?»
+
+--Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim
+do mundo buscar o que tu quiseres.--«Fora daqui não preciso de nada,
+respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabelos negros; tu sabes que
+são belos, e agradam-me. Trocá-los-ei pelos meus cabelos
+brancos.»--Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Aí os tens,
+dou-tos de boa vontade.»
+
+E arrancou os seus magníficos cabelos, que tinham sido outrora o seu
+orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e
+inteiramente brancos da velha.
+
+Esta levou-a pela mão à grande estufa, onde crescia exuberantemente uma
+vegetação maravilhosa. Viam-se debaixo de campânulas de cristal jacintos
+mimosíssimos ao lado de peónias inchadas e ordinárias. Havia também plantas
+aquáticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raízes se
+enovelavam cobras asquerosas.
+
+Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e plátanos
+frondosos; depois num outro sítio isolado havia canteiros de salsa,
+tomilho, hortelã e outras plantas humildes que representavam o género de
+utilidade das pessoas que elas simbolizavam.
+
+Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
+pareciam rebentar; mas viam-se também florzitas insignificantes, em
+vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com
+esmero delicadíssimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a
+essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlândia.
+
+A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a mãe
+impacientada pediu-lhe que a levasse ao sítio onde estavam as plantas
+pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
+coração, e, depois de ter tocado em milhares delas, reconheceu as
+pulsações do coração do seu filho.
+
+--É ele!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre
+a terra, parecia completamente estiolado.
+
+--Não lhe toques, disse a velha. Fica neste sítio; e quando a Morte
+vier, que não tarda, proíbe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de
+arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem
+de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu
+consentimento.»
+
+Nisto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte,
+que se aproximava.
+
+--Como é que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
+primeiro do que eu! Como o conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ela.
+
+E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.
+
+Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de
+não ferir uma só das pequeninas pétalas. Então a Morte soprou-lhe nas
+mãos, fazendo-lhas cair inanimadas. O hálito da Morte era mais frio do
+que os ventos enregelados do Inverno.
+
+--Não podes nada comigo!» disse a Morte.--Mas Deus tem mais força do que
+tu, respondeu a mãe.»--«É verdade, mas eu não faço senão aquilo que
+ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, árvores e
+arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins,
+um dos quais é o grande jardim do Paraíso. São regiões desconhecidas;
+ninguém sabe o que se lá passa.»
+
+--Misericórdia! misericórdia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho,
+agora que acabo de o encontrar!» Suplicava e gemia. A Morte
+conservava-se impassível; agarrou então instantaneamente em duas flores
+lindíssimas e disse à Morte: «Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar,
+despedaçar não só esta, mas todas as flores que estão aqui!
+
+--Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és
+desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra mãe!»
+disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente.--Toma, aqui
+tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei
+do lago. Não sabia que eram teus. Mete-os nas órbitas, e olha para o
+fundo deste poço; vê o que ias destruir, se arrancasses estas flores.
+Verás passar nos reflexos da água, como numa miragem, a sorte destinada
+a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se
+porventura vivesse.»
+
+Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria,
+quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terríveis de
+miséria, de angústias e de desolação.
+
+--Nisto que eu vejo, disse a mãe aflitíssima, não distingo qual era a
+sorte que Deus destinava ao meu filho.»
+
+--Não posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto
+que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu filho.»
+
+A mãe desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Suplico-te, diz-me:
+era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade! Fala!
+Não me respondes? Oh! na dúvida, leva-o, leva-o, não vá ele sofrer
+desgraças tão horríveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que à minha
+vida. As angústias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos céus.
+Esquece as minhas lágrimas, as minhas súplicas, esquece tudo o que fiz
+e tudo o que disse.»
+
+--Não te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu
+filho ou que o leve para a região desconhecida de que não posso
+falar-te!» Então a mãe alucinada, convulsa, torcendo os braços,
+deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: «Não me ouças,
+Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua vontade que é
+sempre justa! Não me atendas meu Deus!»
+
+E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua agonia
+dilacerante.
+
+E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi transplantá-lo no
+jardim do paraíso.
+
+
+
+
+
+*O ouro*
+
+
+Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de ouro,
+empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o
+resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande
+fome no país.
+
+Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
+segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
+e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com
+que ele ficou todo satisfeito, porque não compreendeu ao princípio
+qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada
+de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem
+que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus
+vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
+trazê-los nas minas à busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e
+que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens,
+estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro
+aparecesse em abundância.
+
+A rainha tinha juízo.
+
+
+
+
+*Doçura e bondade*
+
+
+Há entre vós, meus filhos, índoles violentas, que não sabem dominar-se,
+e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma péssima
+disposição, que é necessário corrigir; dá lugar a disputas, e a que se
+cometam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.
+Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.
+
+Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
+dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada.
+
+--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num
+cego!»
+
+Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns
+camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a bater no burro, para o
+fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a
+sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubésseis que eu era coxo, não
+teríeis sido tão covardes.»
+
+Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma
+palavra.
+
+Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a
+quem as recebeu.
+
+
+
+
+
+*O malmequer*
+
+
+Ouvi com atenção esta pequenina história!
+
+No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho com flores,
+rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no
+meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
+olhos vistos, graças ao sol, que repartia igualmente a sua luz tanto por
+ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela
+manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
+parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe dava
+que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, pobre florinha
+insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
+sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
+
+Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira,
+sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianças
+sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, ele, sentado na haste
+verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
+o que sentia misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com
+admirável nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso pôs-se a
+olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa avezinha
+feliz que cantava e voava.
+
+«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento
+acaricia-me. Oh! não tenho razão de me queixar.»
+
+Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocráticas; quanto menos
+aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dálias inchavam-se para
+parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa.
+As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se
+pretensiosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno
+malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: «Como são
+ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visitá-las. Graças a Deus,
+poderei assistir a este belo espectáculo.» E no mesmo instante a
+cotovia dirigiu o seu voo, não para as dálias e tulipas, mas para a
+relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria não sabia o que
+havia de pensar.
+
+O passarinho pôs-se a saltitar à roda dele, cantando: «Como a erva é
+macia! oh! que encantadora florinha, com um coração de oiro, vestida de
+prata!»
+
+Não se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com
+o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do
+firmamento. Durante mais de um quarto de hora não pôde o malmequer
+reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou
+para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
+acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as
+tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
+pontiaguda manifestava o despeito. As dálias tinham a cabeça toda
+inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradáveis
+ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.
+
+Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
+grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
+uma a uma.
+
+«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrível; foram-se
+todas.»
+
+E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se por
+ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando
+reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
+adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.
+
+No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao
+ar e à luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,
+muitíssimo triste. A pobre cotovia tinha boas razões para se afligir:
+haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela
+aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas
+antigas viagens através do espaço ilimitado.
+
+O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
+difícil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe
+esquecer inteiramente as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e
+a alvura resplandecente das suas próprias folhas.
+
+Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão
+uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
+tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia compreender o
+que desejavam.
+
+«Podemos arrancar daqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos
+rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.
+
+--«Arranca a flor, disse o outro.»
+
+A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era
+morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existência, como no momento em
+que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
+
+«Não; deixemo-la, disse o mais velho. Está aí muito bem.»
+
+Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
+
+O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia
+com as asas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus
+desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.
+
+Passou-se assim toda a manhã.
+
+«Já não tenho água, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
+deixarem ao menos uma gota de água. A garganta queima-me, tenho uma febre
+terrível, sinto-me abafada! Ai! Não há remédio senão morrer, longe do
+sol esplêndido, longe da fresca verdura e de todas as magnificências da
+criação!»
+
+Depois enterrou o bico na relva húmida para se refrescar um pouco. Viu
+então o malmequer; fez-lhe um sinal de cabeça amigável, e disse-lhe,
+afagando-o: «Também tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo
+inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva,
+e a ti só por única companhia. Cada pezinho de relva substitui para mim
+uma árvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorífera. Ah!
+como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!
+
+--Se eu pudesse consolá-la! pensava o malmequer, incapaz de fazer o
+mínimo movimento.
+
+Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume;
+a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
+arrancar a erva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na
+flor.
+
+Caiu a noite; não estava ali ninguém, para trazer uma gota de água à
+desditosa cotovia; Estendeu então as suas belas asas, sacudindo-as
+convulsivamente, e pôs-se a cantar uma cançãozinha melancólica; a sua
+cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e
+de angústias cessou de bater. Vendo este triste espectáculo, o malmequer
+não pôde como na véspera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se
+para o chão, doente de tristeza.
+
+Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
+rebentaram-lhe as lágrimas e abriram uma cova. Meteram o cadáver dentro
+de uma caixa vermelha, lindíssima, fizeram-lhe um enterro de príncipe, e
+cobriram o túmulo com folhas de rosas.
+
+Pobre passarinho! Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e
+deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram
+e lhe fizeram honrarias pomposíssimas.
+
+A relva e o malmequer lançaram-nas para a poeira da estrada; daquele
+que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguém se lembrou.
+
+
+
+
+
+*Não quero*
+
+
+Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito
+alto: «Não, dizia um com voz enérgica, não quero.» Parei e
+perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu rapaz?--«Não quero dizer
+à mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me há-de ralhar,
+mas antes quero que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe
+eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, enquanto que o outro
+pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
+todo envergonhado.
+
+Daí a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de falar com o
+professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois
+pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que o outro,
+vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
+dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um magnífico
+estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a
+confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a repará-las. O outro
+pelo contrário, é mentiroso, covarde e incorrigível.»--Não me espanto,
+disse eu, já tinha tirado o horóscopo destas duas crianças; e
+contei-lhe o que tinha ouvido.
+
+
+
+
+*Piloto*
+
+
+Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e o
+infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da quinta.
+
+Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe
+lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e
+trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã
+Joaninha.
+
+Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do
+Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o
+assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações:
+partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos
+pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.
+
+Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda
+da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da
+quinta.
+
+Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade; um jornaleiro, que se
+empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa,
+tentou de noite roubar um saco.
+
+Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade
+em quanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou
+tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o
+largar.
+
+Era como se dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu dono?»
+
+O ladrão quis pôr então outra vez o saco donde o tinha tirado; Piloto
+não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de
+manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição,
+repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não
+desonrar.
+
+Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a
+ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
+ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até à
+margem do ribeiro.
+
+Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e levantando o animal
+atirou-o à água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço,
+caiu também.
+
+Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o
+corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e
+desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes
+e trazido para terra o seu mortal inimigo.
+
+Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o
+cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
+
+Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse dia, violentou-se a si
+mesmo e combateu as suas más inclinações.
+
+O exemplo do cão corrigiu o homem.
+
+
+
+
+*O rico e o pobre*
+
+
+Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
+dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
+deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma estalagem, junto da
+estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar,
+quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
+preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos
+viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo,
+e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
+vinho.
+
+Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua
+côdea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapéu todo roto, e
+suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino tão rico,
+em vez do desgraçado Martinho! Que fortuna se ele estivesse aqui, e eu
+dentro daquela carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia
+Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lançando a cabeça fora da
+carruagem, chamou Martinho com a mão.
+
+--Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a
+minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho
+corando, o que eu disse não foi por mal.»--Não estou zangado contigo,
+replicou o fidalguinho, pelo contrário, desejo fazer a troca.»
+
+--Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguém quereria estar
+no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando
+muitas léguas por dia, como pão seco e batatas, enquanto que o senhor
+anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.»--Pois bem,
+volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu
+não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho
+ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
+preceptor continuou: «Aceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho,
+ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada
+de me ver entrar nesta bela carruagem!» E Martinho desatou a rir com a
+ideia da entrada triunfante na sua aldeia.
+
+O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
+descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma
+perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em
+duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou
+que era muito pálido e que tinha cara de doente.
+
+Sorriu para o rapazito com ar benévolo, e disse-lhe:--Então sempre
+desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas
+valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter uma carruagem e
+andar bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou
+Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
+tivesse saúde. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e doente, sofro
+os meus males com paciência e faço por ser alegre, dando graças a Deus
+pelos bens que me concedeu na sua infinita misericórdia.
+
+«Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal,
+tens força e saúde, coisas que valem mais que uma carruagem, e que não
+podem comprar-se com dinheiro.
+
+
+
+
+
+*Como um camponês aprendeu o Padre Nosso*
+
+
+Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
+confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o Padre Nosso.
+
+«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.»
+
+«Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitência dar a
+crédito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da
+minha parte.»
+
+No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
+
+«Como te chamas? perguntou-lhe o camponês.
