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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:48:50 -0700
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+The Project Gutenberg eBook of Contos para a infância, by Guerra Junqueiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
+most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
+whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
+of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
+www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
+will have to check the laws of the country where you are located before
+using this eBook.
+
+Title: Contos para a infância
+ Escohidos dos melhores auctores
+
+Author: Guerra Junqueiro
+
+Release Date: August 4, 2005 [eBook #16429]
+[Most recently updated: May 11, 2021]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+Produced by: Biblioteca Nacional Digital, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
+
+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA ***
+
+
+
+
+CONTOS PARA A INFANCIA
+
+ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES POR GUERRA JUNQUEIRO
+
+
+LISBOA
+
+TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL
+
+Rua dos Calafates, 110
+
+1877
+
+
+
+
+*A mãe*
+
+
+Estava uma mãe muito afflicta, sentada ao pé do berço do seu filho, com
+medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados.
+Respírava com difficuldade, e ás vezes tão profundamente, que parecia
+gemer; mas a mãe causava ainda mais lastima do que o pequenino
+moribundo.
+
+N'isto bateram á porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado
+n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de
+neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha.
+
+O pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns instantes,
+e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho
+começou a embalar a creança, e a mãe, pegando n'uma cadeira, sentou-se
+ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
+vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mãosinha descarnada e disse para
+o velho:
+
+--Oh! Nosso Senhor não m'o hade levar! não é verdade?--
+
+E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça d'uma maneira extranha, em
+ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas
+corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de
+cabeça; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou
+ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a
+tremer de frio.
+
+--Que é isto! exclamou, lançando á volta de si o olhar hallucinado. O
+berço estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creança.
+
+ * * * * *
+
+A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma
+mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em
+casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
+depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar.»
+
+--Por onde foi ella? gritou a mãe. Dize-m'o pelo amor de Deus!»
+
+--Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto.
+Mas só t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas
+ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
+muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.
+
+--Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me
+demores, porque quero encontrar o meu filho.--
+
+A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou a
+cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais do que as
+palavras.
+
+No fim disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de
+pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.»
+
+A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não
+sabia que direcção havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal,
+cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
+cristallisada.
+
+ * * * * *
+
+--Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe.
+
+--Vi, respondeu o mattagal, mas não te ensino o caminho, senão com a
+condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»
+
+E a mãe estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos
+dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se
+de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite
+d'inverno frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe
+angustiosa.
+
+E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
+andando, até que chegou á margem d'um grande lago, onde não havia nem
+barcos, nem navios. Não estava sufficientemente gelado para se andar por
+elle, e era demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo,
+querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio
+do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do
+lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria
+talvez um milagre.
+
+--Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos
+amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus
+olhos são d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu
+tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas á força de chorar, e
+levar-te-hei á estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a
+habitação da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro, é ella
+quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida d'uma creatura
+humana.»
+
+--Oh! o que não darei eu, para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E
+apesar de ter já chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do
+que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo
+do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no
+mundo uma rainha.
+
+O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na
+outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua
+de comprido. De longe não se sabia se era uma construcção artistica ou
+uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada;
+tinha dado os seus olhos.
+
+--Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou
+ella desesperada.
+
+--A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um
+lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
+vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?»
+
+--Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso. Compadece-te
+de mim, e dize-me onde está o meu filho.»
+
+--Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas
+e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para
+as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este
+sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem
+com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes,
+sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as
+pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o
+que tens ainda de fazer?»
+
+--Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim
+do mundo buscar o que tu quizeres.--«Fóra d'aqui não preciso de nada,
+respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que
+são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos
+brancos.»--Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Ahi os tens,
+dou-t'os de boa vontade.»
+
+E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu
+orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e
+inteiramente brancos da velha.
+
+Esta levou-a pela mão á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma
+vegetação maravilhosa.
+
+Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado
+de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas
+cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam
+cobras asquerosas.
+
+Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos
+frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa,
+tomilho, ortelã e outras plantas humildes que representavam o genero de
+utilidade das pessoas que ellas symbolisavam.
+
+Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
+pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em
+vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com
+esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a
+essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlandia.
+
+A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe
+impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas
+pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
+coração, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as
+pulsações do coração do seu filho.
+
+--É elle!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre
+a terra, parecia completamente estiolado.
+
+--Não lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte
+vier, que não tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de
+arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem
+de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o seu
+consentimento.»
+
+N'isto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte,
+que se approximava.
+
+--Como é què deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
+primeiro do que eu! Como o conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ella.
+
+E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.
+
+Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de
+não ferir uma só das pequeninas petalas. Então a Morte soprou-lhe nas
+mãos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do
+que os ventos enregelados do inverno.
+
+--Não pódes nada comigo!» disse a Morte.--Mas Deus tem mais força do que
+tu, respondeu a mãe.»--«É verdade, mas eu não faço senão aquillo que
+elle manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e
+arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins,
+um dos quaes é o grande jardim do Paraizo. São regiões desconhecidas;
+ninguém sabe o que se lá passa.»
+
+--Misericordia! misericordia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho,
+agora que acabo de o encontrar!» Supplicava e gemia. A Morte
+conservava-se impassivel; agarrou então instantaneamente em duas flores
+lindissimas e disse á Morte: «Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar,
+despedaçar não só esta, mas todas as flores que estão aqui!
+
+--Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és
+desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra mãe!»
+disse a pobre mulher, largando as flores immediatamente.--Toma, aqui
+tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei
+do lago. Não sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o
+fundo d'este poço; vê o que ias destruir, se arrancasses estas flores.
+Verás passar nos reflexos da agua, como n'uma miragem, a sorte destinada
+a cada uma d'essas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se
+porventura vivesse.»
+
+Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria,
+quadros risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de
+miseria, d'angustias e de desolação.
+
+--N'isto que eu vejo, disse a mãe afflictissima, não distingo qual era a
+sorte que Deus destinava ao meu filho.»
+
+--Não posso dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto
+que te appareceu viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.»
+
+A mãe desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me:
+era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade! Falla!
+Não me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, não vá elle soffrer
+desgraças tão horriveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que á minha
+vida. As angustias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos.
+Esquece as minhas lagrimas, as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz
+e tudo o que disse.»
+
+--Não te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu
+filho ou que o leve para a região desconhecida de que não posso
+fallar-te!» Então a mãe allucinada, convulsa, torcendo os braços,
+deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: «Não me ouças,
+Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua vontade que é
+sempre justa! Não me attendas meu Deus!»
+
+E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua agonia
+dilacerante.
+
+E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi transplantal-o no
+jardim do paraiso.
+
+
+
+
+*O ouro*
+
+
+Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas d'ouro,
+empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas minas; e o
+resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande
+fome no paiz.
+
+Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
+segredo frangos, pombos, gallinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
+e quando o rei quiz jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com
+que elle ficou todo satisfeito, porque não comprehendeu ao principio
+qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada
+de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem
+que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus
+vassallos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
+trazel-os nas minas á busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e
+que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens,
+estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro
+apparecesse em abundancia.
+
+A rainha tinha juizo.
+
+
+
+
+*Doçura e bondade*
+
+
+Ha entre vós, meus filhos, indoles violentas, que não sabem dominar-se,
+e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma pessima
+disposição, que é necessario corrigir; dá lugar a disputas, e a que se
+commettam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.
+Citar-vos-hei dois exemplos de que fui testemunha.
+
+Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
+d'elle, volta-se e dá-lhe uma bofetada.
+
+--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vae ter! bateu n'um
+cego!»
+
+Um homem ainda novo montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns
+camponezes grosseiros começaram a apupal-o e a bater no burro, para o
+fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a
+sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubesseis que eu era coxo, não
+terieis sido tão covardes.»
+
+Os camponezes, envergonhados, córaram, afastando-se sem pronunciar uma
+palavra.
+
+Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a
+quem as recebeu.
+
+
+
+
+*O malmequer*
+
+
+Ouvi com attenção esta pequenina historia!
+
+No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores,
+rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no
+meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
+olhos vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por
+elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella
+manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
+parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava
+que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre florinha
+insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
+sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
+
+N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira,
+sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças
+sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle, sentado na haste
+verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
+o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com
+admiravel nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a
+olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha
+feliz que cantava e voava.
+
+«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento
+acaricia-me. Oh! não tenho rasão de me queixar.»
+
+Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos
+aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para
+parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa.
+As tulipas brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se
+pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno
+malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: «como são
+ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visital-as. Graças a Deus,
+poderei assistir a este bello espectaculo.» E no mesmo instante a
+cotovia dirigiu o seu vôo, não para as dalias e tulipas, mas para a
+relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria não sabia o que
+havia de pensar.
+
+O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando: «Como a herva é
+macia! oh! que encantadora florinha, com um coração d'oiro, vestida de
+prata!»
+
+Não se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com
+o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do
+firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde o malmequer
+reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou
+para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
+acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as
+tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
+ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabeça toda
+inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis
+ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.
+
+Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
+grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
+uma a uma.
+
+«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se
+todas.»
+
+E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrára-se por
+ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando
+reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
+adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.
+
+No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao
+ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,
+muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rasões para se affligir:
+haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella
+aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas
+antigas viagens atravez do espaço illimitado.
+
+O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
+difficil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe
+esquecer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e
+a alvura resplandecente das suas proprias folhas.
+
+N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão
+uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
+tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o
+que desejavam.
+
+«Podemos arrancar d'aqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos
+rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.
+
+--«Arranca a flor, disse o outro.»
+
+A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era
+morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existencia, como no momento em
+que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
+
+«Não; deixemol-a, disse o mais velho. Está ahi muito bem.»
+
+Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
+
+O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia
+com as azas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus
+desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.
+
+Passou-se assim toda a manhã.
+
+«Já não tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
+deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre
+terrivel, sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do
+sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da
+creação!»
+
+Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu
+então o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe,
+afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo
+inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva,
+e a ti só por unica companhia. Cada pésinho de relva substitue para mim
+uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah!
+como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!
+
+--Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o
+minimo movimento.
+
+Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume;
+a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
+arrancar a herva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na
+flor.
+
+Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua á
+desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas azas, sacudindo-as
+convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha melancolica; a sua
+cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e
+d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer
+não pôde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se
+para o chão, doente de tristeza.
+
+Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
+rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro
+d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e
+cobriram o tumulo com folhas de rosas.
+
+Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e
+deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram
+e lhe fizeram honrarias pomposissimas.
+
+A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle
+que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.
+
+
+
+
+*Não quero*
+
+
+Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito
+alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» Parei e
+perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu rapaz?--«Não quero dizer
+á mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar,
+mas antes quero que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe
+eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto que o outro
+pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
+todo envergonhado.
+
+D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o
+professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois
+pequenos; o que não quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro,
+vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
+dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro, è um magnifico
+estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a
+confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a reparal-as. O outro
+pelo contrario, é mentiroso, covarde e incorrigivel.»--Não me espanto,
+disse eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças; e
+contei-lhe o que tinha ouvido.
+
+
+
+
+*Piloto*
+
+
+Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos cães, e o
+infatigavel companheiro dos brinquedos das creanças da quinta.
+
+Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe
+lançava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na bocca e
+trazia-o á margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã
+Joaninha.
+
+Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cançar nunca a paciencia do
+Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o
+assobio do creado da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações:
+partia então como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos
+pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.
+
+Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda
+da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse á noite a parede da
+quinta.
+
+Uma vez deu prova d'uma extraordinaria sagacidade; um jornaleiro, que se
+empregava muitas vezes em levar saccos de trigo da quinta para casa,
+tentou de noite roubar um sacco.
+
+Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade
+emquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou
+tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o
+largar.
+
+Era como se dissesse: «Onde vaes tu com o trigo de meu dono?»
+
+O ladrão quiz pôr então outra vez o sacco d'onde o tinha tirado; Piloto
+não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de
+manhã; o quinteiro foi dar com elle n'esta difficil posição,
+reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não
+deshonrar.
+
+Mas o homem ficou com odio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a
+ausencia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
+elle sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até á
+margem do ribeiro.
+
+Atou uma grande pedra á outra extremidade da corda e levantando o animal
+atirou-o á agua; mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforço,
+caiu tambem.
+
+Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o
+corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e
+desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes
+e trazido para terra o seu mortal inimigo.
+
+Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o
+cão que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida.
+
+Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si
+mesmo e combateu as suas más inclinações.
+
+O exemplo do cão corrigiu o homem.
+
+
+
+
+*O rico e o pobre*
+
+
+Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
+dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
+deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da
+estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar,
+quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
+preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos
+viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo,
+e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
+vinho.
+
+Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua
+codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e
+suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino tão rico,
+em vez do desgraçado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu
+dentro d'aquella carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia
+Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lançando a cabeça fóra da
+carruagem, chamou Martinho com a mão.
+
+--Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a
+minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho
+córando, o que eu disse não foi por mal.»--Não estou zangado comtigo,
+replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.»
+
+--Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar
+no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando
+muitas leguas por dia, como pão secco e batatas, emquanto que o senhor
+anda n'uma carruagem, póde comer frangos e beber vinho.»--Pois bem,
+volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu
+não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho
+ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
+preceptor continuou: «Acceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho,
+ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada
+de me ver entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a
+idéa da entrada triumphante na sua aldeia.
+
+O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
+descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma
+perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em
+duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou
+que era muito pallido e que tinha cara de doente.
+
+Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:--Então sempre
+desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas
+valentes e as tuas faces córadas, pelo prazer de ter uma carruagem e
+andar bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou
+Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
+tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro
+os meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças a Deus
+pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.
+
+«Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal,
+tens força e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que não
+podem comprar-se com dinheiro.
+
+
+
+
+*Como um camponez aprendeu o Padre Nosso*
+
+
+Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
+confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso.
+
+«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.»
+
+«Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a
+credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da
+minha parte.»
+
+No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
+
+«Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.
+
+«Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, respondeu o pobre.»
+
+«E o teu appellido?»
+
+«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.»
+
+E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
+
+Ao outro dia chega segundo pobre.
+
+«Como te chamas?
+
+«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.»
+
+«E o teu appellido?»
+
+«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.»
+
+E partiu com o seu alqueire de trigo.
+
+Veiu terceiro pobre.
+
+«Como te chamas?»
+
+«Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.»
+
+«E o teu appellido?»
+
+«Dae-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.»
+
+E levou o seu alqueire.
+
+Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma
+forma até chegar ao _Amen_.
+
+Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.
+
+«Então já sabes o Padre Nosso?»
+
+«Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei
+o meu trigo.»
+
+«Quaes são? tornou o padre.»
+
+E o aldeão enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
+apresentado.
+
+«Já vês, disse o confessor, que não era muito difficil aprender o Padre
+Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»
+
+
+
+
+*O talisman*
+
+
+Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas
+com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
+que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com
+uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue
+inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da
+sua casa.
+
+«Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual é a razão
+porque a sorte nos trata de um modo tão differente? Vendemos as mesmas
+mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apezar
+d'isso, emquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu
+seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não
+terás tu por acaso algum precioso talisman.»
+
+«Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma
+virtude incomparavel. Trago-o ao pescoço, e ando assim com elle todo o
+dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o
+celleiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.»
+
+«Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia
+preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de que t'a
+restituo.»
+
+«Pois vem buscal-a ámanhã de manhã.»
+
+Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
+apresentou-lhe este uma avellã, através da qual tinha tinha passado um
+fio de seda.
+
+O nosso homem pòl-a immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a
+casa com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a
+parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
+cozinha o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o
+feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos
+cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
+escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio,
+comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por
+terceira pessoa na direcção dos seus negocios.
+
+Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman,
+agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em
+segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.
+
+
+
+
+*A alma*
+
+
+«Mamã, nem todas as creanças que morrem vão para o Paraizo. O outro dia
+vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu papá e as
+suas duas irmãsinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me
+fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, não é
+verdade?»
+
+«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus
+paes e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraizo.»
+
+«A alma? mamã; não sei o que é; não comprehendo bem.»
+
+«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
+pequerruchas.»
+
+«Tive sim, mamã, tive muita pena.»
+
+«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
+braços?»
+
+«Não, mamã.»
+
+«Eram as orelhas?»
+
+«Oh! não mamã, era _cá dentro_.»
+
+«Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece,
+que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando
+praticas o bem.
+
+
+
+
+*Alberto*
+
+
+Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus
+irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer
+sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico
+feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de
+batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava
+com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
+quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. «Ha
+de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará libras como uma
+cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá, que ficará muito
+contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não
+rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por
+fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.
+
+«Vi papá; achei-a e fui semeal-a.»
+
+«Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve?»
+
+«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.»
+
+«É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»
+
+Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
+não pertencia.
+
+Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
+produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como
+é? é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira.
+
+
+
+*A canção da cerejeira*
+
+
+Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!» E a cereijeira
+cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e
+verdejantes.
+
+A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se,
+abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as
+folhinhas tenras, dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem é
+que me arranjou este banquete?»
+
+Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a cereijeira
+cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores delicadas e
+brancas.
+
+E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas,
+dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o
+deitaram!»
+
+Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o
+assucar!»
+
+No verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira
+cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos.
+
+«Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião; temos appetite,
+e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No
+outono disse Deus: «Levantae a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento
+frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore.
+
+As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o
+vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar.
+
+Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos
+ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descança.
+
+
+
+
+*Os gigantes da montanha e os anões da planicie*
+
+
+Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na
+montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um
+alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície a ver o que
+faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões.
+Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido á caça e sua mãe estava
+dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os
+jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os
+lavradores, coisas inteiramente novas para ella. «Oh! que lindos
+brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
+quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavallos, a
+charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello,
+onde seu pae estava a jantar.
+
+--Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle.
+
+--Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os
+mais bonitos que tenho visto.»
+
+E pol-os em cima da mesa, a um e um,--os cavallos, a charrua e os
+trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
+tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha
+poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
+fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso
+não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
+respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o
+immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
+montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de lavrar
+a terra e de semear o trigo.
+
+
+
+
+*A creança, a anjo e flôr*
+
+
+Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos braços, e
+desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que
+ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de
+quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam
+no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe
+todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor
+escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros
+maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma
+creança morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro
+sobre a casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins
+deliciosos, cobertos de flores.
+
+«Qual é a flor que desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo.
+
+Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
+magnifica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de
+botõesinhos lindissimos pendiam estiolados para o chão.
+
+«Pobre roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa
+reflorir no paraiso.»
+
+O anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas flores
+brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
+
+A colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus. Caiu
+a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam ainda por
+cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
+de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
+immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores
+com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos
+campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-n'a
+atirado para a rua como inutil e morta.
+
+«Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando,
+te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquella
+rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creança miseravel e
+doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar
+com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
+de verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
+Então a creança sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do
+andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca
+verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do
+visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o ramo
+verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava
+com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe
+flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda
+raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da
+cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e
+todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico
+thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
+aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em
+sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e
+ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que se
+voltou.
+
+«Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida
+flor, esquecida á janella desde então, murchou, estiolou-se e
+atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca é o
+thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
+canteiros d'um jardim realengo.»
+
+«Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o anjo levava para o céo.
+
+--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
+em moletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»
+
+A creança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
+no céo onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
+levou-as ao coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre,
+despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar
+com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe,
+formando circulos que vão augmentando successivamente, multiplicando-se
+até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
+harmoniosamente--desde a creança abençoada até á humilde florinha do
+campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e
+tortuosa.
+
+
+
+
+*Presente por presente*
+
+
+Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite
+á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi
+a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
+pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque
+eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama não a
+tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
+morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões,
+e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao
+outro dia pela manhã disse isto mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao
+despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
+dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponeza julgou
+que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a
+trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
+que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
+examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:
+
+«Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe!
+
+E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
+achado as suas batatas melhores do que faisões.
+
+«É necessário confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha
+talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das
+batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas.
+
+E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de batatas
+escolhidas.
+
+Os lacaios e as sentinellas ao principio não o queriam deixar entrar;
+mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo
+contrario vinha trazer alguma cousa.
+
+Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.
+
+«Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente
+pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca
+d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar
+demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis
+o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
+batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos
+acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá
+as encontrareis sempre ao vosso dispor.»
+
+A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava
+n'um momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta
+geiras de terra.
+
+Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que,
+sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não me ha
+de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo
+qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer
+presente d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra,
+simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de
+recompensar ainda mais generosamente.»
+
+Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
+palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar
+altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia.
+
+«Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; não
+tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o
+offereça.»
+
+O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
+comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:
+
+Depois dirigindo-se a elle:
+
+«Acceito a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh!
+espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
+faisões. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom
+preço para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»
+
+E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
+
+
+
+
+*O pinheiro ambicioso*
+
+
+Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh!
+dizia elle, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
+verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
+orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
+de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»
+
+O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o
+pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
+pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
+mais sensatos do que elle, não invejavam a sua rapida fortuna. Á noite
+passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um
+sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés á cabeça.
+
+«Oh! disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça
+dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a
+floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
+o oiro attrae as ambições.
+
+Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
+avarento não me teria despido.»
+
+No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
+sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
+fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de
+nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as
+folhas de cristal.
+
+«Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em
+pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir
+as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria
+menos brilhante, mas viveria descansado.»
+
+Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado ás vaidades
+primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
+outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
+vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as
+todas sem deixar uma unica.
+
+O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar á sua
+fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
+sua sorte.
+
+
+
+
+*Perfeição das obras de Deus*
+
+
+_A filha_.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.
+
+_A mãe_.--Vou-te dar outra.
+
+_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mamã?
+
+_A mãe_.--Vê se adivinhas.
+
+_A filha_.--Nã sei, mamã.
+
+_A mãe_.--Conheces os metaes?
+
+_A filha_.--Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de
+uma caixa.
+
+_A mãe_.--Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de
+marmore?
+
+_A filha_.--Oh! não; são de metal; mas de que metal?
+
+_A mãe_.--Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas
+primeiro.
+
+_A filha_.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não é de prata, porque
+não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarello muito
+brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarello muito feio, que
+cheira mal... Então é de ferro, mamã?
+
+_A mãe_.--Adivinhaste.
+
+_A filha_.--Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.
+
+_A mãe_.--É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já
+se não chama ferro, é aço.
+
+_A filha_.--Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que
+as fazem.
+
+_A mãe_.--É impossivel, não és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma
+fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar
+muito.
+
+_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
+nos servimos.
+
+_A mãe_.--Tens razão; é uma vergonha ignoral-o.
+
+_A filha_.--Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.
+
+_A mãe_.--Olha, ahi tens o meu estojo.
+
+_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão
+fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para
+fazer uma coisinha tão delicada!
+
+_A mãe_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
+uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?
+
+_A filha_.--Lembro, mamã; era tão bonito!
+
+_A mãe_.--Li n'um jornal allemão que um operario chamado Nerlinger fez
+um copo de um grão de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais
+doze...
+
+_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um
+grão de pimenta!
+
+_A mãe_.--E ainda não é tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas
+doiradas, e sustentava-se no pé.
+
+_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso!
+
+_A mãe_.--Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É
+effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
+certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração.
+
+_A filha_.--Quaes, mamã?
+
+_A mãe_.--Já t'o digo. (_Levanta-se_.)
+
+_A filha_.--Que quer, mamã?
+
+_A mãe_.--Quero que vejas o microscopio de teu papá.
+
+_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio.
+
+_A mãe_.--Este é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes
+ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina,
+lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão grosseira!
+
+_A mãe_.--Vês-lhe buracos, riscos, asperesas, não é verdade?
+
+_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito.
+
+_A mãe_.--Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na
+agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por ellas.
+
+_A filha_.--O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
+visse ao microscopio.
+
+_A mãe_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.
+
+_A filha_.--O quê, mamã?
+
+_A mãe_.--O aguilhãosinho de uma abelha.
+
+_A filha_.--Oh! que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é
+brilhante!... Mas já sei que visto ao microscopio ha de acontecer o
+mesmo que com a agulha.
+
+_A mãe_.--Prompto: olha.
+
+_A filha_ (olhando).--É exquisito, mamã!
+
+_A mãe_.--Então?
+
+_A filha_.--Augmentou, augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo
+contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não tinha ponta,
+e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabello. Porque
+será isto, mamã?
+
+_A mãe_.--É porque o operario que fez este aguilhão é muito mais habil
+do que o que fez a agulha.
+
+_A filha_.--Quem é esse operario tão habil?
+
+_A mãe_.--É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as
+creaturas.
+
+_A filha_.--É Deus.
+
+_A mãe_.--Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os
+animaes?
+
+_A filha_.--De certo.
+
+_A mãe_.--Foi elle por conseguinte que fez o aguilhão d'esta abelha; e
+ahi tens porque o aguilhão é superior á agulha: é obra de Deus. Mas
+continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de
+musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.
+
+_A mãe_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima.
+
+_A filha_.--Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo
+microscopio.
+
+_A mãe_.--Então?
+
+_A filha_.--É horrorosa... Parece feita de pellos grosseiros com grandes
+buracos deseguaes.
+
+_A mãe_.--As obras do homem são todas assim.
+
+_A filha_.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.
+
+_A mãe_.--Sabes o que é isto?
+
+_A filha_.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.
+
+_A mãe_.--Os fiosinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha
+pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes.
+
+_A filha_ (olhando pelo microscópio).--Não, mamã; os fios são todos
+eguaes, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.
+
+_A mãe_.--É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha
+sobre este papel?
+
+_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas
+também com tinta.
+
+_A mãe_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
+redondos?
+
+_A filha_.--Sim, mamã, perfeitamente redondos.
+
+_A mãe_.--Vê-os agora ao microscopio.
+
+_A filha_.--Oh! já não são redondos, são todos deseguaes.
+
+_A mãe_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma aza de borboleta;
+vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
+microscopio; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a differença
+que agora é maior. Que bellas que são as obras de Deus!
+
+_A mãe_.--Merece bem a pena estudal-as.
+
+_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
+dos homens.
+
+_A mãe_.--E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do
+homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
+perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
+primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a
+segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem
+fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras
+mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as
+obras do Creador.
+
+
+
+
+*João e os seus camaradas*
+
+
+Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso,
+possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a
+correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou
+o gallo, e disse-lhe:
+
+«O que é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, ou toda
+com a minha maldição?»
+
+«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no
+mundo eu quereria a tua maldição.»
+
+«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
+abençôe.»
+
+E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha
+caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair.
+
+«Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a
+afogar-me.»
+
+«Espera, respondeu João.»
+
+E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o
+quadrúpede do atoleiro.
+
+«Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te posso ser util,
+aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?»
+
+--«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha vida.»
+
+«Queres tu que eu te acompanhe?
+
+«Anda d'ahi.»
+
+E puzeram-se a caminho.
+
+Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da
+eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
+animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de
+tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.
+
+«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa te for
+prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?»
+
+«Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.»
+
+«Queres que te acompanhe?»
+
+«Anda d'ahi.»
+
+Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a
+merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva
+que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar
+lastimosamente.
+
+Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango.
+
+--«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser util. Aonde
+vaes tu?
+
+--«Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.»
+
+--De boa vontade.
+
+Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um
+grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
+gallo na bocca.
+
+«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.
+
+E no mesmo instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em
+perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente
+disse a João:
+
+--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?»
+
+--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?
+
+--«De boa vontade.»
+
+--Então anda. Se te cançares, empoleira-te no jumento.»
+
+Os viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro.
+Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma quinta, nem
+uma cabana.
+
+--«Paciencia, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
+hoje a dormir ao ar livre; além d'isso a noite está socegada, e a relva
+é macia.»
+
+Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o cão
+e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo
+empoleirou-se n'uma arvore.
+
+Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou
+a cantar.
+
+--«Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque é que
+estás a gritar?»
+
+--«Porque já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a luz da
+madrugada, que vem rompendo?»
+
+--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é d'uma lanterna.
+Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto
+da noite.»
+
+Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez
+dos campos, até que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo,
+d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
+blasphemias horriveis.
+
+--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
+é que está lá dentro.»
+
+Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam
+alegremente, sentados a uma mesa principesca.
+
+--«Que bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do
+conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este
+porteiro. Á sua saude!»
+
+--«Á saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.
+
+E d'um trago despejaram os copos.
+
+João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:
+
+--«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
+signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.»
+
+O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao peitoril
+d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o gato á cabeça do cão e o
+gallo á cabeça do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do
+jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do
+gallo.
+
+--«Agora, bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar
+armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!»
+
+No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando
+cada vez mais; os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo
+precipitadamente por uma porta falsa.
+
+João e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um
+excellente jantar, e deitaram-se em seguida--João n'uma cama, o burro na
+cavallariça, o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e
+o gallo n'um poleiro.
+
+Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e
+salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.
+
+--«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão humida, disse um
+d'elles.»
+
+--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.»
+
+--«E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.»
+
+--«E o que é mais lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o
+dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das
+gavetas.»
+
+--Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão.
+
+--Bravo! exclamaram os ladrões.
+
+E poz-se a caminho.
+
+Já não havia luz na casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se
+para o fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as garras.
+Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
+rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
+por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo
+atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas.
+
+--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!»
+
+Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
+parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do chão.
+
+Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem
+pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.
+
+--Então? então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.
+
+--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para
+me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que o trago
+n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado
+por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o
+cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta,
+um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a sovella. Logo
+depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras.
+Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não
+acreditam, vão lá, e experimentem.»
+
+--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
+ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.»
+
+Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excellentemente, e
+partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões
+lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos,
+com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram á
+porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com
+uma libré esplendida, meias de seda, calções escarlates e cabello
+empoado.
+
+Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.
+
+--Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se embora?»
+
+--Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castello far-nos-ha
+um bom acolhimento.
+
+--Fóra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
+andar immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os meus cães de
+fila.»
+
+--Perdão, só um instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do
+jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite
+passada a porta do castello?»
+
+O porteiro córou. O conde que estava á janella, disse-lhe:
+
+--Ó Bernabé, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.
+
+--Senhor, replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui eu que
+abri a porta aos seis ladrões.
+
+--Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?
+
+Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
+pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite,
+porque vimos cançados do caminho.
+
+--Ficae certos que sereis bem tratados.
+
+O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na
+cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés á
+cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e
+disse-lhe:
+
+--Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»
+
+João acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si.
+Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.
+
+
+
+
+*O rabequista*
+
+
+Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma
+egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.
+
+As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O
+vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro,
+feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava
+constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria
+um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
+sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge não havia pão nem
+dinheiro no bolso para o comprar.
+
+Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca com tal
+suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vel-o
+tão pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa
+Cecilia abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o
+ao pobre musico, que tonto d'alegria, dançando, cantando, chorando,
+correu á loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o
+sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do
+juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado á morte.
+
+Chegára o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
+poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim não
+chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como
+ultima graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento.
+O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam
+supplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua
+derradeira melodia.
+
+Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
+ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lagrimas começou a tocar.
+Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de
+novo, descalçar o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á
+vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o
+rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente
+prestar-lhe as mais honrosas homenagens.
+
+
+
+
+*Os pecegos*
+
+
+Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos
+magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos,
+extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. Á
+noite o pae perguntou-lhes:
+
+--Então comeram os pecegos?
+
+--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei
+de plantal-o para nascer uma arvore.»
+
+--Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar no futuro.»
+
+--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mamã ainda me deu
+metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.»
+
+--Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade não admira;
+espero que quando fores maior te has de corrigir.»
+
+--Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou
+fóra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
+o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á
+cidade.»
+
+O pae meneou a cabeça:
+
+--Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.
+
+--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?
+
+--Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho,
+ao Jorge, que está coitadinho com febre. Elle não o queria, mas
+deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora.
+
+--Ora bem, perguntou o pae, qual de vós é que empregou melhor o pecego
+que eu lhe dei?
+
+E os três pequenos disseram á uma:
+
+--Foi o mano Eduardo.
+
+Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos
+arrazados de lagrimas.
+
+
+
+
+*A urna das lagrimas*
+
+
+Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
+adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só momento; mas
+um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu e morreu. A
+desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
+momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades.
+Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
+acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido,
+abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua
+querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos
+uma urna, que vinha cheia até ás bordas.
+
+--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo
+das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais,
+transbordará, e as tuas lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no
+tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso.
+
+A pequenina desappareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não
+affligir.
+
+
+
+
+*Reconhecimento e ingratidão*
+
+
+Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos paes.
+E é natural. As creanças veem diariamente o que fazem seus paes, e
+imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a
+benção ou a maldição d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos,
+terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem
+ser meditados.
+
+Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
+satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois
+d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que
+trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O
+principe, que para as suas despezas d'administração e representação
+necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
+como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima
+satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:
+
+«Gasto diariamente comigo a terça parte d'essa quantia; outro terço é
+para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas
+economias.»
+
+Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o
+d'este modo.
+
+«Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não podem
+trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força para isso. Aos
+primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
+infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando os annos
+tiverem pesado sobre mim.»
+
+O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se
+da educação de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos
+paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando
+egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.
+
+Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma
+maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve
+de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato
+recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde
+foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
+muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima
+esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
+O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de
+dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
+notou que a creança ao partir tinha escondido um dos lençoes a um canto,
+atraz da porta.
+
+Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo.
+
+«Foi, respondeu a creança desabridamente, para me servir mais tarde
+d'este lençol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital.
+
+
+
+
+*O fato novo do sultão*
+
+
+Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento.
+
+Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
+theatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava
+de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Está no conselho;
+dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
+muito alegre, graças á quantidade d'estrangeiros que por ali passavam;
+mas chegaram lá um dia dois larapios, que, dando-se por tecelões,
+disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não
+só eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além
+d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade
+maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos
+aquelles que não exercessem bem o seu emprego.
+
+--São vestuarios impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles,
+saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
+dos ministros. Preciso d'esse estofo!»
+
+E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada,
+para que podessem começar os trabalhos immediatamente.
+
+Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que
+trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras.
+Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
+muito bem guardado, trabalhando até á meia noite com os teares vasios.
+
+--«Preciso saber se a obra vae adiantada».
+
+Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos
+idiotas. E, apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente
+em todo o caso mandar alguem adiante.
+
+Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
+estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.
+
+--Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um
+grande talento, e por isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o
+estofo.
+
+O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
+com os teares vasios.
+
+--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, não vejo
+absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões
+convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os
+desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
+olhava, mas não via nada, pela rasão simplicissima de nada lá existir.
+
+--Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? É necessario que
+ninguém o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá
+confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.»
+
+--«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:
+
+--«Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este
+desenho... estas cores... magnifico!... Direi ao sultão que fiquei
+completamente satisfeito.»
+
+--«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e
+mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma
+descripção minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois
+repetir tudo ao sultão.
+
+Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
+precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no
+bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam
+sempre.
+
+Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funccionario, homem
+honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a
+este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não
+via nada.
+
+--Não acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o
+magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente
+de não existir.
+
+--Mas que diabo! eu não sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois não serei
+eu capaz de desempenhar o meu lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o
+deixo eu.»
+
+Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo
+desenho e o bem combinado das cores.
+
+--É d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sultão. E toda a
+cidade começou a fallar d'esse tecido extraordinario.
+
+Emfim o proprio sultão quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande
+acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois
+honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois
+velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de
+especie alguma.
+
+--Não acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho
+e as cores são dignos de vossa alteza.»
+
+E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam
+podessem ver alguma cousa.
+
+--Que é isto! disse comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível!
+serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça que me
+acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnifico! Testemunho-vos a
+minha satisfação.»
+
+E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
+atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do
+mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto
+repetiam como o sultão: «É magnifico!» Até lhe aconselharam a que se
+apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnifico! é
+encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era
+geral.
+
+Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
+tecelões.
+
+Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à
+luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
+cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio,
+e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido.
+
+O sultão com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores
+levantando um braço, como para sustentar alguma cousa, disseram:
+
+«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha;
+ó a principal virtude d'este tecido.»
+
+--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.
+
+--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios,
+provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.»
+
+O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças,
+depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do
+espelho.
+
+--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos.
+Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!»
+
+Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias.
+
+--Está á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á procissão,
+disse elle.»
+
+--Bom! estou prompto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»
+
+E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do
+seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não
+querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a.
+
+E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a
+gente na rua e ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que
+cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber,
+que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
+Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.
+
+--Mas parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do
+pae.
+
+--É a voz da innocencia, disse o pae.
+
+--Ha ali uma creança que diz que o sultão vae em cuecas.
+
+«Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.
+
+O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era
+verdade. Entretanto tomou a energica resolução de ir até ao fim, e os
+camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
+imaginaria.
+
+
+
+
+*Boa sentença*
+
+
+Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma
+quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis
+d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
+camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:
+
+--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no
+alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
+adiantados os cem mil réis d'alviçaras: estamos pagos por conseguinte.»
+
+O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem
+devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
+que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:
+
+--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge
+apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o
+ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se julga com
+direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
+encontraste, e guarda-o até que appareça o individuo que perdeu sómente
+setecentos mil réis. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que
+tenhas paciencia até que appareça alguem que tenha achado os teus
+oitocentos mil réis.
+
+
+
+
+*Os animaes agradecidos*
+
+
+Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
+perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este
+respondeu:
+
+--«Senhor: eu sou um desgraçado, um miseravel; nasci no vosso reino, e
+chamo-me _Ingratidão_.»
+
+--«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
+serviço.»
+
+O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
+Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se
+tão esperto e tão solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que
+o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa.
+Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então não
+conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos
+desventurados.
+
+Ora, na visinhança do palacio havia uma floresta cheia d'animaes
+selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a
+parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
+dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
+floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
+precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.
+
+Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um
+lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
+governador, ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão
+horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança de
+salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
+ninguem o vinha soccorrer.
+
+Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
+chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para
+ganhar o pão necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem
+lá foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da
+cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção não tardou a
+ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
+ali.
+
+--«Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto
+encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma
+enorme serpente.»
+
+--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não tendo para
+sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava
+um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se
+cumpres a tua promessa?
+
+O intendente continuou:
+
+--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
+cumprirei a minha palavra.»
+
+Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda
+muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão atirou-se a
+ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
+o intendente.
+
+Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior
+amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome.
+
+Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o
+governador, enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a
+serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o
+governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
+para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o
+que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes
+promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre
+homem bater à porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.
+
+--«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente
+que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.»
+
+O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:
+
+--«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na floresta; que se
+ponha a andar, porque o não conheço.»
+
+O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.
+
+O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou á mulher a
+odiosa perfidia de que tinha sido victima.
+
+A mulher disse-lhe:
+
+--«Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e
+foi talvez por isso que te não pôde receber.»
+
+Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.
+
+Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á porta do palacio.
+Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que não tornasse
+ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado a empregar meios
+violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:
+
+--«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o
+inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais
+n'isso.»
+
+No dia seguinte o bom do homem voltou á carga; e tendo o porteiro
+consentido á força de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este
+encolerisado atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre
+homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do
+chão. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um
+burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
+levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se
+obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente
+tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para
+fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle
+tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e
+este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leão,
+vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso
+agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal
+de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal
+para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico.
+
+No dia seguinte, voltando de novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que
+o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto
+lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado
+o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha
+tirado do fôjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em
+que brilhavam três côres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a
+serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
+d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio
+levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
+propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho,
+afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
+assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia.
+Antonio respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se
+seria boa.
+
+O velho respondeu:
+
+--«São três as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria
+imperturbavel e luz sem trevas. Se alguém t'a comprar por menos dinheiro
+do que vale, tornará immediatamente para a tua mão.»
+
+Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
+sciencia maravilhosa, e correu a contar á mulher a sua felicidade. Como
+se imagina, graças á virtude da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em
+diante, nem honras nem riquezas.
+
+Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou
+chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman.
+
+Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:
+
+--«Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me não for paga
+pelo que vale, tornará ella mesma para o meu poder.»
+
+--«Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.»
+
+E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã,
+Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
+disse-lhe:
+
+--«Torna a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se que
+lh'a furtaste.»
+
+O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou á presença de sua
+magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
+preciosa.
+
+--«Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro,
+fechado com sete chaves, disse o rei.»
+
+Antonio mostrou-lhe então a joia preciosa, e o rei ficou
+extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido
+semelhante thesouro.
+
+Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o
+reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
+intendente, e disse-lhe:
+
+--«Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratidão_,
+porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste
+com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a Antonio as
+tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
+enforcado.»
+
+Admiraram todos a sentença do rei, e Antonio desempenhou as suas altas
+funcções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
+escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos
+gloriosos.
+
+
+
+
+*O ermitão*
+
+
+Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou
+retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao
+trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
+seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa de Deus. Depois de ter
+assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que já tinha
+merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os
+santos mais notaveis.
+
+Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:
+
+--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
+e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.
+
+O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
+seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:
+
+--Irmão, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e
+penitencias te tornaste agradavel a Deus.
+
+--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não
+zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei,
+pobre de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em casa a
+divertir os outros.»
+
+O austero ermitão continuou a insistir:
+
+--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum
+acto de virtude.»
+
+--Em verdade não poderia citar nem um só.»
+
+--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
+loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente
+o teu patrimonio e o producto do teu officio?»
+
+--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
+filhos tinham sido condemnados á escravidão para pagar uma divida. Essa
+mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa,
+protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a
+sua familia, e levei-a á cidade, onde ella devia encontrar-se com seu
+marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»
+
+A estas palavras o ermitão poz-se a chorar, e exclamou:
+
+--Nos meus setenta annos de solidão nunca pratiquei uma obra tão
+meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu não
+passas d'um pobre musico.»
+
+
+
+
+*Carlos Magno e o abade de S. Gall*
+
+
+Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
+preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da abadia, fresco,
+rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e
+activos, e o abade era indolente. Além d'isso o imperador tinha mais
+d'um motivo de queixa contra elle.
+
+--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á
+sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a bondade de me
+responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão solemne do
+nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
+dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
+em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+rev.^{ma} vier á minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate
+d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás deixa de ser abade de S.
+Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada
+para o rabo.»
+
+O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
+os doutores mais famosos pela sua sciencia, não lhe souberam dar
+resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal
+aproximava-se; já não faltava senão um mez, já não faltavam senão
+semanas, e afinal só dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e
+anafado, estava magro como um esqueleto. Perdèra o somno e o appetite.
+Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se
+encontrou com o seu pastor.
+
+--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?»
+
+--Estou, meu caro Felix, estou muito doente.»
+
+--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»
+
+--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta ás minhas tres
+perguntas.»
+
+--É então latim?»
+
+--Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.»
+
+--Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe
+era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.»
+
+Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o
+barrete ao ar, e disse-lhe:
+
+--Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
+póde continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu
+habito.»
+
+Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o habito do abade de S.
+Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
+imperial.
+
+--Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que
+pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto
+valho eu em dinheiro?»
+
+--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por
+trinta dinheiros, sua magestade vale á justa vinte e nove, só um
+dinheiro menos.»
+
+--Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não posso
+deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda pergunta, não ha de
+ser tão facil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a
+dar a volta ao mundo?»
+
+--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
+constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
+quatro horas.»
+
+--Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finorio, e d'esta vez,
+confesso-me vencido; mas a terceira, não d'essas á que se responde com
+supposições. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha
+de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»
+
+--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está
+enganado, porque eu sou o seu pastor.»
+
+--Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas
+sendo.»
+
+--Não sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor,
+peco-lhe outra cousa.»
+
+--Não tens mais que fallar.»
+
+--Peço a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.»
+
+Carlos Magno não era homem que faltasse á sua palavra.
+
+
+
+
+*A boneca*
+
+
+Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma
+boneca!
+
+Não ha muitos annos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno
+jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o
+sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o espirito a vista dos dois
+monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades,
+que podem aniquillar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda não ha
+muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
+feira, divertindo-me a meu modo.
+
+Cançado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella
+especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo,
+quando novos personagens me chamaram a attenção.
+
+Eram os meus visinhos _ricos_.
+
+Aqui é preciso uma rapida explicação.
+
+Das famílias da minha visinhança, só conheço tres.
+
+Qual d'estas tres familias será mais feliz?...
+
+Pelo que tenho notado, não tem que invejar umas ás outras.
+
+São todas felizes; cada qual a seu modo.
+
+Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_.
+
+Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e
+dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou,
+tomou nos braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em
+seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e
+com a menina para a barraca onde eu estava.
+
+Não havia ali segredo a surprehender.
+
+Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
+parecia agradecer áquella formosa criança a manifestação de qualquer
+desejo.
+
+No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a
+felicidade de dez crianças menos abastadas.
+
+Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca...
+_rica_.
+
+Faltava apenas a dona da casa--a boneca.
+
+Todo risos e attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor.
+
+Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar
+a mamã, a gentil creança acabou por escolher uma magnifica boneca de
+dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues.
+
+Uma boneca como as outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica
+recheada, braços e pernas de páu.
+
+Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribu de crianças, que fazem
+o martyrio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado
+sapateiro.
+
+Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
+anjos, caidos do céo sobre um monte de lama.
+
+São os meus visinhos _pobres_.
+
+A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa
+immediata.
+
+É como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_.
+
+A filha que terá dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas,
+cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à
+pressão.
+
+São os meus visinhos _remediados_.
+
+A terceira é a dos meus visinhos _ricos_.
+
+Casa nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas
+listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+estado--nada falta áquella ditosa gente!
+
+Compõe-se egualmente de marido, mulher e filha.
+
+Que formosa criança!... Terá oito annos.
+
+Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e
+scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e
+esguios, terminados por unhas d'uma côr de rosa transparente, que não
+sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a
+crescer--que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos.
+
+Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas
+aquellas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do
+carro.
+
+A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criança.
+
+Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadissimas
+considerações, suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina
+recebèra brinquedos, que representavam um par de moedas.
+
+Que contraste com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da
+mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel
+artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois pontos
+de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por
+outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã preta!
+
+Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos remediados não havia luz.
+
+Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
+tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
+provocavam os ralhos da mãe.
+
+Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas da manhã.
+
+Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na
+casa immediata não se via ninguem--estava a pequena na mestra; no
+palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
+divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma
+linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos.
+
+Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.
+
+--«Ahi está a tua caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim
+para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!...
+Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...»
+
+Retirei-me da janella.
+
+Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.
+
+A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
+vestia tres e quatro vezes!
+
+Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a
+tratava!
+
+Chamava-lhe sr.ª D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente
+com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que
+se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma.
+
+Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos
+_ricos_--ouvi um grito de susto.
+
+Era devido a um accidente, a que está sujeito quem anda de carro.
+
+Voltára-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janella.
+
+O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo,
+porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e
+lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
+nova, agarrou-a pelos pés e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais
+perto de mim bradou voz timida e suplicante:
+
+«Não atire!... Dê-m'a.»
+
+Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra fé até
+então.
+
+Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
+lançou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.
+
+Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
+encolhendo os hombros, respondeu:
+
+--«Já não presta!... Está esmurrada!...»
+
+--É o mesmo!... Dá-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
+cubiça.
+
+--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os hombros.
+
+E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da
+visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse
+despedaçar-se nas lages da rua.
+
+Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
+outra, para mostrar á mãe a que ella ainda não podia acreditar, que
+fosse sua!
+
+Por espaço de mezes foi a boneca a principal occupação da nova dona.
+
+A pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro
+vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excellencia! Chamavam-lhe
+sr.ª D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da
+creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
+estranhas para ella!
+
+E a desgraçada perdia as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
+azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
+se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma!
+
+Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
+ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.
+
+Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, fitas velhas, rendas
+amarelladas, chapéos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do
+vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira.
+
+Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle
+as ondulações do _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de
+cassa---no inverno!--chaile e manta na cabeça.
+
+Muito mal lhe ficava aquillo!... Áquella boneca custava-lhe de certo o
+vêr-se tão mal arranjada.
+
+Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei:
+
+--É justo!... Cada qual segundo as suas posses.»
+
+Por esse tempo, entrei em relações com o meu visinho sapateiro.
+
+O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
+faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra a primeira occasião, para me
+pedir desculpa.
+
+Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
+aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem
+grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.
+
+Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze annos, com
+quem sympathisei logo á primeira vista.
+
+Chama-se Maria.
+
+Por um d'estes acasos da Providencia, que parece ás vezes comprazer-se
+em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.
+
+Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
+fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou.
+
+E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, porque havia
+verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a
+minha Maria!»
+
+E tinha razão!
+
+Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo era.
+
+--É quem vale á mãe!...--accrescentou o velho.»--Ali, onde a vê, faz o
+serviço d'uma mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve
+doente--bem pensei que não arribasse!--a pequena era quem cosinhava e
+olhava pelos irmãos!... E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella
+pequena esteve tres dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi
+preciso eu obrigal-a, que ella não a queria deixar!...»
+
+E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que,
+havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.
+
+Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
+cabeça coberta por um lenço branco.
+
+Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais
+passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias á
+pequena.
+
+Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
+deitada nos joelhos.
+
+--Eu conheço aquella boneca!...--disse eu de mim para mim.
+
+E, não podendo resistir á curiosidade, bradei:
+
+--Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...
+
+Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, córando de prazer.
+
+Era escusado dizer-m'o.
+
+Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não podia
+duvidar... Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel
+na fronte.
+
+De tempos a tempos, nas raras horas de descanço, Maria entretinha-se com
+ella.
+
+--Quem te viu e quem te vê!...--pensava eu.
+
+Ás vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que
+tratos que sofria a desgraçada!
+
+Roçada por aquellas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia,
+empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim,
+singularissimo o aspecto da triste!
+
+Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a
+fraternisar com o povo.
+
+A misera mudára mais uma vez de nome!...
+
+De sr.ª D. Anna passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê.
+
+Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça.
+
+Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
+a boneca.
+
+Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
+encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre
+boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de
+trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que
+mais familiares eram á pequena.
+
+Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a,
+mandavam-n'a buscar agua á fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
+acabavam por a despedir.
+
+Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára de ser feliz.
+
+Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho!
+
+Desmaiada de côres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos,
+desfeito o carmim dos labios, a boneca não promettia longa duração.
+
+Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi,
+tentando em vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera.
+
+Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!
+
+Um dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
+espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem mil
+immundicies.
+
+Eu estava á porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
+melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
+partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto... Um objecto,
+arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no
+leito do enxurro...
+
+Olhei... Era a boneca!...
+
+A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo até esbarrar n'uma
+pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou
+quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e
+o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas
+profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!
+
+Será pieguice, será o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me
+impressionou o fim da pobre boneca.
+
+Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á vidraça do
+sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
+
+--Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!?
+
+--Não fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...
+
+--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...
+
+--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
+feia!...
+
+Curvei a cabeça ante aquella razão, e segui o meu caminho.
+
+Pobre boneca!
+
+
+
+
+*Inconveniente da riqueza*
+
+
+Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi
+surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para
+outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já
+todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo
+estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual
+com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso
+Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma quinta, e bateu á
+porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.
+
+--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
+Não se havia de arrepender.»
+
+E accrescentou:
+
+--Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a
+trabalhar?»
+
+--Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser perseguido
+por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã o que lhe devo,
+portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
+o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto não nos fica
+nada, e não sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus
+quizer!»
+
+Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão pelos
+olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e disse-lhe:
+
+--«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te
+havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.»
+
+Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e
+approximou-a do trigo.
+
+--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a
+tudo!»
+
+Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se,
+de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. Á vista d'um tal
+milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos.
+
+--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
+pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, serás
+recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te
+enriquece.»
+
+Dito isto desappareceu.
+
+E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto
+como a egreja.
+
+O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella
+casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e
+seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que
+se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
+ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera
+enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o
+enriquecêra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na
+candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a
+casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais
+absoluta.
+
+
+
+
+*Querer é poder*
+
+
+--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por
+experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira.
+
+Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.
+
+--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e
+solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
+vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei
+uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.
+
+O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.
+
+O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
+semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu
+fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão
+extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:
+
+--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia,
+pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são
+os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te
+distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
+extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor
+incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha.
+
+O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
+rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e
+deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
+horas, punha-se a resar.
+
+Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que
+chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.
+
+--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»
+
+--Encontrar um diamante que caiu ao rio.»
+
+--Então, respondeu o velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque
+vejo qual é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar
+as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»
+
+Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
+do rei.
+
+
+
+
+*Qual será rei?*
+
+
+Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
+successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia pertencer,
+não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.
+
+Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse posto de pé contra um
+muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle
+alvo, seria o escolhido para successor.
+
+Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
+tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defuncto. O principe
+soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos atirariam peór, e que
+por conseguinte seria elle quem viria a reinar.
+
+O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
+alegre do que o outro principe.
+
+O terceiro varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho
+quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar melhor.
+
+Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mãos as
+flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
+longe de si, e desatou a chorar:
+
+--«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jámais
+consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus
+proprios filhos!»
+
+Os grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais
+digno.
+
+
+
+
+*Os tres véos de Maria*
+
+
+O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve.
+Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
+seda tão bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em
+cima.
+
+Este véo branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão.
+
+O segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que
+sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, sem amparo, na casa triste e
+abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de
+marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas
+lagrimas.
+
+O véo negro só o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de
+Jesus no convento da Ave-Maria.
+
+O terceiro véo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado
+d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.
+
+Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou
+no paraizo.
+
+
+
+
+*Os pequenos no bosque*
+
+
+Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
+outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos
+para o bosque que encontremos lá toda a especie de lindos bichinhos, que
+não fazem outra cousa senão brincar, e nós brincaremos com elles.»
+
+Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da
+abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar,
+disse-lhes:
+
+--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
+outra já não está solida.»
+
+--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.»
+
+--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu
+ninho.»
+
+--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda
+hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
+minha _toilette_.»
+
+E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
+a saltar e a tagarellar, tambem não queres brincar comnosco?»
+
+--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam
+que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanço nem um
+momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, ás colinas,
+aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios,
+tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje
+acabára, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder
+um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»
+
+Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um
+pintasilgo, em cima d'um ramo.
+
+--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»
+
+--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo
+o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além d'isso que tomar
+parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o
+meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com uma outra cantiga,
+que á noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora,
+preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incommodar os
+habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»
+
+Os pequenos aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só é
+ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.
+
+
+
+
+*O chapellinho encarnado*
+
+
+Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
+mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, que passava o
+tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, deu-lhe um dia um chapéo
+de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéo
+novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do
+chapellinho encarnado.
+
+A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
+legua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:
+
+--Tua avó está doente, e não pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae
+levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a
+garrafa, não andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»
+
+--Sim, mamã, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»
+
+Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se
+a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita,
+que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.
+
+--Bons dias, chapellinho encarnado.»
+
+--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»
+
+--Onde vaes tão cedo?»
+
+--A casa da minha avó que está doente.»
+
+--E levas-lhe alguma cousa?»
+
+--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
+dar forças.»
+
+Dize-me onde mora a tua, avó, que tambem a quero ir ver.»
+
+--É perto, aqui no fim da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito
+grandes, e no jardim ha muitas nozes.»
+
+--Ah! tu é que és uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava
+de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e
+que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que
+quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»
+
+--O senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita,
+visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma
+que fizesse bem a minha avó.»
+
+--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e
+aquella.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas
+venenosas. A pobre creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.
+
+--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
+grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»
+
+E poz-se a correr em direcção da casa da avó, emquanto que a pequerrucha
+se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado.
+
+Quando o lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
+avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»
+
+--É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da
+pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»
+
+--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»
+
+Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira,
+e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama.
+
+Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a
+porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter
+fechada.
+
+O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do
+focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.
+
+--Ai! avósinha, disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»
+
+--É para te ouvir melhor, minha filha.»
+
+--E porque estás com uns olhos tão grandes?»
+
+--É para te vêr melhor.»
+
+--E para que estás com os braços tão grandes?»
+
+--É para te poder abraçar melhor.»
+
+--E Jesus! para que tens hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão
+agudos?»
+
+--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se á pobre
+pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a
+resonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e
+que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha está com um
+pesadelo, está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, e
+vê o lobo estendido na cama.
+
+--Olá, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.»
+
+Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a
+dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o
+animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
+cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e
+saltou para o chão, gritando:
+
+--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!
+
+A avó saiu também contentissima por ver outra vez a luz do dia.
+
+O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador metteu-lhe então
+duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a
+neta para verem o que se ia passar.
+
+Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se
+para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
+não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e
+affogou-se.
+
+O caçador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha
+e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado
+prometteu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o
+prohibisse.
+
+
+
+
+*Os cinco sonhos*
+
+
+Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva numerosa, perseguiu
+um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, que, apesar da
+ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só
+então que viu que estava só, tendo a sua côrte ficado muito para traz;
+sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria
+no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões.
+Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
+entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe
+quizeram logo contar.
+
+O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:
+
+--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que acaba de entrar
+aqui, e punha-o na minha cabeça.»
+
+--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»
+
+--E eu que estava pondo o seu manto.»
+
+--E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do
+meu pescoço aquella pesada cadeia d'ouro, da qual está pendurada a sua
+trompa de caça.»
+
+--Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar tudo, e
+mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e
+qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço senão uma cousa, é que
+me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caça.»
+
+Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido
+d'um moribundo deve ser respeitado.
+
+Carlos Magno levou á boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou
+d'ella sons tão fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os
+seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé d'elle.
+
+--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem
+eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser
+enforcados diante d'este casebre.»
+
+E o sonho realisou-se immediatamente.
+
+
+
+
+*A egreja do rei*
+
+
+Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da
+Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para
+a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se
+concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do
+marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só elle, e mais
+ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite
+seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e substituido por o
+d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
+pôr o seu nome na inscripção, e de novo foi substituido pelo da pobre
+mulher; á terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou
+então que lhe trouxessem a mulher á sua presença:
+
+--Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem
+fosse com o que fosse para a edificação d'esta egreja; vejo que não
+cumpriste as minhas ordens.»
+
+--«Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas
+ordens, apesar da magua que sentia por não poder offerecer o meu
+pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa
+magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
+que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas
+à construcção da egreja.»
+
+--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na
+inscripção do monumento, disse-lha o rei.»
+
+Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na lapide da egreja
+o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.
+
+
+
+
+*O valente soldado de chumbo*
+
+
+Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos
+terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que attitude marcial,
+d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos!
+A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da
+caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!»
+que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado
+de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a
+mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
+maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
+menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo lugar, e já não havia
+chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros não estavam mais
+firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e é este o que
+precisamente nos interessa.
+
+Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
+brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de
+papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos salões.
+Á volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia
+poeticamente n'um pedaço d'espelho que fingia um lago, onde nadavam
+pequeninos cysnes de cêra. Tudo isto era encantador, mas não tanto como
+uma menina que estava á porta, e que era tambem de papel, vestida com um
+lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
+tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha
+levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e
+imaginou que, como elle, não tinha senão uma perna.
+
+--Ali está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma grande
+fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e
+quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No entantanto
+preciso conhecel-a.»
+
+Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a
+elegante dançarina, que estava sempre n'um pé só, sem perder o
+equilibrio.
+
+Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas
+da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram
+a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de
+chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas
+como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas
+e saltos mortaes, o lapis traçou mil arabescos phantasticos n'uma louza,
+emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar.
+Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a
+dançarinasinha. Ella no bico do pé, e elle n'uma perna só, a
+espreital-a.
+
+Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar
+de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza.
+
+--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
+sitio.»
+
+Mas o soldado fez que não ouvia.
+
+--Espera até ámanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»
+
+No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de
+chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por
+causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a
+perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta
+enterrada entre duas lages.
+
+A creada e o rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a
+esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!»
+tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva
+começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois
+do aguaceiro passaram dois garotos.
+
+--Olà! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o
+navegar.»
+
+Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de
+chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois
+garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
+Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava
+d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
+impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro.
+
+De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a
+escuridão como na caixa dos soldados.
+
+--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me
+metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina
+estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas
+vezes maior.»
+
+D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do
+cano.
+
+--Venha o teu passaporte.»
+
+Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na
+espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
+rangendo os dentes, e gritando ás palhas, e aos cavacos:--Façam-n'o
+parar, façam-n'o parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»
+
+Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e
+sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente.
+Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para elle,
+como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem
+poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a
+queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se
+atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.
+
+O barco, depois de ter andado á roda durante muito tempo, encheu-se
+d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do
+soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
+agua passou por cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo,
+pensou na gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:
+
+--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»
+
+O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi
+devorado por um grande peixe.
+
+Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que
+talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado
+estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro.
+
+O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim
+parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia,
+e alguem exclamou:
+
+--Olha um soldado de chumbo!»
+
+O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a
+cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
+soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
+gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na
+barriga d'um peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso.
+Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto é verdade que acontecem
+cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de cuja
+janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam
+em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina sempre de perna
+no ar. O soldado de chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria
+derramado lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella,
+ella olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro.
+
+De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no
+fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.
+
+O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um clarão
+sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres lhe tinham
+desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas
+viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
+dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre
+intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma
+porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que
+desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, já não era mais
+que uma pequena massa informe.
+
+No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um
+objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e tudo o que
+restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha
+ennegrecido.
+
+
+
+
+*João Pateta*
+
+
+João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A
+gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe
+mandou-o á feira comprar uma foice. Á volta, começou a andar com a foice
+á roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.
+
+--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em
+um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»
+
+--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais
+esperto.»
+
+Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que
+as não perdesse.
+
+--Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»
+
+--Então, João, onde estão as agulhas?»
+
+--Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a
+passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá as agulhas, não
+podem estar em sitio melhor.»
+
+--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de as
+tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»
+
+--Perdão, respondeu João, para a outra vez, heide ser mais esperto.»
+
+Na outra semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar
+uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz a
+manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. Imagine-se o estado em
+que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.
+
+A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia
+resolveu-se a mandal-o á feira vender duas gallinhas.
+
+--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam
+outro.»
+
+--Está entendido, respondeu João.»
+
+Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.
+
+--Queres seis tostões por essas gallinhas?»
+
+--Ora adeus! minha mãe recommendou-me, que não acceitasse o primeiro
+preço, mas que esperasse o segundo.»
+
+--E tens muita rasão. Dou-te um cruzado.»
+
+--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro,
+mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ella não tem que me ralhar.»
+
+Depois d'isto, João foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que
+mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma
+experiencia, e disse-lhe:
+
+--Vae vender este carneiro á feira. Mas não te deixes enganar. Não o
+entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»
+
+--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»
+
+--Quanto queres por esse carneiro?
+
+--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.
+
+--Quatro mil réis?»
+
+--É o preço mais elevado?»
+
+--Pouco mais ou menos.»
+
+--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára a uma escada.
+
+--Quanto?»
+
+--Dez tostões:»
+
+--É menos, respondeu timidamente o João.»
+
+--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não ha um
+preço mais elevado.»
+
+--Tem rasão. É seu o carneiro.»
+
+Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou
+comprar cousa alguma.
+
+
+
+
+*Branca de Neve*
+
+
+Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia
+d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de vez em
+quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão,
+distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.
+
+--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos
+como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros
+como este ébano.»
+
+Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha,
+que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão branco,
+que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito
+tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
+d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos extraordinario. Era tão
+formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
+vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho
+magico dizia-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no
+mundo?»
+
+--És tu, respondia o espelho.»
+
+No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
+formosa. Tinha apenas sete annos, e já ninguem a podia ver sem ficar
+maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
+espelho, disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no
+mundo?»
+
+--Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»
+
+A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dôr aguda,
+como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela
+innocente Branca. Não podia socegar nem de dia, nem de noite. Para
+satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe:
+
+--Quero quo Branca desappareça. Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me
+provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o
+coração.»
+
+O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e
+dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança chorava e
+lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella não tinha feito
+mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas
+lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se
+as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas sim da rainha. Assim
+fez, e para mostrar o coração de Branca á rainha, matou um cabrito, e
+tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou
+contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma
+mulher no mundo é tão bella como eu.
+
+A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava
+cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e
+andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
+tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o
+deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.
+
+Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome
+e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
+limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de
+brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,
+e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
+do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
+deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.
+
+Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
+pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
+que tinham gente em casa. Um d'elles disse:
+
+--Quem comeu o meu pão?»
+
+E os outros successivamente:
+
+--Quem pegou no meu garfo?»
+
+--Quem comeu o meu caldo?»
+
+--Quem bebeu o meu vinho?»
+
+E emfim um d'elles:
+
+--Quem está ahi deitado na minha cama?»
+
+Reuniram-se todos á roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz
+das lanternas viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente,
+e affastaram-se sem fazer bulha, para a não accordar. Branca no dia
+seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si
+aquelles sete anões das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura,
+que não tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava.
+Branca contou a sua triste historia, e os anões disseram-lhe:
+
+--Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?»
+
+--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.»
+
+Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias.
+Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as
+minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.
+
+Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não
+tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
+e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda
+que ha no mundo?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete
+montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»
+
+Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,
+e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que
+modo? Uma manhã partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto
+cheio d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu á
+porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas joias?»
+
+Os anões tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras
+estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser
+prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no
+cesto, esqueceu-se das suas promessas.
+
+--Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao
+pescoço.»
+
+Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
+anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente
+inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas
+gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si pouco
+a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.
+
+--Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira não era
+outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, não deixes
+entrar aqui ninguem, quando não estivermos em casa.»
+
+Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do
+espelho, e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no mundo?
+Responde.
+
+E o espelho respondeu:
+
+--És tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está
+nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»
+
+A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
+infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou ás sete
+montanhas, e bateu á porta da cabana.
+
+--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á janella, e respondeu:
+
+--Vá-se embora, aqui não entra ninguem.»
+
+--Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. Já
+viu outro tão bonito?»
+
+Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a
+porta.
+
+--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o na cabeça.»
+
+Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e
+Branca caiu morta.
+
+Á noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria.
+Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e
+tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.
+
+No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio.
+Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que
+o espelho respondeu como antecedentemente.
+
+--Ah! é preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me
+sacrificar.
+
+Vestiu-se de camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que
+estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.»
+
+--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?»
+
+--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar
+ninguem, nem compro coisa alguma.»
+
+--Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão
+bonita, quero dar-lhe uma.»
+
+--Obrigada, não posso acceitar.»
+
+--Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa
+que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora
+mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se
+tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu fulminada.
+
+--Ahi tens, para castigo da tua formosura.»
+
+Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e
+perguntou-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--És tu, és tu.»
+
+--Até que emfim!»
+
+Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o
+licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
+fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos
+da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não podiam
+acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquillo,
+as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quizeram
+enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de cristal, e escreveram em cima.
+«Aqui jaz a filha d'um rei;» puzeram o caixão n'uma das sete montanhas,
+e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
+assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais
+pequena alteração.
+
+Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar á
+caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lh'o cedessem, fosse por preço
+que fosse.
+
+--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixão, que
+é o nosso thesouro.»
+
+--Então dêem-m'o, já não posso viver sem contemplar este rosto de
+mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me
+façam isto.»
+
+Os anões, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para
+o levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu um
+balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha
+engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O
+joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O
+casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e
+rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de
+Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos
+os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:
+
+--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Branca é mais formosa que tu.
+
+A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes
+fossem descobertos, que morreu de repente.
+
+Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de
+princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus bemfeitores.
+
+
+
+
+*A rapariguinha e os phosphoros*
+
+
+Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de
+dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão
+passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os
+pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas
+tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já
+tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua
+a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
+quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a intenção de fazer
+d'elle um terço para o seu primeiro filho.
+
+A pequenita caminhava com os pésinhos nús, arroxeados pelo frio; tinha
+no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na
+mão um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido
+compradores, e por isso não apurára cinco réis.
+
+Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
+longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoço; mas
+pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?
+
+As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos
+manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.
+
+Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
+vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia,
+porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em sua casa
+fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento
+atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
+mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso
+lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o
+aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como
+ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que
+luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro
+de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão suavemente, que era um regalo.
+
+A pequerrucha ia já a estender os pésitos para os aquecer tambem, quando
+a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma
+pontita de phosphoro consumido.
+
+Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu
+a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse
+muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha
+alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha
+assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume
+delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do
+prato, e caíu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca
+espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de
+si a parede fria e tenebrosa.
+
+Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo
+de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a
+que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem
+sumptuoso.
+
+Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões accesos, e as estampas
+coloridas, como as que ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.
+Quando ia agarral-as com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os
+balões da arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se
+tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo
+um longo rasto de fogo.
+
+--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que
+lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando
+cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»
+
+Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe
+appareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.
+
+--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes
+embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a panella de
+ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.
+
+Accendeu o rosto do masso, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e
+os phosphoros espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua
+avó tinha sido tão formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas
+alegres, no meio d'este deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que
+já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso.
+
+Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram a pequerrucha, entre os
+dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios...
+morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu
+alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que
+faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se,
+disse um homem que passou.» E ninguem soube nunca as lindas coisas que
+ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
+velha avó no dia do Anno Novo.
+
+
+
+
+*O primeiro peccado de Margarida*
+
+
+Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus
+tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde
+acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.»
+
+Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como
+ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha
+ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha
+joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.
+
+Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.
+
+E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção
+d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia
+sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.
+
+N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho,
+á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento.
+
+Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das
+suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo.
+Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
+collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse
+bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
+contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que
+inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.
+
+O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de
+Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das
+mãos.
+
+Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si
+um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo
+preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a
+respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
+perguntou-lhe:
+
+--Qual é o caminho da cidade?»
+
+Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se
+tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma
+estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que
+o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com
+um sorriso estranho e diabolico.
+
+N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
+Margarida, e pediu-lhe uma esmola.
+
+Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado.
+
+O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre
+Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda
+disfarçado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que
+tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.
+
+
+
+
+*Um nome inscripto no céo*
+
+
+Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde cabana a
+pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem
+ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu
+então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:
+
+--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»
+
+E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater á mesma
+porta.
+
+--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada
+que te dar.»
+
+--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.
+
+E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
+cima da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que
+lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.
+
+--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se
+embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»
+
+Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-hão no
+Paraizo, e mais tarde nós o viremos a saber.
+
+
+
+
+*O linho*
+
+
+O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e
+transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre
+elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o
+d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.
+
+--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
+e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me feliz. Não ha
+ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello
+futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
+feliz, feliz a mais não poder ser!»
+
+--Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não conheces o
+mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»
+
+E rangendo lastimosamente, cantaram:
+
+ --Cric, crac! cric, crac! crac!
+ --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bella
+manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+florir. Sou muitissimo feliz.»
+
+Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
+cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de
+polé. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e
+depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade!
+
+--Não se póde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessario
+soffrer, o soffrimento é a mãe da experiencia.»
+
+Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o,
+cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois,
+puzeram-n'o n'uma roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.
+
+--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas
+torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.»
+
+E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a metter no tear e a
+transformal-o n'uma peça de panno.
+
+--Isto é extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que
+grandes tolas aquellas silvas quando cantavam:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso
+tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto,
+tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida,
+ninguem trata da gente, e não bebemos outra agua a não ser a da chuva.
+Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as
+manhãs, e á noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura
+fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
+melhor peça da parochia. Não posso ser mais feliz.»
+
+Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e
+picaram-n'o com uma agulha. Não era lá muito agradavel, mas em
+compensação fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.
+
+--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é
+abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para se viver em
+paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um
+só grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade!
+
+O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.
+
+--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas não
+se fazem impossiveis.»
+
+E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
+finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem
+adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel
+branco magnifico.
+
+--Oh que agradável surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino
+do que d'antes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima
+de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»
+
+E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de
+numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores.
+
+--Ora aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
+quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
+ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei
+explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe
+perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
+sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á maior gloria.
+Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se»
+tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou
+viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
+instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora
+as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,
+immensamente feliz!»
+
+Mas o papel não foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá
+estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
+que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
+papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta á roda
+do mundo. A meio caminho já estaria gasto.
+
+--É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou
+ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as
+palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os
+livros vão por esse mundo fóra. A sua missão é realmente bella, e eu
+estou contente, e julgo-me feliz.
+
+O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.
+
+--Depois do trabalho é agradável o descanço, pensou elle. É n'este
+isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que
+eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira
+perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»
+
+Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o
+que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as
+creanças da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também,
+depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir,
+e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel
+foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande
+chamma, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra as
+suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho
+semilhante.
+
+Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
+palavras, todas as idèas desappareceram em linguas de fogo.
+
+--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da lavareda, que
+pareciam mil vozes reunidas n'uma só. A chamma saiu pela chaminé, e no
+meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do
+homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.
+Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu,
+quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda elles dançavam
+sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas
+encarnadas.
+
+As creanças cantavam á roda da cinza inanimada:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que
+é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»
+
+As creanças não poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas
+tambem não era necessario, porque as creanças não devem saber tudo.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+*INDICE*
+
+
+A mãe
+O ouro
+Doçura e bondade
+O malmequer
+Não quero
+Piloto
+O rico e o pobre
+Como um camponez aprendeu o Padre Nosso
+O talisman
+A alma
+Alberto
+A canção da cerejeira
+Os gigantes da montanha e os anões da planície
+A creança, o anjo e flôr
+Presente por presente
+O pinheiro ambicioso
+Perfeição das obras de Deus
+João e os seus camaradas
+O rabequista
+Os pecegos
+A urna das lagrimas
+Reconhecimento e ingratidão
+O fato novo do sultão
+Boa sentença
+Os animaes agradecidos
+O ermitão
+Carlos Magno e o abade de S. Gall
+A boneca
+Inconveniente da riqueza
+Querer é poder
+Qual será rei?
+Os três véos de Maria
+Os pequenos no bosque
+O chapellinho encarnado
+Os cinco sonhos
+A egreja do rei
+O valente soldado de chumbo
+João Pateta
+Branca de Neve
+A rapariguinha e os phosphoros
+O primeiro peccado de Margarida
+Um nome inscripto no céo
+O linho
+
+
+[A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade,
+residente no Rio de Janeiro.]
+
+
+
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA ***
+
+***** This file should be named 16429-0.txt or 16429-0.zip *****
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+law means that no one owns a United States copyright in these works,
+so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the
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+of this license, apply to copying and distributing Project
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+easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation
+of derivative works, reports, performances and research. Project
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+ any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+received the work on a physical medium, you must return the medium
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+or entity providing it to you may choose to give you a second
+opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
+the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
+without further opportunities to fix the problem.
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+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
+OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
+LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of
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+remaining provisions.
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+or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
+additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
+Defect you cause.
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
+exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
+from people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
+generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
+Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
+www.gutenberg.org
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
+U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's business office is located at 809 North 1500 West,
+Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
+to date contact information can be found at the Foundation's website
+and official page at www.gutenberg.org/contact
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without
+widespread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
+DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
+state visit www.gutenberg.org/donate
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations. To
+donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
+Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
+freely shared with anyone. For forty years, he produced and
+distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
+volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
+the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
+necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
+edition.
+
+Most people start at our website which has the main PG search
+facility: www.gutenberg.org
+
+This website includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
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+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
+most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
+whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
+of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
+at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
+are not located in the United States, you will have to check the laws of the
+country where you are located before using this eBook.
+</div>
+<div style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: Contos para a infância<br />
+Escohidos dos melhores auctores</div>
+<div style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Guerra Junqueiro</div>
+<div style='display:block;margin:1em 0'>Release Date: August 4, 2005 [eBook #16429]<br />
+[Most recently updated: May 11, 2021]</div>
+<div style='display:block;margin:1em 0'>Language: Portuguese</div>
+<div style='display:block;margin:1em 0'>Character set encoding: UTF-8</div>
+<div style='display:block; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Produced by: Biblioteca Nacional Digital, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team</div>
+<div style='margin-top:2em;margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA ***</div>
+
+<p>NOTA: Este texto tem duas vers&otilde;es em l&iacute;ngua portuguesa moderna,<br />a que pode ser aceder clicando numa das seguintes op&ccedil;&otilde;es:
+<br />
+<b><a href="#contos">MODERN HTML</a></b></p>
+
+
+ <div>
+
+ <div class="bbox">
+ <br /> <br />
+ <h1>
+ CONTOS<br /> PARA A<br /> INFANCIA
+ </h1>
+ <h4>
+ ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES<br /> <br /> POR
+ </h4>
+ <h3>
+ GUERRA JUNQUEIRO
+ </h3>
+ <br /> <br /> <br />
+ <div class="sbreak">
+ <hr />
+ </div>
+ <br /> <br />
+ <h3>
+ LISBOA
+ </h3>
+ <h4>
+ TYPOGRAPHIA UNIVERSAL<br /> <span class="smallcaps">de thomaz quintino
+ antunes, impressor da casa real<br /> </span> Rua dos Calafates, 110<br />
+ 1877
+ </h4>
+ <br />
+ </div>
+ <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c1" id="c1"></a>A m&atilde;e
+ </h3>
+ <br /> Estava uma m&atilde;e muito afflicta, sentada ao p&eacute; do ber&ccedil;o
+ do seu filho, com medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os
+ olhos fechados. Resp&iacute;rava com difficuldade, e &aacute;s vezes t&atilde;o
+ profundamente, que parecia gemer; mas a m&atilde;e causava ainda mais
+ lastima do que o pequenino moribundo.<br /> <br /> N'isto bateram &aacute;
+ porta, e entrou um pobre homem muito velho, embu&ccedil;ado n'uma manta
+ d'arrieiro. Era no inverno. L&aacute; f&oacute;ra estava tudo coberto de
+ neve e de g&ecirc;lo, e o vento cortava como uma navalha.<br /> <br /> O
+ pobre homem tremia de frio; a crean&ccedil;a adormec&ecirc;ra por alguns
+ instantes, e a m&atilde;e levantou-se a p&ocirc;r ao lume uma caneca com
+ cerveja. O velho come&ccedil;ou a embalar a crean&ccedil;a, e a m&atilde;e,
+ pegando n'uma cadeira, sentou-se ao lado d'elle. E contemplando o seu
+ filhinho doente, que respirava cada vez com mais difficuldade, pegou-lhe
+ na m&atilde;osinha descarnada e disse para o velho:<br /> <br /> --Oh! Nosso
+ Senhor n&atilde;o m'o hade levar! n&atilde;o &eacute; verdade?--<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[4]</span> E o velho, que era a Morte, meneou
+ a cabe&ccedil;a d'uma maneira extranha, em ar de duvida. A m&atilde;e
+ deixou pender a fronte para o ch&atilde;o, e as lagrimas corriam-lhe em
+ fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de cabe&ccedil;a;
+ estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou ligeiramente pelo
+ somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a tremer de frio.<br />
+ <br /> --Que &eacute; isto! exclamou, lan&ccedil;ando &aacute; volta de si
+ o olhar hallucinado. O ber&ccedil;o estava vasio. O velho tinha-se ido
+ embora, roubando-lhe a crean&ccedil;a.<br /> <br />
+ <div class="sbreak">
+ <hr />
+ </div>
+ <br /> A pobre m&atilde;e saiu precipitadamente, gritando pelo filho.
+ Encontrou uma mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. &laquo;A
+ Morte entrou-te em casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu
+ filho. Anda mais depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a
+ entregar.&raquo;<br /> <br /> --Por onde foi ella? gritou a m&atilde;e.
+ Dize-m'o pelo amor de Deus!&raquo;<br /> <br /> --Sei o caminho por onde
+ ella foi, respondeu a mulher vestida de preto. Mas s&oacute; t'o ensino,
+ se me cantares primeiro todas as can&ccedil;&otilde;es que cantavas ao teu
+ filho. S&atilde;o lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
+ muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.<br /> <br />
+ --Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a m&atilde;e. Agora n&atilde;o
+ me demores, porque quero encontrar o meu filho.--<br /> <br /> A Noite ficou
+ silenciosa. A m&atilde;e ent&atilde;o, desfeita em lagrimas, come&ccedil;ou
+ a cantar. Cantou muitas can&ccedil;&otilde;es, mas as lagrimas foram mais
+ do que as palavras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[5]</span> No fim
+ disse-lhe a Noite: &laquo;Toma &aacute; direita, pela floresta escura de
+ pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.&raquo;<br />
+ <br /> A m&atilde;e correu para a floresta; mas no meio dividia-se o
+ caminho, e n&atilde;o sabia que direc&ccedil;&atilde;o havia de seguir.
+ Diante d'ella havia um mattagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores,
+ de cujos ramos pendia a neve cristallisada.<br /> <br />
+ <div class="sbreak">
+ <hr />
+ </div>
+ <br /> --N&atilde;o viste a Morte que levava o meu filho?&raquo;
+ perguntou-lhe a m&atilde;e.<br /> <br /> --Vi, respondeu o mattagal, mas n&atilde;o
+ te ensino o caminho, sen&atilde;o com a condi&ccedil;&atilde;o de me
+ aqueceres no teu seio, porque estou gelado.&raquo;<br /> <br /> E a m&atilde;e
+ estreitou o mattagal contra o cora&ccedil;&atilde;o; os espinhos
+ dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se de
+ folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite d'inverno
+ frigidissima, tal &eacute; o calor febricitante do seio d'uma m&atilde;e
+ angustiosa.<br /> <br /> E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia
+ seguir. Foi andando, andando, at&eacute; que chegou &aacute; margem d'um
+ grande lago, onde n&atilde;o havia nem barcos, nem navios. N&atilde;o
+ estava sufficientemente gelado para se andar por elle, e era
+ demasiadamente profundo para o passar a v&aacute;o. Comtudo, querendo
+ encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio do seu
+ amor, atirou-se de bru&ccedil;os a ver se poderia beber toda a agua do
+ lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaix&atilde;o,
+ faria talvez um milagre.<br /> <br /> <span class="pagenum">[6]</span> --N&atilde;o!
+ n&atilde;o &eacute;s capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e
+ entendamo-nos amigavelmente. Gosto de v&ecirc;r perolas no fundo das
+ minhas aguas, e os teus olhos s&atilde;o d'um brilho mais suave do que as
+ perolas mais ricas que eu tenho possuido. Se queres, arranca-os das
+ orbitas &aacute; for&ccedil;a de chorar, e levar-te-hei &aacute; estufa
+ grandiosa, que est&aacute; do outro lado: essa estufa &eacute; a habita&ccedil;&atilde;o
+ da Morte; e as flores e as arvores que est&atilde;o l&aacute; dentro,
+ &eacute; ella quem as cultiva; cada flor e cada arvore &eacute; a vida
+ d'uma creatura humana.&raquo;<br /> <br /> --Oh! o que n&atilde;o darei eu,
+ para rehaver o meu filho!&raquo; disse a m&atilde;e. E apesar de ter j&aacute;
+ chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do que nunca, e os seus
+ olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo do lago,
+ transformando-se em duas perolas, como ainda as n&atilde;o teve no mundo
+ uma rainha.<br /> <br /> O lago ent&atilde;o ergueu-a, e com um movimento de
+ ondula&ccedil;&atilde;o depositou-a na outra margem, aonde havia um
+ maravilhoso edificio, com mais d'uma legua de comprido. De longe n&atilde;o
+ se sabia se era uma construc&ccedil;&atilde;o artistica ou uma montanha
+ com grutas e florestas. Mas a pobre m&atilde;e n&atilde;o podia ver nada;
+ tinha dado os seus olhos.<br /> <br /> --Como heide eu reconhecer a Morte
+ que me roubou o meu filho!&raquo; bradou ella desesperada.<br /> <br /> --A
+ Morte ainda n&atilde;o chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava
+ d'um lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas.
+ Como vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?&raquo;<br /> <br />
+ --Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus &eacute; misericordioso. <span
+ class="pagenum">[7]</span> Compadece-te de mim, e dize-me onde est&aacute;
+ o meu filho.&raquo;<br /> <br /> --Eu n&atilde;o o conhe&ccedil;o, e tu
+ &eacute;s cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas e muitas arvores,
+ que murcharam esta noite: a Morte n&atilde;o tarda ahi para as tirar da
+ estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este sitio uma
+ arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem com ella.
+ Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes, sente-se bater um
+ cora&ccedil;&atilde;o. Guia-te por isto, e talvez reconhe&ccedil;as as
+ pulsa&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o de teu filho. E que davas
+ tu por eu te ensinar o que tens ainda de fazer?&raquo;<br /> <br /> --J&aacute;
+ n&atilde;o tenho nada que te dar, disse a pobre m&atilde;e. Mas irei at&eacute;
+ ao fim do mundo buscar o que tu quizeres.--&laquo;F&oacute;ra d'aqui n&atilde;o
+ preciso de nada, respondeu a velha. D&aacute;-me os teus longos cabellos
+ negros; tu sabes que s&atilde;o bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos
+ meus cabellos brancos.&raquo;--N&atilde;o pedes mais nada do que isso?
+ disse a m&atilde;e. Ahi os tens, dou-t'os de boa vontade.&raquo;<br />
+ <br /> E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o
+ seu orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e
+ inteiramente brancos da velha.<br /> <br /> Esta levou-a pela m&atilde;o
+ &aacute; grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma vegeta&ccedil;&atilde;o
+ maravilhosa.<br /> <br /> Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos
+ mimosissimos ao lado de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem
+ plantas aquaticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas
+ raizes se ennovelavam cobras asquerosas.<br /> <br /> <span class="pagenum">[8]</span>
+ Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos frondosos;
+ depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa, tomilho, ortel&atilde;
+ e outras plantas humildes que representavam o genero de utilidade das
+ pessoas que ellas symbolisavam.<br /> <br /> Havia ainda grandes arbustos em
+ vasos demasiadamente estreitos, que pareciam rebentar; mas viam-se tambem
+ floresitas insignificantes, em vasos de porcelana, na melhor terra,
+ circumdadas de musgo, tratadas com esmero delicadissimo. Tudo isso
+ representava a vida dos homens, que a essa hora existiam no mundo, desde a
+ China at&eacute; &agrave; Groenlandia.<br /> <br /> A velha queria
+ mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a m&atilde;e impacientada
+ pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas pequeninas;
+ tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do cora&ccedil;&atilde;o,
+ e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as pulsa&ccedil;&otilde;es
+ do cora&ccedil;&atilde;o do seu filho.<br /> <br /> --&Eacute; elle!&raquo;
+ exclamou, lan&ccedil;ando a m&atilde;o a um a&ccedil;afroeiro, que,
+ pendido sobre a terra, parecia completamente estiolado.<br /> <br /> --N&atilde;o
+ lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte vier, que n&atilde;o
+ tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; amea&ccedil;a-a de arrancar
+ todas as flores que est&atilde;o aqui. A Morte ter&aacute; medo, porque
+ tem de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma p&oacute;de ser arrancada sem o
+ seu consentimento.&raquo;<br /> <br /> N'isto sentiu-se um vento glacial, e
+ a m&atilde;e adivinhou que era a Morte, que se approximava.<br /> <br />
+ <span class="pagenum">[9]</span> --Como &eacute; qu&egrave; deste com o
+ caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda primeiro do que eu! Como o
+ conseguiste?--&laquo;Sou m&atilde;e&raquo; respondeu ella.<br /> <br /> E a
+ Morte estendeu a sua m&atilde;o ganchosa para o pequenino a&ccedil;afroeiro.<br />
+ <br /> Mas a m&atilde;e protegia-o violentamente com ambas as m&atilde;os,
+ tendo o cuidado de n&atilde;o ferir uma s&oacute; das pequeninas petalas.
+ Ent&atilde;o a Morte soprou-lhe nas m&atilde;os, fazendo-lh'as cair
+ inanimadas. O halito da Morte era mais frio do que os ventos enregelados
+ do inverno.<br /> <br /> --N&atilde;o p&oacute;des nada comigo!&raquo; disse
+ a Morte.--Mas Deus tem mais for&ccedil;a do que tu, respondeu a m&atilde;e.&raquo;--&laquo;&Eacute;
+ verdade, mas eu n&atilde;o fa&ccedil;o sen&atilde;o aquillo que elle
+ manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e arbustos,
+ quando come&ccedil;am a murchar, transplanto-as para outros jardins, um
+ dos quaes &eacute; o grande jardim do Paraizo. S&atilde;o regi&otilde;es
+ desconhecidas; ningu&eacute;m sabe o que se l&aacute; passa.&raquo;<br />
+ <br /> --Misericordia! misericordia! solu&ccedil;ou a m&atilde;e. N&atilde;o
+ me roubem o meu filho, agora que acabo de o encontrar!&raquo; Supplicava e
+ gemia. A Morte conservava-se impassivel; agarrou ent&atilde;o
+ instantaneamente em duas flores lindissimas e disse &aacute; Morte:
+ &laquo;Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar, despeda&ccedil;ar n&atilde;o
+ s&oacute; esta, mas todas as flores que est&atilde;o aqui!<br /> <br /> --N&atilde;o
+ as arranques, n&atilde;o as mates, bradou a Morte. Dizes que &eacute;s
+ desgra&ccedil;ada, e querias ir partir o cora&ccedil;&atilde;o de outra m&atilde;e!--&laquo;Outra
+ m&atilde;e!&raquo; disse a pobre mulher, largando as flores
+ immediatamente.--Toma, <span class="pagenum">[10]</span> aqui tens os teus
+ olhos, disse a Morte. Brilhavam t&atilde;o suavemente que os tirei do
+ lago. N&atilde;o sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o
+ fundo d'este po&ccedil;o; v&ecirc; o que ias destruir, se arrancasses
+ estas flores. Ver&aacute;s passar nos reflexos da agua, como n'uma
+ miragem, a sorte destinada a cada uma d'essas duas flores, e a que teria
+ tido o teu filho, se porventura vivesse.&raquo;<br /> <br /> Debru&ccedil;ou-se
+ no po&ccedil;o, e viu passar imagens de felicidade e alegria, quadros
+ risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de miseria,
+ d'angustias e de desola&ccedil;&atilde;o.<br /> <br /> --N'isto que eu vejo,
+ disse a m&atilde;e afflictissima, n&atilde;o distingo qual era a sorte que
+ Deus destinava ao meu filho.&raquo;<br /> <br /> --N&atilde;o posso
+ dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto que te appareceu
+ viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.&raquo;<br /> <br /> A m&atilde;e
+ desvairada, lan&ccedil;ou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me:
+ era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? N&atilde;o &eacute;
+ verdade! Falla! N&atilde;o me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, n&atilde;o
+ v&aacute; elle soffrer desgra&ccedil;as t&atilde;o horriveis. O meu
+ querido filho! Quero-lho mais que &aacute; minha vida. As angustias que
+ sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos. Esquece as minhas lagrimas,
+ as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz e tudo o que disse.&raquo;<br />
+ <br /> --N&atilde;o te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te
+ entregue o teu filho ou que o leve para a regi&atilde;o desconhecida de
+ que n&atilde;o posso fallar-te!&raquo; Ent&atilde;o a m&atilde;e
+ allucinada, convulsa, torcendo os bra&ccedil;os, deitou-se de joelhos e
+ dirigindo-se <span class="pagenum">[11]</span> a Deus exclamou: &laquo;N&atilde;o
+ me ou&ccedil;as, Senhor, se reclamo no fundo do meu cora&ccedil;&atilde;o
+ contra a tua vontade que &eacute; sempre justa! N&atilde;o me attendas meu
+ Deus!&raquo;<br /> <br /> E deixou cair a cabe&ccedil;a sobre o peito,
+ mergulhada na sua agonia dilacerante.<br /> <br /> E a Morte arrancou o
+ pequenino a&ccedil;afroeiro, e foi transplantal-o no jardim do paraiso.<br />
+ <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c2" id="c2"></a>O ouro
+ </h3>
+ <br /> Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas
+ d'ouro, empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas
+ minas; e o resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve
+ uma grande fome no paiz.<br /> <br /> Mas a rainha, que era prudente e que
+ amava o povo, mandou fabricar em segredo frangos, pombos, gallinhas e
+ outras iguarias todas de ouro fino; e quando o rei quiz jantar mandou-lhe
+ servir essas iguarias de ouro, com que elle ficou todo satisfeito, porque
+ n&atilde;o comprehendeu ao principio qual era o sentido da rainha; mas,
+ vendo que n&atilde;o lhe traziam mais nada de comer, come&ccedil;ou a
+ zangar-se. Pediu-lhe ent&atilde;o a rainha, que visse bem que o ouro n&atilde;o
+ era alimento, e que seria melhor empregar os seus vassallos em cultivar a
+ terra, que nunca se cansa de produzir, do que trazel-os nas minas &aacute;
+ busca do ouro, que n&atilde;o mata a fome nem a sede, e que n&atilde;o tem
+ outro valor al&eacute;m da estima&ccedil;&atilde;o que lhe &eacute; dada
+ pelos homens, estima&ccedil;&atilde;o que havia de converter-se em
+ desprezo, logo que ouro apparecesse em abundancia.<br /> <br /> A rainha
+ tinha juizo.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c3" id="c3"></a>Do&ccedil;ura e bondade
+ </h3>
+ <br /> Ha entre v&oacute;s, meus filhos, indoles violentas, que n&atilde;o
+ sabem dominar-se, e que s&atilde;o arrastadas pelas primeiras impress&otilde;es.
+ &Eacute; uma pessima disposi&ccedil;&atilde;o, que &eacute; necessario
+ corrigir; d&aacute; lugar a disputas, e a que se commettam ac&ccedil;&otilde;es,
+ cujo arrependimento chega demasiadamente tarde. Citar-vos-hei dois
+ exemplos de que fui testemunha.<br /> <br /> Um rapaz, sacudido
+ violentamente na rua por um homem que vinha diante d'elle, volta-se e d&aacute;-lhe
+ uma bofetada.<br /> <br /> --Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena
+ que vae ter! bateu n'um cego!&raquo;<br /> <br /> Um homem ainda novo
+ montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns camponezes grosseiros
+ come&ccedil;aram a apupal-o e a bater no burro, para o fazer correr. O
+ homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a sua perna
+ aleijada, disse-lhes: &laquo;Se soubesseis que eu era coxo, n&atilde;o
+ terieis sido t&atilde;o covardes.&raquo;<br /> <br /> Os camponezes,
+ envergonhados, c&oacute;raram, afastando-se sem pronunciar uma palavra.<br />
+ <br /> Que vos parece estas duas li&ccedil;&otilde;es? Estou convencido que
+ aproveitaram a quem as recebeu.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c4" id="c4"></a>O malmequer
+ </h3>
+ <br /> Ouvi com atten&ccedil;&atilde;o esta pequenina historia!<br /> <br />
+ No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+ deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores,
+ rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no meio
+ da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a olhos
+ vistos, gra&ccedil;as ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por
+ elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella manh&atilde;,
+ j&aacute; inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
+ parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava
+ que o vissem no meio da herva e n&atilde;o fizessem caso d'elle, pobre
+ florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o
+ calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.<br />
+ <br /> N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira,
+ sentia-se t&atilde;o feliz como se fosse um domingo. Emquanto as crean&ccedil;as
+ sentadas nos bancos da escola estudavam a li&ccedil;&atilde;o, elle,
+ sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade
+ de Deus, e tudo o que <span class="pagenum">[15]</span> sentia
+ mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com admiravel
+ nitidez nas can&ccedil;&otilde;es alegres da cotovia. Por isso poz-se a
+ olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha
+ feliz que cantava e voava.<br /> <br /> &laquo;Eu vejo e oi&ccedil;o, pensou
+ o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! n&atilde;o tenho
+ ras&atilde;o de me queixar.&raquo;<br /> <br /> Dentro da sebe havia muitas
+ flores altivas, aristocraticas; quanto menos aroma tinham, mais orgulhosas
+ se aprumavam. As dalias inchavam-se para parecerem maiores do que as
+ rosas; mas n&atilde;o &eacute; o tamanho que faz a rosa. As tulipas
+ brilhavam pela belleza das suas c&ocirc;res, pavoneando-se
+ pretenciosamente. N&atilde;o se dignavam de lan&ccedil;ar um olhar para o
+ pequeno malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando:
+ &laquo;como s&atilde;o ricas e bonitas! A cotovia ir&aacute; certamente
+ visital-as. Gra&ccedil;as a Deus, poderei assistir a este bello
+ espectaculo.&raquo; E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu v&ocirc;o,
+ n&atilde;o para as dalias e tulipas, mas para a relva, junto do pobre
+ malmequer, que morto d'alegria n&atilde;o sabia o que havia de pensar.<br />
+ <br /> O passarinho poz-se a saltitar &agrave; roda d'elle, cantando:
+ &laquo;Como a herva &eacute; macia! oh! que encantadora florinha, com um
+ cora&ccedil;&atilde;o d'oiro, vestida de prata!&raquo;<br /> <br /> N&atilde;o
+ se p&oacute;de fazer id&eacute;a da felicidade do malmequer. A ave
+ acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois
+ no azul do firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora n&atilde;o p&ocirc;de
+ o malmequer reprimir a sua commo&ccedil;&atilde;o. Meio envergonhado, mas
+ todo contente, olhou <span class="pagenum">[16]</span> para as outras
+ flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber,
+ deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam
+ cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e ponteagada manifestava o
+ despeito. As dalias tinham a cabe&ccedil;a toda inchada. Se ellas podessem
+ fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis ao pobre malmequer. A
+ florinha viu isto, e ficou triste.<br /> <br /> Passados alguns momentos,
+ entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e brilhante,
+ aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.<br /> <br /> &laquo;Que
+ desgra&ccedil;a! disse o malmequer suspirando; &eacute; horrivel; foram-se
+ todas.&raquo;<br /> <br /> E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o
+ malmequer alegr&aacute;ra-se por ser simplesmente uma pequenina flor no
+ meio da herva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da
+ tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a
+ cotovia.<br /> <br /> No dia seguinte de manh&atilde;, assim que o malmequer
+ abriu as suas folhas ao ar e &aacute; luz, reconheceu a voz do passarinho,
+ mas o seu canto era triste, muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas
+ ras&otilde;es para se affligir: haviam-n'a agarrado e mettido n'uma
+ gaiola, suspensa entre uma janella aberta. Cantava a alegria da liberdade,
+ a belleza dos campos e as suas antigas viagens atravez do espa&ccedil;o
+ illimitado.<br /> <br /> O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe
+ acudir: mas como? Era difficil. A compaix&atilde;o pelo pobre passarinho
+ prisioneiro, fez-lhe esquecer <span class="pagenum">[17]</span>
+ inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura
+ resplandecente das suas proprias folhas.<br /> <br /> N'isto dois rapazinhos
+ entraram no jardim. O mais velho trazia na m&atilde;o uma faca comprida e
+ afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas.
+ Encaminharam-se para o malmequer, que n&atilde;o podia comprehender o que
+ desejavam.<br /> <br /> &laquo;Podemos arrancar d'aqui um peda&ccedil;o de
+ relva para a cotovia, disse um dos rapazes, e come&ccedil;ou a fazer um
+ quadrado profundo &agrave; volta da florinha.<br /> <br /> --&laquo;Arranca
+ a flor, disse o outro.&raquo;<br /> <br /> A estas palavras o malmequer
+ estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era morrer; e nunca tinha aben&ccedil;oado
+ tanto a existencia, como no momento em que esperava entrar com a relva na
+ gaiola da cotovia.<br /> <br /> &laquo;N&atilde;o; deixemol-a, disse o mais
+ velho. Est&aacute; ahi muito bem.&raquo;<br /> <br /> Foi por conseguinte
+ poupado, e entrou na gaiola da cotovia.<br /> <br /> O pobre passarinho,
+ queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia com as azas nos arames
+ da gaiola. O malmequer n&atilde;o podia, apesar dos seus desejos,
+ articular-lhe uma palavra de consola&ccedil;&atilde;o.<br /> <br />
+ Passou-se assim toda a manh&atilde;.<br /> <br /> &laquo;J&aacute; n&atilde;o
+ tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me deixarem ao
+ menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre terrivel,
+ sinto-me abafada! Ai! N&atilde;o ha remedio sen&atilde;o morrer, longe do
+ sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da
+ crea&ccedil;&atilde;o!&raquo;<br /> <br /> <span class="pagenum">[18]</span>
+ Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu ent&atilde;o
+ o malmequer; fez-lhe um signal de cabe&ccedil;a amigavel, e disse-lhe,
+ afagando-o: &laquo;Tambem tu, pobre florinha, morrer&aacute;s aqui! Em vez
+ do mundo inteiro, que eu tinha &agrave; minha disposi&ccedil;&atilde;o,
+ deram-me um pedacito de relva, e a ti s&oacute; por unica companhia. Cada
+ p&eacute;sinho de relva substitue para mim uma arvore, e cada uma das tuas
+ folhas brancas, uma flor odorifera. Ah! como me fazes recordar de todas as
+ coisas que perdi!<br /> <br /> --Se eu podesse consolal-a! pensava o
+ malmequer, incapaz de fazer o minimo movimento.<br /> <br /> Comtudo o
+ perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia
+ sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a herva,
+ teve todo o cuidado em n&atilde;o tocar nem sequer de leve na flor.<br />
+ <br /> Caiu a noite; n&atilde;o estava ali ninguem, para trazer uma gotta
+ d'agua &aacute; desditosa cotovia; Estendeu ent&atilde;o as suas bellas
+ azas, sacudindo-as convulsivamente, e poz-se a cantar uma can&ccedil;&atilde;osinha
+ melancolica; a sua cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu cora&ccedil;&atilde;o
+ quebrado de desejos e d'angustias cessou de bater. Vendo este triste
+ espectaculo, o malmequer n&atilde;o p&ocirc;de como na vespera fechar as
+ suas folhas para dormir; curvou-se para o ch&atilde;o, doente de tristeza.<br />
+ <br /> Os rapazitos s&oacute; voltaram no dia seguinte, e, vendo o
+ passarinho morto, rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram
+ o cadaver dentro d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro
+ de principe, e cobriram o tumulo com folhas de rosas.<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[19]</span> Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava,
+ esqueceram-se d'elle e deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de
+ morto &eacute; que o choraram e lhe fizeram honrarias pomposissimas.<br />
+ <br /> A relva e o malmequer lan&ccedil;aram-as para a poeira da estrada;
+ d'aquelle que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.<br />
+ <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c5" id="c5"></a>N&atilde;o quero
+ </h3>
+ <br /> Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito
+ alto: &laquo;N&atilde;o, dizia um com voz energica, n&atilde;o quero.&raquo;
+ Parei e perguntei-lhe:--O que &eacute; que tu n&atilde;o queres, meu
+ rapaz?--&laquo;N&atilde;o quero dizer &aacute; mam&atilde; que venho da
+ escola, porque &eacute; mentira. Sei que me hade ralhar, mas antes quero
+ que me ralhe do que mentir.&raquo;--E tens raz&atilde;o, disse-lhe eu.
+ &Eacute;s um rapaz como se quer.&raquo; Apertei-lhe a m&atilde;o, emquanto
+ que o outro pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo,
+ ia-se embora todo envergonhado.<br /> <br /> D'ahi a alguns mezes, passando
+ pela mesma aldeia e tendo de fallar com o professor, entrei na escola,
+ onde reconheci immediatamente os meus dois pequenos; o que n&atilde;o quiz
+ mentir, sorria-me, emquanto que o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao
+ despedir-me interroguei o mestre sobre os dois alumnos: Oh! disse-me elle,
+ fallando do primeiro, &egrave; um magnifico estudante, um pouco teimoso,
+ mas honrado, sincero, sempre prompto a confessar as suas faltas e o que
+ &eacute; ainda melhor, a reparal-as. O outro pelo contrario, &eacute;
+ mentiroso, covarde e incorrigivel.&raquo;--N&atilde;o me espanto, disse
+ eu, j&aacute; tinha tirado o hor&oacute;scopo d'estas duas crean&ccedil;as;
+ e contei-lhe o que tinha ouvido.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c6" id="c6"></a>Piloto
+ </h3>
+ <br /> Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos c&atilde;es,
+ e o infatigavel companheiro dos brinquedos das crean&ccedil;as da quinta.<br />
+ <br /> Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que Jo&atilde;o
+ lhe lan&ccedil;ava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na
+ bocca e trazia-o &aacute; margem, com grande alegria do pequerrucho e da
+ sua irm&atilde; Joaninha.<br /> <br /> Esta brincadeira recome&ccedil;ava
+ vinte vezes sem can&ccedil;ar nunca a paciencia do Piloto. Depois eram
+ corridas, festas, gargalhadas, saltos, at&eacute; que o assobio do creado
+ da quinta chamava o fiel animal &aacute;s suas obriga&ccedil;&otilde;es:
+ partia ent&atilde;o como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos
+ pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.<br /> <br /> Quando o
+ hortel&atilde;o ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da
+ carro&ccedil;a; e muito atrevido seria quem saltasse &aacute; noite a
+ parede da quinta.<br /> <br /> Uma vez deu prova d'uma extraordinaria
+ sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar saccos
+ de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um sacco.<br /> <br />
+ Piloto, que o conhecia, n&atilde;o fez a menor demonstra&ccedil;&atilde;o
+ de hostilidade emquanto o homem seguiu <span class="pagenum">[22]</span> o
+ caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o
+ guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.<br /> <br /> Era como se
+ dissesse: &laquo;Onde vaes tu com o trigo de meu dono?&raquo;<br /> <br /> O
+ ladr&atilde;o quiz p&ocirc;r ent&atilde;o outra vez o sacco d'onde o tinha
+ tirado; Piloto n&atilde;o consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem
+ o ferir, at&eacute; de manh&atilde;; o quinteiro foi dar com elle n'esta
+ difficil posi&ccedil;&atilde;o, reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem
+ divulgar o caso para o n&atilde;o deshonrar.<br /> <br /> Mas o homem ficou
+ com odio ao c&atilde;o, e muito tempo depois, aproveitando a ausencia do
+ quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para elle sem
+ desconfian&ccedil;a; atou-lhe uma corda ao pesco&ccedil;o e arrastou-o at&eacute;
+ &aacute; margem do ribeiro.<br /> <br /> Atou uma grande pedra &aacute;
+ outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o &aacute; agua;
+ mas arrastado elle proprio com o peso e com o esfor&ccedil;o, caiu tambem.<br />
+ <br /> Como n&atilde;o sabia nadar, teria sido despeda&ccedil;ado pela roda
+ do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e
+ desembara&ccedil;ando-se da pedra mal atada, n&atilde;o tivesse mergulhado
+ duas vezes e trazido para terra o seu mortal inimigo.<br /> <br /> Este, que
+ estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o c&atilde;o
+ que elle tinha querido afogar, lhe salv&aacute;ra a vida.<br /> <br /> Teve
+ vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si mesmo
+ e combateu as suas m&aacute;s inclina&ccedil;&otilde;es.<br /> <br /> O
+ exemplo do c&atilde;o corrigiu o homem.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c7" id="c7"></a>O rico e o pobre
+ </h3>
+ <br /> Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
+ dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
+ deitou-se de baixo d'uma arvore, &aacute; porta d'uma estalagem, junto da
+ estrada. Estava comendo um bocado de p&atilde;o que tinha trazido para
+ jantar, quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com
+ o seu preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos
+ viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que n&atilde;o tinham
+ tempo, e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
+ vinho.<br /> <br /> Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois
+ para a sua codea de p&atilde;o, para a sua velha jaqueta, para o seu
+ chapeo todo roto, e suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle
+ menino t&atilde;o rico, em vez do desgra&ccedil;ado Martinho! que fortuna
+ se elle estivesse aqui, e eu dentro d'aquella carruagem!&raquo; O
+ preceptor ouviu casualmente o que dizia Martinho e repetiu-o ao seu
+ alumno, que, lan&ccedil;ando a cabe&ccedil;a f&oacute;ra da carruagem,
+ chamou Martinho com a m&atilde;o.<br /> <br /> --Ficarias muito contente, n&atilde;o
+ &eacute; verdade, meu <span class="pagenum">[24]</span> rapaz, podendo
+ trocar a minha sorte pela tua?&raquo;--Pe&ccedil;o que me desculpe senhor,
+ replicou Martinho c&oacute;rando, o que eu disse n&atilde;o foi por mal.&raquo;--N&atilde;o
+ estou zangado comtigo, replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo
+ fazer a troca.&raquo;<br /> <br /> --Oh! est&aacute; a divertir-se comigo!
+ tornou Martinho, ninguem quereria estar no meu lugar, quanto mais um bello
+ e rico menino como o senhor. Ando muitas leguas por dia, como p&atilde;o
+ secco e batatas, emquanto que o senhor anda n'uma carruagem, p&oacute;de
+ comer frangos e beber vinho.&raquo;--Pois bem, volveu o fidalguinho, se me
+ queres dar tudo aquillo que tens e que eu n&atilde;o tenho, dou-te em
+ troca de boa vontade tudo o que possuo.&raquo; Martinho ficou com os olhos
+ espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o preceptor continuou:
+ &laquo;Acceitas a troca?&raquo;--Ora essa! exclamou Martinho, ainda m'o
+ pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada de me ver
+ entrar n'esta bella carruagem!&raquo; E Martinho desatou a rir com a id&eacute;a
+ da entrada triumphante na sua aldeia.<br /> <br /> O fidalguinho chamou os
+ criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a descer. Mas qual foi a
+ surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma perna de pau e que a outra
+ era t&atilde;o fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas: depois,
+ olhando para elle de mais perto, Martinho observou que era muito pallido e
+ que tinha cara de doente.<br /> <br /> Sorriu para o rapazito com ar
+ benevolo, e disse-lhe:--Ent&atilde;o sempre desejas trocar? Querias
+ porventura, se podesses, deixar as tuas pernas valentes e as tuas faces c&oacute;radas,
+ pelo prazer de ter <span class="pagenum">[25]</span> uma carruagem e andar
+ bem vestido?&raquo;--Oh! n&atilde;o, por coisa nenhuma! replicou
+ Martinho.--&laquo;Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
+ tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro os
+ meus males com paciencia e fa&ccedil;o por ser alegre, dando gra&ccedil;as
+ a Deus pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.<br /> <br />
+ &laquo;Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se &eacute;s pobre e
+ comes mal, tens for&ccedil;a e saude, coisas que valem mais que uma
+ carroagem, e que n&atilde;o podem comprar-se com dinheiro.<br /> <br />
+ <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c8" id="c8"></a>Como um camponez aprendeu o Padre Nosso
+ </h3>
+ <br /> Tinha o cora&ccedil;&atilde;o duro, e n&atilde;o dava esmolas.
+ Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitencia resar sete
+ vezes o Padre Nosso.<br /> <br /> &laquo;N&atilde;o o sei, e nunca o pude
+ aprender, respondeu o alde&atilde;o.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Pois n'esse
+ caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a credito um
+ alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da minha parte.&raquo;<br />
+ <br /> No dia seguinte de manh&atilde; apresentou-se o primeiro pobre.<br />
+ <br /> &laquo;Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.<br /> <br /> &laquo;Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo,
+ respondeu o pobre.&raquo;<br /> <br /> &laquo;E o teu appellido?&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.&raquo;<br /> <br /> E o
+ pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.<br /> <br /> Ao outro dia
+ chega segundo pobre.<br /> <br /> &laquo;Como te chamas?<br /> <br /> &laquo;Venha--A--N&oacute;s--O--Vosso--Reino.&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;E o teu appellido?&raquo;<br /> <br /> &laquo;Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.&raquo;<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[27]</span> E partiu com o seu alqueire de
+ trigo.<br /> <br /> Veiu terceiro pobre.<br /> <br /> &laquo;Como te chamas?&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.&raquo;<br /> <br /> &laquo;E o
+ teu appellido?&raquo;<br /> <br /> &laquo;Dae-nos--Hoje--O--P&atilde;o--Nosso--De--Cada--Dia.&raquo;<br />
+ <br /> E levou o seu alqueire.<br /> <br /> Vieram ainda dois pobres
+ successivamente, e passou-se tudo da mesma forma at&eacute; chegar ao
+ _Amen_.<br /> <br /> Pouco tempo depois o confessor encontrou o alde&atilde;o.<br />
+ <br /> &laquo;Ent&atilde;o j&aacute; sabes o Padre Nosso?&raquo;<br /> <br />
+ &laquo;N&atilde;o, sr. cura, sei s&oacute; os nomes e appellidos dos
+ pobres a quem emprestei o meu trigo.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Quaes s&atilde;o?
+ tornou o padre.&raquo;<br /> <br /> E o alde&atilde;o enumerou-lh'os a
+ seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.<br /> <br />
+ &laquo;J&aacute; v&ecirc;s, disse o confessor, que n&atilde;o era muito
+ difficil aprender o Padre Nosso, porque j&aacute; o sabes perfeitamente.&raquo;<br />
+ <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c9" id="c9"></a>O talisman
+ </h3>
+ <br /> Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria,
+ mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se,
+ o que n&atilde;o era de espantar, porque o primeiro zelava os seus
+ negocios com uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue
+ inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direc&ccedil;&atilde;o
+ da sua casa.<br /> <br /> &laquo;Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu
+ collega, qual &eacute; a raz&atilde;o porque a sorte nos trata de um modo
+ t&atilde;o differente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja est&aacute;
+ t&atilde;o bem situada como a tua, e apezar d'isso, emquanto tu ganhas, eu
+ n&atilde;o fa&ccedil;o sen&atilde;o perder. E n&atilde;o &eacute; porque
+ eu seja estroina; n&atilde;o bebo, nem jogo. J&aacute; tenho pensado
+ algumas vezes se n&atilde;o ter&aacute;s tu por acaso algum precioso
+ talisman.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Effectivamente, respondeu o outro,
+ herdei de meu pae um talisman de uma virtude incomparavel. Trago-o ao
+ pesco&ccedil;o, e ando assim com elle todo o dia por toda a casa, do
+ celleiro para a adega, e da adega para o celleiro. E o caso &eacute; que
+ tudo me corre perfeitamente.&raquo;<br /> <br /> <span class="pagenum">[29]</span>
+ &laquo;Ol&eacute; meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa
+ reliquia preciosa de que tanto necessito; p&oacute;des ter a certeza de
+ que t'a restituo.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Pois vem buscal-a &aacute;manh&atilde;
+ de manh&atilde;.&raquo;<br /> <br /> Quando ao outro dia foi procurar o seu
+ generoso concorrente, apresentou-lhe este uma avell&atilde;, atrav&eacute;s
+ da qual tinha tinha passado um fio de seda.<br /> <br /> O nosso homem p&ograve;l-a
+ immediatamente ao pesco&ccedil;o, e come&ccedil;ou a correr toda a casa
+ com o talisman. Observou ent&atilde;o a completa desordem que por toda a
+ parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha
+ o p&atilde;o, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o feij&atilde;o;
+ na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos cavallos;
+ viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
+ escripturados; viu tudo isto, e que era necess&aacute;rio dar-lhe remedio,
+ comprehendendo que o dono da casa nunca p&oacute;de ser substituido por
+ terceira pessoa na direc&ccedil;&atilde;o dos seus negocios.<br /> <br />
+ Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman,
+ agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em
+ segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.<br /> <br /> <br />
+ <br />
+ <h3>
+ <a name="c10" id="c10"></a>A alma
+ </h3>
+ <br /> &laquo;Mam&atilde;, nem todas as crean&ccedil;as que morrem v&atilde;o
+ para o Paraizo. O outro dia vi levar para o cemiterio um menino que tinha
+ morrido; o seu pap&aacute; e as suas duas irm&atilde;sinhas acompanhavam o
+ caix&atilde;o, e choravam tanto que me fazia pena. Iam a chorar porque
+ aquelle menino tinha sido mau, n&atilde;o &eacute; verdade?&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;N&atilde;o; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma,
+ emquanto choravam seus paes e suas irm&atilde;s, j&aacute; estava vivendo
+ feliz no Paraizo.&raquo;<br /> <br /> &laquo;A alma? mam&atilde;; n&atilde;o
+ sei o que &eacute;; n&atilde;o comprehendo bem.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Maria,
+ acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas pequerruchas.&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Tive sim, mam&atilde;, tive muita pena.&raquo;<br /> <br />
+ &laquo;Ora bem, o que &eacute; que no teu corpo estava desconsolado e
+ triste? eram os bra&ccedil;os?&raquo;<br /> <br /> &laquo;N&atilde;o, mam&atilde;.&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Eram as orelhas?&raquo;<br /> <br /> &laquo;Oh! n&atilde;o mam&atilde;,
+ era <em>c&aacute; dentro</em>.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Esse <em>l&aacute;
+ dentro</em>, Maria, &eacute; a tua alma que se alegra ou se entristece,
+ que te reprehende quando fazes o mal, e que est&aacute; satisfeita quando
+ praticas o bem.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c11" id="c11"></a>Alberto
+ </h3>
+ <br /> Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e
+ seus irm&atilde;os, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer
+ sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico
+ feij&atilde;o produzir cem feij&otilde;es e muitas vezes mais, e de uma
+ talhada de batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra
+ pagava com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma
+ libra no quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu
+ jardimzinho. &laquo;Ha de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dar&aacute;
+ libras como uma cerejeira d&aacute; cerejas, e irei entregal-as ao pap&aacute;,
+ que ficar&aacute; muito contente.&raquo; Todas as manh&atilde;s ia ver se
+ a libra tinha nascido, mas n&atilde;o rebentava nada. Entretanto o pae
+ procurava a libra por toda a parte. Por fim perguntou ao Albertinho se a
+ tinha visto.<br /> <br /> &laquo;Vi pap&aacute;; achei-a e fui semeal-a.&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma
+ couve?&raquo;<br /> <br /> &laquo;Mas, pap&aacute;, ouvi dizer que o oiro se
+ encontrava na terra.&raquo;<br /> <br /> &laquo;&Eacute; verdade, mas n&atilde;o
+ nasce como uma semente; o oiro n&atilde;o tem vida.&raquo;<br /> <br />
+ <span class="pagenum">[32]</span> Desenterrou-se a libra, e Alberto foi
+ castigado por dispor do que lhe n&atilde;o pertencia.<br /> <br /> Ha
+ comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe produzir
+ os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como &eacute;?
