summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
authornfenwick <nfenwick@pglaf.org>2025-02-04 09:19:16 -0800
committernfenwick <nfenwick@pglaf.org>2025-02-04 09:19:16 -0800
commit8676c2fbb62f3b2fc4a63324cf8446ffbf95fd71 (patch)
treecbb832de1d4ff539dc7a1852341309ea9728dea9
parentdfcc57de0448ba7fe4a2f71e8a83d212458b8b28 (diff)
NormalizeHEADmain
-rw-r--r--.gitattributes4
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
-rw-r--r--old/63534-0.txt5476
-rw-r--r--old/63534-0.zipbin129663 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/63534-h.zipbin186125 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/63534-h/63534-h.htm8008
-rw-r--r--old/63534-h/images/cover.jpgbin42050 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/63534-h/images/crest.jpgbin9627 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/63534-h/images/line.jpgbin6072 -> 0 bytes
10 files changed, 17 insertions, 13484 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..d7b82bc
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,4 @@
+*.txt text eol=lf
+*.htm text eol=lf
+*.html text eol=lf
+*.md text eol=lf
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..e192216
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #63534 (https://www.gutenberg.org/ebooks/63534)
diff --git a/old/63534-0.txt b/old/63534-0.txt
deleted file mode 100644
index 4acbc90..0000000
--- a/old/63534-0.txt
+++ /dev/null
@@ -1,5476 +0,0 @@
-The Project Gutenberg EBook of Os descobrimentos portuguezes e os de
-Colombo, by Manuel Pinheiro Chagas
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo
- Tentativa de coordenação historica
-
-Author: Manuel Pinheiro Chagas
-
-Release Date: October 23, 2020 [EBook #63534]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES E OS DE COLOMBO
-
-
-
-
- OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES
- E
- OS DE COLOMBO
-
- [Illustration]
-
- TENTATIVA DE COORDENAÇÃO HISTORICA
- POR
- MANUEL PINHEIRO CHAGAS
- SECRETARIO GERAL DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
-
- [Illustration]
-
- LISBOA
- Typographia da Academia Real das Sciencias
- 1892
-
-
-
-
-I
-
-Os problemas geographicos do seculo XV
-
-
-A festa do centenario de Colombo deve acima de tudo ser uma festa de
-justiça e um dos grandes jubileus da humanidade. Os centenarios dos
-grandes homens e os centenarios dos grandes acontecimentos são as
-solemnidades com que se festeja sobretudo a chegada a cada um dos marcos
-milliarios da estrada, que até agora parece ser infinita, do Progresso.
-Lançando os olhos para o passado, vê-se que a humanidade não parou um
-só instante na sua marcha para um fim ainda hoje desconhecido. Parece
-ás vezes aos observadores superficiaes que ha epochas em que se recúa,
-porque se extingue uma luz que brilhava com immensa intensidade, ou
-porque retrocede uma ou outra das legiões que formam o immenso exercito
-da especie humana; mas, se ha umas que retrocedem, porque estavam muito
-adeante das outras, estas em compensação avançam e ganham o terreno
-perdido pelos seus companheiros de jornada. Se um clarão se apaga, outros
-ha que se accendem em pontos que até ahi estavam immersos em trevas
-profundas. O nivel da humanidade restabelece-se como se restabelece o
-nivel das aguas depois dos grandes cataclysmos que afundam as mais altas
-montanhas, e que deixam enxutas immensas planicies cobertas até ahi
-pela vaga. Assim não ha um só dos grandes cataclysmos historicos de que
-não resultasse um progresso. Mudou-se a fórma da civilisação occidental
-quando cahiu o imperio romano. Ao impulso dos barbaros alluiram-se as
-instituições e os monumentos, a sciencia e as lettras eclipsaram-se, mas
-a alma humana illuminou-se com a irradiação do Evangelho que só n’essa
-raça virgem que vinha do Norte e do Oriente podia accender os candidos
-explendores que foram como que novas estrellas no nosso firmamento
-moral, que foram a divinisação da mulher e a apotheose da familia e ao
-mesmo tempo a esperança immortal que expirára no mundo antigo podre de
-civilisação e que reviveu no mundo barbaro. Cahiam deante do alvião
-vandalico os monumentos magestosos de Roma e as puras obras primas da
-Grecia, mas erguia-se envolta n’um nimbo estranho de fé e de poesia
-a cathedral gothica, e recortavam-se em mil caprichos phantasticos
-as torrinhas e as innumeraveis agulhas dos paços municipaes, em que
-a burguezia ostentava, em frente da realeza da espada, a realeza do
-trabalho. Desappareciam debaixo dos codices monachaes as obras primas
-dos tragicos e as epopéas gregas, mas a alma complexa da tumultuosa meia
-edade palpitava nos tercetos de Dante. E, quando a invasão musulmana
-derrubava no Oriente o ultimo baluarte da antiguidade erudita, quando a
-Grecia via os seus marmores despedaçados pelas ferraduras dos cavallos do
-deserto, e o Egypto as suas esphinges sepultadas nas nuvens de areia que
-as hordas arabes levantavam, no Occidente arrancava Colombo á esphinge do
-Oceano o seu segredo secular, fixava para sempre Guttemberg os vestigios
-do pensamento humano, e ás portas orientaes, vindas de remoto occaso,
-assomavam as prôas das caravelas portuguezas, que acabavam de sulcar,
-vanguarda da civilisação, as ondas do mar Tenebroso illuminadas pela sua
-audacia.
-
-Estas festas devem ser porém acima de tudo as festas da justiça,
-porque n’ellas devem emmudecer perante a grande causa da humanidade as
-mesquinhas invejas, as pequeninas rivalidades nacionaes, com que por
-muitas vezes se procura deslustrar a memoria d’aquelles, que foram os
-agentes providenciaes d’estas grandes transformações. O progresso humano
-obedece a leis de uma ineluctavel logica. Não ha saltos nem lacúnas.
-Tudo se succede com uma logica surprehendente. As grandes descobertas
-derivam-se umas das outras. Todo o grande homem tem os seus humildes
-predecessores. O seu genio fórma-se com elementos dispersos que elle
-aproveita, concatena, e de que tira só elle o resultado fecundo. Não
-foi Watt que inventou a machina de vapor, mas a elle e só a elle cabe
-a gloria do invento, porque foi o seu genio que encontrou o segredo
-capital, sem o qual essa machina não seria sempre senão uma curiosidade,
-inutil para os grandes progressos da sciencia e da industria. Não foi
-Colombo sem duvida o primeiro que sonhou que para além das vagas do
-Atlantico se encontrava terra, nem o primeiro que devaneou que a marcha
-de um navio pelo occidente o deveria conduzir ás plagas orientaes da
-Asia. Não foi o infante D. Henrique o primeiro que pensou que, torneando
-a Africa, se poderia chegar ao mar Roxo e á India, mas foram Colombo e o
-infante D. Henrique que tiveram a audacia, a fé e o espirito scientifico,
-foram elles que romperam os obstaculos, deante dos quaes recuava
-pallida e tremente a multidão dos navegantes, ou refugia hesitante o
-sonho de alguns capitães devaneadores. A elles cabe sem duvida a gloria
-incontestavel, perante elles se deve curvar com respeito a humanidade,
-que só a elles deve a conquista maravilhosa de mais de metade da terra.
-
-Quando vejo a azafama com que procuram ainda hoje espiritos demolidores
-sustentar que os Portuguezes foram precedidos por outros povos nos seus
-descobrimentos, que teve Colombo predecessores no descobrimento da
-America, pasmo que se não veja claramente o obstaculo deante do qual
-baqueiam todos os seus argumentos. Esse obstaculo é o seguinte: antes
-dos navegadores do infante D. Henrique terem demonstrado o contrario,
-era ponto incontestavel para todos a impossibilidade de se viver na
-zona torrida. Antes de Colombo ter mostrado o contrario, era ponto
-incontroverso que a immensa extensão do Atlantico tornava impossivel que
-um navio, caminhando na direcção do occidente, encontrasse terra antes
-de terem perecido de fome e de sede todas as tripulações. Pois, se um
-navio qualquer tivesse, como se diz dos navios dieppezes, chegado antes
-de nós ás costas da Guiné, não estava desde logo quebrado o encanto, não
-cahia por terra toda a geographia systematica dos antigos, não estava
-aberto para sempre o _mare clausum_, e podia alguem sustentar ainda que
-era inhabitavel a zona torrida, quando havia em França marinheiros que
-a tinham atravessado sem perigo, que tinham voltado incolumes, deixando
-n’essas regiões que todos diziam completamente queimadas pelo sol
-colonias florescentes como esse Petit-Dieppe e esse Petit-Paris, que
-ainda hoje são citadas por escriptores francezes notabilissimos, em cujo
-espirito um mal-entendido amor patrio parece extinguir completamente
-a faculdade do raciocinio? Seria necessario que essa descoberta fosse
-completamente inconsciente, que os marinheiros nem soubessem que tinham
-entrado na zona torrida, e essa ignorancia é completamente incompativel
-com os conhecimentos embora rudimentares que precisava de ter o navegador
-que se arriscava a tão aventurosas viagens.
-
-O mesmo diremos das navegações antigas de que se encontra noticia nos
-livros de Herodoto e no Periplo de Hannon. Se os marinheiros phenicios de
-Necho tivessem dado volta ao cabo da Boa Esperança, e tivessem entrado no
-Mediterraneo pelo estreito de Gibraltar, percorrendo tão immensa extensão
-de costas, como poderiam persistir no espirito dos geographos antigos
-idéas tão absolutamente falsas a respeito da configuração da Africa e da
-distribuição das zonas? Pode allegar-se por acaso que essa viagem não
-deixou vestigios, quando vemos que as viagens dos Phenicios nos mares
-da Europa tão difficeis e tão inhospitos foram sempre continuadas, que
-nunca se perdeu o conhecimento da Islandia, essa terra gelada, e que pelo
-contrario perderam immediatamente esses Phenicios, esses Orientaes, que
-viviam nas terras ardentes, o conhecimento de costas que o sol tambem
-aquecia e em que encontravam muitas vezes como que a reproducção das
-suas terras nataes? E não seria extranho tambem que Hannon tivesse feito
-a longa viagem que do seu Periplo se quer deduzir que fez, e que se
-apagasse completamente na memoria carthagineza o conhecimento das terras
-percorridas em tão memoravel expedição, preferindo tambem, ao que parece,
-esses filhos de paiz africano, as costas geladas e os mares tempestuosos
-da Europa ao clima quente e ao mar sereno da Africa Occidental?
-
-O que é estranho realmente, é que o alto espirito de Humboldt acceitasse
-sem exame as pretenções dos Normandos, limitando-se a observar na sua
-_Historia da geographia do Novo Continente_ que esses factos citados
-não diminuem a gloria de quem tentou a exploração seguida das costas
-africanas![1] Não viu o grande historiador, o immortal geographo, que
-esses factos isolados bastavam para destruir todas as lendas, que eram
-a chave com que ficava para sempre aberto o mar Tenebroso, que só se
-abriu comtudo radiante de luz deante dos esforços dos navegadores
-portuguezes, que bastavam para abrir o caminho para a _terra antichtona_,
-para o _alter orbis_, onde muitos diziam que ficava situado o Paraizo
-Terrestre, e que nós não poderiamos conhecer nunca, porque ás duas
-zonas temperadas se interpunha, intransitavel e terrivel, a zona torrida
-completamente queimada pelo sol? Tão profunda seria a ignorancia em
-Dieppe que ninguem visse a importancia da maravilhosa expedição? Nos
-seculos XIII e XIV, sobretudo, em que já começava a actuar nos espiritos
-europeus a febre das viagens, já depois de Marco Polo ter escripto a
-sua curiosa narrativa, depois das viagens para o Oriente de Rubruquis
-e de Carpino, e das viagens de sir John Mandeville, quasi um normando
-tambem? Ninguem via semelhante coisa! Tendo de casa quem lhes ensinasse a
-verdade, continuavam geographos e cartographos, todos os sabios, todos os
-estudiosos a repetir as velhas fabulas, a encher de monstros horrificos
-os desconhecidos plainos africanos, a pintar a vermelho nos mappas,
-para bem indicar o ardor do clima, os mares equatoriaes? Possuindo
-colonias na costa africana, tendo marinheiros que tão bem conheciam
-esses mares podiam os reis de França consentir que, por bulla de 8 de
-janeiro de 1454, o papa Nicolau V concedesse aos reis de Portugal «todas
-as conquistas da Africa com as ilhas nos mares adjacentes _desde o cabo
-Bojador e de Não até toda a Guiné com toda a sua costa meridional_?»[2].
-E era possivel ainda que no principio do seculo XV os capellães de João
-de Bethencourt, _fidalgo normando_ que occupára as Canarias, compondo a
-narrativa da famosa expedição, nem uma palavra escrevessem ácerca das
-expedições dos seus patricios, e que pelo contrario dissessem, elles
-normandos, que «_si aucun noble prince du royaume de France ou d’ailleurs
-vouloit entreprendre aucune grande conqueste par deçà, qui seroit une
-chose bien faisable et bien raisonnable, le pourroit faire à peu de
-frais; car Portugal et Espagne et Aragon les fourniroient pour leur
-argent de toutes vitoailles et de navires plus que nul autre pays, et
-aussi de pilotes qui savent les ports et les contrées_?»[3]
-
-Com tanta superficialidade porém se estudam estes assumptos que nem
-se pensa em se saber se a Guiné do seculo XIV é a Guiné posterior aos
-descobrimentos. Isso leva escriptores francezes e o proprio Humboldt
-a allegar que este mesmo Bethencourt explorou a Guiné antes dos
-portuguezes, sem verem que o que os seus capellães contam é o seguinte:
-que «os navegantes normandos se affogaram nas costas _da Barbaria ao
-pé de Marrocos_»,[4] e que Bethencourt tencionava visitar a parte da
-«terra firme que fica _entre o cabo Cantim e o Bojador_»[5] que para isso
-consultara o livro de um religioso hespanhol «_que visitára a Guiné,
-mas que, chegando ao cabo Bojador se limitára a reconhecer as ilhas que
-ficavam áquem_».[6] A Guiné do tempo de Bethencourt era, como se vê, a
-que ficava para cá do cabo Bojador, e tanto assim que o papa Innocencio
-VII disse, escrevendo a Bethencourt, que sabia ficarem as ilhas Canarias
-a doze leguas de Guiné.[7]
-
-Que immenso cuidado é necessario, quando se procura destruir uma tradição
-profundamente e fortemente documentada! Quantas causas de erro escapam ao
-investigador ou frivolo, ou negligente, que se ufana de encontrar n’um
-velho alfarrabio um facto que vem destruir completamente o que parecia
-assente e demonstrado! Basta uma variação de nome para transtornar todas
-as deducções. Basta que uns não saibam, que outros não reparem que o nome
-de Guiné foi mudando de sitio, como outros muitos nomes geographicos,
-á medida que os descobrimentos foram caminhando, para que todas as
-interpretações caiam por terra! Não basta que se diga que no seculo
-XIV ou XV houve Francezes que chegaram á Guiné, torna-se indispensavel
-apurar tambem se a Guiné do principio do seculo XV era a mesma que assim
-se denominou depois dos descobrimentos. Este apuramento, d’onde resulta
-sabermos que a Guiné ficava, para os capellães de Bethencourt, áquem do
-cabo Bojador, destruiria completamente a singularissima reivindicação
-franceza se tantos argumentos fortissimos não houvesse para lhe
-demonstrar a inanidade.[8]
-
-É o que succede tambem com os detractores de Colombo. Não vêem
-immediatamente os que dizem que antes de Colombo chegaram a terras
-americanas João Vaz Côrte Real, ou o francez Jean Cousin, que, se algum
-d’elles tivesse levado a termo tão importante expedição, bastava isso
-para ficar logo resolvido o grande problema do fim do seculo XV que
-trazia preoccupados sabios e estudiosos, deante do qual tanto hesitou D.
-João II, que inflammou em França o animo do cardeal Pedro d’Ailly, em
-Italia o do famoso Toscanelli! Com que jubilo se saudaria essa resolução
-do grande problema!
-
-O que faz tambem com que homens de valor no nosso tempo possam acceitar
-fabulas tão pueris, como a de João Vaz Côrte Real e a de Jean Cousin, é
-que raros estudam a fundo o problema que pretendem resolver a seu modo, e
-não o sabem pôr em equação. Uns estabelecem a lenda de Christovão Colombo
-considerado como um visionario por dizer que se encontraria a India
-navegando-se pelo occidente, outros a lenda de Christovão Colombo tratado
-como um louco por imaginar que para o lado do occidente havia terras. E
-por isso dizem uns que elle sabia perfeitamente que havia terras porque
-tinha conhecimento de viagens a que os navegadores não tinham ligado
-importancia alguma e que tinham passado despercebidas, outros que algum
-dos reis com quem elle tratara, D. João II por exemplo, não ignoravam que
-havia terras para o occidente a grandissima distancia da Europa, porque a
-essas terras já um portuguez aportara, mas estavam convencidos que essas
-terras não eram a India, e n’isso, accrescenta-se, eram elles que tinham
-razão e não Colombo.
-
-É mal posto o problema: que se poderia chegar á Asia indo-se pelo
-occidente, raros seriam os homens de alguma instrucção que o podessem
-pôr em duvida. A idéa da esphericidade da terra já penetrara em todos
-os espiritos, e a sua consequencia natural era que pelo occidente se
-poderia chegar ao oriente. Que devia haver terras para o occidente
-era por conseguinte egualmente incontestavel. A questão toda estava
-exclusivamente na distancia.
-
-D. João II não julgava Colombo um visionario por elle lhe dizer que pelo
-occidente se chegaria á India, julgou-o um visionario por elle suppôr
-que poderia atravessar para chegar ao seu destino a enorme extensão dos
-mares. Não o suppoz visionario por elle cuidar que encontraria terras ao
-occidente, ainda que essas terras não fossem a India, suppôl-o visionario
-por elle imaginar que teria tempo de chegar a essas terras a salvamento.
-Logo, se Jean Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem realisado essa
-façanha, estavam dissipadas todas as duvidas.
-
-Havia terras a grande distancia da Europa, terras que ou seriam a
-India, ou algum d’esses archipelagos em que Toscanelli tinha fé, que
-serviriam de escala aos navios que demandassem pelo occidente a Asia?[9]
-O jubilo immenso que se sentiu na Hespanha quando Christovão Colombo
-voltou, sentir-se-hia em Lisboa quando João Vaz Côrte Real tornasse, ou
-sentir-se-hia em França quando Jean Cousin entrasse n’algum dos seus
-portos.
-
-O erro d’aquelles que assim procuram contrapôr a glorias consagradas
-não só pela tradição, mas pelos factos incontestados e pelos
-resultados conseguidos, estas lendas pueris forjadas ou pela inveja
-dos contemporaneos, ou pela phantasia audaciosa dos historiadores sem
-probidade scientifica que abundaram no seculo XVII, está em pôrem
-completamente de parte o estudo do meio em que os grandes descobrimentos
-se fizeram, de modo que o infante D. Henrique e Colombo apparecem como
-uns vultos inexplicaveis sem raizes no passado e sem relações de especie
-alguma com o espirito das gerações de que fizeram parte. Querem então
-reduzir á estatura normal esses vultos descommunaes, e aproveitam
-qualquer tradição apocrypha para mostrarem com um sorriso de mofa, que
-elles não fizeram senão aproveitar os esforços inconscientes feitos por
-alguns vultos humildes, para forjarem com esse metal roubado a pobres as
-estatuas da sua grandeza.
-
-Applique-se o methodo scientifico ao estudo d’estes grandes phenomenos da
-vida da humanidade, e ver-se-ha como o genio d’estes dois homens apparece
-ainda mais brilhante quando vemos que elle resume as vagas aspirações da
-geração a que pertencem, satisfaz a anciedade que ella sente, encontrando
-a solução que os outros debalde procuram. O infante D. Henrique surge no
-meio de uma geração que se debate na ancia do desconhecido, que se julga
-apertada na jaula d’este mundo antigo, e anceia por encontrar espaço mais
-amplo em que mais livremente respire. Havia um seculo já que a sede das
-viagens se apoderara dos espiritos, que o conhecimento da terra era a
-preoccupação constante de todos os espiritos mais illustrados e cultos,
-em que já se multiplicavam os documentos cartographicos, em que aquellas
-encyclopedias medievaes que tinham o titulo quasi consagrado de _Imago
-mundi_ se enchiam com as mais phantasticas noções, revelando comtudo
-o ardor com que se procurava supprir com uma geographia conjectural a
-falta do conhecimento verdadeiro da terra. Já se tinham emprehendido
-as grandes viagens terrestres pela Asia, procuravam os povos maritimos
-sondar os segredos do Occeano. Tentavam os Normandos perscrutal-os,
-e a expedição de João de Bethencourt bem o demonstrou, aspiravam a
-descobril-os os Genovezes, e a infeliz expedição de Vivaldi de que nunca
-mais houve noticias depois das suas galés terem transposto o estreito
-de Gibraltar confirma-o cabalmente, queriam os Catalães encontral-os e
-Jayme Ferrer, que apenas transpoz o cabo Não, e não conseguiu passar
-além do Bojador, foi um dos que se illustraram n’essas tentativas; mas
-paralysou-os a tradição geographica tão enraizada nos seus espiritos
-como o estão hoje no nosso as theorias da geographia moderna. Logo que
-a costa africana, em vez de voltar para o oriente, continuava a seguir
-para o sul, internando-se por conseguinte na zona torrida, a affirmação
-scientifica de que o sol a ia tornar impossivel de se transpôr impunha-se
-ao espirito dos navegantes, e bastaria para os fazer recuar, ainda que
-as affirmações cathegoricas da orthodoxia e os terrores da superstição
-os não movessem. D. Henrique teve o genio de um livre espirito que se
-revolta contra uma tradição que se não baseia em dados positivos, e
-que a submette audaciosamente ao exame da experiencia, teve a coragem
-que transmittiu aos seus navegadores de arcar contra as affirmações da
-sciencia, contra os dogmas da religião, contra os pavores da lenda.
-Continuou e venceu! E a noticia do triumpho correu a Europa toda, e
-resoou em toda a parte como uma grande conquista do espirito humano, e
-a theoria das zonas inhabitaveis desappareceu, e a da impossibilidade
-de communicação entre as duas zonas temperadas dissipou-se, e a Egreja
-teve de se conformar com a existencia dos antipodas que ella considerava
-como uma affirmação incompativel com o espirito christão. Pois não se
-vê que tudo isso aconteceria, logo que um navegador audacioso tivesse
-penetrado na zona torrida, muito para além das regiões habitaveis? E não
-se vê tambem que semelhante navegação não passaria despercebida n’uma
-epocha em que era universal a anciedade pela ampliação dos conhecimentos
-geographicos?
-
-Succede o mesmo com Christovão Colombo. A existencia de terras para
-o occidente é um dos sonhos da humanidade desde longas eras. Quanto
-esse problema preoccuparia os navegadores portuguezes n’esse seculo XV
-todo illuminado pelas suas glorias pode bem imaginar-se. Attestam-n’o
-as aventurosas expedições dos mareantes açorianos; mas, como Vivaldi
-que procurou sondar as regiões inexploradas da Africa, muitos d’esses
-audaciosos se perderam no vasto Occeano, como Jayme Ferrer, outros
-chegaram a terras um pouco afastadas e foi assim que a ilha das Flores
-se descobriu, mas como o mesmo Ferrer recuando deante do Bojador, como
-Bethencourt não ousando afastar-se para além das costas de Marrocos, os
-açorianos desmaiaram deante da infinita solidão do Atlantico. Quando
-Colombo quebrou essas ultimas barreiras, com que enthusiasmo o receberam,
-com que despeito por lhe não ter dado inteiro credito o acolheu D. João
-II! Como logo partiram de toda a parte navios a sondar esses mares
-desconhecidos! Não aconteceria o mesmo se Jean Cousin ou João Vaz Côrte
-Real tivessem, antes de Colombo, vencido o grande obstaculo? Não seria
-para Lisboa ou para Dieppe que se voltaria logo a attenção e a inveja de
-toda a Europa?
-
-Assim, resumindo as questões capitaes em que se condensa o nosso ponto
-de vista, temos que os dois grandes problemas geographicos que foram
-resolvidos pelos navegadores do infante D. Henrique e pelas caravellas de
-Christovão Colombo eram as seguintes:
-
- 1.º Atravessar a zona torrida, que, segundo as affirmações
- da sciencia, tornava impossivel a communicação entre as duas
- zonas temperadas, entre a terra em que habitamos e a terra
- antichthona, entre o mundo antigo que tinha Jerusalem no centro
- e o _alter orbis_ onde a humanidade vivera antes do diluvio,
- transpôr o Atlantico, pintado pela lenda e pela tradição
- antiga como o mar tenebroso, entrar n’um occeano que passava
- por sobrenatural, onde se estava talvez á mercê das potencias
- infernaes;
-
- 2.º Atravessar a solidão do Atlantico do occidente ao oriente,
- até chegar ás praias orientaes da Asia.
-
-A resolução do segundo problema estava dependente da resolução do
-primeiro. O primeiro acto de audacia era abrir os mares fechados, mostrar
-que não tinha o Atlantico os perigos reaes e sobrenaturaes de que o
-rodeiavam a tradição scientifica e a lenda popular. Esse resolveram-n’o
-os Portuguezes, e ninguem os precedeu nem os podia preceder, pelo simples
-motivo de que, se alguem antes d’elles tivesse aberto o _mare clausum_,
-não teriam elles que o tornar a abrir. Não se fecha o mar como se fecha
-uma porta. Não tornam a crear-se os phantasmas que o primeiro audacioso
-dissipou. Se alguem, antes do infante, houvesse rasgado a cortina do
-mysterio que sequestrava o Atlantico, estava o Atlantico patente. A
-geographia systematica da antiguidade e da edade média caía em ruinas
-logo que o primeiro facto real e tangivel tivesse mostrado a inanidade do
-systema.
-
-Resolvido o primeiro problema, trepidou-se deante do segundo. Não se
-oppunham á sua resolução nem as theorias geographicas dos antigos, porque
-bem conhecidas são, acima de tudo, as opiniões de Eratosthenes, nem as
-opiniões orthodoxas que não contrariavam de um modo formalmente directo
-as doutrinas de Colombo, nem as lendas maravilhosas que, depois da
-desapparição do mar Tenebroso, não faziam senão excitar os navegadores a
-procurarem no Occidente as ilhas paradisiacas de que S. Brandão voltára
-com as vestes rescendentes a celestiaes perfumes. O que se oppunha
-simplesmente á resolução do problema era a immensidade do Occeano, que
-parecia confirmada exactamente pelas navegações portuguezas. Navegara-se
-durante annos e ainda se não chegara ao sul da Africa. Quanto tempo teria
-de se navegar para se chegar á India! Embora! exclamava Toscanelli, um
-dos enthusiastas da escola colombina, porque, se lá não chegardes em
-breve, encontrareis disseminadas pelo Occeano centos e centos de ilhas
-e de archipelagos que servem de guarda avançada ao grande continente
-oriental. Sonho de visionario! dizia-se e Colombo era repellido. Mas
-Colombo persistiu e foi elle que rompeu o encanto, elle e só elle que por
-ninguem poderia ter sido precedido, porque, se o fosse, tinham caido por
-terra todas as objecções, visto que o problema estava reduzido a este
-simplissimo termo: atravessar o Occeano e encontrar terra a distancia
-a que cheguem os viveres de uma caravela. O primeiro que o conseguisse
-tinha quebrado o feitiço, tinha desvendado o mysterio. Portuguez,
-francez, hespanhol ou italiano, seria a sua volta saudada pelas
-acclamações freneticas de toda a Europa maritima. Se foi essa gloria que
-aureolou Colombo foi por que só a elle podia competir.
-
-Curvemo-nos com respeito deante dos precursores, deante dos marinheiros
-que tentaram romper o mysterio, deante da intrepidez dos normandos que,
-depois de occupadas as Canarias, tentaram reconhecer a costa africana,
-e cujos cadaveres despedaçados nas rochas da costa marroquina foram
-o primeiro cimento com que se começou a erguer o monumento da gloria
-portugueza, deante da audacia dos catalães que mais adeante foram
-ainda, que já transpozeram o cabo Não, e que investiram talvez com o
-Bojador, mas não sacrifiquemos a essa homenagem a justa gloria que cabe
-aos que mais felizes, mais perseverantes, e sobretudo dirigidos por
-um genio excepcional, quebraram definitivamente as barreiras, e, sem
-hesitar um momento, proseguiram no caminho encetado, e methodicamente
-foram desenrolando folha a folha o livro do mundo desconhecido, ainda
-enrolado nas vagas, como se enrolavam em volumes os antigos papyros. Não
-acceitamos como uma especie de premio de consolação para os precursores
-menos felizes a phrase de Humboldt, que diz como que encolhendo os
-hombros deante da injustiça do mundo que as descobertas só se principiam
-a contar desde que formam serie. As descobertas contam-se desde que se
-fazem, e, se os Catalães ou os Normandos ou os Genovezes as tivessem
-feito, para elles iria a gloria. Não esperou a Europa que as caravelas do
-infante D. Henrique fossem muito adeante para que affluissem a Portugal
-estrangeiros, nem o governo portuguez esperou por isso para reclamar do
-Papa o reconhecimento do seu direito. Descobrem-se as Canarias? Logo
-apparecem Portuguezes, Francezes e Hespanhoes a reclamar a sua posse.
-Descobriam-se os Açores e a Madeira e ninguem com isso se importava. Não,
-o Homero da grande epopéa maritima foi o infante D. Henrique. Antes dos
-grandes epicos apparecem os cantos vagos e anonymos, em que se desata
-a inspiração da musa popular, em que se modulam as aspirações e os
-enthusiasmos do povo. Chega emfim o grande cantor, o epico inspirado, em
-cuja fronte Deus accendeu a scentelha do genio, e que escuta pensativo
-esses echos da guerra, essas cantilenas sublimes. Incende-se-lhe a
-imaginação, concentra na sua alma as palpitações da alma nacional, e dos
-seus labios brota emfim a epopéa victoriosa em que tudo se condensa,
-e encontra a sua expressão definitiva, que se fixa para sempre na
-memoria do povo e na memoria da humanidade. As caravelas que iam ainda,
-silenciosas e timidas, aventurar-se ao mar mysterioso, e que ou voltavam
-sem ter rompido o mysterio, ou no mysterio das vagas envolviam os seus
-cadaveres fluctuantes, eram os bardos isolados que afinavam pelo rugido
-do Occeano os seus epodos audaciosos, mas o infante foi o poeta soberano
-que fez irromper da sua alma, pela voz dos seus marinheiros, a epopéa
-triumphal e definitiva, a Iliada da audacia portugueza, como foi Colombo
-depois que desenrolou no sulco argenteo dos seus navios a Odysséa do
-Atlantico.
-
-
-
-
-II
-
-Causas de erro para a historia da solução dos problemas
-
-
-Para podermos seguir passo a passo a marcha dos descobrimentos, para
-vermos como pouco a pouco se foi correndo a cortina que escondia aos
-olhos dos homens da nossa raça metade do mundo conhecido, é necessario
-a cada instante abstrahirmos dos nossos conhecimentos actuaes, para nos
-collocarmos no ponto de vista em que os homens de eras anteriores se
-collocavam em virtude do que elles então sabiam. A falta d’essa correcção
-indispensavel arrasta muitos escriptores notaveis a erros grosseiros, que
-muitas vezes lhes escapam exactamente por não terem o cuidado constante
-de applicarem essa correcção ás tradições que dos tempos passados lhes
-vem. O proprio Humboldt, que frequentemente observa quanto é funesto esse
-erro, a esse erro cede só porque uma vez se esqueceu de verificar qual
-era a região que nos principios do seculo XV era conhecida pelo nome
-de Guiné. Se reparasse que a Guiné de Bethencourt ficava comprehendida
-entre o cabo Cantim e o Bojador não acceitaria a pretenção franceza de
-terem chegado os Normandos de Dieppe e o proprio Bethencourt a essa Guiné
-tropical que já muito para além fica do Cabo Bojador. Pois é elle comtudo
-que nota como é fallaz a denominação de India dada pelos antigos a varias
-regiões, visto que muitas vezes comprehendia as regiões meridionaes da
-Asia, a parte da Asia que chegava ao mar Vermelho, e ainda o extremo
-Oriente. Marco Polo designava tres Indias, havia a India exterior e a
-India inferior, a India superior que era a parte mais oriental da Asia
-etc.[10] Pois ainda hoje frequentemente se espantam homens instruidos
-não de que Colombo julgasse ter encontrado a Asia, mas de que imaginasse
-ter encontrado a India, arrastados pela tendencia natural de vermos com
-os nossos olhos de agora a geographia dos outros tempos; e de suppôrmos
-que a India não podia ser no seculo XV senão a que nós hoje conhecemos e
-como tal designamos.
-
-Quantas vezes mudou no decorrer dos tempos a posição geographica de
-varias terras, a que attribuimos a sua posição actual, logo que lhes
-encontramos em mappas antigos os nomes! Quantas terras differentes
-receberam o mesmo nome que de umas a outras foi passando, segundo as
-conjecturas dos geographos! As ilhas Afortunadas, como a ilha fluctuante
-de Delos, foram sempre navegando para o occidente, até que a geographia
-positiva as fixou nas Canarias, arrancando-lhes o véo da lenda em que
-os antigos as envolviam. Estiveram primeiro no grande Oasis no Egypto,
-passaram depois para o sul da Cyrenaica, depois ainda para defronte do
-rio Lukkos, quer dizer, quasi pegadas com a costa marroquina, e só depois
-para o ponto em que estão as Canarias.[11] A quantas ilhas se applicou o
-nome de Taprobana, que nós affirmamos hoje que era Ceylão, quando muitas
-vezes a sua posição corresponde á de Sumatra, e quando outras vezes a
-collocava a geographia conjectural dos antigos no oriente das Indias![12]
-A que peninsulas tão diversas se attribuiu o nome de Aurea Chersoneso
-que arbitrariamente suppomos agora que correspondia á peninsula de
-Malaca![13] Como é perfeitamente conjectural, apezar dos argumentos de
-alguma força apresentados por Mr. d’Anville, a identificação de Sofala
-com Ophir![14] Como ainda se illudem hoje os mais serios investigadores
-com o nome de Ethiopia, que intentam applicar ao paiz que hoje
-consideramos como tal, quando a Ethiopia, na supposição dos antigos,
-abrangia toda a parte meridional da Africa e vinha ligar-se com a costa
-marroquina![15] Como poderiamos nunca ter fé n’essas identificações,
-se vemos que os antigos e os Arabes, e os povos da edade média davam á
-India uma fórma completamente phantastica, suppunham que o mar das Indias
-era um mar mediterraneo, approximavam assim a costa asiatica da costa
-africana, como a costa africana está proxima da Europa no Mediterraneo
-europeu, sendo por conseguinte tão possivel que ficasse Ophir na Africa
-como na India!
-
-Depois que enorme cautella é ainda necessaria para o exame dos antigos
-mappas, onde a phantasia se dava largas, e onde se misturavam com alguns
-factos positivos todas as conjecturas que formava ou a imaginação
-ou o espirito reflexivo d’aquelles que os traçavam! Como é ridiculo
-para quem conhece o espirito que presidia á elaboração dos mappas
-ouvir escriptores serios fallarem com muita gravidade no famoso mappa
-trazido pelo infante D. Pedro das suas viagens, e onde estão traçados
-o cabo da Boa Esperança e até o estreito de Magalhães! Não sabem esses
-escriptores que, até depois de feitos os descobrimentos, a phantasia dos
-cartographos não se contentava com os factos positivos narrados pelos
-navegadores e continuava a ampliar por sua conta o mundo conhecido! Os
-proprios navegadores ás vezes contribuiam para illudir os cartographos.
-Christovão Colombo, ao tocar na ilha de Cuba, julgou ter chegado a terra
-firme e tanto d’isso se convenceu que fez jurar aos seus tripulantes
-que fôra n’um continente que tinham effectivamente tocado![16] Pedro
-Alvares Cabral tomou o Brazil por uma grande ilha. Em mappas muito
-posteriores aos descobrimentos americanos, feitos já depois de Vasco
-Balboa ter encontrado o Pacifico, collocou-se no sitio em que está o
-isthmo de Panamá[17] um estreito que punha em communicação os dois
-mares. Mas isso não impediu os que se enlevam na demolição de glorias
-estabelecidas de sustentar que o infante D. Henrique tinha mappas
-que até lhe mostravam onde era o cabo da Boa Esperança, que Colombo
-levava comsigo mappas que lhe davam o traçado da America, que Fernão de
-Magalhães n’um globo de Martim de Behaim vira traçado o estreito famoso
-que hoje tem o seu nome, e que Pedro Alvares tinha um mappa tambem que
-lhe designava o sitio em que encontrou o Brazil! Puerís tentativas!
-Quantas vezes effectivamente n’esses mappas conjecturaes podia fazer o
-acaso que coincidisse com a descoberta a ilha ou a terra phantasiada pela
-imaginação dos cartographos; mas logo o formigar dos erros perfeitamente
-incompativeis com o imaginario descobrimento prova exuberantemente que só
-em coincidencias fortuitas e insignificantes elle se poderia basear.
-
-O que melhor pode mostrar como faltava completamente aos antigos o
-conhecimento da terra, para além dos estreitos limites em que se
-concentraram as civilisações do Oriente e a civilisação greco-romana,
-está na variedade dos systemas com que se procurava explicar a fórma do
-mundo. A sciencia não caminhava com passo seguro, juntando ao thesouro
-das idéas conquistadas cada idéa nova que ia sendo adquirida. Como todas
-as explicações eram conjecturaes, cada nova theoria provava apenas
-a argucia e o engenho do espirito que a concebia, mas estava sujeita
-á discussão e á contradicção como todas as soluções que não assentam
-em factos positivos e incontestaveis. Pode dizer-se que a idéa da
-esphericidade da terra triumphou na antiguidade, mas pode dizer-se que
-triumphou porque a sustentavam os mais esclarecidos espiritos, não porque
-todos a reconhecessem, e porque não houvesse tambem homens de primeira
-plana que absolutamente a negassem. Sustentou-a Ptolomeu, mas contestou-a
-vivamente Plutarcho.[18] A theoria de ser a terra um disco cercado pelo
-rio Oceano, que é a theoria homerica, essa desappareceu é certo, porque
-a observação dos phenomenos celestes mostrou de um modo evidente quanto
-era absurda, porque se via bem que não era possivel que o sol se sumisse
-no occidente, e voltasse depois pelo mesmo caminho e em segredo de
-noite para reapparecer no Oriente, porque o movimento apparente do céo
-não podia explicar-se senão allegando-se que os corpos celestes n’uma
-parte da sua marcha passavam por debaixo da terra, para reapparecerem
-no sitio opposto áquelle por onde se tinham sumido. Então sim, então a
-idéa de que a terra assentava em bases solidas, tendo por cima de si o
-céo estrellado, desappareceu completamente, e a primeira conquista da
-sciencia foi a que suspendeu a terra no espaço, embora fizesse d’ella
-ainda o centro da creação, embora suppozesse que tudo se fizera no
-Universo em sua honra, que em torno d’ella giravam no immenso espaço em
-varias espheras concentricas os orbes luminosos que entoavam a harmonia,
-que Platão julgava escutar n’um arrobamento infinito, e que espalhavam
-nos intermundios a chamma ora intensa como a do sol, ora meiga como a
-da lua, ora palpitante e suavissima como a das estrellas, das corôas
-resplandecentes com que a Divindade as cingiu.
-
-Mas com relação á fórma da terra que diversidade de opiniões! Pomponio
-Mela considerava a terra chata como a suppunham os Hebreus, como a
-suppozeram depois os Padres da Egreja, e entre elles Santo Agostinho,
-Lactancio, S. Justino martyr; Ephoro dava-lhe a fórma de um quadrilongo,
-Cicero, no famoso _Sonho de Scipião_, acceitava as doutrinas dos
-geographos mais notaveis, considerava-a espherica, e essa opinião foi
-seguida por Macrobio, que tambem dava, como Cicero, á parte habitada a
-fórma de uma chlamyde. Entre os sabios que sustentavam na antiguidade o
-principio de que a terra era espherica, avulta o grande nome do geographo
-antigo Ptolomeu. Outros porém baseiam-se na doutrina de Thalés, suppõem
-a terra ovoide, e Posidonius suppõe que essa ellipse estreita que
-constitue a terra termina em duas pontas agudissimas.[19]
-
-Apezar d’essas differenças porém, a opinião da esphericidade da terra
-é a que predomina entre os antigos, é a que tem a seu favor a enorme
-authoridade de Ptolomeu e de Platão e de Aristoteles e de Eratosthenes
-e de Hipparcho e de Cicero e de Strabão, a que é preconisada pela
-escola de Alexandria e que adquire por conseguinte um verdadeiro valor
-scientifico, mas a religião christã intervem no debate, e a theoria dos
-antigos é considerada como heterodoxa pelos Santos Padres. A terra tem
-a fórma de tabernaculo, a existencia dos antipodas é condemnada como
-absolutamente contraria á logica divina, e esta opinião tão respeitada,
-tão importante introduz immediatamente a confusão nos espiritos da edade
-média. O conhecimento da sciencia arabe traz ainda um novo elemento de
-complicação. Na sciencia oriental sente-se de um modo accentuadissimo
-o reflexo da tradição grega. Ptolomeu e Aristoteles teem ferventes
-discipulos nos sabios orientaes, que podem esfumar as suas doutrinas no
-vago do seu maravilhoso, mas que no fundo as acceitam e as applaudem.
-E assim vamos encontrar por toda a edade média a velha theoria grega
-reforçada agora pela adhesão arabe em lucta com as prescripções christãs.
-Não se pode apagar n’esses espiritos medievaes, que tinham pelo saber
-da antiguidade um supersticioso respeito, a influencia de Ptolomeu, mas
-deante da voz auctorisada dos Santos Padres tudo se inclina e emmudece.
-Então vamos encontrar os cartographos da edade média empenhados na
-improba tarefa, que tantas vezes se tem repetido, de procurarem conciliar
-as doutrinas da Egreja com a tradição da sciencia. Apparece-nos muitas
-vezes a terra como um quadrado inscripto n’um circulo, e, ao passo que
-o systema das espheras applicado ao systema cosmographico encontra nos
-espiritos da meia edade um verdadeiro engodo, a terra fixa no meio
-do universo espherico mantem a fórma especial que os Santos Padres
-decretaram que tivesse.[20]
-
-Durante largos seculos pairou sobre a humanidade a duvida mais profunda
-ácerca da fórma do planeta que ella habita. Se alguns sabios entrevêem
-a verdade, e a sustentam e a defendem, é simplesmente pelas deducções
-que tiram dos seus calculos e das suas observações astronomicas, não
-pelo conhecimento directo que possam ter do planeta. Por isso tambem a
-orthodoxia triumpha, embora as razões em que se funda não sejam bastante
-poderosas contra o raciocinio dos philosophos, mas, apezar da fraqueza
-da argumentação, a fé supera sempre facilmente as theorias conjecturaes
-dos seus adversarios. É por isso que ella ainda hoje é sempre victoriosa
-na sua lucta contra os systemas philosophicos adversos. Ella dá uma
-certeza sem fundamento que não seja a auctoridade respeitada da tradição
-e da crença, os outros oppõem-lhe theorias mais ou menos verosimeis,
-mas todas baseadas em simples conjecturas. No dia em que o materialismo
-conseguir fazer palpar o principio vital, ainda hoje incoercivel, e que
-se representa por esse nome fascinador da alma dotada de immortalidade, o
-espiritualismo cahiu para não mais se levantar. Emquanto a demonstração
-da redondeza da terra e da existencia dos antipodas não sahiu do dominio
-conjectural, a fé que oppunha a essas vagas theorias uma affirmação
-baseada em tradicções tão conjecturaes como os raciocinios adversos mas
-aferradas ao espirito humano pelas raizes potentissimas da tradição,
-os Santos Padres triumphavam. Veiu um dia, porém, em que um pequeno
-povo debruçado sobre os mysterios do Oceano resolveu sondal-os e
-quebrar as barreiras que separavam do mundo conhecido essa região
-enigmatica, transpôr o que lhe diziam que era inultrapassavel, chegar
-ás regiões defezas, arrombar as portas fechadas pela triplice chave
-da sciencia, da fé e da lenda, e o que dezenas de seculos não tinham
-conseguido conseguiu-o meio seculo apenas. Então a sciencia não parou,
-não retrocedeu, não se contradisse, não se perdeu em conjecturas. Cada
-facto que se adquiria era uma confirmação de uma theoria contestada,
-ou a revelação de uma theoria nova. A fé cedeu deante da evidencia.
-Quando os marinheiros portuguezes entraram na zona torrida, cahiu por
-terra a idéa consagrada da impossibilidade d’alli se viver, quando
-entraram na zona temperada do sul, desappareceu, substituida pela real,
-a terra antichthona, e a Egreja teve de acceitar os antipodas; quando
-Colombo transpoz o Oceano occidental, a idéa da immensidade dos mares
-perdeu-se para sempre; quando Fernão de Magalhães passou do Atlantico
-ao Pacifico, e quando o seu ultimo navio veiu fundear n’um porto da
-peninsula hispanica depois de ter dado volta completa ao mundo, não teve
-mais contradictores nem descrentes a theoria da esphericidade da terra. O
-quadrado dos Santos Padres cahiu desfeito pelas cargas repetidas d’esses
-cavalleiros do Oceano.
-
-Não é já só, porém, com as phantasias orthodoxas, nem com os devaneios
-dos sonhadores scientificos, que a terra depois de explorada
-audaciosamente se torna incompativel. O proprio systema scientifico de
-Ptolomeu, essa gloria da antiguidade greco-romana, estala não podendo
-conter em si o mundo tal como foi estudado e descoberto. O systema de
-Copernico restitue ao sol a sua magestade e a sua humildade á terra.
-Se não era o sol que percorria lentamente o zodiaco, illuminando no
-mais alto do seu curso com a sua luz fecundante a terra privilegiada,
-e queimando quando se abaixava a terra condemnada e maldita, se a zona
-torrida não era um inferno sempre em chammas, nem nas suas proximidades
-pullulavam os monstros como os Cerbéros d’esse Tartaro, como as viagens
-portuguezas amplamente demonstravam, que motivo havia para se suppôr
-que o Sol não era senão o instrumento das bençãos ou das maldições de
-Deus sobre a Terra, e porque não seria antes a Terra que adejaria no
-espaço, irmã d’esses numerosos planetas que no céo resplandeciam, atomo
-no meio d’essa immensidade de atomos, bago d’essa poeira de luz dispersa
-no firmamento, e posta em movimento pelo sopro mysterioso da grande
-attracção universal? E a Copernico succediam Képler e Newton, e as leis
-do Universo iam-se coordenando n’um Codigo formulado pela sciencia,
-não ao acaso das conjecturas, mas segundo as indicações positivas dos
-factos. E assim foi que a audacia portugueza transformou completamente
-a sciencia humana, e iniciou esta epocha portentosa que dura ha quatro
-seculos apenas, e que deu mais á humanidade que as dezenas de seculos da
-historia conhecida que a precederam. E assim é que, se a Colombo cabe a
-indisputavel gloria de ter destruido a fabula que tornava inaccessiveis
-as terras do occidente, ao infante D. Henrique mais do que a nenhum
-outro cabe a gloria immensa de ter affrontado a sciencia, a fé e a lenda
-para fazer da sciencia conjectural uma sciencia positiva, da fé que
-amesquinhava a humanidade a fé que a ampliou, da lenda que acovardava a
-alma humana a epopéa que a enalteceu.
-
-Foi grande Colombo, grande Vasco da Gama, e grande Magalhães! Formam
-um grupo de heroes os audazes marinheiros que desde Gil Eanes até
-Bartholomeu Dias, desde Pinzon até Queiroz, sulcaram todos os mares, e
-affrontaram todas as tempestades, compõem uma phalange benemerita os
-missionarios da sciencia, que, desde João Fernandes o humilde iniciador
-da exploração scientifica do continente africano até aos modernos sabios
-viajantes, se internaram nos sertões affrontando os povos barbaros,
-como formam uma legião sagrada os missionarios da fé que não recúaram
-deante dos mais horridos perigos para levarem a regiões ignotas a
-palavra divina, mas o genio iniciador, que tornou possiveis todos
-estes feitos, e concebiveis essas audacias, foi o pensativo infante,
-que accendeu com as suas mãos intrepidas, entre os motejos da sciencia,
-os anathemas da Egreja e os gritos pavidos da superstição, esse pharol
-glorioso que projectou de Sagres sobre o vasto Oceano, por cima das suas
-ondas tenebrosas, a luz radiosa e serena que foi a verdadeira aurora da
-civilisação moderna.
-
-
-
-
-III
-
-A zona torrida perante as sciencias da antiguidade e da edade média
-
-
-Accentuámos bem que tres elementos havia que se oppunham ás expedições
-que os Portuguezes audaciosamente emprehenderam: a sciencia, a fé
-e a lenda. Foi a primeira a que se oppoz sempre a que os ousados
-navegadores da antiguidade lustrassem o caminho que os Portuguezes depois
-percorreram. Não eram de certo mais terriveis os mares africanos do
-que os mares da Europa septentrional, e os marinheiros phenicios, que
-affrontaram a bahia de Biscaya e o canal da Mancha e o mar do Norte até
-á Islandia, não podiam facilmente assustar-se com os mares muito mais
-manejaveis da costa africana. Mas a idéa da navegação para o sul fazia
-recuar os mais audaciosos. Era ahi que o sol estendia o seu terrivel
-dominio, era ahi que os seus raios queimavam a terra e o mar, e tornavam
-impossivel a passagem do homem. Á medida que esses calores excepcionaes
-iam sendo mais proximos, o seu effeito fazia-se sentir na vegetação e na
-fauna, e na propria humanidade. Então a natureza, violentada por assim
-dizer, produzia os mais extraordinarios monstros. Por mais de uma vez
-tentaram os Phenicios e os Carthaginezes demandar essas regiões do sul,
-mas a mais insignificante estranheza os fazia recuar. De Hannon se conta
-que percorreu quasi a Africa toda, e no seu periplo se relata essa viagem
-maravilhosa. Logo mostraremos como elle de certo não passou para além da
-costa de Marrocos. Gabava-se a sua intrepidez, porque voltára narrando
-que vira horrorosos monstros, cynocephalos, quer dizer, homens com
-cabeça de cão, e gorgonas ou mulheres com o corpo absolutamente coberto
-de pellos. Os escriptores modernos, que teem procurado benevolamente
-interpretar estas descripções phantasticas, dizem que os cynocephalos
-eram simplesmente macacos e as gorgonas simplesmente gorillas. Na
-hypothese mais favoravel para elle, o que isso prova é que, apenas viu na
-costa de Africa duas especies de macacos, julgou-se chegado ao paiz dos
-monstros e confirmou todas as mentiras que ácerca das vizinhanças da zona
-torrida estavam estabelecidas, e não chegou portanto á zona torrida. Mas
-não é bem mais natural ainda que Hannon, um carthaginez, um africano,
-não ignorasse a existencia do macaco, e portanto não podesse confundir
-facilmente o genero simiesco com uma variedade monstruosa do homem?
-
-Essas noções rudimentares de cosmographia, que existiam no espirito
-dos antigos, chegaram ao seu apogeu com a escola de Alexandria. Sabios
-notabilissimos imprimiram grandes progressos á sciencia, e principalmente
-á astronomia. O nome de Ptolomeu e o nome de Hipparcho bastam para fazer
-a gloria de uma escola, de um paiz e de um seculo. A conclusão a que
-chegaram era falsa, mas quantas descobertas importantes lhes serviram
-para assentar os primeiros alicerces de uma sciencia a que pozeram
-então uma cupula errada, por lhes terem faltado informações e elementos
-que só a audacia dos navegadores lhes podia levar! Que maravilhosos
-instrumentos de estudo não encontraram elles! Que calculos levaram a cabo
-que os sabios do seculo XVI, ao poderem juntar-lhes novos elementos,
-aproveitaram para a transformação da sciencia! Sem Ptolomeu como se
-comprehenderia Copernico? Sem Hipparcho o que poderia fazer Tycho-Brahé?
-N’esta conquista da verdade, os antigos tomaram as obras avançadas e
-julgaram estar senhores da cidadella; mas, só depois de occupadas essas
-obras, só depois dos maravilhosos esforços dos navegadores peninsulares,
-é que se podia descortinar e assaltar a cidadella... E quem sabe se será
-esta definitivamente a verdadeira!
-
-Mas o que é absolutamente indispensavel saber, para que se possa avaliar
-a transformação produzida no seculo XV pelos descobrimentos portuguezes,
-é quaes eram os principios estabelecidos como certos e indubitaveis com
-relação á terra por esses sabios cuja auctoridade era incontestavel,
-cujas doutrinas se ensinavam ás creanças, como hoje se ensinam as novas
-theorias, e que representavam portanto a verdade absoluta d’esse tempo.
-Alguns pontos havia que encontravam contradicção, como era o da redondeza
-da terra. N’outros, porém, não havia a mais leve divergencia, como em
-todos os que se ligavam com o movimento dos corpos celestes, com a marcha
-do sol em volta da terra para produzir o dia e a noite, com a marcha do
-sol pelo zodiaco produzindo a differença das estações. Tantas maravilhas
-conseguira já a astronomia que as doutrinas que ella promulgava não
-podiam soffrer contestação. Se ella já conseguira adivinhar os eclipses,
-que maior prova podia dar de que encontrára a chave do mechanismo celeste?
-
-Essas doutrinas de Ptolomeu passaram para a edade média, que teve
-sempre pela sciencia antiga um louco fanatismo. Encontramol-as ás vezes
-adulteradas, misturadas com manifestações de ignorancia, com superstições
-e crendices, mas naturalmente arraigadas nos espiritos, e exaltadas com
-enthusiasmo pelos sabios da primeira Renascença, pelos que arrancaram
-das trevas a Europa barbara, e que levantaram como um facho luminoso a
-doutrina já completa e bem comprehendida do grande geographo antigo.
-
-Vamos encontrar n’um dos livros d’esses sabios medievaes, n’uma d’essas
-_Imago mundi_ ou _Thesaurus_, que eram as encyclopedias do tempo, a
-condensação de toda a sciencia, a doutrina antiga resumida, explicada,
-mas tambem modificada. Queremos falar nos _Dialogos_ de Pedro Affonso.
-Os dois que dialogam são Pedro e Moysés. Aquelle é o mestre, este o
-discipulo.
-
- Diz Moysés:
-
- —Não ha pois da terra senão uma só parte habitavel. Que parte?
-
- _Pedro_—Desde o meio da terra até á parte septentrional.
-
- _Moysés_—Demonstra-me isso n’uma figura geometrica, porque
- n’essa materia cada nação tem tido, segundo os auctores, idéas
- differentes. Divide-se effectivamente a terra em cinco zonas:
- uma no meio, queimada pelo ardor do sol, e por conseguinte
- inhabitavel; duas nas extremidades, muito afastadas do sol, e
- egualmente inhabitaveis, por causa do rigor do frio; e duas
- médias, temperadas pelo calor da primeira e pelo frio das
- outras duas, e unicas habitaveis[21].
-
- _Pedro_—Esse systema está em contradicção com o testemunho dos
- nossos olhos. Vemos effectivamente _Aren_ situado no centro da
- terra; no seu zenith principiam o Aries e a Balança; o ar é
- alli tão suave que a temperatura das quatro estações é quasi
- sempre a mesma. Nascem alli plantas aromaticas de côr brilhante
- e de sabor delicioso; os homens não são nem descarnados, nem
- obesos, mas de uma compleição bem proporcionada. O clima
- que exerce esta salutar influencia no corpo não actúa menos
- efficazmente sobre o espirito que brilha pela sensatez e por
- uma moderação cheia de acerto. _Como se pode pois dizer que um
- logar que o sol percorre em linha recta em toda a sua extensão
- é inhabitavel?_ Não: todo o espaço de terra comprehendido
- entre esse logar e o segmento septentrional é habitavel sem
- interrupção, e os antigos dividiram-n’o em sete partes chamadas
- climas, em conformidade com o numero dos sete planetas. O
- primeiro clima está na linha do meio; ahi é que Aren foi
- fundado. O setimo occupa a extremidade do mundo septentrional.
- Nenhuma d’essas partes é inhabitavel, se exceptuarmos os
- sitios em que grandes massas de areia quasi sem agua ou então
- montanhas pedregosas se recusam ao trabalho da charrua.
-
- _Moysés_—Resta-me pedir-te que me demonstres como succede que
- esta parte da terra que fica para além de Aren para o sul não é
- habitada como a que está para áquem para o norte, de modo que
- Aren se ache no centro da região habitavel, ou então tambem
- porque não é a parte meridional que é habitavel, emquanto
- a parte septentrional seria inhabitavel, ao inverso do que
- succede.
-
- _Pedro_—Porque o circulo do sol é excentrico relativamente
- ao circulo da terra, e porque essa excentricidade atira a
- maior parte da circumferencia para uma distancia maior do
- septentrião. Segue-se d’ahi que, logo que o sol passa para
- os signos do hemispherio meridional, quer dizer para a parte
- da circumferencia comprehendida entre a Balança e Aries,
- approxima-se da terra, e, queimando os seus raios o solo a
- esta curta distancia, tornam-n’a esteril e por conseguinte
- inhabitavel. Só a partir do primeiro clima para o norte é que
- o espaço que comprehende os sete climas é habitavel. Mas tudo
- o que vem depois a partir do setimo clima é privado de todo
- o calor, por causa do afastamento do sol, que vae percorrer
- os seis signos meridionaes; d’ahi o excesso das nuvens, dos
- nevoeiros e das geadas; e emfim a ausencia de toda a creatura
- animada n’essa parte da superficie terrestre[22]».
-
-Não era esta, porém, a doutrina de Ptolomeu. Esta era a doutrina que
-procurava conciliar a theoria scientifica com as palavras da Egreja.
-A doutrina de Ptolomeu, a doutrina em geral de todos os sabios da
-antiguidade e da edade média, era que a zona torrida estava collocada
-debaixo do zodiaco, que, proxima do sol por conseguinte, era por elle
-abrazada, mas que para além d’essa região havia outra temperada como
-a nossa, assim como outra tambem glacial como a zona arctica. Essa
-foi sempre a doutrina predominante, embora contra ella protestasse a
-orthodoxia; mas qualquer das duas sustentava como facto incontroverso
-que a zona torrida era absolutamente inhabitavel, quer fosse, como
-queria Ptolomeu, que o sol, descrevendo um circulo perfeito em torno
-da terra durante as vinte e quatro horas, e descrevendo-o ao longo do
-zodiaco perfeitamente parallelo á zona torrida, sobre ella fizesse caïr
-perpendicularmente os seus raios e a queimasse e destruisse, ou, como
-pretendia Pedro Affonso, não descrevendo o sol esse circulo perfeito que
-Ptolomeu imaginára, mas descrevendo um circulo excentrico ao da terra,
-d’ahi resultasse que, ao passar pelos signos meridionaes do zodiaco,
-estivesse mais proximo da terra, e fosse o hemispherio meridional o que
-os seus raios incendiavam.
-
-Devemos notar que esta ultima hypothese era a que se approximava mais da
-ellipticidade da orbita da terra hoje demonstrada. Se não se suppunha
-ainda que o sol descrevesse uma ellipse em torno da terra como hoje se
-sabe que a terra descreve uma ellipse em torno do sol, já se principiava
-a querer applicar ao sol a theoria dos _epicyclos_ e dos _excentricos_,
-com que a astronomia antiga procurava conciliar com a theoria geral do
-Universo as contradicções que resultavam do movimento apparente de muitos
-planetas. A theoria de Pedro Affonso conduzia-o á doutrina moderna da
-_periphelia_ e da _aphelia_. Adivinhava que ha um periodo em que o sol
-está mais afastado da terra do que n’outros, e dava-se a coincidencia de
-que, dando-se a _periphelia_, quer dizer o periodo de maior approximação
-do sol, em janeiro, quando é verão no hemispherio austral, d’ahi resulta
-que effectivamente os verões austraes são mais quentes do que os
-nossos, e Pedro Affonso adivinhou assim uma verdade hoje perfeitamente
-demonstrada. Acontece porém que, sendo a terra que se move e não o sol,
-quando chega a _aphelia_, quer dizer o periodo de maior afastamento do
-sol, em julho, sendo então verão entre nós e inverno no hemispherio
-austral, tambem succede que são os seus invernos mais regelados.
-Mas, se a terra se conservasse immovel, como até Copernico se suppoz,
-passando o sol sempre á mesma distancia do mesmo ponto da terra, seria
-sempre effectivamente o hemispherio austral o que mais lhe sentiria os
-implacaveis ardores.
-
-Comtudo era incontestavelmente o systema de Ptolomeu que triumphava nas
-escolas, era esse o que tinha a sua consagração scientifica. Segundo a
-theoria do grande geographo, a terra espherica estava dividida em cinco
-zonas, as zonas glaciaes tão longe do sol que a vida era alli impossivel
-por causa da falta absoluta de calor, a zona torrida tão proxima do sol,
-que em torno d’ella descrevia a sua enorme e rapidissima viagem, que a
-vida era impossivel pelo excesso do calor, emfim as zonas temperadas onde
-nem o calor era extraordinario nem extraordinario o frio, e que a vontade
-suprema destinara evidentemente para habitação do homem.
-
-Era conforme esta theoria com o espirito, com o pensamento grego que em
-tudo se manifestava, na arte, na poesia, na philosophia, no viver social
-e politico. O ideal grego é a moderação e a harmonia. O universo devia
-regular-se tambem por essas leis harmonicas, que marcam tanto o rhythmo
-da architectura do Parthenon como o da poesia de Sophocles, tanto o da
-philosophia de Platão e de Aristoteles e o da eloquencia de Demosthenes
-e de Lysias como o das concepções mythicas d’aquelle harmonioso
-anthropomorphismo hellenico, que produziu aquelles typos idealmente
-bellos nas suas proporções sublimes, Apollo e a Aphrodite. Assim o
-homem tambem não poderia viver senão nas regiões em que o clima tivesse
-a harmonia e a moderação compativeis com o desenvolvimento normal da
-vida humana. Logo que o calor principiasse a exaggerar-se, desmanchando
-o equilibrio da temperatura, desmanchava-se tambem o equilibrio das
-proporções e da fórma humana. Por isso nas proximidades d’essa pavorosa
-zona torrida começava a terrivel degeneração da raça, surgiam creaturas
-cada vez mais monstruosas, e era assim effectivamente que Plinio
-explicava essa efflorescencia de monstros que, no seu entender e no
-entender dos outros geographos antigos, se manifestava nas regiões mais
-proximas da zona torrida[23], onde desapparecia emfim no immenso incendio
-com que o sol abrazava o mundo.
-
-Mas, como diziamos, Ptolomeu entendia e bem que eram duas as zonas
-temperadas, uma ao norte, e outra ao sul do Equador, mas entre as duas,
-pela sua theoria, não podia haver communicação. Essa terra é a famosa
-_terra antichtona_, a _terra austral_, o _alter orbis_ que figura
-conjecturalmente nos antigos mappas, e em que, por mais de uma vez,
-uns teem querido ver a America, outros as regiões descobertas pelos
-Portuguezes! A America nunca pela _terra antichtona_ podia ser designada,
-porque a _terra antichtona_ ficava para o sul, mas tão levianamente
-homens de merito notavel teem estudado estes assumptos, que se deixaram
-muitas vezes illudir pela orientação de antigos mappas que é quasi sempre
-diversa da nossa. O oriente era muitas vezes collocado nos mappas no
-sitio onde hoje collocamos o norte, o occidente onde fica o sul, o norte
-para o lado do occidente e o sul para o lado do oriente. Os Arabes então
-invertiam completamente o systema. O sul fica para o norte e o norte para
-o sul. Com estas alterações que immenso cuidado é necessario quando se
-pretendem tirar quaesquer illações dos mappas antigos!
-
-É essa a doutrina que prevalece durante toda a edade média. É Macrobio
-que suppõe a zona torrida inhabitada e queimada pelos fogos do
-sol, e a zona temperada austral povoada por homens de uma especie
-desconhecida[24], Orosio que declara que do interior da Africa nada se
-pode conhecer porque o calor da zona torrida o reduz a uma brazeira.[25]
-S.ᵗᵒ Izidoro de Sevilha sustenta egualmente a existencia da _terra
-antichthona_ onde habitam os antipodas, se não são fabulosos.[26]
-
-Bedo o Veneravel, que tem a sua theoria cosmographica exposta
-pittorescamente pela comparação do ovo, que vê a terra collocada no meio
-do mundo como a gemma, a agua em torno como a clara, o ar como a membrana
-e o fogo como a casca, tambem apresenta a doutrina da terra antichthona
-separada da nossa pela zona inhabitavel.[27] S. Virgilio imagina que
-o _alter orbis_ tem outra lua, outro sol e outras estações.[28] Raban
-Mauro, que falla nos basiliscos fabulosos, e nas Gorgonas cabelludas e
-phantasticas, tambem indica a terra antichthona separada pelo ardor do
-sol[29]; Alfrico, Moysés de Choréne, Pedro des Vignes, o famoso Pedro
-d’Ailly, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme e quantos outros estabelecem
-e proclamam esta doutrina que é a que tem um caracter scientifico.
-Quando o mundo christão entra em relações com o mundo arabe então
-illuminado por uma forte civilisação, quando trava conhecimento com os
-seus grandes geographos, Edrisi, Abulféda, Masoudi, o que encontra?
-Encontra a influencia de Ptolomeu alli tambem predominante como em geral
-a influencia grega, o _Almagesto_ considerado como uma obra divina,
-e portanto egualmente triumphante a doutrina da antichtona e da zona
-torrida inhabitavel.
-
-Ha alguns espiritos que se revoltam contra essa idéa? Ha de certo,
-mas esses são só os espiritos independentes como Alberto Magno, como
-Rogerio Bacon, como Pedro d’Abano, esses simplesmente não acceitam o que
-não está demonstrado, mas não vão contra factos incontestados. Assim
-Alberto Magno não acceita sem demonstração a idéa de que o sol percorra
-especialmente a zona torrida e a prive de toda a vegetação e de toda a
-manifestação de vida, mas, não contestando que não ha relações entre
-a terra que habitamos e a terra desconhecida, attribue esse facto em
-primeiro logar á immensidade dos mares, em segundo logar á existencia na
-antichthona de montanhas magneticas que prendem os habitantes e que os
-não deixam transpôr os incommensuraveis espaços que os separam da terra
-que habitamos[30].
-
-Rogerio Bacon sustenta opinião approximadamente identica[31]. Pedro
-d’Abano refugia-se na vaga observação de que o meio deve ser mais
-perfeito do que as extremidades[32], e uns e outros sustentam que a zona
-torrida é toda occupada pelo mar, que o Occeano não rodeia simplesmente a
-terra, que se interna no seio d’ella formando os quatro grandes golphos
-do Mediterraneo, do Mar das Indias, do Mar Roxo e do Caspio, porque este
-mar interior foi por muito tempo e por muitos geographos considerado como
-um mar que communicava ou com o Baltico, ou com o Occeano.
-
-Para todos então a approximação da zona torrida era assignalada pela
-existencia de monstros, em que se desentranha com uma espantosa
-exuberancia a fertil imaginação dos povos infantis. A teratologia das
-antigas religiões transportava-se e desenvolvia-se de um modo prodigioso
-nas descripções dos mais serios geographos. Nas regiões que confinavam
-com as que eram defezas aos homens brotavam as plantas maravilhosas, a
-especie humana torcida e desfigurada desatava-se em fórmas phenomenaes, e
-ao lado d’ellas percorriam animaes monstruosos, como os que reconstitue
-para as epochas primitivas a paleontologia moderna, essas regiões
-devastadas. Para o norte no Caucaso e na Scythia collocava Raban Mauro
-os gigantes, os gryphos e os dragões que zelosamente guardavam o oiro
-e as pedras preciosas[33]. Para o sul, segundo o pensar de Vicente de
-Beauvais, um dos grandes geographos da edade média, havia dragões logo
-para deante de Marrocos[34]. João de Hase collocou na India os pygmeus
-que apenas viviam 12 annos, e rochedos magneticos que attrahiam os navios
-para o fundo do mar[35]. As obras de Plinio eram fonte inexgotavel
-de extraordinarias divagações. Cynocephalos e acephalos, cyclopes e
-arimaspes, antipodas que não tinham dedos, hippopodas que tinham pés de
-cavallo, e juntamente com elles os gryphos pullulavam n’essas regiões
-mysteriosas, como aviso supremo que a Providencia dava aos que pretendiam
-penetrar nas regiões em que o sol impera e que o sol devasta.
-
-No famoso mappa da cathedral de Hereford encontra-se uma das collecções
-mais completas d’essa estranha producção zoologica e anthropologica da
-sciencia d’esse tempo. E note-se que essa sciencia não a produzia a
-edade média, colhera-a nos livros da erudita antiguidade. Era lá que
-ella encontrava os troglodytas que comiam serpentes, eram Mela e Plinio
-e Vopisco que apresentavam os Blemmyos que tinham os olhos no peito
-e os Presumbanos sem orelhas. Se seguimos as indicações d’esse famoso
-mappa-mundi lá encontramos ao norte os gryphos que teem azas de aguia
-e corpo de leão e que defendem contra os Arimaspes as minas das verdes
-esmeraldas, os Hyperboreos, povo que conhece a eterna felicidade e que
-só morre quando, cançando-se de viver, se lança ao mar do alto de um
-rochedo, e os Scythas de olhos verdes que vêem melhor de noite que de
-dia, e os minotauros que teem corpo de homem, cabeça, cauda e pés de
-toiro, e os tigres da Hyrcania a que os homens escapam se, quando fogem
-deante d’elles, se lembram de lhes atirar um espelho, e na India então
-a monstruosa mantichora que tem corpo de leão, rosto de homem, cauda
-de escorpião, tres ordens de dentes, olhos glaucos, côr de um vermelho
-sanguineo, os pelicanos que abrem o seio para sustentar os filhos, e
-povos sem nariz, e outros sem lingua, e os Monoculos que teem um olho só,
-uma perna só e um pé tamanho que, depois de terem andado largo caminho,
-apesar dos seus poucos meios de locomoção, com uma rapidez prodigiosa, ao
-descançarem levantam o pé e adormecem á sua sombra.
-
-Na Phrygia apparece o _bomaco_, um estranho animal, que tem crinas de
-cavallo e cabeça de toiro, e que se defende, quando foge, com os proprios
-excrementos que queimam tudo em que tocam, na Arabia a phenix animal
-unico que vive quinhentos annos, na Bythinia o lynce que vê atravez dos
-muros e urina uma pedra negra, e até na Palestina tem o rio Jordão, junto
-do Asphaltite, a designação de que nas suas aguas sobre-nada o ferro e
-mergulham as pennas.
-
-Na Africa então ha uma verdadeira orgia zoologica, botanica e
-anthropologica. Alli vive a salamandra, um dragão venenoso que se deleita
-nas chammas, alli floresce a _mandragora_, essa planta de face humana
-que tem miraculosas virtudes, alli corre o _éalo_, que tem corpo de
-cavallo, cauda de elephante e queixos de cabra, cujo pello é negro e
-cujos chavelhos moveis teem uma braça de comprimento. Alli se succedem
-emfim os _Ambaros_ que não teem orelhas e cuja planta dos pés é queimada,
-os Scinopodas que teem as mesmas particularidades que os Monoculos, os
-Androgynos que reunem n’um só individuo os dois sexos, os Himantopodas
-que arrastam as pernas de fórma que mais rastejam do que andam, os
-Blemmyos de que já fallámos, os Psyllos que experimentam o pudor das
-suas mulheres expondo os filhos ás serpentes, os _Parvini_ que teem
-quatro olhos, os Agriophagos que se sustentam da carne das pantheras
-e dos leões e cujo rei tem só um olho, e os Virgogicos que habitam
-em cavernas e comem insectos, e os satyros, e os faunos que são meio
-homens e meio cavallos, e outros povos que teem o rosto comprimido e se
-sustentam por meio de um canudo, outros que teem nos hombros os olhos e
-a bocca e outros que dão sombra ao rosto estendendo um dos labios, tão
-proeminente elle é, e entre animaes além dos dragões e dos gryphos o
-famoso basilisco, animal monstruoso que tem na fronte uma faxa branca que
-imita um diadema, e que empesta o ar que respira, mata as plantas de que
-se approxima, devasta o paiz que percorre, e a esphinge que tem azas de
-passaro, cauda de serpente e cabeça de mulher, e o monocerio, que, apesar
-de ser perigosissimo, quando d’elle se approxima uma donzella que lhe
-mostra o seio, toda a sua furia se aplaca, e sobre esse seio adormece,
-e as formigas enormes que guardam as areias de oiro. Alli tambem se
-encontram montes em fogo cheios de serpentes, montes silenciosos de dia,
-mas onde, á noite, accorda, á luz de estranhas claridades, o som dos
-pandeiros dos Egipans, e fontes que punem com a cegueira os ladrões, e o
-poço maravilhoso, que se conserva todo o anno immerso na sombra, mas que
-em certo dia, quando o sol chega ao zenith, e os seus raios se projectam
-verticalmente sobre a sua superficie, se enche de subito de immensa
-claridade, e cidades como a de Adaber onde os dragões pullulam.
-
-Mas tudo isto são contos de velhas, patranhas de viajantes? Não! isto
-tem, pelo menos em grande parte, um caracter scientifico. A antiguidade
-o transmittira e o que se não encontrava em Strabão, ou Ptolomeu ou
-em Aristoteles encontrava-se em Plinio, ou em Solino, ou em Pomponio
-Mela. Durante os descobrimentos estas noções acompanhavam os nossos
-viajantes, que, ao passo que destruiam umas, ainda iam acalentando as
-outras. O mytho das amazonas, que, durante a antiguidade, fluctuára
-entre a Scythia e os arredores do Egypto, chegou a transplantar-se
-para a America, e estava na mente do explorador que deu o nome de
-Amazonas ao gigante fluvial da America do Sul. As singularidades da
-phenix e do lynce eram perfeitamente admittidas como authenticas, e
-a dedicação materna attribuida ao pelicano, e que é tão contraria á
-verdade, que esse passaro, longe de se dedicar pelos filhos, nem sequer
-os defende como fazem os outros animaes, até ha bem pouco tempo passou
-por certa. As monstruosidades humanas não espantavam pessoa alguma,
-e bem o podemos perceber se nos lembrarmos que não estranhariamos
-monstruosidades semelhantes se nol-as contassem, com certa auctoridade
-scientifica, dos habitantes da lua. Sabendo como os organismos animaes
-se adaptam aos meios em que teem de viver, não nos custa a admittir que
-os habitantes da lua, se não teem ar respiravel, não tenham tambem os
-orgãos respiratorios, que lhes faltem a bocca e o nariz, e que engulam
-o alimento, se de alimento precisam, por outra fórma qualquer. Desde o
-momento que se admittia o rigor inflexivel do sol nas regiões tropicaes,
-como se não admittiria a existencia dos Himantopodas e dos outros povos
-em cujo organismo a providente natureza desenvolvera sobretudo os orgãos
-que tivessem por fim preserval-os do sol?
-
-Assim as affirmações positivas e serias da sciencia eram todas contrarias
-á navegação para a zona torrida. Tão estranho pareceria a todos tentar-se
-uma viagem n’essa direcção, como hoje nos pareceria a nós tentar uma
-viagem em direcção á lua. Azurara, se escrevesse a sua _Chronica da
-Guiné_ antes dos descobrimentos portuguezes serem conhecidos lá fóra,
-passaria por auctor de um outro _Amadis de Gaula_, e ninguem estranharia
-que a patria de Lobeira produzisse outro escriptor não menos phantasioso,
-ainda que d’esta vez o conto excedia demasiadamente todos os limites da
-verosimilhança. Mesmo n’essa epocha de credulidade o livro de Azurara
-faria sorrir os leitores, se a realidade dos factos não fosse já
-conhecida de todos, como hoje nos fazem sorrir os romances de Julio Verne.
-
-Mas não apparece agora a todos evidente e claro o absurdo de se suppor
-que por alguem fomos precedidos nos descobrimentos africanos? Seria
-necessario suppor, para que os normandos tivessem ido á zona torrida,
-e creado estabelecimentos na costa e desamparado depois essa navegação
-sem que ninguem tivesse ligado a essas expedições a minima importancia,
-seria necessario suppor que as questões geographicas encontravam no
-mundo medieval a mais completa indifferença, que ninguem sabia se havia
-zona torrida ou não, e que viagens d’essas não levantavam a minima
-curiosidade. Não; a edade média preoccupava-se avidamente com as questões
-de geographia, principalmente depois das cruzadas, e sobretudo depois
-d’essa grande Renascença do seculo XIII, que foi a aurora do grande
-esplendor do seculo XVI.
-
-Cosmas Indicopleustas, Jornandés, Gregorio de Tours, Marciano Capella,
-Vibio Sequester, St.° Avito, e Prisciano e Cassiodoro e Proclo e Macrobio
-e Paulo Orosio nos seculos V e VI; St.° Isidoro de Sevilha, Philopomus,
-Bedo o Veneravel, S. Virgilio no seculo VIII, Anonymo de Ravenna,
-Dicuil, Raban Mauro, Alfredo o Grande no seculo IX, Alfrico, Adelbod,
-o monge Richer, Moysés de Chorène no seculo X, Herman Contractus, e
-Azaph o Hebreu no seculo XI, Honoré d’Autun, Othão de Frisa, Hugo de
-Saint-Victor, Jacques de Vitry, Hugo Metello, Guilherme de Jumiège,
-Herrade de Landsberg, e Bernardo Sylvestris no seculo XII, Sacro Bosco,
-Vicente de Beauvais, Alberto o Magno, Rogerio Bacon, Roberto de Lincoln,
-Pedro d’Abano, e Dante, Cecco d’Ascoli, Roberto de S. Marianno d’Auxerre,
-Gervais de Tilbury, Pedro des Vignes, Brunetto Latini, Joinville, Omons,
-Alain de Lille, Guy de Basoches, Engelberto e Nicephoro Blemmyde no
-seculo XIII, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme, Ranulfo Hydgen, Faccio
-degli Uberti, João de Mandeville, Boccacio, Petrarcha, Bartholomeus
-Anglicus, Gervais, Ricobaldi de Ferrara no seculo XIV, Pierre d’Ailly,
-Guilhermo Fillastre, Leonardo Dati, João de Hése no seculo XV, e quantos
-outros mais ainda sustentaram e ensinaram as doutrinas cosmographicas
-que temos exposto! Uns mantinham a doutrina de Ptolomeu de que só a
-zona torrida era inhabitavel, outros a de que era inhabitavel toda
-a parte meridional da terra, outros e esses ainda assim rarissimos
-como Alberto Magno e Roger Bacon, se não acceitavam sem contestação
-nem como verdade absoluta a affirmação de que era inhabitavel a zona
-torrida, sustentavam que nem por isso deixava de ser impossivel a
-transposição dos seus limites, porque o mar immenso a cobria toda, e
-porque nas terras antichtonas havia as terriveis montanhas magneticas
-cujo pensamento paralysava os viajantes. Os mappas, que acompanhavam
-as copias dos manuscriptos antigos, como de Sallustio, do Apocalypse,
-de Pomponio Méla, de Ptolomeu, e os poemas geographicos, e as _Imago
-mundi_ e as _Thesaurus_, e os que se elaboravam nos conventos mais
-eruditos, todos reproduziam estas affirmações, esta fórma estranha da
-terra, e inflammavam com a tinta vermelha os mares da zona torrida e
-inscreviam nas regiões mais proximas, que na Africa principiavam logo
-ao sul de Marrocos, as indicações dos estranhos povos que as habitavam.
-E, quando tão arraigada se achava esta convicção no animo de todos,
-quando no seculo XIV se discutiam com ardor as doutrinas capitaes que
-expozemos ácerca da zona torrida, a ponto de Pedro d’Abano escrever,
-com o titulo de _Conciliator_, um livro destinado, como indica o seu
-titulo, a conciliar essas doutrinas, quando as viagens de Marco Polo
-excitavam immensa curiosidade e muita incredulidade tambem, tão estranhas
-coisas contava—apesar de nenhuma d’ellas destruir afinal de contas os
-pontos capitaes da sciencia do seu tempo—era possivel imaginar-se que
-navegadores quaesquer fizessem viagens, que destruissem completamente as
-noções essenciaes da geographia essencialmente admittida, viagens em que
-penetrassem na zona torrida não só sem perigo, mas tambem sem encontrar
-nas regiões circumjacentes nem povos monstruosos, nem animaes estranhos,
-nem maravilhosas plantas, e que nem esse facto surprehendesse capitães e
-marinheiros, nem excitasse a curiosidade dos reis, nem dos sabios monges,
-nem dos que escreviam os poemas geographicos, nem dos que compunham as
-encyclopedias, nem dos que desenhavam os mappas, nem dos aventureiros dos
-outros paizes, como succedeu com as viagens dos Portuguezes, que deram
-logo brado em toda a Europa, como não podia deixar de succeder quando
-se désse um passo tão gigante no conhecimento do mundo, quando a prôa
-dos nossos navios, como o teria feito a prôa dos navios normandos, se as
-suas viagens fossem verdadeiras, fazia cair por terra todo um systema
-geographico, sustentado desde a mais remota antiguidade pelos respeitados
-eruditos?
-
-Diz Laplace que o merito de uma descoberta pertence não a quem a faz, mas
-a quem a demonstra. Aqui dava-se o caso mais notavel ainda, de bastar
-para a demonstrar fazel-a. Como o philosopho antigo que respondia aos
-que negavam o movimento andando, os Portuguezes responderam aos que
-sustentavam a impossibilidade de transpor a zona torrida transpondo-a.
-Essa demonstração tel-a-hiam feito os Normandos, se antes de nós lá
-tivessem ido, ou os Genovezes ou os Catalães. A gloria tel-a-hiam elles,
-mas gloria immediata, porque o facto era de tal ordem que não era
-necessario que decorressem seculos para se lhe reconhecer a importancia.
-
-No capitulo immediato veremos como a fé e a lenda, ainda mais do que a
-sciencia, fechavam a zona torrida e os mares, que, no dizer de alguns,
-a enchiam, á investigação do homem. Essas lendas, como as da sciencia,
-iam sendo rasgadas a pouco e pouco, mas pendiam, assim esfarrapadas,
-dos hombros dos navegadores. Lembram aquelles nevoeiros de Cintra, que
-envolvem o valle e a montanha, tendo por cima o céo azul. Á medida que os
-transpomos, vão-se rasgando por baixo de nós, surge uma aldeia, irrompe
-um arvoredo, um grupo de rochas, mas em muitos pende ainda dilacerado
-o manto do nevoeiro. Assim veremos os navios portuguezes e hespanhoes
-caminhar envoltos em nevoas, até que a sua audacia tudo rompeu, e o mundo
-appareceu emfim na sua completa e radiosa realidade.
-
-
-
-
-IV
-
-A religião e a lenda
-
-
-Se eram estas as idéas scientificas predominantes no principio do seculo
-XV, é importante saber-se se a religião as acceitava. Era tão poderoso o
-dogma nos espiritos medievaes que a condemnação de uns certos principios
-pela auctoridade ecclesiastica bastava para que a grande maioria os
-suppozesse completamente falsos. Espiritos independentes como os tem
-havido sempre protestavam contra a condemnação da sciencia pela fé; mas
-protestavam timidamente, e nós veremos que nos pontos mais capitaes a
-fé estava completamente de accordo com a sciencia, de fórma que uma e
-outra fechavam deante das tentativas dos navegadores o mar mysterioso,
-que a audacia portugueza conseguiu devassar. O principio assente era
-a impossibilidade de se franquear a zona torrida, mas poucos homens de
-sciencia punham em duvida que para além da zona torrida existisse outra
-zona temperada semelhante á do norte, e onde fosse possivel a vida da
-raça humana. Contra este ponto é que o dogma protestava.
-
-Era inultrapassavel a zona torrida, não a tinham podido franquear os
-discipulos de Christo, portanto a palavra divina de redempção promettida
-a todos os que tivessem fé não podia chegar a esses povos que Deus
-esquecera, o que era completamente absurdo.[36] Se a humanidade toda
-descendia de Adão, como é que viera ao mundo essa raça humana? Tivera
-outro Adão como alguns sustentaram que tinha outro sol e outras
-estrellas?[37] Tudo isso era incompativel com a verdade suprema expressa
-na Biblia. E demais, se Deus dividira a terra depois do diluvio entre os
-tres filhos de Noé, se déra a Sem a Asia, a Japhet a Europa, e a Cham a
-Africa, qual fôra o desconhecido filho de Noé que recebera da Providencia
-a terra antichthona?[38]
-
-Encontrára-se em parte uma solução para essa dificuldade. Reconhecia-se
-a existencia da terra antichthona, mas suppunha-se que fôra a habitação
-da raça humana antes do diluvio. Alli ficava o Paraizo, e alli vagueando
-em torno da deliciosa habitação para sempre defeza vivera a humanidade
-criminosa os seus primeiros annos. Na arca de Noé salvara-se uma fraca
-reliquia d’essa gente condemnada. A arca boiara sobre as aguas e viera
-poisar emfim no monte Ararat. Nunca mais o homem tornaria a ver a sua
-antiga patria[39].
-
-Assim Cosmas suppunha um mar immenso coberto de trevas, porque o sol só
-illuminava a terra, e formando quatro golphos, o Mediterraneo, o mar
-Vermelho, o golpho Persico e o mar Caspio; para além d’esse immenso mar a
-terra antichthona, e n’ella o Paraizo[40].
-
-Outros, porém, não se podiam resignar a estar para sempre separados do
-Paraizo, e collocavam-n’o no extremo Oriente, no sitio onde, ao que
-diziam, principia o mundo. Esses baseavam-se na phrase do Genesis, que
-diz que «Deus plantou no Oriente um jardim delicioso». Para além da
-India, dizia Santo Avito, fica o Paraizo, cercado por barreiras que o
-homem não pode transpôr. É a theoria adoptada por S. Basilio, Psellus,
-Philostorgo, Isidoro de Sevilha, Bedo o Veneravel, geographo de Ravenna,
-Raban Mauro, Hugo de Saint-Victor, Jacques de Vitry, Honoré d’Autun,
-Gervais, Vicente de Beauvais, Joinville, Jourdain de Sévérac, Omons,
-que ainda suppunha que lá estava o anjo da espada chammejante, Ranulpho
-Hydgen, Dati, Bartholomeu Anglicus, Brunetto Latini, Dante, etc. Uns
-suppunham-n’o erguido n’uma alta montanha, outros n’uma ilha. E em torno
-d’esta idéa dogmatica ferviam as lendas.
-
-Do Paraizo, dizia-se, saíam quatro grandes rios: o Nilo, o Ganges, o
-Tigre e o Euphrates. Era necessario, porém, explicar-se como é que estes
-rios appareciam tão longe da sua celeste origem, e sobretudo como é que
-o Nilo apparecia na Africa, tendo nascido na Asia. A explicação era a da
-corrente subterranea, e submarina tambem com relação ao Nilo, quando a
-supposição de um mar mediterraneo, que trazia comsigo a união da Asia com
-a Africa, não tornava dispensavel esta conjectura[41].
-
-Esta opinião religiosa perdurou largo tempo no espirito dos homens ainda
-depois das grandes descobertas. Colombo, cuja alma enthusiastica se
-deixava invadir facilmente pelas seducções do mysticismo, e que tinha a
-fé ardente que foi um dos principaes elementos do seu triumpho, nutria
-a secreta esperança de chegar a esse Paraizo cubiçado, como contava
-encontrar n’esse Cathay maravilhoso os capitaes indispensaveis para a
-reconquista do sepulchro de Christo. Era logica a sua esperança. Se
-elle, partindo do Occidente, esperava chegar ao extremo Oriente, se no
-extremo Oriente estava o jardim de delicias em que Deus collocara os
-nossos primeiros paes, como podia duvidar de que o encontraria? Quando na
-sua terceira viagem chegou á bocca do Orenoque imaginou ter finalmente
-chegado ao Paraizo terrestre, não pela formosura das paizagens e pela
-abundancia da vegetação, mas porque, vendo a torrente das aguas do
-grande rio, suppoz que era um dos que borbulhavam da elevada montanha do
-Paraizo terrestre[42]. Christovão Colombo não admittia absolutamente a
-esphericidade da terra. Como varios outros geographos da edade média, que
-lhe tinham dado uns a fórma ovoide, outros a fórma de um cone ou de um
-pião[43], Christovão Colombo suppunha que ella teria a fórma de uma pera,
-e que junto do pé é que estava exactamente o Paraizo[44].
-
-Tambem a esphericidade da terra era absolutamente contradictada
-pelos Santos Padres, que lhe davam a fórma de um quadrado ou de um
-parallelogrammo, fórma emfim que se assemelhasse á do Tabernaculo de
-Moysés. Desdenhando a idéa scientifica oriunda dos Gregos, e sustentada
-pelos Arabes, vindo talvez para uns e para outros dos orientaes, de que o
-centro do mundo era Aryn, d’onde se principiavam a contar as latitudes e
-longitudes, que ficava exactamente a 90° de cada um dos pontos cardeaes,
-ponto geographico que foi muitas vezes representado pelos cartographos
-como uma cidade maravilhosa, com um castello, em que habitava um
-mysterioso soberano, os Padres da Egreja reclamavam para Jerusalem a
-honra de ser ella o centro da terra, ou pelo menos o centro da terra
-habitada, quando se imaginava que o resto do mundo estava coberto pelas
-aguas desde o diluvio.
