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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo - Tentativa de coordenação historica - -Author: Manuel Pinheiro Chagas - -Release Date: October 23, 2020 [EBook #63534] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - - - - - -OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES E OS DE COLOMBO - - - - - OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES - E - OS DE COLOMBO - - [Illustration] - - TENTATIVA DE COORDENAÇÃO HISTORICA - POR - MANUEL PINHEIRO CHAGAS - SECRETARIO GERAL DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA - - [Illustration] - - LISBOA - Typographia da Academia Real das Sciencias - 1892 - - - - -I - -Os problemas geographicos do seculo XV - - -A festa do centenario de Colombo deve acima de tudo ser uma festa de -justiça e um dos grandes jubileus da humanidade. Os centenarios dos -grandes homens e os centenarios dos grandes acontecimentos são as -solemnidades com que se festeja sobretudo a chegada a cada um dos marcos -milliarios da estrada, que até agora parece ser infinita, do Progresso. -Lançando os olhos para o passado, vê-se que a humanidade não parou um -só instante na sua marcha para um fim ainda hoje desconhecido. Parece -ás vezes aos observadores superficiaes que ha epochas em que se recúa, -porque se extingue uma luz que brilhava com immensa intensidade, ou -porque retrocede uma ou outra das legiões que formam o immenso exercito -da especie humana; mas, se ha umas que retrocedem, porque estavam muito -adeante das outras, estas em compensação avançam e ganham o terreno -perdido pelos seus companheiros de jornada. Se um clarão se apaga, outros -ha que se accendem em pontos que até ahi estavam immersos em trevas -profundas. O nivel da humanidade restabelece-se como se restabelece o -nivel das aguas depois dos grandes cataclysmos que afundam as mais altas -montanhas, e que deixam enxutas immensas planicies cobertas até ahi -pela vaga. Assim não ha um só dos grandes cataclysmos historicos de que -não resultasse um progresso. Mudou-se a fórma da civilisação occidental -quando cahiu o imperio romano. Ao impulso dos barbaros alluiram-se as -instituições e os monumentos, a sciencia e as lettras eclipsaram-se, mas -a alma humana illuminou-se com a irradiação do Evangelho que só n’essa -raça virgem que vinha do Norte e do Oriente podia accender os candidos -explendores que foram como que novas estrellas no nosso firmamento -moral, que foram a divinisação da mulher e a apotheose da familia e ao -mesmo tempo a esperança immortal que expirára no mundo antigo podre de -civilisação e que reviveu no mundo barbaro. Cahiam deante do alvião -vandalico os monumentos magestosos de Roma e as puras obras primas da -Grecia, mas erguia-se envolta n’um nimbo estranho de fé e de poesia -a cathedral gothica, e recortavam-se em mil caprichos phantasticos -as torrinhas e as innumeraveis agulhas dos paços municipaes, em que -a burguezia ostentava, em frente da realeza da espada, a realeza do -trabalho. Desappareciam debaixo dos codices monachaes as obras primas -dos tragicos e as epopéas gregas, mas a alma complexa da tumultuosa meia -edade palpitava nos tercetos de Dante. E, quando a invasão musulmana -derrubava no Oriente o ultimo baluarte da antiguidade erudita, quando a -Grecia via os seus marmores despedaçados pelas ferraduras dos cavallos do -deserto, e o Egypto as suas esphinges sepultadas nas nuvens de areia que -as hordas arabes levantavam, no Occidente arrancava Colombo á esphinge do -Oceano o seu segredo secular, fixava para sempre Guttemberg os vestigios -do pensamento humano, e ás portas orientaes, vindas de remoto occaso, -assomavam as prôas das caravelas portuguezas, que acabavam de sulcar, -vanguarda da civilisação, as ondas do mar Tenebroso illuminadas pela sua -audacia. - -Estas festas devem ser porém acima de tudo as festas da justiça, -porque n’ellas devem emmudecer perante a grande causa da humanidade as -mesquinhas invejas, as pequeninas rivalidades nacionaes, com que por -muitas vezes se procura deslustrar a memoria d’aquelles, que foram os -agentes providenciaes d’estas grandes transformações. O progresso humano -obedece a leis de uma ineluctavel logica. Não ha saltos nem lacúnas. -Tudo se succede com uma logica surprehendente. As grandes descobertas -derivam-se umas das outras. Todo o grande homem tem os seus humildes -predecessores. O seu genio fórma-se com elementos dispersos que elle -aproveita, concatena, e de que tira só elle o resultado fecundo. Não -foi Watt que inventou a machina de vapor, mas a elle e só a elle cabe -a gloria do invento, porque foi o seu genio que encontrou o segredo -capital, sem o qual essa machina não seria sempre senão uma curiosidade, -inutil para os grandes progressos da sciencia e da industria. Não foi -Colombo sem duvida o primeiro que sonhou que para além das vagas do -Atlantico se encontrava terra, nem o primeiro que devaneou que a marcha -de um navio pelo occidente o deveria conduzir ás plagas orientaes da -Asia. Não foi o infante D. Henrique o primeiro que pensou que, torneando -a Africa, se poderia chegar ao mar Roxo e á India, mas foram Colombo e o -infante D. Henrique que tiveram a audacia, a fé e o espirito scientifico, -foram elles que romperam os obstaculos, deante dos quaes recuava -pallida e tremente a multidão dos navegantes, ou refugia hesitante o -sonho de alguns capitães devaneadores. A elles cabe sem duvida a gloria -incontestavel, perante elles se deve curvar com respeito a humanidade, -que só a elles deve a conquista maravilhosa de mais de metade da terra. - -Quando vejo a azafama com que procuram ainda hoje espiritos demolidores -sustentar que os Portuguezes foram precedidos por outros povos nos seus -descobrimentos, que teve Colombo predecessores no descobrimento da -America, pasmo que se não veja claramente o obstaculo deante do qual -baqueiam todos os seus argumentos. Esse obstaculo é o seguinte: antes -dos navegadores do infante D. Henrique terem demonstrado o contrario, -era ponto incontestavel para todos a impossibilidade de se viver na -zona torrida. Antes de Colombo ter mostrado o contrario, era ponto -incontroverso que a immensa extensão do Atlantico tornava impossivel que -um navio, caminhando na direcção do occidente, encontrasse terra antes -de terem perecido de fome e de sede todas as tripulações. Pois, se um -navio qualquer tivesse, como se diz dos navios dieppezes, chegado antes -de nós ás costas da Guiné, não estava desde logo quebrado o encanto, não -cahia por terra toda a geographia systematica dos antigos, não estava -aberto para sempre o _mare clausum_, e podia alguem sustentar ainda que -era inhabitavel a zona torrida, quando havia em França marinheiros que -a tinham atravessado sem perigo, que tinham voltado incolumes, deixando -n’essas regiões que todos diziam completamente queimadas pelo sol -colonias florescentes como esse Petit-Dieppe e esse Petit-Paris, que -ainda hoje são citadas por escriptores francezes notabilissimos, em cujo -espirito um mal-entendido amor patrio parece extinguir completamente -a faculdade do raciocinio? Seria necessario que essa descoberta fosse -completamente inconsciente, que os marinheiros nem soubessem que tinham -entrado na zona torrida, e essa ignorancia é completamente incompativel -com os conhecimentos embora rudimentares que precisava de ter o navegador -que se arriscava a tão aventurosas viagens. - -O mesmo diremos das navegações antigas de que se encontra noticia nos -livros de Herodoto e no Periplo de Hannon. Se os marinheiros phenicios de -Necho tivessem dado volta ao cabo da Boa Esperança, e tivessem entrado no -Mediterraneo pelo estreito de Gibraltar, percorrendo tão immensa extensão -de costas, como poderiam persistir no espirito dos geographos antigos -idéas tão absolutamente falsas a respeito da configuração da Africa e da -distribuição das zonas? Pode allegar-se por acaso que essa viagem não -deixou vestigios, quando vemos que as viagens dos Phenicios nos mares -da Europa tão difficeis e tão inhospitos foram sempre continuadas, que -nunca se perdeu o conhecimento da Islandia, essa terra gelada, e que pelo -contrario perderam immediatamente esses Phenicios, esses Orientaes, que -viviam nas terras ardentes, o conhecimento de costas que o sol tambem -aquecia e em que encontravam muitas vezes como que a reproducção das -suas terras nataes? E não seria extranho tambem que Hannon tivesse feito -a longa viagem que do seu Periplo se quer deduzir que fez, e que se -apagasse completamente na memoria carthagineza o conhecimento das terras -percorridas em tão memoravel expedição, preferindo tambem, ao que parece, -esses filhos de paiz africano, as costas geladas e os mares tempestuosos -da Europa ao clima quente e ao mar sereno da Africa Occidental? - -O que é estranho realmente, é que o alto espirito de Humboldt acceitasse -sem exame as pretenções dos Normandos, limitando-se a observar na sua -_Historia da geographia do Novo Continente_ que esses factos citados -não diminuem a gloria de quem tentou a exploração seguida das costas -africanas![1] Não viu o grande historiador, o immortal geographo, que -esses factos isolados bastavam para destruir todas as lendas, que eram -a chave com que ficava para sempre aberto o mar Tenebroso, que só se -abriu comtudo radiante de luz deante dos esforços dos navegadores -portuguezes, que bastavam para abrir o caminho para a _terra antichtona_, -para o _alter orbis_, onde muitos diziam que ficava situado o Paraizo -Terrestre, e que nós não poderiamos conhecer nunca, porque ás duas -zonas temperadas se interpunha, intransitavel e terrivel, a zona torrida -completamente queimada pelo sol? Tão profunda seria a ignorancia em -Dieppe que ninguem visse a importancia da maravilhosa expedição? Nos -seculos XIII e XIV, sobretudo, em que já começava a actuar nos espiritos -europeus a febre das viagens, já depois de Marco Polo ter escripto a -sua curiosa narrativa, depois das viagens para o Oriente de Rubruquis -e de Carpino, e das viagens de sir John Mandeville, quasi um normando -tambem? Ninguem via semelhante coisa! Tendo de casa quem lhes ensinasse a -verdade, continuavam geographos e cartographos, todos os sabios, todos os -estudiosos a repetir as velhas fabulas, a encher de monstros horrificos -os desconhecidos plainos africanos, a pintar a vermelho nos mappas, -para bem indicar o ardor do clima, os mares equatoriaes? Possuindo -colonias na costa africana, tendo marinheiros que tão bem conheciam -esses mares podiam os reis de França consentir que, por bulla de 8 de -janeiro de 1454, o papa Nicolau V concedesse aos reis de Portugal «todas -as conquistas da Africa com as ilhas nos mares adjacentes _desde o cabo -Bojador e de Não até toda a Guiné com toda a sua costa meridional_?»[2]. -E era possivel ainda que no principio do seculo XV os capellães de João -de Bethencourt, _fidalgo normando_ que occupára as Canarias, compondo a -narrativa da famosa expedição, nem uma palavra escrevessem ácerca das -expedições dos seus patricios, e que pelo contrario dissessem, elles -normandos, que «_si aucun noble prince du royaume de France ou d’ailleurs -vouloit entreprendre aucune grande conqueste par deçà, qui seroit une -chose bien faisable et bien raisonnable, le pourroit faire à peu de -frais; car Portugal et Espagne et Aragon les fourniroient pour leur -argent de toutes vitoailles et de navires plus que nul autre pays, et -aussi de pilotes qui savent les ports et les contrées_?»[3] - -Com tanta superficialidade porém se estudam estes assumptos que nem -se pensa em se saber se a Guiné do seculo XIV é a Guiné posterior aos -descobrimentos. Isso leva escriptores francezes e o proprio Humboldt -a allegar que este mesmo Bethencourt explorou a Guiné antes dos -portuguezes, sem verem que o que os seus capellães contam é o seguinte: -que «os navegantes normandos se affogaram nas costas _da Barbaria ao -pé de Marrocos_»,[4] e que Bethencourt tencionava visitar a parte da -«terra firme que fica _entre o cabo Cantim e o Bojador_»[5] que para isso -consultara o livro de um religioso hespanhol «_que visitára a Guiné, -mas que, chegando ao cabo Bojador se limitára a reconhecer as ilhas que -ficavam áquem_».[6] A Guiné do tempo de Bethencourt era, como se vê, a -que ficava para cá do cabo Bojador, e tanto assim que o papa Innocencio -VII disse, escrevendo a Bethencourt, que sabia ficarem as ilhas Canarias -a doze leguas de Guiné.[7] - -Que immenso cuidado é necessario, quando se procura destruir uma tradição -profundamente e fortemente documentada! Quantas causas de erro escapam ao -investigador ou frivolo, ou negligente, que se ufana de encontrar n’um -velho alfarrabio um facto que vem destruir completamente o que parecia -assente e demonstrado! Basta uma variação de nome para transtornar todas -as deducções. Basta que uns não saibam, que outros não reparem que o nome -de Guiné foi mudando de sitio, como outros muitos nomes geographicos, -á medida que os descobrimentos foram caminhando, para que todas as -interpretações caiam por terra! Não basta que se diga que no seculo -XIV ou XV houve Francezes que chegaram á Guiné, torna-se indispensavel -apurar tambem se a Guiné do principio do seculo XV era a mesma que assim -se denominou depois dos descobrimentos. Este apuramento, d’onde resulta -sabermos que a Guiné ficava, para os capellães de Bethencourt, áquem do -cabo Bojador, destruiria completamente a singularissima reivindicação -franceza se tantos argumentos fortissimos não houvesse para lhe -demonstrar a inanidade.[8] - -É o que succede tambem com os detractores de Colombo. Não vêem -immediatamente os que dizem que antes de Colombo chegaram a terras -americanas João Vaz Côrte Real, ou o francez Jean Cousin, que, se algum -d’elles tivesse levado a termo tão importante expedição, bastava isso -para ficar logo resolvido o grande problema do fim do seculo XV que -trazia preoccupados sabios e estudiosos, deante do qual tanto hesitou D. -João II, que inflammou em França o animo do cardeal Pedro d’Ailly, em -Italia o do famoso Toscanelli! Com que jubilo se saudaria essa resolução -do grande problema! - -O que faz tambem com que homens de valor no nosso tempo possam acceitar -fabulas tão pueris, como a de João Vaz Côrte Real e a de Jean Cousin, é -que raros estudam a fundo o problema que pretendem resolver a seu modo, e -não o sabem pôr em equação. Uns estabelecem a lenda de Christovão Colombo -considerado como um visionario por dizer que se encontraria a India -navegando-se pelo occidente, outros a lenda de Christovão Colombo tratado -como um louco por imaginar que para o lado do occidente havia terras. E -por isso dizem uns que elle sabia perfeitamente que havia terras porque -tinha conhecimento de viagens a que os navegadores não tinham ligado -importancia alguma e que tinham passado despercebidas, outros que algum -dos reis com quem elle tratara, D. João II por exemplo, não ignoravam que -havia terras para o occidente a grandissima distancia da Europa, porque a -essas terras já um portuguez aportara, mas estavam convencidos que essas -terras não eram a India, e n’isso, accrescenta-se, eram elles que tinham -razão e não Colombo. - -É mal posto o problema: que se poderia chegar á Asia indo-se pelo -occidente, raros seriam os homens de alguma instrucção que o podessem -pôr em duvida. A idéa da esphericidade da terra já penetrara em todos -os espiritos, e a sua consequencia natural era que pelo occidente se -poderia chegar ao oriente. Que devia haver terras para o occidente -era por conseguinte egualmente incontestavel. A questão toda estava -exclusivamente na distancia. - -D. João II não julgava Colombo um visionario por elle lhe dizer que pelo -occidente se chegaria á India, julgou-o um visionario por elle suppôr -que poderia atravessar para chegar ao seu destino a enorme extensão dos -mares. Não o suppoz visionario por elle cuidar que encontraria terras ao -occidente, ainda que essas terras não fossem a India, suppôl-o visionario -por elle imaginar que teria tempo de chegar a essas terras a salvamento. -Logo, se Jean Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem realisado essa -façanha, estavam dissipadas todas as duvidas. - -Havia terras a grande distancia da Europa, terras que ou seriam a -India, ou algum d’esses archipelagos em que Toscanelli tinha fé, que -serviriam de escala aos navios que demandassem pelo occidente a Asia?[9] -O jubilo immenso que se sentiu na Hespanha quando Christovão Colombo -voltou, sentir-se-hia em Lisboa quando João Vaz Côrte Real tornasse, ou -sentir-se-hia em França quando Jean Cousin entrasse n’algum dos seus -portos. - -O erro d’aquelles que assim procuram contrapôr a glorias consagradas -não só pela tradição, mas pelos factos incontestados e pelos -resultados conseguidos, estas lendas pueris forjadas ou pela inveja -dos contemporaneos, ou pela phantasia audaciosa dos historiadores sem -probidade scientifica que abundaram no seculo XVII, está em pôrem -completamente de parte o estudo do meio em que os grandes descobrimentos -se fizeram, de modo que o infante D. Henrique e Colombo apparecem como -uns vultos inexplicaveis sem raizes no passado e sem relações de especie -alguma com o espirito das gerações de que fizeram parte. Querem então -reduzir á estatura normal esses vultos descommunaes, e aproveitam -qualquer tradição apocrypha para mostrarem com um sorriso de mofa, que -elles não fizeram senão aproveitar os esforços inconscientes feitos por -alguns vultos humildes, para forjarem com esse metal roubado a pobres as -estatuas da sua grandeza. - -Applique-se o methodo scientifico ao estudo d’estes grandes phenomenos da -vida da humanidade, e ver-se-ha como o genio d’estes dois homens apparece -ainda mais brilhante quando vemos que elle resume as vagas aspirações da -geração a que pertencem, satisfaz a anciedade que ella sente, encontrando -a solução que os outros debalde procuram. O infante D. Henrique surge no -meio de uma geração que se debate na ancia do desconhecido, que se julga -apertada na jaula d’este mundo antigo, e anceia por encontrar espaço mais -amplo em que mais livremente respire. Havia um seculo já que a sede das -viagens se apoderara dos espiritos, que o conhecimento da terra era a -preoccupação constante de todos os espiritos mais illustrados e cultos, -em que já se multiplicavam os documentos cartographicos, em que aquellas -encyclopedias medievaes que tinham o titulo quasi consagrado de _Imago -mundi_ se enchiam com as mais phantasticas noções, revelando comtudo -o ardor com que se procurava supprir com uma geographia conjectural a -falta do conhecimento verdadeiro da terra. Já se tinham emprehendido -as grandes viagens terrestres pela Asia, procuravam os povos maritimos -sondar os segredos do Occeano. Tentavam os Normandos perscrutal-os, -e a expedição de João de Bethencourt bem o demonstrou, aspiravam a -descobril-os os Genovezes, e a infeliz expedição de Vivaldi de que nunca -mais houve noticias depois das suas galés terem transposto o estreito -de Gibraltar confirma-o cabalmente, queriam os Catalães encontral-os e -Jayme Ferrer, que apenas transpoz o cabo Não, e não conseguiu passar -além do Bojador, foi um dos que se illustraram n’essas tentativas; mas -paralysou-os a tradição geographica tão enraizada nos seus espiritos -como o estão hoje no nosso as theorias da geographia moderna. Logo que -a costa africana, em vez de voltar para o oriente, continuava a seguir -para o sul, internando-se por conseguinte na zona torrida, a affirmação -scientifica de que o sol a ia tornar impossivel de se transpôr impunha-se -ao espirito dos navegantes, e bastaria para os fazer recuar, ainda que -as affirmações cathegoricas da orthodoxia e os terrores da superstição -os não movessem. D. Henrique teve o genio de um livre espirito que se -revolta contra uma tradição que se não baseia em dados positivos, e -que a submette audaciosamente ao exame da experiencia, teve a coragem -que transmittiu aos seus navegadores de arcar contra as affirmações da -sciencia, contra os dogmas da religião, contra os pavores da lenda. -Continuou e venceu! E a noticia do triumpho correu a Europa toda, e -resoou em toda a parte como uma grande conquista do espirito humano, e -a theoria das zonas inhabitaveis desappareceu, e a da impossibilidade -de communicação entre as duas zonas temperadas dissipou-se, e a Egreja -teve de se conformar com a existencia dos antipodas que ella considerava -como uma affirmação incompativel com o espirito christão. Pois não se -vê que tudo isso aconteceria, logo que um navegador audacioso tivesse -penetrado na zona torrida, muito para além das regiões habitaveis? E não -se vê tambem que semelhante navegação não passaria despercebida n’uma -epocha em que era universal a anciedade pela ampliação dos conhecimentos -geographicos? - -Succede o mesmo com Christovão Colombo. A existencia de terras para -o occidente é um dos sonhos da humanidade desde longas eras. Quanto -esse problema preoccuparia os navegadores portuguezes n’esse seculo XV -todo illuminado pelas suas glorias pode bem imaginar-se. Attestam-n’o -as aventurosas expedições dos mareantes açorianos; mas, como Vivaldi -que procurou sondar as regiões inexploradas da Africa, muitos d’esses -audaciosos se perderam no vasto Occeano, como Jayme Ferrer, outros -chegaram a terras um pouco afastadas e foi assim que a ilha das Flores -se descobriu, mas como o mesmo Ferrer recuando deante do Bojador, como -Bethencourt não ousando afastar-se para além das costas de Marrocos, os -açorianos desmaiaram deante da infinita solidão do Atlantico. Quando -Colombo quebrou essas ultimas barreiras, com que enthusiasmo o receberam, -com que despeito por lhe não ter dado inteiro credito o acolheu D. João -II! Como logo partiram de toda a parte navios a sondar esses mares -desconhecidos! Não aconteceria o mesmo se Jean Cousin ou João Vaz Côrte -Real tivessem, antes de Colombo, vencido o grande obstaculo? Não seria -para Lisboa ou para Dieppe que se voltaria logo a attenção e a inveja de -toda a Europa? - -Assim, resumindo as questões capitaes em que se condensa o nosso ponto -de vista, temos que os dois grandes problemas geographicos que foram -resolvidos pelos navegadores do infante D. Henrique e pelas caravellas de -Christovão Colombo eram as seguintes: - - 1.º Atravessar a zona torrida, que, segundo as affirmações - da sciencia, tornava impossivel a communicação entre as duas - zonas temperadas, entre a terra em que habitamos e a terra - antichthona, entre o mundo antigo que tinha Jerusalem no centro - e o _alter orbis_ onde a humanidade vivera antes do diluvio, - transpôr o Atlantico, pintado pela lenda e pela tradição - antiga como o mar tenebroso, entrar n’um occeano que passava - por sobrenatural, onde se estava talvez á mercê das potencias - infernaes; - - 2.º Atravessar a solidão do Atlantico do occidente ao oriente, - até chegar ás praias orientaes da Asia. - -A resolução do segundo problema estava dependente da resolução do -primeiro. O primeiro acto de audacia era abrir os mares fechados, mostrar -que não tinha o Atlantico os perigos reaes e sobrenaturaes de que o -rodeiavam a tradição scientifica e a lenda popular. Esse resolveram-n’o -os Portuguezes, e ninguem os precedeu nem os podia preceder, pelo simples -motivo de que, se alguem antes d’elles tivesse aberto o _mare clausum_, -não teriam elles que o tornar a abrir. Não se fecha o mar como se fecha -uma porta. Não tornam a crear-se os phantasmas que o primeiro audacioso -dissipou. Se alguem, antes do infante, houvesse rasgado a cortina do -mysterio que sequestrava o Atlantico, estava o Atlantico patente. A -geographia systematica da antiguidade e da edade média caía em ruinas -logo que o primeiro facto real e tangivel tivesse mostrado a inanidade do -systema. - -Resolvido o primeiro problema, trepidou-se deante do segundo. Não se -oppunham á sua resolução nem as theorias geographicas dos antigos, porque -bem conhecidas são, acima de tudo, as opiniões de Eratosthenes, nem as -opiniões orthodoxas que não contrariavam de um modo formalmente directo -as doutrinas de Colombo, nem as lendas maravilhosas que, depois da -desapparição do mar Tenebroso, não faziam senão excitar os navegadores a -procurarem no Occidente as ilhas paradisiacas de que S. Brandão voltára -com as vestes rescendentes a celestiaes perfumes. O que se oppunha -simplesmente á resolução do problema era a immensidade do Occeano, que -parecia confirmada exactamente pelas navegações portuguezas. Navegara-se -durante annos e ainda se não chegara ao sul da Africa. Quanto tempo teria -de se navegar para se chegar á India! Embora! exclamava Toscanelli, um -dos enthusiastas da escola colombina, porque, se lá não chegardes em -breve, encontrareis disseminadas pelo Occeano centos e centos de ilhas -e de archipelagos que servem de guarda avançada ao grande continente -oriental. Sonho de visionario! dizia-se e Colombo era repellido. Mas -Colombo persistiu e foi elle que rompeu o encanto, elle e só elle que por -ninguem poderia ter sido precedido, porque, se o fosse, tinham caido por -terra todas as objecções, visto que o problema estava reduzido a este -simplissimo termo: atravessar o Occeano e encontrar terra a distancia -a que cheguem os viveres de uma caravela. O primeiro que o conseguisse -tinha quebrado o feitiço, tinha desvendado o mysterio. Portuguez, -francez, hespanhol ou italiano, seria a sua volta saudada pelas -acclamações freneticas de toda a Europa maritima. Se foi essa gloria que -aureolou Colombo foi por que só a elle podia competir. - -Curvemo-nos com respeito deante dos precursores, deante dos marinheiros -que tentaram romper o mysterio, deante da intrepidez dos normandos que, -depois de occupadas as Canarias, tentaram reconhecer a costa africana, -e cujos cadaveres despedaçados nas rochas da costa marroquina foram -o primeiro cimento com que se começou a erguer o monumento da gloria -portugueza, deante da audacia dos catalães que mais adeante foram -ainda, que já transpozeram o cabo Não, e que investiram talvez com o -Bojador, mas não sacrifiquemos a essa homenagem a justa gloria que cabe -aos que mais felizes, mais perseverantes, e sobretudo dirigidos por -um genio excepcional, quebraram definitivamente as barreiras, e, sem -hesitar um momento, proseguiram no caminho encetado, e methodicamente -foram desenrolando folha a folha o livro do mundo desconhecido, ainda -enrolado nas vagas, como se enrolavam em volumes os antigos papyros. Não -acceitamos como uma especie de premio de consolação para os precursores -menos felizes a phrase de Humboldt, que diz como que encolhendo os -hombros deante da injustiça do mundo que as descobertas só se principiam -a contar desde que formam serie. As descobertas contam-se desde que se -fazem, e, se os Catalães ou os Normandos ou os Genovezes as tivessem -feito, para elles iria a gloria. Não esperou a Europa que as caravelas do -infante D. Henrique fossem muito adeante para que affluissem a Portugal -estrangeiros, nem o governo portuguez esperou por isso para reclamar do -Papa o reconhecimento do seu direito. Descobrem-se as Canarias? Logo -apparecem Portuguezes, Francezes e Hespanhoes a reclamar a sua posse. -Descobriam-se os Açores e a Madeira e ninguem com isso se importava. Não, -o Homero da grande epopéa maritima foi o infante D. Henrique. Antes dos -grandes epicos apparecem os cantos vagos e anonymos, em que se desata -a inspiração da musa popular, em que se modulam as aspirações e os -enthusiasmos do povo. Chega emfim o grande cantor, o epico inspirado, em -cuja fronte Deus accendeu a scentelha do genio, e que escuta pensativo -esses echos da guerra, essas cantilenas sublimes. Incende-se-lhe a -imaginação, concentra na sua alma as palpitações da alma nacional, e dos -seus labios brota emfim a epopéa victoriosa em que tudo se condensa, -e encontra a sua expressão definitiva, que se fixa para sempre na -memoria do povo e na memoria da humanidade. As caravelas que iam ainda, -silenciosas e timidas, aventurar-se ao mar mysterioso, e que ou voltavam -sem ter rompido o mysterio, ou no mysterio das vagas envolviam os seus -cadaveres fluctuantes, eram os bardos isolados que afinavam pelo rugido -do Occeano os seus epodos audaciosos, mas o infante foi o poeta soberano -que fez irromper da sua alma, pela voz dos seus marinheiros, a epopéa -triumphal e definitiva, a Iliada da audacia portugueza, como foi Colombo -depois que desenrolou no sulco argenteo dos seus navios a Odysséa do -Atlantico. - - - - -II - -Causas de erro para a historia da solução dos problemas - - -Para podermos seguir passo a passo a marcha dos descobrimentos, para -vermos como pouco a pouco se foi correndo a cortina que escondia aos -olhos dos homens da nossa raça metade do mundo conhecido, é necessario -a cada instante abstrahirmos dos nossos conhecimentos actuaes, para nos -collocarmos no ponto de vista em que os homens de eras anteriores se -collocavam em virtude do que elles então sabiam. A falta d’essa correcção -indispensavel arrasta muitos escriptores notaveis a erros grosseiros, que -muitas vezes lhes escapam exactamente por não terem o cuidado constante -de applicarem essa correcção ás tradições que dos tempos passados lhes -vem. O proprio Humboldt, que frequentemente observa quanto é funesto esse -erro, a esse erro cede só porque uma vez se esqueceu de verificar qual -era a região que nos principios do seculo XV era conhecida pelo nome -de Guiné. Se reparasse que a Guiné de Bethencourt ficava comprehendida -entre o cabo Cantim e o Bojador não acceitaria a pretenção franceza de -terem chegado os Normandos de Dieppe e o proprio Bethencourt a essa Guiné -tropical que já muito para além fica do Cabo Bojador. Pois é elle comtudo -que nota como é fallaz a denominação de India dada pelos antigos a varias -regiões, visto que muitas vezes comprehendia as regiões meridionaes da -Asia, a parte da Asia que chegava ao mar Vermelho, e ainda o extremo -Oriente. Marco Polo designava tres Indias, havia a India exterior e a -India inferior, a India superior que era a parte mais oriental da Asia -etc.[10] Pois ainda hoje frequentemente se espantam homens instruidos -não de que Colombo julgasse ter encontrado a Asia, mas de que imaginasse -ter encontrado a India, arrastados pela tendencia natural de vermos com -os nossos olhos de agora a geographia dos outros tempos; e de suppôrmos -que a India não podia ser no seculo XV senão a que nós hoje conhecemos e -como tal designamos. - -Quantas vezes mudou no decorrer dos tempos a posição geographica de -varias terras, a que attribuimos a sua posição actual, logo que lhes -encontramos em mappas antigos os nomes! Quantas terras differentes -receberam o mesmo nome que de umas a outras foi passando, segundo as -conjecturas dos geographos! As ilhas Afortunadas, como a ilha fluctuante -de Delos, foram sempre navegando para o occidente, até que a geographia -positiva as fixou nas Canarias, arrancando-lhes o véo da lenda em que -os antigos as envolviam. Estiveram primeiro no grande Oasis no Egypto, -passaram depois para o sul da Cyrenaica, depois ainda para defronte do -rio Lukkos, quer dizer, quasi pegadas com a costa marroquina, e só depois -para o ponto em que estão as Canarias.[11] A quantas ilhas se applicou o -nome de Taprobana, que nós affirmamos hoje que era Ceylão, quando muitas -vezes a sua posição corresponde á de Sumatra, e quando outras vezes a -collocava a geographia conjectural dos antigos no oriente das Indias![12] -A que peninsulas tão diversas se attribuiu o nome de Aurea Chersoneso -que arbitrariamente suppomos agora que correspondia á peninsula de -Malaca![13] Como é perfeitamente conjectural, apezar dos argumentos de -alguma força apresentados por Mr. d’Anville, a identificação de Sofala -com Ophir![14] Como ainda se illudem hoje os mais serios investigadores -com o nome de Ethiopia, que intentam applicar ao paiz que hoje -consideramos como tal, quando a Ethiopia, na supposição dos antigos, -abrangia toda a parte meridional da Africa e vinha ligar-se com a costa -marroquina![15] Como poderiamos nunca ter fé n’essas identificações, -se vemos que os antigos e os Arabes, e os povos da edade média davam á -India uma fórma completamente phantastica, suppunham que o mar das Indias -era um mar mediterraneo, approximavam assim a costa asiatica da costa -africana, como a costa africana está proxima da Europa no Mediterraneo -europeu, sendo por conseguinte tão possivel que ficasse Ophir na Africa -como na India! - -Depois que enorme cautella é ainda necessaria para o exame dos antigos -mappas, onde a phantasia se dava largas, e onde se misturavam com alguns -factos positivos todas as conjecturas que formava ou a imaginação -ou o espirito reflexivo d’aquelles que os traçavam! Como é ridiculo -para quem conhece o espirito que presidia á elaboração dos mappas -ouvir escriptores serios fallarem com muita gravidade no famoso mappa -trazido pelo infante D. Pedro das suas viagens, e onde estão traçados -o cabo da Boa Esperança e até o estreito de Magalhães! Não sabem esses -escriptores que, até depois de feitos os descobrimentos, a phantasia dos -cartographos não se contentava com os factos positivos narrados pelos -navegadores e continuava a ampliar por sua conta o mundo conhecido! Os -proprios navegadores ás vezes contribuiam para illudir os cartographos. -Christovão Colombo, ao tocar na ilha de Cuba, julgou ter chegado a terra -firme e tanto d’isso se convenceu que fez jurar aos seus tripulantes -que fôra n’um continente que tinham effectivamente tocado![16] Pedro -Alvares Cabral tomou o Brazil por uma grande ilha. Em mappas muito -posteriores aos descobrimentos americanos, feitos já depois de Vasco -Balboa ter encontrado o Pacifico, collocou-se no sitio em que está o -isthmo de Panamá[17] um estreito que punha em communicação os dois -mares. Mas isso não impediu os que se enlevam na demolição de glorias -estabelecidas de sustentar que o infante D. Henrique tinha mappas -que até lhe mostravam onde era o cabo da Boa Esperança, que Colombo -levava comsigo mappas que lhe davam o traçado da America, que Fernão de -Magalhães n’um globo de Martim de Behaim vira traçado o estreito famoso -que hoje tem o seu nome, e que Pedro Alvares tinha um mappa tambem que -lhe designava o sitio em que encontrou o Brazil! Puerís tentativas! -Quantas vezes effectivamente n’esses mappas conjecturaes podia fazer o -acaso que coincidisse com a descoberta a ilha ou a terra phantasiada pela -imaginação dos cartographos; mas logo o formigar dos erros perfeitamente -incompativeis com o imaginario descobrimento prova exuberantemente que só -em coincidencias fortuitas e insignificantes elle se poderia basear. - -O que melhor pode mostrar como faltava completamente aos antigos o -conhecimento da terra, para além dos estreitos limites em que se -concentraram as civilisações do Oriente e a civilisação greco-romana, -está na variedade dos systemas com que se procurava explicar a fórma do -mundo. A sciencia não caminhava com passo seguro, juntando ao thesouro -das idéas conquistadas cada idéa nova que ia sendo adquirida. Como todas -as explicações eram conjecturaes, cada nova theoria provava apenas -a argucia e o engenho do espirito que a concebia, mas estava sujeita -á discussão e á contradicção como todas as soluções que não assentam -em factos positivos e incontestaveis. Pode dizer-se que a idéa da -esphericidade da terra triumphou na antiguidade, mas pode dizer-se que -triumphou porque a sustentavam os mais esclarecidos espiritos, não porque -todos a reconhecessem, e porque não houvesse tambem homens de primeira -plana que absolutamente a negassem. Sustentou-a Ptolomeu, mas contestou-a -vivamente Plutarcho.[18] A theoria de ser a terra um disco cercado pelo -rio Oceano, que é a theoria homerica, essa desappareceu é certo, porque -a observação dos phenomenos celestes mostrou de um modo evidente quanto -era absurda, porque se via bem que não era possivel que o sol se sumisse -no occidente, e voltasse depois pelo mesmo caminho e em segredo de -noite para reapparecer no Oriente, porque o movimento apparente do céo -não podia explicar-se senão allegando-se que os corpos celestes n’uma -parte da sua marcha passavam por debaixo da terra, para reapparecerem -no sitio opposto áquelle por onde se tinham sumido. Então sim, então a -idéa de que a terra assentava em bases solidas, tendo por cima de si o -céo estrellado, desappareceu completamente, e a primeira conquista da -sciencia foi a que suspendeu a terra no espaço, embora fizesse d’ella -ainda o centro da creação, embora suppozesse que tudo se fizera no -Universo em sua honra, que em torno d’ella giravam no immenso espaço em -varias espheras concentricas os orbes luminosos que entoavam a harmonia, -que Platão julgava escutar n’um arrobamento infinito, e que espalhavam -nos intermundios a chamma ora intensa como a do sol, ora meiga como a -da lua, ora palpitante e suavissima como a das estrellas, das corôas -resplandecentes com que a Divindade as cingiu. - -Mas com relação á fórma da terra que diversidade de opiniões! Pomponio -Mela considerava a terra chata como a suppunham os Hebreus, como a -suppozeram depois os Padres da Egreja, e entre elles Santo Agostinho, -Lactancio, S. Justino martyr; Ephoro dava-lhe a fórma de um quadrilongo, -Cicero, no famoso _Sonho de Scipião_, acceitava as doutrinas dos -geographos mais notaveis, considerava-a espherica, e essa opinião foi -seguida por Macrobio, que tambem dava, como Cicero, á parte habitada a -fórma de uma chlamyde. Entre os sabios que sustentavam na antiguidade o -principio de que a terra era espherica, avulta o grande nome do geographo -antigo Ptolomeu. Outros porém baseiam-se na doutrina de Thalés, suppõem -a terra ovoide, e Posidonius suppõe que essa ellipse estreita que -constitue a terra termina em duas pontas agudissimas.[19] - -Apezar d’essas differenças porém, a opinião da esphericidade da terra -é a que predomina entre os antigos, é a que tem a seu favor a enorme -authoridade de Ptolomeu e de Platão e de Aristoteles e de Eratosthenes -e de Hipparcho e de Cicero e de Strabão, a que é preconisada pela -escola de Alexandria e que adquire por conseguinte um verdadeiro valor -scientifico, mas a religião christã intervem no debate, e a theoria dos -antigos é considerada como heterodoxa pelos Santos Padres. A terra tem -a fórma de tabernaculo, a existencia dos antipodas é condemnada como -absolutamente contraria á logica divina, e esta opinião tão respeitada, -tão importante introduz immediatamente a confusão nos espiritos da edade -média. O conhecimento da sciencia arabe traz ainda um novo elemento de -complicação. Na sciencia oriental sente-se de um modo accentuadissimo -o reflexo da tradição grega. Ptolomeu e Aristoteles teem ferventes -discipulos nos sabios orientaes, que podem esfumar as suas doutrinas no -vago do seu maravilhoso, mas que no fundo as acceitam e as applaudem. -E assim vamos encontrar por toda a edade média a velha theoria grega -reforçada agora pela adhesão arabe em lucta com as prescripções christãs. -Não se pode apagar n’esses espiritos medievaes, que tinham pelo saber -da antiguidade um supersticioso respeito, a influencia de Ptolomeu, mas -deante da voz auctorisada dos Santos Padres tudo se inclina e emmudece. -Então vamos encontrar os cartographos da edade média empenhados na -improba tarefa, que tantas vezes se tem repetido, de procurarem conciliar -as doutrinas da Egreja com a tradição da sciencia. Apparece-nos muitas -vezes a terra como um quadrado inscripto n’um circulo, e, ao passo que -o systema das espheras applicado ao systema cosmographico encontra nos -espiritos da meia edade um verdadeiro engodo, a terra fixa no meio -do universo espherico mantem a fórma especial que os Santos Padres -decretaram que tivesse.[20] - -Durante largos seculos pairou sobre a humanidade a duvida mais profunda -ácerca da fórma do planeta que ella habita. Se alguns sabios entrevêem -a verdade, e a sustentam e a defendem, é simplesmente pelas deducções -que tiram dos seus calculos e das suas observações astronomicas, não -pelo conhecimento directo que possam ter do planeta. Por isso tambem a -orthodoxia triumpha, embora as razões em que se funda não sejam bastante -poderosas contra o raciocinio dos philosophos, mas, apezar da fraqueza -da argumentação, a fé supera sempre facilmente as theorias conjecturaes -dos seus adversarios. É por isso que ella ainda hoje é sempre victoriosa -na sua lucta contra os systemas philosophicos adversos. Ella dá uma -certeza sem fundamento que não seja a auctoridade respeitada da tradição -e da crença, os outros oppõem-lhe theorias mais ou menos verosimeis, -mas todas baseadas em simples conjecturas. No dia em que o materialismo -conseguir fazer palpar o principio vital, ainda hoje incoercivel, e que -se representa por esse nome fascinador da alma dotada de immortalidade, o -espiritualismo cahiu para não mais se levantar. Emquanto a demonstração -da redondeza da terra e da existencia dos antipodas não sahiu do dominio -conjectural, a fé que oppunha a essas vagas theorias uma affirmação -baseada em tradicções tão conjecturaes como os raciocinios adversos mas -aferradas ao espirito humano pelas raizes potentissimas da tradição, -os Santos Padres triumphavam. Veiu um dia, porém, em que um pequeno -povo debruçado sobre os mysterios do Oceano resolveu sondal-os e -quebrar as barreiras que separavam do mundo conhecido essa região -enigmatica, transpôr o que lhe diziam que era inultrapassavel, chegar -ás regiões defezas, arrombar as portas fechadas pela triplice chave -da sciencia, da fé e da lenda, e o que dezenas de seculos não tinham -conseguido conseguiu-o meio seculo apenas. Então a sciencia não parou, -não retrocedeu, não se contradisse, não se perdeu em conjecturas. Cada -facto que se adquiria era uma confirmação de uma theoria contestada, -ou a revelação de uma theoria nova. A fé cedeu deante da evidencia. -Quando os marinheiros portuguezes entraram na zona torrida, cahiu por -terra a idéa consagrada da impossibilidade d’alli se viver, quando -entraram na zona temperada do sul, desappareceu, substituida pela real, -a terra antichthona, e a Egreja teve de acceitar os antipodas; quando -Colombo transpoz o Oceano occidental, a idéa da immensidade dos mares -perdeu-se para sempre; quando Fernão de Magalhães passou do Atlantico -ao Pacifico, e quando o seu ultimo navio veiu fundear n’um porto da -peninsula hispanica depois de ter dado volta completa ao mundo, não teve -mais contradictores nem descrentes a theoria da esphericidade da terra. O -quadrado dos Santos Padres cahiu desfeito pelas cargas repetidas d’esses -cavalleiros do Oceano. - -Não é já só, porém, com as phantasias orthodoxas, nem com os devaneios -dos sonhadores scientificos, que a terra depois de explorada -audaciosamente se torna incompativel. O proprio systema scientifico de -Ptolomeu, essa gloria da antiguidade greco-romana, estala não podendo -conter em si o mundo tal como foi estudado e descoberto. O systema de -Copernico restitue ao sol a sua magestade e a sua humildade á terra. -Se não era o sol que percorria lentamente o zodiaco, illuminando no -mais alto do seu curso com a sua luz fecundante a terra privilegiada, -e queimando quando se abaixava a terra condemnada e maldita, se a zona -torrida não era um inferno sempre em chammas, nem nas suas proximidades -pullulavam os monstros como os Cerbéros d’esse Tartaro, como as viagens -portuguezas amplamente demonstravam, que motivo havia para se suppôr -que o Sol não era senão o instrumento das bençãos ou das maldições de -Deus sobre a Terra, e porque não seria antes a Terra que adejaria no -espaço, irmã d’esses numerosos planetas que no céo resplandeciam, atomo -no meio d’essa immensidade de atomos, bago d’essa poeira de luz dispersa -no firmamento, e posta em movimento pelo sopro mysterioso da grande -attracção universal? E a Copernico succediam Képler e Newton, e as leis -do Universo iam-se coordenando n’um Codigo formulado pela sciencia, -não ao acaso das conjecturas, mas segundo as indicações positivas dos -factos. E assim foi que a audacia portugueza transformou completamente -a sciencia humana, e iniciou esta epocha portentosa que dura ha quatro -seculos apenas, e que deu mais á humanidade que as dezenas de seculos da -historia conhecida que a precederam. E assim é que, se a Colombo cabe a -indisputavel gloria de ter destruido a fabula que tornava inaccessiveis -as terras do occidente, ao infante D. Henrique mais do que a nenhum -outro cabe a gloria immensa de ter affrontado a sciencia, a fé e a lenda -para fazer da sciencia conjectural uma sciencia positiva, da fé que -amesquinhava a humanidade a fé que a ampliou, da lenda que acovardava a -alma humana a epopéa que a enalteceu. - -Foi grande Colombo, grande Vasco da Gama, e grande Magalhães! Formam -um grupo de heroes os audazes marinheiros que desde Gil Eanes até -Bartholomeu Dias, desde Pinzon até Queiroz, sulcaram todos os mares, e -affrontaram todas as tempestades, compõem uma phalange benemerita os -missionarios da sciencia, que, desde João Fernandes o humilde iniciador -da exploração scientifica do continente africano até aos modernos sabios -viajantes, se internaram nos sertões affrontando os povos barbaros, -como formam uma legião sagrada os missionarios da fé que não recúaram -deante dos mais horridos perigos para levarem a regiões ignotas a -palavra divina, mas o genio iniciador, que tornou possiveis todos -estes feitos, e concebiveis essas audacias, foi o pensativo infante, -que accendeu com as suas mãos intrepidas, entre os motejos da sciencia, -os anathemas da Egreja e os gritos pavidos da superstição, esse pharol -glorioso que projectou de Sagres sobre o vasto Oceano, por cima das suas -ondas tenebrosas, a luz radiosa e serena que foi a verdadeira aurora da -civilisação moderna. - - - - -III - -A zona torrida perante as sciencias da antiguidade e da edade média - - -Accentuámos bem que tres elementos havia que se oppunham ás expedições -que os Portuguezes audaciosamente emprehenderam: a sciencia, a fé -e a lenda. Foi a primeira a que se oppoz sempre a que os ousados -navegadores da antiguidade lustrassem o caminho que os Portuguezes depois -percorreram. Não eram de certo mais terriveis os mares africanos do -que os mares da Europa septentrional, e os marinheiros phenicios, que -affrontaram a bahia de Biscaya e o canal da Mancha e o mar do Norte até -á Islandia, não podiam facilmente assustar-se com os mares muito mais -manejaveis da costa africana. Mas a idéa da navegação para o sul fazia -recuar os mais audaciosos. Era ahi que o sol estendia o seu terrivel -dominio, era ahi que os seus raios queimavam a terra e o mar, e tornavam -impossivel a passagem do homem. Á medida que esses calores excepcionaes -iam sendo mais proximos, o seu effeito fazia-se sentir na vegetação e na -fauna, e na propria humanidade. Então a natureza, violentada por assim -dizer, produzia os mais extraordinarios monstros. Por mais de uma vez -tentaram os Phenicios e os Carthaginezes demandar essas regiões do sul, -mas a mais insignificante estranheza os fazia recuar. De Hannon se conta -que percorreu quasi a Africa toda, e no seu periplo se relata essa viagem -maravilhosa. Logo mostraremos como elle de certo não passou para além da -costa de Marrocos. Gabava-se a sua intrepidez, porque voltára narrando -que vira horrorosos monstros, cynocephalos, quer dizer, homens com -cabeça de cão, e gorgonas ou mulheres com o corpo absolutamente coberto -de pellos. Os escriptores modernos, que teem procurado benevolamente -interpretar estas descripções phantasticas, dizem que os cynocephalos -eram simplesmente macacos e as gorgonas simplesmente gorillas. Na -hypothese mais favoravel para elle, o que isso prova é que, apenas viu na -costa de Africa duas especies de macacos, julgou-se chegado ao paiz dos -monstros e confirmou todas as mentiras que ácerca das vizinhanças da zona -torrida estavam estabelecidas, e não chegou portanto á zona torrida. Mas -não é bem mais natural ainda que Hannon, um carthaginez, um africano, -não ignorasse a existencia do macaco, e portanto não podesse confundir -facilmente o genero simiesco com uma variedade monstruosa do homem? - -Essas noções rudimentares de cosmographia, que existiam no espirito -dos antigos, chegaram ao seu apogeu com a escola de Alexandria. Sabios -notabilissimos imprimiram grandes progressos á sciencia, e principalmente -á astronomia. O nome de Ptolomeu e o nome de Hipparcho bastam para fazer -a gloria de uma escola, de um paiz e de um seculo. A conclusão a que -chegaram era falsa, mas quantas descobertas importantes lhes serviram -para assentar os primeiros alicerces de uma sciencia a que pozeram -então uma cupula errada, por lhes terem faltado informações e elementos -que só a audacia dos navegadores lhes podia levar! Que maravilhosos -instrumentos de estudo não encontraram elles! Que calculos levaram a cabo -que os sabios do seculo XVI, ao poderem juntar-lhes novos elementos, -aproveitaram para a transformação da sciencia! Sem Ptolomeu como se -comprehenderia Copernico? Sem Hipparcho o que poderia fazer Tycho-Brahé? -N’esta conquista da verdade, os antigos tomaram as obras avançadas e -julgaram estar senhores da cidadella; mas, só depois de occupadas essas -obras, só depois dos maravilhosos esforços dos navegadores peninsulares, -é que se podia descortinar e assaltar a cidadella... E quem sabe se será -esta definitivamente a verdadeira! - -Mas o que é absolutamente indispensavel saber, para que se possa avaliar -a transformação produzida no seculo XV pelos descobrimentos portuguezes, -é quaes eram os principios estabelecidos como certos e indubitaveis com -relação á terra por esses sabios cuja auctoridade era incontestavel, -cujas doutrinas se ensinavam ás creanças, como hoje se ensinam as novas -theorias, e que representavam portanto a verdade absoluta d’esse tempo. -Alguns pontos havia que encontravam contradicção, como era o da redondeza -da terra. N’outros, porém, não havia a mais leve divergencia, como em -todos os que se ligavam com o movimento dos corpos celestes, com a marcha -do sol em volta da terra para produzir o dia e a noite, com a marcha do -sol pelo zodiaco produzindo a differença das estações. Tantas maravilhas -conseguira já a astronomia que as doutrinas que ella promulgava não -podiam soffrer contestação. Se ella já conseguira adivinhar os eclipses, -que maior prova podia dar de que encontrára a chave do mechanismo celeste? - -Essas doutrinas de Ptolomeu passaram para a edade média, que teve -sempre pela sciencia antiga um louco fanatismo. Encontramol-as ás vezes -adulteradas, misturadas com manifestações de ignorancia, com superstições -e crendices, mas naturalmente arraigadas nos espiritos, e exaltadas com -enthusiasmo pelos sabios da primeira Renascença, pelos que arrancaram -das trevas a Europa barbara, e que levantaram como um facho luminoso a -doutrina já completa e bem comprehendida do grande geographo antigo. - -Vamos encontrar n’um dos livros d’esses sabios medievaes, n’uma d’essas -_Imago mundi_ ou _Thesaurus_, que eram as encyclopedias do tempo, a -condensação de toda a sciencia, a doutrina antiga resumida, explicada, -mas tambem modificada. Queremos falar nos _Dialogos_ de Pedro Affonso. -Os dois que dialogam são Pedro e Moysés. Aquelle é o mestre, este o -discipulo. - - Diz Moysés: - - —Não ha pois da terra senão uma só parte habitavel. Que parte? - - _Pedro_—Desde o meio da terra até á parte septentrional. - - _Moysés_—Demonstra-me isso n’uma figura geometrica, porque - n’essa materia cada nação tem tido, segundo os auctores, idéas - differentes. Divide-se effectivamente a terra em cinco zonas: - uma no meio, queimada pelo ardor do sol, e por conseguinte - inhabitavel; duas nas extremidades, muito afastadas do sol, e - egualmente inhabitaveis, por causa do rigor do frio; e duas - médias, temperadas pelo calor da primeira e pelo frio das - outras duas, e unicas habitaveis[21]. - - _Pedro_—Esse systema está em contradicção com o testemunho dos - nossos olhos. Vemos effectivamente _Aren_ situado no centro da - terra; no seu zenith principiam o Aries e a Balança; o ar é - alli tão suave que a temperatura das quatro estações é quasi - sempre a mesma. Nascem alli plantas aromaticas de côr brilhante - e de sabor delicioso; os homens não são nem descarnados, nem - obesos, mas de uma compleição bem proporcionada. O clima - que exerce esta salutar influencia no corpo não actúa menos - efficazmente sobre o espirito que brilha pela sensatez e por - uma moderação cheia de acerto. _Como se pode pois dizer que um - logar que o sol percorre em linha recta em toda a sua extensão - é inhabitavel?_ Não: todo o espaço de terra comprehendido - entre esse logar e o segmento septentrional é habitavel sem - interrupção, e os antigos dividiram-n’o em sete partes chamadas - climas, em conformidade com o numero dos sete planetas. O - primeiro clima está na linha do meio; ahi é que Aren foi - fundado. O setimo occupa a extremidade do mundo septentrional. - Nenhuma d’essas partes é inhabitavel, se exceptuarmos os - sitios em que grandes massas de areia quasi sem agua ou então - montanhas pedregosas se recusam ao trabalho da charrua. - - _Moysés_—Resta-me pedir-te que me demonstres como succede que - esta parte da terra que fica para além de Aren para o sul não é - habitada como a que está para áquem para o norte, de modo que - Aren se ache no centro da região habitavel, ou então tambem - porque não é a parte meridional que é habitavel, emquanto - a parte septentrional seria inhabitavel, ao inverso do que - succede. - - _Pedro_—Porque o circulo do sol é excentrico relativamente - ao circulo da terra, e porque essa excentricidade atira a - maior parte da circumferencia para uma distancia maior do - septentrião. Segue-se d’ahi que, logo que o sol passa para - os signos do hemispherio meridional, quer dizer para a parte - da circumferencia comprehendida entre a Balança e Aries, - approxima-se da terra, e, queimando os seus raios o solo a - esta curta distancia, tornam-n’a esteril e por conseguinte - inhabitavel. Só a partir do primeiro clima para o norte é que - o espaço que comprehende os sete climas é habitavel. Mas tudo - o que vem depois a partir do setimo clima é privado de todo - o calor, por causa do afastamento do sol, que vae percorrer - os seis signos meridionaes; d’ahi o excesso das nuvens, dos - nevoeiros e das geadas; e emfim a ausencia de toda a creatura - animada n’essa parte da superficie terrestre[22]». - -Não era esta, porém, a doutrina de Ptolomeu. Esta era a doutrina que -procurava conciliar a theoria scientifica com as palavras da Egreja. -A doutrina de Ptolomeu, a doutrina em geral de todos os sabios da -antiguidade e da edade média, era que a zona torrida estava collocada -debaixo do zodiaco, que, proxima do sol por conseguinte, era por elle -abrazada, mas que para além d’essa região havia outra temperada como -a nossa, assim como outra tambem glacial como a zona arctica. Essa -foi sempre a doutrina predominante, embora contra ella protestasse a -orthodoxia; mas qualquer das duas sustentava como facto incontroverso -que a zona torrida era absolutamente inhabitavel, quer fosse, como -queria Ptolomeu, que o sol, descrevendo um circulo perfeito em torno -da terra durante as vinte e quatro horas, e descrevendo-o ao longo do -zodiaco perfeitamente parallelo á zona torrida, sobre ella fizesse caïr -perpendicularmente os seus raios e a queimasse e destruisse, ou, como -pretendia Pedro Affonso, não descrevendo o sol esse circulo perfeito que -Ptolomeu imaginára, mas descrevendo um circulo excentrico ao da terra, -d’ahi resultasse que, ao passar pelos signos meridionaes do zodiaco, -estivesse mais proximo da terra, e fosse o hemispherio meridional o que -os seus raios incendiavam. - -Devemos notar que esta ultima hypothese era a que se approximava mais da -ellipticidade da orbita da terra hoje demonstrada. Se não se suppunha -ainda que o sol descrevesse uma ellipse em torno da terra como hoje se -sabe que a terra descreve uma ellipse em torno do sol, já se principiava -a querer applicar ao sol a theoria dos _epicyclos_ e dos _excentricos_, -com que a astronomia antiga procurava conciliar com a theoria geral do -Universo as contradicções que resultavam do movimento apparente de muitos -planetas. A theoria de Pedro Affonso conduzia-o á doutrina moderna da -_periphelia_ e da _aphelia_. Adivinhava que ha um periodo em que o sol -está mais afastado da terra do que n’outros, e dava-se a coincidencia de -que, dando-se a _periphelia_, quer dizer o periodo de maior approximação -do sol, em janeiro, quando é verão no hemispherio austral, d’ahi resulta -que effectivamente os verões austraes são mais quentes do que os -nossos, e Pedro Affonso adivinhou assim uma verdade hoje perfeitamente -demonstrada. Acontece porém que, sendo a terra que se move e não o sol, -quando chega a _aphelia_, quer dizer o periodo de maior afastamento do -sol, em julho, sendo então verão entre nós e inverno no hemispherio -austral, tambem succede que são os seus invernos mais regelados. -Mas, se a terra se conservasse immovel, como até Copernico se suppoz, -passando o sol sempre á mesma distancia do mesmo ponto da terra, seria -sempre effectivamente o hemispherio austral o que mais lhe sentiria os -implacaveis ardores. - -Comtudo era incontestavelmente o systema de Ptolomeu que triumphava nas -escolas, era esse o que tinha a sua consagração scientifica. Segundo a -theoria do grande geographo, a terra espherica estava dividida em cinco -zonas, as zonas glaciaes tão longe do sol que a vida era alli impossivel -por causa da falta absoluta de calor, a zona torrida tão proxima do sol, -que em torno d’ella descrevia a sua enorme e rapidissima viagem, que a -vida era impossivel pelo excesso do calor, emfim as zonas temperadas onde -nem o calor era extraordinario nem extraordinario o frio, e que a vontade -suprema destinara evidentemente para habitação do homem. - -Era conforme esta theoria com o espirito, com o pensamento grego que em -tudo se manifestava, na arte, na poesia, na philosophia, no viver social -e politico. O ideal grego é a moderação e a harmonia. O universo devia -regular-se tambem por essas leis harmonicas, que marcam tanto o rhythmo -da architectura do Parthenon como o da poesia de Sophocles, tanto o da -philosophia de Platão e de Aristoteles e o da eloquencia de Demosthenes -e de Lysias como o das concepções mythicas d’aquelle harmonioso -anthropomorphismo hellenico, que produziu aquelles typos idealmente -bellos nas suas proporções sublimes, Apollo e a Aphrodite. Assim o -homem tambem não poderia viver senão nas regiões em que o clima tivesse -a harmonia e a moderação compativeis com o desenvolvimento normal da -vida humana. Logo que o calor principiasse a exaggerar-se, desmanchando -o equilibrio da temperatura, desmanchava-se tambem o equilibrio das -proporções e da fórma humana. Por isso nas proximidades d’essa pavorosa -zona torrida começava a terrivel degeneração da raça, surgiam creaturas -cada vez mais monstruosas, e era assim effectivamente que Plinio -explicava essa efflorescencia de monstros que, no seu entender e no -entender dos outros geographos antigos, se manifestava nas regiões mais -proximas da zona torrida[23], onde desapparecia emfim no immenso incendio -com que o sol abrazava o mundo. - -Mas, como diziamos, Ptolomeu entendia e bem que eram duas as zonas -temperadas, uma ao norte, e outra ao sul do Equador, mas entre as duas, -pela sua theoria, não podia haver communicação. Essa terra é a famosa -_terra antichtona_, a _terra austral_, o _alter orbis_ que figura -conjecturalmente nos antigos mappas, e em que, por mais de uma vez, -uns teem querido ver a America, outros as regiões descobertas pelos -Portuguezes! A America nunca pela _terra antichtona_ podia ser designada, -porque a _terra antichtona_ ficava para o sul, mas tão levianamente -homens de merito notavel teem estudado estes assumptos, que se deixaram -muitas vezes illudir pela orientação de antigos mappas que é quasi sempre -diversa da nossa. O oriente era muitas vezes collocado nos mappas no -sitio onde hoje collocamos o norte, o occidente onde fica o sul, o norte -para o lado do occidente e o sul para o lado do oriente. Os Arabes então -invertiam completamente o systema. O sul fica para o norte e o norte para -o sul. Com estas alterações que immenso cuidado é necessario quando se -pretendem tirar quaesquer illações dos mappas antigos! - -É essa a doutrina que prevalece durante toda a edade média. É Macrobio -que suppõe a zona torrida inhabitada e queimada pelos fogos do -sol, e a zona temperada austral povoada por homens de uma especie -desconhecida[24], Orosio que declara que do interior da Africa nada se -pode conhecer porque o calor da zona torrida o reduz a uma brazeira.[25] -S.ᵗᵒ Izidoro de Sevilha sustenta egualmente a existencia da _terra -antichthona_ onde habitam os antipodas, se não são fabulosos.[26] - -Bedo o Veneravel, que tem a sua theoria cosmographica exposta -pittorescamente pela comparação do ovo, que vê a terra collocada no meio -do mundo como a gemma, a agua em torno como a clara, o ar como a membrana -e o fogo como a casca, tambem apresenta a doutrina da terra antichthona -separada da nossa pela zona inhabitavel.[27] S. Virgilio imagina que -o _alter orbis_ tem outra lua, outro sol e outras estações.[28] Raban -Mauro, que falla nos basiliscos fabulosos, e nas Gorgonas cabelludas e -phantasticas, tambem indica a terra antichthona separada pelo ardor do -sol[29]; Alfrico, Moysés de Choréne, Pedro des Vignes, o famoso Pedro -d’Ailly, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme e quantos outros estabelecem -e proclamam esta doutrina que é a que tem um caracter scientifico. -Quando o mundo christão entra em relações com o mundo arabe então -illuminado por uma forte civilisação, quando trava conhecimento com os -seus grandes geographos, Edrisi, Abulféda, Masoudi, o que encontra? -Encontra a influencia de Ptolomeu alli tambem predominante como em geral -a influencia grega, o _Almagesto_ considerado como uma obra divina, -e portanto egualmente triumphante a doutrina da antichtona e da zona -torrida inhabitavel. - -Ha alguns espiritos que se revoltam contra essa idéa? Ha de certo, -mas esses são só os espiritos independentes como Alberto Magno, como -Rogerio Bacon, como Pedro d’Abano, esses simplesmente não acceitam o que -não está demonstrado, mas não vão contra factos incontestados. Assim -Alberto Magno não acceita sem demonstração a idéa de que o sol percorra -especialmente a zona torrida e a prive de toda a vegetação e de toda a -manifestação de vida, mas, não contestando que não ha relações entre -a terra que habitamos e a terra desconhecida, attribue esse facto em -primeiro logar á immensidade dos mares, em segundo logar á existencia na -antichthona de montanhas magneticas que prendem os habitantes e que os -não deixam transpôr os incommensuraveis espaços que os separam da terra -que habitamos[30]. - -Rogerio Bacon sustenta opinião approximadamente identica[31]. Pedro -d’Abano refugia-se na vaga observação de que o meio deve ser mais -perfeito do que as extremidades[32], e uns e outros sustentam que a zona -torrida é toda occupada pelo mar, que o Occeano não rodeia simplesmente a -terra, que se interna no seio d’ella formando os quatro grandes golphos -do Mediterraneo, do Mar das Indias, do Mar Roxo e do Caspio, porque este -mar interior foi por muito tempo e por muitos geographos considerado como -um mar que communicava ou com o Baltico, ou com o Occeano. - -Para todos então a approximação da zona torrida era assignalada pela -existencia de monstros, em que se desentranha com uma espantosa -exuberancia a fertil imaginação dos povos infantis. A teratologia das -antigas religiões transportava-se e desenvolvia-se de um modo prodigioso -nas descripções dos mais serios geographos. Nas regiões que confinavam -com as que eram defezas aos homens brotavam as plantas maravilhosas, a -especie humana torcida e desfigurada desatava-se em fórmas phenomenaes, e -ao lado d’ellas percorriam animaes monstruosos, como os que reconstitue -para as epochas primitivas a paleontologia moderna, essas regiões -devastadas. Para o norte no Caucaso e na Scythia collocava Raban Mauro -os gigantes, os gryphos e os dragões que zelosamente guardavam o oiro -e as pedras preciosas[33]. Para o sul, segundo o pensar de Vicente de -Beauvais, um dos grandes geographos da edade média, havia dragões logo -para deante de Marrocos[34]. João de Hase collocou na India os pygmeus -que apenas viviam 12 annos, e rochedos magneticos que attrahiam os navios -para o fundo do mar[35]. As obras de Plinio eram fonte inexgotavel -de extraordinarias divagações. Cynocephalos e acephalos, cyclopes e -arimaspes, antipodas que não tinham dedos, hippopodas que tinham pés de -cavallo, e juntamente com elles os gryphos pullulavam n’essas regiões -mysteriosas, como aviso supremo que a Providencia dava aos que pretendiam -penetrar nas regiões em que o sol impera e que o sol devasta. - -No famoso mappa da cathedral de Hereford encontra-se uma das collecções -mais completas d’essa estranha producção zoologica e anthropologica da -sciencia d’esse tempo. E note-se que essa sciencia não a produzia a -edade média, colhera-a nos livros da erudita antiguidade. Era lá que -ella encontrava os troglodytas que comiam serpentes, eram Mela e Plinio -e Vopisco que apresentavam os Blemmyos que tinham os olhos no peito -e os Presumbanos sem orelhas. Se seguimos as indicações d’esse famoso -mappa-mundi lá encontramos ao norte os gryphos que teem azas de aguia -e corpo de leão e que defendem contra os Arimaspes as minas das verdes -esmeraldas, os Hyperboreos, povo que conhece a eterna felicidade e que -só morre quando, cançando-se de viver, se lança ao mar do alto de um -rochedo, e os Scythas de olhos verdes que vêem melhor de noite que de -dia, e os minotauros que teem corpo de homem, cabeça, cauda e pés de -toiro, e os tigres da Hyrcania a que os homens escapam se, quando fogem -deante d’elles, se lembram de lhes atirar um espelho, e na India então -a monstruosa mantichora que tem corpo de leão, rosto de homem, cauda -de escorpião, tres ordens de dentes, olhos glaucos, côr de um vermelho -sanguineo, os pelicanos que abrem o seio para sustentar os filhos, e -povos sem nariz, e outros sem lingua, e os Monoculos que teem um olho só, -uma perna só e um pé tamanho que, depois de terem andado largo caminho, -apesar dos seus poucos meios de locomoção, com uma rapidez prodigiosa, ao -descançarem levantam o pé e adormecem á sua sombra. - -Na Phrygia apparece o _bomaco_, um estranho animal, que tem crinas de -cavallo e cabeça de toiro, e que se defende, quando foge, com os proprios -excrementos que queimam tudo em que tocam, na Arabia a phenix animal -unico que vive quinhentos annos, na Bythinia o lynce que vê atravez dos -muros e urina uma pedra negra, e até na Palestina tem o rio Jordão, junto -do Asphaltite, a designação de que nas suas aguas sobre-nada o ferro e -mergulham as pennas. - -Na Africa então ha uma verdadeira orgia zoologica, botanica e -anthropologica. Alli vive a salamandra, um dragão venenoso que se deleita -nas chammas, alli floresce a _mandragora_, essa planta de face humana -que tem miraculosas virtudes, alli corre o _éalo_, que tem corpo de -cavallo, cauda de elephante e queixos de cabra, cujo pello é negro e -cujos chavelhos moveis teem uma braça de comprimento. Alli se succedem -emfim os _Ambaros_ que não teem orelhas e cuja planta dos pés é queimada, -os Scinopodas que teem as mesmas particularidades que os Monoculos, os -Androgynos que reunem n’um só individuo os dois sexos, os Himantopodas -que arrastam as pernas de fórma que mais rastejam do que andam, os -Blemmyos de que já fallámos, os Psyllos que experimentam o pudor das -suas mulheres expondo os filhos ás serpentes, os _Parvini_ que teem -quatro olhos, os Agriophagos que se sustentam da carne das pantheras -e dos leões e cujo rei tem só um olho, e os Virgogicos que habitam -em cavernas e comem insectos, e os satyros, e os faunos que são meio -homens e meio cavallos, e outros povos que teem o rosto comprimido e se -sustentam por meio de um canudo, outros que teem nos hombros os olhos e -a bocca e outros que dão sombra ao rosto estendendo um dos labios, tão -proeminente elle é, e entre animaes além dos dragões e dos gryphos o -famoso basilisco, animal monstruoso que tem na fronte uma faxa branca que -imita um diadema, e que empesta o ar que respira, mata as plantas de que -se approxima, devasta o paiz que percorre, e a esphinge que tem azas de -passaro, cauda de serpente e cabeça de mulher, e o monocerio, que, apesar -de ser perigosissimo, quando d’elle se approxima uma donzella que lhe -mostra o seio, toda a sua furia se aplaca, e sobre esse seio adormece, -e as formigas enormes que guardam as areias de oiro. Alli tambem se -encontram montes em fogo cheios de serpentes, montes silenciosos de dia, -mas onde, á noite, accorda, á luz de estranhas claridades, o som dos -pandeiros dos Egipans, e fontes que punem com a cegueira os ladrões, e o -poço maravilhoso, que se conserva todo o anno immerso na sombra, mas que -em certo dia, quando o sol chega ao zenith, e os seus raios se projectam -verticalmente sobre a sua superficie, se enche de subito de immensa -claridade, e cidades como a de Adaber onde os dragões pullulam. - -Mas tudo isto são contos de velhas, patranhas de viajantes? Não! isto -tem, pelo menos em grande parte, um caracter scientifico. A antiguidade -o transmittira e o que se não encontrava em Strabão, ou Ptolomeu ou -em Aristoteles encontrava-se em Plinio, ou em Solino, ou em Pomponio -Mela. Durante os descobrimentos estas noções acompanhavam os nossos -viajantes, que, ao passo que destruiam umas, ainda iam acalentando as -outras. O mytho das amazonas, que, durante a antiguidade, fluctuára -entre a Scythia e os arredores do Egypto, chegou a transplantar-se -para a America, e estava na mente do explorador que deu o nome de -Amazonas ao gigante fluvial da America do Sul. As singularidades da -phenix e do lynce eram perfeitamente admittidas como authenticas, e -a dedicação materna attribuida ao pelicano, e que é tão contraria á -verdade, que esse passaro, longe de se dedicar pelos filhos, nem sequer -os defende como fazem os outros animaes, até ha bem pouco tempo passou -por certa. As monstruosidades humanas não espantavam pessoa alguma, -e bem o podemos perceber se nos lembrarmos que não estranhariamos -monstruosidades semelhantes se nol-as contassem, com certa auctoridade -scientifica, dos habitantes da lua. Sabendo como os organismos animaes -se adaptam aos meios em que teem de viver, não nos custa a admittir que -os habitantes da lua, se não teem ar respiravel, não tenham tambem os -orgãos respiratorios, que lhes faltem a bocca e o nariz, e que engulam -o alimento, se de alimento precisam, por outra fórma qualquer. Desde o -momento que se admittia o rigor inflexivel do sol nas regiões tropicaes, -como se não admittiria a existencia dos Himantopodas e dos outros povos -em cujo organismo a providente natureza desenvolvera sobretudo os orgãos -que tivessem por fim preserval-os do sol? - -Assim as affirmações positivas e serias da sciencia eram todas contrarias -á navegação para a zona torrida. Tão estranho pareceria a todos tentar-se -uma viagem n’essa direcção, como hoje nos pareceria a nós tentar uma -viagem em direcção á lua. Azurara, se escrevesse a sua _Chronica da -Guiné_ antes dos descobrimentos portuguezes serem conhecidos lá fóra, -passaria por auctor de um outro _Amadis de Gaula_, e ninguem estranharia -que a patria de Lobeira produzisse outro escriptor não menos phantasioso, -ainda que d’esta vez o conto excedia demasiadamente todos os limites da -verosimilhança. Mesmo n’essa epocha de credulidade o livro de Azurara -faria sorrir os leitores, se a realidade dos factos não fosse já -conhecida de todos, como hoje nos fazem sorrir os romances de Julio Verne. - -Mas não apparece agora a todos evidente e claro o absurdo de se suppor -que por alguem fomos precedidos nos descobrimentos africanos? Seria -necessario suppor, para que os normandos tivessem ido á zona torrida, -e creado estabelecimentos na costa e desamparado depois essa navegação -sem que ninguem tivesse ligado a essas expedições a minima importancia, -seria necessario suppor que as questões geographicas encontravam no -mundo medieval a mais completa indifferença, que ninguem sabia se havia -zona torrida ou não, e que viagens d’essas não levantavam a minima -curiosidade. Não; a edade média preoccupava-se avidamente com as questões -de geographia, principalmente depois das cruzadas, e sobretudo depois -d’essa grande Renascença do seculo XIII, que foi a aurora do grande -esplendor do seculo XVI. - -Cosmas Indicopleustas, Jornandés, Gregorio de Tours, Marciano Capella, -Vibio Sequester, St.° Avito, e Prisciano e Cassiodoro e Proclo e Macrobio -e Paulo Orosio nos seculos V e VI; St.° Isidoro de Sevilha, Philopomus, -Bedo o Veneravel, S. Virgilio no seculo VIII, Anonymo de Ravenna, -Dicuil, Raban Mauro, Alfredo o Grande no seculo IX, Alfrico, Adelbod, -o monge Richer, Moysés de Chorène no seculo X, Herman Contractus, e -Azaph o Hebreu no seculo XI, Honoré d’Autun, Othão de Frisa, Hugo de -Saint-Victor, Jacques de Vitry, Hugo Metello, Guilherme de Jumiège, -Herrade de Landsberg, e Bernardo Sylvestris no seculo XII, Sacro Bosco, -Vicente de Beauvais, Alberto o Magno, Rogerio Bacon, Roberto de Lincoln, -Pedro d’Abano, e Dante, Cecco d’Ascoli, Roberto de S. Marianno d’Auxerre, -Gervais de Tilbury, Pedro des Vignes, Brunetto Latini, Joinville, Omons, -Alain de Lille, Guy de Basoches, Engelberto e Nicephoro Blemmyde no -seculo XIII, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme, Ranulfo Hydgen, Faccio -degli Uberti, João de Mandeville, Boccacio, Petrarcha, Bartholomeus -Anglicus, Gervais, Ricobaldi de Ferrara no seculo XIV, Pierre d’Ailly, -Guilhermo Fillastre, Leonardo Dati, João de Hése no seculo XV, e quantos -outros mais ainda sustentaram e ensinaram as doutrinas cosmographicas -que temos exposto! Uns mantinham a doutrina de Ptolomeu de que só a -zona torrida era inhabitavel, outros a de que era inhabitavel toda -a parte meridional da terra, outros e esses ainda assim rarissimos -como Alberto Magno e Roger Bacon, se não acceitavam sem contestação -nem como verdade absoluta a affirmação de que era inhabitavel a zona -torrida, sustentavam que nem por isso deixava de ser impossivel a -transposição dos seus limites, porque o mar immenso a cobria toda, e -porque nas terras antichtonas havia as terriveis montanhas magneticas -cujo pensamento paralysava os viajantes. Os mappas, que acompanhavam -as copias dos manuscriptos antigos, como de Sallustio, do Apocalypse, -de Pomponio Méla, de Ptolomeu, e os poemas geographicos, e as _Imago -mundi_ e as _Thesaurus_, e os que se elaboravam nos conventos mais -eruditos, todos reproduziam estas affirmações, esta fórma estranha da -terra, e inflammavam com a tinta vermelha os mares da zona torrida e -inscreviam nas regiões mais proximas, que na Africa principiavam logo -ao sul de Marrocos, as indicações dos estranhos povos que as habitavam. -E, quando tão arraigada se achava esta convicção no animo de todos, -quando no seculo XIV se discutiam com ardor as doutrinas capitaes que -expozemos ácerca da zona torrida, a ponto de Pedro d’Abano escrever, -com o titulo de _Conciliator_, um livro destinado, como indica o seu -titulo, a conciliar essas doutrinas, quando as viagens de Marco Polo -excitavam immensa curiosidade e muita incredulidade tambem, tão estranhas -coisas contava—apesar de nenhuma d’ellas destruir afinal de contas os -pontos capitaes da sciencia do seu tempo—era possivel imaginar-se que -navegadores quaesquer fizessem viagens, que destruissem completamente as -noções essenciaes da geographia essencialmente admittida, viagens em que -penetrassem na zona torrida não só sem perigo, mas tambem sem encontrar -nas regiões circumjacentes nem povos monstruosos, nem animaes estranhos, -nem maravilhosas plantas, e que nem esse facto surprehendesse capitães e -marinheiros, nem excitasse a curiosidade dos reis, nem dos sabios monges, -nem dos que escreviam os poemas geographicos, nem dos que compunham as -encyclopedias, nem dos que desenhavam os mappas, nem dos aventureiros dos -outros paizes, como succedeu com as viagens dos Portuguezes, que deram -logo brado em toda a Europa, como não podia deixar de succeder quando -se désse um passo tão gigante no conhecimento do mundo, quando a prôa -dos nossos navios, como o teria feito a prôa dos navios normandos, se as -suas viagens fossem verdadeiras, fazia cair por terra todo um systema -geographico, sustentado desde a mais remota antiguidade pelos respeitados -eruditos? - -Diz Laplace que o merito de uma descoberta pertence não a quem a faz, mas -a quem a demonstra. Aqui dava-se o caso mais notavel ainda, de bastar -para a demonstrar fazel-a. Como o philosopho antigo que respondia aos -que negavam o movimento andando, os Portuguezes responderam aos que -sustentavam a impossibilidade de transpor a zona torrida transpondo-a. -Essa demonstração tel-a-hiam feito os Normandos, se antes de nós lá -tivessem ido, ou os Genovezes ou os Catalães. A gloria tel-a-hiam elles, -mas gloria immediata, porque o facto era de tal ordem que não era -necessario que decorressem seculos para se lhe reconhecer a importancia. - -No capitulo immediato veremos como a fé e a lenda, ainda mais do que a -sciencia, fechavam a zona torrida e os mares, que, no dizer de alguns, -a enchiam, á investigação do homem. Essas lendas, como as da sciencia, -iam sendo rasgadas a pouco e pouco, mas pendiam, assim esfarrapadas, -dos hombros dos navegadores. Lembram aquelles nevoeiros de Cintra, que -envolvem o valle e a montanha, tendo por cima o céo azul. Á medida que os -transpomos, vão-se rasgando por baixo de nós, surge uma aldeia, irrompe -um arvoredo, um grupo de rochas, mas em muitos pende ainda dilacerado -o manto do nevoeiro. Assim veremos os navios portuguezes e hespanhoes -caminhar envoltos em nevoas, até que a sua audacia tudo rompeu, e o mundo -appareceu emfim na sua completa e radiosa realidade. - - - - -IV - -A religião e a lenda - - -Se eram estas as idéas scientificas predominantes no principio do seculo -XV, é importante saber-se se a religião as acceitava. Era tão poderoso o -dogma nos espiritos medievaes que a condemnação de uns certos principios -pela auctoridade ecclesiastica bastava para que a grande maioria os -suppozesse completamente falsos. Espiritos independentes como os tem -havido sempre protestavam contra a condemnação da sciencia pela fé; mas -protestavam timidamente, e nós veremos que nos pontos mais capitaes a -fé estava completamente de accordo com a sciencia, de fórma que uma e -outra fechavam deante das tentativas dos navegadores o mar mysterioso, -que a audacia portugueza conseguiu devassar. O principio assente era -a impossibilidade de se franquear a zona torrida, mas poucos homens de -sciencia punham em duvida que para além da zona torrida existisse outra -zona temperada semelhante á do norte, e onde fosse possivel a vida da -raça humana. Contra este ponto é que o dogma protestava. - -Era inultrapassavel a zona torrida, não a tinham podido franquear os -discipulos de Christo, portanto a palavra divina de redempção promettida -a todos os que tivessem fé não podia chegar a esses povos que Deus -esquecera, o que era completamente absurdo.[36] Se a humanidade toda -descendia de Adão, como é que viera ao mundo essa raça humana? Tivera -outro Adão como alguns sustentaram que tinha outro sol e outras -estrellas?[37] Tudo isso era incompativel com a verdade suprema expressa -na Biblia. E demais, se Deus dividira a terra depois do diluvio entre os -tres filhos de Noé, se déra a Sem a Asia, a Japhet a Europa, e a Cham a -Africa, qual fôra o desconhecido filho de Noé que recebera da Providencia -a terra antichthona?