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+The Project Gutenberg EBook of Contos para a infância, by Guerra Junqueiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Contos para a infância
+ Escohidos dos melhores auctores
+
+Author: Guerra Junqueiro
+
+Release Date: August 4, 2005 [EBook #16429]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA ***
+
+
+
+
+Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
+Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
+at https://www.pgdp.net
+
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+
+
+CONTOS PARA A INFANCIA
+
+ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES POR GUERRA JUNQUEIRO
+
+
+LISBOA
+
+TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL
+
+Rua dos Calafates, 110
+
+1877
+
+
+
+
+*A mãe*
+
+
+Estava uma mãe muito afflicta, sentada ao pé do berço do seu filho, com
+medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados.
+Respírava com difficuldade, e ás vezes tão profundamente, que parecia
+gemer; mas a mãe causava ainda mais lastima do que o pequenino
+moribundo.
+
+N'isto bateram á porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado
+n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de
+neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha.
+
+O pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns instantes,
+e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho
+começou a embalar a creança, e a mãe, pegando n'uma cadeira, sentou-se
+ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
+vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mãosinha descarnada e disse para
+o velho:
+
+--Oh! Nosso Senhor não m'o hade levar! não é verdade?--
+
+E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça d'uma maneira extranha, em
+ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas
+corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de
+cabeça; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou
+ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a
+tremer de frio.
+
+--Que é isto! exclamou, lançando á volta de si o olhar hallucinado. O
+berço estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creança.
+
+ * * * * *
+
+A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma
+mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em
+casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
+depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar.»
+
+--Por onde foi ella? gritou a mãe. Dize-m'o pelo amor de Deus!»
+
+--Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto.
+Mas só t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas
+ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
+muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.
+
+--Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me
+demores, porque quero encontrar o meu filho.--
+
+A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou a
+cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais do que as
+palavras.
+
+No fim disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de
+pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.»
+
+A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não
+sabia que direcção havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal,
+cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
+cristallisada.
+
+ * * * * *
+
+--Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe.
+
+--Vi, respondeu o mattagal, mas não te ensino o caminho, senão com a
+condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»
+
+E a mãe estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos
+dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se
+de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite
+d'inverno frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe
+angustiosa.
+
+E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
+andando, até que chegou á margem d'um grande lago, onde não havia nem
+barcos, nem navios. Não estava sufficientemente gelado para se andar por
+elle, e era demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo,
+querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio
+do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do
+lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria
+talvez um milagre.
+
+--Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos
+amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus
+olhos são d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu
+tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas á força de chorar, e
+levar-te-hei á estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a
+habitação da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro, é ella
+quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida d'uma creatura
+humana.»
+
+--Oh! o que não darei eu, para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E
+apesar de ter já chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do
+que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo
+do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no
+mundo uma rainha.
+
+O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na
+outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua
+de comprido. De longe não se sabia se era uma construcção artistica ou
+uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada;
+tinha dado os seus olhos.
+
+--Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou
+ella desesperada.
+
+--A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um
+lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
+vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?»
+
+--Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso. Compadece-te
+de mim, e dize-me onde está o meu filho.»
+
+--Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas
+e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para
+as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este
+sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem
+com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes,
+sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as
+pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o
+que tens ainda de fazer?»
+
+--Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim
+do mundo buscar o que tu quizeres.--«Fóra d'aqui não preciso de nada,
+respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que
+são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos
+brancos.»--Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Ahi os tens,
+dou-t'os de boa vontade.»
+
+E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu
+orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e
+inteiramente brancos da velha.
+
+Esta levou-a pela mão á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma
+vegetação maravilhosa.
+
+Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado
+de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas
+cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam
+cobras asquerosas.
+
+Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos
+frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa,
+tomilho, ortelã e outras plantas humildes que representavam o genero de
+utilidade das pessoas que ellas symbolisavam.
+
+Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
+pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em
+vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com
+esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a
+essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlandia.
+
+A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe
+impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas
+pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
+coração, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as
+pulsações do coração do seu filho.
+
+--É elle!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre
+a terra, parecia completamente estiolado.
+
+--Não lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte
+vier, que não tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de
+arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem
+de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o seu
+consentimento.»
+
+N'isto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte,
+que se approximava.
+
+--Como é què deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
+primeiro do que eu! Como o conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ella.
+
+E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.
+
+Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de
+não ferir uma só das pequeninas petalas. Então a Morte soprou-lhe nas
+mãos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do
+que os ventos enregelados do inverno.
+
+--Não pódes nada comigo!» disse a Morte.--Mas Deus tem mais força do que
+tu, respondeu a mãe.»--«É verdade, mas eu não faço senão aquillo que
+elle manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e
+arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins,
+um dos quaes é o grande jardim do Paraizo. São regiões desconhecidas;
+ninguém sabe o que se lá passa.»
+
+--Misericordia! misericordia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho,
+agora que acabo de o encontrar!» Supplicava e gemia. A Morte
+conservava-se impassivel; agarrou então instantaneamente em duas flores
+lindissimas e disse á Morte: «Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar,
+despedaçar não só esta, mas todas as flores que estão aqui!
+
+--Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és
+desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra mãe!»
+disse a pobre mulher, largando as flores immediatamente.--Toma, aqui
+tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei
+do lago. Não sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o
+fundo d'este poço; vê o que ias destruir, se arrancasses estas flores.
+Verás passar nos reflexos da agua, como n'uma miragem, a sorte destinada
+a cada uma d'essas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se
+porventura vivesse.»
+
+Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria,
+quadros risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de
+miseria, d'angustias e de desolação.
+
+--N'isto que eu vejo, disse a mãe afflictissima, não distingo qual era a
+sorte que Deus destinava ao meu filho.»
+
+--Não posso dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto
+que te appareceu viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.»
+
+A mãe desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me:
+era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade! Falla!
+Não me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, não vá elle soffrer
+desgraças tão horriveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que á minha
+vida. As angustias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos.
+Esquece as minhas lagrimas, as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz
+e tudo o que disse.»
+
+--Não te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu
+filho ou que o leve para a região desconhecida de que não posso
+fallar-te!» Então a mãe allucinada, convulsa, torcendo os braços,
+deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: «Não me ouças,
+Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua vontade que é
+sempre justa! Não me attendas meu Deus!»
+
+E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua agonia
+dilacerante.
+
+E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi transplantal-o no
+jardim do paraiso.
+
+
+
+
+*O ouro*
+
+
+Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas d'ouro,
+empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas minas; e o
+resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande
+fome no paiz.
+
+Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
+segredo frangos, pombos, gallinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
+e quando o rei quiz jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com
+que elle ficou todo satisfeito, porque não comprehendeu ao principio
+qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada
+de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem
+que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus
+vassallos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
+trazel-os nas minas á busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e
+que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens,
+estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro
+apparecesse em abundancia.
+
+A rainha tinha juizo.
+
+
+
+
+*Doçura e bondade*
+
+
+Ha entre vós, meus filhos, indoles violentas, que não sabem dominar-se,
+e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma pessima
+disposição, que é necessario corrigir; dá lugar a disputas, e a que se
+commettam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.
+Citar-vos-hei dois exemplos de que fui testemunha.
+
+Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
+d'elle, volta-se e dá-lhe uma bofetada.
+
+--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vae ter! bateu n'um
+cego!»
+
+Um homem ainda novo montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns
+camponezes grosseiros começaram a apupal-o e a bater no burro, para o
+fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a
+sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubesseis que eu era coxo, não
+terieis sido tão covardes.»
+
+Os camponezes, envergonhados, córaram, afastando-se sem pronunciar uma
+palavra.
+
+Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a
+quem as recebeu.
+
+
+
+
+*O malmequer*
+
+
+Ouvi com attenção esta pequenina historia!
+
+No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores,
+rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no
+meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
+olhos vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por
+elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella
+manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
+parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava
+que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre florinha
+insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
+sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
+
+N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira,
+sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças
+sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle, sentado na haste
+verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
+o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com
+admiravel nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a
+olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha
+feliz que cantava e voava.
+
+«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento
+acaricia-me. Oh! não tenho rasão de me queixar.»
+
+Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos
+aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para
+parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa.
+As tulipas brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se
+pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno
+malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: «como são
+ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visital-as. Graças a Deus,
+poderei assistir a este bello espectaculo.» E no mesmo instante a
+cotovia dirigiu o seu vôo, não para as dalias e tulipas, mas para a
+relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria não sabia o que
+havia de pensar.
+
+O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando: «Como a herva é
+macia! oh! que encantadora florinha, com um coração d'oiro, vestida de
+prata!»
+
+Não se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com
+o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do
+firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde o malmequer
+reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou
+para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
+acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as
+tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
+ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabeça toda
+inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis
+ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.
+
+Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
+grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
+uma a uma.
+
+«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se
+todas.»
+
+E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrára-se por
+ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando
+reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
+adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.
+
+No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao
+ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,
+muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rasões para se affligir:
+haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella
+aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas
+antigas viagens atravez do espaço illimitado.
+
+O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
+difficil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe
+esquecer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e
+a alvura resplandecente das suas proprias folhas.
+
+N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão
+uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
+tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o
+que desejavam.
+
+«Podemos arrancar d'aqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos
+rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.
+
+--«Arranca a flor, disse o outro.»
+
+A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era
+morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existencia, como no momento em
+que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
+
+«Não; deixemol-a, disse o mais velho. Está ahi muito bem.»
+
+Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
+
+O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia
+com as azas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus
+desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.
+
+Passou-se assim toda a manhã.
+
+«Já não tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
+deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre
+terrivel, sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do
+sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da
+creação!»
+
+Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu
+então o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe,
+afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo
+inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva,
+e a ti só por unica companhia. Cada pésinho de relva substitue para mim
+uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah!
+como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!
+
+--Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o
+minimo movimento.
+
+Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume;
+a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
+arrancar a herva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na
+flor.
+
+Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua á
+desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas azas, sacudindo-as
+convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha melancolica; a sua
+cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e
+d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer
+não pôde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se
+para o chão, doente de tristeza.
+
+Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
+rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro
+d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e
+cobriram o tumulo com folhas de rosas.
+
+Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e
+deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram
+e lhe fizeram honrarias pomposissimas.
+
+A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle
+que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.
+
+
+
+
+*Não quero*
+
+
+Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito
+alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» Parei e
+perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu rapaz?--«Não quero dizer
+á mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar,
+mas antes quero que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe
+eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto que o outro
+pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
+todo envergonhado.
+
+D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o
+professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois
+pequenos; o que não quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro,
+vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
+dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro, è um magnifico
+estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a
+confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a reparal-as. O outro
+pelo contrario, é mentiroso, covarde e incorrigivel.»--Não me espanto,
+disse eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças; e
+contei-lhe o que tinha ouvido.
+
+
+
+
+*Piloto*
+
+
+Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos cães, e o
+infatigavel companheiro dos brinquedos das creanças da quinta.
+
+Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe
+lançava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na bocca e
+trazia-o á margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã
+Joaninha.
+
+Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cançar nunca a paciencia do
+Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o
+assobio do creado da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações:
+partia então como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos
+pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.
+
+Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda
+da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse á noite a parede da
+quinta.
+
+Uma vez deu prova d'uma extraordinaria sagacidade; um jornaleiro, que se
+empregava muitas vezes em levar saccos de trigo da quinta para casa,
+tentou de noite roubar um sacco.
+
+Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade
+emquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou
+tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o
+largar.
+
+Era como se dissesse: «Onde vaes tu com o trigo de meu dono?»
+
+O ladrão quiz pôr então outra vez o sacco d'onde o tinha tirado; Piloto
+não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de
+manhã; o quinteiro foi dar com elle n'esta difficil posição,
+reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não
+deshonrar.
+
+Mas o homem ficou com odio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a
+ausencia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
+elle sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até á
+margem do ribeiro.
+
+Atou uma grande pedra á outra extremidade da corda e levantando o animal
+atirou-o á agua; mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforço,
+caiu tambem.
+
+Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o
+corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e
+desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes
+e trazido para terra o seu mortal inimigo.
+
+Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o
+cão que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida.
+
+Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si
+mesmo e combateu as suas más inclinações.
+
+O exemplo do cão corrigiu o homem.
+
+
+
+
+*O rico e o pobre*
+
+
+Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
+dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
+deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da
+estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar,
+quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
+preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos
+viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo,
+e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
+vinho.
+
+Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua
+codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e
+suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino tão rico,
+em vez do desgraçado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu
+dentro d'aquella carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia
+Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lançando a cabeça fóra da
+carruagem, chamou Martinho com a mão.
+
+--Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a
+minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho
+córando, o que eu disse não foi por mal.»--Não estou zangado comtigo,
+replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.»
+
+--Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar
+no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando
+muitas leguas por dia, como pão secco e batatas, emquanto que o senhor
+anda n'uma carruagem, póde comer frangos e beber vinho.»--Pois bem,
+volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu
+não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho
+ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
+preceptor continuou: «Acceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho,
+ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada
+de me ver entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a
+idéa da entrada triumphante na sua aldeia.
+
+O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
+descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma
+perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em
+duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou
+que era muito pallido e que tinha cara de doente.
+
+Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:--Então sempre
+desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas
+valentes e as tuas faces córadas, pelo prazer de ter uma carruagem e
+andar bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou
+Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
+tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro
+os meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças a Deus
+pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.
+
+«Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal,
+tens força e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que não
+podem comprar-se com dinheiro.
+
+
+
+
+*Como um camponez aprendeu o Padre Nosso*
+
+
+Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
+confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso.
+
+«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.»
+
+«Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a
+credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da
+minha parte.»
+
+No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
+
+«Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.
+
+«Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, respondeu o pobre.»
+
+«E o teu appellido?»
+
+«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.»
+
+E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
+
+Ao outro dia chega segundo pobre.
+
+«Como te chamas?
+
+«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.»
+
+«E o teu appellido?»
+
+«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.»
+
+E partiu com o seu alqueire de trigo.
+
+Veiu terceiro pobre.
+
+«Como te chamas?»
+
+«Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.»
+
+«E o teu appellido?»
+
+«Dae-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.»
+
+E levou o seu alqueire.
+
+Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma
+forma até chegar ao _Amen_.
+
+Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.
+
+«Então já sabes o Padre Nosso?»
+
+«Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei
+o meu trigo.»
+
+«Quaes são? tornou o padre.»
+
+E o aldeão enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
+apresentado.
+
+«Já vês, disse o confessor, que não era muito difficil aprender o Padre
+Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»
+
+
+
+
+*O talisman*
+
+
+Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas
+com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
+que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com
+uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue
+inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da
+sua casa.
+
+«Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual é a razão
+porque a sorte nos trata de um modo tão differente? Vendemos as mesmas
+mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apezar
+d'isso, emquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu
+seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não
+terás tu por acaso algum precioso talisman.»
+
+«Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma
+virtude incomparavel. Trago-o ao pescoço, e ando assim com elle todo o
+dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o
+celleiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.»
+
+«Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia
+preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de que t'a
+restituo.»
+
+«Pois vem buscal-a ámanhã de manhã.»
+
+Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
+apresentou-lhe este uma avellã, através da qual tinha tinha passado um
+fio de seda.
+
+O nosso homem pòl-a immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a
+casa com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a
+parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
+cozinha o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o
+feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos
+cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
+escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio,
+comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por
+terceira pessoa na direcção dos seus negocios.
+
+Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman,
+agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em
+segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.
+
+
+
+
+*A alma*
+
+
+«Mamã, nem todas as creanças que morrem vão para o Paraizo. O outro dia
+vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu papá e as
+suas duas irmãsinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me
+fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, não é
+verdade?»
+
+«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus
+paes e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraizo.»
+
+«A alma? mamã; não sei o que é; não comprehendo bem.»
+
+«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
+pequerruchas.»
+
+«Tive sim, mamã, tive muita pena.»
+
+«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
+braços?»
+
+«Não, mamã.»
+
+«Eram as orelhas?»
+
+«Oh! não mamã, era _cá dentro_.»
+
+«Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece,
+que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando
+praticas o bem.
+
+
+
+
+*Alberto*
+
+
+Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus
+irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer
+sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico
+feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de
+batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava
+com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
+quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. «Ha
+de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará libras como uma
+cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá, que ficará muito
+contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não
+rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por
+fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.
+
+«Vi papá; achei-a e fui semeal-a.»
+
+«Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve?»
+
+«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.»
+
+«É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»
+
+Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
+não pertencia.
+
+Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
+produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como
+é? é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira.
+
+
+
+*A canção da cerejeira*
+
+
+Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!» E a cereijeira
+cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e
+verdejantes.
+
+A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se,
+abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as
+folhinhas tenras, dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem é
+que me arranjou este banquete?»
+
+Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a cereijeira
+cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores delicadas e
+brancas.
+
+E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas,
+dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o
+deitaram!»
+
+Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o
+assucar!»
+
+No verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira
+cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos.
+
+«Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião; temos appetite,
+e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No
+outono disse Deus: «Levantae a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento
+frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore.
+
+As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o
+vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar.
+
+Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos
+ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descança.
+
+
+
+
+*Os gigantes da montanha e os anões da planicie*
+
+
+Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na
+montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um
+alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície a ver o que
+faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões.
+Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido á caça e sua mãe estava
+dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os
+jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os
+lavradores, coisas inteiramente novas para ella. «Oh! que lindos
+brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
+quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavallos, a
+charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello,
+onde seu pae estava a jantar.
+
+--Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle.
+
+--Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os
+mais bonitos que tenho visto.»
+
+E pol-os em cima da mesa, a um e um,--os cavallos, a charrua e os
+trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
+tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha
+poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
+fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso
+não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
+respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o
+immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
+montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de lavrar
+a terra e de semear o trigo.
+
+
+
+
+*A creança, a anjo e flôr*
+
+
+Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos braços, e
+desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que
+ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de
+quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam
+no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe
+todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor
+escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros
+maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma
+creança morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro
+sobre a casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins
+deliciosos, cobertos de flores.
+
+«Qual é a flor que desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo.
+
+Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
+magnifica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de
+botõesinhos lindissimos pendiam estiolados para o chão.
+
+«Pobre roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa
+reflorir no paraiso.»
+
+O anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas flores
+brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
+
+A colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus. Caiu
+a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam ainda por
+cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
+de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
+immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores
+com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos
+campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-n'a
+atirado para a rua como inutil e morta.
+
+«Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando,
+te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquella
+rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creança miseravel e
+doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar
+com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
+de verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
+Então a creança sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do
+andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca
+verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do
+visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o ramo
+verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava
+com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe
+flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda
+raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da
+cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e
+todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico
+thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
+aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em
+sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e
+ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que se
+voltou.
+
+«Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida
+flor, esquecida á janella desde então, murchou, estiolou-se e
+atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca é o
+thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
+canteiros d'um jardim realengo.»
+
+«Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o anjo levava para o céo.
+
+--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
+em moletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»
+
+A creança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
+no céo onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
+levou-as ao coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre,
+despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar
+com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe,
+formando circulos que vão augmentando successivamente, multiplicando-se
+até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
+harmoniosamente--desde a creança abençoada até á humilde florinha do
+campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e
+tortuosa.
+
+
+
+
+*Presente por presente*
+
+
+Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite
+á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi
+a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
+pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque
+eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama não a
+tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
+morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões,
+e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao
+outro dia pela manhã disse isto mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao
+despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
+dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponeza julgou
+que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a
+trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
+que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
+examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:
+
+«Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe!
+
+E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
+achado as suas batatas melhores do que faisões.
+
+«É necessário confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha
+talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das
+batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas.
+
+E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de batatas
+escolhidas.
+
+Os lacaios e as sentinellas ao principio não o queriam deixar entrar;
+mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo
+contrario vinha trazer alguma cousa.
+
+Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.
+
+«Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente
+pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca
+d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar
+demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis
+o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
+batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos
+acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá
+as encontrareis sempre ao vosso dispor.»
+
+A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava
+n'um momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta
+geiras de terra.
+
+Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que,
+sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não me ha
+de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo
+qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer
+presente d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra,
+simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de
+recompensar ainda mais generosamente.»
+
+Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
+palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar
+altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia.
+
+«Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; não
+tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o
+offereça.»
+
+O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
+comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:
+
+Depois dirigindo-se a elle:
+
+«Acceito a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh!
+espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
+faisões. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom
+preço para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»
+
+E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
+
+
+
+
+*O pinheiro ambicioso*
+
+
+Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh!
+dizia elle, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
+verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
+orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
+de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»
+
+O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o
+pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
+pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
+mais sensatos do que elle, não invejavam a sua rapida fortuna. Á noite
+passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um
+sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés á cabeça.
+
+«Oh! disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça
+dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a
+floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
+o oiro attrae as ambições.
+
+Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
+avarento não me teria despido.»
+
+No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
+sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
+fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de
+nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as
+folhas de cristal.
+
+«Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em
+pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir
+as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria
+menos brilhante, mas viveria descansado.»
+
+Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado ás vaidades
+primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
+outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
+vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as
+todas sem deixar uma unica.
+
+O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar á sua
+fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
+sua sorte.
+
+
+
+
+*Perfeição das obras de Deus*
+
+
+_A filha_.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.
+
+_A mãe_.--Vou-te dar outra.
+
+_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mamã?
+
+_A mãe_.--Vê se adivinhas.
+
+_A filha_.--Nã sei, mamã.
+
+_A mãe_.--Conheces os metaes?
+
+_A filha_.--Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de
+uma caixa.
+
+_A mãe_.--Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de
+marmore?
+
+_A filha_.--Oh! não; são de metal; mas de que metal?
+
+_A mãe_.--Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas
+primeiro.
+
+_A filha_.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não é de prata, porque
+não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarello muito
+brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarello muito feio, que
+cheira mal... Então é de ferro, mamã?
+
+_A mãe_.--Adivinhaste.
+
+_A filha_.--Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.
+
+_A mãe_.--É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já
+se não chama ferro, é aço.
+
+_A filha_.--Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que
+as fazem.
+
+_A mãe_.--É impossivel, não és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma
+fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar
+muito.
+
+_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
+nos servimos.
+
+_A mãe_.--Tens razão; é uma vergonha ignoral-o.
+
+_A filha_.--Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.
+
+_A mãe_.--Olha, ahi tens o meu estojo.
+
+_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão
+fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para
+fazer uma coisinha tão delicada!
+
+_A mãe_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
+uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?
+
+_A filha_.--Lembro, mamã; era tão bonito!
+
+_A mãe_.--Li n'um jornal allemão que um operario chamado Nerlinger fez
+um copo de um grão de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais
+doze...
+
+_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um
+grão de pimenta!
+
+_A mãe_.--E ainda não é tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas
+doiradas, e sustentava-se no pé.
+
+_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso!
+
+_A mãe_.--Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É
+effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
+certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração.
+
+_A filha_.--Quaes, mamã?
+
+_A mãe_.--Já t'o digo. (_Levanta-se_.)
+
+_A filha_.--Que quer, mamã?
+
+_A mãe_.--Quero que vejas o microscopio de teu papá.
+
+_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio.
+
+_A mãe_.--Este é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes
+ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina,
+lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão grosseira!
+
+_A mãe_.--Vês-lhe buracos, riscos, asperesas, não é verdade?
+
+_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito.
+
+_A mãe_.--Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na
+agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por ellas.
+
+_A filha_.--O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
+visse ao microscopio.
+
+_A mãe_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.
+
+_A filha_.--O quê, mamã?
+
+_A mãe_.--O aguilhãosinho de uma abelha.
+
+_A filha_.--Oh! que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é
+brilhante!... Mas já sei que visto ao microscopio ha de acontecer o
+mesmo que com a agulha.
+
+_A mãe_.--Prompto: olha.
+
+_A filha_ (olhando).--É exquisito, mamã!
+
+_A mãe_.--Então?
+
+_A filha_.--Augmentou, augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo
+contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não tinha ponta,
+e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabello. Porque
+será isto, mamã?
+
+_A mãe_.--É porque o operario que fez este aguilhão é muito mais habil
+do que o que fez a agulha.
+
+_A filha_.--Quem é esse operario tão habil?
+
+_A mãe_.--É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as
+creaturas.
+
+_A filha_.--É Deus.
+
+_A mãe_.--Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os
+animaes?
+
+_A filha_.--De certo.
+
+_A mãe_.--Foi elle por conseguinte que fez o aguilhão d'esta abelha; e
+ahi tens porque o aguilhão é superior á agulha: é obra de Deus. Mas
+continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de
+musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.
+
+_A mãe_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima.
+
+_A filha_.--Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo
+microscopio.
+
+_A mãe_.--Então?
+
+_A filha_.--É horrorosa... Parece feita de pellos grosseiros com grandes
+buracos deseguaes.
+
+_A mãe_.--As obras do homem são todas assim.
+
+_A filha_.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.
+
+_A mãe_.--Sabes o que é isto?
+
+_A filha_.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.
+
+_A mãe_.--Os fiosinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha
+pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes.
+
+_A filha_ (olhando pelo microscópio).--Não, mamã; os fios são todos
+eguaes, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.
+
+_A mãe_.--É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha
+sobre este papel?
+
+_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas
+também com tinta.
+
+_A mãe_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
+redondos?
+
+_A filha_.--Sim, mamã, perfeitamente redondos.
+
+_A mãe_.--Vê-os agora ao microscopio.
+
+_A filha_.--Oh! já não são redondos, são todos deseguaes.
+
+_A mãe_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma aza de borboleta;
+vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
+microscopio; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a differença
+que agora é maior. Que bellas que são as obras de Deus!
+
+_A mãe_.--Merece bem a pena estudal-as.
+
+_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
+dos homens.
+
+_A mãe_.--E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do
+homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
+perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
+primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a
+segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem
+fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras
+mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as
+obras do Creador.
+
+
+
+
+*João e os seus camaradas*
+
+
+Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso,
+possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a
+correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou
+o gallo, e disse-lhe:
+
+«O que é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, ou toda
+com a minha maldição?»
+
+«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no
+mundo eu quereria a tua maldição.»
+
+«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
+abençôe.»
+
+E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha
+caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair.
+
+«Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a
+afogar-me.»
+
+«Espera, respondeu João.»
+
+E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o
+quadrúpede do atoleiro.
+
+«Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te posso ser util,
+aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?»
+
+--«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha vida.»
+
+«Queres tu que eu te acompanhe?
+
+«Anda d'ahi.»
+
+E puzeram-se a caminho.
+
+Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da
+eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
+animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de
+tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.
+
+«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa te for
+prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?»
+
+«Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.»
+
+«Queres que te acompanhe?»
+
+«Anda d'ahi.»
+
+Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a
+merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva
+que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar
+lastimosamente.
+
+Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango.
+
+--«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser util. Aonde
+vaes tu?
+
+--«Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.»
+
+--De boa vontade.
+
+Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um
+grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
+gallo na bocca.
+
+«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.
+
+E no mesmo instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em
+perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente
+disse a João:
+
+--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?»
+
+--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?
+
+--«De boa vontade.»
+
+--Então anda. Se te cançares, empoleira-te no jumento.»
+
+Os viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro.
+Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma quinta, nem
+uma cabana.
+
+--«Paciencia, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
+hoje a dormir ao ar livre; além d'isso a noite está socegada, e a relva
+é macia.»
+
+Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o cão
+e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo
+empoleirou-se n'uma arvore.
+
+Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou
+a cantar.
+
+--«Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque é que
+estás a gritar?»
+
+--«Porque já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a luz da
+madrugada, que vem rompendo?»
+
+--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é d'uma lanterna.
+Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto
+da noite.»
+
+Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez
+dos campos, até que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo,
+d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
+blasphemias horriveis.
+
+--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
+é que está lá dentro.»
+
+Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam
+alegremente, sentados a uma mesa principesca.
+
+--«Que bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do
+conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este
+porteiro. Á sua saude!»
+
+--«Á saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.
+
+E d'um trago despejaram os copos.
+
+João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:
+
+--«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
+signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.»
+
+O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao peitoril
+d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o gato á cabeça do cão e o
+gallo á cabeça do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do
+jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do
+gallo.
+
+--«Agora, bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar
+armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!»
+
+No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando
+cada vez mais; os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo
+precipitadamente por uma porta falsa.
+
+João e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um
+excellente jantar, e deitaram-se em seguida--João n'uma cama, o burro na
+cavallariça, o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e
+o gallo n'um poleiro.
+
+Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e
+salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.
+
+--«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão humida, disse um
+d'elles.»
+
+--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.»
+
+--«E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.»
+
+--«E o que é mais lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o
+dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das
+gavetas.»
+
+--Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão.
+
+--Bravo! exclamaram os ladrões.
+
+E poz-se a caminho.
+
+Já não havia luz na casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se
+para o fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as garras.
+Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
+rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
+por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo
+atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas.
+
+--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!»
+
+Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
+parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do chão.
+
+Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem
+pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.
+
+--Então? então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.
+
+--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para
+me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que o trago
+n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado
+por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o
+cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta,
+um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a sovella. Logo
+depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras.
+Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não
+acreditam, vão lá, e experimentem.»
+
+--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
+ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.»
+
+Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excellentemente, e
+partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões
+lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos,
+com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram á
+porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com
+uma libré esplendida, meias de seda, calções escarlates e cabello
+empoado.
+
+Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.
+
+--Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se embora?»
+
+--Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castello far-nos-ha
+um bom acolhimento.
+
+--Fóra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
+andar immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os meus cães de
+fila.»
+
+--Perdão, só um instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do
+jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite
+passada a porta do castello?»
+
+O porteiro córou. O conde que estava á janella, disse-lhe:
+
+--Ó Bernabé, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.
+
+--Senhor, replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui eu que
+abri a porta aos seis ladrões.
+
+--Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?
+
+Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
+pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite,
+porque vimos cançados do caminho.
+
+--Ficae certos que sereis bem tratados.
+
+O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na
+cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés á
+cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e
+disse-lhe:
+
+--Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»
+
+João acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si.
+Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.
+
+
+
+
+*O rabequista*
+
+
+Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma
+egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.
+
+As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O
+vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro,
+feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava
+constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria
+um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
+sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge não havia pão nem
+dinheiro no bolso para o comprar.
+
+Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca com tal
+suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vel-o
+tão pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa
+Cecilia abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o
+ao pobre musico, que tonto d'alegria, dançando, cantando, chorando,
+correu á loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o
+sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do
+juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado á morte.
+
+Chegára o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
+poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim não
+chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como
+ultima graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento.
+O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam
+supplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua
+derradeira melodia.
+
+Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
+ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lagrimas começou a tocar.
+Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de
+novo, descalçar o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á
+vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o
+rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente
+prestar-lhe as mais honrosas homenagens.
+
+
+
+
+*Os pecegos*
+
+
+Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos
+magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos,
+extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. Á
+noite o pae perguntou-lhes:
+
+--Então comeram os pecegos?
+
+--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei
+de plantal-o para nascer uma arvore.»
+
+--Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar no futuro.»
+
+--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mamã ainda me deu
+metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.»
+
+--Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade não admira;
+espero que quando fores maior te has de corrigir.»
+
+--Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou
+fóra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
+o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á
+cidade.»
+
+O pae meneou a cabeça:
+
+--Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.
+
+--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?
+
+--Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho,
+ao Jorge, que está coitadinho com febre. Elle não o queria, mas
+deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora.
+
+--Ora bem, perguntou o pae, qual de vós é que empregou melhor o pecego
+que eu lhe dei?
+
+E os três pequenos disseram á uma:
+
+--Foi o mano Eduardo.
+
+Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos
+arrazados de lagrimas.
+
+
+
+
+*A urna das lagrimas*
+
+
+Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
+adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só momento; mas
+um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu e morreu. A
+desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
+momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades.
+Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
+acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido,
+abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua
+querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos
+uma urna, que vinha cheia até ás bordas.
+
+--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo
+das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais,
+transbordará, e as tuas lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no
+tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso.
+
+A pequenina desappareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não
+affligir.
+
+
+
+
+*Reconhecimento e ingratidão*
+
+
+Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos paes.
+E é natural. As creanças veem diariamente o que fazem seus paes, e
+imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a
+benção ou a maldição d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos,
+terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem
+ser meditados.
+
+Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
+satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois
+d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que
+trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O
+principe, que para as suas despezas d'administração e representação
+necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
+como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima
+satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:
+
+«Gasto diariamente comigo a terça parte d'essa quantia; outro terço é
+para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas
+economias.»
+
+Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o
+d'este modo.
+
+«Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não podem
+trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força para isso. Aos
+primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
+infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando os annos
+tiverem pesado sobre mim.»
+
+O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se
+da educação de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos
+paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando
+egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.
+
+Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma
+maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve
+de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato
+recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde
+foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
+muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima
+esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
+O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de
+dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
+notou que a creança ao partir tinha escondido um dos lençoes a um canto,
+atraz da porta.
+
+Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo.
+
+«Foi, respondeu a creança desabridamente, para me servir mais tarde
+d'este lençol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital.
+
+
+
+
+*O fato novo do sultão*
+
+
+Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento.
+
+Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
+theatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava
+de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Está no conselho;
+dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
+muito alegre, graças á quantidade d'estrangeiros que por ali passavam;
+mas chegaram lá um dia dois larapios, que, dando-se por tecelões,
+disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não
+só eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além
+d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade
+maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos
+aquelles que não exercessem bem o seu emprego.
+
+--São vestuarios impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles,
+saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
+dos ministros. Preciso d'esse estofo!»
+
+E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada,
+para que podessem começar os trabalhos immediatamente.
+
+Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que
+trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras.
+Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
+muito bem guardado, trabalhando até á meia noite com os teares vasios.
+
+--«Preciso saber se a obra vae adiantada».
+
+Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos
+idiotas. E, apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente
+em todo o caso mandar alguem adiante.
+
+Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
+estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.
+
+--Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um
+grande talento, e por isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o
+estofo.
+
+O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
+com os teares vasios.
+
+--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, não vejo
+absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões
+convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os
+desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
+olhava, mas não via nada, pela rasão simplicissima de nada lá existir.
+
+--Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? É necessario que
+ninguém o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá
+confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.»
+
+--«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:
+
+--«Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este
+desenho... estas cores... magnifico!... Direi ao sultão que fiquei
+completamente satisfeito.»
+
+--«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e
+mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma
+descripção minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois
+repetir tudo ao sultão.
+
+Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
+precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no
+bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam
+sempre.
+
+Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funccionario, homem
+honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a
+este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não
+via nada.
+
+--Não acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o
+magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente
+de não existir.
+
+--Mas que diabo! eu não sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois não serei
+eu capaz de desempenhar o meu lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o
+deixo eu.»
+
+Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo
+desenho e o bem combinado das cores.
+
+--É d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sultão. E toda a
+cidade começou a fallar d'esse tecido extraordinario.
+
+Emfim o proprio sultão quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande
+acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois
+honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois
+velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de
+especie alguma.
+
+--Não acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho
+e as cores são dignos de vossa alteza.»
+
+E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam
+podessem ver alguma cousa.
+
+--Que é isto! disse comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível!
+serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça que me
+acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnifico! Testemunho-vos a
+minha satisfação.»
+
+E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
+atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do
+mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto
+repetiam como o sultão: «É magnifico!» Até lhe aconselharam a que se
+apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnifico! é
+encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era
+geral.
+
+Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
+tecelões.
+
+Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à
+luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
+cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio,
+e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido.
+
+O sultão com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores
+levantando um braço, como para sustentar alguma cousa, disseram:
+
+«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha;
+ó a principal virtude d'este tecido.»
+
+--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.
+
+--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios,
+provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.»
+
+O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças,
+depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do
+espelho.
+
+--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos.
+Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!»
+
+Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias.
+
+--Está á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á procissão,
+disse elle.»
+
+--Bom! estou prompto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»
+
+E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do
+seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não
+querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a.
+
+E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a
+gente na rua e ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que
+cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber,
+que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
+Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.
+
+--Mas parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do
+pae.
+
+--É a voz da innocencia, disse o pae.
+
+--Ha ali uma creança que diz que o sultão vae em cuecas.
+
+«Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.
+
+O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era
+verdade. Entretanto tomou a energica resolução de ir até ao fim, e os
+camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
+imaginaria.
+
+
+
+
+*Boa sentença*
+
+
+Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma
+quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis
+d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
+camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:
+
+--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no
+alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
+adiantados os cem mil réis d'alviçaras: estamos pagos por conseguinte.»
+
+O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem
+devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
+que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:
+
+--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge
+apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o
+ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se julga com
+direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
+encontraste, e guarda-o até que appareça o individuo que perdeu sómente
+setecentos mil réis. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que
+tenhas paciencia até que appareça alguem que tenha achado os teus
+oitocentos mil réis.
+
+
+
+
+*Os animaes agradecidos*
+
+
+Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
+perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este
+respondeu:
+
+--«Senhor: eu sou um desgraçado, um miseravel; nasci no vosso reino, e
+chamo-me _Ingratidão_.»
+
+--«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
+serviço.»
+
+O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
+Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se
+tão esperto e tão solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que
+o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa.
+Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então não
+conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos
+desventurados.
+
+Ora, na visinhança do palacio havia uma floresta cheia d'animaes
+selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a
+parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
+dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
+floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
+precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.
+
+Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um
+lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
+governador, ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão
+horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança de
+salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
+ninguem o vinha soccorrer.
+
+Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
+chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para
+ganhar o pão necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem
+lá foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da
+cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção não tardou a
+ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
+ali.
+
+--«Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto
+encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma
+enorme serpente.»
+
+--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não tendo para
+sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava
+um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se
+cumpres a tua promessa?
+
+O intendente continuou:
+
+--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
+cumprirei a minha palavra.»
+
+Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda
+muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão atirou-se a
+ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
+o intendente.
+
+Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior
+amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome.
+
+Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o
+governador, enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a
+serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o
+governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
+para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o
+que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes
+promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre
+homem bater à porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.
+
+--«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente
+que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.»
+
+O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:
+
+--«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na floresta; que se
+ponha a andar, porque o não conheço.»
+
+O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.
+
+O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou á mulher a
+odiosa perfidia de que tinha sido victima.
+
+A mulher disse-lhe:
+
+--«Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e
+foi talvez por isso que te não pôde receber.»
+
+Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.
+
+Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á porta do palacio.
+Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que não tornasse
+ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado a empregar meios
+violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:
+
+--«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o
+inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais
+n'isso.»
+
+No dia seguinte o bom do homem voltou á carga; e tendo o porteiro
+consentido á força de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este
+encolerisado atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre
+homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do
+chão. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um
+burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
+levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se
+obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente
+tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para
+fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle
+tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e
+este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leão,
+vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso
+agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal
+de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal
+para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico.
+
+No dia seguinte, voltando de novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que
+o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto
+lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado
+o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha
+tirado do fôjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em
+que brilhavam três côres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a
+serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
+d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio
+levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
+propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho,
+afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
+assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia.
+Antonio respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se
+seria boa.
+
+O velho respondeu:
+
+--«São três as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria
+imperturbavel e luz sem trevas. Se alguém t'a comprar por menos dinheiro
+do que vale, tornará immediatamente para a tua mão.»
+
+Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
+sciencia maravilhosa, e correu a contar á mulher a sua felicidade. Como
+se imagina, graças á virtude da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em
+diante, nem honras nem riquezas.
+
+Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou
+chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman.
+
+Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:
+
+--«Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me não for paga
+pelo que vale, tornará ella mesma para o meu poder.»
+
+--«Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.»
+
+E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã,
+Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
+disse-lhe:
+
+--«Torna a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se que
+lh'a furtaste.»
+
+O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou á presença de sua
+magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
+preciosa.
+
+--«Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro,
+fechado com sete chaves, disse o rei.»
+
+Antonio mostrou-lhe então a joia preciosa, e o rei ficou
+extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido
+semelhante thesouro.
+
+Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o
+reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
+intendente, e disse-lhe:
+
+--«Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratidão_,
+porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste
+com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a Antonio as
+tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
+enforcado.»
+
+Admiraram todos a sentença do rei, e Antonio desempenhou as suas altas
+funcções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
+escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos
+gloriosos.
+
+
+
+
+*O ermitão*
+
+
+Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou
+retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao
+trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
+seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa de Deus. Depois de ter
+assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que já tinha
+merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os
+santos mais notaveis.
+
+Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:
+
+--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
+e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.
+
+O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
+seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:
+
+--Irmão, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e
+penitencias te tornaste agradavel a Deus.
+
+--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não
+zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei,
+pobre de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em casa a
+divertir os outros.»
+
+O austero ermitão continuou a insistir:
+
+--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum
+acto de virtude.»
+
+--Em verdade não poderia citar nem um só.»
+
+--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
+loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente
+o teu patrimonio e o producto do teu officio?»
+
+--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
+filhos tinham sido condemnados á escravidão para pagar uma divida. Essa
+mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa,
+protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a
+sua familia, e levei-a á cidade, onde ella devia encontrar-se com seu
+marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»
+
+A estas palavras o ermitão poz-se a chorar, e exclamou:
+
+--Nos meus setenta annos de solidão nunca pratiquei uma obra tão
+meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu não
+passas d'um pobre musico.»
+
+
+
+
+*Carlos Magno e o abade de S. Gall*
+
+
+Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
+preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da abadia, fresco,
+rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e
+activos, e o abade era indolente. Além d'isso o imperador tinha mais
+d'um motivo de queixa contra elle.
+
+--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á
+sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a bondade de me
+responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão solemne do
+nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
+dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
+em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+rev.^{ma} vier á minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate
+d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás deixa de ser abade de S.
+Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada
+para o rabo.»
+
+O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
+os doutores mais famosos pela sua sciencia, não lhe souberam dar
+resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal
+aproximava-se; já não faltava senão um mez, já não faltavam senão
+semanas, e afinal só dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e
+anafado, estava magro como um esqueleto. Perdèra o somno e o appetite.
+Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se
+encontrou com o seu pastor.
+
+--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?»
+
+--Estou, meu caro Felix, estou muito doente.»
+
+--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»
+
+--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta ás minhas tres
+perguntas.»
+
+--É então latim?»
+
+--Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.»
+
+--Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe
+era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.»
+
+Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o
+barrete ao ar, e disse-lhe:
+
+--Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
+póde continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu
+habito.»
+
+Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o habito do abade de S.
+Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
+imperial.
+
+--Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que
+pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto
+valho eu em dinheiro?»
+
+--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por
+trinta dinheiros, sua magestade vale á justa vinte e nove, só um
+dinheiro menos.»
+
+--Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não posso
+deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda pergunta, não ha de
+ser tão facil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a
+dar a volta ao mundo?»
+
+--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
+constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
+quatro horas.»
+
+--Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finorio, e d'esta vez,
+confesso-me vencido; mas a terceira, não d'essas á que se responde com
+supposições. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha
+de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»
+
+--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está
+enganado, porque eu sou o seu pastor.»
+
+--Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas
+sendo.»
+
+--Não sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor,
+peco-lhe outra cousa.»
+
+--Não tens mais que fallar.»
+
+--Peço a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.»
+
+Carlos Magno não era homem que faltasse á sua palavra.
+
+
+
+
+*A boneca*
+
+
+Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma
+boneca!
+
+Não ha muitos annos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno
+jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o
+sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o espirito a vista dos dois
+monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades,
+que podem aniquillar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda não ha
+muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
+feira, divertindo-me a meu modo.
+
+Cançado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella
+especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo,
+quando novos personagens me chamaram a attenção.
+
+Eram os meus visinhos _ricos_.
+
+Aqui é preciso uma rapida explicação.
+
+Das famílias da minha visinhança, só conheço tres.
+
+Qual d'estas tres familias será mais feliz?...
+
+Pelo que tenho notado, não tem que invejar umas ás outras.
+
+São todas felizes; cada qual a seu modo.
+
+Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_.
+
+Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e
+dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou,
+tomou nos braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em
+seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e
+com a menina para a barraca onde eu estava.
+
+Não havia ali segredo a surprehender.
+
+Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
+parecia agradecer áquella formosa criança a manifestação de qualquer
+desejo.
+
+No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a
+felicidade de dez crianças menos abastadas.
+
+Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca...
+_rica_.
+
+Faltava apenas a dona da casa--a boneca.
+
+Todo risos e attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor.
+
+Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar
+a mamã, a gentil creança acabou por escolher uma magnifica boneca de
+dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues.
+
+Uma boneca como as outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica
+recheada, braços e pernas de páu.
+
+Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribu de crianças, que fazem
+o martyrio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado
+sapateiro.
+
+Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
+anjos, caidos do céo sobre um monte de lama.
+
+São os meus visinhos _pobres_.
+
+A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa
+immediata.
+
+É como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_.
+
+A filha que terá dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas,
+cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à
+pressão.
+
+São os meus visinhos _remediados_.
+
+A terceira é a dos meus visinhos _ricos_.
+
+Casa nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas
+listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+estado--nada falta áquella ditosa gente!
+
+Compõe-se egualmente de marido, mulher e filha.
+
+Que formosa criança!... Terá oito annos.
+
+Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e
+scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e
+esguios, terminados por unhas d'uma côr de rosa transparente, que não
+sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a
+crescer--que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos.
+
+Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas
+aquellas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do
+carro.
+
+A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criança.
+
+Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadissimas
+considerações, suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina
+recebèra brinquedos, que representavam um par de moedas.
