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+The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III, by
+Luís Camões
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
+
+Author: Luís Camões
+
+Release Date: August 24, 2011 [EBook #37192]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+Notas de transcrição:
+
+O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro
+impresso em 1843.
+
+Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
+pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto,
+e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos
+inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em
+particular quanto à acentuação.
+
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+ * * * * *
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+
+
+
+ CLASSICOS PORTUGUEZES.
+
+ TOMO II.
+
+ CAMÕES.
+
+ II.
+
+
+
+PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,
+Rua Racine, 28, junto ao Odeon.
+
+
+
+OBRAS COMPLETAS
+
+DE
+
+LUIS DE CAMÕES,
+
+CORRECTAS E EMENDADAS
+
+PELO CUIDADO E DILIGENCIA
+
+DE
+
+J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.
+
+
+TOMO TERCEIRO.
+
+
+LISBOA.
+
+ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,
+NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,
+3, quai Malaquais, près le pont des Arts.
+
+1843
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+RIMAS.
+
+ * * * * *
+
+
+RIMAS.
+
+
+
+
+REDONDILHAS.
+
+
+ Sôbolos rios que vão
+ Por Babylonia, me achei,
+ Onde sentado chorei
+ As lembranças de Sião,
+ E quanto nella passei.
+ Alli o rio corrente
+ De meus olhos foi manado;
+ E tudo bem comparado,
+ Babylonia ao mal presente,
+ Sião ao tempo passado.
+
+ Alli lembranças contentes
+ N'alma se representárão;
+ E minhas cousas ausentes
+ Se fizerão tão presentes,
+ Como se nunca passárão.
+ Alli, despois d'acordado,
+ Co'o rosto banhado em ágoa,
+ Deste sonho imaginado,
+ Vi que todo o bem passado
+ Não he gôsto, mas he mágoa.
+
+ E vi que todos os danos
+ Se causavão das mudanças,
+ E as mudanças dos anos;
+ Onde vi quantos enganos
+ Faz o tempo ás esperanças.
+ Alli vi o maior bem
+ Quão pouco espaço que dura;
+ O mal quão depressa vem;
+ E quão triste estado tem
+ Quem se fia da ventura.
+
+ Vi aquillo que mais val
+ Qu'então s'entende melhor,
+ Quando mais perdido for:
+ Vi ao bem succeder mal,
+ E ao mal muito peor.
+ E vi com muito trabalho
+ Comprar arrependimento:
+ Vi nenhum contentamento;
+ E vejo-me a mi, qu'espalho
+ Tristes palavras ao vento.
+
+ Bem são rios estas ágoas
+ Com que banho este papel:
+ Bem parece ser cruel
+ Variedade de mágoas,
+ E confusão de Babel.
+ Como homem, que por exemplo
+ Dos trances em que se achou,
+ Despois que a guerra deixou,
+ Pelas paredes do templo
+ Suas armas pendurou:
+
+ Assi, despois qu'assentei
+ Que tudo o tempo gastava,
+ Da tristeza que tomei,
+ Nos salgueiros pendurei
+ Os orgãos com que cantava.
+ Aquelle instrumento ledo
+ Deixei da vida passada,
+ Dizendo: Musica amada,
+ Deixo-vos neste arvoredo
+ Á memoria consagrada.
+
+ Frauta minha, que tangendo
+ Os montes fazieis vir
+ Par'onde estaveis, correndo;
+ E as ágoas, que hião descendo,
+ Tornavão logo a subir;
+ Jamais vos não ouvirão
+ Os tigres, que s'amansavão;
+ E as ovelhas, que pastavão,
+ Das hervas se fartarão,
+ Que por vos ouvir deixavão.
+
+ Ja não fareis docemente
+ Em rosas tornar abrolhos
+ Na ribeira florecente;
+ Nem poreis freio á corrente,
+ E mais se for dos meus olhos.
+ Não movereis a espessura,
+ Nem podereis ja trazer
+ Atraz vós a fonte pura;
+ Pois não pudestes mover
+ Desconcertos da ventura.
+
+ Ficareis offerecida
+ Á Fama, que sempre vela,
+ Frauta de mi tão querida;
+ Porque mudando-se a vida,
+ Se mudão os gostos della.
+ Acha a tenra mocidade
+ Prazeres accommodados;
+ E logo a maior idade
+ Ja sente por pouquidade
+ Aquelles gostos passados.
+
+ Hum gôsto, que hoje s'alcança,
+ Á manhãa ja o não vejo:
+ Assi nos traz a mudança
+ D'esperança em esperança,
+ E de desejo em desejo.
+ Mas em vida tão escassa
+ Qu'esperança será forte?
+ Fraqueza da humana sorte,
+ Que quanto da vida passa
+ Está recitando a morte!
+
+ Mas deixar nesta espessura
+ O canto da mocidade:
+ Não cuide a gente futura
+ Que será obra da idade
+ O que he fôrça da ventura.
+ Qu'idade, tempo, e espanto
+ De ver quão ligeiro passe,
+ Nunca em mi puderão tanto,
+ Que, postoque deixo o canto,
+ A causa delle deixasse.
+
+ Mas em tristezas e nojos,
+ Em gôsto e contentamento;
+ Por sol, por neve, por vento,
+ _Tendré presente á los ojos
+ Por quien muero tan contento._
+ Orgãos e frauta deixava,
+ Despôjo meu tão querido,
+ No salgueiro que alli'stava,
+ Que para tropheo ficava
+ De quem me tinha vencido.
+
+ Mas lembranças da affeição
+ Que alli captivo me tinha,
+ Me perguntárão então,
+ Qu'era da musica minha,
+ Que eu cantava em Sião?
+ Que foi daquelle cantar,
+ Das gentes tão celebrado?
+ Porque o deixava de usar,
+ Pois sempre ajuda a passar
+ Qualquer trabalho passado?
+
+ Canta o caminhante ledo
+ No caminho trabalhoso
+ Por entre o espêsso arvoredo;
+ E de noite o temeroso
+ Cantando refreia o medo.
+ Canta o preso docemente,
+ Os duros grilhões tocando;
+ Canta o segador contente;
+ E o trabalhador, cantando,
+ O trabalho menos sente.
+
+ Eu qu'estas cousas senti
+ N'alma de mágoas tão cheia,
+ Como dirá, respondi,
+ Quem alheio está de si
+ Doce canto em terra alheia?
+ Como poderá cantar
+ Quem em chôro banha o peito?
+ Porque, se quem trabalhar
+ Canta por menos cansar,
+ Eu só descansos engeito.
+
+ Que não parece razão,
+ Nem sería cousa idonia,
+ Por abrandar a paixão
+ Que cantasse em Babylonia
+ As cantigas de Sião.
+ Que quando a muita graveza
+ De saudade quebrante
+ Esta vital fortaleza,
+ Antes morra de tristeza,
+ Que por abrandá-la cante.
+
+ Que se o fino pensamento
+ Só na tristeza consiste,
+ Não tenho medo ao tormento:
+ Que morrer de puro triste,
+ Que maior contentamento?
+ Nem na frauta cantarei
+ O que passo, e passei ja,
+ Nem menos o escreverei;
+ Porque a penna cansará,
+ E eu não descansarei.
+
+ Que se vida tão pequena
+ S'accrescenta em terra estranha;
+ E se Amor assi o ordena,
+ Razão he que canse a penna
+ D'escrever pena tamanha.
+ Porém, se para assentar
+ O que sente o coração,
+ A penna ja me cansar,
+ Não canse para voar
+ A memoria em Sião.
+
+ Terra bem-aventurada,
+ Se por algum movimento
+ D'alma me fores tirada,
+ Minha penna seja dada
+ A perpétuo esquecimento.
+ A pena deste destêrro,
+ Qu'eu mais desejo esculpida
+ Em pedra, ou em duro ferro,
+ Essa nunca seja ouvida,
+ Em castigo de meu êrro.
+
+ E se eu cantar quizer
+ Em Babylonia sujeito,
+ Hierusalem, sem te ver,
+ A voz, quando a mover,
+ Se me congele no peito;
+ A minha lingua se apegue
+ Ás fauces, pois te perdi,
+ S'em quanto viver assi
+ Houver tempo, em que te negue,
+ Ou que m'esqueça de ti.
+
+ Mas ó tu, terra de glória.
+ S'eu nunca vi tua essencia,
+ Como me lembras na ausencia?
+ Não me lembras na memoria,
+ Senão na reminiscencia:
+ Que a alma he taboa rasa,
+ Que com a escrita doutrina
+ Celeste tanto imagina,
+ Que vôa da propria casa,
+ E sobe á patria divina.
+
+ Não he logo a saudade
+ Das terras onde nasceo
+ A carne, mas he do Ceo,
+ Daquella santa Cidade,
+ Donde est'alma descendeo.
+ E aquella humana figura,
+ Que cá me póde alterar,
+ Não he quem se ha de buscar;
+ He raio da formosura,
+ Que só se deve d'amar.
+
+ Que os olhos, e a luz que ateia
+ O fogo que cá sujeita,
+ Não do sol, nem da candeia,
+ He sombra daquella ideia,
+ Qu'em Deos está mais perfeita.
+ E os que cá me captivárão,
+ São poderosos affeitos
+ Qu'os corações tee sujeitos;
+ Sophistas, que m'ensinárão
+ Maos caminhos por direitos.
+
+ Destes o mando tyrano
+ M'obriga com desatino
+ A cantar ao som do dano
+ Cantares d'amor profano,
+ Por versos d'amor divino.
+ Mas eu, lustrado co'o santo
+ Raio, na terra de dor,
+ De confusões e d'espanto
+ Como hei de cantar o canto,
+ Que só se deve ao Senhor?
+
+ Tanto póde o beneficio
+ Da graça que dá saude,
+ Que ordena que a vida mude:
+ E o qu'eu tomei por vício,
+ Me faz grao para a virtude;
+ E faz qu'este natural
+ Amor, que tanto se préza,
+ Suba da sombra ao real,
+ Da particular belleza
+ Para a belleza geral.
+
+ Fique logo pendurada
+ A frauta com que tangi,
+ Ó Hierusalem sagrada,
+ E tome a lyra dourada
+ Para só cantar de ti;
+ Não captivo e ferrolhado
+ Na Babylonia infernal,
+ Mas dos vicios desatado,
+ E cá desta a ti levado,
+ Patria minha natural.
+
+ E s'eu mais der a cerviz
+ A mundanos accidentes,
+ Duros, tyrannos e urgentes,
+ Risque-se quanto ja fiz
+ Do grão livro dos viventes.
+ E, tomando ja na mão
+ A lyra santa e capaz
+ D'outra mais alta invenção,
+ Calle-se esta confusão,
+ Cante-se a visão de paz.
+
+ Ouça-me o pastor e o rei,
+ Retumbe este accento santo,
+ Mova-se no mundo espanto;
+ Que do que ja mal cantei
+ A palinodia ja canto.
+ A vós só me quero ir,
+ Senhor, e grão Capitão
+ Da alta tôrre de Sião,
+ Á qual não posso subir,
+ Se me vós não dais a mão.
+
+ No grão dia singular,
+ Que na lyra em douto som
+ Hierusalem celebrar,
+ Lembrae-vos de castigar
+ Os ruins filhos de Edom.
+ Aquelles que tintos vão
+ No pobre sangue innocente,
+ Soberbos co'o poder vão,
+ Arrazá-los igualmente:
+ Conheção que humanos são.
+
+ E aquelle poder tão duro
+ Dos affectos com que venho,
+ Qu'encendem alma e engenho;
+ Que ja m'entrárão o muro
+ Do livre arbitrio que tenho;
+ Estes, que tão furiosos
+ Gritando vem a escalar-me,
+ Maos espiritos damnosos,
+ Que querem como forçosos
+ Do alicerce derribar-me;
+
+ Derribae-os, fiquem sós,
+ De fôrças fracos, imbelles;
+ Porque não podemos nós,
+ Nem com elles ir a vós,
+ Nem sem vós tirar-nos delles.
+ Não basta minha fraqueza
+ Para me dar defensão,
+ Se vós, santo Capitão,
+ Nesta minha Fortaleza
+ Não puzerdes guarnição.
+
+ E tu, ó carne, qu'encantas,
+ Filha de Babel tão feia,
+ Toda de miseria cheia,
+ Que mil vezes te levantas
+ Contra quem te senhoreia;
+ Beato só póde ser
+ Quem co'a ajuda celeste
+ Contra ti prevalecer,
+ E te vier a fazer
+ O mal que lhe tu fizeste:
+
+ Quem com disciplina crua
+ Se fere mais que huma vez;
+ Cuja alma, de vicios nua,
+ Faz nodas na carne sua,
+ Que ja a carne n'alma fez.
+ E beato quem tomar
+ Seus pensamentos recentes,
+ E em nascendo os affogar,
+ Por não virem a parar
+ Em vicios graves e urgentes:
+
+ Quem com elles logo der
+ Na pedra do furor santo,
+ E batendo os desfizer
+ Na Pedra, que veio a ser
+ Emfim cabeça do canto:
+ Quem logo, quando imagina
+ Nos vicios da carne má,
+ Os pensamentos declina
+ Áquella Carne divina,
+ Que na Cruz esteve ja.
+
+ Quem do vil contentamento
+ Cá deste mundo visibil,
+ Quanto ao homem for possibil,
+ Passar logo entendimento
+ Para o mundo intelligibil;
+ Alli achará alegria
+ Em tudo perfeita, e cheia
+ De tão suave harmonia,
+ Que nem por pouca recreia,
+ Nem por sobeja enfastia.
+
+ Alli verá tão profundo
+ Mysterio na summa Alteza,
+ Que, vencida a natureza,
+ Os mores faustos do mundo
+ Julgue por maior baixeza.
+ Ó tu, divino aposento,
+ Minha patria singular,
+ Se só com te imaginar,
+ Tanto sobe o entendimento,
+ Que fara se em ti se achar?
+
+ Ditoso quem se partir
+ Para ti, terra excellente,
+ Tão justo e tão penitente,
+ Que despois de a ti subir,
+ Lá descanse eternamente!
+
+ * * * * *
+
+
+CARTA A HUMA DAMA.
+
+ Querendo escrever hum dia
+ O mal, que tanto estimei;
+ Cuidando no que poria,
+ Vi Amor que me dizia:
+ Escreve, qu'eu notarei.
+ E como para se ler
+ Não era historia pequena
+ A que de mi quiz fazer,
+ Das azas tirou a penna
+ Com que me fez escrever.
+
+ E, logo como a tirou,
+ Me disse: Aviva os espritos;
+ Que pois em teu favor sou,
+ Esta penna, que te dou,
+ Fara voar teus escritos.
+ E dando-me a padecer
+ Tudo o que quiz que puzesse,
+ Pude emfim delle dizer,
+ Que me deo com qu'escrevesse
+ O que me deo a escrever.
+
+ Eu qu'este engano entendi,
+ Disse-lhe: Qu'escreverei?
+ Respondeo, dizendo assi:
+ Altos effeitos de mi.
+ E daquella a quem te dei.
+ E ja que te manifesto
+ Todas minhas estranhezas,
+ Escreve, pois que te prézas,
+ Milagres d'hum claro gesto,
+ E de quem o vio, tristezas.
+
+ Ah Senhora, em quem se apura
+ A fé de meu pensamento!
+ Escutae e estae a tento,
+ Que com vossa formosura
+ Iguala Amor meu tormento.
+ E, postoque tão remota
+ Estejais de m'escutar
+ Por me não remediar,
+ Ouvi, que pois Amor nota,
+ Milagres se hão de notar.
+
+ Escrevem varios Authores,
+ Que junto da clara fonte
+ Do Ganges, os moradores
+ Vivem do cheiro das flores
+ Que nascem naquelle monte.
+ Se os sentidos podem dar
+ Mantimento ao viver,
+ Não he logo d'espantar,
+ S'estes vivem de cheirar,
+ Que viva eu só de vos ver.
+
+ Huma árvore se conhece,
+ Que na geral alegria
+ Ella tanto s'entristece,
+ Que, como he noite, florece,
+ E perde as flores de dia.
+ Eu, qu'em ver-vos sinto o preço
+ Qu'em vossa vista consiste,
+ Em a vendo m'entristeço,
+ Porque sei que não mereço
+ A glória de ver-me triste.
+
+ Hum Rei de grande poder
+ Com veneno foi criado,
+ Porque, sendo costumado,
+ Não lhe pudesse empecer,
+ Se despois lhe fosse dado.
+ Eu, que criei de pequena
+ A vista a quanto padece,
+ Desta sorte m'acontece,
+ Que não me faz mal a pena,
+ Senão quando me fallece.
+
+ Quem da doença Real
+ De longe enfêrmo se sente,
+ Por segredo natural
+ Fica são vendo somente
+ Hum volatil animal.
+ Do mal, que Amor em mi cria,
+ Quando aquella Phenix vejo,
+ São de todo ficaria;
+ Mas fica-me hydropesia,
+ Que quanto mais, mais desejo.
+
+ Da vibora he verdadeiro,
+ Se a consorte vai buscar,
+ Qu'em se querendo juntar,
+ Deixa a peçonha primeiro,
+ Porque lh'impede o gerar.
+ Assi quando m'apresento
+ Á vossa vista inhumana,
+ A peçonha do tormento
+ Deixo á parte, porque dana
+ Tamanho contentamento.
+
+ Querendo Amor sustentar-se,
+ Fez huma vontade esquiva
+ D'huma estatua namorar-se:
+ Despois, por manifestar-se,
+ Converteo-a em mulher viva.
+ De quem m'irei eu queixando,
+ Ou quem direi que m'engana
+ Se vou seguindo e buscando
+ Huma imagem, que d'humana
+ Em pedra se vai tornando?
+
+ D'huma fonte se sabía,
+ Da qual certo se provava
+ Que quem sôbre ella jurava,
+ Se falsidade dizia,
+ Dos olhos logo cegava.
+ Vós, que minha liberdade,
+ Senhora, tyrannizais,
+ Injustamente mandais,
+ Quando vos fallo verdade,
+ Que vos não possa ver mais.
+
+ Da palma s'escreve e canta
+ Ser tão dura e tão forçosa,
+ Que pêzo não a quebranta,
+ Mas antes, de presunçosa,
+ Com elle mais se levanta.
+ Co'o pêzo do mal que dais,
+ A constancia qu'em mi vejo,
+ Não somente ma dobrais,
+ Mas dobra-se meu desejo,
+ Com qu'então vos quero mais.
+
+ Se alguem os olhos quizer
+ Ás andorinhas quebrar,
+ Logo a mãe, sem se deter,
+ Huma herva lhe vai buscar
+ Que lhes faz outros nascer.
+ Eu que os olhos tenho attento
+ Nos vossos, qu'estrellas são,
+ Cegão-se os do entendimento,
+ Mas nascem-me os da razão
+ De folgar com meu tormento.
+
+ Lá para onde o sol sahe,
+ Descobrimos, navegando,
+ Hum novo rio admirando,
+ Que o lenho que nelle cahe,
+ Em pedra se vai tornando.
+ Não s'espantem disto as gentes;
+ Mais razão será qu'espante
+ Hum coração tão possante,
+ Que com lagrimas ardentes
+ Se converte em diamante.
+
+ Póde hum mudo nadador
+ Na linha e cana influir
+ Tão venenoso vigor,
+ Que faz mais não se bulir
+ O braço do pescador.
+ Se começão de beber
+ Deste veneno excellente
+ Meus olhos, sem se deter,
+ Não se sabem mais mover
+ A nada que se apresente.
+
+ Isto são claros sinais
+ Do muito qu'em mi podeis:
+ Nem podeis desejar mais;
+ Que se ver-vos desejais,
+ Em mi claro vos vereis.
+ E quereis ver a que fim
+ Em mi tanto bem se pôs?
+ Porque quiz Amor assim,
+ Que por vos verdes a vós,
+ Tambem me visseis a mim.
+
+ Dos males que m'ordenais,
+ Qu'inda tenho por pequenos,
+ Sabei, se mos escutais,
+ Que ja não sei dizer mais,
+ Nem vós podeis saber menos.
+ Mas ja que a tanto tormento
+ Não se acha quem resista,
+ Eu, Senhora, me contento
+ De terdes meu soffrimento
+ Por alvo de vossa vista.
+
+ Quantos contrarios consente
+ Amor, por mais padecer!
+ Que aquella vista excellente,
+ Que me faz viver contente,
+ Me faça tão triste ser!
+ Mas dou este entendimento
+ Ao mal, que tanto m'offende,
+ Como na vela s'entende,
+ Que se se apaga co'o vento,
+ Co'o mesmo vento se accende.
+
+ Exprimentou-se algum'hora
+ D'ave, que chamão Camão,
+ Que se da casa, onde mora,
+ Vê adúltera senhora,
+ Morre de pura paixão.
+ A dor he tão sem medida,
+ Que remedio lhe não val.
+ Mas oh ditoso animal,
+ Que póde perder a vida,
+ Quando vê tamanho mal!
+
+ Nos gôstos de vos querer
+ Estava agora enlevado,
+ Se não fôra salteado
+ Das lembranças de temer
+ Ser por outrem desamado.
+ Estas suspeitas tão frias,
+ Com que o pensamento sonha,
+ São assi como as harpias,
+ Que as mais doces iguarias
+ Vão converter em peçonha.
+
+ Faz-me este mal infinito
+ Não poder ja mais dizer,
+ Por não vir a corromper
+ Os gostos que tenho escrito,
+ Co'os males qu'hei d'escrever.
+ Não quero que s'apregôe
+ Mal tanto para encobrir,
+ Porque em quanto aqui s'ouvir
+ Nenhuma outra cousa sôe,
+ Que a glória de vos servir.
+
+ * * * * *
+
+
+Á MESMA.
+
+ Dama d'estranho primor,
+ Se vos for
+ Pezada minha firmeza,
+ Olhae não me deis tristeza,
+ Porque a converto em amor.
+ E se cuidais
+ De me matar, quando usais
+ D'esquivança,
+ Irei tomar por vingança
+ Amar-vos cada vez mais.
+
+ Porém vosso pensamento,
+ Como isento,
+ Seguirá sua tenção,
+ Crendo qu'em tanta affeição
+ Não haja accrescentamento.
+ Não creais
+ Que desta arte vos façais
+ Invencibil;
+ Que Amor sôbre o impossibil
+ Amostra que póde mais.
+
+ Mas ja da tenção que sigo,
+ Me desdigo;
+ Que se ha tanto poder nelle,
+ Tambem vós podeis mais qu'elle
+ Neste mal que usais comigo.
+ Mas se for
+ O vosso poder maior
+ Entre nós,
+ Quem poderá mais que vós,
+ Se vós podeis mais que Amor?
+
+ Despois que, Dama, vos vi,
+ Entendi,
+ Que perdêra Amor seu preço;
+ Pois o favor que lh'eu peço,
+ Vos pede elle para si.
+ Nem duvido
+ Que não póde, de sentido,
+ Resistir;
+ Pois em vez de vos ferir,
+ Ficou de vos ver ferido.
+
+ Mas pois vossa vista he tal
+ Em meu mal,
+ Que posso de vós querer?
+ Que mal poderei valer,
+ Onde o mesmo Amor não val.
+ Se attentar,
+ Nenhum bem posso esperar:
+ E oxalá
+ Que vos alembrasse ja,
+ Sequer para me matar.
+
+ Mas nem com isto creais
+ Que façais
+ Meus serviços mais pequenos;
+ Porqu'eu, quando espero menos,
+ Sabei qu'então quero mais.
+ Nada espero;
+ Mas de mi crede este fero,
+ Qu'em ser vosso,
+ Vos quero tudo o que posso,
+ E não posso quanto quero.
+
+ Só por esta phantasia
+ Merecia
+ De meus males algum fruito;
+ E não era certo muito
+ Para o muito que queria.
+ De maneira,
+ Que não he, na derradeira,
+ Grande espanto,
+ Que quem, Dama, vos quer tanto,
+ Que outro tanto de vós queira.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMAS SUSPEITAS.
+
+ Suspeitas, que me quereis?
+ Qu'eu vos quero dar lugar
+ Que de certas me mateis,
+ Se a causa, de que nasceis,
+ Vós quizesseis confessar.
+ Que de não lhe achar desculpa,
+ A grande mágoa passada
+ Me tee a alma tão cansada,
+ Que se me confessa a culpa,
+ Te-la-hei por desculpada.
+
+ Ora vêde que perigos
+ Tee cercado o coração,
+ Que no meio da oppressão
+ A seus proprios inimigos
+ Vai pedir a defensão!
+ Que, suspeitas, eu bem sei,
+ Como se claro vos visse,
+ Que he certo o que ja cuidei;
+ Que nunca mal suspeitei,
+ Que certo me não sahisse.
+
+ Mas queria esta certeza
+ Daquella que me atormenta;
+ Porque em tamanha estreiteza
+ Ver que disso se contenta,
+ He descanso da tristeza.
+ Porque se esta só verdade
+ Me confessa limpa e nua
+ De cautela e falsidade,
+ Não póde a minha vontade
+ Desconforme ser da sua.
+
+ Por segredo namorado
+ He certo estar conhecido
+ Que o mal de ser engeitado
+ Mais atormenta sabido
+ Mil vezes, que suspeitado.
+ Mas eu só, em quem se ordena
+ Novo modo de querella,
+ De medo da dor pequena,
+ Venho a achar na maior pena
+ O refrigerio para ella.
+
+ Ja nas iras m'inflammei,
+ Nas vinganças, nos furores,
+ Que ja doudo imaginei;
+ E ja mais doudo jurei
+ De arrancar d'alma os amores.
+ Ja determinei mudar-me
+ Para outra parte com ira;
+ Despois vim a concertar-me
+ Que era bom certificar-me
+ No que mostrava a mentira.
+
+ Mas despois ja de cansadas
+ As furias do imaginar,
+ Vinha emfim a rebentar
+ Em lagrimas magoadas,
+ E bem para magoar.
+ E deixando-se vencer
+ Os meus fingidos enganos
+ De tão claros desenganos,
+ Não posso menos fazer,
+ Que contentar-me co'os danos.
+
+ E pedir que me tirassem
+ Este mal de suspeitar
+ Que me vejo atormentar,
+ Indaque me confessassem
+ Quanto me póde matar.
+ Olhae bem se me trazeis,
+ Senhora, pôsto no fim;
+ Pois neste estado a que vim,
+ Para que vós confesseis,
+ Se dão os tratos a mim.
+
+ Mas para que tudo possa
+ Amor, que tudo encaminha,
+ Tal justiça lhe convinha;
+ Porque da culpa, qu'he vossa,
+ Venha a ser a morte minha.
+ Justiça tão mal olhada
+ Olhae com que côr se doura,
+ Que quero, ao fim da jornada,
+ Que vós sejais confessada,
+ Para qu'eu seja o que moura!
+
+ Pois confessae-vos jagora,
+ Indaque tenho temor
+ Que nem nesta última hora
+ Me ha de perdoar Amor
+ Vossos peccados, Senhora.
+ E assi vou desesperado,
+ Porque estes são os costumes
+ D'amor que he mal empregado;
+ Do qual vou ja condemnado
+ Ao inferno de ciumes.
+
+ * * * * *
+
+
+LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO.[1]
+
+ Corre sem vela e sem leme
+ O tempo desordenado,
+ D'hum grande vento levado:
+ O que perigo não teme,
+ He de pouco exprimentado.
+ As redeas trazem na mão
+ Os que redeas não tiverão:
+ Vendo quanto mal fizerão
+ A cobiça e ambição,
+ Disfarçados se acolhêrão.
+
+ A nao, que se vai perder,
+ Destrue mil esperanças:
+ Vejo o mao que vem a ter;
+ Vejo perigos correr
+ Quem não cuida que ha mudanças.
+ Os que nunca em sella andárão,
+ Na sella postos se vem:
+ De fazer mal não deixárão;
+ De demonio hábito tem
+ Os que o justo profanárão.
+
+ Que poderá vir a ser
+ O mal nunca refreado?
+ Anda, por certo, enganado
+ Aquelle que quer valer,
+ Levando o caminho errado.
+ He para os bons confusão,
+ Ver que os maos prevalecêrão;
+ Que, pôsto se detiverão
+ Com esta simulação,
+ Sempre castigos tiverão:
+
+ Não porque governe o leme
+ Em mar envolto e turbado,
+ Que tee seu rumo mudado,
+ Se perece grita e geme
+ Em tempo desordenado.
+ Terem justo galardão,
+ E dor dos que merecêrão,
+ Sempre castigos tiverão
+ Sem nenhuma redempção,
+ Postoque se detiverão.
+
+ Na tormenta, se vier,
+ Desespere na bonança,
+ Quem manhas não sabe ter:
+ Sem que lhe valha gemer,
+ Verá falsar a balança.
+ Os que nunca trabalhárão,
+ Tendo o que lhe não convem,
+ Se ao innocente enganárão,
+ Perderão o eterno bem,
+ Se do mal não s'apartárão.
+
+[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não parece obra do poeta.
+Nelle não fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria
+passar-lhe um traço por cima: o que não ousamos fazer por andar em
+todas as edições.
+
+ _Nota dos editores._
+
+ * * * * *
+
+
+CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS.