-
-Finalmente para apresentarmos no seu conjuncto as idéas geographicas
-affirmadas dogmaticamente pela religião, fallaremos ainda, posto que não
-interesse a questão dos descobrimentos maritimos, na existencia para o
-norte das terras de Gog e de Magog. Eram os paizes ao norte da Asia,
-n’essa região desconhecida em que tambem pullulavam as fabulas, porque
-era a que se approximava das zonas glaciaes inhabitaveis. Ahi, dizia-se,
-habitavam os filhos de Caim[45], povos que tinham escapado, ao que
-parece, do diluvio, não por traz da barreira insuperavel da zona torrida,
-mas encostando-se ás gelidas barreiras dos polos. Irrompiam ás vezes em
-incursões ferozes, até que Alexandre o Magno, na sua grande expedição,
-que ficou legendaria, levantou a grande muralha que poz termo ás suas
-arremettidas[46]. Disse-se depois que aquellas dez tribus de Israel, que
-não voltaram do captiveiro da Babylonia, n’essa região mysteriosa ficaram
-internadas, como depois se disse, quando se descobriu a America e alli se
-encontrou uma raça de homens desconhecida, que eram ainda as dez tribus
-de Israel que se tinham perdido n’essas regiões que o Atlantico por tanto
-tempo escondera detraz da cortina das suas vagas[47].
-
-Assim a fé religiosa, se contradictou n’alguns pontos importantissimos as
-affirmações scientificas, cerrou ainda mais as portas do _mare clausum_.
-O homem não podia chegar á zona torrida, era esse o ponto capital, que
-a um tempo sustentavam os homens da sciencia e os homens da orthodoxia.
-Assim que d’ella se approximavam o mar começava a escandecer-se, a terra
-inflammava-se, montes ardentes reflectiam as suas chammas nas aguas, e
-monstros extranhos que o calor fazia brotar, plantas extraordinarias
-que só podiam florescer n’essa monstruosa estufa, começavam a apparecer
-n’essas terras extranhas. Assim, para o norte, apenas se chegava ás
-regiões onde soprava um vento glacial, outros monstros appareciam, e os
-povos ferocissimos de Gog e Magog só esperavam que um audacioso rompesse
-a muralha de Alexandre que os refreiava para cairem de novo sobre o
-mundo, entregue assim nas garras de Satanaz.
-
-No centro da terra habitada, que tinha a fórma quadrilateral, erguia-se
-Jerusalem; no extremo Oriente erguia-se o Paraizo defezo aos homens, e
-d’onde saíam os grandes rios do Oriente, trazendo ainda nas suas aguas
-o nateiro fecundante que ia dar como que uns reflexos da vegetação
-paradisiaca ás terras que atravessava.
-
-Em torno do dogma como em torno da sciencia nasciam então as lendas.
-Deante do dogma inclinavam-se todos, deante da sciencia inclinavam-se
-os illustrados, deante da lenda refugiam os ignorantes, e uns e outros
-paravam deante d’esse mar que tantos mysterios encerrava.
-
-Classificamos propriamente como legendarias as supposições que não
-tinham a minima base scientifica ou que não repousavam no dogma. Assim
-a _terra velada_ de Theopompo não era senão a _terra incognita_ de
-Ptolomeu; mas, suppondo o auctor grego que os homens que a habitavam
-eram de uma estatura duas vezes maior que a dos do mundo conhecido,
-perdia-se completamente nas regiões da phantasia, porque não havia, como
-para a humanidade monstruosa das regiões tropicaes, as razões do clima.
-Percebe-se, por exemplo, que a necessidade continuada de se resguardarem
-contra os ardores de um sol terrivel fosse, atravez de gerações
-successivas, desenvolvendo cada vez mais os orgãos com que o homem se
-podia proteger, mas n’esse clima perfeitamente semelhante ao nosso nenhum
-motivo havia para que se suppozesse que duplicava a estatura humana. E
-comtudo essa lenda actuava fortemente no espirito dos navegadores, e
-assim se explica a formação da lenda dos Patagonios.
-
-Legendarias eram tambem as ilhas do Oiro e da Prata, que apparecem nos
-mappas da edade média e que vão fugindo para regiões mais distantes á
-medida que vae sendo conhecido o mundo oriental, como succedia tambem ás
-Hesperides, antigas ilhas de fabulosa riqueza, cujo pomar de pomos de
-oiro opulentos era guardado por um dragão, como tambem na edade média
-as montanhas que encerravam thesouros preciosissimos eram guardadas por
-gryphos e toda a especie de fabulosos animaes. É sempre em ilhas situadas
-nos mares desconhecidos que se colloca ou a região das riquezas ou a
-região da bemaventurança. As ilhas Afortunadas ou as ilhas das Hesperides
-eram para os antigos a patria de todos os sonhos da felicidade suprema.
-Era nas regiões do Norte, onde parecia que devia reinar comtudo a eterna
-desolação, que elles collocavam tambem a ideal ventura, phantasiando esse
-povo dos Hyperboreos eternamente feliz. Passou para a edade média essa
-tradição, e nos mappas medievaes se vêem para além do mundo conhecido as
-ilhas onde habitam os Hyperboreos. Nos mares orientaes collocavam-se,
-como dissemos, as ilhas do Oiro e da Prata, as ilhas dos Homens e das
-Mulheres, que eram o producto de uma tradição arabe, a ilha do Sol de
-Pomponio Mela, que não fazia senão dar uma nova fórma ás preoccupações
-da zona torrida. Quem abordasse á ilha do Sol era immediatamente
-suffocado pelo ar em braza que alli se respirava[48]. Finalmente, nos
-mappas da edade média já mais proximos da epocha dos descobrimentos
-apparece semeado de innumeras ilhas o mar oriental: sete mil dizem as
-legendas de uns, quatorze mil as de outros. Esse pensamento foi suggerido
-pelo conhecimento das viagens de Marco Polo e pelas indicações que o
-viajante veneziano dá ácerca das Maldivas, que se suppozeram existentes
-no mar oriental. É bem provavel, e o que é certo é que o pensamento da
-existencia de innumeras ilhas no oriente da India actuou nos sabios do
-seculo XV, e foi uma das esperanças de Christovão Colombo e um dos pontos
-de apoio de Toscanelli para a sua theoria da possibilidade da viagem que
-Colombo emprehendeu, porque, dizia elle, ainda que o continente asiatico
-estivesse mais longe do que se suppunha, sempre se encontrariam no
-caminho ilhas que servissem de porto de escala e de arribação[49].
-
-Ah! essas ilhas conjecturaes da edade média como serviram aos
-historiadores superficiaes para procurar attenuar a gloria dos
-Portuguezes e a gloria de Colombo! Brotavam das ondas mysteriosas como
-brota a espuma da vaga que se desfaz nos rochedos. Por aquelle Oceano
-tenebroso que se estendia para o Occidente, nas ondas do ignoto mar
-indico, por muito tempo considerado, e ainda no tempo dos primeiros
-descobrimentos portuguezes, como um mar mediterraneo, pelo mar ignorado
-do Norte semeava a imaginação dos cartographos quantas ilhas ideara a
-phantasia antiga, a phantasia dos _troubadours_ ou dos _trouvéres_ e
-a dos mysticos! Lá appareciam, como dissemos, as ilhas das fabulosas
-riquezas, a Chrysé, a Argyra, Ophir, que talvez bem se possa classificar
-entre ellas; as ilhas da tradição homerica, a de Calypso, a de Diomedes,
-a outra em que se vê ás horas do sol poente a sombra gigante e pensativa
-de Achilles, as ilhas da tradição celtica, essas ilhas que povoavam a
-imaginação d’estes marinheiros do occidente, que, erguidos ao pôr do
-sol nos rochedos da costa, sonhavam em cada miragem do Oceano uma ilha
-fabulosa, que, batidos pela tempestade, quando andavam á pesca, julgavam
-escutar no surdo rugido das vagas os lamentos das almas penadas nas ilhas
-milagrosas, e tudo se contava ao serão quando bramia o vento cá fóra e o
-mar quebrava com doloridas queixas ou com furioso estrepito nas fragas
-desnudadas. Tudo ia tambem enriquecer as lendas dos claustros para ornar
-com esses arrebiques de maravilhoso a existencia piedosa de um santo
-missionario. Foi assim que S. Brandão teve a sua ilha, onde cantavam as
-aves do Paraizo, e onde se respirava tão celeste e perduravel perfume que
-n’elle ficaram para sempre impregnadas as vestes do santo viajante. Era
-na Irlanda sobretudo que essas lendas brotavam, era ahi que se formavam
-ao lado da legenda de S. Brandão as de S. Patricio, e de tantos outros
-navegadores celticos que iam atravez dos mares da phantasia procurar
-ignotas ilhas.
-
-Já Brekan, o filho do rei Niel, desapparecera nas ondas do mar com
-cincoenta navios, e só o cadaver do seu cão reapparecerá na praia, já
-tres filhos de Corra tinham com os seus quatorze companheiros, entre os
-quaes iam um bispo e um bardo, abordado ás ilhas das Almas, encontrando
-depois de quarenta dias e quarenta noites a ilha do eterno choro, e a
-ilha em que fundidores infieis forjavam e fundiam com as carnes rasgadas
-pelas aguias negras, e outra em que um moleiro moía eternamente farelo
-por ter roubado os seus freguezes, e outra em que um alquilador, que
-roubara o cavallo a seu irmão, passava por deante dos olhos assombrados
-dos viajantes no galope infernal de um cavallo de fogo.
-
-Outros, os famosos navegadores de Iona, tinham chegado á ilha dos
-Passaros, onde volteiam aves de aureas e de purpureas pennas, regidas por
-um rei de cabeça de oiro e de azas de prata, que entoam cantos de uma
-celestial melodia, e a outra onde choram com saudades da patria as doces
-Irlandezas exiladas mysteriosamente do mundo dos vivos.
-
-Depois ainda é o bardo Myrdhinn que vae com mais nove bardos procurar a
-ilha Verde, que nunca foi submergida pelas vagas, a ilha dos pomos de
-oiro, onde no meio de uma aurora perpetua dança um côro eterno de bellos
-rapazes e de formosas raparigas.
-
-Tudo se condensa, emfim, na lenda de S. Brandão. Esse encontrara a ilha
-onde os anjos que acompanharam Lucifer, mas não foram inteiramente seus
-cumplices, cantam os hymnos de esperança, e o aspero rochedo batido
-pelas vagas, onde Judas é consumido pelo eterno remorso; e emfim a terra
-promettida aos eleitos, a terra dos bemaventurados.
-
-S. Patricio tambem percorre as solidões do Atlantico. Esse vae, segundo
-a lenda, quando a quaresma começa, para o seu _purgatorio_, n’uma ilha
-de que ninguem se pode approximar, onde ha uma caverna que os maus
-espiritos habitam, e onde se abrem duas estradas subterraneas, que vão
-ter uma ao Inferno, outra ao Paraizo. Esta ilha mysteriosa do _Purgatorio
-de S. Patricio_, como a ilha abençoada de _S. Brandão_, é um dos sonhos
-mais persistentes da edade média, e uma e outra lá apparecem nos mappas
-medievaes, nos sitios mais diversos, ás vezes applicando-se a ilhas
-verdadeiras, como acontece com o _Purgatorio de S. Patricio_, que alguns
-cartographos collocam na Islandia.
-
-A imaginação celtica é a mais fecunda n’esta creação de terras
-phantasticas, e não podia deixar de ser assim, não só porque os povos
-d’essa raça são essencialmente imaginativos e sonhadores, como tambem
-porque n’essa Irlanda, collocada na extremidade occidental da Europa,
-a tão pouca distancia da America, aonde tantas vezes deviam chegar,
-como chegavam aos nossos Açores e á nossa Madeira, plantas e cadaveres
-de homens de desconhecido aspecto, não podia deixar de pullular a cada
-instante na alma do povo o pensamento da existencia de ilhas mysteriosas
-para esse lado, como muitas vezes tambem, quando um pescador mais
-audacioso se aventurava ao mar alto, quando o vento de leste lhe enfunava
-as velas, e o mar lhe parecia cantar no seu doce murmurio as suas
-maravilhosas lendas, elle seguiria caminho do Occidente, durante dias e
-dias, até que a fome o salteasse, ou até que o continuado panorama das
-vagas a seguirem-se ás vagas, sem fim, sem termo, fechando o horizonte,
-os desanimasse afinal[50]. Mas tambem na peninsula hispanica lendas
-semelhantes se formavam e pelas mesmas causas. Tambem aqui em Portugal
-sobretudo e no Algarve principalmente os pescadores, ao largarem a
-costa, sentiriam a tentação de penetrar nos mysterios do Oceano, e aqui
-tambem á volta, em noites de luar nas esfolhadas, ou no inverno ao lado
-da chaminé, fallariam, como se as tivessem visto, em ilhas extranhas,
-na das Sete Cidades, por exemplo, onde se tinham refugiado, quando os
-Mouros vieram á peninsula, sete bispos christãos com o povo das suas
-dioceses, proscriptos agora e encantados como as meigas irlandezas
-exiladas dos navegadores de Iona. E todas estas ilhas phantasticas,
-Antilia e Sete Cidades, ilha de S. Brandão e Purgatorio de S. Patricio,
-iam juntar-se ás ilhas conjecturaes dos sabios e ás ilhas tradicionaes da
-mythologia antiga para formarem esses archipelagos do sonho e da lenda
-que se desfizeram em fumo quando das aguas surgiram, envoltas no seu
-manto de verdura, ou na sua armadura de rochedos vulcanicos, palpitantes
-ainda com o fogo que lhes lavrava nas entranhas, ou carregadas com a
-immensa e luxuriante cabelleira das intactas florestas, as ilhas reaes e
-verdadeiras.
-
-Esse sonho das ilhas phantasticas podia não ser senão um estimulo
-para cavalleiros denodados que não temiam os encantamentos, logo que
-levavam comsigo as espadas bentas e a cruz do Salvador. Com o coração
-a bater-lhes um pouco, pallidos de supersticioso terror, mas incitados
-pelas tentações das sobre-naturaes aventuras, arrojar-se-hiam tanto os
-celtas da Irlanda como os celtas de Portugal aos mares mysteriosos em
-demanda das ilhas paradisiacas; outros encontraram tambem no caminho
-as ilhas infernaes, mas a lenda do mar Tenebroso essa é que deveras
-regelava o sangue nas veias do mais audacioso. Vinha dos antigos, e mais
-tambem dos Arabes. Como é que os poetas antigos, ao passo que devaneavam
-como Seneca no côro da _Medéa_, que para além do Oceano haveria terra
-incognita, suppunham que n’esses mares longinquos se perdêra a luz do sol
-e um manto espesso de trevas se desenrolava sobre as vagas? Como é que
-o arabe Edrisi, que suppunha que estavam no Atlantico as ilhas da eterna
-felicidade, suppunha tambem que era o Atlantico o mar tenebroso, onde os
-navios esbarravam uns nos outros e se despedaçavam em ignorados rochedos?
-É porque suppunham que, depois do mar Tenebroso, vinha o mar luminoso da
-India, porque imaginavam exactamente que o mar da India communicava com
-o mar Tenebroso? Tambem a sciencia não dava fóros de authenticidade ao
-mar Tenebroso como os dava ás terras incendiadas e ao mar em fogo da zona
-torrida. Era um dos fundamentos essenciaes da lenda do immenso pélago o
-ligar-se ainda com as estranhas idéas astronomicas dos que suppunham que
-para além dos mares tinha o globo um cinto de montanhas, e que detraz
-d’essas montanhas é que o sol se escondia durante a noite, pertencia a
-essa classe de phantasias a que pertencem os montes Ripheus e outras
-visões da desvairada imaginação dos sonhadores da geographia.
-
-Mas ainda os Arabes trouxeram do Oriente um novo elemento legendario. O
-Oriente é a patria das estatuas encantadas, dos monstros de metal dotados
-de uma vida phantastica, e a esse mar, por tantas razões defezo, punham
-como sentinellas immoveis e terriveis as estatuas mysteriosas, como os
-leões de oiro que nos contos arabes defendem os palacios enfeitiçados.
-Mas ainda a tudo accrescia uma tradição que se baseava na verdade, e que
-não era menos desanimadora para os que tentassem romper o mysterio. Era
-a do mar de Sargaço, que não era desconhecido dos antigos, esse mar que
-os marinheiros de Colombo encontraram já muito para o occidente, e em que
-se julgava que as plantas enredadas enleiavam por tal fórma os navios que
-lhes paralysavam completamente os movimentos.
-
-Essas idéas falsas, derivadas da sciencia mal comprehendida, e que
-povoavam os espiritos dos marinheiros d’essa epocha, são as mesmas que
-ainda hoje habitam no cerebro do povo ignorante, apesar da immensa
-propagação de dados scientificos verdadeiros, obtidos pela experiencia
-de todos os dias. No seu delicioso livro _Sull’Occeano_, o grande
-escriptor italiano Edmundo de Amicis conta-nos o que ouviu a bordo de um
-paquete que singrava para a America aos passageiros de terceira classe,
-emigrantes que iam trabalhar no Rio da Prata. Parece-nos estarmos a ouvir
-as palestras que se travariam entre os marinheiros do seculo XV a bordo
-das suas esguias caravellas. Apesar dos factos demonstrarem o contrario,
-ainda suppunham que, ao atravessarem a zona torrida, teriam de atravessar
-um mar incendiado. Suppunham que veriam claramente a curvatura da terra
-e o navio descer por ella como um bichinho em volta da superficie de uma
-laranja. Todos esses terrores pueris dos passageiros que os marinheiros
-hoje desdenham com um riso sarcastico, eram os que salteiavam o espirito
-dos seus antepassados nos seculos da edade média, eram esses terrores
-os que faziam recuar deante dos cabos africanos e deante das solidões
-do Atlantico os marinheiros que precederam Gil Eanes e que precederam
-Christovão Colombo, eram ainda os que acompanhavam os descobridores
-em cada nova exploração, porque só a pouco e pouco é que a luz se foi
-fazendo, só a pouco e pouco é que se foram desfazendo as idéas falsas da
-antiguidade substituidas pelos factos verdadeiros, e era necessario que
-fossem de uma rija tempera os marinheiros que recalcavam no fundo d’alma
-esses terrores, que fossem denodados espiritos os d’esses commandantes
-que assim partiam a arcar não só com os pavores da superstição, mas
-com as affirmações da sciencia e com as determinações da fé, e que
-fosse emfim um genio verdadeiramente transcendente o d’esse homem quasi
-divino, que teve a intuição sublime da verdade e a inspiração de um
-genio creador, que sonhou um mundo aberto inteiramente á luz, um mar sem
-trévas, a humanidade circulando sem peias em volta da terra seu dominio,
-e que logrou escrever na face das ondas com a quilha das suas caravelas
-essa epopéa maravilhosa que elle concebeu em Sagres e que foi a grande
-epopéa do Renascimento.
-
-
-
-
-V
-
-O infante D. Henrique e o povo portuguez
-
-
-Nenhum povo estava tão fadado como os Portuguezes para esse
-emprehendimento maravilhoso na epocha em que elle se encetou. As cruzadas
-tinham despertado nos povos europeus o espirito da aventura. Era para o
-Oriente que se voltava esse ardor de conquista, não só porque era a terra
-classica de todas as opulencias, mas porque a conquista do Oriente fôra
-o sonho da antiguidade grega e romana e o culto mal comprehendido, mas
-profundo, pela antiguidade foi um dos caracteres predominantes da edade
-média. Alexandre o Magno era para elles o ideal do cavalleiro andante,
-imaginavam-n’o como um soberano cavalheiresco, segundo a formula feudal,
-como Virgilio, o dôce poeta, era um feiticeiro de legenda; mas a adoração
-por esse grande vulto vivia em todos os espiritos. Foi para o Oriente
-pois que se dirigiram os primeiros viajantes, os Rubruquis, os Plan du
-Carpin, os Marco Polo, quando as expedições guerreiras tiveram de parar
-deante da resistencia victoriosa dos sarracenos. Mas esses viajantes já
-tinham feito penetrar um pouco de luz na geographia systematica do seu
-tempo, e a humanidade evidentemente, despertada para o estudo e para a
-sciencia pela primeira Renascença do seculo XIII, ia procurar sondar o
-desconhecido que por todos os lados a envolvia.
-
-O segredo dos mares occidentaes devia preoccupar sobretudo os povos
-que no occidente da Europa viam desenrolar-se diante d’elles a
-incommensuravel extensão das vagas oceanicas. Os povos do Norte, que
-tinham chegado até á ultima Thule, a regelada Islandia, não deixaram
-de aventurar-se por esses mares ignotos, e é incontestavel que, assim
-como chegaram á Groenlandia, tocaram tambem no continente americano.
-Se perseverassem na descoberta, se fossem seguindo ao longo da costa
-da America, emquanto encontrassem terra nas suas aventurosas jornadas,
-teriam roubado incontestavelmente a Portugal e á Hespanha as suas
-mais viridentes glorias! Á Hespanha, porque antes de Colombo teriam
-dado á civilisação esse vastissimo continente, a Portugal, porque
-antes do infante D. Henrique teriam reconhecido a possibilidade de se
-transpôr a zona torrida; mas não perseveraram, e assim legitimamente
-perderam a gloria que teriam podido conquistar. Que, afastando-se da
-Islandia, encontrassem uma nova terra ainda mais regelada e triste, que,
-proseguindo na sua viagem, chegassem a territorio mais risonho, não é
-coisa que nos espante, posto que demonstre mais uma vez a coragem d’esses
-audaciosos reis do mar. A gloria de Colombo não está em ter encontrado
-novas terras, está em não ter recuado deante dos dogmas da extensão quasi
-infinita dos mares, assim como a gloria dos Portuguezes não está em terem
-juntado novas terras ao peculio da civilisação, está em não terem recuado
-diante do dogma scientifico e religioso da impossibilidade de se viver
-na zona torrida e da existencia dos mil perigos e dos mil horrores que
-defendiam a sua approximação.
-
-Ninguem era, comtudo, mais proprio do que os Normandos para tentarem as
-aventuras maritimas; estavam porém demasiadamente ao norte, e, como ás
-suas aventuras presidia sempre, como ás dos Phenicios, não o amor da
-sciencia, mas o amor do lucro, ao chegarem ao cabo de S. Vicente, mais
-os tentava o caminho do Mediterraneo, onde havia tão seductoras prezas,
-do que o arriscado caminho do Mar Tenebroso. No seculo XIV os Normandos
-de França sentiram-se attraídos para os mares do Sul, até porque lhes
-chegára a noticia de que os marinheiros da peninsula hispanica para
-esse lado tinham encontrado as ilhas Afortunadas, mas a tentativa de
-Bethencourt não tivera nem poderia ter imitadores, porque não fôra
-extremamente prospero o seu resultado, porque as costas áridas do
-prolongamento de Marrocos, onde tinham encontrado a morte, essa Guiné,
-como lhe chamavam, Guiné que tinha por limite meridional o cabo Bojador,
-não promettia grandes proventos aos que lhe tentassem a exploração. A
-Inglaterra concentrava na conquista da França todas as suas attenções e
-todo o seu empenho e a França cuidava em defender-se e em completar a
-sua poderosa unidade. A Italia tinha duas potencias maritimas—Veneza e
-Genova—cujos navegantes davam lições aos outros povos, mas uns e outros
-tinham os olhos postos no Oriente, d’onde lhes vinha a riqueza, a gloria
-e o dominio. Genova é que lançava de quando em quando os olhos para o
-occidente, em Veneza appareciam ás vezes alguns espiritos que se deixavam
-tentar pelos mysterios do Oceano, mas as viagens audaciosas e pouco
-afortunadas dos irmãos Zeni venezianos e de Vivaldi e Doria genovezes,
-não podiam ser incitamento a que se proseguisse nas tentativas.
-Acontecia com as duas republicas maritimas o que depois aconteceu com
-Portugal quando regeitou a proposta de Colombo. Não se deixa o certo
-pelo duvidoso. Não se empenham vidas e thesouros em emprezas incertas,
-semi-phantasticas, quando se tem nas mãos, como Veneza e Genova tinham, o
-vasto commercio do Oriente, quando se tem quasi a certeza de que se está
-no caminho da India, quando se possuia já o resgate valioso da Mina como
-acontecia com D. João II. Para esses emprehendimentos que são o sonho da
-politica, são necessarios não os espiritos positivos, mas as imaginações
-exaltadas. É indispensavel que haja n’um cerebro esse grão de loucura que
-faz os grandes poetas e os grandes descobridores, que inspira os poemas
-que se escrevem—os poemas da phantasia, e os poemas que se executam—os
-poemas da acção, um homem como o infante D. Henrique, que herdára de sua
-mãe, como todos os seus irmãos, esse elemento romanesco que toda a mulher
-do Norte encerra no fundo da sua alma, por baixo da sua apparencia séria,
-austera e pratica de dona de casa e de mãe de familia, para conceber e
-levar por deante, n’um jorro de santa loucura, o poema das navegações, ou
-uma mulher cavalheiresca, romanesca tambem, sensivel e enthusiastica como
-a rainha Izabel, para comprehender a alma de Colombo, para se irmanar
-com ella, e para collaborar tão apaixonadamente n’esse ultimo poema
-de cavallaria, n’essa ultima producção da alma celtica, n’esse ultimo
-romance do Santo Graal que se chamou Descoberta da America.
-
-Restavam os reinos da peninsula hispanica, mas todos esses, á excepção
-de Portugal, se achavam empenhados ainda nos ultimos arrancos da sua
-lucta contra os Mouros. No oriente da Hespanha, nas Baleares sobretudo,
-havia a tentação de sondar o mar desconhecido, mas diante do cabo Bojador
-ainda se recuava. Tel-o-hiam dobrado comtudo se tivessem perseverado
-no intento, mas era essa perseverança que não podia deixar de faltar
-a um povo que não tinha para isso outro estimulo que não fosse o da
-curiosidade, que mais se deixaria tentar pela Africa mediterranea do que
-pela Africa atlantica. O povo que estava deveras em circumstancias de
-tentar os grandes emprehendimentos era sobretudo Portugal.
-
-Acabava de atravessar um periodo em que todas as suas faculdades tinham
-sido vivamente excitadas, e em que empregára todas as suas forças e toda
-a sua actividade. Havia dois seculos que unificára o seu territorio e que
-expulsára os Arabes. Desde que o fizera, voltára naturalmente as suas
-attenções para o Oceano, e o grande rei, que mais cuidára da organisação
-pacifica do seu povo, D. Diniz, empenhara-se essencialmente em nos dar
-marinha, animando a mercante, protegendo a pescadora, desenvolvendo
-a de guerra, já providenciando para que se podessem fazer navios, já
-indo buscar a Genova, a grande nação marinheira do Mediterraneo, os
-navegadores que podiam dar aos nossos mareantes os conhecimentos
-technicos que lhes faltavam. Como se tivesse a previsão de que ainda a
-Portugal caberia tentar a ultima empreza cavalheiresca da edade média,
-não se conformára com a suppressão dos Templarios, e fundára para os
-substituir a ordem de Christo, cujos cavalleiros tinham de vir a ser os
-Templarios do mar, cujo habito e cuja commenda foram a «estrella dos
-bravos», cujas phalanges intrepidas foram a Legião de Honra das nossas
-maritimas victorias.
-
-Logo as primeiras expedições atlanticas mostraram que rumo Portugal
-queria seguir, mas as discordias intestinas e as ambições dos reis
-adiaram o proseguimento das tentativas. Não se resignavam os nossos
-soberanos a manter o seu reino em tão estreitos limites, mas Castella
-engrandecera-se tanto que não nos era facil a dilatação. Foi o contrario
-que esteve para succeder, foi Castella que esteve a ponto de absorver
-Portugal; na lucta desegual empenharam-se então todas as nossas forças
-vivas; toda a energia da nossa organisação, toda a furia do nosso
-patriotismo local despertaram para essas pelejas homericas. O perigo
-imminente fez com que a patria se retemperasse na grande corrente
-democratica. A nacionalidade portugueza luctou com a poderosa Castella
-como Anteu com Hercules, cobrando novas forças sempre que tocava no solo
-portuguez. Em 1385 como em 1640 foi o povo que salvou a bandeira. A gente
-dos concelhos, indo, _ventres ao sol_, na energica phrase de Fernão
-Lopes, combater contra os cavalleiros vestidos de ferro, manifestava
-na peninsula hispanica uma nova força social, a mesma que dera aos
-_yeomen_ inglezes a victoria sobre a cavallaria feudal da França, e aos
-montanhezes suissos a victoria sobre a cavallaria aristocratica de Carlos
-o Temerario. Nunca houve uma efflorescencia tão notavel de bravura e de
-talento, de genio aventuroso e de dedicação patriotica, nunca estiveram
-em tão continua vibração todos os nervos e todos os musculos de um
-organismo nacional. Quando acabou a lucta, depois de ter insculpido
-nos annaes gloriosos da patria os nomes de Trancoso e de Atoleiros, de
-Aljubarrota e de Valverde, de D. João I e de Nuno Alvares Pereira, a
-geração que praticára esses feitos estava ainda vibrante de energia, o
-cerebro que concebera a reorganisação nacional estava scintillante de
-idéas. Foi então que Vasco de Lobeira devaneou o _Amadis de Gaula_, que
-Fernão Lopes fez trasbordar nas suas inimitaveis chronicas a exuberancia
-poetica da alma nacional, que os architectos e os canteiros fizeram
-desabrochar no campo da peleja a flor maravilhosa da Batalha, que o
-infante D. Henrique sonhou a epopéa dos descobrimentos.
-
-Quando uma nação acaba de se empenhar n’uma lucta aventurosa de muitos
-annos custa-lhe a voltar de novo ás occupações serenas da paz. Ha em
-todos os espiritos uma sede de aventuras, uma necessidade absoluta de
-occupar a sua energia. É por isso que vemos, depois das grandes luctas
-do principio d’este seculo, os generaes francezes e os officiaes de
-marinha inglezes procurar em todo o mundo emprego para a sua actividade.
-Encontramos até no Oriente officiaes de Napoleão pondo a sua espada
-ao serviço de monarchas indianos, na Europa e na America officiaes de
-marinha inglezes a commandar as esquadras insurgentes nas luctas da
-independencia americana e da liberdade europêa. Assim no seculo XV vamos
-achar cavalleiros portuguezes á cata de aventuras na Inglaterra e na
-França e até na mais remota Allemanha. Sem fallarmos em D. Alvaro Vaz de
-Almada, cujos serviços mereceram na Inglaterra a altissima recompensa da
-ordem da Jarreteira e do condado de Avranches, nem no infante D. Pedro, e
-em Soeiro da Costa, achamos nas guerras de França, no cêrco de Arras, por
-exemplo, cavalleiros portuguezes, cujo nome ficou desconhecido, entrando
-em combates singulares deante dos muros da praça assediada.[51] É esta
-necessidade de dar vasão a esta superabundancia de energia que leva
-D. João I, incitado por seus filhos, á expedição de Ceuta, é um povo
-n’essas disposições que o infante D. Henrique vae encontrar apto para as
-audaciosas explorações do Atlantico.
-
-Note-se: hoje ainda, depois de tantos seculos de decadencia, nós somos
-o povo da aventura. Indolentes na patria, amanhando sem enthusiasmo
-um solo uberrimo que se desentranharia em maravilhosos fructos se
-lhe dessemos francamente todo o trabalho dos nossos braços e todo
-o pensamento do nosso cerebro, discursadores declamatorios, sem
-iniciativa nem acção, mudamos completamente apenas transpomos as
-barras dos nossos rios. Apertados entre as montanhas e o mar, é nas
-montanhas que temos a nossa força de resistencia, é no mar que temos o
-nosso vigor de emprehendimento. Os nossos montanhezes intrepidos são
-ainda hoje os lidimos descendentes dos companheiros de Viriato, os
-nossos pescadores são deveras os filhos audaciosos dos marinheiros de
-Gil Eanes. Lá fóra a transformação é mais completa ainda: fizemos o
-Brazil, e estamos continuando a dar ao seu desenvolvimento os elementos
-da nossa actividade exotica; estamos fazendo a Africa portugueza, e
-os vestigios dos nossos aventureiros mercadores são encontrados com
-espanto no interior da Africa; nos Estados-Unidos temos uma colonia
-trabalhadora e autonoma que se não deixa absorver pelo povo americano;
-nas ilhas Sandwich a immigração portugueza rivalisa em importancia com
-a immigração ingleza; em Demerara constitue o fundo da população branca
-trabalhadora. A alma celtica palpita ainda hoje nos nossos peitos, como
-palpitaria então n’esse seculo XV, que foi o nosso seculo aureo, depois
-das luctas homericas de Aljubarrota, quando o povo trasbordava de vida
-e de enthusiasmo, prompto para todas as luctas, sazonado para todas as
-aventuras.
-
-A dynastia reinante reflectia perfeitamente o estado da alma popular.
-O rei era um bastardo, um filho do amor, e de um amor de D. Pedro, o
-rei mais violento e mais apaixonado que nunca se sentou n’um throno!
-O sangue borgonhez de seu pae cruzara-se com o sangue normando de sua
-esposa, e d’ahi nascera aquelle grupo admiravel de principes robustos
-e intelligentes, educados por sua mãe n’aquelle retiro sagrado das
-principescas familias medievaes, n’esses quartos forrados de tapeçarias
-de _haute-lice_, em que pareciam á noite, á luz vacillante das tochas,
-tomar vida phantastica os heroes das scenas de cavallaria traçadas
-nos pannos de raz, ouvindo os graves conselhos da mãe, pura, séria e
-heroica, embalados com a poesia das canções de gesta e com as aventuras
-dos romances de cavallaria, e, quando saíam do regaço materno, não vendo
-em torno de si senão rostos energicos de homens como seu pae, como Nuno
-Alvares, cuja vida inteira era um poema de heroismo, e que, ao viajarem
-no seu reino, dirigiam quasi sempre os passos para a campina sagrada,
-onde se estava erguendo sobre as columnatas esguias essa maravilhosa
-abobada d’onde parecem chover os altos pensamentos, e o altar-mór onde
-se accendia nas vidraças coloridas o sonho vago e radiante de uma visão
-paradisiaca.
-
-Tal era o meio onde tinham forçosamente de brotar os grandes
-emprehendimentos. Foi d’esse meio que saiu a expedição de Ceuta, que
-não bastava para satisfazer a insaciavel cubiça de aventuras d’esses
-principes, que não viam em torno de si senão homens em cuja alma as suas
-aspirações encontravam echo ou estimulo. Assim D. Pedro foi pela Europa
-fóra procurar emprego para a sua energia e para a sua cubiça de saber, D.
-Fernando devaneou desde logo o proseguimento da conquista africana, D.
-Henrique, estudioso e reflexivo, sonhou a conquista do mar.
-
-É difficil o desenho d’esta notabilissima figura. Levanta-se contra
-ella agora uma campanha de improperios, em que os adversarios parecem
-querer applicar ao juizo severo e imparcial da historia os processos das
-campanhas jornalisticas das luctas contemporaneas. Tomou parte n’esta
-campanha o sr. Theophilo Braga, e é pena que o fizesse, porque o livro em
-que essas tendencias incidentemente apparecem é um dos mais notaveis que
-se lhe devem, a _Historia da Universidade_.[52] Fez-se echo simplesmente
-comtudo da maledicencia de um d’estes eruditos, que, descobrindo um
-facto minusculo que pode attenuar a gloria de uma descoberta, ou achar
-um ponto vulneravel no vulto de um heroe, vem triumphantemente para
-a rua soltar o _Eureka_ de Archimedes, declarando _urbi et orbi_ que
-vão demolir uma reputação firmada pelos seculos. Têem odios historicos
-tão violentos estes biliosos da erudição como os podem ter contra um
-poderoso adversario os mais fanaticos jacobinos da politica moderna.
-São perigosos homens assim, e o historiador imparcial tem de afastal-os
-serenamente como afasta os insultadores contemporaneos do insultado, que
-entornam com delicias o fel das suas calumnias nas paginas que enviam á
-posteridade. Seculos depois de desapparecer da face do mundo um homem
-eminente, apparecem deturpadores vehementissimos, em cujo espirito a
-vaidade de fazerem vingar um novo pensamento historico produz tão ruins
-consequencias como as pôde produzir seculos antes o odio de um invejoso,
-o despeito de um desprezado, ou a vingança de um vencido.
-
-Era por acaso o infante D. Henrique um impeccavel? Mais ainda: era um
-vulto sympathico, affectuoso, altruista, um d’estes entes divinaes como
-o Christo, cuja doce bondade irradia na Historia, que nos captiva quando
-lêmos a sua Vida como devia captivar os que no seu tempo viveram, debaixo
-do influxo magnetico da sua meiguice, da sua amoravel candura? Não, de
-certo, e nem é esse infelizmente o caracteristico dos homens a quem se
-devem os grandes emprehendimentos. É terrivel o homem _unius libri_, diz
-o pensador antigo. Não o é menos o homem de um só pensamento e de uma só
-ambição. Bondoso, quando se trata de attrahir os outros, de os enfeitiçar
-e de os fazer escravos da sua idéa e instrumentos do seu plano;
-absolutamente despido de toda a caridade e de todo o affecto quando o
-instrumento deixa de servir, e quando o escravo pede em paga uma pouca
-de dedicação e um pouco de sacrificio. Um dos homens mais captivadores
-que tem havido foi Napoleão. Prendia, subjugava com o encanto da sua
-apparente bondade, inspirava dedicações fanaticas, mas nunca foi bom para
-os outros, nunca pensou na felicidade alheia. Entregue exclusivamente ao
-seu pensamento ambicioso, á grandeza da sua idéa gigante, absorvia-se
-todo n’ella, bastante habil para se não esquecer de captar aquelles de
-que precisava, o exercito, o povo, os principes, o Papa, as mulheres, os
-artistas, e incapaz de fazer um sacrificio a uma mulher, ou de ter dó de
-um velho! Impede isso por acaso que a historia não deixe de reconhecer a
-grandeza excepcional do seu genio e a obra maravilhosa que executou, e
-que ainda está de pé, porque a verdade é que o organismo da França é hoje
-ainda o que elle construiu, e portanto o organismo da Europa continental
-tambem que por elle se modelou?[53]
-
-Ninguem pintou melhor o infante do que o sr. Oliveira Martins no seu
-admiravel livro _Os filhos de D. João I_:[54] duro, sem bondade, asceta
-do pensamento. E, se outra coisa fosse, poderia por acaso levar por
-deante uma obra em que era indispensavel a energia, a perseverança e
-a implacavel obstinação? Sympathicos são seus tres irmãos, D. Duarte,
-D. Pedro e D. Fernando, que o coadjuvam, que o admiram, que a elle se
-sacrificam. Mas D. Henrique é um solitario, como todos os que têem a
-allucinação de uma missão divina. Todo se abraza na embriaguez do mar,
-no sonho das vagas regiões longiquas, na procura da India, d’essa India
-triplice e maravilhosa, que, depois do livro de Marco Polo, sobretudo,
-toma as proporções phantasticas de uma d’essas cavernas das _Mil e Uma
-Noites_, illuminadas pelas fulgurações das pedras preciosas, pelo fulvo
-scintillar do oiro, pela nitida brancura da prata. Essa conquista do
-mar quel-a toda para si e isso lhe lançam em rosto os seus modernos
-detractores, como os bourbonicos lançavam em rosto a Napoleão não querer
-ser logar-tenente de Luiz XVIII e os republicanos não se contentar com
-o consulado electivo—queria-o para si e para a ordem de Christo que era
-a sua guarda pretoriana. Auxilia-o D. Pedro nas suas investigações,
-traz-lhe o fructo das suas viagens, auxilia-o D. Fernando na empreza de
-Tanger, d’essa cidade maritima que elle cubiça como um ponto de partida
-mais seguro para as suas expedições navaes; mas D. Fernando encontra
-n’elle um debil auxiliar quando vem a grave questão do seu captiveiro,
-D. Pedro, um indifferente, quasi um inimigo, na terrivel contenda em que
-estão em jogo a sua vida e a sua honra; é que todas as faculdades da sua
-alma estão concentradas na sua grande empreza. Mais do que o doge de
-Veneza elle casou com a vaga atlantica. Deu-lhe todos os affectos e toda
-a pureza da sua alma, as faculdades do seu espirito. Por ella captivou
-com as suas promessas e com as suas seducções quantos estrangeiros o
-podiam ajudar na sua empreza, por ella abstrahia de todas as ambições que
-não fossem a de conquistar para si, para a historia, para a fé e para a
-sciencia um immenso imperio ultramarino. É um monge militar isolado no
-seu castello sobre o Oceano, como os primeiros mestres do Templo, seus
-antecessores, nos seus castellos da Palestina. A sua Jerusalem é a Aryn
-que elle procura ainda, talvez, no meio dos fogos da zona torrida, o
-seu Santo Sepulchro é esse mar immenso, onde se sepulta o sol, e de que
-elle affugenta, com a prôa das suas caravellas, como os Templarios os
-Sarracenos com a ponta das suas lanças, os pavores da superstição, os
-erros da sciencia e as illusões da fé.
-
-Que outros condemnem esse implacavel sonhador que fechou a sua alma aos
-affectos humanos para todo se concentrar na paixão por um ideal que a
-um tempo o illumina e o allucina! Que outros lamentem esse egoismo de
-namorado, que o torna surdo para todas as supplicas e inaccessivel a
-todas as dedicações, mas que nós Portuguezes lhe regateemos a gloria,
-e lhe amesquinhemos o caracter, e lhe neguemos a indulgencia que a
-fraca humanidade deve ter com os defeitos que acompanham fatalmente as
-grandes qualidades, quando a esse egoismo sagrado, a essa perseverança
-intransigente devemos o termos dado ao mundo a mais assombrosa conquista,
-e termos conquistado para nós uma gloria que ainda hoje illumina as
-nossas ruinas, e dá á nossa decadencia a purpura e o oiro de um pôr
-de sol explendido, isso é o que se não comprehende, e o que se pode
-considerar como uma das mais flagrantes injustiças e das mais negras
-ingratidões que podem macular um povo.
-
-
-
-
-VI
-
-Queda das barreiras da zona torrida e primeira exploração do Atlantico
-
-
-Qual era o ponto de vista do infante, quando começou a dirigir para o
-sul as expedições? Era simples: Eratosthenes déra á Africa a fórma de
-um trapezio, sendo o lado septentrional banhado pelo Mediterraneo, o
-oriental pelo Nilo, o meridional pelo mar desconhecido, o occidental pelo
-Atlantico. Este lado era o mais pequeno. Pouco abaixo do estreito de
-Gibraltar a costa voltava para SSE, e ia juntar-se com a costa oriental.
-Era esta a doutrina geralmente admittida, e assim se representa a Africa
-na maior parte dos mappas medievaes. Outros, porém, seguiam a doutrina de
-Ptolomeu que prolongou a Africa, alargando-a na base: e então imaginavam
-uma costa ficticia ao sul que ligava entre si a Africa Oriental e a
-Occidental, mas parando em todo o caso para aquem do Equador, porque a
-zona torrida era sempre considerada inhabitavel, e para além da zona
-torrida ficava, segundo a theoria de Ptolomeu, a terra antichthona.
-
-Deu isso origem a que corresse a lenda do famoso mappa trazido pelo
-infante D. Pedro de Veneza, e em que estava traçado o cabo da Boa
-Esperança, e suppõe-se tambem que o estreito de Magalhães! A confusão é
-curiosa. O mappa que deu logar a essa lenda é um mappa já posterior aos
-primeiros descobrimentos dos Portuguezes, representa a Africa terminando
-n’uma ponta a que dá o nome de cabo de Diab, mas esse cabo está separado
-do continente africano por um estreito, onde havia, dizia a legenda,
-a treva absoluta. Parecia que era esse canal a ultima reliquia, que
-procurava sobreviver ainda, do mar Tenebroso.
-
-Parecia-se esse estreito com o estreito de Magalhães, e, da mesma fórma
-que muitos confundiram a terra antichthona com a America, para lá lhe
-passaram o imaginario canal do sul da Africa.
-
-Humboldt, que tão facilmente acceita o que pode redundar em nosso
-desfavor, ao passo que regeita tudo o que possa redundar em desfavor
-de Colombo, Humboldt, que não trata de saber se a Guiné a que chegou
-Bethencourt é a Guiné que os Portuguezes descobriram depois, apesar
-de acautellar os seus leitores contra os erros que podem resultar da
-confusão de nomes identicos que se davam a regiões muito diversas,
-tambem d’esta vez, reconhecendo que os mappas de Toscanelli, onde todos
-dirão que se encontram as Antilhas descobertas por Colombo, são mappas
-perfeitamente conjecturaes, não hesita em acceitar o mappa conjectural de
-fra Mauro, em que vem o Cabo de Diab, como mappa baseado em conhecimentos
-positivos.[55]
-
-E comtudo fra Mauro nas indicações que acompanham o seu mappa, feito
-em 1454, é o primeiro a reconhecer os serviços dos Portuguezes, e a
-declarar que d’estes recebeu muitos mappas, que lhe tinham servido para a
-elaboração do seu.
-
-«Muitos pretenderam, diz elle, e grande numero escreveram que este
-mar (o _Atlantico_) não pode ser _torneado_, nem navegado, nem ter
-habitantes nas suas praias como a nossa zona temperada e habitada; _mas
-é agora de toda a evidencia que se pode sustentar uma opinião contraria,
-principalmente porque os Portuguezes que o rei de Portugal mandou a bordo
-das suas caravellas para verificarem este facto, referiram, depois de
-se terem certificado elles mesmos, que tinham explorado esse continente
-pelo espaço de mais de duas mil milhas desde o sudoeste do estreito de
-Gibraltar_, que em toda a parte os recifes da costa não são perigosos,
-que as sondas são boas, que a navegação é facil, sendo as tempestades
-mesmo pouco perigosas. Elles levantaram cartas d’estas regiões e deram
-nomes aos rios, bahias, cabos e portos. Possúo um grande numero de
-borrões ou esboços d’essas cartas».[56]
-
-Accrescenta elle, porém, _que nenhuma d’essas cartas resolvia a grande
-questão de se saber-se se podia fazer a circumnavegação da Africa_!
-
-É fra Mauro que o diz, no proprio mappa, que prova, segundo Humboldt
-imagina, que o cabo da Boa Esperança era conhecido mais de quarenta annos
-antes de Bartholomeu Dias o dobrar!
-
-Não se vê porém que a emenda conjectural nos mappas antigos é aqui
-evidente? Já estão os Portuguezes a duas mil milhas do estreito de
-Gibraltar, e a costa africana não volta bruscamente para leste. Não é
-bem natural suppor a probabilidade de terminar a Africa em ponta, visto
-que a occidental se dirige para SE, como a oriental se dirige para SO?
-Como o proprio Humboldt affirma e faz notar, depois dos descobrimentos
-os cartographos não se limitavam a inseril-os, mas accrescentavam ás
-regiões descobertas os seus complementos conjecturaes. E tanto assim
-é que, ao lado do cabo em que a sua phantasia roçou pela verdade, poz
-um estreito que não existia, que, depois de ter imaginado a Africa
-torneavel, continúa a dizer que não sabe-se se poderá tornear, e que,
-ao passo que fundamenta nas descobertas portuguezas a sua descripção da
-Africa Occidental, nada diz de quaesquer viagens que tivessem podido
-esclarecel-o ácerca da fórma que podia dar á Africa meridional!
-
-Nada ha mais estranho do que o que succede com os Portuguezes n’esta
-questão dos descobrimentos. Quando elles os fazem, toda a Europa os
-applaude, affluem a Portugal aventureiros que querem tomar parte nas
-nossas expedições, e navegar nas nossas caravelas. Ninguem se lembra de
-dizer que já sulcaram esses mares, ou que já foram a essas terras. Os
-Normandos, longe de fallarem em pretenções suas, aconselham a quem queira
-fazer expedições para esses lados que tome pilotos em Portugal, porque
-aqui os encontra sabendo bem aquellas derrotas. Os papas concedem-nos o
-dominio d’essas terras baseado nos direitos de primeiro occupante, os
-reis de França e de Hespanha, tão ciosos das suas pretenções, reconhecem
-esse direito sem a minima objecção e até castigam os seus subditos que
-tentam violal-o, os navegadores de toda a Europa, _os taes que nos tinham
-precedido_, o que fazem é tentar surrateiramente seguir-nos e apanhar aos
-nossos pilotos, comprando-os muitas vezes, os segredos da derrota, os
-cosmographos e os cartographos com os nossos viajantes mantêem relações
-seguidas, e nas suas relações e nos seus mappas se baseiam para traçar o
-que já está descoberto e para conjecturar o que não está; tão corrente é
-na Europa a historia das navegações portuguezas que, estando ainda bem
-fresca a memoria d’essas primeiras aventuras do mar, e tendo Colombo
-residido nas ilhas descobertas pelos Portuguezes, allega, quando na sua
-primeira viagem se quer guiar pelo vôo dos passaros, que foi assim que
-os Portuguezes descobriram as suas ilhas,[57] e D. Henrique chama para
-Sagres o cartographo malhorquino Jayme, e comtudo os seus escudeiros
-ufanam-se de terem descoberto o Rio do Oiro, e com elles se regosija o
-infante e se regosija o cartographo, sem que este se lembre de allegar
-que já por um seu patricio, ou por um seu parente, ou por elle mesmo,
-talvez, como chega a suppor o sr. D. Cesario Fernandez Duro, esse rio
-fôra descoberto![58] E seculos depois é que apparecem as estultas
-pretensões de se querer demolir essa gloria toda em proveito de um
-desconhecido, mas baseadas em tão frivolos argumentos que bastou que o
-visconde de Santarem passasse uma revista á cartographia da meia edade,
-ás suas chronicas, aos seus documentos, aos seus tratados e aos seus
-livros de sciencia, para que a inanidade de semelhantes affirmações se
-apresentasse com uma evidencia esmagadora!
-
-Vão pois os navegadores portuguezes caminho da India que é desde o
-principio o alvo dos seus esforços. Contam que, antes de chegar ao
-Equador, voltarão para leste, e ha uma coisa só de que n’esse momento D.
-Henrique duvida, é que o mar das Indias seja um mar mediterraneo. Se o
-acreditasse, como bem diz Humboldt, não faria a tentativa. Antes, porém,
-de se aventurarem para além do cabo Bojador, encontram Gonçalves Zarco e
-Tristão Teixeira Porto Santo e a Madeira, Gonçalo Velho Cabral os Açores.
-
-Muitas vezes os pescadores portuguezes poderiam ter encontrado algumas
-d’essas ilhas, e possivel era tambem que os nossos navios commandados
-pelos pilotos genovezes que D. Diniz chamára a Portugal, tivessem
-arribado a esses archipelagos. Eu mesmo já acceitei um pouco essas
-doutrinas sustentadas por Major, e a que dava certa apparencia de verdade
-o modo como Azurara conta o descobrimento. Fil-o, porém, antes de ter
-estudado mais profundamente a cartographia da meia edade, antes de ter
-visto como esses cartographos conheciam os phantasticos archipelagos do
-Oceano Atlantico, e fixavam nos seus mappas as ilhas de S. Brandão, da
-Antilia, das Almas, do Purgatorio, sonhadas pela imaginação celtica dos
-povos occidentaes da Europa. Não navegaram os Portuguezes n’um Oceano que
-imaginavam deserto, mas sim n’um Oceano onde as ilhas pullulavam. Quando
-a alguma chegavam, não suppunham tel-a descoberto, mas tel-a simplesmente
-encontrado. Depois de terem descoberto todas, ainda continuaram a
-procural-as, e hoje mesmo ainda na Madeira se suppõe que a ilha das Sete
-Cidades se tem conservado escondida, longe das estradas maritimas, por
-traz de alguma dobra do ainda mysterioso Oceano.
-
-Essa ingenuidade portugueza, que serviu depois para os seus detractores,
-manifesta-se tambem na exploração das costas africanas. Nenhum navegador
-suppõe que chega a terra desconhecida. Todos imaginam que não fazem senão
-encontrar terras cuja existencia não era ignorada pela sapientissima
-antiguidade. Os nomes de Ptolomeu, de Strabão, de Eratosthenes, de
-Plinio, de Pomponio Mela e de Solino continuam a ser nomes oraculares
-para aquelles que estão demolindo o castello de cartas da sua vã e
-ephemera sciencia. Marco Polo está sendo tambem um dos seus idolos.
-Chegando ao Senegal julgam ter encontrado o Nilo dos Negros, porque estão
-ainda convencidos da verdade da velha doutrina, que separa o Nilo em
-dois grandes braços, um dos quaes se dirige para o Atlantico e o outro
-para o Mediterraneo. O que os espanta e ao mesmo tempo os exalta é o não
-encontrarem monstros, as ondas tenebrosas, os montes ardentes, toda a
-guarda avançada da implacavel zona torrida. Para que primeiro arcassem
-com esses receios foi necessaria toda a energia do infante D. Henrique,
-mas a pouco e pouco foram-se familiarisando com esses mares que tão
-terriveis se suppunham anteriormente, e eram elles que davam a fra Mauro
-as informações tranquillisadoras que elle insere nas annotações ao seu
-planispherio.
-
-No ponto de vista em que nós nos collocamos, e que suppomos ser
-absolutamente verdadeiro, quer dizer desde o momento que sustentamos que
-o serviço immorredouro que Portugal prestou á civilisação e á sciencia
-foi o ter demolido a noção consagrada da zona torrida inhabitavel, e
-que a prova de sobre-humana audacia que os Portuguezes déram foi a de
-transpor sem hesitação os limites d’essa zona torrida, percebe-se que
-nos seria completamente indifferente que se provasse que navegadores
-estrangeiros tinham precedido os nossos nos mares que ficam para além
-do Bojador. Isso não faria senão levar um pouco mais adeante o ponto de
-partida das expedições portuguezas indubitavelmente gloriosissimas, e
-cuja honra Humboldt confessa que nos cabe sem contestação, as expedições
-á região equatorial.[59] Mas a verdade irrefragavel é que esse limite,
-que os Portuguezes transpozeram, foi sem duvida alguma o cabo Bojador.
-Como Humboldt nota, com perfeita razão, o horizonte geographico vae-se
-alargando a pouco e pouco, e a verdade é que, uma vez ampliado, não se
-estreita de novo. Para o lado do occidente os primeiros limites foram
-os do mar Egeu, depois o do meridiano das Syrtes, depois o das columnas
-de Hercules, depois para o norte o extremo meridiano da Europa, para o
-sul o da costa africana.[60] Vemos que a mansão da felicidade suprema
-acompanhou a ampliação d’esse horizonte, primeiro no Oasis do Egypto,
-depois na Cyrenaica, depois na costa africana, a pequena distancia das
-columnas de Hercules, depois nas Canarias. Não ha saltos n’este progresso
-forçosamente methodico. Logo que se transpõe um limite maritimo a
-navegação prosegue.
-
-Para o sul o cabo Não foi por muito tempo o limite, depois o Bojador.
-Transpoz-se esse limite em 1433? logo affluiram a Portugal estrangeiros
-curiosos d’essa novidade, e logo D. Henrique tratou de se assegurar
-da posse das terras que vae descobrir. Depois da expedição de Antão
-Gonçalves e de Nuno Tristão em 1441, vão embaixadores portuguezes ao papa
-Eugenio IV a pedir-lhe as bullas necessarias, e já com Antão Gonçalves na
-viagem immediata vae o allemão Balthazar, que vem da côrte do imperador
-Frederico III correr estas novas aventuras.[61] E comtudo desde 1415 se
-empenhava o infante em explorações maritimas, sem que reclamasse do Papa
-quaesquer concessões, sem que os estrangeiros se interessassem por essas
-tentativas infructiferas. Tudo muda de 1433 por deante. Porque? porque se
-rompera evidentemente mais uma das barreiras que tinham successivamente
-detido a marcha da humanidade, porque se tinham transposto mais algumas
-das columnas que formavam o portico do mundo sobre o desconhecido,
-columnas de Briareu primeiro, columnas de Hercules depois, estatuas das
-ilhas Khalidat dos Arabes, emfim.
-
-Em 1436 chegou Affonso Gonçalves Baldaya ao Rio do Ouro, ou o que elle
-suppunha que era um rio, e que não era afinal senão um braço de mar,
-e, dando-lhe esse nome, conformou-se mais uma vez com o respeito pela
-tradição antiga, que affirmava que para o lado das ilhas Afortunadas,
-como dizia Pindaro nas suas Olympiadas, rios que conduziam ouro entravam
-no Oceano.[62] Assim os Arabes davam o nome de rio do Ouro a muitos,
-situados muito áquem do cabo Bojador, assim os Catalães chamavam rio
-do Ouro a um rio que encontravam para além do cabo Não e proximo das
-Canarias, tanto que no proprio mappa em que se affirma que Jayme
-Ferrer procurara o rio do Ouro, o traçado da costa não vae além do
-cabo Bojador.[63] Podia haver mais evidente prova de que o Rio do Ouro
-catalão não é o Rio do Ouro portuguez? Não fallemos sequer em que o Rio
-do Ouro de Jayme Ferrer é, como o descreve o manuscripto de Genova, com
-que se pretende dar authenticidade ao facto,[64] um rio largo em que
-podem fundear náus potentes, emquanto o Rio do Ouro de Affonso Gonçalves
-Baldaya nem rio é sequer, e n’elle, segundo affirma o almirante Roussin
-que o estudou hydrographicamente, só canôas podem entrar.[65] Basta
-vermos que os mappas em que se baseia a pretenção, param no Bojador, como
-no Bojador pararam os navegantes a quem depois se quiz attribuir a gloria
-de o ter transposto.
-
-Em 1441 descobria Nuno Tristão o cabo Branco, em 1443 os ilheus de
-Arguim, em 1445 acabava-se de descobrir a costa do Sahará e entrava-se
-na costa da Senegambia, e n’este meio tempo entravam já em Portugal com
-abundancia os escravos africanos.
-
-Nodoa é esta com que se pretende manchar a gloria dos nossos
-descobrimentos, como se n’essa epocha em que os proprios brancos ainda
-tinham, pode dizer-se, roxos os pulsos dos grilhões com que lh’os
-algemára a servidão da gleba, n’essa epocha em que tinham escravos os
-proprios mosteiros e as egrejas, se podesse ter ácerca da liberdade do
-homem as idéas largas que, só uns poucos de seculos depois, e a muito
-custo, se implantaram na legislação dos paizes mais cultos. E é curioso
-que sabios escriptores accusem o infante de ter sido o responsavel pela
-escravatura negra, como se não fosse tão facil ás virtuosas nações, cujo
-credito elles defendem, eximir-se a seguir tão mau exemplo! como se ao
-Papa, que representava a suprema lei moral da sociedade de então, não
-coubesse o dever de conceder as terras, mas de prohibir os escravos!
-como se não fosse evidente que o mesmo faria qualquer nação que nos
-precedesse, e que o facto de não apparecerem escravos pretos na Normandia
-no seculo XIV é mais uma prova contra as suas pretenções! E comtudo
-a prioridade na escravisação das populações africanas essa é que os
-Normandos podem reclamar sem contestação, porque, bastantes annos antes
-de se venderem nas praças de Lagos os escravos da costa africana, já o
-normando João de Bethencourt, rei das ilhas Canarias, vendêra na Hespanha
-os seus subditos.[66]
-
-Mas o que dominava sobretudo no espirito de D. Henrique era a anciedade
-da investigação scientifica e o ardor pela conquista dos grandes ideaes
-religiosos da meia edade, e é isso o que faz com que o espirito do
-infante só encontre depois na historia dos descobrimentos outro que
-com elle se irmane—o de Christovam Colombo. Essa allucinação em que
-ambos vivem é que os torna proprios para emprezas, que só com grande
-perseverança se podem realizar, e essa perseverança só a encontra quem
-tem um enthusiasmo absolutamente exclusivo. Quaes são as instrucções que
-levam sempre os capitães dos navios de D. Henrique? Procurar identificar
-os rios que descobrem com o Nilo dos Negros, que a geographia systematica
-dos antigos considerava como um braço do grande rio egypcio que vinha
-desemboccar no Atlantico. Julgam encontral-o ao ter chegado ao Senegal
-como depois o imaginam ainda no Niger, e talvez no Zaire tambem. E
-tão absortos estiveram por muito tempo os Portuguezes no seu respeito
-cego pelo saber da antiguidade, que ainda foi um piloto portuguez no
-seculo XVI que procurou commentar e explicar o Periplo de Hannon, sendo
-o seu commentario na Italia de todos o mais apreciado.[67] No proprio
-momento em que podiam justamente ufanar-se de sulcar mares nunca d’antes
-navegados, ainda se escondiam modestamente por traz da sombra de Hannon,
-o legendario navegador, que, tendo chegado a algumas leguas do estreito
-de Gibraltar, imaginou logo ter percorrido um immenso espaço de agua![68]
-
-O outro desejo ardente do infante D. Henrique era encontrar as terras do
-Prestes João, esse mytho medieval que tomou mil fórmas, apparecia nas
-mais variadas terras, até que, ao condensar-se na realidade prosaica,
-appareceu transformado n’aquelle pobre _negus_ da Abyssinia, symbolo
-curioso da dissolução dos mythos, que no periodo poetico da humanidade se
-revestem dos mais extraordinarios esplendores, e que nos frios annos da
-prosa se reduzem ás mais chatas personalidades.
-
-O Prestes João fôra a prolongação pela edade média da lenda da primitiva
-Egreja Oriental, que déra ao apostolo João, ao discipulo amado, ao
-evangelista mais querido da imaginação popular, a perpetuidade da
-existencia. Não acceitou a Egreja a lenda, mas ella permaneceu no
-Oriente, modificada, fluctuante, desdobrando-se o personagem que é seu
-protoganista, no apostolo e no presbytero.[69] Talvez porque n’uma das
-epistolas, conhecidas pelo nome de João, o apostolo, por esse nome se
-designa este _presbytero João_, que toma em parte o caracter do apostolo,
-em parte o caracter de um discipulo do apostolo, torna-se, por assim
-dizer, a gloria e o tormento da Egreja de Epheso; a gloria, porque essa
-Egreja se ufana de lhe pertencer o personagem privilegiado que herdou do
-venerado Mestre o amor e a predilecção do céu; o tormento, porque esse
-personagem é vago, confuso, indefinido, mal visto pela Egreja em geral, e
-fonte de possiveis heresias.
-
-Mas entretanto corria a edade média com a sua louca anciedade
-pelo advento de um mundo melhor. Não se cumpriam as promessas do
-christianismo. Não chegára o reinado da justiça. Na terra atormentada
-por mil flagellos arrastava o homem uma existencia atribulada, calcado
-aos pés pelos poderosos, faminto, presa a cada instante da peste e da
-guerra implacavel e atroz. Não chegára a era millenaria, a era sublime
-em que Jesus voltaria, e em que, rodeiado dos seus martyres, como de
-uma legião sagrada da fé e do bem, reinaria sobre a terra até que ella
-desapparecesse subvertida no cataclysmo final.
-
-O que nascia, pelo contrario, era a crença desanimadora ao anno Mil,
-annunciado como o anno em que o mundo acabaria sem ter tido a consolação
-suprema de vêr o reinado do Bem; mas o anno Mil passou sem trazer comsigo
-o cataclysmo esperado. Seria afinal verdadeira a promessa do reino
-millenario, do reino dos martyres, que o Apocalypse de João annunciou?
-E a idéa d’aquelle Presbytero João, que vive a sua longa existencia nos
-páramos do Oriente, testemunha millenaria do grande acto da Paixão,
-fluctúa no animo dos povos. Não será em torno d’elle que se agruparão
-os bons, os martyres, os fieis, e não será nas suas terras que estará
-irradiando uma perpetua aurora, tranquilla, suave, toda misericordia e
-paz, emquanto cá pelo Occidente parece que o sol se afoga todos os dias
-n’um occaso sanguineo, n’um horizonte perpetuamente em braza, entre os
-clamores dos miserandos que teem sêde de justiça e o tinir das espadas
-gottejantes de sangue, o crepitar das chammas dos incendios e o rugido
-dos mares e as gargalhadas da impiedade? E lá no Oriente, onde existe o
-Paraizo, começa-se a devanear tambem a existencia de outro Paraizo mais
-accessivel ao homem, se é que se não confundem n’um só Paraizo aquelle
-de que o homem foi expulso, e o outro em que o homem ha de entrar, quando
-lhe franquear a entrada o guarda a quem o confiaram Christo e o discipulo
-amado.
-
-Essa lenda vaga, ou antes essa incerta aspiração, concretisou-se n’uma
-d’essas obras anonymas em que o sentimento popular se manifesta, em que
-os devaneios da sua alma são encorpados, desenvolvidos e ordenados por
-um trovador ignorado, por um narrador mysterioso, que é afinal de contas
-quem produz verdadeiramente a obra popular, que depois muitas vezes um
-grande poeta aproveita para uma obra immortal. Assim se formou a lenda do
-Prestes João com o seu reino de maravilhas, a do Judeu errante, a do dr.
-Fausto, a de D. João Tenorio, e a de mil outros, que não tiveram outro
-berço senão a redacção humilde e vulgar de um pobre sonhador ignorado,
-que desapparece entre o povo, a quem se attribue a gloria da concepção,
-e a obra do grande poeta que deu á lenda a fórma definitiva e litteraria
-que a tornou immortal. O modo como esta lenda se formulou foi na redacção
-de uma carta dirigida pelo Prestes João ao imperador de Roma e ao rei de
-França e em que lhes contava as maravilhas do seu reino, onde os homens
-viviam annos quasi infinitos, onde havia maravilhosas riquezas, onde os
-animaes e as plantas tinham um tamanho descommunal, e onde reinava a
-paz e a justiça.[70] O que deu origem talvez á carta, ou o que chamou
-para esse vago personagem do _Presbyter Johannes_ ou _Prestre Jean_ ou
-_Prestes João_ a attenção dos povos occidentaes, foi a vinda a Roma[71]
-de um estranho personagem, que se dizia patriarcha das Indias, que da
-Asia vinha effectivamente, e que dava noticia da existencia n’essas
-remotas partes, ou na verdadeira India, ou na propria Tartaria, de
-christãos convertidos por S. Thomé o apostolo, e que eram evidentemente
-christãos da heresia nestoriana, christãos dos ritos syriacos, sacudidos
-da Egreja Catholica, mas possuindo aquella tenacidade de resistencia,
-que faz com que ainda hoje, em pleno regimen papal e catholico, tenham
-na India os seus prelados e mantenham os seus ritos estes christãos
-primitivos.[72]
-
-Assim parece effectivamente que devia ser: porque na carta do Prestes
-João diz-se que «cada anno, _quando S. Thomé vinha prégar a quaresma no
-seu reino_, elle fazia uma peregrinação ao tumulo do propheta Daniel,
-com dez mil clerigos, outros tantos cavalleiros e duzentos elephantes,
-que levam, não torres, mas castellos, para exorcismarem e combaterem os
-dragões que espreitam a caravana na passagem».[73] A lenda do Prestes
-João localisou-se por conseguinte na India, não, como seria natural, na
-India verdadeira, mas na India ultima, quer dizer, no extremo Oriente
-da Asia, onde todas as lendas se refugiavam, a India que ficava para
-além dos limites das conquistas de Alexandre, e onde o proprio heroe
-toma tambem um aspecto legendario, como se lhe bastasse tocar n’uma
-região nevoenta para que o seu proprio vulto em nevoas se envolvesse.
-Alexandre, já o dissemos, foi para a Europa medieval, como Virgilio, um
-ente sobrenatural, meio pagão e meio christianisado posthumamente, meio
-feiticeiro e meio conquistador. É elle, como dissemos tambem, que encerra
-os povos de Gog e de Magog por traz da famosa muralha, é elle que na sua
-carta a sua mãe Olympias, carta não menos apocrypha, é claro, do que a
-do Prestes João, lhe diz que encontrou a arvore do sol e a arvore da
-lua, e que lhes ouviu os oraculos.[74] É para além do Ganges tambem que
-os geographos da meia edade imaginaram povos que se sustentam só com o
-aroma das flores, lenda que vamos ainda encontrar em Camões. É no extremo
-Oriente que está o Paraizo, e junto do Paraizo, note-se bem, o antro em
-que S. Macario se escondeu para viver immerso em prece, depois de ter
-tentado debalde penetrar na morada dos nossos primeiros avós, e foi ahi
-que o encontraram _um seculo depois_, e sempre orando, tres monges gregos
-que tinham ido a essas longinquas partes do mundo para tentarem tambem
-ver o Paraizo de perto.[75] Avisados pelo exemplo de S. Macario, voltaram
-os tres monges para traz, mas S. Macario lá ficou orando e atravessando,
-absorto na prece, os seculos sem fim.
-
-Vê-se pois que aquelles ares do Paraizo espalhavam ainda nos seus
-arredores umas fragrancias divinas. Parecia que da eternidade promettida
-a Adão e Eva tinham ficado uns resquicios para os que do Paraizo se
-approximassem; era para alli portanto que a imaginação popular levaria o
-reino paradisiaco do Prestes João.
-
-Mas as viagens de Marco Polo vieram dar uma nova physionomia ao mytho
-do Prestes João, approximando-o da realidade, tornando-o um personagem
-curioso, mas não rodeiado d’aquelle immenso prestigio anterior. Ou
-porque effectivamente, como sustenta o grande sinologo Pauthier, elle
-encontrasse christãos nestorianos na Tartaria, na provincia a que Marco
-Polo chama Tanduc, que Pauthier identifica com a provincia chineza de
-Ta-Thung, e esse facto explica-o Pauthier pela entrada de nestorianos
-persas na Mongolia ou no Thibet, onde teriam feito conversões, e onde
-effectivamente o soberano chinez lhes permittiu que erigissem um templo,
-ou porque, como sustentava Stanislas Julien, outro sinologo tambem
-notavel, Marco Polo tivesse confundido com christãos os budhistas que
-nas regiões que elle atravessava tinham uma das mais importantes sédes
-da sua religião, e que ao ver a theocracia do Grão-Lama o imaginasse um
-padre-rei christão, e o Prestes João por conseguinte, é certo que elle
-declara ter encontrado christãos regidos por um padre, que descendia em
-linha recta do Prestes João, que era o seu sexto descendente e que se
-chamava Jorge.[76] D’elle diz João de Monte-Corvino que o conheceu e o
-converteu á fé catholica, e Rubruquis tambem declara que na Tartaria
-encontrou nestorianos que viviam debaixo das leis do Prestes João.
-
-Embora tudo o que se narrava nos livros de Marco Polo estivesse envolvido
-nos véos do maravilhoso, é certo que esta semi-realisação do _Presbyter
-Johannes_ estava longe de corresponder ao ideal que d’elle se formára.
-O personagem legendario não encontrava positivamente n’um descendente
-chamado Jorge, subdito do Grão-Khan e chefe de uma especie de tribu
-nestoriana, uma encarnação satisfatoria. Continuou portanto a fluctuar
-por todo o Oriente, e, como de certo havia noticia vaga da existencia de
-um povo christão para os lados da Ethiopia, foi para esse lado que se
-transferiu a localisação da lenda, pois que a India, na edade média, como
-dissemos, abrangia, pode-se dizer, toda a Asia, parte da Ethiopia, e a
-indeterminação da residencia do rei legendario caracterisava-se bem com a
-denominação que se lhe dava de Prestes João _das Indias_.
-
-Não se imagine portanto que é simplesmente um rei christão perdido no
-meio da onda musulmana e do paganismo que se procura, o que se procura
-é o reino maravilhoso das lendas millenarias, é a terra estranha onde
-tudo floresce com extraordinario viço, onde o oiro, a prata e as pedras
-preciosas fulguram por todos os lados, onde se vive como que n’um
-antecipado Paraizo. Procuram-n’o logo na Africa, ao pé de Marrocos,[77]
-e não havia n’isso contradicção com o nome que se lhe conservava de
-Prestes João das Indias, porque, segundo a antiga geographia systematica,
-podia bem ser que a Ethiopia se ligasse com a Asia, e que já n’essas
-terras ainda proximas de Marrocos principiasse o reino maravilhoso do
-Prestes João.
-
-É essa anciosa curiosidade que domina no espirito dos Portuguezes, é ella
-que os arroja aos grandes feitos, ás pertinazes investigações. Como das
-investigações astrologicas com as quaes se procurava ler nas conjuncções
-dos astros o segredo dos destinos humanos saía a astronomia, como nas
-locubrações dos alchimistas se foram desvendando os segredos da chimica,
-assim na procura ardente do reino do Prestes João se foi desvendando,
-por tantos seculos escondido, o segredo da geographia africana, o da
-sua fauna, da sua flora e da sua ethnologia. Logo n’uma das primeiras
-viagens um audacioso portuguez, João Fernandes, se internou no sertão
-africano, e por lá andou mezes inteiros, convivendo com os indigenas,
-aprendendo a sua lingua, estudando os seus costumes.[78] Devia-lhe ter
-corrido um calafrio nas veias quando abandonou os seus companheiros para
-se immergir no desconhecido. Ia encontrar talvez os povos monstruosos da
-tradição scientifica, os troglodytas, os himantopodas, os virgocosgigs,
-e ao lado d’elles os dragões de terrivel aspecto e o basilisco de halito
-pestifero, passeiando pelos mattos meio inflammados a sua estranha
-corôa de horrifico soberano. Era perfeitamente um cavalleiro andante
-que se arrojava a um mundo encantado, como esses heroes de novellas de
-cavallaria que ousavam emprehender as mais incomprehensiveis façanhas.
-Mas tudo elle ousava para conseguir chegar emfim ás terras paradisiacas
-em que o Prestes João reinava, e, quando elle voltou, depois de longos
-mezes, não trazia noticias nem de monstros horrendos, nem de reinos
-maravilhosos, mas trazia, o que valia mais que tudo isso, o conhecimento
-exacto da Africa interior, a revelação para a sciencia de um mundo
-ignorado, de arvores soberbas, que não eram a phantastica _mandragora_,
-mas o baobah agigantado e verdadeiro. Supprimia a flora sobrenatural,
-mas ampliava os dominios da flora verdadeira; acabava com a fauna
-phantastica, mas alargava os dominios da zoologia verdadeiramente
-scientifica. E, da mesma fórma que os alchimistas, ao procurarem nas
-suas longas vigilias a pedra philosophal, encontravam o segredo das
-combinações chimicas, assim estes audazes alchimistas do Oceano, ao
-procurarem o Prestes João, que era a pedra philosophal dos sonhos
-geographicos da meia idade, encontravam um mundo inteiro, que valeu mais
-para a riqueza scientifica e para a opulencia do commercio do que todos
-os reinos fabulosos banhados por phantasticos Pactolos e scintillantes de
-oiro e de pedraria.
-
-Quando o infante D. Henrique morreu, já os Portuguezes tinham conhecido
-o cabo Branco e o cabo Roxo, e o cabo Verde e as ilhas que d’este cabo
-tomaram o nome, e os rios Senegal e o Gambia e o Casamansa. Os terrores
-da zona torrida tinham desapparecido, posto que se não tivesse chegado
-ainda ao Equador, mas era evidente já que o mundo não alterava o seu
-aspecto com a approximação da equinoxial, e que os monstros não existiam
-senão na imaginação dos geographos, que se não encontrava senão a
-variante negra da raça humana, e que os novos passaros que appareciam,
-depois classificados pelos zoologos como _remora_, _phenicoptero_,
-_bucerus_ _africano_ ou _pristis_, enriqueciam as collecções
-ornithologicas, mas não a teratologia. E estas conquistas positivas
-deviam-se ao enthusiasmo e á sede do ideal. Nada se faz grande no mundo
-sem esse grão de loucura, que desequilibra um pouco o genio dos grandes
-poetas e dos grandes descobridores. A pedra philosophal transmuda deveras
-o cobre vil em oiro, porque é ella, como symbolo de todos os ideaes
-phantasticos, que faz da quebradiça argila de que se formou o homem o
-bronze em que se fundem os ousados pensamentos, que transforma no oiro
-das grandes almas o minerio banal dos espiritos vulgares.
-
-E era exactamente o que havia de estranho e de louco nas expedições
-portuguezas que chamou para aqui os aventureiros e os ousados. Os
-Venezianos como Cadamosto, os Genovezes como Usodimare, vem aqui
-buscar simplesmente emprego para a sua actividade de marinheiros; os
-Malhorquinos como Jayme de Malhorca vem para um centro de actividade
-scientifica, mas esse Valarte que vem do fundo do Norte, das remotas
-regiões da Suecia, vem em demanda do ideal, esse loiro Scandinavo, que
-traz no olhar o azul dos seus lagos e no rosto a candidez das suas neves,
-vem procurar a estas regiões de aventura a barca dos cysnes dos Eddas
-que o ha de levar atravez dos mares da lenda ás regiões dos sonhos. Para
-esses e para muitos outros Portuguezes, como o velho Soeiro da Costa,
-como esse Alvaro de Freitas que tanto acaricia a idéa de ver de perto
-o Paraizo terreal,[79] é um romance de cavallaria que se está pondo em
-acção na patria de _Amadis de Gaula_. São os Templarios resuscitados
-que investem com o mar como os Templarios antigos com as ondas dos
-sarracenos, e o manto branco da ordem de Christo que fluctua ao sopro do
-vento, e a bandeira com a cruz vermelha que palpita na popa das caravelas
-com os bafejos do Oceano são os ultimos symbolos d’esse idealismo da
-idade média cavalheiresca que vae dissolver-se na epocha burgueza que
-já apparece no horizonte dos tempos. E esse rijo cavalleiro, ascetico,
-tenaz, que do alto do promontorio de Sagres lança os seus legionarios á
-conquista do desconhecido, ao cair prostrado pela morte, sem ter ainda
-encontrado o edeal que lhe absorvera a existencia, desapparece da scena
-do mundo, deixando resolvido um dos grandes problemas da existencia
-humana na terra, no mesmo momento em que outro cavalleiro andante, esse
-deveras o ultimo, Christovão Colombo, o Genovez, já vagueia, sonhador e
-pensativo, nas praias do Mediterraneo, escutando esse rumor de gloria e
-de aventura que vem do Occidente, e revolvendo na imaginação juvenil a
-solução de outro problema geographico, que ainda ficava em aberto, e que
-ia dar ao homem emfim a Terra inteira por dominio.
-
-
-
-
-VII
-
-Preludios açorianos e madeirenses do descobrimento da America
-
-
-Emquanto os Portuguezes proseguiam intrepidamente para o sul no caminho
-da zona torrida o que se fazia para o Occidente? Era possivel, era
-natural, que a descoberta do Porto Santo, da Madeira e dos Açores
-satisfizesse completamente a curiosidade portugueza? Os que defendem as
-duas versões ácerca do descobrimento dos dois archipelagos commettem
-uns e outros um erro capital; uns suppondo que os Portuguezes não
-os encontraram senão porque antes d’elles lá tinham aportado outros
-navegadores, de cujas informações os nossos se aproveitaram, os outros
-imaginando que antes das descobertas portuguezas se considerava como
-completamente vasia de ilhas a vasta extensão do Atlantico. Descobertas
-positivas não as podia ter havido, porque ás terras que podessem ter-se
-descoberto aconteceria o que succedeu ás Canarias, que logo foram
-cubiçadas e disputadas. O que havia era o sonho celtico das ilhas
-mysteriosas no seio do Atlantico, e em busca d’esse sonho quantos navios
-teriam corrido, sem que das suas tripulações voltasse ás costas européas
-nem sequer o cadaver do cão da frota legendaria de Brékan. Mas essas
-ilhas phantásticas estavam profundamente radicadas no animo dos homens
-da edade média, e a ilha de S. Brandam tinha para elles existencia tão
-real como o reino mysterioso do Prestes João. Ah! quem a encontrasse,
-quem arribasse a uma ilha qualquer no meio da vastidão dos mares, como
-voltaria contente e triumphante do seu achado, doido de alegria por ter
-conseguido emfim fixar n’um ponto do Oceano alguma d’essas ilhas que
-fluctuavam no mar da lenda, filhas da miragem do mar como da miragem do
-sonho; ilhas phantasticas como o navio phantasma da lenda hollandeza, que
-todos suppunham avistar ao longe, recortando na tela de oiro e purpura do
-horizonte o fino perfil das suas arvores, ou a ondulosa curva das suas
-montanhas!
-
-Deserto o Oceano? Não. Estava povoado, pelo contrario, de muito mais
-ilhas do que as que se encontraram! E quando o infante D. Henrique mandou
-os seus navegantes procural-as, é porque tinha a convicção profunda de
-que existiam, e os seus audazes marinheiros o que julgavam era seguir o
-sulco espumoso do barco do santo irlandez, como quando seguiam, segundo
-a phrase de Colombo, o vôo das aves que os conduziam a terra, cuidavam
-seguir talvez, alados mensageiros celestes que os conduziam ás ilhas de
-promissão, ou pelo contrario demonios encarnados em passaros, que os
-arrastavam ás ilhas infernaes.
-
-Os que trazem com ufania, como uma conquista para a historia, a lenda da
-ilha da Madeira descoberta antes de Zarco, ou a dos Açores antes de Velho
-Cabral, partem da errada supposição de que esses ignotos descobridores
-deram grande novidade aos Portuguezes dizendo-lhes que havia ilhas no
-Oceano! Bem convencidos estavam d’isso, mas a questão era encontral-as.
-Feliz o paiz que as descobrisse! Não as largava facilmente! A posse
-tranquilla e indisputada da Madeira e dos Açores prova bem que ninguem
-punha em duvida o direito de prioridade que os Portuguezes se arrogavam.
-
-O que faziam porém os colonos d’essas novas ilhas, tudo gente marinheira
-e aventurosa, que não ficava socegada no pequeno pedaço de terra em que
-se achava confinada? N’elles se condensava, pela sua posição especial,
-pelo espirito mais aventuroso que a essas ilhas os levou, a tendencia
-emigrante dos Portuguezes. Não é essa tendencia a que ainda hoje
-domina nos habitantes d’essas ilhas? Não foram sempre os Madeirenses e
-os Açorianos os que predominaram na colonisação portugueza? Não foram
-elles, sobretudo, que fizeram o Brazil colonial? Não são os Açorianos
-quasi exclusivamente os Portuguezes que vamos encontrar na America do
-Norte, em Boston, e até na California, e, o que é mais estranho ainda, á
-beira da rede dos lagos que separam os Estados Unidos do Canadá, sendo
-tão numerosa a colonia portugueza de Erié, que alli se publica um jornal
-portuguez, chamado o _Erié_ tambem? Não são os Madeirenses que nós
-vamos encontrar em Demerara, nas ilhas Sandwich, e que estão formando,
-em Angola, o nucleo das colonias do plan’alto de Mossamedes? E se isto
-acontece hoje, no nosso periodo de decadencia, de repouso, quando esse
-instincto emigrante é perfeitamente atavico—não era bem natural que
-acontecesse de um modo muito mais independente n’esse periodo de vigor e
-de febre descobridora, e quando os que habitavam a Madeira e os Açores
-não eram os que lá tinham nascido, mas sim os proprios que as tinham
-descoberto, ou os que primeiro, idos de Portugal, as tinham colonisado?
-
-Na descoberta africana logo encontramos os Madeirenses. Entre os
-mais audaciosos descobridores conta-se Alvaro Fernandes, sobrinho de
-João Gonçalves Zarco, e com elle o seu companheiro de seu tio no
-descobrimento do archipelago, Tristão Vaz Teixeira.[80]
-
-E acabemos por uma vez com a accusação que se nos fez de que nos
-limitámos a uma navegação costeira, e de que receiavamos sair para o mar
-alto! Como se pode dizer isso de um povo, cujos primeiros descobrimentos
-exactamente no mar alto é que se fazem, cujos _coups d’essai_ são as
-viagens em que encontram a Madeira e sobretudo os Açores, cercados de um
-mar tempestuoso e terrivel, ainda hoje considerado como o de mais aspera
-educação para o marinheiro, e que estão mais avançados para o occidente
-do que a propria Islandia, essa _ultima Thule_, onde parou por tanto
-tempo amedrontada a navegação antiga?
-
-Mas, percebe-se bem que, desde o momento que o fito das viagens
-portuguezas era chegar á India torneando a Africa, desde o momento que a
-geographia systematica dos antigos lhes dizia que logo abaixo de Marrocos
-principiava a Ethiopia, e que a costa logo fazia uma inflexão para léste;
-era essa volta da costa que elles sobretudo procuravam encontrar, e
-decerto não a encontravam abandonando a costa. E, comtudo, quantas vezes,
-fatigados d’essa investigação inutil, soltavam os nossos navegadores
-as velas ás brizas do Oceano, e percorriam de um vôo um grande espaço,
-chegando a um ponto muito adiantado da Africa e tendo depois de voltar
-atraz para explorar miudamente o trato de costa que tinham deixado em
-branco![81]
-
-Navegadores do seculo XV não podiam positivamente achar-se confinados nos
-estreitos limites de umas ilhas perdidas no meio do Oceano, sem terem a
-tentação irresistivel de sondar esse mar mysterioso, sobretudo quando a
-lenda confirmada pela sciencia conjectural d’esse tempo lhes fallava de
-ilhas maravilhosas a que não tinham chegado ainda, e quando as vagas do
-Oceano lhes traziam a cada instante a prova evidentissima de que para
-além d’esse horizonte branqueado pela espuma das vagas distantes, havia
-terras, terras habitadas, terras cobertas de vegetação. Sobretudo nos
-Açores os documentos multiplicavam-se e as tentações eram mais fortes. As
-ilhas não se apinhavam n’um só grupo como Madeira e Porto Santo. Havia
-ilhas destacadas como as vedetas d’essa guarda avançada da civilisação
-europea. Ainda se perceberia que taes tentativas se não fizessem, se
-não se houvesse chegado á ilha das Flores e á ilha do Corvo. Podia-se
-comprehender então que, satisfeitos com as ilhas paradisiacas que tinham
-encontrado, como a deleitosa S. Miguel, ou a fertilissima Terceira, se
-tivessem deixado ficar n’um ocio de Capua, sentimento aliás bem pouco
-natural em açorianos, e em açorianos d’esse tempo. Mas a descoberta do
-Corvo e da ilha das Flores mostram claramente que se não acalmára a sua
-irrequieta actividade, e que o Oceano continuava a ser sondado por esses
-audazes marinheiros, que são hoje accusados de não ousarem arriscar-se ás
-aventuras do alto mar!
-
-«A Islandia, os Açores, e as Canarias, diz Humboldt, são os pontos de
-paragem que mais importante papel representaram na historia d’estas
-descobertas e da civilisação, quer dizer na série dos meios que os povos
-do Occidente empregaram para estender a esphera da sua actividade e
-para entrar em relação com as partes do mundo que lhes tinham ficado
-desconhecidas.» Em nota accrescenta Humboldt: «Ha da extremidade
-septentrional da Escocia á Islandia 162 leguas marinhas; da Islandia
-á extremidade sudoeste da Groenlandia 240 leguas; d’esta extremidade
-ás costas do Lavrador 140 leguas; á embocadura do S. Lourenço 260;
-da Islandia directamente ao Lavrador 380 leguas. _Ha de Portugal
-(embocadura do Tejo) aos Açores (S. Miguel) 247 leguas_; dos Açores
-(Corvo) á Nova Escocia 412 leguas!»[82] É isto o que explica de um
-modo bem positivo como foi que os intrépidos marinheiros da Islandia
-poderam encontrar a America, e não a poderam encontrar os não menos
-intrépidos marinheiros dos Açores. É isto o que responde, de um modo
-bem cathegorico, tambem, aos que dizem que os Portuguezes não largavam
-as costas. Um povo que nas suas primeiras viagens percorria 247 leguas
-maritimas para encontrar um ponto perdido no meio do Oceano, e que
-o fixava, e que n’essas ilhas ou proximas ou distantes estabelecia
-colonias regulares e em constante communicação com a metropole, era
-um povo que se encontrava bem mais apto do que outro qualquer para as
-grandes navegações maritimas, era um povo que os pavores do Oceano não
-obrigariam a desistir de tentar novas emprezas. Ah! se a Providencia,
-em vez de ter agrupado os Açores n’um só ponto, destacando apenas como
-sentinellas avançadas as Flores e o Corvo, as tivesse disseminado por
-toda a extensão do Atlantico, fazendo de todas ellas os marcos milliarios
-d’esse vasto percurso maritimo, como foram as Orcades, as Feroé, a
-Islandia e a Groenlandia para o continente norte-americano, seria talvez
-Colombo, mas Colombo em navios portuguezes, que teria realizado a
-empreza que de tão justa gloria rodeiou o seu nome. Mas razão tem de
-sobra o nosso illustre patricio, o eminente escriptor Ernesto do Canto,
-quando diz: «Foi certamente com a pratica da navegação para os Açores
-que os pilotos portuguezes se aperfeiçoaram nos processos de observar os
-astros para d’essas observações deduzirem a sua posição nas solidões do
-Oceano ou das terras que demandavam. Sem esta escola todo o progresso
-seria lento. A existencia e o achado do archipelago açoriano foi pois a
-causa determinante das posteriores e importantes descobertas do seculo
-XV.»[83] E razão tem ainda quando encima o capitulo IV da sua obra com
-esta affirmação justiceira: «Os Açores foram um posto avançado para
-a descoberta da America e um fóco de irradiação para as explorações
-maritimas.»[84]
-
-Como podiam os açorianos pois desprender a sua attenção d’essas terras do
-occidente se ellas a cada instante se faziam lembradas, arrojando-lhes
-troncos de arvore, pedaços de madeira lavrada, canoas e até cadaveres de
-homens de estranha physionomia?[85] Era o que succedia tambem na Irlanda,
-e o que tambem incitava os Irlandezes a procurar essas mysteriosas
-terras. Note-se, porém, que as circumstancias eram um pouco differentes.
