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+The Project Gutenberg EBook of Contos para a infância, by Guerra Junqueiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Contos para a infância
+ Escohidos dos melhores auctores
+
+Author: Guerra Junqueiro
+
+Release Date: August 4, 2005 [EBook #16429]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA ***
+
+
+
+
+Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
+Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
+at https://www.pgdp.net
+
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+
+CONTOS PARA A INFANCIA
+
+ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES POR GUERRA JUNQUEIRO
+
+
+LISBOA
+
+TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL
+
+Rua dos Calafates, 110
+
+1877
+
+
+
+
+*A mãe*
+
+
+Estava uma mãe muito afflicta, sentada ao pé do berço do seu filho, com
+medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados.
+Respírava com difficuldade, e ás vezes tão profundamente, que parecia
+gemer; mas a mãe causava ainda mais lastima do que o pequenino
+moribundo.
+
+N'isto bateram á porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado
+n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de
+neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha.
+
+O pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns instantes,
+e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho
+começou a embalar a creança, e a mãe, pegando n'uma cadeira, sentou-se
+ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
+vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mãosinha descarnada e disse para
+o velho:
+
+--Oh! Nosso Senhor não m'o hade levar! não é verdade?--
+
+E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça d'uma maneira extranha, em
+ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas
+corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de
+cabeça; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou
+ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a
+tremer de frio.
+
+--Que é isto! exclamou, lançando á volta de si o olhar hallucinado. O
+berço estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creança.
+
+ * * * * *
+
+A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma
+mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em
+casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
+depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar.»
+
+--Por onde foi ella? gritou a mãe. Dize-m'o pelo amor de Deus!»
+
+--Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto.
+Mas só t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas
+ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
+muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.
+
+--Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me
+demores, porque quero encontrar o meu filho.--
+
+A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou a
+cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais do que as
+palavras.
+
+No fim disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de
+pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.»
+
+A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não
+sabia que direcção havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal,
+cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
+cristallisada.
+
+ * * * * *
+
+--Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe.
+
+--Vi, respondeu o mattagal, mas não te ensino o caminho, senão com a
+condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»
+
+E a mãe estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos
+dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se
+de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite
+d'inverno frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe
+angustiosa.
+
+E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
+andando, até que chegou á margem d'um grande lago, onde não havia nem
+barcos, nem navios. Não estava sufficientemente gelado para se andar por
+elle, e era demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo,
+querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio
+do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do
+lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria
+talvez um milagre.
+
+--Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos
+amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus
+olhos são d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu
+tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas á força de chorar, e
+levar-te-hei á estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a
+habitação da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro, é ella
+quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida d'uma creatura
+humana.»
+
+--Oh! o que não darei eu, para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E
+apesar de ter já chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do
+que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo
+do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no
+mundo uma rainha.
+
+O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na
+outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua
+de comprido. De longe não se sabia se era uma construcção artistica ou
+uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada;
+tinha dado os seus olhos.
+
+--Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou
+ella desesperada.
+
+--A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um
+lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
+vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?»
+
+--Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso. Compadece-te
+de mim, e dize-me onde está o meu filho.»
+
+--Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas
+e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para
+as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este
+sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem
+com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes,
+sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as
+pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o
+que tens ainda de fazer?»
+
+--Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim
+do mundo buscar o que tu quizeres.--«Fóra d'aqui não preciso de nada,
+respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que
+são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos
+brancos.»--Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Ahi os tens,
+dou-t'os de boa vontade.»
+
+E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu
+orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e
+inteiramente brancos da velha.
+
+Esta levou-a pela mão á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma
+vegetação maravilhosa.
+
+Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado
+de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas
+cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam
+cobras asquerosas.
+
+Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos
+frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa,
+tomilho, ortelã e outras plantas humildes que representavam o genero de
+utilidade das pessoas que ellas symbolisavam.
+
+Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
+pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em
+vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com
+esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a
+essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlandia.
+
+A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe
+impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas
+pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
+coração, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as
+pulsações do coração do seu filho.
+
+--É elle!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre
+a terra, parecia completamente estiolado.
+
+--Não lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte
+vier, que não tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de
+arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem
+de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o seu
+consentimento.»
+
+N'isto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte,
+que se approximava.
+
+--Como é què deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
+primeiro do que eu! Como o conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ella.
+
+E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.
+
+Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de
+não ferir uma só das pequeninas petalas. Então a Morte soprou-lhe nas
+mãos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do
+que os ventos enregelados do inverno.
+
+--Não pódes nada comigo!» disse a Morte.--Mas Deus tem mais força do que
+tu, respondeu a mãe.»--«É verdade, mas eu não faço senão aquillo que
+elle manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e
+arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins,
+um dos quaes é o grande jardim do Paraizo. São regiões desconhecidas;
+ninguém sabe o que se lá passa.»
+
+--Misericordia! misericordia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho,
+agora que acabo de o encontrar!» Supplicava e gemia. A Morte
+conservava-se impassivel; agarrou então instantaneamente em duas flores
+lindissimas e disse á Morte: «Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar,
+despedaçar não só esta, mas todas as flores que estão aqui!
+
+--Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és
+desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra mãe!»
+disse a pobre mulher, largando as flores immediatamente.--Toma, aqui
+tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei
+do lago. Não sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o
+fundo d'este poço; vê o que ias destruir, se arrancasses estas flores.
+Verás passar nos reflexos da agua, como n'uma miragem, a sorte destinada
+a cada uma d'essas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se
+porventura vivesse.»
+
+Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria,
+quadros risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de
+miseria, d'angustias e de desolação.
+
+--N'isto que eu vejo, disse a mãe afflictissima, não distingo qual era a
+sorte que Deus destinava ao meu filho.»
+
+--Não posso dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto
+que te appareceu viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.»
+
+A mãe desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me:
+era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade! Falla!
+Não me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, não vá elle soffrer
+desgraças tão horriveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que á minha
+vida. As angustias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos.
+Esquece as minhas lagrimas, as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz
+e tudo o que disse.»
+
+--Não te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu
+filho ou que o leve para a região desconhecida de que não posso
+fallar-te!» Então a mãe allucinada, convulsa, torcendo os braços,
+deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: «Não me ouças,
+Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua vontade que é
+sempre justa! Não me attendas meu Deus!»
+
+E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua agonia
+dilacerante.
+
+E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi transplantal-o no
+jardim do paraiso.
+
+
+
+
+*O ouro*
+
+
+Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas d'ouro,
+empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas minas; e o
+resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande
+fome no paiz.
+
+Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
+segredo frangos, pombos, gallinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
+e quando o rei quiz jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com
+que elle ficou todo satisfeito, porque não comprehendeu ao principio
+qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada
+de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem
+que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus
+vassallos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
+trazel-os nas minas á busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e
+que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens,
+estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro
+apparecesse em abundancia.
+
+A rainha tinha juizo.
+
+
+
+
+*Doçura e bondade*
+
+
+Ha entre vós, meus filhos, indoles violentas, que não sabem dominar-se,
+e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma pessima
+disposição, que é necessario corrigir; dá lugar a disputas, e a que se
+commettam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.
+Citar-vos-hei dois exemplos de que fui testemunha.
+
+Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
+d'elle, volta-se e dá-lhe uma bofetada.
+
+--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vae ter! bateu n'um
+cego!»
+
+Um homem ainda novo montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns
+camponezes grosseiros começaram a apupal-o e a bater no burro, para o
+fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a
+sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubesseis que eu era coxo, não
+terieis sido tão covardes.»
+
+Os camponezes, envergonhados, córaram, afastando-se sem pronunciar uma
+palavra.
+
+Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a
+quem as recebeu.
+
+
+
+
+*O malmequer*
+
+
+Ouvi com attenção esta pequenina historia!
+
+No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores,
+rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no
+meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
+olhos vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por
+elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella
+manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
+parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava
+que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre florinha
+insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
+sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
+
+N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira,
+sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças
+sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle, sentado na haste
+verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
+o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com
+admiravel nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a
+olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha
+feliz que cantava e voava.
+
+«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento
+acaricia-me. Oh! não tenho rasão de me queixar.»
+
+Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos
+aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para
+parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa.
+As tulipas brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se
+pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno
+malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: «como são
+ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visital-as. Graças a Deus,
+poderei assistir a este bello espectaculo.» E no mesmo instante a
+cotovia dirigiu o seu vôo, não para as dalias e tulipas, mas para a
+relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria não sabia o que
+havia de pensar.
+
+O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando: «Como a herva é
+macia! oh! que encantadora florinha, com um coração d'oiro, vestida de
+prata!»
+
+Não se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com
+o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do
+firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde o malmequer
+reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou
+para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
+acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as
+tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
+ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabeça toda
+inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis
+ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.
+
+Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
+grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
+uma a uma.
+
+«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se
+todas.»
+
+E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrára-se por
+ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando
+reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
+adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.
+
+No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao
+ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,
+muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rasões para se affligir:
+haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella
+aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas
+antigas viagens atravez do espaço illimitado.
+
+O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
+difficil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe
+esquecer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e
+a alvura resplandecente das suas proprias folhas.
+
+N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão
+uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
+tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o
+que desejavam.
+
+«Podemos arrancar d'aqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos
+rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.
+
+--«Arranca a flor, disse o outro.»
+
+A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era
+morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existencia, como no momento em
+que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
+
+«Não; deixemol-a, disse o mais velho. Está ahi muito bem.»
