diff options
| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:48:50 -0700 |
|---|---|---|
| committer | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:48:50 -0700 |
| commit | 2880ead68db6ff28e088507b5d745972363179d7 (patch) | |
| tree | 504658e9bb0ed85e935757ba2b8fec8701d0a816 | |
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 3 | ||||
| -rw-r--r-- | 16429-0.txt | 4362 | ||||
| -rw-r--r-- | 16429-0.zip | bin | 0 -> 72821 bytes | |||
| -rw-r--r-- | 16429-h.zip | bin | 0 -> 152733 bytes | |||
| -rw-r--r-- | 16429-h/16429-h.htm | 6894 | ||||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 | ||||
| -rw-r--r-- | old/16429-8.txt | 4381 | ||||
| -rw-r--r-- | old/16429-8.zip | bin | 0 -> 71642 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/16429-h.zip | bin | 0 -> 216835 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/modern/contos.htm | 10351 | ||||
| -rw-r--r-- | old/modern/contos.txt | 4000 |
12 files changed, 30004 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/16429-0.txt b/16429-0.txt new file mode 100644 index 0000000..8210efc --- /dev/null +++ b/16429-0.txt @@ -0,0 +1,4362 @@ +The Project Gutenberg eBook of Contos para a infância, by Guerra Junqueiro + +This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and +most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions +whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms +of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at +www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you +will have to check the laws of the country where you are located before +using this eBook. + +Title: Contos para a infância + Escohidos dos melhores auctores + +Author: Guerra Junqueiro + +Release Date: August 4, 2005 [eBook #16429] +[Most recently updated: May 11, 2021] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +Produced by: Biblioteca Nacional Digital, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team + +*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA *** + + + + +CONTOS PARA A INFANCIA + +ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES POR GUERRA JUNQUEIRO + + +LISBOA + +TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL + +Rua dos Calafates, 110 + +1877 + + + + +*A mãe* + + +Estava uma mãe muito afflicta, sentada ao pé do berço do seu filho, com +medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados. +Respírava com difficuldade, e ás vezes tão profundamente, que parecia +gemer; mas a mãe causava ainda mais lastima do que o pequenino +moribundo. + +N'isto bateram á porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado +n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de +neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha. + +O pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns instantes, +e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho +começou a embalar a creança, e a mãe, pegando n'uma cadeira, sentou-se +ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada +vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mãosinha descarnada e disse para +o velho: + +--Oh! Nosso Senhor não m'o hade levar! não é verdade?-- + +E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça d'uma maneira extranha, em +ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas +corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de +cabeça; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou +ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a +tremer de frio. + +--Que é isto! exclamou, lançando á volta de si o olhar hallucinado. O +berço estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creança. + + * * * * * + +A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma +mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em +casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais +depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar.» + +--Por onde foi ella? gritou a mãe. Dize-m'o pelo amor de Deus!» + +--Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto. +Mas só t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas +ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e +muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas. + +--Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me +demores, porque quero encontrar o meu filho.-- + +A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou a +cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais do que as +palavras. + +No fim disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de +pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.» + +A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não +sabia que direcção havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal, +cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve +cristallisada. + + * * * * * + +--Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe. + +--Vi, respondeu o mattagal, mas não te ensino o caminho, senão com a +condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.» + +E a mãe estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos +dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se +de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite +d'inverno frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe +angustiosa. + +E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando, +andando, até que chegou á margem d'um grande lago, onde não havia nem +barcos, nem navios. Não estava sufficientemente gelado para se andar por +elle, e era demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo, +querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio +do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do +lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria +talvez um milagre. + +--Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos +amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus +olhos são d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu +tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas á força de chorar, e +levar-te-hei á estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a +habitação da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro, é ella +quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida d'uma creatura +humana.» + +--Oh! o que não darei eu, para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E +apesar de ter já chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do +que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo +do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no +mundo uma rainha. + +O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na +outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua +de comprido. De longe não se sabia se era uma construcção artistica ou +uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada; +tinha dado os seus olhos. + +--Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou +ella desesperada. + +--A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um +lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como +vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?» + +--Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso. Compadece-te +de mim, e dize-me onde está o meu filho.» + +--Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas +e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para +as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este +sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem +com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes, +sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as +pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o +que tens ainda de fazer?» + +--Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim +do mundo buscar o que tu quizeres.--«Fóra d'aqui não preciso de nada, +respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que +são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos +brancos.»--Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Ahi os tens, +dou-t'os de boa vontade.» + +E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu +orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e +inteiramente brancos da velha. + +Esta levou-a pela mão á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma +vegetação maravilhosa. + +Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado +de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas +cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam +cobras asquerosas. + +Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos +frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa, +tomilho, ortelã e outras plantas humildes que representavam o genero de +utilidade das pessoas que ellas symbolisavam. + +Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que +pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em +vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com +esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a +essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlandia. + +A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe +impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas +pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do +coração, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as +pulsações do coração do seu filho. + +--É elle!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre +a terra, parecia completamente estiolado. + +--Não lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte +vier, que não tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de +arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem +de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o seu +consentimento.» + +N'isto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte, +que se approximava. + +--Como é què deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda +primeiro do que eu! Como o conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ella. + +E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro. + +Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de +não ferir uma só das pequeninas petalas. Então a Morte soprou-lhe nas +mãos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do +que os ventos enregelados do inverno. + +--Não pódes nada comigo!» disse a Morte.--Mas Deus tem mais força do que +tu, respondeu a mãe.»--«É verdade, mas eu não faço senão aquillo que +elle manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e +arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins, +um dos quaes é o grande jardim do Paraizo. São regiões desconhecidas; +ninguém sabe o que se lá passa.» + +--Misericordia! misericordia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho, +agora que acabo de o encontrar!» Supplicava e gemia. A Morte +conservava-se impassivel; agarrou então instantaneamente em duas flores +lindissimas e disse á Morte: «Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar, +despedaçar não só esta, mas todas as flores que estão aqui! + +--Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és +desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra mãe!» +disse a pobre mulher, largando as flores immediatamente.--Toma, aqui +tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei +do lago. Não sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o +fundo d'este poço; vê o que ias destruir, se arrancasses estas flores. +Verás passar nos reflexos da agua, como n'uma miragem, a sorte destinada +a cada uma d'essas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se +porventura vivesse.» + +Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria, +quadros risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de +miseria, d'angustias e de desolação. + +--N'isto que eu vejo, disse a mãe afflictissima, não distingo qual era a +sorte que Deus destinava ao meu filho.» + +--Não posso dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto +que te appareceu viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.» + +A mãe desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me: +era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade! Falla! +Não me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, não vá elle soffrer +desgraças tão horriveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que á minha +vida. As angustias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos. +Esquece as minhas lagrimas, as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz +e tudo o que disse.» + +--Não te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu +filho ou que o leve para a região desconhecida de que não posso +fallar-te!» Então a mãe allucinada, convulsa, torcendo os braços, +deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: «Não me ouças, +Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua vontade que é +sempre justa! Não me attendas meu Deus!» + +E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua agonia +dilacerante. + +E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi transplantal-o no +jardim do paraiso. + + + + +*O ouro* + + +Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas d'ouro, +empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas minas; e o +resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande +fome no paiz. + +Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em +segredo frangos, pombos, gallinhas e outras iguarias todas de ouro fino; +e quando o rei quiz jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com +que elle ficou todo satisfeito, porque não comprehendeu ao principio +qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada +de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem +que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus +vassallos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que +trazel-os nas minas á busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e +que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens, +estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro +apparecesse em abundancia. + +A rainha tinha juizo. + + + + +*Doçura e bondade* + + +Ha entre vós, meus filhos, indoles violentas, que não sabem dominar-se, +e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma pessima +disposição, que é necessario corrigir; dá lugar a disputas, e a que se +commettam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde. +Citar-vos-hei dois exemplos de que fui testemunha. + +Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante +d'elle, volta-se e dá-lhe uma bofetada. + +--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vae ter! bateu n'um +cego!» + +Um homem ainda novo montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns +camponezes grosseiros começaram a apupal-o e a bater no burro, para o +fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a +sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubesseis que eu era coxo, não +terieis sido tão covardes.» + +Os camponezes, envergonhados, córaram, afastando-se sem pronunciar uma +palavra. + +Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a +quem as recebeu. + + + + +*O malmequer* + + +Ouvi com attenção esta pequenina historia! + +No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que +deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores, +rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no +meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a +olhos vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por +elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella +manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes, +parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava +que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre florinha +insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do +sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares. + +N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira, +sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças +sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle, sentado na haste +verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo +o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com +admiravel nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a +olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha +feliz que cantava e voava. + +«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento +acaricia-me. Oh! não tenho rasão de me queixar.» + +Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos +aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para +parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa. +As tulipas brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se +pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno +malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: «como são +ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visital-as. Graças a Deus, +poderei assistir a este bello espectaculo.» E no mesmo instante a +cotovia dirigiu o seu vôo, não para as dalias e tulipas, mas para a +relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria não sabia o que +havia de pensar. + +O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando: «Como a herva é +macia! oh! que encantadora florinha, com um coração d'oiro, vestida de +prata!» + +Não se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com +o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do +firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde o malmequer +reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou +para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que +acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as +tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e +ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabeça toda +inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis +ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste. + +Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma +grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as +uma a uma. + +«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se +todas.» + +E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrára-se por +ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando +reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas, +adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia. + +No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao +ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste, +muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rasões para se affligir: +haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella +aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas +antigas viagens atravez do espaço illimitado. + +O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era +difficil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe +esquecer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e +a alvura resplandecente das suas proprias folhas. + +N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão +uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as +tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o +que desejavam. + +«Podemos arrancar d'aqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos +rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha. + +--«Arranca a flor, disse o outro.» + +A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era +morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existencia, como no momento em +que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia. + +«Não; deixemol-a, disse o mais velho. Está ahi muito bem.» + +Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia. + +O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia +com as azas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus +desejos, articular-lhe uma palavra de consolação. + +Passou-se assim toda a manhã. + +«Já não tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me +deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre +terrivel, sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do +sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da +creação!» + +Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu +então o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe, +afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo +inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva, +e a ti só por unica companhia. Cada pésinho de relva substitue para mim +uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah! +como me fazes recordar de todas as coisas que perdi! + +--Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o +minimo movimento. + +Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume; +a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a +arrancar a herva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na +flor. + +Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua á +desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas azas, sacudindo-as +convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha melancolica; a sua +cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e +d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer +não pôde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se +para o chão, doente de tristeza. + +Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto, +rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro +d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e +cobriram o tumulo com folhas de rosas. + +Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e +deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram +e lhe fizeram honrarias pomposissimas. + +A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle +que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou. + + + + +*Não quero* + + +Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito +alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» Parei e +perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu rapaz?--«Não quero dizer +á mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar, +mas antes quero que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe +eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto que o outro +pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora +todo envergonhado. + +D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o +professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois +pequenos; o que não quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro, +vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os +dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro, è um magnifico +estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a +confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a reparal-as. O outro +pelo contrario, é mentiroso, covarde e incorrigivel.»--Não me espanto, +disse eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças; e +contei-lhe o que tinha ouvido. + + + + +*Piloto* + + +Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos cães, e o +infatigavel companheiro dos brinquedos das creanças da quinta. + +Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe +lançava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na bocca e +trazia-o á margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã +Joaninha. + +Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cançar nunca a paciencia do +Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o +assobio do creado da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações: +partia então como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos +pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho. + +Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda +da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse á noite a parede da +quinta. + +Uma vez deu prova d'uma extraordinaria sagacidade; um jornaleiro, que se +empregava muitas vezes em levar saccos de trigo da quinta para casa, +tentou de noite roubar um sacco. + +Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade +emquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou +tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o +largar. + +Era como se dissesse: «Onde vaes tu com o trigo de meu dono?» + +O ladrão quiz pôr então outra vez o sacco d'onde o tinha tirado; Piloto +não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de +manhã; o quinteiro foi dar com elle n'esta difficil posição, +reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não +deshonrar. + +Mas o homem ficou com odio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a +ausencia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para +elle sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até á +margem do ribeiro. + +Atou uma grande pedra á outra extremidade da corda e levantando o animal +atirou-o á agua; mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforço, +caiu tambem. + +Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o +corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e +desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes +e trazido para terra o seu mortal inimigo. + +Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o +cão que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida. + +Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si +mesmo e combateu as suas más inclinações. + +O exemplo do cão corrigiu o homem. + + + + +*O rico e o pobre* + + +Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um +dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e +deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da +estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar, +quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu +preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos +viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo, +e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de +vinho. + +Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua +codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e +suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino tão rico, +em vez do desgraçado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu +dentro d'aquella carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia +Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lançando a cabeça fóra da +carruagem, chamou Martinho com a mão. + +--Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a +minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho +córando, o que eu disse não foi por mal.»--Não estou zangado comtigo, +replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.» + +--Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar +no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando +muitas leguas por dia, como pão secco e batatas, emquanto que o senhor +anda n'uma carruagem, póde comer frangos e beber vinho.»--Pois bem, +volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu +não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho +ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o +preceptor continuou: «Acceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho, +ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada +de me ver entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a +idéa da entrada triumphante na sua aldeia. + +O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a +descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma +perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em +duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou +que era muito pallido e que tinha cara de doente. + +Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:--Então sempre +desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas +valentes e as tuas faces córadas, pelo prazer de ter uma carruagem e +andar bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou +Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se +tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro +os meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças a Deus +pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia. + +«Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, +tens força e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que não +podem comprar-se com dinheiro. + + + + +*Como um camponez aprendeu o Padre Nosso* + + +Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o +confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso. + +«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.» + +«Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a +credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da +minha parte.» + +No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre. + +«Como te chamas? perguntou-lhe o camponez. + +«Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, respondeu o pobre.» + +«E o teu appellido?» + +«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.» + +E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo. + +Ao outro dia chega segundo pobre. + +«Como te chamas? + +«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.» + +«E o teu appellido?» + +«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.» + +E partiu com o seu alqueire de trigo. + +Veiu terceiro pobre. + +«Como te chamas?» + +«Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.» + +«E o teu appellido?» + +«Dae-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.» + +E levou o seu alqueire. + +Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma +forma até chegar ao _Amen_. + +Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão. + +«Então já sabes o Padre Nosso?» + +«Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei +o meu trigo.» + +«Quaes são? tornou o padre.» + +E o aldeão enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha +apresentado. + +«Já vês, disse o confessor, que não era muito difficil aprender o Padre +Nosso, porque já o sabes perfeitamente.» + + + + +*O talisman* + + +Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas +com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o +que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com +uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue +inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da +sua casa. + +«Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual é a razão +porque a sorte nos trata de um modo tão differente? Vendemos as mesmas +mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apezar +d'isso, emquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu +seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não +terás tu por acaso algum precioso talisman.» + +«Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma +virtude incomparavel. Trago-o ao pescoço, e ando assim com elle todo o +dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o +celleiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.» + +«Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia +preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de que t'a +restituo.» + +«Pois vem buscal-a ámanhã de manhã.» + +Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, +apresentou-lhe este uma avellã, através da qual tinha tinha passado um +fio de seda. + +O nosso homem pòl-a immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a +casa com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a +parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na +cozinha o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o +feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos +cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal +escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio, +comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por +terceira pessoa na direcção dos seus negocios. + +Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman, +agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em +segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado. + + + + +*A alma* + + +«Mamã, nem todas as creanças que morrem vão para o Paraizo. O outro dia +vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu papá e as +suas duas irmãsinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me +fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, não é +verdade?» + +«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus +paes e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraizo.» + +«A alma? mamã; não sei o que é; não comprehendo bem.» + +«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas +pequerruchas.» + +«Tive sim, mamã, tive muita pena.» + +«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os +braços?» + +«Não, mamã.» + +«Eram as orelhas?» + +«Oh! não mamã, era _cá dentro_.» + +«Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece, +que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando +praticas o bem. + + + + +*Alberto* + + +Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus +irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer +sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico +feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de +batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava +com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no +quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. «Ha +de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará libras como uma +cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá, que ficará muito +contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não +rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por +fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto. + +«Vi papá; achei-a e fui semeal-a.» + +«Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve?» + +«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.» + +«É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.» + +Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe +não pertencia. + +Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe +produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como +é? é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira. + + + +*A canção da cerejeira* + + +Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!» E a cereijeira +cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e +verdejantes. + +A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se, +abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as +folhinhas tenras, dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem é +que me arranjou este banquete?» + +Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a cereijeira +cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores delicadas e +brancas. + +E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas, +dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o +deitaram!» + +Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o +assucar!» + +No verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira +cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos. + +«Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião; temos appetite, +e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No +outono disse Deus: «Levantae a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento +frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore. + +As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o +vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar. + +Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos +ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descança. + + + + +*Os gigantes da montanha e os anões da planicie* + + +Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na +montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um +alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície a ver o que +faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões. +Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido á caça e sua mãe estava +dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os +jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os +lavradores, coisas inteiramente novas para ella. «Oh! que lindos +brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que +quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavallos, a +charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello, +onde seu pae estava a jantar. + +--Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle. + +--Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os +mais bonitos que tenho visto.» + +E pol-os em cima da mesa, a um e um,--os cavallos, a charrua e os +trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem +tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha +poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante +fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso +não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e +respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o +immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da +montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de lavrar +a terra e de semear o trigo. + + + + +*A creança, a anjo e flôr* + + +Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos braços, e +desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que +ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de +quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam +no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe +todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor +escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros +maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma +creança morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro +sobre a casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins +deliciosos, cobertos de flores. + +«Qual é a flor que desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo. + +Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, +magnifica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de +botõesinhos lindissimos pendiam estiolados para o chão. + +«Pobre roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa +reflorir no paraiso.» + +O anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas flores +brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres. + +A colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus. Caiu +a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam ainda por +cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia +de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de +immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores +com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos +campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-n'a +atirado para a rua como inutil e morta. + +«Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando, +te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquella +rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creança miseravel e +doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar +com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias +de verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. +Então a creança sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do +andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca +verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do +visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o ramo +verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava +com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe +flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda +raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da +cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e +todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico +thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe +aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em +sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e +ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que se +voltou. + +«Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida +flor, esquecida á janella desde então, murchou, estiolou-se e +atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca é o +thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os +canteiros d'um jardim realengo.» + +«Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o anjo levava para o céo. + +--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava +em moletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!» + +A creança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam +no céo onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, +levou-as ao coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre, +despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar +com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe, +formando circulos que vão augmentando successivamente, multiplicando-se +até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos +harmoniosamente--desde a creança abençoada até á humilde florinha do +campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e +tortuosa. + + + + +*Presente por presente* + + +Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite +á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi +a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que +pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque +eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama não a +tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava +morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões, +e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao +outro dia pela manhã disse isto mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao +despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha +dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponeza julgou +que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a +trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o +que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro +examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher: + +«Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe! + +E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter +achado as suas batatas melhores do que faisões. + +«É necessário confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha +talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das +batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas. + +E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de batatas +escolhidas. + +Os lacaios e as sentinellas ao principio não o queriam deixar entrar; +mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo +contrario vinha trazer alguma cousa. + +Foi, pois, introduzido na sala da audiencia. + +«Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente +pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca +d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar +demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis +o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das +batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos +acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá +as encontrareis sempre ao vosso dispor.» + +A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava +n'um momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta +geiras de terra. + +Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que, +sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não me ha +de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo +qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer +presente d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra, +simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de +recompensar ainda mais generosamente.» + +Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do +palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar +altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia. + +«Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; não +tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o +offereça.» + +O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse +comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces: + +Depois dirigindo-se a elle: + +«Acceito a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh! +espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que +faisões. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom +preço para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.» + +E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora. + + + + +*O pinheiro ambicioso* + + +Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh! +dizia elle, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas +verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais +orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido +de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!» + +O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o +pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, +pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, +mais sensatos do que elle, não invejavam a sua rapida fortuna. Á noite +passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um +sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés á cabeça. + +«Oh! disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça +dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a +floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro; +o oiro attrae as ambições. + +Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu +avarento não me teria despido.» + +No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao +sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, +fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de +nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as +folhas de cristal. + +«Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em +pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir +as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria +menos brilhante, mas viveria descansado.» + +Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado ás vaidades +primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os +outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e +vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as +todas sem deixar uma unica. + +O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar á sua +fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da +sua sorte. + + + + +*Perfeição das obras de Deus* + + +_A filha_.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha. + +_A mãe_.--Vou-te dar outra. + +_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mamã? + +_A mãe_.--Vê se adivinhas. + +_A filha_.--Nã sei, mamã. + +_A mãe_.--Conheces os metaes? + +_A filha_.--Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de +uma caixa. + +_A mãe_.--Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de +marmore? + +_A filha_.--Oh! não; são de metal; mas de que metal? + +_A mãe_.--Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas +primeiro. + +_A filha_.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não é de prata, porque +não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarello muito +brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarello muito feio, que +cheira mal... Então é de ferro, mamã? + +_A mãe_.--Adivinhaste. + +_A filha_.--Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas. + +_A mãe_.--É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já +se não chama ferro, é aço. + +_A filha_.--Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que +as fazem. + +_A mãe_.--É impossivel, não és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma +fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar +muito. + +_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que +nos servimos. + +_A mãe_.--Tens razão; é uma vergonha ignoral-o. + +_A filha_.--Mamã, deixe-me ver as suas agulhas. + +_A mãe_.--Olha, ahi tens o meu estojo. + +_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão +fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para +fazer uma coisinha tão delicada! + +_A mãe_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por +uma pulga, presa por uma cadeia de oiro? + +_A filha_.--Lembro, mamã; era tão bonito! + +_A mãe_.--Li n'um jornal allemão que um operario chamado Nerlinger fez +um copo de um grão de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais +doze... + +_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um +grão de pimenta! + +_A mãe_.--E ainda não é tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas +doiradas, e sustentava-se no pé. + +_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso! + +_A mãe_.--Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É +effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam +certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração. + +_A filha_.--Quaes, mamã? + +_A mãe_.--Já t'o digo. (_Levanta-se_.) + +_A filha_.--Que quer, mamã? + +_A mãe_.--Quero que vejas o microscopio de teu papá. + +_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio. + +_A mãe_.--Este é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes +ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina, +lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês? + +_A filha_.--Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão grosseira! + +_A mãe_.--Vês-lhe buracos, riscos, asperesas, não é verdade? + +_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito. + +_A mãe_.--Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na +agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por ellas. + +_A filha_.--O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a +visse ao microscopio. + +_A mãe_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa. + +_A filha_.--O quê, mamã? + +_A mãe_.--O aguilhãosinho de uma abelha. + +_A filha_.--Oh! que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é +brilhante!... Mas já sei que visto ao microscopio ha de acontecer o +mesmo que com a agulha. + +_A mãe_.--Prompto: olha. + +_A filha_ (olhando).--É exquisito, mamã! + +_A mãe_.--Então? + +_A filha_.--Augmentou, augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo +contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não tinha ponta, +e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabello. Porque +será isto, mamã? + +_A mãe_.--É porque o operario que fez este aguilhão é muito mais habil +do que o que fez a agulha. + +_A filha_.--Quem é esse operario tão habil? + +_A mãe_.--É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as +creaturas. + +_A filha_.--É Deus. + +_A mãe_.--Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os +animaes? + +_A filha_.--De certo. + +_A mãe_.--Foi elle por conseguinte que fez o aguilhão d'esta abelha; e +ahi tens porque o aguilhão é superior á agulha: é obra de Deus. Mas +continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de +musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês? + +_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita. + +_A mãe_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima. + +_A filha_.--Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo +microscopio. + +_A mãe_.--Então? + +_A filha_.--É horrorosa... Parece feita de pellos grosseiros com grandes +buracos deseguaes. + +_A mãe_.--As obras do homem são todas assim. + +_A filha_.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus. + +_A mãe_.--Sabes o que é isto? + +_A filha_.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda. + +_A mãe_.--Os fiosinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha +pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes. + +_A filha_ (olhando pelo microscópio).--Não, mamã; os fios são todos +eguaes, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante. + +_A mãe_.--É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha +sobre este papel? + +_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas +também com tinta. + +_A mãe_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente +redondos? + +_A filha_.--Sim, mamã, perfeitamente redondos. + +_A mãe_.--Vê-os agora ao microscopio. + +_A filha_.--Oh! já não são redondos, são todos deseguaes. + +_A mãe_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma aza de borboleta; +vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo +microscopio; o que é que vês? + +_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a differença +que agora é maior. Que bellas que são as obras de Deus! + +_A mãe_.--Merece bem a pena estudal-as. + +_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras +dos homens. + +_A mãe_.--E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do +homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais +perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a +primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a +segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem +fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras +mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as +obras do Creador. + + + + +*João e os seus camaradas* + + +Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso, +possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a +correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou +o gallo, e disse-lhe: + +«O que é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, ou toda +com a minha maldição?» + +«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no +mundo eu quereria a tua maldição.» + +«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te +abençôe.» + +E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha +caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair. + +«Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a +afogar-me.» + +«Espera, respondeu João.» + +E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o +quadrúpede do atoleiro. + +«Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te posso ser util, +aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?» + +--«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha vida.» + +«Queres tu que eu te acompanhe? + +«Anda d'ahi.» + +E puzeram-se a caminho. + +Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da +eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre +animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de +tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir. + +«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa te for +prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?» + +«Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.» + +«Queres que te acompanhe?» + +«Anda d'ahi.» + +Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a +merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva +que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar +lastimosamente. + +Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango. + +--«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser util. Aonde +vaes tu? + +--«Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.» + +--De boa vontade. + +Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um +grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um +gallo na bocca. + +«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão. + +E no mesmo instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em +perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente +disse a João: + +--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?» + +--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco? + +--«De boa vontade.» + +--Então anda. Se te cançares, empoleira-te no jumento.» + +Os viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro. +Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma quinta, nem +uma cabana. + +--«Paciencia, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos +hoje a dormir ao ar livre; além d'isso a noite está socegada, e a relva +é macia.» + +Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o cão +e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo +empoleirou-se n'uma arvore. + +Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou +a cantar. + +--«Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque é que +estás a gritar?» + +--«Porque já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a luz da +madrugada, que vem rompendo?» + +--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é d'uma lanterna. +Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto +da noite.» + +Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez +dos campos, até que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo, +d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e +blasphemias horriveis. + +--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem +é que está lá dentro.» + +Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam +alegremente, sentados a uma mesa principesca. + +--«Que bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do +conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este +porteiro. Á sua saude!» + +--«Á saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões. + +E d'um trago despejaram os copos. + +João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa: + +--«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der +signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.» + +O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao peitoril +d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o gato á cabeça do cão e o +gallo á cabeça do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do +jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do +gallo. + +--«Agora, bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar +armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!» + +No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando +cada vez mais; os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo +precipitadamente por uma porta falsa. + +João e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um +excellente jantar, e deitaram-se em seguida--João n'uma cama, o burro na +cavallariça, o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e +o gallo n'um poleiro. + +Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e +salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir. + +--«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão humida, disse um +d'elles.» + +--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.» + +--«E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.» + +--«E o que é mais lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o +dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das +gavetas.» + +--Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão. + +--Bravo! exclamaram os ladrões. + +E poz-se a caminho. + +Já não havia luz na casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se +para o fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as garras. +Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o +rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu +por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo +atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas. + +--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!» + +Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma +parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do chão. + +Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem +pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta. + +--Então? então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram. + +--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para +me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que o trago +n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado +por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o +cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta, +um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a sovella. Logo +depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras. +Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não +acreditam, vão lá, e experimentem.» + +--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo +ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.» + +Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excellentemente, e +partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões +lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos, +com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram á +porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com +uma libré esplendida, meias de seda, calções escarlates e cabello +empoado. + +Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João. + +--Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se embora?» + +--Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castello far-nos-ha +um bom acolhimento. + +--Fóra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a +andar immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os meus cães de +fila.» + +--Perdão, só um instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do +jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite +passada a porta do castello?» + +O porteiro córou. O conde que estava á janella, disse-lhe: + +--Ó Bernabé, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar. + +--Senhor, replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui eu que +abri a porta aos seis ladrões. + +--Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis? + +Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado, +pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite, +porque vimos cançados do caminho. + +--Ficae certos que sereis bem tratados. + +O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na +cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés á +cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e +disse-lhe: + +--Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.» + +João acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si. +Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo. + + + + +*O rabequista* + + +Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma +egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos. + +As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O +vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro, +feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava +constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria +um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha +sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge não havia pão nem +dinheiro no bolso para o comprar. + +Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca com tal +suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vel-o +tão pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa +Cecilia abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o +ao pobre musico, que tonto d'alegria, dançando, cantando, chorando, +correu á loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o +sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do +juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado á morte. + +Chegára o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo +poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim não +chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como +ultima graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento. +O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam +supplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua +derradeira melodia. + +Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou, +ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lagrimas começou a tocar. +Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de +novo, descalçar o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á +vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o +rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente +prestar-lhe as mais honrosas homenagens. + + + + +*Os pecegos* + + +Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos +magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos, +extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. Á +noite o pae perguntou-lhes: + +--Então comeram os pecegos? + +--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei +de plantal-o para nascer uma arvore.» + +--Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar no futuro.» + +--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mamã ainda me deu +metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.» + +--Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade não admira; +espero que quando fores maior te has de corrigir.» + +--Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou +fóra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi +o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á +cidade.» + +O pae meneou a cabeça: + +--Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo. + +--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego? + +--Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho, +ao Jorge, que está coitadinho com febre. Elle não o queria, mas +deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora. + +--Ora bem, perguntou o pae, qual de vós é que empregou melhor o pecego +que eu lhe dei? + +E os três pequenos disseram á uma: + +--Foi o mano Eduardo. + +Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos +arrazados de lagrimas. + + + + +*A urna das lagrimas* + + +Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem +adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só momento; mas +um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu e morreu. A +desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um +momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades. +Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava +acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido, +abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua +querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos +uma urna, que vinha cheia até ás bordas. + +--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo +das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais, +transbordará, e as tuas lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no +tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso. + +A pequenina desappareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não +affligir. + + + + +*Reconhecimento e ingratidão* + + +Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos paes. +E é natural. As creanças veem diariamente o que fazem seus paes, e +imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a +benção ou a maldição d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos, +terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem +ser meditados. + +Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito +satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois +d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que +trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O +principe, que para as suas despezas d'administração e representação +necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, +como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima +satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu: + +«Gasto diariamente comigo a terça parte d'essa quantia; outro terço é +para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas +economias.» + +Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o +d'este modo. + +«Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não podem +trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força para isso. Aos +primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha +infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando os annos +tiverem pesado sobre mim.» + +O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se +da educação de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos +paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando +egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação. + +Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma +maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve +de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato +recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde +foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse +muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima +esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito. +O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de +dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas +notou que a creança ao partir tinha escondido um dos lençoes a um canto, +atraz da porta. + +Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo. + +«Foi, respondeu a creança desabridamente, para me servir mais tarde +d'este lençol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital. + + + + +*O fato novo do sultão* + + +Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento. + +Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao +theatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava +de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Está no conselho; +dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade +muito alegre, graças á quantidade d'estrangeiros que por ali passavam; +mas chegaram lá um dia dois larapios, que, dando-se por tecelões, +disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não +só eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além +d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade +maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos +aquelles que não exercessem bem o seu emprego. + +--São vestuarios impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles, +saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade +dos ministros. Preciso d'esse estofo!» + +E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada, +para que podessem começar os trabalhos immediatamente. + +Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que +trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras. +Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso +muito bem guardado, trabalhando até á meia noite com os teares vasios. + +--«Preciso saber se a obra vae adiantada». + +Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos +idiotas. E, apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente +em todo o caso mandar alguem adiante. + +Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do +estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto. + +--Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um +grande talento, e por isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o +estofo. + +O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam +com os teares vasios. + +--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, não vejo +absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões +convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os +desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, +olhava, mas não via nada, pela rasão simplicissima de nada lá existir. + +--Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? É necessario que +ninguém o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá +confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.» + +--«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões: + +--«Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este +desenho... estas cores... magnifico!... Direi ao sultão que fiquei +completamente satisfeito.» + +--«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e +mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma +descripção minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois +repetir tudo ao sultão. + +Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; +precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no +bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam +sempre. + +Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funccionario, homem +honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a +este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não +via nada. + +--Não acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o +magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente +de não existir. + +--Mas que diabo! eu não sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois não serei +eu capaz de desempenhar o meu lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o +deixo eu.» + +Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo +desenho e o bem combinado das cores. + +--É d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sultão. E toda a +cidade começou a fallar d'esse tecido extraordinario. + +Emfim o proprio sultão quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande +acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois +honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois +velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de +especie alguma. + +--Não acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho +e as cores são dignos de vossa alteza.» + +E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam +podessem ver alguma cousa. + +--Que é isto! disse comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível! +serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça que me +acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnifico! Testemunho-vos a +minha satisfação.» + +E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se +atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do +mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto +repetiam como o sultão: «É magnifico!» Até lhe aconselharam a que se +apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnifico! é +encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era +geral. + +Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos +tecelões. + +Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à +luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, +cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio, +e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido. + +O sultão com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores +levantando um braço, como para sustentar alguma cousa, disseram: + +«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha; +ó a principal virtude d'este tecido.» + +--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma. + +--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios, +provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.» + +O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, +depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do +espelho. + +--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos. +Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!» + +Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias. + +--Está á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á procissão, +disse elle.» + +--Bom! estou prompto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.» + +E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do +seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não +querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a. + +E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a +gente na rua e ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que +cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber, +que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. +Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados. + +--Mas parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do +pae. + +--É a voz da innocencia, disse o pae. + +--Ha ali uma creança que diz que o sultão vae em cuecas. + +«Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente. + +O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era +verdade. Entretanto tomou a energica resolução de ir até ao fim, e os +camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda +imaginaria. + + + + +*Boa sentença* + + +Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma +quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis +d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado +camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse: + +--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no +alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste +adiantados os cem mil réis d'alviçaras: estamos pagos por conseguinte.» + +O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem +devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, +que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença: + +--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge +apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o +ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se julga com +direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que +encontraste, e guarda-o até que appareça o individuo que perdeu sómente +setecentos mil réis. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que +tenhas paciencia até que appareça alguem que tenha achado os teus +oitocentos mil réis. + + + + +*Os animaes agradecidos* + + +Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem +perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este +respondeu: + +--«Senhor: eu sou um desgraçado, um miseravel; nasci no vosso reino, e +chamo-me _Ingratidão_.» + +--«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu +serviço.» + +O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. +Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se +tão esperto e tão solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que +o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa. +Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então não +conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos +desventurados. + +Ora, na visinhança do palacio havia uma floresta cheia d'animaes +selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a +parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo +dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a +floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se +precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas. + +Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um +lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O +governador, ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão +horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança de +salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, +ninguem o vinha soccorrer. + +Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, +chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para +ganhar o pão necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem +lá foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da +cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção não tardou a +ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava +ali. + +--«Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto +encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma +enorme serpente.» + +--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não tendo para +sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava +um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se +cumpres a tua promessa? + +O intendente continuou: + +--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que +cumprirei a minha palavra.» + +Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda +muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão atirou-se a +ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era +o intendente. + +Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior +amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome. + +Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o +governador, enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a +serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o +governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr +para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o +que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes +promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre +homem bater à porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria. + +--«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente +que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.» + +O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou: + +--«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na floresta; que se +ponha a andar, porque o não conheço.» + +O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito. + +O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou á mulher a +odiosa perfidia de que tinha sido victima. + +A mulher disse-lhe: + +--«Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e +foi talvez por isso que te não pôde receber.» + +Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças. + +Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á porta do palacio. +Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que não tornasse +ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado a empregar meios +violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o: + +--«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o +inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais +n'isso.» + +No dia seguinte o bom do homem voltou á carga; e tendo o porteiro +consentido á força de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este +encolerisado atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre +homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do +chão. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um +burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas +levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se +obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente +tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para +fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle +tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e +este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leão, +vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso +agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal +de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal +para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico. + +No dia seguinte, voltando de novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que +o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto +lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado +o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha +tirado do fôjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em +que brilhavam três côres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a +serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto +d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio +levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que +propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho, +afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este, +assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia. +Antonio respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se +seria boa. + +O velho respondeu: + +--«São três as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria +imperturbavel e luz sem trevas. Se alguém t'a comprar por menos dinheiro +do que vale, tornará immediatamente para a tua mão.» + +Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da +sciencia maravilhosa, e correu a contar á mulher a sua felicidade. Como +se imagina, graças á virtude da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em +diante, nem honras nem riquezas. + +Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou +chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman. + +Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu: + +--«Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me não for paga +pelo que vale, tornará ella mesma para o meu poder.» + +--«Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.» + +E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã, +Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto +disse-lhe: + +--«Torna a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se que +lh'a furtaste.» + +O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou á presença de sua +magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra +preciosa. + +--«Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro, +fechado com sete chaves, disse o rei.» + +Antonio mostrou-lhe então a joia preciosa, e o rei ficou +extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido +semelhante thesouro. + +Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o +reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu +intendente, e disse-lhe: + +--«Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratidão_, +porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste +com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a Antonio as +tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres +enforcado.» + +Admiraram todos a sentença do rei, e Antonio desempenhou as suas altas +funcções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi +escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos +gloriosos. + + + + +*O ermitão* + + +Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou +retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao +trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os +seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa de Deus. Depois de ter +assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que já tinha +merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os +santos mais notaveis. + +Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe: + +--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola +e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas. + +O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no +seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe: + +--Irmão, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e +penitencias te tornaste agradavel a Deus. + +--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não +zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, +pobre de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em casa a +divertir os outros.» + +O austero ermitão continuou a insistir: + +--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum +acto de virtude.» + +--Em verdade não poderia citar nem um só.» + +--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido +loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente +o teu patrimonio e o producto do teu officio?» + +--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e +filhos tinham sido condemnados á escravidão para pagar uma divida. Essa +mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa, +protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a +sua familia, e levei-a á cidade, onde ella devia encontrar-se com seu +marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?» + +A estas palavras o ermitão poz-se a chorar, e exclamou: + +--Nos meus setenta annos de solidão nunca pratiquei uma obra tão +meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu não +passas d'um pobre musico.» + + + + +*Carlos Magno e o abade de S. Gall* + + +Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall, +preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da abadia, fresco, +rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e +activos, e o abade era indolente. Além d'isso o imperador tinha mais +d'um motivo de queixa contra elle. + +--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á +sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a bondade de me +responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão solemne do +nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em +dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo; +em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. +rev.^{ma} vier á minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate +d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás deixa de ser abade de S. +Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada +para o rabo.» + +O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas +os doutores mais famosos pela sua sciencia, não lhe souberam dar +resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal +aproximava-se; já não faltava senão um mez, já não faltavam senão +semanas, e afinal só dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e +anafado, estava magro como um esqueleto. Perdèra o somno e o appetite. +Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se +encontrou com o seu pastor. + +--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?» + +--Estou, meu caro Felix, estou muito doente.» + +--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.» + +--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta ás minhas tres +perguntas.» + +--É então latim?» + +--Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.» + +--Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe +era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.» + +Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o +barrete ao ar, e disse-lhe: + +--Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma} +póde continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu +habito.» + +Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o habito do abade de S. +Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho +imperial. + +--Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que +pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto +valho eu em dinheiro?» + +--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por +trinta dinheiros, sua magestade vale á justa vinte e nove, só um +dinheiro menos.» + +--Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não posso +deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda pergunta, não ha de +ser tão facil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a +dar a volta ao mundo?» + +--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir +constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e +quatro horas.» + +--Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finorio, e d'esta vez, +confesso-me vencido; mas a terceira, não d'essas á que se responde com +supposições. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha +de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.» + +--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está +enganado, porque eu sou o seu pastor.» + +--Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas +sendo.» + +--Não sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor, +peco-lhe outra cousa.» + +--Não tens mais que fallar.» + +--Peço a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.» + +Carlos Magno não era homem que faltasse á sua palavra. + + + + +*A boneca* + + +Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma +boneca! + +Não ha muitos annos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno +jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o +sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o espirito a vista dos dois +monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades, +que podem aniquillar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda não ha +muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da +feira, divertindo-me a meu modo. + +Cançado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella +especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo, +quando novos personagens me chamaram a attenção. + +Eram os meus visinhos _ricos_. + +Aqui é preciso uma rapida explicação. + +Das famílias da minha visinhança, só conheço tres. + +Qual d'estas tres familias será mais feliz?... + +Pelo que tenho notado, não tem que invejar umas ás outras. + +São todas felizes; cada qual a seu modo. + +Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_. + +Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e +dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou, +tomou nos braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em +seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e +com a menina para a barraca onde eu estava. + +Não havia ali segredo a surprehender. + +Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que +parecia agradecer áquella formosa criança a manifestação de qualquer +desejo. + +No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a +felicidade de dez crianças menos abastadas. + +Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca... +_rica_. + +Faltava apenas a dona da casa--a boneca. + +Todo risos e attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor. + +Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar +a mamã, a gentil creança acabou por escolher uma magnifica boneca de +dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues. + +Uma boneca como as outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica +recheada, braços e pernas de páu. + +Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribu de crianças, que fazem +o martyrio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado +sapateiro. + +Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem +anjos, caidos do céo sobre um monte de lama. + +São os meus visinhos _pobres_. + +A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa +immediata. + +É como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_. + +A filha que terá dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas, +cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à +pressão. + +São os meus visinhos _remediados_. + +A terceira é a dos meus visinhos _ricos_. + +Casa nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas +listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do +estado--nada falta áquella ditosa gente! + +Compõe-se egualmente de marido, mulher e filha. + +Que formosa criança!... Terá oito annos. + +Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e +scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e +esguios, terminados por unhas d'uma côr de rosa transparente, que não +sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a +crescer--que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos. + +Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas +aquellas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do +carro. + +A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criança. + +Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadissimas +considerações, suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina +recebèra brinquedos, que representavam um par de moedas. + +Que contraste com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da +mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel +artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois pontos +de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por +outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã preta! + +Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos remediados não havia luz. + +Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de +tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar, +provocavam os ralhos da mãe. + +Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas da manhã. + +Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na +casa immediata não se via ninguem--estava a pequena na mestra; no +palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda, +divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma +linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos. + +Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida. + +--«Ahi está a tua caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim +para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!... +Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...» + +Retirei-me da janella. + +Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena. + +A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se +vestia tres e quatro vezes! + +Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a +tratava! + +Chamava-lhe sr.ª D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente +com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que +se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma. + +Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos +_ricos_--ouvi um grito de susto. + +Era devido a um accidente, a que está sujeito quem anda de carro. + +Voltára-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janella. + +O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo, +porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e +lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra +nova, agarrou-a pelos pés e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais +perto de mim bradou voz timida e suplicante: + +«Não atire!... Dê-m'a.» + +Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra fé até +então. + +Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e +lançou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica. + +Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, +encolhendo os hombros, respondeu: + +--«Já não presta!... Está esmurrada!...» + +--É o mesmo!... Dá-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de +cubiça. + +--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os hombros. + +E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da +visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse +despedaçar-se nas lages da rua. + +Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a +outra, para mostrar á mãe a que ella ainda não podia acreditar, que +fosse sua! + +Por espaço de mezes foi a boneca a principal occupação da nova dona. + +A pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro +vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excellencia! Chamavam-lhe +sr.ª D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da +creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente +estranhas para ella! + +E a desgraçada perdia as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos +azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia +se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma! + +Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo, +ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores. + +Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, fitas velhas, rendas +amarelladas, chapéos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do +vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira. + +Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle +as ondulações do _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de +cassa---no inverno!--chaile e manta na cabeça. + +Muito mal lhe ficava aquillo!... Áquella boneca custava-lhe de certo o +vêr-se tão mal arranjada. + +Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei: + +--É justo!... Cada qual segundo as suas posses.» + +Por esse tempo, entrei em relações com o meu visinho sapateiro. + +O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos +faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra a primeira occasião, para me +pedir desculpa. + +Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a +aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem +grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade. + +Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze annos, com +quem sympathisei logo á primeira vista. + +Chama-se Maria. + +Por um d'estes acasos da Providencia, que parece ás vezes comprazer-se +em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos. + +Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro, +fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou. + +E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, porque havia +verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a +minha Maria!» + +E tinha razão! + +Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo era. + +--É quem vale á mãe!...--accrescentou o velho.»--Ali, onde a vê, faz o +serviço d'uma mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve +doente--bem pensei que não arribasse!--a pequena era quem cosinhava e +olhava pelos irmãos!... E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella +pequena esteve tres dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi +preciso eu obrigal-a, que ella não a queria deixar!...» + +E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que, +havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar. + +Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a +cabeça coberta por um lenço branco. + +Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais +passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias á +pequena. + +Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca +deitada nos joelhos. + +--Eu conheço aquella boneca!...--disse eu de mim para mim. + +E, não podendo resistir á curiosidade, bradei: + +--Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?... + +Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, córando de prazer. + +Era escusado dizer-m'o. + +Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não podia +duvidar... Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel +na fronte. + +De tempos a tempos, nas raras horas de descanço, Maria entretinha-se com +ella. + +--Quem te viu e quem te vê!...--pensava eu. + +Ás vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que +tratos que sofria a desgraçada! + +Roçada por aquellas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia, +empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim, +singularissimo o aspecto da triste! + +Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a +fraternisar com o povo. + +A misera mudára mais uma vez de nome!... + +De sr.ª D. Anna passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê. + +Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça. + +Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com +a boneca. + +Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, +encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre +boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de +trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que +mais familiares eram á pequena. + +Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a, +mandavam-n'a buscar agua á fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e +acabavam por a despedir. + +Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára de ser feliz. + +Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho! + +Desmaiada de côres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos, +desfeito o carmim dos labios, a boneca não promettia longa duração. + +Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi, +tentando em vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera. + +Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim! + +Um dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, +espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem mil +immundicies. + +Eu estava á porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava +melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que +partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto... Um objecto, +arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no +leito do enxurro... + +Olhei... Era a boneca!... + +A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo até esbarrar n'uma +pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou +quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e +o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas +profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem! + +Será pieguice, será o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me +impressionou o fim da pobre boneca. + +Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á vidraça do +sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa: + +--Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!? + +--Não fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!... + +--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?... + +--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e +feia!... + +Curvei a cabeça ante aquella razão, e segui o meu caminho. + +Pobre boneca! + + + + +*Inconveniente da riqueza* + + +Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi +surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para +outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já +todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo +estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual +com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso +Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma quinta, e bateu á +porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir. + +--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite? +Não se havia de arrepender.» + +E accrescentou: + +--Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a +trabalhar?» + +--Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser perseguido +por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã o que lhe devo, +portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para +o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto não nos fica +nada, e não sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus +quizer!» + +Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão pelos +olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e disse-lhe: + +--«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te +havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.» + +Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e +approximou-a do trigo. + +--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a +tudo!» + +Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se, +de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. Á vista d'um tal +milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos. + +--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua +pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, serás +recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te +enriquece.» + +Dito isto desappareceu. + +E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto +como a egreja. + +O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella +casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e +seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que +se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, +ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera +enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o +enriquecêra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na +candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a +casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais +absoluta. + + + + +*Querer é poder* + + +--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por +experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira. + +Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade. + +--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e +solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas +vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei +uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei. + +O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido. + +O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma +semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu +fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão +extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei: + +--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia, +pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são +os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te +distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor +extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor +incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha. + +O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do +rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e +deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e +horas, punha-se a resar. + +Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que +chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho. + +--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.» + +--Encontrar um diamante que caiu ao rio.» + +--Então, respondeu o velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque +vejo qual é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar +as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.» + +Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha +do rei. + + + + +*Qual será rei?* + + +Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o +successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia pertencer, +não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno. + +Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse posto de pé contra um +muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle +alvo, seria o escolhido para successor. + +Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito +tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defuncto. O principe +soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos atirariam peór, e que +por conseguinte seria elle quem viria a reinar. + +O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais +alegre do que o outro principe. + +O terceiro varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho +quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar melhor. + +Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mãos as +flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas +longe de si, e desatou a chorar: + +--«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jámais +consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus +proprios filhos!» + +Os grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais +digno. + + + + +*Os tres véos de Maria* + + +O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve. +Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de +seda tão bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em +cima. + +Este véo branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão. + +O segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que +sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, sem amparo, na casa triste e +abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de +marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas +lagrimas. + +O véo negro só o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de +Jesus no convento da Ave-Maria. + +O terceiro véo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado +d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos. + +Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou +no paraizo. + + + + +*Os pequenos no bosque* + + +Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos +outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos +para o bosque que encontremos lá toda a especie de lindos bichinhos, que +não fazem outra cousa senão brincar, e nós brincaremos com elles.» + +Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da +abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar, +disse-lhes: + +--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a +outra já não está solida.» + +--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.» + +--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu +ninho.» + +--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda +hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a +minha _toilette_.» + +E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo +a saltar e a tagarellar, tambem não queres brincar comnosco?» + +--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam +que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanço nem um +momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, ás colinas, +aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios, +tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje +acabára, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder +um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.» + +Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um +pintasilgo, em cima d'um ramo. + +--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?» + +--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo +o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além d'isso que tomar +parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o +meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com uma outra cantiga, +que á noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora, +preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incommodar os +habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.» + +Os pequenos aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só é +ligitimo, quando é a recompensa do trabalho. + + + + +*O chapellinho encarnado* + + +Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua +mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, que passava o +tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, deu-lhe um dia um chapéo +de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéo +novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do +chapellinho encarnado. + +A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia +legua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita: + +--Tua avó está doente, e não pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae +levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a +garrafa, não andes a correr, vae devagarinho e volta logo.» + +--Sim, mamã, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.» + +Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se +a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita, +que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum. + +--Bons dias, chapellinho encarnado.» + +--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.» + +--Onde vaes tão cedo?» + +--A casa da minha avó que está doente.» + +--E levas-lhe alguma cousa?» + +--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe +dar forças.» + +Dize-me onde mora a tua, avó, que tambem a quero ir ver.» + +--É perto, aqui no fim da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito +grandes, e no jardim ha muitas nozes.» + +--Ah! tu é que és uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava +de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e +que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que +quantidade de plantas medicinaes que se encontram!» + +--O senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita, +visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma +que fizesse bem a minha avó.» + +--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e +aquella.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas +venenosas. A pobre creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó. + +--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com +grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.» + +E poz-se a correr em direcção da casa da avó, emquanto que a pequerrucha +se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado. + +Quando o lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a +avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?» + +--É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da +pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.» + +--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.» + +Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira, +e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama. + +Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a +porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter +fechada. + +O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do +focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel. + +--Ai! avósinha, disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?» + +--É para te ouvir melhor, minha filha.» + +--E porque estás com uns olhos tão grandes?» + +--É para te vêr melhor.» + +--E para que estás com os braços tão grandes?» + +--É para te poder abraçar melhor.» + +--E Jesus! para que tens hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão +agudos?» + +--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se á pobre +pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a +resonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e +que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha está com um +pesadelo, está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, e +vê o lobo estendido na cama. + +--Olá, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.» + +Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a +dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o +animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe +cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e +saltou para o chão, gritando: + +--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada! + +A avó saiu também contentissima por ver outra vez a luz do dia. + +O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador metteu-lhe então +duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a +neta para verem o que se ia passar. + +Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se +para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e +não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e +affogou-se. + +O caçador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha +e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado +prometteu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o +prohibisse. + + + + +*Os cinco sonhos* + + +Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva numerosa, perseguiu +um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, que, apesar da +ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só +então que viu que estava só, tendo a sua côrte ficado muito para traz; +sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria +no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões. +Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da +entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe +quizeram logo contar. + +O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira: + +--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que acaba de entrar +aqui, e punha-o na minha cabeça.» + +--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.» + +--E eu que estava pondo o seu manto.» + +--E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do +meu pescoço aquella pesada cadeia d'ouro, da qual está pendurada a sua +trompa de caça.» + +--Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar tudo, e +mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e +qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço senão uma cousa, é que +me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caça.» + +Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido +d'um moribundo deve ser respeitado. + +Carlos Magno levou á boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou +d'ella sons tão fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os +seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé d'elle. + +--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem +eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser +enforcados diante d'este casebre.» + +E o sonho realisou-se immediatamente. + + + + +*A egreja do rei* + + +Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da +Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para +a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se +concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do +marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só elle, e mais +ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite +seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e substituido por o +d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar +pôr o seu nome na inscripção, e de novo foi substituido pelo da pobre +mulher; á terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou +então que lhe trouxessem a mulher á sua presença: + +--Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem +fosse com o que fosse para a edificação d'esta egreja; vejo que não +cumpriste as minhas ordens.» + +--«Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas +ordens, apesar da magua que sentia por não poder offerecer o meu +pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa +magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, +que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas +à construcção da egreja.» + +--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na +inscripção do monumento, disse-lha o rei.» + +Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na lapide da egreja +o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda. + + + + +*O valente soldado de chumbo* + + +Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos +terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que attitude marcial, +d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos! +A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da +caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!» +que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado +de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a +mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam +maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de +menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo lugar, e já não havia +chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros não estavam mais +firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e é este o que +precisamente nos interessa. + +Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros +brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de +papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos salões. +Á volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia +poeticamente n'um pedaço d'espelho que fingia um lago, onde nadavam +pequeninos cysnes de cêra. Tudo isto era encantador, mas não tanto como +uma menina que estava á porta, e que era tambem de papel, vestida com um +lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina +tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha +levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e +imaginou que, como elle, não tinha senão uma perna. + +--Ali está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma grande +fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e +quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No entantanto +preciso conhecel-a.» + +Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a +elegante dançarina, que estava sempre n'um pé só, sem perder o +equilibrio. + +Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas +da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram +a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de +chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas +como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas +e saltos mortaes, o lapis traçou mil arabescos phantasticos n'uma louza, +emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar. +Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a +dançarinasinha. Ella no bico do pé, e elle n'uma perna só, a +espreital-a. + +Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar +de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza. + +--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro +sitio.» + +Mas o soldado fez que não ouvia. + +--Espera até ámanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.» + +No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de +chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por +causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a +perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta +enterrada entre duas lages. + +A creada e o rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a +esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!» +tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva +começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois +do aguaceiro passaram dois garotos. + +--Olà! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o +navegar.» + +Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de +chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois +garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! +Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava +d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se +impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro. + +De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a +escuridão como na caixa dos soldados. + +--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me +metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina +estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas +vezes maior.» + +D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do +cano. + +--Venha o teu passaporte.» + +Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na +espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, +rangendo os dentes, e gritando ás palhas, e aos cavacos:--Façam-n'o +parar, façam-n'o parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.» + +Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e +sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente. +Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para elle, +como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem +poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a +queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se +atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto. + +O barco, depois de ter andado á roda durante muito tempo, encheu-se +d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do +soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a +agua passou por cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo, +pensou na gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia: + +--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.» + +O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi +devorado por um grande peixe. + +Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que +talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado +estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro. + +O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim +parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia, +e alguem exclamou: + +--Olha um soldado de chumbo!» + +O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a +cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no +soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a +gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na +barriga d'um peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso. +Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto é verdade que acontecem +cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de cuja +janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam +em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina sempre de perna +no ar. O soldado de chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria +derramado lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella, +ella olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro. + +De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no +fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé. + +O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um clarão +sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres lhe tinham +desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas +viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a +dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre +intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma +porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que +desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, já não era mais +que uma pequena massa informe. + +No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um +objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e tudo o que +restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha +ennegrecido. + + + + +*João Pateta* + + +João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A +gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe +mandou-o á feira comprar uma foice. Á volta, começou a andar com a foice +á roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a. + +--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em +um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.» + +--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais +esperto.» + +Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que +as não perdesse. + +--Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.» + +--Então, João, onde estão as agulhas?» + +--Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a +passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá as agulhas, não +podem estar em sitio melhor.» + +--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de as +tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.» + +--Perdão, respondeu João, para a outra vez, heide ser mais esperto.» + +Na outra semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar +uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz a +manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. Imagine-se o estado em +que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida. + +A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia +resolveu-se a mandal-o á feira vender duas gallinhas. + +--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam +outro.» + +--Está entendido, respondeu João.» + +Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle. + +--Queres seis tostões por essas gallinhas?» + +--Ora adeus! minha mãe recommendou-me, que não acceitasse o primeiro +preço, mas que esperasse o segundo.» + +--E tens muita rasão. Dou-te um cruzado.» + +--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro, +mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ella não tem que me ralhar.» + +Depois d'isto, João foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que +mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma +experiencia, e disse-lhe: + +--Vae vender este carneiro á feira. Mas não te deixes enganar. Não o +entregues senão a quem te der o preço mais elevado.» + +--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.» + +--Quanto queres por esse carneiro? + +--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado. + +--Quatro mil réis?» + +--É o preço mais elevado?» + +--Pouco mais ou menos.» + +--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára a uma escada. + +--Quanto?» + +--Dez tostões:» + +--É menos, respondeu timidamente o João.» + +--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não ha um +preço mais elevado.» + +--Tem rasão. É seu o carneiro.» + +Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou +comprar cousa alguma. + + + + +*Branca de Neve* + + +Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia +d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de vez em +quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão, +distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue. + +--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos +como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros +como este ébano.» + +Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha, +que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão branco, +que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito +tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher +d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos extraordinario. Era tão +formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas +vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho +magico dizia-lhe: + +--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no +mundo?» + +--És tu, respondia o espelho.» + +No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais +formosa. Tinha apenas sete annos, e já ninguem a podia ver sem ficar +maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu +espelho, disse-lhe: + +--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no +mundo?» + +--Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.» + +A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dôr aguda, +como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela +innocente Branca. Não podia socegar nem de dia, nem de noite. Para +satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe: + +--Quero quo Branca desappareça. Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me +provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o +coração.» + +O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e +dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança chorava e +lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella não tinha feito +mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas +lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se +as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas sim da rainha. Assim +fez, e para mostrar o coração de Branca á rainha, matou um cabrito, e +tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou +contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma +mulher no mundo é tão bella como eu. + +A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava +cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e +andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez +tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o +deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas. + +Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome +e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito +limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de +brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas, +e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco +do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo, +deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente. + +Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros +pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo +que tinham gente em casa. Um d'elles disse: + +--Quem comeu o meu pão?» + +E os outros successivamente: + +--Quem pegou no meu garfo?» + +--Quem comeu o meu caldo?» + +--Quem bebeu o meu vinho?» + +E emfim um d'elles: + +--Quem está ahi deitado na minha cama?» + +Reuniram-se todos á roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz +das lanternas viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente, +e affastaram-se sem fazer bulha, para a não accordar. Branca no dia +seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si +aquelles sete anões das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura, +que não tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava. +Branca contou a sua triste historia, e os anões disseram-lhe: + +--Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?» + +--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.» + +Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias. +Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as +minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem. + +Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não +tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, +e disse-lhe: + +--Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda +que ha no mundo?» + +E o espelho respondeu: + +--Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete +montanhas, e Branca é mais linda do que tu.» + +Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, +e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que +modo? Uma manhã partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto +cheio d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu á +porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas joias?» + +Os anões tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras +estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser +prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no +cesto, esqueceu-se das suas promessas. + +--Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao +pescoço.» + +Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os +anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente +inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas +gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si pouco +a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido. + +--Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira não era +outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, não deixes +entrar aqui ninguem, quando não estivermos em casa.» + +Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do +espelho, e disse-lhe: + +--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no mundo? +Responde. + +E o espelho respondeu: + +--És tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está +nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.» + +A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a +infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou ás sete +montanhas, e bateu á porta da cabana. + +--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á janella, e respondeu: + +--Vá-se embora, aqui não entra ninguem.» + +--Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. Já +viu outro tão bonito?» + +Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a +porta. + +--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o na cabeça.» + +Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e +Branca caiu morta. + +Á noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria. +Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e +tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente. + +No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio. +Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que +o espelho respondeu como antecedentemente. + +--Ah! é preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me +sacrificar. + +Vestiu-se de camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que +estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.» + +--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?» + +--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar +ninguem, nem compro coisa alguma.» + +--Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão +bonita, quero dar-lhe uma.» + +--Obrigada, não posso acceitar.» + +--Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa +que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora +mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se +tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu fulminada. + +--Ahi tens, para castigo da tua formosura.» + +Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e +perguntou-lhe: + +--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?» + +E o espelho respondeu: + +--És tu, és tu.» + +--Até que emfim!» + +Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o +licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava +fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos +da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não podiam +acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquillo, +as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quizeram +enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de cristal, e escreveram em cima. +«Aqui jaz a filha d'um rei;» puzeram o caixão n'uma das sete montanhas, +e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se +assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais +pequena alteração. + +Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar á +caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lh'o cedessem, fosse por preço +que fosse. + +--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixão, que +é o nosso thesouro.» + +--Então dêem-m'o, já não posso viver sem contemplar este rosto de +mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me +façam isto.» + +Os anões, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para +o levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu um +balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha +engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O +joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O +casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e +rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de +Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos +os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha: + +--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?» + +E o espelho respondeu: + +--Branca é mais formosa que tu. + +A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes +fossem descobertos, que morreu de repente. + +Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de +princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus bemfeitores. + + + + +*A rapariguinha e os phosphoros* + + +Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de +dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão +passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os +pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas +tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já +tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua +a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; +quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a intenção de fazer +d'elle um terço para o seu primeiro filho. + +A pequenita caminhava com os pésinhos nús, arroxeados pelo frio; tinha +no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na +mão um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido +compradores, e por isso não apurára cinco réis. + +Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos +longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoço; mas +pensava ella porventura nos seus cabellos annelados? + +As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos +manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava. + +Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada +vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia, +porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em sua casa +fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento +atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas +mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso +lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o +aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como +ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que +luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro +de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão suavemente, que era um regalo. + +A pequerrucha ia já a estender os pésitos para os aquecer tambem, quando +a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma +pontita de phosphoro consumido. + +Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu +a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse +muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha +alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha +assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume +delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do +prato, e caíu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca +espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de +si a parede fria e tenebrosa. + +Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo +de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a +que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem +sumptuoso. + +Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões accesos, e as estampas +coloridas, como as que ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. +Quando ia agarral-as com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os +balões da arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se +tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo +um longo rasto de fogo. + +--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que +lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando +cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.» + +Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe +appareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo. + +--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes +embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a panella de +ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal. + +Accendeu o rosto do masso, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e +os phosphoros espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua +avó tinha sido tão formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas +alegres, no meio d'este deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que +já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso. + +Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram a pequerrucha, entre os +dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios... +morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu +alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que +faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se, +disse um homem que passou.» E ninguem soube nunca as lindas coisas que +ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua +velha avó no dia do Anno Novo. + + + + +*O primeiro peccado de Margarida* + + +Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus +tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde +acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.» + +Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como +ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha +ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha +joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho. + +Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar. + +E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção +d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia +sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez. + +N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho, +á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento. + +Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das +suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo. +Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o +collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse +bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda +contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que +inquietou no paraizo o seu anjo da guarda. + +O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de +Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das +mãos. + +Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si +um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo +preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a +respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, +perguntou-lhe: + +--Qual é o caminho da cidade?» + +Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se +tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma +estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que +o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com +um sorriso estranho e diabolico. + +N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de +Margarida, e pediu-lhe uma esmola. + +Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado. + +O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre +Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda +disfarçado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que +tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste. + + + + +*Um nome inscripto no céo* + + +Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde cabana a +pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem +ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu +então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse: + +--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.» + +E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater á mesma +porta. + +--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada +que te dar.» + +--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo. + +E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em +cima da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que +lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez. + +--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se +embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.» + +Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-hão no +Paraizo, e mais tarde nós o viremos a saber. + + + + +*O linho* + + +O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e +transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre +elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o +d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo. + +--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, +e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me feliz. Não ha +ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello +futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou +feliz, feliz a mais não poder ser!» + +--Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não conheces o +mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.» + +E rangendo lastimosamente, cantaram: + + --Cric, crac! cric, crac! crac! + --Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bella +manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e +florir. Sou muitissimo feliz.» + +Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela +cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de +polé. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e +depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade! + +--Não se póde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessario +soffrer, o soffrimento é a mãe da experiencia.» + +Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o, +cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois, +puzeram-n'o n'uma roca, e então perdeu a cabeça inteiramente. + +--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas +torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.» + +E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a metter no tear e a +transformal-o n'uma peça de panno. + +--Isto é extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que +grandes tolas aquellas silvas quando cantavam: + + Cric, crac! cric, crac! crac! + Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso +tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto, +tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida, +ninguem trata da gente, e não bebemos outra agua a não ser a da chuva. +Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as +manhãs, e á noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura +fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a +melhor peça da parochia. Não posso ser mais feliz.» + +Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e +picaram-n'o com uma agulha. Não era lá muito agradavel, mas em +compensação fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas. + +--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é +abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para se viver em +paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um +só grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade! + +O panno das camisas foi-se gastando com o tempo. + +--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas não +se fazem impossiveis.» + +E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era +finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem +adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel +branco magnifico. + +--Oh que agradável surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino +do que d'antes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima +de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!» + +E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de +numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores. + +--Ora aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, +quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que +ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei +explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe +perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha +sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á maior gloria. +Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se» +tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou +viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e +instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora +as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz, +immensamente feliz!» + +Mas o papel não foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá +estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, +que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de +papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta á roda +do mundo. A meio caminho já estaria gasto. + +--É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou +ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as +palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os +livros vão por esse mundo fóra. A sua missão é realmente bella, e eu +estou contente, e julgo-me feliz. + +O papel foi empacotado, e lançado para uma estante. + +--Depois do trabalho é agradável o descanço, pensou elle. É n'este +isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que +eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira +perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.» + +Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o +que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as +creanças da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também, +depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir, +e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel +foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande +chamma, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra as +suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho +semilhante. + +Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as +palavras, todas as idèas desappareceram em linguas de fogo. + +--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da lavareda, que +pareciam mil vozes reunidas n'uma só. A chamma saiu pela chaminé, e no +meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do +homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado. +Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu, +quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda elles dançavam +sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas +encarnadas. + +As creanças cantavam á roda da cinza inanimada: + + Cric, crac! cric, crac! crac! + Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que +é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.» + +As creanças não poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas +tambem não era necessario, porque as creanças não devem saber tudo. + + +FIM. + + + + +*INDICE* + + +A mãe +O ouro +Doçura e bondade +O malmequer +Não quero +Piloto +O rico e o pobre +Como um camponez aprendeu o Padre Nosso +O talisman +A alma +Alberto +A canção da cerejeira +Os gigantes da montanha e os anões da planície +A creança, o anjo e flôr +Presente por presente +O pinheiro ambicioso +Perfeição das obras de Deus +João e os seus camaradas +O rabequista +Os pecegos +A urna das lagrimas +Reconhecimento e ingratidão +O fato novo do sultão +Boa sentença +Os animaes agradecidos +O ermitão +Carlos Magno e o abade de S. Gall +A boneca +Inconveniente da riqueza +Querer é poder +Qual será rei? +Os três véos de Maria +Os pequenos no bosque +O chapellinho encarnado +Os cinco sonhos +A egreja do rei +O valente soldado de chumbo +João Pateta +Branca de Neve +A rapariguinha e os phosphoros +O primeiro peccado de Margarida +Um nome inscripto no céo +O linho + + +[A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade, +residente no Rio de Janeiro.] + + + + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA *** + +***** This file should be named 16429-0.txt or 16429-0.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/6/4/2/16429/ + +Updated editions will replace the previous one--the old editions will +be renamed. + +Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright +law means that no one owns a United States copyright in these works, +so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the +United States without permission and without paying copyright +royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part +of this license, apply to copying and distributing Project +Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm +concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, +and may not be used if you charge for an eBook, except by following +the terms of the trademark license, including paying royalties for use +of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for +copies of this eBook, complying with the trademark license is very +easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation +of derivative works, reports, performances and research. Project +Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away--you may +do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected +by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark +license, especially commercial redistribution. + +START: FULL LICENSE + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full +Project Gutenberg-tm License available with this file or online at +www.gutenberg.org/license. + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project +Gutenberg-tm electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or +destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your +possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a +Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound +by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the +person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph +1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this +agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm +electronic works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the +Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection +of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual +works in the collection are in the public domain in the United +States. If an individual work is unprotected by copyright law in the +United States and you are located in the United States, we do not +claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, +displaying or creating derivative works based on the work as long as +all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope +that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting +free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm +works in compliance with the terms of this agreement for keeping the +Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily +comply with the terms of this agreement by keeping this work in the +same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when +you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are +in a constant state of change. If you are outside the United States, +check the laws of your country in addition to the terms of this +agreement before downloading, copying, displaying, performing, +distributing or creating derivative works based on this work or any +other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no +representations concerning the copyright status of any work in any +country other than the United States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other +immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear +prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work +on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the +phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, +performed, viewed, copied or distributed: + + This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and + most other parts of the world at no cost and with almost no + restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it + under the terms of the Project Gutenberg License included with this + eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the + United States, you will have to check the laws of the country where + you are located before using this eBook. + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is +derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not +contain a notice indicating that it is posted with permission of the +copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in +the United States without paying any fees or charges. If you are +redistributing or providing access to a work with the phrase "Project +Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply +either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or +obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm +trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any +additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms +will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works +posted with the permission of the copyright holder found at the +beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including +any word processing or hypertext form. However, if you provide access +to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format +other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official +version posted on the official Project Gutenberg-tm website +(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense +to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means +of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain +Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the +full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works +provided that: + +* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed + to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has + agreed to donate royalties under this paragraph to the Project + Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid + within 60 days following each date on which you prepare (or are + legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty + payments should be clearly marked as such and sent to the Project + Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in + Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg + Literary Archive Foundation." + +* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or destroy all + copies of the works possessed in a physical medium and discontinue + all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm + works. + +* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of + any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days of + receipt of the work. + +* You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project +Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than +are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing +from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of +the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the Foundation as set +forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +works not protected by U.S. copyright law in creating the Project +Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm +electronic works, and the medium on which they may be stored, may +contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate +or corrupt data, transcription errors, a copyright or other +intellectual property infringement, a defective or damaged disk or +other medium, a computer virus, or computer codes that damage or +cannot be read by your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium +with your written explanation. The person or entity that provided you +with the defective work may elect to provide a replacement copy in +lieu of a refund. If you received the work electronically, the person +or entity providing it to you may choose to give you a second +opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If +the second copy is also defective, you may demand a refund in writing +without further opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO +OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT +LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of +damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement +violates the law of the state applicable to this agreement, the +agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or +limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or +unenforceability of any provision of this agreement shall not void the +remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in +accordance with this agreement, and any volunteers associated with the +production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm +electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, +including legal fees, that arise directly or indirectly from any of +the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this +or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or +additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any +Defect you cause. + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of +computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It +exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations +from people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future +generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see +Sections 3 and 4 and the Foundation information page at +www.gutenberg.org + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by +U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's business office is located at 809 North 1500 West, +Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up +to date contact information can be found at the Foundation's website +and official page at www.gutenberg.org/contact + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without +widespread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine-readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To SEND +DONATIONS or determine the status of compliance for any particular +state visit www.gutenberg.org/donate + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. To +donate, please visit: www.gutenberg.org/donate + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project +Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be +freely shared with anyone. For forty years, he produced and +distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of +volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in +the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not +necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper +edition. + +Most people start at our website which has the main PG search +facility: www.gutenberg.org + +This website includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + diff --git a/16429-0.zip b/16429-0.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..723174a --- /dev/null +++ b/16429-0.zip diff --git a/16429-h.zip b/16429-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..9bf0ed2 --- /dev/null +++ b/16429-h.zip diff --git a/16429-h/16429-h.htm b/16429-h/16429-h.htm new file mode 100644 index 0000000..193db19 --- /dev/null +++ b/16429-h/16429-h.htm @@ -0,0 +1,6894 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" +"http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> +<head> +<meta http-equiv="Content-Type" content="text/html;charset=utf-8" /> +<meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> +<title>The Project Gutenberg eBook of Contos para a infância, by Guerra Junqueiro</title> + +<style type="text/css" xml:space="preserve"> + +body {margin-left: 20%; margin-right: 20%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.poetry {margin-left:20%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> + </head> + <body> + +<div style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold;'>The Project Gutenberg eBook of Contos para a infância, by Guerra Junqueiro</div> +<div style='display:block; margin:1em 0'> +This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and +most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions +whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms +of the Project Gutenberg License included with this eBook or online +at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you +are not located in the United States, you will have to check the laws of the +country where you are located before using this eBook. +</div> +<div style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: Contos para a infância<br /> +Escohidos dos melhores auctores</div> +<div style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Guerra Junqueiro</div> +<div style='display:block;margin:1em 0'>Release Date: August 4, 2005 [eBook #16429]<br /> +[Most recently updated: May 11, 2021]</div> +<div style='display:block;margin:1em 0'>Language: Portuguese</div> +<div style='display:block;margin:1em 0'>Character set encoding: UTF-8</div> +<div style='display:block; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Produced by: Biblioteca Nacional Digital, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team</div> +<div style='margin-top:2em;margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA ***</div> + +<p>NOTA: Este texto tem duas versões em língua portuguesa moderna,<br />a que pode ser aceder clicando numa das seguintes opções: +<br /> +<b><a href="#contos">MODERN HTML</a></b></p> + + + <div> + + <div class="bbox"> + <br /> <br /> + <h1> + CONTOS<br /> PARA A<br /> INFANCIA + </h1> + <h4> + ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES<br /> <br /> POR + </h4> + <h3> + GUERRA JUNQUEIRO + </h3> + <br /> <br /> <br /> + <div class="sbreak"> + <hr /> + </div> + <br /> <br /> + <h3> + LISBOA + </h3> + <h4> + TYPOGRAPHIA UNIVERSAL<br /> <span class="smallcaps">de thomaz quintino + antunes, impressor da casa real<br /> </span> Rua dos Calafates, 110<br /> + 1877 + </h4> + <br /> + </div> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c1" id="c1"></a>A mãe + </h3> + <br /> Estava uma mãe muito afflicta, sentada ao pé do berço + do seu filho, com medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os + olhos fechados. Respírava com difficuldade, e ás vezes tão + profundamente, que parecia gemer; mas a mãe causava ainda mais + lastima do que o pequenino moribundo.<br /> <br /> N'isto bateram á + porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado n'uma manta + d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de + neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha.<br /> <br /> O + pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns + instantes, e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com + cerveja. O velho começou a embalar a creança, e a mãe, + pegando n'uma cadeira, sentou-se ao lado d'elle. E contemplando o seu + filhinho doente, que respirava cada vez com mais difficuldade, pegou-lhe + na mãosinha descarnada e disse para o velho:<br /> <br /> --Oh! Nosso + Senhor não m'o hade levar! não é verdade?--<br /> + <br /> <span class="pagenum">[4]</span> E o velho, que era a Morte, meneou + a cabeça d'uma maneira extranha, em ar de duvida. A mãe + deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas corriam-lhe em + fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de cabeça; + estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou ligeiramente pelo + somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a tremer de frio.<br /> + <br /> --Que é isto! exclamou, lançando á volta de si + o olhar hallucinado. O berço estava vasio. O velho tinha-se ido + embora, roubando-lhe a creança.<br /> <br /> + <div class="sbreak"> + <hr /> + </div> + <br /> A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. + Encontrou uma mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A + Morte entrou-te em casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu + filho. Anda mais depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a + entregar.»<br /> <br /> --Por onde foi ella? gritou a mãe. + Dize-m'o pelo amor de Deus!»<br /> <br /> --Sei o caminho por onde + ella foi, respondeu a mulher vestida de preto. Mas só t'o ensino, + se me cantares primeiro todas as canções que cantavas ao teu + filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e + muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.<br /> <br /> + --Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não + me demores, porque quero encontrar o meu filho.--<br /> <br /> A Noite ficou + silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou + a cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais + do que as palavras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[5]</span> No fim + disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de + pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.»<br /> + <br /> A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o + caminho, e não sabia que direcção havia de seguir. + Diante d'ella havia um mattagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores, + de cujos ramos pendia a neve cristallisada.<br /> <br /> + <div class="sbreak"> + <hr /> + </div> + <br /> --Não viste a Morte que levava o meu filho?» + perguntou-lhe a mãe.<br /> <br /> --Vi, respondeu o mattagal, mas não + te ensino o caminho, senão com a condição de me + aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»<br /> <br /> E a mãe + estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos + dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se de + folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite d'inverno + frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe + angustiosa.<br /> <br /> E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia + seguir. Foi andando, andando, até que chegou á margem d'um + grande lago, onde não havia nem barcos, nem navios. Não + estava sufficientemente gelado para se andar por elle, e era + demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo, querendo + encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio do seu + amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do + lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, + faria talvez um milagre.<br /> <br /> <span class="pagenum">[6]</span> --Não! + não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e + entendamo-nos amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das + minhas aguas, e os teus olhos são d'um brilho mais suave do que as + perolas mais ricas que eu tenho possuido. Se queres, arranca-os das + orbitas á força de chorar, e levar-te-hei á estufa + grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a habitação + da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro, + é ella quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida + d'uma creatura humana.»<br /> <br /> --Oh! o que não darei eu, + para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E apesar de ter já + chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do que nunca, e os seus + olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo do lago, + transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no mundo + uma rainha.<br /> <br /> O lago então ergueu-a, e com um movimento de + ondulação depositou-a na outra margem, aonde havia um + maravilhoso edificio, com mais d'uma legua de comprido. De longe não + se sabia se era uma construcção artistica ou uma montanha + com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada; + tinha dado os seus olhos.<br /> <br /> --Como heide eu reconhecer a Morte + que me roubou o meu filho!» bradou ella desesperada.<br /> <br /> --A + Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava + d'um lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. + Como vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?»<br /> <br /> + --Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso. <span + class="pagenum">[7]</span> Compadece-te de mim, e dize-me onde está + o meu filho.»<br /> <br /> --Eu não o conheço, e tu + és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas e muitas arvores, + que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para as tirar da + estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este sitio uma + arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem com ella. + Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes, sente-se bater um + coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as + pulsações do coração de teu filho. E que davas + tu por eu te ensinar o que tens ainda de fazer?»<br /> <br /> --Já + não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até + ao fim do mundo buscar o que tu quizeres.--«Fóra d'aqui não + preciso de nada, respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos + negros; tu sabes que são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos + meus cabellos brancos.»--Não pedes mais nada do que isso? + disse a mãe. Ahi os tens, dou-t'os de boa vontade.»<br /> + <br /> E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o + seu orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e + inteiramente brancos da velha.<br /> <br /> Esta levou-a pela mão + á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma vegetação + maravilhosa.<br /> <br /> Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos + mimosissimos ao lado de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem + plantas aquaticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas + raizes se ennovelavam cobras asquerosas.<br /> <br /> <span class="pagenum">[8]</span> + Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos frondosos; + depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa, tomilho, ortelã + e outras plantas humildes que representavam o genero de utilidade das + pessoas que ellas symbolisavam.<br /> <br /> Havia ainda grandes arbustos em + vasos demasiadamente estreitos, que pareciam rebentar; mas viam-se tambem + floresitas insignificantes, em vasos de porcelana, na melhor terra, + circumdadas de musgo, tratadas com esmero delicadissimo. Tudo isso + representava a vida dos homens, que a essa hora existiam no mundo, desde a + China até à Groenlandia.<br /> <br /> A velha queria + mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe impacientada + pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas pequeninas; + tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do coração, + e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as pulsações + do coração do seu filho.<br /> <br /> --É elle!» + exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, + pendido sobre a terra, parecia completamente estiolado.<br /> <br /> --Não + lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte vier, que não + tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de arrancar + todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque + tem de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o + seu consentimento.»<br /> <br /> N'isto sentiu-se um vento glacial, e + a mãe adivinhou que era a Morte, que se approximava.<br /> <br /> + <span class="pagenum">[9]</span> --Como é què deste com o + caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda primeiro do que eu! Como o + conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ella.<br /> <br /> E a + Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.<br /> + <br /> Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, + tendo o cuidado de não ferir uma só das pequeninas petalas. + Então a Morte soprou-lhe nas mãos, fazendo-lh'as cair + inanimadas. O halito da Morte era mais frio do que os ventos enregelados + do inverno.<br /> <br /> --Não pódes nada comigo!» disse + a Morte.--Mas Deus tem mais força do que tu, respondeu a mãe.»--«É + verdade, mas eu não faço senão aquillo que elle + manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e arbustos, + quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins, um + dos quaes é o grande jardim do Paraizo. São regiões + desconhecidas; ninguém sabe o que se lá passa.»<br /> + <br /> --Misericordia! misericordia! soluçou a mãe. Não + me roubem o meu filho, agora que acabo de o encontrar!» Supplicava e + gemia. A Morte conservava-se impassivel; agarrou então + instantaneamente em duas flores lindissimas e disse á Morte: + «Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar, despedaçar não + só esta, mas todas as flores que estão aqui!<br /> <br /> --Não + as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és + desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra + mãe!» disse a pobre mulher, largando as flores + immediatamente.--Toma, <span class="pagenum">[10]</span> aqui tens os teus + olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei do + lago. Não sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o + fundo d'este poço; vê o que ias destruir, se arrancasses + estas flores. Verás passar nos reflexos da agua, como n'uma + miragem, a sorte destinada a cada uma d'essas duas flores, e a que teria + tido o teu filho, se porventura vivesse.»<br /> <br /> Debruçou-se + no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria, quadros + risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de miseria, + d'angustias e de desolação.<br /> <br /> --N'isto que eu vejo, + disse a mãe afflictissima, não distingo qual era a sorte que + Deus destinava ao meu filho.»<br /> <br /> --Não posso + dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto que te appareceu + viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.»<br /> <br /> A mãe + desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me: + era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é + verdade! Falla! Não me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, não + vá elle soffrer desgraças tão horriveis. O meu + querido filho! Quero-lho mais que á minha vida. As angustias que + sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos. Esquece as minhas lagrimas, + as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz e tudo o que disse.»<br /> + <br /> --Não te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te + entregue o teu filho ou que o leve para a região desconhecida de + que não posso fallar-te!» Então a mãe + allucinada, convulsa, torcendo os braços, deitou-se de joelhos e + dirigindo-se <span class="pagenum">[11]</span> a Deus exclamou: «Não + me ouças, Senhor, se reclamo no fundo do meu coração + contra a tua vontade que é sempre justa! Não me attendas meu + Deus!»<br /> <br /> E deixou cair a cabeça sobre o peito, + mergulhada na sua agonia dilacerante.<br /> <br /> E a Morte arrancou o + pequenino açafroeiro, e foi transplantal-o no jardim do paraiso.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c2" id="c2"></a>O ouro + </h3> + <br /> Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas + d'ouro, empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas + minas; e o resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve + uma grande fome no paiz.<br /> <br /> Mas a rainha, que era prudente e que + amava o povo, mandou fabricar em segredo frangos, pombos, gallinhas e + outras iguarias todas de ouro fino; e quando o rei quiz jantar mandou-lhe + servir essas iguarias de ouro, com que elle ficou todo satisfeito, porque + não comprehendeu ao principio qual era o sentido da rainha; mas, + vendo que não lhe traziam mais nada de comer, começou a + zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem que o ouro não + era alimento, e que seria melhor empregar os seus vassallos em cultivar a + terra, que nunca se cansa de produzir, do que trazel-os nas minas á + busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e que não tem + outro valor além da estimação que lhe é dada + pelos homens, estimação que havia de converter-se em + desprezo, logo que ouro apparecesse em abundancia.<br /> <br /> A rainha + tinha juizo.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c3" id="c3"></a>Doçura e bondade + </h3> + <br /> Ha entre vós, meus filhos, indoles violentas, que não + sabem dominar-se, e que são arrastadas pelas primeiras impressões. + É uma pessima disposição, que é necessario + corrigir; dá lugar a disputas, e a que se commettam acções, + cujo arrependimento chega demasiadamente tarde. Citar-vos-hei dois + exemplos de que fui testemunha.<br /> <br /> Um rapaz, sacudido + violentamente na rua por um homem que vinha diante d'elle, volta-se e dá-lhe + uma bofetada.<br /> <br /> --Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena + que vae ter! bateu n'um cego!»<br /> <br /> Um homem ainda novo + montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns camponezes grosseiros + começaram a apupal-o e a bater no burro, para o fazer correr. O + homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a sua perna + aleijada, disse-lhes: «Se soubesseis que eu era coxo, não + terieis sido tão covardes.»<br /> <br /> Os camponezes, + envergonhados, córaram, afastando-se sem pronunciar uma palavra.<br /> + <br /> Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que + aproveitaram a quem as recebeu.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c4" id="c4"></a>O malmequer + </h3> + <br /> Ouvi com attenção esta pequenina historia!<br /> <br /> + No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que + deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores, + rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no meio + da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a olhos + vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por + elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella manhã, + já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes, + parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava + que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre + florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o + calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.<br /> + <br /> N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira, + sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças + sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle, + sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade + de Deus, e tudo o que <span class="pagenum">[15]</span> sentia + mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com admiravel + nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a + olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha + feliz que cantava e voava.<br /> <br /> «Eu vejo e oiço, pensou + o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! não tenho + rasão de me queixar.»<br /> <br /> Dentro da sebe havia muitas + flores altivas, aristocraticas; quanto menos aroma tinham, mais orgulhosas + se aprumavam. As dalias inchavam-se para parecerem maiores do que as + rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa. As tulipas + brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se + pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o + pequeno malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: + «como são ricas e bonitas! A cotovia irá certamente + visital-as. Graças a Deus, poderei assistir a este bello + espectaculo.» E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu vôo, + não para as dalias e tulipas, mas para a relva, junto do pobre + malmequer, que morto d'alegria não sabia o que havia de pensar.<br /> + <br /> O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando: + «Como a herva é macia! oh! que encantadora florinha, com um + coração d'oiro, vestida de prata!»<br /> <br /> Não + se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave + acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois + no azul do firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde + o malmequer reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas + todo contente, olhou <span class="pagenum">[16]</span> para as outras + flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber, + deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam + cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e ponteagada manifestava o + despeito. As dalias tinham a cabeça toda inchada. Se ellas podessem + fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis ao pobre malmequer. A + florinha viu isto, e ficou triste.<br /> <br /> Passados alguns momentos, + entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e brilhante, + aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.<br /> <br /> «Que + desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se + todas.»<br /> <br /> E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o + malmequer alegrára-se por ser simplesmente uma pequenina flor no + meio da herva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da + tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a + cotovia.<br /> <br /> No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer + abriu as suas folhas ao ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho, + mas o seu canto era triste, muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas + rasões para se affligir: haviam-n'a agarrado e mettido n'uma + gaiola, suspensa entre uma janella aberta. Cantava a alegria da liberdade, + a belleza dos campos e as suas antigas viagens atravez do espaço + illimitado.<br /> <br /> O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe + acudir: mas como? Era difficil. A compaixão pelo pobre passarinho + prisioneiro, fez-lhe esquecer <span class="pagenum">[17]</span> + inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura + resplandecente das suas proprias folhas.<br /> <br /> N'isto dois rapazinhos + entraram no jardim. O mais velho trazia na mão uma faca comprida e + afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas. + Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o que + desejavam.<br /> <br /> «Podemos arrancar d'aqui um pedaço de + relva para a cotovia, disse um dos rapazes, e começou a fazer um + quadrado profundo à volta da florinha.<br /> <br /> --«Arranca + a flor, disse o outro.»<br /> <br /> A estas palavras o malmequer + estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era morrer; e nunca tinha abençoado + tanto a existencia, como no momento em que esperava entrar com a relva na + gaiola da cotovia.<br /> <br /> «Não; deixemol-a, disse o mais + velho. Está ahi muito bem.»<br /> <br /> Foi por conseguinte + poupado, e entrou na gaiola da cotovia.<br /> <br /> O pobre passarinho, + queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia com as azas nos arames + da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus desejos, + articular-lhe uma palavra de consolação.<br /> <br /> + Passou-se assim toda a manhã.<br /> <br /> «Já não + tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me deixarem ao + menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre terrivel, + sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do + sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da + creação!»<br /> <br /> <span class="pagenum">[18]</span> + Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu então + o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe, + afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez + do mundo inteiro, que eu tinha à minha disposição, + deram-me um pedacito de relva, e a ti só por unica companhia. Cada + pésinho de relva substitue para mim uma arvore, e cada uma das tuas + folhas brancas, uma flor odorifera. Ah! como me fazes recordar de todas as + coisas que perdi!<br /> <br /> --Se eu podesse consolal-a! pensava o + malmequer, incapaz de fazer o minimo movimento.<br /> <br /> Comtudo o + perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia + sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a herva, + teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na flor.<br /> + <br /> Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta + d'agua á desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas + azas, sacudindo-as convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha + melancolica; a sua cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração + quebrado de desejos e d'angustias cessou de bater. Vendo este triste + espectaculo, o malmequer não pôde como na vespera fechar as + suas folhas para dormir; curvou-se para o chão, doente de tristeza.<br /> + <br /> Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o + passarinho morto, rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram + o cadaver dentro d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro + de principe, e cobriram o tumulo com folhas de rosas.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[19]</span> Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, + esqueceram-se d'elle e deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de + morto é que o choraram e lhe fizeram honrarias pomposissimas.<br /> + <br /> A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; + d'aquelle que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c5" id="c5"></a>Não quero + </h3> + <br /> Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito + alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» + Parei e perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu + rapaz?--«Não quero dizer á mamã que venho da + escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar, mas antes quero + que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe eu. + És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto + que o outro pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, + ia-se embora todo envergonhado.<br /> <br /> D'ahi a alguns mezes, passando + pela mesma aldeia e tendo de fallar com o professor, entrei na escola, + onde reconheci immediatamente os meus dois pequenos; o que não quiz + mentir, sorria-me, emquanto que o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao + despedir-me interroguei o mestre sobre os dois alumnos: Oh! disse-me elle, + fallando do primeiro, è um magnifico estudante, um pouco teimoso, + mas honrado, sincero, sempre prompto a confessar as suas faltas e o que + é ainda melhor, a reparal-as. O outro pelo contrario, é + mentiroso, covarde e incorrigivel.»--Não me espanto, disse + eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças; + e contei-lhe o que tinha ouvido.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c6" id="c6"></a>Piloto + </h3> + <br /> Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos cães, + e o infatigavel companheiro dos brinquedos das creanças da quinta.<br /> + <br /> Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João + lhe lançava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na + bocca e trazia-o á margem, com grande alegria do pequerrucho e da + sua irmã Joaninha.<br /> <br /> Esta brincadeira recomeçava + vinte vezes sem cançar nunca a paciencia do Piloto. Depois eram + corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do creado + da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações: + partia então como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos + pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.<br /> <br /> Quando o + hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da + carroça; e muito atrevido seria quem saltasse á noite a + parede da quinta.<br /> <br /> Uma vez deu prova d'uma extraordinaria + sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar saccos + de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um sacco.<br /> <br /> + Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração + de hostilidade emquanto o homem seguiu <span class="pagenum">[22]</span> o + caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o + guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.<br /> <br /> Era como se + dissesse: «Onde vaes tu com o trigo de meu dono?»<br /> <br /> O + ladrão quiz pôr então outra vez o sacco d'onde o tinha + tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem + o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com elle n'esta + difficil posição, reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem + divulgar o caso para o não deshonrar.<br /> <br /> Mas o homem ficou + com odio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausencia do + quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para elle sem + desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até + á margem do ribeiro.<br /> <br /> Atou uma grande pedra á + outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o á agua; + mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforço, caiu tambem.<br /> + <br /> Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda + do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e + desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado + duas vezes e trazido para terra o seu mortal inimigo.<br /> <br /> Este, que + estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o cão + que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida.<br /> <br /> Teve + vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si mesmo + e combateu as suas más inclinações.<br /> <br /> O + exemplo do cão corrigiu o homem.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c7" id="c7"></a>O rico e o pobre + </h3> + <br /> Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um + dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e + deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da + estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para + jantar, quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com + o seu preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos + viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham + tempo, e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de + vinho.<br /> <br /> Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois + para a sua codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu + chapeo todo roto, e suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle + menino tão rico, em vez do desgraçado Martinho! que fortuna + se elle estivesse aqui, e eu dentro d'aquella carruagem!» O + preceptor ouviu casualmente o que dizia Martinho e repetiu-o ao seu + alumno, que, lançando a cabeça fóra da carruagem, + chamou Martinho com a mão.<br /> <br /> --Ficarias muito contente, não + é verdade, meu <span class="pagenum">[24]</span> rapaz, podendo + trocar a minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, + replicou Martinho córando, o que eu disse não foi por mal.»--Não + estou zangado comtigo, replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo + fazer a troca.»<br /> <br /> --Oh! está a divertir-se comigo! + tornou Martinho, ninguem quereria estar no meu lugar, quanto mais um bello + e rico menino como o senhor. Ando muitas leguas por dia, como pão + secco e batatas, emquanto que o senhor anda n'uma carruagem, póde + comer frangos e beber vinho.»--Pois bem, volveu o fidalguinho, se me + queres dar tudo aquillo que tens e que eu não tenho, dou-te em + troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho ficou com os olhos + espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o preceptor continuou: + «Acceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho, ainda m'o + pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada de me ver + entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a idéa + da entrada triumphante na sua aldeia.<br /> <br /> O fidalguinho chamou os + criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a descer. Mas qual foi a + surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma perna de pau e que a outra + era tão fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas: depois, + olhando para elle de mais perto, Martinho observou que era muito pallido e + que tinha cara de doente.<br /> <br /> Sorriu para o rapazito com ar + benevolo, e disse-lhe:--Então sempre desejas trocar? Querias + porventura, se podesses, deixar as tuas pernas valentes e as tuas faces córadas, + pelo prazer de ter <span class="pagenum">[25]</span> uma carruagem e andar + bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou + Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se + tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro os + meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças + a Deus pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.<br /> <br /> + «Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e + comes mal, tens força e saude, coisas que valem mais que uma + carroagem, e que não podem comprar-se com dinheiro.<br /> <br /> + <br /> <br /> + <h3> + <a name="c8" id="c8"></a>Como um camponez aprendeu o Padre Nosso + </h3> + <br /> Tinha o coração duro, e não dava esmolas. + Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitencia resar sete + vezes o Padre Nosso.<br /> <br /> «Não o sei, e nunca o pude + aprender, respondeu o aldeão.»<br /> <br /> «Pois n'esse + caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a credito um + alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da minha parte.»<br /> + <br /> No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.<br /> + <br /> «Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.<br /> <br /> «Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, + respondeu o pobre.»<br /> <br /> «E o teu appellido?»<br /> + <br /> «Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.»<br /> <br /> E o + pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.<br /> <br /> Ao outro dia + chega segundo pobre.<br /> <br /> «Como te chamas?<br /> <br /> «Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.»<br /> + <br /> «E o teu appellido?»<br /> <br /> «Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[27]</span> E partiu com o seu alqueire de + trigo.<br /> <br /> Veiu terceiro pobre.<br /> <br /> «Como te chamas?»<br /> + <br /> «Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.»<br /> <br /> «E o + teu appellido?»<br /> <br /> «Dae-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.»<br /> + <br /> E levou o seu alqueire.<br /> <br /> Vieram ainda dois pobres + successivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao + _Amen_.<br /> <br /> Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.<br /> + <br /> «Então já sabes o Padre Nosso?»<br /> <br /> + «Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos + pobres a quem emprestei o meu trigo.»<br /> <br /> «Quaes são? + tornou o padre.»<br /> <br /> E o aldeão enumerou-lh'os a + seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.<br /> <br /> + «Já vês, disse o confessor, que não era muito + difficil aprender o Padre Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c9" id="c9"></a>O talisman + </h3> + <br /> Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, + mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, + o que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus + negocios com uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue + inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção + da sua casa.<br /> <br /> «Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu + collega, qual é a razão porque a sorte nos trata de um modo + tão differente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja está + tão bem situada como a tua, e apezar d'isso, emquanto tu ganhas, eu + não faço senão perder. E não é porque + eu seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado + algumas vezes se não terás tu por acaso algum precioso + talisman.»<br /> <br /> «Effectivamente, respondeu o outro, + herdei de meu pae um talisman de uma virtude incomparavel. Trago-o ao + pescoço, e ando assim com elle todo o dia por toda a casa, do + celleiro para a adega, e da adega para o celleiro. E o caso é que + tudo me corre perfeitamente.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[29]</span> + «Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa + reliquia preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de + que t'a restituo.»<br /> <br /> «Pois vem buscal-a ámanhã + de manhã.»<br /> <br /> Quando ao outro dia foi procurar o seu + generoso concorrente, apresentou-lhe este uma avellã, através + da qual tinha tinha passado um fio de seda.<br /> <br /> O nosso homem pòl-a + immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a casa + com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a + parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha + o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o feijão; + na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos cavallos; + viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal + escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio, + comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por + terceira pessoa na direcção dos seus negocios.<br /> <br /> + Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman, + agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em + segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.<br /> <br /> <br /> + <br /> + <h3> + <a name="c10" id="c10"></a>A alma + </h3> + <br /> «Mamã, nem todas as creanças que morrem vão + para o Paraizo. O outro dia vi levar para o cemiterio um menino que tinha + morrido; o seu papá e as suas duas irmãsinhas acompanhavam o + caixão, e choravam tanto que me fazia pena. Iam a chorar porque + aquelle menino tinha sido mau, não é verdade?»<br /> + <br /> «Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, + emquanto choravam seus paes e suas irmãs, já estava vivendo + feliz no Paraizo.»<br /> <br /> «A alma? mamã; não + sei o que é; não comprehendo bem.»<br /> <br /> «Maria, + acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas pequerruchas.»<br /> + <br /> «Tive sim, mamã, tive muita pena.»<br /> <br /> + «Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e + triste? eram os braços?»<br /> <br /> «Não, mamã.»<br /> + <br /> «Eram as orelhas?»<br /> <br /> «Oh! não mamã, + era <em>cá dentro</em>.»<br /> <br /> «Esse <em>lá + dentro</em>, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece, + que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando + praticas o bem.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c11" id="c11"></a>Alberto + </h3> + <br /> Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e + seus irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer + sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico + feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma + talhada de batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra + pagava com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma + libra no quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu + jardimzinho. «Ha de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará + libras como uma cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá, + que ficará muito contente.» Todas as manhãs ia ver se + a libra tinha nascido, mas não rebentava nada. Entretanto o pae + procurava a libra por toda a parte. Por fim perguntou ao Albertinho se a + tinha visto.<br /> <br /> «Vi papá; achei-a e fui semeal-a.»<br /> + <br /> «Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma + couve?»<br /> <br /> «Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se + encontrava na terra.»<br /> <br /> «É verdade, mas não + nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»<br /> <br /> + <span class="pagenum">[32]</span> Desenterrou-se a libra, e Alberto foi + castigado por dispor do que lhe não pertencia.<br /> <br /> Ha + comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe produzir + os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como é? + é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa + sementeira.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c12" id="c12"></a>A canção da cerejeira + </h3> + <br /> Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!» + E a cereijeira cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de + folhas, fresquinhas e verdejantes.<br /> <br /> A lagarta, que estava + dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se, abriu a bocca, + esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as folhinhas tenras, + dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem + é que me arranjou este banquete?»<br /> <br /> Então + Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a + cereijeira cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores + delicadas e brancas.<br /> <br /> E a abelha matinal aos primeiros raios da + aurora pousou sobre ellas, dizendo: «Vamos tomar o nosso café; + e que chávenas tão bonitas em que o deitaram!»<br /> + <br /> Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não + pouparam o assucar!»<br /> <br /> No verão disse Deus: «Ponham + a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira cobriu-se de mil fructos + appetitosos e vermelhos.<br /> <br /> <span class="pagenum">[34]</span> + «Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião; + temos appetite, e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar + uma nova canção.» No outono disse Deus: «Levantae + a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento frio das + montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore.<br /> <br /> + As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o + vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as + esvoaçar.<br /> <br /> Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o + resto!» E os turbilhões dos ventos trouxeram a neve, sob cuja + mortalha tudo dorme e descança.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c13" id="c13"></a>Os gigantes da montanha e os anões da + planicie + </h3> + <br /> Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na + montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um + alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície + a ver o que faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe + pareciam anões. Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido + á caça e sua mãe estava dormindo, a joven giganta + desatou a correr para um campo, onde os jornaleiros trabalhavam. Parou + surprehendida a ver a charrua e os lavradores, coisas inteiramente novas + para ella. «Oh! que lindos brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e + estendeu por terra o avental, que quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe + dentro os homens, os cavallos, a charrua; de dois passos tornou a subir a + montanha, e entrou no castello, onde seu pae estava a jantar.<br /> <br /> + --Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle.<br /> <br /> --Olhe, + disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os mais + bonitos que tenho visto.»<br /> <br /> E pol-os em cima da mesa, a um + e um,--os cavallos, a charrua e os trabalhadores, que estavam <span + class="pagenum">[36]</span> todos espantados, como formigas a quem + tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha + poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante + fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle. + Isso não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem + estimar-se e respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o + immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da + montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de + lavrar a terra e de semear o trigo.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c14" id="c14"></a>A creança, a anjo e flôr + </h3> + <br /> Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos + braços, e desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os + sitios que ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se + de quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam + no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe + todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor + escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros + maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma creança + morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro sobre a + casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins + deliciosos, cobertos de flores.<br /> <br /> «Qual é a flor que + desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo.<br /> <br /> Havia + n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, magnifica; mas + quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de botõesinhos + lindissimos pendiam estiolados para o chão.<br /> <br /> «Pobre + roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa + reflorir no paraiso.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[38]</span> O + anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas + flores brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.<br /> <br /> A + colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus. + Caiu a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam + ainda por cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, + cheia de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a + casta de immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um + vaso de flores com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes + d'uma flor dos campos, já murcha, e que parecia não poder + reverdecer: tinham-n'a atirado para a rua como inutil e morta.<br /> <br /> + «Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, + voando, te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá + ao fundo, naquella rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma + creança miseravel e doente. Quando se sentia melhor, o mais que + podia conseguir era passeiar com a ajuda das moletas ao longo de seu + pequenino quarto. Em certos dias de verão os raios do sol + visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. Então a creança + sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do + andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca + verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do + visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o + ramo verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, + sonhava com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho + trouxe-lhe flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que + tinha ainda raizes; <span class="pagenum">[39]</span> o pequerrucho + plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da cama. A flor + plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e + todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico + thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe + aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em + sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e + ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que + se voltou.<br /> <br /> «Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita + no paraiso; a sua querida flor, esquecida á janella desde então, + murchou, estiolou-se e atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo + esta flor quasi secca é o thesouro do nosso ramilhete. Deu mais + prazer e alegria do que todos os canteiros d'um jardim realengo.»<br /> + <br /> «Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o + anjo levava para o céo.<br /> <br /> --Sei-o, respondeu o anjo, + porque era eu o pequenino doente que andava em moletas; como não + havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»<br /> <br /> A creança + abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam no céo + onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, levou-as ao + coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre, + despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar + com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe, + formando circulos que vão augmentando successivamente, + multiplicando-se até ao infinito, povoados <span class="pagenum">[40]</span> + de seres inteiramente felizes, cantando todos harmoniosamente--desde a + creança abençoada até á humilde florinha do + campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e + tortuosa.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c15" id="c15"></a>Presente por presente + </h3> + <br /> Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de + noite á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não + tinha chegado, foi a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o + o melhor que pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe + ia dar, porque eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia + offerecer; cama não a tinha, por conseguinte dormiria sobre a + palha. Mas o estrangeiro estava morto de fome e de fadiga; as batatas + souberam-lhe mais do que faisões, e dormiu melhor em cima da palha + do que n'um leito de principes. Ao outro dia pela manhã disse isto + mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao despedir-se com uma moeda + de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha dito que a guardasse como uma + pequena lembrança, a boa camponeza julgou que seria uma medalha, e + sentiu que não tivesse um buraquito para a trazer ao pescoço. + Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o que lhe tinha + acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro examinou os cunhos + e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:<br /> <br /> <span + class="pagenum">[42]</span> «Esse forasteiro era nada mais nada + menos do que o nosso principe!<br /> <br /> E o bom do homem não + podia conter-se de alegria, por sua alteza ter achado as suas batatas + melhores do que faisões.<br /> <br /> «É necessário + confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha talvez no + mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das batatas; + hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas.<br /> + <br /> E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de + batatas escolhidas.<br /> <br /> Os lacaios e as sentinellas ao principio não + o queriam deixar entrar; mas insistiu energicamente, dizendo que não + vinha pedir nada, e que pelo contrario vinha trazer alguma cousa.<br /> + <br /> Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.<br /> <br /> «Meu + senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente pedir + hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca + d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar + demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis o + motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das batatas, + que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos + acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá + as encontrareis sempre ao vosso dispor.»<br /> <br /> A honrada + simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava n'um momento + de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta geiras + de terra.<br /> <br /> <span class="pagenum">[43]</span> Ora o carvoeiro + tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que, sabendo da + fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não + me ha de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo + qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer presente + d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra, + simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de + recompensar ainda mais generosamente.»<br /> <br /> Tirou o cavallo da + estrebaria e levou-o para defronte das portas do palacio; recommendou ao + creado que o segurasse, e, atravessando com ar altivo as alas dos lacaios, + penetrou na sala da audiencia.<br /> <br /> «Ouvi dizer, disse elle, + que vossa alteza gosta do meu cavallo; não tenho querido trocal-o a + dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o offereça.»<br /> + <br /> O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e + disse comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que + mereces:<br /> <br /> Depois dirigindo-se a elle:<br /> <br /> «Acceito + a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh! + espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que faisões. + Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom preço + para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»<br /> + <br /> E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c16" id="c16"></a>O pinheiro ambicioso + </h3> + <br /> Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua + sorte. «Oh! dizia elle, como são horrorosas estas linhas + uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou + um pouco mais orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para + andar vestido de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»<br /> + <br /> O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã + acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e + admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros + pinheiros, que, mais sensatos do que elle, não invejavam a sua + rapida fortuna. Á noite passou por alli um judeu, arrancou-lhe + todas as folhas, metteu-as n'um sacco, e foi-se embora, deixando-o + inteiramente nu dos pés á cabeça.<br /> <br /> «Oh! + disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça + dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a + floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de + oiro; o oiro attrae as ambições.<br /> <br /> Ah! se eu + arranjasse um vestuario de vidro! Era <span class="pagenum">[45]</span> + deslumbrante, e o judeu avarento não me teria despido.»<br /> + <br /> No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam + ao sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e + orgulhoso, fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo + cobriu-se de nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza + negra as folhas de cristal.<br /> <br /> «Enganei-me ainda, disse o + joven pinheiro, vendo por terra todo feito em pedaços o seu manto + cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir as florestas. + Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria menos brilhante, + mas viveria descansado.»<br /> <br /> Cumpriu-se o seu ultimo desejo, + e, apesar de ter renunciado ás vaidades primitivas, julgava-se + ainda assim mais bem vestido do que todos os outros pinheiros seus irmãos. + Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as folhas acabadas de + nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as todas sem deixar uma unica.<br /> + <br /> O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria + voltar á sua fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e + nunca mais se queixou da sua sorte.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c17" id="c17"></a>Perfeição das obras de Deus + </h3> + <br /> <em>A filha</em>.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Vou-te dar outra.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Como + se fazem as agulhas, mamã?<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Vê + se adivinhas.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Nã sei, mamã.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Conheces os metaes?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Conheço + mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de uma caixa.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas + são de pau, de pedra, de marmore?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Oh! + não; são de metal; mas de que metal?<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Antes + de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas primeiro.<br /> + <br /> <em>A filha</em>.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não + é de prata, porque não é branca; não é + de oiro, porque não é de um lindo amarello muito brilhante; + não é de cobre, porque não é de um amarello + muito feio, que cheira mal... Então é de ferro, mamã?<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Adivinhaste.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Mas, + mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.<br /> + <br /> <span class="pagenum">[47]</span> <em>A mãe</em>.--É + que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já + se não chama ferro, é aço.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Bem, + as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é + que as fazem.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--É impossivel, não + és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma fabrica onde se fazem + agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar muito.<br /> <br /> <em>A + filha</em>.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que + nos servimos.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Tens razão; + é uma vergonha ignoral-o.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Mamã, + deixe-me ver as suas agulhas.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Olha, ahi + tens o meu estojo.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Meu Deus! Que pequeninas + algumas! Que lindas! São tão fininhas, tão + fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para fazer uma coisinha + tão delicada!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Lembras-te de ver + na feira um carrinho de marfim puxado por uma pulga, presa por uma cadeia + de oiro?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Lembro, mamã; era tão + bonito!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Li n'um jornal allemão + que um operario chamado Nerlinger fez um copo de um grão de + pimenta, e que dentro d'este copo havia mais doze...<br /> <br /> <em>A + filha</em>.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um grão + de pimenta!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--E ainda não é + tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas doiradas, e sustentava-se + no pé.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Que vontade eu tinha de ver + isso!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Tens razão de te admirares + da habilidade dos homens. É effectivamente espantoso, e <span + class="pagenum">[48]</span> deve saber-se, o modo porque se fabricam + certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração.<br /> + <br /> <em>A filha</em>.--Quaes, mamã?<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Já + t'o digo. (<em>Levanta-se</em>.)<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Que quer, + mamã?<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Quero que vejas o + microscopio de teu papá.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Pois sim; eu + gosto de olhar pelo microscopio.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Este + é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes ver a + mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina, + lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?<br /> <br /> + <em>A filha</em>.--Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão + grosseira!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Vês-lhe buracos, + riscos, asperesas, não é verdade?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Parece + um prego muito grande e muito mal feito.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Pois + todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na + agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá + por ellas.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--O operario que fez esta agulha + ficaria envergonhado, se a visse ao microscopio.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Tiremos + a agulha, e vejamos outra coisa.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--O quê, + mamã?<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--O aguilhãosinho de + uma abelha.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Oh! que pequenino, que + bonito!... Como é liso, como é brilhante!... Mas já + sei que visto ao microscopio ha de acontecer o mesmo que com a agulha.<br /> + <br /> <span class="pagenum">[49]</span> <em>A mãe</em>.--Prompto: + olha.<br /> <br /> <em>A filha</em> (olhando).--É exquisito, mamã!<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Então?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Augmentou, + augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo + contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não + tinha ponta, e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão + fina como um cabello. Porque será isto, mamã?<br /> <br /> <em>A + mãe</em>.--É porque o operario que fez este aguilhão + é muito mais habil do que o que fez a agulha.<br /> <br /> <em>A + filha</em>.--Quem é esse operario tão habil?<br /> <br /> <em>A + mãe</em>.--É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as + plantas e as creaturas.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--É Deus.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Exactamente. Pois não é Deus + que fez as abelhas e todos os animaes?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--De + certo.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Foi elle por conseguinte que fez + o aguilhão d'esta abelha; e ahi tens porque o aguilhão + é superior á agulha: é obra de Deus. Mas continuemos + a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de musselina + finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês?<br /> <br /> + <em>A filha</em>.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Aqui tens agora um pedacinho de renda + delicadissima.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Essa estou bem certa que ha + de ser linda, mesmo vista pelo microscopio.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Então?<br /> + <br /> <em>A filha</em>.--É horrorosa... Parece feita de pellos + grosseiros com grandes buracos deseguaes.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--As + obras do homem são todas assim.<br /> <br /> <span class="pagenum">[50]</span> + <em>A filha</em>.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Sabes o que é isto?<br /> <br /> <em>A + filha</em>.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Os fiosinhos que o compõem são + muito finos, muito lisos; olha pelo microscopio a ver se te parecem + deseguaes.<br /> <br /> <em>A filha</em> (olhando pelo microscópio).--Não, + mamã; os fios são todos eguaes, e o casulo é sempre + muito liso, muito brilhante.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--É + porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha sobre + este papel?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Pontinhos feitos com tinta e + manchasinhas redondas feitas também com tinta.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Estes + pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente redondos?<br /> <br /> + <em>A filha</em>.--Sim, mamã, perfeitamente redondos.<br /> <br /> + <em>A mãe</em>.--Vê-os agora ao microscopio.<br /> <br /> <em>A + filha</em>.--Oh! já não são redondos, são + todos deseguaes.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Tira o papel; vejamos + a obra de Deus. É uma aza de borboleta; vês que está + mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo microscopio; o que + é que vês?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Vejo a mesma coisa + que via sem o vidro, só com a differença que agora é + maior. Que bellas que são as obras de Deus!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Merece + bem a pena estudal-as.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--De certo. Farei + sempre por isso, comparando-as com as obras dos homens.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--E + sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do homem, emquanto + que <span class="pagenum">[51]</span> as obras de Deus, quanto mais se + observam, mais perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas + coisas: a primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração + como o nosso amor; a segunda é que os homens orgulhosos são + insensatos, porque não podem fazer nada perfeitamente bello, + perfeitamente regular, e as suas obras mais primorosas são cheias + de imperfeições, se as compararmos com as obras do Creador.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c18" id="c18"></a>João e os seus camaradas + </h3> + <br /> Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno + rigoroso, possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João + resolveu-se a correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu + o resto da farinha, matou o gallo, e disse-lhe:<br /> <br /> «O que + é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, + ou toda com a minha maldição?»<br /> <br /> «Que + pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no mundo eu + quereria a tua maldição.»<br /> <br /> «Bem, meu + filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te abençôe.»<br /> + <br /> E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, + que tinha caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair.<br /> <br /> + «Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi + a afogar-me.»<br /> <br /> «Espera, respondeu João.»<br /> + <br /> E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar + o quadrúpede do atoleiro.<br /> <br /> <span class="pagenum">[53]</span> + «Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te + posso ser util, aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?»<br /> + <br /> --«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha + vida.»<br /> <br /> «Queres tu que eu te acompanhe?<br /> <br /> + «Anda d'ahi.»<br /> <br /> E puzeram-se a caminho.<br /> <br /> Ao + passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da + eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre + animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a + ornear de tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.<br /> + <br /> «Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa + te for prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?»<br /> + <br /> «Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.»<br /> + <br /> «Queres que te acompanhe?»<br /> <br /> «Anda d'ahi.»<br /> + <br /> Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a + merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma + erva que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a + miar lastimosamente.<br /> <br /> Coitado, exclamou João!» E + deu-lhe uma asa do frango.<br /> <br /> --«Obrigado disse o gato. Oxalá + que um dia eu te possa ser util. Aonde vaes tu?<br /> <br /> --«Procurar + trabalho. Se queres, anda comnosco.»<br /> <br /> --De boa vontade.<br /> + <br /> <span class="pagenum">[54]</span> Os quatro viajantes puzeram-se a + caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um grito dilacerante, e viram uma + raposa correndo a toda a brida com um gallo na bocca.<br /> <br /> «Agarra! + agarra!» bradou o pequeno ao cão.<br /> <br /> E no mesmo + instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em perigo, + largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente disse a João:<br /> + <br /> --«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde + vaes tu?»<br /> <br /> --Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?<br /> + <br /> --«De boa vontade.»<br /> <br /> --Então anda. Se + te cançares, empoleira-te no jumento.»<br /> <br /> Os + viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro. + Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma + quinta, nem uma cabana.<br /> <br /> --«Paciencia, disse João, + outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos hoje a dormir ao ar livre; + além d'isso a noite está socegada, e a relva é macia.»<br /> + <br /> Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado + d'elle, o cão e o gato aninharam-se entre as pernas do burro + complacente, e o gallo empoleirou-se n'uma arvore.<br /> <br /> Dormiam + todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou a + cantar.<br /> <br /> --«Que demonio! disse o jumento accordando todo + zangado. Porque é que estás a gritar?»<br /> <br /> --«Porque + já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a + luz da madrugada, que vem rompendo?»<br /> <br /> <span class="pagenum">[55]</span> + --«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, + é d'uma lanterna. Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos + poderiamos recolher o resto da noite.»<br /> <br /> Foi acceita a + proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez dos campos, até + que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo, d'onde subiam + gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e blasphemias horriveis.<br /> + <br /> --Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, + a ver quem é que está lá dentro.»<br /> <br /> + Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se + banqueteavam alegremente, sentados a uma mesa principesca.<br /> <br /> --«Que + bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do + conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que + é este porteiro. Á sua saude!»<br /> <br /> --«Á + saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.<br /> + <br /> E d'um trago despejaram os copos.<br /> <br /> João voltou-se + para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:<br /> <br /> --«Uni-vos + uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der signal, rompei + todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.»<br /> <br /> O burro, + levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao + peitoril d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o + gato á cabeça do cão e o gallo á cabeça + do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do + jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes + do gallo.<br /> <br /> <span class="pagenum">[56]</span> --«Agora, + bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar + armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!»<br /> <br /> No mesmo + instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando cada vez mais; + os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo + precipitadamente por uma porta falsa.<br /> <br /> João e os seus + companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um excellente jantar, + e deitaram-se em seguida--João n'uma cama, o burro na cavallariça, + o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão + e o gallo n'um poleiro.<br /> <br /> Ao principio os ladrões ficaram + muito contentes, por se verem sãos e salvos na floresta. Mas + depois, começaram a reflectir.<br /> <br /> --«Era bem melhor a + minha cama, do que esta erva tão humida, disse um d'elles.»<br /> + <br /> --«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, + disse um outro.»<br /> <br /> --«E que rico vinho aquelle! + accrescentou o terceiro.»<br /> <br /> --«E o que é mais + lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o + dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das + gavetas.»<br /> <br /> --Vou ver se torno lá a entrar? disse o + capitão.<br /> <br /> --Bravo! exclamaram os ladrões.<br /> + <br /> E poz-se a caminho.<br /> <br /> Já não havia luz na + casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se para o + fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as + garras. <span class="pagenum">[57]</span> Soltou um grito doloroso, correu + para a porta, mas infelizmente pisou o rabo do cão, que lhe deu uma + grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu por fim transpor o limiar da + porta. Mas quando ia a sair, o gallo atirou-se a elle, rasgando-o com o + bico e com as unhas.<br /> <br /> --Anda o diabo n'esta casa! exclamou o + capitão, como poderei eu sair!»<br /> <br /> Julgou encontrar + refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma parelha de coices, que o + deitou quasi morto ao meio do chão.<br /> <br /> Passado algum tempo + veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem pernas nem braços + partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.<br /> <br /> --Então? + então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.<br /> <br /> + --Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para + me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que + o trago n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha + fui assaltado por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na + cara com o cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair + a porta, um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a + sovella. Logo depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me + com as garras. Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se + vocês me não acreditam, vão lá, e experimentem.»<br /> + <br /> --Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo + todo ensanguentado: Não seremos nós que lá + tornaremos.»<br /> <br /> Pela manhã, João e os seus + camaradas almoçaram <span class="pagenum">[58]</span> ainda + excellentemente, e partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro + que os ladrões lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente + dentro de dois saccos, com que carregou o jumento. Foram andando, andando, + até que chegaram á porta do castello. Diante d'essa porta + estava o malvado do porteiro, com uma libré esplendida, meias de + seda, calções escarlates e cabello empoado.<br /> <br /> Olhou + com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.<br /> + <br /> --Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se + embora?»<br /> <br /> --Não queremos nada de ti, respondeu João. + O dono do castello far-nos-ha um bom acolhimento.<br /> <br /> --Fóra + d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a andar + immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os + meus cães de fila.»<br /> <br /> --Perdão, só um + instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do jumento; não + me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite + passada a porta do castello?»<br /> <br /> O porteiro córou. O + conde que estava á janella, disse-lhe:<br /> <br /> --Ó Bernabé, + responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.<br /> <br /> --Senhor, + replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui + eu que abri a porta aos seis ladrões.<br /> <br /> --Como é + então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?<br /> + <br /> Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o <span + class="pagenum">[59]</span> dinheiro roubado, pedindo-lhe unicamente que + nos dê de jantar e nos recolha esta noite, porque vimos cançados + do caminho.<br /> <br /> --Ficae certos que sereis bem tratados.<br /> <br /> + O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou + na cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés + á cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio + d'ouro, e disse-lhe:<br /> <br /> --Queres ficar comigo? És esperto e + honrado, serás o meu intendente.»<br /> <br /> João + acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé + de si. Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c19" id="c19"></a>O rabequista + </h3> + <br /> Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram + uma egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.<br /> <br /> As + rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O + vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro, + feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava + constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em + romaria um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada + tinha sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge + não havia pão nem dinheiro no bolso para o comprar.<br /> + <br /> Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca + com tal suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou + enternecida ao vel-o tão pobre e ao escutar aquella musica + deliciosa. Quando terminou, Santa Cecilia abaixou-se, descalçou um + dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o ao pobre musico, que tonto + d'alegria, dançando, cantando, chorando, correu á loja d'um + ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o sapato da santa, + prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do juiz. + <span class="pagenum">[61]</span> Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, + e foi condemnado á morte.<br /> <br /> Chegára o dia da execução. + Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo poz-se em marcha ao som dos + canticos dos frades, que ainda assim não chegavam a dominar os sons + da rabeca do condemnado, que pedira, como ultima graça, o + deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento. O cortejo + chegou defronte da capella da santa, e quando pararam supplicou o triste + desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua + derradeira melodia.<br /> <br /> Os padres e os chefes da escolta + consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos pés da santa, e + debulhado em lagrimas começou a tocar. Então o povo, + maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de novo, descalçar + o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á + vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o + rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente + prestar-lhe as mais honrosas homenagens.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c20" id="c20"></a>Os pecegos + </h3> + <br /> Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos + magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos, + extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. + Á noite o pae perguntou-lhes:<br /> <br /> --Então comeram os + pecegos?<br /> <br /> --Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! + Guardei o caroço, e hei de plantal-o para nascer uma arvore.»<br /> + <br /> --Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar + no futuro.»<br /> <br /> --Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o + logo, e a mamã ainda me deu metade do que lhe tocou a ella. Era + doce como mel.»<br /> <br /> --Ah! acudiu o pae, foste um pouco + guloso, mas na tua edade não admira; espero que quando fores maior + te has de corrigir.»<br /> <br /> --Pois eu cá, disse um + terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou fóra, + quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi o meu + pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á cidade.»<br /> + <br /> O pae meneou a cabeça:<br /> <br /> <span class="pagenum">[63]</span> + --Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.<br /> <br /> + --E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?<br /> <br /> --Eu, meu pae, + respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho, ao Jorge, que está + coitadinho com febre. Elle não o queria, mas deixei-lh'o em cima da + cama, e vim-me embora.<br /> <br /> --Ora bem, perguntou o pae, qual de vós + é que empregou melhor o pecego que eu lhe dei?<br /> <br /> E os três + pequenos disseram á uma:<br /> <br /> --Foi o mano Eduardo.<br /> + <br /> Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o + com os olhos arrazados de lagrimas.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c21" id="c21"></a>A urna das lagrimas + </h3> + <br /> Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem + adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só + momento; mas um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu + e morreu. A desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, + sem repousar um momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de + magua e de saudades. Não comia, não fazia senão + chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava acabrunhada, chorando no + mesmo sitio em que a filha tinha morrido, abriu-se de repente a porta do + quarto e viu-a apparecer a ella, a sua querida filha, sorrindo com uma + expressão angelica e trazendo nas mãos uma urna, que vinha + cheia até ás bordas.<br /> <br /> --«Oh! minha querida mãe, + disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo das lagrimas recolheu + as tuas n'esta urna. Se chorares mais, transbordará, e as tuas + lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no tumulo e perturbando + a minha felicidade no paraiso.<br /> <br /> A pequenina desappareceu, e a mãe + não tornou a chorar para a não affligir.<br /> <br /> <br /> + <br /> + <h3> + <a name="c22" id="c22"></a>Reconhecimento e ingratidão + </h3> + <br /> Os vossos filhos serão para vós como vós + tiverdes sido para vossos paes. E é natural. As creanças + veem diariamente o que fazem seus paes, e imitam-n'os. Justifica-se d'esta + maneira o proverbio que diz,--que a benção ou a maldição + d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos, terminando sempre por + se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem ser meditados.<br /> + <br /> Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava + muito satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois + d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas + que trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O + principe, que para as suas despezas d'administração e + representação necessitava de quantias avultadas, custou-lhe + ao principio a perceber, como se vivia com doze vintens diarios, + andando-se ainda por cima satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, + que lhe respondeu:<br /> <br /> «Gasto diariamente comigo a terça + parte d'essa quantia; outro terço é para pagar as minhas + dividas; <span class="pagenum">[66]</span> e o resto é para ir + juntando algumas economias.»<br /> <br /> Era um novo enigma para o + principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o d'este modo.<br /> <br /> + «Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não + podem trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força + para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na + minha infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando + os annos tiverem pesado sobre mim.»<br /> <br /> O principe, ouvindo + isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se da educação + de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos + paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando egualmente + a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.<br /> + <br /> Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu + d'uma maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que + este teve de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho + ingrato recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma + tarde foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade + fosse muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como + ultima esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe + servia de leito. O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e + disse ao seu pequeno, de dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse + velho rabujento_. Mas notou que a creança ao partir tinha escondido + um dos lençoes a um canto, atraz da porta.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[67]</span> Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque + fizera aquillo.<br /> <br /> «Foi, respondeu a creança + desabridamente, para me servir mais tarde d'este lençol, quando + pela minha vez te mandar tambem para o hospital.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c23" id="c23"></a>O fato novo do sultão + </h3> + <br /> Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu + rendimento.<br /> <br /> Quando passara revista ao exercito, quando ia aos + passeios ou ao theatro, não tinha outro fim senão mostrar os + seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como se diz d'um + rei: Está no conselho; dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A + capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças á + quantidade d'estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá um + dia dois larapios, que, dando-se por tecelões, disseram que sabiam + fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não só eram + extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além d'isso + os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade maravilhosa: + tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos aquelles que não + exercessem bem o seu emprego.<br /> <br /> --São vestuarios + impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles, saberei + distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade dos + ministros. Preciso d'esse estofo!»<br /> <br /> E mandou em seguida + adiantar aos dois charlatães <span class="pagenum">[69]</span> uma + quantia avultada, para que podessem começar os trabalhos + immediatamente.<br /> <br /> Os homens levantaram com effeito dois teares, e + fingiram que trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada + nas lançadeiras. Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; + mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando até + á meia noite com os teares vasios.<br /> <br /> --«Preciso + saber se a obra vae adiantada».<br /> <br /> Mas tremia de medo ao + lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E, + apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente em + todo o caso mandar alguem adiante.<br /> <br /> Todos os habitantes da + cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e ardiam em desejos + de verificar se seria exacto.<br /> <br /> --Vou mandar aos tecelões + o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um grande talento, e por + isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o estofo.<br /> <br /> O + honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam com + os teares vasios.<br /> <br /> --Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os + olhos, não vejo absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. + Os dois tecelões convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua + opinião sobre os desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o + velho ministro olhava, olhava, mas não via nada, pela rasão + simplicissima de nada lá existir.<br /> <br /> --Meu Deus! pensou + elle, serei realmente estupido? É necessario que ninguém o + saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que + não vejo nada, isso é que eu não confesso.»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[70]</span> --«Então que lhe + parece?» perguntou um dos tecelões:<br /> <br /> --«Encantador, + admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este desenho... estas + cores... magnifico!... Direi ao sultão que fiquei completamente + satisfeito.»<br /> <br /> --«Muito agradecido, muito agradecido», + disseram os tecelões; e mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, + fazendo-lhe d'elles uma descripção minuciosa. O ministro + ouviu attentamente, para ir depois repetir tudo ao sultão.<br /> + <br /> Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais + oiro; precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no + bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso + trabalhavam sempre.<br /> <br /> Passado algum tempo, mandou o sultão + um novo funccionario, homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando + estaria prompto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao + ministro: olhava, olhava e não via nada.<br /> <br /> --Não + acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o + magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente de + não existir.<br /> <br /> --Mas que diabo! eu não sou tolo! + dizia o homem comsigo. Pois não serei eu capaz de desempenhar o meu + lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o deixo eu.»<br /> + <br /> Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração + pelo desenho e o bem combinado das cores.<br /> <br /> --É d'uma + magnificencia incomparavel, disse <span class="pagenum">[71]</span> elle + ao sultão. E toda a cidade começou a fallar d'esse tecido + extraordinario.<br /> <br /> Emfim o proprio sultão quiz vel-o + emquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de pessoas + distinctas, entre as quaes se contavam os dois honrados funccionarios, + dirigiu-se para as officinas, em que os dois velhacos teciam + continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de especie alguma.<br /> + <br /> --Não acha magnifico? disseram os dois honrados + funccionarios. O desenho e as cores são dignos de vossa alteza.»<br /> + <br /> E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali + estavam podessem ver alguma cousa.<br /> <br /> --Que é isto! disse + comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível! + serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça + que me acontece!» Depois de repente exclamou: «É + magnifico! Testemunho-vos a minha satisfação.»<br /> + <br /> E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, + sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito + olharam do mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e + no entanto repetiam como o sultão: «É magnifico!» + Até lhe aconselharam a que se apresentasse com o fato novo no dia + da grande procissão. «É magnifico! é + encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e + a satisfação era geral.<br /> <br /> Os dois impostores foram + condecorados e receberam o titulo de fidalgos tecelões.<br /> <br /> + Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, + trabalhando à luz de dezeseis velas. <span class="pagenum">[72]</span> + Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-o com umas grandes + tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio, e declararam, depois d'isto, + que estava o vestuario concluido.<br /> <br /> O sultão com os seus + ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores levantando um braço, + como para sustentar alguma cousa, disseram:<br /> <br /> «Eis as calças, + eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha; ó a + principal virtude d'este tecido.»<br /> <br /> --Decerto, respondiam + os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.<br /> <br /> --Se vossa alteza + se dignasse despir-se, disseram os larapios, provar-lhe-iamos o fato + deante do espelho.»<br /> <br /> O sultão despiu-se, e os + tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca, + depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do espelho.<br /> + <br /> --Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos. + Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!»<br /> + <br /> Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias.<br /> <br /> --Está + á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á + procissão, disse elle.»<br /> <br /> --Bom! estou prompto, + respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»<br /> + <br /> E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito + do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não + querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a.<br /> + <br /> E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um <span + class="pagenum">[73]</span> docel deslumbrante, toda a gente na rua e + ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que cauda tão + graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber, que não + via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. Nunca os + fatos do sultão tinham sido tão admirados.<br /> <br /> --Mas + parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do pae.<br /> + <br /> --É a voz da innocencia, disse o pae.<br /> <br /> --Ha ali uma + creança que diz que o sultão vae em cuecas.<br /> <br /> + «Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.<br /> + <br /> O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que + realmente era verdade. Entretanto tomou a energica resolução + de ir até ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com + respeito a cauda imaginaria.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c24" id="c24"></a>Boa sentença + </h3> + <br /> Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma + quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis + d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um + honrado camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e + disse:<br /> <br /> --Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a + quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu + amigo, que recebeste adiantados os cem mil réis d'alviçaras: + estamos pagos por conseguinte.»<br /> <br /> O bom camponez, que nem + por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se + com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a má + fé do avarento, deu a seguinte sentença:<br /> <br /> --Um de + vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge + apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o + ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se + julga com direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que + encontraste, <span class="pagenum">[75]</span> e guarda-o até que + appareça o individuo que perdeu sómente setecentos mil réis. + E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que tenhas paciencia + até que appareça alguem que tenha achado os teus oitocentos + mil réis.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c25" id="c25"></a>Os animaes agradecidos + </h3> + <br /> Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a + quem perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este + respondeu:<br /> <br /> --«Senhor: eu sou um desgraçado, um + miseravel; nasci no vosso reino, e chamo-me <em>Ingratidão</em>.»<br /> + <br /> --«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, + tomava-te ao meu serviço.»<br /> <br /> O nosso homem prometteu + ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. Desde que chegaram a + palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se tão esperto e tão + solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que o nomeou seu + intendente, confiando-lhe a administração da sua casa. + Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então + não conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha + compaixão dos desventurados.<br /> <br /> Ora, na visinhança + do palacio havia uma floresta cheia d'animaes selvagens e perigosissimos. + O intendente mandou ahi fazer por toda a parte covas profundas, cobertas + com folhas, de modo que as feras, caindo dentro, podessem ser agarradas. + <span class="pagenum">[77]</span> Um dia que o intendente atravessava a + floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que + se precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.<br /> <br /> Passado um + instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um + lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O governador, + ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão + horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança + de salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por + mais que gritasse, ninguem o vinha soccorrer.<br /> <br /> Esqueceu-nos + dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, chamado Antonio, + que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para ganhar o pão + necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem lá + foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da + cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção + não tardou a ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem + era que estava ali.<br /> <br /> --«Sou o governador do palacio do + rei, e, se me tirares d'aqui, prometto encher-te de riquezas; estou em + companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma enorme serpente.»<br /> + <br /> --«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não + tendo para sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; + bastava um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá + pois, se cumpres a tua promessa?<br /> <br /> O intendente continuou:<br /> + <br /> --«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso <span + class="pagenum">[78]</span> senhor, juro-te que cumprirei a minha palavra.»<br /> + <br /> Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou + com uma corda muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão + atirou-se a ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro + julgava que era o intendente.<br /> <br /> Quando chegou acima, o leão + agradeceu ao seu salvador com a maior amabilidade, e foi-se embora + à procura de jantar, porque tinha fome.<br /> <br /> Antonio deitou + outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o governador, + enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a serpente; foi + necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o governador. Este + não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr para o + palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o + que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as + brilhantes promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, + foi o pobre homem bater à porta do palacio. O porteiro + perguntou-lhe o que queria.<br /> <br /> --«Faça-me o favor, + respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente que o homem com + quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.»<br /> <br /> O + porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:<br /> + <br /> --«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na + floresta; que se ponha a andar, porque o não conheço.»<br /> + <br /> O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.<br /> + <br /> O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, <span + class="pagenum">[79]</span> e contou á mulher a odiosa perfidia de + que tinha sido victima.<br /> <br /> A mulher disse-lhe:<br /> <br /> --«Tem + paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e foi + talvez por isso que te não pôde receber.»<br /> <br /> + Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.<br /> + <br /> Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á + porta do palacio. Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que + não tornasse ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado + a empregar meios violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:<br /> + <br /> --«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez + Deus o inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não + penses mais n'isso.»<br /> <br /> No dia seguinte o bom do homem + voltou á carga; e tendo o porteiro consentido á força + de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este encolerisado + atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre homem d'uma + tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do chão. + A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um burro, + poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas levaram-lhe seis + mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se obrigado a contrair + dividas para pagar ao medico. Quando finalmente tinha recobrado algumas + forças, voltou ao bosque segundo o costume para fazer alguma lenha. + Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle tinha + ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de + si, e <span class="pagenum">[80]</span> este burro estava carregado de + saccos cheios de preciosidades. O leão, vendo Antonio, parou e + inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso agradecimento. Depois + d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal de que ficasse com o + jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal para casa, abriu os + saccos, e viu que estava rico.<br /> <br /> No dia seguinte, voltando de + novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que o ajudou no seu + trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto lhe era agradecido. + Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado o burro com a lenha, + viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha tirado do fôjo, e + que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em que brilhavam três + côres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a serpente chegou ao + pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto d'elle, e depois + dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio levantou a pedra, + examinou-a por todos os lados, para ver que propriedade ou virtude ella + teria. Para isto foi ter com um velho, afamado pela sua habilidade em + decifrar o que diziam os astros. Este, assim que viu a pedra, + offereceu-lhe por ella uma grande quantia. Antonio respondeu-lhe que a não + queria vender, mas simplesmente saber se seria boa.<br /> <br /> O velho + respondeu:<br /> <br /> --«São três as virtudes d'esta + pedra: abundancia continua, alegria imperturbavel e luz sem trevas. Se + alguém t'a comprar por menos dinheiro do que vale, tornará + immediatamente para a tua mão.»<br /> <br /> Antonio ficou + muito contente com esta resposta, <span class="pagenum">[81]</span> + agradeceu ao velho da sciencia maravilhosa, e correu a contar á + mulher a sua felicidade. Como se imagina, graças á virtude + da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em diante, nem honras nem + riquezas.<br /> <br /> Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas + prosperidades, mandou chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o + precioso talisman.<br /> <br /> Antonio, vendo que semelhante desejo era uma + ordem, respondeu:<br /> <br /> --«Devo prevenir a vossa magestade de + que, se esta pedra me não for paga pelo que vale, tornará + ella mesma para o meu poder.»<br /> <br /> --«Hei de pagar-t'a + bem, disse o rei.»<br /> <br /> E mandou-lhe dar trinta mil libras em + oiro. No dia seguinte de manhã, Antonio achou outra vez a pedra em + cima da mesa; e a mulher sabendo isto disse-lhe:<br /> <br /> --«Torna + a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se + que lh'a furtaste.»<br /> <br /> O nosso homem seguiu este conselho, + e, quando chegou á presença de sua magestade, pediu-lhe que + lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra preciosa.<br /> <br /> --«Mandei-a + metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro, fechado com sete + chaves, disse o rei.»<br /> <br /> Antonio mostrou-lhe então a + joia preciosa, e o rei ficou extraordinariamente espantado, e quiz saber + como elle tinha adquirido semelhante thesouro.