+ &eacute; dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa
+ sementeira.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c12" id="c12"></a>A can&ccedil;&atilde;o da cerejeira
+ </h3>
+ <br /> Disse Deus na primavera: &laquo;Ponham a mesa &aacute;s lagartas!&raquo;
+ E a cereijeira cobriu-se immediatamente de folhas, milh&otilde;es de
+ folhas, fresquinhas e verdejantes.<br /> <br /> A lagarta, que estava
+ dormindo dentro de casa, acordou, espregui&ccedil;ou-se, abriu a bocca,
+ esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as folhinhas tenras,
+ dizendo: &laquo;N&atilde;o se p&oacute;de a gente despegar d'ellas. Quem
+ &eacute; que me arranjou este banquete?&raquo;<br /> <br /> Ent&atilde;o
+ Deus disse de novo: &laquo;Ponham a mesa &aacute;s abelhas!&raquo; E a
+ cereijeira cobriu-se immediatamente de flores, milh&otilde;es de flores
+ delicadas e brancas.<br /> <br /> E a abelha matinal aos primeiros raios da
+ aurora pousou sobre ellas, dizendo: &laquo;Vamos tomar o nosso caf&eacute;;
+ e que ch&aacute;venas t&atilde;o bonitas em que o deitaram!&raquo;<br />
+ <br /> Provou com a linguita, exclamando: &laquo;Que deliciosa bebida! N&atilde;o
+ pouparam o assucar!&raquo;<br /> <br /> No ver&atilde;o disse Deus: &laquo;Ponham
+ a mesa aos passarinhos!&raquo; E a cereijeira cobriu-se de mil fructos
+ appetitosos e vermelhos.<br /> <br /> <span class="pagenum">[34]</span>
+ &laquo;Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasi&atilde;o;
+ temos appetite, e isto dar-nos-ha novas for&ccedil;as para podermos cantar
+ uma nova can&ccedil;&atilde;o.&raquo; No outono disse Deus: &laquo;Levantae
+ a mesa, j&aacute; est&atilde;o satisfeitos.&raquo; E o vento frio das
+ montanhas come&ccedil;ou a soprar, e fez estremecer a arvore.<br /> <br />
+ As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o
+ vento que as lan&ccedil;ou ao ch&atilde;o erguia-as novamente, fazendo-as
+ esvoa&ccedil;ar.<br /> <br /> Chegou o inverno e disse Deus: &laquo;Cobri o
+ resto!&raquo; E os turbilh&otilde;es dos ventos trouxeram a neve, sob cuja
+ mortalha tudo dorme e descan&ccedil;a.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c13" id="c13"></a>Os gigantes da montanha e os an&otilde;es da
+ planicie
+ </h3>
+ <br /> Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na
+ montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um
+ alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer &aacute; plan&iacute;cie
+ a ver o que faziam l&aacute; em baixo os homens, que de cima do monte lhe
+ pareciam an&otilde;es. Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido
+ &aacute; ca&ccedil;a e sua m&atilde;e estava dormindo, a joven giganta
+ desatou a correr para um campo, onde os jornaleiros trabalhavam. Parou
+ surprehendida a ver a charrua e os lavradores, coisas inteiramente novas
+ para ella. &laquo;Oh! que lindos brinquedos!&raquo; exclamou. Abaixou-se e
+ estendeu por terra o avental, que quasi que cubriu o campo. Lan&ccedil;ou-lhe
+ dentro os homens, os cavallos, a charrua; de dois passos tornou a subir a
+ montanha, e entrou no castello, onde seu pae estava a jantar.<br /> <br />
+ --Que trazes ahi, minlia filha?&raquo; perguntou elle.<br /> <br /> --Olhe,
+ disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. S&atilde;o os mais
+ bonitos que tenho visto.&raquo;<br /> <br /> E pol-os em cima da mesa, a um
+ e um,--os cavallos, a charrua e os trabalhadores, que estavam <span
+ class="pagenum">[36]</span> todos espantados, como formigas a quem
+ tivessem transportado d'um formigueiro para um sal&atilde;o. A gigantinha
+ poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
+ fez-se serio e franziu o sobrolho. &laquo;Fizeste mal, disse-lhe elle.
+ Isso n&atilde;o s&atilde;o brinquedos, mas coisas e pessoas que devem
+ estimar-se e respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e p&otilde;e-n'o
+ immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
+ montanha, morreriam de fome, se os an&otilde;es da planicie deixassem de
+ lavrar a terra e de semear o trigo.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c14" id="c14"></a>A crean&ccedil;a, a anjo e fl&ocirc;r
+ </h3>
+ <br /> Quando morre uma crean&ccedil;a, desce um anjo do ceo, toma-a nos
+ bra&ccedil;os, e desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os
+ sitios que ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se
+ de quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que flores&ccedil;am
+ no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe
+ todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor
+ escolhida, adquirindo voz immediatamente, come&ccedil;a a cantar os coros
+ maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma crean&ccedil;a
+ morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro sobre a
+ casa em que a crean&ccedil;a brinc&aacute;ra, e depois sobre jardins
+ deliciosos, cobertos de flores.<br /> <br /> &laquo;Qual &eacute; a flor que
+ desejas para plantar no paraiso?&raquo; perguntou o anjo.<br /> <br /> Havia
+ n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, magnifica; mas
+ quebraram-lhe o p&eacute;, e todos os seus ramos cheios de bot&otilde;esinhos
+ lindissimos pendiam estiolados para o ch&atilde;o.<br /> <br /> &laquo;Pobre
+ roseira! disse a crean&ccedil;a ao anjo; vamos buscal-a para que possa
+ reflorir no paraiso.&raquo;<br /> <br /> <span class="pagenum">[38]</span> O
+ anjo foi buscal-a, e abra&ccedil;ou a crean&ccedil;a. Colheram muitas
+ flores brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.<br /> <br /> A
+ colheita estava terminada, e comtudo n&atilde;o voavam ainda para Deus.
+ Caiu a noite silenciosa, e a crean&ccedil;a e o seu guia Divino andavam
+ ainda por cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas,
+ cheia de cacos de lou&ccedil;a, de vidros partidos, de farrapos, de toda a
+ casta de immundicie. Entre estes destro&ccedil;os distinguiu o anjo um
+ vaso de flores com a terra pelo ch&atilde;o, onde pendiam as longas raizes
+ d'uma flor dos campos, j&aacute; murcha, e que parecia n&atilde;o poder
+ reverdecer: tinham-n'a atirado para a rua como inutil e morta.<br /> <br />
+ &laquo;Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho,
+ voando, te contarei a historia da florinha. L&aacute; ao fundo, l&aacute;
+ ao fundo, naquella rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma
+ crean&ccedil;a miseravel e doente. Quando se sentia melhor, o mais que
+ podia conseguir era passeiar com a ajuda das moletas ao longo de seu
+ pequenino quarto. Em certos dias de ver&atilde;o os raios do sol
+ visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. Ent&atilde;o a crean&ccedil;a
+ sentada &aacute; janella, aquecida pelo sol, sem o cansa&ccedil;o do
+ andar, imaginava-se passeando; n&atilde;o conhecia da floresta, da fresca
+ verdura da primavera, sen&atilde;o o ramo de faia, que uma vez o filho do
+ visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabe&ccedil;a o
+ ramo verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol,
+ sonhava com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho
+ trouxe-lhe flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que
+ tinha ainda raizes; <span class="pagenum">[39]</span> o pequerrucho
+ plantou-a n'um vaso, e pol-o &aacute; janella, junto da cama. A flor
+ plantada por m&atilde;o aben&ccedil;oada, cresceu, tornou-se grande, e
+ todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico
+ thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
+ aproveitar os raios do sol at&eacute; ao ultimo. A flor apparecia-lhe em
+ sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e
+ ostentava as suas c&ocirc;res; quando se sentiu morrer foi para ella que
+ se voltou.<br /> <br /> &laquo;Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita
+ no paraiso; a sua querida flor, esquecida &aacute; janella desde ent&atilde;o,
+ murchou, estiolou-se e atiraram-n'a &agrave; rua finalmente. E comtudo
+ esta flor quasi secca &eacute; o thesouro do nosso ramilhete. Deu mais
+ prazer e alegria do que todos os canteiros d'um jardim realengo.&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Como sabes tu isso?&raquo; perguntou a crean&ccedil;a, que o
+ anjo levava para o c&eacute;o.<br /> <br /> --Sei-o, respondeu o anjo,
+ porque era eu o pequenino doente que andava em moletas; como n&atilde;o
+ havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!&raquo;<br /> <br /> A crean&ccedil;a
+ abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam no c&eacute;o
+ onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, levou-as ao
+ cora&ccedil;&atilde;o, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre,
+ despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar
+ com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe,
+ formando circulos que v&atilde;o augmentando successivamente,
+ multiplicando-se at&eacute; ao infinito, povoados <span class="pagenum">[40]</span>
+ de seres inteiramente felizes, cantando todos harmoniosamente--desde a
+ crean&ccedil;a aben&ccedil;oada at&eacute; &aacute; humilde florinha do
+ campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e
+ tortuosa.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c15" id="c15"></a>Presente por presente
+ </h3>
+ <br /> Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de
+ noite &aacute; choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda n&atilde;o
+ tinha chegado, foi a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o
+ o melhor que p&ocirc;de, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe
+ ia dar, porque eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia
+ offerecer; cama n&atilde;o a tinha, por conseguinte dormiria sobre a
+ palha. Mas o estrangeiro estava morto de fome e de fadiga; as batatas
+ souberam-lhe mais do que fais&otilde;es, e dormiu melhor em cima da palha
+ do que n'um leito de principes. Ao outro dia pela manh&atilde; disse isto
+ mesmo &aacute; pobre mulher, gratificando-a ao despedir-se com uma moeda
+ de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha dito que a guardasse como uma
+ pequena lembran&ccedil;a, a boa camponeza julgou que seria uma medalha, e
+ sentiu que n&atilde;o tivesse um buraquito para a trazer ao pesco&ccedil;o.
+ Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o que lhe tinha
+ acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro examinou os cunhos
+ e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[42]</span> &laquo;Esse forasteiro era nada mais nada
+ menos do que o nosso principe!<br /> <br /> E o bom do homem n&atilde;o
+ podia conter-se de alegria, por sua alteza ter achado as suas batatas
+ melhores do que fais&otilde;es.<br /> <br /> &laquo;&Eacute; necess&aacute;rio
+ confessar, disse elle com um ar triumphante, que n&atilde;o ha talvez no
+ mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das batatas;
+ hei de lhe levar um cesto d'ellas, j&aacute; que as acha t&atilde;o boas.<br />
+ <br /> E partiu immediatamente para o palacio com uma provis&atilde;o de
+ batatas escolhidas.<br /> <br /> Os lacaios e as sentinellas ao principio n&atilde;o
+ o queriam deixar entrar; mas insistiu energicamente, dizendo que n&atilde;o
+ vinha pedir nada, e que pelo contrario vinha trazer alguma cousa.<br />
+ <br /> Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.<br /> <br /> &laquo;Meu
+ senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente pedir
+ hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma pe&ccedil;a de ouro, em troca
+ d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar
+ demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis o
+ motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das batatas,
+ que vos souberam melhor do que os vossos fais&otilde;es. Dignae-vos
+ acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, l&aacute;
+ as encontrareis sempre ao vosso dispor.&raquo;<br /> <br /> A honrada
+ simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava n'um momento
+ de bom humor, fez-lhe doa&ccedil;&atilde;o de uma quinta com trinta geiras
+ de terra.<br /> <br /> <span class="pagenum">[43]</span> Ora o carvoeiro
+ tinha um irm&atilde;o muito rico, mas invejoso e avarento, que, sabendo da
+ fortuna do irm&atilde;o mais novo, disse comsigo: &laquo;Porque n&atilde;o
+ me ha de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo
+ qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer presente
+ d'elle: se deu ao Jo&atilde;o uma quinta com trinta geiras de terra,
+ simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de
+ recompensar ainda mais generosamente.&raquo;<br /> <br /> Tirou o cavallo da
+ estrebaria e levou-o para defronte das portas do palacio; recommendou ao
+ creado que o segurasse, e, atravessando com ar altivo as alas dos lacaios,
+ penetrou na sala da audiencia.<br /> <br /> &laquo;Ouvi dizer, disse elle,
+ que vossa alteza gosta do meu cavallo; n&atilde;o tenho querido trocal-o a
+ dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o offere&ccedil;a.&raquo;<br />
+ <br /> O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e
+ disse comsigo: &laquo;Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que
+ mereces:<br /> <br /> Depois dirigindo-se a elle:<br /> <br /> &laquo;Acceito
+ a tua dadiva, mas n&atilde;o sei como agradecer-t'a condignamente. Oh!
+ espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que fais&otilde;es.
+ Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que &eacute; um bom pre&ccedil;o
+ para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.&raquo;<br />
+ <br /> E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c16" id="c16"></a>O pinheiro ambicioso
+ </h3>
+ <br /> Era uma vez um pinheiro, que n&atilde;o estava contente com a sua
+ sorte. &laquo;Oh! dizia elle, como s&atilde;o horrorosas estas linhas
+ uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou
+ um pouco mais orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para
+ andar vestido de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!&raquo;<br />
+ <br /> O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manh&atilde;
+ acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e
+ admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros
+ pinheiros, que, mais sensatos do que elle, n&atilde;o invejavam a sua
+ rapida fortuna. &Aacute; noite passou por alli um judeu, arrancou-lhe
+ todas as folhas, metteu-as n'um sacco, e foi-se embora, deixando-o
+ inteiramente nu dos p&eacute;s &aacute; cabe&ccedil;a.<br /> <br /> &laquo;Oh!
+ disse elle, que doido que eu fui! n&atilde;o me tinha lembrado da cobi&ccedil;a
+ dos homens. Fiquei completamente despido. N&atilde;o ha agora em toda a
+ floresta uma planta t&atilde;o pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de
+ oiro; o oiro attrae as ambi&ccedil;&otilde;es.<br /> <br /> Ah! se eu
+ arranjasse um vestuario de vidro! Era <span class="pagenum">[45]</span>
+ deslumbrante, e o judeu avarento n&atilde;o me teria despido.&raquo;<br />
+ <br /> No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam
+ ao sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e
+ orgulhoso, fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo
+ cobriu-se de nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza
+ negra as folhas de cristal.<br /> <br /> &laquo;Enganei-me ainda, disse o
+ joven pinheiro, vendo por terra todo feito em peda&ccedil;os o seu manto
+ cristalino. O oiro e o vidro n&atilde;o servem para vestir as florestas.
+ Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria menos brilhante,
+ mas viveria descansado.&raquo;<br /> <br /> Cumpriu-se o seu ultimo desejo,
+ e, apesar de ter renunciado &aacute;s vaidades primitivas, julgava-se
+ ainda assim mais bem vestido do que todos os outros pinheiros seus irm&atilde;os.
+ Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as folhas acabadas de
+ nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as todas sem deixar uma unica.<br />
+ <br /> O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, j&aacute; queria
+ voltar &aacute; sua f&oacute;rma natural. Conseguiu ainda este favor, e
+ nunca mais se queixou da sua sorte.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c17" id="c17"></a>Perfei&ccedil;&atilde;o das obras de Deus
+ </h3>
+ <br /> <em>A filha</em>.--Oh! mam&atilde; quebrou-se-me a agulha.<br />
+ <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Vou-te dar outra.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Como
+ se fazem as agulhas, mam&atilde;?<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--V&ecirc;
+ se adivinhas.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--N&atilde; sei, mam&atilde;.<br />
+ <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Conheces os metaes?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Conhe&ccedil;o
+ mam&atilde;; tenho l&aacute; dentro muitos bocadinhos dentro de uma caixa.<br />
+ <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Ora muito bem, dize-me l&aacute;, as agulhas
+ s&atilde;o de pau, de pedra, de marmore?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Oh!
+ n&atilde;o; s&atilde;o de metal; mas de que metal?<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Antes
+ de perguntar qualquer coisa, v&ecirc; sempre se a adivinhas primeiro.<br />
+ <br /> <em>A filha</em>.--Ora espere!... uma agulha &eacute; de metal: n&atilde;o
+ &eacute; de prata, porque n&atilde;o &eacute; branca; n&atilde;o &eacute;
+ de oiro, porque n&atilde;o &eacute; de um lindo amarello muito brilhante;
+ n&atilde;o &eacute; de cobre, porque n&atilde;o &eacute; de um amarello
+ muito feio, que cheira mal... Ent&atilde;o &eacute; de ferro, mam&atilde;?<br />
+ <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Adivinhaste.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Mas,
+ mam&atilde;, o ferro n&atilde;o &eacute; liso e brilhante como as agulhas.<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[47]</span> <em>A m&atilde;e</em>.--&Eacute;
+ que &eacute; primeiro polido e preparado de certo modo, e depois j&aacute;
+ se n&atilde;o chama ferro, &eacute; a&ccedil;o.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Bem,
+ as agulhas s&atilde;o de a&ccedil;o. Agora quero adivinhar como &eacute;
+ que as fazem.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--&Eacute; impossivel, n&atilde;o
+ &eacute;s capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma fabrica onde se fazem
+ agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar muito.<br /> <br /> <em>A
+ filha</em>.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
+ nos servimos.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Tens raz&atilde;o;
+ &eacute; uma vergonha ignoral-o.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Mam&atilde;,
+ deixe-me ver as suas agulhas.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Olha, ahi
+ tens o meu estojo.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Meu Deus! Que pequeninas
+ algumas! Que lindas! S&atilde;o t&atilde;o fininhas, t&atilde;o
+ fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para fazer uma coisinha
+ t&atilde;o delicada!<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Lembras-te de ver
+ na feira um carrinho de marfim puxado por uma pulga, presa por uma cadeia
+ de oiro?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Lembro, mam&atilde;; era t&atilde;o
+ bonito!<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Li n'um jornal allem&atilde;o
+ que um operario chamado Nerlinger fez um copo de um gr&atilde;o de
+ pimenta, e que dentro d'este copo havia mais doze...<br /> <br /> <em>A
+ filha</em>.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um gr&atilde;o
+ de pimenta!<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--E ainda n&atilde;o &eacute;
+ tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas doiradas, e sustentava-se
+ no p&eacute;.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Que vontade eu tinha de ver
+ isso!<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Tens raz&atilde;o de te admirares
+ da habilidade dos homens. &Eacute; effectivamente espantoso, e <span
+ class="pagenum">[48]</span> deve saber-se, o modo porque se fabricam
+ certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admira&ccedil;&atilde;o.<br />
+ <br /> <em>A filha</em>.--Quaes, mam&atilde;?<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--J&aacute;
+ t'o digo. (<em>Levanta-se</em>.)<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Que quer,
+ mam&atilde;?<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Quero que vejas o
+ microscopio de teu pap&aacute;.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Pois sim; eu
+ gosto de olhar pelo microscopio.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Este
+ &eacute; magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes ver a
+ mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como &eacute; fina,
+ lisa e brilhante... Agora olha; o que &eacute; que v&ecirc;s?<br /> <br />
+ <em>A filha</em>.--Meu Deus, que coisa t&atilde;o feia! que agulha t&atilde;o
+ grosseira!<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--V&ecirc;s-lhe buracos,
+ riscos, asperesas, n&atilde;o &eacute; verdade?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Parece
+ um prego muito grande e muito mal feito.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Pois
+ todas essas imperfei&ccedil;&otilde;es s&atilde;o verdadeiras, existem na
+ agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, &eacute; que n&atilde;o d&aacute;
+ por ellas.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--O operario que fez esta agulha
+ ficaria envergonhado, se a visse ao microscopio.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Tiremos
+ a agulha, e vejamos outra coisa.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--O qu&ecirc;,
+ mam&atilde;?<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--O aguilh&atilde;osinho de
+ uma abelha.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Oh! que pequenino, que
+ bonito!... Como &eacute; liso, como &eacute; brilhante!... Mas j&aacute;
+ sei que visto ao microscopio ha de acontecer o mesmo que com a agulha.<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[49]</span> <em>A m&atilde;e</em>.--Prompto:
+ olha.<br /> <br /> <em>A filha</em> (olhando).--&Eacute; exquisito, mam&atilde;!<br />
+ <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Ent&atilde;o?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Augmentou,
+ augmentou como a agulha, mas n&atilde;o &eacute; &aacute;spero, pelo
+ contrario, &eacute; perfeitamente liso... A agulha parecia que n&atilde;o
+ tinha ponta, e o ferr&atilde;osinho da abelha tem uma ponta t&atilde;o
+ fina como um cabello. Porque ser&aacute; isto, mam&atilde;?<br /> <br /> <em>A
+ m&atilde;e</em>.--&Eacute; porque o operario que fez este aguilh&atilde;o
+ &eacute; muito mais habil do que o que fez a agulha.<br /> <br /> <em>A
+ filha</em>.--Quem &eacute; esse operario t&atilde;o habil?<br /> <br /> <em>A
+ m&atilde;e</em>.--&Eacute; o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as
+ plantas e as creaturas.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--&Eacute; Deus.<br />
+ <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Exactamente. Pois n&atilde;o &eacute; Deus
+ que fez as abelhas e todos os animaes?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--De
+ certo.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Foi elle por conseguinte que fez
+ o aguilh&atilde;o d'esta abelha; e ahi tens porque o aguilh&atilde;o
+ &eacute; superior &aacute; agulha: &eacute; obra de Deus. Mas continuemos
+ a olhar pelo microscopio. Aqui est&aacute; um pedacinho de musselina
+ finissima. Olha pelo microscopio; o que &eacute; que v&ecirc;s?<br /> <br />
+ <em>A filha</em>.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.<br />
+ <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Aqui tens agora um pedacinho de renda
+ delicadissima.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Essa estou bem certa que ha
+ de ser linda, mesmo vista pelo microscopio.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Ent&atilde;o?<br />
+ <br /> <em>A filha</em>.--&Eacute; horrorosa... Parece feita de pellos
+ grosseiros com grandes buracos deseguaes.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--As
+ obras do homem s&atilde;o todas assim.<br /> <br /> <span class="pagenum">[50]</span>
+ <em>A filha</em>.--Oh! mam&atilde;, vejamos agora as obras de Deus.<br />
+ <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Sabes o que &eacute; isto?<br /> <br /> <em>A
+ filha</em>.--Sei, mam&atilde;, &eacute; um casulo de bicho de seda.<br />
+ <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Os fiosinhos que o comp&otilde;em s&atilde;o
+ muito finos, muito lisos; olha pelo microscopio a ver se te parecem
+ deseguaes.<br /> <br /> <em>A filha</em> (olhando pelo microsc&oacute;pio).--N&atilde;o,
+ mam&atilde;; os fios s&atilde;o todos eguaes, e o casulo &eacute; sempre
+ muito liso, muito brilhante.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--&Eacute;
+ porque &eacute; obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha sobre
+ este papel?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Pontinhos feitos com tinta e
+ manchasinhas redondas feitas tamb&eacute;m com tinta.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Estes
+ pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente redondos?<br /> <br />
+ <em>A filha</em>.--Sim, mam&atilde;, perfeitamente redondos.<br /> <br />
+ <em>A m&atilde;e</em>.--V&ecirc;-os agora ao microscopio.<br /> <br /> <em>A
+ filha</em>.--Oh! j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o redondos, s&atilde;o
+ todos deseguaes.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Tira o papel; vejamos
+ a obra de Deus. &Eacute; uma aza de borboleta; v&ecirc;s que est&aacute;
+ mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo microscopio; o que
+ &eacute; que v&ecirc;s?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Vejo a mesma coisa
+ que via sem o vidro, s&oacute; com a differen&ccedil;a que agora &eacute;
+ maior. Que bellas que s&atilde;o as obras de Deus!<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--Merece
+ bem a pena estudal-as.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--De certo. Farei
+ sempre por isso, comparando-as com as obras dos homens.<br /> <br /> <em>A m&atilde;e</em>.--E
+ sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do homem, emquanto
+ que <span class="pagenum">[51]</span> as obras de Deus, quanto mais se
+ observam, mais perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas
+ coisas: a primeira &eacute; que Deus merece tanto a nossa admira&ccedil;&atilde;o
+ como o nosso amor; a segunda &eacute; que os homens orgulhosos s&atilde;o
+ insensatos, porque n&atilde;o podem fazer nada perfeitamente bello,
+ perfeitamente regular, e as suas obras mais primorosas s&atilde;o cheias
+ de imperfei&ccedil;&otilde;es, se as compararmos com as obras do Creador.<br />
+ <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c18" id="c18"></a>Jo&atilde;o e os seus camaradas
+ </h3>
+ <br /> Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno
+ rigoroso, possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. Jo&atilde;o
+ resolveu-se a correr mundo, &aacute; busca de fortuna. A m&atilde;e coseu
+ o resto da farinha, matou o gallo, e disse-lhe:<br /> <br /> &laquo;O que
+ &eacute; que preferes: metade d'esta merenda com a minha ben&ccedil;&atilde;o,
+ ou toda com a minha maldi&ccedil;&atilde;o?&raquo;<br /> <br /> &laquo;Que
+ pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no mundo eu
+ quereria a tua maldi&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Bem, meu
+ filho, replicou a m&atilde;e carinhosamente. Leva tudo, e Deus te aben&ccedil;&ocirc;e.&raquo;<br />
+ <br /> E partiu. Foi andando, andando, at&eacute; que encontrou um jumento,
+ que tinha caido n'um atoleiro, d'onde n&atilde;o podia sair.<br /> <br />
+ &laquo;Oh! Jo&atilde;o, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi
+ a afogar-me.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Espera, respondeu Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+ <br /> E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar
+ o quadr&uacute;pede do atoleiro.<br /> <br /> <span class="pagenum">[53]</span>
+ &laquo;Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de Jo&atilde;o. Se te
+ posso ser util, aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?&raquo;<br />
+ <br /> --&laquo;Vou por esse mundo f&oacute;ra, a ver se ganho a minha
+ vida.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Queres tu que eu te acompanhe?<br /> <br />
+ &laquo;Anda d'ahi.&raquo;<br /> <br /> E puzeram-se a caminho.<br /> <br /> Ao
+ passarem por uma aldeia, viram um c&atilde;o perseguido pelos rapazes da
+ eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
+ animal correu para Jo&atilde;o que o acariciou, e o jumento poz-se a
+ ornear de tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.<br />
+ <br /> &laquo;Obrigado, disse o rafeiro a Jo&atilde;o. Se para alguma cousa
+ te for prestavel, aqui me tens &aacute;s tuas ordens. Aonde vaes tu?&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Queres que te acompanhe?&raquo;<br /> <br /> &laquo;Anda d'ahi.&raquo;<br />
+ <br /> Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a
+ merenda do alforge, e repartiu-a com o c&atilde;o. O burro pastou alguma
+ erva que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a
+ miar lastimosamente.<br /> <br /> Coitado, exclamou Jo&atilde;o!&raquo; E
+ deu-lhe uma asa do frango.<br /> <br /> --&laquo;Obrigado disse o gato. Oxal&aacute;
+ que um dia eu te possa ser util. Aonde vaes tu?<br /> <br /> --&laquo;Procurar
+ trabalho. Se queres, anda comnosco.&raquo;<br /> <br /> --De boa vontade.<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[54]</span> Os quatro viajantes puzeram-se a
+ caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um grito dilacerante, e viram uma
+ raposa correndo a toda a brida com um gallo na bocca.<br /> <br /> &laquo;Agarra!
+ agarra!&raquo; bradou o pequeno ao c&atilde;o.<br /> <br /> E no mesmo
+ instante o c&atilde;o atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em perigo,
+ largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente disse a Jo&atilde;o:<br />
+ <br /> --&laquo;Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde
+ vaes tu?&raquo;<br /> <br /> --Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?<br />
+ <br /> --&laquo;De boa vontade.&raquo;<br /> <br /> --Ent&atilde;o anda. Se
+ te can&ccedil;ares, empoleira-te no jumento.&raquo;<br /> <br /> Os
+ viajantes cont&iacute;nuaram a jornada com o seu novo companheiro.
+ Sentiram-se todos fatigados e n&atilde;o avistavam &aacute; roda nem uma
+ quinta, nem uma cabana.<br /> <br /> --&laquo;Paciencia, disse Jo&atilde;o,
+ outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos hoje a dormir ao ar livre;
+ al&eacute;m d'isso a noite est&aacute; socegada, e a relva &eacute; macia.&raquo;<br />
+ <br /> Dito isto estendeu-se no ch&atilde;o; o jumento deitou-se ao lado
+ d'elle, o c&atilde;o e o gato aninharam-se entre as pernas do burro
+ complacente, e o gallo empoleirou-se n'uma arvore.<br /> <br /> Dormiam
+ todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo come&ccedil;ou a
+ cantar.<br /> <br /> --&laquo;Que demonio! disse o jumento accordando todo
+ zangado. Porque &eacute; que est&aacute;s a gritar?&raquo;<br /> <br /> --&laquo;Porque
+ j&aacute; &eacute; dia, respondeu o gallo. N&atilde;o v&ecirc;s ao longe a
+ luz da madrugada, que vem rompendo?&raquo;<br /> <br /> <span class="pagenum">[55]</span>
+ --&laquo;Vejo uma luz, disse Jo&atilde;o, mas n&atilde;o &eacute; do sol,
+ &eacute; d'uma lanterna. Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos
+ poderiamos recolher o resto da noite.&raquo;<br /> <br /> Foi acceita a
+ proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez dos campos, at&eacute;
+ que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo, d'onde subiam
+ gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e blasphemias horriveis.<br />
+ <br /> --Escutem, disse Jo&atilde;o; vamos devagarinho, muito devagarinho,
+ a ver quem &eacute; que est&aacute; l&aacute; dentro.&raquo;<br /> <br />
+ Eram seis ladr&otilde;es armados de pistolas e de punhaes, que se
+ banqueteavam alegremente, sentados a uma mesa principesca.<br /> <br /> --&laquo;Que
+ bom assalto acab&aacute;mos de dar, disse um d'elles, ao castello do
+ conde, gra&ccedil;as ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que
+ &eacute; este porteiro. &Aacute; sua saude!&raquo;<br /> <br /> --&laquo;&Aacute;
+ sa&uacute;de do nosso amigo!&raquo; repetiram em coro todos os ladr&otilde;es.<br />
+ <br /> E d'um trago despejaram os copos.<br /> <br /> Jo&atilde;o voltou-se
+ para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:<br /> <br /> --&laquo;Uni-vos
+ uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der signal, rompei
+ todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.&raquo;<br /> <br /> O burro,
+ levantando-se nas patas trazeiras, lan&ccedil;ou as m&atilde;os ao
+ peitoril d'uma janella, o c&atilde;o trepou-lhe &aacute; cabe&ccedil;a, o
+ gato &aacute; cabe&ccedil;a do c&atilde;o e o gallo &aacute; cabe&ccedil;a
+ do gato. Jo&atilde;o deu o signal, e estoirou &agrave; uma o ornear do
+ jumento, os latidos do c&atilde;o, o miar do gato e os gritos estridentes
+ do gallo.<br /> <br /> <span class="pagenum">[56]</span> --&laquo;Agora,
+ bradou Jo&atilde;o, fingindo que commandava um destacamento, carregar
+ armas! Dae-me cabo dos ladr&otilde;es; fogo!&raquo;<br /> <br /> No mesmo
+ instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando cada vez mais;
+ os ladr&otilde;es atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo
+ precipitadamente por uma porta falsa.<br /> <br /> Jo&atilde;o e os seus
+ companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um excellente jantar,
+ e deitaram-se em seguida--Jo&atilde;o n'uma cama, o burro na cavallari&ccedil;a,
+ o c&atilde;o n'uma esteira ao p&eacute; da porta, o gato junto do fog&atilde;o
+ e o gallo n'um poleiro.<br /> <br /> Ao principio os ladr&otilde;es ficaram
+ muito contentes, por se verem s&atilde;os e salvos na floresta. Mas
+ depois, come&ccedil;aram a reflectir.<br /> <br /> --&laquo;Era bem melhor a
+ minha cama, do que esta erva t&atilde;o humida, disse um d'elles.&raquo;<br />
+ <br /> --&laquo;Tenho pena do frango que eu come&ccedil;ava a saborear,
+ disse um outro.&raquo;<br /> <br /> --&laquo;E que rico vinho aquelle!
+ accrescentou o terceiro.&raquo;<br /> <br /> --&laquo;E o que &eacute; mais
+ lamentavel, exclamou um quarto, &eacute; ficar-nos l&aacute; todo o
+ dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das
+ gavetas.&raquo;<br /> <br /> --Vou ver se torno l&aacute; a entrar? disse o
+ capit&atilde;o.<br /> <br /> --Bravo! exclamaram os ladr&otilde;es.<br />
+ <br /> E poz-se a caminho.<br /> <br /> J&aacute; n&atilde;o havia luz na
+ casa; o capit&atilde;o entrou &aacute;s apalpadellas, e dirigiu-se para o
+ fog&atilde;o; o gato saltou-lhe &aacute; cara e esfarrapou-lh'a com as
+ garras. <span class="pagenum">[57]</span> Soltou um grito doloroso, correu
+ para a porta, mas infelizmente pisou o rabo do c&atilde;o, que lhe deu uma
+ grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu por fim transpor o limiar da
+ porta. Mas quando ia a sair, o gallo atirou-se a elle, rasgando-o com o
+ bico e com as unhas.<br /> <br /> --Anda o diabo n'esta casa! exclamou o
+ capit&atilde;o, como poderei eu sair!&raquo;<br /> <br /> Julgou encontrar
+ refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma parelha de coices, que o
+ deitou quasi morto ao meio do ch&atilde;o.<br /> <br /> Passado algum tempo
+ veiu a si; apalpou o corpo, viu que n&atilde;o tinha nem pernas nem bra&ccedil;os
+ partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.<br /> <br /> --Ent&atilde;o?
+ ent&atilde;o?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.<br /> <br />
+ --Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para
+ me deitar e cataplasmas de linha&ccedil;a para p&ocirc;r n'este corpo, que
+ o trago n'um feixe. N&atilde;o podeis imaginar o que soffri. Na cosinha
+ fui assaltado por uma velha que estava a cardar l&atilde;, e arrumou-me na
+ cara com o cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair
+ a porta, um demonio d'um remend&atilde;o atravessou-me as pernas com a
+ sovella. Logo depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despeda&ccedil;ando-me
+ com as garras. Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se
+ voc&ecirc;s me n&atilde;o acreditam, v&atilde;o l&aacute;, e experimentem.&raquo;<br />
+ <br /> --Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo
+ todo ensanguentado: N&atilde;o seremos n&oacute;s que l&aacute;
+ tornaremos.&raquo;<br /> <br /> Pela manh&atilde;, Jo&atilde;o e os seus
+ camaradas almo&ccedil;aram <span class="pagenum">[58]</span> ainda
+ excellentemente, e partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro
+ que os ladr&otilde;es lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente
+ dentro de dois saccos, com que carregou o jumento. Foram andando, andando,
+ at&eacute; que chegaram &aacute; porta do castello. Diante d'essa porta
+ estava o malvado do porteiro, com uma libr&eacute; esplendida, meias de
+ seda, cal&ccedil;&otilde;es escarlates e cabello empoado.<br /> <br /> Olhou
+ com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a Jo&atilde;o.<br />
+ <br /> --Que vindes aqui buscar? N&atilde;o ha lugar para os recolher, v&atilde;o-se
+ embora?&raquo;<br /> <br /> --N&atilde;o queremos nada de ti, respondeu Jo&atilde;o.
+ O dono do castello far-nos-ha um bom acolhimento.<br /> <br /> --F&oacute;ra
+ d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a andar
+ immediatamente, quando n&atilde;o atiro-lhes j&aacute; &aacute;s pernas os
+ meus c&atilde;es de fila.&raquo;<br /> <br /> --Perd&atilde;o, s&oacute; um
+ instante, replicou o gallo empoleirado na cabe&ccedil;a do jumento; n&atilde;o
+ me poderias dizer quem &eacute; que abriu aos ladr&otilde;es na noite
+ passada a porta do castello?&raquo;<br /> <br /> O porteiro c&oacute;rou. O
+ conde que estava &aacute; janella, disse-lhe:<br /> <br /> --&Oacute; Bernab&eacute;,
+ responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.<br /> <br /> --Senhor,
+ replicou Bernab&eacute;, este gallo &eacute; um miseravel. N&atilde;o fui
+ eu que abri a porta aos seis ladr&otilde;es.<br /> <br /> --Como &eacute;
+ ent&atilde;o, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?<br />
+ <br /> Seja como for, disse Jo&atilde;o, aqui lhe trazemos o <span
+ class="pagenum">[59]</span> dinheiro roubado, pedindo-lhe unicamente que
+ nos d&ecirc; de jantar e nos recolha esta noite, porque vimos can&ccedil;ados
+ do caminho.<br /> <br /> --Ficae certos que sereis bem tratados.<br /> <br />
+ O burro, o c&atilde;o e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou
+ na cosinha. E emquanto a Jo&atilde;o, o conde reconhecido, vestiu-o dos p&eacute;s
+ &aacute; cabe&ccedil;a com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio
+ d'ouro, e disse-lhe:<br /> <br /> --Queres ficar comigo? &Eacute;s esperto e
+ honrado, ser&aacute;s o meu intendente.&raquo;<br /> <br /> Jo&atilde;o
+ acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha m&atilde;e para o p&eacute;
+ de si. Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.<br />
+ <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c19" id="c19"></a>O rabequista
+ </h3>
+ <br /> Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram
+ uma egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.<br /> <br /> As
+ rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O
+ vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro,
+ feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava
+ constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi l&aacute; em
+ romaria um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada
+ tinha sido muito longa, estava can&ccedil;ado, e j&aacute; no seu alforge
+ n&atilde;o havia p&atilde;o nem dinheiro no bolso para o comprar.<br />
+ <br /> Assim que entrou na capella, come&ccedil;ou a tocar na sua rabeca
+ com tal suavidade, com tanta express&atilde;o, que a santa ficou
+ enternecida ao vel-o t&atilde;o pobre e ao escutar aquella musica
+ deliciosa. Quando terminou, Santa Cecilia abaixou-se, descal&ccedil;ou um
+ dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o ao pobre musico, que tonto
+ d'alegria, dan&ccedil;ando, cantando, chorando, correu &aacute; loja d'um
+ ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o sapato da santa,
+ prendeu o pobre rabequista e levou-o &aacute; presen&ccedil;a do juiz.
+ <span class="pagenum">[61]</span> Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o,
+ e foi condemnado &aacute; morte.<br /> <br /> Cheg&aacute;ra o dia da execu&ccedil;&atilde;o.
+ Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo poz-se em marcha ao som dos
+ canticos dos frades, que ainda assim n&atilde;o chegavam a dominar os sons
+ da rabeca do condemnado, que pedira, como ultima gra&ccedil;a, o
+ deixarem-lhe tocar na sua rabeca at&eacute; ao ultimo momento. O cortejo
+ chegou defronte da capella da santa, e quando pararam supplicou o triste
+ desgra&ccedil;ado, que o levassem l&aacute; dentro para tocar a sua
+ derradeira melodia.<br /> <br /> Os padres e os chefes da escolta
+ consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos p&eacute;s da santa, e
+ debulhado em lagrimas come&ccedil;ou a tocar. Ent&atilde;o o povo,
+ maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de novo, descal&ccedil;ar
+ o outro sapato e mettel-o nas m&atilde;os do infeliz musico. &Aacute;
+ vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o
+ rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente
+ prestar-lhe as mais honrosas homenagens.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c20" id="c20"></a>Os pecegos
+ </h3>
+ <br /> Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos
+ magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos,
+ extasiaram-se diante das suas c&ocirc;res e da fina penugem que os cubria.
+ &Aacute; noite o pae perguntou-lhes:<br /> <br /> --Ent&atilde;o comeram os
+ pecegos?<br /> <br /> --Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era!
+ Guardei o caro&ccedil;o, e hei de plantal-o para nascer uma arvore.&raquo;<br />
+ <br /> --Fizeste bem, respondeu o pae, &eacute; bom ser economico e pensar
+ no futuro.&raquo;<br /> <br /> --Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o
+ logo, e a mam&atilde; ainda me deu metade do que lhe tocou a ella. Era
+ doce como mel.&raquo;<br /> <br /> --Ah! acudiu o pae, foste um pouco
+ guloso, mas na tua edade n&atilde;o admira; espero que quando fores maior
+ te has de corrigir.&raquo;<br /> <br /> --Pois eu c&aacute;, disse um
+ terceiro, apanhei o caro&ccedil;o que o meu irm&atilde;o deitou f&oacute;ra,
+ quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi o meu
+ pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for &aacute; cidade.&raquo;<br />
+ <br /> O pae meneou a cabe&ccedil;a:<br /> <br /> <span class="pagenum">[63]</span>
+ --Foi uma id&eacute;a engenhosa, mas eu preferia menos calculo.<br /> <br />
+ --E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?<br /> <br /> --Eu, meu pae,
+ respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho, ao Jorge, que est&aacute;
+ coitadinho com febre. Elle n&atilde;o o queria, mas deixei-lh'o em cima da
+ cama, e vim-me embora.<br /> <br /> --Ora bem, perguntou o pae, qual de v&oacute;s
+ &eacute; que empregou melhor o pecego que eu lhe dei?<br /> <br /> E os tr&ecirc;s
+ pequenos disseram &aacute; uma:<br /> <br /> --Foi o mano Eduardo.<br />
+ <br /> Este no entanto n&atilde;o dizia palavra, e a m&atilde;e abra&ccedil;ou-o
+ com os olhos arrazados de lagrimas.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c21" id="c21"></a>A urna das lagrimas
+ </h3>
+ <br /> Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
+ adorava sobre todas as coisas. N&atilde;o se separava d'ella um s&oacute;
+ momento; mas um dia a pobre pequerrucha come&ccedil;ou a soffrer, adoeceu
+ e morreu. A desditosa m&atilde;e, que tinha passado as noites e os dias,
+ sem repousar um momento, &aacute; cabeceira da filha, julgou endoidecer de
+ magua e de saudades. N&atilde;o comia, n&atilde;o fazia sen&atilde;o
+ chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava acabrunhada, chorando no
+ mesmo sitio em que a filha tinha morrido, abriu-se de repente a porta do
+ quarto e viu-a apparecer a ella, a sua querida filha, sorrindo com uma
+ express&atilde;o angelica e trazendo nas m&atilde;os uma urna, que vinha
+ cheia at&eacute; &aacute;s bordas.<br /> <br /> --&laquo;Oh! minha querida m&atilde;e,
+ disse-lhe ella, n&atilde;o chores mais. Olha, o anjo das lagrimas recolheu
+ as tuas n'esta urna. Se chorares mais, transbordar&aacute;, e as tuas
+ lagrimas correr&atilde;o sobre mim, inquietando-me no tumulo e perturbando
+ a minha felicidade no paraiso.<br /> <br /> A pequenina desappareceu, e a m&atilde;e
+ n&atilde;o tornou a chorar para a n&atilde;o affligir.<br /> <br /> <br />
+ <br />
+ <h3>
+ <a name="c22" id="c22"></a>Reconhecimento e ingratid&atilde;o
+ </h3>
+ <br /> Os vossos filhos ser&atilde;o para v&oacute;s como v&oacute;s
+ tiverdes sido para vossos paes. E &eacute; natural. As crean&ccedil;as
+ veem diariamente o que fazem seus paes, e imitam-n'os. Justifica-se d'esta
+ maneira o proverbio que diz,--que a ben&ccedil;&atilde;o ou a maldi&ccedil;&atilde;o
+ d'um pae cae sobre a cabe&ccedil;a de seus filhos, terminando sempre por
+ se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem ser meditados.<br />
+ <br /> Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava
+ muito satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois
+ d'algumas perguntas, soube que o campo n&atilde;o pertencia ao homem, mas
+ que trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O
+ principe, que para as suas despezas d'administra&ccedil;&atilde;o e
+ representa&ccedil;&atilde;o necessitava de quantias avultadas, custou-lhe
+ ao principio a perceber, como se vivia com doze vintens diarios,
+ andando-se ainda por cima satisfeito. Manifestou o seu espanto ao alde&atilde;o,
+ que lhe respondeu:<br /> <br /> &laquo;Gasto diariamente comigo a ter&ccedil;a
+ parte d'essa quantia; outro ter&ccedil;o &eacute; para pagar as minhas
+ dividas; <span class="pagenum">[66]</span> e o resto &eacute; para ir
+ juntando algumas economias.&raquo;<br /> <br /> Era um novo enigma para o
+ principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o d'este modo.<br /> <br />
+ &laquo;Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que j&aacute; n&atilde;o
+ podem trabalhar, e com os meus filhos, que ainda n&atilde;o teem for&ccedil;a
+ para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na
+ minha infancia; e espero que os segundos n&atilde;o me abandonem, quando
+ os annos tiverem pesado sobre mim.&raquo;<br /> <br /> O principe, ouvindo
+ isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se da educa&ccedil;&atilde;o
+ de seus filhos; e a ben&ccedil;&atilde;o que lhe deram os seus velhos
+ paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando egualmente
+ a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedica&ccedil;&atilde;o.<br />
+ <br /> Mas posso desgra&ccedil;adamente citar-vos outro filho, que procedeu
+ d'uma maneira t&atilde;o indigna com seu velho pae doente e aleijado, que
+ este teve de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho
+ ingrato recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma
+ tarde foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade
+ fosse muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como
+ ultima esmola, um par de len&ccedil;oes, para cobrir a palha que lhe
+ servia de leito. O mau filho escolheu os len&ccedil;oes mais usados, e
+ disse ao seu pequeno, de dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse
+ velho rabujento_. Mas notou que a crean&ccedil;a ao partir tinha escondido
+ um dos len&ccedil;oes a um canto, atraz da porta.<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[67]</span> Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque
+ fizera aquillo.<br /> <br /> &laquo;Foi, respondeu a crean&ccedil;a
+ desabridamente, para me servir mais tarde d'este len&ccedil;ol, quando
+ pela minha vez te mandar tambem para o hospital.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c23" id="c23"></a>O fato novo do sult&atilde;o
+ </h3>
+ <br /> Era uma vez um sult&atilde;o, que dispendia em vestuario todo o seu
+ rendimento.<br /> <br /> Quando passara revista ao exercito, quando ia aos
+ passeios ou ao theatro, n&atilde;o tinha outro fim sen&atilde;o mostrar os
+ seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como se diz d'um
+ rei: Est&aacute; no conselho; dizia-se d'elle: Est&aacute;-se a vestir. A
+ capital do seu reino era uma cidade muito alegre, gra&ccedil;as &aacute;
+ quantidade d'estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram l&aacute; um
+ dia dois larapios, que, dando-se por tecel&otilde;es, disseram que sabiam
+ fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. N&atilde;o s&oacute; eram
+ extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas al&eacute;m d'isso
+ os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade maravilhosa:
+ tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos aquelles que n&atilde;o
+ exercessem bem o seu emprego.<br /> <br /> --S&atilde;o vestuarios
+ impagaveis, disse comsigo o sult&atilde;o; gra&ccedil;as a elles, saberei
+ distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade dos
+ ministros. Preciso d'esse estofo!&raquo;<br /> <br /> E mandou em seguida
+ adiantar aos dois charlat&atilde;es <span class="pagenum">[69]</span> uma
+ quantia avultada, para que podessem come&ccedil;ar os trabalhos
+ immediatamente.<br /> <br /> Os homens levantaram com effeito dois teares, e
+ fingiram que trabalhavam, apesar de n&atilde;o haver absolutamente nada
+ nas lan&ccedil;adeiras. Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante;
+ mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando at&eacute;
+ &aacute; meia noite com os teares vasios.<br /> <br /> --&laquo;Preciso
+ saber se a obra vae adiantada&raquo;.<br /> <br /> Mas tremia de medo ao
+ lembrar-se que o estofo n&atilde;o podia ser visto pelos idiotas. E,
+ apesar de ter confian&ccedil;a na sua intelligencia, achou prudente em
+ todo o caso mandar alguem adiante.<br /> <br /> Todos os habitantes da
+ cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e ardiam em desejos
+ de verificar se seria exacto.<br /> <br /> --Vou mandar aos tecel&otilde;es
+ o meu velho ministro, pensou o sult&atilde;o; tem um grande talento, e por
+ isso ninguem p&oacute;de melhor do que elle avaliar o estofo.<br /> <br /> O
+ honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam com
+ os teares vasios.<br /> <br /> --Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os
+ olhos, n&atilde;o vejo absolutamente nada!&raquo; Mas no entanto calou-se.
+ Os dois tecel&otilde;es convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua
+ opini&atilde;o sobre os desenhos e as c&ocirc;res. Mostraram-lhe tudo, e o
+ velho ministro olhava, olhava, mas n&atilde;o via nada, pela ras&atilde;o
+ simplicissima de nada l&aacute; existir.<br /> <br /> --Meu Deus! pensou
+ elle, serei realmente estupido? &Eacute; necessario que ningu&eacute;m o
+ saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas l&aacute; confessar que
+ n&atilde;o vejo nada, isso &eacute; que eu n&atilde;o confesso.&raquo;<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[70]</span> --&laquo;Ent&atilde;o que lhe
+ parece?&raquo; perguntou um dos tecel&otilde;es:<br /> <br /> --&laquo;Encantador,
+ admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este desenho... estas
+ cores... magnifico!... Direi ao sult&atilde;o que fiquei completamente
+ satisfeito.&raquo;<br /> <br /> --&laquo;Muito agradecido, muito agradecido&raquo;,
+ disseram os tecel&otilde;es; e mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios,
+ fazendo-lhe d'elles uma descrip&ccedil;&atilde;o minuciosa. O ministro
+ ouviu attentamente, para ir depois repetir tudo ao sult&atilde;o.<br />
+ <br /> Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais
+ oiro; precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no
+ bolso, &eacute; claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso
+ trabalhavam sempre.<br /> <br /> Passado algum tempo, mandou o sult&atilde;o
+ um novo funccionario, homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando
+ estaria prompto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao
+ ministro: olhava, olhava e n&atilde;o via nada.<br /> <br /> --N&atilde;o
+ acha um tecido admiravel?&raquo; perguntaram os tratantes, mostrando o
+ magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente de
+ n&atilde;o existir.<br /> <br /> --Mas que diabo! eu n&atilde;o sou tolo!
+ dizia o homem comsigo. Pois n&atilde;o serei eu capaz de desempenhar o meu
+ lugar? &Eacute; exquisito! mas deixal-o, n&atilde;o o deixo eu.&raquo;<br />
+ <br /> Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admira&ccedil;&atilde;o
+ pelo desenho e o bem combinado das cores.<br /> <br /> --&Eacute; d'uma
+ magnificencia incomparavel, disse <span class="pagenum">[71]</span> elle
+ ao sult&atilde;o. E toda a cidade come&ccedil;ou a fallar d'esse tecido
+ extraordinario.<br /> <br /> Emfim o proprio sult&atilde;o quiz vel-o
+ emquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de pessoas
+ distinctas, entre as quaes se contavam os dois honrados funccionarios,
+ dirigiu-se para as officinas, em que os dois velhacos teciam
+ continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de especie alguma.<br />
+ <br /> --N&atilde;o acha magnifico? disseram os dois honrados
+ funccionarios. O desenho e as cores s&atilde;o dignos de vossa alteza.&raquo;<br />
+ <br /> E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali
+ estavam podessem ver alguma cousa.<br /> <br /> --Que &eacute; isto! disse
+ comsigo mesmo o sult&atilde;o, n&atilde;o vejo nada! &Eacute; horr&iacute;vel!
+ serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgra&ccedil;a
+ que me acontece!&raquo; Depois de repente exclamou: &laquo;&Eacute;
+ magnifico! Testemunho-vos a minha satisfa&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+ <br /> E meneou a cabe&ccedil;a com um ar satisfeito, e olhou para o tear,
+ sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito
+ olharam do mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e
+ no entanto repetiam como o sult&atilde;o: &laquo;&Eacute; magnifico!&raquo;
+ At&eacute; lhe aconselharam a que se apresentasse com o fato novo no dia
+ da grande prociss&atilde;o. &laquo;&Eacute; magnifico! &eacute;
+ encantador! &eacute; admir&aacute;vel!&raquo; exclamavam todas as bocas, e
+ a satisfa&ccedil;&atilde;o era geral.<br /> <br /> Os dois impostores foram
+ condecorados e receberam o titulo de fidalgos tecel&otilde;es.<br /> <br />
+ Na vespera do dia da prociss&atilde;o passaram a noite em claro,
+ trabalhando &agrave; luz de dezeseis velas. <span class="pagenum">[72]</span>
+ Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-o com umas grandes
+ tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio, e declararam, depois d'isto,
+ que estava o vestuario concluido.<br /> <br /> O sult&atilde;o com os seus
+ ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores levantando um bra&ccedil;o,
+ como para sustentar alguma cousa, disseram:<br /> <br /> &laquo;Eis as cal&ccedil;as,
+ eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha; &oacute; a
+ principal virtude d'este tecido.&raquo;<br /> <br /> --Decerto, respondiam
+ os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.<br /> <br /> --Se vossa alteza
+ se dignasse despir-se, disseram os larapios, provar-lhe-iamos o fato
+ deante do espelho.&raquo;<br /> <br /> O sult&atilde;o despiu-se, e os
+ tratantes fingiram apresentar-lhe as cal&ccedil;as, depois a casaca,
+ depois o manto. O sult&atilde;o tudo era voltar-se defronte do espelho.<br />
+ <br /> --Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortez&atilde;os.
+ Que desenho! que cores! que vestu&aacute;rio incomparavel!&raquo;<br />
+ <br /> Nisto entrou o gr&atilde;o-mestre de ceremonias.<br /> <br /> --Est&aacute;
+ &aacute; porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir &aacute;
+ prociss&atilde;o, disse elle.&raquo;<br /> <br /> --Bom! estou prompto,
+ respondeu o sult&atilde;o. Parece-me que n&atilde;o vou mal.&raquo;<br />
+ <br /> E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito
+ do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, n&atilde;o
+ querendo confessar que n&atilde;o viam absolutamente nada, fingiam arrega&ccedil;al-a.<br />
+ <br /> E, emquanto o sult&atilde;o caminhava altivo sob um <span
+ class="pagenum">[73]</span> docel deslumbrante, toda a gente na rua e
+ &aacute;s janellas exclamava: &laquo;Que vestuario magnifico! Que cauda t&atilde;o
+ graciosa! Que talhe elegante!&raquo; Ninguem queria dar a perceber, que n&atilde;o
+ via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. Nunca os
+ fatos do sult&atilde;o tinham sido t&atilde;o admirados.<br /> <br /> --Mas
+ parece que vae em cuecas&raquo;, observou um pequerrucho, ao collo do pae.<br />
+ <br /> --&Eacute; a voz da innocencia, disse o pae.<br /> <br /> --Ha ali uma
+ crean&ccedil;a que diz que o sult&atilde;o vae em cuecas.<br /> <br />
+ &laquo;Vae em cuecas! vae em cuecas!&raquo; exclamou o povo finalmente.<br />
+ <br /> O sult&atilde;o ficou muito afflicto porque lhe pareceu que
+ realmente era verdade. Entretanto tomou a energica resolu&ccedil;&atilde;o
+ de ir at&eacute; ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com
+ respeito a cauda imaginaria.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c24" id="c24"></a>Boa senten&ccedil;a
+ </h3>
+ <br /> Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma
+ quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil r&eacute;is
+ d'alvi&ccedil;aras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um
+ honrado camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e
+ disse:<br /> <br /> --Deviam ser oitocentos mil r&eacute;is, que foi a
+ quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu
+ amigo, que recebeste adiantados os cem mil r&eacute;is d'alvi&ccedil;aras:
+ estamos pagos por conseguinte.&raquo;<br /> <br /> O bom camponez, que nem
+ por sombras tocara no dinheiro, n&atilde;o podia nem devia contentar-se
+ com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a m&aacute;
+ f&eacute; do avarento, deu a seguinte senten&ccedil;a:<br /> <br /> --Um de
+ v&oacute;s perdeu oitocentos mil r&eacute;is; o outro encontrou um alforge
+ apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o
+ ultimo encontrou n&atilde;o p&oacute;de ser o mesmo a que o primeiro se
+ julga com direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
+ encontraste, <span class="pagenum">[75]</span> e guarda-o at&eacute; que
+ appare&ccedil;a o individuo que perdeu s&oacute;mente setecentos mil r&eacute;is.
+ E tu, o unico conselho que passo a dar-te, &eacute; que tenhas paciencia
+ at&eacute; que appare&ccedil;a alguem que tenha achado os teus oitocentos
+ mil r&eacute;is.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c25" id="c25"></a>Os animaes agradecidos
+ </h3>
+ <br /> Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a
+ quem perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este
+ respondeu:<br /> <br /> --&laquo;Senhor: eu sou um desgra&ccedil;ado, um
+ miseravel; nasci no vosso reino, e chamo-me <em>Ingratid&atilde;o</em>.&raquo;<br />
+ <br /> --&laquo;Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei,
+ tomava-te ao meu servi&ccedil;o.&raquo;<br /> <br /> O nosso homem prometteu
+ ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. Desde que chegaram a
+ palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se t&atilde;o esperto e t&atilde;o
+ solicito, que o rei affei&ccedil;oou-se-lhe de tal modo, que o nomeou seu
+ intendente, confiando-lhe a administra&ccedil;&atilde;o da sua casa.
+ Deslumbrado por uma fortuna t&atilde;o rapida, o seu orgulho desde ent&atilde;o
+ n&atilde;o conheceu limites; maltratava os inferiores, e n&atilde;o tinha
+ compaix&atilde;o dos desventurados.<br /> <br /> Ora, na visinhan&ccedil;a
+ do palacio havia uma floresta cheia d'animaes selvagens e perigosissimos.
+ O intendente mandou ahi fazer por toda a parte covas profundas, cobertas
+ com folhas, de modo que as feras, caindo dentro, podessem ser agarradas.
+ <span class="pagenum">[77]</span> Um dia que o intendente atravessava a
+ floresta, ia t&atilde;o absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que
+ se precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.<br /> <br /> Passado um
+ instante, caiu um le&atilde;o dentro do mesmo po&ccedil;o; caiu depois um
+ lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O governador,
+ ao ver-se em t&atilde;o extraordinaria companhia, ficou t&atilde;o
+ horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperan&ccedil;a
+ de salva&ccedil;&atilde;o lhe parecia inteiramente perdida, porque por
+ mais que gritasse, ninguem o vinha soccorrer.<br /> <br /> Esqueceu-nos
+ dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, chamado Antonio,
+ que todos os dias ia rachar lenha &agrave; floresta, para ganhar o p&atilde;o
+ necessario &aacute; sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem l&aacute;
+ foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar n&atilde;o longe da
+ cova em que ca&iacute;ra o intendente, cujos gritos d'afflic&ccedil;&atilde;o
+ n&atilde;o tardou a ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem
+ era que estava ali.<br /> <br /> --&laquo;Sou o governador do palacio do
+ rei, e, se me tirares d'aqui, prometto encher-te de riquezas; estou em
+ companhia d'um le&atilde;o, d'um lobo e d'uma enorme serpente.&raquo;<br />
+ <br /> --&laquo;Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, n&atilde;o
+ tendo para sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho;
+ bastava um dia perdido para me causar um grande desarranjo; v&ecirc; l&aacute;
+ pois, se cumpres a tua promessa?<br /> <br /> O intendente continuou:<br />
+ <br /> --&laquo;Pela f&eacute; que devo a Deus e a el-rei nosso <span
+ class="pagenum">[78]</span> senhor, juro-te que cumprirei a minha palavra.&raquo;<br />
+ <br /> Confiado n'isto o rachador de lenha foi &agrave; cidade, e voltou
+ com uma corda muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O le&atilde;o
+ atirou-se a ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro
+ julgava que era o intendente.<br /> <br /> Quando chegou acima, o le&atilde;o
+ agradeceu ao seu salvador com a maior amabilidade, e foi-se embora
+ &agrave; procura de jantar, porque tinha fome.<br /> <br /> Antonio deitou
+ outra vez a corda ao fundo do po&ccedil;o, e, julgando tirar o governador,
+ enganou-se, porque era o lobo; &aacute; terceira vez subiu a serpente; foi
+ necess&aacute;rio fazer uma quarta tentativa, para sair o governador. Este
+ n&atilde;o perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr para o
+ palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou &agrave; mulher tudo o
+ que se tinha passado, n&atilde;o lhe esquecendo, &eacute; claro, as
+ brilhantes promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manh&atilde;,
+ foi o pobre homem bater &agrave; porta do palacio. O porteiro
+ perguntou-lhe o que queria.<br /> <br /> --&laquo;Fa&ccedil;a-me o favor,
+ respondeu o rachador de dizer a s.ex.&ordf; o intendente que o homem com
+ quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.&raquo;<br /> <br /> O
+ porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:<br />
+ <br /> --&laquo;Vae dizer a esse homem, que eu n&atilde;o vi ninguem na
+ floresta; que se ponha a andar, porque o n&atilde;o conhe&ccedil;o.&raquo;<br />
+ <br /> O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.<br />
+ <br /> O pobre homem tornou para casa mui descor&ccedil;oado, <span
+ class="pagenum">[79]</span> e contou &aacute; mulher a odiosa perfidia de
+ que tinha sido victima.<br /> <br /> A mulher disse-lhe:<br /> <br /> --&laquo;Tem
+ paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e foi
+ talvez por isso que te n&atilde;o p&ocirc;de receber.&raquo;<br /> <br />
+ Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperan&ccedil;as.<br />
+ <br /> Na manh&atilde; seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo &aacute;
+ porta do palacio. Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que
+ n&atilde;o tornasse ali a apparecer, quando n&atilde;o ver-se-hia obrigado
+ a empregar meios violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:<br />
+ <br /> --&laquo;Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez
+ Deus o inspire melhor. E se assim n&atilde;o for, ainda que te custe, n&atilde;o
+ penses mais n'isso.&raquo;<br /> <br /> No dia seguinte o bom do homem
+ voltou &aacute; carga; e tendo o porteiro consentido &aacute; for&ccedil;a
+ de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este encolerisado
+ atirou-se praguejando f&oacute;ra do quarto, e crivou o pobre homem d'uma
+ tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do ch&atilde;o.
+ A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um burro,
+ poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas levaram-lhe seis
+ mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se obrigado a contrair
+ dividas para pagar ao medico. Quando finalmente tinha recobrado algumas
+ for&ccedil;as, voltou ao bosque segundo o costume para fazer alguma lenha.
+ Apenas l&aacute; chegou, appareceu-lhe o le&atilde;o, que elle tinha
+ ajudado a sair do po&ccedil;o. O le&atilde;o conduzia um burro diante de
+ si, e <span class="pagenum">[80]</span> este burro estava carregado de
+ saccos cheios de preciosidades. O le&atilde;o, vendo Antonio, parou e
+ inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso agradecimento. Depois
+ d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal de que ficasse com o
+ jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal para casa, abriu os
+ saccos, e viu que estava rico.<br /> <br /> No dia seguinte, voltando de
+ novo &aacute; floresta, appareceu-lhe o lobo, que o ajudou no seu
+ trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto lhe era agradecido.
+ Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado o burro com a lenha,
+ viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha tirado do f&ocirc;jo, e
+ que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em que brilhavam tr&ecirc;s
+ c&ocirc;res,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a serpente chegou ao
+ p&eacute; do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto d'elle, e depois
+ dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio levantou a pedra,
+ examinou-a por todos os lados, para ver que propriedade ou virtude ella
+ teria. Para isto foi ter com um velho, afamado pela sua habilidade em
+ decifrar o que diziam os astros. Este, assim que viu a pedra,
+ offereceu-lhe por ella uma grande quantia. Antonio respondeu-lhe que a n&atilde;o
+ queria vender, mas simplesmente saber se seria boa.<br /> <br /> O velho
+ respondeu:<br /> <br /> --&laquo;S&atilde;o tr&ecirc;s as virtudes d'esta
+ pedra: abundancia continua, alegria imperturbavel e luz sem trevas. Se
+ algu&eacute;m t'a comprar por menos dinheiro do que vale, tornar&aacute;
+ immediatamente para a tua m&atilde;o.&raquo;<br /> <br /> Antonio ficou
+ muito contente com esta resposta, <span class="pagenum">[81]</span>
+ agradeceu ao velho da sciencia maravilhosa, e correu a contar &aacute;
+ mulher a sua felicidade. Como se imagina, gra&ccedil;as &aacute; virtude
+ da famosa pedra, n&atilde;o lhe faltaram d'ahi em diante, nem honras nem
+ riquezas.<br /> <br /> Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas
+ prosperidades, mandou chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o
+ precioso talisman.<br /> <br /> Antonio, vendo que semelhante desejo era uma
+ ordem, respondeu:<br /> <br /> --&laquo;Devo prevenir a vossa magestade de
+ que, se esta pedra me n&atilde;o for paga pelo que vale, tornar&aacute;
+ ella mesma para o meu poder.&raquo;<br /> <br /> --&laquo;Hei de pagar-t'a
+ bem, disse o rei.&raquo;<br /> <br /> E mandou-lhe dar trinta mil libras em
+ oiro. No dia seguinte de manh&atilde;, Antonio achou outra vez a pedra em
+ cima da mesa; e a mulher sabendo isto disse-lhe:<br /> <br /> --&laquo;Torna
+ a leval-a ao rei immediatamente; n&atilde;o v&aacute; elle persuadir-se
+ que lh'a furtaste.&raquo;<br /> <br /> O nosso homem seguiu este conselho,
+ e, quando chegou &aacute; presen&ccedil;a de sua magestade, pediu-lhe que
+ lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra preciosa.<br /> <br /> --&laquo;Mandei-a
+ metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro, fechado com sete
+ chaves, disse o rei.&raquo;<br /> <br /> Antonio mostrou-lhe ent&atilde;o a
+ joia preciosa, e o rei ficou extraordinariamente espantado, e quiz saber
+ como elle tinha adquirido semelhante thesouro.<br /> <br /> Antonio
+ contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratid&atilde;o do governador e o
+ reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
+ intendente, e disse-lhe:<br /> <br /> <span class="pagenum">[82]</span> --&laquo;Homem
+ preverso, com justo motivo te puzeram o nome de <em>Ingratid&atilde;o</em>,
+ porque &eacute;s mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e
+ pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justi&ccedil;a ser&aacute;
+ feita. Dou a Antonio as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o
+ castigo de seres enforcado.&raquo;<br /> <br /> Admiraram todos a senten&ccedil;a
+ do rei, e Antonio desempenhou as suas altas func&ccedil;&otilde;es com
+ tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido para o
+ substituir, e reinou pacificamente durante longos annos gloriosos.<br />
+ <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c26" id="c26"></a>O ermit&atilde;o
+ </h3>
+ <br /> Um homem, animado pela mais ardente cren&ccedil;a religiosa,
+ deliberou retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente
+ ao trabalho da sua salva&ccedil;&atilde;o. Jejuando sempre, orando,
+ ciliciando-se, os seus pensamentos n&atilde;o se desviavam nunca da id&eacute;a
+ de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos annos, uma noite
+ lembrou-se de que j&aacute; tinha merecido um logar glorioso no paraiso, e
+ podia ser contado entre os santos mais notaveis.<br /> <br /> Na noite
+ seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:<br /> <br /> --Ha no
+ mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola e
+ cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.<br /> <br />
+ O ermit&atilde;o, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou
+ no seu bord&atilde;o, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:<br />
+ <br /> --Irm&atilde;o, dize-me que <span class="pagenum">[84]</span> boas
+ obras fizeste, e por meio de que ora&ccedil;&otilde;es e penitencias te
+ tornaste agradavel a Deus.<br /> <br /> --Ora, respondeu-lhe o musico,
+ abaixando a cabe&ccedil;a, santo padre, n&atilde;o zombes de mim. Nunca
+ fiz boas obras, e quanto a ora&ccedil;&otilde;es n&atilde;o as sei, pobre
+ de mim, que sou um peccador. O que fa&ccedil;o &eacute; andar de casa em
+ casa a divertir os outros.&raquo;<br /> <br /> O austero ermit&atilde;o
+ continuou a insistir:<br /> <br /> --Estou certo que, no meio da tua
+ existencia vagabunda, praticaste algum acto de virtude.&raquo;<br /> <br />
+ --Em verdade n&atilde;o poderia citar nem um s&oacute;.&raquo;<br /> <br />
+ --Mas ent&atilde;o como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
+ loucamente como os que exercem a tua profiss&atilde;o? Dissipaste
+ frivolamente o teu patrimonio e o producto do teu officio?&raquo;<br />
+ <br /> --N&atilde;o; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo
+ marido e filhos tinham sido condemnados &aacute; escravid&atilde;o para
+ pagar uma divida. Essa mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a.
+ Recolhi-a em minha casa, protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que
+ possuia para resgatar a sua familia, e levei-a &aacute; cidade, onde ella
+ devia encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem n&atilde;o
+ teria feito outro tanto?&raquo;<br /> <br /> A estas palavras o ermit&atilde;o
+ poz-se a chorar, e exclamou:<br /> <br /> --Nos meus setenta annos de solid&atilde;o
+ nunca pratiquei uma obra t&atilde;o meritoria, e apezar disso chamo-me o
+ homem de Deus, emquanto que tu n&atilde;o passas d'um pobre musico.&raquo;<br />
+ <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c27" id="c27"></a>Carlos Magno e o abade de S. Gall
+ </h3>
+ <br /> Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S.
+ Gall, pregui&ccedil;osamente reclinado sobre almofadas &aacute; porta da
+ abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens
+ energicos e activos, e o abade era indolente. Al&eacute;m d'isso o
+ imperador tinha mais d'um motivo de queixa contra elle.<br /> <br /> --Bons
+ dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter &aacute;
+ sua esclarecida ras&atilde;o tres perguntas, &aacute;s quaes ter&aacute; a
+ bondade de me responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sess&atilde;o
+ solemne do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu
+ valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao
+ mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+ rev.<sup>ma</sup> vier &aacute; minha presen&ccedil;a, pensamento que deve
+ ser um erro. Trate d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, ali&aacute;s
+ deixa de ser abade de S. Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um
+ burro com a cara voltada para o rabo.&raquo;<br /> <br /> O abade n&atilde;o
+ sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores
+ mais <span class="pagenum">[86]</span> famosos pela sua sciencia, n&atilde;o
+ lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a &eacute;poca
+ fatal aproximava-se; j&aacute; n&atilde;o faltava sen&atilde;o um mez, j&aacute;
+ n&atilde;o faltavam sen&atilde;o semanas, e afinal s&oacute; dias. O
+ abade, que n'outro tempo era gordo e anafado, estava magro como um
+ esqueleto. Perd&egrave;ra o somno e o appetite. Andava errante nos bosques
+ lamentando a sua desgra&ccedil;a, quando se encontrou com o seu pastor.<br />
+ <br /> --Bons dias senhor abade. Parece que est&aacute; mais magro! Est&aacute;
+ doente?&raquo;<br /> <br /> --Estou, meu caro Felix, estou muito doente.&raquo;<br />
+ <br /> --Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.&raquo;<br />
+ <br /> --Infelizmente n&atilde;o s&atilde;o ervas que eu preciso, mas
+ resposta &aacute;s minhas tres perguntas.&raquo;<br /> <br /> --&Eacute; ent&atilde;o
+ latim?&raquo;<br /> <br /> --N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; latim, sen&atilde;o
+ os doutores tinham-me arranjado tudo.&raquo;<br /> <br /> --Visto que n&atilde;o
+ &eacute; latim, queira v. rev.<sup>ma</sup> dizer-me o que &eacute;: minha
+ m&atilde;e era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.&raquo;<br />
+ <br /> Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o
+ barrete ao ar, e disse-lhe:<br /> <br /> --Se &eacute; apenas isso, eu me
+ encarrego de responder por si, e v. rev.<sup>ma</sup> p&oacute;de
+ continuar a engordar; mas para isso &eacute; necessario que eu vista o seu
+ habito.&raquo;<br /> <br /> Quando chegou o dia, o pastor disfar&ccedil;ado
+ com o habito do abade de S. Gall, foi introduzido na sala onde o imperador
+ presidia o conselho imperial.<br /> <br /> --Ent&atilde;o, senhor abade,
+ parece que est&aacute; mais magro, deu-lhe muito que pensar a chave do
+ <span class="pagenum">[87]</span> enigma? Vamos l&aacute; a ver a primeira
+ pergunta: Quanto valho eu em dinheiro?&raquo;<br /> <br /> --Senhor, o filho
+ de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por trinta dinheiros, sua
+ magestade vale &aacute; justa vinte e nove, s&oacute; um dinheiro menos.&raquo;<br />
+ <br /> --Bravo, senhor abade, a resposta &eacute; habil, e na realidade n&atilde;o
+ posso deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos &aacute; segunda
+ pergunta, n&atilde;o ha de ser t&atilde;o facil dar a resposta. Vamos l&aacute;
+ a ver: quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?&raquo;<br /> <br />
+ --Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
+ constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro
+ horas.&raquo;<br /> <br /> --Decididamente, v. rev.<sup>ma</sup> &eacute; um
+ grande finorio, e d'esta vez, confesso-me vencido; mas a terceira, n&atilde;o
+ d'essas &aacute; que se responde com supposi&ccedil;&otilde;es. Quem lhe
+ ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha de provar que este
+ pensamento &eacute; um erro? Tem a palavra senhor abade.&raquo;<br /> <br />
+ --Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; est&aacute;
+ enganado, porque eu sou o seu pastor.&raquo;<br /> <br /> --Mas ent&atilde;o
+ tu &eacute; que deves ser o abade de S. Gall, e desde j&aacute; o ficas
+ sendo.&raquo;<br /> <br /> --N&atilde;o sei latim, mas, se vossa magestade
+ quer fazer-me um favor, peco-lhe outra cousa.&raquo;<br /> <br /> --N&atilde;o
+ tens mais que fallar.&raquo;<br /> <br /> --Pe&ccedil;o a vossa magestade
+ que perdoe ao meu amigo.&raquo;<br /> <br /> Carlos Magno n&atilde;o era
+ homem que faltasse &aacute; sua palavra.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c28" id="c28"></a>A boneca
+ </h3>
+ <br /> Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma
+ boneca!<br /> <br /> N&atilde;o ha muitos annos, mas ainda n&atilde;o era a
+ cordoaria do Porto o ameno jardim, onde a infancia folga por entre
+ macissos de flores e sob o sorriso do sol, sem que lhe ennegre&ccedil;a o
+ espirito a vista dos dois monumentos, que a meu ver symbolisam as duas
+ mais horriveis calamidades, que podem aniquillar um homem--o hospital e a
+ cadeia!--ainda n&atilde;o ha muitos annos, repito, estava eu, uma noite,
+ encostado a uma barraca da feira, divertindo-me a meu modo.<br /> <br /> Can&ccedil;ado
+ das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella especie de
+ lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo, quando novos
+ personagens me chamaram a atten&ccedil;&atilde;o.<br /> <br /> Eram os meus
+ visinhos <em>ricos</em>.<br /> <br /> Aqui &eacute; preciso uma rapida
+ explica&ccedil;&atilde;o.<br /> <br /> Das fam&iacute;lias da minha visinhan&ccedil;a,
+ s&oacute; conhe&ccedil;o tres.<br /> <br /> Qual d'estas tres familias ser&aacute;
+ mais feliz?...<br /> <br /> Pelo que tenho notado, n&atilde;o tem que
+ invejar umas &aacute;s outras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[89]</span>
+ S&atilde;o todas felizes; cada qual a seu modo.<br /> <br /> Vi, pois,
+ chegar os meus visinhos <em>ricos</em>.<br /> <br /> Parou o carro, o creado
+ saltou da almofada e veio, de chap&eacute;u na m&atilde;o e dorso
+ ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou, tomou nos
+ bra&ccedil;os a filhinha e depol-a no ch&atilde;o, e offerecendo, em
+ seguida, a m&atilde;o &aacute; esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se
+ com ella e com a menina para a barraca onde eu estava.<br /> <br /> N&atilde;o
+ havia ali segredo a surprehender.<br /> <br /> Havia um homem, exemplar como
+ marido, rico, doido pela filha, e que parecia agradecer &aacute;quella
+ formosa crian&ccedil;a a manifesta&ccedil;&atilde;o de qualquer desejo.<br />
+ <br /> No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a
+ felicidade de dez crian&ccedil;as menos abastadas.<br /> <br /> Tinha o
+ necessario para montar completamente a casa d'uma boneca... <em>rica</em>.<br />
+ <br /> Faltava apenas a dona da casa--a boneca.<br /> <br /> Todo risos e
+ atten&ccedil;&otilde;es, o logista apresentou o que tinha de melhor.<br />
+ <br /> Depois de muita hesita&ccedil;&atilde;o e de, j&aacute; com os
+ olhos, j&aacute; com a voz, consultar a mam&atilde;, a gentil crean&ccedil;a
+ acabou por escolher uma magnifica boneca de dois palmos d'altura, com
+ cabello em <em>bandeaux</em> e olhos azues.<br /> <br /> Uma boneca como as
+ outras: cabe&ccedil;a e collo de massa, corpo de pellica recheada, bra&ccedil;os
+ e pernas de p&aacute;u.<br /> <br /> Uma vive na loja da casa, que habito.
+ &Eacute; uma tribu de crian&ccedil;as, que fazem o martyrio e a alegria da
+ pobre m&atilde;e, e tem por chefe um honrado sapateiro.<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[90]</span> Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam
+ encantadores; assim, parecem anjos, caidos do c&eacute;o sobre um monte de
+ lama.<br /> <br /> S&atilde;o os meus visinhos <em>pobres</em>.<br /> <br /> A
+ segunda comp&otilde;e-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa
+ immediata.<br /> <br /> &Eacute; como se costuma dizer, gente <em>que vae
+ muito bem com a sua vida</em>.<br /> <br /> A filha que ter&aacute; dez
+ annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas, cuja solidez a gente
+ gosta de experimentar com o dedo, e que resistem &agrave; press&atilde;o.<br />
+ <br /> S&atilde;o os meus visinhos <em>remediados</em>.<br /> <br /> A
+ terceira &eacute; a dos meus visinhos <em>ricos</em>.<br /> <br /> Casa
+ nobre, jardim espa&ccedil;oso, cavallos, creados, nome inscripto nas
+ listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+ estado--nada falta &aacute;quella ditosa gente!<br /> <br /> Comp&otilde;e-se
+ egualmente de marido, mulher e filha.<br /> <br /> Que formosa crian&ccedil;a!...
+ Ter&aacute; oito annos.<br /> <br /> Franzina e pallida, com os cabellos
+ negros, os olhos grandes e scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas
+ m&atilde;os de dedos compridos e esguios, terminados por unhas d'uma c&ocirc;r
+ de rosa transparente, que n&atilde;o sinta antecipada inveja do feliz
+ namorado--provavelmente ainda a crescer--que hade um dia ter o direito de
+ lh'as cobrir de beijos.<br /> <br /> Feita a compra, o pai pagou, chamou o
+ creado, e este mudou todas aquellas preciosidades de sobre o balc&atilde;o
+ da barraca para dentro do carro.<br /> <br /> A boneca teve a honra de ser
+ transportada pela aristocratica crian&ccedil;a.<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[91]</span> Sa&iacute; d'ali, logo que o trem rodou, e fui
+ fazendo at&eacute; casa variadissimas considera&ccedil;&otilde;es,
+ suggeridas pela quasi indiferen&ccedil;a, com que aquella menina receb&egrave;ra
+ brinquedos, que representavam um par de moedas.<br /> <br /> Que contraste
+ com os olhares de cubi&ccedil;a, com que outras raparigas da mesma idade
+ namoravam uma d'estas bonecas de cabe&ccedil;a de panno, horrivel
+ artefacto portuguez, em que os olhos s&atilde;o representados por dois
+ pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a
+ boca por outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de l&atilde;
+ preta!<br /> <br /> Quando cheguei a casa, j&aacute; na dos meus visinhos
+ remediados n&atilde;o havia luz.<br /> <br /> Na dos meus visinhos <em>pobres</em>,
+ o pai batia a sola, cantando ao som de tres assobios e duas campainhas de
+ barro, com que os anjos, por lavar, provocavam os ralhos da m&atilde;e.<br />
+ <br /> Quando, no dia seguinte, cheguei &aacute; janella, seriam onze horas
+ da manh&atilde;.<br /> <br /> Na rua agenciavam nova camada de immundicie os
+ filhos do sapateiro; na casa immediata n&atilde;o se via ninguem--estava a
+ pequena na mestra; no palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla
+ pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar,
+ com auxilio d'uma linha, uma magnifica <em>caleche</em> descoberta, puxada
+ por cavallos brancos.<br /> <br /> Dentro da <em>caleche</em> pavoneava-se a
+ boneca opulentamente vestida.<br /> <br /> --&laquo;Ahi est&aacute; a tua
+ caricatura, minha feiticeira!...&raquo;--disse eu de mim para mim. &laquo;Ensaias
+ <span class="pagenum">[92]</span> nas bonecas o que v&ecirc;s no mundo a
+ que pertences!... Est&aacute;s a aprender a copiar... Sempre este
+ mundo!...&raquo;<br /> <br /> Retirei-me da janella.<br /> <br /> Durante uma
+ semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.<br /> <br /> A boneca
+ ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se vestia tres e
+ quatro vezes!<br /> <br /> Ao que eu, por&eacute;m, achava mais gra&ccedil;a,
+ era ao respeito com que a dona a tratava!<br /> <br /> Chamava-lhe sr.<sup>a</sup>
+ D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente com a boneca um
+ d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que se falla de tudo,
+ sem se dizer coisa alguma.<br /> <br /> Um dia,--estava eu de costas
+ voltadas para a janella dos meus visinhos <em>ricos</em>--ouvi um grito de
+ susto.<br /> <br /> Era devido a um accidente, a que est&aacute; sujeito
+ quem anda de carro.<br /> <br /> Volt&aacute;ra-se este, e a boneca ca&iacute;ra,
+ ferindo a fronte na pedra da janella.<br /> <br /> O primeiro movimento da
+ pequena foi beijar e prantear a victima; vendo, por&eacute;m, que a ferida
+ havia for&ccedil;osamente de deixar cicatriz, e lembrando-se de que s&oacute;
+ lhe bastava querer, para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos p&eacute;s
+ e ia atiral-a com despeito &aacute; rua, quando mais perto de mim bradou
+ voz timida e suplicante:<br /> <br /> &laquo;N&atilde;o atire!... D&ecirc;-m'a.&raquo;<br />
+ <br /> Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu n&atilde;o d&eacute;ra
+ f&eacute; at&eacute; ent&atilde;o.<br /> <br /> Assim invocada, a menina <em>rica</em>
+ franziu levemente <span class="pagenum">[93]</span> as sobrancelhas e lan&ccedil;ou
+ um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.<br /> <br /> Vendo
+ uma crian&ccedil;a, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
+ encolhendo os hombros, respondeu:<br /> <br /> --&laquo;J&aacute; n&atilde;o
+ presta!... Est&aacute; esmurrada!...&raquo;<br /> <br /> --&Eacute; o
+ mesmo!... D&aacute;-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de cubi&ccedil;a.<br />
+ <br /> --&laquo;Dou...&raquo;--volveu a rica, encolhendo novamente os
+ hombros.<br /> <br /> E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a
+ boneca nas m&atilde;os da visinha, que tremia, receiosa de que aquelle
+ thesouro fosse despeda&ccedil;ar-se nas lages da rua.<br /> <br /> Fugiram
+ ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a outra,
+ para mostrar &aacute; m&atilde;e a que ella ainda n&atilde;o podia
+ acreditar, que fosse sua!<br /> <br /> Por espa&ccedil;o de mezes foi a
+ boneca a principal occupa&ccedil;&atilde;o da nova dona.<br /> <br /> A
+ pobre perd&ecirc;ra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro
+ vezes em quatro horas!... J&aacute; lhe n&atilde;o davam excellencia!
+ Chamavam-lhe sr.<sup>a</sup> D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos,
+ do desmazello da creada, da missa das almas, de coisas finalmente,
+ completamente estranhas para ella!<br /> <br /> E a desgra&ccedil;ada perdia
+ as c&ocirc;res; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azues; mas o que
+ mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais
+ escura: parecia uma nodoa, um estygma!<br /> <br /> Nos primeiros tempos,
+ emquanto durou o vestido, <span class="pagenum">[94]</span> que trouxera
+ no corpo, ainda n&atilde;o poderia enganar olhos pouco conhecedores.<br />
+ <br /> N&atilde;o tardou, por&eacute;m, que arrebiques de m&aacute;o gosto,
+ fitas velhas, rendas amarelladas, chap&eacute;os impossiveis, viessem
+ contrastar com a elegancia do vestido. Dava ares de se ter equipado ao
+ acaso, na loja d'uma adeleira.<br /> <br /> Mas o vestido foi-se tornando
+ velho; desappareceu o brilho, e com elle as ondula&ccedil;&otilde;es do
+ _moir&eacute;_, at&eacute; que, um bello dia, vi a boneca vestida de
+ cassa---no inverno!--chaile e manta na cabe&ccedil;a.<br /> <br /> Muito mal
+ lhe ficava aquillo!... &Aacute;quella boneca custava-lhe de certo o v&ecirc;r-se
+ t&atilde;o mal arranjada.<br /> <br /> Eu retirei-me da janella soltando um
+ suspiro, e balbuciei:<br /> <br /> --&Eacute; justo!... Cada qual segundo as
+ suas posses.&raquo;<br /> <br /> Por esse tempo, entrei em rela&ccedil;&otilde;es
+ com o meu visinho sapateiro.<br /> <br /> O honrado homem soubera, que eu me
+ queixara da bulha, que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveit&agrave;ra
+ a primeira occasi&atilde;o, para me pedir desculpa.<br /> <br /> Vendo-me
+ conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de
+ n&oacute;s e, desde ent&atilde;o, nunca saio de casa nem entro, sem grave
+ risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.<br />
+ <br /> Entre os filhos do sapateiro, por&eacute;m, ha uma pequenita d'onze
+ annos, com quem sympathisei logo &aacute; primeira vista.<br /> <br />
+ Chama-se Maria.<br /> <br /> Por um d'estes acasos da Providencia, que
+ parece <span class="pagenum">[95]</span> &aacute;s vezes comprazer-se em
+ crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irm&atilde;os.<br />
+ <br /> Acostumado &aacute;s travessuras e desalinho dos outros filhos do
+ sapateiro, fiquei dev&eacute;ras pasmado quando o pai m'a apresentou.<br />
+ <br /> E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella crian&ccedil;a,
+ porque havia verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse:
+ &laquo;Esta &eacute; a minha Maria!&raquo;<br /> <br /> E tinha raz&atilde;o!<br />
+ <br /> N&atilde;o podia ser mais discreta do que j&aacute; n'esse tempo
+ era.<br /> <br /> --&Eacute; quem vale &aacute; m&atilde;e!...--accrescentou
+ o velho.&raquo;--Ali, onde a v&ecirc;, faz o servi&ccedil;o d'uma
+ mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve doente--bem pensei
+ que n&atilde;o arribasse!--a pequena era quem cosinhava e olhava pelos irm&atilde;os!...
+ E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella pequena esteve tres dias
+ sem se deitar... ali... ao p&eacute; da m&atilde;e! Foi preciso eu
+ obrigal-a, que ella n&atilde;o a queria deixar!...&raquo;<br /> <br /> E o
+ desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que, havia
+ muito, hesitava sobre se sim ou n&atilde;o se devia despenhar.<br /> <br />
+ Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
+ cabe&ccedil;a coberta por um len&ccedil;o branco.<br /> <br /> Desde que o
+ pai me deu t&atilde;o boas informa&ccedil;&otilde;es da rapariga, nunca
+ mais passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias
+ &aacute; pequena.<br /> <br /> Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a
+ Mariquitas, com uma boneca deitada nos joelhos.<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[96]</span> --Eu conhe&ccedil;o aquella boneca!...--disse
+ eu de mim para mim.<br /> <br /> E, n&atilde;o podendo resistir &aacute;
+ curiosidade, bradei:<br /> <br /> --&Oacute; Maricas!... Quem te deu a
+ boneca?...<br /> <br /> Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita,
+ c&oacute;rando de prazer.<br /> <br /> Era escusado dizer-m'o.<br /> <br />
+ Maria pegara na boneca e volt&aacute;ra-a de face para mim. N&atilde;o
+ podia duvidar... Era ella; l&aacute; estava a mancha, o estygma cada vez
+ mais visivel na fronte.<br /> <br /> De tempos a tempos, nas raras horas de
+ descan&ccedil;o, Maria entretinha-se com ella.<br /> <br /> --Quem te viu e
+ quem te v&ecirc;!...--pensava eu.<br /> <br /> &Aacute;s vezes, se Maria se
+ descuidava e os irm&atilde;os lh'a podiam apanhar, que tratos que sofria a
+ desgra&ccedil;ada!<br /> <br /> Ro&ccedil;ada por aquellas m&atilde;os, de
+ que um carvoeiro se envergonharia, empregada como pella, submettida a
+ torturas, era, ainda assim, singularissimo o aspecto da triste!<br /> <br />
+ Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a
+ fraternisar com o povo.<br /> <br /> A misera mud&aacute;ra mais uma vez de
+ nome!...<br /> <br /> De sr.<sup>a</sup> D. Anna passara a ser sr.<sup>a</sup>
+ Rosinha e tratavam-n'a por vocemec&ecirc;.<br /> <br /> Trajava vestido de
+ chita, capote velho de panno verde e len&ccedil;o na cabe&ccedil;a.<br />
+ <br /> Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava
+ com a boneca.<br /> <br /> Esta, umas vezes, representava o papel de mulher
+ casada, e Maria, encarregando-se de perguntar e responder por ella,
+ obrigava a pobre boneca a lastimar-se por estar tudo t&atilde;o caro, por
+ haver <span class="pagenum">[97]</span> falta de trabalho, por ter os
+ filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que mais familiares eram
+ &aacute; pequena.<br /> <br /> Outra vezes passava a boneca a ser creada de
+ servir. Reprehendiam-n'a, mandavam-n'a buscar agua &aacute; fonte,
+ pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a despedir.<br /> <br />
+ J&aacute; o leitor v&ecirc; que, apesar da bondade Maria, deix&aacute;ra
+ de ser feliz.<br /> <br /> Iam longe os bons tempos em que ella, rica,
+ morava no palacio visinho!<br /> <br /> Desmaiada de c&ocirc;res, quasi
+ perdido o cabello, semi-apagados os olhos, desfeito o carmim dos labios, a
+ boneca n&atilde;o promettia longa dura&ccedil;&atilde;o.<br /> <br /> Foi
+ este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi, tentando em
+ v&atilde;o agradar &aacute; ultima dona que o seu destino lhe dera.<br />
+ <br /> Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!<br /> <br /> Um
+ dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
+ espadanava em cach&atilde;o para cima dos passeios, arastando na passagem
+ mil immundicies.<br /> <br /> Eu estava &aacute; porta de casa, esperando
+ que a chuva cessasse, e olhava melancolicamente para a agua negra, que
+ corria. Nisto ouvi um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei
+ machinalmente o rosto... Um objecto, arremessado de dentro da loja,
+ atravessou o espa&ccedil;o voando, e foi cair no leito do enxurro...<br />
+ <br /> Olhei... Era a boneca!...<br /> <br /> A misera, arrastada pela agua,
+ vogou rua abaixo at&eacute; esbarrar n'uma pedra; mas o redemoinho
+ envolveu-a, <span class="pagenum">[98]</span> e, depois de a fazer girar
+ tres ou quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, tra&ccedil;ado
+ entre a pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, at&eacute;
+ ir sumir-se nas profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na
+ passagem!<br /> <br /> Ser&aacute; pieguice, ser&aacute; o que o leitor
+ quizer; mas, confesso-lhe, que me impressionou o fim da pobre boneca.<br />
+ <br /> Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado &aacute;
+ vidra&ccedil;a do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:<br />
+ <br /> --Porque deitaste f&oacute;ra a boneca, Maricas!?<br /> <br /> --N&atilde;o
+ fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...<br />
+ <br /> --E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...<br /> <br />
+ --Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
+ feia!...<br /> <br /> Curvei a cabe&ccedil;a ante aquella raz&atilde;o, e
+ segui o meu caminho.<br /> <br /> Pobre boneca!<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c29" id="c29"></a>Inconveniente da riqueza
+ </h3>
+ <br /> Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi
+ surprehendido pela noite &aacute; entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado
+ para outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam j&aacute;
+ todas fechadas, n&atilde;o se via nem um raio de luz atravez das janellas,
+ tudo estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do
+ mangual com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz.
+ Nosso Senhor dirigiu-se para l&aacute;, chegou ao p&eacute; do muro d'uma
+ quinta, e bateu &aacute; porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.<br />
+ <br /> --Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta
+ noite? N&atilde;o se havia de arrepender.&raquo;<br /> <br /> E
+ accrescentou:<br /> <br /> --Visto que j&aacute; todos est&atilde;o
+ deitados, para que &eacute; que voc&ecirc; est&aacute; ainda a trabalhar?&raquo;<br />
+ <br /> --Ora, respondeu o camponez, soube hontem &aacute; noite que ia ser
+ perseguido por um credor desapiedado, se lhe n&atilde;o pagasse &aacute;manh&atilde;
+ o que lhe devo, portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo
+ que colhi, para o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto
+ n&atilde;o nos fica nada, <span class="pagenum">[100]</span> e n&atilde;o
+ sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus quizer!&raquo;<br />
+ <br /> Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a m&atilde;o
+ pelos olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve d&oacute; d'elle, e
+ disse-lhe:<br /> <br /> --&laquo;N&atilde;o desanimes. Quando te pedi
+ hospitalidade, disse-te que n&atilde;o te havias d'arrepender de m'a ter
+ dado. Vou provar-t'o.&raquo;<br /> <br /> Pegou na candeia, que estava
+ suspensa n'uma das traves do celleiro, e approximou-a do trigo.<br /> <br />
+ --Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a
+ tudo!&raquo;<br /> <br /> Mas no mesmo instante, da palha, que elles
+ receiavam ver inflammar-se, de cada espiga, desceu uma chuva de gr&atilde;os
+ prodigiosa. &Aacute; vista d'um tal milagre os camponezes maravilhados
+ cairam de joelhos.<br /> <br /> --Visto que foste caritativo, disse Jesus,
+ visto que recebeste na tua pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como
+ um pobre mendigo, ser&aacute;s recompensado. Foi Deus que entrou na tua
+ fazenda, &eacute; Deus que te enriquece.&raquo;<br /> <br /> Dito isto
+ desappareceu.<br /> <br /> E a chuva dos gr&atilde;os n&atilde;o parou em
+ toda a noite, e fez um monte t&atilde;o alto como a egreja.<br /> <br /> O
+ camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella
+ casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e seus
+ filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que se
+ arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, ninguem
+ os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera
+ enormemente, entrou <span class="pagenum">[101]</span> no celleiro, e,
+ recordando-se do milagre que o enriquec&ecirc;ra, imaginou que tambem elle
+ o poderia fazer. Agarrou na candeia, approximou-a d'um feixe de palha,
+ communicou-se o fogo, ardeu a casa e tudo o que lhe restava, e passado
+ tempo morreu na miseria mais absoluta.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c30" id="c30"></a>Querer &eacute; poder
+ </h3>
+ <br /> --Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver
+ por experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima &eacute;
+ verdadeira.<br /> <br /> Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador
+ d'uma grande cidade.<br /> <br /> --Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos
+ que vivo tranquillo e solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo
+ disse-me muitas vezes--<em>Quem procura sempre encontra</em>, e <em>quem
+ porfia mata ca&ccedil;a</em>. Tomei uma grande resolu&ccedil;&atilde;o.
+ Quero casar com a filha do rei.<br /> <br /> O governador mandou-o embora,
+ imaginando que era um doido.<br /> <br /> O rapaz voltou no dia seguinte, no
+ outro e no outro, e assim durante uma semana, sempre com a mesma vontade
+ inabalavel, at&eacute; que o rei ouviu fallar o rapaz da sua louca pretens&atilde;o.
+ Surprehendido com uma id&eacute;a t&atilde;o extravagante, e, querendo
+ divertir-se, disse-lhe o rei:<br /> <br /> --Que um homem distincto pela
+ gerarchia, pela coragem, pela sciencia, pensasse em casar com uma
+ princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes s&atilde;o os teus titulos?
+ Para seres o marido <span class="pagenum">[103]</span> de minha filha
+ &eacute; necessario que te distingas por alguma qualidade especial ou por
+ um acto de valor extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um
+ diamante d'um valor incalculavel. Aquelle que o encontrar obter&aacute; a
+ m&atilde;o de minha filha.<br /> <br /> O rapaz, contente com esta promessa,
+ foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manh&atilde; come&ccedil;ava
+ a tirar agua com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois de ter
+ assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a resar.<br /> <br /> Os
+ peixes inquietos ao verem t&atilde;o grande tenacidade, e receiando que
+ chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.<br /> <br /> --Que quer
+ este homem? perguntou o rei dos peixes.&raquo;<br /> <br /> --Encontrar um
+ diamante que caiu ao rio.&raquo;<br /> <br /> --Ent&atilde;o, respondeu o
+ velho rei, sou d'opini&atilde;o que lh'o entreguem, porque vejo qual
+ &eacute; a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar as
+ ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.&raquo;<br /> <br /> Os
+ peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha do
+ rei.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c31" id="c31"></a>Qual ser&aacute; rei?
+ </h3>
+ <br /> Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
+ successor. Reuniu-se a c&ocirc;rte, e decidiu-se que a cor&ocirc;a devia
+ pertencer, n&atilde;o ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais
+ digno.<br /> <br /> Resolveram al&eacute;m d'isso que o cadaver do rei fosse
+ posto de p&eacute; contra um muro, e que o principe que acertasse melhor
+ com uma flecha n'aquelle alvo, seria o escolhido para successor.<br />
+ <br /> Come&ccedil;ou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou
+ durante muito tempo, e a flecha foi atravessar a m&atilde;o esquerda do
+ defuncto. O principe soltou grito d'alegria, cuidando que seus irm&atilde;os
+ atirariam pe&oacute;r, e que por conseguinte seria elle quem viria a
+ reinar.<br /> <br /> O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um
+ grito ainda mais alegre do que o outro principe.<br /> <br /> O terceiro
+ varou o cora&ccedil;&atilde;o de seu pae, e os seus gritos de triumpho
+ quasi que chegavam ao c&eacute;o, porque lhe parecia impossivel acertar
+ melhor.<br /> <br /> Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe
+ metter nas m&atilde;os as flechas e o arco: mas, <span class="pagenum">[105]</span>
+ desde que olhou para o alvo, arrojou as armas longe de si, e desatou a
+ chorar:<br /> <br /> --&laquo;Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle,
+ como poderei eu j&aacute;mais consolar-me de ver o teu corpo crivado de
+ flechas pela m&atilde;o de teus proprios filhos!&raquo;<br /> <br /> Os
+ grandes da c&ocirc;rte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais
+ digno.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c32" id="c32"></a>Os tres v&eacute;os de Maria
+ </h3>
+ <br /> O primeiro v&eacute;o de Maria era d'um linho mais alvo do que a
+ neve. Bord&aacute;ra-o com as suas m&atilde;os, e ornara-o com uma
+ grinalda de flores de seda t&atilde;o bem imitadas, que as abelhas,
+ illudidas, vinham pousar-lhe em cima.<br /> <br /> Este v&eacute;o branco s&oacute;
+ o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communh&atilde;o.<br /> <br /> O
+ segundo v&eacute;o de Maria era de l&atilde; negra. Principiou-o no mesmo
+ dia em que sua m&atilde;e lhe morr&ecirc;ra, deixando-a s&oacute;sinha,
+ sem amparo, na casa triste e abandonada. Era bordado de perpetuas roxas,
+ como as dos sepulchros de marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o
+ orvalhado com todas as suas lagrimas.<br /> <br /> O v&eacute;o negro s&oacute;
+ o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de Jesus no convento da
+ Ave-Maria.<br /> <br /> O terceiro v&eacute;o era feito d'um retalho do azul
+ celeste, bordado d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.<br />
+ <br /> Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella
+ entrou no paraizo.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c33" id="c33"></a>Os pequenos no bosque
+ </h3>
+ <br /> Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
+ outros, que n&atilde;o havia nada no mundo mais aborrecido que estudar:
+ &laquo;Vamos para o bosque que encontremos l&aacute; toda a especie de
+ lindos bichinhos, que n&atilde;o fazem outra cousa sen&atilde;o brincar, e
+ n&oacute;s brincaremos com elles.&raquo;<br /> <br /> Foram logo, e passaram
+ sem fazer caso ao p&eacute; da activa formiga e da abelha diligente. Mas o
+ besoiro, que elles convidaram a vir patuscar, disse-lhes:<br /> <br />
+ --Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
+ outra j&aacute; n&atilde;o est&aacute; solida.&raquo;<br /> <br /> --Eu,
+ disse o rato, tenho que fazer as minhas provis&otilde;es para o inverno.&raquo;<br />
+ <br /> --Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu
+ ninho.&raquo;<br /> <br /> --Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir
+ divertir com voc&ecirc;s, mas ainda hoje n&atilde;o lavei o meu focinho.
+ Antes de mais nada, tenho que fazer a minha <em>toilette</em>.&raquo;<br />
+ <br /> E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, <span
+ class="pagenum">[108]</span> que passas o tempo a saltar e a tagarellar,
+ tambem n&atilde;o queres brincar comnosco?&raquo;<br /> <br /> --Estes
+ pequenos s&atilde;o tolos, disse o regato. Como? Voc&ecirc;s ent&atilde;o
+ imaginam que eu n&atilde;o tenho que fazer? De noite ou de dia, n&atilde;o
+ descan&ccedil;o nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos
+ animaes, &aacute;s colinas, aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho
+ que apagar os incendios, tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as
+ serralherias. Nem hoje acab&aacute;ra, se lhes quizesse contar o que tenho
+ que fazer. N&atilde;o posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou com
+ muita pressa.&raquo;<br /> <br /> Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a
+ olhar para o ar, e viram um pintasilgo, em cima d'um ramo.<br /> <br />
+ --Olha! tu, que n&atilde;o tens nada que fazer, queres brincar comnosco?&raquo;<br />
+ <br /> --Nada que fazer? voc&ecirc;s est&atilde;o a mangar comigo, disse o
+ pintasilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho al&eacute;m
+ d'isso que tomar parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o
+ operario com o meu chilrear, e tenho que adormecer as crean&ccedil;as com
+ uma outra cantiga, que &aacute; noite e de madrugada celebre a bondade do
+ Creador. Ide-vos embora, pregui&ccedil;osos, ide cumprir o vosso dever, e
+ n&atilde;o tornem a vir incommodar os habitantes das florestas, que cada
+ um tem a sua tarefa a desempenhar.&raquo;<br /> <br /> Os pequenos
+ aproveitaram a li&ccedil;&atilde;o, e comprehenderam que o prazer s&oacute;
+ &eacute; ligitimo, quando &eacute; a recompensa do trabalho.<br /> <br />
+ <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c34" id="c34"></a>O chapellinho encarnado
+ </h3>
+ <br /> Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem
+ sua m&atilde;e e sua av&oacute; adoravam extremosamente. A boa da av&oacute;sinha,
+ que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar &aacute; neta,
+ deu-lhe um dia um chap&eacute;o de veludo vermelho. A pequenita andava t&atilde;o
+ contente com o seu chap&eacute;o novo, que j&aacute; n&atilde;o queria p&ocirc;r
+ outro, e come&ccedil;aram a chamar-lhe a menina do chapellinho encarnado.<br />
+ <br /> A m&atilde;e e a av&oacute; moravam em duas casas separadas por uma
+ floresta de meia legua de comprido. Uma manh&atilde; a m&atilde;e disse
+ &agrave; pequenita:<br /> <br /> --Tua av&oacute; est&aacute; doente, e n&atilde;o
+ p&ocirc;de vir v&ecirc;r-nos. Eu fiz estes doces, vae levar-lh os tu com
+ esta garrafa de vinho. Toma cuidado n&atilde;o quebres a garrafa, n&atilde;o
+ andes a correr, vae devagarinho e volta logo.&raquo;<br /> <br /> --Sim, mam&atilde;,
+ respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.&raquo;<br /> <br /> Atou o
+ seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se a
+ caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita, que
+ nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[110]</span> --Bons dias, chapellinho encarnado.&raquo;<br />
+ <br /> --Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.&raquo;<br />
+ <br /> --Onde vaes t&atilde;o cedo?&raquo;<br /> <br /> --A casa da minha av&oacute;
+ que est&aacute; doente.&raquo;<br /> <br /> --E levas-lhe alguma cousa?&raquo;<br />
+ <br /> --Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para
+ lhe dar for&ccedil;as.&raquo;<br /> <br /> Dize-me onde mora a tua, av&oacute;,
+ que tambem a quero ir ver.&raquo;<br /> <br /> --&Eacute; perto, aqui no fim
+ da floresta. Ha ao p&eacute; uns carvalhos muito grandes, e no jardim ha
+ muitas nozes.&raquo;<br /> <br /> --Ah! tu &eacute; que &eacute;s uma bella
+ noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava de te comer.&raquo; Depois
+ continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e que lindos
+ passarinhos. Como &eacute; bom passear nas florestas, e ent&atilde;o que
+ quantidade de plantas medicinaes que se encontram!&raquo;<br /> <br /> --O
+ senhor, &eacute; com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita,
+ visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma
+ que fizesse bem a minha av&oacute;.&raquo;<br /> <br /> --Com certeza, minha
+ filha, olha, aqui est&aacute; uma, e esta tambem, e aquella.&raquo; Mas
+ todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas venenosas. A pobre
+ crean&ccedil;a, queria-as apanhar para as levar a sua av&oacute;.<br />
+ <br /> --Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te.
+ Com grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.&raquo;<br />
+ <br /> E poz-se a correr em direc&ccedil;&atilde;o da casa da av&oacute;,
+ emquanto que a pequerrucha se entretinha em apanhar as plantas que elle
+ tinha indicado.<br /> <br /> <span class="pagenum">[111]</span> Quando o
+ lobo chegou &aacute; porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a av&oacute;
+ n&atilde;o se podia levantar da cama, e perguntou: Quem est&aacute; ahi?&raquo;<br />
+ <br /> --&Eacute; o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz
+ da pequerrucha. A mam&atilde; manda-te bolos e uma garrafa de vinho.&raquo;<br />
+ <br /> --Procura debaixo da porta disse a av&oacute;, que encontrar&aacute;s
+ a chave.&raquo;<br /> <br /> Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma
+ bocada a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ella costumava
+ usar, deitou-se na cama.<br /> <br /> Pouco depois entrou a pequenita,
+ assustada e admirada d'encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado
+ com que a av&oacute; a costumava ter fechada.<br /> <br /> O lobo tinha
+ posto uma touca na cabe&ccedil;a, que lhe escondia uma parte do focinho,
+ mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.<br /> <br /> --Ai! av&oacute;sinha,
+ disse a crean&ccedil;a, porque tens tu as orelhas t&atilde;o grandes?&raquo;<br />
+ <br /> --&Eacute; para te ouvir melhor, minha filha.&raquo;<br /> <br /> --E
+ porque est&aacute;s com uns olhos t&atilde;o grandes?&raquo;<br /> <br /> --&Eacute;
+ para te v&ecirc;r melhor.&raquo;<br /> <br /> --E para que est&aacute;s com
+ os bra&ccedil;os t&atilde;o grandes?&raquo;<br /> <br /> --&Eacute; para te
+ poder abra&ccedil;ar melhor.&raquo;<br /> <br /> --E Jesus! para que tens
+ hoje uma b&ocirc;ca t&atilde;o grande e uns dentes t&atilde;o agudos?&raquo;<br />
+ <br /> --&Eacute; para te comer melhor.&raquo; A estas palavras o lobo
+ arremessou-se &aacute; pobre pequena, e enguliu-a. Como estava repleto,
+ adormeceu, e come&ccedil;ou a resonar muito alto. Um ca&ccedil;ador que
+ passava por acaso, perto da casa, e que ouviu aquelle barulho, disse
+ comsigo: A pobre velha est&aacute; com um pesadelo, <span class="pagenum">[112]</span>
+ est&aacute; peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.&raquo; Entra,
+ e v&ecirc; o lobo estendido na cama.<br /> <br /> --Ol&aacute;, meu menino,
+ diz elle: ha muito tempo que te procuro.&raquo;<br /> <br /> Armou a sua
+ espingarda, mas parando logo: N&atilde;o, disse elle, n&atilde;o vejo a
+ dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o animal
+ com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a
+ barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e saltou para o ch&atilde;o,
+ gritando:<br /> <br /> --Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!<br />
+ <br /> A av&oacute; saiu tamb&eacute;m contentissima por ver outra vez a
+ luz do dia.<br /> <br /> O lobo continuava a dormir profundamente, e o ca&ccedil;ador
+ metteu-lhe ent&atilde;o duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e
+ escondeu-se com a av&oacute; e a neta para verem o que se ia passar.<br />
+ <br /> Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede,
+ levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na
+ outra, e n&atilde;o podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu
+ no lago, e affogou-se.<br /> <br /> O ca&ccedil;ador tirou-lhe a pelle,
+ comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta. A velha
+ sentia-se remo&ccedil;ar, e o chapellinho encarnado prometteu n&atilde;o
+ tornar a passar na floresta, quando sua m&atilde;e lh'o prohibisse.<br />
+ <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c35" id="c35"></a>Os cinco sonhos
+ </h3>
+ <br /> Andando um dia Carlos Magno &aacute; ca&ccedil;a com uma comitiva
+ numerosa, perseguiu um veado, que dava taes saltos, e corria por tal f&oacute;rma,
+ que, apesar da ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a
+ pista. Foi s&oacute; ent&atilde;o que viu que estava s&oacute;, tendo a
+ sua c&ocirc;rte ficado muito para traz; sentindo-se fatigado, entrou ao
+ cair da noite n'uma choupana solitaria no meio da floresta. Em roda da
+ lareira estavam deitados quatro ladr&otilde;es. Os salteadores
+ levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da entrada do viajante;
+ cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe quizeram logo contar.<br />
+ <br /> O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:<br />
+ <br /> --No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro &aacute; pessoa que
+ acaba de entrar aqui, e punha-o na minha cabe&ccedil;a.&raquo;<br /> <br />
+ --Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua coura&ccedil;a.&raquo;<br />
+ <br /> --E eu que estava pondo o seu manto.&raquo;<br /> <br /> --E eu, disse
+ o quarto ladr&atilde;o, para lhe fazer favor, passava em roda do meu pesco&ccedil;o
+ aquella <span class="pagenum">[114]</span> pesada cadeia d'ouro, da qual
+ est&aacute; pendurada a sua trompa de ca&ccedil;a.&raquo;<br /> <br />
+ --Vejo bem, disse o imperador, que teem ten&ccedil;&atilde;o de me roubar
+ tudo, e mesmo a vida. Reconhe&ccedil;o que estou em poder de voc&ecirc;s,
+ e que toda e qualquer resistencia seria inutil. N&atilde;o lhes pe&ccedil;o
+ sen&atilde;o uma cousa, &eacute; que me deixem tocar pela ultima vez na
+ minha trompa de ca&ccedil;a.&raquo;<br /> <br /> Os salteadores responderam
+ que consentiam, visto que o ultimo pedido d'um moribundo deve ser
+ respeitado.<br /> <br /> Carlos Magno levou &aacute; boca a sua magnifica
+ trompa de marfim, e tirou d'ella sons t&atilde;o fortes e sonoros, que em
+ menos d'alguns minutos todos os seus companheiros de ca&ccedil;a e a sua
+ comitiva estavam ao p&eacute; d'elle.<br /> <br /> --Agora, disse o
+ imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem eu devo contar o
+ sonho que tive. Sonhei que voc&ecirc;s todos iam ser enforcados diante
+ d'este casebre.&raquo;<br /> <br /> E o sonho realisou-se immediatamente.<br />
+ <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c36" id="c36"></a>A egreja do rei
+ </h3>
+ <br /> Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra
+ da Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para
+ a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se
+ concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do
+ marmore uma inscrip&ccedil;&atilde;o em letras d'ouro, que dizia que s&oacute;
+ elle, e mais ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na
+ noite seguinte o nome do rei foi apagado da inscrip&ccedil;&atilde;o, e
+ substituido por o d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte
+ tornou a mandar p&ocirc;r o seu nome na inscrip&ccedil;&atilde;o, e de
+ novo foi substituido pelo da pobre mulher; &aacute; terceira vez succedeu
+ o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou ent&atilde;o que lhe trouxessem a
+ mulher &aacute; sua presen&ccedil;a:<br /> <br /> --Prohibi a todos os meus
+ vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem fosse com o que fosse para a
+ edifica&ccedil;&atilde;o d'esta egreja; vejo que n&atilde;o cumpriste as
+ minhas ordens.&raquo;<br /> <br /> --&laquo;Senhor, respondeu a velhinha
+ toda tremula, eu respeitei as vossas ordens, apesar da magua <span
+ class="pagenum">[116]</span> que sentia por n&atilde;o poder offerecer o
+ meu pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei n&atilde;o desobedecer
+ a vossa magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de
+ feno, que eu levava &aacute;s escondidas aos bois que conduziam as pedras
+ destinadas &agrave; construc&ccedil;&atilde;o da egreja.&raquo;<br /> <br />
+ --&laquo;O teu nome &eacute; mais digno do que o meu de figurar em letras
+ d'ouro na inscrip&ccedil;&atilde;o do monumento, disse-lha o rei.&raquo;<br />
+ <br /> Mas na noite seguinte uma m&atilde;o invisivel restabeleceu na
+ lapide da egreja o nome do rei, que desde ent&atilde;o l&aacute; se
+ conserva ainda.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c37" id="c37"></a>O valente soldado de chumbo
+ </h3>
+ <br /> Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irm&atilde;os,
+ por todos terem nascido da mesma colher de chumbo. V&ecirc;de-os: que
+ attitude marcial, d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes
+ azues e vermelhos! A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se
+ levantou a tampa da caixa em que elles estavam, foi este grito: &laquo;Olha
+ soldados de chumbo!&raquo; que soltou um rapazito, batendo as palmas
+ d'alegria. Tinham-lh'os dado de presente no dia dos annos, e o seu
+ divertimento era formal-os sobre a mesa, em linha de batalha. Todos os
+ soldados se pareciam maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que
+ tinha uma perna de menos, porque o tinham deitado na f&ocirc;rma em ultimo
+ lugar, e j&aacute; n&atilde;o havia chumbo sufficiente. Apesar d'este
+ defeito, os outros n&atilde;o estavam mais firmes nas duas pernas do que
+ elle na sua unica, e &eacute; este o que precisamente nos interessa.<br />
+ <br /> Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil
+ outros brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello
+ de papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe <span class="pagenum">[118]</span>
+ o interior dos sal&otilde;es. &Aacute; volta era circumdado d'uma floresta
+ em miniatura, que se reflectia poeticamente n'um peda&ccedil;o d'espelho
+ que fingia um lago, onde nadavam pequeninos cysnes de c&ecirc;ra. Tudo
+ isto era encantador, mas n&atilde;o tanto como uma menina que estava
+ &aacute; porta, e que era tambem de papel, vestida com um lindo vestido de
+ cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina tinha os bra&ccedil;os
+ arqueados, porque era dan&ccedil;arina, e tinha uma perninha levantada a
+ tal altura, que o soldado de chumbo n&atilde;o a podia ver, e imaginou
+ que, como elle, n&atilde;o tinha sen&atilde;o uma perna.<br /> <br /> --Ali
+ est&aacute; a mulher que me conv&eacute;m, pensou elle, mas &eacute; uma
+ grande fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e
+ quatro camaradas, e n&atilde;o haveria c&aacute; lugar pura ella. No
+ entantanto preciso conhecel-a.&raquo;<br /> <br /> Deitou-se atraz d'uma
+ caixa de tabaco, e d'ali podia ver &aacute; sua vontade a elegante dan&ccedil;arina,
+ que estava sempre n'um p&eacute; s&oacute;, sem perder o equilibrio.<br />
+ <br /> &Aacute; noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e
+ as pessoas da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto,
+ come&ccedil;aram a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile.