+
+_A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:_
+
+ Se não quereis padecer
+ Huma, ou duas horas tristes,
+ Sabeis que haveis de fazer?
+ Volveros por dó venistes,
+ Que aqui não ha que comer.
+ E, postoque aqui leais
+ Trovinha que vos enleia,
+ Corrido não estejais;
+ Porque por mais que corrais,
+ Não heis de alcançar a ceia.
+
+_A segunda a D. Francisco de Almeida._
+
+ Heliogabalo zombava
+ Das pessoas convidadas;
+ E de sorte as enganava,
+ Que as iguarias que dava,
+ Vinhão nos pratos pintadas.
+ Não temais tal travessura,
+ Pois ja não póde ser nova;
+ Porque a cêa está segura
+ De vos não vir em pintura;
+ Mas ha de vir toda em trova.
+
+_A terceira a Heitor da Silveira._
+
+ Cêa não a papareis:
+ Com tudo, porque não minta,
+ Para beber achareis,
+ Não Caparica, mas tinta,
+ E mil cousas que papeis.
+ E vós torceis o focinho
+ Com esta amphibologia?
+ Pois sabei que a Poesia
+ Vos dá aqui tinta por vinho,
+ E papéis por iguaria.
+
+_A quarta a João Lopes Leitão, a quem o Author fez huns versos, que vão
+adiante, sôbre huma peça de cacha, que deo a huma Dama._
+
+ Porque os que vos convidárão
+ Vosso estomago não danem,
+ Por justa causa ordenárão,
+ Se trovas vos enganárão,
+ Que trovas vos desenganem.
+ Vós tereis isto por tacha,
+ Converter tudo em trovar;
+ Pois se me virdes zombar,
+ Não cuideis, Senhor, que he cacha,
+ Que aqui não ha que cachar.
+
+_Responde João Lopes._
+
+ Pezar ora não de são,
+ Eu juro pelo Ceo bento,
+ Se de comer não me dão,
+ Qu'eu não sou camaleão,
+ Que m'hei de manter do vento.
+
+_Responde o Author._
+
+ Senhor, não vos agasteis,
+ Porque Deos vos proverá;
+ E se mais saber quereis,
+ Nas costas deste lereis
+ As iguarias que ha.
+
+_Virado o papel, dizia assi:_
+
+ Tendes nem migalha assada;
+ Cousa nenhuma de môlho;
+ E nada feito em empada;
+ E vento de tigelada;
+ Picar no dente em remôlho:
+ De fumo tendes taçalhos;
+ Ave da pena que sente
+ Quem da fome anda doente;
+ Bocejar de vinho e d'alhos;
+ Manjar em branco excellente.
+
+_A derradeira a Francisco de Mello._
+
+ D'hum homem, que teve o scetro
+ Da vêa maravilhosa,
+ Não foi cousa duvidosa,
+ Que se lhe tornava em metro
+ O qu'hia a dizer em prosa.
+ De mi vos quero affirmar
+ Que faça cousas mais novas,
+ De quanto podeis cuidar;
+ E esta cêa, que he manjar,
+ Vos faça na boca em trovas.
+
+ * * * * *
+
+
+NA INDIA AO VISO-REI, COM O MOTE ADIANTE.
+
+ Conde, cujo illustre peito
+ Merece nome de Rei,
+ Do qual muito certo sei
+ Que lhe fica sendo estreito
+ O cargo de Viso-Rei;
+ Servirdes-vos d'occupar-me
+ Tanto contra meu Planeta,
+ Não foi senão azas dar-me,
+ Com as quaes vou a queimar-me,
+ Como o faz a borboleta.
+
+ E s'eu a penna tomar,
+ Que tão mal cortada tenho,
+ Será para celebrar
+ Vosso valor singular
+ Dino de mais alto engenho.
+ Que se o meu vos celebrasse,
+ Necessario me sería
+ Que os olhos d'aguia tomasse,
+ Só para que não cegasse
+ No sol de vossa valia.
+
+ Vossos feitos sublimados
+ Nas armas, dignos de gloria,
+ São no mundo tão soados,
+ Qu'em vós de vossos passados
+ Se resuscita a memoria.
+ Pois aquelle ânimo estranho,
+ Prompto para todo effeito,
+ Espanta todo o conceito:
+ Como coração tamanho
+ Vos póde caber no peito?
+
+ A clemencia, que asserena
+ Coração tão singular,
+ S'eu nisso puzesse a penna,
+ Sería encerrar o mar
+ Em cova muito pequena.
+ Bem basta, Senhor, que agora
+ Vos sirvais de me occupar;
+ Que assi fareis aparar
+ A penna, com que algum'hora
+ Vos vereis ao ceo voar.
+
+ Assi vos irei louvando,
+ Vós a mi do chão erguendo,
+ Ambos o mundo espantando;
+ Vós com a espada cortando,
+ Eu com a penna escrevendo.
+
+_Mote que lhe mandou o Viso-Rei._
+
+ Muito sou meu inimigo,
+ Pois que não tiro de mi
+ Cuidados, com que nasci,
+ Que põe a vida em perigo.
+ Oxalá que fôra assi!
+
+_Volta._
+
+ Viver eu, sendo mortal,
+ De cuidados rodeado,
+ Parece meu natural;
+ Que a peçonha não faz mal
+ A quem foi nella criado.
+ Tanto sou meu inimigo,
+ Que por não tirar de mi
+ Cuidados, com que nasci,
+ Porei a vida em perigo.
+ Oxalá que fôra assi!
+
+ Tanto vim a accrescentar
+ Cuidados, que nunca amansão
+ Em quanto a vida durar,
+ Que canso ja de cuidar
+ Como cuidados não cansão.
+ S'estes cuidados, que digo,
+ Dessem fim a mi e a si,
+ Farião pazes comigo;
+ Que pôr a vida em perigo,
+ O bom fôra para mi.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS OBRAS SUAS.
+
+ Senhora, s'eu alcançasse
+ No tempo que ler quereis,
+ Que a dita dos meus papéis
+ Pola minha se trocasse;
+ E por ver
+ Tudo o que posso escrever
+ Em mais breve relação,
+ Indo eu onde elles vão,
+ Por mi só quizesseis ler;
+
+ Despois de ver hum cuidado
+ Tão contente de seu mal,
+ Verieis o natural
+ Do que aqui vêdes pintado;
+ Que o perfeito
+ Amor, de que sou sogeito,
+ Vereis aspero e cruel,
+ Aqui com tinta e papel,
+ Em mi com sangue no peito.
+
+ Que hum continuo imaginar
+ Naquillo que Amor ordena,
+ He pena, que emfim por penna
+ Se não póde declarar;
+ Que se eu levo
+ Dentro n'alma quanto devo
+ De trasladar em papéis,
+ Vêde que melhor lereis,
+ Se a mi, se aquillo qu'escrevo?
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA SENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO DE SITIM AMARELLO.
+
+ Se derivais da verdade
+ Esta palavra _Sitim_,
+ Achareis sem falsidade,
+ Que apos o _si_ tee o _tim_,
+ Que tine em toda a Cidade.
+ Bem vejo que m'entendeis;
+ Mas porque não falle em vão,
+ Sabei que a esta Nação
+ Tanto que o _si_ concedeis,
+ O _tim_ logo está na mão.
+
+ E quem da fama s'arreda,
+ Que tudo vai descobrir,
+ Deve sempre de fugir
+ De sitins, porque da seda
+ Seu natural he rugir.
+ Mas panno fino e delgado,
+ Qual a raxa e outros assi,
+ Dura, aquenta, e he callado,
+ Amoroso, e dá de si
+ Mais que _sitim_, nem brocado.
+
+ Mas estes, que sedas são
+ Com quem s'enganão mil Damas,
+ Mais vos tomão, do que dão;
+ Promettem, mas não darão,
+ Senão nodoas para as famas.
+ E se não me quereis crer,
+ Ou tomais outro caminho,
+ Por exemplo o podeis ver,
+ Quando lá virdes arder
+ A casa d'algum vizinho.
+
+ Oh feminina simpreza,
+ Donde estão culpas a pares,
+ Que por hum Dom de nobreza,
+ Deixão dões da natureza,
+ Mais altos e singulares!
+ Hum Dom, que anda enxertado
+ No nome, e nas obras não.
+ Fallo como exprimentado;
+ Que _sitim_ desta feição
+ Eu tenho muito cortado.
+
+ Dizem-me qu'era amarello;
+ E quem assi o quiz dar,
+ Só para me Deos vingar,
+ Se vem á mão amarê-lo,
+ O qu'eu não posso cuidar.
+ Porque quem sabe viver
+ Por estas artes manhosas,
+ (Isto bem póde não ser)
+ Dá a meninas formosas,
+ Somente polas fazer.
+
+ Quem vos isto diz, Senhora,
+ Servio nas vossas armadas
+ Muito, mas anda ja fóra;
+ E póde ser qu'inda agora
+ Traz abertas as fréchadas.
+ E, postoque desfavores
+ O tirão de servidor,
+ Quer-vos ventura melhor;
+ Que dos antigos amores
+ Inda lhe fica este amor.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS.
+
+ Peço-vos que me digais
+ As orações que rezastes,
+ Se são polos que matastes,
+ Se por vós que assi matais?
+ Se são por vós, são perdidas;
+ Que qual será a oração,
+ Que seja satisfação,
+ Senhora, de tantas vidas?
+
+ Que se vêdes quantos vem
+ A só vida vos pedir,
+ Como vos ha Deos de ouvir,
+ Se vós não ouvis ninguem?
+ Não podeis ser perdoada
+ Com mãos a matar tão prontas,
+ Que se n'huma trazeis contas,
+ Na outra trazeis espada.
+
+ Se dizeis que encommendando
+ Os que matastes andais;
+ Se rezais por quem matais,
+ Para que matais rezando?
+ Que se na fôrça do orar
+ Levantais as mãos aos Ceos,
+ Não as ergueis para Deos,
+ Erguei-las para matar.
+
+ E quando os olhos cerrais,
+ Toda enlevada na fé,
+ Cerrão-se os de quem vos vê,
+ Para nunca verem mais.
+ Pois se assi forem tratados
+ Os que vos vem quando orais,
+ Essas horas que rezais,
+ São as horas dos finados.
+
+ Pois logo, se sois servida
+ Que tantos mortos não sejão,
+ Não rezeis onde vos vejão,
+ Ou vêde para dar vida.
+ Ou se quereis escusar
+ Estes males que causastes,
+ Resuscitae quem matastes,
+ Não tereis por quem rezar.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNA.
+
+ Se n'alma e no pensamento
+ Por vosso me manifesto,
+ Não me peza do que sento;
+ Que se não soffrer tormento,
+ Faço offensa a vosso gesto.
+ E, pois quanto Amor ordena,
+ E quanto est'alma deseja,
+ Tudo á morte me condena,
+ Não quero senão que seja
+ Tudo pena, pena, pena.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS.
+
+ Sem olhos vi o mal claro,
+ Que dos olhos se seguio:
+ Pois cara sem olhos vio
+ Olhos, que lhe custão caro.
+ D'olhos não faço menção,
+ Pois quereis que olhos não sejão;
+ Vendo-vos, olhos sobejão,
+ Não vos vendo, olhos não são.
+
+ * * * * *
+
+
+DISPARATES NA INDIA.
+
+ Este mundo es el camino
+ Adó hay ducientos váos,
+ Ou por onde bons e maos,
+ Todos somos del merino.
+ Mas os maos são de teor,
+ Que desque mudão a côr,
+ Chamão logo a ElRei compadre;
+ E emfim dejadlos, mi madre,
+ Que sempre tee hum sabor
+ De quem torto nasce, tarde s'endireita.
+
+ Deixae a hum que se abone:
+ Diz logo de muito sengo,
+ Villas y castillos tengo,
+ Todos á mi mandar sone.
+ Então eu, qu'estou de môlho,
+ Com a lagrima no ôlho,
+ Polo virar do envés,
+ Digo-lhe: _tu ex illis es_,
+ E por isso não te ólho;
+ Pois honra e proveito não cabem n'hum saco.
+
+ Vereis huns, que no seu seio
+ Cuidão que trazem París,
+ E querem com dous ceitís,
+ Fender anca pelo meio.
+ Vereis mancebindo de arte,
+ Com espada em talabarte:
+ Não ha mais Italiano.
+ A este direis: Meu mano,
+ Vós sois galante que farte;
+ Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido.
+
+ Outros em cada theatro,
+ Por officio lhe ouvirês
+ Que se matarán con tres,
+ Y lo mismo haran con cuatro.
+ Prezão-se de dar respostas,
+ Com palavras bem compostas;
+ Mas se lhe meteis a mão,
+ Na paz mostrão coração,
+ Na guerra mostrão as costas;
+ Porque aqui torce a porca o rabo.
+
+ Outros vejo por ahi,
+ A que se acha mal o fundo,
+ Que andão emendando o mundo,
+ E não se emendão a si.
+ Estes respondem a quem
+ Delles não entende bem
+ El dolor que está secreto;
+ Mas porém quem for discreto,
+ Responder-lhe-ha muito bem:
+ Assi entrou o mundo, assi ha de sahir.
+
+ Achareis rafeiro velho,
+ Que se quer vender por galgo:
+ Diz que o dinheiro he fidalgo,
+ Que o sangue todo he vermelho.
+ Se elle mais alto o dissera,
+ Este pelote puzera:
+ Que o seu eco lhe responda;
+ Que su padre era de Ronda,
+ Y su madre de Antequera,
+ E quer cobrir o ceo co'huma joeira.
+
+ Fraldas largas, grave aspeito,
+ Para Senador Romano.
+ Oh que grandissimo engano!
+ Que Momo lhe abrisse o peito!
+ Consciencia, que sobeja,
+ Siso, com que o mundo reja,
+ Mansidão outro que si;
+ Mas que lobo está em ti,
+ Metido em pelle de oveja!
+ E sabem-no poucos.
+
+ Guardae-vos de huns meus Senhores,
+ Que ainda comprão e vendem;
+ Huns, qu'he certo, que descendem
+ Da geração de pastores:
+ Mostrão-se-vos bons amigos;
+ Mas se vos vem em perigos,
+ Escarrão-vos nas paredes;
+ Que de fóra dormiredes,
+ Irmão, que he tempo de figos;
+ Porque de rabo de porco nunca bom virote.
+
+ Que direis d'huns, que as entranhas
+ Lh'estão ardendo em cobiça,
+ E se tee mando, a justiça
+ Fazem de teas de aranhas?
+ Com suas hypocrisias,
+ Que são de vossas espias:
+ Para os pequenos huns Neros,
+ Para os grandes tudo feros.
+ Pois tu, parvo, não sabías,
+ Que lá vão leis, onde querem cruzados?
+
+ Mas tornando a huns enfadonhos,
+ Cujas cousas são notorias;
+ Huns, que contão mil histórias
+ Mais desmanchadas que sonhos;
+ Huns mais parvos que zamboas,
+ Qu'estudão palavras boas,
+ A que ignorancia os atiça:
+ Estes paguem por justiça,
+ Que tee morto mil pessoas,
+ Por vida de quanto quero.
+
+ Adonde tienen las mentes
+ Huns secretos trovadores,
+ Que fazem cartas d'amores,
+ De que ficão mui contentes?
+ Não querem sahir á praça;
+ Trazem trova por negaça;
+ E se lha gabais, qu'he boa,
+ Diz qu'he de certa pessoa.
+ Ora que quereis que faça,
+ Senão ir-me por esse mundo?
+
+ Ó tu, como me atarracas,
+ Escudeiro de Solia,
+ Com bocaes de fidalguia,
+ Trazido quasi com vacas;
+ Importuno a importunar,
+ Morto por desenterrar
+ Parentes, que cheirão ja!
+ Voto a tal, que me fara
+ Hum destes nunca fallar
+ Mais com viva alma.
+
+ Huns, que fallão muito, vi,
+ De que quizera fugir;
+ Huns que, emfim, sem se sentir,
+ Andão fallando entre si;
+ Porfiosos sem razão;
+ E desque tomão a mão,
+ Fallão sem necessidade;
+ E se algum'hora he verdade,
+ Deve ser na confissão;
+ Porque quem não mente... Ja m'entendeis.
+
+ Oh vós, quem quer que me lerdes,
+ Qu'haveis de ser avisado,
+ Que dizeis ao namorado
+ Que caça vento com redes?
+ Jura por vida da Dama;
+ Falla comsigo na cama;
+ Passêa de noite e escarra;
+ Por falsete na guitarra
+ Põe sempre: Viva que ama,
+ Porque calça a seu proposito.
+
+ Mas deixemos, se quizerdes,
+ Por hum pouco as travessuras,
+ Porqu'entre quatro maduras
+ Leveis tambem cinco verdes.
+ Deitemos-nos mais ao mar;
+ E se algum se arrecear,
+ Passe tres ou quatro trovas.
+ E vós tomais côres novas?
+ Mas não he para espantar;
+ Que quem porcos ha menos,
+ Em cada mouta lhe roncão.
+
+ Ó vós, que sois Secretarios
+ Das consciencias Reais,
+ E que entre os homens estais
+ Por Senhores ordinarios;
+ Porque não pondes hum freio
+ Ao roubar, que vai sem meio,
+ Debaixo de bom governo?
+ Pois hum pedaço de inferno
+ Por pouco dinheiro alheio
+ Se vende a Mouro e a Judeo.
+
+ Porque a mente, affeiçoada
+ Sempre á Real dignidade,
+ Vos faz julgar por bondade
+ A malicia desculpada.
+ Move a presença Real
+ Huma affeição natural,
+ Que logo inclina ao Juiz
+ A seu favor: e não diz
+ Hum rifão muito geral,
+ Que o Abbade donde canta, dahi janta?
+
+ E vós bailais a esse som:
+ Por isso, gentís pastores,
+ Vos chama a vós mercadores
+ Hum que só foi pastor bom.
+
+ * * * * *
+
+
+A JOÃO LOPES LEITÃO, SÔBRE HUMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU
+A HUMA DAMA, QUE SE LHE FAZIA DONZELLA.
+
+_Mote._
+
+ Se vossa Dama vos dá
+ Tudo quanto vós quizestes,
+ Dizei-me: p'ra que lhe déstes
+ O que vos ella fez ja?
+
+_Volta._
+
+ Sendo os restos envidados,
+ E vós de cachas mil contos
+ Sabeis com quão poucos pontos,
+ Que lhos achastes quebrados;
+ Se o que tee, isso vos dá,
+ Vós mui bem lho merecestes,
+ Porque se a cacha lhe déstes
+ Tinha-vo-la feita ja.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Menina formosa e crua,
+ Bem sei eu
+ Quem deixará de ser seu,
+ Se vós quizereis ser sua.
+
+_Voltas._
+
+ Menina mais que na idade,
+ Se para me querer bem
+ Vos não vejo ter vontade,
+ He porque outrem vo-la tem;
+ Tee-vo-la, e faz-vo-la crua.
+ Porém eu
+ Ja tomára não ser meu,
+ Se vós não foreis tão sua.
+
+ Nos olhos, e na feição
+ Vos vi, quando vos olhava,
+ Tanta graça, que vos dava
+ De graça este coração:
+ Não o quizestes de crua,
+ Por ser meu:
+ Se outrem vos dera o seu,
+ Póde ser foreis mais sua.
+
+ Menina, tende maneira,
+ Que ainda não venha a ser,
+ Pois não quereis quem vos quer,
+ Que queirais quem vos não queira.
+ Olhae não me sejais crua,
+ Que pois eu
+ Quero ser vosso, e não meu,
+ Sêde vós minha, e não sua.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA DOENTE
+
+_Mote._
+
+ Da doença, em que ora ardeis,
+ Eu fôra vossa mézinha
+ Só com vós serdes a minha.
+
+_Voltas._
+
+ He muito para notar
+ Cura tão bem acertada,
+ Que podereis ser curada
+ Somente com me curar.
+ Se quereis, Dama, trocar,
+ Ambos temos a mézinha,
+ Eu a vossa, e vós a minha.
+
+ Olhae, que não quer Amor,
+ (Porque fiquemos iguais)
+ Pois meu ardor não curais,
+ Que se cure vosso ardor.
+ Eu cá sinto vossa dor;
+ E se vós sentis a minha,
+ Dae e tomae a mézinha.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO
+
+ Deo, Senhora, por sentença
+ Amor, que fosseis doente,
+ Para fazerdes á gente
+ Doce e formosa a doença.
+
+_Voltas._
+
+ Não sabendo Amor curar,
+ Foi a doença fazer
+ Formosa para se ver,
+ Doce para se passar.
+ Então vendo a differença
+ Que ha de vós a toda a gente,
+ Mandou, que fôsseis doente,
+ Para glória da doença.
+
+ E digo-vos de verdade,
+ Que a saude anda invejosa,
+ Por ver estar tão formosa
+ Em vós essa enfermidade.
+ Não façais logo detença,
+ Senhora, em estar doente,
+ Porque adoecerá a gente,
+ Com desejos da doença.
+
+ Qu'eu por ter, formosa Dama,
+ A doença, qu'em vós vejo,
+ Vos confesso, que desejo
+ De cahir comvosco em cama.
+ Se consentis, que me vença
+ Deste mal, não houve gente
+ Da saude tão contente,
+ Como eu serei da doença.
+
+ * * * * *
+
+
+AO MESMO
+
+ Olhae que dura sentença
+ Foi amor dar contra mi!
+ Que porqu'em vós me perdi,
+ Em vós me busque a doença.
+ Claro está,
+ Que em vós só me achará;
+ Qu'em mi, se me vem buscar,
+ Não poderá mais achar,
+ Que a fórma do que foi ja.
+
+ Que s'em vós Amor se pôs,
+ Senhora, he forçado assi,
+ Que o mal, que me busca a mi,
+ Que vos faça mal a vós.
+ Sem mentir,
+ Amor me quiz destruir
+ Por modo nunca cuidado,
+ Pois ha de ser ja forçado
+ Pezar-vos de vos servir.
+
+ Mas sois tão desconhecida,
+ E são meus males de sorte,
+ Que vos ameaça a morte,
+ Porque me negais a vida.
+ Se por boa
+ Tal justiça se pregoa;
+ Quando desta sorte for,
+ Havei vós perdão de Amor,
+ Que a parte ja vos perdoa.
+
+ Mas o que mais temo, emfim,
+ He que nesta differença,
+ Que se não torne a doença,
+ Se me não tornais a mim.
+ De verdade,
+ Que ja vossa humanidade
+ De que se queixe não tem;
+ Pois para as almas tambem
+ Fez Amor enfermidade.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA VESTIDA DE DÓ.
+
+_Mote._
+
+ De atormentado e perdido,
+ Ja vos não peço, senão
+ Que tenhais no coração
+ O que tendes no vestido.
+
+_Volta._
+
+ Se de dó vestida andais
+ Por quem ja vida não tem
+ Porque não o haveis de quem
+ Vós tantas vezes matais?
+ Que brado sem ser ouvido,
+ E nunca vejo senão
+ Cruezas no coração,
+ E grande dó no vestido.
+
+ * * * * *
+
+
+A DONA GUIOMAR DE BLASFÉ, QUEIMANDO-SE COM HUMA VÉLA NO ROSTO.
+
+_Mote._
+
+ Amor, que todos offende,
+ Teve, Senhora, por gôsto,
+ Que sentisse o vosso rosto
+ O que nas almas accende.
+
+_Volta._
+
+ Aquelle rosto que traz
+ O mundo todo abrazado,
+ Se foi da flamma tocado,
+ Foi porque sinta o que faz.
+ Bem sei que Amor se vos rende;
+ Porém o seu presupposto
+ Foi sentir o vosso rosto
+ O que nas almas accende.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, QUE CHAMAVÃO QUARESMA.
+
+_Mote._
+
+ Não estejais aggravada,
+ Senão se for de vós mesma;
+ Porqu'a mulher, que he errada,
+ Com razão pela Quaresma
+ Deve ser disciplinada.
+
+_Voltas._
+
+ Quererdes profano amor
+ Em Quaresma, he consciencia:
+ Açoutes e penitencia
+ Vos está muito melhor.
+ Não fiqueis disto affrontada,
+ Pois a culpa he vossa mesma;
+ Que mulher, que he tão malvada,
+ He bem que pela Quaresma
+ Seja bem disciplinada.
+
+ Se a penitencia vos val,
+ Mui bem açoutada estais;
+ Pois por Quaresma pagais
+ Vossos vicios do carnal.
+ Não torneis a ser errada,
+ Nem condemneis a vós mesma,
+ Pois estais ja emendada;
+ E não sereis por Quaresma
+ Outra vez disciplinada.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, QUE LHE PROMETTEO.
+
+ Quem no mundo quizer ser
+ Havido por singular,
+ Para mais s'engrandecer,
+ Ha de trazer sempre o dar
+ Nas ancas do prometter.
+ E ja que vossa mercê,
+ Largueza tee por divisa,
+ Como o mundo todo vê,
+ Ha mister que tanto dê,
+ Que venha a dar a camisa.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME FOÃ DOS ANJOS
+
+_Mote._
+
+ Senhora, pois me chamais
+ Tão sem razão tão mão nome,
+ Inda o diabo vos tome.
+
+_Voltas._
+
+ Quem quer que vio, ou que leo,
+ Terá por novo e moderno,
+ Ter quem vive no inferno,
+ O pensamento no ceo.
+ Mas se a vós vos pareceo,
+ Que m'estava bem tal nome,
+ Esse diabo vos tome.
+
+ Perdido mais que ninguem
+ Confesso, Senhora, ser;
+ Mas o diabo não quer
+ Aos Anjos tamanho bem.
+ Pois logo não me convem,
+ Ou se me convem tal nome,
+ Será para que vos tome.
+
+ Se vos benzeis com cautella,
+ Como de Anjo, e não de luz,
+ Mal póde fugir da Cruz,
+ Quem vós tendes pôsto nella.
+ Mas ja que foi minha estrella
+ Ser diabo, e ter tal nome,
+ Guardae-vos, que vos não tome.
+
+ Ja que chegais tanto ao cabo,
+ Com as mãos, postas aos ceos
+ Vou sempre pedindo a Deos,
+ Que vos leve este diabo.
+ Eu, Senhora, não me gabo;
+ Mas pois que me dais tal nome,
+ Tomo-o, para que vos tome.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR.
+
+_Mote._
+
+ Qual terá culpa de nós
+ Neste mal, que todo he meu?
+ Quando vindes, não vou eu,
+ Quando vou, não vindes vós.
+
+_Volta._
+
+ Reinando Amor em dous peitos,
+ Tece tantas falsidades,
+ Que de conformes vontades
+ Faz desconformes effeitos.
+ Igualmente vive em nós;
+ Mas por desconcêrto seu
+ Vos leva, se venho eu,
+ Me leva, se vindes vós.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE SEU.
+
+ Descalça vai pela neve:
+ Assi faz quem Amor serve.
+
+_Voltas._
+
+ Os privilegios, que os Reis
+ Não pódem dar, póde amor,
+ Que faz qualquer amador
+ Livre das humanas leis.
+ Mortes e guerras crueis,
+ Ferro, frio, fogo e neve,
+ Tudo soffre quem o serve.
+
+ Moça formosa despreza
+ Todo o frio, e toda a dor.
+ Olhae quanto póde Amor
+ Mais que a propria natureza.
+ Medo, nem delicadeza
+ Lh'impede que passe a neve.
+ Assi faz quem Amor serve.
+
+ Por mais trabalhos que leve,
+ A tudo se off'receria;
+ Passa pela neve fria,
+ Mais alva que a propria neve;
+ Com todo frio se atreve.
+ Vêde em que fogo ferve
+ O triste, que a Amor serve.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO ALHEIO
+
+ A dor que a minha alma sente,
+ Não na sabe toda a gente.
+
+_Voltas._
+
+ Qu'estranho caso de Amor!
+ Que desejado tormento!
+ Que venho a ser avarento
+ Das dores de minha dor!
+ Por me não tratar peor,
+ Se se sabe, ou se se sente,
+ Não na digo a toda a gente.
+
+ Minha dor e causa della
+ De ninguem ouso fiar;
+ Que sería aventurar
+ A perder-me, ou a perdella.
+ E pois só com padecella,
+ A minha alma está contente,
+ Não quero que o saiba a gente.
+
+ Ande no peito escondida,
+ Dentro n'alma sepultada;
+ De mi só seja chorada,
+ De ninguem seja sentida.
+ Ou me mate, ou me dê vida,
+ Ou viva triste ou contente,
+ Não ma saiba toda a gente.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ D'alma, e de quanto tiver,
+ Quero que me despojeis,
+ Com tanto, que me deixeis
+ Os olhos para vos ver.
+
+_Volta._
+
+ Cousa este corpo não tem,
+ Que ja não tenhais rendida:
+ Despois de tirar-lhe a vida,
+ Tirae-lhe a morte tambem.
+ Se mais tenho que perder,
+ Mais quero que me leveis,
+ Com tanto que me deixeis
+ Os olhos para vos ver.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Amores de huma casada,
+ Que eu vi pelo meu mal.
+
+_Voltas._
+
+ N'huma casada fui pôr
+ Os olhos, de si senhores:
+ Cuidei que fossem amores,
+ Elles fizerão-se amor.