<br /> <br /> Antonio + contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o + reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu + intendente, e disse-lhe:<br /> <br /> <span class="pagenum">[82]</span> --«Homem + preverso, com justo motivo te puzeram o nome de <em>Ingratidão</em>, + porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e + pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será + feita. Dou a Antonio as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o + castigo de seres enforcado.»<br /> <br /> Admiraram todos a sentença + do rei, e Antonio desempenhou as suas altas funcções com + tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido para o + substituir, e reinou pacificamente durante longos annos gloriosos.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c26" id="c26"></a>O ermitão + </h3> + <br /> Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, + deliberou retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente + ao trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, + ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa + de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos annos, uma noite + lembrou-se de que já tinha merecido um logar glorioso no paraiso, e + podia ser contado entre os santos mais notaveis.<br /> <br /> Na noite + seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:<br /> <br /> --Ha no + mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola e + cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.<br /> <br /> + O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou + no seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:<br /> + <br /> --Irmão, dize-me que <span class="pagenum">[84]</span> boas + obras fizeste, e por meio de que orações e penitencias te + tornaste agradavel a Deus.<br /> <br /> --Ora, respondeu-lhe o musico, + abaixando a cabeça, santo padre, não zombes de mim. Nunca + fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, pobre + de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em + casa a divertir os outros.»<br /> <br /> O austero ermitão + continuou a insistir:<br /> <br /> --Estou certo que, no meio da tua + existencia vagabunda, praticaste algum acto de virtude.»<br /> <br /> + --Em verdade não poderia citar nem um só.»<br /> <br /> + --Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido + loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste + frivolamente o teu patrimonio e o producto do teu officio?»<br /> + <br /> --Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo + marido e filhos tinham sido condemnados á escravidão para + pagar uma divida. Essa mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. + Recolhi-a em minha casa, protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que + possuia para resgatar a sua familia, e levei-a á cidade, onde ella + devia encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem não + teria feito outro tanto?»<br /> <br /> A estas palavras o ermitão + poz-se a chorar, e exclamou:<br /> <br /> --Nos meus setenta annos de solidão + nunca pratiquei uma obra tão meritoria, e apezar disso chamo-me o + homem de Deus, emquanto que tu não passas d'um pobre musico.»<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c27" id="c27"></a>Carlos Magno e o abade de S. Gall + </h3> + <br /> Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. + Gall, preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da + abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens + energicos e activos, e o abade era indolente. Além d'isso o + imperador tinha mais d'um motivo de queixa contra elle.<br /> <br /> --Bons + dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á + sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a + bondade de me responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão + solemne do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu + valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao + mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. + rev.<sup>ma</sup> vier á minha presença, pensamento que deve + ser um erro. Trate d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás + deixa de ser abade de S. Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um + burro com a cara voltada para o rabo.»<br /> <br /> O abade não + sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores + mais <span class="pagenum">[86]</span> famosos pela sua sciencia, não + lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época + fatal aproximava-se; já não faltava senão um mez, já + não faltavam senão semanas, e afinal só dias. O + abade, que n'outro tempo era gordo e anafado, estava magro como um + esqueleto. Perdèra o somno e o appetite. Andava errante nos bosques + lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor.<br /> + <br /> --Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está + doente?»<br /> <br /> --Estou, meu caro Felix, estou muito doente.»<br /> + <br /> --Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»<br /> + <br /> --Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas + resposta ás minhas tres perguntas.»<br /> <br /> --É então + latim?»<br /> <br /> --Não, não é latim, senão + os doutores tinham-me arranjado tudo.»<br /> <br /> --Visto que não + é latim, queira v. rev.<sup>ma</sup> dizer-me o que é: minha + mãe era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.»<br /> + <br /> Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o + barrete ao ar, e disse-lhe:<br /> <br /> --Se é apenas isso, eu me + encarrego de responder por si, e v. rev.<sup>ma</sup> póde + continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu + habito.»<br /> <br /> Quando chegou o dia, o pastor disfarçado + com o habito do abade de S. Gall, foi introduzido na sala onde o imperador + presidia o conselho imperial.<br /> <br /> --Então, senhor abade, + parece que está mais magro, deu-lhe muito que pensar a chave do + <span class="pagenum">[87]</span> enigma? Vamos lá a ver a primeira + pergunta: Quanto valho eu em dinheiro?»<br /> <br /> --Senhor, o filho + de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por trinta dinheiros, sua + magestade vale á justa vinte e nove, só um dinheiro menos.»<br /> + <br /> --Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não + posso deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda + pergunta, não ha de ser tão facil dar a resposta. Vamos lá + a ver: quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?»<br /> <br /> + --Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir + constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro + horas.»<br /> <br /> --Decididamente, v. rev.<sup>ma</sup> é um + grande finorio, e d'esta vez, confesso-me vencido; mas a terceira, não + d'essas á que se responde com supposições. Quem lhe + ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha de provar que este + pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»<br /> <br /> + --Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está + enganado, porque eu sou o seu pastor.»<br /> <br /> --Mas então + tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas + sendo.»<br /> <br /> --Não sei latim, mas, se vossa magestade + quer fazer-me um favor, peco-lhe outra cousa.»<br /> <br /> --Não + tens mais que fallar.»<br /> <br /> --Peço a vossa magestade + que perdoe ao meu amigo.»<br /> <br /> Carlos Magno não era + homem que faltasse á sua palavra.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c28" id="c28"></a>A boneca + </h3> + <br /> Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma + boneca!<br /> <br /> Não ha muitos annos, mas ainda não era a + cordoaria do Porto o ameno jardim, onde a infancia folga por entre + macissos de flores e sob o sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o + espirito a vista dos dois monumentos, que a meu ver symbolisam as duas + mais horriveis calamidades, que podem aniquillar um homem--o hospital e a + cadeia!--ainda não ha muitos annos, repito, estava eu, uma noite, + encostado a uma barraca da feira, divertindo-me a meu modo.<br /> <br /> Cançado + das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella especie de + lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo, quando novos + personagens me chamaram a attenção.<br /> <br /> Eram os meus + visinhos <em>ricos</em>.<br /> <br /> Aqui é preciso uma rapida + explicação.<br /> <br /> Das famílias da minha visinhança, + só conheço tres.<br /> <br /> Qual d'estas tres familias será + mais feliz?...<br /> <br /> Pelo que tenho notado, não tem que + invejar umas ás outras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[89]</span> + São todas felizes; cada qual a seu modo.<br /> <br /> Vi, pois, + chegar os meus visinhos <em>ricos</em>.<br /> <br /> Parou o carro, o creado + saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e dorso + ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou, tomou nos + braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em + seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se + com ella e com a menina para a barraca onde eu estava.<br /> <br /> Não + havia ali segredo a surprehender.<br /> <br /> Havia um homem, exemplar como + marido, rico, doido pela filha, e que parecia agradecer áquella + formosa criança a manifestação de qualquer desejo.<br /> + <br /> No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a + felicidade de dez crianças menos abastadas.<br /> <br /> Tinha o + necessario para montar completamente a casa d'uma boneca... <em>rica</em>.<br /> + <br /> Faltava apenas a dona da casa--a boneca.<br /> <br /> Todo risos e + attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor.<br /> + <br /> Depois de muita hesitação e de, já com os + olhos, já com a voz, consultar a mamã, a gentil creança + acabou por escolher uma magnifica boneca de dois palmos d'altura, com + cabello em <em>bandeaux</em> e olhos azues.<br /> <br /> Uma boneca como as + outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica recheada, braços + e pernas de páu.<br /> <br /> Uma vive na loja da casa, que habito. + É uma tribu de crianças, que fazem o martyrio e a alegria da + pobre mãe, e tem por chefe um honrado sapateiro.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[90]</span> Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam + encantadores; assim, parecem anjos, caidos do céo sobre um monte de + lama.<br /> <br /> São os meus visinhos <em>pobres</em>.<br /> <br /> A + segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa + immediata.<br /> <br /> É como se costuma dizer, gente <em>que vae + muito bem com a sua vida</em>.<br /> <br /> A filha que terá dez + annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas, cuja solidez a gente + gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à pressão.<br /> + <br /> São os meus visinhos <em>remediados</em>.<br /> <br /> A + terceira é a dos meus visinhos <em>ricos</em>.<br /> <br /> Casa + nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas + listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do + estado--nada falta áquella ditosa gente!<br /> <br /> Compõe-se + egualmente de marido, mulher e filha.<br /> <br /> Que formosa criança!... + Terá oito annos.<br /> <br /> Franzina e pallida, com os cabellos + negros, os olhos grandes e scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas + mãos de dedos compridos e esguios, terminados por unhas d'uma côr + de rosa transparente, que não sinta antecipada inveja do feliz + namorado--provavelmente ainda a crescer--que hade um dia ter o direito de + lh'as cobrir de beijos.<br /> <br /> Feita a compra, o pai pagou, chamou o + creado, e este mudou todas aquellas preciosidades de sobre o balcão + da barraca para dentro do carro.<br /> <br /> A boneca teve a honra de ser + transportada pela aristocratica criança.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[91]</span> Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui + fazendo até casa variadissimas considerações, + suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina recebèra + brinquedos, que representavam um par de moedas.<br /> <br /> Que contraste + com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da mesma idade + namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel + artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois + pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a + boca por outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã + preta!<br /> <br /> Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos + remediados não havia luz.<br /> <br /> Na dos meus visinhos <em>pobres</em>, + o pai batia a sola, cantando ao som de tres assobios e duas campainhas de + barro, com que os anjos, por lavar, provocavam os ralhos da mãe.<br /> + <br /> Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas + da manhã.<br /> <br /> Na rua agenciavam nova camada de immundicie os + filhos do sapateiro; na casa immediata não se via ninguem--estava a + pequena na mestra; no palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla + pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, + com auxilio d'uma linha, uma magnifica <em>caleche</em> descoberta, puxada + por cavallos brancos.<br /> <br /> Dentro da <em>caleche</em> pavoneava-se a + boneca opulentamente vestida.<br /> <br /> --«Ahi está a tua + caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim para mim. «Ensaias + <span class="pagenum">[92]</span> nas bonecas o que vês no mundo a + que pertences!... Estás a aprender a copiar... Sempre este + mundo!...»<br /> <br /> Retirei-me da janella.<br /> <br /> Durante uma + semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.<br /> <br /> A boneca + ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se vestia tres e + quatro vezes!<br /> <br /> Ao que eu, porém, achava mais graça, + era ao respeito com que a dona a tratava!<br /> <br /> Chamava-lhe sr.<sup>a</sup> + D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente com a boneca um + d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que se falla de tudo, + sem se dizer coisa alguma.<br /> <br /> Um dia,--estava eu de costas + voltadas para a janella dos meus visinhos <em>ricos</em>--ouvi um grito de + susto.<br /> <br /> Era devido a um accidente, a que está sujeito + quem anda de carro.<br /> <br /> Voltára-se este, e a boneca caíra, + ferindo a fronte na pedra da janella.<br /> <br /> O primeiro movimento da + pequena foi beijar e prantear a victima; vendo, porém, que a ferida + havia forçosamente de deixar cicatriz, e lembrando-se de que só + lhe bastava querer, para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos pés + e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais perto de mim bradou + voz timida e suplicante:<br /> <br /> «Não atire!... Dê-m'a.»<br /> + <br /> Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra + fé até então.<br /> <br /> Assim invocada, a menina <em>rica</em> + franziu levemente <span class="pagenum">[93]</span> as sobrancelhas e lançou + um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.<br /> <br /> Vendo + uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, + encolhendo os hombros, respondeu:<br /> <br /> --«Já não + presta!... Está esmurrada!...»<br /> <br /> --É o + mesmo!... Dá-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de cubiça.<br /> + <br /> --«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os + hombros.<br /> <br /> E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a + boneca nas mãos da visinha, que tremia, receiosa de que aquelle + thesouro fosse despedaçar-se nas lages da rua.<br /> <br /> Fugiram + ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a outra, + para mostrar á mãe a que ella ainda não podia + acreditar, que fosse sua!<br /> <br /> Por espaço de mezes foi a + boneca a principal occupação da nova dona.<br /> <br /> A + pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro + vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excellencia! + Chamavam-lhe sr.<sup>a</sup> D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, + do desmazello da creada, da missa das almas, de coisas finalmente, + completamente estranhas para ella!<br /> <br /> E a desgraçada perdia + as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azues; mas o que + mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais + escura: parecia uma nodoa, um estygma!<br /> <br /> Nos primeiros tempos, + emquanto durou o vestido, <span class="pagenum">[94]</span> que trouxera + no corpo, ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.<br /> + <br /> Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, + fitas velhas, rendas amarelladas, chapéos impossiveis, viessem + contrastar com a elegancia do vestido. Dava ares de se ter equipado ao + acaso, na loja d'uma adeleira.<br /> <br /> Mas o vestido foi-se tornando + velho; desappareceu o brilho, e com elle as ondulações do + _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de + cassa---no inverno!--chaile e manta na cabeça.<br /> <br /> Muito mal + lhe ficava aquillo!... Áquella boneca custava-lhe de certo o vêr-se + tão mal arranjada.<br /> <br /> Eu retirei-me da janella soltando um + suspiro, e balbuciei:<br /> <br /> --É justo!... Cada qual segundo as + suas posses.»<br /> <br /> Por esse tempo, entrei em relações + com o meu visinho sapateiro.<br /> <br /> O honrado homem soubera, que eu me + queixara da bulha, que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra + a primeira occasião, para me pedir desculpa.<br /> <br /> Vendo-me + conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de + nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem grave + risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.<br /> + <br /> Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze + annos, com quem sympathisei logo á primeira vista.<br /> <br /> + Chama-se Maria.<br /> <br /> Por um d'estes acasos da Providencia, que + parece <span class="pagenum">[95]</span> ás vezes comprazer-se em + crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.<br /> + <br /> Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do + sapateiro, fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou.<br /> + <br /> E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, + porque havia verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: + «Esta é a minha Maria!»<br /> <br /> E tinha razão!<br /> + <br /> Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo + era.<br /> <br /> --É quem vale á mãe!...--accrescentou + o velho.»--Ali, onde a vê, faz o serviço d'uma + mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve doente--bem pensei + que não arribasse!--a pequena era quem cosinhava e olhava pelos irmãos!... + E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella pequena esteve tres dias + sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi preciso eu + obrigal-a, que ella não a queria deixar!...»<br /> <br /> E o + desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que, havia + muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.<br /> <br /> + Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a + cabeça coberta por um lenço branco.<br /> <br /> Desde que o + pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca + mais passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias + á pequena.<br /> <br /> Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a + Mariquitas, com uma boneca deitada nos joelhos.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[96]</span> --Eu conheço aquella boneca!...--disse + eu de mim para mim.<br /> <br /> E, não podendo resistir á + curiosidade, bradei:<br /> <br /> --Ó Maricas!... Quem te deu a + boneca?...<br /> <br /> Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, + córando de prazer.<br /> <br /> Era escusado dizer-m'o.<br /> <br /> + Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não + podia duvidar... Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez + mais visivel na fronte.<br /> <br /> De tempos a tempos, nas raras horas de + descanço, Maria entretinha-se com ella.<br /> <br /> --Quem te viu e + quem te vê!...--pensava eu.<br /> <br /> Ás vezes, se Maria se + descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que tratos que sofria a + desgraçada!<br /> <br /> Roçada por aquellas mãos, de + que um carvoeiro se envergonharia, empregada como pella, submettida a + torturas, era, ainda assim, singularissimo o aspecto da triste!<br /> <br /> + Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a + fraternisar com o povo.<br /> <br /> A misera mudára mais uma vez de + nome!...<br /> <br /> De sr.<sup>a</sup> D. Anna passara a ser sr.<sup>a</sup> + Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê.<br /> <br /> Trajava vestido de + chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça.<br /> + <br /> Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava + com a boneca.<br /> <br /> Esta, umas vezes, representava o papel de mulher + casada, e Maria, encarregando-se de perguntar e responder por ella, + obrigava a pobre boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por + haver <span class="pagenum">[97]</span> falta de trabalho, por ter os + filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que mais familiares eram + á pequena.<br /> <br /> Outra vezes passava a boneca a ser creada de + servir. Reprehendiam-n'a, mandavam-n'a buscar agua á fonte, + pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a despedir.<br /> <br /> + Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára + de ser feliz.<br /> <br /> Iam longe os bons tempos em que ella, rica, + morava no palacio visinho!<br /> <br /> Desmaiada de côres, quasi + perdido o cabello, semi-apagados os olhos, desfeito o carmim dos labios, a + boneca não promettia longa duração.<br /> <br /> Foi + este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi, tentando em + vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera.<br /> + <br /> Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!<br /> <br /> Um + dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, + espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem + mil immundicies.<br /> <br /> Eu estava á porta de casa, esperando + que a chuva cessasse, e olhava melancolicamente para a agua negra, que + corria. Nisto ouvi um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei + machinalmente o rosto... Um objecto, arremessado de dentro da loja, + atravessou o espaço voando, e foi cair no leito do enxurro...<br /> + <br /> Olhei... Era a boneca!...<br /> <br /> A misera, arrastada pela agua, + vogou rua abaixo até esbarrar n'uma pedra; mas o redemoinho + envolveu-a, <span class="pagenum">[98]</span> e, depois de a fazer girar + tres ou quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado + entre a pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até + ir sumir-se nas profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na + passagem!<br /> <br /> Será pieguice, será o que o leitor + quizer; mas, confesso-lhe, que me impressionou o fim da pobre boneca.<br /> + <br /> Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á + vidraça do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:<br /> + <br /> --Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!?<br /> <br /> --Não + fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...<br /> + <br /> --E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...<br /> <br /> + --Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e + feia!...<br /> <br /> Curvei a cabeça ante aquella razão, e + segui o meu caminho.<br /> <br /> Pobre boneca!<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c29" id="c29"></a>Inconveniente da riqueza + </h3> + <br /> Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi + surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado + para outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já + todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, + tudo estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do + mangual com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. + Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma + quinta, e bateu á porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.<br /> + <br /> --Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta + noite? Não se havia de arrepender.»<br /> <br /> E + accrescentou:<br /> <br /> --Visto que já todos estão + deitados, para que é que você está ainda a trabalhar?»<br /> + <br /> --Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser + perseguido por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã + o que lhe devo, portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo + que colhi, para o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto + não nos fica nada, <span class="pagenum">[100]</span> e não + sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus quizer!»<br /> + <br /> Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão + pelos olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e + disse-lhe:<br /> <br /> --«Não desanimes. Quando te pedi + hospitalidade, disse-te que não te havias d'arrepender de m'a ter + dado. Vou provar-t'o.»<br /> <br /> Pegou na candeia, que estava + suspensa n'uma das traves do celleiro, e approximou-a do trigo.<br /> <br /> + --Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a + tudo!»<br /> <br /> Mas no mesmo instante, da palha, que elles + receiavam ver inflammar-se, de cada espiga, desceu uma chuva de grãos + prodigiosa. Á vista d'um tal milagre os camponezes maravilhados + cairam de joelhos.<br /> <br /> --Visto que foste caritativo, disse Jesus, + visto que recebeste na tua pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como + um pobre mendigo, serás recompensado. Foi Deus que entrou na tua + fazenda, é Deus que te enriquece.»<br /> <br /> Dito isto + desappareceu.<br /> <br /> E a chuva dos grãos não parou em + toda a noite, e fez um monte tão alto como a egreja.<br /> <br /> O + camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella + casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e seus + filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que se + arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, ninguem + os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera + enormemente, entrou <span class="pagenum">[101]</span> no celleiro, e, + recordando-se do milagre que o enriquecêra, imaginou que tambem elle + o poderia fazer. Agarrou na candeia, approximou-a d'um feixe de palha, + communicou-se o fogo, ardeu a casa e tudo o que lhe restava, e passado + tempo morreu na miseria mais absoluta.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c30" id="c30"></a>Querer é poder + </h3> + <br /> --Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver + por experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é + verdadeira.<br /> <br /> Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador + d'uma grande cidade.<br /> <br /> --Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos + que vivo tranquillo e solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo + disse-me muitas vezes--<em>Quem procura sempre encontra</em>, e <em>quem + porfia mata caça</em>. Tomei uma grande resolução. + Quero casar com a filha do rei.<br /> <br /> O governador mandou-o embora, + imaginando que era um doido.<br /> <br /> O rapaz voltou no dia seguinte, no + outro e no outro, e assim durante uma semana, sempre com a mesma vontade + inabalavel, até que o rei ouviu fallar o rapaz da sua louca pretensão. + Surprehendido com uma idéa tão extravagante, e, querendo + divertir-se, disse-lhe o rei:<br /> <br /> --Que um homem distincto pela + gerarchia, pela coragem, pela sciencia, pensasse em casar com uma + princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são os teus titulos? + Para seres o marido <span class="pagenum">[103]</span> de minha filha + é necessario que te distingas por alguma qualidade especial ou por + um acto de valor extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um + diamante d'um valor incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a + mão de minha filha.<br /> <br /> O rapaz, contente com esta promessa, + foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manhã começava + a tirar agua com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois de ter + assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a resar.<br /> <br /> Os + peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que + chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.<br /> <br /> --Que quer + este homem? perguntou o rei dos peixes.»<br /> <br /> --Encontrar um + diamante que caiu ao rio.»<br /> <br /> --Então, respondeu o + velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque vejo qual + é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar as + ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»<br /> <br /> Os + peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha do + rei.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c31" id="c31"></a>Qual será rei? + </h3> + <br /> Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o + successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia + pertencer, não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais + digno.<br /> <br /> Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse + posto de pé contra um muro, e que o principe que acertasse melhor + com uma flecha n'aquelle alvo, seria o escolhido para successor.<br /> + <br /> Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou + durante muito tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do + defuncto. O principe soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos + atirariam peór, e que por conseguinte seria elle quem viria a + reinar.<br /> <br /> O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um + grito ainda mais alegre do que o outro principe.<br /> <br /> O terceiro + varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho + quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar + melhor.<br /> <br /> Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe + metter nas mãos as flechas e o arco: mas, <span class="pagenum">[105]</span> + desde que olhou para o alvo, arrojou as armas longe de si, e desatou a + chorar:<br /> <br /> --«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, + como poderei eu jámais consolar-me de ver o teu corpo crivado de + flechas pela mão de teus proprios filhos!»<br /> <br /> Os + grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais + digno.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c32" id="c32"></a>Os tres véos de Maria + </h3> + <br /> O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a + neve. Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma + grinalda de flores de seda tão bem imitadas, que as abelhas, + illudidas, vinham pousar-lhe em cima.<br /> <br /> Este véo branco só + o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão.<br /> <br /> O + segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo + dia em que sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, + sem amparo, na casa triste e abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, + como as dos sepulchros de marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o + orvalhado com todas as suas lagrimas.<br /> <br /> O véo negro só + o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de Jesus no convento da + Ave-Maria.<br /> <br /> O terceiro véo era feito d'um retalho do azul + celeste, bordado d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.<br /> + <br /> Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella + entrou no paraizo.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c33" id="c33"></a>Os pequenos no bosque + </h3> + <br /> Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos + outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: + «Vamos para o bosque que encontremos lá toda a especie de + lindos bichinhos, que não fazem outra cousa senão brincar, e + nós brincaremos com elles.»<br /> <br /> Foram logo, e passaram + sem fazer caso ao pé da activa formiga e da abelha diligente. Mas o + besoiro, que elles convidaram a vir patuscar, disse-lhes:<br /> <br /> + --Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a + outra já não está solida.»<br /> <br /> --Eu, + disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.»<br /> + <br /> --Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu + ninho.»<br /> <br /> --Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir + divertir com vocês, mas ainda hoje não lavei o meu focinho. + Antes de mais nada, tenho que fazer a minha <em>toilette</em>.»<br /> + <br /> E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, <span + class="pagenum">[108]</span> que passas o tempo a saltar e a tagarellar, + tambem não queres brincar comnosco?»<br /> <br /> --Estes + pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então + imaginam que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não + descanço nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos + animaes, ás colinas, aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho + que apagar os incendios, tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as + serralherias. Nem hoje acabára, se lhes quizesse contar o que tenho + que fazer. Não posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou com + muita pressa.»<br /> <br /> Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a + olhar para o ar, e viram um pintasilgo, em cima d'um ramo.<br /> <br /> + --Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»<br /> + <br /> --Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o + pintasilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além + d'isso que tomar parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o + operario com o meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com + uma outra cantiga, que á noite e de madrugada celebre a bondade do + Creador. Ide-vos embora, preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e + não tornem a vir incommodar os habitantes das florestas, que cada + um tem a sua tarefa a desempenhar.»<br /> <br /> Os pequenos + aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só + é ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.<br /> <br /> + <br /> <br /> + <h3> + <a name="c34" id="c34"></a>O chapellinho encarnado + </h3> + <br /> Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem + sua mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, + que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, + deu-lhe um dia um chapéo de veludo vermelho. A pequenita andava tão + contente com o seu chapéo novo, que já não queria pôr + outro, e começaram a chamar-lhe a menina do chapellinho encarnado.<br /> + <br /> A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma + floresta de meia legua de comprido. Uma manhã a mãe disse + à pequenita:<br /> <br /> --Tua avó está doente, e não + pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae levar-lh os tu com + esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a garrafa, não + andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»<br /> <br /> --Sim, mamã, + respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»<br /> <br /> Atou o + seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se a + caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita, que + nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[110]</span> --Bons dias, chapellinho encarnado.»<br /> + <br /> --Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»<br /> + <br /> --Onde vaes tão cedo?»<br /> <br /> --A casa da minha avó + que está doente.»<br /> <br /> --E levas-lhe alguma cousa?»<br /> + <br /> --Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para + lhe dar forças.»<br /> <br /> Dize-me onde mora a tua, avó, + que tambem a quero ir ver.»<br /> <br /> --É perto, aqui no fim + da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito grandes, e no jardim ha + muitas nozes.»<br /> <br /> --Ah! tu é que és uma bella + noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava de te comer.» Depois + continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e que lindos + passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que + quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»<br /> <br /> --O + senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita, + visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma + que fizesse bem a minha avó.»<br /> <br /> --Com certeza, minha + filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e aquella.» Mas + todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas venenosas. A pobre + creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.<br /> + <br /> --Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. + Com grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»<br /> + <br /> E poz-se a correr em direcção da casa da avó, + emquanto que a pequerrucha se entretinha em apanhar as plantas que elle + tinha indicado.<br /> <br /> <span class="pagenum">[111]</span> Quando o + lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a avó + não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»<br /> + <br /> --É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz + da pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»<br /> + <br /> --Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás + a chave.»<br /> <br /> Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma + bocada a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ella costumava + usar, deitou-se na cama.<br /> <br /> Pouco depois entrou a pequenita, + assustada e admirada d'encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado + com que a avó a costumava ter fechada.<br /> <br /> O lobo tinha + posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do focinho, + mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.<br /> <br /> --Ai! avósinha, + disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»<br /> + <br /> --É para te ouvir melhor, minha filha.»<br /> <br /> --E + porque estás com uns olhos tão grandes?»<br /> <br /> --É + para te vêr melhor.»<br /> <br /> --E para que estás com + os braços tão grandes?»<br /> <br /> --É para te + poder abraçar melhor.»<br /> <br /> --E Jesus! para que tens + hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão agudos?»<br /> + <br /> --É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo + arremessou-se á pobre pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, + adormeceu, e começou a resonar muito alto. Um caçador que + passava por acaso, perto da casa, e que ouviu aquelle barulho, disse + comsigo: A pobre velha está com um pesadelo, <span class="pagenum">[112]</span> + está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, + e vê o lobo estendido na cama.<br /> <br /> --Olá, meu menino, + diz elle: ha muito tempo que te procuro.»<br /> <br /> Armou a sua + espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a + dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o animal + com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a + barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e saltou para o chão, + gritando:<br /> <br /> --Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!<br /> + <br /> A avó saiu também contentissima por ver outra vez a + luz do dia.<br /> <br /> O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador + metteu-lhe então duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e + escondeu-se com a avó e a neta para verem o que se ia passar.<br /> + <br /> Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, + levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na + outra, e não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu + no lago, e affogou-se.<br /> <br /> O caçador tirou-lhe a pelle, + comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta. A velha + sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado prometteu não + tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o prohibisse.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c35" id="c35"></a>Os cinco sonhos + </h3> + <br /> Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva + numerosa, perseguiu um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, + que, apesar da ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a + pista. Foi só então que viu que estava só, tendo a + sua côrte ficado muito para traz; sentindo-se fatigado, entrou ao + cair da noite n'uma choupana solitaria no meio da floresta. Em roda da + lareira estavam deitados quatro ladrões. Os salteadores + levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da entrada do viajante; + cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe quizeram logo contar.<br /> + <br /> O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:<br /> + <br /> --No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que + acaba de entrar aqui, e punha-o na minha cabeça.»<br /> <br /> + --Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»<br /> + <br /> --E eu que estava pondo o seu manto.»<br /> <br /> --E eu, disse + o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do meu pescoço + aquella <span class="pagenum">[114]</span> pesada cadeia d'ouro, da qual + está pendurada a sua trompa de caça.»<br /> <br /> + --Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar + tudo, e mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, + e que toda e qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço + senão uma cousa, é que me deixem tocar pela ultima vez na + minha trompa de caça.»<br /> <br /> Os salteadores responderam + que consentiam, visto que o ultimo pedido d'um moribundo deve ser + respeitado.<br /> <br /> Carlos Magno levou á boca a sua magnifica + trompa de marfim, e tirou d'ella sons tão fortes e sonoros, que em + menos d'alguns minutos todos os seus companheiros de caça e a sua + comitiva estavam ao pé d'elle.<br /> <br /> --Agora, disse o + imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem eu devo contar o + sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser enforcados diante + d'este casebre.»<br /> <br /> E o sonho realisou-se immediatamente.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c36" id="c36"></a>A egreja do rei + </h3> + <br /> Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra + da Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para + a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se + concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do + marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só + elle, e mais ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na + noite seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e + substituido por o d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte + tornou a mandar pôr o seu nome na inscripção, e de + novo foi substituido pelo da pobre mulher; á terceira vez succedeu + o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou então que lhe trouxessem a + mulher á sua presença:<br /> <br /> --Prohibi a todos os meus + vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem fosse com o que fosse para a + edificação d'esta egreja; vejo que não cumpriste as + minhas ordens.»<br /> <br /> --«Senhor, respondeu a velhinha + toda tremula, eu respeitei as vossas ordens, apesar da magua <span + class="pagenum">[116]</span> que sentia por não poder offerecer o + meu pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer + a vossa magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de + feno, que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras + destinadas à construcção da egreja.»<br /> <br /> + --«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras + d'ouro na inscripção do monumento, disse-lha o rei.»<br /> + <br /> Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na + lapide da egreja o nome do rei, que desde então lá se + conserva ainda.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c37" id="c37"></a>O valente soldado de chumbo + </h3> + <br /> Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, + por todos terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que + attitude marcial, d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes + azues e vermelhos! A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se + levantou a tampa da caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha + soldados de chumbo!» que soltou um rapazito, batendo as palmas + d'alegria. Tinham-lh'os dado de presente no dia dos annos, e o seu + divertimento era formal-os sobre a mesa, em linha de batalha. Todos os + soldados se pareciam maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que + tinha uma perna de menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo + lugar, e já não havia chumbo sufficiente. Apesar d'este + defeito, os outros não estavam mais firmes nas duas pernas do que + elle na sua unica, e é este o que precisamente nos interessa.<br /> + <br /> Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil + outros brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello + de papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe <span class="pagenum">[118]</span> + o interior dos salões. Á volta era circumdado d'uma floresta + em miniatura, que se reflectia poeticamente n'um pedaço d'espelho + que fingia um lago, onde nadavam pequeninos cysnes de cêra. Tudo + isto era encantador, mas não tanto como uma menina que estava + á porta, e que era tambem de papel, vestida com um lindo vestido de + cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina tinha os braços + arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha levantada a + tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e imaginou + que, como elle, não tinha senão uma perna.<br /> <br /> --Ali + está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma + grande fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e + quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No + entantanto preciso conhecel-a.»<br /> <br /> Deitou-se atraz d'uma + caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a elegante dançarina, + que estava sempre n'um pé só, sem perder o equilibrio.<br /> + <br /> Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e + as pessoas da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, + começaram a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. + Os soldados de chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque + queriam lá ir; mas como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes + começou a dar cabriolas e saltos mortaes, o lapis traçou mil + arabescos phantasticos n'uma louza, emfim o barulho tornou-se tal que o + canario accordou, e poz-se a cantar. Os unicos que <span class="pagenum">[119]</span> + estavam quietos eram o soldado de chumbo e a dançarinasinha. Ella + no bico do pé, e elle n'uma perna só, a espreital-a.<br /> + <br /> Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé + levanta-se, e em lugar de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era + um brinquedo de surpreza.<br /> <br /> --Soldado de chumbo, disse o + feiticeiro, trata de olhar para outro sitio.»<br /> <br /> Mas o + soldado fez que não ouvia.<br /> <br /> --Espera até ámanhã, + e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»<br /> + <br /> No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado + de chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro + ou por causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que + tombo! Ficou com a perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e + com a bayoneta enterrada entre duas lages.<br /> <br /> A creada e o + rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a + esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!» + tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A + chuva começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro + diluvio. Depois do aguaceiro passaram dois garotos.<br /> <br /> --Olà! + disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o navegar.»<br /> + <br /> Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado + de chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois + garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! + Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco + jogava <span class="pagenum">[120]</span> d'uma maneira horrorosa, mas o + soldado de chumbo conservava-se impassivel, com os olhos fixos e a + espingarda ao hombro.<br /> <br /> De repente o barco foi levado para um + cano, onde era tão grande a escuridão como na caixa dos + soldados.<br /> <br /> --Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do + feiticeiro que me metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella + linda menina estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão + fosse duas vezes maior.»<br /> <br /> D'ali a pouco apresentou-se um + enorme rato d'agua; era um habitante do cano.<br /> <br /> --Venha o teu + passaporte.»<br /> <br /> Mas o soldado de chumbo não disse + nada, e agarrou com mais força na espingarda. O barco continuava o + seu caminho, e o rato perseguia-o, rangendo os dentes, e gritando ás + palhas, e aos cavacos:--Façam-n'o parar, façam-n'o parar! Não + pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»<br /> <br /> Mas a + corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e + sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente. + Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para + elle, como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella + cada vez mais, sem poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se + sobre a queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e + ninguem se atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o + susto.<br /> <br /> O barco, depois de ter andado á roda durante + muito tempo, encheu-se d'agua, e estava a ponto <span class="pagenum">[121]</span> + de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do soldado, e o + barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a agua passou por + cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo, pensou na + gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:<br /> + <br /> --Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»<br /> + <br /> O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento + foi devorado por um grande peixe.<br /> <br /> Lá é que era + escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que talas em + que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado estendeu-se ao + comprido com a espingarda ao hombro.<br /> <br /> O peixe mexia-se e + remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim parou, e + pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia, e alguem + exclamou:<br /> <br /> --Olha um soldado de chumbo!»<br /> <br /> O + peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para + a cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no + soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a gente + quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na barriga d'um + peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso. + Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto é verdade que + acontecem cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de + cuja janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que + estavam em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina + sempre <span class="pagenum">[122]</span> de perna no ar. O soldado de + chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria derramado + lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella, ella + olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro.<br /> + <br /> De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o + no fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.<br /> + <br /> O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um + clarão sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres + lhe tinham desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das + suas viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a + dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, + sempre intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se + uma porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão + para junto do soldado, que desappareceu no meio das lavaredas. O soldado + de chumbo, já não era mais que uma pequena massa informe.<br /> + <br /> No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um + objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e + tudo o que restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o + lume tinha ennegrecido.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c38" id="c38"></a>João Pateta + </h3> + <br /> João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco + simplorio. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João + Pateta. Um dia sua mãe mandou-o á feira comprar uma foice. + Á volta, começou a andar com a foice á roda, de + maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.<br /> <br /> + --Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr + a foice em um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»<br /> + <br /> --Perdão, mãe, respondeu humildemente João, + para a outra vez serei mais esperto.»<br /> <br /> Na semana seguinte + mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que as não + perdesse.<br /> <br /> --Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»<br /> + <br /> --Então, João, onde estão as agulhas?»<br /> + <br /> --Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as + comprei, ia a passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá + as agulhas, não podem estar em sitio melhor.»<br /> <br /> --De + certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de + as tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[124]</span> --Perdão, respondeu João, + para a outra vez, heide ser mais esperto.»<br /> <br /> Na outra + semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar uma + pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz + a manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. + Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer + manteiga derretida.<br /> <br /> A mãe já tinha medo de o + mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mandal-o + á feira vender duas gallinhas.<br /> <br /> --Ouve bem, não + vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam outro.»<br /> + <br /> --Está entendido, respondeu João.»<br /> <br /> + Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.<br /> <br /> --Queres seis + tostões por essas gallinhas?»<br /> <br /> --Ora adeus! minha mãe + recommendou-me, que não acceitasse o primeiro preço, mas que + esperasse o segundo.»<br /> <br /> --E tens muita rasão. Dou-te + um cruzado.»<br /> <br /> --Está bem. Parece-me que tinha feito + melhor em acceitar o primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha mãe, + ella não tem que me ralhar.»<br /> <br /> Depois d'isto, João + foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que mangavam com + elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma experiencia, e + disse-lhe:<br /> <br /> --Vae vender este carneiro á feira. Mas não + te deixes enganar. Não o entregues senão a quem te der o preço + mais elevado.»<br /> <br /> --Está bem, agora entendo, e sei o + que hei de fazer.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[125]</span> + --Quanto queres por esse carneiro?<br /> <br /> --Minha mãe disse-me + que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.<br /> + <br /> --Quatro mil réis?»<br /> <br /> --É o preço + mais elevado?»<br /> <br /> --Pouco mais ou menos.»<br /> <br /> + --É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára + a uma escada.<br /> <br /> --Quanto?»<br /> <br /> --Dez tostões:»<br /> + <br /> --É menos, respondeu timidamente o João.»<br /> + <br /> --Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a + feira não ha um preço mais elevado.»<br /> <br /> --Tem + rasão. É seu o carneiro.»<br /> <br /> Desde esse dia o + João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou + comprar cousa alguma.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c39" id="c39"></a>Branca de Neve + </h3> + <br /> Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. + Um dia d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de + vez em quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão, + distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.<br /> <br /> + --Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão + vermelhos como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns + cabellos negros como este ébano.»<br /> <br /> Algum tempo + depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha, que + tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão + branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe + não gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a + casar com uma mulher d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos + extraordinario. Era tão formosa que se considerava a mulher mais + perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e + collocando-se diante d'um espelho magico dizia-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel + espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no mundo?»<br /> + <br /> --És tu, respondia o espelho.»<br /> <br /> <span + class="pagenum">[127]</span> No entanto Branca de Neve crescia, e de dia + para dia se tornava mais formosa. Tinha apenas sete annos, e já + ninguem a podia ver sem ficar maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, + sentando-se diante do seu espelho, disse-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel + espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no mundo?»<br /> + <br /> --Não és tu, não és tu. Branca de Neve + é mais linda.»<br /> <br /> A estas palavras a orgulhosa rainha + sentiu no coração uma dôr aguda, como uma punhalada, e + ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela innocente Branca. Não + podia socegar nem de dia, nem de noite. Para satisfazer o seu odio, chamou + um creado, e disse-lhe:<br /> <br /> --Quero quo Branca desappareça. + Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas + ordens foram executadas pontualmente, traze-me o coração.»<br /> + <br /> O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e + dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança + chorava e lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella + não tinha feito mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido + com aquellas lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, + pensando que se as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas + sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o coração de Branca + á rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o coração. A + rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou contentissima, e disse + comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo é tão + bella como eu.<br /> <br /> <span class="pagenum">[128]</span> A pobre + Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava cheia + de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e + andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez + tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, + o deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.<br /> + <br /> Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. + Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito + arranjado e muito limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta + com uma toalha de brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete + garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. + Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de + cada copo, deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.<br /> <br /> + Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros pequeninos, + cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo que tinham + gente em casa. Um d'elles disse:<br /> <br /> --Quem comeu o meu pão?»<br /> + <br /> E os outros successivamente:<br /> <br /> --Quem pegou no meu garfo?»<br /> + <br /> --Quem comeu o meu caldo?»<br /> <br /> --Quem bebeu o meu + vinho?»<br /> <br /> E emfim um d'elles:<br /> <br /> --Quem está + ahi deitado na minha cama?»<br /> <br /> Reuniram-se todos á + roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz das lanternas + viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente, <span + class="pagenum">[129]</span> e affastaram-se sem fazer bulha, para a não + accordar. Branca no dia seguinte de manhã ficou um pouco assustada, + quando viu perto de si aquelles sete anões das montanhas. Mas elles + disseram-lhe com brandura, que não tivesse medo, e perguntaram-lhe + d'onde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste historia, e os + anões disseram-lhe:<br /> <br /> --Queres tu ficar comnosco, para + tomar conta da nossa casa?»<br /> <br /> --Da melhor vontade, + respondeu Branca, completamente socegada.»<br /> <br /> Começou + logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias. + Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as + minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.<br /> + <br /> Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já + não tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu + espelho, e disse-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel espelho, não é + verdade que eu sou agora a mulher mais linda que ha no mundo?»<br /> + <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --Sim, nos teus palacios e nos + teus castellos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca + é mais linda do que tu.»<br /> <br /> Ouvindo esta resposta a + orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a + fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que modo? Uma manhã + partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio + d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu + á <span class="pagenum">[130]</span> porta da casinha, gritando: + «Quem quer comprar bonitas joias?»<br /> <br /> Os anões + tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas, + receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser prudente. + Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no cesto, + esqueceu-se das suas promessas.<br /> <br /> --Veja este rico collar, minha + menina, eu mesmo lh'o vou por ao pescoço.»<br /> <br /> Branca + consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os anões + voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente + inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas + gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si + pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.<br /> + <br /> --Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira + não era outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma + cautella, não deixes entrar aqui ninguem, quando não + estivermos em casa.»<br /> <br /> Ao entrar no seu palacio toda + contente, collocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:<br /> <br /> + --Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no + mundo? Responde.<br /> <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --És + tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está + nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»<br /> + <br /> A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a + infeliz Branca. Tornou-se <span class="pagenum">[131]</span> a disfarçar + em vendedeira. Chegou ás sete montanhas, e bateu á porta da + cabana.<br /> <br /> --Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á + janella, e respondeu:<br /> <br /> --Vá-se embora, aqui não + entra ninguem.»<br /> <br /> --Tanto peor para si, respondeu a + malvada, olhe este pente d'ouro. Já viu outro tão bonito?»<br /> + <br /> Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. + Abriu a porta.<br /> <br /> --Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o + na cabeça.»<br /> <br /> Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça + o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.<br /> <br /> Á + noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria. + Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e + tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.<br /> <br /> No entanto a + cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio. Apenas chegou, foi + direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu + como antecedentemente.<br /> <br /> --Ah! é preciso que ella morra, + ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.<br /> <br /> Vestiu-se de + camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que + estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.»<br /> + <br /> --Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?»<br /> <br /> + --Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar + ninguem, nem compro coisa alguma.»<br /> <br /> --Está bem, não + faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão + bonita, quero dar-lhe uma.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[132]</span> + --Obrigada, não posso acceitar.»<br /> <br /> --Imagina que está + envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa que é! + Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora mordia + no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca + deixou-se tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu + fulminada.<br /> <br /> --Ahi tens, para castigo da tua formosura.»<br /> + <br /> Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e + perguntou-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel espelho, quem é agora a mulher + mais linda?»<br /> <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --És + tu, és tu.»<br /> <br /> --Até que emfim!»<br /> + <br /> Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado + reanimal-a com o licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. + Branca continuava fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e + os passarinhos da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não + podiam acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão + tranquillo, as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. + Não quizeram enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de + cristal, e escreveram em cima. «Aqui jaz a filha d'um rei;» + puzeram o caixão n'uma das sete montanhas, e um d'elles devia estar + de guarda constantemente. Branca conservou-se assim durante muitos annos, + sem que se notasse no seu rosto a mais pequena alteração.<br /> + <br /> Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar + á caça, viu o caixão, e pediu aos anões que + lh'o cedessem, fosse por preço que fosse.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[133]</span> --Somos muito ricos, e por nada d'este mundo + venderemos este caixão, que é o nosso thesouro.»<br /> + <br /> --Então dêem-m'o, já não posso viver sem + contemplar este rosto de mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu + palacio. Peco-lhes que me façam isto.»<br /> <br /> Os anões, + commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para o + levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu + um balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, + que Branca não tinha engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo + os olhos, e resuscitou. O joven principe levou-a para o seu castello, e + casou com ella. O casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou + todos os reis e rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha + inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia + attrair todos os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:<br /> + <br /> --Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»<br /> + <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --Branca é mais formosa que + tu.<br /> <br /> A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que + os seus crimes fossem descobertos, que morreu de repente.<br /> <br /> + Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de princesa + não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus + bemfeitores.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c40" id="c40"></a>A rapariguinha e os phosphoros + </h3> + <br /> <br /> Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo + de dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão + passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e + os pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao + sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes + sapatos, que sua mãe já tinha usado, tão grandes, que + a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a correr, entre duas carruagens. + Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto ao outro fugiu-lhe com elle um + garotito, com a intenção de fazer d'elle um terço + para o seu primeiro filho.<br /> <br /> A pequenita caminhava com os pésinhos + nús, arroxeados pelo frio; tinha no seu velho avental uma grande + quantidade de phosphoros, e levava na mão um masso d'elles. O dia + correra-lhe mal; não tinha havido compradores, e por isso não + apurára cinco réis.<br /> <br /> Pobre pequerrucha! que frio e + que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos longor cabellos loiros, + adoravelmente annelados em volta do pescoço; <span class="pagenum">[135]</span> + mas pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?<br /> <br /> As + luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos manjares; + era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.<br /> <br /> + Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada vez + mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia, + porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em + sua casa fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que + o vento atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As + suas mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como + um phosphorosinho acceso lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um + unico, e accendendo-o aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! + como estoirou! como ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena + lamparina. Que luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um + enorme brazeiro de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão + suavemente, que era um regalo.<br /> <br /> A pequerrucha ia já a + estender os pésitos para os aquecer tambem, quando a chamma se + apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma pontita + de phosphoro consumido.<br /> <br /> Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, + que brilhou, e o muro onde bateu a sua chamma tornou-se transparente como + vidro. Olhando atravez d'esse muro, a pequerrucha viu uma sala com uma + meza cobertta de uma toalha alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e + sobre a qual uma gallinha assada com recheio de ameixas e de batatas <span + class="pagenum">[136]</span> fumegava exhalando um perfume delicioso. Oh + surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do prato, e caíu + no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca espetada + no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de si a parede + fria e tenebrosa.<br /> <br /> Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se + immediatamente sentada debaixo de uma magnifica arvore do Natal; era ainda + mais rica e maior do que a que tinha visto no anno passado atravez dos + vidros de um armazem sumptuoso.<br /> <br /> Nos ramos verdes brilhavam + centenares de balões accesos, e as estampas coloridas, como as que + ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarral-as + com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os balões da + arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que + se tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no + ceo um longo rasto de fogo.<br /> <br /> --É alguém que está + a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que lhe queria + tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando + cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»<br /> <br /> Accendeu + ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe appareceu + sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.<br /> <br /> + --Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te + vaes embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a + panella de ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.<br /> <br /> + Accendeu o rosto do masso, porque não queria <span class="pagenum">[137]</span> + que sua avó lhe fugisse, e os phosphoros espalharam um clarão + mais vivo que a luz do dia. Nunca sua avó tinha sido tão + formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas alegres, no meio d'este + deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que já + não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao + Paraiso.<br /> <br /> Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram + a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o + sorriso nos labios... morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia + de Anno Bom veiu alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus + phosphoros, a que faltava um masso, que tinha ardido quasi + inteiramente.--Quiz aquecer-se, disse um homem que passou.» E + ninguem soube nunca as lindas coisas que ella tinha visto, e no meio de + que esplendor tinha entrado com a sua velha avó no dia do Anno + Novo.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c41" id="c41"></a>O primeiro peccado de Margarida + </h3> + <br /> <br /> Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, + porque Deus tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo + no mundo lhe póde acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um + d'estes dias para o paraiso.»<br /> <br /> Margarida era uma virgem + candida, matinal como a aurora, fresca como ella; todos os dias ao acordar + resava as orações, que sua mãe lhe tinha ensinado, e + vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha joias + preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.<br /> <br /> Depois + d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.<br /> <br /> E, ao + mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção + d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e + que podia sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.<br /> + <br /> N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de + casa fiando linho, á hora em que as estrellas começam a + apparecer, uma a uma no firmamento.<br /> <br /> Estava Margarida cantando a + sua canção, quando <span class="pagenum">[139]</span> passou + por alli uma das suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com + um vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus + brincos e o collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão + para que visse bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a + rir, toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o + que inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.<br /> <br /> O fio de linho já + não passava tão rapidamente entre os dedos de Margarida, a + roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das mãos.<br /> + <br /> Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de + si um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de + velludo preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro + saudou-a respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, + perguntou-lhe:<br /> <br /> --Qual é o caminho da cidade?»<br /> + <br /> Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro + inclinando-se tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava + como uma estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello + do que o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então + com um sorriso estranho e diabolico.<br /> <br /> N'isto passou por ali um + mendigo coberto de farrapos, parou diante de Margarida, e pediu-lhe uma + esmola.<br /> <br /> Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre + desgraçado.<br /> <br /> O cavalleiro então, soltando um grito + de colera, ia lançar-se sobre Margarida, mas o mendigo--que <span + class="pagenum">[141]</span> era o seu anjo da guarda disfarçado--cobriu-a + com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que tinha vindo + para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.<br /> <br /> + <br /> <br /> + <h3> + <a name="c42" id="c42"></a>Um nome inscripto no céo + </h3> + <br /> Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde + cabana a pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não + vendo, nem ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; + viu então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:<br /> + <br /> --«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»<br /> + <br /> E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater + á mesma porta.<br /> <br /> --Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já + te disse que não tenho nada que te dar.»<br /> <br /> --Foi por + isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.<br /> <br /> E, + aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em cima + da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, + que lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.<br /> + <br /> --Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, + indo-se embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»<br /> + <br /> Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos + escrevel-o-hão no Paraizo, e mais tarde nós o viremos a + saber.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c43" id="c43"></a>O linho + </h3> + <br /> O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais + delicadas e transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus + raios sobre elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, + como o d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.<br /> + <br /> --Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito + crescido, e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me + feliz. Não ha ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho + saude e um bello futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e + refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais não poder ser!»<br /> + <br /> --Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não + conheces o mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»<br /> + <br /> E rangendo lastimosamente, cantaram:<br /> <br /> + <div class="poetry"> + --Cric, crac! cric, crac! crac! <br /> --Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + </div> + <br /> --Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o + linho; está uma bella manhã, o sol resplandece, <span + class="pagenum">[143]</span> e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e + florir. Sou muitissimo feliz.»<br /> <br /> Mas um bello dia vieram + uns homens que agarraram no linho pela cabelleira, arrancaram-n'o com + raizes e tudo, e deram-lhe tratos de polé. Primeiro mergulharam-n'o + em agua, como se o quizessem afogal-o, e depois metteram-n'o no lume para + o assar. Que crueldade!<br /> <br /> --Não se póde ser mais + feliz, pensou o linho de si para si; é necessario soffrer, o + soffrimento é a mãe da experiencia.»<br /> <br /> Mas as + coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o, cardaram-n'o, e + elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois, puzeram-n'o n'uma roca, e + então perdeu a cabeça inteiramente.<br /> <br /> --Era feliz + de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas torturas; + devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.»<br /> <br /> + E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a metter no tear e + a transformal-o n'uma peça de panno.<br /> <br /> --Isto é + extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que grandes + tolas aquellas silvas quando cantavam:<br /> <br /> + <div class="poetry"> + Cric, crac! cric, crac! crac! <br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + </div> + <br /> Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é + verdade, mas por isso tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão + forte, tão alto, tão macio! Ah! isto é bem melhor do + que ser planta, mesmo florida, ninguem trata da gente, e <span + class="pagenum">[144]</span> não bebemos outra agua a não + ser a da chuva. Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas + estendem-me todas as manhãs, e á noite tomo o meu banho com + um regador. A creada do sr. cura fez um discurso a meu respeito, e provou + perfeitamente que era eu a melhor peça da parochia. Não + posso ser mais feliz.»<br /> <br /> Levaram o panno para casa, e + entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e picaram-n'o com uma + agulha. Não era lá muito agradavel, mas em compensação + fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.<br /> <br /> --Agora + decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é + abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para + se viver em paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é + verdade, mas formamos um só grupo, uma duzia. Que incomparavel + felicidade!<br /> <br /> O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.<br /> + <br /> --Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas + não se fazem impossiveis.»<br /> <br /> E as camisas foram + reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era finalmente a sua + morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem adivinharem o + que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel branco + magnifico.<br /> <br /> --Oh que agradável surpreza! exclamou o + papel, agora sou muito mais fino do que d'antes, e vão cobrir-me de + letras. O que não escreverão em cima de mim! Tenho uma + fortuna maravilhosa!»<br /> <br /> E escreveram n'elle as mais bellas + historias, que foram lidas deante de numeros ouvintes, e os tornaram mais + sabios e melhores.<br /> <br /> <span class="pagenum">[145]</span> --Ora + aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, + quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que + ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei + explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe + perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha + sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á + maior gloria. Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, + acabou-se» tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto + mais risonho. Vou viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me + possam ler e instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas + azues; agora as minhas flores são os mais elevados pensamentos. + Sinto-me feliz, immensamente feliz!»<br /> <br /> Mas o papel não + foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá estava + escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, que + recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de papel + não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta + á roda do mundo. A meio caminho já estaria gasto.<br /> <br /> + --É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em + casa, e vou ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as + letras, as palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu + logar, e os livros vão por esse mundo fóra. A sua missão + é realmente bella, e eu estou contente, e julgo-me feliz.<br /> + <br /> O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.<br /> + <br /> --Depois do trabalho é agradável o descanço, + <span class="pagenum">[146]</span> pensou elle. É n'este isolamento + que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que + eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a + verdadeira perfeição. Que me irá ainda acontecer? + Progredir, está claro.»<br /> <br /> Passados tempos, o papel + foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o que o não + queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as creanças + da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também, + depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir, e + se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel foi + atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande chamma, que + se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra + as suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho + semilhante.<br /> <br /> Todas as letras, durante um segundo, se tornaram + vermelhas: todas as palavras, todas as idèas desappareceram em + linguas de fogo.<br /> <br /> --«Vou subir até ao sol;» + dizia uma voz no meio da lavareda, que pareciam mil vozes reunidas n'uma só. + A chamma saiu pela chaminé, e no meio d'ella volteavam pequeninos + seres invisiveis para os olhos do homem. Eram tantos quantos tinham sido + as flores que o linho tinha dado. Mais leves que a chamma, de quem eram + filhos, quando ella se extinguiu, quando não restava do papel senão + a cinza negra, ainda elles dançavam sobre essa cinza, e formavam, + tocando-a, pequeninas scentelhas encarnadas.<br /> <br /> As creanças + cantavam á roda da cinza inanimada:<br /> <br /> <span class="pagenum">[147]</span> + <div class="poetry"> + Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + </div> + <br /> Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não + se acabou; agora é que é o melhor da festa. Sei-o, e + julgo-me feliz.»<br /> <br /> As creanças não poderam + ouvir, nem comprehender estas palavras; mas tambem não era + necessario, porque as creanças não devem saber tudo.<br /> + <br /> + <h4> + FIM. + </h4> + <br /> <br /> <br /> + <h2> + INDICE + </h2> + <br /> + <table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + <tbody> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align: right;"> + Pag. + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A mãe + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c1">3</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O ouro + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c2">12</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Doçura e bondade + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c3">13</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O malmequer + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c4">14</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Não quero + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c5">20</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Piloto + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c6">21</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O rico e o pobre + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c7">23</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Como um camponez aprendeu o Padre Nosso + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c8">26</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O talisman + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c9">28</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A alma + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c10">30</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Alberto + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c11">31</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A canção da cerejeira + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c12">33</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os gigantes da montanha e os anões da planície + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c13">35</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A creança, o anjo e flôr + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c14">37</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Presente por presente + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c15">41</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O pinheiro ambicioso + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c16">44</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Perfeição das obras de Deus + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c17">46</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + João e os seus camaradas + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c18">52</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O rabequista + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c19">60</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os pecegos + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c20">62</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A urna das lagrimas + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c21">64</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Reconhecimento e ingratidão + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c22">65</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O fato novo do sultão + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c23">68</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Boa sentença + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c24">74</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os animaes agradecidos + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c25">76</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O ermitão + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c26">83</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Carlos Magno e o abade de S. Gall + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c27">85</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A boneca + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c28">88</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Inconveniente de riqueza + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c29">99</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Querer é poder + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c30">102</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Qual será rei? + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c31">104</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os três véos de Maria + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c32">106</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os pequenos no bosque + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c33">107</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O chapellinho encarnado + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c34">109</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os cinco sonhos + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c35">113</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A egreja do rei + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c36">115</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O valente soldado de chumbo + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c37">117</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + João Pateta + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c38">123</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Branca de Neve + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c39">126</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A rapariguinha e os phosphoros + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c40">134</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O primeiro peccado de Margarida + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c41">138</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Um nome inscripto no céo + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c42">141</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O linho + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c43">142</a> + </td> + </tr> + </tbody> + </table> + <br /> <br /> <br /> [A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. + Luiz d'Andrade, residente no Rio de Janeiro.] + </div> + <p> + <a name="contos" id="contos"> </a> + </p> +<p> + +Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the +original version, already available at Project Gutenberg. / Actualização +ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg.)<br /><br /><br /> +NOTA: Este texto tem duas versões em língua portuguesa de acordo com o +livro original, a que pode ser aceder clicando numa das seguintes opções: +</p> + <div> + <br /> <br /> + <h2> + CONTOS + </h2> + <h2> + PARA A + </h2> + <h3> + INFÂNCIA + </h3> + <h2> + ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES + </h2> + <h2> + POR + </h2> + <h2> + GUERRA JUNQUEIRO + </h2> + <br /> <br /> <br /> <br /> + <h2> + LISBOA + </h2> + <h4> + TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOMÁS QUINTINO ANTUNES,<br /> IMPRESSOR + DA CASA REAL + </h4> + <h2> + Rua dos Calafates, 110 + </h2> + <h2> + 1877 + </h2> + </div> + <p> + <br /> <br /> <br /> <br /> + </p> + <h2> + <a name="1"></a>A mãe + </h2> + <p> + <br /> <br /> Estava uma mãe muito aflita, sentada ao pé do + berço do seu filho, com medo que lhe morresse. A criancinha pálida + tinha os olhos fechados. Respirava com dificuldade, e às vezes tão + profundamente, que parecia gemer; mas a mãe causava ainda mais lástima + do que o pequenino moribundo.<br /> <br /> Nisto bateram à porta, e + entrou um pobre homem muito velho, embuçado numa manta de arrieiro. + Era no Inverno. Lá fora estava tudo coberto de neve e de gelo, e o + vento cortava como uma navalha.<br /> <br /> O pobre homem tremia de frio; a + criança adormecera por alguns instantes, e a mãe levantou-se + a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho começou a + embalar a criança, e a mãe, pegando numa cadeira, sentou-se + ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada vez + com mais dificuldade, pegou-lhe na mãozinha descarnada e disse para + o velho:<br /> <br /> Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar! não + é verdade?―<br /> <br /> <span class="pagenum">[4]</span>E o + velho, que era a Morte, meneou a cabeça duma maneira estranha, em + ar de dúvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, + e as lágrimas corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada + com um grande peso de cabeça; estava sem dormir havia três + dias e três noites. Passou ligeiramente pelo sono, durante um + minuto, e despertou sobressaltada a tremer de frio.<br /> <br /> ―Que + é isto! exclamou, lançando à volta de si o olhar + alucinado. O berço estava vazio. O velho tinha-se ido embora, + roubando-lhe a criança.<br /> <br /> A pobre mãe saiu + precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma mulher sentada no + meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em casa, disse-lhe + ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais depressa que o vento, + e o que ela furta nunca o torna a entregar.»<br /> <br /> ―Por + onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo pelo amor de Deus!»<br /> + <br /> ―Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de + preto. Mas só to ensino, se me cantares primeiro todas as canções + que cantavas ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. + Eu sou a Noite e muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas.<br /> + <br /> ―Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe. + Agora não me demores, porque quero encontrar o meu filho.―<br /> + <br /> A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lágrimas, + começou a cantar. Cantou muitas canções, mas as lágrimas + foram mais do que as palavras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[5]</span>No + fim disse-lhe a Noite: «Toma à direita, pela floresta escura + de pinheiros. Foi por aí que a Morte fugiu com o teu filho.» + <br /> A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o + caminho, e não sabia que direcção havia de seguir. + Diante dela havia um matagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores, de + cujos ramos pendia a neve cristalizada.<br /> <br /> + </p> + <div class="break"> + <hr /> + </div> + <p> + <br /> ―Não viste a Morte que levava o meu filho?» + perguntou-lhe a mãe.<br /> <br /> ―Vi, respondeu o matagal, mas + não te ensino o caminho, senão com a condição + de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»<br /> <br /> E a mãe + estreitou o matagal contra o coração; os espinhos + dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se de + folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite de Inverno + frigidíssima, tal é o calor febricitante do seio duma mãe + angustiosa.<br /> <br /> E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. + Foi andando, andando, até que chegou à margem dum grande + lago, onde não havia nem barcos, nem navios. Não estava + suficientemente gelado para se andar por ele, e era demasiadamente + profundo para o passar a vau. Contudo, querendo encontrar o seu filho, era + necessário atravessá-lo. No delírio do seu amor, + atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a água do + lago. Era impossível, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, + faria talvez um milagre.<br /> <br /> <span class="pagenum">[6]</span>―Não! + não és capaz de me esgotar, disse o lago. Sossega, e + entendamo-nos amigavelmente. Gosto de ver pérolas no fundo das + minhas águas, e os teus olhos são dum brilho mais suave do + que as pérolas mais ricas que eu tenho possuído. Se queres, + arranca-os das órbitas à força de chorar, e + levar-te-ei à estufa grandiosa, que está do outro lado: essa + estufa é a habitação da Morte; e as flores e as + árvores que estão lá dentro, é ela quem as + cultiva; cada flor e cada árvore é a vida duma criatura + humana.»<br /> <br /> ―Oh! o que não darei eu, para + reaver o meu filho!» disse a mãe. E apesar de ter já + chorado tantas lágrimas, chorou com mais amargura do que nunca, e + os seus olhos destacaram-se das órbitas e caíram no fundo do + lago, transformando-se em duas pérolas, como ainda as não + teve no mundo uma rainha.<br /> <br /> O lago então ergueu-a, e com + um movimento de ondulação depositou-a na outra margem, aonde + havia um maravilhoso edifício, com mais de uma légua de + comprido. De longe não se sabia se era uma construção + artística ou uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe + não podia ver nada; tinha dado os seus olhos.<br /> <br /> ―Como + hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou ela + desesperada.<br /> <br /> ―A Morte ainda não chegou, + respondeu-lhe uma boa velha, que andava dum lado para o outro, + inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como vieste tu aqui parar? + Quem te ensinou o caminho?»<br /> <br /> ―Deus auxiliou-me, + respondeu ela. Deus é misericordioso. <span class="pagenum">[7]</span>Compadece-te + de mim, e diz-me onde está o meu filho.»<br /> <br /> ―Eu + não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Há + aqui muitas plantas e muitas árvores, que murcharam esta noite: a + Morte não tarda aí para as tirar da estufa. Deves saber, que + toda a criatura humana tem neste sítio uma árvore ou uma + flor, que representam a sua vida e que morrem com ela. Parecem plantas + como quaisquer outras, mas tocando-lhes, sente-se bater um coração. + Guia-te por isto, e talvez reconheças as pulsações do + coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o que + tens ainda de fazer?»<br /> <br /> ―Já não tenho + nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim do + mundo buscar o que tu quiseres.―«Fora daqui não preciso + de nada, respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabelos negros; tu + sabes que são belos, e agradam-me. Trocá-los-ei pelos meus + cabelos brancos.»―Não pedes mais nada do que isso? + disse a mãe. Aí os tens, dou-tos de boa vontade.»<br /> + <br /> E arrancou os seus magníficos cabelos, que tinham sido + outrora o seu orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e + inteiramente brancos da velha.<br /> <br /> Esta levou-a pela mão + à grande estufa, onde crescia exuberantemente uma vegetação + maravilhosa. Viam-se debaixo de campânulas de cristal jacintos mimosíssimos + ao lado de peónias inchadas e ordinárias. Havia também + plantas aquáticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em + cujas raízes se enovelavam cobras asquerosas.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[8]</span>Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, + carvalhos e plátanos frondosos; depois num outro sítio + isolado havia canteiros de salsa, tomilho, hortelã e outras plantas + humildes que representavam o género de utilidade das pessoas que + elas simbolizavam.<br /> <br /> Havia ainda grandes arbustos em vasos + demasiadamente estreitos, que pareciam rebentar; mas viam-se também + florzitas insignificantes, em vasos de porcelana, na melhor terra, + circundadas de musgo, tratadas com esmero delicadíssimo. Tudo isso + representava a vida dos homens, que a essa hora existiam no mundo, desde a + China até à Groenlândia.<br /> <br /> A velha queria + mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a mãe impacientada + pediu-lhe que a levasse ao sítio onde estavam as plantas + pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do coração, + e, depois de ter tocado em milhares delas, reconheceu as pulsações + do coração do seu filho.<br /> <br /> ―É ele!» + exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, + pendido sobre a terra, parecia completamente estiolado.<br /> <br /> ―Não + lhe toques, disse a velha. Fica neste sítio; e quando a Morte vier, + que não tarda, proíbe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a + de arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá + medo, porque tem de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem + o seu consentimento.»<br /> <br /> Nisto sentiu-se um vento glacial, e + a mãe adivinhou que era a Morte, que se aproximava.<br /> <br /> + <span class="pagenum">[9]</span>―Como é que deste com o + caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda primeiro do que eu! Como o + conseguiste?―«Sou mãe» respondeu ela. <br /> E a + Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.<br /> + <br /> Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, + tendo o cuidado de não ferir uma só das pequeninas pétalas. + Então a Morte soprou-lhe nas mãos, fazendo-lhas cair + inanimadas. O hálito da Morte era mais frio do que os ventos + enregelados do Inverno.<br /> <br /> ―Não podes nada comigo!» + disse a Morte.―Mas Deus tem mais força do que tu, respondeu a + mãe.»―«É verdade, mas eu não faço + senão aquilo que ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas + plantas, árvores e arbustos, quando começam a murchar, + transplanto-as para outros jardins, um dos quais é o grande jardim + do Paraíso. São regiões desconhecidas; ninguém + sabe o que se lá passa.»<br /> <br /> ―Misericórdia! + misericórdia! soluçou a mãe. Não me roubem o + meu filho, agora que acabo de o encontrar!» Suplicava e gemia. A + Morte conservava-se impassível; agarrou então + instantaneamente em duas flores lindíssimas e disse à Morte: + «Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar, despedaçar não + só esta, mas todas as flores que estão aqui!<br /> <br /> + ―Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes + que és desgraçada, e querias ir partir o coração + de outra mãe!―«Outra mãe!» disse a pobre + mulher, largando as flores imediatamente. <span class="pagenum">[10]</span>―Toma, + aqui tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente + que os tirei do lago. Não sabia que eram teus. Mete-os nas órbitas, + e olha para o fundo deste poço; vê o que ias destruir, se + arrancasses estas flores. Verás passar nos reflexos da água, + como numa miragem, a sorte destinada a cada uma dessas duas flores, e a + que teria tido o teu filho, se porventura vivesse.»<br /> <br /> Debruçou-se + no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria, quadros + risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terríveis de miséria, + de angústias e de desolação.<br /> <br /> ―Nisto + que eu vejo, disse a mãe aflitíssima, não distingo + qual era a sorte que Deus destinava ao meu filho.»<br /> <br /> + ―Não posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em + tudo isto que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu + filho.»<br /> <br /> A mãe desvairada, lançou-se de + joelhos exclamando: Suplico-te, diz-me: era a sorte infeliz a que lhe + estava reservada? Não é verdade! Fala! Não me + respondes? Oh! na dúvida, leva-o, leva-o, não vá ele + sofrer desgraças tão horríveis. O meu querido filho! + Quero-lho mais que à minha vida. As angústias que sejam para + mim. Leva-o para o reino dos céus. Esquece as minhas lágrimas, + as minhas súplicas, esquece tudo o que fiz e tudo o que disse.»<br /> + <br /> ―Não te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te + entregue o teu filho ou que o leve para a região desconhecida de + que não posso falar-te!» Então a mãe alucinada, + convulsa, torcendo os braços, deitou-se de joelhos e dirigindo-se + <span class="pagenum">[11]</span>a Deus exclamou: «Não me ouças, + Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua + vontade que é sempre justa! Não me atendas meu Deus!»<br /> + <br /> E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua + agonia dilacerante.<br /> <br /> E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, + e foi transplantá-lo no jardim do paraíso.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[12]</span> + </p> + <h2> + <a name="2"></a>O ouro + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas + minas de ouro, empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas + minas; e o resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve + uma grande fome no país.<br /> <br /> Mas a rainha, que era prudente + e que amava o povo, mandou fabricar em segredo frangos, pombos, galinhas e + outras iguarias todas de ouro fino; e quando o rei quis jantar mandou-lhe + servir essas iguarias de ouro, com que ele ficou todo satisfeito, porque não + compreendeu ao princípio qual era o sentido da rainha; mas, vendo + que não lhe traziam mais nada de comer, começou a zangar-se. + Pediu-lhe então a rainha, que visse bem que o ouro não era + alimento, e que seria melhor empregar os seus vassalos em cultivar a + terra, que nunca se cansa de produzir, do que trazê-los nas minas + à busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e que não + tem outro valor além da estimação que lhe é + dada pelos homens, estimação que havia de converter-se em + desprezo, logo que ouro aparecesse em abundância.<br /> <br /> A + rainha tinha juízo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[13]</span> + </p> + <h2> + <a name="3"></a>Doçura e bondade + </h2> + <p> + <br /> <br /> Há entre vós, meus filhos, índoles + violentas, que não sabem dominar-se, e que são arrastadas + pelas primeiras impressões. É uma péssima disposição, + que é necessário corrigir; dá lugar a disputas, e a + que se cometam acções, cujo arrependimento chega + demasiadamente tarde. Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.<br /> + <br /> Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha + diante dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada.<br /> <br /> ―Oh! + senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num cego!»<br /> + <br /> Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns + camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a bater no + burro, para o fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, + mostrando-lhes a sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubésseis + que eu era coxo, não teríeis sido tão covardes.»<br /> + <br /> Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar + uma palavra.<br /> <br /> Que vos parece estas duas lições? + Estou convencido que aproveitaram a quem as recebeu.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[14]</span> + </p> + <h2> + <a name="4"></a>O malmequer + </h2> + <p> + <br /> <br /> Ouvi com atenção esta pequenina história!<br /> + <br /> No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que + deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho com + flores, rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, + no meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a + olhos vistos, graças ao sol, que repartia igualmente a sua luz + tanto por ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela + manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e + brilhantes, parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco + se lhe dava que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, + pobre florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente + o calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.<br /> + <br /> Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira, + sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianças + sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, ele, + sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade + de Deus, e tudo o que <span class="pagenum">[15]</span>sentia + misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com admirável + nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso pôs-se + a olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa + avezinha feliz que cantava e voava.<br /> <br /> «Eu vejo e oiço, + pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! não + tenho razão de me queixar.»<br /> <br /> Dentro da sebe havia + muitas flores altivas, aristocráticas; quanto menos aroma tinham, + mais orgulhosas se aprumavam. As dálias inchavam-se para parecerem + maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa. + As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se + pretensiosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o + pequeno malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: + «Como são ricas e bonitas! A cotovia irá certamente + visitá-las. Graças a Deus, poderei assistir a este belo + espectáculo.» E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu + voo, não para as dálias e tulipas, mas para a relva, junto + do pobre malmequer, que morto de alegria não sabia o que havia de + pensar.<br /> <br /> O passarinho pôs-se a saltitar à roda + dele, cantando: «Como a erva é macia! oh! que encantadora + florinha, com um coração de oiro, vestida de prata!»<br /> + <br /> Não se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave + acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois + no azul do firmamento. Durante mais de um quarto de hora não pôde + o malmequer reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas + todo contente, olhou <span class="pagenum">[16]</span>para as outras + flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber, + deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam + cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e pontiaguda manifestava o + despeito. As dálias tinham a cabeça toda inchada. Se elas + pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradáveis ao pobre + malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.<br /> <br /> Passados alguns + momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e + brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.<br /> <br /> + «Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrível; + foram-se todas.»<br /> <br /> E enquanto a rapariguinha levava as + tulipas, o malmequer alegrara-se por ser simplesmente uma pequenina flor + no meio da erva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair + da tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com + a cotovia.<br /> <br /> No dia seguinte de manhã, assim que o + malmequer abriu as suas folhas ao ar e à luz, reconheceu a voz do + passarinho, mas o seu canto era triste, muitíssimo triste. A pobre + cotovia tinha boas razões para se afligir: haviam-na agarrado e + metido numa gaiola, suspensa entre uma janela aberta. Cantava a alegria da + liberdade, a beleza dos campos e as suas antigas viagens através do + espaço ilimitado.<br /> <br /> O pequenino malmequer tinha boa + vontade de lhe acudir: mas como? Era difícil. A compaixão + pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe esquecer <span class="pagenum">[17]</span>inteiramente + as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura resplandecente + das suas próprias folhas.<br /> <br /> Nisto dois rapazinhos entraram + no jardim. O mais velho trazia na mão uma faca comprida e afiada + como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas. Encaminharam-se para + o malmequer, que não podia compreender o que desejavam.<br /> <br /> + «Podemos arrancar daqui um pedaço de relva para a cotovia, + disse um dos rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo + à volta da florinha.<br /> <br /> ―«Arranca a flor, disse + o outro.»<br /> <br /> A estas palavras o malmequer estremeceu de + terror. Arrancarem-no era morrer; e nunca tinha abençoado tanto a + existência, como no momento em que esperava entrar com a relva na + gaiola da cotovia.<br /> <br /> «Não; deixemo-la, disse o mais + velho. Está aí muito bem.»<br /> <br /> Foi por + conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.<br /> <br /> O pobre + passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia com as asas + nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus + desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.<br /> <br /> + Passou-se assim toda a manhã.<br /> <br /> «Já não + tenho água, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me + deixarem ao menos uma gota de água. A garganta queima-me, tenho uma + febre terrível, sinto-me abafada! Ai! Não há remédio + senão morrer, longe do sol esplêndido, longe da fresca + verdura e de todas as magnificências da criação!»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[18]</span>Depois enterrou o bico na relva húmida + para se refrescar um pouco. Viu então o malmequer; fez-lhe um sinal + de cabeça amigável, e disse-lhe, afagando-o: «Também + tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo inteiro, que eu + tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de + relva, e a ti só por única companhia. Cada pezinho de relva + substitui para mim uma árvore, e cada uma das tuas folhas brancas, + uma flor odorífera. Ah! como me fazes recordar de todas as coisas + que perdi!<br /> <br /> ―Se eu pudesse consolá-la! pensava o + malmequer, incapaz de fazer o mínimo movimento.<br /> <br /> Contudo + o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia + sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a erva, + teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na flor.<br /> + <br /> Caiu a noite; não estava ali ninguém, para trazer uma + gota de água à desditosa cotovia; Estendeu então as + suas belas asas, sacudindo-as convulsivamente, e pôs-se a cantar uma + cançãozinha melancólica; a sua cabecinha inclinou-se + para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e de angústias + cessou de bater. Vendo este triste espectáculo, o malmequer não + pôde como na véspera fechar as suas folhas para dormir; + curvou-se para o chão, doente de tristeza.<br /> <br /> Os rapazitos + só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto, + rebentaram-lhe as lágrimas e abriram uma cova. Meteram o cadáver + dentro de uma caixa vermelha, lindíssima, fizeram-lhe um enterro de + príncipe, e cobriram o túmulo com folhas de rosas.<br /> + <br /> <span class="pagenum">[19]</span>Pobre passarinho! Enquanto vivia e + cantava, esqueceram-se dele e deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois + de morto é que o choraram e lhe fizeram honrarias pomposíssimas.<br /> + <br /> A relva e o malmequer lançaram-nas para a poeira da estrada; + daquele que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguém se + lembrou.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[20]</span> + </p> + <h2> + <a name="5"></a>Não quero + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam + muito alto: «Não, dizia um com voz enérgica, não + quero.» Parei e perguntei-lhe:―O que é que tu não + queres, meu rapaz?―«Não quero dizer à mamã + que venho da escola, porque é mentira. Sei que me há-de + ralhar, mas antes quero que me ralhe do que mentir.»―E tens + razão, disse-lhe eu. És um rapaz como se quer.» + Apertei-lhe a mão, enquanto que o outro pequeno, que lhe + aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora todo envergonhado.<br /> + <br /> Daí a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de + falar com o professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os + meus dois pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que + o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre + sobre os dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um + magnífico estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre + pronto a confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a repará-las. + O outro pelo contrário, é mentiroso, covarde e incorrigível.»―Não + me espanto, disse eu, já tinha tirado o horóscopo destas + duas crianças; e contei-lhe o que tinha ouvido.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[21]</span> + </p> + <h2> + <a name="6"></a>Piloto + </h2> + <p> + <br /> <br /> Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, + e o infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da + quinta.<br /> <br /> Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o + pau, que João lhe lançava o mais longe que podia; pegava + nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do + pequerrucho e da sua irmã Joaninha.<br /> <br /> Esta brincadeira + recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do + Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que + o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações: + partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos + pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.<br /> <br /> Quando o + hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da + carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a + parede da quinta.<br /> <br /> Uma vez deu prova de uma extraordinária + sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de + trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.<br /> <br /> + Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração + de hostilidade em quanto o homem seguiu o <span class="pagenum">[22]</span>caminho + da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o guarda + vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.<br /> <br /> Era como se + dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu dono?»<br /> <br /> O + ladrão quis pôr então outra vez o saco donde o tinha + tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem + o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil + posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o + caso para o não desonrar.<br /> <br /> Mas o homem ficou com ódio + ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do + quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem + desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até + à margem do ribeiro.<br /> <br /> Atou uma grande pedra à + outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o à + água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço, + caiu também.<br /> <br /> Como não sabia nadar, teria sido + despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo + ao seu instinto de salvador e desembaraçando-se da pedra mal atada, + não tivesse mergulhado duas vezes e trazido para terra o seu mortal + inimigo.<br /> <br /> Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando + voltou a si, que o cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a + vida.<br /> <br /> Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse + dia, violentou-se a si mesmo e combateu as suas más inclinações.<br /> + <br /> O exemplo do cão corrigiu o homem.<br /> <br /> <br /> <br /> + <br /> <span class="pagenum">[23]</span> + </p> + <h2> + <a name="7"></a>O rico e o pobre + </h2> + <p> + <br /> <br /> Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer + recados; um dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se + cansado e deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma + estalagem, junto da estrada. Estava comendo um bocado de pão que + tinha trazido para jantar, quando chegou uma bela carruagem em que vinha + um fidalguinho, com o seu preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente + e perguntou aos viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não + tinham tempo, e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma + garrafa de vinho.<br /> <br /> Martinho estava pasmado a olhar para eles; + olhou depois para a sua côdea de pão, para a sua velha + jaqueta, para o seu chapéu todo roto, e suspirando exclamou + baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino tão rico, em vez do desgraçado + Martinho! Que fortuna se ele estivesse aqui, e eu dentro daquela + carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia Martinho e + repetiu-o ao seu aluno, que, lançando a cabeça fora da + carruagem, chamou Martinho com a mão.<br /> <br /> ―Ficarias + muito contente, não é verdade, meu <span class="pagenum">[24]</span>rapaz, + podendo trocar a minha sorte pela tua?»―Peço que me + desculpe senhor, replicou Martinho corando, o que eu disse não foi + por mal.»―Não estou zangado contigo, replicou o + fidalguinho, pelo contrário, desejo fazer a troca.»<br /> + <br /> ―Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguém + quereria estar no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o + senhor. Ando muitas léguas por dia, como pão seco e batatas, + enquanto que o senhor anda numa carruagem, pode comer frangos e beber + vinho.»―Pois bem, volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo + aquilo que tens e que eu não tenho, dou-te em troca de boa vontade + tudo o que possuo.» Martinho ficou com os olhos espantados, sem + saber o que havia de dizer; mas o preceptor continuou: «Aceitas a + troca?»―Ora essa! exclamou Martinho, ainda mo pergunta! Oh! + como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada de me ver entrar nesta + bela carruagem!» E Martinho desatou a rir com a ideia da entrada + triunfante na sua aldeia.<br /> <br /> O fidalguinho chamou os criados, que + abriram a portinhola e o ajudaram a descer. Mas qual foi a surpresa de + Martinho, vendo que ele tinha uma perna de pau e que a outra era tão + fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas: depois, olhando para + ele de mais perto, Martinho observou que era muito pálido e que + tinha cara de doente.<br /> <br /> Sorriu para o rapazito com ar benévolo, + e disse-lhe:―Então sempre desejas trocar? Querias porventura, + se pudesses, deixar as tuas pernas valentes e as tuas faces coradas, pelo + prazer de ter <span class="pagenum">[25]</span>uma carruagem e andar bem + vestido?»―Oh! não, por coisa nenhuma! replicou + Martinho.―«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria + pobre, se tivesse saúde. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e + doente, sofro os meus males com paciência e faço por ser + alegre, dando graças a Deus pelos bens que me concedeu na sua + infinita misericórdia.<br /> <br /> «Faz o mesmo, meu + amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, tens força + e saúde, coisas que valem mais que uma carruagem, e que não + podem comprar-se com dinheiro.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[26]</span> + </p> + <h2> + <a name="8"></a>Como um camponês aprendeu o Padre Nosso + </h2> + <p> + <br /> <br /> Tinha o coração duro, e não dava esmolas. + Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitência rezar + sete vezes o Padre Nosso.<br /> <br /> «Não o sei, e nunca o + pude aprender, respondeu o aldeão.» <br /> «Pois nesse + caso, tornou o confessor, imponho-te por penitência dar a crédito + um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da minha parte.»<br /> + <br /> No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.<br /> + <br /> «Como te chamas? perguntou-lhe o camponês.<br /> <br /> + «Padre―Nosso―Que―Estais―No―Céu, + respondeu o pobre.»<br /> <br /> «E o teu apelido?»<br /> + <br /> «Seja―Santificado―O―Vosso―Nome.»<br /> + <br /> E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.<br /> <br /> Ao + outro dia chega segundo pobre.<br /> <br /> «Como te chamas?<br /> + <br /> «Venha―A―Nós―O―Vosso―Reino.»<br /> + <br /> «E o teu apelido?»<br /> <br /> «Seja―Feita―A―Vossa―Vontade.»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[27]</span>E partiu com o seu alqueire de + trigo.<br /> <br /> Veio terceiro pobre.<br /> <br /> «Como te chamas?»<br /> + <br /> «Assim―Na―Terra―Como―No―Céu.»<br /> + <br /> «E o teu apelido?»<br /> <br /> «Dai-nos―Hoje―O―Pão―Nosso―De―Cada―Dia.»<br /> + <br /> E levou o seu alqueire.<br /> <br /> Vieram ainda dois pobres + sucessivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao <i>Amen</i>.<br /> + <br /> Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.<br /> <br /> + «Então já sabes o Padre Nosso?»<br /> <br /> + «Não, sr. cura, sei só os nomes e apelidos dos pobres + a quem emprestei o meu trigo.»<br /> <br /> «Quais são? + tornou o padre.»<br /> <br /> E o aldeão enumerou-lhos a + seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.<br /> <br /> + «Já vês, disse o confessor, que não era muito + difícil aprender o Padre Nosso, porque já o sabes + perfeitamente.»<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[28]</span> + </p> + <h2> + <a name="9"></a>O talismã + </h2> + <p> + <br /> <br /> Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma indústria, + mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, + o que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negócios + com uma actividade infatigável, enquanto que o segundo, entregue + inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção + da sua casa.<br /> <br /> «Explica-me, disse um dia este último + ao seu colega, qual é a razão porque a sorte nos trata de um + modo tão diferente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja + está tão bem situada como a tua, e apesar disso, enquanto tu + ganhas, eu não faço senão perder. E não + é porque eu seja estroina; não bebo, nem jogo. Já + tenho pensado algumas vezes se não terás tu por acaso algum + precioso talismã.»<br /> <br /> «Efectivamente, respondeu + o outro, herdei de meu pai um talismã de uma virtude incomparável. + Trago-o ao pescoço, e ando assim com ele todo o dia por toda a + casa, do celeiro para a adega, e da adega para o celeiro. E o caso + é que tudo me corre perfeitamente.»<br /> <br /> <span + class="pagenum">[29]</span>«Olé meu querido colega, + empresta-me pelo amor de Deus essa relíquia preciosa de que tanto + necessito; podes ter a certeza de que ta restituo.»<br /> <br /> + «Pois vem buscá-la amanhã de manhã.»<br /> + <br /> Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, + apresentou-lhe este uma avelã, através da qual tinha passado + um fio de seda.<br /> <br /> O nosso homem pô-la imediatamente ao + pescoço, e começou a correr toda a casa com o talismã. + Observou então a completa desordem que por toda a parte ali havia. + Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha o pão, a + carne e os legumes; no celeiro, o milho, o trigo, o feijão; na + estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjedouras dos cavalos; viu, + finalmente, como os seus livros e registros estavam mal escriturados; viu + tudo isto, e que era necessário dar-lhe remédio, + compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substituído por + terceira pessoa na direcção dos seus negócios.<br /> + <br /> Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talismã, + agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em + segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[30]</span> + </p> + <h2> + <a name="10"></a>A alma + </h2> + <p> + <br /> <br /> «Mamã, nem todas as crianças que morrem vão + para o Paraíso. O outro dia vi levar para o cemitério um + menino que tinha morrido; o seu papá e as suas duas irmãzinhas + acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me fazia pena. Iam a + chorar porque aquele menino tinha sido mau, não é verdade?»<br /> + <br /> «Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, + enquanto choravam seus pais e suas irmãs, já estava vivendo + feliz no Paraíso.»<br /> <br /> «A alma? mamã; não + sei o que é; não compreendo bem.»<br /> <br /> «Maria, + acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas pequerruchas.»<br /> + <br /> «Tive sim, mamã, tive muita pena.»<br /> <br /> + «Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e + triste? eram os braços?»<br /> <br /> «Não, mamã.»<br /> + <br /> «Eram as orelhas?»<br /> <br /> «Oh! não mamã, + era <i>cá dentro</i>.»<br /> <br /> «Esse <i>lá + dentro</i>, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece, que + te repreende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando + praticas o bem.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[31]</span> + </p> + <h2> + <a name="11"></a>Alberto + </h2> + <p> + <br /> <br /> Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu + pai e seus irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar árvores + e fazer sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um + único feijão produzir cem feijões e muitas vezes + mais, e de uma talhada de batata nascerem quarenta batatas magníficas; + sabia que a terra pagava com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um + dia achou uma libra no quarto do pai, e foi enterrá-la + imediatamente no seu jardinzinho. «Há-de nascer uma árvore, + dizia ele consigo, que dará libras como uma cerejeira dá + cerejas, e irei entregá-las ao papá, que ficará muito + contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, + mas não rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda + a parte. Por fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.<br /> <br /> + «Vi papá; achei-a e fui semeá-la.»<br /> <br /> + «Como, semeá-la? doido! julgas talvez que vai nascer como uma + couve?»<br /> <br /> «Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se + encontrava na terra.»<br /> <br /> «É verdade, mas não + nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»<br /> <br /> + <span class="pagenum">[32]</span>Desenterrou-se a libra, e Alberto foi + castigado por dispor do que lhe não pertencia.<br /> <br /> Há + contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe produzir + os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como é? + É dando-o aos pobres. Faz-se no Paraíso a colheita dessa + sementeira.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[33]</span> + </p> + <h2> + <a name="12"></a>A canção da cerejeira + </h2> + <p> + <br /> <br /> Disse Deus na Primavera: «Ponham a mesa às + lagartas!» E a cerejeira cobriu-se imediatamente de folhas, milhões + de folhas, fresquinhas e verdejantes.<br /> <br /> A lagarta, que estava + dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se, abriu a boca, + esfregou os olhos e pôs-se a comer tranquilamente as folhinhas + tenras, dizendo: «Não se pode a gente despegar delas. Quem + é que me arranjou este banquete?»<br /> <br /> Então + Deus disse de novo: «Ponham a mesa às abelhas!» E a + cerejeira cobriu-se imediatamente de flores, milhões de flores + delicadas e brancas.<br /> <br /> E a abelha matinal aos primeiros raios da + aurora pousou sobre elas, dizendo: «Vamos tomar o nosso café; + e que chávenas tão bonitas em que o deitaram!»<br /> + <br /> Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não + pouparam o açúcar!»<br /> <br /> No Verão disse + Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cerejeira cobriu-se + de mil frutos apetitosos e vermelhos.<br /> <br /> <span class="pagenum">[34]</span>«Ah! + ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasião; temos apetite, e + isto dar-nos-á novas forças para podermos cantar uma nova + canção.» No Outono disse Deus: «Levantai a mesa, + já estão satisfeitos.» E o vento frio das montanhas + começou a soprar, e fez estremecer a árvore.<br /> <br /> As + folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caíram uma a uma, e o + vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as + esvoaçar.<br /> <br /> Chegou o Inverno e disse Deus: «Cobri o + resto!» E os turbilhões dos ventos trouxeram a neve, sob cuja + mortalha tudo dorme e descansa.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[35]</span> + </p> + <h2> + <a name="13"></a>Os gigantes da montanha e os anões da planície + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez uma família de gigantes, que viviam num + castelo na montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da + altura dum álamo. Era curiosa e andava com vontade de descer + à planície a ver o que faziam lá em baixo os homens, + que de cima do monte lhe pareciam anões. Um belo dia, em que seu + pai o gigante tinha ido à caça e sua mãe estava + dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os + jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os + lavradores, coisas inteiramente novas para ela. «Oh! que lindos + brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, + que quase que cobriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os + cavalos, a charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no + castelo, onde seu pai estava a jantar.<br /> <br /> ―Que trazes aí, + minha filha?» perguntou ele.<br /> <br /> ―Olhe, disse ela, + abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os mais bonitos que + tenho visto.»<br /> <br /> E pô-los em cima da mesa, a um e um,―os + cavalos, a charrua e os trabalhadores, que estavam <span class="pagenum">[36]</span>todos + espantados, como formigas a quem tivessem transportado dum formigueiro + para um salão. A gigantinha pôs-se a bater as palmas e a rir + com uma alegria doida, mas o gigante fez-se sério e franziu o + sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso não são + brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e respeitar-se. Mete + tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-no imediatamente onde o + achaste; porque fica sabendo que os gigantes da montanha, morreriam de + fome, se os anões da planície deixassem de lavrar a terra e + de semear o trigo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[37]</span> + </p> + <h2> + <a name="14"></a>A criança, a anjo e flor + </h2> + <p> + <br /> <br /> Quando morre uma criança, desce um anjo do céu, + toma-a nos braços, e desdobrando as asas imaculadas, voa por cima + de todos os sítios que ela amara durante a sua pequenina existência; + o anjo abaixa-se de quando em quando para colher flores, que leva a Deus, + para que floresçam no paraíso ainda mais belas do que tinham + sido na terra. Deus recebe todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com + os lábios, e a flor escolhida, adquirindo voz imediatamente, começa + a cantar os coros maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o + anjo a uma criança morta, que o estava ouvindo como num sonho. + Pairaram primeiro sobre a casa em que a criança brincara, e depois + sobre jardins deliciosos, cobertos de flores.