+
+Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
+
+O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia
+com as azas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus
+desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.
+
+Passou-se assim toda a manhã.
+
+«Já não tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
+deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre
+terrivel, sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do
+sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da
+creação!»
+
+Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu
+então o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe,
+afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo
+inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva,
+e a ti só por unica companhia. Cada pésinho de relva substitue para mim
+uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah!
+como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!
+
+--Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o
+minimo movimento.
+
+Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume;
+a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
+arrancar a herva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na
+flor.
+
+Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua á
+desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas azas, sacudindo-as
+convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha melancolica; a sua
+cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e
+d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer
+não pôde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se
+para o chão, doente de tristeza.
+
+Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
+rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro
+d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e
+cobriram o tumulo com folhas de rosas.
+
+Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e
+deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram
+e lhe fizeram honrarias pomposissimas.
+
+A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle
+que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.
+
+
+
+
+*Não quero*
+
+
+Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito
+alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» Parei e
+perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu rapaz?--«Não quero dizer
+á mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar,
+mas antes quero que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe
+eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto que o outro
+pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
+todo envergonhado.
+
+D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o
+professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois
+pequenos; o que não quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro,
+vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
+dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro, è um magnifico
+estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a
+confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a reparal-as. O outro
+pelo contrario, é mentiroso, covarde e incorrigivel.»--Não me espanto,
+disse eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças; e
+contei-lhe o que tinha ouvido.
+
+
+
+
+*Piloto*
+
+
+Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos cães, e o
+infatigavel companheiro dos brinquedos das creanças da quinta.
+
+Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe
+lançava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na bocca e
+trazia-o á margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã
+Joaninha.
+
+Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cançar nunca a paciencia do
+Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o
+assobio do creado da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações:
+partia então como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos
+pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.
+
+Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda
+da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse á noite a parede da
+quinta.
+
+Uma vez deu prova d'uma extraordinaria sagacidade; um jornaleiro, que se
+empregava muitas vezes em levar saccos de trigo da quinta para casa,
+tentou de noite roubar um sacco.
+
+Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade
+emquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou
+tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o
+largar.
+
+Era como se dissesse: «Onde vaes tu com o trigo de meu dono?»
+
+O ladrão quiz pôr então outra vez o sacco d'onde o tinha tirado; Piloto
+não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de
+manhã; o quinteiro foi dar com elle n'esta difficil posição,
+reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não
+deshonrar.
+
+Mas o homem ficou com odio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a
+ausencia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
+elle sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até á
+margem do ribeiro.
+
+Atou uma grande pedra á outra extremidade da corda e levantando o animal
+atirou-o á agua; mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforço,
+caiu tambem.
+
+Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o
+corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e
+desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes
+e trazido para terra o seu mortal inimigo.
+
+Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o
+cão que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida.
+
+Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si
+mesmo e combateu as suas más inclinações.
+
+O exemplo do cão corrigiu o homem.
+
+
+
+
+*O rico e o pobre*
+
+
+Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
+dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
+deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da
+estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar,
+quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
+preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos
+viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo,
+e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
+vinho.
+
+Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua
+codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e
+suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino tão rico,
+em vez do desgraçado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu
+dentro d'aquella carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia
+Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lançando a cabeça fóra da
+carruagem, chamou Martinho com a mão.
+
+--Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a
+minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho
+córando, o que eu disse não foi por mal.»--Não estou zangado comtigo,
+replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.»
+
+--Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar
+no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando
+muitas leguas por dia, como pão secco e batatas, emquanto que o senhor
+anda n'uma carruagem, póde comer frangos e beber vinho.»--Pois bem,
+volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu
+não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho
+ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
+preceptor continuou: «Acceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho,
+ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada
+de me ver entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a
+idéa da entrada triumphante na sua aldeia.
+
+O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
+descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma
+perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em
+duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou
+que era muito pallido e que tinha cara de doente.
+
+Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:--Então sempre
+desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas
+valentes e as tuas faces córadas, pelo prazer de ter uma carruagem e
+andar bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou
+Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
+tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro
+os meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças a Deus
+pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.
+
+«Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal,
+tens força e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que não
+podem comprar-se com dinheiro.
+
+
+
+
+*Como um camponez aprendeu o Padre Nosso*
+
+
+Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
+confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso.
+
+«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.»
+
+«Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a
+credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da
+minha parte.»
+
+No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
+
+«Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.
+
+«Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, respondeu o pobre.»
+
+«E o teu appellido?»
+
+«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.»
+
+E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
+
+Ao outro dia chega segundo pobre.
+
+«Como te chamas?
+
+«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.»
+
+«E o teu appellido?»
+
+«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.»
+
+E partiu com o seu alqueire de trigo.
+
+Veiu terceiro pobre.
+
+«Como te chamas?»
+
+«Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.»
+
+«E o teu appellido?»
+
+«Dae-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.»
+
+E levou o seu alqueire.
+
+Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma
+forma até chegar ao _Amen_.
+
+Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.
+
+«Então já sabes o Padre Nosso?»
+
+«Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei
+o meu trigo.»
+
+«Quaes são? tornou o padre.»
+
+E o aldeão enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
+apresentado.
+
+«Já vês, disse o confessor, que não era muito difficil aprender o Padre
+Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»
+
+
+
+
+*O talisman*
+
+
+Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas
+com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
+que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com
+uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue
+inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da
+sua casa.
+
+«Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual é a razão
+porque a sorte nos trata de um modo tão differente? Vendemos as mesmas
+mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apezar
+d'isso, emquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu
+seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não
+terás tu por acaso algum precioso talisman.»
+
+«Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma
+virtude incomparavel. Trago-o ao pescoço, e ando assim com elle todo o
+dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o
+celleiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.»
+
+«Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia
+preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de que t'a
+restituo.»
+
+«Pois vem buscal-a ámanhã de manhã.»
+
+Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
+apresentou-lhe este uma avellã, através da qual tinha tinha passado um
+fio de seda.
+
+O nosso homem pòl-a immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a
+casa com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a
+parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
+cozinha o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o
+feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos
+cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
+escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio,
+comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por
+terceira pessoa na direcção dos seus negocios.
+
+Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman,
+agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em
+segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.
+
+
+
+
+*A alma*
+
+
+«Mamã, nem todas as creanças que morrem vão para o Paraizo. O outro dia
+vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu papá e as
+suas duas irmãsinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me
+fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, não é
+verdade?»
+
+«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus
+paes e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraizo.»
+
+«A alma? mamã; não sei o que é; não comprehendo bem.»
+
+«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
+pequerruchas.»
+
+«Tive sim, mamã, tive muita pena.»
+
+«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
+braços?»
+
+«Não, mamã.»
+
+«Eram as orelhas?»
+
+«Oh! não mamã, era _cá dentro_.»
+
+«Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece,
+que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando
+praticas o bem.
+
+
+
+
+*Alberto*
+
+
+Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus
+irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer
+sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico
+feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de
+batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava
+com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
+quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. «Ha
+de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará libras como uma
+cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá, que ficará muito
+contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não
+rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por
+fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.
+
+«Vi papá; achei-a e fui semeal-a.»
+
+«Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve?»
+
+«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.»
+
+«É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»
+
+Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
+não pertencia.
+
+Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
+produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como
+é? é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira.
+
+
+
+*A canção da cerejeira*
+
+
+Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!» E a cereijeira
+cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e
+verdejantes.
+
+A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se,
+abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as
+folhinhas tenras, dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem é
+que me arranjou este banquete?»
+
+Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a cereijeira
+cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores delicadas e
+brancas.
+
+E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas,
+dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o
+deitaram!»
+
+Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o
+assucar!»
+
+No verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira
+cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos.
+
+«Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião; temos appetite,
+e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No
+outono disse Deus: «Levantae a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento
+frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore.
+
+As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o
+vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar.
+
+Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos
+ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descança.
+
+
+
+
+*Os gigantes da montanha e os anões da planicie*
+
+
+Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na
+montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um
+alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície a ver o que
+faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões.
+Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido á caça e sua mãe estava
+dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os
+jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os
+lavradores, coisas inteiramente novas para ella. «Oh! que lindos
+brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
+quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavallos, a
+charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello,
+onde seu pae estava a jantar.
+
+--Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle.
+
+--Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os
+mais bonitos que tenho visto.»
+
+E pol-os em cima da mesa, a um e um,--os cavallos, a charrua e os
+trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
+tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha
+poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
+fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso
+não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
+respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o
+immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
+montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de lavrar
+a terra e de semear o trigo.
+
+
+
+
+*A creança, a anjo e flôr*
+
+
+Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos braços, e
+desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que
+ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de
+quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam
+no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe
+todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor
+escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros
+maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma
+creança morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro
+sobre a casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins
+deliciosos, cobertos de flores.
+
+«Qual é a flor que desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo.
+
+Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
+magnifica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de
+botõesinhos lindissimos pendiam estiolados para o chão.
+
+«Pobre roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa
+reflorir no paraiso.»
+
+O anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas flores
+brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
+
+A colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus. Caiu
+a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam ainda por
+cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
+de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
+immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores
+com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos
+campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-n'a
+atirado para a rua como inutil e morta.
+
+«Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando,
+te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquella
+rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creança miseravel e
+doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar
+com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
+de verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
+Então a creança sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do
+andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca
+verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do
+visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o ramo
+verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava
+com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe
+flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda
+raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da
+cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e
+todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico
+thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
+aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em
+sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e
+ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que se
+voltou.
