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-The Project Gutenberg EBook of Os descobrimentos portuguezes e os de
-Colombo, by Manuel Pinheiro Chagas
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
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-
-Title: Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo
- Tentativa de coordenação historica
-
-Author: Manuel Pinheiro Chagas
-
-Release Date: October 23, 2020 [EBook #63534]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES ***
-
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-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
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-OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES E OS DE COLOMBO
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- OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES
- E
- OS DE COLOMBO
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- [Illustration]
-
- TENTATIVA DE COORDENAÇÃO HISTORICA
- POR
- MANUEL PINHEIRO CHAGAS
- SECRETARIO GERAL DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
-
- [Illustration]
-
- LISBOA
- Typographia da Academia Real das Sciencias
- 1892
-
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-
-I
-
-Os problemas geographicos do seculo XV
-
-
-A festa do centenario de Colombo deve acima de tudo ser uma festa de
-justiça e um dos grandes jubileus da humanidade. Os centenarios dos
-grandes homens e os centenarios dos grandes acontecimentos são as
-solemnidades com que se festeja sobretudo a chegada a cada um dos marcos
-milliarios da estrada, que até agora parece ser infinita, do Progresso.
-Lançando os olhos para o passado, vê-se que a humanidade não parou um
-só instante na sua marcha para um fim ainda hoje desconhecido. Parece
-ás vezes aos observadores superficiaes que ha epochas em que se recúa,
-porque se extingue uma luz que brilhava com immensa intensidade, ou
-porque retrocede uma ou outra das legiões que formam o immenso exercito
-da especie humana; mas, se ha umas que retrocedem, porque estavam muito
-adeante das outras, estas em compensação avançam e ganham o terreno
-perdido pelos seus companheiros de jornada. Se um clarão se apaga, outros
-ha que se accendem em pontos que até ahi estavam immersos em trevas
-profundas. O nivel da humanidade restabelece-se como se restabelece o
-nivel das aguas depois dos grandes cataclysmos que afundam as mais altas
-montanhas, e que deixam enxutas immensas planicies cobertas até ahi
-pela vaga. Assim não ha um só dos grandes cataclysmos historicos de que
-não resultasse um progresso. Mudou-se a fórma da civilisação occidental
-quando cahiu o imperio romano. Ao impulso dos barbaros alluiram-se as
-instituições e os monumentos, a sciencia e as lettras eclipsaram-se, mas
-a alma humana illuminou-se com a irradiação do Evangelho que só n’essa
-raça virgem que vinha do Norte e do Oriente podia accender os candidos
-explendores que foram como que novas estrellas no nosso firmamento
-moral, que foram a divinisação da mulher e a apotheose da familia e ao
-mesmo tempo a esperança immortal que expirára no mundo antigo podre de
-civilisação e que reviveu no mundo barbaro. Cahiam deante do alvião
-vandalico os monumentos magestosos de Roma e as puras obras primas da
-Grecia, mas erguia-se envolta n’um nimbo estranho de fé e de poesia
-a cathedral gothica, e recortavam-se em mil caprichos phantasticos
-as torrinhas e as innumeraveis agulhas dos paços municipaes, em que
-a burguezia ostentava, em frente da realeza da espada, a realeza do
-trabalho. Desappareciam debaixo dos codices monachaes as obras primas
-dos tragicos e as epopéas gregas, mas a alma complexa da tumultuosa meia
-edade palpitava nos tercetos de Dante. E, quando a invasão musulmana
-derrubava no Oriente o ultimo baluarte da antiguidade erudita, quando a
-Grecia via os seus marmores despedaçados pelas ferraduras dos cavallos do
-deserto, e o Egypto as suas esphinges sepultadas nas nuvens de areia que
-as hordas arabes levantavam, no Occidente arrancava Colombo á esphinge do
-Oceano o seu segredo secular, fixava para sempre Guttemberg os vestigios
-do pensamento humano, e ás portas orientaes, vindas de remoto occaso,
-assomavam as prôas das caravelas portuguezas, que acabavam de sulcar,
-vanguarda da civilisação, as ondas do mar Tenebroso illuminadas pela sua
-audacia.
-
-Estas festas devem ser porém acima de tudo as festas da justiça,
-porque n’ellas devem emmudecer perante a grande causa da humanidade as
-mesquinhas invejas, as pequeninas rivalidades nacionaes, com que por
-muitas vezes se procura deslustrar a memoria d’aquelles, que foram os
-agentes providenciaes d’estas grandes transformações. O progresso humano
-obedece a leis de uma ineluctavel logica. Não ha saltos nem lacúnas.
-Tudo se succede com uma logica surprehendente. As grandes descobertas
-derivam-se umas das outras. Todo o grande homem tem os seus humildes
-predecessores. O seu genio fórma-se com elementos dispersos que elle
-aproveita, concatena, e de que tira só elle o resultado fecundo. Não
-foi Watt que inventou a machina de vapor, mas a elle e só a elle cabe
-a gloria do invento, porque foi o seu genio que encontrou o segredo
-capital, sem o qual essa machina não seria sempre senão uma curiosidade,
-inutil para os grandes progressos da sciencia e da industria. Não foi
-Colombo sem duvida o primeiro que sonhou que para além das vagas do
-Atlantico se encontrava terra, nem o primeiro que devaneou que a marcha
-de um navio pelo occidente o deveria conduzir ás plagas orientaes da
-Asia. Não foi o infante D. Henrique o primeiro que pensou que, torneando
-a Africa, se poderia chegar ao mar Roxo e á India, mas foram Colombo e o
-infante D. Henrique que tiveram a audacia, a fé e o espirito scientifico,
-foram elles que romperam os obstaculos, deante dos quaes recuava
-pallida e tremente a multidão dos navegantes, ou refugia hesitante o
-sonho de alguns capitães devaneadores. A elles cabe sem duvida a gloria
-incontestavel, perante elles se deve curvar com respeito a humanidade,
-que só a elles deve a conquista maravilhosa de mais de metade da terra.
-
-Quando vejo a azafama com que procuram ainda hoje espiritos demolidores
-sustentar que os Portuguezes foram precedidos por outros povos nos seus
-descobrimentos, que teve Colombo predecessores no descobrimento da
-America, pasmo que se não veja claramente o obstaculo deante do qual
-baqueiam todos os seus argumentos. Esse obstaculo é o seguinte: antes
-dos navegadores do infante D. Henrique terem demonstrado o contrario,
-era ponto incontestavel para todos a impossibilidade de se viver na
-zona torrida. Antes de Colombo ter mostrado o contrario, era ponto
-incontroverso que a immensa extensão do Atlantico tornava impossivel que
-um navio, caminhando na direcção do occidente, encontrasse terra antes
-de terem perecido de fome e de sede todas as tripulações. Pois, se um
-navio qualquer tivesse, como se diz dos navios dieppezes, chegado antes
-de nós ás costas da Guiné, não estava desde logo quebrado o encanto, não
-cahia por terra toda a geographia systematica dos antigos, não estava
-aberto para sempre o _mare clausum_, e podia alguem sustentar ainda que
-era inhabitavel a zona torrida, quando havia em França marinheiros que
-a tinham atravessado sem perigo, que tinham voltado incolumes, deixando
-n’essas regiões que todos diziam completamente queimadas pelo sol
-colonias florescentes como esse Petit-Dieppe e esse Petit-Paris, que
-ainda hoje são citadas por escriptores francezes notabilissimos, em cujo
-espirito um mal-entendido amor patrio parece extinguir completamente
-a faculdade do raciocinio? Seria necessario que essa descoberta fosse
-completamente inconsciente, que os marinheiros nem soubessem que tinham
-entrado na zona torrida, e essa ignorancia é completamente incompativel
-com os conhecimentos embora rudimentares que precisava de ter o navegador
-que se arriscava a tão aventurosas viagens.
-
-O mesmo diremos das navegações antigas de que se encontra noticia nos
-livros de Herodoto e no Periplo de Hannon. Se os marinheiros phenicios de
-Necho tivessem dado volta ao cabo da Boa Esperança, e tivessem entrado no
-Mediterraneo pelo estreito de Gibraltar, percorrendo tão immensa extensão
-de costas, como poderiam persistir no espirito dos geographos antigos
-idéas tão absolutamente falsas a respeito da configuração da Africa e da
-distribuição das zonas? Pode allegar-se por acaso que essa viagem não
-deixou vestigios, quando vemos que as viagens dos Phenicios nos mares
-da Europa tão difficeis e tão inhospitos foram sempre continuadas, que
-nunca se perdeu o conhecimento da Islandia, essa terra gelada, e que pelo
-contrario perderam immediatamente esses Phenicios, esses Orientaes, que
-viviam nas terras ardentes, o conhecimento de costas que o sol tambem
-aquecia e em que encontravam muitas vezes como que a reproducção das
-suas terras nataes? E não seria extranho tambem que Hannon tivesse feito
-a longa viagem que do seu Periplo se quer deduzir que fez, e que se
-apagasse completamente na memoria carthagineza o conhecimento das terras
-percorridas em tão memoravel expedição, preferindo tambem, ao que parece,
-esses filhos de paiz africano, as costas geladas e os mares tempestuosos
-da Europa ao clima quente e ao mar sereno da Africa Occidental?
-
-O que é estranho realmente, é que o alto espirito de Humboldt acceitasse
-sem exame as pretenções dos Normandos, limitando-se a observar na sua
-_Historia da geographia do Novo Continente_ que esses factos citados
-não diminuem a gloria de quem tentou a exploração seguida das costas
-africanas![1] Não viu o grande historiador, o immortal geographo, que
-esses factos isolados bastavam para destruir todas as lendas, que eram
-a chave com que ficava para sempre aberto o mar Tenebroso, que só se
-abriu comtudo radiante de luz deante dos esforços dos navegadores
-portuguezes, que bastavam para abrir o caminho para a _terra antichtona_,
-para o _alter orbis_, onde muitos diziam que ficava situado o Paraizo
-Terrestre, e que nós não poderiamos conhecer nunca, porque ás duas
-zonas temperadas se interpunha, intransitavel e terrivel, a zona torrida
-completamente queimada pelo sol? Tão profunda seria a ignorancia em
-Dieppe que ninguem visse a importancia da maravilhosa expedição? Nos
-seculos XIII e XIV, sobretudo, em que já começava a actuar nos espiritos
-europeus a febre das viagens, já depois de Marco Polo ter escripto a
-sua curiosa narrativa, depois das viagens para o Oriente de Rubruquis
-e de Carpino, e das viagens de sir John Mandeville, quasi um normando
-tambem? Ninguem via semelhante coisa! Tendo de casa quem lhes ensinasse a
-verdade, continuavam geographos e cartographos, todos os sabios, todos os
-estudiosos a repetir as velhas fabulas, a encher de monstros horrificos
-os desconhecidos plainos africanos, a pintar a vermelho nos mappas,
-para bem indicar o ardor do clima, os mares equatoriaes? Possuindo
-colonias na costa africana, tendo marinheiros que tão bem conheciam
-esses mares podiam os reis de França consentir que, por bulla de 8 de
-janeiro de 1454, o papa Nicolau V concedesse aos reis de Portugal «todas
-as conquistas da Africa com as ilhas nos mares adjacentes _desde o cabo
-Bojador e de Não até toda a Guiné com toda a sua costa meridional_?»[2].
-E era possivel ainda que no principio do seculo XV os capellães de João
-de Bethencourt, _fidalgo normando_ que occupára as Canarias, compondo a
-narrativa da famosa expedição, nem uma palavra escrevessem ácerca das
-expedições dos seus patricios, e que pelo contrario dissessem, elles
-normandos, que «_si aucun noble prince du royaume de France ou d’ailleurs
-vouloit entreprendre aucune grande conqueste par deçà, qui seroit une
-chose bien faisable et bien raisonnable, le pourroit faire à peu de
-frais; car Portugal et Espagne et Aragon les fourniroient pour leur
-argent de toutes vitoailles et de navires plus que nul autre pays, et
-aussi de pilotes qui savent les ports et les contrées_?»[3]
-
-Com tanta superficialidade porém se estudam estes assumptos que nem
-se pensa em se saber se a Guiné do seculo XIV é a Guiné posterior aos
-descobrimentos. Isso leva escriptores francezes e o proprio Humboldt
-a allegar que este mesmo Bethencourt explorou a Guiné antes dos
-portuguezes, sem verem que o que os seus capellães contam é o seguinte:
-que «os navegantes normandos se affogaram nas costas _da Barbaria ao
-pé de Marrocos_»,[4] e que Bethencourt tencionava visitar a parte da
-«terra firme que fica _entre o cabo Cantim e o Bojador_»[5] que para isso
-consultara o livro de um religioso hespanhol «_que visitára a Guiné,
-mas que, chegando ao cabo Bojador se limitára a reconhecer as ilhas que
-ficavam áquem_».[6] A Guiné do tempo de Bethencourt era, como se vê, a
-que ficava para cá do cabo Bojador, e tanto assim que o papa Innocencio
-VII disse, escrevendo a Bethencourt, que sabia ficarem as ilhas Canarias
-a doze leguas de Guiné.[7]
-
-Que immenso cuidado é necessario, quando se procura destruir uma tradição
-profundamente e fortemente documentada! Quantas causas de erro escapam ao
-investigador ou frivolo, ou negligente, que se ufana de encontrar n’um
-velho alfarrabio um facto que vem destruir completamente o que parecia
-assente e demonstrado! Basta uma variação de nome para transtornar todas
-as deducções. Basta que uns não saibam, que outros não reparem que o nome
-de Guiné foi mudando de sitio, como outros muitos nomes geographicos,
-á medida que os descobrimentos foram caminhando, para que todas as
-interpretações caiam por terra! Não basta que se diga que no seculo
-XIV ou XV houve Francezes que chegaram á Guiné, torna-se indispensavel
-apurar tambem se a Guiné do principio do seculo XV era a mesma que assim
-se denominou depois dos descobrimentos. Este apuramento, d’onde resulta
-sabermos que a Guiné ficava, para os capellães de Bethencourt, áquem do
-cabo Bojador, destruiria completamente a singularissima reivindicação
-franceza se tantos argumentos fortissimos não houvesse para lhe
-demonstrar a inanidade.[8]
-
-É o que succede tambem com os detractores de Colombo. Não vêem
-immediatamente os que dizem que antes de Colombo chegaram a terras
-americanas João Vaz Côrte Real, ou o francez Jean Cousin, que, se algum
-d’elles tivesse levado a termo tão importante expedição, bastava isso
-para ficar logo resolvido o grande problema do fim do seculo XV que
-trazia preoccupados sabios e estudiosos, deante do qual tanto hesitou D.
-João II, que inflammou em França o animo do cardeal Pedro d’Ailly, em
-Italia o do famoso Toscanelli! Com que jubilo se saudaria essa resolução
-do grande problema!
-
-O que faz tambem com que homens de valor no nosso tempo possam acceitar
-fabulas tão pueris, como a de João Vaz Côrte Real e a de Jean Cousin, é
-que raros estudam a fundo o problema que pretendem resolver a seu modo, e
-não o sabem pôr em equação. Uns estabelecem a lenda de Christovão Colombo
-considerado como um visionario por dizer que se encontraria a India
-navegando-se pelo occidente, outros a lenda de Christovão Colombo tratado
-como um louco por imaginar que para o lado do occidente havia terras. E
-por isso dizem uns que elle sabia perfeitamente que havia terras porque
-tinha conhecimento de viagens a que os navegadores não tinham ligado
-importancia alguma e que tinham passado despercebidas, outros que algum
-dos reis com quem elle tratara, D. João II por exemplo, não ignoravam que
-havia terras para o occidente a grandissima distancia da Europa, porque a
-essas terras já um portuguez aportara, mas estavam convencidos que essas
-terras não eram a India, e n’isso, accrescenta-se, eram elles que tinham
-razão e não Colombo.
-
-É mal posto o problema: que se poderia chegar á Asia indo-se pelo
-occidente, raros seriam os homens de alguma instrucção que o podessem
-pôr em duvida. A idéa da esphericidade da terra já penetrara em todos
-os espiritos, e a sua consequencia natural era que pelo occidente se
-poderia chegar ao oriente. Que devia haver terras para o occidente
-era por conseguinte egualmente incontestavel. A questão toda estava
-exclusivamente na distancia.
-
-D. João II não julgava Colombo um visionario por elle lhe dizer que pelo
-occidente se chegaria á India, julgou-o um visionario por elle suppôr
-que poderia atravessar para chegar ao seu destino a enorme extensão dos
-mares. Não o suppoz visionario por elle cuidar que encontraria terras ao
-occidente, ainda que essas terras não fossem a India, suppôl-o visionario
-por elle imaginar que teria tempo de chegar a essas terras a salvamento.
-Logo, se Jean Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem realisado essa
-façanha, estavam dissipadas todas as duvidas.
-
-Havia terras a grande distancia da Europa, terras que ou seriam a
-India, ou algum d’esses archipelagos em que Toscanelli tinha fé, que
-serviriam de escala aos navios que demandassem pelo occidente a Asia?[9]
-O jubilo immenso que se sentiu na Hespanha quando Christovão Colombo
-voltou, sentir-se-hia em Lisboa quando João Vaz Côrte Real tornasse, ou
-sentir-se-hia em França quando Jean Cousin entrasse n’algum dos seus
-portos.
-
-O erro d’aquelles que assim procuram contrapôr a glorias consagradas
-não só pela tradição, mas pelos factos incontestados e pelos
-resultados conseguidos, estas lendas pueris forjadas ou pela inveja
-dos contemporaneos, ou pela phantasia audaciosa dos historiadores sem
-probidade scientifica que abundaram no seculo XVII, está em pôrem
-completamente de parte o estudo do meio em que os grandes descobrimentos
-se fizeram, de modo que o infante D. Henrique e Colombo apparecem como
-uns vultos inexplicaveis sem raizes no passado e sem relações de especie
-alguma com o espirito das gerações de que fizeram parte. Querem então
-reduzir á estatura normal esses vultos descommunaes, e aproveitam
-qualquer tradição apocrypha para mostrarem com um sorriso de mofa, que
-elles não fizeram senão aproveitar os esforços inconscientes feitos por
-alguns vultos humildes, para forjarem com esse metal roubado a pobres as
-estatuas da sua grandeza.
-
-Applique-se o methodo scientifico ao estudo d’estes grandes phenomenos da
-vida da humanidade, e ver-se-ha como o genio d’estes dois homens apparece
-ainda mais brilhante quando vemos que elle resume as vagas aspirações da
-geração a que pertencem, satisfaz a anciedade que ella sente, encontrando
-a solução que os outros debalde procuram. O infante D. Henrique surge no
-meio de uma geração que se debate na ancia do desconhecido, que se julga
-apertada na jaula d’este mundo antigo, e anceia por encontrar espaço mais
-amplo em que mais livremente respire. Havia um seculo já que a sede das
-viagens se apoderara dos espiritos, que o conhecimento da terra era a
-preoccupação constante de todos os espiritos mais illustrados e cultos,
-em que já se multiplicavam os documentos cartographicos, em que aquellas
-encyclopedias medievaes que tinham o titulo quasi consagrado de _Imago
-mundi_ se enchiam com as mais phantasticas noções, revelando comtudo
-o ardor com que se procurava supprir com uma geographia conjectural a
-falta do conhecimento verdadeiro da terra. Já se tinham emprehendido
-as grandes viagens terrestres pela Asia, procuravam os povos maritimos
-sondar os segredos do Occeano. Tentavam os Normandos perscrutal-os,
-e a expedição de João de Bethencourt bem o demonstrou, aspiravam a
-descobril-os os Genovezes, e a infeliz expedição de Vivaldi de que nunca
-mais houve noticias depois das suas galés terem transposto o estreito
-de Gibraltar confirma-o cabalmente, queriam os Catalães encontral-os e
-Jayme Ferrer, que apenas transpoz o cabo Não, e não conseguiu passar
-além do Bojador, foi um dos que se illustraram n’essas tentativas; mas
-paralysou-os a tradição geographica tão enraizada nos seus espiritos
-como o estão hoje no nosso as theorias da geographia moderna. Logo que
-a costa africana, em vez de voltar para o oriente, continuava a seguir
-para o sul, internando-se por conseguinte na zona torrida, a affirmação
-scientifica de que o sol a ia tornar impossivel de se transpôr impunha-se
-ao espirito dos navegantes, e bastaria para os fazer recuar, ainda que
-as affirmações cathegoricas da orthodoxia e os terrores da superstição
-os não movessem. D. Henrique teve o genio de um livre espirito que se
-revolta contra uma tradição que se não baseia em dados positivos, e
-que a submette audaciosamente ao exame da experiencia, teve a coragem
-que transmittiu aos seus navegadores de arcar contra as affirmações da
-sciencia, contra os dogmas da religião, contra os pavores da lenda.
-Continuou e venceu! E a noticia do triumpho correu a Europa toda, e
-resoou em toda a parte como uma grande conquista do espirito humano, e
-a theoria das zonas inhabitaveis desappareceu, e a da impossibilidade
-de communicação entre as duas zonas temperadas dissipou-se, e a Egreja
-teve de se conformar com a existencia dos antipodas que ella considerava
-como uma affirmação incompativel com o espirito christão. Pois não se
-vê que tudo isso aconteceria, logo que um navegador audacioso tivesse
-penetrado na zona torrida, muito para além das regiões habitaveis? E não
-se vê tambem que semelhante navegação não passaria despercebida n’uma
-epocha em que era universal a anciedade pela ampliação dos conhecimentos
-geographicos?
-
-Succede o mesmo com Christovão Colombo. A existencia de terras para
-o occidente é um dos sonhos da humanidade desde longas eras. Quanto
-esse problema preoccuparia os navegadores portuguezes n’esse seculo XV
-todo illuminado pelas suas glorias pode bem imaginar-se. Attestam-n’o
-as aventurosas expedições dos mareantes açorianos; mas, como Vivaldi
-que procurou sondar as regiões inexploradas da Africa, muitos d’esses
-audaciosos se perderam no vasto Occeano, como Jayme Ferrer, outros
-chegaram a terras um pouco afastadas e foi assim que a ilha das Flores
-se descobriu, mas como o mesmo Ferrer recuando deante do Bojador, como
-Bethencourt não ousando afastar-se para além das costas de Marrocos, os
-açorianos desmaiaram deante da infinita solidão do Atlantico. Quando
-Colombo quebrou essas ultimas barreiras, com que enthusiasmo o receberam,
-com que despeito por lhe não ter dado inteiro credito o acolheu D. João
-II! Como logo partiram de toda a parte navios a sondar esses mares
-desconhecidos! Não aconteceria o mesmo se Jean Cousin ou João Vaz Côrte
-Real tivessem, antes de Colombo, vencido o grande obstaculo? Não seria
-para Lisboa ou para Dieppe que se voltaria logo a attenção e a inveja de
-toda a Europa?
-
-Assim, resumindo as questões capitaes em que se condensa o nosso ponto
-de vista, temos que os dois grandes problemas geographicos que foram
-resolvidos pelos navegadores do infante D. Henrique e pelas caravellas de
-Christovão Colombo eram as seguintes:
-
- 1.º Atravessar a zona torrida, que, segundo as affirmações
- da sciencia, tornava impossivel a communicação entre as duas
- zonas temperadas, entre a terra em que habitamos e a terra
- antichthona, entre o mundo antigo que tinha Jerusalem no centro
- e o _alter orbis_ onde a humanidade vivera antes do diluvio,
- transpôr o Atlantico, pintado pela lenda e pela tradição
- antiga como o mar tenebroso, entrar n’um occeano que passava
- por sobrenatural, onde se estava talvez á mercê das potencias
- infernaes;
-
- 2.º Atravessar a solidão do Atlantico do occidente ao oriente,
- até chegar ás praias orientaes da Asia.
-
-A resolução do segundo problema estava dependente da resolução do
-primeiro. O primeiro acto de audacia era abrir os mares fechados, mostrar
-que não tinha o Atlantico os perigos reaes e sobrenaturaes de que o
-rodeiavam a tradição scientifica e a lenda popular. Esse resolveram-n’o
-os Portuguezes, e ninguem os precedeu nem os podia preceder, pelo simples
-motivo de que, se alguem antes d’elles tivesse aberto o _mare clausum_,
-não teriam elles que o tornar a abrir. Não se fecha o mar como se fecha
-uma porta. Não tornam a crear-se os phantasmas que o primeiro audacioso
-dissipou. Se alguem, antes do infante, houvesse rasgado a cortina do
-mysterio que sequestrava o Atlantico, estava o Atlantico patente. A
-geographia systematica da antiguidade e da edade média caía em ruinas
-logo que o primeiro facto real e tangivel tivesse mostrado a inanidade do
-systema.
-
-Resolvido o primeiro problema, trepidou-se deante do segundo. Não se
-oppunham á sua resolução nem as theorias geographicas dos antigos, porque
-bem conhecidas são, acima de tudo, as opiniões de Eratosthenes, nem as
-opiniões orthodoxas que não contrariavam de um modo formalmente directo
-as doutrinas de Colombo, nem as lendas maravilhosas que, depois da
-desapparição do mar Tenebroso, não faziam senão excitar os navegadores a
-procurarem no Occidente as ilhas paradisiacas de que S. Brandão voltára
-com as vestes rescendentes a celestiaes perfumes. O que se oppunha
-simplesmente á resolução do problema era a immensidade do Occeano, que
-parecia confirmada exactamente pelas navegações portuguezas. Navegara-se
-durante annos e ainda se não chegara ao sul da Africa. Quanto tempo teria
-de se navegar para se chegar á India! Embora! exclamava Toscanelli, um
-dos enthusiastas da escola colombina, porque, se lá não chegardes em
-breve, encontrareis disseminadas pelo Occeano centos e centos de ilhas
-e de archipelagos que servem de guarda avançada ao grande continente
-oriental. Sonho de visionario! dizia-se e Colombo era repellido. Mas
-Colombo persistiu e foi elle que rompeu o encanto, elle e só elle que por
-ninguem poderia ter sido precedido, porque, se o fosse, tinham caido por
-terra todas as objecções, visto que o problema estava reduzido a este
-simplissimo termo: atravessar o Occeano e encontrar terra a distancia
-a que cheguem os viveres de uma caravela. O primeiro que o conseguisse
-tinha quebrado o feitiço, tinha desvendado o mysterio. Portuguez,
-francez, hespanhol ou italiano, seria a sua volta saudada pelas
-acclamações freneticas de toda a Europa maritima. Se foi essa gloria que
-aureolou Colombo foi por que só a elle podia competir.
-
-Curvemo-nos com respeito deante dos precursores, deante dos marinheiros
-que tentaram romper o mysterio, deante da intrepidez dos normandos que,
-depois de occupadas as Canarias, tentaram reconhecer a costa africana,
-e cujos cadaveres despedaçados nas rochas da costa marroquina foram
-o primeiro cimento com que se começou a erguer o monumento da gloria
-portugueza, deante da audacia dos catalães que mais adeante foram
-ainda, que já transpozeram o cabo Não, e que investiram talvez com o
-Bojador, mas não sacrifiquemos a essa homenagem a justa gloria que cabe
-aos que mais felizes, mais perseverantes, e sobretudo dirigidos por
-um genio excepcional, quebraram definitivamente as barreiras, e, sem
-hesitar um momento, proseguiram no caminho encetado, e methodicamente
-foram desenrolando folha a folha o livro do mundo desconhecido, ainda
-enrolado nas vagas, como se enrolavam em volumes os antigos papyros. Não
-acceitamos como uma especie de premio de consolação para os precursores
-menos felizes a phrase de Humboldt, que diz como que encolhendo os
-hombros deante da injustiça do mundo que as descobertas só se principiam
-a contar desde que formam serie. As descobertas contam-se desde que se
-fazem, e, se os Catalães ou os Normandos ou os Genovezes as tivessem
-feito, para elles iria a gloria. Não esperou a Europa que as caravelas do
-infante D. Henrique fossem muito adeante para que affluissem a Portugal
-estrangeiros, nem o governo portuguez esperou por isso para reclamar do
-Papa o reconhecimento do seu direito. Descobrem-se as Canarias? Logo
-apparecem Portuguezes, Francezes e Hespanhoes a reclamar a sua posse.
-Descobriam-se os Açores e a Madeira e ninguem com isso se importava. Não,
-o Homero da grande epopéa maritima foi o infante D. Henrique. Antes dos
-grandes epicos apparecem os cantos vagos e anonymos, em que se desata
-a inspiração da musa popular, em que se modulam as aspirações e os
-enthusiasmos do povo. Chega emfim o grande cantor, o epico inspirado, em
-cuja fronte Deus accendeu a scentelha do genio, e que escuta pensativo
-esses echos da guerra, essas cantilenas sublimes. Incende-se-lhe a
-imaginação, concentra na sua alma as palpitações da alma nacional, e dos
-seus labios brota emfim a epopéa victoriosa em que tudo se condensa,
-e encontra a sua expressão definitiva, que se fixa para sempre na
-memoria do povo e na memoria da humanidade. As caravelas que iam ainda,
-silenciosas e timidas, aventurar-se ao mar mysterioso, e que ou voltavam
-sem ter rompido o mysterio, ou no mysterio das vagas envolviam os seus
-cadaveres fluctuantes, eram os bardos isolados que afinavam pelo rugido
-do Occeano os seus epodos audaciosos, mas o infante foi o poeta soberano
-que fez irromper da sua alma, pela voz dos seus marinheiros, a epopéa
-triumphal e definitiva, a Iliada da audacia portugueza, como foi Colombo
-depois que desenrolou no sulco argenteo dos seus navios a Odysséa do
-Atlantico.
-
-
-
-
-II
-
-Causas de erro para a historia da solução dos problemas
-
-
-Para podermos seguir passo a passo a marcha dos descobrimentos, para
-vermos como pouco a pouco se foi correndo a cortina que escondia aos
-olhos dos homens da nossa raça metade do mundo conhecido, é necessario
-a cada instante abstrahirmos dos nossos conhecimentos actuaes, para nos
-collocarmos no ponto de vista em que os homens de eras anteriores se
-collocavam em virtude do que elles então sabiam. A falta d’essa correcção
-indispensavel arrasta muitos escriptores notaveis a erros grosseiros, que
-muitas vezes lhes escapam exactamente por não terem o cuidado constante
-de applicarem essa correcção ás tradições que dos tempos passados lhes
-vem. O proprio Humboldt, que frequentemente observa quanto é funesto esse
-erro, a esse erro cede só porque uma vez se esqueceu de verificar qual
-era a região que nos principios do seculo XV era conhecida pelo nome
-de Guiné. Se reparasse que a Guiné de Bethencourt ficava comprehendida
-entre o cabo Cantim e o Bojador não acceitaria a pretenção franceza de
-terem chegado os Normandos de Dieppe e o proprio Bethencourt a essa Guiné
-tropical que já muito para além fica do Cabo Bojador. Pois é elle comtudo
-que nota como é fallaz a denominação de India dada pelos antigos a varias
-regiões, visto que muitas vezes comprehendia as regiões meridionaes da
-Asia, a parte da Asia que chegava ao mar Vermelho, e ainda o extremo
-Oriente. Marco Polo designava tres Indias, havia a India exterior e a
-India inferior, a India superior que era a parte mais oriental da Asia
-etc.[10] Pois ainda hoje frequentemente se espantam homens instruidos
-não de que Colombo julgasse ter encontrado a Asia, mas de que imaginasse
-ter encontrado a India, arrastados pela tendencia natural de vermos com
-os nossos olhos de agora a geographia dos outros tempos; e de suppôrmos
-que a India não podia ser no seculo XV senão a que nós hoje conhecemos e
-como tal designamos.
-
-Quantas vezes mudou no decorrer dos tempos a posição geographica de
-varias terras, a que attribuimos a sua posição actual, logo que lhes
-encontramos em mappas antigos os nomes! Quantas terras differentes
-receberam o mesmo nome que de umas a outras foi passando, segundo as
-conjecturas dos geographos! As ilhas Afortunadas, como a ilha fluctuante
-de Delos, foram sempre navegando para o occidente, até que a geographia
-positiva as fixou nas Canarias, arrancando-lhes o véo da lenda em que
-os antigos as envolviam. Estiveram primeiro no grande Oasis no Egypto,
-passaram depois para o sul da Cyrenaica, depois ainda para defronte do
-rio Lukkos, quer dizer, quasi pegadas com a costa marroquina, e só depois
-para o ponto em que estão as Canarias.[11] A quantas ilhas se applicou o
-nome de Taprobana, que nós affirmamos hoje que era Ceylão, quando muitas
-vezes a sua posição corresponde á de Sumatra, e quando outras vezes a
-collocava a geographia conjectural dos antigos no oriente das Indias![12]
-A que peninsulas tão diversas se attribuiu o nome de Aurea Chersoneso
-que arbitrariamente suppomos agora que correspondia á peninsula de
-Malaca![13] Como é perfeitamente conjectural, apezar dos argumentos de
-alguma força apresentados por Mr. d’Anville, a identificação de Sofala
-com Ophir![14] Como ainda se illudem hoje os mais serios investigadores
-com o nome de Ethiopia, que intentam applicar ao paiz que hoje
-consideramos como tal, quando a Ethiopia, na supposição dos antigos,
-abrangia toda a parte meridional da Africa e vinha ligar-se com a costa
-marroquina![15] Como poderiamos nunca ter fé n’essas identificações,
-se vemos que os antigos e os Arabes, e os povos da edade média davam á
-India uma fórma completamente phantastica, suppunham que o mar das Indias
-era um mar mediterraneo, approximavam assim a costa asiatica da costa
-africana, como a costa africana está proxima da Europa no Mediterraneo
-europeu, sendo por conseguinte tão possivel que ficasse Ophir na Africa
-como na India!
-
-Depois que enorme cautella é ainda necessaria para o exame dos antigos
-mappas, onde a phantasia se dava largas, e onde se misturavam com alguns
-factos positivos todas as conjecturas que formava ou a imaginação
-ou o espirito reflexivo d’aquelles que os traçavam! Como é ridiculo
-para quem conhece o espirito que presidia á elaboração dos mappas
-ouvir escriptores serios fallarem com muita gravidade no famoso mappa
-trazido pelo infante D. Pedro das suas viagens, e onde estão traçados
-o cabo da Boa Esperança e até o estreito de Magalhães! Não sabem esses
-escriptores que, até depois de feitos os descobrimentos, a phantasia dos
-cartographos não se contentava com os factos positivos narrados pelos
-navegadores e continuava a ampliar por sua conta o mundo conhecido! Os
-proprios navegadores ás vezes contribuiam para illudir os cartographos.
-Christovão Colombo, ao tocar na ilha de Cuba, julgou ter chegado a terra
-firme e tanto d’isso se convenceu que fez jurar aos seus tripulantes
-que fôra n’um continente que tinham effectivamente tocado![16] Pedro
-Alvares Cabral tomou o Brazil por uma grande ilha. Em mappas muito
-posteriores aos descobrimentos americanos, feitos já depois de Vasco
-Balboa ter encontrado o Pacifico, collocou-se no sitio em que está o
-isthmo de Panamá[17] um estreito que punha em communicação os dois
-mares. Mas isso não impediu os que se enlevam na demolição de glorias
-estabelecidas de sustentar que o infante D. Henrique tinha mappas
-que até lhe mostravam onde era o cabo da Boa Esperança, que Colombo
-levava comsigo mappas que lhe davam o traçado da America, que Fernão de
-Magalhães n’um globo de Martim de Behaim vira traçado o estreito famoso
-que hoje tem o seu nome, e que Pedro Alvares tinha um mappa tambem que
-lhe designava o sitio em que encontrou o Brazil! Puerís tentativas!
-Quantas vezes effectivamente n’esses mappas conjecturaes podia fazer o
-acaso que coincidisse com a descoberta a ilha ou a terra phantasiada pela
-imaginação dos cartographos; mas logo o formigar dos erros perfeitamente
-incompativeis com o imaginario descobrimento prova exuberantemente que só
-em coincidencias fortuitas e insignificantes elle se poderia basear.
-
-O que melhor pode mostrar como faltava completamente aos antigos o
-conhecimento da terra, para além dos estreitos limites em que se
-concentraram as civilisações do Oriente e a civilisação greco-romana,
-está na variedade dos systemas com que se procurava explicar a fórma do
-mundo. A sciencia não caminhava com passo seguro, juntando ao thesouro
-das idéas conquistadas cada idéa nova que ia sendo adquirida. Como todas
-as explicações eram conjecturaes, cada nova theoria provava apenas
-a argucia e o engenho do espirito que a concebia, mas estava sujeita
-á discussão e á contradicção como todas as soluções que não assentam
-em factos positivos e incontestaveis. Pode dizer-se que a idéa da
-esphericidade da terra triumphou na antiguidade, mas pode dizer-se que
-triumphou porque a sustentavam os mais esclarecidos espiritos, não porque
-todos a reconhecessem, e porque não houvesse tambem homens de primeira
-plana que absolutamente a negassem. Sustentou-a Ptolomeu, mas contestou-a
-vivamente Plutarcho.[18] A theoria de ser a terra um disco cercado pelo
-rio Oceano, que é a theoria homerica, essa desappareceu é certo, porque
-a observação dos phenomenos celestes mostrou de um modo evidente quanto
-era absurda, porque se via bem que não era possivel que o sol se sumisse
-no occidente, e voltasse depois pelo mesmo caminho e em segredo de
-noite para reapparecer no Oriente, porque o movimento apparente do céo
-não podia explicar-se senão allegando-se que os corpos celestes n’uma
-parte da sua marcha passavam por debaixo da terra, para reapparecerem
-no sitio opposto áquelle por onde se tinham sumido. Então sim, então a
-idéa de que a terra assentava em bases solidas, tendo por cima de si o
-céo estrellado, desappareceu completamente, e a primeira conquista da
-sciencia foi a que suspendeu a terra no espaço, embora fizesse d’ella
-ainda o centro da creação, embora suppozesse que tudo se fizera no
-Universo em sua honra, que em torno d’ella giravam no immenso espaço em
-varias espheras concentricas os orbes luminosos que entoavam a harmonia,
-que Platão julgava escutar n’um arrobamento infinito, e que espalhavam
-nos intermundios a chamma ora intensa como a do sol, ora meiga como a
-da lua, ora palpitante e suavissima como a das estrellas, das corôas
-resplandecentes com que a Divindade as cingiu.
-
-Mas com relação á fórma da terra que diversidade de opiniões! Pomponio
-Mela considerava a terra chata como a suppunham os Hebreus, como a
-suppozeram depois os Padres da Egreja, e entre elles Santo Agostinho,
-Lactancio, S. Justino martyr; Ephoro dava-lhe a fórma de um quadrilongo,
-Cicero, no famoso _Sonho de Scipião_, acceitava as doutrinas dos
-geographos mais notaveis, considerava-a espherica, e essa opinião foi
-seguida por Macrobio, que tambem dava, como Cicero, á parte habitada a
-fórma de uma chlamyde. Entre os sabios que sustentavam na antiguidade o
-principio de que a terra era espherica, avulta o grande nome do geographo
-antigo Ptolomeu. Outros porém baseiam-se na doutrina de Thalés, suppõem
-a terra ovoide, e Posidonius suppõe que essa ellipse estreita que
-constitue a terra termina em duas pontas agudissimas.[19]
-
-Apezar d’essas differenças porém, a opinião da esphericidade da terra
-é a que predomina entre os antigos, é a que tem a seu favor a enorme
-authoridade de Ptolomeu e de Platão e de Aristoteles e de Eratosthenes
-e de Hipparcho e de Cicero e de Strabão, a que é preconisada pela
-escola de Alexandria e que adquire por conseguinte um verdadeiro valor
-scientifico, mas a religião christã intervem no debate, e a theoria dos
-antigos é considerada como heterodoxa pelos Santos Padres. A terra tem
-a fórma de tabernaculo, a existencia dos antipodas é condemnada como
-absolutamente contraria á logica divina, e esta opinião tão respeitada,
-tão importante introduz immediatamente a confusão nos espiritos da edade
-média. O conhecimento da sciencia arabe traz ainda um novo elemento de
-complicação. Na sciencia oriental sente-se de um modo accentuadissimo
-o reflexo da tradição grega. Ptolomeu e Aristoteles teem ferventes
-discipulos nos sabios orientaes, que podem esfumar as suas doutrinas no
-vago do seu maravilhoso, mas que no fundo as acceitam e as applaudem.
-E assim vamos encontrar por toda a edade média a velha theoria grega
-reforçada agora pela adhesão arabe em lucta com as prescripções christãs.
-Não se pode apagar n’esses espiritos medievaes, que tinham pelo saber
-da antiguidade um supersticioso respeito, a influencia de Ptolomeu, mas
-deante da voz auctorisada dos Santos Padres tudo se inclina e emmudece.
-Então vamos encontrar os cartographos da edade média empenhados na
-improba tarefa, que tantas vezes se tem repetido, de procurarem conciliar
-as doutrinas da Egreja com a tradição da sciencia. Apparece-nos muitas
-vezes a terra como um quadrado inscripto n’um circulo, e, ao passo que
-o systema das espheras applicado ao systema cosmographico encontra nos
-espiritos da meia edade um verdadeiro engodo, a terra fixa no meio
-do universo espherico mantem a fórma especial que os Santos Padres
-decretaram que tivesse.[20]
-
-Durante largos seculos pairou sobre a humanidade a duvida mais profunda
-ácerca da fórma do planeta que ella habita. Se alguns sabios entrevêem
-a verdade, e a sustentam e a defendem, é simplesmente pelas deducções
-que tiram dos seus calculos e das suas observações astronomicas, não
-pelo conhecimento directo que possam ter do planeta. Por isso tambem a
-orthodoxia triumpha, embora as razões em que se funda não sejam bastante
-poderosas contra o raciocinio dos philosophos, mas, apezar da fraqueza
-da argumentação, a fé supera sempre facilmente as theorias conjecturaes
-dos seus adversarios. É por isso que ella ainda hoje é sempre victoriosa
-na sua lucta contra os systemas philosophicos adversos. Ella dá uma
-certeza sem fundamento que não seja a auctoridade respeitada da tradição
-e da crença, os outros oppõem-lhe theorias mais ou menos verosimeis,
-mas todas baseadas em simples conjecturas. No dia em que o materialismo
-conseguir fazer palpar o principio vital, ainda hoje incoercivel, e que
-se representa por esse nome fascinador da alma dotada de immortalidade, o
-espiritualismo cahiu para não mais se levantar. Emquanto a demonstração
-da redondeza da terra e da existencia dos antipodas não sahiu do dominio
-conjectural, a fé que oppunha a essas vagas theorias uma affirmação
-baseada em tradicções tão conjecturaes como os raciocinios adversos mas
-aferradas ao espirito humano pelas raizes potentissimas da tradição,
-os Santos Padres triumphavam. Veiu um dia, porém, em que um pequeno
-povo debruçado sobre os mysterios do Oceano resolveu sondal-os e
-quebrar as barreiras que separavam do mundo conhecido essa região
-enigmatica, transpôr o que lhe diziam que era inultrapassavel, chegar
-ás regiões defezas, arrombar as portas fechadas pela triplice chave
-da sciencia, da fé e da lenda, e o que dezenas de seculos não tinham
-conseguido conseguiu-o meio seculo apenas. Então a sciencia não parou,
-não retrocedeu, não se contradisse, não se perdeu em conjecturas. Cada
-facto que se adquiria era uma confirmação de uma theoria contestada,
-ou a revelação de uma theoria nova. A fé cedeu deante da evidencia.