+
+Que contraste com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da
+mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel
+artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois pontos
+de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por
+outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã preta!
+
+Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos remediados não havia luz.
+
+Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
+tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
+provocavam os ralhos da mãe.
+
+Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas da manhã.
+
+Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na
+casa immediata não se via ninguem--estava a pequena na mestra; no
+palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
+divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma
+linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos.
+
+Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.
+
+--«Ahi está a tua caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim
+para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!...
+Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...»
+
+Retirei-me da janella.
+
+Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.
+
+A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
+vestia tres e quatro vezes!
+
+Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a
+tratava!
+
+Chamava-lhe sr.ª D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente
+com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que
+se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma.
+
+Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos
+_ricos_--ouvi um grito de susto.
+
+Era devido a um accidente, a que está sujeito quem anda de carro.
+
+Voltára-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janella.
+
+O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo,
+porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e
+lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
+nova, agarrou-a pelos pés e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais
+perto de mim bradou voz timida e suplicante:
+
+«Não atire!... Dê-m'a.»
+
+Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra fé até
+então.
+
+Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
+lançou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.
+
+Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
+encolhendo os hombros, respondeu:
+
+--«Já não presta!... Está esmurrada!...»
+
+--É o mesmo!... Dá-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
+cubiça.
+
+--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os hombros.
+
+E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da
+visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse
+despedaçar-se nas lages da rua.
+
+Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
+outra, para mostrar á mãe a que ella ainda não podia acreditar, que
+fosse sua!
+
+Por espaço de mezes foi a boneca a principal occupação da nova dona.
+
+A pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro
+vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excellencia! Chamavam-lhe
+sr.ª D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da
+creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
+estranhas para ella!
+
+E a desgraçada perdia as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
+azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
+se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma!
+
+Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
+ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.
+
+Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, fitas velhas, rendas
+amarelladas, chapéos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do
+vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira.
+
+Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle
+as ondulações do _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de
+cassa---no inverno!--chaile e manta na cabeça.
+
+Muito mal lhe ficava aquillo!... Áquella boneca custava-lhe de certo o
+vêr-se tão mal arranjada.
+
+Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei:
+
+--É justo!... Cada qual segundo as suas posses.»
+
+Por esse tempo, entrei em relações com o meu visinho sapateiro.
+
+O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
+faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra a primeira occasião, para me
+pedir desculpa.
+
+Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
+aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem
+grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.
+
+Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze annos, com
+quem sympathisei logo á primeira vista.
+
+Chama-se Maria.
+
+Por um d'estes acasos da Providencia, que parece ás vezes comprazer-se
+em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.
+
+Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
+fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou.
+
+E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, porque havia
+verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a
+minha Maria!»
+
+E tinha razão!
+
+Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo era.
+
+--É quem vale á mãe!...--accrescentou o velho.»--Ali, onde a vê, faz o
+serviço d'uma mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve
+doente--bem pensei que não arribasse!--a pequena era quem cosinhava e
+olhava pelos irmãos!... E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella
+pequena esteve tres dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi
+preciso eu obrigal-a, que ella não a queria deixar!...»
+
+E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que,
+havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.
+
+Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
+cabeça coberta por um lenço branco.
+
+Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais
+passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias á
+pequena.
+
+Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
+deitada nos joelhos.
+
+--Eu conheço aquella boneca!...--disse eu de mim para mim.
+
+E, não podendo resistir á curiosidade, bradei:
+
+--Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...
+
+Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, córando de prazer.
+
+Era escusado dizer-m'o.
+
+Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não podia
+duvidar... Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel
+na fronte.
+
+De tempos a tempos, nas raras horas de descanço, Maria entretinha-se com
+ella.
+
+--Quem te viu e quem te vê!...--pensava eu.
+
+Ás vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que
+tratos que sofria a desgraçada!
+
+Roçada por aquellas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia,
+empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim,
+singularissimo o aspecto da triste!
+
+Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a
+fraternisar com o povo.
+
+A misera mudára mais uma vez de nome!...
+
+De sr.ª D. Anna passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê.
+
+Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça.
+
+Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
+a boneca.
+
+Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
+encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre
+boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de
+trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que
+mais familiares eram á pequena.
+
+Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a,
+mandavam-n'a buscar agua á fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
+acabavam por a despedir.
+
+Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára de ser feliz.
+
+Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho!
+
+Desmaiada de côres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos,
+desfeito o carmim dos labios, a boneca não promettia longa duração.
+
+Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi,
+tentando em vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera.
+
+Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!
+
+Um dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
+espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem mil
+immundicies.
+
+Eu estava á porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
+melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
+partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto... Um objecto,
+arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no
+leito do enxurro...
+
+Olhei... Era a boneca!...
+
+A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo até esbarrar n'uma
+pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou
+quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e
+o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas
+profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!
+
+Será pieguice, será o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me
+impressionou o fim da pobre boneca.
+
+Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á vidraça do
+sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
+
+--Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!?
+
+--Não fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...
+
+--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...
+
+--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
+feia!...
+
+Curvei a cabeça ante aquella razão, e segui o meu caminho.
+
+Pobre boneca!
+
+
+
+
+*Inconveniente da riqueza*
+
+
+Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi
+surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para
+outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já
+todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo
+estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual
+com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso
+Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma quinta, e bateu á
+porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.
+
+--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
+Não se havia de arrepender.»
+
+E accrescentou:
+
+--Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a
+trabalhar?»
+
+--Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser perseguido
+por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã o que lhe devo,
+portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
+o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto não nos fica
+nada, e não sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus
+quizer!»
+
+Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão pelos
+olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e disse-lhe:
+
+--«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te
+havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.»
+
+Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e
+approximou-a do trigo.
+
+--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a
+tudo!»
+
+Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se,
+de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. Á vista d'um tal
+milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos.
+
+--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
+pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, serás
+recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te
+enriquece.»
+
+Dito isto desappareceu.
+
+E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto
+como a egreja.
+
+O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella
+casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e
+seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que
+se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
+ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera
+enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o
+enriquecêra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na
+candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a
+casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais
+absoluta.
+
+
+
+
+*Querer é poder*
+
+
+--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por
+experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira.
+
+Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.
+
+--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e
+solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
+vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei
+uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.
+
+O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.
+
+O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
+semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu
+fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão
+extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:
+
+--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia,
+pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são
+os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te
+distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
+extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor
+incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha.
+
+O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
+rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e
+deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
+horas, punha-se a resar.
+
+Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que
+chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.
+
+--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»
+
+--Encontrar um diamante que caiu ao rio.»
+
+--Então, respondeu o velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque
+vejo qual é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar
+as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»
+
+Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
+do rei.
+
+
+
+
+*Qual será rei?*
+
+
+Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
+successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia pertencer,
+não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.
+
+Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse posto de pé contra um
+muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle
+alvo, seria o escolhido para successor.
+
+Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
+tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defuncto. O principe
+soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos atirariam peór, e que
+por conseguinte seria elle quem viria a reinar.
+
+O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
+alegre do que o outro principe.
+
+O terceiro varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho
+quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar melhor.
+
+Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mãos as
+flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
+longe de si, e desatou a chorar:
+
+--«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jámais
+consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus
+proprios filhos!»
+
+Os grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais
+digno.
+
+
+
+
+*Os tres véos de Maria*
+
+
+O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve.
+Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
+seda tão bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em
+cima.
+
+Este véo branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão.
+
+O segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que
+sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, sem amparo, na casa triste e
+abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de
+marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas
+lagrimas.
+
+O véo negro só o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de
+Jesus no convento da Ave-Maria.
+
+O terceiro véo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado
+d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.
+
+Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou
+no paraizo.
+
+
+
+
+*Os pequenos no bosque*
+
+
+Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
+outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos
+para o bosque que encontremos lá toda a especie de lindos bichinhos, que
+não fazem outra cousa senão brincar, e nós brincaremos com elles.»
+
+Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da
+abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar,
+disse-lhes:
+
+--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
+outra já não está solida.»
+
+--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.»
+
+--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu
+ninho.»
+
+--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda
+hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
+minha _toilette_.»
+
+E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
+a saltar e a tagarellar, tambem não queres brincar comnosco?»
+
+--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam
+que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanço nem um
+momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, ás colinas,
+aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios,
+tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje
+acabára, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder
+um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»
+
+Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um
+pintasilgo, em cima d'um ramo.
+
+--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»
+
+--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo
+o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além d'isso que tomar
+parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o
+meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com uma outra cantiga,
+que á noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora,
+preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incommodar os
+habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»
+
+Os pequenos aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só é
+ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.
+
+
+
+
+*O chapellinho encarnado*
+
+
+Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
+mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, que passava o
+tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, deu-lhe um dia um chapéo
+de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéo
+novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do
+chapellinho encarnado.
+
+A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
+legua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:
+
+--Tua avó está doente, e não pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae
+levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a
+garrafa, não andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»
+
+--Sim, mamã, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»
+
+Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se
+a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita,
+que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.
+
+--Bons dias, chapellinho encarnado.»
+
+--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»
+
+--Onde vaes tão cedo?»
+
+--A casa da minha avó que está doente.»
+
+--E levas-lhe alguma cousa?»
+
+--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
+dar forças.»
+
+Dize-me onde mora a tua, avó, que tambem a quero ir ver.»
+
+--É perto, aqui no fim da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito
+grandes, e no jardim ha muitas nozes.»
+
+--Ah! tu é que és uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava
+de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e
+que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que
+quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»
+
+--O senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita,
+visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma
+que fizesse bem a minha avó.»
+
+--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e
+aquella.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas
+venenosas. A pobre creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.
+
+--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
+grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»
+
+E poz-se a correr em direcção da casa da avó, emquanto que a pequerrucha
+se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado.
+
+Quando o lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
+avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»
+
+--É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da
+pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»
+
+--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»
+
+Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira,
+e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama.
+
+Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a
+porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter
+fechada.
+
+O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do
+focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.
+
+--Ai! avósinha, disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»
+
+--É para te ouvir melhor, minha filha.»
+
+--E porque estás com uns olhos tão grandes?»
+
+--É para te vêr melhor.»
+
+--E para que estás com os braços tão grandes?»
+
+--É para te poder abraçar melhor.»
+
+--E Jesus! para que tens hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão
+agudos?»
+
+--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se á pobre
+pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a
+resonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e
+que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha está com um
+pesadelo, está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, e
+vê o lobo estendido na cama.
+
+--Olá, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.»
+
+Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a
+dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o
+animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
+cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e
+saltou para o chão, gritando:
+
+--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!
+
+A avó saiu também contentissima por ver outra vez a luz do dia.
+
+O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador metteu-lhe então
+duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a
+neta para verem o que se ia passar.
+
+Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se
+para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
+não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e
+affogou-se.
+
+O caçador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha
+e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado
+prometteu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o
+prohibisse.
+
+
+
+
+*Os cinco sonhos*
+
+
+Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva numerosa, perseguiu
+um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, que, apesar da
+ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só
+então que viu que estava só, tendo a sua côrte ficado muito para traz;
+sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria
+no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões.
+Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
+entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe
+quizeram logo contar.
+
+O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:
+
+--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que acaba de entrar
+aqui, e punha-o na minha cabeça.»
+
+--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»
+
+--E eu que estava pondo o seu manto.»
+
+--E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do
+meu pescoço aquella pesada cadeia d'ouro, da qual está pendurada a sua
+trompa de caça.»
+
+--Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar tudo, e
+mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e
+qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço senão uma cousa, é que
+me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caça.»
+
+Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido
+d'um moribundo deve ser respeitado.
+
+Carlos Magno levou á boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou
+d'ella sons tão fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os
+seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé d'elle.
+
+--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem
+eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser
+enforcados diante d'este casebre.»
+
+E o sonho realisou-se immediatamente.
+
+
+
+
+*A egreja do rei*
+
+
+Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da
+Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para
+a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se
+concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do
+marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só elle, e mais
+ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite
+seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e substituido por o
+d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
+pôr o seu nome na inscripção, e de novo foi substituido pelo da pobre
+mulher; á terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou
+então que lhe trouxessem a mulher á sua presença:
+
+--Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem
+fosse com o que fosse para a edificação d'esta egreja; vejo que não
+cumpriste as minhas ordens.»
+
+--«Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas
+ordens, apesar da magua que sentia por não poder offerecer o meu
+pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa
+magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
+que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas
+à construcção da egreja.»
+
+--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na
+inscripção do monumento, disse-lha o rei.»
+
+Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na lapide da egreja
+o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.
+
+
+
+
+*O valente soldado de chumbo*
+
+
+Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos
+terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que attitude marcial,
+d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos!
+A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da
+caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!»
+que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado
+de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a
+mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
+maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
+menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo lugar, e já não havia
+chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros não estavam mais
+firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e é este o que
+precisamente nos interessa.
+
+Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
+brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de
+papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos salões.
+Á volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia
+poeticamente n'um pedaço d'espelho que fingia um lago, onde nadavam
+pequeninos cysnes de cêra. Tudo isto era encantador, mas não tanto como
+uma menina que estava á porta, e que era tambem de papel, vestida com um
+lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
+tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha
+levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e
+imaginou que, como elle, não tinha senão uma perna.
+
+--Ali está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma grande
+fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e
+quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No entantanto
+preciso conhecel-a.»
+
+Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a
+elegante dançarina, que estava sempre n'um pé só, sem perder o
+equilibrio.
+
+Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas
+da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram
+a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de
+chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas
+como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas
+e saltos mortaes, o lapis traçou mil arabescos phantasticos n'uma louza,
+emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar.
+Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a
+dançarinasinha. Ella no bico do pé, e elle n'uma perna só, a
+espreital-a.
+
+Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar
+de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza.
+
+--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
+sitio.»
+
+Mas o soldado fez que não ouvia.
+
+--Espera até ámanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»
+
+No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de
+chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por
+causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a
+perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta
+enterrada entre duas lages.
+
+A creada e o rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a
+esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!»
+tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva
+começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois
+do aguaceiro passaram dois garotos.
+
+--Olà! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o
+navegar.»
+
+Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de
+chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois
+garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
+Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava
+d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
+impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro.
+
+De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a
+escuridão como na caixa dos soldados.
+
+--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me
+metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina
+estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas
+vezes maior.»
+
+D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do
+cano.
+
+--Venha o teu passaporte.»
+
+Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na
+espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
+rangendo os dentes, e gritando ás palhas, e aos cavacos:--Façam-n'o
+parar, façam-n'o parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»
+
+Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e
+sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente.
+Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para elle,
+como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem
+poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a
+queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se
+atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.
+
+O barco, depois de ter andado á roda durante muito tempo, encheu-se
+d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do
+soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
+agua passou por cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo,
+pensou na gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:
+
+--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»
+
+O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi
+devorado por um grande peixe.
+
+Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que
+talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado
+estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro.
+
+O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim
+parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia,
+e alguem exclamou:
+
+--Olha um soldado de chumbo!»
+
+O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a
+cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
+soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
+gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na
+barriga d'um peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso.
+Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto é verdade que acontecem
+cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de cuja
+janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam
+em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina sempre de perna
+no ar. O soldado de chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria
+derramado lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella,
+ella olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro.
+
+De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no
+fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.
+
+O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um clarão
+sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres lhe tinham
+desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas
+viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
+dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre
+intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma
+porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que
+desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, já não era mais
+que uma pequena massa informe.
+
+No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um
+objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e tudo o que
+restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha
+ennegrecido.
+
+
+
+
+*João Pateta*
+
+
+João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A
+gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe
+mandou-o á feira comprar uma foice. Á volta, começou a andar com a foice
+á roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.
+
+--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em
+um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»
+
+--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais
+esperto.»
+
+Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que
+as não perdesse.
+
+--Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»
+
+--Então, João, onde estão as agulhas?»
+
+--Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a
+passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá as agulhas, não
+podem estar em sitio melhor.»
+
+--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de as
+tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»
+
+--Perdão, respondeu João, para a outra vez, heide ser mais esperto.»
+
+Na outra semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar
+uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz a
+manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. Imagine-se o estado em
+que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.
+
+A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia
+resolveu-se a mandal-o á feira vender duas gallinhas.
+
+--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam
+outro.»
+
+--Está entendido, respondeu João.»
+
+Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.
+
+--Queres seis tostões por essas gallinhas?»
+
+--Ora adeus! minha mãe recommendou-me, que não acceitasse o primeiro
+preço, mas que esperasse o segundo.»
+
+--E tens muita rasão. Dou-te um cruzado.»
+
+--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro,
+mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ella não tem que me ralhar.»
+
+Depois d'isto, João foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que
+mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma
+experiencia, e disse-lhe:
+
+--Vae vender este carneiro á feira. Mas não te deixes enganar. Não o
+entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»
+
+--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»
+
+--Quanto queres por esse carneiro?
+
+--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.
+
+--Quatro mil réis?»
+
+--É o preço mais elevado?»
+
+--Pouco mais ou menos.»
+
+--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára a uma escada.
+
+--Quanto?»
+
+--Dez tostões:»
+
+--É menos, respondeu timidamente o João.»
+
+--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não ha um
+preço mais elevado.»
+
+--Tem rasão. É seu o carneiro.»
+
+Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou
+comprar cousa alguma.
+
+
+
+
+*Branca de Neve*
+
+
+Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia
+d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de vez em
+quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão,
+distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.
+
+--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos
+como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros
+como este ébano.»
+
+Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha,
+que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão branco,
+que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito
+tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
+d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos extraordinario. Era tão
+formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
+vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho
+magico dizia-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no
+mundo?»
+
+--És tu, respondia o espelho.»
+
+No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
+formosa. Tinha apenas sete annos, e já ninguem a podia ver sem ficar
+maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
+espelho, disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no
+mundo?»
+
+--Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»
+
+A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dôr aguda,
+como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela
+innocente Branca. Não podia socegar nem de dia, nem de noite. Para
+satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe:
+
+--Quero quo Branca desappareça. Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me
+provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o
+coração.»
+
+O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e
+dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança chorava e
+lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella não tinha feito
+mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas
+lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se
+as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas sim da rainha. Assim
+fez, e para mostrar o coração de Branca á rainha, matou um cabrito, e
+tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou
+contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma
+mulher no mundo é tão bella como eu.
+
+A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava
+cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e
+andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
+tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o
+deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.
+
+Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome
+e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
+limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de
+brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,
+e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
+do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
+deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.
+
+Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
+pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
+que tinham gente em casa. Um d'elles disse:
+
+--Quem comeu o meu pão?»
+
+E os outros successivamente:
+
+--Quem pegou no meu garfo?»
+
+--Quem comeu o meu caldo?»
+
+--Quem bebeu o meu vinho?»
+
+E emfim um d'elles:
+
+--Quem está ahi deitado na minha cama?»
+
+Reuniram-se todos á roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz
+das lanternas viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente,
+e affastaram-se sem fazer bulha, para a não accordar. Branca no dia
+seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si
+aquelles sete anões das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura,
+que não tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava.
+Branca contou a sua triste historia, e os anões disseram-lhe:
+
+--Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?»
+
+--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.»
+
+Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias.
+Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as
+minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.
+
+Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não
+tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
+e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda
+que ha no mundo?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete
+montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»
+
+Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,
+e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que
+modo? Uma manhã partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto
+cheio d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu á
+porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas joias?»
+
+Os anões tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras
+estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser
+prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no
+cesto, esqueceu-se das suas promessas.
+
+--Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao
+pescoço.»
+
+Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
+anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente
+inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas
+gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si pouco
+a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.
+
+--Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira não era
+outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, não deixes
+entrar aqui ninguem, quando não estivermos em casa.»
+
+Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do
+espelho, e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no mundo?
+Responde.
+
+E o espelho respondeu:
+
+--És tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está
+nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»
+
+A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
+infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou ás sete
+montanhas, e bateu á porta da cabana.
+
+--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á janella, e respondeu:
+
+--Vá-se embora, aqui não entra ninguem.»
+
+--Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. Já
+viu outro tão bonito?»
+
+Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a
+porta.
+
+--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o na cabeça.»
+
+Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e
+Branca caiu morta.
+
+Á noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria.
+Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e
+tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.
+
+No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio.
+Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que
+o espelho respondeu como antecedentemente.
+
+--Ah! é preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me
+sacrificar.
+
+Vestiu-se de camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que
+estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.»
+
+--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?»
+
+--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar
+ninguem, nem compro coisa alguma.»
+
+--Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão
+bonita, quero dar-lhe uma.»
+
+--Obrigada, não posso acceitar.»
+
+--Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa
+que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora
+mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se
+tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu fulminada.
+
+--Ahi tens, para castigo da tua formosura.»
+
+Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e
+perguntou-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--És tu, és tu.»
+
+--Até que emfim!»
+
+Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o
+licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
+fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos
+da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não podiam
+acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquillo,
+as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quizeram
+enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de cristal, e escreveram em cima.
+«Aqui jaz a filha d'um rei;» puzeram o caixão n'uma das sete montanhas,
+e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
+assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais
+pequena alteração.
+
+Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar á
+caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lh'o cedessem, fosse por preço
+que fosse.
+
+--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixão, que
+é o nosso thesouro.»
+
+--Então dêem-m'o, já não posso viver sem contemplar este rosto de
+mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me
+façam isto.»
+
+Os anões, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para
+o levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu um
+balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha
+engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O
+joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O
+casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e
+rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de
+Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos
+os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:
+
+--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Branca é mais formosa que tu.
+
+A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes
+fossem descobertos, que morreu de repente.
+
+Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de
+princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus bemfeitores.
+
+
+
+
+*A rapariguinha e os phosphoros*
+
+
+Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de
+dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão
+passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os
+pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas
+tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já
+tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua
+a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
+quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a intenção de fazer
+d'elle um terço para o seu primeiro filho.
+
+A pequenita caminhava com os pésinhos nús, arroxeados pelo frio; tinha
+no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na
+mão um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido
+compradores, e por isso não apurára cinco réis.
+
+Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
+longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoço; mas
+pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?
+
+As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos
+manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.
+
+Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
+vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia,
+porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em sua casa
+fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento
+atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
+mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso
+lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o
+aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como
+ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que
+luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro
+de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão suavemente, que era um regalo.
+
+A pequerrucha ia já a estender os pésitos para os aquecer tambem, quando
+a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma
+pontita de phosphoro consumido.
+
+Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu
+a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse
+muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha
+alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha
+assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume
+delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do
+prato, e caíu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca
+espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de
+si a parede fria e tenebrosa.
+
+Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo
+de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a
+que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem
+sumptuoso.
+
+Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões accesos, e as estampas
+coloridas, como as que ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.
+Quando ia agarral-as com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os
+balões da arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se
+tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo
+um longo rasto de fogo.
+
+--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que
+lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando
+cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»
+
+Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe
+appareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.
+
+--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes
+embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a panella de
+ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.
+
+Accendeu o rosto do masso, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e
+os phosphoros espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua
+avó tinha sido tão formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas
+alegres, no meio d'este deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que
+já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso.
+
+Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram a pequerrucha, entre os
+dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios...
+morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu
+alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que
+faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se,
+disse um homem que passou.» E ninguem soube nunca as lindas coisas que
+ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
+velha avó no dia do Anno Novo.
+
+
+
+
+*O primeiro peccado de Margarida*
+
+
+Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus
+tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde
+acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.»
+
+Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como
+ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha
+ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha
+joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.
+
+Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.
+
+E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção
+d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia
+sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.
+
+N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho,
+á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento.
+
+Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das
+suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo.
+Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
+collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse
+bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
+contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que
+inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.
+
+O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de
+Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das
+mãos.
+
+Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si
+um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo
+preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a
+respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
+perguntou-lhe:
+
+--Qual é o caminho da cidade?»
+
+Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se
+tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma
+estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que
+o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com
+um sorriso estranho e diabolico.
+
+N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
+Margarida, e pediu-lhe uma esmola.
+
+Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado.
+
+O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre
+Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda
+disfarçado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que
+tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.
+
+
+
+
+*Um nome inscripto no céo*
+
+
+Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde cabana a
+pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem
+ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu
+então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:
+
+--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»
+
+E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater á mesma
+porta.
+
+--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada
+que te dar.»
+
+--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.
+
+E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
+cima da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que
+lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.
+
+--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se
+embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»
+
+Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-hão no
+Paraizo, e mais tarde nós o viremos a saber.
+
+
+
+
+*O linho*
+
+
+O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e
+transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre
+elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o
+d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.
+
+--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
+e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me feliz. Não ha
+ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello
+futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
+feliz, feliz a mais não poder ser!»
+
+--Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não conheces o
+mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»
+
+E rangendo lastimosamente, cantaram:
+
+ --Cric, crac! cric, crac! crac!
+ --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bella
+manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+florir. Sou muitissimo feliz.»
+
+Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
+cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de
+polé. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e
+depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade!
+
+--Não se póde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessario
+soffrer, o soffrimento é a mãe da experiencia.»
+
+Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o,
+cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois,
+puzeram-n'o n'uma roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.
+
+--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas
+torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.»
+
+E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a metter no tear e a
+transformal-o n'uma peça de panno.
+
+--Isto é extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que
+grandes tolas aquellas silvas quando cantavam:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso
+tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto,
+tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida,
+ninguem trata da gente, e não bebemos outra agua a não ser a da chuva.
+Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as
+manhãs, e á noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura
+fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
+melhor peça da parochia. Não posso ser mais feliz.»
+
+Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e
+picaram-n'o com uma agulha. Não era lá muito agradavel, mas em
+compensação fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.
+
+--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é
+abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para se viver em
+paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um
+só grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade!
+
+O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.
+
+--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas não
+se fazem impossiveis.»
+
+E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
+finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem
+adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel
+branco magnifico.
+
+--Oh que agradável surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino
+do que d'antes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima
+de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»
+
+E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de
+numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores.
+
+--Ora aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
+quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
+ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei
+explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe
+perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
+sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á maior gloria.
+Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se»
+tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou
+viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
+instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora
+as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,
+immensamente feliz!»
+
+Mas o papel não foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá
+estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
+que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
+papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta á roda
+do mundo. A meio caminho já estaria gasto.
+
+--É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou
+ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as
+palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os
+livros vão por esse mundo fóra. A sua missão é realmente bella, e eu
+estou contente, e julgo-me feliz.
+
+O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.
+
+--Depois do trabalho é agradável o descanço, pensou elle. É n'este
+isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que
+eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira
+perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»
+
+Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o
+que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as
+creanças da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também,
+depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir,
+e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel
+foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande
+chamma, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra as
+suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho
+semilhante.
+
+Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
+palavras, todas as idèas desappareceram em linguas de fogo.
+
+--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da lavareda, que
+pareciam mil vozes reunidas n'uma só. A chamma saiu pela chaminé, e no
+meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do
+homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.
+Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu,
+quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda elles dançavam
+sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas
+encarnadas.
+
+As creanças cantavam á roda da cinza inanimada:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que
+é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»
+
+As creanças não poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas
+tambem não era necessario, porque as creanças não devem saber tudo.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+*INDICE*
+
+
+A mãe
+O ouro
+Doçura e bondade
+O malmequer
+Não quero
+Piloto
+O rico e o pobre
+Como um camponez aprendeu o Padre Nosso
+O talisman
+A alma
+Alberto
+A canção da cerejeira
+Os gigantes da montanha e os anões da planície
+A creança, o anjo e flôr
+Presente por presente
+O pinheiro ambicioso
+Perfeição das obras de Deus
+João e os seus camaradas
+O rabequista
+Os pecegos
+A urna das lagrimas
+Reconhecimento e ingratidão
+O fato novo do sultão
+Boa sentença
+Os animaes agradecidos
+O ermitão
+Carlos Magno e o abade de S. Gall
+A boneca
+Inconveniente da riqueza
+Querer é poder
+Qual será rei?
+Os três véos de Maria
+Os pequenos no bosque
+O chapellinho encarnado
+Os cinco sonhos
+A egreja do rei
+O valente soldado de chumbo
+João Pateta
+Branca de Neve
+A rapariguinha e os phosphoros
+O primeiro peccado de Margarida
+Um nome inscripto no céo
+O linho
+
+
+[A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade,
+residente no Rio de Janeiro.]
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Contos para a infância, by Guerra Junqueiro
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA ***
+
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+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+1.F.
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
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+opportunities to fix the problem.
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+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
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+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+*** END: FULL LICENSE ***
+
+
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index 0000000..8c52816
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+++ b/old/16429-h.zip
Binary files differ
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index 0000000..323464b
--- /dev/null
+++ b/old/modern/contos.htm
@@ -0,0 +1,10351 @@
+<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-transitional.dtd">
+<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="en" lang="en">
+<head>
+
+
+
+
+
+ <title>Contos para a Inf&acirc;ncia Escolhidos dos Melhores Autores</title>
+ <meta name="AUTHOR" content="Guerra Junqueiro" />
+
+
+
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" />
+
+
+
+ <style type="text/css">
+body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;}
+h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;}
+h1 {font-size: 30px;}
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+ </style>
+</head>
+
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the<br />original version, already available at Project Gutenberg. / Actualiza&ccedil;&atilde;o<br />ortogr&aacute;fica da vers&atilde;o original, j&aacute; dispon&iacute;vel no Project Gutenberg.)<br /><br /><br />NOTA: Este texto tem duas vers&otilde;es em l&iacute;ngua portuguesa de acordo com o<br />livro original, a que pode ser aceder clicando numa das seguintes op&ccedil;&otilde;es:<br /> <a href="../../16429-8.txt"><big><b>TEXT</b></big></a> <a href="../16429.htm"><big><b>HTML</b></big></a><br /></pre>
+
+
+<div>
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h1>CONTOS</h1>
+
+
+<h2>PARA A</h2>
+
+
+<h3>INF&Acirc;NCIA</h3>
+
+
+<h2>ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES</h2>
+
+
+<h2>POR </h2>
+
+
+<h1>GUERRA JUNQUEIRO</h1>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2>LISBOA</h2>
+
+
+<h4>TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOM&Aacute;S QUINTINO ANTUNES,<br />
+
+
+IMPRESSOR DA CASA REAL</h4>
+
+
+<h2>Rua dos Calafates, 110</h2>
+
+
+<h2>1877</h2>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2> <a name="1"></a>A m&atilde;e</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estava uma m&atilde;e muito aflita, sentada ao p&eacute; do
+ber&ccedil;o do seu filho, com
+medo que lhe morresse. A criancinha p&aacute;lida tinha os olhos
+fechados.
+Respirava com dificuldade, e &agrave;s vezes t&atilde;o
+profundamente, que parecia
+gemer; mas a m&atilde;e causava ainda mais l&aacute;stima do
+que o pequenino
+moribundo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto bateram &agrave; porta, e entrou um pobre homem muito velho,
+embu&ccedil;ado
+numa manta de arrieiro. Era no Inverno. L&aacute; fora estava tudo
+coberto de
+neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre homem tremia de frio; a crian&ccedil;a adormecera por
+alguns instantes,
+e a m&atilde;e levantou-se a p&ocirc;r ao lume uma caneca com
+cerveja. O velho
+come&ccedil;ou a embalar a crian&ccedil;a, e a m&atilde;e,
+pegando numa cadeira, sentou-se
+ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
+vez com mais dificuldade, pegou-lhe na m&atilde;ozinha descarnada e
+disse para
+o velho:<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! Nosso Senhor n&atilde;o mo h&aacute;-de levar!
+n&atilde;o &eacute; verdade?&#8213;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[4]</span>E o velho, que era a
+Morte, meneou a cabe&ccedil;a duma maneira estranha, em
+ar de d&uacute;vida. A m&atilde;e deixou pender a fronte para o
+ch&atilde;o, e as l&aacute;grimas
+corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso
+de
+cabe&ccedil;a; estava sem dormir havia tr&ecirc;s dias e
+tr&ecirc;s noites. Passou
+ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a
+tremer de frio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que &eacute; isto! exclamou, lan&ccedil;ando &agrave;
+volta de si o olhar alucinado. O
+ber&ccedil;o estava vazio. O velho tinha-se ido embora,
+roubando-lhe a crian&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pobre m&atilde;e saiu precipitadamente, gritando pelo filho.
+Encontrou uma
+mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. &laquo;A Morte
+entrou-te em
+casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
+depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a
+entregar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Por onde foi ela? gritou a m&atilde;e. Diz-mo pelo amor de
+Deus!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto.
+Mas s&oacute; to ensino, se me cantares primeiro todas as
+can&ccedil;&otilde;es que cantavas
+ao teu filho. S&atilde;o lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou
+a Noite e
+muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em l&aacute;grimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a m&atilde;e. Agora
+n&atilde;o me
+demores, porque quero encontrar o meu filho.&#8213;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A Noite ficou silenciosa. A m&atilde;e ent&atilde;o, desfeita
+em l&aacute;grimas, come&ccedil;ou a
+cantar. Cantou muitas can&ccedil;&otilde;es, mas as
+l&aacute;grimas foram mais do que as
+palavras.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[5]</span>No fim disse-lhe a
+Noite: &laquo;Toma &agrave; direita, pela floresta escura de
+pinheiros. Foi por a&iacute; que a Morte fugiu com o teu
+filho.&raquo;
+<br />
+
+
+A m&atilde;e correu para a floresta; mas no meio dividia-se o
+caminho, e n&atilde;o
+sabia que direc&ccedil;&atilde;o havia de seguir. Diante dela
+havia um matagal,
+cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
+cristalizada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="break">
+<hr /> </div>
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o viste a Morte que levava o meu filho?&raquo;
+perguntou-lhe a m&atilde;e.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vi, respondeu o matagal, mas n&atilde;o te ensino o caminho,
+sen&atilde;o com a
+condi&ccedil;&atilde;o de me aqueceres no teu seio, porque
+estou gelado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a m&atilde;e estreitou o matagal contra o
+cora&ccedil;&atilde;o; os espinhos
+dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se
+de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite
+de Inverno frigid&iacute;ssima, tal &eacute; o calor
+febricitante do seio duma m&atilde;e
+angustiosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
+andando, at&eacute; que chegou &agrave; margem dum grande lago,
+onde n&atilde;o havia nem
+barcos, nem navios. N&atilde;o estava suficientemente gelado para
+se andar por
+ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo,
+querendo encontrar o seu filho, era necess&aacute;rio
+atravess&aacute;-lo. No del&iacute;rio
+do seu amor, atirou-se de bru&ccedil;os a ver se poderia beber toda
+a &aacute;gua do
+lago. Era imposs&iacute;vel, mas lembrava-se que Deus, por
+compaix&atilde;o, faria
+talvez um milagre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[6]</span>&#8213;N&atilde;o!
+n&atilde;o &eacute;s capaz de me esgotar, disse o lago.
+Sossega, e
+entendamo-nos
+amigavelmente. Gosto de ver p&eacute;rolas no fundo das minhas
+&aacute;guas, e os teus
+olhos s&atilde;o dum brilho mais suave do que as p&eacute;rolas
+mais ricas que eu
+tenho possu&iacute;do. Se queres, arranca-os das &oacute;rbitas
+&agrave; for&ccedil;a de chorar, e
+levar-te-ei &agrave; estufa grandiosa, que est&aacute; do outro
+lado: essa estufa &eacute; a
+habita&ccedil;&atilde;o da Morte; e as flores e as
+&aacute;rvores que est&atilde;o l&aacute; dentro,
+&eacute; ela
+quem as cultiva; cada flor e cada &aacute;rvore &eacute; a vida
+duma criatura
+humana.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! o que n&atilde;o darei eu, para reaver o meu filho!&raquo;
+disse a m&atilde;e. E
+apesar de ter j&aacute; chorado tantas l&aacute;grimas, chorou
+com mais amargura do
+que nunca, e os seus olhos destacaram-se das &oacute;rbitas e
+ca&iacute;ram no fundo
+do lago, transformando-se em duas p&eacute;rolas, como ainda as
+n&atilde;o teve no
+mundo uma rainha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O lago ent&atilde;o ergueu-a, e com um movimento de
+ondula&ccedil;&atilde;o depositou-a na
+outra margem, aonde havia um maravilhoso edif&iacute;cio, com mais
+de uma l&eacute;gua
+de comprido. De longe n&atilde;o se sabia se era uma
+constru&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica ou
+uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre m&atilde;e
+n&atilde;o podia ver nada;
+tinha dado os seus olhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu
+filho!&raquo; bradou
+ela desesperada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;A Morte ainda n&atilde;o chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que
+andava dum
+lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
+vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus &eacute; misericordioso. <span class="pagenum">[7]</span>Compadece-te
+de mim, e diz-me onde est&aacute; o meu filho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu n&atilde;o o conhe&ccedil;o, e tu &eacute;s cega, disse
+a velha. H&aacute; aqui muitas plantas
+e muitas &aacute;rvores, que murcharam esta noite: a Morte
+n&atilde;o tarda a&iacute; para
+as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste
+s&iacute;tio uma &aacute;rvore ou uma flor, que representam a
+sua vida e que morrem
+com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes,
+sente-se bater um cora&ccedil;&atilde;o. Guia-te por isto, e
+talvez reconhe&ccedil;as as
+pulsa&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o de teu
+filho. E que davas tu por eu te ensinar o
+que tens ainda de fazer?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;J&aacute; n&atilde;o tenho nada que te dar, disse a pobre
+m&atilde;e. Mas irei at&eacute; ao fim
+do mundo buscar o que tu quiseres.&#8213;&laquo;Fora daqui n&atilde;o
+preciso de nada,
+respondeu a velha. D&aacute;-me os teus longos cabelos negros; tu
+sabes que
+s&atilde;o belos, e agradam-me. Troc&aacute;-los-ei pelos meus
+cabelos
+brancos.&raquo;&#8213;N&atilde;o pedes mais nada do que isso? disse a
+m&atilde;e. A&iacute; os tens,
+dou-tos de boa vontade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E arrancou os seus magn&iacute;ficos cabelos, que tinham sido
+outrora o seu
+orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e
+inteiramente brancos da velha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esta levou-a pela m&atilde;o &agrave; grande estufa, onde
+crescia exuberantemente uma
+vegeta&ccedil;&atilde;o maravilhosa. Viam-se debaixo de
+camp&acirc;nulas de cristal jacintos
+mimos&iacute;ssimos ao lado de pe&oacute;nias inchadas e
+ordin&aacute;rias. Havia tamb&eacute;m plantas
+aqu&aacute;ticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em
+cujas ra&iacute;zes
+se enovelavam cobras asquerosas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[8]</span>Mais longe
+erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e pl&aacute;tanos
+frondosos; depois num outro s&iacute;tio isolado havia canteiros de
+salsa,
+tomilho, hortel&atilde; e outras plantas humildes que representavam
+o g&eacute;nero de
+utilidade das pessoas que elas simbolizavam.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
+pareciam rebentar; mas viam-se tamb&eacute;m florzitas
+insignificantes, em
+vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com
+esmero delicad&iacute;ssimo. Tudo isso representava a vida dos
+homens, que a
+essa hora existiam no mundo, desde a China at&eacute; &agrave;
+Groenl&acirc;ndia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a
+m&atilde;e
+impacientada pediu-lhe que a levasse ao s&iacute;tio onde estavam
+as plantas
+pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
+cora&ccedil;&atilde;o, e, depois de ter tocado em milhares
+delas, reconheceu as
+pulsa&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o do seu
+filho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; ele!&raquo; exclamou, lan&ccedil;ando a
+m&atilde;o a um a&ccedil;afroeiro, que, pendido sobre
+a terra, parecia completamente estiolado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o lhe toques, disse a velha. Fica neste s&iacute;tio;
+e quando a Morte
+vier, que n&atilde;o tarda, pro&iacute;be-lhe que arranque esta
+planta; amea&ccedil;a-a de
+arrancar todas as flores que est&atilde;o aqui. A Morte
+ter&aacute; medo, porque tem
+de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu
+consentimento.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto sentiu-se um vento glacial, e a m&atilde;e adivinhou que era
+a Morte,
+que se aproximava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[9]</span>&#8213;Como &eacute;
+que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
+primeiro do que eu! Como o conseguiste?&#8213;&laquo;Sou
+m&atilde;e&raquo; respondeu ela.
+<br />
+
+
+E a Morte estendeu a sua m&atilde;o ganchosa para o pequenino
+a&ccedil;afroeiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas a m&atilde;e protegia-o violentamente com ambas as
+m&atilde;os, tendo o cuidado de
+n&atilde;o ferir uma s&oacute; das pequeninas
+p&eacute;talas. Ent&atilde;o a Morte soprou-lhe nas
+m&atilde;os, fazendo-lhas cair inanimadas. O h&aacute;lito da
+Morte era mais frio do
+que os ventos enregelados do Inverno.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o podes nada comigo!&raquo; disse a Morte.&#8213;Mas Deus
+tem mais for&ccedil;a do que
+tu, respondeu a m&atilde;e.&raquo;&#8213;&laquo;&Eacute;
+verdade, mas eu n&atilde;o fa&ccedil;o sen&atilde;o aquilo
+que
+ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas,
+&aacute;rvores e
+arbustos, quando come&ccedil;am a murchar, transplanto-as para
+outros jardins,
+um dos quais &eacute; o grande jardim do Para&iacute;so.
+S&atilde;o regi&otilde;es desconhecidas;
+ningu&eacute;m sabe o que se l&aacute; passa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Miseric&oacute;rdia! miseric&oacute;rdia! solu&ccedil;ou a
+m&atilde;e. N&atilde;o me roubem o meu filho,
+agora que acabo de o encontrar!&raquo; Suplicava e gemia. A Morte
+conservava-se impass&iacute;vel; agarrou ent&atilde;o
+instantaneamente em duas flores
+lind&iacute;ssimas e disse &agrave; Morte: &laquo;Tu
+desprezas-me, mas olha, vou arrancar,
+despeda&ccedil;ar n&atilde;o s&oacute; esta, mas todas as
+flores que est&atilde;o aqui!<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o as arranques, n&atilde;o as mates, bradou a Morte.
+Dizes que &eacute;s
+desgra&ccedil;ada, e querias ir partir o
+cora&ccedil;&atilde;o de outra m&atilde;e!&#8213;&laquo;Outra
+m&atilde;e!&raquo;
+disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente.
+<span class="pagenum">[10]</span>&#8213;Toma, aqui tens os
+teus olhos, disse a Morte. Brilhavam t&atilde;o suavemente que os
+tirei do lago. N&atilde;o sabia que eram teus.
+Mete-os nas &oacute;rbitas, e olha para o fundo deste
+po&ccedil;o; v&ecirc; o que ias destruir,
+se arrancasses estas flores. Ver&aacute;s passar nos reflexos da
+&aacute;gua, como numa miragem,
+a sorte destinada a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o
+teu filho, se
+porventura vivesse.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Debru&ccedil;ou-se no po&ccedil;o, e viu passar imagens de
+felicidade e alegria,
+quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terr&iacute;veis
+de
+mis&eacute;ria, de ang&uacute;stias e de
+desola&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nisto que eu vejo, disse a m&atilde;e aflit&iacute;ssima,
+n&atilde;o distingo qual era a
+sorte que Deus destinava ao meu filho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em
+tudo isto
+que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu
+filho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&atilde;e desvairada, lan&ccedil;ou-se de joelhos
+exclamando: Suplico-te, diz-me:
+era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? N&atilde;o
+&eacute; verdade! Fala!
+N&atilde;o me respondes? Oh! na d&uacute;vida, leva-o, leva-o,
+n&atilde;o v&aacute; ele sofrer
+desgra&ccedil;as t&atilde;o horr&iacute;veis. O meu querido
+filho! Quero-lho mais que &agrave; minha
+vida. As ang&uacute;stias que sejam para mim. Leva-o para o reino
+dos c&eacute;us.
+Esquece as minhas l&aacute;grimas, as minhas s&uacute;plicas,
+esquece tudo o que fiz
+e tudo o que disse.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te
+entregue o teu
+filho ou que o leve para a regi&atilde;o desconhecida de que
+n&atilde;o posso
+falar-te!&raquo; Ent&atilde;o a m&atilde;e alucinada,
+convulsa, torcendo os bra&ccedil;os,
+deitou-se de joelhos e dirigindo-se <span class="pagenum">[11]</span>a
+Deus exclamou: &laquo;N&atilde;o me ou&ccedil;as,
+Senhor, se reclamo no fundo do meu cora&ccedil;&atilde;o contra
+a tua vontade que &eacute;
+sempre justa! N&atilde;o me atendas meu Deus!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E deixou cair a cabe&ccedil;a sobre o peito, mergulhada na sua
+agonia
+dilacerante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a Morte arrancou o pequenino a&ccedil;afroeiro, e foi
+transplant&aacute;-lo no
+jardim do para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[12]</span>
+<h2><a name="2"></a>O ouro</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de
+ouro,
+empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o
+resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma
+grande
+fome no pa&iacute;s.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
+segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
+e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro,
+com
+que ele ficou todo satisfeito, porque n&atilde;o compreendeu ao
+princ&iacute;pio
+qual era o sentido da rainha; mas, vendo que n&atilde;o lhe traziam
+mais nada
+de comer, come&ccedil;ou a zangar-se. Pediu-lhe ent&atilde;o a
+rainha, que visse bem
+que o ouro n&atilde;o era alimento, e que seria melhor empregar os
+seus
+vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
+traz&ecirc;-los nas minas &agrave; busca do ouro, que
+n&atilde;o mata a fome nem a sede, e
+que n&atilde;o tem outro valor al&eacute;m da
+estima&ccedil;&atilde;o que lhe &eacute; dada pelos homens,
+estima&ccedil;&atilde;o que havia de converter-se em desprezo,
+logo que ouro
+aparecesse em abund&acirc;ncia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A rainha tinha ju&iacute;zo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[13]</span>
+<h2><a name="3"></a>Do&ccedil;ura e bondade</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+H&aacute; entre v&oacute;s, meus filhos, &iacute;ndoles
+violentas, que n&atilde;o sabem dominar-se,
+e que s&atilde;o arrastadas pelas primeiras impress&otilde;es.