+ Faz-se o desejo maior
+ Donde o remedio não val,
+ Em perigo de meu mal.
+
+ Não me paraceo que Amor
+ Pudesse tanto comigo,
+ Que donde entra por amigo,
+ Se levante por senhor.
+ Leva-me de dor em dor,
+ E de final em final,
+ Cada vez para mor mal.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ Enforquei minha esperança;
+ Mas Amor foi tão madraço,
+ Que lhe cortou o baraço.
+
+_Volta._
+
+ Foi a esperança julgada
+ Por sentença da Ventura,
+ Que pois me leve á pendura,
+ Que fosse dependurada:
+ Vem Cupido com a espada,
+ Corta-lhe cerce o baraço.
+ Cupido, foste madraço.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ Puz o coração nos olhos,
+ E os olhos puz no chão,
+ Por vingar o coração.
+
+_Volta._
+
+ O coração invejoso
+ Como dos olhos andava,
+ Sempre remoques me dava
+ Que não era o meu mimoso:
+ Venho eu de piedoso
+ Do Senhor meu coração,
+ E boto os olhos no chão.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ Puz meus olhos n'huma funda,
+ E fiz hum tiro com ella
+ Ás grades d'huma janella.
+
+_Volta._
+
+ Huma Dama, de malvada,
+ Tomou seus olhos na mão;
+ E tirou-me huma pedrada
+ Com elles ao coração.
+ Armei minha funda então,
+ E puz os meus olhos nella,
+ Trape, quebrei-lhe a janella.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ De pequena tomei amor,
+ Porque o não entendi;
+ Agora que o conheci,
+ Mata-me com desfavor.
+
+_Voltas._
+
+ Vi-o moço e pequenino,
+ E a mesma idade ensina
+ Que s'incline huma menina
+ Ás amostras d'hum menino:
+ Ouvi-lhe chamar Amor,
+ Pelo nome me venci;
+ Nunca tal engano vi,
+ Nem tamanho desamor.
+
+ Cresceo-me de dia em dia
+ Com a idade a affeição,
+ Porque amor de criação,
+ N'alma, e na vida se cria.
+ Criou-se em mi este amor,
+ E senhoreou-se de mi:
+ Agora que o conheci,
+ Mata-me com desfavor.
+
+ As flores me torna abrolhos,
+ A morte me determina
+ Quem eu trouxe de menina
+ Nas meninas de meus olhos.
+ Desta mágoa e desta dor
+ Tenho sabido que emfim
+ Por amor me perco a mim
+ Por quem de mi perde amor.
+
+ Parece ser caso estranho
+ O que Amor em mi ordena,
+ Qu'em idade tão pequena
+ Haja tormento tamanho.
+ Sejão milagres d'Amor,
+ Hei-os de soffrer assi,
+ Até que haja dó de mi
+ Quem entender esta dor.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA VELHA.
+
+ Apartárão-se os meus olhos
+ De mi tão longe.
+ Falsos amores,
+ Falsos, maos, enganadores.
+
+_Voltas._
+
+ Tratárão-me com cautella,
+ Por m'enganar mais asinha;
+ Dei-lhe posse d'alma minha,
+ Forão-me fugir com ella.
+ Não ha vê-los, nem ha vella,
+ De mi tão longe.
+ Falsos amores,
+ Falsos, maos, enganadores!
+
+ Entreguei-lhe a liberdade,
+ E, emfim, da vida o melhor;
+ Forão-se; e do desamor
+ Fizerão necessidade.
+ Quem teve a sua vontade
+ De si tão longe?
+ Falsos amores,
+ E oxalá enganadores!
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRA.
+
+ Falso Cavalheiro, ingrato,
+ Enganais-me,
+ Vós dizeis, que eu vos mato,
+ E vós matais-me.
+
+_Voltas._
+
+ Costumadas artes são
+ Para enganar innocencias,
+ Piedosas apparencias
+ Sôbre isento coração.
+ Eu vos amo, e vós ingrato
+ Magoais-me,
+ Dizendo, que eu vos mato,
+ E vós matais-me.
+
+ Vêde agora qual de nós
+ Anda mais perto do fim,
+ Que a justiça faz-se em mim,
+ E o pregão diz que sois vós.
+ Quando mais verdade trato
+ Levantais-me
+ Que vos desamo e vos mato,
+ E vós matais-me.
+
+ * * * * *
+
+
+PROPRIO.
+
+ Se de meu mal me contento,
+ He porque para vós vejo
+ Em todo o mundo desejo,
+ E em ninguem merecimento.
+
+_Volta._
+
+ Para quem vos soube olhar
+ Tão impossivel foi ser
+ O poder-vos merecer,
+ Como o não vos desejar.
+ Pois logo a meu pensamento
+ Nenhum remedio lhe vejo,
+ Senão se der o desejo
+ Azas ao merecimento.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vós, Senhora, tudo tendes,
+ Senão que tendes os olhos verdes.
+
+_Voltas._
+
+ Dotou em vós natureza
+ O summo da perfeição;
+ Que o qu'em vós he senão,
+ He em outras gentileza:
+ O verde não se despreza,
+ Que, agora que vós os tendes,
+ São bellos os olhos verdes.
+
+ Ouro e azul he a melhor
+ Côr, por que a gente se perde;
+ Mas a graça desse verde
+ Tira a graça a toda côr.
+ Fica agora sendo a flor
+ A côr, que nos olhos tendes,
+ Porque são vossos e verdes.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Para que me dan tormento,
+ Aprovechando tan poco?
+ Perdido, mas no tan loco,
+ Que descubra lo que siento.
+
+_Voltas._
+
+ Tiempo perdido es aquel
+ Que se passa en darme afan,
+ Pues cuanto más me lo dan,
+ Tanto menos siento dél.
+ Que descubra lo que siento?
+ No lo haré, que no es tan poco;
+ Que no puede ser tan loco
+ Quien tiene tal pensamiento.
+
+ Sepan que me manda Amor,
+ Que de tan dulce querella,
+ A nadie dé parte della,
+ Porque la sienta mayor.
+ Es tan dulce mi tormento,
+ Que aun se me antoja poco;
+ Y si es mucho, quedo loco
+ De gusto de lo que siento.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ De vuestros ojos centellas,
+ Que encienden pechos de hielo,
+ Suben por el aire al cielo,
+ Y en llegando son estrellas.
+
+_Voltas._
+
+ Falsos loores os dan,
+ Que essas centellas tan raras
+ No son nel cielo mas claras
+ Que en los ojos donde estan.
+ Porque cuando miro en ellas
+ Lo como alumbran al suelo,
+ No sé que seran nel cielo;
+ Mas sé que acá son estrellas.
+
+ Ni se puede presumir
+ Que al cielo suban, Señora;
+ Que la lumbre que en vós mora,
+ No tiene más que subir;
+ Mas pienso que dan querellas
+ Á Dios nel octavo cielo,
+ Porque son acá en el suelo
+ Dos tan hermosas estrellas.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ De dentro tengo mi mal,
+ Que de fuera no hay señal.
+
+_Volta._
+
+ Mi nueva y dulce querella
+ Es invisible á la gente;
+ El alma sola la siente,
+ Que el cuerpo no es dino della.
+ Como la viva centella
+ Se encubre en el pedernal,
+ De dentro tengo mi mal.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Amor loco, amor loco,
+ Yo por vós, y vós por otro.
+
+_Voltas._
+
+ Dióme Amor tormentos dós,
+ Para que pene doblado;
+ Uno es verme desamado,
+ Otro es mancilla de vós.
+ Ved que ordena Amor en nós!
+ Porque vós haceisme loco,
+ Que seais loca por otro.
+
+ Tratais Amor de manera,
+ Que porque asi me tratais,
+ Quiere que, pues no me amais,
+ Que ameis otro que no os quiera.
+ Mas con todo, si no os viera
+ De todo loca por otro,
+ Con mas razon fuera loco.
+
+ Y tan contrario viviendo,
+ Alfin, alfin, conformamos;
+ Pues ambos a dós buscamos
+ Lo que mas nos vá huyendo.
+ Voy tras vós siempre siguiendo,
+ Y vós huyendo por otro:
+ Andais loca, y me haceis loco.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vêde bem se nos meus dias
+ Os desgostos vi sobejos,
+ Pois tenho medo a desejos,
+ E quero mal a alegrias.
+
+_Volta._
+
+ Se desejos fui ja ter,
+ Servírão de atormentar-me;
+ Se algum bem póde alegrar-me,
+ Quiz-me antes entristecer.
+ Passei annos, passei dias
+ Em desgostos tão sobejos,
+ Que só por não ter desejos,
+ Perderei mil alegrias.
+
+ * * * * *
+
+
+PROPIO.
+
+ Pois he mais vosso que meu,
+ Senhora, meu coração,
+ Eu vosso captivo são,
+ Meus olhos, lembre-vos eu.
+
+_Volta._
+
+ Lembre-vos minha tristeza,
+ Que jamais nunca me deixa;
+ Lembre-vos com quanta queixa
+ Se queixa minha firmeza:
+ Lembre-vos que não he meu
+ Este triste coração;
+ E pois ha tanta razão,
+ Meus olhos, lembre-vos eu.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO.
+
+ Senhora, pois minha vida
+ Tendes em vosso poder;
+ Por serdes della servida,
+ Não queirais que destruida
+ Possa ser.
+
+_Volta._
+
+ Isto não por me pezar
+ De morrer, se vós quizerdes;
+ Que melhor me he acabar
+ Mil vezes, que supportar
+ Os males que me fizerdes;
+ Mas só por serdes servida
+ De mi, em quanto viver,
+ Vos peço que minha vida
+ Não queirais que destruida
+ Possa ser.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO.
+
+ Pois damno me faz olhar-vos,
+ Não quero, por não perder-vos,
+ Que ninguem me veja ver-vos.
+
+_Voltas._
+
+ De ver-vos a não vos ver
+ Ha dous extremos mortaes;
+ E são elles em si taes,
+ Que hum por hum me faz morrer;
+ Mas antes quero escolher,
+ Que possa viver sem ver-vos,
+ Minh'alma, por não perder-vos.
+
+ Deste tamanho perigo
+ Que remedio posso ter,
+ Se vivo só com vos ver,
+ Se vos não vejo, perigo?
+ Mas quero acabar comigo,
+ Que ninguem me veja ver-vos,
+ Senhora, por não perder-vos.
+
+ * * * * *
+
+
+A TRES DAMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVÃO.
+
+_Mote._
+
+ Não sei se m'engana Helena,
+ Se Maria, se Joanna;
+ Não sei qual dellas m'engana.
+
+_Voltas._
+
+ Huma diz que me quer bem,
+ Outra jura que me quer;
+ Mas em jura de mulher
+ Quem crerá, se ellas não crem?
+ Não posso não crer a Helena,
+ A Maria, nem Joanna;
+ Mas não sei qual mais m'engana.
+
+ Huma faz-me juramentos
+ Que só meu amor estima,
+ A outra diz que se fina,
+ Joanna, que bebe os ventos.
+ Se cuido que mente Helena,
+ Tambem mentirá Joanna;
+ Mas quem mente não m'engana.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA MAL EMPREGADA.
+
+_Mote._
+
+ Menina, não sei dizer,
+ Vendo-vos tão acabada,
+ Quão triste estou por vos ver
+ Formosa e mal empregada.
+
+_Voltas._
+
+ Quem tão mal vos empregou,
+ Pouco de mi se dohia,
+ Pois não vio o quanto me hia
+ Em tirar-me o que tirou.
+ Obriga o primor que tem
+ Lindeza tão extremada
+ Que digão quantos a vem,
+ Formosa e mal empregada!
+
+ Tomastes da formosura
+ Quanto della desejastes,
+ E com ella me guardastes
+ Para tão triste ventura.
+ Mataveis sendo solteira,
+ Matais agora em casada;
+ Matais de toda a maneira,
+ Formosa e mal empregada.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA Foãa Gonçalves.
+
+_Mote._
+
+ Com vossos olhos, Gonçalves,
+ Senhora, captivo tendes
+ Este meu coração Mendes.
+
+_Volta._
+
+ Eu sou boa testimunha,
+ Que Amor tem por cousa má,
+ Que olhos, que são homens ja,
+ Se nomeiem sem alcunha;
+ Pois o coração apunha,
+ E diz, olhos, pois vós tendes,
+ Chamae-me coração Mendes.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO
+
+ De que me serve fugir
+ De morte, dor e perigo,
+ Se me eu levo comigo?
+
+_Voltas._
+
+ Tenho-me persuadido,
+ Por razão conveniente,
+ Que não posso ser contente,
+ Pois que pude ser nascido.
+ Anda sempre tão unido
+ O meu tormento comigo,
+ Qu'eu mesmo sou meu perigo.
+
+ E se de mi me livrasse,
+ Nenhum gôsto me sería:
+ Quem, senão eu, não teria
+ Mal, que esse bem me tirasse?
+ Fôrça he logo que assi passe,
+ Ou com desgôsto comigo,
+ Ou sem gôsto e sem perigo.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.
+
+ Quando me quer enganar
+ A minha bella perjura,
+ Para mais me confirmar
+ O que quer certificar,
+ Polos seus olhos me jura.
+ Como meu contentamento
+ Todo se rege por elles,
+ Imagina o pensamento,
+ Que se faz aggravo a elles
+ Não crer tão grão juramento.
+
+ Porém como em casos tais
+ Ando ja visto e corrente,
+ Sem outros certos sinais,
+ Quanto me ella jura mais,
+ Tanto mais cuido que mente.
+ Então vendo-lhe offender
+ Huns taes olhos como aquelles,
+ Deixo-me antes tudo crer,
+ Só pola não constranger
+ A jurar falso por elles.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Ha hum bem, que chega e foge;
+ E chama-se este bem tal,
+ Ter bem para sentir mal.
+
+_Volta._
+
+ Quem viveo sempre n'hum ser,
+ Inda que seja em pobreza,
+ Não vio o bem da riqueza,
+ Nem o mal d'empobrecer:
+ Não ganhou para perder;
+ Mas ganhou com vida igual
+ Não ter bem, nem sentir mal.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.
+
+_Mote._
+
+ Olhos, não vos mereci
+ Que tenhais tal condição,
+ Tão liberaes para o chão,
+ Tão irosos para mi.
+
+_Volta._
+
+ Baixos e honestos andais,
+ Por vos negardes a quem
+ Não quer mais que aquelle bem,
+ Que vós no chão espalhais?
+ Se pouco vos mereci,
+ Não m'estimeis mais que o chão,
+ A quem vós o galardão
+ Dais, e mo negais a mi.
+
+ * * * * *
+
+
+PROPRIO.
+
+ Venceo-me Amor, não o nego;
+ Tee mais fôrça qu'eu assaz;
+ Que como he cego e rapaz,
+ Dá-me porrada de cego.
+
+_Volta._
+
+ Só porque he rapaz ruim,
+ Dei-lhe hum boféte zombando.
+ Diz-me: Ó mao, estais me dando,
+ Porque sois maior que mim?
+ Pois se eu vos descarrégo,
+ E em dizendo isto, chaz;
+ Torna-me outra; tá rapaz,
+ Que dás porrada de cego.
+
+ * * * * *
+
+
+AO DESCONCERTO DO MUNDO.
+
+ Os bons vi sempre passar
+ No mundo graves tormentos;
+ E para mais m'espantar,
+ Os maos vi sempre nadar
+ Em mar de contentamentos.
+ Cuidando alcançar assi
+ O bem tão mal ordenado,
+ Fui mao; mas fui castigado.
+ Assi, que só para mi
+ Anda o mundo concertado.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.
+
+_Mote._
+
+ Perguntais-me, quem me mata?
+ Não quero responder nada,
+ Por vos não fazer culpada.
+
+_Volta._
+
+ E se a penna não me atiça,
+ A dizer pena tão forte,
+ Quero-me entregar á morte,
+ Antes que a vós á justiça.
+ Porém se tendes cobiça
+ De vos verdes tão culpada,
+ Direi que não sinto nada.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Esconjuro-te, Domingas,
+ Pois me dás tanto cuidado,
+ Que me digas se te vingas,
+ Viverei menos penado.
+
+_Voltas._
+
+ Juravas-me, que outras cabras
+ Folgavas de apascentar;
+ Eu por não me magoar,
+ Fingia qu'erão palabras.
+ Agora d'arte te vingas
+ D'algum meu doudo peccado,
+ Qu'inda que queiras, Domingas,
+ Não posso ser enganado.
+
+ Qualquer cousa busca o seu;
+ A fonte vai para o Tejo,
+ E tu para o teu desejo,
+ Por te vingares do meu.
+ De mi t'esqueces, Domingas,
+ Como eu faço do meu gado:
+ Praza a Deos, que se te vingas,
+ Que morra desesperado.
+
+ Na phantasia te pinto,
+ Fallo-te, responde o monte,
+ Busco o rio, busco a fonte,
+ Endoudeço, e não o sinto:
+ Domingas no valle brado,
+ Responde o eco Domingas;
+ E tu inda te não vingas
+ De me ver doudo tornado!
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Se a alma ver-se não póde
+ Onde pensamentos ferem,
+ Que farei para me crerem?
+
+_Voltas._
+
+ Se n'alma huma só ferida
+ Faz na vida mil sinais,
+ Tanto se descobre mais,
+ Quanto he mais escondida.
+ S'esta dor tão conhecida
+ Me não vem, porque não querem,
+ Que farei para ma crerem?
+
+ Se se pudesse bem ver
+ Quanto callo, e quanto sento,
+ Despois de tanto tormento
+ Cuidaria alegre ser.
+ Mas se não me querem crer
+ Olhos, que tão mal me ferem,
+ Que farei para me crerem?
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vosso bem querer, Senhora,
+ Vosso mal melhor me fôra.
+
+_Voltas._
+
+ Ja agora certo conheço
+ Ser melhor todo tormento,
+ Onde o arrependimento
+ Se compra por justo preço.
+ Enganou-me hum bom comêço;
+ Mas o fim me diz agora
+ Que o mal melhor me fôra.
+
+ Quando hum bem he tão damnoso,
+ Que sendo bem, dá cuidado,
+ O damno fica obrigado
+ A ser menos perigoso.
+ Mas se a mi por desditoso,
+ Co'o bem me foi mal, Senhora,
+ Co'o vosso mal bem me fôra.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Se me desta terra for,
+ Eu vos levarei, amor.
+
+_Voltas._
+
+ Se me for, e vos deixar,
+ (Ponho por caso, que possa)
+ Est'alma minha, qu'he vossa,
+ Comvosco m'ha de ficar.
+ Assi que só por levar
+ A minha alma, se me for,
+ Vos levarei, meu amor.
+
+ Que mal póde maltratar-me,
+ Que comvosco seja mal?
+ Ou que bem póde ser tal,
+ Que sem vós possa alegrar-me?
+ O mal não póde enojar-me,
+ O bem me será maior,
+ Se vos levar, meu amor.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Pequenos contentamentos,
+ Hi buscar quem contenteis,
+ Que a mi não me conheceis.
+
+_Voltas._
+
+ Os gostos, que tantas dores
+ Fizerão ja valer menos,
+ Não os acceita pequenos,
+ Quem nunca teve maiores:
+ Bem parecem vãos favores,
+ Pois tão tarde me quereis,
+ Qu'inda me não conheceis.
+
+ Offereceis-me alegria,
+ Tendo-me ja cego e mouco:
+ He baixeza acceitar pouco,
+ Quem tanto vos merecia.
+ Ide-vos por outra via,
+ Pois o bem que me deveis,
+ Nunca mo satisfareis.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Perdigão perdeo a penna,
+ Não ha mal que lhe não venha.
+
+_Voltas._
+
+ Perdigão, que o pensamento
+ Subio a hum alto lugar,
+ Perde a penna do voar,
+ Ganha a pena do tormento:
+ Não tee no ar, nem no vento,
+ Azas com que se sostenha:
+ Não ha mal que lhe não venha.
+
+ Quiz voar a huma alta torre,
+ Mas achou-se desasado;
+ E vendo-se despennado,
+ De puro penado morre.
+ Se a queixumes se soccorre,
+ Lança no fogo mais lenha:
+ Não ha mal que lhe não venha.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA.
+
+ Pois a tantas perdições,
+ Senhoras, quereis dar vida,
+ Ditosa seja a ferida,
+ Que tee taes Cirurgiões!
+ Pois ventura
+ Me subio a tanta altura,
+ Que me sejais valedoras,
+ Ditosa seja a tristura,
+ Que se cura
+ Por vossos rogos, Senhoras!
+
+ Ser minha pena mortal,
+ Ja qu'entendeis, que he assi,
+ Não quero fallar por mi,
+ Que por mi falla meu mal.
+ Sois formosas,
+ Haveis de ser piedosas,
+ Por ser tudo d'huma côr;
+ Que pois Amor vos fez rosas
+ Milagrosas,
+ Fazei milagres de Amor.
+
+ Pedi a quem vós sabeis,
+ Que saiba de meu trabalho,
+ Não pelo qu'eu nisso valho,
+ Mas pelo que vós valeis.
+ Que o valer
+ De vosso alto merecer,
+ Com lho pedir de giolhos,
+ Fara qu'em meu padecer
+ Possa ver
+ O poder que tee seus olhos.
+
+ Vossa muita formosura
+ Com a sua tanto val,
+ Que me rio de meu mal,
+ Quando cuido em quem me cura.
+ A meus ais,
+ Peço-vos que lhe valhais,
+ Damas de Amor tão valídas,
+ Que nunca tal dor sintais,
+ Que queirais,
+ Onde não sejais queridas.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA ALHEIA.
+
+ Na fonte está Leonor
+ Lavando a talha, e chorando,
+ Ás amigas perguntando:
+ Vistes lá o meu amor?
+
+_Voltas._
+
+ Pôsto o pensamento nelle,
+ Porque a tudo o Amor a obriga,
+ Cantava, mas a cantiga
+ Erão suspiros por elle.
+ Nisto estava Leonor
+ O seu desejo enganando,
+ Ás amigas perguntando:
+ Vistes lá o meu amor?
+
+ O rosto sôbre hua mão,
+ Os olhos no chão pregados,
+ Que de chorar ja cansados,
+ Algum descanso lhe dão;
+ Desta sorte Leonor
+ Suspende de quando em quando
+ Sua dor; e em si tornando,
+ Mais pezada sente a dor.
+
+ Não deita dos olhos ágoa,
+ Que não quer que a dor s'abrande
+ Amor, porque em mágoa grande
+ Sécca as lagrimas a mágoa.
+ Despois que de seu amor
+ Soube novas perguntando,
+ D'improviso a vi chorando.
+ Olhae que extremos de dor!
+
+ * * * * *
+
+
+ESTAS TROVAS MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA
+DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO D.
+FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FÓRA, PEDINDO-LHE O
+FIZESSE DESEMBARGAR.
+
+ Que diabo ha tão damnado,
+ Que não tema a cutilada
+ Dos fios seccos da espada
+ Do fero Miguel armado?
+ Pois se tanto hum golpe seu
+ Sôa na infernal cadeia;
+ Do que o demonio arreceia
+ Como não fugirei eu?
+
+ Com razão lhe fugiria,
+ Se contr'elle, e contra tudo
+ Não tivesse hum forte escudo
+ Só em Vossa Senhoria.
+ Por tanto, Senhor, proveja,
+ Pois me tee ao remo atado,
+ Que antes que seja embarcado,
+ Eu desembargado seja.
+
+ * * * * *
+
+
+ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, INVERNANDO EM GOA.
+
+ Vossa Senhoria creia
+ Que não apura o engenho
+ Fome, se he como a que tenho,
+ Mas afraca e corta a veia.
+ E quem o contrário sente,
+ Está farto em toda a hora,
+ Como estou faminto agora:
+ Mas Martha, se está contente,
+ Dá-lhe pouco de quem chora.
+
+ E pois Vossa Senhoria
+ Em geral a tudo acode,
+ Acuda a mi, que só póde
+ Dar-me no engenho valia.
+ Esperte esta Musa minha,
+ Que o tempo traz somnolenta;
+ Valha-lhe nesta tormenta
+ Com essa doce mézinha,
+ Que só dá vida e contenta.
+
+ Acuda com provisão,
+ Não de papel, mas provída
+ D'ouro e prata; que esta vida
+ Não sustentão papéis, não.
+ De feitor a thesoureiro
+ Ser-me-hia trabalho grande;
+ Vossa Senhoria mande
+ Algum remedio, primeiro,
+ Com que a morte o ferro abrande.
+
+_Ajuda de Luis de Camões._
+
+ Nos livros doutos se trata
+ Que o grande Achilles insano
+ Deo a morte a Heitor Troiano;
+ Mas agora a fome mata
+ O nosso Heitor Lusitano.
+ Só ella o póde acabar,
+ Se essa vossa condição
+ Liberal e singular
+ Não mete entr'elles bastão,
+ Bastante para o fartar.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.
+
+_Esparsa._
+
+ Não posso chegar ao cabo
+ De tamanho desarranjo,
+ Que sendo vós, Senhora, Anjo,
+ Vos queira tanto o Diabo.
+ Dais manifesto sinal
+ De minha muita firmeza,
+ Que os diabos querem mal
+ Aos Anjos por natureza.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA.
+
+ Vi chorar huns claros olhos,
+ Quando delles me partia.
+ Oh que mágoa! Oh que alegria!
+
+_Voltas._
+
+ Polo meu apartamento
+ Se arrazárão todos d'ágoa.
+ Quem cuidou qu'em tanta mágoa
+ Achasse contentamento?
+ Julgue todo entendimento
+ Qual mais sentir se devia,
+ Se esta dor, se esta alegria?
+
+ Quando mais perdido estive,
+ Então deo a est'alma minha
+ Na maior mágoa que tinha,
+ O maior gôsto que tive.
+ Assi, se minha alma vive,
+ Foi porque me defendia
+ Desta dor esta alegria?
+
+ O bem, que Amor me não deu
+ No tempo que desejei,
+ Quando delle me apartei,
+ Me confessou, qu'era meu.
+ Agora que farei eu,
+ Se a fortuna me desvia
+ De lograr esta alegria?
+
+ Não sei se foi enganado,
+ Pois me tinha defendido
+ Das íras de mal querido,
+ No mal de ser apartado.
+ Agora peno dobrado,
+ Achando no fim do dia
+ O princípio da alegria.
+
+ * * * * *
+
+
+VILLANCETE PASTORIL.
+
+ Deos te salve, Vasco amigo.
+ Não me fallas? Como assi?
+ Bofé, Gil, não 'stava aqui.
+
+_Voltas._
+
+ Pois onde te hão de fallar,
+ Se não 'stás onde appareces?
+ Se Magdanela conheces,
+ Nella me pódes achar.
+ E como te hão d'ir buscar
+ Aonde fogem de ti?
+ Pois nem eu estou em mi.
+
+ Porque te não acharei
+ Em ti, como em Magdanela?
+ Porque me fui perder nella
+ O dia que me ganhei.
+ Quem tão bem falla, não sei
+ Como anda fóra de si.
+ Ella falla dentro em mi.
+
+ Como estás aqui presente,
+ Se lá tens a alma e a vida?
+ Porqu'he d'hum'alma perdida
+ Apparecer sempre á gente.
+ Se es morto, bem se consente
+ Que todos fujão de ti.
+ Eu tambem fujo de mi.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO PASTORIL.
+
+ Porque no miras, Giraldo,
+ Mi zampoña como suena?
+ Porque no me mira Elena.
+
+_Voltas._
+
+ Vuelve acá, no estês pasmado,
+ Mira que gentil sonar!
+ Como te podrá mirar
+ Quien no puede ser mirado?
+ Y que bueno enamorado!
+ No dirás, si es mala, o buena?
+ No, que me hizo mudo Elena.
+
+ Mira tan dulce armonía,
+ Déjate dessos enojos.
+ Tengo clavados los ojos
+ Con que mirar te podia.
+ Ansí Dios te dé alegría:
+ No vés cuan dulce que suena?
+ No, porque no veo Elena.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO PASTORIL.
+
+ Crescem, Camilla, os abrolhos
+ De chorares por Cincero:
+ Não he muito, que lhe quero,
+ Belisa, mais que meus olhos.
+
+_Voltas._
+
+ Sempre os teus olhos estão,
+ Camilla, d'ágoas banhados.
+ De se verem desamados
+ Póde ser que chorarão.
+ Si, mas crescem os abrolhos,
+ E tu cegas por Cincero.
+ S'eu não vejo quem mais quero,
+ Para que quero mais olhos?
+
+ Se se foi ha mais d'hum mês,
+ Teus olhos não cansarão?
+ Não, que apos elle se vão
+ Estas lagrimas que vês.
+ Fazem logo estes abrolhos
+ O mato espinhoso e fero.
+ Pois eu não vejo a Cincero,
+ Isso só verão meus olhos.
+
+ Chorando queres morrer?
+ Mais quero viver chorando.
+ Tu não vês que vás cegando?
+ Se cego, como hei de ver?
+ Põe na vista outros antolhos.
+ Não posso, nem menos quero.
+ Outra para outro Cincero,
+ Antes não quero ter olhos.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES.