-Quando os marinheiros portuguezes entraram na zona torrida, cahiu por
-terra a idéa consagrada da impossibilidade d’alli se viver, quando
-entraram na zona temperada do sul, desappareceu, substituida pela real,
-a terra antichthona, e a Egreja teve de acceitar os antipodas; quando
-Colombo transpoz o Oceano occidental, a idéa da immensidade dos mares
-perdeu-se para sempre; quando Fernão de Magalhães passou do Atlantico
-ao Pacifico, e quando o seu ultimo navio veiu fundear n’um porto da
-peninsula hispanica depois de ter dado volta completa ao mundo, não teve
-mais contradictores nem descrentes a theoria da esphericidade da terra. O
-quadrado dos Santos Padres cahiu desfeito pelas cargas repetidas d’esses
-cavalleiros do Oceano.
-
-Não é já só, porém, com as phantasias orthodoxas, nem com os devaneios
-dos sonhadores scientificos, que a terra depois de explorada
-audaciosamente se torna incompativel. O proprio systema scientifico de
-Ptolomeu, essa gloria da antiguidade greco-romana, estala não podendo
-conter em si o mundo tal como foi estudado e descoberto. O systema de
-Copernico restitue ao sol a sua magestade e a sua humildade á terra.
-Se não era o sol que percorria lentamente o zodiaco, illuminando no
-mais alto do seu curso com a sua luz fecundante a terra privilegiada,
-e queimando quando se abaixava a terra condemnada e maldita, se a zona
-torrida não era um inferno sempre em chammas, nem nas suas proximidades
-pullulavam os monstros como os Cerbéros d’esse Tartaro, como as viagens
-portuguezas amplamente demonstravam, que motivo havia para se suppôr
-que o Sol não era senão o instrumento das bençãos ou das maldições de
-Deus sobre a Terra, e porque não seria antes a Terra que adejaria no
-espaço, irmã d’esses numerosos planetas que no céo resplandeciam, atomo
-no meio d’essa immensidade de atomos, bago d’essa poeira de luz dispersa
-no firmamento, e posta em movimento pelo sopro mysterioso da grande
-attracção universal? E a Copernico succediam Képler e Newton, e as leis
-do Universo iam-se coordenando n’um Codigo formulado pela sciencia,
-não ao acaso das conjecturas, mas segundo as indicações positivas dos
-factos. E assim foi que a audacia portugueza transformou completamente
-a sciencia humana, e iniciou esta epocha portentosa que dura ha quatro
-seculos apenas, e que deu mais á humanidade que as dezenas de seculos da
-historia conhecida que a precederam. E assim é que, se a Colombo cabe a
-indisputavel gloria de ter destruido a fabula que tornava inaccessiveis
-as terras do occidente, ao infante D. Henrique mais do que a nenhum
-outro cabe a gloria immensa de ter affrontado a sciencia, a fé e a lenda
-para fazer da sciencia conjectural uma sciencia positiva, da fé que
-amesquinhava a humanidade a fé que a ampliou, da lenda que acovardava a
-alma humana a epopéa que a enalteceu.
-
-Foi grande Colombo, grande Vasco da Gama, e grande Magalhães! Formam
-um grupo de heroes os audazes marinheiros que desde Gil Eanes até
-Bartholomeu Dias, desde Pinzon até Queiroz, sulcaram todos os mares, e
-affrontaram todas as tempestades, compõem uma phalange benemerita os
-missionarios da sciencia, que, desde João Fernandes o humilde iniciador
-da exploração scientifica do continente africano até aos modernos sabios
-viajantes, se internaram nos sertões affrontando os povos barbaros,
-como formam uma legião sagrada os missionarios da fé que não recúaram
-deante dos mais horridos perigos para levarem a regiões ignotas a
-palavra divina, mas o genio iniciador, que tornou possiveis todos
-estes feitos, e concebiveis essas audacias, foi o pensativo infante,
-que accendeu com as suas mãos intrepidas, entre os motejos da sciencia,
-os anathemas da Egreja e os gritos pavidos da superstição, esse pharol
-glorioso que projectou de Sagres sobre o vasto Oceano, por cima das suas
-ondas tenebrosas, a luz radiosa e serena que foi a verdadeira aurora da
-civilisação moderna.
-
-
-
-
-III
-
-A zona torrida perante as sciencias da antiguidade e da edade média
-
-
-Accentuámos bem que tres elementos havia que se oppunham ás expedições
-que os Portuguezes audaciosamente emprehenderam: a sciencia, a fé
-e a lenda. Foi a primeira a que se oppoz sempre a que os ousados
-navegadores da antiguidade lustrassem o caminho que os Portuguezes depois
-percorreram. Não eram de certo mais terriveis os mares africanos do
-que os mares da Europa septentrional, e os marinheiros phenicios, que
-affrontaram a bahia de Biscaya e o canal da Mancha e o mar do Norte até
-á Islandia, não podiam facilmente assustar-se com os mares muito mais
-manejaveis da costa africana. Mas a idéa da navegação para o sul fazia
-recuar os mais audaciosos. Era ahi que o sol estendia o seu terrivel
-dominio, era ahi que os seus raios queimavam a terra e o mar, e tornavam
-impossivel a passagem do homem. Á medida que esses calores excepcionaes
-iam sendo mais proximos, o seu effeito fazia-se sentir na vegetação e na
-fauna, e na propria humanidade. Então a natureza, violentada por assim
-dizer, produzia os mais extraordinarios monstros. Por mais de uma vez
-tentaram os Phenicios e os Carthaginezes demandar essas regiões do sul,
-mas a mais insignificante estranheza os fazia recuar. De Hannon se conta
-que percorreu quasi a Africa toda, e no seu periplo se relata essa viagem
-maravilhosa. Logo mostraremos como elle de certo não passou para além da
-costa de Marrocos. Gabava-se a sua intrepidez, porque voltára narrando
-que vira horrorosos monstros, cynocephalos, quer dizer, homens com
-cabeça de cão, e gorgonas ou mulheres com o corpo absolutamente coberto
-de pellos. Os escriptores modernos, que teem procurado benevolamente
-interpretar estas descripções phantasticas, dizem que os cynocephalos
-eram simplesmente macacos e as gorgonas simplesmente gorillas. Na
-hypothese mais favoravel para elle, o que isso prova é que, apenas viu na
-costa de Africa duas especies de macacos, julgou-se chegado ao paiz dos
-monstros e confirmou todas as mentiras que ácerca das vizinhanças da zona
-torrida estavam estabelecidas, e não chegou portanto á zona torrida. Mas
-não é bem mais natural ainda que Hannon, um carthaginez, um africano,
-não ignorasse a existencia do macaco, e portanto não podesse confundir
-facilmente o genero simiesco com uma variedade monstruosa do homem?
-
-Essas noções rudimentares de cosmographia, que existiam no espirito
-dos antigos, chegaram ao seu apogeu com a escola de Alexandria. Sabios
-notabilissimos imprimiram grandes progressos á sciencia, e principalmente
-á astronomia. O nome de Ptolomeu e o nome de Hipparcho bastam para fazer
-a gloria de uma escola, de um paiz e de um seculo. A conclusão a que
-chegaram era falsa, mas quantas descobertas importantes lhes serviram
-para assentar os primeiros alicerces de uma sciencia a que pozeram
-então uma cupula errada, por lhes terem faltado informações e elementos
-que só a audacia dos navegadores lhes podia levar! Que maravilhosos
-instrumentos de estudo não encontraram elles! Que calculos levaram a cabo
-que os sabios do seculo XVI, ao poderem juntar-lhes novos elementos,
-aproveitaram para a transformação da sciencia! Sem Ptolomeu como se
-comprehenderia Copernico? Sem Hipparcho o que poderia fazer Tycho-Brahé?
-N’esta conquista da verdade, os antigos tomaram as obras avançadas e
-julgaram estar senhores da cidadella; mas, só depois de occupadas essas
-obras, só depois dos maravilhosos esforços dos navegadores peninsulares,
-é que se podia descortinar e assaltar a cidadella... E quem sabe se será
-esta definitivamente a verdadeira!
-
-Mas o que é absolutamente indispensavel saber, para que se possa avaliar
-a transformação produzida no seculo XV pelos descobrimentos portuguezes,
-é quaes eram os principios estabelecidos como certos e indubitaveis com
-relação á terra por esses sabios cuja auctoridade era incontestavel,
-cujas doutrinas se ensinavam ás creanças, como hoje se ensinam as novas
-theorias, e que representavam portanto a verdade absoluta d’esse tempo.
-Alguns pontos havia que encontravam contradicção, como era o da redondeza
-da terra. N’outros, porém, não havia a mais leve divergencia, como em
-todos os que se ligavam com o movimento dos corpos celestes, com a marcha
-do sol em volta da terra para produzir o dia e a noite, com a marcha do
-sol pelo zodiaco produzindo a differença das estações. Tantas maravilhas
-conseguira já a astronomia que as doutrinas que ella promulgava não
-podiam soffrer contestação. Se ella já conseguira adivinhar os eclipses,
-que maior prova podia dar de que encontrára a chave do mechanismo celeste?
-
-Essas doutrinas de Ptolomeu passaram para a edade média, que teve
-sempre pela sciencia antiga um louco fanatismo. Encontramol-as ás vezes
-adulteradas, misturadas com manifestações de ignorancia, com superstições
-e crendices, mas naturalmente arraigadas nos espiritos, e exaltadas com
-enthusiasmo pelos sabios da primeira Renascença, pelos que arrancaram
-das trevas a Europa barbara, e que levantaram como um facho luminoso a
-doutrina já completa e bem comprehendida do grande geographo antigo.
-
-Vamos encontrar n’um dos livros d’esses sabios medievaes, n’uma d’essas
-_Imago mundi_ ou _Thesaurus_, que eram as encyclopedias do tempo, a
-condensação de toda a sciencia, a doutrina antiga resumida, explicada,
-mas tambem modificada. Queremos falar nos _Dialogos_ de Pedro Affonso.
-Os dois que dialogam são Pedro e Moysés. Aquelle é o mestre, este o
-discipulo.
-
- Diz Moysés:
-
- —Não ha pois da terra senão uma só parte habitavel. Que parte?
-
- _Pedro_—Desde o meio da terra até á parte septentrional.
-
- _Moysés_—Demonstra-me isso n’uma figura geometrica, porque
- n’essa materia cada nação tem tido, segundo os auctores, idéas
- differentes. Divide-se effectivamente a terra em cinco zonas:
- uma no meio, queimada pelo ardor do sol, e por conseguinte
- inhabitavel; duas nas extremidades, muito afastadas do sol, e
- egualmente inhabitaveis, por causa do rigor do frio; e duas
- médias, temperadas pelo calor da primeira e pelo frio das
- outras duas, e unicas habitaveis[21].
-
- _Pedro_—Esse systema está em contradicção com o testemunho dos
- nossos olhos. Vemos effectivamente _Aren_ situado no centro da
- terra; no seu zenith principiam o Aries e a Balança; o ar é
- alli tão suave que a temperatura das quatro estações é quasi
- sempre a mesma. Nascem alli plantas aromaticas de côr brilhante
- e de sabor delicioso; os homens não são nem descarnados, nem
- obesos, mas de uma compleição bem proporcionada. O clima
- que exerce esta salutar influencia no corpo não actúa menos
- efficazmente sobre o espirito que brilha pela sensatez e por
- uma moderação cheia de acerto. _Como se pode pois dizer que um
- logar que o sol percorre em linha recta em toda a sua extensão
- é inhabitavel?_ Não: todo o espaço de terra comprehendido
- entre esse logar e o segmento septentrional é habitavel sem
- interrupção, e os antigos dividiram-n’o em sete partes chamadas
- climas, em conformidade com o numero dos sete planetas. O
- primeiro clima está na linha do meio; ahi é que Aren foi
- fundado. O setimo occupa a extremidade do mundo septentrional.
- Nenhuma d’essas partes é inhabitavel, se exceptuarmos os
- sitios em que grandes massas de areia quasi sem agua ou então
- montanhas pedregosas se recusam ao trabalho da charrua.
-
- _Moysés_—Resta-me pedir-te que me demonstres como succede que
- esta parte da terra que fica para além de Aren para o sul não é
- habitada como a que está para áquem para o norte, de modo que
- Aren se ache no centro da região habitavel, ou então tambem
- porque não é a parte meridional que é habitavel, emquanto
- a parte septentrional seria inhabitavel, ao inverso do que
- succede.
-
- _Pedro_—Porque o circulo do sol é excentrico relativamente
- ao circulo da terra, e porque essa excentricidade atira a
- maior parte da circumferencia para uma distancia maior do
- septentrião. Segue-se d’ahi que, logo que o sol passa para
- os signos do hemispherio meridional, quer dizer para a parte
- da circumferencia comprehendida entre a Balança e Aries,
- approxima-se da terra, e, queimando os seus raios o solo a
- esta curta distancia, tornam-n’a esteril e por conseguinte
- inhabitavel. Só a partir do primeiro clima para o norte é que
- o espaço que comprehende os sete climas é habitavel. Mas tudo
- o que vem depois a partir do setimo clima é privado de todo
- o calor, por causa do afastamento do sol, que vae percorrer
- os seis signos meridionaes; d’ahi o excesso das nuvens, dos
- nevoeiros e das geadas; e emfim a ausencia de toda a creatura
- animada n’essa parte da superficie terrestre[22]».
-
-Não era esta, porém, a doutrina de Ptolomeu. Esta era a doutrina que
-procurava conciliar a theoria scientifica com as palavras da Egreja.
-A doutrina de Ptolomeu, a doutrina em geral de todos os sabios da
-antiguidade e da edade média, era que a zona torrida estava collocada
-debaixo do zodiaco, que, proxima do sol por conseguinte, era por elle
-abrazada, mas que para além d’essa região havia outra temperada como
-a nossa, assim como outra tambem glacial como a zona arctica. Essa
-foi sempre a doutrina predominante, embora contra ella protestasse a
-orthodoxia; mas qualquer das duas sustentava como facto incontroverso
-que a zona torrida era absolutamente inhabitavel, quer fosse, como
-queria Ptolomeu, que o sol, descrevendo um circulo perfeito em torno
-da terra durante as vinte e quatro horas, e descrevendo-o ao longo do
-zodiaco perfeitamente parallelo á zona torrida, sobre ella fizesse caïr
-perpendicularmente os seus raios e a queimasse e destruisse, ou, como
-pretendia Pedro Affonso, não descrevendo o sol esse circulo perfeito que
-Ptolomeu imaginára, mas descrevendo um circulo excentrico ao da terra,
-d’ahi resultasse que, ao passar pelos signos meridionaes do zodiaco,
-estivesse mais proximo da terra, e fosse o hemispherio meridional o que
-os seus raios incendiavam.
-
-Devemos notar que esta ultima hypothese era a que se approximava mais da
-ellipticidade da orbita da terra hoje demonstrada. Se não se suppunha
-ainda que o sol descrevesse uma ellipse em torno da terra como hoje se
-sabe que a terra descreve uma ellipse em torno do sol, já se principiava
-a querer applicar ao sol a theoria dos _epicyclos_ e dos _excentricos_,
-com que a astronomia antiga procurava conciliar com a theoria geral do
-Universo as contradicções que resultavam do movimento apparente de muitos
-planetas. A theoria de Pedro Affonso conduzia-o á doutrina moderna da
-_periphelia_ e da _aphelia_. Adivinhava que ha um periodo em que o sol
-está mais afastado da terra do que n’outros, e dava-se a coincidencia de
-que, dando-se a _periphelia_, quer dizer o periodo de maior approximação
-do sol, em janeiro, quando é verão no hemispherio austral, d’ahi resulta
-que effectivamente os verões austraes são mais quentes do que os
-nossos, e Pedro Affonso adivinhou assim uma verdade hoje perfeitamente
-demonstrada. Acontece porém que, sendo a terra que se move e não o sol,
-quando chega a _aphelia_, quer dizer o periodo de maior afastamento do
-sol, em julho, sendo então verão entre nós e inverno no hemispherio
-austral, tambem succede que são os seus invernos mais regelados.
-Mas, se a terra se conservasse immovel, como até Copernico se suppoz,
-passando o sol sempre á mesma distancia do mesmo ponto da terra, seria
-sempre effectivamente o hemispherio austral o que mais lhe sentiria os
-implacaveis ardores.
-
-Comtudo era incontestavelmente o systema de Ptolomeu que triumphava nas
-escolas, era esse o que tinha a sua consagração scientifica. Segundo a
-theoria do grande geographo, a terra espherica estava dividida em cinco
-zonas, as zonas glaciaes tão longe do sol que a vida era alli impossivel
-por causa da falta absoluta de calor, a zona torrida tão proxima do sol,
-que em torno d’ella descrevia a sua enorme e rapidissima viagem, que a
-vida era impossivel pelo excesso do calor, emfim as zonas temperadas onde
-nem o calor era extraordinario nem extraordinario o frio, e que a vontade
-suprema destinara evidentemente para habitação do homem.
-
-Era conforme esta theoria com o espirito, com o pensamento grego que em
-tudo se manifestava, na arte, na poesia, na philosophia, no viver social
-e politico. O ideal grego é a moderação e a harmonia. O universo devia
-regular-se tambem por essas leis harmonicas, que marcam tanto o rhythmo
-da architectura do Parthenon como o da poesia de Sophocles, tanto o da
-philosophia de Platão e de Aristoteles e o da eloquencia de Demosthenes
-e de Lysias como o das concepções mythicas d’aquelle harmonioso
-anthropomorphismo hellenico, que produziu aquelles typos idealmente
-bellos nas suas proporções sublimes, Apollo e a Aphrodite. Assim o
-homem tambem não poderia viver senão nas regiões em que o clima tivesse
-a harmonia e a moderação compativeis com o desenvolvimento normal da
-vida humana. Logo que o calor principiasse a exaggerar-se, desmanchando
-o equilibrio da temperatura, desmanchava-se tambem o equilibrio das
-proporções e da fórma humana. Por isso nas proximidades d’essa pavorosa
-zona torrida começava a terrivel degeneração da raça, surgiam creaturas
-cada vez mais monstruosas, e era assim effectivamente que Plinio
-explicava essa efflorescencia de monstros que, no seu entender e no
-entender dos outros geographos antigos, se manifestava nas regiões mais
-proximas da zona torrida[23], onde desapparecia emfim no immenso incendio
-com que o sol abrazava o mundo.
-
-Mas, como diziamos, Ptolomeu entendia e bem que eram duas as zonas
-temperadas, uma ao norte, e outra ao sul do Equador, mas entre as duas,
-pela sua theoria, não podia haver communicação. Essa terra é a famosa
-_terra antichtona_, a _terra austral_, o _alter orbis_ que figura
-conjecturalmente nos antigos mappas, e em que, por mais de uma vez,
-uns teem querido ver a America, outros as regiões descobertas pelos
-Portuguezes! A America nunca pela _terra antichtona_ podia ser designada,
-porque a _terra antichtona_ ficava para o sul, mas tão levianamente
-homens de merito notavel teem estudado estes assumptos, que se deixaram
-muitas vezes illudir pela orientação de antigos mappas que é quasi sempre
-diversa da nossa. O oriente era muitas vezes collocado nos mappas no
-sitio onde hoje collocamos o norte, o occidente onde fica o sul, o norte
-para o lado do occidente e o sul para o lado do oriente. Os Arabes então
-invertiam completamente o systema. O sul fica para o norte e o norte para
-o sul. Com estas alterações que immenso cuidado é necessario quando se
-pretendem tirar quaesquer illações dos mappas antigos!
-
-É essa a doutrina que prevalece durante toda a edade média. É Macrobio
-que suppõe a zona torrida inhabitada e queimada pelos fogos do
-sol, e a zona temperada austral povoada por homens de uma especie
-desconhecida[24], Orosio que declara que do interior da Africa nada se
-pode conhecer porque o calor da zona torrida o reduz a uma brazeira.[25]
-S.ᵗᵒ Izidoro de Sevilha sustenta egualmente a existencia da _terra
-antichthona_ onde habitam os antipodas, se não são fabulosos.[26]
-
-Bedo o Veneravel, que tem a sua theoria cosmographica exposta
-pittorescamente pela comparação do ovo, que vê a terra collocada no meio
-do mundo como a gemma, a agua em torno como a clara, o ar como a membrana
-e o fogo como a casca, tambem apresenta a doutrina da terra antichthona
-separada da nossa pela zona inhabitavel.[27] S. Virgilio imagina que
-o _alter orbis_ tem outra lua, outro sol e outras estações.[28] Raban
-Mauro, que falla nos basiliscos fabulosos, e nas Gorgonas cabelludas e
-phantasticas, tambem indica a terra antichthona separada pelo ardor do
-sol[29]; Alfrico, Moysés de Choréne, Pedro des Vignes, o famoso Pedro
-d’Ailly, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme e quantos outros estabelecem
-e proclamam esta doutrina que é a que tem um caracter scientifico.
-Quando o mundo christão entra em relações com o mundo arabe então
-illuminado por uma forte civilisação, quando trava conhecimento com os
-seus grandes geographos, Edrisi, Abulféda, Masoudi, o que encontra?
-Encontra a influencia de Ptolomeu alli tambem predominante como em geral
-a influencia grega, o _Almagesto_ considerado como uma obra divina,
-e portanto egualmente triumphante a doutrina da antichtona e da zona
-torrida inhabitavel.
-
-Ha alguns espiritos que se revoltam contra essa idéa? Ha de certo,
-mas esses são só os espiritos independentes como Alberto Magno, como
-Rogerio Bacon, como Pedro d’Abano, esses simplesmente não acceitam o que
-não está demonstrado, mas não vão contra factos incontestados. Assim
-Alberto Magno não acceita sem demonstração a idéa de que o sol percorra
-especialmente a zona torrida e a prive de toda a vegetação e de toda a
-manifestação de vida, mas, não contestando que não ha relações entre
-a terra que habitamos e a terra desconhecida, attribue esse facto em
-primeiro logar á immensidade dos mares, em segundo logar á existencia na
-antichthona de montanhas magneticas que prendem os habitantes e que os
-não deixam transpôr os incommensuraveis espaços que os separam da terra
-que habitamos[30].
-
-Rogerio Bacon sustenta opinião approximadamente identica[31]. Pedro
-d’Abano refugia-se na vaga observação de que o meio deve ser mais
-perfeito do que as extremidades[32], e uns e outros sustentam que a zona
-torrida é toda occupada pelo mar, que o Occeano não rodeia simplesmente a
-terra, que se interna no seio d’ella formando os quatro grandes golphos
-do Mediterraneo, do Mar das Indias, do Mar Roxo e do Caspio, porque este
-mar interior foi por muito tempo e por muitos geographos considerado como
-um mar que communicava ou com o Baltico, ou com o Occeano.
-
-Para todos então a approximação da zona torrida era assignalada pela
-existencia de monstros, em que se desentranha com uma espantosa
-exuberancia a fertil imaginação dos povos infantis. A teratologia das
-antigas religiões transportava-se e desenvolvia-se de um modo prodigioso
-nas descripções dos mais serios geographos. Nas regiões que confinavam
-com as que eram defezas aos homens brotavam as plantas maravilhosas, a
-especie humana torcida e desfigurada desatava-se em fórmas phenomenaes, e
-ao lado d’ellas percorriam animaes monstruosos, como os que reconstitue
-para as epochas primitivas a paleontologia moderna, essas regiões
-devastadas. Para o norte no Caucaso e na Scythia collocava Raban Mauro
-os gigantes, os gryphos e os dragões que zelosamente guardavam o oiro
-e as pedras preciosas[33]. Para o sul, segundo o pensar de Vicente de
-Beauvais, um dos grandes geographos da edade média, havia dragões logo
-para deante de Marrocos[34]. João de Hase collocou na India os pygmeus
-que apenas viviam 12 annos, e rochedos magneticos que attrahiam os navios
-para o fundo do mar[35]. As obras de Plinio eram fonte inexgotavel
-de extraordinarias divagações. Cynocephalos e acephalos, cyclopes e
-arimaspes, antipodas que não tinham dedos, hippopodas que tinham pés de
-cavallo, e juntamente com elles os gryphos pullulavam n’essas regiões
-mysteriosas, como aviso supremo que a Providencia dava aos que pretendiam
-penetrar nas regiões em que o sol impera e que o sol devasta.
-
-No famoso mappa da cathedral de Hereford encontra-se uma das collecções
-mais completas d’essa estranha producção zoologica e anthropologica da
-sciencia d’esse tempo. E note-se que essa sciencia não a produzia a
-edade média, colhera-a nos livros da erudita antiguidade. Era lá que
-ella encontrava os troglodytas que comiam serpentes, eram Mela e Plinio
-e Vopisco que apresentavam os Blemmyos que tinham os olhos no peito
-e os Presumbanos sem orelhas. Se seguimos as indicações d’esse famoso
-mappa-mundi lá encontramos ao norte os gryphos que teem azas de aguia
-e corpo de leão e que defendem contra os Arimaspes as minas das verdes
-esmeraldas, os Hyperboreos, povo que conhece a eterna felicidade e que
-só morre quando, cançando-se de viver, se lança ao mar do alto de um
-rochedo, e os Scythas de olhos verdes que vêem melhor de noite que de
-dia, e os minotauros que teem corpo de homem, cabeça, cauda e pés de
-toiro, e os tigres da Hyrcania a que os homens escapam se, quando fogem
-deante d’elles, se lembram de lhes atirar um espelho, e na India então
-a monstruosa mantichora que tem corpo de leão, rosto de homem, cauda
-de escorpião, tres ordens de dentes, olhos glaucos, côr de um vermelho
-sanguineo, os pelicanos que abrem o seio para sustentar os filhos, e
-povos sem nariz, e outros sem lingua, e os Monoculos que teem um olho só,
-uma perna só e um pé tamanho que, depois de terem andado largo caminho,
-apesar dos seus poucos meios de locomoção, com uma rapidez prodigiosa, ao
-descançarem levantam o pé e adormecem á sua sombra.
-
-Na Phrygia apparece o _bomaco_, um estranho animal, que tem crinas de
-cavallo e cabeça de toiro, e que se defende, quando foge, com os proprios
-excrementos que queimam tudo em que tocam, na Arabia a phenix animal
-unico que vive quinhentos annos, na Bythinia o lynce que vê atravez dos
-muros e urina uma pedra negra, e até na Palestina tem o rio Jordão, junto
-do Asphaltite, a designação de que nas suas aguas sobre-nada o ferro e
-mergulham as pennas.
-
-Na Africa então ha uma verdadeira orgia zoologica, botanica e
-anthropologica. Alli vive a salamandra, um dragão venenoso que se deleita
-nas chammas, alli floresce a _mandragora_, essa planta de face humana
-que tem miraculosas virtudes, alli corre o _éalo_, que tem corpo de
-cavallo, cauda de elephante e queixos de cabra, cujo pello é negro e
-cujos chavelhos moveis teem uma braça de comprimento. Alli se succedem
-emfim os _Ambaros_ que não teem orelhas e cuja planta dos pés é queimada,
-os Scinopodas que teem as mesmas particularidades que os Monoculos, os
-Androgynos que reunem n’um só individuo os dois sexos, os Himantopodas
-que arrastam as pernas de fórma que mais rastejam do que andam, os
-Blemmyos de que já fallámos, os Psyllos que experimentam o pudor das
-suas mulheres expondo os filhos ás serpentes, os _Parvini_ que teem
-quatro olhos, os Agriophagos que se sustentam da carne das pantheras
-e dos leões e cujo rei tem só um olho, e os Virgogicos que habitam
-em cavernas e comem insectos, e os satyros, e os faunos que são meio
-homens e meio cavallos, e outros povos que teem o rosto comprimido e se
-sustentam por meio de um canudo, outros que teem nos hombros os olhos e
-a bocca e outros que dão sombra ao rosto estendendo um dos labios, tão
-proeminente elle é, e entre animaes além dos dragões e dos gryphos o
-famoso basilisco, animal monstruoso que tem na fronte uma faxa branca que
-imita um diadema, e que empesta o ar que respira, mata as plantas de que
-se approxima, devasta o paiz que percorre, e a esphinge que tem azas de
-passaro, cauda de serpente e cabeça de mulher, e o monocerio, que, apesar
-de ser perigosissimo, quando d’elle se approxima uma donzella que lhe
-mostra o seio, toda a sua furia se aplaca, e sobre esse seio adormece,
-e as formigas enormes que guardam as areias de oiro. Alli tambem se
-encontram montes em fogo cheios de serpentes, montes silenciosos de dia,
-mas onde, á noite, accorda, á luz de estranhas claridades, o som dos
-pandeiros dos Egipans, e fontes que punem com a cegueira os ladrões, e o
-poço maravilhoso, que se conserva todo o anno immerso na sombra, mas que
-em certo dia, quando o sol chega ao zenith, e os seus raios se projectam
-verticalmente sobre a sua superficie, se enche de subito de immensa
-claridade, e cidades como a de Adaber onde os dragões pullulam.
-
-Mas tudo isto são contos de velhas, patranhas de viajantes? Não! isto
-tem, pelo menos em grande parte, um caracter scientifico. A antiguidade
-o transmittira e o que se não encontrava em Strabão, ou Ptolomeu ou
-em Aristoteles encontrava-se em Plinio, ou em Solino, ou em Pomponio
-Mela. Durante os descobrimentos estas noções acompanhavam os nossos
-viajantes, que, ao passo que destruiam umas, ainda iam acalentando as
-outras. O mytho das amazonas, que, durante a antiguidade, fluctuára
-entre a Scythia e os arredores do Egypto, chegou a transplantar-se
-para a America, e estava na mente do explorador que deu o nome de
-Amazonas ao gigante fluvial da America do Sul. As singularidades da
-phenix e do lynce eram perfeitamente admittidas como authenticas, e
-a dedicação materna attribuida ao pelicano, e que é tão contraria á
-verdade, que esse passaro, longe de se dedicar pelos filhos, nem sequer
-os defende como fazem os outros animaes, até ha bem pouco tempo passou
-por certa. As monstruosidades humanas não espantavam pessoa alguma,
-e bem o podemos perceber se nos lembrarmos que não estranhariamos
-monstruosidades semelhantes se nol-as contassem, com certa auctoridade
-scientifica, dos habitantes da lua. Sabendo como os organismos animaes
-se adaptam aos meios em que teem de viver, não nos custa a admittir que
-os habitantes da lua, se não teem ar respiravel, não tenham tambem os
-orgãos respiratorios, que lhes faltem a bocca e o nariz, e que engulam
-o alimento, se de alimento precisam, por outra fórma qualquer. Desde o
-momento que se admittia o rigor inflexivel do sol nas regiões tropicaes,
-como se não admittiria a existencia dos Himantopodas e dos outros povos
-em cujo organismo a providente natureza desenvolvera sobretudo os orgãos
-que tivessem por fim preserval-os do sol?
-
-Assim as affirmações positivas e serias da sciencia eram todas contrarias
-á navegação para a zona torrida. Tão estranho pareceria a todos tentar-se
-uma viagem n’essa direcção, como hoje nos pareceria a nós tentar uma
-viagem em direcção á lua. Azurara, se escrevesse a sua _Chronica da
-Guiné_ antes dos descobrimentos portuguezes serem conhecidos lá fóra,
-passaria por auctor de um outro _Amadis de Gaula_, e ninguem estranharia
-que a patria de Lobeira produzisse outro escriptor não menos phantasioso,
-ainda que d’esta vez o conto excedia demasiadamente todos os limites da
-verosimilhança. Mesmo n’essa epocha de credulidade o livro de Azurara
-faria sorrir os leitores, se a realidade dos factos não fosse já
-conhecida de todos, como hoje nos fazem sorrir os romances de Julio Verne.
-
-Mas não apparece agora a todos evidente e claro o absurdo de se suppor
-que por alguem fomos precedidos nos descobrimentos africanos? Seria
-necessario suppor, para que os normandos tivessem ido á zona torrida,
-e creado estabelecimentos na costa e desamparado depois essa navegação
-sem que ninguem tivesse ligado a essas expedições a minima importancia,
-seria necessario suppor que as questões geographicas encontravam no
-mundo medieval a mais completa indifferença, que ninguem sabia se havia
-zona torrida ou não, e que viagens d’essas não levantavam a minima
-curiosidade. Não; a edade média preoccupava-se avidamente com as questões
-de geographia, principalmente depois das cruzadas, e sobretudo depois
-d’essa grande Renascença do seculo XIII, que foi a aurora do grande
-esplendor do seculo XVI.
-
-Cosmas Indicopleustas, Jornandés, Gregorio de Tours, Marciano Capella,
-Vibio Sequester, St.° Avito, e Prisciano e Cassiodoro e Proclo e Macrobio
-e Paulo Orosio nos seculos V e VI; St.° Isidoro de Sevilha, Philopomus,
-Bedo o Veneravel, S. Virgilio no seculo VIII, Anonymo de Ravenna,
-Dicuil, Raban Mauro, Alfredo o Grande no seculo IX, Alfrico, Adelbod,
-o monge Richer, Moysés de Chorène no seculo X, Herman Contractus, e
-Azaph o Hebreu no seculo XI, Honoré d’Autun, Othão de Frisa, Hugo de
-Saint-Victor, Jacques de Vitry, Hugo Metello, Guilherme de Jumiège,
-Herrade de Landsberg, e Bernardo Sylvestris no seculo XII, Sacro Bosco,
-Vicente de Beauvais, Alberto o Magno, Rogerio Bacon, Roberto de Lincoln,
-Pedro d’Abano, e Dante, Cecco d’Ascoli, Roberto de S. Marianno d’Auxerre,
-Gervais de Tilbury, Pedro des Vignes, Brunetto Latini, Joinville, Omons,
-Alain de Lille, Guy de Basoches, Engelberto e Nicephoro Blemmyde no
-seculo XIII, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme, Ranulfo Hydgen, Faccio
-degli Uberti, João de Mandeville, Boccacio, Petrarcha, Bartholomeus
-Anglicus, Gervais, Ricobaldi de Ferrara no seculo XIV, Pierre d’Ailly,
-Guilhermo Fillastre, Leonardo Dati, João de Hése no seculo XV, e quantos
-outros mais ainda sustentaram e ensinaram as doutrinas cosmographicas
-que temos exposto! Uns mantinham a doutrina de Ptolomeu de que só a
-zona torrida era inhabitavel, outros a de que era inhabitavel toda
-a parte meridional da terra, outros e esses ainda assim rarissimos
-como Alberto Magno e Roger Bacon, se não acceitavam sem contestação
-nem como verdade absoluta a affirmação de que era inhabitavel a zona
-torrida, sustentavam que nem por isso deixava de ser impossivel a
-transposição dos seus limites, porque o mar immenso a cobria toda, e
-porque nas terras antichtonas havia as terriveis montanhas magneticas
-cujo pensamento paralysava os viajantes. Os mappas, que acompanhavam
-as copias dos manuscriptos antigos, como de Sallustio, do Apocalypse,
-de Pomponio Méla, de Ptolomeu, e os poemas geographicos, e as _Imago
-mundi_ e as _Thesaurus_, e os que se elaboravam nos conventos mais
-eruditos, todos reproduziam estas affirmações, esta fórma estranha da
-terra, e inflammavam com a tinta vermelha os mares da zona torrida e
-inscreviam nas regiões mais proximas, que na Africa principiavam logo
-ao sul de Marrocos, as indicações dos estranhos povos que as habitavam.
-E, quando tão arraigada se achava esta convicção no animo de todos,
-quando no seculo XIV se discutiam com ardor as doutrinas capitaes que
-expozemos ácerca da zona torrida, a ponto de Pedro d’Abano escrever,
-com o titulo de _Conciliator_, um livro destinado, como indica o seu
-titulo, a conciliar essas doutrinas, quando as viagens de Marco Polo
-excitavam immensa curiosidade e muita incredulidade tambem, tão estranhas
-coisas contava—apesar de nenhuma d’ellas destruir afinal de contas os
-pontos capitaes da sciencia do seu tempo—era possivel imaginar-se que
-navegadores quaesquer fizessem viagens, que destruissem completamente as
-noções essenciaes da geographia essencialmente admittida, viagens em que
-penetrassem na zona torrida não só sem perigo, mas tambem sem encontrar
-nas regiões circumjacentes nem povos monstruosos, nem animaes estranhos,
-nem maravilhosas plantas, e que nem esse facto surprehendesse capitães e
-marinheiros, nem excitasse a curiosidade dos reis, nem dos sabios monges,
-nem dos que escreviam os poemas geographicos, nem dos que compunham as
-encyclopedias, nem dos que desenhavam os mappas, nem dos aventureiros dos
-outros paizes, como succedeu com as viagens dos Portuguezes, que deram
-logo brado em toda a Europa, como não podia deixar de succeder quando
-se désse um passo tão gigante no conhecimento do mundo, quando a prôa
-dos nossos navios, como o teria feito a prôa dos navios normandos, se as
-suas viagens fossem verdadeiras, fazia cair por terra todo um systema
-geographico, sustentado desde a mais remota antiguidade pelos respeitados
-eruditos?
-
-Diz Laplace que o merito de uma descoberta pertence não a quem a faz, mas
-a quem a demonstra. Aqui dava-se o caso mais notavel ainda, de bastar
-para a demonstrar fazel-a. Como o philosopho antigo que respondia aos
-que negavam o movimento andando, os Portuguezes responderam aos que
-sustentavam a impossibilidade de transpor a zona torrida transpondo-a.
-Essa demonstração tel-a-hiam feito os Normandos, se antes de nós lá
-tivessem ido, ou os Genovezes ou os Catalães. A gloria tel-a-hiam elles,
-mas gloria immediata, porque o facto era de tal ordem que não era
-necessario que decorressem seculos para se lhe reconhecer a importancia.
-
-No capitulo immediato veremos como a fé e a lenda, ainda mais do que a
-sciencia, fechavam a zona torrida e os mares, que, no dizer de alguns,
-a enchiam, á investigação do homem. Essas lendas, como as da sciencia,
-iam sendo rasgadas a pouco e pouco, mas pendiam, assim esfarrapadas,
-dos hombros dos navegadores. Lembram aquelles nevoeiros de Cintra, que
-envolvem o valle e a montanha, tendo por cima o céo azul. Á medida que os
-transpomos, vão-se rasgando por baixo de nós, surge uma aldeia, irrompe
-um arvoredo, um grupo de rochas, mas em muitos pende ainda dilacerado
-o manto do nevoeiro. Assim veremos os navios portuguezes e hespanhoes
-caminhar envoltos em nevoas, até que a sua audacia tudo rompeu, e o mundo
-appareceu emfim na sua completa e radiosa realidade.
-
-
-
-
-IV
-
-A religião e a lenda
-
-
-Se eram estas as idéas scientificas predominantes no principio do seculo
-XV, é importante saber-se se a religião as acceitava. Era tão poderoso o
-dogma nos espiritos medievaes que a condemnação de uns certos principios
-pela auctoridade ecclesiastica bastava para que a grande maioria os
-suppozesse completamente falsos. Espiritos independentes como os tem
-havido sempre protestavam contra a condemnação da sciencia pela fé; mas
-protestavam timidamente, e nós veremos que nos pontos mais capitaes a
-fé estava completamente de accordo com a sciencia, de fórma que uma e
-outra fechavam deante das tentativas dos navegadores o mar mysterioso,
-que a audacia portugueza conseguiu devassar. O principio assente era
-a impossibilidade de se franquear a zona torrida, mas poucos homens de
-sciencia punham em duvida que para além da zona torrida existisse outra
-zona temperada semelhante á do norte, e onde fosse possivel a vida da
-raça humana. Contra este ponto é que o dogma protestava.
-
-Era inultrapassavel a zona torrida, não a tinham podido franquear os
-discipulos de Christo, portanto a palavra divina de redempção promettida
-a todos os que tivessem fé não podia chegar a esses povos que Deus
-esquecera, o que era completamente absurdo.[36] Se a humanidade toda
-descendia de Adão, como é que viera ao mundo essa raça humana? Tivera
-outro Adão como alguns sustentaram que tinha outro sol e outras
-estrellas?[37] Tudo isso era incompativel com a verdade suprema expressa
-na Biblia. E demais, se Deus dividira a terra depois do diluvio entre os
-tres filhos de Noé, se déra a Sem a Asia, a Japhet a Europa, e a Cham a
-Africa, qual fôra o desconhecido filho de Noé que recebera da Providencia
-a terra antichthona?[38]
-
-Encontrára-se em parte uma solução para essa dificuldade. Reconhecia-se
-a existencia da terra antichthona, mas suppunha-se que fôra a habitação
-da raça humana antes do diluvio. Alli ficava o Paraizo, e alli vagueando
-em torno da deliciosa habitação para sempre defeza vivera a humanidade
-criminosa os seus primeiros annos. Na arca de Noé salvara-se uma fraca
-reliquia d’essa gente condemnada. A arca boiara sobre as aguas e viera
-poisar emfim no monte Ararat. Nunca mais o homem tornaria a ver a sua
-antiga patria[39].