<br /> <br /> «Qual + é a flor que desejas para plantar no paraíso?» + perguntou o anjo.<br /> <br /> Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido + direita, vigorosa, magnífica; mas quebraram-lhe o pé, e + todos os seus ramos cheios de botõezinhos lindíssimos + pendiam estiolados para o chão.<br /> <br /> «Pobre roseira! + disse a criança ao anjo; vamos buscá-la para que possa + reflorir no paraíso.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[38]</span>O + anjo foi buscá-la, e abraçou a criança. Colheram + muitas flores brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.<br /> + <br /> A colheita estava terminada, e contudo não voavam ainda para + Deus. Caiu a noite silenciosa, e a criança e o seu guia Divino + andavam ainda por cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais + estreitas, cheia de cacos de louça, de vidros partidos, de + farrapos, de toda a casta de imundície. Entre estes destroços + distinguiu o anjo um vaso de flores com a terra pelo chão, onde + pendiam as longas raízes duma flor dos campos, já murcha, e + que parecia não poder reverdecer: tinham-na atirado para a rua como + inútil e morta.<br /> <br /> «Vale a pena levantá-la + disse o anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando, te contarei a história + da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquela rua estreita + e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criança miserável e + doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear + com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias + de Verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. + Então a criança sentada à janela, aquecida pelo sol, + sem o cansaço do andar, imaginava-se passeando; não conhecia + da floresta, da fresca verdura da primavera, senão o ramo de faia, + que uma vez o filho do vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima + da cabeça o ramo verdejante, e, supondo-se debaixo das árvores + abrigadas do sol, sonhava com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho + do vizinho trouxe-lhe flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma + que tinha ainda raízes; <span class="pagenum">[39]</span>o + pequerrucho plantou-a num vaso, e pô-lo à janela, junto da + cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se + grande, e todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu + único tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; + fazia-lhe aproveitar os raios do sol até ao último. A flor + aparecia-lhe em sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o + seu aroma e ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela + que se voltou.<br /> <br /> «Faz hoje um ano que esse pequerrucho + habita no paraíso; a sua querida flor, esquecida à janela + desde então, murchou, estiolou-se e atiraram-na à rua + finalmente. E contudo esta flor quase seca é o tesouro do nosso + ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os canteiros dum jardim + realengo.»<br /> <br /> «Como sabes tu isso?» perguntou a + criança, que o anjo levava para o céu.<br /> <br /> ―Sei-o, + respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava em muletas; + como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»<br /> + <br /> A criança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo + quando entravam no céu onde tudo era alegria e felicidade. Deus + pegou nas flores, levou-as ao coração, mas a que ele beijou + foi a florinha silvestre, desprezada e murcha: a flor adquiriu voz + imediatamente, pôs-se a cantar com as almas que rodeiam o Criador, + umas junto dele, outras ao longe, formando círculos que vão + aumentando sucessivamente, multiplicando-se até ao infinito, + povoados de <span class="pagenum">[40]</span>seres inteiramente felizes, + cantando todos harmoniosamente―desde a criança abençoada + até à humilde florinha do campo, levantada do lodo, dentre + os tristes despojos da rua sombria e tortuosa.<br /> <br /> <br /> <br /> + <br /> <span class="pagenum">[41]</span> + </p> + <h2> + <a name="15"></a>Presente por presente + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar + de noite à choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda não + tinha chegado, foi a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o + o melhor que pôde, desculpando-se da miserável hospitalidade + que lhe ia dar, porque eram batatas cozidas a única coisa que lhe + poderia oferecer; cama não a tinha, por conseguinte dormiria sobre + a palha. Mas o estrangeiro estava morto de fome e de fadiga; as batatas + souberam-lhe mais do que faisões, e dormiu melhor em cima da palha + do que num leito de príncipes. Ao outro dia pela manhã disse + isto mesmo à pobre mulher, gratificando-a ao despedir-se com uma + moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha dito que a guardasse + como uma pequena lembrança, a boa camponesa julgou que seria uma + medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a trazer ao + pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o que + lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro examinou + os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:<br /> <br /> + <span class="pagenum">[42]</span>«Esse forasteiro era nada mais nada + menos do que o nosso príncipe!<br /> <br /> E o bom do homem não + podia conter-se de alegria, por sua alteza ter achado as suas batatas + melhores do que faisões.<br /> <br /> «É necessário + confessar, disse ele com um ar triunfante, que não há talvez + no mundo um terreno mais favorável do que este para a cultura das + batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, já que as acha tão + boas.<br /> <br /> E partiu imediatamente para o palácio com uma + provisão de batatas escolhidas.<br /> <br /> Os lacaios e as + sentinelas ao princípio não o queriam deixar entrar; mas + insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que + pelo contrário vinha trazer alguma coisa.<br /> <br /> Foi, pois, + introduzido na sala da audiência.<br /> <br /> «Meu senhor, + disse ele ao príncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente pedir + hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca + duma enxerga miserável e de um prato de batatas cosidas. Era pagar + demasiadamente, apesar de serdes um príncipe muito rico e poderoso. + Eis o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das + batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. + Dignai-vos aceitá-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser + nosso hospede, lá as encontrareis sempre ao vosso dispor.»<br /> + <br /> A honrada simplicidade do camponês agradou ao príncipe, + e, como estava num momento de bom humor, fez-lhe doação de + uma quinta com trinta jeiras de terra.<br /> <br /> <span class="pagenum">[43]</span>Ora + o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, + que, sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse consigo: «Porque + não me há de suceder a mim outro tanto? O príncipe + gosta do meu cavalo, pelo qual lhe pedi sessenta libras, que ele me + recusou. Vou-lhe fazer presente dele: se deu ao João uma quinta com + trinta jeiras de terra, simplesmente por um cesto de batatas, a mim com + certeza me há de recompensar ainda mais generosamente.»<br /> + <br /> Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do + palácio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com + ar altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiência.<br /> + <br /> «Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; + não tenho querido trocá-lo a dinheiro, mas dignai-vos + permitir-me que vo-lo ofereça.»<br /> <br /> O príncipe + viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse consigo: + «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:<br /> + <br /> Depois dirigindo-se a ele:<br /> <br /> «Aceito a tua dádiva, + mas não sei como agradecer-ta condignamente. Oh! espera um pouco: + Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que faisões. + Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que é um bom preço + para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»<br /> + <br /> E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.<br /> <br /> <br /> <br /> + <br /> <span class="pagenum">[44]</span> + </p> + <h2> + <a name="16"></a>O pinheiro ambicioso + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a + sua sorte. «Oh! dizia ele, como são horrorosas estas linhas + uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou + um pouco mais orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para + andar vestido de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»<br /> + <br /> O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã + acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e + admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros + pinheiros, que, mais sensatos do que ele, não invejavam a sua rápida + fortuna. À noite passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as + folhas, meteu-as num saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos + pés à cabeça.<br /> <br /> «Oh! disse ele, que + doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça dos + homens. Fiquei completamente despido. Não há agora em toda a + floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de + oiro; o oiro atrai as ambições.<br /> <br /> Ah! se eu + arranjasse um vestuário de vidro! Era <span class="pagenum">[45]</span>deslumbrante, + e o judeu avarento não me teria despido.»<br /> <br /> No dia + seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao sol como + pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, fitando + desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o céu cobriu-se de + nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as + folhas de cristal.<br /> <br /> «Enganei-me ainda, disse o jovem + pinheiro, vendo por terra todo feito em pedaços o seu manto + cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir as florestas. + Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria menos brilhante, + mas viveria descansado.»<br /> <br /> Cumpriu-se o seu último + desejo, e, apesar de ter renunciado às vaidades primitivas, + julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os outros pinheiros + seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as + folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas todas sem + deixar uma única.<br /> <br /> O pobre pinheiro, envergonhado e + arrependido, já queria voltar à sua forma natural. Conseguiu + ainda este favor, e nunca mais se queixou da sua sorte.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[46]</span> + </p> + <h2> + <a name="17"></a>Perfeição das obras de Deus + </h2> + <p> + <br /> <br /> <i>A filha.</i>―Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Vou-te dar outra.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Como + se fazem as agulhas, mamã?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Vê + se adivinhas.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Não sei, mamã.<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Conheces os metais?<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Conheço mamã; tenho lá dentro muitos + bocadinhos dentro de uma caixa.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Ora + muito bem, diz-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de mármore?<br /> + <br /> <i>A filha.</i>―Oh! não; são de metal; mas de + que metal?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Antes de perguntar + qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas primeiro.<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Ora espere!... uma agulha é de metal: não + é de prata, porque não é branca; não é + de oiro, porque não é de um lindo amarelo muito brilhante; não + é de cobre, porque não é de um amarelo muito feio, + que cheira mal... Então é de ferro, mamã?<br /> <br /> + <i>A mãe.</i>―Adivinhaste.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Mas, + mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.<br /> + <br /> <span class="pagenum">[47]</span><i>A mãe.</i>―É + que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já + se não chama ferro, é aço.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Bem, + as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é + que as fazem.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―É impossível, + não és capaz disso; mas hei de levar-te a uma fábrica + onde se fazem agulhas. Hás-de vê-las fazer, e hás-de + gostar muito.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Tinha vontade de saber como + se fazem todas as coisas de que nos servimos.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Tens + razão; é uma vergonha ignorá-lo.<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.<br /> <br /> <i>A + mãe.</i>―Olha, aí tens o meu estojo.<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São + tão fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade há-de + ser necessária para fazer uma coisinha tão delicada!<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Lembras-te de ver na feira um carrinho de + marfim puxado por uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Lembro, mamã; era tão bonito!<br /> <br /> <i>A + mãe.</i>―Li num jornal alemão que um operário + chamado Nerlinger fez um copo de um grão de pimenta, e que dentro + deste copo havia mais doze...<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Que + pequeninos deviam ser os doze copos para caberem num grão de + pimenta!<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―E ainda não é + tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas doiradas, e sustentava-se no + pé.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Que vontade eu tinha de ver + isso!<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Tens razão de te + admirares da habilidade dos homens. É efectivamente espantoso, e + <span class="pagenum">[48]</span>deve saber-se, o modo porque se fabricam + certas coisas; contudo ainda há outras obras mais dignas de admiração.<br /> + <br /> <i>A filha.</i>―Quais, mamã?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Já + to digo. (<i>Levanta-se.</i>)<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Que quer, + mamã?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Quero que vejas o + microscópio de teu papá.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Pois + sim; eu gosto de olhar pelo microscópio.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Este + é magnífico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais ver + a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina, + lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?<br /> <br /> + <i>A filha.</i>―Meu Deus, que coisa tão feia! Que agulha tão + grosseira!<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Vês-lhe buracos, + riscos, asperezas, não é verdade?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Parece + um prego muito grande e muito mal feito.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Pois + todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na + agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá + por elas.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―O operário que fez esta + agulha ficaria envergonhado, se a visse ao microscópio.<br /> <br /> + <i>A mãe.</i>―Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.<br /> + <br /> <i>A filha.</i>―O quê, mamã?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―O + aguilhãozinho de uma abelha.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Oh! + que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é + brilhante!... Mas já sei que visto ao microscópio há + de acontecer o mesmo que com a agulha.<br /> <br /> <span class="pagenum">[49]</span><i>A + mãe.</i>―Pronto: olha.<br /> <br /> <i>A filha</i> (olhando).―É + esquisito, mamã!<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Então?<br /> + <br /> <i>A filha.</i>―Aumentou, aumentou como a agulha, mas não + é áspero, pelo contrario, é perfeitamente liso... A + agulha parecia que não tinha ponta, e o ferrãozinho da + abelha tem uma ponta tão fina como um cabelo. Porque será + isto, mamã?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―É porque o + operário que fez este aguilhão é muito mais hábil + do que o que fez a agulha.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Quem é + esse operário tão hábil?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―É + o mesmo que fez o céu, os astros, a terra, as plantas e as + criaturas.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―É Deus.<br /> <br /> <i>A + mãe.</i>―Exactamente. Pois não é Deus que fez + as abelhas e todos os animais?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―De certo.<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Foi ele por conseguinte que fez o aguilhão + desta abelha; e aí tens porque o aguilhão é superior + à agulha: é obra de Deus. Mas continuemos a olhar pelo + microscópio. Aqui está um pedacinho de musselina finíssima. + Olha pelo microscópio; o que é que vês?<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal feita.<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Aqui tens agora um pedacinho de renda + delicadíssima.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Essa estou bem + certa que há de ser linda, mesmo vista pelo microscópio.<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Então?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―É + horrorosa... Parece feita de pelos grosseiros com grandes buracos + desiguais.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―As obras do homem são + todas assim.<br /> <br /> <span class="pagenum">[50]</span><i>A filha.</i>―Oh! + mamã, vejamos agora as obras de Deus.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Sabes + o que é isto?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Sei, mamã, + é um casulo de bicho de seda.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Os + fiozinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha + pelo microscópio a ver se te parecem desiguais.<br /> <br /> <i>A + filha</i> (olhando pelo microscópio).―Não, mamã; + os fios são todos iguais, e o casulo é sempre muito liso, + muito brilhante.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―É porque + é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que há sobre + este papel?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Pontinhos feitos com tinta e + manchazinhas redondas feitas também com tinta.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Estes + pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente redondos?<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Sim, mamã, perfeitamente redondos.<br /> <br /> <i>A + mãe.</i>―Vê-os agora ao microscópio.<br /> <br /> + <i>A filha.</i>―Oh! já não são redondos, são + todos desiguais.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Tira o papel; + vejamos a obra de Deus. É uma asa de borboleta; vês que está + mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo microscópio; o + que é que vês?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Vejo a mesma + coisa que via sem o vidro, só com a diferença que agora + é maior. Que belas que são as obras de Deus!<br /> <br /> <i>A + mãe.</i>―Merece bem a pena estudá-las.<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as + obras dos homens.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―E sempre e em tudo + hás-de encontrar defeitos nas obras do homem, enquanto que <span + class="pagenum">[51]</span>as obras de Deus, quanto mais se observam, mais + perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a primeira + é que Deus merece tanto a nossa admiração como o + nosso amor; a segunda é que os homens orgulhosos são + insensatos, porque não podem fazer nada perfeitamente belo, + perfeitamente regular, e as suas obras mais primorosas são cheias + de imperfeições, se as compararmos com as obras do Criador.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[52]</span> + </p> + <h2> + <a name="18"></a>João e os seus camaradas + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez uma viúva com um filho único. Ao + cabo dum Inverno rigoroso, possuía apenas um galo, e meio alqueire + de farinha. João resolveu-se a correr mundo, à busca de + fortuna. A mãe cozeu o resto da farinha, matou o galo, e disse-lhe:<br /> + <br /> «O que é que preferes: metade desta merenda com a minha + bênção, ou toda com a minha maldição?»<br /> + <br /> «Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros há + no mundo eu quereria a tua maldição.»<br /> <br /> + «Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e + Deus te abençoe.»<br /> <br /> E partiu. Foi andando, andando, + até que encontrou um jumento, que tinha caído num atoleiro, + donde não podia sair.<br /> <br /> «Oh! João, exclamou o + burro, tira-me daqui, que estou quase a afogar-me.»<br /> <br /> + «Espera, respondeu João.»<br /> <br /> E, formando uma + ponte com pedras e ramos de árvores, conseguiu tirar o quadrúpede + do atoleiro.<br /> <br /> <span class="pagenum">[53]</span>«Obrigado, + disse-lhe ele, aproximando-se de João. Se te posso ser útil, + aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?»<br /> <br /> ―«Vou + por esse mundo fora, a ver se ganho a minha vida.»<br /> <br /> + «Queres tu que eu te acompanhe?<br /> <br /> «Anda daí.»<br /> + <br /> E puseram-se a caminho.<br /> <br /> Ao passarem por uma aldeia, viram + um cão perseguido pelos rapazes da escola, que lhe tinham atado ao + rabo uma chocolateira velha. O pobre animal correu para João que o + acariciou, e o jumento pôs-se a ornear de tal maneira, que os + rapazes com o medo deitaram todos a fugir.<br /> <br /> «Obrigado, + disse o rafeiro a João. Se para alguma coisa te for prestável, + aqui me tens às tuas ordens. Aonde vais tu?»<br /> <br /> + «Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha vida.»<br /> + <br /> «Queres que te acompanhe?»<br /> <br /> «Anda daí.»<br /> + <br /> Quando saíram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno + tirou a merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou + alguma erva que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato + esfaimado a miar lastimosamente.<br /> <br /> Coitado, exclamou João!» + E deu-lhe uma asa do frango.<br /> <br /> ―«Obrigado disse o + gato. Oxalá que um dia eu te possa ser útil. Aonde vais tu?<br /> + <br /> ―«Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.»<br /> + <br /> ―De boa vontade.<br /> <br /> <span class="pagenum">[54]</span>Os + quatro viajantes puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um grito + dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um galo na + boca.<br /> <br /> «Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.<br /> + <br /> E no mesmo instante o cão atirou-se atrás da raposa, + que, vendo-se em perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando + de contente disse a João:<br /> <br /> ―«Obrigado. + Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vais tu?»<br /> <br /> + ―Arranjar trabalho. Queres vir connosco?<br /> <br /> ―«De + boa vontade.»<br /> <br /> ―Então anda. Se te cansares, + empoleira-te no jumento.»<br /> <br /> Os viajantes continuaram a + jornada com o seu novo companheiro. Sentiram-se todos fatigados e não + avistavam à roda nem uma quinta, nem uma cabana.<br /> <br /> ―«Paciência, + disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos hoje a + dormir ao ar livre; além disso a noite está sossegada, e a + relva é macia.»<br /> <br /> Dito isto estendeu-se no chão; + o jumento deitou-se ao lado dele, o cão e o gato aninharam-se entre + as pernas do burro complacente, e o galo empoleirou-se numa árvore.<br /> + <br /> Dormiam todos um sono profundíssimo, quando de repente o galo + começou a cantar.<br /> <br /> ―«Que demónio! + disse o jumento acordando todo zangado. Porque é que estás a + gritar?»<br /> <br /> ―«Porque já é dia, + respondeu o galo. Não vês ao longe a luz da madrugada, que + vem rompendo?»<br /> <br /> <span class="pagenum">[55]</span>―«Vejo + uma luz, disse João, mas não é do sol, é duma + lanterna. Provavelmente há ali alguma casa, onde nos poderíamos + recolher o resto da noite.»<br /> <br /> Foi aceita a proposta. Partiu + a caravana; foi andando, andando, através dos campos, até + que parou junto da casa do guarda dum grande castelo, donde subiam + gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e blasfémias horríveis.<br /> + <br /> ―Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito + devagarinho, a ver quem é que está lá dentro.»<br /> + <br /> Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhais, que se + banqueteavam alegremente, sentados a uma mesa principesca.<br /> <br /> + ―«Que bom assalto acabámos de dar, disse um deles, ao + castelo do conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem + que é este porteiro. À sua saúde!»<br /> <br /> + ―«À saúde do nosso amigo!» repetiram em + coro todos os ladrões.<br /> <br /> E dum trago despejaram os copos.<br /> + <br /> João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz + baixa:<br /> <br /> ―«Uni-vos uns aos outros o melhor que + puderdes, e, assim que vos der sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa + gritaria diabólica.»<br /> <br /> O burro, levantando-se nas + patas traseiras, lançou as mãos ao peitoril duma janela, o cão + trepou-lhe à cabeça, o gato à cabeça do cão + e o galo à cabeça do gato. João deu o sinal, e + estoirou à uma o ornear do jumento, os latidos do cão, o + miar do gato e os gritos estridentes do galo.<br /> <br /> <span + class="pagenum"><a name="p56" id="p56">[56]</a></span>―«Agora, + bradou João, fingindo que comandava um destacamento, carregar + armas! Dai-me cabo dos ladrões; fogo!»<br /> <br /> No mesmo + instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando cada vez mais; + os ladrões atemorizados refugiaram-se no bosque, saindo + precipitadamente por uma porta falsa.<br /> <br /> João e os seus + companheiros penetraram na sala abandonada, comeram um excelente jantar, e + deitaram-se em seguida―João numa cama, o burro na cavalariça, + o cão numa esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão + e o galo num poleiro.<br /> <br /> Ao principio os ladrões ficaram + muito contentes, por se verem sãos e salvos na floresta. Mas + depois, começaram a reflectir.<br /> <br /> ―«Era bem + melhor a minha cama, do que esta erva tão húmida, disse um + deles.»<br /> <br /> ―«Tenho pena do frango que eu começava + a saborear, disse um outro.»<br /> <br /> ―«E que rico + vinho aquele! acrescentou o terceiro.»<br /> <br /> ―«E o + que é mais lamentável, exclamou um quarto, é + ficar-nos lá todo o dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, + tínhamos tirado das gavetas.»<br /> <br /> ―Vou ver se + torno lá a <a href="#e1">entrar!</a> disse o capitão.<br /> + <br /> ―Bravo! exclamaram os ladrões.<br /> <br /> E pôs-se + a caminho.<br /> <br /> Já não havia luz na casa; o capitão + entrou às apalpadelas, e dirigiu-se para o fogão; o gato + saltou-lhe à cara e esfarrapou-lha com as garras. <span + class="pagenum">[57]</span>Soltou um grito doloroso, correu para a porta, + mas infelizmente pisou o rabo do cão, que lhe deu uma grande + dentada. Gritou de novo, e conseguiu por fim transpor o limiar da porta. + Mas quando ia a sair, o galo atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com + as unhas.<br /> <br /> ―Anda o diabo nesta casa! exclamou o capitão, + como poderei eu sair!»<br /> <br /> Julgou encontrar refúgio na + estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma parelha de coices, que o deitou + quase morto ao meio do chão.<br /> <br /> Passado algum tempo veio a + si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem pernas nem braços + partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.<br /> <br /> ―Então? + então?―perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.<br /> + <br /> ―Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma + cama para me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr neste + corpo, que o trago num feixe. Não podeis imaginar o que sofri. Na + cozinha fui assaltado por uma velha que estava a cardar lã, e + arrumou-me na cara com o sedeiro, deixando-me neste miserável + estado. Quando ia a sair a porta, um demónio dum remendão + atravessou-me as pernas com a sovela. Logo depois Satanás em pessoa + atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras. Na estrebaria + deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não + acreditam, vão lá, e experimentem.»<br /> <br /> ―Acreditamos, + disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo ensanguentado: Não + seremos nós que lá tornaremos.»<br /> <br /> Pela manhã, + João e os seus camaradas almoçaram <span class="pagenum"><a + name="p58" id="p58">[58]</a></span>ainda excelentemente, e partiram em + seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões lhe + tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos, com que + carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram + à porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do + porteiro, com uma libré esplêndida, meias de seda, calções + escarlates e cabelo empoado.<br /> <br /> Olhou com ar de desprezo para a + pequenina caravana, e disse a <a href="#e2">João:</a><br /> <br /> + ―Que vindes aqui buscar? Não há lugar para os + recolher, vão-se <a href="#e3">embora.</a>»<br /> <br /> + ―Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do + castelo far-nos-á um bom acolhimento.<br /> <br /> ―Fora daqui + vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a andar + imediatamente, quando não atiro-lhes já às pernas os + meus cães de fila.»<br /> <br /> ―Perdão, só + um instante, replicou o galo empoleirado na cabeça do jumento; não + me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite + passada a porta do castelo?»<br /> <br /> O porteiro corou. O conde + que estava à janela, disse-lhe:<br /> <br /> ―Ó Bernabé, + responde ao que esse galo te acaba de perguntar.<br /> <br /> ―Senhor, + replicou Bernabé, este galo é um miserável. Não + fui eu que abri a porta aos seis ladrões.<br /> <br /> ―Como + é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram + seis?<br /> <br /> Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o + <span class="pagenum">[59]</span>dinheiro roubado, pedindo-lhe unicamente + que nos dê de jantar e nos recolha esta noite, porque vimos cansados + do caminho.<br /> <br /> ―Ficai certos que sereis bem tratados.<br /> + <br /> O burro, o cão e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato + ficou na cozinha. E enquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o + dos pés à cabeça com um vestuário magnífico, + deu-lhe um relógio de ouro, e disse-lhe:<br /> ―Queres ficar + comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»<br /> + <br /> João aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe + para o pé de si. Casou depois com uma linda rapariga, e viveu + sempre felicíssimo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[60]</span> + </p> + <h2> + <a name="19"></a>O rabequista + </h2> + <p> + <br /> <br /> Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade + levantaram uma igreja magnífica a Santa Cecília, padroeira + dos músicos.<br /> <br /> As rosas mais vermelhas e os lírios + mais cândidos enfeitavam o altar. O vestido da santa era de + filigrana de prata e os sapatinhos eram de oiro, feitos pelo melhor + ourives que havia na cidade. A capela estava constantemente cheia de + peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria um pobre + rabequista, pálido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha sido + muito longa, estava cansado, e já no seu alforge não havia pão + nem dinheiro no bolso para o comprar.<br /> <br /> Assim que entrou na + capela, começou a tocar na sua rabeca com tal suavidade, com tanta + expressão, que a santa ficou enternecida ao vê-lo tão + pobre e ao escutar aquela música deliciosa. Quando terminou, Santa + Cecília abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos de + ouro, e deu-o ao pobre músico, que tonto de alegria, dançando, + cantando, chorando, correu à loja dum ourives para lho vender. O + ourives, reconhecendo o sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e + levou-o à presença <span class="pagenum">[61]</span>do juiz. + Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado à morte.<br /> + <br /> Chegara o dia da execução. Os sinos dobravam + lastimosamente, e o cortejo pôs-se em marcha ao som dos cânticos + dos frades, que ainda assim não chegavam a dominar os sons da + rabeca do condenado, que pedira, como última graça, o + deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao último momento. O + cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam suplicou o + triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua + derradeira melodia.<br /> <br /> Os padres e os chefes da escolta + consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos pés da santa, e + debulhado em lágrimas começou a tocar. Então o povo, + maravilhado e aterrado, viu Santa Cecília curvar-se de novo, descalçar + o outro sapato e metê-lo nas mãos do infeliz músico. + À vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o + rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente + prestar-lhe as mais honrosas homenagens.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> + <span class="pagenum">[62]</span> + </p> + <h2> + <a name="20"></a>Os pêssegos + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pêssegos + magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos, + extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria. + À noite o pai perguntou-lhes:<br /> <br /> ―Então + comeram os pêssegos?<br /> <br /> ―Eu comi, disse o mais velho. + Que bom que era! Guardei o caroço, e hei-de plantá-lo para + nascer uma árvore.»<br /> <br /> ―Fizeste bem, respondeu + o pai, é bom ser económico e pensar no futuro.»<br /> + <br /> ―Eu, disse o mais novo, o meu pêssego comi-o logo, e a + mamã ainda me deu metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.»<br /> + <br /> ―Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade não + admira; espero que quando fores maior te hás-de corrigir.»<br /> + <br /> ―Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço + que o meu irmão deitou fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, + que era como uma noz. Vendi o meu pêssego, e com o dinheiro hei de + comprar coisas quando for à cidade.»<br /> <br /> O pai meneou + a cabeça:<br /> <br /> <span class="pagenum">[63]</span>―Foi + uma ideia engenhosa, mas eu preferia menos cálculo.<br /> <br /> + ―E tu, Eduardo, provaste o teu pêssego?<br /> <br /> ―Eu, + meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho, ao Jorge, + que está coitadinho com febre. Ele não o queria, mas + deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.<br /> <br /> ―Ora bem, + perguntou o pai, qual de vós é que empregou melhor o pêssego + que eu lhe dei?<br /> <br /> E os três pequenos disseram à uma:<br /> + <br /> ―Foi o mano Eduardo.<br /> <br /> Este no entanto não + dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos arrasados de lágrimas.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[64]</span> + </p> + <h2> + <a name="21"></a>A urna das lágrimas + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez uma viúva, que tinha uma filhinha muito + linda, a quem adorava sobre todas as coisas. Não se separava dela + um só momento; mas um dia a pobre pequerrucha começou a + sofrer, adoeceu e morreu. A desditosa mãe, que tinha passado as + noites e os dias, sem repousar um momento, à cabeceira da filha, + julgou endoidecer de mágoa e de saudades. Não comia, não + fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava + acabrunhada, chorando no mesmo sítio em que a filha tinha morrido, + abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua + querida filha, sorrindo com uma expressão angélica e + trazendo nas mãos uma urna, que vinha cheia até às + bordas.<br /> <br /> ―«Oh! minha querida mãe, disse-lhe + ela, não chores mais. Olha, o anjo das lágrimas recolheu as + tuas nesta urna. Se chorares mais, transbordará, e as tuas lágrimas + correrão sobre mim, inquietando-me no túmulo e perturbando a + minha felicidade no paraíso.<br /> <br /> A pequenina desapareceu, e + a mãe não tornou a chorar para a não afligir.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[65]</span> + </p> + <h2> + <a name="22"></a>Reconhecimento e ingratidão + </h2> + <p> + <br /> <br /> Os vossos filhos serão para vós como vós + tiverdes sido para vossos pais. E é natural. As crianças vêem + diariamente o que fazem seus pais, e imitam-nos. Justifica-se desta + maneira o provérbio que diz,―que a bênção + ou a maldição dum pai cai sobre a cabeça de seus + filhos, terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que + merecem ser meditados.<br /> <br /> Um príncipe, passeando no campo, + viu um pobre homem, que andava muito satisfeito, a lavrar a terra. Pôs-se + a conversar com ele. Depois de algumas perguntas, soube que o campo não + pertencia ao homem, mas que trabalhava nele mediante um salário de + doze vinténs por dia. O príncipe, que para as suas despesas + de administração e representação necessitava + de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, como se vivia + com doze vinténs diários, andando-se ainda por cima + satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:<br /> + <br /> «Gasto diariamente comigo a terça parte dessa quantia; + outro terço é para pagar as minhas dividas; <span + class="pagenum">[66]</span>e o resto é para ir juntando algumas + economias.»<br /> <br /> Era um novo enigma para o príncipe. + Mas o alegre camponês explicou-lho deste modo.<br /> <br /> «Reparto + quanto ganho com os meus velhos pais, que já não podem + trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não têm força + para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na + minha infância; e espero que os segundos não me abandonem, + quando os anos tiverem pesado sobre mim.»<br /> <br /> O príncipe, + ouvindo isto, quis premiar o honrado camponês; encarregou-se da + educação de seus filhos; e a bênção que + lhe deram os seus velhos pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua + vez, rodeando igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais + terna dedicação.<br /> <br /> Mas posso desgraçadamente + citar-vos outro filho, que procedeu duma maneira tão indigna com + seu velho pai doente e aleijado, que este teve de pedir que o levassem + para o hospital da misericórdia. O filho ingrato recebeu com + alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde foi conduzido ao + hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse muito pobre, + decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como última esmola, + um par de lençóis, para cobrir a palha que lhe servia de + leito. O mau filho escolheu os lençóis mais usados, e disse + ao seu pequeno, de dez anos de idade, que os fosse levar <i>a esse velho + rabujento</i>. Mas notou que a criança ao partir tinha escondido um + dos lençóis a um canto, atrás da porta.<br /> <br /> + <span class="pagenum">[67]</span>Quando voltou perguntou-lhe o pai, porque + fizera aquilo.<br /> <br /> «Foi, respondeu a criança + desabridamente, para me servir mais tarde deste lençol, quando pela + minha vez te mandar também para o hospital.<br /> <br /> <br /> <br /> + <br /> <span class="pagenum">[68]</span> + </p> + <h2> + <a name="23"></a>O fato novo do sultão + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário + todo o seu rendimento.<br /> <br /> Quando passara revista ao exercito, + quando ia aos passeios ou ao teatro, não tinha outro fim senão + mostrar os seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como + se diz dum rei: Está no conselho; dizia-se dele: Está-se a + vestir. A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças + à quantidade de estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá + um dia dois larápios, que, dando-se por tecelões, disseram + que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não só + eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas além + disso os vestuários feitos com esse estofo, possuíam uma + qualidade maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e + para todos aqueles que não exercessem bem o seu emprego.<br /> <br /> + ―São vestuários impagáveis, disse consigo o + sultão; graças a eles, saberei distinguir os inteligentes + dos tolos, e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso desse estofo!»<br /> + <br /> E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães <span + class="pagenum">[69]</span>uma quantia avultada, para que pudessem começar + os trabalhos imediatamente.<br /> <br /> Os homens levantaram com efeito + dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de não haver + absolutamente nada nas lançadeiras. Requisitavam seda e oiro fino a + todo o instante; mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando + até à meia noite com os teares vazios.<br /> <br /> ―«Preciso + saber se a obra vai adiantada».<br /> <br /> Mas tremia de medo ao + lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E, + apesar de ter confiança na sua inteligência, achou prudente + em todo o caso mandar alguém adiante.<br /> <br /> Todos os + habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e + ardiam em desejos de verificar se seria exacto.<br /> <br /> ―Vou + mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; + tem um grande talento, e por isso ninguém pode melhor do que ele + avaliar o estofo.<br /> <br /> O honrado ministro entrou na sala em que os + dois impostores trabalhavam com os teares vazios.<br /> <br /> ―Meu + Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, não vejo + absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões + convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os + desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, + olhava, mas não via nada, pela razão simplicíssima de + nada lá existir.<br /> <br /> ―Meu Deus! pensou ele, serei + realmente estúpido? É necessário que ninguém o + saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que + não vejo nada, isso é que eu não confesso.»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[70]</span>«Então que lhe parece?» + perguntou um dos tecelões:<br /> <br /> ―«Encantador, + admirável! respondeu o ministro, pondo os óculos. Este + desenho... estas cores... magnífico!... Direi ao sultão que + fiquei completamente satisfeito.»<br /> <br /> ―«Muito + agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e + mostraram-lhe cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe deles uma + descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir + depois repetir tudo ao sultão.<br /> <br /> Os impostores + requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; precisavam-se + quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no bolso, é + claro; o tear continuava vazio, e apesar disso trabalhavam sempre.<br /> + <br /> Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funcionário, + homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu + a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não + via nada.<br /> <br /> ―Não acha um tecido admirável?» + perguntaram os tratantes, mostrando o magnífico desenho e as belas + cores, que tinham apenas o inconveniente de não existir.<br /> <br /> + ―Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois + não serei eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! + mas deixá-lo, não o deixo eu.»<br /> <br /> Em seguida + elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração + pelo desenho e o bem combinado das cores.<br /> <br /> ―É duma + magnificência incomparável, disse <span class="pagenum">[71]</span>ele + ao sultão. E toda a cidade começou a falar desse tecido + extraordinário.<br /> <br /> Enfim o próprio sultão + quis vê-lo enquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de + pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois honrados funcionários, + dirigiu-se para as oficinas, em que os dois velhacos teciam continuamente, + mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de espécie alguma.<br /> + <br /> ―Não acha magnífico? disseram os dois honrados + funcionários. O desenho e as cores são dignos de vossa + alteza.»<br /> <br /> E apontaram para o tear vazio, como se as outras + pessoas que ali estavam pudessem ver alguma coisa.<br /> <br /> ―Que + é isto! disse consigo mesmo o sultão, não vejo nada! + É horrível! serei eu tolo, incapaz de governar os meus + estados? Que desgraça que me acontece!» Depois de repente + exclamou: «É magnífico! Testemunho-vos a minha satisfação.»<br /> + <br /> E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, + sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu séquito + olharam do mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem ver coisa + alguma, e no entanto repetiam como o sultão: «É magnífico!» + Até lhe aconselharam a que se apresentasse com o fato novo no dia + da grande procissão. «É magnífico! é + encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e + a satisfação era geral.<br /> <br /> Os dois impostores foram + condecorados e receberam o titulo de fidalgos tecelões.<br /> <br /> + Na véspera do dia da procissão passaram a noite em claro, + trabalhando à luz de dezasseis velas. <span class="pagenum">[72]</span>Finalmente + fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-no com umas grandes tesouras, + coseram-no com uma agulha sem fio, e declararam, depois disto, que estava + o vestuário concluído.<br /> <br /> O sultão com os + seus ajudantes de campo foi examiná-lo, e os impostores levantando + um braço, como para sustentar alguma coisa, disseram:<br /> <br /> + «Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia + de aranha; é a principal virtude deste tecido.»<br /> <br /> + ―Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.<br /> + <br /> ―Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larápios, + provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.»<br /> <br /> O sultão + despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois + a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do + espelho.<br /> <br /> ―Como lhe fica bem! que talhe elegante! + exclamaram todos os cortesãos. Que desenho! que cores! que vestuário + incomparável!»<br /> <br /> Nisto entrou o grão-mestre + de cerimónias.<br /> <br /> ―Está à porta o + dossel sobre que vossa alteza deve assistir à procissão, + disse ele.»<br /> <br /> ―Bom! estou pronto, respondeu o sultão. + Parece-me que não vou mal.»<br /> <br /> E voltou-se ainda uma + vez diante do espelho, para ver bem o efeito do seu esplendor. Os + camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo + confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçá-la.<br /> + <br /> E, enquanto o sultão caminhava altivo sob um <span + class="pagenum">[73]</span>dossel deslumbrante, toda a gente na rua e + às janelas exclamava: «Que vestuário magnífico! + Que cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguém + queria dar a perceber, que não via nada, porque isso equivalia a + confessar que se era tolo. Nunca os fatos do sultão tinham sido tão + admirados.<br /> <br /> ―Mas parece que vai em cuecas», observou + um pequerrucho, ao colo do pai.<br /> <br /> ―É a voz da inocência, + disse o pai.<br /> <br /> ―Há ali uma criança que diz + que o sultão vai em cuecas.<br /> <br /> «Vai em cuecas! vai em + cuecas!» exclamou o povo finalmente.<br /> <br /> O sultão + ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente era verdade. + Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até + ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda + imaginária.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[74]</span> + </p> + <h2> + <a name="24"></a>Boa sentença + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge + uma quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil réis + de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um + honrado camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, + e disse:<br /> <br /> ―Deviam ser oitocentos mil réis, que foi + a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu + amigo, que recebeste adiantados os cem mil réis de alvíssaras: + estamos pagos por conseguinte.»<br /> <br /> O bom camponês, que + nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia + contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, + vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:<br /> + <br /> ―Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro + encontrou um alforge apenas com setecentos: Resulta daí claramente + que o dinheiro que o último encontrou não pode ser o mesmo a + que o primeiro se julga com direito. Por consequência tu, meu bom + homem, leva o dinheiro que encontraste, <span class="pagenum">[75]</span>e + guarda-o até que apareça o indivíduo que perdeu + somente setecentos mil réis. E tu, o único conselho que + passo a dar-te, é que tenhas paciência até que apareça + alguém que tenha achado os teus oitocentos mil réis.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[76]</span> + </p> + <h2> + <a name="25"></a>Os animais agradecidos + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um + homem a quem perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. + Este respondeu:<br /> <br /> ―«Senhor: eu sou um desgraçado, + um miserável; nasci no vosso reino, e chamo-me <i>Ingratidão</i>.»<br /> + <br /> ―«Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, + tomava-te ao meu serviço.»<br /> <br /> O nosso homem prometeu + ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. Desde que chegaram a palácio, + deu tais provas de habilidade, mostrou-se tão esperto e tão + solícito, que o rei afeiçoou-se-lhe de tal modo, que o + nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua + casa. Deslumbrado por uma fortuna tão rápida, o seu orgulho + desde então não conheceu limites; maltratava os inferiores, + e não tinha compaixão dos desventurados.<br /> <br /> Ora, na + vizinhança do palácio havia uma floresta cheia de animais + selvagens e perigosíssimos. O intendente mandou aí fazer por + toda a parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, + caindo dentro, pudessem ser agarradas. <span class="pagenum">[77]</span>Um + dia que o intendente atravessava a floresta, ia tão absorvido pelos + seus pensamentos orgulhosos, que se precipitou ele mesmo dentro duma das + covas.<br /> <br /> Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo + poço; caiu depois um lobo e em seguida uma enorme serpente, de + aspecto horroroso. O governador, ao ver-se em tão extraordinária + companhia, ficou tão horrorizado, que lhe embranqueceram os + cabelos; e toda a esperança de salvação lhe parecia + inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, ninguém o vinha + socorrer.<br /> <br /> Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem + extremamente pobre, chamado António, que todos os dias ia rachar + lenha à floresta, para ganhar o pão necessário + à sua mulher e aos seus filhos. António também lá + foi nesse dia, como de costume, e pôs-se a trabalhar não + longe da cova em que caíra o intendente, cujos gritos de aflição + não tardou a ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem + era que estava ali.<br /> <br /> ―«Sou o governador do palácio + do rei, e, se me tirares daqui, prometo encher-te de riquezas; estou em + companhia dum leão, dum lobo e duma enorme serpente.»<br /> + <br /> ―«Eu, respondeu o lenhador, sou um miserável + jornaleiro, não tendo para sustentar a minha família, mais + que o produto do meu trabalho; bastava um dia perdido para me causar um + grande desarranjo; vê lá pois, se cumpres a tua promessa?<br /> + <br /> O intendente continuou:<br /> <br /> ―«Pela fé que + devo a Deus e a el-rei nosso senhor, <span class="pagenum">[78]</span>juro-te + que cumprirei a minha palavra.»<br /> <br /> Confiado nisto o rachador + de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda muito comprida, que + deixou correr dentro do abismo. O leão atirou-se a ela, e + suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era o + intendente.<br /> <br /> Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu + salvador com a maior amabilidade, e foi-se embora à procura de + jantar, porque tinha fome.<br /> <br /> António deitou outra vez a + corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o governador, enganou-se, + porque era o lobo; à terceira vez subiu a serpente; foi necessário + fazer uma quarta tentativa, para sair o governador. Este não perdeu + tempo em agradecimentos, e partiu a correr para o palácio. O + jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o que se tinha + passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes + promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o + pobre homem bater à porta do palácio. O porteiro + perguntou-lhe o que queria.<br /> <br /> ―«Faça-me o + favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente que o + homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja falar.»<br /> + <br /> O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e + exclamou:<br /> <br /> ―«Vai dizer a esse homem, que eu não + vi ninguém na floresta; que se ponha a andar, porque o não + conheço.»<br /> <br /> O porteiro voltou, e repetiu o que o + governador lhe tinha dito.<br /> <br /> O pobre homem tornou para casa mui + descorçoado, <span class="pagenum">[79]</span>e contou à + mulher a odiosa perfídia de que tinha sido vitima.<br /> <br /> A + mulher disse-lhe:<br /> <br /> ―«Tem paciência; o sr. + intendente estava hoje decerto muito ocupado, e foi talvez por isso que te + não pôde receber.»<br /> <br /> Estas palavras sossegaram + o rachador que outra vez nutriu esperanças.<br /> <br /> Na manhã + seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo à porta do palácio. + Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos ásperos, que não + tornasse ali a aparecer, quando não ver-se-ia obrigado a empregar + meios violentos. A mulher ainda desta vez procurou consolá-lo:<br /> + <br /> ―«Experimenta terceira e última vez, disse-lhe + ela, talvez Deus o inspire melhor. E se assim não for, ainda que te + custe, não penses mais nisso.»<br /> <br /> No dia seguinte o + bom do homem voltou à carga; e tendo o porteiro consentido à + força de suplicas em anunciá-lo ainda ao governador, este + encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre homem + duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do chão. + A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com um burro, pôs-lhe + em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas levaram-lhe seis meses a + curar, estando sempre de cama, vendo-se obrigado a contrair dividas para + pagar ao médico. Quando finalmente tinha recobrado algumas forças, + voltou ao bosque segundo o costume para fazer alguma lenha. Apenas lá + chegou, apareceu-lhe o leão, que ele tinha ajudado a sair do poço. + O leão conduzia um burro diante de si, e <span class="pagenum">[80]</span>este + burro estava carregado de sacos cheios de preciosidades. O leão, + vendo António, parou e inclinou-se diante dele com um ar de + respeitoso agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, + fazendo-lhe sinal de que ficasse com o jumento. António doido de + alegria levou o animal para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.<br /> + <br /> No dia seguinte, voltando de novo à floresta, apareceu-lhe o + lobo, que o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o + quanto lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluída, e + tinha carregado o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, + que ele tinha tirado do fôjo, e que trazia na ponta da língua + uma pedra preciosa, em que brilhavam três cores,―o branco, o + preto e o vermelho. Quando a serpente chegou ao pé do rachador de + lenha, deixou cair a pedra junto dele, e depois dando um salto desapareceu + no matagal. António levantou a pedra, examinou-a por todos os + lados, para ver que propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter + com um velho, afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os + astros. Este, assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande + quantia. António respondeu-lhe que a não queria vender, mas + simplesmente saber se seria boa.<br /> <br /> O velho respondeu:<br /> <br /> + ―«São três as virtudes desta pedra: abundância + contínua, alegria imperturbável e luz sem trevas. Se alguém + ta comprar por menos dinheiro do que vale, tornará imediatamente + para a tua mão.»<br /> <br /> António ficou muito + contente com esta resposta, <span class="pagenum">[81]</span>agradeceu ao + velho da ciência maravilhosa, e correu a contar à mulher a + sua felicidade. Como se imagina, graças à virtude da famosa + pedra, não lhe faltaram daí em diante, nem honras nem + riquezas.<br /> <br /> Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas + prosperidades, mandou chamar António, e mostrou-lhe desejos de + adquirir o precioso talismã.<br /> <br /> António, vendo que + semelhante desejo era uma ordem, respondeu:<br /> <br /> ―«Devo + prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me não for paga + pelo que vale, tornará ela mesma para o meu poder.»<br /> + <br /> ―«Hei de pagar-ta bem, disse o rei.»<br /> <br /> E + mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã, + António achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo + isto disse-lhe:<br /> <br /> ―«Torna a levá-la ao rei + imediatamente; não vá ele persuadir-se que lha furtaste.»<br /> + <br /> O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou à presença + de sua majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra + preciosa.<br /> <br /> ―«Mandei-a meter com todo o cuidado + dentro dum cofre de ferro, fechado com sete chaves, disse o rei.»<br /> + <br /> António mostrou-lhe então a jóia preciosa, e o + rei ficou extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha + adquirido semelhante tesouro.<br /> <br /> António contou-lhe tudo + que tinha havido, a ingratidão do governador e o reconhecimento dos + animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu intendente, e + disse-lhe:<br /> <br /> <span class="pagenum">[82]</span>―«Homem + perverso, com justo motivo te puseram o nome de <i>Ingratidão</i>, + porque és mais falso e mais pérfido que os animais ferozes, + e pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será + feita. Dou a António as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje + mesmo, o castigo de seres enforcado.»<br /> <br /> Admiraram todos a + sentença do rei, e António desempenhou as suas altas funções + com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido + para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos gloriosos.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[83]</span> + </p> + <h2> + <a name="26"></a>O ermitão + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, + deliberou retirar-se a uma gruta solitária para se consagrar + inteiramente ao trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, + orando, ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca + da ideia de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos anos, uma + noite lembrou-se de que já tinha merecido um lugar glorioso no paraíso, + e podia ser contado entre os santos mais notáveis.<br /> <br /> Na + noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:<br /> <br /> + ―Há no mundo um pobre músico, que anda de porta em + porta, tocando viola e cantando, e que mereceu mais do que tu as + recompensas eternas.<br /> <br /> O ermitão, atónito, ao ouvir + estas palavras, levantou-se, agarrou no seu bordão, foi em busca do + músico e mal o encontrou disse-lhe:<br /> <br /> ―Irmão, + diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e + penitências te tornaste agradável a Deus.<br /> <br /> ―Ora, + respondeu-lhe o músico, abaixando a cabeça, santo padre, não + zombes de mim. Nunca fiz <span class="pagenum">[84]</span>boas obras, e + quanto a orações não as sei, pobre de mim, que sou um + pecador. O que faço é andar de casa em casa a divertir os + outros.»<br /> <br /> O austero ermitão continuou a insistir:<br /> + <br /> ―Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda, + praticaste algum acto de virtude.»<br /> <br /> ―Em verdade não + poderia citar nem um só.»<br /> <br /> ―Mas então + como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido loucamente como os que + exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente o teu património + e o produto do teu ofício?»<br /> <br /> ―Não; mas + um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e filhos tinham + sido condenados à escravidão para pagar uma dívida. + Essa mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa, + protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuía para + resgatar a sua família, e levei-a à cidade, onde ela devia + encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem não teria + feito outro tanto?»<br /> <br /> A estas palavras o ermitão pôs-se + a chorar, e exclamou:<br /> <br /> ―Nos meus setenta anos de solidão + nunca pratiquei uma obra tão meritória, e apesar disso + chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu não passas dum pobre músico.»<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[85]</span> + </p> + <h2> + <a name="27"></a>Carlos Magno e o abade de S. Gall + </h2> + <p> + <br /> <br /> Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de + S. Gall, preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta + da abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enérgicos + e activos, e o abade era indolente. Além disso o imperador tinha + mais dum motivo de queixa contra ele.<br /> <br /> ―Bons dias, senhor + abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à sua esclarecida + razão três perguntas, às quais terá a bondade + de me responder daqui a três meses, contados dia a dia, em sessão + solene do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu + valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao + mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. + rev.<sup>ma</sup> vier à minha presença, pensamento que deve + ser um erro. Trate de arranjar resposta satisfatória a tudo, aliás + deixa de ser abade de S. Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num + burro com a cara voltada para o rabo.»<br /> <br /> O abade não + sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores + mais <span class="pagenum">[86]</span>famosos pela sua ciência, não + lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época + fatal aproximava-se; já não faltava senão um mês, + já não faltavam senão semanas, e afinal só + dias. O abade, que noutro tempo era gordo e anafado, estava magro como um + esqueleto. Perdera o sono e o apetite. Andava errante nos bosques + lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor.<br /> + <br /> ―Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! + Está doente?»<br /> <br /> ―Estou, meu caro Félix, + estou muito doente.»<br /> <br /> ―Oh! meu rico amigo, eu lhe + darei alguma erva que o possa curar.»<br /> <br /> ―Infelizmente + não são ervas que eu preciso, mas resposta às minhas + três perguntas.»<br /> <br /> ―É então + latim?»<br /> <br /> ―Não, não é latim, senão + os doutores tinham-me arranjado tudo.»<br /> <br /> ―Visto que não + é latim, queira v. rev.<sup>ma</sup> dizer-me o que é: minha + mãe era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.»<br /> + <br /> Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor atirou + com o barrete ao ar, e disse-lhe:<br /> <br /> ―Se é apenas + isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.<sup>ma</sup> pode + continuar a engordar; mas para isso é necessário que eu + vista o seu hábito.»<br /> <br /> Quando chegou o dia, o pastor + disfarçado com o hábito do abade de S. Gall, foi introduzido + na sala onde o imperador presidia o conselho imperial.<br /> <br /> ―Então, + senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que pensar + a chave do <span class="pagenum">[87]</span>enigma? Vamos lá a ver + a primeira pergunta: Quanto valho eu em dinheiro?»<br /> <br /> + ―Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por + trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove, só + um dinheiro menos.»<br /> <br /> ―Bravo, senhor abade, a + resposta é hábil, e na realidade não posso deixar de + me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda pergunta, não há + de ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá a ver: + quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?»<br /> <br /> ―Senhor, + se vossa majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir + constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro + horas.»<br /> <br /> ―Decididamente, v. rev.<sup>ma</sup> + é um grande finório, e desta vez, confesso-me vencido; mas a + terceira, não dessas à que se responde com suposições. + Quem lhe há de dizer o que eu estou pensando, e como me há + de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor + abade.»<br /> <br /> ―Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou + o abade de S. Gall; está enganado, porque eu sou o seu pastor.»<br /> + <br /> ―Mas então tu é que deves ser o abade de S. + Gall, e desde já o ficas sendo.»<br /> <br /> ―Não + sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor, peço-lhe + outra coisa.»<br /> <br /> ―Não tens mais que falar.»<br /> + <br /> ―Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.»<br /> + <br /> Carlos Magno não era homem que faltasse à sua palavra.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[88]</span> + </p> + <h2> + <a name="28"></a>A boneca + </h2> + <p> + <br /> <br /> Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma história―a + história duma boneca!<br /> <br /> Não há muitos anos, + mas ainda não era a Cordoaria do Porto o ameno jardim, onde a infância + folga por entre maciços de flores e sob o sorriso do sol, sem que + lhe enegreça o espírito a vista dos dois monumentos, que a + meu ver simbolisam as duas mais horríveis calamidades, que podem + aniquilar um homem―o hospital e a cadeia!―ainda não há + muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da + feira, divertindo-me a meu modo.<br /> <br /> Cansado das inúmeras + figuras, que tinha visto passar por aquela espécie de lanterna mágica, + dispunha-me a dar por findo o espectáculo, quando novos personagens + me chamaram a atenção.<br /> <br /> Eram os meus vizinhos <i>ricos</i>. + <br /> Aqui é preciso uma rápida explicação.<br /> + <br /> Das famílias da minha vizinhança, só conheço + três.<br /> <br /> Qual destas três famílias será + mais feliz?...<br /> <br /> Pelo que tenho notado, não têm que + invejar umas às outras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[89]</span>São + todas felizes; cada qual a seu modo.<br /> <br /> Vi, pois, chegar os meus + vizinhos <i>ricos</i>. <br /> Parou o carro, o criado saltou da almofada e + veio, de chapéu na mão e dorso ligeiramente curvado, abrir a + portinhola; o meu vizinho saltou, tomou nos braços a filhinha e depô-la + no chão, e oferecendo, em seguida, a mão à esposa, + para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e com a menina para a barraca + onde eu estava.<br /> <br /> Não havia ali segredo a surpreender.<br /> + <br /> Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que + parecia agradecer àquela formosa criança a manifestação + de qualquer desejo.<br /> <br /> No fim de meia hora possuía a minha + pequena vizinha com que fazer a felicidade de dez crianças menos + abastadas.<br /> <br /> Tinha o necessário para montar completamente + a casa duma boneca... <i>rica</i>.<br /> <br /> Faltava apenas a dona da + casa―a boneca.<br /> <br /> Todo risos e atenções, o + lojista apresentou o que tinha de melhor.<br /> <br /> Depois de muita + hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, + consultar a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma + magnífica boneca de dois palmos de altura, com cabelo em <i>bandeaux</i> + e olhos azuis.<br /> <br /> Uma boneca como as outras: cabeça e colo + de massa, corpo de pelica recheada, braços e pernas de pau.<br /> + <br /> Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribo de crianças, + que fazem o martírio e a alegria da pobre mãe, e tem por + chefe um honrado sapateiro.<br /> <br /> <span class="pagenum">[90]</span>Alguns + deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem anjos, caídos + do céu sobre um monte de lama.<br /> <br /> São os meus + vizinhos <i>pobres</i>.<br /> <br /> A segunda compõe-se de marido, + mulher e filha, e ocupa a casa imediata.<br /> <br /> É como se + costuma dizer, gente <i>que vai muito bem com a sua vida</i>.<br /> <br /> A + filha que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e + carnudas, cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que + resistem à pressão.<br /> <br /> São os meus vizinhos + <i>remediados</i>.<br /> <br /> A terceira é a dos meus vizinhos <i>ricos</i>.<br /> + <br /> Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito + nas listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do + estado―nada falta àquela ditosa gente!<br /> <br /> Compõe-se + igualmente de marido, mulher e filha.<br /> <br /> Que formosa criança!... + Terá oito anos.<br /> <br /> Franzina e pálida, com os cabelos + negros, os olhos grandes e cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos + de dedos compridos e esguios, terminados por unhas duma cor de rosa + transparente, que não sinta antecipada inveja do feliz namorado―provavelmente + ainda a crescer―que há-de um dia ter o direito de lhas cobrir + de beijos.<br /> <br /> Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este + mudou todas aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para + dentro do carro.<br /> <br /> A boneca teve a honra de ser transportada pela + aristocrática criança.<br /> <br /> <span class="pagenum">[91]</span>Saí + dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadíssimas + considerações, sugeridas pela quase indiferença, com + que aquela menina recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.<br /> + <br /> Que contraste com os olhares de cobiça, com que outras + raparigas da mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabeça de + pano, horrível artefacto português, em que os olhos são + representados por dois pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de + retrós cor de rosa, a boca por outro de fio vermelho, e os cabelos + por flocos de lã preta!<br /> <br /> Quando cheguei a casa, já + na dos meus vizinhos remediados não havia luz.<br /> <br /> Na dos + meus vizinhos <i>pobres</i>, o pai batia a sola, cantando ao som de três + assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar, + provocavam os ralhos da mãe.<br /> <br /> Quando, no dia seguinte, + cheguei à janela, seriam onze horas da manhã.<br /> <br /> Na + rua agenciavam nova camada de imundície os filhos do sapateiro; na + casa imediata não se via ninguém―estava a pequena na + mestra; no palácio, sentada num tapete estendido sobre a ampla + pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionária fazendo + rodar, com auxílio duma linha, uma magnífica <i>caleche</i> + descoberta, puxada por cavalos brancos.<br /> <br /> Dentro da <i>caleche</i> + pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.<br /> <br /> ―«Aí + está a tua caricatura, minha feiticeira!...»―disse eu + de mim para mim. «Ensaias <span class="pagenum">[92]</span>nas + bonecas o que vês no mundo a que pertences!... Estás a + aprender a copiar... Sempre este mundo!...»<br /> <br /> Retirei-me da + janela.<br /> <br /> Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma + cena.<br /> <br /> A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia + em que se vestia três e quatro vezes!<br /> <br /> Ao que eu, porém, + achava mais graça, era ao respeito com que a dona a tratava!<br /> + <br /> Chamava-lhe sr.<sup>a</sup> D. Luísa; dava-lhe excelência; + sustentava finalmente com a boneca um destes diálogos de senhoras + da alta sociedade, em que se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.<br /> + <br /> Um dia,―estava eu de costas voltadas para a janela dos meus + vizinhos <i>ricos</i>―ouvi um grito de susto.<br /> <br /> Era devido + a um acidente, a que está sujeito quem anda de carro.<br /> <br /> + Voltara-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da + janela.<br /> <br /> O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a + vítima; vendo, porém, que a ferida havia forçosamente + de deixar cicatriz, e lembrando-se de que só lhe bastava querer, + para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos pés e ia atirá-la + com despeito à rua, quando mais perto de mim bradou voz tímida + e suplicante:<br /> <br /> «Não atire!... Dê-ma.»<br /> + <br /> Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu não + dera fé até então.<br /> <br /> Assim invocada, a + menina <i>rica</i> franziu levemente <span class="pagenum">[93]</span>as + sobrancelhas e lançou um olhar de rainha para o sítio donde + vinha a súplica.<br /> <br /> Vendo uma criança, pouco mais ou + menos da sua idade, serenou e, encolhendo os ombros, respondeu:<br /> <br /> + ―«Já não presta!... Está esmurrada!...»<br /> + <br /> ―É o mesmo!... Dá-ma?...―bradou a outra, + cujos olhos brilhavam de cobiça.<br /> <br /> ―«Dou...»―volveu + a rica, encolhendo novamente os ombros.<br /> <br /> E, caminhando para o + canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da vizinha, que + tremia, receosa de que aquele tesouro fosse despedaçar-se nas lajes + da rua.<br /> <br /> Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para + exigir nova boneca; a outra, para mostrar à mãe a que ela + ainda não podia acreditar, que fosse sua!<br /> <br /> Por espaço + de meses foi a boneca a principal ocupação da nova dona.<br /> + <br /> A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro + vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excelência! + Chamavam-lhe sr.<sup>a</sup> D. Ana; falavam-lhe de arranjos domésticos, + do desmazelo da criada, da missa das almas, de coisas finalmente, + completamente estranhas para ela!<br /> <br /> E a desgraçada perdia + as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azuis; mas o que mais a + desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais escura: + parecia uma nódoa, um estigma!<br /> <br /> Nos primeiros tempos, + enquanto durou o vestido, <span class="pagenum">[94]</span>que trouxera no + corpo, ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.<br /> + <br /> Não tardou, porém, que arrebiques de mau gosto, fitas + velhas, rendas amareladas, chapéus impossíveis, viessem + contrastar com a elegância do vestido. Dava ares de se ter equipado + ao acaso, na loja duma adeleira.<br /> <br /> Mas o vestido foi-se tornando + velho; desapareceu o brilho, e com ele as ondulações do <i>moiré</i>, + até que, um belo dia, vi a boneca vestida de cassa―-no + Inverno!―xaile e manta na cabeça.<br /> <br /> Muito mal lhe + ficava aquilo!... Àquela boneca custava-lhe de certo o ver-se tão + mal arranjada.<br /> <br /> Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e + balbuciei:<br /> <br /> ―É justo!... Cada qual segundo as suas + posses.»<br /> <br /> Por esse tempo, entrei em relações + com o meu vizinho sapateiro.<br /> <br /> O honrado homem soubera, que eu me + queixara da bulha, que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a + primeira ocasião, para me pedir desculpa.<br /> <br /> Vendo-me + conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de + nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem grave + risco de sofrer as consequências da sua travessa familiaridade.<br /> + <br /> Entre os filhos do sapateiro, porém, há uma pequenita + de onze anos, com quem simpatizei logo à primeira vista.<br /> <br /> + Chama-se Maria.<br /> <br /> Por um destes acasos da Providência, que + parece <span class="pagenum">[95]</span>às vezes comprazer-se em + criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.<br /> + <br /> Acostumado às travessuras e desalinho dos outros filhos do + sapateiro, fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.<br /> <br /> E + bem verdade que ele conhecia o valor daquela criança, porque havia + verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta + é a minha Maria!»<br /> <br /> E tinha razão!<br /> <br /> + Não podia ser mais discreta do que já nesse tempo era.<br /> + <br /> ―É quem vale à mãe!...―acrescentou + o velho.»―Ali, onde a vê, faz o serviço duma + mulher!... Há seis meses, quando a minha santa esteve doente―bem + pensei que não arribasse!―a pequena era quem cozinhava e + olhava pelos irmãos!... E caridade como ela tem!?... Olhe que + aquela pequena esteve três dias sem se deitar... ali... ao pé + da mãe! Foi preciso eu obrigá-la, que ela não a + queria deixar!...»<br /> <br /> E o desvanecido pai enxugou, com a + manga da camisa, uma lágrima, que, havia muito, hesitava sobre se + sim ou não se devia despenhar.<br /> <br /> Fazia gosto ver aquela + pequena com o seu vestidinho de chita escura e a cabeça coberta por + um lenço branco.<br /> <br /> Desde que o pai me deu tão boas + informações da rapariga, nunca mais passei por defronte da + porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias à pequena.<br /> + <br /> Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma + boneca deitada nos joelhos.<br /> <br /> <span class="pagenum">[96]</span>―Eu + conheço aquela boneca!...―disse eu de mim para mim.<br /> + <br /> E, não podendo resistir à curiosidade, bradei:<br /> + <br /> ―Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...<br /> <br /> Foi + ali a menina da vizinha!―respondeu a pequenita, corando de prazer.<br /> + <br /> Era escusado dizer-mo.<br /> <br /> Maria pegara na boneca e voltara-a + de face para mim. Não podia duvidar... Era ela; lá estava a + mancha, o estigma cada vez mais visível na fronte.<br /> <br /> De + tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com ela.<br /> + <br /> ―Quem te viu e quem te vê!...―pensava eu.<br /> + <br /> Às vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lha + podiam apanhar, que tratos que sofria a desgraçada!<br /> <br /> Roçada + por aquelas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia, empregada + como péla, submetida a torturas, era, ainda assim, singularíssimo + o aspecto da triste!<br /> <br /> Dava ares duma duquesa que, por + necessidade, houve sido levada a fraternizar com o povo.<br /> <br /> A mísera + mudara mais uma vez de nome!...<br /> <br /> De sr.<sup>a</sup> D. Ana + passara a ser sr.<sup>a</sup> Rosinha e tratavam-na por vossemecê.<br /> + <br /> Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e lenço + na cabeça.<br /> <br /> Era um prazer para mim o escutar as + conversas, que Maria sustentava com a boneca.<br /> <br /> Esta, umas vezes, + representava o papel de mulher casada, e Maria, encarregando-se de + perguntar e responder por ela, obrigava a pobre boneca a lastimar-se por + estar tudo tão caro, por haver <span class="pagenum">[97]</span>falta + de trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que + mais familiares eram à pequena.<br /> <br /> Outra vezes passava a + boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na, mandavam-na buscar água + à fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a + despedir.<br /> <br /> Já o leitor vê que, apesar da bondade + Maria, deixara de ser feliz.<br /> <br /> Iam longe os bons tempos em que + ela, rica, morava no palácio vizinho!<br /> <br /> Desmaiada de + cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos, desfeito o carmim + dos lábios, a boneca não prometia longa duração.<br /> + <br /> Foi este pelo menos, o prognóstico que fiz a última + vez que a vi, tentando em vão agradar à última dona + que o seu destino lhe dera.<br /> <br /> Coitada!... Bem longe estava de lhe + imaginar o fim!<br /> <br /> Um dia chovia a cântaros!―o + enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, espadanava em cachão para + cima dos passeios, arrastando na passagem mil imundícies.<br /> + <br /> Eu estava à porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e + olhava melancolicamente para a água negra, que corria. Nisto ouvi + um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... + Um objecto, arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço + voando, e foi cair no leito do enxurro...<br /> <br /> Olhei... Era a + boneca!...<br /> <br /> A mísera, arrastada pela água, vogou + rua abaixo até esbarrar numa pedra; mas o redemoinho envolveu-a, + <span class="pagenum">[98]</span>e, depois de a fazer girar três ou + quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a + pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir + sumir-se nas profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na + passagem!<br /> <br /> Será pieguice, será o que o leitor + quiser; mas, confesso-lhe, que me impressionou o fim da pobre boneca.<br /> + <br /> Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado à + vidraça do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:<br /> + <br /> ―Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?<br /> <br /> ―Não + fui eu...―balbuciou a pequena, chorando.―Foi ali o Joaquim!...<br /> + <br /> ―E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...<br /> <br /> ―Ora!...―respondeu + o garoto com enfado.―Ora!... Estava velha... e feia!...<br /> <br /> + Curvei a cabeça ante aquela razão, e segui o meu caminho.<br /> + <br /> Pobre boneca!<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[99]</span> + </p> + <h2> + <a name="29"></a>Inconveniente da riqueza + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, + foi surpreendido pela noite à entrada duma aldeia. Procurou dum + lado para outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas + estavam já todas fechadas, não se via nem um raio de luz + através das janelas, tudo estava adormecido. Apenas no fim dum beco + se ouvia o barulho do mangual com que se bate o trigo, e nesse sítio + havia uma pequena luz. Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé + do muro duma quinta, e bateu à porta. Foi um camponês que lha + veio abrir.<br /> <br /> ―Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me + dar agasalho por esta noite? Não se havia de arrepender.»<br /> + <br /> E acrescentou:<br /> <br /> ―Visto que já todos estão + deitados, para que é que você está ainda a trabalhar?»<br /> + <br /> ―Ora, respondeu o camponês, soube ontem à noite + que ia ser perseguido por um credor desapiedado, se lhe não pagasse + amanhã o que lhe devo, portanto eu e meus filhos estamos a bater o + pouco trigo que colhi, para o vender no mercado, e pagar a minha dívida. + Depois disto não nos fica nada, <span class="pagenum">[100]</span>e + não sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que Deus + quiser!»<br /> <br /> Ao dizer isto o camponês limpava o suor da + testa, e passava a mão pelos olhos arrasados de lágrimas. O + Senhor teve dó dele, e disse-lhe:<br /> <br /> ―«Não + desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te havias + de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.»<br /> <br /> Pegou na + candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e aproximou-a do + trigo.<br /> <br /> ―Que vai fazer? disseram assustados os + trabalhadores, vai deitar fogo a tudo!»<br /> <br /> Mas no mesmo + instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se, de cada espiga, + desceu uma chuva de grãos prodigiosa. À vista dum tal + milagre os camponeses maravilhados caíram de joelhos.<br /> <br /> + ―Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua + pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, serás + recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te + enriquece.»<br /> <br /> Dito isto desapareceu.<br /> <br /> E a chuva + dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão + alto como a igreja.<br /> <br /> O camponês pagou as suas dividas, + comprou terras, e construiu uma bela casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso + e altivo com os pobres. Ele e seus filhos adquiriram costumes perdulários, + tanto e tanto fizeram, que se arruinaram, e, como tinham sido maus nos + tempos em que eram ricos, ninguém os ajudou na sua miséria. + Uma noite o velho camponês, que bebera enormemente, entrou <span + class="pagenum">[101]</span>no celeiro, e, recordando-se do milagre que o + enriquecera, imaginou que também ele o poderia fazer. Agarrou na + candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a casa + e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miséria mais + absoluta.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[102]</span> + </p> + <h2> + <a name="30"></a>Querer é poder + </h2> + <p> + <br /> <br /> ―Quem procura sempre encontra, diz um velho provérbio; + quero ver por experiência, disse um dia um rapaz, se esta máxima + é verdadeira.<br /> <br /> Pôs-se a caminho, e foi + apresentar-se ao governador duma grande cidade.<br /> <br /> ―Senhor, + disse-lhe ele, há muitos anos que vivo tranquilo e solitariamente, + e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas vezes―<i>Quem + procura sempre encontra</i>, e <i>quem porfia mata caça</i>. Tomei + uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.<br /> + <br /> O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.<br /> + <br /> O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante + uma semana, sempre com a mesma vontade inabalável, até que o + rei ouviu falar o rapaz da sua louca pretensão. Surpreendido com + uma ideia tão extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o + rei:<br /> <br /> ―Que um homem distinto pela hierarquia, pela + coragem, pela ciência, pensasse em casar com uma princesa, nada mais + natural. Mas tu, quais são os teus títulos? Para seres o + marido <span class="pagenum">[103]</span>de minha filha é necessário + que te distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor + extraordinário. Ouve. Perdi há muito tempo no rio um + diamante dum valor incalculável. Aquele que o encontrar obterá + a mão de minha filha.<br /> <br /> O rapaz, contente com esta + promessa, foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manhã começava + a tirar água com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois + de ter assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a rezar.<br /> + <br /> Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e + receando que chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.<br /> <br /> + ―Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»<br /> <br /> + ―Encontrar um diamante que caiu ao rio.»<br /> <br /> ―Então, + respondeu o velho rei, sou de opinião que lho entreguem, porque + vejo qual é a têmpera da vontade deste rapaz; mais fácil + seria esgotar as últimas gotas do rio, do que desistir da sua + empresa.»<br /> <br /> Os peixes deitaram o diamante no balde do + rapaz, que casou com a filha do rei.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[104]</span> + </p> + <h2> + <a name="31"></a>Qual será rei? + </h2> + <p> + <br /> <br /> Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter + designado o sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia + pertencer, não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais + digno.<br /> <br /> Resolveram além disso que o cadáver do rei + fosse posto de pé contra um muro, e que o príncipe que + acertasse melhor com uma flecha naquele alvo, seria o escolhido para + sucessor.<br /> <br /> Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, + apontou durante muito tempo, e a flecha foi atravessar a mão + esquerda do defunto. O príncipe soltou grito de alegria, cuidando + que seus irmãos atirariam pior, e que por conseguinte seria ele + quem viria a reinar.<br /> <br /> O segundo acertou em cheio na cara do rei, + soltando um grito ainda mais alegre do que o outro príncipe.<br /> + <br /> O terceiro varou o coração de seu pai, e os seus + gritos de triunfo quase que chegavam ao céu, porque lhe parecia + impossível acertar melhor.<br /> <br /> Quando chegou a vez do quarto + filho, tiveram de lhe meter nas mãos as flechas e o arco: mas, + <span class="pagenum">[105]</span>desde que olhou para o alvo, arrojou as + armas longe de si, e desatou a chorar:<br /> <br /> ―«Oh! meu + pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu jamais consolar-me de + ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus próprios + filhos!»<br /> <br /> Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no + rei, como sendo o mais digno.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[106]</span> + </p> + <h2> + <a name="32"></a>Os três véus de Maria + </h2> + <p> + <br /> <br /> O primeiro véu de Maria era dum linho mais alvo do que + a neve. Bordara-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de + flores de seda tão bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham + pousar-lhe em cima.<br /> <br /> Este véu branco só o trouxe + uma vez, no dia da sua primeira comunhão.<br /> <br /> O segundo véu + de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que sua mãe + lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa triste e abandonada. + Era bordado de perpétuas roxas, como as dos sepulcros de mármore, + e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas as suas lágrimas.<br /> + <br /> O véu negro só o trouxe uma vez,―no dia em que + se tornou esposa de Jesus no convento da Avé-Maria.<br /> <br /> O + terceiro véu era feito dum retalho do azul celeste, bordado de + estrelas, e perfumado com aromas suavíssimos.<br /> <br /> Foi o seu + anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou no paraíso.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum"><a name="p107" id="p107">[107]</a></span> + </p> + <h2> + <a name="33"></a>Os pequenos no bosque + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um dia três pequenos iam juntos para a escola, e + disseram uns aos outros, que não havia nada no mundo mais + aborrecido que estudar: «Vamos para o bosque que <a href="#e4">encontraremos</a> + lá toda a espécie de lindos bichinhos, que não fazem + outra coisa senão brincar, e nós brincaremos com eles.»<br /> + <br /> Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga + e da abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar, + disse-lhes:<br /> <br /> ―Brincar? Preciso construir com estas ervas + uma ponte nova, porque a outra já não está sólida.»<br /> + <br /> ―Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões + para o Inverno.»<br /> <br /> ―Eu, disse dali a pomba, tenho + muitas coisas que levar para o meu ninho.»<br /> <br /> ―Eu, + disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda + hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a + minha <i>toilette</i>.»<br /> <br /> E tu, lindo regato, disseram os + pequenos desertores, <span class="pagenum">[108]</span>que passas o tempo + a saltar e a tagarelar, também não queres brincar connosco?»<br /> + <br /> ―Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês + então imaginam que eu não tenho que fazer? De noite ou de + dia, não descanso nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens + e aos animais, às colinas, aos vales, aos campos e aos jardins. + Tenho que apagar os incêndios, tenho que fazer mover as forjas, os + moinhos, as serralharias. Nem hoje acabara, se lhes quisesse contar o que + tenho que fazer. Não posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou + com muita pressa.»<br /> <br /> Os pequenos, desconcertados, + puseram-se a olhar para o ar, e viram um pintassilgo, em cima dum ramo.<br /> + <br /> ―Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar + connosco?»<br /> <br /> ―Nada que fazer? vocês estão + a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas + para comer. Tenho além disso que tomar parte no concerto dos + passarinhos, tenho que alegrar o operário com o meu chilrear, e + tenho que adormecer as crianças com uma outra cantiga, que à + noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. Ide-vos embora, preguiçosos, + ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incomodar os + habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»<br /> + <br /> Os pequenos aproveitaram a lição, e compreenderam que + o prazer só é legítimo, quando é a recompensa + do trabalho.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[109]</span> + </p> + <h2> + <a name="34"></a>O chapelinho encarnado + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, + a quem sua mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da + avozinha, que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar à + neta, deu-lhe um dia um chapéu de veludo vermelho. A pequenita + andava tão contente com o seu chapéu novo, que já não + queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do + chapelinho encarnado.<br /> <br /> A mãe e a avó moravam em + duas casas separadas por uma floresta de meia légua de comprido. + Uma manhã a mãe disse à pequenita:<br /> <br /> ―Tua + avó está doente, e não pôde vir ver-nos. Eu fiz + estes doces, vai levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não + quebres a garrafa, não andes a correr, vai devagarinho e volta + logo.»<br /> <br /> ―Sim, mamã, respondeu ela, hei-de + fazer tudo como deseja.»<br /> <br /> Atou o seu avental, meteu num + cestinho a garrafa e os doces, e pôs-se a caminho. No meio da + floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita, que nunca vira lobos, + olhou para ele sem medo algum.<br /> <br /> <span class="pagenum">[110]</span>―Bons + dias, chapelinho encarnado.»<br /> <br /> ―Bons dias, meu + senhor, respondeu delicadamente a pequena.»<br /> <br /> ―Onde + vais tão cedo?»<br /> <br /> ―A casa da minha avó + que está doente.»<br /> <br /> ―E levas-lhe alguma coisa?»<br /> + <br /> ―Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho + para lhe dar forças.»<br /> <br /> Diz-me onde mora a tua, avó, + que também a quero ir ver.»<br /> <br /> ―É perto, + aqui no fim da floresta. Há ao pé uns carvalhos muito + grandes, e no jardim há muitas nozes.»<br /> <br /> ―Ah! + tu é que és uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu + gostava de te comer.» Depois continuou em voz alta:―Olha, que + bonitas árvores e que lindos passarinhos. Como é bom passear + nas florestas, e então que quantidade de plantas medicinais que se + encontram!»<br /> <br /> ―O senhor, é com certeza um médico, + respondeu a inocente pequenita, visto que conhece as ervas medicinais. + Talvez me pudesse indicar alguma que fizesse bem a minha avó.»<br /> + <br /> ―Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta + também, e aquela.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, + eram plantas venenosas. A pobre criança, queria-as apanhar para as + levar a sua avó.<br /> <br /> ―Adeus, meu lindo chapelinho + encarnado, estimei muito conhecer-te. Com grande pena minha, tenho de te + deixar para ir ver um doente.»<br /> <br /> E pôs-se a correr em + direcção da casa da avó, enquanto que a pequerrucha + se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.<br /> <br /> + <span class="pagenum">[111]</span>Quando o lobo chegou à porta da + velha, achou-a fechada e bateu, mas a avó não se podia + levantar da cama, e perguntou: Quem está aí?»<br /> + <br /> ―É o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a + voz da pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»<br /> + <br /> ―Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás + a chave.»<br /> <br /> Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada + a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, + deitou-se na cama.<br /> <br /> Pouco depois entrou a pequenita, assustada e + admirada de encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó + a costumava ter fechada.<br /> <br /> O lobo tinha posto uma touca na cabeça, + que lhe escondia uma parte do focinho, mas o que lhe ficava descoberto era + horrível.<br /> <br /> ―Ai! avozinha, disse a criança, + porque tens tu as orelhas tão grandes?»<br /> <br /> ―É + para te ouvir melhor, minha filha.»<br /> <br /> ―E porque estás + com uns olhos tão grandes?»<br /> <br /> ―É para + te ver melhor.»<br /> <br /> ―E para que estás com os braços + tão grandes?»<br /> <br /> ―É para te poder abraçar + melhor.»<br /> <br /> ―E Jesus! para que tens hoje uma boca tão + grande e uns dentes tão agudos?»<br /> <br /> ―É + para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se + à pobre pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e + começou a ressonar muito alto. Um caçador que passava por + acaso, perto da casa, e que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre + velha está com um pesadelo, <span class="pagenum">[112]</span>está + pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.» Entra, e vê o + lobo estendido na cama.<br /> <br /> ―Olá, meu menino, diz ele: + há muito tempo que te procuro.»<br /> <br /> Armou a sua + espingarda, mas parando logo: Não, disse ele, não vejo a + dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o animal + com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a + barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e saltou para o chão, + gritando:<br /> <br /> ―Ai! que sítio medonho onde eu estive + fechada!<br /> <br /> A avó saiu também contentíssima + por ver outra vez a luz do dia.<br /> <br /> O lobo continuava a dormir + profundamente, e o caçador meteu-lhe então duas grandes + pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a neta + para verem o que se ia passar.<br /> <br /> Decorrido um instante o lobo + acordou, e como tinha sede, levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar + ouvia as pedras baterem uma na outra, e não podia compreender o que + aquilo era; com o peso, caiu no lago, e afogou-se.<br /> <br /> O caçador + tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta. + A velha sentia-se remoçar, e o chapelinho encarnado prometeu não + tornar a passar na floresta, quando sua mãe lho proibisse.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[113]</span> + </p> + <h2> + <a name="35"></a>Os cinco sonhos + </h2> + <p> + <br /> <br /> Andando um dia Carlos Magno à caça com uma + comitiva numerosa, perseguiu um veado, que dava tais saltos, e corria por + tal forma, que, apesar da ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe + completamente a pista. Foi só então que viu que estava só, + tendo a sua corte ficado muito para traz; sentindo-se fatigado, entrou ao + cair da noite numa choupana solitária no meio da floresta. Em roda + da lareira estavam deitados quatro ladrões. Os salteadores + levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da entrada do viajante; + cada um deles tinha tido um sonho, que lhe quiseram logo contar.<br /> + <br /> O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:<br /> <br /> + ―No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro à pessoa que + acaba de entrar aqui, e punha-o na minha cabeça.»<br /> <br /> + ―Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»<br /> + <br /> ―E eu que estava pondo o seu manto.»<br /> <br /> ―E + eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do + meu pescoço aquela <span class="pagenum">[114]</span>pesada cadeia + de ouro, da qual está pendurada a sua trompa de caça.»<br /> + <br /> ―Vejo bem, disse o imperador, que têm tenção + de me roubar tudo, e mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de + vocês, e que toda e qualquer resistência seria inútil. + Não lhes peço senão uma coisa, é que me deixem + tocar pela última vez na minha trompa de caça.»<br /> + <br /> Os salteadores responderam que consentiam, visto que o último + pedido dum moribundo deve ser respeitado.<br /> <br /> Carlos Magno levou + à boca a sua magnífica trompa de marfim, e tirou dela sons tão + fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos todos os seus companheiros + de caça e a sua comitiva estavam ao pé dele.<br /> <br /> + ―Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora também + eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser + enforcados diante deste casebre.»<br /> <br /> E o sonho realizou-se + imediatamente.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[115]</span> + </p> + <h2> + <a name="36"></a>A igreja do rei + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnífica + em honra da Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse + contribuir para a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o + edifício se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei + gravar numa pedra do mármore uma inscrição em letras + de ouro, que dizia que só ele, e mais ninguém, tinha levado + a cabo aquela obra monumental. Mas na noite seguinte o nome do rei foi + apagado da inscrição, e substituído por o duma pobre + mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar pôr o seu + nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da + pobre mulher; à terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera, + ordenou então que lhe trouxessem a mulher à sua presença:<br /> + <br /> ―Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que contribuíssem + fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo + que não cumpriste as minhas ordens.»<br /> <br /> ―«Senhor, + respondeu a velhinha toda trémula, eu respeitei as vossas ordens, + apesar da mágoa <span class="pagenum">[116]</span>que sentia por não + poder oferecer o meu pequenino óbolo em honra da Virgem; mas + julguei não desobedecer a vossa majestade, deixando por vezes de + jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava às escondidas + aos bois que conduziam as pedras destinadas à construção + da igreja.»<br /> <br /> ―«O teu nome é mais digno + do que o meu de figurar em letras de ouro na inscrição do + monumento, disse-lhe o rei.»<br /> <br /> Mas na noite seguinte uma mão + invisível restabeleceu na lápide da igreja o nome do rei, + que desde então lá se conserva ainda.<br /> <br /> <br /> <br /> + <br /> <span class="pagenum">[117]</span> + </p> + <h2> + <a name="37"></a>O valente soldado de chumbo + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, + por todos terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude + marcial, de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e + vermelhos! A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a + tampa da caixa em que eles estavam, foi este grito: «Olha soldados + de chumbo!» que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. + Tinham-lhos dado de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era + formá-los sobre a mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se + pareciam maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma + perna de menos, porque o tinham deitado na forma em último lugar, e + já não havia chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os + outros não estavam mais firmes nas duas pernas do que ele na sua + única, e é este o que precisamente nos interessa.<br /> <br /> + Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros + brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindíssimo castelo + de papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe <span class="pagenum">[118]</span>o + interior dos salões. À volta era circundado duma floresta em + miniatura, que se reflectia poeticamente num pedaço de espelho que + fingia um lago, onde nadavam pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era + encantador, mas não tanto como uma menina que estava à + porta, e que era também de papel, vestida com um lindo vestido de + cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina tinha os braços + arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha levantada a + tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e imaginou + que, como ele, não tinha senão uma perna.<br /> <br /> ―Ali + está a mulher que me convém, pensou ele, mas é uma + grande fidalga. Mora num palácio, eu numa caixa em companhia de + vinte e quatro camaradas, e não haveria cá lugar para ela. + No entanto preciso conhecê-la.»<br /> <br /> Deitou-se atrás + duma caixa de tabaco, e dali podia ver à sua vontade a elegante dançarina, + que estava sempre num pé só, sem perder o equilíbrio.<br /> + <br /> À noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e as + pessoas da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, + começaram a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. + Os soldados de chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque + queriam lá ir; mas como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes + começou a dar cabriolas e saltos mortais, o lápis traçou + mil arabescos fantásticos numa lousa, enfim o barulho tornou-se tal + que o canário acordou, e pôs-se a cantar. Os únicos + que <span class="pagenum">[119]</span>estavam quietos eram o soldado de + chumbo e a dançarinazinha. Ela no bico do pé, e ele numa + perna só, a espreitá-la.<br /> <br /> Deu meia noite, e zás, + a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar de rapé, + saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de surpresa.<br /> <br /> + ―Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro sítio.»<br /> + <br /> Mas o soldado fez que não ouvia.<br /> <br /> ―Espera até + amanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»<br /> + <br /> No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado + de chumbo à janela, mas de repente ou por influência do + feiticeiro ou por causa do vento caiu à rua de cabeça para + baixo. Que tombo! Ficou com a perna no ar, o peso do corpo todo sobre a + barretina, e com a baioneta enterrada entre duas lajes.<br /> <br /> A + criada e o rapazito foram lá abaixo procurá-lo, mas + estiveram quase a esmagá-lo, sem darem por ele. Se o soldado + tivesse gritado: «Cautela!» te-lo-íam achado, mas ele + julgou que seria desonrar a farda. A chuva começou a cair em + torrentes, e tornou-se num verdadeiro dilúvio. Depois do aguaceiro + passaram dois garotos.<br /> <br /> ―Olá! disse um deles, um + soldado de chumbo por aqui! Vamos fazê-lo navegar.»<br /> <br /> + Construíram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o soldado + de chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois + garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! + Que força de corrente! Mas também tinha chovido tanto! O + barco jogava <span class="pagenum">[120]</span>duma maneira horrorosa, mas + o soldado de chumbo conservava-se impassível, com os olhos fixos e + a espingarda ao ombro.<br /> <br /> De repente o barco foi levado para um + cano, onde era tão grande a escuridão como na caixa dos + soldados.<br /> <br /> ―Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante + do feiticeiro que me meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela + linda menina estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão + fosse duas vezes maior.»<br /> <br /> Dali a pouco apresentou-se um + enorme rato de água; era um habitante do cano.<br /> <br /> ―Venha + o teu passaporte.»<br /> <br /> Mas o soldado de chumbo não + disse nada, e agarrou com mais força na espingarda. O barco + continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, rangendo os dentes, e + gritando às palhas, e aos cavacos:―Façam-no parar, façam-no + parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»<br /> + <br /> Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do + dia, e sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais + valente. Havia na extremidade do cano uma queda de água tão + perigosa para ele, como é para nós uma catarata. + Aproximava-se dela cada vez mais, sem poder parar, com uma rapidez + vertiginosa. O barco lançou-se sobre a queda de água, e o + pobre soldado firmava-se o mais possível, e ninguém se + atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.<br /> + <br /> O barco, depois de ter andado à roda durante muito tempo, + encheu-se de água, e estava a ponto <span class="pagenum">[121]</span>de + naufragar. A água já chegava ao pescoço do soldado, e + o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a água + passou por cima da cabeça do nosso herói. Nesse momento + supremo, pensou na gentil dançarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma + voz que dizia:<br /> <br /> ―Soldado: o perigo é enorme, a + morte espera-te.»<br /> <br /> O papel rasgou-se, e o soldado passou + através dele. Nesse momento foi devorado por um grande peixe.<br /> + <br /> Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E + além disso, que talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrépido, + o soldado estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.<br /> <br /> O + peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, até que + enfim parou, e pareceu que o atravessava um relâmpago. Apareceu a + luz do dia, e alguém exclamou:<br /> <br /> ―Olha um soldado de + chumbo!»<br /> <br /> O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, + vendido, e levado para a cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma + enorme faca. Pegou no soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a + sala, onde toda a gente quis admirar esse homem extraordinário, que + tinha viajado na barriga dum peixe. No entretanto o soldado não se + sentia orgulhoso. Colocaram-no em cima da mesa, e ali―tanto é + verdade que acontecem coisas extraordinárias neste mundo―achou-se + na mesma sala, de cuja janela tinha caído. Reconheceu os pequenos e + os brinquedos que estavam em cima da mesa, o lindo palácio, e a + adorável dançarina sempre <span class="pagenum">[122]</span>de + perna no ar. O soldado de chumbo ficou tão comovido, que de boa + vontade teria derramado lágrimas de chumbo, mas não era + conveniente. Olhou para ela, ela olhou para ele, mas não disseram + uma palavra um ao outro.<br /> <br /> De repente um dos pequenos pegou nele, + e sem motivo algum deitou-o no fogão; eram obras do feiticeiro da + caixa do rapé.<br /> <br /> O soldado de chumbo lá estava + perfilado, alumiado por um clarão sinistro, e sofrendo um calor + terrível. Todas as cores lhe tinham desaparecido, sem que se + pudesse dizer, se era por causa das suas viagens, ou por causa dos seus + desgostos. Continuava a olhar para a dançarina, que também + olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre intrépido, + conservava a espingarda ao ombro. De repente abriu-se uma porta, o vento + arremessou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que + desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, já não + era mais que uma pequena massa informe.<br /> <br /> No dia seguinte, quando + a criada veio tirar a cinza, encontrou um objecto que tinha o feitio dum + pequeno coração de chumbo, e tudo o que restava da dançarina + era a fivela do cinto azul que o lume tinha enegrecido.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[123]</span> + </p> + <h2> + <a name="38"></a>João Pateta + </h2> + <p> + <br /> <br /> João era filho duma pobre viúva, bom rapaz, mas + um pouco simplório. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira + João Pateta. Um dia sua mãe mandou-o à feira comprar + uma foice. À volta, começou a andar com a foice à + roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e matou-a.<br /> + <br /> ―Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito + era pôr a foice em um dos carros de palha ou de feno dalgum dos + vizinhos.»<br /> <br /> ―Perdão, mãe, respondeu + humildemente João, para a outra vez serei mais esperto.»<br /> + <br /> Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que + as não perdesse.<br /> <br /> ―Fique descansada. E voltou todo + orgulhoso.»<br /> <br /> ―Então, João, onde estão + as agulhas?»<br /> <br /> ―Ah! estão em lugar seguro. + Quando saí da loja em que as comprei, ia a passar o carro do + vizinho carregado de palha; meti lá as agulhas, não podem + estar em sítio melhor.»<br /> <br /> ―De certo, estão + em lugar de tal modo seguro, que não há meio de as tornar a + ver. Devias tê-las espetado no chapéu.»<br /> <br /> + <span class="pagenum">[124]</span>―Perdão, respondeu João, + para a outra vez, hei-de ser mais esperto.»<br /> <br /> Na outra + semana, por um dia de calor, João foi dali uma légua comprar + uma pouca de manteiga. Lembrando-se do último conselho de sua mãe, + pôs a manteiga dentro do chapéu e o chapéu na cabeça. + Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer + manteiga derretida.<br /> <br /> A mãe já tinha medo de o + mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mandá-lo + à feira vender duas galinhas.<br /> <br /> ―Ouve bem, não + vendas pelo primeiro preço. Espera que te ofereçam outro.»<br /> + <br /> ―Está entendido, respondeu João.»<br /> + <br /> Foi para a feira. Um freguês chegou-se a ele.<br /> <br /> + ―Queres seis tostões por essas galinhas?»<br /> <br /> + ―Ora adeus! minha mãe recomendou-me, que não aceitasse + o primeiro preço, mas que esperasse o segundo.»<br /> <br /> + ―E tens muita razão. Dou-te um cruzado.»<br /> <br /> + ―Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o + primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ela não + tem que me ralhar.»<br /> <br /> Depois disto, João foi + condenado a ficar em casa. Sua mãe sabia que mangavam com ele, e se + riam dela. Uma manhã quis fazer uma experiência, e disse-lhe:<br /> + <br /> ―Vai vender este carneiro à feira. Mas não te + deixes enganar. Não o entregues senão a quem te der o preço + mais elevado.»<br /> <br /> ―Está bem, agora entendo, e + sei o que hei de fazer.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[125]</span>―Quanto + queres por esse carneiro?<br /> <br /> ―Minha mãe disse-me que + o não vendesse senão pelo preço mais elevado.<br /> + <br /> ―Quatro mil réis?»<br /> <br /> ―É o + preço mais elevado?»<br /> <br /> ―Pouco mais ou menos.»<br /> + <br /> ―É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que + trepara a uma escada.<br /> <br /> ―Quanto?»<br /> <br /> ―Dez + tostões:»<br /> <br /> ―É menos, respondeu + timidamente o João.»<br /> <br /> ―Sim, mas vês até + onde chega esta escada. Em toda a feira não há um preço + mais elevado.»<br /> <br /> ―Tem razão. É seu o + carneiro.»<br /> <br /> Desde esse dia o João Pateta não + tornou a ser encarregado de vender ou comprar coisa alguma.<br /> <br /> + <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[126]</span> + </p> + <h2> + <a name="39"></a>Branca de Neve + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter + filhos. Um dia de Inverno, enquanto bordava num bastidor de ébano + olhando de vez em quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no + chão, distraída, picou-se num dedo e saiu uma gota de + sangue.<br /> <br /> ―Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns + beiços tão vermelhos como este sangue, uma pele branca como + esta neve, e uns cabelos negros como este ébano.»<br /> <br /> + Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu à luz uma + filha, que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo tão + branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe + não gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a + casar com uma mulher duma grande beleza, e dum orgulho não menos + extraordinário. Era tão formosa que se considerava a mulher + mais perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e + colocando-se diante dum espelho mágico dizia-lhe:<br /> <br /> + ―Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda + que há no mundo?»<br /> <br /> ―És tu, respondia o + espelho.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[127]</span>No entanto + Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais formosa. Tinha + apenas sete anos, e já ninguém a podia ver sem ficar + maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu espelho, + disse-lhe:<br /> <br /> ―Meu fiel espelho, responde-me: qual é + a mulher mais linda que há no mundo?»<br /> <br /> ―Não + és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»<br /> + <br /> A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração + uma dor aguda, como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um ódio + mortal pela inocente Branca. Não podia sossegar nem de dia, nem de + noite. Para satisfazer o seu ódio, chamou um criado, e disse-lhe:<br /> + <br /> ―Quero que Branca desapareça. Conduze-a à + floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas ordens foram executadas + pontualmente, traz-me o coração.»<br /> <br /> O criado + levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e dispunha-se a + executar a ordem que recebera. A pobre criança chorava e + lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ela não + tinha feito mal a ninguém, e queria viver. O criado, comovido com + aquelas lágrimas, não teve coragem, e abandonou-a na + floresta, pensando que se as feras a devorassem a culpa não era + dele, mas sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o coração + de Branca à rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o coração. + A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou contentíssima, e + disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo + é tão bela como eu.<br /> <br /> <span class="pagenum">[128]</span>A + pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava + cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas + pedras, e andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela + primeira vez também via animais ferozes. Mas as feras não + lhe faziam mal algum, o deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado + sete montanhas.<br /> <br /> À noite chegou ao pé duma casinha + muito pequenina. Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo + estava muito arranjado e muito limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a + mesa, coberta com uma toalha de brancura irrepreensível, sete + pratos pequenos, sete garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas + muito pequeninas. Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu + uma gota de vinho de cada copo, deitou-se na cama, rezou, e adormeceu + profundamente.<br /> <br /> Momentos depois os donos da casa entraram. Eram + sete mineiros pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. + Viram logo que tinham gente em casa. Um deles disse:<br /> <br /> ―Quem + comeu o meu pão?»<br /> <br /> E os outros sucessivamente:<br /> + <br /> ―Quem pegou no meu garfo?»<br /> <br /> ―Quem comeu + o meu caldo?»<br /> <br /> ―Quem bebeu o meu vinho?»<br /> + <br /> E enfim um deles:<br /> <br /> ―Quem está aí + deitado na minha cama?»<br /> <br /> Reuniram-se todos à roda + do pequeno leito em que dormia Branca. À luz das lanternas viram o + doce rosto da criança, que dormia tranquilamente, <span + class="pagenum">[129]</span>e afastaram-se sem fazer bulha, para a não + acordar. Branca no dia seguinte de manhã ficou um pouco assustada, + quando viu perto de si aqueles sete anões das montanhas. Mas eles + disseram-lhe com brandura, que não tivesse medo, e perguntaram-lhe + donde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste história, + e os anões disseram-lhe:<br /> <br /> ―Queres tu ficar + connosco, para tomar conta da nossa casa?»<br /> <br /> ―Da + melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada.»<br /> + <br /> Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente + todos os dias. Limpava os móveis, e fazia o jantar. Os anões + iam trabalhar para as minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam + achavam tudo em ordem.<br /> <br /> Durante esse tempo a rainha andava + satisfeita, quando pensava que já não tinha que recear uma + rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, e disse-lhe:<br /> <br /> + ―Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a + mulher mais linda que há no mundo?»<br /> <br /> E o espelho + respondeu:<br /> <br /> ―Sim, nos teus palácios e nos teus + castelos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é + mais linda do que tu.»<br /> <br /> Ouvindo esta resposta a orgulhosa + rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a fazer + desaparecer a inocente Branca. Mas de que modo? Uma manhã partiu + disfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio de objectos + de fantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu à <span + class="pagenum">[130]</span>porta da casinha, gritando: «Quem quer + comprar bonitas jóias?»<br /> <br /> Os anões tinham + recomendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas, receando os + emissários da rainha, e ela tinha prometido ser prudente. Mas, + quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no cesto, esqueceu-se + das suas promessas.<br /> <br /> ―Veja este rico colar, minha menina, + eu mesmo lho vou pôr ao pescoço.»<br /> <br /> Branca + consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os anões + voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente + inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lábios + algumas gotas dum licor amarelo. Branca começou a respirar, voltou + a si pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha + acontecido.<br /> <br /> ―Podes estar certa, disseram-lhe eles, que + essa vendedeira não era outra pessoa, senão a tua inimiga, a + rainha. Toma cautela, não deixes entrar aqui ninguém, quando + não estivermos em casa.»<br /> <br /> Ao entrar no seu palácio + toda contente, colocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:<br /> + <br /> ―Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que + há no mundo? Responde.<br /> <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> + ―És tu nos teus grandes palácios e nos teus castelos, + mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é mais linda do + que tu.»<br /> <br /> A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez + tentar aniquilar a infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar <span + class="pagenum">[131]</span>em vendedeira. Chegou às sete + montanhas, e bateu à porta da cabana.<br /> <br /> ―Quem quer + comprar lindas jóias? Branca veio à janela, e respondeu:<br /> + <br /> ―Vá-se embora, aqui não entra ninguém.»<br /> + <br /> ―Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de + ouro. Já viu outro tão bonito?»<br /> <br /> Branca não + pôde resistir ao desejo de possuir aquela jóia. Abriu a + porta.<br /> <br /> ―Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lho na + cabeça.»<br /> <br /> Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça + o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.<br /> <br /> À + noite quando regressaram os anões, acharam-na pálida e fria. + Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e tornaram + a recomendar-lhe que fosse prudente.<br /> <br /> No entanto a cruel rainha + voltava contentíssima para o seu palácio. Apenas chegou, foi + direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu + como antecedentemente.<br /> <br /> ―Ah! é preciso que ela + morra, ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.<br /> <br /> Vestiu-se + de camponesa com um cesto de maçãs. Entre elas havia uma que + estava envenenada dum lado. Foi, e bateu à porta da cabana.»<br /> + <br /> ―Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?»<br /> <br /> + ―Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, não deixo + entrar ninguém, nem compro coisa alguma.»<br /> <br /> ―Está + bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. + Mas por ser tão bonita, quero dar-lhe uma.»<br /> <br /> <span + class="pagenum">[132]</span>―Obrigada, não posso aceitar.»<br /> + <br /> ―Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um + pedaço. Ah! que boa que é! Nunca provei nada assim. Ao + pronunciar estas palavras, a traidora mordia no lado da maçã, + que não estava envenenado. Branca deixou-se tentar, levou à + boca o outro pedaço, e caiu fulminada.<br /> <br /> ―Aí + tens, para castigo da tua formosura.»<br /> <br /> Quando chegou ao + palácio a rainha foi direita ao espelho, e perguntou-lhe:<br /> + <br /> ―Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»<br /> + <br /> E o espelho respondeu: <br /> ―És tu, és tu.»<br /> + <br /> ―Até que enfim!»<br /> <br /> Os anões + estavam inconsoláveis. Debalde tinham tentado reanimá-la com + o licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava + fria e inanimada. Choraram por ela durante três dias, e os + passarinhos da floresta choraram também. No entanto as boas + avezinhas não podiam acreditar que ela estivesse morta, e vendo o + seu rosto tão tranquilo, as suas faces tão frescas, parecia + que estava a dormir. Não quiseram enterrá-la. Meteram-na num + caixão de cristal, e escreveram em cima. «Aqui jaz a filha + dum rei;» puseram o caixão numa das sete montanhas, e um + deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se assim + durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais pequena alteração.<br /> + <br /> Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar + à caça, viu o caixão, e pediu aos anões que + lho cedessem, fosse por preço que fosse.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[133]</span>―Somos muito ricos, e por nada deste + mundo venderemos este caixão, que é o nosso tesouro.»<br /> + <br /> ―Então dêem-mo, já não posso viver + sem contemplar este rosto de mulher. Guardá-lo-ei na melhor sala do + meu palácio. Peço-lhes que me façam isto.»<br /> + <br /> Os anões, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no + caixão para o levarem. Um deles tropeçou numa raiz, e o caixão + sofreu um balanço, que fez cair o bocado da maçã + envenenada, que Branca não tinha engolido, e que lhe ficara na + boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O jovem príncipe levou-a + para o seu castelo, e casou com ela. O casamento fez-se com grande pompa. + O príncipe convidou todos os reis e rainhas dos diferentes países, + e entre elas a rainha inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico + vestido, que devia atrair todos os olhares, pôs-se diante do + espelho, e disse a rainha:<br /> <br /> ―Meu fiel espelho, qual a + mulher mais linda que há do mundo?»<br /> <br /> E o espelho + respondeu:<br /> <br /> ―Branca é mais formosa que tu.<br /> + <br /> A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus + crimes fossem descobertos, que morreu de repente.<br /> <br /> Branca viveu + muitos anos, adorada de todos, e no seu palácio de princesa não + se esqueceu dos anões que tinham sido os seus benfeitores.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[134]</span> + </p> + <h2> + <a name="40"></a>A rapariguinha e os fósforos + </h2> + <p> + <br /> <br /> Que frio! a neve caía, e a noite aproximava-se; era o + último de Dezembro, véspera de Ano Bom. No meio deste frio e + desta escuridão passou na rua uma desgraçada pequerrucha, + com a cabeça descoberta e os pés descalços. É + verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco + tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já tinha usado, + tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a + correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto + ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a intenção de + fazer dele um berço para o seu primeiro filho.<br /> <br /> A + pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha no + seu velho avental uma grande quantidade de fósforos, e levava na mão + um maço deles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido + compradores, e por isso não apurara cinco réis.<br /> <br /> + Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos + longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do pescoço; + <span class="pagenum">[135]</span>mas pensava ela porventura nos seus + cabelos anelados?<br /> <br /> As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se + na rua o cheiro dos manjares; era a véspera de dia de Ano Bom: eis + no que ela pensava.<br /> <br /> Deixou-se cair a um canto, entre dois + muros. O frio enregelava-a cada vez mais, mas não se atrevia a + voltar para casa: o pai bater-lhe-ia, porque não tinha vendido os + seus fósforos. Além disso em sua casa fazia tanto frio como + na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento atravessava, apesar de + o terem calafetado com palha e farrapos. As suas mãozinhas já + quase que as não sentia. Ai! como um fosforozinho aceso lhe faria + bem! Se tirasse do maço apenas um, um único, e ascendendo-o + aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: <i>ritche</i>! como estoirou! + como ardeu! Era uma chama tépida e clara, como uma pequena + lamparina. Que luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um + enorme braseiro de ferro, cujo lume magnífico aquecia tão + suavemente, que era um regalo.<br /> <br /> A pequerrucha ia já a + estender os pezitos para os aquecer também, quando a chama se + apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma pontita + de fósforo consumido.<br /> <br /> Acendeu segundo fósforo, + que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu a sua chama tornou-se + transparente como vidro. Olhando através desse muro, a pequerrucha + viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha alvíssima, + deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma galinha assada com + recheio de ameixas e de batatas <span class="pagenum">[136]</span>fumegava + exalando um perfume delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a + galinha saltou do prato, e caiu no chão ao pé da + pequerrucha, com o garfo e a faca espetada no lombo. Nisto apagou-se o fósforo, + e viu apenas diante de si a parede fria e tenebrosa.<br /> <br /> Acendeu + terceiro fósforo, e achou-se imediatamente sentada debaixo de uma + magnífica árvore do Natal; era ainda mais rica e maior do + que a que tinha visto no ano passado através dos vidros de um armazém + sumptuoso.<br /> <br /> Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões + acesos, e as estampas coloridas, como as que há às portas + das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarrá-las com as duas mãos, + apagou-se o fósforo; todos os balões da árvore do + Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se tinha + enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no céu um + longo rasto de fogo.<br /> <br /> ―É alguém que está + a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que lhe queria + tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando + cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.»<br /> <br /> Acendeu ainda + outro fósforo: deu uma grande luz, no meio da qual lhe apareceu sua + avó, de pé, com um ar radioso e suavíssimo.<br /> + <br /> ―Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu + sei que te vais embora quando se apagar o fósforo. Desaparecerás + como a panela de ferro, a galinha assada, e a bela árvore do Natal.<br /> + <br /> Acendeu o rosto do maço, porque não queria <span + class="pagenum">[137]</span>que sua avó lhe fugisse, e os fósforos + espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua avó + tinha sido tão formosa. Pôs ao colo a pequerruchinha, e ambas + alegres, no meio deste deslumbramento, voaram tão alto, tão + alto, que já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: + haviam chegado ao Paraíso.<br /> <br /> Mas quando rompeu a fria + madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com + as faces incendiadas, o sorriso nos lábios... morta, morta de frio + na última noite do ano. O dia de Ano Bom veio alumiar o pequenino + cadáver, sentado ali com os seus fósforos, a que faltava um + maço, que tinha ardido quase inteiramente.―Quis aquecer-se, + disse um homem que passou.» E ninguém soube nunca as lindas + coisas que ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a + sua velha avó no dia do Ano Novo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> + <span class="pagenum">[138]</span> + </p> + <h2> + <a name="41"></a>O primeiro pecado de Margarida + </h2> + <p> + <br /> <br /> Chamava-se Margarida, e estavam à espera dela no céu, + porque Deus tinha dito:―É uma boa alma, e, como lá em + baixo no mundo lhe pode acontecer alguma desgraça, vou trazê-la + um destes dias para o paraíso.»<br /> <br /> Margarida era uma + virgem cândida, matinal como a aurora, fresca como ela; todos os + dias ao acordar rezava as orações, que sua mãe lhe + tinha ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não + tinha jóias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.<br /> + <br /> Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.<br /> + <br /> E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela canção + de amor e de glória, que já embalara muitos berços, e + que podia sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.<br /> + <br /> Numa tarde de Verão, estava ela sentada à porta de + casa fiando linho, à hora em que as estrelas começam a + aparecer, uma a uma no firmamento.<br /> <br /> Estava Margarida cantando a + sua canção, quando <span class="pagenum">[139]</span>passou + por ali uma das suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um + vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus + brincos e o colar de ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão + para que visse bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, + toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que + inquietou no paraíso o seu anjo da guarda.<br /> <br /> O fio de + linho já não passava tão rapidamente entre os dedos + de Margarida, a roda cessara o seu barulho monótono, e o fuso caíra-lhe + das mãos.