-O genio aventuroso e emigrante dos celtas da Irlanda podia-os levar, e
-levava-os effectivamente, a navegar para os lados occidentaes; em todo o
-caso os Irlandezes estavam na sua patria e na sua casa, viviam na terra
-em que tinham nascido, prendiam-se ao solo por estas mil raizes tenues e
-poderosissimas que reagem insensivelmente contra o espirito de aventura,
-emquanto que esses primeiros colonos dos Açores, transplantados do solo
-natal, arrastados alli pelo desejo de tentar fortuna, achavam-se já
-elles proprios em plena aventura, estavam fundeados no meio do Oceano,
-e emquanto esse navio, porque até as agitações vulcanicas das ilhas
-faziam com que o solo lhes palpitasse debaixo dos pés como a tolda de uma
-embarcação, se não tornava para elles uma nova patria, estavam promptos
-sempre a saltar para as lanchas e a ir demandar nova poisada. Succedia um
-pouco a mesma coisa aos Madeirenses, mas esses, mais proximos da Africa,
-menos mettidos pelo Oceano, para a Africa, que era a grande e exclusiva
-preoccupação portugueza, voltavam naturalmente a attenção e os esforços.
-Os Açorianos, destacados perfeitamente do grande corpo de exercito, fóra
-da corrente das navegações methodicas que o infante D. Henrique dirigia,
-para o occidente e só para o occidente deixaram voar as suas aspirações.
-
-É a prova d’isso que nós encontramos no proprio Herrera quando dá
-conta das revelações que incitaram Colombo a intentar a sua empreza.
-Foi a narrativa do piloto açoriano Martim Vicente, que, navegando a
-450 leguas da costa de S. Vicente, encontrou boiando nas aguas um
-pedaço de madeira lavrada; foi a dos mareantes, que, saindo do Fayal,
-correram 150 leguas ao occidente, e que, voltando, encontraram a ilha
-das Flores. E, como n’um escripto publicado ultimamente na _Illustracion
-española y americana_ se tratava com desdem este facto, alcunhado
-até de phantastico, paremos um instante para mostrar a sua perfeita
-authenticidade.
-
-Foi Herrera que escreveu o seguinte: «Uno llamado Diogo de Tiene
-(_Teive_), cuyo piloto Diego Velasques vezino de Palos, afirmó a Don
-Christoval Colon, en el monasterio de Santa Maria de la Rabida, que se
-perdieron de la isla del Fayal, y que anduvieron cento y cincuenta leguas
-por el viento Leveche, que es el Sudueste; y que á la buelta descobriron
-la isla de las Flores, guiandose por muchas aves que vian boiar házia
-allá, las quales conocieron que non eran marinas.»[86]
-
-Lembram-se os leitores de que o proprio Christovam Colombo, no seu
-_Itinerario_, quando diz os motivos porque mudou em certa altura o rumo
-da sua viagem, refere que o principal foi o exemplo dos Portuguezes, que,
-seguindo o vôo das aves, tinham descoberto as suas ilhas.
-
-Mas temos mais, temos o documento authentico que mostra que foi
-effectivamente esse Diogo de Teive que descobriu a ilha das Flores. É a
-carta de doação da ilha das Flores a Fernão Telles, feita por D. Affonso
-V em Estremoz a 28 de janeiro de 1475, e onde diz:
-
-«Outrosim nos praz e queremos que o dito Fernão Telles tenha e haja e
-assim seus successores as ilhas que chamam das Flores _que pouco ha que
-achára Diogo de Teive e João de Teive seu filho_, e elle dito Fernão
-Telles ora houve por um contracto que fez com o dito João de Teive, filho
-do dito Diogo de Teive que as ditas ilhas achou e tinha, e isto n’aquella
-forma com aquellas condições e maneira que as elle houve do dito João
-de Teive e que ficaram por morte do dito seu pai e no dito contracto é
-contheúdo.»[87]
-
-Mas os documentos não faltam para provar a actividade febril com que os
-Açorianos se arrojavam ao mar Oceano. N’essa mesma carta de doação se
-vê que Fernão Telles era um dos exploradores ou dos emprezarios d’essas
-explorações:
-
-«A nós praz, diz El-Rei, que indo elle ou mandando seus navios ou homens
-nas partes do mar Oceano ou alguem que por seu mandado a isso vá, lhe
-fazemos mercê, pura e irrevogavel doação para todo o sempre, como logo
-de feito fazemos, de quaesquer ilhas que elle achar ou aquelles a que as
-elle mandar buscar novamente e escolher para as haver de mandar povoar,
-não sendo pois as taes ilhas nas partes de Guiné.»[88]
-
-Felizmente os documentos publicados pelo sr. Ernesto do Canto lançam
-vivissima luz n’este periodo preparatorio do descobrimento da America,
-e explicam com uma clareza perfeita as questões relativas a Colombo e a
-Portugal. Assim vemos primeiramente que os Açorianos e os Madeirenses
-não deixam de procurar terras para o occidente, e que tratam de obter
-do governo as concessões necessarias para que das suas conquistas e
-descobertas tirem a utilidade que desejam; segundo que os reis se
-mostram prodigos em fazer a esses exploradores todas as concessões
-desejadas, comtanto que do real thesouro não tenham de gastar nem mealha,
-e que esses exploradores por conta propria não vão entender com os
-descobrimentos para o lado da Guiné, que esses reservam-n’os para si ou
-para a ordem de Christo os soberanos portuguezes. E tão arraigado estava
-no espirito dos soberanos o desdem pelas viagens occidentaes que, ainda
-depois de descoberta a America, o proprio Gaspar Côrte-Real fez a viagem
-em que descobriu a Terra-Nova completamente á sua custa.
-
-Vejamos então a fórmula das concessões dos reis:
-
-Temos em primeiro logar a concessão feita a 21 de junho de 1473 a Ruy
-Gonçalves da Camara, filho segundo de João Gonçalves Zarco, o qual manda
-dizer a el-rei, segundo na carta se diz, «como o seu desejo e voomtade
-era buscar nas partes do mar ouciano huumas ylhas para as aver de povorar
-e aproveytar». E o rei declara-lhe que «de huma ilha que elle perssy ou
-seos navyos achar, com outorga e prazer do principe meu sobre todos muyto
-prezado e amado filho, pura e yrrevogavell doaçom valledoyra amtre vivos,
-jure erdatore pera elle e todos seus erdeyros que delle decemderem assy e
-tam compridamente como ella a noos perteemce e de dereyto pertemcer deva
-e esto com todollos foros dereytos e trebutos em ella em qualquer tempo
-a nos poderiam perteemcer despoys que povoada seja sem acerqua de nos
-ficar cousa algua. E como sse começar a povoar logo lhe fazemos mercee
-de toda a jurdiçom civell e crime mero misto ymperoi em todallas pesoas
-que em ella morarem e a povoarem ressalvando somente pera nos alçada
-de morte ou talhamento de membros nos feitos crimes porquanto queremos
-e nos praz que em todo o all assy civel como crime elle aja todo sem
-superioridade algua. E per os homens teerem mays rezom de a hyrem povoar
-a nos praz que todollos vezinhos e moradores em a dita ylha ajam todollos
-privillegios liberdades e framquezas que per nos e nossos antecessores
-sam dados e concedidos e outorgados aos vezinhos e moradores da ylha
-da Madeira que ora he do dito duque meu muyto prezado e amado sobrinho
-dos quaes queremos que gouvam os vizinhos e moradores em ella fazendo
-certo dos privilegios da dyta ylha da Madeyra e pruvica escriptura. E
-per esta presemte damos licença e logar ao dito Ruy Gonçalvez a que assy
-fazemos mercee da dita ylha que possa dar forall aos que a ella forem
-morar e a povoarem. O qual forall que lhe elle assy der queremos que seja
-firme e valha como sse per nos lhe fosse dado e outorgado e per elle
-sejam obrigados todos aos juizes, e justiças, officiaes e pessoas fazer
-comstranger os moradores e povoadores della como os comstramgeriamos per
-lex e ordenações nossas que per assi teer pera ello nossa autoridade, nom
-menos vigor deve a teer aver como se per nos fosse fecto».[89]
-
-Vimos que a carta de doação a Fernão Telles tambem lhe confere a posse
-das ilhas que descobrir, mas logo em seguida a essa carta vem outra de
-10 de novembro de 1475, em que se dão umas explicações bem proprias
-para esclarecer as navegações d’esse tempo, e destruir completamente
-as mesquinhas duvidas postas ácerca da prioridade dos descobrimentos
-portuguezes no Atlantico por extrangeiros que só muito superficialmente
-estudaram a historia portugueza. Na carta de 28 de janeiro não se falava
-senão em ilhas que Fernão Telles mandasse povoar, e então o rei explica:
-«E poderia ser que em elle as assi mandamdo buscar _seus navios ou jente
-achariam as sete cidades ou alguuas outras ilhas poboadas que ao presemte
-nom som navegadas, nem achadas, nem trautadas per meus naturaaes_ e se
-poderia dizer que a mercee que lhe assi tenho fecto nom se deve a ellas
-estender per assi serem poboadas.»[90]
-
-E declara então que a mercê tambem a essas se estende e que dá a Fernão
-Telles sobre os habitantes d’essas ilhas os mesmos direitos que lhe
-concede sobre os povoadores que elle mandar para as ilhas desertas.
-
-O que se vê d’aqui? Vê-se que os Portuguezes procuravam muito
-ingenuamente no Oceano as ilhas que a phantasia dos cartographos
-estampava nos mappas, que tinham viva crença na existencia verdadeira da
-ilha das Sete Cidades e na ilha de S. Brandão, e da Mayda e da Mão de
-Satanaz, da Antilha e da ilha do Brazil, e em todas as que nos mappas
-appareciam, filhas das conjecturas da geographia medieval ou antiga,
-e, se effectivamente as encontrassem, longe de quererem fazer suppor
-ao mundo que tinham encontrado terras cuja existencia era de todos
-desconhecida, se ufanariam de ter achado o que no mappa se designava, e
-a descoberta das ilhas desertas e vulcanicas dos Açores, e da propria
-ilha da Madeira toda coberta de bosques não era para elles senão um
-desapontamento, porque as ilhas que elles cubiçavam, as ilhas celebres,
-as ilhas dos mappas, essas fugiam-lhes constantemente das mãos.
-
-Que espanto seria o d’esses navegadores, e dos seus contemporaneos se
-podessem ter conhecimento das duvidas modernas! Como achariam extranho
-que se lhes dissesse que só encontraram os Açores, porque a posição dos
-Açores estava indicada nos mappas, quando elles levaram annos a passar de
-umas para as outras ilhas que teriam n’uma só viagem encontrado se fosse
-pelos taes mappas que se guiassem![91] e como o infante D. Henrique
-ficaria surprehendido ao ver Humboldt encontrar a prova do conhecimento
-anterior dos Açores no facto d’elle ter dito a Gonçalo Velho Cabral,
-depois da descoberta das Formigas, que voltasse porque havia de encontrar
-nas suas proximidades uma ilha! muitas ilhas era o que deveria dizer-lhe,
-visto que o mappa lhe dava um archipelago. Como se espantaria de que um
-homem de sciencia como Humboldt não percebesse que o descobrimento de uns
-recifes como as Formigas com muita probabilidade indicava a proximidade
-de terra! Mas o grande espirito do sabio allemão estava evidentemente
-coberto com a nuvem do preconceito.
-
-Assim vemos que o sonho das terras para o occidente e o sonho das
-ilhas do mar Oceano provocou a mente dos açorianos e dos madeirenses
-a arrojar-se ás perigosas aventuras. O rei facultava aos aventureiros
-tudo o que elles podiam desejar, menos dinheiro. A Guiné e o caminho
-para a India por esse lado eram a preoccupação constante do governo
-portuguez, que em todas as cartas estabelece bem o principio de que
-elle faz todas essas concessões, comtanto que as ilhas descobertas não
-fiquem nos mares da Guiné. Basta a leitura d’estas cartas para que se
-veja a impossibilidade do legendario descobrimento da Terra Nova por João
-Vaz Côrte Real, com que se tem procurado attenuar a gloria de Colombo.
-Percebe-se logo que o governo portuguez não podia dar a capitania da ilha
-Terceira em recompensa a quem descobrisse a Terra Nova, quando o que elle
-promettia aos descobridores era simplesmente a capitania das terras que
-descobrissem como fizera com a ilha da Madeira. E seria singular tambem
-que o descobridor de uma nova ilha, em vez de receber a capitania d’essa
-ilha e de a povoar e aproveitar, a abandonasse completamente e recebesse
-como premio d’esse descobrimento inutil a capitania de uma ilha já
-povoada e aproveitada, isto quando em 1473 o rei D. Affonso V, deferindo
-o requerimento de Ruy Gonçalves da Camara, dizia: «E visto per nos sseu
-requerimento e por que a nos perteemce primcipalmente as cousas desertas
-e nom aproveytadas fazer povoar e aproveytar pelo carrego que per deos
-nos he dado emquamto per sua graça tinhamos o regimento destes rregnos e
-senhorios que teemos».
-
-Veremos no capitulo immediato como era absurdo que o rei fizesse a
-Toscanelli perguntas ácerca do problema do occidente no mesmo anno em
-que João Vaz Côrte Real lh’o resolvia quasi, e como é mais absurdo ainda
-que D. João II, rei habilissimo e zeloso do seu dominio, estabelecesse
-no tratado de Tordesillas um artigo transitorio que sacrificava, sem
-uma palavra de cedencia ao menos, terra descoberta por Portuguezes;
-agora mostraremos apenas que tudo é falso no que se allega com relação
-ao descobrimento de João Vaz Côrte Real. A falta de seriedade historica
-do auctor da _Historia Insulana_, Antonio Cordeiro, não deixára de
-impressionar os que mais se interessavam por essa reinvidicação
-portugueza, mas reanimava-os um pouco o verem que a noticia já Antonio
-Cordeiro a encontrára em Gaspar Fructuoso, auctor das _Saudades da
-terra_; mas Gaspar Fructuoso pertence tambem ao grupo d’aquelles
-historiadores que entendem que são licitas as mentiras quando d’ellas
-pode resultar a glorificação de um paiz, principio leviano contra o qual
-protestamos quando Villaut de Bellefond o aproveita contra nós e em
-beneficio da Normandia, mas que nos parece bem quando redunda em nosso
-favor. Gaspar Fructuoso, apesar de ter um merito superior ao do seu
-desastrado copista que outra coisa não é Antonio Cordeiro, não deixa de
-ser um auctor que acceita todas as lendas quando as reputa honrosas para
-os seus heroes.[92]
-
-Ora Antonio Cordeiro diz que em 1464 foram dadas as capitanias da ilha
-Terceira a Alvaro Martins Homem e João Vaz Côrte Real como recompensa da
-descoberta da Terra do Bacalhau que por ordem regia tinham effectuado.
-
-Em primeiro logar não era o rei que dava as capitanias dos Açores que
-pertenciam ao donatario seu irmão D. Fernando; em segundo logar a doação
-da capitania de Angra é feita pela _infanta D. Beatriz, viuva de D.
-Fernando_, a 2 de abril de 1474, nem ella a podia ter feito em 1464,
-porque então ainda vivia seu marido; em terceiro logar a infanta o que
-recompensa são «os serviços que João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa
-do dito senhor meu filho, fez a seu padre que Deus haja, depois a mim
-e a elle»;[93] em quarto logar Alvaro Martins já tinha uma capitania
-da ilha Terceira muito antes de João Vaz, tanto que a carta de doação a
-Alvaro Martins, em 17 de fevereiro de 1474, allega o seguinte motivo:
-«Considerando eu como entre Jacome Bruges e Alvaro Martins, _capitão da
-sua ilha Terceira de Jesus Christo_, sempre houve alguns debates por a
-terra da dita ilha não se ter de todo partida...»[94]
-
-Gaspar Fructuoso o que diz simplesmente, e n’um capitulo inçado de erros
-historicos evidentissimos, recheado de lendas, e em que parece até que
-ignora a existencia do grande Gaspar Côrte Real, é que, «vindo João Vaz
-Côrte Real do descobrimento da Terra Nova dos Bacalhaus, que por mandado
-de el-rei foi fazer, lhe foi dada a capitania de Angra da Ilha Terceira e
-da Ilha de S. Jorge.»[95]
-
-Sem nos alongarmos em considerações basta que citemos os seguintes
-documentos: a carta de doação de 12 de maio de 1500, em que D. Manuel
-concede a Gaspar Côrte Real as terras que descobrir, _per sy e a sua
-custa... por ho asy querer fazer com tanto trabalho e perigo_,[96] e a
-carta de doação de 17 de setembro de 1506, que transfere para Vasco Annes
-Côrte Real a doação da Terra Nova, «avemdo respeyto e lembramça como o
-_dito Gaspar Corte Real seu irmão ffoy o primeiro descobridor das ditas
-teras_.»[97]
-
-O que se deprehende de tudo o que diz Gaspar Fructuoso é que João Vaz
-Côrte Real era nos Açores um heroe legendario, um forte e um intrepido.
-Formara-se a lenda em torno d’elle. Pae de uma familia de navegadores,
-foi de certo navegador elle mesmo. Como tantos outros dos seus patricios,
-procurou tambem talvez, como elles, desvendar os segredos do occidente,
-mas voltou sem ter encontrado novas ilhas e novas terras. Teria ido
-talvez mais longe do que Diogo de Teive, que chegou a cento e cincoenta
-leguas ao occidente do Fayal, mas, se o fez, desanimou tambem e voltou
-sem encontrar a cubiçada terra. Foi mais feliz seu filho, e mais feliz
-porque o exemplo de Colombo pozera termo aos desanimos, e se nova prova
-fosse necessaria basta lembrarmo-nos que Martim de Behaim, o famoso
-geographo, que acariciou ardentemente o mesmo ideal de Colombo, que tudo
-queria saber do que se passava para o occidente, que viveu nos Açores em
-alta situação, que alli trabalhou, pensou e elaborou os seus trabalhos
-geographicos, ao fazer o globo de Nuremberg, em 1492, n’elle não inseriu
-a Terra Nova dos Bacalhaus, apesar de se não esquecer de inserir as ilhas
-phantasiadas.
-
-É no meio d’este grupo de marinheiros intrepidos, devorados da
-curiosidade do Oceano, que não pensam senão nas suas secretas maravilhas,
-que não sonham senão com prestigiosas terras, cercadas por todas as
-miragens do mar e por todas as miragens da phantasia, por todas as
-confidencias mysteriosas que as correntes pelagicas lhes trazem de
-remotos mundos, é n’este synhedrio de pilotos que não ignoram o que
-dizem os livros, mas que sabem sobretudo o que diz o livro immenso do
-mar, que apparece de subito a figura pensativa e ardente de Christovam
-Colombo. N’essas torres de atalaya, como que erguidas pela natureza
-no seio dos mares, debruça-se a mirar sofregamente o Oceano o rosto
-ardente do Genovez. Era o homem providencial, um d’estes homens em que
-se incarna fatalmente a idéa que fluctúa sobre uma geração revolvida
-pela ancia do desconhecido no mundo physico ou no mundo moral. Se o
-problema do Occidente preoccupa já todos os espiritos na Europa, nos
-Açores e na Madeira apresenta-se com dobrada intensidade. Não volta
-um navio do occidente que não se trate logo de saber se traz comsigo a
-noticia de um novo descobrimento. Por uma coincidencia singular quasi ao
-mesmo tempo apparece nos Açores um homem intelligente e sabio, Martim
-de Behaim, que se sente tambem arrastado pela invencivel convicção de
-que ha terras para o lado do occidente, e que é por alli o verdadeiro
-caminho da India. Esse homem tem na sua vida singulares relações com a de
-Colombo. Este casou com a filha do donatario de Porto-Santo, aquelle com
-a do donatario do Fayal; um foi á Guiné nos navios portuguezes, o outro
-foi em navios portuguezes até ao Zaire. Mas um é allemão, um diplomata,
-um burguez, um discipulo correcto e regular de um dos maiores sabios da
-Europa, Regiomontanus; o outro é um italiano, um sonhador, um irregular,
-um estudante incompleto. O primeiro encontra facil accesso junto aos
-principes e nas universidades, o outro não acha muitas vezes nos altos
-logares senão repulsas e desdens; mas este é um perseverante, um ardente,
-um allucinado, o seu convencimento é uma paixão que o absorve, que o
-devora. O que actua n’elle não é tanto o raciocinio como a visão. A alma
-do infante D. Henrique parece renascer n’elle. Passou de Sagres para o
-Porto-Santo o vulto do asceta. Secularisou-se apenas; já não é o monge
-militar, é o cavalleiro andante, mais affectivo, mais dulcificado pelo
-seu conhecimento do amor, mas tendo a mesma paixão pelos ideaes da fé
-e da sciencia. E como sempre são estes inspirados os que attraem por um
-magnetismo indizivel as idéas audaciosas que fluctuam no ar, como em D.
-Henrique se incarnaram todas as aspirações de um mundo que anceia por
-quebrar as grades do carcere em que a tradição o encerra, foi tambem em
-Colombo que se incarnaram todas essas idéas que pairavam na atmosphera
-do seculo XV, e muito especialmente na atmosphera açoriana e madeirense.
-Triumphou mais uma vez o sonho sobre a razão, a dilatação da phantasia
-inflammada sobre o trabalho mecanico e lento do raciocinio, o meridional
-expansivo e apaixonado sobre o septentrional fleugmatico e frio, e foi
-Christovam Colombo e não Martim de Behaim quem resolveu o segundo dos
-grandes problemas geographicos.
-
-
-
-
-VIII
-
-Christovam Colombo e D. João II
-
-
-Quando Christovam Colombo, que viajára largamente, que estivera na
-Islandia e na Guiné, que estivera nos Açores, e que, casando com a filha
-de Bartholomeu Perestrello, tivera demorada residencia no Porto-Santo
-e na Madeira, combinou tudo o que lhe diziam os pilotos portuguezes,
-tudo o que os seus olhos viam n’essa terra da sua residencia, com o
-que encontrou nos livros, e sobretudo nos seus livros predilectos, os
-geographos antigos e a _Imago Mundi_ de Pedro d’Ailly, fixou-se no seu
-espirito, de um modo indelevel, a convicção de que era perfeitamente
-possivel chegar á Asia partindo dos Açores, e communicou essa idéa ao rei
-de Portugal.
-
-Actuou por acaso, de algum modo, no espirito de Colombo a viagem que elle
-fez á Islandia, e onde poude ter conhecimento das viagens dos navegantes
-escandinavos do seculo XII, que chegaram á Groenlandia e até á America do
-Norte, que elles denominaram Vinlandia? Não, decerto. Que tinham que vêr
-esses paizes do Norte com o seu sonho da Asia encontrada pelo occidente?
-
-Que houvesse para além da Islandia mais ilhas e mais terras, não era
-caso de espanto. Hoje que conhecemos toda a terra sabemos a importancia
-que isso tinha, então nenhuma se lhe ligou, nem nenhuma se lhe ligara
-no seculo XII. As descobertas não têem importancia pelo que hoje se
-reconhece que teriam, mas pela que tinham realmente na occasião em que se
-fizeram. O problema era, como dissemos, o seguinte: atravessar o Oceano
-Atlantico em toda a sua largura. Passar da Islandia á Groenlandia e da
-Groenlandia ao Vinland era façanha muito menos importante do que a que
-praticaram os Portuguezes descobrindo os Açores.[98]
-
-Seriam por outro lado as instancias de Colombo ao governo portuguez que
-levaram el-rei D. Affonso V a perguntar a Toscanelli em 1474 se suppunha
-que se podesse chegar á India caminhando-se pelo occidente? É possivel
-que não. Como sabemos, esse problema já atormentava as imaginações
-dos que se preoccupavam com as questões geographicas, e era assumpto
-de vivos debates. A concessão feita em 1473 por D. Affonso V a Ruy
-Gonçalves da Camara e que já aqui mencionámos, leva-nos a suppôr que o
-fidalgo portuguez não a obteria tão simples e tão despida de auxilio
-governamental sem ter instado com o rei para obter um subsidio ou um
-apoio mais efficaz do que a concessão platonica das pelles de urso, que
-Ruy Gonçalves obteria se matasse os ursos. Logo veremos que havia esses
-pedidos, e que D. João II em occasião importante lhes prestou ouvido mais
-attento. Foi, decerto, então que el-rei perguntou a Toscanelli o que
-pensava a este respeito, e que recebeu de Toscanelli a resposta de que
-Colombo, ancioso tambem de conhecer a opinião do sabio geographo, não
-deixou de ter conhecimento, porque o proprio Toscanelli lh’a communicou.
-
-Que facil ensejo tinha Humboldt de demolir a gloria de Colombo, como
-pretendeu demolir a dos navegadores portuguezes! Se ha carta que possa
-mostrar que as Antilhas eram conhecidas antes de Colombo é a carta
-de Toscanelli. O grande geographo italiano conhece o caminho como
-conheceria o caminho da sua casa. Sabe a distancia a que fica a Asia, os
-archipelagos que o navegador ha de encontrar no caminho, e tudo isso vae
-para o mappa como se fosse traçado á vista das terras! E os archipelagos
-lá estavam effectivamente como os Açores, como a Madeira, como as ilhas
-que se descobriram e as que se não descobriram. Acontecia ás ilhas o que
-acontece ás prophecias. Com um pouco de boa vontade sempre ha algumas
-que, mais ou menos, parece que saem certas.
-
-Nós porém é que não vemos as coisas com os olhos da parcialidade,
-e applicamos a todos o são preceito de Humboldt que elle tão pouco
-respeita. As cartas da edade média são excellente elemento de estudo
-quando se analysam com criterio, quando se não perde de vista o
-pensamento de que ellas encerram o que realmente se descobriu e o que
-os sonhadores conjecturavam que se podia descobrir. Os navegadores
-d’esse tempo é que não sabiam as maravilhas que praticavam, e a sua
-aspiração não era encontrar terras desconhecidas, era encontrar as terras
-adivinhadas. Se os Açores e a Madeira estivessem em mappas anteriores,
-os Portuguezes exclamariam com enthusiasmo: São estas mesmas! O maior
-prazer d’esses navegantes, quando chegassem á Antilha ou á ilha de S.
-Brandão, seria bradarem com orgulho e com ufania: Encontrámos a ilha de
-S. Brandão, encontrámos a Antilia, como Fernão Telles ía pelos mares fóra
-com a esperança de encontrar a ilha das Sete Cidades. Este é que era o
-criterio que os Portuguezes applicavam á descoberta das costas africanas.
-Todo o seu desejo era confirmarem o periplo de Hannon e as theorias da
-antiguidade. Foi para elles um desapontamento reconhecerem que um rio que
-descobriram era o Senegal, completamente ignorado pelos antigos, em vez
-de ser o Nilo dos Negros, cuja existencia a sabia antiguidade affirmava,
-e que os Portuguezes só aspiravam a confirmar.
-
-Que impressão produziria a opinião de Toscanelli não no animo de D.
-Affonso V, que tinha outros pensamentos e outras ambições, mas no de D.
-João II, logo que subiu ao throno, e começou a pensar sériamente nos
-descobrimentos? Não muita, e de certo contribuiria para isso, bastante,
-o proprio movimento maritimo dos Açores. É bem natural que os mareantes
-que voltavam d’essas expedições de tentativa exaggerasem o espaço de mar
-que tinham percorrido, sem encontrar signaes de terra. Demais as idéas
-geographicas dos antigos ainda dominavam muito os espiritos. O systema
-geographico de Ptolomeu e dos seus adeptos não fôra alluido todo e de
-uma vez só. Ia caindo aos pedaços, mas ficava de pé o que se não demolia
-directamente. Ora uma das idéas favoritas da geographia antiga era a
-grande extensão dos mares. Suppunha-se que de toda a terra só a septima
-parte estava fóra das aguas. Colombo sustentava a opinião contraria, dava
-razões de equilibrio, mas não conseguia facilmente derrubar o preconceito.
-
-Accrescente-se ainda que tudo parecia indicar que os Portuguezes se
-achavam no caminho verdadeiro da India. Qual era a opinião antiga? que
-a costa africana occidental, _antes de se chegar ao equador_, voltava
-para o oriente e ia ou á Africa Oriental ou á Asia. Se as viagens
-portuguezas tivessem mostrado que esse facto se não dava, e, ao mesmo
-tempo, a zona torrida fosse inhabitavel, estavam perdidas todas as
-esperanças, mas as viagens portuguezas tinham demonstrado exactamente
-que não havia zonas inhabitaveis, logo podia-se proseguir com afoiteza,
-que mais longe ou mais perto havia de se chegar ao fim do continente
-africano e havia de se voltar para a India. Corria-se o perigo de se
-entrar na zona glacial antarctica? Embora! Como era natural, passava-se
-de extremo a extremo. Desde que se descobrira que a zona torrida não
-era inhabitavel, conhecia-se que não havia zonas inhabitaveis, e que se
-poderiam atravessar as zonas glaciaes como se estava atravessando a zona
-torrida.[99]
-
-E note-se que a idéa de que teria de se dobrar um cabo quando se chegasse
-ao fim da peninsula africana, estava tambem em todos os espiritos, e
-era a conjectura natural da geographia. As peninsulas, sabia-se bem,
-terminam geralmente em promontorios. Portanto o empenho de D. João II
-estava todo concentrado no proseguimento das descobertas africanas. Não
-podia elle, diz-se, se tinha confiança, como sabemos que tinha, não
-no projecto do Genovez, mas no seu talento, e nos seus conhecimentos
-maritimos, confiar-lhe duas caravelas? Não, porque isso era completamente
-contrario ao seu systema de exploração. As tentativas dos Açorianos e dos
-Madeirenses, protegia-as o governo, fazendo-lhes larguissimas concessões
-nas terras que descobrissem, mas não as subsidiava, nem consentia tambem
-que elles interferissem nas descobertas reservadas para si. As terras
-concedidas eram-n’o com a condição de não serem nos mares da Guiné.
-
-Ah! Se Christovam Colombo armasse duas caravelas á sua custa, ou
-conseguisse que um capitalista o _commanditasse_, com que facilidade
-elle obteria de D. João II todas as concessões que desejasse! Foi uma
-felicidade para o mundo que Colombo não tivesse dinheiro para a empreza,
-nem socios capitalistas. Se os tivesse, quando percorresse tanta extensão
-de mar sem encontrar terra, quando visse a perspectiva de perder
-completamente o seu dinheiro ou o dos seus socios, talvez não ousasse
-proseguir, e decerto lh’o não consentiriam os que representavam a bordo
-os interesses dos armadores. Para se levar a effeito essa obra grandiosa
-era necessario que estivesse empenhada no triumpho a honra de uma nação!
-
-Como é que aquelle grande espirito de Christovam Colombo não inflammou no
-seu enthusiasmo o espirito, que passa tambem por ter sido grande, de D.
-João II? Enganou-se a historia no seu juizo? Era, afinal, o rei D. João
-II um espirito vulgar, ou pelo menos um espirito absolutamente pratico
-e forte em todas as questões da vida positiva e real, mas desdenhoso
-de tudo o que excede os limites do seu horizonte? ou por acaso não
-tinha elle pelas coisas geographicas o interesse real que manifestava,
-ou não tinha d’ellas o conhecimento que se lhe attribue? Não, não,
-nada d’isso. D. João II foi realmente um dos grandes principes do seu
-tempo, um dos soberanos que estavam mais á altura de comprehender os
-grandes projectos dos descobrimentos. O proprio Colombo o diz a cada
-instante, Toscanelli farta-se de o affirmar: o rei de Portugal era o
-soberano que melhor entendia de coisas geographicas, o nosso grande
-rei! diz Colombo ás vezes. E comtudo Colombo não conseguiu captival-o.
-É quasi incomprehensivel esse facto, mas talvez se explique um pouco se
-analysarmos os caracteres de um e de outro.
-
-Ha, naturalmente, duas especies de organismos entre os homens da mais
-alta esphera: os desequilibrados e os equilibrados. Á primeira pertencia
-Christovam Colombo, á outra D. João II. D. João II era um d’estes
-fortes espiritos, perfeitamente assentes n’uma base segura, que têem a
-perspicacia, a energia, as concepções arrojadas mas nunca desmandadas,
-espiritos capazes de formarem um plano e de o desenvolverem serenamente,
-completamente desembaraçados da rotina, amando e acolhendo as innovações,
-mas não sem as sujeitarem ao criterio do seu lucido juizo. Homens assim,
-n’este jogo da existencia têem as cartadas atrevidas mas calculadas,
-nunca se entregam aos irreflectidos caprichos do azar. O perigo não os
-assusta, e affrontam-n’o quando é necessario, mas não o procuram por uma
-vã fanfarronada de cavalleiros andantes. Soldado, ninguem o foi como D.
-João II: em Arzilla escureceu a fama dos mais denodados cavalleiros, em
-Toro a ala que elle commandava internou-se no mais denso das fileiras
-dos castelhanos e destroçou-as, emquanto a ala commandada por seu pae
-era desbaratada pelo inimigo, mas depois de subir ao throno nunca mais
-teve uma guerra, nem entrou n’uma peleja. As guerras de Portugal tinham
-de ser com o Oceano, os combates do rei com a sua nobreza rebelde. É
-um organisador e não um aventureiro, o que o não impede de querer a
-grande aventura da India, mas prepara-a, organisa todos os elementos de
-successo, antes de jogar a cartada decisiva.
-
-A razão é a faculdade que domina o seu espirito, a imaginação é a escrava
-obediente. É inaccessivel aos vagos terrores que tão facilmente assaltam
-os nervosos e os phantasistas. Uma noite, e já depois d’elle ter cercado
-de cadaveres o seu throno, no cumprimento implacavel da sua missão
-centralisadora, sente baterem de noite mysteriosamente á porta do quarto
-onde dormia com sua esposa. Levanta-se e vai ver quem é. Ninguem, mas ao
-longe uns passos mysteriosos, como que um vago deslisar de sombras. Jaz
-em silencio e na escuridão da meia-noite o palacio todo. Vive-se n’uma
-epocha de crenças e de superstições. É algum dos espectros das suas
-victimas que o vem chamar para a expiação? D. João II sorri-se com este
-pensamento, vai, segue o passo mysterioso, vai até aos sotãos em sua
-obstinada procura, só, com a sua espada e uma luz, e quando os servos,
-acordados pelos clamores da rainha, correm em sua busca, vão encontral-o
-n’um desvão, sondando com a luz os recantos sombrios, impassivel e sereno
-como quem não comprehende sequer os pavores da superstição.
-
-De toda a sua raça o homem a quem mais se assemelha pelas tendencias
-nobres do seu espirito é o infante D. Pedro, mas este possuia uma
-qualidade que arredondava todos os angulos do seu caracter, que amaciava
-todas as durezas do seu pensamento: a bondade feminil, que elle herdara
-de sua mãe, D. João II tinha a violencia do bisavô, sem ter ao seu
-lado a mulher propria, como Filippa de Lencastre, para attenuar as
-asperezas da indole do matador do conde Andeiro. D. Leonor era uma nobre
-e intelligente senhora, não adquirira comtudo influencia sobre o seu
-terrivel marido, porque não era amada. Mas a alta razão, a comprehensão
-de todos os grandes emprehendimentos, a cultura que o punha a par do
-seu seculo, a reacção contra as tradições medievaes, que eram a sombra
-povoada de visões, quando elle sonhava uma sociedade radiante de luz e
-de sciencia e dominada pela Ordem: tudo isto tinha D. João II. D. João
-II era a Renascença que principiava com os ideaes de Platão e o culto
-da sciencia antiga seriamente estudada e seriamente comprehendida, e
-Colombo, que mais do que ninguem ia contribuir para a Renascença, era
-comtudo pelas tendencias do seu espirito o ultimo representante d’essa
-meia edade bellicosa e mystica, que, antes de se sumir para sempre,
-legava ao mundo que nascia a realisação do seu ultimo sonho cavalheiresco.
-
-Imagine-se agora Colombo tratando com D. João II, que o ouve, que o
-attende, que percebe que não tem deante de si um homem vulgar, mas que
-desconfia, que hesita deante d’aquelles projectos meio mysticos, meio
-scientificos, deante d’aquella exuberancia de palavras e de pensamentos
-que não quadra ao seu espirito nitido, e conciso. Colombo é um italiano,
-com aquella prodigalidade de palavras e de formulas obsequiosas,
-caracteristicas da raça. O que era elle? um sabio ou um charlatão? Se do
-sublime ao ridiculo apenas vai um passo, como Napoleão dizia, de um homem
-de genio que traz uma idéa fecunda a um charlatão que traz um elixir
-tambem a distancia não é grande. Colombo, profundamente convencido,
-era prodigo de promessas e não menos de exigencias. Os thesoiros que
-elle encontrasse no Cathay destinava-os, segundo dizia, á conquista do
-Santo Sepulcro. Ora a conquista do Santo Sepulcro era, sem desfazer
-nos sentimentos christãos de D. João II, _le cadet de ses soucis_.
-Christovam Colombo enganara-se na porta. Essas declarações eram optimas
-para D. Affonso V, detestaveis para D. João II. Tudo quanto cheirasse a
-cavallaria andante, a cruzadas, e a romances em acção, encontrava em D.
-João II um antagonismo ferrenho. E percebe-se que assim fosse, desde o
-momento que fôra tudo isso que estivera quasi arruinando Portugal, que
-fôra tudo isso que fizera a desgraça de D. Affonso V e que era a esses
-bellos sonhos que D. João II devia o ter ficado, como costumava dizer,
-por morte de seu pae, rei das estradas de seu reino.
-
-Ainda havia um facto que não podia produzir boa impressão em D. João II.
-Arrastado pelo ardor das suas convicções, como acontecia com Toscanelli,
-Colombo dizia conhecer a distancia exacta a que ficava Cipango de
-Portugal. Ora D. João II era um espirito bastante positivo para perceber
-o que havia de absurdo em semelhante calculo, e a segurança manifestada
-por Colombo mais ainda o punha em guarda contra os seus projectos.
-
-Hoje que os factos mostram como Colombo tinha razão, todos imaginam que
-só o espirito de rotina podia fazer com que elles fossem regeitados. E
-comtudo, examinando-os bem comprehende-se que espiritos positivos não
-acceitassem. Colombo suppunha por exemplo que a relação entre a terra e
-o mar era de 7 para 1, quando a verdade é que essa relação é de 1 para
-2,7, ou mais exactamente de 29 para 82.[100] Quaes eram as razões em
-que elle se baseava para suppor que a Asia estava proxima da Europa?
-Sobretudo as que deduzia das affirmações da sciencia antiga. Segundo
-Ctésias a India formava metade da Asia, Plinio suppunha que era só por si
-o terço da superficie do globo, Nearcho sustentava que eram necessarios
-quatro mezes de caminho para se chegar á extremidade oriental da India,
-e Strabão que até esse extremo oriental ninguem poderia conduzir um
-exercito. O geographo a que Colombo se encostava para avaliar a distancia
-que tinha a percorrer não era Ptolomeu, era Marino de Tyro. Ptolomeu
-sustentava que a terra habitada entre o meridiano das ilhas Afortunadas
-e o meridiano de Sera, quer dizer da China, era de 177°¼, portanto o
-espaço de mar a percorrer era de 182°¾, visto que o parallelo tem 360°.
-Marino de Tyro sustentava que a porção de terra habitada era de 225°,
-portanto o espaço de mar a percorrer limitava-se a 135°; mas Colombo
-fazia conjecturas que ainda diminuiam este espaço. Effectivamente dizia
-elle que Marino não chegára á extremidade oriental da Asia em 15 horas
-(calculando-se as longitudes em tempo, e correspondendo cada hora a 15°)
-porque a extremidade oriental da Asia ficava muito além do ponto marcado
-por Marino. Portanto a distancia de mar entre a extremidade oriental da
-Asia e as ilhas de Cabo Verde era não de 9 horas ou 135°, mas de menos de
-8 horas ou de menos de 120°.
-
-Note-se porém que fôra Ptolomeu que corrigira os calculos de Marino de
-Tyro, e que a opinião de Colombo tinha portanto contra si a do geographo
-mais afamado da antiguidade. Comtudo Colombo aferra-se á sua opinião,
-e quando está na America julgando estar na Asia, persiste, e até se
-apoia nas opiniões dos navegadores portuguezes, dizendo: «E agora que os
-Portuguezes navegam tanto, acham que Marino foi exacto.»[101]
-
-E note-se ainda que Colombo avaliava o grau em 56 milhas e ⅔, baseando-se
-nos calculos do geographo arabe Al-Fragan, e confundindo assim a milha
-italiana com a milha de Al-Fragan, de fórma que o grau ficava tendo
-apenas pouco mais de 14 leguas. Toscanelli, na sua famosa carta de
-1474, avaliava o espaço a percorrer de um modo differentissimo. D.
-João II ver-se-hia de certo embaraçado para avaliar quem tinha razão,
-e regeitaria então sem hesitar o projecto de Colombo se soubesse que
-de todos os geographos da antiguidade o que menos se enganára fôra
-Eratostenes que calculára a distancia entre o promontorio Sacro, quer
-dizer o cabo de S. Vicente e a Sera, quer dizer a China, em 240 grau. A
-distancia verdadeira é 230.[102]
-
-Junte-se a isto a opinião contraria do seu conselho scientifico, que a
-manifestava não só porque todas as corporações sabias têem uma tendencia
-innata para repellir as idéas novas apresentadas por quem não pertence ao
-seu gremio scientifico, mas tambem porque as propostas de Colombo tinham,
-como acabamos de ver, muitos pontos vulneraveis. Faziam parte do conselho
-dois judeus, Rodrigo e Josef, que de certo conheciam bem o arabe, e aos
-quaes talvez não escapasse o erro da interpretação do geographo arabe
-Al-Fragan na medição dos graus. A rejeição da proposta de Colombo era
-portanto inevitavel.
-
-E comtudo D. João II, se não tinha a imaginação apaixonada do infante
-D. Henrique, que se deixaria de certo seduzir pelo enthusiasmo do
-italiano, tinha o espirito bastante elevado para reconhecer que não era
-Colombo um aventureiro vulgar. Apenas elle saíu do nosso paiz, teve um
-baque no coração, e, passando por cima de tudo e da opinião dos seus
-conselheiros, e das tendencias naturaes do seu espirito, escreveu-lhe
-a famosa carta em que o chamava.[103] Porque não veiu Colombo? Porque
-saíra bastante irritado com o parecer naturalmente desdenhoso do conselho
-scientifico do rei, ou porque os seus amores com D. Beatriz Enriquez, a
-mãe de Fernando Colombo, o retiveram em Sevilha? Julgamos mais verosimil
-a primeira hypothese. O resentimento de Colombo era tão profundo que
-não duvidou accusar D. João II de uma acção que elle bem sabia que era
-absurda em primeiro logar, que seria indigna de um homem cujo caracter
-elle não podia deixar de respeitar.
-
-E comtudo a historia tem repetido essa accusação, injusta, mesquinha e
-disparatada! Colombo accusou D. João II de o ter repellido, mas de ter
-aproveitado ao mesmo tempo as suas indicações para mandar dois navios
-em busca da Asia pelo occidente, e que esses navios, açoitados por uma
-tempestade, tinham sido obrigados a voltar para Lisboa.
-
-Em primeiro logar era evidente que a viagem de descoberta não podia
-começar senão em Cabo Verde ou nos Açores. Se uma tempestade occasional
-os tivesse feito voltar a Lisboa, poucos dias depois de terem d’aqui
-saído, não era caso para descoroçoar. Só passado o meridiano dos Açores é
-que principiava a expedição.
-
-Demais, não sabemos que antes de Colombo muitos navegadores portuguezes
-tinham sondado os mares do occidente, não com o fito de demandarem a
-Asia, mas com o intuito de descobrirem terras novas? Era a transformação
-do intuito que representava o abuso de confiança? Era a escolha do
-parallelo a seguir? Não tinha o rei de Portugal a carta de Toscanelli que
-preconisava tambem a escolha do parallelo que a Cipango conduzisse?
-
-Não vemos nós claramente que a unica difficuldade de D. João II estava
-em fazer por sua conta a expedição? Se Colombo a fizesse á sua custa,
-não receberia do rei de Portugal senão todas as animações. E, recusando
-isso a Colombo, que elle considerava e estimava, ia fazel-o com outros
-pilotos, que, ainda que não tivessem menos habilidade nautica, não teriam
-de certo estudado a questão com a perseverança e o enthusiasmo de Colombo?
-
-Mas não continuemos, podemos hoje felizmente mostrar de um modo
-evidentissimo qual foi o facto verdadeiro que, mal interpretado, mal
-comprehendido, adulterado por alguma informação calumniosa, mais ainda
-pelo resentimento de Colombo, serviu de base á sua accusação.
-
-Temos mostrado como o governo portuguez fazia as concessões aos
-navegadores ilheus que queriam demandar terras novas: dava-lhes n’essas
-terras todos os privilegios possiveis, o direito de administrar a
-justiça, reservando sempre para a corôa os casos de pena de morte ou
-de talhamento de membros. Accentuava bem que esses privilegios não se
-limitavam ao caso de ser despovoada a terra que se encontrasse, mas que,
-se encontrassem terra habitada, como a famosa ilha das Sete Cidades,
-por exemplo, tinham sobre os seus moradores o mesmo poder com as mesmas
-restricções, e esses moradores tambem os mesmos privilegios. Ora em 1486,
-pouco depois de Colombo partir de Portugal, appareceu Fernão d’Ulmo
-a pedir uma concessão semelhante. El-rei fez-lh’a nas condições das
-anteriores, com umas modificações que são eloquentes:
-
-Em primeiro logar Ruy Gonçalves da Camara pedira _pera buscar nas
-partes do mar ouciano huumas ylhas_, Fernão Telles obtem a concessão
-de _quaesquer ilhas que elle achar_, e depois diz-se-lhe que a mesma
-concessão se faz no caso das ilhas serem povoadas. Fernão Dulmo pede que
-El-rei «lhe faça mercê e reall doação da dita hylha ou hylhas OU TERRA
-FIRME povoradas ou despovoradas, etc.» El-rei concede.
-
-Além d’isso faz-lhe mercê de toda a justiça _com alçada de poder
-enforcar, matar e de toda outra pena criminall._
-
-Prevê o caso de que as ilhas ou _terra firme_ sejam povoadas e offereçam
-resistencia a Fernão Dulmo, que vae á sua custa, é claro, e com a gente
-que poder levantar e pagar, e então El-rei diz-lhe: «ssendo caso que sse
-não queiram sujeitar _as ditas hylhas e terra firme a nos, mandaremos com
-o dito Fernam Dulmo gente e armadas de navios com noso poder pera sogigar
-as ditas hylhas e terra firme e ele Fernam Dulmo hyrá sempre por capitam
-moor das ditas armadas_.»
-
-O que mostra isto? Mostra que a insistencia de Christovam Colombo fez
-impressão em El-rei. Não vai nem por sombras intentar uma expedição á
-sua custa, mas procura facilitar o mais possivel as expedições para o
-occidente. Admitte a possibilidade de se encontrar terra firme, não põe
-as minimas restricções ao poder do descobridor, e, se a terra firme ou as
-ilhas se encontrarem e forem povoadas, se forem a Asia, é o que isto quer
-dizer, Fernão Dulmo pode contar que terá o rei comsigo com todo o seu
-poder para o ajudar, e o posto de capitão-mór garantido nas armadas que
-se expedirem.
-
-O sr. Ernesto do Canto, que publica no seu livro esta carta de doação na
-integra, estranha o facto que acabamos de notar, e escreve:
-
-«A jurisdicção concedida por esta carta é muito mais extensa do que
-a dos documentos analogos e anteriores, _o que admira da parte de D.
-João II, que tanto luctou para estabelecer a centralisação do poder
-real_.»[104]
-
-É positivamente a impressão produzida na alma do rei pelas propostas
-de Colombo. A visão do occidente começa a assenhorear-se da sua alma e
-atormenta-o. Querem outra prova ainda? Esta carta régia foi apresentada
-ao tabellião, e entre Fernão Dulmo e João Affonso celebra-se um contracto
-em que ha a seguinte clausula: «e quanto he ao cavalleiro alemam que em
-companhia deles hadir que ele alemam escolha dir em qualquer caravella
-que quiser e do dia que ambos partirem da dita hylha Terceira, etc.»
-
-Quem é este cavalleiro allemão que está evidentemente nos Açores e que
-parte com a expedição escolhendo a caravela que quizer? É claramente
-Martim de Behaim, que acaba de voltar da viagem que fez ao Zaire com
-Diogo Cão, Martim de Behaim, que tambem sonha com o encontro da Asia
-pelo occidente, que muita vez trocou idéas com Christovam Colombo a esse
-respeito, que se resolve a fazer uma tentativa, tentativa que parece não
-ter ido por deante, ou que, se se realisou, foi infeliz e se realisou
-sem elle, porque annos depois o encontramos na Allemanha trabalhando
-no seu famoso globo, e voltando de Nuremberg a Lisboa com o intuito de
-realisar emfim a sua expedição, munido de recommendações do imperador
-para o rei de Portugal e de animações de sabios. No intervallo Colombo
-antecipára-se-lhe. A America estava descoberta. Demais entre a saída de
-Christovam Colombo de Portugal e o descobrimento da America dera-se um
-grande acontecimento que robustecera a confiança de D. João II no methodo
-que seguira e que dissipára as suas apprehensões de um curto caminho para
-a Asia pelo occidente. A costa africana occidental fôra completamente
-descoberta, transpozera-se o Equador, percorrera-se toda a zona torrida,
-encontrára-se o termo do continente africano, e dobrára-se o cabo em cujo
-nome _Boa Esperança_ D. João II condensára o immenso jubilo da sua alma.
-O primeiro dos grandes problemas geographicos, que nem a antiguidade
-nem a edade média tinham conseguido resolver, tinham-n’o os Portuguezes
-resolvido. A preoccupação, que evidentemente tinham deixado no espirito
-do rei as propostas de Colombo, dissolvia-se por completo na alegria
-d’este triumpho.
-
-Mas vê-se bem agora como o conhecimento da nova tentativa açoriana,
-semelhante aliás a tantas outras que Colombo bem conhecia, devia
-ter irritado o animo do Genovez, que saía de Portugal, azedo e
-despeitadissimo. Chegou-lhe provavelmente aos ouvidos tambem a noticia
-das concessões excepcionaes feitas pelo rei, e até da designação especial
-de terra firme a descobrir. Tanto bastou para que se dissesse roubado,
-como se Colombo tivesse outra coisa que se lhe roubasse que não fossem
-as suas qualidades pessoaes, o seu genio, o seu enthusiasmo, o seu
-conhecimento da nautica e da astronomia. Tudo isso o levára elle comsigo.
-Demais, as concessões de D. João II, por mais amplas que fossem, não
-chegavam ao subsidio. O que D. João II recusára a Colombo, recusava-o
-tambem a Fernão Dulmo. N’estas circumstancias, mantinha-se nos seus
-principios; de que podia então queixar-se Colombo?
-
-Tambem, deve dizer-se, só d’essa vez se mostrou Colombo, n’um momento
-de colera, injusto com o nosso paiz. A terra de sua mulher, terra onde
-nascera seu filho, fôra sempre a terra dos seus amores. Com este povo de
-marinheiros se creára, pode assim dizer-se, porque foi aqui que brotaram
-devéras na sua alma as suas grandes aspirações, foi com o trato dos
-nossos pilotos que se instruiu praticamente, que aprendeu, por assim
-nos exprimirmos, a theoria das descobertas. Não o esqueceu nunca, nem
-quando pensava que era pelo vôo das aves que os Portuguezes tinham
-descoberto as ilhas, nem quando invocava, para sustentar uma das suas
-affirmações, os Portuguezes que tinham navegado tanto. Como Portuguez
-até se considerava, e fazia-lh’o sentir Toscanelli.[105] Com os nossos
-descobrimentos se enlaçaram os seus, e, apesar de tudo, vê-se-lhe não
-sei que funda pena de não ter podido fazer a sua gloriosa descoberta nos
-navios da nação amada. «O rei de Portugal, diz elle n’uma carta escripta
-a Fernando o Catholico pouco tempo antes da sua morte, _que entendia
-mais do que qualquer outro rei de descobertas de paizes desconhecidos_,
-de tal fórma o cegou a vontade do Altissimo que, durante quatorze annos,
-não pôde comprehender o que eu lhe dizia.» E tão extranho lhe parece esse
-caso que o toma á conta de milagre, e diz que _Nuestro señor le atajó la
-vista, el oido y todos los sentidos_.[106]
-
-Não! a verdade era que a empreza de Colombo era a empreza de um
-allucinado de genio, de um homem em quem a imaginação predomina, de
-um visionario que tem visões lucidas, de um inspirado, de um louco, e
-homens assim não podem dirigir-se, sem ser repellidos, áquelles que
-teem o forte equilibrio de todas as faculdades, aos que se deixam
-guiar em vida não pelas columnas de fogo da visão biblica, nem pelas
-scintillações dos sonhos, mas pelo clarão firme, sereno, da razão e do
-raciocinio. Encontraria Christovam Colombo no infante D. Henrique um
-homem que o comprehendesse, porque era um allucinado tambem; na epocha
-em que apparecia só o podia comprehender uma alma feminina, vibratil
-a todos os enthusiasmos, apaixonada pelas visões mysticas, accessivel
-á influencia magnetica de uma eloquencia aquecida pela sinceridade de
-uma convicção ardente, de uma mulher, emfim, que se chamava Isabel a
-Catholica, a mais radiosa encarnação da alma heroica da Hespanha, aquella
-que nos apparece nos longes da historia como a estatua da Poesia do
-Romancero, cavalheiresca e meiga, varonil na intrepidez e feminil na
-suave e captivadora influencia, e que elle vinha encontrar no momento
-mais proprio para a levar para as grandes conquistas ideaes, dentro dos
-muros da conquistada Granada, tendo varrido do solo de Hespanha a ultima
-tribu arabe e o ultimo soberano oriental, tendo feito tremular sobre
-o crescente prostrado a bandeira da cruz, e anciando tambem por abrir
-novos mundos á energia hespanhola, novas conquistas ao seu pensamento,
-enamorando-se facilmente da idéa de transpôr os limites do Oceano, de
-tentar, como outr’ora o infante D. Henrique, a gloriosa cruzada dos
-mares, e de ir arrancar emfim aos thesouros escondidos no tumulo do Sol o
-oiro do resgate para o tumulo de Christo.
-
-
-
-
-IX
-
-O tratado de Tordesillas e a viagem de Pedro Alvares Cabral
-
-
-Quando em março de 1493 Christovam Colombo entrou triumphalmente em
-Lisboa, e apresentou a D. João II os indigenas que trazia de Guanahani
-e lhe disse que voltava das terras de Cipango, o despeito de D. João
-II foi extraordinario. Tão pouco o soube esconder que houve fidalgos
-que lhe propozeram punir com a morte a jactancia do Genovez.[107] D.
-João II regeitou a offerta, e esmerou-se em dar a Christovam Colombo
-todos os testemunhos do seu apreço, mas a dôr era profunda e o desejo
-de desforço imperioso. Sustentando desde logo que as ilhas descobertas
-por Colombo estavam nos mares adjacentes á Guiné, tratou de mandar uma
-esquadra a esses paizes do occidente. A Hespanha protestou logo, e D.
-João II percebeu que tinha de desistir do intento, mas a sua diplomacia
-não descançou um instante, e o tratado de Tordesillas foi para essa
-diplomacia um verdadeiro triumpho.
-
-Tanto se empenhavam os reis de Hespanha em tomar conta das terras
-que Christovam Colombo descobrira, que a toda pressa se pediram
-para Roma as bullas necessarias, e com tanta rapidez se andou na
-negociação, facilitada, pelo facto de ser o Papa Alexandre VI—Rodrigo
-Borgia—hespanhol de nascimento e creatura dos soberanos hespanhoes,
-que, tendo chegado Christovam Colombo no dia 15 de março de 1493, e só
-tendo sido recebido por Fernando e Isabel em abril, logo a 3 de maio
-do mesmo anno se concediam á Hespanha essas ilhas e terras descobertas
-por Christovam Colombo; mas n’essa noite, ao que parece, pensou-se que
-seria bom, para evitar disputas com os Portuguezes, que se marcasse uma
-divisão entre estes, a quem os papas anteriores tinham concedido os
-mares adjacentes á costa africana do cabo Não e Bojador para deante, e
-os Hespanhoes, e no dia 4 de maio é que se promulgou a bulla definitiva,
-em que se traçou a linha divisoria do polo arctico «ad polum antarcticum
-quæ linea distet a qualibet insularum quæ vulgariter nuncupantur de los
-Azores et Cabo Verde centum leucis versus occidentem et meridiem».[108]
-
-Claramente se vê por este _qualibet_ que a segunda bulla foi redigida á
-pressa e á noite, não estando presente nenhum cosmographo, que podesse
-dizer aos negociadores qual era a mais occidental das ilhas dos Açores
-e de Cabo Verde, porque, como sensatamente observa Humboldt, é singular
-esta expressão applicada a dois archipelagos que ambos occupam uma
-grande extensão em longitude. Mas não havia tempo para demoras porque
-era necessario que apparecesse o facto consummado antes que o rei de
-Portugal tivesse tempo de saber de que é que se tratava. Depois do Papa
-ter julgado, suppunha-se que um rei catholico não ousaria protestar.
-
-Enganaram-se; já se não estava em plena edade média, nem D. João II
-era homem que deixasse o Papa interferir nos seus negocios temporaes.
-Protestou immediatamente e tanto que a bulla de Alexandre VI caducou, e
-a linha divisoria, que passava a cem leguas de qualquer das ilhas dos
-Açores e de Cabo Verde, transformou-se n’uma linha que passava a 370
-leguas do archipelago de Cabo-Verde.
-
-As negociações levaram tempo, e não foi sem reluctancia que Fernando e
-Izabel cederam ao seu impertinente visinho; mas nem Portugal n’esse
-tempo era paiz cuja inimizade fosse indifferente, nem os reis catholicos
-tinham ainda consciencia bem nitida da importancia das descobertas
-feitas; demais havia intimas relações de familia entre as duas casas
-reinantes.[109] O que é certo é que Portugal triumphou e o tratado
-assignado em Tordesillas em 7 de junho de 1494 substituiu para todos os
-effeitos a bulla de 4 de maio do anno anterior.
-
-Pois tão superficialmente se estuda a historia d’estes grandes
-acontecimentos da vida da humanidade que ainda hoje passa em julgado
-que foi a bulla de Alexandre VI que marcou a linha divisoria entre
-as descobertas portuguezas e as descobertas hespanholas, e o proprio
-Humboldt, eruditissimo como é, tanto parece ignorar o texto do tratado
-de Tordesillas que, suppondo que foi Christovam Colombo que indicou a
-linha das cem leguas por consideral-a a linha em que não tinha variação
-a agulha magnetica,[110] imaginando que a adaptação d’essa demarcação
-physica á demarcação politica tinha immensa importancia para Colombo,
-nem levemente allude ao desapontamento que a Colombo a mudança da linha
-divisoria devia ter causado.
-
-N’esse tratado, comtudo, ha um artigo transitorio que bem claramente
-mostra o absurdo da supposta descoberta de João Vaz Côrte Real. «E porque
-pode ser, diz o artigo, que os navios d’El-Rei e Rainha de Castella e
-Aragão tenham descoberto até vinte do corrente mez de junho algumas
-ilhas ou terras firmes dentro da sobredita linha que se ha de lançar de
-polo a polo a trezentas e setenta leguas das ilhas de Cabo Verde para o
-Poente, assentaram as Altas Partes Contractantes por seus Procuradores,
-que, para se evitarem duvidas, todas quantas tivessem sido achadas ou
-descobertas até os vinte de junho, bem que o fossem por navios e gente
-de Castella, sendo dentro das primeiras duzentas e cincoenta leguas das
-sobreditas trezentas e setenta a partir das ilhas de Cabo-Verde para o
-Poente, ficariam para El-Rei de Portugal, _e as que tivessem sido achadas
-dentro do dito prazo nas outras cento e vinte leguas restantes em que
-deve findar a dita linha pertenceriam a El-Rei e Rainha de Castella, bem
-que as cento e vinte leguas façam parte das trezentas e setenta leguas
-que ficam para El-Rei de Portugal_. E se dentro dos ditos vinte de Junho
-não fôr descoberto nada pelos navios d’El-Rei e Rainha de Castella dentro
-das ditas cento e vinte leguas, o que dentro d’ellas _d’ahi em diante
-se descobrir_ ficará pertencendo a El-Rei de Portugal, como acima fica
-dito.[111]
-
-Lá se ía a Terra Nova, se ella já estivesse descoberta, _porque só o que
-d’ahi em diante se descobrisse_ n’essas ultimas cento e vinte leguas de
-zona portugueza poderia ficar pertencendo a El-Rei de Portugal.
-
-Ora não era de certo platonicamente que D. João II reclamava para si 370
-leguas de mar para o occidente, mas em aproveital-as tinha o governo
-portuguez de ser prudentissimo para não despertar as justas reclamações
-do governo de Hespanha. Era necessario que se mostrasse sempre empenhado
-em proseguir as suas descobertas para o oriente, deixando a Hespanha á
-vontade para o occidente. As 370 leguas deviam servir-lhe para poder
-navegar com os braços livres para o sul. Tambem no primeiro momento não
-teria o nosso governo outro intuito. A expedição da India absorvia-lhe
-todo o pensamento.
-
-Vasco da Gama foi e attingiu a meta, e a gloria immensa que d’ahi proveio
-e os proventos palpaveis e immediatos que d’ahi resultavam escureceram
-por um momento a gloria de Colombo. Comtudo era incontestavel que
-a viagem pelo Cabo da Boa Esperança durava immenso tempo, e tinha
-difficuldades e perigos sem numero, e a Asia, que Colombo encontrára,
-estava tão perto! Note-se bem que não havia a esse respeito a minima
-duvida. Colombo chegára á Asia, chegára ás Indias, não á India riquissima
-a que aportára Vasco da Gama, não ao Cathay e ao Cipango fabulosamente
-opulentos de Marco Polo, mas a terras selvagens que não podiam ser senão
-as sentinellas avançadas do continente maravilhoso e dos archipelagos
-opulentos. Era ainda para o occidente que se encontrava Cipango, era para
-o sul? A opinião dos sabios tendia para esta ultima solução, e Pedro
-Martyr d’Anghiera, o celebre amigo de Colombo, exclamava indignado com
-uma expedição hespanhola á Florida:
-
-«Para o sul! para o sul! Para que precisamos nós de producções
-semelhantes ás producções vulgares do Meio-Dia da Europa?»[112]
-
-O que deduzimos d’aqui? Deduzimos que, tendo louvavelmente D. Manuel
-seguido á risca a politica de D. João II, a descoberta do Brazil por
-Pedro Alvares Cabral foi resultado não do acaso, mas do intento firme e
-propositado de procurar nos mares occidentaes o que Colombo ainda não
-encontrára claramente—outro caminho para a India.
-
-Allega-se contra isso o silencio absoluto do governo a esse respeito.
-Devemo-nos lembrar, porém, que Pedro Alvares Cabral não podia levar
-instrucções patentes e abertas que denunciassem intentos contrarios aos
-interesses da Hespanha. Lembremo-nos de que os reis catholicos tinham
-protestado abertamente contra o projecto de uma expedição portugueza para
-o occidente tentada por D. João II. Lembremo-nos de que, se a Hespanha
-prohibia com penas severas as expedições particulares e clandestinas
-para o lado que o governo estava explorando, não podia consentir que
-expedições identicas fossem tentadas por um governo estrangeiro. O
-governo portuguez tinha de se mostrar exclusivamente preoccupado com
-a navegação do Oriente pela Africa; se as suas esquadras aproveitavam
-as 370 leguas para se chegarem para o occidente era para evitarem as
-calmarias da Guiné, e nunca no intento de interferirem com as descobertas
-hespanholas, tanto assim que, apenas D. Manuel participa ao rei de
-Hespanha o descobrimento do Brasil, apressa-se a dizer-lhe que é terra
-muito boa e muito commoda para a navegação da India. Effectivamente o
-rei de Hespanha obtivera promessa positiva do rei de Portugal de que
-não tentaria navegar para o occidente, e tão positiva ella era que em
-cartas a Christovam Colombo declara el-rei D. Fernando, que era aliás
-bem desconfiado, que não havia motivo para desconfiar das intenções
-do rei de Portugal. Apesar de tudo estavam sempre prestes caravelas
-para poderem seguir no encalço das nossas, caso algumas saíssem com
-intenções suspeitas.[113] Não admira portanto que se falasse bem alto na
-necessidade de se evitar as calmas da Guiné, que nunca mais preoccuparam
-os navegadores portuguezes depois do Brasil se ter descoberto, que D.
-Manuel quizesse convencer bem o rei de Hespanha de que a nova terra não
-era para elle senão um porto de escala para a navegação do oriente.
-
-Além d’isso, sabe-se pela leitura do famoso livro de Duarte Pacheco,
-_Esmeraldo de situ orbis_, que, apesar de todas as precauções
-hespanholas, já em 1498 Duarte Pacheco recebera ordens para ir sondar
-os mares do occidente. De um periodo da sua declaração, confusamente
-redigido, se quer deduzir que Duarte Pacheco houvesse então descoberto
-o Brasil, e que Pedro Alvares Cabral não fosse senão tomar posse, mas
-a descripção de Duarte Pacheco é absolutamente inexacta, o que prova
-que não vira a terra de que fala, e além d’isto não era natural que
-Duarte Pacheco, depois de ter descoberto secretamente o Brasil, não
-fosse na esquadra que era exactamente encarregada de o descobrir
-officialmente.[114]
-
-O que prova porém esta declaração é que o governo portuguez não
-descançava em proseguir na navegação occidental, que, apesar das
-precauções dos hespanhoes, lá iam navios nossos perscrutar o occidente, e
-que bem provavel é que Pedro Alvares Cabral, cujas instrucções—por acaso
-ou de proposito?—só nos chegaram truncadas, fosse encarregado de ver se,
-mais feliz do que Colombo, encontrava, de caminho para a India, as terras
-maravilhosas cujo sonho continuava a perseguir a imaginação dos Europeus.
-
-Como era possivel, diz-se, que Pedro Alvares levasse uma esquadra tão
-numerosa, se fosse no intento de fazer descobertas, que se faziam
-habitualmente com tres ou quatro caravelas? Em primeiro logar era
-indispensavel esconder ao rei de Hespanha esses intentos descobridores,
-em segundo logar, se effectivamente se fosse ter ás terras governadas
-pelos potentados de que Marco Polo dera noticia, o exemplo do que
-succedera a Vasco da Gama bem mostrava quanto era necessario que se
-não apparecesse com pequena força deante d’esses soberanos do Oriente,
-em terceiro logar o fim principal da viagem era ir á India. Se
-effectivamente se topasse o Cipango ou o Cathay, a esquadra de Pedro
-Alvares ia bem, assim forte e numerosa; se nada se encontrasse, ou se se
-encontrasse terra como a que Colombo encontrara, voltava-se a seguir o
-velho caminho de Calicut.
-
-Porque é que Pedro Alvares, tendo realisado a descoberta de que ia
-incumbido, não voltou a Lisboa a dar a gloriosa noticia de tão importante
-feito? Porque nem elle lhe reconheceu a importancia nem na côrte lh’a
-reconheciam. O que dava cuidado ao governo portuguez não era que Colombo
-tivesse descoberto umas ilhas selvagens, era que elle tivesse encontrado
-um novo caminho para a India, assim como o que desconsolava os reis
-catholicos, e fazia perder a Colombo o seu valimento e auctoridade, era
-que, em vez d’elle ter encontrado paizes florescentes e civilisados,
-encontrára ilhas selvagens.
-
-Depois do que temos dito, não extranham de certo os leitores e encontra
-acceitavel explicação o facto de D. Manuel não ter dito aos reis
-catholicos, nem se ter publicado o verdadeiro motivo da descoberta do
-Brasil. Vejamos agora se os motivos até hoje allegados teem razão de ser.
-
-Foi uma tempestade que arrojou os navios em direcção ao occidente?
-Extranha tempestade, que, em vez de dispersar os navios, os leva de
-conserva ao mesmo ponto! Além d’isso nem o piloto da esquadra, que fez
-a relação que Ramusio publicou nem Pero Vaz Caminha e o physico João
-nas suas celebres cartas, nem D. Manuel nas cartas que escreveu aos
-reis catholicos dizem uma palavra a respeito de semelhante tempestade.
-Foi muito depois que Pedro de Mariz se lembrou de dar, por effeito
-decorativo, a tempestade legendaria das descobertas á narrativa do
-descobrimento do Brasil, que lhe parecera provavelmente desenfeitada
-demais na sua abstenção de episodios.
-
-Note-se além d’isto que, segundo as informações dos roteiros colligidas
-n’uma preciosa memoria do illustre official da marinha portugueza o sr.
-Arthur Baldaque da Silva, as tempestades que sopram na região percorrida
-pelas esquadras de Pedro Alvares, e na quadra em que elle a percorreu são
-de noroeste e de sudoeste, que, longe de impellirem os navios para a
-costa do Brasil pelo contrario os afastariam.[115]
-
-Mas foram as correntes que levaram os navios, diz Gonçalves Dias na
-memoria em que procura refutar os argumentos de Joaquim Norberto,
-e a grande corrente equatorial arrastou os navios para a costa do
-Brasil.[116] Se Pedro Alvares Cabral tivesse chegado ao Pará, a sua ida
-teria uma explicação, porque a corrente segue de leste a oeste ao longo
-do Equador, mas, bifurcando no cabo de S. Roque, segue uma direcção
-tal, combinada com os ventos geraes, que uma esquadra, diz o almirante
-Monchez ha pouco fallecido, «não pode senão afastar-se cada vez mais da
-costa, quando quer dobrar o cabo da Boa Esperança, visto que de um lado
-os ventos permittem navegar para leste, do outro a costa afasta-se para
-oeste».[117] Se se appella para as correntes da costa, vemos, segundo
-o testemunho do mesmo almirante Monchez, «que durante a monção de SO
-levam para o norte»;[118] ora a monção de SO dura de abril a setembro,
-exactamente quando Pedro Alvares Cabral era, segundo se diz, arrastado
-pelas correntes para o sul.
-
-Estes factos pareceram tão singulares ao almirante Monchez que não
-podendo explicar por elles a descoberta do Brasil, e não conhecendo
-os elementos politicos da questão, deduz o seguinte: «É pois quasi
-impossivel dar outro motivo plausivel da chegada de Cabral á vista de
-terra pelos 16° de latitude, a não ser um erro de caminho por esse
-navegador.»[119]
-
-Esse erro tinha de ser constante durante 15 dias, e seria singular que só
-se désse quando trazia em resultado a descoberta do Brasil, ao passo que
-antes d’isso tinham passado, sem o mais leve engano, pelas Canarias e por
-Cabo Verde, e depois d’isso foram direitos ao cabo da Boa Esperança.
-
-Confronte-se isto tudo, note-se que temos prova authentica de que em
-1498, do anno immediato áquelle em que Vasco da Gama sahira de Portugal,
-foi Duarte Pacheco incumbido de ir descobrir terras a sudoeste, que o
-governo hespanhol tanto desconfia dos intentos de Portugal que espreita
-as nossas costas e tem navios promptos para seguir qualquer expedição
-portugueza que para o occidente se dirija, que D. Manuel, para desfazer
-suspeitas, trata logo de declarar que a terra descoberta a utilidade que
-tem é servir de porto de escala para a navegação da India, que trata
-tambem de disfarçar a distancia a que o Brasil fica de Cabo Verde,
-porque, tendo-lhe dito Pero Vaz de Caminha na sua carta que a nova
-terra ficava a 660 ou 670 leguas da ilha de S. Nicolau no archipelago
-de Cabo Verde, para os reis catholicos diz elle que fica a 400 leguas
-não da ilha mas do Cabo Verde que bem se pode suppor que seja o da costa
-africana,[120] de fórma que ficava assim o Brasil dentro da demarcação
-do tratado de Tordesillas, e veja-se se não é de uma evidencia absoluta
-que a descoberta do Brasil estava nos planos do governo portuguez, não
-porque soubesse a terra que ia encontrar mas porque não queria deixar aos
-seus rivaes o proveito de um caminho para a Asia mais curto do que o que
-Vasco da Gama acabava de descobrir.
-
-Não vale a pena demorar-mo-nos nem um instante na refutação das lendas
-relativas a suppostos descobrimentos do Brazil, anteriores a Pedro
-Alvares Cabral. A lenda mais pueril é a que suppõe que, não só antes de
-Pedro Alvares ter aportado a terras de Santa Cruz, mas ainda antes de
-Colombo ter aportado a Guanahani, um Portuguez, João Ramalho, chegára a
-terras brasileiras. Baseia-se essa lenda n’um supposto testamento feito
-por esse João Ramalho, que foi efectivamente um dos primeiros colonos do
-Brasil, mas que se tornára, pela sua residencia entre selvagens, quasi
-tão selvagem como elles, testamento feito por elle em 1580, e em que
-declara que havia noventa annos que estava no Brasil, aonde chegára, por
-conseguinte, em 1490. Era portanto macrobio este venerando descobridor
-que não podia ter menos de 20 annos quando chegou ao Brazil, e, ainda
-quando o fosse, era singular o testamento de um homem, que, aos 110
-annos, tendo perdido as noções da vida civilisada, com tanta precisão
-chronologica dizia que estava no Brasil não ha oitenta ou noventa annos,
-como seria natural que o fizesse e talvez ainda exaggerando a conta,
-mas rigorosamente ha noventa! Ora d’esse testamento não ha noticia
-senão a que dá um d’esses chronistas fradescos do seculo XVII, que tão
-facilmente, como é sabido, falsificavam datas e inventavam documentos.
-Mas o golpe mortal n’esta lenda infantil foi dado por um eminente
-escriptor brasileiro, o sr. Candido Mendes de Almeida, que depois de
-mostrar o absurdo da lenda e a ausencia de documentos em que se baseasse,
-publicou uma carta de um jesuita que, estando em 1559 na terra em que
-João Ramalho habitava, e dando conta aos seus superiores dos progressos
-da conversão dos indigenas, lhes fallava n’um Indio que lhe pediu que lhe
-dissesse quaes os dias em que devia jejuar, porque deixára de o saber
-desde _a morte de João Ramalho_, que era quem em vida lh’o dizia.[121]
-
-O que é, porém, estranho é que ainda encontremos com relação ao Brazil
-a questão dos mappas. Porque mestre João diz a D. Manuel que, para
-saber o sitio d’essa terra, veja um mappa-mundi antigo que tem Pero Vaz
-Bisagudo, d’ahi se conclue que o Brasil já fôra descoberto, tanto que
-já o inseriam n’um mappa. É a eterna historia dos mappas conjecturaes,
-dos mappas em que appareciam ilhas que ninguem vira e que ninguem chegou
-a vêr, e aquella terra ao sul do Equador, a terra incognita austral, a
-terra antichthona ou o _alter orbis_. Pois não se vê realmente que as
-cartas muitas vezes acompanhavam as descobertas, e que, se em rigor era
-possivel que se fizessem descobrimentos que ficassem desconhecidos, o que
-era impossivel era que a noticia d’esses descobrimentos se propagasse de
-fórma que lhes inserissem os cartographos nos mappas os resultados, e que
-apesar d’isso ficassem desconhecidos dos escriptores, dos sabios e dos
-governos!
-
-Cem vezes o repetiremos: os descobridores do seculo XV, cheios de
-respeito tradicional pela sabedoria antiga, não aspiravam senão a
-encontrar o que os antigos, no seu entender, conheciam perfeitamente, e
-por isso faziam esforços para adaptar o que descobriam e que encontravam
-aos mappas conjecturaes. Como veremos, o que procuravam agora era a terra
-antichthona, a que já se podia chegar desde o momento que se passára a
-zona torrida, mas que estava separada da nossa pela extensão dos mares.
-A essa terra antichthona suppunham chegar agora encontrando o Brasil,
-e era ao Brasil até que chamavam o _novo mundo_. Que Pedro Alvares
-Cabral julgára ter chegado á terra separada pelo mar do hemispherio
-septentrional é incontestavel, e por isso facilmente se convenceu, pelo
-que julgou deprehender dos gestos dos selvagens, que estava n’uma ilha, a
-que deu o nome, primeiro que o Brasil teve, de ilha de Vera Cruz.[122]
-
-Julgamos porém ter demonstrado que esse descobrimento se liga intimamente
-com o de Colombo, é a sua consequencia, como era tambem, ao mesmo
-tempo, o da Terra-Nova por Gaspar Côrte Real. As descobertas portuguezas
-conjugadas com as de Colombo produziam a descoberta do Brasil. Os dois
-grandes problemas geographicos estavam resolvidos: a zona torrida não era
-inultrapassavel, e por isso Pedro Alvares Cabral, seguindo as pizadas
-de Bartholomeu Dias e de Vasco da Gama transpunha o Equador, entrava
-em plena zona torrida e ía tranquillamente ao hemispherio meridional.
-A extensão do mar oceano não era infinita, tinha o Atlantico outra
-margem, e Pedro Alvares Cabral ía com plena confiança procural-a. Sem
-os descobrimentos portuguezes nada faria Colombo, porque os Açores eram
-um ponto capital de partida para as expedições occidentaes, e porque os
-terrores da zona torrida e das suas proximidades, não lhe permittiriam
-seguir o parallelo que seguiu. Sem o descobrimento de Colombo nada faria
-Pedro Alvares Cabral, porque não ousaria ir tão longe para o occidente. A
-Hespanha e a Portugal devia o mundo essa transformação da sua geographia.
-Completal-a-hia a circum-navegação do globo e o encontro do caminho pelo
-occidente para a Asia, e, como se a Providencia quizesse d’essa forma
-sellar de um modo indestructivel a collaboração dos dois povos na obra
-mais importante da historia da humanidade, foi um capitão portuguez
-commandando navios hespanhoes que deu ao mundo o cinto argenteo do rasto
-das suas quilhas, foi Fernão de Magalhães que planeou dirigiu e iniciou
-a expedição, foi Sebastião d’El-Cano que a completou e concluiu, e para
-que n’essa consagração ultima e solemne da conquista definitiva da Terra
-pelo homem, não faltasse tambem a patria gloriosa de Colombo, a audaz,
-a pensadora e sonhadora Italia, ía Pigafetta na expedição que narrou,
-para que assim os tres povos latinos, que eram egualmente benemeritos da
-civilisação e da sciencia, tivessem n’esse coroamento da grande obra os
-seus representantes. Essa epopéa ultima que ía pôr o fecho ao trabalho
-épico de um seculo para sempre glorioso nos fastos da humanidade, foi
-um Portuguez que a dirigiu, foi um Hespanhol que a completou, foi um
-Italiano que a escreveu.
-
-
-
-
-X
-
-Os Côrte-Reaes—Americo Vespucio Fernão de Magalhães
-
-
-Se antes da descoberta de Colombo, se tinham arrojado por mais de uma vez
-navegadores açorianos para os mares do Occidente, com muita mais razão o
-fariam, logo que esse importante acontecimento se realisou. Evidentemente
-as viagens haviam de multiplicar-se.
-
-O esforço dos Açorianos e muito especialmente dos Côrte-Reaes dirige-se
-então sobretudo para o Norte. Desde que Colombo chegou ás Antilhas,
-que elle tomou por archipelago asiatico, e a Cuba que elle tomou então
-por um pedaço de terra firme asiatica, opinião em que por muito tempo
-persistiu, os navegadores de todos os paizes e principalmente os que,
-antes de Colombo, como os Açorianos, já se occupavam de descobertas
-para o occidente, haviam de procurar seguir-lhe as pisadas e procurar,
-o que elle não conseguira, encontrar as terras maravilhosas de Cipango
-e do extremo oriental das Indias. A convicção geral era que para o sul
-é que se conseguiria esse _desideratum_, e já vimos como Pedro Martyr
-d’Anghiera soltava com um enthusiasmo quasi irritado esse grito: Para o
-sul! para o sul!
-
-Era esse effectivamente o caminho que todos em geral seguiam. Colombo e
-os Pinzon ou foram mais para o occidente, ou foram para o sul. Mas isso
-não queria dizer que a idéa da navegação pelo norte não entrasse tambem
-em muitos espiritos.
-
-O mappa de Toscanelli, aquelle famoso mappa que era provavelmente o
-que estava nas mãos de Pero Vaz Bisagudo, obedecia aos principios do
-geographo que o desenhára e que tinha a convicção de que ao occidente
-havia um prolongamento da Asia, que defrontava com o continente europeu
-e africano desde a Islandia até Guiné. Se, indo ao centro, Colombo
-encontrára effectivamente a Asia, como suppunha, mostrava portanto
-que era verdadeira a conjectura de Toscanelli, restava confirmal-a
-completamente. Foi isso que levou Pedro Alvares Cabral e muitos outros
-navegadores, ou ás occultas ou a descoberto, a dirigirem-se para o sul,
-foi isso talvez o que levou os Côrte-Reaes para o Norte.
-
-Lembram-se os leitores de que uma das supposições da geographia
-systematica dos antigos era que o mar Baltico tinha saída para o oriente
-e que ía ligar-se com o mar Indico. Strabão dizia que «o facto de que
-certos navegadores viessem por mar da India á Hyrcania não é considerado
-como certo, mas que isso seja possivel, Patroclo nol-o assegura.»[123]
-Pomponio Mela conta muito positivamente que Metellus Céler, sendo
-proconsul das Gallias, recebêra de presente de um rei germanico uns
-Indios que, açoitados pela tempestade, tinham vindo da India á Germania
-«vi tempestatum _ex Indicis æquoribus abrepti_.»[124] Discutiu-se muito
-no nosso tempo se estes homens, que eram, ao que parece, e no caso de
-ser verdadeira a noticia, de uma raça differente da européa, não seriam
-afinal de contas senão Esquimaus arrojados, como a barcos tantas vezes
-succedêra e tem succedido, das costas americanas ás costas irlandezas,
-escocezas ou allemãs. O que é certo é que a idéa de haver communicação
-entre a Europa e a India pelo norte, indo-se, porém, do occidente para o
-oriente estava enraizada no animo de muitos geographos antigos.
-
-Assim que se encontrou ou se suppoz encontrar a costa asiatica indo-se
-pelo occidente, a communicação tanto se podia fazer pelo norte, como
-pelo centro, como pelo sul. Effectivamente as costas asiaticas, como o
-suppozera Toscanelli, estendiam-se de norte ao sul, desde a Islandia até
-á Guiné. Era evidente que a expedição do norte tentava os açorianos. Logo
-que Gaspar Côrte-Real em 1500 encontrou terras, imaginou, como Colombo,
-ter encontrado terras asiaticas, e uma carta de Pespertigo, embaixador de
-Veneza em Portugal, é, para esclarecer esse assumpto, muito curiosa.
-
-Diz elle: «Tambem crêem (os _Portuguezes_) estar ligada (_a Terra dos
-Côrtes-Reaes_) com as Antilhas que foram descobertas pela Hespanha, e com
-a terra dos papagaios (_Brasil_) ultimamente achada pelos navios d’este
-reino que foram a Calicut.»[125]
-
-Humboldt que teve conhecimento d’este documento, espanta-se muito com
-elle. «No mez de outubro de 1501, diz o sabio escriptor, sabia-se já em
-Portugal que as terras do norte cobertas de neves e de gelo são contiguas
-ás Antilhas e á Terra dos Papagaios novamente encontrada. Esta advinhação
-que proclama, apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, como
-ligação continental entre o Brasil descoberto por Vicente Vanez Pinzon,
-Diogo de Sepe e Cabral e as terras geladas do Lavrador _é muito
-surprehendente_.»[126]
-
-A surpreza de Humboldt vem apenas da pouca importancia que elle dá á
-interferencia portugueza no descobrimento da America. Desde o momento
-que elle ignora as tentativas dos Açorianos para chegarem a terras
-occidentaes antes de Colombo, as tentativas que fizeram depois, desde o
-momento que elle não conhece as expedições clandestinas dos Portuguezes
-para encontrarem ao sul as terras asiaticas que Colombo não achára,
-desde o momento que attribue a um méro acaso a descoberta do Brasil
-por Pedro Alvares Cabral é evidente que não pode achar a concatenação
-de todos estes esforços, de que provém o presentimento da ligação de
-todas essas terras descobertas separadamente. Era sempre a Asia que
-todos os descobridores julgavam encontrar, ilhas da Asia ao sul, terras
-da Asia ao norte. N’um mappa publicado recentemente pelo sr. Harnin, o
-brilhante apologista dos Côrte-Reaes, se diz que viram n’umas terras a
-que não chegaram «serras muito espessas, pollo quall segum a opiniom dos
-cosmófircos se cree ser a _ponta d’asia_.»[127]
-
-A prioridade do descobrimento da Terra do Lavrador e da Terra Nova
-por Gaspar Côrte-Real está hoje tão completamente demonstrada, depois
-que o sr. Harnin e o sr. Patterson publicaram os seus excellentes
-trabalhos, que nos parece escusado insistir na refutação das pretenções
-dos dois Cabots, venezianos ao serviço da Inglaterra. É realmente
-curioso e estranho, que as descobertas portuguezas, apenas são feitas,
-encontram logo echo em todo o mundo, e as descobertas estrangeiras,
-que destruiriam as nossas, tanto em segredo se fazem, que só depois
-se suppõe reconhecel-as por uma referencia vaga ou por um documento
-apocrypho. Apenas Gaspar Côrte-Real volta da Terra Nova, apressa-se
-Pedro Pascaalijo, embaixador de Veneza (de Veneza, que é a patria de
-Cabot) a communical-a ao seu governo, Alberto Contino ao duque de Mantua.
-Das viagens de João Cabot só se deprehende que podia ser que tivessem
-existido, por uma d’essas referencias vagas que temos mencionado. Mais
-ainda. Henrique VII de Inglaterra, em cujo proveito fizera Cabot a sua
-expedição, dá a 19 de março de 1501 a mais larga e avultada doação que é
-possivel imaginar-se a tres negociantes de Bristol, Richard Warde, Thomaz
-Assehepurat e John Thomaz, associados com os açorianos João Fernandes,
-Francisco Fernandes e João Gonçalves, para que fossem explorar,
-descobrir, povoar e dominar todas e quaesquer terras nos mares oriental,
-occidental, austral, boreal ou septentrional, garante-lhes que, se
-alguns estrangeiros ou outros individuos ousarem navegar para as partes
-onde elles forem, sem licença, serão punidos, embora invoquem qualquer
-concessão que lhes tenha sido feita, etc. É uma verdadeira concessão
-ingleza, positiva e ao mesmo tempo minuciosissima, sem restricções nem
-peias, como de quem quer que as coisas se façam e não regateia os meios,
-mas, se João Cabot se tivesse antecipado a estes mercadores e em proveito
-do rei de Inglaterra, era absolutamente disparatada semelhante concessão,
-que só se pode fazer, quando os lezados, se os houver, pertencerem a paiz
-estrangeiro, e possam, portanto, ser tratados como inimigos.[128]
-
-Mas a origem da lenda aponta-a com segurança o sr. Ernesto do Canto.
-Está na adulteração da versão latina de uma das cartas de Pascaaligo.
-Diz que «os selvagens têem nas orelhas umas argolas de prata _che senza
-dubbio pareno sia facti a Venetia_. E, dizendo isto, quer o embaixador
-dar uma idéa do aperfeiçoamento d’aquella arte selvagem. O traductor diz
-tranquillamente: _cælaturam Venetam in primis præ se ferentes_. E assim,
-por uma traducção de má fé ficou estabelecido que antes dos Portuguezes
-alli tinham estado Venezianos. E quando Pascaaligo affirma que a terra
-descoberta por Gaspar Côrte-Real até ahi _nunca_ fôra vista por ninguem,
-Madrijuan traduz: terra até ahi _a quasi_ todo o mundo desconhecida.[129]
-
-Mas, apesar d’isso, essas terras do norte figuraram por muito tempo
-nos mappas como _terras dos Côrtes-Reaes_. Na Terra Nova, no Canadá,
-no golpho de S. Lourenço conservaram-se nomes portuguezes que se
-reconhecem atravez da adulteração, como _Por_ Baye bahia da _Torre_,
-_Mira_, _Minas_, _Porto-Novo_, transformado em _Port-Novy_, e o nome de
-Lavrador por tanto tempo consagrado difficilmente se pode attribuir a
-outra linguagem que não seja a portugueza. Felizmente são escriptores
-americanos e dos mais notaveis que defendem a gloria portugueza e
-justificam as nossas reivindicações.[130]
-
-Na segunda viagem Gaspar Corte-Real singrou mais para o norte, mas nunca
-mais voltou. Foi em sua busca seu irmão Miguel Corte-Real, mas tambem se
-perdeu entre os gelos, voltando as caravelas que acompanhavam a sua. E é
-de ver que, longe de procurarem terras para o sul das que primeiro tinham
-descoberto, e que seriam de certo mais attrahentes e tentadoras, era
-sempre para o norte que seguiam, tão radicado estava no seu pensamento
-o desejo de procurarem a Asia, a Asia opulenta, por aquellas gelidas
-paragens septentrionaes, de fórma que a procura d’essa passagem do
-noroeste que fez tantos martyres nos tempos modernos e glorificou tantos
-navegadores illustres, foi tambem pelos Portuguezes primeiro tentada com
-audacia mais notavel ainda por serem meridionaes que nem tinham visto
-talvez em toda a sua vida neve, mas que orgulhosos de terem provado que
-não era inhabitavel a zona torrida queriam a todas as zonas declaradas
-inhabitadas pelos antigos, ampliar a sua demonstração, e quando Franklin,
-o heroe moderno, que esse ao menos sempre vivera em regiões onde o frio é
-um inimigo constante que se conhece e com que se lucta, ia deixar n’essas
-ignotas regiões o seu cadaver e dos seus e o casco esmigalhado do seu
-navio, encontrou talvez enterrada em eternos gelos a caravela de Miguel
-Corte-Real, e branquejando entre as neves á luz crepuscular do sol dos
-polos os ossos dos audaciosos Portuguezes que, na epocha aurea da sua
-gloriosa expansão, não queriam deixar um só recanto do mundo a que não
-levassem a ousadia do seu genio e o ardor das suas explorações.