-
-Assim Cosmas suppunha um mar immenso coberto de trevas, porque o sol só
-illuminava a terra, e formando quatro golphos, o Mediterraneo, o mar
-Vermelho, o golpho Persico e o mar Caspio; para além d’esse immenso mar a
-terra antichthona, e n’ella o Paraizo[40].
-
-Outros, porém, não se podiam resignar a estar para sempre separados do
-Paraizo, e collocavam-n’o no extremo Oriente, no sitio onde, ao que
-diziam, principia o mundo. Esses baseavam-se na phrase do Genesis, que
-diz que «Deus plantou no Oriente um jardim delicioso». Para além da
-India, dizia Santo Avito, fica o Paraizo, cercado por barreiras que o
-homem não pode transpôr. É a theoria adoptada por S. Basilio, Psellus,
-Philostorgo, Isidoro de Sevilha, Bedo o Veneravel, geographo de Ravenna,
-Raban Mauro, Hugo de Saint-Victor, Jacques de Vitry, Honoré d’Autun,
-Gervais, Vicente de Beauvais, Joinville, Jourdain de Sévérac, Omons,
-que ainda suppunha que lá estava o anjo da espada chammejante, Ranulpho
-Hydgen, Dati, Bartholomeu Anglicus, Brunetto Latini, Dante, etc. Uns
-suppunham-n’o erguido n’uma alta montanha, outros n’uma ilha. E em torno
-d’esta idéa dogmatica ferviam as lendas.
-
-Do Paraizo, dizia-se, saíam quatro grandes rios: o Nilo, o Ganges, o
-Tigre e o Euphrates. Era necessario, porém, explicar-se como é que estes
-rios appareciam tão longe da sua celeste origem, e sobretudo como é que
-o Nilo apparecia na Africa, tendo nascido na Asia. A explicação era a da
-corrente subterranea, e submarina tambem com relação ao Nilo, quando a
-supposição de um mar mediterraneo, que trazia comsigo a união da Asia com
-a Africa, não tornava dispensavel esta conjectura[41].
-
-Esta opinião religiosa perdurou largo tempo no espirito dos homens ainda
-depois das grandes descobertas. Colombo, cuja alma enthusiastica se
-deixava invadir facilmente pelas seducções do mysticismo, e que tinha a
-fé ardente que foi um dos principaes elementos do seu triumpho, nutria
-a secreta esperança de chegar a esse Paraizo cubiçado, como contava
-encontrar n’esse Cathay maravilhoso os capitaes indispensaveis para a
-reconquista do sepulchro de Christo. Era logica a sua esperança. Se
-elle, partindo do Occidente, esperava chegar ao extremo Oriente, se no
-extremo Oriente estava o jardim de delicias em que Deus collocara os
-nossos primeiros paes, como podia duvidar de que o encontraria? Quando na
-sua terceira viagem chegou á bocca do Orenoque imaginou ter finalmente
-chegado ao Paraizo terrestre, não pela formosura das paizagens e pela
-abundancia da vegetação, mas porque, vendo a torrente das aguas do
-grande rio, suppoz que era um dos que borbulhavam da elevada montanha do
-Paraizo terrestre[42]. Christovão Colombo não admittia absolutamente a
-esphericidade da terra. Como varios outros geographos da edade média, que
-lhe tinham dado uns a fórma ovoide, outros a fórma de um cone ou de um
-pião[43], Christovão Colombo suppunha que ella teria a fórma de uma pera,
-e que junto do pé é que estava exactamente o Paraizo[44].
-
-Tambem a esphericidade da terra era absolutamente contradictada
-pelos Santos Padres, que lhe davam a fórma de um quadrado ou de um
-parallelogrammo, fórma emfim que se assemelhasse á do Tabernaculo de
-Moysés. Desdenhando a idéa scientifica oriunda dos Gregos, e sustentada
-pelos Arabes, vindo talvez para uns e para outros dos orientaes, de que o
-centro do mundo era Aryn, d’onde se principiavam a contar as latitudes e
-longitudes, que ficava exactamente a 90° de cada um dos pontos cardeaes,
-ponto geographico que foi muitas vezes representado pelos cartographos
-como uma cidade maravilhosa, com um castello, em que habitava um
-mysterioso soberano, os Padres da Egreja reclamavam para Jerusalem a
-honra de ser ella o centro da terra, ou pelo menos o centro da terra
-habitada, quando se imaginava que o resto do mundo estava coberto pelas
-aguas desde o diluvio.
-
-Finalmente para apresentarmos no seu conjuncto as idéas geographicas
-affirmadas dogmaticamente pela religião, fallaremos ainda, posto que não
-interesse a questão dos descobrimentos maritimos, na existencia para o
-norte das terras de Gog e de Magog. Eram os paizes ao norte da Asia,
-n’essa região desconhecida em que tambem pullulavam as fabulas, porque
-era a que se approximava das zonas glaciaes inhabitaveis. Ahi, dizia-se,
-habitavam os filhos de Caim[45], povos que tinham escapado, ao que
-parece, do diluvio, não por traz da barreira insuperavel da zona torrida,
-mas encostando-se ás gelidas barreiras dos polos. Irrompiam ás vezes em
-incursões ferozes, até que Alexandre o Magno, na sua grande expedição,
-que ficou legendaria, levantou a grande muralha que poz termo ás suas
-arremettidas[46]. Disse-se depois que aquellas dez tribus de Israel, que
-não voltaram do captiveiro da Babylonia, n’essa região mysteriosa ficaram
-internadas, como depois se disse, quando se descobriu a America e alli se
-encontrou uma raça de homens desconhecida, que eram ainda as dez tribus
-de Israel que se tinham perdido n’essas regiões que o Atlantico por tanto
-tempo escondera detraz da cortina das suas vagas[47].
-
-Assim a fé religiosa, se contradictou n’alguns pontos importantissimos as
-affirmações scientificas, cerrou ainda mais as portas do _mare clausum_.
-O homem não podia chegar á zona torrida, era esse o ponto capital, que
-a um tempo sustentavam os homens da sciencia e os homens da orthodoxia.
-Assim que d’ella se approximavam o mar começava a escandecer-se, a terra
-inflammava-se, montes ardentes reflectiam as suas chammas nas aguas, e
-monstros extranhos que o calor fazia brotar, plantas extraordinarias
-que só podiam florescer n’essa monstruosa estufa, começavam a apparecer
-n’essas terras extranhas. Assim, para o norte, apenas se chegava ás
-regiões onde soprava um vento glacial, outros monstros appareciam, e os
-povos ferocissimos de Gog e Magog só esperavam que um audacioso rompesse
-a muralha de Alexandre que os refreiava para cairem de novo sobre o
-mundo, entregue assim nas garras de Satanaz.
-
-No centro da terra habitada, que tinha a fórma quadrilateral, erguia-se
-Jerusalem; no extremo Oriente erguia-se o Paraizo defezo aos homens, e
-d’onde saíam os grandes rios do Oriente, trazendo ainda nas suas aguas
-o nateiro fecundante que ia dar como que uns reflexos da vegetação
-paradisiaca ás terras que atravessava.
-
-Em torno do dogma como em torno da sciencia nasciam então as lendas.
-Deante do dogma inclinavam-se todos, deante da sciencia inclinavam-se
-os illustrados, deante da lenda refugiam os ignorantes, e uns e outros
-paravam deante d’esse mar que tantos mysterios encerrava.
-
-Classificamos propriamente como legendarias as supposições que não
-tinham a minima base scientifica ou que não repousavam no dogma. Assim
-a _terra velada_ de Theopompo não era senão a _terra incognita_ de
-Ptolomeu; mas, suppondo o auctor grego que os homens que a habitavam
-eram de uma estatura duas vezes maior que a dos do mundo conhecido,
-perdia-se completamente nas regiões da phantasia, porque não havia, como
-para a humanidade monstruosa das regiões tropicaes, as razões do clima.
-Percebe-se, por exemplo, que a necessidade continuada de se resguardarem
-contra os ardores de um sol terrivel fosse, atravez de gerações
-successivas, desenvolvendo cada vez mais os orgãos com que o homem se
-podia proteger, mas n’esse clima perfeitamente semelhante ao nosso nenhum
-motivo havia para que se suppozesse que duplicava a estatura humana. E
-comtudo essa lenda actuava fortemente no espirito dos navegadores, e
-assim se explica a formação da lenda dos Patagonios.
-
-Legendarias eram tambem as ilhas do Oiro e da Prata, que apparecem nos
-mappas da edade média e que vão fugindo para regiões mais distantes á
-medida que vae sendo conhecido o mundo oriental, como succedia tambem ás
-Hesperides, antigas ilhas de fabulosa riqueza, cujo pomar de pomos de
-oiro opulentos era guardado por um dragão, como tambem na edade média
-as montanhas que encerravam thesouros preciosissimos eram guardadas por
-gryphos e toda a especie de fabulosos animaes. É sempre em ilhas situadas
-nos mares desconhecidos que se colloca ou a região das riquezas ou a
-região da bemaventurança. As ilhas Afortunadas ou as ilhas das Hesperides
-eram para os antigos a patria de todos os sonhos da felicidade suprema.
-Era nas regiões do Norte, onde parecia que devia reinar comtudo a eterna
-desolação, que elles collocavam tambem a ideal ventura, phantasiando esse
-povo dos Hyperboreos eternamente feliz. Passou para a edade média essa
-tradição, e nos mappas medievaes se vêem para além do mundo conhecido as
-ilhas onde habitam os Hyperboreos. Nos mares orientaes collocavam-se,
-como dissemos, as ilhas do Oiro e da Prata, as ilhas dos Homens e das
-Mulheres, que eram o producto de uma tradição arabe, a ilha do Sol de
-Pomponio Mela, que não fazia senão dar uma nova fórma ás preoccupações
-da zona torrida. Quem abordasse á ilha do Sol era immediatamente
-suffocado pelo ar em braza que alli se respirava[48]. Finalmente, nos
-mappas da edade média já mais proximos da epocha dos descobrimentos
-apparece semeado de innumeras ilhas o mar oriental: sete mil dizem as
-legendas de uns, quatorze mil as de outros. Esse pensamento foi suggerido
-pelo conhecimento das viagens de Marco Polo e pelas indicações que o
-viajante veneziano dá ácerca das Maldivas, que se suppozeram existentes
-no mar oriental. É bem provavel, e o que é certo é que o pensamento da
-existencia de innumeras ilhas no oriente da India actuou nos sabios do
-seculo XV, e foi uma das esperanças de Christovão Colombo e um dos pontos
-de apoio de Toscanelli para a sua theoria da possibilidade da viagem que
-Colombo emprehendeu, porque, dizia elle, ainda que o continente asiatico
-estivesse mais longe do que se suppunha, sempre se encontrariam no
-caminho ilhas que servissem de porto de escala e de arribação[49].
-
-Ah! essas ilhas conjecturaes da edade média como serviram aos
-historiadores superficiaes para procurar attenuar a gloria dos
-Portuguezes e a gloria de Colombo! Brotavam das ondas mysteriosas como
-brota a espuma da vaga que se desfaz nos rochedos. Por aquelle Oceano
-tenebroso que se estendia para o Occidente, nas ondas do ignoto mar
-indico, por muito tempo considerado, e ainda no tempo dos primeiros
-descobrimentos portuguezes, como um mar mediterraneo, pelo mar ignorado
-do Norte semeava a imaginação dos cartographos quantas ilhas ideara a
-phantasia antiga, a phantasia dos _troubadours_ ou dos _trouvéres_ e
-a dos mysticos! Lá appareciam, como dissemos, as ilhas das fabulosas
-riquezas, a Chrysé, a Argyra, Ophir, que talvez bem se possa classificar
-entre ellas; as ilhas da tradição homerica, a de Calypso, a de Diomedes,
-a outra em que se vê ás horas do sol poente a sombra gigante e pensativa
-de Achilles, as ilhas da tradição celtica, essas ilhas que povoavam a
-imaginação d’estes marinheiros do occidente, que, erguidos ao pôr do
-sol nos rochedos da costa, sonhavam em cada miragem do Oceano uma ilha
-fabulosa, que, batidos pela tempestade, quando andavam á pesca, julgavam
-escutar no surdo rugido das vagas os lamentos das almas penadas nas ilhas
-milagrosas, e tudo se contava ao serão quando bramia o vento cá fóra e o
-mar quebrava com doloridas queixas ou com furioso estrepito nas fragas
-desnudadas. Tudo ia tambem enriquecer as lendas dos claustros para ornar
-com esses arrebiques de maravilhoso a existencia piedosa de um santo
-missionario. Foi assim que S. Brandão teve a sua ilha, onde cantavam as
-aves do Paraizo, e onde se respirava tão celeste e perduravel perfume que
-n’elle ficaram para sempre impregnadas as vestes do santo viajante. Era
-na Irlanda sobretudo que essas lendas brotavam, era ahi que se formavam
-ao lado da legenda de S. Brandão as de S. Patricio, e de tantos outros
-navegadores celticos que iam atravez dos mares da phantasia procurar
-ignotas ilhas.
-
-Já Brekan, o filho do rei Niel, desapparecera nas ondas do mar com
-cincoenta navios, e só o cadaver do seu cão reapparecerá na praia, já
-tres filhos de Corra tinham com os seus quatorze companheiros, entre os
-quaes iam um bispo e um bardo, abordado ás ilhas das Almas, encontrando
-depois de quarenta dias e quarenta noites a ilha do eterno choro, e a
-ilha em que fundidores infieis forjavam e fundiam com as carnes rasgadas
-pelas aguias negras, e outra em que um moleiro moía eternamente farelo
-por ter roubado os seus freguezes, e outra em que um alquilador, que
-roubara o cavallo a seu irmão, passava por deante dos olhos assombrados
-dos viajantes no galope infernal de um cavallo de fogo.
-
-Outros, os famosos navegadores de Iona, tinham chegado á ilha dos
-Passaros, onde volteiam aves de aureas e de purpureas pennas, regidas por
-um rei de cabeça de oiro e de azas de prata, que entoam cantos de uma
-celestial melodia, e a outra onde choram com saudades da patria as doces
-Irlandezas exiladas mysteriosamente do mundo dos vivos.
-
-Depois ainda é o bardo Myrdhinn que vae com mais nove bardos procurar a
-ilha Verde, que nunca foi submergida pelas vagas, a ilha dos pomos de
-oiro, onde no meio de uma aurora perpetua dança um côro eterno de bellos
-rapazes e de formosas raparigas.
-
-Tudo se condensa, emfim, na lenda de S. Brandão. Esse encontrara a ilha
-onde os anjos que acompanharam Lucifer, mas não foram inteiramente seus
-cumplices, cantam os hymnos de esperança, e o aspero rochedo batido
-pelas vagas, onde Judas é consumido pelo eterno remorso; e emfim a terra
-promettida aos eleitos, a terra dos bemaventurados.
-
-S. Patricio tambem percorre as solidões do Atlantico. Esse vae, segundo
-a lenda, quando a quaresma começa, para o seu _purgatorio_, n’uma ilha
-de que ninguem se pode approximar, onde ha uma caverna que os maus
-espiritos habitam, e onde se abrem duas estradas subterraneas, que vão
-ter uma ao Inferno, outra ao Paraizo. Esta ilha mysteriosa do _Purgatorio
-de S. Patricio_, como a ilha abençoada de _S. Brandão_, é um dos sonhos
-mais persistentes da edade média, e uma e outra lá apparecem nos mappas
-medievaes, nos sitios mais diversos, ás vezes applicando-se a ilhas
-verdadeiras, como acontece com o _Purgatorio de S. Patricio_, que alguns
-cartographos collocam na Islandia.
-
-A imaginação celtica é a mais fecunda n’esta creação de terras
-phantasticas, e não podia deixar de ser assim, não só porque os povos
-d’essa raça são essencialmente imaginativos e sonhadores, como tambem
-porque n’essa Irlanda, collocada na extremidade occidental da Europa,
-a tão pouca distancia da America, aonde tantas vezes deviam chegar,
-como chegavam aos nossos Açores e á nossa Madeira, plantas e cadaveres
-de homens de desconhecido aspecto, não podia deixar de pullular a cada
-instante na alma do povo o pensamento da existencia de ilhas mysteriosas
-para esse lado, como muitas vezes tambem, quando um pescador mais
-audacioso se aventurava ao mar alto, quando o vento de leste lhe enfunava
-as velas, e o mar lhe parecia cantar no seu doce murmurio as suas
-maravilhosas lendas, elle seguiria caminho do Occidente, durante dias e
-dias, até que a fome o salteasse, ou até que o continuado panorama das
-vagas a seguirem-se ás vagas, sem fim, sem termo, fechando o horizonte,
-os desanimasse afinal[50]. Mas tambem na peninsula hispanica lendas
-semelhantes se formavam e pelas mesmas causas. Tambem aqui em Portugal
-sobretudo e no Algarve principalmente os pescadores, ao largarem a
-costa, sentiriam a tentação de penetrar nos mysterios do Oceano, e aqui
-tambem á volta, em noites de luar nas esfolhadas, ou no inverno ao lado
-da chaminé, fallariam, como se as tivessem visto, em ilhas extranhas,
-na das Sete Cidades, por exemplo, onde se tinham refugiado, quando os
-Mouros vieram á peninsula, sete bispos christãos com o povo das suas
-dioceses, proscriptos agora e encantados como as meigas irlandezas
-exiladas dos navegadores de Iona. E todas estas ilhas phantasticas,
-Antilia e Sete Cidades, ilha de S. Brandão e Purgatorio de S. Patricio,
-iam juntar-se ás ilhas conjecturaes dos sabios e ás ilhas tradicionaes da
-mythologia antiga para formarem esses archipelagos do sonho e da lenda
-que se desfizeram em fumo quando das aguas surgiram, envoltas no seu
-manto de verdura, ou na sua armadura de rochedos vulcanicos, palpitantes
-ainda com o fogo que lhes lavrava nas entranhas, ou carregadas com a
-immensa e luxuriante cabelleira das intactas florestas, as ilhas reaes e
-verdadeiras.
-
-Esse sonho das ilhas phantasticas podia não ser senão um estimulo
-para cavalleiros denodados que não temiam os encantamentos, logo que
-levavam comsigo as espadas bentas e a cruz do Salvador. Com o coração
-a bater-lhes um pouco, pallidos de supersticioso terror, mas incitados
-pelas tentações das sobre-naturaes aventuras, arrojar-se-hiam tanto os
-celtas da Irlanda como os celtas de Portugal aos mares mysteriosos em
-demanda das ilhas paradisiacas; outros encontraram tambem no caminho
-as ilhas infernaes, mas a lenda do mar Tenebroso essa é que deveras
-regelava o sangue nas veias do mais audacioso. Vinha dos antigos, e mais
-tambem dos Arabes. Como é que os poetas antigos, ao passo que devaneavam
-como Seneca no côro da _Medéa_, que para além do Oceano haveria terra
-incognita, suppunham que n’esses mares longinquos se perdêra a luz do sol
-e um manto espesso de trevas se desenrolava sobre as vagas? Como é que
-o arabe Edrisi, que suppunha que estavam no Atlantico as ilhas da eterna
-felicidade, suppunha tambem que era o Atlantico o mar tenebroso, onde os
-navios esbarravam uns nos outros e se despedaçavam em ignorados rochedos?
-É porque suppunham que, depois do mar Tenebroso, vinha o mar luminoso da
-India, porque imaginavam exactamente que o mar da India communicava com
-o mar Tenebroso? Tambem a sciencia não dava fóros de authenticidade ao
-mar Tenebroso como os dava ás terras incendiadas e ao mar em fogo da zona
-torrida. Era um dos fundamentos essenciaes da lenda do immenso pélago o
-ligar-se ainda com as estranhas idéas astronomicas dos que suppunham que
-para além dos mares tinha o globo um cinto de montanhas, e que detraz
-d’essas montanhas é que o sol se escondia durante a noite, pertencia a
-essa classe de phantasias a que pertencem os montes Ripheus e outras
-visões da desvairada imaginação dos sonhadores da geographia.
-
-Mas ainda os Arabes trouxeram do Oriente um novo elemento legendario. O
-Oriente é a patria das estatuas encantadas, dos monstros de metal dotados
-de uma vida phantastica, e a esse mar, por tantas razões defezo, punham
-como sentinellas immoveis e terriveis as estatuas mysteriosas, como os
-leões de oiro que nos contos arabes defendem os palacios enfeitiçados.
-Mas ainda a tudo accrescia uma tradição que se baseava na verdade, e que
-não era menos desanimadora para os que tentassem romper o mysterio. Era
-a do mar de Sargaço, que não era desconhecido dos antigos, esse mar que
-os marinheiros de Colombo encontraram já muito para o occidente, e em que
-se julgava que as plantas enredadas enleiavam por tal fórma os navios que
-lhes paralysavam completamente os movimentos.
-
-Essas idéas falsas, derivadas da sciencia mal comprehendida, e que
-povoavam os espiritos dos marinheiros d’essa epocha, são as mesmas que
-ainda hoje habitam no cerebro do povo ignorante, apesar da immensa
-propagação de dados scientificos verdadeiros, obtidos pela experiencia
-de todos os dias. No seu delicioso livro _Sull’Occeano_, o grande
-escriptor italiano Edmundo de Amicis conta-nos o que ouviu a bordo de um
-paquete que singrava para a America aos passageiros de terceira classe,
-emigrantes que iam trabalhar no Rio da Prata. Parece-nos estarmos a ouvir
-as palestras que se travariam entre os marinheiros do seculo XV a bordo
-das suas esguias caravellas. Apesar dos factos demonstrarem o contrario,
-ainda suppunham que, ao atravessarem a zona torrida, teriam de atravessar
-um mar incendiado. Suppunham que veriam claramente a curvatura da terra
-e o navio descer por ella como um bichinho em volta da superficie de uma
-laranja. Todos esses terrores pueris dos passageiros que os marinheiros
-hoje desdenham com um riso sarcastico, eram os que salteiavam o espirito
-dos seus antepassados nos seculos da edade média, eram esses terrores
-os que faziam recuar deante dos cabos africanos e deante das solidões
-do Atlantico os marinheiros que precederam Gil Eanes e que precederam
-Christovão Colombo, eram ainda os que acompanhavam os descobridores
-em cada nova exploração, porque só a pouco e pouco é que a luz se foi
-fazendo, só a pouco e pouco é que se foram desfazendo as idéas falsas da
-antiguidade substituidas pelos factos verdadeiros, e era necessario que
-fossem de uma rija tempera os marinheiros que recalcavam no fundo d’alma
-esses terrores, que fossem denodados espiritos os d’esses commandantes
-que assim partiam a arcar não só com os pavores da superstição, mas
-com as affirmações da sciencia e com as determinações da fé, e que
-fosse emfim um genio verdadeiramente transcendente o d’esse homem quasi
-divino, que teve a intuição sublime da verdade e a inspiração de um
-genio creador, que sonhou um mundo aberto inteiramente á luz, um mar sem
-trévas, a humanidade circulando sem peias em volta da terra seu dominio,
-e que logrou escrever na face das ondas com a quilha das suas caravelas
-essa epopéa maravilhosa que elle concebeu em Sagres e que foi a grande
-epopéa do Renascimento.
-
-
-
-
-V
-
-O infante D. Henrique e o povo portuguez
-
-
-Nenhum povo estava tão fadado como os Portuguezes para esse
-emprehendimento maravilhoso na epocha em que elle se encetou. As cruzadas
-tinham despertado nos povos europeus o espirito da aventura. Era para o
-Oriente que se voltava esse ardor de conquista, não só porque era a terra
-classica de todas as opulencias, mas porque a conquista do Oriente fôra
-o sonho da antiguidade grega e romana e o culto mal comprehendido, mas
-profundo, pela antiguidade foi um dos caracteres predominantes da edade
-média. Alexandre o Magno era para elles o ideal do cavalleiro andante,
-imaginavam-n’o como um soberano cavalheiresco, segundo a formula feudal,
-como Virgilio, o dôce poeta, era um feiticeiro de legenda; mas a adoração
-por esse grande vulto vivia em todos os espiritos. Foi para o Oriente
-pois que se dirigiram os primeiros viajantes, os Rubruquis, os Plan du
-Carpin, os Marco Polo, quando as expedições guerreiras tiveram de parar
-deante da resistencia victoriosa dos sarracenos. Mas esses viajantes já
-tinham feito penetrar um pouco de luz na geographia systematica do seu
-tempo, e a humanidade evidentemente, despertada para o estudo e para a
-sciencia pela primeira Renascença do seculo XIII, ia procurar sondar o
-desconhecido que por todos os lados a envolvia.
-
-O segredo dos mares occidentaes devia preoccupar sobretudo os povos
-que no occidente da Europa viam desenrolar-se diante d’elles a
-incommensuravel extensão das vagas oceanicas. Os povos do Norte, que
-tinham chegado até á ultima Thule, a regelada Islandia, não deixaram
-de aventurar-se por esses mares ignotos, e é incontestavel que, assim
-como chegaram á Groenlandia, tocaram tambem no continente americano.
-Se perseverassem na descoberta, se fossem seguindo ao longo da costa
-da America, emquanto encontrassem terra nas suas aventurosas jornadas,
-teriam roubado incontestavelmente a Portugal e á Hespanha as suas
-mais viridentes glorias! Á Hespanha, porque antes de Colombo teriam
-dado á civilisação esse vastissimo continente, a Portugal, porque
-antes do infante D. Henrique teriam reconhecido a possibilidade de se
-transpôr a zona torrida; mas não perseveraram, e assim legitimamente
-perderam a gloria que teriam podido conquistar. Que, afastando-se da
-Islandia, encontrassem uma nova terra ainda mais regelada e triste, que,
-proseguindo na sua viagem, chegassem a territorio mais risonho, não é
-coisa que nos espante, posto que demonstre mais uma vez a coragem d’esses
-audaciosos reis do mar. A gloria de Colombo não está em ter encontrado
-novas terras, está em não ter recuado deante dos dogmas da extensão quasi
-infinita dos mares, assim como a gloria dos Portuguezes não está em terem
-juntado novas terras ao peculio da civilisação, está em não terem recuado
-diante do dogma scientifico e religioso da impossibilidade de se viver
-na zona torrida e da existencia dos mil perigos e dos mil horrores que
-defendiam a sua approximação.
-
-Ninguem era, comtudo, mais proprio do que os Normandos para tentarem as
-aventuras maritimas; estavam porém demasiadamente ao norte, e, como ás
-suas aventuras presidia sempre, como ás dos Phenicios, não o amor da
-sciencia, mas o amor do lucro, ao chegarem ao cabo de S. Vicente, mais
-os tentava o caminho do Mediterraneo, onde havia tão seductoras prezas,
-do que o arriscado caminho do Mar Tenebroso. No seculo XIV os Normandos
-de França sentiram-se attraídos para os mares do Sul, até porque lhes
-chegára a noticia de que os marinheiros da peninsula hispanica para
-esse lado tinham encontrado as ilhas Afortunadas, mas a tentativa de
-Bethencourt não tivera nem poderia ter imitadores, porque não fôra
-extremamente prospero o seu resultado, porque as costas áridas do
-prolongamento de Marrocos, onde tinham encontrado a morte, essa Guiné,
-como lhe chamavam, Guiné que tinha por limite meridional o cabo Bojador,
-não promettia grandes proventos aos que lhe tentassem a exploração. A
-Inglaterra concentrava na conquista da França todas as suas attenções e
-todo o seu empenho e a França cuidava em defender-se e em completar a
-sua poderosa unidade. A Italia tinha duas potencias maritimas—Veneza e
-Genova—cujos navegantes davam lições aos outros povos, mas uns e outros
-tinham os olhos postos no Oriente, d’onde lhes vinha a riqueza, a gloria
-e o dominio. Genova é que lançava de quando em quando os olhos para o
-occidente, em Veneza appareciam ás vezes alguns espiritos que se deixavam
-tentar pelos mysterios do Oceano, mas as viagens audaciosas e pouco
-afortunadas dos irmãos Zeni venezianos e de Vivaldi e Doria genovezes,
-não podiam ser incitamento a que se proseguisse nas tentativas.
-Acontecia com as duas republicas maritimas o que depois aconteceu com
-Portugal quando regeitou a proposta de Colombo. Não se deixa o certo
-pelo duvidoso. Não se empenham vidas e thesouros em emprezas incertas,
-semi-phantasticas, quando se tem nas mãos, como Veneza e Genova tinham, o
-vasto commercio do Oriente, quando se tem quasi a certeza de que se está
-no caminho da India, quando se possuia já o resgate valioso da Mina como
-acontecia com D. João II. Para esses emprehendimentos que são o sonho da
-politica, são necessarios não os espiritos positivos, mas as imaginações
-exaltadas. É indispensavel que haja n’um cerebro esse grão de loucura que
-faz os grandes poetas e os grandes descobridores, que inspira os poemas
-que se escrevem—os poemas da phantasia, e os poemas que se executam—os
-poemas da acção, um homem como o infante D. Henrique, que herdára de sua
-mãe, como todos os seus irmãos, esse elemento romanesco que toda a mulher
-do Norte encerra no fundo da sua alma, por baixo da sua apparencia séria,
-austera e pratica de dona de casa e de mãe de familia, para conceber e
-levar por deante, n’um jorro de santa loucura, o poema das navegações, ou
-uma mulher cavalheiresca, romanesca tambem, sensivel e enthusiastica como
-a rainha Izabel, para comprehender a alma de Colombo, para se irmanar
-com ella, e para collaborar tão apaixonadamente n’esse ultimo poema
-de cavallaria, n’essa ultima producção da alma celtica, n’esse ultimo
-romance do Santo Graal que se chamou Descoberta da America.
-
-Restavam os reinos da peninsula hispanica, mas todos esses, á excepção
-de Portugal, se achavam empenhados ainda nos ultimos arrancos da sua
-lucta contra os Mouros. No oriente da Hespanha, nas Baleares sobretudo,
-havia a tentação de sondar o mar desconhecido, mas diante do cabo Bojador
-ainda se recuava. Tel-o-hiam dobrado comtudo se tivessem perseverado
-no intento, mas era essa perseverança que não podia deixar de faltar
-a um povo que não tinha para isso outro estimulo que não fosse o da
-curiosidade, que mais se deixaria tentar pela Africa mediterranea do que
-pela Africa atlantica. O povo que estava deveras em circumstancias de
-tentar os grandes emprehendimentos era sobretudo Portugal.
-
-Acabava de atravessar um periodo em que todas as suas faculdades tinham
-sido vivamente excitadas, e em que empregára todas as suas forças e toda
-a sua actividade. Havia dois seculos que unificára o seu territorio e que
-expulsára os Arabes. Desde que o fizera, voltára naturalmente as suas
-attenções para o Oceano, e o grande rei, que mais cuidára da organisação
-pacifica do seu povo, D. Diniz, empenhara-se essencialmente em nos dar
-marinha, animando a mercante, protegendo a pescadora, desenvolvendo
-a de guerra, já providenciando para que se podessem fazer navios, já
-indo buscar a Genova, a grande nação marinheira do Mediterraneo, os
-navegadores que podiam dar aos nossos mareantes os conhecimentos
-technicos que lhes faltavam. Como se tivesse a previsão de que ainda a
-Portugal caberia tentar a ultima empreza cavalheiresca da edade média,
-não se conformára com a suppressão dos Templarios, e fundára para os
-substituir a ordem de Christo, cujos cavalleiros tinham de vir a ser os
-Templarios do mar, cujo habito e cuja commenda foram a «estrella dos
-bravos», cujas phalanges intrepidas foram a Legião de Honra das nossas
-maritimas victorias.
-
-Logo as primeiras expedições atlanticas mostraram que rumo Portugal
-queria seguir, mas as discordias intestinas e as ambições dos reis
-adiaram o proseguimento das tentativas. Não se resignavam os nossos
-soberanos a manter o seu reino em tão estreitos limites, mas Castella
-engrandecera-se tanto que não nos era facil a dilatação. Foi o contrario
-que esteve para succeder, foi Castella que esteve a ponto de absorver
-Portugal; na lucta desegual empenharam-se então todas as nossas forças
-vivas; toda a energia da nossa organisação, toda a furia do nosso
-patriotismo local despertaram para essas pelejas homericas. O perigo
-imminente fez com que a patria se retemperasse na grande corrente
-democratica. A nacionalidade portugueza luctou com a poderosa Castella
-como Anteu com Hercules, cobrando novas forças sempre que tocava no solo
-portuguez. Em 1385 como em 1640 foi o povo que salvou a bandeira. A gente
-dos concelhos, indo, _ventres ao sol_, na energica phrase de Fernão
-Lopes, combater contra os cavalleiros vestidos de ferro, manifestava
-na peninsula hispanica uma nova força social, a mesma que dera aos
-_yeomen_ inglezes a victoria sobre a cavallaria feudal da França, e aos
-montanhezes suissos a victoria sobre a cavallaria aristocratica de Carlos
-o Temerario. Nunca houve uma efflorescencia tão notavel de bravura e de
-talento, de genio aventuroso e de dedicação patriotica, nunca estiveram
-em tão continua vibração todos os nervos e todos os musculos de um
-organismo nacional. Quando acabou a lucta, depois de ter insculpido
-nos annaes gloriosos da patria os nomes de Trancoso e de Atoleiros, de
-Aljubarrota e de Valverde, de D. João I e de Nuno Alvares Pereira, a
-geração que praticára esses feitos estava ainda vibrante de energia, o
-cerebro que concebera a reorganisação nacional estava scintillante de
-idéas. Foi então que Vasco de Lobeira devaneou o _Amadis de Gaula_, que
-Fernão Lopes fez trasbordar nas suas inimitaveis chronicas a exuberancia
-poetica da alma nacional, que os architectos e os canteiros fizeram
-desabrochar no campo da peleja a flor maravilhosa da Batalha, que o
-infante D. Henrique sonhou a epopéa dos descobrimentos.
-
-Quando uma nação acaba de se empenhar n’uma lucta aventurosa de muitos
-annos custa-lhe a voltar de novo ás occupações serenas da paz. Ha em
-todos os espiritos uma sede de aventuras, uma necessidade absoluta de
-occupar a sua energia. É por isso que vemos, depois das grandes luctas
-do principio d’este seculo, os generaes francezes e os officiaes de
-marinha inglezes procurar em todo o mundo emprego para a sua actividade.
-Encontramos até no Oriente officiaes de Napoleão pondo a sua espada
-ao serviço de monarchas indianos, na Europa e na America officiaes de
-marinha inglezes a commandar as esquadras insurgentes nas luctas da
-independencia americana e da liberdade europêa. Assim no seculo XV vamos
-achar cavalleiros portuguezes á cata de aventuras na Inglaterra e na
-França e até na mais remota Allemanha. Sem fallarmos em D. Alvaro Vaz de
-Almada, cujos serviços mereceram na Inglaterra a altissima recompensa da
-ordem da Jarreteira e do condado de Avranches, nem no infante D. Pedro, e
-em Soeiro da Costa, achamos nas guerras de França, no cêrco de Arras, por
-exemplo, cavalleiros portuguezes, cujo nome ficou desconhecido, entrando
-em combates singulares deante dos muros da praça assediada.[51] É esta
-necessidade de dar vasão a esta superabundancia de energia que leva
-D. João I, incitado por seus filhos, á expedição de Ceuta, é um povo
-n’essas disposições que o infante D. Henrique vae encontrar apto para as
-audaciosas explorações do Atlantico.
-
-Note-se: hoje ainda, depois de tantos seculos de decadencia, nós somos
-o povo da aventura. Indolentes na patria, amanhando sem enthusiasmo
-um solo uberrimo que se desentranharia em maravilhosos fructos se
-lhe dessemos francamente todo o trabalho dos nossos braços e todo
-o pensamento do nosso cerebro, discursadores declamatorios, sem
-iniciativa nem acção, mudamos completamente apenas transpomos as
-barras dos nossos rios. Apertados entre as montanhas e o mar, é nas
-montanhas que temos a nossa força de resistencia, é no mar que temos o
-nosso vigor de emprehendimento. Os nossos montanhezes intrepidos são
-ainda hoje os lidimos descendentes dos companheiros de Viriato, os
-nossos pescadores são deveras os filhos audaciosos dos marinheiros de
-Gil Eanes. Lá fóra a transformação é mais completa ainda: fizemos o
-Brazil, e estamos continuando a dar ao seu desenvolvimento os elementos
-da nossa actividade exotica; estamos fazendo a Africa portugueza, e
-os vestigios dos nossos aventureiros mercadores são encontrados com
-espanto no interior da Africa; nos Estados-Unidos temos uma colonia
-trabalhadora e autonoma que se não deixa absorver pelo povo americano;
-nas ilhas Sandwich a immigração portugueza rivalisa em importancia com
-a immigração ingleza; em Demerara constitue o fundo da população branca
-trabalhadora. A alma celtica palpita ainda hoje nos nossos peitos, como
-palpitaria então n’esse seculo XV, que foi o nosso seculo aureo, depois
-das luctas homericas de Aljubarrota, quando o povo trasbordava de vida
-e de enthusiasmo, prompto para todas as luctas, sazonado para todas as
-aventuras.
-
-A dynastia reinante reflectia perfeitamente o estado da alma popular.
-O rei era um bastardo, um filho do amor, e de um amor de D. Pedro, o
-rei mais violento e mais apaixonado que nunca se sentou n’um throno!
-O sangue borgonhez de seu pae cruzara-se com o sangue normando de sua
-esposa, e d’ahi nascera aquelle grupo admiravel de principes robustos
-e intelligentes, educados por sua mãe n’aquelle retiro sagrado das
-principescas familias medievaes, n’esses quartos forrados de tapeçarias
-de _haute-lice_, em que pareciam á noite, á luz vacillante das tochas,
-tomar vida phantastica os heroes das scenas de cavallaria traçadas
-nos pannos de raz, ouvindo os graves conselhos da mãe, pura, séria e
-heroica, embalados com a poesia das canções de gesta e com as aventuras
-dos romances de cavallaria, e, quando saíam do regaço materno, não vendo
-em torno de si senão rostos energicos de homens como seu pae, como Nuno
-Alvares, cuja vida inteira era um poema de heroismo, e que, ao viajarem
-no seu reino, dirigiam quasi sempre os passos para a campina sagrada,
-onde se estava erguendo sobre as columnatas esguias essa maravilhosa
-abobada d’onde parecem chover os altos pensamentos, e o altar-mór onde
-se accendia nas vidraças coloridas o sonho vago e radiante de uma visão
-paradisiaca.
-
-Tal era o meio onde tinham forçosamente de brotar os grandes
-emprehendimentos. Foi d’esse meio que saiu a expedição de Ceuta, que
-não bastava para satisfazer a insaciavel cubiça de aventuras d’esses
-principes, que não viam em torno de si senão homens em cuja alma as suas
-aspirações encontravam echo ou estimulo. Assim D. Pedro foi pela Europa
-fóra procurar emprego para a sua energia e para a sua cubiça de saber, D.
-Fernando devaneou desde logo o proseguimento da conquista africana, D.
-Henrique, estudioso e reflexivo, sonhou a conquista do mar.
-
-É difficil o desenho d’esta notabilissima figura. Levanta-se contra
-ella agora uma campanha de improperios, em que os adversarios parecem
-querer applicar ao juizo severo e imparcial da historia os processos das
-campanhas jornalisticas das luctas contemporaneas. Tomou parte n’esta
-campanha o sr. Theophilo Braga, e é pena que o fizesse, porque o livro em
-que essas tendencias incidentemente apparecem é um dos mais notaveis que
-se lhe devem, a _Historia da Universidade_.[52] Fez-se echo simplesmente
-comtudo da maledicencia de um d’estes eruditos, que, descobrindo um
-facto minusculo que pode attenuar a gloria de uma descoberta, ou achar
-um ponto vulneravel no vulto de um heroe, vem triumphantemente para
-a rua soltar o _Eureka_ de Archimedes, declarando _urbi et orbi_ que
-vão demolir uma reputação firmada pelos seculos. Têem odios historicos
-tão violentos estes biliosos da erudição como os podem ter contra um
-poderoso adversario os mais fanaticos jacobinos da politica moderna.
-São perigosos homens assim, e o historiador imparcial tem de afastal-os
-serenamente como afasta os insultadores contemporaneos do insultado, que
-entornam com delicias o fel das suas calumnias nas paginas que enviam á
-posteridade. Seculos depois de desapparecer da face do mundo um homem
-eminente, apparecem deturpadores vehementissimos, em cujo espirito a
-vaidade de fazerem vingar um novo pensamento historico produz tão ruins
-consequencias como as pôde produzir seculos antes o odio de um invejoso,
-o despeito de um desprezado, ou a vingança de um vencido.