+
+«Padre--Nosso--Que--Estais--No--Céu, respondeu o pobre.»
+
+«E o teu apelido?»
+
+«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.»
+
+E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
+
+Ao outro dia chega segundo pobre.
+
+«Como te chamas?
+
+«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.»
+
+«E o teu apelido?»
+
+«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.»
+
+E partiu com o seu alqueire de trigo.
+
+Veio terceiro pobre.
+
+«Como te chamas?»
+
+«Assim--Na--Terra--Como--No--Céu.»
+
+«E o teu apelido?»
+
+«Dai-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.»
+
+E levou o seu alqueire.
+
+Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma
+forma até chegar ao _Amen_.
+
+Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.
+
+«Então já sabes o Padre Nosso?»
+
+«Não, sr. cura, sei só os nomes e apelidos dos pobres a quem emprestei
+o meu trigo.»
+
+«Quais são? tornou o padre.»
+
+E o aldeão enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
+apresentado.
+
+«Já vês, disse o confessor, que não era muito difícil aprender o Padre
+Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»
+
+
+
+
+*O talismã*
+
+
+Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma indústria, mas
+com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
+que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negócios com
+uma actividade infatigável, enquanto que o segundo, entregue
+inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da
+sua casa.
+
+«Explica-me, disse um dia este último ao seu colega, qual é a razão
+porque a sorte nos trata de um modo tão diferente? Vendemos as mesmas
+mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apesar
+disso, enquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu
+seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não
+terás tu por acaso algum precioso talismã.»
+
+«Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um talismã de uma
+virtude incomparável. Trago-o ao pescoço, e ando assim com ele todo o
+dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o
+celeiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.»
+
+«Olé meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa relíquia
+preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta
+restituo.»
+
+«Pois vem buscá-la amanhã de manhã.»
+
+Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
+apresentou-lhe este uma avelã, através da qual tinha passado um
+fio de seda.
+
+O nosso homem pô-la imediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a
+casa com o talismã. Observou então a completa desordem que por toda a
+parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
+cozinha o pão, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o trigo, o
+feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjedouras dos
+cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
+escriturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remédio,
+compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substituído por
+terceira pessoa na direcção dos seus negócios.
+
+Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talismã,
+agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em
+segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.
+
+
+
+
+*A alma*
+
+
+«Mamã, nem todas as crianças que morrem vão para o Paraíso. O outro dia
+vi levar para o cemitério um menino que tinha morrido; o seu papá e as
+suas duas irmãzinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me
+fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau, não é
+verdade?»
+
+«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, enquanto choravam seus
+pais e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraíso.»
+
+«A alma? mamã; não sei o que é; não compreendo bem.»
+
+«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
+pequerruchas.»
+
+«Tive sim, mamã, tive muita pena.»
+
+«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
+braços?»
+
+«Não, mamã.»
+
+«Eram as orelhas?»
+
+«Oh! não mamã, era _cá dentro_.»
+
+«Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece,
+que te repreende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando
+praticas o bem.
+
+
+
+
+*Alberto*
+
+
+Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus
+irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar árvores e fazer
+sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um único
+feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de
+batata nascerem quarenta batatas magníficas; sabia que a terra pagava
+com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
+quarto do pai, e foi enterrá-la imediatamente no seu jardinzinho. «Há-de
+nascer uma árvore, dizia ele consigo, que dará libras como uma
+cerejeira dá cerejas, e irei entregá-las ao papá, que ficará muito
+contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não
+rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte. Por
+fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.
+
+«Vi papá; achei-a e fui semeá-la.»
+
+«Como, semeá-la? doido! julgas talvez que vai nascer como uma couve?»
+
+«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.»
+
+«É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»
+
+Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
+não pertencia.
+
+Há contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
+produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como
+é? É dando-o aos pobres. Faz-se no Paraíso a colheita dessa sementeira.
+
+
+
+
+*A canção da cerejeira*
+
+
+Disse Deus na Primavera: «Ponham a mesa às lagartas!» E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e
+verdejantes.
+
+A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se,
+abriu a boca, esfregou os olhos e pôs-se a comer tranquilamente as
+folhinhas tenras, dizendo: «Não se pode a gente despegar delas. Quem é
+que me arranjou este banquete?»
+
+Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa às abelhas!» E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de flores, milhões de flores delicadas e
+brancas.
+
+E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas,
+dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o
+deitaram!»
+
+Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o
+açúcar!»
+
+No Verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cerejeira
+cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos.
+
+«Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasião; temos apetite,
+e isto dar-nos-á novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No
+Outono disse Deus: «Levantai a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento
+frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a árvore.
+
+As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caíram uma a uma, e o
+vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar.
+
+Chegou o Inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos
+ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa.
+
+
+
+
+*Os gigantes da montanha e os anões da planície*
+
+
+Era uma vez uma família de gigantes, que viviam num castelo na
+montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum
+álamo. Era curiosa e andava com vontade de descer à planície a ver o que
+faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões.
+Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido à caça e sua mãe estava
+dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os
+jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os
+lavradores, coisas inteiramente novas para ela. «Oh! que lindos
+brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
+quase que cobriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavalos, a
+charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo,
+onde seu pai estava a jantar.
+
+--Que trazes aí, minha filha?» perguntou ele.
+
+--Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os
+mais bonitos que tenho visto.»
+
+E pô-los em cima da mesa, a um e um,--os cavalos, a charrua e os
+trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
+tivessem transportado dum formigueiro para um salão. A gigantinha
+pôs-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
+fez-se sério e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso
+não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
+respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-no
+imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
+montanha, morreriam de fome, se os anões da planície deixassem de lavrar
+a terra e de semear o trigo.
+
+
+
+
+*A criança, a anjo e flor*
+
+
+Quando morre uma criança, desce um anjo do céu, toma-a nos braços, e
+desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os sítios que
+ela amara durante a sua pequenina existência; o anjo abaixa-se de
+quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam
+no paraíso ainda mais belas do que tinham sido na terra. Deus recebe
+todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os lábios, e a flor
+escolhida, adquirindo voz imediatamente, começa a cantar os coros
+maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma
+criança morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram primeiro
+sobre a casa em que a criança brincara, e depois sobre jardins
+deliciosos, cobertos de flores.
+
+«Qual é a flor que desejas para plantar no paraíso?» perguntou o anjo.
+
+Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
+magnífica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de
+botõezinhos lindíssimos pendiam estiolados para o chão.
+
+«Pobre roseira! disse a criança ao anjo; vamos buscá-la para que possa
+reflorir no paraíso.»
+
+O anjo foi buscá-la, e abraçou a criança. Colheram muitas flores
+brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
+
+A colheita estava terminada, e contudo não voavam ainda para Deus. Caiu
+a noite silenciosa, e a criança e o seu guia Divino andavam ainda por
+cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
+de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
+imundície. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores
+com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raízes duma flor dos
+campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-na
+atirado para a rua como inútil e morta.
+
+«Vale a pena levantá-la disse o anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando,
+te contarei a história da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquela
+rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criança miserável e
+doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear
+com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
+de Verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
+Então a criança sentada à janela, aquecida pelo sol, sem o cansaço do
+andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca
+verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do
+vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabeça o ramo
+verdejante, e, supondo-se debaixo das árvores abrigadas do sol, sonhava
+com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe
+flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda
+raízes; o pequerrucho plantou-a num vaso, e pô-lo à janela, junto da
+cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e
+todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu único
+tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
+aproveitar os raios do sol até ao último. A flor aparecia-lhe em
+sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e
+ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se
+voltou.
+
+«Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no paraíso; a sua querida
+flor, esquecida à janela desde então, murchou, estiolou-se e
+atiraram-na à rua finalmente. E contudo esta flor quase seca é o
+tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
+canteiros dum jardim realengo.»
+
+«Como sabes tu isso?» perguntou a criança, que o anjo levava para o céu.
+
+--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
+em muletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»
+
+A criança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
+no céu onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
+levou-as ao coração, mas a que ele beijou foi a florinha silvestre,
+desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente, pôs-se a cantar
+com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe,
+formando círculos que vão aumentando sucessivamente, multiplicando-se
+até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
+harmoniosamente--desde a criança abençoada até à humilde florinha do
+campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e
+tortuosa.
+
+
+
+
+
+*Presente por presente*
+
+
+Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite
+à choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi
+a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
+pôde, desculpando-se da miserável hospitalidade que lhe ia dar, porque
+eram batatas cozidas a única coisa que lhe poderia oferecer; cama não a
+tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
+morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões,
+e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de príncipes. Ao
+outro dia pela manhã disse isto mesmo à pobre mulher, gratificando-a ao
+despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
+dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponesa julgou
+que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a
+trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
+que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
+examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:
+
+«Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso príncipe!
+
+E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
+achado as suas batatas melhores do que faisões.
+
+«É necessário confessar, disse ele com um ar triunfante, que não há
+talvez no mundo um terreno mais favorável do que este para a cultura das
+batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, já que as acha tão boas.
+
+E partiu imediatamente para o palácio com uma provisão de batatas
+escolhidas.
+
+Os lacaios e as sentinelas ao princípio não o queriam deixar entrar;
+mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo
+contrário vinha trazer alguma coisa.
+
+Foi, pois, introduzido na sala da audiência.
+
+«Meu senhor, disse ele ao príncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente
+pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca
+duma enxerga miserável e de um prato de batatas cosidas. Era pagar
+demasiadamente, apesar de serdes um príncipe muito rico e poderoso. Eis
+o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
+batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignai-vos
+aceitá-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá
+as encontrareis sempre ao vosso dispor.»
+
+A honrada simplicidade do camponês agradou ao príncipe, e, como estava
+num momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta
+jeiras de terra.
+
+Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que,
+sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse consigo: «Porque não me há
+de suceder a mim outro tanto? O príncipe gosta do meu cavalo, pelo
+qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer
+presente dele: se deu ao João uma quinta com trinta jeiras de terra,
+simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me há de
+recompensar ainda mais generosamente.»
+
+Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
+palácio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com ar
+altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiência.
+
+«Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; não
+tenho querido trocá-lo a dinheiro, mas dignai-vos permitir-me que vo-lo
+ofereça.»
+
+O príncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
+consigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:
+
+Depois dirigindo-se a ele:
+
+«Aceito a tua dádiva, mas não sei como agradecer-ta condignamente. Oh!
+espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
+faisões. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que é um bom
+preço para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»
+
+E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
+
+
+
+
+
+*O pinheiro ambicioso*
+
+
+Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh!
+dizia ele, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
+verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
+orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
+de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»
+
+O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o
+pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
+pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
+mais sensatos do que ele, não invejavam a sua rápida fortuna. À noite
+passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num
+saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés à cabeça.
+
+«Oh! disse ele, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça
+dos homens. Fiquei completamente despido. Não há agora em toda a
+floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
+o oiro atrai as ambições.
+
+Ah! se eu arranjasse um vestuário de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
+avarento não me teria despido.»
+
+No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
+sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
+fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o céu cobriu-se de
+nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as
+folhas de cristal.
+
+«Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra todo feito em
+pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir
+as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria
+menos brilhante, mas viveria descansado.»
+
+Cumpriu-se o seu último desejo, e, apesar de ter renunciado às vaidades
+primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
+outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
+vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas
+todas sem deixar uma única.
+
+O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar à sua
+forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
+sua sorte.
+
+
+
+
+
+*Perfeição das obras de Deus*
+
+
+_A filha_.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.
+
+_A mãe_.--Vou-te dar outra.
+
+_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mamã?
+
+_A mãe_.--Vê se adivinhas.
+
+_A filha_.--Não sei, mamã.
+
+_A mãe_.--Conheces os metais?
+
+_A filha_.--Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de
+uma caixa.
+
+_A mãe_.--Ora muito bem, diz-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de
+mármore?
+
+_A filha_.--Oh! não; são de metal; mas de que metal?
+
+_A mãe_.--Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas
+primeiro.
+
+_A filha_.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não é de prata, porque
+não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarelo muito
+brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarelo muito feio, que
+cheira mal... Então é de ferro, mamã?
+
+_A mãe_.--Adivinhaste.
+
+_A filha_.--Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.
+
+_A mãe_.--É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já
+se não chama ferro, é aço.
+
+_A filha_.--Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que
+as fazem.
+
+_A mãe_.--É impossível, não és capaz disso; mas hei de levar-te a uma
+fábrica onde se fazem agulhas. Hás-de vê-las fazer, e hás-de gostar
+muito.
+
+_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
+nos servimos.