<br /> <br /> Ao cair o fuso despertou do êxtase, + abriu os olhos, e viu diante de si um cavaleiro magnificamente vestido, + tendo na mão um gorro de veludo preto, com uma pluma vermelha, da + cor do fogo. O cavaleiro saudou-a respeitosamente, e, com uma voz + harmoniosa e galanteadora, perguntou-lhe:<br /> <br /> ―Qual é + o caminho da cidade?»<br /> <br /> Margarida estendeu a mão + para lho indicar, e o forasteiro inclinando-se tirou do dedo um anel de + ouro com um diamante, que brilhava como uma estrela, e meteu-o no dedo de + Margarida, que o achou mais belo do que o anel da sua companheira. O rosto + do cavaleiro alumiou-se então com um sorriso estranho e diabólico.<br /> + <br /> Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de + Margarida, e pediu-lhe uma esmola.<br /> <br /> Margarida tirou do dedo o + anel, e ofereceu-o ao pobre desgraçado.<br /> <br /> O cavaleiro então, + soltando um grito de cólera, ia lançar-se sobre Margarida, + mas o mendigo―<span class="pagenum">[140]</span>que era o seu anjo + da guarda disfarçado―cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, + isto é Satanás, que tinha vindo para a tentar, recuou + aniquilado diante do espírito celeste.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> + <span class="pagenum">[141]</span> + </p> + <h2> + <a name="42"></a>Um nome inscrito no céu + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez um pobre mendigo, que bateu à porta duma + humilde cabana a pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não + vendo, nem ouvindo ninguém, abriu a porta de mansinho e entrou no + casebre; viu então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:<br /> + <br /> ―«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»<br /> + <br /> E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater + à mesma porta.<br /> <br /> ―Pelo amor de Deus! gritou a + velhinha, já te disse que não tenho nada que te dar.»<br /> + <br /> ―Foi por isso que eu voltei―disse em voz baixa o + mendigo.<br /> <br /> E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do + bolso, pondo-os em cima da mesa, muitos bocados de pão e algumas + moedas de dez réis, que lhe tinham dado depois de ter estado com a + velha a primeira vez.<br /> <br /> ―Aqui te fica isto, santinha―disse-lhe + ele afectuosamente, indo-se embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de + lhe agradecer.»<br /> <br /> Não sabemos qual era o nome do + mendigo; mas os anjos escrevê-lo-ão no Paraíso, e mais + tarde nós o viremos a saber.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[142]</span> + </p> + <h2> + <a name="43"></a>O linho + </h2> + <p> + <br /> <br /> O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais + delicadas e transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus + raios sobre ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, + como o dum filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.<br /> + <br /> ―Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito + crescido, e serei brevemente uma rica peça de pano. Sinto-me feliz. + Não há ninguém que seja mais feliz do que eu sou. + Tenho saúde e um belo futuro. A luz acaricia-me, e a chuva + encanta-me e refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais não poder + ser!»<br /> <br /> ―Como és ingénuo! disseram as + silvas do valado; tu não conheces o mundo, de que nós outras + temos uma larga experiência.»<br /> <br /> E rangendo + lastimosamente, cantaram:<br /> <br /> + </p> + <div class="poetry"> + ―Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> ―Acabou-se! acabou-se! + acabou-se! + </div> + <p> + <br /> ―Não tão cedo como vocês imaginam, + respondeu o linho; está uma bela manhã, o sol resplandece, + <span class="pagenum">[143]</span>e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e + florir. Sou muitíssimo feliz.»<br /> <br /> Mas um belo dia + vieram uns homens que agarraram no linho pela cabeleira, arrancaram-no com + raízes e tudo, e deram-lhe tratos de polé. Primeiro + mergulharam-no em água, como se o quisessem afogá-lo, e + depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!<br /> <br /> ―Não + se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessário + sofrer, o sofrimento é a mãe da experiência.»<br /> + <br /> Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no, + cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois, puseram-no + numa roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.<br /> <br /> + ―Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio + daquelas torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades + perdidas.»<br /> <br /> E ainda estava dizendo―perdidas, e já + o estavam a meter no tear e a transformá-lo numa peça de + pano.<br /> <br /> ―Isto é extraordinário, nunca o + imaginei; que boa sorte a minha, e que grandes tolas aquelas silvas quando + cantavam:<br /> <br /> + </p> + <div class="poetry"> + Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + </div> + <p> + <br /> Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é + verdade, mas por isso também agora sou mais feliz do que nunca. + Sinto-me tão forte, tão alto, tão macio! Ah! isto + é bem melhor do que ser planta, mesmo florida, ninguém trata + da gente, e <span class="pagenum">[144]</span>não bebemos outra + água a não ser a da chuva. Agora é o contrário: + que cuidados! As raparigas estendem-me todas as manhãs, e à + noite tomo o meu banho com um regador. A criada do sr. cura fez um + discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a melhor peça + da paróquia. Não posso ser mais feliz.»<br /> <br /> + Levaram o pano para casa, e entregaram-no às tesouras. Cortaram-no + e picaram-no com uma agulha. Não era lá muito agradável, + mas em compensação fizeram dele uma dúzia de camisas + magníficas.<br /> <br /> ―Agora decididamente começo a + valer alguma coisa. O meu destino é abençoado, porque sou + útil neste mundo. É preciso isso para se viver em paz, e + ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas + formamos um só grupo, uma dúzia. Que incomparável + felicidade!<br /> <br /> O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.<br /> + <br /> ―Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, + mas não se fazem impossíveis.»<br /> <br /> E as camisas + foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era finalmente a + sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem adivinharem o + que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel branco magnífico.<br /> + <br /> ―Oh que agradável surpresa! exclamou o papel, agora sou + muito mais fino do que dantes, e vão cobrir-me de letras. O que não + escreverão em cima de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»<br /> + <br /> E escreveram nele as mais belas histórias, que foram lidas + diante de inúmeros ouvintes, e os tornaram mais sábios e + melhores.<br /> <br /> <span class="pagenum">[145]</span>―Ora aqui está + uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, quando vivia na + terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que ainda havia de + servir para alegrar e instruir os homens! Não sei explicar o que me + está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe perfeitamente que + nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha sorte; foi Ele que + gradualmente me elevou, até chegar à maior glória. + Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se» + tudo pelo contrário se me apresenta debaixo do aspecto mais + risonho. Vou viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam + ler e instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; + agora as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me + feliz, imensamente feliz!»<br /> <br /> Mas o papel não foi + viajar; entregaram-no ao tipógrafo, e tudo que lá estava + escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, que + recrearam e instruíram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de + papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a + volta à roda do mundo. A meio caminho já estaria gasto.<br /> + <br /> ―É justo, disse o papel, não tinha pensado + nisso. Fico em casa, e vou ser considerado como um velho avô! fui eu + que recebi as letras, as palavras caíram directamente da pena sobre + mim, fico no meu lugar, e os livros vão por esse mundo fora. A sua + missão é realmente bela, e eu estou contente, e julgo-me + feliz.<br /> <br /> O papel foi empacotado, e lançado para uma + estante.<br /> <br /> ―Depois do trabalho é agradável o + descanso, <span class="pagenum">[146]</span>pensou ele. É neste + isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só de hoje em diante + é que eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo + é a verdadeira perfeição. Que me irá ainda + acontecer? Progredir, está claro.»<br /> <br /> Passados + tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o que + o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar açúcar. + E todas as crianças da casa se puseram à roda; queriam vê-lo + arder, e ver também, depois da labareda, as milhares de faíscas + vermelhas, que parecem fugir, e se apagam instantaneamente uma após + outra. O maço inteiro de papel foi atirado ao lume. Oh! como ele + ardia! Tornara-se numa grande chama, que se erguia tão alto, tão + alto como o linho nunca erguera as suas flores azuis; a peça de + pano nunca tinha tido um brilho semelhante.<br /> <br /> Todas as letras, + durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as palavras, todas as + ideias desapareceram em línguas de fogo.<br /> <br /> ―«Vou + subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da labareda, que + pareciam mil vozes reunidas numa só. A chama saiu pela chaminé, + e no meio dela volteavam pequeninos seres invisíveis para os olhos + do homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha + dado. Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se + extinguiu, quando não restava do papel senão a cinza negra, + ainda eles dançavam sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, + pequeninas centelhas encarnadas.<br /> <br /> As crianças cantavam + à roda da cinza inanimada:<br /> <br /> <span class="pagenum">[147]</span> + </p> + <div class="poetry"> + Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + </div> + <p> + <br /> Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não + se acabou; agora é que é o melhor da festa. Sei-o, e + julgo-me feliz.»<br /> <br /> As crianças não puderam + ouvir, nem compreender estas palavras; mas também não era + necessário, porque as crianças não devem saber tudo.<br /> + <br /> <br /> + </p> + <div style="text-align: center;"> + FIM.<br /> + </div> + <p> + <br /> <br /> <br /> <br /> + </p> + <h5> + ÍNDICE + </h5> + <p> + <br /> <br /> + </p> + <div> + <a href="#1">A mãe</a><br /> <a href="#2">O ouro</a><br /> <a + href="#3">Doçura e bondade</a><br /> <a href="#4">O malmequer</a><br /> + <a href="#5">Não quero</a><br /> <a href="#6">Piloto</a><br /> <a + href="#7">O rico e o pobre</a><br /> <a href="#8">Como um camponês + aprendeu o Padre Nosso</a><br /> <a href="#9">O talismã</a><br /> <a + href="#10">A alma</a><br /> <a href="#11">Alberto</a><br /> <a href="#12">A + canção da cerejeira</a><br /> <a href="#13">Os gigantes da + montanha e os anões da planície</a><br /> <a href="#14">A + criança, o anjo e flor</a><br /> <a href="#15">Presente por presente</a><br /> + <a href="#16">O pinheiro ambicioso</a><br /> <a href="#17">Perfeição + das obras de Deus</a><br /> <a href="#18">João e os seus camaradas</a><br /> + <a href="#19">O rabequista</a><br /> <a href="#20">Os pêssegos</a><br /> + <a href="#21">A urna das lágrimas</a><br /> <a href="#22">Reconhecimento + e ingratidão</a><br /> <a href="#23">O fato novo do sultão</a><br /> + <a href="#24">Boa sentença</a><br /> <a href="#25">Os animais + agradecidos</a><br /> <a href="#26">O ermitão</a><br /> <a href="#27">Carlos + Magno e o abade de S. Gall</a><br /> <a href="#28">A boneca</a><br /> <a + href="#29">Inconveniente da riqueza</a><br /> <a href="#30">Querer é + poder</a><br /> <a href="#31">Qual será rei?</a><br /> <a href="#32">Os + três véus de Maria</a><br /> <a href="#33">Os pequenos no + bosque</a><br /> <a href="#34">O chapelinho encarnado</a><br /> <a href="#35">Os + cinco sonhos</a><br /> <a href="#36">A igreja do rei</a><br /> <a href="#37">O + valente soldado de chumbo</a><br /> <a href="#38">João Pateta</a><br /> + <a href="#39">Branca de Neve</a><br /> <a href="#40">A rapariguinha e os fósforos</a><br /> + <a href="#41">O primeiro pecado de Margarida</a><br /> <a href="#42">Um + nome inscrito no céu</a><br /> <a href="#43">O linho</a><br /> + </div> + <p> + <br /> <br /> <br /> <br /> + </p> + <div class="fbox"> + <h2> + Lista de erros corrigidos + </h2> + <br /> <br /> + <table style="width: 449px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto; height: 210px;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + <tbody> + <tr align="right"> + <td style="width: 99px; height: 23px;"></td> + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 148px; height: 23px;"> + Original + </td> + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 23px;"></td> + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 158px; height: 23px;"> + Correcção + </td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"> + <a name="e1" id="e1"></a><a href="#p56">#pág. 56</a> + </td> + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;"> + entrar? + </td> + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;"> + ... + </td> + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;"> + entrar! + </td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"> + <a name="e2" id="e2"></a><a href="#p58">#pág. 58</a> + </td> + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;"> + João. + </td> + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;"> + ... + </td> + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;"> + João: + </td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"> + <a name="e3" id="e3"></a><a href="#p58">#pág. 58</a> + </td> + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;"> + embora? + </td> + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;"> + ... + </td> + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;"> + embora. + </td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"> + <a name="e4" id="e4"></a><a href="#p107">#pág. 107</a> + </td> + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;"> + encontremos + </td> + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;"> + ... + </td> + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;"> + encontraremos + </td> + </tr> + </tbody> + </table> + <br /> <br /> +</div> + <p> + <br /> <br /> <br /> <br /> A propriedade deste livro pertence no Brasil ao + sr. Luís de Andrade, residente no Rio de Janeiro.<br /> + </p> + +<div style='display:block;margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA ***</div> +<div style='display:block;margin:1em 0;'>This file should be named 16429-h.htm or 16429-h.zip</div> +<div style='display:block;margin:1em 0;'>This and all associated files of various formats will be found in https://www.gutenberg.org/1/6/4/2/16429/</div> +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Updated editions will replace the previous one—the old editions will +be renamed. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright +law means that no one owns a United States copyright in these works, +so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United +States without permission and without paying copyright +royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part +of this license, apply to copying and distributing Project +Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ +concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, +and may not be used if you charge for an eBook, except by following +the terms of the trademark license, including paying royalties for use +of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for +copies of this eBook, complying with the trademark license is very +easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation +of derivative works, reports, performances and research. Project +Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away--you may +do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected +by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark +license, especially commercial redistribution. +</div> + +<div style='margin:0.83em 0; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE<br /> +<span style='font-size:smaller'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE<br /> +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</span> +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase “Project +Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full +Project Gutenberg™ License available with this file or online at +www.gutenberg.org/license. +</div> + +<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or +destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your +possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a +Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound +by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person +or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg™ electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg™ electronic works if you follow the terms of this +agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg™ +electronic works. See paragraph 1.E below. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the +Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection +of Project Gutenberg™ electronic works. Nearly all the individual +works in the collection are in the public domain in the United +States. If an individual work is unprotected by copyright law in the +United States and you are located in the United States, we do not +claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, +displaying or creating derivative works based on the work as long as +all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope +that you will support the Project Gutenberg™ mission of promoting +free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg™ +works in compliance with the terms of this agreement for keeping the +Project Gutenberg™ name associated with the work. You can easily +comply with the terms of this agreement by keeping this work in the +same format with its attached full Project Gutenberg™ License when +you share it without charge with others. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are +in a constant state of change. If you are outside the United States, +check the laws of your country in addition to the terms of this +agreement before downloading, copying, displaying, performing, +distributing or creating derivative works based on this work or any +other Project Gutenberg™ work. The Foundation makes no +representations concerning the copyright status of any work in any +country other than the United States. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other +immediate access to, the full Project Gutenberg™ License must appear +prominently whenever any copy of a Project Gutenberg™ work (any work +on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the +phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed, +performed, viewed, copied or distributed: +</div> + +<blockquote> + <div style='display:block; margin:1em 0'> + This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most + other parts of the world at no cost and with almost no restrictions + whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms + of the Project Gutenberg License included with this eBook or online + at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you + are not located in the United States, you will have to check the laws + of the country where you are located before using this eBook. + </div> +</blockquote> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.E.2. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is +derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not +contain a notice indicating that it is posted with permission of the +copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in +the United States without paying any fees or charges. If you are +redistributing or providing access to a work with the phrase “Project +Gutenberg” associated with or appearing on the work, you must comply +either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or +obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg™ +trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.E.3. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any +additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms +will be linked to the Project Gutenberg™ License for all works +posted with the permission of the copyright holder found at the +beginning of this work. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg™ +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg™. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg™ License. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including +any word processing or hypertext form. However, if you provide access +to or distribute copies of a Project Gutenberg™ work in a format +other than “Plain Vanilla ASCII” or other format used in the official +version posted on the official Project Gutenberg™ website +(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense +to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means +of obtaining a copy upon request, of the work in its original “Plain +Vanilla ASCII” or other form. Any alternate format must include the +full Project Gutenberg™ License as specified in paragraph 1.E.1. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg™ works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg™ electronic works +provided that: +</div> + +<div style='margin-left:0.7em;'> + <div style='text-indent:-0.7em'> + • You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg™ works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed + to the owner of the Project Gutenberg™ trademark, but he has + agreed to donate royalties under this paragraph to the Project + Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid + within 60 days following each date on which you prepare (or are + legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty + payments should be clearly marked as such and sent to the Project + Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in + Section 4, “Information about donations to the Project Gutenberg + Literary Archive Foundation.” + </div> + + <div style='text-indent:-0.7em'> + • You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg™ + License. You must require such a user to return or destroy all + copies of the works possessed in a physical medium and discontinue + all use of and all access to other copies of Project Gutenberg™ + works. + </div> + + <div style='text-indent:-0.7em'> + • You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of + any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days of + receipt of the work. + </div> + + <div style='text-indent:-0.7em'> + • You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg™ works. + </div> +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project +Gutenberg™ electronic work or group of works on different terms than +are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing +from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of +the Project Gutenberg™ trademark. Contact the Foundation as set +forth in Section 3 below. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.F. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +works not protected by U.S. copyright law in creating the Project +Gutenberg™ collection. Despite these efforts, Project Gutenberg™ +electronic works, and the medium on which they may be stored, may +contain “Defects,” such as, but not limited to, incomplete, inaccurate +or corrupt data, transcription errors, a copyright or other +intellectual property infringement, a defective or damaged disk or +other medium, a computer virus, or computer codes that damage or +cannot be read by your equipment. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the “Right +of Replacement or Refund” described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg™ trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg™ electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium +with your written explanation. The person or entity that provided you +with the defective work may elect to provide a replacement copy in +lieu of a refund. If you received the work electronically, the person +or entity providing it to you may choose to give you a second +opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If +the second copy is also defective, you may demand a refund in writing +without further opportunities to fix the problem. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you ‘AS-IS’, WITH NO +OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT +LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of +damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement +violates the law of the state applicable to this agreement, the +agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or +limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or +unenforceability of any provision of this agreement shall not void the +remaining provisions. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg™ electronic works in +accordance with this agreement, and any volunteers associated with the +production, promotion and distribution of Project Gutenberg™ +electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, +including legal fees, that arise directly or indirectly from any of +the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this +or any Project Gutenberg™ work, (b) alteration, modification, or +additions or deletions to any Project Gutenberg™ work, and (c) any +Defect you cause. +</div> + +<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg™ +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of +computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It +exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations +from people in all walks of life. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s +goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg™ and future +generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see +Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. +</div> + +<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by +U.S. federal laws and your state’s laws. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, +Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up +to date contact information can be found at the Foundation’s website +and official page at www.gutenberg.org/contact +</div> + +<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread +public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine-readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To SEND +DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state +visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Please check the Project Gutenberg web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. To +donate, please visit: www.gutenberg.org/donate +</div> + +<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> +Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project +Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be +freely shared with anyone. For forty years, he produced and +distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of +volunteer support. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in +the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not +necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper +edition. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Most people start at our website which has the main PG search +facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +This website includes information about Project Gutenberg™, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. +</div> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..f73b936 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #16429 (https://www.gutenberg.org/ebooks/16429) diff --git a/old/16429-8.txt b/old/16429-8.txt new file mode 100644 index 0000000..8f0e8e0 --- /dev/null +++ b/old/16429-8.txt @@ -0,0 +1,4381 @@ +The Project Gutenberg EBook of Contos para a infncia, by Guerra Junqueiro + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Contos para a infncia + Escohidos dos melhores auctores + +Author: Guerra Junqueiro + +Release Date: August 4, 2005 [EBook #16429] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFNCIA *** + + + + +Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), +Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + + + + + + +CONTOS PARA A INFANCIA + +ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES POR GUERRA JUNQUEIRO + + +LISBOA + +TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL + +Rua dos Calafates, 110 + +1877 + + + + +*A me* + + +Estava uma me muito afflicta, sentada ao p do bero do seu filho, com +medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados. +Resprava com difficuldade, e s vezes to profundamente, que parecia +gemer; mas a me causava ainda mais lastima do que o pequenino +moribundo. + +N'isto bateram porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuado +n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. L fra estava tudo coberto de +neve e de glo, e o vento cortava como uma navalha. + +O pobre homem tremia de frio; a creana adormecra por alguns instantes, +e a me levantou-se a pr ao lume uma caneca com cerveja. O velho +comeou a embalar a creana, e a me, pegando n'uma cadeira, sentou-se +ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada +vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mosinha descarnada e disse para +o velho: + +--Oh! Nosso Senhor no m'o hade levar! no verdade?-- + +E o velho, que era a Morte, meneou a cabea d'uma maneira extranha, em +ar de duvida. A me deixou pender a fronte para o cho, e as lagrimas +corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de +cabea; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou +ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a +tremer de frio. + +--Que isto! exclamou, lanando volta de si o olhar hallucinado. O +bero estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creana. + + * * * * * + +A pobre me saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma +mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. A Morte entrou-te em +casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais +depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar. + +--Por onde foi ella? gritou a me. Dize-m'o pelo amor de Deus! + +--Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto. +Mas s t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canes que cantavas +ao teu filho. So lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e +muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas. + +--Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a me. Agora no me +demores, porque quero encontrar o meu filho.-- + +A Noite ficou silenciosa. A me ento, desfeita em lagrimas, comeou a +cantar. Cantou muitas canes, mas as lagrimas foram mais do que as +palavras. + +No fim disse-lhe a Noite: Toma direita, pela floresta escura de +pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho. + +A me correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e no +sabia que direco havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal, +cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve +cristallisada. + + * * * * * + +--No viste a Morte que levava o meu filho? perguntou-lhe a me. + +--Vi, respondeu o mattagal, mas no te ensino o caminho, seno com a +condio de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado. + +E a me estreitou o mattagal contra o corao; os espinhos +dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se +de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite +d'inverno frigidissima, tal o calor febricitante do seio d'uma me +angustiosa. + +E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando, +andando, at que chegou margem d'um grande lago, onde no havia nem +barcos, nem navios. No estava sufficientemente gelado para se andar por +elle, e era demasiadamente profundo para o passar a vo. Comtudo, +querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio +do seu amor, atirou-se de bruos a ver se poderia beber toda a agua do +lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixo, faria +talvez um milagre. + +--No! no s capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos +amigavelmente. Gosto de vr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus +olhos so d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu +tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas fora de chorar, e +levar-te-hei estufa grandiosa, que est do outro lado: essa estufa a +habitao da Morte; e as flores e as arvores que esto l dentro, ella +quem as cultiva; cada flor e cada arvore a vida d'uma creatura +humana. + +--Oh! o que no darei eu, para rehaver o meu filho! disse a me. E +apesar de ter j chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do +que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo +do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as no teve no +mundo uma rainha. + +O lago ento ergueu-a, e com um movimento de ondulao depositou-a na +outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua +de comprido. De longe no se sabia se era uma construco artistica ou +uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre me no podia ver nada; +tinha dado os seus olhos. + +--Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho! bradou +ella desesperada. + +--A Morte ainda no chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um +lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como +vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho? + +--Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus misericordioso. Compadece-te +de mim, e dize-me onde est o meu filho. + +--Eu no o conheo, e tu s cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas +e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte no tarda ahi para +as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este +sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem +com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes, +sente-se bater um corao. Guia-te por isto, e talvez reconheas as +pulsaes do corao de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o +que tens ainda de fazer? + +--J no tenho nada que te dar, disse a pobre me. Mas irei at ao fim +do mundo buscar o que tu quizeres.--Fra d'aqui no preciso de nada, +respondeu a velha. D-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que +so bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos +brancos.--No pedes mais nada do que isso? disse a me. Ahi os tens, +dou-t'os de boa vontade. + +E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu +orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e +inteiramente brancos da velha. + +Esta levou-a pela mo grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma +vegetao maravilhosa. + +Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado +de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas +cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam +cobras asquerosas. + +Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos +frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa, +tomilho, ortel e outras plantas humildes que representavam o genero de +utilidade das pessoas que ellas symbolisavam. + +Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que +pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em +vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com +esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a +essa hora existiam no mundo, desde a China at Groenlandia. + +A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a me +impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas +pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do +corao, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as +pulsaes do corao do seu filho. + +-- elle! exclamou, lanando a mo a um aafroeiro, que, pendido sobre +a terra, parecia completamente estiolado. + +--No lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte +vier, que no tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaa-a de +arrancar todas as flores que esto aqui. A Morte ter medo, porque tem +de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma pde ser arrancada sem o seu +consentimento. + +N'isto sentiu-se um vento glacial, e a me adivinhou que era a Morte, +que se approximava. + +--Como qu deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda +primeiro do que eu! Como o conseguiste?--Sou me respondeu ella. + +E a Morte estendeu a sua mo ganchosa para o pequenino aafroeiro. + +Mas a me protegia-o violentamente com ambas as mos, tendo o cuidado de +no ferir uma s das pequeninas petalas. Ento a Morte soprou-lhe nas +mos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do +que os ventos enregelados do inverno. + +--No pdes nada comigo! disse a Morte.--Mas Deus tem mais fora do que +tu, respondeu a me.-- verdade, mas eu no fao seno aquillo que +elle manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e +arbustos, quando comeam a murchar, transplanto-as para outros jardins, +um dos quaes o grande jardim do Paraizo. So regies desconhecidas; +ningum sabe o que se l passa. + +--Misericordia! misericordia! soluou a me. No me roubem o meu filho, +agora que acabo de o encontrar! Supplicava e gemia. A Morte +conservava-se impassivel; agarrou ento instantaneamente em duas flores +lindissimas e disse Morte: Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar, +despedaar no s esta, mas todas as flores que esto aqui! + +--No as arranques, no as mates, bradou a Morte. Dizes que s +desgraada, e querias ir partir o corao de outra me!--Outra me! +disse a pobre mulher, largando as flores immediatamente.--Toma, aqui +tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam to suavemente que os tirei +do lago. No sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o +fundo d'este poo; v o que ias destruir, se arrancasses estas flores. +Vers passar nos reflexos da agua, como n'uma miragem, a sorte destinada +a cada uma d'essas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se +porventura vivesse. + +Debruou-se no poo, e viu passar imagens de felicidade e alegria, +quadros risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de +miseria, d'angustias e de desolao. + +--N'isto que eu vejo, disse a me afflictissima, no distingo qual era a +sorte que Deus destinava ao meu filho. + +--No posso dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto +que te appareceu viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho. + +A me desvairada, lanou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me: +era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? No verdade! Falla! +No me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, no v elle soffrer +desgraas to horriveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que minha +vida. As angustias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos. +Esquece as minhas lagrimas, as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz +e tudo o que disse. + +--No te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu +filho ou que o leve para a regio desconhecida de que no posso +fallar-te! Ento a me allucinada, convulsa, torcendo os braos, +deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: No me ouas, +Senhor, se reclamo no fundo do meu corao contra a tua vontade que +sempre justa! No me attendas meu Deus! + +E deixou cair a cabea sobre o peito, mergulhada na sua agonia +dilacerante. + +E a Morte arrancou o pequenino aafroeiro, e foi transplantal-o no +jardim do paraiso. + + + + +*O ouro* + + +Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas d'ouro, +empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas minas; e o +resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande +fome no paiz. + +Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em +segredo frangos, pombos, gallinhas e outras iguarias todas de ouro fino; +e quando o rei quiz jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com +que elle ficou todo satisfeito, porque no comprehendeu ao principio +qual era o sentido da rainha; mas, vendo que no lhe traziam mais nada +de comer, comeou a zangar-se. Pediu-lhe ento a rainha, que visse bem +que o ouro no era alimento, e que seria melhor empregar os seus +vassallos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que +trazel-os nas minas busca do ouro, que no mata a fome nem a sede, e +que no tem outro valor alm da estimao que lhe dada pelos homens, +estimao que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro +apparecesse em abundancia. + +A rainha tinha juizo. + + + + +*Doura e bondade* + + +Ha entre vs, meus filhos, indoles violentas, que no sabem dominar-se, +e que so arrastadas pelas primeiras impresses. uma pessima +disposio, que necessario corrigir; d lugar a disputas, e a que se +commettam aces, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde. +Citar-vos-hei dois exemplos de que fui testemunha. + +Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante +d'elle, volta-se e d-lhe uma bofetada. + +--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vae ter! bateu n'um +cego! + +Um homem ainda novo montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns +camponezes grosseiros comearam a apupal-o e a bater no burro, para o +fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a +sua perna aleijada, disse-lhes: Se soubesseis que eu era coxo, no +terieis sido to covardes. + +Os camponezes, envergonhados, craram, afastando-se sem pronunciar uma +palavra. + +Que vos parece estas duas lies? Estou convencido que aproveitaram a +quem as recebeu. + + + + +*O malmequer* + + +Ouvi com atteno esta pequenina historia! + +No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que +deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores, +rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no +meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a +olhos vistos, graas ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por +elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella +manh, j inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes, +parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava +que o vissem no meio da herva e no fizessem caso d'elle, pobre florinha +insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do +sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares. + +N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira, +sentia-se to feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanas +sentadas nos bancos da escola estudavam a lio, elle, sentado na haste +verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo +o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com +admiravel nitidez nas canes alegres da cotovia. Por isso poz-se a +olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha +feliz que cantava e voava. + +Eu vejo e oio, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento +acaricia-me. Oh! no tenho raso de me queixar. + +Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos +aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para +parecerem maiores do que as rosas; mas no o tamanho que faz a rosa. +As tulipas brilhavam pela belleza das suas cres, pavoneando-se +pretenciosamente. No se dignavam de lanar um olhar para o pequeno +malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: como so +ricas e bonitas! A cotovia ir certamente visital-as. Graas a Deus, +poderei assistir a este bello espectaculo. E no mesmo instante a +cotovia dirigiu o seu vo, no para as dalias e tulipas, mas para a +relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria no sabia o que +havia de pensar. + +O passarinho poz-se a saltitar roda d'elle, cantando: Como a herva +macia! oh! que encantadora florinha, com um corao d'oiro, vestida de +prata! + +No se pde fazer ida da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com +o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do +firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora no pde o malmequer +reprimir a sua commoo. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou +para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que +acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as +tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e +ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabea toda +inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis +ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste. + +Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma +grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as +uma a uma. + +Que desgraa! disse o malmequer suspirando; horrivel; foram-se +todas. + +E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrra-se por +ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando +reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas, +adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia. + +No dia seguinte de manh, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao +ar e luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste, +muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rases para se affligir: +haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella +aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas +antigas viagens atravez do espao illimitado. + +O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era +difficil. A compaixo pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe +esquecer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e +a alvura resplandecente das suas proprias folhas. + +N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mo +uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as +tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que no podia comprehender o +que desejavam. + +Podemos arrancar d'aqui um pedao de relva para a cotovia, disse um dos +rapazes, e comeou a fazer um quadrado profundo volta da florinha. + +--Arranca a flor, disse o outro. + +A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era +morrer; e nunca tinha abenoado tanto a existencia, como no momento em +que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia. + +No; deixemol-a, disse o mais velho. Est ahi muito bem. + +Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia. + +O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia +com as azas nos arames da gaiola. O malmequer no podia, apesar dos seus +desejos, articular-lhe uma palavra de consolao. + +Passou-se assim toda a manh. + +J no tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me +deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre +terrivel, sinto-me abafada! Ai! No ha remedio seno morrer, longe do +sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da +creao! + +Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu +ento o malmequer; fez-lhe um signal de cabea amigavel, e disse-lhe, +afagando-o: Tambem tu, pobre florinha, morrers aqui! Em vez do mundo +inteiro, que eu tinha minha disposio, deram-me um pedacito de relva, +e a ti s por unica companhia. Cada psinho de relva substitue para mim +uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah! +como me fazes recordar de todas as coisas que perdi! + +--Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o +minimo movimento. + +Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume; +a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a +arrancar a herva, teve todo o cuidado em no tocar nem sequer de leve na +flor. + +Caiu a noite; no estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua +desditosa cotovia; Estendeu ento as suas bellas azas, sacudindo-as +convulsivamente, e poz-se a cantar uma canosinha melancolica; a sua +cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu corao quebrado de desejos e +d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer +no pde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se +para o cho, doente de tristeza. + +Os rapazitos s voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto, +rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro +d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e +cobriram o tumulo com folhas de rosas. + +Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e +deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto que o choraram +e lhe fizeram honrarias pomposissimas. + +A relva e o malmequer lanaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle +que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou. + + + + +*No quero* + + +Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito +alto: No, dizia um com voz energica, no quero. Parei e +perguntei-lhe:--O que que tu no queres, meu rapaz?--No quero dizer + mam que venho da escola, porque mentira. Sei que me hade ralhar, +mas antes quero que me ralhe do que mentir.--E tens razo, disse-lhe +eu. s um rapaz como se quer. Apertei-lhe a mo, emquanto que o outro +pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora +todo envergonhado. + +D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o +professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois +pequenos; o que no quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro, +vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os +dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro, um magnifico +estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a +confessar as suas faltas e o que ainda melhor, a reparal-as. O outro +pelo contrario, mentiroso, covarde e incorrigivel.--No me espanto, +disse eu, j tinha tirado o horscopo d'estas duas creanas; e +contei-lhe o que tinha ouvido. + + + + +*Piloto* + + +Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos ces, e o +infatigavel companheiro dos brinquedos das creanas da quinta. + +Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que Joo lhe +lanava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na bocca e +trazia-o margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irm +Joaninha. + +Esta brincadeira recomeava vinte vezes sem canar nunca a paciencia do +Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, at que o +assobio do creado da quinta chamava o fiel animal s suas obrigaes: +partia ento como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos +pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho. + +Quando o hortelo ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda +da carroa; e muito atrevido seria quem saltasse noite a parede da +quinta. + +Uma vez deu prova d'uma extraordinaria sagacidade; um jornaleiro, que se +empregava muitas vezes em levar saccos de trigo da quinta para casa, +tentou de noite roubar um sacco. + +Piloto, que o conhecia, no fez a menor demonstrao de hostilidade +emquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou +tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o +largar. + +Era como se dissesse: Onde vaes tu com o trigo de meu dono? + +O ladro quiz pr ento outra vez o sacco d'onde o tinha tirado; Piloto +no consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, at de +manh; o quinteiro foi dar com elle n'esta difficil posio, +reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o no +deshonrar. + +Mas o homem ficou com odio ao co, e muito tempo depois, aproveitando a +ausencia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para +elle sem desconfiana; atou-lhe uma corda ao pescoo e arrastou-o at +margem do ribeiro. + +Atou uma grande pedra outra extremidade da corda e levantando o animal +atirou-o agua; mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforo, +caiu tambem. + +Como no sabia nadar, teria sido despedaado pela roda do moinho, se o +corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e +desembaraando-se da pedra mal atada, no tivesse mergulhado duas vezes +e trazido para terra o seu mortal inimigo. + +Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o +co que elle tinha querido afogar, lhe salvra a vida. + +Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si +mesmo e combateu as suas ms inclinaes. + +O exemplo do co corrigiu o homem. + + + + +*O rico e o pobre* + + +Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um +dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e +deitou-se de baixo d'uma arvore, porta d'uma estalagem, junto da +estrada. Estava comendo um bocado de po que tinha trazido para jantar, +quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu +preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos +viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que no tinham tempo, +e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de +vinho. + +Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua +codea de po, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e +suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino to rico, +em vez do desgraado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu +dentro d'aquella carruagem! O preceptor ouviu casualmente o que dizia +Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lanando a cabea fra da +carruagem, chamou Martinho com a mo. + +--Ficarias muito contente, no verdade, meu rapaz, podendo trocar a +minha sorte pela tua?--Peo que me desculpe senhor, replicou Martinho +crando, o que eu disse no foi por mal.--No estou zangado comtigo, +replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca. + +--Oh! est a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar +no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando +muitas leguas por dia, como po secco e batatas, emquanto que o senhor +anda n'uma carruagem, pde comer frangos e beber vinho.--Pois bem, +volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu +no tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo. Martinho +ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o +preceptor continuou: Acceitas a troca?--Ora essa! exclamou Martinho, +ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada +de me ver entrar n'esta bella carruagem! E Martinho desatou a rir com a +ida da entrada triumphante na sua aldeia. + +O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a +descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma +perna de pau e que a outra era to fraca, que se via obrigado a andar em +duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou +que era muito pallido e que tinha cara de doente. + +Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:--Ento sempre +desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas +valentes e as tuas faces cradas, pelo prazer de ter uma carruagem e +andar bem vestido?--Oh! no, por coisa nenhuma! replicou +Martinho.--Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se +tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro +os meus males com paciencia e fao por ser alegre, dando graas a Deus +pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia. + +Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se s pobre e comes mal, +tens fora e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que no +podem comprar-se com dinheiro. + + + + +*Como um camponez aprendeu o Padre Nosso* + + +Tinha o corao duro, e no dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o +confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso. + +No o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeo. + +Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a +credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da +minha parte. + +No dia seguinte de manh apresentou-se o primeiro pobre. + +Como te chamas? perguntou-lhe o camponez. + +Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, respondeu o pobre. + +E o teu appellido? + +Seja--Santificado--O--Vosso--Nome. + +E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo. + +Ao outro dia chega segundo pobre. + +Como te chamas? + +Venha--A--Ns--O--Vosso--Reino. + +E o teu appellido? + +Seja--Feita--A--Vossa--Vontade. + +E partiu com o seu alqueire de trigo. + +Veiu terceiro pobre. + +Como te chamas? + +Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo. + +E o teu appellido? + +Dae-nos--Hoje--O--Po--Nosso--De--Cada--Dia. + +E levou o seu alqueire. + +Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma +forma at chegar ao _Amen_. + +Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeo. + +Ento j sabes o Padre Nosso? + +No, sr. cura, sei s os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei +o meu trigo. + +Quaes so? tornou o padre. + +E o aldeo enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha +apresentado. + +J vs, disse o confessor, que no era muito difficil aprender o Padre +Nosso, porque j o sabes perfeitamente. + + + + +*O talisman* + + +Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas +com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o +que no era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com +uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue +inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direco da +sua casa. + +Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual a razo +porque a sorte nos trata de um modo to differente? Vendemos as mesmas +mercadorias, a minha loja est to bem situada como a tua, e apezar +d'isso, emquanto tu ganhas, eu no fao seno perder. E no porque eu +seja estroina; no bebo, nem jogo. J tenho pensado algumas vezes se no +ters tu por acaso algum precioso talisman. + +Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma +virtude incomparavel. Trago-o ao pescoo, e ando assim com elle todo o +dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o +celleiro. E o caso que tudo me corre perfeitamente. + +Ol meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia +preciosa de que tanto necessito; pdes ter a certeza de que t'a +restituo. + +Pois vem buscal-a manh de manh. + +Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, +apresentou-lhe este uma avell, atravs da qual tinha tinha passado um +fio de seda. + +O nosso homem pl-a immediatamente ao pescoo, e comeou a correr toda a +casa com o talisman. Observou ento a completa desordem que por toda a +parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na +cozinha o po, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o +feijo; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos +cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal +escripturados; viu tudo isto, e que era necessrio dar-lhe remedio, +comprehendendo que o dono da casa nunca pde ser substituido por +terceira pessoa na direco dos seus negocios. + +Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman, +agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em +segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado. + + + + +*A alma* + + +Mam, nem todas as creanas que morrem vo para o Paraizo. O outro dia +vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu pap e as +suas duas irmsinhas acompanhavam o caixo, e choravam tanto que me +fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, no +verdade? + +No; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus +paes e suas irms, j estava vivendo feliz no Paraizo. + +A alma? mam; no sei o que ; no comprehendo bem. + +Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas +pequerruchas. + +Tive sim, mam, tive muita pena. + +Ora bem, o que que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os +braos? + +No, mam. + +Eram as orelhas? + +Oh! no mam, era _c dentro_. + +Esse _l dentro_, Maria, a tua alma que se alegra ou se entristece, +que te reprehende quando fazes o mal, e que est satisfeita quando +praticas o bem. + + + + +*Alberto* + + +Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus +irmos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer +sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico +feijo produzir cem feijes e muitas vezes mais, e de uma talhada de +batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava +com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no +quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. Ha +de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dar libras como uma +cerejeira d cerejas, e irei entregal-as ao pap, que ficar muito +contente. Todas as manhs ia ver se a libra tinha nascido, mas no +rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por +fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto. + +Vi pap; achei-a e fui semeal-a. + +Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve? + +Mas, pap, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra. + + verdade, mas no nasce como uma semente; o oiro no tem vida. + +Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe +no pertencia. + +Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe +produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como +? dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira. + + + +*A cano da cerejeira* + + +Disse Deus na primavera: Ponham a mesa s lagartas! E a cereijeira +cobriu-se immediatamente de folhas, milhes de folhas, fresquinhas e +verdejantes. + +A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiou-se, +abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as +folhinhas tenras, dizendo: No se pde a gente despegar d'ellas. Quem +que me arranjou este banquete? + +Ento Deus disse de novo: Ponham a mesa s abelhas! E a cereijeira +cobriu-se immediatamente de flores, milhes de flores delicadas e +brancas. + +E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas, +dizendo: Vamos tomar o nosso caf; e que chvenas to bonitas em que o +deitaram! + +Provou com a linguita, exclamando: Que deliciosa bebida! No pouparam o +assucar! + +No vero disse Deus: Ponham a mesa aos passarinhos! E a cereijeira +cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos. + +Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasio; temos appetite, +e isto dar-nos-ha novas foras para podermos cantar uma nova cano. No +outono disse Deus: Levantae a mesa, j esto satisfeitos. E o vento +frio das montanhas comeou a soprar, e fez estremecer a arvore. + +As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o +vento que as lanou ao cho erguia-as novamente, fazendo-as esvoaar. + +Chegou o inverno e disse Deus: Cobri o resto! E os turbilhes dos +ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descana. + + + + +*Os gigantes da montanha e os anes da planicie* + + +Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na +montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um +alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer plancie a ver o que +faziam l em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anes. +Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido caa e sua me estava +dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os +jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os +lavradores, coisas inteiramente novas para ella. Oh! que lindos +brinquedos! exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que +quasi que cubriu o campo. Lanou-lhe dentro os homens, os cavallos, a +charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello, +onde seu pae estava a jantar. + +--Que trazes ahi, minlia filha? perguntou elle. + +--Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. So os +mais bonitos que tenho visto. + +E pol-os em cima da mesa, a um e um,--os cavallos, a charrua e os +trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem +tivessem transportado d'um formigueiro para um salo. A gigantinha +poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante +fez-se serio e franziu o sobrolho. Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso +no so brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e +respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e pe-n'o +immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da +montanha, morreriam de fome, se os anes da planicie deixassem de lavrar +a terra e de semear o trigo. + + + + +*A creana, a anjo e flr* + + +Quando morre uma creana, desce um anjo do ceo, toma-a nos braos, e +desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que +ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de +quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresam +no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe +todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor +escolhida, adquirindo voz immediatamente, comea a cantar os coros +maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma +creana morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro +sobre a casa em que a creana brincra, e depois sobre jardins +deliciosos, cobertos de flores. + +Qual a flor que desejas para plantar no paraiso? perguntou o anjo. + +Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, +magnifica; mas quebraram-lhe o p, e todos os seus ramos cheios de +botesinhos lindissimos pendiam estiolados para o cho. + +Pobre roseira! disse a creana ao anjo; vamos buscal-a para que possa +reflorir no paraiso. + +O anjo foi buscal-a, e abraou a creana. Colheram muitas flores +brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres. + +A colheita estava terminada, e comtudo no voavam ainda para Deus. Caiu +a noite silenciosa, e a creana e o seu guia Divino andavam ainda por +cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia +de cacos de loua, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de +immundicie. Entre estes destroos distinguiu o anjo um vaso de flores +com a terra pelo cho, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos +campos, j murcha, e que parecia no poder reverdecer: tinham-n'a +atirado para a rua como inutil e morta. + +Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando, +te contarei a historia da florinha. L ao fundo, l ao fundo, naquella +rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creana miseravel e +doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar +com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias +de vero os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. +Ento a creana sentada janella, aquecida pelo sol, sem o cansao do +andar, imaginava-se passeando; no conhecia da floresta, da fresca +verdura da primavera, seno o ramo de faia, que uma vez o filho do +visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabea o ramo +verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava +com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe +flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda +raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o janella, junto da +cama. A flor plantada por mo abenoada, cresceu, tornou-se grande, e +todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico +thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe +aproveitar os raios do sol at ao ultimo. A flor apparecia-lhe em +sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e +ostentava as suas cres; quando se sentiu morrer foi para ella que se +voltou. + +Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida +flor, esquecida janella desde ento, murchou, estiolou-se e +atiraram-n'a rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca o +thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os +canteiros d'um jardim realengo. + +Como sabes tu isso? perguntou a creana, que o anjo levava para o co. + +--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava +em moletas; como no havia de eu reconhecer a minha flor bem amada! + +A creana abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam +no co onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, +levou-as ao corao, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre, +despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar +com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe, +formando circulos que vo augmentando successivamente, multiplicando-se +at ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos +harmoniosamente--desde a creana abenoada at humilde florinha do +campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e +tortuosa. + + + + +*Presente por presente* + + +Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite + choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda no tinha chegado, foi +a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que +pde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque +eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama no a +tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava +morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faises, +e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao +outro dia pela manh disse isto mesmo pobre mulher, gratificando-a ao +despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha +dito que a guardasse como uma pequena lembrana, a boa camponeza julgou +que seria uma medalha, e sentiu que no tivesse um buraquito para a +trazer ao pescoo. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o +que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro +examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher: + +Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe! + +E o bom do homem no podia conter-se de alegria, por sua alteza ter +achado as suas batatas melhores do que faises. + + necessrio confessar, disse elle com um ar triumphante, que no ha +talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das +batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, j que as acha to boas. + +E partiu immediatamente para o palacio com uma proviso de batatas +escolhidas. + +Os lacaios e as sentinellas ao principio no o queriam deixar entrar; +mas insistiu energicamente, dizendo que no vinha pedir nada, e que pelo +contrario vinha trazer alguma cousa. + +Foi, pois, introduzido na sala da audiencia. + +Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente +pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma pea de ouro, em troca +d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar +demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis +o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das +batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faises. Dignae-vos +acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, l +as encontrareis sempre ao vosso dispor. + +A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava +n'um momento de bom humor, fez-lhe doao de uma quinta com trinta +geiras de terra. + +Ora o carvoeiro tinha um irmo muito rico, mas invejoso e avarento, que, +sabendo da fortuna do irmo mais novo, disse comsigo: Porque no me ha +de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo +qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer +presente d'elle: se deu ao Joo uma quinta com trinta geiras de terra, +simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de +recompensar ainda mais generosamente. + +Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do +palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar +altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia. + +Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; no +tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o +offerea. + +O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse +comsigo: Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces: + +Depois dirigindo-se a elle: + +Acceito a tua dadiva, mas no sei como agradecer-t'a condignamente. Oh! +espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que +faises. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que um bom +preo para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras. + +E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora. + + + + +*O pinheiro ambicioso* + + +Era uma vez um pinheiro, que no estava contente com a sua sorte. Oh! +dizia elle, como so horrorosas estas linhas uniformes de agulhas +verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais +orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido +de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro! + +O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manh acordou o +pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, +pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, +mais sensatos do que elle, no invejavam a sua rapida fortuna. noite +passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um +sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos ps cabea. + +Oh! disse elle, que doido que eu fui! no me tinha lembrado da cobia +dos homens. Fiquei completamente despido. No ha agora em toda a +floresta uma planta to pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro; +o oiro attrae as ambies. + +Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu +avarento no me teria despido. + +No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao +sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, +fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de +nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as +folhas de cristal. + +Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em +pedaos o seu manto cristalino. O oiro e o vidro no servem para vestir +as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria +menos brilhante, mas viveria descansado. + +Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado s vaidades +primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os +outros pinheiros seus irmos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e +vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as +todas sem deixar uma unica. + +O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, j queria voltar sua +frma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da +sua sorte. + + + + +*Perfeio das obras de Deus* + + +_A filha_.--Oh! mam quebrou-se-me a agulha. + +_A me_.--Vou-te dar outra. + +_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mam? + +_A me_.--V se adivinhas. + +_A filha_.--N sei, mam. + +_A me_.--Conheces os metaes? + +_A filha_.--Conheo mam; tenho l dentro muitos bocadinhos dentro de +uma caixa. + +_A me_.--Ora muito bem, dize-me l, as agulhas so de pau, de pedra, de +marmore? + +_A filha_.--Oh! no; so de metal; mas de que metal? + +_A me_.--Antes de perguntar qualquer coisa, v sempre se a adivinhas +primeiro. + +_A filha_.--Ora espere!... uma agulha de metal: no de prata, porque +no branca; no de oiro, porque no de um lindo amarello muito +brilhante; no de cobre, porque no de um amarello muito feio, que +cheira mal... Ento de ferro, mam? + +_A me_.--Adivinhaste. + +_A filha_.--Mas, mam, o ferro no liso e brilhante como as agulhas. + +_A me_.-- que primeiro polido e preparado de certo modo, e depois j +se no chama ferro, ao. + +_A filha_.--Bem, as agulhas so de ao. Agora quero adivinhar como que +as fazem. + +_A me_.-- impossivel, no s capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma +fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar +muito. + +_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que +nos servimos. + +_A me_.--Tens razo; uma vergonha ignoral-o. + +_A filha_.--Mam, deixe-me ver as suas agulhas. + +_A me_.--Olha, ahi tens o meu estojo. + +_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! So to +fininhas, to fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para +fazer uma coisinha to delicada! + +_A me_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por +uma pulga, presa por uma cadeia de oiro? + +_A filha_.--Lembro, mam; era to bonito! + +_A me_.--Li n'um jornal allemo que um operario chamado Nerlinger fez +um copo de um gro de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais +doze... + +_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um +gro de pimenta! + +_A me_.--E ainda no tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas +doiradas, e sustentava-se no p. + +_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso! + +_A me_.--Tens razo de te admirares da habilidade dos homens. +effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam +certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admirao. + +_A filha_.--Quaes, mam? + +_A me_.--J t'o digo. (_Levanta-se_.) + +_A filha_.--Que quer, mam? + +_A me_.--Quero que vejas o microscopio de teu pap. + +_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio. + +_A me_.--Este magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes +ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como fina, +lisa e brilhante... Agora olha; o que que vs? + +_A filha_.--Meu Deus, que coisa to feia! que agulha to grosseira! + +_A me_.--Vs-lhe buracos, riscos, asperesas, no verdade? + +_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito. + +_A me_.--Pois todas essas imperfeies so verdadeiras, existem na +agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, que no d por ellas. + +_A filha_.--O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a +visse ao microscopio. + +_A me_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa. + +_A filha_.--O qu, mam? + +_A me_.--O aguilhosinho de uma abelha. + +_A filha_.--Oh! que pequenino, que bonito!... Como liso, como +brilhante!... Mas j sei que visto ao microscopio ha de acontecer o +mesmo que com a agulha. + +_A me_.--Prompto: olha. + +_A filha_ (olhando).-- exquisito, mam! + +_A me_.--Ento? + +_A filha_.--Augmentou, augmentou como a agulha, mas no spero, pelo +contrario, perfeitamente liso... A agulha parecia que no tinha ponta, +e o ferrosinho da abelha tem uma ponta to fina como um cabello. Porque +ser isto, mam? + +_A me_.-- porque o operario que fez este aguilho muito mais habil +do que o que fez a agulha. + +_A filha_.--Quem esse operario to habil? + +_A me_.-- o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as +creaturas. + +_A filha_.-- Deus. + +_A me_.--Exactamente. Pois no Deus que fez as abelhas e todos os +animaes? + +_A filha_.--De certo. + +_A me_.--Foi elle por conseguinte que fez o aguilho d'esta abelha; e +ahi tens porque o aguilho superior agulha: obra de Deus. Mas +continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui est um pedacinho de +musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que que vs? + +_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita. + +_A me_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima. + +_A filha_.--Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo +microscopio. + +_A me_.--Ento? + +_A filha_.-- horrorosa... Parece feita de pellos grosseiros com grandes +buracos deseguaes. + +_A me_.--As obras do homem so todas assim. + +_A filha_.--Oh! mam, vejamos agora as obras de Deus. + +_A me_.--Sabes o que isto? + +_A filha_.--Sei, mam, um casulo de bicho de seda. + +_A me_.--Os fiosinhos que o compem so muito finos, muito lisos; olha +pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes. + +_A filha_ (olhando pelo microscpio).--No, mam; os fios so todos +eguaes, e o casulo sempre muito liso, muito brilhante. + +_A me_.-- porque obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha +sobre este papel? + +_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas +tambm com tinta. + +_A me_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente +redondos? + +_A filha_.--Sim, mam, perfeitamente redondos. + +_A me_.--V-os agora ao microscopio. + +_A filha_.--Oh! j no so redondos, so todos deseguaes. + +_A me_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. uma aza de borboleta; +vs que est mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo +microscopio; o que que vs? + +_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, s com a differena +que agora maior. Que bellas que so as obras de Deus! + +_A me_.--Merece bem a pena estudal-as. + +_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras +dos homens. + +_A me_.--E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do +homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais +perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a +primeira que Deus merece tanto a nossa admirao como o nosso amor; a +segunda que os homens orgulhosos so insensatos, porque no podem +fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras +mais primorosas so cheias de imperfeies, se as compararmos com as +obras do Creador. + + + + +*Joo e os seus camaradas* + + +Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso, +possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. Joo resolveu-se a +correr mundo, busca de fortuna. A me coseu o resto da farinha, matou +o gallo, e disse-lhe: + +O que que preferes: metade d'esta merenda com a minha beno, ou toda +com a minha maldio? + +Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no +mundo eu quereria a tua maldio. + +Bem, meu filho, replicou a me carinhosamente. Leva tudo, e Deus te +abene. + +E partiu. Foi andando, andando, at que encontrou um jumento, que tinha +caido n'um atoleiro, d'onde no podia sair. + +Oh! Joo, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a +afogar-me. + +Espera, respondeu Joo. + +E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o +quadrpede do atoleiro. + +Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de Joo. Se te posso ser util, +aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu? + +--Vou por esse mundo fra, a ver se ganho a minha vida. + +Queres tu que eu te acompanhe? + +Anda d'ahi. + +E puzeram-se a caminho. + +Ao passarem por uma aldeia, viram um co perseguido pelos rapazes da +eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre +animal correu para Joo que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de +tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir. + +Obrigado, disse o rafeiro a Joo. Se para alguma cousa te for +prestavel, aqui me tens s tuas ordens. Aonde vaes tu? + +Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida. + +Queres que te acompanhe? + +Anda d'ahi. + +Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a +merenda do alforge, e repartiu-a com o co. O burro pastou alguma erva +que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar +lastimosamente. + +Coitado, exclamou Joo! E deu-lhe uma asa do frango. + +--Obrigado disse o gato. Oxal que um dia eu te possa ser util. Aonde +vaes tu? + +--Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco. + +--De boa vontade. + +Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um +grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um +gallo na bocca. + +Agarra! agarra! bradou o pequeno ao co. + +E no mesmo instante o co atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em +perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente +disse a Joo: + +--Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu? + +--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco? + +--De boa vontade. + +--Ento anda. Se te canares, empoleira-te no jumento. + +Os viajantes contnuaram a jornada com o seu novo companheiro. +Sentiram-se todos fatigados e no avistavam roda nem uma quinta, nem +uma cabana. + +--Paciencia, disse Joo, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos +hoje a dormir ao ar livre; alm d'isso a noite est socegada, e a relva + macia. + +Dito isto estendeu-se no cho; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o co +e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo +empoleirou-se n'uma arvore. + +Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo comeou +a cantar. + +--Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque que +ests a gritar? + +--Porque j dia, respondeu o gallo. No vs ao longe a luz da +madrugada, que vem rompendo? + +--Vejo uma luz, disse Joo, mas no do sol, d'uma lanterna. +Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto +da noite. + +Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez +dos campos, at que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo, +d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e +blasphemias horriveis. + +--Escutem, disse Joo; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem + que est l dentro. + +Eram seis ladres armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam +alegremente, sentados a uma mesa principesca. + +--Que bom assalto acabmos de dar, disse um d'elles, ao castello do +conde, graas ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que este +porteiro. sua saude! + +-- sade do nosso amigo! repetiram em coro todos os ladres. + +E d'um trago despejaram os copos. + +Joo voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa: + +--Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der +signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica. + +O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lanou as mos ao peitoril +d'uma janella, o co trepou-lhe cabea, o gato cabea do co e o +gallo cabea do gato. Joo deu o signal, e estoirou uma o ornear do +jumento, os latidos do co, o miar do gato e os gritos estridentes do +gallo. + +--Agora, bradou Joo, fingindo que commandava um destacamento, carregar +armas! Dae-me cabo dos ladres; fogo! + +No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando +cada vez mais; os ladres atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo +precipitadamente por uma porta falsa. + +Joo e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um +excellente jantar, e deitaram-se em seguida--Joo n'uma cama, o burro na +cavallaria, o co n'uma esteira ao p da porta, o gato junto do fogo e +o gallo n'um poleiro. + +Ao principio os ladres ficaram muito contentes, por se verem sos e +salvos na floresta. Mas depois, comearam a reflectir. + +--Era bem melhor a minha cama, do que esta erva to humida, disse um +d'elles. + +--Tenho pena do frango que eu comeava a saborear, disse um outro. + +--E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro. + +--E o que mais lamentavel, exclamou um quarto, ficar-nos l todo o +dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das +gavetas. + +--Vou ver se torno l a entrar? disse o capito. + +--Bravo! exclamaram os ladres. + +E poz-se a caminho. + +J no havia luz na casa; o capito entrou s apalpadellas, e dirigiu-se +para o fogo; o gato saltou-lhe cara e esfarrapou-lh'a com as garras. +Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o +rabo do co, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu +por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo +atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas. + +--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capito, como poderei eu sair! + +Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma +parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do cho. + +Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que no tinha nem +pernas nem braos partidos, ergueu-se e tornou para a floresta. + +--Ento? ento?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram. + +--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para +me deitar e cataplasmas de linhaa para pr n'este corpo, que o trago +n'um feixe. No podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado +por uma velha que estava a cardar l, e arrumou-me na cara com o +cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta, +um demonio d'um remendo atravessou-me as pernas com a sovella. Logo +depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaando-me com as garras. +Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocs me no +acreditam, vo l, e experimentem. + +--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo +ensanguentado: No seremos ns que l tornaremos. + +Pela manh, Joo e os seus camaradas almoaram ainda excellentemente, e +partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladres +lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos, +com que carregou o jumento. Foram andando, andando, at que chegaram +porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com +uma libr esplendida, meias de seda, cales escarlates e cabello +empoado. + +Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a Joo. + +--Que vindes aqui buscar? No ha lugar para os recolher, vo-se embora? + +--No queremos nada de ti, respondeu Joo. O dono do castello far-nos-ha +um bom acolhimento. + +--Fra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a +andar immediatamente, quando no atiro-lhes j s pernas os meus ces de +fila. + +--Perdo, s um instante, replicou o gallo empoleirado na cabea do +jumento; no me poderias dizer quem que abriu aos ladres na noite +passada a porta do castello? + +O porteiro crou. O conde que estava janella, disse-lhe: + +-- Bernab, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar. + +--Senhor, replicou Bernab, este gallo um miseravel. No fui eu que +abri a porta aos seis ladres. + +--Como ento, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis? + +Seja como for, disse Joo, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado, +pedindo-lhe unicamente que nos d de jantar e nos recolha esta noite, +porque vimos canados do caminho. + +--Ficae certos que sereis bem tratados. + +O burro, o co e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na +cosinha. E emquanto a Joo, o conde reconhecido, vestiu-o dos ps +cabea com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e +disse-lhe: + +--Queres ficar comigo? s esperto e honrado, sers o meu intendente. + +Joo acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha me para o p de si. +Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo. + + + + +*O rabequista* + + +Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma +egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos. + +As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O +vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro, +feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava +constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi l em romaria +um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha +sido muito longa, estava canado, e j no seu alforge no havia po nem +dinheiro no bolso para o comprar. + +Assim que entrou na capella, comeou a tocar na sua rabeca com tal +suavidade, com tanta expresso, que a santa ficou enternecida ao vel-o +to pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa +Cecilia abaixou-se, descalou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o +ao pobre musico, que tonto d'alegria, danando, cantando, chorando, +correu loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o +sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o presena do +juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado morte. + +Chegra o dia da execuo. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo +poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim no +chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como +ultima graa, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca at ao ultimo momento. +O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam +supplicou o triste desgraado, que o levassem l dentro para tocar a sua +derradeira melodia. + +Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou, +ajoelhou aos ps da santa, e debulhado em lagrimas comeou a tocar. +Ento o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de +novo, descalar o outro sapato e mettel-o nas mos do infeliz musico. +vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o +rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente +prestar-lhe as mais honrosas homenagens. + + + + +*Os pecegos* + + +Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos +magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos, +extasiaram-se diante das suas cres e da fina penugem que os cubria. +noite o pae perguntou-lhes: + +--Ento comeram os pecegos? + +--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroo, e hei +de plantal-o para nascer uma arvore. + +--Fizeste bem, respondeu o pae, bom ser economico e pensar no futuro. + +--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mam ainda me deu +metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel. + +--Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade no admira; +espero que quando fores maior te has de corrigir. + +--Pois eu c, disse um terceiro, apanhei o caroo que o meu irmo deitou +fra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi +o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for +cidade. + +O pae meneou a cabea: + +--Foi uma ida engenhosa, mas eu preferia menos calculo. + +--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego? + +--Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho, +ao Jorge, que est coitadinho com febre. Elle no o queria, mas +deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora. + +--Ora bem, perguntou o pae, qual de vs que empregou melhor o pecego +que eu lhe dei? + +E os trs pequenos disseram uma: + +--Foi o mano Eduardo. + +Este no entanto no dizia palavra, e a me abraou-o com os olhos +arrazados de lagrimas. + + + + +*A urna das lagrimas* + + +Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem +adorava sobre todas as coisas. No se separava d'ella um s momento; mas +um dia a pobre pequerrucha comeou a soffrer, adoeceu e morreu. A +desditosa me, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um +momento, cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades. +No comia, no fazia seno chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava +acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido, +abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua +querida filha, sorrindo com uma expresso angelica e trazendo nas mos +uma urna, que vinha cheia at s bordas. + +--Oh! minha querida me, disse-lhe ella, no chores mais. Olha, o anjo +das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais, +transbordar, e as tuas lagrimas correro sobre mim, inquietando-me no +tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso. + +A pequenina desappareceu, e a me no tornou a chorar para a no +affligir. + + + + +*Reconhecimento e ingratido* + + +Os vossos filhos sero para vs como vs tiverdes sido para vossos paes. +E natural. As creanas veem diariamente o que fazem seus paes, e +imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a +beno ou a maldio d'um pae cae sobre a cabea de seus filhos, +terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem +ser meditados. + +Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito +satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois +d'algumas perguntas, soube que o campo no pertencia ao homem, mas que +trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O +principe, que para as suas despezas d'administrao e representao +necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, +como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima +satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeo, que lhe respondeu: + +Gasto diariamente comigo a tera parte d'essa quantia; outro tero +para pagar as minhas dividas; e o resto para ir juntando algumas +economias. + +Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o +d'este modo. + +Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que j no podem +trabalhar, e com os meus filhos, que ainda no teem fora para isso. Aos +primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha +infancia; e espero que os segundos no me abandonem, quando os annos +tiverem pesado sobre mim. + +O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se +da educao de seus filhos; e a beno que lhe deram os seus velhos +paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando +egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicao. + +Mas posso desgraadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma +maneira to indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve +de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato +recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde +foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse +muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima +esmola, um par de lenoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito. +O mau filho escolheu os lenoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de +dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas +notou que a creana ao partir tinha escondido um dos lenoes a um canto, +atraz da porta. + +Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo. + +Foi, respondeu a creana desabridamente, para me servir mais tarde +d'este lenol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital. + + + + +*O fato novo do sulto* + + +Era uma vez um sulto, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento. + +Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao +theatro, no tinha outro fim seno mostrar os seus fatos novos. Mudava +de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Est no conselho; +dizia-se d'elle: Est-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade +muito alegre, graas quantidade d'estrangeiros que por ali passavam; +mas chegaram l um dia dois larapios, que, dando-se por teceles, +disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. No +s eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas alm +d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade +maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos +aquelles que no exercessem bem o seu emprego. + +--So vestuarios impagaveis, disse comsigo o sulto; graas a elles, +saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade +dos ministros. Preciso d'esse estofo! + +E mandou em seguida adiantar aos dois charlates uma quantia avultada, +para que podessem comear os trabalhos immediatamente. + +Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que +trabalhavam, apesar de no haver absolutamente nada nas lanadeiras. +Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso +muito bem guardado, trabalhando at meia noite com os teares vasios. + +--Preciso saber se a obra vae adiantada. + +Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo no podia ser visto pelos +idiotas. E, apesar de ter confiana na sua intelligencia, achou prudente +em todo o caso mandar alguem adiante. + +Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do +estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto. + +--Vou mandar aos teceles o meu velho ministro, pensou o sulto; tem um +grande talento, e por isso ninguem pde melhor do que elle avaliar o +estofo. + +O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam +com os teares vasios. + +--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, no vejo +absolutamente nada! Mas no entanto calou-se. Os dois teceles +convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinio sobre os +desenhos e as cres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, +olhava, mas no via nada, pela raso simplicissima de nada l existir. + +--Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? necessario que +ningum o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas l +confessar que no vejo nada, isso que eu no confesso. + +--Ento que lhe parece? perguntou um dos teceles: + +--Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este +desenho... estas cores... magnifico!... Direi ao sulto que fiquei +completamente satisfeito. + +--Muito agradecido, muito agradecido, disseram os teceles; e +mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma +descripo minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois +repetir tudo ao sulto. + +Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; +precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no +bolso, claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam +sempre. + +Passado algum tempo, mandou o sulto um novo funccionario, homem +honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a +este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e no +via nada. + +--No acha um tecido admiravel? perguntaram os tratantes, mostrando o +magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente +de no existir. + +--Mas que diabo! eu no sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois no serei +eu capaz de desempenhar o meu lugar? exquisito! mas deixal-o, no o +deixo eu. + +Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admirao pelo +desenho e o bem combinado das cores. + +-- d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sulto. E toda a +cidade comeou a fallar d'esse tecido extraordinario. + +Emfim o proprio sulto quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande +acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois +honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois +velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de +especie alguma. + +--No acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho +e as cores so dignos de vossa alteza. + +E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam +podessem ver alguma cousa. + +--Que isto! disse comsigo mesmo o sulto, no vejo nada! horrvel! +serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraa que me +acontece! Depois de repente exclamou: magnifico! Testemunho-vos a +minha satisfao. + +E meneou a cabea com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se +atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do +mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto +repetiam como o sulto: magnifico! At lhe aconselharam a que se +apresentasse com o fato novo no dia da grande procisso. magnifico! +encantador! admirvel! exclamavam todas as bocas, e a satisfao era +geral. + +Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos +teceles. + +Na vespera do dia da procisso passaram a noite em claro, trabalhando +luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, +cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio, +e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido. + +O sulto com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores +levantando um brao, como para sustentar alguma cousa, disseram: + +Eis as calas, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha; + a principal virtude d'este tecido. + +--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma. + +--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios, +provar-lhe-iamos o fato deante do espelho. + +O sulto despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calas, +depois a casaca, depois o manto. O sulto tudo era voltar-se defronte do +espelho. + +--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezos. +Que desenho! que cores! que vesturio incomparavel! + +Nisto entrou o gro-mestre de ceremonias. + +--Est porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir procisso, +disse elle. + +--Bom! estou prompto, respondeu o sulto. Parece-me que no vou mal. + +E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do +seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, no +querendo confessar que no viam absolutamente nada, fingiam arregaal-a. + +E, emquanto o sulto caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a +gente na rua e s janellas exclamava: Que vestuario magnifico! Que +cauda to graciosa! Que talhe elegante! Ninguem queria dar a perceber, +que no via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. +Nunca os fatos do sulto tinham sido to admirados. + +--Mas parece que vae em cuecas, observou um pequerrucho, ao collo do +pae. + +-- a voz da innocencia, disse o pae. + +--Ha ali uma creana que diz que o sulto vae em cuecas. + +Vae em cuecas! vae em cuecas! exclamou o povo finalmente. + +O sulto ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era +verdade. Entretanto tomou a energica resoluo de ir at ao fim, e os +camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda +imaginaria. + + + + +*Boa sentena* + + +Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma +quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil ris +d'alviaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado +camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse: + +--Deviam ser oitocentos mil ris, que foi a quantia que eu perdi; no +alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste +adiantados os cem mil ris d'alviaras: estamos pagos por conseguinte. + +O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, no podia nem +devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, +que, vendo a m f do avarento, deu a seguinte sentena: + +--Um de vs perdeu oitocentos mil ris; o outro encontrou um alforge +apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o +ultimo encontrou no pde ser o mesmo a que o primeiro se julga com +direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que +encontraste, e guarda-o at que apparea o individuo que perdeu smente +setecentos mil ris. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, que +tenhas paciencia at que apparea alguem que tenha achado os teus +oitocentos mil ris. + + + + +*Os animaes agradecidos* + + +Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem +perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este +respondeu: + +--Senhor: eu sou um desgraado, um miseravel; nasci no vosso reino, e +chamo-me _Ingratido_. + +--Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu +servio. + +O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. +Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se +to esperto e to solicito, que o rei affeioou-se-lhe de tal modo, que +o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administrao da sua casa. +Deslumbrado por uma fortuna to rapida, o seu orgulho desde ento no +conheceu limites; maltratava os inferiores, e no tinha compaixo dos +desventurados. + +Ora, na visinhana do palacio havia uma floresta cheia d'animaes +selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a +parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo +dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a +floresta, ia to absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se +precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas. + +Passado um instante, caiu um leo dentro do mesmo poo; caiu depois um +lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O +governador, ao ver-se em to extraordinaria companhia, ficou to +horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperana de +salvao lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, +ninguem o vinha soccorrer. + +Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, +chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha floresta, para +ganhar o po necessario sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem +l foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar no longe da +cova em que cara o intendente, cujos gritos d'afflico no tardou a +ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava +ali. + +--Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto +encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leo, d'um lobo e d'uma +enorme serpente. + +--Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, no tendo para +sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava +um dia perdido para me causar um grande desarranjo; v l pois, se +cumpres a tua promessa? + +O intendente continuou: + +--Pela f que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que +cumprirei a minha palavra. + +Confiado n'isto o rachador de lenha foi cidade, e voltou com uma corda +muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leo atirou-se a +ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era +o intendente. + +Quando chegou acima, o leo agradeceu ao seu salvador com a maior +amabilidade, e foi-se embora procura de jantar, porque tinha fome. + +Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poo, e, julgando tirar o +governador, enganou-se, porque era o lobo; terceira vez subiu a +serpente; foi necessrio fazer uma quarta tentativa, para sair o +governador. Este no perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr +para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou mulher tudo o +que se tinha passado, no lhe esquecendo, claro, as brilhantes +promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manh, foi o pobre +homem bater porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria. + +--Faa-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex. o intendente +que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar. + +O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou: + +--Vae dizer a esse homem, que eu no vi ninguem na floresta; que se +ponha a andar, porque o no conheo. + +O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito. + +O pobre homem tornou para casa mui descoroado, e contou mulher a +odiosa perfidia de que tinha sido victima. + +A mulher disse-lhe: + +--Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e +foi talvez por isso que te no pde receber. + +Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanas. + +Na manh seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo porta do palacio. +Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que no tornasse +ali a apparecer, quando no ver-se-hia obrigado a empregar meios +violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o: + +--Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o +inspire melhor. E se assim no for, ainda que te custe, no penses mais +n'isso. + +No dia seguinte o bom do homem voltou carga; e tendo o porteiro +consentido fora de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este +encolerisado atirou-se praguejando fra do quarto, e crivou o pobre +homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do +cho. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um +burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas +levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se +obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente +tinha recobrado algumas foras, voltou ao bosque segundo o costume para +fazer alguma lenha. Apenas l chegou, appareceu-lhe o leo, que elle +tinha ajudado a sair do poo. O leo conduzia um burro diante de si, e +este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leo, +vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso +agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal +de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal +para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico. + +No dia seguinte, voltando de novo floresta, appareceu-lhe o lobo, que +o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto +lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado +o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha +tirado do fjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em +que brilhavam trs cres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a +serpente chegou ao p do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto +d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio +levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que +propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho, +afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este, +assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia. +Antonio respondeu-lhe que a no queria vender, mas simplesmente saber se +seria boa. + +O velho respondeu: + +--So trs as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria +imperturbavel e luz sem trevas. Se algum t'a comprar por menos dinheiro +do que vale, tornar immediatamente para a tua mo. + +Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da +sciencia maravilhosa, e correu a contar mulher a sua felicidade. Como +se imagina, graas virtude da famosa pedra, no lhe faltaram d'ahi em +diante, nem honras nem riquezas. + +Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou +chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman. + +Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu: + +--Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me no for paga +pelo que vale, tornar ella mesma para o meu poder. + +--Hei de pagar-t'a bem, disse o rei. + +E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manh, +Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto +disse-lhe: + +--Torna a leval-a ao rei immediatamente; no v elle persuadir-se que +lh'a furtaste. + +O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou presena de sua +magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra +preciosa. + +--Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro, +fechado com sete chaves, disse o rei. + +Antonio mostrou-lhe ento a joia preciosa, e o rei ficou +extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido +semelhante thesouro. + +Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratido do governador e o +reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu +intendente, e disse-lhe: + +--Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratido_, +porque s mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste +com o mal o bem que te fizeram. Mas justia ser feita. Dou a Antonio as +tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres +enforcado. + +Admiraram todos a sentena do rei, e Antonio desempenhou as suas altas +funces com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi +escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos +gloriosos. + + + + +*O ermito* + + +Um homem, animado pela mais ardente crena religiosa, deliberou +retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao +trabalho da sua salvao. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os +seus pensamentos no se desviavam nunca da ida de Deus. Depois de ter +assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que j tinha +merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os +santos mais notaveis. + +Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe: + +--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola +e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas. + +O ermito, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no +seu bordo, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe: + +--Irmo, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que oraes e +penitencias te tornaste agradavel a Deus. + +--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabea, santo padre, no +zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a oraes no as sei, +pobre de mim, que sou um peccador. O que fao andar de casa em casa a +divertir os outros. + +O austero ermito continuou a insistir: + +--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum +acto de virtude. + +--Em verdade no poderia citar nem um s. + +--Mas ento como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido +loucamente como os que exercem a tua profisso? Dissipaste frivolamente +o teu patrimonio e o producto do teu officio? + +--No; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e +filhos tinham sido condemnados escravido para pagar uma divida. Essa +mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa, +protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a +sua familia, e levei-a cidade, onde ella devia encontrar-se com seu +marido e com seus filhos. Mas quem no teria feito outro tanto? + +A estas palavras o ermito poz-se a chorar, e exclamou: + +--Nos meus setenta annos de solido nunca pratiquei uma obra to +meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu no +passas d'um pobre musico. + + + + +*Carlos Magno e o abade de S. Gall* + + +Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall, +preguiosamente reclinado sobre almofadas porta da abadia, fresco, +rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e +activos, e o abade era indolente. Alm d'isso o imperador tinha mais +d'um motivo de queixa contra elle. + +--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter +sua esclarecida raso tres perguntas, s quaes ter a bondade de me +responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sesso solemne do +nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em +dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo; +em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. +rev.^{ma} vier minha presena, pensamento que deve ser um erro. Trate +d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, alis deixa de ser abade de S. +Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada +para o rabo. + +O abade no sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas +os doutores mais famosos pela sua sciencia, no lhe souberam dar +resposta. No entanto os dias iam correndo, e a poca fatal +aproximava-se; j no faltava seno um mez, j no faltavam seno +semanas, e afinal s dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e +anafado, estava magro como um esqueleto. Perdra o somno e o appetite. +Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraa, quando se +encontrou com o seu pastor. + +--Bons dias senhor abade. Parece que est mais magro! Est doente? + +--Estou, meu caro Felix, estou muito doente. + +--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar. + +--Infelizmente no so ervas que eu preciso, mas resposta s minhas tres +perguntas. + +-- ento latim? + +--No, no latim, seno os doutores tinham-me arranjado tudo. + +--Visto que no latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que : minha me +era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo. + +Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o +barrete ao ar, e disse-lhe: + +--Se apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma} +pde continuar a engordar; mas para isso necessario que eu vista o seu +habito. + +Quando chegou o dia, o pastor disfarado com o habito do abade de S. +Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho +imperial. + +--Ento, senhor abade, parece que est mais magro, deu-lhe muito que +pensar a chave do enigma? Vamos l a ver a primeira pergunta: Quanto +valho eu em dinheiro? + +--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por +trinta dinheiros, sua magestade vale justa vinte e nove, s um +dinheiro menos. + +--Bravo, senhor abade, a resposta habil, e na realidade no posso +deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos segunda pergunta, no ha de +ser to facil dar a resposta. Vamos l a ver: quanto tempo levaria eu a +dar a volta ao mundo? + +--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir +constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e +quatro horas. + +--Decididamente, v. rev.^{ma} um grande finorio, e d'esta vez, +confesso-me vencido; mas a terceira, no d'essas que se responde com +supposies. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha +de provar que este pensamento um erro? Tem a palavra senhor abade. + +--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; est +enganado, porque eu sou o seu pastor. + +--Mas ento tu que deves ser o abade de S. Gall, e desde j o ficas +sendo. + +--No sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor, +peco-lhe outra cousa. + +--No tens mais que fallar. + +--Peo a vossa magestade que perdoe ao meu amigo. + +Carlos Magno no era homem que faltasse sua palavra. + + + + +*A boneca* + + +Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma +boneca! + +No ha muitos annos, mas ainda no era a cordoaria do Porto o ameno +jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o +sorriso do sol, sem que lhe ennegrea o espirito a vista dos dois +monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades, +que podem aniquillar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda no ha +muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da +feira, divertindo-me a meu modo. + +Canado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella +especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo, +quando novos personagens me chamaram a atteno. + +Eram os meus visinhos _ricos_. + +Aqui preciso uma rapida explicao. + +Das famlias da minha visinhana, s conheo tres. + +Qual d'estas tres familias ser mais feliz?... + +Pelo que tenho notado, no tem que invejar umas s outras. + +So todas felizes; cada qual a seu modo. + +Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_. + +Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapu na mo e +dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou, +tomou nos braos a filhinha e depol-a no cho, e offerecendo, em +seguida, a mo esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e +com a menina para a barraca onde eu estava. + +No havia ali segredo a surprehender. + +Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que +parecia agradecer quella formosa criana a manifestao de qualquer +desejo. + +No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a +felicidade de dez crianas menos abastadas. + +Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca... +_rica_. + +Faltava apenas a dona da casa--a boneca. + +Todo risos e attenes, o logista apresentou o que tinha de melhor. + +Depois de muita hesitao e de, j com os olhos, j com a voz, consultar +a mam, a gentil creana acabou por escolher uma magnifica boneca de +dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues. + +Uma boneca como as outras: cabea e collo de massa, corpo de pellica +recheada, braos e pernas de pu. + +Uma vive na loja da casa, que habito. uma tribu de crianas, que fazem +o martyrio e a alegria da pobre me, e tem por chefe um honrado +sapateiro. + +Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem +anjos, caidos do co sobre um monte de lama. + +So os meus visinhos _pobres_. + +A segunda compe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa +immediata. + + como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_. + +A filha que ter dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas, +cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem +presso. + +So os meus visinhos _remediados_. + +A terceira a dos meus visinhos _ricos_. + +Casa nobre, jardim espaoso, cavallos, creados, nome inscripto nas +listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do +estado--nada falta quella ditosa gente! + +Compe-se egualmente de marido, mulher e filha. + +Que formosa criana!... Ter oito annos. + +Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e +scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mos de dedos compridos e +esguios, terminados por unhas d'uma cr de rosa transparente, que no +sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a +crescer--que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos. + +Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas +aquellas preciosidades de sobre o balco da barraca para dentro do +carro. + +A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criana. + +Sa d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo at casa variadissimas +consideraes, suggeridas pela quasi indiferena, com que aquella menina +recebra brinquedos, que representavam um par de moedas. + +Que contraste com os olhares de cubia, com que outras raparigas da +mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabea de panno, horrivel +artefacto portuguez, em que os olhos so representados por dois pontos +de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por +outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de l preta! + +Quando cheguei a casa, j na dos meus visinhos remediados no havia luz. + +Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de +tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar, +provocavam os ralhos da me. + +Quando, no dia seguinte, cheguei janella, seriam onze horas da manh. + +Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na +casa immediata no se via ninguem--estava a pequena na mestra; no +palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda, +divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma +linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos. + +Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida. + +--Ahi est a tua caricatura, minha feiticeira!...--disse eu de mim +para mim. Ensaias nas bonecas o que vs no mundo a que pertences!... +Ests a aprender a copiar... Sempre este mundo!... + +Retirei-me da janella. + +Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena. + +A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se +vestia tres e quatro vezes! + +Ao que eu, porm, achava mais graa, era ao respeito com que a dona a +tratava! + +Chamava-lhe sr. D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente +com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que +se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma. + +Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos +_ricos_--ouvi um grito de susto. + +Era devido a um accidente, a que est sujeito quem anda de carro. + +Voltra-se este, e a boneca cara, ferindo a fronte na pedra da janella. + +O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo, +porm, que a ferida havia forosamente de deixar cicatriz, e +lembrando-se de que s lhe bastava querer, para que lhe dessem outra +nova, agarrou-a pelos ps e ia atiral-a com despeito rua, quando mais +perto de mim bradou voz timida e suplicante: + +No atire!... D-m'a. + +Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu no dra f at +ento. + +Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e +lanou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica. + +Vendo uma criana, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, +encolhendo os hombros, respondeu: + +--J no presta!... Est esmurrada!... + +-- o mesmo!... D-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de +cubia. + +--Dou...--volveu a rica, encolhendo novamente os hombros. + +E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mos da +visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse +despedaar-se nas lages da rua. + +Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a +outra, para mostrar me a que ella ainda no podia acreditar, que +fosse sua! + +Por espao de mezes foi a boneca a principal occupao da nova dona. + +A pobre perdra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro +vezes em quatro horas!... J lhe no davam excellencia! Chamavam-lhe +sr. D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da +creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente +estranhas para ella! + +E a desgraada perdia as cres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos +azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia +se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma! + +Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo, +ainda no poderia enganar olhos pouco conhecedores. + +No tardou, porm, que arrebiques de mo gosto, fitas velhas, rendas +amarelladas, chapos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do +vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira. + +Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle +as ondulaes do _moir_, at que, um bello dia, vi a boneca vestida de +cassa---no inverno!--chaile e manta na cabea. + +Muito mal lhe ficava aquillo!... quella boneca custava-lhe de certo o +vr-se to mal arranjada. + +Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei: + +-- justo!... Cada qual segundo as suas posses. + +Por esse tempo, entrei em relaes com o meu visinho sapateiro. + +O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos +faziam logo ao amanhecer, e aproveitra a primeira occasio, para me +pedir desculpa. + +Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a +aproximar-se de ns e, desde ento, nunca saio de casa nem entro, sem +grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade. + +Entre os filhos do sapateiro, porm, ha uma pequenita d'onze annos, com +quem sympathisei logo primeira vista. + +Chama-se Maria. + +Por um d'estes acasos da Providencia, que parece s vezes comprazer-se +em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmos. + +Acostumado s travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro, +fiquei devras pasmado quando o pai m'a apresentou. + +E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criana, porque havia +verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: Esta a +minha Maria! + +E tinha razo! + +No podia ser mais discreta do que j n'esse tempo era. + +-- quem vale me!...--accrescentou o velho.--Ali, onde a v, faz o +servio d'uma mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve +doente--bem pensei que no arribasse!--a pequena era quem cosinhava e +olhava pelos irmos!... E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella +pequena esteve tres dias sem se deitar... ali... ao p da me! Foi +preciso eu obrigal-a, que ella no a queria deixar!... + +E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que, +havia muito, hesitava sobre se sim ou no se devia despenhar. + +Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a +cabea coberta por um leno branco. + +Desde que o pai me deu to boas informaes da rapariga, nunca mais +passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias +pequena. + +Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca +deitada nos joelhos. + +--Eu conheo aquella boneca!...--disse eu de mim para mim. + +E, no podendo resistir curiosidade, bradei: + +-- Maricas!... Quem te deu a boneca?... + +Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, crando de prazer. + +Era escusado dizer-m'o. + +Maria pegara na boneca e voltra-a de face para mim. No podia +duvidar... Era ella; l estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel +na fronte. + +De tempos a tempos, nas raras horas de descano, Maria entretinha-se com +ella. + +--Quem te viu e quem te v!...--pensava eu. + +s vezes, se Maria se descuidava e os irmos lh'a podiam apanhar, que +tratos que sofria a desgraada! + +Roada por aquellas mos, de que um carvoeiro se envergonharia, +empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim, +singularissimo o aspecto da triste! + +Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a +fraternisar com o povo. + +A misera mudra mais uma vez de nome!... + +De sr. D. Anna passara a ser sr. Rosinha e tratavam-n'a por vocemec. + +Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e leno na cabea. + +Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com +a boneca. + +Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, +encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre +boneca a lastimar-se por estar tudo to caro, por haver falta de +trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que +mais familiares eram pequena. + +Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a, +mandavam-n'a buscar agua fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e +acabavam por a despedir. + +J o leitor v que, apesar da bondade Maria, deixra de ser feliz. + +Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho! + +Desmaiada de cres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos, +desfeito o carmim dos labios, a boneca no promettia longa durao. + +Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi, +tentando em vo agradar ultima dona que o seu destino lhe dera. + +Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim! + +Um dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, +espadanava em cacho para cima dos passeios, arastando na passagem mil +immundicies. + +Eu estava porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava +melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que +partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto... Um objecto, +arremessado de dentro da loja, atravessou o espao voando, e foi cair no +leito do enxurro... + +Olhei... Era a boneca!... + +A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo at esbarrar n'uma +pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou +quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traado entre a pedra e +o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, at ir sumir-se nas +profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem! + +Ser pieguice, ser o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me +impressionou o fim da pobre boneca. + +Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado vidraa do +sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa: + +--Porque deitaste fra a boneca, Maricas!? + +--No fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!... + +--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?... + +--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e +feia!... + +Curvei a cabea ante aquella razo, e segui o meu caminho. + +Pobre boneca! + + + + +*Inconveniente da riqueza* + + +Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi +surprehendido pela noite entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para +outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam j +todas fechadas, no se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo +estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual +com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso +Senhor dirigiu-se para l, chegou ao p do muro d'uma quinta, e bateu +porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir. + +--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite? +No se havia de arrepender. + +E accrescentou: + +--Visto que j todos esto deitados, para que que voc est ainda a +trabalhar? + +--Ora, respondeu o camponez, soube hontem noite que ia ser perseguido +por um credor desapiedado, se lhe no pagasse manh o que lhe devo, +portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para +o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto no nos fica +nada, e no sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus +quizer! + +Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mo pelos +olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve d d'elle, e disse-lhe: + +--No desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que no te +havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o. + +Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e +approximou-a do trigo. + +--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a +tudo! + +Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se, +de cada espiga, desceu uma chuva de gros prodigiosa. vista d'um tal +milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos. + +--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua +pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, sers +recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, Deus que te +enriquece. + +Dito isto desappareceu. + +E a chuva dos gros no parou em toda a noite, e fez um monte to alto +como a egreja. + +O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella +casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e +seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que +se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, +ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera +enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o +enriquecra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na +candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a +casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais +absoluta. + + + + +*Querer poder* + + +--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por +experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima verdadeira. + +Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade. + +--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e +solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas +vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caa_. Tomei +uma grande resoluo. Quero casar com a filha do rei. + +O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido. + +O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma +semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, at que o rei ouviu +fallar o rapaz da sua louca pretenso. Surprehendido com uma ida to +extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei: + +--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia, +pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes so +os teus titulos? Para seres o marido de minha filha necessario que te +distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor +extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor +incalculavel. Aquelle que o encontrar obter a mo de minha filha. + +O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do +rio; logo de manh comeava a tirar agua com um balde pequeno, e +deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e +horas, punha-se a resar. + +Os peixes inquietos ao verem to grande tenacidade, e receiando que +chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho. + +--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes. + +--Encontrar um diamante que caiu ao rio. + +--Ento, respondeu o velho rei, sou d'opinio que lh'o entreguem, porque +vejo qual a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar +as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza. + +Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha +do rei. + + + + +*Qual ser rei?