+ Os soldados de chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque
+ queriam l&aacute; ir; mas como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes
+ come&ccedil;ou a dar cabriolas e saltos mortaes, o lapis tra&ccedil;ou mil
+ arabescos phantasticos n'uma louza, emfim o barulho tornou-se tal que o
+ canario accordou, e poz-se a cantar. Os unicos que <span class="pagenum">[119]</span>
+ estavam quietos eram o soldado de chumbo e a dan&ccedil;arinasinha. Ella
+ no bico do p&eacute;, e elle n'uma perna s&oacute;, a espreital-a.<br />
+ <br /> Deu meia noite, e z&aacute;s, a tampa da caixa de rap&eacute;
+ levanta-se, e em lugar de rap&eacute;, saiu um feiticeirosinho preto. Era
+ um brinquedo de surpreza.<br /> <br /> --Soldado de chumbo, disse o
+ feiticeiro, trata de olhar para outro sitio.&raquo;<br /> <br /> Mas o
+ soldado fez que n&atilde;o ouvia.<br /> <br /> --Espera at&eacute; &aacute;manh&atilde;,
+ e ver&aacute;s o que te acontece, continuou o feiticeiro.&raquo;<br />
+ <br /> No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado
+ de chumbo &aacute; janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro
+ ou por causa do vento caiu &aacute; rua de cabe&ccedil;a para baixo. Que
+ tombo! Ficou com a perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e
+ com a bayoneta enterrada entre duas lages.<br /> <br /> A creada e o
+ rapazito foram l&aacute; abaixo procural-o, mas estiveram quasi a
+ esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: &laquo;Cautella!&raquo;
+ tel-o-&iacute;am achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A
+ chuva come&ccedil;ou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro
+ diluvio. Depois do aguaceiro passaram dois garotos.<br /> <br /> --Ol&agrave;!
+ disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o navegar.&raquo;<br />
+ <br /> Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado
+ de chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois
+ garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
+ Que for&ccedil;a de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco
+ jogava <span class="pagenum">[120]</span> d'uma maneira horrorosa, mas o
+ soldado de chumbo conservava-se impassivel, com os olhos fixos e a
+ espingarda ao hombro.<br /> <br /> De repente o barco foi levado para um
+ cano, onde era t&atilde;o grande a escurid&atilde;o como na caixa dos
+ soldados.<br /> <br /> --Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do
+ feiticeiro que me metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella
+ linda menina estivesse no barco, n&atilde;o importava, ainda que a escurid&atilde;o
+ fosse duas vezes maior.&raquo;<br /> <br /> D'ali a pouco apresentou-se um
+ enorme rato d'agua; era um habitante do cano.<br /> <br /> --Venha o teu
+ passaporte.&raquo;<br /> <br /> Mas o soldado de chumbo n&atilde;o disse
+ nada, e agarrou com mais for&ccedil;a na espingarda. O barco continuava o
+ seu caminho, e o rato perseguia-o, rangendo os dentes, e gritando &aacute;s
+ palhas, e aos cavacos:--Fa&ccedil;am-n'o parar, fa&ccedil;am-n'o parar! N&atilde;o
+ pagou a passagem, n&atilde;o mostrou o passaporte.&raquo;<br /> <br /> Mas a
+ corrente era cada vez maior, o soldado via j&aacute; a luz do dia, e
+ sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente.
+ Havia na extremidade do cano uma queda d'agua t&atilde;o perigosa para
+ elle, como &eacute; para n&oacute;s uma catarata. Aproximava-se d'ella
+ cada vez mais, sem poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lan&ccedil;ou-se
+ sobre a queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e
+ ninguem se atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o
+ susto.<br /> <br /> O barco, depois de ter andado &aacute; roda durante
+ muito tempo, encheu-se d'agua, e estava a ponto <span class="pagenum">[121]</span>
+ de naufragar. A agua j&aacute; chegava ao pesco&ccedil;o do soldado, e o
+ barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a agua passou por
+ cima da cabe&ccedil;a do nosso heroe. N'esse momento supremo, pensou na
+ gentil dan&ccedil;arinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:<br />
+ <br /> --Soldado: o perigo &eacute; enorme, a morte espera-te.&raquo;<br />
+ <br /> O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento
+ foi devorado por um grande peixe.<br /> <br /> L&aacute; &eacute; que era
+ escuro, ainda mais que dentro do cano. E al&eacute;m d'isso, que talas em
+ que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado estendeu-se ao
+ comprido com a espingarda ao hombro.<br /> <br /> O peixe mexia-se e
+ remexia-se, dava saltos de metter medo, at&eacute; que emfim parou, e
+ pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia, e alguem
+ exclamou:<br /> <br /> --Olha um soldado de chumbo!&raquo;<br /> <br /> O
+ peixe tinha sido pescado, exposto na pra&ccedil;a, vendido, e levado para
+ a cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
+ soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a gente
+ quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na barriga d'um
+ peixe. No entretanto o soldado n&atilde;o se sentia orgulhoso.
+ Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto &eacute; verdade que
+ acontecem cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de
+ cuja janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que
+ estavam em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dan&ccedil;arina
+ sempre <span class="pagenum">[122]</span> de perna no ar. O soldado de
+ chumbo ficou t&atilde;o commovido, que de boa vontade teria derramado
+ lagrimas de chumbo, mas n&atilde;o era conveniente. Olhou para ella, ella
+ olhou para elle, mas n&atilde;o disseram uma palavra um ao outro.<br />
+ <br /> De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o
+ no fog&atilde;o; eram obras do feiticeiro da caixa do rap&eacute;.<br />
+ <br /> O soldado de chumbo l&aacute; estava perfilado, allumiado por um
+ clar&atilde;o sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as c&ocirc;res
+ lhe tinham desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das
+ suas viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
+ dan&ccedil;arina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas,
+ sempre intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se
+ uma porta, o vento arreme&ccedil;ou a dan&ccedil;arina ao fog&atilde;o
+ para junto do soldado, que desappareceu no meio das lavaredas. O soldado
+ de chumbo, j&aacute; n&atilde;o era mais que uma pequena massa informe.<br />
+ <br /> No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um
+ objecto que tinha o feitio d'um pequeno cora&ccedil;&atilde;o de chumbo, e
+ tudo o que restava da dan&ccedil;arina era a fivela do cinto azul que o
+ lume tinha ennegrecido.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c38" id="c38"></a>Jo&atilde;o Pateta
+ </h3>
+ <br /> Jo&atilde;o era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco
+ simplorio. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira Jo&atilde;o
+ Pateta. Um dia sua m&atilde;e mandou-o &aacute; feira comprar uma foice.
+ &Aacute; volta, come&ccedil;ou a andar com a foice &aacute; roda, de
+ maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.<br /> <br />
+ --Pateta, disse-lhe sua m&atilde;e, o que deverias ter feito era p&ocirc;r
+ a foice em um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.&raquo;<br />
+ <br /> --Perd&atilde;o, m&atilde;e, respondeu humildemente Jo&atilde;o,
+ para a outra vez serei mais esperto.&raquo;<br /> <br /> Na semana seguinte
+ mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que as n&atilde;o
+ perdesse.<br /> <br /> --Fique descan&ccedil;ada. E voltou todo orgulhoso.&raquo;<br />
+ <br /> --Ent&atilde;o, Jo&atilde;o, onde est&atilde;o as agulhas?&raquo;<br />
+ <br /> --Ah! est&atilde;o em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as
+ comprei, ia a passar o carro do visinho carregado de palha; metti l&aacute;
+ as agulhas, n&atilde;o podem estar em sitio melhor.&raquo;<br /> <br /> --De
+ certo, est&atilde;o em lugar de tal modo seguro, que n&atilde;o ha meio de
+ as tornar a ver. Devias tel-as espetado no chap&eacute;o.&raquo;<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[124]</span> --Perd&atilde;o, respondeu Jo&atilde;o,
+ para a outra vez, heide ser mais esperto.&raquo;<br /> <br /> Na outra
+ semana, por um dia de calor, Jo&atilde;o foi d'ali uma legua comprar uma
+ pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua m&atilde;e, poz
+ a manteiga dentro do chap&eacute;o e o chap&eacute;o na cabe&ccedil;a.
+ Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer
+ manteiga derretida.<br /> <br /> A m&atilde;e j&aacute; tinha medo de o
+ mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mandal-o
+ &aacute; feira vender duas gallinhas.<br /> <br /> --Ouve bem, n&atilde;o
+ vendas pelo primeiro pre&ccedil;o. Espera que te offere&ccedil;am outro.&raquo;<br />
+ <br /> --Est&aacute; entendido, respondeu Jo&atilde;o.&raquo;<br /> <br />
+ Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.<br /> <br /> --Queres seis
+ tost&otilde;es por essas gallinhas?&raquo;<br /> <br /> --Ora adeus! minha m&atilde;e
+ recommendou-me, que n&atilde;o acceitasse o primeiro pre&ccedil;o, mas que
+ esperasse o segundo.&raquo;<br /> <br /> --E tens muita ras&atilde;o. Dou-te
+ um cruzado.&raquo;<br /> <br /> --Est&aacute; bem. Parece-me que tinha feito
+ melhor em acceitar o primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha m&atilde;e,
+ ella n&atilde;o tem que me ralhar.&raquo;<br /> <br /> Depois d'isto, Jo&atilde;o
+ foi condemnado a ficar em casa. Sua m&atilde;e sabia que mangavam com
+ elle, e se riam d'ella. Uma manh&atilde; quiz fazer uma experiencia, e
+ disse-lhe:<br /> <br /> --Vae vender este carneiro &aacute; feira. Mas n&atilde;o
+ te deixes enganar. N&atilde;o o entregues sen&atilde;o a quem te der o pre&ccedil;o
+ mais elevado.&raquo;<br /> <br /> --Est&aacute; bem, agora entendo, e sei o
+ que hei de fazer.&raquo;<br /> <br /> <span class="pagenum">[125]</span>
+ --Quanto queres por esse carneiro?<br /> <br /> --Minha m&atilde;e disse-me
+ que o n&atilde;o vendesse sen&atilde;o pelo pre&ccedil;o mais elevado.<br />
+ <br /> --Quatro mil r&eacute;is?&raquo;<br /> <br /> --&Eacute; o pre&ccedil;o
+ mais elevado?&raquo;<br /> <br /> --Pouco mais ou menos.&raquo;<br /> <br />
+ --&Eacute; minha a l&atilde; e o carneiro, disse um rapaz que trep&aacute;ra
+ a uma escada.<br /> <br /> --Quanto?&raquo;<br /> <br /> --Dez tost&otilde;es:&raquo;<br />
+ <br /> --&Eacute; menos, respondeu timidamente o Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+ <br /> --Sim, mas v&ecirc;s at&eacute; onde chega esta escada. Em toda a
+ feira n&atilde;o ha um pre&ccedil;o mais elevado.&raquo;<br /> <br /> --Tem
+ ras&atilde;o. &Eacute; seu o carneiro.&raquo;<br /> <br /> Desde esse dia o
+ Jo&atilde;o Pateta n&atilde;o tornou a ser encarregado de vender ou
+ comprar cousa alguma.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c39" id="c39"></a>Branca de Neve
+ </h3>
+ <br /> Era uma vez uma rainha, que se lastimava por n&atilde;o ter filhos.
+ Um dia d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'&eacute;bano olhando de
+ vez em quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no ch&atilde;o,
+ distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.<br /> <br />
+ --Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns bei&ccedil;os t&atilde;o
+ vermelhos como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns
+ cabellos negros como este &eacute;bano.&raquo;<br /> <br /> Algum tempo
+ depois os seus desejos realisaram-se, e deu &aacute; luz uma filha, que
+ tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo t&atilde;o
+ branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Por&eacute;m esta feliz m&atilde;e
+ n&atilde;o gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a
+ casar com uma mulher d'uma grande belleza, e d'um orgulho n&atilde;o menos
+ extraordinario. Era t&atilde;o formosa que se considerava a mulher mais
+ perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e
+ collocando-se diante d'um espelho magico dizia-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel
+ espelho, responde-me: qual &eacute; a mulher mais linda que ha no mundo?&raquo;<br />
+ <br /> --&Eacute;s tu, respondia o espelho.&raquo;<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[127]</span> No entanto Branca de Neve crescia, e de dia
+ para dia se tornava mais formosa. Tinha apenas sete annos, e j&aacute;
+ ninguem a podia ver sem ficar maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha,
+ sentando-se diante do seu espelho, disse-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel
+ espelho, responde-me: qual &eacute; a mulher mais linda que ha no mundo?&raquo;<br />
+ <br /> --N&atilde;o &eacute;s tu, n&atilde;o &eacute;s tu. Branca de Neve
+ &eacute; mais linda.&raquo;<br /> <br /> A estas palavras a orgulhosa rainha
+ sentiu no cora&ccedil;&atilde;o uma d&ocirc;r aguda, como uma punhalada, e
+ ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela innocente Branca. N&atilde;o
+ podia socegar nem de dia, nem de noite. Para satisfazer o seu odio, chamou
+ um creado, e disse-lhe:<br /> <br /> --Quero quo Branca desappare&ccedil;a.
+ Conduze-a &aacute; floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas
+ ordens foram executadas pontualmente, traze-me o cora&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+ <br /> O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e
+ dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre crean&ccedil;a
+ chorava e lamentava-se, e pedia-lhe que a n&atilde;o matasse, porque ella
+ n&atilde;o tinha feito mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido
+ com aquellas lagrimas, n&atilde;o teve coragem, e abandonou-a na floresta,
+ pensando que se as feras a devorassem a culpa n&atilde;o era d'elle, mas
+ sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o cora&ccedil;&atilde;o de Branca
+ &aacute; rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o cora&ccedil;&atilde;o. A
+ rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou contentissima, e disse
+ comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo &eacute; t&atilde;o
+ bella como eu.<br /> <br /> <span class="pagenum">[128]</span> A pobre
+ Branca, abandonada na floresta, n&atilde;o tinha morrido, mas estava cheia
+ de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os p&eacute;s nas pedras, e
+ andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
+ tambem via animaes ferozes. Mas as feras n&atilde;o lhe faziam mal algum,
+ o deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.<br />
+ <br /> &Aacute; noite chegou ao p&eacute; d'uma casinha muito pequenina.
+ Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito
+ arranjado e muito limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta
+ com uma toalha de brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete
+ garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas muito pequeninas.
+ Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de
+ cada copo, deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.<br /> <br />
+ Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros pequeninos,
+ cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo que tinham
+ gente em casa. Um d'elles disse:<br /> <br /> --Quem comeu o meu p&atilde;o?&raquo;<br />
+ <br /> E os outros successivamente:<br /> <br /> --Quem pegou no meu garfo?&raquo;<br />
+ <br /> --Quem comeu o meu caldo?&raquo;<br /> <br /> --Quem bebeu o meu
+ vinho?&raquo;<br /> <br /> E emfim um d'elles:<br /> <br /> --Quem est&aacute;
+ ahi deitado na minha cama?&raquo;<br /> <br /> Reuniram-se todos &aacute;
+ roda do pequeno leito em que dormia Branca. &Aacute; luz das lanternas
+ viram o doce rosto da crean&ccedil;a, que dormia tranquillamente, <span
+ class="pagenum">[129]</span> e affastaram-se sem fazer bulha, para a n&atilde;o
+ accordar. Branca no dia seguinte de manh&atilde; ficou um pouco assustada,
+ quando viu perto de si aquelles sete an&otilde;es das montanhas. Mas elles
+ disseram-lhe com brandura, que n&atilde;o tivesse medo, e perguntaram-lhe
+ d'onde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste historia, e os
+ an&otilde;es disseram-lhe:<br /> <br /> --Queres tu ficar comnosco, para
+ tomar conta da nossa casa?&raquo;<br /> <br /> --Da melhor vontade,
+ respondeu Branca, completamente socegada.&raquo;<br /> <br /> Come&ccedil;ou
+ logo o seu servi&ccedil;o, e continuou-o regularmente todos os dias.
+ Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os an&otilde;es iam trabalhar para as
+ minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.<br />
+ <br /> Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que j&aacute;
+ n&atilde;o tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu
+ espelho, e disse-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel espelho, n&atilde;o &eacute;
+ verdade que eu sou agora a mulher mais linda que ha no mundo?&raquo;<br />
+ <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --Sim, nos teus palacios e nos
+ teus castellos, mas Branca est&aacute; nas sete montanhas, e Branca
+ &eacute; mais linda do que tu.&raquo;<br /> <br /> Ouvindo esta resposta a
+ orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a
+ fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que modo? Uma manh&atilde;
+ partiu desfar&ccedil;ada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio
+ d'objectos de phantasia. Foi direita &agrave;s sete montanhas, e bateu
+ &aacute; <span class="pagenum">[130]</span> porta da casinha, gritando:
+ &laquo;Quem quer comprar bonitas joias?&raquo;<br /> <br /> Os an&otilde;es
+ tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas,
+ receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser prudente.
+ Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no cesto,
+ esqueceu-se das suas promessas.<br /> <br /> --Veja este rico collar, minha
+ menina, eu mesmo lh'o vou por ao pesco&ccedil;o.&raquo;<br /> <br /> Branca
+ consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os an&otilde;es
+ voltaram, viram a infeliz Branca estendida no ch&atilde;o e completamente
+ inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas
+ gotas d'um licor amarello. Branca come&ccedil;ou a respirar, voltou a si
+ pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.<br />
+ <br /> --P&oacute;des estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira
+ n&atilde;o era outra pessoa, sen&atilde;o a tua inimiga, a rainha. Toma
+ cautella, n&atilde;o deixes entrar aqui ninguem, quando n&atilde;o
+ estivermos em casa.&raquo;<br /> <br /> Ao entrar no seu palacio toda
+ contente, collocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:<br /> <br />
+ --Meu fiel espelho: Qual &eacute; agora a mulher mais linda que ha no
+ mundo? Responde.<br /> <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --&Eacute;s
+ tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca est&aacute;
+ nas sete montanhas, e Branca &eacute; mais linda do que tu.&raquo;<br />
+ <br /> A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
+ infeliz Branca. Tornou-se <span class="pagenum">[131]</span> a disfar&ccedil;ar
+ em vendedeira. Chegou &aacute;s sete montanhas, e bateu &aacute; porta da
+ cabana.<br /> <br /> --Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu &aacute;
+ janella, e respondeu:<br /> <br /> --V&aacute;-se embora, aqui n&atilde;o
+ entra ninguem.&raquo;<br /> <br /> --Tanto peor para si, respondeu a
+ malvada, olhe este pente d'ouro. J&aacute; viu outro t&atilde;o bonito?&raquo;<br />
+ <br /> Branca n&atilde;o poude resistir ao desejo de possuir aquella joia.
+ Abriu a porta.<br /> <br /> --Oh! minha linda menina, deixe-me p&ocirc;r-lh'o
+ na cabe&ccedil;a.&raquo;<br /> <br /> Ao dizer isto enterrou-lhe na cabe&ccedil;a
+ o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.<br /> <br /> &Aacute;
+ noite quando regressaram os an&otilde;es, acharam-n'a pallida e fria.
+ Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e
+ tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.<br /> <br /> No entanto a
+ cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio. Apenas chegou, foi
+ direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu
+ como antecedentemente.<br /> <br /> --Ah! &eacute; preciso que ella morra,
+ ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.<br /> <br /> Vestiu-se de
+ camponeza com um cesto de ma&ccedil;&atilde;s. Entre ellas havia uma que
+ estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu &aacute; porta da cabana.&raquo;<br />
+ <br /> --Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?&raquo;<br /> <br />
+ --Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, n&atilde;o deixo entrar
+ ninguem, nem compro coisa alguma.&raquo;<br /> <br /> --Est&aacute; bem, n&atilde;o
+ faltar&aacute; quem compre estas ricas ma&ccedil;&atilde;s. Mas por ser t&atilde;o
+ bonita, quero dar-lhe uma.&raquo;<br /> <br /> <span class="pagenum">[132]</span>
+ --Obrigada, n&atilde;o posso acceitar.&raquo;<br /> <br /> --Imagina que est&aacute;
+ envenenada. Olhe, eu vou comer um peda&ccedil;o. Ah! que boa que &eacute;!
+ Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora mordia
+ no lado da ma&ccedil;&atilde;, que n&atilde;o estava envenenado. Branca
+ deixou-se tentar, levou &aacute; boca o outro peda&ccedil;o, e caiu
+ fulminada.<br /> <br /> --Ahi tens, para castigo da tua formosura.&raquo;<br />
+ <br /> Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e
+ perguntou-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel espelho, quem &eacute; agora a mulher
+ mais linda?&raquo;<br /> <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --&Eacute;s
+ tu, &eacute;s tu.&raquo;<br /> <br /> --At&eacute; que emfim!&raquo;<br />
+ <br /> Os an&otilde;es estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado
+ reanimal-a com o licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes.
+ Branca continuava fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e
+ os passarinhos da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas n&atilde;o
+ podiam acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto t&atilde;o
+ tranquillo, as suas faces t&atilde;o frescas, parecia que estava a dormir.
+ N&atilde;o quizeram enterral-a. Metteram-n'a n'um caix&atilde;o de
+ cristal, e escreveram em cima. &laquo;Aqui jaz a filha d'um rei;&raquo;
+ puzeram o caix&atilde;o n'uma das sete montanhas, e um d'elles devia estar
+ de guarda constantemente. Branca conservou-se assim durante muitos annos,
+ sem que se notasse no seu rosto a mais pequena altera&ccedil;&atilde;o.<br />
+ <br /> Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar
+ &aacute; ca&ccedil;a, viu o caix&atilde;o, e pediu aos an&otilde;es que
+ lh'o cedessem, fosse por pre&ccedil;o que fosse.<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[133]</span> --Somos muito ricos, e por nada d'este mundo
+ venderemos este caix&atilde;o, que &eacute; o nosso thesouro.&raquo;<br />
+ <br /> --Ent&atilde;o d&ecirc;em-m'o, j&aacute; n&atilde;o posso viver sem
+ contemplar este rosto de mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu
+ palacio. Peco-lhes que me fa&ccedil;am isto.&raquo;<br /> <br /> Os an&otilde;es,
+ commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caix&atilde;o para o
+ levarem. Um d'elles trope&ccedil;ou n'uma raiz, e o caix&atilde;o soffreu
+ um balan&ccedil;o, que fez cair o bocado da ma&ccedil;&atilde; envenenada,
+ que Branca n&atilde;o tinha engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo
+ os olhos, e resuscitou. O joven principe levou-a para o seu castello, e
+ casou com ella. O casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou
+ todos os reis e rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha
+ inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia
+ attrair todos os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:<br />
+ <br /> --Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?&raquo;<br />
+ <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --Branca &eacute; mais formosa que
+ tu.<br /> <br /> A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que
+ os seus crimes fossem descobertos, que morreu de repente.<br /> <br />
+ Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de princesa
+ n&atilde;o se esqueceu dos an&otilde;es que tinham sido os seus
+ bemfeitores.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c40" id="c40"></a>A rapariguinha e os phosphoros
+ </h3>
+ <br /> <br /> Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo
+ de dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escurid&atilde;o
+ passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabe&ccedil;a descoberta e
+ os p&eacute;s descal&ccedil;os. &Eacute; verdade que trazia sapatos ao
+ sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes
+ sapatos, que sua m&atilde;e j&aacute; tinha usado, t&atilde;o grandes, que
+ a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a correr, entre duas carruagens.
+ Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto ao outro fugiu-lhe com elle um
+ garotito, com a inten&ccedil;&atilde;o de fazer d'elle um ter&ccedil;o
+ para o seu primeiro filho.<br /> <br /> A pequenita caminhava com os p&eacute;sinhos
+ n&uacute;s, arroxeados pelo frio; tinha no seu velho avental uma grande
+ quantidade de phosphoros, e levava na m&atilde;o um masso d'elles. O dia
+ correra-lhe mal; n&atilde;o tinha havido compradores, e por isso n&atilde;o
+ apur&aacute;ra cinco r&eacute;is.<br /> <br /> Pobre pequerrucha! que frio e
+ que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos longor cabellos loiros,
+ adoravelmente annelados em volta do pesco&ccedil;o; <span class="pagenum">[135]</span>
+ mas pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?<br /> <br /> As
+ luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos manjares;
+ era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.<br /> <br />
+ Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada vez
+ mais, mas n&atilde;o se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia,
+ porque n&atilde;o tinha vendido os seus phosphoros. Al&eacute;m d'isso em
+ sua casa fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que
+ o vento atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As
+ suas m&atilde;osinhas j&aacute; quasi que as n&atilde;o sentia. Ai! como
+ um phosphorosinho acceso lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um
+ unico, e accendendo-o aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_!
+ como estoirou! como ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena
+ lamparina. Que luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um
+ enorme brazeiro de ferro, cujo lume magnifico aquecia t&atilde;o
+ suavemente, que era um regalo.<br /> <br /> A pequerrucha ia j&aacute; a
+ estender os p&eacute;sitos para os aquecer tambem, quando a chamma se
+ apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na m&atilde;o uma pontita
+ de phosphoro consumido.<br /> <br /> Accendeu segundo phosphoro, que ardeu,
+ que brilhou, e o muro onde bateu a sua chamma tornou-se transparente como
+ vidro. Olhando atravez d'esse muro, a pequerrucha viu uma sala com uma
+ meza cobertta de uma toalha alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e
+ sobre a qual uma gallinha assada com recheio de ameixas e de batatas <span
+ class="pagenum">[136]</span> fumegava exhalando um perfume delicioso. Oh
+ surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do prato, e ca&iacute;u
+ no ch&atilde;o ao p&eacute; da pequerrucha, com o garfo e a faca espetada
+ no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de si a parede
+ fria e tenebrosa.<br /> <br /> Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se
+ immediatamente sentada debaixo de uma magnifica arvore do Natal; era ainda
+ mais rica e maior do que a que tinha visto no anno passado atravez dos
+ vidros de um armazem sumptuoso.<br /> <br /> Nos ramos verdes brilhavam
+ centenares de bal&otilde;es accesos, e as estampas coloridas, como as que
+ ha &aacute;s portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarral-as
+ com as duas m&atilde;os, apagou-se o phosphoro; todos os bal&otilde;es da
+ arvore do Natal come&ccedil;aram a subir, a subir, e viu ent&atilde;o que
+ se tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no
+ ceo um longo rasto de fogo.<br /> <br /> --&Eacute; algu&eacute;m que est&aacute;
+ a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua av&oacute;, que lhe queria
+ tanto, mas que j&aacute; morrera, dissera-lhe muitas vezes: &laquo;Quando
+ cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.&raquo;<br /> <br /> Accendeu
+ ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe appareceu
+ sua av&oacute;, de p&eacute;, com um ar radioso e suavissimo.<br /> <br />
+ --Minha av&oacute;, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te
+ vaes embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecer&aacute;s como a
+ panella de ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.<br /> <br />
+ Accendeu o rosto do masso, porque n&atilde;o queria <span class="pagenum">[137]</span>
+ que sua av&oacute; lhe fugisse, e os phosphoros espalharam um clar&atilde;o
+ mais vivo que a luz do dia. Nunca sua av&oacute; tinha sido t&atilde;o
+ formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas alegres, no meio d'este
+ deslumbramento, vo&aacute;ram t&atilde;o alto, t&atilde;o alto, que j&aacute;
+ n&atilde;o tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao
+ Paraiso.<br /> <br /> Mas quando rompeu a fria madrugada, encontr&aacute;ram
+ a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o
+ sorriso nos labios... morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia
+ de Anno Bom veiu alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus
+ phosphoros, a que faltava um masso, que tinha ardido quasi
+ inteiramente.--Quiz aquecer-se, disse um homem que passou.&raquo; E
+ ninguem soube nunca as lindas coisas que ella tinha visto, e no meio de
+ que esplendor tinha entrado com a sua velha av&oacute; no dia do Anno
+ Novo.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c41" id="c41"></a>O primeiro peccado de Margarida
+ </h3>
+ <br /> <br /> Chamava-se Margarida, e estavam &aacute; espera d'ella no c&eacute;o,
+ porque Deus tinha dito:--&Eacute; uma boa alma, e, como l&aacute; em baixo
+ no mundo lhe p&oacute;de acontecer alguma desgra&ccedil;a, vou trazel-a um
+ d'estes dias para o paraiso.&raquo;<br /> <br /> Margarida era uma virgem
+ candida, matinal como a aurora, fresca como ella; todos os dias ao acordar
+ resava as ora&ccedil;&otilde;es, que sua m&atilde;e lhe tinha ensinado, e
+ vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como n&atilde;o tinha joias
+ preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.<br /> <br /> Depois
+ d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.<br /> <br /> E, ao
+ mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella can&ccedil;&atilde;o
+ d'amor e de gloria, que j&aacute; emball&aacute;ra muitos ber&ccedil;os, e
+ que podia sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.<br />
+ <br /> N'uma tarde de ver&atilde;o, estava ella sentada &aacute; porta de
+ casa fiando linho, &aacute; hora em que as estrellas come&ccedil;am a
+ apparecer, uma a uma no firmamento.<br /> <br /> Estava Margarida cantando a
+ sua can&ccedil;&atilde;o, quando <span class="pagenum">[139]</span> passou
+ por alli uma das suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com
+ um vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus
+ brincos e o collar d'ouro que levava ao pesco&ccedil;o; apertou-lhe a m&atilde;o
+ para que visse bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a
+ rir, toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o
+ que inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.<br /> <br /> O fio de linho j&aacute;
+ n&atilde;o passava t&atilde;o rapidamente entre os dedos de Margarida, a
+ roda cess&aacute;ra o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das m&atilde;os.<br />
+ <br /> Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de
+ si um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na m&atilde;o um gorro de
+ velludo preto, com uma pluma vermelha, da c&ocirc;r do fogo. O cavalleiro
+ saudou-a respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
+ perguntou-lhe:<br /> <br /> --Qual &eacute; o caminho da cidade?&raquo;<br />
+ <br /> Margarida estendeu a m&atilde;o para lh'o indicar, e o forasteiro
+ inclinando-se tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava
+ como uma estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello
+ do que o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se ent&atilde;o
+ com um sorriso estranho e diabolico.<br /> <br /> N'isto passou por ali um
+ mendigo coberto de farrapos, parou diante de Margarida, e pediu-lhe uma
+ esmola.<br /> <br /> Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre
+ desgra&ccedil;ado.<br /> <br /> O cavalleiro ent&atilde;o, soltando um grito
+ de colera, ia lan&ccedil;ar-se sobre Margarida, mas o mendigo--que <span
+ class="pagenum">[141]</span> era o seu anjo da guarda disfar&ccedil;ado--cobriu-a
+ com as azas. E o cavalleiro, isto &eacute; Satan&aacute;s, que tinha vindo
+ para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.<br /> <br />
+ <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c42" id="c42"></a>Um nome inscripto no c&eacute;o
+ </h3>
+ <br /> Era uma vez um pobre mendigo, que bateu &aacute; porta d'uma humilde
+ cabana a pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas n&atilde;o
+ vendo, nem ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre;
+ viu ent&atilde;o uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:<br />
+ <br /> --&laquo;Ai! n&atilde;o te posso dar nada, porque nada tenho.&raquo;<br />
+ <br /> E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater
+ &aacute; mesma porta.<br /> <br /> --Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, j&aacute;
+ te disse que n&atilde;o tenho nada que te dar.&raquo;<br /> <br /> --Foi por
+ isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.<br /> <br /> E,
+ aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em cima
+ da meza, muitos bocados de p&atilde;o e algumas moedas de dez r&eacute;is,
+ que lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.<br />
+ <br /> --Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente,
+ indo-se embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.&raquo;<br />
+ <br /> N&atilde;o sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos
+ escrevel-o-h&atilde;o no Paraizo, e mais tarde n&oacute;s o viremos a
+ saber.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <h3>
+ <a name="c43" id="c43"></a>O linho
+ </h3>
+ <br /> O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais
+ delicadas e transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus
+ raios sobre elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer,
+ como o d'um filho quando a m&atilde;e o lava e lhe d&aacute; um beijo.<br />
+ <br /> --Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito
+ crescido, e serei brevemente uma rica pe&ccedil;a de panno. Sinto-me
+ feliz. N&atilde;o ha ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho
+ saude e um bello futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e
+ refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais n&atilde;o poder ser!&raquo;<br />
+ <br /> --Como &eacute;s ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu n&atilde;o
+ conheces o mundo, de que n&oacute;s outras temos uma larga experiencia.&raquo;<br />
+ <br /> E rangendo lastimosamente, cantaram:<br /> <br />
+ <div class="poetry">
+ --Cric, crac! cric, crac! crac! <br /> --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+ </div>
+ <br /> --N&atilde;o t&atilde;o cedo como voc&ecirc;s imaginam, respondeu o
+ linho; est&aacute; uma bella manh&atilde;, o sol resplandece, <span
+ class="pagenum">[143]</span> e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+ florir. Sou muitissimo feliz.&raquo;<br /> <br /> Mas um bello dia vieram
+ uns homens que agarraram no linho pela cabelleira, arrancaram-n'o com
+ raizes e tudo, e deram-lhe tratos de pol&eacute;. Primeiro mergulharam-n'o
+ em agua, como se o quizessem afogal-o, e depois metteram-n'o no lume para
+ o assar. Que crueldade!<br /> <br /> --N&atilde;o se p&oacute;de ser mais
+ feliz, pensou o linho de si para si; &eacute; necessario soffrer, o
+ soffrimento &eacute; a m&atilde;e da experiencia.&raquo;<br /> <br /> Mas as
+ coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o, cardaram-n'o, e
+ elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois, puzeram-n'o n'uma roca, e
+ ent&atilde;o perdeu a cabe&ccedil;a inteiramente.<br /> <br /> --Era feliz
+ de mais, pensava o desgra&ccedil;ado linho no meio d'aquellas torturas;
+ devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.&raquo;<br /> <br />
+ E ainda estava dizendo--perdidas, e j&aacute; o estavam a metter no tear e
+ a transformal-o n'uma pe&ccedil;a de panno.<br /> <br /> --Isto &eacute;
+ extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que grandes
+ tolas aquellas silvas quando cantavam:<br /> <br />
+ <div class="poetry">
+ Cric, crac! cric, crac! crac! <br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+ </div>
+ <br /> Agora &eacute; que eu principio a viver. Padeci muito, &eacute;
+ verdade, mas por isso tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me t&atilde;o
+ forte, t&atilde;o alto, t&atilde;o macio! Ah! isto &eacute; bem melhor do
+ que ser planta, mesmo florida, ninguem trata da gente, e <span
+ class="pagenum">[144]</span> n&atilde;o bebemos outra agua a n&atilde;o
+ ser a da chuva. Agora &eacute; o contrario: que cuidados! As raparigas
+ estendem-me todas as manh&atilde;s, e &aacute; noite tomo o meu banho com
+ um regador. A creada do sr. cura fez um discurso a meu respeito, e provou
+ perfeitamente que era eu a melhor pe&ccedil;a da parochia. N&atilde;o
+ posso ser mais feliz.&raquo;<br /> <br /> Levaram o panno para casa, e
+ entregaram-n'o &aacute;s thesouras. Cortaram-n'o e picaram-n'o com uma
+ agulha. N&atilde;o era l&aacute; muito agradavel, mas em compensa&ccedil;&atilde;o
+ fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.<br /> <br /> --Agora
+ decididamente come&ccedil;o a valer alguma coisa. O meu destino &eacute;
+ aben&ccedil;oado, porque sou util n'este mundo. &Eacute; preciso isso para
+ se viver em paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze peda&ccedil;os, &eacute;
+ verdade, mas formamos um s&oacute; grupo, uma duzia. Que incomparavel
+ felicidade!<br /> <br /> O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.<br />
+ <br /> --Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas
+ n&atilde;o se fazem impossiveis.&raquo;<br /> <br /> E as camisas foram
+ reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era finalmente a sua
+ morte, porque foram rasgados, ama&ccedil;ados, fervidos, sem adivinharem o
+ que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel branco
+ magnifico.<br /> <br /> --Oh que agrad&aacute;vel surpreza! exclamou o
+ papel, agora sou muito mais fino do que d'antes, e v&atilde;o cobrir-me de
+ letras. O que n&atilde;o escrever&atilde;o em cima de mim! Tenho uma
+ fortuna maravilhosa!&raquo;<br /> <br /> E escreveram n'elle as mais bellas
+ historias, que foram lidas deante de numeros ouvintes, e os tornaram mais
+ sabios e melhores.<br /> <br /> <span class="pagenum">[145]</span> --Ora
+ aqui est&aacute; uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
+ quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
+ ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! N&atilde;o sei
+ explicar o que me est&aacute; acontecendo, mas &eacute; verdade. Deus sabe
+ perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
+ sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, at&eacute; chegar &aacute;
+ maior gloria. Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: &laquo;Acabou-se,
+ acabou-se&raquo; tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto
+ mais risonho. Vou viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me
+ possam ler e instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas
+ azues; agora as minhas flores s&atilde;o os mais elevados pensamentos.
+ Sinto-me feliz, immensamente feliz!&raquo;<br /> <br /> Mas o papel n&atilde;o
+ foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que l&aacute; estava
+ escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, que
+ recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de papel
+ n&atilde;o teria prestado o mesmo servi&ccedil;o, ainda que desse a volta
+ &aacute; roda do mundo. A meio caminho j&aacute; estaria gasto.<br /> <br />
+ --&Eacute; justo, disse o papel, n&atilde;o tinha pensado n'isso. Fico em
+ casa, e vou ser considerado como um velho av&ocirc;! fui eu que recebi as
+ letras, as palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu
+ logar, e os livros v&atilde;o por esse mundo f&oacute;ra. A sua miss&atilde;o
+ &eacute; realmente bella, e eu estou contente, e julgo-me feliz.<br />
+ <br /> O papel foi empacotado, e lan&ccedil;ado para uma estante.<br />
+ <br /> --Depois do trabalho &eacute; agrad&aacute;vel o descan&ccedil;o,
+ <span class="pagenum">[146]</span> pensou elle. &Eacute; n'este isolamento
+ que a gente aprende a conhecer-se. S&oacute; d'hoje em diante &eacute; que
+ eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a n&oacute;s mesmo &eacute; a
+ verdadeira perfei&ccedil;&atilde;o. Que me ir&aacute; ainda acontecer?
+ Progredir, est&aacute; claro.&raquo;<br /> <br /> Passados tempos, o papel
+ foi atirado ao fog&atilde;o para o queimarem, porque o que o n&atilde;o
+ queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as crean&ccedil;as
+ da casa se pozeram &aacute; roda; queriam vel-o arder, e ver tamb&eacute;m,
+ depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir, e
+ se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel foi
+ atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande chamma, que
+ se erguia t&atilde;o alto, t&atilde;o alto como o linho nunca ergu&ecirc;ra
+ as suas flores azues; a pe&ccedil;a de panno nunca tinha tido um brilho
+ semilhante.<br /> <br /> Todas as letras, durante um segundo, se tornaram
+ vermelhas: todas as palavras, todas as id&egrave;as desappareceram em
+ linguas de fogo.<br /> <br /> --&laquo;Vou subir at&eacute; ao sol;&raquo;
+ dizia uma voz no meio da lavareda, que pareciam mil vozes reunidas n'uma s&oacute;.
+ A chamma saiu pela chamin&eacute;, e no meio d'ella volteavam pequeninos
+ seres invisiveis para os olhos do homem. Eram tantos quantos tinham sido
+ as flores que o linho tinha dado. Mais leves que a chamma, de quem eram
+ filhos, quando ella se extinguiu, quando n&atilde;o restava do papel sen&atilde;o
+ a cinza negra, ainda elles dan&ccedil;avam sobre essa cinza, e formavam,
+ tocando-a, pequeninas scentelhas encarnadas.<br /> <br /> As crean&ccedil;as
+ cantavam &aacute; roda da cinza inanimada:<br /> <br /> <span class="pagenum">[147]</span>
+ <div class="poetry">
+ Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+ </div>
+ <br /> Mas cada um dos pequeninos seres dizia: &laquo;N&atilde;o, n&atilde;o
+ se acabou; agora &eacute; que &eacute; o melhor da festa. Sei-o, e
+ julgo-me feliz.&raquo;<br /> <br /> As crean&ccedil;as n&atilde;o poderam
+ ouvir, nem comprehender estas palavras; mas tambem n&atilde;o era
+ necessario, porque as crean&ccedil;as n&atilde;o devem saber tudo.<br />
+ <br />
+ <h4>
+ FIM.
+ </h4>
+ <br /> <br /> <br />
+ <h2>
+ INDICE
+ </h2>
+ <br />
+ <table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td style="text-align: right;">
+ Pag.
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ A m&atilde;e
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c1">3</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O ouro
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c2">12</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Do&ccedil;ura e bondade
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c3">13</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O malmequer
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c4">14</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ N&atilde;o quero
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c5">20</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Piloto
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c6">21</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O rico e o pobre
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c7">23</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Como um camponez aprendeu o Padre Nosso
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c8">26</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O talisman
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c9">28</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ A alma
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c10">30</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Alberto
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c11">31</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ A can&ccedil;&atilde;o da cerejeira
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c12">33</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Os gigantes da montanha e os an&otilde;es da plan&iacute;cie
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c13">35</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ A crean&ccedil;a, o anjo e fl&ocirc;r
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c14">37</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Presente por presente
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c15">41</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O pinheiro ambicioso
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c16">44</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Perfei&ccedil;&atilde;o das obras de Deus
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c17">46</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Jo&atilde;o e os seus camaradas
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c18">52</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O rabequista
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c19">60</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Os pecegos
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c20">62</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ A urna das lagrimas
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c21">64</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Reconhecimento e ingratid&atilde;o
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c22">65</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O fato novo do sult&atilde;o
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c23">68</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Boa senten&ccedil;a
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c24">74</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Os animaes agradecidos
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c25">76</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O ermit&atilde;o
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c26">83</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Carlos Magno e o abade de S. Gall
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c27">85</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ A boneca
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c28">88</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Inconveniente de riqueza
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c29">99</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Querer &eacute; poder
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c30">102</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Qual ser&aacute; rei?
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c31">104</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Os tr&ecirc;s v&eacute;os de Maria
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c32">106</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Os pequenos no bosque
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c33">107</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O chapellinho encarnado
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c34">109</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Os cinco sonhos
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c35">113</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ A egreja do rei
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c36">115</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O valente soldado de chumbo
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c37">117</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Jo&atilde;o Pateta
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c38">123</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Branca de Neve
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c39">126</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ A rapariguinha e os phosphoros
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c40">134</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O primeiro peccado de Margarida
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c41">138</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ Um nome inscripto no c&eacute;o
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c42">141</a>
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>
+ O linho
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">
+ <a href="#c43">142</a>
+ </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+ </table>
+ <br /> <br /> <br /> [A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr.
+ Luiz d'Andrade, residente no Rio de Janeiro.]
+ </div>
+ <p>
+ <a name="contos" id="contos"> </a>
+ </p>
+<p>
+
+Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the
+original version, already available at Project Gutenberg. / Actualiza&ccedil;&atilde;o
+ortogr&aacute;fica da vers&atilde;o original, j&aacute; dispon&iacute;vel no Project Gutenberg.)<br /><br /><br />
+NOTA: Este texto tem duas vers&otilde;es em l&iacute;ngua portuguesa de acordo com o
+livro original, a que pode ser aceder clicando numa das seguintes op&ccedil;&otilde;es:
+</p>
+ <div>
+ <br /> <br />
+ <h2>
+ CONTOS
+ </h2>
+ <h2>
+ PARA A
+ </h2>
+ <h3>
+ INF&Acirc;NCIA
+ </h3>
+ <h2>
+ ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES
+ </h2>
+ <h2>
+ POR
+ </h2>
+ <h2>
+ GUERRA JUNQUEIRO
+ </h2>
+ <br /> <br /> <br /> <br />
+ <h2>
+ LISBOA
+ </h2>
+ <h4>
+ TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOM&Aacute;S QUINTINO ANTUNES,<br /> IMPRESSOR
+ DA CASA REAL
+ </h4>
+ <h2>
+ Rua dos Calafates, 110
+ </h2>
+ <h2>
+ 1877
+ </h2>
+ </div>
+ <p>
+ <br /> <br /> <br /> <br />
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="1"></a>A m&atilde;e
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Estava uma m&atilde;e muito aflita, sentada ao p&eacute; do
+ ber&ccedil;o do seu filho, com medo que lhe morresse. A criancinha p&aacute;lida
+ tinha os olhos fechados. Respirava com dificuldade, e &agrave;s vezes t&atilde;o
+ profundamente, que parecia gemer; mas a m&atilde;e causava ainda mais l&aacute;stima
+ do que o pequenino moribundo.<br /> <br /> Nisto bateram &agrave; porta, e
+ entrou um pobre homem muito velho, embu&ccedil;ado numa manta de arrieiro.
+ Era no Inverno. L&aacute; fora estava tudo coberto de neve e de gelo, e o
+ vento cortava como uma navalha.<br /> <br /> O pobre homem tremia de frio; a
+ crian&ccedil;a adormecera por alguns instantes, e a m&atilde;e levantou-se
+ a p&ocirc;r ao lume uma caneca com cerveja. O velho come&ccedil;ou a
+ embalar a crian&ccedil;a, e a m&atilde;e, pegando numa cadeira, sentou-se
+ ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada vez
+ com mais dificuldade, pegou-lhe na m&atilde;ozinha descarnada e disse para
+ o velho:<br /> <br /> Oh! Nosso Senhor n&atilde;o mo h&aacute;-de levar! n&atilde;o
+ &eacute; verdade?&#8213;<br /> <br /> <span class="pagenum">[4]</span>E o
+ velho, que era a Morte, meneou a cabe&ccedil;a duma maneira estranha, em
+ ar de d&uacute;vida. A m&atilde;e deixou pender a fronte para o ch&atilde;o,
+ e as l&aacute;grimas corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada
+ com um grande peso de cabe&ccedil;a; estava sem dormir havia tr&ecirc;s
+ dias e tr&ecirc;s noites. Passou ligeiramente pelo sono, durante um
+ minuto, e despertou sobressaltada a tremer de frio.<br /> <br /> &#8213;Que
+ &eacute; isto! exclamou, lan&ccedil;ando &agrave; volta de si o olhar
+ alucinado. O ber&ccedil;o estava vazio. O velho tinha-se ido embora,
+ roubando-lhe a crian&ccedil;a.<br /> <br /> A pobre m&atilde;e saiu
+ precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma mulher sentada no
+ meio da neve, vestida de luto. &laquo;A Morte entrou-te em casa, disse-lhe
+ ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais depressa que o vento,
+ e o que ela furta nunca o torna a entregar.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Por
+ onde foi ela? gritou a m&atilde;e. Diz-mo pelo amor de Deus!&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de
+ preto. Mas s&oacute; to ensino, se me cantares primeiro todas as can&ccedil;&otilde;es
+ que cantavas ao teu filho. S&atilde;o lindas, e tens uma voz harmoniosa.
+ Eu sou a Noite e muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em l&aacute;grimas.<br />
+ <br /> &#8213;Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a m&atilde;e.
+ Agora n&atilde;o me demores, porque quero encontrar o meu filho.&#8213;<br />
+ <br /> A Noite ficou silenciosa. A m&atilde;e ent&atilde;o, desfeita em l&aacute;grimas,
+ come&ccedil;ou a cantar. Cantou muitas can&ccedil;&otilde;es, mas as l&aacute;grimas
+ foram mais do que as palavras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[5]</span>No
+ fim disse-lhe a Noite: &laquo;Toma &agrave; direita, pela floresta escura
+ de pinheiros. Foi por a&iacute; que a Morte fugiu com o teu filho.&raquo;
+ <br /> A m&atilde;e correu para a floresta; mas no meio dividia-se o
+ caminho, e n&atilde;o sabia que direc&ccedil;&atilde;o havia de seguir.
+ Diante dela havia um matagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores, de
+ cujos ramos pendia a neve cristalizada.<br /> <br />
+ </p>
+ <div class="break">
+ <hr />
+ </div>
+ <p>
+ <br /> &#8213;N&atilde;o viste a Morte que levava o meu filho?&raquo;
+ perguntou-lhe a m&atilde;e.<br /> <br /> &#8213;Vi, respondeu o matagal, mas
+ n&atilde;o te ensino o caminho, sen&atilde;o com a condi&ccedil;&atilde;o
+ de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.&raquo;<br /> <br /> E a m&atilde;e
+ estreitou o matagal contra o cora&ccedil;&atilde;o; os espinhos
+ dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se de
+ folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite de Inverno
+ frigid&iacute;ssima, tal &eacute; o calor febricitante do seio duma m&atilde;e
+ angustiosa.<br /> <br /> E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir.
+ Foi andando, andando, at&eacute; que chegou &agrave; margem dum grande
+ lago, onde n&atilde;o havia nem barcos, nem navios. N&atilde;o estava
+ suficientemente gelado para se andar por ele, e era demasiadamente
+ profundo para o passar a vau. Contudo, querendo encontrar o seu filho, era
+ necess&aacute;rio atravess&aacute;-lo. No del&iacute;rio do seu amor,
+ atirou-se de bru&ccedil;os a ver se poderia beber toda a &aacute;gua do
+ lago. Era imposs&iacute;vel, mas lembrava-se que Deus, por compaix&atilde;o,
+ faria talvez um milagre.<br /> <br /> <span class="pagenum">[6]</span>&#8213;N&atilde;o!
+ n&atilde;o &eacute;s capaz de me esgotar, disse o lago. Sossega, e
+ entendamo-nos amigavelmente. Gosto de ver p&eacute;rolas no fundo das
+ minhas &aacute;guas, e os teus olhos s&atilde;o dum brilho mais suave do
+ que as p&eacute;rolas mais ricas que eu tenho possu&iacute;do. Se queres,
+ arranca-os das &oacute;rbitas &agrave; for&ccedil;a de chorar, e
+ levar-te-ei &agrave; estufa grandiosa, que est&aacute; do outro lado: essa
+ estufa &eacute; a habita&ccedil;&atilde;o da Morte; e as flores e as
+ &aacute;rvores que est&atilde;o l&aacute; dentro, &eacute; ela quem as
+ cultiva; cada flor e cada &aacute;rvore &eacute; a vida duma criatura
+ humana.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Oh! o que n&atilde;o darei eu, para
+ reaver o meu filho!&raquo; disse a m&atilde;e. E apesar de ter j&aacute;
+ chorado tantas l&aacute;grimas, chorou com mais amargura do que nunca, e
+ os seus olhos destacaram-se das &oacute;rbitas e ca&iacute;ram no fundo do
+ lago, transformando-se em duas p&eacute;rolas, como ainda as n&atilde;o
+ teve no mundo uma rainha.<br /> <br /> O lago ent&atilde;o ergueu-a, e com
+ um movimento de ondula&ccedil;&atilde;o depositou-a na outra margem, aonde
+ havia um maravilhoso edif&iacute;cio, com mais de uma l&eacute;gua de
+ comprido. De longe n&atilde;o se sabia se era uma constru&ccedil;&atilde;o
+ art&iacute;stica ou uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre m&atilde;e
+ n&atilde;o podia ver nada; tinha dado os seus olhos.<br /> <br /> &#8213;Como
+ hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!&raquo; bradou ela
+ desesperada.<br /> <br /> &#8213;A Morte ainda n&atilde;o chegou,
+ respondeu-lhe uma boa velha, que andava dum lado para o outro,
+ inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como vieste tu aqui parar?
+ Quem te ensinou o caminho?&raquo;<br /> <br /> &#8213;Deus auxiliou-me,
+ respondeu ela. Deus &eacute; misericordioso. <span class="pagenum">[7]</span>Compadece-te
+ de mim, e diz-me onde est&aacute; o meu filho.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Eu
+ n&atilde;o o conhe&ccedil;o, e tu &eacute;s cega, disse a velha. H&aacute;
+ aqui muitas plantas e muitas &aacute;rvores, que murcharam esta noite: a
+ Morte n&atilde;o tarda a&iacute; para as tirar da estufa. Deves saber, que
+ toda a criatura humana tem neste s&iacute;tio uma &aacute;rvore ou uma
+ flor, que representam a sua vida e que morrem com ela. Parecem plantas
+ como quaisquer outras, mas tocando-lhes, sente-se bater um cora&ccedil;&atilde;o.
+ Guia-te por isto, e talvez reconhe&ccedil;as as pulsa&ccedil;&otilde;es do
+ cora&ccedil;&atilde;o de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o que
+ tens ainda de fazer?&raquo;<br /> <br /> &#8213;J&aacute; n&atilde;o tenho
+ nada que te dar, disse a pobre m&atilde;e. Mas irei at&eacute; ao fim do
+ mundo buscar o que tu quiseres.&#8213;&laquo;Fora daqui n&atilde;o preciso
+ de nada, respondeu a velha. D&aacute;-me os teus longos cabelos negros; tu
+ sabes que s&atilde;o belos, e agradam-me. Troc&aacute;-los-ei pelos meus
+ cabelos brancos.&raquo;&#8213;N&atilde;o pedes mais nada do que isso?
+ disse a m&atilde;e. A&iacute; os tens, dou-tos de boa vontade.&raquo;<br />
+ <br /> E arrancou os seus magn&iacute;ficos cabelos, que tinham sido
+ outrora o seu orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e
+ inteiramente brancos da velha.<br /> <br /> Esta levou-a pela m&atilde;o
+ &agrave; grande estufa, onde crescia exuberantemente uma vegeta&ccedil;&atilde;o
+ maravilhosa. Viam-se debaixo de camp&acirc;nulas de cristal jacintos mimos&iacute;ssimos
+ ao lado de pe&oacute;nias inchadas e ordin&aacute;rias. Havia tamb&eacute;m
+ plantas aqu&aacute;ticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em
+ cujas ra&iacute;zes se enovelavam cobras asquerosas.<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[8]</span>Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas,
+ carvalhos e pl&aacute;tanos frondosos; depois num outro s&iacute;tio
+ isolado havia canteiros de salsa, tomilho, hortel&atilde; e outras plantas
+ humildes que representavam o g&eacute;nero de utilidade das pessoas que
+ elas simbolizavam.<br /> <br /> Havia ainda grandes arbustos em vasos
+ demasiadamente estreitos, que pareciam rebentar; mas viam-se tamb&eacute;m
+ florzitas insignificantes, em vasos de porcelana, na melhor terra,
+ circundadas de musgo, tratadas com esmero delicad&iacute;ssimo. Tudo isso
+ representava a vida dos homens, que a essa hora existiam no mundo, desde a
+ China at&eacute; &agrave; Groenl&acirc;ndia.<br /> <br /> A velha queria
+ mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a m&atilde;e impacientada
+ pediu-lhe que a levasse ao s&iacute;tio onde estavam as plantas
+ pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do cora&ccedil;&atilde;o,
+ e, depois de ter tocado em milhares delas, reconheceu as pulsa&ccedil;&otilde;es
+ do cora&ccedil;&atilde;o do seu filho.<br /> <br /> &#8213;&Eacute; ele!&raquo;
+ exclamou, lan&ccedil;ando a m&atilde;o a um a&ccedil;afroeiro, que,
+ pendido sobre a terra, parecia completamente estiolado.<br /> <br /> &#8213;N&atilde;o
+ lhe toques, disse a velha. Fica neste s&iacute;tio; e quando a Morte vier,
+ que n&atilde;o tarda, pro&iacute;be-lhe que arranque esta planta; amea&ccedil;a-a
+ de arrancar todas as flores que est&atilde;o aqui. A Morte ter&aacute;
+ medo, porque tem de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem
+ o seu consentimento.&raquo;<br /> <br /> Nisto sentiu-se um vento glacial, e
+ a m&atilde;e adivinhou que era a Morte, que se aproximava.<br /> <br />
+ <span class="pagenum">[9]</span>&#8213;Como &eacute; que deste com o
+ caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda primeiro do que eu! Como o
+ conseguiste?&#8213;&laquo;Sou m&atilde;e&raquo; respondeu ela. <br /> E a
+ Morte estendeu a sua m&atilde;o ganchosa para o pequenino a&ccedil;afroeiro.<br />
+ <br /> Mas a m&atilde;e protegia-o violentamente com ambas as m&atilde;os,
+ tendo o cuidado de n&atilde;o ferir uma s&oacute; das pequeninas p&eacute;talas.
+ Ent&atilde;o a Morte soprou-lhe nas m&atilde;os, fazendo-lhas cair
+ inanimadas. O h&aacute;lito da Morte era mais frio do que os ventos
+ enregelados do Inverno.<br /> <br /> &#8213;N&atilde;o podes nada comigo!&raquo;
+ disse a Morte.&#8213;Mas Deus tem mais for&ccedil;a do que tu, respondeu a
+ m&atilde;e.&raquo;&#8213;&laquo;&Eacute; verdade, mas eu n&atilde;o fa&ccedil;o
+ sen&atilde;o aquilo que ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas
+ plantas, &aacute;rvores e arbustos, quando come&ccedil;am a murchar,
+ transplanto-as para outros jardins, um dos quais &eacute; o grande jardim
+ do Para&iacute;so. S&atilde;o regi&otilde;es desconhecidas; ningu&eacute;m
+ sabe o que se l&aacute; passa.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Miseric&oacute;rdia!
+ miseric&oacute;rdia! solu&ccedil;ou a m&atilde;e. N&atilde;o me roubem o
+ meu filho, agora que acabo de o encontrar!&raquo; Suplicava e gemia. A
+ Morte conservava-se impass&iacute;vel; agarrou ent&atilde;o
+ instantaneamente em duas flores lind&iacute;ssimas e disse &agrave; Morte:
+ &laquo;Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar, despeda&ccedil;ar n&atilde;o
+ s&oacute; esta, mas todas as flores que est&atilde;o aqui!<br /> <br />
+ &#8213;N&atilde;o as arranques, n&atilde;o as mates, bradou a Morte. Dizes
+ que &eacute;s desgra&ccedil;ada, e querias ir partir o cora&ccedil;&atilde;o
+ de outra m&atilde;e!&#8213;&laquo;Outra m&atilde;e!&raquo; disse a pobre
+ mulher, largando as flores imediatamente. <span class="pagenum">[10]</span>&#8213;Toma,
+ aqui tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam t&atilde;o suavemente
+ que os tirei do lago. N&atilde;o sabia que eram teus. Mete-os nas &oacute;rbitas,
+ e olha para o fundo deste po&ccedil;o; v&ecirc; o que ias destruir, se
+ arrancasses estas flores. Ver&aacute;s passar nos reflexos da &aacute;gua,
+ como numa miragem, a sorte destinada a cada uma dessas duas flores, e a
+ que teria tido o teu filho, se porventura vivesse.&raquo;<br /> <br /> Debru&ccedil;ou-se
+ no po&ccedil;o, e viu passar imagens de felicidade e alegria, quadros
+ risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terr&iacute;veis de mis&eacute;ria,
+ de ang&uacute;stias e de desola&ccedil;&atilde;o.<br /> <br /> &#8213;Nisto
+ que eu vejo, disse a m&atilde;e aflit&iacute;ssima, n&atilde;o distingo
+ qual era a sorte que Deus destinava ao meu filho.&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;N&atilde;o posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em
+ tudo isto que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu
+ filho.&raquo;<br /> <br /> A m&atilde;e desvairada, lan&ccedil;ou-se de
+ joelhos exclamando: Suplico-te, diz-me: era a sorte infeliz a que lhe
+ estava reservada? N&atilde;o &eacute; verdade! Fala! N&atilde;o me
+ respondes? Oh! na d&uacute;vida, leva-o, leva-o, n&atilde;o v&aacute; ele
+ sofrer desgra&ccedil;as t&atilde;o horr&iacute;veis. O meu querido filho!
+ Quero-lho mais que &agrave; minha vida. As ang&uacute;stias que sejam para
+ mim. Leva-o para o reino dos c&eacute;us. Esquece as minhas l&aacute;grimas,
+ as minhas s&uacute;plicas, esquece tudo o que fiz e tudo o que disse.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;N&atilde;o te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te
+ entregue o teu filho ou que o leve para a regi&atilde;o desconhecida de
+ que n&atilde;o posso falar-te!&raquo; Ent&atilde;o a m&atilde;e alucinada,
+ convulsa, torcendo os bra&ccedil;os, deitou-se de joelhos e dirigindo-se
+ <span class="pagenum">[11]</span>a Deus exclamou: &laquo;N&atilde;o me ou&ccedil;as,
+ Senhor, se reclamo no fundo do meu cora&ccedil;&atilde;o contra a tua
+ vontade que &eacute; sempre justa! N&atilde;o me atendas meu Deus!&raquo;<br />
+ <br /> E deixou cair a cabe&ccedil;a sobre o peito, mergulhada na sua
+ agonia dilacerante.<br /> <br /> E a Morte arrancou o pequenino a&ccedil;afroeiro,
+ e foi transplant&aacute;-lo no jardim do para&iacute;so.<br /> <br /> <br />
+ <br /> <br /> <span class="pagenum">[12]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="2"></a>O ouro
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas
+ minas de ouro, empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas
+ minas; e o resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve
+ uma grande fome no pa&iacute;s.<br /> <br /> Mas a rainha, que era prudente
+ e que amava o povo, mandou fabricar em segredo frangos, pombos, galinhas e
+ outras iguarias todas de ouro fino; e quando o rei quis jantar mandou-lhe
+ servir essas iguarias de ouro, com que ele ficou todo satisfeito, porque n&atilde;o
+ compreendeu ao princ&iacute;pio qual era o sentido da rainha; mas, vendo
+ que n&atilde;o lhe traziam mais nada de comer, come&ccedil;ou a zangar-se.
+ Pediu-lhe ent&atilde;o a rainha, que visse bem que o ouro n&atilde;o era
+ alimento, e que seria melhor empregar os seus vassalos em cultivar a
+ terra, que nunca se cansa de produzir, do que traz&ecirc;-los nas minas
+ &agrave; busca do ouro, que n&atilde;o mata a fome nem a sede, e que n&atilde;o
+ tem outro valor al&eacute;m da estima&ccedil;&atilde;o que lhe &eacute;
+ dada pelos homens, estima&ccedil;&atilde;o que havia de converter-se em
+ desprezo, logo que ouro aparecesse em abund&acirc;ncia.<br /> <br /> A
+ rainha tinha ju&iacute;zo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[13]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="3"></a>Do&ccedil;ura e bondade
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> H&aacute; entre v&oacute;s, meus filhos, &iacute;ndoles
+ violentas, que n&atilde;o sabem dominar-se, e que s&atilde;o arrastadas
+ pelas primeiras impress&otilde;es. &Eacute; uma p&eacute;ssima disposi&ccedil;&atilde;o,
+ que &eacute; necess&aacute;rio corrigir; d&aacute; lugar a disputas, e a
+ que se cometam ac&ccedil;&otilde;es, cujo arrependimento chega
+ demasiadamente tarde. Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.<br />
+ <br /> Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha
+ diante dele, volta-se e d&aacute;-lhe uma bofetada.<br /> <br /> &#8213;Oh!
+ senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num cego!&raquo;<br />
+ <br /> Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns
+ camponeses grosseiros come&ccedil;aram a apup&aacute;-lo e a bater no
+ burro, para o fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e,
+ mostrando-lhes a sua perna aleijada, disse-lhes: &laquo;Se soub&eacute;sseis
+ que eu era coxo, n&atilde;o ter&iacute;eis sido t&atilde;o covardes.&raquo;<br />
+ <br /> Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar
+ uma palavra.<br /> <br /> Que vos parece estas duas li&ccedil;&otilde;es?
+ Estou convencido que aproveitaram a quem as recebeu.<br /> <br /> <br />
+ <br /> <br /> <span class="pagenum">[14]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="4"></a>O malmequer
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Ouvi com aten&ccedil;&atilde;o esta pequenina hist&oacute;ria!<br />
+ <br /> No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+ deveis ter visto muitas vezes. H&aacute; na frente um jardinzinho com
+ flores, rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado,
+ no meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
+ olhos vistos, gra&ccedil;as ao sol, que repartia igualmente a sua luz
+ tanto por ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela
+ manh&atilde;, j&aacute; inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e
+ brilhantes, parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco
+ se lhe dava que o vissem no meio da erva e n&atilde;o fizessem caso dele,
+ pobre florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente
+ o calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.<br />
+ <br /> Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira,
+ sentia-se t&atilde;o feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crian&ccedil;as
+ sentadas nos bancos da escola estudavam a li&ccedil;&atilde;o, ele,
+ sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade
+ de Deus, e tudo o que <span class="pagenum">[15]</span>sentia
+ misteriosamente, em sil&ecirc;ncio, julgava ouvi-lo traduzido com admir&aacute;vel
+ nitidez nas can&ccedil;&otilde;es alegres da cotovia. Por isso p&ocirc;s-se
+ a olhar com uma esp&eacute;cie de respeito, mas sem inveja, para essa
+ avezinha feliz que cantava e voava.<br /> <br /> &laquo;Eu vejo e oi&ccedil;o,
+ pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! n&atilde;o
+ tenho raz&atilde;o de me queixar.&raquo;<br /> <br /> Dentro da sebe havia
+ muitas flores altivas, aristocr&aacute;ticas; quanto menos aroma tinham,
+ mais orgulhosas se aprumavam. As d&aacute;lias inchavam-se para parecerem
+ maiores do que as rosas; mas n&atilde;o &eacute; o tamanho que faz a rosa.
+ As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se
+ pretensiosamente. N&atilde;o se dignavam de lan&ccedil;ar um olhar para o
+ pequeno malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando:
+ &laquo;Como s&atilde;o ricas e bonitas! A cotovia ir&aacute; certamente
+ visit&aacute;-las. Gra&ccedil;as a Deus, poderei assistir a este belo
+ espect&aacute;culo.&raquo; E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu
+ voo, n&atilde;o para as d&aacute;lias e tulipas, mas para a relva, junto
+ do pobre malmequer, que morto de alegria n&atilde;o sabia o que havia de
+ pensar.<br /> <br /> O passarinho p&ocirc;s-se a saltitar &agrave; roda
+ dele, cantando: &laquo;Como a erva &eacute; macia! oh! que encantadora
+ florinha, com um cora&ccedil;&atilde;o de oiro, vestida de prata!&raquo;<br />
+ <br /> N&atilde;o se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave
+ acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois
+ no azul do firmamento. Durante mais de um quarto de hora n&atilde;o p&ocirc;de
+ o malmequer reprimir a sua como&ccedil;&atilde;o. Meio envergonhado, mas
+ todo contente, olhou <span class="pagenum">[16]</span>para as outras
+ flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber,
+ deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam
+ cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e pontiaguda manifestava o
+ despeito. As d&aacute;lias tinham a cabe&ccedil;a toda inchada. Se elas
+ pudessem falar, teriam dito coisas bem desagrad&aacute;veis ao pobre
+ malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.<br /> <br /> Passados alguns
+ momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e
+ brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.<br /> <br />
+ &laquo;Que desgra&ccedil;a! disse o malmequer suspirando; &eacute; horr&iacute;vel;
+ foram-se todas.&raquo;<br /> <br /> E enquanto a rapariguinha levava as
+ tulipas, o malmequer alegrara-se por ser simplesmente uma pequenina flor
+ no meio da erva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair
+ da tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com
+ a cotovia.<br /> <br /> No dia seguinte de manh&atilde;, assim que o
+ malmequer abriu as suas folhas ao ar e &agrave; luz, reconheceu a voz do
+ passarinho, mas o seu canto era triste, muit&iacute;ssimo triste. A pobre
+ cotovia tinha boas raz&otilde;es para se afligir: haviam-na agarrado e
+ metido numa gaiola, suspensa entre uma janela aberta. Cantava a alegria da
+ liberdade, a beleza dos campos e as suas antigas viagens atrav&eacute;s do
+ espa&ccedil;o ilimitado.<br /> <br /> O pequenino malmequer tinha boa
+ vontade de lhe acudir: mas como? Era dif&iacute;cil. A compaix&atilde;o
+ pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe esquecer <span class="pagenum">[17]</span>inteiramente
+ as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura resplandecente
+ das suas pr&oacute;prias folhas.<br /> <br /> Nisto dois rapazinhos entraram
+ no jardim. O mais velho trazia na m&atilde;o uma faca comprida e afiada
+ como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas. Encaminharam-se para
+ o malmequer, que n&atilde;o podia compreender o que desejavam.<br /> <br />
+ &laquo;Podemos arrancar daqui um peda&ccedil;o de relva para a cotovia,
+ disse um dos rapazes, e come&ccedil;ou a fazer um quadrado profundo
+ &agrave; volta da florinha.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Arranca a flor, disse
+ o outro.&raquo;<br /> <br /> A estas palavras o malmequer estremeceu de
+ terror. Arrancarem-no era morrer; e nunca tinha aben&ccedil;oado tanto a
+ exist&ecirc;ncia, como no momento em que esperava entrar com a relva na
+ gaiola da cotovia.<br /> <br /> &laquo;N&atilde;o; deixemo-la, disse o mais
+ velho. Est&aacute; a&iacute; muito bem.&raquo;<br /> <br /> Foi por
+ conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.<br /> <br /> O pobre
+ passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia com as asas
+ nos arames da gaiola. O malmequer n&atilde;o podia, apesar dos seus
+ desejos, articular-lhe uma palavra de consola&ccedil;&atilde;o.<br /> <br />
+ Passou-se assim toda a manh&atilde;.<br /> <br /> &laquo;J&aacute; n&atilde;o
+ tenho &aacute;gua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
+ deixarem ao menos uma gota de &aacute;gua. A garganta queima-me, tenho uma
+ febre terr&iacute;vel, sinto-me abafada! Ai! N&atilde;o h&aacute; rem&eacute;dio
+ sen&atilde;o morrer, longe do sol espl&ecirc;ndido, longe da fresca
+ verdura e de todas as magnific&ecirc;ncias da cria&ccedil;&atilde;o!&raquo;<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[18]</span>Depois enterrou o bico na relva h&uacute;mida
+ para se refrescar um pouco. Viu ent&atilde;o o malmequer; fez-lhe um sinal
+ de cabe&ccedil;a amig&aacute;vel, e disse-lhe, afagando-o: &laquo;Tamb&eacute;m
+ tu, pobre florinha, morrer&aacute;s aqui! Em vez do mundo inteiro, que eu
+ tinha &agrave; minha disposi&ccedil;&atilde;o, deram-me um pedacito de
+ relva, e a ti s&oacute; por &uacute;nica companhia. Cada pezinho de relva
+ substitui para mim uma &aacute;rvore, e cada uma das tuas folhas brancas,
+ uma flor odor&iacute;fera. Ah! como me fazes recordar de todas as coisas
+ que perdi!<br /> <br /> &#8213;Se eu pudesse consol&aacute;-la! pensava o
+ malmequer, incapaz de fazer o m&iacute;nimo movimento.<br /> <br /> Contudo
+ o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia
+ sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a erva,
+ teve todo o cuidado em n&atilde;o tocar nem sequer de leve na flor.<br />
+ <br /> Caiu a noite; n&atilde;o estava ali ningu&eacute;m, para trazer uma
+ gota de &aacute;gua &agrave; desditosa cotovia; Estendeu ent&atilde;o as
+ suas belas asas, sacudindo-as convulsivamente, e p&ocirc;s-se a cantar uma
+ can&ccedil;&atilde;ozinha melanc&oacute;lica; a sua cabecinha inclinou-se
+ para a flor, e o seu cora&ccedil;&atilde;o quebrado de desejos e de ang&uacute;stias
+ cessou de bater. Vendo este triste espect&aacute;culo, o malmequer n&atilde;o
+ p&ocirc;de como na v&eacute;spera fechar as suas folhas para dormir;
+ curvou-se para o ch&atilde;o, doente de tristeza.<br /> <br /> Os rapazitos
+ s&oacute; voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
+ rebentaram-lhe as l&aacute;grimas e abriram uma cova. Meteram o cad&aacute;ver
+ dentro de uma caixa vermelha, lind&iacute;ssima, fizeram-lhe um enterro de
+ pr&iacute;ncipe, e cobriram o t&uacute;mulo com folhas de rosas.<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[19]</span>Pobre passarinho! Enquanto vivia e
+ cantava, esqueceram-se dele e deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois
+ de morto &eacute; que o choraram e lhe fizeram honrarias pompos&iacute;ssimas.<br />
+ <br /> A relva e o malmequer lan&ccedil;aram-nas para a poeira da estrada;
+ daquele que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ningu&eacute;m se
+ lembrou.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[20]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="5"></a>N&atilde;o quero
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam
+ muito alto: &laquo;N&atilde;o, dizia um com voz en&eacute;rgica, n&atilde;o
+ quero.&raquo; Parei e perguntei-lhe:&#8213;O que &eacute; que tu n&atilde;o
+ queres, meu rapaz?&#8213;&laquo;N&atilde;o quero dizer &agrave; mam&atilde;
+ que venho da escola, porque &eacute; mentira. Sei que me h&aacute;-de
+ ralhar, mas antes quero que me ralhe do que mentir.&raquo;&#8213;E tens
+ raz&atilde;o, disse-lhe eu. &Eacute;s um rapaz como se quer.&raquo;
+ Apertei-lhe a m&atilde;o, enquanto que o outro pequeno, que lhe
+ aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora todo envergonhado.<br />
+ <br /> Da&iacute; a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de
+ falar com o professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os
+ meus dois pequenos; o que n&atilde;o quis mentir, sorria-me, enquanto que
+ o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre
+ sobre os dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, &eacute; um
+ magn&iacute;fico estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre
+ pronto a confessar as suas faltas e o que &eacute; ainda melhor, a repar&aacute;-las.
+ O outro pelo contr&aacute;rio, &eacute; mentiroso, covarde e incorrig&iacute;vel.&raquo;&#8213;N&atilde;o
+ me espanto, disse eu, j&aacute; tinha tirado o hor&oacute;scopo destas
+ duas crian&ccedil;as; e contei-lhe o que tinha ouvido.<br /> <br /> <br />
+ <br /> <br /> <span class="pagenum">[21]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="6"></a>Piloto
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos c&atilde;es,
+ e o infatig&aacute;vel companheiro dos brinquedos das crian&ccedil;as da
+ quinta.<br /> <br /> Fazia gosto v&ecirc;-lo atirar-se ao tanque a agarrar o
+ pau, que Jo&atilde;o lhe lan&ccedil;ava o mais longe que podia; pegava
+ nele, metia-o na boca e trazia-o &agrave; margem, com grande alegria do
+ pequerrucho e da sua irm&atilde; Joaninha.<br /> <br /> Esta brincadeira
+ recome&ccedil;ava vinte vezes sem cansar nunca a paci&ecirc;ncia do
+ Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, at&eacute; que
+ o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal &agrave;s suas obriga&ccedil;&otilde;es:
+ partia ent&atilde;o como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos
+ pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.<br /> <br /> Quando o
+ hortel&atilde;o ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da
+ carro&ccedil;a; e muito atrevido seria quem saltasse &agrave; noite a
+ parede da quinta.<br /> <br /> Uma vez deu prova de uma extraordin&aacute;ria
+ sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de
+ trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.<br /> <br />
+ Piloto, que o conhecia, n&atilde;o fez a menor demonstra&ccedil;&atilde;o
+ de hostilidade em quanto o homem seguiu o <span class="pagenum">[22]</span>caminho
+ da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o guarda
+ vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.<br /> <br /> Era como se
+ dissesse: &laquo;Onde vais tu com o trigo de meu dono?&raquo;<br /> <br /> O
+ ladr&atilde;o quis p&ocirc;r ent&atilde;o outra vez o saco donde o tinha
+ tirado; Piloto n&atilde;o consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem
+ o ferir, at&eacute; de manh&atilde;; o quinteiro foi dar com ele nesta dif&iacute;cil
+ posi&ccedil;&atilde;o, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o
+ caso para o n&atilde;o desonrar.<br /> <br /> Mas o homem ficou com &oacute;dio
+ ao c&atilde;o, e muito tempo depois, aproveitando a aus&ecirc;ncia do
+ quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem
+ desconfian&ccedil;a; atou-lhe uma corda ao pesco&ccedil;o e arrastou-o at&eacute;
+ &agrave; margem do ribeiro.<br /> <br /> Atou uma grande pedra &agrave;
+ outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o &agrave;
+ &aacute;gua; mas arrastado ele pr&oacute;prio com o peso e com o esfor&ccedil;o,
+ caiu tamb&eacute;m.<br /> <br /> Como n&atilde;o sabia nadar, teria sido
+ despeda&ccedil;ado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo
+ ao seu instinto de salvador e desembara&ccedil;ando-se da pedra mal atada,
+ n&atilde;o tivesse mergulhado duas vezes e trazido para terra o seu mortal
+ inimigo.<br /> <br /> Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando
+ voltou a si, que o c&atilde;o que ele tinha querido afogar, lhe salvara a
+ vida.<br /> <br /> Teve vergonha de seu acto miser&aacute;vel; e desde esse
+ dia, violentou-se a si mesmo e combateu as suas m&aacute;s inclina&ccedil;&otilde;es.<br />
+ <br /> O exemplo do c&atilde;o corrigiu o homem.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <br /> <span class="pagenum">[23]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="7"></a>O rico e o pobre
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer
+ recados; um dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se
+ cansado e deitou-se debaixo de uma &aacute;rvore, &agrave; porta de uma
+ estalagem, junto da estrada. Estava comendo um bocado de p&atilde;o que
+ tinha trazido para jantar, quando chegou uma bela carruagem em que vinha
+ um fidalguinho, com o seu preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente
+ e perguntou aos viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que n&atilde;o
+ tinham tempo, e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma
+ garrafa de vinho.<br /> <br /> Martinho estava pasmado a olhar para eles;
+ olhou depois para a sua c&ocirc;dea de p&atilde;o, para a sua velha
+ jaqueta, para o seu chap&eacute;u todo roto, e suspirando exclamou
+ baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino t&atilde;o rico, em vez do desgra&ccedil;ado
+ Martinho! Que fortuna se ele estivesse aqui, e eu dentro daquela
+ carruagem!&raquo; O preceptor ouviu casualmente o que dizia Martinho e
+ repetiu-o ao seu aluno, que, lan&ccedil;ando a cabe&ccedil;a fora da
+ carruagem, chamou Martinho com a m&atilde;o.<br /> <br /> &#8213;Ficarias
+ muito contente, n&atilde;o &eacute; verdade, meu <span class="pagenum">[24]</span>rapaz,
+ podendo trocar a minha sorte pela tua?&raquo;&#8213;Pe&ccedil;o que me
+ desculpe senhor, replicou Martinho corando, o que eu disse n&atilde;o foi
+ por mal.&raquo;&#8213;N&atilde;o estou zangado contigo, replicou o
+ fidalguinho, pelo contr&aacute;rio, desejo fazer a troca.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Oh! est&aacute; a divertir-se comigo! tornou Martinho, ningu&eacute;m
+ quereria estar no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o
+ senhor. Ando muitas l&eacute;guas por dia, como p&atilde;o seco e batatas,
+ enquanto que o senhor anda numa carruagem, pode comer frangos e beber
+ vinho.&raquo;&#8213;Pois bem, volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo
+ aquilo que tens e que eu n&atilde;o tenho, dou-te em troca de boa vontade
+ tudo o que possuo.&raquo; Martinho ficou com os olhos espantados, sem
+ saber o que havia de dizer; mas o preceptor continuou: &laquo;Aceitas a
+ troca?&raquo;&#8213;Ora essa! exclamou Martinho, ainda mo pergunta! Oh!
+ como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada de me ver entrar nesta
+ bela carruagem!&raquo; E Martinho desatou a rir com a ideia da entrada
+ triunfante na sua aldeia.<br /> <br /> O fidalguinho chamou os criados, que
+ abriram a portinhola e o ajudaram a descer. Mas qual foi a surpresa de
+ Martinho, vendo que ele tinha uma perna de pau e que a outra era t&atilde;o
+ fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas: depois, olhando para
+ ele de mais perto, Martinho observou que era muito p&aacute;lido e que
+ tinha cara de doente.<br /> <br /> Sorriu para o rapazito com ar ben&eacute;volo,
+ e disse-lhe:&#8213;Ent&atilde;o sempre desejas trocar? Querias porventura,
+ se pudesses, deixar as tuas pernas valentes e as tuas faces coradas, pelo
+ prazer de ter <span class="pagenum">[25]</span>uma carruagem e andar bem
+ vestido?&raquo;&#8213;Oh! n&atilde;o, por coisa nenhuma! replicou
+ Martinho.&#8213;&laquo;Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria
+ pobre, se tivesse sa&uacute;de. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e
+ doente, sofro os meus males com paci&ecirc;ncia e fa&ccedil;o por ser
+ alegre, dando gra&ccedil;as a Deus pelos bens que me concedeu na sua
+ infinita miseric&oacute;rdia.<br /> <br /> &laquo;Faz o mesmo, meu
+ amiguinho, e lembra-te que, se &eacute;s pobre e comes mal, tens for&ccedil;a
+ e sa&uacute;de, coisas que valem mais que uma carruagem, e que n&atilde;o
+ podem comprar-se com dinheiro.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[26]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="8"></a>Como um campon&ecirc;s aprendeu o Padre Nosso
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Tinha o cora&ccedil;&atilde;o duro, e n&atilde;o dava esmolas.
+ Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penit&ecirc;ncia rezar
+ sete vezes o Padre Nosso.<br /> <br /> &laquo;N&atilde;o o sei, e nunca o
+ pude aprender, respondeu o alde&atilde;o.&raquo; <br /> &laquo;Pois nesse
+ caso, tornou o confessor, imponho-te por penit&ecirc;ncia dar a cr&eacute;dito
+ um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da minha parte.&raquo;<br />
+ <br /> No dia seguinte de manh&atilde; apresentou-se o primeiro pobre.<br />
+ <br /> &laquo;Como te chamas? perguntou-lhe o campon&ecirc;s.<br /> <br />
+ &laquo;Padre&#8213;Nosso&#8213;Que&#8213;Estais&#8213;No&#8213;C&eacute;u,
+ respondeu o pobre.&raquo;<br /> <br /> &laquo;E o teu apelido?&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Seja&#8213;Santificado&#8213;O&#8213;Vosso&#8213;Nome.&raquo;<br />
+ <br /> E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.<br /> <br /> Ao
+ outro dia chega segundo pobre.<br /> <br /> &laquo;Como te chamas?<br />
+ <br /> &laquo;Venha&#8213;A&#8213;N&oacute;s&#8213;O&#8213;Vosso&#8213;Reino.&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;E o teu apelido?&raquo;<br /> <br /> &laquo;Seja&#8213;Feita&#8213;A&#8213;Vossa&#8213;Vontade.&raquo;<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[27]</span>E partiu com o seu alqueire de
+ trigo.<br /> <br /> Veio terceiro pobre.<br /> <br /> &laquo;Como te chamas?&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Assim&#8213;Na&#8213;Terra&#8213;Como&#8213;No&#8213;C&eacute;u.&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;E o teu apelido?&raquo;<br /> <br /> &laquo;Dai-nos&#8213;Hoje&#8213;O&#8213;P&atilde;o&#8213;Nosso&#8213;De&#8213;Cada&#8213;Dia.&raquo;<br />
+ <br /> E levou o seu alqueire.<br /> <br /> Vieram ainda dois pobres
+ sucessivamente, e passou-se tudo da mesma forma at&eacute; chegar ao <i>Amen</i>.<br />
+ <br /> Pouco tempo depois o confessor encontrou o alde&atilde;o.<br /> <br />
+ &laquo;Ent&atilde;o j&aacute; sabes o Padre Nosso?&raquo;<br /> <br />
+ &laquo;N&atilde;o, sr. cura, sei s&oacute; os nomes e apelidos dos pobres
+ a quem emprestei o meu trigo.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Quais s&atilde;o?
+ tornou o padre.&raquo;<br /> <br /> E o alde&atilde;o enumerou-lhos a
+ seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.<br /> <br />
+ &laquo;J&aacute; v&ecirc;s, disse o confessor, que n&atilde;o era muito
+ dif&iacute;cil aprender o Padre Nosso, porque j&aacute; o sabes
+ perfeitamente.&raquo;<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[28]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="9"></a>O talism&atilde;
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma ind&uacute;stria,
+ mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se,
+ o que n&atilde;o era de espantar, porque o primeiro zelava os seus neg&oacute;cios
+ com uma actividade infatig&aacute;vel, enquanto que o segundo, entregue
+ inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direc&ccedil;&atilde;o
+ da sua casa.<br /> <br /> &laquo;Explica-me, disse um dia este &uacute;ltimo
+ ao seu colega, qual &eacute; a raz&atilde;o porque a sorte nos trata de um
+ modo t&atilde;o diferente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja
+ est&aacute; t&atilde;o bem situada como a tua, e apesar disso, enquanto tu
+ ganhas, eu n&atilde;o fa&ccedil;o sen&atilde;o perder. E n&atilde;o
+ &eacute; porque eu seja estroina; n&atilde;o bebo, nem jogo. J&aacute;
+ tenho pensado algumas vezes se n&atilde;o ter&aacute;s tu por acaso algum
+ precioso talism&atilde;.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Efectivamente, respondeu
+ o outro, herdei de meu pai um talism&atilde; de uma virtude incompar&aacute;vel.
+ Trago-o ao pesco&ccedil;o, e ando assim com ele todo o dia por toda a
+ casa, do celeiro para a adega, e da adega para o celeiro. E o caso
+ &eacute; que tudo me corre perfeitamente.&raquo;<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[29]</span>&laquo;Ol&eacute; meu querido colega,
+ empresta-me pelo amor de Deus essa rel&iacute;quia preciosa de que tanto
+ necessito; podes ter a certeza de que ta restituo.&raquo;<br /> <br />
+ &laquo;Pois vem busc&aacute;-la amanh&atilde; de manh&atilde;.&raquo;<br />
+ <br /> Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
+ apresentou-lhe este uma avel&atilde;, atrav&eacute;s da qual tinha passado
+ um fio de seda.<br /> <br /> O nosso homem p&ocirc;-la imediatamente ao
+ pesco&ccedil;o, e come&ccedil;ou a correr toda a casa com o talism&atilde;.
+ Observou ent&atilde;o a completa desordem que por toda a parte ali havia.
+ Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha o p&atilde;o, a
+ carne e os legumes; no celeiro, o milho, o trigo, o feij&atilde;o; na
+ estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjedouras dos cavalos; viu,
+ finalmente, como os seus livros e registros estavam mal escriturados; viu
+ tudo isto, e que era necess&aacute;rio dar-lhe rem&eacute;dio,
+ compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substitu&iacute;do por
+ terceira pessoa na direc&ccedil;&atilde;o dos seus neg&oacute;cios.<br />
+ <br /> Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talism&atilde;,
+ agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em
+ segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.<br /> <br /> <br />
+ <br /> <br /> <span class="pagenum">[30]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="10"></a>A alma
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> &laquo;Mam&atilde;, nem todas as crian&ccedil;as que morrem v&atilde;o
+ para o Para&iacute;so. O outro dia vi levar para o cemit&eacute;rio um
+ menino que tinha morrido; o seu pap&aacute; e as suas duas irm&atilde;zinhas
+ acompanhavam o caix&atilde;o, e choravam tanto que me fazia pena. Iam a
+ chorar porque aquele menino tinha sido mau, n&atilde;o &eacute; verdade?&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;N&atilde;o; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma,
+ enquanto choravam seus pais e suas irm&atilde;s, j&aacute; estava vivendo
+ feliz no Para&iacute;so.&raquo;<br /> <br /> &laquo;A alma? mam&atilde;; n&atilde;o
+ sei o que &eacute;; n&atilde;o compreendo bem.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Maria,
+ acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas pequerruchas.&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Tive sim, mam&atilde;, tive muita pena.&raquo;<br /> <br />
+ &laquo;Ora bem, o que &eacute; que no teu corpo estava desconsolado e
+ triste? eram os bra&ccedil;os?&raquo;<br /> <br /> &laquo;N&atilde;o, mam&atilde;.&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Eram as orelhas?&raquo;<br /> <br /> &laquo;Oh! n&atilde;o mam&atilde;,
+ era <i>c&aacute; dentro</i>.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Esse <i>l&aacute;
+ dentro</i>, Maria, &eacute; a tua alma que se alegra ou se entristece, que
+ te repreende quando fazes o mal, e que est&aacute; satisfeita quando
+ praticas o bem.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[31]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="11"></a>Alberto
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu
+ pai e seus irm&atilde;os, que eram activos e laboriosos, plantar &aacute;rvores
+ e fazer sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um
+ &uacute;nico feij&atilde;o produzir cem feij&otilde;es e muitas vezes
+ mais, e de uma talhada de batata nascerem quarenta batatas magn&iacute;ficas;
+ sabia que a terra pagava com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um
+ dia achou uma libra no quarto do pai, e foi enterr&aacute;-la
+ imediatamente no seu jardinzinho. &laquo;H&aacute;-de nascer uma &aacute;rvore,
+ dizia ele consigo, que dar&aacute; libras como uma cerejeira d&aacute;
+ cerejas, e irei entreg&aacute;-las ao pap&aacute;, que ficar&aacute; muito
+ contente.&raquo; Todas as manh&atilde;s ia ver se a libra tinha nascido,
+ mas n&atilde;o rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda
+ a parte. Por fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.<br /> <br />
+ &laquo;Vi pap&aacute;; achei-a e fui seme&aacute;-la.&raquo;<br /> <br />
+ &laquo;Como, seme&aacute;-la? doido! julgas talvez que vai nascer como uma
+ couve?&raquo;<br /> <br /> &laquo;Mas, pap&aacute;, ouvi dizer que o oiro se
+ encontrava na terra.&raquo;<br /> <br /> &laquo;&Eacute; verdade, mas n&atilde;o
+ nasce como uma semente; o oiro n&atilde;o tem vida.&raquo;<br /> <br />
+ <span class="pagenum">[32]</span>Desenterrou-se a libra, e Alberto foi
+ castigado por dispor do que lhe n&atilde;o pertencia.<br /> <br /> H&aacute;
+ contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe produzir
+ os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como &eacute;?
+ &Eacute; dando-o aos pobres. Faz-se no Para&iacute;so a colheita dessa
+ sementeira.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[33]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="12"></a>A can&ccedil;&atilde;o da cerejeira
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Disse Deus na Primavera: &laquo;Ponham a mesa &agrave;s
+ lagartas!&raquo; E a cerejeira cobriu-se imediatamente de folhas, milh&otilde;es
+ de folhas, fresquinhas e verdejantes.<br /> <br /> A lagarta, que estava
+ dormindo dentro de casa, acordou, espregui&ccedil;ou-se, abriu a boca,
+ esfregou os olhos e p&ocirc;s-se a comer tranquilamente as folhinhas
+ tenras, dizendo: &laquo;N&atilde;o se pode a gente despegar delas. Quem
+ &eacute; que me arranjou este banquete?&raquo;<br /> <br /> Ent&atilde;o
+ Deus disse de novo: &laquo;Ponham a mesa &agrave;s abelhas!&raquo; E a
+ cerejeira cobriu-se imediatamente de flores, milh&otilde;es de flores
+ delicadas e brancas.<br /> <br /> E a abelha matinal aos primeiros raios da
+ aurora pousou sobre elas, dizendo: &laquo;Vamos tomar o nosso caf&eacute;;
+ e que ch&aacute;venas t&atilde;o bonitas em que o deitaram!&raquo;<br />
+ <br /> Provou com a linguita, exclamando: &laquo;Que deliciosa bebida! N&atilde;o
+ pouparam o a&ccedil;&uacute;car!&raquo;<br /> <br /> No Ver&atilde;o disse
+ Deus: &laquo;Ponham a mesa aos passarinhos!&raquo; E a cerejeira cobriu-se
+ de mil frutos apetitosos e vermelhos.<br /> <br /> <span class="pagenum">[34]</span>&laquo;Ah!
+ ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasi&atilde;o; temos apetite, e
+ isto dar-nos-&aacute; novas for&ccedil;as para podermos cantar uma nova
+ can&ccedil;&atilde;o.&raquo; No Outono disse Deus: &laquo;Levantai a mesa,
+ j&aacute; est&atilde;o satisfeitos.&raquo; E o vento frio das montanhas
+ come&ccedil;ou a soprar, e fez estremecer a &aacute;rvore.<br /> <br /> As
+ folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, ca&iacute;ram uma a uma, e o
+ vento que as lan&ccedil;ou ao ch&atilde;o erguia-as novamente, fazendo-as
+ esvoa&ccedil;ar.<br /> <br /> Chegou o Inverno e disse Deus: &laquo;Cobri o
+ resto!&raquo; E os turbilh&otilde;es dos ventos trouxeram a neve, sob cuja
+ mortalha tudo dorme e descansa.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[35]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="13"></a>Os gigantes da montanha e os an&otilde;es da plan&iacute;cie
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Era uma vez uma fam&iacute;lia de gigantes, que viviam num
+ castelo na montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da
+ altura dum &aacute;lamo. Era curiosa e andava com vontade de descer
+ &agrave; plan&iacute;cie a ver o que faziam l&aacute; em baixo os homens,
+ que de cima do monte lhe pareciam an&otilde;es. Um belo dia, em que seu
+ pai o gigante tinha ido &agrave; ca&ccedil;a e sua m&atilde;e estava
+ dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os
+ jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os
+ lavradores, coisas inteiramente novas para ela. &laquo;Oh! que lindos
+ brinquedos!&raquo; exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental,
+ que quase que cobriu o campo. Lan&ccedil;ou-lhe dentro os homens, os
+ cavalos, a charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no
+ castelo, onde seu pai estava a jantar.<br /> <br /> &#8213;Que trazes a&iacute;,
+ minha filha?&raquo; perguntou ele.<br /> <br /> &#8213;Olhe, disse ela,
+ abrindo o avental, que lindos brinquedos. S&atilde;o os mais bonitos que
+ tenho visto.&raquo;<br /> <br /> E p&ocirc;-los em cima da mesa, a um e um,&#8213;os
+ cavalos, a charrua e os trabalhadores, que estavam <span class="pagenum">[36]</span>todos
+ espantados, como formigas a quem tivessem transportado dum formigueiro
+ para um sal&atilde;o. A gigantinha p&ocirc;s-se a bater as palmas e a rir
+ com uma alegria doida, mas o gigante fez-se s&eacute;rio e franziu o
+ sobrolho. &laquo;Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso n&atilde;o s&atilde;o
+ brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e respeitar-se. Mete
+ tudo isso com cuidado no teu avental, e p&otilde;e-no imediatamente onde o
+ achaste; porque fica sabendo que os gigantes da montanha, morreriam de
+ fome, se os an&otilde;es da plan&iacute;cie deixassem de lavrar a terra e
+ de semear o trigo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[37]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="14"></a>A crian&ccedil;a, a anjo e flor
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Quando morre uma crian&ccedil;a, desce um anjo do c&eacute;u,
+ toma-a nos bra&ccedil;os, e desdobrando as asas imaculadas, voa por cima
+ de todos os s&iacute;tios que ela amara durante a sua pequenina exist&ecirc;ncia;
+ o anjo abaixa-se de quando em quando para colher flores, que leva a Deus,
+ para que flores&ccedil;am no para&iacute;so ainda mais belas do que tinham
+ sido na terra. Deus recebe todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com
+ os l&aacute;bios, e a flor escolhida, adquirindo voz imediatamente, come&ccedil;a
+ a cantar os coros maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o
+ anjo a uma crian&ccedil;a morta, que o estava ouvindo como num sonho.
+ Pairaram primeiro sobre a casa em que a crian&ccedil;a brincara, e depois
+ sobre jardins deliciosos, cobertos de flores.<br /> <br /> &laquo;Qual
+ &eacute; a flor que desejas para plantar no para&iacute;so?&raquo;
+ perguntou o anjo.<br /> <br /> Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido
+ direita, vigorosa, magn&iacute;fica; mas quebraram-lhe o p&eacute;, e
+ todos os seus ramos cheios de bot&otilde;ezinhos lind&iacute;ssimos
+ pendiam estiolados para o ch&atilde;o.<br /> <br /> &laquo;Pobre roseira!
+ disse a crian&ccedil;a ao anjo; vamos busc&aacute;-la para que possa
+ reflorir no para&iacute;so.&raquo;<br /> <br /> <span class="pagenum">[38]</span>O
+ anjo foi busc&aacute;-la, e abra&ccedil;ou a crian&ccedil;a. Colheram
+ muitas flores brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.<br />
+ <br /> A colheita estava terminada, e contudo n&atilde;o voavam ainda para
+ Deus. Caiu a noite silenciosa, e a crian&ccedil;a e o seu guia Divino
+ andavam ainda por cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais
+ estreitas, cheia de cacos de lou&ccedil;a, de vidros partidos, de
+ farrapos, de toda a casta de imund&iacute;cie. Entre estes destro&ccedil;os
+ distinguiu o anjo um vaso de flores com a terra pelo ch&atilde;o, onde
+ pendiam as longas ra&iacute;zes duma flor dos campos, j&aacute; murcha, e
+ que parecia n&atilde;o poder reverdecer: tinham-na atirado para a rua como
+ in&uacute;til e morta.<br /> <br /> &laquo;Vale a pena levant&aacute;-la
+ disse o anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando, te contarei a hist&oacute;ria
+ da florinha. L&aacute; ao fundo, l&aacute; ao fundo, naquela rua estreita
+ e tortuosa, morava um pequerrucho, uma crian&ccedil;a miser&aacute;vel e
+ doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear
+ com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
+ de Ver&atilde;o os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
+ Ent&atilde;o a crian&ccedil;a sentada &agrave; janela, aquecida pelo sol,
+ sem o cansa&ccedil;o do andar, imaginava-se passeando; n&atilde;o conhecia
+ da floresta, da fresca verdura da primavera, sen&atilde;o o ramo de faia,
+ que uma vez o filho do vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima
+ da cabe&ccedil;a o ramo verdejante, e, supondo-se debaixo das &aacute;rvores
+ abrigadas do sol, sonhava com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho
+ do vizinho trouxe-lhe flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma
+ que tinha ainda ra&iacute;zes; <span class="pagenum">[39]</span>o
+ pequerrucho plantou-a num vaso, e p&ocirc;-lo &agrave; janela, junto da
+ cama. A flor plantada por m&atilde;o aben&ccedil;oada, cresceu, tornou-se
+ grande, e todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu
+ &uacute;nico tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a;
+ fazia-lhe aproveitar os raios do sol at&eacute; ao &uacute;ltimo. A flor
+ aparecia-lhe em sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o
+ seu aroma e ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela
+ que se voltou.<br /> <br /> &laquo;Faz hoje um ano que esse pequerrucho
+ habita no para&iacute;so; a sua querida flor, esquecida &agrave; janela
+ desde ent&atilde;o, murchou, estiolou-se e atiraram-na &agrave; rua
+ finalmente. E contudo esta flor quase seca &eacute; o tesouro do nosso
+ ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os canteiros dum jardim
+ realengo.&raquo;<br /> <br /> &laquo;Como sabes tu isso?&raquo; perguntou a
+ crian&ccedil;a, que o anjo levava para o c&eacute;u.<br /> <br /> &#8213;Sei-o,
+ respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava em muletas;
+ como n&atilde;o havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!&raquo;<br />
+ <br /> A crian&ccedil;a abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo
+ quando entravam no c&eacute;u onde tudo era alegria e felicidade. Deus
+ pegou nas flores, levou-as ao cora&ccedil;&atilde;o, mas a que ele beijou
+ foi a florinha silvestre, desprezada e murcha: a flor adquiriu voz
+ imediatamente, p&ocirc;s-se a cantar com as almas que rodeiam o Criador,
+ umas junto dele, outras ao longe, formando c&iacute;rculos que v&atilde;o
+ aumentando sucessivamente, multiplicando-se at&eacute; ao infinito,
+ povoados de <span class="pagenum">[40]</span>seres inteiramente felizes,
+ cantando todos harmoniosamente&#8213;desde a crian&ccedil;a aben&ccedil;oada
+ at&eacute; &agrave; humilde florinha do campo, levantada do lodo, dentre
+ os tristes despojos da rua sombria e tortuosa.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <br /> <span class="pagenum">[41]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="15"></a>Presente por presente
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar
+ de noite &agrave; choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda n&atilde;o
+ tinha chegado, foi a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o
+ o melhor que p&ocirc;de, desculpando-se da miser&aacute;vel hospitalidade
+ que lhe ia dar, porque eram batatas cozidas a &uacute;nica coisa que lhe
+ poderia oferecer; cama n&atilde;o a tinha, por conseguinte dormiria sobre
+ a palha. Mas o estrangeiro estava morto de fome e de fadiga; as batatas
+ souberam-lhe mais do que fais&otilde;es, e dormiu melhor em cima da palha
+ do que num leito de pr&iacute;ncipes. Ao outro dia pela manh&atilde; disse
+ isto mesmo &agrave; pobre mulher, gratificando-a ao despedir-se com uma
+ moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha dito que a guardasse
+ como uma pequena lembran&ccedil;a, a boa camponesa julgou que seria uma
+ medalha, e sentiu que n&atilde;o tivesse um buraquito para a trazer ao
+ pesco&ccedil;o. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o que
+ lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro examinou
+ os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:<br /> <br />
+ <span class="pagenum">[42]</span>&laquo;Esse forasteiro era nada mais nada
+ menos do que o nosso pr&iacute;ncipe!<br /> <br /> E o bom do homem n&atilde;o
+ podia conter-se de alegria, por sua alteza ter achado as suas batatas
+ melhores do que fais&otilde;es.<br /> <br /> &laquo;&Eacute; necess&aacute;rio
+ confessar, disse ele com um ar triunfante, que n&atilde;o h&aacute; talvez
+ no mundo um terreno mais favor&aacute;vel do que este para a cultura das
+ batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, j&aacute; que as acha t&atilde;o
+ boas.<br /> <br /> E partiu imediatamente para o pal&aacute;cio com uma
+ provis&atilde;o de batatas escolhidas.<br /> <br /> Os lacaios e as
+ sentinelas ao princ&iacute;pio n&atilde;o o queriam deixar entrar; mas
+ insistiu energicamente, dizendo que n&atilde;o vinha pedir nada, e que
+ pelo contr&aacute;rio vinha trazer alguma coisa.<br /> <br /> Foi, pois,
+ introduzido na sala da audi&ecirc;ncia.<br /> <br /> &laquo;Meu senhor,
+ disse ele ao pr&iacute;ncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente pedir
+ hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma pe&ccedil;a de ouro, em troca
+ duma enxerga miser&aacute;vel e de um prato de batatas cosidas. Era pagar
+ demasiadamente, apesar de serdes um pr&iacute;ncipe muito rico e poderoso.
+ Eis o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
+ batatas, que vos souberam melhor do que os vossos fais&otilde;es.
+ Dignai-vos aceit&aacute;-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser
+ nosso hospede, l&aacute; as encontrareis sempre ao vosso dispor.&raquo;<br />
+ <br /> A honrada simplicidade do campon&ecirc;s agradou ao pr&iacute;ncipe,
+ e, como estava num momento de bom humor, fez-lhe doa&ccedil;&atilde;o de
+ uma quinta com trinta jeiras de terra.<br /> <br /> <span class="pagenum">[43]</span>Ora
+ o carvoeiro tinha um irm&atilde;o muito rico, mas invejoso e avarento,
+ que, sabendo da fortuna do irm&atilde;o mais novo, disse consigo: &laquo;Porque
+ n&atilde;o me h&aacute; de suceder a mim outro tanto? O pr&iacute;ncipe
+ gosta do meu cavalo, pelo qual lhe pedi sessenta libras, que ele me
+ recusou. Vou-lhe fazer presente dele: se deu ao Jo&atilde;o uma quinta com
+ trinta jeiras de terra, simplesmente por um cesto de batatas, a mim com
+ certeza me h&aacute; de recompensar ainda mais generosamente.&raquo;<br />
+ <br /> Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
+ pal&aacute;cio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com
+ ar altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audi&ecirc;ncia.<br />
+ <br /> &laquo;Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo;
+ n&atilde;o tenho querido troc&aacute;-lo a dinheiro, mas dignai-vos
+ permitir-me que vo-lo ofere&ccedil;a.&raquo;<br /> <br /> O pr&iacute;ncipe
+ viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse consigo:
+ &laquo;Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:<br />
+ <br /> Depois dirigindo-se a ele:<br /> <br /> &laquo;Aceito a tua d&aacute;diva,
+ mas n&atilde;o sei como agradecer-ta condignamente. Oh! espera um pouco:
+ Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que fais&otilde;es.
+ Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que &eacute; um bom pre&ccedil;o
+ para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.&raquo;<br />
+ <br /> E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <br /> <span class="pagenum">[44]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="16"></a>O pinheiro ambicioso
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Era uma vez um pinheiro, que n&atilde;o estava contente com a
+ sua sorte. &laquo;Oh! dizia ele, como s&atilde;o horrorosas estas linhas
+ uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou
+ um pouco mais orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para
+ andar vestido de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!&raquo;<br />
+ <br /> O G&eacute;nio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manh&atilde;
+ acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e
+ admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros
+ pinheiros, que, mais sensatos do que ele, n&atilde;o invejavam a sua r&aacute;pida
+ fortuna. &Agrave; noite passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as
+ folhas, meteu-as num saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos
+ p&eacute;s &agrave; cabe&ccedil;a.<br /> <br /> &laquo;Oh! disse ele, que
+ doido que eu fui! n&atilde;o me tinha lembrado da cobi&ccedil;a dos
+ homens. Fiquei completamente despido. N&atilde;o h&aacute; agora em toda a
+ floresta uma planta t&atilde;o pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de
+ oiro; o oiro atrai as ambi&ccedil;&otilde;es.<br /> <br /> Ah! se eu
+ arranjasse um vestu&aacute;rio de vidro! Era <span class="pagenum">[45]</span>deslumbrante,
+ e o judeu avarento n&atilde;o me teria despido.&raquo;<br /> <br /> No dia
+ seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao sol como
+ pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, fitando
+ desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o c&eacute;u cobriu-se de
+ nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as
+ folhas de cristal.<br /> <br /> &laquo;Enganei-me ainda, disse o jovem
+ pinheiro, vendo por terra todo feito em peda&ccedil;os o seu manto
+ cristalino. O oiro e o vidro n&atilde;o servem para vestir as florestas.
+ Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria menos brilhante,
+ mas viveria descansado.&raquo;<br /> <br /> Cumpriu-se o seu &uacute;ltimo
+ desejo, e, apesar de ter renunciado &agrave;s vaidades primitivas,
+ julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os outros pinheiros
+ seus irm&atilde;os. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as
+ folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas todas sem
+ deixar uma &uacute;nica.<br /> <br /> O pobre pinheiro, envergonhado e
+ arrependido, j&aacute; queria voltar &agrave; sua forma natural. Conseguiu
+ ainda este favor, e nunca mais se queixou da sua sorte.<br /> <br /> <br />
+ <br /> <br /> <span class="pagenum">[46]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="17"></a>Perfei&ccedil;&atilde;o das obras de Deus
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Oh! mam&atilde; quebrou-se-me a agulha.<br />
+ <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Vou-te dar outra.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Como
+ se fazem as agulhas, mam&atilde;?<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc;
+ se adivinhas.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;N&atilde;o sei, mam&atilde;.<br />
+ <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Conheces os metais?<br /> <br /> <i>A
+ filha.</i>&#8213;Conhe&ccedil;o mam&atilde;; tenho l&aacute; dentro muitos
+ bocadinhos dentro de uma caixa.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ora
+ muito bem, diz-me l&aacute;, as agulhas s&atilde;o de pau, de pedra, de m&aacute;rmore?<br />
+ <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Oh! n&atilde;o; s&atilde;o de metal; mas de
+ que metal?<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Antes de perguntar
+ qualquer coisa, v&ecirc; sempre se a adivinhas primeiro.<br /> <br /> <i>A
+ filha.</i>&#8213;Ora espere!... uma agulha &eacute; de metal: n&atilde;o
+ &eacute; de prata, porque n&atilde;o &eacute; branca; n&atilde;o &eacute;
+ de oiro, porque n&atilde;o &eacute; de um lindo amarelo muito brilhante; n&atilde;o
+ &eacute; de cobre, porque n&atilde;o &eacute; de um amarelo muito feio,
+ que cheira mal... Ent&atilde;o &eacute; de ferro, mam&atilde;?<br /> <br />
+ <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Adivinhaste.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Mas,
+ mam&atilde;, o ferro n&atilde;o &eacute; liso e brilhante como as agulhas.<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[47]</span><i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute;
+ que &eacute; primeiro polido e preparado de certo modo, e depois j&aacute;
+ se n&atilde;o chama ferro, &eacute; a&ccedil;o.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Bem,
+ as agulhas s&atilde;o de a&ccedil;o. Agora quero adivinhar como &eacute;
+ que as fazem.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; imposs&iacute;vel,
+ n&atilde;o &eacute;s capaz disso; mas hei de levar-te a uma f&aacute;brica
+ onde se fazem agulhas. H&aacute;s-de v&ecirc;-las fazer, e h&aacute;s-de
+ gostar muito.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Tinha vontade de saber como
+ se fazem todas as coisas de que nos servimos.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tens
+ raz&atilde;o; &eacute; uma vergonha ignor&aacute;-lo.<br /> <br /> <i>A
+ filha.</i>&#8213;Mam&atilde;, deixe-me ver as suas agulhas.<br /> <br /> <i>A
+ m&atilde;e.</i>&#8213;Olha, a&iacute; tens o meu estojo.<br /> <br /> <i>A
+ filha.</i>&#8213;Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! S&atilde;o
+ t&atilde;o fininhas, t&atilde;o fininhas!... Muita habilidade h&aacute;-de
+ ser necess&aacute;ria para fazer uma coisinha t&atilde;o delicada!<br />
+ <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Lembras-te de ver na feira um carrinho de
+ marfim puxado por uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?<br /> <br /> <i>A
+ filha.</i>&#8213;Lembro, mam&atilde;; era t&atilde;o bonito!<br /> <br /> <i>A
+ m&atilde;e.</i>&#8213;Li num jornal alem&atilde;o que um oper&aacute;rio
+ chamado Nerlinger fez um copo de um gr&atilde;o de pimenta, e que dentro
+ deste copo havia mais doze...<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Que
+ pequeninos deviam ser os doze copos para caberem num gr&atilde;o de
+ pimenta!<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;E ainda n&atilde;o &eacute;
+ tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas doiradas, e sustentava-se no
+ p&eacute;.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Que vontade eu tinha de ver
+ isso!<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tens raz&atilde;o de te
+ admirares da habilidade dos homens. &Eacute; efectivamente espantoso, e
+ <span class="pagenum">[48]</span>deve saber-se, o modo porque se fabricam
+ certas coisas; contudo ainda h&aacute; outras obras mais dignas de admira&ccedil;&atilde;o.<br />
+ <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Quais, mam&atilde;?<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;J&aacute;
+ to digo. (<i>Levanta-se.</i>)<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Que quer,
+ mam&atilde;?<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Quero que vejas o
+ microsc&oacute;pio de teu pap&aacute;.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Pois
+ sim; eu gosto de olhar pelo microsc&oacute;pio.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Este
+ &eacute; magn&iacute;fico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais ver
+ a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como &eacute; fina,
+ lisa e brilhante... Agora olha; o que &eacute; que v&ecirc;s?<br /> <br />
+ <i>A filha.</i>&#8213;Meu Deus, que coisa t&atilde;o feia! Que agulha t&atilde;o
+ grosseira!<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc;s-lhe buracos,
+ riscos, asperezas, n&atilde;o &eacute; verdade?<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Parece
+ um prego muito grande e muito mal feito.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Pois
+ todas essas imperfei&ccedil;&otilde;es s&atilde;o verdadeiras, existem na
+ agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, &eacute; que n&atilde;o d&aacute;
+ por elas.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;O oper&aacute;rio que fez esta
+ agulha ficaria envergonhado, se a visse ao microsc&oacute;pio.<br /> <br />
+ <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.<br />
+ <br /> <i>A filha.</i>&#8213;O qu&ecirc;, mam&atilde;?<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;O
+ aguilh&atilde;ozinho de uma abelha.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Oh!
+ que pequenino, que bonito!... Como &eacute; liso, como &eacute;
+ brilhante!... Mas j&aacute; sei que visto ao microsc&oacute;pio h&aacute;
+ de acontecer o mesmo que com a agulha.<br /> <br /> <span class="pagenum">[49]</span><i>A
+ m&atilde;e.</i>&#8213;Pronto: olha.<br /> <br /> <i>A filha</i> (olhando).&#8213;&Eacute;
+ esquisito, mam&atilde;!<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ent&atilde;o?<br />
+ <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Aumentou, aumentou como a agulha, mas n&atilde;o
+ &eacute; &aacute;spero, pelo contrario, &eacute; perfeitamente liso... A
+ agulha parecia que n&atilde;o tinha ponta, e o ferr&atilde;ozinho da
+ abelha tem uma ponta t&atilde;o fina como um cabelo. Porque ser&aacute;
+ isto, mam&atilde;?<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; porque o
+ oper&aacute;rio que fez este aguilh&atilde;o &eacute; muito mais h&aacute;bil
+ do que o que fez a agulha.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Quem &eacute;
+ esse oper&aacute;rio t&atilde;o h&aacute;bil?<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute;
+ o mesmo que fez o c&eacute;u, os astros, a terra, as plantas e as
+ criaturas.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;&Eacute; Deus.<br /> <br /> <i>A
+ m&atilde;e.</i>&#8213;Exactamente. Pois n&atilde;o &eacute; Deus que fez
+ as abelhas e todos os animais?<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;De certo.<br />
+ <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Foi ele por conseguinte que fez o aguilh&atilde;o
+ desta abelha; e a&iacute; tens porque o aguilh&atilde;o &eacute; superior
+ &agrave; agulha: &eacute; obra de Deus. Mas continuemos a olhar pelo
+ microsc&oacute;pio. Aqui est&aacute; um pedacinho de musselina fin&iacute;ssima.