+
+_Mote._
+
+ Olhos, em qu'estão mil flores,
+ E com tanta graça olhais,
+ Que parece que os Amores
+ Morão onde vós morais.
+
+_Volta._
+
+ Vem-se rosas e boninas,
+ Olhos, nesse vosso ver;
+ Vem-se mil almas arder
+ No fogo dessas meninas.
+ E di-lo-hão minhas dores,
+ Meus suspiros e meus ais;
+ E dirão mais, que os amores
+ Morão onde vós morais.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Quem se confia em huns olhos,
+ Nas meninas delles vê
+ Que meninas não tee fé.
+
+_Voltas._
+
+ Quem põe suas confianças
+ Em meninas sem assento,
+ Offereça o soffrimento
+ A duzentas mil mudanças.
+ Mostrão no ar esperanças;
+ Mas em seus olhos se vê
+ Como não tee n'alma fé.
+
+ Enganão ao parecer,
+ Porque no caso d'amar,
+ São mulheres no matar,
+ E meninas no querer.
+ Quem em seus olhos se crer,
+ Cem mil graças nelles vê;
+ Vê-las sim, mas não ter fé.
+
+ Amostrão-vos n'hum momento
+ Favores assi a mólhos;
+ Mas na mudança dos olhos
+ Se lhe muda o pensamento.
+ Em nada ja tee assento,
+ E o que mais nelles se vê
+ He formosura sem fé.
+
+ * * * * *
+
+
+LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA.
+
+_Cantiga Velha._
+
+ Sois formosa, e tudo tendes,
+ Senão que tendes os olhos verdes,
+
+_Voltas._
+
+ Ninguem vos póde tirar
+ Serdes tão bem assombrada;
+ Mas heis-me de perdoar,
+ Que os olhos não valem nada.
+ Fostes mal aconselhada
+ Em querer que fossem verdes:
+ Trabalhae de os esconderdes.
+
+ A vossa testa he jardim,
+ Onde Amor se desenfada;
+ He tão branca e bem talhada,
+ Que parece de marfim.
+ Assi he; e quanto a mim,
+ Isso vos nasce de a terdes
+ Tão perto dos olhos verdes.
+
+ Os cabellos desatados
+ O mesmo sol escurecem;
+ Senão que por ser ondados,
+ Algum tanto desmerecem:
+ Mas á fé, que se parecem
+ A furto dos olhos verdes,
+ Não vos peze, não, de os terdes.
+
+ As pestanas tee mostrado
+ Ser raios, que abrazão vidas:
+ Se não forão tão compridas,
+ Tudo o mais era pintado:
+ Ellas me tinhão levado
+ A alma, sem o vós saberdes,
+ Se não forão os olhos verdes.
+
+ O mimo desse carão
+ Nem pôr-lhe os olhos consente:
+ O ser liso e transparente
+ Rouba todo o coração:
+ Inda assi achareis nação,
+ Que lhe não peze de os verdes;
+ Mas não seja co'os olhos verdes.
+
+ Esse riso, que he compôsto
+ De quantas graças nascêrão,
+ Senão que alguns me disserão,
+ Vos faz covinhas no rôsto.
+ Na vontade tenho posto
+ Dar-vos a alma, se quizerdes,
+ A trôco dos olhos verdes.
+
+ Nunca se vio, nem se escreve
+ Boca co'huma graça igual,
+ Se não fôra de coral,
+ E os dentes de côr de neve.
+ Dou-me eu a Deos, que me leve!
+ Soffrerei quanto tiverdes,
+ Não me tenhais olhos verdes.
+
+ Essa garganta merece
+ Outras palavras não minhas,
+ Senão qu'he feita em rosquinhas
+ D'alfenim, ao que parece.
+ Eu sei bem quem se offerece
+ A tomar tudo o que tendes,
+ E tambem os olhos verdes.
+
+ Essas mãos são ferropeas:
+ Só o vê-las enfeitiça;
+ Senão que são alvas, cheias,
+ E tee a feição roliça;
+ Com que appellais por justiça,
+ Para com ellas prenderdes
+ Quem vê vossos olhos verdes.
+
+ A vossa galantaria
+ Matará a quem fallardes:
+ Tendes huns desdens e tardes,
+ Que eu logo vos roubaria.
+ Oh dou-me a Santa Maria!
+ Sou cujo de quanto tendes,
+ E tambem desses olhos verdes.
+
+ * * * * *
+
+
+AO MESMO.
+
+ Tudo tendes singular,
+ Com que os corações rendeis,
+ Senão que rindo, fazeis
+ Covinhas para enterrar:
+ E para resuscitar
+ Tee força a graça que tendes;
+ Senão que tendes os olhos verdes.
+
+ Tudo, Senhora, alcançais,
+ Quanto o ser formosa alcança,
+ Senão que dais esperança
+ Co'os olhos com que matais.
+ Se acaso os alevantais,
+ He para as almas renderdes;
+ Senão que tendes os olhos verdes.
+
+ * * * * *
+
+
+A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS
+GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR
+PRINCÍPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA.
+
+ Cinco gallinhas e meia
+ Deve o Senhor de Cascais;
+ E a meia vinha cheia
+ De appetite para as mais.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Catharina bem promette;
+ Ora má! como ella mente!
+
+_Voltas._
+
+ Catharina he mais formosa
+ Para mi, que a luz do dia;
+ Mas mais formosa sería,
+ Se não fosse mentirosa.
+ Hoje a vejo piedosa,
+ Á manhãa tão differente,
+ Que sempre cuido que mente.
+
+ Prometteo-me hontem de vir,
+ Nunca mais appareceo;
+ Creio que não prometteo,
+ Senão só por me mentir.
+ Faz-me, emfim, chorar e rir;
+ Rio, quando me promette,
+ Mas chóro quando me mente.
+
+ Jurou-me aquella cadella
+ De vir, pela alma que tinha;
+ Enganou-me; tinha a minha;
+ Deo-lhe pouco de perdella.
+ A vida gasto apos ella,
+ Porque ma dá, se promette,
+ Mas tira-ma, quando mente.
+
+ Má, mentirosa, malvada,
+ Dizei, porque me mentis?
+ Prometteis, e então fugis?
+ Pois sem tornar, tudo he nada.
+ Não sois bem aconselhada;
+ Que quem promette, se mente,
+ O que perde não o sente.
+
+ Tudo vos consentiria
+ Quanto quizesseis fazer,
+ Se este vosso prometter
+ Fosse por me ter hum dia.
+ Todo então me desfaria
+ Com gôsto; e vós de contente,
+ Zombarieis de quem mente.
+
+ Mas pois folgais de mentir,
+ Promettendo de me ver,
+ Eu vos deixo o prometter,
+ Deixae-me vós o servir:
+ Haveis então de sentir
+ Quanto a minha vida sente
+ O servir a quem lhe mente.
+
+ Catharina me mentio
+ Muitas vezes, sem ter lei,
+ E todas lhe perdoei
+ Por huma só que cumprio.
+ Se como me consentio
+ Fallar-lhe, o mais me consente,
+ Nunca mais direi que mente.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ A alma, qu'está offrecida
+ A tudo, nada lhe he forte;
+ Assi passa o bem da vida,
+ Como passa o mal da morte.
+
+_Volta._
+
+ De maneira me succede
+ O que temo, e o que desejo,
+ Que sempre o que temo, vejo,
+ Nunca o que a vontade pede.
+ Tenho tão offerecida
+ Alma e vida a toda a sorte,
+ Que isso me dera da morte,
+ Como ja me dá da vida.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Ferro, fogo, frio e calma,
+ Todo o mundo acabarão;
+ Mas nunca vos tirarão,
+ Alma minha, da minha alma.
+
+_Volta._
+
+ Não vos guardei, quando vinha,
+ Em tôrre, fôrça, ou engenho;
+ Que mais guardada vos tenho
+ Em vós, que sois alma minha.
+ Alli nem frio, nem calma,
+ Não podem ter jurdição;
+ Na vida sim, porém não
+ Em vós que tenho por alma.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Esperei, ja não espero
+ De mais vos servir, Senhora;
+ Pois me fazeis cada hora
+ Tanto mal, que desespéro.
+
+_Volta._
+
+ Pois sei certo que folgais,
+ Quando mais mal me fazeis,
+ E que nunca descansais,
+ Senão quando me mostrais
+ Quão pouco bem me quereis;
+ Servir-vos mais não espero
+ Pois meu viver empeora
+ Com me fazerdes, Senhora,
+ Tanto mal, que desespéro.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Descalça vai para a fonte
+ Leonor pela verdura;
+ Vai formosa, e não segura.
+
+_Voltas._
+
+ Leva na cabeça o pote,
+ O testo nas mãos de prata,
+ Cinta de fina escarlata,
+ Sainho de chamalote:
+ Traz a vasquinha de cote,
+ Mais branca que a neve pura;
+ Vai formosa, e não segura.
+
+ Descobre a touca a garganta,
+ Cabellos de ouro entrançado,
+ Fita de côr d'encarnado,
+ Tão linda que o mundo espanta:
+ Chove nella graça tanta,
+ Que dá graça á formosura;
+ Vai formosa, e não segura.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Quem disser que a barca pende,
+ Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+
+_Voltas._
+
+ Se vos quereis embarcar,
+ E para isso estais no caes,
+ Entrae logo: que tardaes?
+ Olhae qu'está preamar:
+ E se outrem, por vos fretar,
+ Vos disser qu'esta que pende,
+ Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+
+ Esta barca he de carreira;
+ Tee seus apparelhos novos:
+ Não ha como ella outra em Povos
+ Boa de leme, e veleira:
+ Mas, se por ser a primeira,
+ Vos disser alguem que pende,
+ Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Com razão queixar-me posso
+ De vós, que mal vos queixais;
+ Pois, Senhora, vos sangrais,
+ Que seja n'hum corpo vosso.
+
+_Voltas._
+
+ Eu para levar a palma,
+ Com que ser vosso mereça,
+ Quero que o corpo padeça
+ Por vós, que delle sois alma.
+ Vós do corpo vos queixais,
+ Eu queixar-me de vós posso,
+ Porque, tendo hum corpo vosso,
+ Na minha alma vos sangrais.
+
+ E sem fazer differença
+ No que de mi possuis,
+ Pelo pouco que sentis,
+ Dais á minh'alma doença.
+ Porque dous aventurais?
+ Oh não seja o damno nosso!
+ Sangre-se este corpo vosso,
+ Porque, minha alma, vivais.
+
+ E inda, se attentardes bem,
+ Seguis medicina errada,
+ Porque para ser sangrada
+ Hum'alma sangue não tem.
+ E pois em mi sarar posso
+ Males, que á minha alma dais,
+ Se inda outra vez vos sangrais,
+ Seja neste corpo vosso.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Ojos, herido me habeis,
+ Acabad ya de matarme;
+ Mas muerto volved á mirarme,
+ Porque me resusciteis.
+
+_Voltas._
+
+ Pues me distes tal herida,
+ Con gana de darme muerte,
+ El morir me es dulce suerte,
+ Pues con morir me dais vida.
+ Ojos, qué os deteneis?
+ Acabad ya de matarme;
+ Mas muerto volved á mirarme,
+ Porque me resusciteis.
+
+ La llaga cierto ya es mia,
+ Aunque, ojos, vós no querrais;
+ Mas si la muerte me dais,
+ El morir me es alegría.
+ Y así digo que acabeis,
+ O ojos, ya de matarme;
+ Mas muerto volved á mirarme,
+ Porque me resusciteis.
+
+ * * * * *
+
+
+A DONA FRANCISCA DE ARAGÃO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO:
+
+ Mas porém a que cuidados?
+
+ Tanto maiores tormentos
+ Forão sempre os que soffri,
+ Daquillo que cabe em mi,
+ Que não sei que pensamentos
+ São os para que nasci.
+ Quando vejo este meu peito
+ A perigos arriscados
+ Inclinado, bem suspeito
+ Que a cuidados sou sujeito,
+ _Mas porém a que cuidados?_
+
+_Ao mesmo._
+
+ Que vindes em mi buscar,
+ Cuidados, que sou captivo?
+ Eu não tenho que vos dar:
+ Se vindes a me matar,
+ Ja ha muito que não vivo:
+ Se vindes, porque me dais
+ Tormentos desesperados,
+ Eu, que sempre soffri mais,
+ Não digo que não venhais;
+ _Mas porém a que cuidados?_
+
+_Ao mesmo._
+
+ Se as penas que Amor me deu,
+ Vem por tão suaves meios,
+ Não ha que temer receios;
+ Que val hum cuidado meu
+ Por mil descansos alheios.
+ Ter n'huns olhos tão formosos
+ Os sentidos enlevados,
+ Bem sei qu'em baixos estados
+ São cuidados perigosos;
+ _Mas porém a que cuidados?..._
+
+_Carta com a glosa acima._
+
+Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sería assi mais
+seguro: mas agora que he servida de me tornar a resuscitar, por me
+mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de
+agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de
+novo me dá, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me fica
+mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei
+tres entendimentos, segundo as palavras delle pudérão soffrer: se forem
+bons, he mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Campos bem-aventurados,
+ Tornae-vos agora tristes;
+ Que os dias, em que me vistes,
+ Alegres ja são passados.
+
+_Glosa._
+
+ Campos cheios de prazer,
+ Vós qu'estais reverdecendo,
+ Ja m'alegrei com vos ver;
+ Agora venho a temer
+ Qu'entristeçais em me vendo.
+ E pois a vista alegrais
+ Dos olhos desesperados,
+ Não quero que me vejais,
+ Para que sempre sejais,
+ _Campos, bem-aventurados._
+
+ Porém se por accidente
+ Vos pezar de meu tormento,
+ Sabereis que Amor consente
+ Que tudo me descontente,
+ Senão descontentamento.
+ Por isso vós, arvoredos,
+ Que ja nos meus olhos vistes
+ Mais alegria, que medos,
+ Se mos quereis fazer ledos,
+ _Tornae-vos agora tristes._
+
+ Ja me vistes ledo ser,
+ Mas despois que o falso Amor
+ Tão triste me fez viver,
+ Ledos folgo de vos ver,
+ Porque me dobreis a dor.
+ E se este gôsto sobejo
+ De minha dor me sentistes,
+ Julgae quanto mais desejo
+ As horas que vos não vejo,
+ _Que os dias em que me vistes._
+
+ O tempo, qu'he desigual,
+ De seccos, verdes vos tem;
+ Porqu'em vosso natural
+ Se muda o mal para o bem,
+ Mas o meu para mor mal.
+ Se perguntais, verdes prados,
+ Pelos tempos differentes
+ Que de Amor me forão dados,
+ Tristes, aqui são presentes,
+ _Alegres, ja são passados._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Trabalhos descansarião
+ Se para vós trabalhasse;
+ Tempos tristes passarião,
+ Se algum'hora vos lembrasse.
+
+_Glosa._
+
+ Nunca o prazer se conhece,
+ Senão despois da tormenta:
+ Tão pouco o bem permanece,
+ Que se o descanso florece,
+ Logo o trabalho arrebenta.
+ Sempre os bens se lograrião,
+ Mas os males tudo atalhão;
+ Porém ja que assi porfião,
+ Onde descansos trabalhão,
+ _Trabalhos descansarião._
+
+ Qualquer trabalho me fôra
+ Por vós grão contentamento:
+ Nada sentira, Senhora,
+ Se víra disto algum'hora
+ Em vós hum conhecimento.
+ Por mal que o mal me tratasse,
+ Tudo por bem tomaria;
+ Postoque o corpo cansasse,
+ A alma descansaria,
+ _Se para vós trabalhasse._
+
+ Quem vossas cruezas ja
+ Soffreo, a tudo se poz;
+ Costumado ficará;
+ E muito melhor será,
+ Se trabalhar para vós.
+ Tristezas esquecerião,
+ Postoque mal me tratárão;
+ Annos não me lembrarião,
+ Que como est'outros passarão,
+ _Tempos tristes passarião._
+
+ Se fosse galardoado
+ Este trabalho tão duro,
+ Não vivêra magoado.
+ Mas não o foi o passado,
+ Como o será o futuro?
+ De cansar não cansaria,
+ Se quizereis, que cansasse;
+ Cavar, morrer, fa-lo-hia;
+ Tudo, emfim, esqueceria,
+ _Se algum'hora vos lembrasse._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Triste vida se me ordena,
+ Pois quer vossa condição
+ Que os males, que dais por pena,
+ Me fiquem por galardão.
+
+_Glosa._
+
+ Despois de sempre soffrer,
+ Senhora, vossas cruezas,
+ A pezar de meu querer,
+ Me quereis satisfazer
+ Meus serviços com tristezas.
+ Mas, pois em balde resiste
+ Quem vossa vista condena,
+ Prestes estou para a pena;
+ Que de galardão tão triste
+ _Triste vida se me ordena._
+
+ De contente do mal meu
+ A tão grande extremo vim,
+ Que consinto em minha fim:
+ Assi que vós e mais eu,
+ Ambos somos contra mim.
+ Mas que soffra meu tormento,
+ Sem querer mais galardão,
+ Não he fóra de razão
+ Que queira meu soffrimento,
+ _Pois quer vossa condição._
+
+ O mal, que vós dais por bem,
+ Esse, Senhora, he mortal;
+ Que o mal, que dais como mal,
+ Em muito menos se tem,
+ Por costume natural.
+ Mas porém nesta victoria,
+ Que comigo he bem pequena,
+ A maior dor me condena
+ A pena, que dais por gloria,
+ _Que os males, que dais por pena._
+
+ Que mor bem me possa vir,
+ Que servir-vos, não o sei.
+ Pois que mais quero eu pedir,
+ Se quanto mais vos servir,
+ Tanto mais vos deverei?
+ Se vossos merecimentos
+ De tão alta estima são,
+ Assaz de favor me dão
+ Em querer que meus tormentos
+ _Me fiquem por galardão._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Ja não posso ser contente,
+ Tenho a esperança perdida;
+ Ando perdido entre a gente,
+ Nem morro, nem tenho vida.
+
+_Glosa._
+
+ Despois que meu cruel Fado
+ Destruio huma esperança,
+ Em que me vi levantado,
+ No mal fiquei sem mudança,
+ E do bem desesperado.
+ O coração, que isto sente,
+ Á sua dor não resiste,
+ Porque vê mui claramente
+ Que pois nasci para triste,
+ _Ja não posso ser contente._
+
+ Por isso, contentamentos,
+ Fugi de quem vos despreza:
+ Ja fiz outros fundamentos,
+ Ja fiz senhora a tristeza
+ De todos meus pensamentos.
+ O menos que lh'entreguei,
+ Foi esta cansada vida:
+ Cuido que nisto acertei,
+ Porque de quanto esperei
+ _Tenho a esperança perdida._
+
+ Acabar de me perder
+ Fôra ja muito melhor;
+ Tivera fim esta dor,
+ Que não podendo mor ser,
+ Cada vez a sinto mor.
+ De vós desejo esconder-me,
+ E de mi principalmente,
+ Onde ninguem possa ver-me;
+ Que pois me ganho em perder-me,
+ _Ando perdido entre a gente._
+
+ Gostos de mudanças cheios,
+ Não me busqueis, não vos quero:
+ Tenho-vos por tão alheios,
+ Que do bem que não espero,
+ Inda me ficão receios.
+ Em pena tão sem medida,
+ Em tormento tão esquivo
+ Que morra, ninguem duvída;
+ Mas eu se morro, ou se vivo,
+ _Nem morro, nem tenho vida._
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA.
+
+_Mote._
+
+ A morte, pois que sou vosso,
+ Não a quero; mas se vem,
+ Ha de ser todo meu bem.
+
+_Glosa._
+
+ Amor, qu'em meu pensamento
+ Com tanta fé se fundou,
+ Me tee dado hum regimento,
+ Que quando vir meu tormento
+ Me salve com cujo sou.
+ E com esta defensão,
+ Com que tudo vencer posso,
+ Diz a causa ao coração:
+ Não tee em mi jurdição
+ _A morte, pois que sou vosso._
+
+ Por exprimentar hum dia
+ Amor se me achava forte
+ Nesta fé, como dizia,
+ Me convidou com a morte,
+ Só por ver se a temeria.
+ E como ella seja a cousa
+ Onde está todo meu bem,
+ Respondi-lhe, como quem
+ Quer dizer mais, e não ousa:
+ _Não a quero, mas se vem..._
+
+ Não disse mais, porque então
+ Entendeo quanto me toca;
+ E se tinha dito o não,
+ Muitas vezes diz a boca,
+ O que nega o coração.
+ Toda a cousa defendida
+ Em mais estima se tem:
+ Por isso he cousa sabida,
+ Que perder por vós a vida
+ _Ha de ser todo meu bem._
+
+ * * * * *
+
+
+Á MESMA DAMA.
+
+ Vejo-a n'alma pintada,
+ Quando me pede o desejo
+ O natural que não vejo.
+
+_Glosa._
+
+ Se só de ver puramente
+ Me transformei no que vi,
+ De vista tão excellente
+ Mal poderei ser ausente,
+ Em quanto o não for de mi.
+ Porque a alma namorada
+ A traz tão bem debuxada,
+ E a memoria tanto voa,
+ Que se a não vejo em pessoa,
+ _Vejo-a n'alma pintada._
+
+ O desejo, que s'estende
+ Ao que menos se concede,
+ Sôbre vós pede e pretende,
+ Como o doente que pede
+ O que mais se lhe defende.
+ Eu, qu'em ausencia vos vejo,
+ Tenho piedade e pejo
+ De me ver tão pobre estar,
+ Qu'então não tenho que dar,
+ _Quando me pede o desejo._
+
+ Como áquelle que cegou,
+ He cousa vista e notoria,
+ Que a natureza ordenou
+ Que se lhe dobre em memoria
+ O qu'em vista lhe faltou:
+ Assi a mi, que não vejo
+ Co'os olhos o que desejo,
+ Na memoria e na firmeza
+ Me concede a natureza
+ _O natural que não vejo._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Sem vós, e com meu cuidado,
+ Olhae com quem, e sem quem.
+
+_Glosa._
+
+ Vendo Amor que com vos ver
+ Mais levemente soffria
+ Os males que me fazia,
+ Não me pôde isto soffrer;
+ Conjurou-se com meu Fado;
+ Hum novo mal me ordenou:
+ Ambos me levão forçado,
+ Não sei onde, pois que vou
+ _Sem vós e com meu cuidado._
+
+ Não sei qual he mais estranho
+ Destes dous males que sigo,
+ Se não vos ver, se comigo
+ Levar imigo tamanho.
+ O que fica, e o que vem,
+ Hum me mata, outro desejo:
+ Com tal mal, e sem tal bem,
+ Em taes extremos me vejo:
+ _Olhae com quem, e sem quem_!
+
+ * * * * *
+
+
+AO MESMO.
+
+ Amor, cuja providencia
+ Foi sempre que não errasse,
+ Porque n'alma vos levasse,
+ Respeitando o mal d'ausencia,
+ Quiz qu'em vós me transformasse.
+ E vendo-me ir maltratado,
+ Eu e meu cuidado sós,
+ Proveo nisso de attentado,
+ Por não me ausentar de vós,
+ _Sem vós, e com meu cuidado._
+
+ Mas est'alma, qu'eu trazia,
+ Porque vós nella morais,
+ Deixa-me cego, e sem guia;
+ Que ha por melhor companhia
+ Ficar onde vós ficais.
+ Assi me vou de meu bem,
+ Onde quer a forte estrella,
+ Sem alma, qu'em si vos tem,
+ Co'o mal de viver sem ella:
+ _Olhae com quem, e sem quem_!
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Sem ventura he por demais.
+
+_Glosa._
+
+ Todo o trabalhado bem
+ Promette gostoso fruito;
+ Mas os trabalhos, que vem,
+ Para quem dita não tem
+ Valem pouco, e custão muito.
+ Rompe toda a pedra dura,
+ Faz os homens immortais
+ O trabalho quando atura;
+ Mas querer achar ventura,
+ _Sem ventura, he por demais._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Minh'alma, lembrae-vos della.
+
+_Glosa._
+
+ Pois o ver-vos tenho em mais
+ Que mil vidas que me deis,
+ Assi como a que me dais,
+ Meu bem, ja que mo negais,
+ Meus olhos, não mo negueis.
+ E se a tal estado vim
+ Guiado de minha estrella,
+ Quando houverdes dó de mim,
+ Minha vida, dae-lhe a fim,
+ _Minh'alma, lembrae-vos della._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Tudo póde huma affeição.
+
+_Glosa._
+
+ Tee tal jurdição Amor
+ N'alma donde se aposenta,
+ E de que se faz senhor,
+ Que a liberta e isenta
+ De todo humano temor.
+ E com mui justa razão,
+ Como senhor soberano,
+ Que Amor não consente dano.
+ E pois me soffre tenção,
+ Gritarei por desengano:
+ _Tudo póde huma affeição._
+
+ * * * * *
+
+
+TROVA DE BOSCÃO.
+
+ Justa fué mi perdicion;
+ De mis males soy contento;
+ Ya no espero galardon,
+ Pues vuestro merecimiento
+ Satisfizo mi pasion.
+
+_Glosa._
+
+ Despues que Amor me formó
+ Todo de amor, cual me veo,
+ En las leyes, que me dió,
+ El mirar me consintió,
+ Y defendióme el deseo.
+ Mas el alma, como injusta,
+ En viendo tal perfeccion,
+ Dió al deseo ocasion:
+ Y pues quebré ley tan justa,
+ _Justa fué mi perdicion._
+
+ Mostrándoseme el Amor
+ Mas benigno que cruel,
+ Sobre tirano traidor,
+ De zelos de mi dolor,
+ Quiso tomar parte en él.
+ Yo que tan dulce tormento
+ No quiero dallo, aunque peco,
+ Resisto, y no lo consiento;
+ Mas si me lo toma á trueco
+ _De mis males, soy contento._
+
+ Señora, ved lo que ordena
+ Este Amor tan falso nuestro!
+ Por pagar á costa agena,
+ Manda que de un mirar vuestro
+ Haga el premio de mi pena.
+ Mas vos, para que veais
+ Tan engañosa intencion,
+ Aunque muerto me sintais,
+ No mireis, que si mirais,
+ _Ya no espero galardon._
+
+ Pues que premio (me direis)
+ Esperas que será bueno?
+ Sabed, sino lo sabeis,
+ Que es lo mas de lo que peno
+ Lo menos que mereceis.
+ Quien hace al mal tan ufano,
+ Y tan libre al sentimiento?
+ El deseo? No, que es vano.
+ El amor? No, que es tirano.
+ _Pues? Vuestro merecimiento._
+
+ No pudiendo Amor robarme
+ De mis tan caros despojos,
+ Aunque fué por mas honrarme,
+ Vos sola para matarme
+ Le prestastes vuestros ojos.
+ Matáranme ambos á dos;
+ Mas á vos con mas razon
+ Debe el la satisfaccion;
+ Que á mi por él, y por vos,
+ _Satisfizo mi pasion._
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Todo es poco lo posible.
+
+_Glosa._
+
+ Ved que engaño señorea
+ Nuestro juicio tan loco,
+ Que por mucho que se crea,
+ Todo el bien, que se desea,
+ Alcanzado, queda poco.
+ Un bien de cualquiera grado,
+ Si de haberse es imposible,
+ Queda mucho deseado.
+ Mas para mucho, alcanzado,
+ _Todo es poco lo posible._
+
+_Outro._
+
+ Posible es á mi cuidado
+ Poderme hacer satisfecho,
+ Si fuera posible al hado
+ Hacer no hecho lo hecho,
+ Y futuro lo pasado.
+ Si olvido pudiera haber,
+ Fuera remedio sufrible;
+ Mas ya que no puede ser,
+ Para contento me hacer,
+ _Todo es poco lo posible._
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vos teneis mi corazon.
+
+_Glosa._
+
+ Mi corazon me han robado;
+ Y Amor viendo mis enojos,
+ Me dijo: Fuéte llevado
+ Por los mas hermosos ojos,
+ Que desque vivo he mirado.
+ Gracias sobrenaturales
+ Te lo tienen en prision.
+ Y si Amor tiene razon,
+ Señora, por las señales,
+ _Vos teneis mi corazon._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Qué veré que me contente?
+
+_Glosa._
+
+ Desque una vez yo miré,
+ Señora, vuestra beldad,
+ Jamas por mi voluntad
+ Los ojos de vos quité.
+ Pues sin vos placer no siente
+ Mi vida, ni lo desea,
+ Si no quereis que yo os vea,
+ _Qué veré que me contente?_
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Sem vós, e com meu cuidado.
+
+_Glosa._
+
+ Querendo Amor esconder-vos
+ Em parte que vos não visse,
+ Co'o extremo de querer-vos
+ Cegou-me os olhos com ver-vos,
+ Levou-vos, sem que vos visse.
+ Eu cego, mas atinado,
+ Quando vi que vos não via,
+ Do mesmo Amor indignado,
+ Ja vêdes qual ficaria
+ _Sem vós e com meu cuidado._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Retrato, vós não sois meu;
+ Retratárão-vos mui mal;
+ Que a serdes meu natural,
+ Foreis mofino como eu.