+&Eacute; uma p&eacute;ssima
+disposi&ccedil;&atilde;o, que &eacute;
+necess&aacute;rio corrigir; d&aacute; lugar a disputas, e a que
+se
+cometam ac&ccedil;&otilde;es, cujo arrependimento chega
+demasiadamente tarde.
+Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
+dele, volta-se e d&aacute;-lhe uma bofetada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num
+cego!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns
+camponeses grosseiros come&ccedil;aram a apup&aacute;-lo e a
+bater no burro, para o
+fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a
+sua perna aleijada, disse-lhes: &laquo;Se soub&eacute;sseis que
+eu era coxo, n&atilde;o
+ter&iacute;eis sido t&atilde;o covardes.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma
+palavra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que vos parece estas duas li&ccedil;&otilde;es? Estou
+convencido que aproveitaram a
+quem as recebeu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+<h2><a name="4"></a>O malmequer</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ouvi com aten&ccedil;&atilde;o esta pequenina
+hist&oacute;ria!<br />
+
+
+<br />
+
+
+No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+deveis ter visto muitas vezes. H&aacute; na frente um jardinzinho
+com flores,
+rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no
+meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
+olhos vistos, gra&ccedil;as ao sol, que repartia igualmente a sua
+luz tanto por
+ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela
+manh&atilde;, j&aacute; inteiramente aberto, com as folhinhas
+alvas e brilhantes,
+parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe
+dava
+que o vissem no meio da erva e n&atilde;o fizessem caso dele, pobre
+florinha
+insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
+sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira,
+sentia-se t&atilde;o feliz como se fosse um domingo. Enquanto as
+crian&ccedil;as
+sentadas nos bancos da escola estudavam a li&ccedil;&atilde;o,
+ele, sentado na haste
+verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
+o que <span class="pagenum">[15]</span>sentia
+misteriosamente, em sil&ecirc;ncio, julgava ouvi-lo traduzido com
+admir&aacute;vel nitidez nas can&ccedil;&otilde;es alegres
+da cotovia. Por isso p&ocirc;s-se a
+olhar com uma esp&eacute;cie de respeito, mas sem inveja, para essa
+avezinha
+feliz que cantava e voava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Eu vejo e oi&ccedil;o, pensou o malmequer; o sol
+aquece-me e o vento
+acaricia-me. Oh! n&atilde;o tenho raz&atilde;o de me
+queixar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocr&aacute;ticas;
+quanto menos
+aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As d&aacute;lias
+inchavam-se para
+parecerem maiores do que as rosas; mas n&atilde;o &eacute; o
+tamanho que faz a rosa.
+As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se
+pretensiosamente. N&atilde;o se dignavam de lan&ccedil;ar um
+olhar para o pequeno
+malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando:
+&laquo;Como s&atilde;o
+ricas e bonitas! A cotovia ir&aacute; certamente
+visit&aacute;-las. Gra&ccedil;as a Deus,
+poderei assistir a este belo espect&aacute;culo.&raquo; E no
+mesmo instante a
+cotovia dirigiu o seu voo, n&atilde;o para as d&aacute;lias e
+tulipas, mas para a
+relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria n&atilde;o
+sabia o que
+havia de pensar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O passarinho p&ocirc;s-se a saltitar &agrave; roda dele,
+cantando: &laquo;Como a erva &eacute;
+macia! oh! que encantadora florinha, com um
+cora&ccedil;&atilde;o de oiro, vestida de
+prata!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave
+acariciou-o com
+o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do
+firmamento. Durante mais de um quarto de hora n&atilde;o
+p&ocirc;de o malmequer
+reprimir a sua como&ccedil;&atilde;o. Meio envergonhado, mas
+todo contente, olhou
+<span class="pagenum">[16]</span>para as outras
+flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
+acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas
+as
+tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
+pontiaguda manifestava o despeito. As d&aacute;lias tinham a
+cabe&ccedil;a toda
+inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem
+desagrad&aacute;veis
+ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
+grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
+uma a uma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Que desgra&ccedil;a! disse o malmequer suspirando;
+&eacute; horr&iacute;vel; foram-se
+todas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se
+por
+ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando
+reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
+adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte de manh&atilde;, assim que o malmequer abriu as
+suas folhas ao
+ar e &agrave; luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto
+era triste,
+muit&iacute;ssimo triste. A pobre cotovia tinha boas
+raz&otilde;es para se afligir:
+haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela
+aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas
+antigas viagens atrav&eacute;s do espa&ccedil;o ilimitado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
+dif&iacute;cil. A compaix&atilde;o pelo pobre passarinho
+prisioneiro, fez-lhe
+esquecer <span class="pagenum">[17]</span>inteiramente
+as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e
+a alvura resplandecente das suas pr&oacute;prias folhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na
+m&atilde;o
+uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
+tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que n&atilde;o podia
+compreender o
+que desejavam.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Podemos arrancar daqui um peda&ccedil;o de relva para a
+cotovia, disse um dos
+rapazes, e come&ccedil;ou a fazer um quadrado profundo &agrave;
+volta da florinha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Arranca a flor, disse o outro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era
+morrer; e nunca tinha aben&ccedil;oado tanto a
+exist&ecirc;ncia, como no momento em
+que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o; deixemo-la, disse o mais velho.
+Est&aacute; a&iacute; muito bem.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia
+com as asas nos arames da gaiola. O malmequer n&atilde;o podia,
+apesar dos seus
+desejos, articular-lhe uma palavra de consola&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passou-se assim toda a manh&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;J&aacute; n&atilde;o tenho &aacute;gua, exclamou
+a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
+deixarem ao menos uma gota de &aacute;gua. A garganta queima-me,
+tenho uma febre
+terr&iacute;vel, sinto-me abafada! Ai! N&atilde;o h&aacute;
+rem&eacute;dio sen&atilde;o morrer, longe do
+sol espl&ecirc;ndido, longe da fresca verdura e de todas as
+magnific&ecirc;ncias da
+cria&ccedil;&atilde;o!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[18]</span>Depois enterrou o
+bico na relva h&uacute;mida para se refrescar um pouco. Viu
+ent&atilde;o o malmequer; fez-lhe um sinal de cabe&ccedil;a
+amig&aacute;vel, e disse-lhe,
+afagando-o: &laquo;Tamb&eacute;m tu, pobre florinha,
+morrer&aacute;s aqui! Em vez do mundo
+inteiro, que eu tinha &agrave; minha
+disposi&ccedil;&atilde;o, deram-me um pedacito de relva,
+e a ti s&oacute; por &uacute;nica companhia. Cada pezinho de
+relva substitui para mim
+uma &aacute;rvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor
+odor&iacute;fera. Ah!
+como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Se eu pudesse consol&aacute;-la! pensava o malmequer, incapaz de
+fazer o
+m&iacute;nimo movimento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume;
+a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
+arrancar a erva, teve todo o cuidado em n&atilde;o tocar nem sequer
+de leve na
+flor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Caiu a noite; n&atilde;o estava ali ningu&eacute;m, para trazer
+uma gota de &aacute;gua &agrave;
+desditosa cotovia; Estendeu ent&atilde;o as suas belas asas,
+sacudindo-as
+convulsivamente, e p&ocirc;s-se a cantar uma
+can&ccedil;&atilde;ozinha melanc&oacute;lica; a sua
+cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu
+cora&ccedil;&atilde;o quebrado de desejos e
+de ang&uacute;stias cessou de bater. Vendo este triste
+espect&aacute;culo, o malmequer
+n&atilde;o p&ocirc;de como na v&eacute;spera fechar as suas
+folhas para dormir; curvou-se
+para o ch&atilde;o, doente de tristeza.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os rapazitos s&oacute; voltaram no dia seguinte, e, vendo o
+passarinho morto,
+rebentaram-lhe as l&aacute;grimas e abriram uma cova. Meteram o
+cad&aacute;ver dentro
+de uma caixa vermelha, lind&iacute;ssima, fizeram-lhe um enterro de
+pr&iacute;ncipe, e
+cobriram o t&uacute;mulo com folhas de rosas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[19]</span>Pobre passarinho!
+Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e
+deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto &eacute; que
+o choraram
+e lhe fizeram honrarias pompos&iacute;ssimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A relva e o malmequer lan&ccedil;aram-nas para a poeira da estrada;
+daquele
+que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ningu&eacute;m se
+lembrou.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[20]</span>
+<h2><a name="5"></a>N&atilde;o quero</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito
+alto: &laquo;N&atilde;o, dizia um com voz en&eacute;rgica,
+n&atilde;o quero.&raquo; Parei e
+perguntei-lhe:&#8213;O que &eacute; que tu n&atilde;o queres, meu
+rapaz?&#8213;&laquo;N&atilde;o quero dizer
+&agrave; mam&atilde; que venho da escola, porque &eacute;
+mentira. Sei que me h&aacute;-de ralhar,
+mas antes quero que me ralhe do que mentir.&raquo;&#8213;E tens
+raz&atilde;o, disse-lhe
+eu. &Eacute;s um rapaz como se quer.&raquo; Apertei-lhe a
+m&atilde;o, enquanto que o outro
+pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
+todo envergonhado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Da&iacute; a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de
+falar com o
+professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois
+pequenos; o que n&atilde;o quis mentir, sorria-me, enquanto que o
+outro,
+vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
+dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, &eacute; um
+magn&iacute;fico
+estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a
+confessar as suas faltas e o que &eacute; ainda melhor, a
+repar&aacute;-las. O outro
+pelo contr&aacute;rio, &eacute; mentiroso, covarde e
+incorrig&iacute;vel.&raquo;&#8213;N&atilde;o me espanto,
+disse eu, j&aacute; tinha tirado o hor&oacute;scopo destas duas
+crian&ccedil;as; e
+contei-lhe o que tinha ouvido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+<h2><a name="6"></a>Piloto</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos c&atilde;es, e
+o
+infatig&aacute;vel companheiro dos brinquedos das
+crian&ccedil;as da quinta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fazia gosto v&ecirc;-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que
+Jo&atilde;o lhe
+lan&ccedil;ava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca
+e
+trazia-o &agrave; margem, com grande alegria do pequerrucho e da
+sua irm&atilde;
+Joaninha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esta brincadeira recome&ccedil;ava vinte vezes sem cansar nunca a
+paci&ecirc;ncia do
+Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos,
+at&eacute; que o
+assobio do criado da quinta chamava o fiel animal &agrave;s suas
+obriga&ccedil;&otilde;es:
+partia ent&atilde;o como um raio, para escoltar as vacas, que
+levavam aos
+pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando o hortel&atilde;o ia vender os legumes ao mercado, era o
+Piloto o guarda
+da carro&ccedil;a; e muito atrevido seria quem saltasse
+&agrave; noite a parede da
+quinta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma vez deu prova de uma extraordin&aacute;ria sagacidade; um
+jornaleiro, que se
+empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa,
+tentou de noite roubar um saco.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Piloto, que o conhecia, n&atilde;o fez a menor
+demonstra&ccedil;&atilde;o de hostilidade
+em quanto o homem seguiu o <span class="pagenum">[22]</span>caminho
+da quinta, mas, desde que se afastou
+tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem
+o
+largar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era como se dissesse: &laquo;Onde vais tu com o trigo de meu
+dono?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O ladr&atilde;o quis p&ocirc;r ent&atilde;o outra vez o
+saco donde o tinha tirado; Piloto
+n&atilde;o consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir,
+at&eacute; de
+manh&atilde;; o quinteiro foi dar com ele nesta dif&iacute;cil
+posi&ccedil;&atilde;o,
+repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o
+n&atilde;o
+desonrar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o homem ficou com &oacute;dio ao c&atilde;o, e muito tempo
+depois, aproveitando a
+aus&ecirc;ncia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que
+correu para
+ele sem desconfian&ccedil;a; atou-lhe uma corda ao
+pesco&ccedil;o e arrastou-o at&eacute; &agrave;
+margem do ribeiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Atou uma grande pedra &agrave; outra extremidade da corda e
+levantando o animal
+atirou-o &agrave; &aacute;gua; mas arrastado ele
+pr&oacute;prio com o peso e com o esfor&ccedil;o,
+caiu tamb&eacute;m.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Como n&atilde;o sabia nadar, teria sido despeda&ccedil;ado pela
+roda do moinho, se o
+corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e
+desembara&ccedil;ando-se da pedra mal atada, n&atilde;o tivesse
+mergulhado duas vezes
+e trazido para terra o seu mortal inimigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o
+c&atilde;o que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Teve vergonha de seu acto miser&aacute;vel; e desde esse dia,
+violentou-se a si
+mesmo e combateu as suas m&aacute;s
+inclina&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O exemplo do c&atilde;o corrigiu o homem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[23]</span>
+<h2><a name="7"></a>O rico e o pobre</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
+dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
+deitou-se debaixo de uma &aacute;rvore, &agrave; porta de uma
+estalagem, junto da
+estrada. Estava comendo um bocado de p&atilde;o que tinha trazido
+para jantar,
+quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
+preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos
+viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que n&atilde;o
+tinham tempo,
+e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
+vinho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua
+c&ocirc;dea de p&atilde;o, para a sua velha jaqueta, para o seu
+chap&eacute;u todo roto, e
+suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino
+t&atilde;o rico,
+em vez do desgra&ccedil;ado Martinho! Que fortuna se ele estivesse
+aqui, e eu
+dentro daquela carruagem!&raquo; O preceptor ouviu casualmente o
+que dizia
+Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lan&ccedil;ando a
+cabe&ccedil;a fora da
+carruagem, chamou Martinho com a m&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ficarias muito contente, n&atilde;o &eacute; verdade, meu <span class="pagenum">[24]</span>rapaz, podendo trocar a
+minha sorte pela tua?&raquo;&#8213;Pe&ccedil;o que me desculpe
+senhor, replicou Martinho
+corando, o que eu disse n&atilde;o foi por
+mal.&raquo;&#8213;N&atilde;o estou zangado contigo,
+replicou o fidalguinho, pelo contr&aacute;rio, desejo fazer a
+troca.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! est&aacute; a divertir-se comigo! tornou Martinho,
+ningu&eacute;m quereria estar
+no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando
+muitas l&eacute;guas por dia, como p&atilde;o seco e batatas,
+enquanto que o senhor
+anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.&raquo;&#8213;Pois
+bem,
+volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu
+n&atilde;o tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que
+possuo.&raquo; Martinho
+ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
+preceptor continuou: &laquo;Aceitas a troca?&raquo;&#8213;Ora essa!
+exclamou Martinho,
+ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada
+de me ver entrar nesta bela carruagem!&raquo; E Martinho desatou a
+rir com a
+ideia da entrada triunfante na sua aldeia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram
+a
+descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma
+perna de pau e que a outra era t&atilde;o fraca, que se via
+obrigado a andar em
+duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou
+que era muito p&aacute;lido e que tinha cara de doente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sorriu para o rapazito com ar ben&eacute;volo, e
+disse-lhe:&#8213;Ent&atilde;o sempre
+desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas
+valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter <span class="pagenum">[25]</span>uma carruagem e
+andar bem vestido?&raquo;&#8213;Oh! n&atilde;o, por coisa nenhuma!
+replicou
+Martinho.&#8213;&laquo;Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria
+pobre, se
+tivesse sa&uacute;de. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e
+doente, sofro
+os meus males com paci&ecirc;ncia e fa&ccedil;o por ser alegre,
+dando gra&ccedil;as a Deus
+pelos bens que me concedeu na sua infinita miseric&oacute;rdia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se
+&eacute;s pobre e comes mal,
+tens for&ccedil;a e sa&uacute;de, coisas que valem mais que uma
+carruagem, e que n&atilde;o
+podem comprar-se com dinheiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[26]</span>
+<h2><a name="8"></a>Como um campon&ecirc;s
+aprendeu o Padre Nosso</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tinha o cora&ccedil;&atilde;o duro, e n&atilde;o dava
+esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
+confessor deu-lhe por penit&ecirc;ncia rezar sete vezes o Padre
+Nosso.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o
+alde&atilde;o.&raquo;
+<br />
+
+
+&laquo;Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por
+penit&ecirc;ncia dar a
+cr&eacute;dito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem
+pedir da
+minha parte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte de manh&atilde; apresentou-se o primeiro pobre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como te chamas? perguntou-lhe o campon&ecirc;s.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Padre&#8213;Nosso&#8213;Que&#8213;Estais&#8213;No&#8213;C&eacute;u, respondeu o
+pobre.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;E o teu apelido?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Seja&#8213;Santificado&#8213;O&#8213;Vosso&#8213;Nome.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao outro dia chega segundo pobre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como te chamas?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Venha&#8213;A&#8213;N&oacute;s&#8213;O&#8213;Vosso&#8213;Reino.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;E o teu apelido?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Seja&#8213;Feita&#8213;A&#8213;Vossa&#8213;Vontade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[27]</span>E partiu com o seu
+alqueire de trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Veio terceiro pobre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como te chamas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Assim&#8213;Na&#8213;Terra&#8213;Como&#8213;No&#8213;C&eacute;u.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;E o teu apelido?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Dai-nos&#8213;Hoje&#8213;O&#8213;P&atilde;o&#8213;Nosso&#8213;De&#8213;Cada&#8213;Dia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E levou o seu alqueire.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma
+forma at&eacute; chegar ao <i>Amen</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pouco tempo depois o confessor encontrou o alde&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Ent&atilde;o j&aacute; sabes o Padre
+Nosso?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o, sr. cura, sei s&oacute; os nomes e
+apelidos dos pobres a quem emprestei
+o meu trigo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Quais s&atilde;o? tornou o padre.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o alde&atilde;o enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada
+um se tinha
+apresentado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;J&aacute; v&ecirc;s, disse o confessor, que
+n&atilde;o era muito dif&iacute;cil aprender o Padre
+Nosso, porque j&aacute; o sabes perfeitamente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[28]</span>
+<h2><a name="9"></a>O talism&atilde;</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma
+ind&uacute;stria, mas
+com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
+que n&atilde;o era de espantar, porque o primeiro zelava os seus
+neg&oacute;cios com
+uma actividade infatig&aacute;vel, enquanto que o segundo, entregue
+inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da
+direc&ccedil;&atilde;o da
+sua casa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Explica-me, disse um dia este &uacute;ltimo ao seu
+colega, qual &eacute; a raz&atilde;o
+porque a sorte nos trata de um modo t&atilde;o diferente? Vendemos
+as mesmas
+mercadorias, a minha loja est&aacute; t&atilde;o bem situada
+como a tua, e apesar
+disso, enquanto tu ganhas, eu n&atilde;o fa&ccedil;o
+sen&atilde;o perder. E n&atilde;o &eacute; porque eu
+seja estroina; n&atilde;o bebo, nem jogo. J&aacute; tenho
+pensado algumas vezes se n&atilde;o
+ter&aacute;s tu por acaso algum precioso
+talism&atilde;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um
+talism&atilde; de uma
+virtude incompar&aacute;vel. Trago-o ao pesco&ccedil;o, e ando
+assim com ele todo o
+dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o
+celeiro. E o caso &eacute; que tudo me corre
+perfeitamente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[29]</span>&laquo;Ol&eacute;
+meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa
+rel&iacute;quia
+preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta
+restituo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Pois vem busc&aacute;-la amanh&atilde; de
+manh&atilde;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
+apresentou-lhe este uma avel&atilde;, atrav&eacute;s da qual
+tinha passado um
+fio de seda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O nosso homem p&ocirc;-la imediatamente ao pesco&ccedil;o, e
+come&ccedil;ou a correr toda a
+casa com o talism&atilde;. Observou ent&atilde;o a completa
+desordem que por toda a
+parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
+cozinha o p&atilde;o, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o
+trigo, o
+feij&atilde;o; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das
+manjedouras dos
+cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
+escriturados; viu tudo isto, e que era necess&aacute;rio dar-lhe
+rem&eacute;dio,
+compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substitu&iacute;do
+por
+terceira pessoa na direc&ccedil;&atilde;o dos seus
+neg&oacute;cios.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso
+talism&atilde;,
+agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em
+segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[30]</span>
+<h2><a name="10"></a>A alma</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Mam&atilde;, nem todas as crian&ccedil;as que morrem
+v&atilde;o para o Para&iacute;so. O outro dia
+vi levar para o cemit&eacute;rio um menino que tinha morrido; o seu
+pap&aacute; e as
+suas duas irm&atilde;zinhas acompanhavam o caix&atilde;o, e
+choravam tanto que me
+fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau,
+n&atilde;o &eacute;
+verdade?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma,
+enquanto choravam seus
+pais e suas irm&atilde;s, j&aacute; estava vivendo feliz no
+Para&iacute;so.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;A alma? mam&atilde;; n&atilde;o sei o que
+&eacute;; n&atilde;o compreendo bem.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as
+duas
+pequerruchas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Tive sim, mam&atilde;, tive muita pena.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Ora bem, o que &eacute; que no teu corpo estava
+desconsolado e triste? eram os
+bra&ccedil;os?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o, mam&atilde;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Eram as orelhas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Oh! n&atilde;o mam&atilde;, era <i>c&aacute;
+dentro</i>.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Esse <i>l&aacute; dentro</i>, Maria,
+&eacute; a tua alma que se alegra ou se entristece,
+que te repreende quando fazes o mal, e que est&aacute; satisfeita
+quando
+praticas o bem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[31]</span>
+<h2><a name="11"></a>Alberto</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus
+irm&atilde;os, que eram activos e laboriosos, plantar
+&aacute;rvores e fazer
+sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um
+&uacute;nico
+feij&atilde;o produzir cem feij&otilde;es e muitas vezes mais,
+e de uma talhada de
+batata nascerem quarenta batatas magn&iacute;ficas; sabia que a
+terra pagava
+com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
+quarto do pai, e foi enterr&aacute;-la imediatamente no seu
+jardinzinho. &laquo;H&aacute;-de
+nascer uma &aacute;rvore, dizia ele consigo, que dar&aacute;
+libras como uma
+cerejeira d&aacute; cerejas, e irei entreg&aacute;-las ao
+pap&aacute;, que ficar&aacute; muito
+contente.&raquo; Todas as manh&atilde;s ia ver se a libra tinha
+nascido, mas n&atilde;o
+rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte.
+Por
+fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vi pap&aacute;; achei-a e fui
+seme&aacute;-la.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como, seme&aacute;-la? doido! julgas talvez que vai
+nascer como uma couve?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Mas, pap&aacute;, ouvi dizer que o oiro se encontrava na
+terra.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;&Eacute; verdade, mas n&atilde;o nasce como uma
+semente; o oiro n&atilde;o tem vida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[32]</span>Desenterrou-se a
+libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
+n&atilde;o pertencia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+H&aacute; contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro,
+fazendo-lhe
+produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como
+&eacute;? &Eacute; dando-o aos pobres. Faz-se no
+Para&iacute;so a colheita dessa sementeira.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[33]</span>
+<h2><a name="12"></a>A
+can&ccedil;&atilde;o da cerejeira</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Disse Deus na Primavera: &laquo;Ponham a mesa &agrave;s
+lagartas!&raquo; E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de folhas, milh&otilde;es de folhas,
+fresquinhas e
+verdejantes.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou,
+espregui&ccedil;ou-se,
+abriu a boca, esfregou os olhos e p&ocirc;s-se a comer
+tranquilamente as
+folhinhas tenras, dizendo: &laquo;N&atilde;o se pode a gente
+despegar delas. Quem &eacute;
+que me arranjou este banquete?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ent&atilde;o Deus disse de novo: &laquo;Ponham a mesa
+&agrave;s abelhas!&raquo; E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de flores, milh&otilde;es de flores
+delicadas e
+brancas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas,
+dizendo: &laquo;Vamos tomar o nosso caf&eacute;; e que
+ch&aacute;venas t&atilde;o bonitas em que o
+deitaram!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Provou com a linguita, exclamando: &laquo;Que deliciosa bebida!
+N&atilde;o pouparam o
+a&ccedil;&uacute;car!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No Ver&atilde;o disse Deus: &laquo;Ponham a mesa aos
+passarinhos!&raquo; E a cerejeira
+cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[34]</span>&laquo;Ah! ah!
+exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasi&atilde;o; temos
+apetite,
+e isto dar-nos-&aacute; novas for&ccedil;as para podermos
+cantar uma nova can&ccedil;&atilde;o.&raquo; No
+Outono disse Deus: &laquo;Levantai a mesa, j&aacute;
+est&atilde;o satisfeitos.&raquo; E o vento
+frio das montanhas come&ccedil;ou a soprar, e fez estremecer a
+&aacute;rvore.<br />
+
+
+<br />
+
+
+As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, ca&iacute;ram uma a
+uma, e o
+vento que as lan&ccedil;ou ao ch&atilde;o erguia-as novamente,
+fazendo-as esvoa&ccedil;ar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegou o Inverno e disse Deus: &laquo;Cobri o resto!&raquo; E
+os turbilh&otilde;es dos
+ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[35]</span>
+<h2><a name="13"></a>Os gigantes da montanha e
+os an&otilde;es da plan&iacute;cie</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma fam&iacute;lia de gigantes, que viviam num castelo
+na
+montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum
+&aacute;lamo. Era curiosa e andava com vontade de descer
+&agrave; plan&iacute;cie a ver o que
+faziam l&aacute; em baixo os homens, que de cima do monte lhe
+pareciam an&otilde;es.
+Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido &agrave;
+ca&ccedil;a e sua m&atilde;e estava
+dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os
+jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os
+lavradores, coisas inteiramente novas para ela. &laquo;Oh! que
+lindos
+brinquedos!&raquo; exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o
+avental, que
+quase que cobriu o campo. Lan&ccedil;ou-lhe dentro os homens, os
+cavalos, a
+charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo,
+onde seu pai estava a jantar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que trazes a&iacute;, minha filha?&raquo; perguntou ele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos.
+S&atilde;o os
+mais bonitos que tenho visto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E p&ocirc;-los em cima da mesa, a um e um,&#8213;os cavalos, a charrua e
+os
+trabalhadores, que estavam <span class="pagenum">[36]</span>todos
+espantados, como formigas a quem
+tivessem transportado dum formigueiro para um sal&atilde;o. A
+gigantinha
+p&ocirc;s-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o
+gigante
+fez-se s&eacute;rio e franziu o sobrolho. &laquo;Fizeste mal,
+disse-lhe ele. Isso
+n&atilde;o s&atilde;o brinquedos, mas coisas e pessoas que
+devem estimar-se e
+respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e
+p&otilde;e-no
+imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
+montanha, morreriam de fome, se os an&otilde;es da
+plan&iacute;cie deixassem de lavrar
+a terra e de semear o trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+<h2><a name="14"></a>A crian&ccedil;a, a
+anjo e flor</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando morre uma crian&ccedil;a, desce um anjo do c&eacute;u,
+toma-a nos bra&ccedil;os, e
+desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os
+s&iacute;tios que
+ela amara durante a sua pequenina exist&ecirc;ncia; o anjo
+abaixa-se de
+quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que
+flores&ccedil;am
+no para&iacute;so ainda mais belas do que tinham sido na terra.
+Deus recebe
+todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os l&aacute;bios, e
+a flor
+escolhida, adquirindo voz imediatamente, come&ccedil;a a cantar os
+coros
+maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma
+crian&ccedil;a morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram
+primeiro
+sobre a casa em que a crian&ccedil;a brincara, e depois sobre
+jardins
+deliciosos, cobertos de flores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Qual &eacute; a flor que desejas para plantar no
+para&iacute;so?&raquo; perguntou o anjo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
+magn&iacute;fica; mas quebraram-lhe o p&eacute;, e todos os
+seus ramos cheios de
+bot&otilde;ezinhos lind&iacute;ssimos pendiam estiolados para o
+ch&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Pobre roseira! disse a crian&ccedil;a ao anjo; vamos
+busc&aacute;-la para que possa
+reflorir no para&iacute;so.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[38]</span>O anjo foi
+busc&aacute;-la, e abra&ccedil;ou a crian&ccedil;a.
+Colheram muitas flores
+brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A colheita estava terminada, e contudo n&atilde;o voavam ainda para
+Deus. Caiu
+a noite silenciosa, e a crian&ccedil;a e o seu guia Divino andavam
+ainda por
+cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
+de cacos de lou&ccedil;a, de vidros partidos, de farrapos, de toda
+a casta de
+imund&iacute;cie. Entre estes destro&ccedil;os distinguiu o
+anjo um vaso de flores
+com a terra pelo ch&atilde;o, onde pendiam as longas
+ra&iacute;zes duma flor dos
+campos, j&aacute; murcha, e que parecia n&atilde;o poder
+reverdecer: tinham-na
+atirado para a rua como in&uacute;til e morta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vale a pena levant&aacute;-la disse o anjo; levemo-la, e
+pelo caminho, voando,
+te contarei a hist&oacute;ria da florinha. L&aacute; ao fundo,
+l&aacute; ao fundo, naquela
+rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma crian&ccedil;a
+miser&aacute;vel e
+doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear
+com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos
+dias
+de Ver&atilde;o os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante
+meia hora.
+Ent&atilde;o a crian&ccedil;a sentada &agrave; janela,
+aquecida pelo sol, sem o cansa&ccedil;o do
+andar, imaginava-se passeando; n&atilde;o conhecia da floresta, da
+fresca
+verdura da primavera, sen&atilde;o o ramo de faia, que uma vez o
+filho do
+vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabe&ccedil;a
+o ramo
+verdejante, e, supondo-se debaixo das &aacute;rvores abrigadas do
+sol, sonhava
+com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe
+flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda
+ra&iacute;zes; <span class="pagenum">[39]</span>o
+pequerrucho plantou-a num vaso, e p&ocirc;-lo &agrave; janela,
+junto da
+cama. A flor plantada por m&atilde;o aben&ccedil;oada, cresceu,
+tornou-se grande, e
+todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu
+&uacute;nico
+tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
+aproveitar os raios do sol at&eacute; ao &uacute;ltimo. A flor
+aparecia-lhe em
+sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e
+ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se
+voltou.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no
+para&iacute;so; a sua querida
+flor, esquecida &agrave; janela desde ent&atilde;o, murchou,
+estiolou-se e
+atiraram-na &agrave; rua finalmente. E contudo esta flor quase seca
+&eacute; o
+tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
+canteiros dum jardim realengo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Como sabes tu isso?&raquo; perguntou a
+crian&ccedil;a, que o anjo levava para o c&eacute;u.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
+em muletas; como n&atilde;o havia de eu reconhecer a minha flor bem
+amada!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A crian&ccedil;a abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo
+quando entravam
+no c&eacute;u onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas
+flores,
+levou-as ao cora&ccedil;&atilde;o, mas a que ele beijou foi a
+florinha silvestre,
+desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente,
+p&ocirc;s-se a cantar
+com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe,
+formando c&iacute;rculos que v&atilde;o aumentando
+sucessivamente, multiplicando-se
+at&eacute; ao infinito, povoados de <span class="pagenum">[40]</span>seres
+inteiramente felizes, cantando todos
+harmoniosamente&#8213;desde a crian&ccedil;a aben&ccedil;oada
+at&eacute; &agrave; humilde florinha do
+campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e
+tortuosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[41]</span>
+<h2><a name="15"></a>Presente por presente</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite
+&agrave; choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda
+n&atilde;o tinha chegado, foi
+a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
+p&ocirc;de, desculpando-se da miser&aacute;vel hospitalidade
+que lhe ia dar, porque
+eram batatas cozidas a &uacute;nica coisa que lhe poderia oferecer;
+cama n&atilde;o a
+tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
+morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que
+fais&otilde;es,
+e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de
+pr&iacute;ncipes. Ao
+outro dia pela manh&atilde; disse isto mesmo &agrave; pobre
+mulher, gratificando-a ao
+despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
+dito que a guardasse como uma pequena lembran&ccedil;a, a boa
+camponesa julgou
+que seria uma medalha, e sentiu que n&atilde;o tivesse um buraquito
+para a
+trazer ao pesco&ccedil;o. Quando o carvoeiro chegou a casa,
+contou-lhe logo o
+que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
+examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[42]</span>&laquo;Esse
+forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso pr&iacute;ncipe!<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o bom do homem n&atilde;o podia conter-se de alegria, por sua
+alteza ter
+achado as suas batatas melhores do que fais&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;&Eacute; necess&aacute;rio confessar, disse ele com
+um ar triunfante, que n&atilde;o h&aacute;
+talvez no mundo um terreno mais favor&aacute;vel do que este para a
+cultura das
+batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, j&aacute; que as acha
+t&atilde;o boas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E partiu imediatamente para o pal&aacute;cio com uma
+provis&atilde;o de batatas
+escolhidas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os lacaios e as sentinelas ao princ&iacute;pio n&atilde;o o
+queriam deixar entrar;
+mas insistiu energicamente, dizendo que n&atilde;o vinha pedir
+nada, e que pelo
+contr&aacute;rio vinha trazer alguma coisa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi, pois, introduzido na sala da audi&ecirc;ncia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Meu senhor, disse ele ao pr&iacute;ncipe: Vossa alteza
+dignou-se recentemente
+pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma pe&ccedil;a de
+ouro, em troca
+duma enxerga miser&aacute;vel e de um prato de batatas cosidas. Era
+pagar
+demasiadamente, apesar de serdes um pr&iacute;ncipe muito rico e
+poderoso. Eis
+o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
+batatas, que vos souberam melhor do que os vossos fais&otilde;es.
+Dignai-vos
+aceit&aacute;-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso
+hospede, l&aacute;
+as encontrareis sempre ao vosso dispor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A honrada simplicidade do campon&ecirc;s agradou ao
+pr&iacute;ncipe, e, como estava
+num momento de bom humor, fez-lhe doa&ccedil;&atilde;o de uma
+quinta com trinta
+jeiras de terra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[43]</span>Ora o carvoeiro
+tinha um irm&atilde;o muito rico, mas invejoso e avarento, que,
+sabendo da fortuna do irm&atilde;o mais novo, disse consigo:
+&laquo;Porque n&atilde;o me h&aacute;
+de suceder a mim outro tanto? O pr&iacute;ncipe gosta do meu
+cavalo, pelo
+qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer
+presente dele: se deu ao Jo&atilde;o uma quinta com trinta jeiras
+de terra,
+simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me
+h&aacute; de
+recompensar ainda mais generosamente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
+pal&aacute;cio; recomendou ao criado que o segurasse, e,
+atravessando com ar
+altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audi&ecirc;ncia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo;
+n&atilde;o
+tenho querido troc&aacute;-lo a dinheiro, mas dignai-vos
+permitir-me que vo-lo
+ofere&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pr&iacute;ncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria
+chegar, e disse
+consigo: &laquo;Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que
+mereces:<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois dirigindo-se a ele:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Aceito a tua d&aacute;diva, mas n&atilde;o sei como
+agradecer-ta condignamente. Oh!
+espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
+fais&otilde;es. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que
+&eacute; um bom
+pre&ccedil;o para um cavalo, que eu poderia ter comprado por
+sessenta libras.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[44]</span>
+<h2><a name="16"></a>O pinheiro ambicioso</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um pinheiro, que n&atilde;o estava contente com a sua
+sorte. &laquo;Oh!
+dizia ele, como s&atilde;o horrorosas estas linhas uniformes de
+agulhas
+verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
+orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar
+vestido
+de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O G&eacute;nio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela
+manh&atilde; acordou o
+pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
+pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
+mais sensatos do que ele, n&atilde;o invejavam a sua
+r&aacute;pida fortuna. &Agrave; noite
+passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num
+saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos p&eacute;s
+&agrave; cabe&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Oh! disse ele, que doido que eu fui! n&atilde;o me tinha
+lembrado da cobi&ccedil;a
+dos homens. Fiquei completamente despido. N&atilde;o h&aacute;
+agora em toda a
+floresta uma planta t&atilde;o pobre como eu. Fiz mal em pedir
+folhas de oiro;
+o oiro atrai as ambi&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ah! se eu arranjasse um vestu&aacute;rio de vidro! Era <span class="pagenum">[45]</span>deslumbrante, e o judeu
+avarento n&atilde;o me teria despido.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
+sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e
+orgulhoso,
+fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o c&eacute;u
+cobriu-se de
+nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as
+folhas de cristal.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra
+todo feito em
+peda&ccedil;os o seu manto cristalino. O oiro e o vidro
+n&atilde;o servem para vestir
+as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria
+menos brilhante, mas viveria descansado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cumpriu-se o seu &uacute;ltimo desejo, e, apesar de ter renunciado
+&agrave;s vaidades
+primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
+outros pinheiros seus irm&atilde;os. Mas passou por ali um rebanho
+de cabras, e
+vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas
+todas sem deixar uma &uacute;nica.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, j&aacute; queria
+voltar &agrave; sua
+forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
+sua sorte.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[46]</span>
+<h2><a name="17"></a>Perfei&ccedil;&atilde;o
+das obras de Deus</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! mam&atilde; quebrou-se-me a agulha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Vou-te dar outra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Como se fazem as agulhas, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc; se adivinhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;N&atilde;o sei, mam&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Conheces os metais?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Conhe&ccedil;o mam&atilde;; tenho
+l&aacute; dentro muitos bocadinhos dentro de
+uma caixa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ora muito bem, diz-me
+l&aacute;, as agulhas s&atilde;o de pau, de pedra, de
+m&aacute;rmore?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! n&atilde;o; s&atilde;o de
+metal; mas de que metal?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Antes de perguntar qualquer coisa,
+v&ecirc; sempre se a adivinhas
+primeiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Ora espere!... uma agulha &eacute; de
+metal: n&atilde;o &eacute; de prata, porque
+n&atilde;o &eacute; branca; n&atilde;o &eacute; de
+oiro, porque n&atilde;o &eacute; de um lindo amarelo muito
+brilhante; n&atilde;o &eacute; de cobre, porque n&atilde;o
+&eacute; de um amarelo muito feio, que
+cheira mal... Ent&atilde;o &eacute; de ferro, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Adivinhaste.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Mas, mam&atilde;, o ferro
+n&atilde;o &eacute; liso e brilhante como as agulhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[47]</span><i>A
+m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; que &eacute; primeiro polido
+e preparado de certo modo, e depois j&aacute;
+se n&atilde;o chama ferro, &eacute; a&ccedil;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Bem, as agulhas s&atilde;o de
+a&ccedil;o. Agora quero adivinhar como &eacute; que
+as fazem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute;
+imposs&iacute;vel, n&atilde;o &eacute;s capaz disso; mas
+hei de levar-te a uma
+f&aacute;brica onde se fazem agulhas. H&aacute;s-de
+v&ecirc;-las fazer, e h&aacute;s-de gostar
+muito.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Tinha vontade de saber como se fazem todas
+as coisas de que
+nos servimos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tens raz&atilde;o;
+&eacute; uma vergonha ignor&aacute;-lo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Mam&atilde;, deixe-me ver as suas
+agulhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Olha, a&iacute; tens o meu
+estojo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que
+lindas! S&atilde;o t&atilde;o
+fininhas, t&atilde;o fininhas!... Muita habilidade h&aacute;-de
+ser necess&aacute;ria para
+fazer uma coisinha t&atilde;o delicada!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Lembras-te de ver na feira um
+carrinho de marfim puxado por
+uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Lembro, mam&atilde;; era t&atilde;o
+bonito!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Li num jornal alem&atilde;o
+que um oper&aacute;rio chamado Nerlinger fez
+um copo de um gr&atilde;o de pimenta, e que dentro deste copo havia
+mais
+doze...<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Que pequeninos deviam ser os doze copos
+para caberem num
+gr&atilde;o de pimenta!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;E ainda n&atilde;o
+&eacute; tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas
+doiradas, e sustentava-se no p&eacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Que vontade eu tinha de ver isso!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tens raz&atilde;o de te
+admirares da habilidade dos homens. &Eacute;
+efectivamente espantoso, e <span class="pagenum">[48]</span>deve
+saber-se, o modo porque se fabricam
+certas coisas; contudo ainda h&aacute; outras obras mais dignas de
+admira&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Quais, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;J&aacute; to digo. (<i>Levanta-se.</i>)<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Que quer, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Quero que vejas o
+microsc&oacute;pio de teu pap&aacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Pois sim; eu gosto de olhar pelo
+microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Este &eacute;
+magn&iacute;fico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais
+ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como
+&eacute; fina,
+lisa e brilhante... Agora olha; o que &eacute; que v&ecirc;s?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Meu Deus, que coisa t&atilde;o feia!
+Que agulha t&atilde;o grosseira!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc;s-lhe buracos, riscos,
+asperezas, n&atilde;o &eacute; verdade?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Parece um prego muito grande e muito mal
+feito.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Pois todas essas
+imperfei&ccedil;&otilde;es s&atilde;o verdadeiras, existem
+na
+agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, &eacute; que
+n&atilde;o d&aacute; por elas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;O oper&aacute;rio que fez esta agulha
+ficaria envergonhado, se a
+visse ao microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tiremos a agulha, e vejamos outra
+coisa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;O qu&ecirc;, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;O aguilh&atilde;ozinho de uma
+abelha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! que pequenino, que bonito!... Como
+&eacute; liso, como &eacute;
+brilhante!... Mas j&aacute; sei que visto ao microsc&oacute;pio
+h&aacute; de acontecer o
+mesmo que com a agulha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[49]</span><i>A
+m&atilde;e.</i>&#8213;Pronto: olha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha</i> (olhando).&#8213;&Eacute; esquisito,
+mam&atilde;!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ent&atilde;o?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Aumentou, aumentou como a agulha, mas
+n&atilde;o &eacute; &aacute;spero, pelo
+contrario, &eacute; perfeitamente liso... A agulha parecia que
+n&atilde;o tinha ponta,
+e o ferr&atilde;ozinho da abelha tem uma ponta t&atilde;o fina
+como um cabelo. Porque
+ser&aacute; isto, mam&atilde;?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; porque o
+oper&aacute;rio que fez este aguilh&atilde;o &eacute; muito
+mais h&aacute;bil
+do que o que fez a agulha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Quem &eacute; esse oper&aacute;rio
+t&atilde;o h&aacute;bil?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; o mesmo que fez o
+c&eacute;u, os astros, a terra, as plantas e as
+criaturas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;&Eacute; Deus.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Exactamente. Pois n&atilde;o
+&eacute; Deus que fez as abelhas e todos os
+animais?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;De certo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Foi ele por conseguinte que fez o
+aguilh&atilde;o desta abelha; e
+a&iacute; tens porque o aguilh&atilde;o &eacute; superior
+&agrave; agulha: &eacute; obra de Deus. Mas
+continuemos a olhar pelo microsc&oacute;pio. Aqui est&aacute;
+um pedacinho de
+musselina fin&iacute;ssima. Olha pelo microsc&oacute;pio; o que
+&eacute; que v&ecirc;s?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal
+feita.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Aqui tens agora um pedacinho de
+renda delicad&iacute;ssima.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Essa estou bem certa que h&aacute; de
+ser linda, mesmo vista pelo
+microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Ent&atilde;o?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;&Eacute; horrorosa... Parece feita de
+pelos grosseiros com grandes
+buracos desiguais.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;As obras do homem s&atilde;o
+todas assim.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[50]</span><i>A filha.</i>&#8213;Oh!
+mam&atilde;, vejamos agora as obras de Deus.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Sabes o que &eacute; isto?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Sei, mam&atilde;, &eacute; um
+casulo de bicho de seda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Os fiozinhos que o
+comp&otilde;em s&atilde;o muito finos, muito lisos; olha
+pelo microsc&oacute;pio a ver se te parecem desiguais.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha</i> (olhando pelo
+microsc&oacute;pio).&#8213;N&atilde;o, mam&atilde;; os fios
+s&atilde;o todos
+iguais, e o casulo &eacute; sempre muito liso, muito brilhante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;&Eacute; porque &eacute;
+obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que h&aacute;
+sobre este papel?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas
+redondas feitas
+tamb&eacute;m com tinta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Estes pontinhos e estas manchas
+parecem-te perfeitamente
+redondos?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Sim, mam&atilde;, perfeitamente
+redondos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;V&ecirc;-os agora ao
+microsc&oacute;pio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Oh! j&aacute; n&atilde;o
+s&atilde;o redondos, s&atilde;o todos desiguais.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Tira o papel; vejamos a obra de
+Deus. &Eacute; uma asa de borboleta;
+v&ecirc;s que est&aacute; mosqueada de pequeninas manchas
+redondas; olha pelo
+microsc&oacute;pio; o que &eacute; que v&ecirc;s?<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;Vejo a mesma coisa que via sem o vidro,
+s&oacute; com a diferen&ccedil;a
+que agora &eacute; maior. Que belas que s&atilde;o as obras de
+Deus!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;Merece bem a pena
+estud&aacute;-las.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A filha.</i>&#8213;De certo. Farei sempre por isso,
+comparando-as com as obras
+dos homens.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<i>A m&atilde;e.</i>&#8213;E sempre e em tudo
+h&aacute;s-de encontrar defeitos nas obras do
+homem, enquanto que <span class="pagenum">[51]</span>as
+obras de Deus, quanto mais se observam, mais
+perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
+primeira &eacute; que Deus merece tanto a nossa
+admira&ccedil;&atilde;o como o nosso amor; a
+segunda &eacute; que os homens orgulhosos s&atilde;o
+insensatos, porque n&atilde;o podem
+fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras
+mais primorosas s&atilde;o cheias de
+imperfei&ccedil;&otilde;es, se as compararmos com as
+obras do Criador.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[52]</span>
+<h2><a name="18"></a>Jo&atilde;o e os seus
+camaradas</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma vi&uacute;va com um filho &uacute;nico. Ao cabo
+dum Inverno rigoroso,
+possu&iacute;a apenas um galo, e meio alqueire de farinha.
