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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo - Tentativa de coordenação historica - -Author: Manuel Pinheiro Chagas - -Release Date: October 23, 2020 [EBook #63534] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - - - - - -OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES E OS DE COLOMBO - - - - - OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES - E - OS DE COLOMBO - - [Illustration] - - TENTATIVA DE COORDENAÇÃO HISTORICA - POR - MANUEL PINHEIRO CHAGAS - SECRETARIO GERAL DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA - - [Illustration] - - LISBOA - Typographia da Academia Real das Sciencias - 1892 - - - - -I - -Os problemas geographicos do seculo XV - - -A festa do centenario de Colombo deve acima de tudo ser uma festa de -justiça e um dos grandes jubileus da humanidade. Os centenarios dos -grandes homens e os centenarios dos grandes acontecimentos são as -solemnidades com que se festeja sobretudo a chegada a cada um dos marcos -milliarios da estrada, que até agora parece ser infinita, do Progresso. -Lançando os olhos para o passado, vê-se que a humanidade não parou um -só instante na sua marcha para um fim ainda hoje desconhecido. Parece -ás vezes aos observadores superficiaes que ha epochas em que se recúa, -porque se extingue uma luz que brilhava com immensa intensidade, ou -porque retrocede uma ou outra das legiões que formam o immenso exercito -da especie humana; mas, se ha umas que retrocedem, porque estavam muito -adeante das outras, estas em compensação avançam e ganham o terreno -perdido pelos seus companheiros de jornada. Se um clarão se apaga, outros -ha que se accendem em pontos que até ahi estavam immersos em trevas -profundas. O nivel da humanidade restabelece-se como se restabelece o -nivel das aguas depois dos grandes cataclysmos que afundam as mais altas -montanhas, e que deixam enxutas immensas planicies cobertas até ahi -pela vaga. Assim não ha um só dos grandes cataclysmos historicos de que -não resultasse um progresso. Mudou-se a fórma da civilisação occidental -quando cahiu o imperio romano. Ao impulso dos barbaros alluiram-se as -instituições e os monumentos, a sciencia e as lettras eclipsaram-se, mas -a alma humana illuminou-se com a irradiação do Evangelho que só n’essa -raça virgem que vinha do Norte e do Oriente podia accender os candidos -explendores que foram como que novas estrellas no nosso firmamento -moral, que foram a divinisação da mulher e a apotheose da familia e ao -mesmo tempo a esperança immortal que expirára no mundo antigo podre de -civilisação e que reviveu no mundo barbaro. Cahiam deante do alvião -vandalico os monumentos magestosos de Roma e as puras obras primas da -Grecia, mas erguia-se envolta n’um nimbo estranho de fé e de poesia -a cathedral gothica, e recortavam-se em mil caprichos phantasticos -as torrinhas e as innumeraveis agulhas dos paços municipaes, em que -a burguezia ostentava, em frente da realeza da espada, a realeza do -trabalho. Desappareciam debaixo dos codices monachaes as obras primas -dos tragicos e as epopéas gregas, mas a alma complexa da tumultuosa meia -edade palpitava nos tercetos de Dante. E, quando a invasão musulmana -derrubava no Oriente o ultimo baluarte da antiguidade erudita, quando a -Grecia via os seus marmores despedaçados pelas ferraduras dos cavallos do -deserto, e o Egypto as suas esphinges sepultadas nas nuvens de areia que -as hordas arabes levantavam, no Occidente arrancava Colombo á esphinge do -Oceano o seu segredo secular, fixava para sempre Guttemberg os vestigios -do pensamento humano, e ás portas orientaes, vindas de remoto occaso, -assomavam as prôas das caravelas portuguezas, que acabavam de sulcar, -vanguarda da civilisação, as ondas do mar Tenebroso illuminadas pela sua -audacia. - -Estas festas devem ser porém acima de tudo as festas da justiça, -porque n’ellas devem emmudecer perante a grande causa da humanidade as -mesquinhas invejas, as pequeninas rivalidades nacionaes, com que por -muitas vezes se procura deslustrar a memoria d’aquelles, que foram os -agentes providenciaes d’estas grandes transformações. O progresso humano -obedece a leis de uma ineluctavel logica. Não ha saltos nem lacúnas. -Tudo se succede com uma logica surprehendente. As grandes descobertas -derivam-se umas das outras. Todo o grande homem tem os seus humildes -predecessores. O seu genio fórma-se com elementos dispersos que elle -aproveita, concatena, e de que tira só elle o resultado fecundo. Não -foi Watt que inventou a machina de vapor, mas a elle e só a elle cabe -a gloria do invento, porque foi o seu genio que encontrou o segredo -capital, sem o qual essa machina não seria sempre senão uma curiosidade, -inutil para os grandes progressos da sciencia e da industria. Não foi -Colombo sem duvida o primeiro que sonhou que para além das vagas do -Atlantico se encontrava terra, nem o primeiro que devaneou que a marcha -de um navio pelo occidente o deveria conduzir ás plagas orientaes da -Asia. Não foi o infante D. Henrique o primeiro que pensou que, torneando -a Africa, se poderia chegar ao mar Roxo e á India, mas foram Colombo e o -infante D. Henrique que tiveram a audacia, a fé e o espirito scientifico, -foram elles que romperam os obstaculos, deante dos quaes recuava -pallida e tremente a multidão dos navegantes, ou refugia hesitante o -sonho de alguns capitães devaneadores. A elles cabe sem duvida a gloria -incontestavel, perante elles se deve curvar com respeito a humanidade, -que só a elles deve a conquista maravilhosa de mais de metade da terra. - -Quando vejo a azafama com que procuram ainda hoje espiritos demolidores -sustentar que os Portuguezes foram precedidos por outros povos nos seus -descobrimentos, que teve Colombo predecessores no descobrimento da -America, pasmo que se não veja claramente o obstaculo deante do qual -baqueiam todos os seus argumentos. Esse obstaculo é o seguinte: antes -dos navegadores do infante D. Henrique terem demonstrado o contrario, -era ponto incontestavel para todos a impossibilidade de se viver na -zona torrida. Antes de Colombo ter mostrado o contrario, era ponto -incontroverso que a immensa extensão do Atlantico tornava impossivel que -um navio, caminhando na direcção do occidente, encontrasse terra antes -de terem perecido de fome e de sede todas as tripulações. Pois, se um -navio qualquer tivesse, como se diz dos navios dieppezes, chegado antes -de nós ás costas da Guiné, não estava desde logo quebrado o encanto, não -cahia por terra toda a geographia systematica dos antigos, não estava -aberto para sempre o _mare clausum_, e podia alguem sustentar ainda que -era inhabitavel a zona torrida, quando havia em França marinheiros que -a tinham atravessado sem perigo, que tinham voltado incolumes, deixando -n’essas regiões que todos diziam completamente queimadas pelo sol -colonias florescentes como esse Petit-Dieppe e esse Petit-Paris, que -ainda hoje são citadas por escriptores francezes notabilissimos, em cujo -espirito um mal-entendido amor patrio parece extinguir completamente -a faculdade do raciocinio? Seria necessario que essa descoberta fosse -completamente inconsciente, que os marinheiros nem soubessem que tinham -entrado na zona torrida, e essa ignorancia é completamente incompativel -com os conhecimentos embora rudimentares que precisava de ter o navegador -que se arriscava a tão aventurosas viagens. - -O mesmo diremos das navegações antigas de que se encontra noticia nos -livros de Herodoto e no Periplo de Hannon. Se os marinheiros phenicios de -Necho tivessem dado volta ao cabo da Boa Esperança, e tivessem entrado no -Mediterraneo pelo estreito de Gibraltar, percorrendo tão immensa extensão -de costas, como poderiam persistir no espirito dos geographos antigos -idéas tão absolutamente falsas a respeito da configuração da Africa e da -distribuição das zonas? Pode allegar-se por acaso que essa viagem não -deixou vestigios, quando vemos que as viagens dos Phenicios nos mares -da Europa tão difficeis e tão inhospitos foram sempre continuadas, que -nunca se perdeu o conhecimento da Islandia, essa terra gelada, e que pelo -contrario perderam immediatamente esses Phenicios, esses Orientaes, que -viviam nas terras ardentes, o conhecimento de costas que o sol tambem -aquecia e em que encontravam muitas vezes como que a reproducção das -suas terras nataes? E não seria extranho tambem que Hannon tivesse feito -a longa viagem que do seu Periplo se quer deduzir que fez, e que se -apagasse completamente na memoria carthagineza o conhecimento das terras -percorridas em tão memoravel expedição, preferindo tambem, ao que parece, -esses filhos de paiz africano, as costas geladas e os mares tempestuosos -da Europa ao clima quente e ao mar sereno da Africa Occidental? - -O que é estranho realmente, é que o alto espirito de Humboldt acceitasse -sem exame as pretenções dos Normandos, limitando-se a observar na sua -_Historia da geographia do Novo Continente_ que esses factos citados -não diminuem a gloria de quem tentou a exploração seguida das costas -africanas![1] Não viu o grande historiador, o immortal geographo, que -esses factos isolados bastavam para destruir todas as lendas, que eram -a chave com que ficava para sempre aberto o mar Tenebroso, que só se -abriu comtudo radiante de luz deante dos esforços dos navegadores -portuguezes, que bastavam para abrir o caminho para a _terra antichtona_, -para o _alter orbis_, onde muitos diziam que ficava situado o Paraizo -Terrestre, e que nós não poderiamos conhecer nunca, porque ás duas -zonas temperadas se interpunha, intransitavel e terrivel, a zona torrida -completamente queimada pelo sol? Tão profunda seria a ignorancia em -Dieppe que ninguem visse a importancia da maravilhosa expedição? Nos -seculos XIII e XIV, sobretudo, em que já começava a actuar nos espiritos -europeus a febre das viagens, já depois de Marco Polo ter escripto a -sua curiosa narrativa, depois das viagens para o Oriente de Rubruquis -e de Carpino, e das viagens de sir John Mandeville, quasi um normando -tambem? Ninguem via semelhante coisa! Tendo de casa quem lhes ensinasse a -verdade, continuavam geographos e cartographos, todos os sabios, todos os -estudiosos a repetir as velhas fabulas, a encher de monstros horrificos -os desconhecidos plainos africanos, a pintar a vermelho nos mappas, -para bem indicar o ardor do clima, os mares equatoriaes? Possuindo -colonias na costa africana, tendo marinheiros que tão bem conheciam -esses mares podiam os reis de França consentir que, por bulla de 8 de -janeiro de 1454, o papa Nicolau V concedesse aos reis de Portugal «todas -as conquistas da Africa com as ilhas nos mares adjacentes _desde o cabo -Bojador e de Não até toda a Guiné com toda a sua costa meridional_?»[2]. -E era possivel ainda que no principio do seculo XV os capellães de João -de Bethencourt, _fidalgo normando_ que occupára as Canarias, compondo a -narrativa da famosa expedição, nem uma palavra escrevessem ácerca das -expedições dos seus patricios, e que pelo contrario dissessem, elles -normandos, que «_si aucun noble prince du royaume de France ou d’ailleurs -vouloit entreprendre aucune grande conqueste par deçà, qui seroit une -chose bien faisable et bien raisonnable, le pourroit faire à peu de -frais; car Portugal et Espagne et Aragon les fourniroient pour leur -argent de toutes vitoailles et de navires plus que nul autre pays, et -aussi de pilotes qui savent les ports et les contrées_?»[3] - -Com tanta superficialidade porém se estudam estes assumptos que nem -se pensa em se saber se a Guiné do seculo XIV é a Guiné posterior aos -descobrimentos. Isso leva escriptores francezes e o proprio Humboldt -a allegar que este mesmo Bethencourt explorou a Guiné antes dos -portuguezes, sem verem que o que os seus capellães contam é o seguinte: -que «os navegantes normandos se affogaram nas costas _da Barbaria ao -pé de Marrocos_»,[4] e que Bethencourt tencionava visitar a parte da -«terra firme que fica _entre o cabo Cantim e o Bojador_»[5] que para isso -consultara o livro de um religioso hespanhol «_que visitára a Guiné, -mas que, chegando ao cabo Bojador se limitára a reconhecer as ilhas que -ficavam áquem_».[6] A Guiné do tempo de Bethencourt era, como se vê, a -que ficava para cá do cabo Bojador, e tanto assim que o papa Innocencio -VII disse, escrevendo a Bethencourt, que sabia ficarem as ilhas Canarias -a doze leguas de Guiné.[7] - -Que immenso cuidado é necessario, quando se procura destruir uma tradição -profundamente e fortemente documentada! Quantas causas de erro escapam ao -investigador ou frivolo, ou negligente, que se ufana de encontrar n’um -velho alfarrabio um facto que vem destruir completamente o que parecia -assente e demonstrado! Basta uma variação de nome para transtornar todas -as deducções. Basta que uns não saibam, que outros não reparem que o nome -de Guiné foi mudando de sitio, como outros muitos nomes geographicos, -á medida que os descobrimentos foram caminhando, para que todas as -interpretações caiam por terra! Não basta que se diga que no seculo -XIV ou XV houve Francezes que chegaram á Guiné, torna-se indispensavel -apurar tambem se a Guiné do principio do seculo XV era a mesma que assim -se denominou depois dos descobrimentos. Este apuramento, d’onde resulta -sabermos que a Guiné ficava, para os capellães de Bethencourt, áquem do -cabo Bojador, destruiria completamente a singularissima reivindicação -franceza se tantos argumentos fortissimos não houvesse para lhe -demonstrar a inanidade.[8] - -É o que succede tambem com os detractores de Colombo. Não vêem -immediatamente os que dizem que antes de Colombo chegaram a terras -americanas João Vaz Côrte Real, ou o francez Jean Cousin, que, se algum -d’elles tivesse levado a termo tão importante expedição, bastava isso -para ficar logo resolvido o grande problema do fim do seculo XV que -trazia preoccupados sabios e estudiosos, deante do qual tanto hesitou D. -João II, que inflammou em França o animo do cardeal Pedro d’Ailly, em -Italia o do famoso Toscanelli! Com que jubilo se saudaria essa resolução -do grande problema! - -O que faz tambem com que homens de valor no nosso tempo possam acceitar -fabulas tão pueris, como a de João Vaz Côrte Real e a de Jean Cousin, é -que raros estudam a fundo o problema que pretendem resolver a seu modo, e -não o sabem pôr em equação. Uns estabelecem a lenda de Christovão Colombo -considerado como um visionario por dizer que se encontraria a India -navegando-se pelo occidente, outros a lenda de Christovão Colombo tratado -como um louco por imaginar que para o lado do occidente havia terras. E -por isso dizem uns que elle sabia perfeitamente que havia terras porque -tinha conhecimento de viagens a que os navegadores não tinham ligado -importancia alguma e que tinham passado despercebidas, outros que algum -dos reis com quem elle tratara, D. João II por exemplo, não ignoravam que -havia terras para o occidente a grandissima distancia da Europa, porque a -essas terras já um portuguez aportara, mas estavam convencidos que essas -terras não eram a India, e n’isso, accrescenta-se, eram elles que tinham -razão e não Colombo. - -É mal posto o problema: que se poderia chegar á Asia indo-se pelo -occidente, raros seriam os homens de alguma instrucção que o podessem -pôr em duvida. A idéa da esphericidade da terra já penetrara em todos -os espiritos, e a sua consequencia natural era que pelo occidente se -poderia chegar ao oriente. Que devia haver terras para o occidente -era por conseguinte egualmente incontestavel. A questão toda estava -exclusivamente na distancia. - -D. João II não julgava Colombo um visionario por elle lhe dizer que pelo -occidente se chegaria á India, julgou-o um visionario por elle suppôr -que poderia atravessar para chegar ao seu destino a enorme extensão dos -mares. Não o suppoz visionario por elle cuidar que encontraria terras ao -occidente, ainda que essas terras não fossem a India, suppôl-o visionario -por elle imaginar que teria tempo de chegar a essas terras a salvamento. -Logo, se Jean Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem realisado essa -façanha, estavam dissipadas todas as duvidas. - -Havia terras a grande distancia da Europa, terras que ou seriam a -India, ou algum d’esses archipelagos em que Toscanelli tinha fé, que -serviriam de escala aos navios que demandassem pelo occidente a Asia?[9] -O jubilo immenso que se sentiu na Hespanha quando Christovão Colombo -voltou, sentir-se-hia em Lisboa quando João Vaz Côrte Real tornasse, ou -sentir-se-hia em França quando Jean Cousin entrasse n’algum dos seus -portos. - -O erro d’aquelles que assim procuram contrapôr a glorias consagradas -não só pela tradição, mas pelos factos incontestados e pelos -resultados conseguidos, estas lendas pueris forjadas ou pela inveja -dos contemporaneos, ou pela phantasia audaciosa dos historiadores sem -probidade scientifica que abundaram no seculo XVII, está em pôrem -completamente de parte o estudo do meio em que os grandes descobrimentos -se fizeram, de modo que o infante D. Henrique e Colombo apparecem como -uns vultos inexplicaveis sem raizes no passado e sem relações de especie -alguma com o espirito das gerações de que fizeram parte. Querem então -reduzir á estatura normal esses vultos descommunaes, e aproveitam -qualquer tradição apocrypha para mostrarem com um sorriso de mofa, que -elles não fizeram senão aproveitar os esforços inconscientes feitos por -alguns vultos humildes, para forjarem com esse metal roubado a pobres as -estatuas da sua grandeza. - -Applique-se o methodo scientifico ao estudo d’estes grandes phenomenos da -vida da humanidade, e ver-se-ha como o genio d’estes dois homens apparece -ainda mais brilhante quando vemos que elle resume as vagas aspirações da -geração a que pertencem, satisfaz a anciedade que ella sente, encontrando -a solução que os outros debalde procuram. O infante D. Henrique surge no -meio de uma geração que se debate na ancia do desconhecido, que se julga -apertada na jaula d’este mundo antigo, e anceia por encontrar espaço mais -amplo em que mais livremente respire. Havia um seculo já que a sede das -viagens se apoderara dos espiritos, que o conhecimento da terra era a -preoccupação constante de todos os espiritos mais illustrados e cultos, -em que já se multiplicavam os documentos cartographicos, em que aquellas -encyclopedias medievaes que tinham o titulo quasi consagrado de _Imago -mundi_ se enchiam com as mais phantasticas noções, revelando comtudo -o ardor com que se procurava supprir com uma geographia conjectural a -falta do conhecimento verdadeiro da terra. Já se tinham emprehendido -as grandes viagens terrestres pela Asia, procuravam os povos maritimos -sondar os segredos do Occeano. Tentavam os Normandos perscrutal-os, -e a expedição de João de Bethencourt bem o demonstrou, aspiravam a -descobril-os os Genovezes, e a infeliz expedição de Vivaldi de que nunca -mais houve noticias depois das suas galés terem transposto o estreito -de Gibraltar confirma-o cabalmente, queriam os Catalães encontral-os e -Jayme Ferrer, que apenas transpoz o cabo Não, e não conseguiu passar -além do Bojador, foi um dos que se illustraram n’essas tentativas; mas -paralysou-os a tradição geographica tão enraizada nos seus espiritos -como o estão hoje no nosso as theorias da geographia moderna. Logo que -a costa africana, em vez de voltar para o oriente, continuava a seguir -para o sul, internando-se por conseguinte na zona torrida, a affirmação -scientifica de que o sol a ia tornar impossivel de se transpôr impunha-se -ao espirito dos navegantes, e bastaria para os fazer recuar, ainda que -as affirmações cathegoricas da orthodoxia e os terrores da superstição -os não movessem. D. Henrique teve o genio de um livre espirito que se -revolta contra uma tradição que se não baseia em dados positivos, e -que a submette audaciosamente ao exame da experiencia, teve a coragem -que transmittiu aos seus navegadores de arcar contra as affirmações da -sciencia, contra os dogmas da religião, contra os pavores da lenda. -Continuou e venceu! E a noticia do triumpho correu a Europa toda, e -resoou em toda a parte como uma grande conquista do espirito humano, e -a theoria das zonas inhabitaveis desappareceu, e a da impossibilidade -de communicação entre as duas zonas temperadas dissipou-se, e a Egreja -teve de se conformar com a existencia dos antipodas que ella considerava -como uma affirmação incompativel com o espirito christão. Pois não se -vê que tudo isso aconteceria, logo que um navegador audacioso tivesse -penetrado na zona torrida, muito para além das regiões habitaveis? E não -se vê tambem que semelhante navegação não passaria despercebida n’uma -epocha em que era universal a anciedade pela ampliação dos conhecimentos -geographicos? - -Succede o mesmo com Christovão Colombo. A existencia de terras para -o occidente é um dos sonhos da humanidade desde longas eras. Quanto -esse problema preoccuparia os navegadores portuguezes n’esse seculo XV -todo illuminado pelas suas glorias pode bem imaginar-se. Attestam-n’o -as aventurosas expedições dos mareantes açorianos; mas, como Vivaldi -que procurou sondar as regiões inexploradas da Africa, muitos d’esses -audaciosos se perderam no vasto Occeano, como Jayme Ferrer, outros -chegaram a terras um pouco afastadas e foi assim que a ilha das Flores -se descobriu, mas como o mesmo Ferrer recuando deante do Bojador, como -Bethencourt não ousando afastar-se para além das costas de Marrocos, os -açorianos desmaiaram deante da infinita solidão do Atlantico. Quando -Colombo quebrou essas ultimas barreiras, com que enthusiasmo o receberam, -com que despeito por lhe não ter dado inteiro credito o acolheu D. João -II! Como logo partiram de toda a parte navios a sondar esses mares -desconhecidos! Não aconteceria o mesmo se Jean Cousin ou João Vaz Côrte -Real tivessem, antes de Colombo, vencido o grande obstaculo? Não seria -para Lisboa ou para Dieppe que se voltaria logo a attenção e a inveja de -toda a Europa? - -Assim, resumindo as questões capitaes em que se condensa o nosso ponto -de vista, temos que os dois grandes problemas geographicos que foram -resolvidos pelos navegadores do infante D. Henrique e pelas caravellas de -Christovão Colombo eram as seguintes: - - 1.º Atravessar a zona torrida, que, segundo as affirmações - da sciencia, tornava impossivel a communicação entre as duas - zonas temperadas, entre a terra em que habitamos e a terra - antichthona, entre o mundo antigo que tinha Jerusalem no centro - e o _alter orbis_ onde a humanidade vivera antes do diluvio, - transpôr o Atlantico, pintado pela lenda e pela tradição - antiga como o mar tenebroso, entrar n’um occeano que passava - por sobrenatural, onde se estava talvez á mercê das potencias - infernaes; - - 2.º Atravessar a solidão do Atlantico do occidente ao oriente, - até chegar ás praias orientaes da Asia. - -A resolução do segundo problema estava dependente da resolução do -primeiro. O primeiro acto de audacia era abrir os mares fechados, mostrar -que não tinha o Atlantico os perigos reaes e sobrenaturaes de que o -rodeiavam a tradição scientifica e a lenda popular. Esse resolveram-n’o -os Portuguezes, e ninguem os precedeu nem os podia preceder, pelo simples -motivo de que, se alguem antes d’elles tivesse aberto o _mare clausum_, -não teriam elles que o tornar a abrir. Não se fecha o mar como se fecha -uma porta. Não tornam a crear-se os phantasmas que o primeiro audacioso -dissipou. Se alguem, antes do infante, houvesse rasgado a cortina do -mysterio que sequestrava o Atlantico, estava o Atlantico patente. A -geographia systematica da antiguidade e da edade média caía em ruinas -logo que o primeiro facto real e tangivel tivesse mostrado a inanidade do -systema. - -Resolvido o primeiro problema, trepidou-se deante do segundo. Não se -oppunham á sua resolução nem as theorias geographicas dos antigos, porque -bem conhecidas são, acima de tudo, as opiniões de Eratosthenes, nem as -opiniões orthodoxas que não contrariavam de um modo formalmente directo -as doutrinas de Colombo, nem as lendas maravilhosas que, depois da -desapparição do mar Tenebroso, não faziam senão excitar os navegadores a -procurarem no Occidente as ilhas paradisiacas de que S. Brandão voltára -com as vestes rescendentes a celestiaes perfumes. O que se oppunha -simplesmente á resolução do problema era a immensidade do Occeano, que -parecia confirmada exactamente pelas navegações portuguezas. Navegara-se -durante annos e ainda se não chegara ao sul da Africa. Quanto tempo teria -de se navegar para se chegar á India! Embora! exclamava Toscanelli, um -dos enthusiastas da escola colombina, porque, se lá não chegardes em -breve, encontrareis disseminadas pelo Occeano centos e centos de ilhas -e de archipelagos que servem de guarda avançada ao grande continente -oriental. Sonho de visionario! dizia-se e Colombo era repellido. Mas -Colombo persistiu e foi elle que rompeu o encanto, elle e só elle que por -ninguem poderia ter sido precedido, porque, se o fosse, tinham caido por -terra todas as objecções, visto que o problema estava reduzido a este -simplissimo termo: atravessar o Occeano e encontrar terra a distancia -a que cheguem os viveres de uma caravela. O primeiro que o conseguisse -tinha quebrado o feitiço, tinha desvendado o mysterio. Portuguez, -francez, hespanhol ou italiano, seria a sua volta saudada pelas -acclamações freneticas de toda a Europa maritima. Se foi essa gloria que -aureolou Colombo foi por que só a elle podia competir. - -Curvemo-nos com respeito deante dos precursores, deante dos marinheiros -que tentaram romper o mysterio, deante da intrepidez dos normandos que, -depois de occupadas as Canarias, tentaram reconhecer a costa africana, -e cujos cadaveres despedaçados nas rochas da costa marroquina foram -o primeiro cimento com que se começou a erguer o monumento da gloria -portugueza, deante da audacia dos catalães que mais adeante foram -ainda, que já transpozeram o cabo Não, e que investiram talvez com o -Bojador, mas não sacrifiquemos a essa homenagem a justa gloria que cabe -aos que mais felizes, mais perseverantes, e sobretudo dirigidos por -um genio excepcional, quebraram definitivamente as barreiras, e, sem -hesitar um momento, proseguiram no caminho encetado, e methodicamente -foram desenrolando folha a folha o livro do mundo desconhecido, ainda -enrolado nas vagas, como se enrolavam em volumes os antigos papyros. Não -acceitamos como uma especie de premio de consolação para os precursores -menos felizes a phrase de Humboldt, que diz como que encolhendo os -hombros deante da injustiça do mundo que as descobertas só se principiam -a contar desde que formam serie. As descobertas contam-se desde que se -fazem, e, se os Catalães ou os Normandos ou os Genovezes as tivessem -feito, para elles iria a gloria. Não esperou a Europa que as caravelas do -infante D. Henrique fossem muito adeante para que affluissem a Portugal -estrangeiros, nem o governo portuguez esperou por isso para reclamar do -Papa o reconhecimento do seu direito. Descobrem-se as Canarias? Logo -apparecem Portuguezes, Francezes e Hespanhoes a reclamar a sua posse. -Descobriam-se os Açores e a Madeira e ninguem com isso se importava. Não, -o Homero da grande epopéa maritima foi o infante D. Henrique. Antes dos -grandes epicos apparecem os cantos vagos e anonymos, em que se desata -a inspiração da musa popular, em que se modulam as aspirações e os -enthusiasmos do povo. Chega emfim o grande cantor, o epico inspirado, em -cuja fronte Deus accendeu a scentelha do genio, e que escuta pensativo -esses echos da guerra, essas cantilenas sublimes. Incende-se-lhe a -imaginação, concentra na sua alma as palpitações da alma nacional, e dos -seus labios brota emfim a epopéa victoriosa em que tudo se condensa, -e encontra a sua expressão definitiva, que se fixa para sempre na -memoria do povo e na memoria da humanidade. As caravelas que iam ainda, -silenciosas e timidas, aventurar-se ao mar mysterioso, e que ou voltavam -sem ter rompido o mysterio, ou no mysterio das vagas envolviam os seus -cadaveres fluctuantes, eram os bardos isolados que afinavam pelo rugido -do Occeano os seus epodos audaciosos, mas o infante foi o poeta soberano -que fez irromper da sua alma, pela voz dos seus marinheiros, a epopéa -triumphal e definitiva, a Iliada da audacia portugueza, como foi Colombo -depois que desenrolou no sulco argenteo dos seus navios a Odysséa do -Atlantico. - - - - -II - -Causas de erro para a historia da solução dos problemas - - -Para podermos seguir passo a passo a marcha dos descobrimentos, para -vermos como pouco a pouco se foi correndo a cortina que escondia aos -olhos dos homens da nossa raça metade do mundo conhecido, é necessario -a cada instante abstrahirmos dos nossos conhecimentos actuaes, para nos -collocarmos no ponto de vista em que os homens de eras anteriores se -collocavam em virtude do que elles então sabiam. A falta d’essa correcção -indispensavel arrasta muitos escriptores notaveis a erros grosseiros, que -muitas vezes lhes escapam exactamente por não terem o cuidado constante -de applicarem essa correcção ás tradições que dos tempos passados lhes -vem. O proprio Humboldt, que frequentemente observa quanto é funesto esse -erro, a esse erro cede só porque uma vez se esqueceu de verificar qual -era a região que nos principios do seculo XV era conhecida pelo nome -de Guiné. Se reparasse que a Guiné de Bethencourt ficava comprehendida -entre o cabo Cantim e o Bojador não acceitaria a pretenção franceza de -terem chegado os Normandos de Dieppe e o proprio Bethencourt a essa Guiné -tropical que já muito para além fica do Cabo Bojador. Pois é elle comtudo -que nota como é fallaz a denominação de India dada pelos antigos a varias -regiões, visto que muitas vezes comprehendia as regiões meridionaes da -Asia, a parte da Asia que chegava ao mar Vermelho, e ainda o extremo -Oriente. Marco Polo designava tres Indias, havia a India exterior e a -India inferior, a India superior que era a parte mais oriental da Asia -etc.[10] Pois ainda hoje frequentemente se espantam homens instruidos -não de que Colombo julgasse ter encontrado a Asia, mas de que imaginasse -ter encontrado a India, arrastados pela tendencia natural de vermos com -os nossos olhos de agora a geographia dos outros tempos; e de suppôrmos -que a India não podia ser no seculo XV senão a que nós hoje conhecemos e -como tal designamos. - -Quantas vezes mudou no decorrer dos tempos a posição geographica de -varias terras, a que attribuimos a sua posição actual, logo que lhes -encontramos em mappas antigos os nomes! Quantas terras differentes -receberam o mesmo nome que de umas a outras foi passando, segundo as -conjecturas dos geographos! As ilhas Afortunadas, como a ilha fluctuante -de Delos, foram sempre navegando para o occidente, até que a geographia -positiva as fixou nas Canarias, arrancando-lhes o véo da lenda em que -os antigos as envolviam. Estiveram primeiro no grande Oasis no Egypto, -passaram depois para o sul da Cyrenaica, depois ainda para defronte do -rio Lukkos, quer dizer, quasi pegadas com a costa marroquina, e só depois -para o ponto em que estão as Canarias.[11] A quantas ilhas se applicou o -nome de Taprobana, que nós affirmamos hoje que era Ceylão, quando muitas -vezes a sua posição corresponde á de Sumatra, e quando outras vezes a -collocava a geographia conjectural dos antigos no oriente das Indias![12] -A que peninsulas tão diversas se attribuiu o nome de Aurea Chersoneso -que arbitrariamente suppomos agora que correspondia á peninsula de -Malaca![13] Como é perfeitamente conjectural, apezar dos argumentos de -alguma força apresentados por Mr. d’Anville, a identificação de Sofala -com Ophir![14] Como ainda se illudem hoje os mais serios investigadores -com o nome de Ethiopia, que intentam applicar ao paiz que hoje -consideramos como tal, quando a Ethiopia, na supposição dos antigos, -abrangia toda a parte meridional da Africa e vinha ligar-se com a costa -marroquina![15] Como poderiamos nunca ter fé n’essas identificações, -se vemos que os antigos e os Arabes, e os povos da edade média davam á -India uma fórma completamente phantastica, suppunham que o mar das Indias -era um mar mediterraneo, approximavam assim a costa asiatica da costa -africana, como a costa africana está proxima da Europa no Mediterraneo -europeu, sendo por conseguinte tão possivel que ficasse Ophir na Africa -como na India! - -Depois que enorme cautella é ainda necessaria para o exame dos antigos -mappas, onde a phantasia se dava largas, e onde se misturavam com alguns -factos positivos todas as conjecturas que formava ou a imaginação -ou o espirito reflexivo d’aquelles que os traçavam! Como é ridiculo -para quem conhece o espirito que presidia á elaboração dos mappas -ouvir escriptores serios fallarem com muita gravidade no famoso mappa -trazido pelo infante D. Pedro das suas viagens, e onde estão traçados -o cabo da Boa Esperança e até o estreito de Magalhães! Não sabem esses -escriptores que, até depois de feitos os descobrimentos, a phantasia dos -cartographos não se contentava com os factos positivos narrados pelos -navegadores e continuava a ampliar por sua conta o mundo conhecido! Os -proprios navegadores ás vezes contribuiam para illudir os cartographos. -Christovão Colombo, ao tocar na ilha de Cuba, julgou ter chegado a terra -firme e tanto d’isso se convenceu que fez jurar aos seus tripulantes -que fôra n’um continente que tinham effectivamente tocado![16] Pedro -Alvares Cabral tomou o Brazil por uma grande ilha. Em mappas muito -posteriores aos descobrimentos americanos, feitos já depois de Vasco -Balboa ter encontrado o Pacifico, collocou-se no sitio em que está o -isthmo de Panamá[17] um estreito que punha em communicação os dois -mares. Mas isso não impediu os que se enlevam na demolição de glorias -estabelecidas de sustentar que o infante D. Henrique tinha mappas -que até lhe mostravam onde era o cabo da Boa Esperança, que Colombo -levava comsigo mappas que lhe davam o traçado da America, que Fernão de -Magalhães n’um globo de Martim de Behaim vira traçado o estreito famoso -que hoje tem o seu nome, e que Pedro Alvares tinha um mappa tambem que -lhe designava o sitio em que encontrou o Brazil! Puerís tentativas! -Quantas vezes effectivamente n’esses mappas conjecturaes podia fazer o -acaso que coincidisse com a descoberta a ilha ou a terra phantasiada pela -imaginação dos cartographos; mas logo o formigar dos erros perfeitamente -incompativeis com o imaginario descobrimento prova exuberantemente que só -em coincidencias fortuitas e insignificantes elle se poderia basear. - -O que melhor pode mostrar como faltava completamente aos antigos o -conhecimento da terra, para além dos estreitos limites em que se -concentraram as civilisações do Oriente e a civilisação greco-romana, -está na variedade dos systemas com que se procurava explicar a fórma do -mundo. A sciencia não caminhava com passo seguro, juntando ao thesouro -das idéas conquistadas cada idéa nova que ia sendo adquirida. Como todas -as explicações eram conjecturaes, cada nova theoria provava apenas -a argucia e o engenho do espirito que a concebia, mas estava sujeita -á discussão e á contradicção como todas as soluções que não assentam -em factos positivos e incontestaveis. Pode dizer-se que a idéa da -esphericidade da terra triumphou na antiguidade, mas pode dizer-se que -triumphou porque a sustentavam os mais esclarecidos espiritos, não porque -todos a reconhecessem, e porque não houvesse tambem homens de primeira -plana que absolutamente a negassem. Sustentou-a Ptolomeu, mas contestou-a -vivamente Plutarcho.[18] A theoria de ser a terra um disco cercado pelo -rio Oceano, que é a theoria homerica, essa desappareceu é certo, porque -a observação dos phenomenos celestes mostrou de um modo evidente quanto -era absurda, porque se via bem que não era possivel que o sol se sumisse -no occidente, e voltasse depois pelo mesmo caminho e em segredo de -noite para reapparecer no Oriente, porque o movimento apparente do céo -não podia explicar-se senão allegando-se que os corpos celestes n’uma -parte da sua marcha passavam por debaixo da terra, para reapparecerem -no sitio opposto áquelle por onde se tinham sumido. Então sim, então a -idéa de que a terra assentava em bases solidas, tendo por cima de si o -céo estrellado, desappareceu completamente, e a primeira conquista da -sciencia foi a que suspendeu a terra no espaço, embora fizesse d’ella -ainda o centro da creação, embora suppozesse que tudo se fizera no -Universo em sua honra, que em torno d’ella giravam no immenso espaço em -varias espheras concentricas os orbes luminosos que entoavam a harmonia, -que Platão julgava escutar n’um arrobamento infinito, e que espalhavam -nos intermundios a chamma ora intensa como a do sol, ora meiga como a -da lua, ora palpitante e suavissima como a das estrellas, das corôas -resplandecentes com que a Divindade as cingiu. - -Mas com relação á fórma da terra que diversidade de opiniões! Pomponio -Mela considerava a terra chata como a suppunham os Hebreus, como a -suppozeram depois os Padres da Egreja, e entre elles Santo Agostinho, -Lactancio, S. Justino martyr; Ephoro dava-lhe a fórma de um quadrilongo, -Cicero, no famoso _Sonho de Scipião_, acceitava as doutrinas dos -geographos mais notaveis, considerava-a espherica, e essa opinião foi -seguida por Macrobio, que tambem dava, como Cicero, á parte habitada a -fórma de uma chlamyde. Entre os sabios que sustentavam na antiguidade o -principio de que a terra era espherica, avulta o grande nome do geographo -antigo Ptolomeu. Outros porém baseiam-se na doutrina de Thalés, suppõem -a terra ovoide, e Posidonius suppõe que essa ellipse estreita que -constitue a terra termina em duas pontas agudissimas.[19] - -Apezar d’essas differenças porém, a opinião da esphericidade da terra -é a que predomina entre os antigos, é a que tem a seu favor a enorme -authoridade de Ptolomeu e de Platão e de Aristoteles e de Eratosthenes -e de Hipparcho e de Cicero e de Strabão, a que é preconisada pela -escola de Alexandria e que adquire por conseguinte um verdadeiro valor -scientifico, mas a religião christã intervem no debate, e a theoria dos -antigos é considerada como heterodoxa pelos Santos Padres. A terra tem -a fórma de tabernaculo, a existencia dos antipodas é condemnada como -absolutamente contraria á logica divina, e esta opinião tão respeitada, -tão importante introduz immediatamente a confusão nos espiritos da edade -média. O conhecimento da sciencia arabe traz ainda um novo elemento de -complicação. Na sciencia oriental sente-se de um modo accentuadissimo -o reflexo da tradição grega. Ptolomeu e Aristoteles teem ferventes -discipulos nos sabios orientaes, que podem esfumar as suas doutrinas no -vago do seu maravilhoso, mas que no fundo as acceitam e as applaudem. -E assim vamos encontrar por toda a edade média a velha theoria grega -reforçada agora pela adhesão arabe em lucta com as prescripções christãs. -Não se pode apagar n’esses espiritos medievaes, que tinham pelo saber -da antiguidade um supersticioso respeito, a influencia de Ptolomeu, mas -deante da voz auctorisada dos Santos Padres tudo se inclina e emmudece. -Então vamos encontrar os cartographos da edade média empenhados na -improba tarefa, que tantas vezes se tem repetido, de procurarem conciliar -as doutrinas da Egreja com a tradição da sciencia. Apparece-nos muitas -vezes a terra como um quadrado inscripto n’um circulo, e, ao passo que -o systema das espheras applicado ao systema cosmographico encontra nos -espiritos da meia edade um verdadeiro engodo, a terra fixa no meio -do universo espherico mantem a fórma especial que os Santos Padres -decretaram que tivesse.