+
+«Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida
+flor, esquecida á janella desde então, murchou, estiolou-se e
+atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca é o
+thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
+canteiros d'um jardim realengo.»
+
+«Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o anjo levava para o céo.
+
+--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
+em moletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»
+
+A creança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
+no céo onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
+levou-as ao coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre,
+despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar
+com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe,
+formando circulos que vão augmentando successivamente, multiplicando-se
+até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
+harmoniosamente--desde a creança abençoada até á humilde florinha do
+campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e
+tortuosa.
+
+
+
+
+*Presente por presente*
+
+
+Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite
+á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi
+a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
+pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque
+eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama não a
+tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
+morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões,
+e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao
+outro dia pela manhã disse isto mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao
+despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
+dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponeza julgou
+que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a
+trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
+que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
+examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:
+
+«Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe!
+
+E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
+achado as suas batatas melhores do que faisões.
+
+«É necessário confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha
+talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das
+batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas.
+
+E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de batatas
+escolhidas.
+
+Os lacaios e as sentinellas ao principio não o queriam deixar entrar;
+mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo
+contrario vinha trazer alguma cousa.
+
+Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.
+
+«Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente
+pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca
+d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar
+demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis
+o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
+batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos
+acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá
+as encontrareis sempre ao vosso dispor.»
+
+A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava
+n'um momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta
+geiras de terra.
+
+Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que,
+sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não me ha
+de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo
+qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer
+presente d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra,
+simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de
+recompensar ainda mais generosamente.»
+
+Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
+palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar
+altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia.
+
+«Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; não
+tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o
+offereça.»
+
+O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
+comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:
+
+Depois dirigindo-se a elle:
+
+«Acceito a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh!
+espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
+faisões. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom
+preço para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»
+
+E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
+
+
+
+
+*O pinheiro ambicioso*
+
+
+Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh!
+dizia elle, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
+verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
+orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
+de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»
+
+O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o
+pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
+pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
+mais sensatos do que elle, não invejavam a sua rapida fortuna. Á noite
+passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um
+sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés á cabeça.
+
+«Oh! disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça
+dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a
+floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
+o oiro attrae as ambições.
+
+Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
+avarento não me teria despido.»
+
+No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
+sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
+fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de
+nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as
+folhas de cristal.
+
+«Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em
+pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir
+as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria
+menos brilhante, mas viveria descansado.»
+
+Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado ás vaidades
+primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
+outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
+vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as
+todas sem deixar uma unica.
+
+O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar á sua
+fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
+sua sorte.
+
+
+
+
+*Perfeição das obras de Deus*
+
+
+_A filha_.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.
+
+_A mãe_.--Vou-te dar outra.
+
+_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mamã?
+
+_A mãe_.--Vê se adivinhas.
+
+_A filha_.--Nã sei, mamã.
+
+_A mãe_.--Conheces os metaes?
+
+_A filha_.--Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de
+uma caixa.
+
+_A mãe_.--Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de
+marmore?
+
+_A filha_.--Oh! não; são de metal; mas de que metal?
+
+_A mãe_.--Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas
+primeiro.
+
+_A filha_.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não é de prata, porque
+não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarello muito
+brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarello muito feio, que
+cheira mal... Então é de ferro, mamã?
+
+_A mãe_.--Adivinhaste.
+
+_A filha_.--Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.
+
+_A mãe_.--É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já
+se não chama ferro, é aço.
+
+_A filha_.--Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que
+as fazem.
+
+_A mãe_.--É impossivel, não és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma
+fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar
+muito.
+
+_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
+nos servimos.
+
+_A mãe_.--Tens razão; é uma vergonha ignoral-o.
+
+_A filha_.--Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.
+
+_A mãe_.--Olha, ahi tens o meu estojo.
+
+_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão
+fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para
+fazer uma coisinha tão delicada!
+
+_A mãe_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
+uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?
+
+_A filha_.--Lembro, mamã; era tão bonito!
+
+_A mãe_.--Li n'um jornal allemão que um operario chamado Nerlinger fez
+um copo de um grão de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais
+doze...
+
+_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um
+grão de pimenta!
+
+_A mãe_.--E ainda não é tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas
+doiradas, e sustentava-se no pé.
+
+_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso!
+
+_A mãe_.--Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É
+effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
+certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração.
+
+_A filha_.--Quaes, mamã?
+
+_A mãe_.--Já t'o digo. (_Levanta-se_.)
+
+_A filha_.--Que quer, mamã?
+
+_A mãe_.--Quero que vejas o microscopio de teu papá.
+
+_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio.
+
+_A mãe_.--Este é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes
+ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina,
+lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão grosseira!
+
+_A mãe_.--Vês-lhe buracos, riscos, asperesas, não é verdade?
+
+_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito.
+
+_A mãe_.--Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na
+agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por ellas.
+
+_A filha_.--O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
+visse ao microscopio.
+
+_A mãe_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.
+
+_A filha_.--O quê, mamã?
+
+_A mãe_.--O aguilhãosinho de uma abelha.
+
+_A filha_.--Oh! que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é
+brilhante!... Mas já sei que visto ao microscopio ha de acontecer o
+mesmo que com a agulha.
+
+_A mãe_.--Prompto: olha.
+
+_A filha_ (olhando).--É exquisito, mamã!
+
+_A mãe_.--Então?
+
+_A filha_.--Augmentou, augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo
+contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não tinha ponta,
+e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabello. Porque
+será isto, mamã?
+
+_A mãe_.--É porque o operario que fez este aguilhão é muito mais habil
+do que o que fez a agulha.
+
+_A filha_.--Quem é esse operario tão habil?
+
+_A mãe_.--É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as
+creaturas.
+
+_A filha_.--É Deus.
+
+_A mãe_.--Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os
+animaes?
+
+_A filha_.--De certo.
+
+_A mãe_.--Foi elle por conseguinte que fez o aguilhão d'esta abelha; e
+ahi tens porque o aguilhão é superior á agulha: é obra de Deus. Mas
+continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de
+musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.
+
+_A mãe_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima.
+
+_A filha_.--Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo
+microscopio.
+
+_A mãe_.--Então?
+
+_A filha_.--É horrorosa... Parece feita de pellos grosseiros com grandes
+buracos deseguaes.
+
+_A mãe_.--As obras do homem são todas assim.
+
+_A filha_.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.
+
+_A mãe_.--Sabes o que é isto?
+
+_A filha_.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.
+
+_A mãe_.--Os fiosinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha
+pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes.
+
+_A filha_ (olhando pelo microscópio).--Não, mamã; os fios são todos
+eguaes, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.
+
+_A mãe_.--É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha
+sobre este papel?
+
+_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas
+também com tinta.
+
+_A mãe_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
+redondos?
+
+_A filha_.--Sim, mamã, perfeitamente redondos.
+
+_A mãe_.--Vê-os agora ao microscopio.
+
+_A filha_.--Oh! já não são redondos, são todos deseguaes.
+
+_A mãe_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma aza de borboleta;
+vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
+microscopio; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a differença
+que agora é maior. Que bellas que são as obras de Deus!
+
+_A mãe_.--Merece bem a pena estudal-as.
+
+_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
+dos homens.
+
+_A mãe_.--E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do
+homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
+perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
+primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a
+segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem
+fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras
+mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as
+obras do Creador.
+
+
+
+
+*João e os seus camaradas*
+
+
+Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso,
+possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a
+correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou
+o gallo, e disse-lhe:
+
+«O que é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, ou toda
+com a minha maldição?»
+
+«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no
+mundo eu quereria a tua maldição.»
+
+«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
+abençôe.»
+
+E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha
+caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair.
+
+«Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a
+afogar-me.»
+
+«Espera, respondeu João.»
+
+E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o
+quadrúpede do atoleiro.
+
+«Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te posso ser util,
+aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?»
+
+--«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha vida.»
+
+«Queres tu que eu te acompanhe?
+
+«Anda d'ahi.»
+
+E puzeram-se a caminho.
+
+Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da
+eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
+animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de
+tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.
+
+«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa te for
+prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?»
+
+«Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.»
+
+«Queres que te acompanhe?»
+
+«Anda d'ahi.»
+
+Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a
+merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva
+que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar
+lastimosamente.
+
+Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango.
+
+--«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser util. Aonde
+vaes tu?
+
+--«Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.»
+
+--De boa vontade.
+
+Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um
+grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
+gallo na bocca.
+
+«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.
+
+E no mesmo instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em
+perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente
+disse a João:
+
+--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?»
+
+--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?
+
+--«De boa vontade.»
+
+--Então anda. Se te cançares, empoleira-te no jumento.»
+
+Os viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro.
+Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma quinta, nem
+uma cabana.
+
+--«Paciencia, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
+hoje a dormir ao ar livre; além d'isso a noite está socegada, e a relva
+é macia.»
+
+Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o cão
+e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo
+empoleirou-se n'uma arvore.
+
+Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou
+a cantar.
+
+--«Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque é que
+estás a gritar?»
+
+--«Porque já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a luz da
+madrugada, que vem rompendo?»
+
+--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é d'uma lanterna.
+Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto
+da noite.»
+
+Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez
+dos campos, até que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo,
+d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
+blasphemias horriveis.
+
+--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
+é que está lá dentro.»