[38] - -Encontrára-se em parte uma solução para essa dificuldade. Reconhecia-se -a existencia da terra antichthona, mas suppunha-se que fôra a habitação -da raça humana antes do diluvio. Alli ficava o Paraizo, e alli vagueando -em torno da deliciosa habitação para sempre defeza vivera a humanidade -criminosa os seus primeiros annos. Na arca de Noé salvara-se uma fraca -reliquia d’essa gente condemnada. A arca boiara sobre as aguas e viera -poisar emfim no monte Ararat. Nunca mais o homem tornaria a ver a sua -antiga patria[39]. - -Assim Cosmas suppunha um mar immenso coberto de trevas, porque o sol só -illuminava a terra, e formando quatro golphos, o Mediterraneo, o mar -Vermelho, o golpho Persico e o mar Caspio; para além d’esse immenso mar a -terra antichthona, e n’ella o Paraizo[40]. - -Outros, porém, não se podiam resignar a estar para sempre separados do -Paraizo, e collocavam-n’o no extremo Oriente, no sitio onde, ao que -diziam, principia o mundo. Esses baseavam-se na phrase do Genesis, que -diz que «Deus plantou no Oriente um jardim delicioso». Para além da -India, dizia Santo Avito, fica o Paraizo, cercado por barreiras que o -homem não pode transpôr. É a theoria adoptada por S. Basilio, Psellus, -Philostorgo, Isidoro de Sevilha, Bedo o Veneravel, geographo de Ravenna, -Raban Mauro, Hugo de Saint-Victor, Jacques de Vitry, Honoré d’Autun, -Gervais, Vicente de Beauvais, Joinville, Jourdain de Sévérac, Omons, -que ainda suppunha que lá estava o anjo da espada chammejante, Ranulpho -Hydgen, Dati, Bartholomeu Anglicus, Brunetto Latini, Dante, etc. Uns -suppunham-n’o erguido n’uma alta montanha, outros n’uma ilha. E em torno -d’esta idéa dogmatica ferviam as lendas. - -Do Paraizo, dizia-se, saíam quatro grandes rios: o Nilo, o Ganges, o -Tigre e o Euphrates. Era necessario, porém, explicar-se como é que estes -rios appareciam tão longe da sua celeste origem, e sobretudo como é que -o Nilo apparecia na Africa, tendo nascido na Asia. A explicação era a da -corrente subterranea, e submarina tambem com relação ao Nilo, quando a -supposição de um mar mediterraneo, que trazia comsigo a união da Asia com -a Africa, não tornava dispensavel esta conjectura[41]. - -Esta opinião religiosa perdurou largo tempo no espirito dos homens ainda -depois das grandes descobertas. Colombo, cuja alma enthusiastica se -deixava invadir facilmente pelas seducções do mysticismo, e que tinha a -fé ardente que foi um dos principaes elementos do seu triumpho, nutria -a secreta esperança de chegar a esse Paraizo cubiçado, como contava -encontrar n’esse Cathay maravilhoso os capitaes indispensaveis para a -reconquista do sepulchro de Christo. Era logica a sua esperança. Se -elle, partindo do Occidente, esperava chegar ao extremo Oriente, se no -extremo Oriente estava o jardim de delicias em que Deus collocara os -nossos primeiros paes, como podia duvidar de que o encontraria? Quando na -sua terceira viagem chegou á bocca do Orenoque imaginou ter finalmente -chegado ao Paraizo terrestre, não pela formosura das paizagens e pela -abundancia da vegetação, mas porque, vendo a torrente das aguas do -grande rio, suppoz que era um dos que borbulhavam da elevada montanha do -Paraizo terrestre[42]. Christovão Colombo não admittia absolutamente a -esphericidade da terra. Como varios outros geographos da edade média, que -lhe tinham dado uns a fórma ovoide, outros a fórma de um cone ou de um -pião[43], Christovão Colombo suppunha que ella teria a fórma de uma pera, -e que junto do pé é que estava exactamente o Paraizo[44]. - -Tambem a esphericidade da terra era absolutamente contradictada -pelos Santos Padres, que lhe davam a fórma de um quadrado ou de um -parallelogrammo, fórma emfim que se assemelhasse á do Tabernaculo de -Moysés. Desdenhando a idéa scientifica oriunda dos Gregos, e sustentada -pelos Arabes, vindo talvez para uns e para outros dos orientaes, de que o -centro do mundo era Aryn, d’onde se principiavam a contar as latitudes e -longitudes, que ficava exactamente a 90° de cada um dos pontos cardeaes, -ponto geographico que foi muitas vezes representado pelos cartographos -como uma cidade maravilhosa, com um castello, em que habitava um -mysterioso soberano, os Padres da Egreja reclamavam para Jerusalem a -honra de ser ella o centro da terra, ou pelo menos o centro da terra -habitada, quando se imaginava que o resto do mundo estava coberto pelas -aguas desde o diluvio. - -Finalmente para apresentarmos no seu conjuncto as idéas geographicas -affirmadas dogmaticamente pela religião, fallaremos ainda, posto que não -interesse a questão dos descobrimentos maritimos, na existencia para o -norte das terras de Gog e de Magog. Eram os paizes ao norte da Asia, -n’essa região desconhecida em que tambem pullulavam as fabulas, porque -era a que se approximava das zonas glaciaes inhabitaveis. Ahi, dizia-se, -habitavam os filhos de Caim[45], povos que tinham escapado, ao que -parece, do diluvio, não por traz da barreira insuperavel da zona torrida, -mas encostando-se ás gelidas barreiras dos polos. Irrompiam ás vezes em -incursões ferozes, até que Alexandre o Magno, na sua grande expedição, -que ficou legendaria, levantou a grande muralha que poz termo ás suas -arremettidas[46]. Disse-se depois que aquellas dez tribus de Israel, que -não voltaram do captiveiro da Babylonia, n’essa região mysteriosa ficaram -internadas, como depois se disse, quando se descobriu a America e alli se -encontrou uma raça de homens desconhecida, que eram ainda as dez tribus -de Israel que se tinham perdido n’essas regiões que o Atlantico por tanto -tempo escondera detraz da cortina das suas vagas[47]. - -Assim a fé religiosa, se contradictou n’alguns pontos importantissimos as -affirmações scientificas, cerrou ainda mais as portas do _mare clausum_. -O homem não podia chegar á zona torrida, era esse o ponto capital, que -a um tempo sustentavam os homens da sciencia e os homens da orthodoxia. -Assim que d’ella se approximavam o mar começava a escandecer-se, a terra -inflammava-se, montes ardentes reflectiam as suas chammas nas aguas, e -monstros extranhos que o calor fazia brotar, plantas extraordinarias -que só podiam florescer n’essa monstruosa estufa, começavam a apparecer -n’essas terras extranhas. Assim, para o norte, apenas se chegava ás -regiões onde soprava um vento glacial, outros monstros appareciam, e os -povos ferocissimos de Gog e Magog só esperavam que um audacioso rompesse -a muralha de Alexandre que os refreiava para cairem de novo sobre o -mundo, entregue assim nas garras de Satanaz. - -No centro da terra habitada, que tinha a fórma quadrilateral, erguia-se -Jerusalem; no extremo Oriente erguia-se o Paraizo defezo aos homens, e -d’onde saíam os grandes rios do Oriente, trazendo ainda nas suas aguas -o nateiro fecundante que ia dar como que uns reflexos da vegetação -paradisiaca ás terras que atravessava. - -Em torno do dogma como em torno da sciencia nasciam então as lendas. -Deante do dogma inclinavam-se todos, deante da sciencia inclinavam-se -os illustrados, deante da lenda refugiam os ignorantes, e uns e outros -paravam deante d’esse mar que tantos mysterios encerrava. - -Classificamos propriamente como legendarias as supposições que não -tinham a minima base scientifica ou que não repousavam no dogma. Assim -a _terra velada_ de Theopompo não era senão a _terra incognita_ de -Ptolomeu; mas, suppondo o auctor grego que os homens que a habitavam -eram de uma estatura duas vezes maior que a dos do mundo conhecido, -perdia-se completamente nas regiões da phantasia, porque não havia, como -para a humanidade monstruosa das regiões tropicaes, as razões do clima. -Percebe-se, por exemplo, que a necessidade continuada de se resguardarem -contra os ardores de um sol terrivel fosse, atravez de gerações -successivas, desenvolvendo cada vez mais os orgãos com que o homem se -podia proteger, mas n’esse clima perfeitamente semelhante ao nosso nenhum -motivo havia para que se suppozesse que duplicava a estatura humana. E -comtudo essa lenda actuava fortemente no espirito dos navegadores, e -assim se explica a formação da lenda dos Patagonios. - -Legendarias eram tambem as ilhas do Oiro e da Prata, que apparecem nos -mappas da edade média e que vão fugindo para regiões mais distantes á -medida que vae sendo conhecido o mundo oriental, como succedia tambem ás -Hesperides, antigas ilhas de fabulosa riqueza, cujo pomar de pomos de -oiro opulentos era guardado por um dragão, como tambem na edade média -as montanhas que encerravam thesouros preciosissimos eram guardadas por -gryphos e toda a especie de fabulosos animaes. É sempre em ilhas situadas -nos mares desconhecidos que se colloca ou a região das riquezas ou a -região da bemaventurança. As ilhas Afortunadas ou as ilhas das Hesperides -eram para os antigos a patria de todos os sonhos da felicidade suprema. -Era nas regiões do Norte, onde parecia que devia reinar comtudo a eterna -desolação, que elles collocavam tambem a ideal ventura, phantasiando esse -povo dos Hyperboreos eternamente feliz. Passou para a edade média essa -tradição, e nos mappas medievaes se vêem para além do mundo conhecido as -ilhas onde habitam os Hyperboreos. Nos mares orientaes collocavam-se, -como dissemos, as ilhas do Oiro e da Prata, as ilhas dos Homens e das -Mulheres, que eram o producto de uma tradição arabe, a ilha do Sol de -Pomponio Mela, que não fazia senão dar uma nova fórma ás preoccupações -da zona torrida. Quem abordasse á ilha do Sol era immediatamente -suffocado pelo ar em braza que alli se respirava[48]. Finalmente, nos -mappas da edade média já mais proximos da epocha dos descobrimentos -apparece semeado de innumeras ilhas o mar oriental: sete mil dizem as -legendas de uns, quatorze mil as de outros. Esse pensamento foi suggerido -pelo conhecimento das viagens de Marco Polo e pelas indicações que o -viajante veneziano dá ácerca das Maldivas, que se suppozeram existentes -no mar oriental. É bem provavel, e o que é certo é que o pensamento da -existencia de innumeras ilhas no oriente da India actuou nos sabios do -seculo XV, e foi uma das esperanças de Christovão Colombo e um dos pontos -de apoio de Toscanelli para a sua theoria da possibilidade da viagem que -Colombo emprehendeu, porque, dizia elle, ainda que o continente asiatico -estivesse mais longe do que se suppunha, sempre se encontrariam no -caminho ilhas que servissem de porto de escala e de arribação[49]. - -Ah! essas ilhas conjecturaes da edade média como serviram aos -historiadores superficiaes para procurar attenuar a gloria dos -Portuguezes e a gloria de Colombo! Brotavam das ondas mysteriosas como -brota a espuma da vaga que se desfaz nos rochedos. Por aquelle Oceano -tenebroso que se estendia para o Occidente, nas ondas do ignoto mar -indico, por muito tempo considerado, e ainda no tempo dos primeiros -descobrimentos portuguezes, como um mar mediterraneo, pelo mar ignorado -do Norte semeava a imaginação dos cartographos quantas ilhas ideara a -phantasia antiga, a phantasia dos _troubadours_ ou dos _trouvéres_ e -a dos mysticos! Lá appareciam, como dissemos, as ilhas das fabulosas -riquezas, a Chrysé, a Argyra, Ophir, que talvez bem se possa classificar -entre ellas; as ilhas da tradição homerica, a de Calypso, a de Diomedes, -a outra em que se vê ás horas do sol poente a sombra gigante e pensativa -de Achilles, as ilhas da tradição celtica, essas ilhas que povoavam a -imaginação d’estes marinheiros do occidente, que, erguidos ao pôr do -sol nos rochedos da costa, sonhavam em cada miragem do Oceano uma ilha -fabulosa, que, batidos pela tempestade, quando andavam á pesca, julgavam -escutar no surdo rugido das vagas os lamentos das almas penadas nas ilhas -milagrosas, e tudo se contava ao serão quando bramia o vento cá fóra e o -mar quebrava com doloridas queixas ou com furioso estrepito nas fragas -desnudadas. Tudo ia tambem enriquecer as lendas dos claustros para ornar -com esses arrebiques de maravilhoso a existencia piedosa de um santo -missionario. Foi assim que S. Brandão teve a sua ilha, onde cantavam as -aves do Paraizo, e onde se respirava tão celeste e perduravel perfume que -n’elle ficaram para sempre impregnadas as vestes do santo viajante. Era -na Irlanda sobretudo que essas lendas brotavam, era ahi que se formavam -ao lado da legenda de S. Brandão as de S. Patricio, e de tantos outros -navegadores celticos que iam atravez dos mares da phantasia procurar -ignotas ilhas. - -Já Brekan, o filho do rei Niel, desapparecera nas ondas do mar com -cincoenta navios, e só o cadaver do seu cão reapparecerá na praia, já -tres filhos de Corra tinham com os seus quatorze companheiros, entre os -quaes iam um bispo e um bardo, abordado ás ilhas das Almas, encontrando -depois de quarenta dias e quarenta noites a ilha do eterno choro, e a -ilha em que fundidores infieis forjavam e fundiam com as carnes rasgadas -pelas aguias negras, e outra em que um moleiro moía eternamente farelo -por ter roubado os seus freguezes, e outra em que um alquilador, que -roubara o cavallo a seu irmão, passava por deante dos olhos assombrados -dos viajantes no galope infernal de um cavallo de fogo. - -Outros, os famosos navegadores de Iona, tinham chegado á ilha dos -Passaros, onde volteiam aves de aureas e de purpureas pennas, regidas por -um rei de cabeça de oiro e de azas de prata, que entoam cantos de uma -celestial melodia, e a outra onde choram com saudades da patria as doces -Irlandezas exiladas mysteriosamente do mundo dos vivos. - -Depois ainda é o bardo Myrdhinn que vae com mais nove bardos procurar a -ilha Verde, que nunca foi submergida pelas vagas, a ilha dos pomos de -oiro, onde no meio de uma aurora perpetua dança um côro eterno de bellos -rapazes e de formosas raparigas. - -Tudo se condensa, emfim, na lenda de S. Brandão. Esse encontrara a ilha -onde os anjos que acompanharam Lucifer, mas não foram inteiramente seus -cumplices, cantam os hymnos de esperança, e o aspero rochedo batido -pelas vagas, onde Judas é consumido pelo eterno remorso; e emfim a terra -promettida aos eleitos, a terra dos bemaventurados. - -S. Patricio tambem percorre as solidões do Atlantico. Esse vae, segundo -a lenda, quando a quaresma começa, para o seu _purgatorio_, n’uma ilha -de que ninguem se pode approximar, onde ha uma caverna que os maus -espiritos habitam, e onde se abrem duas estradas subterraneas, que vão -ter uma ao Inferno, outra ao Paraizo. Esta ilha mysteriosa do _Purgatorio -de S. Patricio_, como a ilha abençoada de _S. Brandão_, é um dos sonhos -mais persistentes da edade média, e uma e outra lá apparecem nos mappas -medievaes, nos sitios mais diversos, ás vezes applicando-se a ilhas -verdadeiras, como acontece com o _Purgatorio de S. Patricio_, que alguns -cartographos collocam na Islandia. - -A imaginação celtica é a mais fecunda n’esta creação de terras -phantasticas, e não podia deixar de ser assim, não só porque os povos -d’essa raça são essencialmente imaginativos e sonhadores, como tambem -porque n’essa Irlanda, collocada na extremidade occidental da Europa, -a tão pouca distancia da America, aonde tantas vezes deviam chegar, -como chegavam aos nossos Açores e á nossa Madeira, plantas e cadaveres -de homens de desconhecido aspecto, não podia deixar de pullular a cada -instante na alma do povo o pensamento da existencia de ilhas mysteriosas -para esse lado, como muitas vezes tambem, quando um pescador mais -audacioso se aventurava ao mar alto, quando o vento de leste lhe enfunava -as velas, e o mar lhe parecia cantar no seu doce murmurio as suas -maravilhosas lendas, elle seguiria caminho do Occidente, durante dias e -dias, até que a fome o salteasse, ou até que o continuado panorama das -vagas a seguirem-se ás vagas, sem fim, sem termo, fechando o horizonte, -os desanimasse afinal[50]. Mas tambem na peninsula hispanica lendas -semelhantes se formavam e pelas mesmas causas. Tambem aqui em Portugal -sobretudo e no Algarve principalmente os pescadores, ao largarem a -costa, sentiriam a tentação de penetrar nos mysterios do Oceano, e aqui -tambem á volta, em noites de luar nas esfolhadas, ou no inverno ao lado -da chaminé, fallariam, como se as tivessem visto, em ilhas extranhas, -na das Sete Cidades, por exemplo, onde se tinham refugiado, quando os -Mouros vieram á peninsula, sete bispos christãos com o povo das suas -dioceses, proscriptos agora e encantados como as meigas irlandezas -exiladas dos navegadores de Iona. E todas estas ilhas phantasticas, -Antilia e Sete Cidades, ilha de S. Brandão e Purgatorio de S. Patricio, -iam juntar-se ás ilhas conjecturaes dos sabios e ás ilhas tradicionaes da -mythologia antiga para formarem esses archipelagos do sonho e da lenda -que se desfizeram em fumo quando das aguas surgiram, envoltas no seu -manto de verdura, ou na sua armadura de rochedos vulcanicos, palpitantes -ainda com o fogo que lhes lavrava nas entranhas, ou carregadas com a -immensa e luxuriante cabelleira das intactas florestas, as ilhas reaes e -verdadeiras. - -Esse sonho das ilhas phantasticas podia não ser senão um estimulo -para cavalleiros denodados que não temiam os encantamentos, logo que -levavam comsigo as espadas bentas e a cruz do Salvador. Com o coração -a bater-lhes um pouco, pallidos de supersticioso terror, mas incitados -pelas tentações das sobre-naturaes aventuras, arrojar-se-hiam tanto os -celtas da Irlanda como os celtas de Portugal aos mares mysteriosos em -demanda das ilhas paradisiacas; outros encontraram tambem no caminho -as ilhas infernaes, mas a lenda do mar Tenebroso essa é que deveras -regelava o sangue nas veias do mais audacioso. Vinha dos antigos, e mais -tambem dos Arabes. Como é que os poetas antigos, ao passo que devaneavam -como Seneca no côro da _Medéa_, que para além do Oceano haveria terra -incognita, suppunham que n’esses mares longinquos se perdêra a luz do sol -e um manto espesso de trevas se desenrolava sobre as vagas? Como é que -o arabe Edrisi, que suppunha que estavam no Atlantico as ilhas da eterna -felicidade, suppunha tambem que era o Atlantico o mar tenebroso, onde os -navios esbarravam uns nos outros e se despedaçavam em ignorados rochedos? -É porque suppunham que, depois do mar Tenebroso, vinha o mar luminoso da -India, porque imaginavam exactamente que o mar da India communicava com -o mar Tenebroso? Tambem a sciencia não dava fóros de authenticidade ao -mar Tenebroso como os dava ás terras incendiadas e ao mar em fogo da zona -torrida. Era um dos fundamentos essenciaes da lenda do immenso pélago o -ligar-se ainda com as estranhas idéas astronomicas dos que suppunham que -para além dos mares tinha o globo um cinto de montanhas, e que detraz -d’essas montanhas é que o sol se escondia durante a noite, pertencia a -essa classe de phantasias a que pertencem os montes Ripheus e outras -visões da desvairada imaginação dos sonhadores da geographia. - -Mas ainda os Arabes trouxeram do Oriente um novo elemento legendario. O -Oriente é a patria das estatuas encantadas, dos monstros de metal dotados -de uma vida phantastica, e a esse mar, por tantas razões defezo, punham -como sentinellas immoveis e terriveis as estatuas mysteriosas, como os -leões de oiro que nos contos arabes defendem os palacios enfeitiçados. -Mas ainda a tudo accrescia uma tradição que se baseava na verdade, e que -não era menos desanimadora para os que tentassem romper o mysterio. Era -a do mar de Sargaço, que não era desconhecido dos antigos, esse mar que -os marinheiros de Colombo encontraram já muito para o occidente, e em que -se julgava que as plantas enredadas enleiavam por tal fórma os navios que -lhes paralysavam completamente os movimentos. - -Essas idéas falsas, derivadas da sciencia mal comprehendida, e que -povoavam os espiritos dos marinheiros d’essa epocha, são as mesmas que -ainda hoje habitam no cerebro do povo ignorante, apesar da immensa -propagação de dados scientificos verdadeiros, obtidos pela experiencia -de todos os dias. No seu delicioso livro _Sull’Occeano_, o grande -escriptor italiano Edmundo de Amicis conta-nos o que ouviu a bordo de um -paquete que singrava para a America aos passageiros de terceira classe, -emigrantes que iam trabalhar no Rio da Prata. Parece-nos estarmos a ouvir -as palestras que se travariam entre os marinheiros do seculo XV a bordo -das suas esguias caravellas. Apesar dos factos demonstrarem o contrario, -ainda suppunham que, ao atravessarem a zona torrida, teriam de atravessar -um mar incendiado. Suppunham que veriam claramente a curvatura da terra -e o navio descer por ella como um bichinho em volta da superficie de uma -laranja. Todos esses terrores pueris dos passageiros que os marinheiros -hoje desdenham com um riso sarcastico, eram os que salteiavam o espirito -dos seus antepassados nos seculos da edade média, eram esses terrores -os que faziam recuar deante dos cabos africanos e deante das solidões -do Atlantico os marinheiros que precederam Gil Eanes e que precederam -Christovão Colombo, eram ainda os que acompanhavam os descobridores -em cada nova exploração, porque só a pouco e pouco é que a luz se foi -fazendo, só a pouco e pouco é que se foram desfazendo as idéas falsas da -antiguidade substituidas pelos factos verdadeiros, e era necessario que -fossem de uma rija tempera os marinheiros que recalcavam no fundo d’alma -esses terrores, que fossem denodados espiritos os d’esses commandantes -que assim partiam a arcar não só com os pavores da superstição, mas -com as affirmações da sciencia e com as determinações da fé, e que -fosse emfim um genio verdadeiramente transcendente o d’esse homem quasi -divino, que teve a intuição sublime da verdade e a inspiração de um -genio creador, que sonhou um mundo aberto inteiramente á luz, um mar sem -trévas, a humanidade circulando sem peias em volta da terra seu dominio, -e que logrou escrever na face das ondas com a quilha das suas caravelas -essa epopéa maravilhosa que elle concebeu em Sagres e que foi a grande -epopéa do Renascimento. - - - - -V - -O infante D. Henrique e o povo portuguez - - -Nenhum povo estava tão fadado como os Portuguezes para esse -emprehendimento maravilhoso na epocha em que elle se encetou. As cruzadas -tinham despertado nos povos europeus o espirito da aventura. Era para o -Oriente que se voltava esse ardor de conquista, não só porque era a terra -classica de todas as opulencias, mas porque a conquista do Oriente fôra -o sonho da antiguidade grega e romana e o culto mal comprehendido, mas -profundo, pela antiguidade foi um dos caracteres predominantes da edade -média. Alexandre o Magno era para elles o ideal do cavalleiro andante, -imaginavam-n’o como um soberano cavalheiresco, segundo a formula feudal, -como Virgilio, o dôce poeta, era um feiticeiro de legenda; mas a adoração -por esse grande vulto vivia em todos os espiritos. Foi para o Oriente -pois que se dirigiram os primeiros viajantes, os Rubruquis, os Plan du -Carpin, os Marco Polo, quando as expedições guerreiras tiveram de parar -deante da resistencia victoriosa dos sarracenos. Mas esses viajantes já -tinham feito penetrar um pouco de luz na geographia systematica do seu -tempo, e a humanidade evidentemente, despertada para o estudo e para a -sciencia pela primeira Renascença do seculo XIII, ia procurar sondar o -desconhecido que por todos os lados a envolvia. - -O segredo dos mares occidentaes devia preoccupar sobretudo os povos -que no occidente da Europa viam desenrolar-se diante d’elles a -incommensuravel extensão das vagas oceanicas. Os povos do Norte, que -tinham chegado até á ultima Thule, a regelada Islandia, não deixaram -de aventurar-se por esses mares ignotos, e é incontestavel que, assim -como chegaram á Groenlandia, tocaram tambem no continente americano. -Se perseverassem na descoberta, se fossem seguindo ao longo da costa -da America, emquanto encontrassem terra nas suas aventurosas jornadas, -teriam roubado incontestavelmente a Portugal e á Hespanha as suas -mais viridentes glorias! Á Hespanha, porque antes de Colombo teriam -dado á civilisação esse vastissimo continente, a Portugal, porque -antes do infante D. Henrique teriam reconhecido a possibilidade de se -transpôr a zona torrida; mas não perseveraram, e assim legitimamente -perderam a gloria que teriam podido conquistar. Que, afastando-se da -Islandia, encontrassem uma nova terra ainda mais regelada e triste, que, -proseguindo na sua viagem, chegassem a territorio mais risonho, não é -coisa que nos espante, posto que demonstre mais uma vez a coragem d’esses -audaciosos reis do mar. A gloria de Colombo não está em ter encontrado -novas terras, está em não ter recuado deante dos dogmas da extensão quasi -infinita dos mares, assim como a gloria dos Portuguezes não está em terem -juntado novas terras ao peculio da civilisação, está em não terem recuado -diante do dogma scientifico e religioso da impossibilidade de se viver -na zona torrida e da existencia dos mil perigos e dos mil horrores que -defendiam a sua approximação. - -Ninguem era, comtudo, mais proprio do que os Normandos para tentarem as -aventuras maritimas; estavam porém demasiadamente ao norte, e, como ás -suas aventuras presidia sempre, como ás dos Phenicios, não o amor da -sciencia, mas o amor do lucro, ao chegarem ao cabo de S. Vicente, mais -os tentava o caminho do Mediterraneo, onde havia tão seductoras prezas, -do que o arriscado caminho do Mar Tenebroso. No seculo XIV os Normandos -de França sentiram-se attraídos para os mares do Sul, até porque lhes -chegára a noticia de que os marinheiros da peninsula hispanica para -esse lado tinham encontrado as ilhas Afortunadas, mas a tentativa de -Bethencourt não tivera nem poderia ter imitadores, porque não fôra -extremamente prospero o seu resultado, porque as costas áridas do -prolongamento de Marrocos, onde tinham encontrado a morte, essa Guiné, -como lhe chamavam, Guiné que tinha por limite meridional o cabo Bojador, -não promettia grandes proventos aos que lhe tentassem a exploração. A -Inglaterra concentrava na conquista da França todas as suas attenções e -todo o seu empenho e a França cuidava em defender-se e em completar a -sua poderosa unidade. A Italia tinha duas potencias maritimas—Veneza e -Genova—cujos navegantes davam lições aos outros povos, mas uns e outros -tinham os olhos postos no Oriente, d’onde lhes vinha a riqueza, a gloria -e o dominio. Genova é que lançava de quando em quando os olhos para o -occidente, em Veneza appareciam ás vezes alguns espiritos que se deixavam -tentar pelos mysterios do Oceano, mas as viagens audaciosas e pouco -afortunadas dos irmãos Zeni venezianos e de Vivaldi e Doria genovezes, -não podiam ser incitamento a que se proseguisse nas tentativas. -Acontecia com as duas republicas maritimas o que depois aconteceu com -Portugal quando regeitou a proposta de Colombo. Não se deixa o certo -pelo duvidoso. Não se empenham vidas e thesouros em emprezas incertas, -semi-phantasticas, quando se tem nas mãos, como Veneza e Genova tinham, o -vasto commercio do Oriente, quando se tem quasi a certeza de que se está -no caminho da India, quando se possuia já o resgate valioso da Mina como -acontecia com D. João II. Para esses emprehendimentos que são o sonho da -politica, são necessarios não os espiritos positivos, mas as imaginações -exaltadas. É indispensavel que haja n’um cerebro esse grão de loucura que -faz os grandes poetas e os grandes descobridores, que inspira os poemas -que se escrevem—os poemas da phantasia, e os poemas que se executam—os -poemas da acção, um homem como o infante D. Henrique, que herdára de sua -mãe, como todos os seus irmãos, esse elemento romanesco que toda a mulher -do Norte encerra no fundo da sua alma, por baixo da sua apparencia séria, -austera e pratica de dona de casa e de mãe de familia, para conceber e -levar por deante, n’um jorro de santa loucura, o poema das navegações, ou -uma mulher cavalheiresca, romanesca tambem, sensivel e enthusiastica como -a rainha Izabel, para comprehender a alma de Colombo, para se irmanar -com ella, e para collaborar tão apaixonadamente n’esse ultimo poema -de cavallaria, n’essa ultima producção da alma celtica, n’esse ultimo -romance do Santo Graal que se chamou Descoberta da America. - -Restavam os reinos da peninsula hispanica, mas todos esses, á excepção -de Portugal, se achavam empenhados ainda nos ultimos arrancos da sua -lucta contra os Mouros. No oriente da Hespanha, nas Baleares sobretudo, -havia a tentação de sondar o mar desconhecido, mas diante do cabo Bojador -ainda se recuava. Tel-o-hiam dobrado comtudo se tivessem perseverado -no intento, mas era essa perseverança que não podia deixar de faltar -a um povo que não tinha para isso outro estimulo que não fosse o da -curiosidade, que mais se deixaria tentar pela Africa mediterranea do que -pela Africa atlantica. O povo que estava deveras em circumstancias de -tentar os grandes emprehendimentos era sobretudo Portugal. - -Acabava de atravessar um periodo em que todas as suas faculdades tinham -sido vivamente excitadas, e em que empregára todas as suas forças e toda -a sua actividade. Havia dois seculos que unificára o seu territorio e que -expulsára os Arabes. Desde que o fizera, voltára naturalmente as suas -attenções para o Oceano, e o grande rei, que mais cuidára da organisação -pacifica do seu povo, D. Diniz, empenhara-se essencialmente em nos dar -marinha, animando a mercante, protegendo a pescadora, desenvolvendo -a de guerra, já providenciando para que se podessem fazer navios, já -indo buscar a Genova, a grande nação marinheira do Mediterraneo, os -navegadores que podiam dar aos nossos mareantes os conhecimentos -technicos que lhes faltavam. Como se tivesse a previsão de que ainda a -Portugal caberia tentar a ultima empreza cavalheiresca da edade média, -não se conformára com a suppressão dos Templarios, e fundára para os -substituir a ordem de Christo, cujos cavalleiros tinham de vir a ser os -Templarios do mar, cujo habito e cuja commenda foram a «estrella dos -bravos», cujas phalanges intrepidas foram a Legião de Honra das nossas -maritimas victorias. - -Logo as primeiras expedições atlanticas mostraram que rumo Portugal -queria seguir, mas as discordias intestinas e as ambições dos reis -adiaram o proseguimento das tentativas. Não se resignavam os nossos -soberanos a manter o seu reino em tão estreitos limites, mas Castella -engrandecera-se tanto que não nos era facil a dilatação. Foi o contrario -que esteve para succeder, foi Castella que esteve a ponto de absorver -Portugal; na lucta desegual empenharam-se então todas as nossas forças -vivas; toda a energia da nossa organisação, toda a furia do nosso -patriotismo local despertaram para essas pelejas homericas. O perigo -imminente fez com que a patria se retemperasse na grande corrente -democratica. A nacionalidade portugueza luctou com a poderosa Castella -como Anteu com Hercules, cobrando novas forças sempre que tocava no solo -portuguez. Em 1385 como em 1640 foi o povo que salvou a bandeira. A gente -dos concelhos, indo, _ventres ao sol_, na energica phrase de Fernão -Lopes, combater contra os cavalleiros vestidos de ferro, manifestava -na peninsula hispanica uma nova força social, a mesma que dera aos -_yeomen_ inglezes a victoria sobre a cavallaria feudal da França, e aos -montanhezes suissos a victoria sobre a cavallaria aristocratica de Carlos -o Temerario. Nunca houve uma efflorescencia tão notavel de bravura e de -talento, de genio aventuroso e de dedicação patriotica, nunca estiveram -em tão continua vibração todos os nervos e todos os musculos de um -organismo nacional. Quando acabou a lucta, depois de ter insculpido -nos annaes gloriosos da patria os nomes de Trancoso e de Atoleiros, de -Aljubarrota e de Valverde, de D. João I e de Nuno Alvares Pereira, a -geração que praticára esses feitos estava ainda vibrante de energia, o -cerebro que concebera a reorganisação nacional estava scintillante de -idéas. Foi então que Vasco de Lobeira devaneou o _Amadis de Gaula_, que -Fernão Lopes fez trasbordar nas suas inimitaveis chronicas a exuberancia -poetica da alma nacional, que os architectos e os canteiros fizeram -desabrochar no campo da peleja a flor maravilhosa da Batalha, que o -infante D. Henrique sonhou a epopéa dos descobrimentos. - -Quando uma nação acaba de se empenhar n’uma lucta aventurosa de muitos -annos custa-lhe a voltar de novo ás occupações serenas da paz. Ha em -todos os espiritos uma sede de aventuras, uma necessidade absoluta de -occupar a sua energia. É por isso que vemos, depois das grandes luctas -do principio d’este seculo, os generaes francezes e os officiaes de -marinha inglezes procurar em todo o mundo emprego para a sua actividade. -Encontramos até no Oriente officiaes de Napoleão pondo a sua espada -ao serviço de monarchas indianos, na Europa e na America officiaes de -marinha inglezes a commandar as esquadras insurgentes nas luctas da -independencia americana e da liberdade europêa. Assim no seculo XV vamos -achar cavalleiros portuguezes á cata de aventuras na Inglaterra e na -França e até na mais remota Allemanha. Sem fallarmos em D. Alvaro Vaz de -Almada, cujos serviços mereceram na Inglaterra a altissima recompensa da -ordem da Jarreteira e do condado de Avranches, nem no infante D. Pedro, e -em Soeiro da Costa, achamos nas guerras de França, no cêrco de Arras, por -exemplo, cavalleiros portuguezes, cujo nome ficou desconhecido, entrando -em combates singulares deante dos muros da praça assediada.[51] É esta -necessidade de dar vasão a esta superabundancia de energia que leva -D. João I, incitado por seus filhos, á expedição de Ceuta, é um povo -n’essas disposições que o infante D. Henrique vae encontrar apto para as -audaciosas explorações do Atlantico. - -Note-se: hoje ainda, depois de tantos seculos de decadencia, nós somos -o povo da aventura. Indolentes na patria, amanhando sem enthusiasmo -um solo uberrimo que se desentranharia em maravilhosos fructos se -lhe dessemos francamente todo o trabalho dos nossos braços e todo -o pensamento do nosso cerebro, discursadores declamatorios, sem -iniciativa nem acção, mudamos completamente apenas transpomos as -barras dos nossos rios. Apertados entre as montanhas e o mar, é nas -montanhas que temos a nossa força de resistencia, é no mar que temos o -nosso vigor de emprehendimento. Os nossos montanhezes intrepidos são -ainda hoje os lidimos descendentes dos companheiros de Viriato, os -nossos pescadores são deveras os filhos audaciosos dos marinheiros de -Gil Eanes. Lá fóra a transformação é mais completa ainda: fizemos o -Brazil, e estamos continuando a dar ao seu desenvolvimento os elementos -da nossa actividade exotica; estamos fazendo a Africa portugueza, e -os vestigios dos nossos aventureiros mercadores são encontrados com -espanto no interior da Africa; nos Estados-Unidos temos uma colonia -trabalhadora e autonoma que se não deixa absorver pelo povo americano; -nas ilhas Sandwich a immigração portugueza rivalisa em importancia com -a immigração ingleza; em Demerara constitue o fundo da população branca -trabalhadora. A alma celtica palpita ainda hoje nos nossos peitos, como -palpitaria então n’esse seculo XV, que foi o nosso seculo aureo, depois -das luctas homericas de Aljubarrota, quando o povo trasbordava de vida -e de enthusiasmo, prompto para todas as luctas, sazonado para todas as -aventuras. - -A dynastia reinante reflectia perfeitamente o estado da alma popular. -O rei era um bastardo, um filho do amor, e de um amor de D. Pedro, o -rei mais violento e mais apaixonado que nunca se sentou n’um throno! -O sangue borgonhez de seu pae cruzara-se com o sangue normando de sua -esposa, e d’ahi nascera aquelle grupo admiravel de principes robustos -e intelligentes, educados por sua mãe n’aquelle retiro sagrado das -principescas familias medievaes, n’esses quartos forrados de tapeçarias -de _haute-lice_, em que pareciam á noite, á luz vacillante das tochas, -tomar vida phantastica os heroes das scenas de cavallaria traçadas -nos pannos de raz, ouvindo os graves conselhos da mãe, pura, séria e -heroica, embalados com a poesia das canções de gesta e com as aventuras -dos romances de cavallaria, e, quando saíam do regaço materno, não vendo -em torno de si senão rostos energicos de homens como seu pae, como Nuno -Alvares, cuja vida inteira era um poema de heroismo, e que, ao viajarem -no seu reino, dirigiam quasi sempre os passos para a campina sagrada, -onde se estava erguendo sobre as columnatas esguias essa maravilhosa -abobada d’onde parecem chover os altos pensamentos, e o altar-mór onde -se accendia nas vidraças coloridas o sonho vago e radiante de uma visão -paradisiaca. - -Tal era o meio onde tinham forçosamente de brotar os grandes -emprehendimentos. Foi d’esse meio que saiu a expedição de Ceuta, que -não bastava para satisfazer a insaciavel cubiça de aventuras d’esses -principes, que não viam em torno de si senão homens em cuja alma as suas -aspirações encontravam echo ou estimulo. Assim D. Pedro foi pela Europa -fóra procurar emprego para a sua energia e para a sua cubiça de saber, D. -Fernando devaneou desde logo o proseguimento da conquista africana, D. -Henrique, estudioso e reflexivo, sonhou a conquista do mar. - -É difficil o desenho d’esta notabilissima figura. Levanta-se contra -ella agora uma campanha de improperios, em que os adversarios parecem -querer applicar ao juizo severo e imparcial da historia os processos das -campanhas jornalisticas das luctas contemporaneas. Tomou parte n’esta -campanha o sr. Theophilo Braga, e é pena que o fizesse, porque o livro em -que essas tendencias incidentemente apparecem é um dos mais notaveis que -se lhe devem, a _Historia da Universidade_.[52] Fez-se echo simplesmente -comtudo da maledicencia de um d’estes eruditos, que, descobrindo um -facto minusculo que pode attenuar a gloria de uma descoberta, ou achar -um ponto vulneravel no vulto de um heroe, vem triumphantemente para -a rua soltar o _Eureka_ de Archimedes, declarando _urbi et orbi_ que -vão demolir uma reputação firmada pelos seculos. Têem odios historicos -tão violentos estes biliosos da erudição como os podem ter contra um -poderoso adversario os mais fanaticos jacobinos da politica moderna. -São perigosos homens assim, e o historiador imparcial tem de afastal-os -serenamente como afasta os insultadores contemporaneos do insultado, que -entornam com delicias o fel das suas calumnias nas paginas que enviam á -posteridade. Seculos depois de desapparecer da face do mundo um homem -eminente, apparecem deturpadores vehementissimos, em cujo espirito a -vaidade de fazerem vingar um novo pensamento historico produz tão ruins -consequencias como as pôde produzir seculos antes o odio de um invejoso, -o despeito de um desprezado, ou a vingança de um vencido. - -Era por acaso o infante D. Henrique um impeccavel? Mais ainda: era um -vulto sympathico, affectuoso, altruista, um d’estes entes divinaes como -o Christo, cuja doce bondade irradia na Historia, que nos captiva quando -lêmos a sua Vida como devia captivar os que no seu tempo viveram, debaixo -do influxo magnetico da sua meiguice, da sua amoravel candura? Não, de -certo, e nem é esse infelizmente o caracteristico dos homens a quem se -devem os grandes emprehendimentos. É terrivel o homem _unius libri_, diz -o pensador antigo. Não o é menos o homem de um só pensamento e de uma só -ambição. Bondoso, quando se trata de attrahir os outros, de os enfeitiçar -e de os fazer escravos da sua idéa e instrumentos do seu plano; -absolutamente despido de toda a caridade e de todo o affecto quando o -instrumento deixa de servir, e quando o escravo pede em paga uma pouca -de dedicação e um pouco de sacrificio. Um dos homens mais captivadores -que tem havido foi Napoleão. Prendia, subjugava com o encanto da sua -apparente bondade, inspirava dedicações fanaticas, mas nunca foi bom para -os outros, nunca pensou na felicidade alheia. Entregue exclusivamente ao -seu pensamento ambicioso, á grandeza da sua idéa gigante, absorvia-se -todo n’ella, bastante habil para se não esquecer de captar aquelles de -que precisava, o exercito, o povo, os principes, o Papa, as mulheres, os -artistas, e incapaz de fazer um sacrificio a uma mulher, ou de ter dó de -um velho! Impede isso por acaso que a historia não deixe de reconhecer a -grandeza excepcional do seu genio e a obra maravilhosa que executou, e -que ainda está de pé, porque a verdade é que o organismo da França é hoje -ainda o que elle construiu, e portanto o organismo da Europa continental -tambem que por elle se modelou?[53] - -Ninguem pintou melhor o infante do que o sr. Oliveira Martins no seu -admiravel livro _Os filhos de D. João I_:[54] duro, sem bondade, asceta -do pensamento. E, se outra coisa fosse, poderia por acaso levar por -deante uma obra em que era indispensavel a energia, a perseverança e -a implacavel obstinação? Sympathicos são seus tres irmãos, D. Duarte, -D. Pedro e D. Fernando, que o coadjuvam, que o admiram, que a elle se -sacrificam. Mas D. Henrique é um solitario, como todos os que têem a -allucinação de uma missão divina. Todo se abraza na embriaguez do mar, -no sonho das vagas regiões longiquas, na procura da India, d’essa India -triplice e maravilhosa, que, depois do livro de Marco Polo, sobretudo, -toma as proporções phantasticas de uma d’essas cavernas das _Mil e Uma -Noites_, illuminadas pelas fulgurações das pedras preciosas, pelo fulvo -scintillar do oiro, pela nitida brancura da prata. Essa conquista do -mar quel-a toda para si e isso lhe lançam em rosto os seus modernos -detractores, como os bourbonicos lançavam em rosto a Napoleão não querer -ser logar-tenente de Luiz XVIII e os republicanos não se contentar com -o consulado electivo—queria-o para si e para a ordem de Christo que era -a sua guarda pretoriana. Auxilia-o D. Pedro nas suas investigações, -traz-lhe o fructo das suas viagens, auxilia-o D. Fernando na empreza de -Tanger, d’essa cidade maritima que elle cubiça como um ponto de partida -mais seguro para as suas expedições navaes; mas D. Fernando encontra -n’elle um debil auxiliar quando vem a grave questão do seu captiveiro, -D. Pedro, um indifferente, quasi um inimigo, na terrivel contenda em que -estão em jogo a sua vida e a sua honra; é que todas as faculdades da sua -alma estão concentradas na sua grande empreza. Mais do que o doge de -Veneza elle casou com a vaga atlantica. Deu-lhe todos os affectos e toda -a pureza da sua alma, as faculdades do seu espirito. Por ella captivou -com as suas promessas e com as suas seducções quantos estrangeiros o -podiam ajudar na sua empreza, por ella abstrahia de todas as ambições que -não fossem a de conquistar para si, para a historia, para a fé e para a -sciencia um immenso imperio ultramarino. É um monge militar isolado no -seu castello sobre o Oceano, como os primeiros mestres do Templo, seus -antecessores, nos seus castellos da Palestina. A sua Jerusalem é a Aryn -que elle procura ainda, talvez, no meio dos fogos da zona torrida, o -seu Santo Sepulchro é esse mar immenso, onde se sepulta o sol, e de que -elle affugenta, com a prôa das suas caravellas, como os Templarios os -Sarracenos com a ponta das suas lanças, os pavores da superstição, os -erros da sciencia e as illusões da fé. - -Que outros condemnem esse implacavel sonhador que fechou a sua alma aos -affectos humanos para todo se concentrar na paixão por um ideal que a -um tempo o illumina e o allucina! Que outros lamentem esse egoismo de -namorado, que o torna surdo para todas as supplicas e inaccessivel a -todas as dedicações, mas que nós Portuguezes lhe regateemos a gloria, -e lhe amesquinhemos o caracter, e lhe neguemos a indulgencia que a -fraca humanidade deve ter com os defeitos que acompanham fatalmente as -grandes qualidades, quando a esse egoismo sagrado, a essa perseverança -intransigente devemos o termos dado ao mundo a mais assombrosa conquista, -e termos conquistado para nós uma gloria que ainda hoje illumina as -nossas ruinas, e dá á nossa decadencia a purpura e o oiro de um pôr -de sol explendido, isso é o que se não comprehende, e o que se pode -considerar como uma das mais flagrantes injustiças e das mais negras -ingratidões que podem macular um povo. - - - - -VI - -Queda das barreiras da zona torrida e primeira exploração do Atlantico - - -Qual era o ponto de vista do infante, quando começou a dirigir para o -sul as expedições? Era simples: Eratosthenes déra á Africa a fórma de -um trapezio, sendo o lado septentrional banhado pelo Mediterraneo, o -oriental pelo Nilo, o meridional pelo mar desconhecido, o occidental pelo -Atlantico. Este lado era o mais pequeno. Pouco abaixo do estreito de -Gibraltar a costa voltava para SSE, e ia juntar-se com a costa oriental. -Era esta a doutrina geralmente admittida, e assim se representa a Africa -na maior parte dos mappas medievaes. Outros, porém, seguiam a doutrina de -Ptolomeu que prolongou a Africa, alargando-a na base: e então imaginavam -uma costa ficticia ao sul que ligava entre si a Africa Oriental e a -Occidental, mas parando em todo o caso para aquem do Equador, porque a -zona torrida era sempre considerada inhabitavel, e para além da zona -torrida ficava, segundo a theoria de Ptolomeu, a terra antichthona. - -Deu isso origem a que corresse a lenda do famoso mappa trazido pelo -infante D. Pedro de Veneza, e em que estava traçado o cabo da Boa -Esperança, e suppõe-se tambem que o estreito de Magalhães! A confusão é -curiosa. O mappa que deu logar a essa lenda é um mappa já posterior aos -primeiros descobrimentos dos Portuguezes, representa a Africa terminando -n’uma ponta a que dá o nome de cabo de Diab, mas esse cabo está separado -do continente africano por um estreito, onde havia, dizia a legenda, -a treva absoluta. Parecia que era esse canal a ultima reliquia, que -procurava sobreviver ainda, do mar Tenebroso. - -Parecia-se esse estreito com o estreito de Magalhães, e, da mesma fórma -que muitos confundiram a terra antichthona com a America, para lá lhe -passaram o imaginario canal do sul da Africa. - -Humboldt, que tão facilmente acceita o que pode redundar em nosso -desfavor, ao passo que regeita tudo o que possa redundar em desfavor -de Colombo, Humboldt, que não trata de saber se a Guiné a que chegou -Bethencourt é a Guiné que os Portuguezes descobriram depois, apesar -de acautellar os seus leitores contra os erros que podem resultar da -confusão de nomes identicos que se davam a regiões muito diversas, -tambem d’esta vez, reconhecendo que os mappas de Toscanelli, onde todos -dirão que se encontram as Antilhas descobertas por Colombo, são mappas -perfeitamente conjecturaes, não hesita em acceitar o mappa conjectural de -fra Mauro, em que vem o Cabo de Diab, como mappa baseado em conhecimentos -positivos.[55] - -E comtudo fra Mauro nas indicações que acompanham o seu mappa, feito -em 1454, é o primeiro a reconhecer os serviços dos Portuguezes, e a -declarar que d’estes recebeu muitos mappas, que lhe tinham servido para a -elaboração do seu. - -«Muitos pretenderam, diz elle, e grande numero escreveram que este -mar (o _Atlantico_) não pode ser _torneado_, nem navegado, nem ter -habitantes nas suas praias como a nossa zona temperada e habitada; _mas -é agora de toda a evidencia que se pode sustentar uma opinião contraria, -principalmente porque os Portuguezes que o rei de Portugal mandou a bordo -das suas caravellas para verificarem este facto, referiram, depois de -se terem certificado elles mesmos, que tinham explorado esse continente -pelo espaço de mais de duas mil milhas desde o sudoeste do estreito de -Gibraltar_, que em toda a parte os recifes da costa não são perigosos, -que as sondas são boas, que a navegação é facil, sendo as tempestades -mesmo pouco perigosas. Elles levantaram cartas d’estas regiões e deram -nomes aos rios, bahias, cabos e portos. Possúo um grande numero de -borrões ou esboços d’essas cartas».[56] - -Accrescenta elle, porém, _que nenhuma d’essas cartas resolvia a grande -questão de se saber-se se podia fazer a circumnavegação da Africa_! - -É fra Mauro que o diz, no proprio mappa, que prova, segundo Humboldt -imagina, que o cabo da Boa Esperança era conhecido mais de quarenta annos -antes de Bartholomeu Dias o dobrar! - -Não se vê porém que a emenda conjectural nos mappas antigos é aqui -evidente? Já estão os Portuguezes a duas mil milhas do estreito de -Gibraltar, e a costa africana não volta bruscamente para leste. Não é -bem natural suppor a probabilidade de terminar a Africa em ponta, visto -que a occidental se dirige para SE, como a oriental se dirige para SO? -Como o proprio Humboldt affirma e faz notar, depois dos descobrimentos -os cartographos não se limitavam a inseril-os, mas accrescentavam ás -regiões descobertas os seus complementos conjecturaes. E tanto assim -é que, ao lado do cabo em que a sua phantasia roçou pela verdade, poz -um estreito que não existia, que, depois de ter imaginado a Africa -torneavel, continúa a dizer que não sabe-se se poderá tornear, e que, -ao passo que fundamenta nas descobertas portuguezas a sua descripção da -Africa Occidental, nada diz de quaesquer viagens que tivessem podido -esclarecel-o ácerca da fórma que podia dar á Africa meridional! - -Nada ha mais estranho do que o que succede com os Portuguezes n’esta -questão dos descobrimentos. Quando elles os fazem, toda a Europa os -applaude, affluem a Portugal aventureiros que querem tomar parte nas -nossas expedições, e navegar nas nossas caravelas. Ninguem se lembra de -dizer que já sulcaram esses mares, ou que já foram a essas terras. Os -Normandos, longe de fallarem em pretenções suas, aconselham a quem queira -fazer expedições para esses lados que tome pilotos em Portugal, porque -aqui os encontra sabendo bem aquellas derrotas. Os papas concedem-nos o -dominio d’essas terras baseado nos direitos de primeiro occupante, os -reis de França e de Hespanha, tão ciosos das suas pretenções, reconhecem -esse direito sem a minima objecção e até castigam os seus subditos que -tentam violal-o, os navegadores de toda a Europa, _os taes que nos tinham -precedido_, o que fazem é tentar surrateiramente seguir-nos e apanhar aos -nossos pilotos, comprando-os muitas vezes, os segredos da derrota, os -cosmographos e os cartographos com os nossos viajantes mantêem relações -seguidas, e nas suas relações e nos seus mappas se baseiam para traçar o -que já está descoberto e para conjecturar o que não está; tão corrente é -na Europa a historia das navegações portuguezas que, estando ainda bem -fresca a memoria d’essas primeiras aventuras do mar, e tendo Colombo -residido nas ilhas descobertas pelos Portuguezes, allega, quando na sua -primeira viagem se quer guiar pelo vôo dos passaros, que foi assim que -os Portuguezes descobriram as suas ilhas,[57] e D. Henrique chama para -Sagres o cartographo malhorquino Jayme, e comtudo os seus escudeiros -ufanam-se de terem descoberto o Rio do Oiro, e com elles se regosija o -infante e se regosija o cartographo, sem que este se lembre de allegar -que já por um seu patricio, ou por um seu parente, ou por elle mesmo, -talvez, como chega a suppor o sr. D. Cesario Fernandez Duro, esse rio -fôra descoberto![58] E seculos depois é que apparecem as estultas -pretensões de se querer demolir essa gloria toda em proveito de um -desconhecido, mas baseadas em tão frivolos argumentos que bastou que o -visconde de Santarem passasse uma revista á cartographia da meia edade, -ás suas chronicas, aos seus documentos, aos seus tratados e aos seus -livros de sciencia, para que a inanidade de semelhantes affirmações se -apresentasse com uma evidencia esmagadora! - -Vão pois os navegadores portuguezes caminho da India que é desde o -principio o alvo dos seus esforços. Contam que, antes de chegar ao -Equador, voltarão para leste, e ha uma coisa só de que n’esse momento D. -Henrique duvida, é que o mar das Indias seja um mar mediterraneo. Se o -acreditasse, como bem diz Humboldt, não faria a tentativa. Antes, porém, -de se aventurarem para além do cabo Bojador, encontram Gonçalves Zarco e -Tristão Teixeira Porto Santo e a Madeira, Gonçalo Velho Cabral os Açores. - -Muitas vezes os pescadores portuguezes poderiam ter encontrado algumas -d’essas ilhas, e possivel era tambem que os nossos navios commandados -pelos pilotos genovezes que D. Diniz chamára a Portugal, tivessem -arribado a esses archipelagos. Eu mesmo já acceitei um pouco essas -doutrinas sustentadas por Major, e a que dava certa apparencia de verdade -o modo como Azurara conta o descobrimento. Fil-o, porém, antes de ter -estudado mais profundamente a cartographia da meia edade, antes de ter -visto como esses cartographos conheciam os phantasticos archipelagos do -Oceano Atlantico, e fixavam nos seus mappas as ilhas de S. Brandão, da -Antilia, das Almas, do Purgatorio, sonhadas pela imaginação celtica dos -povos occidentaes da Europa. Não navegaram os Portuguezes n’um Oceano que -imaginavam deserto, mas sim n’um Oceano onde as ilhas pullulavam. Quando -a alguma chegavam, não suppunham tel-a descoberto, mas tel-a simplesmente -encontrado. Depois de terem descoberto todas, ainda continuaram a -procural-as, e hoje mesmo ainda na Madeira se suppõe que a ilha das Sete -Cidades se tem conservado escondida, longe das estradas maritimas, por -traz de alguma dobra do ainda mysterioso Oceano. - -Essa ingenuidade portugueza, que serviu depois para os seus detractores, -manifesta-se tambem na exploração das costas africanas. Nenhum navegador -suppõe que chega a terra desconhecida. Todos imaginam que não fazem senão -encontrar terras cuja existencia não era ignorada pela sapientissima -antiguidade. Os nomes de Ptolomeu, de Strabão, de Eratosthenes, de -Plinio, de Pomponio Mela e de Solino continuam a ser nomes oraculares -para aquelles que estão demolindo o castello de cartas da sua vã e -ephemera sciencia. Marco Polo está sendo tambem um dos seus idolos. -Chegando ao Senegal julgam ter encontrado o Nilo dos Negros, porque estão -ainda convencidos da verdade da velha doutrina, que separa o Nilo em -dois grandes braços, um dos quaes se dirige para o Atlantico e o outro -para o Mediterraneo. O que os espanta e ao mesmo tempo os exalta é o não -encontrarem monstros, as ondas tenebrosas, os montes ardentes, toda a -guarda avançada da implacavel zona torrida. Para que primeiro arcassem -com esses receios foi necessaria toda a energia do infante D. Henrique, -mas a pouco e pouco foram-se familiarisando com esses mares que tão -terriveis se suppunham anteriormente, e eram elles que davam a fra Mauro -as informações tranquillisadoras que elle insere nas annotações ao seu -planispherio. - -No ponto de vista em que nós nos collocamos, e que suppomos ser -absolutamente verdadeiro, quer dizer desde o momento que sustentamos que -o serviço immorredouro que Portugal prestou á civilisação e á sciencia -foi o ter demolido a noção consagrada da zona torrida inhabitavel, e -que a prova de sobre-humana audacia que os Portuguezes déram foi a de -transpor sem hesitação os limites d’essa zona torrida, percebe-se que -nos seria completamente indifferente que se provasse que navegadores -estrangeiros tinham precedido os nossos nos mares que ficam para além -do Bojador. Isso não faria senão levar um pouco mais adeante o ponto de -partida das expedições portuguezas indubitavelmente gloriosissimas, e -cuja honra Humboldt confessa que nos cabe sem contestação, as expedições -á região equatorial.[59] Mas a verdade irrefragavel é que esse limite, -que os Portuguezes transpozeram, foi sem duvida alguma o cabo Bojador. -Como Humboldt nota, com perfeita razão, o horizonte geographico vae-se -alargando a pouco e pouco, e a verdade é que, uma vez ampliado, não se -estreita de novo. Para o lado do occidente os primeiros limites foram -os do mar Egeu, depois o do meridiano das Syrtes, depois o das columnas -de Hercules, depois para o norte o extremo meridiano da Europa, para o -sul o da costa africana.[60] Vemos que a mansão da felicidade suprema -acompanhou a ampliação d’esse horizonte, primeiro no Oasis do Egypto, -depois na Cyrenaica, depois na costa africana, a pequena distancia das -columnas de Hercules, depois nas Canarias. Não ha saltos n’este progresso -forçosamente methodico. Logo que se transpõe um limite maritimo a -navegação prosegue. - -Para o sul o cabo Não foi por muito tempo o limite, depois o Bojador. -Transpoz-se esse limite em 1433? logo affluiram a Portugal estrangeiros -curiosos d’essa novidade, e logo D. Henrique tratou de se assegurar -da posse das terras que vae descobrir. Depois da expedição de Antão -Gonçalves e de Nuno Tristão em 1441, vão embaixadores portuguezes ao papa -Eugenio IV a pedir-lhe as bullas necessarias, e já com Antão Gonçalves na -viagem immediata vae o allemão Balthazar, que vem da côrte do imperador -Frederico III correr estas novas aventuras.[61] E comtudo desde 1415 se -empenhava o infante em explorações maritimas, sem que reclamasse do Papa -quaesquer concessões, sem que os estrangeiros se interessassem por essas -tentativas infructiferas. Tudo muda de 1433 por deante. Porque? porque se -rompera evidentemente mais uma das barreiras que tinham successivamente -detido a marcha da humanidade, porque se tinham transposto mais algumas -das columnas que formavam o portico do mundo sobre o desconhecido, -columnas de Briareu primeiro, columnas de Hercules depois, estatuas das -ilhas Khalidat dos Arabes, emfim. - -Em 1436 chegou Affonso Gonçalves Baldaya ao Rio do Ouro, ou o que elle -suppunha que era um rio, e que não era afinal senão um braço de mar, -e, dando-lhe esse nome, conformou-se mais uma vez com o respeito pela -tradição antiga, que affirmava que para o lado das ilhas Afortunadas, -como dizia Pindaro nas suas Olympiadas, rios que conduziam ouro entravam -no Oceano.[62] Assim os Arabes davam o nome de rio do Ouro a muitos, -situados muito áquem do cabo Bojador, assim os Catalães chamavam rio -do Ouro a um rio que encontravam para além do cabo Não e proximo das -Canarias, tanto que no proprio mappa em que se affirma que Jayme -Ferrer procurara o rio do Ouro, o traçado da costa não vae além do -cabo Bojador.[63] Podia haver mais evidente prova de que o Rio do Ouro -catalão não é o Rio do Ouro portuguez? Não fallemos sequer em que o Rio -do Ouro de Jayme Ferrer é, como o descreve o manuscripto de Genova, com -que se pretende dar authenticidade ao facto,[64] um rio largo em que -podem fundear náus potentes, emquanto o Rio do Ouro de Affonso Gonçalves -Baldaya nem rio é sequer, e n’elle, segundo affirma o almirante Roussin -que o estudou hydrographicamente, só canôas podem entrar.[65] Basta -vermos que os mappas em que se baseia a pretenção, param no Bojador, como -no Bojador pararam os navegantes a quem depois se quiz attribuir a gloria -de o ter transposto. - -Em 1441 descobria Nuno Tristão o cabo Branco, em 1443 os ilheus de -Arguim, em 1445 acabava-se de descobrir a costa do Sahará e entrava-se -na costa da Senegambia, e n’este meio tempo entravam já em Portugal com -abundancia os escravos africanos. - -Nodoa é esta com que se pretende manchar a gloria dos nossos -descobrimentos, como se n’essa epocha em que os proprios brancos ainda -tinham, pode dizer-se, roxos os pulsos dos grilhões com que lh’os -algemára a servidão da gleba, n’essa epocha em que tinham escravos os -proprios mosteiros e as egrejas, se podesse ter ácerca da liberdade do -homem as idéas largas que, só uns poucos de seculos depois, e a muito -custo, se implantaram na legislação dos paizes mais cultos. E é curioso -que sabios escriptores accusem o infante de ter sido o responsavel pela -escravatura negra, como se não fosse tão facil ás virtuosas nações, cujo -credito elles defendem, eximir-se a seguir tão mau exemplo! como se ao -Papa, que representava a suprema lei moral da sociedade de então, não -coubesse o dever de conceder as terras, mas de prohibir os escravos! -como se não fosse evidente que o mesmo faria qualquer nação que nos -precedesse, e que o facto de não apparecerem escravos pretos na Normandia -no seculo XIV é mais uma prova contra as suas pretenções! E comtudo -a prioridade na escravisação das populações africanas essa é que os -Normandos podem reclamar sem contestação, porque, bastantes annos antes -de se venderem nas praças de Lagos os escravos da costa africana, já o -normando João de Bethencourt, rei das ilhas Canarias, vendêra na Hespanha -os seus subditos.[66] - -Mas o que dominava sobretudo no espirito de D. Henrique era a anciedade -da investigação scientifica e o ardor pela conquista dos grandes ideaes -religiosos da meia edade, e é isso o que faz com que o espirito do -infante só encontre depois na historia dos descobrimentos outro que -com elle se irmane—o de Christovam Colombo. Essa allucinação em que -ambos vivem é que os torna proprios para emprezas, que só com grande -perseverança se podem realizar, e essa perseverança só a encontra quem -tem um enthusiasmo absolutamente exclusivo. Quaes são as instrucções que -levam sempre os capitães dos navios de D. Henrique? Procurar identificar -os rios que descobrem com o Nilo dos Negros, que a geographia systematica -dos antigos considerava como um braço do grande rio egypcio que vinha -desemboccar no Atlantico. Julgam encontral-o ao ter chegado ao Senegal -como depois o imaginam ainda no Niger, e talvez no Zaire tambem. E -tão absortos estiveram por muito tempo os Portuguezes no seu respeito -cego pelo saber da antiguidade, que ainda foi um piloto portuguez no -seculo XVI que procurou commentar e explicar o Periplo de Hannon, sendo -o seu commentario na Italia de todos o mais apreciado.[67] No proprio -momento em que podiam justamente ufanar-se de sulcar mares nunca d’antes -navegados, ainda se escondiam modestamente por traz da sombra de Hannon, -o legendario navegador, que, tendo chegado a algumas leguas do estreito -de Gibraltar, imaginou logo ter percorrido um immenso espaço de agua![68] - -O outro desejo ardente do infante D. Henrique era encontrar as terras do -Prestes João, esse mytho medieval que tomou mil fórmas, apparecia nas -mais variadas terras, até que, ao condensar-se na realidade prosaica, -appareceu transformado n’aquelle pobre _negus_ da Abyssinia, symbolo -curioso da dissolução dos mythos, que no periodo poetico da humanidade se -revestem dos mais extraordinarios esplendores, e que nos frios annos da -prosa se reduzem ás mais chatas personalidades. - -O Prestes João fôra a prolongação pela edade média da lenda da primitiva -Egreja Oriental, que déra ao apostolo João, ao discipulo amado, ao -evangelista mais querido da imaginação popular, a perpetuidade da -existencia. Não acceitou a Egreja a lenda, mas ella permaneceu no -Oriente, modificada, fluctuante, desdobrando-se o personagem que é seu -protoganista, no apostolo e no presbytero.[69] Talvez porque n’uma das -epistolas, conhecidas pelo nome de João, o apostolo, por esse nome se -designa este _presbytero João_, que toma em parte o caracter do apostolo, -em parte o caracter de um discipulo do apostolo, torna-se, por assim -dizer, a gloria e o tormento da Egreja de Epheso; a gloria, porque essa -Egreja se ufana de lhe pertencer o personagem privilegiado que herdou do -venerado Mestre o amor e a predilecção do céu; o tormento, porque esse -personagem é vago, confuso, indefinido, mal visto pela Egreja em geral, e -fonte de possiveis heresias. - -Mas entretanto corria a edade média com a sua louca anciedade -pelo advento de um mundo melhor. Não se cumpriam as promessas do -christianismo. Não chegára o reinado da justiça. Na terra atormentada -por mil flagellos arrastava o homem uma existencia atribulada, calcado -aos pés pelos poderosos, faminto, presa a cada instante da peste e da -guerra implacavel e atroz. Não chegára a era millenaria, a era sublime -em que Jesus voltaria, e em que, rodeiado dos seus martyres, como de -uma legião sagrada da fé e do bem, reinaria sobre a terra até que ella -desapparecesse subvertida no cataclysmo final. - -O que nascia, pelo contrario, era a crença desanimadora ao anno Mil, -annunciado como o anno em que o mundo acabaria sem ter tido a consolação -suprema de vêr o reinado do Bem; mas o anno Mil passou sem trazer comsigo -o cataclysmo esperado. Seria afinal verdadeira a promessa do reino -millenario, do reino dos martyres, que o Apocalypse de João annunciou? -E a idéa d’aquelle Presbytero João, que vive a sua longa existencia nos -páramos do Oriente, testemunha millenaria do grande acto da Paixão, -fluctúa no animo dos povos. Não será em torno d’elle que se agruparão -os bons, os martyres, os fieis, e não será nas suas terras que estará -irradiando uma perpetua aurora, tranquilla, suave, toda misericordia e -paz, emquanto cá pelo Occidente parece que o sol se afoga todos os dias -n’um occaso sanguineo, n’um horizonte perpetuamente em braza, entre os -clamores dos miserandos que teem sêde de justiça e o tinir das espadas -gottejantes de sangue, o crepitar das chammas dos incendios e o rugido -dos mares e as gargalhadas da impiedade? E lá no Oriente, onde existe o -Paraizo, começa-se a devanear tambem a existencia de outro Paraizo mais -accessivel ao homem, se é que se não confundem n’um só Paraizo aquelle -de que o homem foi expulso, e o outro em que o homem ha de entrar, quando -lhe franquear a entrada o guarda a quem o confiaram Christo e o discipulo -amado. - -Essa lenda vaga, ou antes essa incerta aspiração, concretisou-se n’uma -d’essas obras anonymas em que o sentimento popular se manifesta, em que -os devaneios da sua alma são encorpados, desenvolvidos e ordenados por -um trovador ignorado, por um narrador mysterioso, que é afinal de contas -quem produz verdadeiramente a obra popular, que depois muitas vezes um -grande poeta aproveita para uma obra immortal. Assim se formou a lenda do -Prestes João com o seu reino de maravilhas, a do Judeu errante, a do dr. -Fausto, a de D. João Tenorio, e a de mil outros, que não tiveram outro -berço senão a redacção humilde e vulgar de um pobre sonhador ignorado, -que desapparece entre o povo, a quem se attribue a gloria da concepção, -e a obra do grande poeta que deu á lenda a fórma definitiva e litteraria -que a tornou immortal. O modo como esta lenda se formulou foi na redacção -de uma carta dirigida pelo Prestes João ao imperador de Roma e ao rei de -França e em que lhes contava as maravilhas do seu reino, onde os homens -viviam annos quasi infinitos, onde havia maravilhosas riquezas, onde os -animaes e as plantas tinham um tamanho descommunal, e onde reinava a -paz e a justiça.[70] O que deu origem talvez á carta, ou o que chamou -para esse vago personagem do _Presbyter Johannes_ ou _Prestre Jean_ ou -_Prestes João_ a attenção dos povos occidentaes, foi a vinda a Roma[71] -de um estranho personagem, que se dizia patriarcha das Indias, que da -Asia vinha effectivamente, e que dava noticia da existencia n’essas -remotas partes, ou na verdadeira India, ou na propria Tartaria, de -christãos convertidos por S. Thomé o apostolo, e que eram evidentemente -christãos da heresia nestoriana, christãos dos ritos syriacos, sacudidos -da Egreja Catholica, mas possuindo aquella tenacidade de resistencia, -que faz com que ainda hoje, em pleno regimen papal e catholico, tenham -na India os seus prelados e mantenham os seus ritos estes christãos -primitivos.[72] - -Assim parece effectivamente que devia ser: porque na carta do Prestes -João diz-se que «cada anno, _quando S. Thomé vinha prégar a quaresma no -seu reino_, elle fazia uma peregrinação ao tumulo do propheta Daniel, -com dez mil clerigos, outros tantos cavalleiros e duzentos elephantes, -que levam, não torres, mas castellos, para exorcismarem e combaterem os -dragões que espreitam a caravana na passagem».[73] A lenda do Prestes -João localisou-se por conseguinte na India, não, como seria natural, na -India verdadeira, mas na India ultima, quer dizer, no extremo Oriente -da Asia, onde todas as lendas se refugiavam, a India que ficava para -além dos limites das conquistas de Alexandre, e onde o proprio heroe -toma tambem um aspecto legendario, como se lhe bastasse tocar n’uma -região nevoenta para que o seu proprio vulto em nevoas se envolvesse. -Alexandre, já o dissemos, foi para a Europa medieval, como Virgilio, um -ente sobrenatural, meio pagão e meio christianisado posthumamente, meio -feiticeiro e meio conquistador. É elle, como dissemos tambem, que encerra -os povos de Gog e de Magog por traz da famosa muralha, é elle que na sua -carta a sua mãe Olympias, carta não menos apocrypha, é claro, do que a -do Prestes João, lhe diz que encontrou a arvore do sol e a arvore da -lua, e que lhes ouviu os oraculos.[74] É para além do Ganges tambem que -os geographos da meia edade imaginaram povos que se sustentam só com o -aroma das flores, lenda que vamos ainda encontrar em Camões. É no extremo -Oriente que está o Paraizo, e junto do Paraizo, note-se bem, o antro em -que S. Macario se escondeu para viver immerso em prece, depois de ter -tentado debalde penetrar na morada dos nossos primeiros avós, e foi ahi -que o encontraram _um seculo depois_, e sempre orando, tres monges gregos -que tinham ido a essas longinquas partes do mundo para tentarem tambem -ver o Paraizo de perto.[75] Avisados pelo exemplo de S. Macario, voltaram -os tres monges para traz, mas S. Macario lá ficou orando e atravessando, -absorto na prece, os seculos sem fim. - -Vê-se pois que aquelles ares do Paraizo espalhavam ainda nos seus -arredores umas fragrancias divinas. Parecia que da eternidade promettida -a Adão e Eva tinham ficado uns resquicios para os que do Paraizo se -approximassem; era para alli portanto que a imaginação popular levaria o -reino paradisiaco do Prestes João. - -Mas as viagens de Marco Polo vieram dar uma nova physionomia ao mytho -do Prestes João, approximando-o da realidade, tornando-o um personagem -curioso, mas não rodeiado d’aquelle immenso prestigio anterior. Ou -porque effectivamente, como sustenta o grande sinologo Pauthier, elle -encontrasse christãos nestorianos na Tartaria, na provincia a que Marco -Polo chama Tanduc, que Pauthier identifica com a provincia chineza de -Ta-Thung, e esse facto explica-o Pauthier pela entrada de nestorianos -persas na Mongolia ou no Thibet, onde teriam feito conversões, e onde -effectivamente o soberano chinez lhes permittiu que erigissem um templo, -ou porque, como sustentava Stanislas Julien, outro sinologo tambem -notavel, Marco Polo tivesse confundido com christãos os budhistas que -nas regiões que elle atravessava tinham uma das mais importantes sédes -da sua religião, e que ao ver a theocracia do Grão-Lama o imaginasse um -padre-rei christão, e o Prestes João por conseguinte, é certo que elle -declara ter encontrado christãos regidos por um padre, que descendia em -linha recta do Prestes João, que era o seu sexto descendente e que se -chamava Jorge.[76] D’elle diz João de Monte-Corvino que o conheceu e o -converteu á fé catholica, e Rubruquis tambem declara que na Tartaria -encontrou nestorianos que viviam debaixo das leis do Prestes João. - -Embora tudo o que se narrava nos livros de Marco Polo estivesse envolvido -nos véos do maravilhoso, é certo que esta semi-realisação do _Presbyter -Johannes_ estava longe de corresponder ao ideal que d’elle se formára. -O personagem legendario não encontrava positivamente n’um descendente -chamado Jorge, subdito do Grão-Khan e chefe de uma especie de tribu -nestoriana, uma encarnação satisfatoria. Continuou portanto a fluctuar -por todo o Oriente, e, como de certo havia noticia vaga da existencia de -um povo christão para os lados da Ethiopia, foi para esse lado que se -transferiu a localisação da lenda, pois que a India, na edade média, como -dissemos, abrangia, pode-se dizer, toda a Asia, parte da Ethiopia, e a -indeterminação da residencia do rei legendario caracterisava-se bem com a -denominação que se lhe dava de Prestes João _das Indias_. - -Não se imagine portanto que é simplesmente um rei christão perdido no -meio da onda musulmana e do paganismo que se procura, o que se procura -é o reino maravilhoso das lendas millenarias, é a terra estranha onde -tudo floresce com extraordinario viço, onde o oiro, a prata e as pedras -preciosas fulguram por todos os lados, onde se vive como que n’um -antecipado Paraizo. Procuram-n’o logo na Africa, ao pé de Marrocos,[77] -e não havia n’isso contradicção com o nome que se lhe conservava de -Prestes João das Indias, porque, segundo a antiga geographia systematica, -podia bem ser que a Ethiopia se ligasse com a Asia, e que já n’essas -terras ainda proximas de Marrocos principiasse o reino maravilhoso do -Prestes João. - -É essa anciosa curiosidade que domina no espirito dos Portuguezes, é ella -que os arroja aos grandes feitos, ás pertinazes investigações. Como das -investigações astrologicas com as quaes se procurava ler nas conjuncções -dos astros o segredo dos destinos humanos saía a astronomia, como nas -locubrações dos alchimistas se foram desvendando os segredos da chimica, -assim na procura ardente do reino do Prestes João se foi desvendando, -por tantos seculos escondido, o segredo da geographia africana, o da -sua fauna, da sua flora e da sua ethnologia. Logo n’uma das primeiras -viagens um audacioso portuguez, João Fernandes, se internou no sertão -africano, e por lá andou mezes inteiros, convivendo com os indigenas, -aprendendo a sua lingua, estudando os seus costumes.[78] Devia-lhe ter -corrido um calafrio nas veias quando abandonou os seus companheiros para -se immergir no desconhecido. Ia encontrar talvez os povos monstruosos da -tradição scientifica, os troglodytas, os himantopodas, os virgocosgigs, -e ao lado d’elles os dragões de terrivel aspecto e o basilisco de halito -pestifero, passeiando pelos mattos meio inflammados a sua estranha -corôa de horrifico soberano. Era perfeitamente um cavalleiro andante -que se arrojava a um mundo encantado, como esses heroes de novellas de -cavallaria que ousavam emprehender as mais incomprehensiveis façanhas. -Mas tudo elle ousava para conseguir chegar emfim ás terras paradisiacas -em que o Prestes João reinava, e, quando elle voltou, depois de longos -mezes, não trazia noticias nem de monstros horrendos, nem de reinos -maravilhosos, mas trazia, o que valia mais que tudo isso, o conhecimento -exacto da Africa interior, a revelação para a sciencia de um mundo -ignorado, de arvores soberbas, que não eram a phantastica _mandragora_, -mas o baobah agigantado e verdadeiro. Supprimia a flora sobrenatural, -mas ampliava os dominios da flora verdadeira; acabava com a fauna -phantastica, mas alargava os dominios da zoologia verdadeiramente -scientifica. E, da mesma fórma que os alchimistas, ao procurarem nas -suas longas vigilias a pedra philosophal, encontravam o segredo das -combinações chimicas, assim estes audazes alchimistas do Oceano, ao -procurarem o Prestes João, que era a pedra philosophal dos sonhos -geographicos da meia idade, encontravam um mundo inteiro, que valeu mais -para a riqueza scientifica e para a opulencia do commercio do que todos -os reinos fabulosos banhados por phantasticos Pactolos e scintillantes de -oiro e de pedraria. - -Quando o infante D. Henrique morreu, já os Portuguezes tinham conhecido -o cabo Branco e o cabo Roxo, e o cabo Verde e as ilhas que d’este cabo -tomaram o nome, e os rios Senegal e o Gambia e o Casamansa. Os terrores -da zona torrida tinham desapparecido, posto que se não tivesse chegado -ainda ao Equador, mas era evidente já que o mundo não alterava o seu -aspecto com a approximação da equinoxial, e que os monstros não existiam -senão na imaginação dos geographos, que se não encontrava senão a -variante negra da raça humana, e que os novos passaros que appareciam, -depois classificados pelos zoologos como _remora_, _phenicoptero_, -_bucerus_ _africano_ ou _pristis_, enriqueciam as collecções -ornithologicas, mas não a teratologia. E estas conquistas positivas -deviam-se ao enthusiasmo e á sede do ideal. Nada se faz grande no mundo -sem esse grão de loucura, que desequilibra um pouco o genio dos grandes -poetas e dos grandes descobridores. A pedra philosophal transmuda deveras -o cobre vil em oiro, porque é ella, como symbolo de todos os ideaes -phantasticos, que faz da quebradiça argila de que se formou o homem o -bronze em que se fundem os ousados pensamentos, que transforma no oiro -das grandes almas o minerio banal dos espiritos vulgares. - -E era exactamente o que havia de estranho e de louco nas expedições -portuguezas que chamou para aqui os aventureiros e os ousados. Os -Venezianos como Cadamosto, os Genovezes como Usodimare, vem aqui -buscar simplesmente emprego para a sua actividade de marinheiros; os -Malhorquinos como Jayme de Malhorca vem para um centro de actividade -scientifica, mas esse Valarte que vem do fundo do Norte, das remotas -regiões da Suecia, vem em demanda do ideal, esse loiro Scandinavo, que -traz no olhar o azul dos seus lagos e no rosto a candidez das suas neves, -vem procurar a estas regiões de aventura a barca dos cysnes dos Eddas -que o ha de levar atravez dos mares da lenda ás regiões dos sonhos. Para -esses e para muitos outros Portuguezes, como o velho Soeiro da Costa, -como esse Alvaro de Freitas que tanto acaricia a idéa de ver de perto -o Paraizo terreal,[79] é um romance de cavallaria que se está pondo em -acção na patria de _Amadis de Gaula_. São os Templarios resuscitados -que investem com o mar como os Templarios antigos com as ondas dos -sarracenos, e o manto branco da ordem de Christo que fluctua ao sopro do -vento, e a bandeira com a cruz vermelha que palpita na popa das caravelas -com os bafejos do Oceano são os ultimos symbolos d’esse idealismo da -idade média cavalheiresca que vae dissolver-se na epocha burgueza que -já apparece no horizonte dos tempos. E esse rijo cavalleiro, ascetico, -tenaz, que do alto do promontorio de Sagres lança os seus legionarios á -conquista do desconhecido, ao cair prostrado pela morte, sem ter ainda -encontrado o edeal que lhe absorvera a existencia, desapparece da scena -do mundo, deixando resolvido um dos grandes problemas da existencia -humana na terra, no mesmo momento em que outro cavalleiro andante, esse -deveras o ultimo, Christovão Colombo, o Genovez, já vagueia, sonhador e -pensativo, nas praias do Mediterraneo, escutando esse rumor de gloria e -de aventura que vem do Occidente, e revolvendo na imaginação juvenil a -solução de outro problema geographico, que ainda ficava em aberto, e que -ia dar ao homem emfim a Terra inteira por dominio. - - - - -VII - -Preludios açorianos e madeirenses do descobrimento da America - - -Emquanto os Portuguezes proseguiam intrepidamente para o sul no caminho -da zona torrida o que se fazia para o Occidente? Era possivel, era -natural, que a descoberta do Porto Santo, da Madeira e dos Açores -satisfizesse completamente a curiosidade portugueza? Os que defendem as -duas versões ácerca do descobrimento dos dois archipelagos commettem -uns e outros um erro capital; uns suppondo que os Portuguezes não -os encontraram senão porque antes d’elles lá tinham aportado outros -navegadores, de cujas informações os nossos se aproveitaram, os outros -imaginando que antes das descobertas portuguezas se considerava como -completamente vasia de ilhas a vasta extensão do Atlantico. Descobertas -positivas não as podia ter havido, porque ás terras que podessem ter-se -descoberto aconteceria o que succedeu ás Canarias, que logo foram -cubiçadas e disputadas. O que havia era o sonho celtico das ilhas -mysteriosas no seio do Atlantico, e em busca d’esse sonho quantos navios -teriam corrido, sem que das suas tripulações voltasse ás costas européas -nem sequer o cadaver do cão da frota legendaria de Brékan. Mas essas -ilhas phantásticas estavam profundamente radicadas no animo dos homens -da edade média, e a ilha de S. Brandam tinha para elles existencia tão -real como o reino mysterioso do Prestes João. Ah! quem a encontrasse, -quem arribasse a uma ilha qualquer no meio da vastidão dos mares, como -voltaria contente e triumphante do seu achado, doido de alegria por ter -conseguido emfim fixar n’um ponto do Oceano alguma d’essas ilhas que -fluctuavam no mar da lenda, filhas da miragem do mar como da miragem do -sonho; ilhas phantasticas como o navio phantasma da lenda hollandeza, que -todos suppunham avistar ao longe, recortando na tela de oiro e purpura do -horizonte o fino perfil das suas arvores, ou a ondulosa curva das suas -montanhas! - -Deserto o Oceano? Não. Estava povoado, pelo contrario, de muito mais -ilhas do que as que se encontraram! E quando o infante D. Henrique mandou -os seus navegantes procural-as, é porque tinha a convicção profunda de -que existiam, e os seus audazes marinheiros o que julgavam era seguir o -sulco espumoso do barco do santo irlandez, como quando seguiam, segundo -a phrase de Colombo, o vôo das aves que os conduziam a terra, cuidavam -seguir talvez, alados mensageiros celestes que os conduziam ás ilhas de -promissão, ou pelo contrario demonios encarnados em passaros, que os -arrastavam ás ilhas infernaes. - -Os que trazem com ufania, como uma conquista para a historia, a lenda da -ilha da Madeira descoberta antes de Zarco, ou a dos Açores antes de Velho -Cabral, partem da errada supposição de que esses ignotos descobridores -deram grande novidade aos Portuguezes dizendo-lhes que havia ilhas no -Oceano! Bem convencidos estavam d’isso, mas a questão era encontral-as. -Feliz o paiz que as descobrisse! Não as largava facilmente! A posse -tranquilla e indisputada da Madeira e dos Açores prova bem que ninguem -punha em duvida o direito de prioridade que os Portuguezes se arrogavam. - -O que faziam porém os colonos d’essas novas ilhas, tudo gente marinheira -e aventurosa, que não ficava socegada no pequeno pedaço de terra em que -se achava confinada? N’elles se condensava, pela sua posição especial, -pelo espirito mais aventuroso que a essas ilhas os levou, a tendencia -emigrante dos Portuguezes. Não é essa tendencia a que ainda hoje -domina nos habitantes d’essas ilhas? Não foram sempre os Madeirenses e -os Açorianos os que predominaram na colonisação portugueza? Não foram -elles, sobretudo, que fizeram o Brazil colonial? Não são os Açorianos -quasi exclusivamente os Portuguezes que vamos encontrar na America do -Norte, em Boston, e até na California, e, o que é mais estranho ainda, á -beira da rede dos lagos que separam os Estados Unidos do Canadá, sendo -tão numerosa a colonia portugueza de Erié, que alli se publica um jornal -portuguez, chamado o _Erié_ tambem? Não são os Madeirenses que nós -vamos encontrar em Demerara, nas ilhas Sandwich, e que estão formando, -em Angola, o nucleo das colonias do plan’alto de Mossamedes? E se isto -acontece hoje, no nosso periodo de decadencia, de repouso, quando esse -instincto emigrante é perfeitamente atavico—não era bem natural que -acontecesse de um modo muito mais independente n’esse periodo de vigor e -de febre descobridora, e quando os que habitavam a Madeira e os Açores -não eram os que lá tinham nascido, mas sim os proprios que as tinham -descoberto, ou os que primeiro, idos de Portugal, as tinham colonisado? - -Na descoberta africana logo encontramos os Madeirenses. Entre os -mais audaciosos descobridores conta-se Alvaro Fernandes, sobrinho de -João Gonçalves Zarco, e com elle o seu companheiro de seu tio no -descobrimento do archipelago, Tristão Vaz Teixeira.[80] - -E acabemos por uma vez com a accusação que se nos fez de que nos -limitámos a uma navegação costeira, e de que receiavamos sair para o mar -alto! Como se pode dizer isso de um povo, cujos primeiros descobrimentos -exactamente no mar alto é que se fazem, cujos _coups d’essai_ são as -viagens em que encontram a Madeira e sobretudo os Açores, cercados de um -mar tempestuoso e terrivel, ainda hoje considerado como o de mais aspera -educação para o marinheiro, e que estão mais avançados para o occidente -do que a propria Islandia, essa _ultima Thule_, onde parou por tanto -tempo amedrontada a navegação antiga? - -Mas, percebe-se bem que, desde o momento que o fito das viagens -portuguezas era chegar á India torneando a Africa, desde o momento que a -geographia systematica dos antigos lhes dizia que logo abaixo de Marrocos -principiava a Ethiopia, e que a costa logo fazia uma inflexão para léste; -era essa volta da costa que elles sobretudo procuravam encontrar, e -decerto não a encontravam abandonando a costa. E, comtudo, quantas vezes, -fatigados d’essa investigação inutil, soltavam os nossos navegadores -as velas ás brizas do Oceano, e percorriam de um vôo um grande espaço, -chegando a um ponto muito adiantado da Africa e tendo depois de voltar -atraz para explorar miudamente o trato de costa que tinham deixado em -branco![81] - -Navegadores do seculo XV não podiam positivamente achar-se confinados nos -estreitos limites de umas ilhas perdidas no meio do Oceano, sem terem a -tentação irresistivel de sondar esse mar mysterioso, sobretudo quando a -lenda confirmada pela sciencia conjectural d’esse tempo lhes fallava de -ilhas maravilhosas a que não tinham chegado ainda, e quando as vagas do -Oceano lhes traziam a cada instante a prova evidentissima de que para -além d’esse horizonte branqueado pela espuma das vagas distantes, havia -terras, terras habitadas, terras cobertas de vegetação. Sobretudo nos -Açores os documentos multiplicavam-se e as tentações eram mais fortes. As -ilhas não se apinhavam n’um só grupo como Madeira e Porto Santo. Havia -ilhas destacadas como as vedetas d’essa guarda avançada da civilisação -europea. Ainda se perceberia que taes tentativas se não fizessem, se -não se houvesse chegado á ilha das Flores e á ilha do Corvo. Podia-se -comprehender então que, satisfeitos com as ilhas paradisiacas que tinham -encontrado, como a deleitosa S. Miguel, ou a fertilissima Terceira, se -tivessem deixado ficar n’um ocio de Capua, sentimento aliás bem pouco -natural em açorianos, e em açorianos d’esse tempo. Mas a descoberta do -Corvo e da ilha das Flores mostram claramente que se não acalmára a sua -irrequieta actividade, e que o Oceano continuava a ser sondado por esses -audazes marinheiros, que são hoje accusados de não ousarem arriscar-se ás -aventuras do alto mar! - -«A Islandia, os Açores, e as Canarias, diz Humboldt, são os pontos de -paragem que mais importante papel representaram na historia d’estas -descobertas e da civilisação, quer dizer na série dos meios que os povos -do Occidente empregaram para estender a esphera da sua actividade e -para entrar em relação com as partes do mundo que lhes tinham ficado -desconhecidas.» Em nota accrescenta Humboldt: «Ha da extremidade -septentrional da Escocia á Islandia 162 leguas marinhas; da Islandia -á extremidade sudoeste da Groenlandia 240 leguas; d’esta extremidade -ás costas do Lavrador 140 leguas; á embocadura do S. Lourenço 260; -da Islandia directamente ao Lavrador 380 leguas. _Ha de Portugal -(embocadura do Tejo) aos Açores (S. Miguel) 247 leguas_; dos Açores -(Corvo) á Nova Escocia 412 leguas!»[82] É isto o que explica de um -modo bem positivo como foi que os intrépidos marinheiros da Islandia -poderam encontrar a America, e não a poderam encontrar os não menos -intrépidos marinheiros dos Açores. É isto o que responde, de um modo -bem cathegorico, tambem, aos que dizem que os Portuguezes não largavam -as costas. Um povo que nas suas primeiras viagens percorria 247 leguas -maritimas para encontrar um ponto perdido no meio do Oceano, e que -o fixava, e que n’essas ilhas ou proximas ou distantes estabelecia -colonias regulares e em constante communicação com a metropole, era -um povo que se encontrava bem mais apto do que outro qualquer para as -grandes navegações maritimas, era um povo que os pavores do Oceano não -obrigariam a desistir de tentar novas emprezas. Ah! se a Providencia, -em vez de ter agrupado os Açores n’um só ponto, destacando apenas como -sentinellas avançadas as Flores e o Corvo, as tivesse disseminado por -toda a extensão do Atlantico, fazendo de todas ellas os marcos milliarios -d’esse vasto percurso maritimo, como foram as Orcades, as Feroé, a -Islandia e a Groenlandia para o continente norte-americano, seria talvez -Colombo, mas Colombo em navios portuguezes, que teria realizado a -empreza que de tão justa gloria rodeiou o seu nome. Mas razão tem de -sobra o nosso illustre patricio, o eminente escriptor Ernesto do Canto, -quando diz: «Foi certamente com a pratica da navegação para os Açores -que os pilotos portuguezes se aperfeiçoaram nos processos de observar os -astros para d’essas observações deduzirem a sua posição nas solidões do -Oceano ou das terras que demandavam. Sem esta escola todo o progresso -seria lento. A existencia e o achado do archipelago açoriano foi pois a -causa determinante das posteriores e importantes descobertas do seculo -XV.»