-
-Era por acaso o infante D. Henrique um impeccavel? Mais ainda: era um
-vulto sympathico, affectuoso, altruista, um d’estes entes divinaes como
-o Christo, cuja doce bondade irradia na Historia, que nos captiva quando
-lêmos a sua Vida como devia captivar os que no seu tempo viveram, debaixo
-do influxo magnetico da sua meiguice, da sua amoravel candura? Não, de
-certo, e nem é esse infelizmente o caracteristico dos homens a quem se
-devem os grandes emprehendimentos. É terrivel o homem _unius libri_, diz
-o pensador antigo. Não o é menos o homem de um só pensamento e de uma só
-ambição. Bondoso, quando se trata de attrahir os outros, de os enfeitiçar
-e de os fazer escravos da sua idéa e instrumentos do seu plano;
-absolutamente despido de toda a caridade e de todo o affecto quando o
-instrumento deixa de servir, e quando o escravo pede em paga uma pouca
-de dedicação e um pouco de sacrificio. Um dos homens mais captivadores
-que tem havido foi Napoleão. Prendia, subjugava com o encanto da sua
-apparente bondade, inspirava dedicações fanaticas, mas nunca foi bom para
-os outros, nunca pensou na felicidade alheia. Entregue exclusivamente ao
-seu pensamento ambicioso, á grandeza da sua idéa gigante, absorvia-se
-todo n’ella, bastante habil para se não esquecer de captar aquelles de
-que precisava, o exercito, o povo, os principes, o Papa, as mulheres, os
-artistas, e incapaz de fazer um sacrificio a uma mulher, ou de ter dó de
-um velho! Impede isso por acaso que a historia não deixe de reconhecer a
-grandeza excepcional do seu genio e a obra maravilhosa que executou, e
-que ainda está de pé, porque a verdade é que o organismo da França é hoje
-ainda o que elle construiu, e portanto o organismo da Europa continental
-tambem que por elle se modelou?[53]
-
-Ninguem pintou melhor o infante do que o sr. Oliveira Martins no seu
-admiravel livro _Os filhos de D. João I_:[54] duro, sem bondade, asceta
-do pensamento. E, se outra coisa fosse, poderia por acaso levar por
-deante uma obra em que era indispensavel a energia, a perseverança e
-a implacavel obstinação? Sympathicos são seus tres irmãos, D. Duarte,
-D. Pedro e D. Fernando, que o coadjuvam, que o admiram, que a elle se
-sacrificam. Mas D. Henrique é um solitario, como todos os que têem a
-allucinação de uma missão divina. Todo se abraza na embriaguez do mar,
-no sonho das vagas regiões longiquas, na procura da India, d’essa India
-triplice e maravilhosa, que, depois do livro de Marco Polo, sobretudo,
-toma as proporções phantasticas de uma d’essas cavernas das _Mil e Uma
-Noites_, illuminadas pelas fulgurações das pedras preciosas, pelo fulvo
-scintillar do oiro, pela nitida brancura da prata. Essa conquista do
-mar quel-a toda para si e isso lhe lançam em rosto os seus modernos
-detractores, como os bourbonicos lançavam em rosto a Napoleão não querer
-ser logar-tenente de Luiz XVIII e os republicanos não se contentar com
-o consulado electivo—queria-o para si e para a ordem de Christo que era
-a sua guarda pretoriana. Auxilia-o D. Pedro nas suas investigações,
-traz-lhe o fructo das suas viagens, auxilia-o D. Fernando na empreza de
-Tanger, d’essa cidade maritima que elle cubiça como um ponto de partida
-mais seguro para as suas expedições navaes; mas D. Fernando encontra
-n’elle um debil auxiliar quando vem a grave questão do seu captiveiro,
-D. Pedro, um indifferente, quasi um inimigo, na terrivel contenda em que
-estão em jogo a sua vida e a sua honra; é que todas as faculdades da sua
-alma estão concentradas na sua grande empreza. Mais do que o doge de
-Veneza elle casou com a vaga atlantica. Deu-lhe todos os affectos e toda
-a pureza da sua alma, as faculdades do seu espirito. Por ella captivou
-com as suas promessas e com as suas seducções quantos estrangeiros o
-podiam ajudar na sua empreza, por ella abstrahia de todas as ambições que
-não fossem a de conquistar para si, para a historia, para a fé e para a
-sciencia um immenso imperio ultramarino. É um monge militar isolado no
-seu castello sobre o Oceano, como os primeiros mestres do Templo, seus
-antecessores, nos seus castellos da Palestina. A sua Jerusalem é a Aryn
-que elle procura ainda, talvez, no meio dos fogos da zona torrida, o
-seu Santo Sepulchro é esse mar immenso, onde se sepulta o sol, e de que
-elle affugenta, com a prôa das suas caravellas, como os Templarios os
-Sarracenos com a ponta das suas lanças, os pavores da superstição, os
-erros da sciencia e as illusões da fé.
-
-Que outros condemnem esse implacavel sonhador que fechou a sua alma aos
-affectos humanos para todo se concentrar na paixão por um ideal que a
-um tempo o illumina e o allucina! Que outros lamentem esse egoismo de
-namorado, que o torna surdo para todas as supplicas e inaccessivel a
-todas as dedicações, mas que nós Portuguezes lhe regateemos a gloria,
-e lhe amesquinhemos o caracter, e lhe neguemos a indulgencia que a
-fraca humanidade deve ter com os defeitos que acompanham fatalmente as
-grandes qualidades, quando a esse egoismo sagrado, a essa perseverança
-intransigente devemos o termos dado ao mundo a mais assombrosa conquista,
-e termos conquistado para nós uma gloria que ainda hoje illumina as
-nossas ruinas, e dá á nossa decadencia a purpura e o oiro de um pôr
-de sol explendido, isso é o que se não comprehende, e o que se pode
-considerar como uma das mais flagrantes injustiças e das mais negras
-ingratidões que podem macular um povo.
-
-
-
-
-VI
-
-Queda das barreiras da zona torrida e primeira exploração do Atlantico
-
-
-Qual era o ponto de vista do infante, quando começou a dirigir para o
-sul as expedições? Era simples: Eratosthenes déra á Africa a fórma de
-um trapezio, sendo o lado septentrional banhado pelo Mediterraneo, o
-oriental pelo Nilo, o meridional pelo mar desconhecido, o occidental pelo
-Atlantico. Este lado era o mais pequeno. Pouco abaixo do estreito de
-Gibraltar a costa voltava para SSE, e ia juntar-se com a costa oriental.
-Era esta a doutrina geralmente admittida, e assim se representa a Africa
-na maior parte dos mappas medievaes. Outros, porém, seguiam a doutrina de
-Ptolomeu que prolongou a Africa, alargando-a na base: e então imaginavam
-uma costa ficticia ao sul que ligava entre si a Africa Oriental e a
-Occidental, mas parando em todo o caso para aquem do Equador, porque a
-zona torrida era sempre considerada inhabitavel, e para além da zona
-torrida ficava, segundo a theoria de Ptolomeu, a terra antichthona.
-
-Deu isso origem a que corresse a lenda do famoso mappa trazido pelo
-infante D. Pedro de Veneza, e em que estava traçado o cabo da Boa
-Esperança, e suppõe-se tambem que o estreito de Magalhães! A confusão é
-curiosa. O mappa que deu logar a essa lenda é um mappa já posterior aos
-primeiros descobrimentos dos Portuguezes, representa a Africa terminando
-n’uma ponta a que dá o nome de cabo de Diab, mas esse cabo está separado
-do continente africano por um estreito, onde havia, dizia a legenda,
-a treva absoluta. Parecia que era esse canal a ultima reliquia, que
-procurava sobreviver ainda, do mar Tenebroso.
-
-Parecia-se esse estreito com o estreito de Magalhães, e, da mesma fórma
-que muitos confundiram a terra antichthona com a America, para lá lhe
-passaram o imaginario canal do sul da Africa.
-
-Humboldt, que tão facilmente acceita o que pode redundar em nosso
-desfavor, ao passo que regeita tudo o que possa redundar em desfavor
-de Colombo, Humboldt, que não trata de saber se a Guiné a que chegou
-Bethencourt é a Guiné que os Portuguezes descobriram depois, apesar
-de acautellar os seus leitores contra os erros que podem resultar da
-confusão de nomes identicos que se davam a regiões muito diversas,
-tambem d’esta vez, reconhecendo que os mappas de Toscanelli, onde todos
-dirão que se encontram as Antilhas descobertas por Colombo, são mappas
-perfeitamente conjecturaes, não hesita em acceitar o mappa conjectural de
-fra Mauro, em que vem o Cabo de Diab, como mappa baseado em conhecimentos
-positivos.[55]
-
-E comtudo fra Mauro nas indicações que acompanham o seu mappa, feito
-em 1454, é o primeiro a reconhecer os serviços dos Portuguezes, e a
-declarar que d’estes recebeu muitos mappas, que lhe tinham servido para a
-elaboração do seu.
-
-«Muitos pretenderam, diz elle, e grande numero escreveram que este
-mar (o _Atlantico_) não pode ser _torneado_, nem navegado, nem ter
-habitantes nas suas praias como a nossa zona temperada e habitada; _mas
-é agora de toda a evidencia que se pode sustentar uma opinião contraria,
-principalmente porque os Portuguezes que o rei de Portugal mandou a bordo
-das suas caravellas para verificarem este facto, referiram, depois de
-se terem certificado elles mesmos, que tinham explorado esse continente
-pelo espaço de mais de duas mil milhas desde o sudoeste do estreito de
-Gibraltar_, que em toda a parte os recifes da costa não são perigosos,
-que as sondas são boas, que a navegação é facil, sendo as tempestades
-mesmo pouco perigosas. Elles levantaram cartas d’estas regiões e deram
-nomes aos rios, bahias, cabos e portos. Possúo um grande numero de
-borrões ou esboços d’essas cartas».[56]
-
-Accrescenta elle, porém, _que nenhuma d’essas cartas resolvia a grande
-questão de se saber-se se podia fazer a circumnavegação da Africa_!
-
-É fra Mauro que o diz, no proprio mappa, que prova, segundo Humboldt
-imagina, que o cabo da Boa Esperança era conhecido mais de quarenta annos
-antes de Bartholomeu Dias o dobrar!
-
-Não se vê porém que a emenda conjectural nos mappas antigos é aqui
-evidente? Já estão os Portuguezes a duas mil milhas do estreito de
-Gibraltar, e a costa africana não volta bruscamente para leste. Não é
-bem natural suppor a probabilidade de terminar a Africa em ponta, visto
-que a occidental se dirige para SE, como a oriental se dirige para SO?
-Como o proprio Humboldt affirma e faz notar, depois dos descobrimentos
-os cartographos não se limitavam a inseril-os, mas accrescentavam ás
-regiões descobertas os seus complementos conjecturaes. E tanto assim
-é que, ao lado do cabo em que a sua phantasia roçou pela verdade, poz
-um estreito que não existia, que, depois de ter imaginado a Africa
-torneavel, continúa a dizer que não sabe-se se poderá tornear, e que,
-ao passo que fundamenta nas descobertas portuguezas a sua descripção da
-Africa Occidental, nada diz de quaesquer viagens que tivessem podido
-esclarecel-o ácerca da fórma que podia dar á Africa meridional!
-
-Nada ha mais estranho do que o que succede com os Portuguezes n’esta
-questão dos descobrimentos. Quando elles os fazem, toda a Europa os
-applaude, affluem a Portugal aventureiros que querem tomar parte nas
-nossas expedições, e navegar nas nossas caravelas. Ninguem se lembra de
-dizer que já sulcaram esses mares, ou que já foram a essas terras. Os
-Normandos, longe de fallarem em pretenções suas, aconselham a quem queira
-fazer expedições para esses lados que tome pilotos em Portugal, porque
-aqui os encontra sabendo bem aquellas derrotas. Os papas concedem-nos o
-dominio d’essas terras baseado nos direitos de primeiro occupante, os
-reis de França e de Hespanha, tão ciosos das suas pretenções, reconhecem
-esse direito sem a minima objecção e até castigam os seus subditos que
-tentam violal-o, os navegadores de toda a Europa, _os taes que nos tinham
-precedido_, o que fazem é tentar surrateiramente seguir-nos e apanhar aos
-nossos pilotos, comprando-os muitas vezes, os segredos da derrota, os
-cosmographos e os cartographos com os nossos viajantes mantêem relações
-seguidas, e nas suas relações e nos seus mappas se baseiam para traçar o
-que já está descoberto e para conjecturar o que não está; tão corrente é
-na Europa a historia das navegações portuguezas que, estando ainda bem
-fresca a memoria d’essas primeiras aventuras do mar, e tendo Colombo
-residido nas ilhas descobertas pelos Portuguezes, allega, quando na sua
-primeira viagem se quer guiar pelo vôo dos passaros, que foi assim que
-os Portuguezes descobriram as suas ilhas,[57] e D. Henrique chama para
-Sagres o cartographo malhorquino Jayme, e comtudo os seus escudeiros
-ufanam-se de terem descoberto o Rio do Oiro, e com elles se regosija o
-infante e se regosija o cartographo, sem que este se lembre de allegar
-que já por um seu patricio, ou por um seu parente, ou por elle mesmo,
-talvez, como chega a suppor o sr. D. Cesario Fernandez Duro, esse rio
-fôra descoberto![58] E seculos depois é que apparecem as estultas
-pretensões de se querer demolir essa gloria toda em proveito de um
-desconhecido, mas baseadas em tão frivolos argumentos que bastou que o
-visconde de Santarem passasse uma revista á cartographia da meia edade,
-ás suas chronicas, aos seus documentos, aos seus tratados e aos seus
-livros de sciencia, para que a inanidade de semelhantes affirmações se
-apresentasse com uma evidencia esmagadora!
-
-Vão pois os navegadores portuguezes caminho da India que é desde o
-principio o alvo dos seus esforços. Contam que, antes de chegar ao
-Equador, voltarão para leste, e ha uma coisa só de que n’esse momento D.
-Henrique duvida, é que o mar das Indias seja um mar mediterraneo. Se o
-acreditasse, como bem diz Humboldt, não faria a tentativa. Antes, porém,
-de se aventurarem para além do cabo Bojador, encontram Gonçalves Zarco e
-Tristão Teixeira Porto Santo e a Madeira, Gonçalo Velho Cabral os Açores.
-
-Muitas vezes os pescadores portuguezes poderiam ter encontrado algumas
-d’essas ilhas, e possivel era tambem que os nossos navios commandados
-pelos pilotos genovezes que D. Diniz chamára a Portugal, tivessem
-arribado a esses archipelagos. Eu mesmo já acceitei um pouco essas
-doutrinas sustentadas por Major, e a que dava certa apparencia de verdade
-o modo como Azurara conta o descobrimento. Fil-o, porém, antes de ter
-estudado mais profundamente a cartographia da meia edade, antes de ter
-visto como esses cartographos conheciam os phantasticos archipelagos do
-Oceano Atlantico, e fixavam nos seus mappas as ilhas de S. Brandão, da
-Antilia, das Almas, do Purgatorio, sonhadas pela imaginação celtica dos
-povos occidentaes da Europa. Não navegaram os Portuguezes n’um Oceano que
-imaginavam deserto, mas sim n’um Oceano onde as ilhas pullulavam. Quando
-a alguma chegavam, não suppunham tel-a descoberto, mas tel-a simplesmente
-encontrado. Depois de terem descoberto todas, ainda continuaram a
-procural-as, e hoje mesmo ainda na Madeira se suppõe que a ilha das Sete
-Cidades se tem conservado escondida, longe das estradas maritimas, por
-traz de alguma dobra do ainda mysterioso Oceano.
-
-Essa ingenuidade portugueza, que serviu depois para os seus detractores,
-manifesta-se tambem na exploração das costas africanas. Nenhum navegador
-suppõe que chega a terra desconhecida. Todos imaginam que não fazem senão
-encontrar terras cuja existencia não era ignorada pela sapientissima
-antiguidade. Os nomes de Ptolomeu, de Strabão, de Eratosthenes, de
-Plinio, de Pomponio Mela e de Solino continuam a ser nomes oraculares
-para aquelles que estão demolindo o castello de cartas da sua vã e
-ephemera sciencia. Marco Polo está sendo tambem um dos seus idolos.
-Chegando ao Senegal julgam ter encontrado o Nilo dos Negros, porque estão
-ainda convencidos da verdade da velha doutrina, que separa o Nilo em
-dois grandes braços, um dos quaes se dirige para o Atlantico e o outro
-para o Mediterraneo. O que os espanta e ao mesmo tempo os exalta é o não
-encontrarem monstros, as ondas tenebrosas, os montes ardentes, toda a
-guarda avançada da implacavel zona torrida. Para que primeiro arcassem
-com esses receios foi necessaria toda a energia do infante D. Henrique,
-mas a pouco e pouco foram-se familiarisando com esses mares que tão
-terriveis se suppunham anteriormente, e eram elles que davam a fra Mauro
-as informações tranquillisadoras que elle insere nas annotações ao seu
-planispherio.
-
-No ponto de vista em que nós nos collocamos, e que suppomos ser
-absolutamente verdadeiro, quer dizer desde o momento que sustentamos que
-o serviço immorredouro que Portugal prestou á civilisação e á sciencia
-foi o ter demolido a noção consagrada da zona torrida inhabitavel, e
-que a prova de sobre-humana audacia que os Portuguezes déram foi a de
-transpor sem hesitação os limites d’essa zona torrida, percebe-se que
-nos seria completamente indifferente que se provasse que navegadores
-estrangeiros tinham precedido os nossos nos mares que ficam para além
-do Bojador. Isso não faria senão levar um pouco mais adeante o ponto de
-partida das expedições portuguezas indubitavelmente gloriosissimas, e
-cuja honra Humboldt confessa que nos cabe sem contestação, as expedições
-á região equatorial.[59] Mas a verdade irrefragavel é que esse limite,
-que os Portuguezes transpozeram, foi sem duvida alguma o cabo Bojador.
-Como Humboldt nota, com perfeita razão, o horizonte geographico vae-se
-alargando a pouco e pouco, e a verdade é que, uma vez ampliado, não se
-estreita de novo. Para o lado do occidente os primeiros limites foram
-os do mar Egeu, depois o do meridiano das Syrtes, depois o das columnas
-de Hercules, depois para o norte o extremo meridiano da Europa, para o
-sul o da costa africana.[60] Vemos que a mansão da felicidade suprema
-acompanhou a ampliação d’esse horizonte, primeiro no Oasis do Egypto,
-depois na Cyrenaica, depois na costa africana, a pequena distancia das
-columnas de Hercules, depois nas Canarias. Não ha saltos n’este progresso
-forçosamente methodico. Logo que se transpõe um limite maritimo a
-navegação prosegue.
-
-Para o sul o cabo Não foi por muito tempo o limite, depois o Bojador.
-Transpoz-se esse limite em 1433? logo affluiram a Portugal estrangeiros
-curiosos d’essa novidade, e logo D. Henrique tratou de se assegurar
-da posse das terras que vae descobrir. Depois da expedição de Antão
-Gonçalves e de Nuno Tristão em 1441, vão embaixadores portuguezes ao papa
-Eugenio IV a pedir-lhe as bullas necessarias, e já com Antão Gonçalves na
-viagem immediata vae o allemão Balthazar, que vem da côrte do imperador
-Frederico III correr estas novas aventuras.[61] E comtudo desde 1415 se
-empenhava o infante em explorações maritimas, sem que reclamasse do Papa
-quaesquer concessões, sem que os estrangeiros se interessassem por essas
-tentativas infructiferas. Tudo muda de 1433 por deante. Porque? porque se
-rompera evidentemente mais uma das barreiras que tinham successivamente
-detido a marcha da humanidade, porque se tinham transposto mais algumas
-das columnas que formavam o portico do mundo sobre o desconhecido,
-columnas de Briareu primeiro, columnas de Hercules depois, estatuas das
-ilhas Khalidat dos Arabes, emfim.
-
-Em 1436 chegou Affonso Gonçalves Baldaya ao Rio do Ouro, ou o que elle
-suppunha que era um rio, e que não era afinal senão um braço de mar,
-e, dando-lhe esse nome, conformou-se mais uma vez com o respeito pela
-tradição antiga, que affirmava que para o lado das ilhas Afortunadas,
-como dizia Pindaro nas suas Olympiadas, rios que conduziam ouro entravam
-no Oceano.[62] Assim os Arabes davam o nome de rio do Ouro a muitos,
-situados muito áquem do cabo Bojador, assim os Catalães chamavam rio
-do Ouro a um rio que encontravam para além do cabo Não e proximo das
-Canarias, tanto que no proprio mappa em que se affirma que Jayme
-Ferrer procurara o rio do Ouro, o traçado da costa não vae além do
-cabo Bojador.[63] Podia haver mais evidente prova de que o Rio do Ouro
-catalão não é o Rio do Ouro portuguez? Não fallemos sequer em que o Rio
-do Ouro de Jayme Ferrer é, como o descreve o manuscripto de Genova, com
-que se pretende dar authenticidade ao facto,[64] um rio largo em que
-podem fundear náus potentes, emquanto o Rio do Ouro de Affonso Gonçalves
-Baldaya nem rio é sequer, e n’elle, segundo affirma o almirante Roussin
-que o estudou hydrographicamente, só canôas podem entrar.[65] Basta
-vermos que os mappas em que se baseia a pretenção, param no Bojador, como
-no Bojador pararam os navegantes a quem depois se quiz attribuir a gloria
-de o ter transposto.
-
-Em 1441 descobria Nuno Tristão o cabo Branco, em 1443 os ilheus de
-Arguim, em 1445 acabava-se de descobrir a costa do Sahará e entrava-se
-na costa da Senegambia, e n’este meio tempo entravam já em Portugal com
-abundancia os escravos africanos.
-
-Nodoa é esta com que se pretende manchar a gloria dos nossos
-descobrimentos, como se n’essa epocha em que os proprios brancos ainda
-tinham, pode dizer-se, roxos os pulsos dos grilhões com que lh’os
-algemára a servidão da gleba, n’essa epocha em que tinham escravos os
-proprios mosteiros e as egrejas, se podesse ter ácerca da liberdade do
-homem as idéas largas que, só uns poucos de seculos depois, e a muito
-custo, se implantaram na legislação dos paizes mais cultos. E é curioso
-que sabios escriptores accusem o infante de ter sido o responsavel pela
-escravatura negra, como se não fosse tão facil ás virtuosas nações, cujo
-credito elles defendem, eximir-se a seguir tão mau exemplo! como se ao
-Papa, que representava a suprema lei moral da sociedade de então, não
-coubesse o dever de conceder as terras, mas de prohibir os escravos!
-como se não fosse evidente que o mesmo faria qualquer nação que nos
-precedesse, e que o facto de não apparecerem escravos pretos na Normandia
-no seculo XIV é mais uma prova contra as suas pretenções! E comtudo
-a prioridade na escravisação das populações africanas essa é que os
-Normandos podem reclamar sem contestação, porque, bastantes annos antes
-de se venderem nas praças de Lagos os escravos da costa africana, já o
-normando João de Bethencourt, rei das ilhas Canarias, vendêra na Hespanha
-os seus subditos.[66]
-
-Mas o que dominava sobretudo no espirito de D. Henrique era a anciedade
-da investigação scientifica e o ardor pela conquista dos grandes ideaes
-religiosos da meia edade, e é isso o que faz com que o espirito do
-infante só encontre depois na historia dos descobrimentos outro que
-com elle se irmane—o de Christovam Colombo. Essa allucinação em que
-ambos vivem é que os torna proprios para emprezas, que só com grande
-perseverança se podem realizar, e essa perseverança só a encontra quem
-tem um enthusiasmo absolutamente exclusivo. Quaes são as instrucções que
-levam sempre os capitães dos navios de D. Henrique? Procurar identificar
-os rios que descobrem com o Nilo dos Negros, que a geographia systematica
-dos antigos considerava como um braço do grande rio egypcio que vinha
-desemboccar no Atlantico. Julgam encontral-o ao ter chegado ao Senegal
-como depois o imaginam ainda no Niger, e talvez no Zaire tambem. E
-tão absortos estiveram por muito tempo os Portuguezes no seu respeito
-cego pelo saber da antiguidade, que ainda foi um piloto portuguez no
-seculo XVI que procurou commentar e explicar o Periplo de Hannon, sendo
-o seu commentario na Italia de todos o mais apreciado.[67] No proprio
-momento em que podiam justamente ufanar-se de sulcar mares nunca d’antes
-navegados, ainda se escondiam modestamente por traz da sombra de Hannon,
-o legendario navegador, que, tendo chegado a algumas leguas do estreito
-de Gibraltar, imaginou logo ter percorrido um immenso espaço de agua![68]
-
-O outro desejo ardente do infante D. Henrique era encontrar as terras do
-Prestes João, esse mytho medieval que tomou mil fórmas, apparecia nas
-mais variadas terras, até que, ao condensar-se na realidade prosaica,
-appareceu transformado n’aquelle pobre _negus_ da Abyssinia, symbolo
-curioso da dissolução dos mythos, que no periodo poetico da humanidade se
-revestem dos mais extraordinarios esplendores, e que nos frios annos da
-prosa se reduzem ás mais chatas personalidades.
-
-O Prestes João fôra a prolongação pela edade média da lenda da primitiva
-Egreja Oriental, que déra ao apostolo João, ao discipulo amado, ao
-evangelista mais querido da imaginação popular, a perpetuidade da
-existencia. Não acceitou a Egreja a lenda, mas ella permaneceu no
-Oriente, modificada, fluctuante, desdobrando-se o personagem que é seu
-protoganista, no apostolo e no presbytero.[69] Talvez porque n’uma das
-epistolas, conhecidas pelo nome de João, o apostolo, por esse nome se
-designa este _presbytero João_, que toma em parte o caracter do apostolo,
-em parte o caracter de um discipulo do apostolo, torna-se, por assim
-dizer, a gloria e o tormento da Egreja de Epheso; a gloria, porque essa
-Egreja se ufana de lhe pertencer o personagem privilegiado que herdou do
-venerado Mestre o amor e a predilecção do céu; o tormento, porque esse
-personagem é vago, confuso, indefinido, mal visto pela Egreja em geral, e
-fonte de possiveis heresias.
-
-Mas entretanto corria a edade média com a sua louca anciedade
-pelo advento de um mundo melhor. Não se cumpriam as promessas do
-christianismo. Não chegára o reinado da justiça. Na terra atormentada
-por mil flagellos arrastava o homem uma existencia atribulada, calcado
-aos pés pelos poderosos, faminto, presa a cada instante da peste e da
-guerra implacavel e atroz. Não chegára a era millenaria, a era sublime
-em que Jesus voltaria, e em que, rodeiado dos seus martyres, como de
-uma legião sagrada da fé e do bem, reinaria sobre a terra até que ella
-desapparecesse subvertida no cataclysmo final.
-
-O que nascia, pelo contrario, era a crença desanimadora ao anno Mil,
-annunciado como o anno em que o mundo acabaria sem ter tido a consolação
-suprema de vêr o reinado do Bem; mas o anno Mil passou sem trazer comsigo
-o cataclysmo esperado. Seria afinal verdadeira a promessa do reino
-millenario, do reino dos martyres, que o Apocalypse de João annunciou?
-E a idéa d’aquelle Presbytero João, que vive a sua longa existencia nos
-páramos do Oriente, testemunha millenaria do grande acto da Paixão,
-fluctúa no animo dos povos. Não será em torno d’elle que se agruparão
-os bons, os martyres, os fieis, e não será nas suas terras que estará
-irradiando uma perpetua aurora, tranquilla, suave, toda misericordia e
-paz, emquanto cá pelo Occidente parece que o sol se afoga todos os dias
-n’um occaso sanguineo, n’um horizonte perpetuamente em braza, entre os
-clamores dos miserandos que teem sêde de justiça e o tinir das espadas
-gottejantes de sangue, o crepitar das chammas dos incendios e o rugido
-dos mares e as gargalhadas da impiedade? E lá no Oriente, onde existe o
-Paraizo, começa-se a devanear tambem a existencia de outro Paraizo mais
-accessivel ao homem, se é que se não confundem n’um só Paraizo aquelle
-de que o homem foi expulso, e o outro em que o homem ha de entrar, quando
-lhe franquear a entrada o guarda a quem o confiaram Christo e o discipulo
-amado.
-
-Essa lenda vaga, ou antes essa incerta aspiração, concretisou-se n’uma
-d’essas obras anonymas em que o sentimento popular se manifesta, em que
-os devaneios da sua alma são encorpados, desenvolvidos e ordenados por
-um trovador ignorado, por um narrador mysterioso, que é afinal de contas
-quem produz verdadeiramente a obra popular, que depois muitas vezes um
-grande poeta aproveita para uma obra immortal. Assim se formou a lenda do
-Prestes João com o seu reino de maravilhas, a do Judeu errante, a do dr.
-Fausto, a de D. João Tenorio, e a de mil outros, que não tiveram outro
-berço senão a redacção humilde e vulgar de um pobre sonhador ignorado,
-que desapparece entre o povo, a quem se attribue a gloria da concepção,
-e a obra do grande poeta que deu á lenda a fórma definitiva e litteraria
-que a tornou immortal. O modo como esta lenda se formulou foi na redacção
-de uma carta dirigida pelo Prestes João ao imperador de Roma e ao rei de
-França e em que lhes contava as maravilhas do seu reino, onde os homens
-viviam annos quasi infinitos, onde havia maravilhosas riquezas, onde os
-animaes e as plantas tinham um tamanho descommunal, e onde reinava a
-paz e a justiça.[70] O que deu origem talvez á carta, ou o que chamou
-para esse vago personagem do _Presbyter Johannes_ ou _Prestre Jean_ ou
-_Prestes João_ a attenção dos povos occidentaes, foi a vinda a Roma[71]
-de um estranho personagem, que se dizia patriarcha das Indias, que da
-Asia vinha effectivamente, e que dava noticia da existencia n’essas
-remotas partes, ou na verdadeira India, ou na propria Tartaria, de
-christãos convertidos por S. Thomé o apostolo, e que eram evidentemente
-christãos da heresia nestoriana, christãos dos ritos syriacos, sacudidos
-da Egreja Catholica, mas possuindo aquella tenacidade de resistencia,
-que faz com que ainda hoje, em pleno regimen papal e catholico, tenham
-na India os seus prelados e mantenham os seus ritos estes christãos
-primitivos.[72]
-
-Assim parece effectivamente que devia ser: porque na carta do Prestes
-João diz-se que «cada anno, _quando S. Thomé vinha prégar a quaresma no
-seu reino_, elle fazia uma peregrinação ao tumulo do propheta Daniel,
-com dez mil clerigos, outros tantos cavalleiros e duzentos elephantes,
-que levam, não torres, mas castellos, para exorcismarem e combaterem os
-dragões que espreitam a caravana na passagem».[73] A lenda do Prestes
-João localisou-se por conseguinte na India, não, como seria natural, na
-India verdadeira, mas na India ultima, quer dizer, no extremo Oriente
-da Asia, onde todas as lendas se refugiavam, a India que ficava para
-além dos limites das conquistas de Alexandre, e onde o proprio heroe
-toma tambem um aspecto legendario, como se lhe bastasse tocar n’uma
-região nevoenta para que o seu proprio vulto em nevoas se envolvesse.
-Alexandre, já o dissemos, foi para a Europa medieval, como Virgilio, um
-ente sobrenatural, meio pagão e meio christianisado posthumamente, meio
-feiticeiro e meio conquistador. É elle, como dissemos tambem, que encerra
-os povos de Gog e de Magog por traz da famosa muralha, é elle que na sua
-carta a sua mãe Olympias, carta não menos apocrypha, é claro, do que a
-do Prestes João, lhe diz que encontrou a arvore do sol e a arvore da
-lua, e que lhes ouviu os oraculos.[74] É para além do Ganges tambem que
-os geographos da meia edade imaginaram povos que se sustentam só com o
-aroma das flores, lenda que vamos ainda encontrar em Camões. É no extremo
-Oriente que está o Paraizo, e junto do Paraizo, note-se bem, o antro em
-que S. Macario se escondeu para viver immerso em prece, depois de ter
-tentado debalde penetrar na morada dos nossos primeiros avós, e foi ahi
-que o encontraram _um seculo depois_, e sempre orando, tres monges gregos
-que tinham ido a essas longinquas partes do mundo para tentarem tambem
-ver o Paraizo de perto.[75] Avisados pelo exemplo de S. Macario, voltaram
-os tres monges para traz, mas S. Macario lá ficou orando e atravessando,
-absorto na prece, os seculos sem fim.
-
-Vê-se pois que aquelles ares do Paraizo espalhavam ainda nos seus
-arredores umas fragrancias divinas. Parecia que da eternidade promettida
-a Adão e Eva tinham ficado uns resquicios para os que do Paraizo se
-approximassem; era para alli portanto que a imaginação popular levaria o
-reino paradisiaco do Prestes João.
-
-Mas as viagens de Marco Polo vieram dar uma nova physionomia ao mytho
-do Prestes João, approximando-o da realidade, tornando-o um personagem
-curioso, mas não rodeiado d’aquelle immenso prestigio anterior. Ou
-porque effectivamente, como sustenta o grande sinologo Pauthier, elle
-encontrasse christãos nestorianos na Tartaria, na provincia a que Marco
-Polo chama Tanduc, que Pauthier identifica com a provincia chineza de
-Ta-Thung, e esse facto explica-o Pauthier pela entrada de nestorianos
-persas na Mongolia ou no Thibet, onde teriam feito conversões, e onde
-effectivamente o soberano chinez lhes permittiu que erigissem um templo,
-ou porque, como sustentava Stanislas Julien, outro sinologo tambem
-notavel, Marco Polo tivesse confundido com christãos os budhistas que
-nas regiões que elle atravessava tinham uma das mais importantes sédes
-da sua religião, e que ao ver a theocracia do Grão-Lama o imaginasse um
-padre-rei christão, e o Prestes João por conseguinte, é certo que elle
-declara ter encontrado christãos regidos por um padre, que descendia em
-linha recta do Prestes João, que era o seu sexto descendente e que se
-chamava Jorge.[76] D’elle diz João de Monte-Corvino que o conheceu e o
-converteu á fé catholica, e Rubruquis tambem declara que na Tartaria
-encontrou nestorianos que viviam debaixo das leis do Prestes João.
-
-Embora tudo o que se narrava nos livros de Marco Polo estivesse envolvido
-nos véos do maravilhoso, é certo que esta semi-realisação do _Presbyter
-Johannes_ estava longe de corresponder ao ideal que d’elle se formára.
-O personagem legendario não encontrava positivamente n’um descendente
-chamado Jorge, subdito do Grão-Khan e chefe de uma especie de tribu
-nestoriana, uma encarnação satisfatoria. Continuou portanto a fluctuar
-por todo o Oriente, e, como de certo havia noticia vaga da existencia de
-um povo christão para os lados da Ethiopia, foi para esse lado que se
-transferiu a localisação da lenda, pois que a India, na edade média, como
-dissemos, abrangia, pode-se dizer, toda a Asia, parte da Ethiopia, e a
-indeterminação da residencia do rei legendario caracterisava-se bem com a
-denominação que se lhe dava de Prestes João _das Indias_.
-
-Não se imagine portanto que é simplesmente um rei christão perdido no
-meio da onda musulmana e do paganismo que se procura, o que se procura
-é o reino maravilhoso das lendas millenarias, é a terra estranha onde
-tudo floresce com extraordinario viço, onde o oiro, a prata e as pedras
-preciosas fulguram por todos os lados, onde se vive como que n’um
-antecipado Paraizo. Procuram-n’o logo na Africa, ao pé de Marrocos,[77]
-e não havia n’isso contradicção com o nome que se lhe conservava de
-Prestes João das Indias, porque, segundo a antiga geographia systematica,
-podia bem ser que a Ethiopia se ligasse com a Asia, e que já n’essas
-terras ainda proximas de Marrocos principiasse o reino maravilhoso do
-Prestes João.
-
-É essa anciosa curiosidade que domina no espirito dos Portuguezes, é ella
-que os arroja aos grandes feitos, ás pertinazes investigações. Como das
-investigações astrologicas com as quaes se procurava ler nas conjuncções
-dos astros o segredo dos destinos humanos saía a astronomia, como nas
-locubrações dos alchimistas se foram desvendando os segredos da chimica,
-assim na procura ardente do reino do Prestes João se foi desvendando,
-por tantos seculos escondido, o segredo da geographia africana, o da
-sua fauna, da sua flora e da sua ethnologia. Logo n’uma das primeiras
-viagens um audacioso portuguez, João Fernandes, se internou no sertão
-africano, e por lá andou mezes inteiros, convivendo com os indigenas,
-aprendendo a sua lingua, estudando os seus costumes.[78] Devia-lhe ter
-corrido um calafrio nas veias quando abandonou os seus companheiros para
-se immergir no desconhecido. Ia encontrar talvez os povos monstruosos da
-tradição scientifica, os troglodytas, os himantopodas, os virgocosgigs,
-e ao lado d’elles os dragões de terrivel aspecto e o basilisco de halito
-pestifero, passeiando pelos mattos meio inflammados a sua estranha
-corôa de horrifico soberano. Era perfeitamente um cavalleiro andante
-que se arrojava a um mundo encantado, como esses heroes de novellas de
-cavallaria que ousavam emprehender as mais incomprehensiveis façanhas.
-Mas tudo elle ousava para conseguir chegar emfim ás terras paradisiacas
-em que o Prestes João reinava, e, quando elle voltou, depois de longos
-mezes, não trazia noticias nem de monstros horrendos, nem de reinos
-maravilhosos, mas trazia, o que valia mais que tudo isso, o conhecimento
-exacto da Africa interior, a revelação para a sciencia de um mundo
-ignorado, de arvores soberbas, que não eram a phantastica _mandragora_,
-mas o baobah agigantado e verdadeiro. Supprimia a flora sobrenatural,
-mas ampliava os dominios da flora verdadeira; acabava com a fauna
-phantastica, mas alargava os dominios da zoologia verdadeiramente
-scientifica. E, da mesma fórma que os alchimistas, ao procurarem nas
-suas longas vigilias a pedra philosophal, encontravam o segredo das
-combinações chimicas, assim estes audazes alchimistas do Oceano, ao
-procurarem o Prestes João, que era a pedra philosophal dos sonhos
-geographicos da meia idade, encontravam um mundo inteiro, que valeu mais
-para a riqueza scientifica e para a opulencia do commercio do que todos
-os reinos fabulosos banhados por phantasticos Pactolos e scintillantes de
-oiro e de pedraria.
-
-Quando o infante D. Henrique morreu, já os Portuguezes tinham conhecido
-o cabo Branco e o cabo Roxo, e o cabo Verde e as ilhas que d’este cabo
-tomaram o nome, e os rios Senegal e o Gambia e o Casamansa. Os terrores
-da zona torrida tinham desapparecido, posto que se não tivesse chegado
-ainda ao Equador, mas era evidente já que o mundo não alterava o seu
-aspecto com a approximação da equinoxial, e que os monstros não existiam
-senão na imaginação dos geographos, que se não encontrava senão a
-variante negra da raça humana, e que os novos passaros que appareciam,
-depois classificados pelos zoologos como _remora_, _phenicoptero_,
-_bucerus_ _africano_ ou _pristis_, enriqueciam as collecções
-ornithologicas, mas não a teratologia. E estas conquistas positivas
-deviam-se ao enthusiasmo e á sede do ideal. Nada se faz grande no mundo
-sem esse grão de loucura, que desequilibra um pouco o genio dos grandes
-poetas e dos grandes descobridores. A pedra philosophal transmuda deveras
-o cobre vil em oiro, porque é ella, como symbolo de todos os ideaes
-phantasticos, que faz da quebradiça argila de que se formou o homem o
-bronze em que se fundem os ousados pensamentos, que transforma no oiro
-das grandes almas o minerio banal dos espiritos vulgares.
-
-E era exactamente o que havia de estranho e de louco nas expedições
-portuguezas que chamou para aqui os aventureiros e os ousados. Os
-Venezianos como Cadamosto, os Genovezes como Usodimare, vem aqui
-buscar simplesmente emprego para a sua actividade de marinheiros; os
-Malhorquinos como Jayme de Malhorca vem para um centro de actividade
-scientifica, mas esse Valarte que vem do fundo do Norte, das remotas
-regiões da Suecia, vem em demanda do ideal, esse loiro Scandinavo, que
-traz no olhar o azul dos seus lagos e no rosto a candidez das suas neves,
-vem procurar a estas regiões de aventura a barca dos cysnes dos Eddas
-que o ha de levar atravez dos mares da lenda ás regiões dos sonhos. Para
-esses e para muitos outros Portuguezes, como o velho Soeiro da Costa,
-como esse Alvaro de Freitas que tanto acaricia a idéa de ver de perto
-o Paraizo terreal,[79] é um romance de cavallaria que se está pondo em
-acção na patria de _Amadis de Gaula_. São os Templarios resuscitados
-que investem com o mar como os Templarios antigos com as ondas dos
-sarracenos, e o manto branco da ordem de Christo que fluctua ao sopro do
-vento, e a bandeira com a cruz vermelha que palpita na popa das caravelas
-com os bafejos do Oceano são os ultimos symbolos d’esse idealismo da
-idade média cavalheiresca que vae dissolver-se na epocha burgueza que
-já apparece no horizonte dos tempos. E esse rijo cavalleiro, ascetico,
-tenaz, que do alto do promontorio de Sagres lança os seus legionarios á
-conquista do desconhecido, ao cair prostrado pela morte, sem ter ainda
-encontrado o edeal que lhe absorvera a existencia, desapparece da scena
-do mundo, deixando resolvido um dos grandes problemas da existencia
-humana na terra, no mesmo momento em que outro cavalleiro andante, esse
-deveras o ultimo, Christovão Colombo, o Genovez, já vagueia, sonhador e
-pensativo, nas praias do Mediterraneo, escutando esse rumor de gloria e
-de aventura que vem do Occidente, e revolvendo na imaginação juvenil a
-solução de outro problema geographico, que ainda ficava em aberto, e que
-ia dar ao homem emfim a Terra inteira por dominio.
-
-
-
-
-VII
-
-Preludios açorianos e madeirenses do descobrimento da America
-
-
-Emquanto os Portuguezes proseguiam intrepidamente para o sul no caminho
-da zona torrida o que se fazia para o Occidente? Era possivel, era
-natural, que a descoberta do Porto Santo, da Madeira e dos Açores
-satisfizesse completamente a curiosidade portugueza? Os que defendem as
-duas versões ácerca do descobrimento dos dois archipelagos commettem
-uns e outros um erro capital; uns suppondo que os Portuguezes não
-os encontraram senão porque antes d’elles lá tinham aportado outros
-navegadores, de cujas informações os nossos se aproveitaram, os outros
-imaginando que antes das descobertas portuguezas se considerava como
-completamente vasia de ilhas a vasta extensão do Atlantico. Descobertas
-positivas não as podia ter havido, porque ás terras que podessem ter-se
-descoberto aconteceria o que succedeu ás Canarias, que logo foram
-cubiçadas e disputadas. O que havia era o sonho celtico das ilhas
-mysteriosas no seio do Atlantico, e em busca d’esse sonho quantos navios
-teriam corrido, sem que das suas tripulações voltasse ás costas européas
-nem sequer o cadaver do cão da frota legendaria de Brékan. Mas essas
-ilhas phantásticas estavam profundamente radicadas no animo dos homens
-da edade média, e a ilha de S. Brandam tinha para elles existencia tão
-real como o reino mysterioso do Prestes João. Ah! quem a encontrasse,
-quem arribasse a uma ilha qualquer no meio da vastidão dos mares, como
-voltaria contente e triumphante do seu achado, doido de alegria por ter
-conseguido emfim fixar n’um ponto do Oceano alguma d’essas ilhas que
-fluctuavam no mar da lenda, filhas da miragem do mar como da miragem do
-sonho; ilhas phantasticas como o navio phantasma da lenda hollandeza, que
-todos suppunham avistar ao longe, recortando na tela de oiro e purpura do
-horizonte o fino perfil das suas arvores, ou a ondulosa curva das suas
-montanhas!