[20] - -Durante largos seculos pairou sobre a humanidade a duvida mais profunda -ácerca da fórma do planeta que ella habita. Se alguns sabios entrevêem -a verdade, e a sustentam e a defendem, é simplesmente pelas deducções -que tiram dos seus calculos e das suas observações astronomicas, não -pelo conhecimento directo que possam ter do planeta. Por isso tambem a -orthodoxia triumpha, embora as razões em que se funda não sejam bastante -poderosas contra o raciocinio dos philosophos, mas, apezar da fraqueza -da argumentação, a fé supera sempre facilmente as theorias conjecturaes -dos seus adversarios. É por isso que ella ainda hoje é sempre victoriosa -na sua lucta contra os systemas philosophicos adversos. Ella dá uma -certeza sem fundamento que não seja a auctoridade respeitada da tradição -e da crença, os outros oppõem-lhe theorias mais ou menos verosimeis, -mas todas baseadas em simples conjecturas. No dia em que o materialismo -conseguir fazer palpar o principio vital, ainda hoje incoercivel, e que -se representa por esse nome fascinador da alma dotada de immortalidade, o -espiritualismo cahiu para não mais se levantar. Emquanto a demonstração -da redondeza da terra e da existencia dos antipodas não sahiu do dominio -conjectural, a fé que oppunha a essas vagas theorias uma affirmação -baseada em tradicções tão conjecturaes como os raciocinios adversos mas -aferradas ao espirito humano pelas raizes potentissimas da tradição, -os Santos Padres triumphavam. Veiu um dia, porém, em que um pequeno -povo debruçado sobre os mysterios do Oceano resolveu sondal-os e -quebrar as barreiras que separavam do mundo conhecido essa região -enigmatica, transpôr o que lhe diziam que era inultrapassavel, chegar -ás regiões defezas, arrombar as portas fechadas pela triplice chave -da sciencia, da fé e da lenda, e o que dezenas de seculos não tinham -conseguido conseguiu-o meio seculo apenas. Então a sciencia não parou, -não retrocedeu, não se contradisse, não se perdeu em conjecturas. Cada -facto que se adquiria era uma confirmação de uma theoria contestada, -ou a revelação de uma theoria nova. A fé cedeu deante da evidencia. -Quando os marinheiros portuguezes entraram na zona torrida, cahiu por -terra a idéa consagrada da impossibilidade d’alli se viver, quando -entraram na zona temperada do sul, desappareceu, substituida pela real, -a terra antichthona, e a Egreja teve de acceitar os antipodas; quando -Colombo transpoz o Oceano occidental, a idéa da immensidade dos mares -perdeu-se para sempre; quando Fernão de Magalhães passou do Atlantico -ao Pacifico, e quando o seu ultimo navio veiu fundear n’um porto da -peninsula hispanica depois de ter dado volta completa ao mundo, não teve -mais contradictores nem descrentes a theoria da esphericidade da terra. O -quadrado dos Santos Padres cahiu desfeito pelas cargas repetidas d’esses -cavalleiros do Oceano. - -Não é já só, porém, com as phantasias orthodoxas, nem com os devaneios -dos sonhadores scientificos, que a terra depois de explorada -audaciosamente se torna incompativel. O proprio systema scientifico de -Ptolomeu, essa gloria da antiguidade greco-romana, estala não podendo -conter em si o mundo tal como foi estudado e descoberto. O systema de -Copernico restitue ao sol a sua magestade e a sua humildade á terra. -Se não era o sol que percorria lentamente o zodiaco, illuminando no -mais alto do seu curso com a sua luz fecundante a terra privilegiada, -e queimando quando se abaixava a terra condemnada e maldita, se a zona -torrida não era um inferno sempre em chammas, nem nas suas proximidades -pullulavam os monstros como os Cerbéros d’esse Tartaro, como as viagens -portuguezas amplamente demonstravam, que motivo havia para se suppôr -que o Sol não era senão o instrumento das bençãos ou das maldições de -Deus sobre a Terra, e porque não seria antes a Terra que adejaria no -espaço, irmã d’esses numerosos planetas que no céo resplandeciam, atomo -no meio d’essa immensidade de atomos, bago d’essa poeira de luz dispersa -no firmamento, e posta em movimento pelo sopro mysterioso da grande -attracção universal? E a Copernico succediam Képler e Newton, e as leis -do Universo iam-se coordenando n’um Codigo formulado pela sciencia, -não ao acaso das conjecturas, mas segundo as indicações positivas dos -factos. E assim foi que a audacia portugueza transformou completamente -a sciencia humana, e iniciou esta epocha portentosa que dura ha quatro -seculos apenas, e que deu mais á humanidade que as dezenas de seculos da -historia conhecida que a precederam. E assim é que, se a Colombo cabe a -indisputavel gloria de ter destruido a fabula que tornava inaccessiveis -as terras do occidente, ao infante D. Henrique mais do que a nenhum -outro cabe a gloria immensa de ter affrontado a sciencia, a fé e a lenda -para fazer da sciencia conjectural uma sciencia positiva, da fé que -amesquinhava a humanidade a fé que a ampliou, da lenda que acovardava a -alma humana a epopéa que a enalteceu. - -Foi grande Colombo, grande Vasco da Gama, e grande Magalhães! Formam -um grupo de heroes os audazes marinheiros que desde Gil Eanes até -Bartholomeu Dias, desde Pinzon até Queiroz, sulcaram todos os mares, e -affrontaram todas as tempestades, compõem uma phalange benemerita os -missionarios da sciencia, que, desde João Fernandes o humilde iniciador -da exploração scientifica do continente africano até aos modernos sabios -viajantes, se internaram nos sertões affrontando os povos barbaros, -como formam uma legião sagrada os missionarios da fé que não recúaram -deante dos mais horridos perigos para levarem a regiões ignotas a -palavra divina, mas o genio iniciador, que tornou possiveis todos -estes feitos, e concebiveis essas audacias, foi o pensativo infante, -que accendeu com as suas mãos intrepidas, entre os motejos da sciencia, -os anathemas da Egreja e os gritos pavidos da superstição, esse pharol -glorioso que projectou de Sagres sobre o vasto Oceano, por cima das suas -ondas tenebrosas, a luz radiosa e serena que foi a verdadeira aurora da -civilisação moderna. - - - - -III - -A zona torrida perante as sciencias da antiguidade e da edade média - - -Accentuámos bem que tres elementos havia que se oppunham ás expedições -que os Portuguezes audaciosamente emprehenderam: a sciencia, a fé -e a lenda. Foi a primeira a que se oppoz sempre a que os ousados -navegadores da antiguidade lustrassem o caminho que os Portuguezes depois -percorreram. Não eram de certo mais terriveis os mares africanos do -que os mares da Europa septentrional, e os marinheiros phenicios, que -affrontaram a bahia de Biscaya e o canal da Mancha e o mar do Norte até -á Islandia, não podiam facilmente assustar-se com os mares muito mais -manejaveis da costa africana. Mas a idéa da navegação para o sul fazia -recuar os mais audaciosos. Era ahi que o sol estendia o seu terrivel -dominio, era ahi que os seus raios queimavam a terra e o mar, e tornavam -impossivel a passagem do homem. Á medida que esses calores excepcionaes -iam sendo mais proximos, o seu effeito fazia-se sentir na vegetação e na -fauna, e na propria humanidade. Então a natureza, violentada por assim -dizer, produzia os mais extraordinarios monstros. Por mais de uma vez -tentaram os Phenicios e os Carthaginezes demandar essas regiões do sul, -mas a mais insignificante estranheza os fazia recuar. De Hannon se conta -que percorreu quasi a Africa toda, e no seu periplo se relata essa viagem -maravilhosa. Logo mostraremos como elle de certo não passou para além da -costa de Marrocos. Gabava-se a sua intrepidez, porque voltára narrando -que vira horrorosos monstros, cynocephalos, quer dizer, homens com -cabeça de cão, e gorgonas ou mulheres com o corpo absolutamente coberto -de pellos. Os escriptores modernos, que teem procurado benevolamente -interpretar estas descripções phantasticas, dizem que os cynocephalos -eram simplesmente macacos e as gorgonas simplesmente gorillas. Na -hypothese mais favoravel para elle, o que isso prova é que, apenas viu na -costa de Africa duas especies de macacos, julgou-se chegado ao paiz dos -monstros e confirmou todas as mentiras que ácerca das vizinhanças da zona -torrida estavam estabelecidas, e não chegou portanto á zona torrida. Mas -não é bem mais natural ainda que Hannon, um carthaginez, um africano, -não ignorasse a existencia do macaco, e portanto não podesse confundir -facilmente o genero simiesco com uma variedade monstruosa do homem? - -Essas noções rudimentares de cosmographia, que existiam no espirito -dos antigos, chegaram ao seu apogeu com a escola de Alexandria. Sabios -notabilissimos imprimiram grandes progressos á sciencia, e principalmente -á astronomia. O nome de Ptolomeu e o nome de Hipparcho bastam para fazer -a gloria de uma escola, de um paiz e de um seculo. A conclusão a que -chegaram era falsa, mas quantas descobertas importantes lhes serviram -para assentar os primeiros alicerces de uma sciencia a que pozeram -então uma cupula errada, por lhes terem faltado informações e elementos -que só a audacia dos navegadores lhes podia levar! Que maravilhosos -instrumentos de estudo não encontraram elles! Que calculos levaram a cabo -que os sabios do seculo XVI, ao poderem juntar-lhes novos elementos, -aproveitaram para a transformação da sciencia! Sem Ptolomeu como se -comprehenderia Copernico? Sem Hipparcho o que poderia fazer Tycho-Brahé? -N’esta conquista da verdade, os antigos tomaram as obras avançadas e -julgaram estar senhores da cidadella; mas, só depois de occupadas essas -obras, só depois dos maravilhosos esforços dos navegadores peninsulares, -é que se podia descortinar e assaltar a cidadella... E quem sabe se será -esta definitivamente a verdadeira! - -Mas o que é absolutamente indispensavel saber, para que se possa avaliar -a transformação produzida no seculo XV pelos descobrimentos portuguezes, -é quaes eram os principios estabelecidos como certos e indubitaveis com -relação á terra por esses sabios cuja auctoridade era incontestavel, -cujas doutrinas se ensinavam ás creanças, como hoje se ensinam as novas -theorias, e que representavam portanto a verdade absoluta d’esse tempo. -Alguns pontos havia que encontravam contradicção, como era o da redondeza -da terra. N’outros, porém, não havia a mais leve divergencia, como em -todos os que se ligavam com o movimento dos corpos celestes, com a marcha -do sol em volta da terra para produzir o dia e a noite, com a marcha do -sol pelo zodiaco produzindo a differença das estações. Tantas maravilhas -conseguira já a astronomia que as doutrinas que ella promulgava não -podiam soffrer contestação. Se ella já conseguira adivinhar os eclipses, -que maior prova podia dar de que encontrára a chave do mechanismo celeste? - -Essas doutrinas de Ptolomeu passaram para a edade média, que teve -sempre pela sciencia antiga um louco fanatismo. Encontramol-as ás vezes -adulteradas, misturadas com manifestações de ignorancia, com superstições -e crendices, mas naturalmente arraigadas nos espiritos, e exaltadas com -enthusiasmo pelos sabios da primeira Renascença, pelos que arrancaram -das trevas a Europa barbara, e que levantaram como um facho luminoso a -doutrina já completa e bem comprehendida do grande geographo antigo. - -Vamos encontrar n’um dos livros d’esses sabios medievaes, n’uma d’essas -_Imago mundi_ ou _Thesaurus_, que eram as encyclopedias do tempo, a -condensação de toda a sciencia, a doutrina antiga resumida, explicada, -mas tambem modificada. Queremos falar nos _Dialogos_ de Pedro Affonso. -Os dois que dialogam são Pedro e Moysés. Aquelle é o mestre, este o -discipulo. - - Diz Moysés: - - —Não ha pois da terra senão uma só parte habitavel. Que parte? - - _Pedro_—Desde o meio da terra até á parte septentrional. - - _Moysés_—Demonstra-me isso n’uma figura geometrica, porque - n’essa materia cada nação tem tido, segundo os auctores, idéas - differentes. Divide-se effectivamente a terra em cinco zonas: - uma no meio, queimada pelo ardor do sol, e por conseguinte - inhabitavel; duas nas extremidades, muito afastadas do sol, e - egualmente inhabitaveis, por causa do rigor do frio; e duas - médias, temperadas pelo calor da primeira e pelo frio das - outras duas, e unicas habitaveis[21]. - - _Pedro_—Esse systema está em contradicção com o testemunho dos - nossos olhos. Vemos effectivamente _Aren_ situado no centro da - terra; no seu zenith principiam o Aries e a Balança; o ar é - alli tão suave que a temperatura das quatro estações é quasi - sempre a mesma. Nascem alli plantas aromaticas de côr brilhante - e de sabor delicioso; os homens não são nem descarnados, nem - obesos, mas de uma compleição bem proporcionada. O clima - que exerce esta salutar influencia no corpo não actúa menos - efficazmente sobre o espirito que brilha pela sensatez e por - uma moderação cheia de acerto. _Como se pode pois dizer que um - logar que o sol percorre em linha recta em toda a sua extensão - é inhabitavel?_ Não: todo o espaço de terra comprehendido - entre esse logar e o segmento septentrional é habitavel sem - interrupção, e os antigos dividiram-n’o em sete partes chamadas - climas, em conformidade com o numero dos sete planetas. O - primeiro clima está na linha do meio; ahi é que Aren foi - fundado. O setimo occupa a extremidade do mundo septentrional. - Nenhuma d’essas partes é inhabitavel, se exceptuarmos os - sitios em que grandes massas de areia quasi sem agua ou então - montanhas pedregosas se recusam ao trabalho da charrua. - - _Moysés_—Resta-me pedir-te que me demonstres como succede que - esta parte da terra que fica para além de Aren para o sul não é - habitada como a que está para áquem para o norte, de modo que - Aren se ache no centro da região habitavel, ou então tambem - porque não é a parte meridional que é habitavel, emquanto - a parte septentrional seria inhabitavel, ao inverso do que - succede. - - _Pedro_—Porque o circulo do sol é excentrico relativamente - ao circulo da terra, e porque essa excentricidade atira a - maior parte da circumferencia para uma distancia maior do - septentrião. Segue-se d’ahi que, logo que o sol passa para - os signos do hemispherio meridional, quer dizer para a parte - da circumferencia comprehendida entre a Balança e Aries, - approxima-se da terra, e, queimando os seus raios o solo a - esta curta distancia, tornam-n’a esteril e por conseguinte - inhabitavel. Só a partir do primeiro clima para o norte é que - o espaço que comprehende os sete climas é habitavel. Mas tudo - o que vem depois a partir do setimo clima é privado de todo - o calor, por causa do afastamento do sol, que vae percorrer - os seis signos meridionaes; d’ahi o excesso das nuvens, dos - nevoeiros e das geadas; e emfim a ausencia de toda a creatura - animada n’essa parte da superficie terrestre[22]». - -Não era esta, porém, a doutrina de Ptolomeu. Esta era a doutrina que -procurava conciliar a theoria scientifica com as palavras da Egreja. -A doutrina de Ptolomeu, a doutrina em geral de todos os sabios da -antiguidade e da edade média, era que a zona torrida estava collocada -debaixo do zodiaco, que, proxima do sol por conseguinte, era por elle -abrazada, mas que para além d’essa região havia outra temperada como -a nossa, assim como outra tambem glacial como a zona arctica. Essa -foi sempre a doutrina predominante, embora contra ella protestasse a -orthodoxia; mas qualquer das duas sustentava como facto incontroverso -que a zona torrida era absolutamente inhabitavel, quer fosse, como -queria Ptolomeu, que o sol, descrevendo um circulo perfeito em torno -da terra durante as vinte e quatro horas, e descrevendo-o ao longo do -zodiaco perfeitamente parallelo á zona torrida, sobre ella fizesse caïr -perpendicularmente os seus raios e a queimasse e destruisse, ou, como -pretendia Pedro Affonso, não descrevendo o sol esse circulo perfeito que -Ptolomeu imaginára, mas descrevendo um circulo excentrico ao da terra, -d’ahi resultasse que, ao passar pelos signos meridionaes do zodiaco, -estivesse mais proximo da terra, e fosse o hemispherio meridional o que -os seus raios incendiavam. - -Devemos notar que esta ultima hypothese era a que se approximava mais da -ellipticidade da orbita da terra hoje demonstrada. Se não se suppunha -ainda que o sol descrevesse uma ellipse em torno da terra como hoje se -sabe que a terra descreve uma ellipse em torno do sol, já se principiava -a querer applicar ao sol a theoria dos _epicyclos_ e dos _excentricos_, -com que a astronomia antiga procurava conciliar com a theoria geral do -Universo as contradicções que resultavam do movimento apparente de muitos -planetas. A theoria de Pedro Affonso conduzia-o á doutrina moderna da -_periphelia_ e da _aphelia_. Adivinhava que ha um periodo em que o sol -está mais afastado da terra do que n’outros, e dava-se a coincidencia de -que, dando-se a _periphelia_, quer dizer o periodo de maior approximação -do sol, em janeiro, quando é verão no hemispherio austral, d’ahi resulta -que effectivamente os verões austraes são mais quentes do que os -nossos, e Pedro Affonso adivinhou assim uma verdade hoje perfeitamente -demonstrada. Acontece porém que, sendo a terra que se move e não o sol, -quando chega a _aphelia_, quer dizer o periodo de maior afastamento do -sol, em julho, sendo então verão entre nós e inverno no hemispherio -austral, tambem succede que são os seus invernos mais regelados. -Mas, se a terra se conservasse immovel, como até Copernico se suppoz, -passando o sol sempre á mesma distancia do mesmo ponto da terra, seria -sempre effectivamente o hemispherio austral o que mais lhe sentiria os -implacaveis ardores. - -Comtudo era incontestavelmente o systema de Ptolomeu que triumphava nas -escolas, era esse o que tinha a sua consagração scientifica. Segundo a -theoria do grande geographo, a terra espherica estava dividida em cinco -zonas, as zonas glaciaes tão longe do sol que a vida era alli impossivel -por causa da falta absoluta de calor, a zona torrida tão proxima do sol, -que em torno d’ella descrevia a sua enorme e rapidissima viagem, que a -vida era impossivel pelo excesso do calor, emfim as zonas temperadas onde -nem o calor era extraordinario nem extraordinario o frio, e que a vontade -suprema destinara evidentemente para habitação do homem. - -Era conforme esta theoria com o espirito, com o pensamento grego que em -tudo se manifestava, na arte, na poesia, na philosophia, no viver social -e politico. O ideal grego é a moderação e a harmonia. O universo devia -regular-se tambem por essas leis harmonicas, que marcam tanto o rhythmo -da architectura do Parthenon como o da poesia de Sophocles, tanto o da -philosophia de Platão e de Aristoteles e o da eloquencia de Demosthenes -e de Lysias como o das concepções mythicas d’aquelle harmonioso -anthropomorphismo hellenico, que produziu aquelles typos idealmente -bellos nas suas proporções sublimes, Apollo e a Aphrodite. Assim o -homem tambem não poderia viver senão nas regiões em que o clima tivesse -a harmonia e a moderação compativeis com o desenvolvimento normal da -vida humana. Logo que o calor principiasse a exaggerar-se, desmanchando -o equilibrio da temperatura, desmanchava-se tambem o equilibrio das -proporções e da fórma humana. Por isso nas proximidades d’essa pavorosa -zona torrida começava a terrivel degeneração da raça, surgiam creaturas -cada vez mais monstruosas, e era assim effectivamente que Plinio -explicava essa efflorescencia de monstros que, no seu entender e no -entender dos outros geographos antigos, se manifestava nas regiões mais -proximas da zona torrida[23], onde desapparecia emfim no immenso incendio -com que o sol abrazava o mundo. - -Mas, como diziamos, Ptolomeu entendia e bem que eram duas as zonas -temperadas, uma ao norte, e outra ao sul do Equador, mas entre as duas, -pela sua theoria, não podia haver communicação. Essa terra é a famosa -_terra antichtona_, a _terra austral_, o _alter orbis_ que figura -conjecturalmente nos antigos mappas, e em que, por mais de uma vez, -uns teem querido ver a America, outros as regiões descobertas pelos -Portuguezes! A America nunca pela _terra antichtona_ podia ser designada, -porque a _terra antichtona_ ficava para o sul, mas tão levianamente -homens de merito notavel teem estudado estes assumptos, que se deixaram -muitas vezes illudir pela orientação de antigos mappas que é quasi sempre -diversa da nossa. O oriente era muitas vezes collocado nos mappas no -sitio onde hoje collocamos o norte, o occidente onde fica o sul, o norte -para o lado do occidente e o sul para o lado do oriente. Os Arabes então -invertiam completamente o systema. O sul fica para o norte e o norte para -o sul. Com estas alterações que immenso cuidado é necessario quando se -pretendem tirar quaesquer illações dos mappas antigos! - -É essa a doutrina que prevalece durante toda a edade média. É Macrobio -que suppõe a zona torrida inhabitada e queimada pelos fogos do -sol, e a zona temperada austral povoada por homens de uma especie -desconhecida[24], Orosio que declara que do interior da Africa nada se -pode conhecer porque o calor da zona torrida o reduz a uma brazeira.[25] -S.ᵗᵒ Izidoro de Sevilha sustenta egualmente a existencia da _terra -antichthona_ onde habitam os antipodas, se não são fabulosos.[26] - -Bedo o Veneravel, que tem a sua theoria cosmographica exposta -pittorescamente pela comparação do ovo, que vê a terra collocada no meio -do mundo como a gemma, a agua em torno como a clara, o ar como a membrana -e o fogo como a casca, tambem apresenta a doutrina da terra antichthona -separada da nossa pela zona inhabitavel.[27] S. Virgilio imagina que -o _alter orbis_ tem outra lua, outro sol e outras estações.[28] Raban -Mauro, que falla nos basiliscos fabulosos, e nas Gorgonas cabelludas e -phantasticas, tambem indica a terra antichthona separada pelo ardor do -sol[29]; Alfrico, Moysés de Choréne, Pedro des Vignes, o famoso Pedro -d’Ailly, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme e quantos outros estabelecem -e proclamam esta doutrina que é a que tem um caracter scientifico. -Quando o mundo christão entra em relações com o mundo arabe então -illuminado por uma forte civilisação, quando trava conhecimento com os -seus grandes geographos, Edrisi, Abulféda, Masoudi, o que encontra? -Encontra a influencia de Ptolomeu alli tambem predominante como em geral -a influencia grega, o _Almagesto_ considerado como uma obra divina, -e portanto egualmente triumphante a doutrina da antichtona e da zona -torrida inhabitavel. - -Ha alguns espiritos que se revoltam contra essa idéa? Ha de certo, -mas esses são só os espiritos independentes como Alberto Magno, como -Rogerio Bacon, como Pedro d’Abano, esses simplesmente não acceitam o que -não está demonstrado, mas não vão contra factos incontestados. Assim -Alberto Magno não acceita sem demonstração a idéa de que o sol percorra -especialmente a zona torrida e a prive de toda a vegetação e de toda a -manifestação de vida, mas, não contestando que não ha relações entre -a terra que habitamos e a terra desconhecida, attribue esse facto em -primeiro logar á immensidade dos mares, em segundo logar á existencia na -antichthona de montanhas magneticas que prendem os habitantes e que os -não deixam transpôr os incommensuraveis espaços que os separam da terra -que habitamos[30]. - -Rogerio Bacon sustenta opinião approximadamente identica[31]. Pedro -d’Abano refugia-se na vaga observação de que o meio deve ser mais -perfeito do que as extremidades[32], e uns e outros sustentam que a zona -torrida é toda occupada pelo mar, que o Occeano não rodeia simplesmente a -terra, que se interna no seio d’ella formando os quatro grandes golphos -do Mediterraneo, do Mar das Indias, do Mar Roxo e do Caspio, porque este -mar interior foi por muito tempo e por muitos geographos considerado como -um mar que communicava ou com o Baltico, ou com o Occeano. - -Para todos então a approximação da zona torrida era assignalada pela -existencia de monstros, em que se desentranha com uma espantosa -exuberancia a fertil imaginação dos povos infantis. A teratologia das -antigas religiões transportava-se e desenvolvia-se de um modo prodigioso -nas descripções dos mais serios geographos. Nas regiões que confinavam -com as que eram defezas aos homens brotavam as plantas maravilhosas, a -especie humana torcida e desfigurada desatava-se em fórmas phenomenaes, e -ao lado d’ellas percorriam animaes monstruosos, como os que reconstitue -para as epochas primitivas a paleontologia moderna, essas regiões -devastadas. Para o norte no Caucaso e na Scythia collocava Raban Mauro -os gigantes, os gryphos e os dragões que zelosamente guardavam o oiro -e as pedras preciosas[33]. Para o sul, segundo o pensar de Vicente de -Beauvais, um dos grandes geographos da edade média, havia dragões logo -para deante de Marrocos[34]. João de Hase collocou na India os pygmeus -que apenas viviam 12 annos, e rochedos magneticos que attrahiam os navios -para o fundo do mar[35]. As obras de Plinio eram fonte inexgotavel -de extraordinarias divagações. Cynocephalos e acephalos, cyclopes e -arimaspes, antipodas que não tinham dedos, hippopodas que tinham pés de -cavallo, e juntamente com elles os gryphos pullulavam n’essas regiões -mysteriosas, como aviso supremo que a Providencia dava aos que pretendiam -penetrar nas regiões em que o sol impera e que o sol devasta. - -No famoso mappa da cathedral de Hereford encontra-se uma das collecções -mais completas d’essa estranha producção zoologica e anthropologica da -sciencia d’esse tempo. E note-se que essa sciencia não a produzia a -edade média, colhera-a nos livros da erudita antiguidade. Era lá que -ella encontrava os troglodytas que comiam serpentes, eram Mela e Plinio -e Vopisco que apresentavam os Blemmyos que tinham os olhos no peito -e os Presumbanos sem orelhas. Se seguimos as indicações d’esse famoso -mappa-mundi lá encontramos ao norte os gryphos que teem azas de aguia -e corpo de leão e que defendem contra os Arimaspes as minas das verdes -esmeraldas, os Hyperboreos, povo que conhece a eterna felicidade e que -só morre quando, cançando-se de viver, se lança ao mar do alto de um -rochedo, e os Scythas de olhos verdes que vêem melhor de noite que de -dia, e os minotauros que teem corpo de homem, cabeça, cauda e pés de -toiro, e os tigres da Hyrcania a que os homens escapam se, quando fogem -deante d’elles, se lembram de lhes atirar um espelho, e na India então -a monstruosa mantichora que tem corpo de leão, rosto de homem, cauda -de escorpião, tres ordens de dentes, olhos glaucos, côr de um vermelho -sanguineo, os pelicanos que abrem o seio para sustentar os filhos, e -povos sem nariz, e outros sem lingua, e os Monoculos que teem um olho só, -uma perna só e um pé tamanho que, depois de terem andado largo caminho, -apesar dos seus poucos meios de locomoção, com uma rapidez prodigiosa, ao -descançarem levantam o pé e adormecem á sua sombra. - -Na Phrygia apparece o _bomaco_, um estranho animal, que tem crinas de -cavallo e cabeça de toiro, e que se defende, quando foge, com os proprios -excrementos que queimam tudo em que tocam, na Arabia a phenix animal -unico que vive quinhentos annos, na Bythinia o lynce que vê atravez dos -muros e urina uma pedra negra, e até na Palestina tem o rio Jordão, junto -do Asphaltite, a designação de que nas suas aguas sobre-nada o ferro e -mergulham as pennas. - -Na Africa então ha uma verdadeira orgia zoologica, botanica e -anthropologica. Alli vive a salamandra, um dragão venenoso que se deleita -nas chammas, alli floresce a _mandragora_, essa planta de face humana -que tem miraculosas virtudes, alli corre o _éalo_, que tem corpo de -cavallo, cauda de elephante e queixos de cabra, cujo pello é negro e -cujos chavelhos moveis teem uma braça de comprimento. Alli se succedem -emfim os _Ambaros_ que não teem orelhas e cuja planta dos pés é queimada, -os Scinopodas que teem as mesmas particularidades que os Monoculos, os -Androgynos que reunem n’um só individuo os dois sexos, os Himantopodas -que arrastam as pernas de fórma que mais rastejam do que andam, os -Blemmyos de que já fallámos, os Psyllos que experimentam o pudor das -suas mulheres expondo os filhos ás serpentes, os _Parvini_ que teem -quatro olhos, os Agriophagos que se sustentam da carne das pantheras -e dos leões e cujo rei tem só um olho, e os Virgogicos que habitam -em cavernas e comem insectos, e os satyros, e os faunos que são meio -homens e meio cavallos, e outros povos que teem o rosto comprimido e se -sustentam por meio de um canudo, outros que teem nos hombros os olhos e -a bocca e outros que dão sombra ao rosto estendendo um dos labios, tão -proeminente elle é, e entre animaes além dos dragões e dos gryphos o -famoso basilisco, animal monstruoso que tem na fronte uma faxa branca que -imita um diadema, e que empesta o ar que respira, mata as plantas de que -se approxima, devasta o paiz que percorre, e a esphinge que tem azas de -passaro, cauda de serpente e cabeça de mulher, e o monocerio, que, apesar -de ser perigosissimo, quando d’elle se approxima uma donzella que lhe -mostra o seio, toda a sua furia se aplaca, e sobre esse seio adormece, -e as formigas enormes que guardam as areias de oiro. Alli tambem se -encontram montes em fogo cheios de serpentes, montes silenciosos de dia, -mas onde, á noite, accorda, á luz de estranhas claridades, o som dos -pandeiros dos Egipans, e fontes que punem com a cegueira os ladrões, e o -poço maravilhoso, que se conserva todo o anno immerso na sombra, mas que -em certo dia, quando o sol chega ao zenith, e os seus raios se projectam -verticalmente sobre a sua superficie, se enche de subito de immensa -claridade, e cidades como a de Adaber onde os dragões pullulam. - -Mas tudo isto são contos de velhas, patranhas de viajantes? Não! isto -tem, pelo menos em grande parte, um caracter scientifico. A antiguidade -o transmittira e o que se não encontrava em Strabão, ou Ptolomeu ou -em Aristoteles encontrava-se em Plinio, ou em Solino, ou em Pomponio -Mela. Durante os descobrimentos estas noções acompanhavam os nossos -viajantes, que, ao passo que destruiam umas, ainda iam acalentando as -outras. O mytho das amazonas, que, durante a antiguidade, fluctuára -entre a Scythia e os arredores do Egypto, chegou a transplantar-se -para a America, e estava na mente do explorador que deu o nome de -Amazonas ao gigante fluvial da America do Sul. As singularidades da -phenix e do lynce eram perfeitamente admittidas como authenticas, e -a dedicação materna attribuida ao pelicano, e que é tão contraria á -verdade, que esse passaro, longe de se dedicar pelos filhos, nem sequer -os defende como fazem os outros animaes, até ha bem pouco tempo passou -por certa. As monstruosidades humanas não espantavam pessoa alguma, -e bem o podemos perceber se nos lembrarmos que não estranhariamos -monstruosidades semelhantes se nol-as contassem, com certa auctoridade -scientifica, dos habitantes da lua. Sabendo como os organismos animaes -se adaptam aos meios em que teem de viver, não nos custa a admittir que -os habitantes da lua, se não teem ar respiravel, não tenham tambem os -orgãos respiratorios, que lhes faltem a bocca e o nariz, e que engulam -o alimento, se de alimento precisam, por outra fórma qualquer. Desde o -momento que se admittia o rigor inflexivel do sol nas regiões tropicaes, -como se não admittiria a existencia dos Himantopodas e dos outros povos -em cujo organismo a providente natureza desenvolvera sobretudo os orgãos -que tivessem por fim preserval-os do sol? - -Assim as affirmações positivas e serias da sciencia eram todas contrarias -á navegação para a zona torrida. Tão estranho pareceria a todos tentar-se -uma viagem n’essa direcção, como hoje nos pareceria a nós tentar uma -viagem em direcção á lua. Azurara, se escrevesse a sua _Chronica da -Guiné_ antes dos descobrimentos portuguezes serem conhecidos lá fóra, -passaria por auctor de um outro _Amadis de Gaula_, e ninguem estranharia -que a patria de Lobeira produzisse outro escriptor não menos phantasioso, -ainda que d’esta vez o conto excedia demasiadamente todos os limites da -verosimilhança. Mesmo n’essa epocha de credulidade o livro de Azurara -faria sorrir os leitores, se a realidade dos factos não fosse já -conhecida de todos, como hoje nos fazem sorrir os romances de Julio Verne. - -Mas não apparece agora a todos evidente e claro o absurdo de se suppor -que por alguem fomos precedidos nos descobrimentos africanos? Seria -necessario suppor, para que os normandos tivessem ido á zona torrida, -e creado estabelecimentos na costa e desamparado depois essa navegação -sem que ninguem tivesse ligado a essas expedições a minima importancia, -seria necessario suppor que as questões geographicas encontravam no -mundo medieval a mais completa indifferença, que ninguem sabia se havia -zona torrida ou não, e que viagens d’essas não levantavam a minima -curiosidade. Não; a edade média preoccupava-se avidamente com as questões -de geographia, principalmente depois das cruzadas, e sobretudo depois -d’essa grande Renascença do seculo XIII, que foi a aurora do grande -esplendor do seculo XVI. - -Cosmas Indicopleustas, Jornandés, Gregorio de Tours, Marciano Capella, -Vibio Sequester, St.° Avito, e Prisciano e Cassiodoro e Proclo e Macrobio -e Paulo Orosio nos seculos V e VI; St.° Isidoro de Sevilha, Philopomus, -Bedo o Veneravel, S. Virgilio no seculo VIII, Anonymo de Ravenna, -Dicuil, Raban Mauro, Alfredo o Grande no seculo IX, Alfrico, Adelbod, -o monge Richer, Moysés de Chorène no seculo X, Herman Contractus, e -Azaph o Hebreu no seculo XI, Honoré d’Autun, Othão de Frisa, Hugo de -Saint-Victor, Jacques de Vitry, Hugo Metello, Guilherme de Jumiège, -Herrade de Landsberg, e Bernardo Sylvestris no seculo XII, Sacro Bosco, -Vicente de Beauvais, Alberto o Magno, Rogerio Bacon, Roberto de Lincoln, -Pedro d’Abano, e Dante, Cecco d’Ascoli, Roberto de S. Marianno d’Auxerre, -Gervais de Tilbury, Pedro des Vignes, Brunetto Latini, Joinville, Omons, -Alain de Lille, Guy de Basoches, Engelberto e Nicephoro Blemmyde no -seculo XIII, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme, Ranulfo Hydgen, Faccio -degli Uberti, João de Mandeville, Boccacio, Petrarcha, Bartholomeus -Anglicus, Gervais, Ricobaldi de Ferrara no seculo XIV, Pierre d’Ailly, -Guilhermo Fillastre, Leonardo Dati, João de Hése no seculo XV, e quantos -outros mais ainda sustentaram e ensinaram as doutrinas cosmographicas -que temos exposto! Uns mantinham a doutrina de Ptolomeu de que só a -zona torrida era inhabitavel, outros a de que era inhabitavel toda -a parte meridional da terra, outros e esses ainda assim rarissimos -como Alberto Magno e Roger Bacon, se não acceitavam sem contestação -nem como verdade absoluta a affirmação de que era inhabitavel a zona -torrida, sustentavam que nem por isso deixava de ser impossivel a -transposição dos seus limites, porque o mar immenso a cobria toda, e -porque nas terras antichtonas havia as terriveis montanhas magneticas -cujo pensamento paralysava os viajantes. Os mappas, que acompanhavam -as copias dos manuscriptos antigos, como de Sallustio, do Apocalypse, -de Pomponio Méla, de Ptolomeu, e os poemas geographicos, e as _Imago -mundi_ e as _Thesaurus_, e os que se elaboravam nos conventos mais -eruditos, todos reproduziam estas affirmações, esta fórma estranha da -terra, e inflammavam com a tinta vermelha os mares da zona torrida e -inscreviam nas regiões mais proximas, que na Africa principiavam logo -ao sul de Marrocos, as indicações dos estranhos povos que as habitavam. -E, quando tão arraigada se achava esta convicção no animo de todos, -quando no seculo XIV se discutiam com ardor as doutrinas capitaes que -expozemos ácerca da zona torrida, a ponto de Pedro d’Abano escrever, -com o titulo de _Conciliator_, um livro destinado, como indica o seu -titulo, a conciliar essas doutrinas, quando as viagens de Marco Polo -excitavam immensa curiosidade e muita incredulidade tambem, tão estranhas -coisas contava—apesar de nenhuma d’ellas destruir afinal de contas os -pontos capitaes da sciencia do seu tempo—era possivel imaginar-se que -navegadores quaesquer fizessem viagens, que destruissem completamente as -noções essenciaes da geographia essencialmente admittida, viagens em que -penetrassem na zona torrida não só sem perigo, mas tambem sem encontrar -nas regiões circumjacentes nem povos monstruosos, nem animaes estranhos, -nem maravilhosas plantas, e que nem esse facto surprehendesse capitães e -marinheiros, nem excitasse a curiosidade dos reis, nem dos sabios monges, -nem dos que escreviam os poemas geographicos, nem dos que compunham as -encyclopedias, nem dos que desenhavam os mappas, nem dos aventureiros dos -outros paizes, como succedeu com as viagens dos Portuguezes, que deram -logo brado em toda a Europa, como não podia deixar de succeder quando -se désse um passo tão gigante no conhecimento do mundo, quando a prôa -dos nossos navios, como o teria feito a prôa dos navios normandos, se as -suas viagens fossem verdadeiras, fazia cair por terra todo um systema -geographico, sustentado desde a mais remota antiguidade pelos respeitados -eruditos? - -Diz Laplace que o merito de uma descoberta pertence não a quem a faz, mas -a quem a demonstra. Aqui dava-se o caso mais notavel ainda, de bastar -para a demonstrar fazel-a. Como o philosopho antigo que respondia aos -que negavam o movimento andando, os Portuguezes responderam aos que -sustentavam a impossibilidade de transpor a zona torrida transpondo-a. -Essa demonstração tel-a-hiam feito os Normandos, se antes de nós lá -tivessem ido, ou os Genovezes ou os Catalães. A gloria tel-a-hiam elles, -mas gloria immediata, porque o facto era de tal ordem que não era -necessario que decorressem seculos para se lhe reconhecer a importancia. - -No capitulo immediato veremos como a fé e a lenda, ainda mais do que a -sciencia, fechavam a zona torrida e os mares, que, no dizer de alguns, -a enchiam, á investigação do homem. Essas lendas, como as da sciencia, -iam sendo rasgadas a pouco e pouco, mas pendiam, assim esfarrapadas, -dos hombros dos navegadores. Lembram aquelles nevoeiros de Cintra, que -envolvem o valle e a montanha, tendo por cima o céo azul. Á medida que os -transpomos, vão-se rasgando por baixo de nós, surge uma aldeia, irrompe -um arvoredo, um grupo de rochas, mas em muitos pende ainda dilacerado -o manto do nevoeiro. Assim veremos os navios portuguezes e hespanhoes -caminhar envoltos em nevoas, até que a sua audacia tudo rompeu, e o mundo -appareceu emfim na sua completa e radiosa realidade. - - - - -IV - -A religião e a lenda - - -Se eram estas as idéas scientificas predominantes no principio do seculo -XV, é importante saber-se se a religião as acceitava. Era tão poderoso o -dogma nos espiritos medievaes que a condemnação de uns certos principios -pela auctoridade ecclesiastica bastava para que a grande maioria os -suppozesse completamente falsos. Espiritos independentes como os tem -havido sempre protestavam contra a condemnação da sciencia pela fé; mas -protestavam timidamente, e nós veremos que nos pontos mais capitaes a -fé estava completamente de accordo com a sciencia, de fórma que uma e -outra fechavam deante das tentativas dos navegadores o mar mysterioso, -que a audacia portugueza conseguiu devassar. O principio assente era -a impossibilidade de se franquear a zona torrida, mas poucos homens de -sciencia punham em duvida que para além da zona torrida existisse outra -zona temperada semelhante á do norte, e onde fosse possivel a vida da -raça humana. Contra este ponto é que o dogma protestava. - -Era inultrapassavel a zona torrida, não a tinham podido franquear os -discipulos de Christo, portanto a palavra divina de redempção promettida -a todos os que tivessem fé não podia chegar a esses povos que Deus -esquecera, o que era completamente absurdo.