+
+Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam
+alegremente, sentados a uma mesa principesca.
+
+--«Que bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do
+conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este
+porteiro. Á sua saude!»
+
+--«Á saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.
+
+E d'um trago despejaram os copos.
+
+João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:
+
+--«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
+signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.»
+
+O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao peitoril
+d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o gato á cabeça do cão e o
+gallo á cabeça do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do
+jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do
+gallo.
+
+--«Agora, bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar
+armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!»
+
+No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando
+cada vez mais; os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo
+precipitadamente por uma porta falsa.
+
+João e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um
+excellente jantar, e deitaram-se em seguida--João n'uma cama, o burro na
+cavallariça, o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e
+o gallo n'um poleiro.
+
+Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e
+salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.
+
+--«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão humida, disse um
+d'elles.»
+
+--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.»
+
+--«E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.»
+
+--«E o que é mais lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o
+dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das
+gavetas.»
+
+--Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão.
+
+--Bravo! exclamaram os ladrões.
+
+E poz-se a caminho.
+
+Já não havia luz na casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se
+para o fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as garras.
+Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
+rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
+por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo
+atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas.
+
+--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!»
+
+Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
+parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do chão.
+
+Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem
+pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.
+
+--Então? então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.
+
+--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para
+me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que o trago
+n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado
+por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o
+cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta,
+um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a sovella. Logo
+depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras.
+Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não
+acreditam, vão lá, e experimentem.»
+
+--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
+ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.»
+
+Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excellentemente, e
+partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões
+lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos,
+com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram á
+porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com
+uma libré esplendida, meias de seda, calções escarlates e cabello
+empoado.
+
+Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.
+
+--Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se embora?»
+
+--Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castello far-nos-ha
+um bom acolhimento.
+
+--Fóra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
+andar immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os meus cães de
+fila.»
+
+--Perdão, só um instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do
+jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite
+passada a porta do castello?»
+
+O porteiro córou. O conde que estava á janella, disse-lhe:
+
+--Ó Bernabé, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.
+
+--Senhor, replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui eu que
+abri a porta aos seis ladrões.
+
+--Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?
+
+Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
+pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite,
+porque vimos cançados do caminho.
+
+--Ficae certos que sereis bem tratados.
+
+O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na
+cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés á
+cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e
+disse-lhe:
+
+--Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»
+
+João acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si.
+Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.
+
+
+
+
+*O rabequista*
+
+
+Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma
+egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.
+
+As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O
+vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro,
+feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava
+constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria
+um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
+sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge não havia pão nem
+dinheiro no bolso para o comprar.
+
+Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca com tal
+suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vel-o
+tão pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa
+Cecilia abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o
+ao pobre musico, que tonto d'alegria, dançando, cantando, chorando,
+correu á loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o
+sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do
+juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado á morte.
+
+Chegára o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
+poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim não
+chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como
+ultima graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento.
+O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam
+supplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua
+derradeira melodia.
+
+Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
+ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lagrimas começou a tocar.
+Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de
+novo, descalçar o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á
+vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o
+rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente
+prestar-lhe as mais honrosas homenagens.
+
+
+
+
+*Os pecegos*
+
+
+Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos
+magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos,
+extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. Á
+noite o pae perguntou-lhes:
+
+--Então comeram os pecegos?
+
+--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei
+de plantal-o para nascer uma arvore.»
+
+--Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar no futuro.»
+
+--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mamã ainda me deu
+metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.»
+
+--Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade não admira;
+espero que quando fores maior te has de corrigir.»
+
+--Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou
+fóra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
+o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á
+cidade.»
+
+O pae meneou a cabeça:
+
+--Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.
+
+--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?
+
+--Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho,
+ao Jorge, que está coitadinho com febre. Elle não o queria, mas
+deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora.
+
+--Ora bem, perguntou o pae, qual de vós é que empregou melhor o pecego
+que eu lhe dei?
+
+E os três pequenos disseram á uma:
+
+--Foi o mano Eduardo.
+
+Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos
+arrazados de lagrimas.
+
+
+
+
+*A urna das lagrimas*
+
+
+Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
+adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só momento; mas
+um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu e morreu. A
+desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
+momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades.
+Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
+acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido,
+abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua
+querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos
+uma urna, que vinha cheia até ás bordas.
+
+--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo
+das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais,
+transbordará, e as tuas lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no
+tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso.
+
+A pequenina desappareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não
+affligir.
+
+
+
+
+*Reconhecimento e ingratidão*
+
+
+Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos paes.
+E é natural. As creanças veem diariamente o que fazem seus paes, e
+imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a
+benção ou a maldição d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos,
+terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem
+ser meditados.
+
+Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
+satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois
+d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que
+trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O
+principe, que para as suas despezas d'administração e representação
+necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
+como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima
+satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:
+
+«Gasto diariamente comigo a terça parte d'essa quantia; outro terço é
+para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas
+economias.»
+
+Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o
+d'este modo.
+
+«Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não podem
+trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força para isso. Aos
+primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
+infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando os annos
+tiverem pesado sobre mim.»
+
+O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se
+da educação de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos
+paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando
+egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.
+
+Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma
+maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve
+de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato
+recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde
+foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
+muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima
+esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
+O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de
+dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
+notou que a creança ao partir tinha escondido um dos lençoes a um canto,
+atraz da porta.
+
+Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo.
+
+«Foi, respondeu a creança desabridamente, para me servir mais tarde
+d'este lençol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital.
+
+
+
+
+*O fato novo do sultão*
+
+
+Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento.
+
+Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
+theatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava
+de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Está no conselho;
+dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
+muito alegre, graças á quantidade d'estrangeiros que por ali passavam;
+mas chegaram lá um dia dois larapios, que, dando-se por tecelões,
+disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não
+só eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além
+d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade
+maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos
+aquelles que não exercessem bem o seu emprego.
+
+--São vestuarios impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles,
+saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
+dos ministros. Preciso d'esse estofo!»
+
+E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada,
+para que podessem começar os trabalhos immediatamente.
+
+Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que
+trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras.
+Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
+muito bem guardado, trabalhando até á meia noite com os teares vasios.
+
+--«Preciso saber se a obra vae adiantada».
+
+Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos
+idiotas. E, apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente
+em todo o caso mandar alguem adiante.
+
+Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
+estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.
+
+--Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um
+grande talento, e por isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o
+estofo.
+
+O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
+com os teares vasios.
+
+--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, não vejo
+absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões
+convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os
+desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
+olhava, mas não via nada, pela rasão simplicissima de nada lá existir.
+
+--Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? É necessario que
+ninguém o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá
+confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.»
+
+--«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:
+
+--«Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este
+desenho... estas cores... magnifico!... Direi ao sultão que fiquei
+completamente satisfeito.»
+
+--«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e
+mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma
+descripção minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois
+repetir tudo ao sultão.
+
+Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
+precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no
+bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam
+sempre.
+
+Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funccionario, homem
+honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a
+este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não
+via nada.
+
+--Não acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o
+magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente
+de não existir.
+
+--Mas que diabo! eu não sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois não serei
+eu capaz de desempenhar o meu lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o
+deixo eu.»
+
+Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo
+desenho e o bem combinado das cores.
+
+--É d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sultão. E toda a
+cidade começou a fallar d'esse tecido extraordinario.
+
+Emfim o proprio sultão quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande
+acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois
+honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois
+velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de
+especie alguma.
+
+--Não acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho
+e as cores são dignos de vossa alteza.»
+
+E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam
+podessem ver alguma cousa.
+
+--Que é isto! disse comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível!
+serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça que me
+acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnifico! Testemunho-vos a
+minha satisfação.»
+
+E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
+atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do
+mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto
+repetiam como o sultão: «É magnifico!» Até lhe aconselharam a que se
+apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnifico! é
+encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era
+geral.
+
+Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
+tecelões.
+
+Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à
+luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
+cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio,
+e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido.
+
+O sultão com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores
+levantando um braço, como para sustentar alguma cousa, disseram:
+
+«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha;
+ó a principal virtude d'este tecido.»
+
+--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.
+
+--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios,
+provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.»
+
+O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças,
+depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do
+espelho.
+
+--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos.
+Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!»
+
+Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias.
+
+--Está á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á procissão,
+disse elle.»
+
+--Bom! estou prompto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»
+
+E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do
+seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não
+querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a.
+
+E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a
+gente na rua e ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que
+cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber,
+que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
+Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.
+
+--Mas parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do
+pae.
+
+--É a voz da innocencia, disse o pae.
+
+--Ha ali uma creança que diz que o sultão vae em cuecas.
+
+«Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.
+
+O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era
+verdade. Entretanto tomou a energica resolução de ir até ao fim, e os
+camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
+imaginaria.
+
+
+
+
+*Boa sentença*
+
+
+Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma
+quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis
+d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
+camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:
+
+--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no
+alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
+adiantados os cem mil réis d'alviçaras: estamos pagos por conseguinte.»
+
+O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem
+devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
+que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:
+
+--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge
+apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o
+ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se julga com
+direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
+encontraste, e guarda-o até que appareça o individuo que perdeu sómente
+setecentos mil réis. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que
+tenhas paciencia até que appareça alguem que tenha achado os teus
+oitocentos mil réis.