[83] E razão tem ainda quando encima o capitulo IV da sua obra com -esta affirmação justiceira: «Os Açores foram um posto avançado para -a descoberta da America e um fóco de irradiação para as explorações -maritimas.»[84] - -Como podiam os açorianos pois desprender a sua attenção d’essas terras do -occidente se ellas a cada instante se faziam lembradas, arrojando-lhes -troncos de arvore, pedaços de madeira lavrada, canoas e até cadaveres de -homens de estranha physionomia?[85] Era o que succedia tambem na Irlanda, -e o que tambem incitava os Irlandezes a procurar essas mysteriosas -terras. Note-se, porém, que as circumstancias eram um pouco differentes. -O genio aventuroso e emigrante dos celtas da Irlanda podia-os levar, e -levava-os effectivamente, a navegar para os lados occidentaes; em todo o -caso os Irlandezes estavam na sua patria e na sua casa, viviam na terra -em que tinham nascido, prendiam-se ao solo por estas mil raizes tenues e -poderosissimas que reagem insensivelmente contra o espirito de aventura, -emquanto que esses primeiros colonos dos Açores, transplantados do solo -natal, arrastados alli pelo desejo de tentar fortuna, achavam-se já -elles proprios em plena aventura, estavam fundeados no meio do Oceano, -e emquanto esse navio, porque até as agitações vulcanicas das ilhas -faziam com que o solo lhes palpitasse debaixo dos pés como a tolda de uma -embarcação, se não tornava para elles uma nova patria, estavam promptos -sempre a saltar para as lanchas e a ir demandar nova poisada. Succedia um -pouco a mesma coisa aos Madeirenses, mas esses, mais proximos da Africa, -menos mettidos pelo Oceano, para a Africa, que era a grande e exclusiva -preoccupação portugueza, voltavam naturalmente a attenção e os esforços. -Os Açorianos, destacados perfeitamente do grande corpo de exercito, fóra -da corrente das navegações methodicas que o infante D. Henrique dirigia, -para o occidente e só para o occidente deixaram voar as suas aspirações. - -É a prova d’isso que nós encontramos no proprio Herrera quando dá -conta das revelações que incitaram Colombo a intentar a sua empreza. -Foi a narrativa do piloto açoriano Martim Vicente, que, navegando a -450 leguas da costa de S. Vicente, encontrou boiando nas aguas um -pedaço de madeira lavrada; foi a dos mareantes, que, saindo do Fayal, -correram 150 leguas ao occidente, e que, voltando, encontraram a ilha -das Flores. E, como n’um escripto publicado ultimamente na _Illustracion -española y americana_ se tratava com desdem este facto, alcunhado -até de phantastico, paremos um instante para mostrar a sua perfeita -authenticidade. - -Foi Herrera que escreveu o seguinte: «Uno llamado Diogo de Tiene -(_Teive_), cuyo piloto Diego Velasques vezino de Palos, afirmó a Don -Christoval Colon, en el monasterio de Santa Maria de la Rabida, que se -perdieron de la isla del Fayal, y que anduvieron cento y cincuenta leguas -por el viento Leveche, que es el Sudueste; y que á la buelta descobriron -la isla de las Flores, guiandose por muchas aves que vian boiar házia -allá, las quales conocieron que non eran marinas.»[86] - -Lembram-se os leitores de que o proprio Christovam Colombo, no seu -_Itinerario_, quando diz os motivos porque mudou em certa altura o rumo -da sua viagem, refere que o principal foi o exemplo dos Portuguezes, que, -seguindo o vôo das aves, tinham descoberto as suas ilhas. - -Mas temos mais, temos o documento authentico que mostra que foi -effectivamente esse Diogo de Teive que descobriu a ilha das Flores. É a -carta de doação da ilha das Flores a Fernão Telles, feita por D. Affonso -V em Estremoz a 28 de janeiro de 1475, e onde diz: - -«Outrosim nos praz e queremos que o dito Fernão Telles tenha e haja e -assim seus successores as ilhas que chamam das Flores _que pouco ha que -achára Diogo de Teive e João de Teive seu filho_, e elle dito Fernão -Telles ora houve por um contracto que fez com o dito João de Teive, filho -do dito Diogo de Teive que as ditas ilhas achou e tinha, e isto n’aquella -forma com aquellas condições e maneira que as elle houve do dito João -de Teive e que ficaram por morte do dito seu pai e no dito contracto é -contheúdo.»[87] - -Mas os documentos não faltam para provar a actividade febril com que os -Açorianos se arrojavam ao mar Oceano. N’essa mesma carta de doação se -vê que Fernão Telles era um dos exploradores ou dos emprezarios d’essas -explorações: - -«A nós praz, diz El-Rei, que indo elle ou mandando seus navios ou homens -nas partes do mar Oceano ou alguem que por seu mandado a isso vá, lhe -fazemos mercê, pura e irrevogavel doação para todo o sempre, como logo -de feito fazemos, de quaesquer ilhas que elle achar ou aquelles a que as -elle mandar buscar novamente e escolher para as haver de mandar povoar, -não sendo pois as taes ilhas nas partes de Guiné.»[88] - -Felizmente os documentos publicados pelo sr. Ernesto do Canto lançam -vivissima luz n’este periodo preparatorio do descobrimento da America, -e explicam com uma clareza perfeita as questões relativas a Colombo e a -Portugal. Assim vemos primeiramente que os Açorianos e os Madeirenses -não deixam de procurar terras para o occidente, e que tratam de obter -do governo as concessões necessarias para que das suas conquistas e -descobertas tirem a utilidade que desejam; segundo que os reis se -mostram prodigos em fazer a esses exploradores todas as concessões -desejadas, comtanto que do real thesouro não tenham de gastar nem mealha, -e que esses exploradores por conta propria não vão entender com os -descobrimentos para o lado da Guiné, que esses reservam-n’os para si ou -para a ordem de Christo os soberanos portuguezes. E tão arraigado estava -no espirito dos soberanos o desdem pelas viagens occidentaes que, ainda -depois de descoberta a America, o proprio Gaspar Côrte-Real fez a viagem -em que descobriu a Terra-Nova completamente á sua custa. - -Vejamos então a fórmula das concessões dos reis: - -Temos em primeiro logar a concessão feita a 21 de junho de 1473 a Ruy -Gonçalves da Camara, filho segundo de João Gonçalves Zarco, o qual manda -dizer a el-rei, segundo na carta se diz, «como o seu desejo e voomtade -era buscar nas partes do mar ouciano huumas ylhas para as aver de povorar -e aproveytar». E o rei declara-lhe que «de huma ilha que elle perssy ou -seos navyos achar, com outorga e prazer do principe meu sobre todos muyto -prezado e amado filho, pura e yrrevogavell doaçom valledoyra amtre vivos, -jure erdatore pera elle e todos seus erdeyros que delle decemderem assy e -tam compridamente como ella a noos perteemce e de dereyto pertemcer deva -e esto com todollos foros dereytos e trebutos em ella em qualquer tempo -a nos poderiam perteemcer despoys que povoada seja sem acerqua de nos -ficar cousa algua. E como sse começar a povoar logo lhe fazemos mercee -de toda a jurdiçom civell e crime mero misto ymperoi em todallas pesoas -que em ella morarem e a povoarem ressalvando somente pera nos alçada -de morte ou talhamento de membros nos feitos crimes porquanto queremos -e nos praz que em todo o all assy civel como crime elle aja todo sem -superioridade algua. E per os homens teerem mays rezom de a hyrem povoar -a nos praz que todollos vezinhos e moradores em a dita ylha ajam todollos -privillegios liberdades e framquezas que per nos e nossos antecessores -sam dados e concedidos e outorgados aos vezinhos e moradores da ylha -da Madeira que ora he do dito duque meu muyto prezado e amado sobrinho -dos quaes queremos que gouvam os vizinhos e moradores em ella fazendo -certo dos privilegios da dyta ylha da Madeyra e pruvica escriptura. E -per esta presemte damos licença e logar ao dito Ruy Gonçalvez a que assy -fazemos mercee da dita ylha que possa dar forall aos que a ella forem -morar e a povoarem. O qual forall que lhe elle assy der queremos que seja -firme e valha como sse per nos lhe fosse dado e outorgado e per elle -sejam obrigados todos aos juizes, e justiças, officiaes e pessoas fazer -comstranger os moradores e povoadores della como os comstramgeriamos per -lex e ordenações nossas que per assi teer pera ello nossa autoridade, nom -menos vigor deve a teer aver como se per nos fosse fecto».[89] - -Vimos que a carta de doação a Fernão Telles tambem lhe confere a posse -das ilhas que descobrir, mas logo em seguida a essa carta vem outra de -10 de novembro de 1475, em que se dão umas explicações bem proprias -para esclarecer as navegações d’esse tempo, e destruir completamente -as mesquinhas duvidas postas ácerca da prioridade dos descobrimentos -portuguezes no Atlantico por extrangeiros que só muito superficialmente -estudaram a historia portugueza. Na carta de 28 de janeiro não se falava -senão em ilhas que Fernão Telles mandasse povoar, e então o rei explica: -«E poderia ser que em elle as assi mandamdo buscar _seus navios ou jente -achariam as sete cidades ou alguuas outras ilhas poboadas que ao presemte -nom som navegadas, nem achadas, nem trautadas per meus naturaaes_ e se -poderia dizer que a mercee que lhe assi tenho fecto nom se deve a ellas -estender per assi serem poboadas.»[90] - -E declara então que a mercê tambem a essas se estende e que dá a Fernão -Telles sobre os habitantes d’essas ilhas os mesmos direitos que lhe -concede sobre os povoadores que elle mandar para as ilhas desertas. - -O que se vê d’aqui? Vê-se que os Portuguezes procuravam muito -ingenuamente no Oceano as ilhas que a phantasia dos cartographos -estampava nos mappas, que tinham viva crença na existencia verdadeira da -ilha das Sete Cidades e na ilha de S. Brandão, e da Mayda e da Mão de -Satanaz, da Antilha e da ilha do Brazil, e em todas as que nos mappas -appareciam, filhas das conjecturas da geographia medieval ou antiga, -e, se effectivamente as encontrassem, longe de quererem fazer suppor -ao mundo que tinham encontrado terras cuja existencia era de todos -desconhecida, se ufanariam de ter achado o que no mappa se designava, e -a descoberta das ilhas desertas e vulcanicas dos Açores, e da propria -ilha da Madeira toda coberta de bosques não era para elles senão um -desapontamento, porque as ilhas que elles cubiçavam, as ilhas celebres, -as ilhas dos mappas, essas fugiam-lhes constantemente das mãos. - -Que espanto seria o d’esses navegadores, e dos seus contemporaneos se -podessem ter conhecimento das duvidas modernas! Como achariam extranho -que se lhes dissesse que só encontraram os Açores, porque a posição dos -Açores estava indicada nos mappas, quando elles levaram annos a passar de -umas para as outras ilhas que teriam n’uma só viagem encontrado se fosse -pelos taes mappas que se guiassem![91] e como o infante D. Henrique -ficaria surprehendido ao ver Humboldt encontrar a prova do conhecimento -anterior dos Açores no facto d’elle ter dito a Gonçalo Velho Cabral, -depois da descoberta das Formigas, que voltasse porque havia de encontrar -nas suas proximidades uma ilha! muitas ilhas era o que deveria dizer-lhe, -visto que o mappa lhe dava um archipelago. Como se espantaria de que um -homem de sciencia como Humboldt não percebesse que o descobrimento de uns -recifes como as Formigas com muita probabilidade indicava a proximidade -de terra! Mas o grande espirito do sabio allemão estava evidentemente -coberto com a nuvem do preconceito. - -Assim vemos que o sonho das terras para o occidente e o sonho das -ilhas do mar Oceano provocou a mente dos açorianos e dos madeirenses -a arrojar-se ás perigosas aventuras. O rei facultava aos aventureiros -tudo o que elles podiam desejar, menos dinheiro. A Guiné e o caminho -para a India por esse lado eram a preoccupação constante do governo -portuguez, que em todas as cartas estabelece bem o principio de que -elle faz todas essas concessões, comtanto que as ilhas descobertas não -fiquem nos mares da Guiné. Basta a leitura d’estas cartas para que se -veja a impossibilidade do legendario descobrimento da Terra Nova por João -Vaz Côrte Real, com que se tem procurado attenuar a gloria de Colombo. -Percebe-se logo que o governo portuguez não podia dar a capitania da ilha -Terceira em recompensa a quem descobrisse a Terra Nova, quando o que elle -promettia aos descobridores era simplesmente a capitania das terras que -descobrissem como fizera com a ilha da Madeira. E seria singular tambem -que o descobridor de uma nova ilha, em vez de receber a capitania d’essa -ilha e de a povoar e aproveitar, a abandonasse completamente e recebesse -como premio d’esse descobrimento inutil a capitania de uma ilha já -povoada e aproveitada, isto quando em 1473 o rei D. Affonso V, deferindo -o requerimento de Ruy Gonçalves da Camara, dizia: «E visto per nos sseu -requerimento e por que a nos perteemce primcipalmente as cousas desertas -e nom aproveytadas fazer povoar e aproveytar pelo carrego que per deos -nos he dado emquamto per sua graça tinhamos o regimento destes rregnos e -senhorios que teemos». - -Veremos no capitulo immediato como era absurdo que o rei fizesse a -Toscanelli perguntas ácerca do problema do occidente no mesmo anno em -que João Vaz Côrte Real lh’o resolvia quasi, e como é mais absurdo ainda -que D. João II, rei habilissimo e zeloso do seu dominio, estabelecesse -no tratado de Tordesillas um artigo transitorio que sacrificava, sem -uma palavra de cedencia ao menos, terra descoberta por Portuguezes; -agora mostraremos apenas que tudo é falso no que se allega com relação -ao descobrimento de João Vaz Côrte Real. A falta de seriedade historica -do auctor da _Historia Insulana_, Antonio Cordeiro, não deixára de -impressionar os que mais se interessavam por essa reinvidicação -portugueza, mas reanimava-os um pouco o verem que a noticia já Antonio -Cordeiro a encontrára em Gaspar Fructuoso, auctor das _Saudades da -terra_; mas Gaspar Fructuoso pertence tambem ao grupo d’aquelles -historiadores que entendem que são licitas as mentiras quando d’ellas -pode resultar a glorificação de um paiz, principio leviano contra o qual -protestamos quando Villaut de Bellefond o aproveita contra nós e em -beneficio da Normandia, mas que nos parece bem quando redunda em nosso -favor. Gaspar Fructuoso, apesar de ter um merito superior ao do seu -desastrado copista que outra coisa não é Antonio Cordeiro, não deixa de -ser um auctor que acceita todas as lendas quando as reputa honrosas para -os seus heroes.[92] - -Ora Antonio Cordeiro diz que em 1464 foram dadas as capitanias da ilha -Terceira a Alvaro Martins Homem e João Vaz Côrte Real como recompensa da -descoberta da Terra do Bacalhau que por ordem regia tinham effectuado. - -Em primeiro logar não era o rei que dava as capitanias dos Açores que -pertenciam ao donatario seu irmão D. Fernando; em segundo logar a doação -da capitania de Angra é feita pela _infanta D. Beatriz, viuva de D. -Fernando_, a 2 de abril de 1474, nem ella a podia ter feito em 1464, -porque então ainda vivia seu marido; em terceiro logar a infanta o que -recompensa são «os serviços que João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa -do dito senhor meu filho, fez a seu padre que Deus haja, depois a mim -e a elle»;[93] em quarto logar Alvaro Martins já tinha uma capitania -da ilha Terceira muito antes de João Vaz, tanto que a carta de doação a -Alvaro Martins, em 17 de fevereiro de 1474, allega o seguinte motivo: -«Considerando eu como entre Jacome Bruges e Alvaro Martins, _capitão da -sua ilha Terceira de Jesus Christo_, sempre houve alguns debates por a -terra da dita ilha não se ter de todo partida...»[94] - -Gaspar Fructuoso o que diz simplesmente, e n’um capitulo inçado de erros -historicos evidentissimos, recheado de lendas, e em que parece até que -ignora a existencia do grande Gaspar Côrte Real, é que, «vindo João Vaz -Côrte Real do descobrimento da Terra Nova dos Bacalhaus, que por mandado -de el-rei foi fazer, lhe foi dada a capitania de Angra da Ilha Terceira e -da Ilha de S. Jorge.»[95] - -Sem nos alongarmos em considerações basta que citemos os seguintes -documentos: a carta de doação de 12 de maio de 1500, em que D. Manuel -concede a Gaspar Côrte Real as terras que descobrir, _per sy e a sua -custa... por ho asy querer fazer com tanto trabalho e perigo_,[96] e a -carta de doação de 17 de setembro de 1506, que transfere para Vasco Annes -Côrte Real a doação da Terra Nova, «avemdo respeyto e lembramça como o -_dito Gaspar Corte Real seu irmão ffoy o primeiro descobridor das ditas -teras_.»[97] - -O que se deprehende de tudo o que diz Gaspar Fructuoso é que João Vaz -Côrte Real era nos Açores um heroe legendario, um forte e um intrepido. -Formara-se a lenda em torno d’elle. Pae de uma familia de navegadores, -foi de certo navegador elle mesmo. Como tantos outros dos seus patricios, -procurou tambem talvez, como elles, desvendar os segredos do occidente, -mas voltou sem ter encontrado novas ilhas e novas terras. Teria ido -talvez mais longe do que Diogo de Teive, que chegou a cento e cincoenta -leguas ao occidente do Fayal, mas, se o fez, desanimou tambem e voltou -sem encontrar a cubiçada terra. Foi mais feliz seu filho, e mais feliz -porque o exemplo de Colombo pozera termo aos desanimos, e se nova prova -fosse necessaria basta lembrarmo-nos que Martim de Behaim, o famoso -geographo, que acariciou ardentemente o mesmo ideal de Colombo, que tudo -queria saber do que se passava para o occidente, que viveu nos Açores em -alta situação, que alli trabalhou, pensou e elaborou os seus trabalhos -geographicos, ao fazer o globo de Nuremberg, em 1492, n’elle não inseriu -a Terra Nova dos Bacalhaus, apesar de se não esquecer de inserir as ilhas -phantasiadas. - -É no meio d’este grupo de marinheiros intrepidos, devorados da -curiosidade do Oceano, que não pensam senão nas suas secretas maravilhas, -que não sonham senão com prestigiosas terras, cercadas por todas as -miragens do mar e por todas as miragens da phantasia, por todas as -confidencias mysteriosas que as correntes pelagicas lhes trazem de -remotos mundos, é n’este synhedrio de pilotos que não ignoram o que -dizem os livros, mas que sabem sobretudo o que diz o livro immenso do -mar, que apparece de subito a figura pensativa e ardente de Christovam -Colombo. N’essas torres de atalaya, como que erguidas pela natureza -no seio dos mares, debruça-se a mirar sofregamente o Oceano o rosto -ardente do Genovez. Era o homem providencial, um d’estes homens em que -se incarna fatalmente a idéa que fluctúa sobre uma geração revolvida -pela ancia do desconhecido no mundo physico ou no mundo moral. Se o -problema do Occidente preoccupa já todos os espiritos na Europa, nos -Açores e na Madeira apresenta-se com dobrada intensidade. Não volta -um navio do occidente que não se trate logo de saber se traz comsigo a -noticia de um novo descobrimento. Por uma coincidencia singular quasi ao -mesmo tempo apparece nos Açores um homem intelligente e sabio, Martim -de Behaim, que se sente tambem arrastado pela invencivel convicção de -que ha terras para o lado do occidente, e que é por alli o verdadeiro -caminho da India. Esse homem tem na sua vida singulares relações com a de -Colombo. Este casou com a filha do donatario de Porto-Santo, aquelle com -a do donatario do Fayal; um foi á Guiné nos navios portuguezes, o outro -foi em navios portuguezes até ao Zaire. Mas um é allemão, um diplomata, -um burguez, um discipulo correcto e regular de um dos maiores sabios da -Europa, Regiomontanus; o outro é um italiano, um sonhador, um irregular, -um estudante incompleto. O primeiro encontra facil accesso junto aos -principes e nas universidades, o outro não acha muitas vezes nos altos -logares senão repulsas e desdens; mas este é um perseverante, um ardente, -um allucinado, o seu convencimento é uma paixão que o absorve, que o -devora. O que actua n’elle não é tanto o raciocinio como a visão. A alma -do infante D. Henrique parece renascer n’elle. Passou de Sagres para o -Porto-Santo o vulto do asceta. Secularisou-se apenas; já não é o monge -militar, é o cavalleiro andante, mais affectivo, mais dulcificado pelo -seu conhecimento do amor, mas tendo a mesma paixão pelos ideaes da fé -e da sciencia. E como sempre são estes inspirados os que attraem por um -magnetismo indizivel as idéas audaciosas que fluctuam no ar, como em D. -Henrique se incarnaram todas as aspirações de um mundo que anceia por -quebrar as grades do carcere em que a tradição o encerra, foi tambem em -Colombo que se incarnaram todas essas idéas que pairavam na atmosphera -do seculo XV, e muito especialmente na atmosphera açoriana e madeirense. -Triumphou mais uma vez o sonho sobre a razão, a dilatação da phantasia -inflammada sobre o trabalho mecanico e lento do raciocinio, o meridional -expansivo e apaixonado sobre o septentrional fleugmatico e frio, e foi -Christovam Colombo e não Martim de Behaim quem resolveu o segundo dos -grandes problemas geographicos. - - - - -VIII - -Christovam Colombo e D. João II - - -Quando Christovam Colombo, que viajára largamente, que estivera na -Islandia e na Guiné, que estivera nos Açores, e que, casando com a filha -de Bartholomeu Perestrello, tivera demorada residencia no Porto-Santo -e na Madeira, combinou tudo o que lhe diziam os pilotos portuguezes, -tudo o que os seus olhos viam n’essa terra da sua residencia, com o -que encontrou nos livros, e sobretudo nos seus livros predilectos, os -geographos antigos e a _Imago Mundi_ de Pedro d’Ailly, fixou-se no seu -espirito, de um modo indelevel, a convicção de que era perfeitamente -possivel chegar á Asia partindo dos Açores, e communicou essa idéa ao rei -de Portugal. - -Actuou por acaso, de algum modo, no espirito de Colombo a viagem que elle -fez á Islandia, e onde poude ter conhecimento das viagens dos navegantes -escandinavos do seculo XII, que chegaram á Groenlandia e até á America do -Norte, que elles denominaram Vinlandia? Não, decerto. Que tinham que vêr -esses paizes do Norte com o seu sonho da Asia encontrada pelo occidente? - -Que houvesse para além da Islandia mais ilhas e mais terras, não era -caso de espanto. Hoje que conhecemos toda a terra sabemos a importancia -que isso tinha, então nenhuma se lhe ligou, nem nenhuma se lhe ligara -no seculo XII. As descobertas não têem importancia pelo que hoje se -reconhece que teriam, mas pela que tinham realmente na occasião em que se -fizeram. O problema era, como dissemos, o seguinte: atravessar o Oceano -Atlantico em toda a sua largura. Passar da Islandia á Groenlandia e da -Groenlandia ao Vinland era façanha muito menos importante do que a que -praticaram os Portuguezes descobrindo os Açores.[98] - -Seriam por outro lado as instancias de Colombo ao governo portuguez que -levaram el-rei D. Affonso V a perguntar a Toscanelli em 1474 se suppunha -que se podesse chegar á India caminhando-se pelo occidente? É possivel -que não. Como sabemos, esse problema já atormentava as imaginações -dos que se preoccupavam com as questões geographicas, e era assumpto -de vivos debates. A concessão feita em 1473 por D. Affonso V a Ruy -Gonçalves da Camara e que já aqui mencionámos, leva-nos a suppôr que o -fidalgo portuguez não a obteria tão simples e tão despida de auxilio -governamental sem ter instado com o rei para obter um subsidio ou um -apoio mais efficaz do que a concessão platonica das pelles de urso, que -Ruy Gonçalves obteria se matasse os ursos. Logo veremos que havia esses -pedidos, e que D. João II em occasião importante lhes prestou ouvido mais -attento. Foi, decerto, então que el-rei perguntou a Toscanelli o que -pensava a este respeito, e que recebeu de Toscanelli a resposta de que -Colombo, ancioso tambem de conhecer a opinião do sabio geographo, não -deixou de ter conhecimento, porque o proprio Toscanelli lh’a communicou. - -Que facil ensejo tinha Humboldt de demolir a gloria de Colombo, como -pretendeu demolir a dos navegadores portuguezes! Se ha carta que possa -mostrar que as Antilhas eram conhecidas antes de Colombo é a carta -de Toscanelli. O grande geographo italiano conhece o caminho como -conheceria o caminho da sua casa. Sabe a distancia a que fica a Asia, os -archipelagos que o navegador ha de encontrar no caminho, e tudo isso vae -para o mappa como se fosse traçado á vista das terras! E os archipelagos -lá estavam effectivamente como os Açores, como a Madeira, como as ilhas -que se descobriram e as que se não descobriram. Acontecia ás ilhas o que -acontece ás prophecias. Com um pouco de boa vontade sempre ha algumas -que, mais ou menos, parece que saem certas. - -Nós porém é que não vemos as coisas com os olhos da parcialidade, -e applicamos a todos o são preceito de Humboldt que elle tão pouco -respeita. As cartas da edade média são excellente elemento de estudo -quando se analysam com criterio, quando se não perde de vista o -pensamento de que ellas encerram o que realmente se descobriu e o que -os sonhadores conjecturavam que se podia descobrir. Os navegadores -d’esse tempo é que não sabiam as maravilhas que praticavam, e a sua -aspiração não era encontrar terras desconhecidas, era encontrar as terras -adivinhadas. Se os Açores e a Madeira estivessem em mappas anteriores, -os Portuguezes exclamariam com enthusiasmo: São estas mesmas! O maior -prazer d’esses navegantes, quando chegassem á Antilha ou á ilha de S. -Brandão, seria bradarem com orgulho e com ufania: Encontrámos a ilha de -S. Brandão, encontrámos a Antilia, como Fernão Telles ía pelos mares fóra -com a esperança de encontrar a ilha das Sete Cidades. Este é que era o -criterio que os Portuguezes applicavam á descoberta das costas africanas. -Todo o seu desejo era confirmarem o periplo de Hannon e as theorias da -antiguidade. Foi para elles um desapontamento reconhecerem que um rio que -descobriram era o Senegal, completamente ignorado pelos antigos, em vez -de ser o Nilo dos Negros, cuja existencia a sabia antiguidade affirmava, -e que os Portuguezes só aspiravam a confirmar. - -Que impressão produziria a opinião de Toscanelli não no animo de D. -Affonso V, que tinha outros pensamentos e outras ambições, mas no de D. -João II, logo que subiu ao throno, e começou a pensar sériamente nos -descobrimentos? Não muita, e de certo contribuiria para isso, bastante, -o proprio movimento maritimo dos Açores. É bem natural que os mareantes -que voltavam d’essas expedições de tentativa exaggerasem o espaço de mar -que tinham percorrido, sem encontrar signaes de terra. Demais as idéas -geographicas dos antigos ainda dominavam muito os espiritos. O systema -geographico de Ptolomeu e dos seus adeptos não fôra alluido todo e de -uma vez só. Ia caindo aos pedaços, mas ficava de pé o que se não demolia -directamente. Ora uma das idéas favoritas da geographia antiga era a -grande extensão dos mares. Suppunha-se que de toda a terra só a septima -parte estava fóra das aguas. Colombo sustentava a opinião contraria, dava -razões de equilibrio, mas não conseguia facilmente derrubar o preconceito. - -Accrescente-se ainda que tudo parecia indicar que os Portuguezes se -achavam no caminho verdadeiro da India. Qual era a opinião antiga? que -a costa africana occidental, _antes de se chegar ao equador_, voltava -para o oriente e ia ou á Africa Oriental ou á Asia. Se as viagens -portuguezas tivessem mostrado que esse facto se não dava, e, ao mesmo -tempo, a zona torrida fosse inhabitavel, estavam perdidas todas as -esperanças, mas as viagens portuguezas tinham demonstrado exactamente -que não havia zonas inhabitaveis, logo podia-se proseguir com afoiteza, -que mais longe ou mais perto havia de se chegar ao fim do continente -africano e havia de se voltar para a India. Corria-se o perigo de se -entrar na zona glacial antarctica? Embora! Como era natural, passava-se -de extremo a extremo. Desde que se descobrira que a zona torrida não -era inhabitavel, conhecia-se que não havia zonas inhabitaveis, e que se -poderiam atravessar as zonas glaciaes como se estava atravessando a zona -torrida.[99] - -E note-se que a idéa de que teria de se dobrar um cabo quando se chegasse -ao fim da peninsula africana, estava tambem em todos os espiritos, e -era a conjectura natural da geographia. As peninsulas, sabia-se bem, -terminam geralmente em promontorios. Portanto o empenho de D. João II -estava todo concentrado no proseguimento das descobertas africanas. Não -podia elle, diz-se, se tinha confiança, como sabemos que tinha, não -no projecto do Genovez, mas no seu talento, e nos seus conhecimentos -maritimos, confiar-lhe duas caravelas? Não, porque isso era completamente -contrario ao seu systema de exploração. As tentativas dos Açorianos e dos -Madeirenses, protegia-as o governo, fazendo-lhes larguissimas concessões -nas terras que descobrissem, mas não as subsidiava, nem consentia tambem -que elles interferissem nas descobertas reservadas para si. As terras -concedidas eram-n’o com a condição de não serem nos mares da Guiné. - -Ah! Se Christovam Colombo armasse duas caravelas á sua custa, ou -conseguisse que um capitalista o _commanditasse_, com que facilidade -elle obteria de D. João II todas as concessões que desejasse! Foi uma -felicidade para o mundo que Colombo não tivesse dinheiro para a empreza, -nem socios capitalistas. Se os tivesse, quando percorresse tanta extensão -de mar sem encontrar terra, quando visse a perspectiva de perder -completamente o seu dinheiro ou o dos seus socios, talvez não ousasse -proseguir, e decerto lh’o não consentiriam os que representavam a bordo -os interesses dos armadores. Para se levar a effeito essa obra grandiosa -era necessario que estivesse empenhada no triumpho a honra de uma nação! - -Como é que aquelle grande espirito de Christovam Colombo não inflammou no -seu enthusiasmo o espirito, que passa tambem por ter sido grande, de D. -João II? Enganou-se a historia no seu juizo? Era, afinal, o rei D. João -II um espirito vulgar, ou pelo menos um espirito absolutamente pratico -e forte em todas as questões da vida positiva e real, mas desdenhoso -de tudo o que excede os limites do seu horizonte? ou por acaso não -tinha elle pelas coisas geographicas o interesse real que manifestava, -ou não tinha d’ellas o conhecimento que se lhe attribue? Não, não, -nada d’isso. D. João II foi realmente um dos grandes principes do seu -tempo, um dos soberanos que estavam mais á altura de comprehender os -grandes projectos dos descobrimentos. O proprio Colombo o diz a cada -instante, Toscanelli farta-se de o affirmar: o rei de Portugal era o -soberano que melhor entendia de coisas geographicas, o nosso grande -rei! diz Colombo ás vezes. E comtudo Colombo não conseguiu captival-o. -É quasi incomprehensivel esse facto, mas talvez se explique um pouco se -analysarmos os caracteres de um e de outro. - -Ha, naturalmente, duas especies de organismos entre os homens da mais -alta esphera: os desequilibrados e os equilibrados. Á primeira pertencia -Christovam Colombo, á outra D. João II. D. João II era um d’estes -fortes espiritos, perfeitamente assentes n’uma base segura, que têem a -perspicacia, a energia, as concepções arrojadas mas nunca desmandadas, -espiritos capazes de formarem um plano e de o desenvolverem serenamente, -completamente desembaraçados da rotina, amando e acolhendo as innovações, -mas não sem as sujeitarem ao criterio do seu lucido juizo. Homens assim, -n’este jogo da existencia têem as cartadas atrevidas mas calculadas, -nunca se entregam aos irreflectidos caprichos do azar. O perigo não os -assusta, e affrontam-n’o quando é necessario, mas não o procuram por uma -vã fanfarronada de cavalleiros andantes. Soldado, ninguem o foi como D. -João II: em Arzilla escureceu a fama dos mais denodados cavalleiros, em -Toro a ala que elle commandava internou-se no mais denso das fileiras -dos castelhanos e destroçou-as, emquanto a ala commandada por seu pae -era desbaratada pelo inimigo, mas depois de subir ao throno nunca mais -teve uma guerra, nem entrou n’uma peleja. As guerras de Portugal tinham -de ser com o Oceano, os combates do rei com a sua nobreza rebelde. É -um organisador e não um aventureiro, o que o não impede de querer a -grande aventura da India, mas prepara-a, organisa todos os elementos de -successo, antes de jogar a cartada decisiva. - -A razão é a faculdade que domina o seu espirito, a imaginação é a escrava -obediente. É inaccessivel aos vagos terrores que tão facilmente assaltam -os nervosos e os phantasistas. Uma noite, e já depois d’elle ter cercado -de cadaveres o seu throno, no cumprimento implacavel da sua missão -centralisadora, sente baterem de noite mysteriosamente á porta do quarto -onde dormia com sua esposa. Levanta-se e vai ver quem é. Ninguem, mas ao -longe uns passos mysteriosos, como que um vago deslisar de sombras. Jaz -em silencio e na escuridão da meia-noite o palacio todo. Vive-se n’uma -epocha de crenças e de superstições. É algum dos espectros das suas -victimas que o vem chamar para a expiação? D. João II sorri-se com este -pensamento, vai, segue o passo mysterioso, vai até aos sotãos em sua -obstinada procura, só, com a sua espada e uma luz, e quando os servos, -acordados pelos clamores da rainha, correm em sua busca, vão encontral-o -n’um desvão, sondando com a luz os recantos sombrios, impassivel e sereno -como quem não comprehende sequer os pavores da superstição. - -De toda a sua raça o homem a quem mais se assemelha pelas tendencias -nobres do seu espirito é o infante D. Pedro, mas este possuia uma -qualidade que arredondava todos os angulos do seu caracter, que amaciava -todas as durezas do seu pensamento: a bondade feminil, que elle herdara -de sua mãe, D. João II tinha a violencia do bisavô, sem ter ao seu -lado a mulher propria, como Filippa de Lencastre, para attenuar as -asperezas da indole do matador do conde Andeiro. D. Leonor era uma nobre -e intelligente senhora, não adquirira comtudo influencia sobre o seu -terrivel marido, porque não era amada. Mas a alta razão, a comprehensão -de todos os grandes emprehendimentos, a cultura que o punha a par do -seu seculo, a reacção contra as tradições medievaes, que eram a sombra -povoada de visões, quando elle sonhava uma sociedade radiante de luz e -de sciencia e dominada pela Ordem: tudo isto tinha D. João II. D. João -II era a Renascença que principiava com os ideaes de Platão e o culto -da sciencia antiga seriamente estudada e seriamente comprehendida, e -Colombo, que mais do que ninguem ia contribuir para a Renascença, era -comtudo pelas tendencias do seu espirito o ultimo representante d’essa -meia edade bellicosa e mystica, que, antes de se sumir para sempre, -legava ao mundo que nascia a realisação do seu ultimo sonho cavalheiresco. - -Imagine-se agora Colombo tratando com D. João II, que o ouve, que o -attende, que percebe que não tem deante de si um homem vulgar, mas que -desconfia, que hesita deante d’aquelles projectos meio mysticos, meio -scientificos, deante d’aquella exuberancia de palavras e de pensamentos -que não quadra ao seu espirito nitido, e conciso. Colombo é um italiano, -com aquella prodigalidade de palavras e de formulas obsequiosas, -caracteristicas da raça. O que era elle? um sabio ou um charlatão? Se do -sublime ao ridiculo apenas vai um passo, como Napoleão dizia, de um homem -de genio que traz uma idéa fecunda a um charlatão que traz um elixir -tambem a distancia não é grande. Colombo, profundamente convencido, -era prodigo de promessas e não menos de exigencias. Os thesoiros que -elle encontrasse no Cathay destinava-os, segundo dizia, á conquista do -Santo Sepulcro. Ora a conquista do Santo Sepulcro era, sem desfazer -nos sentimentos christãos de D. João II, _le cadet de ses soucis_. -Christovam Colombo enganara-se na porta. Essas declarações eram optimas -para D. Affonso V, detestaveis para D. João II. Tudo quanto cheirasse a -cavallaria andante, a cruzadas, e a romances em acção, encontrava em D. -João II um antagonismo ferrenho. E percebe-se que assim fosse, desde o -momento que fôra tudo isso que estivera quasi arruinando Portugal, que -fôra tudo isso que fizera a desgraça de D. Affonso V e que era a esses -bellos sonhos que D. João II devia o ter ficado, como costumava dizer, -por morte de seu pae, rei das estradas de seu reino. - -Ainda havia um facto que não podia produzir boa impressão em D. João II. -Arrastado pelo ardor das suas convicções, como acontecia com Toscanelli, -Colombo dizia conhecer a distancia exacta a que ficava Cipango de -Portugal. Ora D. João II era um espirito bastante positivo para perceber -o que havia de absurdo em semelhante calculo, e a segurança manifestada -por Colombo mais ainda o punha em guarda contra os seus projectos. - -Hoje que os factos mostram como Colombo tinha razão, todos imaginam que -só o espirito de rotina podia fazer com que elles fossem regeitados. E -comtudo, examinando-os bem comprehende-se que espiritos positivos não -acceitassem. Colombo suppunha por exemplo que a relação entre a terra e -o mar era de 7 para 1, quando a verdade é que essa relação é de 1 para -2,7, ou mais exactamente de 29 para 82.[100] Quaes eram as razões em -que elle se baseava para suppor que a Asia estava proxima da Europa? -Sobretudo as que deduzia das affirmações da sciencia antiga. Segundo -Ctésias a India formava metade da Asia, Plinio suppunha que era só por si -o terço da superficie do globo, Nearcho sustentava que eram necessarios -quatro mezes de caminho para se chegar á extremidade oriental da India, -e Strabão que até esse extremo oriental ninguem poderia conduzir um -exercito. O geographo a que Colombo se encostava para avaliar a distancia -que tinha a percorrer não era Ptolomeu, era Marino de Tyro. Ptolomeu -sustentava que a terra habitada entre o meridiano das ilhas Afortunadas -e o meridiano de Sera, quer dizer da China, era de 177°¼, portanto o -espaço de mar a percorrer era de 182°¾, visto que o parallelo tem 360°. -Marino de Tyro sustentava que a porção de terra habitada era de 225°, -portanto o espaço de mar a percorrer limitava-se a 135°; mas Colombo -fazia conjecturas que ainda diminuiam este espaço. Effectivamente dizia -elle que Marino não chegára á extremidade oriental da Asia em 15 horas -(calculando-se as longitudes em tempo, e correspondendo cada hora a 15°) -porque a extremidade oriental da Asia ficava muito além do ponto marcado -por Marino. Portanto a distancia de mar entre a extremidade oriental da -Asia e as ilhas de Cabo Verde era não de 9 horas ou 135°, mas de menos de -8 horas ou de menos de 120°. - -Note-se porém que fôra Ptolomeu que corrigira os calculos de Marino de -Tyro, e que a opinião de Colombo tinha portanto contra si a do geographo -mais afamado da antiguidade. Comtudo Colombo aferra-se á sua opinião, -e quando está na America julgando estar na Asia, persiste, e até se -apoia nas opiniões dos navegadores portuguezes, dizendo: «E agora que os -Portuguezes navegam tanto, acham que Marino foi exacto.»[101] - -E note-se ainda que Colombo avaliava o grau em 56 milhas e ⅔, baseando-se -nos calculos do geographo arabe Al-Fragan, e confundindo assim a milha -italiana com a milha de Al-Fragan, de fórma que o grau ficava tendo -apenas pouco mais de 14 leguas. Toscanelli, na sua famosa carta de -1474, avaliava o espaço a percorrer de um modo differentissimo. D. -João II ver-se-hia de certo embaraçado para avaliar quem tinha razão, -e regeitaria então sem hesitar o projecto de Colombo se soubesse que -de todos os geographos da antiguidade o que menos se enganára fôra -Eratostenes que calculára a distancia entre o promontorio Sacro, quer -dizer o cabo de S. Vicente e a Sera, quer dizer a China, em 240 grau. A -distancia verdadeira é 230.[102] - -Junte-se a isto a opinião contraria do seu conselho scientifico, que a -manifestava não só porque todas as corporações sabias têem uma tendencia -innata para repellir as idéas novas apresentadas por quem não pertence ao -seu gremio scientifico, mas tambem porque as propostas de Colombo tinham, -como acabamos de ver, muitos pontos vulneraveis. Faziam parte do conselho -dois judeus, Rodrigo e Josef, que de certo conheciam bem o arabe, e aos -quaes talvez não escapasse o erro da interpretação do geographo arabe -Al-Fragan na medição dos graus. A rejeição da proposta de Colombo era -portanto inevitavel. - -E comtudo D. João II, se não tinha a imaginação apaixonada do infante -D. Henrique, que se deixaria de certo seduzir pelo enthusiasmo do -italiano, tinha o espirito bastante elevado para reconhecer que não era -Colombo um aventureiro vulgar. Apenas elle saíu do nosso paiz, teve um -baque no coração, e, passando por cima de tudo e da opinião dos seus -conselheiros, e das tendencias naturaes do seu espirito, escreveu-lhe -a famosa carta em que o chamava.[103] Porque não veiu Colombo? Porque -saíra bastante irritado com o parecer naturalmente desdenhoso do conselho -scientifico do rei, ou porque os seus amores com D. Beatriz Enriquez, a -mãe de Fernando Colombo, o retiveram em Sevilha? Julgamos mais verosimil -a primeira hypothese. O resentimento de Colombo era tão profundo que -não duvidou accusar D. João II de uma acção que elle bem sabia que era -absurda em primeiro logar, que seria indigna de um homem cujo caracter -elle não podia deixar de respeitar. - -E comtudo a historia tem repetido essa accusação, injusta, mesquinha e -disparatada! Colombo accusou D. João II de o ter repellido, mas de ter -aproveitado ao mesmo tempo as suas indicações para mandar dois navios -em busca da Asia pelo occidente, e que esses navios, açoitados por uma -tempestade, tinham sido obrigados a voltar para Lisboa. - -Em primeiro logar era evidente que a viagem de descoberta não podia -começar senão em Cabo Verde ou nos Açores. Se uma tempestade occasional -os tivesse feito voltar a Lisboa, poucos dias depois de terem d’aqui -saído, não era caso para descoroçoar. Só passado o meridiano dos Açores é -que principiava a expedição. - -Demais, não sabemos que antes de Colombo muitos navegadores portuguezes -tinham sondado os mares do occidente, não com o fito de demandarem a -Asia, mas com o intuito de descobrirem terras novas? Era a transformação -do intuito que representava o abuso de confiança? Era a escolha do -parallelo a seguir? Não tinha o rei de Portugal a carta de Toscanelli que -preconisava tambem a escolha do parallelo que a Cipango conduzisse? - -Não vemos nós claramente que a unica difficuldade de D. João II estava -em fazer por sua conta a expedição? Se Colombo a fizesse á sua custa, -não receberia do rei de Portugal senão todas as animações. E, recusando -isso a Colombo, que elle considerava e estimava, ia fazel-o com outros -pilotos, que, ainda que não tivessem menos habilidade nautica, não teriam -de certo estudado a questão com a perseverança e o enthusiasmo de Colombo? - -Mas não continuemos, podemos hoje felizmente mostrar de um modo -evidentissimo qual foi o facto verdadeiro que, mal interpretado, mal -comprehendido, adulterado por alguma informação calumniosa, mais ainda -pelo resentimento de Colombo, serviu de base á sua accusação. - -Temos mostrado como o governo portuguez fazia as concessões aos -navegadores ilheus que queriam demandar terras novas: dava-lhes n’essas -terras todos os privilegios possiveis, o direito de administrar a -justiça, reservando sempre para a corôa os casos de pena de morte ou -de talhamento de membros. Accentuava bem que esses privilegios não se -limitavam ao caso de ser despovoada a terra que se encontrasse, mas que, -se encontrassem terra habitada, como a famosa ilha das Sete Cidades, -por exemplo, tinham sobre os seus moradores o mesmo poder com as mesmas -restricções, e esses moradores tambem os mesmos privilegios. Ora em 1486, -pouco depois de Colombo partir de Portugal, appareceu Fernão d’Ulmo -a pedir uma concessão semelhante. El-rei fez-lh’a nas condições das -anteriores, com umas modificações que são eloquentes: - -Em primeiro logar Ruy Gonçalves da Camara pedira _pera buscar nas -partes do mar ouciano huumas ylhas_, Fernão Telles obtem a concessão -de _quaesquer ilhas que elle achar_, e depois diz-se-lhe que a mesma -concessão se faz no caso das ilhas serem povoadas. Fernão Dulmo pede que -El-rei «lhe faça mercê e reall doação da dita hylha ou hylhas OU TERRA -FIRME povoradas ou despovoradas, etc.» El-rei concede. - -Além d’isso faz-lhe mercê de toda a justiça _com alçada de poder -enforcar, matar e de toda outra pena criminall._ - -Prevê o caso de que as ilhas ou _terra firme_ sejam povoadas e offereçam -resistencia a Fernão Dulmo, que vae á sua custa, é claro, e com a gente -que poder levantar e pagar, e então El-rei diz-lhe: «ssendo caso que sse -não queiram sujeitar _as ditas hylhas e terra firme a nos, mandaremos com -o dito Fernam Dulmo gente e armadas de navios com noso poder pera sogigar -as ditas hylhas e terra firme e ele Fernam Dulmo hyrá sempre por capitam -moor das ditas armadas_.» - -O que mostra isto? Mostra que a insistencia de Christovam Colombo fez -impressão em El-rei. Não vai nem por sombras intentar uma expedição á -sua custa, mas procura facilitar o mais possivel as expedições para o -occidente. Admitte a possibilidade de se encontrar terra firme, não põe -as minimas restricções ao poder do descobridor, e, se a terra firme ou as -ilhas se encontrarem e forem povoadas, se forem a Asia, é o que isto quer -dizer, Fernão Dulmo pode contar que terá o rei comsigo com todo o seu -poder para o ajudar, e o posto de capitão-mór garantido nas armadas que -se expedirem. - -O sr. Ernesto do Canto, que publica no seu livro esta carta de doação na -integra, estranha o facto que acabamos de notar, e escreve: - -«A jurisdicção concedida por esta carta é muito mais extensa do que -a dos documentos analogos e anteriores, _o que admira da parte de D. -João II, que tanto luctou para estabelecer a centralisação do poder -real_.»[104] - -É positivamente a impressão produzida na alma do rei pelas propostas -de Colombo. A visão do occidente começa a assenhorear-se da sua alma e -atormenta-o. Querem outra prova ainda? Esta carta régia foi apresentada -ao tabellião, e entre Fernão Dulmo e João Affonso celebra-se um contracto -em que ha a seguinte clausula: «e quanto he ao cavalleiro alemam que em -companhia deles hadir que ele alemam escolha dir em qualquer caravella -que quiser e do dia que ambos partirem da dita hylha Terceira, etc.» - -Quem é este cavalleiro allemão que está evidentemente nos Açores e que -parte com a expedição escolhendo a caravela que quizer? É claramente -Martim de Behaim, que acaba de voltar da viagem que fez ao Zaire com -Diogo Cão, Martim de Behaim, que tambem sonha com o encontro da Asia -pelo occidente, que muita vez trocou idéas com Christovam Colombo a esse -respeito, que se resolve a fazer uma tentativa, tentativa que parece não -ter ido por deante, ou que, se se realisou, foi infeliz e se realisou -sem elle, porque annos depois o encontramos na Allemanha trabalhando -no seu famoso globo, e voltando de Nuremberg a Lisboa com o intuito de -realisar emfim a sua expedição, munido de recommendações do imperador -para o rei de Portugal e de animações de sabios. No intervallo Colombo -antecipára-se-lhe. A America estava descoberta. Demais entre a saída de -Christovam Colombo de Portugal e o descobrimento da America dera-se um -grande acontecimento que robustecera a confiança de D. João II no methodo -que seguira e que dissipára as suas apprehensões de um curto caminho para -a Asia pelo occidente. A costa africana occidental fôra completamente -descoberta, transpozera-se o Equador, percorrera-se toda a zona torrida, -encontrára-se o termo do continente africano, e dobrára-se o cabo em cujo -nome _Boa Esperança_ D. João II condensára o immenso jubilo da sua alma. -O primeiro dos grandes problemas geographicos, que nem a antiguidade -nem a edade média tinham conseguido resolver, tinham-n’o os Portuguezes -resolvido. A preoccupação, que evidentemente tinham deixado no espirito -do rei as propostas de Colombo, dissolvia-se por completo na alegria -d’este triumpho. - -Mas vê-se bem agora como o conhecimento da nova tentativa açoriana, -semelhante aliás a tantas outras que Colombo bem conhecia, devia -ter irritado o animo do Genovez, que saía de Portugal, azedo e -despeitadissimo. Chegou-lhe provavelmente aos ouvidos tambem a noticia -das concessões excepcionaes feitas pelo rei, e até da designação especial -de terra firme a descobrir. Tanto bastou para que se dissesse roubado, -como se Colombo tivesse outra coisa que se lhe roubasse que não fossem -as suas qualidades pessoaes, o seu genio, o seu enthusiasmo, o seu -conhecimento da nautica e da astronomia. Tudo isso o levára elle comsigo. -Demais, as concessões de D. João II, por mais amplas que fossem, não -chegavam ao subsidio. O que D. João II recusára a Colombo, recusava-o -tambem a Fernão Dulmo. N’estas circumstancias, mantinha-se nos seus -principios; de que podia então queixar-se Colombo? - -Tambem, deve dizer-se, só d’essa vez se mostrou Colombo, n’um momento -de colera, injusto com o nosso paiz. A terra de sua mulher, terra onde -nascera seu filho, fôra sempre a terra dos seus amores. Com este povo de -marinheiros se creára, pode assim dizer-se, porque foi aqui que brotaram -devéras na sua alma as suas grandes aspirações, foi com o trato dos -nossos pilotos que se instruiu praticamente, que aprendeu, por assim -nos exprimirmos, a theoria das descobertas. Não o esqueceu nunca, nem -quando pensava que era pelo vôo das aves que os Portuguezes tinham -descoberto as ilhas, nem quando invocava, para sustentar uma das suas -affirmações, os Portuguezes que tinham navegado tanto. Como Portuguez -até se considerava, e fazia-lh’o sentir Toscanelli.[105] Com os nossos -descobrimentos se enlaçaram os seus, e, apesar de tudo, vê-se-lhe não -sei que funda pena de não ter podido fazer a sua gloriosa descoberta nos -navios da nação amada. «O rei de Portugal, diz elle n’uma carta escripta -a Fernando o Catholico pouco tempo antes da sua morte, _que entendia -mais do que qualquer outro rei de descobertas de paizes desconhecidos_, -de tal fórma o cegou a vontade do Altissimo que, durante quatorze annos, -não pôde comprehender o que eu lhe dizia.» E tão extranho lhe parece esse -caso que o toma á conta de milagre, e diz que _Nuestro señor le atajó la -vista, el oido y todos los sentidos_.[106] - -Não! a verdade era que a empreza de Colombo era a empreza de um -allucinado de genio, de um homem em quem a imaginação predomina, de -um visionario que tem visões lucidas, de um inspirado, de um louco, e -homens assim não podem dirigir-se, sem ser repellidos, áquelles que -teem o forte equilibrio de todas as faculdades, aos que se deixam -guiar em vida não pelas columnas de fogo da visão biblica, nem pelas -scintillações dos sonhos, mas pelo clarão firme, sereno, da razão e do -raciocinio. Encontraria Christovam Colombo no infante D. Henrique um -homem que o comprehendesse, porque era um allucinado tambem; na epocha -em que apparecia só o podia comprehender uma alma feminina, vibratil -a todos os enthusiasmos, apaixonada pelas visões mysticas, accessivel -á influencia magnetica de uma eloquencia aquecida pela sinceridade de -uma convicção ardente, de uma mulher, emfim, que se chamava Isabel a -Catholica, a mais radiosa encarnação da alma heroica da Hespanha, aquella -que nos apparece nos longes da historia como a estatua da Poesia do -Romancero, cavalheiresca e meiga, varonil na intrepidez e feminil na -suave e captivadora influencia, e que elle vinha encontrar no momento -mais proprio para a levar para as grandes conquistas ideaes, dentro dos -muros da conquistada Granada, tendo varrido do solo de Hespanha a ultima -tribu arabe e o ultimo soberano oriental, tendo feito tremular sobre -o crescente prostrado a bandeira da cruz, e anciando tambem por abrir -novos mundos á energia hespanhola, novas conquistas ao seu pensamento, -enamorando-se facilmente da idéa de transpôr os limites do Oceano, de -tentar, como outr’ora o infante D. Henrique, a gloriosa cruzada dos -mares, e de ir arrancar emfim aos thesouros escondidos no tumulo do Sol o -oiro do resgate para o tumulo de Christo. - - - - -IX - -O tratado de Tordesillas e a viagem de Pedro Alvares Cabral - - -Quando em março de 1493 Christovam Colombo entrou triumphalmente em -Lisboa, e apresentou a D. João II os indigenas que trazia de Guanahani -e lhe disse que voltava das terras de Cipango, o despeito de D. João -II foi extraordinario. Tão pouco o soube esconder que houve fidalgos -que lhe propozeram punir com a morte a jactancia do Genovez.[107] D. -João II regeitou a offerta, e esmerou-se em dar a Christovam Colombo -todos os testemunhos do seu apreço, mas a dôr era profunda e o desejo -de desforço imperioso. Sustentando desde logo que as ilhas descobertas -por Colombo estavam nos mares adjacentes á Guiné, tratou de mandar uma -esquadra a esses paizes do occidente. A Hespanha protestou logo, e D. -João II percebeu que tinha de desistir do intento, mas a sua diplomacia -não descançou um instante, e o tratado de Tordesillas foi para essa -diplomacia um verdadeiro triumpho. - -Tanto se empenhavam os reis de Hespanha em tomar conta das terras -que Christovam Colombo descobrira, que a toda pressa se pediram -para Roma as bullas necessarias, e com tanta rapidez se andou na -negociação, facilitada, pelo facto de ser o Papa Alexandre VI—Rodrigo -Borgia—hespanhol de nascimento e creatura dos soberanos hespanhoes, -que, tendo chegado Christovam Colombo no dia 15 de março de 1493, e só -tendo sido recebido por Fernando e Isabel em abril, logo a 3 de maio -do mesmo anno se concediam á Hespanha essas ilhas e terras descobertas -por Christovam Colombo; mas n’essa noite, ao que parece, pensou-se que -seria bom, para evitar disputas com os Portuguezes, que se marcasse uma -divisão entre estes, a quem os papas anteriores tinham concedido os -mares adjacentes á costa africana do cabo Não e Bojador para deante, e -os Hespanhoes, e no dia 4 de maio é que se promulgou a bulla definitiva, -em que se traçou a linha divisoria do polo arctico «ad polum antarcticum -quæ linea distet a qualibet insularum quæ vulgariter nuncupantur de los -Azores et Cabo Verde centum leucis versus occidentem et meridiem».[108] - -Claramente se vê por este _qualibet_ que a segunda bulla foi redigida á -pressa e á noite, não estando presente nenhum cosmographo, que podesse -dizer aos negociadores qual era a mais occidental das ilhas dos Açores -e de Cabo Verde, porque, como sensatamente observa Humboldt, é singular -esta expressão applicada a dois archipelagos que ambos occupam uma -grande extensão em longitude. Mas não havia tempo para demoras porque -era necessario que apparecesse o facto consummado antes que o rei de -Portugal tivesse tempo de saber de que é que se tratava. Depois do Papa -ter julgado, suppunha-se que um rei catholico não ousaria protestar. - -Enganaram-se; já se não estava em plena edade média, nem D. João II -era homem que deixasse o Papa interferir nos seus negocios temporaes. -Protestou immediatamente e tanto que a bulla de Alexandre VI caducou, e -a linha divisoria, que passava a cem leguas de qualquer das ilhas dos -Açores e de Cabo Verde, transformou-se n’uma linha que passava a 370 -leguas do archipelago de Cabo-Verde. - -As negociações levaram tempo, e não foi sem reluctancia que Fernando e -Izabel cederam ao seu impertinente visinho; mas nem Portugal n’esse -tempo era paiz cuja inimizade fosse indifferente, nem os reis catholicos -tinham ainda consciencia bem nitida da importancia das descobertas -feitas; demais havia intimas relações de familia entre as duas casas -reinantes.[109] O que é certo é que Portugal triumphou e o tratado -assignado em Tordesillas em 7 de junho de 1494 substituiu para todos os -effeitos a bulla de 4 de maio do anno anterior. - -Pois tão superficialmente se estuda a historia d’estes grandes -acontecimentos da vida da humanidade que ainda hoje passa em julgado -que foi a bulla de Alexandre VI que marcou a linha divisoria entre -as descobertas portuguezas e as descobertas hespanholas, e o proprio -Humboldt, eruditissimo como é, tanto parece ignorar o texto do tratado -de Tordesillas que, suppondo que foi Christovam Colombo que indicou a -linha das cem leguas por consideral-a a linha em que não tinha variação -a agulha magnetica,[110] imaginando que a adaptação d’essa demarcação -physica á demarcação politica tinha immensa importancia para Colombo, -nem levemente allude ao desapontamento que a Colombo a mudança da linha -divisoria devia ter causado. - -N’esse tratado, comtudo, ha um artigo transitorio que bem claramente -mostra o absurdo da supposta descoberta de João Vaz Côrte Real. «E porque -pode ser, diz o artigo, que os navios d’El-Rei e Rainha de Castella e -Aragão tenham descoberto até vinte do corrente mez de junho algumas -ilhas ou terras firmes dentro da sobredita linha que se ha de lançar de -polo a polo a trezentas e setenta leguas das ilhas de Cabo Verde para o -Poente, assentaram as Altas Partes Contractantes por seus Procuradores, -que, para se evitarem duvidas, todas quantas tivessem sido achadas ou -descobertas até os vinte de junho, bem que o fossem por navios e gente -de Castella, sendo dentro das primeiras duzentas e cincoenta leguas das -sobreditas trezentas e setenta a partir das ilhas de Cabo-Verde para o -Poente, ficariam para El-Rei de Portugal, _e as que tivessem sido achadas -dentro do dito prazo nas outras cento e vinte leguas restantes em que -deve findar a dita linha pertenceriam a El-Rei e Rainha de Castella, bem -que as cento e vinte leguas façam parte das trezentas e setenta leguas -que ficam para El-Rei de Portugal_. E se dentro dos ditos vinte de Junho -não fôr descoberto nada pelos navios d’El-Rei e Rainha de Castella dentro -das ditas cento e vinte leguas, o que dentro d’ellas _d’ahi em diante -se descobrir_ ficará pertencendo a El-Rei de Portugal, como acima fica -dito.[111] - -Lá se ía a Terra Nova, se ella já estivesse descoberta, _porque só o que -d’ahi em diante se descobrisse_ n’essas ultimas cento e vinte leguas de -zona portugueza poderia ficar pertencendo a El-Rei de Portugal. - -Ora não era de certo platonicamente que D. João II reclamava para si 370 -leguas de mar para o occidente, mas em aproveital-as tinha o governo -portuguez de ser prudentissimo para não despertar as justas reclamações -do governo de Hespanha. Era necessario que se mostrasse sempre empenhado -em proseguir as suas descobertas para o oriente, deixando a Hespanha á -vontade para o occidente. As 370 leguas deviam servir-lhe para poder -navegar com os braços livres para o sul. Tambem no primeiro momento não -teria o nosso governo outro intuito. A expedição da India absorvia-lhe -todo o pensamento. - -Vasco da Gama foi e attingiu a meta, e a gloria immensa que d’ahi proveio -e os proventos palpaveis e immediatos que d’ahi resultavam escureceram -por um momento a gloria de Colombo. Comtudo era incontestavel que -a viagem pelo Cabo da Boa Esperança durava immenso tempo, e tinha -difficuldades e perigos sem numero, e a Asia, que Colombo encontrára, -estava tão perto! Note-se bem que não havia a esse respeito a minima -duvida. Colombo chegára á Asia, chegára ás Indias, não á India riquissima -a que aportára Vasco da Gama, não ao Cathay e ao Cipango fabulosamente -opulentos de Marco Polo, mas a terras selvagens que não podiam ser senão -as sentinellas avançadas do continente maravilhoso e dos archipelagos -opulentos. Era ainda para o occidente que se encontrava Cipango, era para -o sul? A opinião dos sabios tendia para esta ultima solução, e Pedro -Martyr d’Anghiera, o celebre amigo de Colombo, exclamava indignado com -uma expedição hespanhola á Florida: - -«Para o sul! para o sul! Para que precisamos nós de producções -semelhantes ás producções vulgares do Meio-Dia da Europa?»[112] - -O que deduzimos d’aqui? Deduzimos que, tendo louvavelmente D. Manuel -seguido á risca a politica de D. João II, a descoberta do Brazil por -Pedro Alvares Cabral foi resultado não do acaso, mas do intento firme e -propositado de procurar nos mares occidentaes o que Colombo ainda não -encontrára claramente—outro caminho para a India. - -Allega-se contra isso o silencio absoluto do governo a esse respeito. -Devemo-nos lembrar, porém, que Pedro Alvares Cabral não podia levar -instrucções patentes e abertas que denunciassem intentos contrarios aos -interesses da Hespanha. Lembremo-nos de que os reis catholicos tinham -protestado abertamente contra o projecto de uma expedição portugueza para -o occidente tentada por D. João II. Lembremo-nos de que, se a Hespanha -prohibia com penas severas as expedições particulares e clandestinas -para o lado que o governo estava explorando, não podia consentir que -expedições identicas fossem tentadas por um governo estrangeiro. O -governo portuguez tinha de se mostrar exclusivamente preoccupado com -a navegação do Oriente pela Africa; se as suas esquadras aproveitavam -as 370 leguas para se chegarem para o occidente era para evitarem as -calmarias da Guiné, e nunca no intento de interferirem com as descobertas -hespanholas, tanto assim que, apenas D. Manuel participa ao rei de -Hespanha o descobrimento do Brasil, apressa-se a dizer-lhe que é terra -muito boa e muito commoda para a navegação da India. Effectivamente o -rei de Hespanha obtivera promessa positiva do rei de Portugal de que -não tentaria navegar para o occidente, e tão positiva ella era que em -cartas a Christovam Colombo declara el-rei D. Fernando, que era aliás -bem desconfiado, que não havia motivo para desconfiar das intenções -do rei de Portugal. Apesar de tudo estavam sempre prestes caravelas -para poderem seguir no encalço das nossas, caso algumas saíssem com -intenções suspeitas.[113] Não admira portanto que se falasse bem alto na -necessidade de se evitar as calmas da Guiné, que nunca mais preoccuparam -os navegadores portuguezes depois do Brasil se ter descoberto, que D. -Manuel quizesse convencer bem o rei de Hespanha de que a nova terra não -era para elle senão um porto de escala para a navegação do oriente. - -Além d’isso, sabe-se pela leitura do famoso livro de Duarte Pacheco, -_Esmeraldo de situ orbis_, que, apesar de todas as precauções -hespanholas, já em 1498 Duarte Pacheco recebera ordens para ir sondar -os mares do occidente. De um periodo da sua declaração, confusamente -redigido, se quer deduzir que Duarte Pacheco houvesse então descoberto -o Brasil, e que Pedro Alvares Cabral não fosse senão tomar posse, mas -a descripção de Duarte Pacheco é absolutamente inexacta, o que prova -que não vira a terra de que fala, e além d’isto não era natural que -Duarte Pacheco, depois de ter descoberto secretamente o Brasil, não -fosse na esquadra que era exactamente encarregada de o descobrir -officialmente.[114] - -O que prova porém esta declaração é que o governo portuguez não -descançava em proseguir na navegação occidental, que, apesar das -precauções dos hespanhoes, lá iam navios nossos perscrutar o occidente, e -que bem provavel é que Pedro Alvares Cabral, cujas instrucções—por acaso -ou de proposito?—só nos chegaram truncadas, fosse encarregado de ver se, -mais feliz do que Colombo, encontrava, de caminho para a India, as terras -maravilhosas cujo sonho continuava a perseguir a imaginação dos Europeus. - -Como era possivel, diz-se, que Pedro Alvares levasse uma esquadra tão -numerosa, se fosse no intento de fazer descobertas, que se faziam -habitualmente com tres ou quatro caravelas? Em primeiro logar era -indispensavel esconder ao rei de Hespanha esses intentos descobridores, -em segundo logar, se effectivamente se fosse ter ás terras governadas -pelos potentados de que Marco Polo dera noticia, o exemplo do que -succedera a Vasco da Gama bem mostrava quanto era necessario que se -não apparecesse com pequena força deante d’esses soberanos do Oriente, -em terceiro logar o fim principal da viagem era ir á India. Se -effectivamente se topasse o Cipango ou o Cathay, a esquadra de Pedro -Alvares ia bem, assim forte e numerosa; se nada se encontrasse, ou se se -encontrasse terra como a que Colombo encontrara, voltava-se a seguir o -velho caminho de Calicut. - -Porque é que Pedro Alvares, tendo realisado a descoberta de que ia -incumbido, não voltou a Lisboa a dar a gloriosa noticia de tão importante -feito? Porque nem elle lhe reconheceu a importancia nem na côrte lh’a -reconheciam. O que dava cuidado ao governo portuguez não era que Colombo -tivesse descoberto umas ilhas selvagens, era que elle tivesse encontrado -um novo caminho para a India, assim como o que desconsolava os reis -catholicos, e fazia perder a Colombo o seu valimento e auctoridade, era -que, em vez d’elle ter encontrado paizes florescentes e civilisados, -encontrára ilhas selvagens. - -Depois do que temos dito, não extranham de certo os leitores e encontra -acceitavel explicação o facto de D. Manuel não ter dito aos reis -catholicos, nem se ter publicado o verdadeiro motivo da descoberta do -Brasil. Vejamos agora se os motivos até hoje allegados teem razão de ser. - -Foi uma tempestade que arrojou os navios em direcção ao occidente? -Extranha tempestade, que, em vez de dispersar os navios, os leva de -conserva ao mesmo ponto! Além d’isso nem o piloto da esquadra, que fez -a relação que Ramusio publicou nem Pero Vaz Caminha e o physico João -nas suas celebres cartas, nem D. Manuel nas cartas que escreveu aos -reis catholicos dizem uma palavra a respeito de semelhante tempestade. -Foi muito depois que Pedro de Mariz se lembrou de dar, por effeito -decorativo, a tempestade legendaria das descobertas á narrativa do -descobrimento do Brasil, que lhe parecera provavelmente desenfeitada -demais na sua abstenção de episodios. - -Note-se além d’isto que, segundo as informações dos roteiros colligidas -n’uma preciosa memoria do illustre official da marinha portugueza o sr. -Arthur Baldaque da Silva, as tempestades que sopram na região percorrida -pelas esquadras de Pedro Alvares, e na quadra em que elle a percorreu são -de noroeste e de sudoeste, que, longe de impellirem os navios para a -costa do Brasil pelo contrario os afastariam.[115] - -Mas foram as correntes que levaram os navios, diz Gonçalves Dias na -memoria em que procura refutar os argumentos de Joaquim Norberto, -e a grande corrente equatorial arrastou os navios para a costa do -Brasil.[116] Se Pedro Alvares Cabral tivesse chegado ao Pará, a sua ida -teria uma explicação, porque a corrente segue de leste a oeste ao longo -do Equador, mas, bifurcando no cabo de S. Roque, segue uma direcção -tal, combinada com os ventos geraes, que uma esquadra, diz o almirante -Monchez ha pouco fallecido, «não pode senão afastar-se cada vez mais da -costa, quando quer dobrar o cabo da Boa Esperança, visto que de um lado -os ventos permittem navegar para leste, do outro a costa afasta-se para -oeste».[117] Se se appella para as correntes da costa, vemos, segundo -o testemunho do mesmo almirante Monchez, «que durante a monção de SO -levam para o norte»;[118] ora a monção de SO dura de abril a setembro, -exactamente quando Pedro Alvares Cabral era, segundo se diz, arrastado -pelas correntes para o sul. - -Estes factos pareceram tão singulares ao almirante Monchez que não -podendo explicar por elles a descoberta do Brasil, e não conhecendo -os elementos politicos da questão, deduz o seguinte: «É pois quasi -impossivel dar outro motivo plausivel da chegada de Cabral á vista de -terra pelos 16° de latitude, a não ser um erro de caminho por esse -navegador.»[119] - -Esse erro tinha de ser constante durante 15 dias, e seria singular que só -se désse quando trazia em resultado a descoberta do Brasil, ao passo que -antes d’isso tinham passado, sem o mais leve engano, pelas Canarias e por -Cabo Verde, e depois d’isso foram direitos ao cabo da Boa Esperança. - -Confronte-se isto tudo, note-se que temos prova authentica de que em -1498, do anno immediato áquelle em que Vasco da Gama sahira de Portugal, -foi Duarte Pacheco incumbido de ir descobrir terras a sudoeste, que o -governo hespanhol tanto desconfia dos intentos de Portugal que espreita -as nossas costas e tem navios promptos para seguir qualquer expedição -portugueza que para o occidente se dirija, que D. Manuel, para desfazer -suspeitas, trata logo de declarar que a terra descoberta a utilidade que -tem é servir de porto de escala para a navegação da India, que trata -tambem de disfarçar a distancia a que o Brasil fica de Cabo Verde, -porque, tendo-lhe dito Pero Vaz de Caminha na sua carta que a nova -terra ficava a 660 ou 670 leguas da ilha de S. Nicolau no archipelago -de Cabo Verde, para os reis catholicos diz elle que fica a 400 leguas -não da ilha mas do Cabo Verde que bem se pode suppor que seja o da costa -africana,[120] de fórma que ficava assim o Brasil dentro da demarcação -do tratado de Tordesillas, e veja-se se não é de uma evidencia absoluta -que a descoberta do Brasil estava nos planos do governo portuguez, não -porque soubesse a terra que ia encontrar mas porque não queria deixar aos -seus rivaes o proveito de um caminho para a Asia mais curto do que o que -Vasco da Gama acabava de descobrir. - -Não vale a pena demorar-mo-nos nem um instante na refutação das lendas -relativas a suppostos descobrimentos do Brazil, anteriores a Pedro -Alvares Cabral. A lenda mais pueril é a que suppõe que, não só antes de -Pedro Alvares ter aportado a terras de Santa Cruz, mas ainda antes de -Colombo ter aportado a Guanahani, um Portuguez, João Ramalho, chegára a -terras brasileiras. Baseia-se essa lenda n’um supposto testamento feito -por esse João Ramalho, que foi efectivamente um dos primeiros colonos do -Brasil, mas que se tornára, pela sua residencia entre selvagens, quasi -tão selvagem como elles, testamento feito por elle em 1580, e em que -declara que havia noventa annos que estava no Brasil, aonde chegára, por -conseguinte, em 1490. Era portanto macrobio este venerando descobridor -que não podia ter menos de 20 annos quando chegou ao Brazil, e, ainda -quando o fosse, era singular o testamento de um homem, que, aos 110 -annos, tendo perdido as noções da vida civilisada, com tanta precisão -chronologica dizia que estava no Brasil não ha oitenta ou noventa annos, -como seria natural que o fizesse e talvez ainda exaggerando a conta, -mas rigorosamente ha noventa! Ora d’esse testamento não ha noticia -senão a que dá um d’esses chronistas fradescos do seculo XVII, que tão -facilmente, como é sabido, falsificavam datas e inventavam documentos. -Mas o golpe mortal n’esta lenda infantil foi dado por um eminente -escriptor brasileiro, o sr. Candido Mendes de Almeida, que depois de -mostrar o absurdo da lenda e a ausencia de documentos em que se baseasse, -publicou uma carta de um jesuita que, estando em 1559 na terra em que -João Ramalho habitava, e dando conta aos seus superiores dos progressos -da conversão dos indigenas, lhes fallava n’um Indio que lhe pediu que lhe -dissesse quaes os dias em que devia jejuar, porque deixára de o saber -desde _a morte de João Ramalho_, que era quem em vida lh’o dizia.[121] - -O que é, porém, estranho é que ainda encontremos com relação ao Brazil -a questão dos mappas. Porque mestre João diz a D. Manuel que, para -saber o sitio d’essa terra, veja um mappa-mundi antigo que tem Pero Vaz -Bisagudo, d’ahi se conclue que o Brasil já fôra descoberto, tanto que -já o inseriam n’um mappa. É a eterna historia dos mappas conjecturaes, -dos mappas em que appareciam ilhas que ninguem vira e que ninguem chegou -a vêr, e aquella terra ao sul do Equador, a terra incognita austral, a -terra antichthona ou o _alter orbis_. Pois não se vê realmente que as -cartas muitas vezes acompanhavam as descobertas, e que, se em rigor era -possivel que se fizessem descobrimentos que ficassem desconhecidos, o que -era impossivel era que a noticia d’esses descobrimentos se propagasse de -fórma que lhes inserissem os cartographos nos mappas os resultados, e que -apesar d’isso ficassem desconhecidos dos escriptores, dos sabios e dos -governos! - -Cem vezes o repetiremos: os descobridores do seculo XV, cheios de -respeito tradicional pela sabedoria antiga, não aspiravam senão a -encontrar o que os antigos, no seu entender, conheciam perfeitamente, e -por isso faziam esforços para adaptar o que descobriam e que encontravam -aos mappas conjecturaes. Como veremos, o que procuravam agora era a terra -antichthona, a que já se podia chegar desde o momento que se passára a -zona torrida, mas que estava separada da nossa pela extensão dos mares. -A essa terra antichthona suppunham chegar agora encontrando o Brasil, -e era ao Brasil até que chamavam o _novo mundo_. Que Pedro Alvares -Cabral julgára ter chegado á terra separada pelo mar do hemispherio -septentrional é incontestavel, e por isso facilmente se convenceu, pelo -que julgou deprehender dos gestos dos selvagens, que estava n’uma ilha, a -que deu o nome, primeiro que o Brasil teve, de ilha de Vera Cruz.[122] - -Julgamos porém ter demonstrado que esse descobrimento se liga intimamente -com o de Colombo, é a sua consequencia, como era tambem, ao mesmo -tempo, o da Terra-Nova por Gaspar Côrte Real. As descobertas portuguezas -conjugadas com as de Colombo produziam a descoberta do Brasil. Os dois -grandes problemas geographicos estavam resolvidos: a zona torrida não era -inultrapassavel, e por isso Pedro Alvares Cabral, seguindo as pizadas -de Bartholomeu Dias e de Vasco da Gama transpunha o Equador, entrava -em plena zona torrida e ía tranquillamente ao hemispherio meridional. -A extensão do mar oceano não era infinita, tinha o Atlantico outra -margem, e Pedro Alvares Cabral ía com plena confiança procural-a. Sem -os descobrimentos portuguezes nada faria Colombo, porque os Açores eram -um ponto capital de partida para as expedições occidentaes, e porque os -terrores da zona torrida e das suas proximidades, não lhe permittiriam -seguir o parallelo que seguiu. Sem o descobrimento de Colombo nada faria -Pedro Alvares Cabral, porque não ousaria ir tão longe para o occidente. A -Hespanha e a Portugal devia o mundo essa transformação da sua geographia. -Completal-a-hia a circum-navegação do globo e o encontro do caminho pelo -occidente para a Asia, e, como se a Providencia quizesse d’essa forma -sellar de um modo indestructivel a collaboração dos dois povos na obra -mais importante da historia da humanidade, foi um capitão portuguez -commandando navios hespanhoes que deu ao mundo o cinto argenteo do rasto -das suas quilhas, foi Fernão de Magalhães que planeou dirigiu e iniciou -a expedição, foi Sebastião d’El-Cano que a completou e concluiu, e para -que n’essa consagração ultima e solemne da conquista definitiva da Terra -pelo homem, não faltasse tambem a patria gloriosa de Colombo, a audaz, -a pensadora e sonhadora Italia, ía Pigafetta na expedição que narrou, -para que assim os tres povos latinos, que eram egualmente benemeritos da -civilisação e da sciencia, tivessem n’esse coroamento da grande obra os -seus representantes. Essa epopéa ultima que ía pôr o fecho ao trabalho -épico de um seculo para sempre glorioso nos fastos da humanidade, foi -um Portuguez que a dirigiu, foi um Hespanhol que a completou, foi um -Italiano que a escreveu. - - - - -X - -Os Côrte-Reaes—Americo Vespucio Fernão de Magalhães - - -Se antes da descoberta de Colombo, se tinham arrojado por mais de uma vez -navegadores açorianos para os mares do Occidente, com muita mais razão o -fariam, logo que esse importante acontecimento se realisou. Evidentemente -as viagens haviam de multiplicar-se. - -O esforço dos Açorianos e muito especialmente dos Côrte-Reaes dirige-se -então sobretudo para o Norte. Desde que Colombo chegou ás Antilhas, -que elle tomou por archipelago asiatico, e a Cuba que elle tomou então -por um pedaço de terra firme asiatica, opinião em que por muito tempo -persistiu, os navegadores de todos os paizes e principalmente os que, -antes de Colombo, como os Açorianos, já se occupavam de descobertas -para o occidente, haviam de procurar seguir-lhe as pisadas e procurar, -o que elle não conseguira, encontrar as terras maravilhosas de Cipango -e do extremo oriental das Indias. A convicção geral era que para o sul -é que se conseguiria esse _desideratum_, e já vimos como Pedro Martyr -d’Anghiera soltava com um enthusiasmo quasi irritado esse grito: Para o -sul! para o sul! - -Era esse effectivamente o caminho que todos em geral seguiam. Colombo e -os Pinzon ou foram mais para o occidente, ou foram para o sul. Mas isso -não queria dizer que a idéa da navegação pelo norte não entrasse tambem -em muitos espiritos. - -O mappa de Toscanelli, aquelle famoso mappa que era provavelmente o -que estava nas mãos de Pero Vaz Bisagudo, obedecia aos principios do -geographo que o desenhára e que tinha a convicção de que ao occidente -havia um prolongamento da Asia, que defrontava com o continente europeu -e africano desde a Islandia até Guiné. Se, indo ao centro, Colombo -encontrára effectivamente a Asia, como suppunha, mostrava portanto -que era verdadeira a conjectura de Toscanelli, restava confirmal-a -completamente. Foi isso que levou Pedro Alvares Cabral e muitos outros -navegadores, ou ás occultas ou a descoberto, a dirigirem-se para o sul, -foi isso talvez o que levou os Côrte-Reaes para o Norte. - -Lembram-se os leitores de que uma das supposições da geographia -systematica dos antigos era que o mar Baltico tinha saída para o oriente -e que ía ligar-se com o mar Indico. Strabão dizia que «o facto de que -certos navegadores viessem por mar da India á Hyrcania não é considerado -como certo, mas que isso seja possivel, Patroclo nol-o assegura.»[123] -Pomponio Mela conta muito positivamente que Metellus Céler, sendo -proconsul das Gallias, recebêra de presente de um rei germanico uns -Indios que, açoitados pela tempestade, tinham vindo da India á Germania -«vi tempestatum _ex Indicis æquoribus abrepti_.»[124] Discutiu-se muito -no nosso tempo se estes homens, que eram, ao que parece, e no caso de -ser verdadeira a noticia, de uma raça differente da européa, não seriam -afinal de contas senão Esquimaus arrojados, como a barcos tantas vezes -succedêra e tem succedido, das costas americanas ás costas irlandezas, -escocezas ou allemãs. O que é certo é que a idéa de haver communicação -entre a Europa e a India pelo norte, indo-se, porém, do occidente para o -oriente estava enraizada no animo de muitos geographos antigos. - -Assim que se encontrou ou se suppoz encontrar a costa asiatica indo-se -pelo occidente, a communicação tanto se podia fazer pelo norte, como -pelo centro, como pelo sul. Effectivamente as costas asiaticas, como o -suppozera Toscanelli, estendiam-se de norte ao sul, desde a Islandia até -á Guiné. Era evidente que a expedição do norte tentava os açorianos. Logo -que Gaspar Côrte-Real em 1500 encontrou terras, imaginou, como Colombo, -ter encontrado terras asiaticas, e uma carta de Pespertigo, embaixador de -Veneza em Portugal, é, para esclarecer esse assumpto, muito curiosa. - -Diz elle: «Tambem crêem (os _Portuguezes_) estar ligada (_a Terra dos -Côrtes-Reaes_) com as Antilhas que foram descobertas pela Hespanha, e com -a terra dos papagaios (_Brasil_) ultimamente achada pelos navios d’este -reino que foram a Calicut.»[125] - -Humboldt que teve conhecimento d’este documento, espanta-se muito com -elle. «No mez de outubro de 1501, diz o sabio escriptor, sabia-se já em -Portugal que as terras do norte cobertas de neves e de gelo são contiguas -ás Antilhas e á Terra dos Papagaios novamente encontrada. Esta advinhação -que proclama, apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, como -ligação continental entre o Brasil descoberto por Vicente Vanez Pinzon, -Diogo de Sepe e Cabral e as terras geladas do Lavrador _é muito -surprehendente_.»[126] - -A surpreza de Humboldt vem apenas da pouca importancia que elle dá á -interferencia portugueza no descobrimento da America. Desde o momento -que elle ignora as tentativas dos Açorianos para chegarem a terras -occidentaes antes de Colombo, as tentativas que fizeram depois, desde o -momento que elle não conhece as expedições clandestinas dos Portuguezes -para encontrarem ao sul as terras asiaticas que Colombo não achára, -desde o momento que attribue a um méro acaso a descoberta do Brasil -por Pedro Alvares Cabral é evidente que não pode achar a concatenação -de todos estes esforços, de que provém o presentimento da ligação de -todas essas terras descobertas separadamente. Era sempre a Asia que -todos os descobridores julgavam encontrar, ilhas da Asia ao sul, terras -da Asia ao norte. N’um mappa publicado recentemente pelo sr. Harnin, o -brilhante apologista dos Côrte-Reaes, se diz que viram n’umas terras a -que não chegaram «serras muito espessas, pollo quall segum a opiniom dos -cosmófircos se cree ser a _ponta d’asia_.»[127] - -A prioridade do descobrimento da Terra do Lavrador e da Terra Nova -por Gaspar Côrte-Real está hoje tão completamente demonstrada, depois -que o sr. Harnin e o sr. Patterson publicaram os seus excellentes -trabalhos, que nos parece escusado insistir na refutação das pretenções -dos dois Cabots, venezianos ao serviço da Inglaterra. É realmente -curioso e estranho, que as descobertas portuguezas, apenas são feitas, -encontram logo echo em todo o mundo, e as descobertas estrangeiras, -que destruiriam as nossas, tanto em segredo se fazem, que só depois -se suppõe reconhecel-as por uma referencia vaga ou por um documento -apocrypho. Apenas Gaspar Côrte-Real volta da Terra Nova, apressa-se -Pedro Pascaalijo, embaixador de Veneza (de Veneza, que é a patria de -Cabot) a communical-a ao seu governo, Alberto Contino ao duque de Mantua. -Das viagens de João Cabot só se deprehende que podia ser que tivessem -existido, por uma d’essas referencias vagas que temos mencionado. Mais -ainda. Henrique VII de Inglaterra, em cujo proveito fizera Cabot a sua -expedição, dá a 19 de março de 1501 a mais larga e avultada doação que é -possivel imaginar-se a tres negociantes de Bristol, Richard Warde, Thomaz -Assehepurat e John Thomaz, associados com os açorianos João Fernandes, -Francisco Fernandes e João Gonçalves, para que fossem explorar, -descobrir, povoar e dominar todas e quaesquer terras nos mares oriental, -occidental, austral, boreal ou septentrional, garante-lhes que, se -alguns estrangeiros ou outros individuos ousarem navegar para as partes -onde elles forem, sem licença, serão punidos, embora invoquem qualquer -concessão que lhes tenha sido feita, etc. É uma verdadeira concessão -ingleza, positiva e ao mesmo tempo minuciosissima, sem restricções nem -peias, como de quem quer que as coisas se façam e não regateia os meios, -mas, se João Cabot se tivesse antecipado a estes mercadores e em proveito -do rei de Inglaterra, era absolutamente disparatada semelhante concessão, -que só se pode fazer, quando os lezados, se os houver, pertencerem a paiz -estrangeiro, e possam, portanto, ser tratados como inimigos.[128] - -Mas a origem da lenda aponta-a com segurança o sr. Ernesto do Canto. -Está na adulteração da versão latina de uma das cartas de Pascaaligo. -Diz que «os selvagens têem nas orelhas umas argolas de prata _che senza -dubbio pareno sia facti a Venetia_. E, dizendo isto, quer o embaixador -dar uma idéa do aperfeiçoamento d’aquella arte selvagem. O traductor diz -tranquillamente: _cælaturam Venetam in primis præ se ferentes_. E assim, -por uma traducção de má fé ficou estabelecido que antes dos Portuguezes -alli tinham estado Venezianos. E quando Pascaaligo affirma que a terra -descoberta por Gaspar Côrte-Real até ahi _nunca_ fôra vista por ninguem, -Madrijuan traduz: terra até ahi _a quasi_ todo o mundo desconhecida.[129] - -Mas, apesar d’isso, essas terras do norte figuraram por muito tempo -nos mappas como _terras dos Côrtes-Reaes_. Na Terra Nova, no Canadá, -no golpho de S. Lourenço conservaram-se nomes portuguezes que se -reconhecem atravez da adulteração, como _Por_ Baye bahia da _Torre_, -_Mira_, _Minas_, _Porto-Novo_, transformado em _Port-Novy_, e o nome de -Lavrador por tanto tempo consagrado difficilmente se pode attribuir a -outra linguagem que não seja a portugueza. Felizmente são escriptores -americanos e dos mais notaveis que defendem a gloria portugueza e -justificam as nossas reivindicações.