+
+_A mãe_.--Tens razão; é uma vergonha ignorá-lo.
+
+_A filha_.--Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.
+
+_A mãe_.--Olha, aí tens o meu estojo.
+
+_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão
+fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade há-de ser necessária para
+fazer uma coisinha tão delicada!
+
+_A mãe_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
+uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?
+
+_A filha_.--Lembro, mamã; era tão bonito!
+
+_A mãe_.--Li num jornal alemão que um operário chamado Nerlinger fez
+um copo de um grão de pimenta, e que dentro deste copo havia mais
+doze...
+
+_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem num
+grão de pimenta!
+
+_A mãe_.--E ainda não é tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas
+doiradas, e sustentava-se no pé.
+
+_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso!
+
+_A mãe_.--Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É
+efectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
+certas coisas; contudo ainda há outras obras mais dignas de admiração.
+
+_A filha_.--Quais, mamã?
+
+_A mãe_.--Já to digo. (_Levanta-se_.)
+
+_A filha_.--Que quer, mamã?
+
+_A mãe_.--Quero que vejas o microscópio de teu papá.
+
+_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscópio.
+
+_A mãe_.--Este é magnífico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais
+ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina,
+lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Meu Deus, que coisa tão feia! Que agulha tão grosseira!
+
+_A mãe_.--Vês-lhe buracos, riscos, asperezas, não é verdade?
+
+_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito.
+
+_A mãe_.--Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na
+agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por elas.
+
+_A filha_.--O operário que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
+visse ao microscópio.
+
+_A mãe_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.
+
+_A filha_.--O quê, mamã?
+
+_A mãe_.--O aguilhãozinho de uma abelha.
+
+_A filha_--Oh! que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é
+brilhante!... Mas já sei que visto ao microscópio há de acontecer o
+mesmo que com a agulha.
+
+_A mãe_.--Pronto: olha.
+
+_A filha_ (olhando).--É esquisito, mamã!
+
+_A mãe_.--Então?
+
+_A filha_.--Aumentou, aumentou como a agulha, mas não é áspero, pelo
+contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não tinha ponta,
+e o ferrãozinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabelo. Porque
+será isto, mamã?
+
+_A mãe_.--É porque o operário que fez este aguilhão é muito mais hábil
+do que o que fez a agulha.
+
+_A filha_.--Quem é esse operário tão hábil?
+
+_A mãe_.--É o mesmo que fez o céu, os astros, a terra, as plantas e as
+criaturas.
+
+_A filha_.--É Deus.
+
+_A mãe_.--Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os
+animais?
+
+_A filha_.--De certo.
+
+_A mãe_.--Foi ele por conseguinte que fez o aguilhão desta abelha; e
+aí tens porque o aguilhão é superior à agulha: é obra de Deus. Mas
+continuemos a olhar pelo microscópio. Aqui está um pedacinho de
+musselina finíssima. Olha pelo microscópio; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal feita.
+
+_A mãe_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadíssima.
+
+_A filha_,--Essa estou bem certa que há de ser linda, mesmo vista pelo
+microscópio.
+
+_A mãe_.--Então?
+
+_A filha_.--É horrorosa... Parece feita de pelos grosseiros com grandes
+buracos desiguais.
+
+_A mãe_.--As obras do homem são todas assim.
+
+_A filha_.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.
+
+_A mãe_.--Sabes o que é isto?
+
+_A filha_.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.
+
+_A mãe_.--Os fiozinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha
+pelo microscópio a ver se te parecem desiguais.
+
+_A filha_ (olhando pelo microscópio).--Não, mamã; os fios são todos
+iguais, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.
+
+_A mãe_.--É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que há
+sobre este papel?
+
+_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas redondas feitas
+também com tinta.
+
+_A mãe_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
+redondos?
+
+_A filha_.--Sim, mamã, perfeitamente redondos.
+
+_A mãe_.--Vê-os agora ao microscópio.
+
+_A filha_.--Oh! já não são redondos, são todos desiguais.
+
+_A mãe_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma asa de borboleta;
+vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
+microscópio; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a diferença
+que agora é maior. Que belas que são as obras de Deus!
+
+_A mãe_.--Merece bem a pena estudá-las.
+
+_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
+dos homens.
+
+_A mãe_.--E sempre e em tudo hás-de encontrar defeitos nas obras do
+homem, enquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
+perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
+primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a
+segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem
+fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras
+mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as
+obras do Criador.
+
+
+
+
+*João e os seus camaradas*
+
+
+Era uma vez uma viúva com um filho único. Ao cabo dum Inverno rigoroso,
+possuía apenas um galo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a
+correr mundo, à busca de fortuna. A mãe cozeu o resto da farinha, matou
+o galo, e disse-lhe:
+
+«O que é que preferes: metade desta merenda com a minha bênção, ou toda
+com a minha maldição?»
+
+«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros há no
+mundo eu quereria a tua maldição.»
+
+«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
+abençoe.»
+
+E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha
+caído num atoleiro, donde não podia sair.
+
+«Oh! João, exclamou o burro, tira-me daqui, que estou quase a
+afogar-me.»
+
+«Espera, respondeu João.»
+
+E, formando uma ponte com pedras e ramos de árvores, conseguiu tirar o
+quadrúpede do atoleiro.
+
+«Obrigado, disse-lhe ele, aproximando-se de João. Se te posso ser útil,
+aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?»
+
+--«Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha vida.»
+
+«Queres tu que eu te acompanhe?
+
+«Anda daí.»
+
+E puseram-se a caminho.
+
+Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da
+escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
+animal correu para João que o acariciou, e o jumento pôs-se a ornear de
+tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.
+
+«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma coisa te for
+prestável, aqui me tens às tuas ordens. Aonde vais tu?»
+
+«Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha vida.»
+
+«Queres que te acompanhe?»
+
+«Anda daí.»
+
+Quando saíram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno tirou a
+merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva
+que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar
+lastimosamente.
+
+Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango.
+
+--«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser útil. Aonde
+vais tu?
+
+--«Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.»
+
+--De boa vontade.
+
+Os quatro viajantes puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um
+grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
+galo na boca.
+
+«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.
+
+E no mesmo instante o cão atirou-se atrás da raposa, que, vendo-se em
+perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente
+disse a João:
+
+--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vais tu?»
+
+--Arranjar trabalho. Queres vir connosco?
+
+--«De boa vontade.»
+
+--Então anda. Se te cansares, empoleira-te no jumento.»
+
+Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro.
+Sentiram-se todos fatigados e não avistavam à roda nem uma quinta, nem
+uma cabana.
+
+--«Paciência, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
+hoje a dormir ao ar livre; além disso a noite está sossegada, e a relva
+é macia.»
+
+Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado dele, o cão
+e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo
+empoleirou-se numa árvore.
+
+Dormiam todos um sono profundíssimo, quando de repente o galo começou
+a cantar.
+
+--«Que demónio! disse o jumento acordando todo zangado. Porque é que
+estás a gritar?»
+
+--«Porque já é dia, respondeu o galo. Não vês ao longe a luz da
+madrugada, que vem rompendo?»
+
+--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é duma lanterna.
+Provavelmente há ali alguma casa, onde nos poderíamos recolher o resto
+da noite.»
+
+Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, através
+dos campos, até que parou junto da casa do guarda dum grande castelo,
+donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
+blasfémias horríveis.
+
+--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
+é que está lá dentro.»
+
+Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhais, que se banqueteavam
+alegremente, sentados a uma mesa principesca.
+
+--«Que bom assalto acabámos de dar, disse um deles, ao castelo do
+conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este
+porteiro. À sua saúde!»
+
+--«À saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.
+
+E dum trago despejaram os copos.
+
+João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:
+
+--«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
+sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria diabólica.»
+
+O burro, levantando-se nas patas traseiras, lançou as mãos ao peitoril
+duma janela, o cão trepou-lhe à cabeça, o gato à cabeça do cão e o
+galo à cabeça do gato. João deu o sinal, e estoirou à uma o ornear do
+jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do
+galo.
+
+--«Agora, bradou João, fingindo que comandava um destacamento, carregar
+armas! Dai-me cabo dos ladrões; fogo!»
+
+No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando
+cada vez mais; os ladrões atemorizados refugiaram-se no bosque, saindo
+precipitadamente por uma porta falsa.
+
+João e os seus companheiros penetraram na sala abandonada, comeram um
+excelente jantar, e deitaram-se em seguida--João numa cama, o burro na
+cavalariça, o cão numa esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e
+o galo num poleiro.
+
+Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e
+salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.
+
+--«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão húmida, disse um
+deles.»
+
+--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.»
+
+--«E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.»
+
+--«E o que é mais lamentável, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o
+dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tínhamos tirado das
+gavetas.»
+
+--Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão.
+
+--Bravo! exclamaram os ladrões.
+
+E pôs-se a caminho.
+
+Já não havia luz na casa; o capitão entrou às apalpadelas, e dirigiu-se
+para o fogão; o gato saltou-lhe à cara e esfarrapou-lha com as garras.
+Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
+rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
+por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo
+atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas.
+
+--Anda o diabo nesta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!»
+
+Julgou encontrar refúgio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
+parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do chão.
+
+Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem
+pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.
+
+--Então? então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.
+
+--Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para
+me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr neste corpo, que o trago
+num feixe. Não podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui assaltado
+por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o
+sedeiro, deixando-me neste miserável estado. Quando ia a sair a porta,
+um demónio dum remendão atravessou-me as pernas com a sovela. Logo
+depois Satanás em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras.
+Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não
+acreditam, vão lá, e experimentem.»
+
+--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
+ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.»
+
+Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excelentemente, e
+partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões
+lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos,
+com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram à
+porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com
+uma libré esplêndida, meias de seda, calções escarlates e cabelo
+empoado.
+
+Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.
+
+--Que vindes aqui buscar? Não há lugar para os recolher, vão-se embora?»
+
+--Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castelo far-nos-á
+um bom acolhimento.
+
+--Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
+andar imediatamente, quando não atiro-lhes já às pernas os meus cães de
+fila.»
+
+--Perdão, só um instante, replicou o galo empoleirado na cabeça do
+jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite
+passada a porta do castelo?»
+
+O porteiro corou. O conde que estava à janela, disse-lhe:
+
+--Ó Bernabé, responde ao que esse galo te acaba de perguntar.
+
+--Senhor, replicou Bernabé, este galo é um miserável. Não fui eu que
+abri a porta aos seis ladrões.
+
+--Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?
+
+Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
+pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite,
+porque vimos cansados do caminho.
+
+--Ficai certos que sereis bem tratados.
+
+O burro, o cão e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato ficou na
+cozinha. E enquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés à
+cabeça com um vestuário magnífico, deu-lhe um relógio de ouro, e
+disse-lhe:
+
+--Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»
+
+João aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si.
+Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicíssimo.
+
+
+
+
+*O rabequista*
+
+
+Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma
+igreja magnífica a Santa Cecília, padroeira dos músicos.
+
+As rosas mais vermelhas e os lírios mais cândidos enfeitavam o altar. O
+vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de oiro,
+feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava
+constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria
+um pobre rabequista, pálido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
+sido muito longa, estava cansado, e já no seu alforge não havia pão nem
+dinheiro no bolso para o comprar.
+
+Assim que entrou na capela, começou a tocar na sua rabeca com tal
+suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vê-lo
+tão pobre e ao escutar aquela música deliciosa. Quando terminou, Santa
+Cecília abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos de ouro, e deu-o
+ao pobre músico, que tonto de alegria, dançando, cantando, chorando,
+correu à loja dum ourives para lho vender. O ourives, reconhecendo o
+sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o à presença do
+juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado à morte.
+
+Chegara o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
+pôs-se em marcha ao som dos cânticos dos frades, que ainda assim não
+chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como
+última graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao último momento.
+O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam
+suplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua
+derradeira melodia.
+
+Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
+ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lágrimas começou a tocar.
+Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecília curvar-se de
+novo, descalçar o outro sapato e metê-lo nas mãos do infeliz músico. À
+vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o
+rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente
+prestar-lhe as mais honrosas homenagens.
+
+
+
+
+*Os pêssegos*
+
+
+Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pêssegos
+magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos,
+extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria. À
+noite o pai perguntou-lhes:
+
+--Então comeram os pêssegos?
+
+--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e
+hei-de plantá-lo para nascer uma árvore.»
+
+--Fizeste bem, respondeu o pai, é bom ser económico e pensar no futuro.»
+
+--Eu, disse o mais novo, o meu pêssego comi-o logo, e a mamã ainda me deu
+metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.»