+
+
+
+
+*Os animaes agradecidos*
+
+
+Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
+perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este
+respondeu:
+
+--«Senhor: eu sou um desgraçado, um miseravel; nasci no vosso reino, e
+chamo-me _Ingratidão_.»
+
+--«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
+serviço.»
+
+O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
+Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se
+tão esperto e tão solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que
+o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa.
+Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então não
+conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos
+desventurados.
+
+Ora, na visinhança do palacio havia uma floresta cheia d'animaes
+selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a
+parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
+dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
+floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
+precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.
+
+Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um
+lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
+governador, ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão
+horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança de
+salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
+ninguem o vinha soccorrer.
+
+Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
+chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para
+ganhar o pão necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem
+lá foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da
+cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção não tardou a
+ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
+ali.
+
+--«Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto
+encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma
+enorme serpente.»
+
+--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não tendo para
+sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava
+um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se
+cumpres a tua promessa?
+
+O intendente continuou:
+
+--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
+cumprirei a minha palavra.»
+
+Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda
+muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão atirou-se a
+ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
+o intendente.
+
+Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior
+amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome.
+
+Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o
+governador, enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a
+serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o
+governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
+para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o
+que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes
+promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre
+homem bater à porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.
+
+--«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente
+que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.»
+
+O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:
+
+--«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na floresta; que se
+ponha a andar, porque o não conheço.»
+
+O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.
+
+O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou á mulher a
+odiosa perfidia de que tinha sido victima.
+
+A mulher disse-lhe:
+
+--«Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e
+foi talvez por isso que te não pôde receber.»
+
+Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.
+
+Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á porta do palacio.
+Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que não tornasse
+ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado a empregar meios
+violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:
+
+--«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o
+inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais
+n'isso.»
+
+No dia seguinte o bom do homem voltou á carga; e tendo o porteiro
+consentido á força de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este
+encolerisado atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre
+homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do
+chão. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um
+burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
+levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se
+obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente
+tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para
+fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle
+tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e
+este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leão,
+vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso
+agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal
+de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal
+para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico.
+
+No dia seguinte, voltando de novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que
+o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto
+lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado
+o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha
+tirado do fôjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em
+que brilhavam três côres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a
+serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
+d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio
+levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
+propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho,
+afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
+assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia.
+Antonio respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se
+seria boa.
+
+O velho respondeu:
+
+--«São três as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria
+imperturbavel e luz sem trevas. Se alguém t'a comprar por menos dinheiro
+do que vale, tornará immediatamente para a tua mão.»
+
+Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
+sciencia maravilhosa, e correu a contar á mulher a sua felicidade. Como
+se imagina, graças á virtude da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em
+diante, nem honras nem riquezas.
+
+Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou
+chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman.
+
+Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:
+
+--«Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me não for paga
+pelo que vale, tornará ella mesma para o meu poder.»
+
+--«Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.»
+
+E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã,
+Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
+disse-lhe:
+
+--«Torna a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se que
+lh'a furtaste.»
+
+O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou á presença de sua
+magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
+preciosa.
+
+--«Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro,
+fechado com sete chaves, disse o rei.»
+
+Antonio mostrou-lhe então a joia preciosa, e o rei ficou
+extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido
+semelhante thesouro.
+
+Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o
+reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
+intendente, e disse-lhe:
+
+--«Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratidão_,
+porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste
+com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a Antonio as
+tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
+enforcado.»
+
+Admiraram todos a sentença do rei, e Antonio desempenhou as suas altas
+funcções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
+escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos
+gloriosos.
+
+
+
+
+*O ermitão*
+
+
+Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou
+retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao
+trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
+seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa de Deus. Depois de ter
+assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que já tinha
+merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os
+santos mais notaveis.
+
+Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:
+
+--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
+e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.
+
+O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
+seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:
+
+--Irmão, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e
+penitencias te tornaste agradavel a Deus.
+
+--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não
+zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei,
+pobre de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em casa a
+divertir os outros.»
+
+O austero ermitão continuou a insistir:
+
+--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum
+acto de virtude.»
+
+--Em verdade não poderia citar nem um só.»
+
+--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
+loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente
+o teu patrimonio e o producto do teu officio?»
+
+--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
+filhos tinham sido condemnados á escravidão para pagar uma divida. Essa
+mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa,
+protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a
+sua familia, e levei-a á cidade, onde ella devia encontrar-se com seu
+marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»
+
+A estas palavras o ermitão poz-se a chorar, e exclamou:
+
+--Nos meus setenta annos de solidão nunca pratiquei uma obra tão
+meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu não
+passas d'um pobre musico.»
+
+
+
+
+*Carlos Magno e o abade de S. Gall*
+
+
+Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
+preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da abadia, fresco,
+rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e
+activos, e o abade era indolente. Além d'isso o imperador tinha mais
+d'um motivo de queixa contra elle.
+
+--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á
+sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a bondade de me
+responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão solemne do
+nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
+dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
+em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+rev.^{ma} vier á minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate
+d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás deixa de ser abade de S.
+Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada
+para o rabo.»
+
+O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
+os doutores mais famosos pela sua sciencia, não lhe souberam dar
+resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal
+aproximava-se; já não faltava senão um mez, já não faltavam senão
+semanas, e afinal só dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e
+anafado, estava magro como um esqueleto. Perdèra o somno e o appetite.
+Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se
+encontrou com o seu pastor.
+
+--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?»
+
+--Estou, meu caro Felix, estou muito doente.»
+
+--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»
+
+--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta ás minhas tres
+perguntas.»
+
+--É então latim?»
+
+--Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.»
+
+--Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe
+era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.»
+
+Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o
+barrete ao ar, e disse-lhe:
+
+--Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
+póde continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu
+habito.»
+
+Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o habito do abade de S.
+Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
+imperial.
+
+--Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que
+pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto
+valho eu em dinheiro?»
+
+--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por
+trinta dinheiros, sua magestade vale á justa vinte e nove, só um
+dinheiro menos.»
+
+--Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não posso
+deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda pergunta, não ha de
+ser tão facil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a
+dar a volta ao mundo?»
+
+--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
+constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
+quatro horas.»
+
+--Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finorio, e d'esta vez,
+confesso-me vencido; mas a terceira, não d'essas á que se responde com
+supposições. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha
+de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»
+
+--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está
+enganado, porque eu sou o seu pastor.»
+
+--Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas
+sendo.»
+
+--Não sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor,
+peco-lhe outra cousa.»
+
+--Não tens mais que fallar.»
+
+--Peço a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.»
+
+Carlos Magno não era homem que faltasse á sua palavra.
+
+
+
+
+*A boneca*
+
+
+Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma
+boneca!
+
+Não ha muitos annos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno
+jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o
+sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o espirito a vista dos dois
+monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades,
+que podem aniquillar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda não ha
+muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
+feira, divertindo-me a meu modo.
+
+Cançado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella
+especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo,
+quando novos personagens me chamaram a attenção.
+
+Eram os meus visinhos _ricos_.
+
+Aqui é preciso uma rapida explicação.
+
+Das famílias da minha visinhança, só conheço tres.
+
+Qual d'estas tres familias será mais feliz?...
+
+Pelo que tenho notado, não tem que invejar umas ás outras.
+
+São todas felizes; cada qual a seu modo.
+
+Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_.
+
+Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e
+dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou,
+tomou nos braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em
+seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e
+com a menina para a barraca onde eu estava.
+
+Não havia ali segredo a surprehender.
+
+Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
+parecia agradecer áquella formosa criança a manifestação de qualquer
+desejo.
+
+No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a
+felicidade de dez crianças menos abastadas.
+
+Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca...
+_rica_.
+
+Faltava apenas a dona da casa--a boneca.
+
+Todo risos e attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor.
+
+Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar
+a mamã, a gentil creança acabou por escolher uma magnifica boneca de
+dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues.
+
+Uma boneca como as outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica
+recheada, braços e pernas de páu.
+
+Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribu de crianças, que fazem
+o martyrio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado
+sapateiro.
+
+Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
+anjos, caidos do céo sobre um monte de lama.
+
+São os meus visinhos _pobres_.
+
+A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa
+immediata.
+
+É como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_.
+
+A filha que terá dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas,
+cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à
+pressão.
+
+São os meus visinhos _remediados_.
+
+A terceira é a dos meus visinhos _ricos_.
+
+Casa nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas
+listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+estado--nada falta áquella ditosa gente!
+
+Compõe-se egualmente de marido, mulher e filha.
+
+Que formosa criança!... Terá oito annos.
+
+Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e
+scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e
+esguios, terminados por unhas d'uma côr de rosa transparente, que não
+sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a
+crescer--que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos.
+
+Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas
+aquellas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do
+carro.
+
+A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criança.
+
+Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadissimas
+considerações, suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina
+recebèra brinquedos, que representavam um par de moedas.
+
+Que contraste com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da
+mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel
+artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois pontos
+de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por
+outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã preta!
+
+Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos remediados não havia luz.
+
+Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
+tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
+provocavam os ralhos da mãe.
+
+Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas da manhã.
+
+Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na
+casa immediata não se via ninguem--estava a pequena na mestra; no
+palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
+divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma
+linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos.
+
+Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.
+
+--«Ahi está a tua caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim
+para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!...
+Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...»
+
+Retirei-me da janella.
+
+Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.
+
+A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
+vestia tres e quatro vezes!
+
+Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a
+tratava!
+
+Chamava-lhe sr.ª D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente
+com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que
+se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma.