+ Olha pelo microsc&oacute;pio; o que &eacute; que v&ecirc;s?<br /> <br /> <i>A
+ filha.</i>&#8213;Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal feita.<br />
+ <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Aqui tens agora um pedacinho de renda
+ delicad&iacute;ssima.<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Essa estou bem
+ certa que h&aacute; de ser linda, mesmo vista pelo microsc&oacute;pio.<br />
+ <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ent&atilde;o?<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;&Eacute;
+ horrorosa... Parece feita de pelos grosseiros com grandes buracos
+ desiguais.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;As obras do homem s&atilde;o
+ todas assim.<br /> <br /> <span class="pagenum">[50]</span><i>A filha.</i>&#8213;Oh!
+ mam&atilde;, vejamos agora as obras de Deus.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Sabes
+ o que &eacute; isto?<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Sei, mam&atilde;,
+ &eacute; um casulo de bicho de seda.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Os
+ fiozinhos que o comp&otilde;em s&atilde;o muito finos, muito lisos; olha
+ pelo microsc&oacute;pio a ver se te parecem desiguais.<br /> <br /> <i>A
+ filha</i> (olhando pelo microsc&oacute;pio).&#8213;N&atilde;o, mam&atilde;;
+ os fios s&atilde;o todos iguais, e o casulo &eacute; sempre muito liso,
+ muito brilhante.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; porque
+ &eacute; obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que h&aacute; sobre
+ este papel?<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Pontinhos feitos com tinta e
+ manchazinhas redondas feitas tamb&eacute;m com tinta.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Estes
+ pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente redondos?<br /> <br /> <i>A
+ filha.</i>&#8213;Sim, mam&atilde;, perfeitamente redondos.<br /> <br /> <i>A
+ m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc;-os agora ao microsc&oacute;pio.<br /> <br />
+ <i>A filha.</i>&#8213;Oh! j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o redondos, s&atilde;o
+ todos desiguais.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tira o papel;
+ vejamos a obra de Deus. &Eacute; uma asa de borboleta; v&ecirc;s que est&aacute;
+ mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo microsc&oacute;pio; o
+ que &eacute; que v&ecirc;s?<br /> <br /> <i>A filha.</i>&#8213;Vejo a mesma
+ coisa que via sem o vidro, s&oacute; com a diferen&ccedil;a que agora
+ &eacute; maior. Que belas que s&atilde;o as obras de Deus!<br /> <br /> <i>A
+ m&atilde;e.</i>&#8213;Merece bem a pena estud&aacute;-las.<br /> <br /> <i>A
+ filha.</i>&#8213;De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as
+ obras dos homens.<br /> <br /> <i>A m&atilde;e.</i>&#8213;E sempre e em tudo
+ h&aacute;s-de encontrar defeitos nas obras do homem, enquanto que <span
+ class="pagenum">[51]</span>as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
+ perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a primeira
+ &eacute; que Deus merece tanto a nossa admira&ccedil;&atilde;o como o
+ nosso amor; a segunda &eacute; que os homens orgulhosos s&atilde;o
+ insensatos, porque n&atilde;o podem fazer nada perfeitamente belo,
+ perfeitamente regular, e as suas obras mais primorosas s&atilde;o cheias
+ de imperfei&ccedil;&otilde;es, se as compararmos com as obras do Criador.<br />
+ <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[52]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="18"></a>Jo&atilde;o e os seus camaradas
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Era uma vez uma vi&uacute;va com um filho &uacute;nico. Ao
+ cabo dum Inverno rigoroso, possu&iacute;a apenas um galo, e meio alqueire
+ de farinha. Jo&atilde;o resolveu-se a correr mundo, &agrave; busca de
+ fortuna. A m&atilde;e cozeu o resto da farinha, matou o galo, e disse-lhe:<br />
+ <br /> &laquo;O que &eacute; que preferes: metade desta merenda com a minha
+ b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, ou toda com a minha maldi&ccedil;&atilde;o?&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros h&aacute;
+ no mundo eu quereria a tua maldi&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br /> <br />
+ &laquo;Bem, meu filho, replicou a m&atilde;e carinhosamente. Leva tudo, e
+ Deus te aben&ccedil;oe.&raquo;<br /> <br /> E partiu. Foi andando, andando,
+ at&eacute; que encontrou um jumento, que tinha ca&iacute;do num atoleiro,
+ donde n&atilde;o podia sair.<br /> <br /> &laquo;Oh! Jo&atilde;o, exclamou o
+ burro, tira-me daqui, que estou quase a afogar-me.&raquo;<br /> <br />
+ &laquo;Espera, respondeu Jo&atilde;o.&raquo;<br /> <br /> E, formando uma
+ ponte com pedras e ramos de &aacute;rvores, conseguiu tirar o quadr&uacute;pede
+ do atoleiro.<br /> <br /> <span class="pagenum">[53]</span>&laquo;Obrigado,
+ disse-lhe ele, aproximando-se de Jo&atilde;o. Se te posso ser &uacute;til,
+ aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?&raquo;<br /> <br /> &#8213;&laquo;Vou
+ por esse mundo fora, a ver se ganho a minha vida.&raquo;<br /> <br />
+ &laquo;Queres tu que eu te acompanhe?<br /> <br /> &laquo;Anda da&iacute;.&raquo;<br />
+ <br /> E puseram-se a caminho.<br /> <br /> Ao passarem por uma aldeia, viram
+ um c&atilde;o perseguido pelos rapazes da escola, que lhe tinham atado ao
+ rabo uma chocolateira velha. O pobre animal correu para Jo&atilde;o que o
+ acariciou, e o jumento p&ocirc;s-se a ornear de tal maneira, que os
+ rapazes com o medo deitaram todos a fugir.<br /> <br /> &laquo;Obrigado,
+ disse o rafeiro a Jo&atilde;o. Se para alguma coisa te for prest&aacute;vel,
+ aqui me tens &agrave;s tuas ordens. Aonde vais tu?&raquo;<br /> <br />
+ &laquo;Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha vida.&raquo;<br />
+ <br /> &laquo;Queres que te acompanhe?&raquo;<br /> <br /> &laquo;Anda da&iacute;.&raquo;<br />
+ <br /> Quando sa&iacute;ram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno
+ tirou a merenda do alforge, e repartiu-a com o c&atilde;o. O burro pastou
+ alguma erva que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato
+ esfaimado a miar lastimosamente.<br /> <br /> Coitado, exclamou Jo&atilde;o!&raquo;
+ E deu-lhe uma asa do frango.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Obrigado disse o
+ gato. Oxal&aacute; que um dia eu te possa ser &uacute;til. Aonde vais tu?<br />
+ <br /> &#8213;&laquo;Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;De boa vontade.<br /> <br /> <span class="pagenum">[54]</span>Os
+ quatro viajantes puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um grito
+ dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um galo na
+ boca.<br /> <br /> &laquo;Agarra! agarra!&raquo; bradou o pequeno ao c&atilde;o.<br />
+ <br /> E no mesmo instante o c&atilde;o atirou-se atr&aacute;s da raposa,
+ que, vendo-se em perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando
+ de contente disse a Jo&atilde;o:<br /> <br /> &#8213;&laquo;Obrigado.
+ Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vais tu?&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;Arranjar trabalho. Queres vir connosco?<br /> <br /> &#8213;&laquo;De
+ boa vontade.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Ent&atilde;o anda. Se te cansares,
+ empoleira-te no jumento.&raquo;<br /> <br /> Os viajantes continuaram a
+ jornada com o seu novo companheiro. Sentiram-se todos fatigados e n&atilde;o
+ avistavam &agrave; roda nem uma quinta, nem uma cabana.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Paci&ecirc;ncia,
+ disse Jo&atilde;o, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos hoje a
+ dormir ao ar livre; al&eacute;m disso a noite est&aacute; sossegada, e a
+ relva &eacute; macia.&raquo;<br /> <br /> Dito isto estendeu-se no ch&atilde;o;
+ o jumento deitou-se ao lado dele, o c&atilde;o e o gato aninharam-se entre
+ as pernas do burro complacente, e o galo empoleirou-se numa &aacute;rvore.<br />
+ <br /> Dormiam todos um sono profund&iacute;ssimo, quando de repente o galo
+ come&ccedil;ou a cantar.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Que dem&oacute;nio!
+ disse o jumento acordando todo zangado. Porque &eacute; que est&aacute;s a
+ gritar?&raquo;<br /> <br /> &#8213;&laquo;Porque j&aacute; &eacute; dia,
+ respondeu o galo. N&atilde;o v&ecirc;s ao longe a luz da madrugada, que
+ vem rompendo?&raquo;<br /> <br /> <span class="pagenum">[55]</span>&#8213;&laquo;Vejo
+ uma luz, disse Jo&atilde;o, mas n&atilde;o &eacute; do sol, &eacute; duma
+ lanterna. Provavelmente h&aacute; ali alguma casa, onde nos poder&iacute;amos
+ recolher o resto da noite.&raquo;<br /> <br /> Foi aceita a proposta. Partiu
+ a caravana; foi andando, andando, atrav&eacute;s dos campos, at&eacute;
+ que parou junto da casa do guarda dum grande castelo, donde subiam
+ gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e blasf&eacute;mias horr&iacute;veis.<br />
+ <br /> &#8213;Escutem, disse Jo&atilde;o; vamos devagarinho, muito
+ devagarinho, a ver quem &eacute; que est&aacute; l&aacute; dentro.&raquo;<br />
+ <br /> Eram seis ladr&otilde;es armados de pistolas e de punhais, que se
+ banqueteavam alegremente, sentados a uma mesa principesca.<br /> <br />
+ &#8213;&laquo;Que bom assalto acab&aacute;mos de dar, disse um deles, ao
+ castelo do conde, gra&ccedil;as ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem
+ que &eacute; este porteiro. &Agrave; sua sa&uacute;de!&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;&laquo;&Agrave; sa&uacute;de do nosso amigo!&raquo; repetiram em
+ coro todos os ladr&otilde;es.<br /> <br /> E dum trago despejaram os copos.<br />
+ <br /> Jo&atilde;o voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz
+ baixa:<br /> <br /> &#8213;&laquo;Uni-vos uns aos outros o melhor que
+ puderdes, e, assim que vos der sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa
+ gritaria diab&oacute;lica.&raquo;<br /> <br /> O burro, levantando-se nas
+ patas traseiras, lan&ccedil;ou as m&atilde;os ao peitoril duma janela, o c&atilde;o
+ trepou-lhe &agrave; cabe&ccedil;a, o gato &agrave; cabe&ccedil;a do c&atilde;o
+ e o galo &agrave; cabe&ccedil;a do gato. Jo&atilde;o deu o sinal, e
+ estoirou &agrave; uma o ornear do jumento, os latidos do c&atilde;o, o
+ miar do gato e os gritos estridentes do galo.<br /> <br /> <span
+ class="pagenum"><a name="p56" id="p56">[56]</a></span>&#8213;&laquo;Agora,
+ bradou Jo&atilde;o, fingindo que comandava um destacamento, carregar
+ armas! Dai-me cabo dos ladr&otilde;es; fogo!&raquo;<br /> <br /> No mesmo
+ instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando cada vez mais;
+ os ladr&otilde;es atemorizados refugiaram-se no bosque, saindo
+ precipitadamente por uma porta falsa.<br /> <br /> Jo&atilde;o e os seus
+ companheiros penetraram na sala abandonada, comeram um excelente jantar, e
+ deitaram-se em seguida&#8213;Jo&atilde;o numa cama, o burro na cavalari&ccedil;a,
+ o c&atilde;o numa esteira ao p&eacute; da porta, o gato junto do fog&atilde;o
+ e o galo num poleiro.<br /> <br /> Ao principio os ladr&otilde;es ficaram
+ muito contentes, por se verem s&atilde;os e salvos na floresta. Mas
+ depois, come&ccedil;aram a reflectir.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Era bem
+ melhor a minha cama, do que esta erva t&atilde;o h&uacute;mida, disse um
+ deles.&raquo;<br /> <br /> &#8213;&laquo;Tenho pena do frango que eu come&ccedil;ava
+ a saborear, disse um outro.&raquo;<br /> <br /> &#8213;&laquo;E que rico
+ vinho aquele! acrescentou o terceiro.&raquo;<br /> <br /> &#8213;&laquo;E o
+ que &eacute; mais lament&aacute;vel, exclamou um quarto, &eacute;
+ ficar-nos l&aacute; todo o dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde,
+ t&iacute;nhamos tirado das gavetas.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Vou ver se
+ torno l&aacute; a <a href="#e1">entrar!</a> disse o capit&atilde;o.<br />
+ <br /> &#8213;Bravo! exclamaram os ladr&otilde;es.<br /> <br /> E p&ocirc;s-se
+ a caminho.<br /> <br /> J&aacute; n&atilde;o havia luz na casa; o capit&atilde;o
+ entrou &agrave;s apalpadelas, e dirigiu-se para o fog&atilde;o; o gato
+ saltou-lhe &agrave; cara e esfarrapou-lha com as garras. <span
+ class="pagenum">[57]</span>Soltou um grito doloroso, correu para a porta,
+ mas infelizmente pisou o rabo do c&atilde;o, que lhe deu uma grande
+ dentada. Gritou de novo, e conseguiu por fim transpor o limiar da porta.
+ Mas quando ia a sair, o galo atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com
+ as unhas.<br /> <br /> &#8213;Anda o diabo nesta casa! exclamou o capit&atilde;o,
+ como poderei eu sair!&raquo;<br /> <br /> Julgou encontrar ref&uacute;gio na
+ estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma parelha de coices, que o deitou
+ quase morto ao meio do ch&atilde;o.<br /> <br /> Passado algum tempo veio a
+ si; apalpou o corpo, viu que n&atilde;o tinha nem pernas nem bra&ccedil;os
+ partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.<br /> <br /> &#8213;Ent&atilde;o?
+ ent&atilde;o?&#8213;perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.<br />
+ <br /> &#8213;Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma
+ cama para me deitar e cataplasmas de linha&ccedil;a para p&ocirc;r neste
+ corpo, que o trago num feixe. N&atilde;o podeis imaginar o que sofri. Na
+ cozinha fui assaltado por uma velha que estava a cardar l&atilde;, e
+ arrumou-me na cara com o sedeiro, deixando-me neste miser&aacute;vel
+ estado. Quando ia a sair a porta, um dem&oacute;nio dum remend&atilde;o
+ atravessou-me as pernas com a sovela. Logo depois Satan&aacute;s em pessoa
+ atirou-se a mim, despeda&ccedil;ando-me com as garras. Na estrebaria
+ deram-me uma paulada que me ia matando. Se voc&ecirc;s me n&atilde;o
+ acreditam, v&atilde;o l&aacute;, e experimentem.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Acreditamos,
+ disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo ensanguentado: N&atilde;o
+ seremos n&oacute;s que l&aacute; tornaremos.&raquo;<br /> <br /> Pela manh&atilde;,
+ Jo&atilde;o e os seus camaradas almo&ccedil;aram <span class="pagenum"><a
+ name="p58" id="p58">[58]</a></span>ainda excelentemente, e partiram em
+ seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladr&otilde;es lhe
+ tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos, com que
+ carregou o jumento. Foram andando, andando, at&eacute; que chegaram
+ &agrave; porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do
+ porteiro, com uma libr&eacute; espl&ecirc;ndida, meias de seda, cal&ccedil;&otilde;es
+ escarlates e cabelo empoado.<br /> <br /> Olhou com ar de desprezo para a
+ pequenina caravana, e disse a <a href="#e2">Jo&atilde;o:</a><br /> <br />
+ &#8213;Que vindes aqui buscar? N&atilde;o h&aacute; lugar para os
+ recolher, v&atilde;o-se <a href="#e3">embora.</a>&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;N&atilde;o queremos nada de ti, respondeu Jo&atilde;o. O dono do
+ castelo far-nos-&aacute; um bom acolhimento.<br /> <br /> &#8213;Fora daqui
+ vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a andar
+ imediatamente, quando n&atilde;o atiro-lhes j&aacute; &agrave;s pernas os
+ meus c&atilde;es de fila.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Perd&atilde;o, s&oacute;
+ um instante, replicou o galo empoleirado na cabe&ccedil;a do jumento; n&atilde;o
+ me poderias dizer quem &eacute; que abriu aos ladr&otilde;es na noite
+ passada a porta do castelo?&raquo;<br /> <br /> O porteiro corou. O conde
+ que estava &agrave; janela, disse-lhe:<br /> <br /> &#8213;&Oacute; Bernab&eacute;,
+ responde ao que esse galo te acaba de perguntar.<br /> <br /> &#8213;Senhor,
+ replicou Bernab&eacute;, este galo &eacute; um miser&aacute;vel. N&atilde;o
+ fui eu que abri a porta aos seis ladr&otilde;es.<br /> <br /> &#8213;Como
+ &eacute; ent&atilde;o, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram
+ seis?<br /> <br /> Seja como for, disse Jo&atilde;o, aqui lhe trazemos o
+ <span class="pagenum">[59]</span>dinheiro roubado, pedindo-lhe unicamente
+ que nos d&ecirc; de jantar e nos recolha esta noite, porque vimos cansados
+ do caminho.<br /> <br /> &#8213;Ficai certos que sereis bem tratados.<br />
+ <br /> O burro, o c&atilde;o e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato
+ ficou na cozinha. E enquanto a Jo&atilde;o, o conde reconhecido, vestiu-o
+ dos p&eacute;s &agrave; cabe&ccedil;a com um vestu&aacute;rio magn&iacute;fico,
+ deu-lhe um rel&oacute;gio de ouro, e disse-lhe:<br /> &#8213;Queres ficar
+ comigo? &Eacute;s esperto e honrado, ser&aacute;s o meu intendente.&raquo;<br />
+ <br /> Jo&atilde;o aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha m&atilde;e
+ para o p&eacute; de si. Casou depois com uma linda rapariga, e viveu
+ sempre felic&iacute;ssimo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[60]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="19"></a>O rabequista
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade
+ levantaram uma igreja magn&iacute;fica a Santa Cec&iacute;lia, padroeira
+ dos m&uacute;sicos.<br /> <br /> As rosas mais vermelhas e os l&iacute;rios
+ mais c&acirc;ndidos enfeitavam o altar. O vestido da santa era de
+ filigrana de prata e os sapatinhos eram de oiro, feitos pelo melhor
+ ourives que havia na cidade. A capela estava constantemente cheia de
+ peregrinos e devotos. Uma vez foi l&aacute; em romaria um pobre
+ rabequista, p&aacute;lido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha sido
+ muito longa, estava cansado, e j&aacute; no seu alforge n&atilde;o havia p&atilde;o
+ nem dinheiro no bolso para o comprar.<br /> <br /> Assim que entrou na
+ capela, come&ccedil;ou a tocar na sua rabeca com tal suavidade, com tanta
+ express&atilde;o, que a santa ficou enternecida ao v&ecirc;-lo t&atilde;o
+ pobre e ao escutar aquela m&uacute;sica deliciosa. Quando terminou, Santa
+ Cec&iacute;lia abaixou-se, descal&ccedil;ou um dos seus ricos sapatos de
+ ouro, e deu-o ao pobre m&uacute;sico, que tonto de alegria, dan&ccedil;ando,
+ cantando, chorando, correu &agrave; loja dum ourives para lho vender. O
+ ourives, reconhecendo o sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e
+ levou-o &agrave; presen&ccedil;a <span class="pagenum">[61]</span>do juiz.
+ Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado &agrave; morte.<br />
+ <br /> Chegara o dia da execu&ccedil;&atilde;o. Os sinos dobravam
+ lastimosamente, e o cortejo p&ocirc;s-se em marcha ao som dos c&acirc;nticos
+ dos frades, que ainda assim n&atilde;o chegavam a dominar os sons da
+ rabeca do condenado, que pedira, como &uacute;ltima gra&ccedil;a, o
+ deixarem-lhe tocar na sua rabeca at&eacute; ao &uacute;ltimo momento. O
+ cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam suplicou o
+ triste desgra&ccedil;ado, que o levassem l&aacute; dentro para tocar a sua
+ derradeira melodia.<br /> <br /> Os padres e os chefes da escolta
+ consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos p&eacute;s da santa, e
+ debulhado em l&aacute;grimas come&ccedil;ou a tocar. Ent&atilde;o o povo,
+ maravilhado e aterrado, viu Santa Cec&iacute;lia curvar-se de novo, descal&ccedil;ar
+ o outro sapato e met&ecirc;-lo nas m&atilde;os do infeliz m&uacute;sico.
+ &Agrave; vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o
+ rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente
+ prestar-lhe as mais honrosas homenagens.<br /> <br /> <br /> <br /> <br />
+ <span class="pagenum">[62]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="20"></a>Os p&ecirc;ssegos
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco p&ecirc;ssegos
+ magn&iacute;ficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos,
+ extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria.
+ &Agrave; noite o pai perguntou-lhes:<br /> <br /> &#8213;Ent&atilde;o
+ comeram os p&ecirc;ssegos?<br /> <br /> &#8213;Eu comi, disse o mais velho.
+ Que bom que era! Guardei o caro&ccedil;o, e hei-de plant&aacute;-lo para
+ nascer uma &aacute;rvore.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Fizeste bem, respondeu
+ o pai, &eacute; bom ser econ&oacute;mico e pensar no futuro.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Eu, disse o mais novo, o meu p&ecirc;ssego comi-o logo, e a
+ mam&atilde; ainda me deu metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade n&atilde;o
+ admira; espero que quando fores maior te h&aacute;s-de corrigir.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Pois eu c&aacute;, disse um terceiro, apanhei o caro&ccedil;o
+ que o meu irm&atilde;o deitou fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro,
+ que era como uma noz. Vendi o meu p&ecirc;ssego, e com o dinheiro hei de
+ comprar coisas quando for &agrave; cidade.&raquo;<br /> <br /> O pai meneou
+ a cabe&ccedil;a:<br /> <br /> <span class="pagenum">[63]</span>&#8213;Foi
+ uma ideia engenhosa, mas eu preferia menos c&aacute;lculo.<br /> <br />
+ &#8213;E tu, Eduardo, provaste o teu p&ecirc;ssego?<br /> <br /> &#8213;Eu,
+ meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho, ao Jorge,
+ que est&aacute; coitadinho com febre. Ele n&atilde;o o queria, mas
+ deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.<br /> <br /> &#8213;Ora bem,
+ perguntou o pai, qual de v&oacute;s &eacute; que empregou melhor o p&ecirc;ssego
+ que eu lhe dei?<br /> <br /> E os tr&ecirc;s pequenos disseram &agrave; uma:<br />
+ <br /> &#8213;Foi o mano Eduardo.<br /> <br /> Este no entanto n&atilde;o
+ dizia palavra, e a m&atilde;e abra&ccedil;ou-o com os olhos arrasados de l&aacute;grimas.<br />
+ <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[64]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="21"></a>A urna das l&aacute;grimas
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Era uma vez uma vi&uacute;va, que tinha uma filhinha muito
+ linda, a quem adorava sobre todas as coisas. N&atilde;o se separava dela
+ um s&oacute; momento; mas um dia a pobre pequerrucha come&ccedil;ou a
+ sofrer, adoeceu e morreu. A desditosa m&atilde;e, que tinha passado as
+ noites e os dias, sem repousar um momento, &agrave; cabeceira da filha,
+ julgou endoidecer de m&aacute;goa e de saudades. N&atilde;o comia, n&atilde;o
+ fazia sen&atilde;o chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
+ acabrunhada, chorando no mesmo s&iacute;tio em que a filha tinha morrido,
+ abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua
+ querida filha, sorrindo com uma express&atilde;o ang&eacute;lica e
+ trazendo nas m&atilde;os uma urna, que vinha cheia at&eacute; &agrave;s
+ bordas.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Oh! minha querida m&atilde;e, disse-lhe
+ ela, n&atilde;o chores mais. Olha, o anjo das l&aacute;grimas recolheu as
+ tuas nesta urna. Se chorares mais, transbordar&aacute;, e as tuas l&aacute;grimas
+ correr&atilde;o sobre mim, inquietando-me no t&uacute;mulo e perturbando a
+ minha felicidade no para&iacute;so.<br /> <br /> A pequenina desapareceu, e
+ a m&atilde;e n&atilde;o tornou a chorar para a n&atilde;o afligir.<br />
+ <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[65]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="22"></a>Reconhecimento e ingratid&atilde;o
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Os vossos filhos ser&atilde;o para v&oacute;s como v&oacute;s
+ tiverdes sido para vossos pais. E &eacute; natural. As crian&ccedil;as v&ecirc;em
+ diariamente o que fazem seus pais, e imitam-nos. Justifica-se desta
+ maneira o prov&eacute;rbio que diz,&#8213;que a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o
+ ou a maldi&ccedil;&atilde;o dum pai cai sobre a cabe&ccedil;a de seus
+ filhos, terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que
+ merecem ser meditados.<br /> <br /> Um pr&iacute;ncipe, passeando no campo,
+ viu um pobre homem, que andava muito satisfeito, a lavrar a terra. P&ocirc;s-se
+ a conversar com ele. Depois de algumas perguntas, soube que o campo n&atilde;o
+ pertencia ao homem, mas que trabalhava nele mediante um sal&aacute;rio de
+ doze vint&eacute;ns por dia. O pr&iacute;ncipe, que para as suas despesas
+ de administra&ccedil;&atilde;o e representa&ccedil;&atilde;o necessitava
+ de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, como se vivia
+ com doze vint&eacute;ns di&aacute;rios, andando-se ainda por cima
+ satisfeito. Manifestou o seu espanto ao alde&atilde;o, que lhe respondeu:<br />
+ <br /> &laquo;Gasto diariamente comigo a ter&ccedil;a parte dessa quantia;
+ outro ter&ccedil;o &eacute; para pagar as minhas dividas; <span
+ class="pagenum">[66]</span>e o resto &eacute; para ir juntando algumas
+ economias.&raquo;<br /> <br /> Era um novo enigma para o pr&iacute;ncipe.
+ Mas o alegre campon&ecirc;s explicou-lho deste modo.<br /> <br /> &laquo;Reparto
+ quanto ganho com os meus velhos pais, que j&aacute; n&atilde;o podem
+ trabalhar, e com os meus filhos, que ainda n&atilde;o t&ecirc;m for&ccedil;a
+ para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na
+ minha inf&acirc;ncia; e espero que os segundos n&atilde;o me abandonem,
+ quando os anos tiverem pesado sobre mim.&raquo;<br /> <br /> O pr&iacute;ncipe,
+ ouvindo isto, quis premiar o honrado campon&ecirc;s; encarregou-se da
+ educa&ccedil;&atilde;o de seus filhos; e a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o que
+ lhe deram os seus velhos pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua
+ vez, rodeando igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais
+ terna dedica&ccedil;&atilde;o.<br /> <br /> Mas posso desgra&ccedil;adamente
+ citar-vos outro filho, que procedeu duma maneira t&atilde;o indigna com
+ seu velho pai doente e aleijado, que este teve de pedir que o levassem
+ para o hospital da miseric&oacute;rdia. O filho ingrato recebeu com
+ alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde foi conduzido ao
+ hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse muito pobre,
+ decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como &uacute;ltima esmola,
+ um par de len&ccedil;&oacute;is, para cobrir a palha que lhe servia de
+ leito. O mau filho escolheu os len&ccedil;&oacute;is mais usados, e disse
+ ao seu pequeno, de dez anos de idade, que os fosse levar <i>a esse velho
+ rabujento</i>. Mas notou que a crian&ccedil;a ao partir tinha escondido um
+ dos len&ccedil;&oacute;is a um canto, atr&aacute;s da porta.<br /> <br />
+ <span class="pagenum">[67]</span>Quando voltou perguntou-lhe o pai, porque
+ fizera aquilo.<br /> <br /> &laquo;Foi, respondeu a crian&ccedil;a
+ desabridamente, para me servir mais tarde deste len&ccedil;ol, quando pela
+ minha vez te mandar tamb&eacute;m para o hospital.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <br /> <span class="pagenum">[68]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="23"></a>O fato novo do sult&atilde;o
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Era uma vez um sult&atilde;o, que despendia em vestu&aacute;rio
+ todo o seu rendimento.<br /> <br /> Quando passara revista ao exercito,
+ quando ia aos passeios ou ao teatro, n&atilde;o tinha outro fim sen&atilde;o
+ mostrar os seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como
+ se diz dum rei: Est&aacute; no conselho; dizia-se dele: Est&aacute;-se a
+ vestir. A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, gra&ccedil;as
+ &agrave; quantidade de estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram l&aacute;
+ um dia dois lar&aacute;pios, que, dando-se por tecel&otilde;es, disseram
+ que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. N&atilde;o s&oacute;
+ eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas al&eacute;m
+ disso os vestu&aacute;rios feitos com esse estofo, possu&iacute;am uma
+ qualidade maravilhosa: tornavam-se invis&iacute;veis para os idiotas e
+ para todos aqueles que n&atilde;o exercessem bem o seu emprego.<br /> <br />
+ &#8213;S&atilde;o vestu&aacute;rios impag&aacute;veis, disse consigo o
+ sult&atilde;o; gra&ccedil;as a eles, saberei distinguir os inteligentes
+ dos tolos, e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso desse estofo!&raquo;<br />
+ <br /> E mandou em seguida adiantar aos dois charlat&atilde;es <span
+ class="pagenum">[69]</span>uma quantia avultada, para que pudessem come&ccedil;ar
+ os trabalhos imediatamente.<br /> <br /> Os homens levantaram com efeito
+ dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de n&atilde;o haver
+ absolutamente nada nas lan&ccedil;adeiras. Requisitavam seda e oiro fino a
+ todo o instante; mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando
+ at&eacute; &agrave; meia noite com os teares vazios.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Preciso
+ saber se a obra vai adiantada&raquo;.<br /> <br /> Mas tremia de medo ao
+ lembrar-se que o estofo n&atilde;o podia ser visto pelos idiotas. E,
+ apesar de ter confian&ccedil;a na sua intelig&ecirc;ncia, achou prudente
+ em todo o caso mandar algu&eacute;m adiante.<br /> <br /> Todos os
+ habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e
+ ardiam em desejos de verificar se seria exacto.<br /> <br /> &#8213;Vou
+ mandar aos tecel&otilde;es o meu velho ministro, pensou o sult&atilde;o;
+ tem um grande talento, e por isso ningu&eacute;m pode melhor do que ele
+ avaliar o estofo.<br /> <br /> O honrado ministro entrou na sala em que os
+ dois impostores trabalhavam com os teares vazios.<br /> <br /> &#8213;Meu
+ Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, n&atilde;o vejo
+ absolutamente nada!&raquo; Mas no entanto calou-se. Os dois tecel&otilde;es
+ convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opini&atilde;o sobre os
+ desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
+ olhava, mas n&atilde;o via nada, pela raz&atilde;o simplic&iacute;ssima de
+ nada l&aacute; existir.<br /> <br /> &#8213;Meu Deus! pensou ele, serei
+ realmente est&uacute;pido? &Eacute; necess&aacute;rio que ningu&eacute;m o
+ saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas l&aacute; confessar que
+ n&atilde;o vejo nada, isso &eacute; que eu n&atilde;o confesso.&raquo;<br />
+ <br /> <span class="pagenum">[70]</span>&laquo;Ent&atilde;o que lhe parece?&raquo;
+ perguntou um dos tecel&otilde;es:<br /> <br /> &#8213;&laquo;Encantador,
+ admir&aacute;vel! respondeu o ministro, pondo os &oacute;culos. Este
+ desenho... estas cores... magn&iacute;fico!... Direi ao sult&atilde;o que
+ fiquei completamente satisfeito.&raquo;<br /> <br /> &#8213;&laquo;Muito
+ agradecido, muito agradecido&raquo;, disseram os tecel&otilde;es; e
+ mostraram-lhe cores e desenhos imagin&aacute;rios, fazendo-lhe deles uma
+ descri&ccedil;&atilde;o minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir
+ depois repetir tudo ao sult&atilde;o.<br /> <br /> Os impostores
+ requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; precisavam-se
+ quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no bolso, &eacute;
+ claro; o tear continuava vazio, e apesar disso trabalhavam sempre.<br />
+ <br /> Passado algum tempo, mandou o sult&atilde;o um novo funcion&aacute;rio,
+ homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu
+ a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e n&atilde;o
+ via nada.<br /> <br /> &#8213;N&atilde;o acha um tecido admir&aacute;vel?&raquo;
+ perguntaram os tratantes, mostrando o magn&iacute;fico desenho e as belas
+ cores, que tinham apenas o inconveniente de n&atilde;o existir.<br /> <br />
+ &#8213;Mas que diabo! Eu n&atilde;o sou tolo! dizia o homem consigo. Pois
+ n&atilde;o serei eu capaz de desempenhar o meu lugar? &Eacute; esquisito!
+ mas deix&aacute;-lo, n&atilde;o o deixo eu.&raquo;<br /> <br /> Em seguida
+ elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admira&ccedil;&atilde;o
+ pelo desenho e o bem combinado das cores.<br /> <br /> &#8213;&Eacute; duma
+ magnific&ecirc;ncia incompar&aacute;vel, disse <span class="pagenum">[71]</span>ele
+ ao sult&atilde;o. E toda a cidade come&ccedil;ou a falar desse tecido
+ extraordin&aacute;rio.<br /> <br /> Enfim o pr&oacute;prio sult&atilde;o
+ quis v&ecirc;-lo enquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de
+ pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois honrados funcion&aacute;rios,
+ dirigiu-se para as oficinas, em que os dois velhacos teciam continuamente,
+ mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de esp&eacute;cie alguma.<br />
+ <br /> &#8213;N&atilde;o acha magn&iacute;fico? disseram os dois honrados
+ funcion&aacute;rios. O desenho e as cores s&atilde;o dignos de vossa
+ alteza.&raquo;<br /> <br /> E apontaram para o tear vazio, como se as outras
+ pessoas que ali estavam pudessem ver alguma coisa.<br /> <br /> &#8213;Que
+ &eacute; isto! disse consigo mesmo o sult&atilde;o, n&atilde;o vejo nada!
+ &Eacute; horr&iacute;vel! serei eu tolo, incapaz de governar os meus
+ estados? Que desgra&ccedil;a que me acontece!&raquo; Depois de repente
+ exclamou: &laquo;&Eacute; magn&iacute;fico! Testemunho-vos a minha satisfa&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+ <br /> E meneou a cabe&ccedil;a com um ar satisfeito, e olhou para o tear,
+ sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu s&eacute;quito
+ olharam do mesmo modo, uns atr&aacute;s dos outros, mas sem ver coisa
+ alguma, e no entanto repetiam como o sult&atilde;o: &laquo;&Eacute; magn&iacute;fico!&raquo;
+ At&eacute; lhe aconselharam a que se apresentasse com o fato novo no dia
+ da grande prociss&atilde;o. &laquo;&Eacute; magn&iacute;fico! &eacute;
+ encantador! &eacute; admir&aacute;vel!&raquo; exclamavam todas as bocas, e
+ a satisfa&ccedil;&atilde;o era geral.<br /> <br /> Os dois impostores foram
+ condecorados e receberam o titulo de fidalgos tecel&otilde;es.<br /> <br />
+ Na v&eacute;spera do dia da prociss&atilde;o passaram a noite em claro,
+ trabalhando &agrave; luz de dezasseis velas. <span class="pagenum">[72]</span>Finalmente
+ fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-no com umas grandes tesouras,
+ coseram-no com uma agulha sem fio, e declararam, depois disto, que estava
+ o vestu&aacute;rio conclu&iacute;do.<br /> <br /> O sult&atilde;o com os
+ seus ajudantes de campo foi examin&aacute;-lo, e os impostores levantando
+ um bra&ccedil;o, como para sustentar alguma coisa, disseram:<br /> <br />
+ &laquo;Eis as cal&ccedil;as, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia
+ de aranha; &eacute; a principal virtude deste tecido.&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.<br />
+ <br /> &#8213;Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os lar&aacute;pios,
+ provar-lhe-&iacute;amos o fato diante do espelho.&raquo;<br /> <br /> O sult&atilde;o
+ despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as cal&ccedil;as, depois
+ a casaca, depois o manto. O sult&atilde;o tudo era voltar-se defronte do
+ espelho.<br /> <br /> &#8213;Como lhe fica bem! que talhe elegante!
+ exclamaram todos os cortes&atilde;os. Que desenho! que cores! que vestu&aacute;rio
+ incompar&aacute;vel!&raquo;<br /> <br /> Nisto entrou o gr&atilde;o-mestre
+ de cerim&oacute;nias.<br /> <br /> &#8213;Est&aacute; &agrave; porta o
+ dossel sobre que vossa alteza deve assistir &agrave; prociss&atilde;o,
+ disse ele.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Bom! estou pronto, respondeu o sult&atilde;o.
+ Parece-me que n&atilde;o vou mal.&raquo;<br /> <br /> E voltou-se ainda uma
+ vez diante do espelho, para ver bem o efeito do seu esplendor. Os
+ camaristas que deviam levar a cauda do manto, n&atilde;o querendo
+ confessar que n&atilde;o viam absolutamente nada, fingiam arrega&ccedil;&aacute;-la.<br />
+ <br /> E, enquanto o sult&atilde;o caminhava altivo sob um <span
+ class="pagenum">[73]</span>dossel deslumbrante, toda a gente na rua e
+ &agrave;s janelas exclamava: &laquo;Que vestu&aacute;rio magn&iacute;fico!
+ Que cauda t&atilde;o graciosa! Que talhe elegante!&raquo; Ningu&eacute;m
+ queria dar a perceber, que n&atilde;o via nada, porque isso equivalia a
+ confessar que se era tolo. Nunca os fatos do sult&atilde;o tinham sido t&atilde;o
+ admirados.<br /> <br /> &#8213;Mas parece que vai em cuecas&raquo;, observou
+ um pequerrucho, ao colo do pai.<br /> <br /> &#8213;&Eacute; a voz da inoc&ecirc;ncia,
+ disse o pai.<br /> <br /> &#8213;H&aacute; ali uma crian&ccedil;a que diz
+ que o sult&atilde;o vai em cuecas.<br /> <br /> &laquo;Vai em cuecas! vai em
+ cuecas!&raquo; exclamou o povo finalmente.<br /> <br /> O sult&atilde;o
+ ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente era verdade.
+ Entretanto tomou a en&eacute;rgica resolu&ccedil;&atilde;o de ir at&eacute;
+ ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
+ imagin&aacute;ria.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[74]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="24"></a>Boa senten&ccedil;a
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge
+ uma quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil r&eacute;is
+ de alv&iacute;ssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um
+ honrado campon&ecirc;s levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro,
+ e disse:<br /> <br /> &#8213;Deviam ser oitocentos mil r&eacute;is, que foi
+ a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu
+ amigo, que recebeste adiantados os cem mil r&eacute;is de alv&iacute;ssaras:
+ estamos pagos por conseguinte.&raquo;<br /> <br /> O bom campon&ecirc;s, que
+ nem por sombras tocara no dinheiro, n&atilde;o podia nem devia
+ contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que,
+ vendo a m&aacute; f&eacute; do avarento, deu a seguinte senten&ccedil;a:<br />
+ <br /> &#8213;Um de v&oacute;s perdeu oitocentos mil r&eacute;is; o outro
+ encontrou um alforge apenas com setecentos: Resulta da&iacute; claramente
+ que o dinheiro que o &uacute;ltimo encontrou n&atilde;o pode ser o mesmo a
+ que o primeiro se julga com direito. Por consequ&ecirc;ncia tu, meu bom
+ homem, leva o dinheiro que encontraste, <span class="pagenum">[75]</span>e
+ guarda-o at&eacute; que apare&ccedil;a o indiv&iacute;duo que perdeu
+ somente setecentos mil r&eacute;is. E tu, o &uacute;nico conselho que
+ passo a dar-te, &eacute; que tenhas paci&ecirc;ncia at&eacute; que apare&ccedil;a
+ algu&eacute;m que tenha achado os teus oitocentos mil r&eacute;is.<br />
+ <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[76]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="25"></a>Os animais agradecidos
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um
+ homem a quem perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha.
+ Este respondeu:<br /> <br /> &#8213;&laquo;Senhor: eu sou um desgra&ccedil;ado,
+ um miser&aacute;vel; nasci no vosso reino, e chamo-me <i>Ingratid&atilde;o</i>.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;&laquo;Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei,
+ tomava-te ao meu servi&ccedil;o.&raquo;<br /> <br /> O nosso homem prometeu
+ ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. Desde que chegaram a pal&aacute;cio,
+ deu tais provas de habilidade, mostrou-se t&atilde;o esperto e t&atilde;o
+ sol&iacute;cito, que o rei afei&ccedil;oou-se-lhe de tal modo, que o
+ nomeou seu intendente, confiando-lhe a administra&ccedil;&atilde;o da sua
+ casa. Deslumbrado por uma fortuna t&atilde;o r&aacute;pida, o seu orgulho
+ desde ent&atilde;o n&atilde;o conheceu limites; maltratava os inferiores,
+ e n&atilde;o tinha compaix&atilde;o dos desventurados.<br /> <br /> Ora, na
+ vizinhan&ccedil;a do pal&aacute;cio havia uma floresta cheia de animais
+ selvagens e perigos&iacute;ssimos. O intendente mandou a&iacute; fazer por
+ toda a parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras,
+ caindo dentro, pudessem ser agarradas. <span class="pagenum">[77]</span>Um
+ dia que o intendente atravessava a floresta, ia t&atilde;o absorvido pelos
+ seus pensamentos orgulhosos, que se precipitou ele mesmo dentro duma das
+ covas.<br /> <br /> Passado um instante, caiu um le&atilde;o dentro do mesmo
+ po&ccedil;o; caiu depois um lobo e em seguida uma enorme serpente, de
+ aspecto horroroso. O governador, ao ver-se em t&atilde;o extraordin&aacute;ria
+ companhia, ficou t&atilde;o horrorizado, que lhe embranqueceram os
+ cabelos; e toda a esperan&ccedil;a de salva&ccedil;&atilde;o lhe parecia
+ inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, ningu&eacute;m o vinha
+ socorrer.<br /> <br /> Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem
+ extremamente pobre, chamado Ant&oacute;nio, que todos os dias ia rachar
+ lenha &agrave; floresta, para ganhar o p&atilde;o necess&aacute;rio
+ &agrave; sua mulher e aos seus filhos. Ant&oacute;nio tamb&eacute;m l&aacute;
+ foi nesse dia, como de costume, e p&ocirc;s-se a trabalhar n&atilde;o
+ longe da cova em que ca&iacute;ra o intendente, cujos gritos de afli&ccedil;&atilde;o
+ n&atilde;o tardou a ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem
+ era que estava ali.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Sou o governador do pal&aacute;cio
+ do rei, e, se me tirares daqui, prometo encher-te de riquezas; estou em
+ companhia dum le&atilde;o, dum lobo e duma enorme serpente.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;&laquo;Eu, respondeu o lenhador, sou um miser&aacute;vel
+ jornaleiro, n&atilde;o tendo para sustentar a minha fam&iacute;lia, mais
+ que o produto do meu trabalho; bastava um dia perdido para me causar um
+ grande desarranjo; v&ecirc; l&aacute; pois, se cumpres a tua promessa?<br />
+ <br /> O intendente continuou:<br /> <br /> &#8213;&laquo;Pela f&eacute; que
+ devo a Deus e a el-rei nosso senhor, <span class="pagenum">[78]</span>juro-te
+ que cumprirei a minha palavra.&raquo;<br /> <br /> Confiado nisto o rachador
+ de lenha foi &agrave; cidade, e voltou com uma corda muito comprida, que
+ deixou correr dentro do abismo. O le&atilde;o atirou-se a ela, e
+ suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era o
+ intendente.<br /> <br /> Quando chegou acima, o le&atilde;o agradeceu ao seu
+ salvador com a maior amabilidade, e foi-se embora &agrave; procura de
+ jantar, porque tinha fome.<br /> <br /> Ant&oacute;nio deitou outra vez a
+ corda ao fundo do po&ccedil;o, e, julgando tirar o governador, enganou-se,
+ porque era o lobo; &agrave; terceira vez subiu a serpente; foi necess&aacute;rio
+ fazer uma quarta tentativa, para sair o governador. Este n&atilde;o perdeu
+ tempo em agradecimentos, e partiu a correr para o pal&aacute;cio. O
+ jornaleiro voltou para casa, e contou &agrave; mulher tudo o que se tinha
+ passado, n&atilde;o lhe esquecendo, &eacute; claro, as brilhantes
+ promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manh&atilde;, foi o
+ pobre homem bater &agrave; porta do pal&aacute;cio. O porteiro
+ perguntou-lhe o que queria.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Fa&ccedil;a-me o
+ favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.&ordf; o intendente que o
+ homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja falar.&raquo;<br />
+ <br /> O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e
+ exclamou:<br /> <br /> &#8213;&laquo;Vai dizer a esse homem, que eu n&atilde;o
+ vi ningu&eacute;m na floresta; que se ponha a andar, porque o n&atilde;o
+ conhe&ccedil;o.&raquo;<br /> <br /> O porteiro voltou, e repetiu o que o
+ governador lhe tinha dito.<br /> <br /> O pobre homem tornou para casa mui
+ descor&ccedil;oado, <span class="pagenum">[79]</span>e contou &agrave;
+ mulher a odiosa perf&iacute;dia de que tinha sido vitima.<br /> <br /> A
+ mulher disse-lhe:<br /> <br /> &#8213;&laquo;Tem paci&ecirc;ncia; o sr.
+ intendente estava hoje decerto muito ocupado, e foi talvez por isso que te
+ n&atilde;o p&ocirc;de receber.&raquo;<br /> <br /> Estas palavras sossegaram
+ o rachador que outra vez nutriu esperan&ccedil;as.<br /> <br /> Na manh&atilde;
+ seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo &agrave; porta do pal&aacute;cio.
+ Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos &aacute;speros, que n&atilde;o
+ tornasse ali a aparecer, quando n&atilde;o ver-se-ia obrigado a empregar
+ meios violentos. A mulher ainda desta vez procurou consol&aacute;-lo:<br />
+ <br /> &#8213;&laquo;Experimenta terceira e &uacute;ltima vez, disse-lhe
+ ela, talvez Deus o inspire melhor. E se assim n&atilde;o for, ainda que te
+ custe, n&atilde;o penses mais nisso.&raquo;<br /> <br /> No dia seguinte o
+ bom do homem voltou &agrave; carga; e tendo o porteiro consentido &agrave;
+ for&ccedil;a de suplicas em anunci&aacute;-lo ainda ao governador, este
+ encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre homem
+ duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do ch&atilde;o.
+ A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com um burro, p&ocirc;s-lhe
+ em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas levaram-lhe seis meses a
+ curar, estando sempre de cama, vendo-se obrigado a contrair dividas para
+ pagar ao m&eacute;dico. Quando finalmente tinha recobrado algumas for&ccedil;as,
+ voltou ao bosque segundo o costume para fazer alguma lenha. Apenas l&aacute;
+ chegou, apareceu-lhe o le&atilde;o, que ele tinha ajudado a sair do po&ccedil;o.
+ O le&atilde;o conduzia um burro diante de si, e <span class="pagenum">[80]</span>este
+ burro estava carregado de sacos cheios de preciosidades. O le&atilde;o,
+ vendo Ant&oacute;nio, parou e inclinou-se diante dele com um ar de
+ respeitoso agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho,
+ fazendo-lhe sinal de que ficasse com o jumento. Ant&oacute;nio doido de
+ alegria levou o animal para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.<br />
+ <br /> No dia seguinte, voltando de novo &agrave; floresta, apareceu-lhe o
+ lobo, que o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o
+ quanto lhe era agradecido. Quando a tarefa estava conclu&iacute;da, e
+ tinha carregado o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente,
+ que ele tinha tirado do f&ocirc;jo, e que trazia na ponta da l&iacute;ngua
+ uma pedra preciosa, em que brilhavam tr&ecirc;s cores,&#8213;o branco, o
+ preto e o vermelho. Quando a serpente chegou ao p&eacute; do rachador de
+ lenha, deixou cair a pedra junto dele, e depois dando um salto desapareceu
+ no matagal. Ant&oacute;nio levantou a pedra, examinou-a por todos os
+ lados, para ver que propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter
+ com um velho, afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os
+ astros. Este, assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande
+ quantia. Ant&oacute;nio respondeu-lhe que a n&atilde;o queria vender, mas
+ simplesmente saber se seria boa.<br /> <br /> O velho respondeu:<br /> <br />
+ &#8213;&laquo;S&atilde;o tr&ecirc;s as virtudes desta pedra: abund&acirc;ncia
+ cont&iacute;nua, alegria imperturb&aacute;vel e luz sem trevas. Se algu&eacute;m
+ ta comprar por menos dinheiro do que vale, tornar&aacute; imediatamente
+ para a tua m&atilde;o.&raquo;<br /> <br /> Ant&oacute;nio ficou muito
+ contente com esta resposta, <span class="pagenum">[81]</span>agradeceu ao
+ velho da ci&ecirc;ncia maravilhosa, e correu a contar &agrave; mulher a
+ sua felicidade. Como se imagina, gra&ccedil;as &agrave; virtude da famosa
+ pedra, n&atilde;o lhe faltaram da&iacute; em diante, nem honras nem
+ riquezas.<br /> <br /> Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas
+ prosperidades, mandou chamar Ant&oacute;nio, e mostrou-lhe desejos de
+ adquirir o precioso talism&atilde;.<br /> <br /> Ant&oacute;nio, vendo que
+ semelhante desejo era uma ordem, respondeu:<br /> <br /> &#8213;&laquo;Devo
+ prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me n&atilde;o for paga
+ pelo que vale, tornar&aacute; ela mesma para o meu poder.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;&laquo;Hei de pagar-ta bem, disse o rei.&raquo;<br /> <br /> E
+ mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manh&atilde;,
+ Ant&oacute;nio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo
+ isto disse-lhe:<br /> <br /> &#8213;&laquo;Torna a lev&aacute;-la ao rei
+ imediatamente; n&atilde;o v&aacute; ele persuadir-se que lha furtaste.&raquo;<br />
+ <br /> O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou &agrave; presen&ccedil;a
+ de sua majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
+ preciosa.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Mandei-a meter com todo o cuidado
+ dentro dum cofre de ferro, fechado com sete chaves, disse o rei.&raquo;<br />
+ <br /> Ant&oacute;nio mostrou-lhe ent&atilde;o a j&oacute;ia preciosa, e o
+ rei ficou extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha
+ adquirido semelhante tesouro.<br /> <br /> Ant&oacute;nio contou-lhe tudo
+ que tinha havido, a ingratid&atilde;o do governador e o reconhecimento dos
+ animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu intendente, e
+ disse-lhe:<br /> <br /> <span class="pagenum">[82]</span>&#8213;&laquo;Homem
+ perverso, com justo motivo te puseram o nome de <i>Ingratid&atilde;o</i>,
+ porque &eacute;s mais falso e mais p&eacute;rfido que os animais ferozes,
+ e pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justi&ccedil;a ser&aacute;
+ feita. Dou a Ant&oacute;nio as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje
+ mesmo, o castigo de seres enforcado.&raquo;<br /> <br /> Admiraram todos a
+ senten&ccedil;a do rei, e Ant&oacute;nio desempenhou as suas altas fun&ccedil;&otilde;es
+ com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido
+ para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos gloriosos.<br />
+ <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[83]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="26"></a>O ermit&atilde;o
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Um homem, animado pela mais ardente cren&ccedil;a religiosa,
+ deliberou retirar-se a uma gruta solit&aacute;ria para se consagrar
+ inteiramente ao trabalho da sua salva&ccedil;&atilde;o. Jejuando sempre,
+ orando, ciliciando-se, os seus pensamentos n&atilde;o se desviavam nunca
+ da ideia de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos anos, uma
+ noite lembrou-se de que j&aacute; tinha merecido um lugar glorioso no para&iacute;so,
+ e podia ser contado entre os santos mais not&aacute;veis.<br /> <br /> Na
+ noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:<br /> <br />
+ &#8213;H&aacute; no mundo um pobre m&uacute;sico, que anda de porta em
+ porta, tocando viola e cantando, e que mereceu mais do que tu as
+ recompensas eternas.<br /> <br /> O ermit&atilde;o, at&oacute;nito, ao ouvir
+ estas palavras, levantou-se, agarrou no seu bord&atilde;o, foi em busca do
+ m&uacute;sico e mal o encontrou disse-lhe:<br /> <br /> &#8213;Irm&atilde;o,
+ diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que ora&ccedil;&otilde;es e
+ penit&ecirc;ncias te tornaste agrad&aacute;vel a Deus.<br /> <br /> &#8213;Ora,
+ respondeu-lhe o m&uacute;sico, abaixando a cabe&ccedil;a, santo padre, n&atilde;o
+ zombes de mim. Nunca fiz <span class="pagenum">[84]</span>boas obras, e
+ quanto a ora&ccedil;&otilde;es n&atilde;o as sei, pobre de mim, que sou um
+ pecador. O que fa&ccedil;o &eacute; andar de casa em casa a divertir os
+ outros.&raquo;<br /> <br /> O austero ermit&atilde;o continuou a insistir:<br />
+ <br /> &#8213;Estou certo que, no meio da tua exist&ecirc;ncia vagabunda,
+ praticaste algum acto de virtude.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Em verdade n&atilde;o
+ poderia citar nem um s&oacute;.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Mas ent&atilde;o
+ como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido loucamente como os que
+ exercem a tua profiss&atilde;o? Dissipaste frivolamente o teu patrim&oacute;nio
+ e o produto do teu of&iacute;cio?&raquo;<br /> <br /> &#8213;N&atilde;o; mas
+ um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e filhos tinham
+ sido condenados &agrave; escravid&atilde;o para pagar uma d&iacute;vida.
+ Essa mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa,
+ protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possu&iacute;a para
+ resgatar a sua fam&iacute;lia, e levei-a &agrave; cidade, onde ela devia
+ encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem n&atilde;o teria
+ feito outro tanto?&raquo;<br /> <br /> A estas palavras o ermit&atilde;o p&ocirc;s-se
+ a chorar, e exclamou:<br /> <br /> &#8213;Nos meus setenta anos de solid&atilde;o
+ nunca pratiquei uma obra t&atilde;o merit&oacute;ria, e apesar disso
+ chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu n&atilde;o passas dum pobre m&uacute;sico.&raquo;<br />
+ <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[85]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="27"></a>Carlos Magno e o abade de S. Gall
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de
+ S. Gall, pregui&ccedil;osamente reclinado sobre almofadas &agrave; porta
+ da abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens en&eacute;rgicos
+ e activos, e o abade era indolente. Al&eacute;m disso o imperador tinha
+ mais dum motivo de queixa contra ele.<br /> <br /> &#8213;Bons dias, senhor
+ abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter &agrave; sua esclarecida
+ raz&atilde;o tr&ecirc;s perguntas, &agrave;s quais ter&aacute; a bondade
+ de me responder daqui a tr&ecirc;s meses, contados dia a dia, em sess&atilde;o
+ solene do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu
+ valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao
+ mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+ rev.<sup>ma</sup> vier &agrave; minha presen&ccedil;a, pensamento que deve
+ ser um erro. Trate de arranjar resposta satisfat&oacute;ria a tudo, ali&aacute;s
+ deixa de ser abade de S. Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num
+ burro com a cara voltada para o rabo.&raquo;<br /> <br /> O abade n&atilde;o
+ sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores
+ mais <span class="pagenum">[86]</span>famosos pela sua ci&ecirc;ncia, n&atilde;o
+ lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a &eacute;poca
+ fatal aproximava-se; j&aacute; n&atilde;o faltava sen&atilde;o um m&ecirc;s,
+ j&aacute; n&atilde;o faltavam sen&atilde;o semanas, e afinal s&oacute;
+ dias. O abade, que noutro tempo era gordo e anafado, estava magro como um
+ esqueleto. Perdera o sono e o apetite. Andava errante nos bosques
+ lamentando a sua desgra&ccedil;a, quando se encontrou com o seu pastor.<br />
+ <br /> &#8213;Bons dias senhor abade. Parece que est&aacute; mais magro!
+ Est&aacute; doente?&raquo;<br /> <br /> &#8213;Estou, meu caro F&eacute;lix,
+ estou muito doente.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Oh! meu rico amigo, eu lhe
+ darei alguma erva que o possa curar.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Infelizmente
+ n&atilde;o s&atilde;o ervas que eu preciso, mas resposta &agrave;s minhas
+ tr&ecirc;s perguntas.&raquo;<br /> <br /> &#8213;&Eacute; ent&atilde;o
+ latim?&raquo;<br /> <br /> &#8213;N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; latim, sen&atilde;o
+ os doutores tinham-me arranjado tudo.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Visto que n&atilde;o
+ &eacute; latim, queira v. rev.<sup>ma</sup> dizer-me o que &eacute;: minha
+ m&atilde;e era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.&raquo;<br />
+ <br /> Quando o abade lhe formulou as tr&ecirc;s perguntas, o pastor atirou
+ com o barrete ao ar, e disse-lhe:<br /> <br /> &#8213;Se &eacute; apenas
+ isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.<sup>ma</sup> pode
+ continuar a engordar; mas para isso &eacute; necess&aacute;rio que eu
+ vista o seu h&aacute;bito.&raquo;<br /> <br /> Quando chegou o dia, o pastor
+ disfar&ccedil;ado com o h&aacute;bito do abade de S. Gall, foi introduzido
+ na sala onde o imperador presidia o conselho imperial.<br /> <br /> &#8213;Ent&atilde;o,
+ senhor abade, parece que est&aacute; mais magro, deu-lhe muito que pensar
+ a chave do <span class="pagenum">[87]</span>enigma? Vamos l&aacute; a ver
+ a primeira pergunta: Quanto valho eu em dinheiro?&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por
+ trinta dinheiros, sua majestade vale &agrave; justa vinte e nove, s&oacute;
+ um dinheiro menos.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Bravo, senhor abade, a
+ resposta &eacute; h&aacute;bil, e na realidade n&atilde;o posso deixar de
+ me mostrar satisfeito. Mas vamos &agrave; segunda pergunta, n&atilde;o h&aacute;
+ de ser t&atilde;o f&aacute;cil dar a resposta. Vamos l&aacute; a ver:
+ quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?&raquo;<br /> <br /> &#8213;Senhor,
+ se vossa majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir
+ constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro
+ horas.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Decididamente, v. rev.<sup>ma</sup>
+ &eacute; um grande fin&oacute;rio, e desta vez, confesso-me vencido; mas a
+ terceira, n&atilde;o dessas &agrave; que se responde com suposi&ccedil;&otilde;es.
+ Quem lhe h&aacute; de dizer o que eu estou pensando, e como me h&aacute;
+ de provar que este pensamento &eacute; um erro? Tem a palavra senhor
+ abade.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou
+ o abade de S. Gall; est&aacute; enganado, porque eu sou o seu pastor.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Mas ent&atilde;o tu &eacute; que deves ser o abade de S.
+ Gall, e desde j&aacute; o ficas sendo.&raquo;<br /> <br /> &#8213;N&atilde;o
+ sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor, pe&ccedil;o-lhe
+ outra coisa.&raquo;<br /> <br /> &#8213;N&atilde;o tens mais que falar.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Pe&ccedil;o a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.&raquo;<br />
+ <br /> Carlos Magno n&atilde;o era homem que faltasse &agrave; sua palavra.<br />
+ <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[88]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="28"></a>A boneca
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma hist&oacute;ria&#8213;a
+ hist&oacute;ria duma boneca!<br /> <br /> N&atilde;o h&aacute; muitos anos,
+ mas ainda n&atilde;o era a Cordoaria do Porto o ameno jardim, onde a inf&acirc;ncia
+ folga por entre maci&ccedil;os de flores e sob o sorriso do sol, sem que
+ lhe enegre&ccedil;a o esp&iacute;rito a vista dos dois monumentos, que a
+ meu ver simbolisam as duas mais horr&iacute;veis calamidades, que podem
+ aniquilar um homem&#8213;o hospital e a cadeia!&#8213;ainda n&atilde;o h&aacute;
+ muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
+ feira, divertindo-me a meu modo.<br /> <br /> Cansado das in&uacute;meras
+ figuras, que tinha visto passar por aquela esp&eacute;cie de lanterna m&aacute;gica,
+ dispunha-me a dar por findo o espect&aacute;culo, quando novos personagens
+ me chamaram a aten&ccedil;&atilde;o.<br /> <br /> Eram os meus vizinhos <i>ricos</i>.
+ <br /> Aqui &eacute; preciso uma r&aacute;pida explica&ccedil;&atilde;o.<br />
+ <br /> Das fam&iacute;lias da minha vizinhan&ccedil;a, s&oacute; conhe&ccedil;o
+ tr&ecirc;s.<br /> <br /> Qual destas tr&ecirc;s fam&iacute;lias ser&aacute;
+ mais feliz?...<br /> <br /> Pelo que tenho notado, n&atilde;o t&ecirc;m que
+ invejar umas &agrave;s outras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[89]</span>S&atilde;o
+ todas felizes; cada qual a seu modo.<br /> <br /> Vi, pois, chegar os meus
+ vizinhos <i>ricos</i>. <br /> Parou o carro, o criado saltou da almofada e
+ veio, de chap&eacute;u na m&atilde;o e dorso ligeiramente curvado, abrir a
+ portinhola; o meu vizinho saltou, tomou nos bra&ccedil;os a filhinha e dep&ocirc;-la
+ no ch&atilde;o, e oferecendo, em seguida, a m&atilde;o &agrave; esposa,
+ para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e com a menina para a barraca
+ onde eu estava.<br /> <br /> N&atilde;o havia ali segredo a surpreender.<br />
+ <br /> Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
+ parecia agradecer &agrave;quela formosa crian&ccedil;a a manifesta&ccedil;&atilde;o
+ de qualquer desejo.<br /> <br /> No fim de meia hora possu&iacute;a a minha
+ pequena vizinha com que fazer a felicidade de dez crian&ccedil;as menos
+ abastadas.<br /> <br /> Tinha o necess&aacute;rio para montar completamente
+ a casa duma boneca... <i>rica</i>.<br /> <br /> Faltava apenas a dona da
+ casa&#8213;a boneca.<br /> <br /> Todo risos e aten&ccedil;&otilde;es, o
+ lojista apresentou o que tinha de melhor.<br /> <br /> Depois de muita
+ hesita&ccedil;&atilde;o e de, j&aacute; com os olhos, j&aacute; com a voz,
+ consultar a mam&atilde;, a gentil crian&ccedil;a acabou por escolher uma
+ magn&iacute;fica boneca de dois palmos de altura, com cabelo em <i>bandeaux</i>
+ e olhos azuis.<br /> <br /> Uma boneca como as outras: cabe&ccedil;a e colo
+ de massa, corpo de pelica recheada, bra&ccedil;os e pernas de pau.<br />
+ <br /> Uma vive na loja da casa, que habito. &Eacute; uma tribo de crian&ccedil;as,
+ que fazem o mart&iacute;rio e a alegria da pobre m&atilde;e, e tem por
+ chefe um honrado sapateiro.<br /> <br /> <span class="pagenum">[90]</span>Alguns
+ deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem anjos, ca&iacute;dos
+ do c&eacute;u sobre um monte de lama.<br /> <br /> S&atilde;o os meus
+ vizinhos <i>pobres</i>.<br /> <br /> A segunda comp&otilde;e-se de marido,
+ mulher e filha, e ocupa a casa imediata.<br /> <br /> &Eacute; como se
+ costuma dizer, gente <i>que vai muito bem com a sua vida</i>.<br /> <br /> A
+ filha que ter&aacute; dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e
+ carnudas, cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que
+ resistem &agrave; press&atilde;o.<br /> <br /> S&atilde;o os meus vizinhos
+ <i>remediados</i>.<br /> <br /> A terceira &eacute; a dos meus vizinhos <i>ricos</i>.<br />
+ <br /> Casa nobre, jardim espa&ccedil;oso, cavalos, criados, nome inscrito
+ nas listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+ estado&#8213;nada falta &agrave;quela ditosa gente!<br /> <br /> Comp&otilde;e-se
+ igualmente de marido, mulher e filha.<br /> <br /> Que formosa crian&ccedil;a!...
+ Ter&aacute; oito anos.<br /> <br /> Franzina e p&aacute;lida, com os cabelos
+ negros, os olhos grandes e cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas m&atilde;os
+ de dedos compridos e esguios, terminados por unhas duma cor de rosa
+ transparente, que n&atilde;o sinta antecipada inveja do feliz namorado&#8213;provavelmente
+ ainda a crescer&#8213;que h&aacute;-de um dia ter o direito de lhas cobrir
+ de beijos.<br /> <br /> Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este
+ mudou todas aquelas preciosidades de sobre o balc&atilde;o da barraca para
+ dentro do carro.<br /> <br /> A boneca teve a honra de ser transportada pela
+ aristocr&aacute;tica crian&ccedil;a.<br /> <br /> <span class="pagenum">[91]</span>Sa&iacute;
+ dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo at&eacute; casa variad&iacute;ssimas
+ considera&ccedil;&otilde;es, sugeridas pela quase indiferen&ccedil;a, com
+ que aquela menina recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.<br />
+ <br /> Que contraste com os olhares de cobi&ccedil;a, com que outras
+ raparigas da mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabe&ccedil;a de
+ pano, horr&iacute;vel artefacto portugu&ecirc;s, em que os olhos s&atilde;o
+ representados por dois pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de
+ retr&oacute;s cor de rosa, a boca por outro de fio vermelho, e os cabelos
+ por flocos de l&atilde; preta!<br /> <br /> Quando cheguei a casa, j&aacute;
+ na dos meus vizinhos remediados n&atilde;o havia luz.<br /> <br /> Na dos
+ meus vizinhos <i>pobres</i>, o pai batia a sola, cantando ao som de tr&ecirc;s
+ assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
+ provocavam os ralhos da m&atilde;e.<br /> <br /> Quando, no dia seguinte,
+ cheguei &agrave; janela, seriam onze horas da manh&atilde;.<br /> <br /> Na
+ rua agenciavam nova camada de imund&iacute;cie os filhos do sapateiro; na
+ casa imediata n&atilde;o se via ningu&eacute;m&#8213;estava a pequena na
+ mestra; no pal&aacute;cio, sentada num tapete estendido sobre a ampla
+ pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milion&aacute;ria fazendo
+ rodar, com aux&iacute;lio duma linha, uma magn&iacute;fica <i>caleche</i>
+ descoberta, puxada por cavalos brancos.<br /> <br /> Dentro da <i>caleche</i>
+ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.<br /> <br /> &#8213;&laquo;A&iacute;
+ est&aacute; a tua caricatura, minha feiticeira!...&raquo;&#8213;disse eu
+ de mim para mim. &laquo;Ensaias <span class="pagenum">[92]</span>nas
+ bonecas o que v&ecirc;s no mundo a que pertences!... Est&aacute;s a
+ aprender a copiar... Sempre este mundo!...&raquo;<br /> <br /> Retirei-me da
+ janela.<br /> <br /> Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma
+ cena.<br /> <br /> A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia
+ em que se vestia tr&ecirc;s e quatro vezes!<br /> <br /> Ao que eu, por&eacute;m,
+ achava mais gra&ccedil;a, era ao respeito com que a dona a tratava!<br />
+ <br /> Chamava-lhe sr.<sup>a</sup> D. Lu&iacute;sa; dava-lhe excel&ecirc;ncia;
+ sustentava finalmente com a boneca um destes di&aacute;logos de senhoras
+ da alta sociedade, em que se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.<br />
+ <br /> Um dia,&#8213;estava eu de costas voltadas para a janela dos meus
+ vizinhos <i>ricos</i>&#8213;ouvi um grito de susto.<br /> <br /> Era devido
+ a um acidente, a que est&aacute; sujeito quem anda de carro.<br /> <br />
+ Voltara-se este, e a boneca ca&iacute;ra, ferindo a fronte na pedra da
+ janela.<br /> <br /> O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a
+ v&iacute;tima; vendo, por&eacute;m, que a ferida havia for&ccedil;osamente
+ de deixar cicatriz, e lembrando-se de que s&oacute; lhe bastava querer,
+ para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos p&eacute;s e ia atir&aacute;-la
+ com despeito &agrave; rua, quando mais perto de mim bradou voz t&iacute;mida
+ e suplicante:<br /> <br /> &laquo;N&atilde;o atire!... D&ecirc;-ma.&raquo;<br />
+ <br /> Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu n&atilde;o
+ dera f&eacute; at&eacute; ent&atilde;o.<br /> <br /> Assim invocada, a
+ menina <i>rica</i> franziu levemente <span class="pagenum">[93]</span>as
+ sobrancelhas e lan&ccedil;ou um olhar de rainha para o s&iacute;tio donde
+ vinha a s&uacute;plica.<br /> <br /> Vendo uma crian&ccedil;a, pouco mais ou
+ menos da sua idade, serenou e, encolhendo os ombros, respondeu:<br /> <br />
+ &#8213;&laquo;J&aacute; n&atilde;o presta!... Est&aacute; esmurrada!...&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;&Eacute; o mesmo!... D&aacute;-ma?...&#8213;bradou a outra,
+ cujos olhos brilhavam de cobi&ccedil;a.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Dou...&raquo;&#8213;volveu
+ a rica, encolhendo novamente os ombros.<br /> <br /> E, caminhando para o
+ canto da varanda, deixou cair a boneca nas m&atilde;os da vizinha, que
+ tremia, receosa de que aquele tesouro fosse despeda&ccedil;ar-se nas lajes
+ da rua.<br /> <br /> Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para
+ exigir nova boneca; a outra, para mostrar &agrave; m&atilde;e a que ela
+ ainda n&atilde;o podia acreditar, que fosse sua!<br /> <br /> Por espa&ccedil;o
+ de meses foi a boneca a principal ocupa&ccedil;&atilde;o da nova dona.<br />
+ <br /> A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro
+ vezes em quatro horas!... J&aacute; lhe n&atilde;o davam excel&ecirc;ncia!
+ Chamavam-lhe sr.<sup>a</sup> D. Ana; falavam-lhe de arranjos dom&eacute;sticos,
+ do desmazelo da criada, da missa das almas, de coisas finalmente,
+ completamente estranhas para ela!<br /> <br /> E a desgra&ccedil;ada perdia
+ as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azuis; mas o que mais a
+ desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais escura:
+ parecia uma n&oacute;doa, um estigma!<br /> <br /> Nos primeiros tempos,
+ enquanto durou o vestido, <span class="pagenum">[94]</span>que trouxera no
+ corpo, ainda n&atilde;o poderia enganar olhos pouco conhecedores.<br />
+ <br /> N&atilde;o tardou, por&eacute;m, que arrebiques de mau gosto, fitas
+ velhas, rendas amareladas, chap&eacute;us imposs&iacute;veis, viessem
+ contrastar com a eleg&acirc;ncia do vestido. Dava ares de se ter equipado
+ ao acaso, na loja duma adeleira.<br /> <br /> Mas o vestido foi-se tornando
+ velho; desapareceu o brilho, e com ele as ondula&ccedil;&otilde;es do <i>moir&eacute;</i>,
+ at&eacute; que, um belo dia, vi a boneca vestida de cassa&#8213;-no
+ Inverno!&#8213;xaile e manta na cabe&ccedil;a.<br /> <br /> Muito mal lhe
+ ficava aquilo!... &Agrave;quela boneca custava-lhe de certo o ver-se t&atilde;o
+ mal arranjada.<br /> <br /> Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e
+ balbuciei:<br /> <br /> &#8213;&Eacute; justo!... Cada qual segundo as suas
+ posses.&raquo;<br /> <br /> Por esse tempo, entrei em rela&ccedil;&otilde;es
+ com o meu vizinho sapateiro.<br /> <br /> O honrado homem soubera, que eu me
+ queixara da bulha, que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a
+ primeira ocasi&atilde;o, para me pedir desculpa.<br /> <br /> Vendo-me
+ conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de
+ n&oacute;s e, desde ent&atilde;o, nunca saio de casa nem entro, sem grave
+ risco de sofrer as consequ&ecirc;ncias da sua travessa familiaridade.<br />
+ <br /> Entre os filhos do sapateiro, por&eacute;m, h&aacute; uma pequenita
+ de onze anos, com quem simpatizei logo &agrave; primeira vista.<br /> <br />
+ Chama-se Maria.<br /> <br /> Por um destes acasos da Provid&ecirc;ncia, que
+ parece <span class="pagenum">[95]</span>&agrave;s vezes comprazer-se em
+ criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irm&atilde;os.<br />
+ <br /> Acostumado &agrave;s travessuras e desalinho dos outros filhos do
+ sapateiro, fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.<br /> <br /> E
+ bem verdade que ele conhecia o valor daquela crian&ccedil;a, porque havia
+ verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: &laquo;Esta
+ &eacute; a minha Maria!&raquo;<br /> <br /> E tinha raz&atilde;o!<br /> <br />
+ N&atilde;o podia ser mais discreta do que j&aacute; nesse tempo era.<br />
+ <br /> &#8213;&Eacute; quem vale &agrave; m&atilde;e!...&#8213;acrescentou
+ o velho.&raquo;&#8213;Ali, onde a v&ecirc;, faz o servi&ccedil;o duma
+ mulher!... H&aacute; seis meses, quando a minha santa esteve doente&#8213;bem
+ pensei que n&atilde;o arribasse!&#8213;a pequena era quem cozinhava e
+ olhava pelos irm&atilde;os!... E caridade como ela tem!?... Olhe que
+ aquela pequena esteve tr&ecirc;s dias sem se deitar... ali... ao p&eacute;
+ da m&atilde;e! Foi preciso eu obrig&aacute;-la, que ela n&atilde;o a
+ queria deixar!...&raquo;<br /> <br /> E o desvanecido pai enxugou, com a
+ manga da camisa, uma l&aacute;grima, que, havia muito, hesitava sobre se
+ sim ou n&atilde;o se devia despenhar.<br /> <br /> Fazia gosto ver aquela
+ pequena com o seu vestidinho de chita escura e a cabe&ccedil;a coberta por
+ um len&ccedil;o branco.<br /> <br /> Desde que o pai me deu t&atilde;o boas
+ informa&ccedil;&otilde;es da rapariga, nunca mais passei por defronte da
+ porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias &agrave; pequena.<br />
+ <br /> Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma
+ boneca deitada nos joelhos.<br /> <br /> <span class="pagenum">[96]</span>&#8213;Eu
+ conhe&ccedil;o aquela boneca!...&#8213;disse eu de mim para mim.<br />
+ <br /> E, n&atilde;o podendo resistir &agrave; curiosidade, bradei:<br />
+ <br /> &#8213;&Oacute; Maricas!... Quem te deu a boneca?...<br /> <br /> Foi
+ ali a menina da vizinha!&#8213;respondeu a pequenita, corando de prazer.<br />
+ <br /> Era escusado dizer-mo.<br /> <br /> Maria pegara na boneca e voltara-a
+ de face para mim. N&atilde;o podia duvidar... Era ela; l&aacute; estava a
+ mancha, o estigma cada vez mais vis&iacute;vel na fronte.<br /> <br /> De
+ tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com ela.<br />
+ <br /> &#8213;Quem te viu e quem te v&ecirc;!...&#8213;pensava eu.<br />
+ <br /> &Agrave;s vezes, se Maria se descuidava e os irm&atilde;os lha
+ podiam apanhar, que tratos que sofria a desgra&ccedil;ada!<br /> <br /> Ro&ccedil;ada
+ por aquelas m&atilde;os, de que um carvoeiro se envergonharia, empregada
+ como p&eacute;la, submetida a torturas, era, ainda assim, singular&iacute;ssimo
+ o aspecto da triste!<br /> <br /> Dava ares duma duquesa que, por
+ necessidade, houve sido levada a fraternizar com o povo.<br /> <br /> A m&iacute;sera
+ mudara mais uma vez de nome!...<br /> <br /> De sr.<sup>a</sup> D. Ana
+ passara a ser sr.<sup>a</sup> Rosinha e tratavam-na por vossemec&ecirc;.<br />
+ <br /> Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e len&ccedil;o
+ na cabe&ccedil;a.<br /> <br /> Era um prazer para mim o escutar as
+ conversas, que Maria sustentava com a boneca.<br /> <br /> Esta, umas vezes,
+ representava o papel de mulher casada, e Maria, encarregando-se de
+ perguntar e responder por ela, obrigava a pobre boneca a lastimar-se por
+ estar tudo t&atilde;o caro, por haver <span class="pagenum">[97]</span>falta
+ de trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que
+ mais familiares eram &agrave; pequena.<br /> <br /> Outra vezes passava a
+ boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na, mandavam-na buscar &aacute;gua
+ &agrave; fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a
+ despedir.<br /> <br /> J&aacute; o leitor v&ecirc; que, apesar da bondade
+ Maria, deixara de ser feliz.<br /> <br /> Iam longe os bons tempos em que
+ ela, rica, morava no pal&aacute;cio vizinho!<br /> <br /> Desmaiada de
+ cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos, desfeito o carmim
+ dos l&aacute;bios, a boneca n&atilde;o prometia longa dura&ccedil;&atilde;o.<br />
+ <br /> Foi este pelo menos, o progn&oacute;stico que fiz a &uacute;ltima
+ vez que a vi, tentando em v&atilde;o agradar &agrave; &uacute;ltima dona
+ que o seu destino lhe dera.<br /> <br /> Coitada!... Bem longe estava de lhe
+ imaginar o fim!<br /> <br /> Um dia chovia a c&acirc;ntaros!&#8213;o
+ enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, espadanava em cach&atilde;o para
+ cima dos passeios, arrastando na passagem mil imund&iacute;cies.<br />
+ <br /> Eu estava &agrave; porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e
+ olhava melancolicamente para a &aacute;gua negra, que corria. Nisto ouvi
+ um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto...
+ Um objecto, arremessado de dentro da loja, atravessou o espa&ccedil;o
+ voando, e foi cair no leito do enxurro...<br /> <br /> Olhei... Era a
+ boneca!...<br /> <br /> A m&iacute;sera, arrastada pela &aacute;gua, vogou
+ rua abaixo at&eacute; esbarrar numa pedra; mas o redemoinho envolveu-a,
+ <span class="pagenum">[98]</span>e, depois de a fazer girar tr&ecirc;s ou
+ quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, tra&ccedil;ado entre a
+ pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, at&eacute; ir
+ sumir-se nas profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na
+ passagem!<br /> <br /> Ser&aacute; pieguice, ser&aacute; o que o leitor
+ quiser; mas, confesso-lhe, que me impressionou o fim da pobre boneca.<br />
+ <br /> Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado &agrave;
+ vidra&ccedil;a do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:<br />
+ <br /> &#8213;Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?<br /> <br /> &#8213;N&atilde;o
+ fui eu...&#8213;balbuciou a pequena, chorando.&#8213;Foi ali o Joaquim!...<br />
+ <br /> &#8213;E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...<br /> <br /> &#8213;Ora!...&#8213;respondeu
+ o garoto com enfado.&#8213;Ora!... Estava velha... e feia!...<br /> <br />
+ Curvei a cabe&ccedil;a ante aquela raz&atilde;o, e segui o meu caminho.<br />
+ <br /> Pobre boneca!<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[99]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="29"></a>Inconveniente da riqueza
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Als&aacute;cia,
+ foi surpreendido pela noite &agrave; entrada duma aldeia. Procurou dum
+ lado para outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas
+ estavam j&aacute; todas fechadas, n&atilde;o se via nem um raio de luz
+ atrav&eacute;s das janelas, tudo estava adormecido. Apenas no fim dum beco
+ se ouvia o barulho do mangual com que se bate o trigo, e nesse s&iacute;tio
+ havia uma pequena luz. Nosso Senhor dirigiu-se para l&aacute;, chegou ao p&eacute;
+ do muro duma quinta, e bateu &agrave; porta. Foi um campon&ecirc;s que lha
+ veio abrir.<br /> <br /> &#8213;Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me
+ dar agasalho por esta noite? N&atilde;o se havia de arrepender.&raquo;<br />
+ <br /> E acrescentou:<br /> <br /> &#8213;Visto que j&aacute; todos est&atilde;o
+ deitados, para que &eacute; que voc&ecirc; est&aacute; ainda a trabalhar?&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Ora, respondeu o campon&ecirc;s, soube ontem &agrave; noite
+ que ia ser perseguido por um credor desapiedado, se lhe n&atilde;o pagasse
+ amanh&atilde; o que lhe devo, portanto eu e meus filhos estamos a bater o
+ pouco trigo que colhi, para o vender no mercado, e pagar a minha d&iacute;vida.
+ Depois disto n&atilde;o nos fica nada, <span class="pagenum">[100]</span>e
+ n&atilde;o sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que Deus
+ quiser!&raquo;<br /> <br /> Ao dizer isto o campon&ecirc;s limpava o suor da
+ testa, e passava a m&atilde;o pelos olhos arrasados de l&aacute;grimas. O
+ Senhor teve d&oacute; dele, e disse-lhe:<br /> <br /> &#8213;&laquo;N&atilde;o
+ desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que n&atilde;o te havias
+ de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.&raquo;<br /> <br /> Pegou na
+ candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e aproximou-a do
+ trigo.<br /> <br /> &#8213;Que vai fazer? disseram assustados os
+ trabalhadores, vai deitar fogo a tudo!&raquo;<br /> <br /> Mas no mesmo
+ instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se, de cada espiga,
+ desceu uma chuva de gr&atilde;os prodigiosa. &Agrave; vista dum tal
+ milagre os camponeses maravilhados ca&iacute;ram de joelhos.<br /> <br />
+ &#8213;Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
+ pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, ser&aacute;s
+ recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, &eacute; Deus que te
+ enriquece.&raquo;<br /> <br /> Dito isto desapareceu.<br /> <br /> E a chuva
+ dos gr&atilde;os n&atilde;o parou em toda a noite, e fez um monte t&atilde;o
+ alto como a igreja.<br /> <br /> O campon&ecirc;s pagou as suas dividas,
+ comprou terras, e construiu uma bela casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso
+ e altivo com os pobres. Ele e seus filhos adquiriram costumes perdul&aacute;rios,
+ tanto e tanto fizeram, que se arruinaram, e, como tinham sido maus nos
+ tempos em que eram ricos, ningu&eacute;m os ajudou na sua mis&eacute;ria.
+ Uma noite o velho campon&ecirc;s, que bebera enormemente, entrou <span
+ class="pagenum">[101]</span>no celeiro, e, recordando-se do milagre que o
+ enriquecera, imaginou que tamb&eacute;m ele o poderia fazer. Agarrou na
+ candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a casa
+ e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na mis&eacute;ria mais
+ absoluta.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[102]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="30"></a>Querer &eacute; poder
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> &#8213;Quem procura sempre encontra, diz um velho prov&eacute;rbio;
+ quero ver por experi&ecirc;ncia, disse um dia um rapaz, se esta m&aacute;xima
+ &eacute; verdadeira.<br /> <br /> P&ocirc;s-se a caminho, e foi
+ apresentar-se ao governador duma grande cidade.<br /> <br /> &#8213;Senhor,
+ disse-lhe ele, h&aacute; muitos anos que vivo tranquilo e solitariamente,
+ e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas vezes&#8213;<i>Quem
+ procura sempre encontra</i>, e <i>quem porfia mata ca&ccedil;a</i>. Tomei
+ uma grande resolu&ccedil;&atilde;o. Quero casar com a filha do rei.<br />
+ <br /> O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.<br />
+ <br /> O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante
+ uma semana, sempre com a mesma vontade inabal&aacute;vel, at&eacute; que o
+ rei ouviu falar o rapaz da sua louca pretens&atilde;o. Surpreendido com
+ uma ideia t&atilde;o extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o
+ rei:<br /> <br /> &#8213;Que um homem distinto pela hierarquia, pela
+ coragem, pela ci&ecirc;ncia, pensasse em casar com uma princesa, nada mais
+ natural. Mas tu, quais s&atilde;o os teus t&iacute;tulos? Para seres o
+ marido <span class="pagenum">[103]</span>de minha filha &eacute; necess&aacute;rio
+ que te distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
+ extraordin&aacute;rio. Ouve. Perdi h&aacute; muito tempo no rio um
+ diamante dum valor incalcul&aacute;vel. Aquele que o encontrar obter&aacute;
+ a m&atilde;o de minha filha.<br /> <br /> O rapaz, contente com esta
+ promessa, foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manh&atilde; come&ccedil;ava
+ a tirar &aacute;gua com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois
+ de ter assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a rezar.<br />
+ <br /> Os peixes inquietos ao verem t&atilde;o grande tenacidade, e
+ receando que chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.<br /> <br />
+ &#8213;Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;Encontrar um diamante que caiu ao rio.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Ent&atilde;o,
+ respondeu o velho rei, sou de opini&atilde;o que lho entreguem, porque
+ vejo qual &eacute; a t&ecirc;mpera da vontade deste rapaz; mais f&aacute;cil
+ seria esgotar as &uacute;ltimas gotas do rio, do que desistir da sua
+ empresa.&raquo;<br /> <br /> Os peixes deitaram o diamante no balde do
+ rapaz, que casou com a filha do rei.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[104]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="31"></a>Qual ser&aacute; rei?
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter
+ designado o sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia
+ pertencer, n&atilde;o ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais
+ digno.<br /> <br /> Resolveram al&eacute;m disso que o cad&aacute;ver do rei
+ fosse posto de p&eacute; contra um muro, e que o pr&iacute;ncipe que
+ acertasse melhor com uma flecha naquele alvo, seria o escolhido para
+ sucessor.<br /> <br /> Come&ccedil;ou o mais velho. Esticou a corda do arco,
+ apontou durante muito tempo, e a flecha foi atravessar a m&atilde;o
+ esquerda do defunto. O pr&iacute;ncipe soltou grito de alegria, cuidando
+ que seus irm&atilde;os atirariam pior, e que por conseguinte seria ele
+ quem viria a reinar.<br /> <br /> O segundo acertou em cheio na cara do rei,
+ soltando um grito ainda mais alegre do que o outro pr&iacute;ncipe.<br />
+ <br /> O terceiro varou o cora&ccedil;&atilde;o de seu pai, e os seus
+ gritos de triunfo quase que chegavam ao c&eacute;u, porque lhe parecia
+ imposs&iacute;vel acertar melhor.<br /> <br /> Quando chegou a vez do quarto
+ filho, tiveram de lhe meter nas m&atilde;os as flechas e o arco: mas,
+ <span class="pagenum">[105]</span>desde que olhou para o alvo, arrojou as
+ armas longe de si, e desatou a chorar:<br /> <br /> &#8213;&laquo;Oh! meu
+ pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu jamais consolar-me de
+ ver o teu corpo crivado de flechas pela m&atilde;o de teus pr&oacute;prios
+ filhos!&raquo;<br /> <br /> Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no
+ rei, como sendo o mais digno.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[106]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="32"></a>Os tr&ecirc;s v&eacute;us de Maria
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> O primeiro v&eacute;u de Maria era dum linho mais alvo do que
+ a neve. Bordara-o com as suas m&atilde;os, e ornara-o com uma grinalda de
+ flores de seda t&atilde;o bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham
+ pousar-lhe em cima.<br /> <br /> Este v&eacute;u branco s&oacute; o trouxe
+ uma vez, no dia da sua primeira comunh&atilde;o.<br /> <br /> O segundo v&eacute;u
+ de Maria era de l&atilde; negra. Principiou-o no mesmo dia em que sua m&atilde;e
+ lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa triste e abandonada.
+ Era bordado de perp&eacute;tuas roxas, como as dos sepulcros de m&aacute;rmore,
+ e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas as suas l&aacute;grimas.<br />
+ <br /> O v&eacute;u negro s&oacute; o trouxe uma vez,&#8213;no dia em que
+ se tornou esposa de Jesus no convento da Av&eacute;-Maria.<br /> <br /> O
+ terceiro v&eacute;u era feito dum retalho do azul celeste, bordado de
+ estrelas, e perfumado com aromas suav&iacute;ssimos.<br /> <br /> Foi o seu
+ anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou no para&iacute;so.<br />
+ <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum"><a name="p107" id="p107">[107]</a></span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="33"></a>Os pequenos no bosque
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Um dia tr&ecirc;s pequenos iam juntos para a escola, e
+ disseram uns aos outros, que n&atilde;o havia nada no mundo mais
+ aborrecido que estudar: &laquo;Vamos para o bosque que <a href="#e4">encontraremos</a>
+ l&aacute; toda a esp&eacute;cie de lindos bichinhos, que n&atilde;o fazem
+ outra coisa sen&atilde;o brincar, e n&oacute;s brincaremos com eles.&raquo;<br />
+ <br /> Foram logo, e passaram sem fazer caso ao p&eacute; da activa formiga
+ e da abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar,
+ disse-lhes:<br /> <br /> &#8213;Brincar? Preciso construir com estas ervas
+ uma ponte nova, porque a outra j&aacute; n&atilde;o est&aacute; s&oacute;lida.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provis&otilde;es
+ para o Inverno.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Eu, disse dali a pomba, tenho
+ muitas coisas que levar para o meu ninho.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Eu,
+ disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com voc&ecirc;s, mas ainda
+ hoje n&atilde;o lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
+ minha <i>toilette</i>.&raquo;<br /> <br /> E tu, lindo regato, disseram os
+ pequenos desertores, <span class="pagenum">[108]</span>que passas o tempo
+ a saltar e a tagarelar, tamb&eacute;m n&atilde;o queres brincar connosco?&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Estes pequenos s&atilde;o tolos, disse o regato. Como? Voc&ecirc;s
+ ent&atilde;o imaginam que eu n&atilde;o tenho que fazer? De noite ou de
+ dia, n&atilde;o descanso nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens
+ e aos animais, &agrave;s colinas, aos vales, aos campos e aos jardins.
+ Tenho que apagar os inc&ecirc;ndios, tenho que fazer mover as forjas, os
+ moinhos, as serralharias. Nem hoje acabara, se lhes quisesse contar o que
+ tenho que fazer. N&atilde;o posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou
+ com muita pressa.&raquo;<br /> <br /> Os pequenos, desconcertados,
+ puseram-se a olhar para o ar, e viram um pintassilgo, em cima dum ramo.<br />
+ <br /> &#8213;Olha! tu, que n&atilde;o tens nada que fazer, queres brincar
+ connosco?&raquo;<br /> <br /> &#8213;Nada que fazer? voc&ecirc;s est&atilde;o
+ a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas
+ para comer. Tenho al&eacute;m disso que tomar parte no concerto dos
+ passarinhos, tenho que alegrar o oper&aacute;rio com o meu chilrear, e
+ tenho que adormecer as crian&ccedil;as com uma outra cantiga, que &agrave;
+ noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. Ide-vos embora, pregui&ccedil;osos,
+ ide cumprir o vosso dever, e n&atilde;o tornem a vir incomodar os
+ habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.&raquo;<br />
+ <br /> Os pequenos aproveitaram a li&ccedil;&atilde;o, e compreenderam que
+ o prazer s&oacute; &eacute; leg&iacute;timo, quando &eacute; a recompensa
+ do trabalho.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[109]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="34"></a>O chapelinho encarnado
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade,
+ a quem sua m&atilde;e e sua av&oacute; adoravam extremosamente. A boa da
+ avozinha, que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar &agrave;
+ neta, deu-lhe um dia um chap&eacute;u de veludo vermelho. A pequenita
+ andava t&atilde;o contente com o seu chap&eacute;u novo, que j&aacute; n&atilde;o
+ queria p&ocirc;r outro, e come&ccedil;aram a chamar-lhe a menina do
+ chapelinho encarnado.<br /> <br /> A m&atilde;e e a av&oacute; moravam em
+ duas casas separadas por uma floresta de meia l&eacute;gua de comprido.
+ Uma manh&atilde; a m&atilde;e disse &agrave; pequenita:<br /> <br /> &#8213;Tua
+ av&oacute; est&aacute; doente, e n&atilde;o p&ocirc;de vir ver-nos. Eu fiz
+ estes doces, vai levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado n&atilde;o
+ quebres a garrafa, n&atilde;o andes a correr, vai devagarinho e volta
+ logo.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Sim, mam&atilde;, respondeu ela, hei-de
+ fazer tudo como deseja.&raquo;<br /> <br /> Atou o seu avental, meteu num
+ cestinho a garrafa e os doces, e p&ocirc;s-se a caminho. No meio da
+ floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita, que nunca vira lobos,
+ olhou para ele sem medo algum.<br /> <br /> <span class="pagenum">[110]</span>&#8213;Bons
+ dias, chapelinho encarnado.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Bons dias, meu
+ senhor, respondeu delicadamente a pequena.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Onde
+ vais t&atilde;o cedo?&raquo;<br /> <br /> &#8213;A casa da minha av&oacute;
+ que est&aacute; doente.&raquo;<br /> <br /> &#8213;E levas-lhe alguma coisa?&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho
+ para lhe dar for&ccedil;as.&raquo;<br /> <br /> Diz-me onde mora a tua, av&oacute;,
+ que tamb&eacute;m a quero ir ver.&raquo;<br /> <br /> &#8213;&Eacute; perto,
+ aqui no fim da floresta. H&aacute; ao p&eacute; uns carvalhos muito
+ grandes, e no jardim h&aacute; muitas nozes.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Ah!
+ tu &eacute; que &eacute;s uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu
+ gostava de te comer.&raquo; Depois continuou em voz alta:&#8213;Olha, que
+ bonitas &aacute;rvores e que lindos passarinhos. Como &eacute; bom passear
+ nas florestas, e ent&atilde;o que quantidade de plantas medicinais que se
+ encontram!&raquo;<br /> <br /> &#8213;O senhor, &eacute; com certeza um m&eacute;dico,
+ respondeu a inocente pequenita, visto que conhece as ervas medicinais.
+ Talvez me pudesse indicar alguma que fizesse bem a minha av&oacute;.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Com certeza, minha filha, olha, aqui est&aacute; uma, e esta
+ tamb&eacute;m, e aquela.&raquo; Mas todas as plantas que o lobo indicava,
+ eram plantas venenosas. A pobre crian&ccedil;a, queria-as apanhar para as
+ levar a sua av&oacute;.<br /> <br /> &#8213;Adeus, meu lindo chapelinho
+ encarnado, estimei muito conhecer-te. Com grande pena minha, tenho de te
+ deixar para ir ver um doente.&raquo;<br /> <br /> E p&ocirc;s-se a correr em
+ direc&ccedil;&atilde;o da casa da av&oacute;, enquanto que a pequerrucha
+ se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.<br /> <br />
+ <span class="pagenum">[111]</span>Quando o lobo chegou &agrave; porta da
+ velha, achou-a fechada e bateu, mas a av&oacute; n&atilde;o se podia
+ levantar da cama, e perguntou: Quem est&aacute; a&iacute;?&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;&Eacute; o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a
+ voz da pequerrucha. A mam&atilde; manda-te bolos e uma garrafa de vinho.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Procura debaixo da porta disse a av&oacute;, que encontrar&aacute;s
+ a chave.&raquo;<br /> <br /> Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada
+ a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ela costumava usar,
+ deitou-se na cama.<br /> <br /> Pouco depois entrou a pequenita, assustada e
+ admirada de encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado com que a av&oacute;
+ a costumava ter fechada.<br /> <br /> O lobo tinha posto uma touca na cabe&ccedil;a,
+ que lhe escondia uma parte do focinho, mas o que lhe ficava descoberto era
+ horr&iacute;vel.<br /> <br /> &#8213;Ai! avozinha, disse a crian&ccedil;a,
+ porque tens tu as orelhas t&atilde;o grandes?&raquo;<br /> <br /> &#8213;&Eacute;
+ para te ouvir melhor, minha filha.&raquo;<br /> <br /> &#8213;E porque est&aacute;s
+ com uns olhos t&atilde;o grandes?&raquo;<br /> <br /> &#8213;&Eacute; para
+ te ver melhor.&raquo;<br /> <br /> &#8213;E para que est&aacute;s com os bra&ccedil;os
+ t&atilde;o grandes?&raquo;<br /> <br /> &#8213;&Eacute; para te poder abra&ccedil;ar
+ melhor.&raquo;<br /> <br /> &#8213;E Jesus! para que tens hoje uma boca t&atilde;o
+ grande e uns dentes t&atilde;o agudos?&raquo;<br /> <br /> &#8213;&Eacute;
+ para te comer melhor.&raquo; A estas palavras o lobo arremessou-se
+ &agrave; pobre pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e
+ come&ccedil;ou a ressonar muito alto. Um ca&ccedil;ador que passava por
+ acaso, perto da casa, e que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre
+ velha est&aacute; com um pesadelo, <span class="pagenum">[112]</span>est&aacute;
+ pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.&raquo; Entra, e v&ecirc; o
+ lobo estendido na cama.<br /> <br /> &#8213;Ol&aacute;, meu menino, diz ele:
+ h&aacute; muito tempo que te procuro.&raquo;<br /> <br /> Armou a sua
+ espingarda, mas parando logo: N&atilde;o, disse ele, n&atilde;o vejo a
+ dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o animal
+ com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a
+ barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e saltou para o ch&atilde;o,
+ gritando:<br /> <br /> &#8213;Ai! que s&iacute;tio medonho onde eu estive
+ fechada!<br /> <br /> A av&oacute; saiu tamb&eacute;m content&iacute;ssima
+ por ver outra vez a luz do dia.<br /> <br /> O lobo continuava a dormir
+ profundamente, e o ca&ccedil;ador meteu-lhe ent&atilde;o duas grandes
+ pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a av&oacute; e a neta
+ para verem o que se ia passar.<br /> <br /> Decorrido um instante o lobo
+ acordou, e como tinha sede, levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar
+ ouvia as pedras baterem uma na outra, e n&atilde;o podia compreender o que
+ aquilo era; com o peso, caiu no lago, e afogou-se.<br /> <br /> O ca&ccedil;ador
+ tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta.
+ A velha sentia-se remo&ccedil;ar, e o chapelinho encarnado prometeu n&atilde;o
+ tornar a passar na floresta, quando sua m&atilde;e lho proibisse.<br />
+ <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[113]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="35"></a>Os cinco sonhos
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Andando um dia Carlos Magno &agrave; ca&ccedil;a com uma
+ comitiva numerosa, perseguiu um veado, que dava tais saltos, e corria por
+ tal forma, que, apesar da ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe
+ completamente a pista. Foi s&oacute; ent&atilde;o que viu que estava s&oacute;,
+ tendo a sua corte ficado muito para traz; sentindo-se fatigado, entrou ao
+ cair da noite numa choupana solit&aacute;ria no meio da floresta. Em roda
+ da lareira estavam deitados quatro ladr&otilde;es. Os salteadores
+ levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da entrada do viajante;
+ cada um deles tinha tido um sonho, que lhe quiseram logo contar.<br />
+ <br /> O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:<br /> <br />
+ &#8213;No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro &agrave; pessoa que
+ acaba de entrar aqui, e punha-o na minha cabe&ccedil;a.&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua coura&ccedil;a.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;E eu que estava pondo o seu manto.&raquo;<br /> <br /> &#8213;E
+ eu, disse o quarto ladr&atilde;o, para lhe fazer favor, passava em roda do
+ meu pesco&ccedil;o aquela <span class="pagenum">[114]</span>pesada cadeia
+ de ouro, da qual est&aacute; pendurada a sua trompa de ca&ccedil;a.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Vejo bem, disse o imperador, que t&ecirc;m ten&ccedil;&atilde;o
+ de me roubar tudo, e mesmo a vida. Reconhe&ccedil;o que estou em poder de
+ voc&ecirc;s, e que toda e qualquer resist&ecirc;ncia seria in&uacute;til.
+ N&atilde;o lhes pe&ccedil;o sen&atilde;o uma coisa, &eacute; que me deixem
+ tocar pela &uacute;ltima vez na minha trompa de ca&ccedil;a.&raquo;<br />
+ <br /> Os salteadores responderam que consentiam, visto que o &uacute;ltimo
+ pedido dum moribundo deve ser respeitado.<br /> <br /> Carlos Magno levou
+ &agrave; boca a sua magn&iacute;fica trompa de marfim, e tirou dela sons t&atilde;o
+ fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos todos os seus companheiros
+ de ca&ccedil;a e a sua comitiva estavam ao p&eacute; dele.<br /> <br />
+ &#8213;Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tamb&eacute;m
+ eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que voc&ecirc;s todos iam ser
+ enforcados diante deste casebre.&raquo;<br /> <br /> E o sonho realizou-se
+ imediatamente.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[115]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="36"></a>A igreja do rei
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magn&iacute;fica
+ em honra da Virgem, decretando que ningu&eacute;m nos seus estados pudesse
+ contribuir para a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o
+ edif&iacute;cio se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei
+ gravar numa pedra do m&aacute;rmore uma inscri&ccedil;&atilde;o em letras
+ de ouro, que dizia que s&oacute; ele, e mais ningu&eacute;m, tinha levado
+ a cabo aquela obra monumental. Mas na noite seguinte o nome do rei foi
+ apagado da inscri&ccedil;&atilde;o, e substitu&iacute;do por o duma pobre
+ mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar p&ocirc;r o seu
+ nome na inscri&ccedil;&atilde;o, e de novo foi substitu&iacute;do pelo da
+ pobre mulher; &agrave; terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de c&oacute;lera,
+ ordenou ent&atilde;o que lhe trouxessem a mulher &agrave; sua presen&ccedil;a:<br />
+ <br /> &#8213;Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que contribu&iacute;ssem
+ fosse com o que fosse para a edifica&ccedil;&atilde;o desta igreja; vejo
+ que n&atilde;o cumpriste as minhas ordens.&raquo;<br /> <br /> &#8213;&laquo;Senhor,
+ respondeu a velhinha toda tr&eacute;mula, eu respeitei as vossas ordens,
+ apesar da m&aacute;goa <span class="pagenum">[116]</span>que sentia por n&atilde;o
+ poder oferecer o meu pequenino &oacute;bolo em honra da Virgem; mas
+ julguei n&atilde;o desobedecer a vossa majestade, deixando por vezes de
+ jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava &agrave;s escondidas
+ aos bois que conduziam as pedras destinadas &agrave; constru&ccedil;&atilde;o
+ da igreja.&raquo;<br /> <br /> &#8213;&laquo;O teu nome &eacute; mais digno
+ do que o meu de figurar em letras de ouro na inscri&ccedil;&atilde;o do
+ monumento, disse-lhe o rei.&raquo;<br /> <br /> Mas na noite seguinte uma m&atilde;o
+ invis&iacute;vel restabeleceu na l&aacute;pide da igreja o nome do rei,
+ que desde ent&atilde;o l&aacute; se conserva ainda.<br /> <br /> <br /> <br />
+ <br /> <span class="pagenum">[117]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="37"></a>O valente soldado de chumbo
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irm&atilde;os,
+ por todos terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude
+ marcial, de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e
+ vermelhos! A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a
+ tampa da caixa em que eles estavam, foi este grito: &laquo;Olha soldados
+ de chumbo!&raquo; que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria.
+ Tinham-lhos dado de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era
+ form&aacute;-los sobre a mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se
+ pareciam maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma
+ perna de menos, porque o tinham deitado na forma em &uacute;ltimo lugar, e
+ j&aacute; n&atilde;o havia chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os
+ outros n&atilde;o estavam mais firmes nas duas pernas do que ele na sua
+ &uacute;nica, e &eacute; este o que precisamente nos interessa.<br /> <br />
+ Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
+ brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lind&iacute;ssimo castelo
+ de papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe <span class="pagenum">[118]</span>o
+ interior dos sal&otilde;es. &Agrave; volta era circundado duma floresta em
+ miniatura, que se reflectia poeticamente num peda&ccedil;o de espelho que
+ fingia um lago, onde nadavam pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era
+ encantador, mas n&atilde;o tanto como uma menina que estava &agrave;
+ porta, e que era tamb&eacute;m de papel, vestida com um lindo vestido de
+ cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina tinha os bra&ccedil;os
+ arqueados, porque era dan&ccedil;arina, e tinha uma perninha levantada a
+ tal altura, que o soldado de chumbo n&atilde;o a podia ver, e imaginou
+ que, como ele, n&atilde;o tinha sen&atilde;o uma perna.<br /> <br /> &#8213;Ali
+ est&aacute; a mulher que me conv&eacute;m, pensou ele, mas &eacute; uma
+ grande fidalga. Mora num pal&aacute;cio, eu numa caixa em companhia de
+ vinte e quatro camaradas, e n&atilde;o haveria c&aacute; lugar para ela.
+ No entanto preciso conhec&ecirc;-la.&raquo;<br /> <br /> Deitou-se atr&aacute;s
+ duma caixa de tabaco, e dali podia ver &agrave; sua vontade a elegante dan&ccedil;arina,
+ que estava sempre num p&eacute; s&oacute;, sem perder o equil&iacute;brio.<br />
+ <br /> &Agrave; noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e as
+ pessoas da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto,
+ come&ccedil;aram a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile.
+ Os soldados de chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque
+ queriam l&aacute; ir; mas como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes
+ come&ccedil;ou a dar cabriolas e saltos mortais, o l&aacute;pis tra&ccedil;ou
+ mil arabescos fant&aacute;sticos numa lousa, enfim o barulho tornou-se tal
+ que o can&aacute;rio acordou, e p&ocirc;s-se a cantar. Os &uacute;nicos
+ que <span class="pagenum">[119]</span>estavam quietos eram o soldado de
+ chumbo e a dan&ccedil;arinazinha. Ela no bico do p&eacute;, e ele numa
+ perna s&oacute;, a espreit&aacute;-la.<br /> <br /> Deu meia noite, e z&aacute;s,
+ a tampa da caixa de rap&eacute; levanta-se, e em lugar de rap&eacute;,
+ saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de surpresa.<br /> <br />
+ &#8213;Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro s&iacute;tio.&raquo;<br />
+ <br /> Mas o soldado fez que n&atilde;o ouvia.<br /> <br /> &#8213;Espera at&eacute;
+ amanh&atilde;, e ver&aacute;s o que te acontece, continuou o feiticeiro.&raquo;<br />
+ <br /> No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado
+ de chumbo &agrave; janela, mas de repente ou por influ&ecirc;ncia do
+ feiticeiro ou por causa do vento caiu &agrave; rua de cabe&ccedil;a para
+ baixo. Que tombo! Ficou com a perna no ar, o peso do corpo todo sobre a
+ barretina, e com a baioneta enterrada entre duas lajes.<br /> <br /> A
+ criada e o rapazito foram l&aacute; abaixo procur&aacute;-lo, mas
+ estiveram quase a esmag&aacute;-lo, sem darem por ele. Se o soldado
+ tivesse gritado: &laquo;Cautela!&raquo; te-lo-&iacute;am achado, mas ele
+ julgou que seria desonrar a farda. A chuva come&ccedil;ou a cair em
+ torrentes, e tornou-se num verdadeiro dil&uacute;vio. Depois do aguaceiro
+ passaram dois garotos.<br /> <br /> &#8213;Ol&aacute;! disse um deles, um
+ soldado de chumbo por aqui! Vamos faz&ecirc;-lo navegar.&raquo;<br /> <br />
+ Constru&iacute;ram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o soldado
+ de chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois
+ garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
+ Que for&ccedil;a de corrente! Mas tamb&eacute;m tinha chovido tanto! O
+ barco jogava <span class="pagenum">[120]</span>duma maneira horrorosa, mas
+ o soldado de chumbo conservava-se impass&iacute;vel, com os olhos fixos e
+ a espingarda ao ombro.<br /> <br /> De repente o barco foi levado para um
+ cano, onde era t&atilde;o grande a escurid&atilde;o como na caixa dos
+ soldados.<br /> <br /> &#8213;Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante
+ do feiticeiro que me meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela
+ linda menina estivesse no barco, n&atilde;o importava, ainda que a escurid&atilde;o
+ fosse duas vezes maior.&raquo;<br /> <br /> Dali a pouco apresentou-se um
+ enorme rato de &aacute;gua; era um habitante do cano.<br /> <br /> &#8213;Venha
+ o teu passaporte.&raquo;<br /> <br /> Mas o soldado de chumbo n&atilde;o
+ disse nada, e agarrou com mais for&ccedil;a na espingarda. O barco
+ continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, rangendo os dentes, e
+ gritando &agrave;s palhas, e aos cavacos:&#8213;Fa&ccedil;am-no parar, fa&ccedil;am-no
+ parar! N&atilde;o pagou a passagem, n&atilde;o mostrou o passaporte.&raquo;<br />
+ <br /> Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via j&aacute; a luz do
+ dia, e sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais
+ valente. Havia na extremidade do cano uma queda de &aacute;gua t&atilde;o
+ perigosa para ele, como &eacute; para n&oacute;s uma catarata.
+ Aproximava-se dela cada vez mais, sem poder parar, com uma rapidez
+ vertiginosa. O barco lan&ccedil;ou-se sobre a queda de &aacute;gua, e o
+ pobre soldado firmava-se o mais poss&iacute;vel, e ningu&eacute;m se
+ atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.<br />
+ <br /> O barco, depois de ter andado &agrave; roda durante muito tempo,
+ encheu-se de &aacute;gua, e estava a ponto <span class="pagenum">[121]</span>de
+ naufragar. A &aacute;gua j&aacute; chegava ao pesco&ccedil;o do soldado, e
+ o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a &aacute;gua
+ passou por cima da cabe&ccedil;a do nosso her&oacute;i. Nesse momento
+ supremo, pensou na gentil dan&ccedil;arinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma
+ voz que dizia:<br /> <br /> &#8213;Soldado: o perigo &eacute; enorme, a
+ morte espera-te.&raquo;<br /> <br /> O papel rasgou-se, e o soldado passou
+ atrav&eacute;s dele. Nesse momento foi devorado por um grande peixe.<br />
+ <br /> L&aacute; &eacute; que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E
+ al&eacute;m disso, que talas em que ele estava metido! Mas, sempre intr&eacute;pido,
+ o soldado estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.<br /> <br /> O
+ peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, at&eacute; que
+ enfim parou, e pareceu que o atravessava um rel&acirc;mpago. Apareceu a
+ luz do dia, e algu&eacute;m exclamou:<br /> <br /> &#8213;Olha um soldado de
+ chumbo!&raquo;<br /> <br /> O peixe tinha sido pescado, exposto na pra&ccedil;a,
+ vendido, e levado para a cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma
+ enorme faca. Pegou no soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a
+ sala, onde toda a gente quis admirar esse homem extraordin&aacute;rio, que
+ tinha viajado na barriga dum peixe. No entretanto o soldado n&atilde;o se
+ sentia orgulhoso. Colocaram-no em cima da mesa, e ali&#8213;tanto &eacute;
+ verdade que acontecem coisas extraordin&aacute;rias neste mundo&#8213;achou-se
+ na mesma sala, de cuja janela tinha ca&iacute;do. Reconheceu os pequenos e
+ os brinquedos que estavam em cima da mesa, o lindo pal&aacute;cio, e a
+ ador&aacute;vel dan&ccedil;arina sempre <span class="pagenum">[122]</span>de
+ perna no ar. O soldado de chumbo ficou t&atilde;o comovido, que de boa
+ vontade teria derramado l&aacute;grimas de chumbo, mas n&atilde;o era
+ conveniente. Olhou para ela, ela olhou para ele, mas n&atilde;o disseram
+ uma palavra um ao outro.<br /> <br /> De repente um dos pequenos pegou nele,
+ e sem motivo algum deitou-o no fog&atilde;o; eram obras do feiticeiro da
+ caixa do rap&eacute;.<br /> <br /> O soldado de chumbo l&aacute; estava
+ perfilado, alumiado por um clar&atilde;o sinistro, e sofrendo um calor
+ terr&iacute;vel. Todas as cores lhe tinham desaparecido, sem que se
+ pudesse dizer, se era por causa das suas viagens, ou por causa dos seus
+ desgostos. Continuava a olhar para a dan&ccedil;arina, que tamb&eacute;m
+ olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre intr&eacute;pido,
+ conservava a espingarda ao ombro. De repente abriu-se uma porta, o vento
+ arremessou a dan&ccedil;arina ao fog&atilde;o para junto do soldado, que
+ desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, j&aacute; n&atilde;o
+ era mais que uma pequena massa informe.<br /> <br /> No dia seguinte, quando
+ a criada veio tirar a cinza, encontrou um objecto que tinha o feitio dum
+ pequeno cora&ccedil;&atilde;o de chumbo, e tudo o que restava da dan&ccedil;arina
+ era a fivela do cinto azul que o lume tinha enegrecido.<br /> <br /> <br />
+ <br /> <br /> <span class="pagenum">[123]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="38"></a>Jo&atilde;o Pateta
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Jo&atilde;o era filho duma pobre vi&uacute;va, bom rapaz, mas
+ um pouco simpl&oacute;rio. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira
+ Jo&atilde;o Pateta. Um dia sua m&atilde;e mandou-o &agrave; feira comprar
+ uma foice. &Agrave; volta, come&ccedil;ou a andar com a foice &agrave;
+ roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e matou-a.<br />
+ <br /> &#8213;Pateta, disse-lhe sua m&atilde;e, o que deverias ter feito
+ era p&ocirc;r a foice em um dos carros de palha ou de feno dalgum dos
+ vizinhos.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Perd&atilde;o, m&atilde;e, respondeu
+ humildemente Jo&atilde;o, para a outra vez serei mais esperto.&raquo;<br />
+ <br /> Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que
+ as n&atilde;o perdesse.<br /> <br /> &#8213;Fique descansada. E voltou todo
+ orgulhoso.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Ent&atilde;o, Jo&atilde;o, onde est&atilde;o
+ as agulhas?&raquo;<br /> <br /> &#8213;Ah! est&atilde;o em lugar seguro.
+ Quando sa&iacute; da loja em que as comprei, ia a passar o carro do
+ vizinho carregado de palha; meti l&aacute; as agulhas, n&atilde;o podem
+ estar em s&iacute;tio melhor.&raquo;<br /> <br /> &#8213;De certo, est&atilde;o
+ em lugar de tal modo seguro, que n&atilde;o h&aacute; meio de as tornar a
+ ver. Devias t&ecirc;-las espetado no chap&eacute;u.&raquo;<br /> <br />
+ <span class="pagenum">[124]</span>&#8213;Perd&atilde;o, respondeu Jo&atilde;o,
+ para a outra vez, hei-de ser mais esperto.&raquo;<br /> <br /> Na outra
+ semana, por um dia de calor, Jo&atilde;o foi dali uma l&eacute;gua comprar
+ uma pouca de manteiga. Lembrando-se do &uacute;ltimo conselho de sua m&atilde;e,
+ p&ocirc;s a manteiga dentro do chap&eacute;u e o chap&eacute;u na cabe&ccedil;a.
+ Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer
+ manteiga derretida.<br /> <br /> A m&atilde;e j&aacute; tinha medo de o
+ mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mand&aacute;-lo
+ &agrave; feira vender duas galinhas.<br /> <br /> &#8213;Ouve bem, n&atilde;o
+ vendas pelo primeiro pre&ccedil;o. Espera que te ofere&ccedil;am outro.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Est&aacute; entendido, respondeu Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+ <br /> Foi para a feira. Um fregu&ecirc;s chegou-se a ele.<br /> <br />
+ &#8213;Queres seis tost&otilde;es por essas galinhas?&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;Ora adeus! minha m&atilde;e recomendou-me, que n&atilde;o aceitasse
+ o primeiro pre&ccedil;o, mas que esperasse o segundo.&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;E tens muita raz&atilde;o. Dou-te um cruzado.&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;Est&aacute; bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o
+ primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha m&atilde;e, ela n&atilde;o
+ tem que me ralhar.&raquo;<br /> <br /> Depois disto, Jo&atilde;o foi
+ condenado a ficar em casa. Sua m&atilde;e sabia que mangavam com ele, e se
+ riam dela. Uma manh&atilde; quis fazer uma experi&ecirc;ncia, e disse-lhe:<br />
+ <br /> &#8213;Vai vender este carneiro &agrave; feira. Mas n&atilde;o te
+ deixes enganar. N&atilde;o o entregues sen&atilde;o a quem te der o pre&ccedil;o
+ mais elevado.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Est&aacute; bem, agora entendo, e
+ sei o que hei de fazer.&raquo;<br /> <br /> <span class="pagenum">[125]</span>&#8213;Quanto
+ queres por esse carneiro?<br /> <br /> &#8213;Minha m&atilde;e disse-me que
+ o n&atilde;o vendesse sen&atilde;o pelo pre&ccedil;o mais elevado.<br />
+ <br /> &#8213;Quatro mil r&eacute;is?&raquo;<br /> <br /> &#8213;&Eacute; o
+ pre&ccedil;o mais elevado?&raquo;<br /> <br /> &#8213;Pouco mais ou menos.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;&Eacute; minha a l&atilde; e o carneiro, disse um rapaz que
+ trepara a uma escada.<br /> <br /> &#8213;Quanto?&raquo;<br /> <br /> &#8213;Dez
+ tost&otilde;es:&raquo;<br /> <br /> &#8213;&Eacute; menos, respondeu
+ timidamente o Jo&atilde;o.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Sim, mas v&ecirc;s at&eacute;
+ onde chega esta escada. Em toda a feira n&atilde;o h&aacute; um pre&ccedil;o
+ mais elevado.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Tem raz&atilde;o. &Eacute; seu o
+ carneiro.&raquo;<br /> <br /> Desde esse dia o Jo&atilde;o Pateta n&atilde;o
+ tornou a ser encarregado de vender ou comprar coisa alguma.<br /> <br />
+ <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[126]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="39"></a>Branca de Neve
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Era uma vez uma rainha, que se lastimava por n&atilde;o ter
+ filhos. Um dia de Inverno, enquanto bordava num bastidor de &eacute;bano
+ olhando de vez em quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no
+ ch&atilde;o, distra&iacute;da, picou-se num dedo e saiu uma gota de
+ sangue.<br /> <br /> &#8213;Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns
+ bei&ccedil;os t&atilde;o vermelhos como este sangue, uma pele branca como
+ esta neve, e uns cabelos negros como este &eacute;bano.&raquo;<br /> <br />
+ Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu &agrave; luz uma
+ filha, que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo t&atilde;o
+ branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Por&eacute;m esta feliz m&atilde;e
+ n&atilde;o gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a
+ casar com uma mulher duma grande beleza, e dum orgulho n&atilde;o menos
+ extraordin&aacute;rio. Era t&atilde;o formosa que se considerava a mulher
+ mais perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e
+ colocando-se diante dum espelho m&aacute;gico dizia-lhe:<br /> <br />
+ &#8213;Meu fiel espelho, responde-me: qual &eacute; a mulher mais linda
+ que h&aacute; no mundo?&raquo;<br /> <br /> &#8213;&Eacute;s tu, respondia o
+ espelho.&raquo;<br /> <br /> <span class="pagenum">[127]</span>No entanto
+ Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais formosa. Tinha
+ apenas sete anos, e j&aacute; ningu&eacute;m a podia ver sem ficar
+ maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu espelho,
+ disse-lhe:<br /> <br /> &#8213;Meu fiel espelho, responde-me: qual &eacute;
+ a mulher mais linda que h&aacute; no mundo?&raquo;<br /> <br /> &#8213;N&atilde;o
+ &eacute;s tu, n&atilde;o &eacute;s tu. Branca de Neve &eacute; mais linda.&raquo;<br />
+ <br /> A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no cora&ccedil;&atilde;o
+ uma dor aguda, como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um &oacute;dio
+ mortal pela inocente Branca. N&atilde;o podia sossegar nem de dia, nem de
+ noite. Para satisfazer o seu &oacute;dio, chamou um criado, e disse-lhe:<br />
+ <br /> &#8213;Quero que Branca desapare&ccedil;a. Conduze-a &agrave;
+ floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas ordens foram executadas
+ pontualmente, traz-me o cora&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br /> <br /> O criado
+ levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e dispunha-se a
+ executar a ordem que recebera. A pobre crian&ccedil;a chorava e
+ lamentava-se, e pedia-lhe que a n&atilde;o matasse, porque ela n&atilde;o
+ tinha feito mal a ningu&eacute;m, e queria viver. O criado, comovido com
+ aquelas l&aacute;grimas, n&atilde;o teve coragem, e abandonou-a na
+ floresta, pensando que se as feras a devorassem a culpa n&atilde;o era
+ dele, mas sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o cora&ccedil;&atilde;o
+ de Branca &agrave; rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o cora&ccedil;&atilde;o.
+ A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou content&iacute;ssima, e
+ disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo
+ &eacute; t&atilde;o bela como eu.<br /> <br /> <span class="pagenum">[128]</span>A
+ pobre Branca, abandonada na floresta, n&atilde;o tinha morrido, mas estava
+ cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os p&eacute;s nas
+ pedras, e andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela
+ primeira vez tamb&eacute;m via animais ferozes. Mas as feras n&atilde;o
+ lhe faziam mal algum, o deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado
+ sete montanhas.<br /> <br /> &Agrave; noite chegou ao p&eacute; duma casinha
+ muito pequenina. Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo
+ estava muito arranjado e muito limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a
+ mesa, coberta com uma toalha de brancura irrepreens&iacute;vel, sete
+ pratos pequenos, sete garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas
+ muito pequeninas. Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu
+ uma gota de vinho de cada copo, deitou-se na cama, rezou, e adormeceu
+ profundamente.<br /> <br /> Momentos depois os donos da casa entraram. Eram
+ sete mineiros pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura.
+ Viram logo que tinham gente em casa. Um deles disse:<br /> <br /> &#8213;Quem
+ comeu o meu p&atilde;o?&raquo;<br /> <br /> E os outros sucessivamente:<br />
+ <br /> &#8213;Quem pegou no meu garfo?&raquo;<br /> <br /> &#8213;Quem comeu
+ o meu caldo?&raquo;<br /> <br /> &#8213;Quem bebeu o meu vinho?&raquo;<br />
+ <br /> E enfim um deles:<br /> <br /> &#8213;Quem est&aacute; a&iacute;
+ deitado na minha cama?&raquo;<br /> <br /> Reuniram-se todos &agrave; roda
+ do pequeno leito em que dormia Branca. &Agrave; luz das lanternas viram o
+ doce rosto da crian&ccedil;a, que dormia tranquilamente, <span
+ class="pagenum">[129]</span>e afastaram-se sem fazer bulha, para a n&atilde;o
+ acordar. Branca no dia seguinte de manh&atilde; ficou um pouco assustada,
+ quando viu perto de si aqueles sete an&otilde;es das montanhas. Mas eles
+ disseram-lhe com brandura, que n&atilde;o tivesse medo, e perguntaram-lhe
+ donde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste hist&oacute;ria,
+ e os an&otilde;es disseram-lhe:<br /> <br /> &#8213;Queres tu ficar
+ connosco, para tomar conta da nossa casa?&raquo;<br /> <br /> &#8213;Da
+ melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada.&raquo;<br />
+ <br /> Come&ccedil;ou logo o seu servi&ccedil;o, e continuou-o regularmente
+ todos os dias. Limpava os m&oacute;veis, e fazia o jantar. Os an&otilde;es
+ iam trabalhar para as minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam
+ achavam tudo em ordem.<br /> <br /> Durante esse tempo a rainha andava
+ satisfeita, quando pensava que j&aacute; n&atilde;o tinha que recear uma
+ rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, e disse-lhe:<br /> <br />
+ &#8213;Meu fiel espelho, n&atilde;o &eacute; verdade que eu sou agora a
+ mulher mais linda que h&aacute; no mundo?&raquo;<br /> <br /> E o espelho
+ respondeu:<br /> <br /> &#8213;Sim, nos teus pal&aacute;cios e nos teus
+ castelos, mas Branca est&aacute; nas sete montanhas, e Branca &eacute;
+ mais linda do que tu.&raquo;<br /> <br /> Ouvindo esta resposta a orgulhosa
+ rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a fazer
+ desaparecer a inocente Branca. Mas de que modo? Uma manh&atilde; partiu
+ disfar&ccedil;ada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio de objectos
+ de fantasia. Foi direita &agrave;s sete montanhas, e bateu &agrave; <span
+ class="pagenum">[130]</span>porta da casinha, gritando: &laquo;Quem quer
+ comprar bonitas j&oacute;ias?&raquo;<br /> <br /> Os an&otilde;es tinham
+ recomendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas, receando os
+ emiss&aacute;rios da rainha, e ela tinha prometido ser prudente. Mas,
+ quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no cesto, esqueceu-se
+ das suas promessas.<br /> <br /> &#8213;Veja este rico colar, minha menina,
+ eu mesmo lho vou p&ocirc;r ao pesco&ccedil;o.&raquo;<br /> <br /> Branca
+ consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os an&otilde;es
+ voltaram, viram a infeliz Branca estendida no ch&atilde;o e completamente
+ inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos l&aacute;bios
+ algumas gotas dum licor amarelo. Branca come&ccedil;ou a respirar, voltou
+ a si pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha
+ acontecido.<br /> <br /> &#8213;Podes estar certa, disseram-lhe eles, que
+ essa vendedeira n&atilde;o era outra pessoa, sen&atilde;o a tua inimiga, a
+ rainha. Toma cautela, n&atilde;o deixes entrar aqui ningu&eacute;m, quando
+ n&atilde;o estivermos em casa.&raquo;<br /> <br /> Ao entrar no seu pal&aacute;cio
+ toda contente, colocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:<br />
+ <br /> &#8213;Meu fiel espelho: Qual &eacute; agora a mulher mais linda que
+ h&aacute; no mundo? Responde.<br /> <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br />
+ &#8213;&Eacute;s tu nos teus grandes pal&aacute;cios e nos teus castelos,
+ mas Branca est&aacute; nas sete montanhas, e Branca &eacute; mais linda do
+ que tu.&raquo;<br /> <br /> A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez
+ tentar aniquilar a infeliz Branca. Tornou-se a disfar&ccedil;ar <span
+ class="pagenum">[131]</span>em vendedeira. Chegou &agrave;s sete
+ montanhas, e bateu &agrave; porta da cabana.<br /> <br /> &#8213;Quem quer
+ comprar lindas j&oacute;ias? Branca veio &agrave; janela, e respondeu:<br />
+ <br /> &#8213;V&aacute;-se embora, aqui n&atilde;o entra ningu&eacute;m.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de
+ ouro. J&aacute; viu outro t&atilde;o bonito?&raquo;<br /> <br /> Branca n&atilde;o
+ p&ocirc;de resistir ao desejo de possuir aquela j&oacute;ia. Abriu a
+ porta.<br /> <br /> &#8213;Oh! minha linda menina, deixe-me p&ocirc;r-lho na
+ cabe&ccedil;a.&raquo;<br /> <br /> Ao dizer isto enterrou-lhe na cabe&ccedil;a
+ o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.<br /> <br /> &Agrave;
+ noite quando regressaram os an&otilde;es, acharam-na p&aacute;lida e fria.
+ Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e tornaram
+ a recomendar-lhe que fosse prudente.<br /> <br /> No entanto a cruel rainha
+ voltava content&iacute;ssima para o seu pal&aacute;cio. Apenas chegou, foi
+ direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu
+ como antecedentemente.<br /> <br /> &#8213;Ah! &eacute; preciso que ela
+ morra, ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.<br /> <br /> Vestiu-se
+ de camponesa com um cesto de ma&ccedil;&atilde;s. Entre elas havia uma que
+ estava envenenada dum lado. Foi, e bateu &agrave; porta da cabana.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?&raquo;<br /> <br />
+ &#8213;Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, n&atilde;o deixo
+ entrar ningu&eacute;m, nem compro coisa alguma.&raquo;<br /> <br /> &#8213;Est&aacute;
+ bem, n&atilde;o faltar&aacute; quem compre estas ricas ma&ccedil;&atilde;s.
+ Mas por ser t&atilde;o bonita, quero dar-lhe uma.&raquo;<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[132]</span>&#8213;Obrigada, n&atilde;o posso aceitar.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Imagina que est&aacute; envenenada. Olhe, eu vou comer um
+ peda&ccedil;o. Ah! que boa que &eacute;! Nunca provei nada assim. Ao
+ pronunciar estas palavras, a traidora mordia no lado da ma&ccedil;&atilde;,
+ que n&atilde;o estava envenenado. Branca deixou-se tentar, levou &agrave;
+ boca o outro peda&ccedil;o, e caiu fulminada.<br /> <br /> &#8213;A&iacute;
+ tens, para castigo da tua formosura.&raquo;<br /> <br /> Quando chegou ao
+ pal&aacute;cio a rainha foi direita ao espelho, e perguntou-lhe:<br />
+ <br /> &#8213;Meu fiel espelho, quem &eacute; agora a mulher mais linda?&raquo;<br />
+ <br /> E o espelho respondeu: <br /> &#8213;&Eacute;s tu, &eacute;s tu.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;At&eacute; que enfim!&raquo;<br /> <br /> Os an&otilde;es
+ estavam inconsol&aacute;veis. Debalde tinham tentado reanim&aacute;-la com
+ o licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
+ fria e inanimada. Choraram por ela durante tr&ecirc;s dias, e os
+ passarinhos da floresta choraram tamb&eacute;m. No entanto as boas
+ avezinhas n&atilde;o podiam acreditar que ela estivesse morta, e vendo o
+ seu rosto t&atilde;o tranquilo, as suas faces t&atilde;o frescas, parecia
+ que estava a dormir. N&atilde;o quiseram enterr&aacute;-la. Meteram-na num
+ caix&atilde;o de cristal, e escreveram em cima. &laquo;Aqui jaz a filha
+ dum rei;&raquo; puseram o caix&atilde;o numa das sete montanhas, e um
+ deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se assim
+ durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais pequena altera&ccedil;&atilde;o.<br />
+ <br /> Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar
+ &agrave; ca&ccedil;a, viu o caix&atilde;o, e pediu aos an&otilde;es que
+ lho cedessem, fosse por pre&ccedil;o que fosse.<br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[133]</span>&#8213;Somos muito ricos, e por nada deste
+ mundo venderemos este caix&atilde;o, que &eacute; o nosso tesouro.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Ent&atilde;o d&ecirc;em-mo, j&aacute; n&atilde;o posso viver
+ sem contemplar este rosto de mulher. Guard&aacute;-lo-ei na melhor sala do
+ meu pal&aacute;cio. Pe&ccedil;o-lhes que me fa&ccedil;am isto.&raquo;<br />
+ <br /> Os an&otilde;es, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no
+ caix&atilde;o para o levarem. Um deles trope&ccedil;ou numa raiz, e o caix&atilde;o
+ sofreu um balan&ccedil;o, que fez cair o bocado da ma&ccedil;&atilde;
+ envenenada, que Branca n&atilde;o tinha engolido, e que lhe ficara na
+ boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O jovem pr&iacute;ncipe levou-a
+ para o seu castelo, e casou com ela. O casamento fez-se com grande pompa.
+ O pr&iacute;ncipe convidou todos os reis e rainhas dos diferentes pa&iacute;ses,
+ e entre elas a rainha inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico
+ vestido, que devia atrair todos os olhares, p&ocirc;s-se diante do
+ espelho, e disse a rainha:<br /> <br /> &#8213;Meu fiel espelho, qual a
+ mulher mais linda que h&aacute; do mundo?&raquo;<br /> <br /> E o espelho
+ respondeu:<br /> <br /> &#8213;Branca &eacute; mais formosa que tu.<br />
+ <br /> A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus
+ crimes fossem descobertos, que morreu de repente.<br /> <br /> Branca viveu
+ muitos anos, adorada de todos, e no seu pal&aacute;cio de princesa n&atilde;o
+ se esqueceu dos an&otilde;es que tinham sido os seus benfeitores.<br />
+ <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[134]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="40"></a>A rapariguinha e os f&oacute;sforos
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Que frio! a neve ca&iacute;a, e a noite aproximava-se; era o
+ &uacute;ltimo de Dezembro, v&eacute;spera de Ano Bom. No meio deste frio e
+ desta escurid&atilde;o passou na rua uma desgra&ccedil;ada pequerrucha,
+ com a cabe&ccedil;a descoberta e os p&eacute;s descal&ccedil;os. &Eacute;
+ verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco
+ tempo: eram uns grandes sapatos, que sua m&atilde;e j&aacute; tinha usado,
+ t&atilde;o grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a
+ correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto
+ ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a inten&ccedil;&atilde;o de
+ fazer dele um ber&ccedil;o para o seu primeiro filho.<br /> <br /> A
+ pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha no
+ seu velho avental uma grande quantidade de f&oacute;sforos, e levava na m&atilde;o
+ um ma&ccedil;o deles. O dia correra-lhe mal; n&atilde;o tinha havido
+ compradores, e por isso n&atilde;o apurara cinco r&eacute;is.<br /> <br />
+ Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
+ longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do pesco&ccedil;o;
+ <span class="pagenum">[135]</span>mas pensava ela porventura nos seus
+ cabelos anelados?<br /> <br /> As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se
+ na rua o cheiro dos manjares; era a v&eacute;spera de dia de Ano Bom: eis
+ no que ela pensava.<br /> <br /> Deixou-se cair a um canto, entre dois
+ muros. O frio enregelava-a cada vez mais, mas n&atilde;o se atrevia a
+ voltar para casa: o pai bater-lhe-ia, porque n&atilde;o tinha vendido os
+ seus f&oacute;sforos. Al&eacute;m disso em sua casa fazia tanto frio como
+ na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento atravessava, apesar de
+ o terem calafetado com palha e farrapos. As suas m&atilde;ozinhas j&aacute;
+ quase que as n&atilde;o sentia. Ai! como um fosforozinho aceso lhe faria
+ bem! Se tirasse do ma&ccedil;o apenas um, um &uacute;nico, e ascendendo-o
+ aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: <i>ritche</i>! como estoirou!
+ como ardeu! Era uma chama t&eacute;pida e clara, como uma pequena
+ lamparina. Que luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um
+ enorme braseiro de ferro, cujo lume magn&iacute;fico aquecia t&atilde;o
+ suavemente, que era um regalo.<br /> <br /> A pequerrucha ia j&aacute; a
+ estender os pezitos para os aquecer tamb&eacute;m, quando a chama se
+ apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na m&atilde;o uma pontita
+ de f&oacute;sforo consumido.<br /> <br /> Acendeu segundo f&oacute;sforo,
+ que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu a sua chama tornou-se
+ transparente como vidro. Olhando atrav&eacute;s desse muro, a pequerrucha
+ viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha alv&iacute;ssima,
+ deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma galinha assada com
+ recheio de ameixas e de batatas <span class="pagenum">[136]</span>fumegava
+ exalando um perfume delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a
+ galinha saltou do prato, e caiu no ch&atilde;o ao p&eacute; da
+ pequerrucha, com o garfo e a faca espetada no lombo. Nisto apagou-se o f&oacute;sforo,
+ e viu apenas diante de si a parede fria e tenebrosa.<br /> <br /> Acendeu
+ terceiro f&oacute;sforo, e achou-se imediatamente sentada debaixo de uma
+ magn&iacute;fica &aacute;rvore do Natal; era ainda mais rica e maior do
+ que a que tinha visto no ano passado atrav&eacute;s dos vidros de um armaz&eacute;m
+ sumptuoso.<br /> <br /> Nos ramos verdes brilhavam centenares de bal&otilde;es
+ acesos, e as estampas coloridas, como as que h&aacute; &agrave;s portas
+ das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarr&aacute;-las com as duas m&atilde;os,
+ apagou-se o f&oacute;sforo; todos os bal&otilde;es da &aacute;rvore do
+ Natal come&ccedil;aram a subir, a subir, e viu ent&atilde;o que se tinha
+ enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no c&eacute;u um
+ longo rasto de fogo.<br /> <br /> &#8213;&Eacute; algu&eacute;m que est&aacute;
+ a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua av&oacute;, que lhe queria
+ tanto, mas que j&aacute; morrera, dissera-lhe muitas vezes: &laquo;Quando
+ cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.&raquo;<br /> <br /> Acendeu ainda
+ outro f&oacute;sforo: deu uma grande luz, no meio da qual lhe apareceu sua
+ av&oacute;, de p&eacute;, com um ar radioso e suav&iacute;ssimo.<br />
+ <br /> &#8213;Minha av&oacute;, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu
+ sei que te vais embora quando se apagar o f&oacute;sforo. Desaparecer&aacute;s
+ como a panela de ferro, a galinha assada, e a bela &aacute;rvore do Natal.<br />
+ <br /> Acendeu o rosto do ma&ccedil;o, porque n&atilde;o queria <span
+ class="pagenum">[137]</span>que sua av&oacute; lhe fugisse, e os f&oacute;sforos
+ espalharam um clar&atilde;o mais vivo que a luz do dia. Nunca sua av&oacute;
+ tinha sido t&atilde;o formosa. P&ocirc;s ao colo a pequerruchinha, e ambas
+ alegres, no meio deste deslumbramento, voaram t&atilde;o alto, t&atilde;o
+ alto, que j&aacute; n&atilde;o tinha nem frio, nem fome, nem agonias:
+ haviam chegado ao Para&iacute;so.<br /> <br /> Mas quando rompeu a fria
+ madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com
+ as faces incendiadas, o sorriso nos l&aacute;bios... morta, morta de frio
+ na &uacute;ltima noite do ano. O dia de Ano Bom veio alumiar o pequenino
+ cad&aacute;ver, sentado ali com os seus f&oacute;sforos, a que faltava um
+ ma&ccedil;o, que tinha ardido quase inteiramente.&#8213;Quis aquecer-se,
+ disse um homem que passou.&raquo; E ningu&eacute;m soube nunca as lindas
+ coisas que ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a
+ sua velha av&oacute; no dia do Ano Novo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br />
+ <span class="pagenum">[138]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="41"></a>O primeiro pecado de Margarida
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Chamava-se Margarida, e estavam &agrave; espera dela no c&eacute;u,
+ porque Deus tinha dito:&#8213;&Eacute; uma boa alma, e, como l&aacute; em
+ baixo no mundo lhe pode acontecer alguma desgra&ccedil;a, vou traz&ecirc;-la
+ um destes dias para o para&iacute;so.&raquo;<br /> <br /> Margarida era uma
+ virgem c&acirc;ndida, matinal como a aurora, fresca como ela; todos os
+ dias ao acordar rezava as ora&ccedil;&otilde;es, que sua m&atilde;e lhe
+ tinha ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como n&atilde;o
+ tinha j&oacute;ias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.<br />
+ <br /> Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.<br />
+ <br /> E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela can&ccedil;&atilde;o
+ de amor e de gl&oacute;ria, que j&aacute; embalara muitos ber&ccedil;os, e
+ que podia sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.<br />
+ <br /> Numa tarde de Ver&atilde;o, estava ela sentada &agrave; porta de
+ casa fiando linho, &agrave; hora em que as estrelas come&ccedil;am a
+ aparecer, uma a uma no firmamento.<br /> <br /> Estava Margarida cantando a
+ sua can&ccedil;&atilde;o, quando <span class="pagenum">[139]</span>passou
+ por ali uma das suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um
+ vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus
+ brincos e o colar de ouro que levava ao pesco&ccedil;o; apertou-lhe a m&atilde;o
+ para que visse bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir,
+ toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que
+ inquietou no para&iacute;so o seu anjo da guarda.<br /> <br /> O fio de
+ linho j&aacute; n&atilde;o passava t&atilde;o rapidamente entre os dedos
+ de Margarida, a roda cessara o seu barulho mon&oacute;tono, e o fuso ca&iacute;ra-lhe
+ das m&atilde;os.<br /> <br /> Ao cair o fuso despertou do &ecirc;xtase,
+ abriu os olhos, e viu diante de si um cavaleiro magnificamente vestido,
+ tendo na m&atilde;o um gorro de veludo preto, com uma pluma vermelha, da
+ cor do fogo. O cavaleiro saudou-a respeitosamente, e, com uma voz
+ harmoniosa e galanteadora, perguntou-lhe:<br /> <br /> &#8213;Qual &eacute;
+ o caminho da cidade?&raquo;<br /> <br /> Margarida estendeu a m&atilde;o
+ para lho indicar, e o forasteiro inclinando-se tirou do dedo um anel de
+ ouro com um diamante, que brilhava como uma estrela, e meteu-o no dedo de
+ Margarida, que o achou mais belo do que o anel da sua companheira. O rosto
+ do cavaleiro alumiou-se ent&atilde;o com um sorriso estranho e diab&oacute;lico.<br />
+ <br /> Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
+ Margarida, e pediu-lhe uma esmola.<br /> <br /> Margarida tirou do dedo o
+ anel, e ofereceu-o ao pobre desgra&ccedil;ado.<br /> <br /> O cavaleiro ent&atilde;o,
+ soltando um grito de c&oacute;lera, ia lan&ccedil;ar-se sobre Margarida,
+ mas o mendigo&#8213;<span class="pagenum">[140]</span>que era o seu anjo
+ da guarda disfar&ccedil;ado&#8213;cobriu-a com as asas. E o cavaleiro,
+ isto &eacute; Satan&aacute;s, que tinha vindo para a tentar, recuou
+ aniquilado diante do esp&iacute;rito celeste.<br /> <br /> <br /> <br /> <br />
+ <span class="pagenum">[141]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="42"></a>Um nome inscrito no c&eacute;u
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> Era uma vez um pobre mendigo, que bateu &agrave; porta duma
+ humilde cabana a pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas n&atilde;o
+ vendo, nem ouvindo ningu&eacute;m, abriu a porta de mansinho e entrou no
+ casebre; viu ent&atilde;o uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:<br />
+ <br /> &#8213;&laquo;Ai! n&atilde;o te posso dar nada, porque nada tenho.&raquo;<br />
+ <br /> E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater
+ &agrave; mesma porta.<br /> <br /> &#8213;Pelo amor de Deus! gritou a
+ velhinha, j&aacute; te disse que n&atilde;o tenho nada que te dar.&raquo;<br />
+ <br /> &#8213;Foi por isso que eu voltei&#8213;disse em voz baixa o
+ mendigo.<br /> <br /> E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do
+ bolso, pondo-os em cima da mesa, muitos bocados de p&atilde;o e algumas
+ moedas de dez r&eacute;is, que lhe tinham dado depois de ter estado com a
+ velha a primeira vez.<br /> <br /> &#8213;Aqui te fica isto, santinha&#8213;disse-lhe
+ ele afectuosamente, indo-se embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de
+ lhe agradecer.&raquo;<br /> <br /> N&atilde;o sabemos qual era o nome do
+ mendigo; mas os anjos escrev&ecirc;-lo-&atilde;o no Para&iacute;so, e mais
+ tarde n&oacute;s o viremos a saber.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span
+ class="pagenum">[142]</span>
+ </p>
+ <h2>
+ <a name="43"></a>O linho
+ </h2>
+ <p>
+ <br /> <br /> O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais
+ delicadas e transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus
+ raios sobre ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer,
+ como o dum filho quando a m&atilde;e o lava e lhe d&aacute; um beijo.<br />
+ <br /> &#8213;Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito
+ crescido, e serei brevemente uma rica pe&ccedil;a de pano. Sinto-me feliz.
+ N&atilde;o h&aacute; ningu&eacute;m que seja mais feliz do que eu sou.
+ Tenho sa&uacute;de e um belo futuro. A luz acaricia-me, e a chuva
+ encanta-me e refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais n&atilde;o poder
+ ser!&raquo;<br /> <br /> &#8213;Como &eacute;s ing&eacute;nuo! disseram as
+ silvas do valado; tu n&atilde;o conheces o mundo, de que n&oacute;s outras
+ temos uma larga experi&ecirc;ncia.&raquo;<br /> <br /> E rangendo
+ lastimosamente, cantaram:<br /> <br />
+ </p>
+ <div class="poetry">
+ &#8213;Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> &#8213;Acabou-se! acabou-se!
+ acabou-se!
+ </div>
+ <p>
+ <br /> &#8213;N&atilde;o t&atilde;o cedo como voc&ecirc;s imaginam,
+ respondeu o linho; est&aacute; uma bela manh&atilde;, o sol resplandece,
+ <span class="pagenum">[143]</span>e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+ florir. Sou muit&iacute;ssimo feliz.&raquo;<br /> <br /> Mas um belo dia
+ vieram uns homens que agarraram no linho pela cabeleira, arrancaram-no com
+ ra&iacute;zes e tudo, e deram-lhe tratos de pol&eacute;. Primeiro
+ mergulharam-no em &aacute;gua, como se o quisessem afog&aacute;-lo, e
+ depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!<br /> <br /> &#8213;N&atilde;o
+ se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; &eacute; necess&aacute;rio
+ sofrer, o sofrimento &eacute; a m&atilde;e da experi&ecirc;ncia.&raquo;<br />
+ <br /> Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no,
+ cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois, puseram-no
+ numa roca, e ent&atilde;o perdeu a cabe&ccedil;a inteiramente.<br /> <br />
+ &#8213;Era feliz de mais, pensava o desgra&ccedil;ado linho no meio
+ daquelas torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades
+ perdidas.&raquo;<br /> <br /> E ainda estava dizendo&#8213;perdidas, e j&aacute;
+ o estavam a meter no tear e a transform&aacute;-lo numa pe&ccedil;a de
+ pano.<br /> <br /> &#8213;Isto &eacute; extraordin&aacute;rio, nunca o
+ imaginei; que boa sorte a minha, e que grandes tolas aquelas silvas quando
+ cantavam:<br /> <br />
+ </p>
+ <div class="poetry">
+ Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+ </div>
+ <p>
+ <br /> Agora &eacute; que eu principio a viver. Padeci muito, &eacute;
+ verdade, mas por isso tamb&eacute;m agora sou mais feliz do que nunca.
+ Sinto-me t&atilde;o forte, t&atilde;o alto, t&atilde;o macio! Ah! isto
+ &eacute; bem melhor do que ser planta, mesmo florida, ningu&eacute;m trata
+ da gente, e <span class="pagenum">[144]</span>n&atilde;o bebemos outra
+ &aacute;gua a n&atilde;o ser a da chuva. Agora &eacute; o contr&aacute;rio:
+ que cuidados! As raparigas estendem-me todas as manh&atilde;s, e &agrave;
+ noite tomo o meu banho com um regador. A criada do sr. cura fez um
+ discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a melhor pe&ccedil;a
+ da par&oacute;quia. N&atilde;o posso ser mais feliz.&raquo;<br /> <br />
+ Levaram o pano para casa, e entregaram-no &agrave;s tesouras. Cortaram-no
+ e picaram-no com uma agulha. N&atilde;o era l&aacute; muito agrad&aacute;vel,
+ mas em compensa&ccedil;&atilde;o fizeram dele uma d&uacute;zia de camisas
+ magn&iacute;ficas.<br /> <br /> &#8213;Agora decididamente come&ccedil;o a
+ valer alguma coisa. O meu destino &eacute; aben&ccedil;oado, porque sou
+ &uacute;til neste mundo. &Eacute; preciso isso para se viver em paz, e
+ ser-se feliz. Somos hoje doze peda&ccedil;os, &eacute; verdade, mas
+ formamos um s&oacute; grupo, uma d&uacute;zia. Que incompar&aacute;vel
+ felicidade!<br /> <br /> O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.<br />
+ <br /> &#8213;Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda,
+ mas n&atilde;o se fazem imposs&iacute;veis.&raquo;<br /> <br /> E as camisas
+ foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era finalmente a
+ sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem adivinharem o
+ que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel branco magn&iacute;fico.<br />
+ <br /> &#8213;Oh que agrad&aacute;vel surpresa! exclamou o papel, agora sou
+ muito mais fino do que dantes, e v&atilde;o cobrir-me de letras. O que n&atilde;o
+ escrever&atilde;o em cima de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!&raquo;<br />
+ <br /> E escreveram nele as mais belas hist&oacute;rias, que foram lidas
+ diante de in&uacute;meros ouvintes, e os tornaram mais s&aacute;bios e
+ melhores.<br /> <br /> <span class="pagenum">[145]</span>&#8213;Ora aqui est&aacute;
+ uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, quando vivia na
+ terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que ainda havia de
+ servir para alegrar e instruir os homens! N&atilde;o sei explicar o que me
+ est&aacute; acontecendo, mas &eacute; verdade. Deus sabe perfeitamente que
+ nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha sorte; foi Ele que
+ gradualmente me elevou, at&eacute; chegar &agrave; maior gl&oacute;ria.
+ Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: &laquo;Acabou-se, acabou-se&raquo;
+ tudo pelo contr&aacute;rio se me apresenta debaixo do aspecto mais
+ risonho. Vou viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam
+ ler e instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis;
+ agora as minhas flores s&atilde;o os mais elevados pensamentos. Sinto-me
+ feliz, imensamente feliz!&raquo;<br /> <br /> Mas o papel n&atilde;o foi
+ viajar; entregaram-no ao tip&oacute;grafo, e tudo que l&aacute; estava
+ escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, que
+ recrearam e instru&iacute;ram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
+ papel n&atilde;o teria prestado o mesmo servi&ccedil;o, ainda que desse a
+ volta &agrave; roda do mundo. A meio caminho j&aacute; estaria gasto.<br />
+ <br /> &#8213;&Eacute; justo, disse o papel, n&atilde;o tinha pensado
+ nisso. Fico em casa, e vou ser considerado como um velho av&ocirc;! fui eu
+ que recebi as letras, as palavras ca&iacute;ram directamente da pena sobre
+ mim, fico no meu lugar, e os livros v&atilde;o por esse mundo fora. A sua
+ miss&atilde;o &eacute; realmente bela, e eu estou contente, e julgo-me
+ feliz.<br /> <br /> O papel foi empacotado, e lan&ccedil;ado para uma
+ estante.<br /> <br /> &#8213;Depois do trabalho &eacute; agrad&aacute;vel o
+ descanso, <span class="pagenum">[146]</span>pensou ele. &Eacute; neste
+ isolamento que a gente aprende a conhecer-se. S&oacute; de hoje em diante
+ &eacute; que eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a n&oacute;s mesmo
+ &eacute; a verdadeira perfei&ccedil;&atilde;o. Que me ir&aacute; ainda
+ acontecer? Progredir, est&aacute; claro.&raquo;<br /> <br /> Passados
+ tempos, o papel foi atirado ao fog&atilde;o para o queimarem, porque o que
+ o n&atilde;o queriam vender ao merceeiro para embrulhar a&ccedil;&uacute;car.
+ E todas as crian&ccedil;as da casa se puseram &agrave; roda; queriam v&ecirc;-lo
+ arder, e ver tamb&eacute;m, depois da labareda, as milhares de fa&iacute;scas
+ vermelhas, que parecem fugir, e se apagam instantaneamente uma ap&oacute;s
+ outra. O ma&ccedil;o inteiro de papel foi atirado ao lume. Oh! como ele
+ ardia! Tornara-se numa grande chama, que se erguia t&atilde;o alto, t&atilde;o
+ alto como o linho nunca erguera as suas flores azuis; a pe&ccedil;a de
+ pano nunca tinha tido um brilho semelhante.<br /> <br /> Todas as letras,
+ durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as palavras, todas as
+ ideias desapareceram em l&iacute;nguas de fogo.<br /> <br /> &#8213;&laquo;Vou
+ subir at&eacute; ao sol;&raquo; dizia uma voz no meio da labareda, que
+ pareciam mil vozes reunidas numa s&oacute;. A chama saiu pela chamin&eacute;,
+ e no meio dela volteavam pequeninos seres invis&iacute;veis para os olhos
+ do homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha
+ dado. Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se
+ extinguiu, quando n&atilde;o restava do papel sen&atilde;o a cinza negra,
+ ainda eles dan&ccedil;avam sobre essa cinza, e formavam, tocando-a,
+ pequeninas centelhas encarnadas.<br /> <br /> As crian&ccedil;as cantavam
+ &agrave; roda da cinza inanimada:<br /> <br /> <span class="pagenum">[147]</span>
+ </p>
+ <div class="poetry">
+ Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+ </div>
+ <p>
+ <br /> Mas cada um dos pequeninos seres dizia: &laquo;N&atilde;o, n&atilde;o
+ se acabou; agora &eacute; que &eacute; o melhor da festa. Sei-o, e
+ julgo-me feliz.&raquo;<br /> <br /> As crian&ccedil;as n&atilde;o puderam
+ ouvir, nem compreender estas palavras; mas tamb&eacute;m n&atilde;o era
+ necess&aacute;rio, porque as crian&ccedil;as n&atilde;o devem saber tudo.<br />
+ <br /> <br />
+ </p>
+ <div style="text-align: center;">
+ FIM.<br />
+ </div>
+ <p>
+ <br /> <br /> <br /> <br />
+ </p>
+ <h5>
+ &Iacute;NDICE
+ </h5>
+ <p>
+ <br /> <br />
+ </p>
+ <div>
+ <a href="#1">A m&atilde;e</a><br /> <a href="#2">O ouro</a><br /> <a
+ href="#3">Do&ccedil;ura e bondade</a><br /> <a href="#4">O malmequer</a><br />
+ <a href="#5">N&atilde;o quero</a><br /> <a href="#6">Piloto</a><br /> <a
+ href="#7">O rico e o pobre</a><br /> <a href="#8">Como um campon&ecirc;s
+ aprendeu o Padre Nosso</a><br /> <a href="#9">O talism&atilde;</a><br /> <a
+ href="#10">A alma</a><br /> <a href="#11">Alberto</a><br /> <a href="#12">A
+ can&ccedil;&atilde;o da cerejeira</a><br /> <a href="#13">Os gigantes da
+ montanha e os an&otilde;es da plan&iacute;cie</a><br /> <a href="#14">A
+ crian&ccedil;a, o anjo e flor</a><br /> <a href="#15">Presente por presente</a><br />
+ <a href="#16">O pinheiro ambicioso</a><br /> <a href="#17">Perfei&ccedil;&atilde;o
+ das obras de Deus</a><br /> <a href="#18">Jo&atilde;o e os seus camaradas</a><br />
+ <a href="#19">O rabequista</a><br /> <a href="#20">Os p&ecirc;ssegos</a><br />
+ <a href="#21">A urna das l&aacute;grimas</a><br /> <a href="#22">Reconhecimento
+ e ingratid&atilde;o</a><br /> <a href="#23">O fato novo do sult&atilde;o</a><br />
+ <a href="#24">Boa senten&ccedil;a</a><br /> <a href="#25">Os animais
+ agradecidos</a><br /> <a href="#26">O ermit&atilde;o</a><br /> <a href="#27">Carlos
+ Magno e o abade de S. Gall</a><br /> <a href="#28">A boneca</a><br /> <a
+ href="#29">Inconveniente da riqueza</a><br /> <a href="#30">Querer &eacute;
+ poder</a><br /> <a href="#31">Qual ser&aacute; rei?</a><br /> <a href="#32">Os
+ tr&ecirc;s v&eacute;us de Maria</a><br /> <a href="#33">Os pequenos no
+ bosque</a><br /> <a href="#34">O chapelinho encarnado</a><br /> <a href="#35">Os
+ cinco sonhos</a><br /> <a href="#36">A igreja do rei</a><br /> <a href="#37">O
+ valente soldado de chumbo</a><br /> <a href="#38">Jo&atilde;o Pateta</a><br />
+ <a href="#39">Branca de Neve</a><br /> <a href="#40">A rapariguinha e os f&oacute;sforos</a><br />
+ <a href="#41">O primeiro pecado de Margarida</a><br /> <a href="#42">Um
+ nome inscrito no c&eacute;u</a><br /> <a href="#43">O linho</a><br />
+ </div>
+ <p>
+ <br /> <br /> <br /> <br />
+ </p>
+ <div class="fbox">
+ <h2>
+ Lista de erros corrigidos
+ </h2>
+ <br /> <br />
+ <table style="width: 449px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto; height: 210px;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+ <tbody>
+ <tr align="right">
+ <td style="width: 99px; height: 23px;"></td>
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 148px; height: 23px;">
+ Original
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 23px;"></td>
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 158px; height: 23px;">
+ Correc&ccedil;&atilde;o
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;">
+ <a name="e1" id="e1"></a><a href="#p56">#p&aacute;g. 56</a>
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">
+ entrar?
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">
+ ...
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">
+ entrar!
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;">
+ <a name="e2" id="e2"></a><a href="#p58">#p&aacute;g. 58</a>
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">
+ Jo&atilde;o.
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">
+ ...
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">
+ Jo&atilde;o:
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;">
+ <a name="e3" id="e3"></a><a href="#p58">#p&aacute;g. 58</a>
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">
+ embora?
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">
+ ...
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">
+ embora.
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;">
+ <a name="e4" id="e4"></a><a href="#p107">#p&aacute;g. 107</a>
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">
+ encontremos
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">
+ ...
+ </td>
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">
+ encontraremos
+ </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+ </table>
+ <br /> <br />
+</div>
+ <p>
+ <br /> <br /> <br /> <br /> A propriedade deste livro pertence no Brasil ao
+ sr. Lu&iacute;s de Andrade, residente no Rio de Janeiro.<br />
+ </p>
+
+<div style='display:block;margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA ***</div>
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+<div style='display:block; margin:1em 0'>
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+be renamed.
+</div>
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+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg&#8482; electronic works
+</div>
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+</div>
+
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+things that you can do with most Project Gutenberg&#8482; electronic works
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+</div>
+
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+ </div>
+</blockquote>
+
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+</div>
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+Vanilla ASCII&#8221; or other form. Any alternate format must include the
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+access to or distributing Project Gutenberg&#8482; electronic works
+provided that:
+</div>
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+ &bull; You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg&#8482; works calculated using the method
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+ payments should be clearly marked as such and sent to the Project
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+ Section 4, &#8220;Information about donations to the Project Gutenberg
+ Literary Archive Foundation.&#8221;
+ </div>
+
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+ &bull; You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
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+ License. You must require such a user to return or destroy all
+ copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
+ all use of and all access to other copies of Project Gutenberg&#8482;
+ works.
+ </div>
+
+ <div style='text-indent:-0.7em'>
+ &bull; You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
+ any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
+ receipt of the work.
+ </div>
+
+ <div style='text-indent:-0.7em'>
+ &bull; You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg&#8482; works.
+ </div>
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
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+are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
+from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of
+the Project Gutenberg&#8482; trademark. Contact the Foundation as set
+forth in Section 3 below.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+1.F.
+</div>
+
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+</div>
+
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+</div>
+
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+with your written explanation. The person or entity that provided you
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+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you &#8216;AS-IS&#8217;, WITH NO
+OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
+LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of
+damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
+violates the law of the state applicable to this agreement, the
+agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
+limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
+unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
+remaining provisions.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg&#8482; electronic works in
+accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
+production, promotion and distribution of Project Gutenberg&#8482;
+electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
+including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
+the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
+or any Project Gutenberg&#8482; work, (b) alteration, modification, or
+additions or deletions to any Project Gutenberg&#8482; work, and (c) any
+Defect you cause.
+</div>
+
+<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of
+computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
+exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
+from people in all walks of life.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
+goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
+generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
+Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
+</div>
+
+<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
+U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
+Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
+to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
+and official page at www.gutenberg.org/contact
+</div>
+
+<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
+public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
+DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
+visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations. To
+donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
+</div>
+
+<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
+Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
+Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
+freely shared with anyone. For forty years, he produced and
+distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
+volunteer support.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
+the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
+necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
+edition.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+Most people start at our website which has the main PG search
+facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
+</div>
+
+<div style='display:block; margin:1em 0'>
+This website includes information about Project Gutenberg&#8482;,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+</div>
+
+</body>
+</html>
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--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #16429 (https://www.gutenberg.org/ebooks/16429)
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new file mode 100644
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+++ b/old/16429-8.txt
@@ -0,0 +1,4381 @@
+The Project Gutenberg EBook of Contos para a infncia, by Guerra Junqueiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Contos para a infncia
+ Escohidos dos melhores auctores
+
+Author: Guerra Junqueiro
+
+Release Date: August 4, 2005 [EBook #16429]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFNCIA ***
+
+
+
+
+Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
+Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
+at https://www.pgdp.net
+
+
+
+
+
+
+
+CONTOS PARA A INFANCIA
+
+ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES POR GUERRA JUNQUEIRO
+
+
+LISBOA
+
+TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL
+
+Rua dos Calafates, 110
+
+1877
+
+
+
+
+*A me*
+
+
+Estava uma me muito afflicta, sentada ao p do bero do seu filho, com
+medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados.
+Resprava com difficuldade, e s vezes to profundamente, que parecia
+gemer; mas a me causava ainda mais lastima do que o pequenino
+moribundo.
+
+N'isto bateram porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuado
+n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. L fra estava tudo coberto de
+neve e de glo, e o vento cortava como uma navalha.
+
+O pobre homem tremia de frio; a creana adormecra por alguns instantes,
+e a me levantou-se a pr ao lume uma caneca com cerveja. O velho
+comeou a embalar a creana, e a me, pegando n'uma cadeira, sentou-se
+ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
+vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mosinha descarnada e disse para
+o velho:
+
+--Oh! Nosso Senhor no m'o hade levar! no verdade?--
+
+E o velho, que era a Morte, meneou a cabea d'uma maneira extranha, em
+ar de duvida. A me deixou pender a fronte para o cho, e as lagrimas
+corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de
+cabea; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou
+ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a
+tremer de frio.
+
+--Que isto! exclamou, lanando volta de si o olhar hallucinado. O
+bero estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creana.
+
+ * * * * *
+
+A pobre me saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma
+mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. A Morte entrou-te em
+casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
+depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar.
+
+--Por onde foi ella? gritou a me. Dize-m'o pelo amor de Deus!
+
+--Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto.
+Mas s t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canes que cantavas
+ao teu filho. So lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
+muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.
+
+--Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a me. Agora no me
+demores, porque quero encontrar o meu filho.--
+
+A Noite ficou silenciosa. A me ento, desfeita em lagrimas, comeou a
+cantar. Cantou muitas canes, mas as lagrimas foram mais do que as
+palavras.
+
+No fim disse-lhe a Noite: Toma direita, pela floresta escura de
+pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.
+
+A me correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e no
+sabia que direco havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal,
+cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
+cristallisada.
+
+ * * * * *
+
+--No viste a Morte que levava o meu filho? perguntou-lhe a me.
+
+--Vi, respondeu o mattagal, mas no te ensino o caminho, seno com a
+condio de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.
+
+E a me estreitou o mattagal contra o corao; os espinhos
+dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se
+de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite
+d'inverno frigidissima, tal o calor febricitante do seio d'uma me
+angustiosa.
+
+E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
+andando, at que chegou margem d'um grande lago, onde no havia nem
+barcos, nem navios. No estava sufficientemente gelado para se andar por
+elle, e era demasiadamente profundo para o passar a vo. Comtudo,
+querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio
+do seu amor, atirou-se de bruos a ver se poderia beber toda a agua do
+lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixo, faria
+talvez um milagre.
+
+--No! no s capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos
+amigavelmente. Gosto de vr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus
+olhos so d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu
+tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas fora de chorar, e
+levar-te-hei estufa grandiosa, que est do outro lado: essa estufa a
+habitao da Morte; e as flores e as arvores que esto l dentro, ella
+quem as cultiva; cada flor e cada arvore a vida d'uma creatura
+humana.
+
+--Oh! o que no darei eu, para rehaver o meu filho! disse a me. E
+apesar de ter j chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do
+que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo
+do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as no teve no
+mundo uma rainha.
+
+O lago ento ergueu-a, e com um movimento de ondulao depositou-a na
+outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua
+de comprido. De longe no se sabia se era uma construco artistica ou
+uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre me no podia ver nada;
+tinha dado os seus olhos.
+
+--Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho! bradou
+ella desesperada.
+
+--A Morte ainda no chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um
+lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
+vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?
+
+--Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus misericordioso. Compadece-te
+de mim, e dize-me onde est o meu filho.
+
+--Eu no o conheo, e tu s cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas
+e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte no tarda ahi para
+as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este
+sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem
+com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes,
+sente-se bater um corao. Guia-te por isto, e talvez reconheas as
+pulsaes do corao de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o
+que tens ainda de fazer?
+
+--J no tenho nada que te dar, disse a pobre me. Mas irei at ao fim
+do mundo buscar o que tu quizeres.--Fra d'aqui no preciso de nada,
+respondeu a velha. D-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que
+so bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos
+brancos.--No pedes mais nada do que isso? disse a me. Ahi os tens,
+dou-t'os de boa vontade.
+
+E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu
+orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e
+inteiramente brancos da velha.
+
+Esta levou-a pela mo grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma
+vegetao maravilhosa.
+
+Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado
+de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas
+cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam
+cobras asquerosas.
+
+Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos
+frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa,
+tomilho, ortel e outras plantas humildes que representavam o genero de
+utilidade das pessoas que ellas symbolisavam.
+
+Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
+pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em
+vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com
+esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a
+essa hora existiam no mundo, desde a China at Groenlandia.
+
+A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a me
+impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas
+pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
+corao, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as
+pulsaes do corao do seu filho.
+
+-- elle! exclamou, lanando a mo a um aafroeiro, que, pendido sobre
+a terra, parecia completamente estiolado.
+
+--No lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte
+vier, que no tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaa-a de
+arrancar todas as flores que esto aqui. A Morte ter medo, porque tem
+de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma pde ser arrancada sem o seu
+consentimento.
+
+N'isto sentiu-se um vento glacial, e a me adivinhou que era a Morte,
+que se approximava.
+
+--Como qu deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
+primeiro do que eu! Como o conseguiste?--Sou me respondeu ella.
+
+E a Morte estendeu a sua mo ganchosa para o pequenino aafroeiro.
+
+Mas a me protegia-o violentamente com ambas as mos, tendo o cuidado de
+no ferir uma s das pequeninas petalas. Ento a Morte soprou-lhe nas
+mos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do
+que os ventos enregelados do inverno.
+
+--No pdes nada comigo! disse a Morte.--Mas Deus tem mais fora do que
+tu, respondeu a me.-- verdade, mas eu no fao seno aquillo que
+elle manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e
+arbustos, quando comeam a murchar, transplanto-as para outros jardins,
+um dos quaes o grande jardim do Paraizo. So regies desconhecidas;
+ningum sabe o que se l passa.
+
+--Misericordia! misericordia! soluou a me. No me roubem o meu filho,
+agora que acabo de o encontrar! Supplicava e gemia. A Morte
+conservava-se impassivel; agarrou ento instantaneamente em duas flores
+lindissimas e disse Morte: Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar,
+despedaar no s esta, mas todas as flores que esto aqui!
+
+--No as arranques, no as mates, bradou a Morte. Dizes que s
+desgraada, e querias ir partir o corao de outra me!--Outra me!
+disse a pobre mulher, largando as flores immediatamente.--Toma, aqui
+tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam to suavemente que os tirei
+do lago. No sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o
+fundo d'este poo; v o que ias destruir, se arrancasses estas flores.
+Vers passar nos reflexos da agua, como n'uma miragem, a sorte destinada
+a cada uma d'essas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se
+porventura vivesse.
+
+Debruou-se no poo, e viu passar imagens de felicidade e alegria,
+quadros risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de
+miseria, d'angustias e de desolao.
+
+--N'isto que eu vejo, disse a me afflictissima, no distingo qual era a
+sorte que Deus destinava ao meu filho.
+
+--No posso dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto
+que te appareceu viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.
+
+A me desvairada, lanou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me:
+era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? No verdade! Falla!
+No me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, no v elle soffrer
+desgraas to horriveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que minha
+vida. As angustias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos.
+Esquece as minhas lagrimas, as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz
+e tudo o que disse.
+
+--No te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu
+filho ou que o leve para a regio desconhecida de que no posso
+fallar-te! Ento a me allucinada, convulsa, torcendo os braos,
+deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: No me ouas,
+Senhor, se reclamo no fundo do meu corao contra a tua vontade que
+sempre justa! No me attendas meu Deus!
+
+E deixou cair a cabea sobre o peito, mergulhada na sua agonia
+dilacerante.
+
+E a Morte arrancou o pequenino aafroeiro, e foi transplantal-o no
+jardim do paraiso.
+
+
+
+
+*O ouro*
+
+
+Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas d'ouro,
+empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas minas; e o
+resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande
+fome no paiz.
+
+Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
+segredo frangos, pombos, gallinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
+e quando o rei quiz jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com
+que elle ficou todo satisfeito, porque no comprehendeu ao principio
+qual era o sentido da rainha; mas, vendo que no lhe traziam mais nada
+de comer, comeou a zangar-se. Pediu-lhe ento a rainha, que visse bem
+que o ouro no era alimento, e que seria melhor empregar os seus
+vassallos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
+trazel-os nas minas busca do ouro, que no mata a fome nem a sede, e
+que no tem outro valor alm da estimao que lhe dada pelos homens,
+estimao que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro
+apparecesse em abundancia.
+
+A rainha tinha juizo.
+
+
+
+
+*Doura e bondade*
+
+
+Ha entre vs, meus filhos, indoles violentas, que no sabem dominar-se,
+e que so arrastadas pelas primeiras impresses. uma pessima
+disposio, que necessario corrigir; d lugar a disputas, e a que se
+commettam aces, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.
+Citar-vos-hei dois exemplos de que fui testemunha.
+
+Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
+d'elle, volta-se e d-lhe uma bofetada.
+
+--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vae ter! bateu n'um
+cego!
+
+Um homem ainda novo montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns
+camponezes grosseiros comearam a apupal-o e a bater no burro, para o
+fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a
+sua perna aleijada, disse-lhes: Se soubesseis que eu era coxo, no
+terieis sido to covardes.
+
+Os camponezes, envergonhados, craram, afastando-se sem pronunciar uma
+palavra.
+
+Que vos parece estas duas lies? Estou convencido que aproveitaram a
+quem as recebeu.
+
+
+
+
+*O malmequer*
+
+
+Ouvi com atteno esta pequenina historia!
+
+No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores,
+rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no
+meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
+olhos vistos, graas ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por
+elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella
+manh, j inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
+parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava
+que o vissem no meio da herva e no fizessem caso d'elle, pobre florinha
+insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
+sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
+
+N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira,
+sentia-se to feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanas
+sentadas nos bancos da escola estudavam a lio, elle, sentado na haste
+verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
+o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com
+admiravel nitidez nas canes alegres da cotovia. Por isso poz-se a
+olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha
+feliz que cantava e voava.
+
+Eu vejo e oio, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento
+acaricia-me. Oh! no tenho raso de me queixar.
+
+Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos
+aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para
+parecerem maiores do que as rosas; mas no o tamanho que faz a rosa.
+As tulipas brilhavam pela belleza das suas cres, pavoneando-se
+pretenciosamente. No se dignavam de lanar um olhar para o pequeno
+malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: como so
+ricas e bonitas! A cotovia ir certamente visital-as. Graas a Deus,
+poderei assistir a este bello espectaculo. E no mesmo instante a
+cotovia dirigiu o seu vo, no para as dalias e tulipas, mas para a
+relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria no sabia o que
+havia de pensar.
+
+O passarinho poz-se a saltitar roda d'elle, cantando: Como a herva
+macia! oh! que encantadora florinha, com um corao d'oiro, vestida de
+prata!
+
+No se pde fazer ida da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com
+o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do
+firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora no pde o malmequer
+reprimir a sua commoo. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou
+para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
+acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as
+tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
+ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabea toda
+inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis
+ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.
+
+Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
+grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
+uma a uma.
+
+Que desgraa! disse o malmequer suspirando; horrivel; foram-se
+todas.
+
+E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrra-se por
+ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando
+reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
+adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.
+
+No dia seguinte de manh, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao
+ar e luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,
+muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rases para se affligir:
+haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella
+aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas
+antigas viagens atravez do espao illimitado.
+
+O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
+difficil. A compaixo pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe
+esquecer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e
+a alvura resplandecente das suas proprias folhas.
+
+N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mo
+uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
+tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que no podia comprehender o
+que desejavam.
+
+Podemos arrancar d'aqui um pedao de relva para a cotovia, disse um dos
+rapazes, e comeou a fazer um quadrado profundo volta da florinha.
+
+--Arranca a flor, disse o outro.
+
+A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era
+morrer; e nunca tinha abenoado tanto a existencia, como no momento em
+que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
+
+No; deixemol-a, disse o mais velho. Est ahi muito bem.
+
+Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
+
+O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia
+com as azas nos arames da gaiola. O malmequer no podia, apesar dos seus
+desejos, articular-lhe uma palavra de consolao.
+
+Passou-se assim toda a manh.
+
+J no tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
+deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre
+terrivel, sinto-me abafada! Ai! No ha remedio seno morrer, longe do
+sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da
+creao!
+
+Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu
+ento o malmequer; fez-lhe um signal de cabea amigavel, e disse-lhe,
+afagando-o: Tambem tu, pobre florinha, morrers aqui! Em vez do mundo
+inteiro, que eu tinha minha disposio, deram-me um pedacito de relva,
+e a ti s por unica companhia. Cada psinho de relva substitue para mim
+uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah!
+como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!
+
+--Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o
+minimo movimento.
+
+Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume;
+a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
+arrancar a herva, teve todo o cuidado em no tocar nem sequer de leve na
+flor.
+
+Caiu a noite; no estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua
+desditosa cotovia; Estendeu ento as suas bellas azas, sacudindo-as
+convulsivamente, e poz-se a cantar uma canosinha melancolica; a sua
+cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu corao quebrado de desejos e
+d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer
+no pde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se
+para o cho, doente de tristeza.
+
+Os rapazitos s voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
+rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro
+d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e
+cobriram o tumulo com folhas de rosas.
+
+Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e
+deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto que o choraram
+e lhe fizeram honrarias pomposissimas.
+
+A relva e o malmequer lanaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle
+que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.
+
+
+
+
+*No quero*
+
+
+Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito
+alto: No, dizia um com voz energica, no quero. Parei e
+perguntei-lhe:--O que que tu no queres, meu rapaz?--No quero dizer
+ mam que venho da escola, porque mentira. Sei que me hade ralhar,
+mas antes quero que me ralhe do que mentir.--E tens razo, disse-lhe
+eu. s um rapaz como se quer. Apertei-lhe a mo, emquanto que o outro
+pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
+todo envergonhado.
+
+D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o
+professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois
+pequenos; o que no quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro,
+vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
+dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro, um magnifico
+estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a
+confessar as suas faltas e o que ainda melhor, a reparal-as. O outro
+pelo contrario, mentiroso, covarde e incorrigivel.--No me espanto,
+disse eu, j tinha tirado o horscopo d'estas duas creanas; e
+contei-lhe o que tinha ouvido.
+
+
+
+
+*Piloto*
+
+
+Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos ces, e o
+infatigavel companheiro dos brinquedos das creanas da quinta.
+
+Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que Joo lhe
+lanava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na bocca e
+trazia-o margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irm
+Joaninha.
+
+Esta brincadeira recomeava vinte vezes sem canar nunca a paciencia do
+Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, at que o
+assobio do creado da quinta chamava o fiel animal s suas obrigaes:
+partia ento como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos
+pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.
+
+Quando o hortelo ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda
+da carroa; e muito atrevido seria quem saltasse noite a parede da
+quinta.
+
+Uma vez deu prova d'uma extraordinaria sagacidade; um jornaleiro, que se
+empregava muitas vezes em levar saccos de trigo da quinta para casa,
+tentou de noite roubar um sacco.
+
+Piloto, que o conhecia, no fez a menor demonstrao de hostilidade
+emquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou
+tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o
+largar.
+
+Era como se dissesse: Onde vaes tu com o trigo de meu dono?
+
+O ladro quiz pr ento outra vez o sacco d'onde o tinha tirado; Piloto
+no consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, at de
+manh; o quinteiro foi dar com elle n'esta difficil posio,
+reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o no
+deshonrar.
+
+Mas o homem ficou com odio ao co, e muito tempo depois, aproveitando a
+ausencia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
+elle sem desconfiana; atou-lhe uma corda ao pescoo e arrastou-o at
+margem do ribeiro.
+
+Atou uma grande pedra outra extremidade da corda e levantando o animal
+atirou-o agua; mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforo,
+caiu tambem.
+
+Como no sabia nadar, teria sido despedaado pela roda do moinho, se o
+corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e
+desembaraando-se da pedra mal atada, no tivesse mergulhado duas vezes
+e trazido para terra o seu mortal inimigo.
+
+Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o
+co que elle tinha querido afogar, lhe salvra a vida.
+
+Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si
+mesmo e combateu as suas ms inclinaes.
+
+O exemplo do co corrigiu o homem.
+
+
+
+
+*O rico e o pobre*
+
+
+Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
+dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
+deitou-se de baixo d'uma arvore, porta d'uma estalagem, junto da
+estrada. Estava comendo um bocado de po que tinha trazido para jantar,
+quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
+preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos
+viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que no tinham tempo,
+e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
+vinho.
+
+Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua
+codea de po, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e
+suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino to rico,
+em vez do desgraado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu
+dentro d'aquella carruagem! O preceptor ouviu casualmente o que dizia
+Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lanando a cabea fra da
+carruagem, chamou Martinho com a mo.
+
+--Ficarias muito contente, no verdade, meu rapaz, podendo trocar a
+minha sorte pela tua?--Peo que me desculpe senhor, replicou Martinho
+crando, o que eu disse no foi por mal.--No estou zangado comtigo,
+replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.
+
+--Oh! est a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar
+no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando
+muitas leguas por dia, como po secco e batatas, emquanto que o senhor
+anda n'uma carruagem, pde comer frangos e beber vinho.--Pois bem,
+volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu
+no tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo. Martinho
+ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
+preceptor continuou: Acceitas a troca?--Ora essa! exclamou Martinho,
+ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada
+de me ver entrar n'esta bella carruagem! E Martinho desatou a rir com a
+ida da entrada triumphante na sua aldeia.
+
+O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
+descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma
+perna de pau e que a outra era to fraca, que se via obrigado a andar em
+duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou
+que era muito pallido e que tinha cara de doente.
+
+Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:--Ento sempre
+desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas
+valentes e as tuas faces cradas, pelo prazer de ter uma carruagem e
+andar bem vestido?--Oh! no, por coisa nenhuma! replicou
+Martinho.--Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
+tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro
+os meus males com paciencia e fao por ser alegre, dando graas a Deus
+pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.
+
+Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se s pobre e comes mal,
+tens fora e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que no
+podem comprar-se com dinheiro.
+
+
+
+
+*Como um camponez aprendeu o Padre Nosso*
+
+
+Tinha o corao duro, e no dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
+confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso.
+
+No o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeo.
+
+Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a
+credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da
+minha parte.
+
+No dia seguinte de manh apresentou-se o primeiro pobre.
+
+Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.
+
+Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, respondeu o pobre.
+
+E o teu appellido?
+
+Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.
+
+E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
+
+Ao outro dia chega segundo pobre.
+
+Como te chamas?
+
+Venha--A--Ns--O--Vosso--Reino.
+
+E o teu appellido?
+
+Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.
+
+E partiu com o seu alqueire de trigo.
+
+Veiu terceiro pobre.
+
+Como te chamas?
+
+Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.
+
+E o teu appellido?
+
+Dae-nos--Hoje--O--Po--Nosso--De--Cada--Dia.
+
+E levou o seu alqueire.
+
+Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma
+forma at chegar ao _Amen_.
+
+Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeo.
+
+Ento j sabes o Padre Nosso?
+
+No, sr. cura, sei s os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei
+o meu trigo.
+
+Quaes so? tornou o padre.
+
+E o aldeo enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
+apresentado.
+
+J vs, disse o confessor, que no era muito difficil aprender o Padre
+Nosso, porque j o sabes perfeitamente.
+
+
+
+
+*O talisman*
+
+
+Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas
+com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
+que no era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com
+uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue
+inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direco da
+sua casa.
+
+Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual a razo
+porque a sorte nos trata de um modo to differente? Vendemos as mesmas
+mercadorias, a minha loja est to bem situada como a tua, e apezar
+d'isso, emquanto tu ganhas, eu no fao seno perder. E no porque eu
+seja estroina; no bebo, nem jogo. J tenho pensado algumas vezes se no
+ters tu por acaso algum precioso talisman.
+
+Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma
+virtude incomparavel. Trago-o ao pescoo, e ando assim com elle todo o
+dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o
+celleiro. E o caso que tudo me corre perfeitamente.
+
+Ol meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia
+preciosa de que tanto necessito; pdes ter a certeza de que t'a
+restituo.
+
+Pois vem buscal-a manh de manh.
+
+Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
+apresentou-lhe este uma avell, atravs da qual tinha tinha passado um
+fio de seda.
+
+O nosso homem pl-a immediatamente ao pescoo, e comeou a correr toda a
+casa com o talisman. Observou ento a completa desordem que por toda a
+parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
+cozinha o po, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o
+feijo; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos
+cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
+escripturados; viu tudo isto, e que era necessrio dar-lhe remedio,
+comprehendendo que o dono da casa nunca pde ser substituido por
+terceira pessoa na direco dos seus negocios.
+
+Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman,
+agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em
+segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.
+
+
+
+
+*A alma*
+
+
+Mam, nem todas as creanas que morrem vo para o Paraizo. O outro dia
+vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu pap e as
+suas duas irmsinhas acompanhavam o caixo, e choravam tanto que me
+fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, no
+verdade?
+
+No; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus
+paes e suas irms, j estava vivendo feliz no Paraizo.
+
+A alma? mam; no sei o que ; no comprehendo bem.
+
+Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
+pequerruchas.
+
+Tive sim, mam, tive muita pena.
+
+Ora bem, o que que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
+braos?
+
+No, mam.
+
+Eram as orelhas?
+
+Oh! no mam, era _c dentro_.
+
+Esse _l dentro_, Maria, a tua alma que se alegra ou se entristece,
+que te reprehende quando fazes o mal, e que est satisfeita quando
+praticas o bem.
+
+
+
+
+*Alberto*
+
+
+Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus
+irmos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer
+sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico
+feijo produzir cem feijes e muitas vezes mais, e de uma talhada de
+batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava
+com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
+quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. Ha
+de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dar libras como uma
+cerejeira d cerejas, e irei entregal-as ao pap, que ficar muito
+contente. Todas as manhs ia ver se a libra tinha nascido, mas no
+rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por
+fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.
+
+Vi pap; achei-a e fui semeal-a.
+
+Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve?
+
+Mas, pap, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.
+
+ verdade, mas no nasce como uma semente; o oiro no tem vida.
+
+Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
+no pertencia.
+
+Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
+produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como
+? dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira.
+
+
+
+*A cano da cerejeira*
+
+
+Disse Deus na primavera: Ponham a mesa s lagartas! E a cereijeira
+cobriu-se immediatamente de folhas, milhes de folhas, fresquinhas e
+verdejantes.
+
+A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiou-se,
+abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as
+folhinhas tenras, dizendo: No se pde a gente despegar d'ellas. Quem
+que me arranjou este banquete?
+
+Ento Deus disse de novo: Ponham a mesa s abelhas! E a cereijeira
+cobriu-se immediatamente de flores, milhes de flores delicadas e
+brancas.
+
+E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas,
+dizendo: Vamos tomar o nosso caf; e que chvenas to bonitas em que o
+deitaram!
+
+Provou com a linguita, exclamando: Que deliciosa bebida! No pouparam o
+assucar!
+
+No vero disse Deus: Ponham a mesa aos passarinhos! E a cereijeira
+cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos.
+
+Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasio; temos appetite,
+e isto dar-nos-ha novas foras para podermos cantar uma nova cano. No
+outono disse Deus: Levantae a mesa, j esto satisfeitos. E o vento
+frio das montanhas comeou a soprar, e fez estremecer a arvore.
+
+As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o
+vento que as lanou ao cho erguia-as novamente, fazendo-as esvoaar.
+
+Chegou o inverno e disse Deus: Cobri o resto! E os turbilhes dos
+ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descana.
+
+
+
+
+*Os gigantes da montanha e os anes da planicie*
+
+
+Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na
+montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um
+alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer plancie a ver o que
+faziam l em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anes.
+Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido caa e sua me estava
+dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os
+jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os
+lavradores, coisas inteiramente novas para ella. Oh! que lindos
+brinquedos! exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
+quasi que cubriu o campo. Lanou-lhe dentro os homens, os cavallos, a
+charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello,
+onde seu pae estava a jantar.
+
+--Que trazes ahi, minlia filha? perguntou elle.
+
+--Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. So os
+mais bonitos que tenho visto.
+
+E pol-os em cima da mesa, a um e um,--os cavallos, a charrua e os
+trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
+tivessem transportado d'um formigueiro para um salo. A gigantinha
+poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
+fez-se serio e franziu o sobrolho. Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso
+no so brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
+respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e pe-n'o
+immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
+montanha, morreriam de fome, se os anes da planicie deixassem de lavrar
+a terra e de semear o trigo.
+
+
+
+
+*A creana, a anjo e flr*
+
+
+Quando morre uma creana, desce um anjo do ceo, toma-a nos braos, e
+desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que
+ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de
+quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresam
+no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe
+todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor
+escolhida, adquirindo voz immediatamente, comea a cantar os coros
+maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma
+creana morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro
+sobre a casa em que a creana brincra, e depois sobre jardins
+deliciosos, cobertos de flores.
+
+Qual a flor que desejas para plantar no paraiso? perguntou o anjo.
+
+Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
+magnifica; mas quebraram-lhe o p, e todos os seus ramos cheios de
+botesinhos lindissimos pendiam estiolados para o cho.
+
+Pobre roseira! disse a creana ao anjo; vamos buscal-a para que possa
+reflorir no paraiso.
+
+O anjo foi buscal-a, e abraou a creana. Colheram muitas flores
+brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
+
+A colheita estava terminada, e comtudo no voavam ainda para Deus. Caiu
+a noite silenciosa, e a creana e o seu guia Divino andavam ainda por
+cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
+de cacos de loua, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
+immundicie. Entre estes destroos distinguiu o anjo um vaso de flores
+com a terra pelo cho, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos
+campos, j murcha, e que parecia no poder reverdecer: tinham-n'a
+atirado para a rua como inutil e morta.
+
+Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando,
+te contarei a historia da florinha. L ao fundo, l ao fundo, naquella
+rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creana miseravel e
+doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar
+com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
+de vero os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
+Ento a creana sentada janella, aquecida pelo sol, sem o cansao do
+andar, imaginava-se passeando; no conhecia da floresta, da fresca
+verdura da primavera, seno o ramo de faia, que uma vez o filho do
+visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabea o ramo
+verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava
+com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe
+flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda
+raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o janella, junto da
+cama. A flor plantada por mo abenoada, cresceu, tornou-se grande, e
+todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico
+thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
+aproveitar os raios do sol at ao ultimo. A flor apparecia-lhe em
+sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e
+ostentava as suas cres; quando se sentiu morrer foi para ella que se
+voltou.
+
+Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida
+flor, esquecida janella desde ento, murchou, estiolou-se e
+atiraram-n'a rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca o
+thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
+canteiros d'um jardim realengo.
+
+Como sabes tu isso? perguntou a creana, que o anjo levava para o co.
+
+--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
+em moletas; como no havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!
+
+A creana abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
+no co onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
+levou-as ao corao, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre,
+despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar
+com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe,
+formando circulos que vo augmentando successivamente, multiplicando-se
+at ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
+harmoniosamente--desde a creana abenoada at humilde florinha do
+campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e
+tortuosa.
+
+
+
+
+*Presente por presente*
+
+
+Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite
+ choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda no tinha chegado, foi
+a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
+pde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque
+eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama no a
+tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
+morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faises,
+e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao
+outro dia pela manh disse isto mesmo pobre mulher, gratificando-a ao
+despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
+dito que a guardasse como uma pequena lembrana, a boa camponeza julgou
+que seria uma medalha, e sentiu que no tivesse um buraquito para a
+trazer ao pescoo. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
+que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
+examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:
+
+Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe!
+
+E o bom do homem no podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
+achado as suas batatas melhores do que faises.
+
+ necessrio confessar, disse elle com um ar triumphante, que no ha
+talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das
+batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, j que as acha to boas.
+
+E partiu immediatamente para o palacio com uma proviso de batatas
+escolhidas.
+
+Os lacaios e as sentinellas ao principio no o queriam deixar entrar;
+mas insistiu energicamente, dizendo que no vinha pedir nada, e que pelo
+contrario vinha trazer alguma cousa.
+
+Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.
+
+Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente
+pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma pea de ouro, em troca
+d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar
+demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis
+o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
+batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faises. Dignae-vos
+acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, l
+as encontrareis sempre ao vosso dispor.
+
+A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava
+n'um momento de bom humor, fez-lhe doao de uma quinta com trinta
+geiras de terra.
+
+Ora o carvoeiro tinha um irmo muito rico, mas invejoso e avarento, que,
+sabendo da fortuna do irmo mais novo, disse comsigo: Porque no me ha
+de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo
+qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer
+presente d'elle: se deu ao Joo uma quinta com trinta geiras de terra,
+simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de
+recompensar ainda mais generosamente.
+
+Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
+palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar
+altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia.
+
+Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; no
+tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o
+offerea.
+
+O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
+comsigo: Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:
+
+Depois dirigindo-se a elle:
+
+Acceito a tua dadiva, mas no sei como agradecer-t'a condignamente. Oh!
+espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
+faises. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que um bom
+preo para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.
+
+E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
+
+
+
+
+*O pinheiro ambicioso*
+
+
+Era uma vez um pinheiro, que no estava contente com a sua sorte. Oh!
+dizia elle, como so horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
+verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
+orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
+de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!
+
+O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manh acordou o
+pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
+pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
+mais sensatos do que elle, no invejavam a sua rapida fortuna. noite
+passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um
+sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos ps cabea.
+
+Oh! disse elle, que doido que eu fui! no me tinha lembrado da cobia
+dos homens. Fiquei completamente despido. No ha agora em toda a
+floresta uma planta to pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
+o oiro attrae as ambies.
+
+Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
+avarento no me teria despido.
+
+No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
+sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
+fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de
+nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as
+folhas de cristal.
+
+Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em
+pedaos o seu manto cristalino. O oiro e o vidro no servem para vestir
+as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria
+menos brilhante, mas viveria descansado.
+
+Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado s vaidades
+primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
+outros pinheiros seus irmos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
+vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as
+todas sem deixar uma unica.
+
+O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, j queria voltar sua
+frma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
+sua sorte.
+
+
+
+
+*Perfeio das obras de Deus*
+
+
+_A filha_.--Oh! mam quebrou-se-me a agulha.
+
+_A me_.--Vou-te dar outra.
+
+_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mam?
+
+_A me_.--V se adivinhas.
+
+_A filha_.--N sei, mam.
+
+_A me_.--Conheces os metaes?
+
+_A filha_.--Conheo mam; tenho l dentro muitos bocadinhos dentro de
+uma caixa.
+
+_A me_.--Ora muito bem, dize-me l, as agulhas so de pau, de pedra, de
+marmore?
+
+_A filha_.--Oh! no; so de metal; mas de que metal?
+
+_A me_.--Antes de perguntar qualquer coisa, v sempre se a adivinhas
+primeiro.
+
+_A filha_.--Ora espere!... uma agulha de metal: no de prata, porque
+no branca; no de oiro, porque no de um lindo amarello muito
+brilhante; no de cobre, porque no de um amarello muito feio, que
+cheira mal... Ento de ferro, mam?
+
+_A me_.--Adivinhaste.
+
+_A filha_.--Mas, mam, o ferro no liso e brilhante como as agulhas.
+
+_A me_.-- que primeiro polido e preparado de certo modo, e depois j
+se no chama ferro, ao.
+
+_A filha_.--Bem, as agulhas so de ao. Agora quero adivinhar como que
+as fazem.
+
+_A me_.-- impossivel, no s capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma
+fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar
+muito.
+
+_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
+nos servimos.
+
+_A me_.--Tens razo; uma vergonha ignoral-o.
+
+_A filha_.--Mam, deixe-me ver as suas agulhas.
+
+_A me_.--Olha, ahi tens o meu estojo.
+
+_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! So to
+fininhas, to fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para
+fazer uma coisinha to delicada!
+
+_A me_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
+uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?
+
+_A filha_.--Lembro, mam; era to bonito!
+
+_A me_.--Li n'um jornal allemo que um operario chamado Nerlinger fez
+um copo de um gro de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais
+doze...
+
+_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um
+gro de pimenta!
+
+_A me_.--E ainda no tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas
+doiradas, e sustentava-se no p.
+
+_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso!
+
+_A me_.--Tens razo de te admirares da habilidade dos homens.
+effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
+certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admirao.
+
+_A filha_.--Quaes, mam?
+
+_A me_.--J t'o digo. (_Levanta-se_.)
+
+_A filha_.--Que quer, mam?
+
+_A me_.--Quero que vejas o microscopio de teu pap.
+
+_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio.
+
+_A me_.--Este magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes
+ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como fina,
+lisa e brilhante... Agora olha; o que que vs?
+
+_A filha_.--Meu Deus, que coisa to feia! que agulha to grosseira!
+
+_A me_.--Vs-lhe buracos, riscos, asperesas, no verdade?
+
+_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito.
+
+_A me_.--Pois todas essas imperfeies so verdadeiras, existem na
+agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, que no d por ellas.
+
+_A filha_.--O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
+visse ao microscopio.
+
+_A me_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.
+
+_A filha_.--O qu, mam?
+
+_A me_.--O aguilhosinho de uma abelha.
+
+_A filha_.--Oh! que pequenino, que bonito!... Como liso, como
+brilhante!... Mas j sei que visto ao microscopio ha de acontecer o
+mesmo que com a agulha.
+
+_A me_.--Prompto: olha.
+
+_A filha_ (olhando).-- exquisito, mam!
+
+_A me_.--Ento?
+
+_A filha_.--Augmentou, augmentou como a agulha, mas no spero, pelo
+contrario, perfeitamente liso... A agulha parecia que no tinha ponta,
+e o ferrosinho da abelha tem uma ponta to fina como um cabello. Porque
+ser isto, mam?
+
+_A me_.-- porque o operario que fez este aguilho muito mais habil
+do que o que fez a agulha.
+
+_A filha_.--Quem esse operario to habil?
+
+_A me_.-- o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as
+creaturas.
+
+_A filha_.-- Deus.
+
+_A me_.--Exactamente. Pois no Deus que fez as abelhas e todos os
+animaes?
+
+_A filha_.--De certo.
+
+_A me_.--Foi elle por conseguinte que fez o aguilho d'esta abelha; e
+ahi tens porque o aguilho superior agulha: obra de Deus. Mas
+continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui est um pedacinho de
+musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que que vs?
+
+_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.
+
+_A me_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima.
+
+_A filha_.--Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo
+microscopio.
+
+_A me_.--Ento?
+
+_A filha_.-- horrorosa... Parece feita de pellos grosseiros com grandes
+buracos deseguaes.
+
+_A me_.--As obras do homem so todas assim.
+
+_A filha_.--Oh! mam, vejamos agora as obras de Deus.
+
+_A me_.--Sabes o que isto?
+
+_A filha_.--Sei, mam, um casulo de bicho de seda.
+
+_A me_.--Os fiosinhos que o compem so muito finos, muito lisos; olha
+pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes.
+
+_A filha_ (olhando pelo microscpio).--No, mam; os fios so todos
+eguaes, e o casulo sempre muito liso, muito brilhante.
+
+_A me_.-- porque obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha
+sobre este papel?
+
+_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas
+tambm com tinta.
+
+_A me_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
+redondos?
+
+_A filha_.--Sim, mam, perfeitamente redondos.
+
+_A me_.--V-os agora ao microscopio.
+
+_A filha_.--Oh! j no so redondos, so todos deseguaes.
+
+_A me_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. uma aza de borboleta;
+vs que est mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
+microscopio; o que que vs?
+
+_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, s com a differena
+que agora maior. Que bellas que so as obras de Deus!
+
+_A me_.--Merece bem a pena estudal-as.
+
+_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
+dos homens.
+
+_A me_.--E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do
+homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
+perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
+primeira que Deus merece tanto a nossa admirao como o nosso amor; a
+segunda que os homens orgulhosos so insensatos, porque no podem
+fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras
+mais primorosas so cheias de imperfeies, se as compararmos com as
+obras do Creador.
+
+
+
+
+*Joo e os seus camaradas*
+
+
+Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso,
+possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. Joo resolveu-se a
+correr mundo, busca de fortuna. A me coseu o resto da farinha, matou
+o gallo, e disse-lhe:
+
+O que que preferes: metade d'esta merenda com a minha beno, ou toda
+com a minha maldio?
+
+Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no
+mundo eu quereria a tua maldio.
+
+Bem, meu filho, replicou a me carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
+abene.
+
+E partiu. Foi andando, andando, at que encontrou um jumento, que tinha
+caido n'um atoleiro, d'onde no podia sair.
+
+Oh! Joo, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a
+afogar-me.
+
+Espera, respondeu Joo.
+
+E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o
+quadrpede do atoleiro.
+
+Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de Joo. Se te posso ser util,
+aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?
+
+--Vou por esse mundo fra, a ver se ganho a minha vida.
+
+Queres tu que eu te acompanhe?
+
+Anda d'ahi.
+
+E puzeram-se a caminho.
+
+Ao passarem por uma aldeia, viram um co perseguido pelos rapazes da
+eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
+animal correu para Joo que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de
+tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.
+
+Obrigado, disse o rafeiro a Joo. Se para alguma cousa te for
+prestavel, aqui me tens s tuas ordens. Aonde vaes tu?
+
+Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.
+
+Queres que te acompanhe?
+
+Anda d'ahi.
+
+Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a
+merenda do alforge, e repartiu-a com o co. O burro pastou alguma erva
+que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar
+lastimosamente.
+
+Coitado, exclamou Joo! E deu-lhe uma asa do frango.
+
+--Obrigado disse o gato. Oxal que um dia eu te possa ser util. Aonde
+vaes tu?
+
+--Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.
+
+--De boa vontade.
+
+Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um
+grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
+gallo na bocca.
+
+Agarra! agarra! bradou o pequeno ao co.
+
+E no mesmo instante o co atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em
+perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente
+disse a Joo:
+
+--Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?
+
+--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?
+
+--De boa vontade.
+
+--Ento anda. Se te canares, empoleira-te no jumento.
+
+Os viajantes contnuaram a jornada com o seu novo companheiro.
+Sentiram-se todos fatigados e no avistavam roda nem uma quinta, nem
+uma cabana.
+
+--Paciencia, disse Joo, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
+hoje a dormir ao ar livre; alm d'isso a noite est socegada, e a relva
+ macia.
+
+Dito isto estendeu-se no cho; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o co
+e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo
+empoleirou-se n'uma arvore.
+
+Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo comeou
+a cantar.
+
+--Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque que
+ests a gritar?
+
+--Porque j dia, respondeu o gallo. No vs ao longe a luz da
+madrugada, que vem rompendo?
+
+--Vejo uma luz, disse Joo, mas no do sol, d'uma lanterna.
+Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto
+da noite.
+
+Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez
+dos campos, at que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo,
+d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
+blasphemias horriveis.
+
+--Escutem, disse Joo; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
+ que est l dentro.
+
+Eram seis ladres armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam
+alegremente, sentados a uma mesa principesca.
+
+--Que bom assalto acabmos de dar, disse um d'elles, ao castello do
+conde, graas ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que este
+porteiro. sua saude!
+
+-- sade do nosso amigo! repetiram em coro todos os ladres.
+
+E d'um trago despejaram os copos.
+
+Joo voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:
+
+--Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
+signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.
+
+O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lanou as mos ao peitoril
+d'uma janella, o co trepou-lhe cabea, o gato cabea do co e o
+gallo cabea do gato. Joo deu o signal, e estoirou uma o ornear do
+jumento, os latidos do co, o miar do gato e os gritos estridentes do
+gallo.
+
+--Agora, bradou Joo, fingindo que commandava um destacamento, carregar
+armas! Dae-me cabo dos ladres; fogo!
+
+No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando
+cada vez mais; os ladres atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo
+precipitadamente por uma porta falsa.
+
+Joo e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um
+excellente jantar, e deitaram-se em seguida--Joo n'uma cama, o burro na
+cavallaria, o co n'uma esteira ao p da porta, o gato junto do fogo e
+o gallo n'um poleiro.
+
+Ao principio os ladres ficaram muito contentes, por se verem sos e
+salvos na floresta. Mas depois, comearam a reflectir.
+
+--Era bem melhor a minha cama, do que esta erva to humida, disse um
+d'elles.
+
+--Tenho pena do frango que eu comeava a saborear, disse um outro.
+
+--E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.
+
+--E o que mais lamentavel, exclamou um quarto, ficar-nos l todo o
+dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das
+gavetas.
+
+--Vou ver se torno l a entrar? disse o capito.
+
+--Bravo! exclamaram os ladres.
+
+E poz-se a caminho.
+
+J no havia luz na casa; o capito entrou s apalpadellas, e dirigiu-se
+para o fogo; o gato saltou-lhe cara e esfarrapou-lh'a com as garras.
+Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
+rabo do co, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
+por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo
+atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas.
+
+--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capito, como poderei eu sair!
+
+Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
+parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do cho.
+
+Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que no tinha nem
+pernas nem braos partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.
+
+--Ento? ento?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.
+
+--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para
+me deitar e cataplasmas de linhaa para pr n'este corpo, que o trago
+n'um feixe. No podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado
+por uma velha que estava a cardar l, e arrumou-me na cara com o
+cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta,
+um demonio d'um remendo atravessou-me as pernas com a sovella. Logo
+depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaando-me com as garras.
+Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocs me no
+acreditam, vo l, e experimentem.
+
+--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
+ensanguentado: No seremos ns que l tornaremos.
+
+Pela manh, Joo e os seus camaradas almoaram ainda excellentemente, e
+partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladres
+lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos,
+com que carregou o jumento. Foram andando, andando, at que chegaram
+porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com
+uma libr esplendida, meias de seda, cales escarlates e cabello
+empoado.
+
+Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a Joo.
+
+--Que vindes aqui buscar? No ha lugar para os recolher, vo-se embora?
+
+--No queremos nada de ti, respondeu Joo. O dono do castello far-nos-ha
+um bom acolhimento.
+
+--Fra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
+andar immediatamente, quando no atiro-lhes j s pernas os meus ces de
+fila.
+
+--Perdo, s um instante, replicou o gallo empoleirado na cabea do
+jumento; no me poderias dizer quem que abriu aos ladres na noite
+passada a porta do castello?
+
+O porteiro crou. O conde que estava janella, disse-lhe:
+
+-- Bernab, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.
+
+--Senhor, replicou Bernab, este gallo um miseravel. No fui eu que
+abri a porta aos seis ladres.
+
+--Como ento, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?
+
+Seja como for, disse Joo, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
+pedindo-lhe unicamente que nos d de jantar e nos recolha esta noite,
+porque vimos canados do caminho.
+
+--Ficae certos que sereis bem tratados.
+
+O burro, o co e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na
+cosinha. E emquanto a Joo, o conde reconhecido, vestiu-o dos ps
+cabea com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e
+disse-lhe:
+
+--Queres ficar comigo? s esperto e honrado, sers o meu intendente.
+
+Joo acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha me para o p de si.
+Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.
+
+
+
+
+*O rabequista*
+
+
+Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma
+egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.
+
+As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O
+vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro,
+feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava
+constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi l em romaria
+um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
+sido muito longa, estava canado, e j no seu alforge no havia po nem
+dinheiro no bolso para o comprar.
+
+Assim que entrou na capella, comeou a tocar na sua rabeca com tal
+suavidade, com tanta expresso, que a santa ficou enternecida ao vel-o
+to pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa
+Cecilia abaixou-se, descalou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o
+ao pobre musico, que tonto d'alegria, danando, cantando, chorando,
+correu loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o
+sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o presena do
+juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado morte.
+
+Chegra o dia da execuo. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
+poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim no
+chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como
+ultima graa, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca at ao ultimo momento.
+O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam
+supplicou o triste desgraado, que o levassem l dentro para tocar a sua
+derradeira melodia.
+
+Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
+ajoelhou aos ps da santa, e debulhado em lagrimas comeou a tocar.
+Ento o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de
+novo, descalar o outro sapato e mettel-o nas mos do infeliz musico.
+vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o
+rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente
+prestar-lhe as mais honrosas homenagens.
+
+
+
+
+*Os pecegos*
+
+
+Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos
+magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos,
+extasiaram-se diante das suas cres e da fina penugem que os cubria.
+noite o pae perguntou-lhes:
+
+--Ento comeram os pecegos?
+
+--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroo, e hei
+de plantal-o para nascer uma arvore.
+
+--Fizeste bem, respondeu o pae, bom ser economico e pensar no futuro.
+
+--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mam ainda me deu
+metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.
+
+--Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade no admira;
+espero que quando fores maior te has de corrigir.
+
+--Pois eu c, disse um terceiro, apanhei o caroo que o meu irmo deitou
+fra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
+o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for
+cidade.
+
+O pae meneou a cabea:
+
+--Foi uma ida engenhosa, mas eu preferia menos calculo.
+
+--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?
+
+--Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho,
+ao Jorge, que est coitadinho com febre. Elle no o queria, mas
+deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora.
+
+--Ora bem, perguntou o pae, qual de vs que empregou melhor o pecego
+que eu lhe dei?
+
+E os trs pequenos disseram uma:
+
+--Foi o mano Eduardo.
+
+Este no entanto no dizia palavra, e a me abraou-o com os olhos
+arrazados de lagrimas.
+
+
+
+
+*A urna das lagrimas*
+
+
+Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
+adorava sobre todas as coisas. No se separava d'ella um s momento; mas
+um dia a pobre pequerrucha comeou a soffrer, adoeceu e morreu. A
+desditosa me, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
+momento, cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades.
+No comia, no fazia seno chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
+acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido,
+abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua
+querida filha, sorrindo com uma expresso angelica e trazendo nas mos
+uma urna, que vinha cheia at s bordas.
+
+--Oh! minha querida me, disse-lhe ella, no chores mais. Olha, o anjo
+das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais,
+transbordar, e as tuas lagrimas correro sobre mim, inquietando-me no
+tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso.
+
+A pequenina desappareceu, e a me no tornou a chorar para a no
+affligir.
+
+
+
+
+*Reconhecimento e ingratido*
+
+
+Os vossos filhos sero para vs como vs tiverdes sido para vossos paes.
+E natural. As creanas veem diariamente o que fazem seus paes, e
+imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a
+beno ou a maldio d'um pae cae sobre a cabea de seus filhos,
+terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem
+ser meditados.
+
+Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
+satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois
+d'algumas perguntas, soube que o campo no pertencia ao homem, mas que
+trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O
+principe, que para as suas despezas d'administrao e representao
+necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
+como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima
+satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeo, que lhe respondeu:
+
+Gasto diariamente comigo a tera parte d'essa quantia; outro tero
+para pagar as minhas dividas; e o resto para ir juntando algumas
+economias.
+
+Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o
+d'este modo.
+
+Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que j no podem
+trabalhar, e com os meus filhos, que ainda no teem fora para isso. Aos
+primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
+infancia; e espero que os segundos no me abandonem, quando os annos
+tiverem pesado sobre mim.
+
+O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se
+da educao de seus filhos; e a beno que lhe deram os seus velhos
+paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando
+egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicao.
+
+Mas posso desgraadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma
+maneira to indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve
+de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato
+recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde
+foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
+muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima
+esmola, um par de lenoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
+O mau filho escolheu os lenoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de
+dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
+notou que a creana ao partir tinha escondido um dos lenoes a um canto,
+atraz da porta.
+
+Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo.
+
+Foi, respondeu a creana desabridamente, para me servir mais tarde
+d'este lenol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital.
+
+
+
+
+*O fato novo do sulto*
+
+
+Era uma vez um sulto, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento.
+
+Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
+theatro, no tinha outro fim seno mostrar os seus fatos novos. Mudava
+de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Est no conselho;
+dizia-se d'elle: Est-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
+muito alegre, graas quantidade d'estrangeiros que por ali passavam;
+mas chegaram l um dia dois larapios, que, dando-se por teceles,
+disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. No
+s eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas alm
+d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade
+maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos
+aquelles que no exercessem bem o seu emprego.
+
+--So vestuarios impagaveis, disse comsigo o sulto; graas a elles,
+saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
+dos ministros. Preciso d'esse estofo!
+
+E mandou em seguida adiantar aos dois charlates uma quantia avultada,
+para que podessem comear os trabalhos immediatamente.
+
+Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que
+trabalhavam, apesar de no haver absolutamente nada nas lanadeiras.
+Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
+muito bem guardado, trabalhando at meia noite com os teares vasios.
+
+--Preciso saber se a obra vae adiantada.
+
+Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo no podia ser visto pelos
+idiotas. E, apesar de ter confiana na sua intelligencia, achou prudente
+em todo o caso mandar alguem adiante.
+
+Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
+estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.
+
+--Vou mandar aos teceles o meu velho ministro, pensou o sulto; tem um
+grande talento, e por isso ninguem pde melhor do que elle avaliar o
+estofo.
+
+O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
+com os teares vasios.
+
+--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, no vejo
+absolutamente nada! Mas no entanto calou-se. Os dois teceles
+convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinio sobre os
+desenhos e as cres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
+olhava, mas no via nada, pela raso simplicissima de nada l existir.
+
+--Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? necessario que
+ningum o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas l
+confessar que no vejo nada, isso que eu no confesso.
+
+--Ento que lhe parece? perguntou um dos teceles:
+
+--Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este
+desenho... estas cores... magnifico!... Direi ao sulto que fiquei
+completamente satisfeito.
+
+--Muito agradecido, muito agradecido, disseram os teceles; e
+mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma
+descripo minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois
+repetir tudo ao sulto.
+
+Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
+precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no
+bolso, claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam
+sempre.
+
+Passado algum tempo, mandou o sulto um novo funccionario, homem
+honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a
+este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e no
+via nada.
+
+--No acha um tecido admiravel? perguntaram os tratantes, mostrando o
+magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente
+de no existir.
+
+--Mas que diabo! eu no sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois no serei
+eu capaz de desempenhar o meu lugar? exquisito! mas deixal-o, no o
+deixo eu.
+
+Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admirao pelo
+desenho e o bem combinado das cores.
+
+-- d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sulto. E toda a
+cidade comeou a fallar d'esse tecido extraordinario.
+
+Emfim o proprio sulto quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande
+acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois
+honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois
+velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de
+especie alguma.
+
+--No acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho
+e as cores so dignos de vossa alteza.
+
+E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam
+podessem ver alguma cousa.
+
+--Que isto! disse comsigo mesmo o sulto, no vejo nada! horrvel!
+serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraa que me
+acontece! Depois de repente exclamou: magnifico! Testemunho-vos a
+minha satisfao.
+
+E meneou a cabea com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
+atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do
+mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto
+repetiam como o sulto: magnifico! At lhe aconselharam a que se
+apresentasse com o fato novo no dia da grande procisso. magnifico!
+encantador! admirvel! exclamavam todas as bocas, e a satisfao era
+geral.
+
+Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
+teceles.
+
+Na vespera do dia da procisso passaram a noite em claro, trabalhando
+luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
+cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio,
+e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido.
+
+O sulto com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores
+levantando um brao, como para sustentar alguma cousa, disseram:
+
+Eis as calas, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha;
+ a principal virtude d'este tecido.
+
+--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.
+
+--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios,
+provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.
+
+O sulto despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calas,
+depois a casaca, depois o manto. O sulto tudo era voltar-se defronte do
+espelho.
+
+--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezos.
+Que desenho! que cores! que vesturio incomparavel!
+
+Nisto entrou o gro-mestre de ceremonias.
+
+--Est porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir procisso,
+disse elle.
+
+--Bom! estou prompto, respondeu o sulto. Parece-me que no vou mal.
+
+E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do
+seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, no
+querendo confessar que no viam absolutamente nada, fingiam arregaal-a.
+
+E, emquanto o sulto caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a
+gente na rua e s janellas exclamava: Que vestuario magnifico! Que
+cauda to graciosa! Que talhe elegante! Ninguem queria dar a perceber,
+que no via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
+Nunca os fatos do sulto tinham sido to admirados.
+
+--Mas parece que vae em cuecas, observou um pequerrucho, ao collo do
+pae.
+
+-- a voz da innocencia, disse o pae.
+
+--Ha ali uma creana que diz que o sulto vae em cuecas.
+
+Vae em cuecas! vae em cuecas! exclamou o povo finalmente.
+
+O sulto ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era
+verdade. Entretanto tomou a energica resoluo de ir at ao fim, e os
+camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
+imaginaria.
+
+
+
+
+*Boa sentena*
+
+
+Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma
+quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil ris
+d'alviaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
+camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:
+
+--Deviam ser oitocentos mil ris, que foi a quantia que eu perdi; no
+alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
+adiantados os cem mil ris d'alviaras: estamos pagos por conseguinte.
+
+O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, no podia nem
+devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
+que, vendo a m f do avarento, deu a seguinte sentena:
+
+--Um de vs perdeu oitocentos mil ris; o outro encontrou um alforge
+apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o
+ultimo encontrou no pde ser o mesmo a que o primeiro se julga com
+direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
+encontraste, e guarda-o at que apparea o individuo que perdeu smente
+setecentos mil ris. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, que
+tenhas paciencia at que apparea alguem que tenha achado os teus
+oitocentos mil ris.
+
+
+
+
+*Os animaes agradecidos*
+
+
+Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
+perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este
+respondeu:
+
+--Senhor: eu sou um desgraado, um miseravel; nasci no vosso reino, e
+chamo-me _Ingratido_.
+
+--Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
+servio.
+
+O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
+Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se
+to esperto e to solicito, que o rei affeioou-se-lhe de tal modo, que
+o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administrao da sua casa.
+Deslumbrado por uma fortuna to rapida, o seu orgulho desde ento no
+conheceu limites; maltratava os inferiores, e no tinha compaixo dos
+desventurados.
+
+Ora, na visinhana do palacio havia uma floresta cheia d'animaes
+selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a
+parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
+dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
+floresta, ia to absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
+precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.
+
+Passado um instante, caiu um leo dentro do mesmo poo; caiu depois um
+lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
+governador, ao ver-se em to extraordinaria companhia, ficou to
+horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperana de
+salvao lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
+ninguem o vinha soccorrer.
+
+Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
+chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha floresta, para
+ganhar o po necessario sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem
+l foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar no longe da
+cova em que cara o intendente, cujos gritos d'afflico no tardou a
+ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
+ali.
+
+--Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto
+encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leo, d'um lobo e d'uma
+enorme serpente.
+
+--Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, no tendo para
+sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava
+um dia perdido para me causar um grande desarranjo; v l pois, se
+cumpres a tua promessa?
+
+O intendente continuou:
+
+--Pela f que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
+cumprirei a minha palavra.
+
+Confiado n'isto o rachador de lenha foi cidade, e voltou com uma corda
+muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leo atirou-se a
+ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
+o intendente.
+
+Quando chegou acima, o leo agradeceu ao seu salvador com a maior
+amabilidade, e foi-se embora procura de jantar, porque tinha fome.
+
+Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poo, e, julgando tirar o
+governador, enganou-se, porque era o lobo; terceira vez subiu a
+serpente; foi necessrio fazer uma quarta tentativa, para sair o
+governador. Este no perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
+para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou mulher tudo o
+que se tinha passado, no lhe esquecendo, claro, as brilhantes
+promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manh, foi o pobre
+homem bater porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.
+
+--Faa-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex. o intendente
+que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.
+
+O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:
+
+--Vae dizer a esse homem, que eu no vi ninguem na floresta; que se
+ponha a andar, porque o no conheo.
+
+O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.
+
+O pobre homem tornou para casa mui descoroado, e contou mulher a
+odiosa perfidia de que tinha sido victima.
+
+A mulher disse-lhe:
+
+--Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e
+foi talvez por isso que te no pde receber.
+
+Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanas.
+
+Na manh seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo porta do palacio.
+Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que no tornasse
+ali a apparecer, quando no ver-se-hia obrigado a empregar meios
+violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:
+
+--Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o
+inspire melhor. E se assim no for, ainda que te custe, no penses mais
+n'isso.
+
+No dia seguinte o bom do homem voltou carga; e tendo o porteiro
+consentido fora de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este
+encolerisado atirou-se praguejando fra do quarto, e crivou o pobre
+homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do
+cho. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um
+burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
+levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se
+obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente
+tinha recobrado algumas foras, voltou ao bosque segundo o costume para
+fazer alguma lenha. Apenas l chegou, appareceu-lhe o leo, que elle
+tinha ajudado a sair do poo. O leo conduzia um burro diante de si, e
+este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leo,
+vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso
+agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal
+de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal
+para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico.
+
+No dia seguinte, voltando de novo floresta, appareceu-lhe o lobo, que
+o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto
+lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado
+o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha
+tirado do fjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em
+que brilhavam trs cres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a
+serpente chegou ao p do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
+d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio
+levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
+propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho,
+afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
+assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia.
+Antonio respondeu-lhe que a no queria vender, mas simplesmente saber se
+seria boa.
+
+O velho respondeu:
+
+--So trs as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria
+imperturbavel e luz sem trevas. Se algum t'a comprar por menos dinheiro
+do que vale, tornar immediatamente para a tua mo.
+
+Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
+sciencia maravilhosa, e correu a contar mulher a sua felicidade. Como
+se imagina, graas virtude da famosa pedra, no lhe faltaram d'ahi em
+diante, nem honras nem riquezas.
+
+Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou
+chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman.
+
+Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:
+
+--Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me no for paga
+pelo que vale, tornar ella mesma para o meu poder.
+
+--Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.
+
+E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manh,
+Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
+disse-lhe:
+
+--Torna a leval-a ao rei immediatamente; no v elle persuadir-se que
+lh'a furtaste.
+
+O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou presena de sua
+magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
+preciosa.
+
+--Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro,
+fechado com sete chaves, disse o rei.
+
+Antonio mostrou-lhe ento a joia preciosa, e o rei ficou
+extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido
+semelhante thesouro.
+
+Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratido do governador e o
+reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
+intendente, e disse-lhe:
+
+--Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratido_,
+porque s mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste
+com o mal o bem que te fizeram. Mas justia ser feita. Dou a Antonio as
+tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
+enforcado.
+
+Admiraram todos a sentena do rei, e Antonio desempenhou as suas altas
+funces com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
+escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos
+gloriosos.
+
+
+
+
+*O ermito*
+
+
+Um homem, animado pela mais ardente crena religiosa, deliberou
+retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao
+trabalho da sua salvao. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
+seus pensamentos no se desviavam nunca da ida de Deus. Depois de ter
+assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que j tinha
+merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os
+santos mais notaveis.
+
+Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:
+
+--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
+e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.
+
+O ermito, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
+seu bordo, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:
+
+--Irmo, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que oraes e
+penitencias te tornaste agradavel a Deus.
+
+--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabea, santo padre, no
+zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a oraes no as sei,
+pobre de mim, que sou um peccador. O que fao andar de casa em casa a
+divertir os outros.
+
+O austero ermito continuou a insistir:
+
+--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum
+acto de virtude.
+
+--Em verdade no poderia citar nem um s.
+
+--Mas ento como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
+loucamente como os que exercem a tua profisso? Dissipaste frivolamente
+o teu patrimonio e o producto do teu officio?
+
+--No; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
+filhos tinham sido condemnados escravido para pagar uma divida. Essa
+mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa,
+protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a
+sua familia, e levei-a cidade, onde ella devia encontrar-se com seu
+marido e com seus filhos. Mas quem no teria feito outro tanto?
+
+A estas palavras o ermito poz-se a chorar, e exclamou:
+
+--Nos meus setenta annos de solido nunca pratiquei uma obra to
+meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu no
+passas d'um pobre musico.
+
+
+
+
+*Carlos Magno e o abade de S. Gall*
+
+
+Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
+preguiosamente reclinado sobre almofadas porta da abadia, fresco,
+rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e
+activos, e o abade era indolente. Alm d'isso o imperador tinha mais
+d'um motivo de queixa contra elle.
+
+--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter
+sua esclarecida raso tres perguntas, s quaes ter a bondade de me
+responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sesso solemne do
+nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
+dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
+em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+rev.^{ma} vier minha presena, pensamento que deve ser um erro. Trate
+d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, alis deixa de ser abade de S.
+Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada
+para o rabo.
+
+O abade no sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
+os doutores mais famosos pela sua sciencia, no lhe souberam dar
+resposta. No entanto os dias iam correndo, e a poca fatal
+aproximava-se; j no faltava seno um mez, j no faltavam seno
+semanas, e afinal s dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e
+anafado, estava magro como um esqueleto. Perdra o somno e o appetite.
+Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraa, quando se
+encontrou com o seu pastor.
+
+--Bons dias senhor abade. Parece que est mais magro! Est doente?
+
+--Estou, meu caro Felix, estou muito doente.
+
+--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.
+
+--Infelizmente no so ervas que eu preciso, mas resposta s minhas tres
+perguntas.
+
+-- ento latim?
+
+--No, no latim, seno os doutores tinham-me arranjado tudo.
+
+--Visto que no latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que : minha me
+era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.
+
+Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o
+barrete ao ar, e disse-lhe:
+
+--Se apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
+pde continuar a engordar; mas para isso necessario que eu vista o seu
+habito.
+
+Quando chegou o dia, o pastor disfarado com o habito do abade de S.
+Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
+imperial.
+
+--Ento, senhor abade, parece que est mais magro, deu-lhe muito que
+pensar a chave do enigma? Vamos l a ver a primeira pergunta: Quanto
+valho eu em dinheiro?
+
+--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por
+trinta dinheiros, sua magestade vale justa vinte e nove, s um
+dinheiro menos.
+
+--Bravo, senhor abade, a resposta habil, e na realidade no posso
+deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos segunda pergunta, no ha de
+ser to facil dar a resposta. Vamos l a ver: quanto tempo levaria eu a
+dar a volta ao mundo?
+
+--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
+constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
+quatro horas.
+
+--Decididamente, v. rev.^{ma} um grande finorio, e d'esta vez,
+confesso-me vencido; mas a terceira, no d'essas que se responde com
+supposies. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha
+de provar que este pensamento um erro? Tem a palavra senhor abade.
+
+--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; est
+enganado, porque eu sou o seu pastor.
+
+--Mas ento tu que deves ser o abade de S. Gall, e desde j o ficas
+sendo.
+
+--No sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor,
+peco-lhe outra cousa.
+
+--No tens mais que fallar.
+
+--Peo a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.
+
+Carlos Magno no era homem que faltasse sua palavra.
+
+
+
+
+*A boneca*
+
+
+Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma
+boneca!
+
+No ha muitos annos, mas ainda no era a cordoaria do Porto o ameno
+jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o
+sorriso do sol, sem que lhe ennegrea o espirito a vista dos dois
+monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades,
+que podem aniquillar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda no ha
+muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
+feira, divertindo-me a meu modo.
+
+Canado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella
+especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo,
+quando novos personagens me chamaram a atteno.
+
+Eram os meus visinhos _ricos_.
+
+Aqui preciso uma rapida explicao.
+
+Das famlias da minha visinhana, s conheo tres.
+
+Qual d'estas tres familias ser mais feliz?...
+
+Pelo que tenho notado, no tem que invejar umas s outras.
+
+So todas felizes; cada qual a seu modo.
+
+Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_.
+
+Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapu na mo e
+dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou,
+tomou nos braos a filhinha e depol-a no cho, e offerecendo, em
+seguida, a mo esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e
+com a menina para a barraca onde eu estava.
+
+No havia ali segredo a surprehender.
+
+Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
+parecia agradecer quella formosa criana a manifestao de qualquer
+desejo.
+
+No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a
+felicidade de dez crianas menos abastadas.
+
+Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca...
+_rica_.
+
+Faltava apenas a dona da casa--a boneca.
+
+Todo risos e attenes, o logista apresentou o que tinha de melhor.
+
+Depois de muita hesitao e de, j com os olhos, j com a voz, consultar
+a mam, a gentil creana acabou por escolher uma magnifica boneca de
+dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues.
+
+Uma boneca como as outras: cabea e collo de massa, corpo de pellica
+recheada, braos e pernas de pu.
+
+Uma vive na loja da casa, que habito. uma tribu de crianas, que fazem
+o martyrio e a alegria da pobre me, e tem por chefe um honrado
+sapateiro.
+
+Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
+anjos, caidos do co sobre um monte de lama.
+
+So os meus visinhos _pobres_.
+
+A segunda compe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa
+immediata.
+
+ como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_.
+
+A filha que ter dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas,
+cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem
+presso.
+
+So os meus visinhos _remediados_.
+
+A terceira a dos meus visinhos _ricos_.
+
+Casa nobre, jardim espaoso, cavallos, creados, nome inscripto nas
+listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+estado--nada falta quella ditosa gente!
+
+Compe-se egualmente de marido, mulher e filha.
+
+Que formosa criana!... Ter oito annos.
+
+Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e
+scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mos de dedos compridos e
+esguios, terminados por unhas d'uma cr de rosa transparente, que no
+sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a
+crescer--que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos.
+
+Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas
+aquellas preciosidades de sobre o balco da barraca para dentro do
+carro.
+
+A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criana.
+
+Sa d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo at casa variadissimas
+consideraes, suggeridas pela quasi indiferena, com que aquella menina
+recebra brinquedos, que representavam um par de moedas.
+
+Que contraste com os olhares de cubia, com que outras raparigas da
+mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabea de panno, horrivel
+artefacto portuguez, em que os olhos so representados por dois pontos
+de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por
+outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de l preta!
+
+Quando cheguei a casa, j na dos meus visinhos remediados no havia luz.
+
+Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
+tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
+provocavam os ralhos da me.
+
+Quando, no dia seguinte, cheguei janella, seriam onze horas da manh.
+
+Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na
+casa immediata no se via ninguem--estava a pequena na mestra; no
+palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
+divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma
+linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos.
+
+Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.
+
+--Ahi est a tua caricatura, minha feiticeira!...--disse eu de mim
+para mim. Ensaias nas bonecas o que vs no mundo a que pertences!...
+Ests a aprender a copiar... Sempre este mundo!...
+
+Retirei-me da janella.
+
+Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.
+
+A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
+vestia tres e quatro vezes!
+
+Ao que eu, porm, achava mais graa, era ao respeito com que a dona a
+tratava!
+
+Chamava-lhe sr. D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente
+com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que
+se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma.
+
+Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos
+_ricos_--ouvi um grito de susto.
+
+Era devido a um accidente, a que est sujeito quem anda de carro.
+
+Voltra-se este, e a boneca cara, ferindo a fronte na pedra da janella.
+
+O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo,
+porm, que a ferida havia forosamente de deixar cicatriz, e
+lembrando-se de que s lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
+nova, agarrou-a pelos ps e ia atiral-a com despeito rua, quando mais
+perto de mim bradou voz timida e suplicante:
+
+No atire!... D-m'a.
+
+Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu no dra f at
+ento.
+
+Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
+lanou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.
+
+Vendo uma criana, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
+encolhendo os hombros, respondeu:
+
+--J no presta!... Est esmurrada!...
+
+-- o mesmo!... D-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
+cubia.
+
+--Dou...--volveu a rica, encolhendo novamente os hombros.
+
+E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mos da
+visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse
+despedaar-se nas lages da rua.
+
+Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
+outra, para mostrar me a que ella ainda no podia acreditar, que
+fosse sua!
+
+Por espao de mezes foi a boneca a principal occupao da nova dona.
+
+A pobre perdra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro
+vezes em quatro horas!... J lhe no davam excellencia! Chamavam-lhe
+sr. D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da
+creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
+estranhas para ella!
+
+E a desgraada perdia as cres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
+azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
+se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma!
+
+Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
+ainda no poderia enganar olhos pouco conhecedores.
+
+No tardou, porm, que arrebiques de mo gosto, fitas velhas, rendas
+amarelladas, chapos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do
+vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira.
+
+Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle
+as ondulaes do _moir_, at que, um bello dia, vi a boneca vestida de
+cassa---no inverno!--chaile e manta na cabea.
+
+Muito mal lhe ficava aquillo!... quella boneca custava-lhe de certo o
+vr-se to mal arranjada.
+
+Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei:
+
+-- justo!... Cada qual segundo as suas posses.
+
+Por esse tempo, entrei em relaes com o meu visinho sapateiro.
+
+O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
+faziam logo ao amanhecer, e aproveitra a primeira occasio, para me
+pedir desculpa.
+
+Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
+aproximar-se de ns e, desde ento, nunca saio de casa nem entro, sem
+grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.
+
+Entre os filhos do sapateiro, porm, ha uma pequenita d'onze annos, com
+quem sympathisei logo primeira vista.
+
+Chama-se Maria.
+
+Por um d'estes acasos da Providencia, que parece s vezes comprazer-se
+em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmos.
+
+Acostumado s travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
+fiquei devras pasmado quando o pai m'a apresentou.
+
+E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criana, porque havia
+verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: Esta a
+minha Maria!
+
+E tinha razo!
+
+No podia ser mais discreta do que j n'esse tempo era.
+
+-- quem vale me!...--accrescentou o velho.--Ali, onde a v, faz o
+servio d'uma mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve
+doente--bem pensei que no arribasse!--a pequena era quem cosinhava e
+olhava pelos irmos!... E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella
+pequena esteve tres dias sem se deitar... ali... ao p da me! Foi
+preciso eu obrigal-a, que ella no a queria deixar!...
+
+E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que,
+havia muito, hesitava sobre se sim ou no se devia despenhar.
+
+Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
+cabea coberta por um leno branco.
+
+Desde que o pai me deu to boas informaes da rapariga, nunca mais
+passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias
+pequena.
+
+Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
+deitada nos joelhos.
+
+--Eu conheo aquella boneca!...--disse eu de mim para mim.
+
+E, no podendo resistir curiosidade, bradei:
+
+-- Maricas!... Quem te deu a boneca?...
+
+Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, crando de prazer.
+
+Era escusado dizer-m'o.
+
+Maria pegara na boneca e voltra-a de face para mim. No podia
+duvidar... Era ella; l estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel
+na fronte.
+
+De tempos a tempos, nas raras horas de descano, Maria entretinha-se com
+ella.
+
+--Quem te viu e quem te v!...--pensava eu.
+
+s vezes, se Maria se descuidava e os irmos lh'a podiam apanhar, que
+tratos que sofria a desgraada!
+
+Roada por aquellas mos, de que um carvoeiro se envergonharia,
+empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim,
+singularissimo o aspecto da triste!
+
+Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a
+fraternisar com o povo.
+
+A misera mudra mais uma vez de nome!...
+
+De sr. D. Anna passara a ser sr. Rosinha e tratavam-n'a por vocemec.
+
+Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e leno na cabea.
+
+Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
+a boneca.
+
+Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
+encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre
+boneca a lastimar-se por estar tudo to caro, por haver falta de
+trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que
+mais familiares eram pequena.
+
+Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a,
+mandavam-n'a buscar agua fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
+acabavam por a despedir.
+
+J o leitor v que, apesar da bondade Maria, deixra de ser feliz.
+
+Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho!
+
+Desmaiada de cres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos,
+desfeito o carmim dos labios, a boneca no promettia longa durao.
+
+Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi,
+tentando em vo agradar ultima dona que o seu destino lhe dera.
+
+Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!
+
+Um dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
+espadanava em cacho para cima dos passeios, arastando na passagem mil
+immundicies.
+
+Eu estava porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
+melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
+partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto... Um objecto,
+arremessado de dentro da loja, atravessou o espao voando, e foi cair no
+leito do enxurro...