+
+--Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade não admira;
+espero que quando fores maior te hás-de corrigir.»
+
+--Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou
+fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
+o meu pêssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for à
+cidade.»
+
+O pai meneou a cabeça:
+
+--Foi uma ideia engenhosa, mas eu preferia menos cálculo.
+
+--E tu, Eduardo, provaste o teu pêssego?
+
+--Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho,
+ao Jorge, que está coitadinho com febre. Ele não o queria, mas
+deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.
+
+--Ora bem, perguntou o pai, qual de vós é que empregou melhor o pêssego
+que eu lhe dei?
+
+E os três pequenos disseram à uma:
+
+--Foi o mano Eduardo.
+
+Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos
+arrasados de lágrimas.
+
+
+
+
+*A urna das lágrimas*
+
+
+Era uma vez uma viúva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
+adorava sobre todas as coisas. Não se separava dela um só momento; mas
+um dia a pobre pequerrucha começou a sofrer, adoeceu e morreu. A
+desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
+momento, à cabeceira da filha, julgou endoidecer de mágoa e de saudades.
+Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
+acabrunhada, chorando no mesmo sítio em que a filha tinha morrido,
+abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua
+querida filha, sorrindo com uma expressão angélica e trazendo nas mãos
+uma urna, que vinha cheia até às bordas.
+
+--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ela, não chores mais. Olha, o anjo
+das lágrimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais,
+transbordará, e as tuas lágrimas correrão sobre mim, inquietando-me no
+túmulo e perturbando a minha felicidade no paraíso.
+
+A pequenina desapareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não
+afligir.
+
+
+
+
+*Reconhecimento e ingratidão*
+
+
+Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos pais.
+E é natural. As crianças vêem diariamente o que fazem seus pais, e
+imitam-nos. Justifica-se desta maneira o provérbio que diz,--que a
+bênção ou a maldição dum pai cai sobre a cabeça de seus filhos,
+terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem
+ser meditados.
+
+Um príncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
+satisfeito, a lavrar a terra. Pôs-se a conversar com ele. Depois
+de algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que
+trabalhava nele mediante um salário de doze vinténs por dia. O
+príncipe, que para as suas despesas de administração e representação
+necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
+como se vivia com doze vinténs diários, andando-se ainda por cima
+satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:
+
+«Gasto diariamente comigo a terça parte dessa quantia; outro terço é
+para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas
+economias.»
+
+Era um novo enigma para o príncipe. Mas o alegre camponês explicou-lho
+deste modo.
+
+«Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que já não podem
+trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não têm força para isso. Aos
+primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
+infância; e espero que os segundos não me abandonem, quando os anos
+tiverem pesado sobre mim.»
+
+O príncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado camponês; encarregou-se
+da educação de seus filhos; e a bênção que lhe deram os seus velhos
+pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando
+igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.
+
+Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu duma
+maneira tão indigna com seu velho pai doente e aleijado, que este teve
+de pedir que o levassem para o hospital da misericórdia. O filho ingrato
+recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde
+foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
+muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como última
+esmola, um par de lençóis, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
+O mau filho escolheu os lençóis mais usados, e disse ao seu pequeno, de
+dez anos de idade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
+notou que a criança ao partir tinha escondido um dos lençóis a um canto,
+atrás da porta.
+
+Quando voltou perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo.
+
+«Foi, respondeu a criança desabridamente, para me servir mais tarde
+deste lençol, quando pela minha vez te mandar também para o hospital.
+
+
+
+
+*O fato novo do sultão*
+
+
+Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário todo o seu rendimento.
+
+Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
+teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava
+de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Está no conselho;
+dizia-se dele: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
+muito alegre, graças à quantidade de estrangeiros que por ali passavam;
+mas chegaram lá um dia dois larápios, que, dando-se por tecelões,
+disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não
+só eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas além
+disso os vestuários feitos com esse estofo, possuíam uma qualidade
+maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para todos
+aqueles que não exercessem bem o seu emprego.
+
+--São vestuários impagáveis, disse consigo o sultão; graças a eles,
+saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
+dos ministros. Preciso desse estofo!»
+
+E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada,
+para que pudessem começar os trabalhos imediatamente.
+
+Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que
+trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras.
+Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
+muito bem guardado, trabalhando até à meia noite com os teares vazios.
+
+--«Preciso saber se a obra vai adiantada».
+
+Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos
+idiotas. E, apesar de ter confiança na sua inteligência, achou prudente
+em todo o caso mandar alguém adiante.
+
+Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
+estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.
+
+--Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um
+grande talento, e por isso ninguém pode melhor do que ele avaliar o
+estofo.
+
+O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
+com os teares vazios.
+
+--Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, não vejo
+absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões
+convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os
+desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
+olhava, mas não via nada, pela razão simplicíssima de nada lá existir.
+
+--Meu Deus! pensou ele, serei realmente estúpido? É necessário que
+ninguém o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas lá
+confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.»
+
+«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:
+
+--«Encantador, admirável! respondeu o ministro, pondo os óculos. Este
+desenho... estas cores... magnífico!... Direi ao sultão que fiquei
+completamente satisfeito.»
+
+--«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e
+mostraram-lhe cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe deles uma
+descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois
+repetir tudo ao sultão.
+
+Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
+precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no
+bolso, é claro; o tear continuava vazio, e apesar disso trabalhavam
+sempre.
+
+Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funcionário, homem
+honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a
+este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não
+via nada.
+
+--Não acha um tecido admirável?» perguntaram os tratantes, mostrando o
+magnífico desenho e as belas cores, que tinham apenas o inconveniente
+de não existir.
+
+--Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois não serei
+eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! mas deixá-lo, não o
+deixo eu.»
+
+Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo
+desenho e o bem combinado das cores.
+
+--É duma magnificência incomparável, disse ele ao sultão. E toda a
+cidade começou a falar desse tecido extraordinário.
+
+Enfim o próprio sultão quis vê-lo enquanto estava no tear. Com um grande
+acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois
+honrados funcionários, dirigiu-se para as oficinas, em que os dois
+velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de
+espécie alguma.
+
+--Não acha magnífico? disseram os dois honrados funcionários. O desenho
+e as cores são dignos de vossa alteza.»
+
+E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali estavam
+pudessem ver alguma coisa.
+
+--Que é isto! disse consigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível!
+serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que desgraça que me
+acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnífico! Testemunho-vos a
+minha satisfação.»
+
+E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
+atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu séquito olharam do
+mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem ver coisa alguma, e no entanto
+repetiam como o sultão: «É magnífico!» Até lhe aconselharam a que se
+apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnífico! é
+encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era
+geral.
+
+Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
+tecelões.
+
+Na véspera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à
+luz de dezasseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
+cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fio,
+e declararam, depois disto, que estava o vestuário concluído.
+
+O sultão com os seus ajudantes de campo foi examiná-lo, e os impostores
+levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, disseram:
+
+«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha;
+é a principal virtude deste tecido.»
+
+--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.
+
+--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larápios,
+provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.»
+
+O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças,
+depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do
+espelho.
+
+--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortesãos.
+Que desenho! que cores! que vestuário incomparável!»
+
+Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias.
+
+--Está à porta o dossel sobre que vossa alteza deve assistir à procissão,
+disse ele.»
+
+--Bom! estou pronto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»
+
+E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do
+seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não
+querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçá-la.
+
+E, enquanto o sultão caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a
+gente na rua e às janelas exclamava: «Que vestuário magnífico! Que
+cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguém queria dar a perceber,
+que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
+Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.
+
+--Mas parece que vai em cuecas», observou um pequerrucho, ao colo do
+pai.
+
+--É a voz da inocência, disse o pai.
+
+--Há ali uma criança que diz que o sultão vai em cuecas.
+
+«Vai em cuecas! vai em cuecas!» exclamou o povo finalmente.
+
+O sultão ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente era
+verdade. Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até ao fim, e os
+camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
+imaginária.
+
+
+
+
+*Boa sentença*
+
+
+Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma
+quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil réis
+de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
+camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:
+
+--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no
+alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
+adiantados os cem mil réis de alvíssaras: estamos pagos por conseguinte.»
+
+O bom camponês, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem
+devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
+que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:
+
+--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge
+apenas com setecentos: Resulta daí claramente que o dinheiro que o
+último encontrou não pode ser o mesmo a que o primeiro se julga com
+direito. Por consequência tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
+encontraste, e guarda-o até que apareça o indivíduo que perdeu somente
+setecentos mil réis. E tu, o único conselho que passo a dar-te, é que
+tenhas paciência até que apareça alguém que tenha achado os teus
+oitocentos mil réis.
+
+
+
+
+*Os animais agradecidos*
+
+
+Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
+perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este
+respondeu:
+
+--«Senhor: eu sou um desgraçado, um miserável; nasci no vosso reino, e
+chamo-me _Ingratidão_.»
+
+--«Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
+serviço.»
+
+O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
+Desde que chegaram a palácio, deu tais provas de habilidade, mostrou-se
+tão esperto e tão solícito, que o rei afeiçoou-se-lhe de tal modo, que
+o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa.
+Deslumbrado por uma fortuna tão rápida, o seu orgulho desde então não
+conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos
+desventurados.
+
+Ora, na vizinhança do palácio havia uma floresta cheia de animais
+selvagens e perigosíssimos. O intendente mandou aí fazer por toda a
+parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
+dentro, pudessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
+floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
+precipitou ele mesmo dentro duma das covas.
+
+Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um
+lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
+governador, ao ver-se em tão extraordinária companhia, ficou tão
+horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a esperança de
+salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
+ninguém o vinha socorrer.
+
+Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
+chamado António, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para
+ganhar o pão necessário à sua mulher e aos seus filhos. António também
+lá foi nesse dia, como de costume, e pôs-se a trabalhar não longe da
+cova em que caíra o intendente, cujos gritos de aflição não tardou a
+ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
+ali.
+
+--«Sou o governador do palácio do rei, e, se me tirares daqui, prometo
+encher-te de riquezas; estou em companhia dum leão, dum lobo e duma
+enorme serpente.»
+
+--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miserável jornaleiro, não tendo para
+sustentar a minha família, mais que o produto do meu trabalho; bastava
+um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se
+cumpres a tua promessa?
+
+O intendente continuou:
+
+--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
+cumprirei a minha palavra.»
+
+Confiado nisto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda
+muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O leão atirou-se a
+ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
+o intendente.
+
+Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior
+amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome.
+
+António deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o
+governador, enganou-se, porque era o lobo; à terceira vez subiu a
+serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o
+governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
+para o palácio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o
+que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes
+promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre
+homem bater à porta do palácio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.
+
+--«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente
+que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja falar.»
+
+O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:
+
+--«Vai dizer a esse homem, que eu não vi ninguém na floresta; que se
+ponha a andar, porque o não conheço.»
+
+O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.
+
+O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou à mulher a
+odiosa perfídia de que tinha sido vitima.
+
+A mulher disse-lhe:
+
+--«Tem paciência; o sr. intendente estava hoje decerto muito ocupado, e
+foi talvez por isso que te não pôde receber.»
+
+Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.
+
+Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo à porta do palácio.
+Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos ásperos, que não tornasse
+ali a aparecer, quando não ver-se-ia obrigado a empregar meios
+violentos. A mulher ainda desta vez procurou consolá-lo:
+
+--«Experimenta terceira e última vez, disse-lhe ela, talvez Deus o
+inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais
+nisso.»
+
+No dia seguinte o bom do homem voltou à carga; e tendo o porteiro
+consentido à força de suplicas em anunciá-lo ainda ao governador, este
+encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre
+homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do
+chão. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com um
+burro, pôs-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
+levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se
+obrigado a contrair dividas para pagar ao médico. Quando finalmente
+tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para
+fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, apareceu-lhe o leão, que ele
+tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e
+este burro estava carregado de sacos cheios de preciosidades. O leão,
+vendo António, parou e inclinou-se diante dele com um ar de respeitoso
+agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal
+de que ficasse com o jumento. António doido de alegria levou o animal
+para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.
+
+No dia seguinte, voltando de novo à floresta, apareceu-lhe o lobo, que
+o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto
+lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluída, e tinha carregado
+o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha
+tirado do fôjo, e que trazia na ponta da língua uma pedra preciosa, em
+que brilhavam três cores,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a
+serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
+dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal. António
+levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
+propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho,
+afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
+assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia.
+António respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se
+seria boa.