[130] - -Na segunda viagem Gaspar Corte-Real singrou mais para o norte, mas nunca -mais voltou. Foi em sua busca seu irmão Miguel Corte-Real, mas tambem se -perdeu entre os gelos, voltando as caravelas que acompanhavam a sua. E é -de ver que, longe de procurarem terras para o sul das que primeiro tinham -descoberto, e que seriam de certo mais attrahentes e tentadoras, era -sempre para o norte que seguiam, tão radicado estava no seu pensamento -o desejo de procurarem a Asia, a Asia opulenta, por aquellas gelidas -paragens septentrionaes, de fórma que a procura d’essa passagem do -noroeste que fez tantos martyres nos tempos modernos e glorificou tantos -navegadores illustres, foi tambem pelos Portuguezes primeiro tentada com -audacia mais notavel ainda por serem meridionaes que nem tinham visto -talvez em toda a sua vida neve, mas que orgulhosos de terem provado que -não era inhabitavel a zona torrida queriam a todas as zonas declaradas -inhabitadas pelos antigos, ampliar a sua demonstração, e quando Franklin, -o heroe moderno, que esse ao menos sempre vivera em regiões onde o frio é -um inimigo constante que se conhece e com que se lucta, ia deixar n’essas -ignotas regiões o seu cadaver e dos seus e o casco esmigalhado do seu -navio, encontrou talvez enterrada em eternos gelos a caravela de Miguel -Corte-Real, e branquejando entre as neves á luz crepuscular do sol dos -polos os ossos dos audaciosos Portuguezes que, na epocha aurea da sua -gloriosa expansão, não queriam deixar um só recanto do mundo a que não -levassem a ousadia do seu genio e o ardor das suas explorações. - -Por muito tempo perseverou na exploração do Norte a gente açoriana e -minhota. A lista dos descobridores não pára nos Côrte-Reaes. João Alves, -Fagundes e outros exploraram essa costa, ainda depois dos francezes e -inglezes terem tentado tambem ir exploral-a. Houve até tentativas de -colonisação, e esses mares foram por muito tempo theatro de actividade -dos pescadores portuguezes. Hakluyt ainda notou que eram Portuguezes -e hespanhoes os que mais se occupavam da pesca do bacalhau. Navios -portuguezes estavam, em certas occasiões, cincoenta ou sessenta.[131] Mas -depois cahiu sobre tudo isto a mortalha da decadencia, que, não recobre -ao menos a mortalha do esquecimento. - -Entretanto o Brasil, considerado uma ilha, continuava a ser explorado -por Gonçalo Coelho, por Christovão Jacques, Fernando de Noronha, etc., e -tambem pelos hespanhoes Pinzon e Solis e pelo veneziano Cabot. N’algumas -das expedições portuguezas[132] foi como piloto Americo Vespucio; do seu -nome fez Ylacomilas na sua _Cosmographiae introdutio_ o nome do novo -continente, e por esse facto se lamenta a injustiça da posteridade, que -esqueceu o nome do grande descobridor Colombo para glorificar o nome do -fanfarrão cosmographo. - -É esta questão que rapidamente vamos tratar. - -Colombo morreu julgando sempre que chegara á Asia e o mundo partilhava -a sua opinião. Quando Pedro Alvares Cabral encontrou terra ao sul do -Equador, já se não poude acreditar que se estivesse nas visinhanças do -Cathay e do Cipango. Não o permittia a latitude. Quando as explorações -successivas fizeram reconhecer que se estava realmente n’um grande -continente, o que se imaginou, o que se entendeu, porque a tudo -presidia a lembrança das theorias da antiguidade, foi que se estava em -terra antichthona, e por isso, como diz D. Manuel na sua carta ao rei -catholico, muitos lhe davam o nome de Novo Mundo.[133] Era effectivamente -_alter orbis_, a quarta parte da terra, com a qual nada tinham as ilhas -asiaticas e o continente asiatico que Christovam Colombo descobrira. - -Quando os Portuguezes em 1501, suppunham que as Antilhas, o Brazil e a -Terra Nova constituiam uma terra unica, suppunham que essa terra era a -Asia. Quando depois de 1501 se viu que o Brazil se prolongava muito para -o sul, entendeu-se que as Antilhas e a Terra Nova faziam parte da Asia, -mas que o Brazil constituia a quarta parte do mundo, o _alter orbis_, o -Novo Mundo, a terra central de Ptolomeu. - -Portanto não se fazia uma injustiça a Colombo, nem talvez a Cabral, só -aos capitães das expedições em que Americo Vespucio navegara, porque -essas expedições é que tinham identificado o paiz novamente descoberto -com a antiga terra de Ptolomeu, mas Americo o cosmographo, que espalhara -a noticia, foi que colheu o proveito, e o _novo mundo_ descoberto, não -por Christovão Colombo, que nem acceitaria semelhante gloria, mas pelas -expedições de que fazia parte Americo, recebeu o nome de America,[134] -sem que Colombo, se ainda estivesse vivo, podesse ou quizesse protestar. - -De certo, depois, quando se reconheceu a verdade, quando se percebeu que -Novo Mundo era tudo, seria de perfeita justiça restituir a Colombo o -que a Colombo era devido, mas já se tomara o habito da nova denominação, -demais a mais euphonica e agradavel, e America ficou sendo o todo, quando -ao principio só fôra America uma parte. - -Não temos ensejo agora de discutir a questão das verdades ou das mentiras -de Americo. Parece-nos comtudo que tem sido injustamente maltratado o -cosmographo florentino. É-lhe muito adverso o visconde de Santarem, -que a seu respeito publicou um livro celebre,[135] mas o visconde de -Santarem não tinha conhecimento das expedições clandestinas portuguezas, -conhecimento que torna hoje mais verosimil a viagem em que Americo -Vespucio encontrou, indo para o occidente, Pedro Alvares que voltava da -India, e que fôra considerada pelo visconde de Santarem apocrypha. - -Reconhecida a existencia da terra central, era indispensavel procurar -meio de se chegar á Asia. As expedições portuguezas levavam todas o fito -de encontrar um estreito que as conduzisse aos mares asiaticos. Essa idéa -do estreito era predominante nos espiritos do tempo. Era assim que se -fazia a communicação entre os dois mares, e era por estreitos, segundo a -cosmographia antiga, que se fazia a communicação entre o mar exterior e -os golphos que elle formava, que eram, como dissémos, o mar Persico, o -Indico, o Mediterraneo e o Caspio.[136] - -Como estreitos conhecia a geographia conjectural os mares descobertos por -Christovão Colombo. Havia-os em Panamá, e alguns rios da America do Sul -foram tomados primeiro por estreitos.[137] D’ahi a lenda que attribue a -Fernão de Magalhães o ter tido já conhecimento, por um mappa, do estreito -que descobriu. O que elle tinha era a lição dos mappas conjecturaes, era -o culto pelas velhas theorias que faziam passar por estreitos as aguas -do mar exterior para os mares interiores, e se elle descobriu o que -os outros não acharam, se á Hespanha levou essa gloria, foi porque D. -Manuel, cançado de não encontrar senão terra para o sul, entendeu que o -novo continente se immergia ao sul, como ao norte, pelo polo. Magalhães -perseverou, dizendo que penetraria no estreito, ainda que tivesse de -sumir-se na região polar, onde ha o frio e a brisa;[138] depois a -descoberta das ilhas do mar Pacifico ao sul da Asia, feita por Antonio -de Abreu e os outros expedicionarios enviados por Albuquerque, mais o -convenceu de que haveria ilhas tambem ao sul da America como as havia -ao sul da Asia, e que entre essas ilhas havia de encontrar por força o -famoso estreito que o conduziria pelo occidente á Asia. - - * * * * * - -Tinha concluido este meu trabalho, e tratava já de lhe pôr o fecho, -quando exigencias de uma missão official me levaram a Hespanha. Assisti -no dia 11 de outubro de 1892, em Huelva, á ultima sessão do congresso -dos americanistas, e, não podendo apresentar o livro que estava por -completar, apresentei uma resumida indicação em francez das idéas que -lhe serviam de fundamento. Acolhida com extraordinaria benevolencia, -essa communicação teve a felicidade de encontrar echos sympathicos. -O sr. Hamy, membro do Instituto de França, e dignissimo successor -do grande Quatrefages, e o sr. Marcel, distincto geographo, deram -noticia ao congresso, logo em seguida á leitura do meu resumo, e a mim -em particular, de trabalhos seus que confirmavam plenamente a minha -conjectura ácerca da descoberta do Brasil. A linha de demarcação de -Tordesillas fôra origem de falsificações cartographicas inspiradas pelo -zelo patriotico dos cartographos, falsificações pelas quaes Portuguezes -e Hespanhoes procuravam fazer entrar dentro da zona dos seus paizes as -terras que se iam descobrindo. Assim effectivamente o governo portuguez -mostrava que não fôra platonicamente que pedira e obtivera as 370 leguas -além das ilhas de Cabo-Verde. Tratou logo em seguida de explorar esse mar -occidental, cujos segredos Colombo desvendára, e a viagem clandestina de -Duarte Pacheco não era senão uma d’essas explorações, como foi com esses -intuitos exploradores que Pedro Alvares Cabral muito de proposito se -desviou do caminho que o devia conduzir directamente á India. Descoberto -o Brasil, tratava D. Manuel de explicar ao rei catholico que essa terra -não ficava fóra da sua zona, e tratavam os cartographos portuguezes de -sanccionar essa affirmação, da mesma fórma que os cartographos hespanhoes -procuravam incluir as Molucas na zona concedida ao seu paiz. Foi ainda -a esse intuito que obedeceram Abreu e Serrão, enviados por Albuquerque -a explorar os mares para além de Java e de Sumatra, e que nas suas -audaciosas viagens não só tomaram conhecimento de um grande numero de -ilhas que n’esses mares pollulavam, mas entreviram a Nova Guiné, e -adivinharam a Australia. - -Esta ultima affirmação é feita pelo sr. Hamy, e falta-me agora o espaço e -o tempo para fazer entrar no quadro d’este livro essa importante e ainda -hoje obscura questão do descobrimento da Australia. - -Mas o que fica assente de um modo incontestavel é que a participação -dos Portuguezes no descobrimento da America foi efficaz e activa. Se -o seu governo hesitou perante a temeridade de Colombo, se sacrificou -demasiadamente aos conselhos da fria razão no momento em que era -necessario um lance de audacia e um arrojo de visionario, logo, -despeitados por esse momento de fraqueza, e estimulados pelo glorioso -commettimento dos visinhos, precipitaram-se com verdadeira furia para -esse occidente que tinham receiado desvendar e foram tambem como Colombo -em procura da Asia pelos mares poentes. Uns e outros, Gaspar Côrte-Real -ao norte e Cabral ao sul, esbarraram com a mesma barreira que detivera -Colombo, barreira que os despeitava, que os indignava, que teimavam em -considerar como uma longa cadeia de ilhas que se desdobrava, como um -cordão de sentinellas ferozes e asperas, deante da Asia resplandecente, -e que era afinal bem mais fulgurante de maravilhosas riquezas do que -essa Asia decrepita e estagnada no seu somno de seculos. Por entre os -gelos do Norte, por entre as suppostas ilhas ao Sul, procuravam todos, -Hespanhoes e Portuguezes, o caminho de Cathay e de Cipango. Quando se -fatigaram de tão vãs tentativas, quando se convenceram de que era um novo -mundo que tinham deante de si, barreira inquebrantavel que lhes vedava -por esse lado o caminho para o Oriente, a perspicacia e a audacia e a -perseverança do portuguez Magalhães conseguiram desfazer essa ultima -illusão, reconstituir no espirito humano a Terra inteira na logica da sua -estructura, e conquistar para a Sciencia o morgado da Humanidade. - - - - -XI - -Conclusão - - -Lancemos os olhos para o espaço que rapidamente percorremos. Encontramos -a sciencia antiga desvelando maravilhosamente alguns dos segredos mais -importantes da cosmographia, mas estacionada n’uma solução do grande -problema que se lhe affigurara satisfatorio, e que era comtudo um -obstaculo invencivel para todo o progresso geographico. Depois de mil -conjecturas phantasistas, pode-se dizer que um grande resultado se -obtivera: o reconhecimento da esphericidade da terra. Mas o orgulho -humano oppunha-se invencivelmente á hypothese que désse a essa Terra, e -portanto á raça pensadora que a habitava, um logar inferior no concerto -do universo. O sol continuou a girar acompanhado por todo o systema -planetario e por todo o mundo stellar em torno da terra immovel e -soberana. Era comtudo esse um terrivel escravo, porque bastava a sua -ausencia para que fenecesse a vegetação e definhasse a vida; por isso -tambem era natural que nos pontos onde o seu contacto fosse mais proximo -o excesso do calor produzia o effeito contrario, e désse tal intensidade -á vida que a fizesse desapparecer na conflagração do abrazo. O mytho de -Zeus e de Semele parecia traduzir este pensamento. - -Quando a terra mãe, a Terra que o deus terrivel fecundava, o queria ver -de perto com todo o explendor do seu vulto, com toda a grandeza da sua -omnipotencia, bastava a presença do amante para a reduzir a cinzas. Era -em torno da zona média da terra que o sol descrevia o seu giro, era -ahi portanto que se approximava da terra, e ahi forçosamente a vida -desappareceria no incendio dos seus raios. - -Assim era a Sciencia que vedava o caminhar do homem. O mundo civilisado -dilatava-se, graças aos esforços e á audacia dos Phenicios, mas, por mais -audaciosos que fossem, considerariam uma insania suprema transpor os -limites das zonas defezas. - -Para essas regiões que os mortaes não podiam pisar transportava a -phantasia humana a residencia d’aquelles, que, libertos dos laços da vida -mortal, podiam existir em condições negadas á fraca humanidade. Foi pois -assim que para além do terminus da sciencia positiva, ou para o norte, -ou para o sul, a imaginação collocou as regiões da bemaventurança. - -Veiu a edade média, em que uma sociedade barbara procurando reatar o -fio da civilisação, tomou como ideal supremo da sua sabedoria a sabia -antiguidade. - -Se Ptolomeu e os outros eram respeitados pelos seus contemporaneos como -eximios sabedores, para os seus novos discipulos eram perfeitamente -oraculos, e a Sciencia continuou, mais do que nunca, a deter o homem -dentro dos limites consagrados. Assim como os Phenicios, fundeados por -assim dizer á beira da Syria, sondaram o Mediterraneo primeiro e depois -o Atlantico, o infante D. Henrique de pé no posto mais avançado da costa -europeia sentiu o desejo ardentissimo de sondar o grande mysterio. -Realisou-lhe a audacia dos seus navegadores o seu sonho querido, -quebrou-se a barreira da zona torrida, e ampliou-se para o occidente o -conhecimento do Oceano. As affirmações da sciencia antiga iam caindo uma -a uma sem que os navegadores ousassem comtudo desmentil-as, senão nos -pontos em que a experiencia mostrava definitivamente a sua fallibilidade. -A Africa foi tomando os seus contornos verdadeiros, dobrou-se a sua -ponta meridional, seguiu-se para o oriente, sem se encontrar o mar -mediterraneo das Indias, a peninsula indostanica foi tambem reintegrada -na sua verdadeira fórma, o Cathay da narrativa semi-legendaria de Marco -Polo appareceu na figura extranha d’essa China immobilisada, apesar de -rica e sabia, o Cipango transformou-se no archipelago japonez, e as ilhas -do meio-dia asiatico começaram a apparecer disseminadas nos mares como -as pérolas dispersas de um collar que se despedaçasse. Foi essa a obra -gigante dos Portuguezes. - -Mas a elles tambem se devia o encontro de um novo posto de observação, -de uma atalaya estimulante perdida no seio do Oceano. Como os Phenicios -em Tyro, como o infante D. Henrique em Sagres, ia Colombo mais adeante -sonhar mundos desconhecidos nos penhascos dos Açores. Era d’alli que via -as caravelas de outros sonhadores como elle, a quem só faltava o genio e -a perseverança, demandar alguma ilha mysteriosa para além do Oceano, ou -os restos d’aquella mysteriosa Atlantida, que fôra um dos vagos sonhos -da antiguidade. O alargamento da terra seguiu a sua ordem logica; os -Phenicios chegavam de Tyro a Carthago, e desvendavam o Mediterraneo, -de Carthago a Cadiz e descobriam o Atlantico, os Portuguezes de Sagres -desvendavam o segredo do Oceano para o sul e chegavam ao Cabo da Boa -Esperança, do Cabo da Boa Esperança quebravam o mysterio do mar oriental, -e aportavam a Calicut e a Goa, e de Goa irradiavam para o sul e para -o oriente as investigações finaes. De Sagres tambem, singrando para -o occidente, iam poisar nos Açores; estava reservado aos Hespanhoes, -guiados por Colombo, a audaciosa investigação que ia dar a America ao -mundo. - -O que era necessario, porém, era ligar essas duas grandes emprezas. Por -circumstancias verdadeiramente providenciaes foram os representantes -dos dois povos ligados na mesma empreza, que ataram as fitas soltas das -grandes explorações oceanicas, e esse enlace supremo foi Magalhães que o -começou, foi Elcano que o concluiu. - -Assim nas descobertas como em todas as emprezas do espirito humano é a -evolução que se manifesta. Não procede por saltos a natureza, tudo se -liga e se concatena. A missão dos grandes homens está exactamente em -serem os elos d’essa cadeia. As tentativas infructiferas, dispersas, -quasi inconscientes dos Catalães de Jayme Ferrer, dos Normandos de -Bethencourt, dos Genovezes de Vivaldi, e dos pescadores e marinheiros -portuguezes que procuravam arcar com o cabo Não ou devassar o Atlantico -unia-as o infante D. Henrique, dava-lhes o nó que as aproveitava, o -cabo Bojador dobrava-se e os Açores e a Madeira sahiam do seio das -ondas. As tentativas infructuosas tambem dos Açorianos e dos Madeirenses -ligava-as a mão poderosa de Colombo, e dava assim um novo fusil á cadeia -dos descobrimentos e a America apparecia. E por isso os povos quando -encontram na sua historia um d’esses homens insignes, sem renegar os -seus esforços collectivos, nem deixar de lhes reconhecer a importancia, -saudam n’esses grandes vultos uns entes extraordinarios que souberam dar -uma realidade positiva aos seus sonhos e ás suas aspirações, e foram -n’esse tumultuar de pensamentos desconnexos e inconscientes, as radiosas -incarnações da Consciencia da humanidade. - - - - -FOOTNOTES - - -[1] Tom. I, secção 1.ª, pag. 285. - -[2] Publicado por Dumont no _Corpo Diplomatico_, tom. III, parte I, pag. -200. E além d’esta as bullas de Calixto III, de 14 de maio de 1455 e de -Xisto XV, de 21 de julho de 1481, e a famosa divisão dos mares entre -Portugal e a Hespanha por Alexandre VI, e os tratados entre Portugal e -Hespanha, em que sempre se reconheceu o direito que tinhamos á costa -africana pela prioridade do descobrimento, e a deferencia com que a -França sempre reconheceu o nosso direito, mandando Luiz XII restituir uma -caravela portugueza vinda da Mina, tomada pelos francezes, e prohibindo -Francisco I, a 28 de junho de 1532, que fossem navios francezes á costa -da Guiné, em attenção aos tratados! V. Visconde de Santarem: _Recherches -sur la découverte des pays situés sur la côte occidentale d’Afrique au -delà du cap Bojador_ etc., § VII, pag. 67 e segg. E em 1513, publicou-se -em França, um livro intitulado: _Nouveau Monde et navigations fectes dans -les pays et iles auparavant inconnues_, e cujo primeiro livro se intitula -_Livro da primeira navegação pelo Occeano para a terra dos Negros -da baixa Ethiopia por ordem do illustre senhor infante D. Henrique, -irmão de D. Duarte, rei de Portugal_. E esse livro reimprimiu-se em -1516! E note-se que Francisco I não se desinteressava na questão dos -descobrimentos, e os marinheiros francezes procuravam seguir as nossas -pisadas. É conhecido o famoso dito do rei de França, que queria saber -qual o artigo do testamento de Adão que deixava parte do mundo aos reis -de Portugal e de Hespanha. Podendo pôr embargos, era de estranhar que o -não fizesse. - -[3] _Histoire de la première descouverte et conqueste des Canarias faite -dés l’an 1402 par messire Jean de Bethencourt, escrite du temps mesme par -F. Pierre Bontier et Jean Le Verrier, prestres domestiques dudit sieur de -Bethencourt, conseiller du roy en la cour du parlement de Rouen_, cap. -LIII, pag. 95. (Paris, 1830). - -[4] _Ibid._, pag. 4. - -[5] _Ibid._, cap. LIV. - -[6] _Ibid._, pag. 102. - -[7] Palavras de Innocencio VII, escriptas em 1406 a João de Bethencourt e -citadas na relação dos capellães a pag. 197, cap. LXXXIX. - -[8] Este erro gravissimo deu origem a todas as falsas reivindicações -francezas, apezar de ter sido completamente desfeito no proprio seculo -XV. Chamava-se primeiro _Gianya_, _Gineva_ ou _Gynoya_ ou _Guiné_ á -terra proxima de Marrocos, que se suppunha habitada pelos negros, e com -a qual se fazia commercio. Era esta a Guiné que ficava a doze leguas das -Canarias, «do outro lado da ilha de Fuerteventura», como dizem ainda -os capellães de Bethencourt. Azurara, quando chama _Guiné_ á costa do -Senegal descoberta pelos Portuguezes, desculpa-se de ter já chamado -assim, para empregar a linguagem commum, a outro paiz onde tinham estado -primeiro os Portuguezes, e que era d’este muito distante. Essa _primeira -Guiné_, ou _Guiné antiga_, reclamou-lhe o senhorio o rei de Castella, -D. João II, que escrevendo de Valladolid a D. Affonso V de Portugal, -a 19 de abril de 1454, dizia-lhe: «Otrosi, rey muy caro, e muy amado -sobrino, vos notificamos que, viniendo ciertas caravellas de ciertos -nuestros subditos e naturales vecinos de las nuestras ciudades de Sevilla -y Cadiz con sus mercaderias _de la tierra que llaman Guinea, que es de -nuestra conquista_, e llegando cerca de la nuestra ciudad de Cadiz á una -linea estando en nuestro señorio e jurisdicion, recudieron contra ellos -Pallencio, vuestro capitan etc.» - -Esta Guiné, cuja conquista o rei de Castella dizia pertencer-lhe, fazia -parte do reino da Africa, sobre a qual os reis de Castella diziam ter -direito, herdado dos Godos. Quando o nome de Guiné ficou pertencendo á -região que hoje o tem, quer dizer a que está para além do Cabo Bojador, -os reis de Portugal tomaram sem contestação nem cedencia de Castella -o titulo de _senhores de Guiné_, baseado no direito de primeiros -descobridores que ninguem lhes impugnou. E a Guiné antiga perdeu essa -denominação. Ahi está o segredo da confusão que deu origem ás pretenções -tão absurdas dos Normandos e dos Catalães. - -[9] «Toscanelli distingue en outre les îles que l’on rencontrera sur la -route, _que estan situadas en este viage_, par exemple l’Antilia, d’avec -les îles qui sont proches de l’Inde continentale, par exemple Cipango -et les îles avec les quelles trafiquent les négocians de différentes -nations.»—Humboldt.—_Histoire de la géographie du nouveau continent_, -tom. I, sec. 1.ª, pag. 228. - -[10] Ácerca das tres Indias, e das differentes denominações com -que apparecem na edade média, veja-se sobretudo o magnifico _Essai -sur l’histoire de la cosmographie et de la cartographie pendant le -moyen-âge_, etc., pelo visconde de Santarem, tom. I, pag. 136, 251, 182, -394, tom. II, pag. XXXVIII, 189, 223, tom. III, pag. 28, 420, 346, 371, -161, 199, 217, 274, 161, 240, 442, 360, 370, 195. (Paris, 1849). Os nomes -das differentes Indias são variadissimos, Barbara, Deserta, Primeira, -Segunda e Terceiro, Magna e Parva, Superior, Inferior e Exterior, Intra -Gangem, Ultima, Arenosa, etc. Sabendo-se o que eram estas differentes -Indias, como abrangiam a Tartaria, a Arabia, a China, e até a Ethiopia, -espantar-se-ha menos o leitor de que os Portuguezes procurassem na Africa -o _Prestes João das Indias_. Essa lenda tambem mudou de local como o nome -de Guiné e a designação de Ethiopia, mas pode-se dizer que nunca saíu de -alguma d’essas Indias. - -[11] Gosselin _Recherches sur la géographie systématique des anciens_, -tom. I, pag. 140. É firmando-se na auctoridade de Herodoto que este sabio -affirma que o grande Oasis do Egypto tinha outr’ora o nome de _ilha dos -Bemaventurados_. - -[12] O mappa-mundi de 1417, conservado no palacio Pitti, por exemplo, -indica duas Taprobanas, Ceylão e Sumatra. Quando não era Sumatra -exclusivamente Taprobana, era a uma das duas ilhas que esse nome se dava. -D. João de Castro no prologo do seu _Roteiro de Lisboa a Goa_, quando -falla a El-Rei de Portugal nos dominios que tem, diz: «como Taprobana que -os antigos criam ser outro mundo nouo, reconhece seu alto nome e lhe paga -pareas» e accrescenta em nota: «_Taprobana é agora chamada Samatra_» a -pag. 14. A essa Taprobana tambem se refere evidentemente Camões no seu -famoso verso: - - _Passaram inda além da Taprobana_ - -Tendo no tempo de Camões chegado os Portuguezes já ao Japão, era bem -natural que, havendo a Taprobana-Ceylão e a Taprobana-Sumatra a esta -ultima se referisse o grande poeta indicando o limite ultrapassado pelos -Portuguezes. O famoso mappa da cathedral do Hereford colloca a Taprobana -defronte do golpho Arabico. Prisciano no seu poema geographico põe a -Taprobana no mar oriental juntamente com a ilha phantastica do Ouro. No -tratado _De moribus brachmanorum_ que se attribue a S.ᵗᵒ Ambrosio citado -por Klaproth na sua _Lettre sur la boussole_, pag. 53, põe-se a Taprobana -em Ceylão, ilha que tem magnetes que attrahem os navios que teem pregos -de ferro e não os deixa mover. N’alguns mappas da edade média põe-se a -Taprobana deante da bocca do Ganges. - -[13] A _Aurea Chersoneso_ de Ptolomeu e de Marino de Tyro corresponde sem -duvida á peninsula de Malaca, mas o mappa de La Salle por exemplo colloca -a _Aurea Chersoneso_ no Indostão. - -[14] _Mémoire sur le pays d’Ophir, oú les flottes de Salomon alloient -chercher de l’or_, nas _Mémoires de littérature de l’Académie royale des -inscriptions et belles-lettres_, tom. XXX, pag. 83 a 93, (Paris, 1764). -Este paiz de Ophir tem uma terrivel parecença com as ilhas de Chryse e -de Argyra, e do Sol e dos Homens e das Mulheres que apparecem nos mappas -conjecturaes. N’alguns mappas Ophir tambem apparece como ilha. Querer -determinal-o não será querer tomar muito ao pé da letra as indicações -vagas da Biblia? - -[15] A idéa adoptada na edade média, que vinha da antiguidade e que durou -até ao seculo XVI, é a das duas Ethiopias de Homero, a que fica entre -os dois Nilos, e a que se liga com os Mauritanos. S. João Damasceno, -dividindo os habitantes da terra segundo as areas dos ventos, dizia: «Ad -Africum Ethiopes et occidentales Mauri, ad Favonium Herculis columnæ, -etc.» _De fide orthodoxa_, tom. I, pag. 69. _Apud_ Visconde de Santarem -_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, pag. 32. Assim -é corrente que a baixa Ethiopia começa para os escriptores medievaes nas -proximidades da Mauritania, quer dizer, pega com a Guiné primitiva, com -a Guiné de Bethencourt. O titulo dos reis de Portugal mostra bem que -Ethiopia quer dizer simplesmente _Africa_. Assim diz o titulo: Rei de -Portugal e dos Algarves, d’aquem e d’além-mar em Africa... (Este Algarve -na Africa era Ceuta e Tanger, etc.) senhor de Guiné (no sentido que -esta palavra tomou depois dos descobrimentos) da conquista navegação e -commercio da _Ethiopia_ (Africa meridional e oriental) Arabia, Persia -e _India_ (tambem na significação da meia-edade, abrangendo a Asia -Oriental). É curioso que um escriptor moderno, de grande merecimento, -transcrevendo um trecho de um escriptor já do seculo XVII, em que se diz -que um navio que ia para a Ethiopia foi levado pelas correntes para o -Brazil, com isso muito se espanta. Não se lembra que a região da Ethiopia -comprehendia até a Africa occidental que ficava para além da Guiné. - -[16] Na primeira viagem, Colombo, chegando a Cuba, disse: _Es cierto que -esta es la Tierra-Firme_, Diario de 1 de novembro. Na segunda viagem -confirmou essa opinião, e fel-a jurar solemnemente pelos marinheiros -a 12 de junho de 1494. Humboldt _Histoire de la géographie du Nouveau -Continent_, tom. I, pag. 310, _nota_. - -[17] Vejam-se no principio do segundo volume do magnifico livro de -Humboldt as indicações relativas aos mappas d’esse tempo que separavam -umas das outras as diversas porções da America. - -[18] No seu tratado publicado em latim na edição Reich com o titulo _De -facie in orbe Lunæ_, tom. IX, pag. 923. - -[19] Sobre as differentes theorias relativas á fórma da terra veja-se o -_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, pag. 14, 223, -410, tom. II, pag. XV, XVII, 32, 252, 258, 10, LIX a LXI, 18, 26, 35, 94, -107, 215, etc., etc., tom. III, pag. 81, 102, 212, 223, 460, 499, etc. - -[20] Santo Agostinho, S. João Chrysostomo, Lactancio, preconisaram a -theoria da _terra quadrada_ declarando-a conforme com o Evangelho, os -mappas medievaes como o de Cosmas Indicopleustas do seculo VI, Gervais -de Tilbury do seculo XIII, Nicolau d’Oresme do seculo XIV, Guilherme -Fillastre do seculo XV. Umas vezes inscreviam-n’a no circulo formado -pelos mares, outras vezes pelo contrario, a terra em si é redonda, mas a -figura que está inscripta é quadrada. - -[21] Note-se bem que este é que é o systema de Ptolomeu, o que -predominava, apesar de tudo, nos espiritos mais esclarecidos. Pedro agora -vae refutal-o, substituindo-lhe uma outra theoria scientifica, menos em -desaccordo com as affirmações orthodoxas. - -[22] _Petri Alphonsi Judeo Christiani Dialogi_, p. 15, apud. Visconde de -Santarem, _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. III, pag. -320 a 324. - -[23] «Se as extremidades da Ethiopia nos offerecem figuras extranhas de -homens e de animaes, pouco nos devemos espantar: é o effeito do excessivo -calor que alli reina, porque a acção do fogo é maravilhosamente propria -para fazer tomar ás partes exteriores de todos os corpos uma infinidade -de configurações diversas.» (Plinio, _Historia Natural_, tom. V, cap. -XXX.) - -[24] Macrobio, _In somnium Scipionis_, tom. II, cap. IX. - -[25] Orosio, _Ormesta mundi_. - -[26] Santo Isidoro de Sevilha, _De Lybia_. - -[27] Bedo, _De Elementis Philosophiæ_, tom. IV, pag. 225.—«... _Pars enim -illius torridæ parti aeris subjecta, ex fervore solis torrida est et -inhabitabilis_, etc.» - -[28] S. Virgilio, bispo de Saltzburgo. Veja-se a este respeito a -_Historia litteraria de França_, tom. IX, p. 156. - -[29] Raban Mauro de Moguncia, _De Universo_. - -[30] Alberti Magni Germani, _Philosoph. principii, Liber cosmographicus -de natura locorum_, fl. 14_b_ e 23_a_. - -[31] Roger Bacon, _Opus majus_, pag. 183. - -[32] _Conciliator differentiarum philosophorum_, Diff. LXVII. - -[33] _De Universo_, liv. XII, cap. IV, pag. 172. - -[34] _Speculum naturale_, part. 1.ª, liv. IV, cap. XVII. - -[35] _De mirabilibus Indiæ._ - -[36] «Et dien (disent) que illec sont antipodes, c’est-à-dire, gens qui -ont leurs pieds contre nos et pour ce qu’ils sont á l’opposite partie de -la terre, aussi comme s’ils fussent subz nous et nous soubz eulx. Ceste -opinion n’est pas á tenir, et n’est pas bien concordable á notre foy. -_Car la loy de Jésus Christ a esté preschié par toute la terre habitable; -et selon ceste opinion, telles gens n’en auraient oncques ouij parler, -ne pourroient estre subgés à l’église de Rome. Pour ce, reprenne saint -Augustin ceste erreur ou ceste opinion_, _lib._ XVI _«De Civitate Dei»_ -Nicolau d’Oresme, cosmographo francez do seculo XIV, preceptor do rei -Carlos V, _le Sage_.—Manuscripto cosmographico existente na Bibliotheca -Nacional de Paris, com o numero 7487, _apud_. Visconde de Santarem, -_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, p. 142. - -[37] Quoniam nullo modo scriptura ista mentitur, quæ narratis præteritis -facit fidem eo quod ejus predicta complentur; nimisque absurdum est, -ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem, Oceani immensitate -trajecta navigure ac pervenire potuisse, _ut etiam illic ex uno primo -homine genus institueretur humanum_. Lactancio _Divinarum institutionum_, -liv. III, cap. IX. - -[38] Qua propter inter illos tunc hominum populos qui per septuaginta -duos gentes, et totidem linguas colliguntur, fuisse divisi, quæramus, -si possimus invenire, illam in terris peregrinantem civitatem Dei, -quæ ad diluvium arcamque perducta est, at que in filiis Noe per eorum -benedictiones perseverare monstretur, maxime in maximo qui est appellatus -Sem, quando quidem Japhet ita benedictus est, ut in ejusdem fratris sui -domibus habitaret.—_Ibid._ - -[39] Cosmas Indicopleustas, _Topographia Christã_. - -[40] _Ibid._ - -[41] Cosmas, Santo Isidoro de Sevilha, Anonymo de Ravenna, Raban Mauro, -Honoré d’Autun, Hugo de Saint-Victor, Vicente de Beauvais, Brunetto -Latini, Joinville. A noticia do famoso chronista de S. Luiz a respeito -do Nilo, transcripta pelo visconde de Santarem no _Essai_, etc., tom. -I, pag. 112, nota 3, não deixa de ser curiosa: «Ici il convient de -parler du fleuve qui passe par le pais d’Egypte, et vient du Paradis -Terrestre... Quant celui fleuve entre en Egypte il y a gens tous experts -et accoustumez, comme vous diriez les pêcheurs des rivières de ce pays-cy -qui au soir jettent leurs reyz au fleuve et es rivières; et au matin -souvent y trouvent et prennent les espiceries qu’on veut en ces parties -de par de ça (dans l’Europe) bien chierement et au pois, comme canelle, -gingembre, rubarbe, girofle, lignum, aloes et plusieurs bonnes chouses. -Et dit—on pais que ces chouses—lá viennent du Paradis terrestre et que le -vent les abat des bonnes arbres, qui sont en Paradis terrestre.» - -[42] «Para elle (Colombo) o Paraizo Terrestre correspondia ao castello -de Kang—diz dos Persas, e devia achar-se n’um logar elevado e -inaccessivel.»—Reinaud _Géographie d’Aboulféda_, tom. I, pag. 252. «A -corrente do Orenoque é tão forte que Diogo de Lepe reconheceu por meio -de um _escalfador_ que só se abria no fundo das aguas, no mar defronte -da foz de Orenoque, que, n’uma profundidade de oito braças e meia, só as -duas primeiras braças do fundo eram de agua salgada, e as outras de agua -doce».—Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., t. I, pag. 314. - -[43] Lemos n’um manuscripto cosmographico datando d’essa epocha (seculo -VII) «_que a terra é da forma de um cone ou de um pião_, de forma que -a sua superficie vai, segundo esse systema, elevando-se do sul para o -norte.» Visconde de Santarem, _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, -etc., tom. II.—_Int._ pag. LX. A fórma ovoide era-lhe attribuida pelo -philosopho grego Thalés, seguido por alguns geographos da edade média. -Posidonius dava-lhe a fórma de uma funda, como Prisciano tambem. - -[44] N’uma carta de 1498, publicada por Navarrete, tom. I, pag. 256, -compara Colombo a terra com uma pera dividida ao meio, sendo uma parte -redonda, e a outra terminada em cone. Esta carta vem tambem nas _Select -letters of Christopher Columbus_, publicadas por Major, pag. 130. -(Londres, 1847). - -[45] Os geographos arabes consideravam Gog e Magog como filhos de Japhet, -devemos accrescentar que era esta a doutrina mais seguida. - -[46] É interessante o que diz ácerca d’estes povos o sur Vivien de Saint -Martin nas suas _Recherches sur les populations primitives et les plus -anciennes traditions du Caucase_, pag. 40 a 47. (Paris, 1847). M. de Sacy -considera a muralha de Alexandre como sendo a noção vaga da muralha da -China. - -[47] Ha poucos annos ainda se publicou, em Hespanha, um livro do sr. -Junquera _Origen de los americanos_, em que se sustenta essa doutrina. -N’ella se baseia um dos romances, e dos menos bons, _Oak openings_ do -grande romancista americano Fennimore Cooper. - -[48] Mela, III, c. VII.—Solino diz que a terra d’essa ilha está sempre -vermelha.—Plinio colloca-a perto da Taprobana.—_Hist. Nat_. VI, 22. - -[49] «Colloquei, diz Toscanelli na carta que escreveu a Colombo e -referindo-se ao mappa que mandou ao rei de Portugal, defronte (das costas -da Irlanda e da Africa) direito a oeste o principio das Indias com as -ilhas e os logares a que poderia abordar.» - -[50] Todas estas lendas irlandezas, em abreviada exposição, se podem -ver no excellente livro de mr. de Villemarqué _La Légende Celtique_, -especialmente na _Introducção e na Lenda de S. Patricio_. - -[51] Os cavalleiros portuguezes estavam no exercito do duque de Borgonha, -que defendia Arras, e foram ao combate commandados pelo sire de -Cottebrune; os seus adversarios, pertencentes ao exercito de Carlos VI, -eram commandados pelo bastardo de Bourbon. Veja-se a nossa _Historia de -Portugal_, tom. III, pag. 267, nota (2.ª edição). - -[52] _Historia da Universidade_, tom. I, cap. III, pag. 137. (Lisboa, -1892.) A discordancia em que estamos n’este ponto com o illustre -professor não nos impede de reconhecermos que o seu livro é monumental. O -erudito, a cuja opinião elle se encosta, é João Teixeira Soares, aliás um -açoriano benemerito, mas um dos taes que se deixam arrastar pelo prazer -de demolir uma gloria consagrada. - -[53] Veja-se o retrato de Napoleão traçado primorosamente por Taine nas -suas admiraveis _Origines de la France contemporaine_. - -[54] _Os filhos de D. João I_, cap. III, _A villa do infante_, pag. 59 e -segg. - -[55] Humboldt, _Histoire de la géographie du nouveau continent_, tom. I, -pag. 334 e segg. - -[56] Apud Visconde de Santarem, _Recherches sur la découverte_, etc., -pag. 113 e 114. - -[57] Citado por Humboldt na _Histoire de la géographie du nouveau -continent_, tom. I, pag. 246. - -[58] No _Boletim da Sociedade de Geographia_ de Madrid do anno corrente. - -[59] «Mais avant les Portugais aucune nation de l’Europe ne semble être -allée au délà de l’Équateur». (_Histoire de la géographie_, etc., tom. I, -pag. 290). - -[60] «L’horizon géographique s’agrandit peu à peu de la Mer Égée au -méridien des Syrtes, de là aux Colonnes d’Hercule et hors du détroit -avec Hannon vers le sud, avec Pythéas vers le nord». (_Hist. de la -géogr._, tom. I, pag. 32). O horizonte ampliado por Pythéas nunca mais -se restringiu, porque é que havia de acontecer o contrario ao horizonte -ampliado por Hannon, se este viajante tivesse ido mais longe do que a -costa de Marrocos? - -[61] Ha bullas de Eugenio IV, de Nicolau V, de Martinho V, de Calixto -III, de Xisto IV. A bulla de Calixto III, confirmando as de Martinho V e -Nicolau V, declara que o descobrimento das terras de Africa Occidental -o não possam fazer senão os reis de Portugal. A bulla está no Archivo -Real da Torre do Tombo no _Livro dos Mestrados_, fl. 151 e 168. Veja-se a -minha _Historia de Portugal_, tom. III, pag. 248, nota 1, (2.ª edição). A -bulla de Nicolau V, que já citámos, de 8 de janeiro de 1454, concedia a -el-rei de Portugal, ao infante D. Henrique e a todos os reis de Portugal, -seus successores, todas as conquistas de Africa _com as ilhas nos mares -adjacentes_ desde o cabo de Bojador e de Não e de toda a Guiné com -toda a sua costa meridional. (Arch. Real da Torre do Tombo, maç. 7 de -bullas, n.º 29, e maç. 33, n.º 14). Por isso, D. João II, quando fallou -a Christovão Colombo a 9 de março de 1493, lhe disse, que se regosijava -tanto mais com a sua conquista, quanto tudo quanto elle descobrira -pertencia de direito a Portugal. Humboldt, _Histoire de la géographie du -Nouveau-Continent_, tom. I, sec. 1.ª, Nota E, pag. 331. E effectivamente -por algum tempo se discutiu se os descobrimentos de Christovão Colombo -eram ou não de _ilhas nos mares adjacentes_ á costa africana. E não acham -curioso que, se Francezes ou Hespanhoes ou Italianos, antes de nós, -tivessem passado para deante do Bojador, acceitassem e reconhecessem e -fizessem respeitar por leis e decretos o direito que nós tinhamos de -não consentir que se fizessem descobrimentos n’esses mares, ou, no caso -de se fazerem, o direito que tinhamos ao menos, á posse d’essas terras -descobertas!! - -A proposito d’esse cavalleiro allemão Balthazar, que acompanhou Antão -Gonçalves, diz o auctor d’este livro: «Antão Gonçalves voltou a Portugal -com os negros, e Balthazar o cavalleiro allemão que o acompanhava tornou -para a sua terra, onde foi naturalmente a maravilha de todos os que o -escutavam, e um novo Sindbad para os pasmados Germanos. A narração das -tempestades, dos perigos, dos estranhos costumes dos Azenegues devia -occupar bastantes serões de inverno nos velhos castellos allemães junto -da vasta lareira, emquanto gemesse lá fóra o vento e cahisse a neve -cobrindo de alvo manto o solo endurecido.» _Hist. de Portugal_, tom. III, -pag. 252 (2.ª edição). - -[62] _Olympiada II_, 127. - -[63] Como se pode ver no 1.º mappa do Atlas do visconde de Santarem, que -é exactamente o mappa catalão de 1375. - -[64] _Habet_, diz o manuscripto de Genova, _latitudinem unius legue et -fundum pro majore navi mundi_. - -[65] _La plage de sable, qui, comme on l’a dit, forme presque entiérement -l’embouchure du Rio d’Ouro ne permet pas de penser que ce lieu puisse -recevoir des bâtiments du plus faible tirant d’eau, il ne peut -probablement admettre que des canots._ Roussin _Mémoire sur la navigation -aux côtes occidentales de l’Afrique_, pag. 96. - -[66] Observação já feita pelo visconde de Santarem nas suas notas á -edição da _Chronica de Guiné_ de Azurara. Veja-se tambem o magnifico -capitulo da _Vida do principe Henrique_ do illustre escriptor Richard -Major, capitulo intitulado _The slave trade_. - -[67] Este commentario vem publicado na collecção de Ramusio. - -[68] O sabio francez Letronne n’uma memoria publicada no _Journal -des Savants_ de agosto de 1831, diz o seguinte: «L’hypothése d’un -prolongement indéfini de la côte occidentale d’Afrique, à partir d’une -latitude voisine de l’Équateur, était fondée sur la direction de la côte -d’Afrique depuis la rivière de Nun jusqu’au cap Bojador _que l’expédition -d’Hannon n’avait pas dépassée_.» - -[69] «Ha ainda um personagem duvidoso, diz Renan, este _presbyter -Johannes_, especie de socio do Apostolo, que perturba como um espectro -toda a historia da Egreja de Epheso e causa aos criticos bastantes -embaraços.» _L’Antechrist_, pag. XXIII, trad. do sr. Theophilo Braga, que -cita este trecho nas _Lendas Christãs_, cap. V, _As lendas do primado da -Egreja_, pag. 213 (Porto, 1892). Este livro do sr. Theophilo Braga é na -verdade excellente e foi-me de um grande auxilio n’este estudo ácerca -das viagens da lenda do Prestes João. A não ser o livro de Marco Polo e -os artigos do illustre sinologo Pauthier, que consultámos directamente, -as fontes que citamos são as que o sr. Theophilo Braga aproveitára e -indicára. Folgamos de prestar esta homenagem ao nosso illustre confrade, -porque, apesar de estarmos muito em desaccordo com alguns dos pontos de -vista d’este seu novo livro, não deixamos de reconhecer que é mais uma -prova do muito talento e da muita erudição do seu auctor. - -[70] Esta carta vem publicada na _Cosmographie et histoire naturelle -fantastique du moyen-âge de Ferdinand Denis_. - -[71] Por 1122, no pontificado de Calixto. - -[72] Ainda na ultima concordata celebrada entre Portugal e a côrte de -Roma ácerca do padroado da India tiveram de ser resalvados os direitos -christãos do rito syriaco. - -[73] Theophilo Braga, _Lendas Christãs_, pag. 227. - -[74] Veja-se a _Nota explicativa do symbolo da arvore do sol e da arvore -da lua_, escripta pelo sr. Felix Lajard, e communicada ao visconde de -Santarem que a publicou no fim do III volume do seu _Essai sur l’histoire -de la cosmographie_, etc., pag. 506. - -[75] Rosweid, _Vitæ Patrum_.—_Vita S. Macari Romani servi Dei qui -niventus est juxta Paradisum._ Andrea Bianco no seu famoso mappa de 1436 -põe o Paraizo n’uma peninsula, e junto do Paraizo um grande edificio com -esta designação: _Ospitium Macari_. - -[76] G. Pauthier _Le pays de Tanduc et les descendants du Prêtre -Jehan_.—_Revue de l’Orient, de l’Algérie et des Colonies_, tom. XIII, -pag. 287. (Paris, 1861). Publica primeiro o capitulo LXXIII, da Relação -de Marco Polo, que se intitula: _Cy devise de la province de Tanduc, et -des descendants du Prestre Jehan_, a que se segue depois o commentario. - -[77] Ainda não tinham passado os portuguezes do Cabo Branco, estava-se -apenas no anno de 1441 e já o infante encarregava Antão Gonçalves de -saber alguma coisa ácerca de Prestes João. - -[78] Um distincto escriptor francez, Eyriés, que escreveu a biographia de -João Fernandes na _Biographie Universelle_, diz que elle fôra o primeiro -Europeu que penetrára no interior da Africa e que as particularidades -da relação que elle trouxera apresentavam uma grande analogia com as -da relação de Mungo-Park. A respeito dos serviços prestados á botanica -pelos Portuguezes vejam-se os estudos de primeira ordem do sr. conde de -Ficalho, _Plantas uteis da Africa Portugueza_, (Lisboa, 1884), a _Flora -dos Lusiadas_, (Lisboa, 1880), a _Memoria sobre a Malagueta_, (Lisboa, -1878). A respeito dos nossos serviços á ornithologia, vejam-se as -interessantissimas communicações feitas pelo notavel sabio portuguez o -sr. Bocage a Andrade Corvo, e por elle publicadas nas notas á sua edição -do _Roteiro de D. João de Castro_. - -[79] Alvaro de Freitas ia na expedição commandada por Lançarote, -almoxarife em Lagos, e n’um momento de enthusiasmo declarou que estava -prompto a seguir o seu chefe até ao Paraizo Terreal. V. a minha _Hist. de -Portugal_, tom. III, pag. 271. - -[80] Tristão Vaz Teixeira, foi na grande expedição de 1445, de que fazia -parte Soeiro da Costa. Alvaro Fernandes tornou-se celebre sobretudo pelo -descobrimento da Serra Leôa. - -[81] Alvaro Fernandes, por exemplo, foi de uma vez do Cabo Verde á Serra -Leôa, e depois Cadamosto e outros exploraram cuidadosamente a costa -intermedia, fazendo então viagem como se faz, quando se quer estudar uma -costa. «A nossa navegação diz o viajante italiano, sempre foi de dia, -lançando ancora todas as tardes ao sol posto com dez ou doze braças de -agua.» _Navegações de Cadamosto (traducção portugueza)_ pag. 51. - -[82] _Histoire de la géographie_, etc., tom. II, pag. 56 e 57. - -[83] _Os Côrte-Reaes_, pag. 61. (Ponta-Delgada, 1883). - -[84] _Ibid._, pag. 57. - -[85] Veja-se Herrera, _Historia general de los hechos castellanos en las -islas y tierra firme del mar oceano_, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6. -(Madrid, 1601). - -[86] Veja-se Herrera, _Historia general de los hechos castellanos en las -islas y tierra firme del mar oceano_, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6. -(Madrid, 1601). - -[87] Publicado no _Archivo dos Açores_, tom. I, pag. 24. - -[88] Publicado no _Archivo dos Açores_, tom. I, pag. 22. - -[89] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos _Côrtes-Reaes_, pag. 62. - -[90] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos _Côrte-Reaes_, pag. 63. - -[91] É o proprio Humboldt, que, referindo-se ás epochas do encontro das -ilhas diz: «Ces époques sont, pour l’écueil des Formigas, 1431; pour -l’île Santa Maria, 1432; pour San Miguel 1444; pour Terceira, San Jorge -et Fayal, 1449; pour Graciosa, 1453. La découverte des îles les plus -occidentales, Flores et Corvo, paraît antérieure à 1449, mais cette date -est moins précise». _Hist. de la géographie_, etc., tom. II, pag. 105. - -[92] _Os Côrtes-Reaes_, pag. 61. - -[93] Assim de João Vaz Côrte Real não hesito em referir que se dizia -que foi elle quem descobrira a ilha Terceira e a de S. Jorge e que por -isso recebera a capitania das duas ilhas (!) Cabo Verde e o Brazil (!!). -Tambem a respeito da força de João Vaz conta com a maior seriedade, e -como facto authentico, uma d’estas lendas que atravessam os seculos, com -as suas variantes, ácerca de homens famosos pela sua força muscular. -Assim diz, que, estando João Vaz Côrte Real no Algarve a passeiar na sua -quinta, veiu visital-o um castelhano muito forçoso, que tranquillamente, -passando n’uma alameda de marmeleiros, os foi arrancando de um e de -outro lado, pondo-lhes as raizes ao sol, João Vaz não fez a mais leve -observação, mas apanhando os marmellos, apertou-os na mão e esmagou-os -completamente não lhe ficando na mão senão o bagaço. É uma variante da -historia do ferrador, um Mauricio de Sarce ou um D. Pedro II de Portugal. -O rei ou o principe partia com a maior facilidade cada ferradura que -o ferrador lhe apresentava, dizendo-lhe que não era boa, e o ferrador -calado. Quando o alto personagem, pagando generosamente a sua ostentação -de força, deu uma moeda de ouro ao ferrador, este partiu-a dizendo que -não era boa. Como se vê, é o conto popular sempre com a mesma forma, -repetida por um escriptor crendeiro, cujo testemunho tem comtudo servido -para que escriptores serios percam o seu tempo com umas das suas lendas! - -[94] _Os Côrte-Reaes_, pag. 36. - -[95] _Ibid._, pag. 35. - -[96] _Os Côrte-Reaes_, pag. 19. - -[97] Arch. Nac. da Torre do Tombo, liv. 49 de D. João III, fl. 243, -verso. Transcripto nos _Côrte-Reaes_, pag. 121 a 125. - -[98] Não ha razão seria para que a Groenlandia pertença á America e não -lhe pertençam os Açores. Da Islandia, que é a ultima parte da Europa, á -Groenlandia, vão 240 leguas, de Portugal a S. Miguel 247. Portanto, se -os islandezes descobriram a America porque chegaram á Groenlandia, com -mais razão se pode dizer que descobriram os Portuguezes a America porque -chegaram aos Açores. É perfeitamente pueril estar a discutir quem foi -que tocou primeiro nas terras americanas, a gloria consiste em não ter -hesitado em atravessar centos e centos de leguas de mar com o fim de -chegar ao Oriente pelo caminho do occidente. - -[99] Diz Pedro Nunes: «E perderam-lhe (_os Portuguezes_) tanto o -medo (_ao mar_): que nem ha grande quentura da torrada zona: nem -o descompassado frio da extrema parte do sul: com que os antigos -escriptores nos ameaçavam lhes pode estorvar: «...Tirará nos muitas -ignorancias: e a mostraram ser a terra mór que o mar (_o erro de -Colombo_): e auer hi antipodas: que ate os Santos duvidaram: e que nam a -regiam que nem por quente nem por fria se deyee de abitar.» _Tratado que -o Doutor Pero Nunes, cosmographo del Rey nosso senhor fez em defensão da -carta de marcar: võ o regimento da altura._ Reg. 1. (Lisboa, 1537). - -[100] Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., tom. II. Nota _H_, -pag. 369. - -[101] Veja-se a interessante obra de Navarrete, tom. I, pag. 300. - -[102] Strabão, II, pag. 83, 113 e 116. Itaque, diz Strabão na formosa -passagem em que prophetisa a America, compluribus verbis persuadere -nititur Eratosthenes nisi Atlantici maris obstaret magnitudo, posse nos -navigare in eodem parallelo, ex Hispania in Indiam per universum id quod -reliquem est, demta dicta distantia (hoc est longitudinæ terræ habitatæ) -quæ totius circuli trientem excedit». Strabo, liv. I, pag. 113-114. -Assim, excedendo as terras habitadas a terça parte do parallelo, o mar -a percorrer é um pouco inferior a ⅔ e menos de 240°, mais de 236°. A -differença imaginada por Eratosthenes e Strabão e a distancia verdadeira -não é grande. - -[103] Esta carta foi publicada pelo sr. Teixeira de Aragão na excellente -_Memoria ácerca do descobrimento da America_ que escreveu para o volume -consagrado pela commissão portugueza do centenario de Colombo a esta -grande solemnidade. É datada de Aviz de 20 de março de 1488. Trata -Christovam Colombo por nosso especial amigo. - -[104] _Os Côrtes-Reaes_, pag. 65, nota 123. A carta de doação a Fernão -Dulmo vem publicada no mesmo volume de pag. 64 a 69. - -[105] «No me admiro tengais, diz-lhe Toscanelli na sua segunda carta, tan -gran corazon _como toda la nacion portugueza, en que siempre ha habido -hombres señalados en todas emprezas_. - -[106] A carta é de maio de 1505, citada por Navarrete no t. III pag. 528, -e Humboldt, t. III, pag. 260. - -[107] Veja-se a minha _Historia de Portugal_, t. IV, pag. 272. - -[108] Foi Humboldt que fez notar a differença entre as duas versões da -mesma bulla, _Hist. de la géographie_, etc., sec. II, t. III, pag. 52, -nota. - -[109] A filha de Izabel a Catholica desposára o filho d’el-rei D. João -II, o principe D. Affonso que morreu de uma desastrada quéda de cavallo a -13 de julho de 1491. - -[110] Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., sec. II, t. III, pag -55. - -[111] _Quadro elementar das relações politicas e diplomaticas de Portugal -com as diversas potencias do mundo_, t. II, pag. 390 Lisboa, 1844. O -tratado vem publicado _in extenso_. - -[112] Pedro Martyr d’Anghiers, _Oceanicas_, dec. VIII, cap. 10. - -[113] Foi o duque de Medina-Sidonia que se offereceu para ir com as suas -caravelas em perseguição dos portuguezes, e a 2 de maio de 1493 pediam -os reis catholicos ao duque que as tivesse prestes, a 12 de junho e 27 -de julho affiançavam a Colombo que não havia motivo para se desconfiar -do rei de Portugal, doc. n.ºs 16, 50 e 54 publicados na _Collecção de -viagens e descobrimentos_, citados pelo sr. Teixeira de Aragão a pag. 18 -da sua _Breve memoria sobre o descobrimento do Brazil_. - -[114] O trecho da _Esmeralda_ é o seguinte: «Como no terceiro anno do -vosso reinado do anno de Nosso Senhor de mil quatrocentos noventa e oito -donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte occidental, passando além -do grande mar oceano, onde é achada e navegada uma tão grande terra firme -com muitas grandes ilhas adjacentes a ella, que se estende a setenta -graus de ladeza da linha equinocial contra o polo arctico.» _Esmeralda_ -liv. 2.º, cap. I, transcripto pelo sr. Teixeira de Aragão na sua _Breve -Noticia_, etc., pag. 47. D’este trecho deduz-se que Duarte Pacheco foi -mandado descobrir para o occidente em 1498, o que não faz senão confirmar -o que temos dito, mas não que Duarte Pacheco descobriu o Brasil. Nem elle -diz que _achou e navegou_ essa terra, mas sim que essa terra _é achada e -navegada_, e isto em 1505. - -[115] _Roteiro geral do globo_, tom. XI, sec. 1.ª, pag. 2 (Lisboa 1839). -Mouches, _Les côtes du Brésil_, sec. II, pag. 8 (Paris, 1864). - -[116] N’uma das sessões do _Instituto Historico Geographico do Brasil_, o -imperador D. Pedro II propoz como assumpto de discussão «se a descoberta -do Brasil foi intencional ou devida ao acaso». Joaquim Norberto fez -uma memoria interessante sustentando que a descoberta foi intencional, -Machado de Oliveira fez uma memoria de uma futilidade inexcedivel e -de uma grosseria imperdoavel que nem merece que d’ella nos occupemos, -Gonçalves Dias sustentou com argumentos broncos, mas com vigor de estylo, -mostrando-se muito talentoso e muito erudito, que a descoberta fôra -occasional. Joaquim Norberto replicou e muitissimo bem. O unico argumento -de algum peso que Gonçalves Dias apresentava era o da corrente equatorial -que corre de léste para oeste. É esse exactamente o que o sr. Baldaque da -Silva destróe technicamente e de um modo completo. - -[117] _Les côtes du Brésil_, pag. 115, nota _a_. - -[118] _Ibid._, pag. 12. - -[119] _Ibid._, pag. 116, nota _a_. - -[120] «Sahindo do dito Cabo Verde, esta terra jaz entre Oeste e Sudoeste, -ventos principaes, e dista do dito Cabo Verde quatrocentas leguas». -_Carta de Portugal enviada ao rei D. Manuel ácerca da viagem e successo -da India_, traduzida da versão italiana pelo sr. Prospero Peragallo, -e por este publicado com o texto italiano e annotado nas _Memorias da -commissão portugueza do centenario de Colombo_. O trecho que citamos vem -a pag. 9 _in fine_. Como se vê, estando a 400 leguas de distancia não -a oeste, mas a oes-sudoeste a distancia do meridiano de Cabo Verde ao -meridiano de Vera-Cruz não podia ser superior a 370 leguas. Pero Vaz de -Caminha disséra-lhe: «Topamos algūus synaes de terra seendo da dita ilha -(_S. Nicolau de Cabo-Verde_) segundo os pilotos diziam obra de VIᵉ LX ou -LXX legoas ᵉlc (670 _ou_ 701 _leguas_)». Esta carta de Pero Vaz Caminha -tem sido muitas vezes publicada. Fazemos o nosso extracto da memoria do -sr. Aragão, onde vem nos documentos, pag. 66. - -[121] A carta do jesuita Antonio de Sá escripta em hespanhol aos jesuitas -da Bahia e datada de S. Vicente, 13 de junho de 1559 diz: «Un Indio que -se llama Belchior está puesto en ayunar todos los dias que manda la -Iglesia, y sin yo le hablar nada, preguntóme que le hiziese saber los -dias de ayuno y cual no se comia carne, diciendome que antes _que muriese -Juan Ramallo que el se lo dezia y ayunaba todos los dias que la Iglesia -manda_.» O estudo a que nos referimos feito pelo sr. Candido Mendes -de Almeida vem publicado na _Revista trimensal do Instituto Historico -Geographico do Brasil_, e n’esse periodico vem tambem as memorias de -Joaquim Norberto, Gonçalves Dias e Machado de Oliveira, a que atraz nos -referimos. - -[122] «ao qual monte alto, diz Pero Vaz de Caminha, o capitam poz o nome -de monte pascoal e aa tera a tera de Vera-Cruz». Depois de ter entrado em -communicação com os habitantes é que Pedro Alvares Cabral considerou a -terra como uma ilha, e a denominou _ilha de Vera Cruz_. - -[123] Strabão XI, pag. 518. - -[124] Pomponio Mela, t. III, c. 5, 98. - -[125] _Les Corte-Real_ par mr. H. Harrisse, pag. 209. Ernesto do Canto, -_Os Côrtes-Reaes_, pag. 211. - -[126] _Histoire de la Géographie_, etc., t. IV, pag. 263. - -[127] Legenda do mappa mandado fazer em Lisboa por Alberto Cantino em -1502. O sr. Ernesto do Canto transcreve-a a pag. 208 do seu livro. - -[128] Esta curiosa doação foi publicada em texto latino por Bidle na -obra que saío anonymamente em Londres, 1831 e que se intitula _A Memoir -of Sebastian Cabot with a Review of the History of Maritime Discovery, -illustrated by documents from the Rols, new first published_. Abrange de -pag. 312 a 320. O sr. Ernesto do Canto publica tambem o texto latino com -a traducção portugueza no seu livro _Os Côrtes-Reaes_ e abrange de pag. -74 a 87. - -[129] E. do Canto, _Os Côrtes-Reaes_, texto italiano a pag. 45 e 46, -traducção latina de Madrijuan a pag. 47 e 48. - -[130] São interessantissimas as indicações dadas a esse respeito pelo -sr. Patterson, na sua magnifica memoria. A bahia de Fundy, diz elle, -é evidentemente a Bahia Funda. Tambem nota que apparece lá o nome de -Tanger, que não podia ter sido posto senão pelos portuguezes, senhores -então d’essa praça, e sempre tão relacionados com ella. - -[131] «There are about 100 sail of Spaniards who come to take cod, who -make it all wet and dry... As touching their tonnage I think it may be -5,000 or 6,000. Of Portugals there are not above fifty or sixty sail, -whose tonnage may amount to 5,000, and they make all wet.» Citado -pelo reverendo George Patterson na excellente memoria que publicou -nas _Trans-Roy. Soc. Canada_, e que se intitula _The Portuguese in -the North-East coast of America, and the first European attempt at -Colonization there. A lost chapter in American History_, pag. 145. Esta -memoria foi lida na _Royal Society_ a 28 de maio de 1890. - -[132] Esta exploração outr’ora tão importante e activa, na qual estavam -empenhados capitaes e interesses tão avultados, concorrendo para ella -tantas partes do nosso continente, vê-se hoje reduzida a uma duzia de -navios que a entretêem apenas em dois centros de pescarias: Figueira da -Foz e Lisboa.» A. A. Baldaque da Silva, _Estado actual das pescas em -Portugal_, pag. 166. E diz, em nota, que a pesca do bacalhau era tão -importante no tempo de D. João III e d’el-rei D. Sebastião «que foi -providenciada por um regimento particular para as frotas que annualmente -expediam a esta pescaria.» - -Emquanto á colonisação, que foi motivada exactamente pela importancia da -pesca do bacalhau, foi promovida por varias pessoas de Vianna do Minho, -muito interessadas n’este negocio da Terra Nova, pelas muitas relações -que tinham com os Açorianos. D’esta colonisação dá conta um interessante -folheto publicado ha poucos annos, mas escripto no seculo XVI, que se -intitula: _Tratado das ilhas novas e descobrimento d’ellas e outras -coisas feito por Francisco de Souza, feitor d’El-Rei Nosso Senhor, na -capitania da cidade do Funchal da ilha da Madeira e natural da mesma ilha -e assim de parte da nação portugueza que está em uma grande ilha, que -n’ella foram ter no tempo da perdição das Espanhas, que ha trezentos e -tantos annos em que reinou El-Rei Dom Rodrigo. Dos Portuguezes que foram -de Vianna e das Ilhas dos Açores a povoar a Terra Nova do Bacalhau vae em -sessenta annos, do que succedeu, o que adiante se trata. Anno do Senhor -de 1570. Ponta Delgada, S. Miguel, Açores 1877._ - -É curiosa a mistura de lenda e de verdade que n’este titulo se encontra. -Ao lado de uma colonisação perfeitamente authentica n’uma ilha certa é -conhecida ainda a velha lenda da ilha das Sete Cidades colonisada pelos -sete bispos, que fugiram da Peninsula com os seus fieis no tempo do rei -Rodrigo! - -[133] «Outros chamam-lhe, diz D. Manuel, terra nova ou novo mundo». - -[134] Veja-se o estudo desenvolvido de Humboldt, que aliás não vê as -coisas debaixo do nosso ponto de vista nas notas finaes do vol. V, da sua -_Histoire de la géographie_, etc., da pag. 180 em diante. - -[135] _Recherches historiques, critiques et bibliographiques sur Améric -Vespuce et ces voyages._—Paris, sem data. - -[136] Veja-se a carta de mr. Letronne a Humboldt, publicada no vol. III, -da sua _Histoire de la géographie_, etc., da pag. 119 em diante. - -[137] Veja-se Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., tom. II, pag. -26 e segg. Falando do globo de João Schoner diz: «Figurou no globo o -estreito no logar em que Colombo debalde o procurara.» No globo de Weimar -(que tem a data de 1534) ha dois estreitos, um a 42° de latitude sul, e -outro no isthmo de Panamá a 10° de latitude ao norte do Equador. - -[138] «Se não tivessemos achado este estreito, diz Pigafetta, o -capitão-general estava disposto a ir até 75 graus para o polo antarctico -onde no verão não ha noite, ou muito pouca e da mesma maneira no inverno -não ha luz do dia ou ha pouquissima.» _Navegação e viagem que Fernando de -Magalhães fez de Sevilha a Moluco no anno de_ 1519, pag. 61 da traducção -ingleza de sir Stanley de Alderley, (Londres, 1874). - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Os descobrimentos portuguezes e os de -Colombo, by Manuel Pinheiro Chagas - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES *** - -***** This file should be named 63534-0.txt or 63534-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/5/3/63534/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo - Tentativa de coordenação historica - -Author: Manuel Pinheiro Chagas - -Release Date: October 23, 2020 [EBook #63534] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - -</pre> - - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p> - -<h1>OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES<br /> -<span class="smaller"><span class="smaller">E</span><br /> -OS DE COLOMBO</span></h1> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span></p> - -<p class="titlepage larger">OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES<br /> -<span class="smaller"><span class="smaller">E</span><br /> -OS DE COLOMBO</span></p> - -<div class="figcenter titlepage" style="width: 200px;"> -<img src="images/line.jpg" width="200" height="25" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">TENTATIVA DE COORDENAÇÃO HISTORICA<br /> -<span class="smaller">POR</span><br /> -MANUEL PINHEIRO CHAGAS<br /> -<span class="smaller">SECRETARIO GERAL DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA</span></p> - -<div class="figcenter titlepage" style="width: 100px;"> -<img src="images/crest.jpg" width="100" height="115" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">LISBOA<br /> -Typographia da Academia Real das Sciencias<br /> -1892</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="I">I<br /> -<span class="smaller">Os problemas geographicos do seculo XV</span></h2> - -</div> - -<p>A festa do centenario de Colombo deve acima -de tudo ser uma festa de justiça e um dos grandes -jubileus da humanidade. Os centenarios dos grandes -homens e os centenarios dos grandes acontecimentos -são as solemnidades com que se festeja sobretudo -a chegada a cada um dos marcos milliarios -da estrada, que até agora parece ser infinita, -do Progresso. Lançando os olhos para o passado, -vê-se que a humanidade não parou um só instante -na sua marcha para um fim ainda hoje desconhecido. -Parece ás vezes aos observadores superficiaes -que ha epochas em que se recúa, porque se extingue -uma luz que brilhava com immensa intensidade, -ou porque retrocede uma ou outra das legiões<span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span> -que formam o immenso exercito da especie -humana; mas, se ha umas que retrocedem, porque -estavam muito adeante das outras, estas em compensação -avançam e ganham o terreno perdido pelos -seus companheiros de jornada. Se um clarão se -apaga, outros ha que se accendem em pontos que -até ahi estavam immersos em trevas profundas. O -nivel da humanidade restabelece-se como se restabelece -o nivel das aguas depois dos grandes cataclysmos -que afundam as mais altas montanhas, e -que deixam enxutas immensas planicies cobertas -até ahi pela vaga. Assim não ha um só dos grandes -cataclysmos historicos de que não resultasse um -progresso. Mudou-se a fórma da civilisação occidental -quando cahiu o imperio romano. Ao impulso -dos barbaros alluiram-se as instituições e os monumentos, -a sciencia e as lettras eclipsaram-se, mas -a alma humana illuminou-se com a irradiação do -Evangelho que só n’essa raça virgem que vinha do -Norte e do Oriente podia accender os candidos explendores -que foram como que novas estrellas no -nosso firmamento moral, que foram a divinisação -da mulher e a apotheose da familia e ao mesmo -tempo a esperança immortal que expirára no mundo -antigo podre de civilisação e que reviveu no mundo -barbaro. Cahiam deante do alvião vandalico os monumentos -magestosos de Roma e as puras obras -primas da Grecia, mas erguia-se envolta n’um nimbo<span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span> -estranho de fé e de poesia a cathedral gothica, e recortavam-se -em mil caprichos phantasticos as torrinhas -e as innumeraveis agulhas dos paços municipaes, -em que a burguezia ostentava, em frente da -realeza da espada, a realeza do trabalho. Desappareciam -debaixo dos codices monachaes as obras primas -dos tragicos e as epopéas gregas, mas a alma -complexa da tumultuosa meia edade palpitava nos -tercetos de Dante. E, quando a invasão musulmana -derrubava no Oriente o ultimo baluarte da antiguidade -erudita, quando a Grecia via os seus marmores -despedaçados pelas ferraduras dos cavallos do -deserto, e o Egypto as suas esphinges sepultadas -nas nuvens de areia que as hordas arabes levantavam, -no Occidente arrancava Colombo á esphinge -do Oceano o seu segredo secular, fixava para sempre -Guttemberg os vestigios do pensamento humano, -e ás portas orientaes, vindas de remoto occaso, -assomavam as prôas das caravelas portuguezas, que -acabavam de sulcar, vanguarda da civilisação, as -ondas do mar Tenebroso illuminadas pela sua audacia.</p> - -<p>Estas festas devem ser porém acima de tudo as -festas da justiça, porque n’ellas devem emmudecer -perante a grande causa da humanidade as mesquinhas -invejas, as pequeninas rivalidades nacionaes, -com que por muitas vezes se procura deslustrar a -memoria d’aquelles, que foram os agentes providenciaes<span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span> -d’estas grandes transformações. O progresso -humano obedece a leis de uma ineluctavel logica. -Não ha saltos nem lacúnas. Tudo se succede com -uma logica surprehendente. As grandes descobertas -derivam-se umas das outras. Todo o grande homem -tem os seus humildes predecessores. O seu -genio fórma-se com elementos dispersos que elle -aproveita, concatena, e de que tira só elle o resultado -fecundo. Não foi Watt que inventou a machina -de vapor, mas a elle e só a elle cabe a gloria do -invento, porque foi o seu genio que encontrou o segredo -capital, sem o qual essa machina não seria -sempre senão uma curiosidade, inutil para os grandes -progressos da sciencia e da industria. Não foi -Colombo sem duvida o primeiro que sonhou que -para além das vagas do Atlantico se encontrava -terra, nem o primeiro que devaneou que a marcha -de um navio pelo occidente o deveria conduzir ás -plagas orientaes da Asia. Não foi o infante D. Henrique -o primeiro que pensou que, torneando a Africa, -se poderia chegar ao mar Roxo e á India, mas -foram Colombo e o infante D. Henrique que tiveram -a audacia, a fé e o espirito scientifico, foram elles -que romperam os obstaculos, deante dos quaes recuava -pallida e tremente a multidão dos navegantes, -ou refugia hesitante o sonho de alguns capitães -devaneadores. A elles cabe sem duvida a gloria -incontestavel, perante elles se deve curvar com<span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span> -respeito a humanidade, que só a elles deve a conquista -maravilhosa de mais de metade da terra.</p> - -<p>Quando vejo a azafama com que procuram ainda -hoje espiritos demolidores sustentar que os Portuguezes -foram precedidos por outros povos nos seus -descobrimentos, que teve Colombo predecessores no -descobrimento da America, pasmo que se não veja -claramente o obstaculo deante do qual baqueiam -todos os seus argumentos. Esse obstaculo é o seguinte: -antes dos navegadores do infante D. Henrique -terem demonstrado o contrario, era ponto incontestavel -para todos a impossibilidade de se viver -na zona torrida. Antes de Colombo ter mostrado o -contrario, era ponto incontroverso que a immensa -extensão do Atlantico tornava impossivel que um -navio, caminhando na direcção do occidente, encontrasse -terra antes de terem perecido de fome e -de sede todas as tripulações. Pois, se um navio qualquer -tivesse, como se diz dos navios dieppezes, chegado -antes de nós ás costas da Guiné, não estava -desde logo quebrado o encanto, não cahia por terra -toda a geographia systematica dos antigos, não estava -aberto para sempre o <i>mare clausum</i>, e podia -alguem sustentar ainda que era inhabitavel a zona -torrida, quando havia em França marinheiros que -a tinham atravessado sem perigo, que tinham voltado -incolumes, deixando n’essas regiões que todos -diziam completamente queimadas pelo sol colonias<span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span> -florescentes como esse Petit-Dieppe e esse Petit-Paris, -que ainda hoje são citadas por escriptores francezes -notabilissimos, em cujo espirito um mal-entendido -amor patrio parece extinguir completamente -a faculdade do raciocinio? Seria necessario que essa -descoberta fosse completamente inconsciente, que os -marinheiros nem soubessem que tinham entrado na -zona torrida, e essa ignorancia é completamente incompativel -com os conhecimentos embora rudimentares -que precisava de ter o navegador que se arriscava -a tão aventurosas viagens.</p> - -<p>O mesmo diremos das navegações antigas de que -se encontra noticia nos livros de Herodoto e no Periplo -de Hannon. Se os marinheiros phenicios de -Necho tivessem dado volta ao cabo da Boa Esperança, -e tivessem entrado no Mediterraneo pelo estreito de -Gibraltar, percorrendo tão immensa extensão -de costas, como poderiam persistir no espirito -dos geographos antigos idéas tão absolutamente -falsas a respeito da configuração da Africa e da distribuição -das zonas? Pode allegar-se por acaso que -essa viagem não deixou vestigios, quando vemos que -as viagens dos Phenicios nos mares da Europa tão -difficeis e tão inhospitos foram sempre continuadas, -que nunca se perdeu o conhecimento da Islandia, -essa terra gelada, e que pelo contrario perderam -immediatamente esses Phenicios, esses Orientaes, -que viviam nas terras ardentes, o conhecimento de<span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span> -costas que o sol tambem aquecia e em que encontravam -muitas vezes como que a reproducção das -suas terras nataes? E não seria extranho tambem -que Hannon tivesse feito a longa viagem que do seu -Periplo se quer deduzir que fez, e que se apagasse -completamente na memoria carthagineza o conhecimento -das terras percorridas em tão memoravel expedição, -preferindo tambem, ao que parece, esses -filhos de paiz africano, as costas geladas e os mares -tempestuosos da Europa ao clima quente e ao -mar sereno da Africa Occidental?</p> - -<p>O que é estranho realmente, é que o alto espirito -de Humboldt acceitasse sem exame as pretenções -dos Normandos, limitando-se a observar na sua -<i>Historia da geographia do Novo Continente</i> que esses -factos citados não diminuem a gloria de quem -tentou a exploração seguida das costas africanas!<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> -Não viu o grande historiador, o immortal geographo, -que esses factos isolados bastavam para destruir -todas as lendas, que eram a chave com que -ficava para sempre aberto o mar Tenebroso, que só -se abriu comtudo radiante de luz deante dos esforços -dos navegadores portuguezes, que bastavam para -abrir o caminho para a <i>terra antichtona</i>, para o <i>alter -orbis</i>, onde muitos diziam que ficava situado -o Paraizo Terrestre, e que nós não poderiamos conhecer<span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span> -nunca, porque ás duas zonas temperadas se -interpunha, intransitavel e terrivel, a zona torrida -completamente queimada pelo sol? Tão profunda -seria a ignorancia em Dieppe que ninguem -visse a importancia da maravilhosa expedição? Nos -seculos <span class="allsmcap">XIII</span> e <span class="allsmcap">XIV</span>, sobretudo, em que já começava -a actuar nos espiritos europeus a febre das viagens, -já depois de Marco Polo ter escripto a sua curiosa -narrativa, depois das viagens para o Oriente -de Rubruquis e de Carpino, e das viagens de sir -John Mandeville, quasi um normando tambem? -Ninguem via semelhante coisa! Tendo de casa -quem lhes ensinasse a verdade, continuavam geographos -e cartographos, todos os sabios, todos os -estudiosos a repetir as velhas fabulas, a encher de -monstros horrificos os desconhecidos plainos africanos, -a pintar a vermelho nos mappas, para bem -indicar o ardor do clima, os mares equatoriaes? -Possuindo colonias na costa africana, tendo marinheiros -que tão bem conheciam esses mares podiam -os reis de França consentir que, por bulla de 8 de -janeiro de 1454, o papa Nicolau V concedesse aos -reis de Portugal «todas as conquistas da Africa com -as ilhas nos mares adjacentes <i>desde o cabo Bojador -e de Não até toda a Guiné com toda a sua costa -meridional</i>?»<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a>. E era possivel ainda que no principio<span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span> -do seculo <span class="allsmcap">XV</span> os capellães de João de Bethencourt, -<i>fidalgo normando</i> que occupára as Canarias, compondo -a narrativa da famosa expedição, nem uma -palavra escrevessem ácerca das expedições dos seus -patricios, e que pelo contrario dissessem, elles normandos, -que «<i>si aucun noble prince du royaume de -France ou d’ailleurs vouloit entreprendre aucune<span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span> -grande conqueste par deçà, qui seroit une chose bien -faisable et bien raisonnable, le pourroit faire à peu -de frais; car Portugal et Espagne et Aragon les -fourniroient pour leur argent de toutes vitoailles et -de navires plus que nul autre pays, et aussi de pilotes -qui savent les ports et les contrées</i>?»<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a></p> - -<p>Com tanta superficialidade porém se estudam -estes assumptos que nem se pensa em se saber se -a Guiné do seculo <span class="allsmcap">XIV</span> é a Guiné posterior aos descobrimentos. -Isso leva escriptores francezes e o proprio -Humboldt a allegar que este mesmo Bethencourt -explorou a Guiné antes dos portuguezes, sem -verem que o que os seus capellães contam é o seguinte: -que «os navegantes normandos se affogaram -nas costas <i>da Barbaria ao pé de Marrocos</i>»,<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a> e que -Bethencourt tencionava visitar a parte da «terra -firme que fica <i>entre o cabo Cantim e o Bojador</i>»<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a> -que para isso consultara o livro de um religioso -hespanhol «<i>que visitára a Guiné, mas que, chegando -ao cabo Bojador se limitára a reconhecer as ilhas -que ficavam áquem</i>».<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a> A Guiné do tempo de Bethencourt<span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span> -era, como se vê, a que ficava para cá do cabo -Bojador, e tanto assim que o papa Innocencio VII -disse, escrevendo a Bethencourt, que sabia ficarem -as ilhas Canarias a doze leguas de Guiné.<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a></p> - -<p>Que immenso cuidado é necessario, quando se -procura destruir uma tradição profundamente e fortemente -documentada! Quantas causas de erro escapam -ao investigador ou frivolo, ou negligente, -que se ufana de encontrar n’um velho alfarrabio -um facto que vem destruir completamente o que -parecia assente e demonstrado! Basta uma variação -de nome para transtornar todas as deducções. -Basta que uns não saibam, que outros não reparem -que o nome de Guiné foi mudando de sitio, -como outros muitos nomes geographicos, á medida -que os descobrimentos foram caminhando, para -que todas as interpretações caiam por terra! Não -basta que se diga que no seculo <span class="allsmcap">XIV</span> ou <span class="allsmcap">XV</span> houve -Francezes que chegaram á Guiné, torna-se indispensavel -apurar tambem se a Guiné do principio do -seculo <span class="allsmcap">XV</span> era a mesma que assim se denominou depois -dos descobrimentos. Este apuramento, d’onde -resulta sabermos que a Guiné ficava, para os capellães -de Bethencourt, áquem do cabo Bojador, destruiria -completamente a singularissima reivindicação<span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span> -franceza se tantos argumentos fortissimos não -houvesse para lhe demonstrar a inanidade.<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a></p> - -<p>É o que succede tambem com os detractores de -Colombo. Não vêem immediatamente os que dizem -que antes de Colombo chegaram a terras americanas -João Vaz Côrte Real, ou o francez Jean Cousin, -que, se algum d’elles tivesse levado a termo -tão importante expedição, bastava isso para ficar -logo resolvido o grande problema do fim do seculo -<span class="allsmcap">XV</span> que trazia preoccupados sabios e estudiosos, -deante do qual tanto hesitou D. João II, que inflammou -em França o animo do cardeal Pedro d’Ailly, -em Italia o do famoso Toscanelli! Com que jubilo -se saudaria essa resolução do grande problema!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span></p> - -<p>O que faz tambem com que homens de valor no -nosso tempo possam acceitar fabulas tão pueris, -como a de João Vaz Côrte Real e a de Jean Cousin, -é que raros estudam a fundo o problema que pretendem -resolver a seu modo, e não o sabem pôr em -equação. Uns estabelecem a lenda de Christovão -Colombo considerado como um visionario por dizer -que se encontraria a India navegando-se pelo occidente, -outros a lenda de Christovão Colombo tratado -como um louco por imaginar que para o lado -do occidente havia terras. E por isso dizem uns -que elle sabia perfeitamente que havia terras porque -tinha conhecimento de viagens a que os navegadores -não tinham ligado importancia alguma e<span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span> -que tinham passado despercebidas, outros que algum -dos reis com quem elle tratara, D. João II por -exemplo, não ignoravam que havia terras para o -occidente a grandissima distancia da Europa, porque -a essas terras já um portuguez aportara, mas -estavam convencidos que essas terras não eram a -India, e n’isso, accrescenta-se, eram elles que tinham -razão e não Colombo.</p> - -<p>É mal posto o problema: que se poderia chegar -á Asia indo-se pelo occidente, raros seriam os homens -de alguma instrucção que o podessem pôr em -duvida. A idéa da esphericidade da terra já penetrara -em todos os espiritos, e a sua consequencia -natural era que pelo occidente se poderia chegar -ao oriente. Que devia haver terras para o occidente -era por conseguinte egualmente incontestavel. A -questão toda estava exclusivamente na distancia.</p> - -<p>D. João II não julgava Colombo um visionario -por elle lhe dizer que pelo occidente se chegaria á -India, julgou-o um visionario por elle suppôr que -poderia atravessar para chegar ao seu destino a -enorme extensão dos mares. Não o suppoz visionario -por elle cuidar que encontraria terras ao occidente, -ainda que essas terras não fossem a India, -suppôl-o visionario por elle imaginar que teria tempo -de chegar a essas terras a salvamento. Logo, se Jean -Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem realisado -essa façanha, estavam dissipadas todas as duvidas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span></p> - -<p>Havia terras a grande distancia da Europa, terras -que ou seriam a India, ou algum d’esses archipelagos -em que Toscanelli tinha fé, que serviriam de escala -aos navios que demandassem pelo occidente a Asia?<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a> -O jubilo immenso que se sentiu na Hespanha quando -Christovão Colombo voltou, sentir-se-hia em Lisboa -quando João Vaz Côrte Real tornasse, ou sentir-se-hia -em França quando Jean Cousin entrasse n’algum -dos seus portos.</p> - -<p>O erro d’aquelles que assim procuram contrapôr -a glorias consagradas não só pela tradição, mas pelos -factos incontestados e pelos resultados conseguidos, -estas lendas pueris forjadas ou pela inveja dos -contemporaneos, ou pela phantasia audaciosa dos -historiadores sem probidade scientifica que abundaram -no seculo <span class="allsmcap">XVII</span>, está em pôrem completamente -de parte o estudo do meio em que os grandes descobrimentos -se fizeram, de modo que o infante D. Henrique -e Colombo apparecem como uns vultos inexplicaveis -sem raizes no passado e sem relações de -especie alguma com o espirito das gerações de que -fizeram parte. Querem então reduzir á estatura normal<span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span> -esses vultos descommunaes, e aproveitam qualquer -tradição apocrypha para mostrarem com um sorriso -de mofa, que elles não fizeram senão aproveitar -os esforços inconscientes feitos por alguns vultos -humildes, para forjarem com esse metal roubado a -pobres as estatuas da sua grandeza.</p> - -<p>Applique-se o methodo scientifico ao estudo d’estes -grandes phenomenos da vida da humanidade, -e ver-se-ha como o genio d’estes dois homens apparece -ainda mais brilhante quando vemos que elle -resume as vagas aspirações da geração a que pertencem, -satisfaz a anciedade que ella sente, encontrando -a solução que os outros debalde procuram. -O infante D. Henrique surge no meio de uma geração -que se debate na ancia do desconhecido, que -se julga apertada na jaula d’este mundo antigo, e -anceia por encontrar espaço mais amplo em que -mais livremente respire. Havia um seculo já que -a sede das viagens se apoderara dos espiritos, que -o conhecimento da terra era a preoccupação constante -de todos os espiritos mais illustrados e cultos, -em que já se multiplicavam os documentos -cartographicos, em que aquellas encyclopedias medievaes -que tinham o titulo quasi consagrado de -<i>Imago mundi</i> se enchiam com as mais phantasticas -noções, revelando comtudo o ardor com que se procurava -supprir com uma geographia conjectural a -falta do conhecimento verdadeiro da terra. Já se<span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span> -tinham emprehendido as grandes viagens terrestres -pela Asia, procuravam os povos maritimos sondar -os segredos do Occeano. Tentavam os Normandos -perscrutal-os, e a expedição de João de Bethencourt -bem o demonstrou, aspiravam a descobril-os os Genovezes, -e a infeliz expedição de Vivaldi de que -nunca mais houve noticias depois das suas galés -terem transposto o estreito de Gibraltar confirma-o -cabalmente, queriam os Catalães encontral-os -e Jayme Ferrer, que apenas transpoz o cabo Não, -e não conseguiu passar além do Bojador, foi um dos -que se illustraram n’essas tentativas; mas paralysou-os -a tradição geographica tão enraizada nos -seus espiritos como o estão hoje no nosso as theorias -da geographia moderna. Logo que a costa -africana, em vez de voltar para o oriente, continuava -a seguir para o sul, internando-se por conseguinte -na zona torrida, a affirmação scientifica de que o -sol a ia tornar impossivel de se transpôr impunha-se -ao espirito dos navegantes, e bastaria para os fazer -recuar, ainda que as affirmações cathegoricas da -orthodoxia e os terrores da superstição os não movessem. -D. Henrique teve o genio de um livre espirito -que se revolta contra uma tradição que se -não baseia em dados positivos, e que a submette -audaciosamente ao exame da experiencia, teve a -coragem que transmittiu aos seus navegadores de -arcar contra as affirmações da sciencia, contra os<span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span> -dogmas da religião, contra os pavores da lenda. -Continuou e venceu! E a noticia do triumpho correu -a Europa toda, e resoou em toda a parte como -uma grande conquista do espirito humano, e a theoria -das zonas inhabitaveis desappareceu, e a da impossibilidade -de communicação entre as duas zonas -temperadas dissipou-se, e a Egreja teve de se conformar -com a existencia dos antipodas que ella considerava -como uma affirmação incompativel com -o espirito christão. Pois não se vê que tudo isso -aconteceria, logo que um navegador audacioso tivesse -penetrado na zona torrida, muito para além -das regiões habitaveis? E não se vê tambem que -semelhante navegação não passaria despercebida -n’uma epocha em que era universal a anciedade -pela ampliação dos conhecimentos geographicos?