+
+Olhei... Era a boneca!...
+
+A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo at esbarrar n'uma
+pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou
+quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traado entre a pedra e
+o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, at ir sumir-se nas
+profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!
+
+Ser pieguice, ser o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me
+impressionou o fim da pobre boneca.
+
+Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado vidraa do
+sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
+
+--Porque deitaste fra a boneca, Maricas!?
+
+--No fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...
+
+--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...
+
+--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
+feia!...
+
+Curvei a cabea ante aquella razo, e segui o meu caminho.
+
+Pobre boneca!
+
+
+
+
+*Inconveniente da riqueza*
+
+
+Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi
+surprehendido pela noite entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para
+outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam j
+todas fechadas, no se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo
+estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual
+com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso
+Senhor dirigiu-se para l, chegou ao p do muro d'uma quinta, e bateu
+porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.
+
+--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
+No se havia de arrepender.
+
+E accrescentou:
+
+--Visto que j todos esto deitados, para que que voc est ainda a
+trabalhar?
+
+--Ora, respondeu o camponez, soube hontem noite que ia ser perseguido
+por um credor desapiedado, se lhe no pagasse manh o que lhe devo,
+portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
+o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto no nos fica
+nada, e no sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus
+quizer!
+
+Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mo pelos
+olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve d d'elle, e disse-lhe:
+
+--No desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que no te
+havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.
+
+Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e
+approximou-a do trigo.
+
+--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a
+tudo!
+
+Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se,
+de cada espiga, desceu uma chuva de gros prodigiosa. vista d'um tal
+milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos.
+
+--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
+pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, sers
+recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, Deus que te
+enriquece.
+
+Dito isto desappareceu.
+
+E a chuva dos gros no parou em toda a noite, e fez um monte to alto
+como a egreja.
+
+O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella
+casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e
+seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que
+se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
+ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera
+enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o
+enriquecra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na
+candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a
+casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais
+absoluta.
+
+
+
+
+*Querer poder*
+
+
+--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por
+experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima verdadeira.
+
+Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.
+
+--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e
+solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
+vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caa_. Tomei
+uma grande resoluo. Quero casar com a filha do rei.
+
+O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.
+
+O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
+semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, at que o rei ouviu
+fallar o rapaz da sua louca pretenso. Surprehendido com uma ida to
+extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:
+
+--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia,
+pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes so
+os teus titulos? Para seres o marido de minha filha necessario que te
+distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
+extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor
+incalculavel. Aquelle que o encontrar obter a mo de minha filha.
+
+O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
+rio; logo de manh comeava a tirar agua com um balde pequeno, e
+deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
+horas, punha-se a resar.
+
+Os peixes inquietos ao verem to grande tenacidade, e receiando que
+chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.
+
+--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.
+
+--Encontrar um diamante que caiu ao rio.
+
+--Ento, respondeu o velho rei, sou d'opinio que lh'o entreguem, porque
+vejo qual a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar
+as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.
+
+Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
+do rei.
+
+
+
+
+*Qual ser rei?*
+
+
+Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
+successor. Reuniu-se a crte, e decidiu-se que a cora devia pertencer,
+no ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.
+
+Resolveram alm d'isso que o cadaver do rei fosse posto de p contra um
+muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle
+alvo, seria o escolhido para successor.
+
+Comeou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
+tempo, e a flecha foi atravessar a mo esquerda do defuncto. O principe
+soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmos atirariam per, e que
+por conseguinte seria elle quem viria a reinar.
+
+O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
+alegre do que o outro principe.
+
+O terceiro varou o corao de seu pae, e os seus gritos de triumpho
+quasi que chegavam ao co, porque lhe parecia impossivel acertar melhor.
+
+Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mos as
+flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
+longe de si, e desatou a chorar:
+
+--Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jmais
+consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mo de teus
+proprios filhos!
+
+Os grandes da crte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais
+digno.
+
+
+
+
+*Os tres vos de Maria*
+
+
+O primeiro vo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve.
+Bordra-o com as suas mos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
+seda to bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em
+cima.
+
+Este vo branco s o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communho.
+
+O segundo vo de Maria era de l negra. Principiou-o no mesmo dia em que
+sua me lhe morrra, deixando-a ssinha, sem amparo, na casa triste e
+abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de
+marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas
+lagrimas.
+
+O vo negro s o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de
+Jesus no convento da Ave-Maria.
+
+O terceiro vo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado
+d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.
+
+Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou
+no paraizo.
+
+
+
+
+*Os pequenos no bosque*
+
+
+Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
+outros, que no havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: Vamos
+para o bosque que encontremos l toda a especie de lindos bichinhos, que
+no fazem outra cousa seno brincar, e ns brincaremos com elles.
+
+Foram logo, e passaram sem fazer caso ao p da activa formiga e da
+abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar,
+disse-lhes:
+
+--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
+outra j no est solida.
+
+--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provises para o inverno.
+
+--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu
+ninho.
+
+--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocs, mas ainda
+hoje no lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
+minha _toilette_.
+
+E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
+a saltar e a tagarellar, tambem no queres brincar comnosco?
+
+--Estes pequenos so tolos, disse o regato. Como? Vocs ento imaginam
+que eu no tenho que fazer? De noite ou de dia, no descano nem um
+momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, s colinas,
+aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios,
+tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje
+acabra, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. No posso perder
+um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.
+
+Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um
+pintasilgo, em cima d'um ramo.
+
+--Olha! tu, que no tens nada que fazer, queres brincar comnosco?
+
+--Nada que fazer? vocs esto a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo
+o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho alm d'isso que tomar
+parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o
+meu chilrear, e tenho que adormecer as creanas com uma outra cantiga,
+que noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora,
+preguiosos, ide cumprir o vosso dever, e no tornem a vir incommodar os
+habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.
+
+Os pequenos aproveitaram a lio, e comprehenderam que o prazer s
+ligitimo, quando a recompensa do trabalho.
+
+
+
+
+*O chapellinho encarnado*
+
+
+Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
+me e sua av adoravam extremosamente. A boa da avsinha, que passava o
+tempo a imaginar o que poderia agradar neta, deu-lhe um dia um chapo
+de veludo vermelho. A pequenita andava to contente com o seu chapo
+novo, que j no queria pr outro, e comearam a chamar-lhe a menina do
+chapellinho encarnado.
+
+A me e a av moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
+legua de comprido. Uma manh a me disse pequenita:
+
+--Tua av est doente, e no pde vir vr-nos. Eu fiz estes doces, vae
+levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado no quebres a
+garrafa, no andes a correr, vae devagarinho e volta logo.
+
+--Sim, mam, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.
+
+Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se
+a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita,
+que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.
+
+--Bons dias, chapellinho encarnado.
+
+--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.
+
+--Onde vaes to cedo?
+
+--A casa da minha av que est doente.
+
+--E levas-lhe alguma cousa?
+
+--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
+dar foras.
+
+Dize-me onde mora a tua, av, que tambem a quero ir ver.
+
+-- perto, aqui no fim da floresta. Ha ao p uns carvalhos muito
+grandes, e no jardim ha muitas nozes.
+
+--Ah! tu que s uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava
+de te comer. Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e
+que lindos passarinhos. Como bom passear nas florestas, e ento que
+quantidade de plantas medicinaes que se encontram!
+
+--O senhor, com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita,
+visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma
+que fizesse bem a minha av.
+
+--Com certeza, minha filha, olha, aqui est uma, e esta tambem, e
+aquella. Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas
+venenosas. A pobre creana, queria-as apanhar para as levar a sua av.
+
+--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
+grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.
+
+E poz-se a correr em direco da casa da av, emquanto que a pequerrucha
+se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado.
+
+Quando o lobo chegou porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
+av no se podia levantar da cama, e perguntou: Quem est ahi?
+
+-- o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da
+pequerrucha. A mam manda-te bolos e uma garrafa de vinho.
+
+--Procura debaixo da porta disse a av, que encontrars a chave.
+
+Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira,
+e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama.
+
+Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a
+porta aberta, porque sabia o cuidado com que a av a costumava ter
+fechada.
+
+O lobo tinha posto uma touca na cabea, que lhe escondia uma parte do
+focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.
+
+--Ai! avsinha, disse a creana, porque tens tu as orelhas to grandes?
+
+-- para te ouvir melhor, minha filha.
+
+--E porque ests com uns olhos to grandes?
+
+-- para te vr melhor.
+
+--E para que ests com os braos to grandes?
+
+-- para te poder abraar melhor.
+
+--E Jesus! para que tens hoje uma bca to grande e uns dentes to
+agudos?
+
+-- para te comer melhor. A estas palavras o lobo arremessou-se pobre
+pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e comeou a
+resonar muito alto. Um caador que passava por acaso, perto da casa, e
+que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha est com um
+pesadelo, est peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa. Entra, e
+v o lobo estendido na cama.
+
+--Ol, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.
+
+Armou a sua espingarda, mas parando logo: No, disse elle, no vejo a
+dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o
+animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
+cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e
+saltou para o cho, gritando:
+
+--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!
+
+A av saiu tambm contentissima por ver outra vez a luz do dia.
+
+O lobo continuava a dormir profundamente, e o caador metteu-lhe ento
+duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a av e a
+neta para verem o que se ia passar.
+
+Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se
+para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
+no podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e
+affogou-se.
+
+O caador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha
+e a sua neta. A velha sentia-se remoar, e o chapellinho encarnado
+prometteu no tornar a passar na floresta, quando sua me lh'o
+prohibisse.
+
+
+
+
+*Os cinco sonhos*
+
+
+Andando um dia Carlos Magno caa com uma comitiva numerosa, perseguiu
+um veado, que dava taes saltos, e corria por tal frma, que, apesar da
+ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi s
+ento que viu que estava s, tendo a sua crte ficado muito para traz;
+sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria
+no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladres.
+Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
+entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe
+quizeram logo contar.
+
+O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:
+
+--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro pessoa que acaba de entrar
+aqui, e punha-o na minha cabea.
+
+--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraa.
+
+--E eu que estava pondo o seu manto.
+
+--E eu, disse o quarto ladro, para lhe fazer favor, passava em roda do
+meu pescoo aquella pesada cadeia d'ouro, da qual est pendurada a sua
+trompa de caa.
+
+--Vejo bem, disse o imperador, que teem teno de me roubar tudo, e
+mesmo a vida. Reconheo que estou em poder de vocs, e que toda e
+qualquer resistencia seria inutil. No lhes peo seno uma cousa, que
+me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caa.
+
+Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido
+d'um moribundo deve ser respeitado.
+
+Carlos Magno levou boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou
+d'ella sons to fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os
+seus companheiros de caa e a sua comitiva estavam ao p d'elle.
+
+--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem
+eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocs todos iam ser
+enforcados diante d'este casebre.
+
+E o sonho realisou-se immediatamente.
+
+
+
+
+*A egreja do rei*
+
+
+Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da
+Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para
+a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se
+concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do
+marmore uma inscripo em letras d'ouro, que dizia que s elle, e mais
+ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite
+seguinte o nome do rei foi apagado da inscripo, e substituido por o
+d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
+pr o seu nome na inscripo, e de novo foi substituido pelo da pobre
+mulher; terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou
+ento que lhe trouxessem a mulher sua presena:
+
+--Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem
+fosse com o que fosse para a edificao d'esta egreja; vejo que no
+cumpriste as minhas ordens.
+
+--Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas
+ordens, apesar da magua que sentia por no poder offerecer o meu
+pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei no desobedecer a vossa
+magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
+que eu levava s escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas
+ construco da egreja.
+
+--O teu nome mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na
+inscripo do monumento, disse-lha o rei.
+
+Mas na noite seguinte uma mo invisivel restabeleceu na lapide da egreja
+o nome do rei, que desde ento l se conserva ainda.
+
+
+
+
+*O valente soldado de chumbo*
+
+
+Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmos, por todos
+terem nascido da mesma colher de chumbo. Vde-os: que attitude marcial,
+d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos!
+A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da
+caixa em que elles estavam, foi este grito: Olha soldados de chumbo!
+que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado
+de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a
+mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
+maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
+menos, porque o tinham deitado na frma em ultimo lugar, e j no havia
+chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros no estavam mais
+firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e este o que
+precisamente nos interessa.
+
+Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
+brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de
+papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos sales.
+ volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia
+poeticamente n'um pedao d'espelho que fingia um lago, onde nadavam
+pequeninos cysnes de cra. Tudo isto era encantador, mas no tanto como
+uma menina que estava porta, e que era tambem de papel, vestida com um
+lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
+tinha os braos arqueados, porque era danarina, e tinha uma perninha
+levantada a tal altura, que o soldado de chumbo no a podia ver, e
+imaginou que, como elle, no tinha seno uma perna.
+
+--Ali est a mulher que me convm, pensou elle, mas uma grande
+fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e
+quatro camaradas, e no haveria c lugar pura ella. No entantanto
+preciso conhecel-a.
+
+Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver sua vontade a
+elegante danarina, que estava sempre n'um p s, sem perder o
+equilibrio.
+
+ noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas
+da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, comearam
+a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de
+chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam l ir; mas
+como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes comeou a dar cabriolas
+e saltos mortaes, o lapis traou mil arabescos phantasticos n'uma louza,
+emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar.
+Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a
+danarinasinha. Ella no bico do p, e elle n'uma perna s, a
+espreital-a.
+
+Deu meia noite, e zs, a tampa da caixa de rap levanta-se, e em lugar
+de rap, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza.
+
+--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
+sitio.
+
+Mas o soldado fez que no ouvia.
+
+--Espera at manh, e vers o que te acontece, continuou o feiticeiro.
+
+No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de
+chumbo janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por
+causa do vento caiu rua de cabea para baixo. Que tombo! Ficou com a
+perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta
+enterrada entre duas lages.
+
+A creada e o rapazito foram l abaixo procural-o, mas estiveram quasi a
+esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: Cautella!
+tel-o-am achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva
+comeou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois
+do aguaceiro passaram dois garotos.
+
+--Ol! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o
+navegar.
+
+Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de
+chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois
+garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
+Que fora de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava
+d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
+impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro.
+
+De repente o barco foi levado para um cano, onde era to grande a
+escurido como na caixa dos soldados.
+
+--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me
+metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina
+estivesse no barco, no importava, ainda que a escurido fosse duas
+vezes maior.
+
+D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do
+cano.
+
+--Venha o teu passaporte.
+
+Mas o soldado de chumbo no disse nada, e agarrou com mais fora na
+espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
+rangendo os dentes, e gritando s palhas, e aos cavacos:--Faam-n'o
+parar, faam-n'o parar! No pagou a passagem, no mostrou o passaporte.
+
+Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via j a luz do dia, e
+sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente.
+Havia na extremidade do cano uma queda d'agua to perigosa para elle,
+como para ns uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem
+poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lanou-se sobre a
+queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se
+atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.
+
+O barco, depois de ter andado roda durante muito tempo, encheu-se
+d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua j chegava ao pescoo do
+soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
+agua passou por cima da cabea do nosso heroe. N'esse momento supremo,
+pensou na gentil danarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:
+
+--Soldado: o perigo enorme, a morte espera-te.
+
+O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi
+devorado por um grande peixe.
+
+L que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E alm d'isso, que
+talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado
+estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro.
+
+O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, at que emfim
+parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia,
+e alguem exclamou:
+
+--Olha um soldado de chumbo!
+
+O peixe tinha sido pescado, exposto na praa, vendido, e levado para a
+cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
+soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
+gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na
+barriga d'um peixe. No entretanto o soldado no se sentia orgulhoso.
+Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto verdade que acontecem
+cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de cuja
+janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam
+em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel danarina sempre de perna
+no ar. O soldado de chumbo ficou to commovido, que de boa vontade teria
+derramado lagrimas de chumbo, mas no era conveniente. Olhou para ella,
+ella olhou para elle, mas no disseram uma palavra um ao outro.
+
+De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no
+fogo; eram obras do feiticeiro da caixa do rap.
+
+O soldado de chumbo l estava perfilado, allumiado por um claro
+sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as cres lhe tinham
+desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas
+viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
+danarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre
+intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma
+porta, o vento arremeou a danarina ao fogo para junto do soldado, que
+desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, j no era mais
+que uma pequena massa informe.
+
+No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um
+objecto que tinha o feitio d'um pequeno corao de chumbo, e tudo o que
+restava da danarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha
+ennegrecido.
+
+
+
+
+*Joo Pateta*
+
+
+Joo era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A
+gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira Joo Pateta. Um dia sua me
+mandou-o feira comprar uma foice. volta, comeou a andar com a foice
+ roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.
+
+--Pateta, disse-lhe sua me, o que deverias ter feito era pr a foice em
+um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.
+
+--Perdo, me, respondeu humildemente Joo, para a outra vez serei mais
+esperto.
+
+Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que
+as no perdesse.
+
+--Fique descanada. E voltou todo orgulhoso.
+
+--Ento, Joo, onde esto as agulhas?
+
+--Ah! esto em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a
+passar o carro do visinho carregado de palha; metti l as agulhas, no
+podem estar em sitio melhor.
+
+--De certo, esto em lugar de tal modo seguro, que no ha meio de as
+tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapo.
+
+--Perdo, respondeu Joo, para a outra vez, heide ser mais esperto.
+
+Na outra semana, por um dia de calor, Joo foi d'ali uma legua comprar
+uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua me, poz a
+manteiga dentro do chapo e o chapo na cabea. Imagine-se o estado em
+que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.
+
+A me j tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia
+resolveu-se a mandal-o feira vender duas gallinhas.
+
+--Ouve bem, no vendas pelo primeiro preo. Espera que te offeream
+outro.
+
+--Est entendido, respondeu Joo.
+
+Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.
+
+--Queres seis tostes por essas gallinhas?
+
+--Ora adeus! minha me recommendou-me, que no acceitasse o primeiro
+preo, mas que esperasse o segundo.
+
+--E tens muita raso. Dou-te um cruzado.
+
+--Est bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro,
+mas, como cumpro as ordens de minha me, ella no tem que me ralhar.
+
+Depois d'isto, Joo foi condemnado a ficar em casa. Sua me sabia que
+mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manh quiz fazer uma
+experiencia, e disse-lhe:
+
+--Vae vender este carneiro feira. Mas no te deixes enganar. No o
+entregues seno a quem te der o preo mais elevado.
+
+--Est bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.
+
+--Quanto queres por esse carneiro?
+
+--Minha me disse-me que o no vendesse seno pelo preo mais elevado.
+
+--Quatro mil ris?
+
+-- o preo mais elevado?
+
+--Pouco mais ou menos.
+
+-- minha a l e o carneiro, disse um rapaz que trepra a uma escada.
+
+--Quanto?
+
+--Dez tostes:
+
+-- menos, respondeu timidamente o Joo.
+
+--Sim, mas vs at onde chega esta escada. Em toda a feira no ha um
+preo mais elevado.
+
+--Tem raso. seu o carneiro.
+
+Desde esse dia o Joo Pateta no tornou a ser encarregado de vender ou
+comprar cousa alguma.
+
+
+
+
+*Branca de Neve*
+
+
+Era uma vez uma rainha, que se lastimava por no ter filhos. Um dia
+d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'bano olhando de vez em
+quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no cho,
+distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.
+
+--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beios to vermelhos
+como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros
+como este bano.
+
+Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu luz uma filha,
+que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo to branco,
+que lhe chamavam Branca de Neve. Porm esta feliz me no gozou muito
+tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
+d'uma grande belleza, e d'um orgulho no menos extraordinario. Era to
+formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
+vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho
+magico dizia-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual a mulher mais linda que ha no
+mundo?
+
+--s tu, respondia o espelho.
+
+No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
+formosa. Tinha apenas sete annos, e j ninguem a podia ver sem ficar
+maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
+espelho, disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual a mulher mais linda que ha no
+mundo?
+
+--No s tu, no s tu. Branca de Neve mais linda.
+
+A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no corao uma dr aguda,
+como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela
+innocente Branca. No podia socegar nem de dia, nem de noite. Para
+satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe:
+
+--Quero quo Branca desapparea. Conduze-a floresta, mata-a, e, para me
+provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o
+corao.
+
+O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e
+dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creana chorava e
+lamentava-se, e pedia-lhe que a no matasse, porque ella no tinha feito
+mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas
+lagrimas, no teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se
+as feras a devorassem a culpa no era d'elle, mas sim da rainha. Assim
+fez, e para mostrar o corao de Branca rainha, matou um cabrito, e
+tirou-lhe o corao. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou
+contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma
+mulher no mundo to bella como eu.
+
+A pobre Branca, abandonada na floresta, no tinha morrido, mas estava
+cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os ps nas pedras, e
+andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
+tambem via animaes ferozes. Mas as feras no lhe faziam mal algum, o
+deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.
+
+ noite chegou ao p d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome
+e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
+limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de
+brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,
+e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
+do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
+deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.
+
+Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
+pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
+que tinham gente em casa. Um d'elles disse:
+
+--Quem comeu o meu po?
+
+E os outros successivamente:
+
+--Quem pegou no meu garfo?
+
+--Quem comeu o meu caldo?
+
+--Quem bebeu o meu vinho?
+
+E emfim um d'elles:
+
+--Quem est ahi deitado na minha cama?
+
+Reuniram-se todos roda do pequeno leito em que dormia Branca. luz
+das lanternas viram o doce rosto da creana, que dormia tranquillamente,
+e affastaram-se sem fazer bulha, para a no accordar. Branca no dia
+seguinte de manh ficou um pouco assustada, quando viu perto de si
+aquelles sete anes das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura,
+que no tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava.
+Branca contou a sua triste historia, e os anes disseram-lhe:
+
+--Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?
+
+--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.
+
+Comeou logo o seu servio, e continuou-o regularmente todos os dias.
+Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anes iam trabalhar para as
+minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.
+
+Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que j no
+tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
+e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, no verdade que eu sou agora a mulher mais linda
+que ha no mundo?
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca est nas sete
+montanhas, e Branca mais linda do que tu.
+
+Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,
+e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que
+modo? Uma manh partiu desfarada em vendedeira ambulante, com um cesto
+cheio d'objectos de phantasia. Foi direita s sete montanhas, e bateu
+porta da casinha, gritando: Quem quer comprar bonitas joias?
+
+Os anes tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras
+estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser
+prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no
+cesto, esqueceu-se das suas promessas.
+
+--Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao
+pescoo.
+
+Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
+anes voltaram, viram a infeliz Branca estendida no cho e completamente
+inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas
+gotas d'um licor amarello. Branca comeou a respirar, voltou a si pouco
+a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.
+
+--Pdes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira no era
+outra pessoa, seno a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, no deixes
+entrar aqui ninguem, quando no estivermos em casa.
+
+Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do
+espelho, e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho: Qual agora a mulher mais linda que ha no mundo?
+Responde.
+
+E o espelho respondeu:
+
+--s tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca est
+nas sete montanhas, e Branca mais linda do que tu.
+
+A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
+infeliz Branca. Tornou-se a disfarar em vendedeira. Chegou s sete
+montanhas, e bateu porta da cabana.
+
+--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu janella, e respondeu:
+
+--V-se embora, aqui no entra ninguem.
+
+--Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. J
+viu outro to bonito?
+
+Branca no poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a
+porta.
+
+--Oh! minha linda menina, deixe-me pr-lh'o na cabea.
+
+Ao dizer isto enterrou-lhe na cabea o pente, que estava envenenado, e
+Branca caiu morta.
+
+ noite quando regressaram os anes, acharam-n'a pallida e fria.
+Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e
+tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.
+
+No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio.
+Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que
+o espelho respondeu como antecedentemente.
+
+--Ah! preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me
+sacrificar.
+
+Vestiu-se de camponeza com um cesto de mas. Entre ellas havia uma que
+estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu porta da cabana.
+
+--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?
+
+--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, no deixo entrar
+ninguem, nem compro coisa alguma.
+
+--Est bem, no faltar quem compre estas ricas mas. Mas por ser to
+bonita, quero dar-lhe uma.
+
+--Obrigada, no posso acceitar.
+
+--Imagina que est envenenada. Olhe, eu vou comer um pedao. Ah! que boa
+que ! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora
+mordia no lado da ma, que no estava envenenado. Branca deixou-se
+tentar, levou boca o outro pedao, e caiu fulminada.
+
+--Ahi tens, para castigo da tua formosura.
+
+Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e
+perguntou-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, quem agora a mulher mais linda?
+
+E o espelho respondeu:
+
+--s tu, s tu.
+
+--At que emfim!
+
+Os anes estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o
+licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
+fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos
+da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas no podiam
+acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto to tranquillo,
+as suas faces to frescas, parecia que estava a dormir. No quizeram
+enterral-a. Metteram-n'a n'um caixo de cristal, e escreveram em cima.
+Aqui jaz a filha d'um rei; puzeram o caixo n'uma das sete montanhas,
+e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
+assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais
+pequena alterao.
+
+Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar
+caa, viu o caixo, e pediu aos anes que lh'o cedessem, fosse por preo
+que fosse.
+
+--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixo, que
+ o nosso thesouro.
+
+--Ento dem-m'o, j no posso viver sem contemplar este rosto de
+mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me
+faam isto.
+
+Os anes, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixo para
+o levarem. Um d'elles tropeou n'uma raiz, e o caixo soffreu um
+balano, que fez cair o bocado da ma envenenada, que Branca no tinha
+engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O
+joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O
+casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e
+rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de
+Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos
+os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:
+
+--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Branca mais formosa que tu.
+
+A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes
+fossem descobertos, que morreu de repente.
+
+Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de
+princesa no se esqueceu dos anes que tinham sido os seus bemfeitores.
+
+
+
+
+*A rapariguinha e os phosphoros*
+
+
+Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de
+dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escurido
+passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabea descoberta e os
+ps descalos. verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas
+tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua me j
+tinha usado, to grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua
+a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
+quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a inteno de fazer
+d'elle um tero para o seu primeiro filho.
+
+A pequenita caminhava com os psinhos ns, arroxeados pelo frio; tinha
+no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na
+mo um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; no tinha havido
+compradores, e por isso no apurra cinco ris.
+
+Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
+longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoo; mas
+pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?
+
+As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos
+manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.
+
+Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
+vez mais, mas no se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia,
+porque no tinha vendido os seus phosphoros. Alm d'isso em sua casa
+fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento
+atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
+mosinhas j quasi que as no sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso
+lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o
+aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como
+ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que
+luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro
+de ferro, cujo lume magnifico aquecia to suavemente, que era um regalo.
+
+A pequerrucha ia j a estender os psitos para os aquecer tambem, quando
+a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mo uma
+pontita de phosphoro consumido.
+
+Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu
+a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse
+muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha
+alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha
+assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume
+delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do
+prato, e cau no cho ao p da pequerrucha, com o garfo e a faca
+espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de
+si a parede fria e tenebrosa.
+
+Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo
+de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a
+que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem
+sumptuoso.
+
+Nos ramos verdes brilhavam centenares de bales accesos, e as estampas
+coloridas, como as que ha s portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.
+Quando ia agarral-as com as duas mos, apagou-se o phosphoro; todos os
+bales da arvore do Natal comearam a subir, a subir, e viu ento que se
+tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo
+um longo rasto de fogo.
+
+-- algum que est a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua av, que
+lhe queria tanto, mas que j morrera, dissera-lhe muitas vezes: Quando
+cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.
+
+Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe
+appareceu sua av, de p, com um ar radioso e suavissimo.
+
+--Minha av, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes
+embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecers como a panella de
+ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.
+
+Accendeu o rosto do masso, porque no queria que sua av lhe fugisse, e
+os phosphoros espalharam um claro mais vivo que a luz do dia. Nunca sua
+av tinha sido to formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas
+alegres, no meio d'este deslumbramento, voram to alto, to alto, que
+j no tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso.
+
+Mas quando rompeu a fria madrugada, encontrram a pequerrucha, entre os
+dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios...
+morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu
+alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que
+faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se,
+disse um homem que passou. E ninguem soube nunca as lindas coisas que
+ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
+velha av no dia do Anno Novo.
+
+
+
+
+*O primeiro peccado de Margarida*
+
+
+Chamava-se Margarida, e estavam espera d'ella no co, porque Deus
+tinha dito:-- uma boa alma, e, como l em baixo no mundo lhe pde
+acontecer alguma desgraa, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.
+
+Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como
+ella; todos os dias ao acordar resava as oraes, que sua me lhe tinha
+ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como no tinha
+joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.
+
+Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.
+
+E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella cano
+d'amor e de gloria, que j emballra muitos beros, e que podia
+sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.
+
+N'uma tarde de vero, estava ella sentada porta de casa fiando linho,
+ hora em que as estrellas comeam a apparecer, uma a uma no firmamento.
+
+Estava Margarida cantando a sua cano, quando passou por alli uma das
+suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo.
+Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
+collar d'ouro que levava ao pescoo; apertou-lhe a mo para que visse
+bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
+contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que
+inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.
+
+O fio de linho j no passava to rapidamente entre os dedos de
+Margarida, a roda cessra o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das
+mos.
+
+Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si
+um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mo um gorro de velludo
+preto, com uma pluma vermelha, da cr do fogo. O cavalleiro saudou-a
+respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
+perguntou-lhe:
+
+--Qual o caminho da cidade?
+
+Margarida estendeu a mo para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se
+tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma
+estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que
+o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se ento com
+um sorriso estranho e diabolico.
+
+N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
+Margarida, e pediu-lhe uma esmola.
+
+Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraado.
+
+O cavalleiro ento, soltando um grito de colera, ia lanar-se sobre
+Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda
+disfarado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto Satans, que
+tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.
+
+
+
+
+*Um nome inscripto no co*
+
+
+Era uma vez um pobre mendigo, que bateu porta d'uma humilde cabana a
+pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas no vendo, nem
+ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu
+ento uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:
+
+--Ai! no te posso dar nada, porque nada tenho.
+
+E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater mesma
+porta.
+
+--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, j te disse que no tenho nada
+que te dar.
+
+--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.
+
+E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
+cima da meza, muitos bocados de po e algumas moedas de dez ris, que
+lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.
+
+--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se
+embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.
+
+No sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-ho no
+Paraizo, e mais tarde ns o viremos a saber.
+
+
+
+
+*O linho*
+
+
+O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e
+transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre
+elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o
+d'um filho quando a me o lava e lhe d um beijo.
+
+--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
+e serei brevemente uma rica pea de panno. Sinto-me feliz. No ha
+ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello
+futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
+feliz, feliz a mais no poder ser!
+
+--Como s ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu no conheces o
+mundo, de que ns outras temos uma larga experiencia.
+
+E rangendo lastimosamente, cantaram:
+
+ --Cric, crac! cric, crac! crac!
+ --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+--No to cedo como vocs imaginam, respondeu o linho; est uma bella
+manh, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+florir. Sou muitissimo feliz.
+
+Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
+cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de
+pol. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e
+depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade!
+
+--No se pde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; necessario
+soffrer, o soffrimento a me da experiencia.
+
+Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o,
+cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois,
+puzeram-n'o n'uma roca, e ento perdeu a cabea inteiramente.
+
+--Era feliz de mais, pensava o desgraado linho no meio d'aquellas
+torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.
+
+E ainda estava dizendo--perdidas, e j o estavam a metter no tear e a
+transformal-o n'uma pea de panno.
+
+--Isto extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que
+grandes tolas aquellas silvas quando cantavam:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Agora que eu principio a viver. Padeci muito, verdade, mas por isso
+tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me to forte, to alto,
+to macio! Ah! isto bem melhor do que ser planta, mesmo florida,
+ninguem trata da gente, e no bebemos outra agua a no ser a da chuva.
+Agora o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as
+manhs, e noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura
+fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
+melhor pea da parochia. No posso ser mais feliz.
+
+Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o s thesouras. Cortaram-n'o e
+picaram-n'o com uma agulha. No era l muito agradavel, mas em
+compensao fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.
+
+--Agora decididamente comeo a valer alguma coisa. O meu destino
+abenoado, porque sou util n'este mundo. preciso isso para se viver em
+paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaos, verdade, mas formamos um
+s grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade!
+
+O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.
+
+--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas no
+se fazem impossiveis.
+
+E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
+finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaados, fervidos, sem
+adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel
+branco magnifico.
+
+--Oh que agradvel surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino
+do que d'antes, e vo cobrir-me de letras. O que no escrevero em cima
+de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!
+
+E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de
+numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores.
+
+--Ora aqui est uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
+quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
+ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! No sei
+explicar o que me est acontecendo, mas verdade. Deus sabe
+perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
+sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, at chegar maior gloria.
+Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: Acabou-se, acabou-se
+tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou
+viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
+instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora
+as minhas flores so os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,
+immensamente feliz!
+
+Mas o papel no foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que l
+estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
+que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
+papel no teria prestado o mesmo servio, ainda que desse a volta roda
+do mundo. A meio caminho j estaria gasto.
+
+-- justo, disse o papel, no tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou
+ser considerado como um velho av! fui eu que recebi as letras, as
+palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os
+livros vo por esse mundo fra. A sua misso realmente bella, e eu
+estou contente, e julgo-me feliz.
+
+O papel foi empacotado, e lanado para uma estante.
+
+--Depois do trabalho agradvel o descano, pensou elle. n'este
+isolamento que a gente aprende a conhecer-se. S d'hoje em diante que
+eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a ns mesmo a verdadeira
+perfeio. Que me ir ainda acontecer? Progredir, est claro.
+
+Passados tempos, o papel foi atirado ao fogo para o queimarem, porque o
+que o no queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as
+creanas da casa se pozeram roda; queriam vel-o arder, e ver tambm,
+depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir,
+e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel
+foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande
+chamma, que se erguia to alto, to alto como o linho nunca ergura as
+suas flores azues; a pea de panno nunca tinha tido um brilho
+semilhante.
+
+Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
+palavras, todas as idas desappareceram em linguas de fogo.
+
+--Vou subir at ao sol; dizia uma voz no meio da lavareda, que
+pareciam mil vozes reunidas n'uma s. A chamma saiu pela chamin, e no
+meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do
+homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.
+Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu,
+quando no restava do papel seno a cinza negra, ainda elles danavam
+sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas
+encarnadas.
+
+As creanas cantavam roda da cinza inanimada:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Mas cada um dos pequeninos seres dizia: No, no se acabou; agora que
+ o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.
+
+As creanas no poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas
+tambem no era necessario, porque as creanas no devem saber tudo.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+*INDICE*
+
+
+A me
+O ouro
+Doura e bondade
+O malmequer
+No quero
+Piloto
+O rico e o pobre
+Como um camponez aprendeu o Padre Nosso
+O talisman
+A alma
+Alberto
+A cano da cerejeira
+Os gigantes da montanha e os anes da plancie
+A creana, o anjo e flr
+Presente por presente
+O pinheiro ambicioso
+Perfeio das obras de Deus
+Joo e os seus camaradas
+O rabequista
+Os pecegos
+A urna das lagrimas
+Reconhecimento e ingratido
+O fato novo do sulto
+Boa sentena
+Os animaes agradecidos
+O ermito
+Carlos Magno e o abade de S. Gall
+A boneca
+Inconveniente da riqueza
+Querer poder
+Qual ser rei?
+Os trs vos de Maria
+Os pequenos no bosque
+O chapellinho encarnado
+Os cinco sonhos
+A egreja do rei
+O valente soldado de chumbo
+Joo Pateta
+Branca de Neve
+A rapariguinha e os phosphoros
+O primeiro peccado de Margarida
+Um nome inscripto no co
+O linho
+
+
+[A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade,
+residente no Rio de Janeiro.]
+
+
+
+
+
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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+
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+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+
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+Foundation
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+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+works.
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
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+
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+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+*** END: FULL LICENSE ***
+
+
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index 0000000..8c52816
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+++ b/old/16429-8.zip
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+++ b/old/16429-h.zip
Binary files differ
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+++ b/old/modern/contos.htm
@@ -0,0 +1,10351 @@
+<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-transitional.dtd">
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+<head>
+
+
+
+
+
+ <title>Contos para a Inf&acirc;ncia Escolhidos dos Melhores Autores</title>
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+
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the<br />original version, already available at Project Gutenberg. / Actualiza&ccedil;&atilde;o<br />ortogr&aacute;fica da vers&atilde;o original, j&aacute; dispon&iacute;vel no Project Gutenberg.)<br /><br /><br />NOTA: Este texto tem duas vers&otilde;es em l&iacute;ngua portuguesa de acordo com o<br />livro original, a que pode ser aceder clicando numa das seguintes op&ccedil;&otilde;es:<br /> <a href="../../16429-8.txt"><big><b>TEXT</b></big></a> <a href="../16429.htm"><big><b>HTML</b></big></a><br /></pre>
+
+
+<div>
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h1>CONTOS</h1>
+
+
+<h2>PARA A</h2>
+
+
+<h3>INF&Acirc;NCIA</h3>
+
+
+<h2>ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES</h2>
+
+
+<h2>POR </h2>
+
+
+<h1>GUERRA JUNQUEIRO</h1>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2>LISBOA</h2>
+
+
+<h4>TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOM&Aacute;S QUINTINO ANTUNES,<br />
+
+
+IMPRESSOR DA CASA REAL</h4>
+
+
+<h2>Rua dos Calafates, 110</h2>
+
+
+<h2>1877</h2>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2> <a name="1"></a>A m&atilde;e</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estava uma m&atilde;e muito aflita, sentada ao p&eacute; do
+ber&ccedil;o do seu filho, com
+medo que lhe morresse. A criancinha p&aacute;lida tinha os olhos
+fechados.
+Respirava com dificuldade, e &agrave;s vezes t&atilde;o
+profundamente, que parecia
+gemer; mas a m&atilde;e causava ainda mais l&aacute;stima do
+que o pequenino
+moribundo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto bateram &agrave; porta, e entrou um pobre homem muito velho,
+embu&ccedil;ado
+numa manta de arrieiro. Era no Inverno. L&aacute; fora estava tudo
+coberto de
+neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre homem tremia de frio; a crian&ccedil;a adormecera por
+alguns instantes,
+e a m&atilde;e levantou-se a p&ocirc;r ao lume uma caneca com
+cerveja. O velho
+come&ccedil;ou a embalar a crian&ccedil;a, e a m&atilde;e,
+pegando numa cadeira, sentou-se
+ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
+vez com mais dificuldade, pegou-lhe na m&atilde;ozinha descarnada e
+disse para
+o velho:<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! Nosso Senhor n&atilde;o mo h&aacute;-de levar!
+n&atilde;o &eacute; verdade?&#8213;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[4]</span>E o velho, que era a
+Morte, meneou a cabe&ccedil;a duma maneira estranha, em
+ar de d&uacute;vida. A m&atilde;e deixou pender a fronte para o
+ch&atilde;o, e as l&aacute;grimas
+corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso
+de
+cabe&ccedil;a; estava sem dormir havia tr&ecirc;s dias e
+tr&ecirc;s noites. Passou
+ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a
+tremer de frio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que &eacute; isto! exclamou, lan&ccedil;ando &agrave;
+volta de si o olhar alucinado. O
+ber&ccedil;o estava vazio. O velho tinha-se ido embora,
+roubando-lhe a crian&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pobre m&atilde;e saiu precipitadamente, gritando pelo filho.
+Encontrou uma
+mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. &laquo;A Morte
+entrou-te em
+casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
+depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a
+entregar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Por onde foi ela? gritou a m&atilde;e. Diz-mo pelo amor de
+Deus!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto.
+Mas s&oacute; to ensino, se me cantares primeiro todas as
+can&ccedil;&otilde;es que cantavas
+ao teu filho. S&atilde;o lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou
+a Noite e
+muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em l&aacute;grimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a m&atilde;e. Agora
+n&atilde;o me
+demores, porque quero encontrar o meu filho.&#8213;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A Noite ficou silenciosa. A m&atilde;e ent&atilde;o, desfeita
+em l&aacute;grimas, come&ccedil;ou a
+cantar. Cantou muitas can&ccedil;&otilde;es, mas as
+l&aacute;grimas foram mais do que as
+palavras.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[5]</span>No fim disse-lhe a
+Noite: &laquo;Toma &agrave; direita, pela floresta escura de
+pinheiros. Foi por a&iacute; que a Morte fugiu com o teu
+filho.&raquo;
+<br />
+
+
+A m&atilde;e correu para a floresta; mas no meio dividia-se o
+caminho, e n&atilde;o
+sabia que direc&ccedil;&atilde;o havia de seguir. Diante dela
+havia um matagal,
+cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
+cristalizada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="break">
+<hr /> </div>
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o viste a Morte que levava o meu filho?&raquo;
+perguntou-lhe a m&atilde;e.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vi, respondeu o matagal, mas n&atilde;o te ensino o caminho,
+sen&atilde;o com a
+condi&ccedil;&atilde;o de me aqueceres no teu seio, porque
+estou gelado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a m&atilde;e estreitou o matagal contra o
+cora&ccedil;&atilde;o; os espinhos
+dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se
+de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite
+de Inverno frigid&iacute;ssima, tal &eacute; o calor
+febricitante do seio duma m&atilde;e
+angustiosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
+andando, at&eacute; que chegou &agrave; margem dum grande lago,
+onde n&atilde;o havia nem
+barcos, nem navios. N&atilde;o estava suficientemente gelado para
+se andar por
+ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo,
+querendo encontrar o seu filho, era necess&aacute;rio
+atravess&aacute;-lo. No del&iacute;rio
+do seu amor, atirou-se de bru&ccedil;os a ver se poderia beber toda
+a &aacute;gua do
+lago. Era imposs&iacute;vel, mas lembrava-se que Deus, por
+compaix&atilde;o, faria
+talvez um milagre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[6]</span>&#8213;N&atilde;o!
+n&atilde;o &eacute;s capaz de me esgotar, disse o lago.
+Sossega, e
+entendamo-nos
+amigavelmente. Gosto de ver p&eacute;rolas no fundo das minhas
+&aacute;guas, e os teus
+olhos s&atilde;o dum brilho mais suave do que as p&eacute;rolas
+mais ricas que eu
+tenho possu&iacute;do. Se queres, arranca-os das &oacute;rbitas
+&agrave; for&ccedil;a de chorar, e
+levar-te-ei &agrave; estufa grandiosa, que est&aacute; do outro
+lado: essa estufa &eacute; a
+habita&ccedil;&atilde;o da Morte; e as flores e as
+&aacute;rvores que est&atilde;o l&aacute; dentro,
+&eacute; ela
+quem as cultiva; cada flor e cada &aacute;rvore &eacute; a vida
+duma criatura
+humana.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! o que n&atilde;o darei eu, para reaver o meu filho!&raquo;
+disse a m&atilde;e. E
+apesar de ter j&aacute; chorado tantas l&aacute;grimas, chorou
+com mais amargura do
+que nunca, e os seus olhos destacaram-se das &oacute;rbitas e
+ca&iacute;ram no fundo
+do lago, transformando-se em duas p&eacute;rolas, como ainda as
+n&atilde;o teve no
+mundo uma rainha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O lago ent&atilde;o ergueu-a, e com um movimento de
+ondula&ccedil;&atilde;o depositou-a na
+outra margem, aonde havia um maravilhoso edif&iacute;cio, com mais
+de uma l&eacute;gua
+de comprido. De longe n&atilde;o se sabia se era uma
+constru&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica ou
+uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre m&atilde;e
+n&atilde;o podia ver nada;
+tinha dado os seus olhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu
+filho!&raquo; bradou
+ela desesperada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;A Morte ainda n&atilde;o chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que
+andava dum
+lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
+vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus &eacute; misericordioso. <span class="pagenum">[7]</span>Compadece-te
+de mim, e diz-me onde est&aacute; o meu filho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu n&atilde;o o conhe&ccedil;o, e tu &eacute;s cega, disse
+a velha. H&aacute; aqui muitas plantas
+e muitas &aacute;rvores, que murcharam esta noite: a Morte
+n&atilde;o tarda a&iacute; para
+as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste
+s&iacute;tio uma &aacute;rvore ou uma flor, que representam a
+sua vida e que morrem
+com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes,
+sente-se bater um cora&ccedil;&atilde;o. Guia-te por isto, e
+talvez reconhe&ccedil;as as
+pulsa&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o de teu
+filho. E que davas tu por eu te ensinar o
+que tens ainda de fazer?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;J&aacute; n&atilde;o tenho nada que te dar, disse a pobre
+m&atilde;e. Mas irei at&eacute; ao fim
+do mundo buscar o que tu quiseres.&#8213;&laquo;Fora daqui n&atilde;o
+preciso de nada,
+respondeu a velha. D&aacute;-me os teus longos cabelos negros; tu
+sabes que
+s&atilde;o belos, e agradam-me. Troc&aacute;-los-ei pelos meus
+cabelos
+brancos.&raquo;&#8213;N&atilde;o pedes mais nada do que isso? disse a
+m&atilde;e. A&iacute; os tens,
+dou-tos de boa vontade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E arrancou os seus magn&iacute;ficos cabelos, que tinham sido
+outrora o seu
+orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e
+inteiramente brancos da velha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esta levou-a pela m&atilde;o &agrave; grande estufa, onde
+crescia exuberantemente uma
+vegeta&ccedil;&atilde;o maravilhosa. Viam-se debaixo de
+camp&acirc;nulas de cristal jacintos
+mimos&iacute;ssimos ao lado de pe&oacute;nias inchadas e
+ordin&aacute;rias. Havia tamb&eacute;m plantas
+aqu&aacute;ticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em
+cujas ra&iacute;zes
+se enovelavam cobras asquerosas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[8]</span>Mais longe
+erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e pl&aacute;tanos
+frondosos; depois num outro s&iacute;tio isolado havia canteiros de
+salsa,
+tomilho, hortel&atilde; e outras plantas humildes que representavam
+o g&eacute;nero de
+utilidade das pessoas que elas simbolizavam.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
+pareciam rebentar; mas viam-se tamb&eacute;m florzitas
+insignificantes, em
+vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com
+esmero delicad&iacute;ssimo. Tudo isso representava a vida dos
+homens, que a
+essa hora existiam no mundo, desde a China at&eacute; &agrave;
+Groenl&acirc;ndia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a
+m&atilde;e
+impacientada pediu-lhe que a levasse ao s&iacute;tio onde estavam
+as plantas
+pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
+cora&ccedil;&atilde;o, e, depois de ter tocado em milhares
+delas, reconheceu as
+pulsa&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o do seu
+filho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; ele!&raquo; exclamou, lan&ccedil;ando a
+m&atilde;o a um a&ccedil;afroeiro, que, pendido sobre
+a terra, parecia completamente estiolado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o lhe toques, disse a velha. Fica neste s&iacute;tio;
+e quando a Morte
+vier, que n&atilde;o tarda, pro&iacute;be-lhe que arranque esta
+planta; amea&ccedil;a-a de
+arrancar todas as flores que est&atilde;o aqui. A Morte
+ter&aacute; medo, porque tem
+de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu
+consentimento.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto sentiu-se um vento glacial, e a m&atilde;e adivinhou que era
+a Morte,
+que se aproximava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[9]</span>&#8213;Como &eacute;
+que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
+primeiro do que eu! Como o conseguiste?&#8213;&laquo;Sou
+m&atilde;e&raquo; respondeu ela.
+<br />
+
+
+E a Morte estendeu a sua m&atilde;o ganchosa para o pequenino
+a&ccedil;afroeiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas a m&atilde;e protegia-o violentamente com ambas as
+m&atilde;os, tendo o cuidado de
+n&atilde;o ferir uma s&oacute; das pequeninas
+p&eacute;talas. Ent&atilde;o a Morte soprou-lhe nas
+m&atilde;os, fazendo-lhas cair inanimadas. O h&aacute;lito da
+Morte era mais frio do
+que os ventos enregelados do Inverno.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o podes nada comigo!&raquo; disse a Morte.&#8213;Mas Deus
+tem mais for&ccedil;a do que
+tu, respondeu a m&atilde;e.&raquo;&#8213;&laquo;&Eacute;
+verdade, mas eu n&atilde;o fa&ccedil;o sen&atilde;o aquilo
+que
+ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas,
+&aacute;rvores e
+arbustos, quando come&ccedil;am a murchar, transplanto-as para
+outros jardins,
+um dos quais &eacute; o grande jardim do Para&iacute;so.
+S&atilde;o regi&otilde;es desconhecidas;
+ningu&eacute;m sabe o que se l&aacute; passa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Miseric&oacute;rdia! miseric&oacute;rdia! solu&ccedil;ou a
+m&atilde;e. N&atilde;o me roubem o meu filho,
+agora que acabo de o encontrar!&raquo; Suplicava e gemia. A Morte
+conservava-se impass&iacute;vel; agarrou ent&atilde;o
+instantaneamente em duas flores
+lind&iacute;ssimas e disse &agrave; Morte: &laquo;Tu
+desprezas-me, mas olha, vou arrancar,
+despeda&ccedil;ar n&atilde;o s&oacute; esta, mas todas as
+flores que est&atilde;o aqui!<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o as arranques, n&atilde;o as mates, bradou a Morte.
+Dizes que &eacute;s
+desgra&ccedil;ada, e querias ir partir o
+cora&ccedil;&atilde;o de outra m&atilde;e!&#8213;&laquo;Outra
+m&atilde;e!&raquo;
+disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente.
+<span class="pagenum">[10]</span>&#8213;Toma, aqui tens os
+teus olhos, disse a Morte. Brilhavam t&atilde;o suavemente que os
+tirei do lago. N&atilde;o sabia que eram teus.
+Mete-os nas &oacute;rbitas, e olha para o fundo deste
+po&ccedil;o; v&ecirc; o que ias destruir,
+se arrancasses estas flores. Ver&aacute;s passar nos reflexos da
+&aacute;gua, como numa miragem,
+a sorte destinada a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o
+teu filho, se
+porventura vivesse.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Debru&ccedil;ou-se no po&ccedil;o, e viu passar imagens de
+felicidade e alegria,
+quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terr&iacute;veis
+de
+mis&eacute;ria, de ang&uacute;stias e de
+desola&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nisto que eu vejo, disse a m&atilde;e aflit&iacute;ssima,
+n&atilde;o distingo qual era a
+sorte que Deus destinava ao meu filho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em
+tudo isto
+que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu
+filho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&atilde;e desvairada, lan&ccedil;ou-se de joelhos
+exclamando: Suplico-te, diz-me:
+era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? N&atilde;o
+&eacute; verdade! Fala!
+N&atilde;o me respondes? Oh! na d&uacute;vida, leva-o, leva-o,
+n&atilde;o v&aacute; ele sofrer
+desgra&ccedil;as t&atilde;o horr&iacute;veis. O meu querido
+filho! Quero-lho mais que &agrave; minha
+vida. As ang&uacute;stias que sejam para mim. Leva-o para o reino
+dos c&eacute;us.
+Esquece as minhas l&aacute;grimas, as minhas s&uacute;plicas,
+esquece tudo o que fiz
+e tudo o que disse.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te
+entregue o teu
+filho ou que o leve para a regi&atilde;o desconhecida de que
+n&atilde;o posso
+falar-te!&raquo; Ent&atilde;o a m&atilde;e alucinada,
+convulsa, torcendo os bra&ccedil;os,
+deitou-se de joelhos e dirigindo-se <span class="pagenum">[11]</span>a
+Deus exclamou: &laquo;N&atilde;o me ou&ccedil;as,
+Senhor, se reclamo no fundo do meu cora&ccedil;&atilde;o contra
+a tua vontade que &eacute;
+sempre justa! N&atilde;o me atendas meu Deus!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E deixou cair a cabe&ccedil;a sobre o peito, mergulhada na sua
+agonia
+dilacerante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a Morte arrancou o pequenino a&ccedil;afroeiro, e foi
+transplant&aacute;-lo no
+jardim do para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[12]</span>
+<h2><a name="2"></a>O ouro</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de
+ouro,
+empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o
+resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma
+grande
+fome no pa&iacute;s.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
+segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
+e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro,
+com
+que ele ficou todo satisfeito, porque n&atilde;o compreendeu ao
+princ&iacute;pio
+qual era o sentido da rainha; mas, vendo que n&atilde;o lhe traziam
+mais nada
+de comer, come&ccedil;ou a zangar-se. Pediu-lhe ent&atilde;o a
+rainha, que visse bem
+que o ouro n&atilde;o era alimento, e que seria melhor empregar os
+seus
+vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
+traz&ecirc;-los nas minas &agrave; busca do ouro, que
+n&atilde;o mata a fome nem a sede, e
+que n&atilde;o tem outro valor al&eacute;m da
+estima&ccedil;&atilde;o que lhe &eacute; dada pelos homens,
+estima&ccedil;&atilde;o que havia de converter-se em desprezo,
+logo que ouro
+aparecesse em abund&acirc;ncia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A rainha tinha ju&iacute;zo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[13]</span>
+<h2><a name="3"></a>Do&ccedil;ura e bondade</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+H&aacute; entre v&oacute;s, meus filhos, &iacute;ndoles
+violentas, que n&atilde;o sabem dominar-se,
+e que s&atilde;o arrastadas pelas primeiras impress&otilde;es.
+&Eacute; uma p&eacute;ssima
+disposi&ccedil;&atilde;o, que &eacute;
+necess&aacute;rio corrigir; d&aacute; lugar a disputas, e a que
+se
+cometam ac&ccedil;&otilde;es, cujo arrependimento chega
+demasiadamente tarde.
+Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
+dele, volta-se e d&aacute;-lhe uma bofetada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num
+cego!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns
+camponeses grosseiros come&ccedil;aram a apup&aacute;-lo e a
+bater no burro, para o
+fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a
+sua perna aleijada, disse-lhes: &laquo;Se soub&eacute;sseis que
+eu era coxo, n&atilde;o
+ter&iacute;eis sido t&atilde;o covardes.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma
+palavra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que vos parece estas duas li&ccedil;&otilde;es? Estou
+convencido que aproveitaram a
+quem as recebeu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+<h2><a name="4"></a>O malmequer</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ouvi com aten&ccedil;&atilde;o esta pequenina
+hist&oacute;ria!<br />
+
+
+<br />
+
+
+No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+deveis ter visto muitas vezes. H&aacute; na frente um jardinzinho
+com flores,
+rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no
+meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
+olhos vistos, gra&ccedil;as ao sol, que repartia igualmente a sua
+luz tanto por
+ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela
+manh&atilde;, j&aacute; inteiramente aberto, com as folhinhas
+alvas e brilhantes,
+parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe
+dava
+que o vissem no meio da erva e n&atilde;o fizessem caso dele, pobre
+florinha
+insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
+sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira,
+sentia-se t&atilde;o feliz como se fosse um domingo. Enquanto as
+crian&ccedil;as
+sentadas nos bancos da escola estudavam a li&ccedil;&atilde;o,
+ele, sentado na haste
+verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
+o que <span class="pagenum">[15]</span>sentia
+misteriosamente, em sil&ecirc;ncio, julgava ouvi-lo traduzido com
+admir&aacute;vel nitidez nas can&ccedil;&otilde;es alegres
+da cotovia. Por isso p&ocirc;s-se a
+olhar com uma esp&eacute;cie de respeito, mas sem inveja, para essa
+avezinha
+feliz que cantava e voava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Eu vejo e oi&ccedil;o, pensou o malmequer; o sol
+aquece-me e o vento
+acaricia-me. Oh! n&atilde;o tenho raz&atilde;o de me
+queixar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocr&aacute;ticas;
+quanto menos
+aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As d&aacute;lias
+inchavam-se para
+parecerem maiores do que as rosas; mas n&atilde;o &eacute; o
+tamanho que faz a rosa.
+As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se
+pretensiosamente. N&atilde;o se dignavam de lan&ccedil;ar um
+olhar para o pequeno
+malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando:
+&laquo;Como s&atilde;o
+ricas e bonitas! A cotovia ir&aacute; certamente
+visit&aacute;-las. Gra&ccedil;as a Deus,
+poderei assistir a este belo espect&aacute;culo.&raquo; E no
+mesmo instante a
+cotovia dirigiu o seu voo, n&atilde;o para as d&aacute;lias e
+tulipas, mas para a
+relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria n&atilde;o
+sabia o que
+havia de pensar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O passarinho p&ocirc;s-se a saltitar &agrave; roda dele,
+cantando: &laquo;Como a erva &eacute;
+macia! oh! que encantadora florinha, com um
+cora&ccedil;&atilde;o de oiro, vestida de
+prata!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave
+acariciou-o com
+o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do
+firmamento. Durante mais de um quarto de hora n&atilde;o
+p&ocirc;de o malmequer
+reprimir a sua como&ccedil;&atilde;o. Meio envergonhado, mas
+todo contente, olhou
+<span class="pagenum">[16]</span>para as outras
+flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
+acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas
+as
+tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
+pontiaguda manifestava o despeito. As d&aacute;lias tinham a
+cabe&ccedil;a toda
+inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem
+desagrad&aacute;veis
+ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
+grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
+uma a uma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Que desgra&ccedil;a! disse o malmequer suspirando;
+&eacute; horr&iacute;vel; foram-se
+todas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se
+por
+ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando
+reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
+adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte de manh&atilde;, assim que o malmequer abriu as
+suas folhas ao
+ar e &agrave; luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto
+era triste,
+muit&iacute;ssimo triste. A pobre cotovia tinha boas
+raz&otilde;es para se afligir:
+haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela
+aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas
+antigas viagens atrav&eacute;s do espa&ccedil;o ilimitado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
+dif&iacute;cil. A compaix&atilde;o pelo pobre passarinho
+prisioneiro, fez-lhe
+esquecer <span class="pagenum">[17]</span>inteiramente
+as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e
+a alvura resplandecente das suas pr&oacute;prias folhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na
+m&atilde;o
+uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
+tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que n&atilde;o podia
+compreender o
+que desejavam.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Podemos arrancar daqui um peda&ccedil;o de relva para a
+cotovia, disse um dos
+rapazes, e come&ccedil;ou a fazer um quadrado profundo &agrave;
+volta da florinha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Arranca a flor, disse o outro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era
+morrer; e nunca tinha aben&ccedil;oado tanto a
+exist&ecirc;ncia, como no momento em
+que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o; deixemo-la, disse o mais velho.
+Est&aacute; a&iacute; muito bem.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia
+com as asas nos arames da gaiola. O malmequer n&atilde;o podia,
+apesar dos seus
+desejos, articular-lhe uma palavra de consola&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passou-se assim toda a manh&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;J&aacute; n&atilde;o tenho &aacute;gua, exclamou
+a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
+deixarem ao menos uma gota de &aacute;gua. A garganta queima-me,
+tenho uma febre
+terr&iacute;vel, sinto-me abafada! Ai! N&atilde;o h&aacute;
+rem&eacute;dio sen&atilde;o morrer, longe do
+sol espl&ecirc;ndido, longe da fresca verdura e de todas as
+magnific&ecirc;ncias da
+cria&ccedil;&atilde;o!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[18]</span>Depois enterrou o
+bico na relva h&uacute;mida para se refrescar um pouco. Viu
+ent&atilde;o o malmequer; fez-lhe um sinal de cabe&ccedil;a
+amig&aacute;vel, e disse-lhe,
+afagando-o: &laquo;Tamb&eacute;m tu, pobre florinha,
+morrer&aacute;s aqui! Em vez do mundo
+inteiro, que eu tinha &agrave; minha
+disposi&ccedil;&atilde;o, deram-me um pedacito de relva,
+e a ti s&oacute; por &uacute;nica companhia. Cada pezinho de
+relva substitui para mim
+uma &aacute;rvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor
+odor&iacute;fera. Ah!
+como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Se eu pudesse consol&aacute;-la! pensava o malmequer, incapaz de
+fazer o
+m&iacute;nimo movimento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume;
+a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
+arrancar a erva, teve todo o cuidado em n&atilde;o tocar nem sequer
+de leve na
+flor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Caiu a noite; n&atilde;o estava ali ningu&eacute;m, para trazer
+uma gota de &aacute;gua &agrave;
+desditosa cotovia; Estendeu ent&atilde;o as suas belas asas,
+sacudindo-as
+convulsivamente, e p&ocirc;s-se a cantar uma
+can&ccedil;&atilde;ozinha melanc&oacute;lica; a sua
+cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu
+cora&ccedil;&atilde;o quebrado de desejos e
+de ang&uacute;stias cessou de bater. Vendo este triste
+espect&aacute;culo, o malmequer
+n&atilde;o p&ocirc;de como na v&eacute;spera fechar as suas
+folhas para dormir; curvou-se
+para o ch&atilde;o, doente de tristeza.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os rapazitos s&oacute; voltaram no dia seguinte, e, vendo o
+passarinho morto,
+rebentaram-lhe as l&aacute;grimas e abriram uma cova. Meteram o
+cad&aacute;ver dentro
+de uma caixa vermelha, lind&iacute;ssima, fizeram-lhe um enterro de
+pr&iacute;ncipe, e
+cobriram o t&uacute;mulo com folhas de rosas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[19]</span>Pobre passarinho!
+Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e
+deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto &eacute; que
+o choraram
+e lhe fizeram honrarias pompos&iacute;ssimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A relva e o malmequer lan&ccedil;aram-nas para a poeira da estrada;
+daquele
+que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ningu&eacute;m se
+lembrou.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[20]</span>
+<h2><a name="5"></a>N&atilde;o quero</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito
+alto: &laquo;N&atilde;o, dizia um com voz en&eacute;rgica,
+n&atilde;o quero.&raquo; Parei e
+perguntei-lhe:&#8213;O que &eacute; que tu n&atilde;o queres, meu
+rapaz?&#8213;&laquo;N&atilde;o quero dizer
+&agrave; mam&atilde; que venho da escola, porque &eacute;
+mentira. Sei que me h&aacute;-de ralhar,
+mas antes quero que me ralhe do que mentir.&raquo;&#8213;E tens
+raz&atilde;o, disse-lhe
+eu. &Eacute;s um rapaz como se quer.&raquo; Apertei-lhe a
+m&atilde;o, enquanto que o outro
+pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
+todo envergonhado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Da&iacute; a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de
+falar com o
+professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois
+pequenos; o que n&atilde;o quis mentir, sorria-me, enquanto que o
+outro,
+vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
+dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, &eacute; um
+magn&iacute;fico
+estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a
+confessar as suas faltas e o que &eacute; ainda melhor, a
+repar&aacute;-las. O outro
+pelo contr&aacute;rio, &eacute; mentiroso, covarde e
+incorrig&iacute;vel.&raquo;&#8213;N&atilde;o me espanto,
+disse eu, j&aacute; tinha tirado o hor&oacute;scopo destas duas
+crian&ccedil;as; e
+contei-lhe o que tinha ouvido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+<h2><a name="6"></a>Piloto</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos c&atilde;es, e
+o
+infatig&aacute;vel companheiro dos brinquedos das
+crian&ccedil;as da quinta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fazia gosto v&ecirc;-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que
+Jo&atilde;o lhe
+lan&ccedil;ava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca
+e
+trazia-o &agrave; margem, com grande alegria do pequerrucho e da
+sua irm&atilde;
+Joaninha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esta brincadeira recome&ccedil;ava vinte vezes sem cansar nunca a
+paci&ecirc;ncia do
+Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos,
+at&eacute; que o
+assobio do criado da quinta chamava o fiel animal &agrave;s suas
+obriga&ccedil;&otilde;es:
+partia ent&atilde;o como um raio, para escoltar as vacas, que
+levavam aos
+pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando o hortel&atilde;o ia vender os legumes ao mercado, era o
+Piloto o guarda
+da carro&ccedil;a; e muito atrevido seria quem saltasse
+&agrave; noite a parede da
+quinta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma vez deu prova de uma extraordin&aacute;ria sagacidade; um
+jornaleiro, que se
+empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa,
+tentou de noite roubar um saco.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Piloto, que o conhecia, n&atilde;o fez a menor
+demonstra&ccedil;&atilde;o de hostilidade
+em quanto o homem seguiu o <span class="pagenum">[22]</span>caminho
+da quinta, mas, desde que se afastou
+tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem
+o
+largar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era como se dissesse: &laquo;Onde vais tu com o trigo de meu
+dono?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O ladr&atilde;o quis p&ocirc;r ent&atilde;o outra vez o
+saco donde o tinha tirado; Piloto
+n&atilde;o consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir,
+at&eacute; de
+manh&atilde;; o quinteiro foi dar com ele nesta dif&iacute;cil
+posi&ccedil;&atilde;o,
+repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o
+n&atilde;o
+desonrar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o homem ficou com &oacute;dio ao c&atilde;o, e muito tempo
+depois, aproveitando a
+aus&ecirc;ncia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que
+correu para
+ele sem desconfian&ccedil;a; atou-lhe uma corda ao
+pesco&ccedil;o e arrastou-o at&eacute; &agrave;
+margem do ribeiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Atou uma grande pedra &agrave; outra extremidade da corda e
+levantando o animal
+atirou-o &agrave; &aacute;gua; mas arrastado ele
+pr&oacute;prio com o peso e com o esfor&ccedil;o,
+caiu tamb&eacute;m.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Como n&atilde;o sabia nadar, teria sido despeda&ccedil;ado pela
+roda do moinho, se o
+corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e
+desembara&ccedil;ando-se da pedra mal atada, n&atilde;o tivesse
+mergulhado duas vezes
+e trazido para terra o seu mortal inimigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o
+c&atilde;o que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Teve vergonha de seu acto miser&aacute;vel; e desde esse dia,
+violentou-se a si
+mesmo e combateu as suas m&aacute;s
+inclina&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O exemplo do c&atilde;o corrigiu o homem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[23]</span>
+<h2><a name="7"></a>O rico e o pobre</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
+dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
+deitou-se debaixo de uma &aacute;rvore, &agrave; porta de uma
+estalagem, junto da
+estrada. Estava comendo um bocado de p&atilde;o que tinha trazido
+para jantar,
+quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
+preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos
+viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que n&atilde;o
+tinham tempo,
+e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
+vinho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua
+c&ocirc;dea de p&atilde;o, para a sua velha jaqueta, para o seu
+chap&eacute;u todo roto, e
+suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino
+t&atilde;o rico,
+em vez do desgra&ccedil;ado Martinho! Que fortuna se ele estivesse
+aqui, e eu
+dentro daquela carruagem!&raquo; O preceptor ouviu casualmente o
+que dizia
+Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lan&ccedil;ando a
+cabe&ccedil;a fora da
+carruagem, chamou Martinho com a m&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ficarias muito contente, n&atilde;o &eacute; verdade, meu <span class="pagenum">[24]</span>rapaz, podendo trocar a
+minha sorte pela tua?&raquo;&#8213;Pe&ccedil;o que me desculpe
+senhor, replicou Martinho
+corando, o que eu disse n&atilde;o foi por
+mal.&raquo;&#8213;N&atilde;o estou zangado contigo,
+replicou o fidalguinho, pelo contr&aacute;rio, desejo fazer a
+troca.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! est&aacute; a divertir-se comigo! tornou Martinho,
+ningu&eacute;m quereria estar
+no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando
+muitas l&eacute;guas por dia, como p&atilde;o seco e batatas,
+enquanto que o senhor
+anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.&raquo;&#8213;Pois
+bem,
+volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu
+n&atilde;o tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que
+possuo.&raquo; Martinho
+ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
+preceptor continuou: &laquo;Aceitas a troca?&raquo;&#8213;Ora essa!
+exclamou Martinho,
+ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada
+de me ver entrar nesta bela carruagem!&raquo; E Martinho desatou a
+rir com a
+ideia da entrada triunfante na sua aldeia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram
+a
+descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma
+perna de pau e que a outra era t&atilde;o fraca, que se via
+obrigado a andar em
+duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou
+que era muito p&aacute;lido e que tinha cara de doente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sorriu para o rapazito com ar ben&eacute;volo, e
+disse-lhe:&#8213;Ent&atilde;o sempre
+desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas
+valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter <span class="pagenum">[25]</span>uma carruagem e
+andar bem vestido?&raquo;&#8213;Oh! n&atilde;o, por coisa nenhuma!
+replicou
+Martinho.&#8213;&laquo;Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria
+pobre, se
+tivesse sa&uacute;de. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e
+doente, sofro
+os meus males com paci&ecirc;ncia e fa&ccedil;o por ser alegre,
+dando gra&ccedil;as a Deus
+pelos bens que me concedeu na sua infinita miseric&oacute;rdia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se
+&eacute;s pobre e comes mal,
+tens for&ccedil;a e sa&uacute;de, coisas que valem mais que uma
+carruagem, e que n&atilde;o
+podem comprar-se com dinheiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[26]</span>
+<h2><a name="8"></a>Como um campon&ecirc;s
+aprendeu o Padre Nosso</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tinha o cora&ccedil;&atilde;o duro, e n&atilde;o dava
+esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
+confessor deu-lhe por penit&ecirc;ncia rezar sete vezes o Padre
+Nosso.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o
+alde&atilde;o.&raquo;
+<br />
+
+
+&laquo;Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por
+penit&ecirc;ncia dar a
+cr&eacute;dito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem
+pedir da
+minha parte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte de manh&atilde; apresentou-se o primeiro pobre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como te chamas? perguntou-lhe o campon&ecirc;s.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Padre&#8213;Nosso&#8213;Que&#8213;Estais&#8213;No&#8213;C&eacute;u, respondeu o
+pobre.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;E o teu apelido?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Seja&#8213;Santificado&#8213;O&#8213;Vosso&#8213;Nome.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao outro dia chega segundo pobre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como te chamas?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Venha&#8213;A&#8213;N&oacute;s&#8213;O&#8213;Vosso&#8213;Reino.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;E o teu apelido?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Seja&#8213;Feita&#8213;A&#8213;Vossa&#8213;Vontade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[27]</span>E partiu com o seu
+alqueire de trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Veio terceiro pobre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como te chamas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Assim&#8213;Na&#8213;Terra&#8213;Como&#8213;No&#8213;C&eacute;u.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;E o teu apelido?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Dai-nos&#8213;Hoje&#8213;O&#8213;P&atilde;o&#8213;Nosso&#8213;De&#8213;Cada&#8213;Dia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E levou o seu alqueire.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma
+forma at&eacute; chegar ao <i>Amen</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pouco tempo depois o confessor encontrou o alde&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Ent&atilde;o j&aacute; sabes o Padre
+Nosso?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o, sr. cura, sei s&oacute; os nomes e
+apelidos dos pobres a quem emprestei
+o meu trigo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Quais s&atilde;o? tornou o padre.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o alde&atilde;o enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada
+um se tinha
+apresentado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;J&aacute; v&ecirc;s, disse o confessor, que
+n&atilde;o era muito dif&iacute;cil aprender o Padre
+Nosso, porque j&aacute; o sabes perfeitamente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[28]</span>
+<h2><a name="9"></a>O talism&atilde;</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma
+ind&uacute;stria, mas
+com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
+que n&atilde;o era de espantar, porque o primeiro zelava os seus
+neg&oacute;cios com
+uma actividade infatig&aacute;vel, enquanto que o segundo, entregue
+inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da
+direc&ccedil;&atilde;o da
+sua casa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Explica-me, disse um dia este &uacute;ltimo ao seu
+colega, qual &eacute; a raz&atilde;o
+porque a sorte nos trata de um modo t&atilde;o diferente? Vendemos
+as mesmas
+mercadorias, a minha loja est&aacute; t&atilde;o bem situada
+como a tua, e apesar
+disso, enquanto tu ganhas, eu n&atilde;o fa&ccedil;o
+sen&atilde;o perder. E n&atilde;o &eacute; porque eu
+seja estroina; n&atilde;o bebo, nem jogo. J&aacute; tenho
+pensado algumas vezes se n&atilde;o
+ter&aacute;s tu por acaso algum precioso
+talism&atilde;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um
+talism&atilde; de uma
+virtude incompar&aacute;vel. Trago-o ao pesco&ccedil;o, e ando
+assim com ele todo o
+dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o
+celeiro. E o caso &eacute; que tudo me corre
+perfeitamente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[29]</span>&laquo;Ol&eacute;
+meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa
+rel&iacute;quia
+preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta
+restituo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Pois vem busc&aacute;-la amanh&atilde; de
+manh&atilde;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
+apresentou-lhe este uma avel&atilde;, atrav&eacute;s da qual
+tinha passado um
+fio de seda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O nosso homem p&ocirc;-la imediatamente ao pesco&ccedil;o, e
+come&ccedil;ou a correr toda a
+casa com o talism&atilde;. Observou ent&atilde;o a completa
+desordem que por toda a
+parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
+cozinha o p&atilde;o, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o
+trigo, o
+feij&atilde;o; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das
+manjedouras dos
+cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
+escriturados; viu tudo isto, e que era necess&aacute;rio dar-lhe
+rem&eacute;dio,
+compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substitu&iacute;do
+por
+terceira pessoa na direc&ccedil;&atilde;o dos seus
+neg&oacute;cios.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso
+talism&atilde;,
+agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em
+segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[30]</span>
+<h2><a name="10"></a>A alma</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Mam&atilde;, nem todas as crian&ccedil;as que morrem
+v&atilde;o para o Para&iacute;so. O outro dia
+vi levar para o cemit&eacute;rio um menino que tinha morrido; o seu
+pap&aacute; e as
+suas duas irm&atilde;zinhas acompanhavam o caix&atilde;o, e
+choravam tanto que me
+fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau,
+n&atilde;o &eacute;
+verdade?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma,
+enquanto choravam seus
+pais e suas irm&atilde;s, j&aacute; estava vivendo feliz no
+Para&iacute;so.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;A alma? mam&atilde;; n&atilde;o sei o que
+&eacute;; n&atilde;o compreendo bem.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as
+duas
+pequerruchas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Tive sim, mam&atilde;, tive muita pena.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Ora bem, o que &eacute; que no teu corpo estava
+desconsolado e triste? eram os
+bra&ccedil;os?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o, mam&atilde;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Eram as orelhas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Oh! n&atilde;o mam&atilde;, era <i>c&aacute;
+dentro</i>.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Esse <i>l&aacute; dentro</i>, Maria,
+&eacute; a tua alma que se alegra ou se entristece,
+que te repreende quando fazes o mal, e que est&aacute; satisfeita
+quando
+praticas o bem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[31]</span>
+<h2><a name="11"></a>Alberto</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus
+irm&atilde;os, que eram activos e laboriosos, plantar
+&aacute;rvores e fazer
+sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um
+&uacute;nico
+feij&atilde;o produzir cem feij&otilde;es e muitas vezes mais,
+e de uma talhada de
+batata nascerem quarenta batatas magn&iacute;ficas; sabia que a
+terra pagava
+com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
+quarto do pai, e foi enterr&aacute;-la imediatamente no seu
+jardinzinho. &laquo;H&aacute;-de
+nascer uma &aacute;rvore, dizia ele consigo, que dar&aacute;
+libras como uma
+cerejeira d&aacute; cerejas, e irei entreg&aacute;-las ao
+pap&aacute;, que ficar&aacute; muito
+contente.&raquo; Todas as manh&atilde;s ia ver se a libra tinha
+nascido, mas n&atilde;o
+rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte.
+Por
+fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vi pap&aacute;; achei-a e fui
+seme&aacute;-la.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como, seme&aacute;-la? doido! julgas talvez que vai
+nascer como uma couve?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Mas, pap&aacute;, ouvi dizer que o oiro se encontrava na
+terra.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;&Eacute; verdade, mas n&atilde;o nasce como uma
+semente; o oiro n&atilde;o tem vida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[32]</span>Desenterrou-se a
+libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
+n&atilde;o pertencia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+H&aacute; contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro,
+fazendo-lhe
+produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como
+&eacute;? &Eacute; dando-o aos pobres. Faz-se no
+Para&iacute;so a colheita dessa sementeira.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[33]</span>
+<h2><a name="12"></a>A
+can&ccedil;&atilde;o da cerejeira</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Disse Deus na Primavera: &laquo;Ponham a mesa &agrave;s
+lagartas!&raquo; E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de folhas, milh&otilde;es de folhas,
+fresquinhas e
+verdejantes.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou,
+espregui&ccedil;ou-se,
+abriu a boca, esfregou os olhos e p&ocirc;s-se a comer
+tranquilamente as
+folhinhas tenras, dizendo: &laquo;N&atilde;o se pode a gente
+despegar delas. Quem &eacute;
+que me arranjou este banquete?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ent&atilde;o Deus disse de novo: &laquo;Ponham a mesa
+&agrave;s abelhas!&raquo; E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de flores, milh&otilde;es de flores
+delicadas e
+brancas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas,
+dizendo: &laquo;Vamos tomar o nosso caf&eacute;; e que
+ch&aacute;venas t&atilde;o bonitas em que o
+deitaram!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Provou com a linguita, exclamando: &laquo;Que deliciosa bebida!
+N&atilde;o pouparam o
+a&ccedil;&uacute;car!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No Ver&atilde;o disse Deus: &laquo;Ponham a mesa aos
+passarinhos!&raquo; E a cerejeira
+cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[34]</span>&laquo;Ah! ah!
+exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasi&atilde;o; temos
+apetite,
+e isto dar-nos-&aacute; novas for&ccedil;as para podermos
+cantar uma nova can&ccedil;&atilde;o.&raquo; No
+Outono disse Deus: &laquo;Levantai a mesa, j&aacute;
+est&atilde;o satisfeitos.&raquo; E o vento
+frio das montanhas come&ccedil;ou a soprar, e fez estremecer a
+&aacute;rvore.<br />
+
+
+<br />
+
+
+As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, ca&iacute;ram uma a
+uma, e o
+vento que as lan&ccedil;ou ao ch&atilde;o erguia-as novamente,
+fazendo-as esvoa&ccedil;ar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegou o Inverno e disse Deus: &laquo;Cobri o resto!&raquo; E
+os turbilh&otilde;es dos
+ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[35]</span>
+<h2><a name="13"></a>Os gigantes da montanha e
+os an&otilde;es da plan&iacute;cie</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma fam&iacute;lia de gigantes, que viviam num castelo
+na
+montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum
+&aacute;lamo. Era curiosa e andava com vontade de descer
+&agrave; plan&iacute;cie a ver o que
+faziam l&aacute; em baixo os homens, que de cima do monte lhe
+pareciam an&otilde;es.
+Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido &agrave;
+ca&ccedil;a e sua m&atilde;e estava
+dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os
+jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os
+lavradores, coisas inteiramente novas para ela. &laquo;Oh! que
+lindos
+brinquedos!&raquo; exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o
+avental, que
+quase que cobriu o campo. Lan&ccedil;ou-lhe dentro os homens, os
+cavalos, a
+charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo,
+onde seu pai estava a jantar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que trazes a&iacute;, minha filha?&raquo; perguntou ele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos.
+S&atilde;o os
+mais bonitos que tenho visto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E p&ocirc;-los em cima da mesa, a um e um,&#8213;os cavalos, a charrua e
+os
+trabalhadores, que estavam <span class="pagenum">[36]</span>todos
+espantados, como formigas a quem
+tivessem transportado dum formigueiro para um sal&atilde;o. A
+gigantinha
+p&ocirc;s-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o
+gigante
+fez-se s&eacute;rio e franziu o sobrolho. &laquo;Fizeste mal,
+disse-lhe ele. Isso
+n&atilde;o s&atilde;o brinquedos, mas coisas e pessoas que
+devem estimar-se e
+respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e
+p&otilde;e-no
+imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
+montanha, morreriam de fome, se os an&otilde;es da
+plan&iacute;cie deixassem de lavrar
+a terra e de semear o trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+<h2><a name="14"></a>A crian&ccedil;a, a
+anjo e flor</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando morre uma crian&ccedil;a, desce um anjo do c&eacute;u,
+toma-a nos bra&ccedil;os, e
+desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os
+s&iacute;tios que
+ela amara durante a sua pequenina exist&ecirc;ncia; o anjo
+abaixa-se de
+quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que
+flores&ccedil;am
+no para&iacute;so ainda mais belas do que tinham sido na terra.
+Deus recebe
+todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os l&aacute;bios, e
+a flor
+escolhida, adquirindo voz imediatamente, come&ccedil;a a cantar os
+coros
+maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma
+crian&ccedil;a morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram
+primeiro
+sobre a casa em que a crian&ccedil;a brincara, e depois sobre
+jardins
+deliciosos, cobertos de flores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Qual &eacute; a flor que desejas para plantar no
+para&iacute;so?&raquo; perguntou o anjo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
+magn&iacute;fica; mas quebraram-lhe o p&eacute;, e todos os
+seus ramos cheios de
+bot&otilde;ezinhos lind&iacute;ssimos pendiam estiolados para o
+ch&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Pobre roseira! disse a crian&ccedil;a ao anjo; vamos
+busc&aacute;-la para que possa
+reflorir no para&iacute;so.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[38]</span>O anjo foi
+busc&aacute;-la, e abra&ccedil;ou a crian&ccedil;a.
+Colheram muitas flores
+brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A colheita estava terminada, e contudo n&atilde;o voavam ainda para
+Deus. Caiu
+a noite silenciosa, e a crian&ccedil;a e o seu guia Divino andavam
+ainda por
+cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
+de cacos de lou&ccedil;a, de vidros partidos, de farrapos, de toda
+a casta de
+imund&iacute;cie. Entre estes destro&ccedil;os distinguiu o
+anjo um vaso de flores
+com a terra pelo ch&atilde;o, onde pendiam as longas
+ra&iacute;zes duma flor dos
+campos, j&aacute; murcha, e que parecia n&atilde;o poder
+reverdecer: tinham-na
+atirado para a rua como in&uacute;til e morta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vale a pena levant&aacute;-la disse o anjo; levemo-la, e
+pelo caminho, voando,
+te contarei a hist&oacute;ria da florinha. L&aacute; ao fundo,
+l&aacute; ao fundo, naquela
+rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma crian&ccedil;a
+miser&aacute;vel e
+doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear
+com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos
+dias
+de Ver&atilde;o os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante
+meia hora.
+Ent&atilde;o a crian&ccedil;a sentada &agrave; janela,
+aquecida pelo sol, sem o cansa&ccedil;o do
+andar, imaginava-se passeando; n&atilde;o conhecia da floresta, da
+fresca
+verdura da primavera, sen&atilde;o o ramo de faia, que uma vez o
+filho do
+vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabe&ccedil;a
+o ramo
+verdejante, e, supondo-se debaixo das &aacute;rvores abrigadas do
+sol, sonhava
+com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe
+flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda
+ra&iacute;zes; <span class="pagenum">[39]</span>o
+pequerrucho plantou-a num vaso, e p&ocirc;-lo &agrave; janela,
+junto da
+cama. A flor plantada por m&atilde;o aben&ccedil;oada, cresceu,
+tornou-se grande, e
+todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu
+&uacute;nico
+tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
+aproveitar os raios do sol at&eacute; ao &uacute;ltimo. A flor
+aparecia-lhe em
+sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e
+ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se
+voltou.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no
+para&iacute;so; a sua querida
+flor, esquecida &agrave; janela desde ent&atilde;o, murchou,
+estiolou-se e
+atiraram-na &agrave; rua finalmente. E contudo esta flor quase seca
+&eacute; o
+tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
+canteiros dum jardim realengo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como sabes tu isso?&raquo; perguntou a
+crian&ccedil;a, que o anjo levava para o c&eacute;u.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
+em muletas; como n&atilde;o havia de eu reconhecer a minha flor bem
+amada!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A crian&ccedil;a abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo
+quando entravam
+no c&eacute;u onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas
+flores,
+levou-as ao cora&ccedil;&atilde;o, mas a que ele beijou foi a
+florinha silvestre,
+desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente,
+p&ocirc;s-se a cantar
+com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe,
+formando c&iacute;rculos que v&atilde;o aumentando
+sucessivamente, multiplicando-se
+at&eacute; ao infinito, povoados de <span class="pagenum">[40]</span>seres
+inteiramente felizes, cantando todos
+harmoniosamente&#8213;desde a crian&ccedil;a aben&ccedil;oada
+at&eacute; &agrave; humilde florinha do
+campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e
+tortuosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[41]</span>
+<h2><a name="15"></a>Presente por presente</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite
+&agrave; choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda
+n&atilde;o tinha chegado, foi
+a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
+p&ocirc;de, desculpando-se da miser&aacute;vel hospitalidade
+que lhe ia dar, porque
+eram batatas cozidas a &uacute;nica coisa que lhe poderia oferecer;
+cama n&atilde;o a
+tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
+morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que
+fais&otilde;es,
+e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de
+pr&iacute;ncipes. Ao
+outro dia pela manh&atilde; disse isto mesmo &agrave; pobre
+mulher, gratificando-a ao
+despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
+dito que a guardasse como uma pequena lembran&ccedil;a, a boa
+camponesa julgou
+que seria uma medalha, e sentiu que n&atilde;o tivesse um buraquito
+para a
+trazer ao pesco&ccedil;o. Quando o carvoeiro chegou a casa,
+contou-lhe logo o
+que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
+examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[42]</span>&laquo;Esse
+forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso pr&iacute;ncipe!<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o bom do homem n&atilde;o podia conter-se de alegria, por sua
+alteza ter
+achado as suas batatas melhores do que fais&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;&Eacute; necess&aacute;rio confessar, disse ele com
+um ar triunfante, que n&atilde;o h&aacute;
+talvez no mundo um terreno mais favor&aacute;vel do que este para a
+cultura das
+batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, j&aacute; que as acha
+t&atilde;o boas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E partiu imediatamente para o pal&aacute;cio com uma
+provis&atilde;o de batatas
+escolhidas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os lacaios e as sentinelas ao princ&iacute;pio n&atilde;o o
+queriam deixar entrar;
+mas insistiu energicamente, dizendo que n&atilde;o vinha pedir
+nada, e que pelo
+contr&aacute;rio vinha trazer alguma coisa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi, pois, introduzido na sala da audi&ecirc;ncia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Meu senhor, disse ele ao pr&iacute;ncipe: Vossa alteza
+dignou-se recentemente
+pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma pe&ccedil;a de
+ouro, em troca
+duma enxerga miser&aacute;vel e de um prato de batatas cosidas. Era
+pagar
+demasiadamente, apesar de serdes um pr&iacute;ncipe muito rico e
+poderoso. Eis
+o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
+batatas, que vos souberam melhor do que os vossos fais&otilde;es.
+Dignai-vos
+aceit&aacute;-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso
+hospede, l&aacute;
+as encontrareis sempre ao vosso dispor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A honrada simplicidade do campon&ecirc;s agradou ao
+pr&iacute;ncipe, e, como estava
+num momento de bom humor, fez-lhe doa&ccedil;&atilde;o de uma
+quinta com trinta
+jeiras de terra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[43]</span>Ora o carvoeiro
+tinha um irm&atilde;o muito rico, mas invejoso e avarento, que,
+sabendo da fortuna do irm&atilde;o mais novo, disse consigo:
+&laquo;Porque n&atilde;o me h&aacute;
+de suceder a mim outro tanto? O pr&iacute;ncipe gosta do meu
+cavalo, pelo
+qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer
+presente dele: se deu ao Jo&atilde;o uma quinta com trinta jeiras
+de terra,
+simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me
+h&aacute; de
+recompensar ainda mais generosamente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
+pal&aacute;cio; recomendou ao criado que o segurasse, e,
+atravessando com ar
+altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audi&ecirc;ncia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo;
+n&atilde;o
+tenho querido troc&aacute;-lo a dinheiro, mas dignai-vos
+permitir-me que vo-lo
+ofere&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pr&iacute;ncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria
+chegar, e disse
+consigo: &laquo;Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que
+mereces:<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois dirigindo-se a ele:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Aceito a tua d&aacute;diva, mas n&atilde;o sei como
+agradecer-ta condignamente. Oh!
+espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
+fais&otilde;es. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que
+&eacute; um bom
+pre&ccedil;o para um cavalo, que eu poderia ter comprado por
+sessenta libras.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[44]</span>
+<h2><a name="16"></a>O pinheiro ambicioso</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um pinheiro, que n&atilde;o estava contente com a sua
+sorte. &laquo;Oh!
+dizia ele, como s&atilde;o horrorosas estas linhas uniformes de
+agulhas
+verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
+orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar
+vestido
+de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O G&eacute;nio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela
+manh&atilde; acordou o
+pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
+pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
+mais sensatos do que ele, n&atilde;o invejavam a sua
+r&aacute;pida fortuna. &Agrave; noite
+passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num
+saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos p&eacute;s
+&agrave; cabe&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Oh! disse ele, que doido que eu fui! n&atilde;o me tinha
+lembrado da cobi&ccedil;a
+dos homens. Fiquei completamente despido. N&atilde;o h&aacute;
+agora em toda a
+floresta uma planta t&atilde;o pobre como eu. Fiz mal em pedir
+folhas de oiro;
+o oiro atrai as ambi&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ah! se eu arranjasse um vestu&aacute;rio de vidro! Era <span class="pagenum">[45]</span>deslumbrante, e o judeu
+avarento n&atilde;o me teria despido.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
+sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e
+orgulhoso,
+fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o c&eacute;u
+cobriu-se de
+nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as
+folhas de cristal.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra
+todo feito em
+peda&ccedil;os o seu manto cristalino. O oiro e o vidro
+n&atilde;o servem para vestir
+as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria
+menos brilhante, mas viveria descansado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cumpriu-se o seu &uacute;ltimo desejo, e, apesar de ter renunciado
+&agrave;s vaidades
+primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
+outros pinheiros seus irm&atilde;os. Mas passou por ali um rebanho
+de cabras, e
+vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas
+todas sem deixar uma &uacute;nica.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, j&aacute; queria
+voltar &agrave; sua
+forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
+sua sorte.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[46]</span>
+<h2><a name="17"></a>Perfei&ccedil;&atilde;o
+das obras de Deus</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! mam&atilde; quebrou-se-me a agulha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Vou-te dar outra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Como se fazem as agulhas, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc; se adivinhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;N&atilde;o sei, mam&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Conheces os metais?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Conhe&ccedil;o mam&atilde;; tenho
+l&aacute; dentro muitos bocadinhos dentro de
+uma caixa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ora muito bem, diz-me
+l&aacute;, as agulhas s&atilde;o de pau, de pedra, de
+m&aacute;rmore?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! n&atilde;o; s&atilde;o de
+metal; mas de que metal?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Antes de perguntar qualquer coisa,
+v&ecirc; sempre se a adivinhas
+primeiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Ora espere!... uma agulha &eacute; de
+metal: n&atilde;o &eacute; de prata, porque
+n&atilde;o &eacute; branca; n&atilde;o &eacute; de
+oiro, porque n&atilde;o &eacute; de um lindo amarelo muito
+brilhante; n&atilde;o &eacute; de cobre, porque n&atilde;o
+&eacute; de um amarelo muito feio, que
+cheira mal... Ent&atilde;o &eacute; de ferro, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Adivinhaste.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Mas, mam&atilde;, o ferro
+n&atilde;o &eacute; liso e brilhante como as agulhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[47]</span><i>A
+m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; que &eacute; primeiro polido
+e preparado de certo modo, e depois j&aacute;
+se n&atilde;o chama ferro, &eacute; a&ccedil;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Bem, as agulhas s&atilde;o de
+a&ccedil;o. Agora quero adivinhar como &eacute; que
+as fazem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute;
+imposs&iacute;vel, n&atilde;o &eacute;s capaz disso; mas
+hei de levar-te a uma
+f&aacute;brica onde se fazem agulhas. H&aacute;s-de
+v&ecirc;-las fazer, e h&aacute;s-de gostar
+muito.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Tinha vontade de saber como se fazem todas
+as coisas de que
+nos servimos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tens raz&atilde;o;
+&eacute; uma vergonha ignor&aacute;-lo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Mam&atilde;, deixe-me ver as suas
+agulhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Olha, a&iacute; tens o meu
+estojo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que
+lindas! S&atilde;o t&atilde;o
+fininhas, t&atilde;o fininhas!... Muita habilidade h&aacute;-de
+ser necess&aacute;ria para
+fazer uma coisinha t&atilde;o delicada!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Lembras-te de ver na feira um
+carrinho de marfim puxado por
+uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Lembro, mam&atilde;; era t&atilde;o
+bonito!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Li num jornal alem&atilde;o
+que um oper&aacute;rio chamado Nerlinger fez
+um copo de um gr&atilde;o de pimenta, e que dentro deste copo havia
+mais
+doze...<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Que pequeninos deviam ser os doze copos
+para caberem num
+gr&atilde;o de pimenta!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;E ainda n&atilde;o
+&eacute; tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas
+doiradas, e sustentava-se no p&eacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Que vontade eu tinha de ver isso!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tens raz&atilde;o de te
+admirares da habilidade dos homens. &Eacute;
+efectivamente espantoso, e <span class="pagenum">[48]</span>deve
+saber-se, o modo porque se fabricam
+certas coisas; contudo ainda h&aacute; outras obras mais dignas de
+admira&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Quais, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;J&aacute; to digo. (<i>Levanta-se.</i>)<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Que quer, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Quero que vejas o
+microsc&oacute;pio de teu pap&aacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Pois sim; eu gosto de olhar pelo
+microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Este &eacute;
+magn&iacute;fico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais
+ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como
+&eacute; fina,
+lisa e brilhante... Agora olha; o que &eacute; que v&ecirc;s?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Meu Deus, que coisa t&atilde;o feia!
+Que agulha t&atilde;o grosseira!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc;s-lhe buracos, riscos,
+asperezas, n&atilde;o &eacute; verdade?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Parece um prego muito grande e muito mal
+feito.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Pois todas essas
+imperfei&ccedil;&otilde;es s&atilde;o verdadeiras, existem
+na
+agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, &eacute; que
+n&atilde;o d&aacute; por elas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;O oper&aacute;rio que fez esta agulha
+ficaria envergonhado, se a
+visse ao microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tiremos a agulha, e vejamos outra
+coisa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;O qu&ecirc;, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;O aguilh&atilde;ozinho de uma
+abelha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! que pequenino, que bonito!... Como
+&eacute; liso, como &eacute;
+brilhante!... Mas j&aacute; sei que visto ao microsc&oacute;pio
+h&aacute; de acontecer o
+mesmo que com a agulha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[49]</span><i>A
+m&atilde;e.</i>&#8213;Pronto: olha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha</i> (olhando).&#8213;&Eacute; esquisito,
+mam&atilde;!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ent&atilde;o?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Aumentou, aumentou como a agulha, mas
+n&atilde;o &eacute; &aacute;spero, pelo
+contrario, &eacute; perfeitamente liso... A agulha parecia que
+n&atilde;o tinha ponta,
+e o ferr&atilde;ozinho da abelha tem uma ponta t&atilde;o fina
+como um cabelo. Porque
+ser&aacute; isto, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; porque o
+oper&aacute;rio que fez este aguilh&atilde;o &eacute; muito
+mais h&aacute;bil
+do que o que fez a agulha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Quem &eacute; esse oper&aacute;rio
+t&atilde;o h&aacute;bil?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; o mesmo que fez o
+c&eacute;u, os astros, a terra, as plantas e as
+criaturas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;&Eacute; Deus.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Exactamente. Pois n&atilde;o
+&eacute; Deus que fez as abelhas e todos os
+animais?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;De certo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Foi ele por conseguinte que fez o
+aguilh&atilde;o desta abelha; e
+a&iacute; tens porque o aguilh&atilde;o &eacute; superior
+&agrave; agulha: &eacute; obra de Deus. Mas
+continuemos a olhar pelo microsc&oacute;pio. Aqui est&aacute;
+um pedacinho de
+musselina fin&iacute;ssima. Olha pelo microsc&oacute;pio; o que
+&eacute; que v&ecirc;s?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal
+feita.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Aqui tens agora um pedacinho de
+renda delicad&iacute;ssima.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Essa estou bem certa que h&aacute; de
+ser linda, mesmo vista pelo
+microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ent&atilde;o?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;&Eacute; horrorosa... Parece feita de
+pelos grosseiros com grandes
+buracos desiguais.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;As obras do homem s&atilde;o
+todas assim.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[50]</span><i>A filha.</i>&#8213;Oh!
+mam&atilde;, vejamos agora as obras de Deus.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Sabes o que &eacute; isto?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Sei, mam&atilde;, &eacute; um
+casulo de bicho de seda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Os fiozinhos que o
+comp&otilde;em s&atilde;o muito finos, muito lisos; olha
+pelo microsc&oacute;pio a ver se te parecem desiguais.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha</i> (olhando pelo
+microsc&oacute;pio).&#8213;N&atilde;o, mam&atilde;; os fios
+s&atilde;o todos
+iguais, e o casulo &eacute; sempre muito liso, muito brilhante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; porque &eacute;
+obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que h&aacute;
+sobre este papel?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas
+redondas feitas
+tamb&eacute;m com tinta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Estes pontinhos e estas manchas
+parecem-te perfeitamente
+redondos?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Sim, mam&atilde;, perfeitamente
+redondos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc;-os agora ao
+microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! j&aacute; n&atilde;o
+s&atilde;o redondos, s&atilde;o todos desiguais.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tira o papel; vejamos a obra de
+Deus. &Eacute; uma asa de borboleta;
+v&ecirc;s que est&aacute; mosqueada de pequeninas manchas
+redondas; olha pelo
+microsc&oacute;pio; o que &eacute; que v&ecirc;s?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Vejo a mesma coisa que via sem o vidro,
+s&oacute; com a diferen&ccedil;a
+que agora &eacute; maior. Que belas que s&atilde;o as obras de
+Deus!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Merece bem a pena
+estud&aacute;-las.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;De certo. Farei sempre por isso,
+comparando-as com as obras
+dos homens.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;E sempre e em tudo
+h&aacute;s-de encontrar defeitos nas obras do
+homem, enquanto que <span class="pagenum">[51]</span>as
+obras de Deus, quanto mais se observam, mais
+perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
+primeira &eacute; que Deus merece tanto a nossa
+admira&ccedil;&atilde;o como o nosso amor; a
+segunda &eacute; que os homens orgulhosos s&atilde;o
+insensatos, porque n&atilde;o podem
+fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras
+mais primorosas s&atilde;o cheias de
+imperfei&ccedil;&otilde;es, se as compararmos com as
+obras do Criador.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[52]</span>
+<h2><a name="18"></a>Jo&atilde;o e os seus
+camaradas</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma vi&uacute;va com um filho &uacute;nico. Ao cabo
+dum Inverno rigoroso,
+possu&iacute;a apenas um galo, e meio alqueire de farinha.
+Jo&atilde;o resolveu-se a
+correr mundo, &agrave; busca de fortuna. A m&atilde;e cozeu o
+resto da farinha, matou
+o galo, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;O que &eacute; que preferes: metade desta merenda com a
+minha b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, ou toda
+com a minha maldi&ccedil;&atilde;o?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros
+h&aacute; no
+mundo eu quereria a tua maldi&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Bem, meu filho, replicou a m&atilde;e carinhosamente.
+Leva tudo, e Deus te
+aben&ccedil;oe.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E partiu. Foi andando, andando, at&eacute; que encontrou um
+jumento, que tinha
+ca&iacute;do num atoleiro, donde n&atilde;o podia sair.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Oh! Jo&atilde;o, exclamou o burro, tira-me daqui, que
+estou quase a
+afogar-me.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Espera, respondeu Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, formando uma ponte com pedras e ramos de &aacute;rvores,
+conseguiu tirar o
+quadr&uacute;pede do atoleiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[53]</span>&laquo;Obrigado,
+disse-lhe ele, aproximando-se de Jo&atilde;o. Se te posso ser
+&uacute;til,
+aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha
+vida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Queres tu que eu te acompanhe?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Anda da&iacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E puseram-se a caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao passarem por uma aldeia, viram um c&atilde;o perseguido pelos
+rapazes da
+escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
+animal correu para Jo&atilde;o que o acariciou, e o jumento
+p&ocirc;s-se a ornear de
+tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Obrigado, disse o rafeiro a Jo&atilde;o. Se para alguma
+coisa te for
+prest&aacute;vel, aqui me tens &agrave;s tuas ordens. Aonde
+vais tu?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha
+vida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Queres que te acompanhe?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Anda da&iacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando sa&iacute;ram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno
+tirou a
+merenda do alforge, e repartiu-a com o c&atilde;o. O burro pastou
+alguma erva
+que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar
+lastimosamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Coitado, exclamou Jo&atilde;o!&raquo; E deu-lhe uma asa do
+frango.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Obrigado disse o gato. Oxal&aacute; que um dia eu te
+possa ser &uacute;til. Aonde
+vais tu?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;De boa vontade.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[54]</span>Os quatro viajantes
+puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um
+grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
+galo na boca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Agarra! agarra!&raquo; bradou o pequeno ao
+c&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E no mesmo instante o c&atilde;o atirou-se atr&aacute;s da
+raposa, que, vendo-se em
+perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente
+disse a Jo&atilde;o:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde
+vais tu?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Arranjar trabalho. Queres vir connosco?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;De boa vontade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o anda. Se te cansares, empoleira-te no
+jumento.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro.
+Sentiram-se todos fatigados e n&atilde;o avistavam &agrave;
+roda nem uma quinta, nem
+uma cabana.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Paci&ecirc;ncia, disse Jo&atilde;o, outra vez
+seremos mais felizes. Resignemo-nos
+hoje a dormir ao ar livre; al&eacute;m disso a noite
+est&aacute; sossegada, e a relva
+&eacute; macia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dito isto estendeu-se no ch&atilde;o; o jumento deitou-se ao lado
+dele, o c&atilde;o
+e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo
+empoleirou-se numa &aacute;rvore.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dormiam todos um sono profund&iacute;ssimo, quando de repente o
+galo come&ccedil;ou
+a cantar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Que dem&oacute;nio! disse o jumento acordando todo
+zangado. Porque &eacute; que
+est&aacute;s a gritar?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Porque j&aacute; &eacute; dia, respondeu o galo.
+N&atilde;o v&ecirc;s ao longe a luz da
+madrugada, que vem rompendo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[55]</span>&#8213;&laquo;Vejo
+uma luz, disse Jo&atilde;o, mas n&atilde;o &eacute; do sol,
+&eacute; duma lanterna.
+Provavelmente h&aacute; ali alguma casa, onde nos
+poder&iacute;amos recolher o resto
+da noite.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando,
+atrav&eacute;s
+dos campos, at&eacute; que parou junto da casa do guarda dum grande
+castelo,
+donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
+blasf&eacute;mias horr&iacute;veis.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Escutem, disse Jo&atilde;o; vamos devagarinho, muito devagarinho,
+a ver quem
+&eacute; que est&aacute; l&aacute; dentro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram seis ladr&otilde;es armados de pistolas e de punhais, que se
+banqueteavam
+alegremente, sentados a uma mesa principesca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Que bom assalto acab&aacute;mos de dar, disse um deles,
+ao castelo do
+conde, gra&ccedil;as ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que
+&eacute; este
+porteiro. &Agrave; sua sa&uacute;de!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;&Agrave; sa&uacute;de do nosso amigo!&raquo;
+repetiram em coro todos os ladr&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E dum trago despejaram os copos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz
+baixa:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que
+vos der
+sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria
+diab&oacute;lica.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O burro, levantando-se nas patas traseiras, lan&ccedil;ou as
+m&atilde;os ao peitoril
+duma janela, o c&atilde;o trepou-lhe &agrave;
+cabe&ccedil;a, o gato &agrave; cabe&ccedil;a do
+c&atilde;o e o
+galo &agrave; cabe&ccedil;a do gato. Jo&atilde;o deu o
+sinal, e estoirou &agrave; uma o ornear do
+jumento, os latidos do c&atilde;o, o miar do gato e os gritos
+estridentes do
+galo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p56">[56]</a></span>&#8213;&laquo;Agora,
+bradou Jo&atilde;o, fingindo que comandava um destacamento,
+carregar
+armas! Dai-me cabo dos ladr&otilde;es; fogo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando
+cada vez mais; os ladr&otilde;es atemorizados refugiaram-se no
+bosque, saindo
+precipitadamente por uma porta falsa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o e os seus companheiros penetraram na sala abandonada,
+comeram um
+excelente jantar, e deitaram-se em seguida&#8213;Jo&atilde;o numa cama, o
+burro na
+cavalari&ccedil;a, o c&atilde;o numa esteira ao p&eacute;
+da porta, o gato junto do fog&atilde;o e
+o galo num poleiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao principio os ladr&otilde;es ficaram muito contentes, por se
+verem s&atilde;os e
+salvos na floresta. Mas depois, come&ccedil;aram a reflectir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Era bem melhor a minha cama, do que esta erva
+t&atilde;o h&uacute;mida, disse um
+deles.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Tenho pena do frango que eu come&ccedil;ava a saborear,
+disse um outro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;E o que &eacute; mais lament&aacute;vel, exclamou
+um quarto, &eacute; ficar-nos l&aacute; todo o
+dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, t&iacute;nhamos
+tirado das
+gavetas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vou ver se torno l&aacute; a <a href="#e1">entrar!</a>
+disse o capit&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bravo! exclamaram os ladr&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E p&ocirc;s-se a caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+J&aacute; n&atilde;o havia luz na casa; o capit&atilde;o
+entrou &agrave;s apalpadelas, e dirigiu-se
+para o fog&atilde;o; o gato saltou-lhe &agrave; cara e
+esfarrapou-lha com as garras.
+<span class="pagenum">[57]</span>Soltou um grito
+doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
+rabo do c&atilde;o, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo,
+e conseguiu
+por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo
+atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Anda o diabo nesta casa! exclamou o capit&atilde;o, como poderei
+eu sair!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julgou encontrar ref&uacute;gio na estrebaria; mas o burro
+atirou-lhe uma
+parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do ch&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que n&atilde;o
+tinha nem
+pernas nem bra&ccedil;os partidos, ergueu-se e tornou para a
+floresta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o? ent&atilde;o?&#8213;perguntaram-lhe os camaradas assim
+que o viram.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para
+me deitar e cataplasmas de linha&ccedil;a para p&ocirc;r neste
+corpo, que o trago
+num feixe. N&atilde;o podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui
+assaltado
+por uma velha que estava a cardar l&atilde;, e arrumou-me na cara
+com o
+sedeiro, deixando-me neste miser&aacute;vel estado. Quando ia a
+sair a porta,
+um dem&oacute;nio dum remend&atilde;o atravessou-me as pernas
+com a sovela. Logo
+depois Satan&aacute;s em pessoa atirou-se a mim,
+despeda&ccedil;ando-me com as garras.
+Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se
+voc&ecirc;s me n&atilde;o
+acreditam, v&atilde;o l&aacute;, e experimentem.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
+ensanguentado: N&atilde;o seremos n&oacute;s que l&aacute;
+tornaremos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pela manh&atilde;, Jo&atilde;o e os seus camaradas
+almo&ccedil;aram <span class="pagenum"><a name="p58">[58]</a></span>ainda excelentemente,
+e
+partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os
+ladr&otilde;es
+lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos,
+com que carregou o jumento. Foram andando, andando, at&eacute; que
+chegaram &agrave;
+porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com
+uma libr&eacute; espl&ecirc;ndida, meias de seda,
+cal&ccedil;&otilde;es escarlates e cabelo
+empoado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a <a href="#e2">Jo&atilde;o:</a><br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que vindes aqui buscar? N&atilde;o h&aacute; lugar para os
+recolher, v&atilde;o-se <a href="#e3">embora.</a>&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o queremos nada de ti, respondeu Jo&atilde;o. O dono
+do castelo far-nos-&aacute;
+um bom acolhimento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
+andar imediatamente, quando n&atilde;o atiro-lhes j&aacute;
+&agrave;s pernas os meus c&atilde;es de
+fila.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Perd&atilde;o, s&oacute; um instante, replicou o galo
+empoleirado na cabe&ccedil;a do
+jumento; n&atilde;o me poderias dizer quem &eacute; que abriu
+aos ladr&otilde;es na noite
+passada a porta do castelo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O porteiro corou. O conde que estava &agrave; janela, disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Oacute; Bernab&eacute;, responde ao que esse galo te acaba de
+perguntar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, replicou Bernab&eacute;, este galo &eacute; um
+miser&aacute;vel. N&atilde;o fui eu que
+abri a porta aos seis ladr&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como &eacute; ent&atilde;o, meu velhaco, tornou o conde, que
+tu sabes que eram seis?<br />
+
+
+<br />
+
+
+Seja como for, disse Jo&atilde;o, aqui lhe trazemos o <span class="pagenum">[59]</span>dinheiro roubado,
+pedindo-lhe unicamente que nos d&ecirc; de jantar e nos recolha
+esta noite,
+porque vimos cansados do caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ficai certos que sereis bem tratados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O burro, o c&atilde;o e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato
+ficou na
+cozinha. E enquanto a Jo&atilde;o, o conde reconhecido, vestiu-o
+dos p&eacute;s &agrave;
+cabe&ccedil;a com um vestu&aacute;rio magn&iacute;fico,
+deu-lhe um rel&oacute;gio de ouro, e
+disse-lhe:<br />
+
+
+&#8213;Queres ficar comigo? &Eacute;s esperto e honrado, ser&aacute;s
+o meu intendente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha
+m&atilde;e para o p&eacute; de si.
+Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre
+felic&iacute;ssimo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[60]</span>
+<h2><a name="19"></a>O rabequista</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma
+igreja magn&iacute;fica a Santa Cec&iacute;lia, padroeira dos
+m&uacute;sicos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+As rosas mais vermelhas e os l&iacute;rios mais c&acirc;ndidos
+enfeitavam o altar. O
+vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de
+oiro,
+feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava
+constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi l&aacute;
+em romaria
+um pobre rabequista, p&aacute;lido, magro, escaveirado. Como a
+jornada tinha
+sido muito longa, estava cansado, e j&aacute; no seu alforge
+n&atilde;o havia p&atilde;o nem
+dinheiro no bolso para o comprar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim que entrou na capela, come&ccedil;ou a tocar na sua rabeca
+com tal
+suavidade, com tanta express&atilde;o, que a santa ficou
+enternecida ao v&ecirc;-lo
+t&atilde;o pobre e ao escutar aquela m&uacute;sica deliciosa.
+Quando terminou, Santa
+Cec&iacute;lia abaixou-se, descal&ccedil;ou um dos seus ricos
+sapatos de ouro, e deu-o
+ao pobre m&uacute;sico, que tonto de alegria, dan&ccedil;ando,
+cantando, chorando,
+correu &agrave; loja dum ourives para lho vender. O ourives,
+reconhecendo o
+sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o &agrave;
+presen&ccedil;a <span class="pagenum">[61]</span>do
+juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado
+&agrave; morte.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegara o dia da execu&ccedil;&atilde;o. Os sinos dobravam
+lastimosamente, e o cortejo
+p&ocirc;s-se em marcha ao som dos c&acirc;nticos dos frades,
+que ainda assim n&atilde;o
+chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como
+&uacute;ltima gra&ccedil;a, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca
+at&eacute; ao &uacute;ltimo momento.
+O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam
+suplicou o triste desgra&ccedil;ado, que o levassem l&aacute;
+dentro para tocar a sua
+derradeira melodia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
+ajoelhou aos p&eacute;s da santa, e debulhado em
+l&aacute;grimas come&ccedil;ou a tocar.
+Ent&atilde;o o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa
+Cec&iacute;lia curvar-se de
+novo, descal&ccedil;ar o outro sapato e met&ecirc;-lo nas
+m&atilde;os do infeliz m&uacute;sico. &Agrave;
+vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o
+rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente
+prestar-lhe as mais honrosas homenagens.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[62]</span>
+<h2><a name="20"></a>Os p&ecirc;ssegos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco
+p&ecirc;ssegos
+magn&iacute;ficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes
+frutos,
+extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria.
+&Agrave;
+noite o pai perguntou-lhes:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o comeram os p&ecirc;ssegos?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o
+caro&ccedil;o, e
+hei-de plant&aacute;-lo para nascer uma
+&aacute;rvore.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fizeste bem, respondeu o pai, &eacute; bom ser
+econ&oacute;mico e pensar no futuro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse o mais novo, o meu p&ecirc;ssego comi-o logo, e a
+mam&atilde; ainda me deu
+metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade
+n&atilde;o admira;
+espero que quando fores maior te h&aacute;s-de corrigir.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pois eu c&aacute;, disse um terceiro, apanhei o caro&ccedil;o
+que o meu irm&atilde;o deitou
+fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz.
+Vendi
+o meu p&ecirc;ssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando
+for &agrave;
+cidade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pai meneou a cabe&ccedil;a:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[63]</span>&#8213;Foi uma ideia
+engenhosa, mas eu preferia menos c&aacute;lculo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E tu, Eduardo, provaste o teu p&ecirc;ssego?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho,
+ao Jorge, que est&aacute; coitadinho com febre. Ele n&atilde;o
+o queria, mas
+deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora bem, perguntou o pai, qual de v&oacute;s &eacute; que
+empregou melhor o p&ecirc;ssego
+que eu lhe dei?<br />
+
+
+<br />
+
+
+E os tr&ecirc;s pequenos disseram &agrave; uma:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Foi o mano Eduardo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Este no entanto n&atilde;o dizia palavra, e a m&atilde;e
+abra&ccedil;ou-o com os olhos
+arrasados de l&aacute;grimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[64]</span>
+<h2><a name="21"></a>A urna das
+l&aacute;grimas</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma vi&uacute;va, que tinha uma filhinha muito linda, a
+quem
+adorava sobre todas as coisas. N&atilde;o se separava dela um
+s&oacute; momento; mas
+um dia a pobre pequerrucha come&ccedil;ou a sofrer, adoeceu e
+morreu. A
+desditosa m&atilde;e, que tinha passado as noites e os dias, sem
+repousar um
+momento, &agrave; cabeceira da filha, julgou endoidecer de
+m&aacute;goa e de saudades.
+N&atilde;o comia, n&atilde;o fazia sen&atilde;o chorar e
+lamentar-se. Uma noite em que estava
+acabrunhada, chorando no mesmo s&iacute;tio em que a filha tinha
+morrido,
+abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua
+querida filha, sorrindo com uma express&atilde;o
+ang&eacute;lica e trazendo nas m&atilde;os
+uma urna, que vinha cheia at&eacute; &agrave;s bordas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Oh! minha querida m&atilde;e, disse-lhe ela,
+n&atilde;o chores mais. Olha, o anjo
+das l&aacute;grimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais,
+transbordar&aacute;, e as tuas l&aacute;grimas
+correr&atilde;o sobre mim, inquietando-me no
+t&uacute;mulo e perturbando a minha felicidade no
+para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pequenina desapareceu, e a m&atilde;e n&atilde;o tornou a
+chorar para a n&atilde;o
+afligir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[65]</span>
+<h2><a name="22"></a>Reconhecimento e
+ingratid&atilde;o</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os vossos filhos ser&atilde;o para v&oacute;s como
+v&oacute;s tiverdes sido para vossos pais.
+E &eacute; natural. As crian&ccedil;as v&ecirc;em
+diariamente o que fazem seus pais, e
+imitam-nos. Justifica-se desta maneira o prov&eacute;rbio que
+diz,&#8213;que a
+b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o ou a
+maldi&ccedil;&atilde;o dum pai cai sobre a cabe&ccedil;a de
+seus filhos,
+terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem
+ser meditados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um pr&iacute;ncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que
+andava muito
+satisfeito, a lavrar a terra. P&ocirc;s-se a conversar com ele.