-
-Por muito tempo perseverou na exploração do Norte a gente açoriana e
-minhota. A lista dos descobridores não pára nos Côrte-Reaes. João Alves,
-Fagundes e outros exploraram essa costa, ainda depois dos francezes e
-inglezes terem tentado tambem ir exploral-a. Houve até tentativas de
-colonisação, e esses mares foram por muito tempo theatro de actividade
-dos pescadores portuguezes. Hakluyt ainda notou que eram Portuguezes
-e hespanhoes os que mais se occupavam da pesca do bacalhau. Navios
-portuguezes estavam, em certas occasiões, cincoenta ou sessenta.[131] Mas
-depois cahiu sobre tudo isto a mortalha da decadencia, que, não recobre
-ao menos a mortalha do esquecimento.
-
-Entretanto o Brasil, considerado uma ilha, continuava a ser explorado
-por Gonçalo Coelho, por Christovão Jacques, Fernando de Noronha, etc., e
-tambem pelos hespanhoes Pinzon e Solis e pelo veneziano Cabot. N’algumas
-das expedições portuguezas[132] foi como piloto Americo Vespucio; do seu
-nome fez Ylacomilas na sua _Cosmographiae introdutio_ o nome do novo
-continente, e por esse facto se lamenta a injustiça da posteridade, que
-esqueceu o nome do grande descobridor Colombo para glorificar o nome do
-fanfarrão cosmographo.
-
-É esta questão que rapidamente vamos tratar.
-
-Colombo morreu julgando sempre que chegara á Asia e o mundo partilhava
-a sua opinião. Quando Pedro Alvares Cabral encontrou terra ao sul do
-Equador, já se não poude acreditar que se estivesse nas visinhanças do
-Cathay e do Cipango. Não o permittia a latitude. Quando as explorações
-successivas fizeram reconhecer que se estava realmente n’um grande
-continente, o que se imaginou, o que se entendeu, porque a tudo
-presidia a lembrança das theorias da antiguidade, foi que se estava em
-terra antichthona, e por isso, como diz D. Manuel na sua carta ao rei
-catholico, muitos lhe davam o nome de Novo Mundo.[133] Era effectivamente
-_alter orbis_, a quarta parte da terra, com a qual nada tinham as ilhas
-asiaticas e o continente asiatico que Christovam Colombo descobrira.
-
-Quando os Portuguezes em 1501, suppunham que as Antilhas, o Brazil e a
-Terra Nova constituiam uma terra unica, suppunham que essa terra era a
-Asia. Quando depois de 1501 se viu que o Brazil se prolongava muito para
-o sul, entendeu-se que as Antilhas e a Terra Nova faziam parte da Asia,
-mas que o Brazil constituia a quarta parte do mundo, o _alter orbis_, o
-Novo Mundo, a terra central de Ptolomeu.
-
-Portanto não se fazia uma injustiça a Colombo, nem talvez a Cabral, só
-aos capitães das expedições em que Americo Vespucio navegara, porque
-essas expedições é que tinham identificado o paiz novamente descoberto
-com a antiga terra de Ptolomeu, mas Americo o cosmographo, que espalhara
-a noticia, foi que colheu o proveito, e o _novo mundo_ descoberto, não
-por Christovão Colombo, que nem acceitaria semelhante gloria, mas pelas
-expedições de que fazia parte Americo, recebeu o nome de America,[134]
-sem que Colombo, se ainda estivesse vivo, podesse ou quizesse protestar.
-
-De certo, depois, quando se reconheceu a verdade, quando se percebeu que
-Novo Mundo era tudo, seria de perfeita justiça restituir a Colombo o
-que a Colombo era devido, mas já se tomara o habito da nova denominação,
-demais a mais euphonica e agradavel, e America ficou sendo o todo, quando
-ao principio só fôra America uma parte.
-
-Não temos ensejo agora de discutir a questão das verdades ou das mentiras
-de Americo. Parece-nos comtudo que tem sido injustamente maltratado o
-cosmographo florentino. É-lhe muito adverso o visconde de Santarem,
-que a seu respeito publicou um livro celebre,[135] mas o visconde de
-Santarem não tinha conhecimento das expedições clandestinas portuguezas,
-conhecimento que torna hoje mais verosimil a viagem em que Americo
-Vespucio encontrou, indo para o occidente, Pedro Alvares que voltava da
-India, e que fôra considerada pelo visconde de Santarem apocrypha.
-
-Reconhecida a existencia da terra central, era indispensavel procurar
-meio de se chegar á Asia. As expedições portuguezas levavam todas o fito
-de encontrar um estreito que as conduzisse aos mares asiaticos. Essa idéa
-do estreito era predominante nos espiritos do tempo. Era assim que se
-fazia a communicação entre os dois mares, e era por estreitos, segundo a
-cosmographia antiga, que se fazia a communicação entre o mar exterior e
-os golphos que elle formava, que eram, como dissémos, o mar Persico, o
-Indico, o Mediterraneo e o Caspio.[136]
-
-Como estreitos conhecia a geographia conjectural os mares descobertos por
-Christovão Colombo. Havia-os em Panamá, e alguns rios da America do Sul
-foram tomados primeiro por estreitos.[137] D’ahi a lenda que attribue a
-Fernão de Magalhães o ter tido já conhecimento, por um mappa, do estreito
-que descobriu. O que elle tinha era a lição dos mappas conjecturaes, era
-o culto pelas velhas theorias que faziam passar por estreitos as aguas
-do mar exterior para os mares interiores, e se elle descobriu o que
-os outros não acharam, se á Hespanha levou essa gloria, foi porque D.
-Manuel, cançado de não encontrar senão terra para o sul, entendeu que o
-novo continente se immergia ao sul, como ao norte, pelo polo. Magalhães
-perseverou, dizendo que penetraria no estreito, ainda que tivesse de
-sumir-se na região polar, onde ha o frio e a brisa;[138] depois a
-descoberta das ilhas do mar Pacifico ao sul da Asia, feita por Antonio
-de Abreu e os outros expedicionarios enviados por Albuquerque, mais o
-convenceu de que haveria ilhas tambem ao sul da America como as havia
-ao sul da Asia, e que entre essas ilhas havia de encontrar por força o
-famoso estreito que o conduziria pelo occidente á Asia.
-
- * * * * *
-
-Tinha concluido este meu trabalho, e tratava já de lhe pôr o fecho,
-quando exigencias de uma missão official me levaram a Hespanha. Assisti
-no dia 11 de outubro de 1892, em Huelva, á ultima sessão do congresso
-dos americanistas, e, não podendo apresentar o livro que estava por
-completar, apresentei uma resumida indicação em francez das idéas que
-lhe serviam de fundamento. Acolhida com extraordinaria benevolencia,
-essa communicação teve a felicidade de encontrar echos sympathicos.
-O sr. Hamy, membro do Instituto de França, e dignissimo successor
-do grande Quatrefages, e o sr. Marcel, distincto geographo, deram
-noticia ao congresso, logo em seguida á leitura do meu resumo, e a mim
-em particular, de trabalhos seus que confirmavam plenamente a minha
-conjectura ácerca da descoberta do Brasil. A linha de demarcação de
-Tordesillas fôra origem de falsificações cartographicas inspiradas pelo
-zelo patriotico dos cartographos, falsificações pelas quaes Portuguezes
-e Hespanhoes procuravam fazer entrar dentro da zona dos seus paizes as
-terras que se iam descobrindo. Assim effectivamente o governo portuguez
-mostrava que não fôra platonicamente que pedira e obtivera as 370 leguas
-além das ilhas de Cabo-Verde. Tratou logo em seguida de explorar esse mar
-occidental, cujos segredos Colombo desvendára, e a viagem clandestina de
-Duarte Pacheco não era senão uma d’essas explorações, como foi com esses
-intuitos exploradores que Pedro Alvares Cabral muito de proposito se
-desviou do caminho que o devia conduzir directamente á India. Descoberto
-o Brasil, tratava D. Manuel de explicar ao rei catholico que essa terra
-não ficava fóra da sua zona, e tratavam os cartographos portuguezes de
-sanccionar essa affirmação, da mesma fórma que os cartographos hespanhoes
-procuravam incluir as Molucas na zona concedida ao seu paiz. Foi ainda
-a esse intuito que obedeceram Abreu e Serrão, enviados por Albuquerque
-a explorar os mares para além de Java e de Sumatra, e que nas suas
-audaciosas viagens não só tomaram conhecimento de um grande numero de
-ilhas que n’esses mares pollulavam, mas entreviram a Nova Guiné, e
-adivinharam a Australia.
-
-Esta ultima affirmação é feita pelo sr. Hamy, e falta-me agora o espaço e
-o tempo para fazer entrar no quadro d’este livro essa importante e ainda
-hoje obscura questão do descobrimento da Australia.
-
-Mas o que fica assente de um modo incontestavel é que a participação
-dos Portuguezes no descobrimento da America foi efficaz e activa. Se
-o seu governo hesitou perante a temeridade de Colombo, se sacrificou
-demasiadamente aos conselhos da fria razão no momento em que era
-necessario um lance de audacia e um arrojo de visionario, logo,
-despeitados por esse momento de fraqueza, e estimulados pelo glorioso
-commettimento dos visinhos, precipitaram-se com verdadeira furia para
-esse occidente que tinham receiado desvendar e foram tambem como Colombo
-em procura da Asia pelos mares poentes. Uns e outros, Gaspar Côrte-Real
-ao norte e Cabral ao sul, esbarraram com a mesma barreira que detivera
-Colombo, barreira que os despeitava, que os indignava, que teimavam em
-considerar como uma longa cadeia de ilhas que se desdobrava, como um
-cordão de sentinellas ferozes e asperas, deante da Asia resplandecente,
-e que era afinal bem mais fulgurante de maravilhosas riquezas do que
-essa Asia decrepita e estagnada no seu somno de seculos. Por entre os
-gelos do Norte, por entre as suppostas ilhas ao Sul, procuravam todos,
-Hespanhoes e Portuguezes, o caminho de Cathay e de Cipango. Quando se
-fatigaram de tão vãs tentativas, quando se convenceram de que era um novo
-mundo que tinham deante de si, barreira inquebrantavel que lhes vedava
-por esse lado o caminho para o Oriente, a perspicacia e a audacia e a
-perseverança do portuguez Magalhães conseguiram desfazer essa ultima
-illusão, reconstituir no espirito humano a Terra inteira na logica da sua
-estructura, e conquistar para a Sciencia o morgado da Humanidade.
-
-
-
-
-XI
-
-Conclusão
-
-
-Lancemos os olhos para o espaço que rapidamente percorremos. Encontramos
-a sciencia antiga desvelando maravilhosamente alguns dos segredos mais
-importantes da cosmographia, mas estacionada n’uma solução do grande
-problema que se lhe affigurara satisfatorio, e que era comtudo um
-obstaculo invencivel para todo o progresso geographico. Depois de mil
-conjecturas phantasistas, pode-se dizer que um grande resultado se
-obtivera: o reconhecimento da esphericidade da terra. Mas o orgulho
-humano oppunha-se invencivelmente á hypothese que désse a essa Terra, e
-portanto á raça pensadora que a habitava, um logar inferior no concerto
-do universo. O sol continuou a girar acompanhado por todo o systema
-planetario e por todo o mundo stellar em torno da terra immovel e
-soberana. Era comtudo esse um terrivel escravo, porque bastava a sua
-ausencia para que fenecesse a vegetação e definhasse a vida; por isso
-tambem era natural que nos pontos onde o seu contacto fosse mais proximo
-o excesso do calor produzia o effeito contrario, e désse tal intensidade
-á vida que a fizesse desapparecer na conflagração do abrazo. O mytho de
-Zeus e de Semele parecia traduzir este pensamento.
-
-Quando a terra mãe, a Terra que o deus terrivel fecundava, o queria ver
-de perto com todo o explendor do seu vulto, com toda a grandeza da sua
-omnipotencia, bastava a presença do amante para a reduzir a cinzas. Era
-em torno da zona média da terra que o sol descrevia o seu giro, era
-ahi portanto que se approximava da terra, e ahi forçosamente a vida
-desappareceria no incendio dos seus raios.
-
-Assim era a Sciencia que vedava o caminhar do homem. O mundo civilisado
-dilatava-se, graças aos esforços e á audacia dos Phenicios, mas, por mais
-audaciosos que fossem, considerariam uma insania suprema transpor os
-limites das zonas defezas.
-
-Para essas regiões que os mortaes não podiam pisar transportava a
-phantasia humana a residencia d’aquelles, que, libertos dos laços da vida
-mortal, podiam existir em condições negadas á fraca humanidade. Foi pois
-assim que para além do terminus da sciencia positiva, ou para o norte,
-ou para o sul, a imaginação collocou as regiões da bemaventurança.
-
-Veiu a edade média, em que uma sociedade barbara procurando reatar o
-fio da civilisação, tomou como ideal supremo da sua sabedoria a sabia
-antiguidade.
-
-Se Ptolomeu e os outros eram respeitados pelos seus contemporaneos como
-eximios sabedores, para os seus novos discipulos eram perfeitamente
-oraculos, e a Sciencia continuou, mais do que nunca, a deter o homem
-dentro dos limites consagrados. Assim como os Phenicios, fundeados por
-assim dizer á beira da Syria, sondaram o Mediterraneo primeiro e depois
-o Atlantico, o infante D. Henrique de pé no posto mais avançado da costa
-europeia sentiu o desejo ardentissimo de sondar o grande mysterio.
-Realisou-lhe a audacia dos seus navegadores o seu sonho querido,
-quebrou-se a barreira da zona torrida, e ampliou-se para o occidente o
-conhecimento do Oceano. As affirmações da sciencia antiga iam caindo uma
-a uma sem que os navegadores ousassem comtudo desmentil-as, senão nos
-pontos em que a experiencia mostrava definitivamente a sua fallibilidade.
-A Africa foi tomando os seus contornos verdadeiros, dobrou-se a sua
-ponta meridional, seguiu-se para o oriente, sem se encontrar o mar
-mediterraneo das Indias, a peninsula indostanica foi tambem reintegrada
-na sua verdadeira fórma, o Cathay da narrativa semi-legendaria de Marco
-Polo appareceu na figura extranha d’essa China immobilisada, apesar de
-rica e sabia, o Cipango transformou-se no archipelago japonez, e as ilhas
-do meio-dia asiatico começaram a apparecer disseminadas nos mares como
-as pérolas dispersas de um collar que se despedaçasse. Foi essa a obra
-gigante dos Portuguezes.
-
-Mas a elles tambem se devia o encontro de um novo posto de observação,
-de uma atalaya estimulante perdida no seio do Oceano. Como os Phenicios
-em Tyro, como o infante D. Henrique em Sagres, ia Colombo mais adeante
-sonhar mundos desconhecidos nos penhascos dos Açores. Era d’alli que via
-as caravelas de outros sonhadores como elle, a quem só faltava o genio e
-a perseverança, demandar alguma ilha mysteriosa para além do Oceano, ou
-os restos d’aquella mysteriosa Atlantida, que fôra um dos vagos sonhos
-da antiguidade. O alargamento da terra seguiu a sua ordem logica; os
-Phenicios chegavam de Tyro a Carthago, e desvendavam o Mediterraneo,
-de Carthago a Cadiz e descobriam o Atlantico, os Portuguezes de Sagres
-desvendavam o segredo do Oceano para o sul e chegavam ao Cabo da Boa
-Esperança, do Cabo da Boa Esperança quebravam o mysterio do mar oriental,
-e aportavam a Calicut e a Goa, e de Goa irradiavam para o sul e para
-o oriente as investigações finaes. De Sagres tambem, singrando para
-o occidente, iam poisar nos Açores; estava reservado aos Hespanhoes,
-guiados por Colombo, a audaciosa investigação que ia dar a America ao
-mundo.
-
-O que era necessario, porém, era ligar essas duas grandes emprezas. Por
-circumstancias verdadeiramente providenciaes foram os representantes
-dos dois povos ligados na mesma empreza, que ataram as fitas soltas das
-grandes explorações oceanicas, e esse enlace supremo foi Magalhães que o
-começou, foi Elcano que o concluiu.
-
-Assim nas descobertas como em todas as emprezas do espirito humano é a
-evolução que se manifesta. Não procede por saltos a natureza, tudo se
-liga e se concatena. A missão dos grandes homens está exactamente em
-serem os elos d’essa cadeia. As tentativas infructiferas, dispersas,
-quasi inconscientes dos Catalães de Jayme Ferrer, dos Normandos de
-Bethencourt, dos Genovezes de Vivaldi, e dos pescadores e marinheiros
-portuguezes que procuravam arcar com o cabo Não ou devassar o Atlantico
-unia-as o infante D. Henrique, dava-lhes o nó que as aproveitava, o
-cabo Bojador dobrava-se e os Açores e a Madeira sahiam do seio das
-ondas. As tentativas infructuosas tambem dos Açorianos e dos Madeirenses
-ligava-as a mão poderosa de Colombo, e dava assim um novo fusil á cadeia
-dos descobrimentos e a America apparecia. E por isso os povos quando
-encontram na sua historia um d’esses homens insignes, sem renegar os
-seus esforços collectivos, nem deixar de lhes reconhecer a importancia,
-saudam n’esses grandes vultos uns entes extraordinarios que souberam dar
-uma realidade positiva aos seus sonhos e ás suas aspirações, e foram
-n’esse tumultuar de pensamentos desconnexos e inconscientes, as radiosas
-incarnações da Consciencia da humanidade.
-
-
-
-
-FOOTNOTES
-
-
-[1] Tom. I, secção 1.ª, pag. 285.
-
-[2] Publicado por Dumont no _Corpo Diplomatico_, tom. III, parte I, pag.
-200. E além d’esta as bullas de Calixto III, de 14 de maio de 1455 e de
-Xisto XV, de 21 de julho de 1481, e a famosa divisão dos mares entre
-Portugal e a Hespanha por Alexandre VI, e os tratados entre Portugal e
-Hespanha, em que sempre se reconheceu o direito que tinhamos á costa
-africana pela prioridade do descobrimento, e a deferencia com que a
-França sempre reconheceu o nosso direito, mandando Luiz XII restituir uma
-caravela portugueza vinda da Mina, tomada pelos francezes, e prohibindo
-Francisco I, a 28 de junho de 1532, que fossem navios francezes á costa
-da Guiné, em attenção aos tratados! V. Visconde de Santarem: _Recherches
-sur la découverte des pays situés sur la côte occidentale d’Afrique au
-delà du cap Bojador_ etc., § VII, pag. 67 e segg. E em 1513, publicou-se
-em França, um livro intitulado: _Nouveau Monde et navigations fectes dans
-les pays et iles auparavant inconnues_, e cujo primeiro livro se intitula
-_Livro da primeira navegação pelo Occeano para a terra dos Negros
-da baixa Ethiopia por ordem do illustre senhor infante D. Henrique,
-irmão de D. Duarte, rei de Portugal_. E esse livro reimprimiu-se em
-1516! E note-se que Francisco I não se desinteressava na questão dos
-descobrimentos, e os marinheiros francezes procuravam seguir as nossas
-pisadas. É conhecido o famoso dito do rei de França, que queria saber
-qual o artigo do testamento de Adão que deixava parte do mundo aos reis
-de Portugal e de Hespanha. Podendo pôr embargos, era de estranhar que o
-não fizesse.
-
-[3] _Histoire de la première descouverte et conqueste des Canarias faite
-dés l’an 1402 par messire Jean de Bethencourt, escrite du temps mesme par
-F. Pierre Bontier et Jean Le Verrier, prestres domestiques dudit sieur de
-Bethencourt, conseiller du roy en la cour du parlement de Rouen_, cap.
-LIII, pag. 95. (Paris, 1830).
-
-[4] _Ibid._, pag. 4.
-
-[5] _Ibid._, cap. LIV.
-
-[6] _Ibid._, pag. 102.
-
-[7] Palavras de Innocencio VII, escriptas em 1406 a João de Bethencourt e
-citadas na relação dos capellães a pag. 197, cap. LXXXIX.
-
-[8] Este erro gravissimo deu origem a todas as falsas reivindicações
-francezas, apezar de ter sido completamente desfeito no proprio seculo
-XV. Chamava-se primeiro _Gianya_, _Gineva_ ou _Gynoya_ ou _Guiné_ á
-terra proxima de Marrocos, que se suppunha habitada pelos negros, e com
-a qual se fazia commercio. Era esta a Guiné que ficava a doze leguas das
-Canarias, «do outro lado da ilha de Fuerteventura», como dizem ainda
-os capellães de Bethencourt. Azurara, quando chama _Guiné_ á costa do
-Senegal descoberta pelos Portuguezes, desculpa-se de ter já chamado
-assim, para empregar a linguagem commum, a outro paiz onde tinham estado
-primeiro os Portuguezes, e que era d’este muito distante. Essa _primeira
-Guiné_, ou _Guiné antiga_, reclamou-lhe o senhorio o rei de Castella,
-D. João II, que escrevendo de Valladolid a D. Affonso V de Portugal,
-a 19 de abril de 1454, dizia-lhe: «Otrosi, rey muy caro, e muy amado
-sobrino, vos notificamos que, viniendo ciertas caravellas de ciertos
-nuestros subditos e naturales vecinos de las nuestras ciudades de Sevilla
-y Cadiz con sus mercaderias _de la tierra que llaman Guinea, que es de
-nuestra conquista_, e llegando cerca de la nuestra ciudad de Cadiz á una
-linea estando en nuestro señorio e jurisdicion, recudieron contra ellos
-Pallencio, vuestro capitan etc.»
-
-Esta Guiné, cuja conquista o rei de Castella dizia pertencer-lhe, fazia
-parte do reino da Africa, sobre a qual os reis de Castella diziam ter
-direito, herdado dos Godos. Quando o nome de Guiné ficou pertencendo á
-região que hoje o tem, quer dizer a que está para além do Cabo Bojador,
-os reis de Portugal tomaram sem contestação nem cedencia de Castella
-o titulo de _senhores de Guiné_, baseado no direito de primeiros
-descobridores que ninguem lhes impugnou. E a Guiné antiga perdeu essa
-denominação. Ahi está o segredo da confusão que deu origem ás pretenções
-tão absurdas dos Normandos e dos Catalães.
-
-[9] «Toscanelli distingue en outre les îles que l’on rencontrera sur la
-route, _que estan situadas en este viage_, par exemple l’Antilia, d’avec
-les îles qui sont proches de l’Inde continentale, par exemple Cipango
-et les îles avec les quelles trafiquent les négocians de différentes
-nations.»—Humboldt.—_Histoire de la géographie du nouveau continent_,
-tom. I, sec. 1.ª, pag. 228.
-
-[10] Ácerca das tres Indias, e das differentes denominações com
-que apparecem na edade média, veja-se sobretudo o magnifico _Essai
-sur l’histoire de la cosmographie et de la cartographie pendant le
-moyen-âge_, etc., pelo visconde de Santarem, tom. I, pag. 136, 251, 182,
-394, tom. II, pag. XXXVIII, 189, 223, tom. III, pag. 28, 420, 346, 371,
-161, 199, 217, 274, 161, 240, 442, 360, 370, 195. (Paris, 1849). Os nomes
-das differentes Indias são variadissimos, Barbara, Deserta, Primeira,
-Segunda e Terceiro, Magna e Parva, Superior, Inferior e Exterior, Intra
-Gangem, Ultima, Arenosa, etc. Sabendo-se o que eram estas differentes
-Indias, como abrangiam a Tartaria, a Arabia, a China, e até a Ethiopia,
-espantar-se-ha menos o leitor de que os Portuguezes procurassem na Africa
-o _Prestes João das Indias_. Essa lenda tambem mudou de local como o nome
-de Guiné e a designação de Ethiopia, mas pode-se dizer que nunca saíu de
-alguma d’essas Indias.
-
-[11] Gosselin _Recherches sur la géographie systématique des anciens_,
-tom. I, pag. 140. É firmando-se na auctoridade de Herodoto que este sabio
-affirma que o grande Oasis do Egypto tinha outr’ora o nome de _ilha dos
-Bemaventurados_.
-
-[12] O mappa-mundi de 1417, conservado no palacio Pitti, por exemplo,
-indica duas Taprobanas, Ceylão e Sumatra. Quando não era Sumatra
-exclusivamente Taprobana, era a uma das duas ilhas que esse nome se dava.
-D. João de Castro no prologo do seu _Roteiro de Lisboa a Goa_, quando
-falla a El-Rei de Portugal nos dominios que tem, diz: «como Taprobana que
-os antigos criam ser outro mundo nouo, reconhece seu alto nome e lhe paga
-pareas» e accrescenta em nota: «_Taprobana é agora chamada Samatra_» a
-pag. 14. A essa Taprobana tambem se refere evidentemente Camões no seu
-famoso verso:
-
- _Passaram inda além da Taprobana_
-
-Tendo no tempo de Camões chegado os Portuguezes já ao Japão, era bem
-natural que, havendo a Taprobana-Ceylão e a Taprobana-Sumatra a esta
-ultima se referisse o grande poeta indicando o limite ultrapassado pelos
-Portuguezes. O famoso mappa da cathedral do Hereford colloca a Taprobana
-defronte do golpho Arabico. Prisciano no seu poema geographico põe a
-Taprobana no mar oriental juntamente com a ilha phantastica do Ouro. No
-tratado _De moribus brachmanorum_ que se attribue a S.ᵗᵒ Ambrosio citado
-por Klaproth na sua _Lettre sur la boussole_, pag. 53, põe-se a Taprobana
-em Ceylão, ilha que tem magnetes que attrahem os navios que teem pregos
-de ferro e não os deixa mover. N’alguns mappas da edade média põe-se a
-Taprobana deante da bocca do Ganges.
-
-[13] A _Aurea Chersoneso_ de Ptolomeu e de Marino de Tyro corresponde sem
-duvida á peninsula de Malaca, mas o mappa de La Salle por exemplo colloca
-a _Aurea Chersoneso_ no Indostão.
-
-[14] _Mémoire sur le pays d’Ophir, oú les flottes de Salomon alloient
-chercher de l’or_, nas _Mémoires de littérature de l’Académie royale des
-inscriptions et belles-lettres_, tom. XXX, pag. 83 a 93, (Paris, 1764).
-Este paiz de Ophir tem uma terrivel parecença com as ilhas de Chryse e
-de Argyra, e do Sol e dos Homens e das Mulheres que apparecem nos mappas
-conjecturaes. N’alguns mappas Ophir tambem apparece como ilha. Querer
-determinal-o não será querer tomar muito ao pé da letra as indicações
-vagas da Biblia?
-
-[15] A idéa adoptada na edade média, que vinha da antiguidade e que durou
-até ao seculo XVI, é a das duas Ethiopias de Homero, a que fica entre
-os dois Nilos, e a que se liga com os Mauritanos. S. João Damasceno,
-dividindo os habitantes da terra segundo as areas dos ventos, dizia: «Ad
-Africum Ethiopes et occidentales Mauri, ad Favonium Herculis columnæ,
-etc.» _De fide orthodoxa_, tom. I, pag. 69. _Apud_ Visconde de Santarem
-_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, pag. 32. Assim
-é corrente que a baixa Ethiopia começa para os escriptores medievaes nas
-proximidades da Mauritania, quer dizer, pega com a Guiné primitiva, com
-a Guiné de Bethencourt. O titulo dos reis de Portugal mostra bem que
-Ethiopia quer dizer simplesmente _Africa_. Assim diz o titulo: Rei de
-Portugal e dos Algarves, d’aquem e d’além-mar em Africa... (Este Algarve
-na Africa era Ceuta e Tanger, etc.) senhor de Guiné (no sentido que
-esta palavra tomou depois dos descobrimentos) da conquista navegação e
-commercio da _Ethiopia_ (Africa meridional e oriental) Arabia, Persia
-e _India_ (tambem na significação da meia-edade, abrangendo a Asia
-Oriental). É curioso que um escriptor moderno, de grande merecimento,
-transcrevendo um trecho de um escriptor já do seculo XVII, em que se diz
-que um navio que ia para a Ethiopia foi levado pelas correntes para o
-Brazil, com isso muito se espanta. Não se lembra que a região da Ethiopia
-comprehendia até a Africa occidental que ficava para além da Guiné.
-
-[16] Na primeira viagem, Colombo, chegando a Cuba, disse: _Es cierto que
-esta es la Tierra-Firme_, Diario de 1 de novembro. Na segunda viagem
-confirmou essa opinião, e fel-a jurar solemnemente pelos marinheiros
-a 12 de junho de 1494. Humboldt _Histoire de la géographie du Nouveau
-Continent_, tom. I, pag. 310, _nota_.
-
-[17] Vejam-se no principio do segundo volume do magnifico livro de
-Humboldt as indicações relativas aos mappas d’esse tempo que separavam
-umas das outras as diversas porções da America.
-
-[18] No seu tratado publicado em latim na edição Reich com o titulo _De
-facie in orbe Lunæ_, tom. IX, pag. 923.
-
-[19] Sobre as differentes theorias relativas á fórma da terra veja-se o
-_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, pag. 14, 223,
-410, tom. II, pag. XV, XVII, 32, 252, 258, 10, LIX a LXI, 18, 26, 35, 94,
-107, 215, etc., etc., tom. III, pag. 81, 102, 212, 223, 460, 499, etc.
-
-[20] Santo Agostinho, S. João Chrysostomo, Lactancio, preconisaram a
-theoria da _terra quadrada_ declarando-a conforme com o Evangelho, os
-mappas medievaes como o de Cosmas Indicopleustas do seculo VI, Gervais
-de Tilbury do seculo XIII, Nicolau d’Oresme do seculo XIV, Guilherme
-Fillastre do seculo XV. Umas vezes inscreviam-n’a no circulo formado
-pelos mares, outras vezes pelo contrario, a terra em si é redonda, mas a
-figura que está inscripta é quadrada.
-
-[21] Note-se bem que este é que é o systema de Ptolomeu, o que
-predominava, apesar de tudo, nos espiritos mais esclarecidos. Pedro agora
-vae refutal-o, substituindo-lhe uma outra theoria scientifica, menos em
-desaccordo com as affirmações orthodoxas.
-
-[22] _Petri Alphonsi Judeo Christiani Dialogi_, p. 15, apud. Visconde de
-Santarem, _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. III, pag.
-320 a 324.
-
-[23] «Se as extremidades da Ethiopia nos offerecem figuras extranhas de
-homens e de animaes, pouco nos devemos espantar: é o effeito do excessivo
-calor que alli reina, porque a acção do fogo é maravilhosamente propria
-para fazer tomar ás partes exteriores de todos os corpos uma infinidade
-de configurações diversas.» (Plinio, _Historia Natural_, tom. V, cap.
-XXX.)
-
-[24] Macrobio, _In somnium Scipionis_, tom. II, cap. IX.
-
-[25] Orosio, _Ormesta mundi_.
-
-[26] Santo Isidoro de Sevilha, _De Lybia_.
-
-[27] Bedo, _De Elementis Philosophiæ_, tom. IV, pag. 225.—«... _Pars enim
-illius torridæ parti aeris subjecta, ex fervore solis torrida est et
-inhabitabilis_, etc.»
-
-[28] S. Virgilio, bispo de Saltzburgo. Veja-se a este respeito a
-_Historia litteraria de França_, tom. IX, p. 156.
-
-[29] Raban Mauro de Moguncia, _De Universo_.
-
-[30] Alberti Magni Germani, _Philosoph. principii, Liber cosmographicus
-de natura locorum_, fl. 14_b_ e 23_a_.
-
-[31] Roger Bacon, _Opus majus_, pag. 183.
-
-[32] _Conciliator differentiarum philosophorum_, Diff. LXVII.
-
-[33] _De Universo_, liv. XII, cap. IV, pag. 172.
-
-[34] _Speculum naturale_, part. 1.ª, liv. IV, cap. XVII.
-
-[35] _De mirabilibus Indiæ._
-
-[36] «Et dien (disent) que illec sont antipodes, c’est-à-dire, gens qui
-ont leurs pieds contre nos et pour ce qu’ils sont á l’opposite partie de
-la terre, aussi comme s’ils fussent subz nous et nous soubz eulx. Ceste
-opinion n’est pas á tenir, et n’est pas bien concordable á notre foy.
-_Car la loy de Jésus Christ a esté preschié par toute la terre habitable;
-et selon ceste opinion, telles gens n’en auraient oncques ouij parler,
-ne pourroient estre subgés à l’église de Rome. Pour ce, reprenne saint
-Augustin ceste erreur ou ceste opinion_, _lib._ XVI _«De Civitate Dei»_
-Nicolau d’Oresme, cosmographo francez do seculo XIV, preceptor do rei
-Carlos V, _le Sage_.—Manuscripto cosmographico existente na Bibliotheca
-Nacional de Paris, com o numero 7487, _apud_. Visconde de Santarem,
-_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, p. 142.
-
-[37] Quoniam nullo modo scriptura ista mentitur, quæ narratis præteritis
-facit fidem eo quod ejus predicta complentur; nimisque absurdum est,
-ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem, Oceani immensitate
-trajecta navigure ac pervenire potuisse, _ut etiam illic ex uno primo
-homine genus institueretur humanum_. Lactancio _Divinarum institutionum_,
-liv. III, cap. IX.
-
-[38] Qua propter inter illos tunc hominum populos qui per septuaginta
-duos gentes, et totidem linguas colliguntur, fuisse divisi, quæramus,
-si possimus invenire, illam in terris peregrinantem civitatem Dei,
-quæ ad diluvium arcamque perducta est, at que in filiis Noe per eorum
-benedictiones perseverare monstretur, maxime in maximo qui est appellatus
-Sem, quando quidem Japhet ita benedictus est, ut in ejusdem fratris sui
-domibus habitaret.—_Ibid._
-
-[39] Cosmas Indicopleustas, _Topographia Christã_.
-
-[40] _Ibid._
-
-[41] Cosmas, Santo Isidoro de Sevilha, Anonymo de Ravenna, Raban Mauro,
-Honoré d’Autun, Hugo de Saint-Victor, Vicente de Beauvais, Brunetto
-Latini, Joinville. A noticia do famoso chronista de S. Luiz a respeito
-do Nilo, transcripta pelo visconde de Santarem no _Essai_, etc., tom.
-I, pag. 112, nota 3, não deixa de ser curiosa: «Ici il convient de
-parler du fleuve qui passe par le pais d’Egypte, et vient du Paradis
-Terrestre... Quant celui fleuve entre en Egypte il y a gens tous experts
-et accoustumez, comme vous diriez les pêcheurs des rivières de ce pays-cy
-qui au soir jettent leurs reyz au fleuve et es rivières; et au matin
-souvent y trouvent et prennent les espiceries qu’on veut en ces parties
-de par de ça (dans l’Europe) bien chierement et au pois, comme canelle,
-gingembre, rubarbe, girofle, lignum, aloes et plusieurs bonnes chouses.
-Et dit—on pais que ces chouses—lá viennent du Paradis terrestre et que le
-vent les abat des bonnes arbres, qui sont en Paradis terrestre.»
-
-[42] «Para elle (Colombo) o Paraizo Terrestre correspondia ao castello
-de Kang—diz dos Persas, e devia achar-se n’um logar elevado e
-inaccessivel.»—Reinaud _Géographie d’Aboulféda_, tom. I, pag. 252. «A
-corrente do Orenoque é tão forte que Diogo de Lepe reconheceu por meio
-de um _escalfador_ que só se abria no fundo das aguas, no mar defronte
-da foz de Orenoque, que, n’uma profundidade de oito braças e meia, só as
-duas primeiras braças do fundo eram de agua salgada, e as outras de agua
-doce».—Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., t. I, pag. 314.
-
-[43] Lemos n’um manuscripto cosmographico datando d’essa epocha (seculo
-VII) «_que a terra é da forma de um cone ou de um pião_, de forma que
-a sua superficie vai, segundo esse systema, elevando-se do sul para o
-norte.» Visconde de Santarem, _Essai sur l’histoire de la cosmographie_,
-etc., tom. II.—_Int._ pag. LX. A fórma ovoide era-lhe attribuida pelo
-philosopho grego Thalés, seguido por alguns geographos da edade média.
-Posidonius dava-lhe a fórma de uma funda, como Prisciano tambem.
-
-[44] N’uma carta de 1498, publicada por Navarrete, tom. I, pag. 256,
-compara Colombo a terra com uma pera dividida ao meio, sendo uma parte
-redonda, e a outra terminada em cone. Esta carta vem tambem nas _Select
-letters of Christopher Columbus_, publicadas por Major, pag. 130.
-(Londres, 1847).
-
-[45] Os geographos arabes consideravam Gog e Magog como filhos de Japhet,
-devemos accrescentar que era esta a doutrina mais seguida.
-
-[46] É interessante o que diz ácerca d’estes povos o sur Vivien de Saint
-Martin nas suas _Recherches sur les populations primitives et les plus
-anciennes traditions du Caucase_, pag. 40 a 47. (Paris, 1847). M. de Sacy
-considera a muralha de Alexandre como sendo a noção vaga da muralha da
-China.
-
-[47] Ha poucos annos ainda se publicou, em Hespanha, um livro do sr.
-Junquera _Origen de los americanos_, em que se sustenta essa doutrina.
-N’ella se baseia um dos romances, e dos menos bons, _Oak openings_ do
-grande romancista americano Fennimore Cooper.
-
-[48] Mela, III, c. VII.—Solino diz que a terra d’essa ilha está sempre
-vermelha.—Plinio colloca-a perto da Taprobana.—_Hist. Nat_. VI, 22.
-
-[49] «Colloquei, diz Toscanelli na carta que escreveu a Colombo e
-referindo-se ao mappa que mandou ao rei de Portugal, defronte (das costas
-da Irlanda e da Africa) direito a oeste o principio das Indias com as
-ilhas e os logares a que poderia abordar.»
-
-[50] Todas estas lendas irlandezas, em abreviada exposição, se podem
-ver no excellente livro de mr. de Villemarqué _La Légende Celtique_,
-especialmente na _Introducção e na Lenda de S. Patricio_.
-
-[51] Os cavalleiros portuguezes estavam no exercito do duque de Borgonha,
-que defendia Arras, e foram ao combate commandados pelo sire de
-Cottebrune; os seus adversarios, pertencentes ao exercito de Carlos VI,
-eram commandados pelo bastardo de Bourbon. Veja-se a nossa _Historia de
-Portugal_, tom. III, pag. 267, nota (2.ª edição).
-
-[52] _Historia da Universidade_, tom. I, cap. III, pag. 137. (Lisboa,
-1892.) A discordancia em que estamos n’este ponto com o illustre
-professor não nos impede de reconhecermos que o seu livro é monumental. O
-erudito, a cuja opinião elle se encosta, é João Teixeira Soares, aliás um
-açoriano benemerito, mas um dos taes que se deixam arrastar pelo prazer
-de demolir uma gloria consagrada.
-
-[53] Veja-se o retrato de Napoleão traçado primorosamente por Taine nas
-suas admiraveis _Origines de la France contemporaine_.
-
-[54] _Os filhos de D. João I_, cap. III, _A villa do infante_, pag. 59 e
-segg.
-
-[55] Humboldt, _Histoire de la géographie du nouveau continent_, tom. I,
-pag. 334 e segg.
-
-[56] Apud Visconde de Santarem, _Recherches sur la découverte_, etc.,
-pag. 113 e 114.
-
-[57] Citado por Humboldt na _Histoire de la géographie du nouveau
-continent_, tom. I, pag. 246.
-
-[58] No _Boletim da Sociedade de Geographia_ de Madrid do anno corrente.
-
-[59] «Mais avant les Portugais aucune nation de l’Europe ne semble être
-allée au délà de l’Équateur». (_Histoire de la géographie_, etc., tom. I,
-pag. 290).
-
-[60] «L’horizon géographique s’agrandit peu à peu de la Mer Égée au
-méridien des Syrtes, de là aux Colonnes d’Hercule et hors du détroit
-avec Hannon vers le sud, avec Pythéas vers le nord». (_Hist. de la
-géogr._, tom. I, pag. 32). O horizonte ampliado por Pythéas nunca mais
-se restringiu, porque é que havia de acontecer o contrario ao horizonte
-ampliado por Hannon, se este viajante tivesse ido mais longe do que a
-costa de Marrocos?
-
-[61] Ha bullas de Eugenio IV, de Nicolau V, de Martinho V, de Calixto
-III, de Xisto IV. A bulla de Calixto III, confirmando as de Martinho V e
-Nicolau V, declara que o descobrimento das terras de Africa Occidental
-o não possam fazer senão os reis de Portugal. A bulla está no Archivo
-Real da Torre do Tombo no _Livro dos Mestrados_, fl. 151 e 168. Veja-se a
-minha _Historia de Portugal_, tom. III, pag. 248, nota 1, (2.ª edição). A
-bulla de Nicolau V, que já citámos, de 8 de janeiro de 1454, concedia a
-el-rei de Portugal, ao infante D. Henrique e a todos os reis de Portugal,
-seus successores, todas as conquistas de Africa _com as ilhas nos mares
-adjacentes_ desde o cabo de Bojador e de Não e de toda a Guiné com
-toda a sua costa meridional. (Arch. Real da Torre do Tombo, maç. 7 de
-bullas, n.º 29, e maç. 33, n.º 14). Por isso, D. João II, quando fallou
-a Christovão Colombo a 9 de março de 1493, lhe disse, que se regosijava
-tanto mais com a sua conquista, quanto tudo quanto elle descobrira
-pertencia de direito a Portugal. Humboldt, _Histoire de la géographie du
-Nouveau-Continent_, tom. I, sec. 1.ª, Nota E, pag. 331. E effectivamente
-por algum tempo se discutiu se os descobrimentos de Christovão Colombo
-eram ou não de _ilhas nos mares adjacentes_ á costa africana. E não acham
-curioso que, se Francezes ou Hespanhoes ou Italianos, antes de nós,
-tivessem passado para deante do Bojador, acceitassem e reconhecessem e
-fizessem respeitar por leis e decretos o direito que nós tinhamos de
-não consentir que se fizessem descobrimentos n’esses mares, ou, no caso
-de se fazerem, o direito que tinhamos ao menos, á posse d’essas terras
-descobertas!!
-
-A proposito d’esse cavalleiro allemão Balthazar, que acompanhou Antão
-Gonçalves, diz o auctor d’este livro: «Antão Gonçalves voltou a Portugal
-com os negros, e Balthazar o cavalleiro allemão que o acompanhava tornou
-para a sua terra, onde foi naturalmente a maravilha de todos os que o
-escutavam, e um novo Sindbad para os pasmados Germanos. A narração das
-tempestades, dos perigos, dos estranhos costumes dos Azenegues devia
-occupar bastantes serões de inverno nos velhos castellos allemães junto
-da vasta lareira, emquanto gemesse lá fóra o vento e cahisse a neve
-cobrindo de alvo manto o solo endurecido.» _Hist. de Portugal_, tom. III,
-pag. 252 (2.ª edição).
-
-[62] _Olympiada II_, 127.
-
-[63] Como se pode ver no 1.º mappa do Atlas do visconde de Santarem, que
-é exactamente o mappa catalão de 1375.
-
-[64] _Habet_, diz o manuscripto de Genova, _latitudinem unius legue et
-fundum pro majore navi mundi_.
-
-[65] _La plage de sable, qui, comme on l’a dit, forme presque entiérement
-l’embouchure du Rio d’Ouro ne permet pas de penser que ce lieu puisse
-recevoir des bâtiments du plus faible tirant d’eau, il ne peut
-probablement admettre que des canots._ Roussin _Mémoire sur la navigation
-aux côtes occidentales de l’Afrique_, pag. 96.
-
-[66] Observação já feita pelo visconde de Santarem nas suas notas á
-edição da _Chronica de Guiné_ de Azurara. Veja-se tambem o magnifico
-capitulo da _Vida do principe Henrique_ do illustre escriptor Richard
-Major, capitulo intitulado _The slave trade_.
-
-[67] Este commentario vem publicado na collecção de Ramusio.
-
-[68] O sabio francez Letronne n’uma memoria publicada no _Journal
-des Savants_ de agosto de 1831, diz o seguinte: «L’hypothése d’un
-prolongement indéfini de la côte occidentale d’Afrique, à partir d’une
-latitude voisine de l’Équateur, était fondée sur la direction de la côte
-d’Afrique depuis la rivière de Nun jusqu’au cap Bojador _que l’expédition
-d’Hannon n’avait pas dépassée_.»
-
-[69] «Ha ainda um personagem duvidoso, diz Renan, este _presbyter
-Johannes_, especie de socio do Apostolo, que perturba como um espectro
-toda a historia da Egreja de Epheso e causa aos criticos bastantes
-embaraços.» _L’Antechrist_, pag. XXIII, trad. do sr. Theophilo Braga, que
-cita este trecho nas _Lendas Christãs_, cap. V, _As lendas do primado da
-Egreja_, pag. 213 (Porto, 1892). Este livro do sr. Theophilo Braga é na
-verdade excellente e foi-me de um grande auxilio n’este estudo ácerca
-das viagens da lenda do Prestes João. A não ser o livro de Marco Polo e
-os artigos do illustre sinologo Pauthier, que consultámos directamente,
-as fontes que citamos são as que o sr. Theophilo Braga aproveitára e
-indicára. Folgamos de prestar esta homenagem ao nosso illustre confrade,
-porque, apesar de estarmos muito em desaccordo com alguns dos pontos de
-vista d’este seu novo livro, não deixamos de reconhecer que é mais uma
-prova do muito talento e da muita erudição do seu auctor.
-
-[70] Esta carta vem publicada na _Cosmographie et histoire naturelle
-fantastique du moyen-âge de Ferdinand Denis_.
-
-[71] Por 1122, no pontificado de Calixto.
-
-[72] Ainda na ultima concordata celebrada entre Portugal e a côrte de
-Roma ácerca do padroado da India tiveram de ser resalvados os direitos
-christãos do rito syriaco.
-
-[73] Theophilo Braga, _Lendas Christãs_, pag. 227.
-
-[74] Veja-se a _Nota explicativa do symbolo da arvore do sol e da arvore
-da lua_, escripta pelo sr. Felix Lajard, e communicada ao visconde de
-Santarem que a publicou no fim do III volume do seu _Essai sur l’histoire
-de la cosmographie_, etc., pag. 506.
-
-[75] Rosweid, _Vitæ Patrum_.—_Vita S. Macari Romani servi Dei qui
-niventus est juxta Paradisum._ Andrea Bianco no seu famoso mappa de 1436
-põe o Paraizo n’uma peninsula, e junto do Paraizo um grande edificio com
-esta designação: _Ospitium Macari_.
-
-[76] G. Pauthier _Le pays de Tanduc et les descendants du Prêtre
-Jehan_.—_Revue de l’Orient, de l’Algérie et des Colonies_, tom. XIII,
-pag. 287. (Paris, 1861). Publica primeiro o capitulo LXXIII, da Relação
-de Marco Polo, que se intitula: _Cy devise de la province de Tanduc, et
-des descendants du Prestre Jehan_, a que se segue depois o commentario.
-
-[77] Ainda não tinham passado os portuguezes do Cabo Branco, estava-se
-apenas no anno de 1441 e já o infante encarregava Antão Gonçalves de
-saber alguma coisa ácerca de Prestes João.
-
-[78] Um distincto escriptor francez, Eyriés, que escreveu a biographia de
-João Fernandes na _Biographie Universelle_, diz que elle fôra o primeiro
-Europeu que penetrára no interior da Africa e que as particularidades
-da relação que elle trouxera apresentavam uma grande analogia com as
-da relação de Mungo-Park. A respeito dos serviços prestados á botanica
-pelos Portuguezes vejam-se os estudos de primeira ordem do sr. conde de
-Ficalho, _Plantas uteis da Africa Portugueza_, (Lisboa, 1884), a _Flora
-dos Lusiadas_, (Lisboa, 1880), a _Memoria sobre a Malagueta_, (Lisboa,
-1878). A respeito dos nossos serviços á ornithologia, vejam-se as
-interessantissimas communicações feitas pelo notavel sabio portuguez o
-sr. Bocage a Andrade Corvo, e por elle publicadas nas notas á sua edição
-do _Roteiro de D. João de Castro_.
-
-[79] Alvaro de Freitas ia na expedição commandada por Lançarote,
-almoxarife em Lagos, e n’um momento de enthusiasmo declarou que estava
-prompto a seguir o seu chefe até ao Paraizo Terreal. V. a minha _Hist. de
-Portugal_, tom. III, pag. 271.
-
-[80] Tristão Vaz Teixeira, foi na grande expedição de 1445, de que fazia
-parte Soeiro da Costa. Alvaro Fernandes tornou-se celebre sobretudo pelo
-descobrimento da Serra Leôa.
-
-[81] Alvaro Fernandes, por exemplo, foi de uma vez do Cabo Verde á Serra
-Leôa, e depois Cadamosto e outros exploraram cuidadosamente a costa
-intermedia, fazendo então viagem como se faz, quando se quer estudar uma
-costa. «A nossa navegação diz o viajante italiano, sempre foi de dia,
-lançando ancora todas as tardes ao sol posto com dez ou doze braças de
-agua.» _Navegações de Cadamosto (traducção portugueza)_ pag. 51.
-
-[82] _Histoire de la géographie_, etc., tom. II, pag. 56 e 57.
-
-[83] _Os Côrte-Reaes_, pag. 61. (Ponta-Delgada, 1883).
-
-[84] _Ibid._, pag. 57.
-
-[85] Veja-se Herrera, _Historia general de los hechos castellanos en las
-islas y tierra firme del mar oceano_, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6.
-(Madrid, 1601).
-
-[86] Veja-se Herrera, _Historia general de los hechos castellanos en las
-islas y tierra firme del mar oceano_, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6.
-(Madrid, 1601).
-
-[87] Publicado no _Archivo dos Açores_, tom. I, pag. 24.
-
-[88] Publicado no _Archivo dos Açores_, tom. I, pag. 22.
-
-[89] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos _Côrtes-Reaes_, pag. 62.
-
-[90] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos _Côrte-Reaes_, pag. 63.
-
-[91] É o proprio Humboldt, que, referindo-se ás epochas do encontro das
-ilhas diz: «Ces époques sont, pour l’écueil des Formigas, 1431; pour
-l’île Santa Maria, 1432; pour San Miguel 1444; pour Terceira, San Jorge
-et Fayal, 1449; pour Graciosa, 1453. La découverte des îles les plus
-occidentales, Flores et Corvo, paraît antérieure à 1449, mais cette date
-est moins précise». _Hist. de la géographie_, etc., tom. II, pag. 105.
-
-[92] _Os Côrtes-Reaes_, pag. 61.
-
-[93] Assim de João Vaz Côrte Real não hesito em referir que se dizia
-que foi elle quem descobrira a ilha Terceira e a de S. Jorge e que por
-isso recebera a capitania das duas ilhas (!) Cabo Verde e o Brazil (!!).
-Tambem a respeito da força de João Vaz conta com a maior seriedade, e
-como facto authentico, uma d’estas lendas que atravessam os seculos, com
-as suas variantes, ácerca de homens famosos pela sua força muscular.
-Assim diz, que, estando João Vaz Côrte Real no Algarve a passeiar na sua
-quinta, veiu visital-o um castelhano muito forçoso, que tranquillamente,
-passando n’uma alameda de marmeleiros, os foi arrancando de um e de
-outro lado, pondo-lhes as raizes ao sol, João Vaz não fez a mais leve
-observação, mas apanhando os marmellos, apertou-os na mão e esmagou-os
-completamente não lhe ficando na mão senão o bagaço. É uma variante da
-historia do ferrador, um Mauricio de Sarce ou um D. Pedro II de Portugal.
-O rei ou o principe partia com a maior facilidade cada ferradura que
-o ferrador lhe apresentava, dizendo-lhe que não era boa, e o ferrador
-calado. Quando o alto personagem, pagando generosamente a sua ostentação
-de força, deu uma moeda de ouro ao ferrador, este partiu-a dizendo que
-não era boa. Como se vê, é o conto popular sempre com a mesma forma,
-repetida por um escriptor crendeiro, cujo testemunho tem comtudo servido
-para que escriptores serios percam o seu tempo com umas das suas lendas!
-
-[94] _Os Côrte-Reaes_, pag. 36.
-
-[95] _Ibid._, pag. 35.
-
-[96] _Os Côrte-Reaes_, pag. 19.
-
-[97] Arch. Nac. da Torre do Tombo, liv. 49 de D. João III, fl. 243,
-verso. Transcripto nos _Côrte-Reaes_, pag. 121 a 125.
-
-[98] Não ha razão seria para que a Groenlandia pertença á America e não
-lhe pertençam os Açores. Da Islandia, que é a ultima parte da Europa, á
-Groenlandia, vão 240 leguas, de Portugal a S. Miguel 247. Portanto, se
-os islandezes descobriram a America porque chegaram á Groenlandia, com
-mais razão se pode dizer que descobriram os Portuguezes a America porque
-chegaram aos Açores. É perfeitamente pueril estar a discutir quem foi
-que tocou primeiro nas terras americanas, a gloria consiste em não ter
-hesitado em atravessar centos e centos de leguas de mar com o fim de
-chegar ao Oriente pelo caminho do occidente.
-
-[99] Diz Pedro Nunes: «E perderam-lhe (_os Portuguezes_) tanto o
-medo (_ao mar_): que nem ha grande quentura da torrada zona: nem
-o descompassado frio da extrema parte do sul: com que os antigos
-escriptores nos ameaçavam lhes pode estorvar: «...Tirará nos muitas
-ignorancias: e a mostraram ser a terra mór que o mar (_o erro de
-Colombo_): e auer hi antipodas: que ate os Santos duvidaram: e que nam a
-regiam que nem por quente nem por fria se deyee de abitar.» _Tratado que
-o Doutor Pero Nunes, cosmographo del Rey nosso senhor fez em defensão da
-carta de marcar: võ o regimento da altura._ Reg. 1. (Lisboa, 1537).
-
-[100] Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., tom. II. Nota _H_,
-pag. 369.
-
-[101] Veja-se a interessante obra de Navarrete, tom. I, pag. 300.
-
-[102] Strabão, II, pag. 83, 113 e 116. Itaque, diz Strabão na formosa
-passagem em que prophetisa a America, compluribus verbis persuadere
-nititur Eratosthenes nisi Atlantici maris obstaret magnitudo, posse nos
-navigare in eodem parallelo, ex Hispania in Indiam per universum id quod
-reliquem est, demta dicta distantia (hoc est longitudinæ terræ habitatæ)
-quæ totius circuli trientem excedit». Strabo, liv. I, pag. 113-114.
-Assim, excedendo as terras habitadas a terça parte do parallelo, o mar
-a percorrer é um pouco inferior a ⅔ e menos de 240°, mais de 236°. A
-differença imaginada por Eratosthenes e Strabão e a distancia verdadeira
-não é grande.
-
-[103] Esta carta foi publicada pelo sr. Teixeira de Aragão na excellente
-_Memoria ácerca do descobrimento da America_ que escreveu para o volume
-consagrado pela commissão portugueza do centenario de Colombo a esta
-grande solemnidade. É datada de Aviz de 20 de março de 1488. Trata
-Christovam Colombo por nosso especial amigo.
-
-[104] _Os Côrtes-Reaes_, pag. 65, nota 123. A carta de doação a Fernão
-Dulmo vem publicada no mesmo volume de pag. 64 a 69.
-
-[105] «No me admiro tengais, diz-lhe Toscanelli na sua segunda carta, tan
-gran corazon _como toda la nacion portugueza, en que siempre ha habido
-hombres señalados en todas emprezas_.
-
-[106] A carta é de maio de 1505, citada por Navarrete no t. III pag. 528,
-e Humboldt, t. III, pag. 260.
-
-[107] Veja-se a minha _Historia de Portugal_, t. IV, pag. 272.
-
-[108] Foi Humboldt que fez notar a differença entre as duas versões da
-mesma bulla, _Hist. de la géographie_, etc., sec. II, t. III, pag. 52,
-nota.
-
-[109] A filha de Izabel a Catholica desposára o filho d’el-rei D. João
-II, o principe D. Affonso que morreu de uma desastrada quéda de cavallo a
-13 de julho de 1491.
-
-[110] Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., sec. II, t. III, pag
-55.
-
-[111] _Quadro elementar das relações politicas e diplomaticas de Portugal
-com as diversas potencias do mundo_, t. II, pag. 390 Lisboa, 1844. O
-tratado vem publicado _in extenso_.
-
-[112] Pedro Martyr d’Anghiers, _Oceanicas_, dec. VIII, cap. 10.
-
-[113] Foi o duque de Medina-Sidonia que se offereceu para ir com as suas
-caravelas em perseguição dos portuguezes, e a 2 de maio de 1493 pediam
-os reis catholicos ao duque que as tivesse prestes, a 12 de junho e 27
-de julho affiançavam a Colombo que não havia motivo para se desconfiar
-do rei de Portugal, doc. n.ºs 16, 50 e 54 publicados na _Collecção de
-viagens e descobrimentos_, citados pelo sr. Teixeira de Aragão a pag. 18
-da sua _Breve memoria sobre o descobrimento do Brazil_.
-
-[114] O trecho da _Esmeralda_ é o seguinte: «Como no terceiro anno do
-vosso reinado do anno de Nosso Senhor de mil quatrocentos noventa e oito
-donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte occidental, passando além
-do grande mar oceano, onde é achada e navegada uma tão grande terra firme
-com muitas grandes ilhas adjacentes a ella, que se estende a setenta
-graus de ladeza da linha equinocial contra o polo arctico.» _Esmeralda_
-liv. 2.º, cap. I, transcripto pelo sr. Teixeira de Aragão na sua _Breve
-Noticia_, etc., pag. 47. D’este trecho deduz-se que Duarte Pacheco foi
-mandado descobrir para o occidente em 1498, o que não faz senão confirmar
-o que temos dito, mas não que Duarte Pacheco descobriu o Brasil. Nem elle
-diz que _achou e navegou_ essa terra, mas sim que essa terra _é achada e
-navegada_, e isto em 1505.
-
-[115] _Roteiro geral do globo_, tom. XI, sec. 1.ª, pag. 2 (Lisboa 1839).
-Mouches, _Les côtes du Brésil_, sec. II, pag. 8 (Paris, 1864).
-
-[116] N’uma das sessões do _Instituto Historico Geographico do Brasil_, o
-imperador D. Pedro II propoz como assumpto de discussão «se a descoberta
-do Brasil foi intencional ou devida ao acaso». Joaquim Norberto fez
-uma memoria interessante sustentando que a descoberta foi intencional,
-Machado de Oliveira fez uma memoria de uma futilidade inexcedivel e
-de uma grosseria imperdoavel que nem merece que d’ella nos occupemos,
-Gonçalves Dias sustentou com argumentos broncos, mas com vigor de estylo,
-mostrando-se muito talentoso e muito erudito, que a descoberta fôra
-occasional. Joaquim Norberto replicou e muitissimo bem. O unico argumento
-de algum peso que Gonçalves Dias apresentava era o da corrente equatorial
-que corre de léste para oeste. É esse exactamente o que o sr. Baldaque da
-Silva destróe technicamente e de um modo completo.
-
-[117] _Les côtes du Brésil_, pag. 115, nota _a_.
-
-[118] _Ibid._, pag. 12.
-
-[119] _Ibid._, pag. 116, nota _a_.
-
-[120] «Sahindo do dito Cabo Verde, esta terra jaz entre Oeste e Sudoeste,
-ventos principaes, e dista do dito Cabo Verde quatrocentas leguas».
-_Carta de Portugal enviada ao rei D. Manuel ácerca da viagem e successo
-da India_, traduzida da versão italiana pelo sr. Prospero Peragallo,
-e por este publicado com o texto italiano e annotado nas _Memorias da
-commissão portugueza do centenario de Colombo_. O trecho que citamos vem
-a pag. 9 _in fine_. Como se vê, estando a 400 leguas de distancia não
-a oeste, mas a oes-sudoeste a distancia do meridiano de Cabo Verde ao
-meridiano de Vera-Cruz não podia ser superior a 370 leguas. Pero Vaz de
-Caminha disséra-lhe: «Topamos algūus synaes de terra seendo da dita ilha
-(_S. Nicolau de Cabo-Verde_) segundo os pilotos diziam obra de VIᵉ LX ou
-LXX legoas ᵉlc (670 _ou_ 701 _leguas_)». Esta carta de Pero Vaz Caminha
-tem sido muitas vezes publicada. Fazemos o nosso extracto da memoria do
-sr. Aragão, onde vem nos documentos, pag. 66.
-
-[121] A carta do jesuita Antonio de Sá escripta em hespanhol aos jesuitas
-da Bahia e datada de S. Vicente, 13 de junho de 1559 diz: «Un Indio que
-se llama Belchior está puesto en ayunar todos los dias que manda la
-Iglesia, y sin yo le hablar nada, preguntóme que le hiziese saber los
-dias de ayuno y cual no se comia carne, diciendome que antes _que muriese
-Juan Ramallo que el se lo dezia y ayunaba todos los dias que la Iglesia
-manda_.» O estudo a que nos referimos feito pelo sr. Candido Mendes
-de Almeida vem publicado na _Revista trimensal do Instituto Historico
-Geographico do Brasil_, e n’esse periodico vem tambem as memorias de
-Joaquim Norberto, Gonçalves Dias e Machado de Oliveira, a que atraz nos
-referimos.
-
-[122] «ao qual monte alto, diz Pero Vaz de Caminha, o capitam poz o nome
-de monte pascoal e aa tera a tera de Vera-Cruz». Depois de ter entrado em
-communicação com os habitantes é que Pedro Alvares Cabral considerou a
-terra como uma ilha, e a denominou _ilha de Vera Cruz_.
-
-[123] Strabão XI, pag. 518.
-
-[124] Pomponio Mela, t. III, c. 5, 98.
-
-[125] _Les Corte-Real_ par mr. H. Harrisse, pag. 209. Ernesto do Canto,
-_Os Côrtes-Reaes_, pag. 211.
-
-[126] _Histoire de la Géographie_, etc., t. IV, pag. 263.
-
-[127] Legenda do mappa mandado fazer em Lisboa por Alberto Cantino em
-1502. O sr. Ernesto do Canto transcreve-a a pag. 208 do seu livro.
-
-[128] Esta curiosa doação foi publicada em texto latino por Bidle na
-obra que saío anonymamente em Londres, 1831 e que se intitula _A Memoir
-of Sebastian Cabot with a Review of the History of Maritime Discovery,
-illustrated by documents from the Rols, new first published_. Abrange de
-pag. 312 a 320. O sr. Ernesto do Canto publica tambem o texto latino com
-a traducção portugueza no seu livro _Os Côrtes-Reaes_ e abrange de pag.
-74 a 87.
-
-[129] E. do Canto, _Os Côrtes-Reaes_, texto italiano a pag. 45 e 46,
-traducção latina de Madrijuan a pag. 47 e 48.
-
-[130] São interessantissimas as indicações dadas a esse respeito pelo
-sr. Patterson, na sua magnifica memoria. A bahia de Fundy, diz elle,
-é evidentemente a Bahia Funda. Tambem nota que apparece lá o nome de
-Tanger, que não podia ter sido posto senão pelos portuguezes, senhores
-então d’essa praça, e sempre tão relacionados com ella.
-
-[131] «There are about 100 sail of Spaniards who come to take cod, who
-make it all wet and dry... As touching their tonnage I think it may be
-5,000 or 6,000. Of Portugals there are not above fifty or sixty sail,
-whose tonnage may amount to 5,000, and they make all wet.» Citado
-pelo reverendo George Patterson na excellente memoria que publicou
-nas _Trans-Roy. Soc. Canada_, e que se intitula _The Portuguese in
-the North-East coast of America, and the first European attempt at
-Colonization there. A lost chapter in American History_, pag. 145. Esta
-memoria foi lida na _Royal Society_ a 28 de maio de 1890.
-
-[132] Esta exploração outr’ora tão importante e activa, na qual estavam
-empenhados capitaes e interesses tão avultados, concorrendo para ella
-tantas partes do nosso continente, vê-se hoje reduzida a uma duzia de
-navios que a entretêem apenas em dois centros de pescarias: Figueira da
-Foz e Lisboa.» A. A. Baldaque da Silva, _Estado actual das pescas em
-Portugal_, pag. 166. E diz, em nota, que a pesca do bacalhau era tão
-importante no tempo de D. João III e d’el-rei D. Sebastião «que foi
-providenciada por um regimento particular para as frotas que annualmente
-expediam a esta pescaria.»
-
-Emquanto á colonisação, que foi motivada exactamente pela importancia da
-pesca do bacalhau, foi promovida por varias pessoas de Vianna do Minho,
-muito interessadas n’este negocio da Terra Nova, pelas muitas relações
-que tinham com os Açorianos. D’esta colonisação dá conta um interessante
-folheto publicado ha poucos annos, mas escripto no seculo XVI, que se
-intitula: _Tratado das ilhas novas e descobrimento d’ellas e outras
-coisas feito por Francisco de Souza, feitor d’El-Rei Nosso Senhor, na
-capitania da cidade do Funchal da ilha da Madeira e natural da mesma ilha
-e assim de parte da nação portugueza que está em uma grande ilha, que
-n’ella foram ter no tempo da perdição das Espanhas, que ha trezentos e
-tantos annos em que reinou El-Rei Dom Rodrigo. Dos Portuguezes que foram
-de Vianna e das Ilhas dos Açores a povoar a Terra Nova do Bacalhau vae em
-sessenta annos, do que succedeu, o que adiante se trata. Anno do Senhor
-de 1570. Ponta Delgada, S. Miguel, Açores 1877._
-
-É curiosa a mistura de lenda e de verdade que n’este titulo se encontra.
-Ao lado de uma colonisação perfeitamente authentica n’uma ilha certa é
-conhecida ainda a velha lenda da ilha das Sete Cidades colonisada pelos
-sete bispos, que fugiram da Peninsula com os seus fieis no tempo do rei
-Rodrigo!
-
-[133] «Outros chamam-lhe, diz D. Manuel, terra nova ou novo mundo».
-
-[134] Veja-se o estudo desenvolvido de Humboldt, que aliás não vê as
-coisas debaixo do nosso ponto de vista nas notas finaes do vol. V, da sua
-_Histoire de la géographie_, etc., da pag. 180 em diante.
-
-[135] _Recherches historiques, critiques et bibliographiques sur Améric
-Vespuce et ces voyages._—Paris, sem data.
-
-[136] Veja-se a carta de mr. Letronne a Humboldt, publicada no vol. III,
-da sua _Histoire de la géographie_, etc., da pag. 119 em diante.
-
-[137] Veja-se Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., tom. II, pag.
-26 e segg. Falando do globo de João Schoner diz: «Figurou no globo o
-estreito no logar em que Colombo debalde o procurara.» No globo de Weimar
-(que tem a data de 1534) ha dois estreitos, um a 42° de latitude sul, e
-outro no isthmo de Panamá a 10° de latitude ao norte do Equador.
-
-[138] «Se não tivessemos achado este estreito, diz Pigafetta, o
-capitão-general estava disposto a ir até 75 graus para o polo antarctico
-onde no verão não ha noite, ou muito pouca e da mesma maneira no inverno
-não ha luz do dia ou ha pouquissima.» _Navegação e viagem que Fernando de
-Magalhães fez de Sevilha a Moluco no anno de_ 1519, pag. 61 da traducção
-ingleza de sir Stanley de Alderley, (Londres, 1874).
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Os descobrimentos portuguezes e os de
-Colombo, by Manuel Pinheiro Chagas
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES ***
-
-***** This file should be named 63534-0.txt or 63534-0.zip *****
-This and all associated files of various formats will be found in:
- http://www.gutenberg.org/6/3/5/3/63534/
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-Updated editions will replace the previous one--the old editions will
-be renamed.
-
-Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
-law means that no one owns a United States copyright in these works,
-so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
-States without permission and without paying copyright
-royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
-of this license, apply to copying and distributing Project
-Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
-concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
-and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive
-specific permission. If you do not charge anything for copies of this
-eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook
-for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports,
-performances and research. They may be modified and printed and given
-away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks
-not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the
-trademark license, especially commercial redistribution.
-
-START: FULL LICENSE
-
-THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
-PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
-
-To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
-distribution of electronic works, by using or distributing this work
-(or any other work associated in any way with the phrase "Project
-Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
-Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
-www.gutenberg.org/license.
-
-Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
-Gutenberg-tm electronic works
-
-1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
-electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
-and accept all the terms of this license and intellectual property
-(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
-the terms of this agreement, you must cease using and return or
-destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
-possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
-Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
-by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
-person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
-1.E.8.
-
-1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
-used on or associated in any way with an electronic work by people who
-agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
-things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
-even without complying with the full terms of this agreement. See
-paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
-agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
-electronic works. See paragraph 1.E below.
-
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
-Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
-United States and you are located in the United States, we do not
-claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
-displaying or creating derivative works based on the work as long as
-all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
-that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
-free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
-works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
-Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
-comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
-same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
-you share it without charge with others.
-
-1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
-what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
-in a constant state of change. If you are outside the United States,
-check the laws of your country in addition to the terms of this
-agreement before downloading, copying, displaying, performing,
-distributing or creating derivative works based on this work or any
-other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
-representations concerning the copyright status of any work in any
-country outside the United States.
-
-1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
-
-1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
-immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
-prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
-on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
-phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
-performed, viewed, copied or distributed:
-
- This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
- most other parts of the world at no cost and with almost no
- restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
- under the terms of the Project Gutenberg License included with this
- eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
- United States, you'll have to check the laws of the country where you
- are located before using this ebook.
-
-1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
-derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
-contain a notice indicating that it is posted with permission of the
-copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
-the United States without paying any fees or charges. If you are
-redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
-Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
-either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
-obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
-trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
-with the permission of the copyright holder, your use and distribution
-must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
-
-1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
-License terms from this work, or any files containing a part of this
-work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
-
-1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
-electronic work, or any part of this electronic work, without
-prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
-active links or immediate access to the full terms of the Project
-Gutenberg-tm License.
-
-1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
-compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
-any word processing or hypertext form. However, if you provide access
-to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
-other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
-version posted on the official Project Gutenberg-tm web site
-(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
-to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
-of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
-Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
-full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.
-
-1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
-performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
-unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
-access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
-provided that
-
-* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
- the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
- you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
- to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
- agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
- within 60 days following each date on which you prepare (or are
- legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
- payments should be clearly marked as such and sent to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
- Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
- Literary Archive Foundation."
-
-* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
- you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
- does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
- License. You must require such a user to return or destroy all
- copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
- all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
- works.
-
-* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
-
-* You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg-tm works.
-
-1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
-Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
-are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
-from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The
-Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm
-trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below.
-
-1.F.
-
-1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
-effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
-works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
-Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
-electronic works, and the medium on which they may be stored, may
-contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
-or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
-intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
-other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
-cannot be read by your equipment.
-
-1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
-of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
-Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
-Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
-liability to you for damages, costs and expenses, including legal
-fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
-LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
-PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
-TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
-LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
-INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
-DAMAGE.
-
-1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
-defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
-receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
-written explanation to the person you received the work from. If you
-received the work on a physical medium, you must return the medium
-with your written explanation. The person or entity that provided you
-with the defective work may elect to provide a replacement copy in
-lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
-or entity providing it to you may choose to give you a second
-opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
-the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
-without further opportunities to fix the problem.
-
-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-
-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
-Defect you cause.
-
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-
diff --git a/old/63534-0.zip b/old/63534-0.zip
deleted file mode 100644
index a62afb0..0000000
--- a/old/63534-0.zip
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/63534-h.zip b/old/63534-h.zip
deleted file mode 100644
index 42716e8..0000000
--- a/old/63534-h.zip
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/63534-h/63534-h.htm b/old/63534-h/63534-h.htm
deleted file mode 100644
index 50435f0..0000000
--- a/old/63534-h/63534-h.htm
+++ /dev/null
@@ -1,8008 +0,0 @@
-<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN"
- "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd">
-<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt">
- <head>
- <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html;charset=utf-8" />
- <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" />
- <title>
- The Project Gutenberg eBook of Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo, by Manuel Pinheiro Chagas.
- </title>
-
- <link rel="coverpage" href="images/cover.jpg" />
-
-<style type="text/css">
-
-a {
- text-decoration: none;
-}
-
-body {
- margin-left: 10%;
- margin-right: 10%;
-}
-
-h1,h2 {
- text-align: center;
- clear: both;
-}
-
-h2.nobreak {
- page-break-before: avoid;
-}
-
-hr {
- margin-top: 2em;
- margin-bottom: 2em;
- clear: both;
- width: 65%;
- margin-left: 17.5%;
- margin-right: 17.5%;
-}
-
-div.chapter {
- page-break-before: always;
-}
-
-p {
- margin-top: 0.5em;
- text-align: justify;
- margin-bottom: 0.5em;
- text-indent: 1em;
-}
-
-.blockquote {
- margin: 1.5em 10%;
-}
-
-.figcenter {
- margin: auto;
- text-align: center;
-}
-
-.footnotes {
- margin-top: 1em;
- border: dashed 1px;
-}
-
-.footnote {
- margin-left: 10%;
- margin-right: 10%;
- font-size: 0.9em;
-}
-
-.footnote .label {
- position: absolute;
- right: 84%;
- text-align: right;
-}
-
-.fnanchor {
- vertical-align: super;
- font-size: .8em;
- text-decoration: none;
-}
-
-.larger {
- font-size: 150%;
-}
-
-.pagenum {
- position: absolute;
- right: 4%;
- font-size: smaller;
- text-align: right;
- font-style: normal;
-}
-
-.poetry-container {
- text-align: center;
- margin: 1em;
-}
-
-.poetry {
- display: inline-block;
- text-align: left;
-}
-
-.poetry .stanza {
- margin: 1em 0em 1em 0em;
-}
-
-.poetry .verse {
- padding-left: 3em;
-}
-
-.poetry .indent0 {
- text-indent: -3em;
-}
-
-.smaller {
- font-size: 80%;
-}
-
-.smcap {
- font-variant: small-caps;
- font-style: normal;
-}
-
-.allsmcap {
- font-variant: small-caps;
- font-style: normal;
- text-transform: lowercase;
-}
-
-.tb {
- margin-top: 4em;
-}
-
-.titlepage {
- text-align: center;
- margin-top: 3em;
- text-indent: 0em;
-}
-
-@media handheld {
-
-img {
- max-width: 100%;
- width: auto;
- height: auto;
-}
-
-.poetry {
- display: block;
- margin-left: 1.5em;
-}
-
-.blockquote {
- margin: 1.5em 5%;
-}
-}
-
- </style>
- </head>
-<body>
-
-
-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Os descobrimentos portuguezes e os de
-Colombo, by Manuel Pinheiro Chagas
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo
- Tentativa de coordenação historica
-
-Author: Manuel Pinheiro Chagas
-
-Release Date: October 23, 2020 [EBook #63534]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p>
-
-<h1>OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES<br />
-<span class="smaller"><span class="smaller">E</span><br />
-OS DE COLOMBO</span></h1>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span></p>
-
-<p class="titlepage larger">OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES<br />
-<span class="smaller"><span class="smaller">E</span><br />
-OS DE COLOMBO</span></p>
-
-<div class="figcenter titlepage" style="width: 200px;">
-<img src="images/line.jpg" width="200" height="25" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage">TENTATIVA DE COORDENAÇÃO HISTORICA<br />
-<span class="smaller">POR</span><br />
-MANUEL PINHEIRO CHAGAS<br />
-<span class="smaller">SECRETARIO GERAL DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA</span></p>
-
-<div class="figcenter titlepage" style="width: 100px;">
-<img src="images/crest.jpg" width="100" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage">LISBOA<br />
-Typographia da Academia Real das Sciencias<br />
-1892</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="I">I<br />
-<span class="smaller">Os problemas geographicos do seculo XV</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>A festa do centenario de Colombo deve acima
-de tudo ser uma festa de justiça e um dos grandes
-jubileus da humanidade. Os centenarios dos grandes
-homens e os centenarios dos grandes acontecimentos
-são as solemnidades com que se festeja sobretudo
-a chegada a cada um dos marcos milliarios
-da estrada, que até agora parece ser infinita,
-do Progresso. Lançando os olhos para o passado,
-vê-se que a humanidade não parou um só instante
-na sua marcha para um fim ainda hoje desconhecido.
-Parece ás vezes aos observadores superficiaes
-que ha epochas em que se recúa, porque se extingue
-uma luz que brilhava com immensa intensidade,
-ou porque retrocede uma ou outra das legiões<span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span>
-que formam o immenso exercito da especie
-humana; mas, se ha umas que retrocedem, porque
-estavam muito adeante das outras, estas em compensação
-avançam e ganham o terreno perdido pelos
-seus companheiros de jornada. Se um clarão se
-apaga, outros ha que se accendem em pontos que
-até ahi estavam immersos em trevas profundas. O
-nivel da humanidade restabelece-se como se restabelece
-o nivel das aguas depois dos grandes cataclysmos
-que afundam as mais altas montanhas, e
-que deixam enxutas immensas planicies cobertas
-até ahi pela vaga. Assim não ha um só dos grandes
-cataclysmos historicos de que não resultasse um
-progresso. Mudou-se a fórma da civilisação occidental
-quando cahiu o imperio romano. Ao impulso
-dos barbaros alluiram-se as instituições e os monumentos,
-a sciencia e as lettras eclipsaram-se, mas
-a alma humana illuminou-se com a irradiação do
-Evangelho que só n’essa raça virgem que vinha do
-Norte e do Oriente podia accender os candidos explendores
-que foram como que novas estrellas no
-nosso firmamento moral, que foram a divinisação
-da mulher e a apotheose da familia e ao mesmo
-tempo a esperança immortal que expirára no mundo
-antigo podre de civilisação e que reviveu no mundo
-barbaro. Cahiam deante do alvião vandalico os monumentos
-magestosos de Roma e as puras obras
-primas da Grecia, mas erguia-se envolta n’um nimbo<span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span>
-estranho de fé e de poesia a cathedral gothica, e recortavam-se
-em mil caprichos phantasticos as torrinhas
-e as innumeraveis agulhas dos paços municipaes,
-em que a burguezia ostentava, em frente da
-realeza da espada, a realeza do trabalho. Desappareciam
-debaixo dos codices monachaes as obras primas
-dos tragicos e as epopéas gregas, mas a alma
-complexa da tumultuosa meia edade palpitava nos
-tercetos de Dante. E, quando a invasão musulmana
-derrubava no Oriente o ultimo baluarte da antiguidade
-erudita, quando a Grecia via os seus marmores
-despedaçados pelas ferraduras dos cavallos do
-deserto, e o Egypto as suas esphinges sepultadas
-nas nuvens de areia que as hordas arabes levantavam,
-no Occidente arrancava Colombo á esphinge
-do Oceano o seu segredo secular, fixava para sempre
-Guttemberg os vestigios do pensamento humano,
-e ás portas orientaes, vindas de remoto occaso,
-assomavam as prôas das caravelas portuguezas, que
-acabavam de sulcar, vanguarda da civilisação, as
-ondas do mar Tenebroso illuminadas pela sua audacia.</p>
-
-<p>Estas festas devem ser porém acima de tudo as
-festas da justiça, porque n’ellas devem emmudecer
-perante a grande causa da humanidade as mesquinhas
-invejas, as pequeninas rivalidades nacionaes,
-com que por muitas vezes se procura deslustrar a
-memoria d’aquelles, que foram os agentes providenciaes<span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span>
-d’estas grandes transformações. O progresso
-humano obedece a leis de uma ineluctavel logica.
-Não ha saltos nem lacúnas. Tudo se succede com
-uma logica surprehendente. As grandes descobertas
-derivam-se umas das outras. Todo o grande homem
-tem os seus humildes predecessores. O seu
-genio fórma-se com elementos dispersos que elle
-aproveita, concatena, e de que tira só elle o resultado
-fecundo. Não foi Watt que inventou a machina
-de vapor, mas a elle e só a elle cabe a gloria do
-invento, porque foi o seu genio que encontrou o segredo
-capital, sem o qual essa machina não seria
-sempre senão uma curiosidade, inutil para os grandes
-progressos da sciencia e da industria. Não foi
-Colombo sem duvida o primeiro que sonhou que
-para além das vagas do Atlantico se encontrava
-terra, nem o primeiro que devaneou que a marcha
-de um navio pelo occidente o deveria conduzir ás
-plagas orientaes da Asia. Não foi o infante D. Henrique
-o primeiro que pensou que, torneando a Africa,
-se poderia chegar ao mar Roxo e á India, mas
-foram Colombo e o infante D. Henrique que tiveram
-a audacia, a fé e o espirito scientifico, foram elles
-que romperam os obstaculos, deante dos quaes recuava
-pallida e tremente a multidão dos navegantes,
-ou refugia hesitante o sonho de alguns capitães
-devaneadores. A elles cabe sem duvida a gloria
-incontestavel, perante elles se deve curvar com<span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span>
-respeito a humanidade, que só a elles deve a conquista
-maravilhosa de mais de metade da terra.</p>
-
-<p>Quando vejo a azafama com que procuram ainda
-hoje espiritos demolidores sustentar que os Portuguezes
-foram precedidos por outros povos nos seus
-descobrimentos, que teve Colombo predecessores no
-descobrimento da America, pasmo que se não veja
-claramente o obstaculo deante do qual baqueiam
-todos os seus argumentos. Esse obstaculo é o seguinte:
-antes dos navegadores do infante D. Henrique
-terem demonstrado o contrario, era ponto incontestavel
-para todos a impossibilidade de se viver
-na zona torrida. Antes de Colombo ter mostrado o
-contrario, era ponto incontroverso que a immensa
-extensão do Atlantico tornava impossivel que um
-navio, caminhando na direcção do occidente, encontrasse
-terra antes de terem perecido de fome e
-de sede todas as tripulações. Pois, se um navio qualquer
-tivesse, como se diz dos navios dieppezes, chegado
-antes de nós ás costas da Guiné, não estava
-desde logo quebrado o encanto, não cahia por terra
-toda a geographia systematica dos antigos, não estava
-aberto para sempre o <i>mare clausum</i>, e podia
-alguem sustentar ainda que era inhabitavel a zona
-torrida, quando havia em França marinheiros que
-a tinham atravessado sem perigo, que tinham voltado
-incolumes, deixando n’essas regiões que todos
-diziam completamente queimadas pelo sol colonias<span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span>
-florescentes como esse Petit-Dieppe e esse Petit-Paris,
-que ainda hoje são citadas por escriptores francezes
-notabilissimos, em cujo espirito um mal-entendido
-amor patrio parece extinguir completamente
-a faculdade do raciocinio? Seria necessario que essa
-descoberta fosse completamente inconsciente, que os
-marinheiros nem soubessem que tinham entrado na
-zona torrida, e essa ignorancia é completamente incompativel
-com os conhecimentos embora rudimentares
-que precisava de ter o navegador que se arriscava
-a tão aventurosas viagens.</p>
-
-<p>O mesmo diremos das navegações antigas de que
-se encontra noticia nos livros de Herodoto e no Periplo
-de Hannon. Se os marinheiros phenicios de
-Necho tivessem dado volta ao cabo da Boa Esperança,
-e tivessem entrado no Mediterraneo pelo estreito de
-Gibraltar, percorrendo tão immensa extensão
-de costas, como poderiam persistir no espirito
-dos geographos antigos idéas tão absolutamente
-falsas a respeito da configuração da Africa e da distribuição
-das zonas? Pode allegar-se por acaso que
-essa viagem não deixou vestigios, quando vemos que
-as viagens dos Phenicios nos mares da Europa tão
-difficeis e tão inhospitos foram sempre continuadas,
-que nunca se perdeu o conhecimento da Islandia,
-essa terra gelada, e que pelo contrario perderam
-immediatamente esses Phenicios, esses Orientaes,
-que viviam nas terras ardentes, o conhecimento de<span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span>
-costas que o sol tambem aquecia e em que encontravam
-muitas vezes como que a reproducção das
-suas terras nataes? E não seria extranho tambem
-que Hannon tivesse feito a longa viagem que do seu
-Periplo se quer deduzir que fez, e que se apagasse
-completamente na memoria carthagineza o conhecimento
-das terras percorridas em tão memoravel expedição,
-preferindo tambem, ao que parece, esses
-filhos de paiz africano, as costas geladas e os mares
-tempestuosos da Europa ao clima quente e ao
-mar sereno da Africa Occidental?</p>
-
-<p>O que é estranho realmente, é que o alto espirito
-de Humboldt acceitasse sem exame as pretenções
-dos Normandos, limitando-se a observar na sua
-<i>Historia da geographia do Novo Continente</i> que esses
-factos citados não diminuem a gloria de quem
-tentou a exploração seguida das costas africanas!<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a>
-Não viu o grande historiador, o immortal geographo,
-que esses factos isolados bastavam para destruir
-todas as lendas, que eram a chave com que
-ficava para sempre aberto o mar Tenebroso, que só
-se abriu comtudo radiante de luz deante dos esforços
-dos navegadores portuguezes, que bastavam para
-abrir o caminho para a <i>terra antichtona</i>, para o <i>alter
-orbis</i>, onde muitos diziam que ficava situado
-o Paraizo Terrestre, e que nós não poderiamos conhecer<span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span>
-nunca, porque ás duas zonas temperadas se
-interpunha, intransitavel e terrivel, a zona torrida
-completamente queimada pelo sol? Tão profunda
-seria a ignorancia em Dieppe que ninguem
-visse a importancia da maravilhosa expedição? Nos
-seculos <span class="allsmcap">XIII</span> e <span class="allsmcap">XIV</span>, sobretudo, em que já começava
-a actuar nos espiritos europeus a febre das viagens,
-já depois de Marco Polo ter escripto a sua curiosa
-narrativa, depois das viagens para o Oriente
-de Rubruquis e de Carpino, e das viagens de sir
-John Mandeville, quasi um normando tambem?
-Ninguem via semelhante coisa! Tendo de casa
-quem lhes ensinasse a verdade, continuavam geographos
-e cartographos, todos os sabios, todos os
-estudiosos a repetir as velhas fabulas, a encher de
-monstros horrificos os desconhecidos plainos africanos,
-a pintar a vermelho nos mappas, para bem
-indicar o ardor do clima, os mares equatoriaes?
-Possuindo colonias na costa africana, tendo marinheiros
-que tão bem conheciam esses mares podiam
-os reis de França consentir que, por bulla de 8 de
-janeiro de 1454, o papa Nicolau V concedesse aos
-reis de Portugal «todas as conquistas da Africa com
-as ilhas nos mares adjacentes <i>desde o cabo Bojador
-e de Não até toda a Guiné com toda a sua costa
-meridional</i>?»<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a>. E era possivel ainda que no principio<span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span>
-do seculo <span class="allsmcap">XV</span> os capellães de João de Bethencourt,
-<i>fidalgo normando</i> que occupára as Canarias, compondo
-a narrativa da famosa expedição, nem uma
-palavra escrevessem ácerca das expedições dos seus
-patricios, e que pelo contrario dissessem, elles normandos,
-que «<i>si aucun noble prince du royaume de
-France ou d’ailleurs vouloit entreprendre aucune<span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span>
-grande conqueste par deçà, qui seroit une chose bien
-faisable et bien raisonnable, le pourroit faire à peu
-de frais; car Portugal et Espagne et Aragon les
-fourniroient pour leur argent de toutes vitoailles et
-de navires plus que nul autre pays, et aussi de pilotes
-qui savent les ports et les contrées</i>?»<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a></p>
-
-<p>Com tanta superficialidade porém se estudam
-estes assumptos que nem se pensa em se saber se
-a Guiné do seculo <span class="allsmcap">XIV</span> é a Guiné posterior aos descobrimentos.
-Isso leva escriptores francezes e o proprio
-Humboldt a allegar que este mesmo Bethencourt
-explorou a Guiné antes dos portuguezes, sem
-verem que o que os seus capellães contam é o seguinte:
-que «os navegantes normandos se affogaram
-nas costas <i>da Barbaria ao pé de Marrocos</i>»,<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a> e que
-Bethencourt tencionava visitar a parte da «terra
-firme que fica <i>entre o cabo Cantim e o Bojador</i>»<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a>
-que para isso consultara o livro de um religioso
-hespanhol «<i>que visitára a Guiné, mas que, chegando
-ao cabo Bojador se limitára a reconhecer as ilhas
-que ficavam áquem</i>».<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a> A Guiné do tempo de Bethencourt<span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span>
-era, como se vê, a que ficava para cá do cabo
-Bojador, e tanto assim que o papa Innocencio VII
-disse, escrevendo a Bethencourt, que sabia ficarem
-as ilhas Canarias a doze leguas de Guiné.<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a></p>
-
-<p>Que immenso cuidado é necessario, quando se
-procura destruir uma tradição profundamente e fortemente
-documentada! Quantas causas de erro escapam
-ao investigador ou frivolo, ou negligente,
-que se ufana de encontrar n’um velho alfarrabio
-um facto que vem destruir completamente o que
-parecia assente e demonstrado! Basta uma variação
-de nome para transtornar todas as deducções.