[36] Se a humanidade toda -descendia de Adão, como é que viera ao mundo essa raça humana? Tivera -outro Adão como alguns sustentaram que tinha outro sol e outras -estrellas?[37] Tudo isso era incompativel com a verdade suprema expressa -na Biblia. E demais, se Deus dividira a terra depois do diluvio entre os -tres filhos de Noé, se déra a Sem a Asia, a Japhet a Europa, e a Cham a -Africa, qual fôra o desconhecido filho de Noé que recebera da Providencia -a terra antichthona?[38] - -Encontrára-se em parte uma solução para essa dificuldade. Reconhecia-se -a existencia da terra antichthona, mas suppunha-se que fôra a habitação -da raça humana antes do diluvio. Alli ficava o Paraizo, e alli vagueando -em torno da deliciosa habitação para sempre defeza vivera a humanidade -criminosa os seus primeiros annos. Na arca de Noé salvara-se uma fraca -reliquia d’essa gente condemnada. A arca boiara sobre as aguas e viera -poisar emfim no monte Ararat. Nunca mais o homem tornaria a ver a sua -antiga patria[39]. - -Assim Cosmas suppunha um mar immenso coberto de trevas, porque o sol só -illuminava a terra, e formando quatro golphos, o Mediterraneo, o mar -Vermelho, o golpho Persico e o mar Caspio; para além d’esse immenso mar a -terra antichthona, e n’ella o Paraizo[40]. - -Outros, porém, não se podiam resignar a estar para sempre separados do -Paraizo, e collocavam-n’o no extremo Oriente, no sitio onde, ao que -diziam, principia o mundo. Esses baseavam-se na phrase do Genesis, que -diz que «Deus plantou no Oriente um jardim delicioso». Para além da -India, dizia Santo Avito, fica o Paraizo, cercado por barreiras que o -homem não pode transpôr. É a theoria adoptada por S. Basilio, Psellus, -Philostorgo, Isidoro de Sevilha, Bedo o Veneravel, geographo de Ravenna, -Raban Mauro, Hugo de Saint-Victor, Jacques de Vitry, Honoré d’Autun, -Gervais, Vicente de Beauvais, Joinville, Jourdain de Sévérac, Omons, -que ainda suppunha que lá estava o anjo da espada chammejante, Ranulpho -Hydgen, Dati, Bartholomeu Anglicus, Brunetto Latini, Dante, etc. Uns -suppunham-n’o erguido n’uma alta montanha, outros n’uma ilha. E em torno -d’esta idéa dogmatica ferviam as lendas. - -Do Paraizo, dizia-se, saíam quatro grandes rios: o Nilo, o Ganges, o -Tigre e o Euphrates. Era necessario, porém, explicar-se como é que estes -rios appareciam tão longe da sua celeste origem, e sobretudo como é que -o Nilo apparecia na Africa, tendo nascido na Asia. A explicação era a da -corrente subterranea, e submarina tambem com relação ao Nilo, quando a -supposição de um mar mediterraneo, que trazia comsigo a união da Asia com -a Africa, não tornava dispensavel esta conjectura[41]. - -Esta opinião religiosa perdurou largo tempo no espirito dos homens ainda -depois das grandes descobertas. Colombo, cuja alma enthusiastica se -deixava invadir facilmente pelas seducções do mysticismo, e que tinha a -fé ardente que foi um dos principaes elementos do seu triumpho, nutria -a secreta esperança de chegar a esse Paraizo cubiçado, como contava -encontrar n’esse Cathay maravilhoso os capitaes indispensaveis para a -reconquista do sepulchro de Christo. Era logica a sua esperança. Se -elle, partindo do Occidente, esperava chegar ao extremo Oriente, se no -extremo Oriente estava o jardim de delicias em que Deus collocara os -nossos primeiros paes, como podia duvidar de que o encontraria? Quando na -sua terceira viagem chegou á bocca do Orenoque imaginou ter finalmente -chegado ao Paraizo terrestre, não pela formosura das paizagens e pela -abundancia da vegetação, mas porque, vendo a torrente das aguas do -grande rio, suppoz que era um dos que borbulhavam da elevada montanha do -Paraizo terrestre[42]. Christovão Colombo não admittia absolutamente a -esphericidade da terra. Como varios outros geographos da edade média, que -lhe tinham dado uns a fórma ovoide, outros a fórma de um cone ou de um -pião[43], Christovão Colombo suppunha que ella teria a fórma de uma pera, -e que junto do pé é que estava exactamente o Paraizo[44]. - -Tambem a esphericidade da terra era absolutamente contradictada -pelos Santos Padres, que lhe davam a fórma de um quadrado ou de um -parallelogrammo, fórma emfim que se assemelhasse á do Tabernaculo de -Moysés. Desdenhando a idéa scientifica oriunda dos Gregos, e sustentada -pelos Arabes, vindo talvez para uns e para outros dos orientaes, de que o -centro do mundo era Aryn, d’onde se principiavam a contar as latitudes e -longitudes, que ficava exactamente a 90° de cada um dos pontos cardeaes, -ponto geographico que foi muitas vezes representado pelos cartographos -como uma cidade maravilhosa, com um castello, em que habitava um -mysterioso soberano, os Padres da Egreja reclamavam para Jerusalem a -honra de ser ella o centro da terra, ou pelo menos o centro da terra -habitada, quando se imaginava que o resto do mundo estava coberto pelas -aguas desde o diluvio. - -Finalmente para apresentarmos no seu conjuncto as idéas geographicas -affirmadas dogmaticamente pela religião, fallaremos ainda, posto que não -interesse a questão dos descobrimentos maritimos, na existencia para o -norte das terras de Gog e de Magog. Eram os paizes ao norte da Asia, -n’essa região desconhecida em que tambem pullulavam as fabulas, porque -era a que se approximava das zonas glaciaes inhabitaveis. Ahi, dizia-se, -habitavam os filhos de Caim[45], povos que tinham escapado, ao que -parece, do diluvio, não por traz da barreira insuperavel da zona torrida, -mas encostando-se ás gelidas barreiras dos polos. Irrompiam ás vezes em -incursões ferozes, até que Alexandre o Magno, na sua grande expedição, -que ficou legendaria, levantou a grande muralha que poz termo ás suas -arremettidas[46]. Disse-se depois que aquellas dez tribus de Israel, que -não voltaram do captiveiro da Babylonia, n’essa região mysteriosa ficaram -internadas, como depois se disse, quando se descobriu a America e alli se -encontrou uma raça de homens desconhecida, que eram ainda as dez tribus -de Israel que se tinham perdido n’essas regiões que o Atlantico por tanto -tempo escondera detraz da cortina das suas vagas[47]. - -Assim a fé religiosa, se contradictou n’alguns pontos importantissimos as -affirmações scientificas, cerrou ainda mais as portas do _mare clausum_. -O homem não podia chegar á zona torrida, era esse o ponto capital, que -a um tempo sustentavam os homens da sciencia e os homens da orthodoxia. -Assim que d’ella se approximavam o mar começava a escandecer-se, a terra -inflammava-se, montes ardentes reflectiam as suas chammas nas aguas, e -monstros extranhos que o calor fazia brotar, plantas extraordinarias -que só podiam florescer n’essa monstruosa estufa, começavam a apparecer -n’essas terras extranhas. Assim, para o norte, apenas se chegava ás -regiões onde soprava um vento glacial, outros monstros appareciam, e os -povos ferocissimos de Gog e Magog só esperavam que um audacioso rompesse -a muralha de Alexandre que os refreiava para cairem de novo sobre o -mundo, entregue assim nas garras de Satanaz. - -No centro da terra habitada, que tinha a fórma quadrilateral, erguia-se -Jerusalem; no extremo Oriente erguia-se o Paraizo defezo aos homens, e -d’onde saíam os grandes rios do Oriente, trazendo ainda nas suas aguas -o nateiro fecundante que ia dar como que uns reflexos da vegetação -paradisiaca ás terras que atravessava. - -Em torno do dogma como em torno da sciencia nasciam então as lendas. -Deante do dogma inclinavam-se todos, deante da sciencia inclinavam-se -os illustrados, deante da lenda refugiam os ignorantes, e uns e outros -paravam deante d’esse mar que tantos mysterios encerrava. - -Classificamos propriamente como legendarias as supposições que não -tinham a minima base scientifica ou que não repousavam no dogma. Assim -a _terra velada_ de Theopompo não era senão a _terra incognita_ de -Ptolomeu; mas, suppondo o auctor grego que os homens que a habitavam -eram de uma estatura duas vezes maior que a dos do mundo conhecido, -perdia-se completamente nas regiões da phantasia, porque não havia, como -para a humanidade monstruosa das regiões tropicaes, as razões do clima. -Percebe-se, por exemplo, que a necessidade continuada de se resguardarem -contra os ardores de um sol terrivel fosse, atravez de gerações -successivas, desenvolvendo cada vez mais os orgãos com que o homem se -podia proteger, mas n’esse clima perfeitamente semelhante ao nosso nenhum -motivo havia para que se suppozesse que duplicava a estatura humana. E -comtudo essa lenda actuava fortemente no espirito dos navegadores, e -assim se explica a formação da lenda dos Patagonios. - -Legendarias eram tambem as ilhas do Oiro e da Prata, que apparecem nos -mappas da edade média e que vão fugindo para regiões mais distantes á -medida que vae sendo conhecido o mundo oriental, como succedia tambem ás -Hesperides, antigas ilhas de fabulosa riqueza, cujo pomar de pomos de -oiro opulentos era guardado por um dragão, como tambem na edade média -as montanhas que encerravam thesouros preciosissimos eram guardadas por -gryphos e toda a especie de fabulosos animaes. É sempre em ilhas situadas -nos mares desconhecidos que se colloca ou a região das riquezas ou a -região da bemaventurança. As ilhas Afortunadas ou as ilhas das Hesperides -eram para os antigos a patria de todos os sonhos da felicidade suprema. -Era nas regiões do Norte, onde parecia que devia reinar comtudo a eterna -desolação, que elles collocavam tambem a ideal ventura, phantasiando esse -povo dos Hyperboreos eternamente feliz. Passou para a edade média essa -tradição, e nos mappas medievaes se vêem para além do mundo conhecido as -ilhas onde habitam os Hyperboreos. Nos mares orientaes collocavam-se, -como dissemos, as ilhas do Oiro e da Prata, as ilhas dos Homens e das -Mulheres, que eram o producto de uma tradição arabe, a ilha do Sol de -Pomponio Mela, que não fazia senão dar uma nova fórma ás preoccupações -da zona torrida. Quem abordasse á ilha do Sol era immediatamente -suffocado pelo ar em braza que alli se respirava[48]. Finalmente, nos -mappas da edade média já mais proximos da epocha dos descobrimentos -apparece semeado de innumeras ilhas o mar oriental: sete mil dizem as -legendas de uns, quatorze mil as de outros. Esse pensamento foi suggerido -pelo conhecimento das viagens de Marco Polo e pelas indicações que o -viajante veneziano dá ácerca das Maldivas, que se suppozeram existentes -no mar oriental. É bem provavel, e o que é certo é que o pensamento da -existencia de innumeras ilhas no oriente da India actuou nos sabios do -seculo XV, e foi uma das esperanças de Christovão Colombo e um dos pontos -de apoio de Toscanelli para a sua theoria da possibilidade da viagem que -Colombo emprehendeu, porque, dizia elle, ainda que o continente asiatico -estivesse mais longe do que se suppunha, sempre se encontrariam no -caminho ilhas que servissem de porto de escala e de arribação[49]. - -Ah! essas ilhas conjecturaes da edade média como serviram aos -historiadores superficiaes para procurar attenuar a gloria dos -Portuguezes e a gloria de Colombo! Brotavam das ondas mysteriosas como -brota a espuma da vaga que se desfaz nos rochedos. Por aquelle Oceano -tenebroso que se estendia para o Occidente, nas ondas do ignoto mar -indico, por muito tempo considerado, e ainda no tempo dos primeiros -descobrimentos portuguezes, como um mar mediterraneo, pelo mar ignorado -do Norte semeava a imaginação dos cartographos quantas ilhas ideara a -phantasia antiga, a phantasia dos _troubadours_ ou dos _trouvéres_ e -a dos mysticos! Lá appareciam, como dissemos, as ilhas das fabulosas -riquezas, a Chrysé, a Argyra, Ophir, que talvez bem se possa classificar -entre ellas; as ilhas da tradição homerica, a de Calypso, a de Diomedes, -a outra em que se vê ás horas do sol poente a sombra gigante e pensativa -de Achilles, as ilhas da tradição celtica, essas ilhas que povoavam a -imaginação d’estes marinheiros do occidente, que, erguidos ao pôr do -sol nos rochedos da costa, sonhavam em cada miragem do Oceano uma ilha -fabulosa, que, batidos pela tempestade, quando andavam á pesca, julgavam -escutar no surdo rugido das vagas os lamentos das almas penadas nas ilhas -milagrosas, e tudo se contava ao serão quando bramia o vento cá fóra e o -mar quebrava com doloridas queixas ou com furioso estrepito nas fragas -desnudadas. Tudo ia tambem enriquecer as lendas dos claustros para ornar -com esses arrebiques de maravilhoso a existencia piedosa de um santo -missionario. Foi assim que S. Brandão teve a sua ilha, onde cantavam as -aves do Paraizo, e onde se respirava tão celeste e perduravel perfume que -n’elle ficaram para sempre impregnadas as vestes do santo viajante. Era -na Irlanda sobretudo que essas lendas brotavam, era ahi que se formavam -ao lado da legenda de S. Brandão as de S. Patricio, e de tantos outros -navegadores celticos que iam atravez dos mares da phantasia procurar -ignotas ilhas. - -Já Brekan, o filho do rei Niel, desapparecera nas ondas do mar com -cincoenta navios, e só o cadaver do seu cão reapparecerá na praia, já -tres filhos de Corra tinham com os seus quatorze companheiros, entre os -quaes iam um bispo e um bardo, abordado ás ilhas das Almas, encontrando -depois de quarenta dias e quarenta noites a ilha do eterno choro, e a -ilha em que fundidores infieis forjavam e fundiam com as carnes rasgadas -pelas aguias negras, e outra em que um moleiro moía eternamente farelo -por ter roubado os seus freguezes, e outra em que um alquilador, que -roubara o cavallo a seu irmão, passava por deante dos olhos assombrados -dos viajantes no galope infernal de um cavallo de fogo. - -Outros, os famosos navegadores de Iona, tinham chegado á ilha dos -Passaros, onde volteiam aves de aureas e de purpureas pennas, regidas por -um rei de cabeça de oiro e de azas de prata, que entoam cantos de uma -celestial melodia, e a outra onde choram com saudades da patria as doces -Irlandezas exiladas mysteriosamente do mundo dos vivos. - -Depois ainda é o bardo Myrdhinn que vae com mais nove bardos procurar a -ilha Verde, que nunca foi submergida pelas vagas, a ilha dos pomos de -oiro, onde no meio de uma aurora perpetua dança um côro eterno de bellos -rapazes e de formosas raparigas. - -Tudo se condensa, emfim, na lenda de S. Brandão. Esse encontrara a ilha -onde os anjos que acompanharam Lucifer, mas não foram inteiramente seus -cumplices, cantam os hymnos de esperança, e o aspero rochedo batido -pelas vagas, onde Judas é consumido pelo eterno remorso; e emfim a terra -promettida aos eleitos, a terra dos bemaventurados. - -S. Patricio tambem percorre as solidões do Atlantico. Esse vae, segundo -a lenda, quando a quaresma começa, para o seu _purgatorio_, n’uma ilha -de que ninguem se pode approximar, onde ha uma caverna que os maus -espiritos habitam, e onde se abrem duas estradas subterraneas, que vão -ter uma ao Inferno, outra ao Paraizo. Esta ilha mysteriosa do _Purgatorio -de S. Patricio_, como a ilha abençoada de _S. Brandão_, é um dos sonhos -mais persistentes da edade média, e uma e outra lá apparecem nos mappas -medievaes, nos sitios mais diversos, ás vezes applicando-se a ilhas -verdadeiras, como acontece com o _Purgatorio de S. Patricio_, que alguns -cartographos collocam na Islandia. - -A imaginação celtica é a mais fecunda n’esta creação de terras -phantasticas, e não podia deixar de ser assim, não só porque os povos -d’essa raça são essencialmente imaginativos e sonhadores, como tambem -porque n’essa Irlanda, collocada na extremidade occidental da Europa, -a tão pouca distancia da America, aonde tantas vezes deviam chegar, -como chegavam aos nossos Açores e á nossa Madeira, plantas e cadaveres -de homens de desconhecido aspecto, não podia deixar de pullular a cada -instante na alma do povo o pensamento da existencia de ilhas mysteriosas -para esse lado, como muitas vezes tambem, quando um pescador mais -audacioso se aventurava ao mar alto, quando o vento de leste lhe enfunava -as velas, e o mar lhe parecia cantar no seu doce murmurio as suas -maravilhosas lendas, elle seguiria caminho do Occidente, durante dias e -dias, até que a fome o salteasse, ou até que o continuado panorama das -vagas a seguirem-se ás vagas, sem fim, sem termo, fechando o horizonte, -os desanimasse afinal[50]. Mas tambem na peninsula hispanica lendas -semelhantes se formavam e pelas mesmas causas. Tambem aqui em Portugal -sobretudo e no Algarve principalmente os pescadores, ao largarem a -costa, sentiriam a tentação de penetrar nos mysterios do Oceano, e aqui -tambem á volta, em noites de luar nas esfolhadas, ou no inverno ao lado -da chaminé, fallariam, como se as tivessem visto, em ilhas extranhas, -na das Sete Cidades, por exemplo, onde se tinham refugiado, quando os -Mouros vieram á peninsula, sete bispos christãos com o povo das suas -dioceses, proscriptos agora e encantados como as meigas irlandezas -exiladas dos navegadores de Iona. E todas estas ilhas phantasticas, -Antilia e Sete Cidades, ilha de S. Brandão e Purgatorio de S. Patricio, -iam juntar-se ás ilhas conjecturaes dos sabios e ás ilhas tradicionaes da -mythologia antiga para formarem esses archipelagos do sonho e da lenda -que se desfizeram em fumo quando das aguas surgiram, envoltas no seu -manto de verdura, ou na sua armadura de rochedos vulcanicos, palpitantes -ainda com o fogo que lhes lavrava nas entranhas, ou carregadas com a -immensa e luxuriante cabelleira das intactas florestas, as ilhas reaes e -verdadeiras. - -Esse sonho das ilhas phantasticas podia não ser senão um estimulo -para cavalleiros denodados que não temiam os encantamentos, logo que -levavam comsigo as espadas bentas e a cruz do Salvador. Com o coração -a bater-lhes um pouco, pallidos de supersticioso terror, mas incitados -pelas tentações das sobre-naturaes aventuras, arrojar-se-hiam tanto os -celtas da Irlanda como os celtas de Portugal aos mares mysteriosos em -demanda das ilhas paradisiacas; outros encontraram tambem no caminho -as ilhas infernaes, mas a lenda do mar Tenebroso essa é que deveras -regelava o sangue nas veias do mais audacioso. Vinha dos antigos, e mais -tambem dos Arabes. Como é que os poetas antigos, ao passo que devaneavam -como Seneca no côro da _Medéa_, que para além do Oceano haveria terra -incognita, suppunham que n’esses mares longinquos se perdêra a luz do sol -e um manto espesso de trevas se desenrolava sobre as vagas? Como é que -o arabe Edrisi, que suppunha que estavam no Atlantico as ilhas da eterna -felicidade, suppunha tambem que era o Atlantico o mar tenebroso, onde os -navios esbarravam uns nos outros e se despedaçavam em ignorados rochedos? -É porque suppunham que, depois do mar Tenebroso, vinha o mar luminoso da -India, porque imaginavam exactamente que o mar da India communicava com -o mar Tenebroso? Tambem a sciencia não dava fóros de authenticidade ao -mar Tenebroso como os dava ás terras incendiadas e ao mar em fogo da zona -torrida. Era um dos fundamentos essenciaes da lenda do immenso pélago o -ligar-se ainda com as estranhas idéas astronomicas dos que suppunham que -para além dos mares tinha o globo um cinto de montanhas, e que detraz -d’essas montanhas é que o sol se escondia durante a noite, pertencia a -essa classe de phantasias a que pertencem os montes Ripheus e outras -visões da desvairada imaginação dos sonhadores da geographia. - -Mas ainda os Arabes trouxeram do Oriente um novo elemento legendario. O -Oriente é a patria das estatuas encantadas, dos monstros de metal dotados -de uma vida phantastica, e a esse mar, por tantas razões defezo, punham -como sentinellas immoveis e terriveis as estatuas mysteriosas, como os -leões de oiro que nos contos arabes defendem os palacios enfeitiçados. -Mas ainda a tudo accrescia uma tradição que se baseava na verdade, e que -não era menos desanimadora para os que tentassem romper o mysterio. Era -a do mar de Sargaço, que não era desconhecido dos antigos, esse mar que -os marinheiros de Colombo encontraram já muito para o occidente, e em que -se julgava que as plantas enredadas enleiavam por tal fórma os navios que -lhes paralysavam completamente os movimentos. - -Essas idéas falsas, derivadas da sciencia mal comprehendida, e que -povoavam os espiritos dos marinheiros d’essa epocha, são as mesmas que -ainda hoje habitam no cerebro do povo ignorante, apesar da immensa -propagação de dados scientificos verdadeiros, obtidos pela experiencia -de todos os dias. No seu delicioso livro _Sull’Occeano_, o grande -escriptor italiano Edmundo de Amicis conta-nos o que ouviu a bordo de um -paquete que singrava para a America aos passageiros de terceira classe, -emigrantes que iam trabalhar no Rio da Prata. Parece-nos estarmos a ouvir -as palestras que se travariam entre os marinheiros do seculo XV a bordo -das suas esguias caravellas. Apesar dos factos demonstrarem o contrario, -ainda suppunham que, ao atravessarem a zona torrida, teriam de atravessar -um mar incendiado. Suppunham que veriam claramente a curvatura da terra -e o navio descer por ella como um bichinho em volta da superficie de uma -laranja. Todos esses terrores pueris dos passageiros que os marinheiros -hoje desdenham com um riso sarcastico, eram os que salteiavam o espirito -dos seus antepassados nos seculos da edade média, eram esses terrores -os que faziam recuar deante dos cabos africanos e deante das solidões -do Atlantico os marinheiros que precederam Gil Eanes e que precederam -Christovão Colombo, eram ainda os que acompanhavam os descobridores -em cada nova exploração, porque só a pouco e pouco é que a luz se foi -fazendo, só a pouco e pouco é que se foram desfazendo as idéas falsas da -antiguidade substituidas pelos factos verdadeiros, e era necessario que -fossem de uma rija tempera os marinheiros que recalcavam no fundo d’alma -esses terrores, que fossem denodados espiritos os d’esses commandantes -que assim partiam a arcar não só com os pavores da superstição, mas -com as affirmações da sciencia e com as determinações da fé, e que -fosse emfim um genio verdadeiramente transcendente o d’esse homem quasi -divino, que teve a intuição sublime da verdade e a inspiração de um -genio creador, que sonhou um mundo aberto inteiramente á luz, um mar sem -trévas, a humanidade circulando sem peias em volta da terra seu dominio, -e que logrou escrever na face das ondas com a quilha das suas caravelas -essa epopéa maravilhosa que elle concebeu em Sagres e que foi a grande -epopéa do Renascimento. - - - - -V - -O infante D. Henrique e o povo portuguez - - -Nenhum povo estava tão fadado como os Portuguezes para esse -emprehendimento maravilhoso na epocha em que elle se encetou. As cruzadas -tinham despertado nos povos europeus o espirito da aventura. Era para o -Oriente que se voltava esse ardor de conquista, não só porque era a terra -classica de todas as opulencias, mas porque a conquista do Oriente fôra -o sonho da antiguidade grega e romana e o culto mal comprehendido, mas -profundo, pela antiguidade foi um dos caracteres predominantes da edade -média. Alexandre o Magno era para elles o ideal do cavalleiro andante, -imaginavam-n’o como um soberano cavalheiresco, segundo a formula feudal, -como Virgilio, o dôce poeta, era um feiticeiro de legenda; mas a adoração -por esse grande vulto vivia em todos os espiritos. Foi para o Oriente -pois que se dirigiram os primeiros viajantes, os Rubruquis, os Plan du -Carpin, os Marco Polo, quando as expedições guerreiras tiveram de parar -deante da resistencia victoriosa dos sarracenos. Mas esses viajantes já -tinham feito penetrar um pouco de luz na geographia systematica do seu -tempo, e a humanidade evidentemente, despertada para o estudo e para a -sciencia pela primeira Renascença do seculo XIII, ia procurar sondar o -desconhecido que por todos os lados a envolvia. - -O segredo dos mares occidentaes devia preoccupar sobretudo os povos -que no occidente da Europa viam desenrolar-se diante d’elles a -incommensuravel extensão das vagas oceanicas. Os povos do Norte, que -tinham chegado até á ultima Thule, a regelada Islandia, não deixaram -de aventurar-se por esses mares ignotos, e é incontestavel que, assim -como chegaram á Groenlandia, tocaram tambem no continente americano. -Se perseverassem na descoberta, se fossem seguindo ao longo da costa -da America, emquanto encontrassem terra nas suas aventurosas jornadas, -teriam roubado incontestavelmente a Portugal e á Hespanha as suas -mais viridentes glorias! Á Hespanha, porque antes de Colombo teriam -dado á civilisação esse vastissimo continente, a Portugal, porque -antes do infante D. Henrique teriam reconhecido a possibilidade de se -transpôr a zona torrida; mas não perseveraram, e assim legitimamente -perderam a gloria que teriam podido conquistar. Que, afastando-se da -Islandia, encontrassem uma nova terra ainda mais regelada e triste, que, -proseguindo na sua viagem, chegassem a territorio mais risonho, não é -coisa que nos espante, posto que demonstre mais uma vez a coragem d’esses -audaciosos reis do mar. A gloria de Colombo não está em ter encontrado -novas terras, está em não ter recuado deante dos dogmas da extensão quasi -infinita dos mares, assim como a gloria dos Portuguezes não está em terem -juntado novas terras ao peculio da civilisação, está em não terem recuado -diante do dogma scientifico e religioso da impossibilidade de se viver -na zona torrida e da existencia dos mil perigos e dos mil horrores que -defendiam a sua approximação. - -Ninguem era, comtudo, mais proprio do que os Normandos para tentarem as -aventuras maritimas; estavam porém demasiadamente ao norte, e, como ás -suas aventuras presidia sempre, como ás dos Phenicios, não o amor da -sciencia, mas o amor do lucro, ao chegarem ao cabo de S. Vicente, mais -os tentava o caminho do Mediterraneo, onde havia tão seductoras prezas, -do que o arriscado caminho do Mar Tenebroso. No seculo XIV os Normandos -de França sentiram-se attraídos para os mares do Sul, até porque lhes -chegára a noticia de que os marinheiros da peninsula hispanica para -esse lado tinham encontrado as ilhas Afortunadas, mas a tentativa de -Bethencourt não tivera nem poderia ter imitadores, porque não fôra -extremamente prospero o seu resultado, porque as costas áridas do -prolongamento de Marrocos, onde tinham encontrado a morte, essa Guiné, -como lhe chamavam, Guiné que tinha por limite meridional o cabo Bojador, -não promettia grandes proventos aos que lhe tentassem a exploração. A -Inglaterra concentrava na conquista da França todas as suas attenções e -todo o seu empenho e a França cuidava em defender-se e em completar a -sua poderosa unidade. A Italia tinha duas potencias maritimas—Veneza e -Genova—cujos navegantes davam lições aos outros povos, mas uns e outros -tinham os olhos postos no Oriente, d’onde lhes vinha a riqueza, a gloria -e o dominio. Genova é que lançava de quando em quando os olhos para o -occidente, em Veneza appareciam ás vezes alguns espiritos que se deixavam -tentar pelos mysterios do Oceano, mas as viagens audaciosas e pouco -afortunadas dos irmãos Zeni venezianos e de Vivaldi e Doria genovezes, -não podiam ser incitamento a que se proseguisse nas tentativas. -Acontecia com as duas republicas maritimas o que depois aconteceu com -Portugal quando regeitou a proposta de Colombo. Não se deixa o certo -pelo duvidoso. Não se empenham vidas e thesouros em emprezas incertas, -semi-phantasticas, quando se tem nas mãos, como Veneza e Genova tinham, o -vasto commercio do Oriente, quando se tem quasi a certeza de que se está -no caminho da India, quando se possuia já o resgate valioso da Mina como -acontecia com D. João II. Para esses emprehendimentos que são o sonho da -politica, são necessarios não os espiritos positivos, mas as imaginações -exaltadas. É indispensavel que haja n’um cerebro esse grão de loucura que -faz os grandes poetas e os grandes descobridores, que inspira os poemas -que se escrevem—os poemas da phantasia, e os poemas que se executam—os -poemas da acção, um homem como o infante D. Henrique, que herdára de sua -mãe, como todos os seus irmãos, esse elemento romanesco que toda a mulher -do Norte encerra no fundo da sua alma, por baixo da sua apparencia séria, -austera e pratica de dona de casa e de mãe de familia, para conceber e -levar por deante, n’um jorro de santa loucura, o poema das navegações, ou -uma mulher cavalheiresca, romanesca tambem, sensivel e enthusiastica como -a rainha Izabel, para comprehender a alma de Colombo, para se irmanar -com ella, e para collaborar tão apaixonadamente n’esse ultimo poema -de cavallaria, n’essa ultima producção da alma celtica, n’esse ultimo -romance do Santo Graal que se chamou Descoberta da America. - -Restavam os reinos da peninsula hispanica, mas todos esses, á excepção -de Portugal, se achavam empenhados ainda nos ultimos arrancos da sua -lucta contra os Mouros. No oriente da Hespanha, nas Baleares sobretudo, -havia a tentação de sondar o mar desconhecido, mas diante do cabo Bojador -ainda se recuava. Tel-o-hiam dobrado comtudo se tivessem perseverado -no intento, mas era essa perseverança que não podia deixar de faltar -a um povo que não tinha para isso outro estimulo que não fosse o da -curiosidade, que mais se deixaria tentar pela Africa mediterranea do que -pela Africa atlantica. O povo que estava deveras em circumstancias de -tentar os grandes emprehendimentos era sobretudo Portugal. - -Acabava de atravessar um periodo em que todas as suas faculdades tinham -sido vivamente excitadas, e em que empregára todas as suas forças e toda -a sua actividade. Havia dois seculos que unificára o seu territorio e que -expulsára os Arabes. Desde que o fizera, voltára naturalmente as suas -attenções para o Oceano, e o grande rei, que mais cuidára da organisação -pacifica do seu povo, D. Diniz, empenhara-se essencialmente em nos dar -marinha, animando a mercante, protegendo a pescadora, desenvolvendo -a de guerra, já providenciando para que se podessem fazer navios, já -indo buscar a Genova, a grande nação marinheira do Mediterraneo, os -navegadores que podiam dar aos nossos mareantes os conhecimentos -technicos que lhes faltavam. Como se tivesse a previsão de que ainda a -Portugal caberia tentar a ultima empreza cavalheiresca da edade média, -não se conformára com a suppressão dos Templarios, e fundára para os -substituir a ordem de Christo, cujos cavalleiros tinham de vir a ser os -Templarios do mar, cujo habito e cuja commenda foram a «estrella dos -bravos», cujas phalanges intrepidas foram a Legião de Honra das nossas -maritimas victorias. - -Logo as primeiras expedições atlanticas mostraram que rumo Portugal -queria seguir, mas as discordias intestinas e as ambições dos reis -adiaram o proseguimento das tentativas. Não se resignavam os nossos -soberanos a manter o seu reino em tão estreitos limites, mas Castella -engrandecera-se tanto que não nos era facil a dilatação. Foi o contrario -que esteve para succeder, foi Castella que esteve a ponto de absorver -Portugal; na lucta desegual empenharam-se então todas as nossas forças -vivas; toda a energia da nossa organisação, toda a furia do nosso -patriotismo local despertaram para essas pelejas homericas. O perigo -imminente fez com que a patria se retemperasse na grande corrente -democratica. A nacionalidade portugueza luctou com a poderosa Castella -como Anteu com Hercules, cobrando novas forças sempre que tocava no solo -portuguez. Em 1385 como em 1640 foi o povo que salvou a bandeira. A gente -dos concelhos, indo, _ventres ao sol_, na energica phrase de Fernão -Lopes, combater contra os cavalleiros vestidos de ferro, manifestava -na peninsula hispanica uma nova força social, a mesma que dera aos -_yeomen_ inglezes a victoria sobre a cavallaria feudal da França, e aos -montanhezes suissos a victoria sobre a cavallaria aristocratica de Carlos -o Temerario. Nunca houve uma efflorescencia tão notavel de bravura e de -talento, de genio aventuroso e de dedicação patriotica, nunca estiveram -em tão continua vibração todos os nervos e todos os musculos de um -organismo nacional. Quando acabou a lucta, depois de ter insculpido -nos annaes gloriosos da patria os nomes de Trancoso e de Atoleiros, de -Aljubarrota e de Valverde, de D. João I e de Nuno Alvares Pereira, a -geração que praticára esses feitos estava ainda vibrante de energia, o -cerebro que concebera a reorganisação nacional estava scintillante de -idéas. Foi então que Vasco de Lobeira devaneou o _Amadis de Gaula_, que -Fernão Lopes fez trasbordar nas suas inimitaveis chronicas a exuberancia -poetica da alma nacional, que os architectos e os canteiros fizeram -desabrochar no campo da peleja a flor maravilhosa da Batalha, que o -infante D. Henrique sonhou a epopéa dos descobrimentos. - -Quando uma nação acaba de se empenhar n’uma lucta aventurosa de muitos -annos custa-lhe a voltar de novo ás occupações serenas da paz. Ha em -todos os espiritos uma sede de aventuras, uma necessidade absoluta de -occupar a sua energia. É por isso que vemos, depois das grandes luctas -do principio d’este seculo, os generaes francezes e os officiaes de -marinha inglezes procurar em todo o mundo emprego para a sua actividade. -Encontramos até no Oriente officiaes de Napoleão pondo a sua espada -ao serviço de monarchas indianos, na Europa e na America officiaes de -marinha inglezes a commandar as esquadras insurgentes nas luctas da -independencia americana e da liberdade europêa. Assim no seculo XV vamos -achar cavalleiros portuguezes á cata de aventuras na Inglaterra e na -França e até na mais remota Allemanha. Sem fallarmos em D. Alvaro Vaz de -Almada, cujos serviços mereceram na Inglaterra a altissima recompensa da -ordem da Jarreteira e do condado de Avranches, nem no infante D. Pedro, e -em Soeiro da Costa, achamos nas guerras de França, no cêrco de Arras, por -exemplo, cavalleiros portuguezes, cujo nome ficou desconhecido, entrando -em combates singulares deante dos muros da praça assediada.[51] É esta -necessidade de dar vasão a esta superabundancia de energia que leva -D. João I, incitado por seus filhos, á expedição de Ceuta, é um povo -n’essas disposições que o infante D. Henrique vae encontrar apto para as -audaciosas explorações do Atlantico. - -Note-se: hoje ainda, depois de tantos seculos de decadencia, nós somos -o povo da aventura. Indolentes na patria, amanhando sem enthusiasmo -um solo uberrimo que se desentranharia em maravilhosos fructos se -lhe dessemos francamente todo o trabalho dos nossos braços e todo -o pensamento do nosso cerebro, discursadores declamatorios, sem -iniciativa nem acção, mudamos completamente apenas transpomos as -barras dos nossos rios. Apertados entre as montanhas e o mar, é nas -montanhas que temos a nossa força de resistencia, é no mar que temos o -nosso vigor de emprehendimento. Os nossos montanhezes intrepidos são -ainda hoje os lidimos descendentes dos companheiros de Viriato, os -nossos pescadores são deveras os filhos audaciosos dos marinheiros de -Gil Eanes. Lá fóra a transformação é mais completa ainda: fizemos o -Brazil, e estamos continuando a dar ao seu desenvolvimento os elementos -da nossa actividade exotica; estamos fazendo a Africa portugueza, e -os vestigios dos nossos aventureiros mercadores são encontrados com -espanto no interior da Africa; nos Estados-Unidos temos uma colonia -trabalhadora e autonoma que se não deixa absorver pelo povo americano; -nas ilhas Sandwich a immigração portugueza rivalisa em importancia com -a immigração ingleza; em Demerara constitue o fundo da população branca -trabalhadora. A alma celtica palpita ainda hoje nos nossos peitos, como -palpitaria então n’esse seculo XV, que foi o nosso seculo aureo, depois -das luctas homericas de Aljubarrota, quando o povo trasbordava de vida -e de enthusiasmo, prompto para todas as luctas, sazonado para todas as -aventuras. - -A dynastia reinante reflectia perfeitamente o estado da alma popular. -O rei era um bastardo, um filho do amor, e de um amor de D. Pedro, o -rei mais violento e mais apaixonado que nunca se sentou n’um throno! -O sangue borgonhez de seu pae cruzara-se com o sangue normando de sua -esposa, e d’ahi nascera aquelle grupo admiravel de principes robustos -e intelligentes, educados por sua mãe n’aquelle retiro sagrado das -principescas familias medievaes, n’esses quartos forrados de tapeçarias -de _haute-lice_, em que pareciam á noite, á luz vacillante das tochas, -tomar vida phantastica os heroes das scenas de cavallaria traçadas -nos pannos de raz, ouvindo os graves conselhos da mãe, pura, séria e -heroica, embalados com a poesia das canções de gesta e com as aventuras -dos romances de cavallaria, e, quando saíam do regaço materno, não vendo -em torno de si senão rostos energicos de homens como seu pae, como Nuno -Alvares, cuja vida inteira era um poema de heroismo, e que, ao viajarem -no seu reino, dirigiam quasi sempre os passos para a campina sagrada, -onde se estava erguendo sobre as columnatas esguias essa maravilhosa -abobada d’onde parecem chover os altos pensamentos, e o altar-mór onde -se accendia nas vidraças coloridas o sonho vago e radiante de uma visão -paradisiaca. - -Tal era o meio onde tinham forçosamente de brotar os grandes -emprehendimentos. Foi d’esse meio que saiu a expedição de Ceuta, que -não bastava para satisfazer a insaciavel cubiça de aventuras d’esses -principes, que não viam em torno de si senão homens em cuja alma as suas -aspirações encontravam echo ou estimulo. Assim D. Pedro foi pela Europa -fóra procurar emprego para a sua energia e para a sua cubiça de saber, D. -Fernando devaneou desde logo o proseguimento da conquista africana, D. -Henrique, estudioso e reflexivo, sonhou a conquista do mar. - -É difficil o desenho d’esta notabilissima figura. Levanta-se contra -ella agora uma campanha de improperios, em que os adversarios parecem -querer applicar ao juizo severo e imparcial da historia os processos das -campanhas jornalisticas das luctas contemporaneas. Tomou parte n’esta -campanha o sr. Theophilo Braga, e é pena que o fizesse, porque o livro em -que essas tendencias incidentemente apparecem é um dos mais notaveis que -se lhe devem, a _Historia da Universidade_.