+Jo&atilde;o resolveu-se a
+correr mundo, &agrave; busca de fortuna. A m&atilde;e cozeu o
+resto da farinha, matou
+o galo, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;O que &eacute; que preferes: metade desta merenda com a
+minha b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, ou toda
+com a minha maldi&ccedil;&atilde;o?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros
+h&aacute; no
+mundo eu quereria a tua maldi&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Bem, meu filho, replicou a m&atilde;e carinhosamente.
+Leva tudo, e Deus te
+aben&ccedil;oe.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E partiu. Foi andando, andando, at&eacute; que encontrou um
+jumento, que tinha
+ca&iacute;do num atoleiro, donde n&atilde;o podia sair.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Oh! Jo&atilde;o, exclamou o burro, tira-me daqui, que
+estou quase a
+afogar-me.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Espera, respondeu Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, formando uma ponte com pedras e ramos de &aacute;rvores,
+conseguiu tirar o
+quadr&uacute;pede do atoleiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[53]</span>&laquo;Obrigado,
+disse-lhe ele, aproximando-se de Jo&atilde;o. Se te posso ser
+&uacute;til,
+aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha
+vida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Queres tu que eu te acompanhe?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Anda da&iacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E puseram-se a caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao passarem por uma aldeia, viram um c&atilde;o perseguido pelos
+rapazes da
+escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
+animal correu para Jo&atilde;o que o acariciou, e o jumento
+p&ocirc;s-se a ornear de
+tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Obrigado, disse o rafeiro a Jo&atilde;o. Se para alguma
+coisa te for
+prest&aacute;vel, aqui me tens &agrave;s tuas ordens. Aonde
+vais tu?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha
+vida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Queres que te acompanhe?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Anda da&iacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando sa&iacute;ram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno
+tirou a
+merenda do alforge, e repartiu-a com o c&atilde;o. O burro pastou
+alguma erva
+que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar
+lastimosamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Coitado, exclamou Jo&atilde;o!&raquo; E deu-lhe uma asa do
+frango.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Obrigado disse o gato. Oxal&aacute; que um dia eu te
+possa ser &uacute;til. Aonde
+vais tu?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;De boa vontade.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[54]</span>Os quatro viajantes
+puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um
+grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
+galo na boca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Agarra! agarra!&raquo; bradou o pequeno ao
+c&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E no mesmo instante o c&atilde;o atirou-se atr&aacute;s da
+raposa, que, vendo-se em
+perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente
+disse a Jo&atilde;o:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde
+vais tu?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Arranjar trabalho. Queres vir connosco?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;De boa vontade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o anda. Se te cansares, empoleira-te no
+jumento.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro.
+Sentiram-se todos fatigados e n&atilde;o avistavam &agrave;
+roda nem uma quinta, nem
+uma cabana.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Paci&ecirc;ncia, disse Jo&atilde;o, outra vez
+seremos mais felizes. Resignemo-nos
+hoje a dormir ao ar livre; al&eacute;m disso a noite
+est&aacute; sossegada, e a relva
+&eacute; macia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dito isto estendeu-se no ch&atilde;o; o jumento deitou-se ao lado
+dele, o c&atilde;o
+e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo
+empoleirou-se numa &aacute;rvore.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dormiam todos um sono profund&iacute;ssimo, quando de repente o
+galo come&ccedil;ou
+a cantar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Que dem&oacute;nio! disse o jumento acordando todo
+zangado. Porque &eacute; que
+est&aacute;s a gritar?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Porque j&aacute; &eacute; dia, respondeu o galo.
+N&atilde;o v&ecirc;s ao longe a luz da
+madrugada, que vem rompendo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[55]</span>&#8213;&laquo;Vejo
+uma luz, disse Jo&atilde;o, mas n&atilde;o &eacute; do sol,
+&eacute; duma lanterna.
+Provavelmente h&aacute; ali alguma casa, onde nos
+poder&iacute;amos recolher o resto
+da noite.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando,
+atrav&eacute;s
+dos campos, at&eacute; que parou junto da casa do guarda dum grande
+castelo,
+donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
+blasf&eacute;mias horr&iacute;veis.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Escutem, disse Jo&atilde;o; vamos devagarinho, muito devagarinho,
+a ver quem
+&eacute; que est&aacute; l&aacute; dentro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram seis ladr&otilde;es armados de pistolas e de punhais, que se
+banqueteavam
+alegremente, sentados a uma mesa principesca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Que bom assalto acab&aacute;mos de dar, disse um deles,
+ao castelo do
+conde, gra&ccedil;as ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que
+&eacute; este
+porteiro. &Agrave; sua sa&uacute;de!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;&Agrave; sa&uacute;de do nosso amigo!&raquo;
+repetiram em coro todos os ladr&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E dum trago despejaram os copos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz
+baixa:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que
+vos der
+sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria
+diab&oacute;lica.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O burro, levantando-se nas patas traseiras, lan&ccedil;ou as
+m&atilde;os ao peitoril
+duma janela, o c&atilde;o trepou-lhe &agrave;
+cabe&ccedil;a, o gato &agrave; cabe&ccedil;a do
+c&atilde;o e o
+galo &agrave; cabe&ccedil;a do gato. Jo&atilde;o deu o
+sinal, e estoirou &agrave; uma o ornear do
+jumento, os latidos do c&atilde;o, o miar do gato e os gritos
+estridentes do
+galo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p56">[56]</a></span>&#8213;&laquo;Agora,
+bradou Jo&atilde;o, fingindo que comandava um destacamento,
+carregar
+armas! Dai-me cabo dos ladr&otilde;es; fogo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando
+cada vez mais; os ladr&otilde;es atemorizados refugiaram-se no
+bosque, saindo
+precipitadamente por uma porta falsa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o e os seus companheiros penetraram na sala abandonada,
+comeram um
+excelente jantar, e deitaram-se em seguida&#8213;Jo&atilde;o numa cama, o
+burro na
+cavalari&ccedil;a, o c&atilde;o numa esteira ao p&eacute;
+da porta, o gato junto do fog&atilde;o e
+o galo num poleiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao principio os ladr&otilde;es ficaram muito contentes, por se
+verem s&atilde;os e
+salvos na floresta. Mas depois, come&ccedil;aram a reflectir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Era bem melhor a minha cama, do que esta erva
+t&atilde;o h&uacute;mida, disse um
+deles.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Tenho pena do frango que eu come&ccedil;ava a saborear,
+disse um outro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;E o que &eacute; mais lament&aacute;vel, exclamou
+um quarto, &eacute; ficar-nos l&aacute; todo o
+dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, t&iacute;nhamos
+tirado das
+gavetas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vou ver se torno l&aacute; a <a href="#e1">entrar!</a>
+disse o capit&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bravo! exclamaram os ladr&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E p&ocirc;s-se a caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+J&aacute; n&atilde;o havia luz na casa; o capit&atilde;o
+entrou &agrave;s apalpadelas, e dirigiu-se
+para o fog&atilde;o; o gato saltou-lhe &agrave; cara e
+esfarrapou-lha com as garras.
+<span class="pagenum">[57]</span>Soltou um grito
+doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
+rabo do c&atilde;o, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo,
+e conseguiu
+por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo
+atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Anda o diabo nesta casa! exclamou o capit&atilde;o, como poderei
+eu sair!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julgou encontrar ref&uacute;gio na estrebaria; mas o burro
+atirou-lhe uma
+parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do ch&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que n&atilde;o
+tinha nem
+pernas nem bra&ccedil;os partidos, ergueu-se e tornou para a
+floresta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o? ent&atilde;o?&#8213;perguntaram-lhe os camaradas assim
+que o viram.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para
+me deitar e cataplasmas de linha&ccedil;a para p&ocirc;r neste
+corpo, que o trago
+num feixe. N&atilde;o podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui
+assaltado
+por uma velha que estava a cardar l&atilde;, e arrumou-me na cara
+com o
+sedeiro, deixando-me neste miser&aacute;vel estado. Quando ia a
+sair a porta,
+um dem&oacute;nio dum remend&atilde;o atravessou-me as pernas
+com a sovela. Logo
+depois Satan&aacute;s em pessoa atirou-se a mim,
+despeda&ccedil;ando-me com as garras.
+Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se
+voc&ecirc;s me n&atilde;o
+acreditam, v&atilde;o l&aacute;, e experimentem.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
+ensanguentado: N&atilde;o seremos n&oacute;s que l&aacute;
+tornaremos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pela manh&atilde;, Jo&atilde;o e os seus camaradas
+almo&ccedil;aram <span class="pagenum"><a name="p58">[58]</a></span>ainda excelentemente,
+e
+partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os
+ladr&otilde;es
+lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos,
+com que carregou o jumento. Foram andando, andando, at&eacute; que
+chegaram &agrave;
+porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com
+uma libr&eacute; espl&ecirc;ndida, meias de seda,
+cal&ccedil;&otilde;es escarlates e cabelo
+empoado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a <a href="#e2">Jo&atilde;o:</a><br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que vindes aqui buscar? N&atilde;o h&aacute; lugar para os
+recolher, v&atilde;o-se <a href="#e3">embora.</a>&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o queremos nada de ti, respondeu Jo&atilde;o. O dono
+do castelo far-nos-&aacute;
+um bom acolhimento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
+andar imediatamente, quando n&atilde;o atiro-lhes j&aacute;
+&agrave;s pernas os meus c&atilde;es de
+fila.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Perd&atilde;o, s&oacute; um instante, replicou o galo
+empoleirado na cabe&ccedil;a do
+jumento; n&atilde;o me poderias dizer quem &eacute; que abriu
+aos ladr&otilde;es na noite
+passada a porta do castelo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O porteiro corou. O conde que estava &agrave; janela, disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Oacute; Bernab&eacute;, responde ao que esse galo te acaba de
+perguntar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, replicou Bernab&eacute;, este galo &eacute; um
+miser&aacute;vel. N&atilde;o fui eu que
+abri a porta aos seis ladr&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como &eacute; ent&atilde;o, meu velhaco, tornou o conde, que
+tu sabes que eram seis?<br />
+
+
+<br />
+
+
+Seja como for, disse Jo&atilde;o, aqui lhe trazemos o <span class="pagenum">[59]</span>dinheiro roubado,
+pedindo-lhe unicamente que nos d&ecirc; de jantar e nos recolha
+esta noite,
+porque vimos cansados do caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ficai certos que sereis bem tratados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O burro, o c&atilde;o e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato
+ficou na
+cozinha. E enquanto a Jo&atilde;o, o conde reconhecido, vestiu-o
+dos p&eacute;s &agrave;
+cabe&ccedil;a com um vestu&aacute;rio magn&iacute;fico,
+deu-lhe um rel&oacute;gio de ouro, e
+disse-lhe:<br />
+
+
+&#8213;Queres ficar comigo? &Eacute;s esperto e honrado, ser&aacute;s
+o meu intendente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha
+m&atilde;e para o p&eacute; de si.
+Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre
+felic&iacute;ssimo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[60]</span>
+<h2><a name="19"></a>O rabequista</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma
+igreja magn&iacute;fica a Santa Cec&iacute;lia, padroeira dos
+m&uacute;sicos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+As rosas mais vermelhas e os l&iacute;rios mais c&acirc;ndidos
+enfeitavam o altar. O
+vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de
+oiro,
+feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava
+constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi l&aacute;
+em romaria
+um pobre rabequista, p&aacute;lido, magro, escaveirado. Como a
+jornada tinha
+sido muito longa, estava cansado, e j&aacute; no seu alforge
+n&atilde;o havia p&atilde;o nem
+dinheiro no bolso para o comprar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim que entrou na capela, come&ccedil;ou a tocar na sua rabeca
+com tal
+suavidade, com tanta express&atilde;o, que a santa ficou
+enternecida ao v&ecirc;-lo
+t&atilde;o pobre e ao escutar aquela m&uacute;sica deliciosa.
+Quando terminou, Santa
+Cec&iacute;lia abaixou-se, descal&ccedil;ou um dos seus ricos
+sapatos de ouro, e deu-o
+ao pobre m&uacute;sico, que tonto de alegria, dan&ccedil;ando,
+cantando, chorando,
+correu &agrave; loja dum ourives para lho vender. O ourives,
+reconhecendo o
+sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o &agrave;
+presen&ccedil;a <span class="pagenum">[61]</span>do
+juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado
+&agrave; morte.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegara o dia da execu&ccedil;&atilde;o. Os sinos dobravam
+lastimosamente, e o cortejo
+p&ocirc;s-se em marcha ao som dos c&acirc;nticos dos frades,
+que ainda assim n&atilde;o
+chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como
+&uacute;ltima gra&ccedil;a, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca
+at&eacute; ao &uacute;ltimo momento.
+O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam
+suplicou o triste desgra&ccedil;ado, que o levassem l&aacute;
+dentro para tocar a sua
+derradeira melodia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
+ajoelhou aos p&eacute;s da santa, e debulhado em
+l&aacute;grimas come&ccedil;ou a tocar.
+Ent&atilde;o o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa
+Cec&iacute;lia curvar-se de
+novo, descal&ccedil;ar o outro sapato e met&ecirc;-lo nas
+m&atilde;os do infeliz m&uacute;sico. &Agrave;
+vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o
+rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente
+prestar-lhe as mais honrosas homenagens.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[62]</span>
+<h2><a name="20"></a>Os p&ecirc;ssegos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco
+p&ecirc;ssegos
+magn&iacute;ficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes
+frutos,
+extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria.
+&Agrave;
+noite o pai perguntou-lhes:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o comeram os p&ecirc;ssegos?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o
+caro&ccedil;o, e
+hei-de plant&aacute;-lo para nascer uma
+&aacute;rvore.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fizeste bem, respondeu o pai, &eacute; bom ser
+econ&oacute;mico e pensar no futuro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse o mais novo, o meu p&ecirc;ssego comi-o logo, e a
+mam&atilde; ainda me deu
+metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade
+n&atilde;o admira;
+espero que quando fores maior te h&aacute;s-de corrigir.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pois eu c&aacute;, disse um terceiro, apanhei o caro&ccedil;o
+que o meu irm&atilde;o deitou
+fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz.
+Vendi
+o meu p&ecirc;ssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando
+for &agrave;
+cidade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pai meneou a cabe&ccedil;a:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[63]</span>&#8213;Foi uma ideia
+engenhosa, mas eu preferia menos c&aacute;lculo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E tu, Eduardo, provaste o teu p&ecirc;ssego?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho,
+ao Jorge, que est&aacute; coitadinho com febre. Ele n&atilde;o
+o queria, mas
+deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora bem, perguntou o pai, qual de v&oacute;s &eacute; que
+empregou melhor o p&ecirc;ssego
+que eu lhe dei?<br />
+
+
+<br />
+
+
+E os tr&ecirc;s pequenos disseram &agrave; uma:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Foi o mano Eduardo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Este no entanto n&atilde;o dizia palavra, e a m&atilde;e
+abra&ccedil;ou-o com os olhos
+arrasados de l&aacute;grimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[64]</span>
+<h2><a name="21"></a>A urna das
+l&aacute;grimas</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma vi&uacute;va, que tinha uma filhinha muito linda, a
+quem
+adorava sobre todas as coisas. N&atilde;o se separava dela um
+s&oacute; momento; mas
+um dia a pobre pequerrucha come&ccedil;ou a sofrer, adoeceu e
+morreu. A
+desditosa m&atilde;e, que tinha passado as noites e os dias, sem
+repousar um
+momento, &agrave; cabeceira da filha, julgou endoidecer de
+m&aacute;goa e de saudades.
+N&atilde;o comia, n&atilde;o fazia sen&atilde;o chorar e
+lamentar-se. Uma noite em que estava
+acabrunhada, chorando no mesmo s&iacute;tio em que a filha tinha
+morrido,
+abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua
+querida filha, sorrindo com uma express&atilde;o
+ang&eacute;lica e trazendo nas m&atilde;os
+uma urna, que vinha cheia at&eacute; &agrave;s bordas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Oh! minha querida m&atilde;e, disse-lhe ela,
+n&atilde;o chores mais. Olha, o anjo
+das l&aacute;grimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais,
+transbordar&aacute;, e as tuas l&aacute;grimas
+correr&atilde;o sobre mim, inquietando-me no
+t&uacute;mulo e perturbando a minha felicidade no
+para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pequenina desapareceu, e a m&atilde;e n&atilde;o tornou a
+chorar para a n&atilde;o
+afligir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[65]</span>
+<h2><a name="22"></a>Reconhecimento e
+ingratid&atilde;o</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os vossos filhos ser&atilde;o para v&oacute;s como
+v&oacute;s tiverdes sido para vossos pais.
+E &eacute; natural. As crian&ccedil;as v&ecirc;em
+diariamente o que fazem seus pais, e
+imitam-nos. Justifica-se desta maneira o prov&eacute;rbio que
+diz,&#8213;que a
+b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o ou a
+maldi&ccedil;&atilde;o dum pai cai sobre a cabe&ccedil;a de
+seus filhos,
+terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem
+ser meditados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um pr&iacute;ncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que
+andava muito
+satisfeito, a lavrar a terra. P&ocirc;s-se a conversar com ele.
+Depois
+de algumas perguntas, soube que o campo n&atilde;o pertencia ao
+homem, mas que
+trabalhava nele mediante um sal&aacute;rio de doze
+vint&eacute;ns por dia. O
+pr&iacute;ncipe, que para as suas despesas de
+administra&ccedil;&atilde;o e
+representa&ccedil;&atilde;o
+necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
+como se vivia com doze vint&eacute;ns di&aacute;rios,
+andando-se ainda por cima
+satisfeito. Manifestou o seu espanto ao alde&atilde;o, que lhe
+respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Gasto diariamente comigo a ter&ccedil;a parte dessa
+quantia; outro ter&ccedil;o &eacute;
+para pagar as minhas dividas; <span class="pagenum">[66]</span>e
+o resto &eacute; para ir juntando algumas
+economias.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era um novo enigma para o pr&iacute;ncipe. Mas o alegre
+campon&ecirc;s explicou-lho
+deste modo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que
+j&aacute; n&atilde;o podem
+trabalhar, e com os meus filhos, que ainda n&atilde;o t&ecirc;m
+for&ccedil;a para isso. Aos
+primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
+inf&acirc;ncia; e espero que os segundos n&atilde;o me
+abandonem, quando os anos
+tiverem pesado sobre mim.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pr&iacute;ncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado
+campon&ecirc;s; encarregou-se
+da educa&ccedil;&atilde;o de seus filhos; e a
+b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o que lhe deram os seus velhos
+pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando
+igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna
+dedica&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas posso desgra&ccedil;adamente citar-vos outro filho, que
+procedeu duma
+maneira t&atilde;o indigna com seu velho pai doente e aleijado, que
+este teve
+de pedir que o levassem para o hospital da miseric&oacute;rdia. O
+filho ingrato
+recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde
+foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
+muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como
+&uacute;ltima
+esmola, um par de len&ccedil;&oacute;is, para cobrir a palha
+que lhe servia de leito.
+O mau filho escolheu os len&ccedil;&oacute;is mais usados, e
+disse ao seu pequeno, de
+dez anos de idade, que os fosse levar <i>a esse velho rabujento</i>.
+Mas
+notou que a crian&ccedil;a ao partir tinha escondido um dos
+len&ccedil;&oacute;is a um canto,
+atr&aacute;s da porta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[67]</span>Quando voltou
+perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Foi, respondeu a crian&ccedil;a desabridamente, para me
+servir mais tarde
+deste len&ccedil;ol, quando pela minha vez te mandar
+tamb&eacute;m para o hospital.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[68]</span>
+<h2><a name="23"></a>O fato novo do
+sult&atilde;o</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um sult&atilde;o, que despendia em vestu&aacute;rio
+todo o seu rendimento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
+teatro, n&atilde;o tinha outro fim sen&atilde;o mostrar os seus
+fatos novos. Mudava
+de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Est&aacute;
+no conselho;
+dizia-se dele: Est&aacute;-se a vestir. A capital do seu reino era
+uma cidade
+muito alegre, gra&ccedil;as &agrave; quantidade de estrangeiros
+que por ali passavam;
+mas chegaram l&aacute; um dia dois lar&aacute;pios, que,
+dando-se por tecel&otilde;es,
+disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo.
+N&atilde;o
+s&oacute; eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores,
+mas al&eacute;m
+disso os vestu&aacute;rios feitos com esse estofo,
+possu&iacute;am uma qualidade
+maravilhosa: tornavam-se invis&iacute;veis para os idiotas e para
+todos
+aqueles que n&atilde;o exercessem bem o seu emprego.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;S&atilde;o vestu&aacute;rios impag&aacute;veis, disse
+consigo o sult&atilde;o; gra&ccedil;as a eles,
+saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
+dos ministros. Preciso desse estofo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E mandou em seguida adiantar aos dois charlat&atilde;es <span class="pagenum">[69]</span>uma quantia avultada,
+para que pudessem come&ccedil;ar os trabalhos imediatamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que
+trabalhavam, apesar de n&atilde;o haver absolutamente nada nas
+lan&ccedil;adeiras.
+Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo
+isso
+muito bem guardado, trabalhando at&eacute; &agrave; meia noite
+com os teares vazios.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Preciso saber se a obra vai adiantada&raquo;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo n&atilde;o podia ser
+visto pelos
+idiotas. E, apesar de ter confian&ccedil;a na sua
+intelig&ecirc;ncia, achou prudente
+em todo o caso mandar algu&eacute;m adiante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
+estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vou mandar aos tecel&otilde;es o meu velho ministro, pensou o
+sult&atilde;o; tem um
+grande talento, e por isso ningu&eacute;m pode melhor do que ele
+avaliar o
+estofo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
+com os teares vazios.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, n&atilde;o vejo
+absolutamente nada!&raquo; Mas no entanto calou-se. Os dois
+tecel&otilde;es
+convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opini&atilde;o
+sobre os
+desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
+olhava, mas n&atilde;o via nada, pela raz&atilde;o
+simplic&iacute;ssima de nada l&aacute; existir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu Deus! pensou ele, serei realmente est&uacute;pido?
+&Eacute; necess&aacute;rio que
+ningu&eacute;m o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas
+l&aacute;
+confessar que n&atilde;o vejo nada, isso &eacute; que eu
+n&atilde;o confesso.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[70]</span>&laquo;Ent&atilde;o
+que lhe parece?&raquo; perguntou um dos tecel&otilde;es:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Encantador, admir&aacute;vel! respondeu o ministro,
+pondo os &oacute;culos. Este
+desenho... estas cores... magn&iacute;fico!... Direi ao
+sult&atilde;o que fiquei
+completamente satisfeito.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Muito agradecido, muito agradecido&raquo;, disseram os
+tecel&otilde;es; e
+mostraram-lhe cores e desenhos imagin&aacute;rios, fazendo-lhe
+deles uma
+descri&ccedil;&atilde;o minuciosa. O ministro ouviu
+atentamente, para ir depois
+repetir tudo ao sult&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
+precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no
+bolso, &eacute; claro; o tear continuava vazio, e apesar disso
+trabalhavam
+sempre.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passado algum tempo, mandou o sult&atilde;o um novo
+funcion&aacute;rio, homem
+honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a
+este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e
+n&atilde;o
+via nada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o acha um tecido admir&aacute;vel?&raquo;
+perguntaram os tratantes, mostrando o
+magn&iacute;fico desenho e as belas cores, que tinham apenas o
+inconveniente
+de n&atilde;o existir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas que diabo! Eu n&atilde;o sou tolo! dizia o homem consigo. Pois
+n&atilde;o serei
+eu capaz de desempenhar o meu lugar? &Eacute; esquisito! mas
+deix&aacute;-lo, n&atilde;o o
+deixo eu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua
+admira&ccedil;&atilde;o pelo
+desenho e o bem combinado das cores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; duma magnific&ecirc;ncia incompar&aacute;vel,
+disse <span class="pagenum">[71]</span>ele ao
+sult&atilde;o. E toda a
+cidade come&ccedil;ou a falar desse tecido
+extraordin&aacute;rio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Enfim o pr&oacute;prio sult&atilde;o quis v&ecirc;-lo
+enquanto estava no tear. Com um grande
+acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois
+honrados funcion&aacute;rios, dirigiu-se para as oficinas, em que
+os dois
+velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem
+de
+esp&eacute;cie alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o acha magn&iacute;fico? disseram os dois honrados
+funcion&aacute;rios. O desenho
+e as cores s&atilde;o dignos de vossa alteza.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali
+estavam
+pudessem ver alguma coisa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que &eacute; isto! disse consigo mesmo o sult&atilde;o,
+n&atilde;o vejo nada! &Eacute; horr&iacute;vel!
+serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que
+desgra&ccedil;a que me
+acontece!&raquo; Depois de repente exclamou:
+&laquo;&Eacute; magn&iacute;fico! Testemunho-vos a
+minha satisfa&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E meneou a cabe&ccedil;a com um ar satisfeito, e olhou para o tear,
+sem se
+atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu
+s&eacute;quito olharam do
+mesmo modo, uns atr&aacute;s dos outros, mas sem ver coisa alguma,
+e no entanto
+repetiam como o sult&atilde;o: &laquo;&Eacute;
+magn&iacute;fico!&raquo; At&eacute; lhe aconselharam a que
+se
+apresentasse com o fato novo no dia da grande prociss&atilde;o.
+&laquo;&Eacute; magn&iacute;fico! &eacute;
+encantador! &eacute; admir&aacute;vel!&raquo; exclamavam
+todas as bocas, e a satisfa&ccedil;&atilde;o era
+geral.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
+tecel&otilde;es.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na v&eacute;spera do dia da prociss&atilde;o passaram a noite
+em claro, trabalhando &agrave;
+luz de dezasseis velas. <span class="pagenum">[72]</span>Finalmente
+fingiram tirar o estofo do tear,
+cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem
+fio,
+e declararam, depois disto, que estava o vestu&aacute;rio
+conclu&iacute;do.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O sult&atilde;o com os seus ajudantes de campo foi
+examin&aacute;-lo, e os impostores
+levantando um bra&ccedil;o, como para sustentar alguma coisa,
+disseram:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Eis as cal&ccedil;as, eis a casaca, eis o manto. Leve
+como uma teia de aranha;
+&eacute; a principal virtude deste tecido.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os
+lar&aacute;pios,
+provar-lhe-&iacute;amos o fato diante do espelho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O sult&atilde;o despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe
+as cal&ccedil;as,
+depois a casaca, depois o manto. O sult&atilde;o tudo era voltar-se
+defronte do
+espelho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os
+cortes&atilde;os.
+Que desenho! que cores! que vestu&aacute;rio
+incompar&aacute;vel!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto entrou o gr&atilde;o-mestre de cerim&oacute;nias.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; &agrave; porta o dossel sobre que vossa alteza
+deve assistir &agrave; prociss&atilde;o,
+disse ele.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bom! estou pronto, respondeu o sult&atilde;o. Parece-me que
+n&atilde;o vou mal.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do
+seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto,
+n&atilde;o
+querendo confessar que n&atilde;o viam absolutamente nada, fingiam
+arrega&ccedil;&aacute;-la.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, enquanto o sult&atilde;o caminhava altivo sob um <span class="pagenum">[73]</span>dossel deslumbrante, toda a
+gente na rua e &agrave;s janelas exclamava: &laquo;Que
+vestu&aacute;rio magn&iacute;fico! Que
+cauda t&atilde;o graciosa! Que talhe elegante!&raquo;
+Ningu&eacute;m queria dar a perceber,
+que n&atilde;o via nada, porque isso equivalia a confessar que se
+era tolo.
+Nunca os fatos do sult&atilde;o tinham sido t&atilde;o
+admirados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas parece que vai em cuecas&raquo;, observou um pequerrucho, ao
+colo do
+pai.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; a voz da inoc&ecirc;ncia, disse o pai.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;H&aacute; ali uma crian&ccedil;a que diz que o
+sult&atilde;o vai em cuecas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;Vai em cuecas! vai em cuecas!&raquo; exclamou o povo
+finalmente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O sult&atilde;o ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente
+era
+verdade. Entretanto tomou a en&eacute;rgica
+resolu&ccedil;&atilde;o de ir at&eacute; ao fim, e os
+camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
+imagin&aacute;ria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[74]</span>
+<h2><a name="24"></a>Boa senten&ccedil;a</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma
+quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil
+r&eacute;is
+de alv&iacute;ssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em
+casa um honrado
+campon&ecirc;s levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro,
+e disse:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Deviam ser oitocentos mil r&eacute;is, que foi a quantia que eu
+perdi; no
+alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
+adiantados os cem mil r&eacute;is de alv&iacute;ssaras: estamos
+pagos por conseguinte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O bom campon&ecirc;s, que nem por sombras tocara no dinheiro,
+n&atilde;o podia nem
+devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o
+juiz,
+que, vendo a m&aacute; f&eacute; do avarento, deu a seguinte
+senten&ccedil;a:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Um de v&oacute;s perdeu oitocentos mil r&eacute;is; o outro
+encontrou um alforge
+apenas com setecentos: Resulta da&iacute; claramente que o dinheiro
+que o
+&uacute;ltimo encontrou n&atilde;o pode ser o mesmo a que o
+primeiro se julga com
+direito. Por consequ&ecirc;ncia tu, meu bom homem, leva o dinheiro
+que
+encontraste, <span class="pagenum">[75]</span>e
+guarda-o at&eacute; que apare&ccedil;a o indiv&iacute;duo
+que perdeu somente
+setecentos mil r&eacute;is. E tu, o &uacute;nico conselho que
+passo a dar-te, &eacute; que
+tenhas paci&ecirc;ncia at&eacute; que apare&ccedil;a
+algu&eacute;m que tenha achado os teus
+oitocentos mil r&eacute;is.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[76]</span>
+<h2><a name="25"></a>Os animais agradecidos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
+perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este
+respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Senhor: eu sou um desgra&ccedil;ado, um
+miser&aacute;vel; nasci no vosso reino, e
+chamo-me <i>Ingratid&atilde;o</i>.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei,
+tomava-te ao meu
+servi&ccedil;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
+Desde que chegaram a pal&aacute;cio, deu tais provas de habilidade,
+mostrou-se
+t&atilde;o esperto e t&atilde;o sol&iacute;cito, que o rei
+afei&ccedil;oou-se-lhe de tal modo, que
+o nomeou seu intendente, confiando-lhe a
+administra&ccedil;&atilde;o da sua casa.
+Deslumbrado por uma fortuna t&atilde;o r&aacute;pida, o seu
+orgulho desde ent&atilde;o n&atilde;o
+conheceu limites; maltratava os inferiores, e n&atilde;o tinha
+compaix&atilde;o dos
+desventurados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ora, na vizinhan&ccedil;a do pal&aacute;cio havia uma floresta
+cheia de animais
+selvagens e perigos&iacute;ssimos. O intendente mandou
+a&iacute; fazer por toda a
+parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras,
+caindo
+dentro, pudessem ser agarradas. <span class="pagenum">[77]</span>Um
+dia que o intendente atravessava a
+floresta, ia t&atilde;o absorvido pelos seus pensamentos
+orgulhosos, que se
+precipitou ele mesmo dentro duma das covas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passado um instante, caiu um le&atilde;o dentro do mesmo
+po&ccedil;o; caiu depois um
+lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
+governador, ao ver-se em t&atilde;o extraordin&aacute;ria
+companhia, ficou t&atilde;o
+horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a
+esperan&ccedil;a de
+salva&ccedil;&atilde;o lhe parecia inteiramente perdida, porque
+por mais que gritasse,
+ningu&eacute;m o vinha socorrer.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
+chamado Ant&oacute;nio, que todos os dias ia rachar lenha
+&agrave; floresta, para
+ganhar o p&atilde;o necess&aacute;rio &agrave; sua mulher e
+aos seus filhos. Ant&oacute;nio tamb&eacute;m
+l&aacute; foi nesse dia, como de costume, e p&ocirc;s-se a
+trabalhar n&atilde;o longe da
+cova em que ca&iacute;ra o intendente, cujos gritos de
+afli&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tardou a
+ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
+ali.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Sou o governador do pal&aacute;cio do rei, e, se me
+tirares daqui, prometo
+encher-te de riquezas; estou em companhia dum le&atilde;o, dum lobo
+e duma
+enorme serpente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Eu, respondeu o lenhador, sou um miser&aacute;vel
+jornaleiro, n&atilde;o tendo para
+sustentar a minha fam&iacute;lia, mais que o produto do meu
+trabalho; bastava
+um dia perdido para me causar um grande desarranjo; v&ecirc;
+l&aacute; pois, se
+cumpres a tua promessa?<br />
+
+
+<br />
+
+
+O intendente continuou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Pela f&eacute; que devo a Deus e a el-rei nosso senhor,
+<span class="pagenum">[78]</span>juro-te que
+cumprirei a minha palavra.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Confiado nisto o rachador de lenha foi &agrave; cidade, e voltou
+com uma corda
+muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O le&atilde;o
+atirou-se a
+ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
+o intendente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou acima, o le&atilde;o agradeceu ao seu salvador com a
+maior
+amabilidade, e foi-se embora &agrave; procura de jantar, porque
+tinha fome.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio deitou outra vez a corda ao fundo do
+po&ccedil;o, e, julgando tirar o
+governador, enganou-se, porque era o lobo; &agrave; terceira vez
+subiu a
+serpente; foi necess&aacute;rio fazer uma quarta tentativa, para
+sair o
+governador. Este n&atilde;o perdeu tempo em agradecimentos, e
+partiu a correr
+para o pal&aacute;cio. O jornaleiro voltou para casa, e contou
+&agrave; mulher tudo o
+que se tinha passado, n&atilde;o lhe esquecendo, &eacute;
+claro, as brilhantes
+promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manh&atilde;,
+foi o pobre
+homem bater &agrave; porta do pal&aacute;cio. O porteiro
+perguntou-lhe o que queria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Fa&ccedil;a-me o favor, respondeu o rachador de dizer a
+s.ex.&ordf; o intendente
+que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja
+falar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Vai dizer a esse homem, que eu n&atilde;o vi
+ningu&eacute;m na floresta; que se
+ponha a andar, porque o n&atilde;o conhe&ccedil;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pobre homem tornou para casa mui descor&ccedil;oado, <span class="pagenum">[79]</span>e contou &agrave;
+mulher a
+odiosa perf&iacute;dia de que tinha sido vitima.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A mulher disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Tem paci&ecirc;ncia; o sr. intendente estava hoje
+decerto muito ocupado, e
+foi talvez por isso que te n&atilde;o p&ocirc;de
+receber.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu
+esperan&ccedil;as.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na manh&atilde; seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo
+&agrave; porta do pal&aacute;cio.
+Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos &aacute;speros, que
+n&atilde;o tornasse
+ali a aparecer, quando n&atilde;o ver-se-ia obrigado a empregar
+meios
+violentos. A mulher ainda desta vez procurou consol&aacute;-lo:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Experimenta terceira e &uacute;ltima vez, disse-lhe
+ela, talvez Deus o
+inspire melhor. E se assim n&atilde;o for, ainda que te custe,
+n&atilde;o penses mais
+nisso.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte o bom do homem voltou &agrave; carga; e tendo o
+porteiro
+consentido &agrave; for&ccedil;a de suplicas em
+anunci&aacute;-lo ainda ao governador, este
+encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre
+homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do
+ch&atilde;o. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com
+um
+burro, p&ocirc;s-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As
+feridas
+levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se
+obrigado a contrair dividas para pagar ao m&eacute;dico. Quando
+finalmente
+tinha recobrado algumas for&ccedil;as, voltou ao bosque segundo o
+costume para
+fazer alguma lenha. Apenas l&aacute; chegou, apareceu-lhe o
+le&atilde;o, que ele
+tinha ajudado a sair do po&ccedil;o. O le&atilde;o conduzia um
+burro diante de si, e
+<span class="pagenum">[80]</span>este burro estava
+carregado de sacos cheios de preciosidades. O le&atilde;o,
+vendo Ant&oacute;nio, parou e inclinou-se diante dele com um ar de
+respeitoso
+agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal
+de que ficasse com o jumento. Ant&oacute;nio doido de alegria levou
+o animal
+para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte, voltando de novo &agrave; floresta, apareceu-lhe o
+lobo, que
+o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto
+lhe era agradecido. Quando a tarefa estava conclu&iacute;da, e
+tinha carregado
+o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha
+tirado do f&ocirc;jo, e que trazia na ponta da l&iacute;ngua
+uma pedra preciosa, em
+que brilhavam tr&ecirc;s cores,&#8213;o branco, o preto e o vermelho.
+Quando a
+serpente chegou ao p&eacute; do rachador de lenha, deixou cair a
+pedra junto
+dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal.
+Ant&oacute;nio
+levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
+propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho,
+afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
+assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia.
+Ant&oacute;nio respondeu-lhe que a n&atilde;o queria vender,
+mas simplesmente saber se
+seria boa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O velho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;S&atilde;o tr&ecirc;s as virtudes desta pedra:
+abund&acirc;ncia cont&iacute;nua, alegria
+imperturb&aacute;vel e luz sem trevas. Se algu&eacute;m ta
+comprar por menos dinheiro
+do que vale, tornar&aacute; imediatamente para a tua
+m&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio ficou muito contente com esta resposta, <span class="pagenum">[81]</span>agradeceu ao velho da
+ci&ecirc;ncia maravilhosa, e correu a contar &agrave; mulher a
+sua felicidade. Como
+se imagina, gra&ccedil;as &agrave; virtude da famosa pedra,
+n&atilde;o lhe faltaram da&iacute; em
+diante, nem honras nem riquezas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou
+chamar Ant&oacute;nio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso
+talism&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio, vendo que semelhante desejo era uma ordem,
+respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me
+n&atilde;o for paga
+pelo que vale, tornar&aacute; ela mesma para o meu poder.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Hei de pagar-ta bem, disse o rei.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de
+manh&atilde;,
+Ant&oacute;nio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher
+sabendo isto
+disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Torna a lev&aacute;-la ao rei imediatamente;
+n&atilde;o v&aacute; ele persuadir-se que
+lha furtaste.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou &agrave;
+presen&ccedil;a de sua
+majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
+preciosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de
+ferro,
+fechado com sete chaves, disse o rei.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio mostrou-lhe ent&atilde;o a j&oacute;ia
+preciosa, e o rei ficou
+extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido
+semelhante tesouro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ant&oacute;nio contou-lhe tudo que tinha havido, a
+ingratid&atilde;o do governador e o
+reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o
+seu
+intendente, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[82]</span>&#8213;&laquo;Homem
+perverso, com justo motivo te puseram o nome de <i>Ingratid&atilde;o</i>,
+porque &eacute;s mais falso e mais p&eacute;rfido que os
+animais ferozes, e pagaste
+com o mal o bem que te fizeram. Mas justi&ccedil;a ser&aacute;
+feita. Dou a Ant&oacute;nio as
+tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
+enforcado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Admiraram todos a senten&ccedil;a do rei, e Ant&oacute;nio
+desempenhou as suas altas
+fun&ccedil;&otilde;es com tanta sabedoria e bondade, que depois
+da morte do rei foi
+escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos
+gloriosos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[83]</span>
+<h2><a name="26"></a>O ermit&atilde;o</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um homem, animado pela mais ardente cren&ccedil;a religiosa,
+deliberou
+retirar-se a uma gruta solit&aacute;ria para se consagrar
+inteiramente ao
+trabalho da sua salva&ccedil;&atilde;o. Jejuando sempre,
+orando, ciliciando-se, os
+seus pensamentos n&atilde;o se desviavam nunca da ideia de Deus.
+Depois de ter
+assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que
+j&aacute; tinha
+merecido um lugar glorioso no para&iacute;so, e podia ser contado
+entre os
+santos mais not&aacute;veis.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;H&aacute; no mundo um pobre m&uacute;sico, que anda de porta
+em porta, tocando viola
+e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O ermit&atilde;o, at&oacute;nito, ao ouvir estas palavras,
+levantou-se, agarrou no
+seu bord&atilde;o, foi em busca do m&uacute;sico e mal o
+encontrou disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Irm&atilde;o, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que
+ora&ccedil;&otilde;es e
+penit&ecirc;ncias te tornaste agrad&aacute;vel a Deus.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora, respondeu-lhe o m&uacute;sico, abaixando a cabe&ccedil;a,
+santo padre, n&atilde;o
+zombes de mim. Nunca fiz <span class="pagenum">[84]</span>boas
+obras, e quanto a ora&ccedil;&otilde;es n&atilde;o as sei,
+pobre de mim, que sou um pecador. O que fa&ccedil;o &eacute;
+andar de casa em casa a
+divertir os outros.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O austero ermit&atilde;o continuou a insistir:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Estou certo que, no meio da tua exist&ecirc;ncia vagabunda,
+praticaste algum
+acto de virtude.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Em verdade n&atilde;o poderia citar nem um
+s&oacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o como chegaste a este estado de pobreza? Tens
+vivido
+loucamente como os que exercem a tua profiss&atilde;o? Dissipaste
+frivolamente
+o teu patrim&oacute;nio e o produto do teu
+of&iacute;cio?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo
+marido e
+filhos tinham sido condenados &agrave; escravid&atilde;o para
+pagar uma d&iacute;vida. Essa
+mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa,
+protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possu&iacute;a
+para resgatar a
+sua fam&iacute;lia, e levei-a &agrave; cidade, onde ela devia
+encontrar-se com seu
+marido e com seus filhos. Mas quem n&atilde;o teria feito outro
+tanto?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras o ermit&atilde;o p&ocirc;s-se a chorar, e
+exclamou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nos meus setenta anos de solid&atilde;o nunca pratiquei uma obra
+t&atilde;o
+merit&oacute;ria, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto
+que tu n&atilde;o
+passas dum pobre m&uacute;sico.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[85]</span>
+<h2><a name="27"></a>Carlos Magno e o abade de
+S. Gall</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
+pregui&ccedil;osamente reclinado sobre almofadas &agrave; porta
+da abadia, fresco,
+rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens
+en&eacute;rgicos e
+activos, e o abade era indolente. Al&eacute;m disso o imperador
+tinha mais
+dum motivo de queixa contra ele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter
+&agrave;
+sua esclarecida raz&atilde;o tr&ecirc;s perguntas,
+&agrave;s quais ter&aacute; a bondade de me
+responder daqui a tr&ecirc;s meses, contados dia a dia, em
+sess&atilde;o solene do
+nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
+dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao
+mundo;
+em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+rev.<sup>ma</sup> vier &agrave; minha
+presen&ccedil;a, pensamento que deve ser um erro. Trate
+de arranjar resposta satisfat&oacute;ria a tudo, ali&aacute;s
+deixa de ser abade de S.
+Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada
+para o rabo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O abade n&atilde;o sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as
+escolas, mas
+os doutores mais <span class="pagenum">[86]</span>famosos
+pela sua ci&ecirc;ncia, n&atilde;o lhe souberam dar
+resposta. No entanto os dias iam correndo, e a &eacute;poca fatal
+aproximava-se; j&aacute; n&atilde;o faltava sen&atilde;o um
+m&ecirc;s, j&aacute; n&atilde;o faltavam sen&atilde;o
+semanas, e afinal s&oacute; dias. O abade, que noutro tempo era
+gordo e
+anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite.
+Andava errante nos bosques lamentando a sua desgra&ccedil;a, quando
+se
+encontrou com o seu pastor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bons dias senhor abade. Parece que est&aacute; mais magro!
+Est&aacute; doente?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Estou, meu caro F&eacute;lix, estou muito doente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa
+curar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Infelizmente n&atilde;o s&atilde;o ervas que eu preciso, mas
+resposta &agrave;s minhas tr&ecirc;s
+perguntas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; ent&atilde;o latim?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; latim, sen&atilde;o os
+doutores tinham-me arranjado tudo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Visto que n&atilde;o &eacute; latim, queira v. rev.<sup>ma</sup>
+dizer-me o que &eacute;: minha m&atilde;e
+era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando o abade lhe formulou as tr&ecirc;s perguntas, o pastor
+atirou com o
+barrete ao ar, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Se &eacute; apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v.
+rev.<sup>ma</sup>
+pode continuar a engordar; mas para isso &eacute;
+necess&aacute;rio que eu vista o seu
+h&aacute;bito.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou o dia, o pastor disfar&ccedil;ado com o
+h&aacute;bito do abade de S.
+Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
+imperial.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o, senhor abade, parece que est&aacute; mais magro,
+deu-lhe muito que
+pensar a chave do <span class="pagenum">[87]</span>enigma?