</p> - -<p>Succede o mesmo com Christovão Colombo. A -existencia de terras para o occidente é um dos sonhos -da humanidade desde longas eras. Quanto esse -problema preoccuparia os navegadores portuguezes -n’esse seculo <span class="allsmcap">XV</span> todo illuminado pelas suas glorias -pode bem imaginar-se. Attestam-n’o as aventurosas -expedições dos mareantes açorianos; mas, como Vivaldi -que procurou sondar as regiões inexploradas -da Africa, muitos d’esses audaciosos se perderam no -vasto Occeano, como Jayme Ferrer, outros chegaram -a terras um pouco afastadas e foi assim que a -ilha das Flores se descobriu, mas como o mesmo<span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span> -Ferrer recuando deante do Bojador, como Bethencourt -não ousando afastar-se para além das costas -de Marrocos, os açorianos desmaiaram deante da -infinita solidão do Atlantico. Quando Colombo quebrou -essas ultimas barreiras, com que enthusiasmo -o receberam, com que despeito por lhe não ter dado -inteiro credito o acolheu D. João II! Como logo partiram -de toda a parte navios a sondar esses mares -desconhecidos! Não aconteceria o mesmo se Jean -Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem, antes de -Colombo, vencido o grande obstaculo? Não seria -para Lisboa ou para Dieppe que se voltaria logo a -attenção e a inveja de toda a Europa?</p> - -<p>Assim, resumindo as questões capitaes em que -se condensa o nosso ponto de vista, temos que os -dois grandes problemas geographicos que foram resolvidos -pelos navegadores do infante D. Henrique -e pelas caravellas de Christovão Colombo eram as -seguintes:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>1.º Atravessar a zona torrida, que, segundo as -affirmações da sciencia, tornava impossivel a communicação -entre as duas zonas temperadas, entre -a terra em que habitamos e a terra antichthona, entre -o mundo antigo que tinha Jerusalem no centro -e o <i>alter orbis</i> onde a humanidade vivera antes do -diluvio, transpôr o Atlantico, pintado pela lenda e -pela tradição antiga como o mar tenebroso, entrar<span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span> -n’um occeano que passava por sobrenatural, onde -se estava talvez á mercê das potencias infernaes;</p> - -<p>2.º Atravessar a solidão do Atlantico do occidente -ao oriente, até chegar ás praias orientaes da Asia.</p> - -</div> - -<p>A resolução do segundo problema estava dependente -da resolução do primeiro. O primeiro acto de -audacia era abrir os mares fechados, mostrar que não -tinha o Atlantico os perigos reaes e sobrenaturaes de -que o rodeiavam a tradição scientifica e a lenda popular. -Esse resolveram-n’o os Portuguezes, e ninguem -os precedeu nem os podia preceder, pelo simples -motivo de que, se alguem antes d’elles tivesse -aberto o <i>mare clausum</i>, não teriam elles que o -tornar a abrir. Não se fecha o mar como se fecha -uma porta. Não tornam a crear-se os phantasmas -que o primeiro audacioso dissipou. Se alguem, antes -do infante, houvesse rasgado a cortina do mysterio -que sequestrava o Atlantico, estava o Atlantico patente. -A geographia systematica da antiguidade e -da edade média caía em ruinas logo que o primeiro -facto real e tangivel tivesse mostrado a inanidade -do systema.</p> - -<p>Resolvido o primeiro problema, trepidou-se deante -do segundo. Não se oppunham á sua resolução nem -as theorias geographicas dos antigos, porque bem -conhecidas são, acima de tudo, as opiniões de Eratosthenes, -nem as opiniões orthodoxas que não contrariavam<span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span> -de um modo formalmente directo as doutrinas -de Colombo, nem as lendas maravilhosas que, -depois da desapparição do mar Tenebroso, não faziam -senão excitar os navegadores a procurarem no -Occidente as ilhas paradisiacas de que S. Brandão -voltára com as vestes rescendentes a celestiaes perfumes. -O que se oppunha simplesmente á resolução -do problema era a immensidade do Occeano, que -parecia confirmada exactamente pelas navegações -portuguezas. Navegara-se durante annos e ainda se -não chegara ao sul da Africa. Quanto tempo teria de -se navegar para se chegar á India! Embora! exclamava -Toscanelli, um dos enthusiastas da escola colombina, -porque, se lá não chegardes em breve, encontrareis -disseminadas pelo Occeano centos e centos de -ilhas e de archipelagos que servem de guarda avançada -ao grande continente oriental. Sonho de visionario! -dizia-se e Colombo era repellido. Mas Colombo -persistiu e foi elle que rompeu o encanto, -elle e só elle que por ninguem poderia ter sido precedido, -porque, se o fosse, tinham caido por terra -todas as objecções, visto que o problema estava reduzido -a este simplissimo termo: atravessar o Occeano -e encontrar terra a distancia a que cheguem -os viveres de uma caravela. O primeiro que o conseguisse -tinha quebrado o feitiço, tinha desvendado -o mysterio. Portuguez, francez, hespanhol ou -italiano, seria a sua volta saudada pelas acclamações<span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span> -freneticas de toda a Europa maritima. Se foi -essa gloria que aureolou Colombo foi por que só a -elle podia competir.</p> - -<p>Curvemo-nos com respeito deante dos precursores, -deante dos marinheiros que tentaram romper o -mysterio, deante da intrepidez dos normandos que, -depois de occupadas as Canarias, tentaram reconhecer -a costa africana, e cujos cadaveres despedaçados -nas rochas da costa marroquina foram o primeiro -cimento com que se começou a erguer o monumento -da gloria portugueza, deante da audacia dos catalães -que mais adeante foram ainda, que já transpozeram -o cabo Não, e que investiram talvez com o Bojador, -mas não sacrifiquemos a essa homenagem a -justa gloria que cabe aos que mais felizes, mais perseverantes, -e sobretudo dirigidos por um genio excepcional, -quebraram definitivamente as barreiras, e, -sem hesitar um momento, proseguiram no caminho -encetado, e methodicamente foram desenrolando folha -a folha o livro do mundo desconhecido, ainda -enrolado nas vagas, como se enrolavam em volumes -os antigos papyros. Não acceitamos como uma especie -de premio de consolação para os precursores menos -felizes a phrase de Humboldt, que diz como que -encolhendo os hombros deante da injustiça do mundo -que as descobertas só se principiam a contar desde -que formam serie. As descobertas contam-se desde -que se fazem, e, se os Catalães ou os Normandos ou<span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span> -os Genovezes as tivessem feito, para elles iria a -gloria. Não esperou a Europa que as caravelas do -infante D. Henrique fossem muito adeante para que -affluissem a Portugal estrangeiros, nem o governo -portuguez esperou por isso para reclamar do Papa -o reconhecimento do seu direito. Descobrem-se as -Canarias? Logo apparecem Portuguezes, Francezes -e Hespanhoes a reclamar a sua posse. Descobriam-se -os Açores e a Madeira e ninguem com isso se -importava. Não, o Homero da grande epopéa maritima -foi o infante D. Henrique. Antes dos grandes -epicos apparecem os cantos vagos e anonymos, em -que se desata a inspiração da musa popular, em -que se modulam as aspirações e os enthusiasmos -do povo. Chega emfim o grande cantor, o epico inspirado, -em cuja fronte Deus accendeu a scentelha -do genio, e que escuta pensativo esses echos da -guerra, essas cantilenas sublimes. Incende-se-lhe a -imaginação, concentra na sua alma as palpitações -da alma nacional, e dos seus labios brota emfim -a epopéa victoriosa em que tudo se condensa, e -encontra a sua expressão definitiva, que se fixa -para sempre na memoria do povo e na memoria da -humanidade. As caravelas que iam ainda, silenciosas -e timidas, aventurar-se ao mar mysterioso, e que -ou voltavam sem ter rompido o mysterio, ou no mysterio -das vagas envolviam os seus cadaveres fluctuantes, -eram os bardos isolados que afinavam pelo rugido<span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span> -do Occeano os seus epodos audaciosos, mas o -infante foi o poeta soberano que fez irromper da -sua alma, pela voz dos seus marinheiros, a epopéa -triumphal e definitiva, a Iliada da audacia portugueza, -como foi Colombo depois que desenrolou no -sulco argenteo dos seus navios a Odysséa do Atlantico.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="II">II<br /> -<span class="smaller">Causas de erro para a historia da solução dos problemas</span></h2> - -</div> - -<p>Para podermos seguir passo a passo a marcha dos -descobrimentos, para vermos como pouco a pouco se -foi correndo a cortina que escondia aos olhos dos homens -da nossa raça metade do mundo conhecido, é necessario -a cada instante abstrahirmos dos nossos conhecimentos -actuaes, para nos collocarmos no ponto -de vista em que os homens de eras anteriores se collocavam -em virtude do que elles então sabiam. A falta -d’essa correcção indispensavel arrasta muitos escriptores -notaveis a erros grosseiros, que muitas vezes -lhes escapam exactamente por não terem o cuidado -constante de applicarem essa correcção ás tradições -que dos tempos passados lhes vem. O proprio Humboldt, -que frequentemente observa quanto é funesto -esse erro, a esse erro cede só porque uma vez se<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span> -esqueceu de verificar qual era a região que nos principios -do seculo <span class="allsmcap">XV</span> era conhecida pelo nome de -Guiné. Se reparasse que a Guiné de Bethencourt ficava -comprehendida entre o cabo Cantim e o Bojador -não acceitaria a pretenção franceza de terem -chegado os Normandos de Dieppe e o proprio Bethencourt -a essa Guiné tropical que já muito para além -fica do Cabo Bojador. Pois é elle comtudo que nota -como é fallaz a denominação de India dada pelos -antigos a varias regiões, visto que muitas vezes comprehendia -as regiões meridionaes da Asia, a parte -da Asia que chegava ao mar Vermelho, e ainda o -extremo Oriente. Marco Polo designava tres Indias, -havia a India exterior e a India inferior, a India superior -que era a parte mais oriental da Asia etc.<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a> -Pois ainda hoje frequentemente se espantam homens -instruidos não de que Colombo julgasse ter encontrado -a Asia, mas de que imaginasse ter encontrado -a India, arrastados pela tendencia natural de vermos -com os nossos olhos de agora a geographia dos outros -tempos; e de suppôrmos que a India não podia<span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span> -ser no seculo <span class="allsmcap">XV</span> senão a que nós hoje conhecemos -e como tal designamos.</p> - -<p>Quantas vezes mudou no decorrer dos tempos a -posição geographica de varias terras, a que attribuimos -a sua posição actual, logo que lhes encontramos -em mappas antigos os nomes! Quantas terras -differentes receberam o mesmo nome que de umas a -outras foi passando, segundo as conjecturas dos geographos! -As ilhas Afortunadas, como a ilha fluctuante -de Delos, foram sempre navegando para o occidente, -até que a geographia positiva as fixou nas Canarias, -arrancando-lhes o véo da lenda em que os antigos as -envolviam. Estiveram primeiro no grande Oasis no -Egypto, passaram depois para o sul da Cyrenaica, -depois ainda para defronte do rio Lukkos, quer dizer, -quasi pegadas com a costa marroquina, e só -depois para o ponto em que estão as Canarias.<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a> A<span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span> -quantas ilhas se applicou o nome de Taprobana, -que nós affirmamos hoje que era Ceylão, quando -muitas vezes a sua posição corresponde á de Sumatra, -e quando outras vezes a collocava a geographia -conjectural dos antigos no oriente das Indias!<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> -A que peninsulas tão diversas se attribuiu o nome -de Aurea Chersoneso que arbitrariamente suppomos<span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span> -agora que correspondia á peninsula de Malaca!<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a> Como -é perfeitamente conjectural, apezar dos argumentos -de alguma força apresentados por Mr. d’Anville, -a identificação de Sofala com Ophir!<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> Como ainda se -illudem hoje os mais serios investigadores com o nome -de Ethiopia, que intentam applicar ao paiz que hoje -consideramos como tal, quando a Ethiopia, na supposição -dos antigos, abrangia toda a parte meridional -da Africa e vinha ligar-se com a costa marroquina!<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a> -Como poderiamos nunca ter fé n’essas identificações,<span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span> -se vemos que os antigos e os Arabes, e -os povos da edade média davam á India uma fórma -completamente phantastica, suppunham que o mar -das Indias era um mar mediterraneo, approximavam -assim a costa asiatica da costa africana, como a costa -africana está proxima da Europa no Mediterraneo -europeu, sendo por conseguinte tão possivel que ficasse -Ophir na Africa como na India!</p> - -<p>Depois que enorme cautella é ainda necessaria -para o exame dos antigos mappas, onde a phantasia -se dava largas, e onde se misturavam com alguns -factos positivos todas as conjecturas que formava -ou a imaginação ou o espirito reflexivo d’aquelles -que os traçavam! Como é ridiculo para quem -conhece o espirito que presidia á elaboração dos<span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span> -mappas ouvir escriptores serios fallarem com muita -gravidade no famoso mappa trazido pelo infante D. -Pedro das suas viagens, e onde estão traçados o cabo -da Boa Esperança e até o estreito de Magalhães! -Não sabem esses escriptores que, até depois de -feitos os descobrimentos, a phantasia dos cartographos -não se contentava com os factos positivos narrados -pelos navegadores e continuava a ampliar -por sua conta o mundo conhecido! Os proprios navegadores -ás vezes contribuiam para illudir os cartographos. -Christovão Colombo, ao tocar na ilha -de Cuba, julgou ter chegado a terra firme e tanto -d’isso se convenceu que fez jurar aos seus tripulantes -que fôra n’um continente que tinham effectivamente -tocado!<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> Pedro Alvares Cabral tomou o Brazil -por uma grande ilha. Em mappas muito posteriores -aos descobrimentos americanos, feitos já depois -de Vasco Balboa ter encontrado o Pacifico, collocou-se -no sitio em que está o isthmo de Panamá<a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a><span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span> -um estreito que punha em communicação os dois -mares. Mas isso não impediu os que se enlevam na -demolição de glorias estabelecidas de sustentar que -o infante D. Henrique tinha mappas que até lhe mostravam -onde era o cabo da Boa Esperança, que Colombo -levava comsigo mappas que lhe davam o traçado -da America, que Fernão de Magalhães n’um -globo de Martim de Behaim vira traçado o estreito -famoso que hoje tem o seu nome, e que Pedro Alvares -tinha um mappa tambem que lhe designava o -sitio em que encontrou o Brazil! Puerís tentativas! -Quantas vezes effectivamente n’esses mappas conjecturaes -podia fazer o acaso que coincidisse com a -descoberta a ilha ou a terra phantasiada pela imaginação -dos cartographos; mas logo o formigar dos -erros perfeitamente incompativeis com o imaginario -descobrimento prova exuberantemente que só em -coincidencias fortuitas e insignificantes elle se poderia -basear.</p> - -<p>O que melhor pode mostrar como faltava completamente -aos antigos o conhecimento da terra, para -além dos estreitos limites em que se concentraram -as civilisações do Oriente e a civilisação greco-romana, -está na variedade dos systemas com que se -procurava explicar a fórma do mundo. A sciencia -não caminhava com passo seguro, juntando ao thesouro -das idéas conquistadas cada idéa nova que -ia sendo adquirida. Como todas as explicações eram<span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span> -conjecturaes, cada nova theoria provava apenas a -argucia e o engenho do espirito que a concebia, -mas estava sujeita á discussão e á contradicção -como todas as soluções que não assentam em factos -positivos e incontestaveis. Pode dizer-se que -a idéa da esphericidade da terra triumphou na antiguidade, -mas pode dizer-se que triumphou porque -a sustentavam os mais esclarecidos espiritos, não -porque todos a reconhecessem, e porque não houvesse -tambem homens de primeira plana que absolutamente -a negassem. Sustentou-a Ptolomeu, mas -contestou-a vivamente Plutarcho.<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a> A theoria de ser -a terra um disco cercado pelo rio Oceano, que é a -theoria homerica, essa desappareceu é certo, porque -a observação dos phenomenos celestes mostrou -de um modo evidente quanto era absurda, porque -se via bem que não era possivel que o sol se sumisse -no occidente, e voltasse depois pelo mesmo -caminho e em segredo de noite para reapparecer no -Oriente, porque o movimento apparente do céo não -podia explicar-se senão allegando-se que os corpos -celestes n’uma parte da sua marcha passavam por -debaixo da terra, para reapparecerem no sitio opposto -áquelle por onde se tinham sumido. Então -sim, então a idéa de que a terra assentava em bases<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span> -solidas, tendo por cima de si o céo estrellado, -desappareceu completamente, e a primeira conquista -da sciencia foi a que suspendeu a terra no espaço, -embora fizesse d’ella ainda o centro da creação, -embora suppozesse que tudo se fizera no Universo -em sua honra, que em torno d’ella giravam no immenso -espaço em varias espheras concentricas os -orbes luminosos que entoavam a harmonia, que Platão -julgava escutar n’um arrobamento infinito, e que -espalhavam nos intermundios a chamma ora intensa -como a do sol, ora meiga como a da lua, ora palpitante -e suavissima como a das estrellas, das corôas -resplandecentes com que a Divindade as cingiu.</p> - -<p>Mas com relação á fórma da terra que diversidade -de opiniões! Pomponio Mela considerava a terra chata -como a suppunham os Hebreus, como a suppozeram -depois os Padres da Egreja, e entre elles Santo Agostinho, -Lactancio, S. Justino martyr; Ephoro dava-lhe -a fórma de um quadrilongo, Cicero, no famoso -<i>Sonho de Scipião</i>, acceitava as doutrinas dos geographos -mais notaveis, considerava-a espherica, e -essa opinião foi seguida por Macrobio, que tambem -dava, como Cicero, á parte habitada a fórma de uma -chlamyde. Entre os sabios que sustentavam na antiguidade -o principio de que a terra era espherica, -avulta o grande nome do geographo antigo Ptolomeu. -Outros porém baseiam-se na doutrina de Thalés,<span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span> -suppõem a terra ovoide, e Posidonius suppõe -que essa ellipse estreita que constitue a terra termina -em duas pontas agudissimas.<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a></p> - -<p>Apezar d’essas differenças porém, a opinião da -esphericidade da terra é a que predomina entre os -antigos, é a que tem a seu favor a enorme authoridade -de Ptolomeu e de Platão e de Aristoteles e de -Eratosthenes e de Hipparcho e de Cicero e de Strabão, -a que é preconisada pela escola de Alexandria e -que adquire por conseguinte um verdadeiro valor -scientifico, mas a religião christã intervem no debate, -e a theoria dos antigos é considerada como heterodoxa -pelos Santos Padres. A terra tem a fórma -de tabernaculo, a existencia dos antipodas é condemnada -como absolutamente contraria á logica divina, -e esta opinião tão respeitada, tão importante -introduz immediatamente a confusão nos espiritos -da edade média. O conhecimento da sciencia arabe -traz ainda um novo elemento de complicação. Na -sciencia oriental sente-se de um modo accentuadissimo -o reflexo da tradição grega. Ptolomeu e Aristoteles -teem ferventes discipulos nos sabios orientaes, -que podem esfumar as suas doutrinas no vago do<span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span> -seu maravilhoso, mas que no fundo as acceitam e as -applaudem. E assim vamos encontrar por toda a edade -média a velha theoria grega reforçada agora pela -adhesão arabe em lucta com as prescripções christãs. -Não se pode apagar n’esses espiritos medievaes, -que tinham pelo saber da antiguidade um supersticioso -respeito, a influencia de Ptolomeu, mas deante -da voz auctorisada dos Santos Padres tudo se inclina -e emmudece. Então vamos encontrar os cartographos -da edade média empenhados na improba tarefa, -que tantas vezes se tem repetido, de procurarem -conciliar as doutrinas da Egreja com a tradição -da sciencia. Apparece-nos muitas vezes a terra como -um quadrado inscripto n’um circulo, e, ao passo que -o systema das espheras applicado ao systema cosmographico -encontra nos espiritos da meia edade um -verdadeiro engodo, a terra fixa no meio do universo -espherico mantem a fórma especial que os Santos -Padres decretaram que tivesse.<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></p> - -<p>Durante largos seculos pairou sobre a humanidade -a duvida mais profunda ácerca da fórma do planeta<span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span> -que ella habita. Se alguns sabios entrevêem a -verdade, e a sustentam e a defendem, é simplesmente -pelas deducções que tiram dos seus calculos -e das suas observações astronomicas, não pelo conhecimento -directo que possam ter do planeta. Por -isso tambem a orthodoxia triumpha, embora as razões -em que se funda não sejam bastante poderosas -contra o raciocinio dos philosophos, mas, apezar -da fraqueza da argumentação, a fé supera sempre -facilmente as theorias conjecturaes dos seus adversarios. -É por isso que ella ainda hoje é sempre victoriosa -na sua lucta contra os systemas philosophicos -adversos. Ella dá uma certeza sem fundamento -que não seja a auctoridade respeitada da tradição e -da crença, os outros oppõem-lhe theorias mais ou menos -verosimeis, mas todas baseadas em simples conjecturas. -No dia em que o materialismo conseguir fazer -palpar o principio vital, ainda hoje incoercivel, e -que se representa por esse nome fascinador da alma -dotada de immortalidade, o espiritualismo cahiu -para não mais se levantar. Emquanto a demonstração -da redondeza da terra e da existencia dos antipodas -não sahiu do dominio conjectural, a fé que -oppunha a essas vagas theorias uma affirmação baseada -em tradicções tão conjecturaes como os raciocinios -adversos mas aferradas ao espirito humano -pelas raizes potentissimas da tradição, os Santos -Padres triumphavam. Veiu um dia, porém, em que<span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span> -um pequeno povo debruçado sobre os mysterios do -Oceano resolveu sondal-os e quebrar as barreiras -que separavam do mundo conhecido essa região -enigmatica, transpôr o que lhe diziam que era inultrapassavel, -chegar ás regiões defezas, arrombar -as portas fechadas pela triplice chave da sciencia, -da fé e da lenda, e o que dezenas de seculos não -tinham conseguido conseguiu-o meio seculo apenas. -Então a sciencia não parou, não retrocedeu, não se -contradisse, não se perdeu em conjecturas. Cada -facto que se adquiria era uma confirmação de uma -theoria contestada, ou a revelação de uma theoria -nova. A fé cedeu deante da evidencia. Quando os -marinheiros portuguezes entraram na zona torrida, -cahiu por terra a idéa consagrada da impossibilidade -d’alli se viver, quando entraram na zona temperada -do sul, desappareceu, substituida pela real, -a terra antichthona, e a Egreja teve de acceitar -os antipodas; quando Colombo transpoz o Oceano -occidental, a idéa da immensidade dos mares perdeu-se -para sempre; quando Fernão de Magalhães -passou do Atlantico ao Pacifico, e quando o seu -ultimo navio veiu fundear n’um porto da peninsula -hispanica depois de ter dado volta completa ao -mundo, não teve mais contradictores nem descrentes -a theoria da esphericidade da terra. O quadrado -dos Santos Padres cahiu desfeito pelas cargas repetidas -d’esses cavalleiros do Oceano.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span></p> - -<p>Não é já só, porém, com as phantasias orthodoxas, -nem com os devaneios dos sonhadores scientificos, -que a terra depois de explorada audaciosamente se -torna incompativel. O proprio systema scientifico de -Ptolomeu, essa gloria da antiguidade greco-romana, -estala não podendo conter em si o mundo tal como -foi estudado e descoberto. O systema de Copernico -restitue ao sol a sua magestade e a sua humildade -á terra. Se não era o sol que percorria lentamente o -zodiaco, illuminando no mais alto do seu curso com -a sua luz fecundante a terra privilegiada, e queimando -quando se abaixava a terra condemnada e -maldita, se a zona torrida não era um inferno sempre -em chammas, nem nas suas proximidades pullulavam -os monstros como os Cerbéros d’esse Tartaro, -como as viagens portuguezas amplamente demonstravam, -que motivo havia para se suppôr que o -Sol não era senão o instrumento das bençãos ou das -maldições de Deus sobre a Terra, e porque não seria -antes a Terra que adejaria no espaço, irmã d’esses -numerosos planetas que no céo resplandeciam, atomo -no meio d’essa immensidade de atomos, bago -d’essa poeira de luz dispersa no firmamento, e posta -em movimento pelo sopro mysterioso da grande attracção -universal? E a Copernico succediam Képler -e Newton, e as leis do Universo iam-se coordenando -n’um Codigo formulado pela sciencia, não ao acaso -das conjecturas, mas segundo as indicações positivas<span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span> -dos factos. E assim foi que a audacia portugueza -transformou completamente a sciencia humana, -e iniciou esta epocha portentosa que dura -ha quatro seculos apenas, e que deu mais á humanidade -que as dezenas de seculos da historia conhecida -que a precederam. E assim é que, se a Colombo -cabe a indisputavel gloria de ter destruido a -fabula que tornava inaccessiveis as terras do occidente, -ao infante D. Henrique mais do que a nenhum -outro cabe a gloria immensa de ter affrontado -a sciencia, a fé e a lenda para fazer da sciencia -conjectural uma sciencia positiva, da fé que -amesquinhava a humanidade a fé que a ampliou, -da lenda que acovardava a alma humana a epopéa -que a enalteceu.</p> - -<p>Foi grande Colombo, grande Vasco da Gama, e -grande Magalhães! Formam um grupo de heroes os -audazes marinheiros que desde Gil Eanes até Bartholomeu -Dias, desde Pinzon até Queiroz, sulcaram -todos os mares, e affrontaram todas as tempestades, -compõem uma phalange benemerita os missionarios -da sciencia, que, desde João Fernandes o humilde -iniciador da exploração scientifica do continente -africano até aos modernos sabios viajantes, se internaram -nos sertões affrontando os povos barbaros, -como formam uma legião sagrada os missionarios -da fé que não recúaram deante dos mais horridos -perigos para levarem a regiões ignotas a palavra divina,<span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span> -mas o genio iniciador, que tornou possiveis todos -estes feitos, e concebiveis essas audacias, foi o -pensativo infante, que accendeu com as suas mãos -intrepidas, entre os motejos da sciencia, os anathemas -da Egreja e os gritos pavidos da superstição, -esse pharol glorioso que projectou de Sagres sobre -o vasto Oceano, por cima das suas ondas tenebrosas, -a luz radiosa e serena que foi a verdadeira aurora -da civilisação moderna.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="III">III<br /> -<span class="smaller">A zona torrida perante as sciencias da antiguidade -e da edade média</span></h2> - -</div> - -<p>Accentuámos bem que tres elementos havia que -se oppunham ás expedições que os Portuguezes audaciosamente -emprehenderam: a sciencia, a fé e a -lenda. Foi a primeira a que se oppoz sempre a que -os ousados navegadores da antiguidade lustrassem -o caminho que os Portuguezes depois percorreram. -Não eram de certo mais terriveis os mares -africanos do que os mares da Europa septentrional, -e os marinheiros phenicios, que affrontaram a bahia -de Biscaya e o canal da Mancha e o mar do Norte -até á Islandia, não podiam facilmente assustar-se com -os mares muito mais manejaveis da costa africana. -Mas a idéa da navegação para o sul fazia recuar os -mais audaciosos. Era ahi que o sol estendia o seu<span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span> -terrivel dominio, era ahi que os seus raios queimavam -a terra e o mar, e tornavam impossivel a passagem -do homem. Á medida que esses calores excepcionaes -iam sendo mais proximos, o seu effeito -fazia-se sentir na vegetação e na fauna, e na propria -humanidade. Então a natureza, violentada por assim -dizer, produzia os mais extraordinarios monstros. -Por mais de uma vez tentaram os Phenicios e -os Carthaginezes demandar essas regiões do sul, mas -a mais insignificante estranheza os fazia recuar. De -Hannon se conta que percorreu quasi a Africa toda, -e no seu periplo se relata essa viagem maravilhosa. -Logo mostraremos como elle de certo não passou -para além da costa de Marrocos. Gabava-se a sua -intrepidez, porque voltára narrando que vira horrorosos -monstros, cynocephalos, quer dizer, homens -com cabeça de cão, e gorgonas ou mulheres com o -corpo absolutamente coberto de pellos. Os escriptores -modernos, que teem procurado benevolamente -interpretar estas descripções phantasticas, dizem que -os cynocephalos eram simplesmente macacos e as -gorgonas simplesmente gorillas. Na hypothese mais -favoravel para elle, o que isso prova é que, apenas -viu na costa de Africa duas especies de macacos, -julgou-se chegado ao paiz dos monstros e confirmou -todas as mentiras que ácerca das vizinhanças da zona -torrida estavam estabelecidas, e não chegou portanto -á zona torrida. Mas não é bem mais natural ainda<span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span> -que Hannon, um carthaginez, um africano, não ignorasse -a existencia do macaco, e portanto não podesse -confundir facilmente o genero simiesco com -uma variedade monstruosa do homem?</p> - -<p>Essas noções rudimentares de cosmographia, que -existiam no espirito dos antigos, chegaram ao seu -apogeu com a escola de Alexandria. Sabios notabilissimos -imprimiram grandes progressos á sciencia, -e principalmente á astronomia. O nome de Ptolomeu -e o nome de Hipparcho bastam para fazer a gloria -de uma escola, de um paiz e de um seculo. A conclusão -a que chegaram era falsa, mas quantas descobertas -importantes lhes serviram para assentar os -primeiros alicerces de uma sciencia a que pozeram -então uma cupula errada, por lhes terem faltado -informações e elementos que só a audacia dos navegadores -lhes podia levar! Que maravilhosos instrumentos -de estudo não encontraram elles! Que -calculos levaram a cabo que os sabios do seculo <span class="allsmcap">XVI</span>, -ao poderem juntar-lhes novos elementos, aproveitaram -para a transformação da sciencia! Sem Ptolomeu -como se comprehenderia Copernico? Sem Hipparcho -o que poderia fazer Tycho-Brahé? N’esta -conquista da verdade, os antigos tomaram as obras -avançadas e julgaram estar senhores da cidadella; -mas, só depois de occupadas essas obras, só depois -dos maravilhosos esforços dos navegadores peninsulares, -é que se podia descortinar e assaltar a cidadella...<span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span> -E quem sabe se será esta definitivamente -a verdadeira!</p> - -<p>Mas o que é absolutamente indispensavel saber, -para que se possa avaliar a transformação produzida -no seculo <span class="allsmcap">XV</span> pelos descobrimentos portuguezes, é -quaes eram os principios estabelecidos como certos -e indubitaveis com relação á terra por esses sabios -cuja auctoridade era incontestavel, cujas doutrinas -se ensinavam ás creanças, como hoje se ensinam as -novas theorias, e que representavam portanto a verdade -absoluta d’esse tempo. Alguns pontos havia -que encontravam contradicção, como era o da redondeza -da terra. N’outros, porém, não havia a mais -leve divergencia, como em todos os que se ligavam -com o movimento dos corpos celestes, com a marcha -do sol em volta da terra para produzir o dia e -a noite, com a marcha do sol pelo zodiaco produzindo -a differença das estações. Tantas maravilhas -conseguira já a astronomia que as doutrinas que ella -promulgava não podiam soffrer contestação. Se ella -já conseguira adivinhar os eclipses, que maior prova -podia dar de que encontrára a chave do mechanismo -celeste?</p> - -<p>Essas doutrinas de Ptolomeu passaram para a -edade média, que teve sempre pela sciencia antiga -um louco fanatismo. Encontramol-as ás vezes adulteradas, -misturadas com manifestações de ignorancia, -com superstições e crendices, mas naturalmente<span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span> -arraigadas nos espiritos, e exaltadas com enthusiasmo -pelos sabios da primeira Renascença, pelos que arrancaram -das trevas a Europa barbara, e que levantaram -como um facho luminoso a doutrina já completa -e bem comprehendida do grande geographo -antigo.</p> - -<p>Vamos encontrar n’um dos livros d’esses sabios -medievaes, n’uma d’essas <i>Imago mundi</i> ou <i>Thesaurus</i>, -que eram as encyclopedias do tempo, a condensação -de toda a sciencia, a doutrina antiga resumida, -explicada, mas tambem modificada. Queremos -falar nos <i>Dialogos</i> de Pedro Affonso. Os dois -que dialogam são Pedro e Moysés. Aquelle é o mestre, -este o discipulo.</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>Diz Moysés:</p> - -<p>—Não ha pois da terra senão uma só parte habitavel. -Que parte?</p> - -<p><i>Pedro</i>—Desde o meio da terra até á parte septentrional.</p> - -<p><i>Moysés</i>—Demonstra-me isso n’uma figura geometrica, -porque n’essa materia cada nação tem tido, segundo -os auctores, idéas differentes. Divide-se effectivamente -a terra em cinco zonas: uma no meio, -queimada pelo ardor do sol, e por conseguinte inhabitavel; -duas nas extremidades, muito afastadas -do sol, e egualmente inhabitaveis, por causa do rigor -do frio; e duas médias, temperadas pelo calor da primeira<span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span> -e pelo frio das outras duas, e unicas habitaveis<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a>.</p> - -<p><i>Pedro</i>—Esse systema está em contradicção com -o testemunho dos nossos olhos. Vemos effectivamente -<i>Aren</i> situado no centro da terra; no seu zenith -principiam o Aries e a Balança; o ar é alli tão -suave que a temperatura das quatro estações é quasi -sempre a mesma. Nascem alli plantas aromaticas de -côr brilhante e de sabor delicioso; os homens não -são nem descarnados, nem obesos, mas de uma compleição -bem proporcionada. O clima que exerce esta -salutar influencia no corpo não actúa menos efficazmente -sobre o espirito que brilha pela sensatez e -por uma moderação cheia de acerto. <i>Como se pode -pois dizer que um logar que o sol percorre em linha -recta em toda a sua extensão é inhabitavel?</i> Não: todo -o espaço de terra comprehendido entre esse logar e o -segmento septentrional é habitavel sem interrupção, -e os antigos dividiram-n’o em sete partes chamadas -climas, em conformidade com o numero dos sete -planetas. O primeiro clima está na linha do meio; -ahi é que Aren foi fundado. O setimo occupa a extremidade -do mundo septentrional. Nenhuma d’essas<span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span> -partes é inhabitavel, se exceptuarmos os sitios -em que grandes massas de areia quasi sem agua ou -então montanhas pedregosas se recusam ao trabalho -da charrua.</p> - -<p><i>Moysés</i>—Resta-me pedir-te que me demonstres -como succede que esta parte da terra que fica para -além de Aren para o sul não é habitada como a que -está para áquem para o norte, de modo que Aren -se ache no centro da região habitavel, ou então tambem -porque não é a parte meridional que é habitavel, -emquanto a parte septentrional seria inhabitavel, -ao inverso do que succede.</p> - -<p><i>Pedro</i>—Porque o circulo do sol é excentrico relativamente -ao circulo da terra, e porque essa excentricidade -atira a maior parte da circumferencia -para uma distancia maior do septentrião. Segue-se -d’ahi que, logo que o sol passa para os signos do -hemispherio meridional, quer dizer para a parte da -circumferencia comprehendida entre a Balança e -Aries, approxima-se da terra, e, queimando os seus -raios o solo a esta curta distancia, tornam-n’a esteril -e por conseguinte inhabitavel. Só a partir do primeiro -clima para o norte é que o espaço que comprehende -os sete climas é habitavel. Mas tudo o que -vem depois a partir do setimo clima é privado de -todo o calor, por causa do afastamento do sol, que -vae percorrer os seis signos meridionaes; d’ahi o -excesso das nuvens, dos nevoeiros e das geadas; e<span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span> -emfim a ausencia de toda a creatura animada n’essa -parte da superficie terrestre<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a>».</p> - -</div> - -<p>Não era esta, porém, a doutrina de Ptolomeu. Esta -era a doutrina que procurava conciliar a theoria -scientifica com as palavras da Egreja. A doutrina de -Ptolomeu, a doutrina em geral de todos os sabios -da antiguidade e da edade média, era que a zona -torrida estava collocada debaixo do zodiaco, que, -proxima do sol por conseguinte, era por elle abrazada, -mas que para além d’essa região havia outra -temperada como a nossa, assim como outra tambem -glacial como a zona arctica. Essa foi sempre a -doutrina predominante, embora contra ella protestasse -a orthodoxia; mas qualquer das duas sustentava -como facto incontroverso que a zona torrida -era absolutamente inhabitavel, quer fosse, como queria -Ptolomeu, que o sol, descrevendo um circulo perfeito -em torno da terra durante as vinte e quatro horas, -e descrevendo-o ao longo do zodiaco perfeitamente -parallelo á zona torrida, sobre ella fizesse caïr -perpendicularmente os seus raios e a queimasse e -destruisse, ou, como pretendia Pedro Affonso, não -descrevendo o sol esse circulo perfeito que Ptolomeu -imaginára, mas descrevendo um circulo excentrico -ao da terra, d’ahi resultasse que, ao passar pelos<span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span> -signos meridionaes do zodiaco, estivesse mais proximo -da terra, e fosse o hemispherio meridional o que -os seus raios incendiavam.</p> - -<p>Devemos notar que esta ultima hypothese era a -que se approximava mais da ellipticidade da orbita -da terra hoje demonstrada. Se não se suppunha ainda -que o sol descrevesse uma ellipse em torno da terra -como hoje se sabe que a terra descreve uma ellipse -em torno do sol, já se principiava a querer applicar -ao sol a theoria dos <i>epicyclos</i> e dos <i>excentricos</i>, com -que a astronomia antiga procurava conciliar com a -theoria geral do Universo as contradicções que resultavam -do movimento apparente de muitos planetas. -A theoria de Pedro Affonso conduzia-o á doutrina -moderna da <i>periphelia</i> e da <i>aphelia</i>. Adivinhava que -ha um periodo em que o sol está mais afastado da -terra do que n’outros, e dava-se a coincidencia de -que, dando-se a <i>periphelia</i>, quer dizer o periodo de -maior approximação do sol, em janeiro, quando é -verão no hemispherio austral, d’ahi resulta que effectivamente -os verões austraes são mais quentes do -que os nossos, e Pedro Affonso adivinhou assim uma -verdade hoje perfeitamente demonstrada. Acontece -porém que, sendo a terra que se move e não o sol, -quando chega a <i>aphelia</i>, quer dizer o periodo de -maior afastamento do sol, em julho, sendo então -verão entre nós e inverno no hemispherio austral, -tambem succede que são os seus invernos mais regelados.<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span> -Mas, se a terra se conservasse immovel, -como até Copernico se suppoz, passando o sol sempre -á mesma distancia do mesmo ponto da terra, -seria sempre effectivamente o hemispherio austral o -que mais lhe sentiria os implacaveis ardores.</p> - -<p>Comtudo era incontestavelmente o systema de Ptolomeu -que triumphava nas escolas, era esse o que -tinha a sua consagração scientifica. Segundo a theoria -do grande geographo, a terra espherica estava dividida -em cinco zonas, as zonas glaciaes tão longe -do sol que a vida era alli impossivel por causa da -falta absoluta de calor, a zona torrida tão proxima -do sol, que em torno d’ella descrevia a sua enorme e -rapidissima viagem, que a vida era impossivel pelo -excesso do calor, emfim as zonas temperadas onde -nem o calor era extraordinario nem extraordinario -o frio, e que a vontade suprema destinara evidentemente -para habitação do homem.</p> - -<p>Era conforme esta theoria com o espirito, com o -pensamento grego que em tudo se manifestava, na -arte, na poesia, na philosophia, no viver social e politico. -O ideal grego é a moderação e a harmonia. -O universo devia regular-se tambem por essas leis -harmonicas, que marcam tanto o rhythmo da architectura -do Parthenon como o da poesia de Sophocles, -tanto o da philosophia de Platão e de Aristoteles -e o da eloquencia de Demosthenes e de Lysias -como o das concepções mythicas d’aquelle harmonioso<span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span> -anthropomorphismo hellenico, que produziu -aquelles typos idealmente bellos nas suas proporções -sublimes, Apollo e a Aphrodite. Assim o homem -tambem não poderia viver senão nas regiões em que -o clima tivesse a harmonia e a moderação compativeis -com o desenvolvimento normal da vida humana. -Logo que o calor principiasse a exaggerar-se, desmanchando -o equilibrio da temperatura, desmanchava-se -tambem o equilibrio das proporções e da -fórma humana. Por isso nas proximidades d’essa -pavorosa zona torrida começava a terrivel degeneração -da raça, surgiam creaturas cada vez mais monstruosas, -e era assim effectivamente que Plinio explicava -essa efflorescencia de monstros que, no seu -entender e no entender dos outros geographos antigos, -se manifestava nas regiões mais proximas da -zona torrida<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a>, onde desapparecia emfim no immenso -incendio com que o sol abrazava o mundo.</p> - -<p>Mas, como diziamos, Ptolomeu entendia e bem -que eram duas as zonas temperadas, uma ao norte, -e outra ao sul do Equador, mas entre as duas, pela -sua theoria, não podia haver communicação. Essa<span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span> -terra é a famosa <i>terra antichtona</i>, a <i>terra austral</i>, -o <i>alter orbis</i> que figura conjecturalmente nos antigos -mappas, e em que, por mais de uma vez, uns teem -querido ver a America, outros as regiões descobertas -pelos Portuguezes! A America nunca pela <i>terra antichtona</i> -podia ser designada, porque a <i>terra antichtona</i> -ficava para o sul, mas tão levianamente homens -de merito notavel teem estudado estes assumptos, -que se deixaram muitas vezes illudir pela orientação -de antigos mappas que é quasi sempre diversa -da nossa. O oriente era muitas vezes collocado -nos mappas no sitio onde hoje collocamos o norte, -o occidente onde fica o sul, o norte para o lado do -occidente e o sul para o lado do oriente. Os Arabes -então invertiam completamente o systema. O sul -fica para o norte e o norte para o sul. Com estas -alterações que immenso cuidado é necessario quando -se pretendem tirar quaesquer illações dos mappas -antigos!</p> - -<p>É essa a doutrina que prevalece durante toda a -edade média. É Macrobio que suppõe a zona torrida -inhabitada e queimada pelos fogos do sol, e a zona -temperada austral povoada por homens de uma especie -desconhecida<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a>, Orosio que declara que do interior -da Africa nada se pode conhecer porque o calor da<span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span> -zona torrida o reduz a uma brazeira.<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a> S.ᵗᵒ Izidoro de -Sevilha sustenta egualmente a existencia da <i>terra -antichthona</i> onde habitam os antipodas, se não são -fabulosos.<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a></p> - -<p>Bedo o Veneravel, que tem a sua theoria cosmographica -exposta pittorescamente pela comparação -do ovo, que vê a terra collocada no meio do mundo -como a gemma, a agua em torno como a clara, o ar -como a membrana e o fogo como a casca, tambem -apresenta a doutrina da terra antichthona separada -da nossa pela zona inhabitavel.<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> S. Virgilio imagina -que o <i>alter orbis</i> tem outra lua, outro sol e outras -estações.<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a> Raban Mauro, que falla nos basiliscos fabulosos, -e nas Gorgonas cabelludas e phantasticas, -tambem indica a terra antichthona separada pelo ardor -do sol<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a>; Alfrico, Moysés de Choréne, Pedro des -Vignes, o famoso Pedro d’Ailly, Marino Sanuto, Nicolau -d’Oresme e quantos outros estabelecem e proclamam -esta doutrina que é a que tem um caracter -scientifico. Quando o mundo christão entra em relações<span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span> -com o mundo arabe então illuminado por uma -forte civilisação, quando trava conhecimento com os -seus grandes geographos, Edrisi, Abulféda, Masoudi, -o que encontra? Encontra a influencia de Ptolomeu -alli tambem predominante como em geral a influencia -grega, o <i>Almagesto</i> considerado como uma obra -divina, e portanto egualmente triumphante a doutrina -da antichtona e da zona torrida inhabitavel.</p> - -<p>Ha alguns espiritos que se revoltam contra essa -idéa? Ha de certo, mas esses são só os espiritos independentes -como Alberto Magno, como Rogerio Bacon, -como Pedro d’Abano, esses simplesmente não -acceitam o que não está demonstrado, mas não vão -contra factos incontestados. Assim Alberto Magno -não acceita sem demonstração a idéa de que o -sol percorra especialmente a zona torrida e a prive -de toda a vegetação e de toda a manifestação de -vida, mas, não contestando que não ha relações entre -a terra que habitamos e a terra desconhecida, -attribue esse facto em primeiro logar á immensidade -dos mares, em segundo logar á existencia na antichthona -de montanhas magneticas que prendem -os habitantes e que os não deixam transpôr os incommensuraveis -espaços que os separam da terra -que habitamos<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span></p> - -<p>Rogerio Bacon sustenta opinião approximadamente -identica<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a>. Pedro d’Abano refugia-se na vaga -observação de que o meio deve ser mais perfeito do -que as extremidades<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a>, e uns e outros sustentam que -a zona torrida é toda occupada pelo mar, que o Occeano -não rodeia simplesmente a terra, que se interna -no seio d’ella formando os quatro grandes -golphos do Mediterraneo, do Mar das Indias, do -Mar Roxo e do Caspio, porque este mar interior foi -por muito tempo e por muitos geographos considerado -como um mar que communicava ou com o Baltico, -ou com o Occeano.</p> - -<p>Para todos então a approximação da zona torrida -era assignalada pela existencia de monstros, em que -se desentranha com uma espantosa exuberancia a -fertil imaginação dos povos infantis. A teratologia -das antigas religiões transportava-se e desenvolvia-se -de um modo prodigioso nas descripções dos mais -serios geographos. Nas regiões que confinavam com -as que eram defezas aos homens brotavam as plantas -maravilhosas, a especie humana torcida e desfigurada -desatava-se em fórmas phenomenaes, e ao -lado d’ellas percorriam animaes monstruosos, como -os que reconstitue para as epochas primitivas a paleontologia -moderna, essas regiões devastadas. Para<span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span> -o norte no Caucaso e na Scythia collocava Raban -Mauro os gigantes, os gryphos e os dragões que zelosamente -guardavam o oiro e as pedras preciosas<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a>. -Para o sul, segundo o pensar de Vicente de Beauvais, -um dos grandes geographos da edade média, -havia dragões logo para deante de Marrocos<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a>. João -de Hase collocou na India os pygmeus que apenas -viviam 12 annos, e rochedos magneticos que attrahiam -os navios para o fundo do mar<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a>. As obras de -Plinio eram fonte inexgotavel de extraordinarias divagações. -Cynocephalos e acephalos, cyclopes e arimaspes, -antipodas que não tinham dedos, hippopodas -que tinham pés de cavallo, e juntamente com -elles os gryphos pullulavam n’essas regiões mysteriosas, -como aviso supremo que a Providencia dava -aos que pretendiam penetrar nas regiões em que o -sol impera e que o sol devasta.</p> - -<p>No famoso mappa da cathedral de Hereford encontra-se -uma das collecções mais completas d’essa -estranha producção zoologica e anthropologica da -sciencia d’esse tempo. E note-se que essa sciencia -não a produzia a edade média, colhera-a nos livros -da erudita antiguidade. Era lá que ella encontrava -os troglodytas que comiam serpentes, eram Mela e -Plinio e Vopisco que apresentavam os Blemmyos que<span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span> -tinham os olhos no peito e os Presumbanos sem orelhas. -Se seguimos as indicações d’esse famoso mappa-mundi -lá encontramos ao norte os gryphos que -teem azas de aguia e corpo de leão e que defendem -contra os Arimaspes as minas das verdes esmeraldas, -os Hyperboreos, povo que conhece a eterna felicidade -e que só morre quando, cançando-se de viver, -se lança ao mar do alto de um rochedo, e os -Scythas de olhos verdes que vêem melhor de noite -que de dia, e os minotauros que teem corpo de homem, -cabeça, cauda e pés de toiro, e os tigres da -Hyrcania a que os homens escapam se, quando fogem -deante d’elles, se lembram de lhes atirar um -espelho, e na India então a monstruosa mantichora -que tem corpo de leão, rosto de homem, cauda de -escorpião, tres ordens de dentes, olhos glaucos, côr -de um vermelho sanguineo, os pelicanos que abrem -o seio para sustentar os filhos, e povos sem nariz, e -outros sem lingua, e os Monoculos que teem um -olho só, uma perna só e um pé tamanho que, depois -de terem andado largo caminho, apesar dos -seus poucos meios de locomoção, com uma rapidez -prodigiosa, ao descançarem levantam o pé e adormecem -á sua sombra.</p> - -<p>Na Phrygia apparece o <i>bomaco</i>, um estranho animal, -que tem crinas de cavallo e cabeça de toiro, e -que se defende, quando foge, com os proprios excrementos -que queimam tudo em que tocam, na Arabia<span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span> -a phenix animal unico que vive quinhentos annos, -na Bythinia o lynce que vê atravez dos muros -e urina uma pedra negra, e até na Palestina tem o -rio Jordão, junto do Asphaltite, a designação de que -nas suas aguas sobre-nada o ferro e mergulham as -pennas.</p> - -<p>Na Africa então ha uma verdadeira orgia zoologica, -botanica e anthropologica. Alli vive a salamandra, -um dragão venenoso que se deleita nas chammas, -alli floresce a <i>mandragora</i>, essa planta de face -humana que tem miraculosas virtudes, alli corre o -<i>éalo</i>, que tem corpo de cavallo, cauda de elephante -e queixos de cabra, cujo pello é negro e cujos chavelhos -moveis teem uma braça de comprimento. Alli -se succedem emfim os <i>Ambaros</i> que não teem orelhas -e cuja planta dos pés é queimada, os Scinopodas -que teem as mesmas particularidades que os Monoculos, -os Androgynos que reunem n’um só individuo -os dois sexos, os Himantopodas que arrastam as pernas -de fórma que mais rastejam do que andam, os -Blemmyos de que já fallámos, os Psyllos que experimentam -o pudor das suas mulheres expondo os filhos -ás serpentes, os <i>Parvini</i> que teem quatro olhos, -os Agriophagos que se sustentam da carne das pantheras -e dos leões e cujo rei tem só um olho, e os -Virgogicos que habitam em cavernas e comem insectos, -e os satyros, e os faunos que são meio homens -e meio cavallos, e outros povos que teem o<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span> -rosto comprimido e se sustentam por meio de um canudo, -outros que teem nos hombros os olhos e a -bocca e outros que dão sombra ao rosto estendendo -um dos labios, tão proeminente elle é, e entre animaes -além dos dragões e dos gryphos o famoso basilisco, -animal monstruoso que tem na fronte uma -faxa branca que imita um diadema, e que empesta -o ar que respira, mata as plantas de que se approxima, -devasta o paiz que percorre, e a esphinge que -tem azas de passaro, cauda de serpente e cabeça de -mulher, e o monocerio, que, apesar de ser perigosissimo, -quando d’elle se approxima uma donzella -que lhe mostra o seio, toda a sua furia se aplaca, -e sobre esse seio adormece, e as formigas enormes -que guardam as areias de oiro. Alli tambem se encontram -montes em fogo cheios de serpentes, montes -silenciosos de dia, mas onde, á noite, accorda, á -luz de estranhas claridades, o som dos pandeiros -dos Egipans, e fontes que punem com a cegueira os -ladrões, e o poço maravilhoso, que se conserva todo -o anno immerso na sombra, mas que em certo dia, -quando o sol chega ao zenith, e os seus raios se -projectam verticalmente sobre a sua superficie, se -enche de subito de immensa claridade, e cidades -como a de Adaber onde os dragões pullulam.</p> - -<p>Mas tudo isto são contos de velhas, patranhas de -viajantes? Não! isto tem, pelo menos em grande -parte, um caracter scientifico. A antiguidade o transmittira<span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span> -e o que se não encontrava em Strabão, ou Ptolomeu -ou em Aristoteles encontrava-se em Plinio, ou -em Solino, ou em Pomponio Mela. Durante os descobrimentos -estas noções acompanhavam os nossos viajantes, -que, ao passo que destruiam umas, ainda iam -acalentando as outras. O mytho das amazonas, que, -durante a antiguidade, fluctuára entre a Scythia e os -arredores do Egypto, chegou a transplantar-se para a -America, e estava na mente do explorador que deu o -nome de Amazonas ao gigante fluvial da America do -Sul. As singularidades da phenix e do lynce eram perfeitamente -admittidas como authenticas, e a dedicação -materna attribuida ao pelicano, e que é tão contraria -á verdade, que esse passaro, longe de se dedicar -pelos filhos, nem sequer os defende como fazem os -outros animaes, até ha bem pouco tempo passou por -certa. As monstruosidades humanas não espantavam -pessoa alguma, e bem o podemos perceber se nos -lembrarmos que não estranhariamos monstruosidades -semelhantes se nol-as contassem, com certa auctoridade -scientifica, dos habitantes da lua. Sabendo -como os organismos animaes se adaptam aos meios -em que teem de viver, não nos custa a admittir que -os habitantes da lua, se não teem ar respiravel, não -tenham tambem os orgãos respiratorios, que lhes faltem -a bocca e o nariz, e que engulam o alimento, se -de alimento precisam, por outra fórma qualquer. -Desde o momento que se admittia o rigor inflexivel<span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span> -do sol nas regiões tropicaes, como se não admittiria -a existencia dos Himantopodas e dos outros povos -em cujo organismo a providente natureza desenvolvera -sobretudo os orgãos que tivessem por fim preserval-os -do sol?</p> - -<p>Assim as affirmações positivas e serias da sciencia -eram todas contrarias á navegação para a zona -torrida. Tão estranho pareceria a todos tentar-se -uma viagem n’essa direcção, como hoje nos pareceria -a nós tentar uma viagem em direcção á lua. Azurara, -se escrevesse a sua <i>Chronica da Guiné</i> antes -dos descobrimentos portuguezes serem conhecidos -lá fóra, passaria por auctor de um outro <i>Amadis de -Gaula</i>, e ninguem estranharia que a patria de Lobeira -produzisse outro escriptor não menos phantasioso, -ainda que d’esta vez o conto excedia demasiadamente -todos os limites da verosimilhança. Mesmo n’essa -epocha de credulidade o livro de Azurara faria sorrir -os leitores, se a realidade dos factos não fosse -já conhecida de todos, como hoje nos fazem sorrir -os romances de Julio Verne.</p> - -<p>Mas não apparece agora a todos evidente e claro -o absurdo de se suppor que por alguem fomos precedidos -nos descobrimentos africanos? Seria necessario -suppor, para que os normandos tivessem ido á -zona torrida, e creado estabelecimentos na costa e -desamparado depois essa navegação sem que ninguem -tivesse ligado a essas expedições a minima<span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span> -importancia, seria necessario suppor que as questões -geographicas encontravam no mundo medieval -a mais completa indifferença, que ninguem sabia se -havia zona torrida ou não, e que viagens d’essas -não levantavam a minima curiosidade. Não; a edade -média preoccupava-se avidamente com as questões -de geographia, principalmente depois das cruzadas, -e sobretudo depois d’essa grande Renascença do -seculo <span class="allsmcap">XIII</span>, que foi a aurora do grande esplendor -do seculo <span class="allsmcap">XVI</span>.</p> - -<p>Cosmas Indicopleustas, Jornandés, Gregorio de -Tours, Marciano Capella, Vibio Sequester, St.° Avito, -e Prisciano e Cassiodoro e Proclo e Macrobio e Paulo -Orosio nos seculos <span class="allsmcap">V</span> e <span class="allsmcap">VI</span>; St.° Isidoro de Sevilha, -Philopomus, Bedo o Veneravel, S. Virgilio no seculo -<span class="allsmcap">VIII</span>, Anonymo de Ravenna, Dicuil, Raban Mauro, -Alfredo o Grande no seculo <span class="allsmcap">IX</span>, Alfrico, Adelbod, -o monge Richer, Moysés de Chorène no seculo -<span class="allsmcap">X</span>, Herman Contractus, e Azaph o Hebreu no seculo -<span class="allsmcap">XI</span>, Honoré d’Autun, Othão de Frisa, Hugo de Saint-Victor, -Jacques de Vitry, Hugo Metello, Guilherme -de Jumiège, Herrade de Landsberg, e Bernardo -Sylvestris no seculo <span class="allsmcap">XII</span>, Sacro Bosco, Vicente de -Beauvais, Alberto o Magno, Rogerio Bacon, Roberto -de Lincoln, Pedro d’Abano, e Dante, Cecco d’Ascoli, -Roberto de S. Marianno d’Auxerre, Gervais -de Tilbury, Pedro des Vignes, Brunetto Latini, Joinville, -Omons, Alain de Lille, Guy de Basoches, Engelberto<span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span> -e Nicephoro Blemmyde no seculo <span class="allsmcap">XIII</span>, Marino -Sanuto, Nicolau d’Oresme, Ranulfo Hydgen, -Faccio degli Uberti, João de Mandeville, Boccacio, -Petrarcha, Bartholomeus Anglicus, Gervais, Ricobaldi -de Ferrara no seculo <span class="allsmcap">XIV</span>, Pierre d’Ailly, Guilhermo -Fillastre, Leonardo Dati, João de Hése no -seculo <span class="allsmcap">XV</span>, e quantos outros mais ainda sustentaram -e ensinaram as doutrinas cosmographicas que -temos exposto! Uns mantinham a doutrina de Ptolomeu -de que só a zona torrida era inhabitavel, outros -a de que era inhabitavel toda a parte meridional da -terra, outros e esses ainda assim rarissimos como -Alberto Magno e Roger Bacon, se não acceitavam sem -contestação nem como verdade absoluta a affirmação -de que era inhabitavel a zona torrida, sustentavam -que nem por isso deixava de ser impossivel -a transposição dos seus limites, porque o mar immenso -a cobria toda, e porque nas terras antichtonas -havia as terriveis montanhas magneticas cujo -pensamento paralysava os viajantes. Os mappas, que -acompanhavam as copias dos manuscriptos antigos, -como de Sallustio, do Apocalypse, de Pomponio Méla, -de Ptolomeu, e os poemas geographicos, e as <i>Imago -mundi</i> e as <i>Thesaurus</i>, e os que se elaboravam nos -conventos mais eruditos, todos reproduziam estas affirmações, -esta fórma estranha da terra, e inflammavam -com a tinta vermelha os mares da zona torrida -e inscreviam nas regiões mais proximas, que na Africa<span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span> -principiavam logo ao sul de Marrocos, as indicações -dos estranhos povos que as habitavam. E, quando -tão arraigada se achava esta convicção no animo -de todos, quando no seculo <span class="allsmcap">XIV</span> se discutiam com -ardor as doutrinas capitaes que expozemos ácerca -da zona torrida, a ponto de Pedro d’Abano escrever, -com o titulo de <i>Conciliator</i>, um livro destinado, -como indica o seu titulo, a conciliar essas doutrinas, -quando as viagens de Marco Polo excitavam -immensa curiosidade e muita incredulidade tambem, -tão estranhas coisas contava—apesar de nenhuma -d’ellas destruir afinal de contas os pontos capitaes -da sciencia do seu tempo—era possivel imaginar-se -que navegadores quaesquer fizessem viagens, que -destruissem completamente as noções essenciaes da -geographia essencialmente admittida, viagens em -que penetrassem na zona torrida não só sem perigo, -mas tambem sem encontrar nas regiões circumjacentes -nem povos monstruosos, nem animaes estranhos, -nem maravilhosas plantas, e que nem esse facto surprehendesse -capitães e marinheiros, nem excitasse -a curiosidade dos reis, nem dos sabios monges, nem -dos que escreviam os poemas geographicos, nem dos -que compunham as encyclopedias, nem dos que desenhavam -os mappas, nem dos aventureiros dos outros -paizes, como succedeu com as viagens dos Portuguezes, -que deram logo brado em toda a Europa, -como não podia deixar de succeder quando se désse<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span> -um passo tão gigante no conhecimento do mundo, -quando a prôa dos nossos navios, como o teria feito -a prôa dos navios normandos, se as suas viagens -fossem verdadeiras, fazia cair por terra todo um systema -geographico, sustentado desde a mais remota -antiguidade pelos respeitados eruditos?</p> - -<p>Diz Laplace que o merito de uma descoberta pertence -não a quem a faz, mas a quem a demonstra. -Aqui dava-se o caso mais notavel ainda, de bastar -para a demonstrar fazel-a. Como o philosopho antigo -que respondia aos que negavam o movimento -andando, os Portuguezes responderam aos que sustentavam -a impossibilidade de transpor a zona torrida -transpondo-a. Essa demonstração tel-a-hiam -feito os Normandos, se antes de nós lá tivessem ido, -ou os Genovezes ou os Catalães. A gloria tel-a-hiam -elles, mas gloria immediata, porque o facto era de -tal ordem que não era necessario que decorressem -seculos para se lhe reconhecer a importancia.</p> - -<p>No capitulo immediato veremos como a fé e a -lenda, ainda mais do que a sciencia, fechavam a -zona torrida e os mares, que, no dizer de alguns, a -enchiam, á investigação do homem. Essas lendas, -como as da sciencia, iam sendo rasgadas a pouco e -pouco, mas pendiam, assim esfarrapadas, dos hombros -dos navegadores. Lembram aquelles nevoeiros -de Cintra, que envolvem o valle e a montanha, tendo -por cima o céo azul. Á medida que os transpomos,<span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span> -vão-se rasgando por baixo de nós, surge uma aldeia, -irrompe um arvoredo, um grupo de rochas, mas em -muitos pende ainda dilacerado o manto do nevoeiro. -Assim veremos os navios portuguezes e hespanhoes -caminhar envoltos em nevoas, até que a sua audacia -tudo rompeu, e o mundo appareceu emfim na sua -completa e radiosa realidade.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="IV">IV<br /> -<span class="smaller">A religião e a lenda</span></h2> - -</div> - -<p>Se eram estas as idéas scientificas predominantes -no principio do seculo <span class="allsmcap">XV</span>, é importante saber-se se -a religião as acceitava. Era tão poderoso o dogma -nos espiritos medievaes que a condemnação de uns -certos principios pela auctoridade ecclesiastica bastava -para que a grande maioria os suppozesse completamente -falsos. Espiritos independentes como os -tem havido sempre protestavam contra a condemnação -da sciencia pela fé; mas protestavam timidamente, -e nós veremos que nos pontos mais capitaes a fé estava -completamente de accordo com a sciencia, de fórma -que uma e outra fechavam deante das tentativas dos -navegadores o mar mysterioso, que a audacia portugueza -conseguiu devassar. O principio assente era<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span> -a impossibilidade de se franquear a zona torrida, -mas poucos homens de sciencia punham em duvida -que para além da zona torrida existisse outra zona -temperada semelhante á do norte, e onde fosse possivel -a vida da raça humana. Contra este ponto é -que o dogma protestava.</p> - -<p>Era inultrapassavel a zona torrida, não a tinham -podido franquear os discipulos de Christo, portanto -a palavra divina de redempção promettida a todos -os que tivessem fé não podia chegar a esses povos que -Deus esquecera, o que era completamente absurdo.<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a> -Se a humanidade toda descendia de Adão, como é -que viera ao mundo essa raça humana? Tivera outro -Adão como alguns sustentaram que tinha outro -sol e outras estrellas?<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a> Tudo isso era incompativel<span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span> -com a verdade suprema expressa na Biblia. E demais, -se Deus dividira a terra depois do diluvio entre -os tres filhos de Noé, se déra a Sem a Asia, a -Japhet a Europa, e a Cham a Africa, qual fôra o -desconhecido filho de Noé que recebera da Providencia -a terra antichthona?<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a></p> - -<p>Encontrára-se em parte uma solução para essa -dificuldade. Reconhecia-se a existencia da terra antichthona, -mas suppunha-se que fôra a habitação da -raça humana antes do diluvio. Alli ficava o Paraizo, -e alli vagueando em torno da deliciosa habitação -para sempre defeza vivera a humanidade criminosa -os seus primeiros annos. Na arca de Noé salvara-se -uma fraca reliquia d’essa gente condemnada. A arca -boiara sobre as aguas e viera poisar emfim no monte<span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span> -Ararat. Nunca mais o homem tornaria a ver a sua -antiga patria<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a>.</p> - -<p>Assim Cosmas suppunha um mar immenso coberto -de trevas, porque o sol só illuminava a terra, -e formando quatro golphos, o Mediterraneo, o mar -Vermelho, o golpho Persico e o mar Caspio; para -além d’esse immenso mar a terra antichthona, e n’ella -o Paraizo<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a>.</p> - -<p>Outros, porém, não se podiam resignar a estar -para sempre separados do Paraizo, e collocavam-n’o -no extremo Oriente, no sitio onde, ao que diziam, -principia o mundo. Esses baseavam-se na phrase do -Genesis, que diz que «Deus plantou no Oriente um -jardim delicioso». Para além da India, dizia Santo -Avito, fica o Paraizo, cercado por barreiras que o -homem não pode transpôr. É a theoria adoptada por -S. Basilio, Psellus, Philostorgo, Isidoro de Sevilha, -Bedo o Veneravel, geographo de Ravenna, Raban -Mauro, Hugo de Saint-Victor, Jacques de Vitry, Honoré -d’Autun, Gervais, Vicente de Beauvais, Joinville, -Jourdain de Sévérac, Omons, que ainda suppunha -que lá estava o anjo da espada chammejante, -Ranulpho Hydgen, Dati, Bartholomeu Anglicus, Brunetto -Latini, Dante, etc. Uns suppunham-n’o erguido<span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span> -n’uma alta montanha, outros n’uma ilha. E em torno -d’esta idéa dogmatica ferviam as lendas.</p> - -<p>Do Paraizo, dizia-se, saíam quatro grandes rios: -o Nilo, o Ganges, o Tigre e o Euphrates. Era necessario, -porém, explicar-se como é que estes rios appareciam -tão longe da sua celeste origem, e sobretudo -como é que o Nilo apparecia na Africa, tendo nascido -na Asia. A explicação era a da corrente subterranea, -e submarina tambem com relação ao Nilo, -quando a supposição de um mar mediterraneo, que -trazia comsigo a união da Asia com a Africa, não -tornava dispensavel esta conjectura<a id="FNanchor_41" href="#Footnote_41" class="fnanchor">[41]</a>.</p> - -<p>Esta opinião religiosa perdurou largo tempo no -espirito dos homens ainda depois das grandes descobertas.<span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span> -Colombo, cuja alma enthusiastica se deixava -invadir facilmente pelas seducções do mysticismo, -e que tinha a fé ardente que foi um dos principaes -elementos do seu triumpho, nutria a secreta -esperança de chegar a esse Paraizo cubiçado, como -contava encontrar n’esse Cathay maravilhoso os capitaes -indispensaveis para a reconquista do sepulchro -de Christo. Era logica a sua esperança. Se -elle, partindo do Occidente, esperava chegar ao extremo -Oriente, se no extremo Oriente estava o jardim -de delicias em que Deus collocara os nossos -primeiros paes, como podia duvidar de que o encontraria? -Quando na sua terceira viagem chegou -á bocca do Orenoque imaginou ter finalmente chegado -ao Paraizo terrestre, não pela formosura das -paizagens e pela abundancia da vegetação, mas porque, -vendo a torrente das aguas do grande rio, suppoz -que era um dos que borbulhavam da elevada -montanha do Paraizo terrestre<a id="FNanchor_42" href="#Footnote_42" class="fnanchor">[42]</a>. Christovão Colombo<span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span> -não admittia absolutamente a esphericidade da terra. -Como varios outros geographos da edade média, que -lhe tinham dado uns a fórma ovoide, outros a fórma -de um cone ou de um pião<a id="FNanchor_43" href="#Footnote_43" class="fnanchor">[43]</a>, Christovão Colombo -suppunha que ella teria a fórma de uma pera, e que -junto do pé é que estava exactamente o Paraizo<a id="FNanchor_44" href="#Footnote_44" class="fnanchor">[44]</a>.</p> - -<p>Tambem a esphericidade da terra era absolutamente -contradictada pelos Santos Padres, que lhe -davam a fórma de um quadrado ou de um parallelogrammo, -fórma emfim que se assemelhasse á do -Tabernaculo de Moysés. Desdenhando a idéa scientifica -oriunda dos Gregos, e sustentada pelos Arabes, -vindo talvez para uns e para outros dos orientaes, de -que o centro do mundo era Aryn, d’onde se principiavam -a contar as latitudes e longitudes, que ficava -exactamente a 90° de cada um dos pontos cardeaes,<span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span> -ponto geographico que foi muitas vezes representado -pelos cartographos como uma cidade maravilhosa, -com um castello, em que habitava um mysterioso -soberano, os Padres da Egreja reclamavam para -Jerusalem a honra de ser ella o centro da terra, ou -pelo menos o centro da terra habitada, quando se -imaginava que o resto do mundo estava coberto pelas -aguas desde o diluvio.</p> - -<p>Finalmente para apresentarmos no seu conjuncto -as idéas geographicas affirmadas dogmaticamente -pela religião, fallaremos ainda, posto que não interesse -a questão dos descobrimentos maritimos, na -existencia para o norte das terras de Gog e de Magog. -Eram os paizes ao norte da Asia, n’essa região -desconhecida em que tambem pullulavam as fabulas, -porque era a que se approximava das zonas glaciaes -inhabitaveis. Ahi, dizia-se, habitavam os filhos -de Caim<a id="FNanchor_45" href="#Footnote_45" class="fnanchor">[45]</a>, povos que tinham escapado, ao que parece, -do diluvio, não por traz da barreira insuperavel -da zona torrida, mas encostando-se ás gelidas -barreiras dos polos. Irrompiam ás vezes em incursões -ferozes, até que Alexandre o Magno, na sua -grande expedição, que ficou legendaria, levantou a -grande muralha que poz termo ás suas<span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span> -arremettidas<a id="FNanchor_46" href="#Footnote_46" class="fnanchor">[46]</a>. Disse-se depois que aquellas dez tribus de Israel, -que não voltaram do captiveiro da Babylonia, -n’essa região mysteriosa ficaram internadas, como -depois se disse, quando se descobriu a America e -alli se encontrou uma raça de homens desconhecida, -que eram ainda as dez tribus de Israel que se tinham -perdido n’essas regiões que o Atlantico por -tanto tempo escondera detraz da cortina das suas -vagas<a id="FNanchor_47" href="#Footnote_47" class="fnanchor">[47]</a>.</p> - -<p>Assim a fé religiosa, se contradictou n’alguns pontos -importantissimos as affirmações scientificas, cerrou -ainda mais as portas do <i>mare clausum</i>. O homem -não podia chegar á zona torrida, era esse o -ponto capital, que a um tempo sustentavam os homens -da sciencia e os homens da orthodoxia. Assim -que d’ella se approximavam o mar começava a escandecer-se, -a terra inflammava-se, montes ardentes -reflectiam as suas chammas nas aguas, e monstros -extranhos que o calor fazia brotar, plantas<span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span> -extraordinarias que só podiam florescer n’essa monstruosa -estufa, começavam a apparecer n’essas terras -extranhas. Assim, para o norte, apenas se chegava -ás regiões onde soprava um vento glacial, outros -monstros appareciam, e os povos ferocissimos -de Gog e Magog só esperavam que um audacioso -rompesse a muralha de Alexandre que os refreiava -para cairem de novo sobre o mundo, entregue assim -nas garras de Satanaz.</p> - -<p>No centro da terra habitada, que tinha a fórma -quadrilateral, erguia-se Jerusalem; no extremo -Oriente erguia-se o Paraizo defezo aos homens, e -d’onde saíam os grandes rios do Oriente, trazendo -ainda nas suas aguas o nateiro fecundante que ia -dar como que uns reflexos da vegetação paradisiaca -ás terras que atravessava.</p> - -<p>Em torno do dogma como em torno da sciencia -nasciam então as lendas. Deante do dogma inclinavam-se -todos, deante da sciencia inclinavam-se os -illustrados, deante da lenda refugiam os ignorantes, -e uns e outros paravam deante d’esse mar que tantos -mysterios encerrava.</p> - -<p>Classificamos propriamente como legendarias as -supposições que não tinham a minima base scientifica -ou que não repousavam no dogma. Assim a -<i>terra velada</i> de Theopompo não era senão a <i>terra -incognita</i> de Ptolomeu; mas, suppondo o auctor grego -que os homens que a habitavam eram de uma estatura<span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span> -duas vezes maior que a dos do mundo conhecido, -perdia-se completamente nas regiões da phantasia, -porque não havia, como para a humanidade -monstruosa das regiões tropicaes, as razões do clima. -Percebe-se, por exemplo, que a necessidade continuada -de se resguardarem contra os ardores de um -sol terrivel fosse, atravez de gerações successivas, -desenvolvendo cada vez mais os orgãos com que o -homem se podia proteger, mas n’esse clima perfeitamente -semelhante ao nosso nenhum motivo havia -para que se suppozesse que duplicava a estatura -humana. E comtudo essa lenda actuava fortemente -no espirito dos navegadores, e assim se explica a -formação da lenda dos Patagonios.</p> - -<p>Legendarias eram tambem as ilhas do Oiro e da -Prata, que apparecem nos mappas da edade média -e que vão fugindo para regiões mais distantes á medida -que vae sendo conhecido o mundo oriental, -como succedia tambem ás Hesperides, antigas ilhas -de fabulosa riqueza, cujo pomar de pomos de oiro -opulentos era guardado por um dragão, como tambem -na edade média as montanhas que encerravam -thesouros preciosissimos eram guardadas por gryphos -e toda a especie de fabulosos animaes. É sempre -em ilhas situadas nos mares desconhecidos que -se colloca ou a região das riquezas ou a região -da bemaventurança. As ilhas Afortunadas ou as -ilhas das Hesperides eram para os antigos a patria<span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span> -de todos os sonhos da felicidade suprema. Era nas -regiões do Norte, onde parecia que devia reinar -comtudo a eterna desolação, que elles collocavam -tambem a ideal ventura, phantasiando esse povo -dos Hyperboreos eternamente feliz. Passou para a -edade média essa tradição, e nos mappas medievaes -se vêem para além do mundo conhecido as ilhas onde -habitam os Hyperboreos. Nos mares orientaes collocavam-se, -como dissemos, as ilhas do Oiro e da -Prata, as ilhas dos Homens e das Mulheres, que eram -o producto de uma tradição arabe, a ilha do Sol de -Pomponio Mela, que não fazia senão dar uma nova -fórma ás preoccupações da zona torrida. Quem abordasse -á ilha do Sol era immediatamente suffocado -pelo ar em braza que alli se respirava<a id="FNanchor_48" href="#Footnote_48" class="fnanchor">[48]</a>. Finalmente, -nos mappas da edade média já mais proximos da -epocha dos descobrimentos apparece semeado de innumeras -ilhas o mar oriental: sete mil dizem as legendas -de uns, quatorze mil as de outros. Esse pensamento -foi suggerido pelo conhecimento das viagens -de Marco Polo e pelas indicações que o viajante veneziano -dá ácerca das Maldivas, que se suppozeram -existentes no mar oriental. É bem provavel, e o que -é certo é que o pensamento da existencia de innumeras<span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span> -ilhas no oriente da India actuou nos sabios -do seculo XV, e foi uma das esperanças de Christovão -Colombo e um dos pontos de apoio de Toscanelli -para a sua theoria da possibilidade da viagem que -Colombo emprehendeu, porque, dizia elle, ainda que -o continente asiatico estivesse mais longe do que se -suppunha, sempre se encontrariam no caminho ilhas -que servissem de porto de escala e de arribação<a id="FNanchor_49" href="#Footnote_49" class="fnanchor">[49]</a>.</p> - -<p>Ah! essas ilhas conjecturaes da edade média como -serviram aos historiadores superficiaes para procurar -attenuar a gloria dos Portuguezes e a gloria de Colombo! -Brotavam das ondas mysteriosas como brota -a espuma da vaga que se desfaz nos rochedos. Por -aquelle Oceano tenebroso que se estendia para o -Occidente, nas ondas do ignoto mar indico, por muito -tempo considerado, e ainda no tempo dos primeiros -descobrimentos portuguezes, como um mar mediterraneo, -pelo mar ignorado do Norte semeava a imaginação -dos cartographos quantas ilhas ideara a -phantasia antiga, a phantasia dos <i>troubadours</i> ou dos -<i>trouvéres</i> e a dos mysticos! Lá appareciam, como dissemos, -as ilhas das fabulosas riquezas, a Chrysé, a -Argyra, Ophir, que talvez bem se possa classificar<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span> -entre ellas; as ilhas da tradição homerica, a de Calypso, -a de Diomedes, a outra em que se vê ás horas -do sol poente a sombra gigante e pensativa de -Achilles, as ilhas da tradição celtica, essas ilhas que -povoavam a imaginação d’estes marinheiros do occidente, -que, erguidos ao pôr do sol nos rochedos da -costa, sonhavam em cada miragem do Oceano uma -ilha fabulosa, que, batidos pela tempestade, quando -andavam á pesca, julgavam escutar no surdo rugido -das vagas os lamentos das almas penadas nas ilhas -milagrosas, e tudo se contava ao serão quando bramia -o vento cá fóra e o mar quebrava com doloridas -queixas ou com furioso estrepito nas fragas desnudadas. -Tudo ia tambem enriquecer as lendas dos -claustros para ornar com esses arrebiques de maravilhoso -a existencia piedosa de um santo missionario. -Foi assim que S. Brandão teve a sua ilha, onde -cantavam as aves do Paraizo, e onde se respirava -tão celeste e perduravel perfume que n’elle ficaram -para sempre impregnadas as vestes do santo viajante. -Era na Irlanda sobretudo que essas lendas brotavam, -era ahi que se formavam ao lado da legenda de -S. Brandão as de S. Patricio, e de tantos outros navegadores -celticos que iam atravez dos mares da -phantasia procurar ignotas ilhas.</p> - -<p>Já Brekan, o filho do rei Niel, desapparecera nas -ondas do mar com cincoenta navios, e só o cadaver -do seu cão reapparecerá na praia, já tres filhos de<span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span> -Corra tinham com os seus quatorze companheiros, -entre os quaes iam um bispo e um bardo, abordado -ás ilhas das Almas, encontrando depois de quarenta -dias e quarenta noites a ilha do eterno choro, e a -ilha em que fundidores infieis forjavam e fundiam -com as carnes rasgadas pelas aguias negras, e outra -em que um moleiro moía eternamente farelo por -ter roubado os seus freguezes, e outra em que um -alquilador, que roubara o cavallo a seu irmão, passava -por deante dos olhos assombrados dos viajantes -no galope infernal de um cavallo de fogo.</p> - -<p>Outros, os famosos navegadores de Iona, tinham -chegado á ilha dos Passaros, onde volteiam aves de -aureas e de purpureas pennas, regidas por um rei -de cabeça de oiro e de azas de prata, que entoam -cantos de uma celestial melodia, e a outra onde choram -com saudades da patria as doces Irlandezas -exiladas mysteriosamente do mundo dos vivos.</p> - -<p>Depois ainda é o bardo Myrdhinn que vae com -mais nove bardos procurar a ilha Verde, que nunca -foi submergida pelas vagas, a ilha dos pomos de -oiro, onde no meio de uma aurora perpetua dança -um côro eterno de bellos rapazes e de formosas raparigas.</p> - -<p>Tudo se condensa, emfim, na lenda de S. Brandão. -Esse encontrara a ilha onde os anjos que -acompanharam Lucifer, mas não foram inteiramente -seus cumplices, cantam os hymnos de esperança, e<span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span> -o aspero rochedo batido pelas vagas, onde Judas é -consumido pelo eterno remorso; e emfim a terra promettida -aos eleitos, a terra dos bemaventurados.</p> - -<p>S. Patricio tambem percorre as solidões do Atlantico. -Esse vae, segundo a lenda, quando a quaresma -começa, para o seu <i>purgatorio</i>, n’uma ilha de que ninguem -se pode approximar, onde ha uma caverna que -os maus espiritos habitam, e onde se abrem duas estradas -subterraneas, que vão ter uma ao Inferno, outra -ao Paraizo. Esta ilha mysteriosa do <i>Purgatorio -de S. Patricio</i>, como a ilha abençoada de <i>S. Brandão</i>, -é um dos sonhos mais persistentes da edade -média, e uma e outra lá apparecem nos mappas medievaes, -nos sitios mais diversos, ás vezes applicando-se -a ilhas verdadeiras, como acontece com o <i>Purgatorio -de S. Patricio</i>, que alguns cartographos collocam -na Islandia.</p> - -<p>A imaginação celtica é a mais fecunda n’esta creação -de terras phantasticas, e não podia deixar de ser -assim, não só porque os povos d’essa raça são essencialmente -imaginativos e sonhadores, como tambem -porque n’essa Irlanda, collocada na extremidade -occidental da Europa, a tão pouca distancia da -America, aonde tantas vezes deviam chegar, como -chegavam aos nossos Açores e á nossa Madeira, plantas -e cadaveres de homens de desconhecido aspecto, -não podia deixar de pullular a cada instante na alma -do povo o pensamento da existencia de ilhas mysteriosas<span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span> -para esse lado, como muitas vezes tambem, -quando um pescador mais audacioso se aventurava -ao mar alto, quando o vento de leste lhe enfunava -as velas, e o mar lhe parecia cantar no seu doce murmurio -as suas maravilhosas lendas, elle seguiria caminho -do Occidente, durante dias e dias, até que a -fome o salteasse, ou até que o continuado panorama -das vagas a seguirem-se ás vagas, sem fim, sem -termo, fechando o horizonte, os desanimasse afinal<a id="FNanchor_50" href="#Footnote_50" class="fnanchor">[50]</a>. -Mas tambem na peninsula hispanica lendas semelhantes -se formavam e pelas mesmas causas. Tambem -aqui em Portugal sobretudo e no Algarve principalmente -os pescadores, ao largarem a costa, sentiriam -a tentação de penetrar nos mysterios do Oceano, -e aqui tambem á volta, em noites de luar nas esfolhadas, -ou no inverno ao lado da chaminé, fallariam, -como se as tivessem visto, em ilhas extranhas, -na das Sete Cidades, por exemplo, onde se tinham -refugiado, quando os Mouros vieram á peninsula, sete -bispos christãos com o povo das suas dioceses, proscriptos -agora e encantados como as meigas irlandezas -exiladas dos navegadores de Iona. E todas estas -ilhas phantasticas, Antilia e Sete Cidades, ilha de<span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span> -S. Brandão e Purgatorio de S. Patricio, iam juntar-se -ás ilhas conjecturaes dos sabios e ás ilhas tradicionaes -da mythologia antiga para formarem esses -archipelagos do sonho e da lenda que se desfizeram -em fumo quando das aguas surgiram, envoltas no -seu manto de verdura, ou na sua armadura de rochedos -vulcanicos, palpitantes ainda com o fogo -que lhes lavrava nas entranhas, ou carregadas com -a immensa e luxuriante cabelleira das intactas florestas, -as ilhas reaes e verdadeiras.