[52] Fez-se echo simplesmente -comtudo da maledicencia de um d’estes eruditos, que, descobrindo um -facto minusculo que pode attenuar a gloria de uma descoberta, ou achar -um ponto vulneravel no vulto de um heroe, vem triumphantemente para -a rua soltar o _Eureka_ de Archimedes, declarando _urbi et orbi_ que -vão demolir uma reputação firmada pelos seculos. Têem odios historicos -tão violentos estes biliosos da erudição como os podem ter contra um -poderoso adversario os mais fanaticos jacobinos da politica moderna. -São perigosos homens assim, e o historiador imparcial tem de afastal-os -serenamente como afasta os insultadores contemporaneos do insultado, que -entornam com delicias o fel das suas calumnias nas paginas que enviam á -posteridade. Seculos depois de desapparecer da face do mundo um homem -eminente, apparecem deturpadores vehementissimos, em cujo espirito a -vaidade de fazerem vingar um novo pensamento historico produz tão ruins -consequencias como as pôde produzir seculos antes o odio de um invejoso, -o despeito de um desprezado, ou a vingança de um vencido. - -Era por acaso o infante D. Henrique um impeccavel? Mais ainda: era um -vulto sympathico, affectuoso, altruista, um d’estes entes divinaes como -o Christo, cuja doce bondade irradia na Historia, que nos captiva quando -lêmos a sua Vida como devia captivar os que no seu tempo viveram, debaixo -do influxo magnetico da sua meiguice, da sua amoravel candura? Não, de -certo, e nem é esse infelizmente o caracteristico dos homens a quem se -devem os grandes emprehendimentos. É terrivel o homem _unius libri_, diz -o pensador antigo. Não o é menos o homem de um só pensamento e de uma só -ambição. Bondoso, quando se trata de attrahir os outros, de os enfeitiçar -e de os fazer escravos da sua idéa e instrumentos do seu plano; -absolutamente despido de toda a caridade e de todo o affecto quando o -instrumento deixa de servir, e quando o escravo pede em paga uma pouca -de dedicação e um pouco de sacrificio. Um dos homens mais captivadores -que tem havido foi Napoleão. Prendia, subjugava com o encanto da sua -apparente bondade, inspirava dedicações fanaticas, mas nunca foi bom para -os outros, nunca pensou na felicidade alheia. Entregue exclusivamente ao -seu pensamento ambicioso, á grandeza da sua idéa gigante, absorvia-se -todo n’ella, bastante habil para se não esquecer de captar aquelles de -que precisava, o exercito, o povo, os principes, o Papa, as mulheres, os -artistas, e incapaz de fazer um sacrificio a uma mulher, ou de ter dó de -um velho! Impede isso por acaso que a historia não deixe de reconhecer a -grandeza excepcional do seu genio e a obra maravilhosa que executou, e -que ainda está de pé, porque a verdade é que o organismo da França é hoje -ainda o que elle construiu, e portanto o organismo da Europa continental -tambem que por elle se modelou?[53] - -Ninguem pintou melhor o infante do que o sr. Oliveira Martins no seu -admiravel livro _Os filhos de D. João I_:[54] duro, sem bondade, asceta -do pensamento. E, se outra coisa fosse, poderia por acaso levar por -deante uma obra em que era indispensavel a energia, a perseverança e -a implacavel obstinação? Sympathicos são seus tres irmãos, D. Duarte, -D. Pedro e D. Fernando, que o coadjuvam, que o admiram, que a elle se -sacrificam. Mas D. Henrique é um solitario, como todos os que têem a -allucinação de uma missão divina. Todo se abraza na embriaguez do mar, -no sonho das vagas regiões longiquas, na procura da India, d’essa India -triplice e maravilhosa, que, depois do livro de Marco Polo, sobretudo, -toma as proporções phantasticas de uma d’essas cavernas das _Mil e Uma -Noites_, illuminadas pelas fulgurações das pedras preciosas, pelo fulvo -scintillar do oiro, pela nitida brancura da prata. Essa conquista do -mar quel-a toda para si e isso lhe lançam em rosto os seus modernos -detractores, como os bourbonicos lançavam em rosto a Napoleão não querer -ser logar-tenente de Luiz XVIII e os republicanos não se contentar com -o consulado electivo—queria-o para si e para a ordem de Christo que era -a sua guarda pretoriana. Auxilia-o D. Pedro nas suas investigações, -traz-lhe o fructo das suas viagens, auxilia-o D. Fernando na empreza de -Tanger, d’essa cidade maritima que elle cubiça como um ponto de partida -mais seguro para as suas expedições navaes; mas D. Fernando encontra -n’elle um debil auxiliar quando vem a grave questão do seu captiveiro, -D. Pedro, um indifferente, quasi um inimigo, na terrivel contenda em que -estão em jogo a sua vida e a sua honra; é que todas as faculdades da sua -alma estão concentradas na sua grande empreza. Mais do que o doge de -Veneza elle casou com a vaga atlantica. Deu-lhe todos os affectos e toda -a pureza da sua alma, as faculdades do seu espirito. Por ella captivou -com as suas promessas e com as suas seducções quantos estrangeiros o -podiam ajudar na sua empreza, por ella abstrahia de todas as ambições que -não fossem a de conquistar para si, para a historia, para a fé e para a -sciencia um immenso imperio ultramarino. É um monge militar isolado no -seu castello sobre o Oceano, como os primeiros mestres do Templo, seus -antecessores, nos seus castellos da Palestina. A sua Jerusalem é a Aryn -que elle procura ainda, talvez, no meio dos fogos da zona torrida, o -seu Santo Sepulchro é esse mar immenso, onde se sepulta o sol, e de que -elle affugenta, com a prôa das suas caravellas, como os Templarios os -Sarracenos com a ponta das suas lanças, os pavores da superstição, os -erros da sciencia e as illusões da fé. - -Que outros condemnem esse implacavel sonhador que fechou a sua alma aos -affectos humanos para todo se concentrar na paixão por um ideal que a -um tempo o illumina e o allucina! Que outros lamentem esse egoismo de -namorado, que o torna surdo para todas as supplicas e inaccessivel a -todas as dedicações, mas que nós Portuguezes lhe regateemos a gloria, -e lhe amesquinhemos o caracter, e lhe neguemos a indulgencia que a -fraca humanidade deve ter com os defeitos que acompanham fatalmente as -grandes qualidades, quando a esse egoismo sagrado, a essa perseverança -intransigente devemos o termos dado ao mundo a mais assombrosa conquista, -e termos conquistado para nós uma gloria que ainda hoje illumina as -nossas ruinas, e dá á nossa decadencia a purpura e o oiro de um pôr -de sol explendido, isso é o que se não comprehende, e o que se pode -considerar como uma das mais flagrantes injustiças e das mais negras -ingratidões que podem macular um povo. - - - - -VI - -Queda das barreiras da zona torrida e primeira exploração do Atlantico - - -Qual era o ponto de vista do infante, quando começou a dirigir para o -sul as expedições? Era simples: Eratosthenes déra á Africa a fórma de -um trapezio, sendo o lado septentrional banhado pelo Mediterraneo, o -oriental pelo Nilo, o meridional pelo mar desconhecido, o occidental pelo -Atlantico. Este lado era o mais pequeno. Pouco abaixo do estreito de -Gibraltar a costa voltava para SSE, e ia juntar-se com a costa oriental. -Era esta a doutrina geralmente admittida, e assim se representa a Africa -na maior parte dos mappas medievaes. Outros, porém, seguiam a doutrina de -Ptolomeu que prolongou a Africa, alargando-a na base: e então imaginavam -uma costa ficticia ao sul que ligava entre si a Africa Oriental e a -Occidental, mas parando em todo o caso para aquem do Equador, porque a -zona torrida era sempre considerada inhabitavel, e para além da zona -torrida ficava, segundo a theoria de Ptolomeu, a terra antichthona. - -Deu isso origem a que corresse a lenda do famoso mappa trazido pelo -infante D. Pedro de Veneza, e em que estava traçado o cabo da Boa -Esperança, e suppõe-se tambem que o estreito de Magalhães! A confusão é -curiosa. O mappa que deu logar a essa lenda é um mappa já posterior aos -primeiros descobrimentos dos Portuguezes, representa a Africa terminando -n’uma ponta a que dá o nome de cabo de Diab, mas esse cabo está separado -do continente africano por um estreito, onde havia, dizia a legenda, -a treva absoluta. Parecia que era esse canal a ultima reliquia, que -procurava sobreviver ainda, do mar Tenebroso. - -Parecia-se esse estreito com o estreito de Magalhães, e, da mesma fórma -que muitos confundiram a terra antichthona com a America, para lá lhe -passaram o imaginario canal do sul da Africa. - -Humboldt, que tão facilmente acceita o que pode redundar em nosso -desfavor, ao passo que regeita tudo o que possa redundar em desfavor -de Colombo, Humboldt, que não trata de saber se a Guiné a que chegou -Bethencourt é a Guiné que os Portuguezes descobriram depois, apesar -de acautellar os seus leitores contra os erros que podem resultar da -confusão de nomes identicos que se davam a regiões muito diversas, -tambem d’esta vez, reconhecendo que os mappas de Toscanelli, onde todos -dirão que se encontram as Antilhas descobertas por Colombo, são mappas -perfeitamente conjecturaes, não hesita em acceitar o mappa conjectural de -fra Mauro, em que vem o Cabo de Diab, como mappa baseado em conhecimentos -positivos.[55] - -E comtudo fra Mauro nas indicações que acompanham o seu mappa, feito -em 1454, é o primeiro a reconhecer os serviços dos Portuguezes, e a -declarar que d’estes recebeu muitos mappas, que lhe tinham servido para a -elaboração do seu. - -«Muitos pretenderam, diz elle, e grande numero escreveram que este -mar (o _Atlantico_) não pode ser _torneado_, nem navegado, nem ter -habitantes nas suas praias como a nossa zona temperada e habitada; _mas -é agora de toda a evidencia que se pode sustentar uma opinião contraria, -principalmente porque os Portuguezes que o rei de Portugal mandou a bordo -das suas caravellas para verificarem este facto, referiram, depois de -se terem certificado elles mesmos, que tinham explorado esse continente -pelo espaço de mais de duas mil milhas desde o sudoeste do estreito de -Gibraltar_, que em toda a parte os recifes da costa não são perigosos, -que as sondas são boas, que a navegação é facil, sendo as tempestades -mesmo pouco perigosas. Elles levantaram cartas d’estas regiões e deram -nomes aos rios, bahias, cabos e portos. Possúo um grande numero de -borrões ou esboços d’essas cartas».[56] - -Accrescenta elle, porém, _que nenhuma d’essas cartas resolvia a grande -questão de se saber-se se podia fazer a circumnavegação da Africa_! - -É fra Mauro que o diz, no proprio mappa, que prova, segundo Humboldt -imagina, que o cabo da Boa Esperança era conhecido mais de quarenta annos -antes de Bartholomeu Dias o dobrar! - -Não se vê porém que a emenda conjectural nos mappas antigos é aqui -evidente? Já estão os Portuguezes a duas mil milhas do estreito de -Gibraltar, e a costa africana não volta bruscamente para leste. Não é -bem natural suppor a probabilidade de terminar a Africa em ponta, visto -que a occidental se dirige para SE, como a oriental se dirige para SO? -Como o proprio Humboldt affirma e faz notar, depois dos descobrimentos -os cartographos não se limitavam a inseril-os, mas accrescentavam ás -regiões descobertas os seus complementos conjecturaes. E tanto assim -é que, ao lado do cabo em que a sua phantasia roçou pela verdade, poz -um estreito que não existia, que, depois de ter imaginado a Africa -torneavel, continúa a dizer que não sabe-se se poderá tornear, e que, -ao passo que fundamenta nas descobertas portuguezas a sua descripção da -Africa Occidental, nada diz de quaesquer viagens que tivessem podido -esclarecel-o ácerca da fórma que podia dar á Africa meridional! - -Nada ha mais estranho do que o que succede com os Portuguezes n’esta -questão dos descobrimentos. Quando elles os fazem, toda a Europa os -applaude, affluem a Portugal aventureiros que querem tomar parte nas -nossas expedições, e navegar nas nossas caravelas. Ninguem se lembra de -dizer que já sulcaram esses mares, ou que já foram a essas terras. Os -Normandos, longe de fallarem em pretenções suas, aconselham a quem queira -fazer expedições para esses lados que tome pilotos em Portugal, porque -aqui os encontra sabendo bem aquellas derrotas. Os papas concedem-nos o -dominio d’essas terras baseado nos direitos de primeiro occupante, os -reis de França e de Hespanha, tão ciosos das suas pretenções, reconhecem -esse direito sem a minima objecção e até castigam os seus subditos que -tentam violal-o, os navegadores de toda a Europa, _os taes que nos tinham -precedido_, o que fazem é tentar surrateiramente seguir-nos e apanhar aos -nossos pilotos, comprando-os muitas vezes, os segredos da derrota, os -cosmographos e os cartographos com os nossos viajantes mantêem relações -seguidas, e nas suas relações e nos seus mappas se baseiam para traçar o -que já está descoberto e para conjecturar o que não está; tão corrente é -na Europa a historia das navegações portuguezas que, estando ainda bem -fresca a memoria d’essas primeiras aventuras do mar, e tendo Colombo -residido nas ilhas descobertas pelos Portuguezes, allega, quando na sua -primeira viagem se quer guiar pelo vôo dos passaros, que foi assim que -os Portuguezes descobriram as suas ilhas,[57] e D. Henrique chama para -Sagres o cartographo malhorquino Jayme, e comtudo os seus escudeiros -ufanam-se de terem descoberto o Rio do Oiro, e com elles se regosija o -infante e se regosija o cartographo, sem que este se lembre de allegar -que já por um seu patricio, ou por um seu parente, ou por elle mesmo, -talvez, como chega a suppor o sr. D. Cesario Fernandez Duro, esse rio -fôra descoberto![58] E seculos depois é que apparecem as estultas -pretensões de se querer demolir essa gloria toda em proveito de um -desconhecido, mas baseadas em tão frivolos argumentos que bastou que o -visconde de Santarem passasse uma revista á cartographia da meia edade, -ás suas chronicas, aos seus documentos, aos seus tratados e aos seus -livros de sciencia, para que a inanidade de semelhantes affirmações se -apresentasse com uma evidencia esmagadora! - -Vão pois os navegadores portuguezes caminho da India que é desde o -principio o alvo dos seus esforços. Contam que, antes de chegar ao -Equador, voltarão para leste, e ha uma coisa só de que n’esse momento D. -Henrique duvida, é que o mar das Indias seja um mar mediterraneo. Se o -acreditasse, como bem diz Humboldt, não faria a tentativa. Antes, porém, -de se aventurarem para além do cabo Bojador, encontram Gonçalves Zarco e -Tristão Teixeira Porto Santo e a Madeira, Gonçalo Velho Cabral os Açores. - -Muitas vezes os pescadores portuguezes poderiam ter encontrado algumas -d’essas ilhas, e possivel era tambem que os nossos navios commandados -pelos pilotos genovezes que D. Diniz chamára a Portugal, tivessem -arribado a esses archipelagos. Eu mesmo já acceitei um pouco essas -doutrinas sustentadas por Major, e a que dava certa apparencia de verdade -o modo como Azurara conta o descobrimento. Fil-o, porém, antes de ter -estudado mais profundamente a cartographia da meia edade, antes de ter -visto como esses cartographos conheciam os phantasticos archipelagos do -Oceano Atlantico, e fixavam nos seus mappas as ilhas de S. Brandão, da -Antilia, das Almas, do Purgatorio, sonhadas pela imaginação celtica dos -povos occidentaes da Europa. Não navegaram os Portuguezes n’um Oceano que -imaginavam deserto, mas sim n’um Oceano onde as ilhas pullulavam. Quando -a alguma chegavam, não suppunham tel-a descoberto, mas tel-a simplesmente -encontrado. Depois de terem descoberto todas, ainda continuaram a -procural-as, e hoje mesmo ainda na Madeira se suppõe que a ilha das Sete -Cidades se tem conservado escondida, longe das estradas maritimas, por -traz de alguma dobra do ainda mysterioso Oceano. - -Essa ingenuidade portugueza, que serviu depois para os seus detractores, -manifesta-se tambem na exploração das costas africanas. Nenhum navegador -suppõe que chega a terra desconhecida. Todos imaginam que não fazem senão -encontrar terras cuja existencia não era ignorada pela sapientissima -antiguidade. Os nomes de Ptolomeu, de Strabão, de Eratosthenes, de -Plinio, de Pomponio Mela e de Solino continuam a ser nomes oraculares -para aquelles que estão demolindo o castello de cartas da sua vã e -ephemera sciencia. Marco Polo está sendo tambem um dos seus idolos. -Chegando ao Senegal julgam ter encontrado o Nilo dos Negros, porque estão -ainda convencidos da verdade da velha doutrina, que separa o Nilo em -dois grandes braços, um dos quaes se dirige para o Atlantico e o outro -para o Mediterraneo. O que os espanta e ao mesmo tempo os exalta é o não -encontrarem monstros, as ondas tenebrosas, os montes ardentes, toda a -guarda avançada da implacavel zona torrida. Para que primeiro arcassem -com esses receios foi necessaria toda a energia do infante D. Henrique, -mas a pouco e pouco foram-se familiarisando com esses mares que tão -terriveis se suppunham anteriormente, e eram elles que davam a fra Mauro -as informações tranquillisadoras que elle insere nas annotações ao seu -planispherio. - -No ponto de vista em que nós nos collocamos, e que suppomos ser -absolutamente verdadeiro, quer dizer desde o momento que sustentamos que -o serviço immorredouro que Portugal prestou á civilisação e á sciencia -foi o ter demolido a noção consagrada da zona torrida inhabitavel, e -que a prova de sobre-humana audacia que os Portuguezes déram foi a de -transpor sem hesitação os limites d’essa zona torrida, percebe-se que -nos seria completamente indifferente que se provasse que navegadores -estrangeiros tinham precedido os nossos nos mares que ficam para além -do Bojador. Isso não faria senão levar um pouco mais adeante o ponto de -partida das expedições portuguezas indubitavelmente gloriosissimas, e -cuja honra Humboldt confessa que nos cabe sem contestação, as expedições -á região equatorial.[59] Mas a verdade irrefragavel é que esse limite, -que os Portuguezes transpozeram, foi sem duvida alguma o cabo Bojador. -Como Humboldt nota, com perfeita razão, o horizonte geographico vae-se -alargando a pouco e pouco, e a verdade é que, uma vez ampliado, não se -estreita de novo. Para o lado do occidente os primeiros limites foram -os do mar Egeu, depois o do meridiano das Syrtes, depois o das columnas -de Hercules, depois para o norte o extremo meridiano da Europa, para o -sul o da costa africana.[60] Vemos que a mansão da felicidade suprema -acompanhou a ampliação d’esse horizonte, primeiro no Oasis do Egypto, -depois na Cyrenaica, depois na costa africana, a pequena distancia das -columnas de Hercules, depois nas Canarias. Não ha saltos n’este progresso -forçosamente methodico. Logo que se transpõe um limite maritimo a -navegação prosegue. - -Para o sul o cabo Não foi por muito tempo o limite, depois o Bojador. -Transpoz-se esse limite em 1433? logo affluiram a Portugal estrangeiros -curiosos d’essa novidade, e logo D. Henrique tratou de se assegurar -da posse das terras que vae descobrir. Depois da expedição de Antão -Gonçalves e de Nuno Tristão em 1441, vão embaixadores portuguezes ao papa -Eugenio IV a pedir-lhe as bullas necessarias, e já com Antão Gonçalves na -viagem immediata vae o allemão Balthazar, que vem da côrte do imperador -Frederico III correr estas novas aventuras.[61] E comtudo desde 1415 se -empenhava o infante em explorações maritimas, sem que reclamasse do Papa -quaesquer concessões, sem que os estrangeiros se interessassem por essas -tentativas infructiferas. Tudo muda de 1433 por deante. Porque? porque se -rompera evidentemente mais uma das barreiras que tinham successivamente -detido a marcha da humanidade, porque se tinham transposto mais algumas -das columnas que formavam o portico do mundo sobre o desconhecido, -columnas de Briareu primeiro, columnas de Hercules depois, estatuas das -ilhas Khalidat dos Arabes, emfim. - -Em 1436 chegou Affonso Gonçalves Baldaya ao Rio do Ouro, ou o que elle -suppunha que era um rio, e que não era afinal senão um braço de mar, -e, dando-lhe esse nome, conformou-se mais uma vez com o respeito pela -tradição antiga, que affirmava que para o lado das ilhas Afortunadas, -como dizia Pindaro nas suas Olympiadas, rios que conduziam ouro entravam -no Oceano.[62] Assim os Arabes davam o nome de rio do Ouro a muitos, -situados muito áquem do cabo Bojador, assim os Catalães chamavam rio -do Ouro a um rio que encontravam para além do cabo Não e proximo das -Canarias, tanto que no proprio mappa em que se affirma que Jayme -Ferrer procurara o rio do Ouro, o traçado da costa não vae além do -cabo Bojador.[63] Podia haver mais evidente prova de que o Rio do Ouro -catalão não é o Rio do Ouro portuguez? Não fallemos sequer em que o Rio -do Ouro de Jayme Ferrer é, como o descreve o manuscripto de Genova, com -que se pretende dar authenticidade ao facto,[64] um rio largo em que -podem fundear náus potentes, emquanto o Rio do Ouro de Affonso Gonçalves -Baldaya nem rio é sequer, e n’elle, segundo affirma o almirante Roussin -que o estudou hydrographicamente, só canôas podem entrar.[65] Basta -vermos que os mappas em que se baseia a pretenção, param no Bojador, como -no Bojador pararam os navegantes a quem depois se quiz attribuir a gloria -de o ter transposto. - -Em 1441 descobria Nuno Tristão o cabo Branco, em 1443 os ilheus de -Arguim, em 1445 acabava-se de descobrir a costa do Sahará e entrava-se -na costa da Senegambia, e n’este meio tempo entravam já em Portugal com -abundancia os escravos africanos. - -Nodoa é esta com que se pretende manchar a gloria dos nossos -descobrimentos, como se n’essa epocha em que os proprios brancos ainda -tinham, pode dizer-se, roxos os pulsos dos grilhões com que lh’os -algemára a servidão da gleba, n’essa epocha em que tinham escravos os -proprios mosteiros e as egrejas, se podesse ter ácerca da liberdade do -homem as idéas largas que, só uns poucos de seculos depois, e a muito -custo, se implantaram na legislação dos paizes mais cultos. E é curioso -que sabios escriptores accusem o infante de ter sido o responsavel pela -escravatura negra, como se não fosse tão facil ás virtuosas nações, cujo -credito elles defendem, eximir-se a seguir tão mau exemplo! como se ao -Papa, que representava a suprema lei moral da sociedade de então, não -coubesse o dever de conceder as terras, mas de prohibir os escravos! -como se não fosse evidente que o mesmo faria qualquer nação que nos -precedesse, e que o facto de não apparecerem escravos pretos na Normandia -no seculo XIV é mais uma prova contra as suas pretenções! E comtudo -a prioridade na escravisação das populações africanas essa é que os -Normandos podem reclamar sem contestação, porque, bastantes annos antes -de se venderem nas praças de Lagos os escravos da costa africana, já o -normando João de Bethencourt, rei das ilhas Canarias, vendêra na Hespanha -os seus subditos.[66] - -Mas o que dominava sobretudo no espirito de D. Henrique era a anciedade -da investigação scientifica e o ardor pela conquista dos grandes ideaes -religiosos da meia edade, e é isso o que faz com que o espirito do -infante só encontre depois na historia dos descobrimentos outro que -com elle se irmane—o de Christovam Colombo. Essa allucinação em que -ambos vivem é que os torna proprios para emprezas, que só com grande -perseverança se podem realizar, e essa perseverança só a encontra quem -tem um enthusiasmo absolutamente exclusivo. Quaes são as instrucções que -levam sempre os capitães dos navios de D. Henrique? Procurar identificar -os rios que descobrem com o Nilo dos Negros, que a geographia systematica -dos antigos considerava como um braço do grande rio egypcio que vinha -desemboccar no Atlantico. Julgam encontral-o ao ter chegado ao Senegal -como depois o imaginam ainda no Niger, e talvez no Zaire tambem. E -tão absortos estiveram por muito tempo os Portuguezes no seu respeito -cego pelo saber da antiguidade, que ainda foi um piloto portuguez no -seculo XVI que procurou commentar e explicar o Periplo de Hannon, sendo -o seu commentario na Italia de todos o mais apreciado.[67] No proprio -momento em que podiam justamente ufanar-se de sulcar mares nunca d’antes -navegados, ainda se escondiam modestamente por traz da sombra de Hannon, -o legendario navegador, que, tendo chegado a algumas leguas do estreito -de Gibraltar, imaginou logo ter percorrido um immenso espaço de agua![68] - -O outro desejo ardente do infante D. Henrique era encontrar as terras do -Prestes João, esse mytho medieval que tomou mil fórmas, apparecia nas -mais variadas terras, até que, ao condensar-se na realidade prosaica, -appareceu transformado n’aquelle pobre _negus_ da Abyssinia, symbolo -curioso da dissolução dos mythos, que no periodo poetico da humanidade se -revestem dos mais extraordinarios esplendores, e que nos frios annos da -prosa se reduzem ás mais chatas personalidades. - -O Prestes João fôra a prolongação pela edade média da lenda da primitiva -Egreja Oriental, que déra ao apostolo João, ao discipulo amado, ao -evangelista mais querido da imaginação popular, a perpetuidade da -existencia. Não acceitou a Egreja a lenda, mas ella permaneceu no -Oriente, modificada, fluctuante, desdobrando-se o personagem que é seu -protoganista, no apostolo e no presbytero.[69] Talvez porque n’uma das -epistolas, conhecidas pelo nome de João, o apostolo, por esse nome se -designa este _presbytero João_, que toma em parte o caracter do apostolo, -em parte o caracter de um discipulo do apostolo, torna-se, por assim -dizer, a gloria e o tormento da Egreja de Epheso; a gloria, porque essa -Egreja se ufana de lhe pertencer o personagem privilegiado que herdou do -venerado Mestre o amor e a predilecção do céu; o tormento, porque esse -personagem é vago, confuso, indefinido, mal visto pela Egreja em geral, e -fonte de possiveis heresias. - -Mas entretanto corria a edade média com a sua louca anciedade -pelo advento de um mundo melhor. Não se cumpriam as promessas do -christianismo. Não chegára o reinado da justiça. Na terra atormentada -por mil flagellos arrastava o homem uma existencia atribulada, calcado -aos pés pelos poderosos, faminto, presa a cada instante da peste e da -guerra implacavel e atroz. Não chegára a era millenaria, a era sublime -em que Jesus voltaria, e em que, rodeiado dos seus martyres, como de -uma legião sagrada da fé e do bem, reinaria sobre a terra até que ella -desapparecesse subvertida no cataclysmo final. - -O que nascia, pelo contrario, era a crença desanimadora ao anno Mil, -annunciado como o anno em que o mundo acabaria sem ter tido a consolação -suprema de vêr o reinado do Bem; mas o anno Mil passou sem trazer comsigo -o cataclysmo esperado. Seria afinal verdadeira a promessa do reino -millenario, do reino dos martyres, que o Apocalypse de João annunciou? -E a idéa d’aquelle Presbytero João, que vive a sua longa existencia nos -páramos do Oriente, testemunha millenaria do grande acto da Paixão, -fluctúa no animo dos povos. Não será em torno d’elle que se agruparão -os bons, os martyres, os fieis, e não será nas suas terras que estará -irradiando uma perpetua aurora, tranquilla, suave, toda misericordia e -paz, emquanto cá pelo Occidente parece que o sol se afoga todos os dias -n’um occaso sanguineo, n’um horizonte perpetuamente em braza, entre os -clamores dos miserandos que teem sêde de justiça e o tinir das espadas -gottejantes de sangue, o crepitar das chammas dos incendios e o rugido -dos mares e as gargalhadas da impiedade? E lá no Oriente, onde existe o -Paraizo, começa-se a devanear tambem a existencia de outro Paraizo mais -accessivel ao homem, se é que se não confundem n’um só Paraizo aquelle -de que o homem foi expulso, e o outro em que o homem ha de entrar, quando -lhe franquear a entrada o guarda a quem o confiaram Christo e o discipulo -amado. - -Essa lenda vaga, ou antes essa incerta aspiração, concretisou-se n’uma -d’essas obras anonymas em que o sentimento popular se manifesta, em que -os devaneios da sua alma são encorpados, desenvolvidos e ordenados por -um trovador ignorado, por um narrador mysterioso, que é afinal de contas -quem produz verdadeiramente a obra popular, que depois muitas vezes um -grande poeta aproveita para uma obra immortal. Assim se formou a lenda do -Prestes João com o seu reino de maravilhas, a do Judeu errante, a do dr. -Fausto, a de D. João Tenorio, e a de mil outros, que não tiveram outro -berço senão a redacção humilde e vulgar de um pobre sonhador ignorado, -que desapparece entre o povo, a quem se attribue a gloria da concepção, -e a obra do grande poeta que deu á lenda a fórma definitiva e litteraria -que a tornou immortal. O modo como esta lenda se formulou foi na redacção -de uma carta dirigida pelo Prestes João ao imperador de Roma e ao rei de -França e em que lhes contava as maravilhas do seu reino, onde os homens -viviam annos quasi infinitos, onde havia maravilhosas riquezas, onde os -animaes e as plantas tinham um tamanho descommunal, e onde reinava a -paz e a justiça.[70] O que deu origem talvez á carta, ou o que chamou -para esse vago personagem do _Presbyter Johannes_ ou _Prestre Jean_ ou -_Prestes João_ a attenção dos povos occidentaes, foi a vinda a Roma[71] -de um estranho personagem, que se dizia patriarcha das Indias, que da -Asia vinha effectivamente, e que dava noticia da existencia n’essas -remotas partes, ou na verdadeira India, ou na propria Tartaria, de -christãos convertidos por S. Thomé o apostolo, e que eram evidentemente -christãos da heresia nestoriana, christãos dos ritos syriacos, sacudidos -da Egreja Catholica, mas possuindo aquella tenacidade de resistencia, -que faz com que ainda hoje, em pleno regimen papal e catholico, tenham -na India os seus prelados e mantenham os seus ritos estes christãos -primitivos.[72] - -Assim parece effectivamente que devia ser: porque na carta do Prestes -João diz-se que «cada anno, _quando S. Thomé vinha prégar a quaresma no -seu reino_, elle fazia uma peregrinação ao tumulo do propheta Daniel, -com dez mil clerigos, outros tantos cavalleiros e duzentos elephantes, -que levam, não torres, mas castellos, para exorcismarem e combaterem os -dragões que espreitam a caravana na passagem».[73] A lenda do Prestes -João localisou-se por conseguinte na India, não, como seria natural, na -India verdadeira, mas na India ultima, quer dizer, no extremo Oriente -da Asia, onde todas as lendas se refugiavam, a India que ficava para -além dos limites das conquistas de Alexandre, e onde o proprio heroe -toma tambem um aspecto legendario, como se lhe bastasse tocar n’uma -região nevoenta para que o seu proprio vulto em nevoas se envolvesse. -Alexandre, já o dissemos, foi para a Europa medieval, como Virgilio, um -ente sobrenatural, meio pagão e meio christianisado posthumamente, meio -feiticeiro e meio conquistador. É elle, como dissemos tambem, que encerra -os povos de Gog e de Magog por traz da famosa muralha, é elle que na sua -carta a sua mãe Olympias, carta não menos apocrypha, é claro, do que a -do Prestes João, lhe diz que encontrou a arvore do sol e a arvore da -lua, e que lhes ouviu os oraculos.[74] É para além do Ganges tambem que -os geographos da meia edade imaginaram povos que se sustentam só com o -aroma das flores, lenda que vamos ainda encontrar em Camões. É no extremo -Oriente que está o Paraizo, e junto do Paraizo, note-se bem, o antro em -que S. Macario se escondeu para viver immerso em prece, depois de ter -tentado debalde penetrar na morada dos nossos primeiros avós, e foi ahi -que o encontraram _um seculo depois_, e sempre orando, tres monges gregos -que tinham ido a essas longinquas partes do mundo para tentarem tambem -ver o Paraizo de perto.[75] Avisados pelo exemplo de S. Macario, voltaram -os tres monges para traz, mas S. Macario lá ficou orando e atravessando, -absorto na prece, os seculos sem fim. - -Vê-se pois que aquelles ares do Paraizo espalhavam ainda nos seus -arredores umas fragrancias divinas. Parecia que da eternidade promettida -a Adão e Eva tinham ficado uns resquicios para os que do Paraizo se -approximassem; era para alli portanto que a imaginação popular levaria o -reino paradisiaco do Prestes João. - -Mas as viagens de Marco Polo vieram dar uma nova physionomia ao mytho -do Prestes João, approximando-o da realidade, tornando-o um personagem -curioso, mas não rodeiado d’aquelle immenso prestigio anterior. Ou -porque effectivamente, como sustenta o grande sinologo Pauthier, elle -encontrasse christãos nestorianos na Tartaria, na provincia a que Marco -Polo chama Tanduc, que Pauthier identifica com a provincia chineza de -Ta-Thung, e esse facto explica-o Pauthier pela entrada de nestorianos -persas na Mongolia ou no Thibet, onde teriam feito conversões, e onde -effectivamente o soberano chinez lhes permittiu que erigissem um templo, -ou porque, como sustentava Stanislas Julien, outro sinologo tambem -notavel, Marco Polo tivesse confundido com christãos os budhistas que -nas regiões que elle atravessava tinham uma das mais importantes sédes -da sua religião, e que ao ver a theocracia do Grão-Lama o imaginasse um -padre-rei christão, e o Prestes João por conseguinte, é certo que elle -declara ter encontrado christãos regidos por um padre, que descendia em -linha recta do Prestes João, que era o seu sexto descendente e que se -chamava Jorge.[76] D’elle diz João de Monte-Corvino que o conheceu e o -converteu á fé catholica, e Rubruquis tambem declara que na Tartaria -encontrou nestorianos que viviam debaixo das leis do Prestes João. - -Embora tudo o que se narrava nos livros de Marco Polo estivesse envolvido -nos véos do maravilhoso, é certo que esta semi-realisação do _Presbyter -Johannes_ estava longe de corresponder ao ideal que d’elle se formára. -O personagem legendario não encontrava positivamente n’um descendente -chamado Jorge, subdito do Grão-Khan e chefe de uma especie de tribu -nestoriana, uma encarnação satisfatoria. Continuou portanto a fluctuar -por todo o Oriente, e, como de certo havia noticia vaga da existencia de -um povo christão para os lados da Ethiopia, foi para esse lado que se -transferiu a localisação da lenda, pois que a India, na edade média, como -dissemos, abrangia, pode-se dizer, toda a Asia, parte da Ethiopia, e a -indeterminação da residencia do rei legendario caracterisava-se bem com a -denominação que se lhe dava de Prestes João _das Indias_. - -Não se imagine portanto que é simplesmente um rei christão perdido no -meio da onda musulmana e do paganismo que se procura, o que se procura -é o reino maravilhoso das lendas millenarias, é a terra estranha onde -tudo floresce com extraordinario viço, onde o oiro, a prata e as pedras -preciosas fulguram por todos os lados, onde se vive como que n’um -antecipado Paraizo. Procuram-n’o logo na Africa, ao pé de Marrocos,[77] -e não havia n’isso contradicção com o nome que se lhe conservava de -Prestes João das Indias, porque, segundo a antiga geographia systematica, -podia bem ser que a Ethiopia se ligasse com a Asia, e que já n’essas -terras ainda proximas de Marrocos principiasse o reino maravilhoso do -Prestes João. - -É essa anciosa curiosidade que domina no espirito dos Portuguezes, é ella -que os arroja aos grandes feitos, ás pertinazes investigações. Como das -investigações astrologicas com as quaes se procurava ler nas conjuncções -dos astros o segredo dos destinos humanos saía a astronomia, como nas -locubrações dos alchimistas se foram desvendando os segredos da chimica, -assim na procura ardente do reino do Prestes João se foi desvendando, -por tantos seculos escondido, o segredo da geographia africana, o da -sua fauna, da sua flora e da sua ethnologia. Logo n’uma das primeiras -viagens um audacioso portuguez, João Fernandes, se internou no sertão -africano, e por lá andou mezes inteiros, convivendo com os indigenas, -aprendendo a sua lingua, estudando os seus costumes.