+Vamos l&aacute; a ver a primeira pergunta: Quanto
+valho eu em dinheiro?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por
+trinta dinheiros, sua majestade vale &agrave; justa vinte e nove,
+s&oacute; um
+dinheiro menos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bravo, senhor abade, a resposta &eacute; h&aacute;bil, e na
+realidade n&atilde;o posso
+deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos &agrave; segunda
+pergunta, n&atilde;o h&aacute; de
+ser t&atilde;o f&aacute;cil dar a resposta. Vamos l&aacute;
+a ver: quanto tempo levaria eu a
+dar a volta ao mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir
+constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
+quatro horas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Decididamente, v. rev.<sup>ma</sup> &eacute; um grande
+fin&oacute;rio, e desta vez,
+confesso-me vencido; mas a terceira, n&atilde;o dessas &agrave;
+que se responde com
+suposi&ccedil;&otilde;es. Quem lhe h&aacute; de dizer o que
+eu estou pensando, e como me h&aacute;
+de provar que este pensamento &eacute; um erro? Tem a palavra
+senhor abade.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall;
+est&aacute;
+enganado, porque eu sou o seu pastor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o tu &eacute; que deves ser o abade de S. Gall,
+e desde j&aacute; o ficas
+sendo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um
+favor,
+pe&ccedil;o-lhe outra coisa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o tens mais que falar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pe&ccedil;o a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos Magno n&atilde;o era homem que faltasse &agrave; sua
+palavra.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+<h2><a name="28"></a>A boneca</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma hist&oacute;ria&#8213;a
+hist&oacute;ria duma
+boneca!<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o h&aacute; muitos anos, mas ainda n&atilde;o era
+a Cordoaria do Porto o ameno
+jardim, onde a inf&acirc;ncia folga por entre maci&ccedil;os de
+flores e sob o
+sorriso do sol, sem que lhe enegre&ccedil;a o esp&iacute;rito a
+vista dos dois
+monumentos, que a meu ver simbolisam as duas mais horr&iacute;veis
+calamidades,
+que podem aniquilar um homem&#8213;o hospital e a cadeia!&#8213;ainda
+n&atilde;o h&aacute;
+muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
+feira, divertindo-me a meu modo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cansado das in&uacute;meras figuras, que tinha visto passar por
+aquela
+esp&eacute;cie de lanterna m&aacute;gica, dispunha-me a dar por
+findo o espect&aacute;culo,
+quando novos personagens me chamaram a aten&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram os meus vizinhos <i>ricos</i>.
+<br />
+
+
+Aqui &eacute; preciso uma r&aacute;pida
+explica&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Das fam&iacute;lias da minha vizinhan&ccedil;a, s&oacute;
+conhe&ccedil;o tr&ecirc;s.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Qual destas tr&ecirc;s fam&iacute;lias ser&aacute; mais
+feliz?...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pelo que tenho notado, n&atilde;o t&ecirc;m que invejar umas
+&agrave;s outras.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[89]</span>S&atilde;o
+todas felizes; cada qual a seu modo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vi, pois, chegar os meus vizinhos <i>ricos</i>.
+<br />
+
+
+Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chap&eacute;u
+na m&atilde;o e
+dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou,
+tomou nos bra&ccedil;os a filhinha e dep&ocirc;-la no
+ch&atilde;o, e oferecendo, em
+seguida, a m&atilde;o &agrave; esposa, para a ajudar a apear,
+dirigiu-se com ela e
+com a menina para a barraca onde eu estava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o havia ali segredo a surpreender.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
+parecia agradecer &agrave;quela formosa crian&ccedil;a a
+manifesta&ccedil;&atilde;o de qualquer
+desejo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No fim de meia hora possu&iacute;a a minha pequena vizinha com que
+fazer a
+felicidade de dez crian&ccedil;as menos abastadas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tinha o necess&aacute;rio para montar completamente a casa duma
+boneca...
+<i>rica</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Faltava apenas a dona da casa&#8213;a boneca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todo risos e aten&ccedil;&otilde;es, o lojista apresentou o que
+tinha de melhor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois de muita hesita&ccedil;&atilde;o e de, j&aacute; com
+os olhos, j&aacute; com a voz, consultar
+a mam&atilde;, a gentil crian&ccedil;a acabou por escolher uma
+magn&iacute;fica boneca de
+dois palmos de altura, com cabelo em <i>bandeaux</i> e
+olhos azuis.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma boneca como as outras: cabe&ccedil;a e colo de massa, corpo de
+pelica
+recheada, bra&ccedil;os e pernas de pau.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma vive na loja da casa, que habito. &Eacute; uma tribo de
+crian&ccedil;as, que fazem
+o mart&iacute;rio e a alegria da pobre m&atilde;e, e tem por
+chefe um honrado
+sapateiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[90]</span>Alguns deles, se
+andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
+anjos, ca&iacute;dos do c&eacute;u sobre um monte de lama.<br />
+
+
+<br />
+
+
+S&atilde;o os meus vizinhos <i>pobres</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A segunda comp&otilde;e-se de marido, mulher e filha, e ocupa a
+casa
+imediata.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; como se costuma dizer, gente <i>que vai muito bem
+com a sua vida</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A filha que ter&aacute; dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e
+carnudas,
+cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem
+&agrave;
+press&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+S&atilde;o os meus vizinhos <i>remediados</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A terceira &eacute; a dos meus vizinhos <i>ricos</i>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Casa nobre, jardim espa&ccedil;oso, cavalos, criados, nome inscrito
+nas
+listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+estado&#8213;nada falta &agrave;quela ditosa gente!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Comp&otilde;e-se igualmente de marido, mulher e filha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que formosa crian&ccedil;a!... Ter&aacute; oito anos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Franzina e p&aacute;lida, com os cabelos negros, os olhos grandes e
+cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas m&atilde;os de dedos
+compridos e
+esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que
+n&atilde;o
+sinta antecipada inveja do feliz namorado&#8213;provavelmente ainda a
+crescer&#8213;que h&aacute;-de um dia ter o direito de lhas cobrir de
+beijos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas
+aquelas preciosidades de sobre o balc&atilde;o da barraca para
+dentro do
+carro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocr&aacute;tica
+crian&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[91]</span>Sa&iacute;
+dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo at&eacute; casa
+variad&iacute;ssimas
+considera&ccedil;&otilde;es, sugeridas pela quase
+indiferen&ccedil;a, com que aquela menina
+recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que contraste com os olhares de cobi&ccedil;a, com que outras
+raparigas da
+mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabe&ccedil;a de pano,
+horr&iacute;vel
+artefacto portugu&ecirc;s, em que os olhos s&atilde;o
+representados por dois pontos
+de linha azul, o nariz por um alinhavo de retr&oacute;s cor de
+rosa, a boca por
+outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de l&atilde; preta!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando cheguei a casa, j&aacute; na dos meus vizinhos remediados
+n&atilde;o havia luz.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na dos meus vizinhos <i>pobres</i>, o pai batia a sola,
+cantando ao som de
+tr&ecirc;s assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos,
+por lavar,
+provocavam os ralhos da m&atilde;e.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando, no dia seguinte, cheguei &agrave; janela, seriam onze horas
+da manh&atilde;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na rua agenciavam nova camada de imund&iacute;cie os filhos do
+sapateiro; na
+casa imediata n&atilde;o se via ningu&eacute;m&#8213;estava a pequena
+na mestra; no
+pal&aacute;cio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da
+varanda,
+divertia-se a minha pequena milion&aacute;ria fazendo rodar, com
+aux&iacute;lio duma
+linha, uma magn&iacute;fica <i>caleche</i> descoberta,
+puxada por cavalos brancos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dentro da <i>caleche</i> pavoneava-se a boneca
+opulentamente vestida.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;A&iacute; est&aacute; a tua caricatura, minha
+feiticeira!...&raquo;&#8213;disse eu de mim
+para mim. &laquo;Ensaias <span class="pagenum">[92]</span>nas
+bonecas o que v&ecirc;s no mundo a que pertences!...
+Est&aacute;s a aprender a copiar... Sempre este mundo!...&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Retirei-me da janela.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
+vestia tr&ecirc;s e quatro vezes!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao que eu, por&eacute;m, achava mais gra&ccedil;a, era ao
+respeito com que a dona a
+tratava!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chamava-lhe sr.<sup>a</sup> D. Lu&iacute;sa; dava-lhe
+excel&ecirc;ncia; sustentava finalmente
+com a boneca um destes di&aacute;logos de senhoras da alta
+sociedade, em que
+se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia,&#8213;estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos
+<i>ricos</i>&#8213;ouvi um grito de susto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era devido a um acidente, a que est&aacute; sujeito quem anda de
+carro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Voltara-se este, e a boneca ca&iacute;ra, ferindo a fronte na pedra
+da janela.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a
+v&iacute;tima; vendo,
+por&eacute;m, que a ferida havia for&ccedil;osamente de deixar
+cicatriz, e
+lembrando-se de que s&oacute; lhe bastava querer, para que lhe
+dessem outra
+nova, agarrou-a pelos p&eacute;s e ia atir&aacute;-la com
+despeito &agrave; rua, quando mais
+perto de mim bradou voz t&iacute;mida e suplicante:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&laquo;N&atilde;o atire!... D&ecirc;-ma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu n&atilde;o
+dera f&eacute; at&eacute;
+ent&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim invocada, a menina <i>rica</i> franziu levemente <span class="pagenum">[93]</span>as sobrancelhas e
+lan&ccedil;ou um olhar de rainha para o s&iacute;tio donde
+vinha a s&uacute;plica.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vendo uma crian&ccedil;a, pouco mais ou menos da sua idade, serenou
+e,
+encolhendo os ombros, respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;J&aacute; n&atilde;o presta!... Est&aacute;
+esmurrada!...&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; o mesmo!... D&aacute;-ma?...&#8213;bradou a outra, cujos
+olhos brilhavam de
+cobi&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Dou...&raquo;&#8213;volveu a rica, encolhendo novamente os
+ombros.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas
+m&atilde;os da
+vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse
+despeda&ccedil;ar-se nas lajes da rua.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
+outra, para mostrar &agrave; m&atilde;e a que ela ainda
+n&atilde;o podia acreditar, que
+fosse sua!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por espa&ccedil;o de meses foi a boneca a principal
+ocupa&ccedil;&atilde;o da nova dona.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro
+vezes em quatro horas!... J&aacute; lhe n&atilde;o davam
+excel&ecirc;ncia! Chamavam-lhe
+sr.<sup>a</sup> D. Ana; falavam-lhe de arranjos
+dom&eacute;sticos, do desmazelo da
+criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
+estranhas para ela!<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a desgra&ccedil;ada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe
+cada vez menos
+azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
+se tornava mais escura: parecia uma n&oacute;doa, um estigma!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, <span class="pagenum">[94]</span>que trouxera no corpo,
+ainda n&atilde;o poderia enganar olhos pouco conhecedores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o tardou, por&eacute;m, que arrebiques de mau gosto,
+fitas velhas, rendas
+amareladas, chap&eacute;us imposs&iacute;veis, viessem
+contrastar com a eleg&acirc;ncia do
+vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele
+as ondula&ccedil;&otilde;es do <i>moir&eacute;</i>,
+at&eacute; que, um belo dia, vi a boneca vestida de
+cassa&#8213;-no Inverno!&#8213;xaile e manta na cabe&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Muito mal lhe ficava aquilo!... &Agrave;quela boneca custava-lhe de
+certo o
+ver-se t&atilde;o mal arranjada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; justo!... Cada qual segundo as suas posses.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por esse tempo, entrei em rela&ccedil;&otilde;es com o meu
+vizinho sapateiro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
+faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasi&atilde;o,
+para me
+pedir desculpa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
+aproximar-se de n&oacute;s e, desde ent&atilde;o, nunca saio de
+casa nem entro, sem
+grave risco de sofrer as consequ&ecirc;ncias da sua travessa
+familiaridade.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entre os filhos do sapateiro, por&eacute;m, h&aacute; uma
+pequenita de onze anos, com
+quem simpatizei logo &agrave; primeira vista.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chama-se Maria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por um destes acasos da Provid&ecirc;ncia, que parece <span class="pagenum">[95]</span>&agrave;s vezes
+comprazer-se
+em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os
+irm&atilde;os.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acostumado &agrave;s travessuras e desalinho dos outros filhos do
+sapateiro,
+fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E bem verdade que ele conhecia o valor daquela crian&ccedil;a,
+porque havia
+verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse:
+&laquo;Esta &eacute; a
+minha Maria!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E tinha raz&atilde;o!<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o podia ser mais discreta do que j&aacute; nesse tempo
+era.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; quem vale &agrave; m&atilde;e!...&#8213;acrescentou o
+velho.&raquo;&#8213;Ali, onde a v&ecirc;, faz o
+servi&ccedil;o duma mulher!... H&aacute; seis meses, quando a
+minha santa esteve
+doente&#8213;bem pensei que n&atilde;o arribasse!&#8213;a pequena era quem
+cozinhava e
+olhava pelos irm&atilde;os!... E caridade como ela tem!?... Olhe
+que aquela
+pequena esteve tr&ecirc;s dias sem se deitar... ali... ao
+p&eacute; da m&atilde;e! Foi
+preciso eu obrig&aacute;-la, que ela n&atilde;o a queria
+deixar!...&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma
+l&aacute;grima, que,
+havia muito, hesitava sobre se sim ou n&atilde;o se devia despenhar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
+cabe&ccedil;a coberta por um len&ccedil;o branco.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desde que o pai me deu t&atilde;o boas
+informa&ccedil;&otilde;es da rapariga, nunca mais
+passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias
+&agrave;
+pequena.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
+deitada nos joelhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[96]</span>&#8213;Eu
+conhe&ccedil;o aquela boneca!...&#8213;disse eu de mim para mim.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, n&atilde;o podendo resistir &agrave; curiosidade, bradei:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Oacute; Maricas!... Quem te deu a boneca?...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi ali a menina da vizinha!&#8213;respondeu a pequenita, corando de prazer.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era escusado dizer-mo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. N&atilde;o
+podia
+duvidar... Era ela; l&aacute; estava a mancha, o estigma cada vez
+mais vis&iacute;vel
+na fronte.<br />
+
+
+<br />
+
+
+De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se
+com
+ela.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem te viu e quem te v&ecirc;!...&#8213;pensava eu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave;s vezes, se Maria se descuidava e os irm&atilde;os lha
+podiam apanhar, que
+tratos que sofria a desgra&ccedil;ada!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ro&ccedil;ada por aquelas m&atilde;os, de que um carvoeiro se
+envergonharia,
+empregada como p&eacute;la, submetida a torturas, era, ainda assim,
+singular&iacute;ssimo o aspecto da triste!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a
+fraternizar com o povo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&iacute;sera mudara mais uma vez de nome!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+De sr.<sup>a</sup> D. Ana passara a ser sr.<sup>a</sup>
+Rosinha e tratavam-na por vossemec&ecirc;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e len&ccedil;o
+na cabe&ccedil;a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
+a boneca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
+encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre
+boneca a lastimar-se por estar tudo t&atilde;o caro, por haver <span class="pagenum">[97]</span>falta de
+trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que
+mais familiares eram &agrave; pequena.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na,
+mandavam-na buscar &aacute;gua &agrave; fonte, pagavam-lhe,
+regateando, a soldada, e
+acabavam por a despedir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+J&aacute; o leitor v&ecirc; que, apesar da bondade Maria,
+deixara de ser feliz.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no pal&aacute;cio
+vizinho!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos,
+desfeito o carmim dos l&aacute;bios, a boneca n&atilde;o
+prometia longa dura&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi este pelo menos, o progn&oacute;stico que fiz a
+&uacute;ltima vez que a vi,
+tentando em v&atilde;o agradar &agrave; &uacute;ltima dona
+que o seu destino lhe dera.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia chovia a c&acirc;ntaros!&#8213;o enxurro, mal cabendo nas valetas
+da rua,
+espadanava em cach&atilde;o para cima dos passeios, arrastando na
+passagem mil
+imund&iacute;cies.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu estava &agrave; porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e
+olhava
+melancolicamente para a &aacute;gua negra, que corria. Nisto ouvi
+um grito, que
+partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um
+objecto,
+arremessado de dentro da loja, atravessou o espa&ccedil;o voando, e
+foi cair no
+leito do enxurro...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Olhei... Era a boneca!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&iacute;sera, arrastada pela &aacute;gua, vogou rua abaixo
+at&eacute; esbarrar numa
+pedra; mas o redemoinho envolveu-a, <span class="pagenum">[98]</span>e,
+depois de a fazer girar tr&ecirc;s ou
+quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, tra&ccedil;ado
+entre a pedra e
+o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, at&eacute; ir
+sumir-se nas
+profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&aacute; pieguice, ser&aacute; o que o leitor quiser; mas,
+confesso-lhe, que me
+impressionou o fim da pobre boneca.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado &agrave;
+vidra&ccedil;a do
+sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o fui eu...&#8213;balbuciou a pequena, chorando.&#8213;Foi ali o
+Joaquim!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora!...&#8213;respondeu o garoto com enfado.&#8213;Ora!... Estava velha... e
+feia!...<br />
+
+
+<br />
+
+
+Curvei a cabe&ccedil;a ante aquela raz&atilde;o, e segui o meu
+caminho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pobre boneca!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[99]</span>
+<h2><a name="29"></a>Inconveniente da riqueza</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Als&aacute;cia, foi
+surpreendido pela noite &agrave; entrada duma aldeia. Procurou dum
+lado para
+outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam
+j&aacute;
+todas fechadas, n&atilde;o se via nem um raio de luz
+atrav&eacute;s das janelas, tudo
+estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual
+com que se bate o trigo, e nesse s&iacute;tio havia uma pequena
+luz. Nosso
+Senhor dirigiu-se para l&aacute;, chegou ao p&eacute; do muro
+duma quinta, e bateu &agrave;
+porta. Foi um campon&ecirc;s que lha veio abrir.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
+N&atilde;o se havia de arrepender.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E acrescentou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Visto que j&aacute; todos est&atilde;o deitados, para que
+&eacute; que voc&ecirc; est&aacute; ainda a
+trabalhar?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora, respondeu o campon&ecirc;s, soube ontem &agrave; noite
+que ia ser perseguido
+por um credor desapiedado, se lhe n&atilde;o pagasse
+amanh&atilde; o que lhe devo,
+portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
+o vender no mercado, e pagar a minha d&iacute;vida. Depois disto
+n&atilde;o nos fica
+nada, <span class="pagenum">[100]</span>e
+n&atilde;o sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que
+Deus
+quiser!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao dizer isto o campon&ecirc;s limpava o suor da testa, e passava a
+m&atilde;o pelos
+olhos arrasados de l&aacute;grimas. O Senhor teve d&oacute;
+dele, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o desanimes. Quando te pedi hospitalidade,
+disse-te que n&atilde;o te
+havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e
+aproximou-a do trigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a
+tudo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se,
+de cada espiga, desceu uma chuva de gr&atilde;os prodigiosa.
+&Agrave; vista dum tal
+milagre os camponeses maravilhados ca&iacute;ram de joelhos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
+pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo,
+ser&aacute;s
+recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, &eacute; Deus que
+te
+enriquece.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dito isto desapareceu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a chuva dos gr&atilde;os n&atilde;o parou em toda a noite, e
+fez um monte t&atilde;o alto
+como a igreja.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O campon&ecirc;s pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu
+uma bela
+casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e
+seus filhos adquiriram costumes perdul&aacute;rios, tanto e tanto
+fizeram, que
+se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
+ningu&eacute;m os ajudou na sua mis&eacute;ria. Uma noite o
+velho campon&ecirc;s, que bebera
+enormemente, entrou <span class="pagenum">[101]</span>no
+celeiro, e, recordando-se do milagre que o
+enriquecera, imaginou que tamb&eacute;m ele o poderia fazer.
+Agarrou na
+candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a
+casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na
+mis&eacute;ria mais
+absoluta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[102]</span>
+<h2><a name="30"></a>Querer &eacute; poder</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem procura sempre encontra, diz um velho prov&eacute;rbio; quero
+ver por
+experi&ecirc;ncia, disse um dia um rapaz, se esta m&aacute;xima
+&eacute; verdadeira.<br />
+
+
+<br />
+
+
+P&ocirc;s-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma
+grande cidade.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Senhor, disse-lhe ele, h&aacute; muitos anos que vivo tranquilo e
+solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
+vezes&#8213;<i>Quem procura sempre encontra</i>, e <i>quem
+porfia mata ca&ccedil;a</i>. Tomei
+uma grande resolu&ccedil;&atilde;o. Quero casar com a filha do
+rei.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante
+uma
+semana, sempre com a mesma vontade inabal&aacute;vel,
+at&eacute; que o rei ouviu
+falar o rapaz da sua louca pretens&atilde;o. Surpreendido com uma
+ideia t&atilde;o
+extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela
+ci&ecirc;ncia,
+pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais
+s&atilde;o
+os teus t&iacute;tulos? Para seres o marido <span class="pagenum">[103]</span>de minha filha
+&eacute; necess&aacute;rio que te
+distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
+extraordin&aacute;rio. Ouve. Perdi h&aacute; muito tempo no rio
+um diamante dum valor
+incalcul&aacute;vel. Aquele que o encontrar obter&aacute; a
+m&atilde;o de minha filha.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
+rio; logo de manh&atilde; come&ccedil;ava a tirar
+&aacute;gua com um balde pequeno, e
+deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
+horas, punha-se a rezar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os peixes inquietos ao verem t&atilde;o grande tenacidade, e
+receando que
+chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Encontrar um diamante que caiu ao rio.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o, respondeu o velho rei, sou de opini&atilde;o que
+lho entreguem, porque
+vejo qual &eacute; a t&ecirc;mpera da vontade deste rapaz; mais
+f&aacute;cil seria esgotar
+as &uacute;ltimas gotas do rio, do que desistir da sua
+empresa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
+do rei.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[104]</span>
+<h2><a name="31"></a>Qual ser&aacute; rei?</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
+sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer,
+n&atilde;o ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Resolveram al&eacute;m disso que o cad&aacute;ver do rei fosse
+posto de p&eacute; contra um
+muro, e que o pr&iacute;ncipe que acertasse melhor com uma flecha
+naquele
+alvo, seria o escolhido para sucessor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Come&ccedil;ou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou
+durante muito
+tempo, e a flecha foi atravessar a m&atilde;o esquerda do defunto.
+O pr&iacute;ncipe
+soltou grito de alegria, cuidando que seus irm&atilde;os atirariam
+pior, e que
+por conseguinte seria ele quem viria a reinar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
+alegre do que o outro pr&iacute;ncipe.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O terceiro varou o cora&ccedil;&atilde;o de seu pai, e os seus
+gritos de triunfo
+quase que chegavam ao c&eacute;u, porque lhe parecia
+imposs&iacute;vel acertar melhor.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas
+m&atilde;os as
+flechas e o arco: mas, <span class="pagenum">[105]</span>desde
+que olhou para o alvo, arrojou as armas
+longe de si, e desatou a chorar:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu
+jamais
+consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela m&atilde;o
+de teus
+pr&oacute;prios filhos!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais
+digno.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[106]</span>
+<h2><a name="32"></a>Os tr&ecirc;s
+v&eacute;us de Maria</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O primeiro v&eacute;u de Maria era dum linho mais alvo do que a
+neve.
+Bordara-o com as suas m&atilde;os, e ornara-o com uma grinalda de
+flores de
+seda t&atilde;o bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham
+pousar-lhe em
+cima.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Este v&eacute;u branco s&oacute; o trouxe uma vez, no dia da
+sua primeira comunh&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O segundo v&eacute;u de Maria era de l&atilde; negra.
+Principiou-o no mesmo dia em que
+sua m&atilde;e lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa
+triste e
+abandonada. Era bordado de perp&eacute;tuas roxas, como as dos
+sepulcros de
+m&aacute;rmore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas
+as suas
+l&aacute;grimas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O v&eacute;u negro s&oacute; o trouxe uma vez,&#8213;no dia em que se
+tornou esposa de
+Jesus no convento da Av&eacute;-Maria.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O terceiro v&eacute;u era feito dum retalho do azul celeste,
+bordado
+de estrelas, e perfumado com aromas suav&iacute;ssimos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou
+no para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p107">[107]</a></span>
+<h2><a name="33"></a>Os pequenos no bosque</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia tr&ecirc;s pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns
+aos
+outros, que n&atilde;o havia nada no mundo mais aborrecido que
+estudar: &laquo;Vamos
+para o bosque que <a href="#e4">encontraremos</a>
+l&aacute; toda a esp&eacute;cie de lindos bichinhos, que
+n&atilde;o fazem outra coisa sen&atilde;o brincar, e
+n&oacute;s brincaremos com eles.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foram logo, e passaram sem fazer caso ao p&eacute; da activa
+formiga e da
+abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar,
+disse-lhes:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
+outra j&aacute; n&atilde;o est&aacute;
+s&oacute;lida.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provis&otilde;es para
+o Inverno.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu
+ninho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com voc&ecirc;s,
+mas ainda
+hoje n&atilde;o lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que
+fazer a
+minha <i>toilette</i>.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, <span class="pagenum">[108]</span>que passas o tempo
+a saltar e a tagarelar, tamb&eacute;m n&atilde;o queres brincar
+connosco?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Estes pequenos s&atilde;o tolos, disse o regato. Como?
+Voc&ecirc;s ent&atilde;o imaginam
+que eu n&atilde;o tenho que fazer? De noite ou de dia,
+n&atilde;o descanso nem um
+momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, &agrave;s
+colinas,
+aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os
+inc&ecirc;ndios,
+tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje
+acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. N&atilde;o
+posso perder
+um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um
+pintassilgo, em cima dum ramo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Olha! tu, que n&atilde;o tens nada que fazer, queres brincar
+connosco?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Nada que fazer? voc&ecirc;s est&atilde;o a mangar comigo,
+disse o pintassilgo. Todo
+o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho al&eacute;m disso
+que tomar
+parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o
+oper&aacute;rio com o
+meu chilrear, e tenho que adormecer as crian&ccedil;as com uma
+outra cantiga,
+que &agrave; noite e de madrugada celebre a bondade do Criador.
+Ide-vos embora,
+pregui&ccedil;osos, ide cumprir o vosso dever, e n&atilde;o
+tornem a vir incomodar os
+habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a
+desempenhar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os pequenos aproveitaram a li&ccedil;&atilde;o, e compreenderam
+que o prazer s&oacute; &eacute;
+leg&iacute;timo, quando &eacute; a recompensa do trabalho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[109]</span>
+<h2><a name="34"></a>O chapelinho encarnado</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem
+sua
+m&atilde;e e sua av&oacute; adoravam extremosamente. A boa da
+avozinha, que passava o
+tempo a imaginar o que poderia agradar &agrave; neta, deu-lhe um
+dia um chap&eacute;u
+de veludo vermelho. A pequenita andava t&atilde;o contente com o
+seu chap&eacute;u
+novo, que j&aacute; n&atilde;o queria p&ocirc;r outro, e
+come&ccedil;aram a chamar-lhe a menina do
+chapelinho encarnado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&atilde;e e a av&oacute; moravam em duas casas separadas por
+uma floresta de meia
+l&eacute;gua de comprido. Uma manh&atilde; a m&atilde;e
+disse &agrave; pequenita:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tua av&oacute; est&aacute; doente, e n&atilde;o
+p&ocirc;de vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai
+levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado n&atilde;o
+quebres a
+garrafa, n&atilde;o andes a correr, vai devagarinho e volta
+logo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sim, mam&atilde;, respondeu ela, hei-de fazer tudo como
+deseja.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e
+p&ocirc;s-se
+a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita,
+que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[110]</span>&#8213;Bons dias,
+chapelinho encarnado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Onde vais t&atilde;o cedo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;A casa da minha av&oacute; que est&aacute; doente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E levas-lhe alguma coisa?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
+dar for&ccedil;as.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Diz-me onde mora a tua, av&oacute;, que tamb&eacute;m a quero
+ir ver.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; perto, aqui no fim da floresta. H&aacute; ao
+p&eacute; uns carvalhos muito
+grandes, e no jardim h&aacute; muitas nozes.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! tu &eacute; que &eacute;s uma bela noz, disse consigo o
+lobo. Como eu gostava
+de te comer.&raquo; Depois continuou em voz alta:&#8213;Olha, que bonitas
+&aacute;rvores e
+que lindos passarinhos. Como &eacute; bom passear nas florestas, e
+ent&atilde;o que
+quantidade de plantas medicinais que se encontram!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;O senhor, &eacute; com certeza um m&eacute;dico, respondeu a
+inocente pequenita,
+visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma
+que fizesse bem a minha av&oacute;.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Com certeza, minha filha, olha, aqui est&aacute; uma, e esta
+tamb&eacute;m, e
+aquela.&raquo; Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram
+plantas
+venenosas. A pobre crian&ccedil;a, queria-as apanhar para as levar
+a sua av&oacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
+grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E p&ocirc;s-se a correr em direc&ccedil;&atilde;o da casa
+da av&oacute;, enquanto que a pequerrucha
+se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[111]</span>Quando o lobo
+chegou &agrave; porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
+av&oacute; n&atilde;o se podia levantar da cama, e perguntou:
+Quem est&aacute; a&iacute;?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz
+da
+pequerrucha. A mam&atilde; manda-te bolos e uma garrafa de
+vinho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Procura debaixo da porta disse a av&oacute;, que
+encontrar&aacute;s a chave.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira,
+e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a
+porta aberta, porque sabia o cuidado com que a av&oacute; a
+costumava ter
+fechada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O lobo tinha posto uma touca na cabe&ccedil;a, que lhe escondia uma
+parte do
+focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horr&iacute;vel.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ai! avozinha, disse a crian&ccedil;a, porque tens tu as orelhas
+t&atilde;o grandes?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te ouvir melhor, minha filha.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E porque est&aacute;s com uns olhos t&atilde;o
+grandes?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te ver melhor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E para que est&aacute;s com os bra&ccedil;os t&atilde;o
+grandes?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te poder abra&ccedil;ar melhor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E Jesus! para que tens hoje uma boca t&atilde;o grande e uns
+dentes t&atilde;o
+agudos?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; para te comer melhor.&raquo; A estas palavras o lobo
+arremessou-se &agrave; pobre
+pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e
+come&ccedil;ou a
+ressonar muito alto. Um ca&ccedil;ador que passava por acaso, perto
+da casa, e
+que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha est&aacute;
+com um
+pesadelo, <span class="pagenum">[112]</span>est&aacute;
+pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.&raquo; Entra, e
+v&ecirc; o lobo estendido na cama.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ol&aacute;, meu menino, diz ele: h&aacute; muito tempo que te
+procuro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Armou a sua espingarda, mas parando logo: N&atilde;o, disse ele,
+n&atilde;o vejo a
+dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o
+animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
+cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e
+saltou para o ch&atilde;o, gritando:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ai! que s&iacute;tio medonho onde eu estive fechada!<br />
+
+
+<br />
+
+
+A av&oacute; saiu tamb&eacute;m content&iacute;ssima por
+ver outra vez a luz do dia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O lobo continuava a dormir profundamente, e o ca&ccedil;ador
+meteu-lhe ent&atilde;o
+duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a
+av&oacute; e a
+neta para verem o que se ia passar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se
+para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
+n&atilde;o podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no
+lago, e
+afogou-se.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O ca&ccedil;ador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho
+com a velha
+e a sua neta. A velha sentia-se remo&ccedil;ar, e o chapelinho
+encarnado
+prometeu n&atilde;o tornar a passar na floresta, quando sua
+m&atilde;e lho
+proibisse.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[113]</span>
+<h2><a name="35"></a>Os cinco sonhos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Andando um dia Carlos Magno &agrave; ca&ccedil;a com uma
+comitiva numerosa, perseguiu
+um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da
+ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi
+s&oacute;
+ent&atilde;o que viu que estava s&oacute;, tendo a sua corte
+ficado muito para traz;
+sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana
+solit&aacute;ria
+no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro
+ladr&otilde;es.
+Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
+entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe
+quiseram logo contar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro &agrave; pessoa que
+acaba de entrar
+aqui, e punha-o na minha cabe&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua
+coura&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E eu que estava pondo o seu manto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E eu, disse o quarto ladr&atilde;o, para lhe fazer favor, passava
+em roda do
+meu pesco&ccedil;o aquela <span class="pagenum">[114]</span>pesada
+cadeia de ouro, da qual est&aacute; pendurada a sua
+trompa de ca&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vejo bem, disse o imperador, que t&ecirc;m
+ten&ccedil;&atilde;o de me roubar tudo, e
+mesmo a vida. Reconhe&ccedil;o que estou em poder de
+voc&ecirc;s, e que toda e
+qualquer resist&ecirc;ncia seria in&uacute;til. N&atilde;o
+lhes pe&ccedil;o sen&atilde;o uma coisa, &eacute; que
+me deixem tocar pela &uacute;ltima vez na minha trompa de
+ca&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os salteadores responderam que consentiam, visto que o
+&uacute;ltimo pedido
+dum moribundo deve ser respeitado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos Magno levou &agrave; boca a sua magn&iacute;fica trompa
+de marfim, e tirou
+dela sons t&atilde;o fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos
+todos os
+seus companheiros de ca&ccedil;a e a sua comitiva estavam ao
+p&eacute; dele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora
+tamb&eacute;m
+eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que voc&ecirc;s todos iam
+ser
+enforcados diante deste casebre.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o sonho realizou-se imediatamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[115]</span>
+<h2><a name="36"></a>A igreja do rei</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magn&iacute;fica
+em honra da
+Virgem, decretando que ningu&eacute;m nos seus estados pudesse
+contribuir para
+a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o
+edif&iacute;cio se
+concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do
+m&aacute;rmore uma inscri&ccedil;&atilde;o em letras de
+ouro, que dizia que s&oacute; ele, e mais
+ningu&eacute;m, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na
+noite
+seguinte o nome do rei foi apagado da inscri&ccedil;&atilde;o,
+e substitu&iacute;do por o
+duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
+p&ocirc;r o seu nome na inscri&ccedil;&atilde;o, e de novo
+foi substitu&iacute;do pelo da pobre
+mulher; &agrave; terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de
+c&oacute;lera, ordenou
+ent&atilde;o que lhe trouxessem a mulher &agrave; sua
+presen&ccedil;a:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que
+contribu&iacute;ssem
+fosse com o que fosse para a edifica&ccedil;&atilde;o desta
+igreja; vejo que n&atilde;o
+cumpriste as minhas ordens.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Senhor, respondeu a velhinha toda tr&eacute;mula, eu
+respeitei as vossas
+ordens, apesar da m&aacute;goa <span class="pagenum">[116]</span>que
+sentia por n&atilde;o poder oferecer o meu
+pequenino &oacute;bolo em honra da Virgem; mas julguei
+n&atilde;o desobedecer a vossa
+majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
+que eu levava &agrave;s escondidas aos bois que conduziam as pedras
+destinadas
+&agrave; constru&ccedil;&atilde;o da igreja.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;O teu nome &eacute; mais digno do que o meu de figurar
+em letras de ouro na
+inscri&ccedil;&atilde;o do monumento, disse-lhe o
+rei.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas na noite seguinte uma m&atilde;o invis&iacute;vel
+restabeleceu na l&aacute;pide da igreja
+o nome do rei, que desde ent&atilde;o l&aacute; se conserva
+ainda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[117]</span>
+<h2><a name="37"></a>O valente soldado de
+chumbo</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irm&atilde;os,
+por todos
+terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial,
+de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e
+vermelhos!
+A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da
+caixa em que eles estavam, foi este grito: &laquo;Olha soldados de
+chumbo!&raquo;
+que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado
+de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era
+form&aacute;-los sobre a
+mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
+maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
+menos, porque o tinham deitado na forma em &uacute;ltimo lugar, e
+j&aacute; n&atilde;o havia
+chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros n&atilde;o
+estavam mais
+firmes nas duas pernas do que ele na sua &uacute;nica, e
+&eacute; este o que
+precisamente nos interessa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil
+outros
+brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lind&iacute;ssimo
+castelo de
+papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe <span class="pagenum">[118]</span>o interior dos
+sal&otilde;es.
+&Agrave; volta era circundado duma floresta em miniatura, que se
+reflectia
+poeticamente num peda&ccedil;o de espelho que fingia um lago, onde
+nadavam
+pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas n&atilde;o
+tanto como
+uma menina que estava &agrave; porta, e que era tamb&eacute;m
+de papel, vestida com um
+lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
+tinha os bra&ccedil;os arqueados, porque era dan&ccedil;arina,
+e tinha uma perninha
+levantada a tal altura, que o soldado de chumbo n&atilde;o a podia
+ver, e
+imaginou que, como ele, n&atilde;o tinha sen&atilde;o uma perna.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ali est&aacute; a mulher que me conv&eacute;m, pensou ele, mas
+&eacute; uma grande
+fidalga. Mora num pal&aacute;cio, eu numa caixa em companhia de
+vinte e
+quatro camaradas, e n&atilde;o haveria c&aacute; lugar para
+ela. No entanto
+preciso conhec&ecirc;-la.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deitou-se atr&aacute;s duma caixa de tabaco, e dali podia ver
+&agrave; sua vontade a
+elegante dan&ccedil;arina, que estava sempre num p&eacute;
+s&oacute;, sem perder o
+equil&iacute;brio.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave; noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e
+as pessoas
+da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto,
+come&ccedil;aram
+a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados
+de
+chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam
+l&aacute; ir; mas
+como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes come&ccedil;ou a dar
+cabriolas
+e saltos mortais, o l&aacute;pis tra&ccedil;ou mil arabescos
+fant&aacute;sticos numa lousa,
+enfim o barulho tornou-se tal que o can&aacute;rio acordou, e
+p&ocirc;s-se a cantar.
+Os &uacute;nicos que <span class="pagenum">[119]</span>estavam
+quietos eram o soldado de chumbo e a
+dan&ccedil;arinazinha. Ela no bico do p&eacute;, e ele numa
+perna s&oacute;, a
+espreit&aacute;-la.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deu meia noite, e z&aacute;s, a tampa da caixa de rap&eacute;
+levanta-se, e em lugar
+de rap&eacute;, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de
+surpresa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
+s&iacute;tio.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o soldado fez que n&atilde;o ouvia.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Espera at&eacute; amanh&atilde;, e ver&aacute;s o que te
+acontece, continuou o feiticeiro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de
+chumbo &agrave; janela, mas de repente ou por influ&ecirc;ncia
+do feiticeiro ou por
+causa do vento caiu &agrave; rua de cabe&ccedil;a para baixo.
+Que tombo! Ficou com a
+perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta
+enterrada entre duas lajes.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A criada e o rapazito foram l&aacute; abaixo procur&aacute;-lo,
+mas estiveram quase a
+esmag&aacute;-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado:
+&laquo;Cautela!&raquo;
+te-lo-&iacute;am achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda.
+A chuva
+come&ccedil;ou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro
+dil&uacute;vio. Depois
+do aguaceiro passaram dois garotos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ol&aacute;! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos
+faz&ecirc;-lo
+navegar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Constru&iacute;ram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o
+soldado de
+chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois
+garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo
+Deus!
+Que for&ccedil;a de corrente! Mas tamb&eacute;m tinha chovido
+tanto! O barco jogava
+<span class="pagenum">[120]</span>duma maneira
+horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
+impass&iacute;vel, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+De repente o barco foi levado para um cano, onde era t&atilde;o
+grande a
+escurid&atilde;o como na caixa dos soldados.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me
+meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina
+estivesse no barco, n&atilde;o importava, ainda que a
+escurid&atilde;o fosse duas
+vezes maior.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de &aacute;gua; era um
+habitante do
+cano.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Venha o teu passaporte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o soldado de chumbo n&atilde;o disse nada, e agarrou com mais
+for&ccedil;a na
+espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
+rangendo os dentes, e gritando &agrave;s palhas, e aos
+cavacos:&#8213;Fa&ccedil;am-no
+parar, fa&ccedil;am-no parar! N&atilde;o pagou a passagem,
+n&atilde;o mostrou o passaporte.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via j&aacute; a luz do
+dia, e
+sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais
+valente.
+Havia na extremidade do cano uma queda de &aacute;gua
+t&atilde;o perigosa para ele,
+como &eacute; para n&oacute;s uma catarata. Aproximava-se dela
+cada vez mais, sem
+poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lan&ccedil;ou-se
+sobre a
+queda de &aacute;gua, e o pobre soldado firmava-se o mais
+poss&iacute;vel, e ningu&eacute;m se
+atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O barco, depois de ter andado &agrave; roda durante muito tempo,
+encheu-se
+de &aacute;gua, e estava a ponto <span class="pagenum">[121]</span>de
+naufragar. A &aacute;gua j&aacute; chegava ao
+pesco&ccedil;o do
+soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
+&aacute;gua passou por cima da cabe&ccedil;a do nosso
+her&oacute;i. Nesse momento supremo,
+pensou na gentil dan&ccedil;arinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz
+que dizia:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Soldado: o perigo &eacute; enorme, a morte espera-te.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O papel rasgou-se, e o soldado passou atrav&eacute;s dele. Nesse
+momento foi
+devorado por um grande peixe.<br />
+
+
+<br />
+
+
+L&aacute; &eacute; que era escuro, ainda mais que dentro do
+cano. E al&eacute;m disso, que
+talas em que ele estava metido! Mas, sempre intr&eacute;pido, o
+soldado
+estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo,
+at&eacute; que enfim
+parou, e pareceu que o atravessava um rel&acirc;mpago. Apareceu a
+luz do dia,
+e algu&eacute;m exclamou:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Olha um soldado de chumbo!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O peixe tinha sido pescado, exposto na pra&ccedil;a, vendido, e
+levado para a
+cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
+soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
+gente quis admirar esse homem extraordin&aacute;rio, que tinha
+viajado na
+barriga dum peixe. No entretanto o soldado n&atilde;o se sentia
+orgulhoso.
+Colocaram-no em cima da mesa, e ali&#8213;tanto &eacute; verdade que
+acontecem
+coisas extraordin&aacute;rias neste mundo&#8213;achou-se na mesma sala,
+de cuja
+janela tinha ca&iacute;do. Reconheceu os pequenos e os brinquedos
+que estavam
+em cima da mesa, o lindo pal&aacute;cio, e a ador&aacute;vel
+dan&ccedil;arina sempre <span class="pagenum">[122]</span>de
+perna
+no ar. O soldado de chumbo ficou t&atilde;o comovido, que de boa
+vontade teria
+derramado l&aacute;grimas de chumbo, mas n&atilde;o era
+conveniente. Olhou para ela,
+ela olhou para ele, mas n&atilde;o disseram uma palavra um ao outro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no
+fog&atilde;o; eram obras do feiticeiro da caixa do rap&eacute;.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O soldado de chumbo l&aacute; estava perfilado, alumiado por um
+clar&atilde;o
+sinistro, e sofrendo um calor terr&iacute;vel. Todas as cores lhe
+tinham
+desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas
+viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
+dan&ccedil;arina, que tamb&eacute;m olhava para ele. Sentia-se
+derreter, mas, sempre
+intr&eacute;pido, conservava a espingarda ao ombro. De repente
+abriu-se uma
+porta, o vento arremessou a dan&ccedil;arina ao fog&atilde;o
+para junto do soldado, que
+desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, j&aacute;
+n&atilde;o era mais
+que uma pequena massa informe.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um
+objecto que tinha o feitio dum pequeno cora&ccedil;&atilde;o de
+chumbo, e tudo o que
+restava da dan&ccedil;arina era a fivela do cinto azul que o lume
+tinha
+enegrecido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[123]</span>
+<h2><a name="38"></a>Jo&atilde;o Pateta</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jo&atilde;o era filho duma pobre vi&uacute;va, bom rapaz, mas
+um pouco simpl&oacute;rio. A
+gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira Jo&atilde;o Pateta. Um
+dia sua m&atilde;e
+mandou-o &agrave; feira comprar uma foice. &Agrave; volta,
+come&ccedil;ou a andar com a foice
+&agrave; roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e
+matou-a.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pateta, disse-lhe sua m&atilde;e, o que deverias ter feito era
+p&ocirc;r a foice em
+um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Perd&atilde;o, m&atilde;e, respondeu humildemente
+Jo&atilde;o, para a outra vez serei mais
+esperto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que
+as n&atilde;o perdesse.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fique descansada. E voltou todo orgulhoso.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o, Jo&atilde;o, onde est&atilde;o as
+agulhas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! est&atilde;o em lugar seguro. Quando sa&iacute; da loja em
+que as comprei, ia a
+passar o carro do vizinho carregado de palha; meti l&aacute; as
+agulhas, n&atilde;o
+podem estar em s&iacute;tio melhor.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;De certo, est&atilde;o em lugar de tal modo seguro, que
+n&atilde;o h&aacute; meio de as
+tornar a ver. Devias t&ecirc;-las espetado no
+chap&eacute;u.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[124]</span>&#8213;Perd&atilde;o,
+respondeu Jo&atilde;o, para a outra vez, hei-de ser mais
+esperto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na outra semana, por um dia de calor, Jo&atilde;o foi dali uma
+l&eacute;gua comprar
+uma pouca de manteiga. Lembrando-se do &uacute;ltimo conselho de
+sua m&atilde;e, p&ocirc;s a
+manteiga dentro do chap&eacute;u e o chap&eacute;u na
+cabe&ccedil;a. Imagine-se o estado em
+que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A m&atilde;e j&aacute; tinha medo de o mandar fazer qualquer
+recado. No entanto um dia
+resolveu-se a mand&aacute;-lo &agrave; feira vender duas
+galinhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ouve bem, n&atilde;o vendas pelo primeiro pre&ccedil;o. Espera
+que te ofere&ccedil;am
+outro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; entendido, respondeu Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foi para a feira. Um fregu&ecirc;s chegou-se a ele.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Queres seis tost&otilde;es por essas galinhas?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ora adeus! minha m&atilde;e recomendou-me, que n&atilde;o
+aceitasse o primeiro
+pre&ccedil;o, mas que esperasse o segundo.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E tens muita raz&atilde;o. Dou-te um cruzado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o
+primeiro,
+mas, como cumpro as ordens de minha m&atilde;e, ela n&atilde;o
+tem que me ralhar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois disto, Jo&atilde;o foi condenado a ficar em casa. Sua
+m&atilde;e sabia que
+mangavam com ele, e se riam dela. Uma manh&atilde; quis fazer uma
+experi&ecirc;ncia, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Vai vender este carneiro &agrave; feira. Mas n&atilde;o te
+deixes enganar. N&atilde;o o
+entregues sen&atilde;o a quem te der o pre&ccedil;o mais
+elevado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; bem, agora entendo, e sei o que hei de
+fazer.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[125]</span>&#8213;Quanto queres por
+esse carneiro?<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Minha m&atilde;e disse-me que o n&atilde;o vendesse
+sen&atilde;o pelo pre&ccedil;o mais elevado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quatro mil r&eacute;is?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; o pre&ccedil;o mais elevado?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pouco mais ou menos.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; minha a l&atilde; e o carneiro, disse um rapaz que
+trepara a uma escada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quanto?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Dez tost&otilde;es:&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; menos, respondeu timidamente o Jo&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sim, mas v&ecirc;s at&eacute; onde chega esta escada. Em toda
+a feira n&atilde;o h&aacute; um
+pre&ccedil;o mais elevado.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o. &Eacute; seu o carneiro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desde esse dia o Jo&atilde;o Pateta n&atilde;o tornou a ser
+encarregado de vender ou
+comprar coisa alguma.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[126]</span>
+<h2><a name="39"></a>Branca de Neve</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez uma rainha, que se lastimava por n&atilde;o ter filhos.