+
+Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos
+_ricos_--ouvi um grito de susto.
+
+Era devido a um accidente, a que está sujeito quem anda de carro.
+
+Voltára-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janella.
+
+O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo,
+porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e
+lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
+nova, agarrou-a pelos pés e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais
+perto de mim bradou voz timida e suplicante:
+
+«Não atire!... Dê-m'a.»
+
+Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra fé até
+então.
+
+Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
+lançou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.
+
+Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
+encolhendo os hombros, respondeu:
+
+--«Já não presta!... Está esmurrada!...»
+
+--É o mesmo!... Dá-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
+cubiça.
+
+--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os hombros.
+
+E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da
+visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse
+despedaçar-se nas lages da rua.
+
+Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
+outra, para mostrar á mãe a que ella ainda não podia acreditar, que
+fosse sua!
+
+Por espaço de mezes foi a boneca a principal occupação da nova dona.
+
+A pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro
+vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excellencia! Chamavam-lhe
+sr.ª D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da
+creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
+estranhas para ella!
+
+E a desgraçada perdia as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
+azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
+se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma!
+
+Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
+ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.
+
+Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, fitas velhas, rendas
+amarelladas, chapéos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do
+vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira.
+
+Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle
+as ondulações do _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de
+cassa---no inverno!--chaile e manta na cabeça.
+
+Muito mal lhe ficava aquillo!... Áquella boneca custava-lhe de certo o
+vêr-se tão mal arranjada.
+
+Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei:
+
+--É justo!... Cada qual segundo as suas posses.»
+
+Por esse tempo, entrei em relações com o meu visinho sapateiro.
+
+O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
+faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra a primeira occasião, para me
+pedir desculpa.
+
+Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
+aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem
+grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.
+
+Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze annos, com
+quem sympathisei logo á primeira vista.
+
+Chama-se Maria.
+
+Por um d'estes acasos da Providencia, que parece ás vezes comprazer-se
+em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.
+
+Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
+fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou.
+
+E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, porque havia
+verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a
+minha Maria!»
+
+E tinha razão!
+
+Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo era.
+
+--É quem vale á mãe!...--accrescentou o velho.»--Ali, onde a vê, faz o
+serviço d'uma mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve
+doente--bem pensei que não arribasse!--a pequena era quem cosinhava e
+olhava pelos irmãos!... E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella
+pequena esteve tres dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi
+preciso eu obrigal-a, que ella não a queria deixar!...»
+
+E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que,
+havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.
+
+Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
+cabeça coberta por um lenço branco.
+
+Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais
+passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias á
+pequena.
+
+Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
+deitada nos joelhos.
+
+--Eu conheço aquella boneca!...--disse eu de mim para mim.
+
+E, não podendo resistir á curiosidade, bradei:
+
+--Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...
+
+Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, córando de prazer.
+
+Era escusado dizer-m'o.
+
+Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não podia
+duvidar... Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel
+na fronte.
+
+De tempos a tempos, nas raras horas de descanço, Maria entretinha-se com
+ella.
+
+--Quem te viu e quem te vê!...--pensava eu.
+
+Ás vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que
+tratos que sofria a desgraçada!
+
+Roçada por aquellas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia,
+empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim,
+singularissimo o aspecto da triste!
+
+Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a
+fraternisar com o povo.
+
+A misera mudára mais uma vez de nome!...
+
+De sr.ª D. Anna passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê.
+
+Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça.
+
+Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
+a boneca.
+
+Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
+encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre
+boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de
+trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que
+mais familiares eram á pequena.
+
+Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a,
+mandavam-n'a buscar agua á fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
+acabavam por a despedir.
+
+Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára de ser feliz.
+
+Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho!
+
+Desmaiada de côres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos,
+desfeito o carmim dos labios, a boneca não promettia longa duração.
+
+Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi,
+tentando em vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera.
+
+Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!
+
+Um dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
+espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem mil
+immundicies.
+
+Eu estava á porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
+melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
+partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto... Um objecto,
+arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no
+leito do enxurro...
+
+Olhei... Era a boneca!...
+
+A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo até esbarrar n'uma
+pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou
+quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e
+o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas
+profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!
+
+Será pieguice, será o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me
+impressionou o fim da pobre boneca.
+
+Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á vidraça do
+sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
+
+--Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!?
+
+--Não fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...
+
+--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...
+
+--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
+feia!...
+
+Curvei a cabeça ante aquella razão, e segui o meu caminho.
+
+Pobre boneca!
+
+
+
+
+*Inconveniente da riqueza*
+
+
+Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi
+surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para
+outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já
+todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo
+estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual
+com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso
+Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma quinta, e bateu á
+porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.
+
+--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
+Não se havia de arrepender.»
+
+E accrescentou:
+
+--Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a
+trabalhar?»
+
+--Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser perseguido
+por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã o que lhe devo,
+portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
+o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto não nos fica
+nada, e não sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus
+quizer!»
+
+Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão pelos
+olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e disse-lhe:
+
+--«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te
+havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.»
+
+Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e
+approximou-a do trigo.
+
+--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a
+tudo!»
+
+Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se,
+de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. Á vista d'um tal
+milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos.
+
+--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
+pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, serás
+recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te
+enriquece.»
+
+Dito isto desappareceu.
+
+E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto
+como a egreja.
+
+O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella
+casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e
+seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que
+se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
+ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera
+enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o
+enriquecêra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na
+candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a
+casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais
+absoluta.
+
+
+
+
+*Querer é poder*
+
+
+--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por
+experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira.
+
+Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.
+
+--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e
+solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
+vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei
+uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.
+
+O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.
+
+O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
+semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu
+fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão
+extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:
+
+--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia,
+pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são
+os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te
+distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
+extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor
+incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha.
+
+O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
+rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e
+deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
+horas, punha-se a resar.
+
+Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que
+chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.
+
+--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»
+
+--Encontrar um diamante que caiu ao rio.»
+
+--Então, respondeu o velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque
+vejo qual é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar
+as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»
+
+Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
+do rei.
+
+
+
+
+*Qual será rei?*
+
+
+Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
+successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia pertencer,
+não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.
+
+Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse posto de pé contra um
+muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle
+alvo, seria o escolhido para successor.
+
+Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
+tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defuncto. O principe
+soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos atirariam peór, e que
+por conseguinte seria elle quem viria a reinar.
+
+O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
+alegre do que o outro principe.
+
+O terceiro varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho
+quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar melhor.
+
+Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mãos as
+flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
+longe de si, e desatou a chorar:
+
+--«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jámais
+consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus
+proprios filhos!»
+
+Os grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais
+digno.
+
+
+
+
+*Os tres véos de Maria*
+
+
+O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve.
+Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
+seda tão bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em
+cima.
+
+Este véo branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão.
+
+O segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que
+sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, sem amparo, na casa triste e
+abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de
+marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas
+lagrimas.
+
+O véo negro só o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de
+Jesus no convento da Ave-Maria.
+
+O terceiro véo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado
+d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.
+
+Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou
+no paraizo.
+
+
+
+
+*Os pequenos no bosque*
+
+
+Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
+outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos
+para o bosque que encontremos lá toda a especie de lindos bichinhos, que
+não fazem outra cousa senão brincar, e nós brincaremos com elles.»
+
+Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da
+abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar,
+disse-lhes:
+
+--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
+outra já não está solida.»
+
+--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.»
+
+--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu
+ninho.»
+
+--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda
+hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
+minha _toilette_.»
+
+E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
+a saltar e a tagarellar, tambem não queres brincar comnosco?»
+
+--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam
+que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanço nem um
+momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, ás colinas,
+aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios,
+tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje
+acabára, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder
+um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»
+
+Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um
+pintasilgo, em cima d'um ramo.
+
+--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»
+
+--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo
+o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além d'isso que tomar
+parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o
+meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com uma outra cantiga,
+que á noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora,
+preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incommodar os
+habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»
+
+Os pequenos aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só é
+ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.
+
+
+
+
+*O chapellinho encarnado*
+
+
+Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
+mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, que passava o
+tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, deu-lhe um dia um chapéo
+de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéo
+novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do
+chapellinho encarnado.
+
+A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
+legua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:
+
+--Tua avó está doente, e não pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae
+levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a
+garrafa, não andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»
+
+--Sim, mamã, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»
+
+Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se
+a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita,
+que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.
+
+--Bons dias, chapellinho encarnado.»
+
+--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»
+
+--Onde vaes tão cedo?»
+
+--A casa da minha avó que está doente.»
+
+--E levas-lhe alguma cousa?»
+
+--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
+dar forças.»
+
+Dize-me onde mora a tua, avó, que tambem a quero ir ver.»
+
+--É perto, aqui no fim da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito
+grandes, e no jardim ha muitas nozes.»
+
+--Ah! tu é que és uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava
+de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e
+que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que
+quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»
+
+--O senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita,
+visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma
+que fizesse bem a minha avó.»
+
+--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e
+aquella.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas
+venenosas. A pobre creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.
+
+--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
+grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»
+
+E poz-se a correr em direcção da casa da avó, emquanto que a pequerrucha
+se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado.
+
+Quando o lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
+avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»
+
+--É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da
+pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»
+
+--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»
+
+Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira,
+e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama.
+
+Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a
+porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter
+fechada.
+
+O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do
+focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.
+
+--Ai! avósinha, disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»
+
+--É para te ouvir melhor, minha filha.»