+
+O velho respondeu:
+
+--«São três as virtudes desta pedra: abundância contínua, alegria
+imperturbável e luz sem trevas. Se alguém ta comprar por menos dinheiro
+do que vale, tornará imediatamente para a tua mão.»
+
+António ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
+ciência maravilhosa, e correu a contar à mulher a sua felicidade. Como
+se imagina, graças à virtude da famosa pedra, não lhe faltaram daí em
+diante, nem honras nem riquezas.
+
+Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou
+chamar António, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talismã.
+
+António, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:
+
+--«Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me não for paga
+pelo que vale, tornará ela mesma para o meu poder.»
+
+--«Hei de pagar-ta bem, disse o rei.»
+
+E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã,
+António achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
+disse-lhe:
+
+--«Torna a levá-la ao rei imediatamente; não vá ele persuadir-se que
+lha furtaste.»
+
+O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou à presença de sua
+majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
+preciosa.
+
+--«Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de ferro,
+fechado com sete chaves, disse o rei.»
+
+António mostrou-lhe então a jóia preciosa, e o rei ficou
+extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido
+semelhante tesouro.
+
+António contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o
+reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
+intendente, e disse-lhe:
+
+--«Homem perverso, com justo motivo te puseram o nome de _Ingratidão_,
+porque és mais falso e mais pérfido que os animais ferozes, e pagaste
+com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a António as
+tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
+enforcado.»
+
+Admiraram todos a sentença do rei, e António desempenhou as suas altas
+funções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
+escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos
+gloriosos.
+
+
+
+
+*O ermitão*
+
+
+Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou
+retirar-se a uma gruta solitária para se consagrar inteiramente ao
+trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
+seus pensamentos não se desviavam nunca da ideia de Deus. Depois de ter
+assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que já tinha
+merecido um lugar glorioso no paraíso, e podia ser contado entre os
+santos mais notáveis.
+
+Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:
+
+--Há no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
+e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.
+
+O ermitão, atónito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
+seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:
+
+--Irmão, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e
+penitencias te tornaste agradável a Deus.
+
+--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não
+zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei,
+pobre de mim, que sou um pecador. O que faço é andar de casa em casa a
+divertir os outros.»
+
+O austero ermitão continuou a insistir:
+
+--Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda, praticaste algum
+acto de virtude.»
+
+--Em verdade não poderia citar nem um só.»
+
+--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
+loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente
+o teu património e o produto do teu oficio?»
+
+--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
+filhos tinham sido condenados à escravidão para pagar uma divida. Essa
+mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa,
+protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuía para resgatar a
+sua família, e levei-a à cidade, onde ela devia encontrar-se com seu
+marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»
+
+A estas palavras o ermitão pôs-se a chorar, e exclamou:
+
+--Nos meus setenta anos de solidão nunca pratiquei uma obra tão
+meritória, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu não
+passas dum pobre musico.»
+
+
+
+
+*Carlos Magno e o abade de S. Gall*
+
+
+Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
+preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta da abadia, fresco,
+rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enérgicos e
+activos, e o abade era indolente. Além disso o imperador tinha mais
+dum motivo de queixa contra ele.
+
+--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à
+sua esclarecida razão três perguntas, às quais terá a bondade de me
+responder daqui a três meses, contados dia a dia, em sessão solene do
+nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
+dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
+em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+rev.^{ma} vier à minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate
+de arranjar resposta satisfatória a tudo, aliás deixa de ser abade de S.
+Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada
+para o rabo.»
+
+O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
+os doutores mais famosos pela sua ciência, não lhe souberam dar
+resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal
+aproximava-se; já não faltava senão um mês, já não faltavam senão
+semanas, e afinal só dias. O abade, que noutro tempo era gordo e
+anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite.
+Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se
+encontrou com o seu pastor.
+
+--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?»
+
+--Estou, meu caro Félix, estou muito doente.»
+
+--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»
+
+--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta às minhas três
+perguntas.»
+
+--É então latim?»
+
+--Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.»
+
+--Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe
+era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.»
+
+Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor atirou com o
+barrete ao ar, e disse-lhe:
+
+--Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
+pode continuar a engordar; mas para isso é necessário que eu vista o seu
+habito.»
+
+Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o hábito do abade de S.
+Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
+imperial.
+
+--Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que
+pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto
+valho eu em dinheiro?»
+
+--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por
+trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove, só um
+dinheiro menos.»
+
+--Bravo, senhor abade, a resposta é hábil, e na realidade não posso
+deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda pergunta, não há de
+ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a
+dar a volta ao mundo?»
+
+--Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
+constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
+quatro horas.»
+
+--Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finório, e desta vez,
+confesso-me vencido; mas a terceira, não dessas à que se responde com
+suposições. Quem lhe há de dizer o que eu estou pensando, e como me há
+de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»
+
+--Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está
+enganado, porque eu sou o seu pastor.»
+
+--Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas
+sendo.»
+
+--Não sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor,
+peço-lhe outra coisa.»
+
+--Não tens mais que falar.»
+
+--Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.»
+
+Carlos Magno não era homem que faltasse à sua palavra.
+
+
+
+
+*A boneca*
+
+
+Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma história--a história duma
+boneca!
+
+Não há muitos anos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno
+jardim, onde a infância folga por entre maciços de flores e sob o
+sorriso do sol, sem que lhe enegreça o espírito a vista dos dois
+monumentos, que a meu ver simbolismo as duas mais horríveis calamidades,
+que podem aniquilar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda não há
+muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
+feira, divertindo-me a meu modo.
+
+Cansado das inúmeras figuras, que tinha visto passar por aquela
+espécie de lanterna mágica, dispunha-me a dar por findo o espectáculo,
+quando novos personagens me chamaram a atenção.
+
+Eram os meus vizinhos _ricos_.
+
+Aqui é preciso uma rápida explicação.
+
+Das famílias da minha vizinhança, só conheço três.
+
+Qual destas três famílias será mais feliz?...
+
+Pelo que tenho notado, não têm que invejar umas às outras.
+
+São todas felizes; cada qual a seu modo.
+
+Vi, pois, chegar os meus vizinhos _ricos_.
+
+Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e
+dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou,
+tomou nos braços a filhinha e depô-la no chão, e oferecendo, em
+seguida, a mão à esposa, para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e
+com a menina para a barraca onde eu estava.
+
+Não havia ali segredo a surpreender.
+
+Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
+parecia agradecer àquela formosa criança a manifestação de qualquer
+desejo.
+
+No fim de meia hora possuía a minha pequena vizinha com que fazer a
+felicidade de dez crianças menos abastadas.
+
+Tinha o necessário para montar completamente a casa duma boneca...
+_rica_.
+
+Faltava apenas a dona da casa--a boneca.
+
+Todo risos e atenções, o lojista apresentou o que tinha de melhor.
+
+Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar
+a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma magnífica boneca de
+dois palmos de altura, com cabelo em _bandeaux_ e olhos azuis.
+
+Uma boneca como as outras: cabeça e colo de massa, corpo de pelica
+recheada, braços e pernas de pau.
+
+Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribo de crianças, que fazem
+o martírio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado
+sapateiro.
+
+Alguns deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
+anjos, caídos do céu sobre um monte de lama.
+
+São os meus vizinhos _pobres_.
+
+A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a casa
+imediata.
+
+É como se costuma dizer, gente _que vai muito bem com a sua vida_.
+
+A filha que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e carnudas,
+cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à
+pressão.
+
+São os meus vizinhos _remediados_.
+
+A terceira é a dos meus vizinhos _ricos_.
+
+Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito nas
+listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+estado--nada falta àquela ditosa gente!
+
+Compõe-se igualmente de marido, mulher e filha.
+
+Que formosa criança!... Terá oito anos.
+
+Franzina e pálida, com os cabelos negros, os olhos grandes e
+cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e
+esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que não
+sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a
+crescer--que há-de um dia ter o direito de lhas cobrir de beijos.
+
+Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas
+aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do
+carro.
+
+A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrática criança.
+
+Saí dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadíssimas
+considerações, sugeridas pela quase indiferença, com que aquela menina
+recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.
+
+Que contraste com os olhares de cobiça, com que outras raparigas da
+mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabeça de pano, horrível
+artefacto português, em que os olhos são representados por dois pontos
+de linha azul, o nariz por um alinhavo de retrós cor de rosa, a boca por
+outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de lã preta!
+
+Quando cheguei a casa, já na dos meus vizinhos remediados não havia luz.
+
+Na dos meus vizinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
+três assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
+provocavam os ralhos da mãe.
+
+Quando, no dia seguinte, cheguei à janela, seriam onze horas da manhã.
+
+Na rua agenciavam nova camada de imundície os filhos do sapateiro; na
+casa imediata não se via ninguém--estava a pequena na mestra; no
+palácio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
+divertia-se a minha pequena milionária fazendo rodar, com auxílio duma
+linha, uma magnífica _caleche_ descoberta, puxada por cavalos brancos.
+
+Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.
+
+--«Aí está a tua caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim
+para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!...
+Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...»
+
+Retirei-me da janela.
+
+Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.
+
+A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
+vestia três e quatro vezes!
+
+Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a
+tratava!
+
+Chamava-lhe sr.ª D. Luísa; dava-lhe excelência; sustentava finalmente
+com a boneca um destes diálogos de senhoras da alta sociedade, em que
+se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.
+
+Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos
+_ricos_--ouvi um grito de susto.
+
+Era devido a um acidente, a que está sujeito quem anda de carro.
+
+Voltara-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janela.
+
+O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a vítima; vendo,
+porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e
+lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
+nova, agarrou-a pelos pés e ia atirá-la com despeito à rua, quando mais
+perto de mim bradou voz tímida e suplicante:
+
+«Não atire!... Dê-ma.»
+
+Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu não dera fé até
+então.
+
+Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
+lançou um olhar de rainha para o sítio donde vinha a súplica.
+
+Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
+encolhendo os ombros, respondeu:
+
+--«Já não presta!... Está esmurrada!...»
+
+--É o mesmo!... Dá-ma?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
+cobiça.
+
+--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os ombros.
+
+E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da
+vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse
+despedaçar-se nas lajes da rua.
+
+Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
+outra, para mostrar à mãe a que ela ainda não podia acreditar, que
+fosse sua!
+
+Por espaço de meses foi a boneca a principal ocupação da nova dona.
+
+A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro
+vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excelência! Chamavam-lhe
+sr.ª D. Ana; falavam-lhe de arranjos domésticos, do desmazelo da
+criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
+estranhas para ela!
+
+E a desgraçada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
+azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
+se tornava mais escura: parecia uma nódoa, um estigma!
+
+Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
+ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.
+
+Não tardou, porém, que arrebiques de mau gosto, fitas velhas, rendas
+amareladas, chapéus impossíveis, viessem contrastar com a elegância do
+vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira.
+
+Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele
+as ondulações do _moiré_, até que, um belo dia, vi a boneca vestida de
+cassa---no Inverno!--chaile e manta na cabeça.
+
+Muito mal lhe ficava aquilo!... Àquela boneca custava-lhe de certo o
+ver-se tão mal arranjada.
+
+Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:
+
+--É justo!... Cada qual segundo as suas posses.»
+
+Por esse tempo, entrei em relações com o meu vizinho sapateiro.
+
+O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
+faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasião, para me
+pedir desculpa.
+
+Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
+aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem
+grave risco de sofrer as consequências da sua travessa familiaridade.
+
+Entre os filhos do sapateiro, porém, há uma pequenita de onze anos, com
+quem simpatizei logo à primeira vista.
+
+Chama-se Maria.
+
+Por um destes acasos da Providencia, que parece às vezes comprazer-se
+em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.
+
+Acostumado às travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
+fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.
+
+E bem verdade que ele conhecia o valor daquela criança, porque havia
+verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a
+minha Maria!»
+
+E tinha razão!
+
+Não podia ser mais discreta do que já nesse tempo era.
+
+--É quem vale à mãe!...--acrescentou o velho.»--Ali, onde a vê, faz o
+serviço duma mulher!... Há seis meses, quando a minha santa esteve
+doente--bem pensei que não arribasse!--a pequena era quem cozinhava e
+olhava pelos irmãos!... E caridade como ela tem!?... Olhe que aquela
+pequena esteve três dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi
+preciso eu obrigá-la, que ela não a queria deixar!...»
+
+E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lágrima, que,
+havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.
+
+Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
+cabeça coberta por um lenço branco.
+
+Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais
+passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias à
+pequena.
+
+Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
+deitada nos joelhos.
+
+--Eu conheço aquela boneca!...--disse eu de mim para mim.