* + + +Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o +successor. Reuniu-se a crte, e decidiu-se que a cora devia pertencer, +no ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno. + +Resolveram alm d'isso que o cadaver do rei fosse posto de p contra um +muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle +alvo, seria o escolhido para successor. + +Comeou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito +tempo, e a flecha foi atravessar a mo esquerda do defuncto. O principe +soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmos atirariam per, e que +por conseguinte seria elle quem viria a reinar. + +O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais +alegre do que o outro principe. + +O terceiro varou o corao de seu pae, e os seus gritos de triumpho +quasi que chegavam ao co, porque lhe parecia impossivel acertar melhor. + +Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mos as +flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas +longe de si, e desatou a chorar: + +--Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jmais +consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mo de teus +proprios filhos! + +Os grandes da crte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais +digno. + + + + +*Os tres vos de Maria* + + +O primeiro vo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve. +Bordra-o com as suas mos, e ornara-o com uma grinalda de flores de +seda to bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em +cima. + +Este vo branco s o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communho. + +O segundo vo de Maria era de l negra. Principiou-o no mesmo dia em que +sua me lhe morrra, deixando-a ssinha, sem amparo, na casa triste e +abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de +marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas +lagrimas. + +O vo negro s o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de +Jesus no convento da Ave-Maria. + +O terceiro vo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado +d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos. + +Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou +no paraizo. + + + + +*Os pequenos no bosque* + + +Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos +outros, que no havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: Vamos +para o bosque que encontremos l toda a especie de lindos bichinhos, que +no fazem outra cousa seno brincar, e ns brincaremos com elles. + +Foram logo, e passaram sem fazer caso ao p da activa formiga e da +abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar, +disse-lhes: + +--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a +outra j no est solida. + +--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provises para o inverno. + +--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu +ninho. + +--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocs, mas ainda +hoje no lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a +minha _toilette_. + +E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo +a saltar e a tagarellar, tambem no queres brincar comnosco? + +--Estes pequenos so tolos, disse o regato. Como? Vocs ento imaginam +que eu no tenho que fazer? De noite ou de dia, no descano nem um +momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, s colinas, +aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios, +tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje +acabra, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. No posso perder +um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa. + +Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um +pintasilgo, em cima d'um ramo. + +--Olha! tu, que no tens nada que fazer, queres brincar comnosco? + +--Nada que fazer? vocs esto a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo +o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho alm d'isso que tomar +parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o +meu chilrear, e tenho que adormecer as creanas com uma outra cantiga, +que noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora, +preguiosos, ide cumprir o vosso dever, e no tornem a vir incommodar os +habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar. + +Os pequenos aproveitaram a lio, e comprehenderam que o prazer s +ligitimo, quando a recompensa do trabalho. + + + + +*O chapellinho encarnado* + + +Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua +me e sua av adoravam extremosamente. A boa da avsinha, que passava o +tempo a imaginar o que poderia agradar neta, deu-lhe um dia um chapo +de veludo vermelho. A pequenita andava to contente com o seu chapo +novo, que j no queria pr outro, e comearam a chamar-lhe a menina do +chapellinho encarnado. + +A me e a av moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia +legua de comprido. Uma manh a me disse pequenita: + +--Tua av est doente, e no pde vir vr-nos. Eu fiz estes doces, vae +levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado no quebres a +garrafa, no andes a correr, vae devagarinho e volta logo. + +--Sim, mam, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja. + +Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se +a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita, +que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum. + +--Bons dias, chapellinho encarnado. + +--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena. + +--Onde vaes to cedo? + +--A casa da minha av que est doente. + +--E levas-lhe alguma cousa? + +--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe +dar foras. + +Dize-me onde mora a tua, av, que tambem a quero ir ver. + +-- perto, aqui no fim da floresta. Ha ao p uns carvalhos muito +grandes, e no jardim ha muitas nozes. + +--Ah! tu que s uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava +de te comer. Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e +que lindos passarinhos. Como bom passear nas florestas, e ento que +quantidade de plantas medicinaes que se encontram! + +--O senhor, com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita, +visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma +que fizesse bem a minha av. + +--Com certeza, minha filha, olha, aqui est uma, e esta tambem, e +aquella. Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas +venenosas. A pobre creana, queria-as apanhar para as levar a sua av. + +--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com +grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente. + +E poz-se a correr em direco da casa da av, emquanto que a pequerrucha +se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado. + +Quando o lobo chegou porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a +av no se podia levantar da cama, e perguntou: Quem est ahi? + +-- o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da +pequerrucha. A mam manda-te bolos e uma garrafa de vinho. + +--Procura debaixo da porta disse a av, que encontrars a chave. + +Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira, +e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama. + +Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a +porta aberta, porque sabia o cuidado com que a av a costumava ter +fechada. + +O lobo tinha posto uma touca na cabea, que lhe escondia uma parte do +focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel. + +--Ai! avsinha, disse a creana, porque tens tu as orelhas to grandes? + +-- para te ouvir melhor, minha filha. + +--E porque ests com uns olhos to grandes? + +-- para te vr melhor. + +--E para que ests com os braos to grandes? + +-- para te poder abraar melhor. + +--E Jesus! para que tens hoje uma bca to grande e uns dentes to +agudos? + +-- para te comer melhor. A estas palavras o lobo arremessou-se pobre +pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e comeou a +resonar muito alto. Um caador que passava por acaso, perto da casa, e +que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha est com um +pesadelo, est peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa. Entra, e +v o lobo estendido na cama. + +--Ol, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro. + +Armou a sua espingarda, mas parando logo: No, disse elle, no vejo a +dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o +animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe +cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e +saltou para o cho, gritando: + +--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada! + +A av saiu tambm contentissima por ver outra vez a luz do dia. + +O lobo continuava a dormir profundamente, e o caador metteu-lhe ento +duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a av e a +neta para verem o que se ia passar. + +Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se +para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e +no podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e +affogou-se. + +O caador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha +e a sua neta. A velha sentia-se remoar, e o chapellinho encarnado +prometteu no tornar a passar na floresta, quando sua me lh'o +prohibisse. + + + + +*Os cinco sonhos* + + +Andando um dia Carlos Magno caa com uma comitiva numerosa, perseguiu +um veado, que dava taes saltos, e corria por tal frma, que, apesar da +ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi s +ento que viu que estava s, tendo a sua crte ficado muito para traz; +sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria +no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladres. +Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da +entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe +quizeram logo contar. + +O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira: + +--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro pessoa que acaba de entrar +aqui, e punha-o na minha cabea. + +--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraa. + +--E eu que estava pondo o seu manto. + +--E eu, disse o quarto ladro, para lhe fazer favor, passava em roda do +meu pescoo aquella pesada cadeia d'ouro, da qual est pendurada a sua +trompa de caa. + +--Vejo bem, disse o imperador, que teem teno de me roubar tudo, e +mesmo a vida. Reconheo que estou em poder de vocs, e que toda e +qualquer resistencia seria inutil. No lhes peo seno uma cousa, que +me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caa. + +Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido +d'um moribundo deve ser respeitado. + +Carlos Magno levou boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou +d'ella sons to fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os +seus companheiros de caa e a sua comitiva estavam ao p d'elle. + +--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem +eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocs todos iam ser +enforcados diante d'este casebre. + +E o sonho realisou-se immediatamente. + + + + +*A egreja do rei* + + +Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da +Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para +a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se +concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do +marmore uma inscripo em letras d'ouro, que dizia que s elle, e mais +ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite +seguinte o nome do rei foi apagado da inscripo, e substituido por o +d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar +pr o seu nome na inscripo, e de novo foi substituido pelo da pobre +mulher; terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou +ento que lhe trouxessem a mulher sua presena: + +--Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem +fosse com o que fosse para a edificao d'esta egreja; vejo que no +cumpriste as minhas ordens. + +--Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas +ordens, apesar da magua que sentia por no poder offerecer o meu +pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei no desobedecer a vossa +magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, +que eu levava s escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas + construco da egreja. + +--O teu nome mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na +inscripo do monumento, disse-lha o rei. + +Mas na noite seguinte uma mo invisivel restabeleceu na lapide da egreja +o nome do rei, que desde ento l se conserva ainda. + + + + +*O valente soldado de chumbo* + + +Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmos, por todos +terem nascido da mesma colher de chumbo. Vde-os: que attitude marcial, +d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos! +A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da +caixa em que elles estavam, foi este grito: Olha soldados de chumbo! +que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado +de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a +mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam +maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de +menos, porque o tinham deitado na frma em ultimo lugar, e j no havia +chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros no estavam mais +firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e este o que +precisamente nos interessa. + +Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros +brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de +papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos sales. + volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia +poeticamente n'um pedao d'espelho que fingia um lago, onde nadavam +pequeninos cysnes de cra. Tudo isto era encantador, mas no tanto como +uma menina que estava porta, e que era tambem de papel, vestida com um +lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina +tinha os braos arqueados, porque era danarina, e tinha uma perninha +levantada a tal altura, que o soldado de chumbo no a podia ver, e +imaginou que, como elle, no tinha seno uma perna. + +--Ali est a mulher que me convm, pensou elle, mas uma grande +fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e +quatro camaradas, e no haveria c lugar pura ella. No entantanto +preciso conhecel-a. + +Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver sua vontade a +elegante danarina, que estava sempre n'um p s, sem perder o +equilibrio. + + noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas +da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, comearam +a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de +chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam l ir; mas +como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes comeou a dar cabriolas +e saltos mortaes, o lapis traou mil arabescos phantasticos n'uma louza, +emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar. +Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a +danarinasinha. Ella no bico do p, e elle n'uma perna s, a +espreital-a. + +Deu meia noite, e zs, a tampa da caixa de rap levanta-se, e em lugar +de rap, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza. + +--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro +sitio. + +Mas o soldado fez que no ouvia. + +--Espera at manh, e vers o que te acontece, continuou o feiticeiro. + +No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de +chumbo janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por +causa do vento caiu rua de cabea para baixo. Que tombo! Ficou com a +perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta +enterrada entre duas lages. + +A creada e o rapazito foram l abaixo procural-o, mas estiveram quasi a +esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: Cautella! +tel-o-am achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva +comeou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois +do aguaceiro passaram dois garotos. + +--Ol! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o +navegar. + +Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de +chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois +garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! +Que fora de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava +d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se +impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro. + +De repente o barco foi levado para um cano, onde era to grande a +escurido como na caixa dos soldados. + +--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me +metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina +estivesse no barco, no importava, ainda que a escurido fosse duas +vezes maior. + +D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do +cano. + +--Venha o teu passaporte. + +Mas o soldado de chumbo no disse nada, e agarrou com mais fora na +espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, +rangendo os dentes, e gritando s palhas, e aos cavacos:--Faam-n'o +parar, faam-n'o parar! No pagou a passagem, no mostrou o passaporte. + +Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via j a luz do dia, e +sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente. +Havia na extremidade do cano uma queda d'agua to perigosa para elle, +como para ns uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem +poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lanou-se sobre a +queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se +atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto. + +O barco, depois de ter andado roda durante muito tempo, encheu-se +d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua j chegava ao pescoo do +soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a +agua passou por cima da cabea do nosso heroe. N'esse momento supremo, +pensou na gentil danarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia: + +--Soldado: o perigo enorme, a morte espera-te. + +O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi +devorado por um grande peixe. + +L que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E alm d'isso, que +talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado +estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro. + +O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, at que emfim +parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia, +e alguem exclamou: + +--Olha um soldado de chumbo! + +O peixe tinha sido pescado, exposto na praa, vendido, e levado para a +cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no +soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a +gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na +barriga d'um peixe. No entretanto o soldado no se sentia orgulhoso. +Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto verdade que acontecem +cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de cuja +janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam +em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel danarina sempre de perna +no ar. O soldado de chumbo ficou to commovido, que de boa vontade teria +derramado lagrimas de chumbo, mas no era conveniente. Olhou para ella, +ella olhou para elle, mas no disseram uma palavra um ao outro. + +De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no +fogo; eram obras do feiticeiro da caixa do rap. + +O soldado de chumbo l estava perfilado, allumiado por um claro +sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as cres lhe tinham +desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas +viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a +danarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre +intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma +porta, o vento arremeou a danarina ao fogo para junto do soldado, que +desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, j no era mais +que uma pequena massa informe. + +No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um +objecto que tinha o feitio d'um pequeno corao de chumbo, e tudo o que +restava da danarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha +ennegrecido. + + + + +*Joo Pateta* + + +Joo era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A +gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira Joo Pateta. Um dia sua me +mandou-o feira comprar uma foice. volta, comeou a andar com a foice + roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a. + +--Pateta, disse-lhe sua me, o que deverias ter feito era pr a foice em +um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos. + +--Perdo, me, respondeu humildemente Joo, para a outra vez serei mais +esperto. + +Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que +as no perdesse. + +--Fique descanada. E voltou todo orgulhoso. + +--Ento, Joo, onde esto as agulhas? + +--Ah! esto em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a +passar o carro do visinho carregado de palha; metti l as agulhas, no +podem estar em sitio melhor. + +--De certo, esto em lugar de tal modo seguro, que no ha meio de as +tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapo. + +--Perdo, respondeu Joo, para a outra vez, heide ser mais esperto. + +Na outra semana, por um dia de calor, Joo foi d'ali uma legua comprar +uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua me, poz a +manteiga dentro do chapo e o chapo na cabea. Imagine-se o estado em +que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida. + +A me j tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia +resolveu-se a mandal-o feira vender duas gallinhas. + +--Ouve bem, no vendas pelo primeiro preo. Espera que te offeream +outro. + +--Est entendido, respondeu Joo. + +Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle. + +--Queres seis tostes por essas gallinhas? + +--Ora adeus! minha me recommendou-me, que no acceitasse o primeiro +preo, mas que esperasse o segundo. + +--E tens muita raso. Dou-te um cruzado. + +--Est bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro, +mas, como cumpro as ordens de minha me, ella no tem que me ralhar. + +Depois d'isto, Joo foi condemnado a ficar em casa. Sua me sabia que +mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manh quiz fazer uma +experiencia, e disse-lhe: + +--Vae vender este carneiro feira. Mas no te deixes enganar. No o +entregues seno a quem te der o preo mais elevado. + +--Est bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer. + +--Quanto queres por esse carneiro? + +--Minha me disse-me que o no vendesse seno pelo preo mais elevado. + +--Quatro mil ris? + +-- o preo mais elevado? + +--Pouco mais ou menos. + +-- minha a l e o carneiro, disse um rapaz que trepra a uma escada. + +--Quanto? + +--Dez tostes: + +-- menos, respondeu timidamente o Joo. + +--Sim, mas vs at onde chega esta escada. Em toda a feira no ha um +preo mais elevado. + +--Tem raso. seu o carneiro. + +Desde esse dia o Joo Pateta no tornou a ser encarregado de vender ou +comprar cousa alguma. + + + + +*Branca de Neve* + + +Era uma vez uma rainha, que se lastimava por no ter filhos. Um dia +d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'bano olhando de vez em +quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no cho, +distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue. + +--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beios to vermelhos +como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros +como este bano. + +Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu luz uma filha, +que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo to branco, +que lhe chamavam Branca de Neve. Porm esta feliz me no gozou muito +tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher +d'uma grande belleza, e d'um orgulho no menos extraordinario. Era to +formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas +vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho +magico dizia-lhe: + +--Meu fiel espelho, responde-me: qual a mulher mais linda que ha no +mundo? + +--s tu, respondia o espelho. + +No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais +formosa. Tinha apenas sete annos, e j ninguem a podia ver sem ficar +maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu +espelho, disse-lhe: + +--Meu fiel espelho, responde-me: qual a mulher mais linda que ha no +mundo? + +--No s tu, no s tu. Branca de Neve mais linda. + +A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no corao uma dr aguda, +como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela +innocente Branca. No podia socegar nem de dia, nem de noite. Para +satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe: + +--Quero quo Branca desapparea. Conduze-a floresta, mata-a, e, para me +provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o +corao. + +O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e +dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creana chorava e +lamentava-se, e pedia-lhe que a no matasse, porque ella no tinha feito +mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas +lagrimas, no teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se +as feras a devorassem a culpa no era d'elle, mas sim da rainha. Assim +fez, e para mostrar o corao de Branca rainha, matou um cabrito, e +tirou-lhe o corao. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou +contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma +mulher no mundo to bella como eu. + +A pobre Branca, abandonada na floresta, no tinha morrido, mas estava +cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os ps nas pedras, e +andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez +tambem via animaes ferozes. Mas as feras no lhe faziam mal algum, o +deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas. + + noite chegou ao p d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome +e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito +limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de +brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas, +e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco +do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo, +deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente. + +Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros +pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo +que tinham gente em casa. Um d'elles disse: + +--Quem comeu o meu po? + +E os outros successivamente: + +--Quem pegou no meu garfo? + +--Quem comeu o meu caldo? + +--Quem bebeu o meu vinho? + +E emfim um d'elles: + +--Quem est ahi deitado na minha cama? + +Reuniram-se todos roda do pequeno leito em que dormia Branca. luz +das lanternas viram o doce rosto da creana, que dormia tranquillamente, +e affastaram-se sem fazer bulha, para a no accordar. Branca no dia +seguinte de manh ficou um pouco assustada, quando viu perto de si +aquelles sete anes das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura, +que no tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava. +Branca contou a sua triste historia, e os anes disseram-lhe: + +--Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa? + +--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada. + +Comeou logo o seu servio, e continuou-o regularmente todos os dias. +Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anes iam trabalhar para as +minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem. + +Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que j no +tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, +e disse-lhe: + +--Meu fiel espelho, no verdade que eu sou agora a mulher mais linda +que ha no mundo? + +E o espelho respondeu: + +--Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca est nas sete +montanhas, e Branca mais linda do que tu. + +Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, +e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que +modo? Uma manh partiu desfarada em vendedeira ambulante, com um cesto +cheio d'objectos de phantasia. Foi direita s sete montanhas, e bateu +porta da casinha, gritando: Quem quer comprar bonitas joias? + +Os anes tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras +estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser +prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no +cesto, esqueceu-se das suas promessas. + +--Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao +pescoo. + +Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os +anes voltaram, viram a infeliz Branca estendida no cho e completamente +inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas +gotas d'um licor amarello. Branca comeou a respirar, voltou a si pouco +a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido. + +--Pdes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira no era +outra pessoa, seno a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, no deixes +entrar aqui ninguem, quando no estivermos em casa. + +Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do +espelho, e disse-lhe: + +--Meu fiel espelho: Qual agora a mulher mais linda que ha no mundo? +Responde. + +E o espelho respondeu: + +--s tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca est +nas sete montanhas, e Branca mais linda do que tu. + +A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a +infeliz Branca. Tornou-se a disfarar em vendedeira. Chegou s sete +montanhas, e bateu porta da cabana. + +--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu janella, e respondeu: + +--V-se embora, aqui no entra ninguem. + +--Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. J +viu outro to bonito? + +Branca no poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a +porta. + +--Oh! minha linda menina, deixe-me pr-lh'o na cabea. + +Ao dizer isto enterrou-lhe na cabea o pente, que estava envenenado, e +Branca caiu morta. + + noite quando regressaram os anes, acharam-n'a pallida e fria. +Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e +tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente. + +No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio. +Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que +o espelho respondeu como antecedentemente. + +--Ah! preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me +sacrificar. + +Vestiu-se de camponeza com um cesto de mas. Entre ellas havia uma que +estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu porta da cabana. + +--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar? + +--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, no deixo entrar +ninguem, nem compro coisa alguma. + +--Est bem, no faltar quem compre estas ricas mas. Mas por ser to +bonita, quero dar-lhe uma. + +--Obrigada, no posso acceitar. + +--Imagina que est envenenada. Olhe, eu vou comer um pedao. Ah! que boa +que ! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora +mordia no lado da ma, que no estava envenenado. Branca deixou-se +tentar, levou boca o outro pedao, e caiu fulminada. + +--Ahi tens, para castigo da tua formosura. + +Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e +perguntou-lhe: + +--Meu fiel espelho, quem agora a mulher mais linda? + +E o espelho respondeu: + +--s tu, s tu. + +--At que emfim! + +Os anes estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o +licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava +fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos +da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas no podiam +acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto to tranquillo, +as suas faces to frescas, parecia que estava a dormir. No quizeram +enterral-a. Metteram-n'a n'um caixo de cristal, e escreveram em cima. +Aqui jaz a filha d'um rei; puzeram o caixo n'uma das sete montanhas, +e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se +assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais +pequena alterao. + +Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar +caa, viu o caixo, e pediu aos anes que lh'o cedessem, fosse por preo +que fosse. + +--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixo, que + o nosso thesouro. + +--Ento dem-m'o, j no posso viver sem contemplar este rosto de +mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me +faam isto. + +Os anes, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixo para +o levarem. Um d'elles tropeou n'uma raiz, e o caixo soffreu um +balano, que fez cair o bocado da ma envenenada, que Branca no tinha +engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O +joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O +casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e +rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de +Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos +os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha: + +--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo? + +E o espelho respondeu: + +--Branca mais formosa que tu. + +A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes +fossem descobertos, que morreu de repente. + +Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de +princesa no se esqueceu dos anes que tinham sido os seus bemfeitores. + + + + +*A rapariguinha e os phosphoros* + + +Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de +dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escurido +passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabea descoberta e os +ps descalos. verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas +tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua me j +tinha usado, to grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua +a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; +quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a inteno de fazer +d'elle um tero para o seu primeiro filho. + +A pequenita caminhava com os psinhos ns, arroxeados pelo frio; tinha +no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na +mo um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; no tinha havido +compradores, e por isso no apurra cinco ris. + +Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos +longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoo; mas +pensava ella porventura nos seus cabellos annelados? + +As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos +manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava. + +Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada +vez mais, mas no se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia, +porque no tinha vendido os seus phosphoros. Alm d'isso em sua casa +fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento +atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas +mosinhas j quasi que as no sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso +lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o +aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como +ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que +luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro +de ferro, cujo lume magnifico aquecia to suavemente, que era um regalo. + +A pequerrucha ia j a estender os psitos para os aquecer tambem, quando +a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mo uma +pontita de phosphoro consumido. + +Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu +a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse +muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha +alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha +assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume +delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do +prato, e cau no cho ao p da pequerrucha, com o garfo e a faca +espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de +si a parede fria e tenebrosa. + +Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo +de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a +que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem +sumptuoso. + +Nos ramos verdes brilhavam centenares de bales accesos, e as estampas +coloridas, como as que ha s portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. +Quando ia agarral-as com as duas mos, apagou-se o phosphoro; todos os +bales da arvore do Natal comearam a subir, a subir, e viu ento que se +tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo +um longo rasto de fogo. + +-- algum que est a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua av, que +lhe queria tanto, mas que j morrera, dissera-lhe muitas vezes: Quando +cae uma estrella, sobe para Deus uma alma. + +Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe +appareceu sua av, de p, com um ar radioso e suavissimo. + +--Minha av, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes +embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecers como a panella de +ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal. + +Accendeu o rosto do masso, porque no queria que sua av lhe fugisse, e +os phosphoros espalharam um claro mais vivo que a luz do dia. Nunca sua +av tinha sido to formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas +alegres, no meio d'este deslumbramento, voram to alto, to alto, que +j no tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso. + +Mas quando rompeu a fria madrugada, encontrram a pequerrucha, entre os +dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios... +morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu +alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que +faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se, +disse um homem que passou. E ninguem soube nunca as lindas coisas que +ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua +velha av no dia do Anno Novo. + + + + +*O primeiro peccado de Margarida* + + +Chamava-se Margarida, e estavam espera d'ella no co, porque Deus +tinha dito:-- uma boa alma, e, como l em baixo no mundo lhe pde +acontecer alguma desgraa, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso. + +Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como +ella; todos os dias ao acordar resava as oraes, que sua me lhe tinha +ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como no tinha +joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho. + +Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar. + +E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella cano +d'amor e de gloria, que j emballra muitos beros, e que podia +sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez. + +N'uma tarde de vero, estava ella sentada porta de casa fiando linho, + hora em que as estrellas comeam a apparecer, uma a uma no firmamento. + +Estava Margarida cantando a sua cano, quando passou por alli uma das +suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo. +Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o +collar d'ouro que levava ao pescoo; apertou-lhe a mo para que visse +bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda +contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que +inquietou no paraizo o seu anjo da guarda. + +O fio de linho j no passava to rapidamente entre os dedos de +Margarida, a roda cessra o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das +mos. + +Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si +um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mo um gorro de velludo +preto, com uma pluma vermelha, da cr do fogo. O cavalleiro saudou-a +respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, +perguntou-lhe: + +--Qual o caminho da cidade? + +Margarida estendeu a mo para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se +tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma +estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que +o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se ento com +um sorriso estranho e diabolico. + +N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de +Margarida, e pediu-lhe uma esmola. + +Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraado. + +O cavalleiro ento, soltando um grito de colera, ia lanar-se sobre +Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda +disfarado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto Satans, que +tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste. + + + + +*Um nome inscripto no co* + + +Era uma vez um pobre mendigo, que bateu porta d'uma humilde cabana a +pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas no vendo, nem +ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu +ento uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse: + +--Ai! no te posso dar nada, porque nada tenho. + +E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater mesma +porta. + +--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, j te disse que no tenho nada +que te dar. + +--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo. + +E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em +cima da meza, muitos bocados de po e algumas moedas de dez ris, que +lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez. + +--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se +embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer. + +No sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-ho no +Paraizo, e mais tarde ns o viremos a saber. + + + + +*O linho* + + +O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e +transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre +elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o +d'um filho quando a me o lava e lhe d um beijo. + +--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, +e serei brevemente uma rica pea de panno. Sinto-me feliz. No ha +ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello +futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou +feliz, feliz a mais no poder ser! + +--Como s ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu no conheces o +mundo, de que ns outras temos uma larga experiencia. + +E rangendo lastimosamente, cantaram: + + --Cric, crac! cric, crac! crac! + --Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +--No to cedo como vocs imaginam, respondeu o linho; est uma bella +manh, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e +florir. Sou muitissimo feliz. + +Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela +cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de +pol. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e +depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade! + +--No se pde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; necessario +soffrer, o soffrimento a me da experiencia. + +Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o, +cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois, +puzeram-n'o n'uma roca, e ento perdeu a cabea inteiramente. + +--Era feliz de mais, pensava o desgraado linho no meio d'aquellas +torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas. + +E ainda estava dizendo--perdidas, e j o estavam a metter no tear e a +transformal-o n'uma pea de panno. + +--Isto extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que +grandes tolas aquellas silvas quando cantavam: + + Cric, crac! cric, crac! crac! + Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +Agora que eu principio a viver. Padeci muito, verdade, mas por isso +tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me to forte, to alto, +to macio! Ah! isto bem melhor do que ser planta, mesmo florida, +ninguem trata da gente, e no bebemos outra agua a no ser a da chuva. +Agora o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as +manhs, e noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura +fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a +melhor pea da parochia. No posso ser mais feliz. + +Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o s thesouras. Cortaram-n'o e +picaram-n'o com uma agulha. No era l muito agradavel, mas em +compensao fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas. + +--Agora decididamente comeo a valer alguma coisa. O meu destino +abenoado, porque sou util n'este mundo. preciso isso para se viver em +paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaos, verdade, mas formamos um +s grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade! + +O panno das camisas foi-se gastando com o tempo. + +--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas no +se fazem impossiveis. + +E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era +finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaados, fervidos, sem +adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel +branco magnifico. + +--Oh que agradvel surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino +do que d'antes, e vo cobrir-me de letras. O que no escrevero em cima +de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa! + +E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de +numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores. + +--Ora aqui est uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, +quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que +ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! No sei +explicar o que me est acontecendo, mas verdade. Deus sabe +perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha +sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, at chegar maior gloria. +Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: Acabou-se, acabou-se +tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou +viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e +instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora +as minhas flores so os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz, +immensamente feliz! + +Mas o papel no foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que l +estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, +que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de +papel no teria prestado o mesmo servio, ainda que desse a volta roda +do mundo. A meio caminho j estaria gasto. + +-- justo, disse o papel, no tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou +ser considerado como um velho av! fui eu que recebi as letras, as +palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os +livros vo por esse mundo fra. A sua misso realmente bella, e eu +estou contente, e julgo-me feliz. + +O papel foi empacotado, e lanado para uma estante. + +--Depois do trabalho agradvel o descano, pensou elle. n'este +isolamento que a gente aprende a conhecer-se. S d'hoje em diante que +eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a ns mesmo a verdadeira +perfeio. Que me ir ainda acontecer? Progredir, est claro. + +Passados tempos, o papel foi atirado ao fogo para o queimarem, porque o +que o no queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as +creanas da casa se pozeram roda; queriam vel-o arder, e ver tambm, +depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir, +e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel +foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande +chamma, que se erguia to alto, to alto como o linho nunca ergura as +suas flores azues; a pea de panno nunca tinha tido um brilho +semilhante. + +Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as +palavras, todas as idas desappareceram em linguas de fogo. + +--Vou subir at ao sol; dizia uma voz no meio da lavareda, que +pareciam mil vozes reunidas n'uma s. A chamma saiu pela chamin, e no +meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do +homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado. +Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu, +quando no restava do papel seno a cinza negra, ainda elles danavam +sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas +encarnadas. + +As creanas cantavam roda da cinza inanimada: + + Cric, crac! cric, crac! crac! + Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +Mas cada um dos pequeninos seres dizia: No, no se acabou; agora que + o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz. + +As creanas no poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas +tambem no era necessario, porque as creanas no devem saber tudo. + + +FIM. + + + + +*INDICE* + + +A me +O ouro +Doura e bondade +O malmequer +No quero +Piloto +O rico e o pobre +Como um camponez aprendeu o Padre Nosso +O talisman +A alma +Alberto +A cano da cerejeira +Os gigantes da montanha e os anes da plancie +A creana, o anjo e flr +Presente por presente +O pinheiro ambicioso +Perfeio das obras de Deus +Joo e os seus camaradas +O rabequista +Os pecegos +A urna das lagrimas +Reconhecimento e ingratido +O fato novo do sulto +Boa sentena +Os animaes agradecidos +O ermito +Carlos Magno e o abade de S. Gall +A boneca +Inconveniente da riqueza +Querer poder +Qual ser rei? +Os trs vos de Maria +Os pequenos no bosque +O chapellinho encarnado +Os cinco sonhos +A egreja do rei +O valente soldado de chumbo +Joo Pateta +Branca de Neve +A rapariguinha e os phosphoros +O primeiro peccado de Margarida +Um nome inscripto no co +O linho + + +[A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade, +residente no Rio de Janeiro.] + + + + + +End of Project Gutenberg's Contos para a infncia, by Guerra Junqueiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFNCIA *** + +***** This file should be named 16429-8.txt or 16429-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/6/4/2/16429/ + +Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), +Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + +*** END: FULL LICENSE *** + + diff --git a/old/16429-8.zip b/old/16429-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..8c52816 --- /dev/null +++ b/old/16429-8.zip diff --git a/old/16429-h.zip b/old/16429-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..f02c2e4 --- /dev/null +++ b/old/16429-h.zip diff --git a/old/modern/contos.htm b/old/modern/contos.htm new file mode 100644 index 0000000..323464b --- /dev/null +++ b/old/modern/contos.htm @@ -0,0 +1,10351 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-transitional.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="en" lang="en"> +<head> + + + + + + <title>Contos para a Infância Escolhidos dos Melhores Autores</title> + <meta name="AUTHOR" content="Guerra Junqueiro" /> + + + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + + + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {font-size: 30px;} +h2 {font-size: 14pt;} +h3 {font-size: 40px; letter-spacing: 6px;} +h4{font-size: 10pt;font-variant: small-caps;} +h5 {font-size: 20px;} +.fbox {border: solid black 2px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 15%; margin-right: 2%;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.poetry {margin-left:30%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the<br />original version, already available at Project Gutenberg. / Actualização<br />ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg.)<br /><br /><br />NOTA: Este texto tem duas versões em língua portuguesa de acordo com o<br />livro original, a que pode ser aceder clicando numa das seguintes opções:<br /> <a href="../../16429-8.txt"><big><b>TEXT</b></big></a> <a href="../16429.htm"><big><b>HTML</b></big></a><br /></pre> + + +<div> +<br /> + + +<br /> + + +<h1>CONTOS</h1> + + +<h2>PARA A</h2> + + +<h3>INFÂNCIA</h3> + + +<h2>ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES</h2> + + +<h2>POR </h2> + + +<h1>GUERRA JUNQUEIRO</h1> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2>LISBOA</h2> + + +<h4>TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOMÁS QUINTINO ANTUNES,<br /> + + +IMPRESSOR DA CASA REAL</h4> + + +<h2>Rua dos Calafates, 110</h2> + + +<h2>1877</h2> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> <a name="1"></a>A mãe</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Estava uma mãe muito aflita, sentada ao pé do +berço do seu filho, com +medo que lhe morresse. A criancinha pálida tinha os olhos +fechados. +Respirava com dificuldade, e às vezes tão +profundamente, que parecia +gemer; mas a mãe causava ainda mais lástima do +que o pequenino +moribundo.<br /> + + +<br /> + + +Nisto bateram à porta, e entrou um pobre homem muito velho, +embuçado +numa manta de arrieiro. Era no Inverno. Lá fora estava tudo +coberto de +neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha.<br /> + + +<br /> + + +O pobre homem tremia de frio; a criança adormecera por +alguns instantes, +e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com +cerveja. O velho +começou a embalar a criança, e a mãe, +pegando numa cadeira, sentou-se +ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada +vez com mais dificuldade, pegou-lhe na mãozinha descarnada e +disse para +o velho:<br /> + + +<br /> + + +Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar! +não é verdade?―<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[4]</span>E o velho, que era a +Morte, meneou a cabeça duma maneira estranha, em +ar de dúvida. A mãe deixou pender a fronte para o +chão, e as lágrimas +corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso +de +cabeça; estava sem dormir havia três dias e +três noites. Passou +ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a +tremer de frio.<br /> + + +<br /> + + +―Que é isto! exclamou, lançando à +volta de si o olhar alucinado. O +berço estava vazio. O velho tinha-se ido embora, +roubando-lhe a criança.<br /> + + +<br /> + + +A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. +Encontrou uma +mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte +entrou-te em +casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais +depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a +entregar.»<br /> + + +<br /> + + +―Por onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo pelo amor de +Deus!»<br /> + + +<br /> + + +―Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto. +Mas só to ensino, se me cantares primeiro todas as +canções que cantavas +ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou +a Noite e +muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas.<br /> + + +<br /> + + +―Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora +não me +demores, porque quero encontrar o meu filho.―<br /> + + +<br /> + + +A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita +em lágrimas, começou a +cantar. Cantou muitas canções, mas as +lágrimas foram mais do que as +palavras.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[5]</span>No fim disse-lhe a +Noite: «Toma à direita, pela floresta escura de +pinheiros. Foi por aí que a Morte fugiu com o teu +filho.» +<br /> + + +A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o +caminho, e não +sabia que direcção havia de seguir. Diante dela +havia um matagal, +cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve +cristalizada.<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /> </div> + + +<br /> + + +―Não viste a Morte que levava o meu filho?» +perguntou-lhe a mãe.<br /> + + +<br /> + + +―Vi, respondeu o matagal, mas não te ensino o caminho, +senão com a +condição de me aqueceres no teu seio, porque +estou gelado.»<br /> + + +<br /> + + +E a mãe estreitou o matagal contra o +coração; os espinhos +dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se +de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite +de Inverno frigidíssima, tal é o calor +febricitante do seio duma mãe +angustiosa.<br /> + + +<br /> + + +E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando, +andando, até que chegou à margem dum grande lago, +onde não havia nem +barcos, nem navios. Não estava suficientemente gelado para +se andar por +ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo, +querendo encontrar o seu filho, era necessário +atravessá-lo. No delírio +do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda +a água do +lago. Era impossível, mas lembrava-se que Deus, por +compaixão, faria +talvez um milagre.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[6]</span>―Não! +não és capaz de me esgotar, disse o lago. +Sossega, e +entendamo-nos +amigavelmente. Gosto de ver pérolas no fundo das minhas +águas, e os teus +olhos são dum brilho mais suave do que as pérolas +mais ricas que eu +tenho possuído. Se queres, arranca-os das órbitas +à força de chorar, e +levar-te-ei à estufa grandiosa, que está do outro +lado: essa estufa é a +habitação da Morte; e as flores e as +árvores que estão lá dentro, +é ela +quem as cultiva; cada flor e cada árvore é a vida +duma criatura +humana.»<br /> + + +<br /> + + +―Oh! o que não darei eu, para reaver o meu filho!» +disse a mãe. E +apesar de ter já chorado tantas lágrimas, chorou +com mais amargura do +que nunca, e os seus olhos destacaram-se das órbitas e +caíram no fundo +do lago, transformando-se em duas pérolas, como ainda as +não teve no +mundo uma rainha.<br /> + + +<br /> + + +O lago então ergueu-a, e com um movimento de +ondulação depositou-a na +outra margem, aonde havia um maravilhoso edifício, com mais +de uma légua +de comprido. De longe não se sabia se era uma +construção artística ou +uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe +não podia ver nada; +tinha dado os seus olhos.<br /> + + +<br /> + + +―Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu +filho!» bradou +ela desesperada.<br /> + + +<br /> + + +―A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que +andava dum +lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como +vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho?»<br /> + + +<br /> + + +―Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus é misericordioso. <span class="pagenum">[7]</span>Compadece-te +de mim, e diz-me onde está o meu filho.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu não o conheço, e tu és cega, disse +a velha. Há aqui muitas plantas +e muitas árvores, que murcharam esta noite: a Morte +não tarda aí para +as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste +sítio uma árvore ou uma flor, que representam a +sua vida e que morrem +com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes, +sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e +talvez reconheças as +pulsações do coração de teu +filho. E que davas tu por eu te ensinar o +que tens ainda de fazer?»<br /> + + +<br /> + + +―Já não tenho nada que te dar, disse a pobre +mãe. Mas irei até ao fim +do mundo buscar o que tu quiseres.―«Fora daqui não +preciso de nada, +respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabelos negros; tu +sabes que +são belos, e agradam-me. Trocá-los-ei pelos meus +cabelos +brancos.»―Não pedes mais nada do que isso? disse a +mãe. Aí os tens, +dou-tos de boa vontade.»<br /> + + +<br /> + + +E arrancou os seus magníficos cabelos, que tinham sido +outrora o seu +orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e +inteiramente brancos da velha.<br /> + + +<br /> + + +Esta levou-a pela mão à grande estufa, onde +crescia exuberantemente uma +vegetação maravilhosa. Viam-se debaixo de +campânulas de cristal jacintos +mimosíssimos ao lado de peónias inchadas e +ordinárias. Havia também plantas +aquáticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em +cujas raízes +se enovelavam cobras asquerosas.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[8]</span>Mais longe +erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e plátanos +frondosos; depois num outro sítio isolado havia canteiros de +salsa, +tomilho, hortelã e outras plantas humildes que representavam +o género de +utilidade das pessoas que elas simbolizavam.<br /> + + +<br /> + + +Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que +pareciam rebentar; mas viam-se também florzitas +insignificantes, em +vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com +esmero delicadíssimo. Tudo isso representava a vida dos +homens, que a +essa hora existiam no mundo, desde a China até à +Groenlândia.<br /> + + +<br /> + + +A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a +mãe +impacientada pediu-lhe que a levasse ao sítio onde estavam +as plantas +pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do +coração, e, depois de ter tocado em milhares +delas, reconheceu as +pulsações do coração do seu +filho.<br /> + + +<br /> + + +―É ele!» exclamou, lançando a +mão a um açafroeiro, que, pendido sobre +a terra, parecia completamente estiolado.<br /> + + +<br /> + + +―Não lhe toques, disse a velha. Fica neste sítio; +e quando a Morte +vier, que não tarda, proíbe-lhe que arranque esta +planta; ameaça-a de +arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte +terá medo, porque tem +de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu +consentimento.»<br /> + + +<br /> + + +Nisto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era +a Morte, +que se aproximava.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[9]</span>―Como é +que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda +primeiro do que eu! Como o conseguiste?―«Sou +mãe» respondeu ela. +<br /> + + +E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino +açafroeiro.<br /> + + +<br /> + + +Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as +mãos, tendo o cuidado de +não ferir uma só das pequeninas +pétalas. Então a Morte soprou-lhe nas +mãos, fazendo-lhas cair inanimadas. O hálito da +Morte era mais frio do +que os ventos enregelados do Inverno.<br /> + + +<br /> + + +―Não podes nada comigo!» disse a Morte.―Mas Deus +tem mais força do que +tu, respondeu a mãe.»―«É +verdade, mas eu não faço senão aquilo +que +ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, +árvores e +arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para +outros jardins, +um dos quais é o grande jardim do Paraíso. +São regiões desconhecidas; +ninguém sabe o que se lá passa.»<br /> + + +<br /> + + +―Misericórdia! misericórdia! soluçou a +mãe. Não me roubem o meu filho, +agora que acabo de o encontrar!» Suplicava e gemia. A Morte +conservava-se impassível; agarrou então +instantaneamente em duas flores +lindíssimas e disse à Morte: «Tu +desprezas-me, mas olha, vou arrancar, +despedaçar não só esta, mas todas as +flores que estão aqui!<br /> + + +<br /> + + +―Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. +Dizes que és +desgraçada, e querias ir partir o +coração de outra mãe!―«Outra +mãe!» +disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente. +<span class="pagenum">[10]</span>―Toma, aqui tens os +teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os +tirei do lago. Não sabia que eram teus. +Mete-os nas órbitas, e olha para o fundo deste +poço; vê o que ias destruir, +se arrancasses estas flores. Verás passar nos reflexos da +água, como numa miragem, +a sorte destinada a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o +teu filho, se +porventura vivesse.»<br /> + + +<br /> + + +Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de +felicidade e alegria, +quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terríveis +de +miséria, de angústias e de +desolação.<br /> + + +<br /> + + +―Nisto que eu vejo, disse a mãe aflitíssima, +não distingo qual era a +sorte que Deus destinava ao meu filho.»<br /> + + +<br /> + + +―Não posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em +tudo isto +que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu +filho.»<br /> + + +<br /> + + +A mãe desvairada, lançou-se de joelhos +exclamando: Suplico-te, diz-me: +era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não +é verdade! Fala! +Não me respondes? Oh! na dúvida, leva-o, leva-o, +não vá ele sofrer +desgraças tão horríveis. O meu querido +filho! Quero-lho mais que à minha +vida. As angústias que sejam para mim. Leva-o para o reino +dos céus. +Esquece as minhas lágrimas, as minhas súplicas, +esquece tudo o que fiz +e tudo o que disse.»<br /> + + +<br /> + + +―Não te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te +entregue o teu +filho ou que o leve para a região desconhecida de que +não posso +falar-te!» Então a mãe alucinada, +convulsa, torcendo os braços, +deitou-se de joelhos e dirigindo-se <span class="pagenum">[11]</span>a +Deus exclamou: «Não me ouças, +Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra +a tua vontade que é +sempre justa! Não me atendas meu Deus!»<br /> + + +<br /> + + +E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua +agonia +dilacerante.<br /> + + +<br /> + + +E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi +transplantá-lo no +jardim do paraíso.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[12]</span> +<h2><a name="2"></a>O ouro</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de +ouro, +empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o +resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma +grande +fome no país.<br /> + + +<br /> + + +Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em +segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino; +e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, +com +que ele ficou todo satisfeito, porque não compreendeu ao +princípio +qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam +mais nada +de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a +rainha, que visse bem +que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os +seus +vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que +trazê-los nas minas à busca do ouro, que +não mata a fome nem a sede, e +que não tem outro valor além da +estimação que lhe é dada pelos homens, +estimação que havia de converter-se em desprezo, +logo que ouro +aparecesse em abundância.<br /> + + +<br /> + + +A rainha tinha juízo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[13]</span> +<h2><a name="3"></a>Doçura e bondade</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Há entre vós, meus filhos, índoles +violentas, que não sabem dominar-se, +e que são arrastadas pelas primeiras impressões. +É uma péssima +disposição, que é +necessário corrigir; dá lugar a disputas, e a que +se +cometam acções, cujo arrependimento chega +demasiadamente tarde. +Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.<br /> + + +<br /> + + +Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante +dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num +cego!»<br /> + + +<br /> + + +Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns +camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a +bater no burro, para o +fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a +sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubésseis que +eu era coxo, não +teríeis sido tão covardes.»<br /> + + +<br /> + + +Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma +palavra.<br /> + + +<br /> + + +Que vos parece estas duas lições? Estou +convencido que aproveitaram a +quem as recebeu.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[14]</span> +<h2><a name="4"></a>O malmequer</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Ouvi com atenção esta pequenina +história!<br /> + + +<br /> + + +No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que +deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho +com flores, +rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no +meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a +olhos vistos, graças ao sol, que repartia igualmente a sua +luz tanto por +ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela +manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas +alvas e brilhantes, +parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe +dava +que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, pobre +florinha +insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do +sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.<br /> + + +<br /> + + +Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira, +sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as +crianças +sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, +ele, sentado na haste +verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo +o que <span class="pagenum">[15]</span>sentia +misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com +admirável nitidez nas canções alegres +da cotovia. Por isso pôs-se a +olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa +avezinha +feliz que cantava e voava.<br /> + + +<br /> + + +«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol +aquece-me e o vento +acaricia-me. Oh! não tenho razão de me +queixar.»<br /> + + +<br /> + + +Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocráticas; +quanto menos +aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dálias +inchavam-se para +parecerem maiores do que as rosas; mas não é o +tamanho que faz a rosa. +As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se +pretensiosamente. Não se dignavam de lançar um +olhar para o pequeno +malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: +«Como são +ricas e bonitas! A cotovia irá certamente +visitá-las. Graças a Deus, +poderei assistir a este belo espectáculo.» E no +mesmo instante a +cotovia dirigiu o seu voo, não para as dálias e +tulipas, mas para a +relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria não +sabia o que +havia de pensar.<br /> + + +<br /> + + +O passarinho pôs-se a saltitar à roda dele, +cantando: «Como a erva é +macia! oh! que encantadora florinha, com um +coração de oiro, vestida de +prata!»<br /> + + +<br /> + + +Não se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave +acariciou-o com +o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do +firmamento. Durante mais de um quarto de hora não +pôde o malmequer +reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas +todo contente, olhou +<span class="pagenum">[16]</span>para as outras +flores do jardim, que, como testemunhas da honra que +acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas +as +tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e +pontiaguda manifestava o despeito. As dálias tinham a +cabeça toda +inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem +desagradáveis +ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.<br /> + + +<br /> + + +Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma +grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as +uma a uma.<br /> + + +<br /> + + +«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; +é horrível; foram-se +todas.»<br /> + + +<br /> + + +E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se +por +ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando +reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas, +adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as +suas folhas ao +ar e à luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto +era triste, +muitíssimo triste. A pobre cotovia tinha boas +razões para se afligir: +haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela +aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas +antigas viagens através do espaço ilimitado.<br /> + + +<br /> + + +O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era +difícil. A compaixão pelo pobre passarinho +prisioneiro, fez-lhe +esquecer <span class="pagenum">[17]</span>inteiramente +as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e +a alvura resplandecente das suas próprias folhas.<br /> + + +<br /> + + +Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na +mão +uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as +tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia +compreender o +que desejavam.<br /> + + +<br /> + + +«Podemos arrancar daqui um pedaço de relva para a +cotovia, disse um dos +rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à +volta da florinha.<br /> + + +<br /> + + +―«Arranca a flor, disse o outro.»<br /> + + +<br /> + + +A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era +morrer; e nunca tinha abençoado tanto a +existência, como no momento em +que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.<br /> + + +<br /> + + +«Não; deixemo-la, disse o mais velho. +Está aí muito bem.»<br /> + + +<br /> + + +Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.<br /> + + +<br /> + + +O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia +com as asas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, +apesar dos seus +desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.<br /> + + +<br /> + + +Passou-se assim toda a manhã.<br /> + + +<br /> + + +«Já não tenho água, exclamou +a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me +deixarem ao menos uma gota de água. A garganta queima-me, +tenho uma febre +terrível, sinto-me abafada! Ai! Não há +remédio senão morrer, longe do +sol esplêndido, longe da fresca verdura e de todas as +magnificências da +criação!»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[18]</span>Depois enterrou o +bico na relva húmida para se refrescar um pouco. Viu +então o malmequer; fez-lhe um sinal de cabeça +amigável, e disse-lhe, +afagando-o: «Também tu, pobre florinha, +morrerás aqui! Em vez do mundo +inteiro, que eu tinha à minha +disposição, deram-me um pedacito de relva, +e a ti só por única companhia. Cada pezinho de +relva substitui para mim +uma árvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor +odorífera. Ah! +como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!<br /> + + +<br /> + + +―Se eu pudesse consolá-la! pensava o malmequer, incapaz de +fazer o +mínimo movimento.<br /> + + +<br /> + + +Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume; +a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a +arrancar a erva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer +de leve na +flor.<br /> + + +<br /> + + +Caiu a noite; não estava ali ninguém, para trazer +uma gota de água à +desditosa cotovia; Estendeu então as suas belas asas, +sacudindo-as +convulsivamente, e pôs-se a cantar uma +cançãozinha melancólica; a sua +cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu +coração quebrado de desejos e +de angústias cessou de bater. Vendo este triste +espectáculo, o malmequer +não pôde como na véspera fechar as suas +folhas para dormir; curvou-se +para o chão, doente de tristeza.<br /> + + +<br /> + + +Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o +passarinho morto, +rebentaram-lhe as lágrimas e abriram uma cova. Meteram o +cadáver dentro +de uma caixa vermelha, lindíssima, fizeram-lhe um enterro de +príncipe, e +cobriram o túmulo com folhas de rosas.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[19]</span>Pobre passarinho! +Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e +deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto é que +o choraram +e lhe fizeram honrarias pomposíssimas.<br /> + + +<br /> + + +A relva e o malmequer lançaram-nas para a poeira da estrada; +daquele +que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguém se +lembrou.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[20]</span> +<h2><a name="5"></a>Não quero</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito +alto: «Não, dizia um com voz enérgica, +não quero.» Parei e +perguntei-lhe:―O que é que tu não queres, meu +rapaz?―«Não quero dizer +à mamã que venho da escola, porque é +mentira. Sei que me há-de ralhar, +mas antes quero que me ralhe do que mentir.»―E tens +razão, disse-lhe +eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a +mão, enquanto que o outro +pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora +todo envergonhado.<br /> + + +<br /> + + +Daí a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de +falar com o +professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois +pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que o +outro, +vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os +dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um +magnífico +estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a +confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a +repará-las. O outro +pelo contrário, é mentiroso, covarde e +incorrigível.»―Não me espanto, +disse eu, já tinha tirado o horóscopo destas duas +crianças; e +contei-lhe o que tinha ouvido.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[21]</span> +<h2><a name="6"></a>Piloto</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e +o +infatigável companheiro dos brinquedos das +crianças da quinta.<br /> + + +<br /> + + +Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que +João lhe +lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca +e +trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da +sua irmã +Joaninha.<br /> + + +<br /> + + +Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a +paciência do +Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, +até que o +assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas +obrigações: +partia então como um raio, para escoltar as vacas, que +levavam aos +pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.<br /> + + +<br /> + + +Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o +Piloto o guarda +da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse +à noite a parede da +quinta.<br /> + + +<br /> + + +Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade; um +jornaleiro, que se +empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, +tentou de noite roubar um saco.<br /> + + +<br /> + + +Piloto, que o conhecia, não fez a menor +demonstração de hostilidade +em quanto o homem seguiu o <span class="pagenum">[22]</span>caminho +da quinta, mas, desde que se afastou +tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem +o +largar.<br /> + + +<br /> + + +Era como se dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu +dono?»<br /> + + +<br /> + + +O ladrão quis pôr então outra vez o +saco donde o tinha tirado; Piloto +não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, +até de +manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil +posição, +repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o +não +desonrar.<br /> + + +<br /> + + +Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo +depois, aproveitando a +ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que +correu para +ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao +pescoço e arrastou-o até à +margem do ribeiro.<br /> + + +<br /> + + +Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e +levantando o animal +atirou-o à água; mas arrastado ele +próprio com o peso e com o esforço, +caiu também.<br /> + + +<br /> + + +Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela +roda do moinho, se o +corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e +desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse +mergulhado duas vezes +e trazido para terra o seu mortal inimigo.<br /> + + +<br /> + + +Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o +cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.<br /> + + +<br /> + + +Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse dia, +violentou-se a si +mesmo e combateu as suas más +inclinações.<br /> + + +<br /> + + +O exemplo do cão corrigiu o homem.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[23]</span> +<h2><a name="7"></a>O rico e o pobre</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um +dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e +deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma +estalagem, junto da +estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido +para jantar, +quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu +preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos +viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não +tinham tempo, +e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de +vinho.<br /> + + +<br /> + + +Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua +côdea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu +chapéu todo roto, e +suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino +tão rico, +em vez do desgraçado Martinho! Que fortuna se ele estivesse +aqui, e eu +dentro daquela carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o +que dizia +Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lançando a +cabeça fora da +carruagem, chamou Martinho com a mão.<br /> + + +<br /> + + +―Ficarias muito contente, não é verdade, meu <span class="pagenum">[24]</span>rapaz, podendo trocar a +minha sorte pela tua?»―Peço que me desculpe +senhor, replicou Martinho +corando, o que eu disse não foi por +mal.»―Não estou zangado contigo, +replicou o fidalguinho, pelo contrário, desejo fazer a +troca.»<br /> + + +<br /> + + +―Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, +ninguém quereria estar +no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando +muitas léguas por dia, como pão seco e batatas, +enquanto que o senhor +anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.»―Pois +bem, +volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu +não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que +possuo.» Martinho +ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o +preceptor continuou: «Aceitas a troca?»―Ora essa! +exclamou Martinho, +ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada +de me ver entrar nesta bela carruagem!» E Martinho desatou a +rir com a +ideia da entrada triunfante na sua aldeia.<br /> + + +<br /> + + +O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram +a +descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma +perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via +obrigado a andar em +duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou +que era muito pálido e que tinha cara de doente.<br /> + + +<br /> + + +Sorriu para o rapazito com ar benévolo, e +disse-lhe:―Então sempre +desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas +valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter <span class="pagenum">[25]</span>uma carruagem e +andar bem vestido?»―Oh! não, por coisa nenhuma! +replicou +Martinho.―«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria +pobre, se +tivesse saúde. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e +doente, sofro +os meus males com paciência e faço por ser alegre, +dando graças a Deus +pelos bens que me concedeu na sua infinita misericórdia.<br /> + + +<br /> + + +«Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se +és pobre e comes mal, +tens força e saúde, coisas que valem mais que uma +carruagem, e que não +podem comprar-se com dinheiro.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[26]</span> +<h2><a name="8"></a>Como um camponês +aprendeu o Padre Nosso</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Tinha o coração duro, e não dava +esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o +confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o Padre +Nosso.<br /> + + +<br /> + + +«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o +aldeão.» +<br /> + + +«Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por +penitência dar a +crédito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem +pedir da +minha parte.»<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.<br /> + + +<br /> + + +«Como te chamas? perguntou-lhe o camponês.<br /> + + +<br /> + + +«Padre―Nosso―Que―Estais―No―Céu, respondeu o +pobre.»<br /> + + +<br /> + + +«E o teu apelido?»<br /> + + +<br /> + + +«Seja―Santificado―O―Vosso―Nome.»<br /> + + +<br /> + + +E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.<br /> + + +<br /> + + +Ao outro dia chega segundo pobre.<br /> + + +<br /> + + +«Como te chamas?<br /> + + +<br /> + + +«Venha―A―Nós―O―Vosso―Reino.»<br /> + + +<br /> + + +«E o teu apelido?»<br /> + + +<br /> + + +«Seja―Feita―A―Vossa―Vontade.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[27]</span>E partiu com o seu +alqueire de trigo.<br /> + + +<br /> + + +Veio terceiro pobre.<br /> + + +<br /> + + +«Como te chamas?»<br /> + + +<br /> + + +«Assim―Na―Terra―Como―No―Céu.»<br /> + + +<br /> + + +«E o teu apelido?»<br /> + + +<br /> + + +«Dai-nos―Hoje―O―Pão―Nosso―De―Cada―Dia.»<br /> + + +<br /> + + +E levou o seu alqueire.<br /> + + +<br /> + + +Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma +forma até chegar ao <i>Amen</i>.<br /> + + +<br /> + + +Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.<br /> + + +<br /> + + +«Então já sabes o Padre +Nosso?»<br /> + + +<br /> + + +«Não, sr. cura, sei só os nomes e +apelidos dos pobres a quem emprestei +o meu trigo.»<br /> + + +<br /> + + +«Quais são? tornou o padre.»<br /> + + +<br /> + + +E o aldeão enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada +um se tinha +apresentado.<br /> + + +<br /> + + +«Já vês, disse o confessor, que +não era muito difícil aprender o Padre +Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[28]</span> +<h2><a name="9"></a>O talismã</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma +indústria, mas +com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o +que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus +negócios com +uma actividade infatigável, enquanto que o segundo, entregue +inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da +direcção da +sua casa.<br /> + + +<br /> + + +«Explica-me, disse um dia este último ao seu +colega, qual é a razão +porque a sorte nos trata de um modo tão diferente? Vendemos +as mesmas +mercadorias, a minha loja está tão bem situada +como a tua, e apesar +disso, enquanto tu ganhas, eu não faço +senão perder. E não é porque eu +seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho +pensado algumas vezes se não +terás tu por acaso algum precioso +talismã.»<br /> + + +<br /> + + +«Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um +talismã de uma +virtude incomparável. Trago-o ao pescoço, e ando +assim com ele todo o +dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o +celeiro. E o caso é que tudo me corre +perfeitamente.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[29]</span>«Olé +meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa +relíquia +preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta +restituo.»<br /> + + +<br /> + + +«Pois vem buscá-la amanhã de +manhã.»<br /> + + +<br /> + + +Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, +apresentou-lhe este uma avelã, através da qual +tinha passado um +fio de seda.<br /> + + +<br /> + + +O nosso homem pô-la imediatamente ao pescoço, e +começou a correr toda a +casa com o talismã. Observou então a completa +desordem que por toda a +parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na +cozinha o pão, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o +trigo, o +feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das +manjedouras dos +cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal +escriturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe +remédio, +compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substituído +por +terceira pessoa na direcção dos seus +negócios.<br /> + + +<br /> + + +Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso +talismã, +agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em +segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[30]</span> +<h2><a name="10"></a>A alma</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +«Mamã, nem todas as crianças que morrem +vão para o Paraíso. O outro dia +vi levar para o cemitério um menino que tinha morrido; o seu +papá e as +suas duas irmãzinhas acompanhavam o caixão, e +choravam tanto que me +fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau, +não é +verdade?»<br /> + + +<br /> + + +«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, +enquanto choravam seus +pais e suas irmãs, já estava vivendo feliz no +Paraíso.»<br /> + + +<br /> + + +«A alma? mamã; não sei o que +é; não compreendo bem.»<br /> + + +<br /> + + +«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as +duas +pequerruchas.»<br /> + + +<br /> + + +«Tive sim, mamã, tive muita pena.»<br /> + + +<br /> + + +«Ora bem, o que é que no teu corpo estava +desconsolado e triste? eram os +braços?»<br /> + + +<br /> + + +«Não, mamã.»<br /> + + +<br /> + + +«Eram as orelhas?»<br /> + + +<br /> + + +«Oh! não mamã, era <i>cá +dentro</i>.»<br /> + + +<br /> + + +«Esse <i>lá dentro</i>, Maria, +é a tua alma que se alegra ou se entristece, +que te repreende quando fazes o mal, e que está satisfeita +quando +praticas o bem.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[31]</span> +<h2><a name="11"></a>Alberto</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus +irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar +árvores e fazer +sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um +único +feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, +e de uma talhada de +batata nascerem quarenta batatas magníficas; sabia que a +terra pagava +com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no +quarto do pai, e foi enterrá-la imediatamente no seu +jardinzinho. «Há-de +nascer uma árvore, dizia ele consigo, que dará +libras como uma +cerejeira dá cerejas, e irei entregá-las ao +papá, que ficará muito +contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha +nascido, mas não +rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte. +Por +fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.<br /> + + +<br /> + + +«Vi papá; achei-a e fui +semeá-la.»<br /> + + +<br /> + + +«Como, semeá-la? doido! julgas talvez que vai +nascer como uma couve?»<br /> + + +<br /> + + +«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na +terra.»<br /> + + +<br /> + + +«É verdade, mas não nasce como uma +semente; o oiro não tem vida.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[32]</span>Desenterrou-se a +libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe +não pertencia.<br /> + + +<br /> + + +Há contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, +fazendo-lhe +produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como +é? É dando-o aos pobres. Faz-se no +Paraíso a colheita dessa sementeira.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[33]</span> +<h2><a name="12"></a>A +canção da cerejeira</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Disse Deus na Primavera: «Ponham a mesa às +lagartas!» E a cerejeira +cobriu-se imediatamente de folhas, milhões de folhas, +fresquinhas e +verdejantes.<br /> + + +<br /> + + +A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, +espreguiçou-se, +abriu a boca, esfregou os olhos e pôs-se a comer +tranquilamente as +folhinhas tenras, dizendo: «Não se pode a gente +despegar delas. Quem é +que me arranjou este banquete?»<br /> + + +<br /> + + +Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa +às abelhas!» E a cerejeira +cobriu-se imediatamente de flores, milhões de flores +delicadas e +brancas.<br /> + + +<br /> + + +E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas, +dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que +chávenas tão bonitas em que o +deitaram!»<br /> + + +<br /> + + +Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! +Não pouparam o +açúcar!»<br /> + + +<br /> + + +No Verão disse Deus: «Ponham a mesa aos +passarinhos!» E a cerejeira +cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[34]</span>«Ah! ah! +exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasião; temos +apetite, +e isto dar-nos-á novas forças para podermos +cantar uma nova canção.» No +Outono disse Deus: «Levantai a mesa, já +estão satisfeitos.» E o vento +frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a +árvore.<br /> + + +<br /> + + +As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caíram uma a +uma, e o +vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, +fazendo-as esvoaçar.<br /> + + +<br /> + + +Chegou o Inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E +os turbilhões dos +ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[35]</span> +<h2><a name="13"></a>Os gigantes da montanha e +os anões da planície</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez uma família de gigantes, que viviam num castelo +na +montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum +álamo. Era curiosa e andava com vontade de descer +à planície a ver o que +faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe +pareciam anões. +Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido à +caça e sua mãe estava +dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os +jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os +lavradores, coisas inteiramente novas para ela. «Oh! que +lindos +brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o +avental, que +quase que cobriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os +cavalos, a +charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo, +onde seu pai estava a jantar.<br /> + + +<br /> + + +―Que trazes aí, minha filha?» perguntou ele.<br /> + + +<br /> + + +―Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos. +São os +mais bonitos que tenho visto.»<br /> + + +<br /> + + +E pô-los em cima da mesa, a um e um,―os cavalos, a charrua e +os +trabalhadores, que estavam <span class="pagenum">[36]</span>todos +espantados, como formigas a quem +tivessem transportado dum formigueiro para um salão. A +gigantinha +pôs-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o +gigante +fez-se sério e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, +disse-lhe ele. Isso +não são brinquedos, mas coisas e pessoas que +devem estimar-se e +respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e +põe-no +imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da +montanha, morreriam de fome, se os anões da +planície deixassem de lavrar +a terra e de semear o trigo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[37]</span> +<h2><a name="14"></a>A criança, a +anjo e flor</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Quando morre uma criança, desce um anjo do céu, +toma-a nos braços, e +desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os +sítios que +ela amara durante a sua pequenina existência; o anjo +abaixa-se de +quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que +floresçam +no paraíso ainda mais belas do que tinham sido na terra. +Deus recebe +todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os lábios, e +a flor +escolhida, adquirindo voz imediatamente, começa a cantar os +coros +maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma +criança morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram +primeiro +sobre a casa em que a criança brincara, e depois sobre +jardins +deliciosos, cobertos de flores.<br /> + + +<br /> + + +«Qual é a flor que desejas para plantar no +paraíso?» perguntou o anjo.<br /> + + +<br /> + + +Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, +magnífica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os +seus ramos cheios de +botõezinhos lindíssimos pendiam estiolados para o +chão.<br /> + + +<br /> + + +«Pobre roseira! disse a criança ao anjo; vamos +buscá-la para que possa +reflorir no paraíso.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[38]</span>O anjo foi +buscá-la, e abraçou a criança. +Colheram muitas flores +brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.<br /> + + +<br /> + + +A colheita estava terminada, e contudo não voavam ainda para +Deus. Caiu +a noite silenciosa, e a criança e o seu guia Divino andavam +ainda por +cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia +de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda +a casta de +imundície. Entre estes destroços distinguiu o +anjo um vaso de flores +com a terra pelo chão, onde pendiam as longas +raízes duma flor dos +campos, já murcha, e que parecia não poder +reverdecer: tinham-na +atirado para a rua como inútil e morta.<br /> + + +<br /> + + +«Vale a pena levantá-la disse o anjo; levemo-la, e +pelo caminho, voando, +te contarei a história da florinha. Lá ao fundo, +lá ao fundo, naquela +rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criança +miserável e +doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear +com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos +dias +de Verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante +meia hora. +Então a criança sentada à janela, +aquecida pelo sol, sem o cansaço do +andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da +fresca +verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o +filho do +vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabeça +o ramo +verdejante, e, supondo-se debaixo das árvores abrigadas do +sol, sonhava +com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe +flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda +raízes; <span class="pagenum">[39]</span>o +pequerrucho plantou-a num vaso, e pô-lo à janela, +junto da +cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, +tornou-se grande, e +todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu +único +tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe +aproveitar os raios do sol até ao último. A flor +aparecia-lhe em +sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e +ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se +voltou.<br /> + + +<br /> + + +«Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no +paraíso; a sua querida +flor, esquecida à janela desde então, murchou, +estiolou-se e +atiraram-na à rua finalmente. E contudo esta flor quase seca +é o +tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os +canteiros dum jardim realengo.»<br /> + + +<br /> + + +«Como sabes tu isso?» perguntou a +criança, que o anjo levava para o céu.<br /> + + +<br /> + + +―Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava +em muletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem +amada!»<br /> + + +<br /> + + +A criança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo +quando entravam +no céu onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas +flores, +levou-as ao coração, mas a que ele beijou foi a +florinha silvestre, +desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente, +pôs-se a cantar +com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe, +formando círculos que vão aumentando +sucessivamente, multiplicando-se +até ao infinito, povoados de <span class="pagenum">[40]</span>seres +inteiramente felizes, cantando todos +harmoniosamente―desde a criança abençoada +até à humilde florinha do +campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e +tortuosa.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[41]</span> +<h2><a name="15"></a>Presente por presente</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite +à choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda +não tinha chegado, foi +a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que +pôde, desculpando-se da miserável hospitalidade +que lhe ia dar, porque +eram batatas cozidas a única coisa que lhe poderia oferecer; +cama não a +tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava +morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que +faisões, +e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de +príncipes. Ao +outro dia pela manhã disse isto mesmo à pobre +mulher, gratificando-a ao +despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha +dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa +camponesa julgou +que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito +para a +trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, +contou-lhe logo o +que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro +examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[42]</span>«Esse +forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso príncipe!<br /> + + +<br /> + + +E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua +alteza ter +achado as suas batatas melhores do que faisões.<br /> + + +<br /> + + +«É necessário confessar, disse ele com +um ar triunfante, que não há +talvez no mundo um terreno mais favorável do que este para a +cultura das +batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, já que as acha +tão boas.<br /> + + +<br /> + + +E partiu imediatamente para o palácio com uma +provisão de batatas +escolhidas.<br /> + + +<br /> + + +Os lacaios e as sentinelas ao princípio não o +queriam deixar entrar; +mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir +nada, e que pelo +contrário vinha trazer alguma coisa.<br /> + + +<br /> + + +Foi, pois, introduzido na sala da audiência.<br /> + + +<br /> + + +«Meu senhor, disse ele ao príncipe: Vossa alteza +dignou-se recentemente +pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de +ouro, em troca +duma enxerga miserável e de um prato de batatas cosidas. Era +pagar +demasiadamente, apesar de serdes um príncipe muito rico e +poderoso. Eis +o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das +batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. +Dignai-vos +aceitá-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso +hospede, lá +as encontrareis sempre ao vosso dispor.»<br /> + + +<br /> + + +A honrada simplicidade do camponês agradou ao +príncipe, e, como estava +num momento de bom humor, fez-lhe doação de uma +quinta com trinta +jeiras de terra.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[43]</span>Ora o carvoeiro +tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que, +sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse consigo: +«Porque não me há +de suceder a mim outro tanto? O príncipe gosta do meu +cavalo, pelo +qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer +presente dele: se deu ao João uma quinta com trinta jeiras +de terra, +simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me +há de +recompensar ainda mais generosamente.»<br /> + + +<br /> + + +Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do +palácio; recomendou ao criado que o segurasse, e, +atravessando com ar +altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiência.<br /> + + +<br /> + + +«Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; +não +tenho querido trocá-lo a dinheiro, mas dignai-vos +permitir-me que vo-lo +ofereça.»<br /> + + +<br /> + + +O príncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria +chegar, e disse +consigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que +mereces:<br /> + + +<br /> + + +Depois dirigindo-se a ele:<br /> + + +<br /> + + +«Aceito a tua dádiva, mas não sei como +agradecer-ta condignamente. Oh! +espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que +faisões. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que +é um bom +preço para um cavalo, que eu poderia ter comprado por +sessenta libras.»<br /> + + +<br /> + + +E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[44]</span> +<h2><a name="16"></a>O pinheiro ambicioso</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua +sorte. «Oh! +dizia ele, como são horrorosas estas linhas uniformes de +agulhas +verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais +orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar +vestido +de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»<br /> + + +<br /> + + +O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela +manhã acordou o +pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, +pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, +mais sensatos do que ele, não invejavam a sua +rápida fortuna. À noite +passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num +saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés +à cabeça.<br /> + + +<br /> + + +«Oh! disse ele, que doido que eu fui! não me tinha +lembrado da cobiça +dos homens. Fiquei completamente despido. Não há +agora em toda a +floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir +folhas de oiro; +o oiro atrai as ambições.<br /> + + +<br /> + + +Ah! se eu arranjasse um vestuário de vidro! Era <span class="pagenum">[45]</span>deslumbrante, e o judeu +avarento não me teria despido.»<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao +sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e +orgulhoso, +fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o céu +cobriu-se de +nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as +folhas de cristal.<br /> + + +<br /> + + +«Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra +todo feito em +pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro +não servem para vestir +as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria +menos brilhante, mas viveria descansado.»<br /> + + +<br /> + + +Cumpriu-se o seu último desejo, e, apesar de ter renunciado +às vaidades +primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os +outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho +de cabras, e +vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas +todas sem deixar uma única.<br /> + + +<br /> + + +O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria +voltar à sua +forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da +sua sorte.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[46]</span> +<h2><a name="17"></a>Perfeição +das obras de Deus</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Vou-te dar outra.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Como se fazem as agulhas, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Vê se adivinhas.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Não sei, mamã.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Conheces os metais?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Conheço mamã; tenho +lá dentro muitos bocadinhos dentro de +uma caixa.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Ora muito bem, diz-me +lá, as agulhas são de pau, de pedra, de +mármore?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Oh! não; são de +metal; mas de que metal?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Antes de perguntar qualquer coisa, +vê sempre se a adivinhas +primeiro.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Ora espere!... uma agulha é de +metal: não é de prata, porque +não é branca; não é de +oiro, porque não é de um lindo amarelo muito +brilhante; não é de cobre, porque não +é de um amarelo muito feio, que +cheira mal... Então é de ferro, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Adivinhaste.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Mas, mamã, o ferro +não é liso e brilhante como as agulhas.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[47]</span><i>A +mãe.</i>―É que é primeiro polido +e preparado de certo modo, e depois já +se não chama ferro, é aço.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Bem, as agulhas são de +aço. Agora quero adivinhar como é que +as fazem.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―É +impossível, não és capaz disso; mas +hei de levar-te a uma +fábrica onde se fazem agulhas. Hás-de +vê-las fazer, e hás-de gostar +muito.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Tinha vontade de saber como se fazem todas +as coisas de que +nos servimos.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Tens razão; +é uma vergonha ignorá-lo.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Mamã, deixe-me ver as suas +agulhas.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Olha, aí tens o meu +estojo.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que +lindas! São tão +fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade há-de +ser necessária para +fazer uma coisinha tão delicada!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Lembras-te de ver na feira um +carrinho de marfim puxado por +uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Lembro, mamã; era tão +bonito!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Li num jornal alemão +que um operário chamado Nerlinger fez +um copo de um grão de pimenta, e que dentro deste copo havia +mais +doze...<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Que pequeninos deviam ser os doze copos +para caberem num +grão de pimenta!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―E ainda não +é tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas +doiradas, e sustentava-se no pé.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Que vontade eu tinha de ver isso!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Tens razão de te +admirares da habilidade dos homens. É +efectivamente espantoso, e <span class="pagenum">[48]</span>deve +saber-se, o modo porque se fabricam +certas coisas; contudo ainda há outras obras mais dignas de +admiração.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Quais, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Já to digo. (<i>Levanta-se.</i>)<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Que quer, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Quero que vejas o +microscópio de teu papá.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Pois sim; eu gosto de olhar pelo +microscópio.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Este é +magnífico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais +ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como +é fina, +lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Meu Deus, que coisa tão feia! +Que agulha tão grosseira!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Vês-lhe buracos, riscos, +asperezas, não é verdade?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Parece um prego muito grande e muito mal +feito.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Pois todas essas +imperfeições são verdadeiras, existem +na +agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que +não dá por elas.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―O operário que fez esta agulha +ficaria envergonhado, se a +visse ao microscópio.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Tiremos a agulha, e vejamos outra +coisa.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―O quê, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―O aguilhãozinho de uma +abelha.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Oh! que pequenino, que bonito!... Como +é liso, como é +brilhante!... Mas já sei que visto ao microscópio +há de acontecer o +mesmo que com a agulha.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[49]</span><i>A +mãe.</i>―Pronto: olha.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha</i> (olhando).―É esquisito, +mamã!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Então?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Aumentou, aumentou como a agulha, mas +não é áspero, pelo +contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que +não tinha ponta, +e o ferrãozinho da abelha tem uma ponta tão fina +como um cabelo. Porque +será isto, mamã?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―É porque o +operário que fez este aguilhão é muito +mais hábil +do que o que fez a agulha.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Quem é esse operário +tão hábil?<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―É o mesmo que fez o +céu, os astros, a terra, as plantas e as +criaturas.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―É Deus.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Exactamente. Pois não +é Deus que fez as abelhas e todos os +animais?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―De certo.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Foi ele por conseguinte que fez o +aguilhão desta abelha; e +aí tens porque o aguilhão é superior +à agulha: é obra de Deus. Mas +continuemos a olhar pelo microscópio. Aqui está +um pedacinho de +musselina finíssima. Olha pelo microscópio; o que +é que vês?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal +feita.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Aqui tens agora um pedacinho de +renda delicadíssima.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Essa estou bem certa que há de +ser linda, mesmo vista pelo +microscópio.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Então?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―É horrorosa... Parece feita de +pelos grosseiros com grandes +buracos desiguais.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―As obras do homem são +todas assim.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[50]</span><i>A filha.</i>―Oh! +mamã, vejamos agora as obras de Deus.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Sabes o que é isto?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Sei, mamã, é um +casulo de bicho de seda.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Os fiozinhos que o +compõem são muito finos, muito lisos; olha +pelo microscópio a ver se te parecem desiguais.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha</i> (olhando pelo +microscópio).―Não, mamã; os fios +são todos +iguais, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―É porque é +obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que há +sobre este papel?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas +redondas feitas +também com tinta.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Estes pontinhos e estas manchas +parecem-te perfeitamente +redondos?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Sim, mamã, perfeitamente +redondos.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Vê-os agora ao +microscópio.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Oh! já não +são redondos, são todos desiguais.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Tira o papel; vejamos a obra de +Deus. É uma asa de borboleta; +vês que está mosqueada de pequeninas manchas +redondas; olha pelo +microscópio; o que é que vês?<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, +só com a diferença +que agora é maior. Que belas que são as obras de +Deus!<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―Merece bem a pena +estudá-las.<br /> + + +<br /> + + +<i>A filha.</i>―De certo. Farei sempre por isso, +comparando-as com as obras +dos homens.<br /> + + +<br /> + + +<i>A mãe.</i>―E sempre e em tudo +hás-de encontrar defeitos nas obras do +homem, enquanto que <span class="pagenum">[51]</span>as +obras de Deus, quanto mais se observam, mais +perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a +primeira é que Deus merece tanto a nossa +admiração como o nosso amor; a +segunda é que os homens orgulhosos são +insensatos, porque não podem +fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras +mais primorosas são cheias de +imperfeições, se as compararmos com as +obras do Criador.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[52]</span> +<h2><a name="18"></a>João e os seus +camaradas</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez uma viúva com um filho único. Ao cabo +dum Inverno rigoroso, +possuía apenas um galo, e meio alqueire de farinha. +João resolveu-se a +correr mundo, à busca de fortuna. A mãe cozeu o +resto da farinha, matou +o galo, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +«O que é que preferes: metade desta merenda com a +minha bênção, ou toda +com a minha maldição?»<br /> + + +<br /> + + +«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros +há no +mundo eu quereria a tua maldição.»<br /> + + +<br /> + + +«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. +Leva tudo, e Deus te +abençoe.»<br /> + + +<br /> + + +E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um +jumento, que tinha +caído num atoleiro, donde não podia sair.<br /> + + +<br /> + + +«Oh! João, exclamou o burro, tira-me daqui, que +estou quase a +afogar-me.»<br /> + + +<br /> + + +«Espera, respondeu João.»<br /> + + +<br /> + + +E, formando uma ponte com pedras e ramos de árvores, +conseguiu tirar o +quadrúpede do atoleiro.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[53]</span>«Obrigado, +disse-lhe ele, aproximando-se de João. Se te posso ser +útil, +aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?»<br /> + + +<br /> + + +―«Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha +vida.»<br /> + + +<br /> + + +«Queres tu que eu te acompanhe?<br /> + + +<br /> + + +«Anda daí.»<br /> + + +<br /> + + +E puseram-se a caminho.<br /> + + +<br /> + + +Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos +rapazes da +escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre +animal correu para João que o acariciou, e o jumento +pôs-se a ornear de +tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.<br /> + + +<br /> + + +«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma +coisa te for +prestável, aqui me tens às tuas ordens. Aonde +vais tu?»<br /> + + +<br /> + + +«Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha +vida.»<br /> + + +<br /> + + +«Queres que te acompanhe?»<br /> + + +<br /> + + +«Anda daí.»<br /> + + +<br /> + + +Quando saíram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno +tirou a +merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou +alguma erva +que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar +lastimosamente.<br /> + + +<br /> + + +Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do +frango.<br /> + + +<br /> + + +―«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te +possa ser útil. Aonde +vais tu?<br /> + + +<br /> + + +―«Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.»<br /> + + +<br /> + + +―De boa vontade.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[54]</span>Os quatro viajantes +puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um +grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um +galo na boca.<br /> + + +<br /> + + +«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao +cão.<br /> + + +<br /> + + +E no mesmo instante o cão atirou-se atrás da +raposa, que, vendo-se em +perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente +disse a João:<br /> + + +<br /> + + +―«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde +vais tu?»<br /> + + +<br /> + + +―Arranjar trabalho. Queres vir connosco?<br /> + + +<br /> + + +―«De boa vontade.»<br /> + + +<br /> + + +―Então anda. Se te cansares, empoleira-te no +jumento.»<br /> + + +<br /> + + +Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro. +Sentiram-se todos fatigados e não avistavam à +roda nem uma quinta, nem +uma cabana.<br /> + + +<br /> + + +―«Paciência, disse João, outra vez +seremos mais felizes. Resignemo-nos +hoje a dormir ao ar livre; além disso a noite +está sossegada, e a relva +é macia.»<br /> + + +<br /> + + +Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado +dele, o cão +e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo +empoleirou-se numa árvore.<br /> + + +<br /> + + +Dormiam todos um sono profundíssimo, quando de repente o +galo começou +a cantar.<br /> + + +<br /> + + +―«Que demónio! disse o jumento acordando todo +zangado. Porque é que +estás a gritar?»<br /> + + +<br /> + + +―«Porque já é dia, respondeu o galo. +Não vês ao longe a luz da +madrugada, que vem rompendo?»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[55]</span>―«Vejo +uma luz, disse João, mas não é do sol, +é duma lanterna. +Provavelmente há ali alguma casa, onde nos +poderíamos recolher o resto +da noite.»<br /> + + +<br /> + + +Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, +através +dos campos, até que parou junto da casa do guarda dum grande +castelo, +donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e +blasfémias horríveis.<br /> + + +<br /> + + +―Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, +a ver quem +é que está lá dentro.»<br /> + + +<br /> + + +Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhais, que se +banqueteavam +alegremente, sentados a uma mesa principesca.<br /> + + +<br /> + + +―«Que bom assalto acabámos de dar, disse um deles, +ao castelo do +conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que +é este +porteiro. À sua saúde!»<br /> + + +<br /> + + +―«À saúde do nosso amigo!» +repetiram em coro todos os ladrões.<br /> + + +<br /> + + +E dum trago despejaram os copos.<br /> + + +<br /> + + +João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz +baixa:<br /> + + +<br /> + + +―«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que +vos der +sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria +diabólica.»<br /> + + +<br /> + + +O burro, levantando-se nas patas traseiras, lançou as +mãos ao peitoril +duma janela, o cão trepou-lhe à +cabeça, o gato à cabeça do +cão e o +galo à cabeça do gato. João deu o +sinal, e estoirou à uma o ornear do +jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos +estridentes do +galo.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p56">[56]</a></span>―«Agora, +bradou João, fingindo que comandava um destacamento, +carregar +armas! Dai-me cabo dos ladrões; fogo!»<br /> + + +<br /> + + +No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando +cada vez mais; os ladrões atemorizados refugiaram-se no +bosque, saindo +precipitadamente por uma porta falsa.<br /> + + +<br /> + + +João e os seus companheiros penetraram na sala abandonada, +comeram um +excelente jantar, e deitaram-se em seguida―João numa cama, o +burro na +cavalariça, o cão numa esteira ao pé +da porta, o gato junto do fogão e +o galo num poleiro.<br /> + + +<br /> + + +Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se +verem sãos e +salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.<br /> + + +<br /> + + +―«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva +tão húmida, disse um +deles.»<br /> + + +<br /> + + +―«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, +disse um outro.»<br /> + + +<br /> + + +―«E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.»<br /> + + +<br /> + + +―«E o que é mais lamentável, exclamou +um quarto, é ficar-nos lá todo o +dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tínhamos +tirado das +gavetas.»<br /> + + +<br /> + + +―Vou ver se torno lá a <a href="#e1">entrar!</a> +disse o capitão.<br /> + + +<br /> + + +―Bravo! exclamaram os ladrões.<br /> + + +<br /> + + +E pôs-se a caminho.<br /> + + +<br /> + + +Já não havia luz na casa; o capitão +entrou às apalpadelas, e dirigiu-se +para o fogão; o gato saltou-lhe à cara e +esfarrapou-lha com as garras. +<span class="pagenum">[57]</span>Soltou um grito +doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o +rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, +e conseguiu +por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo +atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas.<br /> + + +<br /> + + +―Anda o diabo nesta casa! exclamou o capitão, como poderei +eu sair!»<br /> + + +<br /> + + +Julgou encontrar refúgio na estrebaria; mas o burro +atirou-lhe uma +parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do chão.<br /> + + +<br /> + + +Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que não +tinha nem +pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a +floresta.<br /> + + +<br /> + + +―Então? então?―perguntaram-lhe os camaradas assim +que o viram.<br /> + + +<br /> + + +―Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para +me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr neste +corpo, que o trago +num feixe. Não podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui +assaltado +por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara +com o +sedeiro, deixando-me neste miserável estado. Quando ia a +sair a porta, +um demónio dum remendão atravessou-me as pernas +com a sovela. Logo +depois Satanás em pessoa atirou-se a mim, +despedaçando-me com as garras. +Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se +vocês me não +acreditam, vão lá, e experimentem.»<br /> + + +<br /> + + +―Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo +ensanguentado: Não seremos nós que lá +tornaremos.»<br /> + + +<br /> + + +Pela manhã, João e os seus camaradas +almoçaram <span class="pagenum"><a name="p58">[58]</a></span>ainda excelentemente, +e +partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os +ladrões +lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos, +com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que +chegaram à +porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com +uma libré esplêndida, meias de seda, +calções escarlates e cabelo +empoado.<br /> + + +<br /> + + +Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a <a href="#e2">João:</a><br /> + + +<br /> + + +―Que vindes aqui buscar? Não há lugar para os +recolher, vão-se <a href="#e3">embora.</a>»<br /> + + +<br /> + + +―Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono +do castelo far-nos-á +um bom acolhimento.<br /> + + +<br /> + + +―Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a +andar imediatamente, quando não atiro-lhes já +às pernas os meus cães de +fila.»<br /> + + +<br /> + + +―Perdão, só um instante, replicou o galo +empoleirado na cabeça do +jumento; não me poderias dizer quem é que abriu +aos ladrões na noite +passada a porta do castelo?»<br /> + + +<br /> + + +O porteiro corou. O conde que estava à janela, disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Ó Bernabé, responde ao que esse galo te acaba de +perguntar.<br /> + + +<br /> + + +―Senhor, replicou Bernabé, este galo é um +miserável. Não fui eu que +abri a porta aos seis ladrões.<br /> + + +<br /> + + +―Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que +tu sabes que eram seis?<br /> + + +<br /> + + +Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o <span class="pagenum">[59]</span>dinheiro roubado, +pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha +esta noite, +porque vimos cansados do caminho.<br /> + + +<br /> + + +―Ficai certos que sereis bem tratados.<br /> + + +<br /> + + +O burro, o cão e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato +ficou na +cozinha. E enquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o +dos pés à +cabeça com um vestuário magnífico, +deu-lhe um relógio de ouro, e +disse-lhe:<br /> + + +―Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás +o meu intendente.»<br /> + + +<br /> + + +João aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha +mãe para o pé de si. +Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre +felicíssimo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[60]</span> +<h2><a name="19"></a>O rabequista</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma +igreja magnífica a Santa Cecília, padroeira dos +músicos.<br /> + + +<br /> + + +As rosas mais vermelhas e os lírios mais cândidos +enfeitavam o altar. O +vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de +oiro, +feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava +constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá +em romaria +um pobre rabequista, pálido, magro, escaveirado. Como a +jornada tinha +sido muito longa, estava cansado, e já no seu alforge +não havia pão nem +dinheiro no bolso para o comprar.<br /> + + +<br /> + + +Assim que entrou na capela, começou a tocar na sua rabeca +com tal +suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou +enternecida ao vê-lo +tão pobre e ao escutar aquela música deliciosa. +Quando terminou, Santa +Cecília abaixou-se, descalçou um dos seus ricos +sapatos de ouro, e deu-o +ao pobre músico, que tonto de alegria, dançando, +cantando, chorando, +correu à loja dum ourives para lho vender. O ourives, +reconhecendo o +sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o à +presença <span class="pagenum">[61]</span>do +juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado +à morte.<br /> + + +<br /> + + +Chegara o dia da execução. Os sinos dobravam +lastimosamente, e o cortejo +pôs-se em marcha ao som dos cânticos dos frades, +que ainda assim não +chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como +última graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca +até ao último momento. +O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam +suplicou o triste desgraçado, que o levassem lá +dentro para tocar a sua +derradeira melodia.<br /> + + +<br /> + + +Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou, +ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em +lágrimas começou a tocar. +Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa +Cecília curvar-se de +novo, descalçar o outro sapato e metê-lo nas +mãos do infeliz músico. À +vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o +rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente +prestar-lhe as mais honrosas homenagens.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[62]</span> +<h2><a name="20"></a>Os pêssegos</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco +pêssegos +magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes +frutos, +extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria. +À +noite o pai perguntou-lhes:<br /> + + +<br /> + + +―Então comeram os pêssegos?<br /> + + +<br /> + + +―Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o +caroço, e +hei-de plantá-lo para nascer uma +árvore.»<br /> + + +<br /> + + +―Fizeste bem, respondeu o pai, é bom ser +económico e pensar no futuro.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu, disse o mais novo, o meu pêssego comi-o logo, e a +mamã ainda me deu +metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.»<br /> + + +<br /> + + +―Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade +não admira; +espero que quando fores maior te hás-de corrigir.»<br /> + + +<br /> + + +―Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço +que o meu irmão deitou +fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. +Vendi +o meu pêssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando +for à +cidade.»<br /> + + +<br /> + + +O pai meneou a cabeça:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[63]</span>―Foi uma ideia +engenhosa, mas eu preferia menos cálculo.<br /> + + +<br /> + + +―E tu, Eduardo, provaste o teu pêssego?<br /> + + +<br /> + + +―Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho, +ao Jorge, que está coitadinho com febre. Ele não +o queria, mas +deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.<br /> + + +<br /> + + +―Ora bem, perguntou o pai, qual de vós é que +empregou melhor o pêssego +que eu lhe dei?<br /> + + +<br /> + + +E os três pequenos disseram à uma:<br /> + + +<br /> + + +―Foi o mano Eduardo.<br /> + + +<br /> + + +Este no entanto não dizia palavra, e a mãe +abraçou-o com os olhos +arrasados de lágrimas.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[64]</span> +<h2><a name="21"></a>A urna das +lágrimas</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez uma viúva, que tinha uma filhinha muito linda, a +quem +adorava sobre todas as coisas. Não se separava dela um +só momento; mas +um dia a pobre pequerrucha começou a sofrer, adoeceu e +morreu. A +desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem +repousar um +momento, à cabeceira da filha, julgou endoidecer de +mágoa e de saudades. +Não comia, não fazia senão chorar e +lamentar-se. Uma noite em que estava +acabrunhada, chorando no mesmo sítio em que a filha tinha +morrido, +abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua +querida filha, sorrindo com uma expressão +angélica e trazendo nas mãos +uma urna, que vinha cheia até às bordas.<br /> + + +<br /> + + +―«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ela, +não chores mais. Olha, o anjo +das lágrimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais, +transbordará, e as tuas lágrimas +correrão sobre mim, inquietando-me no +túmulo e perturbando a minha felicidade no +paraíso.<br /> + + +<br /> + + +A pequenina desapareceu, e a mãe não tornou a +chorar para a não +afligir.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[65]</span> +<h2><a name="22"></a>Reconhecimento e +ingratidão</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Os vossos filhos serão para vós como +vós tiverdes sido para vossos pais. +E é natural. As crianças vêem +diariamente o que fazem seus pais, e +imitam-nos. Justifica-se desta maneira o provérbio que +diz,―que a +bênção ou a +maldição dum pai cai sobre a cabeça de +seus filhos, +terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem +ser meditados.<br /> + + +<br /> + + +Um príncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que +andava muito +satisfeito, a lavrar a terra. Pôs-se a conversar com ele. +Depois +de algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao +homem, mas que +trabalhava nele mediante um salário de doze +vinténs por dia. O +príncipe, que para as suas despesas de +administração e +representação +necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, +como se vivia com doze vinténs diários, +andando-se ainda por cima +satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe +respondeu:<br /> + + +<br /> + + +«Gasto diariamente comigo a terça parte dessa +quantia; outro terço é +para pagar as minhas dividas; <span class="pagenum">[66]</span>e +o resto é para ir juntando algumas +economias.»<br /> + + +<br /> + + +Era um novo enigma para o príncipe. Mas o alegre +camponês explicou-lho +deste modo.<br /> + + +<br /> + + +«Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que +já não podem +trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não têm +força para isso. Aos +primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha +infância; e espero que os segundos não me +abandonem, quando os anos +tiverem pesado sobre mim.»<br /> + + +<br /> + + +O príncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado +camponês; encarregou-se +da educação de seus filhos; e a +bênção que lhe deram os seus velhos +pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando +igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna +dedicação.