-Basta que uns não saibam, que outros não reparem
-que o nome de Guiné foi mudando de sitio,
-como outros muitos nomes geographicos, á medida
-que os descobrimentos foram caminhando, para
-que todas as interpretações caiam por terra! Não
-basta que se diga que no seculo <span class="allsmcap">XIV</span> ou <span class="allsmcap">XV</span> houve
-Francezes que chegaram á Guiné, torna-se indispensavel
-apurar tambem se a Guiné do principio do
-seculo <span class="allsmcap">XV</span> era a mesma que assim se denominou depois
-dos descobrimentos. Este apuramento, d’onde
-resulta sabermos que a Guiné ficava, para os capellães
-de Bethencourt, áquem do cabo Bojador, destruiria
-completamente a singularissima reivindicação<span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span>
-franceza se tantos argumentos fortissimos não
-houvesse para lhe demonstrar a inanidade.<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a></p>
-
-<p>É o que succede tambem com os detractores de
-Colombo. Não vêem immediatamente os que dizem
-que antes de Colombo chegaram a terras americanas
-João Vaz Côrte Real, ou o francez Jean Cousin,
-que, se algum d’elles tivesse levado a termo
-tão importante expedição, bastava isso para ficar
-logo resolvido o grande problema do fim do seculo
-<span class="allsmcap">XV</span> que trazia preoccupados sabios e estudiosos,
-deante do qual tanto hesitou D. João II, que inflammou
-em França o animo do cardeal Pedro d’Ailly,
-em Italia o do famoso Toscanelli! Com que jubilo
-se saudaria essa resolução do grande problema!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span></p>
-
-<p>O que faz tambem com que homens de valor no
-nosso tempo possam acceitar fabulas tão pueris,
-como a de João Vaz Côrte Real e a de Jean Cousin,
-é que raros estudam a fundo o problema que pretendem
-resolver a seu modo, e não o sabem pôr em
-equação. Uns estabelecem a lenda de Christovão
-Colombo considerado como um visionario por dizer
-que se encontraria a India navegando-se pelo occidente,
-outros a lenda de Christovão Colombo tratado
-como um louco por imaginar que para o lado
-do occidente havia terras. E por isso dizem uns
-que elle sabia perfeitamente que havia terras porque
-tinha conhecimento de viagens a que os navegadores
-não tinham ligado importancia alguma e<span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span>
-que tinham passado despercebidas, outros que algum
-dos reis com quem elle tratara, D. João II por
-exemplo, não ignoravam que havia terras para o
-occidente a grandissima distancia da Europa, porque
-a essas terras já um portuguez aportara, mas
-estavam convencidos que essas terras não eram a
-India, e n’isso, accrescenta-se, eram elles que tinham
-razão e não Colombo.</p>
-
-<p>É mal posto o problema: que se poderia chegar
-á Asia indo-se pelo occidente, raros seriam os homens
-de alguma instrucção que o podessem pôr em
-duvida. A idéa da esphericidade da terra já penetrara
-em todos os espiritos, e a sua consequencia
-natural era que pelo occidente se poderia chegar
-ao oriente. Que devia haver terras para o occidente
-era por conseguinte egualmente incontestavel. A
-questão toda estava exclusivamente na distancia.</p>
-
-<p>D. João II não julgava Colombo um visionario
-por elle lhe dizer que pelo occidente se chegaria á
-India, julgou-o um visionario por elle suppôr que
-poderia atravessar para chegar ao seu destino a
-enorme extensão dos mares. Não o suppoz visionario
-por elle cuidar que encontraria terras ao occidente,
-ainda que essas terras não fossem a India,
-suppôl-o visionario por elle imaginar que teria tempo
-de chegar a essas terras a salvamento. Logo, se Jean
-Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem realisado
-essa façanha, estavam dissipadas todas as duvidas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span></p>
-
-<p>Havia terras a grande distancia da Europa, terras
-que ou seriam a India, ou algum d’esses archipelagos
-em que Toscanelli tinha fé, que serviriam de escala
-aos navios que demandassem pelo occidente a Asia?<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a>
-O jubilo immenso que se sentiu na Hespanha quando
-Christovão Colombo voltou, sentir-se-hia em Lisboa
-quando João Vaz Côrte Real tornasse, ou sentir-se-hia
-em França quando Jean Cousin entrasse n’algum
-dos seus portos.</p>
-
-<p>O erro d’aquelles que assim procuram contrapôr
-a glorias consagradas não só pela tradição, mas pelos
-factos incontestados e pelos resultados conseguidos,
-estas lendas pueris forjadas ou pela inveja dos
-contemporaneos, ou pela phantasia audaciosa dos
-historiadores sem probidade scientifica que abundaram
-no seculo <span class="allsmcap">XVII</span>, está em pôrem completamente
-de parte o estudo do meio em que os grandes descobrimentos
-se fizeram, de modo que o infante D. Henrique
-e Colombo apparecem como uns vultos inexplicaveis
-sem raizes no passado e sem relações de
-especie alguma com o espirito das gerações de que
-fizeram parte. Querem então reduzir á estatura normal<span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span>
-esses vultos descommunaes, e aproveitam qualquer
-tradição apocrypha para mostrarem com um sorriso
-de mofa, que elles não fizeram senão aproveitar
-os esforços inconscientes feitos por alguns vultos
-humildes, para forjarem com esse metal roubado a
-pobres as estatuas da sua grandeza.</p>
-
-<p>Applique-se o methodo scientifico ao estudo d’estes
-grandes phenomenos da vida da humanidade,
-e ver-se-ha como o genio d’estes dois homens apparece
-ainda mais brilhante quando vemos que elle
-resume as vagas aspirações da geração a que pertencem,
-satisfaz a anciedade que ella sente, encontrando
-a solução que os outros debalde procuram.
-O infante D. Henrique surge no meio de uma geração
-que se debate na ancia do desconhecido, que
-se julga apertada na jaula d’este mundo antigo, e
-anceia por encontrar espaço mais amplo em que
-mais livremente respire. Havia um seculo já que
-a sede das viagens se apoderara dos espiritos, que
-o conhecimento da terra era a preoccupação constante
-de todos os espiritos mais illustrados e cultos,
-em que já se multiplicavam os documentos
-cartographicos, em que aquellas encyclopedias medievaes
-que tinham o titulo quasi consagrado de
-<i>Imago mundi</i> se enchiam com as mais phantasticas
-noções, revelando comtudo o ardor com que se procurava
-supprir com uma geographia conjectural a
-falta do conhecimento verdadeiro da terra. Já se<span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span>
-tinham emprehendido as grandes viagens terrestres
-pela Asia, procuravam os povos maritimos sondar
-os segredos do Occeano. Tentavam os Normandos
-perscrutal-os, e a expedição de João de Bethencourt
-bem o demonstrou, aspiravam a descobril-os os Genovezes,
-e a infeliz expedição de Vivaldi de que
-nunca mais houve noticias depois das suas galés
-terem transposto o estreito de Gibraltar confirma-o
-cabalmente, queriam os Catalães encontral-os
-e Jayme Ferrer, que apenas transpoz o cabo Não,
-e não conseguiu passar além do Bojador, foi um dos
-que se illustraram n’essas tentativas; mas paralysou-os
-a tradição geographica tão enraizada nos
-seus espiritos como o estão hoje no nosso as theorias
-da geographia moderna. Logo que a costa
-africana, em vez de voltar para o oriente, continuava
-a seguir para o sul, internando-se por conseguinte
-na zona torrida, a affirmação scientifica de que o
-sol a ia tornar impossivel de se transpôr impunha-se
-ao espirito dos navegantes, e bastaria para os fazer
-recuar, ainda que as affirmações cathegoricas da
-orthodoxia e os terrores da superstição os não movessem.
-D. Henrique teve o genio de um livre espirito
-que se revolta contra uma tradição que se
-não baseia em dados positivos, e que a submette
-audaciosamente ao exame da experiencia, teve a
-coragem que transmittiu aos seus navegadores de
-arcar contra as affirmações da sciencia, contra os<span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span>
-dogmas da religião, contra os pavores da lenda.
-Continuou e venceu! E a noticia do triumpho correu
-a Europa toda, e resoou em toda a parte como
-uma grande conquista do espirito humano, e a theoria
-das zonas inhabitaveis desappareceu, e a da impossibilidade
-de communicação entre as duas zonas
-temperadas dissipou-se, e a Egreja teve de se conformar
-com a existencia dos antipodas que ella considerava
-como uma affirmação incompativel com
-o espirito christão. Pois não se vê que tudo isso
-aconteceria, logo que um navegador audacioso tivesse
-penetrado na zona torrida, muito para além
-das regiões habitaveis? E não se vê tambem que
-semelhante navegação não passaria despercebida
-n’uma epocha em que era universal a anciedade
-pela ampliação dos conhecimentos geographicos?</p>
-
-<p>Succede o mesmo com Christovão Colombo. A
-existencia de terras para o occidente é um dos sonhos
-da humanidade desde longas eras. Quanto esse
-problema preoccuparia os navegadores portuguezes
-n’esse seculo <span class="allsmcap">XV</span> todo illuminado pelas suas glorias
-pode bem imaginar-se. Attestam-n’o as aventurosas
-expedições dos mareantes açorianos; mas, como Vivaldi
-que procurou sondar as regiões inexploradas
-da Africa, muitos d’esses audaciosos se perderam no
-vasto Occeano, como Jayme Ferrer, outros chegaram
-a terras um pouco afastadas e foi assim que a
-ilha das Flores se descobriu, mas como o mesmo<span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span>
-Ferrer recuando deante do Bojador, como Bethencourt
-não ousando afastar-se para além das costas
-de Marrocos, os açorianos desmaiaram deante da
-infinita solidão do Atlantico. Quando Colombo quebrou
-essas ultimas barreiras, com que enthusiasmo
-o receberam, com que despeito por lhe não ter dado
-inteiro credito o acolheu D. João II! Como logo partiram
-de toda a parte navios a sondar esses mares
-desconhecidos! Não aconteceria o mesmo se Jean
-Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem, antes de
-Colombo, vencido o grande obstaculo? Não seria
-para Lisboa ou para Dieppe que se voltaria logo a
-attenção e a inveja de toda a Europa?</p>
-
-<p>Assim, resumindo as questões capitaes em que
-se condensa o nosso ponto de vista, temos que os
-dois grandes problemas geographicos que foram resolvidos
-pelos navegadores do infante D. Henrique
-e pelas caravellas de Christovão Colombo eram as
-seguintes:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>1.º Atravessar a zona torrida, que, segundo as
-affirmações da sciencia, tornava impossivel a communicação
-entre as duas zonas temperadas, entre
-a terra em que habitamos e a terra antichthona, entre
-o mundo antigo que tinha Jerusalem no centro
-e o <i>alter orbis</i> onde a humanidade vivera antes do
-diluvio, transpôr o Atlantico, pintado pela lenda e
-pela tradição antiga como o mar tenebroso, entrar<span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span>
-n’um occeano que passava por sobrenatural, onde
-se estava talvez á mercê das potencias infernaes;</p>
-
-<p>2.º Atravessar a solidão do Atlantico do occidente
-ao oriente, até chegar ás praias orientaes da Asia.</p>
-
-</div>
-
-<p>A resolução do segundo problema estava dependente
-da resolução do primeiro. O primeiro acto de
-audacia era abrir os mares fechados, mostrar que não
-tinha o Atlantico os perigos reaes e sobrenaturaes de
-que o rodeiavam a tradição scientifica e a lenda popular.
-Esse resolveram-n’o os Portuguezes, e ninguem
-os precedeu nem os podia preceder, pelo simples
-motivo de que, se alguem antes d’elles tivesse
-aberto o <i>mare clausum</i>, não teriam elles que o
-tornar a abrir. Não se fecha o mar como se fecha
-uma porta. Não tornam a crear-se os phantasmas
-que o primeiro audacioso dissipou. Se alguem, antes
-do infante, houvesse rasgado a cortina do mysterio
-que sequestrava o Atlantico, estava o Atlantico patente.
-A geographia systematica da antiguidade e
-da edade média caía em ruinas logo que o primeiro
-facto real e tangivel tivesse mostrado a inanidade
-do systema.</p>
-
-<p>Resolvido o primeiro problema, trepidou-se deante
-do segundo. Não se oppunham á sua resolução nem
-as theorias geographicas dos antigos, porque bem
-conhecidas são, acima de tudo, as opiniões de Eratosthenes,
-nem as opiniões orthodoxas que não contrariavam<span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span>
-de um modo formalmente directo as doutrinas
-de Colombo, nem as lendas maravilhosas que,
-depois da desapparição do mar Tenebroso, não faziam
-senão excitar os navegadores a procurarem no
-Occidente as ilhas paradisiacas de que S. Brandão
-voltára com as vestes rescendentes a celestiaes perfumes.
-O que se oppunha simplesmente á resolução
-do problema era a immensidade do Occeano, que
-parecia confirmada exactamente pelas navegações
-portuguezas. Navegara-se durante annos e ainda se
-não chegara ao sul da Africa. Quanto tempo teria de
-se navegar para se chegar á India! Embora! exclamava
-Toscanelli, um dos enthusiastas da escola colombina,
-porque, se lá não chegardes em breve, encontrareis
-disseminadas pelo Occeano centos e centos de
-ilhas e de archipelagos que servem de guarda avançada
-ao grande continente oriental. Sonho de visionario!
-dizia-se e Colombo era repellido. Mas Colombo
-persistiu e foi elle que rompeu o encanto,
-elle e só elle que por ninguem poderia ter sido precedido,
-porque, se o fosse, tinham caido por terra
-todas as objecções, visto que o problema estava reduzido
-a este simplissimo termo: atravessar o Occeano
-e encontrar terra a distancia a que cheguem
-os viveres de uma caravela. O primeiro que o conseguisse
-tinha quebrado o feitiço, tinha desvendado
-o mysterio. Portuguez, francez, hespanhol ou
-italiano, seria a sua volta saudada pelas acclamações<span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span>
-freneticas de toda a Europa maritima. Se foi
-essa gloria que aureolou Colombo foi por que só a
-elle podia competir.</p>
-
-<p>Curvemo-nos com respeito deante dos precursores,
-deante dos marinheiros que tentaram romper o
-mysterio, deante da intrepidez dos normandos que,
-depois de occupadas as Canarias, tentaram reconhecer
-a costa africana, e cujos cadaveres despedaçados
-nas rochas da costa marroquina foram o primeiro
-cimento com que se começou a erguer o monumento
-da gloria portugueza, deante da audacia dos catalães
-que mais adeante foram ainda, que já transpozeram
-o cabo Não, e que investiram talvez com o Bojador,
-mas não sacrifiquemos a essa homenagem a
-justa gloria que cabe aos que mais felizes, mais perseverantes,
-e sobretudo dirigidos por um genio excepcional,
-quebraram definitivamente as barreiras, e,
-sem hesitar um momento, proseguiram no caminho
-encetado, e methodicamente foram desenrolando folha
-a folha o livro do mundo desconhecido, ainda
-enrolado nas vagas, como se enrolavam em volumes
-os antigos papyros. Não acceitamos como uma especie
-de premio de consolação para os precursores menos
-felizes a phrase de Humboldt, que diz como que
-encolhendo os hombros deante da injustiça do mundo
-que as descobertas só se principiam a contar desde
-que formam serie. As descobertas contam-se desde
-que se fazem, e, se os Catalães ou os Normandos ou<span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span>
-os Genovezes as tivessem feito, para elles iria a
-gloria. Não esperou a Europa que as caravelas do
-infante D. Henrique fossem muito adeante para que
-affluissem a Portugal estrangeiros, nem o governo
-portuguez esperou por isso para reclamar do Papa
-o reconhecimento do seu direito. Descobrem-se as
-Canarias? Logo apparecem Portuguezes, Francezes
-e Hespanhoes a reclamar a sua posse. Descobriam-se
-os Açores e a Madeira e ninguem com isso se
-importava. Não, o Homero da grande epopéa maritima
-foi o infante D. Henrique. Antes dos grandes
-epicos apparecem os cantos vagos e anonymos, em
-que se desata a inspiração da musa popular, em
-que se modulam as aspirações e os enthusiasmos
-do povo. Chega emfim o grande cantor, o epico inspirado,
-em cuja fronte Deus accendeu a scentelha
-do genio, e que escuta pensativo esses echos da
-guerra, essas cantilenas sublimes. Incende-se-lhe a
-imaginação, concentra na sua alma as palpitações
-da alma nacional, e dos seus labios brota emfim
-a epopéa victoriosa em que tudo se condensa, e
-encontra a sua expressão definitiva, que se fixa
-para sempre na memoria do povo e na memoria da
-humanidade. As caravelas que iam ainda, silenciosas
-e timidas, aventurar-se ao mar mysterioso, e que
-ou voltavam sem ter rompido o mysterio, ou no mysterio
-das vagas envolviam os seus cadaveres fluctuantes,
-eram os bardos isolados que afinavam pelo rugido<span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span>
-do Occeano os seus epodos audaciosos, mas o
-infante foi o poeta soberano que fez irromper da
-sua alma, pela voz dos seus marinheiros, a epopéa
-triumphal e definitiva, a Iliada da audacia portugueza,
-como foi Colombo depois que desenrolou no
-sulco argenteo dos seus navios a Odysséa do Atlantico.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="II">II<br />
-<span class="smaller">Causas de erro para a historia da solução dos problemas</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>Para podermos seguir passo a passo a marcha dos
-descobrimentos, para vermos como pouco a pouco se
-foi correndo a cortina que escondia aos olhos dos homens
-da nossa raça metade do mundo conhecido, é necessario
-a cada instante abstrahirmos dos nossos conhecimentos
-actuaes, para nos collocarmos no ponto
-de vista em que os homens de eras anteriores se collocavam
-em virtude do que elles então sabiam. A falta
-d’essa correcção indispensavel arrasta muitos escriptores
-notaveis a erros grosseiros, que muitas vezes
-lhes escapam exactamente por não terem o cuidado
-constante de applicarem essa correcção ás tradições
-que dos tempos passados lhes vem. O proprio Humboldt,
-que frequentemente observa quanto é funesto
-esse erro, a esse erro cede só porque uma vez se<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span>
-esqueceu de verificar qual era a região que nos principios
-do seculo <span class="allsmcap">XV</span> era conhecida pelo nome de
-Guiné. Se reparasse que a Guiné de Bethencourt ficava
-comprehendida entre o cabo Cantim e o Bojador
-não acceitaria a pretenção franceza de terem
-chegado os Normandos de Dieppe e o proprio Bethencourt
-a essa Guiné tropical que já muito para além
-fica do Cabo Bojador. Pois é elle comtudo que nota
-como é fallaz a denominação de India dada pelos
-antigos a varias regiões, visto que muitas vezes comprehendia
-as regiões meridionaes da Asia, a parte
-da Asia que chegava ao mar Vermelho, e ainda o
-extremo Oriente. Marco Polo designava tres Indias,
-havia a India exterior e a India inferior, a India superior
-que era a parte mais oriental da Asia etc.<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a>
-Pois ainda hoje frequentemente se espantam homens
-instruidos não de que Colombo julgasse ter encontrado
-a Asia, mas de que imaginasse ter encontrado
-a India, arrastados pela tendencia natural de vermos
-com os nossos olhos de agora a geographia dos outros
-tempos; e de suppôrmos que a India não podia<span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span>
-ser no seculo <span class="allsmcap">XV</span> senão a que nós hoje conhecemos
-e como tal designamos.</p>
-
-<p>Quantas vezes mudou no decorrer dos tempos a
-posição geographica de varias terras, a que attribuimos
-a sua posição actual, logo que lhes encontramos
-em mappas antigos os nomes! Quantas terras
-differentes receberam o mesmo nome que de umas a
-outras foi passando, segundo as conjecturas dos geographos!
-As ilhas Afortunadas, como a ilha fluctuante
-de Delos, foram sempre navegando para o occidente,
-até que a geographia positiva as fixou nas Canarias,
-arrancando-lhes o véo da lenda em que os antigos as
-envolviam. Estiveram primeiro no grande Oasis no
-Egypto, passaram depois para o sul da Cyrenaica,
-depois ainda para defronte do rio Lukkos, quer dizer,
-quasi pegadas com a costa marroquina, e só
-depois para o ponto em que estão as Canarias.<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a> A<span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span>
-quantas ilhas se applicou o nome de Taprobana,
-que nós affirmamos hoje que era Ceylão, quando
-muitas vezes a sua posição corresponde á de Sumatra,
-e quando outras vezes a collocava a geographia
-conjectural dos antigos no oriente das Indias!<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a>
-A que peninsulas tão diversas se attribuiu o nome
-de Aurea Chersoneso que arbitrariamente suppomos<span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span>
-agora que correspondia á peninsula de Malaca!<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a> Como
-é perfeitamente conjectural, apezar dos argumentos
-de alguma força apresentados por Mr. d’Anville,
-a identificação de Sofala com Ophir!<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> Como ainda se
-illudem hoje os mais serios investigadores com o nome
-de Ethiopia, que intentam applicar ao paiz que hoje
-consideramos como tal, quando a Ethiopia, na supposição
-dos antigos, abrangia toda a parte meridional
-da Africa e vinha ligar-se com a costa marroquina!<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a>
-Como poderiamos nunca ter fé n’essas identificações,<span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span>
-se vemos que os antigos e os Arabes, e
-os povos da edade média davam á India uma fórma
-completamente phantastica, suppunham que o mar
-das Indias era um mar mediterraneo, approximavam
-assim a costa asiatica da costa africana, como a costa
-africana está proxima da Europa no Mediterraneo
-europeu, sendo por conseguinte tão possivel que ficasse
-Ophir na Africa como na India!</p>
-
-<p>Depois que enorme cautella é ainda necessaria
-para o exame dos antigos mappas, onde a phantasia
-se dava largas, e onde se misturavam com alguns
-factos positivos todas as conjecturas que formava
-ou a imaginação ou o espirito reflexivo d’aquelles
-que os traçavam! Como é ridiculo para quem
-conhece o espirito que presidia á elaboração dos<span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span>
-mappas ouvir escriptores serios fallarem com muita
-gravidade no famoso mappa trazido pelo infante D.
-Pedro das suas viagens, e onde estão traçados o cabo
-da Boa Esperança e até o estreito de Magalhães!
-Não sabem esses escriptores que, até depois de
-feitos os descobrimentos, a phantasia dos cartographos
-não se contentava com os factos positivos narrados
-pelos navegadores e continuava a ampliar
-por sua conta o mundo conhecido! Os proprios navegadores
-ás vezes contribuiam para illudir os cartographos.
-Christovão Colombo, ao tocar na ilha
-de Cuba, julgou ter chegado a terra firme e tanto
-d’isso se convenceu que fez jurar aos seus tripulantes
-que fôra n’um continente que tinham effectivamente
-tocado!<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> Pedro Alvares Cabral tomou o Brazil
-por uma grande ilha. Em mappas muito posteriores
-aos descobrimentos americanos, feitos já depois
-de Vasco Balboa ter encontrado o Pacifico, collocou-se
-no sitio em que está o isthmo de Panamá<a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a><span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span>
-um estreito que punha em communicação os dois
-mares. Mas isso não impediu os que se enlevam na
-demolição de glorias estabelecidas de sustentar que
-o infante D. Henrique tinha mappas que até lhe mostravam
-onde era o cabo da Boa Esperança, que Colombo
-levava comsigo mappas que lhe davam o traçado
-da America, que Fernão de Magalhães n’um
-globo de Martim de Behaim vira traçado o estreito
-famoso que hoje tem o seu nome, e que Pedro Alvares
-tinha um mappa tambem que lhe designava o
-sitio em que encontrou o Brazil! Puerís tentativas!
-Quantas vezes effectivamente n’esses mappas conjecturaes
-podia fazer o acaso que coincidisse com a
-descoberta a ilha ou a terra phantasiada pela imaginação
-dos cartographos; mas logo o formigar dos
-erros perfeitamente incompativeis com o imaginario
-descobrimento prova exuberantemente que só em
-coincidencias fortuitas e insignificantes elle se poderia
-basear.</p>
-
-<p>O que melhor pode mostrar como faltava completamente
-aos antigos o conhecimento da terra, para
-além dos estreitos limites em que se concentraram
-as civilisações do Oriente e a civilisação greco-romana,
-está na variedade dos systemas com que se
-procurava explicar a fórma do mundo. A sciencia
-não caminhava com passo seguro, juntando ao thesouro
-das idéas conquistadas cada idéa nova que
-ia sendo adquirida. Como todas as explicações eram<span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span>
-conjecturaes, cada nova theoria provava apenas a
-argucia e o engenho do espirito que a concebia,
-mas estava sujeita á discussão e á contradicção
-como todas as soluções que não assentam em factos
-positivos e incontestaveis. Pode dizer-se que
-a idéa da esphericidade da terra triumphou na antiguidade,
-mas pode dizer-se que triumphou porque
-a sustentavam os mais esclarecidos espiritos, não
-porque todos a reconhecessem, e porque não houvesse
-tambem homens de primeira plana que absolutamente
-a negassem. Sustentou-a Ptolomeu, mas
-contestou-a vivamente Plutarcho.<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a> A theoria de ser
-a terra um disco cercado pelo rio Oceano, que é a
-theoria homerica, essa desappareceu é certo, porque
-a observação dos phenomenos celestes mostrou
-de um modo evidente quanto era absurda, porque
-se via bem que não era possivel que o sol se sumisse
-no occidente, e voltasse depois pelo mesmo
-caminho e em segredo de noite para reapparecer no
-Oriente, porque o movimento apparente do céo não
-podia explicar-se senão allegando-se que os corpos
-celestes n’uma parte da sua marcha passavam por
-debaixo da terra, para reapparecerem no sitio opposto
-áquelle por onde se tinham sumido. Então
-sim, então a idéa de que a terra assentava em bases<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span>
-solidas, tendo por cima de si o céo estrellado,
-desappareceu completamente, e a primeira conquista
-da sciencia foi a que suspendeu a terra no espaço,
-embora fizesse d’ella ainda o centro da creação,
-embora suppozesse que tudo se fizera no Universo
-em sua honra, que em torno d’ella giravam no immenso
-espaço em varias espheras concentricas os
-orbes luminosos que entoavam a harmonia, que Platão
-julgava escutar n’um arrobamento infinito, e que
-espalhavam nos intermundios a chamma ora intensa
-como a do sol, ora meiga como a da lua, ora palpitante
-e suavissima como a das estrellas, das corôas
-resplandecentes com que a Divindade as cingiu.</p>
-
-<p>Mas com relação á fórma da terra que diversidade
-de opiniões! Pomponio Mela considerava a terra chata
-como a suppunham os Hebreus, como a suppozeram
-depois os Padres da Egreja, e entre elles Santo Agostinho,
-Lactancio, S. Justino martyr; Ephoro dava-lhe
-a fórma de um quadrilongo, Cicero, no famoso
-<i>Sonho de Scipião</i>, acceitava as doutrinas dos geographos
-mais notaveis, considerava-a espherica, e
-essa opinião foi seguida por Macrobio, que tambem
-dava, como Cicero, á parte habitada a fórma de uma
-chlamyde. Entre os sabios que sustentavam na antiguidade
-o principio de que a terra era espherica,
-avulta o grande nome do geographo antigo Ptolomeu.
-Outros porém baseiam-se na doutrina de Thalés,<span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span>
-suppõem a terra ovoide, e Posidonius suppõe
-que essa ellipse estreita que constitue a terra termina
-em duas pontas agudissimas.<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a></p>
-
-<p>Apezar d’essas differenças porém, a opinião da
-esphericidade da terra é a que predomina entre os
-antigos, é a que tem a seu favor a enorme authoridade
-de Ptolomeu e de Platão e de Aristoteles e de
-Eratosthenes e de Hipparcho e de Cicero e de Strabão,
-a que é preconisada pela escola de Alexandria e
-que adquire por conseguinte um verdadeiro valor
-scientifico, mas a religião christã intervem no debate,
-e a theoria dos antigos é considerada como heterodoxa
-pelos Santos Padres. A terra tem a fórma
-de tabernaculo, a existencia dos antipodas é condemnada
-como absolutamente contraria á logica divina,
-e esta opinião tão respeitada, tão importante
-introduz immediatamente a confusão nos espiritos
-da edade média. O conhecimento da sciencia arabe
-traz ainda um novo elemento de complicação. Na
-sciencia oriental sente-se de um modo accentuadissimo
-o reflexo da tradição grega. Ptolomeu e Aristoteles
-teem ferventes discipulos nos sabios orientaes,
-que podem esfumar as suas doutrinas no vago do<span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span>
-seu maravilhoso, mas que no fundo as acceitam e as
-applaudem. E assim vamos encontrar por toda a edade
-média a velha theoria grega reforçada agora pela
-adhesão arabe em lucta com as prescripções christãs.
-Não se pode apagar n’esses espiritos medievaes,
-que tinham pelo saber da antiguidade um supersticioso
-respeito, a influencia de Ptolomeu, mas deante
-da voz auctorisada dos Santos Padres tudo se inclina
-e emmudece. Então vamos encontrar os cartographos
-da edade média empenhados na improba tarefa,
-que tantas vezes se tem repetido, de procurarem
-conciliar as doutrinas da Egreja com a tradição
-da sciencia. Apparece-nos muitas vezes a terra como
-um quadrado inscripto n’um circulo, e, ao passo que
-o systema das espheras applicado ao systema cosmographico
-encontra nos espiritos da meia edade um
-verdadeiro engodo, a terra fixa no meio do universo
-espherico mantem a fórma especial que os Santos
-Padres decretaram que tivesse.<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></p>
-
-<p>Durante largos seculos pairou sobre a humanidade
-a duvida mais profunda ácerca da fórma do planeta<span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span>
-que ella habita. Se alguns sabios entrevêem a
-verdade, e a sustentam e a defendem, é simplesmente
-pelas deducções que tiram dos seus calculos
-e das suas observações astronomicas, não pelo conhecimento
-directo que possam ter do planeta. Por
-isso tambem a orthodoxia triumpha, embora as razões
-em que se funda não sejam bastante poderosas
-contra o raciocinio dos philosophos, mas, apezar
-da fraqueza da argumentação, a fé supera sempre
-facilmente as theorias conjecturaes dos seus adversarios.
-É por isso que ella ainda hoje é sempre victoriosa
-na sua lucta contra os systemas philosophicos
-adversos. Ella dá uma certeza sem fundamento
-que não seja a auctoridade respeitada da tradição e
-da crença, os outros oppõem-lhe theorias mais ou menos
-verosimeis, mas todas baseadas em simples conjecturas.
-No dia em que o materialismo conseguir fazer
-palpar o principio vital, ainda hoje incoercivel, e
-que se representa por esse nome fascinador da alma
-dotada de immortalidade, o espiritualismo cahiu
-para não mais se levantar. Emquanto a demonstração
-da redondeza da terra e da existencia dos antipodas
-não sahiu do dominio conjectural, a fé que
-oppunha a essas vagas theorias uma affirmação baseada
-em tradicções tão conjecturaes como os raciocinios
-adversos mas aferradas ao espirito humano
-pelas raizes potentissimas da tradição, os Santos
-Padres triumphavam. Veiu um dia, porém, em que<span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span>
-um pequeno povo debruçado sobre os mysterios do
-Oceano resolveu sondal-os e quebrar as barreiras
-que separavam do mundo conhecido essa região
-enigmatica, transpôr o que lhe diziam que era inultrapassavel,
-chegar ás regiões defezas, arrombar
-as portas fechadas pela triplice chave da sciencia,
-da fé e da lenda, e o que dezenas de seculos não
-tinham conseguido conseguiu-o meio seculo apenas.
-Então a sciencia não parou, não retrocedeu, não se
-contradisse, não se perdeu em conjecturas. Cada
-facto que se adquiria era uma confirmação de uma
-theoria contestada, ou a revelação de uma theoria
-nova. A fé cedeu deante da evidencia. Quando os
-marinheiros portuguezes entraram na zona torrida,
-cahiu por terra a idéa consagrada da impossibilidade
-d’alli se viver, quando entraram na zona temperada
-do sul, desappareceu, substituida pela real,
-a terra antichthona, e a Egreja teve de acceitar
-os antipodas; quando Colombo transpoz o Oceano
-occidental, a idéa da immensidade dos mares perdeu-se
-para sempre; quando Fernão de Magalhães
-passou do Atlantico ao Pacifico, e quando o seu
-ultimo navio veiu fundear n’um porto da peninsula
-hispanica depois de ter dado volta completa ao
-mundo, não teve mais contradictores nem descrentes
-a theoria da esphericidade da terra. O quadrado
-dos Santos Padres cahiu desfeito pelas cargas repetidas
-d’esses cavalleiros do Oceano.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span></p>
-
-<p>Não é já só, porém, com as phantasias orthodoxas,
-nem com os devaneios dos sonhadores scientificos,
-que a terra depois de explorada audaciosamente se
-torna incompativel. O proprio systema scientifico de
-Ptolomeu, essa gloria da antiguidade greco-romana,
-estala não podendo conter em si o mundo tal como
-foi estudado e descoberto. O systema de Copernico
-restitue ao sol a sua magestade e a sua humildade
-á terra. Se não era o sol que percorria lentamente o
-zodiaco, illuminando no mais alto do seu curso com
-a sua luz fecundante a terra privilegiada, e queimando
-quando se abaixava a terra condemnada e
-maldita, se a zona torrida não era um inferno sempre
-em chammas, nem nas suas proximidades pullulavam
-os monstros como os Cerbéros d’esse Tartaro,
-como as viagens portuguezas amplamente demonstravam,
-que motivo havia para se suppôr que o
-Sol não era senão o instrumento das bençãos ou das
-maldições de Deus sobre a Terra, e porque não seria
-antes a Terra que adejaria no espaço, irmã d’esses
-numerosos planetas que no céo resplandeciam, atomo
-no meio d’essa immensidade de atomos, bago
-d’essa poeira de luz dispersa no firmamento, e posta
-em movimento pelo sopro mysterioso da grande attracção
-universal? E a Copernico succediam Képler
-e Newton, e as leis do Universo iam-se coordenando
-n’um Codigo formulado pela sciencia, não ao acaso
-das conjecturas, mas segundo as indicações positivas<span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span>
-dos factos. E assim foi que a audacia portugueza
-transformou completamente a sciencia humana,
-e iniciou esta epocha portentosa que dura
-ha quatro seculos apenas, e que deu mais á humanidade
-que as dezenas de seculos da historia conhecida
-que a precederam. E assim é que, se a Colombo
-cabe a indisputavel gloria de ter destruido a
-fabula que tornava inaccessiveis as terras do occidente,
-ao infante D. Henrique mais do que a nenhum
-outro cabe a gloria immensa de ter affrontado
-a sciencia, a fé e a lenda para fazer da sciencia
-conjectural uma sciencia positiva, da fé que
-amesquinhava a humanidade a fé que a ampliou,
-da lenda que acovardava a alma humana a epopéa
-que a enalteceu.</p>
-
-<p>Foi grande Colombo, grande Vasco da Gama, e
-grande Magalhães! Formam um grupo de heroes os
-audazes marinheiros que desde Gil Eanes até Bartholomeu
-Dias, desde Pinzon até Queiroz, sulcaram
-todos os mares, e affrontaram todas as tempestades,
-compõem uma phalange benemerita os missionarios
-da sciencia, que, desde João Fernandes o humilde
-iniciador da exploração scientifica do continente
-africano até aos modernos sabios viajantes, se internaram
-nos sertões affrontando os povos barbaros,
-como formam uma legião sagrada os missionarios
-da fé que não recúaram deante dos mais horridos
-perigos para levarem a regiões ignotas a palavra divina,<span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span>
-mas o genio iniciador, que tornou possiveis todos
-estes feitos, e concebiveis essas audacias, foi o
-pensativo infante, que accendeu com as suas mãos
-intrepidas, entre os motejos da sciencia, os anathemas
-da Egreja e os gritos pavidos da superstição,
-esse pharol glorioso que projectou de Sagres sobre
-o vasto Oceano, por cima das suas ondas tenebrosas,
-a luz radiosa e serena que foi a verdadeira aurora
-da civilisação moderna.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="III">III<br />
-<span class="smaller">A zona torrida perante as sciencias da antiguidade
-e da edade média</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>Accentuámos bem que tres elementos havia que
-se oppunham ás expedições que os Portuguezes audaciosamente
-emprehenderam: a sciencia, a fé e a
-lenda. Foi a primeira a que se oppoz sempre a que
-os ousados navegadores da antiguidade lustrassem
-o caminho que os Portuguezes depois percorreram.
-Não eram de certo mais terriveis os mares
-africanos do que os mares da Europa septentrional,
-e os marinheiros phenicios, que affrontaram a bahia
-de Biscaya e o canal da Mancha e o mar do Norte
-até á Islandia, não podiam facilmente assustar-se com
-os mares muito mais manejaveis da costa africana.
-Mas a idéa da navegação para o sul fazia recuar os
-mais audaciosos. Era ahi que o sol estendia o seu<span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span>
-terrivel dominio, era ahi que os seus raios queimavam
-a terra e o mar, e tornavam impossivel a passagem
-do homem. Á medida que esses calores excepcionaes
-iam sendo mais proximos, o seu effeito
-fazia-se sentir na vegetação e na fauna, e na propria
-humanidade. Então a natureza, violentada por assim
-dizer, produzia os mais extraordinarios monstros.
-Por mais de uma vez tentaram os Phenicios e
-os Carthaginezes demandar essas regiões do sul, mas
-a mais insignificante estranheza os fazia recuar. De
-Hannon se conta que percorreu quasi a Africa toda,
-e no seu periplo se relata essa viagem maravilhosa.
-Logo mostraremos como elle de certo não passou
-para além da costa de Marrocos. Gabava-se a sua
-intrepidez, porque voltára narrando que vira horrorosos
-monstros, cynocephalos, quer dizer, homens
-com cabeça de cão, e gorgonas ou mulheres com o
-corpo absolutamente coberto de pellos. Os escriptores
-modernos, que teem procurado benevolamente
-interpretar estas descripções phantasticas, dizem que
-os cynocephalos eram simplesmente macacos e as
-gorgonas simplesmente gorillas. Na hypothese mais
-favoravel para elle, o que isso prova é que, apenas
-viu na costa de Africa duas especies de macacos,
-julgou-se chegado ao paiz dos monstros e confirmou
-todas as mentiras que ácerca das vizinhanças da zona
-torrida estavam estabelecidas, e não chegou portanto
-á zona torrida. Mas não é bem mais natural ainda<span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span>
-que Hannon, um carthaginez, um africano, não ignorasse
-a existencia do macaco, e portanto não podesse
-confundir facilmente o genero simiesco com
-uma variedade monstruosa do homem?</p>
-
-<p>Essas noções rudimentares de cosmographia, que
-existiam no espirito dos antigos, chegaram ao seu
-apogeu com a escola de Alexandria. Sabios notabilissimos
-imprimiram grandes progressos á sciencia,
-e principalmente á astronomia. O nome de Ptolomeu
-e o nome de Hipparcho bastam para fazer a gloria
-de uma escola, de um paiz e de um seculo. A conclusão
-a que chegaram era falsa, mas quantas descobertas
-importantes lhes serviram para assentar os
-primeiros alicerces de uma sciencia a que pozeram
-então uma cupula errada, por lhes terem faltado
-informações e elementos que só a audacia dos navegadores
-lhes podia levar! Que maravilhosos instrumentos
-de estudo não encontraram elles! Que
-calculos levaram a cabo que os sabios do seculo <span class="allsmcap">XVI</span>,
-ao poderem juntar-lhes novos elementos, aproveitaram
-para a transformação da sciencia! Sem Ptolomeu
-como se comprehenderia Copernico? Sem Hipparcho
-o que poderia fazer Tycho-Brahé? N’esta
-conquista da verdade, os antigos tomaram as obras
-avançadas e julgaram estar senhores da cidadella;
-mas, só depois de occupadas essas obras, só depois
-dos maravilhosos esforços dos navegadores peninsulares,
-é que se podia descortinar e assaltar a cidadella...<span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span>
-E quem sabe se será esta definitivamente
-a verdadeira!</p>
-
-<p>Mas o que é absolutamente indispensavel saber,
-para que se possa avaliar a transformação produzida
-no seculo <span class="allsmcap">XV</span> pelos descobrimentos portuguezes, é
-quaes eram os principios estabelecidos como certos
-e indubitaveis com relação á terra por esses sabios
-cuja auctoridade era incontestavel, cujas doutrinas
-se ensinavam ás creanças, como hoje se ensinam as
-novas theorias, e que representavam portanto a verdade
-absoluta d’esse tempo. Alguns pontos havia
-que encontravam contradicção, como era o da redondeza
-da terra. N’outros, porém, não havia a mais
-leve divergencia, como em todos os que se ligavam
-com o movimento dos corpos celestes, com a marcha
-do sol em volta da terra para produzir o dia e
-a noite, com a marcha do sol pelo zodiaco produzindo
-a differença das estações. Tantas maravilhas
-conseguira já a astronomia que as doutrinas que ella
-promulgava não podiam soffrer contestação. Se ella
-já conseguira adivinhar os eclipses, que maior prova
-podia dar de que encontrára a chave do mechanismo
-celeste?</p>
-
-<p>Essas doutrinas de Ptolomeu passaram para a
-edade média, que teve sempre pela sciencia antiga
-um louco fanatismo. Encontramol-as ás vezes adulteradas,
-misturadas com manifestações de ignorancia,
-com superstições e crendices, mas naturalmente<span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span>
-arraigadas nos espiritos, e exaltadas com enthusiasmo
-pelos sabios da primeira Renascença, pelos que arrancaram
-das trevas a Europa barbara, e que levantaram
-como um facho luminoso a doutrina já completa
-e bem comprehendida do grande geographo
-antigo.</p>
-
-<p>Vamos encontrar n’um dos livros d’esses sabios
-medievaes, n’uma d’essas <i>Imago mundi</i> ou <i>Thesaurus</i>,
-que eram as encyclopedias do tempo, a condensação
-de toda a sciencia, a doutrina antiga resumida,
-explicada, mas tambem modificada. Queremos
-falar nos <i>Dialogos</i> de Pedro Affonso. Os dois
-que dialogam são Pedro e Moysés. Aquelle é o mestre,
-este o discipulo.</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>Diz Moysés:</p>
-
-<p>—Não ha pois da terra senão uma só parte habitavel.
-Que parte?</p>
-
-<p><i>Pedro</i>—Desde o meio da terra até á parte septentrional.</p>
-
-<p><i>Moysés</i>—Demonstra-me isso n’uma figura geometrica,
-porque n’essa materia cada nação tem tido, segundo
-os auctores, idéas differentes. Divide-se effectivamente
-a terra em cinco zonas: uma no meio,
-queimada pelo ardor do sol, e por conseguinte inhabitavel;
-duas nas extremidades, muito afastadas
-do sol, e egualmente inhabitaveis, por causa do rigor
-do frio; e duas médias, temperadas pelo calor da primeira<span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span>
-e pelo frio das outras duas, e unicas habitaveis<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a>.</p>
-
-<p><i>Pedro</i>—Esse systema está em contradicção com
-o testemunho dos nossos olhos. Vemos effectivamente
-<i>Aren</i> situado no centro da terra; no seu zenith
-principiam o Aries e a Balança; o ar é alli tão
-suave que a temperatura das quatro estações é quasi
-sempre a mesma. Nascem alli plantas aromaticas de
-côr brilhante e de sabor delicioso; os homens não
-são nem descarnados, nem obesos, mas de uma compleição
-bem proporcionada. O clima que exerce esta
-salutar influencia no corpo não actúa menos efficazmente
-sobre o espirito que brilha pela sensatez e
-por uma moderação cheia de acerto. <i>Como se pode
-pois dizer que um logar que o sol percorre em linha
-recta em toda a sua extensão é inhabitavel?</i> Não: todo
-o espaço de terra comprehendido entre esse logar e o
-segmento septentrional é habitavel sem interrupção,
-e os antigos dividiram-n’o em sete partes chamadas
-climas, em conformidade com o numero dos sete
-planetas. O primeiro clima está na linha do meio;
-ahi é que Aren foi fundado. O setimo occupa a extremidade
-do mundo septentrional. Nenhuma d’essas<span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span>
-partes é inhabitavel, se exceptuarmos os sitios
-em que grandes massas de areia quasi sem agua ou
-então montanhas pedregosas se recusam ao trabalho
-da charrua.</p>
-
-<p><i>Moysés</i>—Resta-me pedir-te que me demonstres
-como succede que esta parte da terra que fica para
-além de Aren para o sul não é habitada como a que
-está para áquem para o norte, de modo que Aren
-se ache no centro da região habitavel, ou então tambem
-porque não é a parte meridional que é habitavel,
-emquanto a parte septentrional seria inhabitavel,
-ao inverso do que succede.</p>
-
-<p><i>Pedro</i>—Porque o circulo do sol é excentrico relativamente
-ao circulo da terra, e porque essa excentricidade
-atira a maior parte da circumferencia
-para uma distancia maior do septentrião. Segue-se
-d’ahi que, logo que o sol passa para os signos do
-hemispherio meridional, quer dizer para a parte da
-circumferencia comprehendida entre a Balança e
-Aries, approxima-se da terra, e, queimando os seus
-raios o solo a esta curta distancia, tornam-n’a esteril
-e por conseguinte inhabitavel. Só a partir do primeiro
-clima para o norte é que o espaço que comprehende
-os sete climas é habitavel. Mas tudo o que
-vem depois a partir do setimo clima é privado de
-todo o calor, por causa do afastamento do sol, que
-vae percorrer os seis signos meridionaes; d’ahi o
-excesso das nuvens, dos nevoeiros e das geadas; e<span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span>
-emfim a ausencia de toda a creatura animada n’essa
-parte da superficie terrestre<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a>».</p>
-
-</div>
-
-<p>Não era esta, porém, a doutrina de Ptolomeu. Esta
-era a doutrina que procurava conciliar a theoria
-scientifica com as palavras da Egreja. A doutrina de
-Ptolomeu, a doutrina em geral de todos os sabios
-da antiguidade e da edade média, era que a zona
-torrida estava collocada debaixo do zodiaco, que,
-proxima do sol por conseguinte, era por elle abrazada,
-mas que para além d’essa região havia outra
-temperada como a nossa, assim como outra tambem
-glacial como a zona arctica. Essa foi sempre a
-doutrina predominante, embora contra ella protestasse
-a orthodoxia; mas qualquer das duas sustentava
-como facto incontroverso que a zona torrida
-era absolutamente inhabitavel, quer fosse, como queria
-Ptolomeu, que o sol, descrevendo um circulo perfeito
-em torno da terra durante as vinte e quatro horas,
-e descrevendo-o ao longo do zodiaco perfeitamente
-parallelo á zona torrida, sobre ella fizesse caïr
-perpendicularmente os seus raios e a queimasse e
-destruisse, ou, como pretendia Pedro Affonso, não
-descrevendo o sol esse circulo perfeito que Ptolomeu
-imaginára, mas descrevendo um circulo excentrico
-ao da terra, d’ahi resultasse que, ao passar pelos<span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span>
-signos meridionaes do zodiaco, estivesse mais proximo
-da terra, e fosse o hemispherio meridional o que
-os seus raios incendiavam.</p>
-
-<p>Devemos notar que esta ultima hypothese era a
-que se approximava mais da ellipticidade da orbita
-da terra hoje demonstrada. Se não se suppunha ainda
-que o sol descrevesse uma ellipse em torno da terra
-como hoje se sabe que a terra descreve uma ellipse
-em torno do sol, já se principiava a querer applicar
-ao sol a theoria dos <i>epicyclos</i> e dos <i>excentricos</i>, com
-que a astronomia antiga procurava conciliar com a
-theoria geral do Universo as contradicções que resultavam
-do movimento apparente de muitos planetas.
-A theoria de Pedro Affonso conduzia-o á doutrina
-moderna da <i>periphelia</i> e da <i>aphelia</i>. Adivinhava que
-ha um periodo em que o sol está mais afastado da
-terra do que n’outros, e dava-se a coincidencia de
-que, dando-se a <i>periphelia</i>, quer dizer o periodo de
-maior approximação do sol, em janeiro, quando é
-verão no hemispherio austral, d’ahi resulta que effectivamente
-os verões austraes são mais quentes do
-que os nossos, e Pedro Affonso adivinhou assim uma
-verdade hoje perfeitamente demonstrada. Acontece
-porém que, sendo a terra que se move e não o sol,
-quando chega a <i>aphelia</i>, quer dizer o periodo de
-maior afastamento do sol, em julho, sendo então
-verão entre nós e inverno no hemispherio austral,
-tambem succede que são os seus invernos mais regelados.<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span>
-Mas, se a terra se conservasse immovel,
-como até Copernico se suppoz, passando o sol sempre
-á mesma distancia do mesmo ponto da terra,
-seria sempre effectivamente o hemispherio austral o
-que mais lhe sentiria os implacaveis ardores.</p>
-
-<p>Comtudo era incontestavelmente o systema de Ptolomeu
-que triumphava nas escolas, era esse o que
-tinha a sua consagração scientifica. Segundo a theoria
-do grande geographo, a terra espherica estava dividida
-em cinco zonas, as zonas glaciaes tão longe
-do sol que a vida era alli impossivel por causa da
-falta absoluta de calor, a zona torrida tão proxima
-do sol, que em torno d’ella descrevia a sua enorme e
-rapidissima viagem, que a vida era impossivel pelo
-excesso do calor, emfim as zonas temperadas onde
-nem o calor era extraordinario nem extraordinario
-o frio, e que a vontade suprema destinara evidentemente
-para habitação do homem.</p>
-
-<p>Era conforme esta theoria com o espirito, com o
-pensamento grego que em tudo se manifestava, na
-arte, na poesia, na philosophia, no viver social e politico.
-O ideal grego é a moderação e a harmonia.
-O universo devia regular-se tambem por essas leis
-harmonicas, que marcam tanto o rhythmo da architectura
-do Parthenon como o da poesia de Sophocles,
-tanto o da philosophia de Platão e de Aristoteles
-e o da eloquencia de Demosthenes e de Lysias
-como o das concepções mythicas d’aquelle harmonioso<span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span>
-anthropomorphismo hellenico, que produziu
-aquelles typos idealmente bellos nas suas proporções
-sublimes, Apollo e a Aphrodite. Assim o homem
-tambem não poderia viver senão nas regiões em que
-o clima tivesse a harmonia e a moderação compativeis
-com o desenvolvimento normal da vida humana.
-Logo que o calor principiasse a exaggerar-se, desmanchando
-o equilibrio da temperatura, desmanchava-se
-tambem o equilibrio das proporções e da
-fórma humana. Por isso nas proximidades d’essa
-pavorosa zona torrida começava a terrivel degeneração
-da raça, surgiam creaturas cada vez mais monstruosas,
-e era assim effectivamente que Plinio explicava
-essa efflorescencia de monstros que, no seu
-entender e no entender dos outros geographos antigos,
-se manifestava nas regiões mais proximas da
-zona torrida<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a>, onde desapparecia emfim no immenso
-incendio com que o sol abrazava o mundo.</p>
-
-<p>Mas, como diziamos, Ptolomeu entendia e bem
-que eram duas as zonas temperadas, uma ao norte,
-e outra ao sul do Equador, mas entre as duas, pela
-sua theoria, não podia haver communicação. Essa<span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span>
-terra é a famosa <i>terra antichtona</i>, a <i>terra austral</i>,
-o <i>alter orbis</i> que figura conjecturalmente nos antigos
-mappas, e em que, por mais de uma vez, uns teem
-querido ver a America, outros as regiões descobertas
-pelos Portuguezes! A America nunca pela <i>terra antichtona</i>
-podia ser designada, porque a <i>terra antichtona</i>
-ficava para o sul, mas tão levianamente homens
-de merito notavel teem estudado estes assumptos,
-que se deixaram muitas vezes illudir pela orientação
-de antigos mappas que é quasi sempre diversa
-da nossa. O oriente era muitas vezes collocado
-nos mappas no sitio onde hoje collocamos o norte,
-o occidente onde fica o sul, o norte para o lado do
-occidente e o sul para o lado do oriente. Os Arabes
-então invertiam completamente o systema. O sul
-fica para o norte e o norte para o sul. Com estas
-alterações que immenso cuidado é necessario quando
-se pretendem tirar quaesquer illações dos mappas
-antigos!</p>
-
-<p>É essa a doutrina que prevalece durante toda a
-edade média. É Macrobio que suppõe a zona torrida
-inhabitada e queimada pelos fogos do sol, e a zona
-temperada austral povoada por homens de uma especie
-desconhecida<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a>, Orosio que declara que do interior
-da Africa nada se pode conhecer porque o calor da<span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span>
-zona torrida o reduz a uma brazeira.<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a> S.ᵗᵒ Izidoro de
-Sevilha sustenta egualmente a existencia da <i>terra
-antichthona</i> onde habitam os antipodas, se não são
-fabulosos.<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a></p>
-
-<p>Bedo o Veneravel, que tem a sua theoria cosmographica
-exposta pittorescamente pela comparação
-do ovo, que vê a terra collocada no meio do mundo
-como a gemma, a agua em torno como a clara, o ar
-como a membrana e o fogo como a casca, tambem
-apresenta a doutrina da terra antichthona separada
-da nossa pela zona inhabitavel.<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> S. Virgilio imagina
-que o <i>alter orbis</i> tem outra lua, outro sol e outras
-estações.<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a> Raban Mauro, que falla nos basiliscos fabulosos,
-e nas Gorgonas cabelludas e phantasticas,
-tambem indica a terra antichthona separada pelo ardor
-do sol<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a>; Alfrico, Moysés de Choréne, Pedro des
-Vignes, o famoso Pedro d’Ailly, Marino Sanuto, Nicolau
-d’Oresme e quantos outros estabelecem e proclamam
-esta doutrina que é a que tem um caracter
-scientifico. Quando o mundo christão entra em relações<span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span>
-com o mundo arabe então illuminado por uma
-forte civilisação, quando trava conhecimento com os
-seus grandes geographos, Edrisi, Abulféda, Masoudi,
-o que encontra? Encontra a influencia de Ptolomeu
-alli tambem predominante como em geral a influencia
-grega, o <i>Almagesto</i> considerado como uma obra
-divina, e portanto egualmente triumphante a doutrina
-da antichtona e da zona torrida inhabitavel.</p>
-
-<p>Ha alguns espiritos que se revoltam contra essa
-idéa? Ha de certo, mas esses são só os espiritos independentes
-como Alberto Magno, como Rogerio Bacon,
-como Pedro d’Abano, esses simplesmente não
-acceitam o que não está demonstrado, mas não vão
-contra factos incontestados. Assim Alberto Magno
-não acceita sem demonstração a idéa de que o
-sol percorra especialmente a zona torrida e a prive
-de toda a vegetação e de toda a manifestação de
-vida, mas, não contestando que não ha relações entre
-a terra que habitamos e a terra desconhecida,
-attribue esse facto em primeiro logar á immensidade
-dos mares, em segundo logar á existencia na antichthona
-de montanhas magneticas que prendem
-os habitantes e que os não deixam transpôr os incommensuraveis
-espaços que os separam da terra
-que habitamos<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span></p>
-
-<p>Rogerio Bacon sustenta opinião approximadamente
-identica<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a>. Pedro d’Abano refugia-se na vaga
-observação de que o meio deve ser mais perfeito do
-que as extremidades<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a>, e uns e outros sustentam que
-a zona torrida é toda occupada pelo mar, que o Occeano
-não rodeia simplesmente a terra, que se interna
-no seio d’ella formando os quatro grandes
-golphos do Mediterraneo, do Mar das Indias, do
-Mar Roxo e do Caspio, porque este mar interior foi
-por muito tempo e por muitos geographos considerado
-como um mar que communicava ou com o Baltico,
-ou com o Occeano.</p>
-
-<p>Para todos então a approximação da zona torrida
-era assignalada pela existencia de monstros, em que
-se desentranha com uma espantosa exuberancia a
-fertil imaginação dos povos infantis. A teratologia
-das antigas religiões transportava-se e desenvolvia-se
-de um modo prodigioso nas descripções dos mais
-serios geographos. Nas regiões que confinavam com
-as que eram defezas aos homens brotavam as plantas
-maravilhosas, a especie humana torcida e desfigurada
-desatava-se em fórmas phenomenaes, e ao
-lado d’ellas percorriam animaes monstruosos, como
-os que reconstitue para as epochas primitivas a paleontologia
-moderna, essas regiões devastadas. Para<span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span>
-o norte no Caucaso e na Scythia collocava Raban
-Mauro os gigantes, os gryphos e os dragões que zelosamente
-guardavam o oiro e as pedras preciosas<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a>.
-Para o sul, segundo o pensar de Vicente de Beauvais,
-um dos grandes geographos da edade média,
-havia dragões logo para deante de Marrocos<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a>. João
-de Hase collocou na India os pygmeus que apenas
-viviam 12 annos, e rochedos magneticos que attrahiam
-os navios para o fundo do mar<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a>. As obras de
-Plinio eram fonte inexgotavel de extraordinarias divagações.
-Cynocephalos e acephalos, cyclopes e arimaspes,
-antipodas que não tinham dedos, hippopodas
-que tinham pés de cavallo, e juntamente com
-elles os gryphos pullulavam n’essas regiões mysteriosas,
-como aviso supremo que a Providencia dava
-aos que pretendiam penetrar nas regiões em que o
-sol impera e que o sol devasta.</p>
-
-<p>No famoso mappa da cathedral de Hereford encontra-se
-uma das collecções mais completas d’essa
-estranha producção zoologica e anthropologica da
-sciencia d’esse tempo. E note-se que essa sciencia
-não a produzia a edade média, colhera-a nos livros
-da erudita antiguidade. Era lá que ella encontrava
-os troglodytas que comiam serpentes, eram Mela e
-Plinio e Vopisco que apresentavam os Blemmyos que<span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span>
-tinham os olhos no peito e os Presumbanos sem orelhas.
-Se seguimos as indicações d’esse famoso mappa-mundi
-lá encontramos ao norte os gryphos que
-teem azas de aguia e corpo de leão e que defendem
-contra os Arimaspes as minas das verdes esmeraldas,
-os Hyperboreos, povo que conhece a eterna felicidade
-e que só morre quando, cançando-se de viver,
-se lança ao mar do alto de um rochedo, e os
-Scythas de olhos verdes que vêem melhor de noite
-que de dia, e os minotauros que teem corpo de homem,
-cabeça, cauda e pés de toiro, e os tigres da
-Hyrcania a que os homens escapam se, quando fogem
-deante d’elles, se lembram de lhes atirar um
-espelho, e na India então a monstruosa mantichora
-que tem corpo de leão, rosto de homem, cauda de
-escorpião, tres ordens de dentes, olhos glaucos, côr
-de um vermelho sanguineo, os pelicanos que abrem
-o seio para sustentar os filhos, e povos sem nariz, e
-outros sem lingua, e os Monoculos que teem um
-olho só, uma perna só e um pé tamanho que, depois
-de terem andado largo caminho, apesar dos
-seus poucos meios de locomoção, com uma rapidez
-prodigiosa, ao descançarem levantam o pé e adormecem
-á sua sombra.</p>
-
-<p>Na Phrygia apparece o <i>bomaco</i>, um estranho animal,
-que tem crinas de cavallo e cabeça de toiro, e
-que se defende, quando foge, com os proprios excrementos
-que queimam tudo em que tocam, na Arabia<span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span>
-a phenix animal unico que vive quinhentos annos,
-na Bythinia o lynce que vê atravez dos muros
-e urina uma pedra negra, e até na Palestina tem o
-rio Jordão, junto do Asphaltite, a designação de que
-nas suas aguas sobre-nada o ferro e mergulham as
-pennas.</p>
-
-<p>Na Africa então ha uma verdadeira orgia zoologica,
-botanica e anthropologica. Alli vive a salamandra,
-um dragão venenoso que se deleita nas chammas,
-alli floresce a <i>mandragora</i>, essa planta de face
-humana que tem miraculosas virtudes, alli corre o
-<i>éalo</i>, que tem corpo de cavallo, cauda de elephante
-e queixos de cabra, cujo pello é negro e cujos chavelhos
-moveis teem uma braça de comprimento. Alli
-se succedem emfim os <i>Ambaros</i> que não teem orelhas
-e cuja planta dos pés é queimada, os Scinopodas
-que teem as mesmas particularidades que os Monoculos,
-os Androgynos que reunem n’um só individuo
-os dois sexos, os Himantopodas que arrastam as pernas
-de fórma que mais rastejam do que andam, os
-Blemmyos de que já fallámos, os Psyllos que experimentam
-o pudor das suas mulheres expondo os filhos
-ás serpentes, os <i>Parvini</i> que teem quatro olhos,
-os Agriophagos que se sustentam da carne das pantheras
-e dos leões e cujo rei tem só um olho, e os
-Virgogicos que habitam em cavernas e comem insectos,
-e os satyros, e os faunos que são meio homens
-e meio cavallos, e outros povos que teem o<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span>
-rosto comprimido e se sustentam por meio de um canudo,
-outros que teem nos hombros os olhos e a
-bocca e outros que dão sombra ao rosto estendendo
-um dos labios, tão proeminente elle é, e entre animaes
-além dos dragões e dos gryphos o famoso basilisco,
-animal monstruoso que tem na fronte uma
-faxa branca que imita um diadema, e que empesta
-o ar que respira, mata as plantas de que se approxima,
-devasta o paiz que percorre, e a esphinge que
-tem azas de passaro, cauda de serpente e cabeça de
-mulher, e o monocerio, que, apesar de ser perigosissimo,
-quando d’elle se approxima uma donzella
-que lhe mostra o seio, toda a sua furia se aplaca,
-e sobre esse seio adormece, e as formigas enormes
-que guardam as areias de oiro. Alli tambem se encontram
-montes em fogo cheios de serpentes, montes
-silenciosos de dia, mas onde, á noite, accorda, á
-luz de estranhas claridades, o som dos pandeiros
-dos Egipans, e fontes que punem com a cegueira os
-ladrões, e o poço maravilhoso, que se conserva todo
-o anno immerso na sombra, mas que em certo dia,
-quando o sol chega ao zenith, e os seus raios se
-projectam verticalmente sobre a sua superficie, se
-enche de subito de immensa claridade, e cidades
-como a de Adaber onde os dragões pullulam.</p>
-
-<p>Mas tudo isto são contos de velhas, patranhas de
-viajantes? Não! isto tem, pelo menos em grande
-parte, um caracter scientifico. A antiguidade o transmittira<span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span>
-e o que se não encontrava em Strabão, ou Ptolomeu
-ou em Aristoteles encontrava-se em Plinio, ou
-em Solino, ou em Pomponio Mela. Durante os descobrimentos
-estas noções acompanhavam os nossos viajantes,
-que, ao passo que destruiam umas, ainda iam
-acalentando as outras. O mytho das amazonas, que,
-durante a antiguidade, fluctuára entre a Scythia e os
-arredores do Egypto, chegou a transplantar-se para a
-America, e estava na mente do explorador que deu o
-nome de Amazonas ao gigante fluvial da America do
-Sul. As singularidades da phenix e do lynce eram perfeitamente
-admittidas como authenticas, e a dedicação
-materna attribuida ao pelicano, e que é tão contraria
-á verdade, que esse passaro, longe de se dedicar
-pelos filhos, nem sequer os defende como fazem os
-outros animaes, até ha bem pouco tempo passou por
-certa. As monstruosidades humanas não espantavam
-pessoa alguma, e bem o podemos perceber se nos
-lembrarmos que não estranhariamos monstruosidades
-semelhantes se nol-as contassem, com certa auctoridade
-scientifica, dos habitantes da lua. Sabendo
-como os organismos animaes se adaptam aos meios
-em que teem de viver, não nos custa a admittir que
-os habitantes da lua, se não teem ar respiravel, não
-tenham tambem os orgãos respiratorios, que lhes faltem
-a bocca e o nariz, e que engulam o alimento, se
-de alimento precisam, por outra fórma qualquer.
-Desde o momento que se admittia o rigor inflexivel<span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span>
-do sol nas regiões tropicaes, como se não admittiria
-a existencia dos Himantopodas e dos outros povos
-em cujo organismo a providente natureza desenvolvera
-sobretudo os orgãos que tivessem por fim preserval-os
-do sol?</p>
-
-<p>Assim as affirmações positivas e serias da sciencia
-eram todas contrarias á navegação para a zona
-torrida. Tão estranho pareceria a todos tentar-se
-uma viagem n’essa direcção, como hoje nos pareceria
-a nós tentar uma viagem em direcção á lua. Azurara,
-se escrevesse a sua <i>Chronica da Guiné</i> antes
-dos descobrimentos portuguezes serem conhecidos
-lá fóra, passaria por auctor de um outro <i>Amadis de
-Gaula</i>, e ninguem estranharia que a patria de Lobeira
-produzisse outro escriptor não menos phantasioso,
-ainda que d’esta vez o conto excedia demasiadamente
-todos os limites da verosimilhança. Mesmo n’essa
-epocha de credulidade o livro de Azurara faria sorrir
-os leitores, se a realidade dos factos não fosse
-já conhecida de todos, como hoje nos fazem sorrir
-os romances de Julio Verne.</p>
-
-<p>Mas não apparece agora a todos evidente e claro
-o absurdo de se suppor que por alguem fomos precedidos
-nos descobrimentos africanos? Seria necessario
-suppor, para que os normandos tivessem ido á
-zona torrida, e creado estabelecimentos na costa e
-desamparado depois essa navegação sem que ninguem
-tivesse ligado a essas expedições a minima<span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span>
-importancia, seria necessario suppor que as questões
-geographicas encontravam no mundo medieval
-a mais completa indifferença, que ninguem sabia se
-havia zona torrida ou não, e que viagens d’essas
-não levantavam a minima curiosidade. Não; a edade
-média preoccupava-se avidamente com as questões
-de geographia, principalmente depois das cruzadas,
-e sobretudo depois d’essa grande Renascença do
-seculo <span class="allsmcap">XIII</span>, que foi a aurora do grande esplendor
-do seculo <span class="allsmcap">XVI</span>.</p>
-
-<p>Cosmas Indicopleustas, Jornandés, Gregorio de
-Tours, Marciano Capella, Vibio Sequester, St.° Avito,
-e Prisciano e Cassiodoro e Proclo e Macrobio e Paulo
-Orosio nos seculos <span class="allsmcap">V</span> e <span class="allsmcap">VI</span>; St.° Isidoro de Sevilha,
-Philopomus, Bedo o Veneravel, S. Virgilio no seculo
-<span class="allsmcap">VIII</span>, Anonymo de Ravenna, Dicuil, Raban Mauro,
-Alfredo o Grande no seculo <span class="allsmcap">IX</span>, Alfrico, Adelbod,
-o monge Richer, Moysés de Chorène no seculo
-<span class="allsmcap">X</span>, Herman Contractus, e Azaph o Hebreu no seculo
-<span class="allsmcap">XI</span>, Honoré d’Autun, Othão de Frisa, Hugo de Saint-Victor,
-Jacques de Vitry, Hugo Metello, Guilherme
-de Jumiège, Herrade de Landsberg, e Bernardo
-Sylvestris no seculo <span class="allsmcap">XII</span>, Sacro Bosco, Vicente de
-Beauvais, Alberto o Magno, Rogerio Bacon, Roberto
-de Lincoln, Pedro d’Abano, e Dante, Cecco d’Ascoli,
-Roberto de S. Marianno d’Auxerre, Gervais
-de Tilbury, Pedro des Vignes, Brunetto Latini, Joinville,
-Omons, Alain de Lille, Guy de Basoches, Engelberto<span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span>
-e Nicephoro Blemmyde no seculo <span class="allsmcap">XIII</span>, Marino
-Sanuto, Nicolau d’Oresme, Ranulfo Hydgen,
-Faccio degli Uberti, João de Mandeville, Boccacio,
-Petrarcha, Bartholomeus Anglicus, Gervais, Ricobaldi
-de Ferrara no seculo <span class="allsmcap">XIV</span>, Pierre d’Ailly, Guilhermo
-Fillastre, Leonardo Dati, João de Hése no
-seculo <span class="allsmcap">XV</span>, e quantos outros mais ainda sustentaram
-e ensinaram as doutrinas cosmographicas que
-temos exposto! Uns mantinham a doutrina de Ptolomeu
-de que só a zona torrida era inhabitavel, outros
-a de que era inhabitavel toda a parte meridional da
-terra, outros e esses ainda assim rarissimos como
-Alberto Magno e Roger Bacon, se não acceitavam sem
-contestação nem como verdade absoluta a affirmação
-de que era inhabitavel a zona torrida, sustentavam
-que nem por isso deixava de ser impossivel
-a transposição dos seus limites, porque o mar immenso
-a cobria toda, e porque nas terras antichtonas
-havia as terriveis montanhas magneticas cujo
-pensamento paralysava os viajantes. Os mappas, que
-acompanhavam as copias dos manuscriptos antigos,
-como de Sallustio, do Apocalypse, de Pomponio Méla,
-de Ptolomeu, e os poemas geographicos, e as <i>Imago
-mundi</i> e as <i>Thesaurus</i>, e os que se elaboravam nos
-conventos mais eruditos, todos reproduziam estas affirmações,
-esta fórma estranha da terra, e inflammavam
-com a tinta vermelha os mares da zona torrida
-e inscreviam nas regiões mais proximas, que na Africa<span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span>
-principiavam logo ao sul de Marrocos, as indicações
-dos estranhos povos que as habitavam. E, quando
-tão arraigada se achava esta convicção no animo
-de todos, quando no seculo <span class="allsmcap">XIV</span> se discutiam com
-ardor as doutrinas capitaes que expozemos ácerca
-da zona torrida, a ponto de Pedro d’Abano escrever,
-com o titulo de <i>Conciliator</i>, um livro destinado,
-como indica o seu titulo, a conciliar essas doutrinas,
-quando as viagens de Marco Polo excitavam
-immensa curiosidade e muita incredulidade tambem,
-tão estranhas coisas contava—apesar de nenhuma
-d’ellas destruir afinal de contas os pontos capitaes
-da sciencia do seu tempo—era possivel imaginar-se
-que navegadores quaesquer fizessem viagens, que
-destruissem completamente as noções essenciaes da
-geographia essencialmente admittida, viagens em
-que penetrassem na zona torrida não só sem perigo,
-mas tambem sem encontrar nas regiões circumjacentes
-nem povos monstruosos, nem animaes estranhos,
-nem maravilhosas plantas, e que nem esse facto surprehendesse
-capitães e marinheiros, nem excitasse
-a curiosidade dos reis, nem dos sabios monges, nem
-dos que escreviam os poemas geographicos, nem dos
-que compunham as encyclopedias, nem dos que desenhavam
-os mappas, nem dos aventureiros dos outros
-paizes, como succedeu com as viagens dos Portuguezes,
-que deram logo brado em toda a Europa,
-como não podia deixar de succeder quando se désse<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span>
-um passo tão gigante no conhecimento do mundo,
-quando a prôa dos nossos navios, como o teria feito
-a prôa dos navios normandos, se as suas viagens
-fossem verdadeiras, fazia cair por terra todo um systema
-geographico, sustentado desde a mais remota
-antiguidade pelos respeitados eruditos?</p>
-
-<p>Diz Laplace que o merito de uma descoberta pertence
-não a quem a faz, mas a quem a demonstra.
-Aqui dava-se o caso mais notavel ainda, de bastar
-para a demonstrar fazel-a. Como o philosopho antigo
-que respondia aos que negavam o movimento
-andando, os Portuguezes responderam aos que sustentavam
-a impossibilidade de transpor a zona torrida
-transpondo-a. Essa demonstração tel-a-hiam
-feito os Normandos, se antes de nós lá tivessem ido,
-ou os Genovezes ou os Catalães. A gloria tel-a-hiam
-elles, mas gloria immediata, porque o facto era de
-tal ordem que não era necessario que decorressem
-seculos para se lhe reconhecer a importancia.</p>
-
-<p>No capitulo immediato veremos como a fé e a
-lenda, ainda mais do que a sciencia, fechavam a
-zona torrida e os mares, que, no dizer de alguns, a
-enchiam, á investigação do homem. Essas lendas,
-como as da sciencia, iam sendo rasgadas a pouco e
-pouco, mas pendiam, assim esfarrapadas, dos hombros
-dos navegadores. Lembram aquelles nevoeiros
-de Cintra, que envolvem o valle e a montanha, tendo
-por cima o céo azul. Á medida que os transpomos,<span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span>
-vão-se rasgando por baixo de nós, surge uma aldeia,
-irrompe um arvoredo, um grupo de rochas, mas em
-muitos pende ainda dilacerado o manto do nevoeiro.
-Assim veremos os navios portuguezes e hespanhoes
-caminhar envoltos em nevoas, até que a sua audacia
-tudo rompeu, e o mundo appareceu emfim na sua
-completa e radiosa realidade.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="IV">IV<br />
-<span class="smaller">A religião e a lenda</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>Se eram estas as idéas scientificas predominantes
-no principio do seculo <span class="allsmcap">XV</span>, é importante saber-se se
-a religião as acceitava. Era tão poderoso o dogma
-nos espiritos medievaes que a condemnação de uns
-certos principios pela auctoridade ecclesiastica bastava
-para que a grande maioria os suppozesse completamente
-falsos. Espiritos independentes como os
-tem havido sempre protestavam contra a condemnação
-da sciencia pela fé; mas protestavam timidamente,
-e nós veremos que nos pontos mais capitaes a fé estava
-completamente de accordo com a sciencia, de fórma
-que uma e outra fechavam deante das tentativas dos
-navegadores o mar mysterioso, que a audacia portugueza
-conseguiu devassar. O principio assente era<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span>
-a impossibilidade de se franquear a zona torrida,
-mas poucos homens de sciencia punham em duvida
-que para além da zona torrida existisse outra zona
-temperada semelhante á do norte, e onde fosse possivel
-a vida da raça humana. Contra este ponto é
-que o dogma protestava.</p>
-
-<p>Era inultrapassavel a zona torrida, não a tinham
-podido franquear os discipulos de Christo, portanto
-a palavra divina de redempção promettida a todos
-os que tivessem fé não podia chegar a esses povos que
-Deus esquecera, o que era completamente absurdo.<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a>
-Se a humanidade toda descendia de Adão, como é
-que viera ao mundo essa raça humana? Tivera outro
-Adão como alguns sustentaram que tinha outro
-sol e outras estrellas?<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a> Tudo isso era incompativel<span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span>
-com a verdade suprema expressa na Biblia. E demais,
-se Deus dividira a terra depois do diluvio entre
-os tres filhos de Noé, se déra a Sem a Asia, a
-Japhet a Europa, e a Cham a Africa, qual fôra o
-desconhecido filho de Noé que recebera da Providencia
-a terra antichthona?<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a></p>
-
-<p>Encontrára-se em parte uma solução para essa
-dificuldade. Reconhecia-se a existencia da terra antichthona,
-mas suppunha-se que fôra a habitação da
-raça humana antes do diluvio. Alli ficava o Paraizo,
-e alli vagueando em torno da deliciosa habitação
-para sempre defeza vivera a humanidade criminosa
-os seus primeiros annos. Na arca de Noé salvara-se
-uma fraca reliquia d’essa gente condemnada. A arca
-boiara sobre as aguas e viera poisar emfim no monte<span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span>
-Ararat. Nunca mais o homem tornaria a ver a sua
-antiga patria<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a>.</p>
-
-<p>Assim Cosmas suppunha um mar immenso coberto
-de trevas, porque o sol só illuminava a terra,
-e formando quatro golphos, o Mediterraneo, o mar
-Vermelho, o golpho Persico e o mar Caspio; para
-além d’esse immenso mar a terra antichthona, e n’ella
-o Paraizo<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a>.</p>
-
-<p>Outros, porém, não se podiam resignar a estar
-para sempre separados do Paraizo, e collocavam-n’o
-no extremo Oriente, no sitio onde, ao que diziam,
-principia o mundo. Esses baseavam-se na phrase do
-Genesis, que diz que «Deus plantou no Oriente um
-jardim delicioso». Para além da India, dizia Santo
-Avito, fica o Paraizo, cercado por barreiras que o
-homem não pode transpôr. É a theoria adoptada por
-S. Basilio, Psellus, Philostorgo, Isidoro de Sevilha,
-Bedo o Veneravel, geographo de Ravenna, Raban
-Mauro, Hugo de Saint-Victor, Jacques de Vitry, Honoré
-d’Autun, Gervais, Vicente de Beauvais, Joinville,
-Jourdain de Sévérac, Omons, que ainda suppunha
-que lá estava o anjo da espada chammejante,
-Ranulpho Hydgen, Dati, Bartholomeu Anglicus, Brunetto
-Latini, Dante, etc. Uns suppunham-n’o erguido<span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span>
-n’uma alta montanha, outros n’uma ilha. E em torno
-d’esta idéa dogmatica ferviam as lendas.</p>
-
-<p>Do Paraizo, dizia-se, saíam quatro grandes rios:
-o Nilo, o Ganges, o Tigre e o Euphrates. Era necessario,
-porém, explicar-se como é que estes rios appareciam
-tão longe da sua celeste origem, e sobretudo
-como é que o Nilo apparecia na Africa, tendo nascido
-na Asia. A explicação era a da corrente subterranea,
-e submarina tambem com relação ao Nilo,
-quando a supposição de um mar mediterraneo, que
-trazia comsigo a união da Asia com a Africa, não
-tornava dispensavel esta conjectura<a id="FNanchor_41" href="#Footnote_41" class="fnanchor">[41]</a>.</p>
-
-<p>Esta opinião religiosa perdurou largo tempo no
-espirito dos homens ainda depois das grandes descobertas.<span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span>
-Colombo, cuja alma enthusiastica se deixava
-invadir facilmente pelas seducções do mysticismo,
-e que tinha a fé ardente que foi um dos principaes
-elementos do seu triumpho, nutria a secreta
-esperança de chegar a esse Paraizo cubiçado, como
-contava encontrar n’esse Cathay maravilhoso os capitaes
-indispensaveis para a reconquista do sepulchro
-de Christo. Era logica a sua esperança. Se
-elle, partindo do Occidente, esperava chegar ao extremo
-Oriente, se no extremo Oriente estava o jardim
-de delicias em que Deus collocara os nossos
-primeiros paes, como podia duvidar de que o encontraria?
-Quando na sua terceira viagem chegou
-á bocca do Orenoque imaginou ter finalmente chegado
-ao Paraizo terrestre, não pela formosura das
-paizagens e pela abundancia da vegetação, mas porque,
-vendo a torrente das aguas do grande rio, suppoz
-que era um dos que borbulhavam da elevada
-montanha do Paraizo terrestre<a id="FNanchor_42" href="#Footnote_42" class="fnanchor">[42]</a>. Christovão Colombo<span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span>
-não admittia absolutamente a esphericidade da terra.
-Como varios outros geographos da edade média, que
-lhe tinham dado uns a fórma ovoide, outros a fórma
-de um cone ou de um pião<a id="FNanchor_43" href="#Footnote_43" class="fnanchor">[43]</a>, Christovão Colombo
-suppunha que ella teria a fórma de uma pera, e que
-junto do pé é que estava exactamente o Paraizo<a id="FNanchor_44" href="#Footnote_44" class="fnanchor">[44]</a>.</p>
-
-<p>Tambem a esphericidade da terra era absolutamente
-contradictada pelos Santos Padres, que lhe
-davam a fórma de um quadrado ou de um parallelogrammo,
-fórma emfim que se assemelhasse á do
-Tabernaculo de Moysés. Desdenhando a idéa scientifica
-oriunda dos Gregos, e sustentada pelos Arabes,
-vindo talvez para uns e para outros dos orientaes, de
-que o centro do mundo era Aryn, d’onde se principiavam
-a contar as latitudes e longitudes, que ficava
-exactamente a 90° de cada um dos pontos cardeaes,<span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span>
-ponto geographico que foi muitas vezes representado
-pelos cartographos como uma cidade maravilhosa,
-com um castello, em que habitava um mysterioso
-soberano, os Padres da Egreja reclamavam para
-Jerusalem a honra de ser ella o centro da terra, ou
-pelo menos o centro da terra habitada, quando se
-imaginava que o resto do mundo estava coberto pelas
-aguas desde o diluvio.</p>
-
-<p>Finalmente para apresentarmos no seu conjuncto
-as idéas geographicas affirmadas dogmaticamente
-pela religião, fallaremos ainda, posto que não interesse
-a questão dos descobrimentos maritimos, na
-existencia para o norte das terras de Gog e de Magog.
-Eram os paizes ao norte da Asia, n’essa região
-desconhecida em que tambem pullulavam as fabulas,
-porque era a que se approximava das zonas glaciaes
-inhabitaveis. Ahi, dizia-se, habitavam os filhos
-de Caim<a id="FNanchor_45" href="#Footnote_45" class="fnanchor">[45]</a>, povos que tinham escapado, ao que parece,
-do diluvio, não por traz da barreira insuperavel
-da zona torrida, mas encostando-se ás gelidas
-barreiras dos polos. Irrompiam ás vezes em incursões
-ferozes, até que Alexandre o Magno, na sua
-grande expedição, que ficou legendaria, levantou a
-grande muralha que poz termo ás suas<span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span>
-arremettidas<a id="FNanchor_46" href="#Footnote_46" class="fnanchor">[46]</a>. Disse-se depois que aquellas dez tribus de Israel,
-que não voltaram do captiveiro da Babylonia,
-n’essa região mysteriosa ficaram internadas, como
-depois se disse, quando se descobriu a America e
-alli se encontrou uma raça de homens desconhecida,
-que eram ainda as dez tribus de Israel que se tinham
-perdido n’essas regiões que o Atlantico por
-tanto tempo escondera detraz da cortina das suas
-vagas<a id="FNanchor_47" href="#Footnote_47" class="fnanchor">[47]</a>.</p>
-
-<p>Assim a fé religiosa, se contradictou n’alguns pontos
-importantissimos as affirmações scientificas, cerrou
-ainda mais as portas do <i>mare clausum</i>. O homem
-não podia chegar á zona torrida, era esse o
-ponto capital, que a um tempo sustentavam os homens
-da sciencia e os homens da orthodoxia. Assim
-que d’ella se approximavam o mar começava a escandecer-se,
-a terra inflammava-se, montes ardentes
-reflectiam as suas chammas nas aguas, e monstros
-extranhos que o calor fazia brotar, plantas<span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span>
-extraordinarias que só podiam florescer n’essa monstruosa
-estufa, começavam a apparecer n’essas terras
-extranhas. Assim, para o norte, apenas se chegava
-ás regiões onde soprava um vento glacial, outros
-monstros appareciam, e os povos ferocissimos
-de Gog e Magog só esperavam que um audacioso
-rompesse a muralha de Alexandre que os refreiava
-para cairem de novo sobre o mundo, entregue assim
-nas garras de Satanaz.</p>
-
-<p>No centro da terra habitada, que tinha a fórma
-quadrilateral, erguia-se Jerusalem; no extremo
-Oriente erguia-se o Paraizo defezo aos homens, e
-d’onde saíam os grandes rios do Oriente, trazendo
-ainda nas suas aguas o nateiro fecundante que ia
-dar como que uns reflexos da vegetação paradisiaca
-ás terras que atravessava.</p>
-
-<p>Em torno do dogma como em torno da sciencia
-nasciam então as lendas. Deante do dogma inclinavam-se
-todos, deante da sciencia inclinavam-se os
-illustrados, deante da lenda refugiam os ignorantes,
-e uns e outros paravam deante d’esse mar que tantos
-mysterios encerrava.</p>
-
-<p>Classificamos propriamente como legendarias as
-supposições que não tinham a minima base scientifica
-ou que não repousavam no dogma. Assim a
-<i>terra velada</i> de Theopompo não era senão a <i>terra
-incognita</i> de Ptolomeu; mas, suppondo o auctor grego
-que os homens que a habitavam eram de uma estatura<span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span>
-duas vezes maior que a dos do mundo conhecido,
-perdia-se completamente nas regiões da phantasia,
-porque não havia, como para a humanidade
-monstruosa das regiões tropicaes, as razões do clima.
-Percebe-se, por exemplo, que a necessidade continuada
-de se resguardarem contra os ardores de um
-sol terrivel fosse, atravez de gerações successivas,
-desenvolvendo cada vez mais os orgãos com que o
-homem se podia proteger, mas n’esse clima perfeitamente
-semelhante ao nosso nenhum motivo havia
-para que se suppozesse que duplicava a estatura
-humana. E comtudo essa lenda actuava fortemente
-no espirito dos navegadores, e assim se explica a
-formação da lenda dos Patagonios.</p>
-
-<p>Legendarias eram tambem as ilhas do Oiro e da
-Prata, que apparecem nos mappas da edade média
-e que vão fugindo para regiões mais distantes á medida
-que vae sendo conhecido o mundo oriental,
-como succedia tambem ás Hesperides, antigas ilhas
-de fabulosa riqueza, cujo pomar de pomos de oiro
-opulentos era guardado por um dragão, como tambem
-na edade média as montanhas que encerravam
-thesouros preciosissimos eram guardadas por gryphos
-e toda a especie de fabulosos animaes. É sempre
-em ilhas situadas nos mares desconhecidos que
-se colloca ou a região das riquezas ou a região
-da bemaventurança. As ilhas Afortunadas ou as
-ilhas das Hesperides eram para os antigos a patria<span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span>
-de todos os sonhos da felicidade suprema. Era nas
-regiões do Norte, onde parecia que devia reinar
-comtudo a eterna desolação, que elles collocavam
-tambem a ideal ventura, phantasiando esse povo
-dos Hyperboreos eternamente feliz. Passou para a
-edade média essa tradição, e nos mappas medievaes
-se vêem para além do mundo conhecido as ilhas onde
-habitam os Hyperboreos. Nos mares orientaes collocavam-se,
-como dissemos, as ilhas do Oiro e da
-Prata, as ilhas dos Homens e das Mulheres, que eram
-o producto de uma tradição arabe, a ilha do Sol de
-Pomponio Mela, que não fazia senão dar uma nova
-fórma ás preoccupações da zona torrida. Quem abordasse
-á ilha do Sol era immediatamente suffocado
-pelo ar em braza que alli se respirava<a id="FNanchor_48" href="#Footnote_48" class="fnanchor">[48]</a>. Finalmente,
-nos mappas da edade média já mais proximos da
-epocha dos descobrimentos apparece semeado de innumeras
-ilhas o mar oriental: sete mil dizem as legendas
-de uns, quatorze mil as de outros. Esse pensamento
-foi suggerido pelo conhecimento das viagens
-de Marco Polo e pelas indicações que o viajante veneziano
-dá ácerca das Maldivas, que se suppozeram
-existentes no mar oriental. É bem provavel, e o que
-é certo é que o pensamento da existencia de innumeras<span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span>
-ilhas no oriente da India actuou nos sabios
-do seculo XV, e foi uma das esperanças de Christovão
-Colombo e um dos pontos de apoio de Toscanelli
-para a sua theoria da possibilidade da viagem que
-Colombo emprehendeu, porque, dizia elle, ainda que
-o continente asiatico estivesse mais longe do que se
-suppunha, sempre se encontrariam no caminho ilhas
-que servissem de porto de escala e de arribação<a id="FNanchor_49" href="#Footnote_49" class="fnanchor">[49]</a>.</p>
-
-<p>Ah! essas ilhas conjecturaes da edade média como
-serviram aos historiadores superficiaes para procurar
-attenuar a gloria dos Portuguezes e a gloria de Colombo!
-Brotavam das ondas mysteriosas como brota
-a espuma da vaga que se desfaz nos rochedos. Por
-aquelle Oceano tenebroso que se estendia para o
-Occidente, nas ondas do ignoto mar indico, por muito
-tempo considerado, e ainda no tempo dos primeiros
-descobrimentos portuguezes, como um mar mediterraneo,
-pelo mar ignorado do Norte semeava a imaginação
-dos cartographos quantas ilhas ideara a
-phantasia antiga, a phantasia dos <i>troubadours</i> ou dos
-<i>trouvéres</i> e a dos mysticos! Lá appareciam, como dissemos,
-as ilhas das fabulosas riquezas, a Chrysé, a
-Argyra, Ophir, que talvez bem se possa classificar<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span>
-entre ellas; as ilhas da tradição homerica, a de Calypso,
-a de Diomedes, a outra em que se vê ás horas
-do sol poente a sombra gigante e pensativa de
-Achilles, as ilhas da tradição celtica, essas ilhas que
-povoavam a imaginação d’estes marinheiros do occidente,
-que, erguidos ao pôr do sol nos rochedos da
-costa, sonhavam em cada miragem do Oceano uma
-ilha fabulosa, que, batidos pela tempestade, quando
-andavam á pesca, julgavam escutar no surdo rugido
-das vagas os lamentos das almas penadas nas ilhas
-milagrosas, e tudo se contava ao serão quando bramia
-o vento cá fóra e o mar quebrava com doloridas
-queixas ou com furioso estrepito nas fragas desnudadas.
-Tudo ia tambem enriquecer as lendas dos
-claustros para ornar com esses arrebiques de maravilhoso
-a existencia piedosa de um santo missionario.
-Foi assim que S. Brandão teve a sua ilha, onde
-cantavam as aves do Paraizo, e onde se respirava
-tão celeste e perduravel perfume que n’elle ficaram
-para sempre impregnadas as vestes do santo viajante.
-Era na Irlanda sobretudo que essas lendas brotavam,
-era ahi que se formavam ao lado da legenda de
-S. Brandão as de S. Patricio, e de tantos outros navegadores
-celticos que iam atravez dos mares da
-phantasia procurar ignotas ilhas.</p>
-
-<p>Já Brekan, o filho do rei Niel, desapparecera nas
-ondas do mar com cincoenta navios, e só o cadaver
-do seu cão reapparecerá na praia, já tres filhos de<span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span>
-Corra tinham com os seus quatorze companheiros,
-entre os quaes iam um bispo e um bardo, abordado
-ás ilhas das Almas, encontrando depois de quarenta
-dias e quarenta noites a ilha do eterno choro, e a
-ilha em que fundidores infieis forjavam e fundiam
-com as carnes rasgadas pelas aguias negras, e outra
-em que um moleiro moía eternamente farelo por
-ter roubado os seus freguezes, e outra em que um
-alquilador, que roubara o cavallo a seu irmão, passava
-por deante dos olhos assombrados dos viajantes
-no galope infernal de um cavallo de fogo.</p>
-
-<p>Outros, os famosos navegadores de Iona, tinham
-chegado á ilha dos Passaros, onde volteiam aves de
-aureas e de purpureas pennas, regidas por um rei
-de cabeça de oiro e de azas de prata, que entoam
-cantos de uma celestial melodia, e a outra onde choram
-com saudades da patria as doces Irlandezas
-exiladas mysteriosamente do mundo dos vivos.</p>
-
-<p>Depois ainda é o bardo Myrdhinn que vae com
-mais nove bardos procurar a ilha Verde, que nunca
-foi submergida pelas vagas, a ilha dos pomos de
-oiro, onde no meio de uma aurora perpetua dança
-um côro eterno de bellos rapazes e de formosas raparigas.</p>
-
-<p>Tudo se condensa, emfim, na lenda de S. Brandão.