+
+_Glosa._
+
+ Indaqu'em vós a arte vença
+ O que o natural tee dado,
+ Não fostes bem retratado;
+ Que ha em vós mais differença,
+ Que no vivo do pintado.
+ Se o lugar se considera
+ Do alto estado, que vos deu
+ A sorte, qu'eu mais quizera;
+ Se he qu'eu sou quem d'antes era,
+ _Retrato, vós não sois meu._
+
+ Vós na vossa glória pôsto,
+ Eu na minha sepultura,
+ Vós com bens, eu com desgôsto;
+ Pareceis-vos ao meu rosto,
+ E não ja á minha ventura.
+ E pois nella e vós errarão
+ O qu'em mi he principal,
+ Muito em ambos s'enganárão.
+ Se por mi vós retratárão,
+ _Retratárão-vos mui mal._
+
+ Mas se esse rosto fingido
+ Quizerão representar,
+ E houverão por bom partido
+ Dar-vos a alma do sentido
+ Para a glória do lugar;
+ Víreis, pôsto nessa alteza,
+ Que vos não ha cousa igual;
+ E que nem a maior mal
+ Podeis vir, nem mor baixeza,
+ _Que a serdes meu natural._
+
+ Por isso não confesseis
+ Serdes meu, qu'he desatino,
+ Com que o lugar perdereis:
+ Se conservar-vos quereis,
+ Blazonae que sois divino.
+ Que se nesta occasião
+ Conhecessem qu'ereis meu,
+ Por meu vos derão de mão,
+ . . . . . . . . . .
+ _Fôreis mofino, como eu._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Foi-se gastando a esperança,
+ Fui entendendo os enganos;
+ Do mal ficárão-me os danos,
+ E do bem só a lembrança.
+
+_Glosa._
+
+ Nunca em prazeres passados
+ Tive firmeza segura.
+ Antes tão arrebatados,
+ Qu'inda não erão chegados,
+ Quando mos levou ventura.
+ E como quem desconfia
+ Ter em tal sorte mudança,
+ No meio desta porfia,
+ De quanto bem pretendia
+ _Foi-se gastando a esperança._
+
+ Não tive por desatino
+ A occasião de perdella;
+ Mas foi culpa do destino,
+ Que a ninguem, como mais dino,
+ Amor pudéra sostella.
+ Dei-lhe tudo o qu'era seu,
+ Não receando taes danos
+ Deste, a quem alma lhe deu:
+ Quando ja não era meu,
+ _Fui entendendo os enganos._
+
+ Fiquei deste mal sobejo
+ A quem a causa compete
+ Dizer-lhe tudo o que vejo,
+ Que Amor acceita o desejo,
+ Mas mente no que promete.
+ Que se a mi se me obrigou
+ A dar-me bens soberanos,
+ Foi engano que ordenou;
+ Que do bem tudo levou,
+ _Do mal ficárão-me os danos._
+
+ E se dor tão desigual
+ Soffro em mi com padecellos,
+ Quero de novo soffrellos;
+ Que por a causa ser tal,
+ Não determino offendellos.
+ Dobre-se o mal, falte a vida,
+ Cresça a fé, falte a esperança,
+ Pois foi mal agradecida;
+ Fique a dor n'alma imprimida,
+ _E do bem só a lembrança._
+
+ * * * * *
+
+
+ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA.
+
+ Aquella captiva,
+ Que me tee captivo,
+ Porque nella vivo,
+ Ja não quer que viva.
+ Eu nunca vi rosa
+ Em suaves mólhos,
+ Que para meus olhos
+ Fosse mais formosa.
+
+ Nem no campo flores,
+ Nem no ceo estrellas,
+ Me parecem bellas,
+ Como os meus amores.
+ Rosto singular,
+ Olhos socegados,
+ Pretos e cansados,
+ Mas não de matar.
+
+ Huma graça viva,
+ Que nelles lhe mora,
+ Para ser senhora
+ De quem he captiva.
+ Pretos os cabellos,
+ Onde o povo vão
+ Perde opinião,
+ Que os louros são bellos.
+
+ Pretidão de Amor,
+ Tão doce a figura,
+ Que a neve lhe jura
+ Que trocára a cór.
+ Leda mansidão,
+ Que o siso acompanha,
+ Bem parece estranha,
+ Mas barbara não.
+
+ Presença serena,
+ Que a tormenta amansa:
+ Nella emfim descansa
+ Toda minha pena.
+ Esta he a captiva,
+ Que me tee captivo;
+ E pois nella vivo,
+ He fôrça que viva.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Quem ora soubesse
+ Onde o Amor nasce,
+ Que o semeasse!
+
+_Voltas._
+
+ D'Amor e seus danos
+ Me fiz lavrador;
+ Semeava amor,
+ E colhia enganos;
+ Não vi, em meus anos,
+ Homem que apanhasse
+ O que semeasse.
+
+ Vi terra florída
+ De lindos abrolhos,
+ Lindos para os olhos,
+ Duros para a vida.
+ Mas a rez perdida,
+ Que tal herva pasce,
+ Em forte hora nasce.
+
+ Com quanto perdi,
+ Trabalhava em vão:
+ Se semeei grão,
+ Grande dor colhi.
+ Amor nunca vi
+ Que muito durasse,
+ Que não magoasse.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Se me levão ágoas,
+ Nos olhos as levo.
+
+_Voltas._
+
+ Se de saudade
+ Morrerei ou não,
+ Meus olhos dirão
+ De mi a verdade.
+ Por elles me atrevo
+ A lançar as ágoas,
+ Que mostrem as mágoas
+ Que nesta alma levo.
+
+ As ágoas, qu'em vão
+ Me fazem chorar,
+ Se ellas são do mar,
+ Estas de amar são.
+ Por ellas relévo
+ Todas minhas mágoas;
+ Que se fôrça d'ágoas
+ Me leva, eu as levo.
+
+ Todas me entristecem,
+ Todas são salgadas;
+ Porém as choradas
+ Doces me parecem.
+ Correi, doces ágoas,
+ Que se em vós m'enlévo,
+ Não doem as mágoas,
+ Que no peito levo.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Menina dos olhos verdes,
+ Porque me não vedes?
+
+_Voltas._
+
+ Elles verdes são,
+ E tee por usança
+ Na côr esperança,
+ E nas obras não.
+ Vossa condição
+ Não he d'olhos verdes,
+ Porque me não vêdes.
+
+ Isenções a mólhos
+ Qu'elles dizem terdes,
+ Não são d'olhos verdes,
+ Nem de verdes olhos.
+ Sirvo de giolhos,
+ E vós não me credes,
+ Porque me não vêdes.
+
+ Havião de ser,
+ Porque possa vê-los,
+ Que huns olhos tão bellos
+ Não se hão d'esconder:
+ Mas fazeis-me crer,
+ Que ja não são verdes,
+ Porque me não vêdes.
+
+ Verdes não o são,
+ No que alcanço delles;
+ Verdes são aquelles
+ Qu'esperança dão.
+ Se na condição
+ Está serem verdes,
+ Porque me não vedes?
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Trocae o cuidado,
+ Senhora, comigo;
+ Vereis o perigo,
+ Qu'he ser desamado.
+
+_Voltas._
+
+ Se trocar desejo
+ O amor entre nós,
+ He para qu'em vós
+ Vejais o que vejo.
+ E sendo trocado
+ Este amor comigo,
+ Ser-vos-ha castigo
+ Terdes meu cuidado.
+
+ Tendes o sentido
+ D'Amor livre e isento,
+ E cuidais qu'he vento
+ Ser tão mal querido.
+ Não seja o cuidado
+ Tão vosso inimigo,
+ Que queira o perigo
+ De ser desamado.
+
+ Mas nunca foi tal
+ Este meu querer,
+ Que a quem tanto quer,
+ Queira tanto mal
+ Seja eu maltratado,
+ E nunca o castigo
+ Vos mostre o perigo,
+ Qu'he ser desamado.
+
+ * * * * *
+
+
+Á TENÇÃO DE MIRAGUARDA.
+
+ Ver, e mais guardar
+ De ver outro dia,
+ Quem o acabaria?
+
+_Voltas._
+
+ Da lindeza vossa,
+ Dama, quem a vê,
+ Impossivel he
+ Que guardar-se possa.
+ Se faz tanta mossa
+ Ver-vos hum só dia,
+ Quem se guardaria?
+
+ Melhor deve ser
+ Neste aventurar
+ Ver, e não guardar,
+ Que guardar e ver.
+ Ver e defender,
+ Muito bom sería,
+ Mas quem poderia?
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Irme quiero, madre,
+ Á aquella galera,
+ Con el marinero,
+ Á ser marinera.
+
+_Voltas._
+
+ Madre, si me fuere,
+ Do quiera que vó,
+ No lo quiero yo,
+ Que el Amor lo quiere.
+ Aquel niño fiero,
+ Hace que me mueva
+ Por un marinero
+ Á ser marinera.
+
+ El que todo puede,
+ Madre, no podrá,
+ Pues el alma vá,
+ Que el cuerpo se quede.
+ Con él por que muero
+ Voy, porque no muera;
+ Que si es marinero,
+ Seré marinera.
+
+ Es tirana ley
+ Del niño Señor,
+ Que por un amor
+ Se deseche un Rey.
+ Pues desta manera
+ Quiero irme, quiero
+ Por un marinero
+ Á ser marinera.
+
+ Decid, ondas, cuando
+ Vistes vos doncella,
+ Siendo tierna y bella,
+ Andar navegando?
+ Mas qué no se espera
+ Daquel niño fiero?
+ Vea yo quien quiero,
+ Sea marinera.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Saudade minha,
+ Quando vos veria?
+
+_Voltas._
+
+ Este tempo vão,
+ Esta vida escassa,
+ Para todos passa,
+ Só para mi não.
+ Os dias se vão
+ Sem ver este dia,
+ Quando vos veria.
+
+ Vêde esta mudança
+ Se está bem perdida,
+ Em tão curta vida
+ Tão longa esperança.
+ Se este bem se alcança,
+ Tudo soffreria,
+ Quando vos veria.
+
+ Saudosa dor,
+ Eu bem vos entendo;
+ Mas não me defendo,
+ Porque offendo Amor.
+ Se fôsseis maior,
+ Em maior valia
+ Vos estimaria.
+
+ Minha saudade,
+ Charo penhor meu,
+ A quem direi eu
+ Tamanha verdade?
+ Na minha vontade
+ De noite e de dia
+ Sempre vos teria.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Vida da minha alma,
+ Não vos posso ver:
+ Isto não he vida
+ Para se soffrer.
+
+_Voltas._
+
+ Quando vos eu via,
+ Esse bem lograva,
+ A vida estimava,
+ Pois então vivia;
+ Porque vos servia
+ Só para vos ver.
+ Ja que vos não vejo
+ Para qu'he viver?
+
+ Vivo sem razão,
+ Porqu'em minha dor
+ Não a poz Amor;
+ Que inimigos são.
+ Mui grande traição
+ Me obriga a fazer
+ Que viva, Senhora,
+ Sem vos poder ver.
+
+ Não me atrevo ja,
+ Minha tão querida,
+ A chamar-vos vida,
+ Porque a tenho má.
+ Ninguem cuidará,
+ Que isto póde ser,
+ Sendo-me vós vida,
+ Não poder viver.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Coifa de beirame
+ Namorou Joanne.
+
+_Voltas._
+
+ Por cousa tão pouca
+ Andas namorado?
+ Amas o toucado,
+ E não quem o touca?
+ Ando cega e louca
+ Por ti, meu Joanne,
+ Tu pelo beirame.
+
+ Amas o vestido?
+ Es falso amador.
+ Tu não vês que Amor
+ Se pinta despido?
+ Cego e mui perdido
+ Andas por beirame,
+ E eu por ti, Joanne.
+
+ A todos encanta
+ Tua parvoice;
+ De tua doudice
+ Gonçalo s'espanta,
+ E zombando canta:
+ Coifa de beirame,
+ Namorou Joanne.
+
+ Eu não sei que viste
+ Neste meu toucado,
+ Que tão namorado
+ Delle te sentiste.
+ Não te veja triste;
+ Ama-me, Joanne,
+ E deixa o beirame.
+
+ Joanne gemia,
+ Maria chorava,
+ E assi lamentava
+ O mal que sentia:
+ (Os olhos feria,
+ E não o beirame,
+ Que matou Joanne)
+
+ Não sei do que vem
+ Amares vestido;
+ Que o mesmo Cupido
+ Vestido não tem.
+ Sabes de que vem
+ Amares beirame?
+ Vem de ser Joanne.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Se Helena apartar
+ Do campo seus olhos,
+ Nascerão abrolhos.
+
+_Voltas._
+
+ A verdura amena,
+ Gados, que pasceis,
+ Sabei que a deveis
+ Aos olhos d'Helena.
+ Os ventos serena,
+ Faz flores d'abrolhos
+ O ar de seus olhos.
+
+ Faz serras florídas,
+ Faz claras as fontes:
+ S'isto faz nos montes,
+ Que fara nas vidas?
+ Tra-las suspendidas,
+ Como hervas em mólhos,
+ Na luz de seus olhos.
+
+ Os corações prende
+ Com graça inhumana;
+ De cada pestana
+ Hum'alma lhe pende.
+ Amor se lhe rende,
+ E pôsto em giolhos,
+ Pasma nos seus olhos.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Verdes são os campos
+ De côr de limão;
+ Assi são os olhos
+ Do meu coração.
+
+_Voltas._
+
+ Campo, que t'estendes
+ Com verdura bella;
+ Ovelhas, que nella
+ Vosso pasto tendes;
+ D'hervas vos mantendes
+ Que traz o verão;
+ E eu das lembranças
+ Do meu coração.
+
+ Gados, que pasceis
+ Com contentamento,
+ Vosso mantimento
+ Não no entendeis.
+ Isso que comeis,
+ Não são hervas, não;
+ São graça dos olhos
+ Do meu coração.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Verdes são as hortas
+ Com rosas e flores:
+ Moças, que as régão,
+ Matão-me d'amores.
+
+_Voltas._
+
+ Entre estes penedos
+ Que daqui parecem,
+ Verdes hervas crescem,
+ Altos arvoredos.
+ Vai destes rochedos
+ Ágoa, com que as flores
+ D'outras são regadas,
+ Que mátão d'amores.
+
+ Com ágoa, que cai
+ Daquella espessura,
+ Outra se mistura,
+ Que dos olhos sai:
+ Toda junta vai
+ Regar brancas flores;
+ Onde ha outros olhos,
+ Que mátão d'amores.
+
+ Celestes jardins,
+ As flores estrellas:
+ Hortelôas dellas
+ São huns seraphins.
+ Rosas e jasmins
+ De diversas côres,
+ Anjos, que as régão,
+ Mátão-me d'amores.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Menina formosa,
+ Dizei de que vem
+ Serdes rigorosa
+ A quem vos quer bem?
+
+_Voltas._
+
+ Não sei quem assella
+ Vossa formosura;
+ Que quem he tão dura
+ Não póde ser bella.
+ Vós sereis formosa;
+ Mas a razão tem
+ Que quem he irosa,
+ Não parece bem.
+
+ A mostra he de bella,
+ As obras são cruas:
+ Pois qual destas duas
+ Ficará na sella?
+ Se ficar _irosa_,
+ Não vos está bem:
+ Fique antes _formosa_,
+ Que mais fôrça tem.
+
+ O Amor formoso
+ Se pinta e se chama:
+ Se he amor, ama,
+ Se ama, he piedoso.
+ Diz agora a grosa
+ Que este texto tem,
+ Que quem he formosa
+ Ha de querer bem.
+
+ Havei dó, menina,
+ Dessa formosura;
+ Que se a terra he dura,
+ Secca-se a bonina.
+ Sêde piedosa;
+ Não veja ninguem
+ Que por rigorosa
+ Percais tanto bem.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Tende-me mão nelle,
+ Que hum real me deve.
+
+_Voltas._
+
+ C'hum real d'amor,
+ Dous de confiança,
+ E tres d'esperança,
+ Me foge o trédor.
+ Falso desamor
+ S'encerra naquelle
+ Que hum real me deve.
+
+ Pedio-mo emprestado,
+ Não lhe quiz penhor:
+ He mao pagador;
+ Tendo-mo afferrado.
+ C'hum cordel atado,
+ Ao Tronco se leve;
+ Que hum real me deve.
+
+ Por esta travéssa
+ Se vai acolhendo:
+ Ei-lo vai correndo,
+ Fugindo a grã pressa.
+ Nesta mão, e nessa
+ O falso se atreve,
+ Que hum real me deve.
+
+ Comprou-me o amor,
+ Sem lhe fazer preço:
+ Eu não lhe mereço
+ Dar-me desfavor.
+ Dá-me tanta dor,
+ Que ando apos elle
+ Pelo que me deve.
+
+ Eu de cá bradando,
+ Elle vai fugindo;
+ Elle sempre rindo,
+ Eu sempre chorando.
+ E de quando em quando
+ No amor se atreve,
+ Como que não deve.
+
+ A fallar verdade
+ Elle ja pagou;
+ Mas ainda ficou
+ Devendo ametade.
+ Minha liberdade
+ He a que me deve:
+ Só nella se atreve.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Dó la mi ventura,
+ Que no veo alguna?
+
+_Voltas._
+
+ Sepa quien padece,
+ Que en la sepultura
+ Se esconde ventura
+ De quien la merece.
+ Allá me parece,
+ Que quiere fortuna
+ Que yo halle alguna.
+
+ Naciendo mesquino,
+ Dolor fué mi cama;
+ Tristeza fué el ama,
+ Cuidado el padrino.
+ Vestióse el destino
+ Negra vestidura,
+ Huyó la ventura.
+
+ No se halló tormento,
+ Que alli no se hallase;
+ Ni bien, que pasase,
+ Sinó como viento.
+ Oh qué nacimiento,
+ Que luego en la cuna
+ Me siguió fortuna!
+
+ Esta dicha mia,
+ Que siempre busqué,
+ Buscándola, hallé
+ Que no la hallaria;
+ Que quien nace en dia
+ D'estrella tan dura,
+ Nunca halla ventura.
+
+ No puso mi estrella
+ Mas ventura em min:
+ Ansí vive en fin
+ Quien nace sin ella.
+ No me quejo della;
+ Quéjome que atura
+ Vida tan escura.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Vida de minha alma.
+
+_Volta._
+
+ Dous tormentos vejo
+ Grandes por extremo:
+ Se vos vejo, temo,
+ E se não, desejo.
+ Quando me despejo,
+ E venho a escolher,
+ Temendo o desejo,
+ Desejo temer.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA ALHEIA.
+
+ Pastora da serra,
+ Da serra da Estrella,
+ Perco-me por ella.
+
+_Voltas._
+
+ Nos seus olhos bellos
+ Tanto Amor se atreve,
+ Que abraza entre a neve
+ Quantos ousão vellos.
+ Não sólta os cabellos
+ Aurora mais bella:
+ Perco-me por ella.
+
+ Não teve esta serra
+ No meio d'altura
+ Mais que a formosura,
+ Que nella se encerra.
+ Bem ceo fica a terra,
+ Que tee tal estrella:
+ Perco-me por ella.
+
+ Sendo entre pastores
+ Causa de mil males,
+ Não se ouvem nos vales
+ Senão seus louvores.
+ Eu só por amores
+ Não sei fallar nella,
+ Sei morrer por ella.
+
+ D'alguns, que sentindo
+ Seu mal vão mostrando.
+ Se ri, não cuidando
+ Qu'inda paga rindo.
+ Eu triste, encobrindo
+ Só meus males della,
+ Perco-me por ella.
+
+ Se flores deseja
+ Por ventura bellas,
+ Das que colhe dellas
+ Mil morrem d'inveja.
+ Não ha quem não veja
+ Todo o melhor nella:
+ Perco-me por ella.
+
+ Se n'ágoa corrente
+ Seus olhos inclina,
+ Faz a luz divina
+ Parar a corrente.
+ Tal se vê, que sente
+ Por ver-se a ágoa nella:
+ Perco-me por ella.
+
+ * * * * *
+
+
+ENDECHAS.
+
+ Vós sois huma Dama
+ Das feias do mundo;
+ De toda a má fama
+ Sois cabo profundo.
+
+ A vossa figura
+ Não he para ver;
+ Em vosso poder
+ Não ha formosura.
+
+ Vós fostes dotada
+ De toda a maldade;
+ Perfeita beldade
+ De vós he tirada.
+
+ Sois muito acabada
+ De taixa e de glosa:
+ Pois quanto a formosa,
+ Em vós não ha nada.
+
+ Do grão merecer
+ Sois bem apartada;
+ Andais alongada
+ Do bem parecer.
+
+ Bem claro mostrais
+ Em vós fealdade:
+ Não ha hi maldade,
+ Que não precedais.
+
+ De fresco carão
+ Vos vejo ausente;
+ Em vós he presente
+ A má condição.
+
+ De ter perfeição
+ Mui alheia estais;
+ Mui muito alcançais
+ De pouca razão.
+
+ * * * * *
+
+
+ENDECHAS.
+
+ Vai o bem fugindo,
+ Cresce o mal co'os annos,
+ Vão-se descubrindo
+ Co'o tempo os enganos.
+
+ Amor e alegria.
+ Menos tempo dura.
+ Triste de quem fia
+ Nos bens da ventura!
+
+ Bem sem fundamento
+ Tee certa a mudança,
+ Certo o sentimento
+ Na dor da lembrança.
+
+ Quem vive contente,
+ Viva receoso:
+ Mal que se não sente,
+ He mais perigoso.
+
+ Quem males sentio,
+ Saiba ja temer;
+ E pelo que vio
+ Julgue o qu'ha de ser.
+
+ Alegre vivia,
+ Triste vivo agora;
+ Chora a alma de dia,
+ E de noite chora.
+
+ Confesso os enganos
+ De meu pensamento:
+ Bem de tantos annos
+ Foi-se n'hum momento.
+
+ Meus olhos, que vistes?
+ Pois vos atrevestes,
+ Chorae, olhos tristes,
+ O bem que perdestes.
+
+ A luz do sol pura
+ Só a vós se negue;
+ Seja noite escura,
+ Nunca a manhãa chegue.
+
+ O campo floreça,
+ Murmurem as ágoas,
+ Tudo me entristeça,
+ Cresção minhas mágoas.
+
+ Quizera mostrar
+ O mal que padeço;
+ Não lhe dá lugar
+ Quem lhe deu comêço.
+
+ Em tristes cuidados
+ Passo a triste vida;
+ Cuidados cansados,
+ Vida aborrecida.
+
+ Nunca pude crer
+ O que agora creio:
+ Cegou-me o prazer
+ Do mal que me veio.
+
+ Ah ventura minha,
+ Como me negaste!
+ Hum so bem que tinha,
+ Porque mo roubaste?
+
+ Triste fantasia
+ Quanta cousa guarda!
+ Quem ja visse o dia,
+ Que tanto lhe tarda!
+
+ Nesta vida cega
+ Nada permanece;
+ O qu'inda não chega,
+ Ja desaparece.
+
+ Qualquer esperança
+ Foge como o vento:
+ Tudo faz mudança,
+ Salvo meu tormento.
+
+ Amor cego e triste,
+ Quem o tee padece:
+ Mal quem lhe resiste!
+ Mal quem lhe obedece!
+
+ No meu mal esquivo
+ Sei como Amor trata:
+ E pois nelle vivo,
+ Nenhum amor mata.
+
+ * * * * *
+
+
+
+SEXTINAS.
+
+
+SEXTINA I.
+
+ Foge-me pouco a pouco a curta vida,
+ Se por caso he verdade qu'inda vivo;
+ Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos;
+ Chóro por o passado; e em quanto fallo,
+ Se me passão os dias passo a passo.
+ Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena.
+
+ Que maneira tão aspera de pena!
+ Pois nunca hum'hora vio tão longa vida
+ Em que do mal mover se visse hum passo.
+ Que mais me monta ser morto que vivo?
+ Para que chóro, emfim? para que fallo,
+ Se lograr-me não pude de meus olhos?
+
+ Oh formosos, gentís e claros olhos,
+ Cuja ausencia me move a tanta pena,
+ Quanta se não comprende em quanto fallo!
+ Se no fim de tão longa e curta vida
+ De vós m'inflammasse inda o raio vivo,
+ Por bem teria todo o mal que passo.
+
+ Mas bem sei que primeiro o extremo passo
+ Me ha de vir a cerrar os tristes olhos,
+ Que Amor me mostre aquelles por quem vivo.
+ Testimunhas serão a tinta e penna,
+ Qu'escrevêrão de tão molesta vida
+ O menos que passei, e o mais que fallo.
+
+ Oh que não sei qu'escrevo, nem que fallo!
+ Pois se d'hum pensamento em outro passo,
+ Vejo tão triste genero de vida,
+ Que se lhe não valerem tanto os olhos,
+ Não posso imaginar qual seja a penna
+ Qu'esta pena traslade com que vivo.
+
+ N'alma tenho contino hum fogo vivo,
+ Que se não respirasse no que fallo,
+ Estaria ja feita cinza a pena;
+ Mas sôbre a maior dor que soffro e passo,
+ O temperão com lagrimas os olhos:
+ Com que, se foge, não se acaba a vida.
+
+ Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
+ Vejo sem olhos, e sem lingua fallo;
+ E juntamente passo gloria e pena.
+
+ * * * * *
+
+
+SEXTINA II.
+
+ A culpa de meu mal só tee meus olhos,
+ Pois que derão a Amor entrada n'alma,
+ Para que perdesse eu a liberdade.
+ Mas quem póde fugir a huma brandura,
+ Que despois de vos pôr em tantos males,
+ Dá por bens o perder por ella a vida?
+
+ Assaz de pouco faz quem perde a vida
+ Por condição tão dura e brandos olhos;
+ Pois de tal qualidade são meus males,
+ Que o mais pequeno delles toca n'alma.
+ Não s'engane com mostras de brandura
+ Quem quizer conservar a liberdade.
+
+ Roubadora he de toda liberdade
+ (E oxalá perdoasse á triste vida!)
+ Esta que o falso Amor chama brandura,
+ Ai meus antes imigos, que meus olhos!
+ Que mal vos tinha feito esta vossa alma,
+ Para vós lhe fazerdes tantos males?
+
+ Cresção de dia em dia embora os males;
+ Perca-se embora a antigua liberdade;
+ Transforme-se em Amor esta triste alma;
+ Padeça embora esta innocente vida;
+ Que bem me págão tudo estes meus olhos,
+ Quando de outros, se os vem, vem a brandura.
+
+ Mas como nelles póde haver brandura,
+ Se causadores são de tantos males?
+ Engano foi d'Amor, porque meus olhos
+ Dessem por bem perdida a liberdade.
+ Ja não tenho que dar senão a vida,
+ Se a vida ja não deo, quem ja deo a alma.
+
+ Que póde ja'sperar quem a sua alma
+ Captiva eterna fez d'huma brandura,
+ Que quando vos dá morte, diz qu'he vida?
+ Forçado me he gritar nestes meus males,
+ Olhos meus: pois por vós a liberdade
+ Perdi, de vós me queixarei, meus olhos.
+
+ Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma,
+ Pois dais a liberdade a tal brandura,
+ Que para dar mais males, dá mais vida.
+
+ * * * * *
+
+
+SEXTINA III.
+
+ Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia,
+ Amanhecido só para meu damno!
+ Pudeste-me apartar daquella vista
+ Por quem vivia com meu mal contente?
+ Ah se o supremo fôras desta vida,
+ Qu'em ti se começára a minha glória!
+
+ Mas como eu não nasci para ter glória,
+ Senão pena que cresça cada dia,
+ O ceo m'está negando o fim da vida,
+ Porque não tenha fim com ella o damno:
+ Para que nunca possa ser contente,
+ Da vista me tirou aquella vista.
+
+ Suave, deleitosa, alegre vista,
+ Donde pendia toda a minha gloria,
+ Por quem na mor tristeza fui contente;
+ Quando será que veja aquelle dia
+ Em que deixe de ver tão grave damno,
+ E em que me deixe tão penosa vida?
+
+ Como desejarei humana vida,
+ Ausente d'hua mais que humana vista,
+ Que tão glorioso me fazia o damno!
+ Vejo o meu damno sem a sua glória;
+ Á minha noite falta ja seu dia:
+ Triste tudo se vê, nada contente.
+
+ Pois sem ti ja não posso ser contente,
+ Mal posso desejar sem ti a vida;
+ Sem ti ja ver não posso claro dia,
+ Não posso sem te ver desejar vista;
+ Na tua vista só se via a glória,
+ Não ver a glória tua he ver meu damno.
+
+ Não via maior glória que meu damno,
+ Quando do damno meu eras contente:
+ Agora me he tormento a maior glória,
+ Que póde prometter-me Amor na vida,
+ Pois tornar-te não póde á minha vista,
+ Que só na tua achava a luz do dia.
+
+ E pois de dia em dia cresce o damno,
+ Nem posso sem tal vista ser contente,
+ Só com perder a vida acharei glória.
+
+ * * * * *
+
+
+SEXTINA IV.
+
+ Sempre me queixarei desta crueza
+ Que Amor usou comigo quando o tempo,
+ A pezar de meu duro e triste fado,
+ A meus males queria dar remedio,
+ Em apartar de mi aquella vista,
+ Por quem me contentava a triste vida.