-
-Deserto o Oceano? Não. Estava povoado, pelo contrario, de muito mais
-ilhas do que as que se encontraram! E quando o infante D. Henrique mandou
-os seus navegantes procural-as, é porque tinha a convicção profunda de
-que existiam, e os seus audazes marinheiros o que julgavam era seguir o
-sulco espumoso do barco do santo irlandez, como quando seguiam, segundo
-a phrase de Colombo, o vôo das aves que os conduziam a terra, cuidavam
-seguir talvez, alados mensageiros celestes que os conduziam ás ilhas de
-promissão, ou pelo contrario demonios encarnados em passaros, que os
-arrastavam ás ilhas infernaes.
-
-Os que trazem com ufania, como uma conquista para a historia, a lenda da
-ilha da Madeira descoberta antes de Zarco, ou a dos Açores antes de Velho
-Cabral, partem da errada supposição de que esses ignotos descobridores
-deram grande novidade aos Portuguezes dizendo-lhes que havia ilhas no
-Oceano! Bem convencidos estavam d’isso, mas a questão era encontral-as.
-Feliz o paiz que as descobrisse! Não as largava facilmente! A posse
-tranquilla e indisputada da Madeira e dos Açores prova bem que ninguem
-punha em duvida o direito de prioridade que os Portuguezes se arrogavam.
-
-O que faziam porém os colonos d’essas novas ilhas, tudo gente marinheira
-e aventurosa, que não ficava socegada no pequeno pedaço de terra em que
-se achava confinada? N’elles se condensava, pela sua posição especial,
-pelo espirito mais aventuroso que a essas ilhas os levou, a tendencia
-emigrante dos Portuguezes. Não é essa tendencia a que ainda hoje
-domina nos habitantes d’essas ilhas? Não foram sempre os Madeirenses e
-os Açorianos os que predominaram na colonisação portugueza? Não foram
-elles, sobretudo, que fizeram o Brazil colonial? Não são os Açorianos
-quasi exclusivamente os Portuguezes que vamos encontrar na America do
-Norte, em Boston, e até na California, e, o que é mais estranho ainda, á
-beira da rede dos lagos que separam os Estados Unidos do Canadá, sendo
-tão numerosa a colonia portugueza de Erié, que alli se publica um jornal
-portuguez, chamado o _Erié_ tambem? Não são os Madeirenses que nós
-vamos encontrar em Demerara, nas ilhas Sandwich, e que estão formando,
-em Angola, o nucleo das colonias do plan’alto de Mossamedes? E se isto
-acontece hoje, no nosso periodo de decadencia, de repouso, quando esse
-instincto emigrante é perfeitamente atavico—não era bem natural que
-acontecesse de um modo muito mais independente n’esse periodo de vigor e
-de febre descobridora, e quando os que habitavam a Madeira e os Açores
-não eram os que lá tinham nascido, mas sim os proprios que as tinham
-descoberto, ou os que primeiro, idos de Portugal, as tinham colonisado?
-
-Na descoberta africana logo encontramos os Madeirenses. Entre os
-mais audaciosos descobridores conta-se Alvaro Fernandes, sobrinho de
-João Gonçalves Zarco, e com elle o seu companheiro de seu tio no
-descobrimento do archipelago, Tristão Vaz Teixeira.[80]
-
-E acabemos por uma vez com a accusação que se nos fez de que nos
-limitámos a uma navegação costeira, e de que receiavamos sair para o mar
-alto! Como se pode dizer isso de um povo, cujos primeiros descobrimentos
-exactamente no mar alto é que se fazem, cujos _coups d’essai_ são as
-viagens em que encontram a Madeira e sobretudo os Açores, cercados de um
-mar tempestuoso e terrivel, ainda hoje considerado como o de mais aspera
-educação para o marinheiro, e que estão mais avançados para o occidente
-do que a propria Islandia, essa _ultima Thule_, onde parou por tanto
-tempo amedrontada a navegação antiga?
-
-Mas, percebe-se bem que, desde o momento que o fito das viagens
-portuguezas era chegar á India torneando a Africa, desde o momento que a
-geographia systematica dos antigos lhes dizia que logo abaixo de Marrocos
-principiava a Ethiopia, e que a costa logo fazia uma inflexão para léste;
-era essa volta da costa que elles sobretudo procuravam encontrar, e
-decerto não a encontravam abandonando a costa. E, comtudo, quantas vezes,
-fatigados d’essa investigação inutil, soltavam os nossos navegadores
-as velas ás brizas do Oceano, e percorriam de um vôo um grande espaço,
-chegando a um ponto muito adiantado da Africa e tendo depois de voltar
-atraz para explorar miudamente o trato de costa que tinham deixado em
-branco![81]
-
-Navegadores do seculo XV não podiam positivamente achar-se confinados nos
-estreitos limites de umas ilhas perdidas no meio do Oceano, sem terem a
-tentação irresistivel de sondar esse mar mysterioso, sobretudo quando a
-lenda confirmada pela sciencia conjectural d’esse tempo lhes fallava de
-ilhas maravilhosas a que não tinham chegado ainda, e quando as vagas do
-Oceano lhes traziam a cada instante a prova evidentissima de que para
-além d’esse horizonte branqueado pela espuma das vagas distantes, havia
-terras, terras habitadas, terras cobertas de vegetação. Sobretudo nos
-Açores os documentos multiplicavam-se e as tentações eram mais fortes. As
-ilhas não se apinhavam n’um só grupo como Madeira e Porto Santo. Havia
-ilhas destacadas como as vedetas d’essa guarda avançada da civilisação
-europea. Ainda se perceberia que taes tentativas se não fizessem, se
-não se houvesse chegado á ilha das Flores e á ilha do Corvo. Podia-se
-comprehender então que, satisfeitos com as ilhas paradisiacas que tinham
-encontrado, como a deleitosa S. Miguel, ou a fertilissima Terceira, se
-tivessem deixado ficar n’um ocio de Capua, sentimento aliás bem pouco
-natural em açorianos, e em açorianos d’esse tempo. Mas a descoberta do
-Corvo e da ilha das Flores mostram claramente que se não acalmára a sua
-irrequieta actividade, e que o Oceano continuava a ser sondado por esses
-audazes marinheiros, que são hoje accusados de não ousarem arriscar-se ás
-aventuras do alto mar!
-
-«A Islandia, os Açores, e as Canarias, diz Humboldt, são os pontos de
-paragem que mais importante papel representaram na historia d’estas
-descobertas e da civilisação, quer dizer na série dos meios que os povos
-do Occidente empregaram para estender a esphera da sua actividade e
-para entrar em relação com as partes do mundo que lhes tinham ficado
-desconhecidas.» Em nota accrescenta Humboldt: «Ha da extremidade
-septentrional da Escocia á Islandia 162 leguas marinhas; da Islandia
-á extremidade sudoeste da Groenlandia 240 leguas; d’esta extremidade
-ás costas do Lavrador 140 leguas; á embocadura do S. Lourenço 260;
-da Islandia directamente ao Lavrador 380 leguas. _Ha de Portugal
-(embocadura do Tejo) aos Açores (S. Miguel) 247 leguas_; dos Açores
-(Corvo) á Nova Escocia 412 leguas!»[82] É isto o que explica de um
-modo bem positivo como foi que os intrépidos marinheiros da Islandia
-poderam encontrar a America, e não a poderam encontrar os não menos
-intrépidos marinheiros dos Açores. É isto o que responde, de um modo
-bem cathegorico, tambem, aos que dizem que os Portuguezes não largavam
-as costas. Um povo que nas suas primeiras viagens percorria 247 leguas
-maritimas para encontrar um ponto perdido no meio do Oceano, e que
-o fixava, e que n’essas ilhas ou proximas ou distantes estabelecia
-colonias regulares e em constante communicação com a metropole, era
-um povo que se encontrava bem mais apto do que outro qualquer para as
-grandes navegações maritimas, era um povo que os pavores do Oceano não
-obrigariam a desistir de tentar novas emprezas. Ah! se a Providencia,
-em vez de ter agrupado os Açores n’um só ponto, destacando apenas como
-sentinellas avançadas as Flores e o Corvo, as tivesse disseminado por
-toda a extensão do Atlantico, fazendo de todas ellas os marcos milliarios
-d’esse vasto percurso maritimo, como foram as Orcades, as Feroé, a
-Islandia e a Groenlandia para o continente norte-americano, seria talvez
-Colombo, mas Colombo em navios portuguezes, que teria realizado a
-empreza que de tão justa gloria rodeiou o seu nome. Mas razão tem de
-sobra o nosso illustre patricio, o eminente escriptor Ernesto do Canto,
-quando diz: «Foi certamente com a pratica da navegação para os Açores
-que os pilotos portuguezes se aperfeiçoaram nos processos de observar os
-astros para d’essas observações deduzirem a sua posição nas solidões do
-Oceano ou das terras que demandavam. Sem esta escola todo o progresso
-seria lento. A existencia e o achado do archipelago açoriano foi pois a
-causa determinante das posteriores e importantes descobertas do seculo
-XV.»[83] E razão tem ainda quando encima o capitulo IV da sua obra com
-esta affirmação justiceira: «Os Açores foram um posto avançado para
-a descoberta da America e um fóco de irradiação para as explorações
-maritimas.»[84]
-
-Como podiam os açorianos pois desprender a sua attenção d’essas terras do
-occidente se ellas a cada instante se faziam lembradas, arrojando-lhes
-troncos de arvore, pedaços de madeira lavrada, canoas e até cadaveres de
-homens de estranha physionomia?[85] Era o que succedia tambem na Irlanda,
-e o que tambem incitava os Irlandezes a procurar essas mysteriosas
-terras. Note-se, porém, que as circumstancias eram um pouco differentes.
-O genio aventuroso e emigrante dos celtas da Irlanda podia-os levar, e
-levava-os effectivamente, a navegar para os lados occidentaes; em todo o
-caso os Irlandezes estavam na sua patria e na sua casa, viviam na terra
-em que tinham nascido, prendiam-se ao solo por estas mil raizes tenues e
-poderosissimas que reagem insensivelmente contra o espirito de aventura,
-emquanto que esses primeiros colonos dos Açores, transplantados do solo
-natal, arrastados alli pelo desejo de tentar fortuna, achavam-se já
-elles proprios em plena aventura, estavam fundeados no meio do Oceano,
-e emquanto esse navio, porque até as agitações vulcanicas das ilhas
-faziam com que o solo lhes palpitasse debaixo dos pés como a tolda de uma
-embarcação, se não tornava para elles uma nova patria, estavam promptos
-sempre a saltar para as lanchas e a ir demandar nova poisada. Succedia um
-pouco a mesma coisa aos Madeirenses, mas esses, mais proximos da Africa,
-menos mettidos pelo Oceano, para a Africa, que era a grande e exclusiva
-preoccupação portugueza, voltavam naturalmente a attenção e os esforços.
-Os Açorianos, destacados perfeitamente do grande corpo de exercito, fóra
-da corrente das navegações methodicas que o infante D. Henrique dirigia,
-para o occidente e só para o occidente deixaram voar as suas aspirações.
-
-É a prova d’isso que nós encontramos no proprio Herrera quando dá
-conta das revelações que incitaram Colombo a intentar a sua empreza.
-Foi a narrativa do piloto açoriano Martim Vicente, que, navegando a
-450 leguas da costa de S. Vicente, encontrou boiando nas aguas um
-pedaço de madeira lavrada; foi a dos mareantes, que, saindo do Fayal,
-correram 150 leguas ao occidente, e que, voltando, encontraram a ilha
-das Flores. E, como n’um escripto publicado ultimamente na _Illustracion
-española y americana_ se tratava com desdem este facto, alcunhado
-até de phantastico, paremos um instante para mostrar a sua perfeita
-authenticidade.
-
-Foi Herrera que escreveu o seguinte: «Uno llamado Diogo de Tiene
-(_Teive_), cuyo piloto Diego Velasques vezino de Palos, afirmó a Don
-Christoval Colon, en el monasterio de Santa Maria de la Rabida, que se
-perdieron de la isla del Fayal, y que anduvieron cento y cincuenta leguas
-por el viento Leveche, que es el Sudueste; y que á la buelta descobriron
-la isla de las Flores, guiandose por muchas aves que vian boiar házia
-allá, las quales conocieron que non eran marinas.»[86]
-
-Lembram-se os leitores de que o proprio Christovam Colombo, no seu
-_Itinerario_, quando diz os motivos porque mudou em certa altura o rumo
-da sua viagem, refere que o principal foi o exemplo dos Portuguezes, que,
-seguindo o vôo das aves, tinham descoberto as suas ilhas.
-
-Mas temos mais, temos o documento authentico que mostra que foi
-effectivamente esse Diogo de Teive que descobriu a ilha das Flores. É a
-carta de doação da ilha das Flores a Fernão Telles, feita por D. Affonso
-V em Estremoz a 28 de janeiro de 1475, e onde diz:
-
-«Outrosim nos praz e queremos que o dito Fernão Telles tenha e haja e
-assim seus successores as ilhas que chamam das Flores _que pouco ha que
-achára Diogo de Teive e João de Teive seu filho_, e elle dito Fernão
-Telles ora houve por um contracto que fez com o dito João de Teive, filho
-do dito Diogo de Teive que as ditas ilhas achou e tinha, e isto n’aquella
-forma com aquellas condições e maneira que as elle houve do dito João
-de Teive e que ficaram por morte do dito seu pai e no dito contracto é
-contheúdo.»[87]
-
-Mas os documentos não faltam para provar a actividade febril com que os
-Açorianos se arrojavam ao mar Oceano. N’essa mesma carta de doação se
-vê que Fernão Telles era um dos exploradores ou dos emprezarios d’essas
-explorações:
-
-«A nós praz, diz El-Rei, que indo elle ou mandando seus navios ou homens
-nas partes do mar Oceano ou alguem que por seu mandado a isso vá, lhe
-fazemos mercê, pura e irrevogavel doação para todo o sempre, como logo
-de feito fazemos, de quaesquer ilhas que elle achar ou aquelles a que as
-elle mandar buscar novamente e escolher para as haver de mandar povoar,
-não sendo pois as taes ilhas nas partes de Guiné.»[88]
-
-Felizmente os documentos publicados pelo sr. Ernesto do Canto lançam
-vivissima luz n’este periodo preparatorio do descobrimento da America,
-e explicam com uma clareza perfeita as questões relativas a Colombo e a
-Portugal. Assim vemos primeiramente que os Açorianos e os Madeirenses
-não deixam de procurar terras para o occidente, e que tratam de obter
-do governo as concessões necessarias para que das suas conquistas e
-descobertas tirem a utilidade que desejam; segundo que os reis se
-mostram prodigos em fazer a esses exploradores todas as concessões
-desejadas, comtanto que do real thesouro não tenham de gastar nem mealha,
-e que esses exploradores por conta propria não vão entender com os
-descobrimentos para o lado da Guiné, que esses reservam-n’os para si ou
-para a ordem de Christo os soberanos portuguezes. E tão arraigado estava
-no espirito dos soberanos o desdem pelas viagens occidentaes que, ainda
-depois de descoberta a America, o proprio Gaspar Côrte-Real fez a viagem
-em que descobriu a Terra-Nova completamente á sua custa.
-
-Vejamos então a fórmula das concessões dos reis:
-
-Temos em primeiro logar a concessão feita a 21 de junho de 1473 a Ruy
-Gonçalves da Camara, filho segundo de João Gonçalves Zarco, o qual manda
-dizer a el-rei, segundo na carta se diz, «como o seu desejo e voomtade
-era buscar nas partes do mar ouciano huumas ylhas para as aver de povorar
-e aproveytar». E o rei declara-lhe que «de huma ilha que elle perssy ou
-seos navyos achar, com outorga e prazer do principe meu sobre todos muyto
-prezado e amado filho, pura e yrrevogavell doaçom valledoyra amtre vivos,
-jure erdatore pera elle e todos seus erdeyros que delle decemderem assy e
-tam compridamente como ella a noos perteemce e de dereyto pertemcer deva
-e esto com todollos foros dereytos e trebutos em ella em qualquer tempo
-a nos poderiam perteemcer despoys que povoada seja sem acerqua de nos
-ficar cousa algua. E como sse começar a povoar logo lhe fazemos mercee
-de toda a jurdiçom civell e crime mero misto ymperoi em todallas pesoas
-que em ella morarem e a povoarem ressalvando somente pera nos alçada
-de morte ou talhamento de membros nos feitos crimes porquanto queremos
-e nos praz que em todo o all assy civel como crime elle aja todo sem
-superioridade algua. E per os homens teerem mays rezom de a hyrem povoar
-a nos praz que todollos vezinhos e moradores em a dita ylha ajam todollos
-privillegios liberdades e framquezas que per nos e nossos antecessores
-sam dados e concedidos e outorgados aos vezinhos e moradores da ylha
-da Madeira que ora he do dito duque meu muyto prezado e amado sobrinho
-dos quaes queremos que gouvam os vizinhos e moradores em ella fazendo
-certo dos privilegios da dyta ylha da Madeyra e pruvica escriptura. E
-per esta presemte damos licença e logar ao dito Ruy Gonçalvez a que assy
-fazemos mercee da dita ylha que possa dar forall aos que a ella forem
-morar e a povoarem. O qual forall que lhe elle assy der queremos que seja
-firme e valha como sse per nos lhe fosse dado e outorgado e per elle
-sejam obrigados todos aos juizes, e justiças, officiaes e pessoas fazer
-comstranger os moradores e povoadores della como os comstramgeriamos per
-lex e ordenações nossas que per assi teer pera ello nossa autoridade, nom
-menos vigor deve a teer aver como se per nos fosse fecto».[89]
-
-Vimos que a carta de doação a Fernão Telles tambem lhe confere a posse
-das ilhas que descobrir, mas logo em seguida a essa carta vem outra de
-10 de novembro de 1475, em que se dão umas explicações bem proprias
-para esclarecer as navegações d’esse tempo, e destruir completamente
-as mesquinhas duvidas postas ácerca da prioridade dos descobrimentos
-portuguezes no Atlantico por extrangeiros que só muito superficialmente
-estudaram a historia portugueza. Na carta de 28 de janeiro não se falava
-senão em ilhas que Fernão Telles mandasse povoar, e então o rei explica:
-«E poderia ser que em elle as assi mandamdo buscar _seus navios ou jente
-achariam as sete cidades ou alguuas outras ilhas poboadas que ao presemte
-nom som navegadas, nem achadas, nem trautadas per meus naturaaes_ e se
-poderia dizer que a mercee que lhe assi tenho fecto nom se deve a ellas
-estender per assi serem poboadas.»[90]
-
-E declara então que a mercê tambem a essas se estende e que dá a Fernão
-Telles sobre os habitantes d’essas ilhas os mesmos direitos que lhe
-concede sobre os povoadores que elle mandar para as ilhas desertas.
-
-O que se vê d’aqui? Vê-se que os Portuguezes procuravam muito
-ingenuamente no Oceano as ilhas que a phantasia dos cartographos
-estampava nos mappas, que tinham viva crença na existencia verdadeira da
-ilha das Sete Cidades e na ilha de S. Brandão, e da Mayda e da Mão de
-Satanaz, da Antilha e da ilha do Brazil, e em todas as que nos mappas
-appareciam, filhas das conjecturas da geographia medieval ou antiga,
-e, se effectivamente as encontrassem, longe de quererem fazer suppor
-ao mundo que tinham encontrado terras cuja existencia era de todos
-desconhecida, se ufanariam de ter achado o que no mappa se designava, e
-a descoberta das ilhas desertas e vulcanicas dos Açores, e da propria
-ilha da Madeira toda coberta de bosques não era para elles senão um
-desapontamento, porque as ilhas que elles cubiçavam, as ilhas celebres,
-as ilhas dos mappas, essas fugiam-lhes constantemente das mãos.
-
-Que espanto seria o d’esses navegadores, e dos seus contemporaneos se
-podessem ter conhecimento das duvidas modernas! Como achariam extranho
-que se lhes dissesse que só encontraram os Açores, porque a posição dos
-Açores estava indicada nos mappas, quando elles levaram annos a passar de
-umas para as outras ilhas que teriam n’uma só viagem encontrado se fosse
-pelos taes mappas que se guiassem![91] e como o infante D. Henrique
-ficaria surprehendido ao ver Humboldt encontrar a prova do conhecimento
-anterior dos Açores no facto d’elle ter dito a Gonçalo Velho Cabral,
-depois da descoberta das Formigas, que voltasse porque havia de encontrar
-nas suas proximidades uma ilha! muitas ilhas era o que deveria dizer-lhe,
-visto que o mappa lhe dava um archipelago. Como se espantaria de que um
-homem de sciencia como Humboldt não percebesse que o descobrimento de uns
-recifes como as Formigas com muita probabilidade indicava a proximidade
-de terra! Mas o grande espirito do sabio allemão estava evidentemente
-coberto com a nuvem do preconceito.
-
-Assim vemos que o sonho das terras para o occidente e o sonho das
-ilhas do mar Oceano provocou a mente dos açorianos e dos madeirenses
-a arrojar-se ás perigosas aventuras. O rei facultava aos aventureiros
-tudo o que elles podiam desejar, menos dinheiro. A Guiné e o caminho
-para a India por esse lado eram a preoccupação constante do governo
-portuguez, que em todas as cartas estabelece bem o principio de que
-elle faz todas essas concessões, comtanto que as ilhas descobertas não
-fiquem nos mares da Guiné. Basta a leitura d’estas cartas para que se
-veja a impossibilidade do legendario descobrimento da Terra Nova por João
-Vaz Côrte Real, com que se tem procurado attenuar a gloria de Colombo.
-Percebe-se logo que o governo portuguez não podia dar a capitania da ilha
-Terceira em recompensa a quem descobrisse a Terra Nova, quando o que elle
-promettia aos descobridores era simplesmente a capitania das terras que
-descobrissem como fizera com a ilha da Madeira. E seria singular tambem
-que o descobridor de uma nova ilha, em vez de receber a capitania d’essa
-ilha e de a povoar e aproveitar, a abandonasse completamente e recebesse
-como premio d’esse descobrimento inutil a capitania de uma ilha já
-povoada e aproveitada, isto quando em 1473 o rei D. Affonso V, deferindo
-o requerimento de Ruy Gonçalves da Camara, dizia: «E visto per nos sseu
-requerimento e por que a nos perteemce primcipalmente as cousas desertas
-e nom aproveytadas fazer povoar e aproveytar pelo carrego que per deos
-nos he dado emquamto per sua graça tinhamos o regimento destes rregnos e
-senhorios que teemos».
-
-Veremos no capitulo immediato como era absurdo que o rei fizesse a
-Toscanelli perguntas ácerca do problema do occidente no mesmo anno em
-que João Vaz Côrte Real lh’o resolvia quasi, e como é mais absurdo ainda
-que D. João II, rei habilissimo e zeloso do seu dominio, estabelecesse
-no tratado de Tordesillas um artigo transitorio que sacrificava, sem
-uma palavra de cedencia ao menos, terra descoberta por Portuguezes;
-agora mostraremos apenas que tudo é falso no que se allega com relação
-ao descobrimento de João Vaz Côrte Real. A falta de seriedade historica
-do auctor da _Historia Insulana_, Antonio Cordeiro, não deixára de
-impressionar os que mais se interessavam por essa reinvidicação
-portugueza, mas reanimava-os um pouco o verem que a noticia já Antonio
-Cordeiro a encontrára em Gaspar Fructuoso, auctor das _Saudades da
-terra_; mas Gaspar Fructuoso pertence tambem ao grupo d’aquelles
-historiadores que entendem que são licitas as mentiras quando d’ellas
-pode resultar a glorificação de um paiz, principio leviano contra o qual
-protestamos quando Villaut de Bellefond o aproveita contra nós e em
-beneficio da Normandia, mas que nos parece bem quando redunda em nosso
-favor. Gaspar Fructuoso, apesar de ter um merito superior ao do seu
-desastrado copista que outra coisa não é Antonio Cordeiro, não deixa de
-ser um auctor que acceita todas as lendas quando as reputa honrosas para
-os seus heroes.[92]
-
-Ora Antonio Cordeiro diz que em 1464 foram dadas as capitanias da ilha
-Terceira a Alvaro Martins Homem e João Vaz Côrte Real como recompensa da
-descoberta da Terra do Bacalhau que por ordem regia tinham effectuado.
-
-Em primeiro logar não era o rei que dava as capitanias dos Açores que
-pertenciam ao donatario seu irmão D. Fernando; em segundo logar a doação
-da capitania de Angra é feita pela _infanta D. Beatriz, viuva de D.
-Fernando_, a 2 de abril de 1474, nem ella a podia ter feito em 1464,
-porque então ainda vivia seu marido; em terceiro logar a infanta o que
-recompensa são «os serviços que João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa
-do dito senhor meu filho, fez a seu padre que Deus haja, depois a mim
-e a elle»;[93] em quarto logar Alvaro Martins já tinha uma capitania
-da ilha Terceira muito antes de João Vaz, tanto que a carta de doação a
-Alvaro Martins, em 17 de fevereiro de 1474, allega o seguinte motivo:
-«Considerando eu como entre Jacome Bruges e Alvaro Martins, _capitão da
-sua ilha Terceira de Jesus Christo_, sempre houve alguns debates por a
-terra da dita ilha não se ter de todo partida...»[94]
-
-Gaspar Fructuoso o que diz simplesmente, e n’um capitulo inçado de erros
-historicos evidentissimos, recheado de lendas, e em que parece até que
-ignora a existencia do grande Gaspar Côrte Real, é que, «vindo João Vaz
-Côrte Real do descobrimento da Terra Nova dos Bacalhaus, que por mandado
-de el-rei foi fazer, lhe foi dada a capitania de Angra da Ilha Terceira e
-da Ilha de S. Jorge.»[95]
-
-Sem nos alongarmos em considerações basta que citemos os seguintes
-documentos: a carta de doação de 12 de maio de 1500, em que D. Manuel
-concede a Gaspar Côrte Real as terras que descobrir, _per sy e a sua
-custa... por ho asy querer fazer com tanto trabalho e perigo_,[96] e a
-carta de doação de 17 de setembro de 1506, que transfere para Vasco Annes
-Côrte Real a doação da Terra Nova, «avemdo respeyto e lembramça como o
-_dito Gaspar Corte Real seu irmão ffoy o primeiro descobridor das ditas
-teras_.»[97]
-
-O que se deprehende de tudo o que diz Gaspar Fructuoso é que João Vaz
-Côrte Real era nos Açores um heroe legendario, um forte e um intrepido.
-Formara-se a lenda em torno d’elle. Pae de uma familia de navegadores,
-foi de certo navegador elle mesmo. Como tantos outros dos seus patricios,
-procurou tambem talvez, como elles, desvendar os segredos do occidente,
-mas voltou sem ter encontrado novas ilhas e novas terras. Teria ido
-talvez mais longe do que Diogo de Teive, que chegou a cento e cincoenta
-leguas ao occidente do Fayal, mas, se o fez, desanimou tambem e voltou
-sem encontrar a cubiçada terra. Foi mais feliz seu filho, e mais feliz
-porque o exemplo de Colombo pozera termo aos desanimos, e se nova prova
-fosse necessaria basta lembrarmo-nos que Martim de Behaim, o famoso
-geographo, que acariciou ardentemente o mesmo ideal de Colombo, que tudo
-queria saber do que se passava para o occidente, que viveu nos Açores em
-alta situação, que alli trabalhou, pensou e elaborou os seus trabalhos
-geographicos, ao fazer o globo de Nuremberg, em 1492, n’elle não inseriu
-a Terra Nova dos Bacalhaus, apesar de se não esquecer de inserir as ilhas
-phantasiadas.
-
-É no meio d’este grupo de marinheiros intrepidos, devorados da
-curiosidade do Oceano, que não pensam senão nas suas secretas maravilhas,
-que não sonham senão com prestigiosas terras, cercadas por todas as
-miragens do mar e por todas as miragens da phantasia, por todas as
-confidencias mysteriosas que as correntes pelagicas lhes trazem de
-remotos mundos, é n’este synhedrio de pilotos que não ignoram o que
-dizem os livros, mas que sabem sobretudo o que diz o livro immenso do
-mar, que apparece de subito a figura pensativa e ardente de Christovam
-Colombo. N’essas torres de atalaya, como que erguidas pela natureza
-no seio dos mares, debruça-se a mirar sofregamente o Oceano o rosto
-ardente do Genovez. Era o homem providencial, um d’estes homens em que
-se incarna fatalmente a idéa que fluctúa sobre uma geração revolvida
-pela ancia do desconhecido no mundo physico ou no mundo moral. Se o
-problema do Occidente preoccupa já todos os espiritos na Europa, nos
-Açores e na Madeira apresenta-se com dobrada intensidade. Não volta
-um navio do occidente que não se trate logo de saber se traz comsigo a
-noticia de um novo descobrimento. Por uma coincidencia singular quasi ao
-mesmo tempo apparece nos Açores um homem intelligente e sabio, Martim
-de Behaim, que se sente tambem arrastado pela invencivel convicção de
-que ha terras para o lado do occidente, e que é por alli o verdadeiro
-caminho da India. Esse homem tem na sua vida singulares relações com a de
-Colombo. Este casou com a filha do donatario de Porto-Santo, aquelle com
-a do donatario do Fayal; um foi á Guiné nos navios portuguezes, o outro
-foi em navios portuguezes até ao Zaire. Mas um é allemão, um diplomata,
-um burguez, um discipulo correcto e regular de um dos maiores sabios da
-Europa, Regiomontanus; o outro é um italiano, um sonhador, um irregular,
-um estudante incompleto. O primeiro encontra facil accesso junto aos
-principes e nas universidades, o outro não acha muitas vezes nos altos
-logares senão repulsas e desdens; mas este é um perseverante, um ardente,
-um allucinado, o seu convencimento é uma paixão que o absorve, que o
-devora. O que actua n’elle não é tanto o raciocinio como a visão. A alma
-do infante D. Henrique parece renascer n’elle. Passou de Sagres para o
-Porto-Santo o vulto do asceta. Secularisou-se apenas; já não é o monge
-militar, é o cavalleiro andante, mais affectivo, mais dulcificado pelo
-seu conhecimento do amor, mas tendo a mesma paixão pelos ideaes da fé
-e da sciencia. E como sempre são estes inspirados os que attraem por um
-magnetismo indizivel as idéas audaciosas que fluctuam no ar, como em D.
-Henrique se incarnaram todas as aspirações de um mundo que anceia por
-quebrar as grades do carcere em que a tradição o encerra, foi tambem em
-Colombo que se incarnaram todas essas idéas que pairavam na atmosphera
-do seculo XV, e muito especialmente na atmosphera açoriana e madeirense.
-Triumphou mais uma vez o sonho sobre a razão, a dilatação da phantasia
-inflammada sobre o trabalho mecanico e lento do raciocinio, o meridional
-expansivo e apaixonado sobre o septentrional fleugmatico e frio, e foi
-Christovam Colombo e não Martim de Behaim quem resolveu o segundo dos
-grandes problemas geographicos.
-
-
-
-
-VIII
-
-Christovam Colombo e D. João II
-
-
-Quando Christovam Colombo, que viajára largamente, que estivera na
-Islandia e na Guiné, que estivera nos Açores, e que, casando com a filha
-de Bartholomeu Perestrello, tivera demorada residencia no Porto-Santo
-e na Madeira, combinou tudo o que lhe diziam os pilotos portuguezes,
-tudo o que os seus olhos viam n’essa terra da sua residencia, com o
-que encontrou nos livros, e sobretudo nos seus livros predilectos, os
-geographos antigos e a _Imago Mundi_ de Pedro d’Ailly, fixou-se no seu
-espirito, de um modo indelevel, a convicção de que era perfeitamente
-possivel chegar á Asia partindo dos Açores, e communicou essa idéa ao rei
-de Portugal.
-
-Actuou por acaso, de algum modo, no espirito de Colombo a viagem que elle
-fez á Islandia, e onde poude ter conhecimento das viagens dos navegantes
-escandinavos do seculo XII, que chegaram á Groenlandia e até á America do
-Norte, que elles denominaram Vinlandia? Não, decerto. Que tinham que vêr
-esses paizes do Norte com o seu sonho da Asia encontrada pelo occidente?
-
-Que houvesse para além da Islandia mais ilhas e mais terras, não era
-caso de espanto. Hoje que conhecemos toda a terra sabemos a importancia
-que isso tinha, então nenhuma se lhe ligou, nem nenhuma se lhe ligara
-no seculo XII. As descobertas não têem importancia pelo que hoje se
-reconhece que teriam, mas pela que tinham realmente na occasião em que se
-fizeram. O problema era, como dissemos, o seguinte: atravessar o Oceano
-Atlantico em toda a sua largura. Passar da Islandia á Groenlandia e da
-Groenlandia ao Vinland era façanha muito menos importante do que a que
-praticaram os Portuguezes descobrindo os Açores.[98]
-
-Seriam por outro lado as instancias de Colombo ao governo portuguez que
-levaram el-rei D. Affonso V a perguntar a Toscanelli em 1474 se suppunha
-que se podesse chegar á India caminhando-se pelo occidente? É possivel
-que não. Como sabemos, esse problema já atormentava as imaginações
-dos que se preoccupavam com as questões geographicas, e era assumpto
-de vivos debates. A concessão feita em 1473 por D. Affonso V a Ruy
-Gonçalves da Camara e que já aqui mencionámos, leva-nos a suppôr que o
-fidalgo portuguez não a obteria tão simples e tão despida de auxilio
-governamental sem ter instado com o rei para obter um subsidio ou um
-apoio mais efficaz do que a concessão platonica das pelles de urso, que
-Ruy Gonçalves obteria se matasse os ursos. Logo veremos que havia esses
-pedidos, e que D. João II em occasião importante lhes prestou ouvido mais
-attento. Foi, decerto, então que el-rei perguntou a Toscanelli o que
-pensava a este respeito, e que recebeu de Toscanelli a resposta de que
-Colombo, ancioso tambem de conhecer a opinião do sabio geographo, não
-deixou de ter conhecimento, porque o proprio Toscanelli lh’a communicou.
-
-Que facil ensejo tinha Humboldt de demolir a gloria de Colombo, como
-pretendeu demolir a dos navegadores portuguezes! Se ha carta que possa
-mostrar que as Antilhas eram conhecidas antes de Colombo é a carta
-de Toscanelli. O grande geographo italiano conhece o caminho como
-conheceria o caminho da sua casa. Sabe a distancia a que fica a Asia, os
-archipelagos que o navegador ha de encontrar no caminho, e tudo isso vae
-para o mappa como se fosse traçado á vista das terras! E os archipelagos
-lá estavam effectivamente como os Açores, como a Madeira, como as ilhas
-que se descobriram e as que se não descobriram. Acontecia ás ilhas o que
-acontece ás prophecias. Com um pouco de boa vontade sempre ha algumas
-que, mais ou menos, parece que saem certas.
-
-Nós porém é que não vemos as coisas com os olhos da parcialidade,
-e applicamos a todos o são preceito de Humboldt que elle tão pouco
-respeita. As cartas da edade média são excellente elemento de estudo
-quando se analysam com criterio, quando se não perde de vista o
-pensamento de que ellas encerram o que realmente se descobriu e o que
-os sonhadores conjecturavam que se podia descobrir. Os navegadores
-d’esse tempo é que não sabiam as maravilhas que praticavam, e a sua
-aspiração não era encontrar terras desconhecidas, era encontrar as terras
-adivinhadas. Se os Açores e a Madeira estivessem em mappas anteriores,
-os Portuguezes exclamariam com enthusiasmo: São estas mesmas! O maior
-prazer d’esses navegantes, quando chegassem á Antilha ou á ilha de S.
-Brandão, seria bradarem com orgulho e com ufania: Encontrámos a ilha de
-S. Brandão, encontrámos a Antilia, como Fernão Telles ía pelos mares fóra
-com a esperança de encontrar a ilha das Sete Cidades. Este é que era o
-criterio que os Portuguezes applicavam á descoberta das costas africanas.
-Todo o seu desejo era confirmarem o periplo de Hannon e as theorias da
-antiguidade. Foi para elles um desapontamento reconhecerem que um rio que
-descobriram era o Senegal, completamente ignorado pelos antigos, em vez
-de ser o Nilo dos Negros, cuja existencia a sabia antiguidade affirmava,
-e que os Portuguezes só aspiravam a confirmar.
-
-Que impressão produziria a opinião de Toscanelli não no animo de D.
-Affonso V, que tinha outros pensamentos e outras ambições, mas no de D.
-João II, logo que subiu ao throno, e começou a pensar sériamente nos
-descobrimentos? Não muita, e de certo contribuiria para isso, bastante,
-o proprio movimento maritimo dos Açores. É bem natural que os mareantes
-que voltavam d’essas expedições de tentativa exaggerasem o espaço de mar
-que tinham percorrido, sem encontrar signaes de terra. Demais as idéas
-geographicas dos antigos ainda dominavam muito os espiritos. O systema
-geographico de Ptolomeu e dos seus adeptos não fôra alluido todo e de
-uma vez só. Ia caindo aos pedaços, mas ficava de pé o que se não demolia
-directamente. Ora uma das idéas favoritas da geographia antiga era a
-grande extensão dos mares. Suppunha-se que de toda a terra só a septima
-parte estava fóra das aguas. Colombo sustentava a opinião contraria, dava
-razões de equilibrio, mas não conseguia facilmente derrubar o preconceito.
-
-Accrescente-se ainda que tudo parecia indicar que os Portuguezes se
-achavam no caminho verdadeiro da India. Qual era a opinião antiga? que
-a costa africana occidental, _antes de se chegar ao equador_, voltava
-para o oriente e ia ou á Africa Oriental ou á Asia. Se as viagens
-portuguezas tivessem mostrado que esse facto se não dava, e, ao mesmo
-tempo, a zona torrida fosse inhabitavel, estavam perdidas todas as
-esperanças, mas as viagens portuguezas tinham demonstrado exactamente
-que não havia zonas inhabitaveis, logo podia-se proseguir com afoiteza,
-que mais longe ou mais perto havia de se chegar ao fim do continente
-africano e havia de se voltar para a India. Corria-se o perigo de se
-entrar na zona glacial antarctica? Embora! Como era natural, passava-se
-de extremo a extremo. Desde que se descobrira que a zona torrida não
-era inhabitavel, conhecia-se que não havia zonas inhabitaveis, e que se
-poderiam atravessar as zonas glaciaes como se estava atravessando a zona
-torrida.[99]
-
-E note-se que a idéa de que teria de se dobrar um cabo quando se chegasse
-ao fim da peninsula africana, estava tambem em todos os espiritos, e
-era a conjectura natural da geographia. As peninsulas, sabia-se bem,
-terminam geralmente em promontorios. Portanto o empenho de D. João II
-estava todo concentrado no proseguimento das descobertas africanas. Não
-podia elle, diz-se, se tinha confiança, como sabemos que tinha, não
-no projecto do Genovez, mas no seu talento, e nos seus conhecimentos
-maritimos, confiar-lhe duas caravelas? Não, porque isso era completamente
-contrario ao seu systema de exploração. As tentativas dos Açorianos e dos
-Madeirenses, protegia-as o governo, fazendo-lhes larguissimas concessões
-nas terras que descobrissem, mas não as subsidiava, nem consentia tambem
-que elles interferissem nas descobertas reservadas para si. As terras
-concedidas eram-n’o com a condição de não serem nos mares da Guiné.
-
-Ah! Se Christovam Colombo armasse duas caravelas á sua custa, ou
-conseguisse que um capitalista o _commanditasse_, com que facilidade
-elle obteria de D. João II todas as concessões que desejasse! Foi uma
-felicidade para o mundo que Colombo não tivesse dinheiro para a empreza,
-nem socios capitalistas. Se os tivesse, quando percorresse tanta extensão
-de mar sem encontrar terra, quando visse a perspectiva de perder
-completamente o seu dinheiro ou o dos seus socios, talvez não ousasse
-proseguir, e decerto lh’o não consentiriam os que representavam a bordo
-os interesses dos armadores. Para se levar a effeito essa obra grandiosa
-era necessario que estivesse empenhada no triumpho a honra de uma nação!
-
-Como é que aquelle grande espirito de Christovam Colombo não inflammou no
-seu enthusiasmo o espirito, que passa tambem por ter sido grande, de D.
-João II? Enganou-se a historia no seu juizo? Era, afinal, o rei D. João
-II um espirito vulgar, ou pelo menos um espirito absolutamente pratico
-e forte em todas as questões da vida positiva e real, mas desdenhoso
-de tudo o que excede os limites do seu horizonte? ou por acaso não
-tinha elle pelas coisas geographicas o interesse real que manifestava,
-ou não tinha d’ellas o conhecimento que se lhe attribue? Não, não,
-nada d’isso. D. João II foi realmente um dos grandes principes do seu
-tempo, um dos soberanos que estavam mais á altura de comprehender os
-grandes projectos dos descobrimentos. O proprio Colombo o diz a cada
-instante, Toscanelli farta-se de o affirmar: o rei de Portugal era o
-soberano que melhor entendia de coisas geographicas, o nosso grande
-rei! diz Colombo ás vezes. E comtudo Colombo não conseguiu captival-o.
-É quasi incomprehensivel esse facto, mas talvez se explique um pouco se
-analysarmos os caracteres de um e de outro.