-Esse encontrara a ilha onde os anjos que
-acompanharam Lucifer, mas não foram inteiramente
-seus cumplices, cantam os hymnos de esperança, e<span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span>
-o aspero rochedo batido pelas vagas, onde Judas é
-consumido pelo eterno remorso; e emfim a terra promettida
-aos eleitos, a terra dos bemaventurados.</p>
-
-<p>S. Patricio tambem percorre as solidões do Atlantico.
-Esse vae, segundo a lenda, quando a quaresma
-começa, para o seu <i>purgatorio</i>, n’uma ilha de que ninguem
-se pode approximar, onde ha uma caverna que
-os maus espiritos habitam, e onde se abrem duas estradas
-subterraneas, que vão ter uma ao Inferno, outra
-ao Paraizo. Esta ilha mysteriosa do <i>Purgatorio
-de S. Patricio</i>, como a ilha abençoada de <i>S. Brandão</i>,
-é um dos sonhos mais persistentes da edade
-média, e uma e outra lá apparecem nos mappas medievaes,
-nos sitios mais diversos, ás vezes applicando-se
-a ilhas verdadeiras, como acontece com o <i>Purgatorio
-de S. Patricio</i>, que alguns cartographos collocam
-na Islandia.</p>
-
-<p>A imaginação celtica é a mais fecunda n’esta creação
-de terras phantasticas, e não podia deixar de ser
-assim, não só porque os povos d’essa raça são essencialmente
-imaginativos e sonhadores, como tambem
-porque n’essa Irlanda, collocada na extremidade
-occidental da Europa, a tão pouca distancia da
-America, aonde tantas vezes deviam chegar, como
-chegavam aos nossos Açores e á nossa Madeira, plantas
-e cadaveres de homens de desconhecido aspecto,
-não podia deixar de pullular a cada instante na alma
-do povo o pensamento da existencia de ilhas mysteriosas<span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span>
-para esse lado, como muitas vezes tambem,
-quando um pescador mais audacioso se aventurava
-ao mar alto, quando o vento de leste lhe enfunava
-as velas, e o mar lhe parecia cantar no seu doce murmurio
-as suas maravilhosas lendas, elle seguiria caminho
-do Occidente, durante dias e dias, até que a
-fome o salteasse, ou até que o continuado panorama
-das vagas a seguirem-se ás vagas, sem fim, sem
-termo, fechando o horizonte, os desanimasse afinal<a id="FNanchor_50" href="#Footnote_50" class="fnanchor">[50]</a>.
-Mas tambem na peninsula hispanica lendas semelhantes
-se formavam e pelas mesmas causas. Tambem
-aqui em Portugal sobretudo e no Algarve principalmente
-os pescadores, ao largarem a costa, sentiriam
-a tentação de penetrar nos mysterios do Oceano,
-e aqui tambem á volta, em noites de luar nas esfolhadas,
-ou no inverno ao lado da chaminé, fallariam,
-como se as tivessem visto, em ilhas extranhas,
-na das Sete Cidades, por exemplo, onde se tinham
-refugiado, quando os Mouros vieram á peninsula, sete
-bispos christãos com o povo das suas dioceses, proscriptos
-agora e encantados como as meigas irlandezas
-exiladas dos navegadores de Iona. E todas estas
-ilhas phantasticas, Antilia e Sete Cidades, ilha de<span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span>
-S. Brandão e Purgatorio de S. Patricio, iam juntar-se
-ás ilhas conjecturaes dos sabios e ás ilhas tradicionaes
-da mythologia antiga para formarem esses
-archipelagos do sonho e da lenda que se desfizeram
-em fumo quando das aguas surgiram, envoltas no
-seu manto de verdura, ou na sua armadura de rochedos
-vulcanicos, palpitantes ainda com o fogo
-que lhes lavrava nas entranhas, ou carregadas com
-a immensa e luxuriante cabelleira das intactas florestas,
-as ilhas reaes e verdadeiras.</p>
-
-<p>Esse sonho das ilhas phantasticas podia não ser
-senão um estimulo para cavalleiros denodados que
-não temiam os encantamentos, logo que levavam
-comsigo as espadas bentas e a cruz do Salvador.
-Com o coração a bater-lhes um pouco, pallidos de
-supersticioso terror, mas incitados pelas tentações
-das sobre-naturaes aventuras, arrojar-se-hiam tanto
-os celtas da Irlanda como os celtas de Portugal aos
-mares mysteriosos em demanda das ilhas paradisiacas;
-outros encontraram tambem no caminho as
-ilhas infernaes, mas a lenda do mar Tenebroso essa
-é que deveras regelava o sangue nas veias do mais
-audacioso. Vinha dos antigos, e mais tambem dos
-Arabes. Como é que os poetas antigos, ao passo
-que devaneavam como Seneca no côro da <i>Medéa</i>, que
-para além do Oceano haveria terra incognita, suppunham
-que n’esses mares longinquos se perdêra a
-luz do sol e um manto espesso de trevas se desenrolava<span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span>
-sobre as vagas? Como é que o arabe Edrisi,
-que suppunha que estavam no Atlantico as ilhas
-da eterna felicidade, suppunha tambem que era o
-Atlantico o mar tenebroso, onde os navios esbarravam
-uns nos outros e se despedaçavam em ignorados
-rochedos? É porque suppunham que, depois
-do mar Tenebroso, vinha o mar luminoso da India,
-porque imaginavam exactamente que o mar da India
-communicava com o mar Tenebroso? Tambem
-a sciencia não dava fóros de authenticidade ao mar
-Tenebroso como os dava ás terras incendiadas e ao
-mar em fogo da zona torrida. Era um dos fundamentos
-essenciaes da lenda do immenso pélago o
-ligar-se ainda com as estranhas idéas astronomicas
-dos que suppunham que para além dos mares tinha
-o globo um cinto de montanhas, e que detraz d’essas
-montanhas é que o sol se escondia durante a
-noite, pertencia a essa classe de phantasias a que
-pertencem os montes Ripheus e outras visões da desvairada
-imaginação dos sonhadores da geographia.</p>
-
-<p>Mas ainda os Arabes trouxeram do Oriente um
-novo elemento legendario. O Oriente é a patria das
-estatuas encantadas, dos monstros de metal dotados
-de uma vida phantastica, e a esse mar, por tantas
-razões defezo, punham como sentinellas immoveis
-e terriveis as estatuas mysteriosas, como os
-leões de oiro que nos contos arabes defendem os
-palacios enfeitiçados. Mas ainda a tudo accrescia<span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span>
-uma tradição que se baseava na verdade, e que
-não era menos desanimadora para os que tentassem
-romper o mysterio. Era a do mar de Sargaço,
-que não era desconhecido dos antigos, esse mar que
-os marinheiros de Colombo encontraram já muito
-para o occidente, e em que se julgava que as plantas
-enredadas enleiavam por tal fórma os navios que
-lhes paralysavam completamente os movimentos.</p>
-
-<p>Essas idéas falsas, derivadas da sciencia mal comprehendida,
-e que povoavam os espiritos dos marinheiros
-d’essa epocha, são as mesmas que ainda hoje
-habitam no cerebro do povo ignorante, apesar da immensa
-propagação de dados scientificos verdadeiros,
-obtidos pela experiencia de todos os dias. No seu
-delicioso livro <i>Sull’Occeano</i>, o grande escriptor italiano
-Edmundo de Amicis conta-nos o que ouviu a
-bordo de um paquete que singrava para a America
-aos passageiros de terceira classe, emigrantes que
-iam trabalhar no Rio da Prata. Parece-nos estarmos
-a ouvir as palestras que se travariam entre os marinheiros
-do seculo <span class="allsmcap">XV</span> a bordo das suas esguias caravellas.
-Apesar dos factos demonstrarem o contrario,
-ainda suppunham que, ao atravessarem a zona
-torrida, teriam de atravessar um mar incendiado.
-Suppunham que veriam claramente a curvatura da
-terra e o navio descer por ella como um bichinho
-em volta da superficie de uma laranja. Todos esses
-terrores pueris dos passageiros que os marinheiros<span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span>
-hoje desdenham com um riso sarcastico, eram os que
-salteiavam o espirito dos seus antepassados nos seculos
-da edade média, eram esses terrores os que faziam
-recuar deante dos cabos africanos e deante das solidões
-do Atlantico os marinheiros que precederam Gil
-Eanes e que precederam Christovão Colombo, eram
-ainda os que acompanhavam os descobridores em
-cada nova exploração, porque só a pouco e pouco é
-que a luz se foi fazendo, só a pouco e pouco é que se
-foram desfazendo as idéas falsas da antiguidade substituidas
-pelos factos verdadeiros, e era necessario
-que fossem de uma rija tempera os marinheiros que
-recalcavam no fundo d’alma esses terrores, que fossem
-denodados espiritos os d’esses commandantes
-que assim partiam a arcar não só com os pavores
-da superstição, mas com as affirmações da sciencia
-e com as determinações da fé, e que fosse emfim
-um genio verdadeiramente transcendente o d’esse
-homem quasi divino, que teve a intuição sublime
-da verdade e a inspiração de um genio creador,
-que sonhou um mundo aberto inteiramente á luz, um
-mar sem trévas, a humanidade circulando sem peias
-em volta da terra seu dominio, e que logrou escrever
-na face das ondas com a quilha das suas caravelas
-essa epopéa maravilhosa que elle concebeu
-em Sagres e que foi a grande epopéa do Renascimento.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="V">V<br />
-<span class="smaller">O infante D. Henrique e o povo portuguez</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>Nenhum povo estava tão fadado como os Portuguezes
-para esse emprehendimento maravilhoso na
-epocha em que elle se encetou. As cruzadas tinham
-despertado nos povos europeus o espirito da aventura.
-Era para o Oriente que se voltava esse ardor de
-conquista, não só porque era a terra classica de todas
-as opulencias, mas porque a conquista do Oriente
-fôra o sonho da antiguidade grega e romana e o culto
-mal comprehendido, mas profundo, pela antiguidade
-foi um dos caracteres predominantes da edade
-média. Alexandre o Magno era para elles o ideal
-do cavalleiro andante, imaginavam-n’o como um
-soberano cavalheiresco, segundo a formula feudal,
-como Virgilio, o dôce poeta, era um feiticeiro de
-legenda; mas a adoração por esse grande vulto vivia<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span>
-em todos os espiritos. Foi para o Oriente pois
-que se dirigiram os primeiros viajantes, os Rubruquis,
-os Plan du Carpin, os Marco Polo, quando
-as expedições guerreiras tiveram de parar deante
-da resistencia victoriosa dos sarracenos. Mas esses
-viajantes já tinham feito penetrar um pouco de luz
-na geographia systematica do seu tempo, e a humanidade
-evidentemente, despertada para o estudo e
-para a sciencia pela primeira Renascença do seculo
-<span class="allsmcap">XIII</span>, ia procurar sondar o desconhecido que por todos
-os lados a envolvia.</p>
-
-<p>O segredo dos mares occidentaes devia preoccupar
-sobretudo os povos que no occidente da Europa
-viam desenrolar-se diante d’elles a incommensuravel
-extensão das vagas oceanicas. Os povos do Norte,
-que tinham chegado até á ultima Thule, a regelada
-Islandia, não deixaram de aventurar-se por esses
-mares ignotos, e é incontestavel que, assim como
-chegaram á Groenlandia, tocaram tambem no continente
-americano. Se perseverassem na descoberta,
-se fossem seguindo ao longo da costa da America,
-emquanto encontrassem terra nas suas aventurosas
-jornadas, teriam roubado incontestavelmente a Portugal
-e á Hespanha as suas mais viridentes glorias!
-Á Hespanha, porque antes de Colombo teriam dado
-á civilisação esse vastissimo continente, a Portugal,
-porque antes do infante D. Henrique teriam reconhecido
-a possibilidade de se transpôr a zona torrida;<span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span>
-mas não perseveraram, e assim legitimamente
-perderam a gloria que teriam podido conquistar.
-Que, afastando-se da Islandia, encontrassem uma
-nova terra ainda mais regelada e triste, que, proseguindo
-na sua viagem, chegassem a territorio mais
-risonho, não é coisa que nos espante, posto que demonstre
-mais uma vez a coragem d’esses audaciosos
-reis do mar. A gloria de Colombo não está em ter
-encontrado novas terras, está em não ter recuado
-deante dos dogmas da extensão quasi infinita dos
-mares, assim como a gloria dos Portuguezes não está
-em terem juntado novas terras ao peculio da civilisação,
-está em não terem recuado diante do dogma
-scientifico e religioso da impossibilidade de se viver
-na zona torrida e da existencia dos mil perigos e
-dos mil horrores que defendiam a sua approximação.</p>
-
-<p>Ninguem era, comtudo, mais proprio do que os
-Normandos para tentarem as aventuras maritimas;
-estavam porém demasiadamente ao norte, e, como
-ás suas aventuras presidia sempre, como ás dos
-Phenicios, não o amor da sciencia, mas o amor do
-lucro, ao chegarem ao cabo de S. Vicente, mais os
-tentava o caminho do Mediterraneo, onde havia tão
-seductoras prezas, do que o arriscado caminho do
-Mar Tenebroso. No seculo <span class="allsmcap">XIV</span> os Normandos de
-França sentiram-se attraídos para os mares do Sul,
-até porque lhes chegára a noticia de que os marinheiros<span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span>
-da peninsula hispanica para esse lado tinham
-encontrado as ilhas Afortunadas, mas a tentativa
-de Bethencourt não tivera nem poderia ter imitadores,
-porque não fôra extremamente prospero o seu
-resultado, porque as costas áridas do prolongamento
-de Marrocos, onde tinham encontrado a morte, essa
-Guiné, como lhe chamavam, Guiné que tinha por
-limite meridional o cabo Bojador, não promettia
-grandes proventos aos que lhe tentassem a exploração.
-A Inglaterra concentrava na conquista da
-França todas as suas attenções e todo o seu empenho
-e a França cuidava em defender-se e em completar
-a sua poderosa unidade. A Italia tinha duas
-potencias maritimas—Veneza e Genova—cujos navegantes
-davam lições aos outros povos, mas uns
-e outros tinham os olhos postos no Oriente, d’onde
-lhes vinha a riqueza, a gloria e o dominio. Genova
-é que lançava de quando em quando os olhos
-para o occidente, em Veneza appareciam ás vezes
-alguns espiritos que se deixavam tentar pelos mysterios
-do Oceano, mas as viagens audaciosas e
-pouco afortunadas dos irmãos Zeni venezianos e de
-Vivaldi e Doria genovezes, não podiam ser incitamento
-a que se proseguisse nas tentativas. Acontecia
-com as duas republicas maritimas o que depois
-aconteceu com Portugal quando regeitou a proposta
-de Colombo. Não se deixa o certo pelo duvidoso.
-Não se empenham vidas e thesouros em emprezas<span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span>
-incertas, semi-phantasticas, quando se tem nas
-mãos, como Veneza e Genova tinham, o vasto commercio
-do Oriente, quando se tem quasi a certeza
-de que se está no caminho da India, quando se
-possuia já o resgate valioso da Mina como acontecia
-com D. João II. Para esses emprehendimentos
-que são o sonho da politica, são necessarios não
-os espiritos positivos, mas as imaginações exaltadas.
-É indispensavel que haja n’um cerebro esse grão
-de loucura que faz os grandes poetas e os grandes
-descobridores, que inspira os poemas que se escrevem—os
-poemas da phantasia, e os poemas que se
-executam—os poemas da acção, um homem como
-o infante D. Henrique, que herdára de sua mãe,
-como todos os seus irmãos, esse elemento romanesco
-que toda a mulher do Norte encerra no fundo da
-sua alma, por baixo da sua apparencia séria, austera
-e pratica de dona de casa e de mãe de familia, para
-conceber e levar por deante, n’um jorro de santa
-loucura, o poema das navegações, ou uma mulher
-cavalheiresca, romanesca tambem, sensivel e enthusiastica
-como a rainha Izabel, para comprehender
-a alma de Colombo, para se irmanar com ella, e
-para collaborar tão apaixonadamente n’esse ultimo
-poema de cavallaria, n’essa ultima producção da
-alma celtica, n’esse ultimo romance do Santo Graal
-que se chamou Descoberta da America.</p>
-
-<p>Restavam os reinos da peninsula hispanica, mas<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span>
-todos esses, á excepção de Portugal, se achavam empenhados
-ainda nos ultimos arrancos da sua lucta
-contra os Mouros. No oriente da Hespanha, nas Baleares
-sobretudo, havia a tentação de sondar o mar
-desconhecido, mas diante do cabo Bojador ainda
-se recuava. Tel-o-hiam dobrado comtudo se tivessem
-perseverado no intento, mas era essa perseverança
-que não podia deixar de faltar a um povo que
-não tinha para isso outro estimulo que não fosse
-o da curiosidade, que mais se deixaria tentar pela
-Africa mediterranea do que pela Africa atlantica. O
-povo que estava deveras em circumstancias de tentar
-os grandes emprehendimentos era sobretudo Portugal.</p>
-
-<p>Acabava de atravessar um periodo em que todas
-as suas faculdades tinham sido vivamente excitadas,
-e em que empregára todas as suas forças e toda a
-sua actividade. Havia dois seculos que unificára o
-seu territorio e que expulsára os Arabes. Desde que
-o fizera, voltára naturalmente as suas attenções para
-o Oceano, e o grande rei, que mais cuidára da organisação
-pacifica do seu povo, D. Diniz, empenhara-se
-essencialmente em nos dar marinha, animando a
-mercante, protegendo a pescadora, desenvolvendo
-a de guerra, já providenciando para que se podessem
-fazer navios, já indo buscar a Genova, a grande
-nação marinheira do Mediterraneo, os navegadores
-que podiam dar aos nossos mareantes os conhecimentos<span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span>
-technicos que lhes faltavam. Como se tivesse
-a previsão de que ainda a Portugal caberia tentar a
-ultima empreza cavalheiresca da edade média, não
-se conformára com a suppressão dos Templarios, e
-fundára para os substituir a ordem de Christo, cujos
-cavalleiros tinham de vir a ser os Templarios do mar,
-cujo habito e cuja commenda foram a «estrella dos
-bravos», cujas phalanges intrepidas foram a Legião
-de Honra das nossas maritimas victorias.</p>
-
-<p>Logo as primeiras expedições atlanticas mostraram
-que rumo Portugal queria seguir, mas as discordias
-intestinas e as ambições dos reis adiaram o
-proseguimento das tentativas. Não se resignavam os
-nossos soberanos a manter o seu reino em tão estreitos
-limites, mas Castella engrandecera-se tanto
-que não nos era facil a dilatação. Foi o contrario que
-esteve para succeder, foi Castella que esteve a ponto
-de absorver Portugal; na lucta desegual empenharam-se
-então todas as nossas forças vivas; toda a
-energia da nossa organisação, toda a furia do nosso
-patriotismo local despertaram para essas pelejas homericas.
-O perigo imminente fez com que a patria
-se retemperasse na grande corrente democratica. A
-nacionalidade portugueza luctou com a poderosa Castella
-como Anteu com Hercules, cobrando novas forças
-sempre que tocava no solo portuguez. Em 1385
-como em 1640 foi o povo que salvou a bandeira.
-A gente dos concelhos, indo, <i>ventres ao sol</i>, na<span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span>
-energica phrase de Fernão Lopes, combater contra
-os cavalleiros vestidos de ferro, manifestava na peninsula
-hispanica uma nova força social, a mesma
-que dera aos <i>yeomen</i> inglezes a victoria sobre a cavallaria
-feudal da França, e aos montanhezes suissos
-a victoria sobre a cavallaria aristocratica de Carlos
-o Temerario. Nunca houve uma efflorescencia tão
-notavel de bravura e de talento, de genio aventuroso
-e de dedicação patriotica, nunca estiveram em
-tão continua vibração todos os nervos e todos os
-musculos de um organismo nacional. Quando acabou
-a lucta, depois de ter insculpido nos annaes gloriosos
-da patria os nomes de Trancoso e de Atoleiros,
-de Aljubarrota e de Valverde, de D. João <span class="allsmcap">I</span> e de
-Nuno Alvares Pereira, a geração que praticára esses
-feitos estava ainda vibrante de energia, o cerebro
-que concebera a reorganisação nacional estava
-scintillante de idéas. Foi então que Vasco de Lobeira
-devaneou o <i>Amadis de Gaula</i>, que Fernão Lopes fez
-trasbordar nas suas inimitaveis chronicas a exuberancia
-poetica da alma nacional, que os architectos
-e os canteiros fizeram desabrochar no campo da peleja
-a flor maravilhosa da Batalha, que o infante D.
-Henrique sonhou a epopéa dos descobrimentos.</p>
-
-<p>Quando uma nação acaba de se empenhar n’uma
-lucta aventurosa de muitos annos custa-lhe a voltar
-de novo ás occupações serenas da paz. Ha em todos
-os espiritos uma sede de aventuras, uma necessidade<span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span>
-absoluta de occupar a sua energia. É por isso que
-vemos, depois das grandes luctas do principio d’este
-seculo, os generaes francezes e os officiaes de marinha
-inglezes procurar em todo o mundo emprego
-para a sua actividade. Encontramos até no Oriente
-officiaes de Napoleão pondo a sua espada ao serviço
-de monarchas indianos, na Europa e na America
-officiaes de marinha inglezes a commandar as esquadras
-insurgentes nas luctas da independencia
-americana e da liberdade europêa. Assim no seculo
-<span class="allsmcap">XV</span> vamos achar cavalleiros portuguezes á cata de
-aventuras na Inglaterra e na França e até na mais
-remota Allemanha. Sem fallarmos em D. Alvaro Vaz
-de Almada, cujos serviços mereceram na Inglaterra
-a altissima recompensa da ordem da Jarreteira e do
-condado de Avranches, nem no infante D. Pedro, e
-em Soeiro da Costa, achamos nas guerras de França,
-no cêrco de Arras, por exemplo, cavalleiros portuguezes,
-cujo nome ficou desconhecido, entrando em
-combates singulares deante dos muros da praça assediada.<a id="FNanchor_51" href="#Footnote_51" class="fnanchor">[51]</a>
-É esta necessidade de dar vasão a esta superabundancia
-de energia que leva D. João <span class="allsmcap">I</span>, incitado<span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span>
-por seus filhos, á expedição de Ceuta, é um
-povo n’essas disposições que o infante D. Henrique
-vae encontrar apto para as audaciosas explorações
-do Atlantico.</p>
-
-<p>Note-se: hoje ainda, depois de tantos seculos de
-decadencia, nós somos o povo da aventura. Indolentes
-na patria, amanhando sem enthusiasmo um
-solo uberrimo que se desentranharia em maravilhosos
-fructos se lhe dessemos francamente todo o trabalho
-dos nossos braços e todo o pensamento do
-nosso cerebro, discursadores declamatorios, sem iniciativa
-nem acção, mudamos completamente apenas
-transpomos as barras dos nossos rios. Apertados entre
-as montanhas e o mar, é nas montanhas que temos
-a nossa força de resistencia, é no mar que temos
-o nosso vigor de emprehendimento. Os nossos
-montanhezes intrepidos são ainda hoje os lidimos
-descendentes dos companheiros de Viriato, os nossos
-pescadores são deveras os filhos audaciosos dos
-marinheiros de Gil Eanes. Lá fóra a transformação
-é mais completa ainda: fizemos o Brazil, e estamos
-continuando a dar ao seu desenvolvimento os elementos
-da nossa actividade exotica; estamos fazendo
-a Africa portugueza, e os vestigios dos nossos aventureiros
-mercadores são encontrados com espanto no
-interior da Africa; nos Estados-Unidos temos uma
-colonia trabalhadora e autonoma que se não deixa
-absorver pelo povo americano; nas ilhas Sandwich<span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span>
-a immigração portugueza rivalisa em importancia
-com a immigração ingleza; em Demerara constitue
-o fundo da população branca trabalhadora. A alma
-celtica palpita ainda hoje nos nossos peitos, como
-palpitaria então n’esse seculo <span class="allsmcap">XV</span>, que foi o nosso
-seculo aureo, depois das luctas homericas de Aljubarrota,
-quando o povo trasbordava de vida e de
-enthusiasmo, prompto para todas as luctas, sazonado
-para todas as aventuras.</p>
-
-<p>A dynastia reinante reflectia perfeitamente o estado
-da alma popular. O rei era um bastardo, um
-filho do amor, e de um amor de D. Pedro, o rei mais
-violento e mais apaixonado que nunca se sentou
-n’um throno! O sangue borgonhez de seu pae cruzara-se
-com o sangue normando de sua esposa, e
-d’ahi nascera aquelle grupo admiravel de principes
-robustos e intelligentes, educados por sua mãe
-n’aquelle retiro sagrado das principescas familias
-medievaes, n’esses quartos forrados de tapeçarias de
-<i>haute-lice</i>, em que pareciam á noite, á luz vacillante
-das tochas, tomar vida phantastica os heroes das
-scenas de cavallaria traçadas nos pannos de raz, ouvindo
-os graves conselhos da mãe, pura, séria e heroica,
-embalados com a poesia das canções de gesta
-e com as aventuras dos romances de cavallaria, e,
-quando saíam do regaço materno, não vendo em
-torno de si senão rostos energicos de homens como
-seu pae, como Nuno Alvares, cuja vida inteira era<span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span>
-um poema de heroismo, e que, ao viajarem no seu
-reino, dirigiam quasi sempre os passos para a campina
-sagrada, onde se estava erguendo sobre as columnatas
-esguias essa maravilhosa abobada d’onde
-parecem chover os altos pensamentos, e o altar-mór
-onde se accendia nas vidraças coloridas o sonho vago
-e radiante de uma visão paradisiaca.</p>
-
-<p>Tal era o meio onde tinham forçosamente de brotar
-os grandes emprehendimentos. Foi d’esse meio
-que saiu a expedição de Ceuta, que não bastava
-para satisfazer a insaciavel cubiça de aventuras d’esses
-principes, que não viam em torno de si senão
-homens em cuja alma as suas aspirações encontravam
-echo ou estimulo. Assim D. Pedro foi pela Europa
-fóra procurar emprego para a sua energia e
-para a sua cubiça de saber, D. Fernando devaneou
-desde logo o proseguimento da conquista africana,
-D. Henrique, estudioso e reflexivo, sonhou a conquista
-do mar.</p>
-
-<p>É difficil o desenho d’esta notabilissima figura.
-Levanta-se contra ella agora uma campanha de improperios,
-em que os adversarios parecem querer
-applicar ao juizo severo e imparcial da historia os
-processos das campanhas jornalisticas das luctas
-contemporaneas. Tomou parte n’esta campanha o
-sr. Theophilo Braga, e é pena que o fizesse, porque
-o livro em que essas tendencias incidentemente apparecem
-é um dos mais notaveis que se lhe devem,<span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span>
-a <i>Historia da Universidade</i>.<a id="FNanchor_52" href="#Footnote_52" class="fnanchor">[52]</a> Fez-se echo simplesmente
-comtudo da maledicencia de um d’estes eruditos,
-que, descobrindo um facto minusculo que pode
-attenuar a gloria de uma descoberta, ou achar um
-ponto vulneravel no vulto de um heroe, vem triumphantemente
-para a rua soltar o <i>Eureka</i> de Archimedes,
-declarando <i>urbi et orbi</i> que vão demolir uma
-reputação firmada pelos seculos. Têem odios historicos
-tão violentos estes biliosos da erudição como
-os podem ter contra um poderoso adversario os mais
-fanaticos jacobinos da politica moderna. São perigosos
-homens assim, e o historiador imparcial tem
-de afastal-os serenamente como afasta os insultadores
-contemporaneos do insultado, que entornam com
-delicias o fel das suas calumnias nas paginas que
-enviam á posteridade. Seculos depois de desapparecer
-da face do mundo um homem eminente, apparecem
-deturpadores vehementissimos, em cujo espirito
-a vaidade de fazerem vingar um novo pensamento
-historico produz tão ruins consequencias como
-as pôde produzir seculos antes o odio de um invejoso,<span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span>
-o despeito de um desprezado, ou a vingança
-de um vencido.</p>
-
-<p>Era por acaso o infante D. Henrique um impeccavel?
-Mais ainda: era um vulto sympathico, affectuoso,
-altruista, um d’estes entes divinaes como o
-Christo, cuja doce bondade irradia na Historia, que
-nos captiva quando lêmos a sua Vida como devia
-captivar os que no seu tempo viveram, debaixo do
-influxo magnetico da sua meiguice, da sua amoravel
-candura? Não, de certo, e nem é esse infelizmente
-o caracteristico dos homens a quem se devem
-os grandes emprehendimentos. É terrivel o homem
-<i>unius libri</i>, diz o pensador antigo. Não o é menos o
-homem de um só pensamento e de uma só ambição.
-Bondoso, quando se trata de attrahir os outros, de
-os enfeitiçar e de os fazer escravos da sua idéa e
-instrumentos do seu plano; absolutamente despido
-de toda a caridade e de todo o affecto quando o instrumento
-deixa de servir, e quando o escravo pede
-em paga uma pouca de dedicação e um pouco de
-sacrificio. Um dos homens mais captivadores que
-tem havido foi Napoleão. Prendia, subjugava com
-o encanto da sua apparente bondade, inspirava dedicações
-fanaticas, mas nunca foi bom para os outros,
-nunca pensou na felicidade alheia. Entregue
-exclusivamente ao seu pensamento ambicioso, á grandeza
-da sua idéa gigante, absorvia-se todo n’ella,
-bastante habil para se não esquecer de captar aquelles<span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span>
-de que precisava, o exercito, o povo, os principes,
-o Papa, as mulheres, os artistas, e incapaz de
-fazer um sacrificio a uma mulher, ou de ter dó de
-um velho! Impede isso por acaso que a historia não
-deixe de reconhecer a grandeza excepcional do seu
-genio e a obra maravilhosa que executou, e que ainda
-está de pé, porque a verdade é que o organismo da
-França é hoje ainda o que elle construiu, e portanto
-o organismo da Europa continental tambem que por
-elle se modelou?<a id="FNanchor_53" href="#Footnote_53" class="fnanchor">[53]</a></p>
-
-<p>Ninguem pintou melhor o infante do que o sr.
-Oliveira Martins no seu admiravel livro <i>Os filhos
-de D. João I</i>:<a id="FNanchor_54" href="#Footnote_54" class="fnanchor">[54]</a> duro, sem bondade, asceta do pensamento.
-E, se outra coisa fosse, poderia por acaso
-levar por deante uma obra em que era indispensavel
-a energia, a perseverança e a implacavel obstinação?
-Sympathicos são seus tres irmãos, D. Duarte,
-D. Pedro e D. Fernando, que o coadjuvam, que o
-admiram, que a elle se sacrificam. Mas D. Henrique
-é um solitario, como todos os que têem a allucinação
-de uma missão divina. Todo se abraza na
-embriaguez do mar, no sonho das vagas regiões longiquas,
-na procura da India, d’essa India triplice e
-maravilhosa, que, depois do livro de Marco Polo,<span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span>
-sobretudo, toma as proporções phantasticas de uma
-d’essas cavernas das <i>Mil e Uma Noites</i>, illuminadas
-pelas fulgurações das pedras preciosas, pelo fulvo
-scintillar do oiro, pela nitida brancura da prata.
-Essa conquista do mar quel-a toda para si e isso
-lhe lançam em rosto os seus modernos detractores,
-como os bourbonicos lançavam em rosto a Napoleão
-não querer ser logar-tenente de Luiz XVIII e
-os republicanos não se contentar com o consulado electivo—queria-o
-para si e para a ordem de Christo
-que era a sua guarda pretoriana. Auxilia-o D. Pedro
-nas suas investigações, traz-lhe o fructo das
-suas viagens, auxilia-o D. Fernando na empreza de
-Tanger, d’essa cidade maritima que elle cubiça como
-um ponto de partida mais seguro para as suas expedições
-navaes; mas D. Fernando encontra n’elle
-um debil auxiliar quando vem a grave questão do
-seu captiveiro, D. Pedro, um indifferente, quasi um
-inimigo, na terrivel contenda em que estão em jogo
-a sua vida e a sua honra; é que todas as faculdades
-da sua alma estão concentradas na sua grande
-empreza. Mais do que o doge de Veneza elle casou
-com a vaga atlantica. Deu-lhe todos os affectos e
-toda a pureza da sua alma, as faculdades do seu
-espirito. Por ella captivou com as suas promessas
-e com as suas seducções quantos estrangeiros o podiam
-ajudar na sua empreza, por ella abstrahia de
-todas as ambições que não fossem a de conquistar<span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span>
-para si, para a historia, para a fé e para a sciencia
-um immenso imperio ultramarino. É um monge militar
-isolado no seu castello sobre o Oceano, como
-os primeiros mestres do Templo, seus antecessores,
-nos seus castellos da Palestina. A sua Jerusalem é
-a Aryn que elle procura ainda, talvez, no meio dos
-fogos da zona torrida, o seu Santo Sepulchro é esse
-mar immenso, onde se sepulta o sol, e de que elle
-affugenta, com a prôa das suas caravellas, como os
-Templarios os Sarracenos com a ponta das suas
-lanças, os pavores da superstição, os erros da sciencia
-e as illusões da fé.</p>
-
-<p>Que outros condemnem esse implacavel sonhador
-que fechou a sua alma aos affectos humanos para
-todo se concentrar na paixão por um ideal que a
-um tempo o illumina e o allucina! Que outros lamentem
-esse egoismo de namorado, que o torna
-surdo para todas as supplicas e inaccessivel a todas
-as dedicações, mas que nós Portuguezes lhe regateemos
-a gloria, e lhe amesquinhemos o caracter, e
-lhe neguemos a indulgencia que a fraca humanidade
-deve ter com os defeitos que acompanham
-fatalmente as grandes qualidades, quando a esse
-egoismo sagrado, a essa perseverança intransigente
-devemos o termos dado ao mundo a mais assombrosa
-conquista, e termos conquistado para nós uma
-gloria que ainda hoje illumina as nossas ruinas, e
-dá á nossa decadencia a purpura e o oiro de um pôr<span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span>
-de sol explendido, isso é o que se não comprehende,
-e o que se pode considerar como uma das mais flagrantes
-injustiças e das mais negras ingratidões que
-podem macular um povo.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="VI">VI<br />
-<span class="smaller">Queda das barreiras da zona torrida e primeira exploração
-do Atlantico</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>Qual era o ponto de vista do infante, quando começou
-a dirigir para o sul as expedições? Era simples:
-Eratosthenes déra á Africa a fórma de um trapezio,
-sendo o lado septentrional banhado pelo Mediterraneo,
-o oriental pelo Nilo, o meridional pelo
-mar desconhecido, o occidental pelo Atlantico. Este
-lado era o mais pequeno. Pouco abaixo do estreito de
-Gibraltar a costa voltava para SSE, e ia juntar-se
-com a costa oriental. Era esta a doutrina geralmente
-admittida, e assim se representa a Africa na maior
-parte dos mappas medievaes. Outros, porém, seguiam
-a doutrina de Ptolomeu que prolongou a
-Africa, alargando-a na base: e então imaginavam
-uma costa ficticia ao sul que ligava entre si a Africa<span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span>
-Oriental e a Occidental, mas parando em todo o caso
-para aquem do Equador, porque a zona torrida era
-sempre considerada inhabitavel, e para além da zona
-torrida ficava, segundo a theoria de Ptolomeu, a terra
-antichthona.</p>
-
-<p>Deu isso origem a que corresse a lenda do famoso
-mappa trazido pelo infante D. Pedro de Veneza,
-e em que estava traçado o cabo da Boa Esperança,
-e suppõe-se tambem que o estreito de Magalhães!
-A confusão é curiosa. O mappa que deu
-logar a essa lenda é um mappa já posterior aos primeiros
-descobrimentos dos Portuguezes, representa
-a Africa terminando n’uma ponta a que dá o nome
-de cabo de Diab, mas esse cabo está separado do
-continente africano por um estreito, onde havia, dizia
-a legenda, a treva absoluta. Parecia que era
-esse canal a ultima reliquia, que procurava sobreviver
-ainda, do mar Tenebroso.</p>
-
-<p>Parecia-se esse estreito com o estreito de Magalhães,
-e, da mesma fórma que muitos confundiram
-a terra antichthona com a America, para lá lhe passaram
-o imaginario canal do sul da Africa.</p>
-
-<p>Humboldt, que tão facilmente acceita o que pode
-redundar em nosso desfavor, ao passo que regeita
-tudo o que possa redundar em desfavor de Colombo,
-Humboldt, que não trata de saber se a Guiné a que
-chegou Bethencourt é a Guiné que os Portuguezes
-descobriram depois, apesar de acautellar os seus<span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span>
-leitores contra os erros que podem resultar da confusão
-de nomes identicos que se davam a regiões
-muito diversas, tambem d’esta vez, reconhecendo
-que os mappas de Toscanelli, onde todos dirão que
-se encontram as Antilhas descobertas por Colombo,
-são mappas perfeitamente conjecturaes, não hesita
-em acceitar o mappa conjectural de fra Mauro, em
-que vem o Cabo de Diab, como mappa baseado em
-conhecimentos positivos.<a id="FNanchor_55" href="#Footnote_55" class="fnanchor">[55]</a></p>
-
-<p>E comtudo fra Mauro nas indicações que acompanham
-o seu mappa, feito em 1454, é o primeiro
-a reconhecer os serviços dos Portuguezes, e a declarar
-que d’estes recebeu muitos mappas, que lhe
-tinham servido para a elaboração do seu.</p>
-
-<p>«Muitos pretenderam, diz elle, e grande numero
-escreveram que este mar (o <i>Atlantico</i>) não pode ser
-<i>torneado</i>, nem navegado, nem ter habitantes nas
-suas praias como a nossa zona temperada e habitada;
-<i>mas é agora de toda a evidencia que se pode
-sustentar uma opinião contraria, principalmente porque
-os Portuguezes que o rei de Portugal mandou a
-bordo das suas caravellas para verificarem este facto,
-referiram, depois de se terem certificado elles
-mesmos, que tinham explorado esse continente pelo
-espaço de mais de duas mil milhas desde o sudoeste<span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span>
-do estreito de Gibraltar</i>, que em toda a parte os recifes
-da costa não são perigosos, que as sondas são
-boas, que a navegação é facil, sendo as tempestades
-mesmo pouco perigosas. Elles levantaram cartas
-d’estas regiões e deram nomes aos rios, bahias,
-cabos e portos. Possúo um grande numero de borrões
-ou esboços d’essas cartas».<a id="FNanchor_56" href="#Footnote_56" class="fnanchor">[56]</a></p>
-
-<p>Accrescenta elle, porém, <i>que nenhuma d’essas
-cartas resolvia a grande questão de se saber-se se podia
-fazer a circumnavegação da Africa</i>!</p>
-
-<p>É fra Mauro que o diz, no proprio mappa, que
-prova, segundo Humboldt imagina, que o cabo da
-Boa Esperança era conhecido mais de quarenta annos
-antes de Bartholomeu Dias o dobrar!</p>
-
-<p>Não se vê porém que a emenda conjectural nos
-mappas antigos é aqui evidente? Já estão os Portuguezes
-a duas mil milhas do estreito de Gibraltar,
-e a costa africana não volta bruscamente para leste.
-Não é bem natural suppor a probabilidade de terminar
-a Africa em ponta, visto que a occidental se
-dirige para SE, como a oriental se dirige para SO?
-Como o proprio Humboldt affirma e faz notar, depois
-dos descobrimentos os cartographos não se limitavam
-a inseril-os, mas accrescentavam ás regiões
-descobertas os seus complementos conjecturaes. E<span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span>
-tanto assim é que, ao lado do cabo em que a sua
-phantasia roçou pela verdade, poz um estreito que
-não existia, que, depois de ter imaginado a Africa
-torneavel, continúa a dizer que não sabe-se se poderá
-tornear, e que, ao passo que fundamenta nas
-descobertas portuguezas a sua descripção da Africa
-Occidental, nada diz de quaesquer viagens que tivessem
-podido esclarecel-o ácerca da fórma que podia
-dar á Africa meridional!</p>
-
-<p>Nada ha mais estranho do que o que succede com
-os Portuguezes n’esta questão dos descobrimentos.
-Quando elles os fazem, toda a Europa os applaude,
-affluem a Portugal aventureiros que querem tomar
-parte nas nossas expedições, e navegar nas nossas
-caravelas. Ninguem se lembra de dizer que já sulcaram
-esses mares, ou que já foram a essas terras.
-Os Normandos, longe de fallarem em pretenções
-suas, aconselham a quem queira fazer expedições
-para esses lados que tome pilotos em Portugal, porque
-aqui os encontra sabendo bem aquellas derrotas.
-Os papas concedem-nos o dominio d’essas terras
-baseado nos direitos de primeiro occupante, os
-reis de França e de Hespanha, tão ciosos das suas
-pretenções, reconhecem esse direito sem a minima
-objecção e até castigam os seus subditos que tentam
-violal-o, os navegadores de toda a Europa, <i>os
-taes que nos tinham precedido</i>, o que fazem é tentar
-surrateiramente seguir-nos e apanhar aos nossos<span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span>
-pilotos, comprando-os muitas vezes, os segredos
-da derrota, os cosmographos e os cartographos
-com os nossos viajantes mantêem relações seguidas,
-e nas suas relações e nos seus mappas se baseiam
-para traçar o que já está descoberto e para conjecturar
-o que não está; tão corrente é na Europa a
-historia das navegações portuguezas que, estando
-ainda bem fresca a memoria d’essas primeiras aventuras
-do mar, e tendo Colombo residido nas ilhas
-descobertas pelos Portuguezes, allega, quando na
-sua primeira viagem se quer guiar pelo vôo dos passaros,
-que foi assim que os Portuguezes descobriram
-as suas ilhas,<a id="FNanchor_57" href="#Footnote_57" class="fnanchor">[57]</a> e D. Henrique chama para Sagres
-o cartographo malhorquino Jayme, e comtudo
-os seus escudeiros ufanam-se de terem descoberto
-o Rio do Oiro, e com elles se regosija o infante e
-se regosija o cartographo, sem que este se lembre
-de allegar que já por um seu patricio, ou por um
-seu parente, ou por elle mesmo, talvez, como chega
-a suppor o sr. D. Cesario Fernandez Duro, esse rio
-fôra descoberto!<a id="FNanchor_58" href="#Footnote_58" class="fnanchor">[58]</a> E seculos depois é que apparecem
-as estultas pretensões de se querer demolir essa
-gloria toda em proveito de um desconhecido, mas baseadas
-em tão frivolos argumentos que bastou que<span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span>
-o visconde de Santarem passasse uma revista á cartographia
-da meia edade, ás suas chronicas, aos
-seus documentos, aos seus tratados e aos seus livros
-de sciencia, para que a inanidade de semelhantes
-affirmações se apresentasse com uma evidencia
-esmagadora!</p>
-
-<p>Vão pois os navegadores portuguezes caminho
-da India que é desde o principio o alvo dos seus esforços.
-Contam que, antes de chegar ao Equador,
-voltarão para leste, e ha uma coisa só de que n’esse
-momento D. Henrique duvida, é que o mar das Indias
-seja um mar mediterraneo. Se o acreditasse,
-como bem diz Humboldt, não faria a tentativa. Antes,
-porém, de se aventurarem para além do cabo
-Bojador, encontram Gonçalves Zarco e Tristão Teixeira
-Porto Santo e a Madeira, Gonçalo Velho Cabral
-os Açores.</p>
-
-<p>Muitas vezes os pescadores portuguezes poderiam
-ter encontrado algumas d’essas ilhas, e possivel era
-tambem que os nossos navios commandados pelos
-pilotos genovezes que D. Diniz chamára a Portugal,
-tivessem arribado a esses archipelagos. Eu mesmo
-já acceitei um pouco essas doutrinas sustentadas por
-Major, e a que dava certa apparencia de verdade o
-modo como Azurara conta o descobrimento. Fil-o,
-porém, antes de ter estudado mais profundamente
-a cartographia da meia edade, antes de ter visto
-como esses cartographos conheciam os phantasticos<span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span>
-archipelagos do Oceano Atlantico, e fixavam nos seus
-mappas as ilhas de S. Brandão, da Antilia, das Almas,
-do Purgatorio, sonhadas pela imaginação celtica
-dos povos occidentaes da Europa. Não navegaram
-os Portuguezes n’um Oceano que imaginavam
-deserto, mas sim n’um Oceano onde as ilhas pullulavam.
-Quando a alguma chegavam, não suppunham
-tel-a descoberto, mas tel-a simplesmente encontrado.
-Depois de terem descoberto todas, ainda continuaram
-a procural-as, e hoje mesmo ainda na Madeira
-se suppõe que a ilha das Sete Cidades se tem conservado
-escondida, longe das estradas maritimas, por
-traz de alguma dobra do ainda mysterioso Oceano.</p>
-
-<p>Essa ingenuidade portugueza, que serviu depois
-para os seus detractores, manifesta-se tambem na
-exploração das costas africanas. Nenhum navegador
-suppõe que chega a terra desconhecida. Todos
-imaginam que não fazem senão encontrar terras cuja
-existencia não era ignorada pela sapientissima antiguidade.
-Os nomes de Ptolomeu, de Strabão, de
-Eratosthenes, de Plinio, de Pomponio Mela e de Solino
-continuam a ser nomes oraculares para aquelles
-que estão demolindo o castello de cartas da sua
-vã e ephemera sciencia. Marco Polo está sendo tambem
-um dos seus idolos. Chegando ao Senegal julgam
-ter encontrado o Nilo dos Negros, porque estão
-ainda convencidos da verdade da velha doutrina,
-que separa o Nilo em dois grandes braços, um dos<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span>
-quaes se dirige para o Atlantico e o outro para o
-Mediterraneo. O que os espanta e ao mesmo tempo
-os exalta é o não encontrarem monstros, as ondas
-tenebrosas, os montes ardentes, toda a guarda avançada
-da implacavel zona torrida. Para que primeiro
-arcassem com esses receios foi necessaria toda a
-energia do infante D. Henrique, mas a pouco e pouco
-foram-se familiarisando com esses mares que tão
-terriveis se suppunham anteriormente, e eram elles
-que davam a fra Mauro as informações tranquillisadoras
-que elle insere nas annotações ao seu planispherio.</p>
-
-<p>No ponto de vista em que nós nos collocamos, e
-que suppomos ser absolutamente verdadeiro, quer
-dizer desde o momento que sustentamos que o serviço
-immorredouro que Portugal prestou á civilisação
-e á sciencia foi o ter demolido a noção consagrada
-da zona torrida inhabitavel, e que a prova de
-sobre-humana audacia que os Portuguezes déram
-foi a de transpor sem hesitação os limites d’essa
-zona torrida, percebe-se que nos seria completamente
-indifferente que se provasse que navegadores
-estrangeiros tinham precedido os nossos nos mares
-que ficam para além do Bojador. Isso não faria
-senão levar um pouco mais adeante o ponto de partida
-das expedições portuguezas indubitavelmente
-gloriosissimas, e cuja honra Humboldt confessa que
-nos cabe sem contestação, as expedições á região<span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span>
-equatorial.<a id="FNanchor_59" href="#Footnote_59" class="fnanchor">[59]</a> Mas a verdade irrefragavel é que esse
-limite, que os Portuguezes transpozeram, foi sem
-duvida alguma o cabo Bojador. Como Humboldt
-nota, com perfeita razão, o horizonte geographico
-vae-se alargando a pouco e pouco, e a verdade é
-que, uma vez ampliado, não se estreita de novo.
-Para o lado do occidente os primeiros limites foram
-os do mar Egeu, depois o do meridiano das Syrtes,
-depois o das columnas de Hercules, depois para o
-norte o extremo meridiano da Europa, para o sul
-o da costa africana.<a id="FNanchor_60" href="#Footnote_60" class="fnanchor">[60]</a> Vemos que a mansão da felicidade
-suprema acompanhou a ampliação d’esse horizonte,
-primeiro no Oasis do Egypto, depois na
-Cyrenaica, depois na costa africana, a pequena distancia
-das columnas de Hercules, depois nas Canarias.
-Não ha saltos n’este progresso forçosamente
-methodico. Logo que se transpõe um limite maritimo
-a navegação prosegue.</p>
-
-<p>Para o sul o cabo Não foi por muito tempo o limite,<span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span>
-depois o Bojador. Transpoz-se esse limite em
-1433? logo affluiram a Portugal estrangeiros curiosos
-d’essa novidade, e logo D. Henrique tratou de
-se assegurar da posse das terras que vae descobrir.
-Depois da expedição de Antão Gonçalves e de Nuno
-Tristão em 1441, vão embaixadores portuguezes ao
-papa Eugenio IV a pedir-lhe as bullas necessarias,
-e já com Antão Gonçalves na viagem immediata vae
-o allemão Balthazar, que vem da côrte do imperador
-Frederico III correr estas novas aventuras.<a id="FNanchor_61" href="#Footnote_61" class="fnanchor">[61]</a> E<span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span>
-comtudo desde 1415 se empenhava o infante em
-explorações maritimas, sem que reclamasse do Papa
-quaesquer concessões, sem que os estrangeiros se
-interessassem por essas tentativas infructiferas. Tudo
-muda de 1433 por deante. Porque? porque se rompera
-evidentemente mais uma das barreiras que tinham
-successivamente detido a marcha da humanidade,
-porque se tinham transposto mais algumas
-das columnas que formavam o portico do mundo
-sobre o desconhecido, columnas de Briareu primeiro,
-columnas de Hercules depois, estatuas das
-ilhas Khalidat dos Arabes, emfim.</p>
-
-<p>Em 1436 chegou Affonso Gonçalves Baldaya ao<span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span>
-Rio do Ouro, ou o que elle suppunha que era um
-rio, e que não era afinal senão um braço de mar,
-e, dando-lhe esse nome, conformou-se mais uma
-vez com o respeito pela tradição antiga, que affirmava
-que para o lado das ilhas Afortunadas, como
-dizia Pindaro nas suas Olympiadas, rios que conduziam
-ouro entravam no Oceano.<a id="FNanchor_62" href="#Footnote_62" class="fnanchor">[62]</a> Assim os Arabes
-davam o nome de rio do Ouro a muitos, situados
-muito áquem do cabo Bojador, assim os Catalães
-chamavam rio do Ouro a um rio que encontravam
-para além do cabo Não e proximo das Canarias, tanto
-que no proprio mappa em que se affirma que Jayme
-Ferrer procurara o rio do Ouro, o traçado da costa
-não vae além do cabo Bojador.<a id="FNanchor_63" href="#Footnote_63" class="fnanchor">[63]</a> Podia haver mais
-evidente prova de que o Rio do Ouro catalão não
-é o Rio do Ouro portuguez? Não fallemos sequer
-em que o Rio do Ouro de Jayme Ferrer é, como o
-descreve o manuscripto de Genova, com que se pretende
-dar authenticidade ao facto,<a id="FNanchor_64" href="#Footnote_64" class="fnanchor">[64]</a> um rio largo em
-que podem fundear náus potentes, emquanto o Rio
-do Ouro de Affonso Gonçalves Baldaya nem rio é
-sequer, e n’elle, segundo affirma o almirante Roussin
-que o estudou hydrographicamente, só canôas<span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span>
-podem entrar.<a id="FNanchor_65" href="#Footnote_65" class="fnanchor">[65]</a> Basta vermos que os mappas em que
-se baseia a pretenção, param no Bojador, como no
-Bojador pararam os navegantes a quem depois se
-quiz attribuir a gloria de o ter transposto.</p>
-
-<p>Em 1441 descobria Nuno Tristão o cabo Branco,
-em 1443 os ilheus de Arguim, em 1445 acabava-se
-de descobrir a costa do Sahará e entrava-se na costa
-da Senegambia, e n’este meio tempo entravam já em
-Portugal com abundancia os escravos africanos.</p>
-
-<p>Nodoa é esta com que se pretende manchar a
-gloria dos nossos descobrimentos, como se n’essa
-epocha em que os proprios brancos ainda tinham,
-pode dizer-se, roxos os pulsos dos grilhões com que
-lh’os algemára a servidão da gleba, n’essa epocha
-em que tinham escravos os proprios mosteiros e as
-egrejas, se podesse ter ácerca da liberdade do homem
-as idéas largas que, só uns poucos de seculos
-depois, e a muito custo, se implantaram na legislação
-dos paizes mais cultos. E é curioso que sabios
-escriptores accusem o infante de ter sido o responsavel
-pela escravatura negra, como se não fosse tão
-facil ás virtuosas nações, cujo credito elles defendem,<span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span>
-eximir-se a seguir tão mau exemplo! como se
-ao Papa, que representava a suprema lei moral da
-sociedade de então, não coubesse o dever de conceder
-as terras, mas de prohibir os escravos! como
-se não fosse evidente que o mesmo faria qualquer
-nação que nos precedesse, e que o facto de não apparecerem
-escravos pretos na Normandia no seculo
-<span class="allsmcap">XIV</span> é mais uma prova contra as suas pretenções!
-E comtudo a prioridade na escravisação das populações
-africanas essa é que os Normandos podem
-reclamar sem contestação, porque, bastantes annos
-antes de se venderem nas praças de Lagos os escravos
-da costa africana, já o normando João de Bethencourt,
-rei das ilhas Canarias, vendêra na Hespanha
-os seus subditos.<a id="FNanchor_66" href="#Footnote_66" class="fnanchor">[66]</a></p>
-
-<p>Mas o que dominava sobretudo no espirito de
-D. Henrique era a anciedade da investigação scientifica
-e o ardor pela conquista dos grandes ideaes
-religiosos da meia edade, e é isso o que faz com
-que o espirito do infante só encontre depois na historia
-dos descobrimentos outro que com elle se irmane—o
-de Christovam Colombo. Essa allucinação
-em que ambos vivem é que os torna proprios<span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span>
-para emprezas, que só com grande perseverança se
-podem realizar, e essa perseverança só a encontra
-quem tem um enthusiasmo absolutamente exclusivo.
-Quaes são as instrucções que levam sempre os capitães
-dos navios de D. Henrique? Procurar identificar
-os rios que descobrem com o Nilo dos Negros,
-que a geographia systematica dos antigos considerava
-como um braço do grande rio egypcio que
-vinha desemboccar no Atlantico. Julgam encontral-o
-ao ter chegado ao Senegal como depois o imaginam
-ainda no Niger, e talvez no Zaire tambem. E tão
-absortos estiveram por muito tempo os Portuguezes
-no seu respeito cego pelo saber da antiguidade, que
-ainda foi um piloto portuguez no seculo <span class="allsmcap">XVI</span> que
-procurou commentar e explicar o Periplo de Hannon,
-sendo o seu commentario na Italia de todos o
-mais apreciado.<a id="FNanchor_67" href="#Footnote_67" class="fnanchor">[67]</a> No proprio momento em que podiam
-justamente ufanar-se de sulcar mares nunca
-d’antes navegados, ainda se escondiam modestamente
-por traz da sombra de Hannon, o legendario
-navegador, que, tendo chegado a algumas leguas
-do estreito de Gibraltar, imaginou logo ter
-percorrido um immenso espaço de agua!<a id="FNanchor_68" href="#Footnote_68" class="fnanchor">[68]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span></p>
-
-<p>O outro desejo ardente do infante D. Henrique
-era encontrar as terras do Prestes João, esse mytho
-medieval que tomou mil fórmas, apparecia nas mais
-variadas terras, até que, ao condensar-se na realidade
-prosaica, appareceu transformado n’aquelle pobre
-<i>negus</i> da Abyssinia, symbolo curioso da dissolução
-dos mythos, que no periodo poetico da humanidade
-se revestem dos mais extraordinarios esplendores,
-e que nos frios annos da prosa se reduzem
-ás mais chatas personalidades.</p>
-
-<p>O Prestes João fôra a prolongação pela edade
-média da lenda da primitiva Egreja Oriental, que
-déra ao apostolo João, ao discipulo amado, ao evangelista
-mais querido da imaginação popular, a perpetuidade
-da existencia. Não acceitou a Egreja a
-lenda, mas ella permaneceu no Oriente, modificada,
-fluctuante, desdobrando-se o personagem que é seu
-protoganista, no apostolo e no presbytero.<a id="FNanchor_69" href="#Footnote_69" class="fnanchor">[69]</a> Talvez<span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span>
-porque n’uma das epistolas, conhecidas pelo nome
-de João, o apostolo, por esse nome se designa este
-<i>presbytero João</i>, que toma em parte o caracter do
-apostolo, em parte o caracter de um discipulo do
-apostolo, torna-se, por assim dizer, a gloria e o tormento
-da Egreja de Epheso; a gloria, porque essa
-Egreja se ufana de lhe pertencer o personagem privilegiado
-que herdou do venerado Mestre o amor e
-a predilecção do céu; o tormento, porque esse personagem
-é vago, confuso, indefinido, mal visto pela
-Egreja em geral, e fonte de possiveis heresias.</p>
-
-<p>Mas entretanto corria a edade média com a sua
-louca anciedade pelo advento de um mundo melhor.
-Não se cumpriam as promessas do christianismo.
-Não chegára o reinado da justiça. Na terra
-atormentada por mil flagellos arrastava o homem
-uma existencia atribulada, calcado aos pés pelos
-poderosos, faminto, presa a cada instante da peste
-e da guerra implacavel e atroz. Não chegára a era
-millenaria, a era sublime em que Jesus voltaria, e<span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span>
-em que, rodeiado dos seus martyres, como de uma
-legião sagrada da fé e do bem, reinaria sobre a
-terra até que ella desapparecesse subvertida no cataclysmo
-final.</p>
-
-<p>O que nascia, pelo contrario, era a crença desanimadora
-ao anno Mil, annunciado como o anno
-em que o mundo acabaria sem ter tido a consolação
-suprema de vêr o reinado do Bem; mas o anno
-Mil passou sem trazer comsigo o cataclysmo esperado.
-Seria afinal verdadeira a promessa do reino
-millenario, do reino dos martyres, que o Apocalypse
-de João annunciou? E a idéa d’aquelle Presbytero
-João, que vive a sua longa existencia nos páramos
-do Oriente, testemunha millenaria do grande
-acto da Paixão, fluctúa no animo dos povos. Não
-será em torno d’elle que se agruparão os bons, os
-martyres, os fieis, e não será nas suas terras que
-estará irradiando uma perpetua aurora, tranquilla,
-suave, toda misericordia e paz, emquanto cá pelo
-Occidente parece que o sol se afoga todos os dias
-n’um occaso sanguineo, n’um horizonte perpetuamente
-em braza, entre os clamores dos miserandos
-que teem sêde de justiça e o tinir das espadas gottejantes
-de sangue, o crepitar das chammas dos
-incendios e o rugido dos mares e as gargalhadas
-da impiedade? E lá no Oriente, onde existe o Paraizo,
-começa-se a devanear tambem a existencia
-de outro Paraizo mais accessivel ao homem, se é<span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span>
-que se não confundem n’um só Paraizo aquelle de
-que o homem foi expulso, e o outro em que o homem
-ha de entrar, quando lhe franquear a entrada
-o guarda a quem o confiaram Christo e o discipulo amado.</p>
-
-<p>Essa lenda vaga, ou antes essa incerta aspiração,
-concretisou-se n’uma d’essas obras anonymas em
-que o sentimento popular se manifesta, em que os
-devaneios da sua alma são encorpados, desenvolvidos
-e ordenados por um trovador ignorado, por um
-narrador mysterioso, que é afinal de contas quem
-produz verdadeiramente a obra popular, que depois
-muitas vezes um grande poeta aproveita para uma
-obra immortal. Assim se formou a lenda do Prestes
-João com o seu reino de maravilhas, a do Judeu errante,
-a do dr. Fausto, a de D. João Tenorio, e a de mil
-outros, que não tiveram outro berço senão a redacção
-humilde e vulgar de um pobre sonhador ignorado,
-que desapparece entre o povo, a quem se attribue
-a gloria da concepção, e a obra do grande
-poeta que deu á lenda a fórma definitiva e litteraria
-que a tornou immortal. O modo como esta lenda se
-formulou foi na redacção de uma carta dirigida pelo
-Prestes João ao imperador de Roma e ao rei de
-França e em que lhes contava as maravilhas do seu
-reino, onde os homens viviam annos quasi infinitos,
-onde havia maravilhosas riquezas, onde os animaes
-e as plantas tinham um tamanho descommunal, e<span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span>
-onde reinava a paz e a justiça.<a id="FNanchor_70" href="#Footnote_70" class="fnanchor">[70]</a> O que deu origem
-talvez á carta, ou o que chamou para esse vago
-personagem do <i>Presbyter Johannes</i> ou <i>Prestre Jean</i>
-ou <i>Prestes João</i> a attenção dos povos occidentaes,
-foi a vinda a Roma<a id="FNanchor_71" href="#Footnote_71" class="fnanchor">[71]</a> de um estranho personagem,
-que se dizia patriarcha das Indias, que da Asia
-vinha effectivamente, e que dava noticia da existencia
-n’essas remotas partes, ou na verdadeira India,
-ou na propria Tartaria, de christãos convertidos por
-S. Thomé o apostolo, e que eram evidentemente
-christãos da heresia nestoriana, christãos dos ritos
-syriacos, sacudidos da Egreja Catholica, mas possuindo
-aquella tenacidade de resistencia, que faz com
-que ainda hoje, em pleno regimen papal e catholico,
-tenham na India os seus prelados e mantenham
-os seus ritos estes christãos primitivos.<a id="FNanchor_72" href="#Footnote_72" class="fnanchor">[72]</a></p>
-
-<p>Assim parece effectivamente que devia ser: porque
-na carta do Prestes João diz-se que «cada anno,
-<i>quando S. Thomé vinha prégar a quaresma no seu
-reino</i>, elle fazia uma peregrinação ao tumulo do propheta
-Daniel, com dez mil clerigos, outros tantos cavalleiros
-e duzentos elephantes, que levam, não torres,<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span>
-mas castellos, para exorcismarem e combaterem
-os dragões que espreitam a caravana na passagem».<a id="FNanchor_73" href="#Footnote_73" class="fnanchor">[73]</a>
-A lenda do Prestes João localisou-se por conseguinte
-na India, não, como seria natural, na India
-verdadeira, mas na India ultima, quer dizer, no extremo
-Oriente da Asia, onde todas as lendas se refugiavam,
-a India que ficava para além dos limites
-das conquistas de Alexandre, e onde o proprio heroe
-toma tambem um aspecto legendario, como se lhe
-bastasse tocar n’uma região nevoenta para que o seu
-proprio vulto em nevoas se envolvesse. Alexandre,
-já o dissemos, foi para a Europa medieval, como Virgilio,
-um ente sobrenatural, meio pagão e meio christianisado
-posthumamente, meio feiticeiro e meio conquistador.
-É elle, como dissemos tambem, que encerra
-os povos de Gog e de Magog por traz da famosa
-muralha, é elle que na sua carta a sua mãe
-Olympias, carta não menos apocrypha, é claro, do
-que a do Prestes João, lhe diz que encontrou a arvore
-do sol e a arvore da lua, e que lhes ouviu os
-oraculos.<a id="FNanchor_74" href="#Footnote_74" class="fnanchor">[74]</a> É para além do Ganges tambem que os<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span>
-geographos da meia edade imaginaram povos que se
-sustentam só com o aroma das flores, lenda que vamos
-ainda encontrar em Camões. É no extremo
-Oriente que está o Paraizo, e junto do Paraizo, note-se
-bem, o antro em que S. Macario se escondeu
-para viver immerso em prece, depois de ter tentado
-debalde penetrar na morada dos nossos primeiros
-avós, e foi ahi que o encontraram <i>um seculo depois</i>,
-e sempre orando, tres monges gregos que tinham
-ido a essas longinquas partes do mundo para
-tentarem tambem ver o Paraizo de perto.<a id="FNanchor_75" href="#Footnote_75" class="fnanchor">[75]</a> Avisados
-pelo exemplo de S. Macario, voltaram os tres monges
-para traz, mas S. Macario lá ficou orando e atravessando,
-absorto na prece, os seculos sem fim.</p>
-
-<p>Vê-se pois que aquelles ares do Paraizo espalhavam
-ainda nos seus arredores umas fragrancias divinas.
-Parecia que da eternidade promettida a Adão
-e Eva tinham ficado uns resquicios para os que do
-Paraizo se approximassem; era para alli portanto
-que a imaginação popular levaria o reino paradisiaco
-do Prestes João.</p>
-
-<p>Mas as viagens de Marco Polo vieram dar uma
-nova physionomia ao mytho do Prestes João, approximando-o<span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span>
-da realidade, tornando-o um personagem
-curioso, mas não rodeiado d’aquelle immenso prestigio
-anterior. Ou porque effectivamente, como sustenta
-o grande sinologo Pauthier, elle encontrasse
-christãos nestorianos na Tartaria, na provincia a
-que Marco Polo chama Tanduc, que Pauthier identifica
-com a provincia chineza de Ta-Thung, e esse
-facto explica-o Pauthier pela entrada de nestorianos
-persas na Mongolia ou no Thibet, onde teriam feito
-conversões, e onde effectivamente o soberano chinez
-lhes permittiu que erigissem um templo, ou porque,
-como sustentava Stanislas Julien, outro sinologo
-tambem notavel, Marco Polo tivesse confundido
-com christãos os budhistas que nas regiões que elle
-atravessava tinham uma das mais importantes sédes
-da sua religião, e que ao ver a theocracia do Grão-Lama
-o imaginasse um padre-rei christão, e o Prestes
-João por conseguinte, é certo que elle declara
-ter encontrado christãos regidos por um padre, que
-descendia em linha recta do Prestes João, que era o
-seu sexto descendente e que se chamava Jorge.<a id="FNanchor_76" href="#Footnote_76" class="fnanchor">[76]</a> D’elle
-diz João de Monte-Corvino que o conheceu e o converteu<span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span>
-á fé catholica, e Rubruquis tambem declara
-que na Tartaria encontrou nestorianos que viviam
-debaixo das leis do Prestes João.</p>
-
-<p>Embora tudo o que se narrava nos livros de Marco
-Polo estivesse envolvido nos véos do maravilhoso, é
-certo que esta semi-realisação do <i>Presbyter Johannes</i>
-estava longe de corresponder ao ideal que d’elle
-se formára. O personagem legendario não encontrava
-positivamente n’um descendente chamado Jorge, subdito
-do Grão-Khan e chefe de uma especie de tribu
-nestoriana, uma encarnação satisfatoria. Continuou
-portanto a fluctuar por todo o Oriente, e, como de
-certo havia noticia vaga da existencia de um povo
-christão para os lados da Ethiopia, foi para esse lado
-que se transferiu a localisação da lenda, pois que a
-India, na edade média, como dissemos, abrangia,
-pode-se dizer, toda a Asia, parte da Ethiopia, e
-a indeterminação da residencia do rei legendario caracterisava-se
-bem com a denominação que se lhe
-dava de Prestes João <i>das Indias</i>.</p>
-
-<p>Não se imagine portanto que é simplesmente um
-rei christão perdido no meio da onda musulmana e
-do paganismo que se procura, o que se procura é o
-reino maravilhoso das lendas millenarias, é a terra
-estranha onde tudo floresce com extraordinario viço,
-onde o oiro, a prata e as pedras preciosas fulguram
-por todos os lados, onde se vive como que n’um antecipado
-Paraizo. Procuram-n’o logo na Africa, ao<span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span>
-pé de Marrocos,<a id="FNanchor_77" href="#Footnote_77" class="fnanchor">[77]</a> e não havia n’isso contradicção com
-o nome que se lhe conservava de Prestes João das
-Indias, porque, segundo a antiga geographia systematica,
-podia bem ser que a Ethiopia se ligasse com
-a Asia, e que já n’essas terras ainda proximas de
-Marrocos principiasse o reino maravilhoso do Prestes
-João.</p>
-
-<p>É essa anciosa curiosidade que domina no espirito
-dos Portuguezes, é ella que os arroja aos grandes
-feitos, ás pertinazes investigações. Como das investigações
-astrologicas com as quaes se procurava
-ler nas conjuncções dos astros o segredo dos destinos
-humanos saía a astronomia, como nas locubrações
-dos alchimistas se foram desvendando os segredos
-da chimica, assim na procura ardente do
-reino do Prestes João se foi desvendando, por tantos
-seculos escondido, o segredo da geographia africana,
-o da sua fauna, da sua flora e da sua ethnologia.
-Logo n’uma das primeiras viagens um audacioso
-portuguez, João Fernandes, se internou no sertão
-africano, e por lá andou mezes inteiros, convivendo
-com os indigenas, aprendendo a sua lingua, estudando
-os seus costumes.<a id="FNanchor_78" href="#Footnote_78" class="fnanchor">[78]</a> Devia-lhe ter corrido<span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span>
-um calafrio nas veias quando abandonou os seus
-companheiros para se immergir no desconhecido.
-Ia encontrar talvez os povos monstruosos da tradição
-scientifica, os troglodytas, os himantopodas,
-os virgocosgigs, e ao lado d’elles os dragões de terrivel
-aspecto e o basilisco de halito pestifero, passeiando
-pelos mattos meio inflammados a sua estranha
-corôa de horrifico soberano. Era perfeitamente
-um cavalleiro andante que se arrojava a um
-mundo encantado, como esses heroes de novellas de
-cavallaria que ousavam emprehender as mais incomprehensiveis
-façanhas. Mas tudo elle ousava para
-conseguir chegar emfim ás terras paradisiacas em
-que o Prestes João reinava, e, quando elle voltou,
-depois de longos mezes, não trazia noticias nem de
-monstros horrendos, nem de reinos maravilhosos,
-mas trazia, o que valia mais que tudo isso, o conhecimento<span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span>
-exacto da Africa interior, a revelação para
-a sciencia de um mundo ignorado, de arvores soberbas,
-que não eram a phantastica <i>mandragora</i>,
-mas o baobah agigantado e verdadeiro. Supprimia
-a flora sobrenatural, mas ampliava os dominios da
-flora verdadeira; acabava com a fauna phantastica,
-mas alargava os dominios da zoologia verdadeiramente
-scientifica. E, da mesma fórma que os alchimistas,
-ao procurarem nas suas longas vigilias a pedra
-philosophal, encontravam o segredo das combinações
-chimicas, assim estes audazes alchimistas do
-Oceano, ao procurarem o Prestes João, que era a
-pedra philosophal dos sonhos geographicos da meia
-idade, encontravam um mundo inteiro, que valeu
-mais para a riqueza scientifica e para a opulencia
-do commercio do que todos os reinos fabulosos banhados
-por phantasticos Pactolos e scintillantes de
-oiro e de pedraria.</p>
-
-<p>Quando o infante D. Henrique morreu, já os Portuguezes
-tinham conhecido o cabo Branco e o cabo
-Roxo, e o cabo Verde e as ilhas que d’este cabo tomaram
-o nome, e os rios Senegal e o Gambia e o
-Casamansa. Os terrores da zona torrida tinham desapparecido,
-posto que se não tivesse chegado ainda
-ao Equador, mas era evidente já que o mundo não
-alterava o seu aspecto com a approximação da equinoxial,
-e que os monstros não existiam senão na imaginação
-dos geographos, que se não encontrava senão<span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span>
-a variante negra da raça humana, e que os novos
-passaros que appareciam, depois classificados
-pelos zoologos como <i>remora</i>, <i>phenicoptero</i>, <i>bucerus</i>
-<i>africano</i> ou <i>pristis</i>, enriqueciam as collecções ornithologicas,
-mas não a teratologia. E estas conquistas
-positivas deviam-se ao enthusiasmo e á sede do
-ideal. Nada se faz grande no mundo sem esse grão
-de loucura, que desequilibra um pouco o genio dos
-grandes poetas e dos grandes descobridores. A pedra
-philosophal transmuda deveras o cobre vil em
-oiro, porque é ella, como symbolo de todos os ideaes
-phantasticos, que faz da quebradiça argila de que
-se formou o homem o bronze em que se fundem os
-ousados pensamentos, que transforma no oiro das
-grandes almas o minerio banal dos espiritos vulgares.</p>
-
-<p>E era exactamente o que havia de estranho e de
-louco nas expedições portuguezas que chamou para
-aqui os aventureiros e os ousados. Os Venezianos
-como Cadamosto, os Genovezes como Usodimare,
-vem aqui buscar simplesmente emprego para a sua
-actividade de marinheiros; os Malhorquinos como
-Jayme de Malhorca vem para um centro de actividade
-scientifica, mas esse Valarte que vem do fundo
-do Norte, das remotas regiões da Suecia, vem em
-demanda do ideal, esse loiro Scandinavo, que traz
-no olhar o azul dos seus lagos e no rosto a candidez
-das suas neves, vem procurar a estas regiões de<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span>
-aventura a barca dos cysnes dos Eddas que o ha
-de levar atravez dos mares da lenda ás regiões dos
-sonhos. Para esses e para muitos outros Portuguezes,
-como o velho Soeiro da Costa, como esse Alvaro
-de Freitas que tanto acaricia a idéa de ver de
-perto o Paraizo terreal,<a id="FNanchor_79" href="#Footnote_79" class="fnanchor">[79]</a> é um romance de cavallaria
-que se está pondo em acção na patria de <i>Amadis de
-Gaula</i>. São os Templarios resuscitados que investem
-com o mar como os Templarios antigos com as ondas
-dos sarracenos, e o manto branco da ordem de
-Christo que fluctua ao sopro do vento, e a bandeira
-com a cruz vermelha que palpita na popa das caravelas
-com os bafejos do Oceano são os ultimos symbolos
-d’esse idealismo da idade média cavalheiresca
-que vae dissolver-se na epocha burgueza que já apparece
-no horizonte dos tempos. E esse rijo cavalleiro,
-ascetico, tenaz, que do alto do promontorio de
-Sagres lança os seus legionarios á conquista do desconhecido,
-ao cair prostrado pela morte, sem ter
-ainda encontrado o edeal que lhe absorvera a existencia,
-desapparece da scena do mundo, deixando
-resolvido um dos grandes problemas da existencia
-humana na terra, no mesmo momento em que outro
-cavalleiro andante, esse deveras o ultimo, Christovão<span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span>
-Colombo, o Genovez, já vagueia, sonhador e
-pensativo, nas praias do Mediterraneo, escutando
-esse rumor de gloria e de aventura que vem do Occidente,
-e revolvendo na imaginação juvenil a solução
-de outro problema geographico, que ainda ficava em
-aberto, e que ia dar ao homem emfim a Terra inteira
-por dominio.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="VII">VII<br />
-<span class="smaller">Preludios açorianos e madeirenses
-do descobrimento da America</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>Emquanto os Portuguezes proseguiam intrepidamente
-para o sul no caminho da zona torrida o que
-se fazia para o Occidente? Era possivel, era natural,
-que a descoberta do Porto Santo, da Madeira
-e dos Açores satisfizesse completamente a curiosidade
-portugueza? Os que defendem as duas versões
-ácerca do descobrimento dos dois archipelagos commettem
-uns e outros um erro capital; uns suppondo
-que os Portuguezes não os encontraram senão porque
-antes d’elles lá tinham aportado outros navegadores,
-de cujas informações os nossos se aproveitaram,
-os outros imaginando que antes das descobertas
-portuguezas se considerava como completamente
-vasia de ilhas a vasta extensão do Atlantico.<span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span>
-Descobertas positivas não as podia ter havido,
-porque ás terras que podessem ter-se descoberto
-aconteceria o que succedeu ás Canarias, que logo
-foram cubiçadas e disputadas. O que havia era o
-sonho celtico das ilhas mysteriosas no seio do Atlantico,
-e em busca d’esse sonho quantos navios teriam
-corrido, sem que das suas tripulações voltasse ás
-costas européas nem sequer o cadaver do cão da
-frota legendaria de Brékan. Mas essas ilhas phantásticas
-estavam profundamente radicadas no animo
-dos homens da edade média, e a ilha de S. Brandam
-tinha para elles existencia tão real como o
-reino mysterioso do Prestes João. Ah! quem a encontrasse,
-quem arribasse a uma ilha qualquer no
-meio da vastidão dos mares, como voltaria contente
-e triumphante do seu achado, doido de alegria por
-ter conseguido emfim fixar n’um ponto do Oceano
-alguma d’essas ilhas que fluctuavam no mar da
-lenda, filhas da miragem do mar como da miragem
-do sonho; ilhas phantasticas como o navio phantasma
-da lenda hollandeza, que todos suppunham
-avistar ao longe, recortando na tela de oiro e purpura
-do horizonte o fino perfil das suas arvores, ou
-a ondulosa curva das suas montanhas!</p>
-
-<p>Deserto o Oceano? Não. Estava povoado, pelo
-contrario, de muito mais ilhas do que as que se encontraram!
-E quando o infante D. Henrique mandou
-os seus navegantes procural-as, é porque tinha<span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span>
-a convicção profunda de que existiam, e os seus audazes
-marinheiros o que julgavam era seguir o sulco
-espumoso do barco do santo irlandez, como quando
-seguiam, segundo a phrase de Colombo, o vôo das
-aves que os conduziam a terra, cuidavam seguir talvez,
-alados mensageiros celestes que os conduziam
-ás ilhas de promissão, ou pelo contrario demonios
-encarnados em passaros, que os arrastavam ás ilhas
-infernaes.</p>
-
-<p>Os que trazem com ufania, como uma conquista
-para a historia, a lenda da ilha da Madeira descoberta
-antes de Zarco, ou a dos Açores antes de Velho
-Cabral, partem da errada supposição de que esses
-ignotos descobridores deram grande novidade
-aos Portuguezes dizendo-lhes que havia ilhas no
-Oceano! Bem convencidos estavam d’isso, mas a
-questão era encontral-as. Feliz o paiz que as descobrisse!
-Não as largava facilmente! A posse tranquilla
-e indisputada da Madeira e dos Açores prova
-bem que ninguem punha em duvida o direito de
-prioridade que os Portuguezes se arrogavam.</p>
-
-<p>O que faziam porém os colonos d’essas novas
-ilhas, tudo gente marinheira e aventurosa, que não
-ficava socegada no pequeno pedaço de terra em que
-se achava confinada? N’elles se condensava, pela
-sua posição especial, pelo espirito mais aventuroso
-que a essas ilhas os levou, a tendencia emigrante dos
-Portuguezes. Não é essa tendencia a que ainda<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span>
-hoje domina nos habitantes d’essas ilhas? Não foram
-sempre os Madeirenses e os Açorianos os que
-predominaram na colonisação portugueza? Não foram
-elles, sobretudo, que fizeram o Brazil colonial?
-Não são os Açorianos quasi exclusivamente os Portuguezes
-que vamos encontrar na America do Norte,
-em Boston, e até na California, e, o que é mais estranho
-ainda, á beira da rede dos lagos que separam
-os Estados Unidos do Canadá, sendo tão numerosa
-a colonia portugueza de Erié, que alli se publica
-um jornal portuguez, chamado o <i>Erié</i> tambem?
-Não são os Madeirenses que nós vamos encontrar
-em Demerara, nas ilhas Sandwich, e que estão formando,
-em Angola, o nucleo das colonias do plan’alto
-de Mossamedes? E se isto acontece hoje, no
-nosso periodo de decadencia, de repouso, quando
-esse instincto emigrante é perfeitamente atavico—não
-era bem natural que acontecesse de um modo
-muito mais independente n’esse periodo de vigor e
-de febre descobridora, e quando os que habitavam
-a Madeira e os Açores não eram os que lá tinham
-nascido, mas sim os proprios que as tinham descoberto,
-ou os que primeiro, idos de Portugal, as tinham
-colonisado?</p>
-
-<p>Na descoberta africana logo encontramos os Madeirenses.
-Entre os mais audaciosos descobridores
-conta-se Alvaro Fernandes, sobrinho de João Gonçalves
-Zarco, e com elle o seu companheiro de seu<span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span>
-tio no descobrimento do archipelago, Tristão Vaz
-Teixeira.<a id="FNanchor_80" href="#Footnote_80" class="fnanchor">[80]</a></p>
-
-<p>E acabemos por uma vez com a accusação que
-se nos fez de que nos limitámos a uma navegação
-costeira, e de que receiavamos sair para o mar alto!
-Como se pode dizer isso de um povo, cujos primeiros
-descobrimentos exactamente no mar alto é que se
-fazem, cujos <i>coups d’essai</i> são as viagens em que
-encontram a Madeira e sobretudo os Açores, cercados
-de um mar tempestuoso e terrivel, ainda hoje
-considerado como o de mais aspera educação para
-o marinheiro, e que estão mais avançados para o
-occidente do que a propria Islandia, essa <i>ultima
-Thule</i>, onde parou por tanto tempo amedrontada a
-navegação antiga?</p>
-
-<p>Mas, percebe-se bem que, desde o momento que
-o fito das viagens portuguezas era chegar á India
-torneando a Africa, desde o momento que a geographia
-systematica dos antigos lhes dizia que logo
-abaixo de Marrocos principiava a Ethiopia, e que a
-costa logo fazia uma inflexão para léste; era essa
-volta da costa que elles sobretudo procuravam encontrar,
-e decerto não a encontravam abandonando
-a costa. E, comtudo, quantas vezes, fatigados d’essa
-investigação inutil, soltavam os nossos navegadores<span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span>
-as velas ás brizas do Oceano, e percorriam de um
-vôo um grande espaço, chegando a um ponto muito
-adiantado da Africa e tendo depois de voltar atraz
-para explorar miudamente o trato de costa que tinham
-deixado em branco!<a id="FNanchor_81" href="#Footnote_81" class="fnanchor">[81]</a></p>
-
-<p>Navegadores do seculo <span class="allsmcap">XV</span> não podiam positivamente
-achar-se confinados nos estreitos limites de
-umas ilhas perdidas no meio do Oceano, sem terem a
-tentação irresistivel de sondar esse mar mysterioso,
-sobretudo quando a lenda confirmada pela sciencia
-conjectural d’esse tempo lhes fallava de ilhas maravilhosas
-a que não tinham chegado ainda, e quando
-as vagas do Oceano lhes traziam a cada instante a
-prova evidentissima de que para além d’esse horizonte
-branqueado pela espuma das vagas distantes,
-havia terras, terras habitadas, terras cobertas de
-vegetação. Sobretudo nos Açores os documentos
-multiplicavam-se e as tentações eram mais fortes.
-As ilhas não se apinhavam n’um só grupo como
-Madeira e Porto Santo. Havia ilhas destacadas como
-as vedetas d’essa guarda avançada da civilisação<span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span>
-europea. Ainda se perceberia que taes tentativas se
-não fizessem, se não se houvesse chegado á ilha das
-Flores e á ilha do Corvo. Podia-se comprehender
-então que, satisfeitos com as ilhas paradisiacas que
-tinham encontrado, como a deleitosa S. Miguel, ou
-a fertilissima Terceira, se tivessem deixado ficar
-n’um ocio de Capua, sentimento aliás bem pouco
-natural em açorianos, e em açorianos d’esse tempo.
-Mas a descoberta do Corvo e da ilha das Flores mostram
-claramente que se não acalmára a sua irrequieta
-actividade, e que o Oceano continuava a ser
-sondado por esses audazes marinheiros, que são hoje
-accusados de não ousarem arriscar-se ás aventuras
-do alto mar!</p>
-
-<p>«A Islandia, os Açores, e as Canarias, diz Humboldt,
-são os pontos de paragem que mais importante
-papel representaram na historia d’estas descobertas
-e da civilisação, quer dizer na série dos meios
-que os povos do Occidente empregaram para estender
-a esphera da sua actividade e para entrar em
-relação com as partes do mundo que lhes tinham
-ficado desconhecidas.» Em nota accrescenta Humboldt:
-«Ha da extremidade septentrional da Escocia
-á Islandia 162 leguas marinhas; da Islandia á extremidade
-sudoeste da Groenlandia 240 leguas;
-d’esta extremidade ás costas do Lavrador 140 leguas;
-á embocadura do S. Lourenço 260; da Islandia
-directamente ao Lavrador 380 leguas. <i>Ha de Portugal<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span>
-(embocadura do Tejo) aos Açores (S. Miguel)
-247 leguas</i>; dos Açores (Corvo) á Nova Escocia
-412 leguas!»<a id="FNanchor_82" href="#Footnote_82" class="fnanchor">[82]</a> É isto o que explica de um modo
-bem positivo como foi que os intrépidos marinheiros
-da Islandia poderam encontrar a America, e não
-a poderam encontrar os não menos intrépidos marinheiros
-dos Açores. É isto o que responde, de um
-modo bem cathegorico, tambem, aos que dizem que
-os Portuguezes não largavam as costas. Um povo
-que nas suas primeiras viagens percorria 247 leguas
-maritimas para encontrar um ponto perdido no
-meio do Oceano, e que o fixava, e que n’essas ilhas
-ou proximas ou distantes estabelecia colonias regulares
-e em constante communicação com a metropole,
-era um povo que se encontrava bem mais apto do
-que outro qualquer para as grandes navegações maritimas,
-era um povo que os pavores do Oceano não
-obrigariam a desistir de tentar novas emprezas. Ah!
-se a Providencia, em vez de ter agrupado os Açores
-n’um só ponto, destacando apenas como sentinellas
-avançadas as Flores e o Corvo, as tivesse
-disseminado por toda a extensão do Atlantico, fazendo
-de todas ellas os marcos milliarios d’esse vasto
-percurso maritimo, como foram as Orcades, as Feroé,
-a Islandia e a Groenlandia para o continente
-norte-americano, seria talvez Colombo, mas Colombo<span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span>
-em navios portuguezes, que teria realizado a empreza
-que de tão justa gloria rodeiou o seu nome.
-Mas razão tem de sobra o nosso illustre patricio, o
-eminente escriptor Ernesto do Canto, quando diz:
-«Foi certamente com a pratica da navegação para
-os Açores que os pilotos portuguezes se aperfeiçoaram
-nos processos de observar os astros para d’essas
-observações deduzirem a sua posição nas solidões
-do Oceano ou das terras que demandavam.