[78] Devia-lhe ter -corrido um calafrio nas veias quando abandonou os seus companheiros para -se immergir no desconhecido. Ia encontrar talvez os povos monstruosos da -tradição scientifica, os troglodytas, os himantopodas, os virgocosgigs, -e ao lado d’elles os dragões de terrivel aspecto e o basilisco de halito -pestifero, passeiando pelos mattos meio inflammados a sua estranha -corôa de horrifico soberano. Era perfeitamente um cavalleiro andante -que se arrojava a um mundo encantado, como esses heroes de novellas de -cavallaria que ousavam emprehender as mais incomprehensiveis façanhas. -Mas tudo elle ousava para conseguir chegar emfim ás terras paradisiacas -em que o Prestes João reinava, e, quando elle voltou, depois de longos -mezes, não trazia noticias nem de monstros horrendos, nem de reinos -maravilhosos, mas trazia, o que valia mais que tudo isso, o conhecimento -exacto da Africa interior, a revelação para a sciencia de um mundo -ignorado, de arvores soberbas, que não eram a phantastica _mandragora_, -mas o baobah agigantado e verdadeiro. Supprimia a flora sobrenatural, -mas ampliava os dominios da flora verdadeira; acabava com a fauna -phantastica, mas alargava os dominios da zoologia verdadeiramente -scientifica. E, da mesma fórma que os alchimistas, ao procurarem nas -suas longas vigilias a pedra philosophal, encontravam o segredo das -combinações chimicas, assim estes audazes alchimistas do Oceano, ao -procurarem o Prestes João, que era a pedra philosophal dos sonhos -geographicos da meia idade, encontravam um mundo inteiro, que valeu mais -para a riqueza scientifica e para a opulencia do commercio do que todos -os reinos fabulosos banhados por phantasticos Pactolos e scintillantes de -oiro e de pedraria. - -Quando o infante D. Henrique morreu, já os Portuguezes tinham conhecido -o cabo Branco e o cabo Roxo, e o cabo Verde e as ilhas que d’este cabo -tomaram o nome, e os rios Senegal e o Gambia e o Casamansa. Os terrores -da zona torrida tinham desapparecido, posto que se não tivesse chegado -ainda ao Equador, mas era evidente já que o mundo não alterava o seu -aspecto com a approximação da equinoxial, e que os monstros não existiam -senão na imaginação dos geographos, que se não encontrava senão a -variante negra da raça humana, e que os novos passaros que appareciam, -depois classificados pelos zoologos como _remora_, _phenicoptero_, -_bucerus_ _africano_ ou _pristis_, enriqueciam as collecções -ornithologicas, mas não a teratologia. E estas conquistas positivas -deviam-se ao enthusiasmo e á sede do ideal. Nada se faz grande no mundo -sem esse grão de loucura, que desequilibra um pouco o genio dos grandes -poetas e dos grandes descobridores. A pedra philosophal transmuda deveras -o cobre vil em oiro, porque é ella, como symbolo de todos os ideaes -phantasticos, que faz da quebradiça argila de que se formou o homem o -bronze em que se fundem os ousados pensamentos, que transforma no oiro -das grandes almas o minerio banal dos espiritos vulgares. - -E era exactamente o que havia de estranho e de louco nas expedições -portuguezas que chamou para aqui os aventureiros e os ousados. Os -Venezianos como Cadamosto, os Genovezes como Usodimare, vem aqui -buscar simplesmente emprego para a sua actividade de marinheiros; os -Malhorquinos como Jayme de Malhorca vem para um centro de actividade -scientifica, mas esse Valarte que vem do fundo do Norte, das remotas -regiões da Suecia, vem em demanda do ideal, esse loiro Scandinavo, que -traz no olhar o azul dos seus lagos e no rosto a candidez das suas neves, -vem procurar a estas regiões de aventura a barca dos cysnes dos Eddas -que o ha de levar atravez dos mares da lenda ás regiões dos sonhos. Para -esses e para muitos outros Portuguezes, como o velho Soeiro da Costa, -como esse Alvaro de Freitas que tanto acaricia a idéa de ver de perto -o Paraizo terreal,[79] é um romance de cavallaria que se está pondo em -acção na patria de _Amadis de Gaula_. São os Templarios resuscitados -que investem com o mar como os Templarios antigos com as ondas dos -sarracenos, e o manto branco da ordem de Christo que fluctua ao sopro do -vento, e a bandeira com a cruz vermelha que palpita na popa das caravelas -com os bafejos do Oceano são os ultimos symbolos d’esse idealismo da -idade média cavalheiresca que vae dissolver-se na epocha burgueza que -já apparece no horizonte dos tempos. E esse rijo cavalleiro, ascetico, -tenaz, que do alto do promontorio de Sagres lança os seus legionarios á -conquista do desconhecido, ao cair prostrado pela morte, sem ter ainda -encontrado o edeal que lhe absorvera a existencia, desapparece da scena -do mundo, deixando resolvido um dos grandes problemas da existencia -humana na terra, no mesmo momento em que outro cavalleiro andante, esse -deveras o ultimo, Christovão Colombo, o Genovez, já vagueia, sonhador e -pensativo, nas praias do Mediterraneo, escutando esse rumor de gloria e -de aventura que vem do Occidente, e revolvendo na imaginação juvenil a -solução de outro problema geographico, que ainda ficava em aberto, e que -ia dar ao homem emfim a Terra inteira por dominio. - - - - -VII - -Preludios açorianos e madeirenses do descobrimento da America - - -Emquanto os Portuguezes proseguiam intrepidamente para o sul no caminho -da zona torrida o que se fazia para o Occidente? Era possivel, era -natural, que a descoberta do Porto Santo, da Madeira e dos Açores -satisfizesse completamente a curiosidade portugueza? Os que defendem as -duas versões ácerca do descobrimento dos dois archipelagos commettem -uns e outros um erro capital; uns suppondo que os Portuguezes não -os encontraram senão porque antes d’elles lá tinham aportado outros -navegadores, de cujas informações os nossos se aproveitaram, os outros -imaginando que antes das descobertas portuguezas se considerava como -completamente vasia de ilhas a vasta extensão do Atlantico. Descobertas -positivas não as podia ter havido, porque ás terras que podessem ter-se -descoberto aconteceria o que succedeu ás Canarias, que logo foram -cubiçadas e disputadas. O que havia era o sonho celtico das ilhas -mysteriosas no seio do Atlantico, e em busca d’esse sonho quantos navios -teriam corrido, sem que das suas tripulações voltasse ás costas européas -nem sequer o cadaver do cão da frota legendaria de Brékan. Mas essas -ilhas phantásticas estavam profundamente radicadas no animo dos homens -da edade média, e a ilha de S. Brandam tinha para elles existencia tão -real como o reino mysterioso do Prestes João. Ah! quem a encontrasse, -quem arribasse a uma ilha qualquer no meio da vastidão dos mares, como -voltaria contente e triumphante do seu achado, doido de alegria por ter -conseguido emfim fixar n’um ponto do Oceano alguma d’essas ilhas que -fluctuavam no mar da lenda, filhas da miragem do mar como da miragem do -sonho; ilhas phantasticas como o navio phantasma da lenda hollandeza, que -todos suppunham avistar ao longe, recortando na tela de oiro e purpura do -horizonte o fino perfil das suas arvores, ou a ondulosa curva das suas -montanhas! - -Deserto o Oceano? Não. Estava povoado, pelo contrario, de muito mais -ilhas do que as que se encontraram! E quando o infante D. Henrique mandou -os seus navegantes procural-as, é porque tinha a convicção profunda de -que existiam, e os seus audazes marinheiros o que julgavam era seguir o -sulco espumoso do barco do santo irlandez, como quando seguiam, segundo -a phrase de Colombo, o vôo das aves que os conduziam a terra, cuidavam -seguir talvez, alados mensageiros celestes que os conduziam ás ilhas de -promissão, ou pelo contrario demonios encarnados em passaros, que os -arrastavam ás ilhas infernaes. - -Os que trazem com ufania, como uma conquista para a historia, a lenda da -ilha da Madeira descoberta antes de Zarco, ou a dos Açores antes de Velho -Cabral, partem da errada supposição de que esses ignotos descobridores -deram grande novidade aos Portuguezes dizendo-lhes que havia ilhas no -Oceano! Bem convencidos estavam d’isso, mas a questão era encontral-as. -Feliz o paiz que as descobrisse! Não as largava facilmente! A posse -tranquilla e indisputada da Madeira e dos Açores prova bem que ninguem -punha em duvida o direito de prioridade que os Portuguezes se arrogavam. - -O que faziam porém os colonos d’essas novas ilhas, tudo gente marinheira -e aventurosa, que não ficava socegada no pequeno pedaço de terra em que -se achava confinada? N’elles se condensava, pela sua posição especial, -pelo espirito mais aventuroso que a essas ilhas os levou, a tendencia -emigrante dos Portuguezes. Não é essa tendencia a que ainda hoje -domina nos habitantes d’essas ilhas? Não foram sempre os Madeirenses e -os Açorianos os que predominaram na colonisação portugueza? Não foram -elles, sobretudo, que fizeram o Brazil colonial? Não são os Açorianos -quasi exclusivamente os Portuguezes que vamos encontrar na America do -Norte, em Boston, e até na California, e, o que é mais estranho ainda, á -beira da rede dos lagos que separam os Estados Unidos do Canadá, sendo -tão numerosa a colonia portugueza de Erié, que alli se publica um jornal -portuguez, chamado o _Erié_ tambem? Não são os Madeirenses que nós -vamos encontrar em Demerara, nas ilhas Sandwich, e que estão formando, -em Angola, o nucleo das colonias do plan’alto de Mossamedes? E se isto -acontece hoje, no nosso periodo de decadencia, de repouso, quando esse -instincto emigrante é perfeitamente atavico—não era bem natural que -acontecesse de um modo muito mais independente n’esse periodo de vigor e -de febre descobridora, e quando os que habitavam a Madeira e os Açores -não eram os que lá tinham nascido, mas sim os proprios que as tinham -descoberto, ou os que primeiro, idos de Portugal, as tinham colonisado? - -Na descoberta africana logo encontramos os Madeirenses. Entre os -mais audaciosos descobridores conta-se Alvaro Fernandes, sobrinho de -João Gonçalves Zarco, e com elle o seu companheiro de seu tio no -descobrimento do archipelago, Tristão Vaz Teixeira.[80] - -E acabemos por uma vez com a accusação que se nos fez de que nos -limitámos a uma navegação costeira, e de que receiavamos sair para o mar -alto! Como se pode dizer isso de um povo, cujos primeiros descobrimentos -exactamente no mar alto é que se fazem, cujos _coups d’essai_ são as -viagens em que encontram a Madeira e sobretudo os Açores, cercados de um -mar tempestuoso e terrivel, ainda hoje considerado como o de mais aspera -educação para o marinheiro, e que estão mais avançados para o occidente -do que a propria Islandia, essa _ultima Thule_, onde parou por tanto -tempo amedrontada a navegação antiga? - -Mas, percebe-se bem que, desde o momento que o fito das viagens -portuguezas era chegar á India torneando a Africa, desde o momento que a -geographia systematica dos antigos lhes dizia que logo abaixo de Marrocos -principiava a Ethiopia, e que a costa logo fazia uma inflexão para léste; -era essa volta da costa que elles sobretudo procuravam encontrar, e -decerto não a encontravam abandonando a costa. E, comtudo, quantas vezes, -fatigados d’essa investigação inutil, soltavam os nossos navegadores -as velas ás brizas do Oceano, e percorriam de um vôo um grande espaço, -chegando a um ponto muito adiantado da Africa e tendo depois de voltar -atraz para explorar miudamente o trato de costa que tinham deixado em -branco![81] - -Navegadores do seculo XV não podiam positivamente achar-se confinados nos -estreitos limites de umas ilhas perdidas no meio do Oceano, sem terem a -tentação irresistivel de sondar esse mar mysterioso, sobretudo quando a -lenda confirmada pela sciencia conjectural d’esse tempo lhes fallava de -ilhas maravilhosas a que não tinham chegado ainda, e quando as vagas do -Oceano lhes traziam a cada instante a prova evidentissima de que para -além d’esse horizonte branqueado pela espuma das vagas distantes, havia -terras, terras habitadas, terras cobertas de vegetação. Sobretudo nos -Açores os documentos multiplicavam-se e as tentações eram mais fortes. As -ilhas não se apinhavam n’um só grupo como Madeira e Porto Santo. Havia -ilhas destacadas como as vedetas d’essa guarda avançada da civilisação -europea. Ainda se perceberia que taes tentativas se não fizessem, se -não se houvesse chegado á ilha das Flores e á ilha do Corvo. Podia-se -comprehender então que, satisfeitos com as ilhas paradisiacas que tinham -encontrado, como a deleitosa S. Miguel, ou a fertilissima Terceira, se -tivessem deixado ficar n’um ocio de Capua, sentimento aliás bem pouco -natural em açorianos, e em açorianos d’esse tempo. Mas a descoberta do -Corvo e da ilha das Flores mostram claramente que se não acalmára a sua -irrequieta actividade, e que o Oceano continuava a ser sondado por esses -audazes marinheiros, que são hoje accusados de não ousarem arriscar-se ás -aventuras do alto mar! - -«A Islandia, os Açores, e as Canarias, diz Humboldt, são os pontos de -paragem que mais importante papel representaram na historia d’estas -descobertas e da civilisação, quer dizer na série dos meios que os povos -do Occidente empregaram para estender a esphera da sua actividade e -para entrar em relação com as partes do mundo que lhes tinham ficado -desconhecidas.» Em nota accrescenta Humboldt: «Ha da extremidade -septentrional da Escocia á Islandia 162 leguas marinhas; da Islandia -á extremidade sudoeste da Groenlandia 240 leguas; d’esta extremidade -ás costas do Lavrador 140 leguas; á embocadura do S. Lourenço 260; -da Islandia directamente ao Lavrador 380 leguas. _Ha de Portugal -(embocadura do Tejo) aos Açores (S. Miguel) 247 leguas_; dos Açores -(Corvo) á Nova Escocia 412 leguas!»[82] É isto o que explica de um -modo bem positivo como foi que os intrépidos marinheiros da Islandia -poderam encontrar a America, e não a poderam encontrar os não menos -intrépidos marinheiros dos Açores. É isto o que responde, de um modo -bem cathegorico, tambem, aos que dizem que os Portuguezes não largavam -as costas. Um povo que nas suas primeiras viagens percorria 247 leguas -maritimas para encontrar um ponto perdido no meio do Oceano, e que -o fixava, e que n’essas ilhas ou proximas ou distantes estabelecia -colonias regulares e em constante communicação com a metropole, era -um povo que se encontrava bem mais apto do que outro qualquer para as -grandes navegações maritimas, era um povo que os pavores do Oceano não -obrigariam a desistir de tentar novas emprezas. Ah! se a Providencia, -em vez de ter agrupado os Açores n’um só ponto, destacando apenas como -sentinellas avançadas as Flores e o Corvo, as tivesse disseminado por -toda a extensão do Atlantico, fazendo de todas ellas os marcos milliarios -d’esse vasto percurso maritimo, como foram as Orcades, as Feroé, a -Islandia e a Groenlandia para o continente norte-americano, seria talvez -Colombo, mas Colombo em navios portuguezes, que teria realizado a -empreza que de tão justa gloria rodeiou o seu nome. Mas razão tem de -sobra o nosso illustre patricio, o eminente escriptor Ernesto do Canto, -quando diz: «Foi certamente com a pratica da navegação para os Açores -que os pilotos portuguezes se aperfeiçoaram nos processos de observar os -astros para d’essas observações deduzirem a sua posição nas solidões do -Oceano ou das terras que demandavam. Sem esta escola todo o progresso -seria lento. A existencia e o achado do archipelago açoriano foi pois a -causa determinante das posteriores e importantes descobertas do seculo -XV.»[83] E razão tem ainda quando encima o capitulo IV da sua obra com -esta affirmação justiceira: «Os Açores foram um posto avançado para -a descoberta da America e um fóco de irradiação para as explorações -maritimas.»[84] - -Como podiam os açorianos pois desprender a sua attenção d’essas terras do -occidente se ellas a cada instante se faziam lembradas, arrojando-lhes -troncos de arvore, pedaços de madeira lavrada, canoas e até cadaveres de -homens de estranha physionomia?[85] Era o que succedia tambem na Irlanda, -e o que tambem incitava os Irlandezes a procurar essas mysteriosas -terras. Note-se, porém, que as circumstancias eram um pouco differentes. -O genio aventuroso e emigrante dos celtas da Irlanda podia-os levar, e -levava-os effectivamente, a navegar para os lados occidentaes; em todo o -caso os Irlandezes estavam na sua patria e na sua casa, viviam na terra -em que tinham nascido, prendiam-se ao solo por estas mil raizes tenues e -poderosissimas que reagem insensivelmente contra o espirito de aventura, -emquanto que esses primeiros colonos dos Açores, transplantados do solo -natal, arrastados alli pelo desejo de tentar fortuna, achavam-se já -elles proprios em plena aventura, estavam fundeados no meio do Oceano, -e emquanto esse navio, porque até as agitações vulcanicas das ilhas -faziam com que o solo lhes palpitasse debaixo dos pés como a tolda de uma -embarcação, se não tornava para elles uma nova patria, estavam promptos -sempre a saltar para as lanchas e a ir demandar nova poisada. Succedia um -pouco a mesma coisa aos Madeirenses, mas esses, mais proximos da Africa, -menos mettidos pelo Oceano, para a Africa, que era a grande e exclusiva -preoccupação portugueza, voltavam naturalmente a attenção e os esforços. -Os Açorianos, destacados perfeitamente do grande corpo de exercito, fóra -da corrente das navegações methodicas que o infante D. Henrique dirigia, -para o occidente e só para o occidente deixaram voar as suas aspirações. - -É a prova d’isso que nós encontramos no proprio Herrera quando dá -conta das revelações que incitaram Colombo a intentar a sua empreza. -Foi a narrativa do piloto açoriano Martim Vicente, que, navegando a -450 leguas da costa de S. Vicente, encontrou boiando nas aguas um -pedaço de madeira lavrada; foi a dos mareantes, que, saindo do Fayal, -correram 150 leguas ao occidente, e que, voltando, encontraram a ilha -das Flores. E, como n’um escripto publicado ultimamente na _Illustracion -española y americana_ se tratava com desdem este facto, alcunhado -até de phantastico, paremos um instante para mostrar a sua perfeita -authenticidade. - -Foi Herrera que escreveu o seguinte: «Uno llamado Diogo de Tiene -(_Teive_), cuyo piloto Diego Velasques vezino de Palos, afirmó a Don -Christoval Colon, en el monasterio de Santa Maria de la Rabida, que se -perdieron de la isla del Fayal, y que anduvieron cento y cincuenta leguas -por el viento Leveche, que es el Sudueste; y que á la buelta descobriron -la isla de las Flores, guiandose por muchas aves que vian boiar házia -allá, las quales conocieron que non eran marinas.»[86] - -Lembram-se os leitores de que o proprio Christovam Colombo, no seu -_Itinerario_, quando diz os motivos porque mudou em certa altura o rumo -da sua viagem, refere que o principal foi o exemplo dos Portuguezes, que, -seguindo o vôo das aves, tinham descoberto as suas ilhas. - -Mas temos mais, temos o documento authentico que mostra que foi -effectivamente esse Diogo de Teive que descobriu a ilha das Flores. É a -carta de doação da ilha das Flores a Fernão Telles, feita por D. Affonso -V em Estremoz a 28 de janeiro de 1475, e onde diz: - -«Outrosim nos praz e queremos que o dito Fernão Telles tenha e haja e -assim seus successores as ilhas que chamam das Flores _que pouco ha que -achára Diogo de Teive e João de Teive seu filho_, e elle dito Fernão -Telles ora houve por um contracto que fez com o dito João de Teive, filho -do dito Diogo de Teive que as ditas ilhas achou e tinha, e isto n’aquella -forma com aquellas condições e maneira que as elle houve do dito João -de Teive e que ficaram por morte do dito seu pai e no dito contracto é -contheúdo.»[87] - -Mas os documentos não faltam para provar a actividade febril com que os -Açorianos se arrojavam ao mar Oceano. N’essa mesma carta de doação se -vê que Fernão Telles era um dos exploradores ou dos emprezarios d’essas -explorações: - -«A nós praz, diz El-Rei, que indo elle ou mandando seus navios ou homens -nas partes do mar Oceano ou alguem que por seu mandado a isso vá, lhe -fazemos mercê, pura e irrevogavel doação para todo o sempre, como logo -de feito fazemos, de quaesquer ilhas que elle achar ou aquelles a que as -elle mandar buscar novamente e escolher para as haver de mandar povoar, -não sendo pois as taes ilhas nas partes de Guiné.»[88] - -Felizmente os documentos publicados pelo sr. Ernesto do Canto lançam -vivissima luz n’este periodo preparatorio do descobrimento da America, -e explicam com uma clareza perfeita as questões relativas a Colombo e a -Portugal. Assim vemos primeiramente que os Açorianos e os Madeirenses -não deixam de procurar terras para o occidente, e que tratam de obter -do governo as concessões necessarias para que das suas conquistas e -descobertas tirem a utilidade que desejam; segundo que os reis se -mostram prodigos em fazer a esses exploradores todas as concessões -desejadas, comtanto que do real thesouro não tenham de gastar nem mealha, -e que esses exploradores por conta propria não vão entender com os -descobrimentos para o lado da Guiné, que esses reservam-n’os para si ou -para a ordem de Christo os soberanos portuguezes. E tão arraigado estava -no espirito dos soberanos o desdem pelas viagens occidentaes que, ainda -depois de descoberta a America, o proprio Gaspar Côrte-Real fez a viagem -em que descobriu a Terra-Nova completamente á sua custa. - -Vejamos então a fórmula das concessões dos reis: - -Temos em primeiro logar a concessão feita a 21 de junho de 1473 a Ruy -Gonçalves da Camara, filho segundo de João Gonçalves Zarco, o qual manda -dizer a el-rei, segundo na carta se diz, «como o seu desejo e voomtade -era buscar nas partes do mar ouciano huumas ylhas para as aver de povorar -e aproveytar». E o rei declara-lhe que «de huma ilha que elle perssy ou -seos navyos achar, com outorga e prazer do principe meu sobre todos muyto -prezado e amado filho, pura e yrrevogavell doaçom valledoyra amtre vivos, -jure erdatore pera elle e todos seus erdeyros que delle decemderem assy e -tam compridamente como ella a noos perteemce e de dereyto pertemcer deva -e esto com todollos foros dereytos e trebutos em ella em qualquer tempo -a nos poderiam perteemcer despoys que povoada seja sem acerqua de nos -ficar cousa algua. E como sse começar a povoar logo lhe fazemos mercee -de toda a jurdiçom civell e crime mero misto ymperoi em todallas pesoas -que em ella morarem e a povoarem ressalvando somente pera nos alçada -de morte ou talhamento de membros nos feitos crimes porquanto queremos -e nos praz que em todo o all assy civel como crime elle aja todo sem -superioridade algua. E per os homens teerem mays rezom de a hyrem povoar -a nos praz que todollos vezinhos e moradores em a dita ylha ajam todollos -privillegios liberdades e framquezas que per nos e nossos antecessores -sam dados e concedidos e outorgados aos vezinhos e moradores da ylha -da Madeira que ora he do dito duque meu muyto prezado e amado sobrinho -dos quaes queremos que gouvam os vizinhos e moradores em ella fazendo -certo dos privilegios da dyta ylha da Madeyra e pruvica escriptura. E -per esta presemte damos licença e logar ao dito Ruy Gonçalvez a que assy -fazemos mercee da dita ylha que possa dar forall aos que a ella forem -morar e a povoarem. O qual forall que lhe elle assy der queremos que seja -firme e valha como sse per nos lhe fosse dado e outorgado e per elle -sejam obrigados todos aos juizes, e justiças, officiaes e pessoas fazer -comstranger os moradores e povoadores della como os comstramgeriamos per -lex e ordenações nossas que per assi teer pera ello nossa autoridade, nom -menos vigor deve a teer aver como se per nos fosse fecto».[89] - -Vimos que a carta de doação a Fernão Telles tambem lhe confere a posse -das ilhas que descobrir, mas logo em seguida a essa carta vem outra de -10 de novembro de 1475, em que se dão umas explicações bem proprias -para esclarecer as navegações d’esse tempo, e destruir completamente -as mesquinhas duvidas postas ácerca da prioridade dos descobrimentos -portuguezes no Atlantico por extrangeiros que só muito superficialmente -estudaram a historia portugueza. Na carta de 28 de janeiro não se falava -senão em ilhas que Fernão Telles mandasse povoar, e então o rei explica: -«E poderia ser que em elle as assi mandamdo buscar _seus navios ou jente -achariam as sete cidades ou alguuas outras ilhas poboadas que ao presemte -nom som navegadas, nem achadas, nem trautadas per meus naturaaes_ e se -poderia dizer que a mercee que lhe assi tenho fecto nom se deve a ellas -estender per assi serem poboadas.»[90] - -E declara então que a mercê tambem a essas se estende e que dá a Fernão -Telles sobre os habitantes d’essas ilhas os mesmos direitos que lhe -concede sobre os povoadores que elle mandar para as ilhas desertas. - -O que se vê d’aqui? Vê-se que os Portuguezes procuravam muito -ingenuamente no Oceano as ilhas que a phantasia dos cartographos -estampava nos mappas, que tinham viva crença na existencia verdadeira da -ilha das Sete Cidades e na ilha de S. Brandão, e da Mayda e da Mão de -Satanaz, da Antilha e da ilha do Brazil, e em todas as que nos mappas -appareciam, filhas das conjecturas da geographia medieval ou antiga, -e, se effectivamente as encontrassem, longe de quererem fazer suppor -ao mundo que tinham encontrado terras cuja existencia era de todos -desconhecida, se ufanariam de ter achado o que no mappa se designava, e -a descoberta das ilhas desertas e vulcanicas dos Açores, e da propria -ilha da Madeira toda coberta de bosques não era para elles senão um -desapontamento, porque as ilhas que elles cubiçavam, as ilhas celebres, -as ilhas dos mappas, essas fugiam-lhes constantemente das mãos. - -Que espanto seria o d’esses navegadores, e dos seus contemporaneos se -podessem ter conhecimento das duvidas modernas! Como achariam extranho -que se lhes dissesse que só encontraram os Açores, porque a posição dos -Açores estava indicada nos mappas, quando elles levaram annos a passar de -umas para as outras ilhas que teriam n’uma só viagem encontrado se fosse -pelos taes mappas que se guiassem![91] e como o infante D. Henrique -ficaria surprehendido ao ver Humboldt encontrar a prova do conhecimento -anterior dos Açores no facto d’elle ter dito a Gonçalo Velho Cabral, -depois da descoberta das Formigas, que voltasse porque havia de encontrar -nas suas proximidades uma ilha! muitas ilhas era o que deveria dizer-lhe, -visto que o mappa lhe dava um archipelago. Como se espantaria de que um -homem de sciencia como Humboldt não percebesse que o descobrimento de uns -recifes como as Formigas com muita probabilidade indicava a proximidade -de terra! Mas o grande espirito do sabio allemão estava evidentemente -coberto com a nuvem do preconceito. - -Assim vemos que o sonho das terras para o occidente e o sonho das -ilhas do mar Oceano provocou a mente dos açorianos e dos madeirenses -a arrojar-se ás perigosas aventuras. O rei facultava aos aventureiros -tudo o que elles podiam desejar, menos dinheiro. A Guiné e o caminho -para a India por esse lado eram a preoccupação constante do governo -portuguez, que em todas as cartas estabelece bem o principio de que -elle faz todas essas concessões, comtanto que as ilhas descobertas não -fiquem nos mares da Guiné. Basta a leitura d’estas cartas para que se -veja a impossibilidade do legendario descobrimento da Terra Nova por João -Vaz Côrte Real, com que se tem procurado attenuar a gloria de Colombo. -Percebe-se logo que o governo portuguez não podia dar a capitania da ilha -Terceira em recompensa a quem descobrisse a Terra Nova, quando o que elle -promettia aos descobridores era simplesmente a capitania das terras que -descobrissem como fizera com a ilha da Madeira. E seria singular tambem -que o descobridor de uma nova ilha, em vez de receber a capitania d’essa -ilha e de a povoar e aproveitar, a abandonasse completamente e recebesse -como premio d’esse descobrimento inutil a capitania de uma ilha já -povoada e aproveitada, isto quando em 1473 o rei D. Affonso V, deferindo -o requerimento de Ruy Gonçalves da Camara, dizia: «E visto per nos sseu -requerimento e por que a nos perteemce primcipalmente as cousas desertas -e nom aproveytadas fazer povoar e aproveytar pelo carrego que per deos -nos he dado emquamto per sua graça tinhamos o regimento destes rregnos e -senhorios que teemos». - -Veremos no capitulo immediato como era absurdo que o rei fizesse a -Toscanelli perguntas ácerca do problema do occidente no mesmo anno em -que João Vaz Côrte Real lh’o resolvia quasi, e como é mais absurdo ainda -que D. João II, rei habilissimo e zeloso do seu dominio, estabelecesse -no tratado de Tordesillas um artigo transitorio que sacrificava, sem -uma palavra de cedencia ao menos, terra descoberta por Portuguezes; -agora mostraremos apenas que tudo é falso no que se allega com relação -ao descobrimento de João Vaz Côrte Real. A falta de seriedade historica -do auctor da _Historia Insulana_, Antonio Cordeiro, não deixára de -impressionar os que mais se interessavam por essa reinvidicação -portugueza, mas reanimava-os um pouco o verem que a noticia já Antonio -Cordeiro a encontrára em Gaspar Fructuoso, auctor das _Saudades da -terra_; mas Gaspar Fructuoso pertence tambem ao grupo d’aquelles -historiadores que entendem que são licitas as mentiras quando d’ellas -pode resultar a glorificação de um paiz, principio leviano contra o qual -protestamos quando Villaut de Bellefond o aproveita contra nós e em -beneficio da Normandia, mas que nos parece bem quando redunda em nosso -favor. Gaspar Fructuoso, apesar de ter um merito superior ao do seu -desastrado copista que outra coisa não é Antonio Cordeiro, não deixa de -ser um auctor que acceita todas as lendas quando as reputa honrosas para -os seus heroes.[92] - -Ora Antonio Cordeiro diz que em 1464 foram dadas as capitanias da ilha -Terceira a Alvaro Martins Homem e João Vaz Côrte Real como recompensa da -descoberta da Terra do Bacalhau que por ordem regia tinham effectuado. - -Em primeiro logar não era o rei que dava as capitanias dos Açores que -pertenciam ao donatario seu irmão D. Fernando; em segundo logar a doação -da capitania de Angra é feita pela _infanta D. Beatriz, viuva de D. -Fernando_, a 2 de abril de 1474, nem ella a podia ter feito em 1464, -porque então ainda vivia seu marido; em terceiro logar a infanta o que -recompensa são «os serviços que João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa -do dito senhor meu filho, fez a seu padre que Deus haja, depois a mim -e a elle»;[93] em quarto logar Alvaro Martins já tinha uma capitania -da ilha Terceira muito antes de João Vaz, tanto que a carta de doação a -Alvaro Martins, em 17 de fevereiro de 1474, allega o seguinte motivo: -«Considerando eu como entre Jacome Bruges e Alvaro Martins, _capitão da -sua ilha Terceira de Jesus Christo_, sempre houve alguns debates por a -terra da dita ilha não se ter de todo partida...»[94] - -Gaspar Fructuoso o que diz simplesmente, e n’um capitulo inçado de erros -historicos evidentissimos, recheado de lendas, e em que parece até que -ignora a existencia do grande Gaspar Côrte Real, é que, «vindo João Vaz -Côrte Real do descobrimento da Terra Nova dos Bacalhaus, que por mandado -de el-rei foi fazer, lhe foi dada a capitania de Angra da Ilha Terceira e -da Ilha de S. Jorge.»[95] - -Sem nos alongarmos em considerações basta que citemos os seguintes -documentos: a carta de doação de 12 de maio de 1500, em que D. Manuel -concede a Gaspar Côrte Real as terras que descobrir, _per sy e a sua -custa... por ho asy querer fazer com tanto trabalho e perigo_,[96] e a -carta de doação de 17 de setembro de 1506, que transfere para Vasco Annes -Côrte Real a doação da Terra Nova, «avemdo respeyto e lembramça como o -_dito Gaspar Corte Real seu irmão ffoy o primeiro descobridor das ditas -teras_.»[97] - -O que se deprehende de tudo o que diz Gaspar Fructuoso é que João Vaz -Côrte Real era nos Açores um heroe legendario, um forte e um intrepido. -Formara-se a lenda em torno d’elle. Pae de uma familia de navegadores, -foi de certo navegador elle mesmo. Como tantos outros dos seus patricios, -procurou tambem talvez, como elles, desvendar os segredos do occidente, -mas voltou sem ter encontrado novas ilhas e novas terras. Teria ido -talvez mais longe do que Diogo de Teive, que chegou a cento e cincoenta -leguas ao occidente do Fayal, mas, se o fez, desanimou tambem e voltou -sem encontrar a cubiçada terra. Foi mais feliz seu filho, e mais feliz -porque o exemplo de Colombo pozera termo aos desanimos, e se nova prova -fosse necessaria basta lembrarmo-nos que Martim de Behaim, o famoso -geographo, que acariciou ardentemente o mesmo ideal de Colombo, que tudo -queria saber do que se passava para o occidente, que viveu nos Açores em -alta situação, que alli trabalhou, pensou e elaborou os seus trabalhos -geographicos, ao fazer o globo de Nuremberg, em 1492, n’elle não inseriu -a Terra Nova dos Bacalhaus, apesar de se não esquecer de inserir as ilhas -phantasiadas. - -É no meio d’este grupo de marinheiros intrepidos, devorados da -curiosidade do Oceano, que não pensam senão nas suas secretas maravilhas, -que não sonham senão com prestigiosas terras, cercadas por todas as -miragens do mar e por todas as miragens da phantasia, por todas as -confidencias mysteriosas que as correntes pelagicas lhes trazem de -remotos mundos, é n’este synhedrio de pilotos que não ignoram o que -dizem os livros, mas que sabem sobretudo o que diz o livro immenso do -mar, que apparece de subito a figura pensativa e ardente de Christovam -Colombo. N’essas torres de atalaya, como que erguidas pela natureza -no seio dos mares, debruça-se a mirar sofregamente o Oceano o rosto -ardente do Genovez. Era o homem providencial, um d’estes homens em que -se incarna fatalmente a idéa que fluctúa sobre uma geração revolvida -pela ancia do desconhecido no mundo physico ou no mundo moral. Se o -problema do Occidente preoccupa já todos os espiritos na Europa, nos -Açores e na Madeira apresenta-se com dobrada intensidade. Não volta -um navio do occidente que não se trate logo de saber se traz comsigo a -noticia de um novo descobrimento. Por uma coincidencia singular quasi ao -mesmo tempo apparece nos Açores um homem intelligente e sabio, Martim -de Behaim, que se sente tambem arrastado pela invencivel convicção de -que ha terras para o lado do occidente, e que é por alli o verdadeiro -caminho da India. Esse homem tem na sua vida singulares relações com a de -Colombo. Este casou com a filha do donatario de Porto-Santo, aquelle com -a do donatario do Fayal; um foi á Guiné nos navios portuguezes, o outro -foi em navios portuguezes até ao Zaire. Mas um é allemão, um diplomata, -um burguez, um discipulo correcto e regular de um dos maiores sabios da -Europa, Regiomontanus; o outro é um italiano, um sonhador, um irregular, -um estudante incompleto. O primeiro encontra facil accesso junto aos -principes e nas universidades, o outro não acha muitas vezes nos altos -logares senão repulsas e desdens; mas este é um perseverante, um ardente, -um allucinado, o seu convencimento é uma paixão que o absorve, que o -devora. O que actua n’elle não é tanto o raciocinio como a visão. A alma -do infante D. Henrique parece renascer n’elle. Passou de Sagres para o -Porto-Santo o vulto do asceta. Secularisou-se apenas; já não é o monge -militar, é o cavalleiro andante, mais affectivo, mais dulcificado pelo -seu conhecimento do amor, mas tendo a mesma paixão pelos ideaes da fé -e da sciencia. E como sempre são estes inspirados os que attraem por um -magnetismo indizivel as idéas audaciosas que fluctuam no ar, como em D. -Henrique se incarnaram todas as aspirações de um mundo que anceia por -quebrar as grades do carcere em que a tradição o encerra, foi tambem em -Colombo que se incarnaram todas essas idéas que pairavam na atmosphera -do seculo XV, e muito especialmente na atmosphera açoriana e madeirense. -Triumphou mais uma vez o sonho sobre a razão, a dilatação da phantasia -inflammada sobre o trabalho mecanico e lento do raciocinio, o meridional -expansivo e apaixonado sobre o septentrional fleugmatico e frio, e foi -Christovam Colombo e não Martim de Behaim quem resolveu o segundo dos -grandes problemas geographicos. - - - - -VIII - -Christovam Colombo e D. João II - - -Quando Christovam Colombo, que viajára largamente, que estivera na -Islandia e na Guiné, que estivera nos Açores, e que, casando com a filha -de Bartholomeu Perestrello, tivera demorada residencia no Porto-Santo -e na Madeira, combinou tudo o que lhe diziam os pilotos portuguezes, -tudo o que os seus olhos viam n’essa terra da sua residencia, com o -que encontrou nos livros, e sobretudo nos seus livros predilectos, os -geographos antigos e a _Imago Mundi_ de Pedro d’Ailly, fixou-se no seu -espirito, de um modo indelevel, a convicção de que era perfeitamente -possivel chegar á Asia partindo dos Açores, e communicou essa idéa ao rei -de Portugal. - -Actuou por acaso, de algum modo, no espirito de Colombo a viagem que elle -fez á Islandia, e onde poude ter conhecimento das viagens dos navegantes -escandinavos do seculo XII, que chegaram á Groenlandia e até á America do -Norte, que elles denominaram Vinlandia? Não, decerto. Que tinham que vêr -esses paizes do Norte com o seu sonho da Asia encontrada pelo occidente? - -Que houvesse para além da Islandia mais ilhas e mais terras, não era -caso de espanto. Hoje que conhecemos toda a terra sabemos a importancia -que isso tinha, então nenhuma se lhe ligou, nem nenhuma se lhe ligara -no seculo XII. As descobertas não têem importancia pelo que hoje se -reconhece que teriam, mas pela que tinham realmente na occasião em que se -fizeram. O problema era, como dissemos, o seguinte: atravessar o Oceano -Atlantico em toda a sua largura. Passar da Islandia á Groenlandia e da -Groenlandia ao Vinland era façanha muito menos importante do que a que -praticaram os Portuguezes descobrindo os Açores.[98] - -Seriam por outro lado as instancias de Colombo ao governo portuguez que -levaram el-rei D. Affonso V a perguntar a Toscanelli em 1474 se suppunha -que se podesse chegar á India caminhando-se pelo occidente? É possivel -que não. Como sabemos, esse problema já atormentava as imaginações -dos que se preoccupavam com as questões geographicas, e era assumpto -de vivos debates. A concessão feita em 1473 por D. Affonso V a Ruy -Gonçalves da Camara e que já aqui mencionámos, leva-nos a suppôr que o -fidalgo portuguez não a obteria tão simples e tão despida de auxilio -governamental sem ter instado com o rei para obter um subsidio ou um -apoio mais efficaz do que a concessão platonica das pelles de urso, que -Ruy Gonçalves obteria se matasse os ursos. Logo veremos que havia esses -pedidos, e que D. João II em occasião importante lhes prestou ouvido mais -attento. Foi, decerto, então que el-rei perguntou a Toscanelli o que -pensava a este respeito, e que recebeu de Toscanelli a resposta de que -Colombo, ancioso tambem de conhecer a opinião do sabio geographo, não -deixou de ter conhecimento, porque o proprio Toscanelli lh’a communicou. - -Que facil ensejo tinha Humboldt de demolir a gloria de Colombo, como -pretendeu demolir a dos navegadores portuguezes! Se ha carta que possa -mostrar que as Antilhas eram conhecidas antes de Colombo é a carta -de Toscanelli. O grande geographo italiano conhece o caminho como -conheceria o caminho da sua casa. Sabe a distancia a que fica a Asia, os -archipelagos que o navegador ha de encontrar no caminho, e tudo isso vae -para o mappa como se fosse traçado á vista das terras! E os archipelagos -lá estavam effectivamente como os Açores, como a Madeira, como as ilhas -que se descobriram e as que se não descobriram. Acontecia ás ilhas o que -acontece ás prophecias. Com um pouco de boa vontade sempre ha algumas -que, mais ou menos, parece que saem certas. - -Nós porém é que não vemos as coisas com os olhos da parcialidade, -e applicamos a todos o são preceito de Humboldt que elle tão pouco -respeita. As cartas da edade média são excellente elemento de estudo -quando se analysam com criterio, quando se não perde de vista o -pensamento de que ellas encerram o que realmente se descobriu e o que -os sonhadores conjecturavam que se podia descobrir. Os navegadores -d’esse tempo é que não sabiam as maravilhas que praticavam, e a sua -aspiração não era encontrar terras desconhecidas, era encontrar as terras -adivinhadas. Se os Açores e a Madeira estivessem em mappas anteriores, -os Portuguezes exclamariam com enthusiasmo: São estas mesmas! O maior -prazer d’esses navegantes, quando chegassem á Antilha ou á ilha de S. -Brandão, seria bradarem com orgulho e com ufania: Encontrámos a ilha de -S. Brandão, encontrámos a Antilia, como Fernão Telles ía pelos mares fóra -com a esperança de encontrar a ilha das Sete Cidades. Este é que era o -criterio que os Portuguezes applicavam á descoberta das costas africanas. -Todo o seu desejo era confirmarem o periplo de Hannon e as theorias da -antiguidade. Foi para elles um desapontamento reconhecerem que um rio que -descobriram era o Senegal, completamente ignorado pelos antigos, em vez -de ser o Nilo dos Negros, cuja existencia a sabia antiguidade affirmava, -e que os Portuguezes só aspiravam a confirmar. - -Que impressão produziria a opinião de Toscanelli não no animo de D. -Affonso V, que tinha outros pensamentos e outras ambições, mas no de D. -João II, logo que subiu ao throno, e começou a pensar sériamente nos -descobrimentos? Não muita, e de certo contribuiria para isso, bastante, -o proprio movimento maritimo dos Açores. É bem natural que os mareantes -que voltavam d’essas expedições de tentativa exaggerasem o espaço de mar -que tinham percorrido, sem encontrar signaes de terra. Demais as idéas -geographicas dos antigos ainda dominavam muito os espiritos. O systema -geographico de Ptolomeu e dos seus adeptos não fôra alluido todo e de -uma vez só. Ia caindo aos pedaços, mas ficava de pé o que se não demolia -directamente. Ora uma das idéas favoritas da geographia antiga era a -grande extensão dos mares. Suppunha-se que de toda a terra só a septima -parte estava fóra das aguas. Colombo sustentava a opinião contraria, dava -razões de equilibrio, mas não conseguia facilmente derrubar o preconceito. - -Accrescente-se ainda que tudo parecia indicar que os Portuguezes se -achavam no caminho verdadeiro da India. Qual era a opinião antiga? que -a costa africana occidental, _antes de se chegar ao equador_, voltava -para o oriente e ia ou á Africa Oriental ou á Asia. Se as viagens -portuguezas tivessem mostrado que esse facto se não dava, e, ao mesmo -tempo, a zona torrida fosse inhabitavel, estavam perdidas todas as -esperanças, mas as viagens portuguezas tinham demonstrado exactamente -que não havia zonas inhabitaveis, logo podia-se proseguir com afoiteza, -que mais longe ou mais perto havia de se chegar ao fim do continente -africano e havia de se voltar para a India. Corria-se o perigo de se -entrar na zona glacial antarctica? Embora! Como era natural, passava-se -de extremo a extremo. Desde que se descobrira que a zona torrida não -era inhabitavel, conhecia-se que não havia zonas inhabitaveis, e que se -poderiam atravessar as zonas glaciaes como se estava atravessando a zona -torrida.