+
+--E porque estás com uns olhos tão grandes?»
+
+--É para te vêr melhor.»
+
+--E para que estás com os braços tão grandes?»
+
+--É para te poder abraçar melhor.»
+
+--E Jesus! para que tens hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão
+agudos?»
+
+--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se á pobre
+pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a
+resonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e
+que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha está com um
+pesadelo, está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, e
+vê o lobo estendido na cama.
+
+--Olá, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.»
+
+Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a
+dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o
+animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
+cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e
+saltou para o chão, gritando:
+
+--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!
+
+A avó saiu também contentissima por ver outra vez a luz do dia.
+
+O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador metteu-lhe então
+duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a
+neta para verem o que se ia passar.
+
+Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se
+para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
+não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e
+affogou-se.
+
+O caçador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha
+e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado
+prometteu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o
+prohibisse.
+
+
+
+
+*Os cinco sonhos*
+
+
+Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva numerosa, perseguiu
+um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, que, apesar da
+ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só
+então que viu que estava só, tendo a sua côrte ficado muito para traz;
+sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria
+no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões.
+Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
+entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe
+quizeram logo contar.
+
+O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:
+
+--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que acaba de entrar
+aqui, e punha-o na minha cabeça.»
+
+--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»
+
+--E eu que estava pondo o seu manto.»
+
+--E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do
+meu pescoço aquella pesada cadeia d'ouro, da qual está pendurada a sua
+trompa de caça.»
+
+--Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar tudo, e
+mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e
+qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço senão uma cousa, é que
+me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caça.»
+
+Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido
+d'um moribundo deve ser respeitado.
+
+Carlos Magno levou á boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou
+d'ella sons tão fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os
+seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé d'elle.
+
+--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem
+eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser
+enforcados diante d'este casebre.»
+
+E o sonho realisou-se immediatamente.
+
+
+
+
+*A egreja do rei*
+
+
+Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da
+Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para
+a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se
+concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do
+marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só elle, e mais
+ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite
+seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e substituido por o
+d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
+pôr o seu nome na inscripção, e de novo foi substituido pelo da pobre
+mulher; á terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou
+então que lhe trouxessem a mulher á sua presença:
+
+--Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem
+fosse com o que fosse para a edificação d'esta egreja; vejo que não
+cumpriste as minhas ordens.»
+
+--«Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas
+ordens, apesar da magua que sentia por não poder offerecer o meu
+pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa
+magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
+que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas
+à construcção da egreja.»
+
+--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na
+inscripção do monumento, disse-lha o rei.»
+
+Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na lapide da egreja
+o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.
+
+
+
+
+*O valente soldado de chumbo*
+
+
+Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos
+terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que attitude marcial,
+d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos!
+A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da
+caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!»
+que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado
+de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a
+mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
+maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
+menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo lugar, e já não havia
+chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros não estavam mais
+firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e é este o que
+precisamente nos interessa.
+
+Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
+brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de
+papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos salões.
+Á volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia
+poeticamente n'um pedaço d'espelho que fingia um lago, onde nadavam
+pequeninos cysnes de cêra. Tudo isto era encantador, mas não tanto como
+uma menina que estava á porta, e que era tambem de papel, vestida com um
+lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
+tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha
+levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e
+imaginou que, como elle, não tinha senão uma perna.
+
+--Ali está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma grande
+fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e
+quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No entantanto
+preciso conhecel-a.»
+
+Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a
+elegante dançarina, que estava sempre n'um pé só, sem perder o
+equilibrio.
+
+Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas
+da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram
+a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de
+chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas
+como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas
+e saltos mortaes, o lapis traçou mil arabescos phantasticos n'uma louza,
+emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar.
+Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a
+dançarinasinha. Ella no bico do pé, e elle n'uma perna só, a
+espreital-a.
+
+Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar
+de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza.
+
+--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
+sitio.»
+
+Mas o soldado fez que não ouvia.
+
+--Espera até ámanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»
+
+No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de
+chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por
+causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a
+perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta
+enterrada entre duas lages.
+
+A creada e o rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a
+esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!»
+tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva
+começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois
+do aguaceiro passaram dois garotos.
+
+--Olà! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o
+navegar.»
+
+Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de
+chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois
+garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
+Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava
+d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
+impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro.
+
+De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a
+escuridão como na caixa dos soldados.
+
+--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me
+metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina
+estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas
+vezes maior.»
+
+D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do
+cano.
+
+--Venha o teu passaporte.»
+
+Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na
+espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
+rangendo os dentes, e gritando ás palhas, e aos cavacos:--Façam-n'o
+parar, façam-n'o parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»
+
+Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e
+sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente.
+Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para elle,
+como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem
+poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a
+queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se
+atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.
+
+O barco, depois de ter andado á roda durante muito tempo, encheu-se
+d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do
+soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
+agua passou por cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo,
+pensou na gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:
+
+--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»
+
+O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi
+devorado por um grande peixe.
+
+Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que
+talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado
+estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro.
+
+O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim
+parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia,
+e alguem exclamou:
+
+--Olha um soldado de chumbo!»
+
+O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a
+cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
+soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
+gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na
+barriga d'um peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso.
+Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto é verdade que acontecem
+cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de cuja
+janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam
+em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina sempre de perna
+no ar. O soldado de chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria
+derramado lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella,
+ella olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro.
+
+De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no
+fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.
+
+O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um clarão
+sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres lhe tinham
+desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas
+viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
+dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre
+intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma
+porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que
+desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, já não era mais
+que uma pequena massa informe.
+
+No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um
+objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e tudo o que
+restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha
+ennegrecido.
+
+
+
+
+*João Pateta*
+
+
+João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A
+gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe
+mandou-o á feira comprar uma foice. Á volta, começou a andar com a foice
+á roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.
+
+--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em
+um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»
+
+--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais
+esperto.»
+
+Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que
+as não perdesse.
+
+--Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»
+
+--Então, João, onde estão as agulhas?»
+
+--Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a
+passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá as agulhas, não
+podem estar em sitio melhor.»
+
+--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de as
+tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»
+
+--Perdão, respondeu João, para a outra vez, heide ser mais esperto.»
+
+Na outra semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar
+uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz a
+manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. Imagine-se o estado em
+que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.
+
+A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia
+resolveu-se a mandal-o á feira vender duas gallinhas.
+
+--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam
+outro.»
+
+--Está entendido, respondeu João.»
+
+Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.
+
+--Queres seis tostões por essas gallinhas?»
+
+--Ora adeus! minha mãe recommendou-me, que não acceitasse o primeiro
+preço, mas que esperasse o segundo.»
+
+--E tens muita rasão. Dou-te um cruzado.»
+
+--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro,
+mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ella não tem que me ralhar.»
+
+Depois d'isto, João foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que
+mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma
+experiencia, e disse-lhe:
+
+--Vae vender este carneiro á feira. Mas não te deixes enganar. Não o
+entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»
+
+--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»
+
+--Quanto queres por esse carneiro?
+
+--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.
+
+--Quatro mil réis?»
+
+--É o preço mais elevado?»
+
+--Pouco mais ou menos.»
+
+--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára a uma escada.
+
+--Quanto?»
+
+--Dez tostões:»
+
+--É menos, respondeu timidamente o João.»
+
+--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não ha um
+preço mais elevado.»
+
+--Tem rasão. É seu o carneiro.»
+
+Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou
+comprar cousa alguma.
+
+
+
+
+*Branca de Neve*
+
+
+Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia
+d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de vez em
+quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão,
+distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.
+
+--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos
+como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros
+como este ébano.»
+
+Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha,
+que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão branco,
+que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito
+tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
+d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos extraordinario. Era tão
+formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
+vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho
+magico dizia-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no
+mundo?»
+
+--És tu, respondia o espelho.»
+
+No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
+formosa. Tinha apenas sete annos, e já ninguem a podia ver sem ficar
+maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
+espelho, disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no
+mundo?»
+
+--Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»
+
+A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dôr aguda,
+como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela
+innocente Branca. Não podia socegar nem de dia, nem de noite. Para
+satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe:
+
+--Quero quo Branca desappareça. Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me
+provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o
+coração.»
+
+O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e
+dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança chorava e
+lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella não tinha feito
+mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas
+lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se
+as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas sim da rainha. Assim
+fez, e para mostrar o coração de Branca á rainha, matou um cabrito, e
+tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou
+contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma
+mulher no mundo é tão bella como eu.
+
+A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava
+cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e
+andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
+tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o
+deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.
+
+Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome
+e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
+limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de
+brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,
+e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
+do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
+deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.
+
+Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
+pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
+que tinham gente em casa. Um d'elles disse:
+
+--Quem comeu o meu pão?»
+
+E os outros successivamente:
+
+--Quem pegou no meu garfo?»
+
+--Quem comeu o meu caldo?»
+
+--Quem bebeu o meu vinho?»
+
+E emfim um d'elles:
+
+--Quem está ahi deitado na minha cama?»
+
+Reuniram-se todos á roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz
+das lanternas viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente,
+e affastaram-se sem fazer bulha, para a não accordar. Branca no dia
+seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si
+aquelles sete anões das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura,
+que não tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava.
+Branca contou a sua triste historia, e os anões disseram-lhe:
+
+--Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?»
+
+--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.»
+
+Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias.
+Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as
+minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.