-Sem esta escola todo o progresso seria lento. A existencia
-e o achado do archipelago açoriano foi pois
-a causa determinante das posteriores e importantes
-descobertas do seculo <span class="allsmcap">XV</span>.»<a id="FNanchor_83" href="#Footnote_83" class="fnanchor">[83]</a> E razão tem ainda
-quando encima o capitulo IV da sua obra com esta
-affirmação justiceira: «Os Açores foram um posto
-avançado para a descoberta da America e um fóco
-de irradiação para as explorações maritimas.»<a id="FNanchor_84" href="#Footnote_84" class="fnanchor">[84]</a></p>
-
-<p>Como podiam os açorianos pois desprender a sua
-attenção d’essas terras do occidente se ellas a cada
-instante se faziam lembradas, arrojando-lhes troncos
-de arvore, pedaços de madeira lavrada, canoas
-e até cadaveres de homens de estranha physionomia?<a id="FNanchor_85" href="#Footnote_85" class="fnanchor">[85]</a>
-Era o que succedia tambem na Irlanda, e
-o que tambem incitava os Irlandezes a procurar essas<span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span>
-mysteriosas terras. Note-se, porém, que as circumstancias
-eram um pouco differentes. O genio
-aventuroso e emigrante dos celtas da Irlanda podia-os
-levar, e levava-os effectivamente, a navegar
-para os lados occidentaes; em todo o caso os Irlandezes
-estavam na sua patria e na sua casa, viviam
-na terra em que tinham nascido, prendiam-se ao solo
-por estas mil raizes tenues e poderosissimas que reagem
-insensivelmente contra o espirito de aventura,
-emquanto que esses primeiros colonos dos Açores,
-transplantados do solo natal, arrastados alli pelo desejo
-de tentar fortuna, achavam-se já elles proprios
-em plena aventura, estavam fundeados no meio do
-Oceano, e emquanto esse navio, porque até as agitações
-vulcanicas das ilhas faziam com que o solo
-lhes palpitasse debaixo dos pés como a tolda de
-uma embarcação, se não tornava para elles uma
-nova patria, estavam promptos sempre a saltar para
-as lanchas e a ir demandar nova poisada. Succedia
-um pouco a mesma coisa aos Madeirenses, mas esses,
-mais proximos da Africa, menos mettidos pelo
-Oceano, para a Africa, que era a grande e exclusiva
-preoccupação portugueza, voltavam naturalmente a
-attenção e os esforços. Os Açorianos, destacados
-perfeitamente do grande corpo de exercito, fóra da<span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span>
-corrente das navegações methodicas que o infante
-D. Henrique dirigia, para o occidente e só para o
-occidente deixaram voar as suas aspirações.</p>
-
-<p>É a prova d’isso que nós encontramos no proprio
-Herrera quando dá conta das revelações que incitaram
-Colombo a intentar a sua empreza. Foi a narrativa
-do piloto açoriano Martim Vicente, que, navegando
-a 450 leguas da costa de S. Vicente, encontrou
-boiando nas aguas um pedaço de madeira lavrada;
-foi a dos mareantes, que, saindo do Fayal, correram
-150 leguas ao occidente, e que, voltando, encontraram
-a ilha das Flores. E, como n’um escripto publicado
-ultimamente na <i>Illustracion española y americana</i>
-se tratava com desdem este facto, alcunhado
-até de phantastico, paremos um instante para mostrar
-a sua perfeita authenticidade.</p>
-
-<p>Foi Herrera que escreveu o seguinte: «Uno llamado
-Diogo de Tiene (<i>Teive</i>), cuyo piloto Diego Velasques
-vezino de Palos, afirmó a Don Christoval Colon,
-en el monasterio de Santa Maria de la Rabida,
-que se perdieron de la isla del Fayal, y que anduvieron
-cento y cincuenta leguas por el viento Leveche,
-que es el Sudueste; y que á la buelta descobriron
-la isla de las Flores, guiandose por muchas
-aves que vian boiar házia allá, las quales conocieron
-que non eran marinas.»<a id="FNanchor_86" href="#Footnote_86" class="fnanchor">[86]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span></p>
-
-<p>Lembram-se os leitores de que o proprio Christovam
-Colombo, no seu <i>Itinerario</i>, quando diz os motivos
-porque mudou em certa altura o rumo da sua
-viagem, refere que o principal foi o exemplo dos
-Portuguezes, que, seguindo o vôo das aves, tinham
-descoberto as suas ilhas.</p>
-
-<p>Mas temos mais, temos o documento authentico
-que mostra que foi effectivamente esse Diogo de
-Teive que descobriu a ilha das Flores. É a carta de
-doação da ilha das Flores a Fernão Telles, feita por
-D. Affonso V em Estremoz a 28 de janeiro de 1475,
-e onde diz:</p>
-
-<p>«Outrosim nos praz e queremos que o dito Fernão
-Telles tenha e haja e assim seus successores as
-ilhas que chamam das Flores <i>que pouco ha que achára
-Diogo de Teive e João de Teive seu filho</i>, e elle dito
-Fernão Telles ora houve por um contracto que fez
-com o dito João de Teive, filho do dito Diogo de
-Teive que as ditas ilhas achou e tinha, e isto n’aquella
-forma com aquellas condições e maneira que as elle
-houve do dito João de Teive e que ficaram por morte
-do dito seu pai e no dito contracto é contheúdo.»<a id="FNanchor_87" href="#Footnote_87" class="fnanchor">[87]</a></p>
-
-<p>Mas os documentos não faltam para provar a actividade
-febril com que os Açorianos se arrojavam<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span>
-ao mar Oceano. N’essa mesma carta de doação se
-vê que Fernão Telles era um dos exploradores ou
-dos emprezarios d’essas explorações:</p>
-
-<p>«A nós praz, diz El-Rei, que indo elle ou mandando
-seus navios ou homens nas partes do mar
-Oceano ou alguem que por seu mandado a isso vá,
-lhe fazemos mercê, pura e irrevogavel doação para
-todo o sempre, como logo de feito fazemos, de quaesquer
-ilhas que elle achar ou aquelles a que as elle
-mandar buscar novamente e escolher para as haver
-de mandar povoar, não sendo pois as taes ilhas nas
-partes de Guiné.»<a id="FNanchor_88" href="#Footnote_88" class="fnanchor">[88]</a></p>
-
-<p>Felizmente os documentos publicados pelo sr. Ernesto
-do Canto lançam vivissima luz n’este periodo
-preparatorio do descobrimento da America, e explicam
-com uma clareza perfeita as questões relativas
-a Colombo e a Portugal. Assim vemos primeiramente
-que os Açorianos e os Madeirenses não deixam de
-procurar terras para o occidente, e que tratam de
-obter do governo as concessões necessarias para que
-das suas conquistas e descobertas tirem a utilidade
-que desejam; segundo que os reis se mostram prodigos
-em fazer a esses exploradores todas as concessões
-desejadas, comtanto que do real thesouro
-não tenham de gastar nem mealha, e que esses exploradores
-por conta propria não vão entender com<span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span>
-os descobrimentos para o lado da Guiné, que esses
-reservam-n’os para si ou para a ordem de Christo
-os soberanos portuguezes. E tão arraigado estava
-no espirito dos soberanos o desdem pelas viagens
-occidentaes que, ainda depois de descoberta a America,
-o proprio Gaspar Côrte-Real fez a viagem em
-que descobriu a Terra-Nova completamente á sua
-custa.</p>
-
-<p>Vejamos então a fórmula das concessões dos reis:</p>
-
-<p>Temos em primeiro logar a concessão feita a 21
-de junho de 1473 a Ruy Gonçalves da Camara, filho
-segundo de João Gonçalves Zarco, o qual manda
-dizer a el-rei, segundo na carta se diz, «como o seu
-desejo e voomtade era buscar nas partes do mar ouciano
-huumas ylhas para as aver de povorar e aproveytar».
-E o rei declara-lhe que «de huma ilha que elle
-perssy ou seos navyos achar, com outorga e prazer
-do principe meu sobre todos muyto prezado e amado
-filho, pura e yrrevogavell doaçom valledoyra amtre
-vivos, jure erdatore pera elle e todos seus erdeyros
-que delle decemderem assy e tam compridamente
-como ella a noos perteemce e de dereyto pertemcer
-deva e esto com todollos foros dereytos e trebutos
-em ella em qualquer tempo a nos poderiam perteemcer
-despoys que povoada seja sem acerqua de nos ficar
-cousa algua. E como sse começar a povoar logo lhe
-fazemos mercee de toda a jurdiçom civell e crime
-mero misto ymperoi em todallas pesoas que em ella<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span>
-morarem e a povoarem ressalvando somente pera
-nos alçada de morte ou talhamento de membros nos
-feitos crimes porquanto queremos e nos praz que
-em todo o all assy civel como crime elle aja todo
-sem superioridade algua. E per os homens teerem
-mays rezom de a hyrem povoar a nos praz que todollos
-vezinhos e moradores em a dita ylha ajam
-todollos privillegios liberdades e framquezas que
-per nos e nossos antecessores sam dados e concedidos
-e outorgados aos vezinhos e moradores da ylha
-da Madeira que ora he do dito duque meu muyto
-prezado e amado sobrinho dos quaes queremos que
-gouvam os vizinhos e moradores em ella fazendo
-certo dos privilegios da dyta ylha da Madeyra e pruvica
-escriptura. E per esta presemte damos licença
-e logar ao dito Ruy Gonçalvez a que assy fazemos
-mercee da dita ylha que possa dar forall aos que a
-ella forem morar e a povoarem. O qual forall que
-lhe elle assy der queremos que seja firme e valha
-como sse per nos lhe fosse dado e outorgado e per
-elle sejam obrigados todos aos juizes, e justiças,
-officiaes e pessoas fazer comstranger os moradores e
-povoadores della como os comstramgeriamos per lex
-e ordenações nossas que per assi teer pera ello nossa
-autoridade, nom menos vigor deve a teer aver como
-se per nos fosse fecto».<a id="FNanchor_89" href="#Footnote_89" class="fnanchor">[89]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span></p>
-
-<p>Vimos que a carta de doação a Fernão Telles
-tambem lhe confere a posse das ilhas que descobrir,
-mas logo em seguida a essa carta vem outra
-de 10 de novembro de 1475, em que se dão umas
-explicações bem proprias para esclarecer as navegações
-d’esse tempo, e destruir completamente as
-mesquinhas duvidas postas ácerca da prioridade dos
-descobrimentos portuguezes no Atlantico por extrangeiros
-que só muito superficialmente estudaram a
-historia portugueza. Na carta de 28 de janeiro não
-se falava senão em ilhas que Fernão Telles mandasse
-povoar, e então o rei explica: «E poderia ser
-que em elle as assi mandamdo buscar <i>seus navios
-ou jente achariam as sete cidades ou alguuas outras
-ilhas poboadas que ao presemte nom som navegadas,
-nem achadas, nem trautadas per meus naturaaes</i> e
-se poderia dizer que a mercee que lhe assi tenho
-fecto nom se deve a ellas estender per assi serem
-poboadas.»<a id="FNanchor_90" href="#Footnote_90" class="fnanchor">[90]</a></p>
-
-<p>E declara então que a mercê tambem a essas se
-estende e que dá a Fernão Telles sobre os habitantes
-d’essas ilhas os mesmos direitos que lhe concede
-sobre os povoadores que elle mandar para as ilhas
-desertas.</p>
-
-<p>O que se vê d’aqui? Vê-se que os Portuguezes<span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span>
-procuravam muito ingenuamente no Oceano as ilhas
-que a phantasia dos cartographos estampava nos
-mappas, que tinham viva crença na existencia verdadeira
-da ilha das Sete Cidades e na ilha de S.
-Brandão, e da Mayda e da Mão de Satanaz, da Antilha
-e da ilha do Brazil, e em todas as que nos mappas
-appareciam, filhas das conjecturas da geographia
-medieval ou antiga, e, se effectivamente as encontrassem,
-longe de quererem fazer suppor ao
-mundo que tinham encontrado terras cuja existencia
-era de todos desconhecida, se ufanariam de ter
-achado o que no mappa se designava, e a descoberta
-das ilhas desertas e vulcanicas dos Açores, e
-da propria ilha da Madeira toda coberta de bosques
-não era para elles senão um desapontamento, porque
-as ilhas que elles cubiçavam, as ilhas celebres, as
-ilhas dos mappas, essas fugiam-lhes constantemente
-das mãos.</p>
-
-<p>Que espanto seria o d’esses navegadores, e dos seus
-contemporaneos se podessem ter conhecimento das
-duvidas modernas! Como achariam extranho que se
-lhes dissesse que só encontraram os Açores, porque
-a posição dos Açores estava indicada nos mappas,
-quando elles levaram annos a passar de umas para
-as outras ilhas que teriam n’uma só viagem encontrado
-se fosse pelos taes mappas que se guiassem!<a id="FNanchor_91" href="#Footnote_91" class="fnanchor">[91]</a><span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span>
-e como o infante D. Henrique ficaria surprehendido
-ao ver Humboldt encontrar a prova do conhecimento
-anterior dos Açores no facto d’elle ter dito a Gonçalo
-Velho Cabral, depois da descoberta das Formigas,
-que voltasse porque havia de encontrar nas
-suas proximidades uma ilha! muitas ilhas era o que
-deveria dizer-lhe, visto que o mappa lhe dava um
-archipelago. Como se espantaria de que um homem
-de sciencia como Humboldt não percebesse que o
-descobrimento de uns recifes como as Formigas com
-muita probabilidade indicava a proximidade de terra!
-Mas o grande espirito do sabio allemão estava
-evidentemente coberto com a nuvem do preconceito.</p>
-
-<p>Assim vemos que o sonho das terras para o occidente
-e o sonho das ilhas do mar Oceano provocou
-a mente dos açorianos e dos madeirenses a arrojar-se
-ás perigosas aventuras. O rei facultava aos
-aventureiros tudo o que elles podiam desejar, menos
-dinheiro. A Guiné e o caminho para a India por
-esse lado eram a preoccupação constante do governo
-portuguez, que em todas as cartas estabelece bem
-o principio de que elle faz todas essas concessões,<span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span>
-comtanto que as ilhas descobertas não fiquem nos
-mares da Guiné. Basta a leitura d’estas cartas para
-que se veja a impossibilidade do legendario descobrimento
-da Terra Nova por João Vaz Côrte Real,
-com que se tem procurado attenuar a gloria de Colombo.
-Percebe-se logo que o governo portuguez
-não podia dar a capitania da ilha Terceira em recompensa
-a quem descobrisse a Terra Nova, quando
-o que elle promettia aos descobridores era simplesmente
-a capitania das terras que descobrissem como
-fizera com a ilha da Madeira. E seria singular tambem
-que o descobridor de uma nova ilha, em vez
-de receber a capitania d’essa ilha e de a povoar e
-aproveitar, a abandonasse completamente e recebesse
-como premio d’esse descobrimento inutil a capitania
-de uma ilha já povoada e aproveitada, isto quando em
-1473 o rei D. Affonso V, deferindo o requerimento
-de Ruy Gonçalves da Camara, dizia: «E visto per
-nos sseu requerimento e por que a nos perteemce
-primcipalmente as cousas desertas e nom aproveytadas
-fazer povoar e aproveytar pelo carrego que per
-deos nos he dado emquamto per sua graça tinhamos
-o regimento destes rregnos e senhorios que teemos».</p>
-
-<p>Veremos no capitulo immediato como era absurdo
-que o rei fizesse a Toscanelli perguntas ácerca do
-problema do occidente no mesmo anno em que João
-Vaz Côrte Real lh’o resolvia quasi, e como é mais
-absurdo ainda que D. João II, rei habilissimo e zeloso<span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span>
-do seu dominio, estabelecesse no tratado de
-Tordesillas um artigo transitorio que sacrificava,
-sem uma palavra de cedencia ao menos, terra descoberta
-por Portuguezes; agora mostraremos apenas
-que tudo é falso no que se allega com relação
-ao descobrimento de João Vaz Côrte Real. A falta
-de seriedade historica do auctor da <i>Historia Insulana</i>,
-Antonio Cordeiro, não deixára de impressionar
-os que mais se interessavam por essa reinvidicação
-portugueza, mas reanimava-os um pouco o
-verem que a noticia já Antonio Cordeiro a encontrára
-em Gaspar Fructuoso, auctor das <i>Saudades
-da terra</i>; mas Gaspar Fructuoso pertence tambem
-ao grupo d’aquelles historiadores que entendem que
-são licitas as mentiras quando d’ellas pode resultar
-a glorificação de um paiz, principio leviano contra o
-qual protestamos quando Villaut de Bellefond o aproveita
-contra nós e em beneficio da Normandia, mas
-que nos parece bem quando redunda em nosso
-favor. Gaspar Fructuoso, apesar de ter um merito
-superior ao do seu desastrado copista que outra
-coisa não é Antonio Cordeiro, não deixa de ser
-um auctor que acceita todas as lendas quando as
-reputa honrosas para os seus heroes.<a id="FNanchor_92" href="#Footnote_92" class="fnanchor">[92]</a></p>
-
-<p>Ora Antonio Cordeiro diz que em 1464 foram
-dadas as capitanias da ilha Terceira a Alvaro Martins<span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span>
-Homem e João Vaz Côrte Real como recompensa
-da descoberta da Terra do Bacalhau que por
-ordem regia tinham effectuado.</p>
-
-<p>Em primeiro logar não era o rei que dava as capitanias
-dos Açores que pertenciam ao donatario
-seu irmão D. Fernando; em segundo logar a doação
-da capitania de Angra é feita pela <i>infanta D. Beatriz,
-viuva de D. Fernando</i>, a 2 de abril de 1474,
-nem ella a podia ter feito em 1464, porque então
-ainda vivia seu marido; em terceiro logar a infanta
-o que recompensa são «os serviços que João Vaz
-Côrte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu filho,
-fez a seu padre que Deus haja, depois a mim e
-a elle»;<a id="FNanchor_93" href="#Footnote_93" class="fnanchor">[93]</a> em quarto logar Alvaro Martins já tinha<span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span>
-uma capitania da ilha Terceira muito antes de João
-Vaz, tanto que a carta de doação a Alvaro Martins,
-em 17 de fevereiro de 1474, allega o seguinte motivo:
-«Considerando eu como entre Jacome Bruges
-e Alvaro Martins, <i>capitão da sua ilha Terceira de
-Jesus Christo</i>, sempre houve alguns debates por a
-terra da dita ilha não se ter de todo partida...»<a id="FNanchor_94" href="#Footnote_94" class="fnanchor">[94]</a></p>
-
-<p>Gaspar Fructuoso o que diz simplesmente, e n’um
-capitulo inçado de erros historicos evidentissimos,
-recheado de lendas, e em que parece até que ignora
-a existencia do grande Gaspar Côrte Real, é que,
-«vindo João Vaz Côrte Real do descobrimento da
-Terra Nova dos Bacalhaus, que por mandado de el-rei
-foi fazer, lhe foi dada a capitania de Angra da
-Ilha Terceira e da Ilha de S. Jorge.»<a id="FNanchor_95" href="#Footnote_95" class="fnanchor">[95]</a></p>
-
-<p>Sem nos alongarmos em considerações basta que
-citemos os seguintes documentos: a carta de doação
-de 12 de maio de 1500, em que D. Manuel concede
-a Gaspar Côrte Real as terras que descobrir,<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span>
-<i>per sy e a sua custa... por ho asy querer fazer com
-tanto trabalho e perigo</i>,<a id="FNanchor_96" href="#Footnote_96" class="fnanchor">[96]</a> e a carta de doação de 17
-de setembro de 1506, que transfere para Vasco Annes
-Côrte Real a doação da Terra Nova, «avemdo respeyto
-e lembramça como o <i>dito Gaspar Corte Real
-seu irmão ffoy o primeiro descobridor das ditas teras</i>.»<a id="FNanchor_97" href="#Footnote_97" class="fnanchor">[97]</a></p>
-
-<p>O que se deprehende de tudo o que diz Gaspar
-Fructuoso é que João Vaz Côrte Real era nos Açores
-um heroe legendario, um forte e um intrepido.
-Formara-se a lenda em torno d’elle. Pae de uma familia
-de navegadores, foi de certo navegador elle
-mesmo. Como tantos outros dos seus patricios,
-procurou tambem talvez, como elles, desvendar os
-segredos do occidente, mas voltou sem ter encontrado
-novas ilhas e novas terras. Teria ido talvez mais
-longe do que Diogo de Teive, que chegou a cento e
-cincoenta leguas ao occidente do Fayal, mas, se o
-fez, desanimou tambem e voltou sem encontrar a
-cubiçada terra. Foi mais feliz seu filho, e mais feliz
-porque o exemplo de Colombo pozera termo aos desanimos,
-e se nova prova fosse necessaria basta lembrarmo-nos
-que Martim de Behaim, o famoso geographo,
-que acariciou ardentemente o mesmo ideal<span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span>
-de Colombo, que tudo queria saber do que se passava
-para o occidente, que viveu nos Açores em alta situação,
-que alli trabalhou, pensou e elaborou os seus
-trabalhos geographicos, ao fazer o globo de Nuremberg,
-em 1492, n’elle não inseriu a Terra Nova dos
-Bacalhaus, apesar de se não esquecer de inserir as
-ilhas phantasiadas.</p>
-
-<p>É no meio d’este grupo de marinheiros intrepidos,
-devorados da curiosidade do Oceano, que não
-pensam senão nas suas secretas maravilhas, que não
-sonham senão com prestigiosas terras, cercadas por
-todas as miragens do mar e por todas as miragens
-da phantasia, por todas as confidencias mysteriosas
-que as correntes pelagicas lhes trazem de
-remotos mundos, é n’este synhedrio de pilotos que
-não ignoram o que dizem os livros, mas que sabem
-sobretudo o que diz o livro immenso do mar, que
-apparece de subito a figura pensativa e ardente de
-Christovam Colombo. N’essas torres de atalaya, como
-que erguidas pela natureza no seio dos mares, debruça-se
-a mirar sofregamente o Oceano o rosto ardente
-do Genovez. Era o homem providencial, um
-d’estes homens em que se incarna fatalmente a idéa
-que fluctúa sobre uma geração revolvida pela ancia
-do desconhecido no mundo physico ou no mundo
-moral. Se o problema do Occidente preoccupa já
-todos os espiritos na Europa, nos Açores e na Madeira
-apresenta-se com dobrada intensidade. Não<span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span>
-volta um navio do occidente que não se trate logo
-de saber se traz comsigo a noticia de um novo descobrimento.
-Por uma coincidencia singular quasi ao
-mesmo tempo apparece nos Açores um homem intelligente
-e sabio, Martim de Behaim, que se sente
-tambem arrastado pela invencivel convicção de que
-ha terras para o lado do occidente, e que é por alli
-o verdadeiro caminho da India. Esse homem tem na
-sua vida singulares relações com a de Colombo. Este
-casou com a filha do donatario de Porto-Santo,
-aquelle com a do donatario do Fayal; um foi á Guiné
-nos navios portuguezes, o outro foi em navios portuguezes
-até ao Zaire. Mas um é allemão, um diplomata,
-um burguez, um discipulo correcto e regular
-de um dos maiores sabios da Europa, Regiomontanus;
-o outro é um italiano, um sonhador, um irregular,
-um estudante incompleto. O primeiro encontra
-facil accesso junto aos principes e nas universidades,
-o outro não acha muitas vezes nos altos logares senão
-repulsas e desdens; mas este é um perseverante,
-um ardente, um allucinado, o seu convencimento é
-uma paixão que o absorve, que o devora. O que actua
-n’elle não é tanto o raciocinio como a visão. A alma
-do infante D. Henrique parece renascer n’elle. Passou
-de Sagres para o Porto-Santo o vulto do asceta.
-Secularisou-se apenas; já não é o monge militar, é o
-cavalleiro andante, mais affectivo, mais dulcificado
-pelo seu conhecimento do amor, mas tendo a mesma<span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span>
-paixão pelos ideaes da fé e da sciencia. E como sempre
-são estes inspirados os que attraem por um magnetismo
-indizivel as idéas audaciosas que fluctuam
-no ar, como em D. Henrique se incarnaram todas as
-aspirações de um mundo que anceia por quebrar as
-grades do carcere em que a tradição o encerra, foi
-tambem em Colombo que se incarnaram todas essas
-idéas que pairavam na atmosphera do seculo <span class="allsmcap">XV</span>, e
-muito especialmente na atmosphera açoriana e madeirense.
-Triumphou mais uma vez o sonho sobre a
-razão, a dilatação da phantasia inflammada sobre o
-trabalho mecanico e lento do raciocinio, o meridional
-expansivo e apaixonado sobre o septentrional
-fleugmatico e frio, e foi Christovam Colombo e não
-Martim de Behaim quem resolveu o segundo dos
-grandes problemas geographicos.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="VIII">VIII<br />
-<span class="smaller">Christovam Colombo e D. João II</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>Quando Christovam Colombo, que viajára largamente,
-que estivera na Islandia e na Guiné, que estivera
-nos Açores, e que, casando com a filha de
-Bartholomeu Perestrello, tivera demorada residencia
-no Porto-Santo e na Madeira, combinou tudo o que
-lhe diziam os pilotos portuguezes, tudo o que os
-seus olhos viam n’essa terra da sua residencia, com
-o que encontrou nos livros, e sobretudo nos seus
-livros predilectos, os geographos antigos e a <i>Imago
-Mundi</i> de Pedro d’Ailly, fixou-se no seu espirito, de
-um modo indelevel, a convicção de que era perfeitamente
-possivel chegar á Asia partindo dos Açores,
-e communicou essa idéa ao rei de Portugal.</p>
-
-<p>Actuou por acaso, de algum modo, no espirito
-de Colombo a viagem que elle fez á Islandia, e onde
-poude ter conhecimento das viagens dos navegantes<span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span>
-escandinavos do seculo <span class="allsmcap">XII</span>, que chegaram á
-Groenlandia e até á America do Norte, que elles
-denominaram Vinlandia? Não, decerto. Que tinham
-que vêr esses paizes do Norte com o seu sonho da
-Asia encontrada pelo occidente?</p>
-
-<p>Que houvesse para além da Islandia mais ilhas e
-mais terras, não era caso de espanto. Hoje que conhecemos
-toda a terra sabemos a importancia que
-isso tinha, então nenhuma se lhe ligou, nem nenhuma
-se lhe ligara no seculo <span class="allsmcap">XII</span>. As descobertas
-não têem importancia pelo que hoje se reconhece
-que teriam, mas pela que tinham realmente na occasião
-em que se fizeram. O problema era, como
-dissemos, o seguinte: atravessar o Oceano Atlantico
-em toda a sua largura. Passar da Islandia á
-Groenlandia e da Groenlandia ao Vinland era façanha
-muito menos importante do que a que praticaram
-os Portuguezes descobrindo os Açores.<a id="FNanchor_98" href="#Footnote_98" class="fnanchor">[98]</a></p>
-
-<p>Seriam por outro lado as instancias de Colombo
-ao governo portuguez que levaram el-rei D. Affonso
-V a perguntar a Toscanelli em 1474 se suppunha
-que se podesse chegar á India caminhando-se pelo<span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span>
-occidente? É possivel que não. Como sabemos, esse
-problema já atormentava as imaginações dos que se
-preoccupavam com as questões geographicas, e era
-assumpto de vivos debates. A concessão feita em
-1473 por D. Affonso V a Ruy Gonçalves da Camara
-e que já aqui mencionámos, leva-nos a suppôr que
-o fidalgo portuguez não a obteria tão simples e tão
-despida de auxilio governamental sem ter instado
-com o rei para obter um subsidio ou um apoio
-mais efficaz do que a concessão platonica das pelles
-de urso, que Ruy Gonçalves obteria se matasse
-os ursos. Logo veremos que havia esses pedidos, e
-que D. João II em occasião importante lhes prestou
-ouvido mais attento. Foi, decerto, então que el-rei
-perguntou a Toscanelli o que pensava a este respeito,
-e que recebeu de Toscanelli a resposta de que
-Colombo, ancioso tambem de conhecer a opinião
-do sabio geographo, não deixou de ter conhecimento,
-porque o proprio Toscanelli lh’a communicou.</p>
-
-<p>Que facil ensejo tinha Humboldt de demolir a
-gloria de Colombo, como pretendeu demolir a dos
-navegadores portuguezes! Se ha carta que possa
-mostrar que as Antilhas eram conhecidas antes de<span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span>
-Colombo é a carta de Toscanelli. O grande geographo
-italiano conhece o caminho como conheceria o
-caminho da sua casa. Sabe a distancia a que fica a
-Asia, os archipelagos que o navegador ha de encontrar
-no caminho, e tudo isso vae para o mappa como
-se fosse traçado á vista das terras! E os archipelagos
-lá estavam effectivamente como os Açores,
-como a Madeira, como as ilhas que se descobriram
-e as que se não descobriram. Acontecia ás ilhas o
-que acontece ás prophecias. Com um pouco de boa
-vontade sempre ha algumas que, mais ou menos,
-parece que saem certas.</p>
-
-<p>Nós porém é que não vemos as coisas com os
-olhos da parcialidade, e applicamos a todos o são
-preceito de Humboldt que elle tão pouco respeita.
-As cartas da edade média são excellente elemento
-de estudo quando se analysam com criterio, quando
-se não perde de vista o pensamento de que ellas
-encerram o que realmente se descobriu e o que os
-sonhadores conjecturavam que se podia descobrir.
-Os navegadores d’esse tempo é que não sabiam as
-maravilhas que praticavam, e a sua aspiração não
-era encontrar terras desconhecidas, era encontrar
-as terras adivinhadas. Se os Açores e a Madeira estivessem
-em mappas anteriores, os Portuguezes exclamariam
-com enthusiasmo: São estas mesmas! O
-maior prazer d’esses navegantes, quando chegassem
-á Antilha ou á ilha de S. Brandão, seria bradarem<span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span>
-com orgulho e com ufania: Encontrámos a ilha de
-S. Brandão, encontrámos a Antilia, como Fernão
-Telles ía pelos mares fóra com a esperança de encontrar
-a ilha das Sete Cidades. Este é que era o
-criterio que os Portuguezes applicavam á descoberta
-das costas africanas. Todo o seu desejo era confirmarem
-o periplo de Hannon e as theorias da antiguidade.
-Foi para elles um desapontamento reconhecerem
-que um rio que descobriram era o Senegal,
-completamente ignorado pelos antigos, em vez
-de ser o Nilo dos Negros, cuja existencia a sabia
-antiguidade affirmava, e que os Portuguezes só aspiravam
-a confirmar.</p>
-
-<p>Que impressão produziria a opinião de Toscanelli
-não no animo de D. Affonso V, que tinha outros
-pensamentos e outras ambições, mas no de D. João
-II, logo que subiu ao throno, e começou a pensar
-sériamente nos descobrimentos? Não muita, e de
-certo contribuiria para isso, bastante, o proprio movimento
-maritimo dos Açores. É bem natural que os
-mareantes que voltavam d’essas expedições de tentativa
-exaggerasem o espaço de mar que tinham
-percorrido, sem encontrar signaes de terra. Demais
-as idéas geographicas dos antigos ainda dominavam
-muito os espiritos. O systema geographico de Ptolomeu
-e dos seus adeptos não fôra alluido todo e de
-uma vez só. Ia caindo aos pedaços, mas ficava de
-pé o que se não demolia directamente. Ora uma das<span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span>
-idéas favoritas da geographia antiga era a grande
-extensão dos mares. Suppunha-se que de toda a
-terra só a septima parte estava fóra das aguas. Colombo
-sustentava a opinião contraria, dava razões de
-equilibrio, mas não conseguia facilmente derrubar
-o preconceito.</p>
-
-<p>Accrescente-se ainda que tudo parecia indicar
-que os Portuguezes se achavam no caminho verdadeiro
-da India. Qual era a opinião antiga? que a
-costa africana occidental, <i>antes de se chegar ao equador</i>,
-voltava para o oriente e ia ou á Africa Oriental
-ou á Asia. Se as viagens portuguezas tivessem
-mostrado que esse facto se não dava, e, ao mesmo
-tempo, a zona torrida fosse inhabitavel, estavam perdidas
-todas as esperanças, mas as viagens portuguezas
-tinham demonstrado exactamente que não
-havia zonas inhabitaveis, logo podia-se proseguir
-com afoiteza, que mais longe ou mais perto havia
-de se chegar ao fim do continente africano e havia
-de se voltar para a India. Corria-se o perigo de se
-entrar na zona glacial antarctica? Embora! Como era
-natural, passava-se de extremo a extremo. Desde
-que se descobrira que a zona torrida não era inhabitavel,
-conhecia-se que não havia zonas inhabitaveis,
-e que se poderiam atravessar as zonas glaciaes
-como se estava atravessando a zona torrida.<a id="FNanchor_99" href="#Footnote_99" class="fnanchor">[99]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span></p>
-
-<p>E note-se que a idéa de que teria de se dobrar
-um cabo quando se chegasse ao fim da peninsula
-africana, estava tambem em todos os espiritos, e era
-a conjectura natural da geographia. As peninsulas,
-sabia-se bem, terminam geralmente em promontorios.
-Portanto o empenho de D. João II estava todo
-concentrado no proseguimento das descobertas africanas.
-Não podia elle, diz-se, se tinha confiança,
-como sabemos que tinha, não no projecto do Genovez,
-mas no seu talento, e nos seus conhecimentos
-maritimos, confiar-lhe duas caravelas? Não, porque
-isso era completamente contrario ao seu systema de
-exploração. As tentativas dos Açorianos e dos Madeirenses,
-protegia-as o governo, fazendo-lhes larguissimas
-concessões nas terras que descobrissem,
-mas não as subsidiava, nem consentia tambem que
-elles interferissem nas descobertas reservadas para
-si. As terras concedidas eram-n’o com a condição
-de não serem nos mares da Guiné.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span></p>
-
-<p>Ah! Se Christovam Colombo armasse duas caravelas
-á sua custa, ou conseguisse que um capitalista
-o <i>commanditasse</i>, com que facilidade elle obteria
-de D. João II todas as concessões que desejasse!
-Foi uma felicidade para o mundo que Colombo não
-tivesse dinheiro para a empreza, nem socios capitalistas.
-Se os tivesse, quando percorresse tanta extensão
-de mar sem encontrar terra, quando visse a
-perspectiva de perder completamente o seu dinheiro
-ou o dos seus socios, talvez não ousasse proseguir,
-e decerto lh’o não consentiriam os que representavam
-a bordo os interesses dos armadores. Para se
-levar a effeito essa obra grandiosa era necessario
-que estivesse empenhada no triumpho a honra de
-uma nação!</p>
-
-<p>Como é que aquelle grande espirito de Christovam
-Colombo não inflammou no seu enthusiasmo o
-espirito, que passa tambem por ter sido grande, de
-D. João II? Enganou-se a historia no seu juizo?
-Era, afinal, o rei D. João II um espirito vulgar, ou
-pelo menos um espirito absolutamente pratico e
-forte em todas as questões da vida positiva e real,
-mas desdenhoso de tudo o que excede os limites do
-seu horizonte? ou por acaso não tinha elle pelas
-coisas geographicas o interesse real que manifestava,
-ou não tinha d’ellas o conhecimento que se lhe attribue?
-Não, não, nada d’isso. D. João II foi realmente
-um dos grandes principes do seu tempo, um<span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span>
-dos soberanos que estavam mais á altura de comprehender
-os grandes projectos dos descobrimentos. O
-proprio Colombo o diz a cada instante, Toscanelli
-farta-se de o affirmar: o rei de Portugal era o soberano
-que melhor entendia de coisas geographicas,
-o nosso grande rei! diz Colombo ás vezes. E comtudo
-Colombo não conseguiu captival-o. É quasi incomprehensivel
-esse facto, mas talvez se explique
-um pouco se analysarmos os caracteres de um e de
-outro.</p>
-
-<p>Ha, naturalmente, duas especies de organismos
-entre os homens da mais alta esphera: os desequilibrados
-e os equilibrados. Á primeira pertencia
-Christovam Colombo, á outra D. João II. D. João II
-era um d’estes fortes espiritos, perfeitamente assentes
-n’uma base segura, que têem a perspicacia, a
-energia, as concepções arrojadas mas nunca desmandadas,
-espiritos capazes de formarem um plano
-e de o desenvolverem serenamente, completamente
-desembaraçados da rotina, amando e acolhendo as
-innovações, mas não sem as sujeitarem ao criterio
-do seu lucido juizo. Homens assim, n’este jogo da
-existencia têem as cartadas atrevidas mas calculadas,
-nunca se entregam aos irreflectidos caprichos
-do azar. O perigo não os assusta, e affrontam-n’o
-quando é necessario, mas não o procuram por uma
-vã fanfarronada de cavalleiros andantes. Soldado,
-ninguem o foi como D. João II: em Arzilla escureceu<span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span>
-a fama dos mais denodados cavalleiros, em Toro
-a ala que elle commandava internou-se no mais
-denso das fileiras dos castelhanos e destroçou-as,
-emquanto a ala commandada por seu pae era desbaratada
-pelo inimigo, mas depois de subir ao throno
-nunca mais teve uma guerra, nem entrou n’uma peleja.
-As guerras de Portugal tinham de ser com o
-Oceano, os combates do rei com a sua nobreza rebelde.
-É um organisador e não um aventureiro, o
-que o não impede de querer a grande aventura da
-India, mas prepara-a, organisa todos os elementos
-de successo, antes de jogar a cartada decisiva.</p>
-
-<p>A razão é a faculdade que domina o seu espirito,
-a imaginação é a escrava obediente. É inaccessivel
-aos vagos terrores que tão facilmente assaltam os
-nervosos e os phantasistas. Uma noite, e já depois
-d’elle ter cercado de cadaveres o seu throno, no
-cumprimento implacavel da sua missão centralisadora,
-sente baterem de noite mysteriosamente á porta
-do quarto onde dormia com sua esposa. Levanta-se
-e vai ver quem é. Ninguem, mas ao longe uns passos
-mysteriosos, como que um vago deslisar de sombras.
-Jaz em silencio e na escuridão da meia-noite
-o palacio todo. Vive-se n’uma epocha de crenças e
-de superstições. É algum dos espectros das suas
-victimas que o vem chamar para a expiação? D.
-João II sorri-se com este pensamento, vai, segue o
-passo mysterioso, vai até aos sotãos em sua obstinada<span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span>
-procura, só, com a sua espada e uma luz, e
-quando os servos, acordados pelos clamores da rainha,
-correm em sua busca, vão encontral-o n’um
-desvão, sondando com a luz os recantos sombrios,
-impassivel e sereno como quem não comprehende
-sequer os pavores da superstição.</p>
-
-<p>De toda a sua raça o homem a quem mais se assemelha
-pelas tendencias nobres do seu espirito é o
-infante D. Pedro, mas este possuia uma qualidade
-que arredondava todos os angulos do seu caracter,
-que amaciava todas as durezas do seu pensamento:
-a bondade feminil, que elle herdara de sua mãe,
-D. João II tinha a violencia do bisavô, sem ter ao
-seu lado a mulher propria, como Filippa de Lencastre,
-para attenuar as asperezas da indole do matador
-do conde Andeiro. D. Leonor era uma nobre e
-intelligente senhora, não adquirira comtudo influencia
-sobre o seu terrivel marido, porque não era amada.
-Mas a alta razão, a comprehensão de todos os grandes
-emprehendimentos, a cultura que o punha a
-par do seu seculo, a reacção contra as tradições medievaes,
-que eram a sombra povoada de visões, quando
-elle sonhava uma sociedade radiante de luz e de
-sciencia e dominada pela Ordem: tudo isto tinha D.
-João II. D. João II era a Renascença que principiava
-com os ideaes de Platão e o culto da sciencia antiga
-seriamente estudada e seriamente comprehendida,
-e Colombo, que mais do que ninguem ia contribuir<span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span>
-para a Renascença, era comtudo pelas tendencias
-do seu espirito o ultimo representante d’essa
-meia edade bellicosa e mystica, que, antes de se
-sumir para sempre, legava ao mundo que nascia
-a realisação do seu ultimo sonho cavalheiresco.</p>
-
-<p>Imagine-se agora Colombo tratando com D. João
-II, que o ouve, que o attende, que percebe que não
-tem deante de si um homem vulgar, mas que desconfia,
-que hesita deante d’aquelles projectos meio
-mysticos, meio scientificos, deante d’aquella exuberancia
-de palavras e de pensamentos que não quadra
-ao seu espirito nitido, e conciso. Colombo é um
-italiano, com aquella prodigalidade de palavras e de
-formulas obsequiosas, caracteristicas da raça. O que
-era elle? um sabio ou um charlatão? Se do sublime
-ao ridiculo apenas vai um passo, como Napoleão
-dizia, de um homem de genio que traz uma
-idéa fecunda a um charlatão que traz um elixir tambem
-a distancia não é grande. Colombo, profundamente
-convencido, era prodigo de promessas e não
-menos de exigencias. Os thesoiros que elle encontrasse
-no Cathay destinava-os, segundo dizia, á conquista
-do Santo Sepulcro. Ora a conquista do Santo
-Sepulcro era, sem desfazer nos sentimentos christãos
-de D. João II, <i>le cadet de ses soucis</i>. Christovam
-Colombo enganara-se na porta. Essas declarações
-eram optimas para D. Affonso V, detestaveis
-para D. João II. Tudo quanto cheirasse a cavallaria<span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span>
-andante, a cruzadas, e a romances em acção, encontrava
-em D. João II um antagonismo ferrenho.
-E percebe-se que assim fosse, desde o momento
-que fôra tudo isso que estivera quasi arruinando
-Portugal, que fôra tudo isso que fizera a desgraça
-de D. Affonso V e que era a esses bellos sonhos que
-D. João II devia o ter ficado, como costumava dizer,
-por morte de seu pae, rei das estradas de seu reino.</p>
-
-<p>Ainda havia um facto que não podia produzir
-boa impressão em D. João II. Arrastado pelo ardor
-das suas convicções, como acontecia com Toscanelli,
-Colombo dizia conhecer a distancia exacta a que
-ficava Cipango de Portugal. Ora D. João II era um
-espirito bastante positivo para perceber o que havia
-de absurdo em semelhante calculo, e a segurança
-manifestada por Colombo mais ainda o punha em
-guarda contra os seus projectos.</p>
-
-<p>Hoje que os factos mostram como Colombo tinha
-razão, todos imaginam que só o espirito de rotina
-podia fazer com que elles fossem regeitados. E comtudo,
-examinando-os bem comprehende-se que espiritos
-positivos não acceitassem. Colombo suppunha
-por exemplo que a relação entre a terra e o mar era
-de 7 para 1, quando a verdade é que essa relação
-é de 1 para 2,7, ou mais exactamente de 29 para
-82.<a id="FNanchor_100" href="#Footnote_100" class="fnanchor">[100]</a> Quaes eram as razões em que elle se baseava<span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span>
-para suppor que a Asia estava proxima da Europa?
-Sobretudo as que deduzia das affirmações da sciencia
-antiga. Segundo Ctésias a India formava metade da
-Asia, Plinio suppunha que era só por si o terço da
-superficie do globo, Nearcho sustentava que eram necessarios
-quatro mezes de caminho para se chegar á
-extremidade oriental da India, e Strabão que até
-esse extremo oriental ninguem poderia conduzir um
-exercito. O geographo a que Colombo se encostava
-para avaliar a distancia que tinha a percorrer não era
-Ptolomeu, era Marino de Tyro. Ptolomeu sustentava
-que a terra habitada entre o meridiano das ilhas
-Afortunadas e o meridiano de Sera, quer dizer da
-China, era de 177°¼, portanto o espaço de mar a
-percorrer era de 182°¾, visto que o parallelo tem
-360°. Marino de Tyro sustentava que a porção de
-terra habitada era de 225°, portanto o espaço de
-mar a percorrer limitava-se a 135°; mas Colombo
-fazia conjecturas que ainda diminuiam este espaço.
-Effectivamente dizia elle que Marino não chegára
-á extremidade oriental da Asia em 15 horas (calculando-se
-as longitudes em tempo, e correspondendo
-cada hora a 15°) porque a extremidade oriental
-da Asia ficava muito além do ponto marcado por
-Marino. Portanto a distancia de mar entre a extremidade
-oriental da Asia e as ilhas de Cabo Verde
-era não de 9 horas ou 135°, mas de menos de 8
-horas ou de menos de 120°.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span></p>
-
-<p>Note-se porém que fôra Ptolomeu que corrigira
-os calculos de Marino de Tyro, e que a opinião de
-Colombo tinha portanto contra si a do geographo
-mais afamado da antiguidade. Comtudo Colombo
-aferra-se á sua opinião, e quando está na America
-julgando estar na Asia, persiste, e até se apoia nas
-opiniões dos navegadores portuguezes, dizendo: «E
-agora que os Portuguezes navegam tanto, acham
-que Marino foi exacto.»<a id="FNanchor_101" href="#Footnote_101" class="fnanchor">[101]</a></p>
-
-<p>E note-se ainda que Colombo avaliava o grau em
-56 milhas e ⅔, baseando-se nos calculos do geographo
-arabe Al-Fragan, e confundindo assim a milha
-italiana com a milha de Al-Fragan, de fórma que
-o grau ficava tendo apenas pouco mais de 14 leguas.
-Toscanelli, na sua famosa carta de 1474, avaliava
-o espaço a percorrer de um modo differentissimo.
-D. João II ver-se-hia de certo embaraçado
-para avaliar quem tinha razão, e regeitaria então
-sem hesitar o projecto de Colombo se soubesse
-que de todos os geographos da antiguidade o que
-menos se enganára fôra Eratostenes que calculára
-a distancia entre o promontorio Sacro, quer dizer
-o cabo de S. Vicente e a Sera, quer dizer a China,
-em 240 grau. A distancia verdadeira é 230.<a id="FNanchor_102" href="#Footnote_102" class="fnanchor">[102]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span></p>
-
-<p>Junte-se a isto a opinião contraria do seu conselho
-scientifico, que a manifestava não só porque todas
-as corporações sabias têem uma tendencia innata
-para repellir as idéas novas apresentadas por quem
-não pertence ao seu gremio scientifico, mas tambem
-porque as propostas de Colombo tinham, como acabamos
-de ver, muitos pontos vulneraveis. Faziam
-parte do conselho dois judeus, Rodrigo e Josef, que
-de certo conheciam bem o arabe, e aos quaes talvez
-não escapasse o erro da interpretação do geographo
-arabe Al-Fragan na medição dos graus. A rejeição
-da proposta de Colombo era portanto inevitavel.</p>
-
-<p>E comtudo D. João II, se não tinha a imaginação
-apaixonada do infante D. Henrique, que se deixaria
-de certo seduzir pelo enthusiasmo do italiano, tinha
-o espirito bastante elevado para reconhecer que não
-era Colombo um aventureiro vulgar. Apenas elle saíu
-do nosso paiz, teve um baque no coração, e, passando
-por cima de tudo e da opinião dos seus conselheiros,<span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span>
-e das tendencias naturaes do seu espirito,
-escreveu-lhe a famosa carta em que o chamava.<a id="FNanchor_103" href="#Footnote_103" class="fnanchor">[103]</a>
-Porque não veiu Colombo? Porque saíra bastante
-irritado com o parecer naturalmente desdenhoso do
-conselho scientifico do rei, ou porque os seus amores
-com D. Beatriz Enriquez, a mãe de Fernando Colombo,
-o retiveram em Sevilha? Julgamos mais verosimil
-a primeira hypothese. O resentimento de Colombo
-era tão profundo que não duvidou accusar
-D. João II de uma acção que elle bem sabia que era
-absurda em primeiro logar, que seria indigna de um
-homem cujo caracter elle não podia deixar de respeitar.</p>
-
-<p>E comtudo a historia tem repetido essa accusação,
-injusta, mesquinha e disparatada! Colombo accusou
-D. João II de o ter repellido, mas de ter aproveitado
-ao mesmo tempo as suas indicações para
-mandar dois navios em busca da Asia pelo occidente,
-e que esses navios, açoitados por uma tempestade,
-tinham sido obrigados a voltar para Lisboa.</p>
-
-<p>Em primeiro logar era evidente que a viagem de<span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span>
-descoberta não podia começar senão em Cabo Verde
-ou nos Açores. Se uma tempestade occasional os tivesse
-feito voltar a Lisboa, poucos dias depois de terem
-d’aqui saído, não era caso para descoroçoar. Só
-passado o meridiano dos Açores é que principiava
-a expedição.</p>
-
-<p>Demais, não sabemos que antes de Colombo muitos
-navegadores portuguezes tinham sondado os mares
-do occidente, não com o fito de demandarem a
-Asia, mas com o intuito de descobrirem terras novas?
-Era a transformação do intuito que representava
-o abuso de confiança? Era a escolha do parallelo
-a seguir? Não tinha o rei de Portugal a carta
-de Toscanelli que preconisava tambem a escolha do
-parallelo que a Cipango conduzisse?</p>
-
-<p>Não vemos nós claramente que a unica difficuldade
-de D. João II estava em fazer por sua conta a
-expedição? Se Colombo a fizesse á sua custa, não
-receberia do rei de Portugal senão todas as animações.
-E, recusando isso a Colombo, que elle considerava
-e estimava, ia fazel-o com outros pilotos, que,
-ainda que não tivessem menos habilidade nautica,
-não teriam de certo estudado a questão com a perseverança
-e o enthusiasmo de Colombo?</p>
-
-<p>Mas não continuemos, podemos hoje felizmente
-mostrar de um modo evidentissimo qual foi o facto
-verdadeiro que, mal interpretado, mal comprehendido,
-adulterado por alguma informação calumniosa,<span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span>
-mais ainda pelo resentimento de Colombo, serviu de
-base á sua accusação.</p>
-
-<p>Temos mostrado como o governo portuguez fazia
-as concessões aos navegadores ilheus que queriam
-demandar terras novas: dava-lhes n’essas terras todos
-os privilegios possiveis, o direito de administrar
-a justiça, reservando sempre para a corôa os casos
-de pena de morte ou de talhamento de membros.
-Accentuava bem que esses privilegios não se limitavam
-ao caso de ser despovoada a terra que se encontrasse,
-mas que, se encontrassem terra habitada,
-como a famosa ilha das Sete Cidades, por exemplo,
-tinham sobre os seus moradores o mesmo poder com
-as mesmas restricções, e esses moradores tambem
-os mesmos privilegios. Ora em 1486, pouco depois
-de Colombo partir de Portugal, appareceu Fernão
-d’Ulmo a pedir uma concessão semelhante. El-rei
-fez-lh’a nas condições das anteriores, com umas modificações
-que são eloquentes:</p>
-
-<p>Em primeiro logar Ruy Gonçalves da Camara pedira
-<i>pera buscar nas partes do mar ouciano huumas
-ylhas</i>, Fernão Telles obtem a concessão de <i>quaesquer
-ilhas que elle achar</i>, e depois diz-se-lhe que a mesma
-concessão se faz no caso das ilhas serem povoadas.
-Fernão Dulmo pede que El-rei «lhe faça mercê e
-reall doação da dita hylha ou hylhas <span class="smcap">ou terra firme</span>
-povoradas ou despovoradas, etc.» El-rei concede.</p>
-
-<p>Além d’isso faz-lhe mercê de toda a justiça <i>com<span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span>
-alçada de poder enforcar, matar e de toda outra
-pena criminall.</i></p>
-
-<p>Prevê o caso de que as ilhas ou <i>terra firme</i> sejam
-povoadas e offereçam resistencia a Fernão Dulmo,
-que vae á sua custa, é claro, e com a gente que poder
-levantar e pagar, e então El-rei diz-lhe: «ssendo
-caso que sse não queiram sujeitar <i>as ditas hylhas e
-terra firme a nos, mandaremos com o dito Fernam
-Dulmo gente e armadas de navios com noso poder
-pera sogigar as ditas hylhas e terra firme e ele Fernam
-Dulmo hyrá sempre por capitam moor das ditas
-armadas</i>.»</p>
-
-<p>O que mostra isto? Mostra que a insistencia de
-Christovam Colombo fez impressão em El-rei. Não
-vai nem por sombras intentar uma expedição á sua
-custa, mas procura facilitar o mais possivel as expedições
-para o occidente. Admitte a possibilidade
-de se encontrar terra firme, não põe as minimas restricções
-ao poder do descobridor, e, se a terra firme
-ou as ilhas se encontrarem e forem povoadas, se forem
-a Asia, é o que isto quer dizer, Fernão Dulmo
-pode contar que terá o rei comsigo com todo o seu
-poder para o ajudar, e o posto de capitão-mór garantido
-nas armadas que se expedirem.</p>
-
-<p>O sr. Ernesto do Canto, que publica no seu livro
-esta carta de doação na integra, estranha o facto que
-acabamos de notar, e escreve:</p>
-
-<p>«A jurisdicção concedida por esta carta é muito<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span>
-mais extensa do que a dos documentos analogos e
-anteriores, <i>o que admira da parte de D. João II,
-que tanto luctou para estabelecer a centralisação do
-poder real</i>.»<a id="FNanchor_104" href="#Footnote_104" class="fnanchor">[104]</a></p>
-
-<p>É positivamente a impressão produzida na alma
-do rei pelas propostas de Colombo. A visão do occidente
-começa a assenhorear-se da sua alma e atormenta-o.
-Querem outra prova ainda? Esta carta régia
-foi apresentada ao tabellião, e entre Fernão Dulmo
-e João Affonso celebra-se um contracto em que ha
-a seguinte clausula: «e quanto he ao cavalleiro alemam
-que em companhia deles hadir que ele alemam
-escolha dir em qualquer caravella que quiser e do
-dia que ambos partirem da dita hylha Terceira, etc.»</p>
-
-<p>Quem é este cavalleiro allemão que está evidentemente
-nos Açores e que parte com a expedição escolhendo
-a caravela que quizer? É claramente Martim
-de Behaim, que acaba de voltar da viagem que
-fez ao Zaire com Diogo Cão, Martim de Behaim, que
-tambem sonha com o encontro da Asia pelo occidente,
-que muita vez trocou idéas com Christovam
-Colombo a esse respeito, que se resolve a fazer uma
-tentativa, tentativa que parece não ter ido por deante,
-ou que, se se realisou, foi infeliz e se realisou sem
-elle, porque annos depois o encontramos na Allemanha<span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span>
-trabalhando no seu famoso globo, e voltando de
-Nuremberg a Lisboa com o intuito de realisar emfim
-a sua expedição, munido de recommendações do
-imperador para o rei de Portugal e de animações de
-sabios. No intervallo Colombo antecipára-se-lhe. A
-America estava descoberta. Demais entre a saída de
-Christovam Colombo de Portugal e o descobrimento
-da America dera-se um grande acontecimento que
-robustecera a confiança de D. João II no methodo
-que seguira e que dissipára as suas apprehensões
-de um curto caminho para a Asia pelo occidente.
-A costa africana occidental fôra completamente descoberta,
-transpozera-se o Equador, percorrera-se
-toda a zona torrida, encontrára-se o termo do continente
-africano, e dobrára-se o cabo em cujo nome
-<i>Boa Esperança</i> D. João II condensára o immenso
-jubilo da sua alma. O primeiro dos grandes problemas
-geographicos, que nem a antiguidade nem a
-edade média tinham conseguido resolver, tinham-n’o
-os Portuguezes resolvido. A preoccupação, que evidentemente
-tinham deixado no espirito do rei as
-propostas de Colombo, dissolvia-se por completo na
-alegria d’este triumpho.</p>
-
-<p>Mas vê-se bem agora como o conhecimento da
-nova tentativa açoriana, semelhante aliás a tantas
-outras que Colombo bem conhecia, devia ter irritado
-o animo do Genovez, que saía de Portugal, azedo e
-despeitadissimo. Chegou-lhe provavelmente aos ouvidos<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span>
-tambem a noticia das concessões excepcionaes
-feitas pelo rei, e até da designação especial de terra
-firme a descobrir. Tanto bastou para que se dissesse
-roubado, como se Colombo tivesse outra coisa que
-se lhe roubasse que não fossem as suas qualidades
-pessoaes, o seu genio, o seu enthusiasmo, o seu conhecimento
-da nautica e da astronomia. Tudo isso
-o levára elle comsigo. Demais, as concessões de D.
-João II, por mais amplas que fossem, não chegavam
-ao subsidio. O que D. João II recusára a Colombo,
-recusava-o tambem a Fernão Dulmo. N’estas circumstancias,
-mantinha-se nos seus principios; de
-que podia então queixar-se Colombo?</p>
-
-<p>Tambem, deve dizer-se, só d’essa vez se mostrou
-Colombo, n’um momento de colera, injusto
-com o nosso paiz. A terra de sua mulher, terra
-onde nascera seu filho, fôra sempre a terra dos
-seus amores. Com este povo de marinheiros se creára,
-pode assim dizer-se, porque foi aqui que brotaram
-devéras na sua alma as suas grandes aspirações,
-foi com o trato dos nossos pilotos que se
-instruiu praticamente, que aprendeu, por assim
-nos exprimirmos, a theoria das descobertas. Não o
-esqueceu nunca, nem quando pensava que era pelo
-vôo das aves que os Portuguezes tinham descoberto
-as ilhas, nem quando invocava, para sustentar uma
-das suas affirmações, os Portuguezes que tinham
-navegado tanto. Como Portuguez até se considerava,<span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span>
-e fazia-lh’o sentir Toscanelli.<a id="FNanchor_105" href="#Footnote_105" class="fnanchor">[105]</a> Com os nossos
-descobrimentos se enlaçaram os seus, e, apesar
-de tudo, vê-se-lhe não sei que funda pena de não
-ter podido fazer a sua gloriosa descoberta nos navios
-da nação amada. «O rei de Portugal, diz elle
-n’uma carta escripta a Fernando o Catholico pouco
-tempo antes da sua morte, <i>que entendia mais do
-que qualquer outro rei de descobertas de paizes desconhecidos</i>,
-de tal fórma o cegou a vontade do Altissimo
-que, durante quatorze annos, não pôde comprehender
-o que eu lhe dizia.» E tão extranho lhe
-parece esse caso que o toma á conta de milagre, e
-diz que <i>Nuestro señor le atajó la vista, el oido y
-todos los sentidos</i>.<a id="FNanchor_106" href="#Footnote_106" class="fnanchor">[106]</a></p>
-
-<p>Não! a verdade era que a empreza de Colombo
-era a empreza de um allucinado de genio, de um
-homem em quem a imaginação predomina, de um
-visionario que tem visões lucidas, de um inspirado,
-de um louco, e homens assim não podem dirigir-se,
-sem ser repellidos, áquelles que teem o forte equilibrio
-de todas as faculdades, aos que se deixam
-guiar em vida não pelas columnas de fogo da visão
-biblica, nem pelas scintillações dos sonhos, mas<span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span>
-pelo clarão firme, sereno, da razão e do raciocinio.
-Encontraria Christovam Colombo no infante D. Henrique
-um homem que o comprehendesse, porque
-era um allucinado tambem; na epocha em que apparecia
-só o podia comprehender uma alma feminina,
-vibratil a todos os enthusiasmos, apaixonada
-pelas visões mysticas, accessivel á influencia magnetica
-de uma eloquencia aquecida pela sinceridade
-de uma convicção ardente, de uma mulher,
-emfim, que se chamava Isabel a Catholica, a mais
-radiosa encarnação da alma heroica da Hespanha,
-aquella que nos apparece nos longes da historia
-como a estatua da Poesia do Romancero, cavalheiresca
-e meiga, varonil na intrepidez e feminil na
-suave e captivadora influencia, e que elle vinha encontrar
-no momento mais proprio para a levar para
-as grandes conquistas ideaes, dentro dos muros da
-conquistada Granada, tendo varrido do solo de Hespanha
-a ultima tribu arabe e o ultimo soberano
-oriental, tendo feito tremular sobre o crescente prostrado
-a bandeira da cruz, e anciando tambem por
-abrir novos mundos á energia hespanhola, novas
-conquistas ao seu pensamento, enamorando-se facilmente
-da idéa de transpôr os limites do Oceano,
-de tentar, como outr’ora o infante D. Henrique, a
-gloriosa cruzada dos mares, e de ir arrancar emfim
-aos thesouros escondidos no tumulo do Sol o oiro
-do resgate para o tumulo de Christo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="IX">IX<br />
-<span class="smaller">O tratado de Tordesillas
-e a viagem de Pedro Alvares Cabral</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>Quando em março de 1493 Christovam Colombo
-entrou triumphalmente em Lisboa, e apresentou a
-D. João II os indigenas que trazia de Guanahani e
-lhe disse que voltava das terras de Cipango, o despeito
-de D. João II foi extraordinario. Tão pouco o
-soube esconder que houve fidalgos que lhe propozeram
-punir com a morte a jactancia do Genovez.<a id="FNanchor_107" href="#Footnote_107" class="fnanchor">[107]</a>
-D. João II regeitou a offerta, e esmerou-se em dar
-a Christovam Colombo todos os testemunhos do seu
-apreço, mas a dôr era profunda e o desejo de desforço
-imperioso. Sustentando desde logo que as ilhas<span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span>
-descobertas por Colombo estavam nos mares adjacentes
-á Guiné, tratou de mandar uma esquadra a
-esses paizes do occidente. A Hespanha protestou
-logo, e D. João II percebeu que tinha de desistir do
-intento, mas a sua diplomacia não descançou um
-instante, e o tratado de Tordesillas foi para essa
-diplomacia um verdadeiro triumpho.</p>
-
-<p>Tanto se empenhavam os reis de Hespanha em
-tomar conta das terras que Christovam Colombo descobrira,
-que a toda pressa se pediram para Roma
-as bullas necessarias, e com tanta rapidez se andou
-na negociação, facilitada, pelo facto de ser o Papa
-Alexandre VI—Rodrigo Borgia—hespanhol de nascimento
-e creatura dos soberanos hespanhoes, que,
-tendo chegado Christovam Colombo no dia 15 de
-março de 1493, e só tendo sido recebido por Fernando
-e Isabel em abril, logo a 3 de maio do mesmo
-anno se concediam á Hespanha essas ilhas e terras
-descobertas por Christovam Colombo; mas n’essa
-noite, ao que parece, pensou-se que seria bom, para
-evitar disputas com os Portuguezes, que se marcasse
-uma divisão entre estes, a quem os papas anteriores
-tinham concedido os mares adjacentes á
-costa africana do cabo Não e Bojador para deante,
-e os Hespanhoes, e no dia 4 de maio é que se promulgou
-a bulla definitiva, em que se traçou a linha
-divisoria do polo arctico «ad polum antarcticum quæ
-linea distet a qualibet insularum quæ vulgariter nuncupantur<span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span>
-de los Azores et Cabo Verde centum leucis
-versus occidentem et meridiem».<a id="FNanchor_108" href="#Footnote_108" class="fnanchor">[108]</a></p>
-
-<p>Claramente se vê por este <i>qualibet</i> que a segunda
-bulla foi redigida á pressa e á noite, não estando
-presente nenhum cosmographo, que podesse dizer
-aos negociadores qual era a mais occidental das
-ilhas dos Açores e de Cabo Verde, porque, como
-sensatamente observa Humboldt, é singular esta expressão
-applicada a dois archipelagos que ambos
-occupam uma grande extensão em longitude. Mas
-não havia tempo para demoras porque era necessario
-que apparecesse o facto consummado antes que
-o rei de Portugal tivesse tempo de saber de que é
-que se tratava. Depois do Papa ter julgado, suppunha-se
-que um rei catholico não ousaria protestar.</p>
-
-<p>Enganaram-se; já se não estava em plena edade
-média, nem D. João II era homem que deixasse o
-Papa interferir nos seus negocios temporaes. Protestou
-immediatamente e tanto que a bulla de Alexandre
-VI caducou, e a linha divisoria, que passava
-a cem leguas de qualquer das ilhas dos Açores e de
-Cabo Verde, transformou-se n’uma linha que passava
-a 370 leguas do archipelago de Cabo-Verde.</p>
-
-<p>As negociações levaram tempo, e não foi sem reluctancia
-que Fernando e Izabel cederam ao seu impertinente<span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span>
-visinho; mas nem Portugal n’esse tempo
-era paiz cuja inimizade fosse indifferente, nem os
-reis catholicos tinham ainda consciencia bem nitida
-da importancia das descobertas feitas; demais havia
-intimas relações de familia entre as duas casas reinantes.<a id="FNanchor_109" href="#Footnote_109" class="fnanchor">[109]</a>
-O que é certo é que Portugal triumphou e
-o tratado assignado em Tordesillas em 7 de junho
-de 1494 substituiu para todos os effeitos a bulla de
-4 de maio do anno anterior.</p>
-
-<p>Pois tão superficialmente se estuda a historia
-d’estes grandes acontecimentos da vida da humanidade
-que ainda hoje passa em julgado que foi a bulla
-de Alexandre VI que marcou a linha divisoria entre
-as descobertas portuguezas e as descobertas hespanholas,
-e o proprio Humboldt, eruditissimo como
-é, tanto parece ignorar o texto do tratado de Tordesillas
-que, suppondo que foi Christovam Colombo
-que indicou a linha das cem leguas por consideral-a
-a linha em que não tinha variação a agulha magnetica,<a id="FNanchor_110" href="#Footnote_110" class="fnanchor">[110]</a>
-imaginando que a adaptação d’essa demarcação
-physica á demarcação politica tinha immensa
-importancia para Colombo, nem levemente allude<span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span>
-ao desapontamento que a Colombo a mudança da
-linha divisoria devia ter causado.</p>
-
-<p>N’esse tratado, comtudo, ha um artigo transitorio
-que bem claramente mostra o absurdo da supposta
-descoberta de João Vaz Côrte Real. «E porque
-pode ser, diz o artigo, que os navios d’El-Rei
-e Rainha de Castella e Aragão tenham descoberto
-até vinte do corrente mez de junho algumas ilhas
-ou terras firmes dentro da sobredita linha que se
-ha de lançar de polo a polo a trezentas e setenta
-leguas das ilhas de Cabo Verde para o Poente, assentaram
-as Altas Partes Contractantes por seus
-Procuradores, que, para se evitarem duvidas, todas
-quantas tivessem sido achadas ou descobertas até os
-vinte de junho, bem que o fossem por navios e gente
-de Castella, sendo dentro das primeiras duzentas e
-cincoenta leguas das sobreditas trezentas e setenta a
-partir das ilhas de Cabo-Verde para o Poente, ficariam
-para El-Rei de Portugal, <i>e as que tivessem sido
-achadas dentro do dito prazo nas outras cento e
-vinte leguas restantes em que deve findar a dita linha
-pertenceriam a El-Rei e Rainha de Castella,
-bem que as cento e vinte leguas façam parte das trezentas
-e setenta leguas que ficam para El-Rei de
-Portugal</i>. E se dentro dos ditos vinte de Junho não
-fôr descoberto nada pelos navios d’El-Rei e Rainha
-de Castella dentro das ditas cento e vinte leguas, o
-que dentro d’ellas <i>d’ahi em diante se descobrir</i> ficará<span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span>
-pertencendo a El-Rei de Portugal, como acima
-fica dito.<a id="FNanchor_111" href="#Footnote_111" class="fnanchor">[111]</a></p>
-
-<p>Lá se ía a Terra Nova, se ella já estivesse descoberta,
-<i>porque só o que d’ahi em diante se descobrisse</i>
-n’essas ultimas cento e vinte leguas de zona
-portugueza poderia ficar pertencendo a El-Rei de
-Portugal.</p>
-
-<p>Ora não era de certo platonicamente que D. João II
-reclamava para si 370 leguas de mar para o occidente,
-mas em aproveital-as tinha o governo portuguez
-de ser prudentissimo para não despertar as justas
-reclamações do governo de Hespanha. Era necessario
-que se mostrasse sempre empenhado em
-proseguir as suas descobertas para o oriente, deixando
-a Hespanha á vontade para o occidente. As
-370 leguas deviam servir-lhe para poder navegar
-com os braços livres para o sul. Tambem no primeiro
-momento não teria o nosso governo outro intuito.
-A expedição da India absorvia-lhe todo o pensamento.</p>
-
-<p>Vasco da Gama foi e attingiu a meta, e a gloria
-immensa que d’ahi proveio e os proventos palpaveis
-e immediatos que d’ahi resultavam escureceram por
-um momento a gloria de Colombo. Comtudo era incontestavel
-que a viagem pelo Cabo da Boa Esperança<span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span>
-durava immenso tempo, e tinha difficuldades
-e perigos sem numero, e a Asia, que Colombo encontrára,
-estava tão perto! Note-se bem que não havia
-a esse respeito a minima duvida. Colombo chegára
-á Asia, chegára ás Indias, não á India riquissima
-a que aportára Vasco da Gama, não ao Cathay
-e ao Cipango fabulosamente opulentos de Marco
-Polo, mas a terras selvagens que não podiam ser
-senão as sentinellas avançadas do continente maravilhoso
-e dos archipelagos opulentos. Era ainda para
-o occidente que se encontrava Cipango, era para o
-sul? A opinião dos sabios tendia para esta ultima
-solução, e Pedro Martyr d’Anghiera, o celebre amigo
-de Colombo, exclamava indignado com uma expedição
-hespanhola á Florida:</p>
-
-<p>«Para o sul! para o sul! Para que precisamos
-nós de producções semelhantes ás producções vulgares
-do Meio-Dia da Europa?»<a id="FNanchor_112" href="#Footnote_112" class="fnanchor">[112]</a></p>
-
-<p>O que deduzimos d’aqui? Deduzimos que, tendo
-louvavelmente D. Manuel seguido á risca a politica
-de D. João II, a descoberta do Brazil por Pedro Alvares
-Cabral foi resultado não do acaso, mas do intento
-firme e propositado de procurar nos mares
-occidentaes o que Colombo ainda não encontrára
-claramente—outro caminho para a India.</p>
-
-<p>Allega-se contra isso o silencio absoluto do governo<span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span>
-a esse respeito. Devemo-nos lembrar, porém,
-que Pedro Alvares Cabral não podia levar instrucções
-patentes e abertas que denunciassem intentos
-contrarios aos interesses da Hespanha. Lembremo-nos
-de que os reis catholicos tinham protestado abertamente
-contra o projecto de uma expedição portugueza
-para o occidente tentada por D. João II. Lembremo-nos
-de que, se a Hespanha prohibia com penas
-severas as expedições particulares e clandestinas
-para o lado que o governo estava explorando,
-não podia consentir que expedições identicas fossem
-tentadas por um governo estrangeiro. O governo
-portuguez tinha de se mostrar exclusivamente preoccupado
-com a navegação do Oriente pela Africa;
-se as suas esquadras aproveitavam as 370 leguas
-para se chegarem para o occidente era para evitarem
-as calmarias da Guiné, e nunca no intento de interferirem
-com as descobertas hespanholas, tanto assim
-que, apenas D. Manuel participa ao rei de Hespanha
-o descobrimento do Brasil, apressa-se a dizer-lhe
-que é terra muito boa e muito commoda para a
-navegação da India. Effectivamente o rei de Hespanha
-obtivera promessa positiva do rei de Portugal
-de que não tentaria navegar para o occidente, e tão
-positiva ella era que em cartas a Christovam Colombo
-declara el-rei D. Fernando, que era aliás bem desconfiado,
-que não havia motivo para desconfiar das
-intenções do rei de Portugal. Apesar de tudo estavam<span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span>
-sempre prestes caravelas para poderem seguir
-no encalço das nossas, caso algumas saíssem com intenções
-suspeitas.<a id="FNanchor_113" href="#Footnote_113" class="fnanchor">[113]</a> Não admira portanto que se falasse
-bem alto na necessidade de se evitar as calmas
-da Guiné, que nunca mais preoccuparam os
-navegadores portuguezes depois do Brasil se ter descoberto,
-que D. Manuel quizesse convencer bem o
-rei de Hespanha de que a nova terra não era para
-elle senão um porto de escala para a navegação do
-oriente.</p>
-
-<p>Além d’isso, sabe-se pela leitura do famoso livro
-de Duarte Pacheco, <i>Esmeraldo de situ orbis</i>, que,
-apesar de todas as precauções hespanholas, já em
-1498 Duarte Pacheco recebera ordens para ir sondar
-os mares do occidente. De um periodo da sua
-declaração, confusamente redigido, se quer deduzir
-que Duarte Pacheco houvesse então descoberto o
-Brasil, e que Pedro Alvares Cabral não fosse senão
-tomar posse, mas a descripção de Duarte Pacheco
-é absolutamente inexacta, o que prova que não vira<span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span>
-a terra de que fala, e além d’isto não era natural que
-Duarte Pacheco, depois de ter descoberto secretamente
-o Brasil, não fosse na esquadra que era exactamente
-encarregada de o descobrir officialmente.<a id="FNanchor_114" href="#Footnote_114" class="fnanchor">[114]</a></p>
-
-<p>O que prova porém esta declaração é que o governo
-portuguez não descançava em proseguir na
-navegação occidental, que, apesar das precauções dos
-hespanhoes, lá iam navios nossos perscrutar o occidente,
-e que bem provavel é que Pedro Alvares Cabral,
-cujas instrucções—por acaso ou de proposito?—só
-nos chegaram truncadas, fosse encarregado de
-ver se, mais feliz do que Colombo, encontrava, de
-caminho para a India, as terras maravilhosas cujo sonho
-continuava a perseguir a imaginação dos Europeus.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span></p>
-
-<p>Como era possivel, diz-se, que Pedro Alvares levasse
-uma esquadra tão numerosa, se fosse no intento
-de fazer descobertas, que se faziam habitualmente
-com tres ou quatro caravelas? Em primeiro
-logar era indispensavel esconder ao rei de Hespanha
-esses intentos descobridores, em segundo logar,
-se effectivamente se fosse ter ás terras governadas
-pelos potentados de que Marco Polo dera noticia,
-o exemplo do que succedera a Vasco da Gama
-bem mostrava quanto era necessario que se não
-apparecesse com pequena força deante d’esses soberanos
-do Oriente, em terceiro logar o fim principal
-da viagem era ir á India. Se effectivamente se
-topasse o Cipango ou o Cathay, a esquadra de Pedro
-Alvares ia bem, assim forte e numerosa; se nada
-se encontrasse, ou se se encontrasse terra como a
-que Colombo encontrara, voltava-se a seguir o velho
-caminho de Calicut.</p>
-
-<p>Porque é que Pedro Alvares, tendo realisado a
-descoberta de que ia incumbido, não voltou a Lisboa
-a dar a gloriosa noticia de tão importante feito?
-Porque nem elle lhe reconheceu a importancia nem
-na côrte lh’a reconheciam. O que dava cuidado ao
-governo portuguez não era que Colombo tivesse descoberto
-umas ilhas selvagens, era que elle tivesse
-encontrado um novo caminho para a India, assim
-como o que desconsolava os reis catholicos, e fazia
-perder a Colombo o seu valimento e auctoridade,<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span>
-era que, em vez d’elle ter encontrado paizes florescentes
-e civilisados, encontrára ilhas selvagens.</p>
-
-<p>Depois do que temos dito, não extranham de
-certo os leitores e encontra acceitavel explicação o
-facto de D. Manuel não ter dito aos reis catholicos,
-nem se ter publicado o verdadeiro motivo da descoberta
-do Brasil. Vejamos agora se os motivos até
-hoje allegados teem razão de ser.</p>
-
-<p>Foi uma tempestade que arrojou os navios em
-direcção ao occidente? Extranha tempestade, que,
-em vez de dispersar os navios, os leva de conserva
-ao mesmo ponto! Além d’isso nem o piloto da esquadra,
-que fez a relação que Ramusio publicou
-nem Pero Vaz Caminha e o physico João nas suas
-celebres cartas, nem D. Manuel nas cartas que escreveu
-aos reis catholicos dizem uma palavra a respeito
-de semelhante tempestade. Foi muito depois
-que Pedro de Mariz se lembrou de dar, por effeito
-decorativo, a tempestade legendaria das descobertas
-á narrativa do descobrimento do Brasil, que lhe parecera
-provavelmente desenfeitada demais na sua
-abstenção de episodios.</p>
-
-<p>Note-se além d’isto que, segundo as informações
-dos roteiros colligidas n’uma preciosa memoria do
-illustre official da marinha portugueza o sr. Arthur
-Baldaque da Silva, as tempestades que sopram na
-região percorrida pelas esquadras de Pedro Alvares,
-e na quadra em que elle a percorreu são de noroeste<span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span>
-e de sudoeste, que, longe de impellirem os navios
-para a costa do Brasil pelo contrario os afastariam.<a id="FNanchor_115" href="#Footnote_115" class="fnanchor">[115]</a></p>
-
-<p>Mas foram as correntes que levaram os navios,
-diz Gonçalves Dias na memoria em que procura refutar
-os argumentos de Joaquim Norberto, e a grande
-corrente equatorial arrastou os navios para a
-costa do Brasil.<a id="FNanchor_116" href="#Footnote_116" class="fnanchor">[116]</a> Se Pedro Alvares Cabral tivesse
-chegado ao Pará, a sua ida teria uma explicação,
-porque a corrente segue de leste a oeste ao longo
-do Equador, mas, bifurcando no cabo de S. Roque,
-segue uma direcção tal, combinada com os ventos
-geraes, que uma esquadra, diz o almirante Monchez
-ha pouco fallecido, «não pode senão afastar-se<span class="pagenum"><a id="Page_210"></a>[210]</span>
-cada vez mais da costa, quando quer dobrar o cabo
-da Boa Esperança, visto que de um lado os ventos
-permittem navegar para leste, do outro a costa afasta-se
-para oeste».<a id="FNanchor_117" href="#Footnote_117" class="fnanchor">[117]</a> Se se appella para as correntes
-da costa, vemos, segundo o testemunho do mesmo
-almirante Monchez, «que durante a monção de SO
-levam para o norte»;<a id="FNanchor_118" href="#Footnote_118" class="fnanchor">[118]</a> ora a monção de SO dura de
-abril a setembro, exactamente quando Pedro Alvares
-Cabral era, segundo se diz, arrastado pelas correntes
-para o sul.</p>
-
-<p>Estes factos pareceram tão singulares ao almirante
-Monchez que não podendo explicar por elles
-a descoberta do Brasil, e não conhecendo os elementos
-politicos da questão, deduz o seguinte: «É
-pois quasi impossivel dar outro motivo plausivel da
-chegada de Cabral á vista de terra pelos 16° de latitude,
-a não ser um erro de caminho por esse navegador.»<a id="FNanchor_119" href="#Footnote_119" class="fnanchor">[119]</a></p>
-
-<p>Esse erro tinha de ser constante durante 15 dias,
-e seria singular que só se désse quando trazia em
-resultado a descoberta do Brasil, ao passo que antes
-d’isso tinham passado, sem o mais leve engano,
-pelas Canarias e por Cabo Verde, e depois d’isso
-foram direitos ao cabo da Boa Esperança.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_211"></a>[211]</span></p>
-
-<p>Confronte-se isto tudo, note-se que temos prova
-authentica de que em 1498, do anno immediato
-áquelle em que Vasco da Gama sahira de Portugal,
-foi Duarte Pacheco incumbido de ir descobrir terras
-a sudoeste, que o governo hespanhol tanto desconfia
-dos intentos de Portugal que espreita as nossas
-costas e tem navios promptos para seguir qualquer
-expedição portugueza que para o occidente se dirija,
-que D. Manuel, para desfazer suspeitas, trata
-logo de declarar que a terra descoberta a utilidade
-que tem é servir de porto de escala para a navegação
-da India, que trata tambem de disfarçar a distancia
-a que o Brasil fica de Cabo Verde, porque,
-tendo-lhe dito Pero Vaz de Caminha na sua carta
-que a nova terra ficava a 660 ou 670 leguas da
-ilha de S. Nicolau no archipelago de Cabo Verde,
-para os reis catholicos diz elle que fica a 400 leguas
-não da ilha mas do Cabo Verde que bem se
-pode suppor que seja o da costa africana,<a id="FNanchor_120" href="#Footnote_120" class="fnanchor">[120]</a> de fórma<span class="pagenum"><a id="Page_212"></a>[212]</span>
-que ficava assim o Brasil dentro da demarcação do
-tratado de Tordesillas, e veja-se se não é de uma
-evidencia absoluta que a descoberta do Brasil estava
-nos planos do governo portuguez, não porque
-soubesse a terra que ia encontrar mas porque não
-queria deixar aos seus rivaes o proveito de um caminho
-para a Asia mais curto do que o que Vasco
-da Gama acabava de descobrir.</p>
-
-<p>Não vale a pena demorar-mo-nos nem um instante
-na refutação das lendas relativas a suppostos
-descobrimentos do Brazil, anteriores a Pedro Alvares
-Cabral. A lenda mais pueril é a que suppõe
-que, não só antes de Pedro Alvares ter aportado a
-terras de Santa Cruz, mas ainda antes de Colombo
-ter aportado a Guanahani, um Portuguez, João Ramalho,
-chegára a terras brasileiras. Baseia-se essa
-lenda n’um supposto testamento feito por esse João
-Ramalho, que foi efectivamente um dos primeiros
-colonos do Brasil, mas que se tornára, pela sua residencia
-entre selvagens, quasi tão selvagem como
-elles, testamento feito por elle em 1580, e em que
-declara que havia noventa annos que estava no Brasil,<span class="pagenum"><a id="Page_213"></a>[213]</span>
-aonde chegára, por conseguinte, em 1490. Era
-portanto macrobio este venerando descobridor que
-não podia ter menos de 20 annos quando chegou
-ao Brazil, e, ainda quando o fosse, era singular o
-testamento de um homem, que, aos 110 annos,
-tendo perdido as noções da vida civilisada, com tanta
-precisão chronologica dizia que estava no Brasil não
-ha oitenta ou noventa annos, como seria natural que
-o fizesse e talvez ainda exaggerando a conta, mas
-rigorosamente ha noventa! Ora d’esse testamento
-não ha noticia senão a que dá um d’esses chronistas
-fradescos do seculo <span class="allsmcap">XVII</span>, que tão facilmente, como
-é sabido, falsificavam datas e inventavam documentos.
-Mas o golpe mortal n’esta lenda infantil foi dado
-por um eminente escriptor brasileiro, o sr. Candido
-Mendes de Almeida, que depois de mostrar o absurdo
-da lenda e a ausencia de documentos em que se baseasse,
-publicou uma carta de um jesuita que, estando
-em 1559 na terra em que João Ramalho habitava,
-e dando conta aos seus superiores dos progressos
-da conversão dos indigenas, lhes fallava
-n’um Indio que lhe pediu que lhe dissesse quaes os
-dias em que devia jejuar, porque deixára de o saber
-desde <i>a morte de João Ramalho</i>, que era quem em
-vida lh’o dizia.<a id="FNanchor_121" href="#Footnote_121" class="fnanchor">[121]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_214"></a>[214]</span></p>
-
-<p>O que é, porém, estranho é que ainda encontremos
-com relação ao Brazil a questão dos mappas.
-Porque mestre João diz a D. Manuel que, para saber
-o sitio d’essa terra, veja um mappa-mundi antigo
-que tem Pero Vaz Bisagudo, d’ahi se conclue
-que o Brasil já fôra descoberto, tanto que já o inseriam
-n’um mappa. É a eterna historia dos mappas
-conjecturaes, dos mappas em que appareciam
-ilhas que ninguem vira e que ninguem chegou a vêr,
-e aquella terra ao sul do Equador, a terra incognita
-austral, a terra antichthona ou o <i>alter orbis</i>. Pois
-não se vê realmente que as cartas muitas vezes
-acompanhavam as descobertas, e que, se em rigor
-era possivel que se fizessem descobrimentos que ficassem
-desconhecidos, o que era impossivel era que
-a noticia d’esses descobrimentos se propagasse de
-fórma que lhes inserissem os cartographos nos mappas
-os resultados, e que apesar d’isso ficassem desconhecidos<span class="pagenum"><a id="Page_215"></a>[215]</span>
-dos escriptores, dos sabios e dos governos!</p>
-
-<p>Cem vezes o repetiremos: os descobridores do
-seculo <span class="allsmcap">XV</span>, cheios de respeito tradicional pela sabedoria
-antiga, não aspiravam senão a encontrar o
-que os antigos, no seu entender, conheciam perfeitamente,
-e por isso faziam esforços para adaptar o
-que descobriam e que encontravam aos mappas conjecturaes.
-Como veremos, o que procuravam agora
-era a terra antichthona, a que já se podia chegar
-desde o momento que se passára a zona torrida,
-mas que estava separada da nossa pela extensão dos
-mares. A essa terra antichthona suppunham chegar
-agora encontrando o Brasil, e era ao Brasil até que
-chamavam o <i>novo mundo</i>. Que Pedro Alvares Cabral
-julgára ter chegado á terra separada pelo mar do
-hemispherio septentrional é incontestavel, e por isso
-facilmente se convenceu, pelo que julgou deprehender
-dos gestos dos selvagens, que estava n’uma ilha,
-a que deu o nome, primeiro que o Brasil teve, de
-ilha de Vera Cruz.<a id="FNanchor_122" href="#Footnote_122" class="fnanchor">[122]</a></p>
-
-<p>Julgamos porém ter demonstrado que esse descobrimento
-se liga intimamente com o de Colombo,<span class="pagenum"><a id="Page_216"></a>[216]</span>
-é a sua consequencia, como era tambem, ao
-mesmo tempo, o da Terra-Nova por Gaspar Côrte
-Real. As descobertas portuguezas conjugadas com
-as de Colombo produziam a descoberta do Brasil.
-Os dois grandes problemas geographicos estavam
-resolvidos: a zona torrida não era inultrapassavel,
-e por isso Pedro Alvares Cabral, seguindo as pizadas
-de Bartholomeu Dias e de Vasco da Gama transpunha
-o Equador, entrava em plena zona torrida
-e ía tranquillamente ao hemispherio meridional. A
-extensão do mar oceano não era infinita, tinha o
-Atlantico outra margem, e Pedro Alvares Cabral ía
-com plena confiança procural-a. Sem os descobrimentos
-portuguezes nada faria Colombo, porque os
-Açores eram um ponto capital de partida para as
-expedições occidentaes, e porque os terrores da zona
-torrida e das suas proximidades, não lhe permittiriam
-seguir o parallelo que seguiu. Sem o descobrimento
-de Colombo nada faria Pedro Alvares Cabral,
-porque não ousaria ir tão longe para o occidente.
-A Hespanha e a Portugal devia o mundo essa
-transformação da sua geographia. Completal-a-hia
-a circum-navegação do globo e o encontro do caminho
-pelo occidente para a Asia, e, como se a Providencia
-quizesse d’essa forma sellar de um modo
-indestructivel a collaboração dos dois povos na obra
-mais importante da historia da humanidade, foi um
-capitão portuguez commandando navios hespanhoes<span class="pagenum"><a id="Page_217"></a>[217]</span>
-que deu ao mundo o cinto argenteo do rasto das
-suas quilhas, foi Fernão de Magalhães que planeou
-dirigiu e iniciou a expedição, foi Sebastião d’El-Cano
-que a completou e concluiu, e para que n’essa
-consagração ultima e solemne da conquista definitiva
-da Terra pelo homem, não faltasse tambem a
-patria gloriosa de Colombo, a audaz, a pensadora
-e sonhadora Italia, ía Pigafetta na expedição que
-narrou, para que assim os tres povos latinos, que
-eram egualmente benemeritos da civilisação e da
-sciencia, tivessem n’esse coroamento da grande obra
-os seus representantes. Essa epopéa ultima que ía
-pôr o fecho ao trabalho épico de um seculo para
-sempre glorioso nos fastos da humanidade, foi um
-Portuguez que a dirigiu, foi um Hespanhol que a
-completou, foi um Italiano que a escreveu.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_218"></a>[218]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_219"></a>[219]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="X">X</h2>
-</div>
-
-<p>Os Côrte-Reaes—Americo Vespucio
-Fernão de Magalhães</p>
-
-
-<p>Se antes da descoberta de Colombo, se tinham
-arrojado por mais de uma vez navegadores açorianos
-para os mares do Occidente, com muita mais
-razão o fariam, logo que esse importante acontecimento
-se realisou. Evidentemente as viagens haviam
-de multiplicar-se.</p>
-
-<p>O esforço dos Açorianos e muito especialmente
-dos Côrte-Reaes dirige-se então sobretudo para o
-Norte. Desde que Colombo chegou ás Antilhas, que
-elle tomou por archipelago asiatico, e a Cuba que
-elle tomou então por um pedaço de terra firme asiatica,
-opinião em que por muito tempo persistiu, os
-navegadores de todos os paizes e principalmente
-os que, antes de Colombo, como os Açorianos, já<span class="pagenum"><a id="Page_220"></a>[220]</span>
-se occupavam de descobertas para o occidente, haviam
-de procurar seguir-lhe as pisadas e procurar,
-o que elle não conseguira, encontrar as terras maravilhosas
-de Cipango e do extremo oriental das
-Indias. A convicção geral era que para o sul é que
-se conseguiria esse <i>desideratum</i>, e já vimos como
-Pedro Martyr d’Anghiera soltava com um enthusiasmo
-quasi irritado esse grito: Para o sul! para o
-sul!</p>
-
-<p>Era esse effectivamente o caminho que todos em
-geral seguiam. Colombo e os Pinzon ou foram mais
-para o occidente, ou foram para o sul. Mas isso não
-queria dizer que a idéa da navegação pelo norte não
-entrasse tambem em muitos espiritos.</p>
-
-<p>O mappa de Toscanelli, aquelle famoso mappa
-que era provavelmente o que estava nas mãos de
-Pero Vaz Bisagudo, obedecia aos principios do geographo
-que o desenhára e que tinha a convicção de
-que ao occidente havia um prolongamento da Asia,
-que defrontava com o continente europeu e africano
-desde a Islandia até Guiné. Se, indo ao centro, Colombo
-encontrára effectivamente a Asia, como suppunha,
-mostrava portanto que era verdadeira a conjectura
-de Toscanelli, restava confirmal-a completamente.
-Foi isso que levou Pedro Alvares Cabral e muitos
-outros navegadores, ou ás occultas ou a descoberto,
-a dirigirem-se para o sul, foi isso talvez o que levou
-os Côrte-Reaes para o Norte.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_221"></a>[221]</span></p>
-
-<p>Lembram-se os leitores de que uma das supposições
-da geographia systematica dos antigos era que
-o mar Baltico tinha saída para o oriente e que ía ligar-se
-com o mar Indico. Strabão dizia que «o facto
-de que certos navegadores viessem por mar da
-India á Hyrcania não é considerado como certo, mas
-que isso seja possivel, Patroclo nol-o assegura.»<a id="FNanchor_123" href="#Footnote_123" class="fnanchor">[123]</a>
-Pomponio Mela conta muito positivamente que Metellus
-Céler, sendo proconsul das Gallias, recebêra
-de presente de um rei germanico uns Indios que,
-açoitados pela tempestade, tinham vindo da India á
-Germania «vi tempestatum <i>ex Indicis æquoribus
-abrepti</i>.»<a id="FNanchor_124" href="#Footnote_124" class="fnanchor">[124]</a> Discutiu-se muito no nosso tempo se estes
-homens, que eram, ao que parece, e no caso de
-ser verdadeira a noticia, de uma raça differente da
-européa, não seriam afinal de contas senão Esquimaus
-arrojados, como a barcos tantas vezes succedêra
-e tem succedido, das costas americanas ás costas
-irlandezas, escocezas ou allemãs. O que é certo
-é que a idéa de haver communicação entre a Europa
-e a India pelo norte, indo-se, porém, do occidente
-para o oriente estava enraizada no animo de
-muitos geographos antigos.</p>
-
-<p>Assim que se encontrou ou se suppoz encontrar
-a costa asiatica indo-se pelo occidente, a communicação<span class="pagenum"><a id="Page_222"></a>[222]</span>
-tanto se podia fazer pelo norte, como pelo centro,
-como pelo sul. Effectivamente as costas asiaticas,
-como o suppozera Toscanelli, estendiam-se de
-norte ao sul, desde a Islandia até á Guiné. Era evidente
-que a expedição do norte tentava os açorianos.
-Logo que Gaspar Côrte-Real em 1500 encontrou
-terras, imaginou, como Colombo, ter encontrado
-terras asiaticas, e uma carta de Pespertigo,
-embaixador de Veneza em Portugal, é, para esclarecer
-esse assumpto, muito curiosa.</p>
-
-<p>Diz elle: «Tambem crêem (os <i>Portuguezes</i>) estar
-ligada (<i>a Terra dos Côrtes-Reaes</i>) com as Antilhas
-que foram descobertas pela Hespanha, e com a terra
-dos papagaios (<i>Brasil</i>) ultimamente achada pelos
-navios d’este reino que foram a Calicut.»<a id="FNanchor_125" href="#Footnote_125" class="fnanchor">[125]</a></p>
-
-<p>Humboldt que teve conhecimento d’este documento,
-espanta-se muito com elle. «No mez de outubro
-de 1501, diz o sabio escriptor, sabia-se já em
-Portugal que as terras do norte cobertas de neves
-e de gelo são contiguas ás Antilhas e á Terra dos
-Papagaios novamente encontrada. Esta advinhação
-que proclama, apesar da ausencia de tantos élos intermediarios,
-como ligação continental entre o Brasil
-descoberto por Vicente Vanez Pinzon, Diogo de<span class="pagenum"><a id="Page_223"></a>[223]</span>
-Sepe e Cabral e as terras geladas do Lavrador <i>é
-muito surprehendente</i>.»<a id="FNanchor_126" href="#Footnote_126" class="fnanchor">[126]</a></p>
-
-<p>A surpreza de Humboldt vem apenas da pouca
-importancia que elle dá á interferencia portugueza
-no descobrimento da America. Desde o momento
-que elle ignora as tentativas dos Açorianos para chegarem
-a terras occidentaes antes de Colombo, as
-tentativas que fizeram depois, desde o momento que
-elle não conhece as expedições clandestinas dos Portuguezes
-para encontrarem ao sul as terras asiaticas
-que Colombo não achára, desde o momento que
-attribue a um méro acaso a descoberta do Brasil
-por Pedro Alvares Cabral é evidente que não pode
-achar a concatenação de todos estes esforços, de
-que provém o presentimento da ligação de todas essas
-terras descobertas separadamente. Era sempre
-a Asia que todos os descobridores julgavam encontrar,
-ilhas da Asia ao sul, terras da Asia ao norte.