[99] - -E note-se que a idéa de que teria de se dobrar um cabo quando se chegasse -ao fim da peninsula africana, estava tambem em todos os espiritos, e -era a conjectura natural da geographia. As peninsulas, sabia-se bem, -terminam geralmente em promontorios. Portanto o empenho de D. João II -estava todo concentrado no proseguimento das descobertas africanas. Não -podia elle, diz-se, se tinha confiança, como sabemos que tinha, não -no projecto do Genovez, mas no seu talento, e nos seus conhecimentos -maritimos, confiar-lhe duas caravelas? Não, porque isso era completamente -contrario ao seu systema de exploração. As tentativas dos Açorianos e dos -Madeirenses, protegia-as o governo, fazendo-lhes larguissimas concessões -nas terras que descobrissem, mas não as subsidiava, nem consentia tambem -que elles interferissem nas descobertas reservadas para si. As terras -concedidas eram-n’o com a condição de não serem nos mares da Guiné. - -Ah! Se Christovam Colombo armasse duas caravelas á sua custa, ou -conseguisse que um capitalista o _commanditasse_, com que facilidade -elle obteria de D. João II todas as concessões que desejasse! Foi uma -felicidade para o mundo que Colombo não tivesse dinheiro para a empreza, -nem socios capitalistas. Se os tivesse, quando percorresse tanta extensão -de mar sem encontrar terra, quando visse a perspectiva de perder -completamente o seu dinheiro ou o dos seus socios, talvez não ousasse -proseguir, e decerto lh’o não consentiriam os que representavam a bordo -os interesses dos armadores. Para se levar a effeito essa obra grandiosa -era necessario que estivesse empenhada no triumpho a honra de uma nação! - -Como é que aquelle grande espirito de Christovam Colombo não inflammou no -seu enthusiasmo o espirito, que passa tambem por ter sido grande, de D. -João II? Enganou-se a historia no seu juizo? Era, afinal, o rei D. João -II um espirito vulgar, ou pelo menos um espirito absolutamente pratico -e forte em todas as questões da vida positiva e real, mas desdenhoso -de tudo o que excede os limites do seu horizonte? ou por acaso não -tinha elle pelas coisas geographicas o interesse real que manifestava, -ou não tinha d’ellas o conhecimento que se lhe attribue? Não, não, -nada d’isso. D. João II foi realmente um dos grandes principes do seu -tempo, um dos soberanos que estavam mais á altura de comprehender os -grandes projectos dos descobrimentos. O proprio Colombo o diz a cada -instante, Toscanelli farta-se de o affirmar: o rei de Portugal era o -soberano que melhor entendia de coisas geographicas, o nosso grande -rei! diz Colombo ás vezes. E comtudo Colombo não conseguiu captival-o. -É quasi incomprehensivel esse facto, mas talvez se explique um pouco se -analysarmos os caracteres de um e de outro. - -Ha, naturalmente, duas especies de organismos entre os homens da mais -alta esphera: os desequilibrados e os equilibrados. Á primeira pertencia -Christovam Colombo, á outra D. João II. D. João II era um d’estes -fortes espiritos, perfeitamente assentes n’uma base segura, que têem a -perspicacia, a energia, as concepções arrojadas mas nunca desmandadas, -espiritos capazes de formarem um plano e de o desenvolverem serenamente, -completamente desembaraçados da rotina, amando e acolhendo as innovações, -mas não sem as sujeitarem ao criterio do seu lucido juizo. Homens assim, -n’este jogo da existencia têem as cartadas atrevidas mas calculadas, -nunca se entregam aos irreflectidos caprichos do azar. O perigo não os -assusta, e affrontam-n’o quando é necessario, mas não o procuram por uma -vã fanfarronada de cavalleiros andantes. Soldado, ninguem o foi como D. -João II: em Arzilla escureceu a fama dos mais denodados cavalleiros, em -Toro a ala que elle commandava internou-se no mais denso das fileiras -dos castelhanos e destroçou-as, emquanto a ala commandada por seu pae -era desbaratada pelo inimigo, mas depois de subir ao throno nunca mais -teve uma guerra, nem entrou n’uma peleja. As guerras de Portugal tinham -de ser com o Oceano, os combates do rei com a sua nobreza rebelde. É -um organisador e não um aventureiro, o que o não impede de querer a -grande aventura da India, mas prepara-a, organisa todos os elementos de -successo, antes de jogar a cartada decisiva. - -A razão é a faculdade que domina o seu espirito, a imaginação é a escrava -obediente. É inaccessivel aos vagos terrores que tão facilmente assaltam -os nervosos e os phantasistas. Uma noite, e já depois d’elle ter cercado -de cadaveres o seu throno, no cumprimento implacavel da sua missão -centralisadora, sente baterem de noite mysteriosamente á porta do quarto -onde dormia com sua esposa. Levanta-se e vai ver quem é. Ninguem, mas ao -longe uns passos mysteriosos, como que um vago deslisar de sombras. Jaz -em silencio e na escuridão da meia-noite o palacio todo. Vive-se n’uma -epocha de crenças e de superstições. É algum dos espectros das suas -victimas que o vem chamar para a expiação? D. João II sorri-se com este -pensamento, vai, segue o passo mysterioso, vai até aos sotãos em sua -obstinada procura, só, com a sua espada e uma luz, e quando os servos, -acordados pelos clamores da rainha, correm em sua busca, vão encontral-o -n’um desvão, sondando com a luz os recantos sombrios, impassivel e sereno -como quem não comprehende sequer os pavores da superstição. - -De toda a sua raça o homem a quem mais se assemelha pelas tendencias -nobres do seu espirito é o infante D. Pedro, mas este possuia uma -qualidade que arredondava todos os angulos do seu caracter, que amaciava -todas as durezas do seu pensamento: a bondade feminil, que elle herdara -de sua mãe, D. João II tinha a violencia do bisavô, sem ter ao seu -lado a mulher propria, como Filippa de Lencastre, para attenuar as -asperezas da indole do matador do conde Andeiro. D. Leonor era uma nobre -e intelligente senhora, não adquirira comtudo influencia sobre o seu -terrivel marido, porque não era amada. Mas a alta razão, a comprehensão -de todos os grandes emprehendimentos, a cultura que o punha a par do -seu seculo, a reacção contra as tradições medievaes, que eram a sombra -povoada de visões, quando elle sonhava uma sociedade radiante de luz e -de sciencia e dominada pela Ordem: tudo isto tinha D. João II. D. João -II era a Renascença que principiava com os ideaes de Platão e o culto -da sciencia antiga seriamente estudada e seriamente comprehendida, e -Colombo, que mais do que ninguem ia contribuir para a Renascença, era -comtudo pelas tendencias do seu espirito o ultimo representante d’essa -meia edade bellicosa e mystica, que, antes de se sumir para sempre, -legava ao mundo que nascia a realisação do seu ultimo sonho cavalheiresco. - -Imagine-se agora Colombo tratando com D. João II, que o ouve, que o -attende, que percebe que não tem deante de si um homem vulgar, mas que -desconfia, que hesita deante d’aquelles projectos meio mysticos, meio -scientificos, deante d’aquella exuberancia de palavras e de pensamentos -que não quadra ao seu espirito nitido, e conciso. Colombo é um italiano, -com aquella prodigalidade de palavras e de formulas obsequiosas, -caracteristicas da raça. O que era elle? um sabio ou um charlatão? Se do -sublime ao ridiculo apenas vai um passo, como Napoleão dizia, de um homem -de genio que traz uma idéa fecunda a um charlatão que traz um elixir -tambem a distancia não é grande. Colombo, profundamente convencido, -era prodigo de promessas e não menos de exigencias. Os thesoiros que -elle encontrasse no Cathay destinava-os, segundo dizia, á conquista do -Santo Sepulcro. Ora a conquista do Santo Sepulcro era, sem desfazer -nos sentimentos christãos de D. João II, _le cadet de ses soucis_. -Christovam Colombo enganara-se na porta. Essas declarações eram optimas -para D. Affonso V, detestaveis para D. João II. Tudo quanto cheirasse a -cavallaria andante, a cruzadas, e a romances em acção, encontrava em D. -João II um antagonismo ferrenho. E percebe-se que assim fosse, desde o -momento que fôra tudo isso que estivera quasi arruinando Portugal, que -fôra tudo isso que fizera a desgraça de D. Affonso V e que era a esses -bellos sonhos que D. João II devia o ter ficado, como costumava dizer, -por morte de seu pae, rei das estradas de seu reino. - -Ainda havia um facto que não podia produzir boa impressão em D. João II. -Arrastado pelo ardor das suas convicções, como acontecia com Toscanelli, -Colombo dizia conhecer a distancia exacta a que ficava Cipango de -Portugal. Ora D. João II era um espirito bastante positivo para perceber -o que havia de absurdo em semelhante calculo, e a segurança manifestada -por Colombo mais ainda o punha em guarda contra os seus projectos. - -Hoje que os factos mostram como Colombo tinha razão, todos imaginam que -só o espirito de rotina podia fazer com que elles fossem regeitados. E -comtudo, examinando-os bem comprehende-se que espiritos positivos não -acceitassem. Colombo suppunha por exemplo que a relação entre a terra e -o mar era de 7 para 1, quando a verdade é que essa relação é de 1 para -2,7, ou mais exactamente de 29 para 82.[100] Quaes eram as razões em -que elle se baseava para suppor que a Asia estava proxima da Europa? -Sobretudo as que deduzia das affirmações da sciencia antiga. Segundo -Ctésias a India formava metade da Asia, Plinio suppunha que era só por si -o terço da superficie do globo, Nearcho sustentava que eram necessarios -quatro mezes de caminho para se chegar á extremidade oriental da India, -e Strabão que até esse extremo oriental ninguem poderia conduzir um -exercito. O geographo a que Colombo se encostava para avaliar a distancia -que tinha a percorrer não era Ptolomeu, era Marino de Tyro. Ptolomeu -sustentava que a terra habitada entre o meridiano das ilhas Afortunadas -e o meridiano de Sera, quer dizer da China, era de 177°¼, portanto o -espaço de mar a percorrer era de 182°¾, visto que o parallelo tem 360°. -Marino de Tyro sustentava que a porção de terra habitada era de 225°, -portanto o espaço de mar a percorrer limitava-se a 135°; mas Colombo -fazia conjecturas que ainda diminuiam este espaço. Effectivamente dizia -elle que Marino não chegára á extremidade oriental da Asia em 15 horas -(calculando-se as longitudes em tempo, e correspondendo cada hora a 15°) -porque a extremidade oriental da Asia ficava muito além do ponto marcado -por Marino. Portanto a distancia de mar entre a extremidade oriental da -Asia e as ilhas de Cabo Verde era não de 9 horas ou 135°, mas de menos de -8 horas ou de menos de 120°. - -Note-se porém que fôra Ptolomeu que corrigira os calculos de Marino de -Tyro, e que a opinião de Colombo tinha portanto contra si a do geographo -mais afamado da antiguidade. Comtudo Colombo aferra-se á sua opinião, -e quando está na America julgando estar na Asia, persiste, e até se -apoia nas opiniões dos navegadores portuguezes, dizendo: «E agora que os -Portuguezes navegam tanto, acham que Marino foi exacto.»[101] - -E note-se ainda que Colombo avaliava o grau em 56 milhas e ⅔, baseando-se -nos calculos do geographo arabe Al-Fragan, e confundindo assim a milha -italiana com a milha de Al-Fragan, de fórma que o grau ficava tendo -apenas pouco mais de 14 leguas. Toscanelli, na sua famosa carta de -1474, avaliava o espaço a percorrer de um modo differentissimo. D. -João II ver-se-hia de certo embaraçado para avaliar quem tinha razão, -e regeitaria então sem hesitar o projecto de Colombo se soubesse que -de todos os geographos da antiguidade o que menos se enganára fôra -Eratostenes que calculára a distancia entre o promontorio Sacro, quer -dizer o cabo de S. Vicente e a Sera, quer dizer a China, em 240 grau. A -distancia verdadeira é 230.[102] - -Junte-se a isto a opinião contraria do seu conselho scientifico, que a -manifestava não só porque todas as corporações sabias têem uma tendencia -innata para repellir as idéas novas apresentadas por quem não pertence ao -seu gremio scientifico, mas tambem porque as propostas de Colombo tinham, -como acabamos de ver, muitos pontos vulneraveis. Faziam parte do conselho -dois judeus, Rodrigo e Josef, que de certo conheciam bem o arabe, e aos -quaes talvez não escapasse o erro da interpretação do geographo arabe -Al-Fragan na medição dos graus. A rejeição da proposta de Colombo era -portanto inevitavel. - -E comtudo D. João II, se não tinha a imaginação apaixonada do infante -D. Henrique, que se deixaria de certo seduzir pelo enthusiasmo do -italiano, tinha o espirito bastante elevado para reconhecer que não era -Colombo um aventureiro vulgar. Apenas elle saíu do nosso paiz, teve um -baque no coração, e, passando por cima de tudo e da opinião dos seus -conselheiros, e das tendencias naturaes do seu espirito, escreveu-lhe -a famosa carta em que o chamava.[103] Porque não veiu Colombo? Porque -saíra bastante irritado com o parecer naturalmente desdenhoso do conselho -scientifico do rei, ou porque os seus amores com D. Beatriz Enriquez, a -mãe de Fernando Colombo, o retiveram em Sevilha? Julgamos mais verosimil -a primeira hypothese. O resentimento de Colombo era tão profundo que -não duvidou accusar D. João II de uma acção que elle bem sabia que era -absurda em primeiro logar, que seria indigna de um homem cujo caracter -elle não podia deixar de respeitar. - -E comtudo a historia tem repetido essa accusação, injusta, mesquinha e -disparatada! Colombo accusou D. João II de o ter repellido, mas de ter -aproveitado ao mesmo tempo as suas indicações para mandar dois navios -em busca da Asia pelo occidente, e que esses navios, açoitados por uma -tempestade, tinham sido obrigados a voltar para Lisboa. - -Em primeiro logar era evidente que a viagem de descoberta não podia -começar senão em Cabo Verde ou nos Açores. Se uma tempestade occasional -os tivesse feito voltar a Lisboa, poucos dias depois de terem d’aqui -saído, não era caso para descoroçoar. Só passado o meridiano dos Açores é -que principiava a expedição. - -Demais, não sabemos que antes de Colombo muitos navegadores portuguezes -tinham sondado os mares do occidente, não com o fito de demandarem a -Asia, mas com o intuito de descobrirem terras novas? Era a transformação -do intuito que representava o abuso de confiança? Era a escolha do -parallelo a seguir? Não tinha o rei de Portugal a carta de Toscanelli que -preconisava tambem a escolha do parallelo que a Cipango conduzisse? - -Não vemos nós claramente que a unica difficuldade de D. João II estava -em fazer por sua conta a expedição? Se Colombo a fizesse á sua custa, -não receberia do rei de Portugal senão todas as animações. E, recusando -isso a Colombo, que elle considerava e estimava, ia fazel-o com outros -pilotos, que, ainda que não tivessem menos habilidade nautica, não teriam -de certo estudado a questão com a perseverança e o enthusiasmo de Colombo? - -Mas não continuemos, podemos hoje felizmente mostrar de um modo -evidentissimo qual foi o facto verdadeiro que, mal interpretado, mal -comprehendido, adulterado por alguma informação calumniosa, mais ainda -pelo resentimento de Colombo, serviu de base á sua accusação. - -Temos mostrado como o governo portuguez fazia as concessões aos -navegadores ilheus que queriam demandar terras novas: dava-lhes n’essas -terras todos os privilegios possiveis, o direito de administrar a -justiça, reservando sempre para a corôa os casos de pena de morte ou -de talhamento de membros. Accentuava bem que esses privilegios não se -limitavam ao caso de ser despovoada a terra que se encontrasse, mas que, -se encontrassem terra habitada, como a famosa ilha das Sete Cidades, -por exemplo, tinham sobre os seus moradores o mesmo poder com as mesmas -restricções, e esses moradores tambem os mesmos privilegios. Ora em 1486, -pouco depois de Colombo partir de Portugal, appareceu Fernão d’Ulmo -a pedir uma concessão semelhante. El-rei fez-lh’a nas condições das -anteriores, com umas modificações que são eloquentes: - -Em primeiro logar Ruy Gonçalves da Camara pedira _pera buscar nas -partes do mar ouciano huumas ylhas_, Fernão Telles obtem a concessão -de _quaesquer ilhas que elle achar_, e depois diz-se-lhe que a mesma -concessão se faz no caso das ilhas serem povoadas. Fernão Dulmo pede que -El-rei «lhe faça mercê e reall doação da dita hylha ou hylhas OU TERRA -FIRME povoradas ou despovoradas, etc.» El-rei concede. - -Além d’isso faz-lhe mercê de toda a justiça _com alçada de poder -enforcar, matar e de toda outra pena criminall._ - -Prevê o caso de que as ilhas ou _terra firme_ sejam povoadas e offereçam -resistencia a Fernão Dulmo, que vae á sua custa, é claro, e com a gente -que poder levantar e pagar, e então El-rei diz-lhe: «ssendo caso que sse -não queiram sujeitar _as ditas hylhas e terra firme a nos, mandaremos com -o dito Fernam Dulmo gente e armadas de navios com noso poder pera sogigar -as ditas hylhas e terra firme e ele Fernam Dulmo hyrá sempre por capitam -moor das ditas armadas_.» - -O que mostra isto? Mostra que a insistencia de Christovam Colombo fez -impressão em El-rei. Não vai nem por sombras intentar uma expedição á -sua custa, mas procura facilitar o mais possivel as expedições para o -occidente. Admitte a possibilidade de se encontrar terra firme, não põe -as minimas restricções ao poder do descobridor, e, se a terra firme ou as -ilhas se encontrarem e forem povoadas, se forem a Asia, é o que isto quer -dizer, Fernão Dulmo pode contar que terá o rei comsigo com todo o seu -poder para o ajudar, e o posto de capitão-mór garantido nas armadas que -se expedirem. - -O sr. Ernesto do Canto, que publica no seu livro esta carta de doação na -integra, estranha o facto que acabamos de notar, e escreve: - -«A jurisdicção concedida por esta carta é muito mais extensa do que -a dos documentos analogos e anteriores, _o que admira da parte de D. -João II, que tanto luctou para estabelecer a centralisação do poder -real_.»[104] - -É positivamente a impressão produzida na alma do rei pelas propostas -de Colombo. A visão do occidente começa a assenhorear-se da sua alma e -atormenta-o. Querem outra prova ainda? Esta carta régia foi apresentada -ao tabellião, e entre Fernão Dulmo e João Affonso celebra-se um contracto -em que ha a seguinte clausula: «e quanto he ao cavalleiro alemam que em -companhia deles hadir que ele alemam escolha dir em qualquer caravella -que quiser e do dia que ambos partirem da dita hylha Terceira, etc.» - -Quem é este cavalleiro allemão que está evidentemente nos Açores e que -parte com a expedição escolhendo a caravela que quizer? É claramente -Martim de Behaim, que acaba de voltar da viagem que fez ao Zaire com -Diogo Cão, Martim de Behaim, que tambem sonha com o encontro da Asia -pelo occidente, que muita vez trocou idéas com Christovam Colombo a esse -respeito, que se resolve a fazer uma tentativa, tentativa que parece não -ter ido por deante, ou que, se se realisou, foi infeliz e se realisou -sem elle, porque annos depois o encontramos na Allemanha trabalhando -no seu famoso globo, e voltando de Nuremberg a Lisboa com o intuito de -realisar emfim a sua expedição, munido de recommendações do imperador -para o rei de Portugal e de animações de sabios. No intervallo Colombo -antecipára-se-lhe. A America estava descoberta. Demais entre a saída de -Christovam Colombo de Portugal e o descobrimento da America dera-se um -grande acontecimento que robustecera a confiança de D. João II no methodo -que seguira e que dissipára as suas apprehensões de um curto caminho para -a Asia pelo occidente. A costa africana occidental fôra completamente -descoberta, transpozera-se o Equador, percorrera-se toda a zona torrida, -encontrára-se o termo do continente africano, e dobrára-se o cabo em cujo -nome _Boa Esperança_ D. João II condensára o immenso jubilo da sua alma. -O primeiro dos grandes problemas geographicos, que nem a antiguidade -nem a edade média tinham conseguido resolver, tinham-n’o os Portuguezes -resolvido. A preoccupação, que evidentemente tinham deixado no espirito -do rei as propostas de Colombo, dissolvia-se por completo na alegria -d’este triumpho. - -Mas vê-se bem agora como o conhecimento da nova tentativa açoriana, -semelhante aliás a tantas outras que Colombo bem conhecia, devia -ter irritado o animo do Genovez, que saía de Portugal, azedo e -despeitadissimo. Chegou-lhe provavelmente aos ouvidos tambem a noticia -das concessões excepcionaes feitas pelo rei, e até da designação especial -de terra firme a descobrir. Tanto bastou para que se dissesse roubado, -como se Colombo tivesse outra coisa que se lhe roubasse que não fossem -as suas qualidades pessoaes, o seu genio, o seu enthusiasmo, o seu -conhecimento da nautica e da astronomia. Tudo isso o levára elle comsigo. -Demais, as concessões de D. João II, por mais amplas que fossem, não -chegavam ao subsidio. O que D. João II recusára a Colombo, recusava-o -tambem a Fernão Dulmo. N’estas circumstancias, mantinha-se nos seus -principios; de que podia então queixar-se Colombo? - -Tambem, deve dizer-se, só d’essa vez se mostrou Colombo, n’um momento -de colera, injusto com o nosso paiz. A terra de sua mulher, terra onde -nascera seu filho, fôra sempre a terra dos seus amores. Com este povo de -marinheiros se creára, pode assim dizer-se, porque foi aqui que brotaram -devéras na sua alma as suas grandes aspirações, foi com o trato dos -nossos pilotos que se instruiu praticamente, que aprendeu, por assim -nos exprimirmos, a theoria das descobertas. Não o esqueceu nunca, nem -quando pensava que era pelo vôo das aves que os Portuguezes tinham -descoberto as ilhas, nem quando invocava, para sustentar uma das suas -affirmações, os Portuguezes que tinham navegado tanto. Como Portuguez -até se considerava, e fazia-lh’o sentir Toscanelli.[105] Com os nossos -descobrimentos se enlaçaram os seus, e, apesar de tudo, vê-se-lhe não -sei que funda pena de não ter podido fazer a sua gloriosa descoberta nos -navios da nação amada. «O rei de Portugal, diz elle n’uma carta escripta -a Fernando o Catholico pouco tempo antes da sua morte, _que entendia -mais do que qualquer outro rei de descobertas de paizes desconhecidos_, -de tal fórma o cegou a vontade do Altissimo que, durante quatorze annos, -não pôde comprehender o que eu lhe dizia.» E tão extranho lhe parece esse -caso que o toma á conta de milagre, e diz que _Nuestro señor le atajó la -vista, el oido y todos los sentidos_.[106] - -Não! a verdade era que a empreza de Colombo era a empreza de um -allucinado de genio, de um homem em quem a imaginação predomina, de -um visionario que tem visões lucidas, de um inspirado, de um louco, e -homens assim não podem dirigir-se, sem ser repellidos, áquelles que -teem o forte equilibrio de todas as faculdades, aos que se deixam -guiar em vida não pelas columnas de fogo da visão biblica, nem pelas -scintillações dos sonhos, mas pelo clarão firme, sereno, da razão e do -raciocinio. Encontraria Christovam Colombo no infante D. Henrique um -homem que o comprehendesse, porque era um allucinado tambem; na epocha -em que apparecia só o podia comprehender uma alma feminina, vibratil -a todos os enthusiasmos, apaixonada pelas visões mysticas, accessivel -á influencia magnetica de uma eloquencia aquecida pela sinceridade de -uma convicção ardente, de uma mulher, emfim, que se chamava Isabel a -Catholica, a mais radiosa encarnação da alma heroica da Hespanha, aquella -que nos apparece nos longes da historia como a estatua da Poesia do -Romancero, cavalheiresca e meiga, varonil na intrepidez e feminil na -suave e captivadora influencia, e que elle vinha encontrar no momento -mais proprio para a levar para as grandes conquistas ideaes, dentro dos -muros da conquistada Granada, tendo varrido do solo de Hespanha a ultima -tribu arabe e o ultimo soberano oriental, tendo feito tremular sobre -o crescente prostrado a bandeira da cruz, e anciando tambem por abrir -novos mundos á energia hespanhola, novas conquistas ao seu pensamento, -enamorando-se facilmente da idéa de transpôr os limites do Oceano, de -tentar, como outr’ora o infante D. Henrique, a gloriosa cruzada dos -mares, e de ir arrancar emfim aos thesouros escondidos no tumulo do Sol o -oiro do resgate para o tumulo de Christo. - - - - -IX - -O tratado de Tordesillas e a viagem de Pedro Alvares Cabral - - -Quando em março de 1493 Christovam Colombo entrou triumphalmente em -Lisboa, e apresentou a D. João II os indigenas que trazia de Guanahani -e lhe disse que voltava das terras de Cipango, o despeito de D. João -II foi extraordinario. Tão pouco o soube esconder que houve fidalgos -que lhe propozeram punir com a morte a jactancia do Genovez.[107] D. -João II regeitou a offerta, e esmerou-se em dar a Christovam Colombo -todos os testemunhos do seu apreço, mas a dôr era profunda e o desejo -de desforço imperioso. Sustentando desde logo que as ilhas descobertas -por Colombo estavam nos mares adjacentes á Guiné, tratou de mandar uma -esquadra a esses paizes do occidente. A Hespanha protestou logo, e D. -João II percebeu que tinha de desistir do intento, mas a sua diplomacia -não descançou um instante, e o tratado de Tordesillas foi para essa -diplomacia um verdadeiro triumpho. - -Tanto se empenhavam os reis de Hespanha em tomar conta das terras -que Christovam Colombo descobrira, que a toda pressa se pediram -para Roma as bullas necessarias, e com tanta rapidez se andou na -negociação, facilitada, pelo facto de ser o Papa Alexandre VI—Rodrigo -Borgia—hespanhol de nascimento e creatura dos soberanos hespanhoes, -que, tendo chegado Christovam Colombo no dia 15 de março de 1493, e só -tendo sido recebido por Fernando e Isabel em abril, logo a 3 de maio -do mesmo anno se concediam á Hespanha essas ilhas e terras descobertas -por Christovam Colombo; mas n’essa noite, ao que parece, pensou-se que -seria bom, para evitar disputas com os Portuguezes, que se marcasse uma -divisão entre estes, a quem os papas anteriores tinham concedido os -mares adjacentes á costa africana do cabo Não e Bojador para deante, e -os Hespanhoes, e no dia 4 de maio é que se promulgou a bulla definitiva, -em que se traçou a linha divisoria do polo arctico «ad polum antarcticum -quæ linea distet a qualibet insularum quæ vulgariter nuncupantur de los -Azores et Cabo Verde centum leucis versus occidentem et meridiem».[108] - -Claramente se vê por este _qualibet_ que a segunda bulla foi redigida á -pressa e á noite, não estando presente nenhum cosmographo, que podesse -dizer aos negociadores qual era a mais occidental das ilhas dos Açores -e de Cabo Verde, porque, como sensatamente observa Humboldt, é singular -esta expressão applicada a dois archipelagos que ambos occupam uma -grande extensão em longitude. Mas não havia tempo para demoras porque -era necessario que apparecesse o facto consummado antes que o rei de -Portugal tivesse tempo de saber de que é que se tratava. Depois do Papa -ter julgado, suppunha-se que um rei catholico não ousaria protestar. - -Enganaram-se; já se não estava em plena edade média, nem D. João II -era homem que deixasse o Papa interferir nos seus negocios temporaes. -Protestou immediatamente e tanto que a bulla de Alexandre VI caducou, e -a linha divisoria, que passava a cem leguas de qualquer das ilhas dos -Açores e de Cabo Verde, transformou-se n’uma linha que passava a 370 -leguas do archipelago de Cabo-Verde. - -As negociações levaram tempo, e não foi sem reluctancia que Fernando e -Izabel cederam ao seu impertinente visinho; mas nem Portugal n’esse -tempo era paiz cuja inimizade fosse indifferente, nem os reis catholicos -tinham ainda consciencia bem nitida da importancia das descobertas -feitas; demais havia intimas relações de familia entre as duas casas -reinantes.[109] O que é certo é que Portugal triumphou e o tratado -assignado em Tordesillas em 7 de junho de 1494 substituiu para todos os -effeitos a bulla de 4 de maio do anno anterior. - -Pois tão superficialmente se estuda a historia d’estes grandes -acontecimentos da vida da humanidade que ainda hoje passa em julgado -que foi a bulla de Alexandre VI que marcou a linha divisoria entre -as descobertas portuguezas e as descobertas hespanholas, e o proprio -Humboldt, eruditissimo como é, tanto parece ignorar o texto do tratado -de Tordesillas que, suppondo que foi Christovam Colombo que indicou a -linha das cem leguas por consideral-a a linha em que não tinha variação -a agulha magnetica,[110] imaginando que a adaptação d’essa demarcação -physica á demarcação politica tinha immensa importancia para Colombo, -nem levemente allude ao desapontamento que a Colombo a mudança da linha -divisoria devia ter causado. - -N’esse tratado, comtudo, ha um artigo transitorio que bem claramente -mostra o absurdo da supposta descoberta de João Vaz Côrte Real. «E porque -pode ser, diz o artigo, que os navios d’El-Rei e Rainha de Castella e -Aragão tenham descoberto até vinte do corrente mez de junho algumas -ilhas ou terras firmes dentro da sobredita linha que se ha de lançar de -polo a polo a trezentas e setenta leguas das ilhas de Cabo Verde para o -Poente, assentaram as Altas Partes Contractantes por seus Procuradores, -que, para se evitarem duvidas, todas quantas tivessem sido achadas ou -descobertas até os vinte de junho, bem que o fossem por navios e gente -de Castella, sendo dentro das primeiras duzentas e cincoenta leguas das -sobreditas trezentas e setenta a partir das ilhas de Cabo-Verde para o -Poente, ficariam para El-Rei de Portugal, _e as que tivessem sido achadas -dentro do dito prazo nas outras cento e vinte leguas restantes em que -deve findar a dita linha pertenceriam a El-Rei e Rainha de Castella, bem -que as cento e vinte leguas façam parte das trezentas e setenta leguas -que ficam para El-Rei de Portugal_. E se dentro dos ditos vinte de Junho -não fôr descoberto nada pelos navios d’El-Rei e Rainha de Castella dentro -das ditas cento e vinte leguas, o que dentro d’ellas _d’ahi em diante -se descobrir_ ficará pertencendo a El-Rei de Portugal, como acima fica -dito.[111] - -Lá se ía a Terra Nova, se ella já estivesse descoberta, _porque só o que -d’ahi em diante se descobrisse_ n’essas ultimas cento e vinte leguas de -zona portugueza poderia ficar pertencendo a El-Rei de Portugal. - -Ora não era de certo platonicamente que D. João II reclamava para si 370 -leguas de mar para o occidente, mas em aproveital-as tinha o governo -portuguez de ser prudentissimo para não despertar as justas reclamações -do governo de Hespanha. Era necessario que se mostrasse sempre empenhado -em proseguir as suas descobertas para o oriente, deixando a Hespanha á -vontade para o occidente. As 370 leguas deviam servir-lhe para poder -navegar com os braços livres para o sul. Tambem no primeiro momento não -teria o nosso governo outro intuito. A expedição da India absorvia-lhe -todo o pensamento. - -Vasco da Gama foi e attingiu a meta, e a gloria immensa que d’ahi proveio -e os proventos palpaveis e immediatos que d’ahi resultavam escureceram -por um momento a gloria de Colombo. Comtudo era incontestavel que -a viagem pelo Cabo da Boa Esperança durava immenso tempo, e tinha -difficuldades e perigos sem numero, e a Asia, que Colombo encontrára, -estava tão perto! Note-se bem que não havia a esse respeito a minima -duvida. Colombo chegára á Asia, chegára ás Indias, não á India riquissima -a que aportára Vasco da Gama, não ao Cathay e ao Cipango fabulosamente -opulentos de Marco Polo, mas a terras selvagens que não podiam ser senão -as sentinellas avançadas do continente maravilhoso e dos archipelagos -opulentos. Era ainda para o occidente que se encontrava Cipango, era para -o sul? A opinião dos sabios tendia para esta ultima solução, e Pedro -Martyr d’Anghiera, o celebre amigo de Colombo, exclamava indignado com -uma expedição hespanhola á Florida: - -«Para o sul! para o sul! Para que precisamos nós de producções -semelhantes ás producções vulgares do Meio-Dia da Europa?»[112] - -O que deduzimos d’aqui? Deduzimos que, tendo louvavelmente D. Manuel -seguido á risca a politica de D. João II, a descoberta do Brazil por -Pedro Alvares Cabral foi resultado não do acaso, mas do intento firme e -propositado de procurar nos mares occidentaes o que Colombo ainda não -encontrára claramente—outro caminho para a India. - -Allega-se contra isso o silencio absoluto do governo a esse respeito. -Devemo-nos lembrar, porém, que Pedro Alvares Cabral não podia levar -instrucções patentes e abertas que denunciassem intentos contrarios aos -interesses da Hespanha. Lembremo-nos de que os reis catholicos tinham -protestado abertamente contra o projecto de uma expedição portugueza para -o occidente tentada por D. João II. Lembremo-nos de que, se a Hespanha -prohibia com penas severas as expedições particulares e clandestinas -para o lado que o governo estava explorando, não podia consentir que -expedições identicas fossem tentadas por um governo estrangeiro. O -governo portuguez tinha de se mostrar exclusivamente preoccupado com -a navegação do Oriente pela Africa; se as suas esquadras aproveitavam -as 370 leguas para se chegarem para o occidente era para evitarem as -calmarias da Guiné, e nunca no intento de interferirem com as descobertas -hespanholas, tanto assim que, apenas D. Manuel participa ao rei de -Hespanha o descobrimento do Brasil, apressa-se a dizer-lhe que é terra -muito boa e muito commoda para a navegação da India. Effectivamente o -rei de Hespanha obtivera promessa positiva do rei de Portugal de que -não tentaria navegar para o occidente, e tão positiva ella era que em -cartas a Christovam Colombo declara el-rei D. Fernando, que era aliás -bem desconfiado, que não havia motivo para desconfiar das intenções -do rei de Portugal. Apesar de tudo estavam sempre prestes caravelas -para poderem seguir no encalço das nossas, caso algumas saíssem com -intenções suspeitas.[113] Não admira portanto que se falasse bem alto na -necessidade de se evitar as calmas da Guiné, que nunca mais preoccuparam -os navegadores portuguezes depois do Brasil se ter descoberto, que D. -Manuel quizesse convencer bem o rei de Hespanha de que a nova terra não -era para elle senão um porto de escala para a navegação do oriente. - -Além d’isso, sabe-se pela leitura do famoso livro de Duarte Pacheco, -_Esmeraldo de situ orbis_, que, apesar de todas as precauções -hespanholas, já em 1498 Duarte Pacheco recebera ordens para ir sondar -os mares do occidente. De um periodo da sua declaração, confusamente -redigido, se quer deduzir que Duarte Pacheco houvesse então descoberto -o Brasil, e que Pedro Alvares Cabral não fosse senão tomar posse, mas -a descripção de Duarte Pacheco é absolutamente inexacta, o que prova -que não vira a terra de que fala, e além d’isto não era natural que -Duarte Pacheco, depois de ter descoberto secretamente o Brasil, não -fosse na esquadra que era exactamente encarregada de o descobrir -officialmente.[114] - -O que prova porém esta declaração é que o governo portuguez não -descançava em proseguir na navegação occidental, que, apesar das -precauções dos hespanhoes, lá iam navios nossos perscrutar o occidente, e -que bem provavel é que Pedro Alvares Cabral, cujas instrucções—por acaso -ou de proposito?—só nos chegaram truncadas, fosse encarregado de ver se, -mais feliz do que Colombo, encontrava, de caminho para a India, as terras -maravilhosas cujo sonho continuava a perseguir a imaginação dos Europeus. - -Como era possivel, diz-se, que Pedro Alvares levasse uma esquadra tão -numerosa, se fosse no intento de fazer descobertas, que se faziam -habitualmente com tres ou quatro caravelas? Em primeiro logar era -indispensavel esconder ao rei de Hespanha esses intentos descobridores, -em segundo logar, se effectivamente se fosse ter ás terras governadas -pelos potentados de que Marco Polo dera noticia, o exemplo do que -succedera a Vasco da Gama bem mostrava quanto era necessario que se -não apparecesse com pequena força deante d’esses soberanos do Oriente, -em terceiro logar o fim principal da viagem era ir á India. Se -effectivamente se topasse o Cipango ou o Cathay, a esquadra de Pedro -Alvares ia bem, assim forte e numerosa; se nada se encontrasse, ou se se -encontrasse terra como a que Colombo encontrara, voltava-se a seguir o -velho caminho de Calicut. - -Porque é que Pedro Alvares, tendo realisado a descoberta de que ia -incumbido, não voltou a Lisboa a dar a gloriosa noticia de tão importante -feito? Porque nem elle lhe reconheceu a importancia nem na côrte lh’a -reconheciam. O que dava cuidado ao governo portuguez não era que Colombo -tivesse descoberto umas ilhas selvagens, era que elle tivesse encontrado -um novo caminho para a India, assim como o que desconsolava os reis -catholicos, e fazia perder a Colombo o seu valimento e auctoridade, era -que, em vez d’elle ter encontrado paizes florescentes e civilisados, -encontrára ilhas selvagens. - -Depois do que temos dito, não extranham de certo os leitores e encontra -acceitavel explicação o facto de D. Manuel não ter dito aos reis -catholicos, nem se ter publicado o verdadeiro motivo da descoberta do -Brasil. Vejamos agora se os motivos até hoje allegados teem razão de ser. - -Foi uma tempestade que arrojou os navios em direcção ao occidente? -Extranha tempestade, que, em vez de dispersar os navios, os leva de -conserva ao mesmo ponto! Além d’isso nem o piloto da esquadra, que fez -a relação que Ramusio publicou nem Pero Vaz Caminha e o physico João -nas suas celebres cartas, nem D. Manuel nas cartas que escreveu aos -reis catholicos dizem uma palavra a respeito de semelhante tempestade. -Foi muito depois que Pedro de Mariz se lembrou de dar, por effeito -decorativo, a tempestade legendaria das descobertas á narrativa do -descobrimento do Brasil, que lhe parecera provavelmente desenfeitada -demais na sua abstenção de episodios. - -Note-se além d’isto que, segundo as informações dos roteiros colligidas -n’uma preciosa memoria do illustre official da marinha portugueza o sr. -Arthur Baldaque da Silva, as tempestades que sopram na região percorrida -pelas esquadras de Pedro Alvares, e na quadra em que elle a percorreu são -de noroeste e de sudoeste, que, longe de impellirem os navios para a -costa do Brasil pelo contrario os afastariam.[115] - -Mas foram as correntes que levaram os navios, diz Gonçalves Dias na -memoria em que procura refutar os argumentos de Joaquim Norberto, -e a grande corrente equatorial arrastou os navios para a costa do -Brasil.[116] Se Pedro Alvares Cabral tivesse chegado ao Pará, a sua ida -teria uma explicação, porque a corrente segue de leste a oeste ao longo -do Equador, mas, bifurcando no cabo de S. Roque, segue uma direcção -tal, combinada com os ventos geraes, que uma esquadra, diz o almirante -Monchez ha pouco fallecido, «não pode senão afastar-se cada vez mais da -costa, quando quer dobrar o cabo da Boa Esperança, visto que de um lado -os ventos permittem navegar para leste, do outro a costa afasta-se para -oeste».[117] Se se appella para as correntes da costa, vemos, segundo -o testemunho do mesmo almirante Monchez, «que durante a monção de SO -levam para o norte»;[118] ora a monção de SO dura de abril a setembro, -exactamente quando Pedro Alvares Cabral era, segundo se diz, arrastado -pelas correntes para o sul. - -Estes factos pareceram tão singulares ao almirante Monchez que não -podendo explicar por elles a descoberta do Brasil, e não conhecendo -os elementos politicos da questão, deduz o seguinte: «É pois quasi -impossivel dar outro motivo plausivel da chegada de Cabral á vista de -terra pelos 16° de latitude, a não ser um erro de caminho por esse -navegador.»