+
+E, não podendo resistir à curiosidade, bradei:
+
+--Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...
+
+Foi ali a menina da vizinha!--respondeu a pequenita, corando de prazer.
+
+Era escusado dizer-mo.
+
+Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. Não podia
+duvidar... Era ela; lá estava a mancha, o estigma cada vez mais visível
+na fronte.
+
+De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com
+ela.
+
+--Quem te viu e quem te vê!...--pensava eu.
+
+Às vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lha podiam apanhar, que
+tratos que sofria a desgraçada!
+
+Roçada por aquelas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia,
+empregada como péla, submetida a torturas, era, ainda assim,
+singularíssimo o aspecto da triste!
+
+Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a
+fraternizar com o povo.
+
+A mísera mudara mais uma vez de nome!...
+
+De sr.ª D. Ana passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-na por vossemecê.
+
+Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e lenço na cabeça.
+
+Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
+a boneca.
+
+Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
+encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre
+boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de
+trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que
+mais familiares eram à pequena.
+
+Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na,
+mandavam-na buscar água à fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
+acabavam por a despedir.
+
+Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixara de ser feliz.
+
+Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no palácio vizinho!
+
+Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos,
+desfeito o carmim dos lábios, a boneca não prometia longa duração.
+
+Foi este pelo menos, o prognóstico que fiz a última vez que a vi,
+tentando em vão agradar à última dona que o seu destino lhe dera.
+
+Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!
+
+Um dia chovia a cântaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
+espadanava em cachão para cima dos passeios, arrastando na passagem mil
+imundícies.
+
+Eu estava à porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
+melancolicamente para a água negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
+partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um objecto,
+arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no
+leito do enxurro...
+
+Olhei... Era a boneca!...
+
+A mísera, arrastada pela água, vogou rua abaixo até esbarrar numa
+pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar três ou
+quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e
+o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas
+profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!
+
+Será pieguice, será o que o leitor quiser; mas, confesso-lhe, que me
+impressionou o fim da pobre boneca.
+
+Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado à vidraça do
+sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
+
+--Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?
+
+--Não fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...
+
+--E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...
+
+--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
+feia!...
+
+Curvei a cabeça ante aquela razão, e segui o meu caminho.
+
+Pobre boneca!
+
+
+
+
+*Inconveniente da riqueza*
+
+
+Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, foi
+surpreendido pela noite à entrada duma aldeia. Procurou dum lado para
+outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam já
+todas fechadas, não se via nem um raio de luz através das janelas, tudo
+estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual
+com que se bate o trigo, e nesse sítio havia uma pequena luz. Nosso
+Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro duma quinta, e bateu à
+porta. Foi um camponês que lha veio abrir.
+
+--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
+Não se havia de arrepender.»
+
+E acrescentou:
+
+--Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a
+trabalhar?»
+
+--Ora, respondeu o camponês, soube ontem à noite que ia ser perseguido
+por um credor desapiedado, se lhe não pagasse amanhã o que lhe devo,
+portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
+o vender no mercado, e pagar a minha dívida. Depois disto não nos fica
+nada, e não sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que Deus
+quiser!»
+
+Ao dizer isto o camponês limpava o suor da testa, e passava a mão pelos
+olhos arrasados de lágrimas. O Senhor teve dó dele, e disse-lhe:
+
+--«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te
+havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.»
+
+Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e
+aproximou-a do trigo.
+
+--Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a
+tudo!»
+
+Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se,
+de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. À vista dum tal
+milagre os camponeses maravilhados caíram de joelhos.
+
+--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
+pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, serás
+recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te
+enriquece.»
+
+Dito isto desapareceu.
+
+E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto
+como a igreja.
+
+O camponês pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bela
+casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e
+seus filhos adquiriram costumes perdulários, tanto e tanto fizeram, que
+se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
+ninguém os ajudou na sua miséria. Uma noite o velho camponês, que bebera
+enormemente, entrou no celeiro, e, recordando-se do milagre que o
+enriquecera, imaginou que também ele o poderia fazer. Agarrou na
+candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a
+casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miséria mais
+absoluta.
+
+
+
+
+*Querer é poder*
+
+
+--Quem procura sempre encontra, diz um velho provérbio; quero ver por
+experiência, disse um dia um rapaz, se esta máxima é verdadeira.
+
+Pôs-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma grande cidade.
+
+--Senhor, disse-lhe ele, há muitos anos que vivo tranquilo e
+solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
+vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei
+uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.
+
+O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.
+
+O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
+semana, sempre com a mesma vontade inabalável, até que o rei ouviu
+falar o rapaz da sua louca pretensão. Surpreendido com uma ideia tão
+extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:
+
+--Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela ciência,
+pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais são
+os teus títulos? Para seres o marido de minha filha é necessário que te
+distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
+extraordinário. Ouve. Perdi há muito tempo no rio um diamante dum valor
+incalculável. Aquele que o encontrar obterá a mão de minha filha.
+
+O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
+rio; logo de manhã começava a tirar água com um balde pequeno, e
+deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
+horas, punha-se a rezar.
+
+Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receando que
+chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.
+
+--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»
+
+--Encontrar um diamante que caiu ao rio.»
+
+--Então, respondeu o velho rei, sou de opinião que lho entreguem, porque
+vejo qual é a têmpera da vontade deste rapaz; mais fácil seria esgotar
+as últimas gotas do rio, do que desistir da sua empresa.»
+
+Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
+do rei.
+
+
+
+
+*Qual será rei?*
+
+
+Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
+sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer,
+não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.
+
+Resolveram além disso que o cadáver do rei fosse posto de pé contra um
+muro, e que o príncipe que acertasse melhor com uma flecha naquele
+alvo, seria o escolhido para sucessor.
+
+Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
+tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defunto. O príncipe
+soltou grito de alegria, cuidando que seus irmãos atirariam pior, e que
+por conseguinte seria ele quem viria a reinar.
+
+O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
+alegre do que o outro príncipe.
+
+O terceiro varou o coração de seu pai, e os seus gritos de triunfo
+quase que chegavam ao céu, porque lhe parecia impossível acertar melhor.
+
+Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas mãos as
+flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
+longe de si, e desatou a chorar:
+
+--«Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu jamais
+consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus
+próprios filhos!»
+
+Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais
+digno.
+
+
+
+
+*Os três véus de Maria*
+
+
+O primeiro véu de Maria era dum linho mais alvo do que a neve.
+Bordara-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
+seda tão bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham pousar-lhe em
+cima.
+
+Este véu branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira comunhão.
+
+O segundo véu de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que
+sua mãe lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa triste e
+abandonada. Era bordado de perpétuas roxas, como as dos sepulcros de
+mármore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas as suas
+lágrimas.
+
+O véu negro só o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de
+Jesus no convento da Avé-Maria.
+
+O terceiro véu era feito dum retalho do azul celeste, bordado
+de estrelas, e perfumado com aromas suavíssimos.
+
+Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou
+no paraíso.
+
+
+
+
+*Os pequenos no bosque*
+
+
+Um dia três pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
+outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos
+para o bosque que encontremos lá toda a espécie de lindos bichinhos, que
+não fazem outra coisa senão brincar, e nós brincaremos com eles.»
+
+Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da
+abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar,
+disse-lhes:
+
+--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
+outra já não está sólida.»
+
+--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o Inverno.»
+
+--Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu
+ninho.»
+
+--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda
+hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
+minha _toilette_.»
+
+E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
+a saltar e a tagarelar, também não queres brincar connosco?»
+
+--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam
+que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanso nem um
+momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, às colinas,
+aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incêndios,
+tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje
+acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder
+um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»
+
+Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um
+pintassilgo, em cima dum ramo.
+
+--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar connosco?»
+
+--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo
+o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além disso que tomar
+parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operário com o
+meu chilrear, e tenho que adormecer as crianças com uma outra cantiga,
+que à noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. Ide-vos embora,
+preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incomodar os
+habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»
+
+Os pequenos aproveitaram a lição, e compreenderam que o prazer só é
+legítimo, quando é a recompensa do trabalho.
+
+
+
+
+*O chapelinho encarnado*
+
+
+Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
+mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avozinha, que passava o
+tempo a imaginar o que poderia agradar à neta, deu-lhe um dia um chapéu
+de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéu
+novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do
+chapelinho encarnado.
+
+A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
+légua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:
+
+--Tua avó está doente, e não pôde vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai
+levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a
+garrafa, não andes a correr, vai devagarinho e volta logo.»
+
+--Sim, mamã, respondeu ela, hei-de fazer tudo como deseja.»
+
+Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e pôs-se
+a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita,
+que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum.
+
+--Bons dias, chapelinho encarnado.»
+
+--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»
+
+--Onde vais tão cedo?»
+
+--A casa da minha avó que está doente.»
+
+--E levas-lhe alguma coisa?»
+
+--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
+dar forças.»
+
+Diz-me onde mora a tua, avó, que também a quero ir ver.»
+
+--É perto, aqui no fim da floresta. Há ao pé uns carvalhos muito
+grandes, e no jardim há muitas nozes.»
+
+--Ah! tu é que és uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu gostava
+de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas árvores e
+que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que
+quantidade de plantas medicinais que se encontram!»
+
+--O senhor, é com certeza um médico, respondeu a inocente pequenita,
+visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma
+que fizesse bem a minha avó.»
+
+--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta também, e
+aquela.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas
+venenosas. A pobre criança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.
+
+--Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
+grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»
+
+E pôs-se a correr em direcção da casa da avó, enquanto que a pequerrucha
+se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.
+
+Quando o lobo chegou à porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
+avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está aí?»
+
+--É o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da
+pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»
+
+--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»
+
+Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira,
+e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama.
+
+Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a
+porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter
+fechada.
+
+O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do
+focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrível.
+
+--Ai! avozinha, disse a criança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»
+
+--É para te ouvir melhor, minha filha.»
+
+--E porque estás com uns olhos tão grandes?»
+
+--É para te ver melhor.»
+
+--E para que estás com os braços tão grandes?»
+
+--É para te poder abraçar melhor.»
+
+--E Jesus! para que tens hoje uma boca tão grande e uns dentes tão
+agudos?»
+
+--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se à pobre
+pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a
+ressonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e
+que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha está com um
+pesadelo, está pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.» Entra, e
+vê o lobo estendido na cama.
+
+--Olá, meu menino, diz ele: há muito tempo que te procuro.»
+
+Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse ele, não vejo a
+dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o
+animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
+cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e
+saltou para o chão, gritando:
+
+--Ai! que sítio medonho onde eu estive fechada!
+
+A avó saiu também contentíssima por ver outra vez a luz do dia.
+
+O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador meteu-lhe então
+duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a
+neta para verem o que se ia passar.
+
+Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se
+para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
+não podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no lago, e
+afogou-se.
+
+O caçador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha
+e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapelinho encarnado
+prometeu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lho
+proibisse.
+
+
+
+
+*Os cinco sonhos*
+
+
+Andando um dia Carlos Magno à caça com uma comitiva numerosa, perseguiu
+um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da
+ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só
+então que viu que estava só, tendo a sua corte ficado muito para traz;
+sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana solitária
+no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões.
+Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
+entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe
+quiseram logo contar.
+
+O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:
+
+--No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro à pessoa que acaba de entrar
+aqui, e punha-o na minha cabeça.»
+
+--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»
+
+--E eu que estava pondo o seu manto.»
+
+--E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do
+meu pescoço aquela pesada cadeia de ouro, da qual está pendurada a sua
+trompa de caça.»
+
+--Vejo bem, disse o imperador, que têm tenção de me roubar tudo, e
+mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e
+qualquer resistência seria inútil. Não lhes peço senão uma coisa, é que
+me deixem tocar pela última vez na minha trompa de caça.»
+
+Os salteadores responderam que consentiam, visto que o último pedido
+dum moribundo deve ser respeitado.
+
+Carlos Magno levou à boca a sua magnífica trompa de marfim, e tirou
+dela sons tão fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos todos os
+seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé dele.
+
+--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora também
+eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser
+enforcados diante deste casebre.»
+
+E o sonho realizou-se imediatamente.
+
+
+
+
+*A igreja do rei*
+
+
+Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnífica em honra da
+Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse contribuir para
+a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edifício se
+concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do
+mármore uma inscrição em letras de ouro, que dizia que só ele, e mais
+ninguém, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na noite
+seguinte o nome do rei foi apagado da inscrição, e substituído por o
+duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
+pôr o seu nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da pobre
+mulher; à terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera, ordenou
+então que lhe trouxessem a mulher à sua presença:
+
+--Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que contribuíssem
+fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo que não
+cumpriste as minhas ordens.»