+Um dia
+de Inverno, enquanto bordava num bastidor de &eacute;bano olhando
+de vez em
+quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no ch&atilde;o,
+distra&iacute;da, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns bei&ccedil;os
+t&atilde;o vermelhos
+como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros
+como este &eacute;bano.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu &agrave;
+luz uma filha,
+que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo
+t&atilde;o branco,
+que lhe chamavam Branca de Neve. Por&eacute;m esta feliz
+m&atilde;e n&atilde;o gozou muito
+tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
+duma grande beleza, e dum orgulho n&atilde;o menos
+extraordin&aacute;rio. Era t&atilde;o
+formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
+vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho
+m&aacute;gico dizia-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, responde-me: qual &eacute; a mulher mais linda
+que h&aacute; no
+mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute;s tu, respondia o espelho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[127]</span>No entanto Branca
+de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
+formosa. Tinha apenas sete anos, e j&aacute; ningu&eacute;m a
+podia ver sem ficar
+maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
+espelho, disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, responde-me: qual &eacute; a mulher mais linda
+que h&aacute; no
+mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute;s tu, n&atilde;o &eacute;s tu.
+Branca de Neve &eacute; mais linda.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no
+cora&ccedil;&atilde;o uma dor aguda,
+como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um &oacute;dio mortal
+pela
+inocente Branca. N&atilde;o podia sossegar nem de dia, nem de
+noite. Para
+satisfazer o seu &oacute;dio, chamou um criado, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quero que Branca desapare&ccedil;a. Conduze-a &agrave;
+floresta, mata-a, e, para me
+provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o
+cora&ccedil;&atilde;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e
+dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre crian&ccedil;a
+chorava e
+lamentava-se, e pedia-lhe que a n&atilde;o matasse, porque ela
+n&atilde;o tinha feito
+mal a ningu&eacute;m, e queria viver. O criado, comovido com
+aquelas
+l&aacute;grimas, n&atilde;o teve coragem, e abandonou-a na
+floresta, pensando que se
+as feras a devorassem a culpa n&atilde;o era dele, mas sim da
+rainha. Assim
+fez, e para mostrar o cora&ccedil;&atilde;o de Branca
+&agrave; rainha, matou um cabrito, e
+tirou-lhe o cora&ccedil;&atilde;o. A rainha ao ver aqueles
+despojos sangrentos ficou
+content&iacute;ssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival,
+e nenhuma
+mulher no mundo &eacute; t&atilde;o bela como eu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[128]</span>A pobre Branca,
+abandonada na floresta, n&atilde;o tinha morrido, mas estava
+cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os p&eacute;s
+nas pedras, e
+andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
+tamb&eacute;m via animais ferozes. Mas as feras n&atilde;o lhe
+faziam mal algum, o
+deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave; noite chegou ao p&eacute; duma casinha muito
+pequenina. Estava morta de fome
+e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
+limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha
+de
+brancura irrepreens&iacute;vel, sete pratos pequenos, sete garrafas
+pequenas,
+e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
+do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
+deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
+pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
+que tinham gente em casa. Um deles disse:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem comeu o meu p&atilde;o?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E os outros sucessivamente:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem pegou no meu garfo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem comeu o meu caldo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem bebeu o meu vinho?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E enfim um deles:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem est&aacute; a&iacute; deitado na minha cama?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Reuniram-se todos &agrave; roda do pequeno leito em que dormia
+Branca. &Agrave; luz
+das lanternas viram o doce rosto da crian&ccedil;a, que dormia
+tranquilamente,
+<span class="pagenum">[129]</span>e afastaram-se sem
+fazer bulha, para a n&atilde;o acordar. Branca no dia
+seguinte de manh&atilde; ficou um pouco assustada, quando viu perto
+de si
+aqueles sete an&otilde;es das montanhas. Mas eles disseram-lhe com
+brandura,
+que n&atilde;o tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como
+se chamava.
+Branca contou a sua triste hist&oacute;ria, e os an&otilde;es
+disseram-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente
+sossegada.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Come&ccedil;ou logo o seu servi&ccedil;o, e continuou-o
+regularmente todos os dias.
+Limpava os m&oacute;veis, e fazia o jantar. Os an&otilde;es iam
+trabalhar para as
+minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que
+j&aacute; n&atilde;o
+tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
+e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, n&atilde;o &eacute; verdade que eu sou agora
+a mulher mais linda
+que h&aacute; no mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sim, nos teus pal&aacute;cios e nos teus castelos, mas Branca
+est&aacute; nas sete
+montanhas, e Branca &eacute; mais linda do que tu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe
+cruel,
+e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que
+modo? Uma manh&atilde; partiu disfar&ccedil;ada em vendedeira
+ambulante, com um cesto
+cheio de objectos de fantasia. Foi direita &agrave;s sete
+montanhas, e bateu &agrave;
+<span class="pagenum">[130]</span>porta da casinha,
+gritando: &laquo;Quem quer comprar bonitas
+j&oacute;ias?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os an&otilde;es tinham recomendado a Branca que desconfiasse das
+caras
+estranhas, receando os emiss&aacute;rios da rainha, e ela tinha
+prometido ser
+prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no
+cesto, esqueceu-se das suas promessas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou p&ocirc;r ao
+pesco&ccedil;o.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
+an&otilde;es voltaram, viram a infeliz Branca estendida no
+ch&atilde;o e completamente
+inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos l&aacute;bios
+algumas
+gotas dum licor amarelo. Branca come&ccedil;ou a respirar, voltou a
+si pouco
+a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira
+n&atilde;o era
+outra pessoa, sen&atilde;o a tua inimiga, a rainha. Toma cautela,
+n&atilde;o deixes
+entrar aqui ningu&eacute;m, quando n&atilde;o estivermos em
+casa.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao entrar no seu pal&aacute;cio toda contente, colocou-se a rainha
+diante do
+espelho, e disse-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho: Qual &eacute; agora a mulher mais linda que
+h&aacute; no mundo?
+Responde.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute;s tu nos teus grandes pal&aacute;cios e nos teus
+castelos, mas Branca est&aacute;
+nas sete montanhas, e Branca &eacute; mais linda do que
+tu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
+infeliz Branca. Tornou-se a disfar&ccedil;ar <span class="pagenum">[131]</span>em vendedeira. Chegou
+&agrave;s sete
+montanhas, e bateu &agrave; porta da cabana.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem quer comprar lindas j&oacute;ias? Branca veio &agrave;
+janela, e respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;V&aacute;-se embora, aqui n&atilde;o entra
+ningu&eacute;m.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro.
+J&aacute;
+viu outro t&atilde;o bonito?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Branca n&atilde;o p&ocirc;de resistir ao desejo de possuir
+aquela j&oacute;ia. Abriu a
+porta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh! minha linda menina, deixe-me p&ocirc;r-lho na
+cabe&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao dizer isto enterrou-lhe na cabe&ccedil;a o pente, que estava
+envenenado, e
+Branca caiu morta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Agrave; noite quando regressaram os an&otilde;es, acharam-na
+p&aacute;lida e fria.
+Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e
+tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+No entanto a cruel rainha voltava content&iacute;ssima para o seu
+pal&aacute;cio.
+Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a
+que
+o espelho respondeu como antecedentemente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ah! &eacute; preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha
+de me
+sacrificar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vestiu-se de camponesa com um cesto de ma&ccedil;&atilde;s.
+Entre elas havia uma que
+estava envenenada dum lado. Foi, e bateu &agrave; porta da
+cabana.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, n&atilde;o deixo
+entrar
+ningu&eacute;m, nem compro coisa alguma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Est&aacute; bem, n&atilde;o faltar&aacute; quem compre
+estas ricas ma&ccedil;&atilde;s. Mas por ser t&atilde;o
+bonita, quero dar-lhe uma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[132]</span>&#8213;Obrigada,
+n&atilde;o posso aceitar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Imagina que est&aacute; envenenada. Olhe, eu vou comer um
+peda&ccedil;o. Ah! que boa
+que &eacute;! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas
+palavras, a traidora
+mordia no lado da ma&ccedil;&atilde;, que n&atilde;o estava
+envenenado. Branca deixou-se
+tentar, levou &agrave; boca o outro peda&ccedil;o, e caiu
+fulminada.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;A&iacute; tens, para castigo da tua formosura.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando chegou ao pal&aacute;cio a rainha foi direita ao espelho, e
+perguntou-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, quem &eacute; agora a mulher mais
+linda?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute;s tu, &eacute;s tu.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;At&eacute; que enfim!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os an&otilde;es estavam inconsol&aacute;veis. Debalde tinham
+tentado reanim&aacute;-la com o
+licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca
+continuava
+fria e inanimada. Choraram por ela durante tr&ecirc;s dias, e os
+passarinhos
+da floresta choraram tamb&eacute;m. No entanto as boas avezinhas
+n&atilde;o podiam
+acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto t&atilde;o
+tranquilo,
+as suas faces t&atilde;o frescas, parecia que estava a dormir.
+N&atilde;o quiseram
+enterr&aacute;-la. Meteram-na num caix&atilde;o de cristal, e
+escreveram em cima.
+&laquo;Aqui jaz a filha dum rei;&raquo; puseram o
+caix&atilde;o numa das sete montanhas,
+e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
+assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais
+pequena altera&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar
+&agrave;
+ca&ccedil;a, viu o caix&atilde;o, e pediu aos an&otilde;es
+que lho cedessem, fosse por pre&ccedil;o
+que fosse.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[133]</span>&#8213;Somos muito
+ricos, e por nada deste mundo venderemos este caix&atilde;o, que
+&eacute; o nosso tesouro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o d&ecirc;em-mo, j&aacute; n&atilde;o posso
+viver sem contemplar este rosto de
+mulher. Guard&aacute;-lo-ei na melhor sala do meu
+pal&aacute;cio. Pe&ccedil;o-lhes que me
+fa&ccedil;am isto.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os an&otilde;es, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no
+caix&atilde;o para
+o levarem. Um deles trope&ccedil;ou numa raiz, e o
+caix&atilde;o sofreu um
+balan&ccedil;o, que fez cair o bocado da ma&ccedil;&atilde;
+envenenada, que Branca n&atilde;o tinha
+engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou.
+O
+jovem pr&iacute;ncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela.
+O
+casamento fez-se com grande pompa. O pr&iacute;ncipe convidou todos
+os reis e
+rainhas dos diferentes pa&iacute;ses, e entre elas a rainha inimiga
+de
+Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos
+os olhares, p&ocirc;s-se diante do espelho, e disse a rainha:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que h&aacute; do
+mundo?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o espelho respondeu:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Branca &eacute; mais formosa que tu.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus
+crimes
+fossem descobertos, que morreu de repente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu pal&aacute;cio
+de
+princesa n&atilde;o se esqueceu dos an&otilde;es que tinham
+sido os seus benfeitores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[134]</span>
+<h2><a name="40"></a>A rapariguinha e os
+f&oacute;sforos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que frio! a neve ca&iacute;a, e a noite aproximava-se; era o
+&uacute;ltimo de
+Dezembro, v&eacute;spera de Ano Bom. No meio deste frio e desta
+escurid&atilde;o
+passou na rua uma desgra&ccedil;ada pequerrucha, com a
+cabe&ccedil;a descoberta e os
+p&eacute;s descal&ccedil;os. &Eacute; verdade que trazia
+sapatos ao sair de casa, mas
+tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua
+m&atilde;e j&aacute;
+tinha usado, t&atilde;o grandes, que a pequenita perdeu-os ao
+atravessar a rua
+a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
+quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a
+inten&ccedil;&atilde;o de fazer
+dele um ber&ccedil;o para o seu primeiro filho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha
+no seu velho avental uma grande quantidade de f&oacute;sforos, e
+levava na
+m&atilde;o um ma&ccedil;o deles. O dia correra-lhe mal;
+n&atilde;o tinha havido
+compradores, e por isso n&atilde;o apurara cinco r&eacute;is.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
+longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do
+pesco&ccedil;o; <span class="pagenum">[135]</span>mas
+pensava ela porventura nos seus cabelos anelados?<br />
+
+
+<br />
+
+
+As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos
+manjares; era a v&eacute;spera de dia de Ano Bom: eis no que ela
+pensava.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
+vez mais, mas n&atilde;o se atrevia a voltar para casa: o pai
+bater-lhe-ia,
+porque n&atilde;o tinha vendido os seus f&oacute;sforos.
+Al&eacute;m disso em sua casa
+fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o
+vento
+atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
+m&atilde;ozinhas j&aacute; quase que as n&atilde;o sentia.
+Ai! como um fosforozinho aceso
+lhe faria bem! Se tirasse do ma&ccedil;o apenas um, um
+&uacute;nico, e ascendendo-o
+aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: <i>ritche</i>!
+como estoirou! como
+ardeu! Era uma chama t&eacute;pida e clara, como uma pequena
+lamparina. Que
+luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro
+de ferro, cujo lume magn&iacute;fico aquecia t&atilde;o
+suavemente, que era um regalo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+A pequerrucha ia j&aacute; a estender os pezitos para os aquecer
+tamb&eacute;m, quando
+a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na
+m&atilde;o uma
+pontita de f&oacute;sforo consumido.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu segundo f&oacute;sforo, que ardeu, que brilhou, e o muro
+onde bateu
+a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando
+atrav&eacute;s desse
+muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha
+alv&iacute;ssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual
+uma galinha
+assada com recheio de ameixas e de batatas <span class="pagenum">[136]</span>fumegava
+exalando um perfume
+delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do
+prato, e caiu no ch&atilde;o ao p&eacute; da pequerrucha, com o
+garfo e a faca
+espetada no lombo. Nisto apagou-se o f&oacute;sforo, e viu apenas
+diante de
+si a parede fria e tenebrosa.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu terceiro f&oacute;sforo, e achou-se imediatamente sentada
+debaixo
+de uma magn&iacute;fica &aacute;rvore do Natal; era ainda mais
+rica e maior do que a
+que tinha visto no ano passado atrav&eacute;s dos vidros de um
+armaz&eacute;m
+sumptuoso.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nos ramos verdes brilhavam centenares de bal&otilde;es acesos, e as
+estampas
+coloridas, como as que h&aacute; &agrave;s portas das lojas,
+pareciam sorrir-lhe.
+Quando ia agarr&aacute;-las com as duas m&atilde;os, apagou-se
+o f&oacute;sforo; todos os
+bal&otilde;es da &aacute;rvore do Natal come&ccedil;aram a
+subir, a subir, e viu ent&atilde;o que se
+tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no
+c&eacute;u
+um longo rasto de fogo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; algu&eacute;m que est&aacute; a morrer, disse a
+pequerrucha; porque a sua av&oacute;, que
+lhe queria tanto, mas que j&aacute; morrera, dissera-lhe muitas
+vezes: &laquo;Quando
+cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu ainda outro f&oacute;sforo: deu uma grande luz, no meio da
+qual lhe
+apareceu sua av&oacute;, de p&eacute;, com um ar radioso e
+suav&iacute;ssimo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Minha av&oacute;, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei
+que te vais
+embora quando se apagar o f&oacute;sforo. Desaparecer&aacute;s
+como a panela de
+ferro, a galinha assada, e a bela &aacute;rvore do Natal.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acendeu o rosto do ma&ccedil;o, porque n&atilde;o queria <span class="pagenum">[137]</span>que sua av&oacute; lhe
+fugisse, e
+os f&oacute;sforos espalharam um clar&atilde;o mais vivo que a
+luz do dia. Nunca sua
+av&oacute; tinha sido t&atilde;o formosa. P&ocirc;s ao colo
+a pequerruchinha, e ambas
+alegres, no meio deste deslumbramento, voaram t&atilde;o alto,
+t&atilde;o alto, que
+j&aacute; n&atilde;o tinha nem frio, nem fome, nem agonias:
+haviam chegado ao Para&iacute;so.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os
+dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos
+l&aacute;bios...
+morta, morta de frio na &uacute;ltima noite do ano. O dia de Ano
+Bom veio
+alumiar o pequenino cad&aacute;ver, sentado ali com os seus
+f&oacute;sforos, a que
+faltava um ma&ccedil;o, que tinha ardido quase inteiramente.&#8213;Quis
+aquecer-se,
+disse um homem que passou.&raquo; E ningu&eacute;m soube nunca
+as lindas coisas que
+ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
+velha av&oacute; no dia do Ano Novo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[138]</span>
+<h2><a name="41"></a>O primeiro pecado de
+Margarida</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chamava-se Margarida, e estavam &agrave; espera dela no
+c&eacute;u, porque Deus
+tinha dito:&#8213;&Eacute; uma boa alma, e, como l&aacute; em baixo
+no mundo lhe pode
+acontecer alguma desgra&ccedil;a, vou traz&ecirc;-la um destes
+dias para o para&iacute;so.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Margarida era uma virgem c&acirc;ndida, matinal como a aurora,
+fresca como
+ela; todos os dias ao acordar rezava as ora&ccedil;&otilde;es,
+que sua m&atilde;e lhe tinha
+ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como
+n&atilde;o tinha
+j&oacute;ias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela
+can&ccedil;&atilde;o
+de amor e de gl&oacute;ria, que j&aacute; embalara muitos
+ber&ccedil;os, e que podia
+sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Numa tarde de Ver&atilde;o, estava ela sentada &agrave; porta
+de casa fiando linho,
+&agrave; hora em que as estrelas come&ccedil;am a aparecer, uma
+a uma no firmamento.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estava Margarida cantando a sua can&ccedil;&atilde;o, quando <span class="pagenum">[139]</span>passou por ali uma das
+suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido
+novo.
+Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
+colar de ouro que levava ao pesco&ccedil;o; apertou-lhe a
+m&atilde;o para que visse
+bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
+contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que
+inquietou no para&iacute;so o seu anjo da guarda.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O fio de linho j&aacute; n&atilde;o passava t&atilde;o
+rapidamente entre os dedos de
+Margarida, a roda cessara o seu barulho mon&oacute;tono, e o fuso
+ca&iacute;ra-lhe das
+m&atilde;os.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao cair o fuso despertou do &ecirc;xtase, abriu os olhos, e viu
+diante de si
+um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na m&atilde;o um gorro
+de veludo
+preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a
+respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
+perguntou-lhe:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Qual &eacute; o caminho da cidade?&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Margarida estendeu a m&atilde;o para lho indicar, e o forasteiro
+inclinando-se
+tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma
+estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que
+o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se
+ent&atilde;o com
+um sorriso estranho e diab&oacute;lico.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
+Margarida, e pediu-lhe uma esmola.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre
+desgra&ccedil;ado.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O cavaleiro ent&atilde;o, soltando um grito de c&oacute;lera,
+ia lan&ccedil;ar-se sobre
+Margarida, mas o mendigo&#8213;<span class="pagenum">[140]</span>que
+era o seu anjo da guarda
+disfar&ccedil;ado&#8213;cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto
+&eacute; Satan&aacute;s, que
+tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do
+esp&iacute;rito celeste.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[141]</span>
+<h2><a name="42"></a>Um nome inscrito no
+c&eacute;u</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era uma vez um pobre mendigo, que bateu &agrave; porta duma humilde
+cabana a
+pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas n&atilde;o
+vendo, nem
+ouvindo ningu&eacute;m, abriu a porta de mansinho e entrou no
+casebre; viu
+ent&atilde;o uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Ai! n&atilde;o te posso dar nada, porque nada
+tenho.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater
+&agrave; mesma
+porta.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, j&aacute; te disse que
+n&atilde;o tenho nada
+que te dar.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Foi por isso que eu voltei&#8213;disse em voz baixa o mendigo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
+cima da mesa, muitos bocados de p&atilde;o e algumas moedas de dez
+r&eacute;is, que
+lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Aqui te fica isto, santinha&#8213;disse-lhe ele afectuosamente, indo-se
+embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos
+escrev&ecirc;-lo-&atilde;o no
+Para&iacute;so, e mais tarde n&oacute;s o viremos a saber.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[142]</span>
+<h2> <a name="43"></a>O linho</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e
+transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios
+sobre
+ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o
+dum filho quando a m&atilde;e o lava e lhe d&aacute; um beijo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
+e serei brevemente uma rica pe&ccedil;a de pano. Sinto-me feliz.
+N&atilde;o h&aacute;
+ningu&eacute;m que seja mais feliz do que eu sou. Tenho
+sa&uacute;de e um belo
+futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
+feliz, feliz a mais n&atilde;o poder ser!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Como &eacute;s ing&eacute;nuo! disseram as silvas do valado;
+tu n&atilde;o conheces o
+mundo, de que n&oacute;s outras temos uma larga
+experi&ecirc;ncia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E rangendo lastimosamente, cantaram:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">&#8213;Cric, crac! cric, crac! crac!<br />
+
+
+&#8213;Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div>
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o t&atilde;o cedo como voc&ecirc;s imaginam,
+respondeu o linho; est&aacute; uma bela
+manh&atilde;, o sol resplandece, <span class="pagenum">[143]</span>e
+a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+florir. Sou muit&iacute;ssimo feliz.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
+cabeleira, arrancaram-no com ra&iacute;zes e tudo, e deram-lhe
+tratos de
+pol&eacute;. Primeiro mergulharam-no em &aacute;gua, como se o
+quisessem afog&aacute;-lo, e
+depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si;
+&eacute; necess&aacute;rio
+sofrer, o sofrimento &eacute; a m&atilde;e da
+experi&ecirc;ncia.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no,
+cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois,
+puseram-no numa roca, e ent&atilde;o perdeu a cabe&ccedil;a
+inteiramente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Era feliz de mais, pensava o desgra&ccedil;ado linho no meio
+daquelas
+torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades
+perdidas.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E ainda estava dizendo&#8213;perdidas, e j&aacute; o estavam a meter no
+tear e a
+transform&aacute;-lo numa pe&ccedil;a de pano.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Isto &eacute; extraordin&aacute;rio, nunca o imaginei; que boa
+sorte a minha, e que
+grandes tolas aquelas silvas quando cantavam:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Cric, crac! cric, crac! crac!<br />
+
+
+Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div>
+
+
+<br />
+
+
+Agora &eacute; que eu principio a viver. Padeci muito, &eacute;
+verdade, mas por isso
+tamb&eacute;m agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me
+t&atilde;o forte, t&atilde;o alto,
+t&atilde;o macio! Ah! isto &eacute; bem melhor do que ser
+planta, mesmo florida,
+ningu&eacute;m trata da gente, e <span class="pagenum">[144]</span>n&atilde;o
+bebemos outra &aacute;gua a n&atilde;o ser a da chuva.
+Agora &eacute; o contr&aacute;rio: que cuidados! As raparigas
+estendem-me todas as
+manh&atilde;s, e &agrave; noite tomo o meu banho com um
+regador. A criada do sr. cura
+fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
+melhor pe&ccedil;a da par&oacute;quia. N&atilde;o posso ser
+mais feliz.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Levaram o pano para casa, e entregaram-no &agrave;s tesouras.
+Cortaram-no e
+picaram-no com uma agulha. N&atilde;o era l&aacute; muito
+agrad&aacute;vel, mas em
+compensa&ccedil;&atilde;o fizeram dele uma d&uacute;zia de
+camisas magn&iacute;ficas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Agora decididamente come&ccedil;o a valer alguma coisa. O meu
+destino &eacute;
+aben&ccedil;oado, porque sou &uacute;til neste mundo.
+&Eacute; preciso isso para se viver em
+paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze peda&ccedil;os, &eacute;
+verdade, mas formamos um
+s&oacute; grupo, uma d&uacute;zia. Que incompar&aacute;vel
+felicidade!<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas
+n&atilde;o
+se fazem imposs&iacute;veis.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
+finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem
+adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em
+papel
+branco magn&iacute;fico.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh que agrad&aacute;vel surpresa! exclamou o papel, agora sou
+muito mais fino
+do que dantes, e v&atilde;o cobrir-me de letras. O que
+n&atilde;o escrever&atilde;o em cima
+de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+E escreveram nele as mais belas hist&oacute;rias, que foram lidas
+diante de
+in&uacute;meros ouvintes, e os tornaram mais s&aacute;bios e
+melhores.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[145]</span>&#8213;Ora aqui
+est&aacute; uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
+quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
+ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! N&atilde;o
+sei
+explicar o que me est&aacute; acontecendo, mas &eacute;
+verdade. Deus sabe
+perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
+sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, at&eacute; chegar
+&agrave; maior gl&oacute;ria.
+Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: &laquo;Acabou-se,
+acabou-se&raquo;
+tudo pelo contr&aacute;rio se me apresenta debaixo do aspecto mais
+risonho. Vou
+viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
+instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora
+as minhas flores s&atilde;o os mais elevados pensamentos. Sinto-me
+feliz,
+imensamente feliz!&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas o papel n&atilde;o foi viajar; entregaram-no ao
+tip&oacute;grafo, e tudo que l&aacute;
+estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
+que recrearam e instru&iacute;ram uma infinidade de pessoas. O
+nosso bocado de
+papel n&atilde;o teria prestado o mesmo servi&ccedil;o, ainda
+que desse a volta &agrave; roda
+do mundo. A meio caminho j&aacute; estaria gasto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&Eacute; justo, disse o papel, n&atilde;o tinha pensado nisso.
+Fico em casa, e vou
+ser considerado como um velho av&ocirc;! fui eu que recebi as
+letras, as
+palavras ca&iacute;ram directamente da pena sobre mim, fico no meu
+lugar, e os
+livros v&atilde;o por esse mundo fora. A sua miss&atilde;o
+&eacute; realmente bela, e eu
+estou contente, e julgo-me feliz.<br />
+
+
+<br />
+
+
+O papel foi empacotado, e lan&ccedil;ado para uma estante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Depois do trabalho &eacute; agrad&aacute;vel o descanso, <span class="pagenum">[146]</span>pensou ele. &Eacute;
+neste
+isolamento que a gente aprende a conhecer-se. S&oacute; de hoje em
+diante &eacute; que
+eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a n&oacute;s mesmo
+&eacute; a verdadeira
+perfei&ccedil;&atilde;o. Que me ir&aacute; ainda acontecer?
+Progredir, est&aacute; claro.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passados tempos, o papel foi atirado ao fog&atilde;o para o
+queimarem, porque o
+que o n&atilde;o queriam vender ao merceeiro para embrulhar
+a&ccedil;&uacute;car. E todas as
+crian&ccedil;as da casa se puseram &agrave; roda; queriam
+v&ecirc;-lo arder, e ver tamb&eacute;m,
+depois da labareda, as milhares de fa&iacute;scas vermelhas, que
+parecem fugir,
+e se apagam instantaneamente uma ap&oacute;s outra. O
+ma&ccedil;o inteiro de papel
+foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande
+chama, que se erguia t&atilde;o alto, t&atilde;o alto como o
+linho nunca erguera as
+suas flores azuis; a pe&ccedil;a de pano nunca tinha tido um brilho
+semelhante.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
+palavras, todas as ideias desapareceram em l&iacute;nguas de fogo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;&laquo;Vou subir at&eacute; ao sol;&raquo; dizia uma voz
+no meio da labareda, que
+pareciam mil vozes reunidas numa s&oacute;. A chama saiu pela
+chamin&eacute;, e no
+meio dela volteavam pequeninos seres invis&iacute;veis para os
+olhos do
+homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha
+dado.
+Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu,
+quando n&atilde;o restava do papel sen&atilde;o a cinza negra,
+ainda eles dan&ccedil;avam
+sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas
+encarnadas.<br />
+
+
+<br />
+
+
+As crian&ccedil;as cantavam &agrave; roda da cinza inanimada:<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[147]</span>
+<div class="poetry">Cric, crac! cric, crac! crac!<br />
+
+
+Acabou-se! acabou-se! acabou-se!</div>
+
+
+<br />
+
+
+Mas cada um dos pequeninos seres dizia: &laquo;N&atilde;o,
+n&atilde;o se acabou; agora &eacute; que
+&eacute; o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.&raquo;<br />
+
+
+<br />
+
+
+As crian&ccedil;as n&atilde;o puderam ouvir, nem compreender
+estas palavras; mas
+tamb&eacute;m n&atilde;o era necess&aacute;rio, porque as
+crian&ccedil;as n&atilde;o devem saber tudo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;">FIM.<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h5>&Iacute;NDICE</h5>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div>
+<a href="#1">A m&atilde;e</a><br />
+
+
+<a href="#2">O ouro</a><br />
+
+
+<a href="#3">Do&ccedil;ura e bondade</a><br />
+
+
+<a href="#4">O malmequer</a><br />
+
+
+<a href="#5">N&atilde;o quero</a><br />
+
+
+<a href="#6">Piloto</a><br />
+
+
+<a href="#7">O rico e o pobre</a><br />
+
+
+<a href="#8">Como um campon&ecirc;s aprendeu o Padre
+Nosso</a><br />
+
+
+<a href="#9">O talism&atilde;</a><br />
+
+
+<a href="#10">A alma</a><br />
+
+
+<a href="#11">Alberto</a><br />
+
+
+<a href="#12">A can&ccedil;&atilde;o da cerejeira</a><br />
+
+
+<a href="#13">Os gigantes da montanha e os
+an&otilde;es da plan&iacute;cie</a><br />
+
+
+<a href="#14">A crian&ccedil;a, o anjo e flor</a><br />
+
+
+<a href="#15">Presente por presente</a><br />
+
+
+<a href="#16">O pinheiro ambicioso</a><br />
+
+
+<a href="#17">Perfei&ccedil;&atilde;o das obras de
+Deus</a><br />
+
+
+<a href="#18">Jo&atilde;o e os seus camaradas</a><br />
+
+
+<a href="#19">O rabequista</a><br />
+
+
+<a href="#20">Os p&ecirc;ssegos</a><br />
+
+
+<a href="#21">A urna das l&aacute;grimas</a><br />
+
+
+<a href="#22">Reconhecimento e ingratid&atilde;o</a><br />
+
+
+<a href="#23">O fato novo do sult&atilde;o</a><br />
+
+
+<a href="#24">Boa senten&ccedil;a</a><br />
+
+
+<a href="#25">Os animais agradecidos</a><br />
+
+
+<a href="#26">O ermit&atilde;o</a><br />
+
+
+<a href="#27">Carlos Magno e o abade de S. Gall</a><br />
+
+
+<a href="#28">A boneca</a><br />
+
+
+<a href="#29">Inconveniente da riqueza</a><br />
+
+
+<a href="#30">Querer &eacute; poder</a><br />
+
+
+<a href="#31">Qual ser&aacute; rei?</a><br />
+
+
+<a href="#32">Os tr&ecirc;s v&eacute;us de Maria</a><br />
+
+
+<a href="#33">Os pequenos no bosque</a><br />
+
+
+<a href="#34">O chapelinho encarnado</a><br />
+
+
+<a href="#35">Os cinco sonhos</a><br />
+
+
+<a href="#36">A igreja do rei</a><br />
+
+
+<a href="#37">O valente soldado de chumbo</a><br />
+
+
+<a href="#38">Jo&atilde;o Pateta</a><br />
+
+
+<a href="#39">Branca de Neve</a><br />
+
+
+<a href="#40">A rapariguinha e os f&oacute;sforos</a><br />
+
+
+<a href="#41">O primeiro pecado de Margarida</a><br />
+
+
+<a href="#42">Um nome inscrito no c&eacute;u</a><br />
+
+
+<a href="#43">O linho</a><br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<table style="width: 449px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto; height: 210px;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr align="right">
+
+
+ <td style="width: 99px; height: 23px;"></td>
+
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 148px; height: 23px;">Original</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 23px;"></td>
+
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 158px; height: 23px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e1"></a><a href="#p56">#p&aacute;g.
+56</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">entrar?</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">entrar!</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e2"></a><a href="#p58">#p&aacute;g.
+58</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">Jo&atilde;o.</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">Jo&atilde;o:</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e3"></a><a href="#p58">#p&aacute;g.
+58</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">embora?</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">embora.</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"><a name="e4"></a><a href="#p107">#p&aacute;g.
+107</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;">encontremos</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;">encontraremos</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A propriedade deste livro pertence no Brasil ao sr. Lu&iacute;s de
+Andrade,
+residente no Rio de Janeiro.<br />
+
+</body>
+</html>
diff --git a/old/modern/contos.txt b/old/modern/contos.txt
new file mode 100644
index 0000000..e29ba95
--- /dev/null
+++ b/old/modern/contos.txt
@@ -0,0 +1,4000 @@
+
+
+
+
+Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the
+original version, already available at Project Gutenberg. / Actualização
+ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg.)
+
+
+
+
+
+
+
+
+CONTOS PARA A INFÂNCIA
+
+ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES POR GUERRA JUNQUEIRO
+
+
+LISBOA
+
+TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOMÁS QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL
+
+Rua dos Calafates, 110
+
+1877
+
+
+
+
+*A mãe*
+
+
+Estava uma mãe muito aflita, sentada ao pé do berço do seu filho, com
+medo que lhe morresse. A criancinha pálida tinha os olhos fechados.
+Respirava com dificuldade, e às vezes tão profundamente, que parecia
+gemer; mas a mãe causava ainda mais lástima do que o pequenino
+moribundo.
+
+Nisto bateram à porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado
+numa manta de arrieiro. Era no Inverno. Lá fora estava tudo coberto de
+neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha.
+
+O pobre homem tremia de frio; a criança adormecera por alguns instantes,
+e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho
+começou a embalar a criança, e a mãe, pegando numa cadeira, sentou-se
+ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
+vez com mais dificuldade, pegou-lhe na mãozinha descarnada e disse para
+o velho:
+
+--Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar! não é verdade?--
+
+E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça duma maneira estranha, em
+ar de dúvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lágrimas
+corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de
+cabeça; estava sem dormir havia três dias e três noites. Passou
+ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a
+tremer de frio.
+
+--Que é isto! exclamou, lançando à volta de si o olhar alucinado. O
+berço estava vazio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a criança.
+
+ * * * * *
+
+A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma
+mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em
+casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
+depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a entregar.»
+
+--Por onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo pelo amor de Deus!»
+
+--Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto.
+Mas só to ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas
+ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
+muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas.
+
+--Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me
+demores, porque quero encontrar o meu filho.--
+
+A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lágrimas, começou a
+cantar. Cantou muitas canções, mas as lágrimas foram mais do que as
+palavras.
+
+No fim disse-lhe a Noite: «Toma à direita, pela floresta escura de
+pinheiros. Foi por aí que a Morte fugiu com o teu filho.»
+
+A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não
+sabia que direcção havia de seguir. Diante dela havia um matagal,
+cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
+cristalizada.
+
+ * * * * *
+
+--Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe.
+
+--Vi, respondeu o matagal, mas não te ensino o caminho, senão com a
+condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»
+
+E a mãe estreitou o matagal contra o coração; os espinhos
+dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se
+de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite
+de Inverno frigidíssima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe
+angustiosa.
+
+E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
+andando, até que chegou à margem dum grande lago, onde não havia nem
+barcos, nem navios. Não estava suficientemente gelado para se andar por
+ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo,
+querendo encontrar o seu filho, era necessário atravessá-lo. No delírio
+do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a água do
+lago. Era impossível, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria
+talvez um milagre.
+
+--Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Sossega, e entendamo-nos
+amigavelmente. Gosto de ver pérolas no fundo das minhas águas, e os teus
+olhos são dum brilho mais suave do que as pérolas mais ricas que eu
+tenho possuído. Se queres, arranca-os das órbitas à força de chorar, e
+levar-te-ei à estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a
+habitação da Morte; e as flores e as árvores que estão lá dentro, é ela
+quem as cultiva; cada flor e cada árvore é a vida duma criatura
+humana.»
+
+--Oh! o que não darei eu, para reaver o meu filho!» disse a mãe. E
+apesar de ter já chorado tantas lágrimas, chorou com mais amargura do
+que nunca, e os seus olhos destacaram-se das órbitas e caíram no fundo
+do lago, transformando-se em duas pérolas, como ainda as não teve no
+mundo uma rainha.
+
+O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na
+outra margem, aonde havia um maravilhoso edifício, com mais de uma légua
+de comprido. De longe não se sabia se era uma construção artística ou
+uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada;
+tinha dado os seus olhos.
+
+--Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou
+ela desesperada.
+
+--A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava dum
+lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
+vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho?»
+
+--Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus é misericordioso. Compadece-te
+de mim, e diz-me onde está o meu filho.»
+
+--Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Há aqui muitas plantas
+e muitas árvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda aí para
+as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste
+sítio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem
+com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes,
+sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as
+pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o
+que tens ainda de fazer?»
+
+--Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim
+do mundo buscar o que tu quiseres.--«Fora daqui não preciso de nada,
+respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabelos negros; tu sabes que
+são belos, e agradam-me. Trocá-los-ei pelos meus cabelos
+brancos.»--Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Aí os tens,
+dou-tos de boa vontade.»
+
+E arrancou os seus magníficos cabelos, que tinham sido outrora o seu
+orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e
+inteiramente brancos da velha.
+
+Esta levou-a pela mão à grande estufa, onde crescia exuberantemente uma
+vegetação maravilhosa. Viam-se debaixo de campânulas de cristal jacintos
+mimosíssimos ao lado de peónias inchadas e ordinárias. Havia também plantas
+aquáticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raízes se
+enovelavam cobras asquerosas.
+
+Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e plátanos
+frondosos; depois num outro sítio isolado havia canteiros de salsa,
+tomilho, hortelã e outras plantas humildes que representavam o género de
+utilidade das pessoas que elas simbolizavam.
+
+Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
+pareciam rebentar; mas viam-se também florzitas insignificantes, em
+vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com
+esmero delicadíssimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a
+essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlândia.
+
+A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a mãe
+impacientada pediu-lhe que a levasse ao sítio onde estavam as plantas
+pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
+coração, e, depois de ter tocado em milhares delas, reconheceu as
+pulsações do coração do seu filho.
+
+--É ele!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre
+a terra, parecia completamente estiolado.
+
+--Não lhe toques, disse a velha. Fica neste sítio; e quando a Morte
+vier, que não tarda, proíbe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de
+arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem
+de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu
+consentimento.»
+
+Nisto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte,
+que se aproximava.
+
+--Como é que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
+primeiro do que eu! Como o conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ela.
+
+E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.
+
+Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de
+não ferir uma só das pequeninas pétalas. Então a Morte soprou-lhe nas
+mãos, fazendo-lhas cair inanimadas. O hálito da Morte era mais frio do
+que os ventos enregelados do Inverno.
+
+--Não podes nada comigo!» disse a Morte.--Mas Deus tem mais força do que
+tu, respondeu a mãe.»--«É verdade, mas eu não faço senão aquilo que
+ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, árvores e
+arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins,
+um dos quais é o grande jardim do Paraíso. São regiões desconhecidas;
+ninguém sabe o que se lá passa.»
+
+--Misericórdia! misericórdia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho,
+agora que acabo de o encontrar!» Suplicava e gemia. A Morte
+conservava-se impassível; agarrou então instantaneamente em duas flores
+lindíssimas e disse à Morte: «Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar,
+despedaçar não só esta, mas todas as flores que estão aqui!
+
+--Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és
+desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra mãe!»
+disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente.--Toma, aqui
+tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei
+do lago. Não sabia que eram teus. Mete-os nas órbitas, e olha para o
+fundo deste poço; vê o que ias destruir, se arrancasses estas flores.
+Verás passar nos reflexos da água, como numa miragem, a sorte destinada
+a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se
+porventura vivesse.»
+
+Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria,
+quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terríveis de
+miséria, de angústias e de desolação.
+
+--Nisto que eu vejo, disse a mãe aflitíssima, não distingo qual era a
+sorte que Deus destinava ao meu filho.»
+
+--Não posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto
+que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu filho.»
+
+A mãe desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Suplico-te, diz-me:
+era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade! Fala!
+Não me respondes? Oh! na dúvida, leva-o, leva-o, não vá ele sofrer
+desgraças tão horríveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que à minha
+vida. As angústias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos céus.
+Esquece as minhas lágrimas, as minhas súplicas, esquece tudo o que fiz
+e tudo o que disse.»
+
+--Não te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu
+filho ou que o leve para a região desconhecida de que não posso
+falar-te!» Então a mãe alucinada, convulsa, torcendo os braços,
+deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: «Não me ouças,
+Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua vontade que é
+sempre justa! Não me atendas meu Deus!»
+
+E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua agonia
+dilacerante.
+
+E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi transplantá-lo no
+jardim do paraíso.
+
+
+
+
+
+*O ouro*
+
+
+Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de ouro,
+empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o
+resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande
+fome no país.
+
+Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
+segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
+e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com
+que ele ficou todo satisfeito, porque não compreendeu ao princípio
+qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada
+de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem
+que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus
+vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
+trazê-los nas minas à busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e
+que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens,
+estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro
+aparecesse em abundância.
+
+A rainha tinha juízo.
+
+
+
+
+*Doçura e bondade*
+
+
+Há entre vós, meus filhos, índoles violentas, que não sabem dominar-se,
+e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma péssima
+disposição, que é necessário corrigir; dá lugar a disputas, e a que se
+cometam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.
+Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.
+
+Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
+dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada.
+
+--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num
+cego!»
+
+Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns
+camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a bater no burro, para o
+fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a
+sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubésseis que eu era coxo, não
+teríeis sido tão covardes.»
+
+Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma
+palavra.
+
+Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a
+quem as recebeu.
+
+
+
+
+
+*O malmequer*
+
+
+Ouvi com atenção esta pequenina história!
+
+No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
+deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho com flores,
+rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no
+meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
+olhos vistos, graças ao sol, que repartia igualmente a sua luz tanto por
+ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela
+manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
+parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe dava
+que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, pobre florinha
+insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
+sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
+
+Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira,
+sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianças
+sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, ele, sentado na haste
+verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
+o que sentia misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com
+admirável nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso pôs-se a
+olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa avezinha
+feliz que cantava e voava.
+
+«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento
+acaricia-me. Oh! não tenho razão de me queixar.»
+
+Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocráticas; quanto menos
+aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dálias inchavam-se para
+parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa.
+As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se
+pretensiosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno
+malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: «Como são
+ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visitá-las. Graças a Deus,
+poderei assistir a este belo espectáculo.» E no mesmo instante a
+cotovia dirigiu o seu voo, não para as dálias e tulipas, mas para a
+relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria não sabia o que
+havia de pensar.
+
+O passarinho pôs-se a saltitar à roda dele, cantando: «Como a erva é
+macia! oh! que encantadora florinha, com um coração de oiro, vestida de
+prata!»
+
+Não se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com
+o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do
+firmamento. Durante mais de um quarto de hora não pôde o malmequer
+reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou
+para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
+acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as
+tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
+pontiaguda manifestava o despeito. As dálias tinham a cabeça toda
+inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradáveis
+ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.
+
+Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
+grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
+uma a uma.
+
+«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrível; foram-se
+todas.»
+
+E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se por
+ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando
+reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
+adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.
+
+No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao
+ar e à luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,
+muitíssimo triste. A pobre cotovia tinha boas razões para se afligir:
+haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela
+aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas
+antigas viagens através do espaço ilimitado.
+
+O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
+difícil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe
+esquecer inteiramente as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e
+a alvura resplandecente das suas próprias folhas.
+
+Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão
+uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
+tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia compreender o
+que desejavam.
+
+«Podemos arrancar daqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos
+rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.
+
+--«Arranca a flor, disse o outro.»
+
+A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era
+morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existência, como no momento em
+que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
+
+«Não; deixemo-la, disse o mais velho. Está aí muito bem.»
+
+Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
+
+O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia
+com as asas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus
+desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.
+
+Passou-se assim toda a manhã.
+
+«Já não tenho água, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
+deixarem ao menos uma gota de água. A garganta queima-me, tenho uma febre
+terrível, sinto-me abafada! Ai! Não há remédio senão morrer, longe do
+sol esplêndido, longe da fresca verdura e de todas as magnificências da
+criação!»