[119] - -Esse erro tinha de ser constante durante 15 dias, e seria singular que só -se désse quando trazia em resultado a descoberta do Brasil, ao passo que -antes d’isso tinham passado, sem o mais leve engano, pelas Canarias e por -Cabo Verde, e depois d’isso foram direitos ao cabo da Boa Esperança. - -Confronte-se isto tudo, note-se que temos prova authentica de que em -1498, do anno immediato áquelle em que Vasco da Gama sahira de Portugal, -foi Duarte Pacheco incumbido de ir descobrir terras a sudoeste, que o -governo hespanhol tanto desconfia dos intentos de Portugal que espreita -as nossas costas e tem navios promptos para seguir qualquer expedição -portugueza que para o occidente se dirija, que D. Manuel, para desfazer -suspeitas, trata logo de declarar que a terra descoberta a utilidade que -tem é servir de porto de escala para a navegação da India, que trata -tambem de disfarçar a distancia a que o Brasil fica de Cabo Verde, -porque, tendo-lhe dito Pero Vaz de Caminha na sua carta que a nova -terra ficava a 660 ou 670 leguas da ilha de S. Nicolau no archipelago -de Cabo Verde, para os reis catholicos diz elle que fica a 400 leguas -não da ilha mas do Cabo Verde que bem se pode suppor que seja o da costa -africana,[120] de fórma que ficava assim o Brasil dentro da demarcação -do tratado de Tordesillas, e veja-se se não é de uma evidencia absoluta -que a descoberta do Brasil estava nos planos do governo portuguez, não -porque soubesse a terra que ia encontrar mas porque não queria deixar aos -seus rivaes o proveito de um caminho para a Asia mais curto do que o que -Vasco da Gama acabava de descobrir. - -Não vale a pena demorar-mo-nos nem um instante na refutação das lendas -relativas a suppostos descobrimentos do Brazil, anteriores a Pedro -Alvares Cabral. A lenda mais pueril é a que suppõe que, não só antes de -Pedro Alvares ter aportado a terras de Santa Cruz, mas ainda antes de -Colombo ter aportado a Guanahani, um Portuguez, João Ramalho, chegára a -terras brasileiras. Baseia-se essa lenda n’um supposto testamento feito -por esse João Ramalho, que foi efectivamente um dos primeiros colonos do -Brasil, mas que se tornára, pela sua residencia entre selvagens, quasi -tão selvagem como elles, testamento feito por elle em 1580, e em que -declara que havia noventa annos que estava no Brasil, aonde chegára, por -conseguinte, em 1490. Era portanto macrobio este venerando descobridor -que não podia ter menos de 20 annos quando chegou ao Brazil, e, ainda -quando o fosse, era singular o testamento de um homem, que, aos 110 -annos, tendo perdido as noções da vida civilisada, com tanta precisão -chronologica dizia que estava no Brasil não ha oitenta ou noventa annos, -como seria natural que o fizesse e talvez ainda exaggerando a conta, -mas rigorosamente ha noventa! Ora d’esse testamento não ha noticia -senão a que dá um d’esses chronistas fradescos do seculo XVII, que tão -facilmente, como é sabido, falsificavam datas e inventavam documentos. -Mas o golpe mortal n’esta lenda infantil foi dado por um eminente -escriptor brasileiro, o sr. Candido Mendes de Almeida, que depois de -mostrar o absurdo da lenda e a ausencia de documentos em que se baseasse, -publicou uma carta de um jesuita que, estando em 1559 na terra em que -João Ramalho habitava, e dando conta aos seus superiores dos progressos -da conversão dos indigenas, lhes fallava n’um Indio que lhe pediu que lhe -dissesse quaes os dias em que devia jejuar, porque deixára de o saber -desde _a morte de João Ramalho_, que era quem em vida lh’o dizia.[121] - -O que é, porém, estranho é que ainda encontremos com relação ao Brazil -a questão dos mappas. Porque mestre João diz a D. Manuel que, para -saber o sitio d’essa terra, veja um mappa-mundi antigo que tem Pero Vaz -Bisagudo, d’ahi se conclue que o Brasil já fôra descoberto, tanto que -já o inseriam n’um mappa. É a eterna historia dos mappas conjecturaes, -dos mappas em que appareciam ilhas que ninguem vira e que ninguem chegou -a vêr, e aquella terra ao sul do Equador, a terra incognita austral, a -terra antichthona ou o _alter orbis_. Pois não se vê realmente que as -cartas muitas vezes acompanhavam as descobertas, e que, se em rigor era -possivel que se fizessem descobrimentos que ficassem desconhecidos, o que -era impossivel era que a noticia d’esses descobrimentos se propagasse de -fórma que lhes inserissem os cartographos nos mappas os resultados, e que -apesar d’isso ficassem desconhecidos dos escriptores, dos sabios e dos -governos! - -Cem vezes o repetiremos: os descobridores do seculo XV, cheios de -respeito tradicional pela sabedoria antiga, não aspiravam senão a -encontrar o que os antigos, no seu entender, conheciam perfeitamente, e -por isso faziam esforços para adaptar o que descobriam e que encontravam -aos mappas conjecturaes. Como veremos, o que procuravam agora era a terra -antichthona, a que já se podia chegar desde o momento que se passára a -zona torrida, mas que estava separada da nossa pela extensão dos mares. -A essa terra antichthona suppunham chegar agora encontrando o Brasil, -e era ao Brasil até que chamavam o _novo mundo_. Que Pedro Alvares -Cabral julgára ter chegado á terra separada pelo mar do hemispherio -septentrional é incontestavel, e por isso facilmente se convenceu, pelo -que julgou deprehender dos gestos dos selvagens, que estava n’uma ilha, a -que deu o nome, primeiro que o Brasil teve, de ilha de Vera Cruz.[122] - -Julgamos porém ter demonstrado que esse descobrimento se liga intimamente -com o de Colombo, é a sua consequencia, como era tambem, ao mesmo -tempo, o da Terra-Nova por Gaspar Côrte Real. As descobertas portuguezas -conjugadas com as de Colombo produziam a descoberta do Brasil. Os dois -grandes problemas geographicos estavam resolvidos: a zona torrida não era -inultrapassavel, e por isso Pedro Alvares Cabral, seguindo as pizadas -de Bartholomeu Dias e de Vasco da Gama transpunha o Equador, entrava -em plena zona torrida e ía tranquillamente ao hemispherio meridional. -A extensão do mar oceano não era infinita, tinha o Atlantico outra -margem, e Pedro Alvares Cabral ía com plena confiança procural-a. Sem -os descobrimentos portuguezes nada faria Colombo, porque os Açores eram -um ponto capital de partida para as expedições occidentaes, e porque os -terrores da zona torrida e das suas proximidades, não lhe permittiriam -seguir o parallelo que seguiu. Sem o descobrimento de Colombo nada faria -Pedro Alvares Cabral, porque não ousaria ir tão longe para o occidente. A -Hespanha e a Portugal devia o mundo essa transformação da sua geographia. -Completal-a-hia a circum-navegação do globo e o encontro do caminho pelo -occidente para a Asia, e, como se a Providencia quizesse d’essa forma -sellar de um modo indestructivel a collaboração dos dois povos na obra -mais importante da historia da humanidade, foi um capitão portuguez -commandando navios hespanhoes que deu ao mundo o cinto argenteo do rasto -das suas quilhas, foi Fernão de Magalhães que planeou dirigiu e iniciou -a expedição, foi Sebastião d’El-Cano que a completou e concluiu, e para -que n’essa consagração ultima e solemne da conquista definitiva da Terra -pelo homem, não faltasse tambem a patria gloriosa de Colombo, a audaz, -a pensadora e sonhadora Italia, ía Pigafetta na expedição que narrou, -para que assim os tres povos latinos, que eram egualmente benemeritos da -civilisação e da sciencia, tivessem n’esse coroamento da grande obra os -seus representantes. Essa epopéa ultima que ía pôr o fecho ao trabalho -épico de um seculo para sempre glorioso nos fastos da humanidade, foi -um Portuguez que a dirigiu, foi um Hespanhol que a completou, foi um -Italiano que a escreveu. - - - - -X - -Os Côrte-Reaes—Americo Vespucio Fernão de Magalhães - - -Se antes da descoberta de Colombo, se tinham arrojado por mais de uma vez -navegadores açorianos para os mares do Occidente, com muita mais razão o -fariam, logo que esse importante acontecimento se realisou. Evidentemente -as viagens haviam de multiplicar-se. - -O esforço dos Açorianos e muito especialmente dos Côrte-Reaes dirige-se -então sobretudo para o Norte. Desde que Colombo chegou ás Antilhas, -que elle tomou por archipelago asiatico, e a Cuba que elle tomou então -por um pedaço de terra firme asiatica, opinião em que por muito tempo -persistiu, os navegadores de todos os paizes e principalmente os que, -antes de Colombo, como os Açorianos, já se occupavam de descobertas -para o occidente, haviam de procurar seguir-lhe as pisadas e procurar, -o que elle não conseguira, encontrar as terras maravilhosas de Cipango -e do extremo oriental das Indias. A convicção geral era que para o sul -é que se conseguiria esse _desideratum_, e já vimos como Pedro Martyr -d’Anghiera soltava com um enthusiasmo quasi irritado esse grito: Para o -sul! para o sul! - -Era esse effectivamente o caminho que todos em geral seguiam. Colombo e -os Pinzon ou foram mais para o occidente, ou foram para o sul. Mas isso -não queria dizer que a idéa da navegação pelo norte não entrasse tambem -em muitos espiritos. - -O mappa de Toscanelli, aquelle famoso mappa que era provavelmente o -que estava nas mãos de Pero Vaz Bisagudo, obedecia aos principios do -geographo que o desenhára e que tinha a convicção de que ao occidente -havia um prolongamento da Asia, que defrontava com o continente europeu -e africano desde a Islandia até Guiné. Se, indo ao centro, Colombo -encontrára effectivamente a Asia, como suppunha, mostrava portanto -que era verdadeira a conjectura de Toscanelli, restava confirmal-a -completamente. Foi isso que levou Pedro Alvares Cabral e muitos outros -navegadores, ou ás occultas ou a descoberto, a dirigirem-se para o sul, -foi isso talvez o que levou os Côrte-Reaes para o Norte. - -Lembram-se os leitores de que uma das supposições da geographia -systematica dos antigos era que o mar Baltico tinha saída para o oriente -e que ía ligar-se com o mar Indico. Strabão dizia que «o facto de que -certos navegadores viessem por mar da India á Hyrcania não é considerado -como certo, mas que isso seja possivel, Patroclo nol-o assegura.»[123] -Pomponio Mela conta muito positivamente que Metellus Céler, sendo -proconsul das Gallias, recebêra de presente de um rei germanico uns -Indios que, açoitados pela tempestade, tinham vindo da India á Germania -«vi tempestatum _ex Indicis æquoribus abrepti_.»[124] Discutiu-se muito -no nosso tempo se estes homens, que eram, ao que parece, e no caso de -ser verdadeira a noticia, de uma raça differente da européa, não seriam -afinal de contas senão Esquimaus arrojados, como a barcos tantas vezes -succedêra e tem succedido, das costas americanas ás costas irlandezas, -escocezas ou allemãs. O que é certo é que a idéa de haver communicação -entre a Europa e a India pelo norte, indo-se, porém, do occidente para o -oriente estava enraizada no animo de muitos geographos antigos. - -Assim que se encontrou ou se suppoz encontrar a costa asiatica indo-se -pelo occidente, a communicação tanto se podia fazer pelo norte, como -pelo centro, como pelo sul. Effectivamente as costas asiaticas, como o -suppozera Toscanelli, estendiam-se de norte ao sul, desde a Islandia até -á Guiné. Era evidente que a expedição do norte tentava os açorianos. Logo -que Gaspar Côrte-Real em 1500 encontrou terras, imaginou, como Colombo, -ter encontrado terras asiaticas, e uma carta de Pespertigo, embaixador de -Veneza em Portugal, é, para esclarecer esse assumpto, muito curiosa. - -Diz elle: «Tambem crêem (os _Portuguezes_) estar ligada (_a Terra dos -Côrtes-Reaes_) com as Antilhas que foram descobertas pela Hespanha, e com -a terra dos papagaios (_Brasil_) ultimamente achada pelos navios d’este -reino que foram a Calicut.»[125] - -Humboldt que teve conhecimento d’este documento, espanta-se muito com -elle. «No mez de outubro de 1501, diz o sabio escriptor, sabia-se já em -Portugal que as terras do norte cobertas de neves e de gelo são contiguas -ás Antilhas e á Terra dos Papagaios novamente encontrada. Esta advinhação -que proclama, apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, como -ligação continental entre o Brasil descoberto por Vicente Vanez Pinzon, -Diogo de Sepe e Cabral e as terras geladas do Lavrador _é muito -surprehendente_.»[126] - -A surpreza de Humboldt vem apenas da pouca importancia que elle dá á -interferencia portugueza no descobrimento da America. Desde o momento -que elle ignora as tentativas dos Açorianos para chegarem a terras -occidentaes antes de Colombo, as tentativas que fizeram depois, desde o -momento que elle não conhece as expedições clandestinas dos Portuguezes -para encontrarem ao sul as terras asiaticas que Colombo não achára, -desde o momento que attribue a um méro acaso a descoberta do Brasil -por Pedro Alvares Cabral é evidente que não pode achar a concatenação -de todos estes esforços, de que provém o presentimento da ligação de -todas essas terras descobertas separadamente. Era sempre a Asia que -todos os descobridores julgavam encontrar, ilhas da Asia ao sul, terras -da Asia ao norte. N’um mappa publicado recentemente pelo sr. Harnin, o -brilhante apologista dos Côrte-Reaes, se diz que viram n’umas terras a -que não chegaram «serras muito espessas, pollo quall segum a opiniom dos -cosmófircos se cree ser a _ponta d’asia_.»[127] - -A prioridade do descobrimento da Terra do Lavrador e da Terra Nova -por Gaspar Côrte-Real está hoje tão completamente demonstrada, depois -que o sr. Harnin e o sr. Patterson publicaram os seus excellentes -trabalhos, que nos parece escusado insistir na refutação das pretenções -dos dois Cabots, venezianos ao serviço da Inglaterra. É realmente -curioso e estranho, que as descobertas portuguezas, apenas são feitas, -encontram logo echo em todo o mundo, e as descobertas estrangeiras, -que destruiriam as nossas, tanto em segredo se fazem, que só depois -se suppõe reconhecel-as por uma referencia vaga ou por um documento -apocrypho. Apenas Gaspar Côrte-Real volta da Terra Nova, apressa-se -Pedro Pascaalijo, embaixador de Veneza (de Veneza, que é a patria de -Cabot) a communical-a ao seu governo, Alberto Contino ao duque de Mantua. -Das viagens de João Cabot só se deprehende que podia ser que tivessem -existido, por uma d’essas referencias vagas que temos mencionado. Mais -ainda. Henrique VII de Inglaterra, em cujo proveito fizera Cabot a sua -expedição, dá a 19 de março de 1501 a mais larga e avultada doação que é -possivel imaginar-se a tres negociantes de Bristol, Richard Warde, Thomaz -Assehepurat e John Thomaz, associados com os açorianos João Fernandes, -Francisco Fernandes e João Gonçalves, para que fossem explorar, -descobrir, povoar e dominar todas e quaesquer terras nos mares oriental, -occidental, austral, boreal ou septentrional, garante-lhes que, se -alguns estrangeiros ou outros individuos ousarem navegar para as partes -onde elles forem, sem licença, serão punidos, embora invoquem qualquer -concessão que lhes tenha sido feita, etc. É uma verdadeira concessão -ingleza, positiva e ao mesmo tempo minuciosissima, sem restricções nem -peias, como de quem quer que as coisas se façam e não regateia os meios, -mas, se João Cabot se tivesse antecipado a estes mercadores e em proveito -do rei de Inglaterra, era absolutamente disparatada semelhante concessão, -que só se pode fazer, quando os lezados, se os houver, pertencerem a paiz -estrangeiro, e possam, portanto, ser tratados como inimigos.[128] - -Mas a origem da lenda aponta-a com segurança o sr. Ernesto do Canto. -Está na adulteração da versão latina de uma das cartas de Pascaaligo. -Diz que «os selvagens têem nas orelhas umas argolas de prata _che senza -dubbio pareno sia facti a Venetia_. E, dizendo isto, quer o embaixador -dar uma idéa do aperfeiçoamento d’aquella arte selvagem. O traductor diz -tranquillamente: _cælaturam Venetam in primis præ se ferentes_. E assim, -por uma traducção de má fé ficou estabelecido que antes dos Portuguezes -alli tinham estado Venezianos. E quando Pascaaligo affirma que a terra -descoberta por Gaspar Côrte-Real até ahi _nunca_ fôra vista por ninguem, -Madrijuan traduz: terra até ahi _a quasi_ todo o mundo desconhecida.[129] - -Mas, apesar d’isso, essas terras do norte figuraram por muito tempo -nos mappas como _terras dos Côrtes-Reaes_. Na Terra Nova, no Canadá, -no golpho de S. Lourenço conservaram-se nomes portuguezes que se -reconhecem atravez da adulteração, como _Por_ Baye bahia da _Torre_, -_Mira_, _Minas_, _Porto-Novo_, transformado em _Port-Novy_, e o nome de -Lavrador por tanto tempo consagrado difficilmente se pode attribuir a -outra linguagem que não seja a portugueza. Felizmente são escriptores -americanos e dos mais notaveis que defendem a gloria portugueza e -justificam as nossas reivindicações.[130] - -Na segunda viagem Gaspar Corte-Real singrou mais para o norte, mas nunca -mais voltou. Foi em sua busca seu irmão Miguel Corte-Real, mas tambem se -perdeu entre os gelos, voltando as caravelas que acompanhavam a sua. E é -de ver que, longe de procurarem terras para o sul das que primeiro tinham -descoberto, e que seriam de certo mais attrahentes e tentadoras, era -sempre para o norte que seguiam, tão radicado estava no seu pensamento -o desejo de procurarem a Asia, a Asia opulenta, por aquellas gelidas -paragens septentrionaes, de fórma que a procura d’essa passagem do -noroeste que fez tantos martyres nos tempos modernos e glorificou tantos -navegadores illustres, foi tambem pelos Portuguezes primeiro tentada com -audacia mais notavel ainda por serem meridionaes que nem tinham visto -talvez em toda a sua vida neve, mas que orgulhosos de terem provado que -não era inhabitavel a zona torrida queriam a todas as zonas declaradas -inhabitadas pelos antigos, ampliar a sua demonstração, e quando Franklin, -o heroe moderno, que esse ao menos sempre vivera em regiões onde o frio é -um inimigo constante que se conhece e com que se lucta, ia deixar n’essas -ignotas regiões o seu cadaver e dos seus e o casco esmigalhado do seu -navio, encontrou talvez enterrada em eternos gelos a caravela de Miguel -Corte-Real, e branquejando entre as neves á luz crepuscular do sol dos -polos os ossos dos audaciosos Portuguezes que, na epocha aurea da sua -gloriosa expansão, não queriam deixar um só recanto do mundo a que não -levassem a ousadia do seu genio e o ardor das suas explorações. - -Por muito tempo perseverou na exploração do Norte a gente açoriana e -minhota. A lista dos descobridores não pára nos Côrte-Reaes. João Alves, -Fagundes e outros exploraram essa costa, ainda depois dos francezes e -inglezes terem tentado tambem ir exploral-a. Houve até tentativas de -colonisação, e esses mares foram por muito tempo theatro de actividade -dos pescadores portuguezes. Hakluyt ainda notou que eram Portuguezes -e hespanhoes os que mais se occupavam da pesca do bacalhau. Navios -portuguezes estavam, em certas occasiões, cincoenta ou sessenta.[131] Mas -depois cahiu sobre tudo isto a mortalha da decadencia, que, não recobre -ao menos a mortalha do esquecimento. - -Entretanto o Brasil, considerado uma ilha, continuava a ser explorado -por Gonçalo Coelho, por Christovão Jacques, Fernando de Noronha, etc., e -tambem pelos hespanhoes Pinzon e Solis e pelo veneziano Cabot. N’algumas -das expedições portuguezas[132] foi como piloto Americo Vespucio; do seu -nome fez Ylacomilas na sua _Cosmographiae introdutio_ o nome do novo -continente, e por esse facto se lamenta a injustiça da posteridade, que -esqueceu o nome do grande descobridor Colombo para glorificar o nome do -fanfarrão cosmographo. - -É esta questão que rapidamente vamos tratar. - -Colombo morreu julgando sempre que chegara á Asia e o mundo partilhava -a sua opinião. Quando Pedro Alvares Cabral encontrou terra ao sul do -Equador, já se não poude acreditar que se estivesse nas visinhanças do -Cathay e do Cipango. Não o permittia a latitude. Quando as explorações -successivas fizeram reconhecer que se estava realmente n’um grande -continente, o que se imaginou, o que se entendeu, porque a tudo -presidia a lembrança das theorias da antiguidade, foi que se estava em -terra antichthona, e por isso, como diz D. Manuel na sua carta ao rei -catholico, muitos lhe davam o nome de Novo Mundo.[133] Era effectivamente -_alter orbis_, a quarta parte da terra, com a qual nada tinham as ilhas -asiaticas e o continente asiatico que Christovam Colombo descobrira. - -Quando os Portuguezes em 1501, suppunham que as Antilhas, o Brazil e a -Terra Nova constituiam uma terra unica, suppunham que essa terra era a -Asia. Quando depois de 1501 se viu que o Brazil se prolongava muito para -o sul, entendeu-se que as Antilhas e a Terra Nova faziam parte da Asia, -mas que o Brazil constituia a quarta parte do mundo, o _alter orbis_, o -Novo Mundo, a terra central de Ptolomeu. - -Portanto não se fazia uma injustiça a Colombo, nem talvez a Cabral, só -aos capitães das expedições em que Americo Vespucio navegara, porque -essas expedições é que tinham identificado o paiz novamente descoberto -com a antiga terra de Ptolomeu, mas Americo o cosmographo, que espalhara -a noticia, foi que colheu o proveito, e o _novo mundo_ descoberto, não -por Christovão Colombo, que nem acceitaria semelhante gloria, mas pelas -expedições de que fazia parte Americo, recebeu o nome de America,[134] -sem que Colombo, se ainda estivesse vivo, podesse ou quizesse protestar. - -De certo, depois, quando se reconheceu a verdade, quando se percebeu que -Novo Mundo era tudo, seria de perfeita justiça restituir a Colombo o -que a Colombo era devido, mas já se tomara o habito da nova denominação, -demais a mais euphonica e agradavel, e America ficou sendo o todo, quando -ao principio só fôra America uma parte. - -Não temos ensejo agora de discutir a questão das verdades ou das mentiras -de Americo. Parece-nos comtudo que tem sido injustamente maltratado o -cosmographo florentino. É-lhe muito adverso o visconde de Santarem, -que a seu respeito publicou um livro celebre,[135] mas o visconde de -Santarem não tinha conhecimento das expedições clandestinas portuguezas, -conhecimento que torna hoje mais verosimil a viagem em que Americo -Vespucio encontrou, indo para o occidente, Pedro Alvares que voltava da -India, e que fôra considerada pelo visconde de Santarem apocrypha. - -Reconhecida a existencia da terra central, era indispensavel procurar -meio de se chegar á Asia. As expedições portuguezas levavam todas o fito -de encontrar um estreito que as conduzisse aos mares asiaticos. Essa idéa -do estreito era predominante nos espiritos do tempo. Era assim que se -fazia a communicação entre os dois mares, e era por estreitos, segundo a -cosmographia antiga, que se fazia a communicação entre o mar exterior e -os golphos que elle formava, que eram, como dissémos, o mar Persico, o -Indico, o Mediterraneo e o Caspio.[136] - -Como estreitos conhecia a geographia conjectural os mares descobertos por -Christovão Colombo. Havia-os em Panamá, e alguns rios da America do Sul -foram tomados primeiro por estreitos.[137] D’ahi a lenda que attribue a -Fernão de Magalhães o ter tido já conhecimento, por um mappa, do estreito -que descobriu. O que elle tinha era a lição dos mappas conjecturaes, era -o culto pelas velhas theorias que faziam passar por estreitos as aguas -do mar exterior para os mares interiores, e se elle descobriu o que -os outros não acharam, se á Hespanha levou essa gloria, foi porque D. -Manuel, cançado de não encontrar senão terra para o sul, entendeu que o -novo continente se immergia ao sul, como ao norte, pelo polo. Magalhães -perseverou, dizendo que penetraria no estreito, ainda que tivesse de -sumir-se na região polar, onde ha o frio e a brisa;[138] depois a -descoberta das ilhas do mar Pacifico ao sul da Asia, feita por Antonio -de Abreu e os outros expedicionarios enviados por Albuquerque, mais o -convenceu de que haveria ilhas tambem ao sul da America como as havia -ao sul da Asia, e que entre essas ilhas havia de encontrar por força o -famoso estreito que o conduziria pelo occidente á Asia. - - * * * * * - -Tinha concluido este meu trabalho, e tratava já de lhe pôr o fecho, -quando exigencias de uma missão official me levaram a Hespanha. Assisti -no dia 11 de outubro de 1892, em Huelva, á ultima sessão do congresso -dos americanistas, e, não podendo apresentar o livro que estava por -completar, apresentei uma resumida indicação em francez das idéas que -lhe serviam de fundamento. Acolhida com extraordinaria benevolencia, -essa communicação teve a felicidade de encontrar echos sympathicos. -O sr. Hamy, membro do Instituto de França, e dignissimo successor -do grande Quatrefages, e o sr. Marcel, distincto geographo, deram -noticia ao congresso, logo em seguida á leitura do meu resumo, e a mim -em particular, de trabalhos seus que confirmavam plenamente a minha -conjectura ácerca da descoberta do Brasil. A linha de demarcação de -Tordesillas fôra origem de falsificações cartographicas inspiradas pelo -zelo patriotico dos cartographos, falsificações pelas quaes Portuguezes -e Hespanhoes procuravam fazer entrar dentro da zona dos seus paizes as -terras que se iam descobrindo. Assim effectivamente o governo portuguez -mostrava que não fôra platonicamente que pedira e obtivera as 370 leguas -além das ilhas de Cabo-Verde. Tratou logo em seguida de explorar esse mar -occidental, cujos segredos Colombo desvendára, e a viagem clandestina de -Duarte Pacheco não era senão uma d’essas explorações, como foi com esses -intuitos exploradores que Pedro Alvares Cabral muito de proposito se -desviou do caminho que o devia conduzir directamente á India. Descoberto -o Brasil, tratava D. Manuel de explicar ao rei catholico que essa terra -não ficava fóra da sua zona, e tratavam os cartographos portuguezes de -sanccionar essa affirmação, da mesma fórma que os cartographos hespanhoes -procuravam incluir as Molucas na zona concedida ao seu paiz. Foi ainda -a esse intuito que obedeceram Abreu e Serrão, enviados por Albuquerque -a explorar os mares para além de Java e de Sumatra, e que nas suas -audaciosas viagens não só tomaram conhecimento de um grande numero de -ilhas que n’esses mares pollulavam, mas entreviram a Nova Guiné, e -adivinharam a Australia. - -Esta ultima affirmação é feita pelo sr. Hamy, e falta-me agora o espaço e -o tempo para fazer entrar no quadro d’este livro essa importante e ainda -hoje obscura questão do descobrimento da Australia. - -Mas o que fica assente de um modo incontestavel é que a participação -dos Portuguezes no descobrimento da America foi efficaz e activa. Se -o seu governo hesitou perante a temeridade de Colombo, se sacrificou -demasiadamente aos conselhos da fria razão no momento em que era -necessario um lance de audacia e um arrojo de visionario, logo, -despeitados por esse momento de fraqueza, e estimulados pelo glorioso -commettimento dos visinhos, precipitaram-se com verdadeira furia para -esse occidente que tinham receiado desvendar e foram tambem como Colombo -em procura da Asia pelos mares poentes. Uns e outros, Gaspar Côrte-Real -ao norte e Cabral ao sul, esbarraram com a mesma barreira que detivera -Colombo, barreira que os despeitava, que os indignava, que teimavam em -considerar como uma longa cadeia de ilhas que se desdobrava, como um -cordão de sentinellas ferozes e asperas, deante da Asia resplandecente, -e que era afinal bem mais fulgurante de maravilhosas riquezas do que -essa Asia decrepita e estagnada no seu somno de seculos. Por entre os -gelos do Norte, por entre as suppostas ilhas ao Sul, procuravam todos, -Hespanhoes e Portuguezes, o caminho de Cathay e de Cipango. Quando se -fatigaram de tão vãs tentativas, quando se convenceram de que era um novo -mundo que tinham deante de si, barreira inquebrantavel que lhes vedava -por esse lado o caminho para o Oriente, a perspicacia e a audacia e a -perseverança do portuguez Magalhães conseguiram desfazer essa ultima -illusão, reconstituir no espirito humano a Terra inteira na logica da sua -estructura, e conquistar para a Sciencia o morgado da Humanidade. - - - - -XI - -Conclusão - - -Lancemos os olhos para o espaço que rapidamente percorremos. Encontramos -a sciencia antiga desvelando maravilhosamente alguns dos segredos mais -importantes da cosmographia, mas estacionada n’uma solução do grande -problema que se lhe affigurara satisfatorio, e que era comtudo um -obstaculo invencivel para todo o progresso geographico. Depois de mil -conjecturas phantasistas, pode-se dizer que um grande resultado se -obtivera: o reconhecimento da esphericidade da terra. Mas o orgulho -humano oppunha-se invencivelmente á hypothese que désse a essa Terra, e -portanto á raça pensadora que a habitava, um logar inferior no concerto -do universo. O sol continuou a girar acompanhado por todo o systema -planetario e por todo o mundo stellar em torno da terra immovel e -soberana. Era comtudo esse um terrivel escravo, porque bastava a sua -ausencia para que fenecesse a vegetação e definhasse a vida; por isso -tambem era natural que nos pontos onde o seu contacto fosse mais proximo -o excesso do calor produzia o effeito contrario, e désse tal intensidade -á vida que a fizesse desapparecer na conflagração do abrazo. O mytho de -Zeus e de Semele parecia traduzir este pensamento. - -Quando a terra mãe, a Terra que o deus terrivel fecundava, o queria ver -de perto com todo o explendor do seu vulto, com toda a grandeza da sua -omnipotencia, bastava a presença do amante para a reduzir a cinzas. Era -em torno da zona média da terra que o sol descrevia o seu giro, era -ahi portanto que se approximava da terra, e ahi forçosamente a vida -desappareceria no incendio dos seus raios. - -Assim era a Sciencia que vedava o caminhar do homem. O mundo civilisado -dilatava-se, graças aos esforços e á audacia dos Phenicios, mas, por mais -audaciosos que fossem, considerariam uma insania suprema transpor os -limites das zonas defezas. - -Para essas regiões que os mortaes não podiam pisar transportava a -phantasia humana a residencia d’aquelles, que, libertos dos laços da vida -mortal, podiam existir em condições negadas á fraca humanidade. Foi pois -assim que para além do terminus da sciencia positiva, ou para o norte, -ou para o sul, a imaginação collocou as regiões da bemaventurança. - -Veiu a edade média, em que uma sociedade barbara procurando reatar o -fio da civilisação, tomou como ideal supremo da sua sabedoria a sabia -antiguidade. - -Se Ptolomeu e os outros eram respeitados pelos seus contemporaneos como -eximios sabedores, para os seus novos discipulos eram perfeitamente -oraculos, e a Sciencia continuou, mais do que nunca, a deter o homem -dentro dos limites consagrados. Assim como os Phenicios, fundeados por -assim dizer á beira da Syria, sondaram o Mediterraneo primeiro e depois -o Atlantico, o infante D. Henrique de pé no posto mais avançado da costa -europeia sentiu o desejo ardentissimo de sondar o grande mysterio. -Realisou-lhe a audacia dos seus navegadores o seu sonho querido, -quebrou-se a barreira da zona torrida, e ampliou-se para o occidente o -conhecimento do Oceano. As affirmações da sciencia antiga iam caindo uma -a uma sem que os navegadores ousassem comtudo desmentil-as, senão nos -pontos em que a experiencia mostrava definitivamente a sua fallibilidade. -A Africa foi tomando os seus contornos verdadeiros, dobrou-se a sua -ponta meridional, seguiu-se para o oriente, sem se encontrar o mar -mediterraneo das Indias, a peninsula indostanica foi tambem reintegrada -na sua verdadeira fórma, o Cathay da narrativa semi-legendaria de Marco -Polo appareceu na figura extranha d’essa China immobilisada, apesar de -rica e sabia, o Cipango transformou-se no archipelago japonez, e as ilhas -do meio-dia asiatico começaram a apparecer disseminadas nos mares como -as pérolas dispersas de um collar que se despedaçasse. Foi essa a obra -gigante dos Portuguezes. - -Mas a elles tambem se devia o encontro de um novo posto de observação, -de uma atalaya estimulante perdida no seio do Oceano. Como os Phenicios -em Tyro, como o infante D. Henrique em Sagres, ia Colombo mais adeante -sonhar mundos desconhecidos nos penhascos dos Açores. Era d’alli que via -as caravelas de outros sonhadores como elle, a quem só faltava o genio e -a perseverança, demandar alguma ilha mysteriosa para além do Oceano, ou -os restos d’aquella mysteriosa Atlantida, que fôra um dos vagos sonhos -da antiguidade. O alargamento da terra seguiu a sua ordem logica; os -Phenicios chegavam de Tyro a Carthago, e desvendavam o Mediterraneo, -de Carthago a Cadiz e descobriam o Atlantico, os Portuguezes de Sagres -desvendavam o segredo do Oceano para o sul e chegavam ao Cabo da Boa -Esperança, do Cabo da Boa Esperança quebravam o mysterio do mar oriental, -e aportavam a Calicut e a Goa, e de Goa irradiavam para o sul e para -o oriente as investigações finaes. De Sagres tambem, singrando para -o occidente, iam poisar nos Açores; estava reservado aos Hespanhoes, -guiados por Colombo, a audaciosa investigação que ia dar a America ao -mundo. - -O que era necessario, porém, era ligar essas duas grandes emprezas. Por -circumstancias verdadeiramente providenciaes foram os representantes -dos dois povos ligados na mesma empreza, que ataram as fitas soltas das -grandes explorações oceanicas, e esse enlace supremo foi Magalhães que o -começou, foi Elcano que o concluiu. - -Assim nas descobertas como em todas as emprezas do espirito humano é a -evolução que se manifesta. Não procede por saltos a natureza, tudo se -liga e se concatena. A missão dos grandes homens está exactamente em -serem os elos d’essa cadeia. As tentativas infructiferas, dispersas, -quasi inconscientes dos Catalães de Jayme Ferrer, dos Normandos de -Bethencourt, dos Genovezes de Vivaldi, e dos pescadores e marinheiros -portuguezes que procuravam arcar com o cabo Não ou devassar o Atlantico -unia-as o infante D. Henrique, dava-lhes o nó que as aproveitava, o -cabo Bojador dobrava-se e os Açores e a Madeira sahiam do seio das -ondas. As tentativas infructuosas tambem dos Açorianos e dos Madeirenses -ligava-as a mão poderosa de Colombo, e dava assim um novo fusil á cadeia -dos descobrimentos e a America apparecia. E por isso os povos quando -encontram na sua historia um d’esses homens insignes, sem renegar os -seus esforços collectivos, nem deixar de lhes reconhecer a importancia, -saudam n’esses grandes vultos uns entes extraordinarios que souberam dar -uma realidade positiva aos seus sonhos e ás suas aspirações, e foram -n’esse tumultuar de pensamentos desconnexos e inconscientes, as radiosas -incarnações da Consciencia da humanidade. - - - - -FOOTNOTES - - -[1] Tom. I, secção 1.ª, pag. 285. - -[2] Publicado por Dumont no _Corpo Diplomatico_, tom. III, parte I, pag. -200. E além d’esta as bullas de Calixto III, de 14 de maio de 1455 e de -Xisto XV, de 21 de julho de 1481, e a famosa divisão dos mares entre -Portugal e a Hespanha por Alexandre VI, e os tratados entre Portugal e -Hespanha, em que sempre se reconheceu o direito que tinhamos á costa -africana pela prioridade do descobrimento, e a deferencia com que a -França sempre reconheceu o nosso direito, mandando Luiz XII restituir uma -caravela portugueza vinda da Mina, tomada pelos francezes, e prohibindo -Francisco I, a 28 de junho de 1532, que fossem navios francezes á costa -da Guiné, em attenção aos tratados! V. Visconde de Santarem: _Recherches -sur la découverte des pays situés sur la côte occidentale d’Afrique au -delà du cap Bojador_ etc., § VII, pag. 67 e segg. E em 1513, publicou-se -em França, um livro intitulado: _Nouveau Monde et navigations fectes dans -les pays et iles auparavant inconnues_, e cujo primeiro livro se intitula -_Livro da primeira navegação pelo Occeano para a terra dos Negros -da baixa Ethiopia por ordem do illustre senhor infante D. Henrique, -irmão de D. Duarte, rei de Portugal_. E esse livro reimprimiu-se em -1516! E note-se que Francisco I não se desinteressava na questão dos -descobrimentos, e os marinheiros francezes procuravam seguir as nossas -pisadas. É conhecido o famoso dito do rei de França, que queria saber -qual o artigo do testamento de Adão que deixava parte do mundo aos reis -de Portugal e de Hespanha. Podendo pôr embargos, era de estranhar que o -não fizesse. - -[3] _Histoire de la première descouverte et conqueste des Canarias faite -dés l’an 1402 par messire Jean de Bethencourt, escrite du temps mesme par -F. Pierre Bontier et Jean Le Verrier, prestres domestiques dudit sieur de -Bethencourt, conseiller du roy en la cour du parlement de Rouen_, cap. -LIII, pag. 95. (Paris, 1830). - -[4] _Ibid._, pag. 4. - -[5] _Ibid._, cap. LIV. - -[6] _Ibid._, pag. 102. - -[7] Palavras de Innocencio VII, escriptas em 1406 a João de Bethencourt e -citadas na relação dos capellães a pag. 197, cap. LXXXIX. - -[8] Este erro gravissimo deu origem a todas as falsas reivindicações -francezas, apezar de ter sido completamente desfeito no proprio seculo -XV. Chamava-se primeiro _Gianya_, _Gineva_ ou _Gynoya_ ou _Guiné_ á -terra proxima de Marrocos, que se suppunha habitada pelos negros, e com -a qual se fazia commercio. Era esta a Guiné que ficava a doze leguas das -Canarias, «do outro lado da ilha de Fuerteventura», como dizem ainda -os capellães de Bethencourt. Azurara, quando chama _Guiné_ á costa do -Senegal descoberta pelos Portuguezes, desculpa-se de ter já chamado -assim, para empregar a linguagem commum, a outro paiz onde tinham estado -primeiro os Portuguezes, e que era d’este muito distante. Essa _primeira -Guiné_, ou _Guiné antiga_, reclamou-lhe o senhorio o rei de Castella, -D. João II, que escrevendo de Valladolid a D. Affonso V de Portugal, -a 19 de abril de 1454, dizia-lhe: «Otrosi, rey muy caro, e muy amado -sobrino, vos notificamos que, viniendo ciertas caravellas de ciertos -nuestros subditos e naturales vecinos de las nuestras ciudades de Sevilla -y Cadiz con sus mercaderias _de la tierra que llaman Guinea, que es de -nuestra conquista_, e llegando cerca de la nuestra ciudad de Cadiz á una -linea estando en nuestro señorio e jurisdicion, recudieron contra ellos -Pallencio, vuestro capitan etc.» - -Esta Guiné, cuja conquista o rei de Castella dizia pertencer-lhe, fazia -parte do reino da Africa, sobre a qual os reis de Castella diziam ter -direito, herdado dos Godos. Quando o nome de Guiné ficou pertencendo á -região que hoje o tem, quer dizer a que está para além do Cabo Bojador, -os reis de Portugal tomaram sem contestação nem cedencia de Castella -o titulo de _senhores de Guiné_, baseado no direito de primeiros -descobridores que ninguem lhes impugnou. E a Guiné antiga perdeu essa -denominação. Ahi está o segredo da confusão que deu origem ás pretenções -tão absurdas dos Normandos e dos Catalães. - -[9] «Toscanelli distingue en outre les îles que l’on rencontrera sur la -route, _que estan situadas en este viage_, par exemple l’Antilia, d’avec -les îles qui sont proches de l’Inde continentale, par exemple Cipango -et les îles avec les quelles trafiquent les négocians de différentes -nations.»—Humboldt.—_Histoire de la géographie du nouveau continent_, -tom. I, sec. 1.