-N’um mappa publicado recentemente pelo sr. Harnin,
-o brilhante apologista dos Côrte-Reaes, se diz
-que viram n’umas terras a que não chegaram «serras
-muito espessas, pollo quall segum a opiniom dos
-cosmófircos se cree ser a <i>ponta d’asia</i>.»<a id="FNanchor_127" href="#Footnote_127" class="fnanchor">[127]</a></p>
-
-<p>A prioridade do descobrimento da Terra do Lavrador<span class="pagenum"><a id="Page_224"></a>[224]</span>
-e da Terra Nova por Gaspar Côrte-Real está
-hoje tão completamente demonstrada, depois que o
-sr. Harnin e o sr. Patterson publicaram os seus excellentes
-trabalhos, que nos parece escusado insistir
-na refutação das pretenções dos dois Cabots, venezianos
-ao serviço da Inglaterra. É realmente curioso
-e estranho, que as descobertas portuguezas, apenas
-são feitas, encontram logo echo em todo o mundo, e as
-descobertas estrangeiras, que destruiriam as nossas,
-tanto em segredo se fazem, que só depois se suppõe
-reconhecel-as por uma referencia vaga ou por um
-documento apocrypho. Apenas Gaspar Côrte-Real
-volta da Terra Nova, apressa-se Pedro Pascaalijo,
-embaixador de Veneza (de Veneza, que é a patria
-de Cabot) a communical-a ao seu governo, Alberto
-Contino ao duque de Mantua. Das viagens de João
-Cabot só se deprehende que podia ser que tivessem
-existido, por uma d’essas referencias vagas que temos
-mencionado. Mais ainda. Henrique VII de Inglaterra,
-em cujo proveito fizera Cabot a sua expedição,
-dá a 19 de março de 1501 a mais larga e
-avultada doação que é possivel imaginar-se a tres
-negociantes de Bristol, Richard Warde, Thomaz Assehepurat
-e John Thomaz, associados com os açorianos
-João Fernandes, Francisco Fernandes e João
-Gonçalves, para que fossem explorar, descobrir, povoar
-e dominar todas e quaesquer terras nos mares
-oriental, occidental, austral, boreal ou septentrional,<span class="pagenum"><a id="Page_225"></a>[225]</span>
-garante-lhes que, se alguns estrangeiros ou outros
-individuos ousarem navegar para as partes onde elles
-forem, sem licença, serão punidos, embora invoquem
-qualquer concessão que lhes tenha sido feita,
-etc. É uma verdadeira concessão ingleza, positiva e
-ao mesmo tempo minuciosissima, sem restricções
-nem peias, como de quem quer que as coisas se façam
-e não regateia os meios, mas, se João Cabot
-se tivesse antecipado a estes mercadores e em proveito
-do rei de Inglaterra, era absolutamente disparatada
-semelhante concessão, que só se pode fazer,
-quando os lezados, se os houver, pertencerem a paiz
-estrangeiro, e possam, portanto, ser tratados como
-inimigos.<a id="FNanchor_128" href="#Footnote_128" class="fnanchor">[128]</a></p>
-
-<p>Mas a origem da lenda aponta-a com segurança
-o sr. Ernesto do Canto. Está na adulteração da versão
-latina de uma das cartas de Pascaaligo. Diz que
-«os selvagens têem nas orelhas umas argolas de
-prata <i>che senza dubbio pareno sia facti a Venetia</i>.
-E, dizendo isto, quer o embaixador dar uma idéa
-do aperfeiçoamento d’aquella arte selvagem. O traductor<span class="pagenum"><a id="Page_226"></a>[226]</span>
-diz tranquillamente: <i>cælaturam Venetam in
-primis præ se ferentes</i>. E assim, por uma traducção
-de má fé ficou estabelecido que antes dos Portuguezes
-alli tinham estado Venezianos. E quando Pascaaligo
-affirma que a terra descoberta por Gaspar
-Côrte-Real até ahi <i>nunca</i> fôra vista por ninguem,
-Madrijuan traduz: terra até ahi <i>a quasi</i> todo o
-mundo desconhecida.<a id="FNanchor_129" href="#Footnote_129" class="fnanchor">[129]</a></p>
-
-<p>Mas, apesar d’isso, essas terras do norte figuraram
-por muito tempo nos mappas como <i>terras dos
-Côrtes-Reaes</i>. Na Terra Nova, no Canadá, no golpho
-de S. Lourenço conservaram-se nomes portuguezes
-que se reconhecem atravez da adulteração,
-como <i>Por</i> Baye bahia da <i>Torre</i>, <i>Mira</i>, <i>Minas</i>, <i>Porto-Novo</i>,
-transformado em <i>Port-Novy</i>, e o nome de Lavrador
-por tanto tempo consagrado difficilmente se
-pode attribuir a outra linguagem que não seja a
-portugueza. Felizmente são escriptores americanos
-e dos mais notaveis que defendem a gloria portugueza
-e justificam as nossas reivindicações.<a id="FNanchor_130" href="#Footnote_130" class="fnanchor">[130]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_227"></a>[227]</span></p>
-
-<p>Na segunda viagem Gaspar Corte-Real singrou
-mais para o norte, mas nunca mais voltou. Foi em
-sua busca seu irmão Miguel Corte-Real, mas tambem
-se perdeu entre os gelos, voltando as caravelas
-que acompanhavam a sua. E é de ver que, longe
-de procurarem terras para o sul das que primeiro
-tinham descoberto, e que seriam de certo mais attrahentes
-e tentadoras, era sempre para o norte que
-seguiam, tão radicado estava no seu pensamento o
-desejo de procurarem a Asia, a Asia opulenta, por
-aquellas gelidas paragens septentrionaes, de fórma
-que a procura d’essa passagem do noroeste que fez
-tantos martyres nos tempos modernos e glorificou
-tantos navegadores illustres, foi tambem pelos Portuguezes
-primeiro tentada com audacia mais notavel
-ainda por serem meridionaes que nem tinham
-visto talvez em toda a sua vida neve, mas que orgulhosos
-de terem provado que não era inhabitavel a zona
-torrida queriam a todas as zonas declaradas inhabitadas
-pelos antigos, ampliar a sua demonstração,
-e quando Franklin, o heroe moderno, que esse ao
-menos sempre vivera em regiões onde o frio é um
-inimigo constante que se conhece e com que se lucta,
-ia deixar n’essas ignotas regiões o seu cadaver
-e dos seus e o casco esmigalhado do seu navio, encontrou
-talvez enterrada em eternos gelos a caravela
-de Miguel Corte-Real, e branquejando entre
-as neves á luz crepuscular do sol dos polos os ossos<span class="pagenum"><a id="Page_228"></a>[228]</span>
-dos audaciosos Portuguezes que, na epocha aurea
-da sua gloriosa expansão, não queriam deixar
-um só recanto do mundo a que não levassem a ousadia
-do seu genio e o ardor das suas explorações.</p>
-
-<p>Por muito tempo perseverou na exploração do
-Norte a gente açoriana e minhota. A lista dos descobridores
-não pára nos Côrte-Reaes. João Alves,
-Fagundes e outros exploraram essa costa, ainda depois
-dos francezes e inglezes terem tentado tambem
-ir exploral-a. Houve até tentativas de colonisação,
-e esses mares foram por muito tempo theatro de
-actividade dos pescadores portuguezes. Hakluyt ainda
-notou que eram Portuguezes e hespanhoes os
-que mais se occupavam da pesca do bacalhau. Navios
-portuguezes estavam, em certas occasiões, cincoenta
-ou sessenta.<a id="FNanchor_131" href="#Footnote_131" class="fnanchor">[131]</a> Mas depois cahiu sobre tudo
-isto a mortalha da decadencia, que, não recobre ao
-menos a mortalha do esquecimento.</p>
-
-<p>Entretanto o Brasil, considerado uma ilha, continuava<span class="pagenum"><a id="Page_229"></a>[229]</span>
-a ser explorado por Gonçalo Coelho, por
-Christovão Jacques, Fernando de Noronha, etc., e
-tambem pelos hespanhoes Pinzon e Solis e pelo veneziano
-Cabot. N’algumas das expedições portuguezas<a id="FNanchor_132" href="#Footnote_132" class="fnanchor">[132]</a>
-foi como piloto Americo Vespucio; do seu<span class="pagenum"><a id="Page_230"></a>[230]</span>
-nome fez Ylacomilas na sua <i>Cosmographiae introdutio</i>
-o nome do novo continente, e por esse facto
-se lamenta a injustiça da posteridade, que esqueceu
-o nome do grande descobridor Colombo para
-glorificar o nome do fanfarrão cosmographo.</p>
-
-<p>É esta questão que rapidamente vamos tratar.</p>
-
-<p>Colombo morreu julgando sempre que chegara
-á Asia e o mundo partilhava a sua opinião. Quando
-Pedro Alvares Cabral encontrou terra ao sul do
-Equador, já se não poude acreditar que se estivesse
-nas visinhanças do Cathay e do Cipango. Não
-o permittia a latitude. Quando as explorações successivas
-fizeram reconhecer que se estava realmente
-n’um grande continente, o que se imaginou, o que
-se entendeu, porque a tudo presidia a lembrança
-das theorias da antiguidade, foi que se estava em
-terra antichthona, e por isso, como diz D. Manuel
-na sua carta ao rei catholico, muitos lhe davam o
-nome de Novo Mundo.<a id="FNanchor_133" href="#Footnote_133" class="fnanchor">[133]</a> Era effectivamente <i>alter
-orbis</i>, a quarta parte da terra, com a qual nada tinham
-as ilhas asiaticas e o continente asiatico que
-Christovam Colombo descobrira.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_231"></a>[231]</span></p>
-
-<p>Quando os Portuguezes em 1501, suppunham
-que as Antilhas, o Brazil e a Terra Nova constituiam
-uma terra unica, suppunham que essa terra
-era a Asia. Quando depois de 1501 se viu que o
-Brazil se prolongava muito para o sul, entendeu-se
-que as Antilhas e a Terra Nova faziam parte da
-Asia, mas que o Brazil constituia a quarta parte
-do mundo, o <i>alter orbis</i>, o Novo Mundo, a terra central
-de Ptolomeu.</p>
-
-<p>Portanto não se fazia uma injustiça a Colombo,
-nem talvez a Cabral, só aos capitães das expedições
-em que Americo Vespucio navegara, porque
-essas expedições é que tinham identificado o paiz
-novamente descoberto com a antiga terra de Ptolomeu,
-mas Americo o cosmographo, que espalhara
-a noticia, foi que colheu o proveito, e o <i>novo mundo</i>
-descoberto, não por Christovão Colombo, que nem
-acceitaria semelhante gloria, mas pelas expedições
-de que fazia parte Americo, recebeu o nome de
-America,<a id="FNanchor_134" href="#Footnote_134" class="fnanchor">[134]</a> sem que Colombo, se ainda estivesse
-vivo, podesse ou quizesse protestar.</p>
-
-<p>De certo, depois, quando se reconheceu a verdade,
-quando se percebeu que Novo Mundo era tudo,<span class="pagenum"><a id="Page_232"></a>[232]</span>
-seria de perfeita justiça restituir a Colombo o que
-a Colombo era devido, mas já se tomara o habito
-da nova denominação, demais a mais euphonica e
-agradavel, e America ficou sendo o todo, quando
-ao principio só fôra America uma parte.</p>
-
-<p>Não temos ensejo agora de discutir a questão das
-verdades ou das mentiras de Americo. Parece-nos
-comtudo que tem sido injustamente maltratado o
-cosmographo florentino. É-lhe muito adverso o visconde
-de Santarem, que a seu respeito publicou um
-livro celebre,<a id="FNanchor_135" href="#Footnote_135" class="fnanchor">[135]</a> mas o visconde de Santarem não
-tinha conhecimento das expedições clandestinas portuguezas,
-conhecimento que torna hoje mais verosimil
-a viagem em que Americo Vespucio encontrou,
-indo para o occidente, Pedro Alvares que voltava
-da India, e que fôra considerada pelo visconde de
-Santarem apocrypha.</p>
-
-<p>Reconhecida a existencia da terra central, era indispensavel
-procurar meio de se chegar á Asia. As
-expedições portuguezas levavam todas o fito de encontrar
-um estreito que as conduzisse aos mares
-asiaticos. Essa idéa do estreito era predominante nos
-espiritos do tempo. Era assim que se fazia a communicação
-entre os dois mares, e era por estreitos,
-segundo a cosmographia antiga, que se fazia a communicação<span class="pagenum"><a id="Page_233"></a>[233]</span>
-entre o mar exterior e os golphos que
-elle formava, que eram, como dissémos, o mar Persico,
-o Indico, o Mediterraneo e o Caspio.<a id="FNanchor_136" href="#Footnote_136" class="fnanchor">[136]</a></p>
-
-<p>Como estreitos conhecia a geographia conjectural
-os mares descobertos por Christovão Colombo.
-Havia-os em Panamá, e alguns rios da America do
-Sul foram tomados primeiro por estreitos.<a id="FNanchor_137" href="#Footnote_137" class="fnanchor">[137]</a> D’ahi
-a lenda que attribue a Fernão de Magalhães o ter
-tido já conhecimento, por um mappa, do estreito
-que descobriu. O que elle tinha era a lição dos mappas
-conjecturaes, era o culto pelas velhas theorias
-que faziam passar por estreitos as aguas do mar exterior
-para os mares interiores, e se elle descobriu
-o que os outros não acharam, se á Hespanha levou
-essa gloria, foi porque D. Manuel, cançado de não
-encontrar senão terra para o sul, entendeu que o
-novo continente se immergia ao sul, como ao norte,
-pelo polo. Magalhães perseverou, dizendo que penetraria
-no estreito, ainda que tivesse de sumir-se<span class="pagenum"><a id="Page_234"></a>[234]</span>
-na região polar, onde ha o frio e a brisa;<a id="FNanchor_138" href="#Footnote_138" class="fnanchor">[138]</a> depois a
-descoberta das ilhas do mar Pacifico ao sul da Asia,
-feita por Antonio de Abreu e os outros expedicionarios
-enviados por Albuquerque, mais o convenceu
-de que haveria ilhas tambem ao sul da America
-como as havia ao sul da Asia, e que entre essas
-ilhas havia de encontrar por força o famoso
-estreito que o conduziria pelo occidente á Asia.</p>
-
-<p class="tb">Tinha concluido este meu trabalho, e tratava já
-de lhe pôr o fecho, quando exigencias de uma missão
-official me levaram a Hespanha. Assisti no dia
-11 de outubro de 1892, em Huelva, á ultima sessão
-do congresso dos americanistas, e, não podendo
-apresentar o livro que estava por completar, apresentei<span class="pagenum"><a id="Page_235"></a>[235]</span>
-uma resumida indicação em francez das idéas
-que lhe serviam de fundamento. Acolhida com extraordinaria
-benevolencia, essa communicação teve
-a felicidade de encontrar echos sympathicos. O sr.
-Hamy, membro do Instituto de França, e dignissimo
-successor do grande Quatrefages, e o sr. Marcel, distincto
-geographo, deram noticia ao congresso, logo
-em seguida á leitura do meu resumo, e a mim em
-particular, de trabalhos seus que confirmavam plenamente
-a minha conjectura ácerca da descoberta
-do Brasil. A linha de demarcação de Tordesillas
-fôra origem de falsificações cartographicas inspiradas
-pelo zelo patriotico dos cartographos, falsificações
-pelas quaes Portuguezes e Hespanhoes procuravam
-fazer entrar dentro da zona dos seus paizes
-as terras que se iam descobrindo. Assim effectivamente
-o governo portuguez mostrava que não
-fôra platonicamente que pedira e obtivera as 370
-leguas além das ilhas de Cabo-Verde. Tratou logo
-em seguida de explorar esse mar occidental, cujos
-segredos Colombo desvendára, e a viagem clandestina
-de Duarte Pacheco não era senão uma d’essas
-explorações, como foi com esses intuitos exploradores
-que Pedro Alvares Cabral muito de proposito
-se desviou do caminho que o devia conduzir directamente
-á India. Descoberto o Brasil, tratava D.
-Manuel de explicar ao rei catholico que essa terra
-não ficava fóra da sua zona, e tratavam os cartographos<span class="pagenum"><a id="Page_236"></a>[236]</span>
-portuguezes de sanccionar essa affirmação,
-da mesma fórma que os cartographos hespanhoes
-procuravam incluir as Molucas na zona concedida
-ao seu paiz. Foi ainda a esse intuito que obedeceram
-Abreu e Serrão, enviados por Albuquerque a
-explorar os mares para além de Java e de Sumatra,
-e que nas suas audaciosas viagens não só tomaram
-conhecimento de um grande numero de ilhas que
-n’esses mares pollulavam, mas entreviram a Nova
-Guiné, e adivinharam a Australia.</p>
-
-<p>Esta ultima affirmação é feita pelo sr. Hamy, e
-falta-me agora o espaço e o tempo para fazer entrar
-no quadro d’este livro essa importante e ainda
-hoje obscura questão do descobrimento da Australia.</p>
-
-<p>Mas o que fica assente de um modo incontestavel
-é que a participação dos Portuguezes no descobrimento
-da America foi efficaz e activa. Se o seu
-governo hesitou perante a temeridade de Colombo,
-se sacrificou demasiadamente aos conselhos da fria
-razão no momento em que era necessario um lance
-de audacia e um arrojo de visionario, logo, despeitados
-por esse momento de fraqueza, e estimulados
-pelo glorioso commettimento dos visinhos, precipitaram-se
-com verdadeira furia para esse occidente
-que tinham receiado desvendar e foram tambem
-como Colombo em procura da Asia pelos mares
-poentes. Uns e outros, Gaspar Côrte-Real ao norte<span class="pagenum"><a id="Page_237"></a>[237]</span>
-e Cabral ao sul, esbarraram com a mesma barreira
-que detivera Colombo, barreira que os despeitava,
-que os indignava, que teimavam em considerar como
-uma longa cadeia de ilhas que se desdobrava,
-como um cordão de sentinellas ferozes e asperas,
-deante da Asia resplandecente, e que era afinal bem
-mais fulgurante de maravilhosas riquezas do que
-essa Asia decrepita e estagnada no seu somno de
-seculos. Por entre os gelos do Norte, por entre as
-suppostas ilhas ao Sul, procuravam todos, Hespanhoes
-e Portuguezes, o caminho de Cathay e de Cipango.
-Quando se fatigaram de tão vãs tentativas,
-quando se convenceram de que era um novo mundo
-que tinham deante de si, barreira inquebrantavel
-que lhes vedava por esse lado o caminho para o
-Oriente, a perspicacia e a audacia e a perseverança
-do portuguez Magalhães conseguiram desfazer essa
-ultima illusão, reconstituir no espirito humano a
-Terra inteira na logica da sua estructura, e conquistar
-para a Sciencia o morgado da Humanidade.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_238"></a>[238]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_239"></a>[239]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XI">XI<br />
-<span class="smaller">Conclusão</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>Lancemos os olhos para o espaço que rapidamente
-percorremos. Encontramos a sciencia antiga
-desvelando maravilhosamente alguns dos segredos
-mais importantes da cosmographia, mas estacionada
-n’uma solução do grande problema que se lhe affigurara
-satisfatorio, e que era comtudo um obstaculo
-invencivel para todo o progresso geographico.
-Depois de mil conjecturas phantasistas, pode-se dizer
-que um grande resultado se obtivera: o reconhecimento
-da esphericidade da terra. Mas o orgulho
-humano oppunha-se invencivelmente á hypothese
-que désse a essa Terra, e portanto á raça pensadora
-que a habitava, um logar inferior no concerto do
-universo. O sol continuou a girar acompanhado por
-todo o systema planetario e por todo o mundo stellar<span class="pagenum"><a id="Page_240"></a>[240]</span>
-em torno da terra immovel e soberana. Era comtudo
-esse um terrivel escravo, porque bastava a sua
-ausencia para que fenecesse a vegetação e definhasse
-a vida; por isso tambem era natural que nos
-pontos onde o seu contacto fosse mais proximo o
-excesso do calor produzia o effeito contrario, e désse
-tal intensidade á vida que a fizesse desapparecer na
-conflagração do abrazo. O mytho de Zeus e de Semele
-parecia traduzir este pensamento.</p>
-
-<p>Quando a terra mãe, a Terra que o deus terrivel
-fecundava, o queria ver de perto com todo o explendor
-do seu vulto, com toda a grandeza da sua
-omnipotencia, bastava a presença do amante para
-a reduzir a cinzas. Era em torno da zona média da
-terra que o sol descrevia o seu giro, era ahi portanto
-que se approximava da terra, e ahi forçosamente
-a vida desappareceria no incendio dos seus
-raios.</p>
-
-<p>Assim era a Sciencia que vedava o caminhar do
-homem. O mundo civilisado dilatava-se, graças aos
-esforços e á audacia dos Phenicios, mas, por mais
-audaciosos que fossem, considerariam uma insania
-suprema transpor os limites das zonas defezas.</p>
-
-<p>Para essas regiões que os mortaes não podiam
-pisar transportava a phantasia humana a residencia
-d’aquelles, que, libertos dos laços da vida mortal,
-podiam existir em condições negadas á fraca humanidade.
-Foi pois assim que para além do terminus<span class="pagenum"><a id="Page_241"></a>[241]</span>
-da sciencia positiva, ou para o norte, ou para o
-sul, a imaginação collocou as regiões da bemaventurança.</p>
-
-<p>Veiu a edade média, em que uma sociedade barbara
-procurando reatar o fio da civilisação, tomou
-como ideal supremo da sua sabedoria a sabia antiguidade.</p>
-
-<p>Se Ptolomeu e os outros eram respeitados pelos
-seus contemporaneos como eximios sabedores, para
-os seus novos discipulos eram perfeitamente oraculos,
-e a Sciencia continuou, mais do que nunca, a
-deter o homem dentro dos limites consagrados. Assim
-como os Phenicios, fundeados por assim dizer
-á beira da Syria, sondaram o Mediterraneo primeiro
-e depois o Atlantico, o infante D. Henrique de pé
-no posto mais avançado da costa europeia sentiu o
-desejo ardentissimo de sondar o grande mysterio.
-Realisou-lhe a audacia dos seus navegadores o seu
-sonho querido, quebrou-se a barreira da zona torrida,
-e ampliou-se para o occidente o conhecimento
-do Oceano. As affirmações da sciencia antiga iam
-caindo uma a uma sem que os navegadores ousassem
-comtudo desmentil-as, senão nos pontos em que
-a experiencia mostrava definitivamente a sua fallibilidade.
-A Africa foi tomando os seus contornos
-verdadeiros, dobrou-se a sua ponta meridional, seguiu-se
-para o oriente, sem se encontrar o mar mediterraneo<span class="pagenum"><a id="Page_242"></a>[242]</span>
-das Indias, a peninsula indostanica foi
-tambem reintegrada na sua verdadeira fórma, o Cathay
-da narrativa semi-legendaria de Marco Polo
-appareceu na figura extranha d’essa China immobilisada,
-apesar de rica e sabia, o Cipango transformou-se
-no archipelago japonez, e as ilhas do meio-dia
-asiatico começaram a apparecer disseminadas
-nos mares como as pérolas dispersas de um collar
-que se despedaçasse. Foi essa a obra gigante dos
-Portuguezes.</p>
-
-<p>Mas a elles tambem se devia o encontro de um
-novo posto de observação, de uma atalaya estimulante
-perdida no seio do Oceano. Como os Phenicios
-em Tyro, como o infante D. Henrique em Sagres,
-ia Colombo mais adeante sonhar mundos desconhecidos
-nos penhascos dos Açores. Era d’alli que
-via as caravelas de outros sonhadores como elle, a
-quem só faltava o genio e a perseverança, demandar
-alguma ilha mysteriosa para além do Oceano,
-ou os restos d’aquella mysteriosa Atlantida, que fôra
-um dos vagos sonhos da antiguidade. O alargamento
-da terra seguiu a sua ordem logica; os Phenicios
-chegavam de Tyro a Carthago, e desvendavam o Mediterraneo,
-de Carthago a Cadiz e descobriam o
-Atlantico, os Portuguezes de Sagres desvendavam
-o segredo do Oceano para o sul e chegavam ao Cabo
-da Boa Esperança, do Cabo da Boa Esperança quebravam
-o mysterio do mar oriental, e aportavam a<span class="pagenum"><a id="Page_243"></a>[243]</span>
-Calicut e a Goa, e de Goa irradiavam para o sul e
-para o oriente as investigações finaes. De Sagres
-tambem, singrando para o occidente, iam poisar nos
-Açores; estava reservado aos Hespanhoes, guiados
-por Colombo, a audaciosa investigação que ia dar
-a America ao mundo.</p>
-
-<p>O que era necessario, porém, era ligar essas duas
-grandes emprezas. Por circumstancias verdadeiramente
-providenciaes foram os representantes dos
-dois povos ligados na mesma empreza, que ataram
-as fitas soltas das grandes explorações oceanicas, e
-esse enlace supremo foi Magalhães que o começou,
-foi Elcano que o concluiu.</p>
-
-<p>Assim nas descobertas como em todas as emprezas
-do espirito humano é a evolução que se manifesta.
-Não procede por saltos a natureza, tudo se
-liga e se concatena. A missão dos grandes homens
-está exactamente em serem os elos d’essa cadeia. As
-tentativas infructiferas, dispersas, quasi inconscientes
-dos Catalães de Jayme Ferrer, dos Normandos
-de Bethencourt, dos Genovezes de Vivaldi, e dos
-pescadores e marinheiros portuguezes que procuravam
-arcar com o cabo Não ou devassar o Atlantico
-unia-as o infante D. Henrique, dava-lhes o nó que
-as aproveitava, o cabo Bojador dobrava-se e os Açores
-e a Madeira sahiam do seio das ondas. As tentativas
-infructuosas tambem dos Açorianos e dos Madeirenses
-ligava-as a mão poderosa de Colombo, e<span class="pagenum"><a id="Page_244"></a>[244]</span>
-dava assim um novo fusil á cadeia dos descobrimentos
-e a America apparecia. E por isso os povos
-quando encontram na sua historia um d’esses homens
-insignes, sem renegar os seus esforços collectivos,
-nem deixar de lhes reconhecer a importancia,
-saudam n’esses grandes vultos uns entes extraordinarios
-que souberam dar uma realidade positiva
-aos seus sonhos e ás suas aspirações, e foram
-n’esse tumultuar de pensamentos desconnexos e inconscientes,
-as radiosas incarnações da Consciencia
-da humanidade.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="footnotes">
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak" id="FOOTNOTES">FOOTNOTES</h2>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Tom. <span class="allsmcap">I</span>, secção 1.ª, pag. 285.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> Publicado por Dumont no <i>Corpo Diplomatico</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, parte
-<span class="allsmcap">I</span>, pag. 200. E além d’esta as bullas de Calixto III, de 14 de
-maio de 1455 e de Xisto XV, de 21 de julho de 1481, e a famosa
-divisão dos mares entre Portugal e a Hespanha por Alexandre
-VI, e os tratados entre Portugal e Hespanha, em que
-sempre se reconheceu o direito que tinhamos á costa africana
-pela prioridade do descobrimento, e a deferencia com que a
-França sempre reconheceu o nosso direito, mandando Luiz XII
-restituir uma caravela portugueza vinda da Mina, tomada pelos
-francezes, e prohibindo Francisco I, a 28 de junho de 1532, que
-fossem navios francezes á costa da Guiné, em attenção aos tratados!
-V. Visconde de Santarem: <i>Recherches sur la découverte
-des pays situés sur la côte occidentale d’Afrique au delà du cap
-Bojador</i> etc., § <span class="allsmcap">VII</span>, pag. 67 e segg. E em 1513, publicou-se em
-França, um livro intitulado: <i>Nouveau Monde et navigations fectes
-dans les pays et iles auparavant inconnues</i>, e cujo primeiro
-livro se intitula <i>Livro da primeira navegação pelo Occeano para
-a terra dos Negros da baixa Ethiopia por ordem do illustre senhor
-infante D. Henrique, irmão de D. Duarte, rei de Portugal</i>.
-E esse livro reimprimiu-se em 1516! E note-se que Francisco I
-não se desinteressava na questão dos descobrimentos, e os marinheiros
-francezes procuravam seguir as nossas pisadas. É conhecido
-o famoso dito do rei de França, que queria saber qual
-o artigo do testamento de Adão que deixava parte do mundo aos
-reis de Portugal e de Hespanha. Podendo pôr embargos, era de
-estranhar que o não fizesse.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> <i>Histoire de la première descouverte et conqueste des Canarias
-faite dés l’an 1402 par messire Jean de Bethencourt, escrite
-du temps mesme par F. Pierre Bontier et Jean Le Verrier, prestres
-domestiques dudit sieur de Bethencourt, conseiller du roy en
-la cour du parlement de Rouen</i>, cap. <span class="allsmcap">LIII</span>, pag. 95. (Paris, 1830).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> <i>Ibid.</i>, cap. <span class="allsmcap">LIV</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 102.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> Palavras de Innocencio VII, escriptas em 1406 a João de
-Bethencourt e citadas na relação dos capellães a pag. 197, cap.
-<span class="allsmcap">LXXXIX</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> Este erro gravissimo deu origem a todas as falsas reivindicações
-francezas, apezar de ter sido completamente desfeito no
-proprio seculo <span class="allsmcap">XV</span>. Chamava-se primeiro <i>Gianya</i>, <i>Gineva</i> ou
-<i>Gynoya</i> ou <i>Guiné</i> á terra proxima de Marrocos, que se suppunha
-habitada pelos negros, e com a qual se fazia commercio.
-Era esta a Guiné que ficava a doze leguas das Canarias, «do
-outro lado da ilha de Fuerteventura», como dizem ainda os capellães
-de Bethencourt. Azurara, quando chama <i>Guiné</i> á costa
-do Senegal descoberta pelos Portuguezes, desculpa-se de ter já
-chamado assim, para empregar a linguagem commum, a outro
-paiz onde tinham estado primeiro os Portuguezes, e que era
-d’este muito distante. Essa <i>primeira Guiné</i>, ou <i>Guiné antiga</i>,
-reclamou-lhe o senhorio o rei de Castella, D. João II, que escrevendo
-de Valladolid a D. Affonso V de Portugal, a 19 de
-abril de 1454, dizia-lhe: «Otrosi, rey muy caro, e muy amado
-sobrino, vos notificamos que, viniendo ciertas caravellas de ciertos
-nuestros subditos e naturales vecinos de las nuestras ciudades
-de Sevilla y Cadiz con sus mercaderias <i>de la tierra que llaman
-Guinea, que es de nuestra conquista</i>, e llegando cerca de
-la nuestra ciudad de Cadiz á una linea estando en nuestro señorio
-e jurisdicion, recudieron contra ellos Pallencio, vuestro capitan etc.»</p>
-
-<p>Esta Guiné, cuja conquista o rei de Castella dizia pertencer-lhe,
-fazia parte do reino da Africa, sobre a qual os reis de Castella
-diziam ter direito, herdado dos Godos. Quando o nome de
-Guiné ficou pertencendo á região que hoje o tem, quer dizer a
-que está para além do Cabo Bojador, os reis de Portugal tomaram
-sem contestação nem cedencia de Castella o titulo de <i>senhores
-de Guiné</i>, baseado no direito de primeiros descobridores
-que ninguem lhes impugnou. E a Guiné antiga perdeu essa denominação.
-Ahi está o segredo da confusão que deu origem ás
-pretenções tão absurdas dos Normandos e dos Catalães.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> «Toscanelli distingue en outre les îles que l’on rencontrera
-sur la route, <i>que estan situadas en este viage</i>, par exemple l’Antilia,
-d’avec les îles qui sont proches de l’Inde continentale, par
-exemple Cipango et les îles avec les quelles trafiquent les négocians
-de différentes nations.»—Humboldt.—<i>Histoire de la géographie
-du nouveau continent</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, sec. 1.ª, pag. 228.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> Ácerca das tres Indias, e das differentes denominações com
-que apparecem na edade média, veja-se sobretudo o magnifico
-<i>Essai sur l’histoire de la cosmographie et de la cartographie pendant
-le moyen-âge</i>, etc., pelo visconde de Santarem, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag.
-136, 251, 182, 394, tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. <span class="allsmcap">XXXVIII</span>, 189, 223, tom. <span class="allsmcap">III</span>,
-pag. 28, 420, 346, 371, 161, 199, 217, 274, 161, 240, 442,
-360, 370, 195. (Paris, 1849). Os nomes das differentes Indias
-são variadissimos, Barbara, Deserta, Primeira, Segunda e Terceiro,
-Magna e Parva, Superior, Inferior e Exterior, Intra Gangem,
-Ultima, Arenosa, etc. Sabendo-se o que eram estas differentes
-Indias, como abrangiam a Tartaria, a Arabia, a China,
-e até a Ethiopia, espantar-se-ha menos o leitor de que os Portuguezes
-procurassem na Africa o <i>Prestes João das Indias</i>.
-Essa lenda tambem mudou de local como o nome de Guiné e a
-designação de Ethiopia, mas pode-se dizer que nunca saíu de
-alguma d’essas Indias.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> Gosselin <i>Recherches sur la géographie systématique des anciens</i>,
-tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 140. É firmando-se na auctoridade de Herodoto
-que este sabio affirma que o grande Oasis do Egypto tinha
-outr’ora o nome de <i>ilha dos Bemaventurados</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> O mappa-mundi de 1417, conservado no palacio Pitti, por
-exemplo, indica duas Taprobanas, Ceylão e Sumatra. Quando
-não era Sumatra exclusivamente Taprobana, era a uma das duas
-ilhas que esse nome se dava. D. João de Castro no prologo do
-seu <i>Roteiro de Lisboa a Goa</i>, quando falla a El-Rei de Portugal
-nos dominios que tem, diz: «como Taprobana que os antigos
-criam ser outro mundo nouo, reconhece seu alto nome e lhe
-paga pareas» e accrescenta em nota: «<i>Taprobana é agora chamada
-Samatra</i>» a pag. 14. A essa Taprobana tambem se refere
-evidentemente Camões no seu famoso verso:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0"><i>Passaram inda além da Taprobana</i></div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Tendo no tempo de Camões chegado os Portuguezes já ao
-Japão, era bem natural que, havendo a Taprobana-Ceylão e a
-Taprobana-Sumatra a esta ultima se referisse o grande poeta indicando
-o limite ultrapassado pelos Portuguezes. O famoso mappa
-da cathedral do Hereford colloca a Taprobana defronte do golpho
-Arabico. Prisciano no seu poema geographico põe a Taprobana
-no mar oriental juntamente com a ilha phantastica do Ouro.
-No tratado <i>De moribus brachmanorum</i> que se attribue a S.ᵗᵒ
-Ambrosio citado por Klaproth na sua <i>Lettre sur la boussole</i>, pag.
-53, põe-se a Taprobana em Ceylão, ilha que tem magnetes que
-attrahem os navios que teem pregos de ferro e não os deixa
-mover. N’alguns mappas da edade média põe-se a Taprobana
-deante da bocca do Ganges.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a> A <i>Aurea Chersoneso</i> de Ptolomeu e de Marino de Tyro
-corresponde sem duvida á peninsula de Malaca, mas o mappa
-de La Salle por exemplo colloca a <i>Aurea Chersoneso</i> no Indostão.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> <i>Mémoire sur le pays d’Ophir, oú les flottes de Salomon
-alloient chercher de l’or</i>, nas <i>Mémoires de littérature de l’Académie
-royale des inscriptions et belles-lettres</i>, tom. <span class="allsmcap">XXX</span>, pag. 83 a
-93, (Paris, 1764). Este paiz de Ophir tem uma terrivel parecença
-com as ilhas de Chryse e de Argyra, e do Sol e dos Homens
-e das Mulheres que apparecem nos mappas conjecturaes.
-N’alguns mappas Ophir tambem apparece como ilha. Querer
-determinal-o não será querer tomar muito ao pé da letra as indicações
-vagas da Biblia?</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> A idéa adoptada na edade média, que vinha da antiguidade
-e que durou até ao seculo <span class="allsmcap">XVI</span>, é a das duas Ethiopias de
-Homero, a que fica entre os dois Nilos, e a que se liga com os
-Mauritanos. S. João Damasceno, dividindo os habitantes da terra
-segundo as areas dos ventos, dizia: «Ad Africum Ethiopes et occidentales
-Mauri, ad Favonium Herculis columnæ, etc.» <i>De fide
-orthodoxa</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 69. <i>Apud</i> Visconde de Santarem <i>Essai
-sur l’histoire de la cosmographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 32. Assim
-é corrente que a baixa Ethiopia começa para os escriptores medievaes
-nas proximidades da Mauritania, quer dizer, pega com a
-Guiné primitiva, com a Guiné de Bethencourt. O titulo dos reis
-de Portugal mostra bem que Ethiopia quer dizer simplesmente
-<i>Africa</i>. Assim diz o titulo: Rei de Portugal e dos Algarves,
-d’aquem e d’além-mar em Africa... (Este Algarve na Africa
-era Ceuta e Tanger, etc.) senhor de Guiné (no sentido que esta
-palavra tomou depois dos descobrimentos) da conquista navegação
-e commercio da <i>Ethiopia</i> (Africa meridional e oriental) Arabia,
-Persia e <i>India</i> (tambem na significação da meia-edade, abrangendo
-a Asia Oriental). É curioso que um escriptor moderno,
-de grande merecimento, transcrevendo um trecho de um escriptor
-já do seculo <span class="allsmcap">XVII</span>, em que se diz que um navio que ia para
-a Ethiopia foi levado pelas correntes para o Brazil, com isso
-muito se espanta. Não se lembra que a região da Ethiopia comprehendia
-até a Africa occidental que ficava para além da Guiné.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> Na primeira viagem, Colombo, chegando a Cuba, disse:
-<i>Es cierto que esta es la Tierra-Firme</i>, Diario de 1 de novembro.
-Na segunda viagem confirmou essa opinião, e fel-a jurar solemnemente
-pelos marinheiros a 12 de junho de 1494. Humboldt
-<i>Histoire de la géographie du Nouveau Continent</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>,
-pag. 310, <i>nota</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> Vejam-se no principio do segundo volume do magnifico livro
-de Humboldt as indicações relativas aos mappas d’esse tempo
-que separavam umas das outras as diversas porções da America.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> No seu tratado publicado em latim na edição Reich com o
-titulo <i>De facie in orbe Lunæ</i>, tom. <span class="allsmcap">IX</span>, pag. 923.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> Sobre as differentes theorias relativas á fórma da terra
-veja-se o <i>Essai sur l’histoire de la cosmographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">I</span>,
-pag. 14, 223, 410, tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. <span class="allsmcap">XV</span>, <span class="allsmcap">XVII</span>, 32, 252, 258,
-10, <span class="allsmcap">LIX</span> a <span class="allsmcap">LXI</span>, 18, 26, 35, 94, 107, 215, etc., etc., tom. <span class="allsmcap">III</span>,
-pag. 81, 102, 212, 223, 460, 499, etc.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Santo Agostinho, S. João Chrysostomo, Lactancio, preconisaram
-a theoria da <i>terra quadrada</i> declarando-a conforme com
-o Evangelho, os mappas medievaes como o de Cosmas Indicopleustas
-do seculo <span class="allsmcap">VI</span>, Gervais de Tilbury do seculo <span class="allsmcap">XIII</span>, Nicolau
-d’Oresme do seculo <span class="allsmcap">XIV</span>, Guilherme Fillastre do seculo <span class="allsmcap">XV</span>. Umas
-vezes inscreviam-n’a no circulo formado pelos mares, outras vezes
-pelo contrario, a terra em si é redonda, mas a figura que
-está inscripta é quadrada.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Note-se bem que este é que é o systema de Ptolomeu, o
-que predominava, apesar de tudo, nos espiritos mais esclarecidos.
-Pedro agora vae refutal-o, substituindo-lhe uma outra theoria
-scientifica, menos em desaccordo com as affirmações orthodoxas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> <i>Petri Alphonsi Judeo Christiani Dialogi</i>, p. 15, apud. Visconde
-de Santarem, <i>Essai sur l’histoire de la cosmographie</i>, etc.,
-tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 320 a 324.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> «Se as extremidades da Ethiopia nos offerecem figuras
-extranhas de homens e de animaes, pouco nos devemos espantar:
-é o effeito do excessivo calor que alli reina, porque a acção
-do fogo é maravilhosamente propria para fazer tomar ás partes
-exteriores de todos os corpos uma infinidade de configurações
-diversas.» (Plinio, <i>Historia Natural</i>, tom. <span class="allsmcap">V</span>, cap. <span class="allsmcap">XXX</span>.)</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> Macrobio, <i>In somnium Scipionis</i>, tom. <span class="allsmcap">II</span>, cap. <span class="allsmcap">IX.</span></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Orosio, <i>Ormesta mundi</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> Santo Isidoro de Sevilha, <i>De Lybia</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> Bedo, <i>De Elementis Philosophiæ</i>, tom. <span class="allsmcap">IV</span>, pag. 225.—«...
-<i>Pars enim illius torridæ parti aeris subjecta, ex fervore
-solis torrida est et inhabitabilis</i>, etc.»</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> S. Virgilio, bispo de Saltzburgo. Veja-se a este respeito a
-<i>Historia litteraria de França</i>, tom. <span class="allsmcap">IX</span>, p. 156.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> Raban Mauro de Moguncia, <i>De Universo</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> Alberti Magni Germani, <i>Philosoph. principii, Liber cosmographicus
-de natura locorum</i>, fl. 14<i>b</i> e 23<i>a</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> Roger Bacon, <i>Opus majus</i>, pag. 183.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> <i>Conciliator differentiarum philosophorum</i>, Diff. <span class="allsmcap">LXVII</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> <i>De Universo</i>, liv. <span class="allsmcap">XII</span>, cap. <span class="allsmcap">IV</span>, pag. 172.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> <i>Speculum naturale</i>, part. 1.ª, liv. <span class="allsmcap">IV</span>, cap. <span class="allsmcap">XVII</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> <i>De mirabilibus Indiæ.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[36]</a> «Et dien (disent) que illec sont antipodes, c’est-à-dire,
-gens qui ont leurs pieds contre nos et pour ce qu’ils sont á l’opposite
-partie de la terre, aussi comme s’ils fussent subz nous
-et nous soubz eulx. Ceste opinion n’est pas á tenir, et n’est
-pas bien concordable á notre foy. <i>Car la loy de Jésus Christ
-a esté preschié par toute la terre habitable; et selon ceste opinion,
-telles gens n’en auraient oncques ouij parler, ne pourroient estre
-subgés à l’église de Rome. Pour ce, reprenne saint Augustin
-ceste erreur ou ceste opinion</i>, <i>lib.</i> <span class="allsmcap">XVI</span> <i>«De Civitate Dei»</i> Nicolau
-d’Oresme, cosmographo francez do seculo <span class="allsmcap">XIV</span>, preceptor do rei
-Carlos V, <i>le Sage</i>.—Manuscripto cosmographico existente na
-Bibliotheca Nacional de Paris, com o numero 7487, <i>apud</i>. Visconde
-de Santarem, <i>Essai sur l’histoire de la cosmographie</i>,
-etc., tom. <span class="allsmcap">I</span>, p. 142.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[37]</a> Quoniam nullo modo scriptura ista mentitur, quæ narratis
-præteritis facit fidem eo quod ejus predicta complentur; nimisque
-absurdum est, ut dicatur aliquos homines ex hac in
-illam partem, Oceani immensitate trajecta navigure ac pervenire
-potuisse, <i>ut etiam illic ex uno primo homine genus institueretur
-humanum</i>. Lactancio <i>Divinarum institutionum</i>, liv. <span class="allsmcap">III</span>,
-cap. <span class="allsmcap">IX</span>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[38]</a> Qua propter inter illos tunc hominum populos qui per septuaginta
-duos gentes, et totidem linguas colliguntur, fuisse divisi,
-quæramus, si possimus invenire, illam in terris peregrinantem
-civitatem Dei, quæ ad diluvium arcamque perducta est, at
-que in filiis Noe per eorum benedictiones perseverare monstretur,
-maxime in maximo qui est appellatus Sem, quando quidem
-Japhet ita benedictus est, ut in ejusdem fratris sui domibus habitaret.—<i>Ibid.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[39]</a> Cosmas Indicopleustas, <i>Topographia Christã</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[40]</a> <i>Ibid.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_41" href="#FNanchor_41" class="label">[41]</a> Cosmas, Santo Isidoro de Sevilha, Anonymo de Ravenna,
-Raban Mauro, Honoré d’Autun, Hugo de Saint-Victor, Vicente
-de Beauvais, Brunetto Latini, Joinville. A noticia do famoso
-chronista de S. Luiz a respeito do Nilo, transcripta pelo visconde
-de Santarem no <i>Essai</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 112, nota 3, não
-deixa de ser curiosa: «Ici il convient de parler du fleuve qui passe
-par le pais d’Egypte, et vient du Paradis Terrestre... Quant
-celui fleuve entre en Egypte il y a gens tous experts et accoustumez,
-comme vous diriez les pêcheurs des rivières de ce pays-cy
-qui au soir jettent leurs reyz au fleuve et es rivières; et au
-matin souvent y trouvent et prennent les espiceries qu’on veut
-en ces parties de par de ça (dans l’Europe) bien chierement et
-au pois, comme canelle, gingembre, rubarbe, girofle, lignum,
-aloes et plusieurs bonnes chouses. Et dit—on pais que ces chouses—lá
-viennent du Paradis terrestre et que le vent les abat des
-bonnes arbres, qui sont en Paradis terrestre.»</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_42" href="#FNanchor_42" class="label">[42]</a> «Para elle (Colombo) o Paraizo Terrestre correspondia
-ao castello de Kang—diz dos Persas, e devia achar-se n’um logar
-elevado e inaccessivel.»—Reinaud <i>Géographie d’Aboulféda</i>,
-tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 252. «A corrente do Orenoque é tão forte que Diogo
-de Lepe reconheceu por meio de um <i>escalfador</i> que só se abria
-no fundo das aguas, no mar defronte da foz de Orenoque, que,
-n’uma profundidade de oito braças e meia, só as duas primeiras
-braças do fundo eram de agua salgada, e as outras de agua
-doce».—Humboldt, <i>Histoire de la géographie</i>, etc., t. <span class="allsmcap">I</span>, pag.
-314.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_43" href="#FNanchor_43" class="label">[43]</a> Lemos n’um manuscripto cosmographico datando d’essa
-epocha (seculo <span class="allsmcap">VII</span>) «<i>que a terra é da forma de um cone ou de um
-pião</i>, de forma que a sua superficie vai, segundo esse systema,
-elevando-se do sul para o norte.» Visconde de Santarem, <i>Essai
-sur l’histoire de la cosmographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">II.</span>—<i>Int.</i> pag. <span class="allsmcap">LX</span>. A
-fórma ovoide era-lhe attribuida pelo philosopho grego Thalés, seguido
-por alguns geographos da edade média. Posidonius dava-lhe
-a fórma de uma funda, como Prisciano tambem.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_44" href="#FNanchor_44" class="label">[44]</a> N’uma carta de 1498, publicada por Navarrete, tom. <span class="allsmcap">I</span>,
-pag. 256, compara Colombo a terra com uma pera dividida ao
-meio, sendo uma parte redonda, e a outra terminada em cone.
-Esta carta vem tambem nas <i>Select letters of Christopher Columbus</i>,
-publicadas por Major, pag. 130. (Londres, 1847).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_45" href="#FNanchor_45" class="label">[45]</a> Os geographos arabes consideravam Gog e Magog como filhos
-de Japhet, devemos accrescentar que era esta a doutrina
-mais seguida.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_46" href="#FNanchor_46" class="label">[46]</a> É interessante o que diz ácerca d’estes povos o sur Vivien
-de Saint Martin nas suas <i>Recherches sur les populations primitives
-et les plus anciennes traditions du Caucase</i>, pag. 40 a 47.
-(Paris, 1847). M. de Sacy considera a muralha de Alexandre
-como sendo a noção vaga da muralha da China.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_47" href="#FNanchor_47" class="label">[47]</a> Ha poucos annos ainda se publicou, em Hespanha, um livro
-do sr. Junquera <i>Origen de los americanos</i>, em que se sustenta
-essa doutrina. N’ella se baseia um dos romances, e dos menos
-bons, <i>Oak openings</i> do grande romancista americano Fennimore
-Cooper.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_48" href="#FNanchor_48" class="label">[48]</a> Mela, <span class="allsmcap">III</span>, c. <span class="allsmcap">VII</span>.—Solino diz que a terra d’essa ilha está
-sempre vermelha.—Plinio colloca-a perto da Taprobana.—<i>Hist.
-Nat</i>. <span class="allsmcap">VI</span>, 22.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_49" href="#FNanchor_49" class="label">[49]</a> «Colloquei, diz Toscanelli na carta que escreveu a Colombo
-e referindo-se ao mappa que mandou ao rei de Portugal, defronte
-(das costas da Irlanda e da Africa) direito a oeste o principio
-das Indias com as ilhas e os logares a que poderia abordar.»</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_50" href="#FNanchor_50" class="label">[50]</a> Todas estas lendas irlandezas, em abreviada exposição,
-se podem ver no excellente livro de mr. de Villemarqué <i>La Légende
-Celtique</i>, especialmente na <i>Introducção e na Lenda de S.
-Patricio</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_51" href="#FNanchor_51" class="label">[51]</a> Os cavalleiros portuguezes estavam no exercito do duque
-de Borgonha, que defendia Arras, e foram ao combate commandados
-pelo sire de Cottebrune; os seus adversarios, pertencentes
-ao exercito de Carlos VI, eram commandados pelo bastardo
-de Bourbon. Veja-se a nossa <i>Historia de Portugal</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag.
-267, nota (2.ª edição).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_52" href="#FNanchor_52" class="label">[52]</a> <i>Historia da Universidade</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, cap. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 137. (Lisboa,
-1892.) A discordancia em que estamos n’este ponto com o
-illustre professor não nos impede de reconhecermos que o seu
-livro é monumental. O erudito, a cuja opinião elle se encosta,
-é João Teixeira Soares, aliás um açoriano benemerito, mas um
-dos taes que se deixam arrastar pelo prazer de demolir uma
-gloria consagrada.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_53" href="#FNanchor_53" class="label">[53]</a> Veja-se o retrato de Napoleão traçado primorosamente por
-Taine nas suas admiraveis <i>Origines de la France contemporaine</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_54" href="#FNanchor_54" class="label">[54]</a> <i>Os filhos de D. João I</i>, cap. <span class="allsmcap">III</span>, <i>A villa do infante</i>, pag.
-59 e segg.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_55" href="#FNanchor_55" class="label">[55]</a> Humboldt, <i>Histoire de la géographie du nouveau continent</i>,
-tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 334 e segg.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_56" href="#FNanchor_56" class="label">[56]</a> Apud Visconde de Santarem, <i>Recherches sur la découverte</i>,
-etc., pag. 113 e 114.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_57" href="#FNanchor_57" class="label">[57]</a> Citado por Humboldt na <i>Histoire de la géographie du nouveau
-continent</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 246.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_58" href="#FNanchor_58" class="label">[58]</a> No <i>Boletim da Sociedade de Geographia</i> de Madrid do anno
-corrente.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_59" href="#FNanchor_59" class="label">[59]</a> «Mais avant les Portugais aucune nation de l’Europe ne
-semble être allée au délà de l’Équateur». (<i>Histoire de la géographie</i>,
-etc., tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 290).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_60" href="#FNanchor_60" class="label">[60]</a> «L’horizon géographique s’agrandit peu à peu de la Mer
-Égée au méridien des Syrtes, de là aux Colonnes d’Hercule et
-hors du détroit avec Hannon vers le sud, avec Pythéas vers le
-nord». (<i>Hist. de la géogr.</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 32). O horizonte ampliado
-por Pythéas nunca mais se restringiu, porque é que havia
-de acontecer o contrario ao horizonte ampliado por Hannon, se
-este viajante tivesse ido mais longe do que a costa de Marrocos?</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_61" href="#FNanchor_61" class="label">[61]</a> Ha bullas de Eugenio IV, de Nicolau V, de Martinho V,
-de Calixto III, de Xisto IV. A bulla de Calixto III, confirmando
-as de Martinho V e Nicolau V, declara que o descobrimento das
-terras de Africa Occidental o não possam fazer senão os reis de
-Portugal. A bulla está no Archivo Real da Torre do Tombo no
-<i>Livro dos Mestrados</i>, fl. 151 e 168. Veja-se a minha <i>Historia
-de Portugal</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 248, nota 1, (2.ª edição). A bulla
-de Nicolau V, que já citámos, de 8 de janeiro de 1454, concedia
-a el-rei de Portugal, ao infante D. Henrique e a todos os reis
-de Portugal, seus successores, todas as conquistas de Africa <i>com
-as ilhas nos mares adjacentes</i> desde o cabo de Bojador e de Não
-e de toda a Guiné com toda a sua costa meridional. (Arch. Real
-da Torre do Tombo, maç. 7 de bullas, n.º 29, e maç. 33, n.º
-14). Por isso, D. João II, quando fallou a Christovão Colombo
-a 9 de março de 1493, lhe disse, que se regosijava tanto mais
-com a sua conquista, quanto tudo quanto elle descobrira pertencia
-de direito a Portugal. Humboldt, <i>Histoire de la géographie
-du Nouveau-Continent</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, sec. 1.ª, Nota E, pag. 331.
-E effectivamente por algum tempo se discutiu se os descobrimentos
-de Christovão Colombo eram ou não de <i>ilhas nos mares
-adjacentes</i> á costa africana. E não acham curioso que, se Francezes
-ou Hespanhoes ou Italianos, antes de nós, tivessem passado
-para deante do Bojador, acceitassem e reconhecessem e fizessem
-respeitar por leis e decretos o direito que nós tinhamos
-de não consentir que se fizessem descobrimentos n’esses mares,
-ou, no caso de se fazerem, o direito que tinhamos ao menos, á
-posse d’essas terras descobertas!!</p>
-
-<p>A proposito d’esse cavalleiro allemão Balthazar, que acompanhou
-Antão Gonçalves, diz o auctor d’este livro: «Antão Gonçalves
-voltou a Portugal com os negros, e Balthazar o cavalleiro
-allemão que o acompanhava tornou para a sua terra, onde
-foi naturalmente a maravilha de todos os que o escutavam, e
-um novo Sindbad para os pasmados Germanos. A narração das
-tempestades, dos perigos, dos estranhos costumes dos Azenegues
-devia occupar bastantes serões de inverno nos velhos castellos
-allemães junto da vasta lareira, emquanto gemesse lá fóra o vento
-e cahisse a neve cobrindo de alvo manto o solo endurecido.»
-<i>Hist. de Portugal</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 252 (2.ª edição).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_62" href="#FNanchor_62" class="label">[62]</a> <i>Olympiada II</i>, 127.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_63" href="#FNanchor_63" class="label">[63]</a> Como se pode ver no 1.º mappa do Atlas do visconde de
-Santarem, que é exactamente o mappa catalão de 1375.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_64" href="#FNanchor_64" class="label">[64]</a> <i>Habet</i>, diz o manuscripto de Genova, <i>latitudinem unius
-legue et fundum pro majore navi mundi</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_65" href="#FNanchor_65" class="label">[65]</a> <i>La plage de sable, qui, comme on l’a dit, forme presque entiérement
-l’embouchure du Rio d’Ouro ne permet pas de penser
-que ce lieu puisse recevoir des bâtiments du plus faible tirant
-d’eau, il ne peut probablement admettre que des canots.</i> Roussin
-<i>Mémoire sur la navigation aux côtes occidentales de l’Afrique</i>,
-pag. 96.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_66" href="#FNanchor_66" class="label">[66]</a> Observação já feita pelo visconde de Santarem nas suas
-notas á edição da <i>Chronica de Guiné</i> de Azurara. Veja-se tambem
-o magnifico capitulo da <i>Vida do principe Henrique</i> do illustre
-escriptor Richard Major, capitulo intitulado <i>The slave trade</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_67" href="#FNanchor_67" class="label">[67]</a> Este commentario vem publicado na collecção de Ramusio.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_68" href="#FNanchor_68" class="label">[68]</a> O sabio francez Letronne n’uma memoria publicada no
-<i>Journal des Savants</i> de agosto de 1831, diz o seguinte: «L’hypothése
-d’un prolongement indéfini de la côte occidentale d’Afrique,
-à partir d’une latitude voisine de l’Équateur, était fondée
-sur la direction de la côte d’Afrique depuis la rivière de Nun
-jusqu’au cap Bojador <i>que l’expédition d’Hannon n’avait pas dépassée</i>.»</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_69" href="#FNanchor_69" class="label">[69]</a> «Ha ainda um personagem duvidoso, diz Renan, este <i>presbyter
-Johannes</i>, especie de socio do Apostolo, que perturba
-como um espectro toda a historia da Egreja de Epheso e causa
-aos criticos bastantes embaraços.» <i>L’Antechrist</i>, pag. <span class="allsmcap">XXIII</span>, trad.
-do sr. Theophilo Braga, que cita este trecho nas <i>Lendas Christãs</i>,
-cap. <span class="allsmcap">V</span>, <i>As lendas do primado da Egreja</i>, pag. 213 (Porto,
-1892). Este livro do sr. Theophilo Braga é na verdade excellente
-e foi-me de um grande auxilio n’este estudo ácerca das viagens
-da lenda do Prestes João. A não ser o livro de Marco Polo e os
-artigos do illustre sinologo Pauthier, que consultámos directamente,
-as fontes que citamos são as que o sr. Theophilo Braga
-aproveitára e indicára. Folgamos de prestar esta homenagem ao
-nosso illustre confrade, porque, apesar de estarmos muito em
-desaccordo com alguns dos pontos de vista d’este seu novo livro,
-não deixamos de reconhecer que é mais uma prova do muito
-talento e da muita erudição do seu auctor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_70" href="#FNanchor_70" class="label">[70]</a> Esta carta vem publicada na <i>Cosmographie et histoire naturelle
-fantastique du moyen-âge de Ferdinand Denis</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_71" href="#FNanchor_71" class="label">[71]</a> Por 1122, no pontificado de Calixto.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_72" href="#FNanchor_72" class="label">[72]</a> Ainda na ultima concordata celebrada entre Portugal e a
-côrte de Roma ácerca do padroado da India tiveram de ser resalvados
-os direitos christãos do rito syriaco.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_73" href="#FNanchor_73" class="label">[73]</a> Theophilo Braga, <i>Lendas Christãs</i>, pag. 227.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_74" href="#FNanchor_74" class="label">[74]</a> Veja-se a <i>Nota explicativa do symbolo da arvore do sol e
-da arvore da lua</i>, escripta pelo sr. Felix Lajard, e communicada
-ao visconde de Santarem que a publicou no fim do <span class="allsmcap">III</span> volume
-do seu <i>Essai sur l’histoire de la cosmographie</i>, etc., pag.
-506.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_75" href="#FNanchor_75" class="label">[75]</a> Rosweid, <i>Vitæ Patrum</i>.—<i>Vita S. Macari Romani servi Dei
-qui niventus est juxta Paradisum.</i> Andrea Bianco no seu famoso
-mappa de 1436 põe o Paraizo n’uma peninsula, e junto do Paraizo
-um grande edificio com esta designação: <i>Ospitium Macari</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_76" href="#FNanchor_76" class="label">[76]</a> G. Pauthier <i>Le pays de Tanduc et les descendants du Prêtre
-Jehan</i>.—<i>Revue de l’Orient, de l’Algérie et des Colonies</i>, tom.
-<span class="allsmcap">XIII</span>, pag. 287. (Paris, 1861). Publica primeiro o capitulo <span class="allsmcap">LXXIII</span>,
-da Relação de Marco Polo, que se intitula: <i>Cy devise de la province
-de Tanduc, et des descendants du Prestre Jehan</i>, a que se
-segue depois o commentario.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_77" href="#FNanchor_77" class="label">[77]</a> Ainda não tinham passado os portuguezes do Cabo Branco,
-estava-se apenas no anno de 1441 e já o infante encarregava
-Antão Gonçalves de saber alguma coisa ácerca de Prestes João.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_78" href="#FNanchor_78" class="label">[78]</a> Um distincto escriptor francez, Eyriés, que escreveu a
-biographia de João Fernandes na <i>Biographie Universelle</i>, diz
-que elle fôra o primeiro Europeu que penetrára no interior da
-Africa e que as particularidades da relação que elle trouxera
-apresentavam uma grande analogia com as da relação de Mungo-Park.
-A respeito dos serviços prestados á botanica pelos Portuguezes
-vejam-se os estudos de primeira ordem do sr. conde de
-Ficalho, <i>Plantas uteis da Africa Portugueza</i>, (Lisboa, 1884),
-a <i>Flora dos Lusiadas</i>, (Lisboa, 1880), a <i>Memoria sobre a Malagueta</i>,
-(Lisboa, 1878). A respeito dos nossos serviços á ornithologia,
-vejam-se as interessantissimas communicações feitas
-pelo notavel sabio portuguez o sr. Bocage a Andrade Corvo, e
-por elle publicadas nas notas á sua edição do <i>Roteiro de D. João
-de Castro</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_79" href="#FNanchor_79" class="label">[79]</a> Alvaro de Freitas ia na expedição commandada por Lançarote,
-almoxarife em Lagos, e n’um momento de enthusiasmo
-declarou que estava prompto a seguir o seu chefe até ao Paraizo
-Terreal. V. a minha <i>Hist. de Portugal</i>, tom. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 271.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_80" href="#FNanchor_80" class="label">[80]</a> Tristão Vaz Teixeira, foi na grande expedição de 1445,
-de que fazia parte Soeiro da Costa. Alvaro Fernandes tornou-se
-celebre sobretudo pelo descobrimento da Serra Leôa.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_81" href="#FNanchor_81" class="label">[81]</a> Alvaro Fernandes, por exemplo, foi de uma vez do Cabo
-Verde á Serra Leôa, e depois Cadamosto e outros exploraram
-cuidadosamente a costa intermedia, fazendo então viagem como
-se faz, quando se quer estudar uma costa. «A nossa navegação
-diz o viajante italiano, sempre foi de dia, lançando ancora todas
-as tardes ao sol posto com dez ou doze braças de agua.» <i>Navegações
-de Cadamosto (traducção portugueza)</i> pag. 51.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_82" href="#FNanchor_82" class="label">[82]</a> <i>Histoire de la géographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 56 e 57.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_83" href="#FNanchor_83" class="label">[83]</a> <i>Os Côrte-Reaes</i>, pag. 61. (Ponta-Delgada, 1883).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_84" href="#FNanchor_84" class="label">[84]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 57.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_85" href="#FNanchor_85" class="label">[85]</a> Veja-se Herrera, <i>Historia general de los hechos castellanos en
-las islas y tierra firme del mar oceano</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, cap. <span class="allsmcap">II</span> e <span class="allsmcap">III</span>,
-pag. 4 a 6. (Madrid, 1601).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_86" href="#FNanchor_86" class="label">[86]</a> Veja-se Herrera, <i>Historia general de los hechos castellanos
-en las islas y tierra firme del mar oceano</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, cap. <span class="allsmcap">II</span> e <span class="allsmcap">III</span>,
-pag. 4 a 6. (Madrid, 1601).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_87" href="#FNanchor_87" class="label">[87]</a> Publicado no <i>Archivo dos Açores</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 24.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_88" href="#FNanchor_88" class="label">[88]</a> Publicado no <i>Archivo dos Açores</i>, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 22.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_89" href="#FNanchor_89" class="label">[89]</a> Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos <i>Côrtes-Reaes</i>,
-pag. 62.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_90" href="#FNanchor_90" class="label">[90]</a> Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos <i>Côrte-Reaes</i>,
-pag. 63.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_91" href="#FNanchor_91" class="label">[91]</a> É o proprio Humboldt, que, referindo-se ás epochas do
-encontro das ilhas diz: «Ces époques sont, pour l’écueil des Formigas,
-1431; pour l’île Santa Maria, 1432; pour San Miguel
-1444; pour Terceira, San Jorge et Fayal, 1449; pour Graciosa,
-1453. La découverte des îles les plus occidentales, Flores
-et Corvo, paraît antérieure à 1449, mais cette date est moins
-précise». <i>Hist. de la géographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 105.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_92" href="#FNanchor_92" class="label">[92]</a> <i>Os Côrtes-Reaes</i>, pag. 61.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_93" href="#FNanchor_93" class="label">[93]</a> Assim de João Vaz Côrte Real não hesito em referir que
-se dizia que foi elle quem descobrira a ilha Terceira e a de
-S. Jorge e que por isso recebera a capitania das duas ilhas (!)
-Cabo Verde e o Brazil (!!). Tambem a respeito da força de João
-Vaz conta com a maior seriedade, e como facto authentico, uma
-d’estas lendas que atravessam os seculos, com as suas variantes,
-ácerca de homens famosos pela sua força muscular. Assim
-diz, que, estando João Vaz Côrte Real no Algarve a passeiar
-na sua quinta, veiu visital-o um castelhano muito forçoso, que
-tranquillamente, passando n’uma alameda de marmeleiros, os foi
-arrancando de um e de outro lado, pondo-lhes as raizes ao sol,
-João Vaz não fez a mais leve observação, mas apanhando os
-marmellos, apertou-os na mão e esmagou-os completamente não
-lhe ficando na mão senão o bagaço. É uma variante da historia
-do ferrador, um Mauricio de Sarce ou um D. Pedro II de Portugal.
-O rei ou o principe partia com a maior facilidade cada ferradura
-que o ferrador lhe apresentava, dizendo-lhe que não era
-boa, e o ferrador calado. Quando o alto personagem, pagando
-generosamente a sua ostentação de força, deu uma moeda de
-ouro ao ferrador, este partiu-a dizendo que não era boa. Como
-se vê, é o conto popular sempre com a mesma forma, repetida
-por um escriptor crendeiro, cujo testemunho tem comtudo servido
-para que escriptores serios percam o seu tempo com umas
-das suas lendas!</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_94" href="#FNanchor_94" class="label">[94]</a> <i>Os Côrte-Reaes</i>, pag. 36.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_95" href="#FNanchor_95" class="label">[95]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 35.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_96" href="#FNanchor_96" class="label">[96]</a> <i>Os Côrte-Reaes</i>, pag. 19.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_97" href="#FNanchor_97" class="label">[97]</a> Arch. Nac. da Torre do Tombo, liv. 49 de D. João III,
-fl. 243, verso. Transcripto nos <i>Côrte-Reaes</i>, pag. 121 a 125.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_98" href="#FNanchor_98" class="label">[98]</a> Não ha razão seria para que a Groenlandia pertença á
-America e não lhe pertençam os Açores. Da Islandia, que é a ultima
-parte da Europa, á Groenlandia, vão 240 leguas, de Portugal
-a S. Miguel 247. Portanto, se os islandezes descobriram
-a America porque chegaram á Groenlandia, com mais razão se
-pode dizer que descobriram os Portuguezes a America porque
-chegaram aos Açores. É perfeitamente pueril estar a discutir
-quem foi que tocou primeiro nas terras americanas, a gloria
-consiste em não ter hesitado em atravessar centos e centos de
-leguas de mar com o fim de chegar ao Oriente pelo caminho do
-occidente.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_99" href="#FNanchor_99" class="label">[99]</a> Diz Pedro Nunes: «E perderam-lhe (<i>os Portuguezes</i>) tanto
-o medo (<i>ao mar</i>): que nem ha grande quentura da torrada
-zona: nem o descompassado frio da extrema parte do sul: com
-que os antigos escriptores nos ameaçavam lhes pode estorvar:
-«...Tirará nos muitas ignorancias: e a mostraram ser a terra
-mór que o mar (<i>o erro de Colombo</i>): e auer hi antipodas: que
-ate os Santos duvidaram: e que nam a regiam que nem por
-quente nem por fria se deyee de abitar.» <i>Tratado que o Doutor
-Pero Nunes, cosmographo del Rey nosso senhor fez em defensão
-da carta de marcar: võ o regimento da altura.</i> Reg. 1. (Lisboa,
-1537).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_100" href="#FNanchor_100" class="label">[100]</a> Humboldt, <i>Histoire de la géographie</i>, etc., tom. <span class="allsmcap">II</span>. Nota
-<i>H</i>, pag. 369.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_101" href="#FNanchor_101" class="label">[101]</a> Veja-se a interessante obra de Navarrete, tom. <span class="allsmcap">I</span>, pag.
-300.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_102" href="#FNanchor_102" class="label">[102]</a> Strabão, <span class="allsmcap">II</span>, pag. 83, 113 e 116. Itaque, diz Strabão na
-formosa passagem em que prophetisa a America, compluribus
-verbis persuadere nititur Eratosthenes nisi Atlantici maris
-obstaret magnitudo, posse nos navigare in eodem parallelo, ex
-Hispania in Indiam per universum id quod reliquem est, demta
-dicta distantia (hoc est longitudinæ terræ habitatæ) quæ totius
-circuli trientem excedit». Strabo, liv. <span class="allsmcap">I</span>, pag. 113-114. Assim,
-excedendo as terras habitadas a terça parte do parallelo, o
-mar a percorrer é um pouco inferior a ⅔ e menos de 240°,
-mais de 236°. A differença imaginada por Eratosthenes e Strabão
-e a distancia verdadeira não é grande.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_103" href="#FNanchor_103" class="label">[103]</a> Esta carta foi publicada pelo sr. Teixeira de Aragão na
-excellente <i>Memoria ácerca do descobrimento da America</i> que
-escreveu para o volume consagrado pela commissão portugueza
-do centenario de Colombo a esta grande solemnidade. É datada
-de Aviz de 20 de março de 1488. Trata Christovam Colombo
-por nosso especial amigo.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_104" href="#FNanchor_104" class="label">[104]</a> <i>Os Côrtes-Reaes</i>, pag. 65, nota 123. A carta de doação a
-Fernão Dulmo vem publicada no mesmo volume de pag. 64 a
-69.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_105" href="#FNanchor_105" class="label">[105]</a> «No me admiro tengais, diz-lhe Toscanelli na sua segunda
-carta, tan gran corazon <i>como toda la nacion portugueza,
-en que siempre ha habido hombres señalados en todas emprezas</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_106" href="#FNanchor_106" class="label">[106]</a> A carta é de maio de 1505, citada por Navarrete no t. <span class="allsmcap">III</span>
-pag. 528, e Humboldt, t. <span class="allsmcap">III</span>, pag. 260.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_107" href="#FNanchor_107" class="label">[107]</a> Veja-se a minha <i>Historia de Portugal</i>, t. <span class="allsmcap">IV</span>, pag. 272.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_108" href="#FNanchor_108" class="label">[108]</a> Foi Humboldt que fez notar a differença entre as duas
-versões da mesma bulla, <i>Hist. de la géographie</i>, etc., sec. <span class="allsmcap">II</span>, t.
-<span class="allsmcap">III</span>, pag. 52, nota.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_109" href="#FNanchor_109" class="label">[109]</a> A filha de Izabel a Catholica desposára o filho d’el-rei D.
-João <span class="allsmcap">II</span>, o principe D. Affonso que morreu de uma desastrada
-quéda de cavallo a 13 de julho de 1491.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_110" href="#FNanchor_110" class="label">[110]</a> Humboldt, <i>Histoire de la géographie</i>, etc., sec. <span class="allsmcap">II</span>, t. <span class="allsmcap">III</span>,
-pag 55.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_111" href="#FNanchor_111" class="label">[111]</a> <i>Quadro elementar das relações politicas e diplomaticas de
-Portugal com as diversas potencias do mundo</i>, t. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 390
-Lisboa, 1844. O tratado vem publicado <i>in extenso</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_112" href="#FNanchor_112" class="label">[112]</a> Pedro Martyr d’Anghiers, <i>Oceanicas</i>, dec. <span class="allsmcap">VIII</span>, cap. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_113" href="#FNanchor_113" class="label">[113]</a> Foi o duque de Medina-Sidonia que se offereceu para ir
-com as suas caravelas em perseguição dos portuguezes, e a 2
-de maio de 1493 pediam os reis catholicos ao duque que as tivesse
-prestes, a 12 de junho e 27 de julho affiançavam a Colombo
-que não havia motivo para se desconfiar do rei de Portugal,
-doc. n.ºs 16, 50 e 54 publicados na <i>Collecção de viagens
-e descobrimentos</i>, citados pelo sr. Teixeira de Aragão a pag. 18
-da sua <i>Breve memoria sobre o descobrimento do Brazil</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_114" href="#FNanchor_114" class="label">[114]</a> O trecho da <i>Esmeralda</i> é o seguinte: «Como no terceiro
-anno do vosso reinado do anno de Nosso Senhor de mil quatrocentos
-noventa e oito donde nos vossa alteza mandou descobrir
-a parte occidental, passando além do grande mar oceano,
-onde é achada e navegada uma tão grande terra firme com muitas
-grandes ilhas adjacentes a ella, que se estende a setenta graus
-de ladeza da linha equinocial contra o polo arctico.» <i>Esmeralda</i>
-liv. 2.º, cap. <span class="allsmcap">I</span>, transcripto pelo sr. Teixeira de Aragão na sua
-<i>Breve Noticia</i>, etc., pag. 47. D’este trecho deduz-se que Duarte
-Pacheco foi mandado descobrir para o occidente em 1498, o
-que não faz senão confirmar o que temos dito, mas não que
-Duarte Pacheco descobriu o Brasil. Nem elle diz que <i>achou e
-navegou</i> essa terra, mas sim que essa terra <i>é achada e navegada</i>,
-e isto em 1505.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_115" href="#FNanchor_115" class="label">[115]</a> <i>Roteiro geral do globo</i>, tom. <span class="allsmcap">XI</span>, sec. 1.ª, pag. 2 (Lisboa
-1839). Mouches, <i>Les côtes du Brésil</i>, sec. <span class="allsmcap">II</span>, pag. 8 (Paris,
-1864).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_116" href="#FNanchor_116" class="label">[116]</a> N’uma das sessões do <i>Instituto Historico Geographico do
-Brasil</i>, o imperador D. Pedro <span class="allsmcap">II</span> propoz como assumpto de discussão
-«se a descoberta do Brasil foi intencional ou devida ao
-acaso». Joaquim Norberto fez uma memoria interessante sustentando
-que a descoberta foi intencional, Machado de Oliveira
-fez uma memoria de uma futilidade inexcedivel e de uma grosseria
-imperdoavel que nem merece que d’ella nos occupemos,
-Gonçalves Dias sustentou com argumentos broncos, mas com
-vigor de estylo, mostrando-se muito talentoso e muito erudito,
-que a descoberta fôra occasional. Joaquim Norberto replicou e
-muitissimo bem. O unico argumento de algum peso que Gonçalves
-Dias apresentava era o da corrente equatorial que corre
-de léste para oeste. É esse exactamente o que o sr. Baldaque
-da Silva destróe technicamente e de um modo completo.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_117" href="#FNanchor_117" class="label">[117]</a> <i>Les côtes du Brésil</i>, pag. 115, nota <i>a</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_118" href="#FNanchor_118" class="label">[118]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 12.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_119" href="#FNanchor_119" class="label">[119]</a> <i>Ibid.</i>, pag. 116, nota <i>a</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_120" href="#FNanchor_120" class="label">[120]</a> «Sahindo do dito Cabo Verde, esta terra jaz entre Oeste e
-Sudoeste, ventos principaes, e dista do dito Cabo Verde quatrocentas
-leguas». <i>Carta de Portugal enviada ao rei D. Manuel
-ácerca da viagem e successo da India</i>, traduzida da versão italiana
-pelo sr. Prospero Peragallo, e por este publicado com o
-texto italiano e annotado nas <i>Memorias da commissão portugueza
-do centenario de Colombo</i>. O trecho que citamos vem a
-pag. 9 <i>in fine</i>. Como se vê, estando a 400 leguas de distancia
-não a oeste, mas a oes-sudoeste a distancia do meridiano de
-Cabo Verde ao meridiano de Vera-Cruz não podia ser superior
-a 370 leguas. Pero Vaz de Caminha disséra-lhe: «Topamos algūus
-synaes de terra seendo da dita ilha (<i>S. Nicolau de Cabo-Verde</i>)
-segundo os pilotos diziam obra de VIᵉ <span class="smcap">Lx</span> ou <span class="allsmcap">LXX</span> legoas
-ᵉlc (670 <i>ou</i> 701 <i>leguas</i>)». Esta carta de Pero Vaz Caminha tem
-sido muitas vezes publicada. Fazemos o nosso extracto da memoria
-do sr. Aragão, onde vem nos documentos, pag. 66.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_121" href="#FNanchor_121" class="label">[121]</a> A carta do jesuita Antonio de Sá escripta em hespanhol
-aos jesuitas da Bahia e datada de S. Vicente, 13 de junho de
-1559 diz: «Un Indio que se llama Belchior está puesto en ayunar
-todos los dias que manda la Iglesia, y sin yo le hablar nada,
-preguntóme que le hiziese saber los dias de ayuno y cual no se
-comia carne, diciendome que antes <i>que muriese Juan Ramallo
-que el se lo dezia y ayunaba todos los dias que la Iglesia manda</i>.»
-O estudo a que nos referimos feito pelo sr. Candido Mendes de
-Almeida vem publicado na <i>Revista trimensal do Instituto Historico
-Geographico do Brasil</i>, e n’esse periodico vem tambem
-as memorias de Joaquim Norberto, Gonçalves Dias e Machado
-de Oliveira, a que atraz nos referimos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_122" href="#FNanchor_122" class="label">[122]</a> «ao qual monte alto, diz Pero Vaz de Caminha, o capitam
-poz o nome de monte pascoal e aa tera a tera de Vera-Cruz».
-Depois de ter entrado em communicação com os habitantes é
-que Pedro Alvares Cabral considerou a terra como uma ilha, e
-a denominou <i>ilha de Vera Cruz</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_123" href="#FNanchor_123" class="label">[123]</a> Strabão <span class="allsmcap">XI</span>, pag. 518.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_124" href="#FNanchor_124" class="label">[124]</a> Pomponio Mela, t. <span class="allsmcap">III</span>, c. 5, 98.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_125" href="#FNanchor_125" class="label">[125]</a> <i>Les Corte-Real</i> par mr. H. Harrisse, pag. 209. Ernesto
-do Canto, <i>Os Côrtes-Reaes</i>, pag. 211.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_126" href="#FNanchor_126" class="label">[126]</a> <i>Histoire de la Géographie</i>, etc., t. <span class="allsmcap">IV</span>, pag. 263.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_127" href="#FNanchor_127" class="label">[127]</a> Legenda do mappa mandado fazer em Lisboa por Alberto
-Cantino em 1502. O sr. Ernesto do Canto transcreve-a a pag.
-208 do seu livro.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_128" href="#FNanchor_128" class="label">[128]</a> Esta curiosa doação foi publicada em texto latino por Bidle
-na obra que saío anonymamente em Londres, 1831 e que
-se intitula <i>A Memoir of Sebastian Cabot with a Review of the
-History of Maritime Discovery, illustrated by documents from
-the Rols, new first published</i>. Abrange de pag. 312 a 320. O sr.
-Ernesto do Canto publica tambem o texto latino com a traducção
-portugueza no seu livro <i>Os Côrtes-Reaes</i> e abrange de pag.
-74 a 87.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_129" href="#FNanchor_129" class="label">[129]</a> E. do Canto, <i>Os Côrtes-Reaes</i>, texto italiano a pag. 45 e
-46, traducção latina de Madrijuan a pag. 47 e 48.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_130" href="#FNanchor_130" class="label">[130]</a> São interessantissimas as indicações dadas a esse respeito
-pelo sr. Patterson, na sua magnifica memoria. A bahia de Fundy,
-diz elle, é evidentemente a Bahia Funda. Tambem nota que apparece
-lá o nome de Tanger, que não podia ter sido posto senão
-pelos portuguezes, senhores então d’essa praça, e sempre tão
-relacionados com ella.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_131" href="#FNanchor_131" class="label">[131]</a> «There are about 100 sail of Spaniards who come to take
-cod, who make it all wet and dry... As touching their tonnage
-I think it may be 5,000 or 6,000. Of Portugals there are not
-above fifty or sixty sail, whose tonnage may amount to 5,000,
-and they make all wet.» Citado pelo reverendo George Patterson
-na excellente memoria que publicou nas <i>Trans-Roy. Soc.
-Canada</i>, e que se intitula <i>The Portuguese in the North-East
-coast of America, and the first European attempt at Colonization
-there. A lost chapter in American History</i>, pag. 145. Esta
-memoria foi lida na <i>Royal Society</i> a 28 de maio de 1890.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_132" href="#FNanchor_132" class="label">[132]</a> Esta exploração outr’ora tão importante e activa, na qual
-estavam empenhados capitaes e interesses tão avultados, concorrendo
-para ella tantas partes do nosso continente, vê-se hoje
-reduzida a uma duzia de navios que a entretêem apenas em dois
-centros de pescarias: Figueira da Foz e Lisboa.» A. A. Baldaque
-da Silva, <i>Estado actual das pescas em Portugal</i>, pag. 166.
-E diz, em nota, que a pesca do bacalhau era tão importante no
-tempo de D. João <span class="allsmcap">III</span> e d’el-rei D. Sebastião «que foi providenciada
-por um regimento particular para as frotas que annualmente
-expediam a esta pescaria.»</p>
-
-<p>Emquanto á colonisação, que foi motivada exactamente pela
-importancia da pesca do bacalhau, foi promovida por varias pessoas
-de Vianna do Minho, muito interessadas n’este negocio da
-Terra Nova, pelas muitas relações que tinham com os Açorianos.
-D’esta colonisação dá conta um interessante folheto publicado
-ha poucos annos, mas escripto no seculo <span class="allsmcap">XVI</span>, que se intitula:
-<i>Tratado das ilhas novas e descobrimento d’ellas e outras
-coisas feito por Francisco de Souza, feitor d’El-Rei Nosso Senhor,
-na capitania da cidade do Funchal da ilha da Madeira e
-natural da mesma ilha e assim de parte da nação portugueza
-que está em uma grande ilha, que n’ella foram ter no tempo da
-perdição das Espanhas, que ha trezentos e tantos annos em que
-reinou El-Rei Dom Rodrigo. Dos Portuguezes que foram de
-Vianna e das Ilhas dos Açores a povoar a Terra Nova do Bacalhau
-vae em sessenta annos, do que succedeu, o que adiante se
-trata. Anno do Senhor de 1570. Ponta Delgada, S. Miguel,
-Açores 1877.</i></p>
-
-<p>É curiosa a mistura de lenda e de verdade que n’este titulo
-se encontra. Ao lado de uma colonisação perfeitamente authentica
-n’uma ilha certa é conhecida ainda a velha lenda da ilha
-das Sete Cidades colonisada pelos sete bispos, que fugiram da
-Peninsula com os seus fieis no tempo do rei Rodrigo!</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_133" href="#FNanchor_133" class="label">[133]</a> «Outros chamam-lhe, diz D. Manuel, terra nova ou novo
-mundo».</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_134" href="#FNanchor_134" class="label">[134]</a> Veja-se o estudo desenvolvido de Humboldt, que aliás não
-vê as coisas debaixo do nosso ponto de vista nas notas finaes do
-vol. <span class="allsmcap">V</span>, da sua <i>Histoire de la géographie</i>, etc., da pag. 180 em
-diante.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_135" href="#FNanchor_135" class="label">[135]</a> <i>Recherches historiques, critiques et bibliographiques sur
-Améric Vespuce et ces voyages.</i>—Paris, sem data.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_136" href="#FNanchor_136" class="label">[136]</a> Veja-se a carta de mr. Letronne a Humboldt, publicada
-no vol. <span class="allsmcap">III</span>, da sua <i>Histoire de la géographie</i>, etc., da pag. 119
-em diante.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_137" href="#FNanchor_137" class="label">[137]</a> Veja-se Humboldt, <i>Histoire de la géographie</i>, etc., tom.
-<span class="allsmcap">II</span>, pag. 26 e segg. Falando do globo de João Schoner diz: «Figurou
-no globo o estreito no logar em que Colombo debalde o
-procurara.» No globo de Weimar (que tem a data de 1534) ha
-dois estreitos, um a 42° de latitude sul, e outro no isthmo de
-Panamá a 10° de latitude ao norte do Equador.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_138" href="#FNanchor_138" class="label">[138]</a> «Se não tivessemos achado este estreito, diz Pigafetta, o
-capitão-general estava disposto a ir até 75 graus para o polo antarctico
-onde no verão não ha noite, ou muito pouca e da mesma
-maneira no inverno não ha luz do dia ou ha pouquissima.» <i>Navegação
-e viagem que Fernando de Magalhães fez de Sevilha a
-Moluco no anno de</i> 1519, pag. 61 da traducção ingleza de sir
-Stanley de Alderley, (Londres, 1874).</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Os descobrimentos portuguezes e os de
-Colombo, by Manuel Pinheiro Chagas
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES ***
-
-***** This file should be named 63534-h.htm or 63534-h.zip *****
-This and all associated files of various formats will be found in:
- http://www.gutenberg.org/6/3/5/3/63534/
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-Updated editions will replace the previous one--the old editions will
-be renamed.
-
-Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
-law means that no one owns a United States copyright in these works,
-so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
-States without permission and without paying copyright
-royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
-of this license, apply to copying and distributing Project
-Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
-concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
-and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive
-specific permission. If you do not charge anything for copies of this
-eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook
-for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports,
-performances and research. They may be modified and printed and given
-away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks
-not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the
-trademark license, especially commercial redistribution.
-
-START: FULL LICENSE
-
-THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
-PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
-
-To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
-distribution of electronic works, by using or distributing this work
-(or any other work associated in any way with the phrase "Project
-Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
-Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
-www.gutenberg.org/license.
-
-Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
-Gutenberg-tm electronic works
-
-1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
-electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
-and accept all the terms of this license and intellectual property
-(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
-the terms of this agreement, you must cease using and return or
-destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
-possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
-Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
-by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
-person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
-1.E.8.
-
-1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
-used on or associated in any way with an electronic work by people who
-agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
-things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
-even without complying with the full terms of this agreement. See
-paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
-agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
-electronic works. See paragraph 1.E below.
-
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
-Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
-United States and you are located in the United States, we do not
-claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
-displaying or creating derivative works based on the work as long as
-all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
-that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
-free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
-works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
-Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
-comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
-same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
-you share it without charge with others.
-
-1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
-what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
-in a constant state of change. If you are outside the United States,
-check the laws of your country in addition to the terms of this
-agreement before downloading, copying, displaying, performing,
-distributing or creating derivative works based on this work or any
-other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
-representations concerning the copyright status of any work in any
-country outside the United States.
-
-1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
-
-1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
-immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
-prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
-on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
-phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
-performed, viewed, copied or distributed:
-
- This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
- most other parts of the world at no cost and with almost no
- restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
- under the terms of the Project Gutenberg License included with this
- eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
- United States, you'll have to check the laws of the country where you
- are located before using this ebook.
-
-1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
-derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
-contain a notice indicating that it is posted with permission of the
-copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
-the United States without paying any fees or charges. If you are
-redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
-Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
-either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
-obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
-trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
-with the permission of the copyright holder, your use and distribution
-must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
-
-1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
-License terms from this work, or any files containing a part of this
-work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
-
-1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
-electronic work, or any part of this electronic work, without
-prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
-active links or immediate access to the full terms of the Project
-Gutenberg-tm License.
-
-1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
-compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
-any word processing or hypertext form. However, if you provide access
-to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
-other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
-version posted on the official Project Gutenberg-tm web site
-(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
-to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
-of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
-Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
-full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.
-
-1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
-performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
-unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
-access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
-provided that
-
-* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
- the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
- you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
- to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
- agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
- within 60 days following each date on which you prepare (or are
- legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
- payments should be clearly marked as such and sent to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
- Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
- Literary Archive Foundation."
-
-* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
- you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
- does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
- License. You must require such a user to return or destroy all
- copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
- all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
- works.
-
-* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
-
-* You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg-tm works.
-
-1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
-Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
-are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
-from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The
-Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm
-trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below.
-
-1.F.
-
-1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
-effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
-works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
-Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
-electronic works, and the medium on which they may be stored, may
-contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
-or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
-intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
-other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
-cannot be read by your equipment.
-
-1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
-of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
-Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
-Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
-liability to you for damages, costs and expenses, including legal
-fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
-LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
-PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
-TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
-LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
-INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
-DAMAGE.
-
-1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
-defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
-receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
-written explanation to the person you received the work from. If you
-received the work on a physical medium, you must return the medium
-with your written explanation. The person or entity that provided you
-with the defective work may elect to provide a replacement copy in
-lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
-or entity providing it to you may choose to give you a second
-opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
-the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
-without further opportunities to fix the problem.
-
-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-
-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
-Defect you cause.
-
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-
-
-
-</pre>
-
-</body>
-</html>
diff --git a/old/63534-h/images/cover.jpg b/old/63534-h/images/cover.jpg
deleted file mode 100644
index 0650a66..0000000
--- a/old/63534-h/images/cover.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/63534-h/images/crest.jpg b/old/63534-h/images/crest.jpg
deleted file mode 100644
index a3a7562..0000000
--- a/old/63534-h/images/crest.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/63534-h/images/line.jpg b/old/63534-h/images/line.jpg
deleted file mode 100644
index 5a636b2..0000000
--- a/old/63534-h/images/line.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