+
+Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não
+tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
+e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda
+que ha no mundo?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete
+montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»
+
+Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,
+e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que
+modo? Uma manhã partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto
+cheio d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu á
+porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas joias?»
+
+Os anões tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras
+estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser
+prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no
+cesto, esqueceu-se das suas promessas.
+
+--Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao
+pescoço.»
+
+Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
+anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente
+inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas
+gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si pouco
+a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.
+
+--Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira não era
+outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, não deixes
+entrar aqui ninguem, quando não estivermos em casa.»
+
+Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do
+espelho, e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no mundo?
+Responde.
+
+E o espelho respondeu:
+
+--És tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está
+nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»
+
+A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
+infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou ás sete
+montanhas, e bateu á porta da cabana.
+
+--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á janella, e respondeu:
+
+--Vá-se embora, aqui não entra ninguem.»
+
+--Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. Já
+viu outro tão bonito?»
+
+Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a
+porta.
+
+--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o na cabeça.»
+
+Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e
+Branca caiu morta.
+
+Á noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria.
+Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e
+tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.
+
+No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio.
+Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que
+o espelho respondeu como antecedentemente.
+
+--Ah! é preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me
+sacrificar.
+
+Vestiu-se de camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que
+estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.»
+
+--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?»
+
+--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar
+ninguem, nem compro coisa alguma.»
+
+--Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão
+bonita, quero dar-lhe uma.»
+
+--Obrigada, não posso acceitar.»
+
+--Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa
+que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora
+mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se
+tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu fulminada.
+
+--Ahi tens, para castigo da tua formosura.»
+
+Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e
+perguntou-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--És tu, és tu.»
+
+--Até que emfim!»
+
+Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o
+licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
+fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos
+da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não podiam
+acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquillo,
+as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quizeram
+enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de cristal, e escreveram em cima.
+«Aqui jaz a filha d'um rei;» puzeram o caixão n'uma das sete montanhas,
+e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
+assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais
+pequena alteração.
+
+Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar á
+caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lh'o cedessem, fosse por preço
+que fosse.
+
+--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixão, que
+é o nosso thesouro.»
+
+--Então dêem-m'o, já não posso viver sem contemplar este rosto de
+mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me
+façam isto.»
+
+Os anões, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para
+o levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu um
+balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha
+engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O
+joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O
+casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e
+rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de
+Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos
+os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:
+
+--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Branca é mais formosa que tu.
+
+A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes
+fossem descobertos, que morreu de repente.
+
+Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de
+princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus bemfeitores.
+
+
+
+
+*A rapariguinha e os phosphoros*
+
+
+Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de
+dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão
+passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os
+pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas
+tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já
+tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua
+a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
+quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a intenção de fazer
+d'elle um terço para o seu primeiro filho.
+
+A pequenita caminhava com os pésinhos nús, arroxeados pelo frio; tinha
+no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na
+mão um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido
+compradores, e por isso não apurára cinco réis.
+
+Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
+longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoço; mas
+pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?
+
+As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos
+manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.
+
+Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
+vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia,
+porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em sua casa
+fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento
+atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
+mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso
+lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o
+aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como
+ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que
+luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro
+de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão suavemente, que era um regalo.
+
+A pequerrucha ia já a estender os pésitos para os aquecer tambem, quando
+a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma
+pontita de phosphoro consumido.
+
+Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu
+a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse
+muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha
+alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha
+assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume
+delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do
+prato, e caíu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca
+espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de
+si a parede fria e tenebrosa.
+
+Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo
+de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a
+que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem
+sumptuoso.
+
+Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões accesos, e as estampas
+coloridas, como as que ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.
+Quando ia agarral-as com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os
+balões da arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se
+tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo
+um longo rasto de fogo.
+
+--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que
+lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando
+cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»
+
+Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe
+appareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.
+
+--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes
+embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a panella de
+ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.
+
+Accendeu o rosto do masso, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e
+os phosphoros espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua
+avó tinha sido tão formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas
+alegres, no meio d'este deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que
+já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso.
+
+Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram a pequerrucha, entre os
+dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios...
+morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu
+alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que
+faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se,
+disse um homem que passou.» E ninguem soube nunca as lindas coisas que
+ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
+velha avó no dia do Anno Novo.
+
+
+
+
+*O primeiro peccado de Margarida*
+
+
+Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus
+tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde
+acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.»
+
+Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como
+ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha
+ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha
+joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.
+
+Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.
+
+E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção
+d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia
+sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.
+
+N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho,
+á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento.
+
+Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das
+suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo.
+Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
+collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse
+bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
+contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que
+inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.
+
+O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de
+Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das
+mãos.
+
+Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si
+um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo
+preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a
+respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
+perguntou-lhe:
+
+--Qual é o caminho da cidade?»
+
+Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se
+tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma
+estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que
+o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com
+um sorriso estranho e diabolico.
+
+N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
+Margarida, e pediu-lhe uma esmola.
+
+Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado.
+
+O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre
+Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda
+disfarçado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que
+tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.
+
+
+
+
+*Um nome inscripto no céo*
+
+
+Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde cabana a
+pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem
+ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu
+então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:
+
+--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»
+
+E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater á mesma
+porta.
+
+--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada
+que te dar.»
+
+--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.
+
+E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
+cima da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que
+lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.
+
+--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se
+embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»
+
+Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-hão no
+Paraizo, e mais tarde nós o viremos a saber.
+
+
+
+
+*O linho*
+
+
+O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e
+transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre
+elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o
+d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.
+
+--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
+e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me feliz. Não ha
+ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello
+futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
+feliz, feliz a mais não poder ser!»
+
+--Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não conheces o
+mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»
+
+E rangendo lastimosamente, cantaram:
+
+ --Cric, crac! cric, crac! crac!
+ --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bella
+manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+florir. Sou muitissimo feliz.»
+
+Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
+cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de
+polé. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e
+depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade!
+
+--Não se póde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessario
+soffrer, o soffrimento é a mãe da experiencia.»
+
+Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o,
+cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois,
+puzeram-n'o n'uma roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.
+
+--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas
+torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.»
+
+E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a metter no tear e a
+transformal-o n'uma peça de panno.
+
+--Isto é extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que
+grandes tolas aquellas silvas quando cantavam:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso
+tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto,
+tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida,
+ninguem trata da gente, e não bebemos outra agua a não ser a da chuva.
+Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as
+manhãs, e á noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura
+fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
+melhor peça da parochia. Não posso ser mais feliz.»
+
+Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e
+picaram-n'o com uma agulha. Não era lá muito agradavel, mas em
+compensação fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.
+
+--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é
+abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para se viver em
+paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um
+só grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade!
+
+O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.
+
+--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas não
+se fazem impossiveis.»
+
+E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
+finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem
+adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel
+branco magnifico.
+
+--Oh que agradável surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino
+do que d'antes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima
+de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»
+
+E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de
+numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores.
+
+--Ora aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
+quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
+ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei
+explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe
+perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
+sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á maior gloria.
+Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se»
+tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou
+viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
+instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora
+as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,
+immensamente feliz!»
+
+Mas o papel não foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá
+estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
+que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
+papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta á roda
+do mundo. A meio caminho já estaria gasto.
+
+--É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou
+ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as
+palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os
+livros vão por esse mundo fóra. A sua missão é realmente bella, e eu
+estou contente, e julgo-me feliz.
+
+O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.
+
+--Depois do trabalho é agradável o descanço, pensou elle. É n'este
+isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que
+eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira
+perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»
+
+Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o
+que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as
+creanças da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também,
+depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir,
+e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel
+foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande
+chamma, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra as
+suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho
+semilhante.
+
+Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
+palavras, todas as idèas desappareceram em linguas de fogo.
+
+--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da lavareda, que
+pareciam mil vozes reunidas n'uma só. A chamma saiu pela chaminé, e no
+meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do
+homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.
+Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu,
+quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda elles dançavam
+sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas
+encarnadas.
+
+As creanças cantavam á roda da cinza inanimada:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que
+é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»
+
+As creanças não poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas
+tambem não era necessario, porque as creanças não devem saber tudo.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+*INDICE*
+
+
+A mãe
+O ouro
+Doçura e bondade
+O malmequer
+Não quero
+Piloto
+O rico e o pobre
+Como um camponez aprendeu o Padre Nosso
+O talisman
+A alma
+Alberto
+A canção da cerejeira
+Os gigantes da montanha e os anões da planície
+A creança, o anjo e flôr
+Presente por presente
+O pinheiro ambicioso
+Perfeição das obras de Deus
+João e os seus camaradas
+O rabequista
+Os pecegos
+A urna das lagrimas
+Reconhecimento e ingratidão
+O fato novo do sultão
+Boa sentença
+Os animaes agradecidos
+O ermitão
+Carlos Magno e o abade de S. Gall
+A boneca
+Inconveniente da riqueza
+Querer é poder
+Qual será rei?
+Os três véos de Maria
+Os pequenos no bosque
+O chapellinho encarnado
+Os cinco sonhos
+A egreja do rei
+O valente soldado de chumbo
+João Pateta
+Branca de Neve
+A rapariguinha e os phosphoros
+O primeiro peccado de Margarida
+Um nome inscripto no céo
+O linho
+
+
+[A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade,
+residente no Rio de Janeiro.]
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Contos para a infância, by Guerra Junqueiro
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA ***
+
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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+*** END: FULL LICENSE ***
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