</p> - -<p>Esse sonho das ilhas phantasticas podia não ser -senão um estimulo para cavalleiros denodados que -não temiam os encantamentos, logo que levavam -comsigo as espadas bentas e a cruz do Salvador. -Com o coração a bater-lhes um pouco, pallidos de -supersticioso terror, mas incitados pelas tentações -das sobre-naturaes aventuras, arrojar-se-hiam tanto -os celtas da Irlanda como os celtas de Portugal aos -mares mysteriosos em demanda das ilhas paradisiacas; -outros encontraram tambem no caminho as -ilhas infernaes, mas a lenda do mar Tenebroso essa -é que deveras regelava o sangue nas veias do mais -audacioso. Vinha dos antigos, e mais tambem dos -Arabes. Como é que os poetas antigos, ao passo -que devaneavam como Seneca no côro da <i>Medéa</i>, que -para além do Oceano haveria terra incognita, suppunham -que n’esses mares longinquos se perdêra a -luz do sol e um manto espesso de trevas se desenrolava<span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span> -sobre as vagas? Como é que o arabe Edrisi, -que suppunha que estavam no Atlantico as ilhas -da eterna felicidade, suppunha tambem que era o -Atlantico o mar tenebroso, onde os navios esbarravam -uns nos outros e se despedaçavam em ignorados -rochedos? É porque suppunham que, depois -do mar Tenebroso, vinha o mar luminoso da India, -porque imaginavam exactamente que o mar da India -communicava com o mar Tenebroso? Tambem -a sciencia não dava fóros de authenticidade ao mar -Tenebroso como os dava ás terras incendiadas e ao -mar em fogo da zona torrida. Era um dos fundamentos -essenciaes da lenda do immenso pélago o -ligar-se ainda com as estranhas idéas astronomicas -dos que suppunham que para além dos mares tinha -o globo um cinto de montanhas, e que detraz d’essas -montanhas é que o sol se escondia durante a -noite, pertencia a essa classe de phantasias a que -pertencem os montes Ripheus e outras visões da desvairada -imaginação dos sonhadores da geographia.</p> - -<p>Mas ainda os Arabes trouxeram do Oriente um -novo elemento legendario. O Oriente é a patria das -estatuas encantadas, dos monstros de metal dotados -de uma vida phantastica, e a esse mar, por tantas -razões defezo, punham como sentinellas immoveis -e terriveis as estatuas mysteriosas, como os -leões de oiro que nos contos arabes defendem os -palacios enfeitiçados. Mas ainda a tudo accrescia<span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span> -uma tradição que se baseava na verdade, e que -não era menos desanimadora para os que tentassem -romper o mysterio. Era a do mar de Sargaço, -que não era desconhecido dos antigos, esse mar que -os marinheiros de Colombo encontraram já muito -para o occidente, e em que se julgava que as plantas -enredadas enleiavam por tal fórma os navios que -lhes paralysavam completamente os movimentos.</p> - -<p>Essas idéas falsas, derivadas da sciencia mal comprehendida, -e que povoavam os espiritos dos marinheiros -d’essa epocha, são as mesmas que ainda hoje -habitam no cerebro do povo ignorante, apesar da immensa -propagação de dados scientificos verdadeiros, -obtidos pela experiencia de todos os dias. No seu -delicioso livro <i>Sull’Occeano</i>, o grande escriptor italiano -Edmundo de Amicis conta-nos o que ouviu a -bordo de um paquete que singrava para a America -aos passageiros de terceira classe, emigrantes que -iam trabalhar no Rio da Prata. Parece-nos estarmos -a ouvir as palestras que se travariam entre os marinheiros -do seculo <span class="allsmcap">XV</span> a bordo das suas esguias caravellas. -Apesar dos factos demonstrarem o contrario, -ainda suppunham que, ao atravessarem a zona -torrida, teriam de atravessar um mar incendiado. -Suppunham que veriam claramente a curvatura da -terra e o navio descer por ella como um bichinho -em volta da superficie de uma laranja. Todos esses -terrores pueris dos passageiros que os marinheiros<span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span> -hoje desdenham com um riso sarcastico, eram os que -salteiavam o espirito dos seus antepassados nos seculos -da edade média, eram esses terrores os que faziam -recuar deante dos cabos africanos e deante das solidões -do Atlantico os marinheiros que precederam Gil -Eanes e que precederam Christovão Colombo, eram -ainda os que acompanhavam os descobridores em -cada nova exploração, porque só a pouco e pouco é -que a luz se foi fazendo, só a pouco e pouco é que se -foram desfazendo as idéas falsas da antiguidade substituidas -pelos factos verdadeiros, e era necessario -que fossem de uma rija tempera os marinheiros que -recalcavam no fundo d’alma esses terrores, que fossem -denodados espiritos os d’esses commandantes -que assim partiam a arcar não só com os pavores -da superstição, mas com as affirmações da sciencia -e com as determinações da fé, e que fosse emfim -um genio verdadeiramente transcendente o d’esse -homem quasi divino, que teve a intuição sublime -da verdade e a inspiração de um genio creador, -que sonhou um mundo aberto inteiramente á luz, um -mar sem trévas, a humanidade circulando sem peias -em volta da terra seu dominio, e que logrou escrever -na face das ondas com a quilha das suas caravelas -essa epopéa maravilhosa que elle concebeu -em Sagres e que foi a grande epopéa do Renascimento.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="V">V<br /> -<span class="smaller">O infante D. Henrique e o povo portuguez</span></h2> - -</div> - -<p>Nenhum povo estava tão fadado como os Portuguezes -para esse emprehendimento maravilhoso na -epocha em que elle se encetou. As cruzadas tinham -despertado nos povos europeus o espirito da aventura. -Era para o Oriente que se voltava esse ardor de -conquista, não só porque era a terra classica de todas -as opulencias, mas porque a conquista do Oriente -fôra o sonho da antiguidade grega e romana e o culto -mal comprehendido, mas profundo, pela antiguidade -foi um dos caracteres predominantes da edade -média. Alexandre o Magno era para elles o ideal -do cavalleiro andante, imaginavam-n’o como um -soberano cavalheiresco, segundo a formula feudal, -como Virgilio, o dôce poeta, era um feiticeiro de -legenda; mas a adoração por esse grande vulto vivia<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span> -em todos os espiritos. Foi para o Oriente pois -que se dirigiram os primeiros viajantes, os Rubruquis, -os Plan du Carpin, os Marco Polo, quando -as expedições guerreiras tiveram de parar deante -da resistencia victoriosa dos sarracenos. Mas esses -viajantes já tinham feito penetrar um pouco de luz -na geographia systematica do seu tempo, e a humanidade -evidentemente, despertada para o estudo e -para a sciencia pela primeira Renascença do seculo -<span class="allsmcap">XIII</span>, ia procurar sondar o desconhecido que por todos -os lados a envolvia.</p> - -<p>O segredo dos mares occidentaes devia preoccupar -sobretudo os povos que no occidente da Europa -viam desenrolar-se diante d’elles a incommensuravel -extensão das vagas oceanicas. Os povos do Norte, -que tinham chegado até á ultima Thule, a regelada -Islandia, não deixaram de aventurar-se por esses -mares ignotos, e é incontestavel que, assim como -chegaram á Groenlandia, tocaram tambem no continente -americano. Se perseverassem na descoberta, -se fossem seguindo ao longo da costa da America, -emquanto encontrassem terra nas suas aventurosas -jornadas, teriam roubado incontestavelmente a Portugal -e á Hespanha as suas mais viridentes glorias! -Á Hespanha, porque antes de Colombo teriam dado -á civilisação esse vastissimo continente, a Portugal, -porque antes do infante D. Henrique teriam reconhecido -a possibilidade de se transpôr a zona torrida;<span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span> -mas não perseveraram, e assim legitimamente -perderam a gloria que teriam podido conquistar. -Que, afastando-se da Islandia, encontrassem uma -nova terra ainda mais regelada e triste, que, proseguindo -na sua viagem, chegassem a territorio mais -risonho, não é coisa que nos espante, posto que demonstre -mais uma vez a coragem d’esses audaciosos -reis do mar. A gloria de Colombo não está em ter -encontrado novas terras, está em não ter recuado -deante dos dogmas da extensão quasi infinita dos -mares, assim como a gloria dos Portuguezes não está -em terem juntado novas terras ao peculio da civilisação, -está em não terem recuado diante do dogma -scientifico e religioso da impossibilidade de se viver -na zona torrida e da existencia dos mil perigos e -dos mil horrores que defendiam a sua approximação.</p> - -<p>Ninguem era, comtudo, mais proprio do que os -Normandos para tentarem as aventuras maritimas; -estavam porém demasiadamente ao norte, e, como -ás suas aventuras presidia sempre, como ás dos -Phenicios, não o amor da sciencia, mas o amor do -lucro, ao chegarem ao cabo de S. Vicente, mais os -tentava o caminho do Mediterraneo, onde havia tão -seductoras prezas, do que o arriscado caminho do -Mar Tenebroso. No seculo <span class="allsmcap">XIV</span> os Normandos de -França sentiram-se attraídos para os mares do Sul, -até porque lhes chegára a noticia de que os marinheiros<span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span> -da peninsula hispanica para esse lado tinham -encontrado as ilhas Afortunadas, mas a tentativa -de Bethencourt não tivera nem poderia ter imitadores, -porque não fôra extremamente prospero o seu -resultado, porque as costas áridas do prolongamento -de Marrocos, onde tinham encontrado a morte, essa -Guiné, como lhe chamavam, Guiné que tinha por -limite meridional o cabo Bojador, não promettia -grandes proventos aos que lhe tentassem a exploração. -A Inglaterra concentrava na conquista da -França todas as suas attenções e todo o seu empenho -e a França cuidava em defender-se e em completar -a sua poderosa unidade. A Italia tinha duas -potencias maritimas—Veneza e Genova—cujos navegantes -davam lições aos outros povos, mas uns -e outros tinham os olhos postos no Oriente, d’onde -lhes vinha a riqueza, a gloria e o dominio. Genova -é que lançava de quando em quando os olhos -para o occidente, em Veneza appareciam ás vezes -alguns espiritos que se deixavam tentar pelos mysterios -do Oceano, mas as viagens audaciosas e -pouco afortunadas dos irmãos Zeni venezianos e de -Vivaldi e Doria genovezes, não podiam ser incitamento -a que se proseguisse nas tentativas. Acontecia -com as duas republicas maritimas o que depois -aconteceu com Portugal quando regeitou a proposta -de Colombo. Não se deixa o certo pelo duvidoso. -Não se empenham vidas e thesouros em emprezas<span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span> -incertas, semi-phantasticas, quando se tem nas -mãos, como Veneza e Genova tinham, o vasto commercio -do Oriente, quando se tem quasi a certeza -de que se está no caminho da India, quando se -possuia já o resgate valioso da Mina como acontecia -com D. João II. Para esses emprehendimentos -que são o sonho da politica, são necessarios não -os espiritos positivos, mas as imaginações exaltadas. -É indispensavel que haja n’um cerebro esse grão -de loucura que faz os grandes poetas e os grandes -descobridores, que inspira os poemas que se escrevem—os -poemas da phantasia, e os poemas que se -executam—os poemas da acção, um homem como -o infante D. Henrique, que herdára de sua mãe, -como todos os seus irmãos, esse elemento romanesco -que toda a mulher do Norte encerra no fundo da -sua alma, por baixo da sua apparencia séria, austera -e pratica de dona de casa e de mãe de familia, para -conceber e levar por deante, n’um jorro de santa -loucura, o poema das navegações, ou uma mulher -cavalheiresca, romanesca tambem, sensivel e enthusiastica -como a rainha Izabel, para comprehender -a alma de Colombo, para se irmanar com ella, e -para collaborar tão apaixonadamente n’esse ultimo -poema de cavallaria, n’essa ultima producção da -alma celtica, n’esse ultimo romance do Santo Graal -que se chamou Descoberta da America.</p> - -<p>Restavam os reinos da peninsula hispanica, mas<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span> -todos esses, á excepção de Portugal, se achavam empenhados -ainda nos ultimos arrancos da sua lucta -contra os Mouros. No oriente da Hespanha, nas Baleares -sobretudo, havia a tentação de sondar o mar -desconhecido, mas diante do cabo Bojador ainda -se recuava. Tel-o-hiam dobrado comtudo se tivessem -perseverado no intento, mas era essa perseverança -que não podia deixar de faltar a um povo que -não tinha para isso outro estimulo que não fosse -o da curiosidade, que mais se deixaria tentar pela -Africa mediterranea do que pela Africa atlantica. O -povo que estava deveras em circumstancias de tentar -os grandes emprehendimentos era sobretudo Portugal.</p> - -<p>Acabava de atravessar um periodo em que todas -as suas faculdades tinham sido vivamente excitadas, -e em que empregára todas as suas forças e toda a -sua actividade. Havia dois seculos que unificára o -seu territorio e que expulsára os Arabes. Desde que -o fizera, voltára naturalmente as suas attenções para -o Oceano, e o grande rei, que mais cuidára da organisação -pacifica do seu povo, D. Diniz, empenhara-se -essencialmente em nos dar marinha, animando a -mercante, protegendo a pescadora, desenvolvendo -a de guerra, já providenciando para que se podessem -fazer navios, já indo buscar a Genova, a grande -nação marinheira do Mediterraneo, os navegadores -que podiam dar aos nossos mareantes os conhecimentos<span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span> -technicos que lhes faltavam. Como se tivesse -a previsão de que ainda a Portugal caberia tentar a -ultima empreza cavalheiresca da edade média, não -se conformára com a suppressão dos Templarios, e -fundára para os substituir a ordem de Christo, cujos -cavalleiros tinham de vir a ser os Templarios do mar, -cujo habito e cuja commenda foram a «estrella dos -bravos», cujas phalanges intrepidas foram a Legião -de Honra das nossas maritimas victorias.</p> - -<p>Logo as primeiras expedições atlanticas mostraram -que rumo Portugal queria seguir, mas as discordias -intestinas e as ambições dos reis adiaram o -proseguimento das tentativas. Não se resignavam os -nossos soberanos a manter o seu reino em tão estreitos -limites, mas Castella engrandecera-se tanto -que não nos era facil a dilatação. Foi o contrario que -esteve para succeder, foi Castella que esteve a ponto -de absorver Portugal; na lucta desegual empenharam-se -então todas as nossas forças vivas; toda a -energia da nossa organisação, toda a furia do nosso -patriotismo local despertaram para essas pelejas homericas. -O perigo imminente fez com que a patria -se retemperasse na grande corrente democratica. A -nacionalidade portugueza luctou com a poderosa Castella -como Anteu com Hercules, cobrando novas forças -sempre que tocava no solo portuguez. Em 1385 -como em 1640 foi o povo que salvou a bandeira. -A gente dos concelhos, indo, <i>ventres ao sol</i>, na<span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span> -energica phrase de Fernão Lopes, combater contra -os cavalleiros vestidos de ferro, manifestava na peninsula -hispanica uma nova força social, a mesma -que dera aos <i>yeomen</i> inglezes a victoria sobre a cavallaria -feudal da França, e aos montanhezes suissos -a victoria sobre a cavallaria aristocratica de Carlos -o Temerario. Nunca houve uma efflorescencia tão -notavel de bravura e de talento, de genio aventuroso -e de dedicação patriotica, nunca estiveram em -tão continua vibração todos os nervos e todos os -musculos de um organismo nacional. Quando acabou -a lucta, depois de ter insculpido nos annaes gloriosos -da patria os nomes de Trancoso e de Atoleiros, -de Aljubarrota e de Valverde, de D. João <span class="allsmcap">I</span> e de -Nuno Alvares Pereira, a geração que praticára esses -feitos estava ainda vibrante de energia, o cerebro -que concebera a reorganisação nacional estava -scintillante de idéas. Foi então que Vasco de Lobeira -devaneou o <i>Amadis de Gaula</i>, que Fernão Lopes fez -trasbordar nas suas inimitaveis chronicas a exuberancia -poetica da alma nacional, que os architectos -e os canteiros fizeram desabrochar no campo da peleja -a flor maravilhosa da Batalha, que o infante D. -Henrique sonhou a epopéa dos descobrimentos.</p> - -<p>Quando uma nação acaba de se empenhar n’uma -lucta aventurosa de muitos annos custa-lhe a voltar -de novo ás occupações serenas da paz. Ha em todos -os espiritos uma sede de aventuras, uma necessidade<span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span> -absoluta de occupar a sua energia. É por isso que -vemos, depois das grandes luctas do principio d’este -seculo, os generaes francezes e os officiaes de marinha -inglezes procurar em todo o mundo emprego -para a sua actividade. Encontramos até no Oriente -officiaes de Napoleão pondo a sua espada ao serviço -de monarchas indianos, na Europa e na America -officiaes de marinha inglezes a commandar as esquadras -insurgentes nas luctas da independencia -americana e da liberdade europêa. Assim no seculo -<span class="allsmcap">XV</span> vamos achar cavalleiros portuguezes á cata de -aventuras na Inglaterra e na França e até na mais -remota Allemanha. Sem fallarmos em D. Alvaro Vaz -de Almada, cujos serviços mereceram na Inglaterra -a altissima recompensa da ordem da Jarreteira e do -condado de Avranches, nem no infante D. Pedro, e -em Soeiro da Costa, achamos nas guerras de França, -no cêrco de Arras, por exemplo, cavalleiros portuguezes, -cujo nome ficou desconhecido, entrando em -combates singulares deante dos muros da praça assediada.<a id="FNanchor_51" href="#Footnote_51" class="fnanchor">[51]</a> -É esta necessidade de dar vasão a esta superabundancia -de energia que leva D. João <span class="allsmcap">I</span>, incitado<span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span> -por seus filhos, á expedição de Ceuta, é um -povo n’essas disposições que o infante D. Henrique -vae encontrar apto para as audaciosas explorações -do Atlantico.</p> - -<p>Note-se: hoje ainda, depois de tantos seculos de -decadencia, nós somos o povo da aventura. Indolentes -na patria, amanhando sem enthusiasmo um -solo uberrimo que se desentranharia em maravilhosos -fructos se lhe dessemos francamente todo o trabalho -dos nossos braços e todo o pensamento do -nosso cerebro, discursadores declamatorios, sem iniciativa -nem acção, mudamos completamente apenas -transpomos as barras dos nossos rios. Apertados entre -as montanhas e o mar, é nas montanhas que temos -a nossa força de resistencia, é no mar que temos -o nosso vigor de emprehendimento. Os nossos -montanhezes intrepidos são ainda hoje os lidimos -descendentes dos companheiros de Viriato, os nossos -pescadores são deveras os filhos audaciosos dos -marinheiros de Gil Eanes. Lá fóra a transformação -é mais completa ainda: fizemos o Brazil, e estamos -continuando a dar ao seu desenvolvimento os elementos -da nossa actividade exotica; estamos fazendo -a Africa portugueza, e os vestigios dos nossos aventureiros -mercadores são encontrados com espanto no -interior da Africa; nos Estados-Unidos temos uma -colonia trabalhadora e autonoma que se não deixa -absorver pelo povo americano; nas ilhas Sandwich<span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span> -a immigração portugueza rivalisa em importancia -com a immigração ingleza; em Demerara constitue -o fundo da população branca trabalhadora. A alma -celtica palpita ainda hoje nos nossos peitos, como -palpitaria então n’esse seculo <span class="allsmcap">XV</span>, que foi o nosso -seculo aureo, depois das luctas homericas de Aljubarrota, -quando o povo trasbordava de vida e de -enthusiasmo, prompto para todas as luctas, sazonado -para todas as aventuras.</p> - -<p>A dynastia reinante reflectia perfeitamente o estado -da alma popular. O rei era um bastardo, um -filho do amor, e de um amor de D. Pedro, o rei mais -violento e mais apaixonado que nunca se sentou -n’um throno! O sangue borgonhez de seu pae cruzara-se -com o sangue normando de sua esposa, e -d’ahi nascera aquelle grupo admiravel de principes -robustos e intelligentes, educados por sua mãe -n’aquelle retiro sagrado das principescas familias -medievaes, n’esses quartos forrados de tapeçarias de -<i>haute-lice</i>, em que pareciam á noite, á luz vacillante -das tochas, tomar vida phantastica os heroes das -scenas de cavallaria traçadas nos pannos de raz, ouvindo -os graves conselhos da mãe, pura, séria e heroica, -embalados com a poesia das canções de gesta -e com as aventuras dos romances de cavallaria, e, -quando saíam do regaço materno, não vendo em -torno de si senão rostos energicos de homens como -seu pae, como Nuno Alvares, cuja vida inteira era<span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span> -um poema de heroismo, e que, ao viajarem no seu -reino, dirigiam quasi sempre os passos para a campina -sagrada, onde se estava erguendo sobre as columnatas -esguias essa maravilhosa abobada d’onde -parecem chover os altos pensamentos, e o altar-mór -onde se accendia nas vidraças coloridas o sonho vago -e radiante de uma visão paradisiaca.</p> - -<p>Tal era o meio onde tinham forçosamente de brotar -os grandes emprehendimentos. Foi d’esse meio -que saiu a expedição de Ceuta, que não bastava -para satisfazer a insaciavel cubiça de aventuras d’esses -principes, que não viam em torno de si senão -homens em cuja alma as suas aspirações encontravam -echo ou estimulo. Assim D. Pedro foi pela Europa -fóra procurar emprego para a sua energia e -para a sua cubiça de saber, D. Fernando devaneou -desde logo o proseguimento da conquista africana, -D. Henrique, estudioso e reflexivo, sonhou a conquista -do mar.</p> - -<p>É difficil o desenho d’esta notabilissima figura. -Levanta-se contra ella agora uma campanha de improperios, -em que os adversarios parecem querer -applicar ao juizo severo e imparcial da historia os -processos das campanhas jornalisticas das luctas -contemporaneas. Tomou parte n’esta campanha o -sr. Theophilo Braga, e é pena que o fizesse, porque -o livro em que essas tendencias incidentemente apparecem -é um dos mais notaveis que se lhe devem,<span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span> -a <i>Historia da Universidade</i>.<a id="FNanchor_52" href="#Footnote_52" class="fnanchor">[52]</a> Fez-se echo simplesmente -comtudo da maledicencia de um d’estes eruditos, -que, descobrindo um facto minusculo que pode -attenuar a gloria de uma descoberta, ou achar um -ponto vulneravel no vulto de um heroe, vem triumphantemente -para a rua soltar o <i>Eureka</i> de Archimedes, -declarando <i>urbi et orbi</i> que vão demolir uma -reputação firmada pelos seculos. Têem odios historicos -tão violentos estes biliosos da erudição como -os podem ter contra um poderoso adversario os mais -fanaticos jacobinos da politica moderna. São perigosos -homens assim, e o historiador imparcial tem -de afastal-os serenamente como afasta os insultadores -contemporaneos do insultado, que entornam com -delicias o fel das suas calumnias nas paginas que -enviam á posteridade. Seculos depois de desapparecer -da face do mundo um homem eminente, apparecem -deturpadores vehementissimos, em cujo espirito -a vaidade de fazerem vingar um novo pensamento -historico produz tão ruins consequencias como -as pôde produzir seculos antes o odio de um invejoso,<span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span> -o despeito de um desprezado, ou a vingança -de um vencido.</p> - -<p>Era por acaso o infante D. Henrique um impeccavel? -Mais ainda: era um vulto sympathico, affectuoso, -altruista, um d’estes entes divinaes como o -Christo, cuja doce bondade irradia na Historia, que -nos captiva quando lêmos a sua Vida como devia -captivar os que no seu tempo viveram, debaixo do -influxo magnetico da sua meiguice, da sua amoravel -candura? Não, de certo, e nem é esse infelizmente -o caracteristico dos homens a quem se devem -os grandes emprehendimentos. É terrivel o homem -<i>unius libri</i>, diz o pensador antigo. Não o é menos o -homem de um só pensamento e de uma só ambição. -Bondoso, quando se trata de attrahir os outros, de -os enfeitiçar e de os fazer escravos da sua idéa e -instrumentos do seu plano; absolutamente despido -de toda a caridade e de todo o affecto quando o instrumento -deixa de servir, e quando o escravo pede -em paga uma pouca de dedicação e um pouco de -sacrificio. Um dos homens mais captivadores que -tem havido foi Napoleão. Prendia, subjugava com -o encanto da sua apparente bondade, inspirava dedicações -fanaticas, mas nunca foi bom para os outros, -nunca pensou na felicidade alheia. Entregue -exclusivamente ao seu pensamento ambicioso, á grandeza -da sua idéa gigante, absorvia-se todo n’ella, -bastante habil para se não esquecer de captar aquelles<span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span> -de que precisava, o exercito, o povo, os principes, -o Papa, as mulheres, os artistas, e incapaz de -fazer um sacrificio a uma mulher, ou de ter dó de -um velho! Impede isso por acaso que a historia não -deixe de reconhecer a grandeza excepcional do seu -genio e a obra maravilhosa que executou, e que ainda -está de pé, porque a verdade é que o organismo da -França é hoje ainda o que elle construiu, e portanto -o organismo da Europa continental tambem que por -elle se modelou?<a id="FNanchor_53" href="#Footnote_53" class="fnanchor">[53]</a></p> - -<p>Ninguem pintou melhor o infante do que o sr. -Oliveira Martins no seu admiravel livro <i>Os filhos -de D. João I</i>:<a id="FNanchor_54" href="#Footnote_54" class="fnanchor">[54]</a> duro, sem bondade, asceta do pensamento. -E, se outra coisa fosse, poderia por acaso -levar por deante uma obra em que era indispensavel -a energia, a perseverança e a implacavel obstinação? -Sympathicos são seus tres irmãos, D. Duarte, -D. Pedro e D. Fernando, que o coadjuvam, que o -admiram, que a elle se sacrificam. Mas D. Henrique -é um solitario, como todos os que têem a allucinação -de uma missão divina. Todo se abraza na -embriaguez do mar, no sonho das vagas regiões longiquas, -na procura da India, d’essa India triplice e -maravilhosa, que, depois do livro de Marco Polo,<span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span> -sobretudo, toma as proporções phantasticas de uma -d’essas cavernas das <i>Mil e Uma Noites</i>, illuminadas -pelas fulgurações das pedras preciosas, pelo fulvo -scintillar do oiro, pela nitida brancura da prata. -Essa conquista do mar quel-a toda para si e isso -lhe lançam em rosto os seus modernos detractores, -como os bourbonicos lançavam em rosto a Napoleão -não querer ser logar-tenente de Luiz XVIII e -os republicanos não se contentar com o consulado electivo—queria-o -para si e para a ordem de Christo -que era a sua guarda pretoriana. Auxilia-o D. Pedro -nas suas investigações, traz-lhe o fructo das -suas viagens, auxilia-o D. Fernando na empreza de -Tanger, d’essa cidade maritima que elle cubiça como -um ponto de partida mais seguro para as suas expedições -navaes; mas D. Fernando encontra n’elle -um debil auxiliar quando vem a grave questão do -seu captiveiro, D. Pedro, um indifferente, quasi um -inimigo, na terrivel contenda em que estão em jogo -a sua vida e a sua honra; é que todas as faculdades -da sua alma estão concentradas na sua grande -empreza. Mais do que o doge de Veneza elle casou -com a vaga atlantica. Deu-lhe todos os affectos e -toda a pureza da sua alma, as faculdades do seu -espirito. Por ella captivou com as suas promessas -e com as suas seducções quantos estrangeiros o podiam -ajudar na sua empreza, por ella abstrahia de -todas as ambições que não fossem a de conquistar<span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span> -para si, para a historia, para a fé e para a sciencia -um immenso imperio ultramarino. É um monge militar -isolado no seu castello sobre o Oceano, como -os primeiros mestres do Templo, seus antecessores, -nos seus castellos da Palestina. A sua Jerusalem é -a Aryn que elle procura ainda, talvez, no meio dos -fogos da zona torrida, o seu Santo Sepulchro é esse -mar immenso, onde se sepulta o sol, e de que elle -affugenta, com a prôa das suas caravellas, como os -Templarios os Sarracenos com a ponta das suas -lanças, os pavores da superstição, os erros da sciencia -e as illusões da fé.</p> - -<p>Que outros condemnem esse implacavel sonhador -que fechou a sua alma aos affectos humanos para -todo se concentrar na paixão por um ideal que a -um tempo o illumina e o allucina! Que outros lamentem -esse egoismo de namorado, que o torna -surdo para todas as supplicas e inaccessivel a todas -as dedicações, mas que nós Portuguezes lhe regateemos -a gloria, e lhe amesquinhemos o caracter, e -lhe neguemos a indulgencia que a fraca humanidade -deve ter com os defeitos que acompanham -fatalmente as grandes qualidades, quando a esse -egoismo sagrado, a essa perseverança intransigente -devemos o termos dado ao mundo a mais assombrosa -conquista, e termos conquistado para nós uma -gloria que ainda hoje illumina as nossas ruinas, e -dá á nossa decadencia a purpura e o oiro de um pôr<span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span> -de sol explendido, isso é o que se não comprehende, -e o que se pode considerar como uma das mais flagrantes -injustiças e das mais negras ingratidões que -podem macular um povo.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="VI">VI<br /> -<span class="smaller">Queda das barreiras da zona torrida e primeira exploração -do Atlantico</span></h2> - -</div> - -<p>Qual era o ponto de vista do infante, quando começou -a dirigir para o sul as expedições? Era simples: -Eratosthenes déra á Africa a fórma de um trapezio, -sendo o lado septentrional banhado pelo Mediterraneo, -o oriental pelo Nilo, o meridional pelo -mar desconhecido, o occidental pelo Atlantico. Este -lado era o mais pequeno. Pouco abaixo do estreito de -Gibraltar a costa voltava para SSE, e ia juntar-se -com a costa oriental. Era esta a doutrina geralmente -admittida, e assim se representa a Africa na maior -parte dos mappas medievaes. Outros, porém, seguiam -a doutrina de Ptolomeu que prolongou a -Africa, alargando-a na base: e então imaginavam -uma costa ficticia ao sul que ligava entre si a Africa<span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span> -Oriental e a Occidental, mas parando em todo o caso -para aquem do Equador, porque a zona torrida era -sempre considerada inhabitavel, e para além da zona -torrida ficava, segundo a theoria de Ptolomeu, a terra -antichthona.</p> - -<p>Deu isso origem a que corresse a lenda do famoso -mappa trazido pelo infante D. Pedro de Veneza, -e em que estava traçado o cabo da Boa Esperança, -e suppõe-se tambem que o estreito de Magalhães! -A confusão é curiosa. O mappa que deu -logar a essa lenda é um mappa já posterior aos primeiros -descobrimentos dos Portuguezes, representa -a Africa terminando n’uma ponta a que dá o nome -de cabo de Diab, mas esse cabo está separado do -continente africano por um estreito, onde havia, dizia -a legenda, a treva absoluta. Parecia que era -esse canal a ultima reliquia, que procurava sobreviver -ainda, do mar Tenebroso.</p> - -<p>Parecia-se esse estreito com o estreito de Magalhães, -e, da mesma fórma que muitos confundiram -a terra antichthona com a America, para lá lhe passaram -o imaginario canal do sul da Africa.</p> - -<p>Humboldt, que tão facilmente acceita o que pode -redundar em nosso desfavor, ao passo que regeita -tudo o que possa redundar em desfavor de Colombo, -Humboldt, que não trata de saber se a Guiné a que -chegou Bethencourt é a Guiné que os Portuguezes -descobriram depois, apesar de acautellar os seus<span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span> -leitores contra os erros que podem resultar da confusão -de nomes identicos que se davam a regiões -muito diversas, tambem d’esta vez, reconhecendo -que os mappas de Toscanelli, onde todos dirão que -se encontram as Antilhas descobertas por Colombo, -são mappas perfeitamente conjecturaes, não hesita -em acceitar o mappa conjectural de fra Mauro, em -que vem o Cabo de Diab, como mappa baseado em -conhecimentos positivos.<a id="FNanchor_55" href="#Footnote_55" class="fnanchor">[55]</a></p> - -<p>E comtudo fra Mauro nas indicações que acompanham -o seu mappa, feito em 1454, é o primeiro -a reconhecer os serviços dos Portuguezes, e a declarar -que d’estes recebeu muitos mappas, que lhe -tinham servido para a elaboração do seu.</p> - -<p>«Muitos pretenderam, diz elle, e grande numero -escreveram que este mar (o <i>Atlantico</i>) não pode ser -<i>torneado</i>, nem navegado, nem ter habitantes nas -suas praias como a nossa zona temperada e habitada; -<i>mas é agora de toda a evidencia que se pode -sustentar uma opinião contraria, principalmente porque -os Portuguezes que o rei de Portugal mandou a -bordo das suas caravellas para verificarem este facto, -referiram, depois de se terem certificado elles -mesmos, que tinham explorado esse continente pelo -espaço de mais de duas mil milhas desde o sudoeste<span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span> -do estreito de Gibraltar</i>, que em toda a parte os recifes -da costa não são perigosos, que as sondas são -boas, que a navegação é facil, sendo as tempestades -mesmo pouco perigosas. Elles levantaram cartas -d’estas regiões e deram nomes aos rios, bahias, -cabos e portos. Possúo um grande numero de borrões -ou esboços d’essas cartas».<a id="FNanchor_56" href="#Footnote_56" class="fnanchor">[56]</a></p> - -<p>Accrescenta elle, porém, <i>que nenhuma d’essas -cartas resolvia a grande questão de se saber-se se podia -fazer a circumnavegação da Africa</i>!</p> - -<p>É fra Mauro que o diz, no proprio mappa, que -prova, segundo Humboldt imagina, que o cabo da -Boa Esperança era conhecido mais de quarenta annos -antes de Bartholomeu Dias o dobrar!</p> - -<p>Não se vê porém que a emenda conjectural nos -mappas antigos é aqui evidente? Já estão os Portuguezes -a duas mil milhas do estreito de Gibraltar, -e a costa africana não volta bruscamente para leste. -Não é bem natural suppor a probabilidade de terminar -a Africa em ponta, visto que a occidental se -dirige para SE, como a oriental se dirige para SO? -Como o proprio Humboldt affirma e faz notar, depois -dos descobrimentos os cartographos não se limitavam -a inseril-os, mas accrescentavam ás regiões -descobertas os seus complementos conjecturaes. E<span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span> -tanto assim é que, ao lado do cabo em que a sua -phantasia roçou pela verdade, poz um estreito que -não existia, que, depois de ter imaginado a Africa -torneavel, continúa a dizer que não sabe-se se poderá -tornear, e que, ao passo que fundamenta nas -descobertas portuguezas a sua descripção da Africa -Occidental, nada diz de quaesquer viagens que tivessem -podido esclarecel-o ácerca da fórma que podia -dar á Africa meridional!</p> - -<p>Nada ha mais estranho do que o que succede com -os Portuguezes n’esta questão dos descobrimentos. -Quando elles os fazem, toda a Europa os applaude, -affluem a Portugal aventureiros que querem tomar -parte nas nossas expedições, e navegar nas nossas -caravelas. Ninguem se lembra de dizer que já sulcaram -esses mares, ou que já foram a essas terras. -Os Normandos, longe de fallarem em pretenções -suas, aconselham a quem queira fazer expedições -para esses lados que tome pilotos em Portugal, porque -aqui os encontra sabendo bem aquellas derrotas. -Os papas concedem-nos o dominio d’essas terras -baseado nos direitos de primeiro occupante, os -reis de França e de Hespanha, tão ciosos das suas -pretenções, reconhecem esse direito sem a minima -objecção e até castigam os seus subditos que tentam -violal-o, os navegadores de toda a Europa, <i>os -taes que nos tinham precedido</i>, o que fazem é tentar -surrateiramente seguir-nos e apanhar aos nossos<span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span> -pilotos, comprando-os muitas vezes, os segredos -da derrota, os cosmographos e os cartographos -com os nossos viajantes mantêem relações seguidas, -e nas suas relações e nos seus mappas se baseiam -para traçar o que já está descoberto e para conjecturar -o que não está; tão corrente é na Europa a -historia das navegações portuguezas que, estando -ainda bem fresca a memoria d’essas primeiras aventuras -do mar, e tendo Colombo residido nas ilhas -descobertas pelos Portuguezes, allega, quando na -sua primeira viagem se quer guiar pelo vôo dos passaros, -que foi assim que os Portuguezes descobriram -as suas ilhas,<a id="FNanchor_57" href="#Footnote_57" class="fnanchor">[57]</a> e D. Henrique chama para Sagres -o cartographo malhorquino Jayme, e comtudo -os seus escudeiros ufanam-se de terem descoberto -o Rio do Oiro, e com elles se regosija o infante e -se regosija o cartographo, sem que este se lembre -de allegar que já por um seu patricio, ou por um -seu parente, ou por elle mesmo, talvez, como chega -a suppor o sr. D. Cesario Fernandez Duro, esse rio -fôra descoberto!<a id="FNanchor_58" href="#Footnote_58" class="fnanchor">[58]</a> E seculos depois é que apparecem -as estultas pretensões de se querer demolir essa -gloria toda em proveito de um desconhecido, mas baseadas -em tão frivolos argumentos que bastou que<span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span> -o visconde de Santarem passasse uma revista á cartographia -da meia edade, ás suas chronicas, aos -seus documentos, aos seus tratados e aos seus livros -de sciencia, para que a inanidade de semelhantes -affirmações se apresentasse com uma evidencia -esmagadora!</p> - -<p>Vão pois os navegadores portuguezes caminho -da India que é desde o principio o alvo dos seus esforços. -Contam que, antes de chegar ao Equador, -voltarão para leste, e ha uma coisa só de que n’esse -momento D. Henrique duvida, é que o mar das Indias -seja um mar mediterraneo. Se o acreditasse, -como bem diz Humboldt, não faria a tentativa. Antes, -porém, de se aventurarem para além do cabo -Bojador, encontram Gonçalves Zarco e Tristão Teixeira -Porto Santo e a Madeira, Gonçalo Velho Cabral -os Açores.</p> - -<p>Muitas vezes os pescadores portuguezes poderiam -ter encontrado algumas d’essas ilhas, e possivel era -tambem que os nossos navios commandados pelos -pilotos genovezes que D. Diniz chamára a Portugal, -tivessem arribado a esses archipelagos. Eu mesmo -já acceitei um pouco essas doutrinas sustentadas por -Major, e a que dava certa apparencia de verdade o -modo como Azurara conta o descobrimento. Fil-o, -porém, antes de ter estudado mais profundamente -a cartographia da meia edade, antes de ter visto -como esses cartographos conheciam os phantasticos<span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span> -archipelagos do Oceano Atlantico, e fixavam nos seus -mappas as ilhas de S. Brandão, da Antilia, das Almas, -do Purgatorio, sonhadas pela imaginação celtica -dos povos occidentaes da Europa. Não navegaram -os Portuguezes n’um Oceano que imaginavam -deserto, mas sim n’um Oceano onde as ilhas pullulavam. -Quando a alguma chegavam, não suppunham -tel-a descoberto, mas tel-a simplesmente encontrado. -Depois de terem descoberto todas, ainda continuaram -a procural-as, e hoje mesmo ainda na Madeira -se suppõe que a ilha das Sete Cidades se tem conservado -escondida, longe das estradas maritimas, por -traz de alguma dobra do ainda mysterioso Oceano.</p> - -<p>Essa ingenuidade portugueza, que serviu depois -para os seus detractores, manifesta-se tambem na -exploração das costas africanas. Nenhum navegador -suppõe que chega a terra desconhecida. Todos -imaginam que não fazem senão encontrar terras cuja -existencia não era ignorada pela sapientissima antiguidade. -Os nomes de Ptolomeu, de Strabão, de -Eratosthenes, de Plinio, de Pomponio Mela e de Solino -continuam a ser nomes oraculares para aquelles -que estão demolindo o castello de cartas da sua -vã e ephemera sciencia. Marco Polo está sendo tambem -um dos seus idolos. Chegando ao Senegal julgam -ter encontrado o Nilo dos Negros, porque estão -ainda convencidos da verdade da velha doutrina, -que separa o Nilo em dois grandes braços, um dos<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span> -quaes se dirige para o Atlantico e o outro para o -Mediterraneo. O que os espanta e ao mesmo tempo -os exalta é o não encontrarem monstros, as ondas -tenebrosas, os montes ardentes, toda a guarda avançada -da implacavel zona torrida. Para que primeiro -arcassem com esses receios foi necessaria toda a -energia do infante D. Henrique, mas a pouco e pouco -foram-se familiarisando com esses mares que tão -terriveis se suppunham anteriormente, e eram elles -que davam a fra Mauro as informações tranquillisadoras -que elle insere nas annotações ao seu planispherio.</p> - -<p>No ponto de vista em que nós nos collocamos, e -que suppomos ser absolutamente verdadeiro, quer -dizer desde o momento que sustentamos que o serviço -immorredouro que Portugal prestou á civilisação -e á sciencia foi o ter demolido a noção consagrada -da zona torrida inhabitavel, e que a prova de -sobre-humana audacia que os Portuguezes déram -foi a de transpor sem hesitação os limites d’essa -zona torrida, percebe-se que nos seria completamente -indifferente que se provasse que navegadores -estrangeiros tinham precedido os nossos nos mares -que ficam para além do Bojador. Isso não faria -senão levar um pouco mais adeante o ponto de partida -das expedições portuguezas indubitavelmente -gloriosissimas, e cuja honra Humboldt confessa que -nos cabe sem contestação, as expedições á região<span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span> -equatorial.<a id="FNanchor_59" href="#Footnote_59" class="fnanchor">[59]</a> Mas a verdade irrefragavel é que esse -limite, que os Portuguezes transpozeram, foi sem -duvida alguma o cabo Bojador. Como Humboldt -nota, com perfeita razão, o horizonte geographico -vae-se alargando a pouco e pouco, e a verdade é -que, uma vez ampliado, não se estreita de novo. -Para o lado do occidente os primeiros limites foram -os do mar Egeu, depois o do meridiano das Syrtes, -depois o das columnas de Hercules, depois para o -norte o extremo meridiano da Europa, para o sul -o da costa africana.<a id="FNanchor_60" href="#Footnote_60" class="fnanchor">[60]</a> Vemos que a mansão da felicidade -suprema acompanhou a ampliação d’esse horizonte, -primeiro no Oasis do Egypto, depois na -Cyrenaica, depois na costa africana, a pequena distancia -das columnas de Hercules, depois nas Canarias. -Não ha saltos n’este progresso forçosamente -methodico. Logo que se transpõe um limite maritimo -a navegação prosegue.</p> - -<p>Para o sul o cabo Não foi por muito tempo o limite,<span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span> -depois o Bojador. Transpoz-se esse limite em -1433? logo affluiram a Portugal estrangeiros curiosos -d’essa novidade, e logo D. Henrique tratou de -se assegurar da posse das terras que vae descobrir. -Depois da expedição de Antão Gonçalves e de Nuno -Tristão em 1441, vão embaixadores portuguezes ao -papa Eugenio IV a pedir-lhe as bullas necessarias, -e já com Antão Gonçalves na viagem immediata vae -o allemão Balthazar, que vem da côrte do imperador -Frederico III correr estas novas aventuras.<a id="FNanchor_61" href="#Footnote_61" class="fnanchor">[61]</a> E<span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span> -comtudo desde 1415 se empenhava o infante em -explorações maritimas, sem que reclamasse do Papa -quaesquer concessões, sem que os estrangeiros se -interessassem por essas tentativas infructiferas. Tudo -muda de 1433 por deante. Porque? porque se rompera -evidentemente mais uma das barreiras que tinham -successivamente detido a marcha da humanidade, -porque se tinham transposto mais algumas -das columnas que formavam o portico do mundo -sobre o desconhecido, columnas de Briareu primeiro, -columnas de Hercules depois, estatuas das -ilhas Khalidat dos Arabes, emfim.</p> - -<p>Em 1436 chegou Affonso Gonçalves Baldaya ao<span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span> -Rio do Ouro, ou o que elle suppunha que era um -rio, e que não era afinal senão um braço de mar, -e, dando-lhe esse nome, conformou-se mais uma -vez com o respeito pela tradição antiga, que affirmava -que para o lado das ilhas Afortunadas, como -dizia Pindaro nas suas Olympiadas, rios que conduziam -ouro entravam no Oceano.<a id="FNanchor_62" href="#Footnote_62" class="fnanchor">[62]</a> Assim os Arabes -davam o nome de rio do Ouro a muitos, situados -muito áquem do cabo Bojador, assim os Catalães -chamavam rio do Ouro a um rio que encontravam -para além do cabo Não e proximo das Canarias, tanto -que no proprio mappa em que se affirma que Jayme -Ferrer procurara o rio do Ouro, o traçado da costa -não vae além do cabo Bojador.<a id="FNanchor_63" href="#Footnote_63" class="fnanchor">[63]</a> Podia haver mais -evidente prova de que o Rio do Ouro catalão não -é o Rio do Ouro portuguez? Não fallemos sequer -em que o Rio do Ouro de Jayme Ferrer é, como o -descreve o manuscripto de Genova, com que se pretende -dar authenticidade ao facto,<a id="FNanchor_64" href="#Footnote_64" class="fnanchor">[64]</a> um rio largo em -que podem fundear náus potentes, emquanto o Rio -do Ouro de Affonso Gonçalves Baldaya nem rio é -sequer, e n’elle, segundo affirma o almirante Roussin -que o estudou hydrographicamente, só canôas<span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span> -podem entrar.<a id="FNanchor_65" href="#Footnote_65" class="fnanchor">[65]</a> Basta vermos que os mappas em que -se baseia a pretenção, param no Bojador, como no -Bojador pararam os navegantes a quem depois se -quiz attribuir a gloria de o ter transposto.</p> - -<p>Em 1441 descobria Nuno Tristão o cabo Branco, -em 1443 os ilheus de Arguim, em 1445 acabava-se -de descobrir a costa do Sahará e entrava-se na costa -da Senegambia, e n’este meio tempo entravam já em -Portugal com abundancia os escravos africanos.</p> - -<p>Nodoa é esta com que se pretende manchar a -gloria dos nossos descobrimentos, como se n’essa -epocha em que os proprios brancos ainda tinham, -pode dizer-se, roxos os pulsos dos grilhões com que -lh’os algemára a servidão da gleba, n’essa epocha -em que tinham escravos os proprios mosteiros e as -egrejas, se podesse ter ácerca da liberdade do homem -as idéas largas que, só uns poucos de seculos -depois, e a muito custo, se implantaram na legislação -dos paizes mais cultos. E é curioso que sabios -escriptores accusem o infante de ter sido o responsavel -pela escravatura negra, como se não fosse tão -facil ás virtuosas nações, cujo credito elles defendem,<span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span> -eximir-se a seguir tão mau exemplo! como se -ao Papa, que representava a suprema lei moral da -sociedade de então, não coubesse o dever de conceder -as terras, mas de prohibir os escravos! como -se não fosse evidente que o mesmo faria qualquer -nação que nos precedesse, e que o facto de não apparecerem -escravos pretos na Normandia no seculo -<span class="allsmcap">XIV</span> é mais uma prova contra as suas pretenções! -E comtudo a prioridade na escravisação das populações -africanas essa é que os Normandos podem -reclamar sem contestação, porque, bastantes annos -antes de se venderem nas praças de Lagos os escravos -da costa africana, já o normando João de Bethencourt, -rei das ilhas Canarias, vendêra na Hespanha -os seus subditos.<a id="FNanchor_66" href="#Footnote_66" class="fnanchor">[66]</a></p> - -<p>Mas o que dominava sobretudo no espirito de -D. Henrique era a anciedade da investigação scientifica -e o ardor pela conquista dos grandes ideaes -religiosos da meia edade, e é isso o que faz com -que o espirito do infante só encontre depois na historia -dos descobrimentos outro que com elle se irmane—o -de Christovam Colombo. Essa allucinação -em que ambos vivem é que os torna proprios<span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span> -para emprezas, que só com grande perseverança se -podem realizar, e essa perseverança só a encontra -quem tem um enthusiasmo absolutamente exclusivo. -Quaes são as instrucções que levam sempre os capitães -dos navios de D. Henrique? Procurar identificar -os rios que descobrem com o Nilo dos Negros, -que a geographia systematica dos antigos considerava -como um braço do grande rio egypcio que -vinha desemboccar no Atlantico. Julgam encontral-o -ao ter chegado ao Senegal como depois o imaginam -ainda no Niger, e talvez no Zaire tambem. E tão -absortos estiveram por muito tempo os Portuguezes -no seu respeito cego pelo saber da antiguidade, que -ainda foi um piloto portuguez no seculo <span class="allsmcap">XVI</span> que -procurou commentar e explicar o Periplo de Hannon, -sendo o seu commentario na Italia de todos o -mais apreciado.<a id="FNanchor_67" href="#Footnote_67" class="fnanchor">[67]</a> No proprio momento em que podiam -justamente ufanar-se de sulcar mares nunca -d’antes navegados, ainda se escondiam modestamente -por traz da sombra de Hannon, o legendario -navegador, que, tendo chegado a algumas leguas -do estreito de Gibraltar, imaginou logo ter -percorrido um immenso espaço de agua!<a id="FNanchor_68" href="#Footnote_68" class="fnanchor">[68]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span></p> - -<p>O outro desejo ardente do infante D. Henrique -era encontrar as terras do Prestes João, esse mytho -medieval que tomou mil fórmas, apparecia nas mais -variadas terras, até que, ao condensar-se na realidade -prosaica, appareceu transformado n’aquelle pobre -<i>negus</i> da Abyssinia, symbolo curioso da dissolução -dos mythos, que no periodo poetico da humanidade -se revestem dos mais extraordinarios esplendores, -e que nos frios annos da prosa se reduzem -ás mais chatas personalidades.</p> - -<p>O Prestes João fôra a prolongação pela edade -média da lenda da primitiva Egreja Oriental, que -déra ao apostolo João, ao discipulo amado, ao evangelista -mais querido da imaginação popular, a perpetuidade -da existencia. Não acceitou a Egreja a -lenda, mas ella permaneceu no Oriente, modificada, -fluctuante, desdobrando-se o personagem que é seu -protoganista, no apostolo e no presbytero.<a id="FNanchor_69" href="#Footnote_69" class="fnanchor">[69]</a> Talvez<span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span> -porque n’uma das epistolas, conhecidas pelo nome -de João, o apostolo, por esse nome se designa este -<i>presbytero João</i>, que toma em parte o caracter do -apostolo, em parte o caracter de um discipulo do -apostolo, torna-se, por assim dizer, a gloria e o tormento -da Egreja de Epheso; a gloria, porque essa -Egreja se ufana de lhe pertencer o personagem privilegiado -que herdou do venerado Mestre o amor e -a predilecção do céu; o tormento, porque esse personagem -é vago, confuso, indefinido, mal visto pela -Egreja em geral, e fonte de possiveis heresias.</p> - -<p>Mas entretanto corria a edade média com a sua -louca anciedade pelo advento de um mundo melhor. -Não se cumpriam as promessas do christianismo. -Não chegára o reinado da justiça. Na terra -atormentada por mil flagellos arrastava o homem -uma existencia atribulada, calcado aos pés pelos -poderosos, faminto, presa a cada instante da peste -e da guerra implacavel e atroz. Não chegára a era -millenaria, a era sublime em que Jesus voltaria, e<span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span> -em que, rodeiado dos seus martyres, como de uma -legião sagrada da fé e do bem, reinaria sobre a -terra até que ella desapparecesse subvertida no cataclysmo -final.</p> - -<p>O que nascia, pelo contrario, era a crença desanimadora -ao anno Mil, annunciado como o anno -em que o mundo acabaria sem ter tido a consolação -suprema de vêr o reinado do Bem; mas o anno -Mil passou sem trazer comsigo o cataclysmo esperado. -Seria afinal verdadeira a promessa do reino -millenario, do reino dos martyres, que o Apocalypse -de João annunciou? E a idéa d’aquelle Presbytero -João, que vive a sua longa existencia nos páramos -do Oriente, testemunha millenaria do grande -acto da Paixão, fluctúa no animo dos povos. Não -será em torno d’elle que se agruparão os bons, os -martyres, os fieis, e não será nas suas terras que -estará irradiando uma perpetua aurora, tranquilla, -suave, toda misericordia e paz, emquanto cá pelo -Occidente parece que o sol se afoga todos os dias -n’um occaso sanguineo, n’um horizonte perpetuamente -em braza, entre os clamores dos miserandos -que teem sêde de justiça e o tinir das espadas gottejantes -de sangue, o crepitar das chammas dos -incendios e o rugido dos mares e as gargalhadas -da impiedade? E lá no Oriente, onde existe o Paraizo, -começa-se a devanear tambem a existencia -de outro Paraizo mais accessivel ao homem, se é<span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span> -que se não confundem n’um só Paraizo aquelle de -que o homem foi expulso, e o outro em que o homem -ha de entrar, quando lhe franquear a entrada -o guarda a quem o confiaram Christo e o discipulo amado.</p> - -<p>Essa lenda vaga, ou antes essa incerta aspiração, -concretisou-se n’uma d’essas obras anonymas em -que o sentimento popular se manifesta, em que os -devaneios da sua alma são encorpados, desenvolvidos -e ordenados por um trovador ignorado, por um -narrador mysterioso, que é afinal de contas quem -produz verdadeiramente a obra popular, que depois -muitas vezes um grande poeta aproveita para uma -obra immortal. Assim se formou a lenda do Prestes -João com o seu reino de maravilhas, a do Judeu errante, -a do dr. Fausto, a de D. João Tenorio, e a de mil -outros, que não tiveram outro berço senão a redacção -humilde e vulgar de um pobre sonhador ignorado, -que desapparece entre o povo, a quem se attribue -a gloria da concepção, e a obra do grande -poeta que deu á lenda a fórma definitiva e litteraria -que a tornou immortal. O modo como esta lenda se -formulou foi na redacção de uma carta dirigida pelo -Prestes João ao imperador de Roma e ao rei de -França e em que lhes contava as maravilhas do seu -reino, onde os homens viviam annos quasi infinitos, -onde havia maravilhosas riquezas, onde os animaes -e as plantas tinham um tamanho descommunal, e<span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span> -onde reinava a paz e a justiça.<a id="FNanchor_70" href="#Footnote_70" class="fnanchor">[70]</a> O que deu origem -talvez á carta, ou o que chamou para esse vago -personagem do <i>Presbyter Johannes</i> ou <i>Prestre Jean</i> -ou <i>Prestes João</i> a attenção dos povos occidentaes, -foi a vinda a Roma<a id="FNanchor_71" href="#Footnote_71" class="fnanchor">[71]</a> de um estranho personagem, -que se dizia patriarcha das Indias, que da Asia -vinha effectivamente, e que dava noticia da existencia -n’essas remotas partes, ou na verdadeira India, -ou na propria Tartaria, de christãos convertidos por -S. Thomé o apostolo, e que eram evidentemente -christãos da heresia nestoriana, christãos dos ritos -syriacos, sacudidos da Egreja Catholica, mas possuindo -aquella tenacidade de resistencia, que faz com -que ainda hoje, em pleno regimen papal e catholico, -tenham na India os seus prelados e mantenham -os seus ritos estes christãos primitivos.<a id="FNanchor_72" href="#Footnote_72" class="fnanchor">[72]</a></p> - -<p>Assim parece effectivamente que devia ser: porque -na carta do Prestes João diz-se que «cada anno, -<i>quando S. Thomé vinha prégar a quaresma no seu -reino</i>, elle fazia uma peregrinação ao tumulo do propheta -Daniel, com dez mil clerigos, outros tantos cavalleiros -e duzentos elephantes, que levam, não torres,<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span> -mas castellos, para exorcismarem e combaterem -os dragões que espreitam a caravana na passagem».<a id="FNanchor_73" href="#Footnote_73" class="fnanchor">[73]</a> -A lenda do Prestes João localisou-se por conseguinte -na India, não, como seria natural, na India -verdadeira, mas na India ultima, quer dizer, no extremo -Oriente da Asia, onde todas as lendas se refugiavam, -a India que ficava para além dos limites -das conquistas de Alexandre, e onde o proprio heroe -toma tambem um aspecto legendario, como se lhe -bastasse tocar n’uma região nevoenta para que o seu -proprio vulto em nevoas se envolvesse. Alexandre, -já o dissemos, foi para a Europa medieval, como Virgilio, -um ente sobrenatural, meio pagão e meio christianisado -posthumamente, meio feiticeiro e meio conquistador. -É elle, como dissemos tambem, que encerra -os povos de Gog e de Magog por traz da famosa -muralha, é elle que na sua carta a sua mãe -Olympias, carta não menos apocrypha, é claro, do -que a do Prestes João, lhe diz que encontrou a arvore -do sol e a arvore da lua, e que lhes ouviu os -oraculos.<a id="FNanchor_74" href="#Footnote_74" class="fnanchor">[74]</a> É para além do Ganges tambem que os<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span> -geographos da meia edade imaginaram povos que se -sustentam só com o aroma das flores, lenda que vamos -ainda encontrar em Camões. É no extremo -Oriente que está o Paraizo, e junto do Paraizo, note-se -bem, o antro em que S. Macario se escondeu -para viver immerso em prece, depois de ter tentado -debalde penetrar na morada dos nossos primeiros -avós, e foi ahi que o encontraram <i>um seculo depois</i>, -e sempre orando, tres monges gregos que tinham -ido a essas longinquas partes do mundo para -tentarem tambem ver o Paraizo de perto.<a id="FNanchor_75" href="#Footnote_75" class="fnanchor">[75]</a> Avisados -pelo exemplo de S. Macario, voltaram os tres monges -para traz, mas S. Macario lá ficou orando e atravessando, -absorto na prece, os seculos sem fim.</p> - -<p>Vê-se pois que aquelles ares do Paraizo espalhavam -ainda nos seus arredores umas fragrancias divinas. -Parecia que da eternidade promettida a Adão -e Eva tinham ficado uns resquicios para os que do -Paraizo se approximassem; era para alli portanto -que a imaginação popular levaria o reino paradisiaco -do Prestes João.</p> - -<p>Mas as viagens de Marco Polo vieram dar uma -nova physionomia ao mytho do Prestes João, approximando-o<span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span> -da realidade, tornando-o um personagem -curioso, mas não rodeiado d’aquelle immenso prestigio -anterior. Ou porque effectivamente, como sustenta -o grande sinologo Pauthier, elle encontrasse -christãos nestorianos na Tartaria, na provincia a -que Marco Polo chama Tanduc, que Pauthier identifica -com a provincia chineza de Ta-Thung, e esse -facto explica-o Pauthier pela entrada de nestorianos -persas na Mongolia ou no Thibet, onde teriam feito -conversões, e onde effectivamente o soberano chinez -lhes permittiu que erigissem um templo, ou porque, -como sustentava Stanislas Julien, outro sinologo -tambem notavel, Marco Polo tivesse confundido -com christãos os budhistas que nas regiões que elle -atravessava tinham uma das mais importantes sédes -da sua religião, e que ao ver a theocracia do Grão-Lama -o imaginasse um padre-rei christão, e o Prestes -João por conseguinte, é certo que elle declara -ter encontrado christãos regidos por um padre, que -descendia em linha recta do Prestes João, que era o -seu sexto descendente e que se chamava Jorge.<a id="FNanchor_76" href="#Footnote_76" class="fnanchor">[76]</a> D’elle -diz João de Monte-Corvino que o conheceu e o converteu<span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span> -á fé catholica, e Rubruquis tambem declara -que na Tartaria encontrou nestorianos que viviam -debaixo das leis do Prestes João.</p> - -<p>Embora tudo o que se narrava nos livros de Marco -Polo estivesse envolvido nos véos do maravilhoso, é -certo que esta semi-realisação do <i>Presbyter Johannes</i> -estava longe de corresponder ao ideal que d’elle -se formára. O personagem legendario não encontrava -positivamente n’um descendente chamado Jorge, subdito -do Grão-Khan e chefe de uma especie de tribu -nestoriana, uma encarnação satisfatoria. Continuou -portanto a fluctuar por todo o Oriente, e, como de -certo havia noticia vaga da existencia de um povo -christão para os lados da Ethiopia, foi para esse lado -que se transferiu a localisação da lenda, pois que a -India, na edade média, como dissemos, abrangia, -pode-se dizer, toda a Asia, parte da Ethiopia, e -a indeterminação da residencia do rei legendario caracterisava-se -bem com a denominação que se lhe -dava de Prestes João <i>das Indias</i>.</p> - -<p>Não se imagine portanto que é simplesmente um -rei christão perdido no meio da onda musulmana e -do paganismo que se procura, o que se procura é o -reino maravilhoso das lendas millenarias, é a terra -estranha onde tudo floresce com extraordinario viço, -onde o oiro, a prata e as pedras preciosas fulguram -por todos os lados, onde se vive como que n’um antecipado -Paraizo. Procuram-n’o logo na Africa, ao<span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span> -pé de Marrocos,<a id="FNanchor_77" href="#Footnote_77" class="fnanchor">[77]</a> e não havia n’isso contradicção com -o nome que se lhe conservava de Prestes João das -Indias, porque, segundo a antiga geographia systematica, -podia bem ser que a Ethiopia se ligasse com -a Asia, e que já n’essas terras ainda proximas de -Marrocos principiasse o reino maravilhoso do Prestes -João.</p> - -<p>É essa anciosa curiosidade que domina no espirito -dos Portuguezes, é ella que os arroja aos grandes -feitos, ás pertinazes investigações. Como das investigações -astrologicas com as quaes se procurava -ler nas conjuncções dos astros o segredo dos destinos -humanos saía a astronomia, como nas locubrações -dos alchimistas se foram desvendando os segredos -da chimica, assim na procura ardente do -reino do Prestes João se foi desvendando, por tantos -seculos escondido, o segredo da geographia africana, -o da sua fauna, da sua flora e da sua ethnologia. -Logo n’uma das primeiras viagens um audacioso -portuguez, João Fernandes, se internou no sertão -africano, e por lá andou mezes inteiros, convivendo -com os indigenas, aprendendo a sua lingua, estudando -os seus costumes.<a id="FNanchor_78" href="#Footnote_78" class="fnanchor">[78]</a> Devia-lhe ter corrido<span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span> -um calafrio nas veias quando abandonou os seus -companheiros para se immergir no desconhecido. -Ia encontrar talvez os povos monstruosos da tradição -scientifica, os troglodytas, os himantopodas, -os virgocosgigs, e ao lado d’elles os dragões de terrivel -aspecto e o basilisco de halito pestifero, passeiando -pelos mattos meio inflammados a sua estranha -corôa de horrifico soberano. Era perfeitamente -um cavalleiro andante que se arrojava a um -mundo encantado, como esses heroes de novellas de -cavallaria que ousavam emprehender as mais incomprehensiveis -façanhas. Mas tudo elle ousava para -conseguir chegar emfim ás terras paradisiacas em -que o Prestes João reinava, e, quando elle voltou, -depois de longos mezes, não trazia noticias nem de -monstros horrendos, nem de reinos maravilhosos, -mas trazia, o que valia mais que tudo isso, o conhecimento<span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span> -exacto da Africa interior, a revelação para -a sciencia de um mundo ignorado, de arvores soberbas, -que não eram a phantastica <i>mandragora</i>, -mas o baobah agigantado e verdadeiro. Supprimia -a flora sobrenatural, mas ampliava os dominios da -flora verdadeira; acabava com a fauna phantastica, -mas alargava os dominios da zoologia verdadeiramente -scientifica. E, da mesma fórma que os alchimistas, -ao procurarem nas suas longas vigilias a pedra -philosophal, encontravam o segredo das combinações -chimicas, assim estes audazes alchimistas do -Oceano, ao procurarem o Prestes João, que era a -pedra philosophal dos sonhos geographicos da meia -idade, encontravam um mundo inteiro, que valeu -mais para a riqueza scientifica e para a opulencia -do commercio do que todos os reinos fabulosos banhados -por phantasticos Pactolos e scintillantes de -oiro e de pedraria.</p> - -<p>Quando o infante D. Henrique morreu, já os Portuguezes -tinham conhecido o cabo Branco e o cabo -Roxo, e o cabo Verde e as ilhas que d’este cabo tomaram -o nome, e os rios Senegal e o Gambia e o -Casamansa. Os terrores da zona torrida tinham desapparecido, -posto que se não tivesse chegado ainda -ao Equador, mas era evidente já que o mundo não -alterava o seu aspecto com a approximação da equinoxial, -e que os monstros não existiam senão na imaginação -dos geographos, que se não encontrava senão<span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span> -a variante negra da raça humana, e que os novos -passaros que appareciam, depois classificados -pelos zoologos como <i>remora</i>, <i>phenicoptero</i>, <i>bucerus</i> -<i>africano</i> ou <i>pristis</i>, enriqueciam as collecções ornithologicas, -mas não a teratologia. E estas conquistas -positivas deviam-se ao enthusiasmo e á sede do -ideal. Nada se faz grande no mundo sem esse grão -de loucura, que desequilibra um pouco o genio dos -grandes poetas e dos grandes descobridores. A pedra -philosophal transmuda deveras o cobre vil em -oiro, porque é ella, como symbolo de todos os ideaes -phantasticos, que faz da quebradiça argila de que -se formou o homem o bronze em que se fundem os -ousados pensamentos, que transforma no oiro das -grandes almas o minerio banal dos espiritos vulgares.</p> - -<p>E era exactamente o que havia de estranho e de -louco nas expedições portuguezas que chamou para -aqui os aventureiros e os ousados. Os Venezianos -como Cadamosto, os Genovezes como Usodimare, -vem aqui buscar simplesmente emprego para a sua -actividade de marinheiros; os Malhorquinos como -Jayme de Malhorca vem para um centro de actividade -scientifica, mas esse Valarte que vem do fundo -do Norte, das remotas regiões da Suecia, vem em -demanda do ideal, esse loiro Scandinavo, que traz -no olhar o azul dos seus lagos e no rosto a candidez -das suas neves, vem procurar a estas regiões de<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span> -aventura a barca dos cysnes dos Eddas que o ha -de levar atravez dos mares da lenda ás regiões dos -sonhos. Para esses e para muitos outros Portuguezes, -como o velho Soeiro da Costa, como esse Alvaro -de Freitas que tanto acaricia a idéa de ver de -perto o Paraizo terreal,<a id="FNanchor_79" href="#Footnote_79" class="fnanchor">[79]</a> é um romance de cavallaria -que se está pondo em acção na patria de <i>Amadis de -Gaula</i>. São os Templarios resuscitados que investem -com o mar como os Templarios antigos com as ondas -dos sarracenos, e o manto branco da ordem de -Christo que fluctua ao sopro do vento, e a bandeira -com a cruz vermelha que palpita na popa das caravelas -com os bafejos do Oceano são os ultimos symbolos -d’esse idealismo da idade média cavalheiresca -que vae dissolver-se na epocha burgueza que já apparece -no horizonte dos tempos. E esse rijo cavalleiro, -ascetico, tenaz, que do alto do promontorio de -Sagres lança os seus legionarios á conquista do desconhecido, -ao cair prostrado pela morte, sem ter -ainda encontrado o edeal que lhe absorvera a existencia, -desapparece da scena do mundo, deixando -resolvido um dos grandes problemas da existencia -humana na terra, no mesmo momento em que outro -cavalleiro andante, esse deveras o ultimo, Christovão<span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span> -Colombo, o Genovez, já vagueia, sonhador e -pensativo, nas praias do Mediterraneo, escutando -esse rumor de gloria e de aventura que vem do Occidente, -e revolvendo na imaginação juvenil a solução -de outro problema geographico, que ainda ficava em -aberto, e que ia dar ao homem emfim a Terra inteira -por dominio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="VII">VII<br /> -<span class="smaller">Preludios açorianos e madeirenses -do descobrimento da America</span></h2> - -</div> - -<p>Emquanto os Portuguezes proseguiam intrepidamente -para o sul no caminho da zona torrida o que -se fazia para o Occidente? Era possivel, era natural, -que a descoberta do Porto Santo, da Madeira -e dos Açores satisfizesse completamente a curiosidade -portugueza? Os que defendem as duas versões -ácerca do descobrimento dos dois archipelagos commettem -uns e outros um erro capital; uns suppondo -que os Portuguezes não os encontraram senão porque -antes d’elles lá tinham aportado outros navegadores, -de cujas informações os nossos se aproveitaram, -os outros imaginando que antes das descobertas -portuguezas se considerava como completamente -vasia de ilhas a vasta extensão do Atlantico.<span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span> -Descobertas positivas não as podia ter havido, -porque ás terras que podessem ter-se descoberto -aconteceria o que succedeu ás Canarias, que logo -foram cubiçadas e disputadas. O que havia era o -sonho celtico das ilhas mysteriosas no seio do Atlantico, -e em busca d’esse sonho quantos navios teriam -corrido, sem que das suas tripulações voltasse ás -costas européas nem sequer o cadaver do cão da -frota legendaria de Brékan. Mas essas ilhas phantásticas -estavam profundamente radicadas no animo -dos homens da edade média, e a ilha de S. Brandam -tinha para elles existencia tão real como o -reino mysterioso do Prestes João. Ah! quem a encontrasse, -quem arribasse a uma ilha qualquer no -meio da vastidão dos mares, como voltaria contente -e triumphante do seu achado, doido de alegria por -ter conseguido emfim fixar n’um ponto do Oceano -alguma d’essas ilhas que fluctuavam no mar da -lenda, filhas da miragem do mar como da miragem -do sonho; ilhas phantasticas como o navio phantasma -da lenda hollandeza, que todos suppunham -avistar ao longe, recortando na tela de oiro e purpura -do horizonte o fino perfil das suas arvores, ou -a ondulosa curva das suas montanhas!</p> - -<p>Deserto o Oceano? Não. Estava povoado, pelo -contrario, de muito mais ilhas do que as que se encontraram! -E quando o infante D. Henrique mandou -os seus navegantes procural-as, é porque tinha<span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span> -a convicção profunda de que existiam, e os seus audazes -marinheiros o que julgavam era seguir o sulco -espumoso do barco do santo irlandez, como quando -seguiam, segundo a phrase de Colombo, o vôo das -aves que os conduziam a terra, cuidavam seguir talvez, -alados mensageiros celestes que os conduziam -ás ilhas de promissão, ou pelo contrario demonios -encarnados em passaros, que os arrastavam ás ilhas -infernaes.</p> - -<p>Os que trazem com ufania, como uma conquista -para a historia, a lenda da ilha da Madeira descoberta -antes de Zarco, ou a dos Açores antes de Velho -Cabral, partem da errada supposição de que esses -ignotos descobridores deram grande novidade -aos Portuguezes dizendo-lhes que havia ilhas no -Oceano! Bem convencidos estavam d’isso, mas a -questão era encontral-as. Feliz o paiz que as descobrisse! -Não as largava facilmente! A posse tranquilla -e indisputada da Madeira e dos Açores prova -bem que ninguem punha em duvida o direito de -prioridade que os Portuguezes se arrogavam.</p> - -<p>O que faziam porém os colonos d’essas novas -ilhas, tudo gente marinheira e aventurosa, que não -ficava socegada no pequeno pedaço de terra em que -se achava confinada? N’elles se condensava, pela -sua posição especial, pelo espirito mais aventuroso -que a essas ilhas os levou, a tendencia emigrante dos -Portuguezes. Não é essa tendencia a que ainda<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span> -hoje domina nos habitantes d’essas ilhas? Não foram -sempre os Madeirenses e os Açorianos os que -predominaram na colonisação portugueza? Não foram -elles, sobretudo, que fizeram o Brazil colonial? -Não são os Açorianos quasi exclusivamente os Portuguezes -que vamos encontrar na America do Norte, -em Boston, e até na California, e, o que é mais estranho -ainda, á beira da rede dos lagos que separam -os Estados Unidos do Canadá, sendo tão numerosa -a colonia portugueza de Erié, que alli se publica -um jornal portuguez, chamado o <i>Erié</i> tambem? -Não são os Madeirenses que nós vamos encontrar -em Demerara, nas ilhas Sandwich, e que estão formando, -em Angola, o nucleo das colonias do plan’alto -de Mossamedes? E se isto acontece hoje, no -nosso periodo de decadencia, de repouso, quando -esse instincto emigrante é perfeitamente atavico—não -era bem natural que acontecesse de um modo -muito mais independente n’esse periodo de vigor e -de febre descobridora, e quando os que habitavam -a Madeira e os Açores não eram os que lá tinham -nascido, mas sim os proprios que as tinham descoberto, -ou os que primeiro, idos de Portugal, as tinham -colonisado?</p> - -<p>Na descoberta africana logo encontramos os Madeirenses. -Entre os mais audaciosos descobridores -conta-se Alvaro Fernandes, sobrinho de João Gonçalves -Zarco, e com elle o seu companheiro de seu<span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span> -tio no descobrimento do archipelago, Tristão Vaz -Teixeira.<a id="FNanchor_80" href="#Footnote_80" class="fnanchor">[80]</a></p> - -<p>E acabemos por uma vez com a accusação que -se nos fez de que nos limitámos a uma navegação -costeira, e de que receiavamos sair para o mar alto! -Como se pode dizer isso de um povo, cujos primeiros -descobrimentos exactamente no mar alto é que se -fazem, cujos <i>coups d’essai</i> são as viagens em que -encontram a Madeira e sobretudo os Açores, cercados -de um mar tempestuoso e terrivel, ainda hoje -considerado como o de mais aspera educação para -o marinheiro, e que estão mais avançados para o -occidente do que a propria Islandia, essa <i>ultima -Thule</i>, onde parou por tanto tempo amedrontada a -navegação antiga?</p> - -<p>Mas, percebe-se bem que, desde o momento que -o fito das viagens portuguezas era chegar á India -torneando a Africa, desde o momento que a geographia -systematica dos antigos lhes dizia que logo -abaixo de Marrocos principiava a Ethiopia, e que a -costa logo fazia uma inflexão para léste; era essa -volta da costa que elles sobretudo procuravam encontrar, -e decerto não a encontravam abandonando -a costa. E, comtudo, quantas vezes, fatigados d’essa -investigação inutil, soltavam os nossos navegadores<span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span> -as velas ás brizas do Oceano, e percorriam de um -vôo um grande espaço, chegando a um ponto muito -adiantado da Africa e tendo depois de voltar atraz -para explorar miudamente o trato de costa que tinham -deixado em branco!<a id="FNanchor_81" href="#Footnote_81" class="fnanchor">[81]</a></p> - -<p>Navegadores do seculo <span class="allsmcap">XV</span> não podiam positivamente -achar-se confinados nos estreitos limites de -umas ilhas perdidas no meio do Oceano, sem terem a -tentação irresistivel de sondar esse mar mysterioso, -sobretudo quando a lenda confirmada pela sciencia -conjectural d’esse tempo lhes fallava de ilhas maravilhosas -a que não tinham chegado ainda, e quando -as vagas do Oceano lhes traziam a cada instante a -prova evidentissima de que para além d’esse horizonte -branqueado pela espuma das vagas distantes, -havia terras, terras habitadas, terras cobertas de -vegetação. Sobretudo nos Açores os documentos -multiplicavam-se e as tentações eram mais fortes. -As ilhas não se apinhavam n’um só grupo como -Madeira e Porto Santo. Havia ilhas destacadas como -as vedetas d’essa guarda avançada da civilisação<span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span> -europea. Ainda se perceberia que taes tentativas se -não fizessem, se não se houvesse chegado á ilha das -Flores e á ilha do Corvo. Podia-se comprehender -então que, satisfeitos com as ilhas paradisiacas que -tinham encontrado, como a deleitosa S. Miguel, ou -a fertilissima Terceira, se tivessem deixado ficar -n’um ocio de Capua, sentimento aliás bem pouco -natural em açorianos, e em açorianos d’esse tempo. -Mas a descoberta do Corvo e da ilha das Flores mostram -claramente que se não acalmára a sua irrequieta -actividade, e que o Oceano continuava a ser -sondado por esses audazes marinheiros, que são hoje -accusados de não ousarem arriscar-se ás aventuras -do alto mar!</p> - -<p>«A Islandia, os Açores, e as Canarias, diz Humboldt, -são os pontos de paragem que mais importante -papel representaram na historia d’estas descobertas -e da civilisação, quer dizer na série dos meios -que os povos do Occidente empregaram para estender -a esphera da sua actividade e para entrar em -relação com as partes do mundo que lhes tinham -ficado desconhecidas.» Em nota accrescenta Humboldt: -«Ha da extremidade septentrional da Escocia -á Islandia 162 leguas marinhas; da Islandia á extremidade -sudoeste da Groenlandia 240 leguas; -d’esta extremidade ás costas do Lavrador 140 leguas; -á embocadura do S. Lourenço 260; da Islandia -directamente ao Lavrador 380 leguas. <i>Ha de Portugal<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span> -(embocadura do Tejo) aos Açores (S. Miguel) -247 leguas</i>; dos Açores (Corvo) á Nova Escocia -412 leguas!»<a id="FNanchor_82" href="#Footnote_82" class="fnanchor">[82]</a> É isto o que explica de um modo -bem positivo como foi que os intrépidos marinheiros -da Islandia poderam encontrar a America, e não -a poderam encontrar os não menos intrépidos marinheiros -dos Açores. É isto o que responde, de um -modo bem cathegorico, tambem, aos que dizem que -os Portuguezes não largavam as costas. Um povo -que nas suas primeiras viagens percorria 247 leguas -maritimas para encontrar um ponto perdido no -meio do Oceano, e que o fixava, e que n’essas ilhas -ou proximas ou distantes estabelecia colonias regulares -e em constante communicação com a metropole, -era um povo que se encontrava bem mais apto do -que outro qualquer para as grandes navegações maritimas, -era um povo que os pavores do Oceano não -obrigariam a desistir de tentar novas emprezas. Ah! -se a Providencia, em vez de ter agrupado os Açores -n’um só ponto, destacando apenas como sentinellas -avançadas as Flores e o Corvo, as tivesse -disseminado por toda a extensão do Atlantico, fazendo -de todas ellas os marcos milliarios d’esse vasto -percurso maritimo, como foram as Orcades, as Feroé, -a Islandia e a Groenlandia para o continente -norte-americano, seria talvez Colombo, mas Colombo<span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span> -em navios portuguezes, que teria realizado a empreza -que de tão justa gloria rodeiou o seu nome. -Mas razão tem de sobra o nosso illustre patricio, o -eminente escriptor Ernesto do Canto, quando diz: -«Foi certamente com a pratica da navegação para -os Açores que os pilotos portuguezes se aperfeiçoaram -nos processos de observar os astros para d’essas -observações deduzirem a sua posição nas solidões -do Oceano ou das terras que demandavam. -Sem esta escola todo o progresso seria lento. A existencia -e o achado do archipelago açoriano foi pois -a causa determinante das posteriores e importantes -descobertas do seculo <span class="allsmcap">XV</span>.»<a id="FNanchor_83" href="#Footnote_83" class="fnanchor">[83]</a> E razão tem ainda -quando encima o capitulo IV da sua obra com esta -affirmação justiceira: «Os Açores foram um posto -avançado para a descoberta da America e um fóco -de irradiação para as explorações maritimas.»<a id="FNanchor_84" href="#Footnote_84" class="fnanchor">[84]</a></p> - -<p>Como podiam os açorianos pois desprender a sua -attenção d’essas terras do occidente se ellas a cada -instante se faziam lembradas, arrojando-lhes troncos -de arvore, pedaços de madeira lavrada, canoas -e até cadaveres de homens de estranha physionomia?<a id="FNanchor_85" href="#Footnote_85" class="fnanchor">[85]</a> -Era o que succedia tambem na Irlanda, e -o que tambem incitava os Irlandezes a procurar essas<span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span> -mysteriosas terras. Note-se, porém, que as circumstancias -eram um pouco differentes. O genio -aventuroso e emigrante dos celtas da Irlanda podia-os -levar, e levava-os effectivamente, a navegar -para os lados occidentaes; em todo o caso os Irlandezes -estavam na sua patria e na sua casa, viviam -na terra em que tinham nascido, prendiam-se ao solo -por estas mil raizes tenues e poderosissimas que reagem -insensivelmente contra o espirito de aventura, -emquanto que esses primeiros colonos dos Açores, -transplantados do solo natal, arrastados alli pelo desejo -de tentar fortuna, achavam-se já elles proprios -em plena aventura, estavam fundeados no meio do -Oceano, e emquanto esse navio, porque até as agitações -vulcanicas das ilhas faziam com que o solo -lhes palpitasse debaixo dos pés como a tolda de -uma embarcação, se não tornava para elles uma -nova patria, estavam promptos sempre a saltar para -as lanchas e a ir demandar nova poisada. Succedia -um pouco a mesma coisa aos Madeirenses, mas esses, -mais proximos da Africa, menos mettidos pelo -Oceano, para a Africa, que era a grande e exclusiva -preoccupação portugueza, voltavam naturalmente a -attenção e os esforços. Os Açorianos, destacados -perfeitamente do grande corpo de exercito, fóra da<span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span> -corrente das navegações methodicas que o infante -D. Henrique dirigia, para o occidente e só para o -occidente deixaram voar as suas aspirações.</p> - -<p>É a prova d’isso que nós encontramos no proprio -Herrera quando dá conta das revelações que incitaram -Colombo a intentar a sua empreza. Foi a narrativa -do piloto açoriano Martim Vicente, que, navegando -a 450 leguas da costa de S. Vicente, encontrou -boiando nas aguas um pedaço de madeira lavrada; -foi a dos mareantes, que, saindo do Fayal, correram -150 leguas ao occidente, e que, voltando, encontraram -a ilha das Flores. E, como n’um escripto publicado -ultimamente na <i>Illustracion española y americana</i> -se tratava com desdem este facto, alcunhado -até de phantastico, paremos um instante para mostrar -a sua perfeita authenticidade.</p> - -<p>Foi Herrera que escreveu o seguinte: «Uno llamado -Diogo de Tiene (<i>Teive</i>), cuyo piloto Diego Velasques -vezino de Palos, afirmó a Don Christoval Colon, -en el monasterio de Santa Maria de la Rabida, -que se perdieron de la isla del Fayal, y que anduvieron -cento y cincuenta leguas por el viento Leveche, -que es el Sudueste; y que á la buelta descobriron -la isla de las Flores, guiandose por muchas -aves que vian boiar házia allá, las quales conocieron -que non eran marinas.»<a id="FNanchor_86" href="#Footnote_86" class="fnanchor">[86]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span></p> - -<p>Lembram-se os leitores de que o proprio Christovam -Colombo, no seu <i>Itinerario</i>, quando diz os motivos -porque mudou em certa altura o rumo da sua -viagem, refere que o principal foi o exemplo dos -Portuguezes, que, seguindo o vôo das aves, tinham -descoberto as suas ilhas.