-
-Ha, naturalmente, duas especies de organismos entre os homens da mais
-alta esphera: os desequilibrados e os equilibrados. Á primeira pertencia
-Christovam Colombo, á outra D. João II. D. João II era um d’estes
-fortes espiritos, perfeitamente assentes n’uma base segura, que têem a
-perspicacia, a energia, as concepções arrojadas mas nunca desmandadas,
-espiritos capazes de formarem um plano e de o desenvolverem serenamente,
-completamente desembaraçados da rotina, amando e acolhendo as innovações,
-mas não sem as sujeitarem ao criterio do seu lucido juizo. Homens assim,
-n’este jogo da existencia têem as cartadas atrevidas mas calculadas,
-nunca se entregam aos irreflectidos caprichos do azar. O perigo não os
-assusta, e affrontam-n’o quando é necessario, mas não o procuram por uma
-vã fanfarronada de cavalleiros andantes. Soldado, ninguem o foi como D.
-João II: em Arzilla escureceu a fama dos mais denodados cavalleiros, em
-Toro a ala que elle commandava internou-se no mais denso das fileiras
-dos castelhanos e destroçou-as, emquanto a ala commandada por seu pae
-era desbaratada pelo inimigo, mas depois de subir ao throno nunca mais
-teve uma guerra, nem entrou n’uma peleja. As guerras de Portugal tinham
-de ser com o Oceano, os combates do rei com a sua nobreza rebelde. É
-um organisador e não um aventureiro, o que o não impede de querer a
-grande aventura da India, mas prepara-a, organisa todos os elementos de
-successo, antes de jogar a cartada decisiva.
-
-A razão é a faculdade que domina o seu espirito, a imaginação é a escrava
-obediente. É inaccessivel aos vagos terrores que tão facilmente assaltam
-os nervosos e os phantasistas. Uma noite, e já depois d’elle ter cercado
-de cadaveres o seu throno, no cumprimento implacavel da sua missão
-centralisadora, sente baterem de noite mysteriosamente á porta do quarto
-onde dormia com sua esposa. Levanta-se e vai ver quem é. Ninguem, mas ao
-longe uns passos mysteriosos, como que um vago deslisar de sombras. Jaz
-em silencio e na escuridão da meia-noite o palacio todo. Vive-se n’uma
-epocha de crenças e de superstições. É algum dos espectros das suas
-victimas que o vem chamar para a expiação? D. João II sorri-se com este
-pensamento, vai, segue o passo mysterioso, vai até aos sotãos em sua
-obstinada procura, só, com a sua espada e uma luz, e quando os servos,
-acordados pelos clamores da rainha, correm em sua busca, vão encontral-o
-n’um desvão, sondando com a luz os recantos sombrios, impassivel e sereno
-como quem não comprehende sequer os pavores da superstição.
-
-De toda a sua raça o homem a quem mais se assemelha pelas tendencias
-nobres do seu espirito é o infante D. Pedro, mas este possuia uma
-qualidade que arredondava todos os angulos do seu caracter, que amaciava
-todas as durezas do seu pensamento: a bondade feminil, que elle herdara
-de sua mãe, D. João II tinha a violencia do bisavô, sem ter ao seu
-lado a mulher propria, como Filippa de Lencastre, para attenuar as
-asperezas da indole do matador do conde Andeiro. D. Leonor era uma nobre
-e intelligente senhora, não adquirira comtudo influencia sobre o seu
-terrivel marido, porque não era amada. Mas a alta razão, a comprehensão
-de todos os grandes emprehendimentos, a cultura que o punha a par do
-seu seculo, a reacção contra as tradições medievaes, que eram a sombra
-povoada de visões, quando elle sonhava uma sociedade radiante de luz e
-de sciencia e dominada pela Ordem: tudo isto tinha D. João II. D. João
-II era a Renascença que principiava com os ideaes de Platão e o culto
-da sciencia antiga seriamente estudada e seriamente comprehendida, e
-Colombo, que mais do que ninguem ia contribuir para a Renascença, era
-comtudo pelas tendencias do seu espirito o ultimo representante d’essa
-meia edade bellicosa e mystica, que, antes de se sumir para sempre,
-legava ao mundo que nascia a realisação do seu ultimo sonho cavalheiresco.
-
-Imagine-se agora Colombo tratando com D. João II, que o ouve, que o
-attende, que percebe que não tem deante de si um homem vulgar, mas que
-desconfia, que hesita deante d’aquelles projectos meio mysticos, meio
-scientificos, deante d’aquella exuberancia de palavras e de pensamentos
-que não quadra ao seu espirito nitido, e conciso. Colombo é um italiano,
-com aquella prodigalidade de palavras e de formulas obsequiosas,
-caracteristicas da raça. O que era elle? um sabio ou um charlatão? Se do
-sublime ao ridiculo apenas vai um passo, como Napoleão dizia, de um homem
-de genio que traz uma idéa fecunda a um charlatão que traz um elixir
-tambem a distancia não é grande. Colombo, profundamente convencido,
-era prodigo de promessas e não menos de exigencias. Os thesoiros que
-elle encontrasse no Cathay destinava-os, segundo dizia, á conquista do
-Santo Sepulcro. Ora a conquista do Santo Sepulcro era, sem desfazer
-nos sentimentos christãos de D. João II, _le cadet de ses soucis_.
-Christovam Colombo enganara-se na porta. Essas declarações eram optimas
-para D. Affonso V, detestaveis para D. João II. Tudo quanto cheirasse a
-cavallaria andante, a cruzadas, e a romances em acção, encontrava em D.
-João II um antagonismo ferrenho. E percebe-se que assim fosse, desde o
-momento que fôra tudo isso que estivera quasi arruinando Portugal, que
-fôra tudo isso que fizera a desgraça de D. Affonso V e que era a esses
-bellos sonhos que D. João II devia o ter ficado, como costumava dizer,
-por morte de seu pae, rei das estradas de seu reino.
-
-Ainda havia um facto que não podia produzir boa impressão em D. João II.
-Arrastado pelo ardor das suas convicções, como acontecia com Toscanelli,
-Colombo dizia conhecer a distancia exacta a que ficava Cipango de
-Portugal. Ora D. João II era um espirito bastante positivo para perceber
-o que havia de absurdo em semelhante calculo, e a segurança manifestada
-por Colombo mais ainda o punha em guarda contra os seus projectos.
-
-Hoje que os factos mostram como Colombo tinha razão, todos imaginam que
-só o espirito de rotina podia fazer com que elles fossem regeitados. E
-comtudo, examinando-os bem comprehende-se que espiritos positivos não
-acceitassem. Colombo suppunha por exemplo que a relação entre a terra e
-o mar era de 7 para 1, quando a verdade é que essa relação é de 1 para
-2,7, ou mais exactamente de 29 para 82.[100] Quaes eram as razões em
-que elle se baseava para suppor que a Asia estava proxima da Europa?
-Sobretudo as que deduzia das affirmações da sciencia antiga. Segundo
-Ctésias a India formava metade da Asia, Plinio suppunha que era só por si
-o terço da superficie do globo, Nearcho sustentava que eram necessarios
-quatro mezes de caminho para se chegar á extremidade oriental da India,
-e Strabão que até esse extremo oriental ninguem poderia conduzir um
-exercito. O geographo a que Colombo se encostava para avaliar a distancia
-que tinha a percorrer não era Ptolomeu, era Marino de Tyro. Ptolomeu
-sustentava que a terra habitada entre o meridiano das ilhas Afortunadas
-e o meridiano de Sera, quer dizer da China, era de 177°¼, portanto o
-espaço de mar a percorrer era de 182°¾, visto que o parallelo tem 360°.
-Marino de Tyro sustentava que a porção de terra habitada era de 225°,
-portanto o espaço de mar a percorrer limitava-se a 135°; mas Colombo
-fazia conjecturas que ainda diminuiam este espaço. Effectivamente dizia
-elle que Marino não chegára á extremidade oriental da Asia em 15 horas
-(calculando-se as longitudes em tempo, e correspondendo cada hora a 15°)
-porque a extremidade oriental da Asia ficava muito além do ponto marcado
-por Marino. Portanto a distancia de mar entre a extremidade oriental da
-Asia e as ilhas de Cabo Verde era não de 9 horas ou 135°, mas de menos de
-8 horas ou de menos de 120°.
-
-Note-se porém que fôra Ptolomeu que corrigira os calculos de Marino de
-Tyro, e que a opinião de Colombo tinha portanto contra si a do geographo
-mais afamado da antiguidade. Comtudo Colombo aferra-se á sua opinião,
-e quando está na America julgando estar na Asia, persiste, e até se
-apoia nas opiniões dos navegadores portuguezes, dizendo: «E agora que os
-Portuguezes navegam tanto, acham que Marino foi exacto.»[101]
-
-E note-se ainda que Colombo avaliava o grau em 56 milhas e ⅔, baseando-se
-nos calculos do geographo arabe Al-Fragan, e confundindo assim a milha
-italiana com a milha de Al-Fragan, de fórma que o grau ficava tendo
-apenas pouco mais de 14 leguas. Toscanelli, na sua famosa carta de
-1474, avaliava o espaço a percorrer de um modo differentissimo. D.
-João II ver-se-hia de certo embaraçado para avaliar quem tinha razão,
-e regeitaria então sem hesitar o projecto de Colombo se soubesse que
-de todos os geographos da antiguidade o que menos se enganára fôra
-Eratostenes que calculára a distancia entre o promontorio Sacro, quer
-dizer o cabo de S. Vicente e a Sera, quer dizer a China, em 240 grau. A
-distancia verdadeira é 230.[102]
-
-Junte-se a isto a opinião contraria do seu conselho scientifico, que a
-manifestava não só porque todas as corporações sabias têem uma tendencia
-innata para repellir as idéas novas apresentadas por quem não pertence ao
-seu gremio scientifico, mas tambem porque as propostas de Colombo tinham,
-como acabamos de ver, muitos pontos vulneraveis. Faziam parte do conselho
-dois judeus, Rodrigo e Josef, que de certo conheciam bem o arabe, e aos
-quaes talvez não escapasse o erro da interpretação do geographo arabe
-Al-Fragan na medição dos graus. A rejeição da proposta de Colombo era
-portanto inevitavel.
-
-E comtudo D. João II, se não tinha a imaginação apaixonada do infante
-D. Henrique, que se deixaria de certo seduzir pelo enthusiasmo do
-italiano, tinha o espirito bastante elevado para reconhecer que não era
-Colombo um aventureiro vulgar. Apenas elle saíu do nosso paiz, teve um
-baque no coração, e, passando por cima de tudo e da opinião dos seus
-conselheiros, e das tendencias naturaes do seu espirito, escreveu-lhe
-a famosa carta em que o chamava.[103] Porque não veiu Colombo? Porque
-saíra bastante irritado com o parecer naturalmente desdenhoso do conselho
-scientifico do rei, ou porque os seus amores com D. Beatriz Enriquez, a
-mãe de Fernando Colombo, o retiveram em Sevilha? Julgamos mais verosimil
-a primeira hypothese. O resentimento de Colombo era tão profundo que
-não duvidou accusar D. João II de uma acção que elle bem sabia que era
-absurda em primeiro logar, que seria indigna de um homem cujo caracter
-elle não podia deixar de respeitar.
-
-E comtudo a historia tem repetido essa accusação, injusta, mesquinha e
-disparatada! Colombo accusou D. João II de o ter repellido, mas de ter
-aproveitado ao mesmo tempo as suas indicações para mandar dois navios
-em busca da Asia pelo occidente, e que esses navios, açoitados por uma
-tempestade, tinham sido obrigados a voltar para Lisboa.
-
-Em primeiro logar era evidente que a viagem de descoberta não podia
-começar senão em Cabo Verde ou nos Açores. Se uma tempestade occasional
-os tivesse feito voltar a Lisboa, poucos dias depois de terem d’aqui
-saído, não era caso para descoroçoar. Só passado o meridiano dos Açores é
-que principiava a expedição.
-
-Demais, não sabemos que antes de Colombo muitos navegadores portuguezes
-tinham sondado os mares do occidente, não com o fito de demandarem a
-Asia, mas com o intuito de descobrirem terras novas? Era a transformação
-do intuito que representava o abuso de confiança? Era a escolha do
-parallelo a seguir? Não tinha o rei de Portugal a carta de Toscanelli que
-preconisava tambem a escolha do parallelo que a Cipango conduzisse?
-
-Não vemos nós claramente que a unica difficuldade de D. João II estava
-em fazer por sua conta a expedição? Se Colombo a fizesse á sua custa,
-não receberia do rei de Portugal senão todas as animações. E, recusando
-isso a Colombo, que elle considerava e estimava, ia fazel-o com outros
-pilotos, que, ainda que não tivessem menos habilidade nautica, não teriam
-de certo estudado a questão com a perseverança e o enthusiasmo de Colombo?
-
-Mas não continuemos, podemos hoje felizmente mostrar de um modo
-evidentissimo qual foi o facto verdadeiro que, mal interpretado, mal
-comprehendido, adulterado por alguma informação calumniosa, mais ainda
-pelo resentimento de Colombo, serviu de base á sua accusação.
-
-Temos mostrado como o governo portuguez fazia as concessões aos
-navegadores ilheus que queriam demandar terras novas: dava-lhes n’essas
-terras todos os privilegios possiveis, o direito de administrar a
-justiça, reservando sempre para a corôa os casos de pena de morte ou
-de talhamento de membros. Accentuava bem que esses privilegios não se
-limitavam ao caso de ser despovoada a terra que se encontrasse, mas que,
-se encontrassem terra habitada, como a famosa ilha das Sete Cidades,
-por exemplo, tinham sobre os seus moradores o mesmo poder com as mesmas
-restricções, e esses moradores tambem os mesmos privilegios. Ora em 1486,
-pouco depois de Colombo partir de Portugal, appareceu Fernão d’Ulmo
-a pedir uma concessão semelhante. El-rei fez-lh’a nas condições das
-anteriores, com umas modificações que são eloquentes:
-
-Em primeiro logar Ruy Gonçalves da Camara pedira _pera buscar nas
-partes do mar ouciano huumas ylhas_, Fernão Telles obtem a concessão
-de _quaesquer ilhas que elle achar_, e depois diz-se-lhe que a mesma
-concessão se faz no caso das ilhas serem povoadas. Fernão Dulmo pede que
-El-rei «lhe faça mercê e reall doação da dita hylha ou hylhas OU TERRA
-FIRME povoradas ou despovoradas, etc.» El-rei concede.
-
-Além d’isso faz-lhe mercê de toda a justiça _com alçada de poder
-enforcar, matar e de toda outra pena criminall._
-
-Prevê o caso de que as ilhas ou _terra firme_ sejam povoadas e offereçam
-resistencia a Fernão Dulmo, que vae á sua custa, é claro, e com a gente
-que poder levantar e pagar, e então El-rei diz-lhe: «ssendo caso que sse
-não queiram sujeitar _as ditas hylhas e terra firme a nos, mandaremos com
-o dito Fernam Dulmo gente e armadas de navios com noso poder pera sogigar
-as ditas hylhas e terra firme e ele Fernam Dulmo hyrá sempre por capitam
-moor das ditas armadas_.»
-
-O que mostra isto? Mostra que a insistencia de Christovam Colombo fez
-impressão em El-rei. Não vai nem por sombras intentar uma expedição á
-sua custa, mas procura facilitar o mais possivel as expedições para o
-occidente. Admitte a possibilidade de se encontrar terra firme, não põe
-as minimas restricções ao poder do descobridor, e, se a terra firme ou as
-ilhas se encontrarem e forem povoadas, se forem a Asia, é o que isto quer
-dizer, Fernão Dulmo pode contar que terá o rei comsigo com todo o seu
-poder para o ajudar, e o posto de capitão-mór garantido nas armadas que
-se expedirem.
-
-O sr. Ernesto do Canto, que publica no seu livro esta carta de doação na
-integra, estranha o facto que acabamos de notar, e escreve:
-
-«A jurisdicção concedida por esta carta é muito mais extensa do que
-a dos documentos analogos e anteriores, _o que admira da parte de D.
-João II, que tanto luctou para estabelecer a centralisação do poder
-real_.»[104]
-
-É positivamente a impressão produzida na alma do rei pelas propostas
-de Colombo. A visão do occidente começa a assenhorear-se da sua alma e
-atormenta-o. Querem outra prova ainda? Esta carta régia foi apresentada
-ao tabellião, e entre Fernão Dulmo e João Affonso celebra-se um contracto
-em que ha a seguinte clausula: «e quanto he ao cavalleiro alemam que em
-companhia deles hadir que ele alemam escolha dir em qualquer caravella
-que quiser e do dia que ambos partirem da dita hylha Terceira, etc.»
-
-Quem é este cavalleiro allemão que está evidentemente nos Açores e que
-parte com a expedição escolhendo a caravela que quizer? É claramente
-Martim de Behaim, que acaba de voltar da viagem que fez ao Zaire com
-Diogo Cão, Martim de Behaim, que tambem sonha com o encontro da Asia
-pelo occidente, que muita vez trocou idéas com Christovam Colombo a esse
-respeito, que se resolve a fazer uma tentativa, tentativa que parece não
-ter ido por deante, ou que, se se realisou, foi infeliz e se realisou
-sem elle, porque annos depois o encontramos na Allemanha trabalhando
-no seu famoso globo, e voltando de Nuremberg a Lisboa com o intuito de
-realisar emfim a sua expedição, munido de recommendações do imperador
-para o rei de Portugal e de animações de sabios. No intervallo Colombo
-antecipára-se-lhe. A America estava descoberta. Demais entre a saída de
-Christovam Colombo de Portugal e o descobrimento da America dera-se um
-grande acontecimento que robustecera a confiança de D. João II no methodo
-que seguira e que dissipára as suas apprehensões de um curto caminho para
-a Asia pelo occidente. A costa africana occidental fôra completamente
-descoberta, transpozera-se o Equador, percorrera-se toda a zona torrida,
-encontrára-se o termo do continente africano, e dobrára-se o cabo em cujo
-nome _Boa Esperança_ D. João II condensára o immenso jubilo da sua alma.
-O primeiro dos grandes problemas geographicos, que nem a antiguidade
-nem a edade média tinham conseguido resolver, tinham-n’o os Portuguezes
-resolvido. A preoccupação, que evidentemente tinham deixado no espirito
-do rei as propostas de Colombo, dissolvia-se por completo na alegria
-d’este triumpho.
-
-Mas vê-se bem agora como o conhecimento da nova tentativa açoriana,
-semelhante aliás a tantas outras que Colombo bem conhecia, devia
-ter irritado o animo do Genovez, que saía de Portugal, azedo e
-despeitadissimo. Chegou-lhe provavelmente aos ouvidos tambem a noticia
-das concessões excepcionaes feitas pelo rei, e até da designação especial
-de terra firme a descobrir. Tanto bastou para que se dissesse roubado,
-como se Colombo tivesse outra coisa que se lhe roubasse que não fossem
-as suas qualidades pessoaes, o seu genio, o seu enthusiasmo, o seu
-conhecimento da nautica e da astronomia. Tudo isso o levára elle comsigo.
-Demais, as concessões de D. João II, por mais amplas que fossem, não
-chegavam ao subsidio. O que D. João II recusára a Colombo, recusava-o
-tambem a Fernão Dulmo. N’estas circumstancias, mantinha-se nos seus
-principios; de que podia então queixar-se Colombo?
-
-Tambem, deve dizer-se, só d’essa vez se mostrou Colombo, n’um momento
-de colera, injusto com o nosso paiz. A terra de sua mulher, terra onde
-nascera seu filho, fôra sempre a terra dos seus amores. Com este povo de
-marinheiros se creára, pode assim dizer-se, porque foi aqui que brotaram
-devéras na sua alma as suas grandes aspirações, foi com o trato dos
-nossos pilotos que se instruiu praticamente, que aprendeu, por assim
-nos exprimirmos, a theoria das descobertas. Não o esqueceu nunca, nem
-quando pensava que era pelo vôo das aves que os Portuguezes tinham
-descoberto as ilhas, nem quando invocava, para sustentar uma das suas
-affirmações, os Portuguezes que tinham navegado tanto. Como Portuguez
-até se considerava, e fazia-lh’o sentir Toscanelli.[105] Com os nossos
-descobrimentos se enlaçaram os seus, e, apesar de tudo, vê-se-lhe não
-sei que funda pena de não ter podido fazer a sua gloriosa descoberta nos
-navios da nação amada. «O rei de Portugal, diz elle n’uma carta escripta
-a Fernando o Catholico pouco tempo antes da sua morte, _que entendia
-mais do que qualquer outro rei de descobertas de paizes desconhecidos_,
-de tal fórma o cegou a vontade do Altissimo que, durante quatorze annos,
-não pôde comprehender o que eu lhe dizia.» E tão extranho lhe parece esse
-caso que o toma á conta de milagre, e diz que _Nuestro señor le atajó la
-vista, el oido y todos los sentidos_.[106]
-
-Não! a verdade era que a empreza de Colombo era a empreza de um
-allucinado de genio, de um homem em quem a imaginação predomina, de
-um visionario que tem visões lucidas, de um inspirado, de um louco, e
-homens assim não podem dirigir-se, sem ser repellidos, áquelles que
-teem o forte equilibrio de todas as faculdades, aos que se deixam
-guiar em vida não pelas columnas de fogo da visão biblica, nem pelas
-scintillações dos sonhos, mas pelo clarão firme, sereno, da razão e do
-raciocinio. Encontraria Christovam Colombo no infante D. Henrique um
-homem que o comprehendesse, porque era um allucinado tambem; na epocha
-em que apparecia só o podia comprehender uma alma feminina, vibratil
-a todos os enthusiasmos, apaixonada pelas visões mysticas, accessivel
-á influencia magnetica de uma eloquencia aquecida pela sinceridade de
-uma convicção ardente, de uma mulher, emfim, que se chamava Isabel a
-Catholica, a mais radiosa encarnação da alma heroica da Hespanha, aquella
-que nos apparece nos longes da historia como a estatua da Poesia do
-Romancero, cavalheiresca e meiga, varonil na intrepidez e feminil na
-suave e captivadora influencia, e que elle vinha encontrar no momento
-mais proprio para a levar para as grandes conquistas ideaes, dentro dos
-muros da conquistada Granada, tendo varrido do solo de Hespanha a ultima
-tribu arabe e o ultimo soberano oriental, tendo feito tremular sobre
-o crescente prostrado a bandeira da cruz, e anciando tambem por abrir
-novos mundos á energia hespanhola, novas conquistas ao seu pensamento,
-enamorando-se facilmente da idéa de transpôr os limites do Oceano, de
-tentar, como outr’ora o infante D. Henrique, a gloriosa cruzada dos
-mares, e de ir arrancar emfim aos thesouros escondidos no tumulo do Sol o
-oiro do resgate para o tumulo de Christo.
-
-
-
-
-IX
-
-O tratado de Tordesillas e a viagem de Pedro Alvares Cabral
-
-
-Quando em março de 1493 Christovam Colombo entrou triumphalmente em
-Lisboa, e apresentou a D. João II os indigenas que trazia de Guanahani
-e lhe disse que voltava das terras de Cipango, o despeito de D. João
-II foi extraordinario. Tão pouco o soube esconder que houve fidalgos
-que lhe propozeram punir com a morte a jactancia do Genovez.[107] D.
-João II regeitou a offerta, e esmerou-se em dar a Christovam Colombo
-todos os testemunhos do seu apreço, mas a dôr era profunda e o desejo
-de desforço imperioso. Sustentando desde logo que as ilhas descobertas
-por Colombo estavam nos mares adjacentes á Guiné, tratou de mandar uma
-esquadra a esses paizes do occidente. A Hespanha protestou logo, e D.
-João II percebeu que tinha de desistir do intento, mas a sua diplomacia
-não descançou um instante, e o tratado de Tordesillas foi para essa
-diplomacia um verdadeiro triumpho.
-
-Tanto se empenhavam os reis de Hespanha em tomar conta das terras
-que Christovam Colombo descobrira, que a toda pressa se pediram
-para Roma as bullas necessarias, e com tanta rapidez se andou na
-negociação, facilitada, pelo facto de ser o Papa Alexandre VI—Rodrigo
-Borgia—hespanhol de nascimento e creatura dos soberanos hespanhoes,
-que, tendo chegado Christovam Colombo no dia 15 de março de 1493, e só
-tendo sido recebido por Fernando e Isabel em abril, logo a 3 de maio
-do mesmo anno se concediam á Hespanha essas ilhas e terras descobertas
-por Christovam Colombo; mas n’essa noite, ao que parece, pensou-se que
-seria bom, para evitar disputas com os Portuguezes, que se marcasse uma
-divisão entre estes, a quem os papas anteriores tinham concedido os
-mares adjacentes á costa africana do cabo Não e Bojador para deante, e
-os Hespanhoes, e no dia 4 de maio é que se promulgou a bulla definitiva,
-em que se traçou a linha divisoria do polo arctico «ad polum antarcticum
-quæ linea distet a qualibet insularum quæ vulgariter nuncupantur de los
-Azores et Cabo Verde centum leucis versus occidentem et meridiem».[108]
-
-Claramente se vê por este _qualibet_ que a segunda bulla foi redigida á
-pressa e á noite, não estando presente nenhum cosmographo, que podesse
-dizer aos negociadores qual era a mais occidental das ilhas dos Açores
-e de Cabo Verde, porque, como sensatamente observa Humboldt, é singular
-esta expressão applicada a dois archipelagos que ambos occupam uma
-grande extensão em longitude. Mas não havia tempo para demoras porque
-era necessario que apparecesse o facto consummado antes que o rei de
-Portugal tivesse tempo de saber de que é que se tratava. Depois do Papa
-ter julgado, suppunha-se que um rei catholico não ousaria protestar.
-
-Enganaram-se; já se não estava em plena edade média, nem D. João II
-era homem que deixasse o Papa interferir nos seus negocios temporaes.
-Protestou immediatamente e tanto que a bulla de Alexandre VI caducou, e
-a linha divisoria, que passava a cem leguas de qualquer das ilhas dos
-Açores e de Cabo Verde, transformou-se n’uma linha que passava a 370
-leguas do archipelago de Cabo-Verde.
-
-As negociações levaram tempo, e não foi sem reluctancia que Fernando e
-Izabel cederam ao seu impertinente visinho; mas nem Portugal n’esse
-tempo era paiz cuja inimizade fosse indifferente, nem os reis catholicos
-tinham ainda consciencia bem nitida da importancia das descobertas
-feitas; demais havia intimas relações de familia entre as duas casas
-reinantes.[109] O que é certo é que Portugal triumphou e o tratado
-assignado em Tordesillas em 7 de junho de 1494 substituiu para todos os
-effeitos a bulla de 4 de maio do anno anterior.
-
-Pois tão superficialmente se estuda a historia d’estes grandes
-acontecimentos da vida da humanidade que ainda hoje passa em julgado
-que foi a bulla de Alexandre VI que marcou a linha divisoria entre
-as descobertas portuguezas e as descobertas hespanholas, e o proprio
-Humboldt, eruditissimo como é, tanto parece ignorar o texto do tratado
-de Tordesillas que, suppondo que foi Christovam Colombo que indicou a
-linha das cem leguas por consideral-a a linha em que não tinha variação
-a agulha magnetica,[110] imaginando que a adaptação d’essa demarcação
-physica á demarcação politica tinha immensa importancia para Colombo,
-nem levemente allude ao desapontamento que a Colombo a mudança da linha
-divisoria devia ter causado.
-
-N’esse tratado, comtudo, ha um artigo transitorio que bem claramente
-mostra o absurdo da supposta descoberta de João Vaz Côrte Real. «E porque
-pode ser, diz o artigo, que os navios d’El-Rei e Rainha de Castella e
-Aragão tenham descoberto até vinte do corrente mez de junho algumas
-ilhas ou terras firmes dentro da sobredita linha que se ha de lançar de
-polo a polo a trezentas e setenta leguas das ilhas de Cabo Verde para o
-Poente, assentaram as Altas Partes Contractantes por seus Procuradores,
-que, para se evitarem duvidas, todas quantas tivessem sido achadas ou
-descobertas até os vinte de junho, bem que o fossem por navios e gente
-de Castella, sendo dentro das primeiras duzentas e cincoenta leguas das
-sobreditas trezentas e setenta a partir das ilhas de Cabo-Verde para o
-Poente, ficariam para El-Rei de Portugal, _e as que tivessem sido achadas
-dentro do dito prazo nas outras cento e vinte leguas restantes em que
-deve findar a dita linha pertenceriam a El-Rei e Rainha de Castella, bem
-que as cento e vinte leguas façam parte das trezentas e setenta leguas
-que ficam para El-Rei de Portugal_. E se dentro dos ditos vinte de Junho
-não fôr descoberto nada pelos navios d’El-Rei e Rainha de Castella dentro
-das ditas cento e vinte leguas, o que dentro d’ellas _d’ahi em diante
-se descobrir_ ficará pertencendo a El-Rei de Portugal, como acima fica
-dito.[111]
-
-Lá se ía a Terra Nova, se ella já estivesse descoberta, _porque só o que
-d’ahi em diante se descobrisse_ n’essas ultimas cento e vinte leguas de
-zona portugueza poderia ficar pertencendo a El-Rei de Portugal.
-
-Ora não era de certo platonicamente que D. João II reclamava para si 370
-leguas de mar para o occidente, mas em aproveital-as tinha o governo
-portuguez de ser prudentissimo para não despertar as justas reclamações
-do governo de Hespanha. Era necessario que se mostrasse sempre empenhado
-em proseguir as suas descobertas para o oriente, deixando a Hespanha á
-vontade para o occidente. As 370 leguas deviam servir-lhe para poder
-navegar com os braços livres para o sul. Tambem no primeiro momento não
-teria o nosso governo outro intuito. A expedição da India absorvia-lhe
-todo o pensamento.
-
-Vasco da Gama foi e attingiu a meta, e a gloria immensa que d’ahi proveio
-e os proventos palpaveis e immediatos que d’ahi resultavam escureceram
-por um momento a gloria de Colombo. Comtudo era incontestavel que
-a viagem pelo Cabo da Boa Esperança durava immenso tempo, e tinha
-difficuldades e perigos sem numero, e a Asia, que Colombo encontrára,
-estava tão perto! Note-se bem que não havia a esse respeito a minima
-duvida. Colombo chegára á Asia, chegára ás Indias, não á India riquissima
-a que aportára Vasco da Gama, não ao Cathay e ao Cipango fabulosamente
-opulentos de Marco Polo, mas a terras selvagens que não podiam ser senão
-as sentinellas avançadas do continente maravilhoso e dos archipelagos
-opulentos. Era ainda para o occidente que se encontrava Cipango, era para
-o sul? A opinião dos sabios tendia para esta ultima solução, e Pedro
-Martyr d’Anghiera, o celebre amigo de Colombo, exclamava indignado com
-uma expedição hespanhola á Florida:
-
-«Para o sul! para o sul! Para que precisamos nós de producções
-semelhantes ás producções vulgares do Meio-Dia da Europa?»[112]
-
-O que deduzimos d’aqui? Deduzimos que, tendo louvavelmente D. Manuel
-seguido á risca a politica de D. João II, a descoberta do Brazil por
-Pedro Alvares Cabral foi resultado não do acaso, mas do intento firme e
-propositado de procurar nos mares occidentaes o que Colombo ainda não
-encontrára claramente—outro caminho para a India.
-
-Allega-se contra isso o silencio absoluto do governo a esse respeito.
-Devemo-nos lembrar, porém, que Pedro Alvares Cabral não podia levar
-instrucções patentes e abertas que denunciassem intentos contrarios aos
-interesses da Hespanha. Lembremo-nos de que os reis catholicos tinham
-protestado abertamente contra o projecto de uma expedição portugueza para
-o occidente tentada por D. João II. Lembremo-nos de que, se a Hespanha
-prohibia com penas severas as expedições particulares e clandestinas
-para o lado que o governo estava explorando, não podia consentir que
-expedições identicas fossem tentadas por um governo estrangeiro. O
-governo portuguez tinha de se mostrar exclusivamente preoccupado com
-a navegação do Oriente pela Africa; se as suas esquadras aproveitavam
-as 370 leguas para se chegarem para o occidente era para evitarem as
-calmarias da Guiné, e nunca no intento de interferirem com as descobertas
-hespanholas, tanto assim que, apenas D. Manuel participa ao rei de
-Hespanha o descobrimento do Brasil, apressa-se a dizer-lhe que é terra
-muito boa e muito commoda para a navegação da India. Effectivamente o
-rei de Hespanha obtivera promessa positiva do rei de Portugal de que
-não tentaria navegar para o occidente, e tão positiva ella era que em
-cartas a Christovam Colombo declara el-rei D. Fernando, que era aliás
-bem desconfiado, que não havia motivo para desconfiar das intenções
-do rei de Portugal. Apesar de tudo estavam sempre prestes caravelas
-para poderem seguir no encalço das nossas, caso algumas saíssem com
-intenções suspeitas.[113] Não admira portanto que se falasse bem alto na
-necessidade de se evitar as calmas da Guiné, que nunca mais preoccuparam
-os navegadores portuguezes depois do Brasil se ter descoberto, que D.
-Manuel quizesse convencer bem o rei de Hespanha de que a nova terra não
-era para elle senão um porto de escala para a navegação do oriente.
-
-Além d’isso, sabe-se pela leitura do famoso livro de Duarte Pacheco,
-_Esmeraldo de situ orbis_, que, apesar de todas as precauções
-hespanholas, já em 1498 Duarte Pacheco recebera ordens para ir sondar
-os mares do occidente. De um periodo da sua declaração, confusamente
-redigido, se quer deduzir que Duarte Pacheco houvesse então descoberto
-o Brasil, e que Pedro Alvares Cabral não fosse senão tomar posse, mas
-a descripção de Duarte Pacheco é absolutamente inexacta, o que prova
-que não vira a terra de que fala, e além d’isto não era natural que
-Duarte Pacheco, depois de ter descoberto secretamente o Brasil, não
-fosse na esquadra que era exactamente encarregada de o descobrir
-officialmente.[114]
-
-O que prova porém esta declaração é que o governo portuguez não
-descançava em proseguir na navegação occidental, que, apesar das
-precauções dos hespanhoes, lá iam navios nossos perscrutar o occidente, e
-que bem provavel é que Pedro Alvares Cabral, cujas instrucções—por acaso
-ou de proposito?—só nos chegaram truncadas, fosse encarregado de ver se,
-mais feliz do que Colombo, encontrava, de caminho para a India, as terras
-maravilhosas cujo sonho continuava a perseguir a imaginação dos Europeus.
-
-Como era possivel, diz-se, que Pedro Alvares levasse uma esquadra tão
-numerosa, se fosse no intento de fazer descobertas, que se faziam
-habitualmente com tres ou quatro caravelas? Em primeiro logar era
-indispensavel esconder ao rei de Hespanha esses intentos descobridores,
-em segundo logar, se effectivamente se fosse ter ás terras governadas
-pelos potentados de que Marco Polo dera noticia, o exemplo do que
-succedera a Vasco da Gama bem mostrava quanto era necessario que se
-não apparecesse com pequena força deante d’esses soberanos do Oriente,
-em terceiro logar o fim principal da viagem era ir á India. Se
-effectivamente se topasse o Cipango ou o Cathay, a esquadra de Pedro
-Alvares ia bem, assim forte e numerosa; se nada se encontrasse, ou se se
-encontrasse terra como a que Colombo encontrara, voltava-se a seguir o
-velho caminho de Calicut.
-
-Porque é que Pedro Alvares, tendo realisado a descoberta de que ia
-incumbido, não voltou a Lisboa a dar a gloriosa noticia de tão importante
-feito? Porque nem elle lhe reconheceu a importancia nem na côrte lh’a
-reconheciam. O que dava cuidado ao governo portuguez não era que Colombo
-tivesse descoberto umas ilhas selvagens, era que elle tivesse encontrado
-um novo caminho para a India, assim como o que desconsolava os reis
-catholicos, e fazia perder a Colombo o seu valimento e auctoridade, era
-que, em vez d’elle ter encontrado paizes florescentes e civilisados,
-encontrára ilhas selvagens.
-
-Depois do que temos dito, não extranham de certo os leitores e encontra
-acceitavel explicação o facto de D. Manuel não ter dito aos reis
-catholicos, nem se ter publicado o verdadeiro motivo da descoberta do
-Brasil. Vejamos agora se os motivos até hoje allegados teem razão de ser.
-
-Foi uma tempestade que arrojou os navios em direcção ao occidente?
-Extranha tempestade, que, em vez de dispersar os navios, os leva de
-conserva ao mesmo ponto! Além d’isso nem o piloto da esquadra, que fez
-a relação que Ramusio publicou nem Pero Vaz Caminha e o physico João
-nas suas celebres cartas, nem D. Manuel nas cartas que escreveu aos
-reis catholicos dizem uma palavra a respeito de semelhante tempestade.
-Foi muito depois que Pedro de Mariz se lembrou de dar, por effeito
-decorativo, a tempestade legendaria das descobertas á narrativa do
-descobrimento do Brasil, que lhe parecera provavelmente desenfeitada
-demais na sua abstenção de episodios.
-
-Note-se além d’isto que, segundo as informações dos roteiros colligidas
-n’uma preciosa memoria do illustre official da marinha portugueza o sr.
-Arthur Baldaque da Silva, as tempestades que sopram na região percorrida
-pelas esquadras de Pedro Alvares, e na quadra em que elle a percorreu são
-de noroeste e de sudoeste, que, longe de impellirem os navios para a
-costa do Brasil pelo contrario os afastariam.[115]
-
-Mas foram as correntes que levaram os navios, diz Gonçalves Dias na
-memoria em que procura refutar os argumentos de Joaquim Norberto,
-e a grande corrente equatorial arrastou os navios para a costa do
-Brasil.[116] Se Pedro Alvares Cabral tivesse chegado ao Pará, a sua ida
-teria uma explicação, porque a corrente segue de leste a oeste ao longo
-do Equador, mas, bifurcando no cabo de S. Roque, segue uma direcção
-tal, combinada com os ventos geraes, que uma esquadra, diz o almirante
-Monchez ha pouco fallecido, «não pode senão afastar-se cada vez mais da
-costa, quando quer dobrar o cabo da Boa Esperança, visto que de um lado
-os ventos permittem navegar para leste, do outro a costa afasta-se para
-oeste».[117] Se se appella para as correntes da costa, vemos, segundo
-o testemunho do mesmo almirante Monchez, «que durante a monção de SO
-levam para o norte»;[118] ora a monção de SO dura de abril a setembro,
-exactamente quando Pedro Alvares Cabral era, segundo se diz, arrastado
-pelas correntes para o sul.
-
-Estes factos pareceram tão singulares ao almirante Monchez que não
-podendo explicar por elles a descoberta do Brasil, e não conhecendo
-os elementos politicos da questão, deduz o seguinte: «É pois quasi
-impossivel dar outro motivo plausivel da chegada de Cabral á vista de
-terra pelos 16° de latitude, a não ser um erro de caminho por esse
-navegador.»[119]
-
-Esse erro tinha de ser constante durante 15 dias, e seria singular que só
-se désse quando trazia em resultado a descoberta do Brasil, ao passo que
-antes d’isso tinham passado, sem o mais leve engano, pelas Canarias e por
-Cabo Verde, e depois d’isso foram direitos ao cabo da Boa Esperança.
-
-Confronte-se isto tudo, note-se que temos prova authentica de que em
-1498, do anno immediato áquelle em que Vasco da Gama sahira de Portugal,
-foi Duarte Pacheco incumbido de ir descobrir terras a sudoeste, que o
-governo hespanhol tanto desconfia dos intentos de Portugal que espreita
-as nossas costas e tem navios promptos para seguir qualquer expedição
-portugueza que para o occidente se dirija, que D. Manuel, para desfazer
-suspeitas, trata logo de declarar que a terra descoberta a utilidade que
-tem é servir de porto de escala para a navegação da India, que trata
-tambem de disfarçar a distancia a que o Brasil fica de Cabo Verde,
-porque, tendo-lhe dito Pero Vaz de Caminha na sua carta que a nova
-terra ficava a 660 ou 670 leguas da ilha de S. Nicolau no archipelago
-de Cabo Verde, para os reis catholicos diz elle que fica a 400 leguas
-não da ilha mas do Cabo Verde que bem se pode suppor que seja o da costa
-africana,[120] de fórma que ficava assim o Brasil dentro da demarcação
-do tratado de Tordesillas, e veja-se se não é de uma evidencia absoluta
-que a descoberta do Brasil estava nos planos do governo portuguez, não
-porque soubesse a terra que ia encontrar mas porque não queria deixar aos
-seus rivaes o proveito de um caminho para a Asia mais curto do que o que
-Vasco da Gama acabava de descobrir.
-
-Não vale a pena demorar-mo-nos nem um instante na refutação das lendas
-relativas a suppostos descobrimentos do Brazil, anteriores a Pedro
-Alvares Cabral. A lenda mais pueril é a que suppõe que, não só antes de
-Pedro Alvares ter aportado a terras de Santa Cruz, mas ainda antes de
-Colombo ter aportado a Guanahani, um Portuguez, João Ramalho, chegára a
-terras brasileiras. Baseia-se essa lenda n’um supposto testamento feito
-por esse João Ramalho, que foi efectivamente um dos primeiros colonos do
-Brasil, mas que se tornára, pela sua residencia entre selvagens, quasi
-tão selvagem como elles, testamento feito por elle em 1580, e em que
-declara que havia noventa annos que estava no Brasil, aonde chegára, por
-conseguinte, em 1490. Era portanto macrobio este venerando descobridor
-que não podia ter menos de 20 annos quando chegou ao Brazil, e, ainda
-quando o fosse, era singular o testamento de um homem, que, aos 110
-annos, tendo perdido as noções da vida civilisada, com tanta precisão
-chronologica dizia que estava no Brasil não ha oitenta ou noventa annos,
-como seria natural que o fizesse e talvez ainda exaggerando a conta,
-mas rigorosamente ha noventa! Ora d’esse testamento não ha noticia
-senão a que dá um d’esses chronistas fradescos do seculo XVII, que tão
-facilmente, como é sabido, falsificavam datas e inventavam documentos.