+Depois
+de algumas perguntas, soube que o campo n&atilde;o pertencia ao
+homem, mas que
+trabalhava nele mediante um sal&aacute;rio de doze
+vint&eacute;ns por dia. O
+pr&iacute;ncipe, que para as suas despesas de
+administra&ccedil;&atilde;o e
+representa&ccedil;&atilde;o
+necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
+como se vivia com doze vint&eacute;ns di&aacute;rios,
+andando-se ainda por cima
+satisfeito. Manifestou o seu espanto ao alde&atilde;o, que lhe
+respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Gasto diariamente comigo a ter&ccedil;a parte dessa
+quantia; outro ter&ccedil;o &eacute;
+para pagar as minhas dividas; <span class="pagenum">[66]</span>e
+o resto &eacute; para ir juntando algumas
+economias.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era um novo enigma para o pr&iacute;ncipe. Mas o alegre
+campon&ecirc;s explicou-lho
+deste modo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que
+j&aacute; n&atilde;o podem
+trabalhar, e com os meus filhos, que ainda n&atilde;o t&ecirc;m
+for&ccedil;a para isso. Aos
+primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
+inf&acirc;ncia; e espero que os segundos n&atilde;o me
+abandonem, quando os anos
+tiverem pesado sobre mim.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pr&iacute;ncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado
+campon&ecirc;s; encarregou-se
+da educa&ccedil;&atilde;o de seus filhos; e a
+b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o que lhe deram os seus velhos
+pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando
+igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna
+dedica&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas posso desgra&ccedil;adamente citar-vos outro filho, que
+procedeu duma
+maneira t&atilde;o indigna com seu velho pai doente e aleijado, que
+este teve
+de pedir que o levassem para o hospital da miseric&oacute;rdia. O
+filho ingrato
+recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde
+foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
+muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como
+&uacute;ltima
+esmola, um par de len&ccedil;&oacute;is, para cobrir a palha
+que lhe servia de leito.
+O mau filho escolheu os len&ccedil;&oacute;is mais usados, e
+disse ao seu pequeno, de
+dez anos de idade, que os fosse levar <i>a esse velho rabujento</i>.
+Mas
+notou que a crian&ccedil;a ao partir tinha escondido um dos
+len&ccedil;&oacute;is a um canto,
+atr&aacute;s da porta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[67]</span>Quando voltou
+perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Foi, respondeu a crian&ccedil;a desabridamente, para me
+servir mais tarde
+deste len&ccedil;ol, quando pela minha vez te mandar
+tamb&eacute;m para o hospital.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[68]</span>
+<h2><a name="23"></a>O fato novo do
+sult&atilde;o</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um sult&atilde;o, que despendia em vestu&aacute;rio
+todo o seu rendimento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
+teatro, n&atilde;o tinha outro fim sen&atilde;o mostrar os seus
+fatos novos. Mudava
+de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Est&aacute;
+no conselho;
+dizia-se dele: Est&aacute;-se a vestir. A capital do seu reino era
+uma cidade
+muito alegre, gra&ccedil;as &agrave; quantidade de estrangeiros
+que por ali passavam;
+mas chegaram l&aacute; um dia dois lar&aacute;pios, que,
+dando-se por tecel&otilde;es,
+disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo.
+N&atilde;o
+s&oacute; eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores,
+mas al&eacute;m
+disso os vestu&aacute;rios feitos com esse estofo,
+possu&iacute;am uma qualidade
+maravilhosa: tornavam-se invis&iacute;veis para os idiotas e para
+todos
+aqueles que n&atilde;o exercessem bem o seu emprego.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;S&atilde;o vestu&aacute;rios impag&aacute;veis, disse
+consigo o sult&atilde;o; gra&ccedil;as a eles,
+saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
+dos ministros. Preciso desse estofo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E mandou em seguida adiantar aos dois charlat&atilde;es <span class="pagenum">[69]</span>uma quantia avultada,
+para que pudessem come&ccedil;ar os trabalhos imediatamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que
+trabalhavam, apesar de n&atilde;o haver absolutamente nada nas
+lan&ccedil;adeiras.
+Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo
+isso
+muito bem guardado, trabalhando at&eacute; &agrave; meia noite
+com os teares vazios.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Preciso saber se a obra vai adiantada&raquo;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo n&atilde;o podia ser
+visto pelos
+idiotas. E, apesar de ter confian&ccedil;a na sua
+intelig&ecirc;ncia, achou prudente
+em todo o caso mandar algu&eacute;m adiante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
+estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vou mandar aos tecel&otilde;es o meu velho ministro, pensou o
+sult&atilde;o; tem um
+grande talento, e por isso ningu&eacute;m pode melhor do que ele
+avaliar o
+estofo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
+com os teares vazios.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, n&atilde;o vejo
+absolutamente nada!&raquo; Mas no entanto calou-se. Os dois
+tecel&otilde;es
+convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opini&atilde;o
+sobre os
+desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
+olhava, mas n&atilde;o via nada, pela raz&atilde;o
+simplic&iacute;ssima de nada l&aacute; existir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu Deus! pensou ele, serei realmente est&uacute;pido?
+&Eacute; necess&aacute;rio que
+ningu&eacute;m o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas
+l&aacute;
+confessar que n&atilde;o vejo nada, isso &eacute; que eu
+n&atilde;o confesso.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[70]</span>&laquo;Ent&atilde;o
+que lhe parece?&raquo; perguntou um dos tecel&otilde;es:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Encantador, admir&aacute;vel! respondeu o ministro,
+pondo os &oacute;culos. Este
+desenho... estas cores... magn&iacute;fico!... Direi ao
+sult&atilde;o que fiquei
+completamente satisfeito.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Muito agradecido, muito agradecido&raquo;, disseram os
+tecel&otilde;es; e
+mostraram-lhe cores e desenhos imagin&aacute;rios, fazendo-lhe
+deles uma
+descri&ccedil;&atilde;o minuciosa. O ministro ouviu
+atentamente, para ir depois
+repetir tudo ao sult&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
+precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no
+bolso, &eacute; claro; o tear continuava vazio, e apesar disso
+trabalhavam
+sempre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passado algum tempo, mandou o sult&atilde;o um novo
+funcion&aacute;rio, homem
+honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a
+este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e
+n&atilde;o
+via nada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o acha um tecido admir&aacute;vel?&raquo;
+perguntaram os tratantes, mostrando o
+magn&iacute;fico desenho e as belas cores, que tinham apenas o
+inconveniente
+de n&atilde;o existir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas que diabo! Eu n&atilde;o sou tolo! dizia o homem consigo. Pois
+n&atilde;o serei
+eu capaz de desempenhar o meu lugar? &Eacute; esquisito! mas
+deix&aacute;-lo, n&atilde;o o
+deixo eu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua
+admira&ccedil;&atilde;o pelo
+desenho e o bem combinado das cores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; duma magnific&ecirc;ncia incompar&aacute;vel,
+disse <span class="pagenum">[71]</span>ele ao
+sult&atilde;o. E toda a
+cidade come&ccedil;ou a falar desse tecido
+extraordin&aacute;rio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Enfim o pr&oacute;prio sult&atilde;o quis v&ecirc;-lo
+enquanto estava no tear. Com um grande
+acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois
+honrados funcion&aacute;rios, dirigiu-se para as oficinas, em que
+os dois
+velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem
+de
+esp&eacute;cie alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o acha magn&iacute;fico? disseram os dois honrados
+funcion&aacute;rios. O desenho
+e as cores s&atilde;o dignos de vossa alteza.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali
+estavam
+pudessem ver alguma coisa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que &eacute; isto! disse consigo mesmo o sult&atilde;o,
+n&atilde;o vejo nada! &Eacute; horr&iacute;vel!
+serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que
+desgra&ccedil;a que me
+acontece!&raquo; Depois de repente exclamou:
+&laquo;&Eacute; magn&iacute;fico! Testemunho-vos a
+minha satisfa&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E meneou a cabe&ccedil;a com um ar satisfeito, e olhou para o tear,
+sem se
+atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu
+s&eacute;quito olharam do
+mesmo modo, uns atr&aacute;s dos outros, mas sem ver coisa alguma,
+e no entanto
+repetiam como o sult&atilde;o: &laquo;&Eacute;
+magn&iacute;fico!&raquo; At&eacute; lhe aconselharam a que
+se
+apresentasse com o fato novo no dia da grande prociss&atilde;o.
+&laquo;&Eacute; magn&iacute;fico! &eacute;
+encantador! &eacute; admir&aacute;vel!&raquo; exclamavam
+todas as bocas, e a satisfa&ccedil;&atilde;o era
+geral.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
+tecel&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na v&eacute;spera do dia da prociss&atilde;o passaram a noite
+em claro, trabalhando &agrave;
+luz de dezasseis velas. <span class="pagenum">[72]</span>Finalmente
+fingiram tirar o estofo do tear,
+cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem
+fio,
+e declararam, depois disto, que estava o vestu&aacute;rio
+conclu&iacute;do.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O sult&atilde;o com os seus ajudantes de campo foi
+examin&aacute;-lo, e os impostores
+levantando um bra&ccedil;o, como para sustentar alguma coisa,
+disseram:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Eis as cal&ccedil;as, eis a casaca, eis o manto. Leve
+como uma teia de aranha;
+&eacute; a principal virtude deste tecido.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os
+lar&aacute;pios,
+provar-lhe-&iacute;amos o fato diante do espelho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O sult&atilde;o despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe
+as cal&ccedil;as,
+depois a casaca, depois o manto. O sult&atilde;o tudo era voltar-se
+defronte do
+espelho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os
+cortes&atilde;os.
+Que desenho! que cores! que vestu&aacute;rio
+incompar&aacute;vel!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto entrou o gr&atilde;o-mestre de cerim&oacute;nias.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; &agrave; porta o dossel sobre que vossa alteza
+deve assistir &agrave; prociss&atilde;o,
+disse ele.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bom! estou pronto, respondeu o sult&atilde;o. Parece-me que
+n&atilde;o vou mal.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do
+seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto,
+n&atilde;o
+querendo confessar que n&atilde;o viam absolutamente nada, fingiam
+arrega&ccedil;&aacute;-la.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, enquanto o sult&atilde;o caminhava altivo sob um <span class="pagenum">[73]</span>dossel deslumbrante, toda a
+gente na rua e &agrave;s janelas exclamava: &laquo;Que
+vestu&aacute;rio magn&iacute;fico! Que
+cauda t&atilde;o graciosa! Que talhe elegante!&raquo;
+Ningu&eacute;m queria dar a perceber,
+que n&atilde;o via nada, porque isso equivalia a confessar que se
+era tolo.
+Nunca os fatos do sult&atilde;o tinham sido t&atilde;o
+admirados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas parece que vai em cuecas&raquo;, observou um pequerrucho, ao
+colo do
+pai.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; a voz da inoc&ecirc;ncia, disse o pai.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;H&aacute; ali uma crian&ccedil;a que diz que o
+sult&atilde;o vai em cuecas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vai em cuecas! vai em cuecas!&raquo; exclamou o povo
+finalmente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O sult&atilde;o ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente
+era
+verdade. Entretanto tomou a en&eacute;rgica
+resolu&ccedil;&atilde;o de ir at&eacute; ao fim, e os
+camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
+imagin&aacute;ria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[74]</span>
+<h2><a name="24"></a>Boa senten&ccedil;a</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma
+quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil
+r&eacute;is
+de alv&iacute;ssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em
+casa um honrado
+campon&ecirc;s levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro,
+e disse:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Deviam ser oitocentos mil r&eacute;is, que foi a quantia que eu
+perdi; no
+alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
+adiantados os cem mil r&eacute;is de alv&iacute;ssaras: estamos
+pagos por conseguinte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O bom campon&ecirc;s, que nem por sombras tocara no dinheiro,
+n&atilde;o podia nem
+devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o
+juiz,
+que, vendo a m&aacute; f&eacute; do avarento, deu a seguinte
+senten&ccedil;a:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Um de v&oacute;s perdeu oitocentos mil r&eacute;is; o outro
+encontrou um alforge
+apenas com setecentos: Resulta da&iacute; claramente que o dinheiro
+que o
+&uacute;ltimo encontrou n&atilde;o pode ser o mesmo a que o
+primeiro se julga com
+direito. Por consequ&ecirc;ncia tu, meu bom homem, leva o dinheiro
+que
+encontraste, <span class="pagenum">[75]</span>e
+guarda-o at&eacute; que apare&ccedil;a o indiv&iacute;duo
+que perdeu somente
+setecentos mil r&eacute;is. E tu, o &uacute;nico conselho que
+passo a dar-te, &eacute; que
+tenhas paci&ecirc;ncia at&eacute; que apare&ccedil;a
+algu&eacute;m que tenha achado os teus
+oitocentos mil r&eacute;is.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[76]</span>
+<h2><a name="25"></a>Os animais agradecidos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
+perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este
+respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Senhor: eu sou um desgra&ccedil;ado, um
+miser&aacute;vel; nasci no vosso reino, e
+chamo-me <i>Ingratid&atilde;o</i>.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei,
+tomava-te ao meu
+servi&ccedil;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
+Desde que chegaram a pal&aacute;cio, deu tais provas de habilidade,
+mostrou-se
+t&atilde;o esperto e t&atilde;o sol&iacute;cito, que o rei
+afei&ccedil;oou-se-lhe de tal modo, que
+o nomeou seu intendente, confiando-lhe a
+administra&ccedil;&atilde;o da sua casa.
+Deslumbrado por uma fortuna t&atilde;o r&aacute;pida, o seu
+orgulho desde ent&atilde;o n&atilde;o
+conheceu limites; maltratava os inferiores, e n&atilde;o tinha
+compaix&atilde;o dos
+desventurados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ora, na vizinhan&ccedil;a do pal&aacute;cio havia uma floresta
+cheia de animais
+selvagens e perigos&iacute;ssimos. O intendente mandou
+a&iacute; fazer por toda a
+parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras,
+caindo
+dentro, pudessem ser agarradas. <span class="pagenum">[77]</span>Um
+dia que o intendente atravessava a
+floresta, ia t&atilde;o absorvido pelos seus pensamentos
+orgulhosos, que se
+precipitou ele mesmo dentro duma das covas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passado um instante, caiu um le&atilde;o dentro do mesmo
+po&ccedil;o; caiu depois um
+lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
+governador, ao ver-se em t&atilde;o extraordin&aacute;ria
+companhia, ficou t&atilde;o
+horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a
+esperan&ccedil;a de
+salva&ccedil;&atilde;o lhe parecia inteiramente perdida, porque
+por mais que gritasse,
+ningu&eacute;m o vinha socorrer.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
+chamado Ant&oacute;nio, que todos os dias ia rachar lenha
+&agrave; floresta, para
+ganhar o p&atilde;o necess&aacute;rio &agrave; sua mulher e
+aos seus filhos. Ant&oacute;nio tamb&eacute;m
+l&aacute; foi nesse dia, como de costume, e p&ocirc;s-se a
+trabalhar n&atilde;o longe da
+cova em que ca&iacute;ra o intendente, cujos gritos de
+afli&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tardou a
+ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
+ali.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Sou o governador do pal&aacute;cio do rei, e, se me
+tirares daqui, prometo
+encher-te de riquezas; estou em companhia dum le&atilde;o, dum lobo
+e duma
+enorme serpente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Eu, respondeu o lenhador, sou um miser&aacute;vel
+jornaleiro, n&atilde;o tendo para
+sustentar a minha fam&iacute;lia, mais que o produto do meu
+trabalho; bastava
+um dia perdido para me causar um grande desarranjo; v&ecirc;
+l&aacute; pois, se
+cumpres a tua promessa?<br />
+
+
+<br />
+
+
+O intendente continuou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Pela f&eacute; que devo a Deus e a el-rei nosso senhor,
+<span class="pagenum">[78]</span>juro-te que
+cumprirei a minha palavra.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Confiado nisto o rachador de lenha foi &agrave; cidade, e voltou
+com uma corda
+muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O le&atilde;o
+atirou-se a
+ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
+o intendente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou acima, o le&atilde;o agradeceu ao seu salvador com a
+maior
+amabilidade, e foi-se embora &agrave; procura de jantar, porque
+tinha fome.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio deitou outra vez a corda ao fundo do
+po&ccedil;o, e, julgando tirar o
+governador, enganou-se, porque era o lobo; &agrave; terceira vez
+subiu a
+serpente; foi necess&aacute;rio fazer uma quarta tentativa, para
+sair o
+governador. Este n&atilde;o perdeu tempo em agradecimentos, e
+partiu a correr
+para o pal&aacute;cio. O jornaleiro voltou para casa, e contou
+&agrave; mulher tudo o
+que se tinha passado, n&atilde;o lhe esquecendo, &eacute;
+claro, as brilhantes
+promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manh&atilde;,
+foi o pobre
+homem bater &agrave; porta do pal&aacute;cio. O porteiro
+perguntou-lhe o que queria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Fa&ccedil;a-me o favor, respondeu o rachador de dizer a
+s.ex.&ordf; o intendente
+que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja
+falar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Vai dizer a esse homem, que eu n&atilde;o vi
+ningu&eacute;m na floresta; que se
+ponha a andar, porque o n&atilde;o conhe&ccedil;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre homem tornou para casa mui descor&ccedil;oado, <span class="pagenum">[79]</span>e contou &agrave;
+mulher a
+odiosa perf&iacute;dia de que tinha sido vitima.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A mulher disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Tem paci&ecirc;ncia; o sr. intendente estava hoje
+decerto muito ocupado, e
+foi talvez por isso que te n&atilde;o p&ocirc;de
+receber.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu
+esperan&ccedil;as.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na manh&atilde; seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo
+&agrave; porta do pal&aacute;cio.
+Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos &aacute;speros, que
+n&atilde;o tornasse
+ali a aparecer, quando n&atilde;o ver-se-ia obrigado a empregar
+meios
+violentos. A mulher ainda desta vez procurou consol&aacute;-lo:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Experimenta terceira e &uacute;ltima vez, disse-lhe
+ela, talvez Deus o
+inspire melhor. E se assim n&atilde;o for, ainda que te custe,
+n&atilde;o penses mais
+nisso.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte o bom do homem voltou &agrave; carga; e tendo o
+porteiro
+consentido &agrave; for&ccedil;a de suplicas em
+anunci&aacute;-lo ainda ao governador, este
+encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre
+homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do
+ch&atilde;o. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com
+um
+burro, p&ocirc;s-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As
+feridas
+levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se
+obrigado a contrair dividas para pagar ao m&eacute;dico. Quando
+finalmente
+tinha recobrado algumas for&ccedil;as, voltou ao bosque segundo o
+costume para
+fazer alguma lenha. Apenas l&aacute; chegou, apareceu-lhe o
+le&atilde;o, que ele
+tinha ajudado a sair do po&ccedil;o. O le&atilde;o conduzia um
+burro diante de si, e
+<span class="pagenum">[80]</span>este burro estava
+carregado de sacos cheios de preciosidades. O le&atilde;o,
+vendo Ant&oacute;nio, parou e inclinou-se diante dele com um ar de
+respeitoso
+agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal
+de que ficasse com o jumento. Ant&oacute;nio doido de alegria levou
+o animal
+para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte, voltando de novo &agrave; floresta, apareceu-lhe o
+lobo, que
+o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto
+lhe era agradecido. Quando a tarefa estava conclu&iacute;da, e
+tinha carregado
+o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha
+tirado do f&ocirc;jo, e que trazia na ponta da l&iacute;ngua
+uma pedra preciosa, em
+que brilhavam tr&ecirc;s cores,&#8213;o branco, o preto e o vermelho.
+Quando a
+serpente chegou ao p&eacute; do rachador de lenha, deixou cair a
+pedra junto
+dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal.
+Ant&oacute;nio
+levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
+propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho,
+afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
+assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia.
+Ant&oacute;nio respondeu-lhe que a n&atilde;o queria vender,
+mas simplesmente saber se
+seria boa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O velho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;S&atilde;o tr&ecirc;s as virtudes desta pedra:
+abund&acirc;ncia cont&iacute;nua, alegria
+imperturb&aacute;vel e luz sem trevas. Se algu&eacute;m ta
+comprar por menos dinheiro
+do que vale, tornar&aacute; imediatamente para a tua
+m&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio ficou muito contente com esta resposta, <span class="pagenum">[81]</span>agradeceu ao velho da
+ci&ecirc;ncia maravilhosa, e correu a contar &agrave; mulher a
+sua felicidade. Como
+se imagina, gra&ccedil;as &agrave; virtude da famosa pedra,
+n&atilde;o lhe faltaram da&iacute; em
+diante, nem honras nem riquezas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou
+chamar Ant&oacute;nio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso
+talism&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio, vendo que semelhante desejo era uma ordem,
+respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me
+n&atilde;o for paga
+pelo que vale, tornar&aacute; ela mesma para o meu poder.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Hei de pagar-ta bem, disse o rei.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de
+manh&atilde;,
+Ant&oacute;nio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher
+sabendo isto
+disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Torna a lev&aacute;-la ao rei imediatamente;
+n&atilde;o v&aacute; ele persuadir-se que
+lha furtaste.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou &agrave;
+presen&ccedil;a de sua
+majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
+preciosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de
+ferro,
+fechado com sete chaves, disse o rei.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio mostrou-lhe ent&atilde;o a j&oacute;ia
+preciosa, e o rei ficou
+extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido
+semelhante tesouro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio contou-lhe tudo que tinha havido, a
+ingratid&atilde;o do governador e o
+reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o
+seu
+intendente, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[82]</span>&#8213;&laquo;Homem
+perverso, com justo motivo te puseram o nome de <i>Ingratid&atilde;o</i>,
+porque &eacute;s mais falso e mais p&eacute;rfido que os
+animais ferozes, e pagaste
+com o mal o bem que te fizeram. Mas justi&ccedil;a ser&aacute;
+feita. Dou a Ant&oacute;nio as
+tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
+enforcado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Admiraram todos a senten&ccedil;a do rei, e Ant&oacute;nio
+desempenhou as suas altas
+fun&ccedil;&otilde;es com tanta sabedoria e bondade, que depois
+da morte do rei foi
+escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos
+gloriosos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[83]</span>
+<h2><a name="26"></a>O ermit&atilde;o</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um homem, animado pela mais ardente cren&ccedil;a religiosa,
+deliberou
+retirar-se a uma gruta solit&aacute;ria para se consagrar
+inteiramente ao
+trabalho da sua salva&ccedil;&atilde;o. Jejuando sempre,
+orando, ciliciando-se, os
+seus pensamentos n&atilde;o se desviavam nunca da ideia de Deus.
+Depois de ter
+assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que
+j&aacute; tinha
+merecido um lugar glorioso no para&iacute;so, e podia ser contado
+entre os
+santos mais not&aacute;veis.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;H&aacute; no mundo um pobre m&uacute;sico, que anda de porta
+em porta, tocando viola
+e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O ermit&atilde;o, at&oacute;nito, ao ouvir estas palavras,
+levantou-se, agarrou no
+seu bord&atilde;o, foi em busca do m&uacute;sico e mal o
+encontrou disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Irm&atilde;o, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que
+ora&ccedil;&otilde;es e
+penit&ecirc;ncias te tornaste agrad&aacute;vel a Deus.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora, respondeu-lhe o m&uacute;sico, abaixando a cabe&ccedil;a,
+santo padre, n&atilde;o
+zombes de mim. Nunca fiz <span class="pagenum">[84]</span>boas
+obras, e quanto a ora&ccedil;&otilde;es n&atilde;o as sei,
+pobre de mim, que sou um pecador. O que fa&ccedil;o &eacute;
+andar de casa em casa a
+divertir os outros.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O austero ermit&atilde;o continuou a insistir:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Estou certo que, no meio da tua exist&ecirc;ncia vagabunda,
+praticaste algum
+acto de virtude.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Em verdade n&atilde;o poderia citar nem um
+s&oacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o como chegaste a este estado de pobreza? Tens
+vivido
+loucamente como os que exercem a tua profiss&atilde;o? Dissipaste
+frivolamente
+o teu patrim&oacute;nio e o produto do teu
+of&iacute;cio?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo
+marido e
+filhos tinham sido condenados &agrave; escravid&atilde;o para
+pagar uma d&iacute;vida. Essa
+mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa,
+protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possu&iacute;a
+para resgatar a
+sua fam&iacute;lia, e levei-a &agrave; cidade, onde ela devia
+encontrar-se com seu
+marido e com seus filhos. Mas quem n&atilde;o teria feito outro
+tanto?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras o ermit&atilde;o p&ocirc;s-se a chorar, e
+exclamou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nos meus setenta anos de solid&atilde;o nunca pratiquei uma obra
+t&atilde;o
+merit&oacute;ria, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto
+que tu n&atilde;o
+passas dum pobre m&uacute;sico.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[85]</span>
+<h2><a name="27"></a>Carlos Magno e o abade de
+S. Gall</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
+pregui&ccedil;osamente reclinado sobre almofadas &agrave; porta
+da abadia, fresco,
+rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens
+en&eacute;rgicos e
+activos, e o abade era indolente. Al&eacute;m disso o imperador
+tinha mais
+dum motivo de queixa contra ele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter
+&agrave;
+sua esclarecida raz&atilde;o tr&ecirc;s perguntas,
+&agrave;s quais ter&aacute; a bondade de me
+responder daqui a tr&ecirc;s meses, contados dia a dia, em
+sess&atilde;o solene do
+nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
+dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao
+mundo;
+em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+rev.<sup>ma</sup> vier &agrave; minha
+presen&ccedil;a, pensamento que deve ser um erro. Trate
+de arranjar resposta satisfat&oacute;ria a tudo, ali&aacute;s
+deixa de ser abade de S.
+Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada
+para o rabo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O abade n&atilde;o sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as
+escolas, mas
+os doutores mais <span class="pagenum">[86]</span>famosos
+pela sua ci&ecirc;ncia, n&atilde;o lhe souberam dar
+resposta. No entanto os dias iam correndo, e a &eacute;poca fatal
+aproximava-se; j&aacute; n&atilde;o faltava sen&atilde;o um
+m&ecirc;s, j&aacute; n&atilde;o faltavam sen&atilde;o
+semanas, e afinal s&oacute; dias. O abade, que noutro tempo era
+gordo e
+anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite.
+Andava errante nos bosques lamentando a sua desgra&ccedil;a, quando
+se
+encontrou com o seu pastor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bons dias senhor abade. Parece que est&aacute; mais magro!
+Est&aacute; doente?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Estou, meu caro F&eacute;lix, estou muito doente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa
+curar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Infelizmente n&atilde;o s&atilde;o ervas que eu preciso, mas
+resposta &agrave;s minhas tr&ecirc;s
+perguntas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; ent&atilde;o latim?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; latim, sen&atilde;o os
+doutores tinham-me arranjado tudo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Visto que n&atilde;o &eacute; latim, queira v. rev.<sup>ma</sup>
+dizer-me o que &eacute;: minha m&atilde;e
+era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando o abade lhe formulou as tr&ecirc;s perguntas, o pastor
+atirou com o
+barrete ao ar, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Se &eacute; apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v.
+rev.<sup>ma</sup>
+pode continuar a engordar; mas para isso &eacute;
+necess&aacute;rio que eu vista o seu
+h&aacute;bito.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou o dia, o pastor disfar&ccedil;ado com o
+h&aacute;bito do abade de S.
+Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
+imperial.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o, senhor abade, parece que est&aacute; mais magro,
+deu-lhe muito que
+pensar a chave do <span class="pagenum">[87]</span>enigma?
+Vamos l&aacute; a ver a primeira pergunta: Quanto
+valho eu em dinheiro?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por
+trinta dinheiros, sua majestade vale &agrave; justa vinte e nove,
+s&oacute; um
+dinheiro menos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bravo, senhor abade, a resposta &eacute; h&aacute;bil, e na
+realidade n&atilde;o posso
+deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos &agrave; segunda
+pergunta, n&atilde;o h&aacute; de
+ser t&atilde;o f&aacute;cil dar a resposta. Vamos l&aacute;
+a ver: quanto tempo levaria eu a
+dar a volta ao mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir
+constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
+quatro horas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Decididamente, v. rev.<sup>ma</sup> &eacute; um grande
+fin&oacute;rio, e desta vez,
+confesso-me vencido; mas a terceira, n&atilde;o dessas &agrave;
+que se responde com
+suposi&ccedil;&otilde;es. Quem lhe h&aacute; de dizer o que
+eu estou pensando, e como me h&aacute;
+de provar que este pensamento &eacute; um erro? Tem a palavra
+senhor abade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall;
+est&aacute;
+enganado, porque eu sou o seu pastor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o tu &eacute; que deves ser o abade de S. Gall,
+e desde j&aacute; o ficas
+sendo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um
+favor,
+pe&ccedil;o-lhe outra coisa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o tens mais que falar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pe&ccedil;o a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos Magno n&atilde;o era homem que faltasse &agrave; sua
+palavra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+<h2><a name="28"></a>A boneca</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma hist&oacute;ria&#8213;a
+hist&oacute;ria duma
+boneca!<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o h&aacute; muitos anos, mas ainda n&atilde;o era
+a Cordoaria do Porto o ameno
+jardim, onde a inf&acirc;ncia folga por entre maci&ccedil;os de
+flores e sob o
+sorriso do sol, sem que lhe enegre&ccedil;a o esp&iacute;rito a
+vista dos dois
+monumentos, que a meu ver simbolisam as duas mais horr&iacute;veis
+calamidades,
+que podem aniquilar um homem&#8213;o hospital e a cadeia!&#8213;ainda
+n&atilde;o h&aacute;
+muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
+feira, divertindo-me a meu modo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cansado das in&uacute;meras figuras, que tinha visto passar por
+aquela
+esp&eacute;cie de lanterna m&aacute;gica, dispunha-me a dar por
+findo o espect&aacute;culo,
+quando novos personagens me chamaram a aten&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram os meus vizinhos <i>ricos</i>.
+<br />
+
+
+Aqui &eacute; preciso uma r&aacute;pida
+explica&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Das fam&iacute;lias da minha vizinhan&ccedil;a, s&oacute;
+conhe&ccedil;o tr&ecirc;s.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Qual destas tr&ecirc;s fam&iacute;lias ser&aacute; mais
+feliz?...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pelo que tenho notado, n&atilde;o t&ecirc;m que invejar umas
+&agrave;s outras.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[89]</span>S&atilde;o
+todas felizes; cada qual a seu modo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vi, pois, chegar os meus vizinhos <i>ricos</i>.
+<br />
+
+
+Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chap&eacute;u
+na m&atilde;o e
+dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou,
+tomou nos bra&ccedil;os a filhinha e dep&ocirc;-la no
+ch&atilde;o, e oferecendo, em
+seguida, a m&atilde;o &agrave; esposa, para a ajudar a apear,
+dirigiu-se com ela e
+com a menina para a barraca onde eu estava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o havia ali segredo a surpreender.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
+parecia agradecer &agrave;quela formosa crian&ccedil;a a
+manifesta&ccedil;&atilde;o de qualquer
+desejo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No fim de meia hora possu&iacute;a a minha pequena vizinha com que
+fazer a
+felicidade de dez crian&ccedil;as menos abastadas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tinha o necess&aacute;rio para montar completamente a casa duma
+boneca...
+<i>rica</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Faltava apenas a dona da casa&#8213;a boneca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todo risos e aten&ccedil;&otilde;es, o lojista apresentou o que
+tinha de melhor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois de muita hesita&ccedil;&atilde;o e de, j&aacute; com
+os olhos, j&aacute; com a voz, consultar
+a mam&atilde;, a gentil crian&ccedil;a acabou por escolher uma
+magn&iacute;fica boneca de
+dois palmos de altura, com cabelo em <i>bandeaux</i> e
+olhos azuis.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma boneca como as outras: cabe&ccedil;a e colo de massa, corpo de
+pelica
+recheada, bra&ccedil;os e pernas de pau.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma vive na loja da casa, que habito. &Eacute; uma tribo de
+crian&ccedil;as, que fazem
+o mart&iacute;rio e a alegria da pobre m&atilde;e, e tem por
+chefe um honrado
+sapateiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[90]</span>Alguns deles, se
+andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
+anjos, ca&iacute;dos do c&eacute;u sobre um monte de lama.<br />
+
+
+<br />
+
+
+S&atilde;o os meus vizinhos <i>pobres</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A segunda comp&otilde;e-se de marido, mulher e filha, e ocupa a
+casa
+imediata.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; como se costuma dizer, gente <i>que vai muito bem
+com a sua vida</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A filha que ter&aacute; dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e
+carnudas,
+cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem
+&agrave;
+press&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+S&atilde;o os meus vizinhos <i>remediados</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A terceira &eacute; a dos meus vizinhos <i>ricos</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Casa nobre, jardim espa&ccedil;oso, cavalos, criados, nome inscrito
+nas
+listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+estado&#8213;nada falta &agrave;quela ditosa gente!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Comp&otilde;e-se igualmente de marido, mulher e filha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que formosa crian&ccedil;a!... Ter&aacute; oito anos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Franzina e p&aacute;lida, com os cabelos negros, os olhos grandes e
+cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas m&atilde;os de dedos
+compridos e
+esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que
+n&atilde;o
+sinta antecipada inveja do feliz namorado&#8213;provavelmente ainda a
+crescer&#8213;que h&aacute;-de um dia ter o direito de lhas cobrir de
+beijos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas
+aquelas preciosidades de sobre o balc&atilde;o da barraca para
+dentro do
+carro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocr&aacute;tica
+crian&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[91]</span>Sa&iacute;
+dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo at&eacute; casa
+variad&iacute;ssimas
+considera&ccedil;&otilde;es, sugeridas pela quase
+indiferen&ccedil;a, com que aquela menina
+recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que contraste com os olhares de cobi&ccedil;a, com que outras
+raparigas da
+mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabe&ccedil;a de pano,
+horr&iacute;vel
+artefacto portugu&ecirc;s, em que os olhos s&atilde;o
+representados por dois pontos
+de linha azul, o nariz por um alinhavo de retr&oacute;s cor de
+rosa, a boca por
+outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de l&atilde; preta!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando cheguei a casa, j&aacute; na dos meus vizinhos remediados
+n&atilde;o havia luz.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na dos meus vizinhos <i>pobres</i>, o pai batia a sola,
+cantando ao som de
+tr&ecirc;s assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos,
+por lavar,
+provocavam os ralhos da m&atilde;e.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando, no dia seguinte, cheguei &agrave; janela, seriam onze horas
+da manh&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na rua agenciavam nova camada de imund&iacute;cie os filhos do
+sapateiro; na
+casa imediata n&atilde;o se via ningu&eacute;m&#8213;estava a pequena
+na mestra; no
+pal&aacute;cio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da
+varanda,
+divertia-se a minha pequena milion&aacute;ria fazendo rodar, com
+aux&iacute;lio duma
+linha, uma magn&iacute;fica <i>caleche</i> descoberta,
+puxada por cavalos brancos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dentro da <i>caleche</i> pavoneava-se a boneca
+opulentamente vestida.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;A&iacute; est&aacute; a tua caricatura, minha
+feiticeira!...&raquo;&#8213;disse eu de mim
+para mim. &laquo;Ensaias <span class="pagenum">[92]</span>nas
+bonecas o que v&ecirc;s no mundo a que pertences!...
+Est&aacute;s a aprender a copiar... Sempre este mundo!...&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Retirei-me da janela.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
+vestia tr&ecirc;s e quatro vezes!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao que eu, por&eacute;m, achava mais gra&ccedil;a, era ao
+respeito com que a dona a
+tratava!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chamava-lhe sr.<sup>a</sup> D. Lu&iacute;sa; dava-lhe
+excel&ecirc;ncia; sustentava finalmente
+com a boneca um destes di&aacute;logos de senhoras da alta
+sociedade, em que
+se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia,&#8213;estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos
+<i>ricos</i>&#8213;ouvi um grito de susto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era devido a um acidente, a que est&aacute; sujeito quem anda de
+carro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Voltara-se este, e a boneca ca&iacute;ra, ferindo a fronte na pedra
+da janela.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a
+v&iacute;tima; vendo,
+por&eacute;m, que a ferida havia for&ccedil;osamente de deixar
+cicatriz, e
+lembrando-se de que s&oacute; lhe bastava querer, para que lhe
+dessem outra
+nova, agarrou-a pelos p&eacute;s e ia atir&aacute;-la com
+despeito &agrave; rua, quando mais
+perto de mim bradou voz t&iacute;mida e suplicante:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o atire!... D&ecirc;-ma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu n&atilde;o
+dera f&eacute; at&eacute;
+ent&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim invocada, a menina <i>rica</i> franziu levemente <span class="pagenum">[93]</span>as sobrancelhas e
+lan&ccedil;ou um olhar de rainha para o s&iacute;tio donde
+vinha a s&uacute;plica.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vendo uma crian&ccedil;a, pouco mais ou menos da sua idade, serenou
+e,
+encolhendo os ombros, respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;J&aacute; n&atilde;o presta!... Est&aacute;
+esmurrada!...&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; o mesmo!... D&aacute;-ma?...&#8213;bradou a outra, cujos
+olhos brilhavam de
+cobi&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Dou...&raquo;&#8213;volveu a rica, encolhendo novamente os
+ombros.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas
+m&atilde;os da
+vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse
+despeda&ccedil;ar-se nas lajes da rua.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
+outra, para mostrar &agrave; m&atilde;e a que ela ainda
+n&atilde;o podia acreditar, que
+fosse sua!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por espa&ccedil;o de meses foi a boneca a principal
+ocupa&ccedil;&atilde;o da nova dona.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro
+vezes em quatro horas!... J&aacute; lhe n&atilde;o davam
+excel&ecirc;ncia! Chamavam-lhe
+sr.<sup>a</sup> D. Ana; falavam-lhe de arranjos
+dom&eacute;sticos, do desmazelo da
+criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
+estranhas para ela!<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a desgra&ccedil;ada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe
+cada vez menos
+azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
+se tornava mais escura: parecia uma n&oacute;doa, um estigma!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, <span class="pagenum">[94]</span>que trouxera no corpo,
+ainda n&atilde;o poderia enganar olhos pouco conhecedores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o tardou, por&eacute;m, que arrebiques de mau gosto,
+fitas velhas, rendas
+amareladas, chap&eacute;us imposs&iacute;veis, viessem
+contrastar com a eleg&acirc;ncia do
+vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele
+as ondula&ccedil;&otilde;es do <i>moir&eacute;</i>,
+at&eacute; que, um belo dia, vi a boneca vestida de
+cassa&#8213;-no Inverno!&#8213;xaile e manta na cabe&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Muito mal lhe ficava aquilo!... &Agrave;quela boneca custava-lhe de
+certo o
+ver-se t&atilde;o mal arranjada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; justo!... Cada qual segundo as suas posses.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por esse tempo, entrei em rela&ccedil;&otilde;es com o meu
+vizinho sapateiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
+faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasi&atilde;o,
+para me
+pedir desculpa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
+aproximar-se de n&oacute;s e, desde ent&atilde;o, nunca saio de
+casa nem entro, sem
+grave risco de sofrer as consequ&ecirc;ncias da sua travessa
+familiaridade.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entre os filhos do sapateiro, por&eacute;m, h&aacute; uma
+pequenita de onze anos, com
+quem simpatizei logo &agrave; primeira vista.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chama-se Maria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por um destes acasos da Provid&ecirc;ncia, que parece <span class="pagenum">[95]</span>&agrave;s vezes
+comprazer-se
+em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os
+irm&atilde;os.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acostumado &agrave;s travessuras e desalinho dos outros filhos do
+sapateiro,
+fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E bem verdade que ele conhecia o valor daquela crian&ccedil;a,
+porque havia
+verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse:
+&laquo;Esta &eacute; a
+minha Maria!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E tinha raz&atilde;o!<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o podia ser mais discreta do que j&aacute; nesse tempo
+era.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; quem vale &agrave; m&atilde;e!...&#8213;acrescentou o
+velho.&raquo;&#8213;Ali, onde a v&ecirc;, faz o
+servi&ccedil;o duma mulher!... H&aacute; seis meses, quando a
+minha santa esteve
+doente&#8213;bem pensei que n&atilde;o arribasse!&#8213;a pequena era quem
+cozinhava e
+olhava pelos irm&atilde;os!... E caridade como ela tem!?... Olhe
+que aquela
+pequena esteve tr&ecirc;s dias sem se deitar... ali... ao
+p&eacute; da m&atilde;e! Foi
+preciso eu obrig&aacute;-la, que ela n&atilde;o a queria
+deixar!...&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma
+l&aacute;grima, que,
+havia muito, hesitava sobre se sim ou n&atilde;o se devia despenhar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
+cabe&ccedil;a coberta por um len&ccedil;o branco.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desde que o pai me deu t&atilde;o boas
+informa&ccedil;&otilde;es da rapariga, nunca mais
+passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias
+&agrave;
+pequena.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
+deitada nos joelhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[96]</span>&#8213;Eu
+conhe&ccedil;o aquela boneca!...&#8213;disse eu de mim para mim.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, n&atilde;o podendo resistir &agrave; curiosidade, bradei:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Oacute; Maricas!... Quem te deu a boneca?...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi ali a menina da vizinha!&#8213;respondeu a pequenita, corando de prazer.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era escusado dizer-mo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. N&atilde;o
+podia
+duvidar... Era ela; l&aacute; estava a mancha, o estigma cada vez
+mais vis&iacute;vel
+na fronte.<br />
+
+
+<br />
+
+
+De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se
+com
+ela.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem te viu e quem te v&ecirc;!...&#8213;pensava eu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave;s vezes, se Maria se descuidava e os irm&atilde;os lha
+podiam apanhar, que
+tratos que sofria a desgra&ccedil;ada!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ro&ccedil;ada por aquelas m&atilde;os, de que um carvoeiro se
+envergonharia,
+empregada como p&eacute;la, submetida a torturas, era, ainda assim,
+singular&iacute;ssimo o aspecto da triste!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a
+fraternizar com o povo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&iacute;sera mudara mais uma vez de nome!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+De sr.<sup>a</sup> D. Ana passara a ser sr.<sup>a</sup>
+Rosinha e tratavam-na por vossemec&ecirc;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e len&ccedil;o
+na cabe&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
+a boneca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
+encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre
+boneca a lastimar-se por estar tudo t&atilde;o caro, por haver <span class="pagenum">[97]</span>falta de
+trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que
+mais familiares eram &agrave; pequena.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na,
+mandavam-na buscar &aacute;gua &agrave; fonte, pagavam-lhe,
+regateando, a soldada, e
+acabavam por a despedir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+J&aacute; o leitor v&ecirc; que, apesar da bondade Maria,
+deixara de ser feliz.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no pal&aacute;cio
+vizinho!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos,
+desfeito o carmim dos l&aacute;bios, a boneca n&atilde;o
+prometia longa dura&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi este pelo menos, o progn&oacute;stico que fiz a
+&uacute;ltima vez que a vi,
+tentando em v&atilde;o agradar &agrave; &uacute;ltima dona
+que o seu destino lhe dera.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia chovia a c&acirc;ntaros!&#8213;o enxurro, mal cabendo nas valetas
+da rua,
+espadanava em cach&atilde;o para cima dos passeios, arrastando na
+passagem mil
+imund&iacute;cies.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu estava &agrave; porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e
+olhava
+melancolicamente para a &aacute;gua negra, que corria. Nisto ouvi
+um grito, que
+partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um
+objecto,
+arremessado de dentro da loja, atravessou o espa&ccedil;o voando, e
+foi cair no
+leito do enxurro...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Olhei... Era a boneca!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&iacute;sera, arrastada pela &aacute;gua, vogou rua abaixo
+at&eacute; esbarrar numa
+pedra; mas o redemoinho envolveu-a, <span class="pagenum">[98]</span>e,
+depois de a fazer girar tr&ecirc;s ou
+quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, tra&ccedil;ado
+entre a pedra e
+o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, at&eacute; ir
+sumir-se nas
+profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&aacute; pieguice, ser&aacute; o que o leitor quiser; mas,
+confesso-lhe, que me
+impressionou o fim da pobre boneca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado &agrave;
+vidra&ccedil;a do
+sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o fui eu...&#8213;balbuciou a pequena, chorando.&#8213;Foi ali o
+Joaquim!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora!...&#8213;respondeu o garoto com enfado.&#8213;Ora!... Estava velha... e
+feia!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Curvei a cabe&ccedil;a ante aquela raz&atilde;o, e segui o meu
+caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pobre boneca!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[99]</span>
+<h2><a name="29"></a>Inconveniente da riqueza</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Als&aacute;cia, foi
+surpreendido pela noite &agrave; entrada duma aldeia. Procurou dum
+lado para
+outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam
+j&aacute;
+todas fechadas, n&atilde;o se via nem um raio de luz
+atrav&eacute;s das janelas, tudo
+estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual
+com que se bate o trigo, e nesse s&iacute;tio havia uma pequena
+luz. Nosso
+Senhor dirigiu-se para l&aacute;, chegou ao p&eacute; do muro
+duma quinta, e bateu &agrave;
+porta. Foi um campon&ecirc;s que lha veio abrir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
+N&atilde;o se havia de arrepender.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E acrescentou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Visto que j&aacute; todos est&atilde;o deitados, para que
+&eacute; que voc&ecirc; est&aacute; ainda a
+trabalhar?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora, respondeu o campon&ecirc;s, soube ontem &agrave; noite
+que ia ser perseguido
+por um credor desapiedado, se lhe n&atilde;o pagasse
+amanh&atilde; o que lhe devo,
+portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
+o vender no mercado, e pagar a minha d&iacute;vida. Depois disto
+n&atilde;o nos fica
+nada, <span class="pagenum">[100]</span>e
+n&atilde;o sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que
+Deus
+quiser!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao dizer isto o campon&ecirc;s limpava o suor da testa, e passava a
+m&atilde;o pelos
+olhos arrasados de l&aacute;grimas. O Senhor teve d&oacute;
+dele, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o desanimes. Quando te pedi hospitalidade,
+disse-te que n&atilde;o te
+havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e
+aproximou-a do trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a
+tudo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se,
+de cada espiga, desceu uma chuva de gr&atilde;os prodigiosa.
+&Agrave; vista dum tal
+milagre os camponeses maravilhados ca&iacute;ram de joelhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
+pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo,
+ser&aacute;s
+recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, &eacute; Deus que
+te
+enriquece.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dito isto desapareceu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a chuva dos gr&atilde;os n&atilde;o parou em toda a noite, e
+fez um monte t&atilde;o alto
+como a igreja.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O campon&ecirc;s pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu
+uma bela
+casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e
+seus filhos adquiriram costumes perdul&aacute;rios, tanto e tanto
+fizeram, que
+se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
+ningu&eacute;m os ajudou na sua mis&eacute;ria. Uma noite o
+velho campon&ecirc;s, que bebera
+enormemente, entrou <span class="pagenum">[101]</span>no
+celeiro, e, recordando-se do milagre que o
+enriquecera, imaginou que tamb&eacute;m ele o poderia fazer.
+Agarrou na
+candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a
+casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na
+mis&eacute;ria mais
+absoluta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[102]</span>
+<h2><a name="30"></a>Querer &eacute; poder</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem procura sempre encontra, diz um velho prov&eacute;rbio; quero
+ver por
+experi&ecirc;ncia, disse um dia um rapaz, se esta m&aacute;xima
+&eacute; verdadeira.<br />
+
+
+<br />
+
+
+P&ocirc;s-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma
+grande cidade.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, disse-lhe ele, h&aacute; muitos anos que vivo tranquilo e
+solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
+vezes&#8213;<i>Quem procura sempre encontra</i>, e <i>quem
+porfia mata ca&ccedil;a</i>. Tomei
+uma grande resolu&ccedil;&atilde;o. Quero casar com a filha do
+rei.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante
+uma
+semana, sempre com a mesma vontade inabal&aacute;vel,
+at&eacute; que o rei ouviu
+falar o rapaz da sua louca pretens&atilde;o. Surpreendido com uma
+ideia t&atilde;o
+extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela
+ci&ecirc;ncia,
+pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais
+s&atilde;o
+os teus t&iacute;tulos? Para seres o marido <span class="pagenum">[103]</span>de minha filha
+&eacute; necess&aacute;rio que te
+distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
+extraordin&aacute;rio. Ouve. Perdi h&aacute; muito tempo no rio
+um diamante dum valor
+incalcul&aacute;vel. Aquele que o encontrar obter&aacute; a
+m&atilde;o de minha filha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
+rio; logo de manh&atilde; come&ccedil;ava a tirar
+&aacute;gua com um balde pequeno, e
+deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
+horas, punha-se a rezar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os peixes inquietos ao verem t&atilde;o grande tenacidade, e
+receando que
+chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Encontrar um diamante que caiu ao rio.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o, respondeu o velho rei, sou de opini&atilde;o que
+lho entreguem, porque
+vejo qual &eacute; a t&ecirc;mpera da vontade deste rapaz; mais
+f&aacute;cil seria esgotar
+as &uacute;ltimas gotas do rio, do que desistir da sua
+empresa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
+do rei.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[104]</span>
+<h2><a name="31"></a>Qual ser&aacute; rei?</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
+sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer,
+n&atilde;o ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Resolveram al&eacute;m disso que o cad&aacute;ver do rei fosse
+posto de p&eacute; contra um
+muro, e que o pr&iacute;ncipe que acertasse melhor com uma flecha
+naquele
+alvo, seria o escolhido para sucessor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Come&ccedil;ou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou
+durante muito
+tempo, e a flecha foi atravessar a m&atilde;o esquerda do defunto.
+O pr&iacute;ncipe
+soltou grito de alegria, cuidando que seus irm&atilde;os atirariam
+pior, e que
+por conseguinte seria ele quem viria a reinar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
+alegre do que o outro pr&iacute;ncipe.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O terceiro varou o cora&ccedil;&atilde;o de seu pai, e os seus
+gritos de triunfo
+quase que chegavam ao c&eacute;u, porque lhe parecia
+imposs&iacute;vel acertar melhor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas
+m&atilde;os as
+flechas e o arco: mas, <span class="pagenum">[105]</span>desde
+que olhou para o alvo, arrojou as armas
+longe de si, e desatou a chorar:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu
+jamais
+consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela m&atilde;o
+de teus
+pr&oacute;prios filhos!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais
+digno.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[106]</span>
+<h2><a name="32"></a>Os tr&ecirc;s
+v&eacute;us de Maria</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O primeiro v&eacute;u de Maria era dum linho mais alvo do que a
+neve.
+Bordara-o com as suas m&atilde;os, e ornara-o com uma grinalda de
+flores de
+seda t&atilde;o bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham
+pousar-lhe em
+cima.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Este v&eacute;u branco s&oacute; o trouxe uma vez, no dia da
+sua primeira comunh&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O segundo v&eacute;u de Maria era de l&atilde; negra.
+Principiou-o no mesmo dia em que
+sua m&atilde;e lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa
+triste e
+abandonada. Era bordado de perp&eacute;tuas roxas, como as dos
+sepulcros de
+m&aacute;rmore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas
+as suas
+l&aacute;grimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O v&eacute;u negro s&oacute; o trouxe uma vez,&#8213;no dia em que se
+tornou esposa de
+Jesus no convento da Av&eacute;-Maria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O terceiro v&eacute;u era feito dum retalho do azul celeste,
+bordado
+de estrelas, e perfumado com aromas suav&iacute;ssimos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou
+no para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p107">[107]</a></span>
+<h2><a name="33"></a>Os pequenos no bosque</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia tr&ecirc;s pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns
+aos
+outros, que n&atilde;o havia nada no mundo mais aborrecido que
+estudar: &laquo;Vamos
+para o bosque que <a href="#e4">encontraremos</a>
+l&aacute; toda a esp&eacute;cie de lindos bichinhos, que
+n&atilde;o fazem outra coisa sen&atilde;o brincar, e
+n&oacute;s brincaremos com eles.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foram logo, e passaram sem fazer caso ao p&eacute; da activa
+formiga e da
+abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar,
+disse-lhes:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
+outra j&aacute; n&atilde;o est&aacute;
+s&oacute;lida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provis&otilde;es para
+o Inverno.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu
+ninho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com voc&ecirc;s,
+mas ainda
+hoje n&atilde;o lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que
+fazer a
+minha <i>toilette</i>.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, <span class="pagenum">[108]</span>que passas o tempo
+a saltar e a tagarelar, tamb&eacute;m n&atilde;o queres brincar
+connosco?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Estes pequenos s&atilde;o tolos, disse o regato. Como?
+Voc&ecirc;s ent&atilde;o imaginam
+que eu n&atilde;o tenho que fazer? De noite ou de dia,
+n&atilde;o descanso nem um
+momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, &agrave;s
+colinas,
+aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os
+inc&ecirc;ndios,
+tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje
+acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. N&atilde;o
+posso perder
+um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um
+pintassilgo, em cima dum ramo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Olha! tu, que n&atilde;o tens nada que fazer, queres brincar
+connosco?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nada que fazer? voc&ecirc;s est&atilde;o a mangar comigo,
+disse o pintassilgo. Todo
+o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho al&eacute;m disso
+que tomar
+parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o
+oper&aacute;rio com o
+meu chilrear, e tenho que adormecer as crian&ccedil;as com uma
+outra cantiga,
+que &agrave; noite e de madrugada celebre a bondade do Criador.
+Ide-vos embora,
+pregui&ccedil;osos, ide cumprir o vosso dever, e n&atilde;o
+tornem a vir incomodar os
+habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a
+desempenhar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os pequenos aproveitaram a li&ccedil;&atilde;o, e compreenderam
+que o prazer s&oacute; &eacute;
+leg&iacute;timo, quando &eacute; a recompensa do trabalho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[109]</span>
+<h2><a name="34"></a>O chapelinho encarnado</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem
+sua
+m&atilde;e e sua av&oacute; adoravam extremosamente. A boa da
+avozinha, que passava o
+tempo a imaginar o que poderia agradar &agrave; neta, deu-lhe um
+dia um chap&eacute;u
+de veludo vermelho. A pequenita andava t&atilde;o contente com o
+seu chap&eacute;u
+novo, que j&aacute; n&atilde;o queria p&ocirc;r outro, e
+come&ccedil;aram a chamar-lhe a menina do
+chapelinho encarnado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&atilde;e e a av&oacute; moravam em duas casas separadas por
+uma floresta de meia
+l&eacute;gua de comprido. Uma manh&atilde; a m&atilde;e
+disse &agrave; pequenita:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tua av&oacute; est&aacute; doente, e n&atilde;o
+p&ocirc;de vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai
+levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado n&atilde;o
+quebres a
+garrafa, n&atilde;o andes a correr, vai devagarinho e volta
+logo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sim, mam&atilde;, respondeu ela, hei-de fazer tudo como
+deseja.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e
+p&ocirc;s-se
+a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita,
+que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[110]</span>&#8213;Bons dias,
+chapelinho encarnado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Onde vais t&atilde;o cedo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;A casa da minha av&oacute; que est&aacute; doente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E levas-lhe alguma coisa?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
+dar for&ccedil;as.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Diz-me onde mora a tua, av&oacute;, que tamb&eacute;m a quero
+ir ver.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; perto, aqui no fim da floresta. H&aacute; ao
+p&eacute; uns carvalhos muito
+grandes, e no jardim h&aacute; muitas nozes.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! tu &eacute; que &eacute;s uma bela noz, disse consigo o
+lobo. Como eu gostava
+de te comer.&raquo; Depois continuou em voz alta:&#8213;Olha, que bonitas
+&aacute;rvores e
+que lindos passarinhos. Como &eacute; bom passear nas florestas, e
+ent&atilde;o que
+quantidade de plantas medicinais que se encontram!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;O senhor, &eacute; com certeza um m&eacute;dico, respondeu a
+inocente pequenita,
+visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma
+que fizesse bem a minha av&oacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Com certeza, minha filha, olha, aqui est&aacute; uma, e esta
+tamb&eacute;m, e
+aquela.&raquo; Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram
+plantas
+venenosas. A pobre crian&ccedil;a, queria-as apanhar para as levar
+a sua av&oacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
+grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E p&ocirc;s-se a correr em direc&ccedil;&atilde;o da casa
+da av&oacute;, enquanto que a pequerrucha
+se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[111]</span>Quando o lobo
+chegou &agrave; porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
+av&oacute; n&atilde;o se podia levantar da cama, e perguntou:
+Quem est&aacute; a&iacute;?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz
+da
+pequerrucha. A mam&atilde; manda-te bolos e uma garrafa de
+vinho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Procura debaixo da porta disse a av&oacute;, que
+encontrar&aacute;s a chave.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira,
+e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a
+porta aberta, porque sabia o cuidado com que a av&oacute; a
+costumava ter
+fechada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O lobo tinha posto uma touca na cabe&ccedil;a, que lhe escondia uma
+parte do
+focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horr&iacute;vel.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ai! avozinha, disse a crian&ccedil;a, porque tens tu as orelhas
+t&atilde;o grandes?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te ouvir melhor, minha filha.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E porque est&aacute;s com uns olhos t&atilde;o
+grandes?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te ver melhor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E para que est&aacute;s com os bra&ccedil;os t&atilde;o
+grandes?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te poder abra&ccedil;ar melhor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E Jesus! para que tens hoje uma boca t&atilde;o grande e uns
+dentes t&atilde;o
+agudos?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te comer melhor.&raquo; A estas palavras o lobo
+arremessou-se &agrave; pobre
+pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e
+come&ccedil;ou a
+ressonar muito alto. Um ca&ccedil;ador que passava por acaso, perto
+da casa, e
+que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha est&aacute;
+com um
+pesadelo, <span class="pagenum">[112]</span>est&aacute;
+pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.&raquo; Entra, e
+v&ecirc; o lobo estendido na cama.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ol&aacute;, meu menino, diz ele: h&aacute; muito tempo que te
+procuro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Armou a sua espingarda, mas parando logo: N&atilde;o, disse ele,
+n&atilde;o vejo a
+dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o
+animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
+cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e
+saltou para o ch&atilde;o, gritando:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ai! que s&iacute;tio medonho onde eu estive fechada!<br />
+
+
+<br />
+
+
+A av&oacute; saiu tamb&eacute;m content&iacute;ssima por
+ver outra vez a luz do dia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O lobo continuava a dormir profundamente, e o ca&ccedil;ador
+meteu-lhe ent&atilde;o
+duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a
+av&oacute; e a
+neta para verem o que se ia passar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se
+para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
+n&atilde;o podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no
+lago, e
+afogou-se.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O ca&ccedil;ador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho
+com a velha
+e a sua neta. A velha sentia-se remo&ccedil;ar, e o chapelinho
+encarnado
+prometeu n&atilde;o tornar a passar na floresta, quando sua
+m&atilde;e lho
+proibisse.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[113]</span>
+<h2><a name="35"></a>Os cinco sonhos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Andando um dia Carlos Magno &agrave; ca&ccedil;a com uma
+comitiva numerosa, perseguiu
+um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da
+ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi
+s&oacute;
+ent&atilde;o que viu que estava s&oacute;, tendo a sua corte
+ficado muito para traz;
+sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana
+solit&aacute;ria
+no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro
+ladr&otilde;es.
+Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
+entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe
+quiseram logo contar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro &agrave; pessoa que
+acaba de entrar
+aqui, e punha-o na minha cabe&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua
+coura&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E eu que estava pondo o seu manto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E eu, disse o quarto ladr&atilde;o, para lhe fazer favor, passava
+em roda do
+meu pesco&ccedil;o aquela <span class="pagenum">[114]</span>pesada
+cadeia de ouro, da qual est&aacute; pendurada a sua
+trompa de ca&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vejo bem, disse o imperador, que t&ecirc;m
+ten&ccedil;&atilde;o de me roubar tudo, e
+mesmo a vida. Reconhe&ccedil;o que estou em poder de
+voc&ecirc;s, e que toda e
+qualquer resist&ecirc;ncia seria in&uacute;til. N&atilde;o
+lhes pe&ccedil;o sen&atilde;o uma coisa, &eacute; que
+me deixem tocar pela &uacute;ltima vez na minha trompa de
+ca&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os salteadores responderam que consentiam, visto que o
+&uacute;ltimo pedido
+dum moribundo deve ser respeitado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos Magno levou &agrave; boca a sua magn&iacute;fica trompa
+de marfim, e tirou
+dela sons t&atilde;o fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos
+todos os
+seus companheiros de ca&ccedil;a e a sua comitiva estavam ao
+p&eacute; dele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora
+tamb&eacute;m
+eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que voc&ecirc;s todos iam
+ser
+enforcados diante deste casebre.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o sonho realizou-se imediatamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[115]</span>
+<h2><a name="36"></a>A igreja do rei</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magn&iacute;fica
+em honra da
+Virgem, decretando que ningu&eacute;m nos seus estados pudesse
+contribuir para
+a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o
+edif&iacute;cio se
+concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do
+m&aacute;rmore uma inscri&ccedil;&atilde;o em letras de
+ouro, que dizia que s&oacute; ele, e mais
+ningu&eacute;m, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na
+noite
+seguinte o nome do rei foi apagado da inscri&ccedil;&atilde;o,
+e substitu&iacute;do por o
+duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
+p&ocirc;r o seu nome na inscri&ccedil;&atilde;o, e de novo
+foi substitu&iacute;do pelo da pobre
+mulher; &agrave; terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de
+c&oacute;lera, ordenou
+ent&atilde;o que lhe trouxessem a mulher &agrave; sua
+presen&ccedil;a:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que
+contribu&iacute;ssem
+fosse com o que fosse para a edifica&ccedil;&atilde;o desta
+igreja; vejo que n&atilde;o
+cumpriste as minhas ordens.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Senhor, respondeu a velhinha toda tr&eacute;mula, eu
+respeitei as vossas
+ordens, apesar da m&aacute;goa <span class="pagenum">[116]</span>que
+sentia por n&atilde;o poder oferecer o meu
+pequenino &oacute;bolo em honra da Virgem; mas julguei
+n&atilde;o desobedecer a vossa
+majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
+que eu levava &agrave;s escondidas aos bois que conduziam as pedras
+destinadas
+&agrave; constru&ccedil;&atilde;o da igreja.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;O teu nome &eacute; mais digno do que o meu de figurar
+em letras de ouro na
+inscri&ccedil;&atilde;o do monumento, disse-lhe o
+rei.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas na noite seguinte uma m&atilde;o invis&iacute;vel
+restabeleceu na l&aacute;pide da igreja
+o nome do rei, que desde ent&atilde;o l&aacute; se conserva
+ainda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[117]</span>
+<h2><a name="37"></a>O valente soldado de
+chumbo</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irm&atilde;os,
+por todos
+terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial,
+de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e
+vermelhos!
+A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da
+caixa em que eles estavam, foi este grito: &laquo;Olha soldados de
+chumbo!&raquo;
+que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado
+de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era
+form&aacute;-los sobre a
+mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
+maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
+menos, porque o tinham deitado na forma em &uacute;ltimo lugar, e
+j&aacute; n&atilde;o havia
+chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros n&atilde;o
+estavam mais
+firmes nas duas pernas do que ele na sua &uacute;nica, e
+&eacute; este o que
+precisamente nos interessa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil
+outros
+brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lind&iacute;ssimo
+castelo de
+papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe <span class="pagenum">[118]</span>o interior dos
+sal&otilde;es.
+&Agrave; volta era circundado duma floresta em miniatura, que se
+reflectia
+poeticamente num peda&ccedil;o de espelho que fingia um lago, onde
+nadavam
+pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas n&atilde;o
+tanto como
+uma menina que estava &agrave; porta, e que era tamb&eacute;m
+de papel, vestida com um
+lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
+tinha os bra&ccedil;os arqueados, porque era dan&ccedil;arina,
+e tinha uma perninha
+levantada a tal altura, que o soldado de chumbo n&atilde;o a podia
+ver, e
+imaginou que, como ele, n&atilde;o tinha sen&atilde;o uma perna.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ali est&aacute; a mulher que me conv&eacute;m, pensou ele, mas
+&eacute; uma grande
+fidalga. Mora num pal&aacute;cio, eu numa caixa em companhia de
+vinte e
+quatro camaradas, e n&atilde;o haveria c&aacute; lugar para
+ela. No entanto
+preciso conhec&ecirc;-la.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deitou-se atr&aacute;s duma caixa de tabaco, e dali podia ver
+&agrave; sua vontade a
+elegante dan&ccedil;arina, que estava sempre num p&eacute;
+s&oacute;, sem perder o
+equil&iacute;brio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave; noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e
+as pessoas
+da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto,
+come&ccedil;aram
+a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados
+de
+chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam
+l&aacute; ir; mas
+como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes come&ccedil;ou a dar
+cabriolas
+e saltos mortais, o l&aacute;pis tra&ccedil;ou mil arabescos
+fant&aacute;sticos numa lousa,
+enfim o barulho tornou-se tal que o can&aacute;rio acordou, e
+p&ocirc;s-se a cantar.
+Os &uacute;nicos que <span class="pagenum">[119]</span>estavam
+quietos eram o soldado de chumbo e a
+dan&ccedil;arinazinha. Ela no bico do p&eacute;, e ele numa
+perna s&oacute;, a
+espreit&aacute;-la.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deu meia noite, e z&aacute;s, a tampa da caixa de rap&eacute;
+levanta-se, e em lugar
+de rap&eacute;, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de
+surpresa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
+s&iacute;tio.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o soldado fez que n&atilde;o ouvia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Espera at&eacute; amanh&atilde;, e ver&aacute;s o que te
+acontece, continuou o feiticeiro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de
+chumbo &agrave; janela, mas de repente ou por influ&ecirc;ncia
+do feiticeiro ou por
+causa do vento caiu &agrave; rua de cabe&ccedil;a para baixo.
+Que tombo! Ficou com a
+perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta
+enterrada entre duas lajes.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A criada e o rapazito foram l&aacute; abaixo procur&aacute;-lo,
+mas estiveram quase a
+esmag&aacute;-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado:
+&laquo;Cautela!&raquo;
+te-lo-&iacute;am achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda.
+A chuva
+come&ccedil;ou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro
+dil&uacute;vio. Depois
+do aguaceiro passaram dois garotos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ol&aacute;! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos
+faz&ecirc;-lo
+navegar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Constru&iacute;ram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o
+soldado de
+chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois
+garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo
+Deus!
+Que for&ccedil;a de corrente! Mas tamb&eacute;m tinha chovido
+tanto! O barco jogava
+<span class="pagenum">[120]</span>duma maneira
+horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
+impass&iacute;vel, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+De repente o barco foi levado para um cano, onde era t&atilde;o
+grande a
+escurid&atilde;o como na caixa dos soldados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me
+meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina
+estivesse no barco, n&atilde;o importava, ainda que a
+escurid&atilde;o fosse duas
+vezes maior.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de &aacute;gua; era um
+habitante do
+cano.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Venha o teu passaporte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o soldado de chumbo n&atilde;o disse nada, e agarrou com mais
+for&ccedil;a na
+espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
+rangendo os dentes, e gritando &agrave;s palhas, e aos
+cavacos:&#8213;Fa&ccedil;am-no
+parar, fa&ccedil;am-no parar! N&atilde;o pagou a passagem,
+n&atilde;o mostrou o passaporte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via j&aacute; a luz do
+dia, e
+sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais
+valente.
+Havia na extremidade do cano uma queda de &aacute;gua
+t&atilde;o perigosa para ele,
+como &eacute; para n&oacute;s uma catarata. Aproximava-se dela
+cada vez mais, sem
+poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lan&ccedil;ou-se
+sobre a
+queda de &aacute;gua, e o pobre soldado firmava-se o mais
+poss&iacute;vel, e ningu&eacute;m se
+atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O barco, depois de ter andado &agrave; roda durante muito tempo,
+encheu-se
+de &aacute;gua, e estava a ponto <span class="pagenum">[121]</span>de
+naufragar. A &aacute;gua j&aacute; chegava ao
+pesco&ccedil;o do
+soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
+&aacute;gua passou por cima da cabe&ccedil;a do nosso
+her&oacute;i. Nesse momento supremo,
+pensou na gentil dan&ccedil;arinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz
+que dizia:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Soldado: o perigo &eacute; enorme, a morte espera-te.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O papel rasgou-se, e o soldado passou atrav&eacute;s dele. Nesse
+momento foi
+devorado por um grande peixe.<br />
+
+
+<br />
+
+
+L&aacute; &eacute; que era escuro, ainda mais que dentro do
+cano. E al&eacute;m disso, que
+talas em que ele estava metido! Mas, sempre intr&eacute;pido, o
+soldado
+estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo,
+at&eacute; que enfim
+parou, e pareceu que o atravessava um rel&acirc;mpago. Apareceu a
+luz do dia,
+e algu&eacute;m exclamou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Olha um soldado de chumbo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O peixe tinha sido pescado, exposto na pra&ccedil;a, vendido, e
+levado para a
+cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
+soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
+gente quis admirar esse homem extraordin&aacute;rio, que tinha
+viajado na
+barriga dum peixe. No entretanto o soldado n&atilde;o se sentia
+orgulhoso.
+Colocaram-no em cima da mesa, e ali&#8213;tanto &eacute; verdade que
+acontecem
+coisas extraordin&aacute;rias neste mundo&#8213;achou-se na mesma sala,
+de cuja
+janela tinha ca&iacute;do. Reconheceu os pequenos e os brinquedos
+que estavam
+em cima da mesa, o lindo pal&aacute;cio, e a ador&aacute;vel
+dan&ccedil;arina sempre <span class="pagenum">[122]</span>de
+perna
+no ar. O soldado de chumbo ficou t&atilde;o comovido, que de boa
+vontade teria
+derramado l&aacute;grimas de chumbo, mas n&atilde;o era
+conveniente. Olhou para ela,
+ela olhou para ele, mas n&atilde;o disseram uma palavra um ao outro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no
+fog&atilde;o; eram obras do feiticeiro da caixa do rap&eacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O soldado de chumbo l&aacute; estava perfilado, alumiado por um
+clar&atilde;o
+sinistro, e sofrendo um calor terr&iacute;vel. Todas as cores lhe
+tinham
+desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas
+viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
+dan&ccedil;arina, que tamb&eacute;m olhava para ele. Sentia-se
+derreter, mas, sempre
+intr&eacute;pido, conservava a espingarda ao ombro. De repente
+abriu-se uma
+porta, o vento arremessou a dan&ccedil;arina ao fog&atilde;o
+para junto do soldado, que
+desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, j&aacute;
+n&atilde;o era mais
+que uma pequena massa informe.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um
+objecto que tinha o feitio dum pequeno cora&ccedil;&atilde;o de
+chumbo, e tudo o que
+restava da dan&ccedil;arina era a fivela do cinto azul que o lume
+tinha
+enegrecido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[123]</span>
+<h2><a name="38"></a>Jo&atilde;o Pateta</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o era filho duma pobre vi&uacute;va, bom rapaz, mas
+um pouco simpl&oacute;rio. A
+gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira Jo&atilde;o Pateta. Um
+dia sua m&atilde;e
+mandou-o &agrave; feira comprar uma foice. &Agrave; volta,
+come&ccedil;ou a andar com a foice
+&agrave; roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e
+matou-a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pateta, disse-lhe sua m&atilde;e, o que deverias ter feito era
+p&ocirc;r a foice em
+um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Perd&atilde;o, m&atilde;e, respondeu humildemente
+Jo&atilde;o, para a outra vez serei mais
+esperto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que
+as n&atilde;o perdesse.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fique descansada. E voltou todo orgulhoso.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o, Jo&atilde;o, onde est&atilde;o as
+agulhas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! est&atilde;o em lugar seguro. Quando sa&iacute; da loja em
+que as comprei, ia a
+passar o carro do vizinho carregado de palha; meti l&aacute; as
+agulhas, n&atilde;o
+podem estar em s&iacute;tio melhor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;De certo, est&atilde;o em lugar de tal modo seguro, que
+n&atilde;o h&aacute; meio de as
+tornar a ver. Devias t&ecirc;-las espetado no
+chap&eacute;u.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[124]</span>&#8213;Perd&atilde;o,
+respondeu Jo&atilde;o, para a outra vez, hei-de ser mais
+esperto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na outra semana, por um dia de calor, Jo&atilde;o foi dali uma
+l&eacute;gua comprar
+uma pouca de manteiga. Lembrando-se do &uacute;ltimo conselho de
+sua m&atilde;e, p&ocirc;s a
+manteiga dentro do chap&eacute;u e o chap&eacute;u na
+cabe&ccedil;a. Imagine-se o estado em
+que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&atilde;e j&aacute; tinha medo de o mandar fazer qualquer
+recado. No entanto um dia
+resolveu-se a mand&aacute;-lo &agrave; feira vender duas
+galinhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ouve bem, n&atilde;o vendas pelo primeiro pre&ccedil;o. Espera
+que te ofere&ccedil;am
+outro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; entendido, respondeu Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi para a feira. Um fregu&ecirc;s chegou-se a ele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Queres seis tost&otilde;es por essas galinhas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora adeus! minha m&atilde;e recomendou-me, que n&atilde;o
+aceitasse o primeiro
+pre&ccedil;o, mas que esperasse o segundo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E tens muita raz&atilde;o. Dou-te um cruzado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o
+primeiro,
+mas, como cumpro as ordens de minha m&atilde;e, ela n&atilde;o
+tem que me ralhar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois disto, Jo&atilde;o foi condenado a ficar em casa. Sua
+m&atilde;e sabia que
+mangavam com ele, e se riam dela. Uma manh&atilde; quis fazer uma
+experi&ecirc;ncia, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vai vender este carneiro &agrave; feira. Mas n&atilde;o te
+deixes enganar. N&atilde;o o
+entregues sen&atilde;o a quem te der o pre&ccedil;o mais
+elevado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; bem, agora entendo, e sei o que hei de
+fazer.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[125]</span>&#8213;Quanto queres por
+esse carneiro?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Minha m&atilde;e disse-me que o n&atilde;o vendesse
+sen&atilde;o pelo pre&ccedil;o mais elevado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quatro mil r&eacute;is?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; o pre&ccedil;o mais elevado?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pouco mais ou menos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; minha a l&atilde; e o carneiro, disse um rapaz que
+trepara a uma escada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quanto?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Dez tost&otilde;es:&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; menos, respondeu timidamente o Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sim, mas v&ecirc;s at&eacute; onde chega esta escada. Em toda
+a feira n&atilde;o h&aacute; um
+pre&ccedil;o mais elevado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o. &Eacute; seu o carneiro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desde esse dia o Jo&atilde;o Pateta n&atilde;o tornou a ser
+encarregado de vender ou
+comprar coisa alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[126]</span>
+<h2><a name="39"></a>Branca de Neve</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma rainha, que se lastimava por n&atilde;o ter filhos.
+Um dia
+de Inverno, enquanto bordava num bastidor de &eacute;bano olhando
+de vez em
+quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no ch&atilde;o,
+distra&iacute;da, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns bei&ccedil;os
+t&atilde;o vermelhos
+como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros
+como este &eacute;bano.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu &agrave;
+luz uma filha,
+que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo
+t&atilde;o branco,
+que lhe chamavam Branca de Neve. Por&eacute;m esta feliz
+m&atilde;e n&atilde;o gozou muito
+tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
+duma grande beleza, e dum orgulho n&atilde;o menos
+extraordin&aacute;rio. Era t&atilde;o
+formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
+vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho
+m&aacute;gico dizia-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, responde-me: qual &eacute; a mulher mais linda
+que h&aacute; no
+mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute;s tu, respondia o espelho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[127]</span>No entanto Branca
+de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
+formosa. Tinha apenas sete anos, e j&aacute; ningu&eacute;m a
+podia ver sem ficar
+maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
+espelho, disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, responde-me: qual &eacute; a mulher mais linda
+que h&aacute; no
+mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute;s tu, n&atilde;o &eacute;s tu.
+Branca de Neve &eacute; mais linda.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no
+cora&ccedil;&atilde;o uma dor aguda,
+como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um &oacute;dio mortal
+pela
+inocente Branca. N&atilde;o podia sossegar nem de dia, nem de
+noite. Para
+satisfazer o seu &oacute;dio, chamou um criado, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quero que Branca desapare&ccedil;a. Conduze-a &agrave;
+floresta, mata-a, e, para me
+provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o
+cora&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e
+dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre crian&ccedil;a
+chorava e
+lamentava-se, e pedia-lhe que a n&atilde;o matasse, porque ela
+n&atilde;o tinha feito
+mal a ningu&eacute;m, e queria viver. O criado, comovido com
+aquelas
+l&aacute;grimas, n&atilde;o teve coragem, e abandonou-a na
+floresta, pensando que se
+as feras a devorassem a culpa n&atilde;o era dele, mas sim da
+rainha. Assim
+fez, e para mostrar o cora&ccedil;&atilde;o de Branca
+&agrave; rainha, matou um cabrito, e
+tirou-lhe o cora&ccedil;&atilde;o. A rainha ao ver aqueles
+despojos sangrentos ficou
+content&iacute;ssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival,
+e nenhuma
+mulher no mundo &eacute; t&atilde;o bela como eu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[128]</span>A pobre Branca,
+abandonada na floresta, n&atilde;o tinha morrido, mas estava
+cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os p&eacute;s
+nas pedras, e
+andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
+tamb&eacute;m via animais ferozes. Mas as feras n&atilde;o lhe
+faziam mal algum, o
+deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave; noite chegou ao p&eacute; duma casinha muito
+pequenina. Estava morta de fome
+e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
+limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha
+de
+brancura irrepreens&iacute;vel, sete pratos pequenos, sete garrafas
+pequenas,
+e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
+do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
+deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
+pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
+que tinham gente em casa. Um deles disse:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem comeu o meu p&atilde;o?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E os outros sucessivamente:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem pegou no meu garfo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem comeu o meu caldo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem bebeu o meu vinho?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E enfim um deles:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem est&aacute; a&iacute; deitado na minha cama?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Reuniram-se todos &agrave; roda do pequeno leito em que dormia
+Branca. &Agrave; luz
+das lanternas viram o doce rosto da crian&ccedil;a, que dormia
+tranquilamente,
+<span class="pagenum">[129]</span>e afastaram-se sem
+fazer bulha, para a n&atilde;o acordar. Branca no dia
+seguinte de manh&atilde; ficou um pouco assustada, quando viu perto
+de si
+aqueles sete an&otilde;es das montanhas. Mas eles disseram-lhe com
+brandura,
+que n&atilde;o tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como
+se chamava.
+Branca contou a sua triste hist&oacute;ria, e os an&otilde;es
+disseram-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente
+sossegada.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Come&ccedil;ou logo o seu servi&ccedil;o, e continuou-o
+regularmente todos os dias.
+Limpava os m&oacute;veis, e fazia o jantar. Os an&otilde;es iam
+trabalhar para as
+minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que
+j&aacute; n&atilde;o
+tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
+e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, n&atilde;o &eacute; verdade que eu sou agora
+a mulher mais linda
+que h&aacute; no mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sim, nos teus pal&aacute;cios e nos teus castelos, mas Branca
+est&aacute; nas sete
+montanhas, e Branca &eacute; mais linda do que tu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe
+cruel,
+e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que
+modo? Uma manh&atilde; partiu disfar&ccedil;ada em vendedeira
+ambulante, com um cesto
+cheio de objectos de fantasia. Foi direita &agrave;s sete
+montanhas, e bateu &agrave;
+<span class="pagenum">[130]</span>porta da casinha,
+gritando: &laquo;Quem quer comprar bonitas
+j&oacute;ias?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os an&otilde;es tinham recomendado a Branca que desconfiasse das
+caras
+estranhas, receando os emiss&aacute;rios da rainha, e ela tinha
+prometido ser
+prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no
+cesto, esqueceu-se das suas promessas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou p&ocirc;r ao
+pesco&ccedil;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
+an&otilde;es voltaram, viram a infeliz Branca estendida no
+ch&atilde;o e completamente
+inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos l&aacute;bios
+algumas
+gotas dum licor amarelo. Branca come&ccedil;ou a respirar, voltou a
+si pouco
+a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira
+n&atilde;o era
+outra pessoa, sen&atilde;o a tua inimiga, a rainha. Toma cautela,
+n&atilde;o deixes
+entrar aqui ningu&eacute;m, quando n&atilde;o estivermos em
+casa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao entrar no seu pal&aacute;cio toda contente, colocou-se a rainha
+diante do
+espelho, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho: Qual &eacute; agora a mulher mais linda que
+h&aacute; no mundo?
+Responde.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute;s tu nos teus grandes pal&aacute;cios e nos teus
+castelos, mas Branca est&aacute;
+nas sete montanhas, e Branca &eacute; mais linda do que
+tu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
+infeliz Branca. Tornou-se a disfar&ccedil;ar <span class="pagenum">[131]</span>em vendedeira. Chegou
+&agrave;s sete
+montanhas, e bateu &agrave; porta da cabana.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem quer comprar lindas j&oacute;ias? Branca veio &agrave;
+janela, e respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;V&aacute;-se embora, aqui n&atilde;o entra
+ningu&eacute;m.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro.
+J&aacute;
+viu outro t&atilde;o bonito?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Branca n&atilde;o p&ocirc;de resistir ao desejo de possuir
+aquela j&oacute;ia. Abriu a
+porta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! minha linda menina, deixe-me p&ocirc;r-lho na
+cabe&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao dizer isto enterrou-lhe na cabe&ccedil;a o pente, que estava
+envenenado, e
+Branca caiu morta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave; noite quando regressaram os an&otilde;es, acharam-na
+p&aacute;lida e fria.
+Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e
+tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No entanto a cruel rainha voltava content&iacute;ssima para o seu
+pal&aacute;cio.
+Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a
+que
+o espelho respondeu como antecedentemente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! &eacute; preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha
+de me
+sacrificar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vestiu-se de camponesa com um cesto de ma&ccedil;&atilde;s.
+Entre elas havia uma que
+estava envenenada dum lado. Foi, e bateu &agrave; porta da
+cabana.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, n&atilde;o deixo
+entrar
+ningu&eacute;m, nem compro coisa alguma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; bem, n&atilde;o faltar&aacute; quem compre
+estas ricas ma&ccedil;&atilde;s. Mas por ser t&atilde;o
+bonita, quero dar-lhe uma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[132]</span>&#8213;Obrigada,
+n&atilde;o posso aceitar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Imagina que est&aacute; envenenada. Olhe, eu vou comer um
+peda&ccedil;o. Ah! que boa
+que &eacute;! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas
+palavras, a traidora
+mordia no lado da ma&ccedil;&atilde;, que n&atilde;o estava
+envenenado. Branca deixou-se
+tentar, levou &agrave; boca o outro peda&ccedil;o, e caiu
+fulminada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;A&iacute; tens, para castigo da tua formosura.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou ao pal&aacute;cio a rainha foi direita ao espelho, e
+perguntou-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, quem &eacute; agora a mulher mais
+linda?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute;s tu, &eacute;s tu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;At&eacute; que enfim!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os an&otilde;es estavam inconsol&aacute;veis. Debalde tinham
+tentado reanim&aacute;-la com o
+licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca
+continuava
+fria e inanimada. Choraram por ela durante tr&ecirc;s dias, e os
+passarinhos
+da floresta choraram tamb&eacute;m. No entanto as boas avezinhas
+n&atilde;o podiam
+acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto t&atilde;o
+tranquilo,
+as suas faces t&atilde;o frescas, parecia que estava a dormir.
+N&atilde;o quiseram
+enterr&aacute;-la. Meteram-na num caix&atilde;o de cristal, e
+escreveram em cima.
+&laquo;Aqui jaz a filha dum rei;&raquo; puseram o
+caix&atilde;o numa das sete montanhas,
+e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
+assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais
+pequena altera&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar
+&agrave;
+ca&ccedil;a, viu o caix&atilde;o, e pediu aos an&otilde;es
+que lho cedessem, fosse por pre&ccedil;o
+que fosse.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[133]</span>&#8213;Somos muito
+ricos, e por nada deste mundo venderemos este caix&atilde;o, que
+&eacute; o nosso tesouro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o d&ecirc;em-mo, j&aacute; n&atilde;o posso
+viver sem contemplar este rosto de
+mulher. Guard&aacute;-lo-ei na melhor sala do meu
+pal&aacute;cio. Pe&ccedil;o-lhes que me
+fa&ccedil;am isto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os an&otilde;es, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no
+caix&atilde;o para
+o levarem. Um deles trope&ccedil;ou numa raiz, e o
+caix&atilde;o sofreu um
+balan&ccedil;o, que fez cair o bocado da ma&ccedil;&atilde;
+envenenada, que Branca n&atilde;o tinha
+engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou.
+O
+jovem pr&iacute;ncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela.
+O
+casamento fez-se com grande pompa. O pr&iacute;ncipe convidou todos
+os reis e
+rainhas dos diferentes pa&iacute;ses, e entre elas a rainha inimiga
+de
+Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos
+os olhares, p&ocirc;s-se diante do espelho, e disse a rainha:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que h&aacute; do
+mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Branca &eacute; mais formosa que tu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus
+crimes
+fossem descobertos, que morreu de repente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu pal&aacute;cio
+de
+princesa n&atilde;o se esqueceu dos an&otilde;es que tinham
+sido os seus benfeitores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[134]</span>
+<h2><a name="40"></a>A rapariguinha e os
+f&oacute;sforos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que frio! a neve ca&iacute;a, e a noite aproximava-se; era o
+&uacute;ltimo de
+Dezembro, v&eacute;spera de Ano Bom. No meio deste frio e desta
+escurid&atilde;o
+passou na rua uma desgra&ccedil;ada pequerrucha, com a
+cabe&ccedil;a descoberta e os
+p&eacute;s descal&ccedil;os. &Eacute; verdade que trazia
+sapatos ao sair de casa, mas
+tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua
+m&atilde;e j&aacute;
+tinha usado, t&atilde;o grandes, que a pequenita perdeu-os ao
+atravessar a rua
+a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
+quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a
+inten&ccedil;&atilde;o de fazer
+dele um ber&ccedil;o para o seu primeiro filho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha
+no seu velho avental uma grande quantidade de f&oacute;sforos, e
+levava na
+m&atilde;o um ma&ccedil;o deles. O dia correra-lhe mal;
+n&atilde;o tinha havido
+compradores, e por isso n&atilde;o apurara cinco r&eacute;is.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
+longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do
+pesco&ccedil;o; <span class="pagenum">[135]</span>mas
+pensava ela porventura nos seus cabelos anelados?<br />
+
+
+<br />
+
+
+As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos
+manjares; era a v&eacute;spera de dia de Ano Bom: eis no que ela
+pensava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
+vez mais, mas n&atilde;o se atrevia a voltar para casa: o pai
+bater-lhe-ia,
+porque n&atilde;o tinha vendido os seus f&oacute;sforos.
+Al&eacute;m disso em sua casa
+fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o
+vento
+atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
+m&atilde;ozinhas j&aacute; quase que as n&atilde;o sentia.
+Ai! como um fosforozinho aceso
+lhe faria bem! Se tirasse do ma&ccedil;o apenas um, um
+&uacute;nico, e ascendendo-o
+aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: <i>ritche</i>!
+como estoirou! como
+ardeu! Era uma chama t&eacute;pida e clara, como uma pequena
+lamparina. Que
+luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro
+de ferro, cujo lume magn&iacute;fico aquecia t&atilde;o
+suavemente, que era um regalo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pequerrucha ia j&aacute; a estender os pezitos para os aquecer
+tamb&eacute;m, quando
+a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na
+m&atilde;o uma
+pontita de f&oacute;sforo consumido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu segundo f&oacute;sforo, que ardeu, que brilhou, e o muro
+onde bateu
+a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando
+atrav&eacute;s desse
+muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha
+alv&iacute;ssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual
+uma galinha
+assada com recheio de ameixas e de batatas <span class="pagenum">[136]</span>fumegava
+exalando um perfume
+delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do
+prato, e caiu no ch&atilde;o ao p&eacute; da pequerrucha, com o
+garfo e a faca
+espetada no lombo. Nisto apagou-se o f&oacute;sforo, e viu apenas
+diante de
+si a parede fria e tenebrosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu terceiro f&oacute;sforo, e achou-se imediatamente sentada
+debaixo
+de uma magn&iacute;fica &aacute;rvore do Natal; era ainda mais
+rica e maior do que a
+que tinha visto no ano passado atrav&eacute;s dos vidros de um
+armaz&eacute;m
+sumptuoso.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nos ramos verdes brilhavam centenares de bal&otilde;es acesos, e as
+estampas
+coloridas, como as que h&aacute; &agrave;s portas das lojas,
+pareciam sorrir-lhe.
+Quando ia agarr&aacute;-las com as duas m&atilde;os, apagou-se
+o f&oacute;sforo; todos os
+bal&otilde;es da &aacute;rvore do Natal come&ccedil;aram a
+subir, a subir, e viu ent&atilde;o que se
+tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no
+c&eacute;u
+um longo rasto de fogo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; algu&eacute;m que est&aacute; a morrer, disse a
+pequerrucha; porque a sua av&oacute;, que
+lhe queria tanto, mas que j&aacute; morrera, dissera-lhe muitas
+vezes: &laquo;Quando
+cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu ainda outro f&oacute;sforo: deu uma grande luz, no meio da
+qual lhe
+apareceu sua av&oacute;, de p&eacute;, com um ar radioso e
+suav&iacute;ssimo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Minha av&oacute;, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei
+que te vais
+embora quando se apagar o f&oacute;sforo. Desaparecer&aacute;s
+como a panela de
+ferro, a galinha assada, e a bela &aacute;rvore do Natal.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu o rosto do ma&ccedil;o, porque n&atilde;o queria <span class="pagenum">[137]</span>que sua av&oacute; lhe
+fugisse, e
+os f&oacute;sforos espalharam um clar&atilde;o mais vivo que a
+luz do dia. Nunca sua
+av&oacute; tinha sido t&atilde;o formosa. P&ocirc;s ao colo
+a pequerruchinha, e ambas
+alegres, no meio deste deslumbramento, voaram t&atilde;o alto,
+t&atilde;o alto, que
+j&aacute; n&atilde;o tinha nem frio, nem fome, nem agonias:
+haviam chegado ao Para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os
+dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos
+l&aacute;bios...
+morta, morta de frio na &uacute;ltima noite do ano. O dia de Ano
+Bom veio
+alumiar o pequenino cad&aacute;ver, sentado ali com os seus
+f&oacute;sforos, a que
+faltava um ma&ccedil;o, que tinha ardido quase inteiramente.&#8213;Quis
+aquecer-se,
+disse um homem que passou.&raquo; E ningu&eacute;m soube nunca
+as lindas coisas que
+ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
+velha av&oacute; no dia do Ano Novo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[138]</span>
+<h2><a name="41"></a>O primeiro pecado de
+Margarida</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chamava-se Margarida, e estavam &agrave; espera dela no
+c&eacute;u, porque Deus
+tinha dito:&#8213;&Eacute; uma boa alma, e, como l&aacute; em baixo
+no mundo lhe pode
+acontecer alguma desgra&ccedil;a, vou traz&ecirc;-la um destes
+dias para o para&iacute;so.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Margarida era uma virgem c&acirc;ndida, matinal como a aurora,
+fresca como
+ela; todos os dias ao acordar rezava as ora&ccedil;&otilde;es,
+que sua m&atilde;e lhe tinha
+ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como
+n&atilde;o tinha
+j&oacute;ias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela
+can&ccedil;&atilde;o
+de amor e de gl&oacute;ria, que j&aacute; embalara muitos
+ber&ccedil;os, e que podia
+sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Numa tarde de Ver&atilde;o, estava ela sentada &agrave; porta
+de casa fiando linho,
+&agrave; hora em que as estrelas come&ccedil;am a aparecer, uma
+a uma no firmamento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estava Margarida cantando a sua can&ccedil;&atilde;o, quando <span class="pagenum">[139]</span>passou por ali uma das
+suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido
+novo.
+Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
+colar de ouro que levava ao pesco&ccedil;o; apertou-lhe a
+m&atilde;o para que visse
+bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
+contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que
+inquietou no para&iacute;so o seu anjo da guarda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O fio de linho j&aacute; n&atilde;o passava t&atilde;o
+rapidamente entre os dedos de
+Margarida, a roda cessara o seu barulho mon&oacute;tono, e o fuso
+ca&iacute;ra-lhe das
+m&atilde;os.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao cair o fuso despertou do &ecirc;xtase, abriu os olhos, e viu
+diante de si
+um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na m&atilde;o um gorro
+de veludo
+preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a
+respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
+perguntou-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Qual &eacute; o caminho da cidade?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Margarida estendeu a m&atilde;o para lho indicar, e o forasteiro
+inclinando-se
+tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma
+estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que
+o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se
+ent&atilde;o com
+um sorriso estranho e diab&oacute;lico.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
+Margarida, e pediu-lhe uma esmola.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre
+desgra&ccedil;ado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O cavaleiro ent&atilde;o, soltando um grito de c&oacute;lera,
+ia lan&ccedil;ar-se sobre
+Margarida, mas o mendigo&#8213;<span class="pagenum">[140]</span>que
+era o seu anjo da guarda
+disfar&ccedil;ado&#8213;cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto
+&eacute; Satan&aacute;s, que
+tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do
+esp&iacute;rito celeste.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[141]</span>
+<h2><a name="42"></a>Um nome inscrito no
+c&eacute;u</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um pobre mendigo, que bateu &agrave; porta duma humilde
+cabana a
+pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas n&atilde;o
+vendo, nem
+ouvindo ningu&eacute;m, abriu a porta de mansinho e entrou no
+casebre; viu
+ent&atilde;o uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Ai! n&atilde;o te posso dar nada, porque nada
+tenho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater
+&agrave; mesma
+porta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, j&aacute; te disse que
+n&atilde;o tenho nada
+que te dar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Foi por isso que eu voltei&#8213;disse em voz baixa o mendigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
+cima da mesa, muitos bocados de p&atilde;o e algumas moedas de dez
+r&eacute;is, que
+lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Aqui te fica isto, santinha&#8213;disse-lhe ele afectuosamente, indo-se
+embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos
+escrev&ecirc;-lo-&atilde;o no
+Para&iacute;so, e mais tarde n&oacute;s o viremos a saber.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[142]</span>
+<h2> <a name="43"></a>O linho</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e
+transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios
+sobre
+ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o
+dum filho quando a m&atilde;e o lava e lhe d&aacute; um beijo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
+e serei brevemente uma rica pe&ccedil;a de pano. Sinto-me feliz.
+N&atilde;o h&aacute;
+ningu&eacute;m que seja mais feliz do que eu sou. Tenho
+sa&uacute;de e um belo
+futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
+feliz, feliz a mais n&atilde;o poder ser!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como &eacute;s ing&eacute;nuo! disseram as silvas do valado;
+tu n&atilde;o conheces o
+mundo, de que n&oacute;s outras temos uma larga
+experi&ecirc;ncia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E rangendo lastimosamente, cantaram:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">&#8213;Cric, crac! cric, crac! crac!<br />
+
+
+&#8213;Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div>
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o t&atilde;o cedo como voc&ecirc;s imaginam,
+respondeu o linho; est&aacute; uma bela
+manh&atilde;, o sol resplandece, <span class="pagenum">[143]</span>e
+a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+florir. Sou muit&iacute;ssimo feliz.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
+cabeleira, arrancaram-no com ra&iacute;zes e tudo, e deram-lhe
+tratos de
+pol&eacute;. Primeiro mergulharam-no em &aacute;gua, como se o
+quisessem afog&aacute;-lo, e
+depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si;
+&eacute; necess&aacute;rio
+sofrer, o sofrimento &eacute; a m&atilde;e da
+experi&ecirc;ncia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no,
+cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois,
+puseram-no numa roca, e ent&atilde;o perdeu a cabe&ccedil;a
+inteiramente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Era feliz de mais, pensava o desgra&ccedil;ado linho no meio
+daquelas
+torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades
+perdidas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E ainda estava dizendo&#8213;perdidas, e j&aacute; o estavam a meter no
+tear e a
+transform&aacute;-lo numa pe&ccedil;a de pano.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Isto &eacute; extraordin&aacute;rio, nunca o imaginei; que boa
+sorte a minha, e que
+grandes tolas aquelas silvas quando cantavam:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Cric, crac! cric, crac! crac!<br />
+
+
+Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div>
+
+
+<br />
+
+
+Agora &eacute; que eu principio a viver. Padeci muito, &eacute;
+verdade, mas por isso
+tamb&eacute;m agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me
+t&atilde;o forte, t&atilde;o alto,
+t&atilde;o macio! Ah! isto &eacute; bem melhor do que ser
+planta, mesmo florida,
+ningu&eacute;m trata da gente, e <span class="pagenum">[144]</span>n&atilde;o
+bebemos outra &aacute;gua a n&atilde;o ser a da chuva.
+Agora &eacute; o contr&aacute;rio: que cuidados! As raparigas
+estendem-me todas as
+manh&atilde;s, e &agrave; noite tomo o meu banho com um
+regador. A criada do sr. cura
+fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
+melhor pe&ccedil;a da par&oacute;quia. N&atilde;o posso ser
+mais feliz.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Levaram o pano para casa, e entregaram-no &agrave;s tesouras.
+Cortaram-no e
+picaram-no com uma agulha. N&atilde;o era l&aacute; muito
+agrad&aacute;vel, mas em
+compensa&ccedil;&atilde;o fizeram dele uma d&uacute;zia de
+camisas magn&iacute;ficas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Agora decididamente come&ccedil;o a valer alguma coisa. O meu
+destino &eacute;
+aben&ccedil;oado, porque sou &uacute;til neste mundo.
+&Eacute; preciso isso para se viver em
+paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze peda&ccedil;os, &eacute;
+verdade, mas formamos um
+s&oacute; grupo, uma d&uacute;zia. Que incompar&aacute;vel
+felicidade!<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas
+n&atilde;o
+se fazem imposs&iacute;veis.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
+finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem
+adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em
+papel
+branco magn&iacute;fico.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh que agrad&aacute;vel surpresa! exclamou o papel, agora sou
+muito mais fino
+do que dantes, e v&atilde;o cobrir-me de letras. O que
+n&atilde;o escrever&atilde;o em cima
+de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E escreveram nele as mais belas hist&oacute;rias, que foram lidas
+diante de
+in&uacute;meros ouvintes, e os tornaram mais s&aacute;bios e
+melhores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[145]</span>&#8213;Ora aqui
+est&aacute; uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
+quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
+ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! N&atilde;o
+sei
+explicar o que me est&aacute; acontecendo, mas &eacute;
+verdade. Deus sabe
+perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
+sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, at&eacute; chegar
+&agrave; maior gl&oacute;ria.
+Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: &laquo;Acabou-se,
+acabou-se&raquo;
+tudo pelo contr&aacute;rio se me apresenta debaixo do aspecto mais
+risonho. Vou
+viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
+instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora
+as minhas flores s&atilde;o os mais elevados pensamentos. Sinto-me
+feliz,
+imensamente feliz!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o papel n&atilde;o foi viajar; entregaram-no ao
+tip&oacute;grafo, e tudo que l&aacute;
+estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
+que recrearam e instru&iacute;ram uma infinidade de pessoas. O
+nosso bocado de
+papel n&atilde;o teria prestado o mesmo servi&ccedil;o, ainda
+que desse a volta &agrave; roda
+do mundo. A meio caminho j&aacute; estaria gasto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; justo, disse o papel, n&atilde;o tinha pensado nisso.
+Fico em casa, e vou
+ser considerado como um velho av&ocirc;! fui eu que recebi as
+letras, as
+palavras ca&iacute;ram directamente da pena sobre mim, fico no meu
+lugar, e os
+livros v&atilde;o por esse mundo fora. A sua miss&atilde;o
+&eacute; realmente bela, e eu
+estou contente, e julgo-me feliz.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O papel foi empacotado, e lan&ccedil;ado para uma estante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Depois do trabalho &eacute; agrad&aacute;vel o descanso, <span class="pagenum">[146]</span>pensou ele. &Eacute;
+neste
+isolamento que a gente aprende a conhecer-se. S&oacute; de hoje em
+diante &eacute; que
+eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a n&oacute;s mesmo
+&eacute; a verdadeira
+perfei&ccedil;&atilde;o. Que me ir&aacute; ainda acontecer?
+Progredir, est&aacute; claro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passados tempos, o papel foi atirado ao fog&atilde;o para o
+queimarem, porque o
+que o n&atilde;o queriam vender ao merceeiro para embrulhar
+a&ccedil;&uacute;car. E todas as
+crian&ccedil;as da casa se puseram &agrave; roda; queriam
+v&ecirc;-lo arder, e ver tamb&eacute;m,
+depois da labareda, as milhares de fa&iacute;scas vermelhas, que
+parecem fugir,
+e se apagam instantaneamente uma ap&oacute;s outra. O
+ma&ccedil;o inteiro de papel
+foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande
+chama, que se erguia t&atilde;o alto, t&atilde;o alto como o
+linho nunca erguera as
+suas flores azuis; a pe&ccedil;a de pano nunca tinha tido um brilho
+semelhante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
+palavras, todas as ideias desapareceram em l&iacute;nguas de fogo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Vou subir at&eacute; ao sol;&raquo; dizia uma voz
+no meio da labareda, que
+pareciam mil vozes reunidas numa s&oacute;. A chama saiu pela
+chamin&eacute;, e no
+meio dela volteavam pequeninos seres invis&iacute;veis para os
+olhos do
+homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha
+dado.
+Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu,
+quando n&atilde;o restava do papel sen&atilde;o a cinza negra,
+ainda eles dan&ccedil;avam
+sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas
+encarnadas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+As crian&ccedil;as cantavam &agrave; roda da cinza inanimada:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[147]</span>
+<div class="poetry">Cric, crac! cric, crac! crac!<br />
+
+
+Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div>
+
+
+<br />
+
+
+Mas cada um dos pequeninos seres dizia: &laquo;N&atilde;o,
+n&atilde;o se acabou; agora &eacute; que
+&eacute; o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+As crian&ccedil;as n&atilde;o puderam ouvir, nem compreender
+estas palavras; mas
+tamb&eacute;m n&atilde;o era necess&aacute;rio, porque as
+crian&ccedil;as n&atilde;o devem saber tudo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;">FIM.<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h5>&Iacute;NDICE</h5>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div>
+<a href="#1">A m&atilde;e</a><br />
+
+
+<a href="#2">O ouro</a><br />
+
+
+<a href="#3">Do&ccedil;ura e bondade</a><br />
+
+
+<a href="#4">O malmequer</a><br />
+
+
+<a href="#5">N&atilde;o quero</a><br />
+
+
+<a href="#6">Piloto</a><br />
+
+
+<a href="#7">O rico e o pobre</a><br />
+
+
+<a href="#8">Como um campon&ecirc;s aprendeu o Padre
+Nosso</a><br />
+
+
+<a href="#9">O talism&atilde;</a><br />
+
+
+<a href="#10">A alma</a><br />
+
+
+<a href="#11">Alberto</a><br />
+
+
+<a href="#12">A can&ccedil;&atilde;o da cerejeira</a><br />
+
+
+<a href="#13">Os gigantes da montanha e os
+an&otilde;es da plan&iacute;cie</a><br />
+
+
+<a href="#14">A crian&ccedil;a, o anjo e flor</a><br />
+
+
+<a href="#15">Presente por presente</a><br />
+
+
+<a href="#16">O pinheiro ambicioso</a><br />
+
+
+<a href="#17">Perfei&ccedil;&atilde;o das obras de
+Deus</a><br />
+
+
+<a href="#18">Jo&atilde;o e os seus camaradas</a><br />
+
+
+<a href="#19">O rabequista</a><br />
+
+
+<a href="#20">Os p&ecirc;ssegos</a><br />
+
+
+<a href="#21">A urna das l&aacute;grimas</a><br />
+
+
+<a href="#22">Reconhecimento e ingratid&atilde;o</a><br />
+
+
+<a href="#23">O fato novo do sult&atilde;o</a><br />
+
+
+<a href="#24">Boa senten&ccedil;a</a><br />
+
+
+<a href="#25">Os animais agradecidos</a><br />
+
+
+<a href="#26">O ermit&atilde;o</a><br />
+
+
+<a href="#27">Carlos Magno e o abade de S. Gall</a><br />
+
+
+<a href="#28">A boneca</a><br />
+
+
+<a href="#29">Inconveniente da riqueza</a><br />
+
+
+<a href="#30">Querer &eacute; poder</a><br />
+
+
+<a href="#31">Qual ser&aacute; rei?</a><br />
+
+
+<a href="#32">Os tr&ecirc;s v&eacute;us de Maria</a><br />
+
+
+<a href="#33">Os pequenos no bosque</a><br />
+
+
+<a href="#34">O chapelinho encarnado</a><br />
+
+
+<a href="#35">Os cinco sonhos</a><br />
+
+
+<a href="#36">A igreja do rei</a><br />
+
+
+<a href="#37">O valente soldado de chumbo</a><br />
+
+
+<a href="#38">Jo&atilde;o Pateta</a><br />
+
+
+<a href="#39">Branca de Neve</a><br />
+
+
+<a href="#40">A rapariguinha e os f&oacute;sforos</a><br />
+
+
+<a href="#41">O primeiro pecado de Margarida</a><br />
+
+
+<a href="#42">Um nome inscrito no c&eacute;u</a><br />
+
+
+<a href="#43">O linho</a><br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<table style="width: 449px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto; height: 210px;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr align="right">
+
+
+ <td style="width: 99px; height: 23px;"></td>
+
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 148px; height: 23px;">Original</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 23px;"></td>
+
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 158px; height: 23px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e1"></a><a href="#p56">#p&aacute;g.
+56</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">entrar?</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">entrar!</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e2"></a><a href="#p58">#p&aacute;g.
+58</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">Jo&atilde;o.</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">Jo&atilde;o:</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e3"></a><a href="#p58">#p&aacute;g.
+58</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">embora?</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">embora.</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e4"></a><a href="#p107">#p&aacute;g.
+107</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">encontremos</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">encontraremos</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A propriedade deste livro pertence no Brasil ao sr. Lu&iacute;s de
+Andrade,
+residente no Rio de Janeiro.<br />
+
+</body>
+</html>
diff --git a/old/modern/contos.txt b/old/modern/contos.txt
new file mode 100644
index 0000000..e29ba95
--- /dev/null
+++ b/old/modern/contos.txt
@@ -0,0 +1,4000 @@
+
+
+
+
+Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the
+original version, already available at Project Gutenberg. / Actualizao
+ortogrfica da verso original, j disponvel no Project Gutenberg.)
+
+
+
+
+
+
+
+
+CONTOS PARA A INFNCIA
+
+ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES POR GUERRA JUNQUEIRO
+
+
+LISBOA
+
+TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOMS QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL
+
+Rua dos Calafates, 110
+
+1877
+
+
+
+
+*A me*
+
+
+Estava uma me muito aflita, sentada ao p do bero do seu filho, com
+medo que lhe morresse. A criancinha plida tinha os olhos fechados.
+Respirava com dificuldade, e s vezes to profundamente, que parecia
+gemer; mas a me causava ainda mais lstima do que o pequenino
+moribundo.
+
+Nisto bateram porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuado
+numa manta de arrieiro. Era no Inverno. L fora estava tudo coberto de
+neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha.
+
+O pobre homem tremia de frio; a criana adormecera por alguns instantes,
+e a me levantou-se a pr ao lume uma caneca com cerveja. O velho
+comeou a embalar a criana, e a me, pegando numa cadeira, sentou-se
+ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
+vez com mais dificuldade, pegou-lhe na mozinha descarnada e disse para
+o velho:
+
+--Oh! Nosso Senhor no mo h-de levar! no verdade?--
+
+E o velho, que era a Morte, meneou a cabea duma maneira estranha, em
+ar de dvida. A me deixou pender a fronte para o cho, e as lgrimas
+corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de
+cabea; estava sem dormir havia trs dias e trs noites. Passou
+ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a
+tremer de frio.
+
+--Que isto! exclamou, lanando volta de si o olhar alucinado. O
+bero estava vazio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a criana.
+
+ * * * * *
+
+A pobre me saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma
+mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. A Morte entrou-te em
+casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
+depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a entregar.
+
+--Por onde foi ela? gritou a me. Diz-mo pelo amor de Deus!
+
+--Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto.
+Mas s to ensino, se me cantares primeiro todas as canes que cantavas
+ao teu filho. So lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
+muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lgrimas.
+
+--Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a me. Agora no me
+demores, porque quero encontrar o meu filho.--
+
+A Noite ficou silenciosa. A me ento, desfeita em lgrimas, comeou a
+cantar. Cantou muitas canes, mas as lgrimas foram mais do que as
+palavras.
+
+No fim disse-lhe a Noite: Toma direita, pela floresta escura de
+pinheiros. Foi por a que a Morte fugiu com o teu filho.
+
+A me correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e no
+sabia que direco havia de seguir. Diante dela havia um matagal,
+cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
+cristalizada.
+
+ * * * * *
+
+--No viste a Morte que levava o meu filho? perguntou-lhe a me.
+
+--Vi, respondeu o matagal, mas no te ensino o caminho, seno com a
+condio de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.
+
+E a me estreitou o matagal contra o corao; os espinhos
+dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se
+de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite
+de Inverno frigidssima, tal o calor febricitante do seio d'uma me
+angustiosa.
+
+E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
+andando, at que chegou margem dum grande lago, onde no havia nem
+barcos, nem navios. No estava suficientemente gelado para se andar por
+ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo,
+querendo encontrar o seu filho, era necessrio atravess-lo. No delrio
+do seu amor, atirou-se de bruos a ver se poderia beber toda a gua do
+lago. Era impossvel, mas lembrava-se que Deus, por compaixo, faria
+talvez um milagre.
+
+--No! no s capaz de me esgotar, disse o lago. Sossega, e entendamo-nos
+amigavelmente. Gosto de ver prolas no fundo das minhas guas, e os teus
+olhos so dum brilho mais suave do que as prolas mais ricas que eu
+tenho possudo. Se queres, arranca-os das rbitas fora de chorar, e
+levar-te-ei estufa grandiosa, que est do outro lado: essa estufa a
+habitao da Morte; e as flores e as rvores que esto l dentro, ela
+quem as cultiva; cada flor e cada rvore a vida duma criatura
+humana.
+
+--Oh! o que no darei eu, para reaver o meu filho! disse a me. E
+apesar de ter j chorado tantas lgrimas, chorou com mais amargura do
+que nunca, e os seus olhos destacaram-se das rbitas e caram no fundo
+do lago, transformando-se em duas prolas, como ainda as no teve no
+mundo uma rainha.
+
+O lago ento ergueu-a, e com um movimento de ondulao depositou-a na
+outra margem, aonde havia um maravilhoso edifcio, com mais de uma lgua
+de comprido. De longe no se sabia se era uma construo artstica ou
+uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre me no podia ver nada;
+tinha dado os seus olhos.
+
+--Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho! bradou
+ela desesperada.
+
+--A Morte ainda no chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava dum
+lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
+vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho?
+
+--Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus misericordioso. Compadece-te
+de mim, e diz-me onde est o meu filho.
+
+--Eu no o conheo, e tu s cega, disse a velha. H aqui muitas plantas
+e muitas rvores, que murcharam esta noite: a Morte no tarda a para
+as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste
+stio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem
+com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes,
+sente-se bater um corao. Guia-te por isto, e talvez reconheas as
+pulsaes do corao de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o
+que tens ainda de fazer?
+
+--J no tenho nada que te dar, disse a pobre me. Mas irei at ao fim
+do mundo buscar o que tu quiseres.--Fora daqui no preciso de nada,
+respondeu a velha. D-me os teus longos cabelos negros; tu sabes que
+so belos, e agradam-me. Troc-los-ei pelos meus cabelos
+brancos.--No pedes mais nada do que isso? disse a me. A os tens,
+dou-tos de boa vontade.
+
+E arrancou os seus magnficos cabelos, que tinham sido outrora o seu
+orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e
+inteiramente brancos da velha.
+
+Esta levou-a pela mo grande estufa, onde crescia exuberantemente uma
+vegetao maravilhosa. Viam-se debaixo de campnulas de cristal jacintos
+mimosssimos ao lado de penias inchadas e ordinrias. Havia tambm plantas
+aquticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas razes se
+enovelavam cobras asquerosas.
+
+Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e pltanos
+frondosos; depois num outro stio isolado havia canteiros de salsa,
+tomilho, hortel e outras plantas humildes que representavam o gnero de
+utilidade das pessoas que elas simbolizavam.
+
+Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
+pareciam rebentar; mas viam-se tambm florzitas insignificantes, em
+vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com
+esmero delicadssimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a
+essa hora existiam no mundo, desde a China at Groenlndia.
+
+A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a me
+impacientada pediu-lhe que a levasse ao stio onde estavam as plantas
+pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
+corao, e, depois de ter tocado em milhares delas, reconheceu as
+pulsaes do corao do seu filho.
+
+-- ele! exclamou, lanando a mo a um aafroeiro, que, pendido sobre
+a terra, parecia completamente estiolado.
+
+--No lhe toques, disse a velha. Fica neste stio; e quando a Morte
+vier, que no tarda, probe-lhe que arranque esta planta; ameaa-a de
+arrancar todas as flores que esto aqui. A Morte ter medo, porque tem
+de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu
+consentimento.
+
+Nisto sentiu-se um vento glacial, e a me adivinhou que era a Morte,
+que se aproximava.
+
+--Como que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
+primeiro do que eu! Como o conseguiste?--Sou me respondeu ela.
+
+E a Morte estendeu a sua mo ganchosa para o pequenino aafroeiro.
+
+Mas a me protegia-o violentamente com ambas as mos, tendo o cuidado de
+no ferir uma s das pequeninas ptalas. Ento a Morte soprou-lhe nas
+mos, fazendo-lhas cair inanimadas. O hlito da Morte era mais frio do
+que os ventos enregelados do Inverno.
+
+--No podes nada comigo! disse a Morte.--Mas Deus tem mais fora do que
+tu, respondeu a me.-- verdade, mas eu no fao seno aquilo que
+ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, rvores e
+arbustos, quando comeam a murchar, transplanto-as para outros jardins,
+um dos quais o grande jardim do Paraso. So regies desconhecidas;
+ningum sabe o que se l passa.
+
+--Misericrdia! misericrdia! soluou a me. No me roubem o meu filho,
+agora que acabo de o encontrar! Suplicava e gemia. A Morte
+conservava-se impassvel; agarrou ento instantaneamente em duas flores
+lindssimas e disse Morte: Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar,
+despedaar no s esta, mas todas as flores que esto aqui!
+
+--No as arranques, no as mates, bradou a Morte. Dizes que s
+desgraada, e querias ir partir o corao de outra me!--Outra me!
+disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente.--Toma, aqui
+tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam to suavemente que os tirei
+do lago. No sabia que eram teus. Mete-os nas rbitas, e olha para o
+fundo deste poo; v o que ias destruir, se arrancasses estas flores.
+Vers passar nos reflexos da gua, como numa miragem, a sorte destinada
+a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se
+porventura vivesse.
+
+Debruou-se no poo, e viu passar imagens de felicidade e alegria,
+quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terrveis de
+misria, de angstias e de desolao.
+
+--Nisto que eu vejo, disse a me aflitssima, no distingo qual era a
+sorte que Deus destinava ao meu filho.
+
+--No posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto
+que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu filho.
+
+A me desvairada, lanou-se de joelhos exclamando: Suplico-te, diz-me:
+era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? No verdade! Fala!
+No me respondes? Oh! na dvida, leva-o, leva-o, no v ele sofrer
+desgraas to horrveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que minha
+vida. As angstias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos cus.
+Esquece as minhas lgrimas, as minhas splicas, esquece tudo o que fiz
+e tudo o que disse.
+
+--No te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu
+filho ou que o leve para a regio desconhecida de que no posso
+falar-te! Ento a me alucinada, convulsa, torcendo os braos,
+deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: No me ouas,
+Senhor, se reclamo no fundo do meu corao contra a tua vontade que
+sempre justa! No me atendas meu Deus!
+
+E deixou cair a cabea sobre o peito, mergulhada na sua agonia
+dilacerante.
+
+E a Morte arrancou o pequenino aafroeiro, e foi transplant-lo no
+jardim do paraso.
+
+
+
+
+
+*O ouro*
+
+
+Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de ouro,
+empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o
+resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande
+fome no pas.