+
+ Levára-me, oxalá, traz ella a vida,
+ Para que não sentira esta crueza
+ De me ver apartado de tal vista!
+ E praza a Deos não veja o proprio tempo
+ Em mi, sem esperança de remedio,
+ A desesperação d'hum triste fado!
+
+ Porém ja acabe o triste e duro fado!
+ Acabe o tempo ja tão triste vida,
+ Qu'em sua morte só tee seu remedio.
+ O deixar-me viver he mor crueza,
+ Pois desespéro ja d'em algum tempo
+ Tornar a ver aquella doce vista.
+
+ Duro Amor! se pagava só tal vista
+ Todo o mal que por ti me fez meu fado,
+ Porque quizeste que a levasse o tempo?
+ E se o assi quizeste, porque a vida
+ Me deixas para ver tanta crueza,
+ Quando em não vê-la só vejo o remedio?
+
+ Tu só de minha dor eras remedio,
+ Suave, deleitosa e bella vista.
+ Sem ti, que posso eu ver senão crueza?
+ Sem ti, qual bem me póde dar o fado,
+ Se não he consentir que acabe a vida?
+ Mas elle della me dilata o tempo.
+
+ Azas para voar vejo no tempo,
+ Que com voar a muitos foi remedio;
+ E só não vôa para a minha vida.
+ Para que a quero eu sem tua vista?
+ Para que quer tambem o triste fado
+ Que não acabe o tempo tal crueza?
+
+ Não poderão fazer crueza, ou tempo,
+ Fôrça de fado, ou falta de remedio,
+ Qu'essa vista m'esqueça em toda a vida.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ELEGIAS
+
+
+ELEGIA I.
+
+ O sulmonense Ovidio desterrado
+ Na aspereza do Ponto, imaginando
+ Ver-se de seus Penates apartado;
+
+ Sua chara mulher desamparando,
+ Seus doces filhos, seu contentamento,
+ De sua Patria os olhos apartando;
+
+ Não podendo encobrir o sentimento,
+ Aos montes ja, ja aos rios se queixava
+ De seu escuro e triste nascimento.
+
+ O curso das estrellas contemplava,
+ E aquella ordem com que discorria
+ O ceo e o ar, e a terra adonde estava.
+
+ Os peixes por o mar nadando via,
+ As feras por o monte procedendo
+ Como o seu natural lhes permittia.
+
+ De suas fontes via estar nascendo
+ Os saudosos rios de crystal,
+ Á sua natureza obedecendo.
+
+ Assi só, de seu proprio natural
+ Apartado, se via em terra estranha,
+ A cuja triste dor não acha igual.
+
+ Só sua doce Musa o acompanha
+ Nos soidosos versos qu'escrevia,
+ E nos lamentos com que o campo banha.
+
+ Dest'arte me figura a phantasia
+ A vida com que morro, desterrado
+ Do bem qu'em outro tempo possuia.
+
+ Aqui contemplo o gôsto ja passado,
+ Que nunca passará por a memoria
+ De quem o traz na mente debuxado.
+
+ Aqui vejo caduca e debil glória
+ Desenganar meu êrro co'a mudança
+ Que faz a fragil vida transitoria.
+
+ Aqui me representa esta lembrança
+ Quão pouca culpa tenho; e m'entristece
+ Ver sem razão a pena que m'alcança.
+
+ Que a pena que com causa se padece,
+ A causa tira o sentimento della;
+ Mas muito doe a que se não merece.
+
+ Quando a roxa manhãa, dourada e bella,
+ Abre as portas ao sol e cahe o orvalho,
+ E torna a seus queixumes Philomela;
+
+ Este cuidado, que co'o somno atalho,
+ Em sonhos me parece; que o que a gente
+ Por seu descanso tee me dá trabalho.
+
+ E despois de acordado cegamente,
+ (Ou, por melhor dizer, desacordado,
+ Que pouco acôrdo logra hum descontente)
+
+ Daqui me vou, com passo carregado,
+ A hum outeiro erguido, e alli m'assento,
+ Soltando toda a redea a meu cuidado.
+
+ Despois de farto ja de meu tormento,
+ Estendo estes meus olhos saudosos
+ Á parte donde tinha o pensamento.
+
+ Não vejo senão montes pedregosos;
+ E sem graça e sem flor os campos vejo,
+ Que ja floridos víra, e graciosos.
+
+ Vejo o puro, suave e rico Tejo,
+ Com as concavas barcas, que nadando
+ Vão pondo em doce effeito o seu desejo.
+
+ Humas com brando vento navegando,
+ Outras com leves reinos brandamente
+ As crystallinas ágoas apartando.
+
+ D'alli fallo com a ágoa que não sente
+ Com cujo sentimento est'alma sae
+ Em lagrimas desfeita claramente.
+
+ Ó fugitivas ondas, esperae;
+ Que pois me não levais em companhia,
+ Ao menos estas lagrimas levae.
+
+ Até que venha aquelle alegre dia
+ Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo.
+ Mas tanto tempo, quem o passaria?
+
+ Não póde tanto bem chegar tão cedo:
+ Porque primeiro a vida acabará,
+ Que se acabe tão aspero degredo.
+
+ Mas essa triste morte que virá,
+ S'em tão contrário estado me acabasse,
+ Est'alma assi impaciente adonde irá?
+
+ Que se ás portas Tartaricas chegasse,
+ Temo que tanto mal por a memoria
+ Nem ao passar do Lethe lhe passasse.
+
+ Que se a Tantalo e Ticio for notoria
+ A pena com que vai, e que a atormenta,
+ A pena que lá tee, terão por glória.
+
+ Essa imaginação, emfim, me augmenta
+ Mil mágoas no sentido, porque a vida
+ De imaginações tristes se contenta.
+
+ Que pois de todo vive consumida,
+ Porque o mal que possue se resuma,
+ Imagina na glória possuida.
+
+ Até que a noite eterna me consuma,
+ Ou veja aquelle dia desejado
+ Em que a Fortuna faça o que costuma;
+
+ Se nella ha hi mudar-se hum triste estado.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA II.
+
+ Aquella que d'amor descomedido
+ Por o formoso moço se perdeo,
+ Que só por si d'amores foi perdido;
+
+ Despois que a deosa em pedra a converteo
+ De seu humano gesto verdadeiro,
+ A última voz só lhe concedeo.
+
+ Assi meu mal do proprio ser primeiro
+ Outra cousa nenhua me consente,
+ Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.
+
+ E se huma pouca vida, estando ausente,
+ Me deixa Amor, he porque o pensamento
+ Sinta a perda do bem d'estar presente.
+
+ Senhor, se vos espanta o soffrimento
+ Que tenho em tanto mal para escrevê-lo,
+ Furto este breve espaço a meu tormento.
+
+ Porque quem tee poder para soffrê-lo,
+ Sem se acabar a vida co'o cuidado,
+ Tambem terá poder para dizê-lo.
+
+ Nem eu escrevo hum mal ja acostumado;
+ Mas n'alma minha triste e saudosa
+ A saudade escreve, e eu traslado.
+
+ Ando gastando a vida trabalhosa,
+ E esparzindo a contínua soidade
+ Ao longo d'huma praia soidosa.
+
+ Vejo do mar a instabilidade,
+ Como com seu ruido impetuoso
+ Retumba na maior concavidade.
+
+ De furibundas ondas poderoso,
+ Na terra, a seu pezar, está tomando
+ Lugar, em que s'estenda, cavernoso.
+
+ Ella, como mais fraca, lh'está dando
+ As concavas entranhas, onde esteja
+ Sempre com som profundo suspirando.
+
+ A todas estas cousas tenho inveja
+ Tamanha, que não sei determinar-me,
+ Por mais determinado que me veja.
+
+ Se quero em tanto mal desesperar-me,
+ Não posso, porque Amor e saudade
+ Nem licença me dão para matar-me.
+
+ Ás vezes cuido em mi, se a novidade
+ E estranheza das cousas, co'a mudança,
+ Poderião mudar huma vontade.
+
+ E com isto figuro na lembrança
+ A nova terra, o novo trato humano,
+ A estrangeira progenie, a estranha usança.
+
+ Subo-me ao monte que Hercules Thebano
+ Do altissimo Calpe dividio,
+ Dando caminho ao mar Mediterrano;
+
+ D'alli'stou tenteando adonde vio
+ O pomar das Hesperidas, matando
+ A serpe que a seu passo resistio.
+
+ Estou-me em outra parte figurando
+ O poderoso Anteo, que derribado
+ Mais fôrça se lhe vinha accrescentando;
+
+ Porém do Herculeo braço sobjugado,
+ No ar deixando a vida, não podendo
+ Dos soccorros da mãe ser ajudado.
+
+ Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo,
+ Nem com as armas tão continuadas,
+ D'amorosas lembranças me defendo.
+
+ Todas as cousas vejo demudadas,
+ Porque o tempo ligeiro não consente
+ Qu'estejão de firmeza acompanhadas.
+
+ Vi ja que a Primavera, de contente,
+ Em variadas côres revestia
+ O monte, o campo, o valle, alegremente.
+
+ Vi ja das altas aves a harmonia,
+ Que até duros penedos convidava
+ A algum suave modo d'alegria.
+
+ Vi ja que tudo, emfim, me contentava,
+ E que, de muito cheio de firmeza,
+ Hum mal por mil prazeres não trocava.
+
+ Tal me tee a mudança e estranheza,
+ Que se vou por os prados, a verdura
+ Parece que se sécca de tristeza.
+
+ Mas isto he ja costume da ventura;
+ Porque aos olhos que vivem descontentes,
+ Descontente o prazer se lhes figura.
+
+ Oh graves e insoffriveis accidentes
+ De Fortuna e d'Amor! que penitencia
+ Tão grave dais aos peitos innocentes!
+
+ Não basta examinar-me a paciencia
+ Com temores e falsas esperanças,
+ Sem que tambem me tente o mal de ausencia?
+
+ Trazeis hum brando espirito em mudanças,
+ Para que nunca possa ser mudado
+ De lagrimas, suspiros e lembranças.
+
+ E s'estiver ao mal acostumado,
+ Tambem no mal não consentis firmeza,
+ Para que nunca viva descansado.
+
+ Ja quieto m'achava co'a tristeza;
+ E alli não me faltava hum brando engano.
+ Que tirasse desejos da fraqueza.
+
+ Mas vendo-me enganado estar ufano,
+ Deo á roda a Fortuna; e deo comigo
+ Onde de novo chóro o novo dano.
+
+ Ja deve de bastar o que aqui digo,
+ Para dar a entender o mais que calo
+ A quem ja vio tão aspero perigo.
+
+ E se nos brandos peitos faz abalo
+ Hum peito magoado e descontente,
+ Que obriga a quem o ouve a consolá-lo;
+
+ Não quero mais senão que largamente,
+ Senhor, me mandeis novas dessa terra;
+ Que alguma dellas me fara contente.
+
+ Porque se o duro Fado me desterra
+ Tanto tempo do bem, que o fraco esprito
+ Desampare a prisão onde s'encerra;
+
+ Ao som das negras ágoas do Cocito,
+ Ao pé dos carregados arvoredos
+ Cantarei o que n'alma tenho escrito.
+
+ E por entre estes horridos penedos
+ A quem negou Natura o claro dia,
+ Entre tormentos asperos e medos,
+
+ Com a trémula voz, cansada e fria,
+ Celebrarei o gesto claro e puro,
+ Que nunca perderei da phantasia.
+
+ O Musico de Thracia, ja seguro
+ De perder sua Eurydice, tangendo
+ Me ajudará ferindo o ar escuro.
+
+ As namoradas sombras, revolvendo
+ Memorias do passado, me ouvirão;
+ E com seu chôro o rio irá crescendo.
+
+ Em Salmonêo as penas faltarão,
+ E das filhas de Belo juntamente
+ De lagrimas os vasos s'encherão.
+
+ Que se amor não se perde em vida ausente,
+ Menos se perderá por morte escura:
+ Porque, emfim, a alma vive eternamente,
+
+ E amor he effeito d'alma, e sempre dura.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA III.
+
+ O poeta Simonides fallando
+ Co'o Capitão Themistocles hum dia,
+ Em cousas de sciencia praticando;
+
+ Hum'arte singular lhe promettia,
+ Qu'então compunha, com que lh'ensinasse
+ A lembrar-se de tudo o que fazia;
+
+ Onde tão subtis regras lhe mostrasse,
+ Que nunca lhe passassem da memoria
+ Em nenhum tempo as cousas que passasse.
+
+ Bem merecia, certo, fama e gloria
+ Quem dava regra contra o esquecimento,
+ Que sepulta qualquer antigua historia.
+
+ Mas o Capitão claro, cujo intento
+ Bem differente estava, porque havia
+ Do passado as lembranças por tormento;
+
+ Oh illustre Simonides! (dizia)
+ Pois tanto em teu engenho te confias,
+ Que mostras á memoria nova via;
+
+ Se me désses hum'arte, qu'em meus dias
+ Me não lembrasse nada do passado,
+ Oh quanto melhor obra me farias!
+
+ S'este excellente dito ponderado
+ Fosse por quem se visse estar ausente,
+ Em longas esperanças degradado;
+
+ Oh como bradaria justamente,
+ Simonides, inventa novas artes;
+ Não midas o passado co'o presente!
+
+ Que se he forçado andar por várias partes
+ Buscando á vida algum descanço honesto,
+ Que tu, Fortuna injusta, mal repartes;
+
+ E se o duro trabalho, he manifesto
+ Que por grave que seja, ha de passar-se
+ Com animoso esprito e ledo gesto;
+
+ De que serve ás pessoas o lembrar-se
+ Do que se passou ja, pois tudo passa,
+ Senão d'entristecer-se e magoar-se?
+
+ S'em outro corpo hum'alma se traspassa,
+ Não como quiz Pythagoras na morte,
+ Mas como quer Amor na vida escassa;
+
+ E s'este Amor no mundo está de sorte,
+ Que na virtude só d'hum lindo objecto
+ Tee hum corpo, sem alma, vivo e forte;
+
+ Onde este objecto falta, qu'he defecto
+ Tamanho para a vida, que ja nella
+ M'está chamando á pena a dura Alecto;
+
+ Porque me não criára a minha Estrella
+ Selvatico no mundo, e habitante
+ Na dura Scythia, e no mais duro della?
+
+ Ou no Caucaso horrendo, fraco infante
+ Criado ao peito d'huma tigre Hircana,
+ Homem fôra formado de diamante;
+
+ Porque a cerviz ferina e inhumana
+ Não submettêra ao jugo e dura lei
+ Daquelle que dá vida quando engana.
+
+ Ou em pago das ágoas qu'estilei,
+ As que passei do mar, forão do Lete,
+ Para que m'esquecêra o que passei.
+
+ Porque o bem que a esperança vãa promette,
+ Ou a morte o estorva, ou a mudança,
+ Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete.
+
+ Ja, Senhor, cahirá como a lembrança,
+ No mal, do bem passado he triste e dura,
+ Pois nasce aonde morre a esperança.
+
+ E se quizer saber como se apura
+ Em almas saudosas, não s'enfade
+ De ler tão longa e misera escriptura.
+
+ Soltava Eolo a redea e liberdade
+ Ao manso Favonio brandamente,
+ E eu a tinha ja sôlta á saudade.
+
+ Neptuno tinha pôsto o seu tridente;
+ A proa a branca escuma dividia,
+ Com a gente maritima contente.
+
+ O côro das Nereidas nos seguia;
+ Os ventos, namorada Galatêa
+ Comsigo socegados os movia.
+
+ Das argenteas conchinhas Panopêa
+ Andava por o mar fazendo mólhos,
+ Melanto, Dinamene, com Ligea.
+
+ Eu, trazendo lembranças por antolhos,
+ Trazia os olhos n'ágoa socegada,
+ E a ágoa sem socêgo nos meus olhos.
+
+ A bem-aventurança ja passada
+ Diante de mi tinha tão presente,
+ Como se não mudasse o tempo nada.
+
+ E com o gesto immoto e descontente,
+ Co'hum suspiro profundo e mal ouvido,
+ Por não mostrar meu mal a toda a gente,
+
+ Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido
+ Em puro amor tivestes, e inda agora
+ Da memoria o não tendes esquecido;
+
+ Se por ventura fordes algum'hora
+ Adonde entra o grão Tejo a dar tributo
+ A Tethys, que vós tendes por Senhora;
+
+ Ou ja por ver o verde prado enxuto,
+ Ou ja por colher ouro rutilante,
+ Das Tagicas areias rico fruto;
+
+ Nellas em verso erotico e elegante
+ Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes;
+ Póde ser que algum peito se quebrante.
+
+ E contando de mi memorias tristes,
+ Os pastores do Tejo, que me ouvião,
+ Oução de vós as mágoas que me ouvistes.
+
+ Ellas, que ja no gesto m'entendião,
+ Nos meneios das ondas me mostravão
+ Qu'em quanto lhes pedia consentião.
+
+ Estas lembranças, que me acompanhavão
+ Por a tranquillidade da bonança,
+ Nem na tormenta triste me deixavão.
+
+ Porque chegando ao Cabo da Esperança,
+ Comêço da saudade que renova,
+ Lembrando a longa e aspera mudança;
+
+ Debaixo estando ja da estrella nova
+ Que no novo Hemispherio resplandece,
+ Dando do segundo axe certa prova;
+
+ Eis a noite com nuvens s'escurece;
+ Do ar subitamente foge o dia;
+ E todo o largo Oceano s'embravece.
+
+ A máchina do mundo parecia
+ Qu'em tormentas se vinha desfazendo;
+ Em serras todo o mar se convertia.
+
+ Lutando Boreas fero e Noto horrendo.
+ Sonoras tempestades levantavão,
+ Das naos as velas concavas rompendo.
+
+ As cordas co'o ruido assoviavão;
+ Os marinheiros, ja desesperados,
+ Com gritos para o ceo o ar coalhavão.
+
+ Os raios por Vulcano fabricados
+ Vibrava o fero e aspero Tonante,
+ Tremendo os Polos ambos de assombrados.
+
+ Amor alli, mostrando-se possante,
+ E que por algum medo não fugia,
+ Mas quanto mais trabalho, mais constante;
+
+ Vendo a morte presente, em mi dizia:
+ Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse,
+ Nada do que passei me lembraria.
+
+ Emfim, nunca houve cousa que mudasse
+ O firme amor intrinseco daquelle
+ Em quem alguma vez de siso entrasse.
+
+ Huma cousa, Senhor, por certa asselle,
+ Que nunca amor se affina, nem se apura,
+ Em quanto está presente a causa delle.
+
+ Dest'arte me chegou minha ventura
+ A esta desejada e longa terra,
+ De todo pobre honrado sepultura.
+
+ Vi quanta vaidade em nós s'encerra,
+ E nos proprios quão pouca; contra quem
+ Foi logo necessario termos guerra.
+
+ Huma Ilha que o Rei de Porcá tem,
+ E que o Rei da Pimenta lhe tomára,
+ Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem.
+
+ Com huma grossa armada, que juntára
+ O Viso-Rei, de Goa nos partimos
+ Com toda a gente d'armas que se achára.
+
+ E com pouco trabalho destruimos
+ A gente no curvo arco exercitada:
+ Com morte, com incendios os punimos.
+
+ Era a Ilha com ágoas alagada,
+ De modo que se andava em almadias:
+ Emfim, outra Veneza trasladada.
+
+ Nella nos detivemos sós dous dias,
+ Que forão para alguns os derradeiros,
+ Pois passárão da Estyge as ondas frias.
+
+ Qu'estes são os remedios verdadeiros
+ Que para a vida estão apparelhados
+ Aos que a querem ter por cavalleiros.
+
+ Oh Lavradores bem-aventurados!
+ Se conhecessem seu contentamento,
+ Como vivem no campo socegados!
+
+ Dá-lhes a justa terra o mantimento;
+ Dá-lhes a fonte clara d'ágoa pura;
+ Mungem suas ovelhas cento a cento.
+
+ Não vem o mar irado, a noite escura,
+ Por ir buscar a pedra do Oriente;
+ Não temem o furor da guerra dura.
+
+ Vive hum com suas árvores contente,
+ Sem lhe quebrar o somno repousado
+ A grã cobiça d'ouro reluzente.
+
+ Se lhe falta o vestido perfumado,
+ E da formosa côr de Assyria tinto,
+ E das torçaes Attalicos lavrado;
+
+ Se não tee as delicias de Corinto,
+ E se de Pario os marmores lhe faltão,
+ O pyropo, a esmeralda e o jacinto;
+
+ Se suas casas de ouro não s'esmaltão,
+ Esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
+ Onde os cabritos seus comendo sáltão.
+
+ Alli lhe mostra o campo várias côres;
+ Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno;
+ Alli se affina o canto dos pastores.
+
+ Alli cantára Tityro e Sileno.
+ Emfim, por estas partes caminhou
+ A sãa Justiça para o ceo sereno.
+
+ Ditoso seja aquelle que alcançou
+ Poder viver na doce companhia
+ Das mansas ovelhinhas que criou!
+
+ Este bem facilmente alcançaria
+ As causas naturaes de toda cousa;
+ Como se gera a chuva e neve fria:
+
+ Os trabalhos do sol, que não repousa;
+ E porque nos dá lua a luz alhêa,
+ Se tolher-nos de Phebo os raios ousa:
+
+ E como tão depressa o ceo rodêa;
+ E como hum só os outros traz comsigo;
+ E se he benigna ou dura Cytherêa.
+
+ Bem mal póde entender isto que digo,
+ Quem ha de andar seguindo o fero Marte;
+ Que sempre os olhos traz em seu perigo.
+
+ Porém seja, Senhor, de qualquer arte,
+ Pois postoque a Fortuna possa tanto,
+ Que tão longe de todo o bem me aparte;
+
+ Não poderá apartar meu duro canto
+ Desta obrigação sua, em quanto a morte
+ Me não entrega ao duro Radamanto;
+
+ Se para tristes ha tão leda sorte.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA IV.
+
+ Despois que Magalhães teve tecida
+ A breve historia sua, que illustrasse
+ A Terra Santa Cruz, pouco sabida;
+
+ Imaginando a quem a dedicasse,
+ Ou com cujo favor defenderia
+ Seu livro d'algum zoilo que ladrasse;
+
+ Tendo nisto occupada a phantasia,
+ Lhe sobreveio hum somno repousado,
+ Antes que o sol abrisse o claro dia.
+
+ Em sonhos lhe apparece todo armado
+ Marte, brandindo a lança furiosa,
+ Com que fez quem o vio todo enfiado;
+
+ Dizendo em voz pezada e temerosa:
+ Não he justo que a outrem se offereça
+ Obra alguma que possa ser famosa,
+
+ Senão a quem por armas resplandeça
+ No largo inundo com tal nome e fama,
+ Que louvor immortal sempre mereça.
+
+ Disse assi: quando Apollo, que da flama
+ Celeste guia os carros, de outra parte
+ Se lhe presenta, e por seu nome o chama,
+
+ Dizendo: Magalhães, postoque Marte
+ Com seu terror t'espante, todavia
+ Comigo deves só de aconselhar-te.
+
+ Hum Varão sapiente, em quem Thalia
+ Poz seus thesouros, e eu minha sciencia,
+ Defender tuas obras poderia.
+
+ He justo que a escriptura na prudencia
+ Ache só defensão; porque a dureza
+ Das armas he contrária da eloquencia.
+
+ Assi disse: e tocando com destreza
+ A cithara dourada, começou
+ A mitigar de Marte a fortaleza.
+
+ Mas Mercurio, que sempre costumou
+ Pacificar porfias duvidosas,
+ Co'o Caducêo na mão, que sempre usou,
+
+ Determina compor as perigosas
+ Opiniões dos deoses inimigos
+ Com suaves razões e ponderosas.
+
+ E disse: Bem sabemos dos antigos
+ Heroes, e dos modernos, que provárão
+ De Belona os gravissimos perigos,
+
+ Como tão bem mil vezes concordárão
+ As armas com as letras; porque as Musas
+ A muitos na milicia acompanhárão.
+
+ Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas
+ Guerras o estudo deixão grande espaço;
+ Que as armas jamais delle são escusas.
+
+ N'huma mão livros, n'outra ferro e aço;
+ Aquella rege e ensina; est'outra fere:
+ Mais co'o saber se vence, que co'o braço.
+
+ Pois, logo, hum Varão grande se requere,
+ Que com teus dões (Apollo) illustre seja,
+ E de ti (Marte) palma e glória espere.
+
+ Este vos darei eu, em quem se veja
+ Saber e esfôrço no sereno peito,
+ Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja.
+
+ Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito,
+ Todas nove nos braços o tomárão,
+ Criando-o co'o seu leite no seu leito:
+
+ As Artes e as Sciencias lh'ensinárão;
+ Inclinação divina lh'influírão
+ Ás virtudes moraes, que logo o ornárão.
+
+ Daqui nos exercidos o seguírão
+ Das armas no Oriente, onde primeiro
+ Hum soldado gentil instituírão.
+
+ Alli taes provas fez de Cavalleiro,
+ Que, de Christão magnanimo e seguro,
+ A si mesmo venceo por derradeiro.
+
+ Despois, ja Capitão forte e maduro,
+ Governando toda a Aurea Chersoneso,
+ Lhe defendeo co'o braço o debil muro.
+
+ Porque vindo a cercá-la todo o pêso
+ Do poder dos Achens, que se sustenta
+ De alheio sangue, em furia todo acceso;
+
+ Este só que a ti, Marte, representa,
+ O castigou de sorte, que vencido
+ De ter quem vivo fique se contenta.
+
+ E logo qu'este Reino defendido
+ Deixou, segunda vez com maior glória
+ Para o ir governar foi elegido.
+
+ Mas não perdendo ainda da memoria
+ Os amigos o seu govêrno brando,
+ Os imigos o damno da victoria;
+
+ Huns com amor intrinseco esperando
+ Estão por elle, e os outros congelados
+ O estão com frio medo receando.
+
+ Vêde pois se serião debellados
+ Por seu claro valor, se lá tornasse,
+ E dos Indicos mares degradados.
+
+ Porqu'he justo que nunca lhe negasse
+ O conselho do Olympo alto e subido
+ Favor e ajuda com que pelejasse.
+
+ Aqui só póde ser bem dirigido
+ De Magalhães o estudo: este só deve
+ Ser de vós, claros deoses, escolhido.
+
+ Assi Mercurio disse; e em termo breve
+ Conformados se vem Apollo e Marte;
+ E voou juntamente o somno leve.
+
+ Acorda Magalhães, e ja se parte
+ A offrecer-vos, Senhor claro e famoso,
+ Tudo o que nelle poz sciencia e arte.
+
+ Tee claro estylo, e engenho curioso,
+ Para poder de vós ser recebido,
+ Com mão benigna, de ânimo amoroso.
+
+ Pois se só de não ser favorecido
+ Hum alto esprito fica baixo e escuro;
+ Este seja comvosco defendido,
+
+ Como o foi de Malaca o debil muro.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA V.
+
+ Aquelle mover de olhos excellente,
+ Aquelle vivo espirito inflammado
+ Do crystallino rosto transparente;
+
+ Aquelle gesto immoto e repousado,
+ Qu'estando n'alma propriamente escrito,
+ Não póde ser em verso trasladado;
+
+ Aquelle parecer, que he infinito
+ Para se comprender d'engenho humano;
+ O qual offendo em quanto tenho dito;
+
+ Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano,
+ E tanto a engrandecer-me a phantasia,
+ Que não vi maior glória que meu dano.
+
+ Oh bem-aventurado seja o dia
+ Em que tomei tão doce pensamento,
+ Que de todos os outros me desvia!
+
+ E bem-aventurado o soffrimento
+ Que soube ser capaz de tanta pena,
+ Vendo que o foi da causa o entendimento!
+
+ Faça-me quem me mata, o mal que ordena,
+ Trate-me com enganos, desamores;
+ Qu'então me salva, quando me condena.
+
+ E se de tão suaves desfavores
+ Penando vive hum'alma consumida,
+ Oh que doce penar! que doces dores!
+
+ E se huma condição endurecida
+ Tambem me nega a morte por meu dano,
+ Oh que doce morrer! que doce vida!
+
+ E se me mostra hum gesto lindo humano,
+ Como que de meu mal culpada se acha,
+ Oh que doce mentir! que doce engano!
+
+ E s'em querer-lhe tanto ponho tacha,
+ Mostrando refrear o pensamento,
+ Oh que doce fingir! que doce cacha!
+
+ Assi que ponho ja no soffrimento
+ A parte principal de minha glória,
+ Tomando por melhor todo tormento.
+
+ Se sinto tanto bem só co'a memoria
+ De ver-vos, linda Dama, vencedora;
+ Que quero eu mais que ser vossa victoria?
+
+ Se tanto a vossa vista mais namora,
+ Quanto eu sou menos para merecer-vos;
+ Que quero eu mais que ter-vos por senhora?
+
+ Se procede este bem de conhecer-vos,
+ E consiste o vencer em ser vencido,
+ Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?
+
+ S'em meu proveito faz qualquer partido,
+ Só na vista d'huns olhos tão serenos,
+ Que quero eu mais ganhar que ser perdido?