+
+--«Senhor, respondeu a velhinha toda trémula, eu respeitei as vossas
+ordens, apesar da mágoa que sentia por não poder oferecer o meu
+pequenino óbolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa
+majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
+que eu levava às escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas
+à construção da igreja.»
+
+--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras de ouro na
+inscrição do monumento, disse-lhe o rei.»
+
+Mas na noite seguinte uma mão invisível restabeleceu na lápide da igreja
+o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.
+
+
+
+
+*O valente soldado de chumbo*
+
+
+Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos
+terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial,
+de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e vermelhos!
+A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da
+caixa em que eles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!»
+que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado
+de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era formá-los sobre a
+mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
+maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
+menos, porque o tinham deitado na forma em último lugar, e já não havia
+chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros não estavam mais
+firmes nas duas pernas do que ele na sua única, e é este o que
+precisamente nos interessa.
+
+Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
+brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindíssimo castelo de
+papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe o interior dos salões.
+À volta era circundado duma floresta em miniatura, que se reflectia
+poeticamente num pedaço de espelho que fingia um lago, onde nadavam
+pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas não tanto como
+uma menina que estava à porta, e que era também de papel, vestida com um
+lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
+tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha
+levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e
+imaginou que, como ele, não tinha senão uma perna.
+
+--Ali está a mulher que me convém, pensou ele, mas é uma grande
+fidalga. Mora num palácio, eu numa caixa em companhia de vinte e
+quatro camaradas, e não haveria cá lugar para ela. No entanto
+preciso conhecê-la.»
+
+Deitou-se atrás duma caixa de tabaco, e dali podia ver à sua vontade a
+elegante dançarina, que estava sempre num pé só, sem perder o
+equilíbrio.
+
+À noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e as pessoas
+da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram
+a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de
+chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas
+como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas
+e saltos mortais, o lápis traçou mil arabescos fantásticos numa lousa,
+enfim o barulho tornou-se tal que o canário acordou, e pôs-se a cantar.
+Os únicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a
+dançarinazinha. Ela no bico do pé, e ele numa perna só, a
+espreitá-la.
+
+Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar
+de rapé, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de surpresa.
+
+--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
+sítio.»
+
+Mas o soldado fez que não ouvia.
+
+--Espera até amanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»
+
+No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de
+chumbo à janela, mas de repente ou por influência do feiticeiro ou por
+causa do vento caiu à rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a
+perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta
+enterrada entre duas lajes.
+
+A criada e o rapazito foram lá abaixo procurá-lo, mas estiveram quase a
+esmagá-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado: «Cautela!»
+te-lo-íam achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda. A chuva
+começou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro dilúvio. Depois
+do aguaceiro passaram dois garotos.
+
+--Olá! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazê-lo
+navegar.»
+
+Construíram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o soldado de
+chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois
+garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
+Que força de corrente! Mas também tinha chovido tanto! O barco jogava
+duma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
+impassível, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro.
+
+De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a
+escuridão como na caixa dos soldados.
+
+--Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me
+meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina
+estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas
+vezes maior.»
+
+Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de água; era um habitante do
+cano.
+
+--Venha o teu passaporte.»
+
+Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na
+espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
+rangendo os dentes, e gritando às palhas, e aos cavacos:--Façam-no
+parar, façam-no parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»
+
+Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e
+sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais valente.
+Havia na extremidade do cano uma queda de água tão perigosa para ele,
+como é para nós uma catarata. Aproximava-se dela cada vez mais, sem
+poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a
+queda de água, e o pobre soldado firmava-se o mais possível, e ninguém se
+atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.
+
+O barco, depois de ter andado à roda durante muito tempo, encheu-se
+de água, e estava a ponto de naufragar. A água já chegava ao pescoço do
+soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
+água passou por cima da cabeça do nosso herói. Nesse momento supremo,
+pensou na gentil dançarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:
+
+--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»
+
+O papel rasgou-se, e o soldado passou através dele. Nesse momento foi
+devorado por um grande peixe.
+
+Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além disso, que
+talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrépido, o soldado
+estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.
+
+O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, até que enfim
+parou, e pareceu que o atravessava um relâmpago. Apareceu a luz do dia,
+e alguém exclamou:
+
+--Olha um soldado de chumbo!»
+
+O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a
+cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
+soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
+gente quis admirar esse homem extraordinário, que tinha viajado na
+barriga dum peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso.
+Colocaram-no em cima da mesa, e ali--tanto é verdade que acontecem
+coisas extraordinárias neste mundo--achou-se na mesma sala, de cuja
+janela tinha caído. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam
+em cima da mesa, o lindo palácio, e a adorável dançarina sempre de perna
+no ar. O soldado de chumbo ficou tão comovido, que de boa vontade teria
+derramado lágrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ela,
+ela olhou para ele, mas não disseram uma palavra um ao outro.
+
+De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no
+fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.
+
+O soldado de chumbo lá estava perfilado, alumiado por um clarão
+sinistro, e sofrendo um calor terrível. Todas as cores lhe tinham
+desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas
+viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
+dançarina, que também olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre
+intrépido, conservava a espingarda ao ombro. De repente abriu-se uma
+porta, o vento arremessou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que
+desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, já não era mais
+que uma pequena massa informe.
+
+No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um
+objecto que tinha o feitio dum pequeno coração de chumbo, e tudo o que
+restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha
+enegrecido.
+
+
+
+
+*João Pateta*
+
+
+João era filho duma pobre viúva, bom rapaz, mas um pouco simplório. A
+gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe
+mandou-o à feira comprar uma foice. À volta, começou a andar com a foice
+à roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e matou-a.
+
+--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em
+um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos.»
+
+--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais
+esperto.»
+
+Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que
+as não perdesse.
+
+--Fique descansada. E voltou todo orgulhoso.»
+
+--Então, João, onde estão as agulhas?»
+
+--Ah! estão em lugar seguro. Quando saí da loja em que as comprei, ia a
+passar o carro do vizinho carregado de palha; meti lá as agulhas, não
+podem estar em sítio melhor.»
+
+--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não há meio de as
+tornar a ver. Devias tê-las espetado no chapéu.»
+
+--Perdão, respondeu João, para a outra vez, hei-de ser mais esperto.»
+
+Na outra semana, por um dia de calor, João foi dali uma légua comprar
+uma pouca de manteiga. Lembrando-se do último conselho de sua mãe, pôs a
+manteiga dentro do chapéu e o chapéu na cabeça. Imagine-se o estado em
+que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.
+
+A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia
+resolveu-se a mandá-lo à feira vender duas galinhas.
+
+--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te ofereçam
+outro.»
+
+--Está entendido, respondeu João.»
+
+Foi para a feira. Um freguês chegou-se a ele.
+
+--Queres seis tostões por essas galinhas?»
+
+--Ora adeus! minha mãe recomendou-me, que não aceitasse o primeiro
+preço, mas que esperasse o segundo.»
+
+--E tens muita razão. Dou-te um cruzado.»
+
+--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o primeiro,
+mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ela não tem que me ralhar.»
+
+Depois disto, João foi condenado a ficar em casa. Sua mãe sabia que
+mangavam com ele, e se riam dela. Uma manhã quis fazer uma
+experiência, e disse-lhe:
+
+--Vai vender este carneiro à feira. Mas não te deixes enganar. Não o
+entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»
+
+--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»
+
+--Quanto queres por esse carneiro?
+
+--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.
+
+--Quatro mil réis?»
+
+--É o preço mais elevado?»
+
+--Pouco mais ou menos.»
+
+--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepara a uma escada.
+
+--Quanto?»
+
+--Dez tostões:»
+
+--É menos, respondeu timidamente o João.»
+
+--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não há um
+preço mais elevado.»
+
+--Tem razão. É seu o carneiro.»
+
+Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou
+comprar coisa alguma.
+
+
+
+
+*Branca de Neve*
+
+
+Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia
+de Inverno, enquanto bordava num bastidor de ébano olhando de vez em
+quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no chão,
+distraída, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue.
+
+--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos
+como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros
+como este ébano.»
+
+Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu à luz uma filha,
+que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo tão branco,
+que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito
+tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
+duma grande beleza, e dum orgulho não menos extraordinário. Era tão
+formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
+vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho
+magico dizia-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que há no
+mundo?»
+
+--És tu, respondia o espelho.»
+
+No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
+formosa. Tinha apenas sete anos, e já ninguém a podia ver sem ficar
+maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
+espelho, disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que há no
+mundo?»
+
+--Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»
+
+A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dor aguda,
+como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um ódio mortal pela
+inocente Branca. Não podia sossegar nem de dia, nem de noite. Para
+satisfazer o seu ódio, chamou um criado, e disse-lhe:
+
+--Quero que Branca desapareça. Conduze-la à floresta, mata-a, e, para me
+provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o
+coração.»
+
+O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e
+dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre criança chorava e
+lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ela não tinha feito
+mal a ninguém, e queria viver. O criado, comovido com aquelas
+lágrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se
+as feras a devorassem a culpa não era dele, mas sim da rainha. Assim
+fez, e para mostrar o coração de Branca à rainha, matou um cabrito, e
+tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou
+contentíssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma
+mulher no mundo é tão bela como eu.
+
+A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava
+cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e
+andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
+também via animais ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o
+deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.
+
+À noite chegou ao pé duma casinha muito pequenina. Estava morta de fome
+e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
+limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha de
+brancura irrepreensível, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,
+e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
+do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
+deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente.
+
+Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
+pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
+que tinham gente em casa. Um deles disse:
+
+--Quem comeu o meu pão?»
+
+E os outros sucessivamente:
+
+--Quem pegou no meu garfo?»
+
+--Quem comeu o meu caldo?»
+
+--Quem bebeu o meu vinho?»
+
+E enfim um deles:
+
+--Quem está aí deitado na minha cama?»
+
+Reuniram-se todos à roda do pequeno leito em que dormia Branca. À luz
+das lanternas viram o doce rosto da criança, que dormia tranquilamente,
+e afastaram-se sem fazer bulha, para a não acordar. Branca no dia
+seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si
+aqueles sete anões das montanhas. Mas eles disseram-lhe com brandura,
+que não tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como se chamava.
+Branca contou a sua triste história, e os anões disseram-lhe:
+
+--Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa?»
+
+--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada.»
+
+Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias.
+Limpava os móveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as
+minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.
+
+Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não
+tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
+e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda
+que há no mundo?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Sim, nos teus palácios e nos teus castelos, mas Branca está nas sete
+montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»
+
+Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,
+e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que
+modo? Uma manhã partiu disfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto
+cheio de objectos de fantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu à
+porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas jóias?»
+
+Os anões tinham recomendado a Branca que desconfiasse das caras
+estranhas, receando os emissários da rainha, e ela tinha prometido ser
+prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no
+cesto, esqueceu-se das suas promessas.
+
+--Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou pôr ao
+pescoço.»
+
+Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
+anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente
+inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lábios algumas
+gotas dum licor amarelo. Branca começou a respirar, voltou a si pouco
+a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.
+
+--Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira não era
+outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautela, não deixes
+entrar aqui ninguém, quando não estivermos em casa.»
+
+Ao entrar no seu palácio toda contente, colocou-se a rainha diante do
+espelho, e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que há no mundo?
+Responde.
+
+E o espelho respondeu:
+
+--És tu nos teus grandes palácios e nos teus castelos, mas Branca está
+nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»
+
+A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
+infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou às sete
+montanhas, e bateu à porta da cabana.
+
+--Quem quer comprar lindas jóias? Branca veio à janela, e respondeu:
+
+--Vá-se embora, aqui não entra ninguém.»
+
+--Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro. Já
+viu outro tão bonito?»
+
+Branca não pôde resistir ao desejo de possuir aquela jóia. Abriu a
+porta.
+
+--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lho na cabeça.»
+
+Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e
+Branca caiu morta.
+
+À noite quando regressaram os anões, acharam-na pálida e fria.
+Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e
+tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente.
+
+No entanto a cruel rainha voltava contentíssima para o seu palácio.
+Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que
+o espelho respondeu como antecedentemente.
+
+--Ah! é preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha de me
+sacrificar.
+
+Vestiu-se de camponesa com um cesto de maçãs. Entre elas havia uma que
+estava envenenada dum lado. Foi, e bateu à porta da cabana.»
+
+--Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?»
+
+--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, não deixo entrar
+ninguém, nem compro coisa alguma.»