+
+Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
+segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
+e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com
+que ele ficou todo satisfeito, porque no compreendeu ao princpio
+qual era o sentido da rainha; mas, vendo que no lhe traziam mais nada
+de comer, comeou a zangar-se. Pediu-lhe ento a rainha, que visse bem
+que o ouro no era alimento, e que seria melhor empregar os seus
+vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
+traz-los nas minas busca do ouro, que no mata a fome nem a sede, e
+que no tem outro valor alm da estimao que lhe dada pelos homens,
+estimao que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro
+aparecesse em abundncia.
+
+A rainha tinha juzo.
+
+
+
+
+*Doura e bondade*
+
+
+H entre vs, meus filhos, ndoles violentas, que no sabem dominar-se,
+e que so arrastadas pelas primeiras impresses. uma pssima
+disposio, que necessrio corrigir; d lugar a disputas, e a que se
+cometam aces, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.
+Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.
+
+Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
+dele, volta-se e d-lhe uma bofetada.
+
+--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num
+cego!
+
+Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns
+camponeses grosseiros comearam a apup-lo e a bater no burro, para o
+fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a
+sua perna aleijada, disse-lhes: Se soubsseis que eu era coxo, no
+tereis sido to covardes.
+
+Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma
+palavra.
+
+Que vos parece estas duas lies? Estou convencido que aproveitaram a
+quem as recebeu.
+
+
+
+
+
+*O malmequer*
+
+
+Ouvi com ateno esta pequenina histria!
+
+No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+deveis ter visto muitas vezes. H na frente um jardinzinho com flores,
+rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no
+meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
+olhos vistos, graas ao sol, que repartia igualmente a sua luz tanto por
+ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela
+manh, j inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
+parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe dava
+que o vissem no meio da erva e no fizessem caso dele, pobre florinha
+insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
+sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
+
+Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira,
+sentia-se to feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianas
+sentadas nos bancos da escola estudavam a lio, ele, sentado na haste
+verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
+o que sentia misteriosamente, em silncio, julgava ouvi-lo traduzido com
+admirvel nitidez nas canes alegres da cotovia. Por isso ps-se a
+olhar com uma espcie de respeito, mas sem inveja, para essa avezinha
+feliz que cantava e voava.
+
+Eu vejo e oio, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento
+acaricia-me. Oh! no tenho razo de me queixar.
+
+Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocrticas; quanto menos
+aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dlias inchavam-se para
+parecerem maiores do que as rosas; mas no o tamanho que faz a rosa.
+As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se
+pretensiosamente. No se dignavam de lanar um olhar para o pequeno
+malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: Como so
+ricas e bonitas! A cotovia ir certamente visit-las. Graas a Deus,
+poderei assistir a este belo espectculo. E no mesmo instante a
+cotovia dirigiu o seu voo, no para as dlias e tulipas, mas para a
+relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria no sabia o que
+havia de pensar.
+
+O passarinho ps-se a saltitar roda dele, cantando: Como a erva
+macia! oh! que encantadora florinha, com um corao de oiro, vestida de
+prata!
+
+No se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com
+o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do
+firmamento. Durante mais de um quarto de hora no pde o malmequer
+reprimir a sua comoo. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou
+para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
+acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as
+tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
+pontiaguda manifestava o despeito. As dlias tinham a cabea toda
+inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradveis
+ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.
+
+Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
+grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
+uma a uma.
+
+Que desgraa! disse o malmequer suspirando; horrvel; foram-se
+todas.
+
+E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se por
+ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando
+reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
+adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.
+
+No dia seguinte de manh, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao
+ar e luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,
+muitssimo triste. A pobre cotovia tinha boas razes para se afligir:
+haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela
+aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas
+antigas viagens atravs do espao ilimitado.
+
+O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
+difcil. A compaixo pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe
+esquecer inteiramente as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e
+a alvura resplandecente das suas prprias folhas.
+
+Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mo
+uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
+tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que no podia compreender o
+que desejavam.
+
+Podemos arrancar daqui um pedao de relva para a cotovia, disse um dos
+rapazes, e comeou a fazer um quadrado profundo volta da florinha.
+
+--Arranca a flor, disse o outro.
+
+A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era
+morrer; e nunca tinha abenoado tanto a existncia, como no momento em
+que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
+
+No; deixemo-la, disse o mais velho. Est a muito bem.
+
+Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
+
+O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia
+com as asas nos arames da gaiola. O malmequer no podia, apesar dos seus
+desejos, articular-lhe uma palavra de consolao.
+
+Passou-se assim toda a manh.
+
+J no tenho gua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
+deixarem ao menos uma gota de gua. A garganta queima-me, tenho uma febre
+terrvel, sinto-me abafada! Ai! No h remdio seno morrer, longe do
+sol esplndido, longe da fresca verdura e de todas as magnificncias da
+criao!
+
+Depois enterrou o bico na relva hmida para se refrescar um pouco. Viu
+ento o malmequer; fez-lhe um sinal de cabea amigvel, e disse-lhe,
+afagando-o: Tambm tu, pobre florinha, morrers aqui! Em vez do mundo
+inteiro, que eu tinha minha disposio, deram-me um pedacito de relva,
+e a ti s por nica companhia. Cada pezinho de relva substitui para mim
+uma rvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorfera. Ah!
+como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!
+
+--Se eu pudesse consol-la! pensava o malmequer, incapaz de fazer o
+mnimo movimento.
+
+Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume;
+a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
+arrancar a erva, teve todo o cuidado em no tocar nem sequer de leve na
+flor.
+
+Caiu a noite; no estava ali ningum, para trazer uma gota de gua
+desditosa cotovia; Estendeu ento as suas belas asas, sacudindo-as
+convulsivamente, e ps-se a cantar uma canozinha melanclica; a sua
+cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu corao quebrado de desejos e
+de angstias cessou de bater. Vendo este triste espectculo, o malmequer
+no pde como na vspera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se
+para o cho, doente de tristeza.
+
+Os rapazitos s voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
+rebentaram-lhe as lgrimas e abriram uma cova. Meteram o cadver dentro
+de uma caixa vermelha, lindssima, fizeram-lhe um enterro de prncipe, e
+cobriram o tmulo com folhas de rosas.
+
+Pobre passarinho! Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e
+deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto que o choraram
+e lhe fizeram honrarias pomposssimas.
+
+A relva e o malmequer lanaram-nas para a poeira da estrada; daquele
+que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ningum se lembrou.
+
+
+
+
+
+*No quero*
+
+
+Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito
+alto: No, dizia um com voz enrgica, no quero. Parei e
+perguntei-lhe:--O que que tu no queres, meu rapaz?--No quero dizer
+ mam que venho da escola, porque mentira. Sei que me h-de ralhar,
+mas antes quero que me ralhe do que mentir.--E tens razo, disse-lhe
+eu. s um rapaz como se quer. Apertei-lhe a mo, enquanto que o outro
+pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
+todo envergonhado.
+
+Da a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de falar com o
+professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois
+pequenos; o que no quis mentir, sorria-me, enquanto que o outro,
+vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
+dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, um magnfico
+estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a
+confessar as suas faltas e o que ainda melhor, a repar-las. O outro
+pelo contrrio, mentiroso, covarde e incorrigvel.--No me espanto,
+disse eu, j tinha tirado o horscopo destas duas crianas; e
+contei-lhe o que tinha ouvido.
+
+
+
+
+*Piloto*
+
+
+Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos ces, e o
+infatigvel companheiro dos brinquedos das crianas da quinta.
+
+Fazia gosto v-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que Joo lhe
+lanava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e
+trazia-o margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irm
+Joaninha.
+
+Esta brincadeira recomeava vinte vezes sem cansar nunca a pacincia do
+Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, at que o
+assobio do criado da quinta chamava o fiel animal s suas obrigaes:
+partia ento como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos
+pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.
+
+Quando o hortelo ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda
+da carroa; e muito atrevido seria quem saltasse noite a parede da
+quinta.
+
+Uma vez deu prova de uma extraordinria sagacidade; um jornaleiro, que se
+empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa,
+tentou de noite roubar um saco.
+
+Piloto, que o conhecia, no fez a menor demonstrao de hostilidade
+em quanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou
+tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o
+largar.
+
+Era como se dissesse: Onde vais tu com o trigo de meu dono?
+
+O ladro quis pr ento outra vez o saco donde o tinha tirado; Piloto
+no consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, at de
+manh; o quinteiro foi dar com ele nesta difcil posio,
+repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o no
+desonrar.
+
+Mas o homem ficou com dio ao co, e muito tempo depois, aproveitando a
+ausncia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
+ele sem desconfiana; atou-lhe uma corda ao pescoo e arrastou-o at
+margem do ribeiro.
+
+Atou uma grande pedra outra extremidade da corda e levantando o animal
+atirou-o gua; mas arrastado ele prprio com o peso e com o esforo,
+caiu tambm.
+
+Como no sabia nadar, teria sido despedaado pela roda do moinho, se o
+corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e
+desembaraando-se da pedra mal atada, no tivesse mergulhado duas vezes
+e trazido para terra o seu mortal inimigo.
+
+Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o
+co que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
+
+Teve vergonha de seu acto miservel; e desde esse dia, violentou-se a si
+mesmo e combateu as suas ms inclinaes.
+
+O exemplo do co corrigiu o homem.
+
+
+
+
+*O rico e o pobre*
+
+
+Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
+dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
+deitou-se debaixo de uma rvore, porta de uma estalagem, junto da
+estrada. Estava comendo um bocado de po que tinha trazido para jantar,
+quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
+preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos
+viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que no tinham tempo,
+e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
+vinho.
+
+Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua
+cdea de po, para a sua velha jaqueta, para o seu chapu todo roto, e
+suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino to rico,
+em vez do desgraado Martinho! Que fortuna se ele estivesse aqui, e eu
+dentro daquela carruagem! O preceptor ouviu casualmente o que dizia
+Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lanando a cabea fora da
+carruagem, chamou Martinho com a mo.
+
+--Ficarias muito contente, no verdade, meu rapaz, podendo trocar a
+minha sorte pela tua?--Peo que me desculpe senhor, replicou Martinho
+corando, o que eu disse no foi por mal.--No estou zangado contigo,
+replicou o fidalguinho, pelo contrrio, desejo fazer a troca.
+
+--Oh! est a divertir-se comigo! tornou Martinho, ningum quereria estar
+no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando
+muitas lguas por dia, como po seco e batatas, enquanto que o senhor
+anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.--Pois bem,
+volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu
+no tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo. Martinho
+ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
+preceptor continuou: Aceitas a troca?--Ora essa! exclamou Martinho,
+ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada
+de me ver entrar nesta bela carruagem! E Martinho desatou a rir com a
+ideia da entrada triunfante na sua aldeia.
+
+O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
+descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma
+perna de pau e que a outra era to fraca, que se via obrigado a andar em
+duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou
+que era muito plido e que tinha cara de doente.
+
+Sorriu para o rapazito com ar benvolo, e disse-lhe:--Ento sempre
+desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas
+valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter uma carruagem e
+andar bem vestido?--Oh! no, por coisa nenhuma! replicou
+Martinho.--Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
+tivesse sade. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e doente, sofro
+os meus males com pacincia e fao por ser alegre, dando graas a Deus
+pelos bens que me concedeu na sua infinita misericrdia.
+
+Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se s pobre e comes mal,
+tens fora e sade, coisas que valem mais que uma carruagem, e que no
+podem comprar-se com dinheiro.
+
+
+
+
+
+*Como um campons aprendeu o Padre Nosso*
+
+
+Tinha o corao duro, e no dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
+confessor deu-lhe por penitncia rezar sete vezes o Padre Nosso.
+
+No o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeo.
+
+Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitncia dar a
+crdito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da
+minha parte.
+
+No dia seguinte de manh apresentou-se o primeiro pobre.
+
+Como te chamas? perguntou-lhe o campons.
+
+Padre--Nosso--Que--Estais--No--Cu, respondeu o pobre.
+
+E o teu apelido?
+
+Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.
+
+E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
+
+Ao outro dia chega segundo pobre.
+
+Como te chamas?
+
+Venha--A--Ns--O--Vosso--Reino.
+
+E o teu apelido?
+
+Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.
+
+E partiu com o seu alqueire de trigo.
+
+Veio terceiro pobre.
+
+Como te chamas?
+
+Assim--Na--Terra--Como--No--Cu.
+
+E o teu apelido?
+
+Dai-nos--Hoje--O--Po--Nosso--De--Cada--Dia.
+
+E levou o seu alqueire.
+
+Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma
+forma at chegar ao _Amen_.
+
+Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeo.
+
+Ento j sabes o Padre Nosso?
+
+No, sr. cura, sei s os nomes e apelidos dos pobres a quem emprestei
+o meu trigo.
+
+Quais so? tornou o padre.
+
+E o aldeo enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
+apresentado.
+
+J vs, disse o confessor, que no era muito difcil aprender o Padre
+Nosso, porque j o sabes perfeitamente.
+
+
+
+
+*O talism*
+
+
+Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma indstria, mas
+com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
+que no era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negcios com
+uma actividade infatigvel, enquanto que o segundo, entregue
+inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direco da
+sua casa.
+
+Explica-me, disse um dia este ltimo ao seu colega, qual a razo
+porque a sorte nos trata de um modo to diferente? Vendemos as mesmas
+mercadorias, a minha loja est to bem situada como a tua, e apesar
+disso, enquanto tu ganhas, eu no fao seno perder. E no porque eu
+seja estroina; no bebo, nem jogo. J tenho pensado algumas vezes se no
+ters tu por acaso algum precioso talism.
+
+Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um talism de uma
+virtude incomparvel. Trago-o ao pescoo, e ando assim com ele todo o
+dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o
+celeiro. E o caso que tudo me corre perfeitamente.
+
+Ol meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa relquia
+preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta
+restituo.
+
+Pois vem busc-la amanh de manh.
+
+Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
+apresentou-lhe este uma avel, atravs da qual tinha passado um
+fio de seda.
+
+O nosso homem p-la imediatamente ao pescoo, e comeou a correr toda a
+casa com o talism. Observou ento a completa desordem que por toda a
+parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
+cozinha o po, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o trigo, o
+feijo; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjedouras dos
+cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
+escriturados; viu tudo isto, e que era necessrio dar-lhe remdio,
+compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substitudo por
+terceira pessoa na direco dos seus negcios.
+
+Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talism,
+agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em
+segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.
+
+
+
+
+*A alma*
+
+
+Mam, nem todas as crianas que morrem vo para o Paraso. O outro dia
+vi levar para o cemitrio um menino que tinha morrido; o seu pap e as
+suas duas irmzinhas acompanhavam o caixo, e choravam tanto que me
+fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau, no
+verdade?
+
+No; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, enquanto choravam seus
+pais e suas irms, j estava vivendo feliz no Paraso.
+
+A alma? mam; no sei o que ; no compreendo bem.
+
+Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
+pequerruchas.
+
+Tive sim, mam, tive muita pena.
+
+Ora bem, o que que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
+braos?
+
+No, mam.
+
+Eram as orelhas?
+
+Oh! no mam, era _c dentro_.
+
+Esse _l dentro_, Maria, a tua alma que se alegra ou se entristece,
+que te repreende quando fazes o mal, e que est satisfeita quando
+praticas o bem.
+
+
+
+
+*Alberto*
+
+
+Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus
+irmos, que eram activos e laboriosos, plantar rvores e fazer
+sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um nico
+feijo produzir cem feijes e muitas vezes mais, e de uma talhada de
+batata nascerem quarenta batatas magnficas; sabia que a terra pagava
+com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
+quarto do pai, e foi enterr-la imediatamente no seu jardinzinho. H-de
+nascer uma rvore, dizia ele consigo, que dar libras como uma
+cerejeira d cerejas, e irei entreg-las ao pap, que ficar muito
+contente. Todas as manhs ia ver se a libra tinha nascido, mas no
+rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte. Por
+fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.
+
+Vi pap; achei-a e fui seme-la.
+
+Como, seme-la? doido! julgas talvez que vai nascer como uma couve?
+
+Mas, pap, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.
+
+ verdade, mas no nasce como uma semente; o oiro no tem vida.
+
+Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
+no pertencia.
+
+H contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
+produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como
+? dando-o aos pobres. Faz-se no Paraso a colheita dessa sementeira.
+
+
+
+
+*A cano da cerejeira*
+
+
+Disse Deus na Primavera: Ponham a mesa s lagartas! E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de folhas, milhes de folhas, fresquinhas e
+verdejantes.
+
+A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiou-se,
+abriu a boca, esfregou os olhos e ps-se a comer tranquilamente as
+folhinhas tenras, dizendo: No se pode a gente despegar delas. Quem
+que me arranjou este banquete?
+
+Ento Deus disse de novo: Ponham a mesa s abelhas! E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de flores, milhes de flores delicadas e
+brancas.
+
+E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas,
+dizendo: Vamos tomar o nosso caf; e que chvenas to bonitas em que o
+deitaram!
+
+Provou com a linguita, exclamando: Que deliciosa bebida! No pouparam o
+acar!
+
+No Vero disse Deus: Ponham a mesa aos passarinhos! E a cerejeira
+cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos.
+
+Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasio; temos apetite,
+e isto dar-nos- novas foras para podermos cantar uma nova cano. No
+Outono disse Deus: Levantai a mesa, j esto satisfeitos. E o vento
+frio das montanhas comeou a soprar, e fez estremecer a rvore.
+
+As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caram uma a uma, e o
+vento que as lanou ao cho erguia-as novamente, fazendo-as esvoaar.
+
+Chegou o Inverno e disse Deus: Cobri o resto! E os turbilhes dos
+ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa.
+
+
+
+
+*Os gigantes da montanha e os anes da plancie*
+
+
+Era uma vez uma famlia de gigantes, que viviam num castelo na
+montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum
+lamo. Era curiosa e andava com vontade de descer plancie a ver o que
+faziam l em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anes.
+Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido caa e sua me estava
+dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os
+jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os
+lavradores, coisas inteiramente novas para ela. Oh! que lindos
+brinquedos! exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
+quase que cobriu o campo. Lanou-lhe dentro os homens, os cavalos, a
+charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo,
+onde seu pai estava a jantar.
+
+--Que trazes a, minha filha? perguntou ele.
+
+--Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos. So os
+mais bonitos que tenho visto.
+
+E p-los em cima da mesa, a um e um,--os cavalos, a charrua e os
+trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
+tivessem transportado dum formigueiro para um salo. A gigantinha
+ps-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
+fez-se srio e franziu o sobrolho. Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso
+no so brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
+respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e pe-no
+imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
+montanha, morreriam de fome, se os anes da plancie deixassem de lavrar
+a terra e de semear o trigo.
+
+
+
+
+*A criana, a anjo e flor*
+
+
+Quando morre uma criana, desce um anjo do cu, toma-a nos braos, e
+desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os stios que
+ela amara durante a sua pequenina existncia; o anjo abaixa-se de
+quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresam
+no paraso ainda mais belas do que tinham sido na terra. Deus recebe
+todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os lbios, e a flor
+escolhida, adquirindo voz imediatamente, comea a cantar os coros
+maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma
+criana morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram primeiro
+sobre a casa em que a criana brincara, e depois sobre jardins
+deliciosos, cobertos de flores.
+
+Qual a flor que desejas para plantar no paraso? perguntou o anjo.
+
+Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
+magnfica; mas quebraram-lhe o p, e todos os seus ramos cheios de
+botezinhos lindssimos pendiam estiolados para o cho.
+
+Pobre roseira! disse a criana ao anjo; vamos busc-la para que possa
+reflorir no paraso.
+
+O anjo foi busc-la, e abraou a criana. Colheram muitas flores
+brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
+
+A colheita estava terminada, e contudo no voavam ainda para Deus. Caiu
+a noite silenciosa, e a criana e o seu guia Divino andavam ainda por
+cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
+de cacos de loua, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
+imundcie. Entre estes destroos distinguiu o anjo um vaso de flores
+com a terra pelo cho, onde pendiam as longas razes duma flor dos
+campos, j murcha, e que parecia no poder reverdecer: tinham-na
+atirado para a rua como intil e morta.
+
+Vale a pena levant-la disse o anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando,
+te contarei a histria da florinha. L ao fundo, l ao fundo, naquela
+rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criana miservel e
+doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear
+com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
+de Vero os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
+Ento a criana sentada janela, aquecida pelo sol, sem o cansao do
+andar, imaginava-se passeando; no conhecia da floresta, da fresca
+verdura da primavera, seno o ramo de faia, que uma vez o filho do
+vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabea o ramo
+verdejante, e, supondo-se debaixo das rvores abrigadas do sol, sonhava
+com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe
+flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda
+razes; o pequerrucho plantou-a num vaso, e p-lo janela, junto da
+cama. A flor plantada por mo abenoada, cresceu, tornou-se grande, e
+todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu nico
+tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
+aproveitar os raios do sol at ao ltimo. A flor aparecia-lhe em
+sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e
+ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se
+voltou.
+
+Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no paraso; a sua querida
+flor, esquecida janela desde ento, murchou, estiolou-se e
+atiraram-na rua finalmente. E contudo esta flor quase seca o
+tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
+canteiros dum jardim realengo.
+
+Como sabes tu isso? perguntou a criana, que o anjo levava para o cu.
+
+--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
+em muletas; como no havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!
+
+A criana abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
+no cu onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
+levou-as ao corao, mas a que ele beijou foi a florinha silvestre,
+desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente, ps-se a cantar
+com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe,
+formando crculos que vo aumentando sucessivamente, multiplicando-se
+at ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
+harmoniosamente--desde a criana abenoada at humilde florinha do
+campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e
+tortuosa.
+
+
+
+
+
+*Presente por presente*
+
+
+Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite
+ choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda no tinha chegado, foi
+a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
+pde, desculpando-se da miservel hospitalidade que lhe ia dar, porque
+eram batatas cozidas a nica coisa que lhe poderia oferecer; cama no a
+tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
+morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faises,
+e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de prncipes. Ao
+outro dia pela manh disse isto mesmo pobre mulher, gratificando-a ao
+despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
+dito que a guardasse como uma pequena lembrana, a boa camponesa julgou
+que seria uma medalha, e sentiu que no tivesse um buraquito para a
+trazer ao pescoo. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
+que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
+examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:
+
+Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso prncipe!
+
+E o bom do homem no podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
+achado as suas batatas melhores do que faises.
+
+ necessrio confessar, disse ele com um ar triunfante, que no h
+talvez no mundo um terreno mais favorvel do que este para a cultura das
+batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, j que as acha to boas.
+
+E partiu imediatamente para o palcio com uma proviso de batatas
+escolhidas.
+
+Os lacaios e as sentinelas ao princpio no o queriam deixar entrar;
+mas insistiu energicamente, dizendo que no vinha pedir nada, e que pelo
+contrrio vinha trazer alguma coisa.
+
+Foi, pois, introduzido na sala da audincia.
+
+Meu senhor, disse ele ao prncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente
+pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma pea de ouro, em troca
+duma enxerga miservel e de um prato de batatas cosidas. Era pagar
+demasiadamente, apesar de serdes um prncipe muito rico e poderoso. Eis
+o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
+batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faises. Dignai-vos
+aceit-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, l
+as encontrareis sempre ao vosso dispor.
+
+A honrada simplicidade do campons agradou ao prncipe, e, como estava
+num momento de bom humor, fez-lhe doao de uma quinta com trinta
+jeiras de terra.
+
+Ora o carvoeiro tinha um irmo muito rico, mas invejoso e avarento, que,
+sabendo da fortuna do irmo mais novo, disse consigo: Porque no me h
+de suceder a mim outro tanto? O prncipe gosta do meu cavalo, pelo
+qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer
+presente dele: se deu ao Joo uma quinta com trinta jeiras de terra,
+simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me h de
+recompensar ainda mais generosamente.
+
+Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
+palcio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com ar
+altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audincia.
+
+Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; no
+tenho querido troc-lo a dinheiro, mas dignai-vos permitir-me que vo-lo
+oferea.
+
+O prncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
+consigo: Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:
+
+Depois dirigindo-se a ele:
+
+Aceito a tua ddiva, mas no sei como agradecer-ta condignamente. Oh!
+espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
+faises. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que um bom
+preo para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.
+
+E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
+
+
+
+
+
+*O pinheiro ambicioso*
+
+
+Era uma vez um pinheiro, que no estava contente com a sua sorte. Oh!
+dizia ele, como so horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
+verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
+orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
+de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!
+
+O Gnio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manh acordou o
+pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
+pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
+mais sensatos do que ele, no invejavam a sua rpida fortuna. noite
+passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num
+saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos ps cabea.
+
+Oh! disse ele, que doido que eu fui! no me tinha lembrado da cobia
+dos homens. Fiquei completamente despido. No h agora em toda a
+floresta uma planta to pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
+o oiro atrai as ambies.
+
+Ah! se eu arranjasse um vesturio de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
+avarento no me teria despido.
+
+No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
+sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
+fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o cu cobriu-se de
+nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as
+folhas de cristal.
+
+Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra todo feito em
+pedaos o seu manto cristalino. O oiro e o vidro no servem para vestir
+as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria
+menos brilhante, mas viveria descansado.
+
+Cumpriu-se o seu ltimo desejo, e, apesar de ter renunciado s vaidades
+primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
+outros pinheiros seus irmos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
+vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas
+todas sem deixar uma nica.
+
+O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, j queria voltar sua
+forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
+sua sorte.
+
+
+
+
+
+*Perfeio das obras de Deus*
+
+
+_A filha_.--Oh! mam quebrou-se-me a agulha.
+
+_A me_.--Vou-te dar outra.
+
+_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mam?
+
+_A me_.--V se adivinhas.
+
+_A filha_.--No sei, mam.
+
+_A me_.--Conheces os metais?
+
+_A filha_.--Conheo mam; tenho l dentro muitos bocadinhos dentro de
+uma caixa.
+
+_A me_.--Ora muito bem, diz-me l, as agulhas so de pau, de pedra, de
+mrmore?
+
+_A filha_.--Oh! no; so de metal; mas de que metal?
+
+_A me_.--Antes de perguntar qualquer coisa, v sempre se a adivinhas
+primeiro.
+
+_A filha_.--Ora espere!... uma agulha de metal: no de prata, porque
+no branca; no de oiro, porque no de um lindo amarelo muito
+brilhante; no de cobre, porque no de um amarelo muito feio, que
+cheira mal... Ento de ferro, mam?
+
+_A me_.--Adivinhaste.
+
+_A filha_.--Mas, mam, o ferro no liso e brilhante como as agulhas.
+
+_A me_.-- que primeiro polido e preparado de certo modo, e depois j
+se no chama ferro, ao.
+
+_A filha_.--Bem, as agulhas so de ao. Agora quero adivinhar como que
+as fazem.
+
+_A me_.-- impossvel, no s capaz disso; mas hei de levar-te a uma
+fbrica onde se fazem agulhas. Hs-de v-las fazer, e hs-de gostar
+muito.
+
+_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
+nos servimos.
+
+_A me_.--Tens razo; uma vergonha ignor-lo.
+
+_A filha_.--Mam, deixe-me ver as suas agulhas.
+
+_A me_.--Olha, a tens o meu estojo.
+
+_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! So to
+fininhas, to fininhas!... Muita habilidade h-de ser necessria para
+fazer uma coisinha to delicada!
+
+_A me_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
+uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?
+
+_A filha_.--Lembro, mam; era to bonito!
+
+_A me_.--Li num jornal alemo que um operrio chamado Nerlinger fez
+um copo de um gro de pimenta, e que dentro deste copo havia mais
+doze...
+
+_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem num
+gro de pimenta!
+
+_A me_.--E ainda no tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas
+doiradas, e sustentava-se no p.
+
+_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso!
+
+_A me_.--Tens razo de te admirares da habilidade dos homens.
+efectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
+certas coisas; contudo ainda h outras obras mais dignas de admirao.
+
+_A filha_.--Quais, mam?
+
+_A me_.--J to digo. (_Levanta-se_.)
+
+_A filha_.--Que quer, mam?
+
+_A me_.--Quero que vejas o microscpio de teu pap.
+
+_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscpio.
+
+_A me_.--Este magnfico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais
+ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como fina,
+lisa e brilhante... Agora olha; o que que vs?
+
+_A filha_.--Meu Deus, que coisa to feia! Que agulha to grosseira!
+
+_A me_.--Vs-lhe buracos, riscos, asperezas, no verdade?
+
+_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito.
+
+_A me_.--Pois todas essas imperfeies so verdadeiras, existem na
+agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, que no d por elas.
+
+_A filha_.--O operrio que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
+visse ao microscpio.
+
+_A me_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.
+
+_A filha_.--O qu, mam?
+
+_A me_.--O aguilhozinho de uma abelha.
+
+_A filha_--Oh! que pequenino, que bonito!... Como liso, como
+brilhante!... Mas j sei que visto ao microscpio h de acontecer o
+mesmo que com a agulha.
+
+_A me_.--Pronto: olha.
+
+_A filha_ (olhando).-- esquisito, mam!
+
+_A me_.--Ento?
+
+_A filha_.--Aumentou, aumentou como a agulha, mas no spero, pelo
+contrario, perfeitamente liso... A agulha parecia que no tinha ponta,
+e o ferrozinho da abelha tem uma ponta to fina como um cabelo. Porque
+ser isto, mam?
+
+_A me_.-- porque o operrio que fez este aguilho muito mais hbil
+do que o que fez a agulha.
+
+_A filha_.--Quem esse operrio to hbil?
+
+_A me_.-- o mesmo que fez o cu, os astros, a terra, as plantas e as
+criaturas.
+
+_A filha_.-- Deus.
+
+_A me_.--Exactamente. Pois no Deus que fez as abelhas e todos os
+animais?
+
+_A filha_.--De certo.
+
+_A me_.--Foi ele por conseguinte que fez o aguilho desta abelha; e
+a tens porque o aguilho superior agulha: obra de Deus. Mas
+continuemos a olhar pelo microscpio. Aqui est um pedacinho de
+musselina finssima. Olha pelo microscpio; o que que vs?
+
+_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal feita.
+
+_A me_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadssima.
+
+_A filha_,--Essa estou bem certa que h de ser linda, mesmo vista pelo
+microscpio.
+
+_A me_.--Ento?
+
+_A filha_.-- horrorosa... Parece feita de pelos grosseiros com grandes
+buracos desiguais.
+
+_A me_.--As obras do homem so todas assim.
+
+_A filha_.--Oh! mam, vejamos agora as obras de Deus.
+
+_A me_.--Sabes o que isto?
+
+_A filha_.--Sei, mam, um casulo de bicho de seda.
+
+_A me_.--Os fiozinhos que o compem so muito finos, muito lisos; olha
+pelo microscpio a ver se te parecem desiguais.
+
+_A filha_ (olhando pelo microscpio).--No, mam; os fios so todos
+iguais, e o casulo sempre muito liso, muito brilhante.
+
+_A me_.-- porque obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que h
+sobre este papel?
+
+_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas redondas feitas
+tambm com tinta.
+
+_A me_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
+redondos?
+
+_A filha_.--Sim, mam, perfeitamente redondos.
+
+_A me_.--V-os agora ao microscpio.
+
+_A filha_.--Oh! j no so redondos, so todos desiguais.
+
+_A me_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. uma asa de borboleta;
+vs que est mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
+microscpio; o que que vs?
+
+_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, s com a diferena
+que agora maior. Que belas que so as obras de Deus!
+
+_A me_.--Merece bem a pena estud-las.
+
+_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
+dos homens.
+
+_A me_.--E sempre e em tudo hs-de encontrar defeitos nas obras do
+homem, enquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
+perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
+primeira que Deus merece tanto a nossa admirao como o nosso amor; a
+segunda que os homens orgulhosos so insensatos, porque no podem
+fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras
+mais primorosas so cheias de imperfeies, se as compararmos com as
+obras do Criador.
+
+
+
+
+*Joo e os seus camaradas*
+
+
+Era uma vez uma viva com um filho nico. Ao cabo dum Inverno rigoroso,
+possua apenas um galo, e meio alqueire de farinha. Joo resolveu-se a
+correr mundo, busca de fortuna. A me cozeu o resto da farinha, matou
+o galo, e disse-lhe:
+
+O que que preferes: metade desta merenda com a minha bno, ou toda
+com a minha maldio?
+
+Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros h no
+mundo eu quereria a tua maldio.
+
+Bem, meu filho, replicou a me carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
+abenoe.
+
+E partiu. Foi andando, andando, at que encontrou um jumento, que tinha
+cado num atoleiro, donde no podia sair.
+
+Oh! Joo, exclamou o burro, tira-me daqui, que estou quase a
+afogar-me.
+
+Espera, respondeu Joo.
+
+E, formando uma ponte com pedras e ramos de rvores, conseguiu tirar o
+quadrpede do atoleiro.
+
+Obrigado, disse-lhe ele, aproximando-se de Joo. Se te posso ser til,
+aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?
+
+--Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha vida.
+
+Queres tu que eu te acompanhe?
+
+Anda da.
+
+E puseram-se a caminho.
+
+Ao passarem por uma aldeia, viram um co perseguido pelos rapazes da
+escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
+animal correu para Joo que o acariciou, e o jumento ps-se a ornear de
+tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.
+
+Obrigado, disse o rafeiro a Joo. Se para alguma coisa te for
+prestvel, aqui me tens s tuas ordens. Aonde vais tu?
+
+Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha vida.
+
+Queres que te acompanhe?
+
+Anda da.
+
+Quando saram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno tirou a
+merenda do alforge, e repartiu-a com o co. O burro pastou alguma erva
+que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar
+lastimosamente.
+
+Coitado, exclamou Joo! E deu-lhe uma asa do frango.
+
+--Obrigado disse o gato. Oxal que um dia eu te possa ser til. Aonde
+vais tu?
+
+--Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.
+
+--De boa vontade.
+
+Os quatro viajantes puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um
+grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
+galo na boca.
+
+Agarra! agarra! bradou o pequeno ao co.
+
+E no mesmo instante o co atirou-se atrs da raposa, que, vendo-se em
+perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente
+disse a Joo:
+
+--Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vais tu?
+
+--Arranjar trabalho. Queres vir connosco?
+
+--De boa vontade.
+
+--Ento anda. Se te cansares, empoleira-te no jumento.
+
+Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro.
+Sentiram-se todos fatigados e no avistavam roda nem uma quinta, nem
+uma cabana.
+
+--Pacincia, disse Joo, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
+hoje a dormir ao ar livre; alm disso a noite est sossegada, e a relva
+ macia.
+
+Dito isto estendeu-se no cho; o jumento deitou-se ao lado dele, o co
+e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo
+empoleirou-se numa rvore.
+
+Dormiam todos um sono profundssimo, quando de repente o galo comeou
+a cantar.
+
+--Que demnio! disse o jumento acordando todo zangado. Porque que
+ests a gritar?
+
+--Porque j dia, respondeu o galo. No vs ao longe a luz da
+madrugada, que vem rompendo?
+
+--Vejo uma luz, disse Joo, mas no do sol, duma lanterna.
+Provavelmente h ali alguma casa, onde nos poderamos recolher o resto
+da noite.
+
+Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravs
+dos campos, at que parou junto da casa do guarda dum grande castelo,
+donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
+blasfmias horrveis.
+
+--Escutem, disse Joo; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
+ que est l dentro.
+
+Eram seis ladres armados de pistolas e de punhais, que se banqueteavam
+alegremente, sentados a uma mesa principesca.
+
+--Que bom assalto acabmos de dar, disse um deles, ao castelo do
+conde, graas ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que este
+porteiro. sua sade!
+
+-- sade do nosso amigo! repetiram em coro todos os ladres.
+
+E dum trago despejaram os copos.
+
+Joo voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:
+
+--Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
+sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria diablica.
+
+O burro, levantando-se nas patas traseiras, lanou as mos ao peitoril
+duma janela, o co trepou-lhe cabea, o gato cabea do co e o
+galo cabea do gato. Joo deu o sinal, e estoirou uma o ornear do
+jumento, os latidos do co, o miar do gato e os gritos estridentes do
+galo.
+
+--Agora, bradou Joo, fingindo que comandava um destacamento, carregar
+armas! Dai-me cabo dos ladres; fogo!
+
+No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando
+cada vez mais; os ladres atemorizados refugiaram-se no bosque, saindo
+precipitadamente por uma porta falsa.
+
+Joo e os seus companheiros penetraram na sala abandonada, comeram um
+excelente jantar, e deitaram-se em seguida--Joo numa cama, o burro na
+cavalaria, o co numa esteira ao p da porta, o gato junto do fogo e
+o galo num poleiro.
+
+Ao principio os ladres ficaram muito contentes, por se verem sos e
+salvos na floresta. Mas depois, comearam a reflectir.
+
+--Era bem melhor a minha cama, do que esta erva to hmida, disse um
+deles.
+
+--Tenho pena do frango que eu comeava a saborear, disse um outro.
+
+--E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.
+
+--E o que mais lamentvel, exclamou um quarto, ficar-nos l todo o
+dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tnhamos tirado das
+gavetas.
+
+--Vou ver se torno l a entrar? disse o capito.
+
+--Bravo! exclamaram os ladres.
+
+E ps-se a caminho.
+
+J no havia luz na casa; o capito entrou s apalpadelas, e dirigiu-se
+para o fogo; o gato saltou-lhe cara e esfarrapou-lha com as garras.
+Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
+rabo do co, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
+por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo
+atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas.
+
+--Anda o diabo nesta casa! exclamou o capito, como poderei eu sair!
+
+Julgou encontrar refgio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
+parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do cho.
+
+Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que no tinha nem
+pernas nem braos partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.
+
+--Ento? ento?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.
+
+--Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para
+me deitar e cataplasmas de linhaa para pr neste corpo, que o trago
+num feixe. No podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui assaltado
+por uma velha que estava a cardar l, e arrumou-me na cara com o
+sedeiro, deixando-me neste miservel estado. Quando ia a sair a porta,
+um demnio dum remendo atravessou-me as pernas com a sovela. Logo
+depois Satans em pessoa atirou-se a mim, despedaando-me com as garras.
+Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocs me no
+acreditam, vo l, e experimentem.
+
+--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
+ensanguentado: No seremos ns que l tornaremos.
+
+Pela manh, Joo e os seus camaradas almoaram ainda excelentemente, e
+partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladres
+lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos,
+com que carregou o jumento. Foram andando, andando, at que chegaram
+porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com
+uma libr esplndida, meias de seda, cales escarlates e cabelo
+empoado.
+
+Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a Joo.
+
+--Que vindes aqui buscar? No h lugar para os recolher, vo-se embora?
+
+--No queremos nada de ti, respondeu Joo. O dono do castelo far-nos-
+um bom acolhimento.
+
+--Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
+andar imediatamente, quando no atiro-lhes j s pernas os meus ces de
+fila.
+
+--Perdo, s um instante, replicou o galo empoleirado na cabea do
+jumento; no me poderias dizer quem que abriu aos ladres na noite
+passada a porta do castelo?
+
+O porteiro corou. O conde que estava janela, disse-lhe:
+
+-- Bernab, responde ao que esse galo te acaba de perguntar.
+
+--Senhor, replicou Bernab, este galo um miservel. No fui eu que
+abri a porta aos seis ladres.
+
+--Como ento, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?
+
+Seja como for, disse Joo, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
+pedindo-lhe unicamente que nos d de jantar e nos recolha esta noite,
+porque vimos cansados do caminho.
+
+--Ficai certos que sereis bem tratados.
+
+O burro, o co e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato ficou na
+cozinha. E enquanto a Joo, o conde reconhecido, vestiu-o dos ps
+cabea com um vesturio magnfico, deu-lhe um relgio de ouro, e
+disse-lhe:
+
+--Queres ficar comigo? s esperto e honrado, sers o meu intendente.
+
+Joo aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha me para o p de si.
+Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicssimo.
+
+
+
+
+*O rabequista*
+
+
+Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma
+igreja magnfica a Santa Ceclia, padroeira dos msicos.
+
+As rosas mais vermelhas e os lrios mais cndidos enfeitavam o altar. O
+vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de oiro,
+feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava
+constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi l em romaria
+um pobre rabequista, plido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
+sido muito longa, estava cansado, e j no seu alforge no havia po nem
+dinheiro no bolso para o comprar.
+
+Assim que entrou na capela, comeou a tocar na sua rabeca com tal
+suavidade, com tanta expresso, que a santa ficou enternecida ao v-lo
+to pobre e ao escutar aquela msica deliciosa. Quando terminou, Santa
+Ceclia abaixou-se, descalou um dos seus ricos sapatos de ouro, e deu-o
+ao pobre msico, que tonto de alegria, danando, cantando, chorando,
+correu loja dum ourives para lho vender. O ourives, reconhecendo o
+sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o presena do
+juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado morte.
+
+Chegara o dia da execuo. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
+ps-se em marcha ao som dos cnticos dos frades, que ainda assim no
+chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como
+ltima graa, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca at ao ltimo momento.
+O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam
+suplicou o triste desgraado, que o levassem l dentro para tocar a sua
+derradeira melodia.
+
+Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
+ajoelhou aos ps da santa, e debulhado em lgrimas comeou a tocar.
+Ento o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Ceclia curvar-se de
+novo, descalar o outro sapato e met-lo nas mos do infeliz msico.
+vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o
+rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente
+prestar-lhe as mais honrosas homenagens.
+
+
+
+
+*Os pssegos*
+
+
+Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pssegos
+magnficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos,
+extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria.
+noite o pai perguntou-lhes:
+
+--Ento comeram os pssegos?
+
+--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroo, e
+hei-de plant-lo para nascer uma rvore.
+
+--Fizeste bem, respondeu o pai, bom ser econmico e pensar no futuro.
+
+--Eu, disse o mais novo, o meu pssego comi-o logo, e a mam ainda me deu
+metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.
+
+--Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade no admira;
+espero que quando fores maior te hs-de corrigir.
+
+--Pois eu c, disse um terceiro, apanhei o caroo que o meu irmo deitou
+fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
+o meu pssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for
+cidade.
+
+O pai meneou a cabea:
+
+--Foi uma ideia engenhosa, mas eu preferia menos clculo.
+
+--E tu, Eduardo, provaste o teu pssego?
+
+--Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho,
+ao Jorge, que est coitadinho com febre. Ele no o queria, mas
+deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.
+
+--Ora bem, perguntou o pai, qual de vs que empregou melhor o pssego
+que eu lhe dei?
+
+E os trs pequenos disseram uma:
+
+--Foi o mano Eduardo.
+
+Este no entanto no dizia palavra, e a me abraou-o com os olhos
+arrasados de lgrimas.
+
+
+
+
+*A urna das lgrimas*
+
+
+Era uma vez uma viva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
+adorava sobre todas as coisas. No se separava dela um s momento; mas
+um dia a pobre pequerrucha comeou a sofrer, adoeceu e morreu. A
+desditosa me, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
+momento, cabeceira da filha, julgou endoidecer de mgoa e de saudades.
+No comia, no fazia seno chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
+acabrunhada, chorando no mesmo stio em que a filha tinha morrido,
+abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua
+querida filha, sorrindo com uma expresso anglica e trazendo nas mos
+uma urna, que vinha cheia at s bordas.
+
+--Oh! minha querida me, disse-lhe ela, no chores mais. Olha, o anjo
+das lgrimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais,
+transbordar, e as tuas lgrimas correro sobre mim, inquietando-me no
+tmulo e perturbando a minha felicidade no paraso.
+
+A pequenina desapareceu, e a me no tornou a chorar para a no
+afligir.
+
+
+
+
+*Reconhecimento e ingratido*
+
+
+Os vossos filhos sero para vs como vs tiverdes sido para vossos pais.
+E natural. As crianas vem diariamente o que fazem seus pais, e
+imitam-nos. Justifica-se desta maneira o provrbio que diz,--que a
+bno ou a maldio dum pai cai sobre a cabea de seus filhos,
+terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem
+ser meditados.
+
+Um prncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
+satisfeito, a lavrar a terra. Ps-se a conversar com ele. Depois
+de algumas perguntas, soube que o campo no pertencia ao homem, mas que
+trabalhava nele mediante um salrio de doze vintns por dia. O
+prncipe, que para as suas despesas de administrao e representao
+necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
+como se vivia com doze vintns dirios, andando-se ainda por cima
+satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeo, que lhe respondeu:
+
+Gasto diariamente comigo a tera parte dessa quantia; outro tero
+para pagar as minhas dividas; e o resto para ir juntando algumas
+economias.
+
+Era um novo enigma para o prncipe. Mas o alegre campons explicou-lho
+deste modo.
+
+Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que j no podem
+trabalhar, e com os meus filhos, que ainda no tm fora para isso. Aos
+primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
+infncia; e espero que os segundos no me abandonem, quando os anos
+tiverem pesado sobre mim.
+
+O prncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado campons; encarregou-se
+da educao de seus filhos; e a bno que lhe deram os seus velhos
+pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando
+igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicao.
+
+Mas posso desgraadamente citar-vos outro filho, que procedeu duma
+maneira to indigna com seu velho pai doente e aleijado, que este teve
+de pedir que o levassem para o hospital da misericrdia. O filho ingrato
+recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde
+foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
+muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ltima
+esmola, um par de lenis, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
+O mau filho escolheu os lenis mais usados, e disse ao seu pequeno, de
+dez anos de idade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
+notou que a criana ao partir tinha escondido um dos lenis a um canto,
+atrs da porta.
+
+Quando voltou perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo.
+
+Foi, respondeu a criana desabridamente, para me servir mais tarde
+deste lenol, quando pela minha vez te mandar tambm para o hospital.
+
+
+
+
+*O fato novo do sulto*
+
+
+Era uma vez um sulto, que despendia em vesturio todo o seu rendimento.
+
+Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
+teatro, no tinha outro fim seno mostrar os seus fatos novos. Mudava
+de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Est no conselho;
+dizia-se dele: Est-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
+muito alegre, graas quantidade de estrangeiros que por ali passavam;
+mas chegaram l um dia dois larpios, que, dando-se por teceles,
+disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. No
+s eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas alm
+disso os vesturios feitos com esse estofo, possuam uma qualidade
+maravilhosa: tornavam-se invisveis para os idiotas e para todos
+aqueles que no exercessem bem o seu emprego.
+
+--So vesturios impagveis, disse consigo o sulto; graas a eles,
+saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
+dos ministros. Preciso desse estofo!
+
+E mandou em seguida adiantar aos dois charlates uma quantia avultada,
+para que pudessem comear os trabalhos imediatamente.
+
+Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que
+trabalhavam, apesar de no haver absolutamente nada nas lanadeiras.
+Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
+muito bem guardado, trabalhando at meia noite com os teares vazios.
+
+--Preciso saber se a obra vai adiantada.
+
+Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo no podia ser visto pelos
+idiotas. E, apesar de ter confiana na sua inteligncia, achou prudente
+em todo o caso mandar algum adiante.
+
+Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
+estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.
+
+--Vou mandar aos teceles o meu velho ministro, pensou o sulto; tem um
+grande talento, e por isso ningum pode melhor do que ele avaliar o
+estofo.
+
+O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
+com os teares vazios.
+
+--Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, no vejo
+absolutamente nada! Mas no entanto calou-se. Os dois teceles
+convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinio sobre os
+desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
+olhava, mas no via nada, pela razo simplicssima de nada l existir.
+
+--Meu Deus! pensou ele, serei realmente estpido? necessrio que
+ningum o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas l
+confessar que no vejo nada, isso que eu no confesso.
+
+Ento que lhe parece? perguntou um dos teceles:
+
+--Encantador, admirvel! respondeu o ministro, pondo os culos. Este
+desenho... estas cores... magnfico!... Direi ao sulto que fiquei
+completamente satisfeito.
+
+--Muito agradecido, muito agradecido, disseram os teceles; e
+mostraram-lhe cores e desenhos imaginrios, fazendo-lhe deles uma
+descrio minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois
+repetir tudo ao sulto.
+
+Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
+precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no
+bolso, claro; o tear continuava vazio, e apesar disso trabalhavam
+sempre.
+
+Passado algum tempo, mandou o sulto um novo funcionrio, homem
+honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a
+este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e no
+via nada.
+
+--No acha um tecido admirvel? perguntaram os tratantes, mostrando o
+magnfico desenho e as belas cores, que tinham apenas o inconveniente
+de no existir.
+
+--Mas que diabo! Eu no sou tolo! dizia o homem consigo. Pois no serei
+eu capaz de desempenhar o meu lugar? esquisito! mas deix-lo, no o
+deixo eu.
+
+Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admirao pelo
+desenho e o bem combinado das cores.
+
+-- duma magnificncia incomparvel, disse ele ao sulto. E toda a
+cidade comeou a falar desse tecido extraordinrio.
+
+Enfim o prprio sulto quis v-lo enquanto estava no tear. Com um grande
+acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois
+honrados funcionrios, dirigiu-se para as oficinas, em que os dois
+velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de
+espcie alguma.
+
+--No acha magnfico? disseram os dois honrados funcionrios. O desenho
+e as cores so dignos de vossa alteza.
+
+E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali estavam
+pudessem ver alguma coisa.
+
+--Que isto! disse consigo mesmo o sulto, no vejo nada! horrvel!
+serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que desgraa que me
+acontece! Depois de repente exclamou: magnfico! Testemunho-vos a
+minha satisfao.
+
+E meneou a cabea com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
+atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu squito olharam do
+mesmo modo, uns atrs dos outros, mas sem ver coisa alguma, e no entanto
+repetiam como o sulto: magnfico! At lhe aconselharam a que se
+apresentasse com o fato novo no dia da grande procisso. magnfico!
+encantador! admirvel! exclamavam todas as bocas, e a satisfao era
+geral.
+
+Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
+teceles.
+
+Na vspera do dia da procisso passaram a noite em claro, trabalhando
+luz de dezasseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
+cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fio,
+e declararam, depois disto, que estava o vesturio concludo.
+
+O sulto com os seus ajudantes de campo foi examin-lo, e os impostores
+levantando um brao, como para sustentar alguma coisa, disseram:
+
+Eis as calas, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha;
+ a principal virtude deste tecido.
+
+--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.
+
+--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larpios,
+provar-lhe-amos o fato diante do espelho.
+
+O sulto despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calas,
+depois a casaca, depois o manto. O sulto tudo era voltar-se defronte do
+espelho.
+
+--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortesos.
+Que desenho! que cores! que vesturio incomparvel!
+
+Nisto entrou o gro-mestre de cerimnias.
+
+--Est porta o dossel sobre que vossa alteza deve assistir procisso,
+disse ele.
+
+--Bom! estou pronto, respondeu o sulto. Parece-me que no vou mal.
+
+E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do
+seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, no
+querendo confessar que no viam absolutamente nada, fingiam arrega-la.
+
+E, enquanto o sulto caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a
+gente na rua e s janelas exclamava: Que vesturio magnfico! Que
+cauda to graciosa! Que talhe elegante! Ningum queria dar a perceber,
+que no via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
+Nunca os fatos do sulto tinham sido to admirados.
+
+--Mas parece que vai em cuecas, observou um pequerrucho, ao colo do
+pai.
+
+-- a voz da inocncia, disse o pai.
+
+--H ali uma criana que diz que o sulto vai em cuecas.
+
+Vai em cuecas! vai em cuecas! exclamou o povo finalmente.
+
+O sulto ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente era
+verdade. Entretanto tomou a enrgica resoluo de ir at ao fim, e os
+camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
+imaginria.
+
+
+
+
+*Boa sentena*
+
+
+Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma
+quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil ris
+de alvssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
+campons levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:
+
+--Deviam ser oitocentos mil ris, que foi a quantia que eu perdi; no
+alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
+adiantados os cem mil ris de alvssaras: estamos pagos por conseguinte.
+
+O bom campons, que nem por sombras tocara no dinheiro, no podia nem
+devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
+que, vendo a m f do avarento, deu a seguinte sentena:
+
+--Um de vs perdeu oitocentos mil ris; o outro encontrou um alforge
+apenas com setecentos: Resulta da claramente que o dinheiro que o
+ltimo encontrou no pode ser o mesmo a que o primeiro se julga com
+direito. Por consequncia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
+encontraste, e guarda-o at que aparea o indivduo que perdeu somente
+setecentos mil ris. E tu, o nico conselho que passo a dar-te, que
+tenhas pacincia at que aparea algum que tenha achado os teus
+oitocentos mil ris.
+
+
+
+
+*Os animais agradecidos*
+
+
+Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
+perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este
+respondeu:
+
+--Senhor: eu sou um desgraado, um miservel; nasci no vosso reino, e
+chamo-me _Ingratido_.
+
+--Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
+servio.
+
+O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
+Desde que chegaram a palcio, deu tais provas de habilidade, mostrou-se
+to esperto e to solcito, que o rei afeioou-se-lhe de tal modo, que
+o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administrao da sua casa.
+Deslumbrado por uma fortuna to rpida, o seu orgulho desde ento no
+conheceu limites; maltratava os inferiores, e no tinha compaixo dos
+desventurados.
+
+Ora, na vizinhana do palcio havia uma floresta cheia de animais
+selvagens e perigosssimos. O intendente mandou a fazer por toda a
+parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
+dentro, pudessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
+floresta, ia to absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
+precipitou ele mesmo dentro duma das covas.
+
+Passado um instante, caiu um leo dentro do mesmo poo; caiu depois um
+lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
+governador, ao ver-se em to extraordinria companhia, ficou to
+horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a esperana de
+salvao lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
+ningum o vinha socorrer.
+
+Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
+chamado Antnio, que todos os dias ia rachar lenha floresta, para
+ganhar o po necessrio sua mulher e aos seus filhos. Antnio tambm
+l foi nesse dia, como de costume, e ps-se a trabalhar no longe da
+cova em que cara o intendente, cujos gritos de aflio no tardou a
+ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
+ali.
+
+--Sou o governador do palcio do rei, e, se me tirares daqui, prometo
+encher-te de riquezas; estou em companhia dum leo, dum lobo e duma
+enorme serpente.
+
+--Eu, respondeu o lenhador, sou um miservel jornaleiro, no tendo para
+sustentar a minha famlia, mais que o produto do meu trabalho; bastava
+um dia perdido para me causar um grande desarranjo; v l pois, se
+cumpres a tua promessa?
+
+O intendente continuou:
+
+--Pela f que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
+cumprirei a minha palavra.
+
+Confiado nisto o rachador de lenha foi cidade, e voltou com uma corda
+muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O leo atirou-se a
+ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
+o intendente.
+
+Quando chegou acima, o leo agradeceu ao seu salvador com a maior
+amabilidade, e foi-se embora procura de jantar, porque tinha fome.
+
+Antnio deitou outra vez a corda ao fundo do poo, e, julgando tirar o
+governador, enganou-se, porque era o lobo; terceira vez subiu a
+serpente; foi necessrio fazer uma quarta tentativa, para sair o
+governador. Este no perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
+para o palcio. O jornaleiro voltou para casa, e contou mulher tudo o
+que se tinha passado, no lhe esquecendo, claro, as brilhantes
+promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manh, foi o pobre
+homem bater porta do palcio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.
+
+--Faa-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex. o intendente
+que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja falar.
+
+O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:
+
+--Vai dizer a esse homem, que eu no vi ningum na floresta; que se
+ponha a andar, porque o no conheo.
+
+O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.
+
+O pobre homem tornou para casa mui descoroado, e contou mulher a
+odiosa perfdia de que tinha sido vitima.
+
+A mulher disse-lhe:
+
+--Tem pacincia; o sr. intendente estava hoje decerto muito ocupado, e
+foi talvez por isso que te no pde receber.
+
+Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu esperanas.
+
+Na manh seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo porta do palcio.
+Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos speros, que no tornasse
+ali a aparecer, quando no ver-se-ia obrigado a empregar meios
+violentos. A mulher ainda desta vez procurou consol-lo:
+
+--Experimenta terceira e ltima vez, disse-lhe ela, talvez Deus o
+inspire melhor. E se assim no for, ainda que te custe, no penses mais
+nisso.
+
+No dia seguinte o bom do homem voltou carga; e tendo o porteiro
+consentido fora de suplicas em anunci-lo ainda ao governador, este
+encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre
+homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do
+cho. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com um
+burro, ps-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
+levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se
+obrigado a contrair dividas para pagar ao mdico. Quando finalmente
+tinha recobrado algumas foras, voltou ao bosque segundo o costume para
+fazer alguma lenha. Apenas l chegou, apareceu-lhe o leo, que ele
+tinha ajudado a sair do poo. O leo conduzia um burro diante de si, e
+este burro estava carregado de sacos cheios de preciosidades. O leo,
+vendo Antnio, parou e inclinou-se diante dele com um ar de respeitoso
+agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal
+de que ficasse com o jumento. Antnio doido de alegria levou o animal
+para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.
+
+No dia seguinte, voltando de novo floresta, apareceu-lhe o lobo, que
+o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto
+lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluda, e tinha carregado
+o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha
+tirado do fjo, e que trazia na ponta da lngua uma pedra preciosa, em
+que brilhavam trs cores,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a
+serpente chegou ao p do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
+dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal. Antnio
+levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
+propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho,
+afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
+assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia.
+Antnio respondeu-lhe que a no queria vender, mas simplesmente saber se
+seria boa.
+
+O velho respondeu:
+
+--So trs as virtudes desta pedra: abundncia contnua, alegria
+imperturbvel e luz sem trevas. Se algum ta comprar por menos dinheiro
+do que vale, tornar imediatamente para a tua mo.
+
+Antnio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
+cincia maravilhosa, e correu a contar mulher a sua felicidade. Como
+se imagina, graas virtude da famosa pedra, no lhe faltaram da em
+diante, nem honras nem riquezas.
+
+Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou
+chamar Antnio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talism.
+
+Antnio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:
+
+--Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me no for paga
+pelo que vale, tornar ela mesma para o meu poder.
+
+--Hei de pagar-ta bem, disse o rei.
+
+E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manh,
+Antnio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
+disse-lhe:
+
+--Torna a lev-la ao rei imediatamente; no v ele persuadir-se que
+lha furtaste.
+
+O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou presena de sua
+majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
+preciosa.
+
+--Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de ferro,
+fechado com sete chaves, disse o rei.
+
+Antnio mostrou-lhe ento a jia preciosa, e o rei ficou
+extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido
+semelhante tesouro.
+
+Antnio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratido do governador e o
+reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
+intendente, e disse-lhe:
+
+--Homem perverso, com justo motivo te puseram o nome de _Ingratido_,
+porque s mais falso e mais prfido que os animais ferozes, e pagaste
+com o mal o bem que te fizeram. Mas justia ser feita. Dou a Antnio as
+tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
+enforcado.
+
+Admiraram todos a sentena do rei, e Antnio desempenhou as suas altas
+funes com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
+escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos
+gloriosos.
+
+
+
+
+*O ermito*
+
+
+Um homem, animado pela mais ardente crena religiosa, deliberou
+retirar-se a uma gruta solitria para se consagrar inteiramente ao
+trabalho da sua salvao. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
+seus pensamentos no se desviavam nunca da ideia de Deus. Depois de ter
+assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que j tinha
+merecido um lugar glorioso no paraso, e podia ser contado entre os
+santos mais notveis.
+
+Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:
+
+--H no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
+e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.
+
+O ermito, atnito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
+seu bordo, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:
+
+--Irmo, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que oraes e
+penitencias te tornaste agradvel a Deus.
+
+--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabea, santo padre, no
+zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a oraes no as sei,
+pobre de mim, que sou um pecador. O que fao andar de casa em casa a
+divertir os outros.
+
+O austero ermito continuou a insistir:
+
+--Estou certo que, no meio da tua existncia vagabunda, praticaste algum
+acto de virtude.
+
+--Em verdade no poderia citar nem um s.
+
+--Mas ento como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
+loucamente como os que exercem a tua profisso? Dissipaste frivolamente
+o teu patrimnio e o produto do teu oficio?
+
+--No; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
+filhos tinham sido condenados escravido para pagar uma divida. Essa
+mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa,
+protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possua para resgatar a
+sua famlia, e levei-a cidade, onde ela devia encontrar-se com seu
+marido e com seus filhos. Mas quem no teria feito outro tanto?
+
+A estas palavras o ermito ps-se a chorar, e exclamou:
+
+--Nos meus setenta anos de solido nunca pratiquei uma obra to
+meritria, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu no
+passas dum pobre musico.
+
+
+
+
+*Carlos Magno e o abade de S. Gall*
+
+
+Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
+preguiosamente reclinado sobre almofadas porta da abadia, fresco,
+rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enrgicos e
+activos, e o abade era indolente. Alm disso o imperador tinha mais
+dum motivo de queixa contra ele.
+
+--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter
+sua esclarecida razo trs perguntas, s quais ter a bondade de me
+responder daqui a trs meses, contados dia a dia, em sesso solene do
+nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
+dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
+em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+rev.^{ma} vier minha presena, pensamento que deve ser um erro. Trate
+de arranjar resposta satisfatria a tudo, alis deixa de ser abade de S.
+Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada
+para o rabo.
+
+O abade no sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
+os doutores mais famosos pela sua cincia, no lhe souberam dar
+resposta. No entanto os dias iam correndo, e a poca fatal
+aproximava-se; j no faltava seno um ms, j no faltavam seno
+semanas, e afinal s dias. O abade, que noutro tempo era gordo e
+anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite.
+Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraa, quando se
+encontrou com o seu pastor.
+
+--Bons dias senhor abade. Parece que est mais magro! Est doente?
+
+--Estou, meu caro Flix, estou muito doente.
+
+--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.
+
+--Infelizmente no so ervas que eu preciso, mas resposta s minhas trs
+perguntas.
+
+-- ento latim?
+
+--No, no latim, seno os doutores tinham-me arranjado tudo.
+
+--Visto que no latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que : minha me
+era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.
+
+Quando o abade lhe formulou as trs perguntas, o pastor atirou com o
+barrete ao ar, e disse-lhe:
+
+--Se apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
+pode continuar a engordar; mas para isso necessrio que eu vista o seu
+habito.
+
+Quando chegou o dia, o pastor disfarado com o hbito do abade de S.
+Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
+imperial.
+
+--Ento, senhor abade, parece que est mais magro, deu-lhe muito que
+pensar a chave do enigma? Vamos l a ver a primeira pergunta: Quanto
+valho eu em dinheiro?
+
+--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por
+trinta dinheiros, sua majestade vale justa vinte e nove, s um
+dinheiro menos.
+
+--Bravo, senhor abade, a resposta hbil, e na realidade no posso
+deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos segunda pergunta, no h de
+ser to fcil dar a resposta. Vamos l a ver: quanto tempo levaria eu a
+dar a volta ao mundo?
+
+--Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
+constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
+quatro horas.
+
+--Decididamente, v. rev.^{ma} um grande finrio, e desta vez,
+confesso-me vencido; mas a terceira, no dessas que se responde com
+suposies. Quem lhe h de dizer o que eu estou pensando, e como me h
+de provar que este pensamento um erro? Tem a palavra senhor abade.
+
+--Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; est
+enganado, porque eu sou o seu pastor.
+
+--Mas ento tu que deves ser o abade de S. Gall, e desde j o ficas
+sendo.
+
+--No sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor,
+peo-lhe outra coisa.
+
+--No tens mais que falar.
+
+--Peo a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.
+
+Carlos Magno no era homem que faltasse sua palavra.
+
+
+
+
+*A boneca*
+
+
+Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma histria--a histria duma
+boneca!
+
+No h muitos anos, mas ainda no era a cordoaria do Porto o ameno
+jardim, onde a infncia folga por entre macios de flores e sob o
+sorriso do sol, sem que lhe enegrea o esprito a vista dos dois
+monumentos, que a meu ver simbolismo as duas mais horrveis calamidades,
+que podem aniquilar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda no h
+muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
+feira, divertindo-me a meu modo.
+
+Cansado das inmeras figuras, que tinha visto passar por aquela
+espcie de lanterna mgica, dispunha-me a dar por findo o espectculo,
+quando novos personagens me chamaram a ateno.
+
+Eram os meus vizinhos _ricos_.
+
+Aqui preciso uma rpida explicao.
+
+Das famlias da minha vizinhana, s conheo trs.
+
+Qual destas trs famlias ser mais feliz?...
+
+Pelo que tenho notado, no tm que invejar umas s outras.
+
+So todas felizes; cada qual a seu modo.
+
+Vi, pois, chegar os meus vizinhos _ricos_.
+
+Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapu na mo e
+dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou,
+tomou nos braos a filhinha e dep-la no cho, e oferecendo, em
+seguida, a mo esposa, para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e
+com a menina para a barraca onde eu estava.
+
+No havia ali segredo a surpreender.
+
+Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
+parecia agradecer quela formosa criana a manifestao de qualquer
+desejo.
+
+No fim de meia hora possua a minha pequena vizinha com que fazer a
+felicidade de dez crianas menos abastadas.
+
+Tinha o necessrio para montar completamente a casa duma boneca...
+_rica_.
+
+Faltava apenas a dona da casa--a boneca.
+
+Todo risos e atenes, o lojista apresentou o que tinha de melhor.
+
+Depois de muita hesitao e de, j com os olhos, j com a voz, consultar
+a mam, a gentil criana acabou por escolher uma magnfica boneca de
+dois palmos de altura, com cabelo em _bandeaux_ e olhos azuis.
+
+Uma boneca como as outras: cabea e colo de massa, corpo de pelica
+recheada, braos e pernas de pau.
+
+Uma vive na loja da casa, que habito. uma tribo de crianas, que fazem
+o martrio e a alegria da pobre me, e tem por chefe um honrado
+sapateiro.
+
+Alguns deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
+anjos, cados do cu sobre um monte de lama.
+
+So os meus vizinhos _pobres_.
+
+A segunda compe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a casa
+imediata.
+
+ como se costuma dizer, gente _que vai muito bem com a sua vida_.
+
+A filha que ter dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e carnudas,
+cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem
+presso.
+
+So os meus vizinhos _remediados_.
+
+A terceira a dos meus vizinhos _ricos_.
+
+Casa nobre, jardim espaoso, cavalos, criados, nome inscrito nas
+listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+estado--nada falta quela ditosa gente!
+
+Compe-se igualmente de marido, mulher e filha.
+
+Que formosa criana!... Ter oito anos.
+
+Franzina e plida, com os cabelos negros, os olhos grandes e
+cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mos de dedos compridos e
+esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que no
+sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a
+crescer--que h-de um dia ter o direito de lhas cobrir de beijos.
+
+Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas
+aquelas preciosidades de sobre o balco da barraca para dentro do
+carro.
+
+A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrtica criana.
+
+Sa dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo at casa variadssimas
+consideraes, sugeridas pela quase indiferena, com que aquela menina
+recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.
+
+Que contraste com os olhares de cobia, com que outras raparigas da
+mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabea de pano, horrvel
+artefacto portugus, em que os olhos so representados por dois pontos
+de linha azul, o nariz por um alinhavo de retrs cor de rosa, a boca por
+outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de l preta!
+
+Quando cheguei a casa, j na dos meus vizinhos remediados no havia luz.
+
+Na dos meus vizinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
+trs assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
+provocavam os ralhos da me.
+
+Quando, no dia seguinte, cheguei janela, seriam onze horas da manh.
+
+Na rua agenciavam nova camada de imundcie os filhos do sapateiro; na
+casa imediata no se via ningum--estava a pequena na mestra; no
+palcio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
+divertia-se a minha pequena milionria fazendo rodar, com auxlio duma
+linha, uma magnfica _caleche_ descoberta, puxada por cavalos brancos.
+
+Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.
+
+--A est a tua caricatura, minha feiticeira!...--disse eu de mim
+para mim. Ensaias nas bonecas o que vs no mundo a que pertences!...
+Ests a aprender a copiar... Sempre este mundo!...
+
+Retirei-me da janela.
+
+Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.
+
+A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
+vestia trs e quatro vezes!
+
+Ao que eu, porm, achava mais graa, era ao respeito com que a dona a
+tratava!
+
+Chamava-lhe sr. D. Lusa; dava-lhe excelncia; sustentava finalmente
+com a boneca um destes dilogos de senhoras da alta sociedade, em que
+se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.
+
+Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos
+_ricos_--ouvi um grito de susto.
+
+Era devido a um acidente, a que est sujeito quem anda de carro.
+
+Voltara-se este, e a boneca cara, ferindo a fronte na pedra da janela.
+
+O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a vtima; vendo,
+porm, que a ferida havia forosamente de deixar cicatriz, e
+lembrando-se de que s lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
+nova, agarrou-a pelos ps e ia atir-la com despeito rua, quando mais
+perto de mim bradou voz tmida e suplicante:
+
+No atire!... D-ma.
+
+Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu no dera f at
+ento.
+
+Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
+lanou um olhar de rainha para o stio donde vinha a splica.
+
+Vendo uma criana, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
+encolhendo os ombros, respondeu:
+
+--J no presta!... Est esmurrada!...
+
+-- o mesmo!... D-ma?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
+cobia.
+
+--Dou...--volveu a rica, encolhendo novamente os ombros.
+
+E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mos da
+vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse
+despedaar-se nas lajes da rua.
+
+Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
+outra, para mostrar me a que ela ainda no podia acreditar, que
+fosse sua!
+
+Por espao de meses foi a boneca a principal ocupao da nova dona.
+
+A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro
+vezes em quatro horas!... J lhe no davam excelncia! Chamavam-lhe
+sr. D. Ana; falavam-lhe de arranjos domsticos, do desmazelo da
+criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
+estranhas para ela!
+
+E a desgraada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
+azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
+se tornava mais escura: parecia uma ndoa, um estigma!
+
+Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
+ainda no poderia enganar olhos pouco conhecedores.
+
+No tardou, porm, que arrebiques de mau gosto, fitas velhas, rendas
+amareladas, chapus impossveis, viessem contrastar com a elegncia do
+vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira.
+
+Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele
+as ondulaes do _moir_, at que, um belo dia, vi a boneca vestida de
+cassa---no Inverno!--chaile e manta na cabea.
+
+Muito mal lhe ficava aquilo!... quela boneca custava-lhe de certo o
+ver-se to mal arranjada.
+
+Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:
+
+-- justo!... Cada qual segundo as suas posses.
+
+Por esse tempo, entrei em relaes com o meu vizinho sapateiro.
+
+O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
+faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasio, para me
+pedir desculpa.
+
+Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
+aproximar-se de ns e, desde ento, nunca saio de casa nem entro, sem
+grave risco de sofrer as consequncias da sua travessa familiaridade.
+
+Entre os filhos do sapateiro, porm, h uma pequenita de onze anos, com
+quem simpatizei logo primeira vista.
+
+Chama-se Maria.
+
+Por um destes acasos da Providencia, que parece s vezes comprazer-se
+em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmos.
+
+Acostumado s travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
+fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.
+
+E bem verdade que ele conhecia o valor daquela criana, porque havia
+verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: Esta a
+minha Maria!
+
+E tinha razo!
+
+No podia ser mais discreta do que j nesse tempo era.
+
+-- quem vale me!...--acrescentou o velho.--Ali, onde a v, faz o
+servio duma mulher!... H seis meses, quando a minha santa esteve
+doente--bem pensei que no arribasse!--a pequena era quem cozinhava e
+olhava pelos irmos!... E caridade como ela tem!?... Olhe que aquela
+pequena esteve trs dias sem se deitar... ali... ao p da me! Foi
+preciso eu obrig-la, que ela no a queria deixar!...
+
+E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lgrima, que,
+havia muito, hesitava sobre se sim ou no se devia despenhar.
+
+Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
+cabea coberta por um leno branco.
+
+Desde que o pai me deu to boas informaes da rapariga, nunca mais
+passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias
+pequena.
+
+Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
+deitada nos joelhos.
+
+--Eu conheo aquela boneca!...--disse eu de mim para mim.
+
+E, no podendo resistir curiosidade, bradei:
+
+-- Maricas!... Quem te deu a boneca?...
+
+Foi ali a menina da vizinha!--respondeu a pequenita, corando de prazer.
+
+Era escusado dizer-mo.
+
+Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. No podia
+duvidar... Era ela; l estava a mancha, o estigma cada vez mais visvel
+na fronte.
+
+De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com
+ela.
+
+--Quem te viu e quem te v!...--pensava eu.
+
+s vezes, se Maria se descuidava e os irmos lha podiam apanhar, que
+tratos que sofria a desgraada!
+
+Roada por aquelas mos, de que um carvoeiro se envergonharia,
+empregada como pla, submetida a torturas, era, ainda assim,
+singularssimo o aspecto da triste!
+
+Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a
+fraternizar com o povo.
+
+A msera mudara mais uma vez de nome!...
+
+De sr. D. Ana passara a ser sr. Rosinha e tratavam-na por vossemec.
+
+Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e leno na cabea.
+
+Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
+a boneca.
+
+Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
+encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre
+boneca a lastimar-se por estar tudo to caro, por haver falta de
+trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que
+mais familiares eram pequena.
+
+Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na,
+mandavam-na buscar gua fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
+acabavam por a despedir.
+
+J o leitor v que, apesar da bondade Maria, deixara de ser feliz.
+
+Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no palcio vizinho!
+
+Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos,
+desfeito o carmim dos lbios, a boneca no prometia longa durao.
+
+Foi este pelo menos, o prognstico que fiz a ltima vez que a vi,
+tentando em vo agradar ltima dona que o seu destino lhe dera.
+
+Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!
+
+Um dia chovia a cntaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
+espadanava em cacho para cima dos passeios, arrastando na passagem mil
+imundcies.
+
+Eu estava porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
+melancolicamente para a gua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
+partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um objecto,
+arremessado de dentro da loja, atravessou o espao voando, e foi cair no
+leito do enxurro...
+
+Olhei... Era a boneca!...
+
+A msera, arrastada pela gua, vogou rua abaixo at esbarrar numa
+pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar trs ou
+quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traado entre a pedra e
+o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, at ir sumir-se nas
+profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!
+
+Ser pieguice, ser o que o leitor quiser; mas, confesso-lhe, que me
+impressionou o fim da pobre boneca.
+
+Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado vidraa do
+sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
+
+--Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?
+
+--No fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...
+
+--E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...
+
+--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
+feia!...
+
+Curvei a cabea ante aquela razo, e segui o meu caminho.
+
+Pobre boneca!
+
+
+
+
+*Inconveniente da riqueza*
+
+
+Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alscia, foi
+surpreendido pela noite entrada duma aldeia. Procurou dum lado para
+outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam j
+todas fechadas, no se via nem um raio de luz atravs das janelas, tudo
+estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual
+com que se bate o trigo, e nesse stio havia uma pequena luz. Nosso
+Senhor dirigiu-se para l, chegou ao p do muro duma quinta, e bateu
+porta. Foi um campons que lha veio abrir.
+
+--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
+No se havia de arrepender.
+
+E acrescentou:
+
+--Visto que j todos esto deitados, para que que voc est ainda a
+trabalhar?
+
+--Ora, respondeu o campons, soube ontem noite que ia ser perseguido
+por um credor desapiedado, se lhe no pagasse amanh o que lhe devo,
+portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
+o vender no mercado, e pagar a minha dvida. Depois disto no nos fica
+nada, e no sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que Deus
+quiser!
+
+Ao dizer isto o campons limpava o suor da testa, e passava a mo pelos
+olhos arrasados de lgrimas. O Senhor teve d dele, e disse-lhe:
+
+--No desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que no te
+havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.
+
+Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e
+aproximou-a do trigo.
+
+--Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a
+tudo!
+
+Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se,
+de cada espiga, desceu uma chuva de gros prodigiosa. vista dum tal
+milagre os camponeses maravilhados caram de joelhos.
+
+--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
+pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, sers
+recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, Deus que te
+enriquece.
+
+Dito isto desapareceu.
+
+E a chuva dos gros no parou em toda a noite, e fez um monte to alto
+como a igreja.
+
+O campons pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bela
+casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e
+seus filhos adquiriram costumes perdulrios, tanto e tanto fizeram, que
+se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
+ningum os ajudou na sua misria. Uma noite o velho campons, que bebera
+enormemente, entrou no celeiro, e, recordando-se do milagre que o
+enriquecera, imaginou que tambm ele o poderia fazer. Agarrou na
+candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a
+casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na misria mais
+absoluta.
+
+
+
+
+*Querer poder*
+
+
+--Quem procura sempre encontra, diz um velho provrbio; quero ver por
+experincia, disse um dia um rapaz, se esta mxima verdadeira.
+
+Ps-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma grande cidade.
+
+--Senhor, disse-lhe ele, h muitos anos que vivo tranquilo e
+solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
+vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caa_. Tomei
+uma grande resoluo. Quero casar com a filha do rei.
+
+O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.
+
+O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
+semana, sempre com a mesma vontade inabalvel, at que o rei ouviu
+falar o rapaz da sua louca pretenso. Surpreendido com uma ideia to
+extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:
+
+--Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela cincia,
+pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais so
+os teus ttulos? Para seres o marido de minha filha necessrio que te
+distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
+extraordinrio. Ouve. Perdi h muito tempo no rio um diamante dum valor
+incalculvel. Aquele que o encontrar obter a mo de minha filha.
+
+O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
+rio; logo de manh comeava a tirar gua com um balde pequeno, e
+deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
+horas, punha-se a rezar.
+
+Os peixes inquietos ao verem to grande tenacidade, e receando que
+chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.
+
+--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.
+
+--Encontrar um diamante que caiu ao rio.
+
+--Ento, respondeu o velho rei, sou de opinio que lho entreguem, porque
+vejo qual a tmpera da vontade deste rapaz; mais fcil seria esgotar
+as ltimas gotas do rio, do que desistir da sua empresa.
+
+Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
+do rei.
+
+
+
+
+*Qual ser rei?*
+
+
+Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
+sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer,
+no ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.
+
+Resolveram alm disso que o cadver do rei fosse posto de p contra um
+muro, e que o prncipe que acertasse melhor com uma flecha naquele
+alvo, seria o escolhido para sucessor.
+
+Comeou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
+tempo, e a flecha foi atravessar a mo esquerda do defunto. O prncipe
+soltou grito de alegria, cuidando que seus irmos atirariam pior, e que
+por conseguinte seria ele quem viria a reinar.
+
+O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
+alegre do que o outro prncipe.
+
+O terceiro varou o corao de seu pai, e os seus gritos de triunfo
+quase que chegavam ao cu, porque lhe parecia impossvel acertar melhor.
+
+Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas mos as
+flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
+longe de si, e desatou a chorar:
+
+--Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu jamais
+consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mo de teus
+prprios filhos!
+
+Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais
+digno.
+
+
+
+
+*Os trs vus de Maria*
+
+
+O primeiro vu de Maria era dum linho mais alvo do que a neve.
+Bordara-o com as suas mos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
+seda to bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham pousar-lhe em
+cima.
+
+Este vu branco s o trouxe uma vez, no dia da sua primeira comunho.
+
+O segundo vu de Maria era de l negra. Principiou-o no mesmo dia em que
+sua me lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa triste e
+abandonada. Era bordado de perptuas roxas, como as dos sepulcros de
+mrmore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas as suas
+lgrimas.
+
+O vu negro s o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de
+Jesus no convento da Av-Maria.
+
+O terceiro vu era feito dum retalho do azul celeste, bordado
+de estrelas, e perfumado com aromas suavssimos.
+
+Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou
+no paraso.
+
+
+
+
+*Os pequenos no bosque*
+
+
+Um dia trs pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
+outros, que no havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: Vamos
+para o bosque que encontremos l toda a espcie de lindos bichinhos, que
+no fazem outra coisa seno brincar, e ns brincaremos com eles.
+
+Foram logo, e passaram sem fazer caso ao p da activa formiga e da
+abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar,
+disse-lhes:
+
+--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
+outra j no est slida.
+
+--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provises para o Inverno.
+
+--Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu
+ninho.
+
+--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocs, mas ainda
+hoje no lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
+minha _toilette_.
+
+E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
+a saltar e a tagarelar, tambm no queres brincar connosco?
+
+--Estes pequenos so tolos, disse o regato. Como? Vocs ento imaginam
+que eu no tenho que fazer? De noite ou de dia, no descanso nem um
+momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, s colinas,
+aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incndios,
+tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje
+acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. No posso perder
+um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.
+
+Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um
+pintassilgo, em cima dum ramo.
+
+--Olha! tu, que no tens nada que fazer, queres brincar connosco?
+
+--Nada que fazer? vocs esto a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo
+o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho alm disso que tomar
+parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operrio com o
+meu chilrear, e tenho que adormecer as crianas com uma outra cantiga,
+que noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. Ide-vos embora,
+preguiosos, ide cumprir o vosso dever, e no tornem a vir incomodar os
+habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.
+
+Os pequenos aproveitaram a lio, e compreenderam que o prazer s
+legtimo, quando a recompensa do trabalho.
+
+
+
+
+*O chapelinho encarnado*
+
+
+Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
+me e sua av adoravam extremosamente. A boa da avozinha, que passava o
+tempo a imaginar o que poderia agradar neta, deu-lhe um dia um chapu
+de veludo vermelho. A pequenita andava to contente com o seu chapu
+novo, que j no queria pr outro, e comearam a chamar-lhe a menina do
+chapelinho encarnado.
+
+A me e a av moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
+lgua de comprido. Uma manh a me disse pequenita:
+
+--Tua av est doente, e no pde vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai
+levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado no quebres a
+garrafa, no andes a correr, vai devagarinho e volta logo.
+
+--Sim, mam, respondeu ela, hei-de fazer tudo como deseja.
+
+Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e ps-se
+a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita,
+que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum.
+
+--Bons dias, chapelinho encarnado.
+
+--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.
+
+--Onde vais to cedo?
+
+--A casa da minha av que est doente.
+
+--E levas-lhe alguma coisa?
+
+--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
+dar foras.
+
+Diz-me onde mora a tua, av, que tambm a quero ir ver.
+
+-- perto, aqui no fim da floresta. H ao p uns carvalhos muito
+grandes, e no jardim h muitas nozes.
+
+--Ah! tu que s uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu gostava
+de te comer. Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas rvores e
+que lindos passarinhos. Como bom passear nas florestas, e ento que
+quantidade de plantas medicinais que se encontram!
+
+--O senhor, com certeza um mdico, respondeu a inocente pequenita,
+visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma
+que fizesse bem a minha av.
+
+--Com certeza, minha filha, olha, aqui est uma, e esta tambm, e
+aquela. Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas
+venenosas. A pobre criana, queria-as apanhar para as levar a sua av.
+
+--Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
+grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.
+
+E ps-se a correr em direco da casa da av, enquanto que a pequerrucha
+se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.
+
+Quando o lobo chegou porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
+av no se podia levantar da cama, e perguntou: Quem est a?
+
+-- o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da
+pequerrucha. A mam manda-te bolos e uma garrafa de vinho.
+
+--Procura debaixo da porta disse a av, que encontrars a chave.
+
+Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira,
+e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama.
+
+Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a
+porta aberta, porque sabia o cuidado com que a av a costumava ter
+fechada.
+
+O lobo tinha posto uma touca na cabea, que lhe escondia uma parte do
+focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrvel.
+
+--Ai! avozinha, disse a criana, porque tens tu as orelhas to grandes?
+
+-- para te ouvir melhor, minha filha.
+
+--E porque ests com uns olhos to grandes?
+
+-- para te ver melhor.
+
+--E para que ests com os braos to grandes?
+
+-- para te poder abraar melhor.
+
+--E Jesus! para que tens hoje uma boca to grande e uns dentes to
+agudos?
+
+-- para te comer melhor. A estas palavras o lobo arremessou-se pobre
+pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e comeou a
+ressonar muito alto. Um caador que passava por acaso, perto da casa, e
+que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha est com um
+pesadelo, est pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa. Entra, e
+v o lobo estendido na cama.
+
+--Ol, meu menino, diz ele: h muito tempo que te procuro.
+
+Armou a sua espingarda, mas parando logo: No, disse ele, no vejo a
+dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o
+animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
+cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e
+saltou para o cho, gritando:
+
+--Ai! que stio medonho onde eu estive fechada!
+
+A av saiu tambm contentssima por ver outra vez a luz do dia.
+
+O lobo continuava a dormir profundamente, e o caador meteu-lhe ento
+duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a av e a
+neta para verem o que se ia passar.
+
+Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se
+para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
+no podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no lago, e
+afogou-se.
+
+O caador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha
+e a sua neta. A velha sentia-se remoar, e o chapelinho encarnado
+prometeu no tornar a passar na floresta, quando sua me lho
+proibisse.
+
+
+
+
+*Os cinco sonhos*
+
+
+Andando um dia Carlos Magno caa com uma comitiva numerosa, perseguiu
+um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da
+ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi s
+ento que viu que estava s, tendo a sua corte ficado muito para traz;
+sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana solitria
+no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladres.
+Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
+entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe
+quiseram logo contar.
+
+O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:
+
+--No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro pessoa que acaba de entrar
+aqui, e punha-o na minha cabea.
+
+--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraa.
+
+--E eu que estava pondo o seu manto.
+
+--E eu, disse o quarto ladro, para lhe fazer favor, passava em roda do
+meu pescoo aquela pesada cadeia de ouro, da qual est pendurada a sua
+trompa de caa.
+
+--Vejo bem, disse o imperador, que tm teno de me roubar tudo, e
+mesmo a vida. Reconheo que estou em poder de vocs, e que toda e
+qualquer resistncia seria intil. No lhes peo seno uma coisa, que
+me deixem tocar pela ltima vez na minha trompa de caa.
+
+Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ltimo pedido
+dum moribundo deve ser respeitado.
+
+Carlos Magno levou boca a sua magnfica trompa de marfim, e tirou
+dela sons to fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos todos os
+seus companheiros de caa e a sua comitiva estavam ao p dele.
+
+--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambm
+eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocs todos iam ser
+enforcados diante deste casebre.
+
+E o sonho realizou-se imediatamente.
+
+
+
+
+*A igreja do rei*
+
+
+Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnfica em honra da
+Virgem, decretando que ningum nos seus estados pudesse contribuir para
+a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edifcio se
+concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do
+mrmore uma inscrio em letras de ouro, que dizia que s ele, e mais
+ningum, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na noite
+seguinte o nome do rei foi apagado da inscrio, e substitudo por o
+duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
+pr o seu nome na inscrio, e de novo foi substitudo pelo da pobre
+mulher; terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de clera, ordenou
+ento que lhe trouxessem a mulher sua presena:
+
+--Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que contribussem
+fosse com o que fosse para a edificao desta igreja; vejo que no
+cumpriste as minhas ordens.
+
+--Senhor, respondeu a velhinha toda trmula, eu respeitei as vossas
+ordens, apesar da mgoa que sentia por no poder oferecer o meu
+pequenino bolo em honra da Virgem; mas julguei no desobedecer a vossa
+majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
+que eu levava s escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas
+ construo da igreja.
+
+--O teu nome mais digno do que o meu de figurar em letras de ouro na
+inscrio do monumento, disse-lhe o rei.
+
+Mas na noite seguinte uma mo invisvel restabeleceu na lpide da igreja
+o nome do rei, que desde ento l se conserva ainda.
+
+
+
+
+*O valente soldado de chumbo*
+
+
+Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmos, por todos
+terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial,
+de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e vermelhos!
+A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da
+caixa em que eles estavam, foi este grito: Olha soldados de chumbo!
+que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado
+de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era form-los sobre a
+mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
+maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
+menos, porque o tinham deitado na forma em ltimo lugar, e j no havia
+chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros no estavam mais
+firmes nas duas pernas do que ele na sua nica, e este o que
+precisamente nos interessa.
+
+Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
+brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindssimo castelo de
+papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe o interior dos sales.
+ volta era circundado duma floresta em miniatura, que se reflectia
+poeticamente num pedao de espelho que fingia um lago, onde nadavam
+pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas no tanto como
+uma menina que estava porta, e que era tambm de papel, vestida com um
+lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
+tinha os braos arqueados, porque era danarina, e tinha uma perninha
+levantada a tal altura, que o soldado de chumbo no a podia ver, e
+imaginou que, como ele, no tinha seno uma perna.
+
+--Ali est a mulher que me convm, pensou ele, mas uma grande
+fidalga. Mora num palcio, eu numa caixa em companhia de vinte e
+quatro camaradas, e no haveria c lugar para ela. No entanto
+preciso conhec-la.
+
+Deitou-se atrs duma caixa de tabaco, e dali podia ver sua vontade a
+elegante danarina, que estava sempre num p s, sem perder o
+equilbrio.
+
+ noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e as pessoas
+da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, comearam
+a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de
+chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam l ir; mas
+como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes comeou a dar cabriolas
+e saltos mortais, o lpis traou mil arabescos fantsticos numa lousa,
+enfim o barulho tornou-se tal que o canrio acordou, e ps-se a cantar.
+Os nicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a
+danarinazinha. Ela no bico do p, e ele numa perna s, a
+espreit-la.
+
+Deu meia noite, e zs, a tampa da caixa de rap levanta-se, e em lugar
+de rap, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de surpresa.
+
+--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
+stio.
+
+Mas o soldado fez que no ouvia.
+
+--Espera at amanh, e vers o que te acontece, continuou o feiticeiro.
+
+No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de
+chumbo janela, mas de repente ou por influncia do feiticeiro ou por
+causa do vento caiu rua de cabea para baixo. Que tombo! Ficou com a
+perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta
+enterrada entre duas lajes.
+
+A criada e o rapazito foram l abaixo procur-lo, mas estiveram quase a
+esmag-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado: Cautela!
+te-lo-am achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda. A chuva
+comeou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro dilvio. Depois
+do aguaceiro passaram dois garotos.
+
+--Ol! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos faz-lo
+navegar.
+
+Construram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o soldado de
+chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois
+garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
+Que fora de corrente! Mas tambm tinha chovido tanto! O barco jogava
+duma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
+impassvel, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro.
+
+De repente o barco foi levado para um cano, onde era to grande a
+escurido como na caixa dos soldados.
+
+--Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me
+meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina
+estivesse no barco, no importava, ainda que a escurido fosse duas
+vezes maior.
+
+Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de gua; era um habitante do
+cano.
+
+--Venha o teu passaporte.
+
+Mas o soldado de chumbo no disse nada, e agarrou com mais fora na
+espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
+rangendo os dentes, e gritando s palhas, e aos cavacos:--Faam-no
+parar, faam-no parar! No pagou a passagem, no mostrou o passaporte.
+
+Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via j a luz do dia, e
+sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais valente.
+Havia na extremidade do cano uma queda de gua to perigosa para ele,
+como para ns uma catarata. Aproximava-se dela cada vez mais, sem
+poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lanou-se sobre a
+queda de gua, e o pobre soldado firmava-se o mais possvel, e ningum se
+atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.
+
+O barco, depois de ter andado roda durante muito tempo, encheu-se
+de gua, e estava a ponto de naufragar. A gua j chegava ao pescoo do
+soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
+gua passou por cima da cabea do nosso heri. Nesse momento supremo,
+pensou na gentil danarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:
+
+--Soldado: o perigo enorme, a morte espera-te.
+
+O papel rasgou-se, e o soldado passou atravs dele. Nesse momento foi
+devorado por um grande peixe.
+
+L que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E alm disso, que
+talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrpido, o soldado
+estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.
+
+O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, at que enfim
+parou, e pareceu que o atravessava um relmpago. Apareceu a luz do dia,
+e algum exclamou:
+
+--Olha um soldado de chumbo!
+
+O peixe tinha sido pescado, exposto na praa, vendido, e levado para a
+cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
+soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
+gente quis admirar esse homem extraordinrio, que tinha viajado na
+barriga dum peixe. No entretanto o soldado no se sentia orgulhoso.
+Colocaram-no em cima da mesa, e ali--tanto verdade que acontecem
+coisas extraordinrias neste mundo--achou-se na mesma sala, de cuja
+janela tinha cado. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam
+em cima da mesa, o lindo palcio, e a adorvel danarina sempre de perna
+no ar. O soldado de chumbo ficou to comovido, que de boa vontade teria
+derramado lgrimas de chumbo, mas no era conveniente. Olhou para ela,
+ela olhou para ele, mas no disseram uma palavra um ao outro.
+
+De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no
+fogo; eram obras do feiticeiro da caixa do rap.
+
+O soldado de chumbo l estava perfilado, alumiado por um claro
+sinistro, e sofrendo um calor terrvel. Todas as cores lhe tinham
+desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas
+viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
+danarina, que tambm olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre
+intrpido, conservava a espingarda ao ombro. De repente abriu-se uma
+porta, o vento arremessou a danarina ao fogo para junto do soldado, que
+desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, j no era mais
+que uma pequena massa informe.
+
+No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um
+objecto que tinha o feitio dum pequeno corao de chumbo, e tudo o que
+restava da danarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha
+enegrecido.
+
+
+
+
+*Joo Pateta*
+
+
+Joo era filho duma pobre viva, bom rapaz, mas um pouco simplrio. A
+gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira Joo Pateta. Um dia sua me
+mandou-o feira comprar uma foice. volta, comeou a andar com a foice
+ roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e matou-a.
+
+--Pateta, disse-lhe sua me, o que deverias ter feito era pr a foice em
+um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos.
+
+--Perdo, me, respondeu humildemente Joo, para a outra vez serei mais
+esperto.
+
+Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que
+as no perdesse.
+
+--Fique descansada. E voltou todo orgulhoso.
+
+--Ento, Joo, onde esto as agulhas?
+
+--Ah! esto em lugar seguro. Quando sa da loja em que as comprei, ia a
+passar o carro do vizinho carregado de palha; meti l as agulhas, no
+podem estar em stio melhor.
+
+--De certo, esto em lugar de tal modo seguro, que no h meio de as
+tornar a ver. Devias t-las espetado no chapu.
+
+--Perdo, respondeu Joo, para a outra vez, hei-de ser mais esperto.
+
+Na outra semana, por um dia de calor, Joo foi dali uma lgua comprar
+uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ltimo conselho de sua me, ps a
+manteiga dentro do chapu e o chapu na cabea. Imagine-se o estado em
+que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.
+
+A me j tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia
+resolveu-se a mand-lo feira vender duas galinhas.
+
+--Ouve bem, no vendas pelo primeiro preo. Espera que te ofeream
+outro.
+
+--Est entendido, respondeu Joo.
+
+Foi para a feira. Um fregus chegou-se a ele.
+
+--Queres seis tostes por essas galinhas?
+
+--Ora adeus! minha me recomendou-me, que no aceitasse o primeiro
+preo, mas que esperasse o segundo.
+
+--E tens muita razo. Dou-te um cruzado.
+
+--Est bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o primeiro,
+mas, como cumpro as ordens de minha me, ela no tem que me ralhar.
+
+Depois disto, Joo foi condenado a ficar em casa. Sua me sabia que
+mangavam com ele, e se riam dela. Uma manh quis fazer uma
+experincia, e disse-lhe:
+
+--Vai vender este carneiro feira. Mas no te deixes enganar. No o
+entregues seno a quem te der o preo mais elevado.
+
+--Est bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.
+
+--Quanto queres por esse carneiro?
+
+--Minha me disse-me que o no vendesse seno pelo preo mais elevado.
+
+--Quatro mil ris?
+
+-- o preo mais elevado?
+
+--Pouco mais ou menos.
+
+-- minha a l e o carneiro, disse um rapaz que trepara a uma escada.
+
+--Quanto?
+
+--Dez tostes:
+
+-- menos, respondeu timidamente o Joo.
+
+--Sim, mas vs at onde chega esta escada. Em toda a feira no h um
+preo mais elevado.
+
+--Tem razo. seu o carneiro.
+
+Desde esse dia o Joo Pateta no tornou a ser encarregado de vender ou
+comprar coisa alguma.
+
+
+
+
+*Branca de Neve*
+
+
+Era uma vez uma rainha, que se lastimava por no ter filhos. Um dia
+de Inverno, enquanto bordava num bastidor de bano olhando de vez em
+quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no cho,
+distrada, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue.
+
+--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beios to vermelhos
+como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros
+como este bano.
+
+Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu luz uma filha,
+que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo to branco,
+que lhe chamavam Branca de Neve. Porm esta feliz me no gozou muito
+tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
+duma grande beleza, e dum orgulho no menos extraordinrio. Era to
+formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
+vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho
+magico dizia-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual a mulher mais linda que h no
+mundo?
+
+--s tu, respondia o espelho.
+
+No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
+formosa. Tinha apenas sete anos, e j ningum a podia ver sem ficar
+maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
+espelho, disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual a mulher mais linda que h no
+mundo?
+
+--No s tu, no s tu. Branca de Neve mais linda.
+
+A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no corao uma dor aguda,
+como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um dio mortal pela
+inocente Branca. No podia sossegar nem de dia, nem de noite. Para
+satisfazer o seu dio, chamou um criado, e disse-lhe:
+
+--Quero que Branca desaparea. Conduze-la floresta, mata-a, e, para me
+provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o
+corao.
+
+O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e
+dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre criana chorava e
+lamentava-se, e pedia-lhe que a no matasse, porque ela no tinha feito
+mal a ningum, e queria viver. O criado, comovido com aquelas
+lgrimas, no teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se
+as feras a devorassem a culpa no era dele, mas sim da rainha. Assim
+fez, e para mostrar o corao de Branca rainha, matou um cabrito, e
+tirou-lhe o corao. A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou
+contentssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma
+mulher no mundo to bela como eu.
+
+A pobre Branca, abandonada na floresta, no tinha morrido, mas estava
+cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os ps nas pedras, e
+andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
+tambm via animais ferozes. Mas as feras no lhe faziam mal algum, o
+deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.
+
+ noite chegou ao p duma casinha muito pequenina. Estava morta de fome
+e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
+limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha de
+brancura irrepreensvel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,
+e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
+do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
+deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente.
+
+Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
+pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
+que tinham gente em casa. Um deles disse:
+
+--Quem comeu o meu po?
+
+E os outros sucessivamente:
+
+--Quem pegou no meu garfo?
+
+--Quem comeu o meu caldo?
+
+--Quem bebeu o meu vinho?
+
+E enfim um deles:
+
+--Quem est a deitado na minha cama?
+
+Reuniram-se todos roda do pequeno leito em que dormia Branca. luz
+das lanternas viram o doce rosto da criana, que dormia tranquilamente,
+e afastaram-se sem fazer bulha, para a no acordar. Branca no dia
+seguinte de manh ficou um pouco assustada, quando viu perto de si
+aqueles sete anes das montanhas. Mas eles disseram-lhe com brandura,
+que no tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como se chamava.
+Branca contou a sua triste histria, e os anes disseram-lhe:
+
+--Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa?
+
+--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada.
+
+Comeou logo o seu servio, e continuou-o regularmente todos os dias.
+Limpava os mveis, e fazia o jantar. Os anes iam trabalhar para as
+minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.
+
+Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que j no
+tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
+e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, no verdade que eu sou agora a mulher mais linda
+que h no mundo?
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Sim, nos teus palcios e nos teus castelos, mas Branca est nas sete
+montanhas, e Branca mais linda do que tu.
+
+Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,
+e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que
+modo? Uma manh partiu disfarada em vendedeira ambulante, com um cesto
+cheio de objectos de fantasia. Foi direita s sete montanhas, e bateu
+porta da casinha, gritando: Quem quer comprar bonitas jias?
+
+Os anes tinham recomendado a Branca que desconfiasse das caras
+estranhas, receando os emissrios da rainha, e ela tinha prometido ser
+prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no
+cesto, esqueceu-se das suas promessas.
+
+--Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou pr ao
+pescoo.
+
+Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
+anes voltaram, viram a infeliz Branca estendida no cho e completamente
+inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lbios algumas
+gotas dum licor amarelo. Branca comeou a respirar, voltou a si pouco
+a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.
+
+--Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira no era
+outra pessoa, seno a tua inimiga, a rainha. Toma cautela, no deixes
+entrar aqui ningum, quando no estivermos em casa.
+
+Ao entrar no seu palcio toda contente, colocou-se a rainha diante do
+espelho, e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho: Qual agora a mulher mais linda que h no mundo?
+Responde.
+
+E o espelho respondeu:
+
+--s tu nos teus grandes palcios e nos teus castelos, mas Branca est
+nas sete montanhas, e Branca mais linda do que tu.
+
+A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
+infeliz Branca. Tornou-se a disfarar em vendedeira. Chegou s sete
+montanhas, e bateu porta da cabana.
+
+--Quem quer comprar lindas jias? Branca veio janela, e respondeu:
+
+--V-se embora, aqui no entra ningum.
+
+--Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro. J
+viu outro to bonito?
+
+Branca no pde resistir ao desejo de possuir aquela jia. Abriu a
+porta.
+
+--Oh! minha linda menina, deixe-me pr-lho na cabea.
+
+Ao dizer isto enterrou-lhe na cabea o pente, que estava envenenado, e
+Branca caiu morta.
+
+ noite quando regressaram os anes, acharam-na plida e fria.
+Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e
+tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente.
+
+No entanto a cruel rainha voltava contentssima para o seu palcio.
+Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que
+o espelho respondeu como antecedentemente.
+
+--Ah! preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha de me
+sacrificar.
+
+Vestiu-se de camponesa com um cesto de mas. Entre elas havia uma que
+estava envenenada dum lado. Foi, e bateu porta da cabana.
+
+--Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?
+
+--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, no deixo entrar
+ningum, nem compro coisa alguma.
+
+--Est bem, no faltar quem compre estas ricas mas. Mas por ser to
+bonita, quero dar-lhe uma.
+
+--Obrigada, no posso aceitar.
+
+--Imagina que est envenenada. Olhe, eu vou comer um pedao. Ah! que boa
+que ! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora
+mordia no lado da ma, que no estava envenenado. Branca deixou-se
+tentar, levou boca o outro pedao, e caiu fulminada.
+
+--A tens, para castigo da tua formosura.
+
+Quando chegou ao palcio a rainha foi direita ao espelho, e
+perguntou-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, quem agora a mulher mais linda?
+
+E o espelho respondeu:
+
+--s tu, s tu.
+
+--At que enfim!
+
+Os anes estavam inconsolveis. Debalde tinham tentado reanim-la com o
+licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
+fria e inanimada. Choraram por ela durante trs dias, e os passarinhos
+da floresta choraram tambm. No entanto as boas avezinhas no podiam
+acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto to tranquilo,
+as suas faces to frescas, parecia que estava a dormir. No quiseram
+enterr-la. Meteram-na num caixo de cristal, e escreveram em cima.
+Aqui jaz a filha dum rei; puseram o caixo numa das sete montanhas,
+e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
+assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais
+pequena alterao.
+
+Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar
+caa, viu o caixo, e pediu aos anes que lho cedessem, fosse por preo
+que fosse.
+
+--Somos muito ricos, e por nada deste mundo venderemos este caixo, que
+ o nosso tesouro.
+
+--Ento dem-mo, j no posso viver sem contemplar este rosto de
+mulher. Guard-lo-ei na melhor sala do meu palcio. Peo-lhes que me
+faam isto.
+
+Os anes, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixo para
+o levarem. Um deles tropeou numa raiz, e o caixo sofreu um
+balano, que fez cair o bocado da ma envenenada, que Branca no tinha
+engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O
+jovem prncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela. O
+casamento fez-se com grande pompa. O prncipe convidou todos os reis e
+rainhas dos diferentes pases, e entre elas a rainha inimiga de
+Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos
+os olhares, ps-se diante do espelho, e disse a rainha:
+
+--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que h do mundo?
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Branca mais formosa que tu.
+
+A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes
+fossem descobertos, que morreu de repente.
+
+Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu palcio de
+princesa no se esqueceu dos anes que tinham sido os seus benfeitores.
+
+
+
+
+*A rapariguinha e os fsforos*
+
+
+Que frio! a neve caa, e a noite aproximava-se; era o ltimo de
+Dezembro, vspera de Ano Bom. No meio deste frio e desta escurido
+passou na rua uma desgraada pequerrucha, com a cabea descoberta e os
+ps descalos. verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas
+tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua me j
+tinha usado, to grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua
+a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
+quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a inteno de fazer
+dele um bero para o seu primeiro filho.
+
+A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha
+no seu velho avental uma grande quantidade de fsforos, e levava na
+mo um mao deles. O dia correra-lhe mal; no tinha havido
+compradores, e por isso no apurara cinco ris.
+
+Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
+longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do pescoo; mas
+pensava ela porventura nos seus cabelos anelados?
+
+As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos
+manjares; era a vspera de dia de Ano Bom: eis no que ela pensava.
+
+Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
+vez mais, mas no se atrevia a voltar para casa: o pai bater-lhe-ia,
+porque no tinha vendido os seus fsforos. Alm disso em sua casa
+fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento
+atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
+mozinhas j quase que as no sentia. Ai! como um fosforozinho aceso
+lhe faria bem! Se tirasse do mao apenas um, um nico, e ascendendo-o
+aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como
+ardeu! Era uma chama tpida e clara, como uma pequena lamparina. Que
+luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro
+de ferro, cujo lume magnfico aquecia to suavemente, que era um regalo.
+
+A pequerrucha ia j a estender os pezitos para os aquecer tambm, quando
+a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mo uma
+pontita de fsforo consumido.
+
+Acendeu segundo fsforo, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu
+a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando atravs desse
+muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha
+alvssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma galinha
+assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exalando um perfume
+delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do
+prato, e caiu no cho ao p da pequerrucha, com o garfo e a faca
+espetada no lombo. Nisto apagou-se o fsforo, e viu apenas diante de
+si a parede fria e tenebrosa.
+
+Acendeu terceiro fsforo, e achou-se imediatamente sentada debaixo
+de uma magnfica rvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a
+que tinha visto no ano passado atravs dos vidros de um armazm
+sumptuoso.
+
+Nos ramos verdes brilhavam centenares de bales acesos, e as estampas
+coloridas, como as que h s portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.
+Quando ia agarr-las com as duas mos, apagou-se o fsforo; todos os
+bales da rvore do Natal comearam a subir, a subir, e viu ento que se
+tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no cu
+um longo rasto de fogo.
+
+-- algum que est a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua av, que
+lhe queria tanto, mas que j morrera, dissera-lhe muitas vezes: Quando
+cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.
+
+Acendeu ainda outro fsforo: deu uma grande luz, no meio da qual lhe
+apareceu sua av, de p, com um ar radioso e suavssimo.
+
+--Minha av, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei que te vais
+embora quando se apagar o fsforo. Desaparecers como a panela de
+ferro, a galinha assada, e a bela rvore do Natal.
+
+Acendeu o rosto do mao, porque no queria que sua av lhe fugisse, e
+os fsforos espalharam um claro mais vivo que a luz do dia. Nunca sua
+av tinha sido to formosa. Ps ao colo a pequerruchinha, e ambas
+alegres, no meio deste deslumbramento, voaram to alto, to alto, que
+j no tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraso.
+
+Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os
+dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos lbios...
+morta, morta de frio na ltima noite do ano. O dia de Ano Bom veio
+alumiar o pequenino cadver, sentado ali com os seus fsforos, a que
+faltava um mao, que tinha ardido quase inteiramente.--Quis aquecer-se,
+disse um homem que passou. E ningum soube nunca as lindas coisas que
+ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
+velha av no dia do Ano Novo.
+
+
+
+
+*O primeiro pecado de Margarida*
+
+
+Chamava-se Margarida, e estavam espera dela no cu, porque Deus
+tinha dito:-- uma boa alma, e, como l em baixo no mundo lhe pode
+acontecer alguma desgraa, vou traz-la um destes dias para o paraso.
+
+Margarida era uma virgem cndida, matinal como a aurora, fresca como
+ela; todos os dias ao acordar rezava as oraes, que sua me lhe tinha
+ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como no tinha
+jias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.
+
+Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.
+
+E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela cano
+de amor e de glria, que j embalara muitos beros, e que podia
+sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.
+
+Numa tarde de Vero, estava ela sentada porta de casa fiando linho,
+ hora em que as estrelas comeam a aparecer, uma a uma no firmamento.
+
+Estava Margarida cantando a sua cano, quando passou por ali uma das
+suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido novo.
+Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
+colar de ouro que levava ao pescoo; apertou-lhe a mo para que visse
+bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
+contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que
+inquietou no paraso o seu anjo da guarda.
+
+O fio de linho j no passava to rapidamente entre os dedos de
+Margarida, a roda cessara o seu barulho montono, e o fuso cara-lhe das
+mos.
+
+Ao cair o fuso despertou do xtase, abriu os olhos, e viu diante de si
+um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na mo um gorro de veludo
+preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a
+respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
+perguntou-lhe:
+
+--Qual o caminho da cidade?
+
+Margarida estendeu a mo para lho indicar, e o forasteiro inclinando-se
+tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma
+estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que
+o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se ento com
+um sorriso estranho e diablico.
+
+Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
+Margarida, e pediu-lhe uma esmola.
+
+Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre desgraado.
+
+O cavaleiro ento, soltando um grito de clera, ia lanar-se sobre
+Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda
+disfarado--cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto Satans, que
+tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do esprito celeste.
+
+
+
+
+*Um nome inscrito no cu*
+
+
+Era uma vez um pobre mendigo, que bateu porta duma humilde cabana a
+pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas no vendo, nem
+ouvindo ningum, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu
+ento uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:
+
+--Ai! no te posso dar nada, porque nada tenho.
+
+E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater mesma
+porta.
+
+--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, j te disse que no tenho nada
+que te dar.
+
+--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.
+
+E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
+cima da mesa, muitos bocados de po e algumas moedas de dez ris, que
+lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.
+
+--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe ele afectuosamente, indo-se
+embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.
+
+No sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrev-lo-o no
+Paraso, e mais tarde ns o viremos a saber.
+
+
+
+
+*O linho*
+
+
+O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e
+transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre
+ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o
+dum filho quando a me o lava e lhe d um beijo.
+
+--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
+e serei brevemente uma rica pea de pano. Sinto-me feliz. No h
+ningum que seja mais feliz do que eu sou. Tenho sade e um belo
+futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
+feliz, feliz a mais no poder ser!
+
+--Como s ingnuo! disseram as silvas do valado; tu no conheces o
+mundo, de que ns outras temos uma larga experincia.
+
+E rangendo lastimosamente, cantaram:
+
+ --Cric, crac! cric, crac! crac!
+ --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+--No to cedo como vocs imaginam, respondeu o linho; est uma bela
+manh, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+florir. Sou muitssimo feliz.
+
+Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
+cabeleira, arrancaram-no com razes e tudo, e deram-lhe tratos de
+pol. Primeiro mergulharam-no em gua, como se o quisessem afog-lo, e
+depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!
+
+--No se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; necessrio
+sofrer, o sofrimento a me da experincia.
+
+Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no,
+cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois,
+puseram-no numa roca, e ento perdeu a cabea inteiramente.
+
+--Era feliz de mais, pensava o desgraado linho no meio daquelas
+torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades perdidas.
+
+E ainda estava dizendo--perdidas, e j o estavam a meter no tear e a
+transform-lo numa pea de pano.
+
+--Isto extraordinrio, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que
+grandes tolas aquelas silvas quando cantavam:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Agora que eu principio a viver. Padeci muito, verdade, mas por isso
+tambm agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me to forte, to alto,
+to macio! Ah! isto bem melhor do que ser planta, mesmo florida,
+ningum trata da gente, e no bebemos outra gua a no ser a da chuva.
+Agora o contrrio: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as
+manhs, e noite tomo o meu banho com um regador. A criada do sr. cura
+fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
+melhor pea da parquia. No posso ser mais feliz.
+
+Levaram o pano para casa, e entregaram-no s tesouras. Cortaram-no e
+picaram-no com uma agulha. No era l muito agradvel, mas em
+compensao fizeram dele uma dzia de camisas magnficas.
+
+--Agora decididamente comeo a valer alguma coisa. O meu destino
+abenoado, porque sou til neste mundo. preciso isso para se viver em
+paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaos, verdade, mas formamos um
+s grupo, uma dzia. Que incomparvel felicidade!
+
+O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.
+
+--Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas no
+se fazem impossveis.
+
+E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
+finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem
+adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel
+branco magnfico.
+
+--Oh que agradvel surpresa! exclamou o papel, agora sou muito mais fino
+do que dantes, e vo cobrir-me de letras. O que no escrevero em cima
+de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!
+
+E escreveram nele as mais belas histrias, que foram lidas diante de
+inmeros ouvintes, e os tornaram mais sbios e melhores.
+
+--Ora aqui est uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
+quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
+ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! No sei
+explicar o que me est acontecendo, mas verdade. Deus sabe
+perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
+sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, at chegar maior glria.
+Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: Acabou-se, acabou-se
+tudo pelo contrrio se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou
+viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
+instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora
+as minhas flores so os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,
+imensamente feliz!
+
+Mas o papel no foi viajar; entregaram-no ao tipgrafo, e tudo que l
+estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
+que recrearam e instruram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
+papel no teria prestado o mesmo servio, ainda que desse a volta roda
+do mundo. A meio caminho j estaria gasto.
+
+-- justo, disse o papel, no tinha pensado nisso. Fico em casa, e vou
+ser considerado como um velho av! fui eu que recebi as letras, as
+palavras caram directamente da pena sobre mim, fico no meu lugar, e os
+livros vo por esse mundo fora. A sua misso realmente bela, e eu
+estou contente, e julgo-me feliz.
+
+O papel foi empacotado, e lanado para uma estante.
+
+--Depois do trabalho agradvel o descanso, pensou ele. neste
+isolamento que a gente aprende a conhecer-se. S de hoje em diante que
+eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a ns mesmo a verdadeira
+perfeio. Que me ir ainda acontecer? Progredir, est claro.
+
+Passados tempos, o papel foi atirado ao fogo para o queimarem, porque o
+que o no queriam vender ao merceeiro para embrulhar acar. E todas as
+crianas da casa se puseram roda; queriam v-lo arder, e ver tambm,
+depois da labareda, as milhares de fascas vermelhas, que parecem fugir,
+e se apagam instantaneamente uma aps outra. O mao inteiro de papel
+foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande
+chama, que se erguia to alto, to alto como o linho nunca erguera as
+suas flores azuis; a pea de pano nunca tinha tido um brilho
+semelhante.
+
+Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
+palavras, todas as ideias desapareceram em lnguas de fogo.
+
+--Vou subir at ao sol; dizia uma voz no meio da labareda, que
+pareciam mil vozes reunidas numa s. A chama saiu pela chamin, e no
+meio dela volteavam pequeninos seres invisveis para os olhos do
+homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.
+Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu,
+quando no restava do papel seno a cinza negra, ainda eles danavam
+sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas
+encarnadas.
+
+As crianas cantavam roda da cinza inanimada:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Mas cada um dos pequeninos seres dizia: No, no se acabou; agora que
+ o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.
+
+As crianas no puderam ouvir, nem compreender estas palavras; mas
+tambm no era necessrio, porque as crianas no devem saber tudo.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+*INDICE*
+
+
+A me
+O ouro
+Doura e bondade
+O malmequer
+No quero
+Piloto
+O rico e o pobre
+Como um campons aprendeu o Padre Nosso
+O talism
+A alma
+Alberto
+A cano da cerejeira
+Os gigantes da montanha e os anes da plancie
+A criana, o anjo e flor
+Presente por presente
+O pinheiro ambicioso
+Perfeio das obras de Deus
+Joo e os seus camaradas
+O rabequista
+Os pssegos
+A urna das lgrimas
+Reconhecimento e ingratido
+O fato novo do sulto
+Boa sentena
+Os animais agradecidos
+O ermito
+Carlos Magno e o abade de S. Gall
+A boneca
+Inconveniente da riqueza
+Querer poder
+Qual ser rei?
+Os trs vus de Maria
+Os pequenos no bosque
+O chapelinho encarnado
+Os cinco sonhos
+A igreja do rei
+O valente soldado de chumbo
+Joo Pateta
+Branca de Neve
+A rapariguinha e os fsforos
+O primeiro pecado de Margarida
+Um nome inscrito no cu
+O linho
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+[A propriedade deste livro pertence no Brasil ao sr. Lus de Andrade,
+residente no Rio de Janeiro.]
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