<br /> + + +<br /> + + +Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que +procedeu duma +maneira tão indigna com seu velho pai doente e aleijado, que +este teve +de pedir que o levassem para o hospital da misericórdia. O +filho ingrato +recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde +foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse +muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como +última +esmola, um par de lençóis, para cobrir a palha +que lhe servia de leito. +O mau filho escolheu os lençóis mais usados, e +disse ao seu pequeno, de +dez anos de idade, que os fosse levar <i>a esse velho rabujento</i>. +Mas +notou que a criança ao partir tinha escondido um dos +lençóis a um canto, +atrás da porta.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[67]</span>Quando voltou +perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo.<br /> + + +<br /> + + +«Foi, respondeu a criança desabridamente, para me +servir mais tarde +deste lençol, quando pela minha vez te mandar +também para o hospital.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[68]</span> +<h2><a name="23"></a>O fato novo do +sultão</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário +todo o seu rendimento.<br /> + + +<br /> + + +Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao +teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus +fatos novos. Mudava +de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Está +no conselho; +dizia-se dele: Está-se a vestir. A capital do seu reino era +uma cidade +muito alegre, graças à quantidade de estrangeiros +que por ali passavam; +mas chegaram lá um dia dois larápios, que, +dando-se por tecelões, +disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. +Não +só eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, +mas além +disso os vestuários feitos com esse estofo, +possuíam uma qualidade +maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para +todos +aqueles que não exercessem bem o seu emprego.<br /> + + +<br /> + + +―São vestuários impagáveis, disse +consigo o sultão; graças a eles, +saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade +dos ministros. Preciso desse estofo!»<br /> + + +<br /> + + +E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães <span class="pagenum">[69]</span>uma quantia avultada, +para que pudessem começar os trabalhos imediatamente.<br /> + + +<br /> + + +Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que +trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas +lançadeiras. +Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo +isso +muito bem guardado, trabalhando até à meia noite +com os teares vazios.<br /> + + +<br /> + + +―«Preciso saber se a obra vai adiantada».<br /> + + +<br /> + + +Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser +visto pelos +idiotas. E, apesar de ter confiança na sua +inteligência, achou prudente +em todo o caso mandar alguém adiante.<br /> + + +<br /> + + +Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do +estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.<br /> + + +<br /> + + +―Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o +sultão; tem um +grande talento, e por isso ninguém pode melhor do que ele +avaliar o +estofo.<br /> + + +<br /> + + +O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam +com os teares vazios.<br /> + + +<br /> + + +―Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, não vejo +absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois +tecelões +convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião +sobre os +desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, +olhava, mas não via nada, pela razão +simplicíssima de nada lá existir.<br /> + + +<br /> + + +―Meu Deus! pensou ele, serei realmente estúpido? +É necessário que +ninguém o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas +lá +confessar que não vejo nada, isso é que eu +não confesso.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[70]</span>«Então +que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:<br /> + + +<br /> + + +―«Encantador, admirável! respondeu o ministro, +pondo os óculos. Este +desenho... estas cores... magnífico!... Direi ao +sultão que fiquei +completamente satisfeito.»<br /> + + +<br /> + + +―«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os +tecelões; e +mostraram-lhe cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe +deles uma +descrição minuciosa. O ministro ouviu +atentamente, para ir depois +repetir tudo ao sultão.<br /> + + +<br /> + + +Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; +precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no +bolso, é claro; o tear continuava vazio, e apesar disso +trabalhavam +sempre.<br /> + + +<br /> + + +Passado algum tempo, mandou o sultão um novo +funcionário, homem +honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a +este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e +não +via nada.<br /> + + +<br /> + + +―Não acha um tecido admirável?» +perguntaram os tratantes, mostrando o +magnífico desenho e as belas cores, que tinham apenas o +inconveniente +de não existir.<br /> + + +<br /> + + +―Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois +não serei +eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! mas +deixá-lo, não o +deixo eu.»<br /> + + +<br /> + + +Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua +admiração pelo +desenho e o bem combinado das cores.<br /> + + +<br /> + + +―É duma magnificência incomparável, +disse <span class="pagenum">[71]</span>ele ao +sultão. E toda a +cidade começou a falar desse tecido +extraordinário.<br /> + + +<br /> + + +Enfim o próprio sultão quis vê-lo +enquanto estava no tear. Com um grande +acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois +honrados funcionários, dirigiu-se para as oficinas, em que +os dois +velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem +de +espécie alguma.<br /> + + +<br /> + + +―Não acha magnífico? disseram os dois honrados +funcionários. O desenho +e as cores são dignos de vossa alteza.»<br /> + + +<br /> + + +E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali +estavam +pudessem ver alguma coisa.<br /> + + +<br /> + + +―Que é isto! disse consigo mesmo o sultão, +não vejo nada! É horrível! +serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que +desgraça que me +acontece!» Depois de repente exclamou: +«É magnífico! Testemunho-vos a +minha satisfação.»<br /> + + +<br /> + + +E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, +sem se +atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu +séquito olharam do +mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem ver coisa alguma, +e no entanto +repetiam como o sultão: «É +magnífico!» Até lhe aconselharam a que +se +apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. +«É magnífico! é +encantador! é admirável!» exclamavam +todas as bocas, e a satisfação era +geral.<br /> + + +<br /> + + +Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos +tecelões.<br /> + + +<br /> + + +Na véspera do dia da procissão passaram a noite +em claro, trabalhando à +luz de dezasseis velas. <span class="pagenum">[72]</span>Finalmente +fingiram tirar o estofo do tear, +cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem +fio, +e declararam, depois disto, que estava o vestuário +concluído.<br /> + + +<br /> + + +O sultão com os seus ajudantes de campo foi +examiná-lo, e os impostores +levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, +disseram:<br /> + + +<br /> + + +«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve +como uma teia de aranha; +é a principal virtude deste tecido.»<br /> + + +<br /> + + +―Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.<br /> + + +<br /> + + +―Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os +larápios, +provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.»<br /> + + +<br /> + + +O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe +as calças, +depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se +defronte do +espelho.<br /> + + +<br /> + + +―Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os +cortesãos. +Que desenho! que cores! que vestuário +incomparável!»<br /> + + +<br /> + + +Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias.<br /> + + +<br /> + + +―Está à porta o dossel sobre que vossa alteza +deve assistir à procissão, +disse ele.»<br /> + + +<br /> + + +―Bom! estou pronto, respondeu o sultão. Parece-me que +não vou mal.»<br /> + + +<br /> + + +E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do +seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, +não +querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam +arregaçá-la.<br /> + + +<br /> + + +E, enquanto o sultão caminhava altivo sob um <span class="pagenum">[73]</span>dossel deslumbrante, toda a +gente na rua e às janelas exclamava: «Que +vestuário magnífico! Que +cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» +Ninguém queria dar a perceber, +que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se +era tolo. +Nunca os fatos do sultão tinham sido tão +admirados.<br /> + + +<br /> + + +―Mas parece que vai em cuecas», observou um pequerrucho, ao +colo do +pai.<br /> + + +<br /> + + +―É a voz da inocência, disse o pai.<br /> + + +<br /> + + +―Há ali uma criança que diz que o +sultão vai em cuecas.<br /> + + +<br /> + + +«Vai em cuecas! vai em cuecas!» exclamou o povo +finalmente.<br /> + + +<br /> + + +O sultão ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente +era +verdade. Entretanto tomou a enérgica +resolução de ir até ao fim, e os +camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda +imaginária.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[74]</span> +<h2><a name="24"></a>Boa sentença</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma +quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil +réis +de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em +casa um honrado +camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, +e disse:<br /> + + +<br /> + + +―Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu +perdi; no +alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste +adiantados os cem mil réis de alvíssaras: estamos +pagos por conseguinte.»<br /> + + +<br /> + + +O bom camponês, que nem por sombras tocara no dinheiro, +não podia nem +devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o +juiz, +que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte +sentença:<br /> + + +<br /> + + +―Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro +encontrou um alforge +apenas com setecentos: Resulta daí claramente que o dinheiro +que o +último encontrou não pode ser o mesmo a que o +primeiro se julga com +direito. Por consequência tu, meu bom homem, leva o dinheiro +que +encontraste, <span class="pagenum">[75]</span>e +guarda-o até que apareça o indivíduo +que perdeu somente +setecentos mil réis. E tu, o único conselho que +passo a dar-te, é que +tenhas paciência até que apareça +alguém que tenha achado os teus +oitocentos mil réis.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[76]</span> +<h2><a name="25"></a>Os animais agradecidos</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem +perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este +respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―«Senhor: eu sou um desgraçado, um +miserável; nasci no vosso reino, e +chamo-me <i>Ingratidão</i>.»<br /> + + +<br /> + + +―«Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, +tomava-te ao meu +serviço.»<br /> + + +<br /> + + +O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. +Desde que chegaram a palácio, deu tais provas de habilidade, +mostrou-se +tão esperto e tão solícito, que o rei +afeiçoou-se-lhe de tal modo, que +o nomeou seu intendente, confiando-lhe a +administração da sua casa. +Deslumbrado por uma fortuna tão rápida, o seu +orgulho desde então não +conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha +compaixão dos +desventurados.<br /> + + +<br /> + + +Ora, na vizinhança do palácio havia uma floresta +cheia de animais +selvagens e perigosíssimos. O intendente mandou +aí fazer por toda a +parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, +caindo +dentro, pudessem ser agarradas. <span class="pagenum">[77]</span>Um +dia que o intendente atravessava a +floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos +orgulhosos, que se +precipitou ele mesmo dentro duma das covas.<br /> + + +<br /> + + +Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo +poço; caiu depois um +lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O +governador, ao ver-se em tão extraordinária +companhia, ficou tão +horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a +esperança de +salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque +por mais que gritasse, +ninguém o vinha socorrer.<br /> + + +<br /> + + +Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, +chamado António, que todos os dias ia rachar lenha +à floresta, para +ganhar o pão necessário à sua mulher e +aos seus filhos. António também +lá foi nesse dia, como de costume, e pôs-se a +trabalhar não longe da +cova em que caíra o intendente, cujos gritos de +aflição não tardou a +ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava +ali.<br /> + + +<br /> + + +―«Sou o governador do palácio do rei, e, se me +tirares daqui, prometo +encher-te de riquezas; estou em companhia dum leão, dum lobo +e duma +enorme serpente.»<br /> + + +<br /> + + +―«Eu, respondeu o lenhador, sou um miserável +jornaleiro, não tendo para +sustentar a minha família, mais que o produto do meu +trabalho; bastava +um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê +lá pois, se +cumpres a tua promessa?<br /> + + +<br /> + + +O intendente continuou:<br /> + + +<br /> + + +―«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, +<span class="pagenum">[78]</span>juro-te que +cumprirei a minha palavra.»<br /> + + +<br /> + + +Confiado nisto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou +com uma corda +muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O leão +atirou-se a +ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era +o intendente.<br /> + + +<br /> + + +Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a +maior +amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque +tinha fome.<br /> + + +<br /> + + +António deitou outra vez a corda ao fundo do +poço, e, julgando tirar o +governador, enganou-se, porque era o lobo; à terceira vez +subiu a +serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para +sair o +governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e +partiu a correr +para o palácio. O jornaleiro voltou para casa, e contou +à mulher tudo o +que se tinha passado, não lhe esquecendo, é +claro, as brilhantes +promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, +foi o pobre +homem bater à porta do palácio. O porteiro +perguntou-lhe o que queria.<br /> + + +<br /> + + +―«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a +s.ex.ª o intendente +que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja +falar.»<br /> + + +<br /> + + +O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:<br /> + + +<br /> + + +―«Vai dizer a esse homem, que eu não vi +ninguém na floresta; que se +ponha a andar, porque o não conheço.»<br /> + + +<br /> + + +O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.<br /> + + +<br /> + + +O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, <span class="pagenum">[79]</span>e contou à +mulher a +odiosa perfídia de que tinha sido vitima.<br /> + + +<br /> + + +A mulher disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―«Tem paciência; o sr. intendente estava hoje +decerto muito ocupado, e +foi talvez por isso que te não pôde +receber.»<br /> + + +<br /> + + +Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu +esperanças.<br /> + + +<br /> + + +Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo +à porta do palácio. +Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos ásperos, que +não tornasse +ali a aparecer, quando não ver-se-ia obrigado a empregar +meios +violentos. A mulher ainda desta vez procurou consolá-lo:<br /> + + +<br /> + + +―«Experimenta terceira e última vez, disse-lhe +ela, talvez Deus o +inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, +não penses mais +nisso.»<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte o bom do homem voltou à carga; e tendo o +porteiro +consentido à força de suplicas em +anunciá-lo ainda ao governador, este +encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre +homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do +chão. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com +um +burro, pôs-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As +feridas +levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se +obrigado a contrair dividas para pagar ao médico. Quando +finalmente +tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o +costume para +fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, apareceu-lhe o +leão, que ele +tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um +burro diante de si, e +<span class="pagenum">[80]</span>este burro estava +carregado de sacos cheios de preciosidades. O leão, +vendo António, parou e inclinou-se diante dele com um ar de +respeitoso +agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal +de que ficasse com o jumento. António doido de alegria levou +o animal +para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte, voltando de novo à floresta, apareceu-lhe o +lobo, que +o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto +lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluída, e +tinha carregado +o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha +tirado do fôjo, e que trazia na ponta da língua +uma pedra preciosa, em +que brilhavam três cores,―o branco, o preto e o vermelho. +Quando a +serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a +pedra junto +dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal. +António +levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que +propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho, +afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este, +assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia. +António respondeu-lhe que a não queria vender, +mas simplesmente saber se +seria boa.<br /> + + +<br /> + + +O velho respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―«São três as virtudes desta pedra: +abundância contínua, alegria +imperturbável e luz sem trevas. Se alguém ta +comprar por menos dinheiro +do que vale, tornará imediatamente para a tua +mão.»<br /> + + +<br /> + + +António ficou muito contente com esta resposta, <span class="pagenum">[81]</span>agradeceu ao velho da +ciência maravilhosa, e correu a contar à mulher a +sua felicidade. Como +se imagina, graças à virtude da famosa pedra, +não lhe faltaram daí em +diante, nem honras nem riquezas.<br /> + + +<br /> + + +Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou +chamar António, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso +talismã.<br /> + + +<br /> + + +António, vendo que semelhante desejo era uma ordem, +respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―«Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me +não for paga +pelo que vale, tornará ela mesma para o meu poder.»<br /> + + +<br /> + + +―«Hei de pagar-ta bem, disse o rei.»<br /> + + +<br /> + + +E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de +manhã, +António achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher +sabendo isto +disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―«Torna a levá-la ao rei imediatamente; +não vá ele persuadir-se que +lha furtaste.»<br /> + + +<br /> + + +O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou à +presença de sua +majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra +preciosa.<br /> + + +<br /> + + +―«Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de +ferro, +fechado com sete chaves, disse o rei.»<br /> + + +<br /> + + +António mostrou-lhe então a jóia +preciosa, e o rei ficou +extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido +semelhante tesouro.<br /> + + +<br /> + + +António contou-lhe tudo que tinha havido, a +ingratidão do governador e o +reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o +seu +intendente, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[82]</span>―«Homem +perverso, com justo motivo te puseram o nome de <i>Ingratidão</i>, +porque és mais falso e mais pérfido que os +animais ferozes, e pagaste +com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será +feita. Dou a António as +tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres +enforcado.»<br /> + + +<br /> + + +Admiraram todos a sentença do rei, e António +desempenhou as suas altas +funções com tanta sabedoria e bondade, que depois +da morte do rei foi +escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos +gloriosos.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[83]</span> +<h2><a name="26"></a>O ermitão</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, +deliberou +retirar-se a uma gruta solitária para se consagrar +inteiramente ao +trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, +orando, ciliciando-se, os +seus pensamentos não se desviavam nunca da ideia de Deus. +Depois de ter +assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que +já tinha +merecido um lugar glorioso no paraíso, e podia ser contado +entre os +santos mais notáveis.<br /> + + +<br /> + + +Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Há no mundo um pobre músico, que anda de porta +em porta, tocando viola +e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.<br /> + + +<br /> + + +O ermitão, atónito, ao ouvir estas palavras, +levantou-se, agarrou no +seu bordão, foi em busca do músico e mal o +encontrou disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Irmão, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que +orações e +penitências te tornaste agradável a Deus.<br /> + + +<br /> + + +―Ora, respondeu-lhe o músico, abaixando a cabeça, +santo padre, não +zombes de mim. Nunca fiz <span class="pagenum">[84]</span>boas +obras, e quanto a orações não as sei, +pobre de mim, que sou um pecador. O que faço é +andar de casa em casa a +divertir os outros.»<br /> + + +<br /> + + +O austero ermitão continuou a insistir:<br /> + + +<br /> + + +―Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda, +praticaste algum +acto de virtude.»<br /> + + +<br /> + + +―Em verdade não poderia citar nem um +só.»<br /> + + +<br /> + + +―Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens +vivido +loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste +frivolamente +o teu património e o produto do teu +ofício?»<br /> + + +<br /> + + +―Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo +marido e +filhos tinham sido condenados à escravidão para +pagar uma dívida. Essa +mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa, +protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuía +para resgatar a +sua família, e levei-a à cidade, onde ela devia +encontrar-se com seu +marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro +tanto?»<br /> + + +<br /> + + +A estas palavras o ermitão pôs-se a chorar, e +exclamou:<br /> + + +<br /> + + +―Nos meus setenta anos de solidão nunca pratiquei uma obra +tão +meritória, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto +que tu não +passas dum pobre músico.»<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[85]</span> +<h2><a name="27"></a>Carlos Magno e o abade de +S. Gall</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall, +preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta +da abadia, fresco, +rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens +enérgicos e +activos, e o abade era indolente. Além disso o imperador +tinha mais +dum motivo de queixa contra ele.<br /> + + +<br /> + + +―Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter +à +sua esclarecida razão três perguntas, +às quais terá a bondade de me +responder daqui a três meses, contados dia a dia, em +sessão solene do +nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em +dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao +mundo; +em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. +rev.<sup>ma</sup> vier à minha +presença, pensamento que deve ser um erro. Trate +de arranjar resposta satisfatória a tudo, aliás +deixa de ser abade de S. +Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada +para o rabo.»<br /> + + +<br /> + + +O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as +escolas, mas +os doutores mais <span class="pagenum">[86]</span>famosos +pela sua ciência, não lhe souberam dar +resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal +aproximava-se; já não faltava senão um +mês, já não faltavam senão +semanas, e afinal só dias. O abade, que noutro tempo era +gordo e +anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite. +Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando +se +encontrou com o seu pastor.<br /> + + +<br /> + + +―Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! +Está doente?»<br /> + + +<br /> + + +―Estou, meu caro Félix, estou muito doente.»<br /> + + +<br /> + + +―Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa +curar.»<br /> + + +<br /> + + +―Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas +resposta às minhas três +perguntas.»<br /> + + +<br /> + + +―É então latim?»<br /> + + +<br /> + + +―Não, não é latim, senão os +doutores tinham-me arranjado tudo.»<br /> + + +<br /> + + +―Visto que não é latim, queira v. rev.<sup>ma</sup> +dizer-me o que é: minha mãe +era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.»<br /> + + +<br /> + + +Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor +atirou com o +barrete ao ar, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. +rev.<sup>ma</sup> +pode continuar a engordar; mas para isso é +necessário que eu vista o seu +hábito.»<br /> + + +<br /> + + +Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o +hábito do abade de S. +Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho +imperial.<br /> + + +<br /> + + +―Então, senhor abade, parece que está mais magro, +deu-lhe muito que +pensar a chave do <span class="pagenum">[87]</span>enigma? +Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto +valho eu em dinheiro?»<br /> + + +<br /> + + +―Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por +trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove, +só um +dinheiro menos.»<br /> + + +<br /> + + +―Bravo, senhor abade, a resposta é hábil, e na +realidade não posso +deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda +pergunta, não há de +ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá +a ver: quanto tempo levaria eu a +dar a volta ao mundo?»<br /> + + +<br /> + + +―Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir +constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e +quatro horas.»<br /> + + +<br /> + + +―Decididamente, v. rev.<sup>ma</sup> é um grande +finório, e desta vez, +confesso-me vencido; mas a terceira, não dessas à +que se responde com +suposições. Quem lhe há de dizer o que +eu estou pensando, e como me há +de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra +senhor abade.»<br /> + + +<br /> + + +―Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; +está +enganado, porque eu sou o seu pastor.»<br /> + + +<br /> + + +―Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, +e desde já o ficas +sendo.»<br /> + + +<br /> + + +―Não sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um +favor, +peço-lhe outra coisa.»<br /> + + +<br /> + + +―Não tens mais que falar.»<br /> + + +<br /> + + +―Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.»<br /> + + +<br /> + + +Carlos Magno não era homem que faltasse à sua +palavra.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[88]</span> +<h2><a name="28"></a>A boneca</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma história―a +história duma +boneca!<br /> + + +<br /> + + +Não há muitos anos, mas ainda não era +a Cordoaria do Porto o ameno +jardim, onde a infância folga por entre maciços de +flores e sob o +sorriso do sol, sem que lhe enegreça o espírito a +vista dos dois +monumentos, que a meu ver simbolisam as duas mais horríveis +calamidades, +que podem aniquilar um homem―o hospital e a cadeia!―ainda +não há +muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da +feira, divertindo-me a meu modo.<br /> + + +<br /> + + +Cansado das inúmeras figuras, que tinha visto passar por +aquela +espécie de lanterna mágica, dispunha-me a dar por +findo o espectáculo, +quando novos personagens me chamaram a atenção.<br /> + + +<br /> + + +Eram os meus vizinhos <i>ricos</i>. +<br /> + + +Aqui é preciso uma rápida +explicação.<br /> + + +<br /> + + +Das famílias da minha vizinhança, só +conheço três.<br /> + + +<br /> + + +Qual destas três famílias será mais +feliz?...<br /> + + +<br /> + + +Pelo que tenho notado, não têm que invejar umas +às outras.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[89]</span>São +todas felizes; cada qual a seu modo.<br /> + + +<br /> + + +Vi, pois, chegar os meus vizinhos <i>ricos</i>. +<br /> + + +Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapéu +na mão e +dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou, +tomou nos braços a filhinha e depô-la no +chão, e oferecendo, em +seguida, a mão à esposa, para a ajudar a apear, +dirigiu-se com ela e +com a menina para a barraca onde eu estava.<br /> + + +<br /> + + +Não havia ali segredo a surpreender.<br /> + + +<br /> + + +Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que +parecia agradecer àquela formosa criança a +manifestação de qualquer +desejo.<br /> + + +<br /> + + +No fim de meia hora possuía a minha pequena vizinha com que +fazer a +felicidade de dez crianças menos abastadas.<br /> + + +<br /> + + +Tinha o necessário para montar completamente a casa duma +boneca... +<i>rica</i>.<br /> + + +<br /> + + +Faltava apenas a dona da casa―a boneca.<br /> + + +<br /> + + +Todo risos e atenções, o lojista apresentou o que +tinha de melhor.<br /> + + +<br /> + + +Depois de muita hesitação e de, já com +os olhos, já com a voz, consultar +a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma +magnífica boneca de +dois palmos de altura, com cabelo em <i>bandeaux</i> e +olhos azuis.<br /> + + +<br /> + + +Uma boneca como as outras: cabeça e colo de massa, corpo de +pelica +recheada, braços e pernas de pau.<br /> + + +<br /> + + +Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribo de +crianças, que fazem +o martírio e a alegria da pobre mãe, e tem por +chefe um honrado +sapateiro.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[90]</span>Alguns deles, se +andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem +anjos, caídos do céu sobre um monte de lama.<br /> + + +<br /> + + +São os meus vizinhos <i>pobres</i>.<br /> + + +<br /> + + +A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a +casa +imediata.<br /> + + +<br /> + + +É como se costuma dizer, gente <i>que vai muito bem +com a sua vida</i>.<br /> + + +<br /> + + +A filha que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e +carnudas, +cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem +à +pressão.<br /> + + +<br /> + + +São os meus vizinhos <i>remediados</i>.<br /> + + +<br /> + + +A terceira é a dos meus vizinhos <i>ricos</i>.<br /> + + +<br /> + + +Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito +nas +listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do +estado―nada falta àquela ditosa gente!<br /> + + +<br /> + + +Compõe-se igualmente de marido, mulher e filha.<br /> + + +<br /> + + +Que formosa criança!... Terá oito anos.<br /> + + +<br /> + + +Franzina e pálida, com os cabelos negros, os olhos grandes e +cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos +compridos e +esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que +não +sinta antecipada inveja do feliz namorado―provavelmente ainda a +crescer―que há-de um dia ter o direito de lhas cobrir de +beijos.<br /> + + +<br /> + + +Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas +aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para +dentro do +carro.<br /> + + +<br /> + + +A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrática +criança.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[91]</span>Saí +dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa +variadíssimas +considerações, sugeridas pela quase +indiferença, com que aquela menina +recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.<br /> + + +<br /> + + +Que contraste com os olhares de cobiça, com que outras +raparigas da +mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabeça de pano, +horrível +artefacto português, em que os olhos são +representados por dois pontos +de linha azul, o nariz por um alinhavo de retrós cor de +rosa, a boca por +outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de lã preta!<br /> + + +<br /> + + +Quando cheguei a casa, já na dos meus vizinhos remediados +não havia luz.<br /> + + +<br /> + + +Na dos meus vizinhos <i>pobres</i>, o pai batia a sola, +cantando ao som de +três assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, +por lavar, +provocavam os ralhos da mãe.<br /> + + +<br /> + + +Quando, no dia seguinte, cheguei à janela, seriam onze horas +da manhã.<br /> + + +<br /> + + +Na rua agenciavam nova camada de imundície os filhos do +sapateiro; na +casa imediata não se via ninguém―estava a pequena +na mestra; no +palácio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da +varanda, +divertia-se a minha pequena milionária fazendo rodar, com +auxílio duma +linha, uma magnífica <i>caleche</i> descoberta, +puxada por cavalos brancos.<br /> + + +<br /> + + +Dentro da <i>caleche</i> pavoneava-se a boneca +opulentamente vestida.<br /> + + +<br /> + + +―«Aí está a tua caricatura, minha +feiticeira!...»―disse eu de mim +para mim. «Ensaias <span class="pagenum">[92]</span>nas +bonecas o que vês no mundo a que pertences!... +Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...»<br /> + + +<br /> + + +Retirei-me da janela.<br /> + + +<br /> + + +Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.<br /> + + +<br /> + + +A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se +vestia três e quatro vezes!<br /> + + +<br /> + + +Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao +respeito com que a dona a +tratava!<br /> + + +<br /> + + +Chamava-lhe sr.<sup>a</sup> D. Luísa; dava-lhe +excelência; sustentava finalmente +com a boneca um destes diálogos de senhoras da alta +sociedade, em que +se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.<br /> + + +<br /> + + +Um dia,―estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos +<i>ricos</i>―ouvi um grito de susto.<br /> + + +<br /> + + +Era devido a um acidente, a que está sujeito quem anda de +carro.<br /> + + +<br /> + + +Voltara-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra +da janela.<br /> + + +<br /> + + +O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a +vítima; vendo, +porém, que a ferida havia forçosamente de deixar +cicatriz, e +lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe +dessem outra +nova, agarrou-a pelos pés e ia atirá-la com +despeito à rua, quando mais +perto de mim bradou voz tímida e suplicante:<br /> + + +<br /> + + +«Não atire!... Dê-ma.»<br /> + + +<br /> + + +Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu não +dera fé até +então.<br /> + + +<br /> + + +Assim invocada, a menina <i>rica</i> franziu levemente <span class="pagenum">[93]</span>as sobrancelhas e +lançou um olhar de rainha para o sítio donde +vinha a súplica.<br /> + + +<br /> + + +Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou +e, +encolhendo os ombros, respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―«Já não presta!... Está +esmurrada!...»<br /> + + +<br /> + + +―É o mesmo!... Dá-ma?...―bradou a outra, cujos +olhos brilhavam de +cobiça.<br /> + + +<br /> + + +―«Dou...»―volveu a rica, encolhendo novamente os +ombros.<br /> + + +<br /> + + +E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas +mãos da +vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse +despedaçar-se nas lajes da rua.<br /> + + +<br /> + + +Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a +outra, para mostrar à mãe a que ela ainda +não podia acreditar, que +fosse sua!<br /> + + +<br /> + + +Por espaço de meses foi a boneca a principal +ocupação da nova dona.<br /> + + +<br /> + + +A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro +vezes em quatro horas!... Já lhe não davam +excelência! Chamavam-lhe +sr.<sup>a</sup> D. Ana; falavam-lhe de arranjos +domésticos, do desmazelo da +criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente +estranhas para ela!<br /> + + +<br /> + + +E a desgraçada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe +cada vez menos +azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia +se tornava mais escura: parecia uma nódoa, um estigma!<br /> + + +<br /> + + +Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, <span class="pagenum">[94]</span>que trouxera no corpo, +ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.<br /> + + +<br /> + + +Não tardou, porém, que arrebiques de mau gosto, +fitas velhas, rendas +amareladas, chapéus impossíveis, viessem +contrastar com a elegância do +vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira.<br /> + + +<br /> + + +Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele +as ondulações do <i>moiré</i>, +até que, um belo dia, vi a boneca vestida de +cassa―-no Inverno!―xaile e manta na cabeça.<br /> + + +<br /> + + +Muito mal lhe ficava aquilo!... Àquela boneca custava-lhe de +certo o +ver-se tão mal arranjada.<br /> + + +<br /> + + +Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:<br /> + + +<br /> + + +―É justo!... Cada qual segundo as suas posses.»<br /> + + +<br /> + + +Por esse tempo, entrei em relações com o meu +vizinho sapateiro.<br /> + + +<br /> + + +O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos +faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasião, +para me +pedir desculpa.<br /> + + +<br /> + + +Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a +aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de +casa nem entro, sem +grave risco de sofrer as consequências da sua travessa +familiaridade.<br /> + + +<br /> + + +Entre os filhos do sapateiro, porém, há uma +pequenita de onze anos, com +quem simpatizei logo à primeira vista.<br /> + + +<br /> + + +Chama-se Maria.<br /> + + +<br /> + + +Por um destes acasos da Providência, que parece <span class="pagenum">[95]</span>às vezes +comprazer-se +em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os +irmãos.<br /> + + +<br /> + + +Acostumado às travessuras e desalinho dos outros filhos do +sapateiro, +fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.<br /> + + +<br /> + + +E bem verdade que ele conhecia o valor daquela criança, +porque havia +verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: +«Esta é a +minha Maria!»<br /> + + +<br /> + + +E tinha razão!<br /> + + +<br /> + + +Não podia ser mais discreta do que já nesse tempo +era.<br /> + + +<br /> + + +―É quem vale à mãe!...―acrescentou o +velho.»―Ali, onde a vê, faz o +serviço duma mulher!... Há seis meses, quando a +minha santa esteve +doente―bem pensei que não arribasse!―a pequena era quem +cozinhava e +olhava pelos irmãos!... E caridade como ela tem!?... Olhe +que aquela +pequena esteve três dias sem se deitar... ali... ao +pé da mãe! Foi +preciso eu obrigá-la, que ela não a queria +deixar!...»<br /> + + +<br /> + + +E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma +lágrima, que, +havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.<br /> + + +<br /> + + +Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a +cabeça coberta por um lenço branco.<br /> + + +<br /> + + +Desde que o pai me deu tão boas +informações da rapariga, nunca mais +passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias +à +pequena.<br /> + + +<br /> + + +Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca +deitada nos joelhos.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[96]</span>―Eu +conheço aquela boneca!...―disse eu de mim para mim.<br /> + + +<br /> + + +E, não podendo resistir à curiosidade, bradei:<br /> + + +<br /> + + +―Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...<br /> + + +<br /> + + +Foi ali a menina da vizinha!―respondeu a pequenita, corando de prazer.<br /> + + +<br /> + + +Era escusado dizer-mo.<br /> + + +<br /> + + +Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. Não +podia +duvidar... Era ela; lá estava a mancha, o estigma cada vez +mais visível +na fronte.<br /> + + +<br /> + + +De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se +com +ela.<br /> + + +<br /> + + +―Quem te viu e quem te vê!...―pensava eu.<br /> + + +<br /> + + +Às vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lha +podiam apanhar, que +tratos que sofria a desgraçada!<br /> + + +<br /> + + +Roçada por aquelas mãos, de que um carvoeiro se +envergonharia, +empregada como péla, submetida a torturas, era, ainda assim, +singularíssimo o aspecto da triste!<br /> + + +<br /> + + +Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a +fraternizar com o povo.<br /> + + +<br /> + + +A mísera mudara mais uma vez de nome!...<br /> + + +<br /> + + +De sr.<sup>a</sup> D. Ana passara a ser sr.<sup>a</sup> +Rosinha e tratavam-na por vossemecê.<br /> + + +<br /> + + +Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e lenço +na cabeça.<br /> + + +<br /> + + +Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com +a boneca.<br /> + + +<br /> + + +Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, +encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre +boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver <span class="pagenum">[97]</span>falta de +trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que +mais familiares eram à pequena.<br /> + + +<br /> + + +Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na, +mandavam-na buscar água à fonte, pagavam-lhe, +regateando, a soldada, e +acabavam por a despedir.<br /> + + +<br /> + + +Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, +deixara de ser feliz.<br /> + + +<br /> + + +Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no palácio +vizinho!<br /> + + +<br /> + + +Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos, +desfeito o carmim dos lábios, a boneca não +prometia longa duração.<br /> + + +<br /> + + +Foi este pelo menos, o prognóstico que fiz a +última vez que a vi, +tentando em vão agradar à última dona +que o seu destino lhe dera.<br /> + + +<br /> + + +Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!<br /> + + +<br /> + + +Um dia chovia a cântaros!―o enxurro, mal cabendo nas valetas +da rua, +espadanava em cachão para cima dos passeios, arrastando na +passagem mil +imundícies.<br /> + + +<br /> + + +Eu estava à porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e +olhava +melancolicamente para a água negra, que corria. Nisto ouvi +um grito, que +partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um +objecto, +arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e +foi cair no +leito do enxurro...<br /> + + +<br /> + + +Olhei... Era a boneca!...<br /> + + +<br /> + + +A mísera, arrastada pela água, vogou rua abaixo +até esbarrar numa +pedra; mas o redemoinho envolveu-a, <span class="pagenum">[98]</span>e, +depois de a fazer girar três ou +quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado +entre a pedra e +o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir +sumir-se nas +profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!<br /> + + +<br /> + + +Será pieguice, será o que o leitor quiser; mas, +confesso-lhe, que me +impressionou o fim da pobre boneca.<br /> + + +<br /> + + +Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado à +vidraça do +sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:<br /> + + +<br /> + + +―Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?<br /> + + +<br /> + + +―Não fui eu...―balbuciou a pequena, chorando.―Foi ali o +Joaquim!...<br /> + + +<br /> + + +―E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...<br /> + + +<br /> + + +―Ora!...―respondeu o garoto com enfado.―Ora!... Estava velha... e +feia!...<br /> + + +<br /> + + +Curvei a cabeça ante aquela razão, e segui o meu +caminho.<br /> + + +<br /> + + +Pobre boneca!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[99]</span> +<h2><a name="29"></a>Inconveniente da riqueza</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, foi +surpreendido pela noite à entrada duma aldeia. Procurou dum +lado para +outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam +já +todas fechadas, não se via nem um raio de luz +através das janelas, tudo +estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual +com que se bate o trigo, e nesse sítio havia uma pequena +luz. Nosso +Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro +duma quinta, e bateu à +porta. Foi um camponês que lha veio abrir.<br /> + + +<br /> + + +―Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite? +Não se havia de arrepender.»<br /> + + +<br /> + + +E acrescentou:<br /> + + +<br /> + + +―Visto que já todos estão deitados, para que +é que você está ainda a +trabalhar?»<br /> + + +<br /> + + +―Ora, respondeu o camponês, soube ontem à noite +que ia ser perseguido +por um credor desapiedado, se lhe não pagasse +amanhã o que lhe devo, +portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para +o vender no mercado, e pagar a minha dívida. Depois disto +não nos fica +nada, <span class="pagenum">[100]</span>e +não sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que +Deus +quiser!»<br /> + + +<br /> + + +Ao dizer isto o camponês limpava o suor da testa, e passava a +mão pelos +olhos arrasados de lágrimas. O Senhor teve dó +dele, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, +disse-te que não te +havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.»<br /> + + +<br /> + + +Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e +aproximou-a do trigo.<br /> + + +<br /> + + +―Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a +tudo!»<br /> + + +<br /> + + +Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se, +de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. +À vista dum tal +milagre os camponeses maravilhados caíram de joelhos.<br /> + + +<br /> + + +―Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua +pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, +serás +recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que +te +enriquece.»<br /> + + +<br /> + + +Dito isto desapareceu.<br /> + + +<br /> + + +E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e +fez um monte tão alto +como a igreja.<br /> + + +<br /> + + +O camponês pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu +uma bela +casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e +seus filhos adquiriram costumes perdulários, tanto e tanto +fizeram, que +se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, +ninguém os ajudou na sua miséria. Uma noite o +velho camponês, que bebera +enormemente, entrou <span class="pagenum">[101]</span>no +celeiro, e, recordando-se do milagre que o +enriquecera, imaginou que também ele o poderia fazer. +Agarrou na +candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a +casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na +miséria mais +absoluta.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[102]</span> +<h2><a name="30"></a>Querer é poder</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +―Quem procura sempre encontra, diz um velho provérbio; quero +ver por +experiência, disse um dia um rapaz, se esta máxima +é verdadeira.<br /> + + +<br /> + + +Pôs-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma +grande cidade.<br /> + + +<br /> + + +―Senhor, disse-lhe ele, há muitos anos que vivo tranquilo e +solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas +vezes―<i>Quem procura sempre encontra</i>, e <i>quem +porfia mata caça</i>. Tomei +uma grande resolução. Quero casar com a filha do +rei.<br /> + + +<br /> + + +O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.<br /> + + +<br /> + + +O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante +uma +semana, sempre com a mesma vontade inabalável, +até que o rei ouviu +falar o rapaz da sua louca pretensão. Surpreendido com uma +ideia tão +extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:<br /> + + +<br /> + + +―Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela +ciência, +pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais +são +os teus títulos? Para seres o marido <span class="pagenum">[103]</span>de minha filha +é necessário que te +distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor +extraordinário. Ouve. Perdi há muito tempo no rio +um diamante dum valor +incalculável. Aquele que o encontrar obterá a +mão de minha filha.<br /> + + +<br /> + + +O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do +rio; logo de manhã começava a tirar +água com um balde pequeno, e +deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e +horas, punha-se a rezar.<br /> + + +<br /> + + +Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e +receando que +chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.<br /> + + +<br /> + + +―Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»<br /> + + +<br /> + + +―Encontrar um diamante que caiu ao rio.»<br /> + + +<br /> + + +―Então, respondeu o velho rei, sou de opinião que +lho entreguem, porque +vejo qual é a têmpera da vontade deste rapaz; mais +fácil seria esgotar +as últimas gotas do rio, do que desistir da sua +empresa.»<br /> + + +<br /> + + +Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha +do rei.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[104]</span> +<h2><a name="31"></a>Qual será rei?</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o +sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer, +não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.<br /> + + +<br /> + + +Resolveram além disso que o cadáver do rei fosse +posto de pé contra um +muro, e que o príncipe que acertasse melhor com uma flecha +naquele +alvo, seria o escolhido para sucessor.<br /> + + +<br /> + + +Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou +durante muito +tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defunto. +O príncipe +soltou grito de alegria, cuidando que seus irmãos atirariam +pior, e que +por conseguinte seria ele quem viria a reinar.<br /> + + +<br /> + + +O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais +alegre do que o outro príncipe.<br /> + + +<br /> + + +O terceiro varou o coração de seu pai, e os seus +gritos de triunfo +quase que chegavam ao céu, porque lhe parecia +impossível acertar melhor.<br /> + + +<br /> + + +Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas +mãos as +flechas e o arco: mas, <span class="pagenum">[105]</span>desde +que olhou para o alvo, arrojou as armas +longe de si, e desatou a chorar:<br /> + + +<br /> + + +―«Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu +jamais +consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão +de teus +próprios filhos!»<br /> + + +<br /> + + +Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais +digno.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[106]</span> +<h2><a name="32"></a>Os três +véus de Maria</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +O primeiro véu de Maria era dum linho mais alvo do que a +neve. +Bordara-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de +flores de +seda tão bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham +pousar-lhe em +cima.<br /> + + +<br /> + + +Este véu branco só o trouxe uma vez, no dia da +sua primeira comunhão.<br /> + + +<br /> + + +O segundo véu de Maria era de lã negra. +Principiou-o no mesmo dia em que +sua mãe lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa +triste e +abandonada. Era bordado de perpétuas roxas, como as dos +sepulcros de +mármore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas +as suas +lágrimas.<br /> + + +<br /> + + +O véu negro só o trouxe uma vez,―no dia em que se +tornou esposa de +Jesus no convento da Avé-Maria.<br /> + + +<br /> + + +O terceiro véu era feito dum retalho do azul celeste, +bordado +de estrelas, e perfumado com aromas suavíssimos.<br /> + + +<br /> + + +Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou +no paraíso.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p107">[107]</a></span> +<h2><a name="33"></a>Os pequenos no bosque</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um dia três pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns +aos +outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que +estudar: «Vamos +para o bosque que <a href="#e4">encontraremos</a> +lá toda a espécie de lindos bichinhos, que +não fazem outra coisa senão brincar, e +nós brincaremos com eles.»<br /> + + +<br /> + + +Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa +formiga e da +abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar, +disse-lhes:<br /> + + +<br /> + + +―Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a +outra já não está +sólida.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para +o Inverno.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu +ninho.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, +mas ainda +hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que +fazer a +minha <i>toilette</i>.»<br /> + + +<br /> + + +E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, <span class="pagenum">[108]</span>que passas o tempo +a saltar e a tagarelar, também não queres brincar +connosco?»<br /> + + +<br /> + + +―Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? +Vocês então imaginam +que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, +não descanso nem um +momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, às +colinas, +aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os +incêndios, +tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje +acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. Não +posso perder +um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»<br /> + + +<br /> + + +Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um +pintassilgo, em cima dum ramo.<br /> + + +<br /> + + +―Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar +connosco?»<br /> + + +<br /> + + +―Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, +disse o pintassilgo. Todo +o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além disso +que tomar +parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o +operário com o +meu chilrear, e tenho que adormecer as crianças com uma +outra cantiga, +que à noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. +Ide-vos embora, +preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não +tornem a vir incomodar os +habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a +desempenhar.»<br /> + + +<br /> + + +Os pequenos aproveitaram a lição, e compreenderam +que o prazer só é +legítimo, quando é a recompensa do trabalho.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[109]</span> +<h2><a name="34"></a>O chapelinho encarnado</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem +sua +mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da +avozinha, que passava o +tempo a imaginar o que poderia agradar à neta, deu-lhe um +dia um chapéu +de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o +seu chapéu +novo, que já não queria pôr outro, e +começaram a chamar-lhe a menina do +chapelinho encarnado.<br /> + + +<br /> + + +A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por +uma floresta de meia +légua de comprido. Uma manhã a mãe +disse à pequenita:<br /> + + +<br /> + + +―Tua avó está doente, e não +pôde vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai +levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não +quebres a +garrafa, não andes a correr, vai devagarinho e volta +logo.»<br /> + + +<br /> + + +―Sim, mamã, respondeu ela, hei-de fazer tudo como +deseja.»<br /> + + +<br /> + + +Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e +pôs-se +a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita, +que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[110]</span>―Bons dias, +chapelinho encarnado.»<br /> + + +<br /> + + +―Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»<br /> + + +<br /> + + +―Onde vais tão cedo?»<br /> + + +<br /> + + +―A casa da minha avó que está doente.»<br /> + + +<br /> + + +―E levas-lhe alguma coisa?»<br /> + + +<br /> + + +―Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe +dar forças.»<br /> + + +<br /> + + +Diz-me onde mora a tua, avó, que também a quero +ir ver.»<br /> + + +<br /> + + +―É perto, aqui no fim da floresta. Há ao +pé uns carvalhos muito +grandes, e no jardim há muitas nozes.»<br /> + + +<br /> + + +―Ah! tu é que és uma bela noz, disse consigo o +lobo. Como eu gostava +de te comer.» Depois continuou em voz alta:―Olha, que bonitas +árvores e +que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e +então que +quantidade de plantas medicinais que se encontram!»<br /> + + +<br /> + + +―O senhor, é com certeza um médico, respondeu a +inocente pequenita, +visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma +que fizesse bem a minha avó.»<br /> + + +<br /> + + +―Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta +também, e +aquela.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram +plantas +venenosas. A pobre criança, queria-as apanhar para as levar +a sua avó.<br /> + + +<br /> + + +―Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com +grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»<br /> + + +<br /> + + +E pôs-se a correr em direcção da casa +da avó, enquanto que a pequerrucha +se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[111]</span>Quando o lobo +chegou à porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a +avó não se podia levantar da cama, e perguntou: +Quem está aí?»<br /> + + +<br /> + + +―É o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz +da +pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de +vinho.»<br /> + + +<br /> + + +―Procura debaixo da porta disse a avó, que +encontrarás a chave.»<br /> + + +<br /> + + +Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira, +e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama.<br /> + + +<br /> + + +Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a +porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a +costumava ter +fechada.<br /> + + +<br /> + + +O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma +parte do +focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrível.<br /> + + +<br /> + + +―Ai! avozinha, disse a criança, porque tens tu as orelhas +tão grandes?»<br /> + + +<br /> + + +―É para te ouvir melhor, minha filha.»<br /> + + +<br /> + + +―E porque estás com uns olhos tão +grandes?»<br /> + + +<br /> + + +―É para te ver melhor.»<br /> + + +<br /> + + +―E para que estás com os braços tão +grandes?»<br /> + + +<br /> + + +―É para te poder abraçar melhor.»<br /> + + +<br /> + + +―E Jesus! para que tens hoje uma boca tão grande e uns +dentes tão +agudos?»<br /> + + +<br /> + + +―É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo +arremessou-se à pobre +pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e +começou a +ressonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto +da casa, e +que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha está +com um +pesadelo, <span class="pagenum">[112]</span>está +pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.» Entra, e +vê o lobo estendido na cama.<br /> + + +<br /> + + +―Olá, meu menino, diz ele: há muito tempo que te +procuro.»<br /> + + +<br /> + + +Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse ele, +não vejo a +dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o +animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe +cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e +saltou para o chão, gritando:<br /> + + +<br /> + + +―Ai! que sítio medonho onde eu estive fechada!<br /> + + +<br /> + + +A avó saiu também contentíssima por +ver outra vez a luz do dia.<br /> + + +<br /> + + +O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador +meteu-lhe então +duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a +avó e a +neta para verem o que se ia passar.<br /> + + +<br /> + + +Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se +para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e +não podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no +lago, e +afogou-se.<br /> + + +<br /> + + +O caçador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho +com a velha +e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapelinho +encarnado +prometeu não tornar a passar na floresta, quando sua +mãe lho +proibisse.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[113]</span> +<h2><a name="35"></a>Os cinco sonhos</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Andando um dia Carlos Magno à caça com uma +comitiva numerosa, perseguiu +um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da +ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi +só +então que viu que estava só, tendo a sua corte +ficado muito para traz; +sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana +solitária +no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro +ladrões. +Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da +entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe +quiseram logo contar.<br /> + + +<br /> + + +O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:<br /> + + +<br /> + + +―No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro à pessoa que +acaba de entrar +aqui, e punha-o na minha cabeça.»<br /> + + +<br /> + + +―Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua +couraça.»<br /> + + +<br /> + + +―E eu que estava pondo o seu manto.»<br /> + + +<br /> + + +―E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava +em roda do +meu pescoço aquela <span class="pagenum">[114]</span>pesada +cadeia de ouro, da qual está pendurada a sua +trompa de caça.»<br /> + + +<br /> + + +―Vejo bem, disse o imperador, que têm +tenção de me roubar tudo, e +mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de +vocês, e que toda e +qualquer resistência seria inútil. Não +lhes peço senão uma coisa, é que +me deixem tocar pela última vez na minha trompa de +caça.»<br /> + + +<br /> + + +Os salteadores responderam que consentiam, visto que o +último pedido +dum moribundo deve ser respeitado.<br /> + + +<br /> + + +Carlos Magno levou à boca a sua magnífica trompa +de marfim, e tirou +dela sons tão fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos +todos os +seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao +pé dele.<br /> + + +<br /> + + +―Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora +também +eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam +ser +enforcados diante deste casebre.»<br /> + + +<br /> + + +E o sonho realizou-se imediatamente.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[115]</span> +<h2><a name="36"></a>A igreja do rei</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnífica +em honra da +Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse +contribuir para +a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o +edifício se +concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do +mármore uma inscrição em letras de +ouro, que dizia que só ele, e mais +ninguém, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na +noite +seguinte o nome do rei foi apagado da inscrição, +e substituído por o +duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar +pôr o seu nome na inscrição, e de novo +foi substituído pelo da pobre +mulher; à terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de +cólera, ordenou +então que lhe trouxessem a mulher à sua +presença:<br /> + + +<br /> + + +―Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que +contribuíssem +fosse com o que fosse para a edificação desta +igreja; vejo que não +cumpriste as minhas ordens.»<br /> + + +<br /> + + +―«Senhor, respondeu a velhinha toda trémula, eu +respeitei as vossas +ordens, apesar da mágoa <span class="pagenum">[116]</span>que +sentia por não poder oferecer o meu +pequenino óbolo em honra da Virgem; mas julguei +não desobedecer a vossa +majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, +que eu levava às escondidas aos bois que conduziam as pedras +destinadas +à construção da igreja.»<br /> + + +<br /> + + +―«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar +em letras de ouro na +inscrição do monumento, disse-lhe o +rei.»<br /> + + +<br /> + + +Mas na noite seguinte uma mão invisível +restabeleceu na lápide da igreja +o nome do rei, que desde então lá se conserva +ainda.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[117]</span> +<h2><a name="37"></a>O valente soldado de +chumbo</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, +por todos +terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial, +de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e +vermelhos! +A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da +caixa em que eles estavam, foi este grito: «Olha soldados de +chumbo!» +que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado +de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era +formá-los sobre a +mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam +maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de +menos, porque o tinham deitado na forma em último lugar, e +já não havia +chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros não +estavam mais +firmes nas duas pernas do que ele na sua única, e +é este o que +precisamente nos interessa.<br /> + + +<br /> + + +Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil +outros +brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindíssimo +castelo de +papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe <span class="pagenum">[118]</span>o interior dos +salões. +À volta era circundado duma floresta em miniatura, que se +reflectia +poeticamente num pedaço de espelho que fingia um lago, onde +nadavam +pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas não +tanto como +uma menina que estava à porta, e que era também +de papel, vestida com um +lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina +tinha os braços arqueados, porque era dançarina, +e tinha uma perninha +levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia +ver, e +imaginou que, como ele, não tinha senão uma perna.<br /> + + +<br /> + + +―Ali está a mulher que me convém, pensou ele, mas +é uma grande +fidalga. Mora num palácio, eu numa caixa em companhia de +vinte e +quatro camaradas, e não haveria cá lugar para +ela. No entanto +preciso conhecê-la.»<br /> + + +<br /> + + +Deitou-se atrás duma caixa de tabaco, e dali podia ver +à sua vontade a +elegante dançarina, que estava sempre num pé +só, sem perder o +equilíbrio.<br /> + + +<br /> + + +À noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e +as pessoas +da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, +começaram +a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados +de +chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam +lá ir; mas +como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar +cabriolas +e saltos mortais, o lápis traçou mil arabescos +fantásticos numa lousa, +enfim o barulho tornou-se tal que o canário acordou, e +pôs-se a cantar. +Os únicos que <span class="pagenum">[119]</span>estavam +quietos eram o soldado de chumbo e a +dançarinazinha. Ela no bico do pé, e ele numa +perna só, a +espreitá-la.<br /> + + +<br /> + + +Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé +levanta-se, e em lugar +de rapé, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de +surpresa.<br /> + + +<br /> + + +―Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro +sítio.»<br /> + + +<br /> + + +Mas o soldado fez que não ouvia.<br /> + + +<br /> + + +―Espera até amanhã, e verás o que te +acontece, continuou o feiticeiro.»<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de +chumbo à janela, mas de repente ou por influência +do feiticeiro ou por +causa do vento caiu à rua de cabeça para baixo. +Que tombo! Ficou com a +perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta +enterrada entre duas lajes.<br /> + + +<br /> + + +A criada e o rapazito foram lá abaixo procurá-lo, +mas estiveram quase a +esmagá-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado: +«Cautela!» +te-lo-íam achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda. +A chuva +começou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro +dilúvio. Depois +do aguaceiro passaram dois garotos.<br /> + + +<br /> + + +―Olá! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos +fazê-lo +navegar.»<br /> + + +<br /> + + +Construíram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o +soldado de +chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois +garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo +Deus! +Que força de corrente! Mas também tinha chovido +tanto! O barco jogava +<span class="pagenum">[120]</span>duma maneira +horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se +impassível, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro.<br /> + + +<br /> + + +De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão +grande a +escuridão como na caixa dos soldados.<br /> + + +<br /> + + +―Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me +meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina +estivesse no barco, não importava, ainda que a +escuridão fosse duas +vezes maior.»<br /> + + +<br /> + + +Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de água; era um +habitante do +cano.<br /> + + +<br /> + + +―Venha o teu passaporte.»<br /> + + +<br /> + + +Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais +força na +espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, +rangendo os dentes, e gritando às palhas, e aos +cavacos:―Façam-no +parar, façam-no parar! Não pagou a passagem, +não mostrou o passaporte.»<br /> + + +<br /> + + +Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do +dia, e +sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais +valente. +Havia na extremidade do cano uma queda de água +tão perigosa para ele, +como é para nós uma catarata. Aproximava-se dela +cada vez mais, sem +poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se +sobre a +queda de água, e o pobre soldado firmava-se o mais +possível, e ninguém se +atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.<br /> + + +<br /> + + +O barco, depois de ter andado à roda durante muito tempo, +encheu-se +de água, e estava a ponto <span class="pagenum">[121]</span>de +naufragar. A água já chegava ao +pescoço do +soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a +água passou por cima da cabeça do nosso +herói. Nesse momento supremo, +pensou na gentil dançarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz +que dizia:<br /> + + +<br /> + + +―Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»<br /> + + +<br /> + + +O papel rasgou-se, e o soldado passou através dele. Nesse +momento foi +devorado por um grande peixe.<br /> + + +<br /> + + +Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do +cano. E além disso, que +talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrépido, o +soldado +estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.<br /> + + +<br /> + + +O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, +até que enfim +parou, e pareceu que o atravessava um relâmpago. Apareceu a +luz do dia, +e alguém exclamou:<br /> + + +<br /> + + +―Olha um soldado de chumbo!»<br /> + + +<br /> + + +O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e +levado para a +cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no +soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a +gente quis admirar esse homem extraordinário, que tinha +viajado na +barriga dum peixe. No entretanto o soldado não se sentia +orgulhoso. +Colocaram-no em cima da mesa, e ali―tanto é verdade que +acontecem +coisas extraordinárias neste mundo―achou-se na mesma sala, +de cuja +janela tinha caído. Reconheceu os pequenos e os brinquedos +que estavam +em cima da mesa, o lindo palácio, e a adorável +dançarina sempre <span class="pagenum">[122]</span>de +perna +no ar. O soldado de chumbo ficou tão comovido, que de boa +vontade teria +derramado lágrimas de chumbo, mas não era +conveniente. Olhou para ela, +ela olhou para ele, mas não disseram uma palavra um ao outro.<br /> + + +<br /> + + +De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no +fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.<br /> + + +<br /> + + +O soldado de chumbo lá estava perfilado, alumiado por um +clarão +sinistro, e sofrendo um calor terrível. Todas as cores lhe +tinham +desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas +viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a +dançarina, que também olhava para ele. Sentia-se +derreter, mas, sempre +intrépido, conservava a espingarda ao ombro. De repente +abriu-se uma +porta, o vento arremessou a dançarina ao fogão +para junto do soldado, que +desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, já +não era mais +que uma pequena massa informe.<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um +objecto que tinha o feitio dum pequeno coração de +chumbo, e tudo o que +restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume +tinha +enegrecido.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[123]</span> +<h2><a name="38"></a>João Pateta</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +João era filho duma pobre viúva, bom rapaz, mas +um pouco simplório. A +gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um +dia sua mãe +mandou-o à feira comprar uma foice. À volta, +começou a andar com a foice +à roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e +matou-a.<br /> + + +<br /> + + +―Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era +pôr a foice em +um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos.»<br /> + + +<br /> + + +―Perdão, mãe, respondeu humildemente +João, para a outra vez serei mais +esperto.»<br /> + + +<br /> + + +Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que +as não perdesse.<br /> + + +<br /> + + +―Fique descansada. E voltou todo orgulhoso.»<br /> + + +<br /> + + +―Então, João, onde estão as +agulhas?»<br /> + + +<br /> + + +―Ah! estão em lugar seguro. Quando saí da loja em +que as comprei, ia a +passar o carro do vizinho carregado de palha; meti lá as +agulhas, não +podem estar em sítio melhor.»<br /> + + +<br /> + + +―De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que +não há meio de as +tornar a ver. Devias tê-las espetado no +chapéu.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[124]</span>―Perdão, +respondeu João, para a outra vez, hei-de ser mais +esperto.»<br /> + + +<br /> + + +Na outra semana, por um dia de calor, João foi dali uma +légua comprar +uma pouca de manteiga. Lembrando-se do último conselho de +sua mãe, pôs a +manteiga dentro do chapéu e o chapéu na +cabeça. Imagine-se o estado em +que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.<br /> + + +<br /> + + +A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer +recado. No entanto um dia +resolveu-se a mandá-lo à feira vender duas +galinhas.<br /> + + +<br /> + + +―Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera +que te ofereçam +outro.»<br /> + + +<br /> + + +―Está entendido, respondeu João.»<br /> + + +<br /> + + +Foi para a feira. Um freguês chegou-se a ele.<br /> + + +<br /> + + +―Queres seis tostões por essas galinhas?»<br /> + + +<br /> + + +―Ora adeus! minha mãe recomendou-me, que não +aceitasse o primeiro +preço, mas que esperasse o segundo.»<br /> + + +<br /> + + +―E tens muita razão. Dou-te um cruzado.»<br /> + + +<br /> + + +―Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o +primeiro, +mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ela não +tem que me ralhar.»<br /> + + +<br /> + + +Depois disto, João foi condenado a ficar em casa. Sua +mãe sabia que +mangavam com ele, e se riam dela. Uma manhã quis fazer uma +experiência, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Vai vender este carneiro à feira. Mas não te +deixes enganar. Não o +entregues senão a quem te der o preço mais +elevado.»<br /> + + +<br /> + + +―Está bem, agora entendo, e sei o que hei de +fazer.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[125]</span>―Quanto queres por +esse carneiro?<br /> + + +<br /> + + +―Minha mãe disse-me que o não vendesse +senão pelo preço mais elevado.<br /> + + +<br /> + + +―Quatro mil réis?»<br /> + + +<br /> + + +―É o preço mais elevado?»<br /> + + +<br /> + + +―Pouco mais ou menos.»<br /> + + +<br /> + + +―É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que +trepara a uma escada.<br /> + + +<br /> + + +―Quanto?»<br /> + + +<br /> + + +―Dez tostões:»<br /> + + +<br /> + + +―É menos, respondeu timidamente o João.»<br /> + + +<br /> + + +―Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda +a feira não há um +preço mais elevado.»<br /> + + +<br /> + + +―Tem razão. É seu o carneiro.»<br /> + + +<br /> + + +Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser +encarregado de vender ou +comprar coisa alguma.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[126]</span> +<h2><a name="39"></a>Branca de Neve</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. +Um dia +de Inverno, enquanto bordava num bastidor de ébano olhando +de vez em +quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no chão, +distraída, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue.<br /> + + +<br /> + + +―Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços +tão vermelhos +como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros +como este ébano.»<br /> + + +<br /> + + +Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu à +luz uma filha, +que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo +tão branco, +que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz +mãe não gozou muito +tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher +duma grande beleza, e dum orgulho não menos +extraordinário. Era tão +formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas +vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho +mágico dizia-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda +que há no +mundo?»<br /> + + +<br /> + + +―És tu, respondia o espelho.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[127]</span>No entanto Branca +de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais +formosa. Tinha apenas sete anos, e já ninguém a +podia ver sem ficar +maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu +espelho, disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda +que há no +mundo?»<br /> + + +<br /> + + +―Não és tu, não és tu. +Branca de Neve é mais linda.»<br /> + + +<br /> + + +A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no +coração uma dor aguda, +como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um ódio mortal +pela +inocente Branca. Não podia sossegar nem de dia, nem de +noite. Para +satisfazer o seu ódio, chamou um criado, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Quero que Branca desapareça. Conduze-a à +floresta, mata-a, e, para me +provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o +coração.»<br /> + + +<br /> + + +O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e +dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre criança +chorava e +lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ela +não tinha feito +mal a ninguém, e queria viver. O criado, comovido com +aquelas +lágrimas, não teve coragem, e abandonou-a na +floresta, pensando que se +as feras a devorassem a culpa não era dele, mas sim da +rainha. Assim +fez, e para mostrar o coração de Branca +à rainha, matou um cabrito, e +tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aqueles +despojos sangrentos ficou +contentíssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, +e nenhuma +mulher no mundo é tão bela como eu.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[128]</span>A pobre Branca, +abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava +cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés +nas pedras, e +andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez +também via animais ferozes. Mas as feras não lhe +faziam mal algum, o +deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.<br /> + + +<br /> + + +À noite chegou ao pé duma casinha muito +pequenina. Estava morta de fome +e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito +limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha +de +brancura irrepreensível, sete pratos pequenos, sete garrafas +pequenas, +e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco +do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo, +deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente.<br /> + + +<br /> + + +Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros +pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo +que tinham gente em casa. Um deles disse:<br /> + + +<br /> + + +―Quem comeu o meu pão?»<br /> + + +<br /> + + +E os outros sucessivamente:<br /> + + +<br /> + + +―Quem pegou no meu garfo?»<br /> + + +<br /> + + +―Quem comeu o meu caldo?»<br /> + + +<br /> + + +―Quem bebeu o meu vinho?»<br /> + + +<br /> + + +E enfim um deles:<br /> + + +<br /> + + +―Quem está aí deitado na minha cama?»<br /> + + +<br /> + + +Reuniram-se todos à roda do pequeno leito em que dormia +Branca. À luz +das lanternas viram o doce rosto da criança, que dormia +tranquilamente, +<span class="pagenum">[129]</span>e afastaram-se sem +fazer bulha, para a não acordar. Branca no dia +seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto +de si +aqueles sete anões das montanhas. Mas eles disseram-lhe com +brandura, +que não tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como +se chamava. +Branca contou a sua triste história, e os anões +disseram-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa?»<br /> + + +<br /> + + +―Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente +sossegada.»<br /> + + +<br /> + + +Começou logo o seu serviço, e continuou-o +regularmente todos os dias. +Limpava os móveis, e fazia o jantar. Os anões iam +trabalhar para as +minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.<br /> + + +<br /> + + +Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que +já não +tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, +e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora +a mulher mais linda +que há no mundo?»<br /> + + +<br /> + + +E o espelho respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―Sim, nos teus palácios e nos teus castelos, mas Branca +está nas sete +montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»<br /> + + +<br /> + + +Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe +cruel, +e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que +modo? Uma manhã partiu disfarçada em vendedeira +ambulante, com um cesto +cheio de objectos de fantasia. Foi direita às sete +montanhas, e bateu à +<span class="pagenum">[130]</span>porta da casinha, +gritando: «Quem quer comprar bonitas +jóias?»<br /> + + +<br /> + + +Os anões tinham recomendado a Branca que desconfiasse das +caras +estranhas, receando os emissários da rainha, e ela tinha +prometido ser +prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no +cesto, esqueceu-se das suas promessas.<br /> + + +<br /> + + +―Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou pôr ao +pescoço.»<br /> + + +<br /> + + +Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os +anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no +chão e completamente +inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lábios +algumas +gotas dum licor amarelo. Branca começou a respirar, voltou a +si pouco +a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.<br /> + + +<br /> + + +―Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira +não era +outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautela, +não deixes +entrar aqui ninguém, quando não estivermos em +casa.»<br /> + + +<br /> + + +Ao entrar no seu palácio toda contente, colocou-se a rainha +diante do +espelho, e disse-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que +há no mundo? +Responde.<br /> + + +<br /> + + +E o espelho respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―És tu nos teus grandes palácios e nos teus +castelos, mas Branca está +nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que +tu.»<br /> + + +<br /> + + +A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a +infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar <span class="pagenum">[131]</span>em vendedeira. Chegou +às sete +montanhas, e bateu à porta da cabana.<br /> + + +<br /> + + +―Quem quer comprar lindas jóias? Branca veio à +janela, e respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―Vá-se embora, aqui não entra +ninguém.»<br /> + + +<br /> + + +―Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro. +Já +viu outro tão bonito?»<br /> + + +<br /> + + +Branca não pôde resistir ao desejo de possuir +aquela jóia. Abriu a +porta.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lho na +cabeça.»<br /> + + +<br /> + + +Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava +envenenado, e +Branca caiu morta.<br /> + + +<br /> + + +À noite quando regressaram os anões, acharam-na +pálida e fria. +Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e +tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente.<br /> + + +<br /> + + +No entanto a cruel rainha voltava contentíssima para o seu +palácio. +Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a +que +o espelho respondeu como antecedentemente.<br /> + + +<br /> + + +―Ah! é preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha +de me +sacrificar.<br /> + + +<br /> + + +Vestiu-se de camponesa com um cesto de maçãs. +Entre elas havia uma que +estava envenenada dum lado. Foi, e bateu à porta da +cabana.»<br /> + + +<br /> + + +―Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?»<br /> + + +<br /> + + +―Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, não deixo +entrar +ninguém, nem compro coisa alguma.»<br /> + + +<br /> + + +―Está bem, não faltará quem compre +estas ricas maçãs. Mas por ser tão +bonita, quero dar-lhe uma.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[132]</span>―Obrigada, +não posso aceitar.»<br /> + + +<br /> + + +―Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um +pedaço. Ah! que boa +que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas +palavras, a traidora +mordia no lado da maçã, que não estava +envenenado. Branca deixou-se +tentar, levou à boca o outro pedaço, e caiu +fulminada.<br /> + + +<br /> + + +―Aí tens, para castigo da tua formosura.»<br /> + + +<br /> + + +Quando chegou ao palácio a rainha foi direita ao espelho, e +perguntou-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais +linda?»<br /> + + +<br /> + + +E o espelho respondeu: +<br /> + + +―És tu, és tu.»<br /> + + +<br /> + + +―Até que enfim!»<br /> + + +<br /> + + +Os anões estavam inconsoláveis. Debalde tinham +tentado reanimá-la com o +licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca +continuava +fria e inanimada. Choraram por ela durante três dias, e os +passarinhos +da floresta choraram também. No entanto as boas avezinhas +não podiam +acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto tão +tranquilo, +as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. +Não quiseram +enterrá-la. Meteram-na num caixão de cristal, e +escreveram em cima. +«Aqui jaz a filha dum rei;» puseram o +caixão numa das sete montanhas, +e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se +assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais +pequena alteração.<br /> + + +<br /> + + +Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar +à +caça, viu o caixão, e pediu aos anões +que lho cedessem, fosse por preço +que fosse.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[133]</span>―Somos muito +ricos, e por nada deste mundo venderemos este caixão, que +é o nosso tesouro.»<br /> + + +<br /> + + +―Então dêem-mo, já não posso +viver sem contemplar este rosto de +mulher. Guardá-lo-ei na melhor sala do meu +palácio. Peço-lhes que me +façam isto.»<br /> + + +<br /> + + +Os anões, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no +caixão para +o levarem. Um deles tropeçou numa raiz, e o +caixão sofreu um +balanço, que fez cair o bocado da maçã +envenenada, que Branca não tinha +engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. +O +jovem príncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela. +O +casamento fez-se com grande pompa. O príncipe convidou todos +os reis e +rainhas dos diferentes países, e entre elas a rainha inimiga +de +Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos +os olhares, pôs-se diante do espelho, e disse a rainha:<br /> + + +<br /> + + +―Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que há do +mundo?»<br /> + + +<br /> + + +E o espelho respondeu:<br /> + + +<br /> + + +―Branca é mais formosa que tu.<br /> + + +<br /> + + +A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus +crimes +fossem descobertos, que morreu de repente.<br /> + + +<br /> + + +Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu palácio +de +princesa não se esqueceu dos anões que tinham +sido os seus benfeitores.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[134]</span> +<h2><a name="40"></a>A rapariguinha e os +fósforos</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Que frio! a neve caía, e a noite aproximava-se; era o +último de +Dezembro, véspera de Ano Bom. No meio deste frio e desta +escuridão +passou na rua uma desgraçada pequerrucha, com a +cabeça descoberta e os +pés descalços. É verdade que trazia +sapatos ao sair de casa, mas +tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua +mãe já +tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao +atravessar a rua +a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; +quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a +intenção de fazer +dele um berço para o seu primeiro filho.<br /> + + +<br /> + + +A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha +no seu velho avental uma grande quantidade de fósforos, e +levava na +mão um maço deles. O dia correra-lhe mal; +não tinha havido +compradores, e por isso não apurara cinco réis.<br /> + + +<br /> + + +Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos +longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do +pescoço; <span class="pagenum">[135]</span>mas +pensava ela porventura nos seus cabelos anelados?<br /> + + +<br /> + + +As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos +manjares; era a véspera de dia de Ano Bom: eis no que ela +pensava.<br /> + + +<br /> + + +Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada +vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pai +bater-lhe-ia, +porque não tinha vendido os seus fósforos. +Além disso em sua casa +fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o +vento +atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas +mãozinhas já quase que as não sentia. +Ai! como um fosforozinho aceso +lhe faria bem! Se tirasse do maço apenas um, um +único, e ascendendo-o +aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: <i>ritche</i>! +como estoirou! como +ardeu! Era uma chama tépida e clara, como uma pequena +lamparina. Que +luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro +de ferro, cujo lume magnífico aquecia tão +suavemente, que era um regalo.<br /> + + +<br /> + + +A pequerrucha ia já a estender os pezitos para os aquecer +também, quando +a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na +mão uma +pontita de fósforo consumido.<br /> + + +<br /> + + +Acendeu segundo fósforo, que ardeu, que brilhou, e o muro +onde bateu +a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando +através desse +muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha +alvíssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual +uma galinha +assada com recheio de ameixas e de batatas <span class="pagenum">[136]</span>fumegava +exalando um perfume +delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do +prato, e caiu no chão ao pé da pequerrucha, com o +garfo e a faca +espetada no lombo. Nisto apagou-se o fósforo, e viu apenas +diante de +si a parede fria e tenebrosa.<br /> + + +<br /> + + +Acendeu terceiro fósforo, e achou-se imediatamente sentada +debaixo +de uma magnífica árvore do Natal; era ainda mais +rica e maior do que a +que tinha visto no ano passado através dos vidros de um +armazém +sumptuoso.<br /> + + +<br /> + + +Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões acesos, e as +estampas +coloridas, como as que há às portas das lojas, +pareciam sorrir-lhe. +Quando ia agarrá-las com as duas mãos, apagou-se +o fósforo; todos os +balões da árvore do Natal começaram a +subir, a subir, e viu então que se +tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no +céu +um longo rasto de fogo.<br /> + + +<br /> + + +―É alguém que está a morrer, disse a +pequerrucha; porque a sua avó, que +lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas +vezes: «Quando +cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.»<br /> + + +<br /> + + +Acendeu ainda outro fósforo: deu uma grande luz, no meio da +qual lhe +apareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e +suavíssimo.<br /> + + +<br /> + + +―Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei +que te vais +embora quando se apagar o fósforo. Desaparecerás +como a panela de +ferro, a galinha assada, e a bela árvore do Natal.<br /> + + +<br /> + + +Acendeu o rosto do maço, porque não queria <span class="pagenum">[137]</span>que sua avó lhe +fugisse, e +os fósforos espalharam um clarão mais vivo que a +luz do dia. Nunca sua +avó tinha sido tão formosa. Pôs ao colo +a pequerruchinha, e ambas +alegres, no meio deste deslumbramento, voaram tão alto, +tão alto, que +já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: +haviam chegado ao Paraíso.<br /> + + +<br /> + + +Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os +dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos +lábios... +morta, morta de frio na última noite do ano. O dia de Ano +Bom veio +alumiar o pequenino cadáver, sentado ali com os seus +fósforos, a que +faltava um maço, que tinha ardido quase inteiramente.―Quis +aquecer-se, +disse um homem que passou.» E ninguém soube nunca +as lindas coisas que +ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua +velha avó no dia do Ano Novo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[138]</span> +<h2><a name="41"></a>O primeiro pecado de +Margarida</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Chamava-se Margarida, e estavam à espera dela no +céu, porque Deus +tinha dito:―É uma boa alma, e, como lá em baixo +no mundo lhe pode +acontecer alguma desgraça, vou trazê-la um destes +dias para o paraíso.»<br /> + + +<br /> + + +Margarida era uma virgem cândida, matinal como a aurora, +fresca como +ela; todos os dias ao acordar rezava as orações, +que sua mãe lhe tinha +ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como +não tinha +jóias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.<br /> + + +<br /> + + +Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.<br /> + + +<br /> + + +E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela +canção +de amor e de glória, que já embalara muitos +berços, e que podia +sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.<br /> + + +<br /> + + +Numa tarde de Verão, estava ela sentada à porta +de casa fiando linho, +à hora em que as estrelas começam a aparecer, uma +a uma no firmamento.<br /> + + +<br /> + + +Estava Margarida cantando a sua canção, quando <span class="pagenum">[139]</span>passou por ali uma das +suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido +novo. +Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o +colar de ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a +mão para que visse +bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda +contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que +inquietou no paraíso o seu anjo da guarda.<br /> + + +<br /> + + +O fio de linho já não passava tão +rapidamente entre os dedos de +Margarida, a roda cessara o seu barulho monótono, e o fuso +caíra-lhe das +mãos.<br /> + + +<br /> + + +Ao cair o fuso despertou do êxtase, abriu os olhos, e viu +diante de si +um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro +de veludo +preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a +respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, +perguntou-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Qual é o caminho da cidade?»<br /> + + +<br /> + + +Margarida estendeu a mão para lho indicar, e o forasteiro +inclinando-se +tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma +estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que +o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se +então com +um sorriso estranho e diabólico.<br /> + + +<br /> + + +Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de +Margarida, e pediu-lhe uma esmola.<br /> + + +<br /> + + +Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre +desgraçado.<br /> + + +<br /> + + +O cavaleiro então, soltando um grito de cólera, +ia lançar-se sobre +Margarida, mas o mendigo―<span class="pagenum">[140]</span>que +era o seu anjo da guarda +disfarçado―cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto +é Satanás, que +tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do +espírito celeste.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[141]</span> +<h2><a name="42"></a>Um nome inscrito no +céu</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Era uma vez um pobre mendigo, que bateu à porta duma humilde +cabana a +pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não +vendo, nem +ouvindo ninguém, abriu a porta de mansinho e entrou no +casebre; viu +então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:<br /> + + +<br /> + + +―«Ai! não te posso dar nada, porque nada +tenho.»<br /> + + +<br /> + + +E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater +à mesma +porta.<br /> + + +<br /> + + +―Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que +não tenho nada +que te dar.»<br /> + + +<br /> + + +―Foi por isso que eu voltei―disse em voz baixa o mendigo.<br /> + + +<br /> + + +E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em +cima da mesa, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez +réis, que +lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.<br /> + + +<br /> + + +―Aqui te fica isto, santinha―disse-lhe ele afectuosamente, indo-se +embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»<br /> + + +<br /> + + +Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos +escrevê-lo-ão no +Paraíso, e mais tarde nós o viremos a saber.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[142]</span> +<h2> <a name="43"></a>O linho</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e +transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios +sobre +ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o +dum filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.<br /> + + +<br /> + + +―Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, +e serei brevemente uma rica peça de pano. Sinto-me feliz. +Não há +ninguém que seja mais feliz do que eu sou. Tenho +saúde e um belo +futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou +feliz, feliz a mais não poder ser!»<br /> + + +<br /> + + +―Como és ingénuo! disseram as silvas do valado; +tu não conheces o +mundo, de que nós outras temos uma larga +experiência.»<br /> + + +<br /> + + +E rangendo lastimosamente, cantaram:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">―Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> + + +―Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div> + + +<br /> + + +―Não tão cedo como vocês imaginam, +respondeu o linho; está uma bela +manhã, o sol resplandece, <span class="pagenum">[143]</span>e +a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e +florir. Sou muitíssimo feliz.»<br /> + + +<br /> + + +Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela +cabeleira, arrancaram-no com raízes e tudo, e deram-lhe +tratos de +polé. Primeiro mergulharam-no em água, como se o +quisessem afogá-lo, e +depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!<br /> + + +<br /> + + +―Não se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; +é necessário +sofrer, o sofrimento é a mãe da +experiência.»<br /> + + +<br /> + + +Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no, +cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois, +puseram-no numa roca, e então perdeu a cabeça +inteiramente.<br /> + + +<br /> + + +―Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio +daquelas +torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades +perdidas.»<br /> + + +<br /> + + +E ainda estava dizendo―perdidas, e já o estavam a meter no +tear e a +transformá-lo numa peça de pano.<br /> + + +<br /> + + +―Isto é extraordinário, nunca o imaginei; que boa +sorte a minha, e que +grandes tolas aquelas silvas quando cantavam:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> + + +Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div> + + +<br /> + + +Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é +verdade, mas por isso +também agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me +tão forte, tão alto, +tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser +planta, mesmo florida, +ninguém trata da gente, e <span class="pagenum">[144]</span>não +bebemos outra água a não ser a da chuva. +Agora é o contrário: que cuidados! As raparigas +estendem-me todas as +manhãs, e à noite tomo o meu banho com um +regador. A criada do sr. cura +fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a +melhor peça da paróquia. Não posso ser +mais feliz.»<br /> + + +<br /> + + +Levaram o pano para casa, e entregaram-no às tesouras. +Cortaram-no e +picaram-no com uma agulha. Não era lá muito +agradável, mas em +compensação fizeram dele uma dúzia de +camisas magníficas.<br /> + + +<br /> + + +―Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu +destino é +abençoado, porque sou útil neste mundo. +É preciso isso para se viver em +paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é +verdade, mas formamos um +só grupo, uma dúzia. Que incomparável +felicidade!<br /> + + +<br /> + + +O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.<br /> + + +<br /> + + +―Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas +não +se fazem impossíveis.»<br /> + + +<br /> + + +E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era +finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem +adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em +papel +branco magnífico.<br /> + + +<br /> + + +―Oh que agradável surpresa! exclamou o papel, agora sou +muito mais fino +do que dantes, e vão cobrir-me de letras. O que +não escreverão em cima +de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»<br /> + + +<br /> + + +E escreveram nele as mais belas histórias, que foram lidas +diante de +inúmeros ouvintes, e os tornaram mais sábios e +melhores.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[145]</span>―Ora aqui +está uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, +quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que +ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não +sei +explicar o que me está acontecendo, mas é +verdade. Deus sabe +perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha +sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, até chegar +à maior glória. +Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, +acabou-se» +tudo pelo contrário se me apresenta debaixo do aspecto mais +risonho. Vou +viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e +instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora +as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me +feliz, +imensamente feliz!»<br /> + + +<br /> + + +Mas o papel não foi viajar; entregaram-no ao +tipógrafo, e tudo que lá +estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, +que recrearam e instruíram uma infinidade de pessoas. O +nosso bocado de +papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda +que desse a volta à roda +do mundo. A meio caminho já estaria gasto.<br /> + + +<br /> + + +―É justo, disse o papel, não tinha pensado nisso. +Fico em casa, e vou +ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as +letras, as +palavras caíram directamente da pena sobre mim, fico no meu +lugar, e os +livros vão por esse mundo fora. A sua missão +é realmente bela, e eu +estou contente, e julgo-me feliz.<br /> + + +<br /> + + +O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.<br /> + + +<br /> + + +―Depois do trabalho é agradável o descanso, <span class="pagenum">[146]</span>pensou ele. É +neste +isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só de hoje em +diante é que +eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo +é a verdadeira +perfeição. Que me irá ainda acontecer? +Progredir, está claro.»<br /> + + +<br /> + + +Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o +queimarem, porque o +que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar +açúcar. E todas as +crianças da casa se puseram à roda; queriam +vê-lo arder, e ver também, +depois da labareda, as milhares de faíscas vermelhas, que +parecem fugir, +e se apagam instantaneamente uma após outra. O +maço inteiro de papel +foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande +chama, que se erguia tão alto, tão alto como o +linho nunca erguera as +suas flores azuis; a peça de pano nunca tinha tido um brilho +semelhante.<br /> + + +<br /> + + +Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as +palavras, todas as ideias desapareceram em línguas de fogo.<br /> + + +<br /> + + +―«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz +no meio da labareda, que +pareciam mil vozes reunidas numa só. A chama saiu pela +chaminé, e no +meio dela volteavam pequeninos seres invisíveis para os +olhos do +homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha +dado. +Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu, +quando não restava do papel senão a cinza negra, +ainda eles dançavam +sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas +encarnadas.<br /> + + +<br /> + + +As crianças cantavam à roda da cinza inanimada:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[147]</span> +<div class="poetry">Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> + + +Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div> + + +<br /> + + +Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, +não se acabou; agora é que +é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»<br /> + + +<br /> + + +As crianças não puderam ouvir, nem compreender +estas palavras; mas +também não era necessário, porque as +crianças não devem saber tudo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;">FIM.<br /> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h5>ÍNDICE</h5> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div> +<a href="#1">A mãe</a><br /> + + +<a href="#2">O ouro</a><br /> + + +<a href="#3">Doçura e bondade</a><br /> + + +<a href="#4">O malmequer</a><br /> + + +<a href="#5">Não quero</a><br /> + + +<a href="#6">Piloto</a><br /> + + +<a href="#7">O rico e o pobre</a><br /> + + +<a href="#8">Como um camponês aprendeu o Padre +Nosso</a><br /> + + +<a href="#9">O talismã</a><br /> + + +<a href="#10">A alma</a><br /> + + +<a href="#11">Alberto</a><br /> + + +<a href="#12">A canção da cerejeira</a><br /> + + +<a href="#13">Os gigantes da montanha e os +anões da planície</a><br /> + + +<a href="#14">A criança, o anjo e flor</a><br /> + + +<a href="#15">Presente por presente</a><br /> + + +<a href="#16">O pinheiro ambicioso</a><br /> + + +<a href="#17">Perfeição das obras de +Deus</a><br /> + + +<a href="#18">João e os seus camaradas</a><br /> + + +<a href="#19">O rabequista</a><br /> + + +<a href="#20">Os pêssegos</a><br /> + + +<a href="#21">A urna das lágrimas</a><br /> + + +<a href="#22">Reconhecimento e ingratidão</a><br /> + + +<a href="#23">O fato novo do sultão</a><br /> + + +<a href="#24">Boa sentença</a><br /> + + +<a href="#25">Os animais agradecidos</a><br /> + + +<a href="#26">O ermitão</a><br /> + + +<a href="#27">Carlos Magno e o abade de S. Gall</a><br /> + + +<a href="#28">A boneca</a><br /> + + +<a href="#29">Inconveniente da riqueza</a><br /> + + +<a href="#30">Querer é poder</a><br /> + + +<a href="#31">Qual será rei?</a><br /> + + +<a href="#32">Os três véus de Maria</a><br /> + + +<a href="#33">Os pequenos no bosque</a><br /> + + +<a href="#34">O chapelinho encarnado</a><br /> + + +<a href="#35">Os cinco sonhos</a><br /> + + +<a href="#36">A igreja do rei</a><br /> + + +<a href="#37">O valente soldado de chumbo</a><br /> + + +<a href="#38">João Pateta</a><br /> + + +<a href="#39">Branca de Neve</a><br /> + + +<a href="#40">A rapariguinha e os fósforos</a><br /> + + +<a href="#41">O primeiro pecado de Margarida</a><br /> + + +<a href="#42">Um nome inscrito no céu</a><br /> + + +<a href="#43">O linho</a><br /> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +<table style="width: 449px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto; height: 210px;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + + <tbody> + + + <tr align="right"> + + + <td style="width: 99px; height: 23px;"></td> + + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 148px; height: 23px;">Original</td> + + + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 23px;"></td> + + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 158px; height: 23px;">Correcção</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e1"></a><a href="#p56">#pág. +56</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">entrar?</td> + + + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">entrar!</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e2"></a><a href="#p58">#pág. +58</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">João.</td> + + + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">João:</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e3"></a><a href="#p58">#pág. +58</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">embora?</td> + + + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">embora.</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e4"></a><a href="#p107">#pág. +107</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">encontremos</td> + + + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">encontraremos</td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<br /> + + +<br /> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +A propriedade deste livro pertence no Brasil ao sr. Luís de +Andrade, +residente no Rio de Janeiro.<br /> + +</body> +</html> diff --git a/old/modern/contos.txt b/old/modern/contos.txt new file mode 100644 index 0000000..e29ba95 --- /dev/null +++ b/old/modern/contos.txt @@ -0,0 +1,4000 @@ + + + + +Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the +original version, already available at Project Gutenberg. / Actualizao +ortogrfica da verso original, j disponvel no Project Gutenberg.) + + + + + + + + +CONTOS PARA A INFNCIA + +ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES POR GUERRA JUNQUEIRO + + +LISBOA + +TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOMS QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL + +Rua dos Calafates, 110 + +1877 + + + + +*A me* + + +Estava uma me muito aflita, sentada ao p do bero do seu filho, com +medo que lhe morresse. A criancinha plida tinha os olhos fechados. +Respirava com dificuldade, e s vezes to profundamente, que parecia +gemer; mas a me causava ainda mais lstima do que o pequenino +moribundo. + +Nisto bateram porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuado +numa manta de arrieiro. Era no Inverno. L fora estava tudo coberto de +neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha. + +O pobre homem tremia de frio; a criana adormecera por alguns instantes, +e a me levantou-se a pr ao lume uma caneca com cerveja. O velho +comeou a embalar a criana, e a me, pegando numa cadeira, sentou-se +ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada +vez com mais dificuldade, pegou-lhe na mozinha descarnada e disse para +o velho: + +--Oh! Nosso Senhor no mo h-de levar! no verdade?-- + +E o velho, que era a Morte, meneou a cabea duma maneira estranha, em +ar de dvida. A me deixou pender a fronte para o cho, e as lgrimas +corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de +cabea; estava sem dormir havia trs dias e trs noites. Passou +ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a +tremer de frio. + +--Que isto! exclamou, lanando volta de si o olhar alucinado. O +bero estava vazio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a criana. + + * * * * * + +A pobre me saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma +mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. A Morte entrou-te em +casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais +depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a entregar. + +--Por onde foi ela? gritou a me. Diz-mo pelo amor de Deus! + +--Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto. +Mas s to ensino, se me cantares primeiro todas as canes que cantavas +ao teu filho. So lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e +muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lgrimas. + +--Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a me. Agora no me +demores, porque quero encontrar o meu filho.-- + +A Noite ficou silenciosa. A me ento, desfeita em lgrimas, comeou a +cantar. Cantou muitas canes, mas as lgrimas foram mais do que as +palavras. + +No fim disse-lhe a Noite: Toma direita, pela floresta escura de +pinheiros. Foi por a que a Morte fugiu com o teu filho. + +A me correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e no +sabia que direco havia de seguir. Diante dela havia um matagal, +cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve +cristalizada. + + * * * * * + +--No viste a Morte que levava o meu filho? perguntou-lhe a me. + +--Vi, respondeu o matagal, mas no te ensino o caminho, seno com a +condio de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado. + +E a me estreitou o matagal contra o corao; os espinhos +dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se +de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite +de Inverno frigidssima, tal o calor febricitante do seio d'uma me +angustiosa. + +E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando, +andando, at que chegou margem dum grande lago, onde no havia nem +barcos, nem navios. No estava suficientemente gelado para se andar por +ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo, +querendo encontrar o seu filho, era necessrio atravess-lo. No delrio +do seu amor, atirou-se de bruos a ver se poderia beber toda a gua do +lago. Era impossvel, mas lembrava-se que Deus, por compaixo, faria +talvez um milagre. + +--No! no s capaz de me esgotar, disse o lago. Sossega, e entendamo-nos +amigavelmente. Gosto de ver prolas no fundo das minhas guas, e os teus +olhos so dum brilho mais suave do que as prolas mais ricas que eu +tenho possudo. Se queres, arranca-os das rbitas fora de chorar, e +levar-te-ei estufa grandiosa, que est do outro lado: essa estufa a +habitao da Morte; e as flores e as rvores que esto l dentro, ela +quem as cultiva; cada flor e cada rvore a vida duma criatura +humana. + +--Oh! o que no darei eu, para reaver o meu filho! disse a me. E +apesar de ter j chorado tantas lgrimas, chorou com mais amargura do +que nunca, e os seus olhos destacaram-se das rbitas e caram no fundo +do lago, transformando-se em duas prolas, como ainda as no teve no +mundo uma rainha. + +O lago ento ergueu-a, e com um movimento de ondulao depositou-a na +outra margem, aonde havia um maravilhoso edifcio, com mais de uma lgua +de comprido. De longe no se sabia se era uma construo artstica ou +uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre me no podia ver nada; +tinha dado os seus olhos. + +--Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho! bradou +ela desesperada. + +--A Morte ainda no chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava dum +lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como +vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho? + +--Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus misericordioso. Compadece-te +de mim, e diz-me onde est o meu filho. + +--Eu no o conheo, e tu s cega, disse a velha. H aqui muitas plantas +e muitas rvores, que murcharam esta noite: a Morte no tarda a para +as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste +stio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem +com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes, +sente-se bater um corao. Guia-te por isto, e talvez reconheas as +pulsaes do corao de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o +que tens ainda de fazer? + +--J no tenho nada que te dar, disse a pobre me. Mas irei at ao fim +do mundo buscar o que tu quiseres.--Fora daqui no preciso de nada, +respondeu a velha. D-me os teus longos cabelos negros; tu sabes que +so belos, e agradam-me. Troc-los-ei pelos meus cabelos +brancos.--No pedes mais nada do que isso? disse a me. A os tens, +dou-tos de boa vontade. + +E arrancou os seus magnficos cabelos, que tinham sido outrora o seu +orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e +inteiramente brancos da velha. + +Esta levou-a pela mo grande estufa, onde crescia exuberantemente uma +vegetao maravilhosa. Viam-se debaixo de campnulas de cristal jacintos +mimosssimos ao lado de penias inchadas e ordinrias. Havia tambm plantas +aquticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas razes se +enovelavam cobras asquerosas. + +Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e pltanos +frondosos; depois num outro stio isolado havia canteiros de salsa, +tomilho, hortel e outras plantas humildes que representavam o gnero de +utilidade das pessoas que elas simbolizavam. + +Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que +pareciam rebentar; mas viam-se tambm florzitas insignificantes, em +vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com +esmero delicadssimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a +essa hora existiam no mundo, desde a China at Groenlndia. + +A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a me +impacientada pediu-lhe que a levasse ao stio onde estavam as plantas +pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do +corao, e, depois de ter tocado em milhares delas, reconheceu as +pulsaes do corao do seu filho. + +-- ele! exclamou, lanando a mo a um aafroeiro, que, pendido sobre +a terra, parecia completamente estiolado. + +--No lhe toques, disse a velha. Fica neste stio; e quando a Morte +vier, que no tarda, probe-lhe que arranque esta planta; ameaa-a de +arrancar todas as flores que esto aqui. A Morte ter medo, porque tem +de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu +consentimento. + +Nisto sentiu-se um vento glacial, e a me adivinhou que era a Morte, +que se aproximava. + +--Como que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda +primeiro do que eu! Como o conseguiste?--Sou me respondeu ela. + +E a Morte estendeu a sua mo ganchosa para o pequenino aafroeiro. + +Mas a me protegia-o violentamente com ambas as mos, tendo o cuidado de +no ferir uma s das pequeninas ptalas. Ento a Morte soprou-lhe nas +mos, fazendo-lhas cair inanimadas. O hlito da Morte era mais frio do +que os ventos enregelados do Inverno. + +--No podes nada comigo! disse a Morte.--Mas Deus tem mais fora do que +tu, respondeu a me.-- verdade, mas eu no fao seno aquilo que +ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, rvores e +arbustos, quando comeam a murchar, transplanto-as para outros jardins, +um dos quais o grande jardim do Paraso. So regies desconhecidas; +ningum sabe o que se l passa. + +--Misericrdia! misericrdia! soluou a me. No me roubem o meu filho, +agora que acabo de o encontrar! Suplicava e gemia. A Morte +conservava-se impassvel; agarrou ento instantaneamente em duas flores +lindssimas e disse Morte: Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar, +despedaar no s esta, mas todas as flores que esto aqui! + +--No as arranques, no as mates, bradou a Morte. Dizes que s +desgraada, e querias ir partir o corao de outra me!--Outra me! +disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente.--Toma, aqui +tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam to suavemente que os tirei +do lago. No sabia que eram teus. Mete-os nas rbitas, e olha para o +fundo deste poo; v o que ias destruir, se arrancasses estas flores. +Vers passar nos reflexos da gua, como numa miragem, a sorte destinada +a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se +porventura vivesse. + +Debruou-se no poo, e viu passar imagens de felicidade e alegria, +quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terrveis de +misria, de angstias e de desolao. + +--Nisto que eu vejo, disse a me aflitssima, no distingo qual era a +sorte que Deus destinava ao meu filho. + +--No posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto +que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu filho. + +A me desvairada, lanou-se de joelhos exclamando: Suplico-te, diz-me: +era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? No verdade! Fala! +No me respondes? Oh! na dvida, leva-o, leva-o, no v ele sofrer +desgraas to horrveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que minha +vida. As angstias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos cus. +Esquece as minhas lgrimas, as minhas splicas, esquece tudo o que fiz +e tudo o que disse. + +--No te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu +filho ou que o leve para a regio desconhecida de que no posso +falar-te! Ento a me alucinada, convulsa, torcendo os braos, +deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: No me ouas, +Senhor, se reclamo no fundo do meu corao contra a tua vontade que +sempre justa! No me atendas meu Deus! + +E deixou cair a cabea sobre o peito, mergulhada na sua agonia +dilacerante. + +E a Morte arrancou o pequenino aafroeiro, e foi transplant-lo no +jardim do paraso. + + + + + +*O ouro* + + +Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de ouro, +empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o +resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande +fome no pas. + +Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em +segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino; +e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com +que ele ficou todo satisfeito, porque no compreendeu ao princpio +qual era o sentido da rainha; mas, vendo que no lhe traziam mais nada +de comer, comeou a zangar-se. Pediu-lhe ento a rainha, que visse bem +que o ouro no era alimento, e que seria melhor empregar os seus +vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que +traz-los nas minas busca do ouro, que no mata a fome nem a sede, e +que no tem outro valor alm da estimao que lhe dada pelos homens, +estimao que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro +aparecesse em abundncia. + +A rainha tinha juzo. + + + + +*Doura e bondade* + + +H entre vs, meus filhos, ndoles violentas, que no sabem dominar-se, +e que so arrastadas pelas primeiras impresses. uma pssima +disposio, que necessrio corrigir; d lugar a disputas, e a que se +cometam aces, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde. +Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha. + +Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante +dele, volta-se e d-lhe uma bofetada. + +--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num +cego! + +Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns +camponeses grosseiros comearam a apup-lo e a bater no burro, para o +fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a +sua perna aleijada, disse-lhes: Se soubsseis que eu era coxo, no +tereis sido to covardes. + +Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma +palavra. + +Que vos parece estas duas lies? Estou convencido que aproveitaram a +quem as recebeu. + + + + + +*O malmequer* + + +Ouvi com ateno esta pequenina histria! + +No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que +deveis ter visto muitas vezes. H na frente um jardinzinho com flores, +rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no +meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a +olhos vistos, graas ao sol, que repartia igualmente a sua luz tanto por +ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela +manh, j inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes, +parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe dava +que o vissem no meio da erva e no fizessem caso dele, pobre florinha +insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do +sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares. + +Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira, +sentia-se to feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianas +sentadas nos bancos da escola estudavam a lio, ele, sentado na haste +verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo +o que sentia misteriosamente, em silncio, julgava ouvi-lo traduzido com +admirvel nitidez nas canes alegres da cotovia. Por isso ps-se a +olhar com uma espcie de respeito, mas sem inveja, para essa avezinha +feliz que cantava e voava. + +Eu vejo e oio, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento +acaricia-me. Oh! no tenho razo de me queixar. + +Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocrticas; quanto menos +aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dlias inchavam-se para +parecerem maiores do que as rosas; mas no o tamanho que faz a rosa. +As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se +pretensiosamente. No se dignavam de lanar um olhar para o pequeno +malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: Como so +ricas e bonitas! A cotovia ir certamente visit-las. Graas a Deus, +poderei assistir a este belo espectculo. E no mesmo instante a +cotovia dirigiu o seu voo, no para as dlias e tulipas, mas para a +relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria no sabia o que +havia de pensar. + +O passarinho ps-se a saltitar roda dele, cantando: Como a erva +macia! oh! que encantadora florinha, com um corao de oiro, vestida de +prata! + +No se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com +o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do +firmamento. Durante mais de um quarto de hora no pde o malmequer +reprimir a sua comoo. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou +para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que +acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as +tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e +pontiaguda manifestava o despeito. As dlias tinham a cabea toda +inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradveis +ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste. + +Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma +grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as +uma a uma. + +Que desgraa! disse o malmequer suspirando; horrvel; foram-se +todas. + +E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se por +ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando +reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas, +adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia. + +No dia seguinte de manh, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao +ar e luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste, +muitssimo triste. A pobre cotovia tinha boas razes para se afligir: +haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela +aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas +antigas viagens atravs do espao ilimitado. + +O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era +difcil. A compaixo pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe +esquecer inteiramente as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e +a alvura resplandecente das suas prprias folhas. + +Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mo +uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as +tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que no podia compreender o +que desejavam. + +Podemos arrancar daqui um pedao de relva para a cotovia, disse um dos +rapazes, e comeou a fazer um quadrado profundo volta da florinha. + +--Arranca a flor, disse o outro. + +A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era +morrer; e nunca tinha abenoado tanto a existncia, como no momento em +que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia. + +No; deixemo-la, disse o mais velho. Est a muito bem. + +Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia. + +O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia +com as asas nos arames da gaiola. O malmequer no podia, apesar dos seus +desejos, articular-lhe uma palavra de consolao. + +Passou-se assim toda a manh. + +J no tenho gua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me +deixarem ao menos uma gota de gua. A garganta queima-me, tenho uma febre +terrvel, sinto-me abafada! Ai! No h remdio seno morrer, longe do +sol esplndido, longe da fresca verdura e de todas as magnificncias da +criao! + +Depois enterrou o bico na relva hmida para se refrescar um pouco. Viu +ento o malmequer; fez-lhe um sinal de cabea amigvel, e disse-lhe, +afagando-o: Tambm tu, pobre florinha, morrers aqui! Em vez do mundo +inteiro, que eu tinha minha disposio, deram-me um pedacito de relva, +e a ti s por nica companhia. Cada pezinho de relva substitui para mim +uma rvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorfera. Ah! +como me fazes recordar de todas as coisas que perdi! + +--Se eu pudesse consol-la! pensava o malmequer, incapaz de fazer o +mnimo movimento. + +Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume; +a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a +arrancar a erva, teve todo o cuidado em no tocar nem sequer de leve na +flor. + +Caiu a noite; no estava ali ningum, para trazer uma gota de gua +desditosa cotovia; Estendeu ento as suas belas asas, sacudindo-as +convulsivamente, e ps-se a cantar uma canozinha melanclica; a sua +cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu corao quebrado de desejos e +de angstias cessou de bater. Vendo este triste espectculo, o malmequer +no pde como na vspera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se +para o cho, doente de tristeza. + +Os rapazitos s voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto, +rebentaram-lhe as lgrimas e abriram uma cova. Meteram o cadver dentro +de uma caixa vermelha, lindssima, fizeram-lhe um enterro de prncipe, e +cobriram o tmulo com folhas de rosas. + +Pobre passarinho! Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e +deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto que o choraram +e lhe fizeram honrarias pomposssimas. + +A relva e o malmequer lanaram-nas para a poeira da estrada; daquele +que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ningum se lembrou. + + + + + +*No quero* + + +Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito +alto: No, dizia um com voz enrgica, no quero. Parei e +perguntei-lhe:--O que que tu no queres, meu rapaz?--No quero dizer + mam que venho da escola, porque mentira. Sei que me h-de ralhar, +mas antes quero que me ralhe do que mentir.--E tens razo, disse-lhe +eu. s um rapaz como se quer. Apertei-lhe a mo, enquanto que o outro +pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora +todo envergonhado. + +Da a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de falar com o +professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois +pequenos; o que no quis mentir, sorria-me, enquanto que o outro, +vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os +dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, um magnfico +estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a +confessar as suas faltas e o que ainda melhor, a repar-las. O outro +pelo contrrio, mentiroso, covarde e incorrigvel.