ª, pag. 228. - -[10] Ácerca das tres Indias, e das differentes denominações com -que apparecem na edade média, veja-se sobretudo o magnifico _Essai -sur l’histoire de la cosmographie et de la cartographie pendant le -moyen-âge_, etc., pelo visconde de Santarem, tom. I, pag. 136, 251, 182, -394, tom. II, pag. XXXVIII, 189, 223, tom. III, pag. 28, 420, 346, 371, -161, 199, 217, 274, 161, 240, 442, 360, 370, 195. (Paris, 1849). Os nomes -das differentes Indias são variadissimos, Barbara, Deserta, Primeira, -Segunda e Terceiro, Magna e Parva, Superior, Inferior e Exterior, Intra -Gangem, Ultima, Arenosa, etc. Sabendo-se o que eram estas differentes -Indias, como abrangiam a Tartaria, a Arabia, a China, e até a Ethiopia, -espantar-se-ha menos o leitor de que os Portuguezes procurassem na Africa -o _Prestes João das Indias_. Essa lenda tambem mudou de local como o nome -de Guiné e a designação de Ethiopia, mas pode-se dizer que nunca saíu de -alguma d’essas Indias. - -[11] Gosselin _Recherches sur la géographie systématique des anciens_, -tom. I, pag. 140. É firmando-se na auctoridade de Herodoto que este sabio -affirma que o grande Oasis do Egypto tinha outr’ora o nome de _ilha dos -Bemaventurados_. - -[12] O mappa-mundi de 1417, conservado no palacio Pitti, por exemplo, -indica duas Taprobanas, Ceylão e Sumatra. Quando não era Sumatra -exclusivamente Taprobana, era a uma das duas ilhas que esse nome se dava. -D. João de Castro no prologo do seu _Roteiro de Lisboa a Goa_, quando -falla a El-Rei de Portugal nos dominios que tem, diz: «como Taprobana que -os antigos criam ser outro mundo nouo, reconhece seu alto nome e lhe paga -pareas» e accrescenta em nota: «_Taprobana é agora chamada Samatra_» a -pag. 14. A essa Taprobana tambem se refere evidentemente Camões no seu -famoso verso: - - _Passaram inda além da Taprobana_ - -Tendo no tempo de Camões chegado os Portuguezes já ao Japão, era bem -natural que, havendo a Taprobana-Ceylão e a Taprobana-Sumatra a esta -ultima se referisse o grande poeta indicando o limite ultrapassado pelos -Portuguezes. O famoso mappa da cathedral do Hereford colloca a Taprobana -defronte do golpho Arabico. Prisciano no seu poema geographico põe a -Taprobana no mar oriental juntamente com a ilha phantastica do Ouro. No -tratado _De moribus brachmanorum_ que se attribue a S.ᵗᵒ Ambrosio citado -por Klaproth na sua _Lettre sur la boussole_, pag. 53, põe-se a Taprobana -em Ceylão, ilha que tem magnetes que attrahem os navios que teem pregos -de ferro e não os deixa mover. N’alguns mappas da edade média põe-se a -Taprobana deante da bocca do Ganges. - -[13] A _Aurea Chersoneso_ de Ptolomeu e de Marino de Tyro corresponde sem -duvida á peninsula de Malaca, mas o mappa de La Salle por exemplo colloca -a _Aurea Chersoneso_ no Indostão. - -[14] _Mémoire sur le pays d’Ophir, oú les flottes de Salomon alloient -chercher de l’or_, nas _Mémoires de littérature de l’Académie royale des -inscriptions et belles-lettres_, tom. XXX, pag. 83 a 93, (Paris, 1764). -Este paiz de Ophir tem uma terrivel parecença com as ilhas de Chryse e -de Argyra, e do Sol e dos Homens e das Mulheres que apparecem nos mappas -conjecturaes. N’alguns mappas Ophir tambem apparece como ilha. Querer -determinal-o não será querer tomar muito ao pé da letra as indicações -vagas da Biblia? - -[15] A idéa adoptada na edade média, que vinha da antiguidade e que durou -até ao seculo XVI, é a das duas Ethiopias de Homero, a que fica entre -os dois Nilos, e a que se liga com os Mauritanos. S. João Damasceno, -dividindo os habitantes da terra segundo as areas dos ventos, dizia: «Ad -Africum Ethiopes et occidentales Mauri, ad Favonium Herculis columnæ, -etc.» _De fide orthodoxa_, tom. I, pag. 69. _Apud_ Visconde de Santarem -_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, pag. 32. Assim -é corrente que a baixa Ethiopia começa para os escriptores medievaes nas -proximidades da Mauritania, quer dizer, pega com a Guiné primitiva, com -a Guiné de Bethencourt. O titulo dos reis de Portugal mostra bem que -Ethiopia quer dizer simplesmente _Africa_. Assim diz o titulo: Rei de -Portugal e dos Algarves, d’aquem e d’além-mar em Africa... (Este Algarve -na Africa era Ceuta e Tanger, etc.) senhor de Guiné (no sentido que -esta palavra tomou depois dos descobrimentos) da conquista navegação e -commercio da _Ethiopia_ (Africa meridional e oriental) Arabia, Persia -e _India_ (tambem na significação da meia-edade, abrangendo a Asia -Oriental). É curioso que um escriptor moderno, de grande merecimento, -transcrevendo um trecho de um escriptor já do seculo XVII, em que se diz -que um navio que ia para a Ethiopia foi levado pelas correntes para o -Brazil, com isso muito se espanta. Não se lembra que a região da Ethiopia -comprehendia até a Africa occidental que ficava para além da Guiné. - -[16] Na primeira viagem, Colombo, chegando a Cuba, disse: _Es cierto que -esta es la Tierra-Firme_, Diario de 1 de novembro. Na segunda viagem -confirmou essa opinião, e fel-a jurar solemnemente pelos marinheiros -a 12 de junho de 1494. Humboldt _Histoire de la géographie du Nouveau -Continent_, tom. I, pag. 310, _nota_. - -[17] Vejam-se no principio do segundo volume do magnifico livro de -Humboldt as indicações relativas aos mappas d’esse tempo que separavam -umas das outras as diversas porções da America. - -[18] No seu tratado publicado em latim na edição Reich com o titulo _De -facie in orbe Lunæ_, tom. IX, pag. 923. - -[19] Sobre as differentes theorias relativas á fórma da terra veja-se o -_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, pag. 14, 223, -410, tom. II, pag. XV, XVII, 32, 252, 258, 10, LIX a LXI, 18, 26, 35, 94, -107, 215, etc., etc., tom. III, pag. 81, 102, 212, 223, 460, 499, etc. - -[20] Santo Agostinho, S. João Chrysostomo, Lactancio, preconisaram a -theoria da _terra quadrada_ declarando-a conforme com o Evangelho, os -mappas medievaes como o de Cosmas Indicopleustas do seculo VI, Gervais -de Tilbury do seculo XIII, Nicolau d’Oresme do seculo XIV, Guilherme -Fillastre do seculo XV. Umas vezes inscreviam-n’a no circulo formado -pelos mares, outras vezes pelo contrario, a terra em si é redonda, mas a -figura que está inscripta é quadrada. - -[21] Note-se bem que este é que é o systema de Ptolomeu, o que -predominava, apesar de tudo, nos espiritos mais esclarecidos. Pedro agora -vae refutal-o, substituindo-lhe uma outra theoria scientifica, menos em -desaccordo com as affirmações orthodoxas. - -[22] _Petri Alphonsi Judeo Christiani Dialogi_, p. 15, apud. Visconde de -Santarem, _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. III, pag. -320 a 324. - -[23] «Se as extremidades da Ethiopia nos offerecem figuras extranhas de -homens e de animaes, pouco nos devemos espantar: é o effeito do excessivo -calor que alli reina, porque a acção do fogo é maravilhosamente propria -para fazer tomar ás partes exteriores de todos os corpos uma infinidade -de configurações diversas.» (Plinio, _Historia Natural_, tom. V, cap. -XXX.) - -[24] Macrobio, _In somnium Scipionis_, tom. II, cap. IX. - -[25] Orosio, _Ormesta mundi_. - -[26] Santo Isidoro de Sevilha, _De Lybia_. - -[27] Bedo, _De Elementis Philosophiæ_, tom. IV, pag. 225.—«... _Pars enim -illius torridæ parti aeris subjecta, ex fervore solis torrida est et -inhabitabilis_, etc.» - -[28] S. Virgilio, bispo de Saltzburgo. Veja-se a este respeito a -_Historia litteraria de França_, tom. IX, p. 156. - -[29] Raban Mauro de Moguncia, _De Universo_. - -[30] Alberti Magni Germani, _Philosoph. principii, Liber cosmographicus -de natura locorum_, fl. 14_b_ e 23_a_. - -[31] Roger Bacon, _Opus majus_, pag. 183. - -[32] _Conciliator differentiarum philosophorum_, Diff. LXVII. - -[33] _De Universo_, liv. XII, cap. IV, pag. 172. - -[34] _Speculum naturale_, part. 1.ª, liv. IV, cap. XVII. - -[35] _De mirabilibus Indiæ._ - -[36] «Et dien (disent) que illec sont antipodes, c’est-à-dire, gens qui -ont leurs pieds contre nos et pour ce qu’ils sont á l’opposite partie de -la terre, aussi comme s’ils fussent subz nous et nous soubz eulx. Ceste -opinion n’est pas á tenir, et n’est pas bien concordable á notre foy. -_Car la loy de Jésus Christ a esté preschié par toute la terre habitable; -et selon ceste opinion, telles gens n’en auraient oncques ouij parler, -ne pourroient estre subgés à l’église de Rome. Pour ce, reprenne saint -Augustin ceste erreur ou ceste opinion_, _lib._ XVI _«De Civitate Dei»_ -Nicolau d’Oresme, cosmographo francez do seculo XIV, preceptor do rei -Carlos V, _le Sage_.—Manuscripto cosmographico existente na Bibliotheca -Nacional de Paris, com o numero 7487, _apud_. Visconde de Santarem, -_Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, p. 142. - -[37] Quoniam nullo modo scriptura ista mentitur, quæ narratis præteritis -facit fidem eo quod ejus predicta complentur; nimisque absurdum est, -ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem, Oceani immensitate -trajecta navigure ac pervenire potuisse, _ut etiam illic ex uno primo -homine genus institueretur humanum_. Lactancio _Divinarum institutionum_, -liv. III, cap. IX. - -[38] Qua propter inter illos tunc hominum populos qui per septuaginta -duos gentes, et totidem linguas colliguntur, fuisse divisi, quæramus, -si possimus invenire, illam in terris peregrinantem civitatem Dei, -quæ ad diluvium arcamque perducta est, at que in filiis Noe per eorum -benedictiones perseverare monstretur, maxime in maximo qui est appellatus -Sem, quando quidem Japhet ita benedictus est, ut in ejusdem fratris sui -domibus habitaret.—_Ibid._ - -[39] Cosmas Indicopleustas, _Topographia Christã_. - -[40] _Ibid._ - -[41] Cosmas, Santo Isidoro de Sevilha, Anonymo de Ravenna, Raban Mauro, -Honoré d’Autun, Hugo de Saint-Victor, Vicente de Beauvais, Brunetto -Latini, Joinville. A noticia do famoso chronista de S. Luiz a respeito -do Nilo, transcripta pelo visconde de Santarem no _Essai_, etc., tom. -I, pag. 112, nota 3, não deixa de ser curiosa: «Ici il convient de -parler du fleuve qui passe par le pais d’Egypte, et vient du Paradis -Terrestre... Quant celui fleuve entre en Egypte il y a gens tous experts -et accoustumez, comme vous diriez les pêcheurs des rivières de ce pays-cy -qui au soir jettent leurs reyz au fleuve et es rivières; et au matin -souvent y trouvent et prennent les espiceries qu’on veut en ces parties -de par de ça (dans l’Europe) bien chierement et au pois, comme canelle, -gingembre, rubarbe, girofle, lignum, aloes et plusieurs bonnes chouses. -Et dit—on pais que ces chouses—lá viennent du Paradis terrestre et que le -vent les abat des bonnes arbres, qui sont en Paradis terrestre.» - -[42] «Para elle (Colombo) o Paraizo Terrestre correspondia ao castello -de Kang—diz dos Persas, e devia achar-se n’um logar elevado e -inaccessivel.»—Reinaud _Géographie d’Aboulféda_, tom. I, pag. 252. «A -corrente do Orenoque é tão forte que Diogo de Lepe reconheceu por meio -de um _escalfador_ que só se abria no fundo das aguas, no mar defronte -da foz de Orenoque, que, n’uma profundidade de oito braças e meia, só as -duas primeiras braças do fundo eram de agua salgada, e as outras de agua -doce».—Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., t. I, pag. 314. - -[43] Lemos n’um manuscripto cosmographico datando d’essa epocha (seculo -VII) «_que a terra é da forma de um cone ou de um pião_, de forma que -a sua superficie vai, segundo esse systema, elevando-se do sul para o -norte.» Visconde de Santarem, _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, -etc., tom. II.—_Int._ pag. LX. A fórma ovoide era-lhe attribuida pelo -philosopho grego Thalés, seguido por alguns geographos da edade média. -Posidonius dava-lhe a fórma de uma funda, como Prisciano tambem. - -[44] N’uma carta de 1498, publicada por Navarrete, tom. I, pag. 256, -compara Colombo a terra com uma pera dividida ao meio, sendo uma parte -redonda, e a outra terminada em cone. Esta carta vem tambem nas _Select -letters of Christopher Columbus_, publicadas por Major, pag. 130. -(Londres, 1847). - -[45] Os geographos arabes consideravam Gog e Magog como filhos de Japhet, -devemos accrescentar que era esta a doutrina mais seguida. - -[46] É interessante o que diz ácerca d’estes povos o sur Vivien de Saint -Martin nas suas _Recherches sur les populations primitives et les plus -anciennes traditions du Caucase_, pag. 40 a 47. (Paris, 1847). M. de Sacy -considera a muralha de Alexandre como sendo a noção vaga da muralha da -China. - -[47] Ha poucos annos ainda se publicou, em Hespanha, um livro do sr. -Junquera _Origen de los americanos_, em que se sustenta essa doutrina. -N’ella se baseia um dos romances, e dos menos bons, _Oak openings_ do -grande romancista americano Fennimore Cooper. - -[48] Mela, III, c. VII.—Solino diz que a terra d’essa ilha está sempre -vermelha.—Plinio colloca-a perto da Taprobana.—_Hist. Nat_. VI, 22. - -[49] «Colloquei, diz Toscanelli na carta que escreveu a Colombo e -referindo-se ao mappa que mandou ao rei de Portugal, defronte (das costas -da Irlanda e da Africa) direito a oeste o principio das Indias com as -ilhas e os logares a que poderia abordar.» - -[50] Todas estas lendas irlandezas, em abreviada exposição, se podem -ver no excellente livro de mr. de Villemarqué _La Légende Celtique_, -especialmente na _Introducção e na Lenda de S. Patricio_. - -[51] Os cavalleiros portuguezes estavam no exercito do duque de Borgonha, -que defendia Arras, e foram ao combate commandados pelo sire de -Cottebrune; os seus adversarios, pertencentes ao exercito de Carlos VI, -eram commandados pelo bastardo de Bourbon. Veja-se a nossa _Historia de -Portugal_, tom. III, pag. 267, nota (2.ª edição). - -[52] _Historia da Universidade_, tom. I, cap. III, pag. 137. (Lisboa, -1892.) A discordancia em que estamos n’este ponto com o illustre -professor não nos impede de reconhecermos que o seu livro é monumental. O -erudito, a cuja opinião elle se encosta, é João Teixeira Soares, aliás um -açoriano benemerito, mas um dos taes que se deixam arrastar pelo prazer -de demolir uma gloria consagrada. - -[53] Veja-se o retrato de Napoleão traçado primorosamente por Taine nas -suas admiraveis _Origines de la France contemporaine_. - -[54] _Os filhos de D. João I_, cap. III, _A villa do infante_, pag. 59 e -segg. - -[55] Humboldt, _Histoire de la géographie du nouveau continent_, tom. I, -pag. 334 e segg. - -[56] Apud Visconde de Santarem, _Recherches sur la découverte_, etc., -pag. 113 e 114. - -[57] Citado por Humboldt na _Histoire de la géographie du nouveau -continent_, tom. I, pag. 246. - -[58] No _Boletim da Sociedade de Geographia_ de Madrid do anno corrente. - -[59] «Mais avant les Portugais aucune nation de l’Europe ne semble être -allée au délà de l’Équateur». (_Histoire de la géographie_, etc., tom. I, -pag. 290). - -[60] «L’horizon géographique s’agrandit peu à peu de la Mer Égée au -méridien des Syrtes, de là aux Colonnes d’Hercule et hors du détroit -avec Hannon vers le sud, avec Pythéas vers le nord». (_Hist. de la -géogr._, tom. I, pag. 32). O horizonte ampliado por Pythéas nunca mais -se restringiu, porque é que havia de acontecer o contrario ao horizonte -ampliado por Hannon, se este viajante tivesse ido mais longe do que a -costa de Marrocos? - -[61] Ha bullas de Eugenio IV, de Nicolau V, de Martinho V, de Calixto -III, de Xisto IV. A bulla de Calixto III, confirmando as de Martinho V e -Nicolau V, declara que o descobrimento das terras de Africa Occidental -o não possam fazer senão os reis de Portugal. A bulla está no Archivo -Real da Torre do Tombo no _Livro dos Mestrados_, fl. 151 e 168. Veja-se a -minha _Historia de Portugal_, tom. III, pag. 248, nota 1, (2.ª edição). A -bulla de Nicolau V, que já citámos, de 8 de janeiro de 1454, concedia a -el-rei de Portugal, ao infante D. Henrique e a todos os reis de Portugal, -seus successores, todas as conquistas de Africa _com as ilhas nos mares -adjacentes_ desde o cabo de Bojador e de Não e de toda a Guiné com -toda a sua costa meridional. (Arch. Real da Torre do Tombo, maç. 7 de -bullas, n.º 29, e maç. 33, n.º 14). Por isso, D. João II, quando fallou -a Christovão Colombo a 9 de março de 1493, lhe disse, que se regosijava -tanto mais com a sua conquista, quanto tudo quanto elle descobrira -pertencia de direito a Portugal. Humboldt, _Histoire de la géographie du -Nouveau-Continent_, tom. I, sec. 1.ª, Nota E, pag. 331. E effectivamente -por algum tempo se discutiu se os descobrimentos de Christovão Colombo -eram ou não de _ilhas nos mares adjacentes_ á costa africana. E não acham -curioso que, se Francezes ou Hespanhoes ou Italianos, antes de nós, -tivessem passado para deante do Bojador, acceitassem e reconhecessem e -fizessem respeitar por leis e decretos o direito que nós tinhamos de -não consentir que se fizessem descobrimentos n’esses mares, ou, no caso -de se fazerem, o direito que tinhamos ao menos, á posse d’essas terras -descobertas!! - -A proposito d’esse cavalleiro allemão Balthazar, que acompanhou Antão -Gonçalves, diz o auctor d’este livro: «Antão Gonçalves voltou a Portugal -com os negros, e Balthazar o cavalleiro allemão que o acompanhava tornou -para a sua terra, onde foi naturalmente a maravilha de todos os que o -escutavam, e um novo Sindbad para os pasmados Germanos. A narração das -tempestades, dos perigos, dos estranhos costumes dos Azenegues devia -occupar bastantes serões de inverno nos velhos castellos allemães junto -da vasta lareira, emquanto gemesse lá fóra o vento e cahisse a neve -cobrindo de alvo manto o solo endurecido.» _Hist. de Portugal_, tom. III, -pag. 252 (2.ª edição). - -[62] _Olympiada II_, 127. - -[63] Como se pode ver no 1.º mappa do Atlas do visconde de Santarem, que -é exactamente o mappa catalão de 1375. - -[64] _Habet_, diz o manuscripto de Genova, _latitudinem unius legue et -fundum pro majore navi mundi_. - -[65] _La plage de sable, qui, comme on l’a dit, forme presque entiérement -l’embouchure du Rio d’Ouro ne permet pas de penser que ce lieu puisse -recevoir des bâtiments du plus faible tirant d’eau, il ne peut -probablement admettre que des canots._ Roussin _Mémoire sur la navigation -aux côtes occidentales de l’Afrique_, pag. 96. - -[66] Observação já feita pelo visconde de Santarem nas suas notas á -edição da _Chronica de Guiné_ de Azurara. Veja-se tambem o magnifico -capitulo da _Vida do principe Henrique_ do illustre escriptor Richard -Major, capitulo intitulado _The slave trade_. - -[67] Este commentario vem publicado na collecção de Ramusio. - -[68] O sabio francez Letronne n’uma memoria publicada no _Journal -des Savants_ de agosto de 1831, diz o seguinte: «L’hypothése d’un -prolongement indéfini de la côte occidentale d’Afrique, à partir d’une -latitude voisine de l’Équateur, était fondée sur la direction de la côte -d’Afrique depuis la rivière de Nun jusqu’au cap Bojador _que l’expédition -d’Hannon n’avait pas dépassée_.» - -[69] «Ha ainda um personagem duvidoso, diz Renan, este _presbyter -Johannes_, especie de socio do Apostolo, que perturba como um espectro -toda a historia da Egreja de Epheso e causa aos criticos bastantes -embaraços.» _L’Antechrist_, pag. XXIII, trad. do sr. Theophilo Braga, que -cita este trecho nas _Lendas Christãs_, cap. V, _As lendas do primado da -Egreja_, pag. 213 (Porto, 1892). Este livro do sr. Theophilo Braga é na -verdade excellente e foi-me de um grande auxilio n’este estudo ácerca -das viagens da lenda do Prestes João. A não ser o livro de Marco Polo e -os artigos do illustre sinologo Pauthier, que consultámos directamente, -as fontes que citamos são as que o sr. Theophilo Braga aproveitára e -indicára. Folgamos de prestar esta homenagem ao nosso illustre confrade, -porque, apesar de estarmos muito em desaccordo com alguns dos pontos de -vista d’este seu novo livro, não deixamos de reconhecer que é mais uma -prova do muito talento e da muita erudição do seu auctor. - -[70] Esta carta vem publicada na _Cosmographie et histoire naturelle -fantastique du moyen-âge de Ferdinand Denis_. - -[71] Por 1122, no pontificado de Calixto. - -[72] Ainda na ultima concordata celebrada entre Portugal e a côrte de -Roma ácerca do padroado da India tiveram de ser resalvados os direitos -christãos do rito syriaco. - -[73] Theophilo Braga, _Lendas Christãs_, pag. 227. - -[74] Veja-se a _Nota explicativa do symbolo da arvore do sol e da arvore -da lua_, escripta pelo sr. Felix Lajard, e communicada ao visconde de -Santarem que a publicou no fim do III volume do seu _Essai sur l’histoire -de la cosmographie_, etc., pag. 506. - -[75] Rosweid, _Vitæ Patrum_.—_Vita S. Macari Romani servi Dei qui -niventus est juxta Paradisum._ Andrea Bianco no seu famoso mappa de 1436 -põe o Paraizo n’uma peninsula, e junto do Paraizo um grande edificio com -esta designação: _Ospitium Macari_. - -[76] G. Pauthier _Le pays de Tanduc et les descendants du Prêtre -Jehan_.—_Revue de l’Orient, de l’Algérie et des Colonies_, tom. XIII, -pag. 287. (Paris, 1861). Publica primeiro o capitulo LXXIII, da Relação -de Marco Polo, que se intitula: _Cy devise de la province de Tanduc, et -des descendants du Prestre Jehan_, a que se segue depois o commentario. - -[77] Ainda não tinham passado os portuguezes do Cabo Branco, estava-se -apenas no anno de 1441 e já o infante encarregava Antão Gonçalves de -saber alguma coisa ácerca de Prestes João. - -[78] Um distincto escriptor francez, Eyriés, que escreveu a biographia de -João Fernandes na _Biographie Universelle_, diz que elle fôra o primeiro -Europeu que penetrára no interior da Africa e que as particularidades -da relação que elle trouxera apresentavam uma grande analogia com as -da relação de Mungo-Park. A respeito dos serviços prestados á botanica -pelos Portuguezes vejam-se os estudos de primeira ordem do sr. conde de -Ficalho, _Plantas uteis da Africa Portugueza_, (Lisboa, 1884), a _Flora -dos Lusiadas_, (Lisboa, 1880), a _Memoria sobre a Malagueta_, (Lisboa, -1878). A respeito dos nossos serviços á ornithologia, vejam-se as -interessantissimas communicações feitas pelo notavel sabio portuguez o -sr. Bocage a Andrade Corvo, e por elle publicadas nas notas á sua edição -do _Roteiro de D. João de Castro_. - -[79] Alvaro de Freitas ia na expedição commandada por Lançarote, -almoxarife em Lagos, e n’um momento de enthusiasmo declarou que estava -prompto a seguir o seu chefe até ao Paraizo Terreal. V. a minha _Hist. de -Portugal_, tom. III, pag. 271. - -[80] Tristão Vaz Teixeira, foi na grande expedição de 1445, de que fazia -parte Soeiro da Costa. Alvaro Fernandes tornou-se celebre sobretudo pelo -descobrimento da Serra Leôa. - -[81] Alvaro Fernandes, por exemplo, foi de uma vez do Cabo Verde á Serra -Leôa, e depois Cadamosto e outros exploraram cuidadosamente a costa -intermedia, fazendo então viagem como se faz, quando se quer estudar uma -costa. «A nossa navegação diz o viajante italiano, sempre foi de dia, -lançando ancora todas as tardes ao sol posto com dez ou doze braças de -agua.» _Navegações de Cadamosto (traducção portugueza)_ pag. 51. - -[82] _Histoire de la géographie_, etc., tom. II, pag. 56 e 57. - -[83] _Os Côrte-Reaes_, pag. 61. (Ponta-Delgada, 1883). - -[84] _Ibid._, pag. 57. - -[85] Veja-se Herrera, _Historia general de los hechos castellanos en las -islas y tierra firme del mar oceano_, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6. -(Madrid, 1601). - -[86] Veja-se Herrera, _Historia general de los hechos castellanos en las -islas y tierra firme del mar oceano_, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6. -(Madrid, 1601). - -[87] Publicado no _Archivo dos Açores_, tom. I, pag. 24. - -[88] Publicado no _Archivo dos Açores_, tom. I, pag. 22. - -[89] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos _Côrtes-Reaes_, pag. 62. - -[90] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos _Côrte-Reaes_, pag. 63. - -[91] É o proprio Humboldt, que, referindo-se ás epochas do encontro das -ilhas diz: «Ces époques sont, pour l’écueil des Formigas, 1431; pour -l’île Santa Maria, 1432; pour San Miguel 1444; pour Terceira, San Jorge -et Fayal, 1449; pour Graciosa, 1453. La découverte des îles les plus -occidentales, Flores et Corvo, paraît antérieure à 1449, mais cette date -est moins précise». _Hist. de la géographie_, etc., tom. II, pag. 105. - -[92] _Os Côrtes-Reaes_, pag. 61. - -[93] Assim de João Vaz Côrte Real não hesito em referir que se dizia -que foi elle quem descobrira a ilha Terceira e a de S. Jorge e que por -isso recebera a capitania das duas ilhas (!) Cabo Verde e o Brazil (!!). -Tambem a respeito da força de João Vaz conta com a maior seriedade, e -como facto authentico, uma d’estas lendas que atravessam os seculos, com -as suas variantes, ácerca de homens famosos pela sua força muscular. -Assim diz, que, estando João Vaz Côrte Real no Algarve a passeiar na sua -quinta, veiu visital-o um castelhano muito forçoso, que tranquillamente, -passando n’uma alameda de marmeleiros, os foi arrancando de um e de -outro lado, pondo-lhes as raizes ao sol, João Vaz não fez a mais leve -observação, mas apanhando os marmellos, apertou-os na mão e esmagou-os -completamente não lhe ficando na mão senão o bagaço. É uma variante da -historia do ferrador, um Mauricio de Sarce ou um D. Pedro II de Portugal. -O rei ou o principe partia com a maior facilidade cada ferradura que -o ferrador lhe apresentava, dizendo-lhe que não era boa, e o ferrador -calado. Quando o alto personagem, pagando generosamente a sua ostentação -de força, deu uma moeda de ouro ao ferrador, este partiu-a dizendo que -não era boa. Como se vê, é o conto popular sempre com a mesma forma, -repetida por um escriptor crendeiro, cujo testemunho tem comtudo servido -para que escriptores serios percam o seu tempo com umas das suas lendas! - -[94] _Os Côrte-Reaes_, pag. 36. - -[95] _Ibid._, pag. 35. - -[96] _Os Côrte-Reaes_, pag. 19. - -[97] Arch. Nac. da Torre do Tombo, liv. 49 de D. João III, fl. 243, -verso. Transcripto nos _Côrte-Reaes_, pag. 121 a 125. - -[98] Não ha razão seria para que a Groenlandia pertença á America e não -lhe pertençam os Açores. Da Islandia, que é a ultima parte da Europa, á -Groenlandia, vão 240 leguas, de Portugal a S. Miguel 247. Portanto, se -os islandezes descobriram a America porque chegaram á Groenlandia, com -mais razão se pode dizer que descobriram os Portuguezes a America porque -chegaram aos Açores. É perfeitamente pueril estar a discutir quem foi -que tocou primeiro nas terras americanas, a gloria consiste em não ter -hesitado em atravessar centos e centos de leguas de mar com o fim de -chegar ao Oriente pelo caminho do occidente. - -[99] Diz Pedro Nunes: «E perderam-lhe (_os Portuguezes_) tanto o -medo (_ao mar_): que nem ha grande quentura da torrada zona: nem -o descompassado frio da extrema parte do sul: com que os antigos -escriptores nos ameaçavam lhes pode estorvar: «...Tirará nos muitas -ignorancias: e a mostraram ser a terra mór que o mar (_o erro de -Colombo_): e auer hi antipodas: que ate os Santos duvidaram: e que nam a -regiam que nem por quente nem por fria se deyee de abitar.» _Tratado que -o Doutor Pero Nunes, cosmographo del Rey nosso senhor fez em defensão da -carta de marcar: võ o regimento da altura._ Reg. 1. (Lisboa, 1537). - -[100] Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., tom. II. Nota _H_, -pag. 369. - -[101] Veja-se a interessante obra de Navarrete, tom. I, pag. 300. - -[102] Strabão, II, pag. 83, 113 e 116. Itaque, diz Strabão na formosa -passagem em que prophetisa a America, compluribus verbis persuadere -nititur Eratosthenes nisi Atlantici maris obstaret magnitudo, posse nos -navigare in eodem parallelo, ex Hispania in Indiam per universum id quod -reliquem est, demta dicta distantia (hoc est longitudinæ terræ habitatæ) -quæ totius circuli trientem excedit». Strabo, liv. I, pag. 113-114. -Assim, excedendo as terras habitadas a terça parte do parallelo, o mar -a percorrer é um pouco inferior a ⅔ e menos de 240°, mais de 236°. A -differença imaginada por Eratosthenes e Strabão e a distancia verdadeira -não é grande. - -[103] Esta carta foi publicada pelo sr. Teixeira de Aragão na excellente -_Memoria ácerca do descobrimento da America_ que escreveu para o volume -consagrado pela commissão portugueza do centenario de Colombo a esta -grande solemnidade. É datada de Aviz de 20 de março de 1488. Trata -Christovam Colombo por nosso especial amigo. - -[104] _Os Côrtes-Reaes_, pag. 65, nota 123. A carta de doação a Fernão -Dulmo vem publicada no mesmo volume de pag. 64 a 69. - -[105] «No me admiro tengais, diz-lhe Toscanelli na sua segunda carta, tan -gran corazon _como toda la nacion portugueza, en que siempre ha habido -hombres señalados en todas emprezas_. - -[106] A carta é de maio de 1505, citada por Navarrete no t. III pag. 528, -e Humboldt, t. III, pag. 260. - -[107] Veja-se a minha _Historia de Portugal_, t. IV, pag. 272. - -[108] Foi Humboldt que fez notar a differença entre as duas versões da -mesma bulla, _Hist. de la géographie_, etc., sec. II, t. III, pag. 52, -nota. - -[109] A filha de Izabel a Catholica desposára o filho d’el-rei D. João -II, o principe D. Affonso que morreu de uma desastrada quéda de cavallo a -13 de julho de 1491. - -[110] Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., sec. II, t. III, pag -55. - -[111] _Quadro elementar das relações politicas e diplomaticas de Portugal -com as diversas potencias do mundo_, t. II, pag. 390 Lisboa, 1844. O -tratado vem publicado _in extenso_. - -[112] Pedro Martyr d’Anghiers, _Oceanicas_, dec. VIII, cap. 10. - -[113] Foi o duque de Medina-Sidonia que se offereceu para ir com as suas -caravelas em perseguição dos portuguezes, e a 2 de maio de 1493 pediam -os reis catholicos ao duque que as tivesse prestes, a 12 de junho e 27 -de julho affiançavam a Colombo que não havia motivo para se desconfiar -do rei de Portugal, doc. n.ºs 16, 50 e 54 publicados na _Collecção de -viagens e descobrimentos_, citados pelo sr. Teixeira de Aragão a pag. 18 -da sua _Breve memoria sobre o descobrimento do Brazil_. - -[114] O trecho da _Esmeralda_ é o seguinte: «Como no terceiro anno do -vosso reinado do anno de Nosso Senhor de mil quatrocentos noventa e oito -donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte occidental, passando além -do grande mar oceano, onde é achada e navegada uma tão grande terra firme -com muitas grandes ilhas adjacentes a ella, que se estende a setenta -graus de ladeza da linha equinocial contra o polo arctico.» _Esmeralda_ -liv. 2.º, cap. I, transcripto pelo sr. Teixeira de Aragão na sua _Breve -Noticia_, etc., pag. 47. D’este trecho deduz-se que Duarte Pacheco foi -mandado descobrir para o occidente em 1498, o que não faz senão confirmar -o que temos dito, mas não que Duarte Pacheco descobriu o Brasil. Nem elle -diz que _achou e navegou_ essa terra, mas sim que essa terra _é achada e -navegada_, e isto em 1505. - -[115] _Roteiro geral do globo_, tom. XI, sec. 1.ª, pag. 2 (Lisboa 1839). -Mouches, _Les côtes du Brésil_, sec. II, pag. 8 (Paris, 1864). - -[116] N’uma das sessões do _Instituto Historico Geographico do Brasil_, o -imperador D. Pedro II propoz como assumpto de discussão «se a descoberta -do Brasil foi intencional ou devida ao acaso». Joaquim Norberto fez -uma memoria interessante sustentando que a descoberta foi intencional, -Machado de Oliveira fez uma memoria de uma futilidade inexcedivel e -de uma grosseria imperdoavel que nem merece que d’ella nos occupemos, -Gonçalves Dias sustentou com argumentos broncos, mas com vigor de estylo, -mostrando-se muito talentoso e muito erudito, que a descoberta fôra -occasional. Joaquim Norberto replicou e muitissimo bem. O unico argumento -de algum peso que Gonçalves Dias apresentava era o da corrente equatorial -que corre de léste para oeste. É esse exactamente o que o sr. Baldaque da -Silva destróe technicamente e de um modo completo. - -[117] _Les côtes du Brésil_, pag. 115, nota _a_. - -[118] _Ibid._, pag. 12. - -[119] _Ibid._, pag. 116, nota _a_. - -[120] «Sahindo do dito Cabo Verde, esta terra jaz entre Oeste e Sudoeste, -ventos principaes, e dista do dito Cabo Verde quatrocentas leguas». -_Carta de Portugal enviada ao rei D. Manuel ácerca da viagem e successo -da India_, traduzida da versão italiana pelo sr. Prospero Peragallo, -e por este publicado com o texto italiano e annotado nas _Memorias da -commissão portugueza do centenario de Colombo_. O trecho que citamos vem -a pag. 9 _in fine_. Como se vê, estando a 400 leguas de distancia não -a oeste, mas a oes-sudoeste a distancia do meridiano de Cabo Verde ao -meridiano de Vera-Cruz não podia ser superior a 370 leguas. Pero Vaz de -Caminha disséra-lhe: «Topamos algūus synaes de terra seendo da dita ilha -(_S. Nicolau de Cabo-Verde_) segundo os pilotos diziam obra de VIᵉ LX ou -LXX legoas ᵉlc (670 _ou_ 701 _leguas_)». Esta carta de Pero Vaz Caminha -tem sido muitas vezes publicada. Fazemos o nosso extracto da memoria do -sr. Aragão, onde vem nos documentos, pag. 66. - -[121] A carta do jesuita Antonio de Sá escripta em hespanhol aos jesuitas -da Bahia e datada de S. Vicente, 13 de junho de 1559 diz: «Un Indio que -se llama Belchior está puesto en ayunar todos los dias que manda la -Iglesia, y sin yo le hablar nada, preguntóme que le hiziese saber los -dias de ayuno y cual no se comia carne, diciendome que antes _que muriese -Juan Ramallo que el se lo dezia y ayunaba todos los dias que la Iglesia -manda_.» O estudo a que nos referimos feito pelo sr. Candido Mendes -de Almeida vem publicado na _Revista trimensal do Instituto Historico -Geographico do Brasil_, e n’esse periodico vem tambem as memorias de -Joaquim Norberto, Gonçalves Dias e Machado de Oliveira, a que atraz nos -referimos. - -[122] «ao qual monte alto, diz Pero Vaz de Caminha, o capitam poz o nome -de monte pascoal e aa tera a tera de Vera-Cruz». Depois de ter entrado em -communicação com os habitantes é que Pedro Alvares Cabral considerou a -terra como uma ilha, e a denominou _ilha de Vera Cruz_. - -[123] Strabão XI, pag. 518. - -[124] Pomponio Mela, t. III, c. 5, 98. - -[125] _Les Corte-Real_ par mr. H. Harrisse, pag. 209. Ernesto do Canto, -_Os Côrtes-Reaes_, pag. 211. - -[126] _Histoire de la Géographie_, etc., t. IV, pag. 263. - -[127] Legenda do mappa mandado fazer em Lisboa por Alberto Cantino em -1502. O sr. Ernesto do Canto transcreve-a a pag. 208 do seu livro. - -[128] Esta curiosa doação foi publicada em texto latino por Bidle na -obra que saío anonymamente em Londres, 1831 e que se intitula _A Memoir -of Sebastian Cabot with a Review of the History of Maritime Discovery, -illustrated by documents from the Rols, new first published_. Abrange de -pag. 312 a 320. O sr. Ernesto do Canto publica tambem o texto latino com -a traducção portugueza no seu livro _Os Côrtes-Reaes_ e abrange de pag. -74 a 87. - -[129] E. do Canto, _Os Côrtes-Reaes_, texto italiano a pag. 45 e 46, -traducção latina de Madrijuan a pag. 47 e 48. - -[130] São interessantissimas as indicações dadas a esse respeito pelo -sr. Patterson, na sua magnifica memoria. A bahia de Fundy, diz elle, -é evidentemente a Bahia Funda. Tambem nota que apparece lá o nome de -Tanger, que não podia ter sido posto senão pelos portuguezes, senhores -então d’essa praça, e sempre tão relacionados com ella. - -[131] «There are about 100 sail of Spaniards who come to take cod, who -make it all wet and dry... As touching their tonnage I think it may be -5,000 or 6,000. Of Portugals there are not above fifty or sixty sail, -whose tonnage may amount to 5,000, and they make all wet.» Citado -pelo reverendo George Patterson na excellente memoria que publicou -nas _Trans-Roy. Soc. Canada_, e que se intitula _The Portuguese in -the North-East coast of America, and the first European attempt at -Colonization there. A lost chapter in American History_, pag. 145. Esta -memoria foi lida na _Royal Society_ a 28 de maio de 1890. - -[132] Esta exploração outr’ora tão importante e activa, na qual estavam -empenhados capitaes e interesses tão avultados, concorrendo para ella -tantas partes do nosso continente, vê-se hoje reduzida a uma duzia de -navios que a entretêem apenas em dois centros de pescarias: Figueira da -Foz e Lisboa.» A. A. Baldaque da Silva, _Estado actual das pescas em -Portugal_, pag. 166. E diz, em nota, que a pesca do bacalhau era tão -importante no tempo de D. João III e d’el-rei D. Sebastião «que foi -providenciada por um regimento particular para as frotas que annualmente -expediam a esta pescaria.» - -Emquanto á colonisação, que foi motivada exactamente pela importancia da -pesca do bacalhau, foi promovida por varias pessoas de Vianna do Minho, -muito interessadas n’este negocio da Terra Nova, pelas muitas relações -que tinham com os Açorianos. D’esta colonisação dá conta um interessante -folheto publicado ha poucos annos, mas escripto no seculo XVI, que se -intitula: _Tratado das ilhas novas e descobrimento d’ellas e outras -coisas feito por Francisco de Souza, feitor d’El-Rei Nosso Senhor, na -capitania da cidade do Funchal da ilha da Madeira e natural da mesma ilha -e assim de parte da nação portugueza que está em uma grande ilha, que -n’ella foram ter no tempo da perdição das Espanhas, que ha trezentos e -tantos annos em que reinou El-Rei Dom Rodrigo. Dos Portuguezes que foram -de Vianna e das Ilhas dos Açores a povoar a Terra Nova do Bacalhau vae em -sessenta annos, do que succedeu, o que adiante se trata. Anno do Senhor -de 1570. Ponta Delgada, S. Miguel, Açores 1877._ - -É curiosa a mistura de lenda e de verdade que n’este titulo se encontra. -Ao lado de uma colonisação perfeitamente authentica n’uma ilha certa é -conhecida ainda a velha lenda da ilha das Sete Cidades colonisada pelos -sete bispos, que fugiram da Peninsula com os seus fieis no tempo do rei -Rodrigo! - -[133] «Outros chamam-lhe, diz D. Manuel, terra nova ou novo mundo». - -[134] Veja-se o estudo desenvolvido de Humboldt, que aliás não vê as -coisas debaixo do nosso ponto de vista nas notas finaes do vol. V, da sua -_Histoire de la géographie_, etc., da pag. 180 em diante. - -[135] _Recherches historiques, critiques et bibliographiques sur Améric -Vespuce et ces voyages._—Paris, sem data. - -[136] Veja-se a carta de mr. Letronne a Humboldt, publicada no vol. III, -da sua _Histoire de la géographie_, etc., da pag. 119 em diante. - -[137] Veja-se Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., tom. II, pag. -26 e segg. Falando do globo de João Schoner diz: «Figurou no globo o -estreito no logar em que Colombo debalde o procurara.» No globo de Weimar -(que tem a data de 1534) ha dois estreitos, um a 42° de latitude sul, e -outro no isthmo de Panamá a 10° de latitude ao norte do Equador. - -[138] «Se não tivessemos achado este estreito, diz Pigafetta, o -capitão-general estava disposto a ir até 75 graus para o polo antarctico -onde no verão não ha noite, ou muito pouca e da mesma maneira no inverno -não ha luz do dia ou ha pouquissima.» _Navegação e viagem que Fernando de -Magalhães fez de Sevilha a Moluco no anno de_ 1519, pag. 61 da traducção -ingleza de sir Stanley de Alderley, (Londres, 1874). - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Os descobrimentos portuguezes e os de -Colombo, by Manuel Pinheiro Chagas - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES *** - -***** This file should be named 63534-0.txt or 63534-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/5/3/63534/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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