+
+Depois enterrou o bico na relva húmida para se refrescar um pouco. Viu
+então o malmequer; fez-lhe um sinal de cabeça amigável, e disse-lhe,
+afagando-o: «Também tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo
+inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva,
+e a ti só por única companhia. Cada pezinho de relva substitui para mim
+uma árvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorífera. Ah!
+como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!
+
+--Se eu pudesse consolá-la! pensava o malmequer, incapaz de fazer o
+mínimo movimento.
+
+Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume;
+a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
+arrancar a erva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na
+flor.
+
+Caiu a noite; não estava ali ninguém, para trazer uma gota de água à
+desditosa cotovia; Estendeu então as suas belas asas, sacudindo-as
+convulsivamente, e pôs-se a cantar uma cançãozinha melancólica; a sua
+cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e
+de angústias cessou de bater. Vendo este triste espectáculo, o malmequer
+não pôde como na véspera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se
+para o chão, doente de tristeza.
+
+Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
+rebentaram-lhe as lágrimas e abriram uma cova. Meteram o cadáver dentro
+de uma caixa vermelha, lindíssima, fizeram-lhe um enterro de príncipe, e
+cobriram o túmulo com folhas de rosas.
+
+Pobre passarinho! Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e
+deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram
+e lhe fizeram honrarias pomposíssimas.
+
+A relva e o malmequer lançaram-nas para a poeira da estrada; daquele
+que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguém se lembrou.
+
+
+
+
+
+*Não quero*
+
+
+Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito
+alto: «Não, dizia um com voz enérgica, não quero.» Parei e
+perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu rapaz?--«Não quero dizer
+à mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me há-de ralhar,
+mas antes quero que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe
+eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, enquanto que o outro
+pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
+todo envergonhado.
+
+Daí a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de falar com o
+professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois
+pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que o outro,
+vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
+dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um magnífico
+estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a
+confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a repará-las. O outro
+pelo contrário, é mentiroso, covarde e incorrigível.»--Não me espanto,
+disse eu, já tinha tirado o horóscopo destas duas crianças; e
+contei-lhe o que tinha ouvido.
+
+
+
+
+*Piloto*
+
+
+Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e o
+infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da quinta.
+
+Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe
+lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e
+trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã
+Joaninha.
+
+Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do
+Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o
+assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações:
+partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos
+pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.
+
+Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda
+da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da
+quinta.
+
+Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade; um jornaleiro, que se
+empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa,
+tentou de noite roubar um saco.
+
+Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade
+em quanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou
+tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o
+largar.
+
+Era como se dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu dono?»
+
+O ladrão quis pôr então outra vez o saco donde o tinha tirado; Piloto
+não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de
+manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição,
+repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não
+desonrar.
+
+Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a
+ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
+ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até à
+margem do ribeiro.
+
+Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e levantando o animal
+atirou-o à água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço,
+caiu também.
+
+Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o
+corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e
+desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes
+e trazido para terra o seu mortal inimigo.
+
+Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o
+cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
+
+Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse dia, violentou-se a si
+mesmo e combateu as suas más inclinações.
+
+O exemplo do cão corrigiu o homem.
+
+
+
+
+*O rico e o pobre*
+
+
+Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
+dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
+deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma estalagem, junto da
+estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar,
+quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
+preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos
+viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo,
+e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
+vinho.
+
+Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua
+côdea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapéu todo roto, e
+suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino tão rico,
+em vez do desgraçado Martinho! Que fortuna se ele estivesse aqui, e eu
+dentro daquela carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia
+Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lançando a cabeça fora da
+carruagem, chamou Martinho com a mão.
+
+--Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a
+minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho
+corando, o que eu disse não foi por mal.»--Não estou zangado contigo,
+replicou o fidalguinho, pelo contrário, desejo fazer a troca.»
+
+--Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguém quereria estar
+no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando
+muitas léguas por dia, como pão seco e batatas, enquanto que o senhor
+anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.»--Pois bem,
+volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu
+não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho
+ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
+preceptor continuou: «Aceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho,
+ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada
+de me ver entrar nesta bela carruagem!» E Martinho desatou a rir com a
+ideia da entrada triunfante na sua aldeia.
+
+O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
+descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma
+perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em
+duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou
+que era muito pálido e que tinha cara de doente.
+
+Sorriu para o rapazito com ar benévolo, e disse-lhe:--Então sempre
+desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas
+valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter uma carruagem e
+andar bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou
+Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
+tivesse saúde. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e doente, sofro
+os meus males com paciência e faço por ser alegre, dando graças a Deus
+pelos bens que me concedeu na sua infinita misericórdia.
+
+«Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal,
+tens força e saúde, coisas que valem mais que uma carruagem, e que não
+podem comprar-se com dinheiro.
+
+
+
+
+
+*Como um camponês aprendeu o Padre Nosso*
+
+
+Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
+confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o Padre Nosso.
+
+«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.»
+
+«Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitência dar a
+crédito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da
+minha parte.»
+
+No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
+
+«Como te chamas? perguntou-lhe o camponês.
+
+«Padre--Nosso--Que--Estais--No--Céu, respondeu o pobre.»
+
+«E o teu apelido?»
+
+«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.»
+
+E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.
+
+Ao outro dia chega segundo pobre.
+
+«Como te chamas?
+
+«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.»
+
+«E o teu apelido?»
+
+«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.»
+
+E partiu com o seu alqueire de trigo.
+
+Veio terceiro pobre.
+
+«Como te chamas?»
+
+«Assim--Na--Terra--Como--No--Céu.»
+
+«E o teu apelido?»
+
+«Dai-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.»
+
+E levou o seu alqueire.
+
+Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma
+forma até chegar ao _Amen_.
+
+Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.
+
+«Então já sabes o Padre Nosso?»
+
+«Não, sr. cura, sei só os nomes e apelidos dos pobres a quem emprestei
+o meu trigo.»
+
+«Quais são? tornou o padre.»
+
+E o aldeão enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
+apresentado.
+
+«Já vês, disse o confessor, que não era muito difícil aprender o Padre
+Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»
+
+
+
+
+*O talismã*
+
+
+Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma indústria, mas
+com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
+que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negócios com
+uma actividade infatigável, enquanto que o segundo, entregue
+inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da
+sua casa.
+
+«Explica-me, disse um dia este último ao seu colega, qual é a razão
+porque a sorte nos trata de um modo tão diferente? Vendemos as mesmas
+mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apesar
+disso, enquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu
+seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não
+terás tu por acaso algum precioso talismã.»
+
+«Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um talismã de uma
+virtude incomparável. Trago-o ao pescoço, e ando assim com ele todo o
+dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o
+celeiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.»
+
+«Olé meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa relíquia
+preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta
+restituo.»
+
+«Pois vem buscá-la amanhã de manhã.»
+
+Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
+apresentou-lhe este uma avelã, através da qual tinha passado um
+fio de seda.
+
+O nosso homem pô-la imediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a
+casa com o talismã. Observou então a completa desordem que por toda a
+parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
+cozinha o pão, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o trigo, o
+feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjedouras dos
+cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
+escriturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remédio,
+compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substituído por
+terceira pessoa na direcção dos seus negócios.
+
+Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talismã,
+agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em
+segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.
+
+
+
+
+*A alma*
+
+
+«Mamã, nem todas as crianças que morrem vão para o Paraíso. O outro dia
+vi levar para o cemitério um menino que tinha morrido; o seu papá e as
+suas duas irmãzinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me
+fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau, não é
+verdade?»
+
+«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, enquanto choravam seus
+pais e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraíso.»
+
+«A alma? mamã; não sei o que é; não compreendo bem.»
+
+«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
+pequerruchas.»
+
+«Tive sim, mamã, tive muita pena.»
+
+«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
+braços?»
+
+«Não, mamã.»
+
+«Eram as orelhas?»
+
+«Oh! não mamã, era _cá dentro_.»
+
+«Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece,
+que te repreende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando
+praticas o bem.
+
+
+
+
+*Alberto*
+
+
+Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus
+irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar árvores e fazer
+sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um único
+feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de
+batata nascerem quarenta batatas magníficas; sabia que a terra pagava
+com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
+quarto do pai, e foi enterrá-la imediatamente no seu jardinzinho. «Há-de
+nascer uma árvore, dizia ele consigo, que dará libras como uma
+cerejeira dá cerejas, e irei entregá-las ao papá, que ficará muito
+contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não
+rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte. Por
+fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.
+
+«Vi papá; achei-a e fui semeá-la.»
+
+«Como, semeá-la? doido! julgas talvez que vai nascer como uma couve?»
+
+«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.»
+
+«É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»
+
+Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
+não pertencia.
+
+Há contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
+produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como
+é? É dando-o aos pobres. Faz-se no Paraíso a colheita dessa sementeira.
+
+
+
+
+*A canção da cerejeira*
+
+
+Disse Deus na Primavera: «Ponham a mesa às lagartas!» E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e
+verdejantes.
+
+A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se,
+abriu a boca, esfregou os olhos e pôs-se a comer tranquilamente as
+folhinhas tenras, dizendo: «Não se pode a gente despegar delas. Quem é
+que me arranjou este banquete?»
+
+Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa às abelhas!» E a cerejeira
+cobriu-se imediatamente de flores, milhões de flores delicadas e
+brancas.
+
+E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas,
+dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o
+deitaram!»
+
+Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o
+açúcar!»
+
+No Verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cerejeira
+cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos.
+
+«Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasião; temos apetite,
+e isto dar-nos-á novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No
+Outono disse Deus: «Levantai a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento
+frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a árvore.
+
+As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caíram uma a uma, e o
+vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar.
+
+Chegou o Inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos
+ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa.
+
+
+
+
+*Os gigantes da montanha e os anões da planície*
+
+
+Era uma vez uma família de gigantes, que viviam num castelo na
+montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum
+álamo. Era curiosa e andava com vontade de descer à planície a ver o que
+faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões.
+Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido à caça e sua mãe estava
+dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os
+jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os
+lavradores, coisas inteiramente novas para ela. «Oh! que lindos
+brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
+quase que cobriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavalos, a
+charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo,
+onde seu pai estava a jantar.
+
+--Que trazes aí, minha filha?» perguntou ele.
+
+--Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os
+mais bonitos que tenho visto.»
+
+E pô-los em cima da mesa, a um e um,--os cavalos, a charrua e os
+trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
+tivessem transportado dum formigueiro para um salão. A gigantinha
+pôs-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
+fez-se sério e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso
+não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
+respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-no
+imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
+montanha, morreriam de fome, se os anões da planície deixassem de lavrar
+a terra e de semear o trigo.
+
+
+
+
+*A criança, a anjo e flor*
+
+
+Quando morre uma criança, desce um anjo do céu, toma-a nos braços, e
+desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os sítios que
+ela amara durante a sua pequenina existência; o anjo abaixa-se de
+quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam
+no paraíso ainda mais belas do que tinham sido na terra. Deus recebe
+todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os lábios, e a flor
+escolhida, adquirindo voz imediatamente, começa a cantar os coros
+maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma
+criança morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram primeiro
+sobre a casa em que a criança brincara, e depois sobre jardins
+deliciosos, cobertos de flores.
+
+«Qual é a flor que desejas para plantar no paraíso?» perguntou o anjo.
+
+Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
+magnífica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de
+botõezinhos lindíssimos pendiam estiolados para o chão.
+
+«Pobre roseira! disse a criança ao anjo; vamos buscá-la para que possa
+reflorir no paraíso.»
+
+O anjo foi buscá-la, e abraçou a criança. Colheram muitas flores
+brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
+
+A colheita estava terminada, e contudo não voavam ainda para Deus. Caiu
+a noite silenciosa, e a criança e o seu guia Divino andavam ainda por
+cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
+de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
+imundície. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores
+com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raízes duma flor dos
+campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-na
+atirado para a rua como inútil e morta.
+
+«Vale a pena levantá-la disse o anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando,
+te contarei a história da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquela
+rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criança miserável e
+doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear
+com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
+de Verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
+Então a criança sentada à janela, aquecida pelo sol, sem o cansaço do
+andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca
+verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do
+vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabeça o ramo
+verdejante, e, supondo-se debaixo das árvores abrigadas do sol, sonhava
+com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe
+flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda
+raízes; o pequerrucho plantou-a num vaso, e pô-lo à janela, junto da
+cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e
+todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu único
+tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
+aproveitar os raios do sol até ao último. A flor aparecia-lhe em
+sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e
+ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se
+voltou.
+
+«Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no paraíso; a sua querida
+flor, esquecida à janela desde então, murchou, estiolou-se e
+atiraram-na à rua finalmente. E contudo esta flor quase seca é o
+tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
+canteiros dum jardim realengo.»
+
+«Como sabes tu isso?» perguntou a criança, que o anjo levava para o céu.
+
+--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
+em muletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»
+
+A criança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
+no céu onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
+levou-as ao coração, mas a que ele beijou foi a florinha silvestre,
+desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente, pôs-se a cantar
+com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe,
+formando círculos que vão aumentando sucessivamente, multiplicando-se
+até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
+harmoniosamente--desde a criança abençoada até à humilde florinha do
+campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e
+tortuosa.
+
+
+
+
+
+*Presente por presente*
+
+
+Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite
+à choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi
+a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
+pôde, desculpando-se da miserável hospitalidade que lhe ia dar, porque
+eram batatas cozidas a única coisa que lhe poderia oferecer; cama não a
+tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
+morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões,
+e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de príncipes. Ao
+outro dia pela manhã disse isto mesmo à pobre mulher, gratificando-a ao
+despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
+dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponesa julgou
+que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a
+trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
+que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
+examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:
+
+«Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso príncipe!
+
+E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
+achado as suas batatas melhores do que faisões.
+
+«É necessário confessar, disse ele com um ar triunfante, que não há
+talvez no mundo um terreno mais favorável do que este para a cultura das
+batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, já que as acha tão boas.
+
+E partiu imediatamente para o palácio com uma provisão de batatas
+escolhidas.
+
+Os lacaios e as sentinelas ao princípio não o queriam deixar entrar;
+mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo
+contrário vinha trazer alguma coisa.
+
+Foi, pois, introduzido na sala da audiência.
+
+«Meu senhor, disse ele ao príncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente
+pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca
+duma enxerga miserável e de um prato de batatas cosidas. Era pagar
+demasiadamente, apesar de serdes um príncipe muito rico e poderoso. Eis
+o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
+batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignai-vos
+aceitá-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá
+as encontrareis sempre ao vosso dispor.»
+
+A honrada simplicidade do camponês agradou ao príncipe, e, como estava
+num momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta
+jeiras de terra.
+
+Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que,
+sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse consigo: «Porque não me há
+de suceder a mim outro tanto? O príncipe gosta do meu cavalo, pelo
+qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer
+presente dele: se deu ao João uma quinta com trinta jeiras de terra,
+simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me há de
+recompensar ainda mais generosamente.»
+
+Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
+palácio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com ar
+altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiência.
+
+«Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; não
+tenho querido trocá-lo a dinheiro, mas dignai-vos permitir-me que vo-lo
+ofereça.»
+
+O príncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
+consigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:
+
+Depois dirigindo-se a ele:
+
+«Aceito a tua dádiva, mas não sei como agradecer-ta condignamente. Oh!
+espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
+faisões. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que é um bom
+preço para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»
+
+E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
+
+
+
+
+
+*O pinheiro ambicioso*
+
+
+Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh!
+dizia ele, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
+verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
+orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
+de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»
+
+O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o
+pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
+pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
+mais sensatos do que ele, não invejavam a sua rápida fortuna. À noite
+passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num
+saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés à cabeça.
+
+«Oh! disse ele, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça
+dos homens. Fiquei completamente despido. Não há agora em toda a
+floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
+o oiro atrai as ambições.
+
+Ah! se eu arranjasse um vestuário de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
+avarento não me teria despido.»
+
+No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
+sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
+fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o céu cobriu-se de
+nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as
+folhas de cristal.
+
+«Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra todo feito em
+pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir
+as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria
+menos brilhante, mas viveria descansado.»
+
+Cumpriu-se o seu último desejo, e, apesar de ter renunciado às vaidades
+primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
+outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
+vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas
+todas sem deixar uma única.
+
+O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar à sua
+forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
+sua sorte.
+
+
+
+
+
+*Perfeição das obras de Deus*
+
+
+_A filha_.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.
+
+_A mãe_.--Vou-te dar outra.
+
+_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mamã?
+
+_A mãe_.--Vê se adivinhas.
+
+_A filha_.--Não sei, mamã.
+
+_A mãe_.--Conheces os metais?
+
+_A filha_.--Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de
+uma caixa.
+
+_A mãe_.--Ora muito bem, diz-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de
+mármore?
+
+_A filha_.--Oh! não; são de metal; mas de que metal?
+
+_A mãe_.--Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas
+primeiro.
+
+_A filha_.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não é de prata, porque
+não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarelo muito
+brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarelo muito feio, que
+cheira mal... Então é de ferro, mamã?
+
+_A mãe_.--Adivinhaste.
+
+_A filha_.--Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.
+
+_A mãe_.--É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já
+se não chama ferro, é aço.
+
+_A filha_.--Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que
+as fazem.
+
+_A mãe_.--É impossível, não és capaz disso; mas hei de levar-te a uma
+fábrica onde se fazem agulhas. Hás-de vê-las fazer, e hás-de gostar
+muito.
+
+_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
+nos servimos.
+
+_A mãe_.--Tens razão; é uma vergonha ignorá-lo.
+
+_A filha_.--Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.
+
+_A mãe_.--Olha, aí tens o meu estojo.
+
+_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão
+fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade há-de ser necessária para
+fazer uma coisinha tão delicada!
+
+_A mãe_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
+uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?
+
+_A filha_.--Lembro, mamã; era tão bonito!
+
+_A mãe_.--Li num jornal alemão que um operário chamado Nerlinger fez
+um copo de um grão de pimenta, e que dentro deste copo havia mais
+doze...
+
+_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem num
+grão de pimenta!
+
+_A mãe_.--E ainda não é tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas
+doiradas, e sustentava-se no pé.
+
+_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso!
+
+_A mãe_.--Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É
+efectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
+certas coisas; contudo ainda há outras obras mais dignas de admiração.
+
+_A filha_.--Quais, mamã?
+
+_A mãe_.--Já to digo. (_Levanta-se_.)
+
+_A filha_.--Que quer, mamã?
+
+_A mãe_.--Quero que vejas o microscópio de teu papá.
+
+_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscópio.
+
+_A mãe_.--Este é magnífico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais
+ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina,
+lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Meu Deus, que coisa tão feia! Que agulha tão grosseira!
+
+_A mãe_.--Vês-lhe buracos, riscos, asperezas, não é verdade?
+
+_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito.
+
+_A mãe_.--Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na
+agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por elas.
+
+_A filha_.--O operário que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
+visse ao microscópio.
+
+_A mãe_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.
+
+_A filha_.--O quê, mamã?
+
+_A mãe_.--O aguilhãozinho de uma abelha.
+
+_A filha_--Oh! que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é
+brilhante!... Mas já sei que visto ao microscópio há de acontecer o
+mesmo que com a agulha.
+
+_A mãe_.--Pronto: olha.
+
+_A filha_ (olhando).--É esquisito, mamã!
+
+_A mãe_.--Então?
+
+_A filha_.--Aumentou, aumentou como a agulha, mas não é áspero, pelo
+contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não tinha ponta,
+e o ferrãozinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabelo. Porque
+será isto, mamã?
+
+_A mãe_.--É porque o operário que fez este aguilhão é muito mais hábil
+do que o que fez a agulha.
+
+_A filha_.--Quem é esse operário tão hábil?
+
+_A mãe_.--É o mesmo que fez o céu, os astros, a terra, as plantas e as
+criaturas.
+
+_A filha_.--É Deus.
+
+_A mãe_.--Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os
+animais?
+
+_A filha_.--De certo.
+
+_A mãe_.--Foi ele por conseguinte que fez o aguilhão desta abelha; e
+aí tens porque o aguilhão é superior à agulha: é obra de Deus. Mas
+continuemos a olhar pelo microscópio. Aqui está um pedacinho de
+musselina finíssima. Olha pelo microscópio; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal feita.
+
+_A mãe_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadíssima.
+
+_A filha_,--Essa estou bem certa que há de ser linda, mesmo vista pelo
+microscópio.
+
+_A mãe_.--Então?
+
+_A filha_.--É horrorosa... Parece feita de pelos grosseiros com grandes
+buracos desiguais.
+
+_A mãe_.--As obras do homem são todas assim.
+
+_A filha_.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.
+
+_A mãe_.--Sabes o que é isto?
+
+_A filha_.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.
+
+_A mãe_.--Os fiozinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha
+pelo microscópio a ver se te parecem desiguais.
+
+_A filha_ (olhando pelo microscópio).--Não, mamã; os fios são todos
+iguais, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.
+
+_A mãe_.--É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que há
+sobre este papel?
+
+_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas redondas feitas
+também com tinta.
+
+_A mãe_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
+redondos?
+
+_A filha_.--Sim, mamã, perfeitamente redondos.
+
+_A mãe_.--Vê-os agora ao microscópio.
+
+_A filha_.--Oh! já não são redondos, são todos desiguais.
+
+_A mãe_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma asa de borboleta;
+vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
+microscópio; o que é que vês?
+
+_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a diferença
+que agora é maior. Que belas que são as obras de Deus!
+
+_A mãe_.--Merece bem a pena estudá-las.
+
+_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
+dos homens.
+
+_A mãe_.--E sempre e em tudo hás-de encontrar defeitos nas obras do
+homem, enquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
+perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
+primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a
+segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem
+fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras
+mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as
+obras do Criador.
+
+
+
+
+*João e os seus camaradas*
+
+
+Era uma vez uma viúva com um filho único. Ao cabo dum Inverno rigoroso,
+possuía apenas um galo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a
+correr mundo, à busca de fortuna. A mãe cozeu o resto da farinha, matou
+o galo, e disse-lhe:
+
+«O que é que preferes: metade desta merenda com a minha bênção, ou toda
+com a minha maldição?»
+
+«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros há no
+mundo eu quereria a tua maldição.»
+
+«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
+abençoe.»
+
+E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha
+caído num atoleiro, donde não podia sair.
+
+«Oh! João, exclamou o burro, tira-me daqui, que estou quase a
+afogar-me.»
+
+«Espera, respondeu João.»
+
+E, formando uma ponte com pedras e ramos de árvores, conseguiu tirar o
+quadrúpede do atoleiro.
+
+«Obrigado, disse-lhe ele, aproximando-se de João. Se te posso ser útil,
+aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?»
+
+--«Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha vida.»
+
+«Queres tu que eu te acompanhe?
+
+«Anda daí.»
+
+E puseram-se a caminho.
+
+Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da
+escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
+animal correu para João que o acariciou, e o jumento pôs-se a ornear de
+tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.
+
+«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma coisa te for
+prestável, aqui me tens às tuas ordens. Aonde vais tu?»
+
+«Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha vida.»
+
+«Queres que te acompanhe?»
+
+«Anda daí.»
+
+Quando saíram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno tirou a
+merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva
+que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar
+lastimosamente.
+
+Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango.
+
+--«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser útil. Aonde
+vais tu?
+
+--«Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.»
+
+--De boa vontade.
+
+Os quatro viajantes puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um
+grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
+galo na boca.
+
+«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.
+
+E no mesmo instante o cão atirou-se atrás da raposa, que, vendo-se em
+perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente
+disse a João:
+
+--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vais tu?»
+
+--Arranjar trabalho. Queres vir connosco?
+
+--«De boa vontade.»
+
+--Então anda. Se te cansares, empoleira-te no jumento.»
+
+Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro.
+Sentiram-se todos fatigados e não avistavam à roda nem uma quinta, nem
+uma cabana.
+
+--«Paciência, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
+hoje a dormir ao ar livre; além disso a noite está sossegada, e a relva
+é macia.»
+
+Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado dele, o cão
+e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo
+empoleirou-se numa árvore.
+
+Dormiam todos um sono profundíssimo, quando de repente o galo começou
+a cantar.
+
+--«Que demónio! disse o jumento acordando todo zangado. Porque é que
+estás a gritar?»
+
+--«Porque já é dia, respondeu o galo. Não vês ao longe a luz da
+madrugada, que vem rompendo?»
+
+--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é duma lanterna.
+Provavelmente há ali alguma casa, onde nos poderíamos recolher o resto
+da noite.»
+
+Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, através
+dos campos, até que parou junto da casa do guarda dum grande castelo,
+donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
+blasfémias horríveis.
+
+--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
+é que está lá dentro.»
+
+Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhais, que se banqueteavam
+alegremente, sentados a uma mesa principesca.
+
+--«Que bom assalto acabámos de dar, disse um deles, ao castelo do
+conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este
+porteiro. À sua saúde!»
+
+--«À saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.
+
+E dum trago despejaram os copos.
+
+João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:
+
+--«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
+sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria diabólica.»
+
+O burro, levantando-se nas patas traseiras, lançou as mãos ao peitoril
+duma janela, o cão trepou-lhe à cabeça, o gato à cabeça do cão e o
+galo à cabeça do gato. João deu o sinal, e estoirou à uma o ornear do
+jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do
+galo.
+
+--«Agora, bradou João, fingindo que comandava um destacamento, carregar
+armas! Dai-me cabo dos ladrões; fogo!»
+
+No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando
+cada vez mais; os ladrões atemorizados refugiaram-se no bosque, saindo
+precipitadamente por uma porta falsa.
+
+João e os seus companheiros penetraram na sala abandonada, comeram um
+excelente jantar, e deitaram-se em seguida--João numa cama, o burro na
+cavalariça, o cão numa esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e
+o galo num poleiro.
+
+Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e
+salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.
+
+--«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão húmida, disse um
+deles.»
+
+--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.»
+
+--«E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.»
+
+--«E o que é mais lamentável, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o
+dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tínhamos tirado das
+gavetas.»
+
+--Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão.
+
+--Bravo! exclamaram os ladrões.
+
+E pôs-se a caminho.
+
+Já não havia luz na casa; o capitão entrou às apalpadelas, e dirigiu-se
+para o fogão; o gato saltou-lhe à cara e esfarrapou-lha com as garras.
+Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
+rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
+por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo
+atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas.
+
+--Anda o diabo nesta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!»
+
+Julgou encontrar refúgio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
+parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do chão.
+
+Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem
+pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.
+
+--Então? então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.
+
+--Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para
+me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr neste corpo, que o trago
+num feixe. Não podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui assaltado
+por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o
+sedeiro, deixando-me neste miserável estado. Quando ia a sair a porta,
+um demónio dum remendão atravessou-me as pernas com a sovela. Logo
+depois Satanás em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras.
+Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não
+acreditam, vão lá, e experimentem.»
+
+--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
+ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.»
+
+Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excelentemente, e
+partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões
+lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos,
+com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram à
+porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com
+uma libré esplêndida, meias de seda, calções escarlates e cabelo
+empoado.
+
+Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.
+
+--Que vindes aqui buscar? Não há lugar para os recolher, vão-se embora?»
+
+--Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castelo far-nos-á
+um bom acolhimento.
+
+--Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
+andar imediatamente, quando não atiro-lhes já às pernas os meus cães de
+fila.»
+
+--Perdão, só um instante, replicou o galo empoleirado na cabeça do
+jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite
+passada a porta do castelo?»
+
+O porteiro corou. O conde que estava à janela, disse-lhe:
+
+--Ó Bernabé, responde ao que esse galo te acaba de perguntar.
+
+--Senhor, replicou Bernabé, este galo é um miserável. Não fui eu que
+abri a porta aos seis ladrões.
+
+--Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?
+
+Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
+pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite,
+porque vimos cansados do caminho.
+
+--Ficai certos que sereis bem tratados.
+
+O burro, o cão e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato ficou na
+cozinha. E enquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés à
+cabeça com um vestuário magnífico, deu-lhe um relógio de ouro, e
+disse-lhe:
+
+--Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»
+
+João aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si.
+Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicíssimo.
+
+
+
+
+*O rabequista*
+
+
+Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma
+igreja magnífica a Santa Cecília, padroeira dos músicos.
+
+As rosas mais vermelhas e os lírios mais cândidos enfeitavam o altar. O
+vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de oiro,
+feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava
+constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria
+um pobre rabequista, pálido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
+sido muito longa, estava cansado, e já no seu alforge não havia pão nem
+dinheiro no bolso para o comprar.
+
+Assim que entrou na capela, começou a tocar na sua rabeca com tal
+suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vê-lo
+tão pobre e ao escutar aquela música deliciosa. Quando terminou, Santa
+Cecília abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos de ouro, e deu-o
+ao pobre músico, que tonto de alegria, dançando, cantando, chorando,
+correu à loja dum ourives para lho vender. O ourives, reconhecendo o
+sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o à presença do
+juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado à morte.
+
+Chegara o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
+pôs-se em marcha ao som dos cânticos dos frades, que ainda assim não
+chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como
+última graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao último momento.
+O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam
+suplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua
+derradeira melodia.
+
+Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
+ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lágrimas começou a tocar.
+Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecília curvar-se de
+novo, descalçar o outro sapato e metê-lo nas mãos do infeliz músico. À
+vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o
+rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente
+prestar-lhe as mais honrosas homenagens.
+
+
+
+
+*Os pêssegos*
+
+
+Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pêssegos
+magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos,
+extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria. À
+noite o pai perguntou-lhes:
+
+--Então comeram os pêssegos?
+
+--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e
+hei-de plantá-lo para nascer uma árvore.»
+
+--Fizeste bem, respondeu o pai, é bom ser económico e pensar no futuro.»
+
+--Eu, disse o mais novo, o meu pêssego comi-o logo, e a mamã ainda me deu
+metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.»
+
+--Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade não admira;
+espero que quando fores maior te hás-de corrigir.»
+
+--Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou
+fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
+o meu pêssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for à
+cidade.»
+
+O pai meneou a cabeça:
+
+--Foi uma ideia engenhosa, mas eu preferia menos cálculo.
+
+--E tu, Eduardo, provaste o teu pêssego?
+
+--Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho,
+ao Jorge, que está coitadinho com febre. Ele não o queria, mas
+deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.
+
+--Ora bem, perguntou o pai, qual de vós é que empregou melhor o pêssego
+que eu lhe dei?
+
+E os três pequenos disseram à uma:
+
+--Foi o mano Eduardo.
+
+Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos
+arrasados de lágrimas.
+
+
+
+
+*A urna das lágrimas*
+
+
+Era uma vez uma viúva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
+adorava sobre todas as coisas. Não se separava dela um só momento; mas
+um dia a pobre pequerrucha começou a sofrer, adoeceu e morreu. A
+desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
+momento, à cabeceira da filha, julgou endoidecer de mágoa e de saudades.
+Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
+acabrunhada, chorando no mesmo sítio em que a filha tinha morrido,
+abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua
+querida filha, sorrindo com uma expressão angélica e trazendo nas mãos
+uma urna, que vinha cheia até às bordas.
+
+--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ela, não chores mais. Olha, o anjo
+das lágrimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais,
+transbordará, e as tuas lágrimas correrão sobre mim, inquietando-me no
+túmulo e perturbando a minha felicidade no paraíso.
+
+A pequenina desapareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não
+afligir.
+
+
+
+
+*Reconhecimento e ingratidão*
+
+
+Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos pais.
+E é natural. As crianças vêem diariamente o que fazem seus pais, e
+imitam-nos. Justifica-se desta maneira o provérbio que diz,--que a
+bênção ou a maldição dum pai cai sobre a cabeça de seus filhos,
+terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem
+ser meditados.
+
+Um príncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
+satisfeito, a lavrar a terra. Pôs-se a conversar com ele. Depois
+de algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que
+trabalhava nele mediante um salário de doze vinténs por dia. O
+príncipe, que para as suas despesas de administração e representação
+necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
+como se vivia com doze vinténs diários, andando-se ainda por cima
+satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:
+
+«Gasto diariamente comigo a terça parte dessa quantia; outro terço é
+para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas
+economias.»
+
+Era um novo enigma para o príncipe. Mas o alegre camponês explicou-lho
+deste modo.
+
+«Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que já não podem
+trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não têm força para isso. Aos
+primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
+infância; e espero que os segundos não me abandonem, quando os anos
+tiverem pesado sobre mim.»
+
+O príncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado camponês; encarregou-se
+da educação de seus filhos; e a bênção que lhe deram os seus velhos
+pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando
+igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.
+
+Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu duma
+maneira tão indigna com seu velho pai doente e aleijado, que este teve
+de pedir que o levassem para o hospital da misericórdia. O filho ingrato
+recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde
+foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
+muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como última
+esmola, um par de lençóis, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
+O mau filho escolheu os lençóis mais usados, e disse ao seu pequeno, de
+dez anos de idade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
+notou que a criança ao partir tinha escondido um dos lençóis a um canto,
+atrás da porta.
+
+Quando voltou perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo.
+
+«Foi, respondeu a criança desabridamente, para me servir mais tarde
+deste lençol, quando pela minha vez te mandar também para o hospital.
+
+
+
+
+*O fato novo do sultão*
+
+
+Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário todo o seu rendimento.
+
+Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
+teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava
+de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Está no conselho;
+dizia-se dele: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
+muito alegre, graças à quantidade de estrangeiros que por ali passavam;
+mas chegaram lá um dia dois larápios, que, dando-se por tecelões,
+disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não
+só eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas além
+disso os vestuários feitos com esse estofo, possuíam uma qualidade
+maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para todos
+aqueles que não exercessem bem o seu emprego.
+
+--São vestuários impagáveis, disse consigo o sultão; graças a eles,
+saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
+dos ministros. Preciso desse estofo!»
+
+E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada,
+para que pudessem começar os trabalhos imediatamente.
+
+Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que
+trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras.
+Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
+muito bem guardado, trabalhando até à meia noite com os teares vazios.
+
+--«Preciso saber se a obra vai adiantada».
+
+Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos
+idiotas. E, apesar de ter confiança na sua inteligência, achou prudente
+em todo o caso mandar alguém adiante.
+
+Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
+estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.
+
+--Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um
+grande talento, e por isso ninguém pode melhor do que ele avaliar o
+estofo.
+
+O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
+com os teares vazios.
+
+--Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, não vejo
+absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões
+convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os
+desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
+olhava, mas não via nada, pela razão simplicíssima de nada lá existir.
+
+--Meu Deus! pensou ele, serei realmente estúpido? É necessário que
+ninguém o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas lá
+confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.»
+
+«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:
+
+--«Encantador, admirável! respondeu o ministro, pondo os óculos. Este
+desenho... estas cores... magnífico!... Direi ao sultão que fiquei
+completamente satisfeito.»
+
+--«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e
+mostraram-lhe cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe deles uma
+descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois
+repetir tudo ao sultão.
+
+Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
+precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no
+bolso, é claro; o tear continuava vazio, e apesar disso trabalhavam
+sempre.
+
+Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funcionário, homem
+honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a
+este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não
+via nada.
+
+--Não acha um tecido admirável?» perguntaram os tratantes, mostrando o
+magnífico desenho e as belas cores, que tinham apenas o inconveniente
+de não existir.
+
+--Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois não serei
+eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! mas deixá-lo, não o
+deixo eu.»
+
+Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo
+desenho e o bem combinado das cores.
+
+--É duma magnificência incomparável, disse ele ao sultão. E toda a
+cidade começou a falar desse tecido extraordinário.
+
+Enfim o próprio sultão quis vê-lo enquanto estava no tear. Com um grande
+acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois
+honrados funcionários, dirigiu-se para as oficinas, em que os dois
+velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de
+espécie alguma.
+
+--Não acha magnífico? disseram os dois honrados funcionários. O desenho
+e as cores são dignos de vossa alteza.»
+
+E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali estavam
+pudessem ver alguma coisa.
+
+--Que é isto! disse consigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível!
+serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que desgraça que me
+acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnífico! Testemunho-vos a
+minha satisfação.»
+
+E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
+atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu séquito olharam do
+mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem ver coisa alguma, e no entanto
+repetiam como o sultão: «É magnífico!» Até lhe aconselharam a que se
+apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnífico! é
+encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era
+geral.
+
+Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
+tecelões.
+
+Na véspera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à
+luz de dezasseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
+cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fio,
+e declararam, depois disto, que estava o vestuário concluído.
+
+O sultão com os seus ajudantes de campo foi examiná-lo, e os impostores
+levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, disseram:
+
+«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha;
+é a principal virtude deste tecido.»
+
+--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.
+
+--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larápios,
+provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.»
+
+O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças,
+depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do
+espelho.
+
+--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortesãos.
+Que desenho! que cores! que vestuário incomparável!»
+
+Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias.
+
+--Está à porta o dossel sobre que vossa alteza deve assistir à procissão,
+disse ele.»
+
+--Bom! estou pronto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»
+
+E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do
+seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não
+querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçá-la.
+
+E, enquanto o sultão caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a
+gente na rua e às janelas exclamava: «Que vestuário magnífico! Que
+cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguém queria dar a perceber,
+que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
+Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.
+
+--Mas parece que vai em cuecas», observou um pequerrucho, ao colo do
+pai.
+
+--É a voz da inocência, disse o pai.
+
+--Há ali uma criança que diz que o sultão vai em cuecas.
+
+«Vai em cuecas! vai em cuecas!» exclamou o povo finalmente.
+
+O sultão ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente era
+verdade. Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até ao fim, e os
+camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
+imaginária.
+
+
+
+
+*Boa sentença*
+
+
+Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma
+quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil réis
+de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
+camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:
+
+--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no
+alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
+adiantados os cem mil réis de alvíssaras: estamos pagos por conseguinte.»
+
+O bom camponês, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem
+devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
+que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:
+
+--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge
+apenas com setecentos: Resulta daí claramente que o dinheiro que o
+último encontrou não pode ser o mesmo a que o primeiro se julga com
+direito. Por consequência tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
+encontraste, e guarda-o até que apareça o indivíduo que perdeu somente
+setecentos mil réis. E tu, o único conselho que passo a dar-te, é que
+tenhas paciência até que apareça alguém que tenha achado os teus
+oitocentos mil réis.
+
+
+
+
+*Os animais agradecidos*
+
+
+Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
+perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este
+respondeu:
+
+--«Senhor: eu sou um desgraçado, um miserável; nasci no vosso reino, e
+chamo-me _Ingratidão_.»
+
+--«Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
+serviço.»
+
+O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
+Desde que chegaram a palácio, deu tais provas de habilidade, mostrou-se
+tão esperto e tão solícito, que o rei afeiçoou-se-lhe de tal modo, que
+o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa.
+Deslumbrado por uma fortuna tão rápida, o seu orgulho desde então não
+conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos
+desventurados.
+
+Ora, na vizinhança do palácio havia uma floresta cheia de animais
+selvagens e perigosíssimos. O intendente mandou aí fazer por toda a
+parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
+dentro, pudessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
+floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
+precipitou ele mesmo dentro duma das covas.
+
+Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um
+lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
+governador, ao ver-se em tão extraordinária companhia, ficou tão
+horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a esperança de
+salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
+ninguém o vinha socorrer.
+
+Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
+chamado António, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para
+ganhar o pão necessário à sua mulher e aos seus filhos. António também
+lá foi nesse dia, como de costume, e pôs-se a trabalhar não longe da
+cova em que caíra o intendente, cujos gritos de aflição não tardou a
+ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
+ali.
+
+--«Sou o governador do palácio do rei, e, se me tirares daqui, prometo
+encher-te de riquezas; estou em companhia dum leão, dum lobo e duma
+enorme serpente.»
+
+--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miserável jornaleiro, não tendo para
+sustentar a minha família, mais que o produto do meu trabalho; bastava
+um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se
+cumpres a tua promessa?
+
+O intendente continuou:
+
+--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
+cumprirei a minha palavra.»
+
+Confiado nisto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda
+muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O leão atirou-se a
+ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
+o intendente.
+
+Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior
+amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome.
+
+António deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o
+governador, enganou-se, porque era o lobo; à terceira vez subiu a
+serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o
+governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
+para o palácio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o
+que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes
+promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre
+homem bater à porta do palácio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.
+
+--«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente
+que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja falar.»
+
+O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:
+
+--«Vai dizer a esse homem, que eu não vi ninguém na floresta; que se
+ponha a andar, porque o não conheço.»
+
+O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.
+
+O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou à mulher a
+odiosa perfídia de que tinha sido vitima.
+
+A mulher disse-lhe:
+
+--«Tem paciência; o sr. intendente estava hoje decerto muito ocupado, e
+foi talvez por isso que te não pôde receber.»
+
+Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.
+
+Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo à porta do palácio.
+Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos ásperos, que não tornasse
+ali a aparecer, quando não ver-se-ia obrigado a empregar meios
+violentos. A mulher ainda desta vez procurou consolá-lo:
+
+--«Experimenta terceira e última vez, disse-lhe ela, talvez Deus o
+inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais
+nisso.»
+
+No dia seguinte o bom do homem voltou à carga; e tendo o porteiro
+consentido à força de suplicas em anunciá-lo ainda ao governador, este
+encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre
+homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do
+chão. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com um
+burro, pôs-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
+levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se
+obrigado a contrair dividas para pagar ao médico. Quando finalmente
+tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para
+fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, apareceu-lhe o leão, que ele
+tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e
+este burro estava carregado de sacos cheios de preciosidades. O leão,
+vendo António, parou e inclinou-se diante dele com um ar de respeitoso
+agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal
+de que ficasse com o jumento. António doido de alegria levou o animal
+para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.
+
+No dia seguinte, voltando de novo à floresta, apareceu-lhe o lobo, que
+o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto
+lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluída, e tinha carregado
+o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha
+tirado do fôjo, e que trazia na ponta da língua uma pedra preciosa, em
+que brilhavam três cores,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a
+serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
+dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal. António
+levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
+propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho,
+afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
+assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia.
+António respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se
+seria boa.
+
+O velho respondeu:
+
+--«São três as virtudes desta pedra: abundância contínua, alegria
+imperturbável e luz sem trevas. Se alguém ta comprar por menos dinheiro
+do que vale, tornará imediatamente para a tua mão.»
+
+António ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
+ciência maravilhosa, e correu a contar à mulher a sua felicidade. Como
+se imagina, graças à virtude da famosa pedra, não lhe faltaram daí em
+diante, nem honras nem riquezas.
+
+Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou
+chamar António, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talismã.
+
+António, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:
+
+--«Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me não for paga
+pelo que vale, tornará ela mesma para o meu poder.»
+
+--«Hei de pagar-ta bem, disse o rei.»
+
+E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã,
+António achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
+disse-lhe:
+
+--«Torna a levá-la ao rei imediatamente; não vá ele persuadir-se que
+lha furtaste.»
+
+O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou à presença de sua
+majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
+preciosa.
+
+--«Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de ferro,
+fechado com sete chaves, disse o rei.»
+
+António mostrou-lhe então a jóia preciosa, e o rei ficou
+extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido
+semelhante tesouro.
+
+António contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o
+reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
+intendente, e disse-lhe:
+
+--«Homem perverso, com justo motivo te puseram o nome de _Ingratidão_,
+porque és mais falso e mais pérfido que os animais ferozes, e pagaste
+com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a António as
+tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
+enforcado.»
+
+Admiraram todos a sentença do rei, e António desempenhou as suas altas
+funções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
+escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos
+gloriosos.
+
+
+
+
+*O ermitão*
+
+
+Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou
+retirar-se a uma gruta solitária para se consagrar inteiramente ao
+trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
+seus pensamentos não se desviavam nunca da ideia de Deus. Depois de ter
+assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que já tinha
+merecido um lugar glorioso no paraíso, e podia ser contado entre os
+santos mais notáveis.
+
+Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:
+
+--Há no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
+e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.
+
+O ermitão, atónito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
+seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:
+
+--Irmão, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e
+penitencias te tornaste agradável a Deus.
+
+--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não
+zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei,
+pobre de mim, que sou um pecador. O que faço é andar de casa em casa a
+divertir os outros.»
+
+O austero ermitão continuou a insistir:
+
+--Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda, praticaste algum
+acto de virtude.»
+
+--Em verdade não poderia citar nem um só.»
+
+--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
+loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente
+o teu património e o produto do teu oficio?»
+
+--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
+filhos tinham sido condenados à escravidão para pagar uma divida. Essa
+mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa,
+protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuía para resgatar a
+sua família, e levei-a à cidade, onde ela devia encontrar-se com seu
+marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»
+
+A estas palavras o ermitão pôs-se a chorar, e exclamou:
+
+--Nos meus setenta anos de solidão nunca pratiquei uma obra tão
+meritória, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu não
+passas dum pobre musico.»
+
+
+
+
+*Carlos Magno e o abade de S. Gall*
+
+
+Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
+preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta da abadia, fresco,
+rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enérgicos e
+activos, e o abade era indolente. Além disso o imperador tinha mais
+dum motivo de queixa contra ele.
+
+--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à
+sua esclarecida razão três perguntas, às quais terá a bondade de me
+responder daqui a três meses, contados dia a dia, em sessão solene do
+nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
+dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
+em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
+rev.^{ma} vier à minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate
+de arranjar resposta satisfatória a tudo, aliás deixa de ser abade de S.
+Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada
+para o rabo.»
+
+O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
+os doutores mais famosos pela sua ciência, não lhe souberam dar
+resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal
+aproximava-se; já não faltava senão um mês, já não faltavam senão
+semanas, e afinal só dias. O abade, que noutro tempo era gordo e
+anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite.
+Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se
+encontrou com o seu pastor.
+
+--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?»
+
+--Estou, meu caro Félix, estou muito doente.»
+
+--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»
+
+--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta às minhas três
+perguntas.»
+
+--É então latim?»