-Mas o golpe mortal n’esta lenda infantil foi dado por um eminente
-escriptor brasileiro, o sr. Candido Mendes de Almeida, que depois de
-mostrar o absurdo da lenda e a ausencia de documentos em que se baseasse,
-publicou uma carta de um jesuita que, estando em 1559 na terra em que
-João Ramalho habitava, e dando conta aos seus superiores dos progressos
-da conversão dos indigenas, lhes fallava n’um Indio que lhe pediu que lhe
-dissesse quaes os dias em que devia jejuar, porque deixára de o saber
-desde _a morte de João Ramalho_, que era quem em vida lh’o dizia.[121]
-
-O que é, porém, estranho é que ainda encontremos com relação ao Brazil
-a questão dos mappas. Porque mestre João diz a D. Manuel que, para
-saber o sitio d’essa terra, veja um mappa-mundi antigo que tem Pero Vaz
-Bisagudo, d’ahi se conclue que o Brasil já fôra descoberto, tanto que
-já o inseriam n’um mappa. É a eterna historia dos mappas conjecturaes,
-dos mappas em que appareciam ilhas que ninguem vira e que ninguem chegou
-a vêr, e aquella terra ao sul do Equador, a terra incognita austral, a
-terra antichthona ou o _alter orbis_. Pois não se vê realmente que as
-cartas muitas vezes acompanhavam as descobertas, e que, se em rigor era
-possivel que se fizessem descobrimentos que ficassem desconhecidos, o que
-era impossivel era que a noticia d’esses descobrimentos se propagasse de
-fórma que lhes inserissem os cartographos nos mappas os resultados, e que
-apesar d’isso ficassem desconhecidos dos escriptores, dos sabios e dos
-governos!
-
-Cem vezes o repetiremos: os descobridores do seculo XV, cheios de
-respeito tradicional pela sabedoria antiga, não aspiravam senão a
-encontrar o que os antigos, no seu entender, conheciam perfeitamente, e
-por isso faziam esforços para adaptar o que descobriam e que encontravam
-aos mappas conjecturaes. Como veremos, o que procuravam agora era a terra
-antichthona, a que já se podia chegar desde o momento que se passára a
-zona torrida, mas que estava separada da nossa pela extensão dos mares.
-A essa terra antichthona suppunham chegar agora encontrando o Brasil,
-e era ao Brasil até que chamavam o _novo mundo_. Que Pedro Alvares
-Cabral julgára ter chegado á terra separada pelo mar do hemispherio
-septentrional é incontestavel, e por isso facilmente se convenceu, pelo
-que julgou deprehender dos gestos dos selvagens, que estava n’uma ilha, a
-que deu o nome, primeiro que o Brasil teve, de ilha de Vera Cruz.[122]
-
-Julgamos porém ter demonstrado que esse descobrimento se liga intimamente
-com o de Colombo, é a sua consequencia, como era tambem, ao mesmo
-tempo, o da Terra-Nova por Gaspar Côrte Real. As descobertas portuguezas
-conjugadas com as de Colombo produziam a descoberta do Brasil. Os dois
-grandes problemas geographicos estavam resolvidos: a zona torrida não era
-inultrapassavel, e por isso Pedro Alvares Cabral, seguindo as pizadas
-de Bartholomeu Dias e de Vasco da Gama transpunha o Equador, entrava
-em plena zona torrida e ía tranquillamente ao hemispherio meridional.
-A extensão do mar oceano não era infinita, tinha o Atlantico outra
-margem, e Pedro Alvares Cabral ía com plena confiança procural-a. Sem
-os descobrimentos portuguezes nada faria Colombo, porque os Açores eram
-um ponto capital de partida para as expedições occidentaes, e porque os
-terrores da zona torrida e das suas proximidades, não lhe permittiriam
-seguir o parallelo que seguiu. Sem o descobrimento de Colombo nada faria
-Pedro Alvares Cabral, porque não ousaria ir tão longe para o occidente. A
-Hespanha e a Portugal devia o mundo essa transformação da sua geographia.
-Completal-a-hia a circum-navegação do globo e o encontro do caminho pelo
-occidente para a Asia, e, como se a Providencia quizesse d’essa forma
-sellar de um modo indestructivel a collaboração dos dois povos na obra
-mais importante da historia da humanidade, foi um capitão portuguez
-commandando navios hespanhoes que deu ao mundo o cinto argenteo do rasto
-das suas quilhas, foi Fernão de Magalhães que planeou dirigiu e iniciou
-a expedição, foi Sebastião d’El-Cano que a completou e concluiu, e para
-que n’essa consagração ultima e solemne da conquista definitiva da Terra
-pelo homem, não faltasse tambem a patria gloriosa de Colombo, a audaz,
-a pensadora e sonhadora Italia, ía Pigafetta na expedição que narrou,
-para que assim os tres povos latinos, que eram egualmente benemeritos da
-civilisação e da sciencia, tivessem n’esse coroamento da grande obra os
-seus representantes. Essa epopéa ultima que ía pôr o fecho ao trabalho
-épico de um seculo para sempre glorioso nos fastos da humanidade, foi
-um Portuguez que a dirigiu, foi um Hespanhol que a completou, foi um
-Italiano que a escreveu.
-
-
-
-
-X
-
-Os Côrte-Reaes—Americo Vespucio Fernão de Magalhães
-
-
-Se antes da descoberta de Colombo, se tinham arrojado por mais de uma vez
-navegadores açorianos para os mares do Occidente, com muita mais razão o
-fariam, logo que esse importante acontecimento se realisou. Evidentemente
-as viagens haviam de multiplicar-se.
-
-O esforço dos Açorianos e muito especialmente dos Côrte-Reaes dirige-se
-então sobretudo para o Norte. Desde que Colombo chegou ás Antilhas,
-que elle tomou por archipelago asiatico, e a Cuba que elle tomou então
-por um pedaço de terra firme asiatica, opinião em que por muito tempo
-persistiu, os navegadores de todos os paizes e principalmente os que,
-antes de Colombo, como os Açorianos, já se occupavam de descobertas
-para o occidente, haviam de procurar seguir-lhe as pisadas e procurar,
-o que elle não conseguira, encontrar as terras maravilhosas de Cipango
-e do extremo oriental das Indias. A convicção geral era que para o sul
-é que se conseguiria esse _desideratum_, e já vimos como Pedro Martyr
-d’Anghiera soltava com um enthusiasmo quasi irritado esse grito: Para o
-sul! para o sul!
-
-Era esse effectivamente o caminho que todos em geral seguiam. Colombo e
-os Pinzon ou foram mais para o occidente, ou foram para o sul. Mas isso
-não queria dizer que a idéa da navegação pelo norte não entrasse tambem
-em muitos espiritos.
-
-O mappa de Toscanelli, aquelle famoso mappa que era provavelmente o
-que estava nas mãos de Pero Vaz Bisagudo, obedecia aos principios do
-geographo que o desenhára e que tinha a convicção de que ao occidente
-havia um prolongamento da Asia, que defrontava com o continente europeu
-e africano desde a Islandia até Guiné. Se, indo ao centro, Colombo
-encontrára effectivamente a Asia, como suppunha, mostrava portanto
-que era verdadeira a conjectura de Toscanelli, restava confirmal-a
-completamente. Foi isso que levou Pedro Alvares Cabral e muitos outros
-navegadores, ou ás occultas ou a descoberto, a dirigirem-se para o sul,
-foi isso talvez o que levou os Côrte-Reaes para o Norte.
-
-Lembram-se os leitores de que uma das supposições da geographia
-systematica dos antigos era que o mar Baltico tinha saída para o oriente
-e que ía ligar-se com o mar Indico. Strabão dizia que «o facto de que
-certos navegadores viessem por mar da India á Hyrcania não é considerado
-como certo, mas que isso seja possivel, Patroclo nol-o assegura.»[123]
-Pomponio Mela conta muito positivamente que Metellus Céler, sendo
-proconsul das Gallias, recebêra de presente de um rei germanico uns
-Indios que, açoitados pela tempestade, tinham vindo da India á Germania
-«vi tempestatum _ex Indicis æquoribus abrepti_.»[124] Discutiu-se muito
-no nosso tempo se estes homens, que eram, ao que parece, e no caso de
-ser verdadeira a noticia, de uma raça differente da européa, não seriam
-afinal de contas senão Esquimaus arrojados, como a barcos tantas vezes
-succedêra e tem succedido, das costas americanas ás costas irlandezas,
-escocezas ou allemãs. O que é certo é que a idéa de haver communicação
-entre a Europa e a India pelo norte, indo-se, porém, do occidente para o
-oriente estava enraizada no animo de muitos geographos antigos.
-
-Assim que se encontrou ou se suppoz encontrar a costa asiatica indo-se
-pelo occidente, a communicação tanto se podia fazer pelo norte, como
-pelo centro, como pelo sul. Effectivamente as costas asiaticas, como o
-suppozera Toscanelli, estendiam-se de norte ao sul, desde a Islandia até
-á Guiné. Era evidente que a expedição do norte tentava os açorianos. Logo
-que Gaspar Côrte-Real em 1500 encontrou terras, imaginou, como Colombo,
-ter encontrado terras asiaticas, e uma carta de Pespertigo, embaixador de
-Veneza em Portugal, é, para esclarecer esse assumpto, muito curiosa.
-
-Diz elle: «Tambem crêem (os _Portuguezes_) estar ligada (_a Terra dos
-Côrtes-Reaes_) com as Antilhas que foram descobertas pela Hespanha, e com
-a terra dos papagaios (_Brasil_) ultimamente achada pelos navios d’este
-reino que foram a Calicut.»[125]
-
-Humboldt que teve conhecimento d’este documento, espanta-se muito com
-elle. «No mez de outubro de 1501, diz o sabio escriptor, sabia-se já em
-Portugal que as terras do norte cobertas de neves e de gelo são contiguas
-ás Antilhas e á Terra dos Papagaios novamente encontrada. Esta advinhação
-que proclama, apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, como
-ligação continental entre o Brasil descoberto por Vicente Vanez Pinzon,
-Diogo de Sepe e Cabral e as terras geladas do Lavrador _é muito
-surprehendente_.»[126]
-
-A surpreza de Humboldt vem apenas da pouca importancia que elle dá á
-interferencia portugueza no descobrimento da America. Desde o momento
-que elle ignora as tentativas dos Açorianos para chegarem a terras
-occidentaes antes de Colombo, as tentativas que fizeram depois, desde o
-momento que elle não conhece as expedições clandestinas dos Portuguezes
-para encontrarem ao sul as terras asiaticas que Colombo não achára,
-desde o momento que attribue a um méro acaso a descoberta do Brasil
-por Pedro Alvares Cabral é evidente que não pode achar a concatenação
-de todos estes esforços, de que provém o presentimento da ligação de
-todas essas terras descobertas separadamente. Era sempre a Asia que
-todos os descobridores julgavam encontrar, ilhas da Asia ao sul, terras
-da Asia ao norte. N’um mappa publicado recentemente pelo sr. Harnin, o
-brilhante apologista dos Côrte-Reaes, se diz que viram n’umas terras a
-que não chegaram «serras muito espessas, pollo quall segum a opiniom dos
-cosmófircos se cree ser a _ponta d’asia_.»[127]
-
-A prioridade do descobrimento da Terra do Lavrador e da Terra Nova
-por Gaspar Côrte-Real está hoje tão completamente demonstrada, depois
-que o sr. Harnin e o sr. Patterson publicaram os seus excellentes
-trabalhos, que nos parece escusado insistir na refutação das pretenções
-dos dois Cabots, venezianos ao serviço da Inglaterra. É realmente
-curioso e estranho, que as descobertas portuguezas, apenas são feitas,
-encontram logo echo em todo o mundo, e as descobertas estrangeiras,
-que destruiriam as nossas, tanto em segredo se fazem, que só depois
-se suppõe reconhecel-as por uma referencia vaga ou por um documento
-apocrypho. Apenas Gaspar Côrte-Real volta da Terra Nova, apressa-se
-Pedro Pascaalijo, embaixador de Veneza (de Veneza, que é a patria de
-Cabot) a communical-a ao seu governo, Alberto Contino ao duque de Mantua.
-Das viagens de João Cabot só se deprehende que podia ser que tivessem
-existido, por uma d’essas referencias vagas que temos mencionado. Mais
-ainda. Henrique VII de Inglaterra, em cujo proveito fizera Cabot a sua
-expedição, dá a 19 de março de 1501 a mais larga e avultada doação que é
-possivel imaginar-se a tres negociantes de Bristol, Richard Warde, Thomaz
-Assehepurat e John Thomaz, associados com os açorianos João Fernandes,
-Francisco Fernandes e João Gonçalves, para que fossem explorar,
-descobrir, povoar e dominar todas e quaesquer terras nos mares oriental,
-occidental, austral, boreal ou septentrional, garante-lhes que, se
-alguns estrangeiros ou outros individuos ousarem navegar para as partes
-onde elles forem, sem licença, serão punidos, embora invoquem qualquer
-concessão que lhes tenha sido feita, etc. É uma verdadeira concessão
-ingleza, positiva e ao mesmo tempo minuciosissima, sem restricções nem
-peias, como de quem quer que as coisas se façam e não regateia os meios,
-mas, se João Cabot se tivesse antecipado a estes mercadores e em proveito
-do rei de Inglaterra, era absolutamente disparatada semelhante concessão,
-que só se pode fazer, quando os lezados, se os houver, pertencerem a paiz
-estrangeiro, e possam, portanto, ser tratados como inimigos.[128]
-
-Mas a origem da lenda aponta-a com segurança o sr. Ernesto do Canto.
-Está na adulteração da versão latina de uma das cartas de Pascaaligo.
-Diz que «os selvagens têem nas orelhas umas argolas de prata _che senza
-dubbio pareno sia facti a Venetia_. E, dizendo isto, quer o embaixador
-dar uma idéa do aperfeiçoamento d’aquella arte selvagem. O traductor diz
-tranquillamente: _cælaturam Venetam in primis præ se ferentes_. E assim,
-por uma traducção de má fé ficou estabelecido que antes dos Portuguezes
-alli tinham estado Venezianos. E quando Pascaaligo affirma que a terra
-descoberta por Gaspar Côrte-Real até ahi _nunca_ fôra vista por ninguem,
-Madrijuan traduz: terra até ahi _a quasi_ todo o mundo desconhecida.[129]
-
-Mas, apesar d’isso, essas terras do norte figuraram por muito tempo
-nos mappas como _terras dos Côrtes-Reaes_. Na Terra Nova, no Canadá,
-no golpho de S. Lourenço conservaram-se nomes portuguezes que se
-reconhecem atravez da adulteração, como _Por_ Baye bahia da _Torre_,
-_Mira_, _Minas_, _Porto-Novo_, transformado em _Port-Novy_, e o nome de
-Lavrador por tanto tempo consagrado difficilmente se pode attribuir a
-outra linguagem que não seja a portugueza. Felizmente são escriptores
-americanos e dos mais notaveis que defendem a gloria portugueza e
-justificam as nossas reivindicações.[130]
-
-Na segunda viagem Gaspar Corte-Real singrou mais para o norte, mas nunca
-mais voltou. Foi em sua busca seu irmão Miguel Corte-Real, mas tambem se
-perdeu entre os gelos, voltando as caravelas que acompanhavam a sua. E é
-de ver que, longe de procurarem terras para o sul das que primeiro tinham
-descoberto, e que seriam de certo mais attrahentes e tentadoras, era
-sempre para o norte que seguiam, tão radicado estava no seu pensamento
-o desejo de procurarem a Asia, a Asia opulenta, por aquellas gelidas
-paragens septentrionaes, de fórma que a procura d’essa passagem do
-noroeste que fez tantos martyres nos tempos modernos e glorificou tantos
-navegadores illustres, foi tambem pelos Portuguezes primeiro tentada com
-audacia mais notavel ainda por serem meridionaes que nem tinham visto
-talvez em toda a sua vida neve, mas que orgulhosos de terem provado que
-não era inhabitavel a zona torrida queriam a todas as zonas declaradas
-inhabitadas pelos antigos, ampliar a sua demonstração, e quando Franklin,
-o heroe moderno, que esse ao menos sempre vivera em regiões onde o frio é
-um inimigo constante que se conhece e com que se lucta, ia deixar n’essas
-ignotas regiões o seu cadaver e dos seus e o casco esmigalhado do seu
-navio, encontrou talvez enterrada em eternos gelos a caravela de Miguel
-Corte-Real, e branquejando entre as neves á luz crepuscular do sol dos
-polos os ossos dos audaciosos Portuguezes que, na epocha aurea da sua
-gloriosa expansão, não queriam deixar um só recanto do mundo a que não
-levassem a ousadia do seu genio e o ardor das suas explorações.
-
-Por muito tempo perseverou na exploração do Norte a gente açoriana e
-minhota. A lista dos descobridores não pára nos Côrte-Reaes. João Alves,
-Fagundes e outros exploraram essa costa, ainda depois dos francezes e
-inglezes terem tentado tambem ir exploral-a. Houve até tentativas de
-colonisação, e esses mares foram por muito tempo theatro de actividade
-dos pescadores portuguezes. Hakluyt ainda notou que eram Portuguezes
-e hespanhoes os que mais se occupavam da pesca do bacalhau. Navios
-portuguezes estavam, em certas occasiões, cincoenta ou sessenta.[131] Mas
-depois cahiu sobre tudo isto a mortalha da decadencia, que, não recobre
-ao menos a mortalha do esquecimento.
-
-Entretanto o Brasil, considerado uma ilha, continuava a ser explorado
-por Gonçalo Coelho, por Christovão Jacques, Fernando de Noronha, etc., e
-tambem pelos hespanhoes Pinzon e Solis e pelo veneziano Cabot. N’algumas
-das expedições portuguezas[132] foi como piloto Americo Vespucio; do seu
-nome fez Ylacomilas na sua _Cosmographiae introdutio_ o nome do novo
-continente, e por esse facto se lamenta a injustiça da posteridade, que
-esqueceu o nome do grande descobridor Colombo para glorificar o nome do
-fanfarrão cosmographo.
-
-É esta questão que rapidamente vamos tratar.
-
-Colombo morreu julgando sempre que chegara á Asia e o mundo partilhava
-a sua opinião. Quando Pedro Alvares Cabral encontrou terra ao sul do
-Equador, já se não poude acreditar que se estivesse nas visinhanças do
-Cathay e do Cipango. Não o permittia a latitude. Quando as explorações
-successivas fizeram reconhecer que se estava realmente n’um grande
-continente, o que se imaginou, o que se entendeu, porque a tudo
-presidia a lembrança das theorias da antiguidade, foi que se estava em
-terra antichthona, e por isso, como diz D. Manuel na sua carta ao rei
-catholico, muitos lhe davam o nome de Novo Mundo.[133] Era effectivamente
-_alter orbis_, a quarta parte da terra, com a qual nada tinham as ilhas
-asiaticas e o continente asiatico que Christovam Colombo descobrira.
-
-Quando os Portuguezes em 1501, suppunham que as Antilhas, o Brazil e a
-Terra Nova constituiam uma terra unica, suppunham que essa terra era a
-Asia. Quando depois de 1501 se viu que o Brazil se prolongava muito para
-o sul, entendeu-se que as Antilhas e a Terra Nova faziam parte da Asia,
-mas que o Brazil constituia a quarta parte do mundo, o _alter orbis_, o
-Novo Mundo, a terra central de Ptolomeu.
-
-Portanto não se fazia uma injustiça a Colombo, nem talvez a Cabral, só
-aos capitães das expedições em que Americo Vespucio navegara, porque
-essas expedições é que tinham identificado o paiz novamente descoberto
-com a antiga terra de Ptolomeu, mas Americo o cosmographo, que espalhara
-a noticia, foi que colheu o proveito, e o _novo mundo_ descoberto, não
-por Christovão Colombo, que nem acceitaria semelhante gloria, mas pelas
-expedições de que fazia parte Americo, recebeu o nome de America,[134]
-sem que Colombo, se ainda estivesse vivo, podesse ou quizesse protestar.
-
-De certo, depois, quando se reconheceu a verdade, quando se percebeu que
-Novo Mundo era tudo, seria de perfeita justiça restituir a Colombo o
-que a Colombo era devido, mas já se tomara o habito da nova denominação,
-demais a mais euphonica e agradavel, e America ficou sendo o todo, quando
-ao principio só fôra America uma parte.
-
-Não temos ensejo agora de discutir a questão das verdades ou das mentiras
-de Americo. Parece-nos comtudo que tem sido injustamente maltratado o
-cosmographo florentino. É-lhe muito adverso o visconde de Santarem,
-que a seu respeito publicou um livro celebre,[135] mas o visconde de
-Santarem não tinha conhecimento das expedições clandestinas portuguezas,
-conhecimento que torna hoje mais verosimil a viagem em que Americo
-Vespucio encontrou, indo para o occidente, Pedro Alvares que voltava da
-India, e que fôra considerada pelo visconde de Santarem apocrypha.
-
-Reconhecida a existencia da terra central, era indispensavel procurar
-meio de se chegar á Asia. As expedições portuguezas levavam todas o fito
-de encontrar um estreito que as conduzisse aos mares asiaticos. Essa idéa
-do estreito era predominante nos espiritos do tempo. Era assim que se
-fazia a communicação entre os dois mares, e era por estreitos, segundo a
-cosmographia antiga, que se fazia a communicação entre o mar exterior e
-os golphos que elle formava, que eram, como dissémos, o mar Persico, o
-Indico, o Mediterraneo e o Caspio.[136]
-
-Como estreitos conhecia a geographia conjectural os mares descobertos por
-Christovão Colombo. Havia-os em Panamá, e alguns rios da America do Sul
-foram tomados primeiro por estreitos.[137] D’ahi a lenda que attribue a
-Fernão de Magalhães o ter tido já conhecimento, por um mappa, do estreito
-que descobriu. O que elle tinha era a lição dos mappas conjecturaes, era
-o culto pelas velhas theorias que faziam passar por estreitos as aguas
-do mar exterior para os mares interiores, e se elle descobriu o que
-os outros não acharam, se á Hespanha levou essa gloria, foi porque D.
-Manuel, cançado de não encontrar senão terra para o sul, entendeu que o
-novo continente se immergia ao sul, como ao norte, pelo polo. Magalhães
-perseverou, dizendo que penetraria no estreito, ainda que tivesse de
-sumir-se na região polar, onde ha o frio e a brisa;[138] depois a
-descoberta das ilhas do mar Pacifico ao sul da Asia, feita por Antonio
-de Abreu e os outros expedicionarios enviados por Albuquerque, mais o
-convenceu de que haveria ilhas tambem ao sul da America como as havia
-ao sul da Asia, e que entre essas ilhas havia de encontrar por força o
-famoso estreito que o conduziria pelo occidente á Asia.
-
- * * * * *
-
-Tinha concluido este meu trabalho, e tratava já de lhe pôr o fecho,
-quando exigencias de uma missão official me levaram a Hespanha. Assisti
-no dia 11 de outubro de 1892, em Huelva, á ultima sessão do congresso
-dos americanistas, e, não podendo apresentar o livro que estava por
-completar, apresentei uma resumida indicação em francez das idéas que
-lhe serviam de fundamento. Acolhida com extraordinaria benevolencia,
-essa communicação teve a felicidade de encontrar echos sympathicos.
-O sr. Hamy, membro do Instituto de França, e dignissimo successor
-do grande Quatrefages, e o sr. Marcel, distincto geographo, deram
-noticia ao congresso, logo em seguida á leitura do meu resumo, e a mim
-em particular, de trabalhos seus que confirmavam plenamente a minha
-conjectura ácerca da descoberta do Brasil. A linha de demarcação de
-Tordesillas fôra origem de falsificações cartographicas inspiradas pelo
-zelo patriotico dos cartographos, falsificações pelas quaes Portuguezes
-e Hespanhoes procuravam fazer entrar dentro da zona dos seus paizes as
-terras que se iam descobrindo. Assim effectivamente o governo portuguez
-mostrava que não fôra platonicamente que pedira e obtivera as 370 leguas
-além das ilhas de Cabo-Verde. Tratou logo em seguida de explorar esse mar
-occidental, cujos segredos Colombo desvendára, e a viagem clandestina de
-Duarte Pacheco não era senão uma d’essas explorações, como foi com esses
-intuitos exploradores que Pedro Alvares Cabral muito de proposito se
-desviou do caminho que o devia conduzir directamente á India. Descoberto
-o Brasil, tratava D. Manuel de explicar ao rei catholico que essa terra
-não ficava fóra da sua zona, e tratavam os cartographos portuguezes de
-sanccionar essa affirmação, da mesma fórma que os cartographos hespanhoes
-procuravam incluir as Molucas na zona concedida ao seu paiz. Foi ainda
-a esse intuito que obedeceram Abreu e Serrão, enviados por Albuquerque
-a explorar os mares para além de Java e de Sumatra, e que nas suas
-audaciosas viagens não só tomaram conhecimento de um grande numero de
-ilhas que n’esses mares pollulavam, mas entreviram a Nova Guiné, e
-adivinharam a Australia.
-
-Esta ultima affirmação é feita pelo sr. Hamy, e falta-me agora o espaço e
-o tempo para fazer entrar no quadro d’este livro essa importante e ainda
-hoje obscura questão do descobrimento da Australia.
-
-Mas o que fica assente de um modo incontestavel é que a participação
-dos Portuguezes no descobrimento da America foi efficaz e activa. Se
-o seu governo hesitou perante a temeridade de Colombo, se sacrificou
-demasiadamente aos conselhos da fria razão no momento em que era
-necessario um lance de audacia e um arrojo de visionario, logo,
-despeitados por esse momento de fraqueza, e estimulados pelo glorioso
-commettimento dos visinhos, precipitaram-se com verdadeira furia para
-esse occidente que tinham receiado desvendar e foram tambem como Colombo
-em procura da Asia pelos mares poentes. Uns e outros, Gaspar Côrte-Real
-ao norte e Cabral ao sul, esbarraram com a mesma barreira que detivera
-Colombo, barreira que os despeitava, que os indignava, que teimavam em
-considerar como uma longa cadeia de ilhas que se desdobrava, como um
-cordão de sentinellas ferozes e asperas, deante da Asia resplandecente,
-e que era afinal bem mais fulgurante de maravilhosas riquezas do que
-essa Asia decrepita e estagnada no seu somno de seculos. Por entre os
-gelos do Norte, por entre as suppostas ilhas ao Sul, procuravam todos,
-Hespanhoes e Portuguezes, o caminho de Cathay e de Cipango. Quando se
-fatigaram de tão vãs tentativas, quando se convenceram de que era um novo
-mundo que tinham deante de si, barreira inquebrantavel que lhes vedava
-por esse lado o caminho para o Oriente, a perspicacia e a audacia e a
-perseverança do portuguez Magalhães conseguiram desfazer essa ultima
-illusão, reconstituir no espirito humano a Terra inteira na logica da sua
-estructura, e conquistar para a Sciencia o morgado da Humanidade.
-
-
-
-
-XI
-
-Conclusão
-
-
-Lancemos os olhos para o espaço que rapidamente percorremos. Encontramos
-a sciencia antiga desvelando maravilhosamente alguns dos segredos mais
-importantes da cosmographia, mas estacionada n’uma solução do grande
-problema que se lhe affigurara satisfatorio, e que era comtudo um
-obstaculo invencivel para todo o progresso geographico. Depois de mil
-conjecturas phantasistas, pode-se dizer que um grande resultado se
-obtivera: o reconhecimento da esphericidade da terra. Mas o orgulho
-humano oppunha-se invencivelmente á hypothese que désse a essa Terra, e
-portanto á raça pensadora que a habitava, um logar inferior no concerto
-do universo. O sol continuou a girar acompanhado por todo o systema
-planetario e por todo o mundo stellar em torno da terra immovel e
-soberana. Era comtudo esse um terrivel escravo, porque bastava a sua
-ausencia para que fenecesse a vegetação e definhasse a vida; por isso
-tambem era natural que nos pontos onde o seu contacto fosse mais proximo
-o excesso do calor produzia o effeito contrario, e désse tal intensidade
-á vida que a fizesse desapparecer na conflagração do abrazo. O mytho de
-Zeus e de Semele parecia traduzir este pensamento.
-
-Quando a terra mãe, a Terra que o deus terrivel fecundava, o queria ver
-de perto com todo o explendor do seu vulto, com toda a grandeza da sua
-omnipotencia, bastava a presença do amante para a reduzir a cinzas. Era
-em torno da zona média da terra que o sol descrevia o seu giro, era
-ahi portanto que se approximava da terra, e ahi forçosamente a vida
-desappareceria no incendio dos seus raios.
-
-Assim era a Sciencia que vedava o caminhar do homem. O mundo civilisado
-dilatava-se, graças aos esforços e á audacia dos Phenicios, mas, por mais
-audaciosos que fossem, considerariam uma insania suprema transpor os
-limites das zonas defezas.
-
-Para essas regiões que os mortaes não podiam pisar transportava a
-phantasia humana a residencia d’aquelles, que, libertos dos laços da vida
-mortal, podiam existir em condições negadas á fraca humanidade. Foi pois
-assim que para além do terminus da sciencia positiva, ou para o norte,
-ou para o sul, a imaginação collocou as regiões da bemaventurança.
-
-Veiu a edade média, em que uma sociedade barbara procurando reatar o
-fio da civilisação, tomou como ideal supremo da sua sabedoria a sabia
-antiguidade.
-
-Se Ptolomeu e os outros eram respeitados pelos seus contemporaneos como
-eximios sabedores, para os seus novos discipulos eram perfeitamente
-oraculos, e a Sciencia continuou, mais do que nunca, a deter o homem
-dentro dos limites consagrados. Assim como os Phenicios, fundeados por
-assim dizer á beira da Syria, sondaram o Mediterraneo primeiro e depois
-o Atlantico, o infante D. Henrique de pé no posto mais avançado da costa
-europeia sentiu o desejo ardentissimo de sondar o grande mysterio.
-Realisou-lhe a audacia dos seus navegadores o seu sonho querido,
-quebrou-se a barreira da zona torrida, e ampliou-se para o occidente o
-conhecimento do Oceano. As affirmações da sciencia antiga iam caindo uma
-a uma sem que os navegadores ousassem comtudo desmentil-as, senão nos
-pontos em que a experiencia mostrava definitivamente a sua fallibilidade.
-A Africa foi tomando os seus contornos verdadeiros, dobrou-se a sua
-ponta meridional, seguiu-se para o oriente, sem se encontrar o mar
-mediterraneo das Indias, a peninsula indostanica foi tambem reintegrada
-na sua verdadeira fórma, o Cathay da narrativa semi-legendaria de Marco
-Polo appareceu na figura extranha d’essa China immobilisada, apesar de
-rica e sabia, o Cipango transformou-se no archipelago japonez, e as ilhas
-do meio-dia asiatico começaram a apparecer disseminadas nos mares como
-as pérolas dispersas de um collar que se despedaçasse. Foi essa a obra
-gigante dos Portuguezes.
-
-Mas a elles tambem se devia o encontro de um novo posto de observação,
-de uma atalaya estimulante perdida no seio do Oceano. Como os Phenicios
-em Tyro, como o infante D. Henrique em Sagres, ia Colombo mais adeante
-sonhar mundos desconhecidos nos penhascos dos Açores. Era d’alli que via
-as caravelas de outros sonhadores como elle, a quem só faltava o genio e
-a perseverança, demandar alguma ilha mysteriosa para além do Oceano, ou
-os restos d’aquella mysteriosa Atlantida, que fôra um dos vagos sonhos
-da antiguidade. O alargamento da terra seguiu a sua ordem logica; os
-Phenicios chegavam de Tyro a Carthago, e desvendavam o Mediterraneo,
-de Carthago a Cadiz e descobriam o Atlantico, os Portuguezes de Sagres
-desvendavam o segredo do Oceano para o sul e chegavam ao Cabo da Boa
-Esperança, do Cabo da Boa Esperança quebravam o mysterio do mar oriental,
-e aportavam a Calicut e a Goa, e de Goa irradiavam para o sul e para
-o oriente as investigações finaes. De Sagres tambem, singrando para
-o occidente, iam poisar nos Açores; estava reservado aos Hespanhoes,
-guiados por Colombo, a audaciosa investigação que ia dar a America ao
-mundo.
-
-O que era necessario, porém, era ligar essas duas grandes emprezas. Por
-circumstancias verdadeiramente providenciaes foram os representantes
-dos dois povos ligados na mesma empreza, que ataram as fitas soltas das
-grandes explorações oceanicas, e esse enlace supremo foi Magalhães que o
-começou, foi Elcano que o concluiu.
-
-Assim nas descobertas como em todas as emprezas do espirito humano é a
-evolução que se manifesta. Não procede por saltos a natureza, tudo se
-liga e se concatena. A missão dos grandes homens está exactamente em
-serem os elos d’essa cadeia. As tentativas infructiferas, dispersas,
-quasi inconscientes dos Catalães de Jayme Ferrer, dos Normandos de
-Bethencourt, dos Genovezes de Vivaldi, e dos pescadores e marinheiros
-portuguezes que procuravam arcar com o cabo Não ou devassar o Atlantico
-unia-as o infante D. Henrique, dava-lhes o nó que as aproveitava, o
-cabo Bojador dobrava-se e os Açores e a Madeira sahiam do seio das
-ondas. As tentativas infructuosas tambem dos Açorianos e dos Madeirenses
-ligava-as a mão poderosa de Colombo, e dava assim um novo fusil á cadeia
-dos descobrimentos e a America apparecia. E por isso os povos quando
-encontram na sua historia um d’esses homens insignes, sem renegar os
-seus esforços collectivos, nem deixar de lhes reconhecer a importancia,
-saudam n’esses grandes vultos uns entes extraordinarios que souberam dar
-uma realidade positiva aos seus sonhos e ás suas aspirações, e foram
-n’esse tumultuar de pensamentos desconnexos e inconscientes, as radiosas
-incarnações da Consciencia da humanidade.
-
-
-
-
-FOOTNOTES
-
-
-[1] Tom. I, secção 1.ª, pag. 285.
-
-[2] Publicado por Dumont no _Corpo Diplomatico_, tom. III, parte I, pag.
-200. E além d’esta as bullas de Calixto III, de 14 de maio de 1455 e de
-Xisto XV, de 21 de julho de 1481, e a famosa divisão dos mares entre
-Portugal e a Hespanha por Alexandre VI, e os tratados entre Portugal e
-Hespanha, em que sempre se reconheceu o direito que tinhamos á costa
-africana pela prioridade do descobrimento, e a deferencia com que a
-França sempre reconheceu o nosso direito, mandando Luiz XII restituir uma
-caravela portugueza vinda da Mina, tomada pelos francezes, e prohibindo
-Francisco I, a 28 de junho de 1532, que fossem navios francezes á costa
-da Guiné, em attenção aos tratados! V. Visconde de Santarem: _Recherches
-sur la découverte des pays situés sur la côte occidentale d’Afrique au
-delà du cap Bojador_ etc., § VII, pag. 67 e segg. E em 1513, publicou-se
-em França, um livro intitulado: _Nouveau Monde et navigations fectes dans
-les pays et iles auparavant inconnues_, e cujo primeiro livro se intitula
-_Livro da primeira navegação pelo Occeano para a terra dos Negros
-da baixa Ethiopia por ordem do illustre senhor infante D. Henrique,
-irmão de D. Duarte, rei de Portugal_. E esse livro reimprimiu-se em
-1516! E note-se que Francisco I não se desinteressava na questão dos
-descobrimentos, e os marinheiros francezes procuravam seguir as nossas
-pisadas. É conhecido o famoso dito do rei de França, que queria saber
-qual o artigo do testamento de Adão que deixava parte do mundo aos reis
-de Portugal e de Hespanha. Podendo pôr embargos, era de estranhar que o
-não fizesse.
-
-[3] _Histoire de la première descouverte et conqueste des Canarias faite
-dés l’an 1402 par messire Jean de Bethencourt, escrite du temps mesme par
-F. Pierre Bontier et Jean Le Verrier, prestres domestiques dudit sieur de
-Bethencourt, conseiller du roy en la cour du parlement de Rouen_, cap.
-LIII, pag. 95. (Paris, 1830).
-
-[4] _Ibid._, pag. 4.
-
-[5] _Ibid._, cap. LIV.
-
-[6] _Ibid._, pag. 102.
-
-[7] Palavras de Innocencio VII, escriptas em 1406 a João de Bethencourt e
-citadas na relação dos capellães a pag. 197, cap. LXXXIX.
-
-[8] Este erro gravissimo deu origem a todas as falsas reivindicações
-francezas, apezar de ter sido completamente desfeito no proprio seculo
-XV. Chamava-se primeiro _Gianya_, _Gineva_ ou _Gynoya_ ou _Guiné_ á
-terra proxima de Marrocos, que se suppunha habitada pelos negros, e com
-a qual se fazia commercio. Era esta a Guiné que ficava a doze leguas das
-Canarias, «do outro lado da ilha de Fuerteventura», como dizem ainda
-os capellães de Bethencourt. Azurara, quando chama _Guiné_ á costa do
-Senegal descoberta pelos Portuguezes, desculpa-se de ter já chamado
-assim, para empregar a linguagem commum, a outro paiz onde tinham estado
-primeiro os Portuguezes, e que era d’este muito distante. Essa _primeira
-Guiné_, ou _Guiné antiga_, reclamou-lhe o senhorio o rei de Castella,
-D. João II, que escrevendo de Valladolid a D. Affonso V de Portugal,
-a 19 de abril de 1454, dizia-lhe: «Otrosi, rey muy caro, e muy amado
-sobrino, vos notificamos que, viniendo ciertas caravellas de ciertos
-nuestros subditos e naturales vecinos de las nuestras ciudades de Sevilla
-y Cadiz con sus mercaderias _de la tierra que llaman Guinea, que es de
-nuestra conquista_, e llegando cerca de la nuestra ciudad de Cadiz á una
-linea estando en nuestro señorio e jurisdicion, recudieron contra ellos
-Pallencio, vuestro capitan etc.»
-
-Esta Guiné, cuja conquista o rei de Castella dizia pertencer-lhe, fazia
-parte do reino da Africa, sobre a qual os reis de Castella diziam ter
-direito, herdado dos Godos. Quando o nome de Guiné ficou pertencendo á
-região que hoje o tem, quer dizer a que está para além do Cabo Bojador,
-os reis de Portugal tomaram sem contestação nem cedencia de Castella
-o titulo de _senhores de Guiné_, baseado no direito de primeiros
-descobridores que ninguem lhes impugnou. E a Guiné antiga perdeu essa
-denominação. Ahi está o segredo da confusão que deu origem ás pretenções
-tão absurdas dos Normandos e dos Catalães.
-
-[9] «Toscanelli distingue en outre les îles que l’on rencontrera sur la
-route, _que estan situadas en este viage_, par exemple l’Antilia, d’avec
-les îles qui sont proches de l’Inde continentale, par exemple Cipango
-et les îles avec les quelles trafiquent les négocians de différentes
-nations.»—Humboldt.—_Histoire de la géographie du nouveau continent_,
-tom. I, sec. 1.ª, pag. 228.
-
-[10] Ácerca das tres Indias, e das differentes denominações com
-que apparecem na edade média, veja-se sobretudo o magnifico _Essai
-sur l’histoire de la cosmographie et de la cartographie pendant le
-moyen-âge_, etc., pelo visconde de Santarem, tom. I, pag. 136, 251, 182,
-394, tom. II, pag. XXXVIII, 189, 223, tom. III, pag. 28, 420, 346, 371,
-161, 199, 217, 274, 161, 240, 442, 360, 370, 195. (Paris, 1849). Os nomes
-das differentes Indias são variadissimos, Barbara, Deserta, Primeira,
-Segunda e Terceiro, Magna e Parva, Superior, Inferior e Exterior, Intra
-Gangem, Ultima, Arenosa, etc. Sabendo-se o que eram estas differentes
-Indias, como abrangiam a Tartaria, a Arabia, a China, e até a Ethiopia,
-espantar-se-ha menos o leitor de que os Portuguezes procurassem na Africa
-o _Prestes João das Indias_. Essa lenda tambem mudou de local como o nome
-de Guiné e a designação de Ethiopia, mas pode-se dizer que nunca saíu de
-alguma d’essas Indias.
-
-[11] Gosselin _Recherches sur la géographie systématique des anciens_,
-tom. I, pag. 140. É firmando-se na auctoridade de Herodoto que este sabio
-affirma que o grande Oasis do Egypto tinha outr’ora o nome de _ilha dos
-Bemaventurados_.
-
-[12] O mappa-mundi de 1417, conservado no palacio Pitti, por exemplo,
-indica duas Taprobanas, Ceylão e Sumatra. Quando não era Sumatra
-exclusivamente Taprobana, era a uma das duas ilhas que esse nome se dava.
-D. João de Castro no prologo do seu _Roteiro de Lisboa a Goa_, quando
-falla a El-Rei de Portugal nos dominios que tem, diz: «como Taprobana que
-os antigos criam ser outro mundo nouo, reconhece seu alto nome e lhe paga
-pareas» e accrescenta em nota: «_Taprobana é agora chamada Samatra_» a
-pag. 14. A essa Taprobana tambem se refere evidentemente Camões no seu
-famoso verso:
-
- _Passaram inda além da Taprobana_
-
-Tendo no tempo de Camões chegado os Portuguezes já ao Japão, era bem
-natural que, havendo a Taprobana-Ceylão e a Taprobana-Sumatra a esta
-ultima se referisse o grande poeta indicando o limite ultrapassado pelos
-Portuguezes. O famoso mappa da cathedral do Hereford colloca a Taprobana
-defronte do golpho Arabico. Prisciano no seu poema geographico põe a
-Taprobana no mar oriental juntamente com a ilha phantastica do Ouro. No
-tratado _De moribus brachmanorum_ que se attribue a S.ᵗᵒ Ambrosio citado
-por Klaproth na sua _Lettre sur la boussole_, pag. 53, põe-se a Taprobana
-em Ceylão, ilha que tem magnetes que attrahem os navios que teem pregos
-de ferro e não os deixa mover. N’alguns mappas da edade média põe-se a
-Taprobana deante da bocca do Ganges.