+
+ Se, emfim, os meus espritos, de pequenos,
+ A merecer não chegão seu tormento,
+ Que quero eu mais, que o mais não seja menos?
+
+ A causa, pois, m'esforça o soffrimento;
+ Porque, a pezar do mal que me resiste,
+ De todos os trabalhos me contento;
+
+ Que a razão faz a pena alegre, ou triste.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA VI.
+
+ Entre rusticas serras e fragosas,
+ Compostas d'asperissimos rochedos,
+ De salitradas lapas cavernosas;
+
+ Onde gretando os humidos penedos
+ Orvalhados de neve branca e fria,
+ Brotando estão de si mil arvoredos;
+
+ Huma floresta fez verde e sombria
+ A natureza experta, que rodeia,
+ Como elevado muro, a serrania.
+
+ Neste formoso sítio se recreia
+ O lascivo Cupido entre as boninas,
+ Que sempre hum brando Zephyro meneia.
+
+ Da candida cecem, das clavellinas,
+ Da salva, mangerona e das mosquetas,
+ Das rubicundas flores hyacinthinas,
+
+ Muitas capellas tece, que de setas
+ Lhe servem contra peitos de donzellas,
+ A quem d'inveja traz sempre inquietas.
+
+ Não são d'huma só côr as flores bellas;
+ Que humas esmalta verde, outras rosado,
+ Entre as azues crescendo as amarellas.
+
+ Dos agrestes loureiros rodeado,
+ Faz o valle huma sombra deleitosa,
+ Quando apparece o sol mais levantado.
+
+ E por cima da relva bem graciosa
+ As gottas de crystal quasi imitando
+ Estão do aljofar puro a luz formosa.
+
+ As crystallinas fontes, que brotando
+ Por entre alvos seixinhos se derivão,
+ Das árvores os troncos vão banhando.
+
+ Entre as limpidas ágoas, qu'inda esquivão
+ O formoso pastor que se perdeo,
+ Preso das falsas mostras que o captivão,
+
+ Cresce a por cuja causa s'esqueceo
+ A linda Cytherêa de Vulcano,
+ Quando presa d'Amor se lhe rendeo.
+
+ Na brancura do rosto soberano,
+ Inda as crueis feridas apparecem
+ Do javali cerdoso e deshumano.
+
+ As rosas que de sangue resplandecem,
+ As candidas boninas marchetadas,
+ Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem.
+
+ Do matutino orvalho rociadas,
+ As flores rutilantes e cheirosas
+ Estão como por cima prateadas.
+
+ Os humidos botões abrindo as rosas,
+ Que os agudos espinhos vão cercando,
+ No prado se vem rindo deliciosas.
+
+ A mellifera abelha, susurrando
+ Por cima das boninas que rodeia,
+ Está co'o som das ágoas concertando.
+
+ Do trémulo regato a branda areia
+ De jacinthos se cobre e de vieiras,
+ Qu'encrespão da corrente a branca veia.
+
+ Os álamos s'abração co'as videiras
+ De sorte, que s'enxérga escassamente
+ Se são os cachos seus, se das parreiras;
+
+ E pendendo por cima da corrente,
+ Outro formoso bosque debuxando
+ Estão no fundo della brandamente.
+
+ Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando
+ Do perfido cunhado a crueldade,
+ Mágoas em melodias transformando.
+
+ A solitaria rôla com soidade
+ Desfaz o rouco peito, ja cansada
+ De que não move a morte a piedade.
+
+ A domestica Progne anda banhada
+ No sangue de seus filhos, em vingança
+ Da triste Philomela profanada.
+
+ De competir co'o merlo não descança
+ O garrulo calhandro, qu'enrouquece
+ Por não perder callado a confiança.
+
+ Em quanto o pobre ninho ajunta e tece
+ O sonoro canario, modulando
+ Engana a grave pena que padece.
+
+ Alguns versos s'escuta derramando
+ O vário pintasirgo, tão saudaveis,
+ Que produzem memorias d'amor brando.
+
+ Por os direitos troncos ha notaveis
+ Epigrammas; alguns d'antigua historia,
+ Que contra o duro tempo são duraveis.
+
+ Huns de cruel tormento, outros de glória,
+ Conforme a liberdade do qu'escreve,
+ Estranhos casos mostrão á memoria.
+
+ O que neste lugar contente esteve,
+ Contente declarou seu pensamento,
+ E os prazeres tambem que nelle teve.
+
+ Mas outros, declarando o sentimento
+ Que dos olhos destila tristes ágoas,
+ Deixárão mil lembranças de tormento.
+
+ Abrazando-se alguns em vivas frágoas,
+ Escrevêrão do bosque em muitas partes
+ Gostos d'Amor agora, agora mágoas.
+
+ Porque, cruel menino, o premio partes
+ A quem serás[2] tyranno se lho negas,
+ E injusto e desigual, se lho repartes?
+
+ Porqu'enganas as almas que tão cegas
+ Arrastas apos ti, de error captivas?
+ Porque a crueis rigores as entregas?
+
+ Para que contra hum peito assi t'esquivas,
+ Que humilde se sujeita a teu cuidado,
+ Com enganos de sombras fugitivas?
+
+ Levas, como a menino, hum pobre a nado,
+ N'huma apparencia falsa embevecido,
+ Quando co'os braços corta o mar inchado.
+
+ Querendo-se tornar, vê-se perdido;
+ Ja grita que se affoga; e tu zombando,
+ Da praia entre os penedos escondido!
+
+ O triste, que conhece ir-se affogando,
+ No meio da arriscada zombaria
+ Por divino soccorro está clamando.
+
+ Mas eu de que m'espanto, se dizia
+ Hum sabio que d'enganos se temesse
+ O que tomasse a hum cego tal por guia?
+
+ Nunca nelle a firmeza permanece;
+ Se nos dá gôsto algum, muda-se logo;
+ Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece.
+
+ Anda co'os corações sempre em hum jôgo;
+ Humas vezes os faz de pedra fria,
+ Outras os faz de neve, outras de fogo.
+
+ Tornando ao bosque meu que descrevia,
+ Despois de ter contado da frescura
+ Que nelle tão pomposa apparecia,
+
+ Referir quero agora huma aventura
+ Que nelle ao vão Narciso aconteceo,
+ Digna de se chorar com mágoa pura.
+
+ Castigo foi que o moço mereceo
+ Por se mostrar esquivo com aquella,
+ Qu'em viva pedra Juno converteo.
+
+ Ardia em fogo d'alma a vãa donzella,
+ Soffrendo hum duro peito; que a Narciso,
+ Quando ella mais se abraza, mais congela.
+
+ E quando a fraca Nympha mais de siso
+ Mostrava hum signal certo de firmeza,
+ Então se provocava o moço a riso.
+
+ Ja d'huma profundissima tristeza
+ A descora o rigor que a consumia.
+ Como diz desfavor mal com belleza!
+
+ O gelado pastor folgava e ria;
+ Mas vendo-a de seu gôsto andar contente,
+ Por não a contentar s'entristecia.
+
+ He tal o seu rigor, que não consente
+ Que seja o gôsto proprio festejado;
+ Antes disso se mostra descontente.
+
+ Mas o cego Cupido, d'affrontado,
+ Em vingança da fé que desprezou,
+ Fez que fosse de si mesmo enganado.
+
+ Casualmente hum dia se chegou
+ A beber n'huma fonte crystallina,
+ Que de si nova sêde lhe causou.
+
+ Vendo a sua figura peregrina
+ Que a fonte dentro em si representava,
+ Se perdeo por imagem tão divina.
+
+ Como ja, d'enlevado, não cuidava
+ Nos enganos que a sombra lhe fazia,
+ Vendo o formoso rosto, suspirava.
+
+ Por as avaras ágoas se metia;
+ E quanto mais molhava os tenros braços,
+ Então mais vivamente o fogo ardia.
+
+ Vendo-se assi prender em duros laços,
+ Ao sentimento obriga a paciencia,
+ Dando, fóra de si, ao vento abraços.
+
+ Embevecido todo n'apparencia,
+ Sem saber de cuidado o que sentia,
+ Não fez ao doce engano resistencia.
+
+ Ao ver-se longe mais, mais perto via
+ O peregrino gesto; e se chegava,
+ Então para mais longe lhe fugia.
+
+ Vendo, emfim, como em tudo o remedava
+ Cahio no torpe engano que tivera,
+ A tempo que de si ja preso estava.
+
+ A belleza que a tantas morte dera,
+ De si mesma se abraza e se captiva.
+ Quão longe então de si ver-se quizera!
+
+ Ella se abranda propria; ella se esquiva;
+ E sendo ella somente a que se amava,
+ Ella se chama ingrata e fugitiva.
+
+ A formosura, pois, que namorava,
+ Com tal difficuldade era seguida,
+ Qu'estando dentro em si, mui longe estava.
+
+ A solitaria Nympha, qu'escondida
+ Ja nas cavernas concavas se via,
+ Dos males que lhe ouvio foi commovida.
+
+ Das namoradas mágoas que dizia
+ O namorado moço, ella somente
+ Os ultimos accentos repetia.
+
+ Elle vendo-se estar alli presente,
+ As crystallinas ágoas accusava
+ De que ellas o fazião descontente.
+
+ Outras vezes á fonte, quando a olhava,
+ Ja cego, e sem juizo, agradecia
+ A figura que dentro lhe mostrava.
+
+ Mas vendo qu'ella em nada se dohia
+ De seu grave tormento, grita e chora.
+ Quanto erra quem de sombras se confia!
+
+ Ja lhe pede que saia para fóra.
+ Ignorando que sempre fóra esteve
+ A belleza que nelle proprio mora.
+
+ Despois que longo espaço se deteve
+ Nestes queixumes seus tão lastimosos,
+ Que com tão longo ser, julgou por breve;
+
+ Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos,
+ Do valle se despede e da espessura,
+ Dando soluços da alma vagarosos.
+
+ Entregue na vontade da ventura,
+ Ou, por melhor dizer, de seus enganos,
+ Ao centro se arrojou da fonte pura.
+
+ Dest'arte feneceo em tenros anos
+ Narciso, dando exemplo á formosura
+ De que tema, se he tal, tambem seus danos.
+
+ Sentimento mostrou da sorte dura
+ O namorado Jupiter, mudando
+ Ao moço em flor purpurea, qu'inda dura.
+
+ Aquellas claras ágoas rodeando,
+ Onde por seus amores se perdeo,
+ Está despois da morte acompanhando.
+
+ Tanto no seu engano procedeo,
+ Que não sabe na morte inda apartar-se
+ Dos erros que na vida commetteo.
+
+ Bem póde o coração desenganar-se,
+ Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado,
+ Não costuma na morte resfriar-se.
+
+ Porque despois do corpo sepultado,
+ Prisão onde s'encerra o fraco esprito,
+ Eternamente chora o seu cuidado.
+
+ E das escuras ágoas do Cocito
+ A rapida corrente refreando,
+ Celebra o lindo gesto n'alma escrito.
+
+ Lá se está co'os favores recreando;
+ E se foi desprezado, lá padece,
+ As duras esquivanças lamentando.
+
+ Nem dos avaros olhos lá s'esquece,
+ Que de formoso verde a terra esmaltão,
+ Por não ver os do triste qu'endoudece.
+
+ Assi que os desfavores nunca faltão,
+ Até despois da morte perseguindo
+ Hum triste coração que desbaratão.
+
+ Triste de quem em vão lhe vai fugindo!
+
+[2] Este terceto foi viciado na cópia e depois, ao que parece, corrigido
+por mão estranha. A versificação está certa, mas o sentido he absurdo:
+e se a verdadeira lição não he:
+
+ Porque, cruel menino, o premio partes
+ De modo que es tyranno, quando o negas,
+ E injusto e desigual, quando o repartes?
+
+não podemos adivinhar qual seja. _Nota dos Editores._
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA VII.
+
+ Ao pé d'hum'alta faia vi sentado,
+ N'hum valle deleitoso e bem florido,
+ A Almeno, pastor triste e namorado.
+
+ Outro no mundo póde haver nascido
+ Mui queixoso de Amor; porém não tanto,
+ Como este amante, por amar perdido.
+
+ Ja Venus hia recolhendo o manto
+ Escuro com que a terra se mostrava,
+ Para ajudar d'Almeno o triste pranto.
+
+ Apollo sôbre os montes derramava
+ Seus dourados cabellos, que fazião
+ Ao triste inda mais triste do qu'estava.
+
+ As flores por o prado s'estendião.
+ E das que finas mais erão as côres,
+ Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião.
+
+ Ja guiavão seus gados os pastores,
+ Que, deixando-os no campo deleitoso,
+ Com ellas praticavão só d'amores.
+
+ Mas era esta alegria hum perigoso
+ Estado para Almeno entristecido;
+ E por isso a deixava pressuroso,
+
+ Buscando outro lugar: contra Cupido
+ Claramente exclamava, e o arguia
+ De contrário, d'astuto e fementido.
+
+ De quando em quando a frauta que tangia.
+ Numeros dava ao ar tão docemente,
+ Que as aves provocava a melodia.
+
+ Cego assi desta dor, deste accidente,
+ Com os olhos em lagrimas banhados,
+ Postos no ceo, dizia tristemente:
+
+ Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados,
+ Porque mos déste tu para offender-te,
+ Quando livre vivia nestes prados?
+
+ Não vês quanto me negas merecer-te
+ O bem que me mostravas, se deixasse
+ Ferir meu coração para soffrer-te?
+
+ Qual bem me has dado, Amor, que me durasse?
+ Ou qual me has promettido, que hajas dado?
+ Ou qual déste, que muito não custasse?
+
+ Mostra-me quem puzeste em tal estado,
+ Que pudesse viver de ti contente,
+ Ou quem de ti não fosse lastimado?
+
+ Inimigo cruel de toda a gente,
+ Ja não quero teu bem, só meu mal quero;
+ Se de ti nem meu mal se me consente.
+
+ Inda que de teus bens ja desespéro,
+ Não desprézo dos males o tormento;
+ Antes o prezo mais, quando he mais fero.
+
+ Arrebatado deste pensamento
+ Hia o triste pastor com hum contino
+ Pranto, que lhe avivava o sentimento.
+
+ Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino,
+ Qu'era de Amor plantado; e parecendo
+ Lhe está menos humano que divino.
+
+ Nelle a dor sua esteve suspendendo:
+ Porém não, como cervo, está ferido,
+ Reparo ao mal que leva pretendendo.
+
+ Apparecia o sítio tão florído,
+ Que provocava a não vulgar espanto,
+ Entre huns altos ulmeiros escondido.
+
+ D'hum crystallino orvalho tinha o manto,
+ Quando entrou nelle o misero pastor,
+ E as tenções explicou neste seu canto.
+
+ Ó bellas rosas, vós que sois amor,
+ He por dita humildade, ou he baixeza,
+ O ter apar de vós murta, que he dor?
+
+ Papoulas conversais, que são tristeza!
+ Não desprezais o cardo, que he tormento!
+ Admittis a hortelãa, sendo crueza!
+
+ Dos goivos longe vejo o sentimento;
+ Dos jasmins perto estou vendo o perigo;
+ Dos malmequeres vejo o soffrimento.
+
+ Deste me temerei como inimigo;
+ Mas traz por armas salva, que he razão:
+ Com ella acabará tambem comigo.
+
+ As minhas vem a ser huma affeição,
+ Que são os puros cravos misturados
+ Co'a vontade sujeita, que he limão.
+
+ Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados!
+ Ai crespa mangerona, que es prazer!
+ Vós sós devieis adornar os prados.
+
+ Não pódem dous oppostos juntos ser:
+ Onde se põe giesta, que he lembrança,
+ Junto do rosmaninho, que he 'squecer?
+
+ Bem peza do leve álamo a mudança;
+ Do roxo goivo anima o pensamento
+ Do cypreste odorifero a esperança.
+
+ O trevo, que he sentido apartamento,
+ Cérca o mangericão, que se interpreta
+ Memoria a quem offende o esquecimento.
+
+ Mais importuna que o jardim de Creta,
+ A ameixieira a flor está soltando:
+ A segurelha vejo, que he discreta.
+
+ As hervas que daqui irei tomando,
+ São a pura cecem, qu'he saudade;
+ Cravos, medo de ver qual de amor ando.
+
+ E, de ter mui perdida a liberdade,
+ Tomarei madresylva entendimento;
+ Legação tomarei, porqu'he verdade.
+
+ Marmeleiro me dá arrependimento:
+ Por a salva, que he gôsto, tomarei
+ Coentro opposto ao meu contentamento.
+
+ Conhecimento firme nunca achei,
+ Que violetas são; e, quando o houvera,
+ Qual meu damno então fôra, bem o sei.
+
+ Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera
+ Ver-vos aqui menor, pois sois victória,
+ Que de mi alcançou chamma severa!
+
+ Mas se quereis que tenha alguma glória,
+ Por galardão d'amar e ser sujeito,
+ Perderei de tormentos a memoria.
+
+ Porém, pois mo negais, de todo engeito
+ A palma, qu'he ventura; e na parreira,
+ Qu'he'sperança perdida, me deleito.
+
+ Entretanto co'a flor da laranjeira,
+ Qu'he desafio duro e arriscado,
+ Posso arguir da hora derradeira.
+
+ Ja não se quer deter o meu cuidado
+ Com a romãa descanso: a brevidade
+ Das maravilhas só tee desejado.
+
+ E vós, ovelhas minhas, sem piedade
+ Vos apartae de mi, se algum desejo
+ Tendes de ter do pasto mais vontade.
+
+ Se muita de me verdes em vós vejo,
+ Toda a minha de ver-vos hei perdido
+ Á força do poder d'amor sobejo.
+
+ Lograe do Tejo o placido ruido;
+ Sós lograe estas veigas florecidas:
+ Pois se perde o pastor vosso querido,
+
+ Não gosteis de com elle ser perdidas.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA VIII.
+
+ Belisa, unico bem desta alma triste,
+ Descanso singular de minha vida,
+ Throno donde o poder d'Amor consiste;
+
+ Formosa fera, a quem está rendida
+ D'Amor a que he mais livre liberdade,
+ Ganhada mais, se mais por ti perdida;
+
+ Quão contrário parece na beldade,
+ Que os corações captiva com brandura,
+ Alguma nódoa haver de crueldade!
+
+ Quão contrário parece em formosura,
+ Que deixa muito atraz quanto he humano,
+ Esquiva condição, ou alma dura!
+
+ Quão mal parece em quem só co'hum engano
+ Póde dar vida ao coração sujeito,
+ Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano!
+
+ Quão mal parece que hum amor perfeito
+ Não seja d'outro igual remunerado,
+ Inda que seja, acaso, contrafeito!
+
+ Quão mal parece estar desesperado
+ Quem tanto por ti soffre e tee soffrido,
+ Devendo estar de penas alliviado!
+
+ Porém peor parece quem rendido
+ Não for a hum parecer que tudo rende,
+ Por mais qu'em seu rigor viva offendido.
+
+ E inda peor parece quem defende
+ O ser essa belleza sempre amada,
+ Por mais qu'em vão se canse o que a pretende.
+
+ Se quem te mostra amor te desagrada,
+ Só pódes pretender o não ser vista,
+ Mas não despois de vista o ser deixada.
+
+ Quão mal sabe o valor de tua vista
+ Quem cuida que o que della acaso alcança
+ Póde achar coração que lhe resista!
+
+ Quão bem pareceria huma esperança
+ Ja concedida a meu amor ardente,
+ Não sempre huma mortal desconfiança!
+
+ Se hum padecer por ti constantemente
+ Pudesse ser reparo a quem mais te ama,
+ Inda esperar pudera o ser contente.
+
+ Mas eu temo que aquella immensa chama
+ Com que a teu bello imperio me levaste,
+ Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama.
+
+ Se a Olympica belleza assi imitaste,
+ Que brandamente move hum amor puro,
+ Porque tão dura condição tomaste?
+
+ Qual elevado, qual soberbo muro
+ Este mal, que m'occupa o pensamento,
+ Contado, não tornára menos duro?
+
+ Tu, qu'es a causa só de meu tormento,
+ Tu, que somente podes gloriar-me,
+ Queres que as minhas queixas leve o vento?
+
+ Tu, que me pagarias com matar-me,
+ Inda a morte me negas vezes tantas?
+ Ai, que me deras vida em morte dar-me!
+
+ Usa piedade, tu, que o mundo espantas
+ Co'os bellos olhos, com que o douras tanto,
+ Se acaso a vê-lo brandos os levantas.
+
+ Estende-se na terra o negro manto,
+ E á noute dá alegria a luz alheia;
+ Mas nos meus olhos tristes dura o pranto.
+
+ Torna a manhãa despois alegre e cheia
+ Da luz que o chôro enxuga á bella Aurora;
+ Mas do meu chôro nunca enxuga a veia.
+
+ Lagrimas ja não são qu'esta alma chora,
+ Mas amor he vital que dentro arde,
+ E por a luz dos olhos salta fóra.
+
+ Como inda a morte quer que mais aguarde?
+ Não tarde ja, mas corra a mal tão fero.
+ Mas ja por mais que corra virá tarde.
+
+ Nem no supremo trance de ti 'spero
+ Qu'inda com ver o estado em que me has pôsto
+ Queiras, crua, entender quanto te quero.
+
+ Ai! se volveres esse bello rosto
+ Ao lugar triste em que morrer me vires,
+ Não por desgôsto teu, mas por teu gôsto,
+
+ Não quero de ti, não, que alli suspires,
+ Nem que de dar-me a morte te arrependas,
+ Mas que os olhos de ver-me então não tires.
+
+ Assi nunca pastor a quem te rendas,
+ Te faça conhecer o que me fazes,
+ Para que com teu mal meu mal entendas!
+
+ Como ja agora não te satisfazes
+ Das penas deste amor, que por querer-te,
+ De teu merecimento são capazes?
+
+ Pois quem com outro merito render-te
+ Presume, (oh raro monstro de belleza!)
+ Muito mais longe está de merecer-te.
+
+ Este si, que merece a grã crueza
+ Com que tu d'acabar-me a vida tratas,
+ Pois diante de ti, de si se preza.
+
+ Se cuidas que com isto desbaratas
+ O meu constante amor, porque não viva,
+ Elle mais vive quando mais me matas.
+
+ Se o dar-me morte tens por glória altiva,
+ Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina
+ A matar mais de branda que d'esquiva.
+
+ S'esta alma tua julgas por indina
+ Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde,
+ Do descoberto mal a faze dina.
+
+ Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde,
+ A poder reduzir-te a ser piedosa?
+ Ou m'acaba de todo, ou me responde.
+
+ Mas por mais que te mostres rigorosa,
+ Deixar meu pensamento m'he impossivel,
+ Igualmente que a ti não ser formosa.
+
+ E por mais qu'esta dor seja terrivel,
+ Somente o contemplar a causa della,
+ Inda que a faz maior, a faz soffrivel
+
+ Porém chegando a não poder soffrê-la,
+ Perdendo a vida; quando a morte chame,
+ Não perderei o gôsto de perdê-la.
+
+ He justo qu'eu por ti mil mortes ame:
+ Mas vê tu se te illustra, quando offensa
+ Minha mortal o teu valor se chame.
+
+ Bem vês que huma beldade tão immensa
+ De vencer-me tee glória bem pequena,
+ Pois só render-me tomo por defensa.
+
+ Mas ja que amor tão puro me condena,
+ Contente fico assaz desta victoria;
+ Que não me dão meus males tanta pena,
+
+ Quanto o serem por ti me dá de glória.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA IX.
+
+ A vida me aborrece, a morte quero:
+ Será eterno o meu mal, segundo entendo,
+ Pois na mor esperança desespéro.
+
+ Sem viver vivo, por morrer vivendo
+ Por não verdes, Senhora, como eu vejo,
+ Quanto de mi por vós me ando esquecendo.
+
+ Seja-me agradecido este desejo;
+ Ingrata não sejais a quem vos ama
+ Com puro e honestissimo despejo.
+
+ A culpa que me pondes, ponde-a á fama,
+ Que pregôa de vós celeste vida
+ Que os corações d'amor divino inflama.
+
+ Humana, quando não agradecida,
+ Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso,
+ Antes que a alma do corpo se despida.
+
+ Mas que posso eu fazer, pois ja não posso
+ Hum tormento domar tão forte e duro,
+ Homem formado só de carne e de osso?
+
+ Em minha fé segura me asseguro;
+ Porqu'esta, quando he grande, jamais erra,
+ Se resulta d'amor sincero e puro.
+
+ Essa beldade santa me faz guerra;
+ Por ella hei de morrer, inda que veja
+ Tornar o brando rio em dura serra.
+
+ Que cousa tenho eu ja que minha seja?
+ Quem não deseja a vossa formosura,
+ Não póde assegurar que o ceo deseja.
+
+ De qu'eu sempre a deseje estae segura:
+ Neste desejo meu nunca mudança
+ Hão de ver as mudanças da ventura.
+
+ A vida tenho posta na balança
+ Da glória singular, do damno esquivo;
+ Que o perdê-la por vós he mor bonança.
+
+ Se vos offendo, cuido que não vivo:
+ Olhae se muito mais que de offender-vos,
+ Das esperanças do viver me privo.
+
+ O que temo somente he só perder-vos;
+ O que quero somente he só adorar-vos;
+ O que somente adoro he só querer-vos.
+
+ Querer-vos sem deixar de venerar-vos;
+ Desejar-vos somente por servir-vos;
+ Por servir a amor vil não desejar-vos:
+
+ Somente ver-vos, e somente ouvir-vos
+ Pretendo; e pois somente isto pretendo,
+ Deveis a estes sentidos permittir-vos.
+
+ Isto somente, (oh cego!) estou dizendo,
+ Como se fôra pouco isto somente!
+ Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo?
+
+ Se o não merece o meu amor decente;
+ Se morte por amar-vos se merece,
+ Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.
+
+ Se vos aggrava quem por vós padece;
+ Se vos vee a offender quem vos quer tanto,
+ Quem desta sorte errou não desmerece.
+
+ Que quando os olhos da razão levanto
+ Ao ceo d'essa rarissima belleza,
+ De não morrer por ella só m'espanto.
+
+ Deixae-me contentar desta tristeza,
+ E fazer de meus olhos largo rio;
+ Se algum póde abrandar vossa dureza.
+
+ Correndo sempre as lagrimas em fio,
+ Farei crescer as hervas por os prados,
+ Pois ja d'outra alegria desconfio.
+
+ No monte darei pasto a meus cuidados;
+ E serão de mi sempre entre os pastores
+ Esses divinos olhos celebrados.
+
+ Aprenderão de mi os amadores
+ Aquillo que se chama amor sublime,
+ Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores.
+
+ E nenhum havera que a pena estime
+ Mais soberana por a causa della,
+ Que a que teve até então não desestime;
+
+ E qu'inveja não mostre á minha estrella.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA X.
+
+ Que tristes novas, ou que novo dano,
+ Qu'inopinado mal incerto sôa,
+ Tingindo de temor o vulto humano?
+
+ Que vejo? as praias humidas de Goa
+ Ferver com gente attonita e turbada
+ Do rumor que de boca em boca vôa!
+
+ He morto D. Miguel (ah crua espada!)
+ E parte da lustrosa companhia
+ Que alegre s'embarcou na triste Armada:
+
+ E d'espingarda ardente e lança fria
+ Passado por o torpe e iniquo braço,
+ Que nossas altas famas injuría.
+
+ Não lhe valeo escudo, ou peito d'aço,
+ Não ânimo d'avós claros herdado,
+ Com que temer se fez por longo espaço.
+
+ Não ver-se em de redor todo cercado
+ D'irados inimigos, qu'exhalavão
+ A negra alma do corpo traspassado.
+
+ Não as fortes palavras que voavão
+ A animar os incertos companheiros,
+ Que timidos as costas lhe mostravão.
+
+ Mas ja postos, nos termos derradeiros,
+ (Rotos por partes mil e traspassados
+ Os membros, no valor somente inteiros)
+
+ Os olhos (de furor acompanhados,
+ Qu'inda na morte as vidas amedrentão
+ Dos duros inimigos espantados)
+
+ Postos no ceo, parece que presentão
+ A alma pura á suprema Eternidade,
+ Por quem os ceos e a terra se sustentão.
+
+ E pedindo dos erros, que na idade
+ Immatura e innocente ja fizera,
+ Perdão á pia e justa Magestade,
+
+ As rosas apartou da neve fria;
+ E, como debil flor, a quem fallece
+ O radical humor de que vivia,
+
+ Nas mãos do Coro Angelico, que dece,
+ S'entrega; e vai lograr a vida eterna,
+ Que com morte tão justa se merece.
+
+ Vai-te, alma, em paz á gloria sempiterna;
+ Vai, que quem por a Lei sacra e divina
+ A sólta, áquelle a dá que o ceo governa.
+
+ Mas se de tal valor foi morte dina,
+ A ausencia que do gôsto nos saltêa,
+ A perpétua saudade nos inclina.
+
+ Deixa pois tu, formosa Cytherêa,
+ Do gentil filho e neto de Cyniras
+ O pranto por a morte horrida e fêa.