--No me espanto, +disse eu, j tinha tirado o horscopo destas duas crianas; e +contei-lhe o que tinha ouvido. + + + + +*Piloto* + + +Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos ces, e o +infatigvel companheiro dos brinquedos das crianas da quinta. + +Fazia gosto v-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que Joo lhe +lanava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e +trazia-o margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irm +Joaninha. + +Esta brincadeira recomeava vinte vezes sem cansar nunca a pacincia do +Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, at que o +assobio do criado da quinta chamava o fiel animal s suas obrigaes: +partia ento como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos +pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho. + +Quando o hortelo ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda +da carroa; e muito atrevido seria quem saltasse noite a parede da +quinta. + +Uma vez deu prova de uma extraordinria sagacidade; um jornaleiro, que se +empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, +tentou de noite roubar um saco. + +Piloto, que o conhecia, no fez a menor demonstrao de hostilidade +em quanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou +tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o +largar. + +Era como se dissesse: Onde vais tu com o trigo de meu dono? + +O ladro quis pr ento outra vez o saco donde o tinha tirado; Piloto +no consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, at de +manh; o quinteiro foi dar com ele nesta difcil posio, +repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o no +desonrar. + +Mas o homem ficou com dio ao co, e muito tempo depois, aproveitando a +ausncia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para +ele sem desconfiana; atou-lhe uma corda ao pescoo e arrastou-o at +margem do ribeiro. + +Atou uma grande pedra outra extremidade da corda e levantando o animal +atirou-o gua; mas arrastado ele prprio com o peso e com o esforo, +caiu tambm. + +Como no sabia nadar, teria sido despedaado pela roda do moinho, se o +corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e +desembaraando-se da pedra mal atada, no tivesse mergulhado duas vezes +e trazido para terra o seu mortal inimigo. + +Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o +co que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida. + +Teve vergonha de seu acto miservel; e desde esse dia, violentou-se a si +mesmo e combateu as suas ms inclinaes. + +O exemplo do co corrigiu o homem. + + + + +*O rico e o pobre* + + +Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um +dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e +deitou-se debaixo de uma rvore, porta de uma estalagem, junto da +estrada. Estava comendo um bocado de po que tinha trazido para jantar, +quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu +preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos +viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que no tinham tempo, +e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de +vinho. + +Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua +cdea de po, para a sua velha jaqueta, para o seu chapu todo roto, e +suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino to rico, +em vez do desgraado Martinho! Que fortuna se ele estivesse aqui, e eu +dentro daquela carruagem! O preceptor ouviu casualmente o que dizia +Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lanando a cabea fora da +carruagem, chamou Martinho com a mo. + +--Ficarias muito contente, no verdade, meu rapaz, podendo trocar a +minha sorte pela tua?--Peo que me desculpe senhor, replicou Martinho +corando, o que eu disse no foi por mal.--No estou zangado contigo, +replicou o fidalguinho, pelo contrrio, desejo fazer a troca. + +--Oh! est a divertir-se comigo! tornou Martinho, ningum quereria estar +no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando +muitas lguas por dia, como po seco e batatas, enquanto que o senhor +anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.--Pois bem, +volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu +no tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo. Martinho +ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o +preceptor continuou: Aceitas a troca?--Ora essa! exclamou Martinho, +ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada +de me ver entrar nesta bela carruagem! E Martinho desatou a rir com a +ideia da entrada triunfante na sua aldeia. + +O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a +descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma +perna de pau e que a outra era to fraca, que se via obrigado a andar em +duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou +que era muito plido e que tinha cara de doente. + +Sorriu para o rapazito com ar benvolo, e disse-lhe:--Ento sempre +desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas +valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter uma carruagem e +andar bem vestido?--Oh! no, por coisa nenhuma! replicou +Martinho.--Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se +tivesse sade. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e doente, sofro +os meus males com pacincia e fao por ser alegre, dando graas a Deus +pelos bens que me concedeu na sua infinita misericrdia. + +Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se s pobre e comes mal, +tens fora e sade, coisas que valem mais que uma carruagem, e que no +podem comprar-se com dinheiro. + + + + + +*Como um campons aprendeu o Padre Nosso* + + +Tinha o corao duro, e no dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o +confessor deu-lhe por penitncia rezar sete vezes o Padre Nosso. + +No o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeo. + +Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitncia dar a +crdito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da +minha parte. + +No dia seguinte de manh apresentou-se o primeiro pobre. + +Como te chamas? perguntou-lhe o campons. + +Padre--Nosso--Que--Estais--No--Cu, respondeu o pobre. + +E o teu apelido? + +Seja--Santificado--O--Vosso--Nome. + +E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo. + +Ao outro dia chega segundo pobre. + +Como te chamas? + +Venha--A--Ns--O--Vosso--Reino. + +E o teu apelido? + +Seja--Feita--A--Vossa--Vontade. + +E partiu com o seu alqueire de trigo. + +Veio terceiro pobre. + +Como te chamas? + +Assim--Na--Terra--Como--No--Cu. + +E o teu apelido? + +Dai-nos--Hoje--O--Po--Nosso--De--Cada--Dia. + +E levou o seu alqueire. + +Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma +forma at chegar ao _Amen_. + +Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeo. + +Ento j sabes o Padre Nosso? + +No, sr. cura, sei s os nomes e apelidos dos pobres a quem emprestei +o meu trigo. + +Quais so? tornou o padre. + +E o aldeo enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha +apresentado. + +J vs, disse o confessor, que no era muito difcil aprender o Padre +Nosso, porque j o sabes perfeitamente. + + + + +*O talism* + + +Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma indstria, mas +com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o +que no era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negcios com +uma actividade infatigvel, enquanto que o segundo, entregue +inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direco da +sua casa. + +Explica-me, disse um dia este ltimo ao seu colega, qual a razo +porque a sorte nos trata de um modo to diferente? Vendemos as mesmas +mercadorias, a minha loja est to bem situada como a tua, e apesar +disso, enquanto tu ganhas, eu no fao seno perder. E no porque eu +seja estroina; no bebo, nem jogo. J tenho pensado algumas vezes se no +ters tu por acaso algum precioso talism. + +Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um talism de uma +virtude incomparvel. Trago-o ao pescoo, e ando assim com ele todo o +dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o +celeiro. E o caso que tudo me corre perfeitamente. + +Ol meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa relquia +preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta +restituo. + +Pois vem busc-la amanh de manh. + +Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, +apresentou-lhe este uma avel, atravs da qual tinha passado um +fio de seda. + +O nosso homem p-la imediatamente ao pescoo, e comeou a correr toda a +casa com o talism. Observou ento a completa desordem que por toda a +parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na +cozinha o po, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o trigo, o +feijo; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjedouras dos +cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal +escriturados; viu tudo isto, e que era necessrio dar-lhe remdio, +compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substitudo por +terceira pessoa na direco dos seus negcios. + +Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talism, +agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em +segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado. + + + + +*A alma* + + +Mam, nem todas as crianas que morrem vo para o Paraso. O outro dia +vi levar para o cemitrio um menino que tinha morrido; o seu pap e as +suas duas irmzinhas acompanhavam o caixo, e choravam tanto que me +fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau, no +verdade? + +No; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, enquanto choravam seus +pais e suas irms, j estava vivendo feliz no Paraso. + +A alma? mam; no sei o que ; no compreendo bem. + +Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas +pequerruchas. + +Tive sim, mam, tive muita pena. + +Ora bem, o que que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os +braos? + +No, mam. + +Eram as orelhas? + +Oh! no mam, era _c dentro_. + +Esse _l dentro_, Maria, a tua alma que se alegra ou se entristece, +que te repreende quando fazes o mal, e que est satisfeita quando +praticas o bem. + + + + +*Alberto* + + +Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus +irmos, que eram activos e laboriosos, plantar rvores e fazer +sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um nico +feijo produzir cem feijes e muitas vezes mais, e de uma talhada de +batata nascerem quarenta batatas magnficas; sabia que a terra pagava +com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no +quarto do pai, e foi enterr-la imediatamente no seu jardinzinho. H-de +nascer uma rvore, dizia ele consigo, que dar libras como uma +cerejeira d cerejas, e irei entreg-las ao pap, que ficar muito +contente. Todas as manhs ia ver se a libra tinha nascido, mas no +rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte. Por +fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto. + +Vi pap; achei-a e fui seme-la. + +Como, seme-la? doido! julgas talvez que vai nascer como uma couve? + +Mas, pap, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra. + + verdade, mas no nasce como uma semente; o oiro no tem vida. + +Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe +no pertencia. + +H contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe +produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como +? dando-o aos pobres. Faz-se no Paraso a colheita dessa sementeira. + + + + +*A cano da cerejeira* + + +Disse Deus na Primavera: Ponham a mesa s lagartas! E a cerejeira +cobriu-se imediatamente de folhas, milhes de folhas, fresquinhas e +verdejantes. + +A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiou-se, +abriu a boca, esfregou os olhos e ps-se a comer tranquilamente as +folhinhas tenras, dizendo: No se pode a gente despegar delas. Quem +que me arranjou este banquete? + +Ento Deus disse de novo: Ponham a mesa s abelhas! E a cerejeira +cobriu-se imediatamente de flores, milhes de flores delicadas e +brancas. + +E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas, +dizendo: Vamos tomar o nosso caf; e que chvenas to bonitas em que o +deitaram! + +Provou com a linguita, exclamando: Que deliciosa bebida! No pouparam o +acar! + +No Vero disse Deus: Ponham a mesa aos passarinhos! E a cerejeira +cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos. + +Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasio; temos apetite, +e isto dar-nos- novas foras para podermos cantar uma nova cano. No +Outono disse Deus: Levantai a mesa, j esto satisfeitos. E o vento +frio das montanhas comeou a soprar, e fez estremecer a rvore. + +As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caram uma a uma, e o +vento que as lanou ao cho erguia-as novamente, fazendo-as esvoaar. + +Chegou o Inverno e disse Deus: Cobri o resto! E os turbilhes dos +ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa. + + + + +*Os gigantes da montanha e os anes da plancie* + + +Era uma vez uma famlia de gigantes, que viviam num castelo na +montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum +lamo. Era curiosa e andava com vontade de descer plancie a ver o que +faziam l em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anes. +Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido caa e sua me estava +dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os +jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os +lavradores, coisas inteiramente novas para ela. Oh! que lindos +brinquedos! exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que +quase que cobriu o campo. Lanou-lhe dentro os homens, os cavalos, a +charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo, +onde seu pai estava a jantar. + +--Que trazes a, minha filha? perguntou ele. + +--Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos. So os +mais bonitos que tenho visto. + +E p-los em cima da mesa, a um e um,--os cavalos, a charrua e os +trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem +tivessem transportado dum formigueiro para um salo. A gigantinha +ps-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante +fez-se srio e franziu o sobrolho. Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso +no so brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e +respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e pe-no +imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da +montanha, morreriam de fome, se os anes da plancie deixassem de lavrar +a terra e de semear o trigo. + + + + +*A criana, a anjo e flor* + + +Quando morre uma criana, desce um anjo do cu, toma-a nos braos, e +desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os stios que +ela amara durante a sua pequenina existncia; o anjo abaixa-se de +quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresam +no paraso ainda mais belas do que tinham sido na terra. Deus recebe +todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os lbios, e a flor +escolhida, adquirindo voz imediatamente, comea a cantar os coros +maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma +criana morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram primeiro +sobre a casa em que a criana brincara, e depois sobre jardins +deliciosos, cobertos de flores. + +Qual a flor que desejas para plantar no paraso? perguntou o anjo. + +Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, +magnfica; mas quebraram-lhe o p, e todos os seus ramos cheios de +botezinhos lindssimos pendiam estiolados para o cho. + +Pobre roseira! disse a criana ao anjo; vamos busc-la para que possa +reflorir no paraso. + +O anjo foi busc-la, e abraou a criana. Colheram muitas flores +brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres. + +A colheita estava terminada, e contudo no voavam ainda para Deus. Caiu +a noite silenciosa, e a criana e o seu guia Divino andavam ainda por +cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia +de cacos de loua, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de +imundcie. Entre estes destroos distinguiu o anjo um vaso de flores +com a terra pelo cho, onde pendiam as longas razes duma flor dos +campos, j murcha, e que parecia no poder reverdecer: tinham-na +atirado para a rua como intil e morta. + +Vale a pena levant-la disse o anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando, +te contarei a histria da florinha. L ao fundo, l ao fundo, naquela +rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criana miservel e +doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear +com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias +de Vero os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. +Ento a criana sentada janela, aquecida pelo sol, sem o cansao do +andar, imaginava-se passeando; no conhecia da floresta, da fresca +verdura da primavera, seno o ramo de faia, que uma vez o filho do +vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabea o ramo +verdejante, e, supondo-se debaixo das rvores abrigadas do sol, sonhava +com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe +flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda +razes; o pequerrucho plantou-a num vaso, e p-lo janela, junto da +cama. A flor plantada por mo abenoada, cresceu, tornou-se grande, e +todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu nico +tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe +aproveitar os raios do sol at ao ltimo. A flor aparecia-lhe em +sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e +ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se +voltou. + +Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no paraso; a sua querida +flor, esquecida janela desde ento, murchou, estiolou-se e +atiraram-na rua finalmente. E contudo esta flor quase seca o +tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os +canteiros dum jardim realengo. + +Como sabes tu isso? perguntou a criana, que o anjo levava para o cu. + +--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava +em muletas; como no havia de eu reconhecer a minha flor bem amada! + +A criana abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam +no cu onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, +levou-as ao corao, mas a que ele beijou foi a florinha silvestre, +desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente, ps-se a cantar +com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe, +formando crculos que vo aumentando sucessivamente, multiplicando-se +at ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos +harmoniosamente--desde a criana abenoada at humilde florinha do +campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e +tortuosa. + + + + + +*Presente por presente* + + +Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite + choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda no tinha chegado, foi +a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que +pde, desculpando-se da miservel hospitalidade que lhe ia dar, porque +eram batatas cozidas a nica coisa que lhe poderia oferecer; cama no a +tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava +morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faises, +e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de prncipes. Ao +outro dia pela manh disse isto mesmo pobre mulher, gratificando-a ao +despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha +dito que a guardasse como uma pequena lembrana, a boa camponesa julgou +que seria uma medalha, e sentiu que no tivesse um buraquito para a +trazer ao pescoo. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o +que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro +examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher: + +Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso prncipe! + +E o bom do homem no podia conter-se de alegria, por sua alteza ter +achado as suas batatas melhores do que faises. + + necessrio confessar, disse ele com um ar triunfante, que no h +talvez no mundo um terreno mais favorvel do que este para a cultura das +batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, j que as acha to boas. + +E partiu imediatamente para o palcio com uma proviso de batatas +escolhidas. + +Os lacaios e as sentinelas ao princpio no o queriam deixar entrar; +mas insistiu energicamente, dizendo que no vinha pedir nada, e que pelo +contrrio vinha trazer alguma coisa. + +Foi, pois, introduzido na sala da audincia. + +Meu senhor, disse ele ao prncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente +pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma pea de ouro, em troca +duma enxerga miservel e de um prato de batatas cosidas. Era pagar +demasiadamente, apesar de serdes um prncipe muito rico e poderoso. Eis +o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das +batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faises. Dignai-vos +aceit-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, l +as encontrareis sempre ao vosso dispor. + +A honrada simplicidade do campons agradou ao prncipe, e, como estava +num momento de bom humor, fez-lhe doao de uma quinta com trinta +jeiras de terra. + +Ora o carvoeiro tinha um irmo muito rico, mas invejoso e avarento, que, +sabendo da fortuna do irmo mais novo, disse consigo: Porque no me h +de suceder a mim outro tanto? O prncipe gosta do meu cavalo, pelo +qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer +presente dele: se deu ao Joo uma quinta com trinta jeiras de terra, +simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me h de +recompensar ainda mais generosamente. + +Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do +palcio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com ar +altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audincia. + +Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; no +tenho querido troc-lo a dinheiro, mas dignai-vos permitir-me que vo-lo +oferea. + +O prncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse +consigo: Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces: + +Depois dirigindo-se a ele: + +Aceito a tua ddiva, mas no sei como agradecer-ta condignamente. Oh! +espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que +faises. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que um bom +preo para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras. + +E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora. + + + + + +*O pinheiro ambicioso* + + +Era uma vez um pinheiro, que no estava contente com a sua sorte. Oh! +dizia ele, como so horrorosas estas linhas uniformes de agulhas +verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais +orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar vestido +de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro! + +O Gnio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manh acordou o +pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, +pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, +mais sensatos do que ele, no invejavam a sua rpida fortuna. noite +passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num +saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos ps cabea. + +Oh! disse ele, que doido que eu fui! no me tinha lembrado da cobia +dos homens. Fiquei completamente despido. No h agora em toda a +floresta uma planta to pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro; +o oiro atrai as ambies. + +Ah! se eu arranjasse um vesturio de vidro! Era deslumbrante, e o judeu +avarento no me teria despido. + +No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao +sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, +fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o cu cobriu-se de +nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as +folhas de cristal. + +Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra todo feito em +pedaos o seu manto cristalino. O oiro e o vidro no servem para vestir +as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria +menos brilhante, mas viveria descansado. + +Cumpriu-se o seu ltimo desejo, e, apesar de ter renunciado s vaidades +primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os +outros pinheiros seus irmos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e +vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas +todas sem deixar uma nica. + +O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, j queria voltar sua +forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da +sua sorte. + + + + + +*Perfeio das obras de Deus* + + +_A filha_.--Oh! mam quebrou-se-me a agulha. + +_A me_.--Vou-te dar outra. + +_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mam? + +_A me_.--V se adivinhas. + +_A filha_.--No sei, mam. + +_A me_.--Conheces os metais? + +_A filha_.--Conheo mam; tenho l dentro muitos bocadinhos dentro de +uma caixa. + +_A me_.--Ora muito bem, diz-me l, as agulhas so de pau, de pedra, de +mrmore? + +_A filha_.--Oh! no; so de metal; mas de que metal? + +_A me_.--Antes de perguntar qualquer coisa, v sempre se a adivinhas +primeiro. + +_A filha_.--Ora espere!... uma agulha de metal: no de prata, porque +no branca; no de oiro, porque no de um lindo amarelo muito +brilhante; no de cobre, porque no de um amarelo muito feio, que +cheira mal... Ento de ferro, mam? + +_A me_.--Adivinhaste. + +_A filha_.--Mas, mam, o ferro no liso e brilhante como as agulhas. + +_A me_.-- que primeiro polido e preparado de certo modo, e depois j +se no chama ferro, ao. + +_A filha_.--Bem, as agulhas so de ao. Agora quero adivinhar como que +as fazem. + +_A me_.-- impossvel, no s capaz disso; mas hei de levar-te a uma +fbrica onde se fazem agulhas. Hs-de v-las fazer, e hs-de gostar +muito. + +_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que +nos servimos. + +_A me_.--Tens razo; uma vergonha ignor-lo. + +_A filha_.--Mam, deixe-me ver as suas agulhas. + +_A me_.--Olha, a tens o meu estojo. + +_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! So to +fininhas, to fininhas!... Muita habilidade h-de ser necessria para +fazer uma coisinha to delicada! + +_A me_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por +uma pulga, presa por uma cadeia de oiro? + +_A filha_.--Lembro, mam; era to bonito! + +_A me_.--Li num jornal alemo que um operrio chamado Nerlinger fez +um copo de um gro de pimenta, e que dentro deste copo havia mais +doze... + +_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem num +gro de pimenta! + +_A me_.--E ainda no tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas +doiradas, e sustentava-se no p. + +_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso! + +_A me_.--Tens razo de te admirares da habilidade dos homens. +efectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam +certas coisas; contudo ainda h outras obras mais dignas de admirao. + +_A filha_.--Quais, mam? + +_A me_.--J to digo. (_Levanta-se_.) + +_A filha_.--Que quer, mam? + +_A me_.--Quero que vejas o microscpio de teu pap. + +_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscpio. + +_A me_.--Este magnfico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais +ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como fina, +lisa e brilhante... Agora olha; o que que vs? + +_A filha_.--Meu Deus, que coisa to feia! Que agulha to grosseira! + +_A me_.--Vs-lhe buracos, riscos, asperezas, no verdade? + +_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito. + +_A me_.--Pois todas essas imperfeies so verdadeiras, existem na +agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, que no d por elas. + +_A filha_.--O operrio que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a +visse ao microscpio. + +_A me_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa. + +_A filha_.--O qu, mam? + +_A me_.--O aguilhozinho de uma abelha. + +_A filha_--Oh! que pequenino, que bonito!... Como liso, como +brilhante!... Mas j sei que visto ao microscpio h de acontecer o +mesmo que com a agulha. + +_A me_.--Pronto: olha. + +_A filha_ (olhando).-- esquisito, mam! + +_A me_.--Ento? + +_A filha_.--Aumentou, aumentou como a agulha, mas no spero, pelo +contrario, perfeitamente liso... A agulha parecia que no tinha ponta, +e o ferrozinho da abelha tem uma ponta to fina como um cabelo. Porque +ser isto, mam? + +_A me_.-- porque o operrio que fez este aguilho muito mais hbil +do que o que fez a agulha. + +_A filha_.--Quem esse operrio to hbil? + +_A me_.-- o mesmo que fez o cu, os astros, a terra, as plantas e as +criaturas. + +_A filha_.-- Deus. + +_A me_.--Exactamente. Pois no Deus que fez as abelhas e todos os +animais? + +_A filha_.--De certo. + +_A me_.--Foi ele por conseguinte que fez o aguilho desta abelha; e +a tens porque o aguilho superior agulha: obra de Deus. Mas +continuemos a olhar pelo microscpio. Aqui est um pedacinho de +musselina finssima. Olha pelo microscpio; o que que vs? + +_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal feita. + +_A me_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadssima. + +_A filha_,--Essa estou bem certa que h de ser linda, mesmo vista pelo +microscpio. + +_A me_.--Ento? + +_A filha_.-- horrorosa... Parece feita de pelos grosseiros com grandes +buracos desiguais. + +_A me_.--As obras do homem so todas assim. + +_A filha_.--Oh! mam, vejamos agora as obras de Deus. + +_A me_.--Sabes o que isto? + +_A filha_.--Sei, mam, um casulo de bicho de seda. + +_A me_.--Os fiozinhos que o compem so muito finos, muito lisos; olha +pelo microscpio a ver se te parecem desiguais. + +_A filha_ (olhando pelo microscpio).--No, mam; os fios so todos +iguais, e o casulo sempre muito liso, muito brilhante. + +_A me_.-- porque obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que h +sobre este papel? + +_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas redondas feitas +tambm com tinta. + +_A me_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente +redondos? + +_A filha_.--Sim, mam, perfeitamente redondos. + +_A me_.--V-os agora ao microscpio. + +_A filha_.--Oh! j no so redondos, so todos desiguais. + +_A me_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. uma asa de borboleta; +vs que est mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo +microscpio; o que que vs? + +_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, s com a diferena +que agora maior. Que belas que so as obras de Deus! + +_A me_.--Merece bem a pena estud-las. + +_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras +dos homens. + +_A me_.--E sempre e em tudo hs-de encontrar defeitos nas obras do +homem, enquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais +perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a +primeira que Deus merece tanto a nossa admirao como o nosso amor; a +segunda que os homens orgulhosos so insensatos, porque no podem +fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras +mais primorosas so cheias de imperfeies, se as compararmos com as +obras do Criador. + + + + +*Joo e os seus camaradas* + + +Era uma vez uma viva com um filho nico. Ao cabo dum Inverno rigoroso, +possua apenas um galo, e meio alqueire de farinha. Joo resolveu-se a +correr mundo, busca de fortuna. A me cozeu o resto da farinha, matou +o galo, e disse-lhe: + +O que que preferes: metade desta merenda com a minha bno, ou toda +com a minha maldio? + +Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros h no +mundo eu quereria a tua maldio. + +Bem, meu filho, replicou a me carinhosamente. Leva tudo, e Deus te +abenoe. + +E partiu. Foi andando, andando, at que encontrou um jumento, que tinha +cado num atoleiro, donde no podia sair. + +Oh! Joo, exclamou o burro, tira-me daqui, que estou quase a +afogar-me. + +Espera, respondeu Joo. + +E, formando uma ponte com pedras e ramos de rvores, conseguiu tirar o +quadrpede do atoleiro. + +Obrigado, disse-lhe ele, aproximando-se de Joo. Se te posso ser til, +aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu? + +--Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha vida. + +Queres tu que eu te acompanhe? + +Anda da. + +E puseram-se a caminho. + +Ao passarem por uma aldeia, viram um co perseguido pelos rapazes da +escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre +animal correu para Joo que o acariciou, e o jumento ps-se a ornear de +tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir. + +Obrigado, disse o rafeiro a Joo. Se para alguma coisa te for +prestvel, aqui me tens s tuas ordens. Aonde vais tu? + +Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha vida. + +Queres que te acompanhe? + +Anda da. + +Quando saram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno tirou a +merenda do alforge, e repartiu-a com o co. O burro pastou alguma erva +que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar +lastimosamente. + +Coitado, exclamou Joo! E deu-lhe uma asa do frango. + +--Obrigado disse o gato. Oxal que um dia eu te possa ser til. Aonde +vais tu? + +--Procurar trabalho. Se queres, anda connosco. + +--De boa vontade. + +Os quatro viajantes puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um +grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um +galo na boca. + +Agarra! agarra! bradou o pequeno ao co. + +E no mesmo instante o co atirou-se atrs da raposa, que, vendo-se em +perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente +disse a Joo: + +--Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vais tu? + +--Arranjar trabalho. Queres vir connosco? + +--De boa vontade. + +--Ento anda. Se te cansares, empoleira-te no jumento. + +Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro. +Sentiram-se todos fatigados e no avistavam roda nem uma quinta, nem +uma cabana. + +--Pacincia, disse Joo, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos +hoje a dormir ao ar livre; alm disso a noite est sossegada, e a relva + macia. + +Dito isto estendeu-se no cho; o jumento deitou-se ao lado dele, o co +e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo +empoleirou-se numa rvore. + +Dormiam todos um sono profundssimo, quando de repente o galo comeou +a cantar. + +--Que demnio! disse o jumento acordando todo zangado. Porque que +ests a gritar? + +--Porque j dia, respondeu o galo. No vs ao longe a luz da +madrugada, que vem rompendo? + +--Vejo uma luz, disse Joo, mas no do sol, duma lanterna. +Provavelmente h ali alguma casa, onde nos poderamos recolher o resto +da noite. + +Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravs +dos campos, at que parou junto da casa do guarda dum grande castelo, +donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e +blasfmias horrveis. + +--Escutem, disse Joo; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem + que est l dentro. + +Eram seis ladres armados de pistolas e de punhais, que se banqueteavam +alegremente, sentados a uma mesa principesca. + +--Que bom assalto acabmos de dar, disse um deles, ao castelo do +conde, graas ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que este +porteiro. sua sade! + +-- sade do nosso amigo! repetiram em coro todos os ladres. + +E dum trago despejaram os copos. + +Joo voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa: + +--Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der +sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria diablica. + +O burro, levantando-se nas patas traseiras, lanou as mos ao peitoril +duma janela, o co trepou-lhe cabea, o gato cabea do co e o +galo cabea do gato. Joo deu o sinal, e estoirou uma o ornear do +jumento, os latidos do co, o miar do gato e os gritos estridentes do +galo. + +--Agora, bradou Joo, fingindo que comandava um destacamento, carregar +armas! Dai-me cabo dos ladres; fogo! + +No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando +cada vez mais; os ladres atemorizados refugiaram-se no bosque, saindo +precipitadamente por uma porta falsa. + +Joo e os seus companheiros penetraram na sala abandonada, comeram um +excelente jantar, e deitaram-se em seguida--Joo numa cama, o burro na +cavalaria, o co numa esteira ao p da porta, o gato junto do fogo e +o galo num poleiro. + +Ao principio os ladres ficaram muito contentes, por se verem sos e +salvos na floresta. Mas depois, comearam a reflectir. + +--Era bem melhor a minha cama, do que esta erva to hmida, disse um +deles. + +--Tenho pena do frango que eu comeava a saborear, disse um outro. + +--E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro. + +--E o que mais lamentvel, exclamou um quarto, ficar-nos l todo o +dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tnhamos tirado das +gavetas. + +--Vou ver se torno l a entrar? disse o capito. + +--Bravo! exclamaram os ladres. + +E ps-se a caminho. + +J no havia luz na casa; o capito entrou s apalpadelas, e dirigiu-se +para o fogo; o gato saltou-lhe cara e esfarrapou-lha com as garras. +Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o +rabo do co, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu +por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo +atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas. + +--Anda o diabo nesta casa! exclamou o capito, como poderei eu sair! + +Julgou encontrar refgio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma +parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do cho. + +Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que no tinha nem +pernas nem braos partidos, ergueu-se e tornou para a floresta. + +--Ento? ento?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram. + +--Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para +me deitar e cataplasmas de linhaa para pr neste corpo, que o trago +num feixe. No podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui assaltado +por uma velha que estava a cardar l, e arrumou-me na cara com o +sedeiro, deixando-me neste miservel estado. Quando ia a sair a porta, +um demnio dum remendo atravessou-me as pernas com a sovela. Logo +depois Satans em pessoa atirou-se a mim, despedaando-me com as garras. +Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocs me no +acreditam, vo l, e experimentem. + +--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo +ensanguentado: No seremos ns que l tornaremos. + +Pela manh, Joo e os seus camaradas almoaram ainda excelentemente, e +partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladres +lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos, +com que carregou o jumento. Foram andando, andando, at que chegaram +porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com +uma libr esplndida, meias de seda, cales escarlates e cabelo +empoado. + +Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a Joo. + +--Que vindes aqui buscar? No h lugar para os recolher, vo-se embora? + +--No queremos nada de ti, respondeu Joo. O dono do castelo far-nos- +um bom acolhimento. + +--Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a +andar imediatamente, quando no atiro-lhes j s pernas os meus ces de +fila. + +--Perdo, s um instante, replicou o galo empoleirado na cabea do +jumento; no me poderias dizer quem que abriu aos ladres na noite +passada a porta do castelo? + +O porteiro corou. O conde que estava janela, disse-lhe: + +-- Bernab, responde ao que esse galo te acaba de perguntar. + +--Senhor, replicou Bernab, este galo um miservel. No fui eu que +abri a porta aos seis ladres. + +--Como ento, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis? + +Seja como for, disse Joo, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado, +pedindo-lhe unicamente que nos d de jantar e nos recolha esta noite, +porque vimos cansados do caminho. + +--Ficai certos que sereis bem tratados. + +O burro, o co e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato ficou na +cozinha. E enquanto a Joo, o conde reconhecido, vestiu-o dos ps +cabea com um vesturio magnfico, deu-lhe um relgio de ouro, e +disse-lhe: + +--Queres ficar comigo? s esperto e honrado, sers o meu intendente. + +Joo aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha me para o p de si. +Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicssimo. + + + + +*O rabequista* + + +Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma +igreja magnfica a Santa Ceclia, padroeira dos msicos. + +As rosas mais vermelhas e os lrios mais cndidos enfeitavam o altar. O +vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de oiro, +feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava +constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi l em romaria +um pobre rabequista, plido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha +sido muito longa, estava cansado, e j no seu alforge no havia po nem +dinheiro no bolso para o comprar. + +Assim que entrou na capela, comeou a tocar na sua rabeca com tal +suavidade, com tanta expresso, que a santa ficou enternecida ao v-lo +to pobre e ao escutar aquela msica deliciosa. Quando terminou, Santa +Ceclia abaixou-se, descalou um dos seus ricos sapatos de ouro, e deu-o +ao pobre msico, que tonto de alegria, danando, cantando, chorando, +correu loja dum ourives para lho vender. O ourives, reconhecendo o +sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o presena do +juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado morte. + +Chegara o dia da execuo. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo +ps-se em marcha ao som dos cnticos dos frades, que ainda assim no +chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como +ltima graa, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca at ao ltimo momento. +O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam +suplicou o triste desgraado, que o levassem l dentro para tocar a sua +derradeira melodia. + +Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou, +ajoelhou aos ps da santa, e debulhado em lgrimas comeou a tocar. +Ento o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Ceclia curvar-se de +novo, descalar o outro sapato e met-lo nas mos do infeliz msico. +vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o +rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente +prestar-lhe as mais honrosas homenagens. + + + + +*Os pssegos* + + +Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pssegos +magnficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos, +extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria. +noite o pai perguntou-lhes: + +--Ento comeram os pssegos? + +--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroo, e +hei-de plant-lo para nascer uma rvore. + +--Fizeste bem, respondeu o pai, bom ser econmico e pensar no futuro. + +--Eu, disse o mais novo, o meu pssego comi-o logo, e a mam ainda me deu +metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel. + +--Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade no admira; +espero que quando fores maior te hs-de corrigir. + +--Pois eu c, disse um terceiro, apanhei o caroo que o meu irmo deitou +fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi +o meu pssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for +cidade. + +O pai meneou a cabea: + +--Foi uma ideia engenhosa, mas eu preferia menos clculo. + +--E tu, Eduardo, provaste o teu pssego? + +--Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho, +ao Jorge, que est coitadinho com febre. Ele no o queria, mas +deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora. + +--Ora bem, perguntou o pai, qual de vs que empregou melhor o pssego +que eu lhe dei? + +E os trs pequenos disseram uma: + +--Foi o mano Eduardo. + +Este no entanto no dizia palavra, e a me abraou-o com os olhos +arrasados de lgrimas. + + + + +*A urna das lgrimas* + + +Era uma vez uma viva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem +adorava sobre todas as coisas. No se separava dela um s momento; mas +um dia a pobre pequerrucha comeou a sofrer, adoeceu e morreu. A +desditosa me, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um +momento, cabeceira da filha, julgou endoidecer de mgoa e de saudades. +No comia, no fazia seno chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava +acabrunhada, chorando no mesmo stio em que a filha tinha morrido, +abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua +querida filha, sorrindo com uma expresso anglica e trazendo nas mos +uma urna, que vinha cheia at s bordas. + +--Oh! minha querida me, disse-lhe ela, no chores mais. Olha, o anjo +das lgrimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais, +transbordar, e as tuas lgrimas correro sobre mim, inquietando-me no +tmulo e perturbando a minha felicidade no paraso. + +A pequenina desapareceu, e a me no tornou a chorar para a no +afligir. + + + + +*Reconhecimento e ingratido* + + +Os vossos filhos sero para vs como vs tiverdes sido para vossos pais. +E natural. As crianas vem diariamente o que fazem seus pais, e +imitam-nos. Justifica-se desta maneira o provrbio que diz,--que a +bno ou a maldio dum pai cai sobre a cabea de seus filhos, +terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem +ser meditados. + +Um prncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito +satisfeito, a lavrar a terra. Ps-se a conversar com ele. Depois +de algumas perguntas, soube que o campo no pertencia ao homem, mas que +trabalhava nele mediante um salrio de doze vintns por dia. O +prncipe, que para as suas despesas de administrao e representao +necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, +como se vivia com doze vintns dirios, andando-se ainda por cima +satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeo, que lhe respondeu: + +Gasto diariamente comigo a tera parte dessa quantia; outro tero +para pagar as minhas dividas; e o resto para ir juntando algumas +economias. + +Era um novo enigma para o prncipe. Mas o alegre campons explicou-lho +deste modo. + +Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que j no podem +trabalhar, e com os meus filhos, que ainda no tm fora para isso. Aos +primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha +infncia; e espero que os segundos no me abandonem, quando os anos +tiverem pesado sobre mim. + +O prncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado campons; encarregou-se +da educao de seus filhos; e a bno que lhe deram os seus velhos +pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando +igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicao. + +Mas posso desgraadamente citar-vos outro filho, que procedeu duma +maneira to indigna com seu velho pai doente e aleijado, que este teve +de pedir que o levassem para o hospital da misericrdia. O filho ingrato +recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde +foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse +muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ltima +esmola, um par de lenis, para cobrir a palha que lhe servia de leito. +O mau filho escolheu os lenis mais usados, e disse ao seu pequeno, de +dez anos de idade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas +notou que a criana ao partir tinha escondido um dos lenis a um canto, +atrs da porta. + +Quando voltou perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo. + +Foi, respondeu a criana desabridamente, para me servir mais tarde +deste lenol, quando pela minha vez te mandar tambm para o hospital. + + + + +*O fato novo do sulto* + + +Era uma vez um sulto, que despendia em vesturio todo o seu rendimento. + +Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao +teatro, no tinha outro fim seno mostrar os seus fatos novos. Mudava +de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Est no conselho; +dizia-se dele: Est-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade +muito alegre, graas quantidade de estrangeiros que por ali passavam; +mas chegaram l um dia dois larpios, que, dando-se por teceles, +disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. No +s eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas alm +disso os vesturios feitos com esse estofo, possuam uma qualidade +maravilhosa: tornavam-se invisveis para os idiotas e para todos +aqueles que no exercessem bem o seu emprego. + +--So vesturios impagveis, disse consigo o sulto; graas a eles, +saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade +dos ministros. Preciso desse estofo! + +E mandou em seguida adiantar aos dois charlates uma quantia avultada, +para que pudessem comear os trabalhos imediatamente. + +Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que +trabalhavam, apesar de no haver absolutamente nada nas lanadeiras. +Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso +muito bem guardado, trabalhando at meia noite com os teares vazios. + +--Preciso saber se a obra vai adiantada. + +Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo no podia ser visto pelos +idiotas. E, apesar de ter confiana na sua inteligncia, achou prudente +em todo o caso mandar algum adiante. + +Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do +estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto. + +--Vou mandar aos teceles o meu velho ministro, pensou o sulto; tem um +grande talento, e por isso ningum pode melhor do que ele avaliar o +estofo. + +O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam +com os teares vazios. + +--Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, no vejo +absolutamente nada! Mas no entanto calou-se. Os dois teceles +convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinio sobre os +desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, +olhava, mas no via nada, pela razo simplicssima de nada l existir. + +--Meu Deus! pensou ele, serei realmente estpido? necessrio que +ningum o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas l +confessar que no vejo nada, isso que eu no confesso. + +Ento que lhe parece? perguntou um dos teceles: + +--Encantador, admirvel! respondeu o ministro, pondo os culos. Este +desenho... estas cores... magnfico!... Direi ao sulto que fiquei +completamente satisfeito. + +--Muito agradecido, muito agradecido, disseram os teceles; e +mostraram-lhe cores e desenhos imaginrios, fazendo-lhe deles uma +descrio minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois +repetir tudo ao sulto. + +Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; +precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no +bolso, claro; o tear continuava vazio, e apesar disso trabalhavam +sempre. + +Passado algum tempo, mandou o sulto um novo funcionrio, homem +honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a +este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e no +via nada. + +--No acha um tecido admirvel? perguntaram os tratantes, mostrando o +magnfico desenho e as belas cores, que tinham apenas o inconveniente +de no existir. + +--Mas que diabo! Eu no sou tolo! dizia o homem consigo. Pois no serei +eu capaz de desempenhar o meu lugar? esquisito! mas deix-lo, no o +deixo eu. + +Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admirao pelo +desenho e o bem combinado das cores. + +-- duma magnificncia incomparvel, disse ele ao sulto. E toda a +cidade comeou a falar desse tecido extraordinrio. + +Enfim o prprio sulto quis v-lo enquanto estava no tear. Com um grande +acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois +honrados funcionrios, dirigiu-se para as oficinas, em que os dois +velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de +espcie alguma. + +--No acha magnfico? disseram os dois honrados funcionrios. O desenho +e as cores so dignos de vossa alteza. + +E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali estavam +pudessem ver alguma coisa. + +--Que isto! disse consigo mesmo o sulto, no vejo nada! horrvel! +serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que desgraa que me +acontece! Depois de repente exclamou: magnfico! Testemunho-vos a +minha satisfao. + +E meneou a cabea com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se +atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu squito olharam do +mesmo modo, uns atrs dos outros, mas sem ver coisa alguma, e no entanto +repetiam como o sulto: magnfico! At lhe aconselharam a que se +apresentasse com o fato novo no dia da grande procisso. magnfico! +encantador! admirvel! exclamavam todas as bocas, e a satisfao era +geral. + +Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos +teceles. + +Na vspera do dia da procisso passaram a noite em claro, trabalhando +luz de dezasseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, +cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fio, +e declararam, depois disto, que estava o vesturio concludo. + +O sulto com os seus ajudantes de campo foi examin-lo, e os impostores +levantando um brao, como para sustentar alguma coisa, disseram: + +Eis as calas, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha; + a principal virtude deste tecido. + +--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma. + +--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larpios, +provar-lhe-amos o fato diante do espelho. + +O sulto despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calas, +depois a casaca, depois o manto. O sulto tudo era voltar-se defronte do +espelho. + +--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortesos. +Que desenho! que cores! que vesturio incomparvel! + +Nisto entrou o gro-mestre de cerimnias. + +--Est porta o dossel sobre que vossa alteza deve assistir procisso, +disse ele. + +--Bom! estou pronto, respondeu o sulto. Parece-me que no vou mal. + +E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do +seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, no +querendo confessar que no viam absolutamente nada, fingiam arrega-la. + +E, enquanto o sulto caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a +gente na rua e s janelas exclamava: Que vesturio magnfico! Que +cauda to graciosa! Que talhe elegante! Ningum queria dar a perceber, +que no via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. +Nunca os fatos do sulto tinham sido to admirados. + +--Mas parece que vai em cuecas, observou um pequerrucho, ao colo do +pai. + +-- a voz da inocncia, disse o pai. + +--H ali uma criana que diz que o sulto vai em cuecas. + +Vai em cuecas! vai em cuecas! exclamou o povo finalmente. + +O sulto ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente era +verdade. Entretanto tomou a enrgica resoluo de ir at ao fim, e os +camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda +imaginria. + + + + +*Boa sentena* + + +Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma +quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil ris +de alvssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado +campons levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse: + +--Deviam ser oitocentos mil ris, que foi a quantia que eu perdi; no +alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste +adiantados os cem mil ris de alvssaras: estamos pagos por conseguinte. + +O bom campons, que nem por sombras tocara no dinheiro, no podia nem +devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, +que, vendo a m f do avarento, deu a seguinte sentena: + +--Um de vs perdeu oitocentos mil ris; o outro encontrou um alforge +apenas com setecentos: Resulta da claramente que o dinheiro que o +ltimo encontrou no pode ser o mesmo a que o primeiro se julga com +direito. Por consequncia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que +encontraste, e guarda-o at que aparea o indivduo que perdeu somente +setecentos mil ris. E tu, o nico conselho que passo a dar-te, que +tenhas pacincia at que aparea algum que tenha achado os teus +oitocentos mil ris. + + + + +*Os animais agradecidos* + + +Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem +perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este +respondeu: + +--Senhor: eu sou um desgraado, um miservel; nasci no vosso reino, e +chamo-me _Ingratido_. + +--Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu +servio. + +O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. +Desde que chegaram a palcio, deu tais provas de habilidade, mostrou-se +to esperto e to solcito, que o rei afeioou-se-lhe de tal modo, que +o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administrao da sua casa. +Deslumbrado por uma fortuna to rpida, o seu orgulho desde ento no +conheceu limites; maltratava os inferiores, e no tinha compaixo dos +desventurados. + +Ora, na vizinhana do palcio havia uma floresta cheia de animais +selvagens e perigosssimos. O intendente mandou a fazer por toda a +parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo +dentro, pudessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a +floresta, ia to absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se +precipitou ele mesmo dentro duma das covas. + +Passado um instante, caiu um leo dentro do mesmo poo; caiu depois um +lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O +governador, ao ver-se em to extraordinria companhia, ficou to +horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a esperana de +salvao lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, +ningum o vinha socorrer. + +Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, +chamado Antnio, que todos os dias ia rachar lenha floresta, para +ganhar o po necessrio sua mulher e aos seus filhos. Antnio tambm +l foi nesse dia, como de costume, e ps-se a trabalhar no longe da +cova em que cara o intendente, cujos gritos de aflio no tardou a +ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava +ali. + +--Sou o governador do palcio do rei, e, se me tirares daqui, prometo +encher-te de riquezas; estou em companhia dum leo, dum lobo e duma +enorme serpente. + +--Eu, respondeu o lenhador, sou um miservel jornaleiro, no tendo para +sustentar a minha famlia, mais que o produto do meu trabalho; bastava +um dia perdido para me causar um grande desarranjo; v l pois, se +cumpres a tua promessa? + +O intendente continuou: + +--Pela f que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que +cumprirei a minha palavra. + +Confiado nisto o rachador de lenha foi cidade, e voltou com uma corda +muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O leo atirou-se a +ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era +o intendente. + +Quando chegou acima, o leo agradeceu ao seu salvador com a maior +amabilidade, e foi-se embora procura de jantar, porque tinha fome. + +Antnio deitou outra vez a corda ao fundo do poo, e, julgando tirar o +governador, enganou-se, porque era o lobo; terceira vez subiu a +serpente; foi necessrio fazer uma quarta tentativa, para sair o +governador. Este no perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr +para o palcio. O jornaleiro voltou para casa, e contou mulher tudo o +que se tinha passado, no lhe esquecendo, claro, as brilhantes +promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manh, foi o pobre +homem bater porta do palcio. O porteiro perguntou-lhe o que queria. + +--Faa-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex. o intendente +que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja falar. + +O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou: + +--Vai dizer a esse homem, que eu no vi ningum na floresta; que se +ponha a andar, porque o no conheo. + +O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito. + +O pobre homem tornou para casa mui descoroado, e contou mulher a +odiosa perfdia de que tinha sido vitima. + +A mulher disse-lhe: + +--Tem pacincia; o sr. intendente estava hoje decerto muito ocupado, e +foi talvez por isso que te no pde receber. + +Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu esperanas. + +Na manh seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo porta do palcio. +Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos speros, que no tornasse +ali a aparecer, quando no ver-se-ia obrigado a empregar meios +violentos. A mulher ainda desta vez procurou consol-lo: + +--Experimenta terceira e ltima vez, disse-lhe ela, talvez Deus o +inspire melhor. E se assim no for, ainda que te custe, no penses mais +nisso. + +No dia seguinte o bom do homem voltou carga; e tendo o porteiro +consentido fora de suplicas em anunci-lo ainda ao governador, este +encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre +homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do +cho. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com um +burro, ps-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas +levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se +obrigado a contrair dividas para pagar ao mdico. Quando finalmente +tinha recobrado algumas foras, voltou ao bosque segundo o costume para +fazer alguma lenha. Apenas l chegou, apareceu-lhe o leo, que ele +tinha ajudado a sair do poo. O leo conduzia um burro diante de si, e +este burro estava carregado de sacos cheios de preciosidades. O leo, +vendo Antnio, parou e inclinou-se diante dele com um ar de respeitoso +agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal +de que ficasse com o jumento. Antnio doido de alegria levou o animal +para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico. + +No dia seguinte, voltando de novo floresta, apareceu-lhe o lobo, que +o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto +lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluda, e tinha carregado +o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha +tirado do fjo, e que trazia na ponta da lngua uma pedra preciosa, em +que brilhavam trs cores,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a +serpente chegou ao p do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto +dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal. Antnio +levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que +propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho, +afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este, +assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia. +Antnio respondeu-lhe que a no queria vender, mas simplesmente saber se +seria boa. + +O velho respondeu: + +--So trs as virtudes desta pedra: abundncia contnua, alegria +imperturbvel e luz sem trevas. Se algum ta comprar por menos dinheiro +do que vale, tornar imediatamente para a tua mo. + +Antnio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da +cincia maravilhosa, e correu a contar mulher a sua felicidade. Como +se imagina, graas virtude da famosa pedra, no lhe faltaram da em +diante, nem honras nem riquezas. + +Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou +chamar Antnio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talism. + +Antnio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu: + +--Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me no for paga +pelo que vale, tornar ela mesma para o meu poder. + +--Hei de pagar-ta bem, disse o rei. + +E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manh, +Antnio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto +disse-lhe: + +--Torna a lev-la ao rei imediatamente; no v ele persuadir-se que +lha furtaste. + +O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou presena de sua +majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra +preciosa. + +--Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de ferro, +fechado com sete chaves, disse o rei. + +Antnio mostrou-lhe ento a jia preciosa, e o rei ficou +extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido +semelhante tesouro. + +Antnio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratido do governador e o +reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu +intendente, e disse-lhe: + +--Homem perverso, com justo motivo te puseram o nome de _Ingratido_, +porque s mais falso e mais prfido que os animais ferozes, e pagaste +com o mal o bem que te fizeram. Mas justia ser feita. Dou a Antnio as +tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres +enforcado. + +Admiraram todos a sentena do rei, e Antnio desempenhou as suas altas +funes com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi +escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos +gloriosos. + + + + +*O ermito* + + +Um homem, animado pela mais ardente crena religiosa, deliberou +retirar-se a uma gruta solitria para se consagrar inteiramente ao +trabalho da sua salvao. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os +seus pensamentos no se desviavam nunca da ideia de Deus. Depois de ter +assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que j tinha +merecido um lugar glorioso no paraso, e podia ser contado entre os +santos mais notveis. + +Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe: + +--H no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola +e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas. + +O ermito, atnito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no +seu bordo, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe: + +--Irmo, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que oraes e +penitencias te tornaste agradvel a Deus. + +--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabea, santo padre, no +zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a oraes no as sei, +pobre de mim, que sou um pecador. O que fao andar de casa em casa a +divertir os outros. + +O austero ermito continuou a insistir: + +--Estou certo que, no meio da tua existncia vagabunda, praticaste algum +acto de virtude. + +--Em verdade no poderia citar nem um s. + +--Mas ento como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido +loucamente como os que exercem a tua profisso? Dissipaste frivolamente +o teu patrimnio e o produto do teu oficio? + +--No; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e +filhos tinham sido condenados escravido para pagar uma divida. Essa +mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa, +protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possua para resgatar a +sua famlia, e levei-a cidade, onde ela devia encontrar-se com seu +marido e com seus filhos. Mas quem no teria feito outro tanto? + +A estas palavras o ermito ps-se a chorar, e exclamou: + +--Nos meus setenta anos de solido nunca pratiquei uma obra to +meritria, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu no +passas dum pobre musico. + + + + +*Carlos Magno e o abade de S. Gall* + + +Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall, +preguiosamente reclinado sobre almofadas porta da abadia, fresco, +rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enrgicos e +activos, e o abade era indolente. Alm disso o imperador tinha mais +dum motivo de queixa contra ele. + +--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter +sua esclarecida razo trs perguntas, s quais ter a bondade de me +responder daqui a trs meses, contados dia a dia, em sesso solene do +nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em +dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo; +em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. +rev.^{ma} vier minha presena, pensamento que deve ser um erro. Trate +de arranjar resposta satisfatria a tudo, alis deixa de ser abade de S. +Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada +para o rabo. + +O abade no sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas +os doutores mais famosos pela sua cincia, no lhe souberam dar +resposta. No entanto os dias iam correndo, e a poca fatal +aproximava-se; j no faltava seno um ms, j no faltavam seno +semanas, e afinal s dias. O abade, que noutro tempo era gordo e +anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite. +Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraa, quando se +encontrou com o seu pastor. + +--Bons dias senhor abade. Parece que est mais magro! Est doente? + +--Estou, meu caro Flix, estou muito doente. + +--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar. + +--Infelizmente no so ervas que eu preciso, mas resposta s minhas trs +perguntas. + +-- ento latim? + +--No, no latim, seno os doutores tinham-me arranjado tudo. + +--Visto que no latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que : minha me +era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo. + +Quando o abade lhe formulou as trs perguntas, o pastor atirou com o +barrete ao ar, e disse-lhe: + +--Se apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma} +pode continuar a engordar; mas para isso necessrio que eu vista o seu +habito. + +Quando chegou o dia, o pastor disfarado com o hbito do abade de S. +Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho +imperial. + +--Ento, senhor abade, parece que est mais magro, deu-lhe muito que +pensar a chave do enigma? Vamos l a ver a primeira pergunta: Quanto +valho eu em dinheiro? + +--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por +trinta dinheiros, sua majestade vale justa vinte e nove, s um +dinheiro menos. + +--Bravo, senhor abade, a resposta hbil, e na realidade no posso +deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos segunda pergunta, no h de +ser to fcil dar a resposta. Vamos l a ver: quanto tempo levaria eu a +dar a volta ao mundo? + +--Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e poder seguir +constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e +quatro horas. + +--Decididamente, v. rev.^{ma} um grande finrio, e desta vez, +confesso-me vencido; mas a terceira, no dessas que se responde com +suposies. Quem lhe h de dizer o que eu estou pensando, e como me h +de provar que este pensamento um erro? Tem a palavra senhor abade. + +--Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; est +enganado, porque eu sou o seu pastor. + +--Mas ento tu que deves ser o abade de S. Gall, e desde j o ficas +sendo. + +--No sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor, +peo-lhe outra coisa. + +--No tens mais que falar. + +--Peo a vossa majestade que perdoe ao meu amigo. + +Carlos Magno no era homem que faltasse sua palavra. + + + + +*A boneca* + + +Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma histria--a histria duma +boneca! + +No h muitos anos, mas ainda no era a cordoaria do Porto o ameno +jardim, onde a infncia folga por entre macios de flores e sob o +sorriso do sol, sem que lhe enegrea o esprito a vista dos dois +monumentos, que a meu ver simbolismo as duas mais horrveis calamidades, +que podem aniquilar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda no h +muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da +feira, divertindo-me a meu modo. + +Cansado das inmeras figuras, que tinha visto passar por aquela +espcie de lanterna mgica, dispunha-me a dar por findo o espectculo, +quando novos personagens me chamaram a ateno. + +Eram os meus vizinhos _ricos_. + +Aqui preciso uma rpida explicao. + +Das famlias da minha vizinhana, s conheo trs. + +Qual destas trs famlias ser mais feliz?... + +Pelo que tenho notado, no tm que invejar umas s outras. + +So todas felizes; cada qual a seu modo. + +Vi, pois, chegar os meus vizinhos _ricos_. + +Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapu na mo e +dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou, +tomou nos braos a filhinha e dep-la no cho, e oferecendo, em +seguida, a mo esposa, para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e +com a menina para a barraca onde eu estava. + +No havia ali segredo a surpreender. + +Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que +parecia agradecer quela formosa criana a manifestao de qualquer +desejo. + +No fim de meia hora possua a minha pequena vizinha com que fazer a +felicidade de dez crianas menos abastadas. + +Tinha o necessrio para montar completamente a casa duma boneca... +_rica_. + +Faltava apenas a dona da casa--a boneca. + +Todo risos e atenes, o lojista apresentou o que tinha de melhor. + +Depois de muita hesitao e de, j com os olhos, j com a voz, consultar +a mam, a gentil criana acabou por escolher uma magnfica boneca de +dois palmos de altura, com cabelo em _bandeaux_ e olhos azuis. + +Uma boneca como as outras: cabea e colo de massa, corpo de pelica +recheada, braos e pernas de pau. + +Uma vive na loja da casa, que habito. uma tribo de crianas, que fazem +o martrio e a alegria da pobre me, e tem por chefe um honrado +sapateiro. + +Alguns deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem +anjos, cados do cu sobre um monte de lama. + +So os meus vizinhos _pobres_. + +A segunda compe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a casa +imediata. + + como se costuma dizer, gente _que vai muito bem com a sua vida_. + +A filha que ter dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e carnudas, +cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem +presso. + +So os meus vizinhos _remediados_. + +A terceira a dos meus vizinhos _ricos_. + +Casa nobre, jardim espaoso, cavalos, criados, nome inscrito nas +listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do +estado--nada falta quela ditosa gente! + +Compe-se igualmente de marido, mulher e filha. + +Que formosa criana!... Ter oito anos. + +Franzina e plida, com os cabelos negros, os olhos grandes e +cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mos de dedos compridos e +esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que no +sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a +crescer--que h-de um dia ter o direito de lhas cobrir de beijos. + +Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas +aquelas preciosidades de sobre o balco da barraca para dentro do +carro. + +A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrtica criana. + +Sa dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo at casa variadssimas +consideraes, sugeridas pela quase indiferena, com que aquela menina +recebera brinquedos, que representavam um par de moedas. + +Que contraste com os olhares de cobia, com que outras raparigas da +mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabea de pano, horrvel +artefacto portugus, em que os olhos so representados por dois pontos +de linha azul, o nariz por um alinhavo de retrs cor de rosa, a boca por +outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de l preta! + +Quando cheguei a casa, j na dos meus vizinhos remediados no havia luz. + +Na dos meus vizinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de +trs assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar, +provocavam os ralhos da me. + +Quando, no dia seguinte, cheguei janela, seriam onze horas da manh. + +Na rua agenciavam nova camada de imundcie os filhos do sapateiro; na +casa imediata no se via ningum--estava a pequena na mestra; no +palcio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda, +divertia-se a minha pequena milionria fazendo rodar, com auxlio duma +linha, uma magnfica _caleche_ descoberta, puxada por cavalos brancos. + +Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida. + +--A est a tua caricatura, minha feiticeira!...--disse eu de mim +para mim. Ensaias nas bonecas o que vs no mundo a que pertences!... +Ests a aprender a copiar... Sempre este mundo!... + +Retirei-me da janela. + +Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena. + +A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se +vestia trs e quatro vezes! + +Ao que eu, porm, achava mais graa, era ao respeito com que a dona a +tratava! + +Chamava-lhe sr. D. Lusa; dava-lhe excelncia; sustentava finalmente +com a boneca um destes dilogos de senhoras da alta sociedade, em que +se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma. + +Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos +_ricos_--ouvi um grito de susto. + +Era devido a um acidente, a que est sujeito quem anda de carro. + +Voltara-se este, e a boneca cara, ferindo a fronte na pedra da janela. + +O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a vtima; vendo, +porm, que a ferida havia forosamente de deixar cicatriz, e +lembrando-se de que s lhe bastava querer, para que lhe dessem outra +nova, agarrou-a pelos ps e ia atir-la com despeito rua, quando mais +perto de mim bradou voz tmida e suplicante: + +No atire!... D-ma. + +Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu no dera f at +ento. + +Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e +lanou um olhar de rainha para o stio donde vinha a splica. + +Vendo uma criana, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, +encolhendo os ombros, respondeu: + +--J no presta!... Est esmurrada!... + +-- o mesmo!... D-ma?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de +cobia. + +--Dou...--volveu a rica, encolhendo novamente os ombros. + +E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mos da +vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse +despedaar-se nas lajes da rua. + +Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a +outra, para mostrar me a que ela ainda no podia acreditar, que +fosse sua! + +Por espao de meses foi a boneca a principal ocupao da nova dona. + +A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro +vezes em quatro horas!... J lhe no davam excelncia! Chamavam-lhe +sr. D. Ana; falavam-lhe de arranjos domsticos, do desmazelo da +criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente +estranhas para ela! + +E a desgraada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos +azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia +se tornava mais escura: parecia uma ndoa, um estigma! + +Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, que trouxera no corpo, +ainda no poderia enganar olhos pouco conhecedores. + +No tardou, porm, que arrebiques de mau gosto, fitas velhas, rendas +amareladas, chapus impossveis, viessem contrastar com a elegncia do +vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira. + +Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele +as ondulaes do _moir_, at que, um belo dia, vi a boneca vestida de +cassa---no Inverno!--chaile e manta na cabea. + +Muito mal lhe ficava aquilo!... quela boneca custava-lhe de certo o +ver-se to mal arranjada. + +Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei: + +-- justo!... Cada qual segundo as suas posses. + +Por esse tempo, entrei em relaes com o meu vizinho sapateiro. + +O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos +faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasio, para me +pedir desculpa. + +Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a +aproximar-se de ns e, desde ento, nunca saio de casa nem entro, sem +grave risco de sofrer as consequncias da sua travessa familiaridade. + +Entre os filhos do sapateiro, porm, h uma pequenita de onze anos, com +quem simpatizei logo primeira vista. + +Chama-se Maria. + +Por um destes acasos da Providencia, que parece s vezes comprazer-se +em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmos. + +Acostumado s travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro, +fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou. + +E bem verdade que ele conhecia o valor daquela criana, porque havia +verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: Esta a +minha Maria! + +E tinha razo! + +No podia ser mais discreta do que j nesse tempo era. + +-- quem vale me!...--acrescentou o velho.--Ali, onde a v, faz o +servio duma mulher!... H seis meses, quando a minha santa esteve +doente--bem pensei que no arribasse!--a pequena era quem cozinhava e +olhava pelos irmos!... E caridade como ela tem!?... Olhe que aquela +pequena esteve trs dias sem se deitar... ali... ao p da me! Foi +preciso eu obrig-la, que ela no a queria deixar!... + +E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lgrima, que, +havia muito, hesitava sobre se sim ou no se devia despenhar. + +Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a +cabea coberta por um leno branco. + +Desde que o pai me deu to boas informaes da rapariga, nunca mais +passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias +pequena. + +Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca +deitada nos joelhos. + +--Eu conheo aquela boneca!...--disse eu de mim para mim. + +E, no podendo resistir curiosidade, bradei: + +-- Maricas!... Quem te deu a boneca?... + +Foi ali a menina da vizinha!--respondeu a pequenita, corando de prazer. + +Era escusado dizer-mo. + +Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. No podia +duvidar... Era ela; l estava a mancha, o estigma cada vez mais visvel +na fronte. + +De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com +ela. + +--Quem te viu e quem te v!...--pensava eu. + +s vezes, se Maria se descuidava e os irmos lha podiam apanhar, que +tratos que sofria a desgraada! + +Roada por aquelas mos, de que um carvoeiro se envergonharia, +empregada como pla, submetida a torturas, era, ainda assim, +singularssimo o aspecto da triste! + +Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a +fraternizar com o povo. + +A msera mudara mais uma vez de nome!... + +De sr. D. Ana passara a ser sr. Rosinha e tratavam-na por vossemec. + +Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e leno na cabea. + +Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com +a boneca. + +Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, +encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre +boneca a lastimar-se por estar tudo to caro, por haver falta de +trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que +mais familiares eram pequena. + +Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na, +mandavam-na buscar gua fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e +acabavam por a despedir. + +J o leitor v que, apesar da bondade Maria, deixara de ser feliz. + +Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no palcio vizinho! + +Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos, +desfeito o carmim dos lbios, a boneca no prometia longa durao. + +Foi este pelo menos, o prognstico que fiz a ltima vez que a vi, +tentando em vo agradar ltima dona que o seu destino lhe dera. + +Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim! + +Um dia chovia a cntaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, +espadanava em cacho para cima dos passeios, arrastando na passagem mil +imundcies. + +Eu estava porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava +melancolicamente para a gua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que +partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um objecto, +arremessado de dentro da loja, atravessou o espao voando, e foi cair no +leito do enxurro... + +Olhei... Era a boneca!... + +A msera, arrastada pela gua, vogou rua abaixo at esbarrar numa +pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar trs ou +quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traado entre a pedra e +o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, at ir sumir-se nas +profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem! + +Ser pieguice, ser o que o leitor quiser; mas, confesso-lhe, que me +impressionou o fim da pobre boneca. + +Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado vidraa do +sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa: + +--Porque deitaste fora a boneca, Maricas!? + +--No fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!... + +--E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?... + +--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e +feia!... + +Curvei a cabea ante aquela razo, e segui o meu caminho. + +Pobre boneca! + + + + +*Inconveniente da riqueza* + + +Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alscia, foi +surpreendido pela noite entrada duma aldeia. Procurou dum lado para +outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam j +todas fechadas, no se via nem um raio de luz atravs das janelas, tudo +estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual +com que se bate o trigo, e nesse stio havia uma pequena luz. Nosso +Senhor dirigiu-se para l, chegou ao p do muro duma quinta, e bateu +porta. Foi um campons que lha veio abrir. + +--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite? +No se havia de arrepender. + +E acrescentou: + +--Visto que j todos esto deitados, para que que voc est ainda a +trabalhar? + +--Ora, respondeu o campons, soube ontem noite que ia ser perseguido +por um credor desapiedado, se lhe no pagasse amanh o que lhe devo, +portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para +o vender no mercado, e pagar a minha dvida. Depois disto no nos fica +nada, e no sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que Deus +quiser! + +Ao dizer isto o campons limpava o suor da testa, e passava a mo pelos +olhos arrasados de lgrimas. O Senhor teve d dele, e disse-lhe: + +--No desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que no te +havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to. + +Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e +aproximou-a do trigo. + +--Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a +tudo! + +Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se, +de cada espiga, desceu uma chuva de gros prodigiosa. vista dum tal +milagre os camponeses maravilhados caram de joelhos. + +--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua +pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, sers +recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, Deus que te +enriquece. + +Dito isto desapareceu. + +E a chuva dos gros no parou em toda a noite, e fez um monte to alto +como a igreja. + +O campons pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bela +casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e +seus filhos adquiriram costumes perdulrios, tanto e tanto fizeram, que +se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, +ningum os ajudou na sua misria. Uma noite o velho campons, que bebera +enormemente, entrou no celeiro, e, recordando-se do milagre que o +enriquecera, imaginou que tambm ele o poderia fazer. Agarrou na +candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a +casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na misria mais +absoluta. + + + + +*Querer poder* + + +--Quem procura sempre encontra, diz um velho provrbio; quero ver por +experincia, disse um dia um rapaz, se esta mxima verdadeira. + +Ps-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma grande cidade. + +--Senhor, disse-lhe ele, h muitos anos que vivo tranquilo e +solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas +vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caa_. Tomei +uma grande resoluo. Quero casar com a filha do rei. + +O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido. + +O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma +semana, sempre com a mesma vontade inabalvel, at que o rei ouviu +falar o rapaz da sua louca pretenso. Surpreendido com uma ideia to +extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei: + +--Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela cincia, +pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais so +os teus ttulos? Para seres o marido de minha filha necessrio que te +distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor +extraordinrio. Ouve. Perdi h muito tempo no rio um diamante dum valor +incalculvel. Aquele que o encontrar obter a mo de minha filha. + +O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do +rio; logo de manh comeava a tirar gua com um balde pequeno, e +deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e +horas, punha-se a rezar. + +Os peixes inquietos ao verem to grande tenacidade, e receando que +chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho. + +--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes. + +--Encontrar um diamante que caiu ao rio. + +--Ento, respondeu o velho rei, sou de opinio que lho entreguem, porque +vejo qual a tmpera da vontade deste rapaz; mais fcil seria esgotar +as ltimas gotas do rio, do que desistir da sua empresa. + +Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha +do rei. + + + + +*Qual ser rei?* + + +Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o +sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer, +no ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno. + +Resolveram alm disso que o cadver do rei fosse posto de p contra um +muro, e que o prncipe que acertasse melhor com uma flecha naquele +alvo, seria o escolhido para sucessor. + +Comeou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito +tempo, e a flecha foi atravessar a mo esquerda do defunto. O prncipe +soltou grito de alegria, cuidando que seus irmos atirariam pior, e que +por conseguinte seria ele quem viria a reinar. + +O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais +alegre do que o outro prncipe. + +O terceiro varou o corao de seu pai, e os seus gritos de triunfo +quase que chegavam ao cu, porque lhe parecia impossvel acertar melhor. + +Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas mos as +flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas +longe de si, e desatou a chorar: + +--Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu jamais +consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mo de teus +prprios filhos! + +Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais +digno. + + + + +*Os trs vus de Maria* + + +O primeiro vu de Maria era dum linho mais alvo do que a neve. +Bordara-o com as suas mos, e ornara-o com uma grinalda de flores de +seda to bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham pousar-lhe em +cima. + +Este vu branco s o trouxe uma vez, no dia da sua primeira comunho. + +O segundo vu de Maria era de l negra. Principiou-o no mesmo dia em que +sua me lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa triste e +abandonada. Era bordado de perptuas roxas, como as dos sepulcros de +mrmore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas as suas +lgrimas. + +O vu negro s o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de +Jesus no convento da Av-Maria. + +O terceiro vu era feito dum retalho do azul celeste, bordado +de estrelas, e perfumado com aromas suavssimos. + +Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou +no paraso. + + + + +*Os pequenos no bosque* + + +Um dia trs pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos +outros, que no havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: Vamos +para o bosque que encontremos l toda a espcie de lindos bichinhos, que +no fazem outra coisa seno brincar, e ns brincaremos com eles. + +Foram logo, e passaram sem fazer caso ao p da activa formiga e da +abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar, +disse-lhes: + +--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a +outra j no est slida. + +--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provises para o Inverno. + +--Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu +ninho. + +--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocs, mas ainda +hoje no lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a +minha _toilette_. + +E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo +a saltar e a tagarelar, tambm no queres brincar connosco? + +--Estes pequenos so tolos, disse o regato. Como? Vocs ento imaginam +que eu no tenho que fazer? De noite ou de dia, no descanso nem um +momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, s colinas, +aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incndios, +tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje +acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. No posso perder +um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa. + +Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um +pintassilgo, em cima dum ramo. + +--Olha! tu, que no tens nada que fazer, queres brincar connosco? + +--Nada que fazer? vocs esto a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo +o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho alm disso que tomar +parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operrio com o +meu chilrear, e tenho que adormecer as crianas com uma outra cantiga, +que noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. Ide-vos embora, +preguiosos, ide cumprir o vosso dever, e no tornem a vir incomodar os +habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar. + +Os pequenos aproveitaram a lio, e compreenderam que o prazer s +legtimo, quando a recompensa do trabalho. + + + + +*O chapelinho encarnado* + + +Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua +me e sua av adoravam extremosamente. A boa da avozinha, que passava o +tempo a imaginar o que poderia agradar neta, deu-lhe um dia um chapu +de veludo vermelho. A pequenita andava to contente com o seu chapu +novo, que j no queria pr outro, e comearam a chamar-lhe a menina do +chapelinho encarnado. + +A me e a av moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia +lgua de comprido. Uma manh a me disse pequenita: + +--Tua av est doente, e no pde vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai +levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado no quebres a +garrafa, no andes a correr, vai devagarinho e volta logo. + +--Sim, mam, respondeu ela, hei-de fazer tudo como deseja. + +Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e ps-se +a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita, +que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum. + +--Bons dias, chapelinho encarnado. + +--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena. + +--Onde vais to cedo? + +--A casa da minha av que est doente. + +--E levas-lhe alguma coisa? + +--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe +dar foras. + +Diz-me onde mora a tua, av, que tambm a quero ir ver. + +-- perto, aqui no fim da floresta. H ao p uns carvalhos muito +grandes, e no jardim h muitas nozes. + +--Ah! tu que s uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu gostava +de te comer. Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas rvores e +que lindos passarinhos. Como bom passear nas florestas, e ento que +quantidade de plantas medicinais que se encontram! + +--O senhor, com certeza um mdico, respondeu a inocente pequenita, +visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma +que fizesse bem a minha av. + +--Com certeza, minha filha, olha, aqui est uma, e esta tambm, e +aquela. Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas +venenosas. A pobre criana, queria-as apanhar para as levar a sua av. + +--Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com +grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente. + +E ps-se a correr em direco da casa da av, enquanto que a pequerrucha +se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado. + +Quando o lobo chegou porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a +av no se podia levantar da cama, e perguntou: Quem est a? + +-- o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da +pequerrucha. A mam manda-te bolos e uma garrafa de vinho. + +--Procura debaixo da porta disse a av, que encontrars a chave. + +Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira, +e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama. + +Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a +porta aberta, porque sabia o cuidado com que a av a costumava ter +fechada. + +O lobo tinha posto uma touca na cabea, que lhe escondia uma parte do +focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrvel. + +--Ai! avozinha, disse a criana, porque tens tu as orelhas to grandes? + +-- para te ouvir melhor, minha filha. + +--E porque ests com uns olhos to grandes? + +-- para te ver melhor. + +--E para que ests com os braos to grandes? + +-- para te poder abraar melhor. + +--E Jesus! para que tens hoje uma boca to grande e uns dentes to +agudos? + +-- para te comer melhor. A estas palavras o lobo arremessou-se pobre +pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e comeou a +ressonar muito alto. Um caador que passava por acaso, perto da casa, e +que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha est com um +pesadelo, est pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa. Entra, e +v o lobo estendido na cama. + +--Ol, meu menino, diz ele: h muito tempo que te procuro. + +Armou a sua espingarda, mas parando logo: No, disse ele, no vejo a +dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o +animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe +cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e +saltou para o cho, gritando: + +--Ai! que stio medonho onde eu estive fechada! + +A av saiu tambm contentssima por ver outra vez a luz do dia. + +O lobo continuava a dormir profundamente, e o caador meteu-lhe ento +duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a av e a +neta para verem o que se ia passar. + +Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se +para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e +no podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no lago, e +afogou-se. + +O caador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha +e a sua neta. A velha sentia-se remoar, e o chapelinho encarnado +prometeu no tornar a passar na floresta, quando sua me lho +proibisse. + + + + +*Os cinco sonhos* + + +Andando um dia Carlos Magno caa com uma comitiva numerosa, perseguiu +um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da +ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi s +ento que viu que estava s, tendo a sua corte ficado muito para traz; +sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana solitria +no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladres. +Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da +entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe +quiseram logo contar. + +O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira: + +--No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro pessoa que acaba de entrar +aqui, e punha-o na minha cabea. + +--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraa. + +--E eu que estava pondo o seu manto. + +--E eu, disse o quarto ladro, para lhe fazer favor, passava em roda do +meu pescoo aquela pesada cadeia de ouro, da qual est pendurada a sua +trompa de caa. + +--Vejo bem, disse o imperador, que tm teno de me roubar tudo, e +mesmo a vida. Reconheo que estou em poder de vocs, e que toda e +qualquer resistncia seria intil. No lhes peo seno uma coisa, que +me deixem tocar pela ltima vez na minha trompa de caa. + +Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ltimo pedido +dum moribundo deve ser respeitado. + +Carlos Magno levou boca a sua magnfica trompa de marfim, e tirou +dela sons to fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos todos os +seus companheiros de caa e a sua comitiva estavam ao p dele. + +--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambm +eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocs todos iam ser +enforcados diante deste casebre. + +E o sonho realizou-se imediatamente. + + + + +*A igreja do rei* + + +Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnfica em honra da +Virgem, decretando que ningum nos seus estados pudesse contribuir para +a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edifcio se +concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do +mrmore uma inscrio em letras de ouro, que dizia que s ele, e mais +ningum, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na noite +seguinte o nome do rei foi apagado da inscrio, e substitudo por o +duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar +pr o seu nome na inscrio, e de novo foi substitudo pelo da pobre +mulher; terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de clera, ordenou +ento que lhe trouxessem a mulher sua presena: + +--Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que contribussem +fosse com o que fosse para a edificao desta igreja; vejo que no +cumpriste as minhas ordens. + +--Senhor, respondeu a velhinha toda trmula, eu respeitei as vossas +ordens, apesar da mgoa que sentia por no poder oferecer o meu +pequenino bolo em honra da Virgem; mas julguei no desobedecer a vossa +majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, +que eu levava s escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas + construo da igreja. + +--O teu nome mais digno do que o meu de figurar em letras de ouro na +inscrio do monumento, disse-lhe o rei. + +Mas na noite seguinte uma mo invisvel restabeleceu na lpide da igreja +o nome do rei, que desde ento l se conserva ainda. + + + + +*O valente soldado de chumbo* + + +Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmos, por todos +terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial, +de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e vermelhos! +A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da +caixa em que eles estavam, foi este grito: Olha soldados de chumbo! +que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado +de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era form-los sobre a +mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam +maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de +menos, porque o tinham deitado na forma em ltimo lugar, e j no havia +chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros no estavam mais +firmes nas duas pernas do que ele na sua nica, e este o que +precisamente nos interessa. + +Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros +brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindssimo castelo de +papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe o interior dos sales. + volta era circundado duma floresta em miniatura, que se reflectia +poeticamente num pedao de espelho que fingia um lago, onde nadavam +pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas no tanto como +uma menina que estava porta, e que era tambm de papel, vestida com um +lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina +tinha os braos arqueados, porque era danarina, e tinha uma perninha +levantada a tal altura, que o soldado de chumbo no a podia ver, e +imaginou que, como ele, no tinha seno uma perna. + +--Ali est a mulher que me convm, pensou ele, mas uma grande +fidalga. Mora num palcio, eu numa caixa em companhia de vinte e +quatro camaradas, e no haveria c lugar para ela. No entanto +preciso conhec-la. + +Deitou-se atrs duma caixa de tabaco, e dali podia ver sua vontade a +elegante danarina, que estava sempre num p s, sem perder o +equilbrio. + + noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e as pessoas +da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, comearam +a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de +chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam l ir; mas +como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes comeou a dar cabriolas +e saltos mortais, o lpis traou mil arabescos fantsticos numa lousa, +enfim o barulho tornou-se tal que o canrio acordou, e ps-se a cantar. +Os nicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a +danarinazinha. Ela no bico do p, e ele numa perna s, a +espreit-la. + +Deu meia noite, e zs, a tampa da caixa de rap levanta-se, e em lugar +de rap, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de surpresa. + +--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro +stio. + +Mas o soldado fez que no ouvia. + +--Espera at amanh, e vers o que te acontece, continuou o feiticeiro. + +No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de +chumbo janela, mas de repente ou por influncia do feiticeiro ou por +causa do vento caiu rua de cabea para baixo. Que tombo! Ficou com a +perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta +enterrada entre duas lajes. + +A criada e o rapazito foram l abaixo procur-lo, mas estiveram quase a +esmag-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado: Cautela! +te-lo-am achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda. A chuva +comeou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro dilvio. Depois +do aguaceiro passaram dois garotos. + +--Ol! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos faz-lo +navegar. + +Construram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o soldado de +chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois +garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! +Que fora de corrente! Mas tambm tinha chovido tanto! O barco jogava +duma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se +impassvel, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro. + +De repente o barco foi levado para um cano, onde era to grande a +escurido como na caixa dos soldados. + +--Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me +meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina +estivesse no barco, no importava, ainda que a escurido fosse duas +vezes maior. + +Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de gua; era um habitante do +cano. + +--Venha o teu passaporte. + +Mas o soldado de chumbo no disse nada, e agarrou com mais fora na +espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, +rangendo os dentes, e gritando s palhas, e aos cavacos:--Faam-no +parar, faam-no parar! No pagou a passagem, no mostrou o passaporte. + +Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via j a luz do dia, e +sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais valente. +Havia na extremidade do cano uma queda de gua to perigosa para ele, +como para ns uma catarata. Aproximava-se dela cada vez mais, sem +poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lanou-se sobre a +queda de gua, e o pobre soldado firmava-se o mais possvel, e ningum se +atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto. + +O barco, depois de ter andado roda durante muito tempo, encheu-se +de gua, e estava a ponto de naufragar. A gua j chegava ao pescoo do +soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a +gua passou por cima da cabea do nosso heri. Nesse momento supremo, +pensou na gentil danarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia: + +--Soldado: o perigo enorme, a morte espera-te. + +O papel rasgou-se, e o soldado passou atravs dele. Nesse momento foi +devorado por um grande peixe. + +L que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E alm disso, que +talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrpido, o soldado +estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro. + +O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, at que enfim +parou, e pareceu que o atravessava um relmpago. Apareceu a luz do dia, +e algum exclamou: + +--Olha um soldado de chumbo! + +O peixe tinha sido pescado, exposto na praa, vendido, e levado para a +cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no +soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a +gente quis admirar esse homem extraordinrio, que tinha viajado na +barriga dum peixe. No entretanto o soldado no se sentia orgulhoso. +Colocaram-no em cima da mesa, e ali--tanto verdade que acontecem +coisas extraordinrias neste mundo--achou-se na mesma sala, de cuja +janela tinha cado. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam +em cima da mesa, o lindo palcio, e a adorvel danarina sempre de perna +no ar. O soldado de chumbo ficou to comovido, que de boa vontade teria +derramado lgrimas de chumbo, mas no era conveniente. Olhou para ela, +ela olhou para ele, mas no disseram uma palavra um ao outro. + +De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no +fogo; eram obras do feiticeiro da caixa do rap. + +O soldado de chumbo l estava perfilado, alumiado por um claro +sinistro, e sofrendo um calor terrvel. Todas as cores lhe tinham +desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas +viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a +danarina, que tambm olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre +intrpido, conservava a espingarda ao ombro. De repente abriu-se uma +porta, o vento arremessou a danarina ao fogo para junto do soldado, que +desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, j no era mais +que uma pequena massa informe. + +No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um +objecto que tinha o feitio dum pequeno corao de chumbo, e tudo o que +restava da danarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha +enegrecido. + + + + +*Joo Pateta* + + +Joo era filho duma pobre viva, bom rapaz, mas um pouco simplrio. A +gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira Joo Pateta. Um dia sua me +mandou-o feira comprar uma foice. volta, comeou a andar com a foice + roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e matou-a. + +--Pateta, disse-lhe sua me, o que deverias ter feito era pr a foice em +um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos. + +--Perdo, me, respondeu humildemente Joo, para a outra vez serei mais +esperto. + +Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que +as no perdesse. + +--Fique descansada. E voltou todo orgulhoso. + +--Ento, Joo, onde esto as agulhas? + +--Ah! esto em lugar seguro. Quando sa da loja em que as comprei, ia a +passar o carro do vizinho carregado de palha; meti l as agulhas, no +podem estar em stio melhor. + +--De certo, esto em lugar de tal modo seguro, que no h meio de as +tornar a ver. Devias t-las espetado no chapu. + +--Perdo, respondeu Joo, para a outra vez, hei-de ser mais esperto. + +Na outra semana, por um dia de calor, Joo foi dali uma lgua comprar +uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ltimo conselho de sua me, ps a +manteiga dentro do chapu e o chapu na cabea. Imagine-se o estado em +que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida. + +A me j tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia +resolveu-se a mand-lo feira vender duas galinhas. + +--Ouve bem, no vendas pelo primeiro preo. Espera que te ofeream +outro. + +--Est entendido, respondeu Joo. + +Foi para a feira. Um fregus chegou-se a ele. + +--Queres seis tostes por essas galinhas? + +--Ora adeus! minha me recomendou-me, que no aceitasse o primeiro +preo, mas que esperasse o segundo. + +--E tens muita razo. Dou-te um cruzado. + +--Est bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o primeiro, +mas, como cumpro as ordens de minha me, ela no tem que me ralhar. + +Depois disto, Joo foi condenado a ficar em casa. Sua me sabia que +mangavam com ele, e se riam dela. Uma manh quis fazer uma +experincia, e disse-lhe: + +--Vai vender este carneiro feira. Mas no te deixes enganar. No o +entregues seno a quem te der o preo mais elevado. + +--Est bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer. + +--Quanto queres por esse carneiro? + +--Minha me disse-me que o no vendesse seno pelo preo mais elevado. + +--Quatro mil ris? + +-- o preo mais elevado? + +--Pouco mais ou menos. + +-- minha a l e o carneiro, disse um rapaz que trepara a uma escada. + +--Quanto? + +--Dez tostes: + +-- menos, respondeu timidamente o Joo. + +--Sim, mas vs at onde chega esta escada. Em toda a feira no h um +preo mais elevado. + +--Tem razo. seu o carneiro. + +Desde esse dia o Joo Pateta no tornou a ser encarregado de vender ou +comprar coisa alguma. + + + + +*Branca de Neve* + + +Era uma vez uma rainha, que se lastimava por no ter filhos. Um dia +de Inverno, enquanto bordava num bastidor de bano olhando de vez em +quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no cho, +distrada, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue. + +--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beios to vermelhos +como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros +como este bano. + +Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu luz uma filha, +que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo to branco, +que lhe chamavam Branca de Neve. Porm esta feliz me no gozou muito +tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher +duma grande beleza, e dum orgulho no menos extraordinrio. Era to +formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas +vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho +magico dizia-lhe: + +--Meu fiel espelho, responde-me: qual a mulher mais linda que h no +mundo? + +--s tu, respondia o espelho. + +No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais +formosa. Tinha apenas sete anos, e j ningum a podia ver sem ficar +maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu +espelho, disse-lhe: + +--Meu fiel espelho, responde-me: qual a mulher mais linda que h no +mundo? + +--No s tu, no s tu. Branca de Neve mais linda. + +A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no corao uma dor aguda, +como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um dio mortal pela +inocente Branca. No podia sossegar nem de dia, nem de noite. Para +satisfazer o seu dio, chamou um criado, e disse-lhe: + +--Quero que Branca desaparea. Conduze-la floresta, mata-a, e, para me +provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o +corao. + +O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e +dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre criana chorava e +lamentava-se, e pedia-lhe que a no matasse, porque ela no tinha feito +mal a ningum, e queria viver. O criado, comovido com aquelas +lgrimas, no teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se +as feras a devorassem a culpa no era dele, mas sim da rainha. Assim +fez, e para mostrar o corao de Branca rainha, matou um cabrito, e +tirou-lhe o corao. A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou +contentssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma +mulher no mundo to bela como eu. + +A pobre Branca, abandonada na floresta, no tinha morrido, mas estava +cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os ps nas pedras, e +andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez +tambm via animais ferozes. Mas as feras no lhe faziam mal algum, o +deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas. + + noite chegou ao p duma casinha muito pequenina. Estava morta de fome +e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito +limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha de +brancura irrepreensvel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas, +e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco +do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo, +deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente. + +Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros +pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo +que tinham gente em casa. Um deles disse: + +--Quem comeu o meu po? + +E os outros sucessivamente: + +--Quem pegou no meu garfo? + +--Quem comeu o meu caldo? + +--Quem bebeu o meu vinho? + +E enfim um deles: + +--Quem est a deitado na minha cama? + +Reuniram-se todos roda do pequeno leito em que dormia Branca. luz +das lanternas viram o doce rosto da criana, que dormia tranquilamente, +e afastaram-se sem fazer bulha, para a no acordar. Branca no dia +seguinte de manh ficou um pouco assustada, quando viu perto de si +aqueles sete anes das montanhas. Mas eles disseram-lhe com brandura, +que no tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como se chamava. +Branca contou a sua triste histria, e os anes disseram-lhe: + +--Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa? + +--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada. + +Comeou logo o seu servio, e continuou-o regularmente todos os dias. +Limpava os mveis, e fazia o jantar. Os anes iam trabalhar para as +minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem. + +Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que j no +tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, +e disse-lhe: + +--Meu fiel espelho, no verdade que eu sou agora a mulher mais linda +que h no mundo? + +E o espelho respondeu: + +--Sim, nos teus palcios e nos teus castelos, mas Branca est nas sete +montanhas, e Branca mais linda do que tu. + +Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, +e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que +modo? Uma manh partiu disfarada em vendedeira ambulante, com um cesto +cheio de objectos de fantasia. Foi direita s sete montanhas, e bateu +porta da casinha, gritando: Quem quer comprar bonitas jias? + +Os anes tinham recomendado a Branca que desconfiasse das caras +estranhas, receando os emissrios da rainha, e ela tinha prometido ser +prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no +cesto, esqueceu-se das suas promessas. + +--Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou pr ao +pescoo. + +Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os +anes voltaram, viram a infeliz Branca estendida no cho e completamente +inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lbios algumas +gotas dum licor amarelo. Branca comeou a respirar, voltou a si pouco +a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido. + +--Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira no era +outra pessoa, seno a tua inimiga, a rainha. Toma cautela, no deixes +entrar aqui ningum, quando no estivermos em casa. + +Ao entrar no seu palcio toda contente, colocou-se a rainha diante do +espelho, e disse-lhe: + +--Meu fiel espelho: Qual agora a mulher mais linda que h no mundo? +Responde. + +E o espelho respondeu: + +--s tu nos teus grandes palcios e nos teus castelos, mas Branca est +nas sete montanhas, e Branca mais linda do que tu. + +A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a +infeliz Branca. Tornou-se a disfarar em vendedeira. Chegou s sete +montanhas, e bateu porta da cabana. + +--Quem quer comprar lindas jias? Branca veio janela, e respondeu: + +--V-se embora, aqui no entra ningum. + +--Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro. J +viu outro to bonito? + +Branca no pde resistir ao desejo de possuir aquela jia. Abriu a +porta. + +--Oh! minha linda menina, deixe-me pr-lho na cabea. + +Ao dizer isto enterrou-lhe na cabea o pente, que estava envenenado, e +Branca caiu morta. + + noite quando regressaram os anes, acharam-na plida e fria. +Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e +tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente. + +No entanto a cruel rainha voltava contentssima para o seu palcio. +Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que +o espelho respondeu como antecedentemente. + +--Ah! preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha de me +sacrificar. + +Vestiu-se de camponesa com um cesto de mas. Entre elas havia uma que +estava envenenada dum lado. Foi, e bateu porta da cabana. + +--Quem quer comprar fruta, quem quer comprar? + +--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, no deixo entrar +ningum, nem compro coisa alguma. + +--Est bem, no faltar quem compre estas ricas mas. Mas por ser to +bonita, quero dar-lhe uma. + +--Obrigada, no posso aceitar. + +--Imagina que est envenenada. Olhe, eu vou comer um pedao. Ah! que boa +que ! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora +mordia no lado da ma, que no estava envenenado. Branca deixou-se +tentar, levou boca o outro pedao, e caiu fulminada. + +--A tens, para castigo da tua formosura. + +Quando chegou ao palcio a rainha foi direita ao espelho, e +perguntou-lhe: + +--Meu fiel espelho, quem agora a mulher mais linda? + +E o espelho respondeu: + +--s tu, s tu. + +--At que enfim! + +Os anes estavam inconsolveis. Debalde tinham tentado reanim-la com o +licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava +fria e inanimada. Choraram por ela durante trs dias, e os passarinhos +da floresta choraram tambm. No entanto as boas avezinhas no podiam +acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto to tranquilo, +as suas faces to frescas, parecia que estava a dormir. No quiseram +enterr-la. Meteram-na num caixo de cristal, e escreveram em cima. +Aqui jaz a filha dum rei; puseram o caixo numa das sete montanhas, +e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se +assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais +pequena alterao. + +Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar +caa, viu o caixo, e pediu aos anes que lho cedessem, fosse por preo +que fosse. + +--Somos muito ricos, e por nada deste mundo venderemos este caixo, que + o nosso tesouro. + +--Ento dem-mo, j no posso viver sem contemplar este rosto de +mulher. Guard-lo-ei na melhor sala do meu palcio. Peo-lhes que me +faam isto. + +Os anes, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixo para +o levarem. Um deles tropeou numa raiz, e o caixo sofreu um +balano, que fez cair o bocado da ma envenenada, que Branca no tinha +engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O +jovem prncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela. O +casamento fez-se com grande pompa. O prncipe convidou todos os reis e +rainhas dos diferentes pases, e entre elas a rainha inimiga de +Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos +os olhares, ps-se diante do espelho, e disse a rainha: + +--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que h do mundo? + +E o espelho respondeu: + +--Branca mais formosa que tu. + +A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes +fossem descobertos, que morreu de repente. + +Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu palcio de +princesa no se esqueceu dos anes que tinham sido os seus benfeitores. + + + + +*A rapariguinha e os fsforos* + + +Que frio! a neve caa, e a noite aproximava-se; era o ltimo de +Dezembro, vspera de Ano Bom. No meio deste frio e desta escurido +passou na rua uma desgraada pequerrucha, com a cabea descoberta e os +ps descalos. verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas +tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua me j +tinha usado, to grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua +a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; +quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a inteno de fazer +dele um bero para o seu primeiro filho. + +A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha +no seu velho avental uma grande quantidade de fsforos, e levava na +mo um mao deles. O dia correra-lhe mal; no tinha havido +compradores, e por isso no apurara cinco ris. + +Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos +longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do pescoo; mas +pensava ela porventura nos seus cabelos anelados? + +As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos +manjares; era a vspera de dia de Ano Bom: eis no que ela pensava. + +Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada +vez mais, mas no se atrevia a voltar para casa: o pai bater-lhe-ia, +porque no tinha vendido os seus fsforos. Alm disso em sua casa +fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento +atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas +mozinhas j quase que as no sentia. Ai! como um fosforozinho aceso +lhe faria bem! Se tirasse do mao apenas um, um nico, e ascendendo-o +aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como +ardeu! Era uma chama tpida e clara, como uma pequena lamparina. Que +luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro +de ferro, cujo lume magnfico aquecia to suavemente, que era um regalo. + +A pequerrucha ia j a estender os pezitos para os aquecer tambm, quando +a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mo uma +pontita de fsforo consumido. + +Acendeu segundo fsforo, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu +a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando atravs desse +muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha +alvssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma galinha +assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exalando um perfume +delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do +prato, e caiu no cho ao p da pequerrucha, com o garfo e a faca +espetada no lombo. Nisto apagou-se o fsforo, e viu apenas diante de +si a parede fria e tenebrosa. + +Acendeu terceiro fsforo, e achou-se imediatamente sentada debaixo +de uma magnfica rvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a +que tinha visto no ano passado atravs dos vidros de um armazm +sumptuoso. + +Nos ramos verdes brilhavam centenares de bales acesos, e as estampas +coloridas, como as que h s portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. +Quando ia agarr-las com as duas mos, apagou-se o fsforo; todos os +bales da rvore do Natal comearam a subir, a subir, e viu ento que se +tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no cu +um longo rasto de fogo. + +-- algum que est a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua av, que +lhe queria tanto, mas que j morrera, dissera-lhe muitas vezes: Quando +cai uma estrela, sobe para Deus uma alma. + +Acendeu ainda outro fsforo: deu uma grande luz, no meio da qual lhe +apareceu sua av, de p, com um ar radioso e suavssimo. + +--Minha av, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei que te vais +embora quando se apagar o fsforo. Desaparecers como a panela de +ferro, a galinha assada, e a bela rvore do Natal. + +Acendeu o rosto do mao, porque no queria que sua av lhe fugisse, e +os fsforos espalharam um claro mais vivo que a luz do dia. Nunca sua +av tinha sido to formosa. Ps ao colo a pequerruchinha, e ambas +alegres, no meio deste deslumbramento, voaram to alto, to alto, que +j no tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraso. + +Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os +dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos lbios... +morta, morta de frio na ltima noite do ano. O dia de Ano Bom veio +alumiar o pequenino cadver, sentado ali com os seus fsforos, a que +faltava um mao, que tinha ardido quase inteiramente.--Quis aquecer-se, +disse um homem que passou. E ningum soube nunca as lindas coisas que +ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua +velha av no dia do Ano Novo. + + + + +*O primeiro pecado de Margarida* + + +Chamava-se Margarida, e estavam espera dela no cu, porque Deus +tinha dito:-- uma boa alma, e, como l em baixo no mundo lhe pode +acontecer alguma desgraa, vou traz-la um destes dias para o paraso. + +Margarida era uma virgem cndida, matinal como a aurora, fresca como +ela; todos os dias ao acordar rezava as oraes, que sua me lhe tinha +ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como no tinha +jias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho. + +Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar. + +E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela cano +de amor e de glria, que j embalara muitos beros, e que podia +sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez. + +Numa tarde de Vero, estava ela sentada porta de casa fiando linho, + hora em que as estrelas comeam a aparecer, uma a uma no firmamento. + +Estava Margarida cantando a sua cano, quando passou por ali uma das +suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido novo. +Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o +colar de ouro que levava ao pescoo; apertou-lhe a mo para que visse +bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda +contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que +inquietou no paraso o seu anjo da guarda. + +O fio de linho j no passava to rapidamente entre os dedos de +Margarida, a roda cessara o seu barulho montono, e o fuso cara-lhe das +mos. + +Ao cair o fuso despertou do xtase, abriu os olhos, e viu diante de si +um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na mo um gorro de veludo +preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a +respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, +perguntou-lhe: + +--Qual o caminho da cidade? + +Margarida estendeu a mo para lho indicar, e o forasteiro inclinando-se +tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma +estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que +o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se ento com +um sorriso estranho e diablico. + +Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de +Margarida, e pediu-lhe uma esmola. + +Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre desgraado. + +O cavaleiro ento, soltando um grito de clera, ia lanar-se sobre +Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda +disfarado--cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto Satans, que +tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do esprito celeste. + + + + +*Um nome inscrito no cu* + + +Era uma vez um pobre mendigo, que bateu porta duma humilde cabana a +pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas no vendo, nem +ouvindo ningum, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu +ento uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse: + +--Ai! no te posso dar nada, porque nada tenho. + +E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater mesma +porta. + +--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, j te disse que no tenho nada +que te dar. + +--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo. + +E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em +cima da mesa, muitos bocados de po e algumas moedas de dez ris, que +lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez. + +--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe ele afectuosamente, indo-se +embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer. + +No sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrev-lo-o no +Paraso, e mais tarde ns o viremos a saber. + + + + +*O linho* + + +O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e +transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre +ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o +dum filho quando a me o lava e lhe d um beijo. + +--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, +e serei brevemente uma rica pea de pano. Sinto-me feliz. No h +ningum que seja mais feliz do que eu sou. Tenho sade e um belo +futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou +feliz, feliz a mais no poder ser! + +--Como s ingnuo! disseram as silvas do valado; tu no conheces o +mundo, de que ns outras temos uma larga experincia. + +E rangendo lastimosamente, cantaram: + + --Cric, crac! cric, crac! crac! + --Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +--No to cedo como vocs imaginam, respondeu o linho; est uma bela +manh, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e +florir. Sou muitssimo feliz. + +Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela +cabeleira, arrancaram-no com razes e tudo, e deram-lhe tratos de +pol. Primeiro mergulharam-no em gua, como se o quisessem afog-lo, e +depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade! + +--No se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; necessrio +sofrer, o sofrimento a me da experincia. + +Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no, +cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois, +puseram-no numa roca, e ento perdeu a cabea inteiramente. + +--Era feliz de mais, pensava o desgraado linho no meio daquelas +torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades perdidas. + +E ainda estava dizendo--perdidas, e j o estavam a meter no tear e a +transform-lo numa pea de pano. + +--Isto extraordinrio, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que +grandes tolas aquelas silvas quando cantavam: + + Cric, crac! cric, crac! crac! + Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +Agora que eu principio a viver. Padeci muito, verdade, mas por isso +tambm agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me to forte, to alto, +to macio! Ah! isto bem melhor do que ser planta, mesmo florida, +ningum trata da gente, e no bebemos outra gua a no ser a da chuva. +Agora o contrrio: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as +manhs, e noite tomo o meu banho com um regador. A criada do sr. cura +fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a +melhor pea da parquia. No posso ser mais feliz. + +Levaram o pano para casa, e entregaram-no s tesouras. Cortaram-no e +picaram-no com uma agulha. No era l muito agradvel, mas em +compensao fizeram dele uma dzia de camisas magnficas. + +--Agora decididamente comeo a valer alguma coisa. O meu destino +abenoado, porque sou til neste mundo. preciso isso para se viver em +paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaos, verdade, mas formamos um +s grupo, uma dzia. Que incomparvel felicidade! + +O pano das camisas foi-se gastando com o tempo. + +--Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas no +se fazem impossveis. + +E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era +finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem +adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel +branco magnfico. + +--Oh que agradvel surpresa! exclamou o papel, agora sou muito mais fino +do que dantes, e vo cobrir-me de letras. O que no escrevero em cima +de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa! + +E escreveram nele as mais belas histrias, que foram lidas diante de +inmeros ouvintes, e os tornaram mais sbios e melhores. + +--Ora aqui est uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, +quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que +ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! No sei +explicar o que me est acontecendo, mas verdade. Deus sabe +perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha +sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, at chegar maior glria. +Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: Acabou-se, acabou-se +tudo pelo contrrio se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou +viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e +instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora +as minhas flores so os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz, +imensamente feliz! + +Mas o papel no foi viajar; entregaram-no ao tipgrafo, e tudo que l +estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, +que recrearam e instruram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de +papel no teria prestado o mesmo servio, ainda que desse a volta roda +do mundo. A meio caminho j estaria gasto. + +-- justo, disse o papel, no tinha pensado nisso. Fico em casa, e vou +ser considerado como um velho av! fui eu que recebi as letras, as +palavras caram directamente da pena sobre mim, fico no meu lugar, e os +livros vo por esse mundo fora. A sua misso realmente bela, e eu +estou contente, e julgo-me feliz. + +O papel foi empacotado, e lanado para uma estante. + +--Depois do trabalho agradvel o descanso, pensou ele. neste +isolamento que a gente aprende a conhecer-se. S de hoje em diante que +eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a ns mesmo a verdadeira +perfeio. Que me ir ainda acontecer? Progredir, est claro. + +Passados tempos, o papel foi atirado ao fogo para o queimarem, porque o +que o no queriam vender ao merceeiro para embrulhar acar. E todas as +crianas da casa se puseram roda; queriam v-lo arder, e ver tambm, +depois da labareda, as milhares de fascas vermelhas, que parecem fugir, +e se apagam instantaneamente uma aps outra. O mao inteiro de papel +foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande +chama, que se erguia to alto, to alto como o linho nunca erguera as +suas flores azuis; a pea de pano nunca tinha tido um brilho +semelhante. + +Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as +palavras, todas as ideias desapareceram em lnguas de fogo. + +--Vou subir at ao sol; dizia uma voz no meio da labareda, que +pareciam mil vozes reunidas numa s. A chama saiu pela chamin, e no +meio dela volteavam pequeninos seres invisveis para os olhos do +homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado. +Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu, +quando no restava do papel seno a cinza negra, ainda eles danavam +sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas +encarnadas. + +As crianas cantavam roda da cinza inanimada: + + Cric, crac! cric, crac! crac! + Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + +Mas cada um dos pequeninos seres dizia: No, no se acabou; agora que + o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz. + +As crianas no puderam ouvir, nem compreender estas palavras; mas +tambm no era necessrio, porque as crianas no devem saber tudo. + + +FIM. + + + + +*INDICE* + + +A me +O ouro +Doura e bondade +O malmequer +No quero +Piloto +O rico e o pobre +Como um campons aprendeu o Padre Nosso +O talism +A alma +Alberto +A cano da cerejeira +Os gigantes da montanha e os anes da plancie +A criana, o anjo e flor +Presente por presente +O pinheiro ambicioso +Perfeio das obras de Deus +Joo e os seus camaradas +O rabequista +Os pssegos +A urna das lgrimas +Reconhecimento e ingratido +O fato novo do sulto +Boa sentena +Os animais agradecidos +O ermito +Carlos Magno e o abade de S. Gall +A boneca +Inconveniente da riqueza +Querer poder +Qual ser rei? +Os trs vus de Maria +Os pequenos no bosque +O chapelinho encarnado +Os cinco sonhos +A igreja do rei +O valente soldado de chumbo +Joo Pateta +Branca de Neve +A rapariguinha e os fsforos +O primeiro pecado de Margarida +Um nome inscrito no cu +O linho + + +[A propriedade deste livro pertence no Brasil ao sr. Lus de Andrade, +residente no Rio de Janeiro.] + + |