+
+--Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão
+bonita, quero dar-lhe uma.»
+
+--Obrigada, não posso aceitar.»
+
+--Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa
+que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora
+mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se
+tentar, levou à boca o outro pedaço, e caiu fulminada.
+
+--Aí tens, para castigo da tua formosura.»
+
+Quando chegou ao palácio a rainha foi direita ao espelho, e
+perguntou-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--És tu, és tu.»
+
+--Até que enfim!»
+
+Os anões estavam inconsoláveis. Debalde tinham tentado reanimá-la com o
+licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
+fria e inanimada. Choraram por ela durante três dias, e os passarinhos
+da floresta choraram também. No entanto as boas avezinhas não podiam
+acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquilo,
+as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quiseram
+enterrá-la. Meteram-na num caixão de cristal, e escreveram em cima.
+«Aqui jaz a filha dum rei;» puseram o caixão numa das sete montanhas,
+e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
+assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais
+pequena alteração.
+
+Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar à
+caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lho cedessem, fosse por preço
+que fosse.
+
+--Somos muito ricos, e por nada deste mundo venderemos este caixão, que
+é o nosso tesouro.»
+
+--Então dêem-mo, já não posso viver sem contemplar este rosto de
+mulher. Guardá-lo-ei na melhor sala do meu palácio. Peço-lhes que me
+façam isto.»
+
+Os anões, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para
+o levarem. Um deles tropeçou numa raiz, e o caixão sofreu um
+balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha
+engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O
+jovem príncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela. O
+casamento fez-se com grande pompa. O príncipe convidou todos os reis e
+rainhas dos diferentes países, e entre elas a rainha inimiga de
+Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos
+os olhares, pôs-se diante do espelho, e disse a rainha:
+
+--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que há do mundo?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Branca é mais formosa que tu.
+
+A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes
+fossem descobertos, que morreu de repente.
+
+Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu palácio de
+princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus benfeitores.
+
+
+
+
+*A rapariguinha e os fósforos*
+
+
+Que frio! a neve caía, e a noite aproximava-se; era o último de
+Dezembro, véspera de Ano Bom. No meio deste frio e desta escuridão
+passou na rua uma desgraçada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os
+pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas
+tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já
+tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua
+a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
+quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a intenção de fazer
+dele um berço para o seu primeiro filho.
+
+A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha
+no seu velho avental uma grande quantidade de fósforos, e levava na
+mão um maço deles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido
+compradores, e por isso não apurara cinco réis.
+
+Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
+longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do pescoço; mas
+pensava ela porventura nos seus cabelos anelados?
+
+As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos
+manjares; era a véspera de dia de Ano Bom: eis no que ela pensava.
+
+Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
+vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pai bater-lhe-ia,
+porque não tinha vendido os seus fósforos. Além disso em sua casa
+fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento
+atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
+mãozinhas já quase que as não sentia. Ai! como um fosforozinho aceso
+lhe faria bem! Se tirasse do maço apenas um, um único, e ascendendo-o
+aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como
+ardeu! Era uma chama tépida e clara, como uma pequena lamparina. Que
+luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro
+de ferro, cujo lume magnífico aquecia tão suavemente, que era um regalo.
+
+A pequerrucha ia já a estender os pezitos para os aquecer também, quando
+a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma
+pontita de fósforo consumido.
+
+Acendeu segundo fósforo, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu
+a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando através desse
+muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha
+alvíssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma galinha
+assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exalando um perfume
+delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do
+prato, e caiu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca
+espetada no lombo. Nisto apagou-se o fósforo, e viu apenas diante de
+si a parede fria e tenebrosa.
+
+Acendeu terceiro fósforo, e achou-se imediatamente sentada debaixo
+de uma magnífica árvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a
+que tinha visto no ano passado através dos vidros de um armazém
+sumptuoso.
+
+Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões acesos, e as estampas
+coloridas, como as que há às portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.
+Quando ia agarrá-las com as duas mãos, apagou-se o fósforo; todos os
+balões da árvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se
+tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no céu
+um longo rasto de fogo.
+
+--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que
+lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando
+cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.»
+
+Acendeu ainda outro fósforo: deu uma grande luz, no meio da qual lhe
+apareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavíssimo.
+
+--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei que te vais
+embora quando se apagar o fósforo. Desaparecerás como a panela de
+ferro, a galinha assada, e a bela árvore do Natal.
+
+Acendeu o rosto do maço, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e
+os fósforos espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua
+avó tinha sido tão formosa. Pôs ao colo a pequerruchinha, e ambas
+alegres, no meio deste deslumbramento, voaram tão alto, tão alto, que
+já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraíso.
+
+Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os
+dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos lábios...
+morta, morta de frio na última noite do ano. O dia de Ano Bom veio
+alumiar o pequenino cadáver, sentado ali com os seus fósforos, a que
+faltava um maço, que tinha ardido quase inteiramente.--Quis aquecer-se,
+disse um homem que passou.» E ninguém soube nunca as lindas coisas que
+ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
+velha avó no dia do Ano Novo.
+
+
+
+
+*O primeiro pecado de Margarida*
+
+
+Chamava-se Margarida, e estavam à espera dela no céu, porque Deus
+tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe pode
+acontecer alguma desgraça, vou trazê-la um destes dias para o paraíso.»
+
+Margarida era uma virgem cândida, matinal como a aurora, fresca como
+ela; todos os dias ao acordar rezava as orações, que sua mãe lhe tinha
+ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha
+jóias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.
+
+Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.
+
+E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela canção
+de amor e de glória, que já embalara muitos berços, e que podia
+sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.
+
+Numa tarde de Verão, estava ela sentada à porta de casa fiando linho,
+à hora em que as estrelas começam a aparecer, uma a uma no firmamento.
+
+Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por ali uma das
+suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido novo.
+Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
+colar de ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse
+bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
+contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que
+inquietou no paraíso o seu anjo da guarda.
+
+O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de
+Margarida, a roda cessara o seu barulho monótono, e o fuso caíra-lhe das
+mãos.
+
+Ao cair o fuso despertou do êxtase, abriu os olhos, e viu diante de si
+um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de veludo
+preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a
+respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
+perguntou-lhe:
+
+--Qual é o caminho da cidade?»
+
+Margarida estendeu a mão para lho indicar, e o forasteiro inclinando-se
+tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma
+estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que
+o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se então com
+um sorriso estranho e diabólico.
+
+Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
+Margarida, e pediu-lhe uma esmola.
+
+Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre desgraçado.
+
+O cavaleiro então, soltando um grito de cólera, ia lançar-se sobre
+Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda
+disfarçado--cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto é Satanás, que
+tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espírito celeste.
+
+
+
+
+*Um nome inscrito no céu*
+
+
+Era uma vez um pobre mendigo, que bateu à porta duma humilde cabana a
+pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem
+ouvindo ninguém, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu
+então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:
+
+--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»
+
+E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater à mesma
+porta.
+
+--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada
+que te dar.»
+
+--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.
+
+E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
+cima da mesa, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que
+lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.
+
+--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe ele afectuosamente, indo-se
+embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»
+
+Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevê-lo-ão no
+Paraíso, e mais tarde nós o viremos a saber.
+
+
+
+
+*O linho*
+
+
+O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e
+transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre
+ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o
+dum filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.
+
+--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
+e serei brevemente uma rica peça de pano. Sinto-me feliz. Não há
+ninguém que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saúde e um belo
+futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
+feliz, feliz a mais não poder ser!»
+
+--Como és ingénuo! disseram as silvas do valado; tu não conheces o
+mundo, de que nós outras temos uma larga experiência.»
+
+E rangendo lastimosamente, cantaram:
+
+ --Cric, crac! cric, crac! crac!
+ --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bela
+manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+florir. Sou muitíssimo feliz.»
+
+Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
+cabeleira, arrancaram-no com raízes e tudo, e deram-lhe tratos de
+polé. Primeiro mergulharam-no em água, como se o quisessem afogá-lo, e
+depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!
+
+--Não se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessário
+sofrer, o sofrimento é a mãe da experiência.»
+
+Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no,
+cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois,
+puseram-no numa roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.
+
+--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio daquelas
+torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades perdidas.»
+
+E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a meter no tear e a
+transformá-lo numa peça de pano.
+
+--Isto é extraordinário, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que
+grandes tolas aquelas silvas quando cantavam:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso
+também agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto,
+tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida,
+ninguém trata da gente, e não bebemos outra água a não ser a da chuva.
+Agora é o contrário: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as
+manhãs, e à noite tomo o meu banho com um regador. A criada do sr. cura
+fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
+melhor peça da paróquia. Não posso ser mais feliz.»
+
+Levaram o pano para casa, e entregaram-no às tesouras. Cortaram-no e
+picaram-no com uma agulha. Não era lá muito agradável, mas em
+compensação fizeram dele uma dúzia de camisas magníficas.
+
+--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é
+abençoado, porque sou útil neste mundo. É preciso isso para se viver em
+paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um
+só grupo, uma dúzia. Que incomparável felicidade!
+
+O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.
+
+--Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas não
+se fazem impossíveis.»
+
+E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
+finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem
+adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel
+branco magnífico.
+
+--Oh que agradável surpresa! exclamou o papel, agora sou muito mais fino
+do que dantes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima
+de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»
+
+E escreveram nele as mais belas histórias, que foram lidas diante de
+inúmeros ouvintes, e os tornaram mais sábios e melhores.
+
+--Ora aqui está uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
+quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
+ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei
+explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe
+perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
+sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, até chegar à maior glória.
+Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se»
+tudo pelo contrário se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou
+viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
+instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora
+as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,
+imensamente feliz!»
+
+Mas o papel não foi viajar; entregaram-no ao tipógrafo, e tudo que lá
+estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
+que recrearam e instruíram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
+papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta à roda
+do mundo. A meio caminho já estaria gasto.
+
+--É justo, disse o papel, não tinha pensado nisso. Fico em casa, e vou
+ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as
+palavras caíram directamente da pena sobre mim, fico no meu lugar, e os
+livros vão por esse mundo fora. A sua missão é realmente bela, e eu
+estou contente, e julgo-me feliz.
+
+O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.
+
+--Depois do trabalho é agradável o descanso, pensou ele. É neste
+isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só de hoje em diante é que
+eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira
+perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»
+
+Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o
+que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar açúcar. E todas as
+crianças da casa se puseram à roda; queriam vê-lo arder, e ver também,
+depois da labareda, as milhares de faíscas vermelhas, que parecem fugir,
+e se apagam instantaneamente uma após outra. O maço inteiro de papel
+foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande
+chama, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguera as
+suas flores azuis; a peça de pano nunca tinha tido um brilho
+semelhante.
+
+Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
+palavras, todas as ideias desapareceram em línguas de fogo.
+
+--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da labareda, que
+pareciam mil vozes reunidas numa só. A chama saiu pela chaminé, e no
+meio dela volteavam pequeninos seres invisíveis para os olhos do
+homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.
+Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu,
+quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda eles dançavam
+sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas
+encarnadas.
+
+As crianças cantavam à roda da cinza inanimada:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que
+é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»
+
+As crianças não puderam ouvir, nem compreender estas palavras; mas
+também não era necessário, porque as crianças não devem saber tudo.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+*INDICE*
+
+
+A mãe
+O ouro
+Doçura e bondade
+O malmequer
+Não quero
+Piloto
+O rico e o pobre
+Como um camponês aprendeu o Padre Nosso
+O talismã
+A alma
+Alberto
+A canção da cerejeira
+Os gigantes da montanha e os anões da planície
+A criança, o anjo e flor
+Presente por presente
+O pinheiro ambicioso
+Perfeição das obras de Deus
+João e os seus camaradas
+O rabequista
+Os pêssegos
+A urna das lágrimas
+Reconhecimento e ingratidão
+O fato novo do sultão
+Boa sentença
+Os animais agradecidos
+O ermitão
+Carlos Magno e o abade de S. Gall
+A boneca
+Inconveniente da riqueza
+Querer é poder
+Qual será rei?
+Os três véus de Maria
+Os pequenos no bosque
+O chapelinho encarnado
+Os cinco sonhos
+A igreja do rei
+O valente soldado de chumbo
+João Pateta
+Branca de Neve
+A rapariguinha e os fósforos
+O primeiro pecado de Margarida
+Um nome inscrito no céu
+O linho
+
+
+[A propriedade deste livro pertence no Brasil ao sr. Luís de Andrade,
+residente no Rio de Janeiro.]
+
+