</p> - -<p>Mas temos mais, temos o documento authentico -que mostra que foi effectivamente esse Diogo de -Teive que descobriu a ilha das Flores. É a carta de -doação da ilha das Flores a Fernão Telles, feita por -D. Affonso V em Estremoz a 28 de janeiro de 1475, -e onde diz:</p> - -<p>«Outrosim nos praz e queremos que o dito Fernão -Telles tenha e haja e assim seus successores as -ilhas que chamam das Flores <i>que pouco ha que achára -Diogo de Teive e João de Teive seu filho</i>, e elle dito -Fernão Telles ora houve por um contracto que fez -com o dito João de Teive, filho do dito Diogo de -Teive que as ditas ilhas achou e tinha, e isto n’aquella -forma com aquellas condições e maneira que as elle -houve do dito João de Teive e que ficaram por morte -do dito seu pai e no dito contracto é contheúdo.»<a id="FNanchor_87" href="#Footnote_87" class="fnanchor">[87]</a></p> - -<p>Mas os documentos não faltam para provar a actividade -febril com que os Açorianos se arrojavam<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span> -ao mar Oceano. N’essa mesma carta de doação se -vê que Fernão Telles era um dos exploradores ou -dos emprezarios d’essas explorações:</p> - -<p>«A nós praz, diz El-Rei, que indo elle ou mandando -seus navios ou homens nas partes do mar -Oceano ou alguem que por seu mandado a isso vá, -lhe fazemos mercê, pura e irrevogavel doação para -todo o sempre, como logo de feito fazemos, de quaesquer -ilhas que elle achar ou aquelles a que as elle -mandar buscar novamente e escolher para as haver -de mandar povoar, não sendo pois as taes ilhas nas -partes de Guiné.»<a id="FNanchor_88" href="#Footnote_88" class="fnanchor">[88]</a></p> - -<p>Felizmente os documentos publicados pelo sr. Ernesto -do Canto lançam vivissima luz n’este periodo -preparatorio do descobrimento da America, e explicam -com uma clareza perfeita as questões relativas -a Colombo e a Portugal. Assim vemos primeiramente -que os Açorianos e os Madeirenses não deixam de -procurar terras para o occidente, e que tratam de -obter do governo as concessões necessarias para que -das suas conquistas e descobertas tirem a utilidade -que desejam; segundo que os reis se mostram prodigos -em fazer a esses exploradores todas as concessões -desejadas, comtanto que do real thesouro -não tenham de gastar nem mealha, e que esses exploradores -por conta propria não vão entender com<span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span> -os descobrimentos para o lado da Guiné, que esses -reservam-n’os para si ou para a ordem de Christo -os soberanos portuguezes. E tão arraigado estava -no espirito dos soberanos o desdem pelas viagens -occidentaes que, ainda depois de descoberta a America, -o proprio Gaspar Côrte-Real fez a viagem em -que descobriu a Terra-Nova completamente á sua -custa.</p> - -<p>Vejamos então a fórmula das concessões dos reis:</p> - -<p>Temos em primeiro logar a concessão feita a 21 -de junho de 1473 a Ruy Gonçalves da Camara, filho -segundo de João Gonçalves Zarco, o qual manda -dizer a el-rei, segundo na carta se diz, «como o seu -desejo e voomtade era buscar nas partes do mar ouciano -huumas ylhas para as aver de povorar e aproveytar». -E o rei declara-lhe que «de huma ilha que elle -perssy ou seos navyos achar, com outorga e prazer -do principe meu sobre todos muyto prezado e amado -filho, pura e yrrevogavell doaçom valledoyra amtre -vivos, jure erdatore pera elle e todos seus erdeyros -que delle decemderem assy e tam compridamente -como ella a noos perteemce e de dereyto pertemcer -deva e esto com todollos foros dereytos e trebutos -em ella em qualquer tempo a nos poderiam perteemcer -despoys que povoada seja sem acerqua de nos ficar -cousa algua. E como sse começar a povoar logo lhe -fazemos mercee de toda a jurdiçom civell e crime -mero misto ymperoi em todallas pesoas que em ella<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span> -morarem e a povoarem ressalvando somente pera -nos alçada de morte ou talhamento de membros nos -feitos crimes porquanto queremos e nos praz que -em todo o all assy civel como crime elle aja todo -sem superioridade algua. E per os homens teerem -mays rezom de a hyrem povoar a nos praz que todollos -vezinhos e moradores em a dita ylha ajam -todollos privillegios liberdades e framquezas que -per nos e nossos antecessores sam dados e concedidos -e outorgados aos vezinhos e moradores da ylha -da Madeira que ora he do dito duque meu muyto -prezado e amado sobrinho dos quaes queremos que -gouvam os vizinhos e moradores em ella fazendo -certo dos privilegios da dyta ylha da Madeyra e pruvica -escriptura. E per esta presemte damos licença -e logar ao dito Ruy Gonçalvez a que assy fazemos -mercee da dita ylha que possa dar forall aos que a -ella forem morar e a povoarem. O qual forall que -lhe elle assy der queremos que seja firme e valha -como sse per nos lhe fosse dado e outorgado e per -elle sejam obrigados todos aos juizes, e justiças, -officiaes e pessoas fazer comstranger os moradores e -povoadores della como os comstramgeriamos per lex -e ordenações nossas que per assi teer pera ello nossa -autoridade, nom menos vigor deve a teer aver como -se per nos fosse fecto».<a id="FNanchor_89" href="#Footnote_89" class="fnanchor">[89]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span></p> - -<p>Vimos que a carta de doação a Fernão Telles -tambem lhe confere a posse das ilhas que descobrir, -mas logo em seguida a essa carta vem outra -de 10 de novembro de 1475, em que se dão umas -explicações bem proprias para esclarecer as navegações -d’esse tempo, e destruir completamente as -mesquinhas duvidas postas ácerca da prioridade dos -descobrimentos portuguezes no Atlantico por extrangeiros -que só muito superficialmente estudaram a -historia portugueza. Na carta de 28 de janeiro não -se falava senão em ilhas que Fernão Telles mandasse -povoar, e então o rei explica: «E poderia ser -que em elle as assi mandamdo buscar <i>seus navios -ou jente achariam as sete cidades ou alguuas outras -ilhas poboadas que ao presemte nom som navegadas, -nem achadas, nem trautadas per meus naturaaes</i> e -se poderia dizer que a mercee que lhe assi tenho -fecto nom se deve a ellas estender per assi serem -poboadas.»<a id="FNanchor_90" href="#Footnote_90" class="fnanchor">[90]</a></p> - -<p>E declara então que a mercê tambem a essas se -estende e que dá a Fernão Telles sobre os habitantes -d’essas ilhas os mesmos direitos que lhe concede -sobre os povoadores que elle mandar para as ilhas -desertas.</p> - -<p>O que se vê d’aqui? Vê-se que os Portuguezes<span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span> -procuravam muito ingenuamente no Oceano as ilhas -que a phantasia dos cartographos estampava nos -mappas, que tinham viva crença na existencia verdadeira -da ilha das Sete Cidades e na ilha de S. -Brandão, e da Mayda e da Mão de Satanaz, da Antilha -e da ilha do Brazil, e em todas as que nos mappas -appareciam, filhas das conjecturas da geographia -medieval ou antiga, e, se effectivamente as encontrassem, -longe de quererem fazer suppor ao -mundo que tinham encontrado terras cuja existencia -era de todos desconhecida, se ufanariam de ter -achado o que no mappa se designava, e a descoberta -das ilhas desertas e vulcanicas dos Açores, e -da propria ilha da Madeira toda coberta de bosques -não era para elles senão um desapontamento, porque -as ilhas que elles cubiçavam, as ilhas celebres, as -ilhas dos mappas, essas fugiam-lhes constantemente -das mãos.</p> - -<p>Que espanto seria o d’esses navegadores, e dos seus -contemporaneos se podessem ter conhecimento das -duvidas modernas! Como achariam extranho que se -lhes dissesse que só encontraram os Açores, porque -a posição dos Açores estava indicada nos mappas, -quando elles levaram annos a passar de umas para -as outras ilhas que teriam n’uma só viagem encontrado -se fosse pelos taes mappas que se guiassem!<a id="FNanchor_91" href="#Footnote_91" class="fnanchor">[91]</a><span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span> -e como o infante D. Henrique ficaria surprehendido -ao ver Humboldt encontrar a prova do conhecimento -anterior dos Açores no facto d’elle ter dito a Gonçalo -Velho Cabral, depois da descoberta das Formigas, -que voltasse porque havia de encontrar nas -suas proximidades uma ilha! muitas ilhas era o que -deveria dizer-lhe, visto que o mappa lhe dava um -archipelago. Como se espantaria de que um homem -de sciencia como Humboldt não percebesse que o -descobrimento de uns recifes como as Formigas com -muita probabilidade indicava a proximidade de terra! -Mas o grande espirito do sabio allemão estava -evidentemente coberto com a nuvem do preconceito.</p> - -<p>Assim vemos que o sonho das terras para o occidente -e o sonho das ilhas do mar Oceano provocou -a mente dos açorianos e dos madeirenses a arrojar-se -ás perigosas aventuras. O rei facultava aos -aventureiros tudo o que elles podiam desejar, menos -dinheiro. A Guiné e o caminho para a India por -esse lado eram a preoccupação constante do governo -portuguez, que em todas as cartas estabelece bem -o principio de que elle faz todas essas concessões,<span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span> -comtanto que as ilhas descobertas não fiquem nos -mares da Guiné. Basta a leitura d’estas cartas para -que se veja a impossibilidade do legendario descobrimento -da Terra Nova por João Vaz Côrte Real, -com que se tem procurado attenuar a gloria de Colombo. -Percebe-se logo que o governo portuguez -não podia dar a capitania da ilha Terceira em recompensa -a quem descobrisse a Terra Nova, quando -o que elle promettia aos descobridores era simplesmente -a capitania das terras que descobrissem como -fizera com a ilha da Madeira. E seria singular tambem -que o descobridor de uma nova ilha, em vez -de receber a capitania d’essa ilha e de a povoar e -aproveitar, a abandonasse completamente e recebesse -como premio d’esse descobrimento inutil a capitania -de uma ilha já povoada e aproveitada, isto quando em -1473 o rei D. Affonso V, deferindo o requerimento -de Ruy Gonçalves da Camara, dizia: «E visto per -nos sseu requerimento e por que a nos perteemce -primcipalmente as cousas desertas e nom aproveytadas -fazer povoar e aproveytar pelo carrego que per -deos nos he dado emquamto per sua graça tinhamos -o regimento destes rregnos e senhorios que teemos».</p> - -<p>Veremos no capitulo immediato como era absurdo -que o rei fizesse a Toscanelli perguntas ácerca do -problema do occidente no mesmo anno em que João -Vaz Côrte Real lh’o resolvia quasi, e como é mais -absurdo ainda que D. João II, rei habilissimo e zeloso<span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span> -do seu dominio, estabelecesse no tratado de -Tordesillas um artigo transitorio que sacrificava, -sem uma palavra de cedencia ao menos, terra descoberta -por Portuguezes; agora mostraremos apenas -que tudo é falso no que se allega com relação -ao descobrimento de João Vaz Côrte Real. A falta -de seriedade historica do auctor da <i>Historia Insulana</i>, -Antonio Cordeiro, não deixára de impressionar -os que mais se interessavam por essa reinvidicação -portugueza, mas reanimava-os um pouco o -verem que a noticia já Antonio Cordeiro a encontrára -em Gaspar Fructuoso, auctor das <i>Saudades -da terra</i>; mas Gaspar Fructuoso pertence tambem -ao grupo d’aquelles historiadores que entendem que -são licitas as mentiras quando d’ellas pode resultar -a glorificação de um paiz, principio leviano contra o -qual protestamos quando Villaut de Bellefond o aproveita -contra nós e em beneficio da Normandia, mas -que nos parece bem quando redunda em nosso -favor. Gaspar Fructuoso, apesar de ter um merito -superior ao do seu desastrado copista que outra -coisa não é Antonio Cordeiro, não deixa de ser -um auctor que acceita todas as lendas quando as -reputa honrosas para os seus heroes.<a id="FNanchor_92" href="#Footnote_92" class="fnanchor">[92]</a></p> - -<p>Ora Antonio Cordeiro diz que em 1464 foram -dadas as capitanias da ilha Terceira a Alvaro Martins<span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span> -Homem e João Vaz Côrte Real como recompensa -da descoberta da Terra do Bacalhau que por -ordem regia tinham effectuado.</p> - -<p>Em primeiro logar não era o rei que dava as capitanias -dos Açores que pertenciam ao donatario -seu irmão D. Fernando; em segundo logar a doação -da capitania de Angra é feita pela <i>infanta D. Beatriz, -viuva de D. Fernando</i>, a 2 de abril de 1474, -nem ella a podia ter feito em 1464, porque então -ainda vivia seu marido; em terceiro logar a infanta -o que recompensa são «os serviços que João Vaz -Côrte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu filho, -fez a seu padre que Deus haja, depois a mim e -a elle»;<a id="FNanchor_93" href="#Footnote_93" class="fnanchor">[93]</a> em quarto logar Alvaro Martins já tinha<span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span> -uma capitania da ilha Terceira muito antes de João -Vaz, tanto que a carta de doação a Alvaro Martins, -em 17 de fevereiro de 1474, allega o seguinte motivo: -«Considerando eu como entre Jacome Bruges -e Alvaro Martins, <i>capitão da sua ilha Terceira de -Jesus Christo</i>, sempre houve alguns debates por a -terra da dita ilha não se ter de todo partida...»<a id="FNanchor_94" href="#Footnote_94" class="fnanchor">[94]</a></p> - -<p>Gaspar Fructuoso o que diz simplesmente, e n’um -capitulo inçado de erros historicos evidentissimos, -recheado de lendas, e em que parece até que ignora -a existencia do grande Gaspar Côrte Real, é que, -«vindo João Vaz Côrte Real do descobrimento da -Terra Nova dos Bacalhaus, que por mandado de el-rei -foi fazer, lhe foi dada a capitania de Angra da -Ilha Terceira e da Ilha de S. Jorge.»<a id="FNanchor_95" href="#Footnote_95" class="fnanchor">[95]</a></p> - -<p>Sem nos alongarmos em considerações basta que -citemos os seguintes documentos: a carta de doação -de 12 de maio de 1500, em que D. Manuel concede -a Gaspar Côrte Real as terras que descobrir,<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span> -<i>per sy e a sua custa... por ho asy querer fazer com -tanto trabalho e perigo</i>,<a id="FNanchor_96" href="#Footnote_96" class="fnanchor">[96]</a> e a carta de doação de 17 -de setembro de 1506, que transfere para Vasco Annes -Côrte Real a doação da Terra Nova, «avemdo respeyto -e lembramça como o <i>dito Gaspar Corte Real -seu irmão ffoy o primeiro descobridor das ditas teras</i>.»<a id="FNanchor_97" href="#Footnote_97" class="fnanchor">[97]</a></p> - -<p>O que se deprehende de tudo o que diz Gaspar -Fructuoso é que João Vaz Côrte Real era nos Açores -um heroe legendario, um forte e um intrepido. -Formara-se a lenda em torno d’elle. Pae de uma familia -de navegadores, foi de certo navegador elle -mesmo. Como tantos outros dos seus patricios, -procurou tambem talvez, como elles, desvendar os -segredos do occidente, mas voltou sem ter encontrado -novas ilhas e novas terras. Teria ido talvez mais -longe do que Diogo de Teive, que chegou a cento e -cincoenta leguas ao occidente do Fayal, mas, se o -fez, desanimou tambem e voltou sem encontrar a -cubiçada terra. Foi mais feliz seu filho, e mais feliz -porque o exemplo de Colombo pozera termo aos desanimos, -e se nova prova fosse necessaria basta lembrarmo-nos -que Martim de Behaim, o famoso geographo, -que acariciou ardentemente o mesmo ideal<span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span> -de Colombo, que tudo queria saber do que se passava -para o occidente, que viveu nos Açores em alta situação, -que alli trabalhou, pensou e elaborou os seus -trabalhos geographicos, ao fazer o globo de Nuremberg, -em 1492, n’elle não inseriu a Terra Nova dos -Bacalhaus, apesar de se não esquecer de inserir as -ilhas phantasiadas.</p> - -<p>É no meio d’este grupo de marinheiros intrepidos, -devorados da curiosidade do Oceano, que não -pensam senão nas suas secretas maravilhas, que não -sonham senão com prestigiosas terras, cercadas por -todas as miragens do mar e por todas as miragens -da phantasia, por todas as confidencias mysteriosas -que as correntes pelagicas lhes trazem de -remotos mundos, é n’este synhedrio de pilotos que -não ignoram o que dizem os livros, mas que sabem -sobretudo o que diz o livro immenso do mar, que -apparece de subito a figura pensativa e ardente de -Christovam Colombo. N’essas torres de atalaya, como -que erguidas pela natureza no seio dos mares, debruça-se -a mirar sofregamente o Oceano o rosto ardente -do Genovez. Era o homem providencial, um -d’estes homens em que se incarna fatalmente a idéa -que fluctúa sobre uma geração revolvida pela ancia -do desconhecido no mundo physico ou no mundo -moral. Se o problema do Occidente preoccupa já -todos os espiritos na Europa, nos Açores e na Madeira -apresenta-se com dobrada intensidade. Não<span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span> -volta um navio do occidente que não se trate logo -de saber se traz comsigo a noticia de um novo descobrimento. -Por uma coincidencia singular quasi ao -mesmo tempo apparece nos Açores um homem intelligente -e sabio, Martim de Behaim, que se sente -tambem arrastado pela invencivel convicção de que -ha terras para o lado do occidente, e que é por alli -o verdadeiro caminho da India. Esse homem tem na -sua vida singulares relações com a de Colombo. Este -casou com a filha do donatario de Porto-Santo, -aquelle com a do donatario do Fayal; um foi á Guiné -nos navios portuguezes, o outro foi em navios portuguezes -até ao Zaire. Mas um é allemão, um diplomata, -um burguez, um discipulo correcto e regular -de um dos maiores sabios da Europa, Regiomontanus; -o outro é um italiano, um sonhador, um irregular, -um estudante incompleto. O primeiro encontra -facil accesso junto aos principes e nas universidades, -o outro não acha muitas vezes nos altos logares senão -repulsas e desdens; mas este é um perseverante, -um ardente, um allucinado, o seu convencimento é -uma paixão que o absorve, que o devora. O que actua -n’elle não é tanto o raciocinio como a visão. A alma -do infante D. Henrique parece renascer n’elle. Passou -de Sagres para o Porto-Santo o vulto do asceta. -Secularisou-se apenas; já não é o monge militar, é o -cavalleiro andante, mais affectivo, mais dulcificado -pelo seu conhecimento do amor, mas tendo a mesma<span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span> -paixão pelos ideaes da fé e da sciencia. E como sempre -são estes inspirados os que attraem por um magnetismo -indizivel as idéas audaciosas que fluctuam -no ar, como em D. Henrique se incarnaram todas as -aspirações de um mundo que anceia por quebrar as -grades do carcere em que a tradição o encerra, foi -tambem em Colombo que se incarnaram todas essas -idéas que pairavam na atmosphera do seculo <span class="allsmcap">XV</span>, e -muito especialmente na atmosphera açoriana e madeirense. -Triumphou mais uma vez o sonho sobre a -razão, a dilatação da phantasia inflammada sobre o -trabalho mecanico e lento do raciocinio, o meridional -expansivo e apaixonado sobre o septentrional -fleugmatico e frio, e foi Christovam Colombo e não -Martim de Behaim quem resolveu o segundo dos -grandes problemas geographicos.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="VIII">VIII<br /> -<span class="smaller">Christovam Colombo e D. João II</span></h2> - -</div> - -<p>Quando Christovam Colombo, que viajára largamente, -que estivera na Islandia e na Guiné, que estivera -nos Açores, e que, casando com a filha de -Bartholomeu Perestrello, tivera demorada residencia -no Porto-Santo e na Madeira, combinou tudo o que -lhe diziam os pilotos portuguezes, tudo o que os -seus olhos viam n’essa terra da sua residencia, com -o que encontrou nos livros, e sobretudo nos seus -livros predilectos, os geographos antigos e a <i>Imago -Mundi</i> de Pedro d’Ailly, fixou-se no seu espirito, de -um modo indelevel, a convicção de que era perfeitamente -possivel chegar á Asia partindo dos Açores, -e communicou essa idéa ao rei de Portugal.</p> - -<p>Actuou por acaso, de algum modo, no espirito -de Colombo a viagem que elle fez á Islandia, e onde -poude ter conhecimento das viagens dos navegantes<span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span> -escandinavos do seculo <span class="allsmcap">XII</span>, que chegaram á -Groenlandia e até á America do Norte, que elles -denominaram Vinlandia? Não, decerto. Que tinham -que vêr esses paizes do Norte com o seu sonho da -Asia encontrada pelo occidente?</p> - -<p>Que houvesse para além da Islandia mais ilhas e -mais terras, não era caso de espanto. Hoje que conhecemos -toda a terra sabemos a importancia que -isso tinha, então nenhuma se lhe ligou, nem nenhuma -se lhe ligara no seculo <span class="allsmcap">XII</span>. As descobertas -não têem importancia pelo que hoje se reconhece -que teriam, mas pela que tinham realmente na occasião -em que se fizeram. O problema era, como -dissemos, o seguinte: atravessar o Oceano Atlantico -em toda a sua largura. Passar da Islandia á -Groenlandia e da Groenlandia ao Vinland era façanha -muito menos importante do que a que praticaram -os Portuguezes descobrindo os Açores.<a id="FNanchor_98" href="#Footnote_98" class="fnanchor">[98]</a></p> - -<p>Seriam por outro lado as instancias de Colombo -ao governo portuguez que levaram el-rei D. Affonso -V a perguntar a Toscanelli em 1474 se suppunha -que se podesse chegar á India caminhando-se pelo<span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span> -occidente? É possivel que não. Como sabemos, esse -problema já atormentava as imaginações dos que se -preoccupavam com as questões geographicas, e era -assumpto de vivos debates. A concessão feita em -1473 por D. Affonso V a Ruy Gonçalves da Camara -e que já aqui mencionámos, leva-nos a suppôr que -o fidalgo portuguez não a obteria tão simples e tão -despida de auxilio governamental sem ter instado -com o rei para obter um subsidio ou um apoio -mais efficaz do que a concessão platonica das pelles -de urso, que Ruy Gonçalves obteria se matasse -os ursos. Logo veremos que havia esses pedidos, e -que D. João II em occasião importante lhes prestou -ouvido mais attento. Foi, decerto, então que el-rei -perguntou a Toscanelli o que pensava a este respeito, -e que recebeu de Toscanelli a resposta de que -Colombo, ancioso tambem de conhecer a opinião -do sabio geographo, não deixou de ter conhecimento, -porque o proprio Toscanelli lh’a communicou.</p> - -<p>Que facil ensejo tinha Humboldt de demolir a -gloria de Colombo, como pretendeu demolir a dos -navegadores portuguezes! Se ha carta que possa -mostrar que as Antilhas eram conhecidas antes de<span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span> -Colombo é a carta de Toscanelli. O grande geographo -italiano conhece o caminho como conheceria o -caminho da sua casa. Sabe a distancia a que fica a -Asia, os archipelagos que o navegador ha de encontrar -no caminho, e tudo isso vae para o mappa como -se fosse traçado á vista das terras! E os archipelagos -lá estavam effectivamente como os Açores, -como a Madeira, como as ilhas que se descobriram -e as que se não descobriram. Acontecia ás ilhas o -que acontece ás prophecias. Com um pouco de boa -vontade sempre ha algumas que, mais ou menos, -parece que saem certas.</p> - -<p>Nós porém é que não vemos as coisas com os -olhos da parcialidade, e applicamos a todos o são -preceito de Humboldt que elle tão pouco respeita. -As cartas da edade média são excellente elemento -de estudo quando se analysam com criterio, quando -se não perde de vista o pensamento de que ellas -encerram o que realmente se descobriu e o que os -sonhadores conjecturavam que se podia descobrir. -Os navegadores d’esse tempo é que não sabiam as -maravilhas que praticavam, e a sua aspiração não -era encontrar terras desconhecidas, era encontrar -as terras adivinhadas. Se os Açores e a Madeira estivessem -em mappas anteriores, os Portuguezes exclamariam -com enthusiasmo: São estas mesmas! O -maior prazer d’esses navegantes, quando chegassem -á Antilha ou á ilha de S. Brandão, seria bradarem<span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span> -com orgulho e com ufania: Encontrámos a ilha de -S. Brandão, encontrámos a Antilia, como Fernão -Telles ía pelos mares fóra com a esperança de encontrar -a ilha das Sete Cidades. Este é que era o -criterio que os Portuguezes applicavam á descoberta -das costas africanas. Todo o seu desejo era confirmarem -o periplo de Hannon e as theorias da antiguidade. -Foi para elles um desapontamento reconhecerem -que um rio que descobriram era o Senegal, -completamente ignorado pelos antigos, em vez -de ser o Nilo dos Negros, cuja existencia a sabia -antiguidade affirmava, e que os Portuguezes só aspiravam -a confirmar.</p> - -<p>Que impressão produziria a opinião de Toscanelli -não no animo de D. Affonso V, que tinha outros -pensamentos e outras ambições, mas no de D. João -II, logo que subiu ao throno, e começou a pensar -sériamente nos descobrimentos? Não muita, e de -certo contribuiria para isso, bastante, o proprio movimento -maritimo dos Açores. É bem natural que os -mareantes que voltavam d’essas expedições de tentativa -exaggerasem o espaço de mar que tinham -percorrido, sem encontrar signaes de terra. Demais -as idéas geographicas dos antigos ainda dominavam -muito os espiritos. O systema geographico de Ptolomeu -e dos seus adeptos não fôra alluido todo e de -uma vez só. Ia caindo aos pedaços, mas ficava de -pé o que se não demolia directamente. Ora uma das<span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span> -idéas favoritas da geographia antiga era a grande -extensão dos mares. Suppunha-se que de toda a -terra só a septima parte estava fóra das aguas. Colombo -sustentava a opinião contraria, dava razões de -equilibrio, mas não conseguia facilmente derrubar -o preconceito.</p> - -<p>Accrescente-se ainda que tudo parecia indicar -que os Portuguezes se achavam no caminho verdadeiro -da India. Qual era a opinião antiga? que a -costa africana occidental, <i>antes de se chegar ao equador</i>, -voltava para o oriente e ia ou á Africa Oriental -ou á Asia. Se as viagens portuguezas tivessem -mostrado que esse facto se não dava, e, ao mesmo -tempo, a zona torrida fosse inhabitavel, estavam perdidas -todas as esperanças, mas as viagens portuguezas -tinham demonstrado exactamente que não -havia zonas inhabitaveis, logo podia-se proseguir -com afoiteza, que mais longe ou mais perto havia -de se chegar ao fim do continente africano e havia -de se voltar para a India. Corria-se o perigo de se -entrar na zona glacial antarctica? Embora! Como era -natural, passava-se de extremo a extremo. Desde -que se descobrira que a zona torrida não era inhabitavel, -conhecia-se que não havia zonas inhabitaveis, -e que se poderiam atravessar as zonas glaciaes -como se estava atravessando a zona torrida.<a id="FNanchor_99" href="#Footnote_99" class="fnanchor">[99]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span></p> - -<p>E note-se que a idéa de que teria de se dobrar -um cabo quando se chegasse ao fim da peninsula -africana, estava tambem em todos os espiritos, e era -a conjectura natural da geographia. As peninsulas, -sabia-se bem, terminam geralmente em promontorios. -Portanto o empenho de D. João II estava todo -concentrado no proseguimento das descobertas africanas. -Não podia elle, diz-se, se tinha confiança, -como sabemos que tinha, não no projecto do Genovez, -mas no seu talento, e nos seus conhecimentos -maritimos, confiar-lhe duas caravelas? Não, porque -isso era completamente contrario ao seu systema de -exploração. As tentativas dos Açorianos e dos Madeirenses, -protegia-as o governo, fazendo-lhes larguissimas -concessões nas terras que descobrissem, -mas não as subsidiava, nem consentia tambem que -elles interferissem nas descobertas reservadas para -si. As terras concedidas eram-n’o com a condição -de não serem nos mares da Guiné.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span></p> - -<p>Ah! Se Christovam Colombo armasse duas caravelas -á sua custa, ou conseguisse que um capitalista -o <i>commanditasse</i>, com que facilidade elle obteria -de D. João II todas as concessões que desejasse! -Foi uma felicidade para o mundo que Colombo não -tivesse dinheiro para a empreza, nem socios capitalistas. -Se os tivesse, quando percorresse tanta extensão -de mar sem encontrar terra, quando visse a -perspectiva de perder completamente o seu dinheiro -ou o dos seus socios, talvez não ousasse proseguir, -e decerto lh’o não consentiriam os que representavam -a bordo os interesses dos armadores. Para se -levar a effeito essa obra grandiosa era necessario -que estivesse empenhada no triumpho a honra de -uma nação!</p> - -<p>Como é que aquelle grande espirito de Christovam -Colombo não inflammou no seu enthusiasmo o -espirito, que passa tambem por ter sido grande, de -D. João II? Enganou-se a historia no seu juizo? -Era, afinal, o rei D. João II um espirito vulgar, ou -pelo menos um espirito absolutamente pratico e -forte em todas as questões da vida positiva e real, -mas desdenhoso de tudo o que excede os limites do -seu horizonte? ou por acaso não tinha elle pelas -coisas geographicas o interesse real que manifestava, -ou não tinha d’ellas o conhecimento que se lhe attribue? -Não, não, nada d’isso. D. João II foi realmente -um dos grandes principes do seu tempo, um<span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span> -dos soberanos que estavam mais á altura de comprehender -os grandes projectos dos descobrimentos. O -proprio Colombo o diz a cada instante, Toscanelli -farta-se de o affirmar: o rei de Portugal era o soberano -que melhor entendia de coisas geographicas, -o nosso grande rei! diz Colombo ás vezes. E comtudo -Colombo não conseguiu captival-o. É quasi incomprehensivel -esse facto, mas talvez se explique -um pouco se analysarmos os caracteres de um e de -outro.</p> - -<p>Ha, naturalmente, duas especies de organismos -entre os homens da mais alta esphera: os desequilibrados -e os equilibrados. Á primeira pertencia -Christovam Colombo, á outra D. João II. D. João II -era um d’estes fortes espiritos, perfeitamente assentes -n’uma base segura, que têem a perspicacia, a -energia, as concepções arrojadas mas nunca desmandadas, -espiritos capazes de formarem um plano -e de o desenvolverem serenamente, completamente -desembaraçados da rotina, amando e acolhendo as -innovações, mas não sem as sujeitarem ao criterio -do seu lucido juizo. Homens assim, n’este jogo da -existencia têem as cartadas atrevidas mas calculadas, -nunca se entregam aos irreflectidos caprichos -do azar. O perigo não os assusta, e affrontam-n’o -quando é necessario, mas não o procuram por uma -vã fanfarronada de cavalleiros andantes. Soldado, -ninguem o foi como D. João II: em Arzilla escureceu<span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span> -a fama dos mais denodados cavalleiros, em Toro -a ala que elle commandava internou-se no mais -denso das fileiras dos castelhanos e destroçou-as, -emquanto a ala commandada por seu pae era desbaratada -pelo inimigo, mas depois de subir ao throno -nunca mais teve uma guerra, nem entrou n’uma peleja. -As guerras de Portugal tinham de ser com o -Oceano, os combates do rei com a sua nobreza rebelde. -É um organisador e não um aventureiro, o -que o não impede de querer a grande aventura da -India, mas prepara-a, organisa todos os elementos -de successo, antes de jogar a cartada decisiva.</p> - -<p>A razão é a faculdade que domina o seu espirito, -a imaginação é a escrava obediente. É inaccessivel -aos vagos terrores que tão facilmente assaltam os -nervosos e os phantasistas. Uma noite, e já depois -d’elle ter cercado de cadaveres o seu throno, no -cumprimento implacavel da sua missão centralisadora, -sente baterem de noite mysteriosamente á porta -do quarto onde dormia com sua esposa. Levanta-se -e vai ver quem é. Ninguem, mas ao longe uns passos -mysteriosos, como que um vago deslisar de sombras. -Jaz em silencio e na escuridão da meia-noite -o palacio todo. Vive-se n’uma epocha de crenças e -de superstições. É algum dos espectros das suas -victimas que o vem chamar para a expiação? D. -João II sorri-se com este pensamento, vai, segue o -passo mysterioso, vai até aos sotãos em sua obstinada<span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span> -procura, só, com a sua espada e uma luz, e -quando os servos, acordados pelos clamores da rainha, -correm em sua busca, vão encontral-o n’um -desvão, sondando com a luz os recantos sombrios, -impassivel e sereno como quem não comprehende -sequer os pavores da superstição.</p> - -<p>De toda a sua raça o homem a quem mais se assemelha -pelas tendencias nobres do seu espirito é o -infante D. Pedro, mas este possuia uma qualidade -que arredondava todos os angulos do seu caracter, -que amaciava todas as durezas do seu pensamento: -a bondade feminil, que elle herdara de sua mãe, -D. João II tinha a violencia do bisavô, sem ter ao -seu lado a mulher propria, como Filippa de Lencastre, -para attenuar as asperezas da indole do matador -do conde Andeiro. D. Leonor era uma nobre e -intelligente senhora, não adquirira comtudo influencia -sobre o seu terrivel marido, porque não era amada. -Mas a alta razão, a comprehensão de todos os grandes -emprehendimentos, a cultura que o punha a -par do seu seculo, a reacção contra as tradições medievaes, -que eram a sombra povoada de visões, quando -elle sonhava uma sociedade radiante de luz e de -sciencia e dominada pela Ordem: tudo isto tinha D. -João II. D. João II era a Renascença que principiava -com os ideaes de Platão e o culto da sciencia antiga -seriamente estudada e seriamente comprehendida, -e Colombo, que mais do que ninguem ia contribuir<span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span> -para a Renascença, era comtudo pelas tendencias -do seu espirito o ultimo representante d’essa -meia edade bellicosa e mystica, que, antes de se -sumir para sempre, legava ao mundo que nascia -a realisação do seu ultimo sonho cavalheiresco.</p> - -<p>Imagine-se agora Colombo tratando com D. João -II, que o ouve, que o attende, que percebe que não -tem deante de si um homem vulgar, mas que desconfia, -que hesita deante d’aquelles projectos meio -mysticos, meio scientificos, deante d’aquella exuberancia -de palavras e de pensamentos que não quadra -ao seu espirito nitido, e conciso. Colombo é um -italiano, com aquella prodigalidade de palavras e de -formulas obsequiosas, caracteristicas da raça. O que -era elle? um sabio ou um charlatão? Se do sublime -ao ridiculo apenas vai um passo, como Napoleão -dizia, de um homem de genio que traz uma -idéa fecunda a um charlatão que traz um elixir tambem -a distancia não é grande. Colombo, profundamente -convencido, era prodigo de promessas e não -menos de exigencias. Os thesoiros que elle encontrasse -no Cathay destinava-os, segundo dizia, á conquista -do Santo Sepulcro. Ora a conquista do Santo -Sepulcro era, sem desfazer nos sentimentos christãos -de D. João II, <i>le cadet de ses soucis</i>. Christovam -Colombo enganara-se na porta. Essas declarações -eram optimas para D. Affonso V, detestaveis -para D. João II. Tudo quanto cheirasse a cavallaria<span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span> -andante, a cruzadas, e a romances em acção, encontrava -em D. João II um antagonismo ferrenho. -E percebe-se que assim fosse, desde o momento -que fôra tudo isso que estivera quasi arruinando -Portugal, que fôra tudo isso que fizera a desgraça -de D. Affonso V e que era a esses bellos sonhos que -D. João II devia o ter ficado, como costumava dizer, -por morte de seu pae, rei das estradas de seu reino.</p> - -<p>Ainda havia um facto que não podia produzir -boa impressão em D. João II. Arrastado pelo ardor -das suas convicções, como acontecia com Toscanelli, -Colombo dizia conhecer a distancia exacta a que -ficava Cipango de Portugal. Ora D. João II era um -espirito bastante positivo para perceber o que havia -de absurdo em semelhante calculo, e a segurança -manifestada por Colombo mais ainda o punha em -guarda contra os seus projectos.</p> - -<p>Hoje que os factos mostram como Colombo tinha -razão, todos imaginam que só o espirito de rotina -podia fazer com que elles fossem regeitados. E comtudo, -examinando-os bem comprehende-se que espiritos -positivos não acceitassem. Colombo suppunha -por exemplo que a relação entre a terra e o mar era -de 7 para 1, quando a verdade é que essa relação -é de 1 para 2,7, ou mais exactamente de 29 para -82.<a id="FNanchor_100" href="#Footnote_100" class="fnanchor">[100]</a> Quaes eram as razões em que elle se baseava<span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span> -para suppor que a Asia estava proxima da Europa? -Sobretudo as que deduzia das affirmações da sciencia -antiga. Segundo Ctésias a India formava metade da -Asia, Plinio suppunha que era só por si o terço da -superficie do globo, Nearcho sustentava que eram necessarios -quatro mezes de caminho para se chegar á -extremidade oriental da India, e Strabão que até -esse extremo oriental ninguem poderia conduzir um -exercito. O geographo a que Colombo se encostava -para avaliar a distancia que tinha a percorrer não era -Ptolomeu, era Marino de Tyro. Ptolomeu sustentava -que a terra habitada entre o meridiano das ilhas -Afortunadas e o meridiano de Sera, quer dizer da -China, era de 177°¼, portanto o espaço de mar a -percorrer era de 182°¾, visto que o parallelo tem -360°. Marino de Tyro sustentava que a porção de -terra habitada era de 225°, portanto o espaço de -mar a percorrer limitava-se a 135°; mas Colombo -fazia conjecturas que ainda diminuiam este espaço. -Effectivamente dizia elle que Marino não chegára -á extremidade oriental da Asia em 15 horas (calculando-se -as longitudes em tempo, e correspondendo -cada hora a 15°) porque a extremidade oriental -da Asia ficava muito além do ponto marcado por -Marino. Portanto a distancia de mar entre a extremidade -oriental da Asia e as ilhas de Cabo Verde -era não de 9 horas ou 135°, mas de menos de 8 -horas ou de menos de 120°.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span></p> - -<p>Note-se porém que fôra Ptolomeu que corrigira -os calculos de Marino de Tyro, e que a opinião de -Colombo tinha portanto contra si a do geographo -mais afamado da antiguidade. Comtudo Colombo -aferra-se á sua opinião, e quando está na America -julgando estar na Asia, persiste, e até se apoia nas -opiniões dos navegadores portuguezes, dizendo: «E -agora que os Portuguezes navegam tanto, acham -que Marino foi exacto.»<a id="FNanchor_101" href="#Footnote_101" class="fnanchor">[101]</a></p> - -<p>E note-se ainda que Colombo avaliava o grau em -56 milhas e ⅔, baseando-se nos calculos do geographo -arabe Al-Fragan, e confundindo assim a milha -italiana com a milha de Al-Fragan, de fórma que -o grau ficava tendo apenas pouco mais de 14 leguas. -Toscanelli, na sua famosa carta de 1474, avaliava -o espaço a percorrer de um modo differentissimo. -D. João II ver-se-hia de certo embaraçado -para avaliar quem tinha razão, e regeitaria então -sem hesitar o projecto de Colombo se soubesse -que de todos os geographos da antiguidade o que -menos se enganára fôra Eratostenes que calculára -a distancia entre o promontorio Sacro, quer dizer -o cabo de S. Vicente e a Sera, quer dizer a China, -em 240 grau. A distancia verdadeira é 230.<a id="FNanchor_102" href="#Footnote_102" class="fnanchor">[102]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span></p> - -<p>Junte-se a isto a opinião contraria do seu conselho -scientifico, que a manifestava não só porque todas -as corporações sabias têem uma tendencia innata -para repellir as idéas novas apresentadas por quem -não pertence ao seu gremio scientifico, mas tambem -porque as propostas de Colombo tinham, como acabamos -de ver, muitos pontos vulneraveis. Faziam -parte do conselho dois judeus, Rodrigo e Josef, que -de certo conheciam bem o arabe, e aos quaes talvez -não escapasse o erro da interpretação do geographo -arabe Al-Fragan na medição dos graus. A rejeição -da proposta de Colombo era portanto inevitavel.</p> - -<p>E comtudo D. João II, se não tinha a imaginação -apaixonada do infante D. Henrique, que se deixaria -de certo seduzir pelo enthusiasmo do italiano, tinha -o espirito bastante elevado para reconhecer que não -era Colombo um aventureiro vulgar. Apenas elle saíu -do nosso paiz, teve um baque no coração, e, passando -por cima de tudo e da opinião dos seus conselheiros,<span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span> -e das tendencias naturaes do seu espirito, -escreveu-lhe a famosa carta em que o chamava.<a id="FNanchor_103" href="#Footnote_103" class="fnanchor">[103]</a> -Porque não veiu Colombo? Porque saíra bastante -irritado com o parecer naturalmente desdenhoso do -conselho scientifico do rei, ou porque os seus amores -com D. Beatriz Enriquez, a mãe de Fernando Colombo, -o retiveram em Sevilha? Julgamos mais verosimil -a primeira hypothese. O resentimento de Colombo -era tão profundo que não duvidou accusar -D. João II de uma acção que elle bem sabia que era -absurda em primeiro logar, que seria indigna de um -homem cujo caracter elle não podia deixar de respeitar.</p> - -<p>E comtudo a historia tem repetido essa accusação, -injusta, mesquinha e disparatada! Colombo accusou -D. João II de o ter repellido, mas de ter aproveitado -ao mesmo tempo as suas indicações para -mandar dois navios em busca da Asia pelo occidente, -e que esses navios, açoitados por uma tempestade, -tinham sido obrigados a voltar para Lisboa.</p> - -<p>Em primeiro logar era evidente que a viagem de<span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span> -descoberta não podia começar senão em Cabo Verde -ou nos Açores. Se uma tempestade occasional os tivesse -feito voltar a Lisboa, poucos dias depois de terem -d’aqui saído, não era caso para descoroçoar. Só -passado o meridiano dos Açores é que principiava -a expedição.</p> - -<p>Demais, não sabemos que antes de Colombo muitos -navegadores portuguezes tinham sondado os mares -do occidente, não com o fito de demandarem a -Asia, mas com o intuito de descobrirem terras novas? -Era a transformação do intuito que representava -o abuso de confiança? Era a escolha do parallelo -a seguir? Não tinha o rei de Portugal a carta -de Toscanelli que preconisava tambem a escolha do -parallelo que a Cipango conduzisse?</p> - -<p>Não vemos nós claramente que a unica difficuldade -de D. João II estava em fazer por sua conta a -expedição? Se Colombo a fizesse á sua custa, não -receberia do rei de Portugal senão todas as animações. -E, recusando isso a Colombo, que elle considerava -e estimava, ia fazel-o com outros pilotos, que, -ainda que não tivessem menos habilidade nautica, -não teriam de certo estudado a questão com a perseverança -e o enthusiasmo de Colombo?</p> - -<p>Mas não continuemos, podemos hoje felizmente -mostrar de um modo evidentissimo qual foi o facto -verdadeiro que, mal interpretado, mal comprehendido, -adulterado por alguma informação calumniosa,<span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span> -mais ainda pelo resentimento de Colombo, serviu de -base á sua accusação.</p> - -<p>Temos mostrado como o governo portuguez fazia -as concessões aos navegadores ilheus que queriam -demandar terras novas: dava-lhes n’essas terras todos -os privilegios possiveis, o direito de administrar -a justiça, reservando sempre para a corôa os casos -de pena de morte ou de talhamento de membros. -Accentuava bem que esses privilegios não se limitavam -ao caso de ser despovoada a terra que se encontrasse, -mas que, se encontrassem terra habitada, -como a famosa ilha das Sete Cidades, por exemplo, -tinham sobre os seus moradores o mesmo poder com -as mesmas restricções, e esses moradores tambem -os mesmos privilegios. Ora em 1486, pouco depois -de Colombo partir de Portugal, appareceu Fernão -d’Ulmo a pedir uma concessão semelhante. El-rei -fez-lh’a nas condições das anteriores, com umas modificações -que são eloquentes:</p> - -<p>Em primeiro logar Ruy Gonçalves da Camara pedira -<i>pera buscar nas partes do mar ouciano huumas -ylhas</i>, Fernão Telles obtem a concessão de <i>quaesquer -ilhas que elle achar</i>, e depois diz-se-lhe que a mesma -concessão se faz no caso das ilhas serem povoadas. -Fernão Dulmo pede que El-rei «lhe faça mercê e -reall doação da dita hylha ou hylhas <span class="smcap">ou terra firme</span> -povoradas ou despovoradas, etc.» El-rei concede.</p> - -<p>Além d’isso faz-lhe mercê de toda a justiça <i>com<span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span> -alçada de poder enforcar, matar e de toda outra -pena criminall.</i></p> - -<p>Prevê o caso de que as ilhas ou <i>terra firme</i> sejam -povoadas e offereçam resistencia a Fernão Dulmo, -que vae á sua custa, é claro, e com a gente que poder -levantar e pagar, e então El-rei diz-lhe: «ssendo -caso que sse não queiram sujeitar <i>as ditas hylhas e -terra firme a nos, mandaremos com o dito Fernam -Dulmo gente e armadas de navios com noso poder -pera sogigar as ditas hylhas e terra firme e ele Fernam -Dulmo hyrá sempre por capitam moor das ditas -armadas</i>.»</p> - -<p>O que mostra isto? Mostra que a insistencia de -Christovam Colombo fez impressão em El-rei. Não -vai nem por sombras intentar uma expedição á sua -custa, mas procura facilitar o mais possivel as expedições -para o occidente. Admitte a possibilidade -de se encontrar terra firme, não põe as minimas restricções -ao poder do descobridor, e, se a terra firme -ou as ilhas se encontrarem e forem povoadas, se forem -a Asia, é o que isto quer dizer, Fernão Dulmo -pode contar que terá o rei comsigo com todo o seu -poder para o ajudar, e o posto de capitão-mór garantido -nas armadas que se expedirem.</p> - -<p>O sr. Ernesto do Canto, que publica no seu livro -esta carta de doação na integra, estranha o facto que -acabamos de notar, e escreve:</p> - -<p>«A jurisdicção concedida por esta carta é muito<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span> -mais extensa do que a dos documentos analogos e -anteriores, <i>o que admira da parte de D. João II, -que tanto luctou para estabelecer a centralisação do -poder real</i>.»<a id="FNanchor_104" href="#Footnote_104" class="fnanchor">[104]</a></p> - -<p>É positivamente a impressão produzida na alma -do rei pelas propostas de Colombo. A visão do occidente -começa a assenhorear-se da sua alma e atormenta-o. -Querem outra prova ainda? Esta carta régia -foi apresentada ao tabellião, e entre Fernão Dulmo -e João Affonso celebra-se um contracto em que ha -a seguinte clausula: «e quanto he ao cavalleiro alemam -que em companhia deles hadir que ele alemam -escolha dir em qualquer caravella que quiser e do -dia que ambos partirem da dita hylha Terceira, etc.»</p> - -<p>Quem é este cavalleiro allemão que está evidentemente -nos Açores e que parte com a expedição escolhendo -a caravela que quizer? É claramente Martim -de Behaim, que acaba de voltar da viagem que -fez ao Zaire com Diogo Cão, Martim de Behaim, que -tambem sonha com o encontro da Asia pelo occidente, -que muita vez trocou idéas com Christovam -Colombo a esse respeito, que se resolve a fazer uma -tentativa, tentativa que parece não ter ido por deante, -ou que, se se realisou, foi infeliz e se realisou sem -elle, porque annos depois o encontramos na Allemanha<span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span> -trabalhando no seu famoso globo, e voltando de -Nuremberg a Lisboa com o intuito de realisar emfim -a sua expedição, munido de recommendações do -imperador para o rei de Portugal e de animações de -sabios. No intervallo Colombo antecipára-se-lhe. A -America estava descoberta. Demais entre a saída de -Christovam Colombo de Portugal e o descobrimento -da America dera-se um grande acontecimento que -robustecera a confiança de D. João II no methodo -que seguira e que dissipára as suas apprehensões -de um curto caminho para a Asia pelo occidente. -A costa africana occidental fôra completamente descoberta, -transpozera-se o Equador, percorrera-se -toda a zona torrida, encontrára-se o termo do continente -africano, e dobrára-se o cabo em cujo nome -<i>Boa Esperança</i> D. João II condensára o immenso -jubilo da sua alma. O primeiro dos grandes problemas -geographicos, que nem a antiguidade nem a -edade média tinham conseguido resolver, tinham-n’o -os Portuguezes resolvido. A preoccupação, que evidentemente -tinham deixado no espirito do rei as -propostas de Colombo, dissolvia-se por completo na -alegria d’este triumpho.</p> - -<p>Mas vê-se bem agora como o conhecimento da -nova tentativa açoriana, semelhante aliás a tantas -outras que Colombo bem conhecia, devia ter irritado -o animo do Genovez, que saía de Portugal, azedo e -despeitadissimo. Chegou-lhe provavelmente aos ouvidos<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span> -tambem a noticia das concessões excepcionaes -feitas pelo rei, e até da designação especial de terra -firme a descobrir. Tanto bastou para que se dissesse -roubado, como se Colombo tivesse outra coisa que -se lhe roubasse que não fossem as suas qualidades -pessoaes, o seu genio, o seu enthusiasmo, o seu conhecimento -da nautica e da astronomia. Tudo isso -o levára elle comsigo. Demais, as concessões de D. -João II, por mais amplas que fossem, não chegavam -ao subsidio. O que D. João II recusára a Colombo, -recusava-o tambem a Fernão Dulmo. N’estas circumstancias, -mantinha-se nos seus principios; de -que podia então queixar-se Colombo?</p> - -<p>Tambem, deve dizer-se, só d’essa vez se mostrou -Colombo, n’um momento de colera, injusto -com o nosso paiz. A terra de sua mulher, terra -onde nascera seu filho, fôra sempre a terra dos -seus amores. Com este povo de marinheiros se creára, -pode assim dizer-se, porque foi aqui que brotaram -devéras na sua alma as suas grandes aspirações, -foi com o trato dos nossos pilotos que se -instruiu praticamente, que aprendeu, por assim -nos exprimirmos, a theoria das descobertas. Não o -esqueceu nunca, nem quando pensava que era pelo -vôo das aves que os Portuguezes tinham descoberto -as ilhas, nem quando invocava, para sustentar uma -das suas affirmações, os Portuguezes que tinham -navegado tanto. Como Portuguez até se considerava,<span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span> -e fazia-lh’o sentir Toscanelli.<a id="FNanchor_105" href="#Footnote_105" class="fnanchor">[105]</a> Com os nossos -descobrimentos se enlaçaram os seus, e, apesar -de tudo, vê-se-lhe não sei que funda pena de não -ter podido fazer a sua gloriosa descoberta nos navios -da nação amada. «O rei de Portugal, diz elle -n’uma carta escripta a Fernando o Catholico pouco -tempo antes da sua morte, <i>que entendia mais do -que qualquer outro rei de descobertas de paizes desconhecidos</i>, -de tal fórma o cegou a vontade do Altissimo -que, durante quatorze annos, não pôde comprehender -o que eu lhe dizia.» E tão extranho lhe -parece esse caso que o toma á conta de milagre, e -diz que <i>Nuestro señor le atajó la vista, el oido y -todos los sentidos</i>.<a id="FNanchor_106" href="#Footnote_106" class="fnanchor">[106]</a></p> - -<p>Não! a verdade era que a empreza de Colombo -era a empreza de um allucinado de genio, de um -homem em quem a imaginação predomina, de um -visionario que tem visões lucidas, de um inspirado, -de um louco, e homens assim não podem dirigir-se, -sem ser repellidos, áquelles que teem o forte equilibrio -de todas as faculdades, aos que se deixam -guiar em vida não pelas columnas de fogo da visão -biblica, nem pelas scintillações dos sonhos, mas<span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span> -pelo clarão firme, sereno, da razão e do raciocinio. -Encontraria Christovam Colombo no infante D. Henrique -um homem que o comprehendesse, porque -era um allucinado tambem; na epocha em que apparecia -só o podia comprehender uma alma feminina, -vibratil a todos os enthusiasmos, apaixonada -pelas visões mysticas, accessivel á influencia magnetica -de uma eloquencia aquecida pela sinceridade -de uma convicção ardente, de uma mulher, -emfim, que se chamava Isabel a Catholica, a mais -radiosa encarnação da alma heroica da Hespanha, -aquella que nos apparece nos longes da historia -como a estatua da Poesia do Romancero, cavalheiresca -e meiga, varonil na intrepidez e feminil na -suave e captivadora influencia, e que elle vinha encontrar -no momento mais proprio para a levar para -as grandes conquistas ideaes, dentro dos muros da -conquistada Granada, tendo varrido do solo de Hespanha -a ultima tribu arabe e o ultimo soberano -oriental, tendo feito tremular sobre o crescente prostrado -a bandeira da cruz, e anciando tambem por -abrir novos mundos á energia hespanhola, novas -conquistas ao seu pensamento, enamorando-se facilmente -da idéa de transpôr os limites do Oceano, -de tentar, como outr’ora o infante D. Henrique, a -gloriosa cruzada dos mares, e de ir arrancar emfim -aos thesouros escondidos no tumulo do Sol o oiro -do resgate para o tumulo de Christo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="IX">IX<br /> -<span class="smaller">O tratado de Tordesillas -e a viagem de Pedro Alvares Cabral</span></h2> - -</div> - -<p>Quando em março de 1493 Christovam Colombo -entrou triumphalmente em Lisboa, e apresentou a -D. João II os indigenas que trazia de Guanahani e -lhe disse que voltava das terras de Cipango, o despeito -de D. João II foi extraordinario. Tão pouco o -soube esconder que houve fidalgos que lhe propozeram -punir com a morte a jactancia do Genovez.<a id="FNanchor_107" href="#Footnote_107" class="fnanchor">[107]</a> -D. João II regeitou a offerta, e esmerou-se em dar -a Christovam Colombo todos os testemunhos do seu -apreço, mas a dôr era profunda e o desejo de desforço -imperioso. Sustentando desde logo que as ilhas<span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span> -descobertas por Colombo estavam nos mares adjacentes -á Guiné, tratou de mandar uma esquadra a -esses paizes do occidente. A Hespanha protestou -logo, e D. João II percebeu que tinha de desistir do -intento, mas a sua diplomacia não descançou um -instante, e o tratado de Tordesillas foi para essa -diplomacia um verdadeiro triumpho.</p> - -<p>Tanto se empenhavam os reis de Hespanha em -tomar conta das terras que Christovam Colombo descobrira, -que a toda pressa se pediram para Roma -as bullas necessarias, e com tanta rapidez se andou -na negociação, facilitada, pelo facto de ser o Papa -Alexandre VI—Rodrigo Borgia—hespanhol de nascimento -e creatura dos soberanos hespanhoes, que, -tendo chegado Christovam Colombo no dia 15 de -março de 1493, e só tendo sido recebido por Fernando -e Isabel em abril, logo a 3 de maio do mesmo -anno se concediam á Hespanha essas ilhas e terras -descobertas por Christovam Colombo; mas n’essa -noite, ao que parece, pensou-se que seria bom, para -evitar disputas com os Portuguezes, que se marcasse -uma divisão entre estes, a quem os papas anteriores -tinham concedido os mares adjacentes á -costa africana do cabo Não e Bojador para deante, -e os Hespanhoes, e no dia 4 de maio é que se promulgou -a bulla definitiva, em que se traçou a linha -divisoria do polo arctico «ad polum antarcticum quæ -linea distet a qualibet insularum quæ vulgariter nuncupantur<span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span> -de los Azores et Cabo Verde centum leucis -versus occidentem et meridiem».<a id="FNanchor_108" href="#Footnote_108" class="fnanchor">[108]</a></p> - -<p>Claramente se vê por este <i>qualibet</i> que a segunda -bulla foi redigida á pressa e á noite, não estando -presente nenhum cosmographo, que podesse dizer -aos negociadores qual era a mais occidental das -ilhas dos Açores e de Cabo Verde, porque, como -sensatamente observa Humboldt, é singular esta expressão -applicada a dois archipelagos que ambos -occupam uma grande extensão em longitude. Mas -não havia tempo para demoras porque era necessario -que apparecesse o facto consummado antes que -o rei de Portugal tivesse tempo de saber de que é -que se tratava. Depois do Papa ter julgado, suppunha-se -que um rei catholico não ousaria protestar.</p> - -<p>Enganaram-se; já se não estava em plena edade -média, nem D. João II era homem que deixasse o -Papa interferir nos seus negocios temporaes. Protestou -immediatamente e tanto que a bulla de Alexandre -VI caducou, e a linha divisoria, que passava -a cem leguas de qualquer das ilhas dos Açores e de -Cabo Verde, transformou-se n’uma linha que passava -a 370 leguas do archipelago de Cabo-Verde.</p> - -<p>As negociações levaram tempo, e não foi sem reluctancia -que Fernando e Izabel cederam ao seu impertinente<span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span> -visinho; mas nem Portugal n’esse tempo -era paiz cuja inimizade fosse indifferente, nem os -reis catholicos tinham ainda consciencia bem nitida -da importancia das descobertas feitas; demais havia -intimas relações de familia entre as duas casas reinantes.<a id="FNanchor_109" href="#Footnote_109" class="fnanchor">[109]</a> -O que é certo é que Portugal triumphou e -o tratado assignado em Tordesillas em 7 de junho -de 1494 substituiu para todos os effeitos a bulla de -4 de maio do anno anterior.</p> - -<p>Pois tão superficialmente se estuda a historia -d’estes grandes acontecimentos da vida da humanidade -que ainda hoje passa em julgado que foi a bulla -de Alexandre VI que marcou a linha divisoria entre -as descobertas portuguezas e as descobertas hespanholas, -e o proprio Humboldt, eruditissimo como -é, tanto parece ignorar o texto do tratado de Tordesillas -que, suppondo que foi Christovam Colombo -que indicou a linha das cem leguas por consideral-a -a linha em que não tinha variação a agulha magnetica,<a id="FNanchor_110" href="#Footnote_110" class="fnanchor">[110]</a> -imaginando que a adaptação d’essa demarcação -physica á demarcação politica tinha immensa -importancia para Colombo, nem levemente allude<span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span> -ao desapontamento que a Colombo a mudança da -linha divisoria devia ter causado.</p> - -<p>N’esse tratado, comtudo, ha um artigo transitorio -que bem claramente mostra o absurdo da supposta -descoberta de João Vaz Côrte Real. «E porque -pode ser, diz o artigo, que os navios d’El-Rei -e Rainha de Castella e Aragão tenham descoberto -até vinte do corrente mez de junho algumas ilhas -ou terras firmes dentro da sobredita linha que se -ha de lançar de polo a polo a trezentas e setenta -leguas das ilhas de Cabo Verde para o Poente, assentaram -as Altas Partes Contractantes por seus -Procuradores, que, para se evitarem duvidas, todas -quantas tivessem sido achadas ou descobertas até os -vinte de junho, bem que o fossem por navios e gente -de Castella, sendo dentro das primeiras duzentas e -cincoenta leguas das sobreditas trezentas e setenta a -partir das ilhas de Cabo-Verde para o Poente, ficariam -para El-Rei de Portugal, <i>e as que tivessem sido -achadas dentro do dito prazo nas outras cento e -vinte leguas restantes em que deve findar a dita linha -pertenceriam a El-Rei e Rainha de Castella, -bem que as cento e vinte leguas façam parte das trezentas -e setenta leguas que ficam para El-Rei de -Portugal</i>. E se dentro dos ditos vinte de Junho não -fôr descoberto nada pelos navios d’El-Rei e Rainha -de Castella dentro das ditas cento e vinte leguas, o -que dentro d’ellas <i>d’ahi em diante se descobrir</i> ficará<span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span> -pertencendo a El-Rei de Portugal, como acima -fica dito.<a id="FNanchor_111" href="#Footnote_111" class="fnanchor">[111]</a></p> - -<p>Lá se ía a Terra Nova, se ella já estivesse descoberta, -<i>porque só o que d’ahi em diante se descobrisse</i> -n’essas ultimas cento e vinte leguas de zona -portugueza poderia ficar pertencendo a El-Rei de -Portugal.</p> - -<p>Ora não era de certo platonicamente que D. João II -reclamava para si 370 leguas de mar para o occidente, -mas em aproveital-as tinha o governo portuguez -de ser prudentissimo para não despertar as justas -reclamações do governo de Hespanha. Era necessario -que se mostrasse sempre empenhado em -proseguir as suas descobertas para o oriente, deixando -a Hespanha á vontade para o occidente. As -370 leguas deviam servir-lhe para poder navegar -com os braços livres para o sul. Tambem no primeiro -momento não teria o nosso governo outro intuito. -A expedição da India absorvia-lhe todo o pensamento.</p> - -<p>Vasco da Gama foi e attingiu a meta, e a gloria -immensa que d’ahi proveio e os proventos palpaveis -e immediatos que d’ahi resultavam escureceram por -um momento a gloria de Colombo. Comtudo era incontestavel -que a viagem pelo Cabo da Boa Esperança<span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span> -durava immenso tempo, e tinha difficuldades -e perigos sem numero, e a Asia, que Colombo encontrára, -estava tão perto! Note-se bem que não havia -a esse respeito a minima duvida. Colombo chegára -á Asia, chegára ás Indias, não á India riquissima -a que aportára Vasco da Gama, não ao Cathay -e ao Cipango fabulosamente opulentos de Marco -Polo, mas a terras selvagens que não podiam ser -senão as sentinellas avançadas do continente maravilhoso -e dos archipelagos opulentos. Era ainda para -o occidente que se encontrava Cipango, era para o -sul? A opinião dos sabios tendia para esta ultima -solução, e Pedro Martyr d’Anghiera, o celebre amigo -de Colombo, exclamava indignado com uma expedição -hespanhola á Florida:</p> - -<p>«Para o sul! para o sul! Para que precisamos -nós de producções semelhantes ás producções vulgares -do Meio-Dia da Europa?»<a id="FNanchor_112" href="#Footnote_112" class="fnanchor">[112]</a></p> - -<p>O que deduzimos d’aqui? Deduzimos que, tendo -louvavelmente D. Manuel seguido á risca a politica -de D. João II, a descoberta do Brazil por Pedro Alvares -Cabral foi resultado não do acaso, mas do intento -firme e propositado de procurar nos mares -occidentaes o que Colombo ainda não encontrára -claramente—outro caminho para a India.</p> - -<p>Allega-se contra isso o silencio absoluto do governo<span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span> -a esse respeito. Devemo-nos lembrar, porém, -que Pedro Alvares Cabral não podia levar instrucções -patentes e abertas que denunciassem intentos -contrarios aos interesses da Hespanha. Lembremo-nos -de que os reis catholicos tinham protestado abertamente -contra o projecto de uma expedição portugueza -para o occidente tentada por D. João II. Lembremo-nos -de que, se a Hespanha prohibia com penas -severas as expedições particulares e clandestinas -para o lado que o governo estava explorando, -não podia consentir que expedições identicas fossem -tentadas por um governo estrangeiro. O governo -portuguez tinha de se mostrar exclusivamente preoccupado -com a navegação do Oriente pela Africa; -se as suas esquadras aproveitavam as 370 leguas -para se chegarem para o occidente era para evitarem -as calmarias da Guiné, e nunca no intento de interferirem -com as descobertas hespanholas, tanto assim -que, apenas D. Manuel participa ao rei de Hespanha -o descobrimento do Brasil, apressa-se a dizer-lhe -que é terra muito boa e muito commoda para a -navegação da India. Effectivamente o rei de Hespanha -obtivera promessa positiva do rei de Portugal -de que não tentaria navegar para o occidente, e tão -positiva ella era que em cartas a Christovam Colombo -declara el-rei D. Fernando, que era aliás bem desconfiado, -que não havia motivo para desconfiar das -intenções do rei de Portugal. Apesar de tudo estavam<span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span> -sempre prestes caravelas para poderem seguir -no encalço das nossas, caso algumas saíssem com intenções -suspeitas.<a id="FNanchor_113" href="#Footnote_113" class="fnanchor">[113]</a> Não admira portanto que se falasse -bem alto na necessidade de se evitar as calmas -da Guiné, que nunca mais preoccuparam os -navegadores portuguezes depois do Brasil se ter descoberto, -que D. Manuel quizesse convencer bem o -rei de Hespanha de que a nova terra não era para -elle senão um porto de escala para a navegação do -oriente.</p> - -<p>Além d’isso, sabe-se pela leitura do famoso livro -de Duarte Pacheco, <i>Esmeraldo de situ orbis</i>, que, -apesar de todas as precauções hespanholas, já em -1498 Duarte Pacheco recebera ordens para ir sondar -os mares do occidente. De um periodo da sua -declaração, confusamente redigido, se quer deduzir -que Duarte Pacheco houvesse então descoberto o -Brasil, e que Pedro Alvares Cabral não fosse senão -tomar posse, mas a descripção de Duarte Pacheco -é absolutamente inexacta, o que prova que não vira<span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span> -a terra de que fala, e além d’isto não era natural que -Duarte Pacheco, depois de ter descoberto secretamente -o Brasil, não fosse na esquadra que era exactamente -encarregada de o descobrir officialmente.<a id="FNanchor_114" href="#Footnote_114" class="fnanchor">[114]</a></p> - -<p>O que prova porém esta declaração é que o governo -portuguez não descançava em proseguir na -navegação occidental, que, apesar das precauções dos -hespanhoes, lá iam navios nossos perscrutar o occidente, -e que bem provavel é que Pedro Alvares Cabral, -cujas instrucções—por acaso ou de proposito?—só -nos chegaram truncadas, fosse encarregado de -ver se, mais feliz do que Colombo, encontrava, de -caminho para a India, as terras maravilhosas cujo sonho -continuava a perseguir a imaginação dos Europeus.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span></p> - -<p>Como era possivel, diz-se, que Pedro Alvares levasse -uma esquadra tão numerosa, se fosse no intento -de fazer descobertas, que se faziam habitualmente -com tres ou quatro caravelas? Em primeiro -logar era indispensavel esconder ao rei de Hespanha -esses intentos descobridores, em segundo logar, -se effectivamente se fosse ter ás terras governadas -pelos potentados de que Marco Polo dera noticia, -o exemplo do que succedera a Vasco da Gama -bem mostrava quanto era necessario que se não -apparecesse com pequena força deante d’esses soberanos -do Oriente, em terceiro logar o fim principal -da viagem era ir á India. Se effectivamente se -topasse o Cipango ou o Cathay, a esquadra de Pedro -Alvares ia bem, assim forte e numerosa; se nada -se encontrasse, ou se se encontrasse terra como a -que Colombo encontrara, voltava-se a seguir o velho -caminho de Calicut.</p> - -<p>Porque é que Pedro Alvares, tendo realisado a -descoberta de que ia incumbido, não voltou a Lisboa -a dar a gloriosa noticia de tão importante feito? -Porque nem elle lhe reconheceu a importancia nem -na côrte lh’a reconheciam. O que dava cuidado ao -governo portuguez não era que Colombo tivesse descoberto -umas ilhas selvagens, era que elle tivesse -encontrado um novo caminho para a India, assim -como o que desconsolava os reis catholicos, e fazia -perder a Colombo o seu valimento e auctoridade,<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span> -era que, em vez d’elle ter encontrado paizes florescentes -e civilisados, encontrára ilhas selvagens.</p> - -<p>Depois do que temos dito, não extranham de -certo os leitores e encontra acceitavel explicação o -facto de D. Manuel não ter dito aos reis catholicos, -nem se ter publicado o verdadeiro motivo da descoberta -do Brasil. Vejamos agora se os motivos até -hoje allegados teem razão de ser.</p> - -<p>Foi uma tempestade que arrojou os navios em -direcção ao occidente? Extranha tempestade, que, -em vez de dispersar os navios, os leva de conserva -ao mesmo ponto! Além d’isso nem o piloto da esquadra, -que fez a relação que Ramusio publicou -nem Pero Vaz Caminha e o physico João nas suas -celebres cartas, nem D. Manuel nas cartas que escreveu -aos reis catholicos dizem uma palavra a respeito -de semelhante tempestade. Foi muito depois -que Pedro de Mariz se lembrou de dar, por effeito -decorativo, a tempestade legendaria das descobertas -á narrativa do descobrimento do Brasil, que lhe parecera -provavelmente desenfeitada demais na sua -abstenção de episodios.</p> - -<p>Note-se além d’isto que, segundo as informações -dos roteiros colligidas n’uma preciosa memoria do -illustre official da marinha portugueza o sr. Arthur -Baldaque da Silva, as tempestades que sopram na -região percorrida pelas esquadras de Pedro Alvares, -e na quadra em que elle a percorreu são de noroeste<span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span> -e de sudoeste, que, longe de impellirem os navios -para a costa do Brasil pelo contrario os afastariam.<a id="FNanchor_115" href="#Footnote_115" class="fnanchor">[115]</a></p> - -<p>Mas foram as correntes que levaram os navios, -diz Gonçalves Dias na memoria em que procura refutar -os argumentos de Joaquim Norberto, e a grande -corrente equatorial arrastou os navios para a -costa do Brasil.<a id="FNanchor_116" href="#Footnote_116" class="fnanchor">[116]</a> Se Pedro Alvares Cabral tivesse -chegado ao Pará, a sua ida teria uma explicação, -porque a corrente segue de leste a oeste ao longo -do Equador, mas, bifurcando no cabo de S. Roque, -segue uma direcção tal, combinada com os ventos -geraes, que uma esquadra, diz o almirante Monchez -ha pouco fallecido, «não pode senão afastar-se<span class="pagenum"><a id="Page_210"></a>[210]</span> -cada vez mais da costa, quando quer dobrar o cabo -da Boa Esperança, visto que de um lado os ventos -permittem navegar para leste, do outro a costa afasta-se -para oeste».<a id="FNanchor_117" href="#Footnote_117" class="fnanchor">[117]</a> Se se appella para as correntes -da costa, vemos, segundo o testemunho do mesmo -almirante Monchez, «que durante a monção de SO -levam para o norte»;<a id="FNanchor_118" href="#Footnote_118" class="fnanchor">[118]</a> ora a monção de SO dura de -abril a setembro, exactamente quando Pedro Alvares -Cabral era, segundo se diz, arrastado pelas correntes -para o sul.</p> - -<p>Estes factos pareceram tão singulares ao almirante -Monchez que não podendo explicar por elles -a descoberta do Brasil, e não conhecendo os elementos -politicos da questão, deduz o seguinte: «É -pois quasi impossivel dar outro motivo plausivel da -chegada de Cabral á vista de terra pelos 16° de latitude, -a não ser um erro de caminho por esse navegador.»<a id="FNanchor_119" href="#Footnote_119" class="fnanchor">[119]</a></p> - -<p>Esse erro tinha de ser constante durante 15 dias, -e seria singular que só se désse quando trazia em -resultado a descoberta do Brasil, ao passo que antes -d’isso tinham passado, sem o mais leve engano, -pelas Canarias e por Cabo Verde, e depois d’isso -foram direitos ao cabo da Boa Esperança.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_211"></a>[211]</span></p> - -<p>Confronte-se isto tudo, note-se que temos prova -authentica de que em 1498, do anno immediato -áquelle em que Vasco da Gama sahira de Portugal, -foi Duarte Pacheco incumbido de ir descobrir terras -a sudoeste, que o governo hespanhol tanto desconfia -dos intentos de Portugal que espreita as nossas -costas e tem navios promptos para seguir qualquer -expedição portugueza que para o occidente se dirija, -que D. Manuel, para desfazer suspeitas, trata -logo de declarar que a terra descoberta a utilidade -que tem é servir de porto de escala para a navegação -da India, que trata tambem de disfarçar a distancia -a que o Brasil fica de Cabo Verde, porque, -tendo-lhe dito Pero Vaz de Caminha na sua carta -que a nova terra ficava a 660 ou 670 leguas da -ilha de S. Nicolau no archipelago de Cabo Verde, -para os reis catholicos diz elle que fica a 400 leguas -não da ilha mas do Cabo Verde que bem se -pode suppor que seja o da costa africana,<a id="FNanchor_120" href="#Footnote_120" class="fnanchor">[120]</a> de fórma<span class="pagenum"><a id="Page_212"></a>[212]</span> -que ficava assim o Brasil dentro da demarcação do -tratado de Tordesillas, e veja-se se não é de uma -evidencia absoluta que a descoberta do Brasil estava -nos planos do governo portuguez, não porque -soubesse a terra que ia encontrar mas porque não -queria deixar aos seus rivaes o proveito de um caminho -para a Asia mais curto do que o que Vasco -da Gama acabava de descobrir.</p> - -<p>Não vale a pena demorar-mo-nos nem um instante -na refutação das lendas relativas a suppostos -descobrimentos do Brazil, anteriores a Pedro Alvares -Cabral. A lenda mais pueril é a que suppõe -que, não só antes de Pedro Alvares ter aportado a -terras de Santa Cruz, mas ainda antes de Colombo -ter aportado a Guanahani, um Portuguez, João Ramalho, -chegára a terras brasileiras. Baseia-se essa -lenda n’um supposto testamento feito por esse João -Ramalho, que foi efectivamente um dos primeiros -colonos do Brasil, mas que se tornára, pela sua residencia -entre selvagens, quasi tão selvagem como -elles, testamento feito por elle em 1580, e em que -declara que havia noventa annos que estava no Brasil,<span class="pagenum"><a id="Page_213"></a>[213]</span> -aonde chegára, por conseguinte, em 1490. Era -portanto macrobio este venerando descobridor que -não podia ter menos de 20 annos quando chegou -ao Brazil, e, ainda quando o fosse, era singular o -testamento de um homem, que, aos 110 annos, -tendo perdido as noções da vida civilisada, com tanta -precisão chronologica dizia que estava no Brasil não -ha oitenta ou noventa annos, como seria natural que -o fizesse e talvez ainda exaggerando a conta, mas -rigorosamente ha noventa! Ora d’esse testamento -não ha noticia senão a que dá um d’esses chronistas -fradescos do seculo <span class="allsmcap">XVII</span>, que tão facilmente, como -é sabido, falsificavam datas e inventavam documentos. -Mas o golpe mortal n’esta lenda infantil foi dado -por um eminente escriptor brasileiro, o sr. Candido -Mendes de Almeida, que depois de mostrar o absurdo -da lenda e a ausencia de documentos em que se baseasse, -publicou uma carta de um jesuita que, estando -em 1559 na terra em que João Ramalho habitava, -e dando conta aos seus superiores dos progressos -da conversão dos indigenas, lhes fallava -n’um Indio que lhe pediu que lhe dissesse quaes os -dias em que devia jejuar, porque deixára de o saber -desde <i>a morte de João Ramalho</i>, que era quem em -vida lh’o dizia.<a id="FNanchor_121" href="#Footnote_121" class="fnanchor">[121]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_214"></a>[214]</span></p> - -<p>O que é, porém, estranho é que ainda encontremos -com relação ao Brazil a questão dos mappas. -Porque mestre João diz a D. Manuel que, para saber -o sitio d’essa terra, veja um mappa-mundi antigo -que tem Pero Vaz Bisagudo, d’ahi se conclue -que o Brasil já fôra descoberto, tanto que já o inseriam -n’um mappa. É a eterna historia dos mappas -conjecturaes, dos mappas em que appareciam -ilhas que ninguem vira e que ninguem chegou a vêr, -e aquella terra ao sul do Equador, a terra incognita -austral, a terra antichthona ou o <i>alter orbis</i>. Pois -não se vê realmente que as cartas muitas vezes -acompanhavam as descobertas, e que, se em rigor -era possivel que se fizessem descobrimentos que ficassem -desconhecidos, o que era impossivel era que -a noticia d’esses descobrimentos se propagasse de -fórma que lhes inserissem os cartographos nos mappas -os resultados, e que apesar d’isso ficassem desconhecidos<span class="pagenum"><a id="Page_215"></a>[215]</span> -dos escriptores, dos sabios e dos governos!</p> - -<p>Cem vezes o repetiremos: os descobridores do -seculo <span class="allsmcap">XV</span>, cheios de respeito tradicional pela sabedoria -antiga, não aspiravam senão a encontrar o -que os antigos, no seu entender, conheciam perfeitamente, -e por isso faziam esforços para adaptar o -que descobriam e que encontravam aos mappas conjecturaes. -Como veremos, o que procuravam agora -era a terra antichthona, a que já se podia chegar -desde o momento que se passára a zona torrida, -mas que estava separada da nossa pela extensão dos -mares. A essa terra antichthona suppunham chegar -agora encontrando o Brasil, e era ao Brasil até que -chamavam o <i>novo mundo</i>. Que Pedro Alvares Cabral -julgára ter chegado á terra separada pelo mar do -hemispherio septentrional é incontestavel, e por isso -facilmente se convenceu, pelo que julgou deprehender -dos gestos dos selvagens, que estava n’uma ilha, -a que deu o nome, primeiro que o Brasil teve, de -ilha de Vera Cruz.<a id="FNanchor_122" href="#Footnote_122" class="fnanchor">[122]</a></p> - -<p>Julgamos porém ter demonstrado que esse descobrimento -se liga intimamente com o de Colombo,<span class="pagenum"><a id="Page_216"></a>[216]</span> -é a sua consequencia, como era tambem, ao -mesmo tempo, o da Terra-Nova por Gaspar Côrte -Real. As descobertas portuguezas conjugadas com -as de Colombo produziam a descoberta do Brasil. -Os dois grandes problemas geographicos estavam -resolvidos: a zona torrida não era inultrapassavel, -e por isso Pedro Alvares Cabral, seguindo as pizadas -de Bartholomeu Dias e de Vasco da Gama transpunha -o Equador, entrava em plena zona torrida -e ía tranquillamente ao hemispherio meridional. A -extensão do mar oceano não era infinita, tinha o -Atlantico outra margem, e Pedro Alvares Cabral ía -com plena confiança procural-a. Sem os descobrimentos -portuguezes nada faria Colombo, porque os -Açores eram um ponto capital de partida para as -expedições occidentaes, e porque os terrores da zona -torrida e das suas proximidades, não lhe permittiriam -seguir o parallelo que seguiu. Sem o descobrimento -de Colombo nada faria Pedro Alvares Cabral, -porque não ousaria ir tão longe para o occidente. -A Hespanha e a Portugal devia o mundo essa -transformação da sua geographia. Completal-a-hia -a circum-navegação do globo e o encontro do caminho -pelo occidente para a Asia, e, como se a Providencia -quizesse d’essa forma sellar de um modo -indestructivel a collaboração dos dois povos na obra -mais importante da historia da humanidade, foi um -capitão portuguez commandando navios hespanhoes<span class="pagenum"><a id="Page_217"></a>[217]</span> -que deu ao mundo o cinto argenteo do rasto das -suas quilhas, foi Fernão de Magalhães que planeou -dirigiu e iniciou a expedição, foi Sebastião d’El-Cano -que a completou e concluiu, e para que n’essa -consagração ultima e solemne da conquista definitiva -da Terra pelo homem, não faltasse tambem a -patria gloriosa de Colombo, a audaz, a pensadora -e sonhadora Italia, ía Pigafetta na expedição que -narrou, para que assim os tres povos latinos, que -eram egualmente benemeritos da civilisação e da -sciencia, tivessem n’esse coroamento da grande obra -os seus representantes. Essa epopéa ultima que ía -pôr o fecho ao trabalho épico de um seculo para -sempre glorioso nos fastos da humanidade, foi um -Portuguez que a dirigiu, foi um Hespanhol que a -completou, foi um Italiano que a escreveu.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_218"></a>[218]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_219"></a>[219]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="X">X</h2> -</div> - -<p>Os Côrte-Reaes—Americo Vespucio -Fernão de Magalhães</p> - - -<p>Se antes da descoberta de Colombo, se tinham -arrojado por mais de uma vez navegadores açorianos -para os mares do Occidente, com muita mais -razão o fariam, logo que esse importante acontecimento -se realisou. Evidentemente as viagens haviam -de multiplicar-se.</p> - -<p>O esforço dos Açorianos e muito especialmente -dos Côrte-Reaes dirige-se então sobretudo para o -Norte. Desde que Colombo chegou ás Antilhas, que -elle tomou por archipelago asiatico, e a Cuba que -elle tomou então por um pedaço de terra firme asiatica, -opinião em que por muito tempo persistiu, os -navegadores de todos os paizes e principalmente -os que, antes de Colombo, como os Açorianos, já<span class="pagenum"><a id="Page_220"></a>[220]</span> -se occupavam de descobertas para o occidente, haviam -de procurar seguir-lhe as pisadas e procurar, -o que elle não conseguira, encontrar as terras maravilhosas -de Cipango e do extremo oriental das -Indias. A convicção geral era que para o sul é que -se conseguiria esse <i>desideratum</i>, e já vimos como -Pedro Martyr d’Anghiera soltava com um enthusiasmo -quasi irritado esse grito: Para o sul! para o -sul!</p> - -<p>Era esse effectivamente o caminho que todos em -geral seguiam. Colombo e os Pinzon ou foram mais -para o occidente, ou foram para o sul. Mas isso não -queria dizer que a idéa da navegação pelo norte não -entrasse tambem em muitos espiritos.</p> - -<p>O mappa de Toscanelli, aquelle famoso mappa -que era provavelmente o que estava nas mãos de -Pero Vaz Bisagudo, obedecia aos principios do geographo -que o desenhára e que tinha a convicção de -que ao occidente havia um prolongamento da Asia, -que defrontava com o continente europeu e africano -desde a Islandia até Guiné. Se, indo ao centro, Colombo -encontrára effectivamente a Asia, como suppunha, -mostrava portanto que era verdadeira a conjectura -de Toscanelli, restava confirmal-a completamente. -Foi isso que levou Pedro Alvares Cabral e muitos -outros navegadores, ou ás occultas ou a descoberto, -a dirigirem-se para o sul, foi isso talvez o que levou -os Côrte-Reaes para o Norte.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_221"></a>[221]</span></p> - -<p>Lembram-se os leitores de que uma das supposições -da geographia systematica dos antigos era que -o mar Baltico tinha saída para o oriente e que ía ligar-se -com o mar Indico. Strabão dizia que «o facto -de que certos navegadores viessem por mar da -India á Hyrcania não é considerado como certo, mas -que isso seja possivel, Patroclo nol-o assegura.»<a id="FNanchor_123" href="#Footnote_123" class="fnanchor">[123]</a> -Pomponio Mela conta muito positivamente que Metellus -Céler, sendo proconsul das Gallias, recebêra -de presente de um rei germanico uns Indios que, -açoitados pela tempestade, tinham vindo da India á -Germania «vi tempestatum <i>ex Indicis æquoribus -abrepti</i>.»<a id="FNanchor_124" href="#Footnote_124" class="fnanchor">[124]</a> Discutiu-se muito no nosso tempo se estes -homens, que eram, ao que parece, e no caso de -ser verdadeira a noticia, de uma raça differente da -européa, não seriam afinal de contas senão Esquimaus -arrojados, como a barcos tantas vezes succedêra -e tem succedido, das costas americanas ás costas -irlandezas, escocezas ou allemãs. O que é certo -é que a idéa de haver communicação entre a Europa -e a India pelo norte, indo-se, porém, do occidente -para o oriente estava enraizada no animo de -muitos geographos antigos.</p> - -<p>Assim que se encontrou ou se suppoz encontrar -a costa asiatica indo-se pelo occidente, a communicação<span class="pagenum"><a id="Page_222"></a>[222]</span> -tanto se podia fazer pelo norte, como pelo centro, -como pelo sul. Effectivamente as costas asiaticas, -como o suppozera Toscanelli, estendiam-se de -norte ao sul, desde a Islandia até á Guiné. Era evidente -que a expedição do norte tentava os açorianos. -Logo que Gaspar Côrte-Real em 1500 encontrou -terras, imaginou, como Colombo, ter encontrado -terras asiaticas, e uma carta de Pespertigo, -embaixador de Veneza em Portugal, é, para esclarecer -esse assumpto, muito curiosa.</p> - -<p>Diz elle: «Tambem crêem (os <i>Portuguezes</i>) estar -ligada (<i>a Terra dos Côrtes-Reaes</i>) com as Antilhas -que foram descobertas pela Hespanha, e com a terra -dos papagaios (<i>Brasil</i>) ultimamente achada pelos -navios d’este reino que foram a Calicut.»<a id="FNanchor_125" href="#Footnote_125" class="fnanchor">[125]</a></p> - -<p>Humboldt que teve conhecimento d’este documento, -espanta-se muito com elle. «No mez de outubro -de 1501, diz o sabio escriptor, sabia-se já em -Portugal que as terras do norte cobertas de neves -e de gelo são contiguas ás Antilhas e á Terra dos -Papagaios novamente encontrada. Esta advinhação -que proclama, apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, -como ligação continental entre o Brasil -descoberto por Vicente Vanez Pinzon, Diogo de<span class="pagenum"><a id="Page_223"></a>[223]</span> -Sepe e Cabral e as terras geladas do Lavrador <i>é -muito surprehendente</i>.»