+
+--Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.»
+
+--Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe
+era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.»
+
+Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor atirou com o
+barrete ao ar, e disse-lhe:
+
+--Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
+pode continuar a engordar; mas para isso é necessário que eu vista o seu
+habito.»
+
+Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o hábito do abade de S.
+Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
+imperial.
+
+--Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que
+pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto
+valho eu em dinheiro?»
+
+--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por
+trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove, só um
+dinheiro menos.»
+
+--Bravo, senhor abade, a resposta é hábil, e na realidade não posso
+deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda pergunta, não há de
+ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a
+dar a volta ao mundo?»
+
+--Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
+constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
+quatro horas.»
+
+--Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finório, e desta vez,
+confesso-me vencido; mas a terceira, não dessas à que se responde com
+suposições. Quem lhe há de dizer o que eu estou pensando, e como me há
+de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»
+
+--Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está
+enganado, porque eu sou o seu pastor.»
+
+--Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas
+sendo.»
+
+--Não sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor,
+peço-lhe outra coisa.»
+
+--Não tens mais que falar.»
+
+--Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.»
+
+Carlos Magno não era homem que faltasse à sua palavra.
+
+
+
+
+*A boneca*
+
+
+Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma história--a história duma
+boneca!
+
+Não há muitos anos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno
+jardim, onde a infância folga por entre maciços de flores e sob o
+sorriso do sol, sem que lhe enegreça o espírito a vista dos dois
+monumentos, que a meu ver simbolismo as duas mais horríveis calamidades,
+que podem aniquilar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda não há
+muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
+feira, divertindo-me a meu modo.
+
+Cansado das inúmeras figuras, que tinha visto passar por aquela
+espécie de lanterna mágica, dispunha-me a dar por findo o espectáculo,
+quando novos personagens me chamaram a atenção.
+
+Eram os meus vizinhos _ricos_.
+
+Aqui é preciso uma rápida explicação.
+
+Das famílias da minha vizinhança, só conheço três.
+
+Qual destas três famílias será mais feliz?...
+
+Pelo que tenho notado, não têm que invejar umas às outras.
+
+São todas felizes; cada qual a seu modo.
+
+Vi, pois, chegar os meus vizinhos _ricos_.
+
+Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e
+dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou,
+tomou nos braços a filhinha e depô-la no chão, e oferecendo, em
+seguida, a mão à esposa, para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e
+com a menina para a barraca onde eu estava.
+
+Não havia ali segredo a surpreender.
+
+Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
+parecia agradecer àquela formosa criança a manifestação de qualquer
+desejo.
+
+No fim de meia hora possuía a minha pequena vizinha com que fazer a
+felicidade de dez crianças menos abastadas.
+
+Tinha o necessário para montar completamente a casa duma boneca...
+_rica_.
+
+Faltava apenas a dona da casa--a boneca.
+
+Todo risos e atenções, o lojista apresentou o que tinha de melhor.
+
+Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar
+a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma magnífica boneca de
+dois palmos de altura, com cabelo em _bandeaux_ e olhos azuis.
+
+Uma boneca como as outras: cabeça e colo de massa, corpo de pelica
+recheada, braços e pernas de pau.
+
+Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribo de crianças, que fazem
+o martírio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado
+sapateiro.
+
+Alguns deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
+anjos, caídos do céu sobre um monte de lama.
+
+São os meus vizinhos _pobres_.
+
+A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a casa
+imediata.
+
+É como se costuma dizer, gente _que vai muito bem com a sua vida_.
+
+A filha que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e carnudas,
+cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à
+pressão.
+
+São os meus vizinhos _remediados_.
+
+A terceira é a dos meus vizinhos _ricos_.
+
+Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito nas
+listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
+estado--nada falta àquela ditosa gente!
+
+Compõe-se igualmente de marido, mulher e filha.
+
+Que formosa criança!... Terá oito anos.
+
+Franzina e pálida, com os cabelos negros, os olhos grandes e
+cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e
+esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que não
+sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a
+crescer--que há-de um dia ter o direito de lhas cobrir de beijos.
+
+Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas
+aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do
+carro.
+
+A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrática criança.
+
+Saí dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadíssimas
+considerações, sugeridas pela quase indiferença, com que aquela menina
+recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.
+
+Que contraste com os olhares de cobiça, com que outras raparigas da
+mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabeça de pano, horrível
+artefacto português, em que os olhos são representados por dois pontos
+de linha azul, o nariz por um alinhavo de retrós cor de rosa, a boca por
+outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de lã preta!
+
+Quando cheguei a casa, já na dos meus vizinhos remediados não havia luz.
+
+Na dos meus vizinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
+três assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
+provocavam os ralhos da mãe.
+
+Quando, no dia seguinte, cheguei à janela, seriam onze horas da manhã.
+
+Na rua agenciavam nova camada de imundície os filhos do sapateiro; na
+casa imediata não se via ninguém--estava a pequena na mestra; no
+palácio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
+divertia-se a minha pequena milionária fazendo rodar, com auxílio duma
+linha, uma magnífica _caleche_ descoberta, puxada por cavalos brancos.
+
+Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.
+
+--«Aí está a tua caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim
+para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!...
+Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...»
+
+Retirei-me da janela.
+
+Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.
+
+A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
+vestia três e quatro vezes!
+
+Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a
+tratava!
+
+Chamava-lhe sr.ª D. Luísa; dava-lhe excelência; sustentava finalmente
+com a boneca um destes diálogos de senhoras da alta sociedade, em que
+se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.
+
+Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos
+_ricos_--ouvi um grito de susto.
+
+Era devido a um acidente, a que está sujeito quem anda de carro.
+
+Voltara-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janela.
+
+O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a vítima; vendo,
+porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e
+lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
+nova, agarrou-a pelos pés e ia atirá-la com despeito à rua, quando mais
+perto de mim bradou voz tímida e suplicante:
+
+«Não atire!... Dê-ma.»
+
+Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu não dera fé até
+então.
+
+Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
+lançou um olhar de rainha para o sítio donde vinha a súplica.
+
+Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
+encolhendo os ombros, respondeu:
+
+--«Já não presta!... Está esmurrada!...»
+
+--É o mesmo!... Dá-ma?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
+cobiça.
+
+--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os ombros.
+
+E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da
+vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse
+despedaçar-se nas lajes da rua.
+
+Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
+outra, para mostrar à mãe a que ela ainda não podia acreditar, que
+fosse sua!
+
+Por espaço de meses foi a boneca a principal ocupação da nova dona.
+
+A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro
+vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excelência! Chamavam-lhe
+sr.ª D. Ana; falavam-lhe de arranjos domésticos, do desmazelo da
+criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
+estranhas para ela!
+
+E a desgraçada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
+azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
+se tornava mais escura: parecia uma nódoa, um estigma!
+
+Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
+ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.
+
+Não tardou, porém, que arrebiques de mau gosto, fitas velhas, rendas
+amareladas, chapéus impossíveis, viessem contrastar com a elegância do
+vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira.
+
+Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele
+as ondulações do _moiré_, até que, um belo dia, vi a boneca vestida de
+cassa---no Inverno!--chaile e manta na cabeça.
+
+Muito mal lhe ficava aquilo!... Àquela boneca custava-lhe de certo o
+ver-se tão mal arranjada.
+
+Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:
+
+--É justo!... Cada qual segundo as suas posses.»
+
+Por esse tempo, entrei em relações com o meu vizinho sapateiro.
+
+O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
+faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasião, para me
+pedir desculpa.
+
+Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
+aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem
+grave risco de sofrer as consequências da sua travessa familiaridade.
+
+Entre os filhos do sapateiro, porém, há uma pequenita de onze anos, com
+quem simpatizei logo à primeira vista.
+
+Chama-se Maria.
+
+Por um destes acasos da Providencia, que parece às vezes comprazer-se
+em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.
+
+Acostumado às travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
+fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.
+
+E bem verdade que ele conhecia o valor daquela criança, porque havia
+verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a
+minha Maria!»
+
+E tinha razão!
+
+Não podia ser mais discreta do que já nesse tempo era.
+
+--É quem vale à mãe!...--acrescentou o velho.»--Ali, onde a vê, faz o
+serviço duma mulher!... Há seis meses, quando a minha santa esteve
+doente--bem pensei que não arribasse!--a pequena era quem cozinhava e
+olhava pelos irmãos!... E caridade como ela tem!?... Olhe que aquela
+pequena esteve três dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi
+preciso eu obrigá-la, que ela não a queria deixar!...»
+
+E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lágrima, que,
+havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.
+
+Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
+cabeça coberta por um lenço branco.
+
+Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais
+passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias à
+pequena.
+
+Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
+deitada nos joelhos.
+
+--Eu conheço aquela boneca!...--disse eu de mim para mim.
+
+E, não podendo resistir à curiosidade, bradei:
+
+--Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...
+
+Foi ali a menina da vizinha!--respondeu a pequenita, corando de prazer.
+
+Era escusado dizer-mo.
+
+Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. Não podia
+duvidar... Era ela; lá estava a mancha, o estigma cada vez mais visível
+na fronte.
+
+De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com
+ela.
+
+--Quem te viu e quem te vê!...--pensava eu.
+
+Às vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lha podiam apanhar, que
+tratos que sofria a desgraçada!
+
+Roçada por aquelas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia,
+empregada como péla, submetida a torturas, era, ainda assim,
+singularíssimo o aspecto da triste!
+
+Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a
+fraternizar com o povo.
+
+A mísera mudara mais uma vez de nome!...
+
+De sr.ª D. Ana passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-na por vossemecê.
+
+Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e lenço na cabeça.
+
+Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
+a boneca.
+
+Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
+encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre
+boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de
+trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que
+mais familiares eram à pequena.
+
+Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na,
+mandavam-na buscar água à fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
+acabavam por a despedir.
+
+Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixara de ser feliz.
+
+Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no palácio vizinho!
+
+Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos,
+desfeito o carmim dos lábios, a boneca não prometia longa duração.
+
+Foi este pelo menos, o prognóstico que fiz a última vez que a vi,
+tentando em vão agradar à última dona que o seu destino lhe dera.
+
+Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!
+
+Um dia chovia a cântaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
+espadanava em cachão para cima dos passeios, arrastando na passagem mil
+imundícies.
+
+Eu estava à porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
+melancolicamente para a água negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
+partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um objecto,
+arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no
+leito do enxurro...
+
+Olhei... Era a boneca!...
+
+A mísera, arrastada pela água, vogou rua abaixo até esbarrar numa
+pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar três ou
+quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e
+o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas
+profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!
+
+Será pieguice, será o que o leitor quiser; mas, confesso-lhe, que me
+impressionou o fim da pobre boneca.
+
+Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado à vidraça do
+sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
+
+--Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?
+
+--Não fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...
+
+--E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...
+
+--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
+feia!...
+
+Curvei a cabeça ante aquela razão, e segui o meu caminho.
+
+Pobre boneca!
+
+
+
+
+*Inconveniente da riqueza*
+
+
+Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, foi
+surpreendido pela noite à entrada duma aldeia. Procurou dum lado para
+outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam já
+todas fechadas, não se via nem um raio de luz através das janelas, tudo
+estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual
+com que se bate o trigo, e nesse sítio havia uma pequena luz. Nosso
+Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro duma quinta, e bateu à
+porta. Foi um camponês que lha veio abrir.
+
+--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
+Não se havia de arrepender.»
+
+E acrescentou:
+
+--Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a
+trabalhar?»
+
+--Ora, respondeu o camponês, soube ontem à noite que ia ser perseguido
+por um credor desapiedado, se lhe não pagasse amanhã o que lhe devo,
+portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
+o vender no mercado, e pagar a minha dívida. Depois disto não nos fica
+nada, e não sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que Deus
+quiser!»
+
+Ao dizer isto o camponês limpava o suor da testa, e passava a mão pelos
+olhos arrasados de lágrimas. O Senhor teve dó dele, e disse-lhe:
+
+--«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te
+havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.»
+
+Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e
+aproximou-a do trigo.
+
+--Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a
+tudo!»
+
+Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se,
+de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. À vista dum tal
+milagre os camponeses maravilhados caíram de joelhos.
+
+--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
+pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, serás
+recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te
+enriquece.»
+
+Dito isto desapareceu.
+
+E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto
+como a igreja.
+
+O camponês pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bela
+casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e
+seus filhos adquiriram costumes perdulários, tanto e tanto fizeram, que
+se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
+ninguém os ajudou na sua miséria. Uma noite o velho camponês, que bebera
+enormemente, entrou no celeiro, e, recordando-se do milagre que o
+enriquecera, imaginou que também ele o poderia fazer. Agarrou na
+candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a
+casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miséria mais
+absoluta.
+
+
+
+
+*Querer é poder*
+
+
+--Quem procura sempre encontra, diz um velho provérbio; quero ver por
+experiência, disse um dia um rapaz, se esta máxima é verdadeira.
+
+Pôs-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma grande cidade.
+
+--Senhor, disse-lhe ele, há muitos anos que vivo tranquilo e
+solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
+vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei
+uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.
+
+O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.
+
+O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
+semana, sempre com a mesma vontade inabalável, até que o rei ouviu
+falar o rapaz da sua louca pretensão. Surpreendido com uma ideia tão
+extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:
+
+--Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela ciência,
+pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais são
+os teus títulos? Para seres o marido de minha filha é necessário que te
+distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
+extraordinário. Ouve. Perdi há muito tempo no rio um diamante dum valor
+incalculável. Aquele que o encontrar obterá a mão de minha filha.
+
+O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
+rio; logo de manhã começava a tirar água com um balde pequeno, e
+deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
+horas, punha-se a rezar.
+
+Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receando que
+chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.
+
+--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»
+
+--Encontrar um diamante que caiu ao rio.»
+
+--Então, respondeu o velho rei, sou de opinião que lho entreguem, porque
+vejo qual é a têmpera da vontade deste rapaz; mais fácil seria esgotar
+as últimas gotas do rio, do que desistir da sua empresa.»
+
+Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
+do rei.
+
+
+
+
+*Qual será rei?*
+
+
+Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
+sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer,
+não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.
+
+Resolveram além disso que o cadáver do rei fosse posto de pé contra um
+muro, e que o príncipe que acertasse melhor com uma flecha naquele
+alvo, seria o escolhido para sucessor.
+
+Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
+tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defunto. O príncipe
+soltou grito de alegria, cuidando que seus irmãos atirariam pior, e que
+por conseguinte seria ele quem viria a reinar.
+
+O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
+alegre do que o outro príncipe.
+
+O terceiro varou o coração de seu pai, e os seus gritos de triunfo
+quase que chegavam ao céu, porque lhe parecia impossível acertar melhor.
+
+Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas mãos as
+flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
+longe de si, e desatou a chorar:
+
+--«Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu jamais
+consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus
+próprios filhos!»
+
+Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais
+digno.
+
+
+
+
+*Os três véus de Maria*
+
+
+O primeiro véu de Maria era dum linho mais alvo do que a neve.
+Bordara-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
+seda tão bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham pousar-lhe em
+cima.
+
+Este véu branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira comunhão.
+
+O segundo véu de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que
+sua mãe lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa triste e
+abandonada. Era bordado de perpétuas roxas, como as dos sepulcros de
+mármore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas as suas
+lágrimas.
+
+O véu negro só o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de
+Jesus no convento da Avé-Maria.
+
+O terceiro véu era feito dum retalho do azul celeste, bordado
+de estrelas, e perfumado com aromas suavíssimos.
+
+Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou
+no paraíso.
+
+
+
+
+*Os pequenos no bosque*
+
+
+Um dia três pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
+outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos
+para o bosque que encontremos lá toda a espécie de lindos bichinhos, que
+não fazem outra coisa senão brincar, e nós brincaremos com eles.»
+
+Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da
+abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar,
+disse-lhes:
+
+--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
+outra já não está sólida.»
+
+--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o Inverno.»
+
+--Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu
+ninho.»
+
+--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda
+hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
+minha _toilette_.»
+
+E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
+a saltar e a tagarelar, também não queres brincar connosco?»
+
+--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam
+que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanso nem um
+momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, às colinas,
+aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incêndios,
+tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje
+acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder
+um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»
+
+Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um
+pintassilgo, em cima dum ramo.
+
+--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar connosco?»
+
+--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo
+o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além disso que tomar
+parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operário com o
+meu chilrear, e tenho que adormecer as crianças com uma outra cantiga,
+que à noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. Ide-vos embora,
+preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incomodar os
+habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»
+
+Os pequenos aproveitaram a lição, e compreenderam que o prazer só é
+legítimo, quando é a recompensa do trabalho.
+
+
+
+
+*O chapelinho encarnado*
+
+
+Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
+mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avozinha, que passava o
+tempo a imaginar o que poderia agradar à neta, deu-lhe um dia um chapéu
+de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéu
+novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do
+chapelinho encarnado.
+
+A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
+légua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:
+
+--Tua avó está doente, e não pôde vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai
+levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a
+garrafa, não andes a correr, vai devagarinho e volta logo.»
+
+--Sim, mamã, respondeu ela, hei-de fazer tudo como deseja.»
+
+Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e pôs-se
+a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita,
+que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum.
+
+--Bons dias, chapelinho encarnado.»
+
+--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»
+
+--Onde vais tão cedo?»
+
+--A casa da minha avó que está doente.»
+
+--E levas-lhe alguma coisa?»
+
+--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
+dar forças.»
+
+Diz-me onde mora a tua, avó, que também a quero ir ver.»
+
+--É perto, aqui no fim da floresta. Há ao pé uns carvalhos muito
+grandes, e no jardim há muitas nozes.»
+
+--Ah! tu é que és uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu gostava
+de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas árvores e
+que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que
+quantidade de plantas medicinais que se encontram!»
+
+--O senhor, é com certeza um médico, respondeu a inocente pequenita,
+visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma
+que fizesse bem a minha avó.»
+
+--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta também, e
+aquela.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas
+venenosas. A pobre criança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.
+
+--Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
+grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»
+
+E pôs-se a correr em direcção da casa da avó, enquanto que a pequerrucha
+se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.
+
+Quando o lobo chegou à porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
+avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está aí?»
+
+--É o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da
+pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»
+
+--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»
+
+Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira,
+e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama.
+
+Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a
+porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter
+fechada.
+
+O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do
+focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrível.
+
+--Ai! avozinha, disse a criança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»
+
+--É para te ouvir melhor, minha filha.»
+
+--E porque estás com uns olhos tão grandes?»
+
+--É para te ver melhor.»
+
+--E para que estás com os braços tão grandes?»
+
+--É para te poder abraçar melhor.»
+
+--E Jesus! para que tens hoje uma boca tão grande e uns dentes tão
+agudos?»
+
+--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se à pobre
+pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a
+ressonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e
+que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha está com um
+pesadelo, está pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.» Entra, e
+vê o lobo estendido na cama.
+
+--Olá, meu menino, diz ele: há muito tempo que te procuro.»
+
+Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse ele, não vejo a
+dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o
+animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
+cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e
+saltou para o chão, gritando:
+
+--Ai! que sítio medonho onde eu estive fechada!
+
+A avó saiu também contentíssima por ver outra vez a luz do dia.
+
+O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador meteu-lhe então
+duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a
+neta para verem o que se ia passar.
+
+Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se
+para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
+não podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no lago, e
+afogou-se.
+
+O caçador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha
+e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapelinho encarnado
+prometeu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lho
+proibisse.
+
+
+
+
+*Os cinco sonhos*
+
+
+Andando um dia Carlos Magno à caça com uma comitiva numerosa, perseguiu
+um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da
+ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só
+então que viu que estava só, tendo a sua corte ficado muito para traz;
+sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana solitária
+no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões.
+Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
+entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe
+quiseram logo contar.
+
+O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:
+
+--No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro à pessoa que acaba de entrar
+aqui, e punha-o na minha cabeça.»
+
+--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»
+
+--E eu que estava pondo o seu manto.»
+
+--E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do
+meu pescoço aquela pesada cadeia de ouro, da qual está pendurada a sua
+trompa de caça.»
+
+--Vejo bem, disse o imperador, que têm tenção de me roubar tudo, e
+mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e
+qualquer resistência seria inútil. Não lhes peço senão uma coisa, é que
+me deixem tocar pela última vez na minha trompa de caça.»
+
+Os salteadores responderam que consentiam, visto que o último pedido
+dum moribundo deve ser respeitado.
+
+Carlos Magno levou à boca a sua magnífica trompa de marfim, e tirou
+dela sons tão fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos todos os
+seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé dele.
+
+--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora também
+eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser
+enforcados diante deste casebre.»
+
+E o sonho realizou-se imediatamente.
+
+
+
+
+*A igreja do rei*
+
+
+Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnífica em honra da
+Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse contribuir para
+a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edifício se
+concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do
+mármore uma inscrição em letras de ouro, que dizia que só ele, e mais
+ninguém, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na noite
+seguinte o nome do rei foi apagado da inscrição, e substituído por o
+duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
+pôr o seu nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da pobre
+mulher; à terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera, ordenou
+então que lhe trouxessem a mulher à sua presença:
+
+--Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que contribuíssem
+fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo que não
+cumpriste as minhas ordens.»
+
+--«Senhor, respondeu a velhinha toda trémula, eu respeitei as vossas
+ordens, apesar da mágoa que sentia por não poder oferecer o meu
+pequenino óbolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa
+majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
+que eu levava às escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas
+à construção da igreja.»
+
+--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras de ouro na
+inscrição do monumento, disse-lhe o rei.»
+
+Mas na noite seguinte uma mão invisível restabeleceu na lápide da igreja
+o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.
+
+
+
+
+*O valente soldado de chumbo*
+
+
+Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos
+terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial,
+de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e vermelhos!
+A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da
+caixa em que eles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!»
+que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado
+de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era formá-los sobre a
+mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
+maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
+menos, porque o tinham deitado na forma em último lugar, e já não havia
+chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros não estavam mais
+firmes nas duas pernas do que ele na sua única, e é este o que
+precisamente nos interessa.
+
+Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
+brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindíssimo castelo de
+papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe o interior dos salões.
+À volta era circundado duma floresta em miniatura, que se reflectia
+poeticamente num pedaço de espelho que fingia um lago, onde nadavam
+pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas não tanto como
+uma menina que estava à porta, e que era também de papel, vestida com um
+lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
+tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha
+levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e
+imaginou que, como ele, não tinha senão uma perna.
+
+--Ali está a mulher que me convém, pensou ele, mas é uma grande
+fidalga. Mora num palácio, eu numa caixa em companhia de vinte e
+quatro camaradas, e não haveria cá lugar para ela. No entanto
+preciso conhecê-la.»
+
+Deitou-se atrás duma caixa de tabaco, e dali podia ver à sua vontade a
+elegante dançarina, que estava sempre num pé só, sem perder o
+equilíbrio.
+
+À noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e as pessoas
+da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram
+a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de
+chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas
+como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas
+e saltos mortais, o lápis traçou mil arabescos fantásticos numa lousa,
+enfim o barulho tornou-se tal que o canário acordou, e pôs-se a cantar.
+Os únicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a
+dançarinazinha. Ela no bico do pé, e ele numa perna só, a
+espreitá-la.
+
+Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar
+de rapé, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de surpresa.
+
+--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
+sítio.»
+
+Mas o soldado fez que não ouvia.
+
+--Espera até amanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»
+
+No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de
+chumbo à janela, mas de repente ou por influência do feiticeiro ou por
+causa do vento caiu à rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a
+perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta
+enterrada entre duas lajes.
+
+A criada e o rapazito foram lá abaixo procurá-lo, mas estiveram quase a
+esmagá-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado: «Cautela!»
+te-lo-íam achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda. A chuva
+começou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro dilúvio. Depois
+do aguaceiro passaram dois garotos.
+
+--Olá! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazê-lo
+navegar.»
+
+Construíram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o soldado de
+chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois
+garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
+Que força de corrente! Mas também tinha chovido tanto! O barco jogava
+duma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
+impassível, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro.
+
+De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a
+escuridão como na caixa dos soldados.
+
+--Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me
+meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina
+estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas
+vezes maior.»
+
+Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de água; era um habitante do
+cano.
+
+--Venha o teu passaporte.»
+
+Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na
+espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
+rangendo os dentes, e gritando às palhas, e aos cavacos:--Façam-no
+parar, façam-no parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»
+
+Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e
+sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais valente.
+Havia na extremidade do cano uma queda de água tão perigosa para ele,
+como é para nós uma catarata. Aproximava-se dela cada vez mais, sem
+poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a
+queda de água, e o pobre soldado firmava-se o mais possível, e ninguém se
+atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.
+
+O barco, depois de ter andado à roda durante muito tempo, encheu-se
+de água, e estava a ponto de naufragar. A água já chegava ao pescoço do
+soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
+água passou por cima da cabeça do nosso herói. Nesse momento supremo,
+pensou na gentil dançarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:
+
+--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»
+
+O papel rasgou-se, e o soldado passou através dele. Nesse momento foi
+devorado por um grande peixe.
+
+Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além disso, que
+talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrépido, o soldado
+estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.
+
+O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, até que enfim
+parou, e pareceu que o atravessava um relâmpago. Apareceu a luz do dia,
+e alguém exclamou:
+
+--Olha um soldado de chumbo!»
+
+O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a
+cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
+soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
+gente quis admirar esse homem extraordinário, que tinha viajado na
+barriga dum peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso.
+Colocaram-no em cima da mesa, e ali--tanto é verdade que acontecem
+coisas extraordinárias neste mundo--achou-se na mesma sala, de cuja
+janela tinha caído. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam
+em cima da mesa, o lindo palácio, e a adorável dançarina sempre de perna
+no ar. O soldado de chumbo ficou tão comovido, que de boa vontade teria
+derramado lágrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ela,
+ela olhou para ele, mas não disseram uma palavra um ao outro.
+
+De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no
+fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.
+
+O soldado de chumbo lá estava perfilado, alumiado por um clarão
+sinistro, e sofrendo um calor terrível. Todas as cores lhe tinham
+desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas
+viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
+dançarina, que também olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre
+intrépido, conservava a espingarda ao ombro. De repente abriu-se uma
+porta, o vento arremessou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que
+desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, já não era mais
+que uma pequena massa informe.
+
+No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um
+objecto que tinha o feitio dum pequeno coração de chumbo, e tudo o que
+restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha
+enegrecido.
+
+
+
+
+*João Pateta*
+
+
+João era filho duma pobre viúva, bom rapaz, mas um pouco simplório. A
+gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe
+mandou-o à feira comprar uma foice. À volta, começou a andar com a foice
+à roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e matou-a.
+
+--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em
+um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos.»
+
+--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais
+esperto.»
+
+Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que
+as não perdesse.
+
+--Fique descansada. E voltou todo orgulhoso.»
+
+--Então, João, onde estão as agulhas?»
+
+--Ah! estão em lugar seguro. Quando saí da loja em que as comprei, ia a
+passar o carro do vizinho carregado de palha; meti lá as agulhas, não
+podem estar em sítio melhor.»
+
+--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não há meio de as
+tornar a ver. Devias tê-las espetado no chapéu.»
+
+--Perdão, respondeu João, para a outra vez, hei-de ser mais esperto.»
+
+Na outra semana, por um dia de calor, João foi dali uma légua comprar
+uma pouca de manteiga. Lembrando-se do último conselho de sua mãe, pôs a
+manteiga dentro do chapéu e o chapéu na cabeça. Imagine-se o estado em
+que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.
+
+A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia
+resolveu-se a mandá-lo à feira vender duas galinhas.
+
+--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te ofereçam
+outro.»
+
+--Está entendido, respondeu João.»
+
+Foi para a feira. Um freguês chegou-se a ele.
+
+--Queres seis tostões por essas galinhas?»
+
+--Ora adeus! minha mãe recomendou-me, que não aceitasse o primeiro
+preço, mas que esperasse o segundo.»
+
+--E tens muita razão. Dou-te um cruzado.»
+
+--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o primeiro,
+mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ela não tem que me ralhar.»
+
+Depois disto, João foi condenado a ficar em casa. Sua mãe sabia que
+mangavam com ele, e se riam dela. Uma manhã quis fazer uma
+experiência, e disse-lhe:
+
+--Vai vender este carneiro à feira. Mas não te deixes enganar. Não o
+entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»
+
+--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»
+
+--Quanto queres por esse carneiro?
+
+--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.
+
+--Quatro mil réis?»
+
+--É o preço mais elevado?»
+
+--Pouco mais ou menos.»
+
+--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepara a uma escada.
+
+--Quanto?»
+
+--Dez tostões:»
+
+--É menos, respondeu timidamente o João.»
+
+--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não há um
+preço mais elevado.»
+
+--Tem razão. É seu o carneiro.»
+
+Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou
+comprar coisa alguma.
+
+
+
+
+*Branca de Neve*
+
+
+Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia
+de Inverno, enquanto bordava num bastidor de ébano olhando de vez em
+quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no chão,
+distraída, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue.
+
+--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos
+como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros
+como este ébano.»
+
+Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu à luz uma filha,
+que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo tão branco,
+que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito
+tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
+duma grande beleza, e dum orgulho não menos extraordinário. Era tão
+formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
+vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho
+magico dizia-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que há no
+mundo?»
+
+--És tu, respondia o espelho.»
+
+No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
+formosa. Tinha apenas sete anos, e já ninguém a podia ver sem ficar
+maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
+espelho, disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que há no
+mundo?»
+
+--Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»
+
+A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dor aguda,
+como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um ódio mortal pela
+inocente Branca. Não podia sossegar nem de dia, nem de noite. Para
+satisfazer o seu ódio, chamou um criado, e disse-lhe:
+
+--Quero que Branca desapareça. Conduze-la à floresta, mata-a, e, para me
+provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o
+coração.»
+
+O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e
+dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre criança chorava e
+lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ela não tinha feito
+mal a ninguém, e queria viver. O criado, comovido com aquelas
+lágrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se
+as feras a devorassem a culpa não era dele, mas sim da rainha. Assim
+fez, e para mostrar o coração de Branca à rainha, matou um cabrito, e
+tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou
+contentíssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma
+mulher no mundo é tão bela como eu.
+
+A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava
+cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e
+andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
+também via animais ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o
+deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.
+
+À noite chegou ao pé duma casinha muito pequenina. Estava morta de fome
+e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
+limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha de
+brancura irrepreensível, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,
+e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
+do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
+deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente.
+
+Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
+pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
+que tinham gente em casa. Um deles disse:
+
+--Quem comeu o meu pão?»
+
+E os outros sucessivamente:
+
+--Quem pegou no meu garfo?»
+
+--Quem comeu o meu caldo?»
+
+--Quem bebeu o meu vinho?»
+
+E enfim um deles:
+
+--Quem está aí deitado na minha cama?»
+
+Reuniram-se todos à roda do pequeno leito em que dormia Branca. À luz
+das lanternas viram o doce rosto da criança, que dormia tranquilamente,
+e afastaram-se sem fazer bulha, para a não acordar. Branca no dia
+seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si
+aqueles sete anões das montanhas. Mas eles disseram-lhe com brandura,
+que não tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como se chamava.
+Branca contou a sua triste história, e os anões disseram-lhe:
+
+--Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa?»
+
+--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada.»
+
+Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias.
+Limpava os móveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as
+minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.
+
+Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não
+tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
+e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda
+que há no mundo?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Sim, nos teus palácios e nos teus castelos, mas Branca está nas sete
+montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»
+
+Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,
+e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que
+modo? Uma manhã partiu disfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto
+cheio de objectos de fantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu à
+porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas jóias?»
+
+Os anões tinham recomendado a Branca que desconfiasse das caras
+estranhas, receando os emissários da rainha, e ela tinha prometido ser
+prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no
+cesto, esqueceu-se das suas promessas.
+
+--Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou pôr ao
+pescoço.»
+
+Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
+anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente
+inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lábios algumas
+gotas dum licor amarelo. Branca começou a respirar, voltou a si pouco
+a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.
+
+--Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira não era
+outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautela, não deixes
+entrar aqui ninguém, quando não estivermos em casa.»
+
+Ao entrar no seu palácio toda contente, colocou-se a rainha diante do
+espelho, e disse-lhe:
+
+--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que há no mundo?
+Responde.
+
+E o espelho respondeu:
+
+--És tu nos teus grandes palácios e nos teus castelos, mas Branca está
+nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»
+
+A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
+infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou às sete
+montanhas, e bateu à porta da cabana.
+
+--Quem quer comprar lindas jóias? Branca veio à janela, e respondeu:
+
+--Vá-se embora, aqui não entra ninguém.»
+
+--Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro. Já
+viu outro tão bonito?»
+
+Branca não pôde resistir ao desejo de possuir aquela jóia. Abriu a
+porta.
+
+--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lho na cabeça.»
+
+Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e
+Branca caiu morta.
+
+À noite quando regressaram os anões, acharam-na pálida e fria.
+Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e
+tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente.
+
+No entanto a cruel rainha voltava contentíssima para o seu palácio.
+Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que
+o espelho respondeu como antecedentemente.
+
+--Ah! é preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha de me
+sacrificar.
+
+Vestiu-se de camponesa com um cesto de maçãs. Entre elas havia uma que
+estava envenenada dum lado. Foi, e bateu à porta da cabana.»
+
+--Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?»
+
+--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, não deixo entrar
+ninguém, nem compro coisa alguma.»
+
+--Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão
+bonita, quero dar-lhe uma.»
+
+--Obrigada, não posso aceitar.»
+
+--Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa
+que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora
+mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se
+tentar, levou à boca o outro pedaço, e caiu fulminada.
+
+--Aí tens, para castigo da tua formosura.»
+
+Quando chegou ao palácio a rainha foi direita ao espelho, e
+perguntou-lhe:
+
+--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--És tu, és tu.»
+
+--Até que enfim!»
+
+Os anões estavam inconsoláveis. Debalde tinham tentado reanimá-la com o
+licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
+fria e inanimada. Choraram por ela durante três dias, e os passarinhos
+da floresta choraram também. No entanto as boas avezinhas não podiam
+acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquilo,
+as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quiseram
+enterrá-la. Meteram-na num caixão de cristal, e escreveram em cima.
+«Aqui jaz a filha dum rei;» puseram o caixão numa das sete montanhas,
+e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
+assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais
+pequena alteração.
+
+Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar à
+caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lho cedessem, fosse por preço
+que fosse.
+
+--Somos muito ricos, e por nada deste mundo venderemos este caixão, que
+é o nosso tesouro.»
+
+--Então dêem-mo, já não posso viver sem contemplar este rosto de
+mulher. Guardá-lo-ei na melhor sala do meu palácio. Peço-lhes que me
+façam isto.»
+
+Os anões, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para
+o levarem. Um deles tropeçou numa raiz, e o caixão sofreu um
+balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha
+engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O
+jovem príncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela. O
+casamento fez-se com grande pompa. O príncipe convidou todos os reis e
+rainhas dos diferentes países, e entre elas a rainha inimiga de
+Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos
+os olhares, pôs-se diante do espelho, e disse a rainha:
+
+--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que há do mundo?»
+
+E o espelho respondeu:
+
+--Branca é mais formosa que tu.
+
+A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes
+fossem descobertos, que morreu de repente.
+
+Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu palácio de
+princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus benfeitores.
+
+
+
+
+*A rapariguinha e os fósforos*
+
+
+Que frio! a neve caía, e a noite aproximava-se; era o último de
+Dezembro, véspera de Ano Bom. No meio deste frio e desta escuridão
+passou na rua uma desgraçada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os
+pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas
+tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já
+tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua
+a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
+quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a intenção de fazer
+dele um berço para o seu primeiro filho.
+
+A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha
+no seu velho avental uma grande quantidade de fósforos, e levava na
+mão um maço deles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido
+compradores, e por isso não apurara cinco réis.
+
+Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
+longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do pescoço; mas
+pensava ela porventura nos seus cabelos anelados?
+
+As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos
+manjares; era a véspera de dia de Ano Bom: eis no que ela pensava.
+
+Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
+vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pai bater-lhe-ia,
+porque não tinha vendido os seus fósforos. Além disso em sua casa
+fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento
+atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
+mãozinhas já quase que as não sentia. Ai! como um fosforozinho aceso
+lhe faria bem! Se tirasse do maço apenas um, um único, e ascendendo-o
+aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como
+ardeu! Era uma chama tépida e clara, como uma pequena lamparina. Que
+luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro
+de ferro, cujo lume magnífico aquecia tão suavemente, que era um regalo.
+
+A pequerrucha ia já a estender os pezitos para os aquecer também, quando
+a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma
+pontita de fósforo consumido.
+
+Acendeu segundo fósforo, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu
+a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando através desse
+muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha
+alvíssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma galinha
+assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exalando um perfume
+delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do
+prato, e caiu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca
+espetada no lombo. Nisto apagou-se o fósforo, e viu apenas diante de
+si a parede fria e tenebrosa.
+
+Acendeu terceiro fósforo, e achou-se imediatamente sentada debaixo
+de uma magnífica árvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a
+que tinha visto no ano passado através dos vidros de um armazém
+sumptuoso.
+
+Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões acesos, e as estampas
+coloridas, como as que há às portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.
+Quando ia agarrá-las com as duas mãos, apagou-se o fósforo; todos os
+balões da árvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se
+tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no céu
+um longo rasto de fogo.
+
+--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que
+lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando
+cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.»
+
+Acendeu ainda outro fósforo: deu uma grande luz, no meio da qual lhe
+apareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavíssimo.
+
+--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei que te vais
+embora quando se apagar o fósforo. Desaparecerás como a panela de
+ferro, a galinha assada, e a bela árvore do Natal.
+
+Acendeu o rosto do maço, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e
+os fósforos espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua
+avó tinha sido tão formosa. Pôs ao colo a pequerruchinha, e ambas
+alegres, no meio deste deslumbramento, voaram tão alto, tão alto, que
+já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraíso.
+
+Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os
+dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos lábios...
+morta, morta de frio na última noite do ano. O dia de Ano Bom veio
+alumiar o pequenino cadáver, sentado ali com os seus fósforos, a que
+faltava um maço, que tinha ardido quase inteiramente.--Quis aquecer-se,
+disse um homem que passou.» E ninguém soube nunca as lindas coisas que
+ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
+velha avó no dia do Ano Novo.
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+*O primeiro pecado de Margarida*
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+Chamava-se Margarida, e estavam à espera dela no céu, porque Deus
+tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe pode
+acontecer alguma desgraça, vou trazê-la um destes dias para o paraíso.»
+
+Margarida era uma virgem cândida, matinal como a aurora, fresca como
+ela; todos os dias ao acordar rezava as orações, que sua mãe lhe tinha
+ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha
+jóias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.
+
+Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.
+
+E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela canção
+de amor e de glória, que já embalara muitos berços, e que podia
+sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.
+
+Numa tarde de Verão, estava ela sentada à porta de casa fiando linho,
+à hora em que as estrelas começam a aparecer, uma a uma no firmamento.
+
+Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por ali uma das
+suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido novo.
+Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
+colar de ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse
+bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
+contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que
+inquietou no paraíso o seu anjo da guarda.
+
+O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de
+Margarida, a roda cessara o seu barulho monótono, e o fuso caíra-lhe das
+mãos.
+
+Ao cair o fuso despertou do êxtase, abriu os olhos, e viu diante de si
+um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de veludo
+preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a
+respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
+perguntou-lhe:
+
+--Qual é o caminho da cidade?»
+
+Margarida estendeu a mão para lho indicar, e o forasteiro inclinando-se
+tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma
+estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que
+o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se então com
+um sorriso estranho e diabólico.
+
+Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
+Margarida, e pediu-lhe uma esmola.
+
+Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre desgraçado.
+
+O cavaleiro então, soltando um grito de cólera, ia lançar-se sobre
+Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda
+disfarçado--cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto é Satanás, que
+tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espírito celeste.
+
+
+
+
+*Um nome inscrito no céu*
+
+
+Era uma vez um pobre mendigo, que bateu à porta duma humilde cabana a
+pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem
+ouvindo ninguém, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu
+então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:
+
+--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»
+
+E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater à mesma
+porta.
+
+--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada
+que te dar.»
+
+--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.
+
+E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
+cima da mesa, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que
+lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.
+
+--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe ele afectuosamente, indo-se
+embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»
+
+Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevê-lo-ão no
+Paraíso, e mais tarde nós o viremos a saber.
+
+
+
+
+*O linho*
+
+
+O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e
+transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre
+ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o
+dum filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.
+
+--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
+e serei brevemente uma rica peça de pano. Sinto-me feliz. Não há
+ninguém que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saúde e um belo
+futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
+feliz, feliz a mais não poder ser!»
+
+--Como és ingénuo! disseram as silvas do valado; tu não conheces o
+mundo, de que nós outras temos uma larga experiência.»
+
+E rangendo lastimosamente, cantaram:
+
+ --Cric, crac! cric, crac! crac!
+ --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bela
+manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
+florir. Sou muitíssimo feliz.»
+
+Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
+cabeleira, arrancaram-no com raízes e tudo, e deram-lhe tratos de
+polé. Primeiro mergulharam-no em água, como se o quisessem afogá-lo, e
+depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!
+
+--Não se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessário
+sofrer, o sofrimento é a mãe da experiência.»
+
+Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no,
+cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois,
+puseram-no numa roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.
+
+--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio daquelas
+torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades perdidas.»
+
+E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a meter no tear e a
+transformá-lo numa peça de pano.
+
+--Isto é extraordinário, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que
+grandes tolas aquelas silvas quando cantavam:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso
+também agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto,
+tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida,
+ninguém trata da gente, e não bebemos outra água a não ser a da chuva.
+Agora é o contrário: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as
+manhãs, e à noite tomo o meu banho com um regador. A criada do sr. cura
+fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
+melhor peça da paróquia. Não posso ser mais feliz.»
+
+Levaram o pano para casa, e entregaram-no às tesouras. Cortaram-no e
+picaram-no com uma agulha. Não era lá muito agradável, mas em
+compensação fizeram dele uma dúzia de camisas magníficas.
+
+--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é
+abençoado, porque sou útil neste mundo. É preciso isso para se viver em
+paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um
+só grupo, uma dúzia. Que incomparável felicidade!
+
+O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.
+
+--Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas não
+se fazem impossíveis.»
+
+E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
+finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem
+adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel
+branco magnífico.
+
+--Oh que agradável surpresa! exclamou o papel, agora sou muito mais fino
+do que dantes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima
+de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»
+
+E escreveram nele as mais belas histórias, que foram lidas diante de
+inúmeros ouvintes, e os tornaram mais sábios e melhores.
+
+--Ora aqui está uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
+quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
+ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei
+explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe
+perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
+sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, até chegar à maior glória.
+Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se»
+tudo pelo contrário se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou
+viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
+instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora
+as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,
+imensamente feliz!»
+
+Mas o papel não foi viajar; entregaram-no ao tipógrafo, e tudo que lá
+estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
+que recrearam e instruíram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
+papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta à roda
+do mundo. A meio caminho já estaria gasto.
+
+--É justo, disse o papel, não tinha pensado nisso. Fico em casa, e vou
+ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as
+palavras caíram directamente da pena sobre mim, fico no meu lugar, e os
+livros vão por esse mundo fora. A sua missão é realmente bela, e eu
+estou contente, e julgo-me feliz.
+
+O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.
+
+--Depois do trabalho é agradável o descanso, pensou ele. É neste
+isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só de hoje em diante é que
+eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira
+perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»
+
+Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o
+que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar açúcar. E todas as
+crianças da casa se puseram à roda; queriam vê-lo arder, e ver também,
+depois da labareda, as milhares de faíscas vermelhas, que parecem fugir,
+e se apagam instantaneamente uma após outra. O maço inteiro de papel
+foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande
+chama, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguera as
+suas flores azuis; a peça de pano nunca tinha tido um brilho
+semelhante.
+
+Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
+palavras, todas as ideias desapareceram em línguas de fogo.
+
+--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da labareda, que
+pareciam mil vozes reunidas numa só. A chama saiu pela chaminé, e no
+meio dela volteavam pequeninos seres invisíveis para os olhos do
+homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.
+Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu,
+quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda eles dançavam
+sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas
+encarnadas.
+
+As crianças cantavam à roda da cinza inanimada:
+
+ Cric, crac! cric, crac! crac!
+ Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
+
+Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que
+é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»
+
+As crianças não puderam ouvir, nem compreender estas palavras; mas
+também não era necessário, porque as crianças não devem saber tudo.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+*INDICE*
+
+
+A mãe
+O ouro
+Doçura e bondade
+O malmequer
+Não quero
+Piloto
+O rico e o pobre
+Como um camponês aprendeu o Padre Nosso
+O talismã
+A alma
+Alberto
+A canção da cerejeira
+Os gigantes da montanha e os anões da planície
+A criança, o anjo e flor
+Presente por presente
+O pinheiro ambicioso
+Perfeição das obras de Deus
+João e os seus camaradas
+O rabequista
+Os pêssegos
+A urna das lágrimas
+Reconhecimento e ingratidão
+O fato novo do sultão
+Boa sentença
+Os animais agradecidos
+O ermitão
+Carlos Magno e o abade de S. Gall
+A boneca
+Inconveniente da riqueza
+Querer é poder
+Qual será rei?
+Os três véus de Maria
+Os pequenos no bosque
+O chapelinho encarnado
+Os cinco sonhos
+A igreja do rei
+O valente soldado de chumbo
+João Pateta
+Branca de Neve
+A rapariguinha e os fósforos
+O primeiro pecado de Margarida
+Um nome inscrito no céu
+O linho
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+
+[A propriedade deste livro pertence no Brasil ao sr. Luís de Andrade,
+residente no Rio de Janeiro.]
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