-
-[13] A _Aurea Chersoneso_ de Ptolomeu e de Marino de Tyro corresponde sem
-duvida á peninsula de Malaca, mas o mappa de La Salle por exemplo colloca
-a _Aurea Chersoneso_ no Indostão.
-
-[14] _Mémoire sur le pays d’Ophir, oú les flottes de Salomon alloient
-chercher de l’or_, nas _Mémoires de littérature de l’Académie royale des
-inscriptions et belles-lettres_, tom. XXX, pag. 83 a 93, (Paris, 1764).
-Este paiz de Ophir tem uma terrivel parecença com as ilhas de Chryse e
-de Argyra, e do Sol e dos Homens e das Mulheres que apparecem nos mappas
-conjecturaes. N’alguns mappas Ophir tambem apparece como ilha. Querer
-determinal-o não será querer tomar muito ao pé da letra as indicações
-vagas da Biblia?
-
-[15] A idéa adoptada na edade média, que vinha da antiguidade e que durou
-até ao seculo XVI, é a das duas Ethiopias de Homero, a que fica entre
-os dois Nilos, e a que se liga com os Mauritanos. S. João Damasceno,
-dividindo os habitantes da terra segundo as areas dos ventos, dizia: «Ad
-Africum Ethiopes et occidentales Mauri, ad Favonium Herculis columnæ,
-etc.» _De fide orthodoxa_, tom. I, pag. 69. _Apud_ Visconde de Santarem
-_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, pag. 32. Assim
-é corrente que a baixa Ethiopia começa para os escriptores medievaes nas
-proximidades da Mauritania, quer dizer, pega com a Guiné primitiva, com
-a Guiné de Bethencourt. O titulo dos reis de Portugal mostra bem que
-Ethiopia quer dizer simplesmente _Africa_. Assim diz o titulo: Rei de
-Portugal e dos Algarves, d’aquem e d’além-mar em Africa... (Este Algarve
-na Africa era Ceuta e Tanger, etc.) senhor de Guiné (no sentido que
-esta palavra tomou depois dos descobrimentos) da conquista navegação e
-commercio da _Ethiopia_ (Africa meridional e oriental) Arabia, Persia
-e _India_ (tambem na significação da meia-edade, abrangendo a Asia
-Oriental). É curioso que um escriptor moderno, de grande merecimento,
-transcrevendo um trecho de um escriptor já do seculo XVII, em que se diz
-que um navio que ia para a Ethiopia foi levado pelas correntes para o
-Brazil, com isso muito se espanta. Não se lembra que a região da Ethiopia
-comprehendia até a Africa occidental que ficava para além da Guiné.
-
-[16] Na primeira viagem, Colombo, chegando a Cuba, disse: _Es cierto que
-esta es la Tierra-Firme_, Diario de 1 de novembro. Na segunda viagem
-confirmou essa opinião, e fel-a jurar solemnemente pelos marinheiros
-a 12 de junho de 1494. Humboldt _Histoire de la géographie du Nouveau
-Continent_, tom. I, pag. 310, _nota_.
-
-[17] Vejam-se no principio do segundo volume do magnifico livro de
-Humboldt as indicações relativas aos mappas d’esse tempo que separavam
-umas das outras as diversas porções da America.
-
-[18] No seu tratado publicado em latim na edição Reich com o titulo _De
-facie in orbe Lunæ_, tom. IX, pag. 923.
-
-[19] Sobre as differentes theorias relativas á fórma da terra veja-se o
-_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, pag. 14, 223,
-410, tom. II, pag. XV, XVII, 32, 252, 258, 10, LIX a LXI, 18, 26, 35, 94,
-107, 215, etc., etc., tom. III, pag. 81, 102, 212, 223, 460, 499, etc.
-
-[20] Santo Agostinho, S. João Chrysostomo, Lactancio, preconisaram a
-theoria da _terra quadrada_ declarando-a conforme com o Evangelho, os
-mappas medievaes como o de Cosmas Indicopleustas do seculo VI, Gervais
-de Tilbury do seculo XIII, Nicolau d’Oresme do seculo XIV, Guilherme
-Fillastre do seculo XV. Umas vezes inscreviam-n’a no circulo formado
-pelos mares, outras vezes pelo contrario, a terra em si é redonda, mas a
-figura que está inscripta é quadrada.
-
-[21] Note-se bem que este é que é o systema de Ptolomeu, o que
-predominava, apesar de tudo, nos espiritos mais esclarecidos. Pedro agora
-vae refutal-o, substituindo-lhe uma outra theoria scientifica, menos em
-desaccordo com as affirmações orthodoxas.
-
-[22] _Petri Alphonsi Judeo Christiani Dialogi_, p. 15, apud. Visconde de
-Santarem, _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. III, pag.
-320 a 324.
-
-[23] «Se as extremidades da Ethiopia nos offerecem figuras extranhas de
-homens e de animaes, pouco nos devemos espantar: é o effeito do excessivo
-calor que alli reina, porque a acção do fogo é maravilhosamente propria
-para fazer tomar ás partes exteriores de todos os corpos uma infinidade
-de configurações diversas.» (Plinio, _Historia Natural_, tom. V, cap.
-XXX.)
-
-[24] Macrobio, _In somnium Scipionis_, tom. II, cap. IX.
-
-[25] Orosio, _Ormesta mundi_.
-
-[26] Santo Isidoro de Sevilha, _De Lybia_.
-
-[27] Bedo, _De Elementis Philosophiæ_, tom. IV, pag. 225.—«... _Pars enim
-illius torridæ parti aeris subjecta, ex fervore solis torrida est et
-inhabitabilis_, etc.»
-
-[28] S. Virgilio, bispo de Saltzburgo. Veja-se a este respeito a
-_Historia litteraria de França_, tom. IX, p. 156.
-
-[29] Raban Mauro de Moguncia, _De Universo_.
-
-[30] Alberti Magni Germani, _Philosoph. principii, Liber cosmographicus
-de natura locorum_, fl. 14_b_ e 23_a_.
-
-[31] Roger Bacon, _Opus majus_, pag. 183.
-
-[32] _Conciliator differentiarum philosophorum_, Diff. LXVII.
-
-[33] _De Universo_, liv. XII, cap. IV, pag. 172.
-
-[34] _Speculum naturale_, part. 1.ª, liv. IV, cap. XVII.
-
-[35] _De mirabilibus Indiæ._
-
-[36] «Et dien (disent) que illec sont antipodes, c’est-à-dire, gens qui
-ont leurs pieds contre nos et pour ce qu’ils sont á l’opposite partie de
-la terre, aussi comme s’ils fussent subz nous et nous soubz eulx. Ceste
-opinion n’est pas á tenir, et n’est pas bien concordable á notre foy.
-_Car la loy de Jésus Christ a esté preschié par toute la terre habitable;
-et selon ceste opinion, telles gens n’en auraient oncques ouij parler,
-ne pourroient estre subgés à l’église de Rome. Pour ce, reprenne saint
-Augustin ceste erreur ou ceste opinion_, _lib._ XVI _«De Civitate Dei»_
-Nicolau d’Oresme, cosmographo francez do seculo XIV, preceptor do rei
-Carlos V, _le Sage_.—Manuscripto cosmographico existente na Bibliotheca
-Nacional de Paris, com o numero 7487, _apud_. Visconde de Santarem,
-_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, p. 142.
-
-[37] Quoniam nullo modo scriptura ista mentitur, quæ narratis præteritis
-facit fidem eo quod ejus predicta complentur; nimisque absurdum est,
-ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem, Oceani immensitate
-trajecta navigure ac pervenire potuisse, _ut etiam illic ex uno primo
-homine genus institueretur humanum_. Lactancio _Divinarum institutionum_,
-liv. III, cap. IX.
-
-[38] Qua propter inter illos tunc hominum populos qui per septuaginta
-duos gentes, et totidem linguas colliguntur, fuisse divisi, quæramus,
-si possimus invenire, illam in terris peregrinantem civitatem Dei,
-quæ ad diluvium arcamque perducta est, at que in filiis Noe per eorum
-benedictiones perseverare monstretur, maxime in maximo qui est appellatus
-Sem, quando quidem Japhet ita benedictus est, ut in ejusdem fratris sui
-domibus habitaret.—_Ibid._
-
-[39] Cosmas Indicopleustas, _Topographia Christã_.
-
-[40] _Ibid._
-
-[41] Cosmas, Santo Isidoro de Sevilha, Anonymo de Ravenna, Raban Mauro,
-Honoré d’Autun, Hugo de Saint-Victor, Vicente de Beauvais, Brunetto
-Latini, Joinville. A noticia do famoso chronista de S. Luiz a respeito
-do Nilo, transcripta pelo visconde de Santarem no _Essai_, etc., tom.
-I, pag. 112, nota 3, não deixa de ser curiosa: «Ici il convient de
-parler du fleuve qui passe par le pais d’Egypte, et vient du Paradis
-Terrestre... Quant celui fleuve entre en Egypte il y a gens tous experts
-et accoustumez, comme vous diriez les pêcheurs des rivières de ce pays-cy
-qui au soir jettent leurs reyz au fleuve et es rivières; et au matin
-souvent y trouvent et prennent les espiceries qu’on veut en ces parties
-de par de ça (dans l’Europe) bien chierement et au pois, comme canelle,
-gingembre, rubarbe, girofle, lignum, aloes et plusieurs bonnes chouses.
-Et dit—on pais que ces chouses—lá viennent du Paradis terrestre et que le
-vent les abat des bonnes arbres, qui sont en Paradis terrestre.»
-
-[42] «Para elle (Colombo) o Paraizo Terrestre correspondia ao castello
-de Kang—diz dos Persas, e devia achar-se n’um logar elevado e
-inaccessivel.»—Reinaud _Géographie d’Aboulféda_, tom. I, pag. 252. «A
-corrente do Orenoque é tão forte que Diogo de Lepe reconheceu por meio
-de um _escalfador_ que só se abria no fundo das aguas, no mar defronte
-da foz de Orenoque, que, n’uma profundidade de oito braças e meia, só as
-duas primeiras braças do fundo eram de agua salgada, e as outras de agua
-doce».—Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., t. I, pag. 314.
-
-[43] Lemos n’um manuscripto cosmographico datando d’essa epocha (seculo
-VII) «_que a terra é da forma de um cone ou de um pião_, de forma que
-a sua superficie vai, segundo esse systema, elevando-se do sul para o
-norte.» Visconde de Santarem, _Essai sur l’histoire de la cosmographie_,
-etc., tom. II.—_Int._ pag. LX. A fórma ovoide era-lhe attribuida pelo
-philosopho grego Thalés, seguido por alguns geographos da edade média.
-Posidonius dava-lhe a fórma de uma funda, como Prisciano tambem.
-
-[44] N’uma carta de 1498, publicada por Navarrete, tom. I, pag. 256,
-compara Colombo a terra com uma pera dividida ao meio, sendo uma parte
-redonda, e a outra terminada em cone. Esta carta vem tambem nas _Select
-letters of Christopher Columbus_, publicadas por Major, pag. 130.
-(Londres, 1847).
-
-[45] Os geographos arabes consideravam Gog e Magog como filhos de Japhet,
-devemos accrescentar que era esta a doutrina mais seguida.
-
-[46] É interessante o que diz ácerca d’estes povos o sur Vivien de Saint
-Martin nas suas _Recherches sur les populations primitives et les plus
-anciennes traditions du Caucase_, pag. 40 a 47. (Paris, 1847). M. de Sacy
-considera a muralha de Alexandre como sendo a noção vaga da muralha da
-China.
-
-[47] Ha poucos annos ainda se publicou, em Hespanha, um livro do sr.
-Junquera _Origen de los americanos_, em que se sustenta essa doutrina.
-N’ella se baseia um dos romances, e dos menos bons, _Oak openings_ do
-grande romancista americano Fennimore Cooper.
-
-[48] Mela, III, c. VII.—Solino diz que a terra d’essa ilha está sempre
-vermelha.—Plinio colloca-a perto da Taprobana.—_Hist. Nat_. VI, 22.
-
-[49] «Colloquei, diz Toscanelli na carta que escreveu a Colombo e
-referindo-se ao mappa que mandou ao rei de Portugal, defronte (das costas
-da Irlanda e da Africa) direito a oeste o principio das Indias com as
-ilhas e os logares a que poderia abordar.»
-
-[50] Todas estas lendas irlandezas, em abreviada exposição, se podem
-ver no excellente livro de mr. de Villemarqué _La Légende Celtique_,
-especialmente na _Introducção e na Lenda de S. Patricio_.
-
-[51] Os cavalleiros portuguezes estavam no exercito do duque de Borgonha,
-que defendia Arras, e foram ao combate commandados pelo sire de
-Cottebrune; os seus adversarios, pertencentes ao exercito de Carlos VI,
-eram commandados pelo bastardo de Bourbon. Veja-se a nossa _Historia de
-Portugal_, tom. III, pag. 267, nota (2.ª edição).
-
-[52] _Historia da Universidade_, tom. I, cap. III, pag. 137. (Lisboa,
-1892.) A discordancia em que estamos n’este ponto com o illustre
-professor não nos impede de reconhecermos que o seu livro é monumental. O
-erudito, a cuja opinião elle se encosta, é João Teixeira Soares, aliás um
-açoriano benemerito, mas um dos taes que se deixam arrastar pelo prazer
-de demolir uma gloria consagrada.
-
-[53] Veja-se o retrato de Napoleão traçado primorosamente por Taine nas
-suas admiraveis _Origines de la France contemporaine_.
-
-[54] _Os filhos de D. João I_, cap. III, _A villa do infante_, pag. 59 e
-segg.
-
-[55] Humboldt, _Histoire de la géographie du nouveau continent_, tom. I,
-pag. 334 e segg.
-
-[56] Apud Visconde de Santarem, _Recherches sur la découverte_, etc.,
-pag. 113 e 114.
-
-[57] Citado por Humboldt na _Histoire de la géographie du nouveau
-continent_, tom. I, pag. 246.
-
-[58] No _Boletim da Sociedade de Geographia_ de Madrid do anno corrente.
-
-[59] «Mais avant les Portugais aucune nation de l’Europe ne semble être
-allée au délà de l’Équateur». (_Histoire de la géographie_, etc., tom. I,
-pag. 290).
-
-[60] «L’horizon géographique s’agrandit peu à peu de la Mer Égée au
-méridien des Syrtes, de là aux Colonnes d’Hercule et hors du détroit
-avec Hannon vers le sud, avec Pythéas vers le nord». (_Hist. de la
-géogr._, tom. I, pag. 32). O horizonte ampliado por Pythéas nunca mais
-se restringiu, porque é que havia de acontecer o contrario ao horizonte
-ampliado por Hannon, se este viajante tivesse ido mais longe do que a
-costa de Marrocos?
-
-[61] Ha bullas de Eugenio IV, de Nicolau V, de Martinho V, de Calixto
-III, de Xisto IV. A bulla de Calixto III, confirmando as de Martinho V e
-Nicolau V, declara que o descobrimento das terras de Africa Occidental
-o não possam fazer senão os reis de Portugal. A bulla está no Archivo
-Real da Torre do Tombo no _Livro dos Mestrados_, fl. 151 e 168. Veja-se a
-minha _Historia de Portugal_, tom. III, pag. 248, nota 1, (2.ª edição). A
-bulla de Nicolau V, que já citámos, de 8 de janeiro de 1454, concedia a
-el-rei de Portugal, ao infante D. Henrique e a todos os reis de Portugal,
-seus successores, todas as conquistas de Africa _com as ilhas nos mares
-adjacentes_ desde o cabo de Bojador e de Não e de toda a Guiné com
-toda a sua costa meridional. (Arch. Real da Torre do Tombo, maç. 7 de
-bullas, n.º 29, e maç. 33, n.º 14). Por isso, D. João II, quando fallou
-a Christovão Colombo a 9 de março de 1493, lhe disse, que se regosijava
-tanto mais com a sua conquista, quanto tudo quanto elle descobrira
-pertencia de direito a Portugal. Humboldt, _Histoire de la géographie du
-Nouveau-Continent_, tom. I, sec. 1.ª, Nota E, pag. 331. E effectivamente
-por algum tempo se discutiu se os descobrimentos de Christovão Colombo
-eram ou não de _ilhas nos mares adjacentes_ á costa africana. E não acham
-curioso que, se Francezes ou Hespanhoes ou Italianos, antes de nós,
-tivessem passado para deante do Bojador, acceitassem e reconhecessem e
-fizessem respeitar por leis e decretos o direito que nós tinhamos de
-não consentir que se fizessem descobrimentos n’esses mares, ou, no caso
-de se fazerem, o direito que tinhamos ao menos, á posse d’essas terras
-descobertas!!
-
-A proposito d’esse cavalleiro allemão Balthazar, que acompanhou Antão
-Gonçalves, diz o auctor d’este livro: «Antão Gonçalves voltou a Portugal
-com os negros, e Balthazar o cavalleiro allemão que o acompanhava tornou
-para a sua terra, onde foi naturalmente a maravilha de todos os que o
-escutavam, e um novo Sindbad para os pasmados Germanos. A narração das
-tempestades, dos perigos, dos estranhos costumes dos Azenegues devia
-occupar bastantes serões de inverno nos velhos castellos allemães junto
-da vasta lareira, emquanto gemesse lá fóra o vento e cahisse a neve
-cobrindo de alvo manto o solo endurecido.» _Hist. de Portugal_, tom. III,
-pag. 252 (2.ª edição).
-
-[62] _Olympiada II_, 127.
-
-[63] Como se pode ver no 1.º mappa do Atlas do visconde de Santarem, que
-é exactamente o mappa catalão de 1375.
-
-[64] _Habet_, diz o manuscripto de Genova, _latitudinem unius legue et
-fundum pro majore navi mundi_.
-
-[65] _La plage de sable, qui, comme on l’a dit, forme presque entiérement
-l’embouchure du Rio d’Ouro ne permet pas de penser que ce lieu puisse
-recevoir des bâtiments du plus faible tirant d’eau, il ne peut
-probablement admettre que des canots._ Roussin _Mémoire sur la navigation
-aux côtes occidentales de l’Afrique_, pag. 96.
-
-[66] Observação já feita pelo visconde de Santarem nas suas notas á
-edição da _Chronica de Guiné_ de Azurara. Veja-se tambem o magnifico
-capitulo da _Vida do principe Henrique_ do illustre escriptor Richard
-Major, capitulo intitulado _The slave trade_.
-
-[67] Este commentario vem publicado na collecção de Ramusio.
-
-[68] O sabio francez Letronne n’uma memoria publicada no _Journal
-des Savants_ de agosto de 1831, diz o seguinte: «L’hypothése d’un
-prolongement indéfini de la côte occidentale d’Afrique, à partir d’une
-latitude voisine de l’Équateur, était fondée sur la direction de la côte
-d’Afrique depuis la rivière de Nun jusqu’au cap Bojador _que l’expédition
-d’Hannon n’avait pas dépassée_.»
-
-[69] «Ha ainda um personagem duvidoso, diz Renan, este _presbyter
-Johannes_, especie de socio do Apostolo, que perturba como um espectro
-toda a historia da Egreja de Epheso e causa aos criticos bastantes
-embaraços.» _L’Antechrist_, pag. XXIII, trad. do sr. Theophilo Braga, que
-cita este trecho nas _Lendas Christãs_, cap. V, _As lendas do primado da
-Egreja_, pag. 213 (Porto, 1892). Este livro do sr. Theophilo Braga é na
-verdade excellente e foi-me de um grande auxilio n’este estudo ácerca
-das viagens da lenda do Prestes João. A não ser o livro de Marco Polo e
-os artigos do illustre sinologo Pauthier, que consultámos directamente,
-as fontes que citamos são as que o sr. Theophilo Braga aproveitára e
-indicára. Folgamos de prestar esta homenagem ao nosso illustre confrade,
-porque, apesar de estarmos muito em desaccordo com alguns dos pontos de
-vista d’este seu novo livro, não deixamos de reconhecer que é mais uma
-prova do muito talento e da muita erudição do seu auctor.
-
-[70] Esta carta vem publicada na _Cosmographie et histoire naturelle
-fantastique du moyen-âge de Ferdinand Denis_.
-
-[71] Por 1122, no pontificado de Calixto.
-
-[72] Ainda na ultima concordata celebrada entre Portugal e a côrte de
-Roma ácerca do padroado da India tiveram de ser resalvados os direitos
-christãos do rito syriaco.
-
-[73] Theophilo Braga, _Lendas Christãs_, pag. 227.
-
-[74] Veja-se a _Nota explicativa do symbolo da arvore do sol e da arvore
-da lua_, escripta pelo sr. Felix Lajard, e communicada ao visconde de
-Santarem que a publicou no fim do III volume do seu _Essai sur l’histoire
-de la cosmographie_, etc., pag. 506.
-
-[75] Rosweid, _Vitæ Patrum_.—_Vita S. Macari Romani servi Dei qui
-niventus est juxta Paradisum._ Andrea Bianco no seu famoso mappa de 1436
-põe o Paraizo n’uma peninsula, e junto do Paraizo um grande edificio com
-esta designação: _Ospitium Macari_.
-
-[76] G. Pauthier _Le pays de Tanduc et les descendants du Prêtre
-Jehan_.—_Revue de l’Orient, de l’Algérie et des Colonies_, tom. XIII,
-pag. 287. (Paris, 1861). Publica primeiro o capitulo LXXIII, da Relação
-de Marco Polo, que se intitula: _Cy devise de la province de Tanduc, et
-des descendants du Prestre Jehan_, a que se segue depois o commentario.
-
-[77] Ainda não tinham passado os portuguezes do Cabo Branco, estava-se
-apenas no anno de 1441 e já o infante encarregava Antão Gonçalves de
-saber alguma coisa ácerca de Prestes João.
-
-[78] Um distincto escriptor francez, Eyriés, que escreveu a biographia de
-João Fernandes na _Biographie Universelle_, diz que elle fôra o primeiro
-Europeu que penetrára no interior da Africa e que as particularidades
-da relação que elle trouxera apresentavam uma grande analogia com as
-da relação de Mungo-Park. A respeito dos serviços prestados á botanica
-pelos Portuguezes vejam-se os estudos de primeira ordem do sr. conde de
-Ficalho, _Plantas uteis da Africa Portugueza_, (Lisboa, 1884), a _Flora
-dos Lusiadas_, (Lisboa, 1880), a _Memoria sobre a Malagueta_, (Lisboa,
-1878). A respeito dos nossos serviços á ornithologia, vejam-se as
-interessantissimas communicações feitas pelo notavel sabio portuguez o
-sr. Bocage a Andrade Corvo, e por elle publicadas nas notas á sua edição
-do _Roteiro de D. João de Castro_.
-
-[79] Alvaro de Freitas ia na expedição commandada por Lançarote,
-almoxarife em Lagos, e n’um momento de enthusiasmo declarou que estava
-prompto a seguir o seu chefe até ao Paraizo Terreal. V. a minha _Hist. de
-Portugal_, tom. III, pag. 271.
-
-[80] Tristão Vaz Teixeira, foi na grande expedição de 1445, de que fazia
-parte Soeiro da Costa. Alvaro Fernandes tornou-se celebre sobretudo pelo
-descobrimento da Serra Leôa.
-
-[81] Alvaro Fernandes, por exemplo, foi de uma vez do Cabo Verde á Serra
-Leôa, e depois Cadamosto e outros exploraram cuidadosamente a costa
-intermedia, fazendo então viagem como se faz, quando se quer estudar uma
-costa. «A nossa navegação diz o viajante italiano, sempre foi de dia,
-lançando ancora todas as tardes ao sol posto com dez ou doze braças de
-agua.» _Navegações de Cadamosto (traducção portugueza)_ pag. 51.
-
-[82] _Histoire de la géographie_, etc., tom. II, pag. 56 e 57.
-
-[83] _Os Côrte-Reaes_, pag. 61. (Ponta-Delgada, 1883).
-
-[84] _Ibid._, pag. 57.
-
-[85] Veja-se Herrera, _Historia general de los hechos castellanos en las
-islas y tierra firme del mar oceano_, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6.
-(Madrid, 1601).
-
-[86] Veja-se Herrera, _Historia general de los hechos castellanos en las
-islas y tierra firme del mar oceano_, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6.
-(Madrid, 1601).
-
-[87] Publicado no _Archivo dos Açores_, tom. I, pag. 24.
-
-[88] Publicado no _Archivo dos Açores_, tom. I, pag. 22.
-
-[89] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos _Côrtes-Reaes_, pag. 62.
-
-[90] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos _Côrte-Reaes_, pag. 63.
-
-[91] É o proprio Humboldt, que, referindo-se ás epochas do encontro das
-ilhas diz: «Ces époques sont, pour l’écueil des Formigas, 1431; pour
-l’île Santa Maria, 1432; pour San Miguel 1444; pour Terceira, San Jorge
-et Fayal, 1449; pour Graciosa, 1453. La découverte des îles les plus
-occidentales, Flores et Corvo, paraît antérieure à 1449, mais cette date
-est moins précise». _Hist. de la géographie_, etc., tom. II, pag. 105.
-
-[92] _Os Côrtes-Reaes_, pag. 61.
-
-[93] Assim de João Vaz Côrte Real não hesito em referir que se dizia
-que foi elle quem descobrira a ilha Terceira e a de S. Jorge e que por
-isso recebera a capitania das duas ilhas (!) Cabo Verde e o Brazil (!!).
-Tambem a respeito da força de João Vaz conta com a maior seriedade, e
-como facto authentico, uma d’estas lendas que atravessam os seculos, com
-as suas variantes, ácerca de homens famosos pela sua força muscular.
-Assim diz, que, estando João Vaz Côrte Real no Algarve a passeiar na sua
-quinta, veiu visital-o um castelhano muito forçoso, que tranquillamente,
-passando n’uma alameda de marmeleiros, os foi arrancando de um e de
-outro lado, pondo-lhes as raizes ao sol, João Vaz não fez a mais leve
-observação, mas apanhando os marmellos, apertou-os na mão e esmagou-os
-completamente não lhe ficando na mão senão o bagaço. É uma variante da
-historia do ferrador, um Mauricio de Sarce ou um D. Pedro II de Portugal.
-O rei ou o principe partia com a maior facilidade cada ferradura que
-o ferrador lhe apresentava, dizendo-lhe que não era boa, e o ferrador
-calado. Quando o alto personagem, pagando generosamente a sua ostentação
-de força, deu uma moeda de ouro ao ferrador, este partiu-a dizendo que
-não era boa. Como se vê, é o conto popular sempre com a mesma forma,
-repetida por um escriptor crendeiro, cujo testemunho tem comtudo servido
-para que escriptores serios percam o seu tempo com umas das suas lendas!
-
-[94] _Os Côrte-Reaes_, pag. 36.
-
-[95] _Ibid._, pag. 35.
-
-[96] _Os Côrte-Reaes_, pag. 19.
-
-[97] Arch. Nac. da Torre do Tombo, liv. 49 de D. João III, fl. 243,
-verso. Transcripto nos _Côrte-Reaes_, pag. 121 a 125.
-
-[98] Não ha razão seria para que a Groenlandia pertença á America e não
-lhe pertençam os Açores. Da Islandia, que é a ultima parte da Europa, á
-Groenlandia, vão 240 leguas, de Portugal a S. Miguel 247. Portanto, se
-os islandezes descobriram a America porque chegaram á Groenlandia, com
-mais razão se pode dizer que descobriram os Portuguezes a America porque
-chegaram aos Açores. É perfeitamente pueril estar a discutir quem foi
-que tocou primeiro nas terras americanas, a gloria consiste em não ter
-hesitado em atravessar centos e centos de leguas de mar com o fim de
-chegar ao Oriente pelo caminho do occidente.
-
-[99] Diz Pedro Nunes: «E perderam-lhe (_os Portuguezes_) tanto o
-medo (_ao mar_): que nem ha grande quentura da torrada zona: nem
-o descompassado frio da extrema parte do sul: com que os antigos
-escriptores nos ameaçavam lhes pode estorvar: «...Tirará nos muitas
-ignorancias: e a mostraram ser a terra mór que o mar (_o erro de
-Colombo_): e auer hi antipodas: que ate os Santos duvidaram: e que nam a
-regiam que nem por quente nem por fria se deyee de abitar.» _Tratado que
-o Doutor Pero Nunes, cosmographo del Rey nosso senhor fez em defensão da
-carta de marcar: võ o regimento da altura._ Reg. 1. (Lisboa, 1537).
-
-[100] Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., tom. II. Nota _H_,
-pag. 369.
-
-[101] Veja-se a interessante obra de Navarrete, tom. I, pag. 300.
-
-[102] Strabão, II, pag. 83, 113 e 116. Itaque, diz Strabão na formosa
-passagem em que prophetisa a America, compluribus verbis persuadere
-nititur Eratosthenes nisi Atlantici maris obstaret magnitudo, posse nos
-navigare in eodem parallelo, ex Hispania in Indiam per universum id quod
-reliquem est, demta dicta distantia (hoc est longitudinæ terræ habitatæ)
-quæ totius circuli trientem excedit». Strabo, liv. I, pag. 113-114.
-Assim, excedendo as terras habitadas a terça parte do parallelo, o mar
-a percorrer é um pouco inferior a ⅔ e menos de 240°, mais de 236°. A
-differença imaginada por Eratosthenes e Strabão e a distancia verdadeira
-não é grande.
-
-[103] Esta carta foi publicada pelo sr. Teixeira de Aragão na excellente
-_Memoria ácerca do descobrimento da America_ que escreveu para o volume
-consagrado pela commissão portugueza do centenario de Colombo a esta
-grande solemnidade. É datada de Aviz de 20 de março de 1488. Trata
-Christovam Colombo por nosso especial amigo.
-
-[104] _Os Côrtes-Reaes_, pag. 65, nota 123. A carta de doação a Fernão
-Dulmo vem publicada no mesmo volume de pag. 64 a 69.
-
-[105] «No me admiro tengais, diz-lhe Toscanelli na sua segunda carta, tan
-gran corazon _como toda la nacion portugueza, en que siempre ha habido
-hombres señalados en todas emprezas_.
-
-[106] A carta é de maio de 1505, citada por Navarrete no t. III pag. 528,
-e Humboldt, t. III, pag. 260.
-
-[107] Veja-se a minha _Historia de Portugal_, t. IV, pag. 272.
-
-[108] Foi Humboldt que fez notar a differença entre as duas versões da
-mesma bulla, _Hist. de la géographie_, etc., sec. II, t. III, pag. 52,
-nota.
-
-[109] A filha de Izabel a Catholica desposára o filho d’el-rei D. João
-II, o principe D. Affonso que morreu de uma desastrada quéda de cavallo a
-13 de julho de 1491.
-
-[110] Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., sec. II, t. III, pag
-55.
-
-[111] _Quadro elementar das relações politicas e diplomaticas de Portugal
-com as diversas potencias do mundo_, t. II, pag. 390 Lisboa, 1844. O
-tratado vem publicado _in extenso_.
-
-[112] Pedro Martyr d’Anghiers, _Oceanicas_, dec. VIII, cap. 10.
-
-[113] Foi o duque de Medina-Sidonia que se offereceu para ir com as suas
-caravelas em perseguição dos portuguezes, e a 2 de maio de 1493 pediam
-os reis catholicos ao duque que as tivesse prestes, a 12 de junho e 27
-de julho affiançavam a Colombo que não havia motivo para se desconfiar
-do rei de Portugal, doc. n.ºs 16, 50 e 54 publicados na _Collecção de
-viagens e descobrimentos_, citados pelo sr. Teixeira de Aragão a pag. 18
-da sua _Breve memoria sobre o descobrimento do Brazil_.
-
-[114] O trecho da _Esmeralda_ é o seguinte: «Como no terceiro anno do
-vosso reinado do anno de Nosso Senhor de mil quatrocentos noventa e oito
-donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte occidental, passando além
-do grande mar oceano, onde é achada e navegada uma tão grande terra firme
-com muitas grandes ilhas adjacentes a ella, que se estende a setenta
-graus de ladeza da linha equinocial contra o polo arctico.» _Esmeralda_
-liv. 2.º, cap. I, transcripto pelo sr. Teixeira de Aragão na sua _Breve
-Noticia_, etc., pag. 47. D’este trecho deduz-se que Duarte Pacheco foi
-mandado descobrir para o occidente em 1498, o que não faz senão confirmar
-o que temos dito, mas não que Duarte Pacheco descobriu o Brasil. Nem elle
-diz que _achou e navegou_ essa terra, mas sim que essa terra _é achada e
-navegada_, e isto em 1505.
-
-[115] _Roteiro geral do globo_, tom. XI, sec. 1.ª, pag. 2 (Lisboa 1839).
-Mouches, _Les côtes du Brésil_, sec. II, pag. 8 (Paris, 1864).
-
-[116] N’uma das sessões do _Instituto Historico Geographico do Brasil_, o
-imperador D. Pedro II propoz como assumpto de discussão «se a descoberta
-do Brasil foi intencional ou devida ao acaso». Joaquim Norberto fez
-uma memoria interessante sustentando que a descoberta foi intencional,
-Machado de Oliveira fez uma memoria de uma futilidade inexcedivel e
-de uma grosseria imperdoavel que nem merece que d’ella nos occupemos,
-Gonçalves Dias sustentou com argumentos broncos, mas com vigor de estylo,
-mostrando-se muito talentoso e muito erudito, que a descoberta fôra
-occasional. Joaquim Norberto replicou e muitissimo bem. O unico argumento
-de algum peso que Gonçalves Dias apresentava era o da corrente equatorial
-que corre de léste para oeste. É esse exactamente o que o sr. Baldaque da
-Silva destróe technicamente e de um modo completo.
-
-[117] _Les côtes du Brésil_, pag. 115, nota _a_.
-
-[118] _Ibid._, pag. 12.
-
-[119] _Ibid._, pag. 116, nota _a_.
-
-[120] «Sahindo do dito Cabo Verde, esta terra jaz entre Oeste e Sudoeste,
-ventos principaes, e dista do dito Cabo Verde quatrocentas leguas».
-_Carta de Portugal enviada ao rei D. Manuel ácerca da viagem e successo
-da India_, traduzida da versão italiana pelo sr. Prospero Peragallo,
-e por este publicado com o texto italiano e annotado nas _Memorias da
-commissão portugueza do centenario de Colombo_. O trecho que citamos vem
-a pag. 9 _in fine_. Como se vê, estando a 400 leguas de distancia não
-a oeste, mas a oes-sudoeste a distancia do meridiano de Cabo Verde ao
-meridiano de Vera-Cruz não podia ser superior a 370 leguas. Pero Vaz de
-Caminha disséra-lhe: «Topamos algūus synaes de terra seendo da dita ilha
-(_S. Nicolau de Cabo-Verde_) segundo os pilotos diziam obra de VIᵉ LX ou
-LXX legoas ᵉlc (670 _ou_ 701 _leguas_)». Esta carta de Pero Vaz Caminha
-tem sido muitas vezes publicada. Fazemos o nosso extracto da memoria do
-sr. Aragão, onde vem nos documentos, pag. 66.
-
-[121] A carta do jesuita Antonio de Sá escripta em hespanhol aos jesuitas
-da Bahia e datada de S. Vicente, 13 de junho de 1559 diz: «Un Indio que
-se llama Belchior está puesto en ayunar todos los dias que manda la
-Iglesia, y sin yo le hablar nada, preguntóme que le hiziese saber los
-dias de ayuno y cual no se comia carne, diciendome que antes _que muriese
-Juan Ramallo que el se lo dezia y ayunaba todos los dias que la Iglesia
-manda_.» O estudo a que nos referimos feito pelo sr. Candido Mendes
-de Almeida vem publicado na _Revista trimensal do Instituto Historico
-Geographico do Brasil_, e n’esse periodico vem tambem as memorias de
-Joaquim Norberto, Gonçalves Dias e Machado de Oliveira, a que atraz nos
-referimos.
-
-[122] «ao qual monte alto, diz Pero Vaz de Caminha, o capitam poz o nome
-de monte pascoal e aa tera a tera de Vera-Cruz». Depois de ter entrado em
-communicação com os habitantes é que Pedro Alvares Cabral considerou a
-terra como uma ilha, e a denominou _ilha de Vera Cruz_.
-
-[123] Strabão XI, pag. 518.
-
-[124] Pomponio Mela, t. III, c. 5, 98.
-
-[125] _Les Corte-Real_ par mr. H. Harrisse, pag. 209. Ernesto do Canto,
-_Os Côrtes-Reaes_, pag. 211.
-
-[126] _Histoire de la Géographie_, etc., t. IV, pag. 263.
-
-[127] Legenda do mappa mandado fazer em Lisboa por Alberto Cantino em
-1502. O sr. Ernesto do Canto transcreve-a a pag. 208 do seu livro.
-
-[128] Esta curiosa doação foi publicada em texto latino por Bidle na
-obra que saío anonymamente em Londres, 1831 e que se intitula _A Memoir
-of Sebastian Cabot with a Review of the History of Maritime Discovery,
-illustrated by documents from the Rols, new first published_. Abrange de
-pag. 312 a 320. O sr. Ernesto do Canto publica tambem o texto latino com
-a traducção portugueza no seu livro _Os Côrtes-Reaes_ e abrange de pag.
-74 a 87.
-
-[129] E. do Canto, _Os Côrtes-Reaes_, texto italiano a pag. 45 e 46,
-traducção latina de Madrijuan a pag. 47 e 48.
-
-[130] São interessantissimas as indicações dadas a esse respeito pelo
-sr. Patterson, na sua magnifica memoria. A bahia de Fundy, diz elle,
-é evidentemente a Bahia Funda. Tambem nota que apparece lá o nome de
-Tanger, que não podia ter sido posto senão pelos portuguezes, senhores
-então d’essa praça, e sempre tão relacionados com ella.
-
-[131] «There are about 100 sail of Spaniards who come to take cod, who
-make it all wet and dry... As touching their tonnage I think it may be
-5,000 or 6,000. Of Portugals there are not above fifty or sixty sail,
-whose tonnage may amount to 5,000, and they make all wet.» Citado
-pelo reverendo George Patterson na excellente memoria que publicou
-nas _Trans-Roy. Soc. Canada_, e que se intitula _The Portuguese in
-the North-East coast of America, and the first European attempt at
-Colonization there. A lost chapter in American History_, pag. 145. Esta
-memoria foi lida na _Royal Society_ a 28 de maio de 1890.
-
-[132] Esta exploração outr’ora tão importante e activa, na qual estavam
-empenhados capitaes e interesses tão avultados, concorrendo para ella
-tantas partes do nosso continente, vê-se hoje reduzida a uma duzia de
-navios que a entretêem apenas em dois centros de pescarias: Figueira da
-Foz e Lisboa.» A. A. Baldaque da Silva, _Estado actual das pescas em
-Portugal_, pag. 166. E diz, em nota, que a pesca do bacalhau era tão
-importante no tempo de D. João III e d’el-rei D. Sebastião «que foi
-providenciada por um regimento particular para as frotas que annualmente
-expediam a esta pescaria.»
-
-Emquanto á colonisação, que foi motivada exactamente pela importancia da
-pesca do bacalhau, foi promovida por varias pessoas de Vianna do Minho,
-muito interessadas n’este negocio da Terra Nova, pelas muitas relações
-que tinham com os Açorianos. D’esta colonisação dá conta um interessante
-folheto publicado ha poucos annos, mas escripto no seculo XVI, que se
-intitula: _Tratado das ilhas novas e descobrimento d’ellas e outras
-coisas feito por Francisco de Souza, feitor d’El-Rei Nosso Senhor, na
-capitania da cidade do Funchal da ilha da Madeira e natural da mesma ilha
-e assim de parte da nação portugueza que está em uma grande ilha, que
-n’ella foram ter no tempo da perdição das Espanhas, que ha trezentos e
-tantos annos em que reinou El-Rei Dom Rodrigo. Dos Portuguezes que foram
-de Vianna e das Ilhas dos Açores a povoar a Terra Nova do Bacalhau vae em
-sessenta annos, do que succedeu, o que adiante se trata. Anno do Senhor
-de 1570. Ponta Delgada, S. Miguel, Açores 1877._
-
-É curiosa a mistura de lenda e de verdade que n’este titulo se encontra.
-Ao lado de uma colonisação perfeitamente authentica n’uma ilha certa é
-conhecida ainda a velha lenda da ilha das Sete Cidades colonisada pelos
-sete bispos, que fugiram da Peninsula com os seus fieis no tempo do rei
-Rodrigo!
-
-[133] «Outros chamam-lhe, diz D. Manuel, terra nova ou novo mundo».
-
-[134] Veja-se o estudo desenvolvido de Humboldt, que aliás não vê as
-coisas debaixo do nosso ponto de vista nas notas finaes do vol. V, da sua
-_Histoire de la géographie_, etc., da pag. 180 em diante.
-
-[135] _Recherches historiques, critiques et bibliographiques sur Améric
-Vespuce et ces voyages._—Paris, sem data.
-
-[136] Veja-se a carta de mr. Letronne a Humboldt, publicada no vol. III,
-da sua _Histoire de la géographie_, etc., da pag. 119 em diante.
-
-[137] Veja-se Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., tom. II, pag.
-26 e segg. Falando do globo de João Schoner diz: «Figurou no globo o
-estreito no logar em que Colombo debalde o procurara.» No globo de Weimar
-(que tem a data de 1534) ha dois estreitos, um a 42° de latitude sul, e
-outro no isthmo de Panamá a 10° de latitude ao norte do Equador.
-
-[138] «Se não tivessemos achado este estreito, diz Pigafetta, o
-capitão-general estava disposto a ir até 75 graus para o polo antarctico
-onde no verão não ha noite, ou muito pouca e da mesma maneira no inverno
-não ha luz do dia ou ha pouquissima.» _Navegação e viagem que Fernando de
-Magalhães fez de Sevilha a Moluco no anno de_ 1519, pag. 61 da traducção
-ingleza de sir Stanley de Alderley, (Londres, 1874).
-
-
-
-
-
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-Colombo, by Manuel Pinheiro Chagas
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-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
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-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
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-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
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-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
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-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
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-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
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-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
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-facility: www.gutenberg.org
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