<a id="FNanchor_126" href="#Footnote_126" class="fnanchor">[126]</a></p> - -<p>A surpreza de Humboldt vem apenas da pouca -importancia que elle dá á interferencia portugueza -no descobrimento da America. Desde o momento -que elle ignora as tentativas dos Açorianos para chegarem -a terras occidentaes antes de Colombo, as -tentativas que fizeram depois, desde o momento que -elle não conhece as expedições clandestinas dos Portuguezes -para encontrarem ao sul as terras asiaticas -que Colombo não achára, desde o momento que -attribue a um méro acaso a descoberta do Brasil -por Pedro Alvares Cabral é evidente que não pode -achar a concatenação de todos estes esforços, de -que provém o presentimento da ligação de todas essas -terras descobertas separadamente. Era sempre -a Asia que todos os descobridores julgavam encontrar, -ilhas da Asia ao sul, terras da Asia ao norte. -N’um mappa publicado recentemente pelo sr. Harnin, -o brilhante apologista dos Côrte-Reaes, se diz -que viram n’umas terras a que não chegaram «serras -muito espessas, pollo quall segum a opiniom dos -cosmófircos se cree ser a <i>ponta d’asia</i>.»<a id="FNanchor_127" href="#Footnote_127" class="fnanchor">[127]</a></p> - -<p>A prioridade do descobrimento da Terra do Lavrador<span class="pagenum"><a id="Page_224"></a>[224]</span> -e da Terra Nova por Gaspar Côrte-Real está -hoje tão completamente demonstrada, depois que o -sr. Harnin e o sr. Patterson publicaram os seus excellentes -trabalhos, que nos parece escusado insistir -na refutação das pretenções dos dois Cabots, venezianos -ao serviço da Inglaterra. É realmente curioso -e estranho, que as descobertas portuguezas, apenas -são feitas, encontram logo echo em todo o mundo, e as -descobertas estrangeiras, que destruiriam as nossas, -tanto em segredo se fazem, que só depois se suppõe -reconhecel-as por uma referencia vaga ou por um -documento apocrypho. Apenas Gaspar Côrte-Real -volta da Terra Nova, apressa-se Pedro Pascaalijo, -embaixador de Veneza (de Veneza, que é a patria -de Cabot) a communical-a ao seu governo, Alberto -Contino ao duque de Mantua. Das viagens de João -Cabot só se deprehende que podia ser que tivessem -existido, por uma d’essas referencias vagas que temos -mencionado. Mais ainda. Henrique VII de Inglaterra, -em cujo proveito fizera Cabot a sua expedição, -dá a 19 de março de 1501 a mais larga e -avultada doação que é possivel imaginar-se a tres -negociantes de Bristol, Richard Warde, Thomaz Assehepurat -e John Thomaz, associados com os açorianos -João Fernandes, Francisco Fernandes e João -Gonçalves, para que fossem explorar, descobrir, povoar -e dominar todas e quaesquer terras nos mares -oriental, occidental, austral, boreal ou septentrional,<span class="pagenum"><a id="Page_225"></a>[225]</span> -garante-lhes que, se alguns estrangeiros ou outros -individuos ousarem navegar para as partes onde elles -forem, sem licença, serão punidos, embora invoquem -qualquer concessão que lhes tenha sido feita, -etc. É uma verdadeira concessão ingleza, positiva e -ao mesmo tempo minuciosissima, sem restricções -nem peias, como de quem quer que as coisas se façam -e não regateia os meios, mas, se João Cabot -se tivesse antecipado a estes mercadores e em proveito -do rei de Inglaterra, era absolutamente disparatada -semelhante concessão, que só se pode fazer, -quando os lezados, se os houver, pertencerem a paiz -estrangeiro, e possam, portanto, ser tratados como -inimigos.<a id="FNanchor_128" href="#Footnote_128" class="fnanchor">[128]</a></p> - -<p>Mas a origem da lenda aponta-a com segurança -o sr. Ernesto do Canto. Está na adulteração da versão -latina de uma das cartas de Pascaaligo. Diz que -«os selvagens têem nas orelhas umas argolas de -prata <i>che senza dubbio pareno sia facti a Venetia</i>. -E, dizendo isto, quer o embaixador dar uma idéa -do aperfeiçoamento d’aquella arte selvagem. O traductor<span class="pagenum"><a id="Page_226"></a>[226]</span> -diz tranquillamente: <i>cælaturam Venetam in -primis præ se ferentes</i>. E assim, por uma traducção -de má fé ficou estabelecido que antes dos Portuguezes -alli tinham estado Venezianos. E quando Pascaaligo -affirma que a terra descoberta por Gaspar -Côrte-Real até ahi <i>nunca</i> fôra vista por ninguem, -Madrijuan traduz: terra até ahi <i>a quasi</i> todo o -mundo desconhecida.<a id="FNanchor_129" href="#Footnote_129" class="fnanchor">[129]</a></p> - -<p>Mas, apesar d’isso, essas terras do norte figuraram -por muito tempo nos mappas como <i>terras dos -Côrtes-Reaes</i>. Na Terra Nova, no Canadá, no golpho -de S. Lourenço conservaram-se nomes portuguezes -que se reconhecem atravez da adulteração, -como <i>Por</i> Baye bahia da <i>Torre</i>, <i>Mira</i>, <i>Minas</i>, <i>Porto-Novo</i>, -transformado em <i>Port-Novy</i>, e o nome de Lavrador -por tanto tempo consagrado difficilmente se -pode attribuir a outra linguagem que não seja a -portugueza. Felizmente são escriptores americanos -e dos mais notaveis que defendem a gloria portugueza -e justificam as nossas reivindicações.<a id="FNanchor_130" href="#Footnote_130" class="fnanchor">[130]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_227"></a>[227]</span></p> - -<p>Na segunda viagem Gaspar Corte-Real singrou -mais para o norte, mas nunca mais voltou. Foi em -sua busca seu irmão Miguel Corte-Real, mas tambem -se perdeu entre os gelos, voltando as caravelas -que acompanhavam a sua. E é de ver que, longe -de procurarem terras para o sul das que primeiro -tinham descoberto, e que seriam de certo mais attrahentes -e tentadoras, era sempre para o norte que -seguiam, tão radicado estava no seu pensamento o -desejo de procurarem a Asia, a Asia opulenta, por -aquellas gelidas paragens septentrionaes, de fórma -que a procura d’essa passagem do noroeste que fez -tantos martyres nos tempos modernos e glorificou -tantos navegadores illustres, foi tambem pelos Portuguezes -primeiro tentada com audacia mais notavel -ainda por serem meridionaes que nem tinham -visto talvez em toda a sua vida neve, mas que orgulhosos -de terem provado que não era inhabitavel a zona -torrida queriam a todas as zonas declaradas inhabitadas -pelos antigos, ampliar a sua demonstração, -e quando Franklin, o heroe moderno, que esse ao -menos sempre vivera em regiões onde o frio é um -inimigo constante que se conhece e com que se lucta, -ia deixar n’essas ignotas regiões o seu cadaver -e dos seus e o casco esmigalhado do seu navio, encontrou -talvez enterrada em eternos gelos a caravela -de Miguel Corte-Real, e branquejando entre -as neves á luz crepuscular do sol dos polos os ossos<span class="pagenum"><a id="Page_228"></a>[228]</span> -dos audaciosos Portuguezes que, na epocha aurea -da sua gloriosa expansão, não queriam deixar -um só recanto do mundo a que não levassem a ousadia -do seu genio e o ardor das suas explorações.</p> - -<p>Por muito tempo perseverou na exploração do -Norte a gente açoriana e minhota. A lista dos descobridores -não pára nos Côrte-Reaes. João Alves, -Fagundes e outros exploraram essa costa, ainda depois -dos francezes e inglezes terem tentado tambem -ir exploral-a. Houve até tentativas de colonisação, -e esses mares foram por muito tempo theatro de -actividade dos pescadores portuguezes. Hakluyt ainda -notou que eram Portuguezes e hespanhoes os -que mais se occupavam da pesca do bacalhau. Navios -portuguezes estavam, em certas occasiões, cincoenta -ou sessenta.<a id="FNanchor_131" href="#Footnote_131" class="fnanchor">[131]</a> Mas depois cahiu sobre tudo -isto a mortalha da decadencia, que, não recobre ao -menos a mortalha do esquecimento.</p> - -<p>Entretanto o Brasil, considerado uma ilha, continuava<span class="pagenum"><a id="Page_229"></a>[229]</span> -a ser explorado por Gonçalo Coelho, por -Christovão Jacques, Fernando de Noronha, etc., e -tambem pelos hespanhoes Pinzon e Solis e pelo veneziano -Cabot. N’algumas das expedições portuguezas<a id="FNanchor_132" href="#Footnote_132" class="fnanchor">[132]</a> -foi como piloto Americo Vespucio; do seu<span class="pagenum"><a id="Page_230"></a>[230]</span> -nome fez Ylacomilas na sua <i>Cosmographiae introdutio</i> -o nome do novo continente, e por esse facto -se lamenta a injustiça da posteridade, que esqueceu -o nome do grande descobridor Colombo para -glorificar o nome do fanfarrão cosmographo.</p> - -<p>É esta questão que rapidamente vamos tratar.</p> - -<p>Colombo morreu julgando sempre que chegara -á Asia e o mundo partilhava a sua opinião. Quando -Pedro Alvares Cabral encontrou terra ao sul do -Equador, já se não poude acreditar que se estivesse -nas visinhanças do Cathay e do Cipango. Não -o permittia a latitude. Quando as explorações successivas -fizeram reconhecer que se estava realmente -n’um grande continente, o que se imaginou, o que -se entendeu, porque a tudo presidia a lembrança -das theorias da antiguidade, foi que se estava em -terra antichthona, e por isso, como diz D. Manuel -na sua carta ao rei catholico, muitos lhe davam o -nome de Novo Mundo.<a id="FNanchor_133" href="#Footnote_133" class="fnanchor">[133]</a> Era effectivamente <i>alter -orbis</i>, a quarta parte da terra, com a qual nada tinham -as ilhas asiaticas e o continente asiatico que -Christovam Colombo descobrira.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_231"></a>[231]</span></p> - -<p>Quando os Portuguezes em 1501, suppunham -que as Antilhas, o Brazil e a Terra Nova constituiam -uma terra unica, suppunham que essa terra -era a Asia. Quando depois de 1501 se viu que o -Brazil se prolongava muito para o sul, entendeu-se -que as Antilhas e a Terra Nova faziam parte da -Asia, mas que o Brazil constituia a quarta parte -do mundo, o <i>alter orbis</i>, o Novo Mundo, a terra central -de Ptolomeu.</p> - -<p>Portanto não se fazia uma injustiça a Colombo, -nem talvez a Cabral, só aos capitães das expedições -em que Americo Vespucio navegara, porque -essas expedições é que tinham identificado o paiz -novamente descoberto com a antiga terra de Ptolomeu, -mas Americo o cosmographo, que espalhara -a noticia, foi que colheu o proveito, e o <i>novo mundo</i> -descoberto, não por Christovão Colombo, que nem -acceitaria semelhante gloria, mas pelas expedições -de que fazia parte Americo, recebeu o nome de -America,<a id="FNanchor_134" href="#Footnote_134" class="fnanchor">[134]</a> sem que Colombo, se ainda estivesse -vivo, podesse ou quizesse protestar.</p> - -<p>De certo, depois, quando se reconheceu a verdade, -quando se percebeu que Novo Mundo era tudo,<span class="pagenum"><a id="Page_232"></a>[232]</span> -seria de perfeita justiça restituir a Colombo o que -a Colombo era devido, mas já se tomara o habito -da nova denominação, demais a mais euphonica e -agradavel, e America ficou sendo o todo, quando -ao principio só fôra America uma parte.</p> - -<p>Não temos ensejo agora de discutir a questão das -verdades ou das mentiras de Americo. Parece-nos -comtudo que tem sido injustamente maltratado o -cosmographo florentino. É-lhe muito adverso o visconde -de Santarem, que a seu respeito publicou um -livro celebre,<a id="FNanchor_135" href="#Footnote_135" class="fnanchor">[135]</a> mas o visconde de Santarem não -tinha conhecimento das expedições clandestinas portuguezas, -conhecimento que torna hoje mais verosimil -a viagem em que Americo Vespucio encontrou, -indo para o occidente, Pedro Alvares que voltava -da India, e que fôra considerada pelo visconde de -Santarem apocrypha.</p> - -<p>Reconhecida a existencia da terra central, era indispensavel -procurar meio de se chegar á Asia. As -expedições portuguezas levavam todas o fito de encontrar -um estreito que as conduzisse aos mares -asiaticos. Essa idéa do estreito era predominante nos -espiritos do tempo. Era assim que se fazia a communicação -entre os dois mares, e era por estreitos, -segundo a cosmographia antiga, que se fazia a communicação<span class="pagenum"><a id="Page_233"></a>[233]</span> -entre o mar exterior e os golphos que -elle formava, que eram, como dissémos, o mar Persico, -o Indico, o Mediterraneo e o Caspio.<a id="FNanchor_136" href="#Footnote_136" class="fnanchor">[136]</a></p> - -<p>Como estreitos conhecia a geographia conjectural -os mares descobertos por Christovão Colombo. -Havia-os em Panamá, e alguns rios da America do -Sul foram tomados primeiro por estreitos.<a id="FNanchor_137" href="#Footnote_137" class="fnanchor">[137]</a> D’ahi -a lenda que attribue a Fernão de Magalhães o ter -tido já conhecimento, por um mappa, do estreito -que descobriu. O que elle tinha era a lição dos mappas -conjecturaes, era o culto pelas velhas theorias -que faziam passar por estreitos as aguas do mar exterior -para os mares interiores, e se elle descobriu -o que os outros não acharam, se á Hespanha levou -essa gloria, foi porque D. Manuel, cançado de não -encontrar senão terra para o sul, entendeu que o -novo continente se immergia ao sul, como ao norte, -pelo polo. Magalhães perseverou, dizendo que penetraria -no estreito, ainda que tivesse de sumir-se<span class="pagenum"><a id="Page_234"></a>[234]</span> -na região polar, onde ha o frio e a brisa;<a id="FNanchor_138" href="#Footnote_138" class="fnanchor">[138]</a> depois a -descoberta das ilhas do mar Pacifico ao sul da Asia, -feita por Antonio de Abreu e os outros expedicionarios -enviados por Albuquerque, mais o convenceu -de que haveria ilhas tambem ao sul da America -como as havia ao sul da Asia, e que entre essas -ilhas havia de encontrar por força o famoso -estreito que o conduziria pelo occidente á Asia.</p> - -<p class="tb">Tinha concluido este meu trabalho, e tratava já -de lhe pôr o fecho, quando exigencias de uma missão -official me levaram a Hespanha. Assisti no dia -11 de outubro de 1892, em Huelva, á ultima sessão -do congresso dos americanistas, e, não podendo -apresentar o livro que estava por completar, apresentei<span class="pagenum"><a id="Page_235"></a>[235]</span> -uma resumida indicação em francez das idéas -que lhe serviam de fundamento. Acolhida com extraordinaria -benevolencia, essa communicação teve -a felicidade de encontrar echos sympathicos. O sr. -Hamy, membro do Instituto de França, e dignissimo -successor do grande Quatrefages, e o sr. Marcel, distincto -geographo, deram noticia ao congresso, logo -em seguida á leitura do meu resumo, e a mim em -particular, de trabalhos seus que confirmavam plenamente -a minha conjectura ácerca da descoberta -do Brasil. A linha de demarcação de Tordesillas -fôra origem de falsificações cartographicas inspiradas -pelo zelo patriotico dos cartographos, falsificações -pelas quaes Portuguezes e Hespanhoes procuravam -fazer entrar dentro da zona dos seus paizes -as terras que se iam descobrindo. Assim effectivamente -o governo portuguez mostrava que não -fôra platonicamente que pedira e obtivera as 370 -leguas além das ilhas de Cabo-Verde. Tratou logo -em seguida de explorar esse mar occidental, cujos -segredos Colombo desvendára, e a viagem clandestina -de Duarte Pacheco não era senão uma d’essas -explorações, como foi com esses intuitos exploradores -que Pedro Alvares Cabral muito de proposito -se desviou do caminho que o devia conduzir directamente -á India. Descoberto o Brasil, tratava D. -Manuel de explicar ao rei catholico que essa terra -não ficava fóra da sua zona, e tratavam os cartographos<span class="pagenum"><a id="Page_236"></a>[236]</span> -portuguezes de sanccionar essa affirmação, -da mesma fórma que os cartographos hespanhoes -procuravam incluir as Molucas na zona concedida -ao seu paiz. Foi ainda a esse intuito que obedeceram -Abreu e Serrão, enviados por Albuquerque a -explorar os mares para além de Java e de Sumatra, -e que nas suas audaciosas viagens não só tomaram -conhecimento de um grande numero de ilhas que -n’esses mares pollulavam, mas entreviram a Nova -Guiné, e adivinharam a Australia.</p> - -<p>Esta ultima affirmação é feita pelo sr. Hamy, e -falta-me agora o espaço e o tempo para fazer entrar -no quadro d’este livro essa importante e ainda -hoje obscura questão do descobrimento da Australia.</p> - -<p>Mas o que fica assente de um modo incontestavel -é que a participação dos Portuguezes no descobrimento -da America foi efficaz e activa. Se o seu -governo hesitou perante a temeridade de Colombo, -se sacrificou demasiadamente aos conselhos da fria -razão no momento em que era necessario um lance -de audacia e um arrojo de visionario, logo, despeitados -por esse momento de fraqueza, e estimulados -pelo glorioso commettimento dos visinhos, precipitaram-se -com verdadeira furia para esse occidente -que tinham receiado desvendar e foram tambem -como Colombo em procura da Asia pelos mares -poentes. Uns e outros, Gaspar Côrte-Real ao norte<span class="pagenum"><a id="Page_237"></a>[237]</span> -e Cabral ao sul, esbarraram com a mesma barreira -que detivera Colombo, barreira que os despeitava, -que os indignava, que teimavam em considerar como -uma longa cadeia de ilhas que se desdobrava, -como um cordão de sentinellas ferozes e asperas, -deante da Asia resplandecente, e que era afinal bem -mais fulgurante de maravilhosas riquezas do que -essa Asia decrepita e estagnada no seu somno de -seculos. Por entre os gelos do Norte, por entre as -suppostas ilhas ao Sul, procuravam todos, Hespanhoes -e Portuguezes, o caminho de Cathay e de Cipango. -Quando se fatigaram de tão vãs tentativas, -quando se convenceram de que era um novo mundo -que tinham deante de si, barreira inquebrantavel -que lhes vedava por esse lado o caminho para o -Oriente, a perspicacia e a audacia e a perseverança -do portuguez Magalhães conseguiram desfazer essa -ultima illusão, reconstituir no espirito humano a -Terra inteira na logica da sua estructura, e conquistar -para a Sciencia o morgado da Humanidade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_238"></a>[238]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_239"></a>[239]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XI">XI<br /> -<span class="smaller">Conclusão</span></h2> - -</div> - -<p>Lancemos os olhos para o espaço que rapidamente -percorremos. Encontramos a sciencia antiga -desvelando maravilhosamente alguns dos segredos -mais importantes da cosmographia, mas estacionada -n’uma solução do grande problema que se lhe affigurara -satisfatorio, e que era comtudo um obstaculo -invencivel para todo o progresso geographico. -Depois de mil conjecturas phantasistas, pode-se dizer -que um grande resultado se obtivera: o reconhecimento -da esphericidade da terra. Mas o orgulho -humano oppunha-se invencivelmente á hypothese -que désse a essa Terra, e portanto á raça pensadora -que a habitava, um logar inferior no concerto do -universo. O sol continuou a girar acompanhado por -todo o systema planetario e por todo o mundo stellar<span class="pagenum"><a id="Page_240"></a>[240]</span> -em torno da terra immovel e soberana. Era comtudo -esse um terrivel escravo, porque bastava a sua -ausencia para que fenecesse a vegetação e definhasse -a vida; por isso tambem era natural que nos -pontos onde o seu contacto fosse mais proximo o -excesso do calor produzia o effeito contrario, e désse -tal intensidade á vida que a fizesse desapparecer na -conflagração do abrazo. O mytho de Zeus e de Semele -parecia traduzir este pensamento.</p> - -<p>Quando a terra mãe, a Terra que o deus terrivel -fecundava, o queria ver de perto com todo o explendor -do seu vulto, com toda a grandeza da sua -omnipotencia, bastava a presença do amante para -a reduzir a cinzas. Era em torno da zona média da -terra que o sol descrevia o seu giro, era ahi portanto -que se approximava da terra, e ahi forçosamente -a vida desappareceria no incendio dos seus -raios.</p> - -<p>Assim era a Sciencia que vedava o caminhar do -homem. O mundo civilisado dilatava-se, graças aos -esforços e á audacia dos Phenicios, mas, por mais -audaciosos que fossem, considerariam uma insania -suprema transpor os limites das zonas defezas.</p> - -<p>Para essas regiões que os mortaes não podiam -pisar transportava a phantasia humana a residencia -d’aquelles, que, libertos dos laços da vida mortal, -podiam existir em condições negadas á fraca humanidade. -Foi pois assim que para além do terminus<span class="pagenum"><a id="Page_241"></a>[241]</span> -da sciencia positiva, ou para o norte, ou para o -sul, a imaginação collocou as regiões da bemaventurança.</p> - -<p>Veiu a edade média, em que uma sociedade barbara -procurando reatar o fio da civilisação, tomou -como ideal supremo da sua sabedoria a sabia antiguidade.</p> - -<p>Se Ptolomeu e os outros eram respeitados pelos -seus contemporaneos como eximios sabedores, para -os seus novos discipulos eram perfeitamente oraculos, -e a Sciencia continuou, mais do que nunca, a -deter o homem dentro dos limites consagrados. Assim -como os Phenicios, fundeados por assim dizer -á beira da Syria, sondaram o Mediterraneo primeiro -e depois o Atlantico, o infante D. Henrique de pé -no posto mais avançado da costa europeia sentiu o -desejo ardentissimo de sondar o grande mysterio. -Realisou-lhe a audacia dos seus navegadores o seu -sonho querido, quebrou-se a barreira da zona torrida, -e ampliou-se para o occidente o conhecimento -do Oceano. As affirmações da sciencia antiga iam -caindo uma a uma sem que os navegadores ousassem -comtudo desmentil-as, senão nos pontos em que -a experiencia mostrava definitivamente a sua fallibilidade. -A Africa foi tomando os seus contornos -verdadeiros, dobrou-se a sua ponta meridional, seguiu-se -para o oriente, sem se encontrar o mar mediterraneo<span class="pagenum"><a id="Page_242"></a>[242]</span> -das Indias, a peninsula indostanica foi -tambem reintegrada na sua verdadeira fórma, o Cathay -da narrativa semi-legendaria de Marco Polo -appareceu na figura extranha d’essa China immobilisada, -apesar de rica e sabia, o Cipango transformou-se -no archipelago japonez, e as ilhas do meio-dia -asiatico começaram a apparecer disseminadas -nos mares como as pérolas dispersas de um collar -que se despedaçasse. Foi essa a obra gigante dos -Portuguezes.</p> - -<p>Mas a elles tambem se devia o encontro de um -novo posto de observação, de uma atalaya estimulante -perdida no seio do Oceano. Como os Phenicios -em Tyro, como o infante D. Henrique em Sagres, -ia Colombo mais adeante sonhar mundos desconhecidos -nos penhascos dos Açores. Era d’alli que -via as caravelas de outros sonhadores como elle, a -quem só faltava o genio e a perseverança, demandar -alguma ilha mysteriosa para além do Oceano, -ou os restos d’aquella mysteriosa Atlantida, que fôra -um dos vagos sonhos da antiguidade. O alargamento -da terra seguiu a sua ordem logica; os Phenicios -chegavam de Tyro a Carthago, e desvendavam o Mediterraneo, -de Carthago a Cadiz e descobriam o -Atlantico, os Portuguezes de Sagres desvendavam -o segredo do Oceano para o sul e chegavam ao Cabo -da Boa Esperança, do Cabo da Boa Esperança quebravam -o mysterio do mar oriental, e aportavam a<span class="pagenum"><a id="Page_243"></a>[243]</span> -Calicut e a Goa, e de Goa irradiavam para o sul e -para o oriente as investigações finaes. De Sagres -tambem, singrando para o occidente, iam poisar nos -Açores; estava reservado aos Hespanhoes, guiados -por Colombo, a audaciosa investigação que ia dar -a America ao mundo.</p> - -<p>O que era necessario, porém, era ligar essas duas -grandes emprezas. Por circumstancias verdadeiramente -providenciaes foram os representantes dos -dois povos ligados na mesma empreza, que ataram -as fitas soltas das grandes explorações oceanicas, e -esse enlace supremo foi Magalhães que o começou, -foi Elcano que o concluiu.</p> - -<p>Assim nas descobertas como em todas as emprezas -do espirito humano é a evolução que se manifesta. -Não procede por saltos a natureza, tudo se -liga e se concatena. A missão dos grandes homens -está exactamente em serem os elos d’essa cadeia. As -tentativas infructiferas, dispersas, quasi inconscientes -dos Catalães de Jayme Ferrer, dos Normandos -de Bethencourt, dos Genovezes de Vivaldi, e dos -pescadores e marinheiros portuguezes que procuravam -arcar com o cabo Não ou devassar o Atlantico -unia-as o infante D. Henrique, dava-lhes o nó que -as aproveitava, o cabo Bojador dobrava-se e os Açores -e a Madeira sahiam do seio das ondas. As tentativas -infructuosas tambem dos Açorianos e dos Madeirenses -ligava-as a mão poderosa de Colombo, e<span class="pagenum"><a id="Page_244"></a>[244]</span> -dava assim um novo fusil á cadeia dos descobrimentos -e a America apparecia. E por isso os povos -quando encontram na sua historia um d’esses homens -insignes, sem renegar os seus esforços collectivos, -nem deixar de lhes reconhecer a importancia, -saudam n’esses grandes vultos uns entes extraordinarios -que souberam dar uma realidade positiva -aos seus sonhos e ás suas aspirações, e foram -n’esse tumultuar de pensamentos desconnexos e inconscientes, -as radiosas incarnações da Consciencia -da humanidade.</p> - -<hr /> - -<div class="footnotes"> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak" id="FOOTNOTES">FOOTNOTES</h2> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Tom. <span class="allsmcap">I</span>, secção 1.ª, pag. 285.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> Publicado por Dumont no <i>Corpo Diplomatico</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, parte -<span class="allsmcap">I</span>, pag. 200. E além d’esta as bullas de Calixto III, de 14 de -maio de 1455 e de Xisto XV, de 21 de julho de 1481, e a famosa -divisão dos mares entre Portugal e a Hespanha por Alexandre -VI, e os tratados entre Portugal e Hespanha, em que -sempre se reconheceu o direito que tinhamos á costa africana -pela prioridade do descobrimento, e a deferencia com que a -França sempre reconheceu o nosso direito, mandando Luiz XII -restituir uma caravela portugueza vinda da Mina, tomada pelos -francezes, e prohibindo Francisco I, a 28 de junho de 1532, que -fossem navios francezes á costa da Guiné, em attenção aos tratados! -V. Visconde de Santarem: <i>Recherches sur la découverte -des pays situés sur la côte occidentale d’Afrique au delà du cap -Bojador</i> etc., § <span class="allsmcap">VII</span>, pag. 67 e segg. E em 1513, publicou-se em -França, um livro intitulado: <i>Nouveau Monde et navigations fectes -dans les pays et iles auparavant inconnues</i>, e cujo primeiro -livro se intitula <i>Livro da primeira navegação pelo Occeano para -a terra dos Negros da baixa Ethiopia por ordem do illustre senhor -infante D. Henrique, irmão de D. Duarte, rei de Portugal</i>. -E esse livro reimprimiu-se em 1516! E note-se que Francisco I -não se desinteressava na questão dos descobrimentos, e os marinheiros -francezes procuravam seguir as nossas pisadas. É conhecido -o famoso dito do rei de França, que queria saber qual -o artigo do testamento de Adão que deixava parte do mundo aos -reis de Portugal e de Hespanha. Podendo pôr embargos, era de -estranhar que o não fizesse.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> <i>Histoire de la première descouverte et conqueste des Canarias -faite dés l’an 1402 par messire Jean de Bethencourt, escrite -du temps mesme par F. Pierre Bontier et Jean Le Verrier, prestres -domestiques dudit sieur de Bethencourt, conseiller du roy en -la cour du parlement de Rouen</i>, cap. <span class="allsmcap">LIII</span>, pag. 95. (Paris, 1830).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> <i>Ibid.</i>, cap. <span class="allsmcap">LIV</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 102.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> Palavras de Innocencio VII, escriptas em 1406 a João de -Bethencourt e citadas na relação dos capellães a pag. 197, cap. -<span class="allsmcap">LXXXIX</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> Este erro gravissimo deu origem a todas as falsas reivindicações -francezas, apezar de ter sido completamente desfeito no -proprio seculo <span class="allsmcap">XV</span>. Chamava-se primeiro <i>Gianya</i>, <i>Gineva</i> ou -<i>Gynoya</i> ou <i>Guiné</i> á terra proxima de Marrocos, que se suppunha -habitada pelos negros, e com a qual se fazia commercio. -Era esta a Guiné que ficava a doze leguas das Canarias, «do -outro lado da ilha de Fuerteventura», como dizem ainda os capellães -de Bethencourt. Azurara, quando chama <i>Guiné</i> á costa -do Senegal descoberta pelos Portuguezes, desculpa-se de ter já -chamado assim, para empregar a linguagem commum, a outro -paiz onde tinham estado primeiro os Portuguezes, e que era -d’este muito distante. Essa <i>primeira Guiné</i>, ou <i>Guiné antiga</i>, -reclamou-lhe o senhorio o rei de Castella, D. João II, que escrevendo -de Valladolid a D. Affonso V de Portugal, a 19 de -abril de 1454, dizia-lhe: «Otrosi, rey muy caro, e muy amado -sobrino, vos notificamos que, viniendo ciertas caravellas de ciertos -nuestros subditos e naturales vecinos de las nuestras ciudades -de Sevilla y Cadiz con sus mercaderias <i>de la tierra que llaman -Guinea, que es de nuestra conquista</i>, e llegando cerca de -la nuestra ciudad de Cadiz á una linea estando en nuestro señorio -e jurisdicion, recudieron contra ellos Pallencio, vuestro capitan etc.»</p> - -<p>Esta Guiné, cuja conquista o rei de Castella dizia pertencer-lhe, -fazia parte do reino da Africa, sobre a qual os reis de Castella -diziam ter direito, herdado dos Godos. Quando o nome de -Guiné ficou pertencendo á região que hoje o tem, quer dizer a -que está para além do Cabo Bojador, os reis de Portugal tomaram -sem contestação nem cedencia de Castella o titulo de <i>senhores -de Guiné</i>, baseado no direito de primeiros descobridores -que ninguem lhes impugnou. E a Guiné antiga perdeu essa denominação. -Ahi está o segredo da confusão que deu origem ás -pretenções tão absurdas dos Normandos e dos Catalães.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> «Toscanelli distingue en outre les îles que l’on rencontrera -sur la route, <i>que estan situadas en este viage</i>, par exemple l’Antilia, -d’avec les îles qui sont proches de l’Inde continentale, par -exemple Cipango et les îles avec les quelles trafiquent les négocians -de différentes nations.»—Humboldt.—<i>Histoire de la géographie -du nouveau continent</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, sec. 1.ª, pag. 228.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> Ácerca das tres Indias, e das differentes denominações com -que apparecem na edade média, veja-se sobretudo o magnifico -<i>Essai sur l’histoire de la cosmographie et de la cartographie pendant -le moyen-âge</i>, etc., pelo visconde de Santarem, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. -136, 251, 182, 394, tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. <span class="allsmcap">XXXVIII</span>, 189, 223, tom. <span class="allsmcap">III</span>, -pag. 28, 420, 346, 371, 161, 199, 217, 274, 161, 240, 442, -360, 370, 195. (Paris, 1849). Os nomes das differentes Indias -são variadissimos, Barbara, Deserta, Primeira, Segunda e Terceiro, -Magna e Parva, Superior, Inferior e Exterior, Intra Gangem, -Ultima, Arenosa, etc. Sabendo-se o que eram estas differentes -Indias, como abrangiam a Tartaria, a Arabia, a China, -e até a Ethiopia, espantar-se-ha menos o leitor de que os Portuguezes -procurassem na Africa o <i>Prestes João das Indias</i>. -Essa lenda tambem mudou de local como o nome de Guiné e a -designação de Ethiopia, mas pode-se dizer que nunca saíu de -alguma d’essas Indias.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> Gosselin <i>Recherches sur la géographie systématique des anciens</i>, -tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 140. É firmando-se na auctoridade de Herodoto -que este sabio affirma que o grande Oasis do Egypto tinha -outr’ora o nome de <i>ilha dos Bemaventurados</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> O mappa-mundi de 1417, conservado no palacio Pitti, por -exemplo, indica duas Taprobanas, Ceylão e Sumatra. Quando -não era Sumatra exclusivamente Taprobana, era a uma das duas -ilhas que esse nome se dava. D. João de Castro no prologo do -seu <i>Roteiro de Lisboa a Goa</i>, quando falla a El-Rei de Portugal -nos dominios que tem, diz: «como Taprobana que os antigos -criam ser outro mundo nouo, reconhece seu alto nome e lhe -paga pareas» e accrescenta em nota: «<i>Taprobana é agora chamada -Samatra</i>» a pag. 14. A essa Taprobana tambem se refere -evidentemente Camões no seu famoso verso:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>Passaram inda além da Taprobana</i></div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Tendo no tempo de Camões chegado os Portuguezes já ao -Japão, era bem natural que, havendo a Taprobana-Ceylão e a -Taprobana-Sumatra a esta ultima se referisse o grande poeta indicando -o limite ultrapassado pelos Portuguezes. O famoso mappa -da cathedral do Hereford colloca a Taprobana defronte do golpho -Arabico. Prisciano no seu poema geographico põe a Taprobana -no mar oriental juntamente com a ilha phantastica do Ouro. -No tratado <i>De moribus brachmanorum</i> que se attribue a S.ᵗᵒ -Ambrosio citado por Klaproth na sua <i>Lettre sur la boussole</i>, pag. -53, põe-se a Taprobana em Ceylão, ilha que tem magnetes que -attrahem os navios que teem pregos de ferro e não os deixa -mover. N’alguns mappas da edade média põe-se a Taprobana -deante da bocca do Ganges.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a> A <i>Aurea Chersoneso</i> de Ptolomeu e de Marino de Tyro -corresponde sem duvida á peninsula de Malaca, mas o mappa -de La Salle por exemplo colloca a <i>Aurea Chersoneso</i> no Indostão.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> <i>Mémoire sur le pays d’Ophir, oú les flottes de Salomon -alloient chercher de l’or</i>, nas <i>Mémoires de littérature de l’Académie -royale des inscriptions et belles-lettres</i>, tom. <span class="allsmcap">XXX</span>, pag. 83 a -93, (Paris, 1764). Este paiz de Ophir tem uma terrivel parecença -com as ilhas de Chryse e de Argyra, e do Sol e dos Homens -e das Mulheres que apparecem nos mappas conjecturaes. -N’alguns mappas Ophir tambem apparece como ilha. Querer -determinal-o não será querer tomar muito ao pé da letra as indicações -vagas da Biblia?</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> A idéa adoptada na edade média, que vinha da antiguidade -e que durou até ao seculo <span class="allsmcap">XVI</span>, é a das duas Ethiopias de -Homero, a que fica entre os dois Nilos, e a que se liga com os -Mauritanos. S. João Damasceno, dividindo os habitantes da terra -segundo as areas dos ventos, dizia: «Ad Africum Ethiopes et occidentales -Mauri, ad Favonium Herculis columnæ, etc.» <i>De fide -orthodoxa</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 69. <i>Apud</i> Visconde de Santarem <i>Essai -sur l’histoire de la cosmographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 32. Assim -é corrente que a baixa Ethiopia começa para os escriptores medievaes -nas proximidades da Mauritania, quer dizer, pega com a -Guiné primitiva, com a Guiné de Bethencourt. O titulo dos reis -de Portugal mostra bem que Ethiopia quer dizer simplesmente -<i>Africa</i>. Assim diz o titulo: Rei de Portugal e dos Algarves, -d’aquem e d’além-mar em Africa... (Este Algarve na Africa -era Ceuta e Tanger, etc.) senhor de Guiné (no sentido que esta -palavra tomou depois dos descobrimentos) da conquista navegação -e commercio da <i>Ethiopia</i> (Africa meridional e oriental) Arabia, -Persia e <i>India</i> (tambem na significação da meia-edade, abrangendo -a Asia Oriental). É curioso que um escriptor moderno, -de grande merecimento, transcrevendo um trecho de um escriptor -já do seculo <span class="allsmcap">XVII</span>, em que se diz que um navio que ia para -a Ethiopia foi levado pelas correntes para o Brazil, com isso -muito se espanta. Não se lembra que a região da Ethiopia comprehendia -até a Africa occidental que ficava para além da Guiné.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> Na primeira viagem, Colombo, chegando a Cuba, disse: -<i>Es cierto que esta es la Tierra-Firme</i>, Diario de 1 de novembro. -Na segunda viagem confirmou essa opinião, e fel-a jurar solemnemente -pelos marinheiros a 12 de junho de 1494. Humboldt -<i>Histoire de la géographie du Nouveau Continent</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, -pag. 310, <i>nota</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> Vejam-se no principio do segundo volume do magnifico livro -de Humboldt as indicações relativas aos mappas d’esse tempo -que separavam umas das outras as diversas porções da America.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> No seu tratado publicado em latim na edição Reich com o -titulo <i>De facie in orbe Lunæ</i>, tom. <span class="allsmcap">IX</span>, pag. 923.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> Sobre as differentes theorias relativas á fórma da terra -veja-se o <i>Essai sur l’histoire de la cosmographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">I</span>, -pag. 14, 223, 410, tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. <span class="allsmcap">XV</span>, <span class="allsmcap">XVII</span>, 32, 252, 258, -10, <span class="allsmcap">LIX</span> a <span class="allsmcap">LXI</span>, 18, 26, 35, 94, 107, 215, etc., etc., tom. <span class="allsmcap">III</span>, -pag. 81, 102, 212, 223, 460, 499, etc.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Santo Agostinho, S. João Chrysostomo, Lactancio, preconisaram -a theoria da <i>terra quadrada</i> declarando-a conforme com -o Evangelho, os mappas medievaes como o de Cosmas Indicopleustas -do seculo <span class="allsmcap">VI</span>, Gervais de Tilbury do seculo <span class="allsmcap">XIII</span>, Nicolau -d’Oresme do seculo <span class="allsmcap">XIV</span>, Guilherme Fillastre do seculo <span class="allsmcap">XV</span>. Umas -vezes inscreviam-n’a no circulo formado pelos mares, outras vezes -pelo contrario, a terra em si é redonda, mas a figura que -está inscripta é quadrada.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Note-se bem que este é que é o systema de Ptolomeu, o -que predominava, apesar de tudo, nos espiritos mais esclarecidos. -Pedro agora vae refutal-o, substituindo-lhe uma outra theoria -scientifica, menos em desaccordo com as affirmações orthodoxas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> <i>Petri Alphonsi Judeo Christiani Dialogi</i>, p. 15, apud. Visconde -de Santarem, <i>Essai sur l’histoire de la cosmographie</i>, etc., -tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 320 a 324.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> «Se as extremidades da Ethiopia nos offerecem figuras -extranhas de homens e de animaes, pouco nos devemos espantar: -é o effeito do excessivo calor que alli reina, porque a acção -do fogo é maravilhosamente propria para fazer tomar ás partes -exteriores de todos os corpos uma infinidade de configurações -diversas.» (Plinio, <i>Historia Natural</i>, tom. <span class="allsmcap">V</span>, cap. <span class="allsmcap">XXX</span>.)</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> Macrobio, <i>In somnium Scipionis</i>, tom. <span class="allsmcap">II</span>, cap. <span class="allsmcap">IX.</span></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Orosio, <i>Ormesta mundi</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> Santo Isidoro de Sevilha, <i>De Lybia</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> Bedo, <i>De Elementis Philosophiæ</i>, tom. <span class="allsmcap">IV</span>, pag. 225.—«... -<i>Pars enim illius torridæ parti aeris subjecta, ex fervore -solis torrida est et inhabitabilis</i>, etc.»</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> S. Virgilio, bispo de Saltzburgo. Veja-se a este respeito a -<i>Historia litteraria de França</i>, tom. <span class="allsmcap">IX</span>, p. 156.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> Raban Mauro de Moguncia, <i>De Universo</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> Alberti Magni Germani, <i>Philosoph. principii, Liber cosmographicus -de natura locorum</i>, fl. 14<i>b</i> e 23<i>a</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> Roger Bacon, <i>Opus majus</i>, pag. 183.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> <i>Conciliator differentiarum philosophorum</i>, Diff. <span class="allsmcap">LXVII</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> <i>De Universo</i>, liv. <span class="allsmcap">XII</span>, cap. <span class="allsmcap">IV</span>, pag. 172.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> <i>Speculum naturale</i>, part. 1.ª, liv. <span class="allsmcap">IV</span>, cap. <span class="allsmcap">XVII</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> <i>De mirabilibus Indiæ.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[36]</a> «Et dien (disent) que illec sont antipodes, c’est-à-dire, -gens qui ont leurs pieds contre nos et pour ce qu’ils sont á l’opposite -partie de la terre, aussi comme s’ils fussent subz nous -et nous soubz eulx. Ceste opinion n’est pas á tenir, et n’est -pas bien concordable á notre foy. <i>Car la loy de Jésus Christ -a esté preschié par toute la terre habitable; et selon ceste opinion, -telles gens n’en auraient oncques ouij parler, ne pourroient estre -subgés à l’église de Rome. Pour ce, reprenne saint Augustin -ceste erreur ou ceste opinion</i>, <i>lib.</i> <span class="allsmcap">XVI</span> <i>«De Civitate Dei»</i> Nicolau -d’Oresme, cosmographo francez do seculo <span class="allsmcap">XIV</span>, preceptor do rei -Carlos V, <i>le Sage</i>.—Manuscripto cosmographico existente na -Bibliotheca Nacional de Paris, com o numero 7487, <i>apud</i>. Visconde -de Santarem, <i>Essai sur l’histoire de la cosmographie</i>, -etc., tom. <span class="allsmcap">I</span>, p. 142.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[37]</a> Quoniam nullo modo scriptura ista mentitur, quæ narratis -præteritis facit fidem eo quod ejus predicta complentur; nimisque -absurdum est, ut dicatur aliquos homines ex hac in -illam partem, Oceani immensitate trajecta navigure ac pervenire -potuisse, <i>ut etiam illic ex uno primo homine genus institueretur -humanum</i>. Lactancio <i>Divinarum institutionum</i>, liv. <span class="allsmcap">III</span>, -cap. <span class="allsmcap">IX</span>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[38]</a> Qua propter inter illos tunc hominum populos qui per septuaginta -duos gentes, et totidem linguas colliguntur, fuisse divisi, -quæramus, si possimus invenire, illam in terris peregrinantem -civitatem Dei, quæ ad diluvium arcamque perducta est, at -que in filiis Noe per eorum benedictiones perseverare monstretur, -maxime in maximo qui est appellatus Sem, quando quidem -Japhet ita benedictus est, ut in ejusdem fratris sui domibus habitaret.—<i>Ibid.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[39]</a> Cosmas Indicopleustas, <i>Topographia Christã</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[40]</a> <i>Ibid.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_41" href="#FNanchor_41" class="label">[41]</a> Cosmas, Santo Isidoro de Sevilha, Anonymo de Ravenna, -Raban Mauro, Honoré d’Autun, Hugo de Saint-Victor, Vicente -de Beauvais, Brunetto Latini, Joinville. A noticia do famoso -chronista de S. Luiz a respeito do Nilo, transcripta pelo visconde -de Santarem no <i>Essai</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 112, nota 3, não -deixa de ser curiosa: «Ici il convient de parler du fleuve qui passe -par le pais d’Egypte, et vient du Paradis Terrestre... Quant -celui fleuve entre en Egypte il y a gens tous experts et accoustumez, -comme vous diriez les pêcheurs des rivières de ce pays-cy -qui au soir jettent leurs reyz au fleuve et es rivières; et au -matin souvent y trouvent et prennent les espiceries qu’on veut -en ces parties de par de ça (dans l’Europe) bien chierement et -au pois, comme canelle, gingembre, rubarbe, girofle, lignum, -aloes et plusieurs bonnes chouses. Et dit—on pais que ces chouses—lá -viennent du Paradis terrestre et que le vent les abat des -bonnes arbres, qui sont en Paradis terrestre.»</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_42" href="#FNanchor_42" class="label">[42]</a> «Para elle (Colombo) o Paraizo Terrestre correspondia -ao castello de Kang—diz dos Persas, e devia achar-se n’um logar -elevado e inaccessivel.»—Reinaud <i>Géographie d’Aboulféda</i>, -tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 252. «A corrente do Orenoque é tão forte que Diogo -de Lepe reconheceu por meio de um <i>escalfador</i> que só se abria -no fundo das aguas, no mar defronte da foz de Orenoque, que, -n’uma profundidade de oito braças e meia, só as duas primeiras -braças do fundo eram de agua salgada, e as outras de agua -doce».—Humboldt, <i>Histoire de la géographie</i>, etc., t. <span class="allsmcap">I</span>, pag. -314.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_43" href="#FNanchor_43" class="label">[43]</a> Lemos n’um manuscripto cosmographico datando d’essa -epocha (seculo <span class="allsmcap">VII</span>) «<i>que a terra é da forma de um cone ou de um -pião</i>, de forma que a sua superficie vai, segundo esse systema, -elevando-se do sul para o norte.» Visconde de Santarem, <i>Essai -sur l’histoire de la cosmographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">II.</span>—<i>Int.</i> pag. <span class="allsmcap">LX</span>. A -fórma ovoide era-lhe attribuida pelo philosopho grego Thalés, seguido -por alguns geographos da edade média. Posidonius dava-lhe -a fórma de uma funda, como Prisciano tambem.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_44" href="#FNanchor_44" class="label">[44]</a> N’uma carta de 1498, publicada por Navarrete, tom. <span class="allsmcap">I</span>, -pag. 256, compara Colombo a terra com uma pera dividida ao -meio, sendo uma parte redonda, e a outra terminada em cone. -Esta carta vem tambem nas <i>Select letters of Christopher Columbus</i>, -publicadas por Major, pag. 130. (Londres, 1847).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_45" href="#FNanchor_45" class="label">[45]</a> Os geographos arabes consideravam Gog e Magog como filhos -de Japhet, devemos accrescentar que era esta a doutrina -mais seguida.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_46" href="#FNanchor_46" class="label">[46]</a> É interessante o que diz ácerca d’estes povos o sur Vivien -de Saint Martin nas suas <i>Recherches sur les populations primitives -et les plus anciennes traditions du Caucase</i>, pag. 40 a 47. -(Paris, 1847). M. de Sacy considera a muralha de Alexandre -como sendo a noção vaga da muralha da China.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_47" href="#FNanchor_47" class="label">[47]</a> Ha poucos annos ainda se publicou, em Hespanha, um livro -do sr. Junquera <i>Origen de los americanos</i>, em que se sustenta -essa doutrina. N’ella se baseia um dos romances, e dos menos -bons, <i>Oak openings</i> do grande romancista americano Fennimore -Cooper.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_48" href="#FNanchor_48" class="label">[48]</a> Mela, <span class="allsmcap">III</span>, c. <span class="allsmcap">VII</span>.—Solino diz que a terra d’essa ilha está -sempre vermelha.—Plinio colloca-a perto da Taprobana.—<i>Hist. -Nat</i>. <span class="allsmcap">VI</span>, 22.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_49" href="#FNanchor_49" class="label">[49]</a> «Colloquei, diz Toscanelli na carta que escreveu a Colombo -e referindo-se ao mappa que mandou ao rei de Portugal, defronte -(das costas da Irlanda e da Africa) direito a oeste o principio -das Indias com as ilhas e os logares a que poderia abordar.»</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_50" href="#FNanchor_50" class="label">[50]</a> Todas estas lendas irlandezas, em abreviada exposição, -se podem ver no excellente livro de mr. de Villemarqué <i>La Légende -Celtique</i>, especialmente na <i>Introducção e na Lenda de S. -Patricio</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_51" href="#FNanchor_51" class="label">[51]</a> Os cavalleiros portuguezes estavam no exercito do duque -de Borgonha, que defendia Arras, e foram ao combate commandados -pelo sire de Cottebrune; os seus adversarios, pertencentes -ao exercito de Carlos VI, eram commandados pelo bastardo -de Bourbon. Veja-se a nossa <i>Historia de Portugal</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. -267, nota (2.ª edição).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_52" href="#FNanchor_52" class="label">[52]</a> <i>Historia da Universidade</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, cap. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 137. (Lisboa, -1892.) A discordancia em que estamos n’este ponto com o -illustre professor não nos impede de reconhecermos que o seu -livro é monumental. O erudito, a cuja opinião elle se encosta, -é João Teixeira Soares, aliás um açoriano benemerito, mas um -dos taes que se deixam arrastar pelo prazer de demolir uma -gloria consagrada.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_53" href="#FNanchor_53" class="label">[53]</a> Veja-se o retrato de Napoleão traçado primorosamente por -Taine nas suas admiraveis <i>Origines de la France contemporaine</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_54" href="#FNanchor_54" class="label">[54]</a> <i>Os filhos de D. João I</i>, cap. <span class="allsmcap">III</span>, <i>A villa do infante</i>, pag. -59 e segg.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_55" href="#FNanchor_55" class="label">[55]</a> Humboldt, <i>Histoire de la géographie du nouveau continent</i>, -tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 334 e segg.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_56" href="#FNanchor_56" class="label">[56]</a> Apud Visconde de Santarem, <i>Recherches sur la découverte</i>, -etc., pag. 113 e 114.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_57" href="#FNanchor_57" class="label">[57]</a> Citado por Humboldt na <i>Histoire de la géographie du nouveau -continent</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 246.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_58" href="#FNanchor_58" class="label">[58]</a> No <i>Boletim da Sociedade de Geographia</i> de Madrid do anno -corrente.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_59" href="#FNanchor_59" class="label">[59]</a> «Mais avant les Portugais aucune nation de l’Europe ne -semble être allée au délà de l’Équateur». (<i>Histoire de la géographie</i>, -etc., tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 290).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_60" href="#FNanchor_60" class="label">[60]</a> «L’horizon géographique s’agrandit peu à peu de la Mer -Égée au méridien des Syrtes, de là aux Colonnes d’Hercule et -hors du détroit avec Hannon vers le sud, avec Pythéas vers le -nord». (<i>Hist. de la géogr.</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 32). O horizonte ampliado -por Pythéas nunca mais se restringiu, porque é que havia -de acontecer o contrario ao horizonte ampliado por Hannon, se -este viajante tivesse ido mais longe do que a costa de Marrocos?</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_61" href="#FNanchor_61" class="label">[61]</a> Ha bullas de Eugenio IV, de Nicolau V, de Martinho V, -de Calixto III, de Xisto IV. A bulla de Calixto III, confirmando -as de Martinho V e Nicolau V, declara que o descobrimento das -terras de Africa Occidental o não possam fazer senão os reis de -Portugal. A bulla está no Archivo Real da Torre do Tombo no -<i>Livro dos Mestrados</i>, fl. 151 e 168. Veja-se a minha <i>Historia -de Portugal</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 248, nota 1, (2.ª edição). A bulla -de Nicolau V, que já citámos, de 8 de janeiro de 1454, concedia -a el-rei de Portugal, ao infante D. Henrique e a todos os reis -de Portugal, seus successores, todas as conquistas de Africa <i>com -as ilhas nos mares adjacentes</i> desde o cabo de Bojador e de Não -e de toda a Guiné com toda a sua costa meridional. (Arch. Real -da Torre do Tombo, maç. 7 de bullas, n.º 29, e maç. 33, n.º -14). Por isso, D. João II, quando fallou a Christovão Colombo -a 9 de março de 1493, lhe disse, que se regosijava tanto mais -com a sua conquista, quanto tudo quanto elle descobrira pertencia -de direito a Portugal. Humboldt, <i>Histoire de la géographie -du Nouveau-Continent</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, sec. 1.ª, Nota E, pag. 331. -E effectivamente por algum tempo se discutiu se os descobrimentos -de Christovão Colombo eram ou não de <i>ilhas nos mares -adjacentes</i> á costa africana. E não acham curioso que, se Francezes -ou Hespanhoes ou Italianos, antes de nós, tivessem passado -para deante do Bojador, acceitassem e reconhecessem e fizessem -respeitar por leis e decretos o direito que nós tinhamos -de não consentir que se fizessem descobrimentos n’esses mares, -ou, no caso de se fazerem, o direito que tinhamos ao menos, á -posse d’essas terras descobertas!!</p> - -<p>A proposito d’esse cavalleiro allemão Balthazar, que acompanhou -Antão Gonçalves, diz o auctor d’este livro: «Antão Gonçalves -voltou a Portugal com os negros, e Balthazar o cavalleiro -allemão que o acompanhava tornou para a sua terra, onde -foi naturalmente a maravilha de todos os que o escutavam, e -um novo Sindbad para os pasmados Germanos. A narração das -tempestades, dos perigos, dos estranhos costumes dos Azenegues -devia occupar bastantes serões de inverno nos velhos castellos -allemães junto da vasta lareira, emquanto gemesse lá fóra o vento -e cahisse a neve cobrindo de alvo manto o solo endurecido.» -<i>Hist. de Portugal</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 252 (2.ª edição).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_62" href="#FNanchor_62" class="label">[62]</a> <i>Olympiada II</i>, 127.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_63" href="#FNanchor_63" class="label">[63]</a> Como se pode ver no 1.º mappa do Atlas do visconde de -Santarem, que é exactamente o mappa catalão de 1375.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_64" href="#FNanchor_64" class="label">[64]</a> <i>Habet</i>, diz o manuscripto de Genova, <i>latitudinem unius -legue et fundum pro majore navi mundi</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_65" href="#FNanchor_65" class="label">[65]</a> <i>La plage de sable, qui, comme on l’a dit, forme presque entiérement -l’embouchure du Rio d’Ouro ne permet pas de penser -que ce lieu puisse recevoir des bâtiments du plus faible tirant -d’eau, il ne peut probablement admettre que des canots.</i> Roussin -<i>Mémoire sur la navigation aux côtes occidentales de l’Afrique</i>, -pag. 96.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_66" href="#FNanchor_66" class="label">[66]</a> Observação já feita pelo visconde de Santarem nas suas -notas á edição da <i>Chronica de Guiné</i> de Azurara. Veja-se tambem -o magnifico capitulo da <i>Vida do principe Henrique</i> do illustre -escriptor Richard Major, capitulo intitulado <i>The slave trade</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_67" href="#FNanchor_67" class="label">[67]</a> Este commentario vem publicado na collecção de Ramusio.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_68" href="#FNanchor_68" class="label">[68]</a> O sabio francez Letronne n’uma memoria publicada no -<i>Journal des Savants</i> de agosto de 1831, diz o seguinte: «L’hypothése -d’un prolongement indéfini de la côte occidentale d’Afrique, -à partir d’une latitude voisine de l’Équateur, était fondée -sur la direction de la côte d’Afrique depuis la rivière de Nun -jusqu’au cap Bojador <i>que l’expédition d’Hannon n’avait pas dépassée</i>.»</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_69" href="#FNanchor_69" class="label">[69]</a> «Ha ainda um personagem duvidoso, diz Renan, este <i>presbyter -Johannes</i>, especie de socio do Apostolo, que perturba -como um espectro toda a historia da Egreja de Epheso e causa -aos criticos bastantes embaraços.» <i>L’Antechrist</i>, pag. <span class="allsmcap">XXIII</span>, trad. -do sr. Theophilo Braga, que cita este trecho nas <i>Lendas Christãs</i>, -cap. <span class="allsmcap">V</span>, <i>As lendas do primado da Egreja</i>, pag. 213 (Porto, -1892). Este livro do sr. Theophilo Braga é na verdade excellente -e foi-me de um grande auxilio n’este estudo ácerca das viagens -da lenda do Prestes João. A não ser o livro de Marco Polo e os -artigos do illustre sinologo Pauthier, que consultámos directamente, -as fontes que citamos são as que o sr. Theophilo Braga -aproveitára e indicára. Folgamos de prestar esta homenagem ao -nosso illustre confrade, porque, apesar de estarmos muito em -desaccordo com alguns dos pontos de vista d’este seu novo livro, -não deixamos de reconhecer que é mais uma prova do muito -talento e da muita erudição do seu auctor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_70" href="#FNanchor_70" class="label">[70]</a> Esta carta vem publicada na <i>Cosmographie et histoire naturelle -fantastique du moyen-âge de Ferdinand Denis</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_71" href="#FNanchor_71" class="label">[71]</a> Por 1122, no pontificado de Calixto.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_72" href="#FNanchor_72" class="label">[72]</a> Ainda na ultima concordata celebrada entre Portugal e a -côrte de Roma ácerca do padroado da India tiveram de ser resalvados -os direitos christãos do rito syriaco.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_73" href="#FNanchor_73" class="label">[73]</a> Theophilo Braga, <i>Lendas Christãs</i>, pag. 227.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_74" href="#FNanchor_74" class="label">[74]</a> Veja-se a <i>Nota explicativa do symbolo da arvore do sol e -da arvore da lua</i>, escripta pelo sr. Felix Lajard, e communicada -ao visconde de Santarem que a publicou no fim do <span class="allsmcap">III</span> volume -do seu <i>Essai sur l’histoire de la cosmographie</i>, etc., pag. -506.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_75" href="#FNanchor_75" class="label">[75]</a> Rosweid, <i>Vitæ Patrum</i>.—<i>Vita S. Macari Romani servi Dei -qui niventus est juxta Paradisum.</i> Andrea Bianco no seu famoso -mappa de 1436 põe o Paraizo n’uma peninsula, e junto do Paraizo -um grande edificio com esta designação: <i>Ospitium Macari</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_76" href="#FNanchor_76" class="label">[76]</a> G. Pauthier <i>Le pays de Tanduc et les descendants du Prêtre -Jehan</i>.—<i>Revue de l’Orient, de l’Algérie et des Colonies</i>, tom. -<span class="allsmcap">XIII</span>, pag. 287. (Paris, 1861). Publica primeiro o capitulo <span class="allsmcap">LXXIII</span>, -da Relação de Marco Polo, que se intitula: <i>Cy devise de la province -de Tanduc, et des descendants du Prestre Jehan</i>, a que se -segue depois o commentario.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_77" href="#FNanchor_77" class="label">[77]</a> Ainda não tinham passado os portuguezes do Cabo Branco, -estava-se apenas no anno de 1441 e já o infante encarregava -Antão Gonçalves de saber alguma coisa ácerca de Prestes João.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_78" href="#FNanchor_78" class="label">[78]</a> Um distincto escriptor francez, Eyriés, que escreveu a -biographia de João Fernandes na <i>Biographie Universelle</i>, diz -que elle fôra o primeiro Europeu que penetrára no interior da -Africa e que as particularidades da relação que elle trouxera -apresentavam uma grande analogia com as da relação de Mungo-Park. -A respeito dos serviços prestados á botanica pelos Portuguezes -vejam-se os estudos de primeira ordem do sr. conde de -Ficalho, <i>Plantas uteis da Africa Portugueza</i>, (Lisboa, 1884), -a <i>Flora dos Lusiadas</i>, (Lisboa, 1880), a <i>Memoria sobre a Malagueta</i>, -(Lisboa, 1878). A respeito dos nossos serviços á ornithologia, -vejam-se as interessantissimas communicações feitas -pelo notavel sabio portuguez o sr. Bocage a Andrade Corvo, e -por elle publicadas nas notas á sua edição do <i>Roteiro de D. João -de Castro</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_79" href="#FNanchor_79" class="label">[79]</a> Alvaro de Freitas ia na expedição commandada por Lançarote, -almoxarife em Lagos, e n’um momento de enthusiasmo -declarou que estava prompto a seguir o seu chefe até ao Paraizo -Terreal. V. a minha <i>Hist. de Portugal</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 271.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_80" href="#FNanchor_80" class="label">[80]</a> Tristão Vaz Teixeira, foi na grande expedição de 1445, -de que fazia parte Soeiro da Costa. Alvaro Fernandes tornou-se -celebre sobretudo pelo descobrimento da Serra Leôa.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_81" href="#FNanchor_81" class="label">[81]</a> Alvaro Fernandes, por exemplo, foi de uma vez do Cabo -Verde á Serra Leôa, e depois Cadamosto e outros exploraram -cuidadosamente a costa intermedia, fazendo então viagem como -se faz, quando se quer estudar uma costa. «A nossa navegação -diz o viajante italiano, sempre foi de dia, lançando ancora todas -as tardes ao sol posto com dez ou doze braças de agua.» <i>Navegações -de Cadamosto (traducção portugueza)</i> pag. 51.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_82" href="#FNanchor_82" class="label">[82]</a> <i>Histoire de la géographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 56 e 57.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_83" href="#FNanchor_83" class="label">[83]</a> <i>Os Côrte-Reaes</i>, pag. 61. (Ponta-Delgada, 1883).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_84" href="#FNanchor_84" class="label">[84]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 57.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_85" href="#FNanchor_85" class="label">[85]</a> Veja-se Herrera, <i>Historia general de los hechos castellanos en -las islas y tierra firme del mar oceano</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, cap. <span class="allsmcap">II</span> e <span class="allsmcap">III</span>, -pag. 4 a 6. (Madrid, 1601).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_86" href="#FNanchor_86" class="label">[86]</a> Veja-se Herrera, <i>Historia general de los hechos castellanos -en las islas y tierra firme del mar oceano</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, cap. <span class="allsmcap">II</span> e <span class="allsmcap">III</span>, -pag. 4 a 6. (Madrid, 1601).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_87" href="#FNanchor_87" class="label">[87]</a> Publicado no <i>Archivo dos Açores</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 24.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_88" href="#FNanchor_88" class="label">[88]</a> Publicado no <i>Archivo dos Açores</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 22.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_89" href="#FNanchor_89" class="label">[89]</a> Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos <i>Côrtes-Reaes</i>, -pag. 62.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_90" href="#FNanchor_90" class="label">[90]</a> Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos <i>Côrte-Reaes</i>, -pag. 63.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_91" href="#FNanchor_91" class="label">[91]</a> É o proprio Humboldt, que, referindo-se ás epochas do -encontro das ilhas diz: «Ces époques sont, pour l’écueil des Formigas, -1431; pour l’île Santa Maria, 1432; pour San Miguel -1444; pour Terceira, San Jorge et Fayal, 1449; pour Graciosa, -1453. La découverte des îles les plus occidentales, Flores -et Corvo, paraît antérieure à 1449, mais cette date est moins -précise». <i>Hist. de la géographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 105.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_92" href="#FNanchor_92" class="label">[92]</a> <i>Os Côrtes-Reaes</i>, pag. 61.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_93" href="#FNanchor_93" class="label">[93]</a> Assim de João Vaz Côrte Real não hesito em referir que -se dizia que foi elle quem descobrira a ilha Terceira e a de -S. Jorge e que por isso recebera a capitania das duas ilhas (!) -Cabo Verde e o Brazil (!!). Tambem a respeito da força de João -Vaz conta com a maior seriedade, e como facto authentico, uma -d’estas lendas que atravessam os seculos, com as suas variantes, -ácerca de homens famosos pela sua força muscular. Assim -diz, que, estando João Vaz Côrte Real no Algarve a passeiar -na sua quinta, veiu visital-o um castelhano muito forçoso, que -tranquillamente, passando n’uma alameda de marmeleiros, os foi -arrancando de um e de outro lado, pondo-lhes as raizes ao sol, -João Vaz não fez a mais leve observação, mas apanhando os -marmellos, apertou-os na mão e esmagou-os completamente não -lhe ficando na mão senão o bagaço. É uma variante da historia -do ferrador, um Mauricio de Sarce ou um D. Pedro II de Portugal. -O rei ou o principe partia com a maior facilidade cada ferradura -que o ferrador lhe apresentava, dizendo-lhe que não era -boa, e o ferrador calado. Quando o alto personagem, pagando -generosamente a sua ostentação de força, deu uma moeda de -ouro ao ferrador, este partiu-a dizendo que não era boa. Como -se vê, é o conto popular sempre com a mesma forma, repetida -por um escriptor crendeiro, cujo testemunho tem comtudo servido -para que escriptores serios percam o seu tempo com umas -das suas lendas!</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_94" href="#FNanchor_94" class="label">[94]</a> <i>Os Côrte-Reaes</i>, pag. 36.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_95" href="#FNanchor_95" class="label">[95]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 35.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_96" href="#FNanchor_96" class="label">[96]</a> <i>Os Côrte-Reaes</i>, pag. 19.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_97" href="#FNanchor_97" class="label">[97]</a> Arch. Nac. da Torre do Tombo, liv. 49 de D. João III, -fl. 243, verso. Transcripto nos <i>Côrte-Reaes</i>, pag. 121 a 125.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_98" href="#FNanchor_98" class="label">[98]</a> Não ha razão seria para que a Groenlandia pertença á -America e não lhe pertençam os Açores. Da Islandia, que é a ultima -parte da Europa, á Groenlandia, vão 240 leguas, de Portugal -a S. Miguel 247. Portanto, se os islandezes descobriram -a America porque chegaram á Groenlandia, com mais razão se -pode dizer que descobriram os Portuguezes a America porque -chegaram aos Açores. É perfeitamente pueril estar a discutir -quem foi que tocou primeiro nas terras americanas, a gloria -consiste em não ter hesitado em atravessar centos e centos de -leguas de mar com o fim de chegar ao Oriente pelo caminho do -occidente.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_99" href="#FNanchor_99" class="label">[99]</a> Diz Pedro Nunes: «E perderam-lhe (<i>os Portuguezes</i>) tanto -o medo (<i>ao mar</i>): que nem ha grande quentura da torrada -zona: nem o descompassado frio da extrema parte do sul: com -que os antigos escriptores nos ameaçavam lhes pode estorvar: -«...Tirará nos muitas ignorancias: e a mostraram ser a terra -mór que o mar (<i>o erro de Colombo</i>): e auer hi antipodas: que -ate os Santos duvidaram: e que nam a regiam que nem por -quente nem por fria se deyee de abitar.» <i>Tratado que o Doutor -Pero Nunes, cosmographo del Rey nosso senhor fez em defensão -da carta de marcar: võ o regimento da altura.</i> Reg. 1. (Lisboa, -1537).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_100" href="#FNanchor_100" class="label">[100]</a> Humboldt, <i>Histoire de la géographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">II</span>. Nota -<i>H</i>, pag. 369.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_101" href="#FNanchor_101" class="label">[101]</a> Veja-se a interessante obra de Navarrete, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. -300.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_102" href="#FNanchor_102" class="label">[102]</a> Strabão, <span class="allsmcap">II</span>, pag. 83, 113 e 116. Itaque, diz Strabão na -formosa passagem em que prophetisa a America, compluribus -verbis persuadere nititur Eratosthenes nisi Atlantici maris -obstaret magnitudo, posse nos navigare in eodem parallelo, ex -Hispania in Indiam per universum id quod reliquem est, demta -dicta distantia (hoc est longitudinæ terræ habitatæ) quæ totius -circuli trientem excedit». Strabo, liv. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 113-114. Assim, -excedendo as terras habitadas a terça parte do parallelo, o -mar a percorrer é um pouco inferior a ⅔ e menos de 240°, -mais de 236°. A differença imaginada por Eratosthenes e Strabão -e a distancia verdadeira não é grande.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_103" href="#FNanchor_103" class="label">[103]</a> Esta carta foi publicada pelo sr. Teixeira de Aragão na -excellente <i>Memoria ácerca do descobrimento da America</i> que -escreveu para o volume consagrado pela commissão portugueza -do centenario de Colombo a esta grande solemnidade. É datada -de Aviz de 20 de março de 1488. Trata Christovam Colombo -por nosso especial amigo.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_104" href="#FNanchor_104" class="label">[104]</a> <i>Os Côrtes-Reaes</i>, pag. 65, nota 123. A carta de doação a -Fernão Dulmo vem publicada no mesmo volume de pag. 64 a -69.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_105" href="#FNanchor_105" class="label">[105]</a> «No me admiro tengais, diz-lhe Toscanelli na sua segunda -carta, tan gran corazon <i>como toda la nacion portugueza, -en que siempre ha habido hombres señalados en todas emprezas</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_106" href="#FNanchor_106" class="label">[106]</a> A carta é de maio de 1505, citada por Navarrete no t. <span class="allsmcap">III</span> -pag. 528, e Humboldt, t. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 260.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_107" href="#FNanchor_107" class="label">[107]</a> Veja-se a minha <i>Historia de Portugal</i>, t. <span class="allsmcap">IV</span>, pag. 272.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_108" href="#FNanchor_108" class="label">[108]</a> Foi Humboldt que fez notar a differença entre as duas -versões da mesma bulla, <i>Hist. de la géographie</i>, etc., sec. <span class="allsmcap">II</span>, t. -<span class="allsmcap">III</span>, pag. 52, nota.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_109" href="#FNanchor_109" class="label">[109]</a> A filha de Izabel a Catholica desposára o filho d’el-rei D. -João <span class="allsmcap">II</span>, o principe D. Affonso que morreu de uma desastrada -quéda de cavallo a 13 de julho de 1491.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_110" href="#FNanchor_110" class="label">[110]</a> Humboldt, <i>Histoire de la géographie</i>, etc., sec. <span class="allsmcap">II</span>, t. <span class="allsmcap">III</span>, -pag 55.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_111" href="#FNanchor_111" class="label">[111]</a> <i>Quadro elementar das relações politicas e diplomaticas de -Portugal com as diversas potencias do mundo</i>, t. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 390 -Lisboa, 1844. O tratado vem publicado <i>in extenso</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_112" href="#FNanchor_112" class="label">[112]</a> Pedro Martyr d’Anghiers, <i>Oceanicas</i>, dec. <span class="allsmcap">VIII</span>, cap. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_113" href="#FNanchor_113" class="label">[113]</a> Foi o duque de Medina-Sidonia que se offereceu para ir -com as suas caravelas em perseguição dos portuguezes, e a 2 -de maio de 1493 pediam os reis catholicos ao duque que as tivesse -prestes, a 12 de junho e 27 de julho affiançavam a Colombo -que não havia motivo para se desconfiar do rei de Portugal, -doc. n.ºs 16, 50 e 54 publicados na <i>Collecção de viagens -e descobrimentos</i>, citados pelo sr. Teixeira de Aragão a pag. 18 -da sua <i>Breve memoria sobre o descobrimento do Brazil</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_114" href="#FNanchor_114" class="label">[114]</a> O trecho da <i>Esmeralda</i> é o seguinte: «Como no terceiro -anno do vosso reinado do anno de Nosso Senhor de mil quatrocentos -noventa e oito donde nos vossa alteza mandou descobrir -a parte occidental, passando além do grande mar oceano, -onde é achada e navegada uma tão grande terra firme com muitas -grandes ilhas adjacentes a ella, que se estende a setenta graus -de ladeza da linha equinocial contra o polo arctico.» <i>Esmeralda</i> -liv. 2.º, cap. <span class="allsmcap">I</span>, transcripto pelo sr. Teixeira de Aragão na sua -<i>Breve Noticia</i>, etc., pag. 47. D’este trecho deduz-se que Duarte -Pacheco foi mandado descobrir para o occidente em 1498, o -que não faz senão confirmar o que temos dito, mas não que -Duarte Pacheco descobriu o Brasil. Nem elle diz que <i>achou e -navegou</i> essa terra, mas sim que essa terra <i>é achada e navegada</i>, -e isto em 1505.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_115" href="#FNanchor_115" class="label">[115]</a> <i>Roteiro geral do globo</i>, tom. <span class="allsmcap">XI</span>, sec. 1.ª, pag. 2 (Lisboa -1839). Mouches, <i>Les côtes du Brésil</i>, sec. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 8 (Paris, -1864).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_116" href="#FNanchor_116" class="label">[116]</a> N’uma das sessões do <i>Instituto Historico Geographico do -Brasil</i>, o imperador D. Pedro <span class="allsmcap">II</span> propoz como assumpto de discussão -«se a descoberta do Brasil foi intencional ou devida ao -acaso». Joaquim Norberto fez uma memoria interessante sustentando -que a descoberta foi intencional, Machado de Oliveira -fez uma memoria de uma futilidade inexcedivel e de uma grosseria -imperdoavel que nem merece que d’ella nos occupemos, -Gonçalves Dias sustentou com argumentos broncos, mas com -vigor de estylo, mostrando-se muito talentoso e muito erudito, -que a descoberta fôra occasional. Joaquim Norberto replicou e -muitissimo bem. O unico argumento de algum peso que Gonçalves -Dias apresentava era o da corrente equatorial que corre -de léste para oeste. É esse exactamente o que o sr. Baldaque -da Silva destróe technicamente e de um modo completo.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_117" href="#FNanchor_117" class="label">[117]</a> <i>Les côtes du Brésil</i>, pag. 115, nota <i>a</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_118" href="#FNanchor_118" class="label">[118]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 12.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_119" href="#FNanchor_119" class="label">[119]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 116, nota <i>a</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_120" href="#FNanchor_120" class="label">[120]</a> «Sahindo do dito Cabo Verde, esta terra jaz entre Oeste e -Sudoeste, ventos principaes, e dista do dito Cabo Verde quatrocentas -leguas». <i>Carta de Portugal enviada ao rei D. Manuel -ácerca da viagem e successo da India</i>, traduzida da versão italiana -pelo sr. Prospero Peragallo, e por este publicado com o -texto italiano e annotado nas <i>Memorias da commissão portugueza -do centenario de Colombo</i>. O trecho que citamos vem a -pag. 9 <i>in fine</i>. Como se vê, estando a 400 leguas de distancia -não a oeste, mas a oes-sudoeste a distancia do meridiano de -Cabo Verde ao meridiano de Vera-Cruz não podia ser superior -a 370 leguas. Pero Vaz de Caminha disséra-lhe: «Topamos algūus -synaes de terra seendo da dita ilha (<i>S. Nicolau de Cabo-Verde</i>) -segundo os pilotos diziam obra de VIᵉ <span class="smcap">Lx</span> ou <span class="allsmcap">LXX</span> legoas -ᵉlc (670 <i>ou</i> 701 <i>leguas</i>)». Esta carta de Pero Vaz Caminha tem -sido muitas vezes publicada. Fazemos o nosso extracto da memoria -do sr. Aragão, onde vem nos documentos, pag. 66.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_121" href="#FNanchor_121" class="label">[121]</a> A carta do jesuita Antonio de Sá escripta em hespanhol -aos jesuitas da Bahia e datada de S. Vicente, 13 de junho de -1559 diz: «Un Indio que se llama Belchior está puesto en ayunar -todos los dias que manda la Iglesia, y sin yo le hablar nada, -preguntóme que le hiziese saber los dias de ayuno y cual no se -comia carne, diciendome que antes <i>que muriese Juan Ramallo -que el se lo dezia y ayunaba todos los dias que la Iglesia manda</i>.» -O estudo a que nos referimos feito pelo sr. Candido Mendes de -Almeida vem publicado na <i>Revista trimensal do Instituto Historico -Geographico do Brasil</i>, e n’esse periodico vem tambem -as memorias de Joaquim Norberto, Gonçalves Dias e Machado -de Oliveira, a que atraz nos referimos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_122" href="#FNanchor_122" class="label">[122]</a> «ao qual monte alto, diz Pero Vaz de Caminha, o capitam -poz o nome de monte pascoal e aa tera a tera de Vera-Cruz». -Depois de ter entrado em communicação com os habitantes é -que Pedro Alvares Cabral considerou a terra como uma ilha, e -a denominou <i>ilha de Vera Cruz</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_123" href="#FNanchor_123" class="label">[123]</a> Strabão <span class="allsmcap">XI</span>, pag. 518.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_124" href="#FNanchor_124" class="label">[124]</a> Pomponio Mela, t. <span class="allsmcap">III</span>, c. 5, 98.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_125" href="#FNanchor_125" class="label">[125]</a> <i>Les Corte-Real</i> par mr. H. Harrisse, pag. 209. Ernesto -do Canto, <i>Os Côrtes-Reaes</i>, pag. 211.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_126" href="#FNanchor_126" class="label">[126]</a> <i>Histoire de la Géographie</i>, etc., t. <span class="allsmcap">IV</span>, pag. 263.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_127" href="#FNanchor_127" class="label">[127]</a> Legenda do mappa mandado fazer em Lisboa por Alberto -Cantino em 1502. O sr. Ernesto do Canto transcreve-a a pag. -208 do seu livro.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_128" href="#FNanchor_128" class="label">[128]</a> Esta curiosa doação foi publicada em texto latino por Bidle -na obra que saío anonymamente em Londres, 1831 e que -se intitula <i>A Memoir of Sebastian Cabot with a Review of the -History of Maritime Discovery, illustrated by documents from -the Rols, new first published</i>. Abrange de pag. 312 a 320. O sr. -Ernesto do Canto publica tambem o texto latino com a traducção -portugueza no seu livro <i>Os Côrtes-Reaes</i> e abrange de pag. -74 a 87.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_129" href="#FNanchor_129" class="label">[129]</a> E. do Canto, <i>Os Côrtes-Reaes</i>, texto italiano a pag. 45 e -46, traducção latina de Madrijuan a pag. 47 e 48.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_130" href="#FNanchor_130" class="label">[130]</a> São interessantissimas as indicações dadas a esse respeito -pelo sr. Patterson, na sua magnifica memoria. A bahia de Fundy, -diz elle, é evidentemente a Bahia Funda. Tambem nota que apparece -lá o nome de Tanger, que não podia ter sido posto senão -pelos portuguezes, senhores então d’essa praça, e sempre tão -relacionados com ella.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_131" href="#FNanchor_131" class="label">[131]</a> «There are about 100 sail of Spaniards who come to take -cod, who make it all wet and dry... As touching their tonnage -I think it may be 5,000 or 6,000. Of Portugals there are not -above fifty or sixty sail, whose tonnage may amount to 5,000, -and they make all wet.» Citado pelo reverendo George Patterson -na excellente memoria que publicou nas <i>Trans-Roy. Soc. -Canada</i>, e que se intitula <i>The Portuguese in the North-East -coast of America, and the first European attempt at Colonization -there. A lost chapter in American History</i>, pag. 145. Esta -memoria foi lida na <i>Royal Society</i> a 28 de maio de 1890.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_132" href="#FNanchor_132" class="label">[132]</a> Esta exploração outr’ora tão importante e activa, na qual -estavam empenhados capitaes e interesses tão avultados, concorrendo -para ella tantas partes do nosso continente, vê-se hoje -reduzida a uma duzia de navios que a entretêem apenas em dois -centros de pescarias: Figueira da Foz e Lisboa.» A. A. Baldaque -da Silva, <i>Estado actual das pescas em Portugal</i>, pag. 166. -E diz, em nota, que a pesca do bacalhau era tão importante no -tempo de D. João <span class="allsmcap">III</span> e d’el-rei D. Sebastião «que foi providenciada -por um regimento particular para as frotas que annualmente -expediam a esta pescaria.»</p> - -<p>Emquanto á colonisação, que foi motivada exactamente pela -importancia da pesca do bacalhau, foi promovida por varias pessoas -de Vianna do Minho, muito interessadas n’este negocio da -Terra Nova, pelas muitas relações que tinham com os Açorianos. -D’esta colonisação dá conta um interessante folheto publicado -ha poucos annos, mas escripto no seculo <span class="allsmcap">XVI</span>, que se intitula: -<i>Tratado das ilhas novas e descobrimento d’ellas e outras -coisas feito por Francisco de Souza, feitor d’El-Rei Nosso Senhor, -na capitania da cidade do Funchal da ilha da Madeira e -natural da mesma ilha e assim de parte da nação portugueza -que está em uma grande ilha, que n’ella foram ter no tempo da -perdição das Espanhas, que ha trezentos e tantos annos em que -reinou El-Rei Dom Rodrigo. Dos Portuguezes que foram de -Vianna e das Ilhas dos Açores a povoar a Terra Nova do Bacalhau -vae em sessenta annos, do que succedeu, o que adiante se -trata. Anno do Senhor de 1570. Ponta Delgada, S. Miguel, -Açores 1877.</i></p> - -<p>É curiosa a mistura de lenda e de verdade que n’este titulo -se encontra. Ao lado de uma colonisação perfeitamente authentica -n’uma ilha certa é conhecida ainda a velha lenda da ilha -das Sete Cidades colonisada pelos sete bispos, que fugiram da -Peninsula com os seus fieis no tempo do rei Rodrigo!</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_133" href="#FNanchor_133" class="label">[133]</a> «Outros chamam-lhe, diz D. Manuel, terra nova ou novo -mundo».</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_134" href="#FNanchor_134" class="label">[134]</a> Veja-se o estudo desenvolvido de Humboldt, que aliás não -vê as coisas debaixo do nosso ponto de vista nas notas finaes do -vol. <span class="allsmcap">V</span>, da sua <i>Histoire de la géographie</i>, etc., da pag. 180 em -diante.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_135" href="#FNanchor_135" class="label">[135]</a> <i>Recherches historiques, critiques et bibliographiques sur -Améric Vespuce et ces voyages.</i>—Paris, sem data.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_136" href="#FNanchor_136" class="label">[136]</a> Veja-se a carta de mr. Letronne a Humboldt, publicada -no vol. <span class="allsmcap">III</span>, da sua <i>Histoire de la géographie</i>, etc., da pag. 119 -em diante.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_137" href="#FNanchor_137" class="label">[137]</a> Veja-se Humboldt, <i>Histoire de la géographie</i>, etc., tom. -<span class="allsmcap">II</span>, pag. 26 e segg. Falando do globo de João Schoner diz: «Figurou -no globo o estreito no logar em que Colombo debalde o -procurara.» No globo de Weimar (que tem a data de 1534) ha -dois estreitos, um a 42° de latitude sul, e outro no isthmo de -Panamá a 10° de latitude ao norte do Equador.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_138" href="#FNanchor_138" class="label">[138]</a> «Se não tivessemos achado este estreito, diz Pigafetta, o -capitão-general estava disposto a ir até 75 graus para o polo antarctico -onde no verão não ha noite, ou muito pouca e da mesma -maneira no inverno não ha luz do dia ou ha pouquissima.» <i>Navegação -e viagem que Fernando de Magalhães fez de Sevilha a -Moluco no anno de</i> 1519, pag. 61 da traducção ingleza de sir -Stanley de Alderley, (Londres, 1874).</p> - -</div> - -</div> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Os descobrimentos portuguezes e os de -Colombo, by Manuel Pinheiro Chagas - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES *** - -***** This file should be named 63534-h.htm or 63534-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/5/3/63534/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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