+
+ E tu, dourado Apollo, que suspiras
+ Por o crespo Jacintho, moço charo,
+ Por quem a clara luz ao mundo tiras;
+
+ Vinde e chorae hum moço em tudo raro,
+ Não de ferino dente vulnerado,
+ Nem de risco sujeito a algum reparo:
+
+ Mas só de ferro imigo traspassado;
+ Que sem duvida incerta, ou frio medo,
+ A vida poz nas mãos de Marte irado.
+
+ Tambem tu, moço Idalio, assiste quedo;
+ Deixa de dar o venenoso mel
+ A beber por os olhos, triste e ledo.
+
+ Pois os formosos olhos de Miguel
+ Ja cobertos se vem do escuro manto
+ Da lei geral a todos mais cruel.
+
+ E vós, filhas de Thespis, que co'o canto
+ Podeis bem mitigar a dor immensa
+ Dos irmãos generosos e alto pranto;
+
+ Não consintais que fação larga offensa
+ Á grande integridade, a que se devem
+ Ágoas não só, do damno recompensa.
+
+ Que ja diante os olhos me descrevem,
+ Quando as bocas da Fama voadora
+ Ao patrio e claro Tejo as novas levem,
+
+ A profunda tristeza; qu'em hum'hora
+ Tal posse tomará dos altos peitos,
+ Que delles o discurso lance fóra.
+
+ Alli de dor os corações sujeitos
+ Hão de lançar de si toda a memoria
+ D'exemplos claros, solidos respeitos.
+
+ Mas, porém se igualais a vida á glória,
+ Ó claro Dom Philippe, e pretendeis
+ Deixar-nos de acções vossas larga historia;
+
+ Eu não vos persuado a que estreiteis
+ O coração na Estoica disciplina,
+ Onde livre d'affectos vos mostreis.
+
+ Que mal a natureza determina
+ Medo, esperanças, dores e alegria,
+ Como o Cynico velho nos ensina.
+
+ Immanidade estupida (dizia
+ O Sulmonense canto) e vil rudeza,
+ He não sentir affectos que a alma cria.
+
+ Porém se o sentir nada for bruteza,
+ E se paixão devida se consente,
+ Tambem o sentir muito he ja fraqueza.
+
+ Em vós hum soffrer alto s'exprimente,
+ Qual nos fortes Varões foi conhecido,
+ Como em estranha, em Lusitana gente.
+
+ Bem conheço que o corpo assi perdido,
+ Como de illustre tumulo carece,
+ Será de brutas feras consumido.
+
+ Mas consola-me, emfim, que se parece
+ Ao grande bisavô, que por a vida
+ Real, a sua á Maura lança offrece.
+
+ Em pedaços a gente enfurecida
+ O corpo alli lhe deixa; e com mão dura
+ Lhe nega a sepultura merecida.
+
+ Facil he a perda aqui da sepultura:
+ Diogenes prudente, e Theodoro
+ Pouco sentem do corpo essa jactura.
+
+ Assi formoso e inteiro, assi decoro
+ Adorna quem o tee, como o tomou,
+ Quando se ouvir o extremo som canoro.
+
+ Mas ai! qual terror subito occupou
+ O vosso claro peito, ó Portuguezes?
+ Qual pavido temor vos congelou?
+
+ Que lançadas, que golpes, que revézes
+ Vos fizerão fazer tamanha injúria
+ Aos fortes Lusitanicos arnezes?
+
+ Ou ja de Capitão sobeja incuria,
+ Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava
+ Com seu peito dos barbaros a furia.
+
+ Ou ja do ferreo cano a fôrça brava
+ Com estrondos que atroão mar e terra,
+ Os corações ardentes congelava?
+
+ Ah! quem vos fez que os impetos da guerra
+ Não sustentasseis com valor ousado,
+ Desprezando o temor que a vida encerra?
+
+ A vida por a Patria e por o Estado
+ Pondo nossos avós, a nós deixárão,
+ Em terra e mar, exemplo sublimado.
+
+ Elles a desprezar nos ensinárão
+ Todo temor. Pois como agora os netos
+ Subitamente assi degenerárão?
+
+ Não pódem, certo, não, viver quietos
+ Com feia infamia peitos generosos,
+ Ja em publicos lugares, ja em secretos.
+
+ Mortos d'Esparta os Héroes valerosos
+ Da fera multidão, fazendo extremos,
+ Taes Epitaphios tinhão gloriosos:
+
+ _Dirás, Hóspede, tu, que aqui jazemos
+ Passados do inimigo ferro, em quanto
+ Ás santas Leis da Patria obedecemos._
+
+ Fugindo os Persas vão com frio espanto,
+ Mas achão as mulheres no caminho,
+ Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto.
+
+ Pois do damno fugís, vendo-o visinho,
+ Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizião)
+ Outra vez no materno e escuro ninho.
+
+ Vêde quaes com mais glória ficarião,
+ Se aquelles que morrêrão por o Estado,
+ S'estes a quem mulheres injurião?
+
+ Mas tu, claro Miguel, que ja acordado
+ Deste sonho tão breve, estás naquella
+ Tôrre do ceo, seguro e repousado;
+
+ Onde, com Deos unida a forte e bella
+ Alma, com teus Maiores reluzindo,
+ Trocaste cada chaga em clara estrella;
+
+ Co'os pés o crystallino ceo medindo,
+ Nada d'essas altissimas Espheras,
+ Nem da terreste aos olhos encobrindo;
+
+ Agora hum curso e outro consideras,
+ Agora a vaidade dos mortaes,
+ Que tu tambem passáras se vivêras,
+
+ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA XI.
+
+ Se quando contemplamos as secretas
+ Causas, por que este mundo se sustenta,
+ E o revolver dos ceos e dos planetas;
+
+ E se quando á memoria se presenta
+ Este curso do sol tão bem medido,
+ Que hum ponto só não míngua, nem s'augmenta;
+
+ Aquelle effeito, tarde conhecido,
+ Da lua na mudança tão constante,
+ Que minguar e crescer he seu partido;
+
+ Aquella natureza tão possante
+ Dos ceos, que tão conformes e contrarios
+ Caminhão, sem parar hum breve instante;
+
+ Aquelles movimentos ordinarios,
+ A que responde o tempo, que não mente,
+ Co'os effeitos da terra necessarios;
+
+ Se quando, emfim, revolve subtilmente
+ Tantas cousas a leve phantasia,
+ Sagaz escrutadora e diligente;
+
+ Bem vê, se da razão se não desvia,
+ Aquelle unico Ser, alto e divino,
+ Que tudo póde, manda, move e cria.
+
+ Sem fim e sem princípio, hum Ser contino;
+ Hum Padre grande, a quem tudo he possibil,
+ Por mais que o difficulte humano atino:
+
+ Hum saber infinito, incomprehensibil;
+ Huma verdade que nas cousas anda,
+ Que mora no visibil e invisibil.
+
+ Esta potencia, emfim, que tudo manda,
+ Esta Causa das causas, revestida
+ Foi desta nossa carne miseranda.
+
+ Do amor e da justiça compellida,
+ Por os erros da gente, em mãos da gente
+ (Como se Deos não fôsse) deixa a vida.
+
+ Oh Christão descuidado e negligente!
+ Pondera-o com discurso repousado;
+ E ver-te-has advertido facilmente.
+
+ Ólha aquelle Deos alto e increado,
+ Senhor das cousas todas, que fundou
+ O ceo, a terra, o fogo, o mar irado;
+
+ Não do confuso caos, como cuidou
+ A falsa Theologia, e povo escuro,
+ Que nesta só verdade tanto errou;
+
+ Não dos atomos leves d'Epicuro;
+ Não do fundo Oceano, como Thales,
+ Mas só do pensamento casto e puro.
+
+ Ólha, animal humano, quanto vales,
+ Pois este immenso Deos por ti padece
+ Novo estylo de morte, novos males.
+
+ Ólha que o sol no Olympo s'escurece,
+ Não por opposição de outro Planeta;
+ Mas só porque virtude lhe fallece.
+
+ Não vês que a grande máchina inquieta
+ Do mundo se desfaz toda em tristeza,
+ E não por causa natural secreta?
+
+ Não vês como se perde a Natureza?
+ O ar se turba? o mar batendo geme,
+ Desfazendo das pedras a dureza?
+
+ Não vês que cahe o monte, a terra treme?
+ E que lá na remota e grande Athenas
+ O docto Areopagita exclama e teme?
+
+ Oh summo Deos! tu mesmo te condenas,
+ Por o mal em qu'eu só sou o culpado,
+ A tamanhas affrontas, tantas penas?
+
+ Por mi, Senhor, no mundo reputado
+ Por falso, e violador da sacra Lei?
+ A fama a ti se põe do meu peccado?
+
+ Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei.
+ Pois como entre ladrões eu não padeço?
+ A pena a ti se dá do qu'eu errei?
+
+ Eu servo sem valor, tu immenso preço,
+ Em preço vil te pões, por me tirares
+ Do captiveiro eterno que mereço?
+
+ Eu por perder-te, e tu por me ganhares
+ Te dás aos soltos homens, que te vendem,
+ Só para os homens presos resgatares?
+
+ A ti, que as almas sóltas, a ti prendem?
+ A ti summo Juiz, ante Juizes
+ Te accusão por o error dos que te offendem?
+
+ Chamão-te malfeitor; não contradizes:
+ Sendo tu dos Prophetas a certeza,
+ Dizem que quem te fere prophetizes.
+
+ Rim-se de ti; tu choras a crueza
+ Que sôbre elles virá: a gente dura,
+ Por quem tu vens ao mundo, te despreza.
+
+ O teu rosto, de cuja formosura
+ Se veste o ceo e o sol resplandecente,
+ Diante quem pasmada está a Natura,
+
+ Com cruas bofetadas da vil gente,
+ De precioso sangue está banhado,
+ Cuspido, atropellado cruelmente.
+
+ Aquelle corpo tenro e delicado,
+ Sôbre todos os Santos sacrosanto,
+ A açoutes rigorosos desangrado;
+
+ Despois coberto mal d'hum pobre manto,
+ Que se pegava ás carnes magoadas
+ Para dobrar-lhe as dores outro tanto.
+
+ Magoavão-no as chagas não curadas,
+ Hum tormento causando-lhe excessivo
+ Ao despir por as mãos crueis e iradas.
+
+ As venerandas barbas de Deos vivo
+ De resplandor ornadas, s'arrancavão
+ Para desempenhar a Adão captivo.
+
+ Com cordas por as ruas o levavão,
+ Levando sôbre os hombros o trophéo
+ Da victoria qu'as almas alcançavão.
+
+ Ó tu, que passas, homem Cyrenêo,
+ Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro,
+ Que agora, como humano, enfraqueceo.
+
+ Ólha que o corpo afflicto do marteiro,
+ E dos longos jejuns debilitado,
+ Não póde ja co'o pêso do madeiro.
+
+ Oh não enfraqueçais, Deos incarnado!
+ Essas quédas, que tanto vos magôão,
+ Supportae Cavalleiro sublimado.
+
+ Aquellas altas vozes, que lá sôão,
+ Dos Padres são, que o Limbo tee escuro,
+ E ja de louro e palma vos corôão.
+
+ Todos vos bradão que subais o muro
+ Da cidade infernal, e que arvoreis
+ Em cima essa bandeira mui seguro.
+
+ Oh Santos Padres! não vos apresseis;
+ Pois muito mais a Deos, que a vós, custárão
+ Essas duras prisões em que jazeis.
+
+ Aquellas mãos que o mundo edificárão,
+ Aquelles pés que pízão as estrellas,
+ Com durissimos pregos s'encravárão.
+
+ Mas qual será o humano qu'as querellas
+ Da angustiada Virgem contemplasse,
+ Sem se mover a dor e mágoa dellas?
+
+ E que dos olhos seus não destillasse
+ Tanta cópia de lagrimas ardentes,
+ Que carreiras no rosto sinalasse?
+
+ Oh quem lhe víra os olhos refulgentes
+ Convertendo-se em fontes, e regando
+ Aquellas faces bellas e excellentes!
+
+ Quem a ouvíra com vozes ir tocando
+ As estrellas, a quem responde o ceo,
+ Co'os accentos dos Anjos retumbando!
+
+ Quem víra quando o puro rosto ergueo
+ A ver o Filho, que na Cruz pendia,
+ Donde a nossa saude descendeo!
+
+ Que mágoas tão chorosas que diria!
+ Que palavras tão miseras e tristes
+ Para o ceo, para a gente espalharia!
+
+ Pois que sería, Virgem, quando vistes
+ Com fel nojoso, e com vinagre amaro
+ Matar a sêde ao Filho que paristes?
+
+ Não era este o licor suave e claro,
+ Que para o confortar então darieis
+ A quem vos era, mais que a vida, charo.
+
+ Como, Virgem Senhora, não corrieis
+ A dar as puras tetas ao Cordeiro,
+ Que padecer na Cruz com sêde vieis?
+
+ Não era só, não, esse o verdadeiro
+ Poto, que vosso Filho desejava,
+ Morrendo por o mundo em hum madeiro;
+
+ Mas era a salvação que alli ganhava
+ Para o misero Adão, que alli bebia
+ Na fonte que do peito lhe manava.
+
+ Pois, ó pura e Santissima Maria,
+ Que, emfim, sentistes esta mágoa, quanto
+ A grave causa della o requeria;
+
+ D'essa Fonte sagrada e peito santo
+ M'alcançae huma gotta, com que lave
+ A culpa que me aggrava e pesa tanto.
+
+ Do licor salutifero e suave
+ M'abrangei, com que mate a sêde dura
+ Deste mundo tão cego, torpe e grave.
+
+ Assi, Senhora, toda criatura
+ Que vive e vivirá, e não conhece
+ A Lei de vosso Filho, a abrace pura;
+
+ O falsissimo herege, que carece
+ Da graça, e com damnado e falso esprito
+ Perturba a Santa Igreja, que florece;
+
+ O povo pertinaz no antiguo rito,
+ Que só o destêrro seu, que tanto dura,
+ Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito;
+
+ O torpe Ismaelita, que mistura
+ As Leis, e com preceitos tão viciosos
+ Na terra estende a seita falsa e impura;
+
+ Os idolatras maos, supersticiosos,
+ Varios de opiniões e de costumes,
+ Levados de conceitos fabulosos;
+
+ As mais remotas gentes, onde o lume
+ Da nossa Fé não chega, nem que tenhão
+ Religião alguma se presume;
+
+ Assi todos, emfim, Senhora, venhão
+ A confessar hum Deos crucificado,
+ E por nenhum respeito se detenhão.
+
+ E d'hum e d'outro o vício ja deixado,
+ O seu Nome, co'o vosso nesse dia,
+ Seja por todo o mundo celebrado;
+
+ E respóndão os ceos: JESUS, MARIA.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA XII. ACROSTICA.
+
+ Juizo extremo, horrifico e tremendo,
+ E Juiz sempiterno, alto e celeste,
+ Significará a terra, humedecendo.
+ Ver-se-ha nella hum suor que manifeste
+ Como em carne vem Deos, para que o veja
+ Homem toda esta máchina terreste;
+ Rei justo, que dos corpos e almas seja
+ Juiz; e quando o mundo cego e inculto
+ Sôbre espinhos crueis deitado seja,
+ Todo vão simulacro e gentil culto
+ Ousará engeitar a gente; e guerra
+ Fará co'o mar o fogo, e cru tumulto.
+ Immensa luz, que as carnes desenterra,
+ Lançará fóra as portas vãas do Averno,
+ Hum Justo e outro alçando á santa terra.
+ Outros, que são os maos, no fogo eterno
+ Deitará, descobrindo-se os segredos,
+ E sendo claro todo feito interno.
+ Desfeitos serão montes e penedos,
+ E será tudo pranto e estridor duro;
+ Obras de grande dor e tristes medos.
+ Será tornado o sol de todo escuro,
+ E destruida a máchina do mundo,
+ Sem luz as luzes todas do Orbe puro;
+ Altos serão os valles, e em profundo
+ Lugar se abaterão os altos montes;
+ Vibrará mares vento furibundo:
+ Haverá só de chammas vivas fontes:
+ De trombeta tremenda som terribil,
+ Ouvido, fara pallidas as frontes.
+ Responderá dos maos gemido horribil.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+EPISTOLAS.
+
+
+EPISTOLA I.
+
+ Quem póde ser no mundo tão quieto,
+ Ou quem terá tão livre o pensamento,
+ Quem tão exprimentado, ou tão discreto,
+ Tão fóra, emfim, de humano entendimento,
+ Que ou com público effeito, ou com secreto,
+ Lhe não revolva e espante o sentimento,
+ Deixando-lhe o juizo quasi incerto,
+ Ver e notar do mundo o desconcêrto?
+
+ Quem ha que veja aquelle que vivia
+ De latrocinios, mortes e adulterios,
+ Que ao juizo das gentes merecia
+ Perpétua pena, immensos vituperios,
+ Se a Fortuna em contrário o leva e guia,
+ Mostrando, emfim, que tudo são mysterios,
+ Em alteza d'estados triumphante,
+ Que por livre que seja não s'espante?
+
+ Quem ha que veja aquelle, que tão clara
+ Teve a vida, qu'em tudo por perfeito
+ O proprio Momo ás gentes o julgára,
+ Inda quando lhe visse aberto o peito,
+ Se a má Fortuna, ao bom somente avara,
+ O reprime, e lhe nega seu direito,
+ Que lhe não fique o peito congelado,
+ Por mais e mais que seja exprimentado?
+
+ Democrito dos deoses proferia
+ Que erão sós dous; a Pena, e o Beneficio.
+ Segredo algum será da phantasia,
+ De qu'eu achar não posso claro indicio.
+ Que se ambos vem por não cuidada via
+ A quem os não merece, he grande vício
+ Em deoses sem-justiça e sem-razão.
+ Mas Democrito o disse, e Paulo não.
+
+ Dir-me-heis, que s'este estranho desconcêrto
+ Novamente no mundo se mostrasse,
+ Que por livre que fosse e mui experto,
+ Não era d'espantar se m'espantasse.
+ Mas que se ja de Socrates foi certo
+ Que nenhum grande caso lhe mudasse
+ O vulto, ou de prudente, ou de constante,
+ Exemplo tome delle, e não m'espante.
+
+ Parece a razão boa; mas eu digo
+ Deste uso da Fortuna tão damnado
+ Que quanto he mais usado e mais antigo,
+ Tanto he mais estranhado e blasphemado.
+ Porque, se o Ceo, das gentes tão amigo
+ Não dá á Fortuna tempo limitado,
+ Não he para causar mui grande espanto,
+ Que mal tão mal olhado dure tanto?
+
+ Outro espanto maior aqui m'enleia,
+ Que com quanto Fortuna tão profana
+ Com estes desconcertos senhoreia,
+ A nenhuma pessoa desengana.
+ Não ha ninguem, que assente, nem que creia
+ Este discurso vão da vida humana,
+ Por mais que philosophe, nem qu'entenda,
+ Que algum pouco do mundo não pretenda.
+
+ Diogenes pisava de Platão
+ Com seus sordidos pés o rico estrado,
+ Mostrando outra mais alta presumpção
+ Em desprezar o fausto tão prezado.
+ Diogenes, não vês que extremos são
+ Esses que segues, de mais alto estado?
+ Pois se de desprezar te prezas muito,
+ Ja pretendes do mundo fama e fruito.
+
+ Deixo agora Reis grandes, cujo estudo
+ He fartar esta sêde cubiçosa
+ De querer dominar e mandar tudo,
+ Com fama larga e pompa sumptuosa.
+ Deixo aquelles que tomão por escudo
+ De seus vicios e vida vergonhosa
+ A nobreza de seus antecessores,
+ E não cuidão de si que são peores.
+
+ Aquelle deixo, a quem do somno esperta
+ O grão favor do Rei que serve e adora,
+ E se mantee dest'aura falsa e incerta,
+ Que de corações tantos he senhora.
+ Deixo aquelles qu'estão co'a boca aberta
+ Por s'encher de thesouros de hora em hora,
+ Doentes desta falsa hydropesia,
+ Que quanto mais alcança, mais queria.
+
+ Deixo outras obras vãas do vulgo errado,
+ A quem não ha ninguem que contradiga,
+ Nem de outra cousa alguma he governado,
+ Que d'huma opinião e usança antiga.
+ Mas pergunto ora a Cesar esforçado,
+ Ora a Platão divino, que me diga,
+ Este das muitas terras em que andou,
+ Aquelle de vencê-las, que alcançou?
+
+ Cesar dirá: Sou digno de memoria:
+ Vencendo povos varios e esforçados,
+ Fui Monarca do mundo; e larga historia
+ Ficará de meus feitos sublimados.
+ He verdade: mas esse mando e glória,
+ Lograste-o muito tempo? Os conjurados
+ Bruto e Cassio dirão que, se venceste,
+ Emfim, emfim, ás mãos dos teus morreste.
+
+ Dirá Platão: Por ver o Etna e o Nilo
+ Fui a Sicilia, Egypto e outras partes,
+ Só por ver e escrever em alto estilo
+ Da natural sciencia e muitas artes.
+ O tempo he breve, e queres consumi-lo,
+ Platão, todo em trabalhos? e repartes
+ Tão mal de teu estudo as breves horas,
+ Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras?
+
+ Pois quanto des que vive ja apartada
+ A alma desta prisão terreste e escura;
+ Está em tamanhas cousas occupada,
+ Que da fama, que fica, nada cura.
+ E se o corpo terreno sinta nada,
+ O Cynico dirá se por ventura
+ No campo, onde lançado morto estava,
+ De si os cães, ou as aves enxotava.
+
+ Quem tão baixa tivesse a phantasia,
+ Que nunca em mores cousas a metesse,
+ Qu'em só levar seu gado á fonte fria,
+ E mungir-lhe do leite que bebesse,
+ Quão bem-aventurado que sería!
+ Que por mais que a Fortuna revolvesse,
+ Nunca em si sentiria maior pena,
+ Que pezar-lhe de a vida ser pequena.
+
+ Veria erguer do sol a roxa face,
+ Veria correr sempre a clara fonte,
+ Sem imaginar a ágoa donde nace,
+ Nem quem a luz occulta no Horizonte.
+ Tangendo a frauta donde o gado pace,
+ Conheceria as hervas do alto monte,
+ Em Deos creria simples e quieto,
+ Sem mais especular algum secreto.
+
+ D'hum certo Trasilao se lê e escreve
+ Entre as cousas da velha antiguidade,
+ Que perdido grão tempo o siso teve
+ Por causa d'huma grave enfermidade;
+ E em quanto, de si fóra, doudo esteve,
+ Tinha por teima, e cria por verdade,
+ Qu'erão suas, das naos que navegavão,
+ Quantas no porto Píreo ancoravão.
+
+ Por hum Senhor mui grande se teria,
+ (Além da vida alegre que passava)
+ Pois nas que se perdião não perdia,
+ E das que vinhão salvas se alegrava.
+ Não tardou muito tempo, quando hum dia
+ Huncrito, seu irmão, que ausente estava,
+ Á terra chega; e vendo o irmão perdido,
+ Do fraternal amor foi commovido.
+
+ Aos Medicos o entrega, e com aviso
+ O faz estar á cura refusada.
+ Triste! que por tornar-lhe o antigo siso
+ Lhe tira a doce vida descansada.
+ As hervas Apollineas d'improviso
+ O tornão á saude ja passada.
+ Sisudo Trasilao, ao charo irmão
+ Agradece a vontade, a obra não.
+
+ Porque despois de ver-se no perigo
+ Do trabalho a que o siso o obrigava,
+ E despois de não ver o estado antigo,
+ Que a louca presumpção lhe apresentava:
+ Oh inimigo irmão, com côr de amigo!
+ Para que me tiraste (suspirava)
+ Da mais quieta vida e livre em tudo,
+ Que nunca pôde ter nenhum sisudo?
+
+ Por qual Senhor algum eu me trocára,
+ Ou por qual algum Rei de mais grandeza?
+ Que me dava que o mundo se acabára,
+ Ou que a ordem mudasse a natureza?
+ Agora me he penosa a vida chara;
+ Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza.
+ Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso
+ Que na doudice só consiste o siso.
+
+ Vêdes aqui, Senhor, bem claramente
+ Como a Fortuna em todos tee poder,
+ Senão só no que menos sabe e sente;
+ Em quem nenhum desejo póde haver.
+ Este se póde rir da cega gente;
+ Neste não póde nada acontecer;
+ Nem estara suspenso na balança
+ Do temor mao, da perfida esperança.
+
+ Mas se o sereno Ceo me concedêra
+ Qualquer quieto, humilde e doce estado,
+ Onde com minhas Musas só vivêra,
+ Sem ver-me em terra alheia degradado;
+ E alli outrem ninguem me conhecêra,
+ Nem eu conhecêra outro mais honrado,
+ Senão a vós, tambem como eu contente;
+ Que bem sei que o serieis facilmente:
+
+ E ao longo d'huma clara e pura fonte,
+ Qu'em borbulhas nascendo, convidasse
+ Ao doce passarinho, que nos conte
+ Quem da chara consorte o apartasse;
+ Despois, cobrindo a neve o verde monte,
+ Ao gasalhado o frio nos levasse,
+ Avivando o juizo ao doce estudo,
+ Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo.
+
+ Cantára-nos aquelle, que tão claro
+ O fez o fogo da árvore Phebêa,
+ A qual elle em estylo grande e raro
+ Louvando, o crystallino Sorga enfrêa;
+ Tangêra-nos na frauta Sanazaro,
+ Ora nos montes, ora por a arêa;
+ Passára celebrando o Tejo ufano
+ O brando e doce Lasso Castelhano.
+
+ E comnosco tambem se achára aquella,
+ Cuja lembrança, e cujo claro gesto
+ N'alma somente vejo, porque nella
+ Está em essencia puro e manifesto;
+ Por alta influição de minha estrella
+ Mitigando o rigor do peito honesto,
+ Entretecendo rosas nos cabellos,
+ De que tomasse a luz o sol em vellos;
+
+ E em quanto por Verão flores colhesse,
+ Ou por Inverno ao fogo accommodado,
+ O que de mi sentíra nos dissesse,
+ De puro amor o peito salteado;
+ Não pedíra então eu, que Amor me désse
+ Do insano Trasilao o doudo estado;
+ Mas que alli me dobrasse o entendimento,
+ Por ter de tanto bem conhecimento.
+
+ Mas por onde me leva a phantasia?
+ Porqu'imagino em bem-aventuranças,
+ Se tão longe a Fortuna me desvia,
+ Qu'inda me não consente as esperanças?
+ Se hum novo pensamento Amor me cria
+ Onde o lugar, o tempo, as esquivanças
+ Do bem me fazem tão desamparado,
+ Que não póde ser mais qui'maginado?
+
+ Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou
+ Contra mi, porque mais me magoasse:
+ Amor a hum vão desejo me obrigou,
+ Só para que a Fortuna mo negasse.
+ O tempo a tal estado me chegou;
+ E nelle quiz que a vida se acabasse;
+ Se ha em mi acabar-se, o qu'eu não creio;
+ Que até da muita vida me receio.
+
+ * * * * *
+
+
+EPISTOLA II.
+
+ Como nos vossos hombros tão constantes
+ (Principe illustre e raro) sustenteis
+ Tantos negocios arduos e importantes,
+ Dignos do largo Imperio, que regeis;
+ Como sempre nas armas rutilantes
+ Vestido, o mar e a terra segureis
+ Do pirata insolente, e do tyrano
+ Jugo do potentissimo Othomano;
+
+ E como com virtude necessaria,
+ Mal entendida do juizo alheio,
+ Á desordem do vulgo temeraria
+ Na santa paz ponhais o duro freio;
+ Se com minha escriptura longa e vária
+ Vos occupasse o tempo, certo creio
+ Que com vagante e ociosa phantasia
+ Contra o commum proveito peccaria.
+
+ E não menos sería reputado
+ Por doce adulador, sagaz e agudo,
+ Que contra meu tão baixo e triste estado
+ Busco favor em vós que podeis tudo,
+ Se contra a opinião do vulgo errado
+ Vos celebrasse em verso humilde e rudo.
+ Dirão, que com lisonja ajuda peço
+ Contra a miseria injusta que padeço.
+
+ Porém, porque a verdade póde tanto
+ No livre arbitrio, (como disse bem
+ Ao Rei Dario o moço sabio e santo,
+ Que foi reedificar Hierusalem)
+ Esta m'obriga a qu'em humilde canto,
+ Contra a tenção que a plebe ignara tem,
+ Vos faça claro a quem vos não alcança;
+ E não de premio algum vil esperança.
+
+ Romulo, Baccho e outros que alcançárão
+ Nomes de semideoses soberanos,
+ Em quanto por o mundo exercitárão
+ Altos feitos, e quasi mais que humanos,
+ Com justissima causa se queixárão
+ Que não lhes respondêrão os mundanos
+ Favores do rumor justos e iguaes
+ A seus merecimentos immortaes.
+
+ Aquelle, que nos braços poderosos
+ Tirou a vida ao Tingitano Anteo,
+ E a quem os seus trabalhos tão famosos
+ Fizerão Cidadão do claro ceo;
+ Achou que a má tenção dos invejosos
+ Não se doma, senão despois que o véo
+ Se rompe corporal: porque na vida
+ Ninguem alcança a glória merecida.
+
+ Pois logo, se Barões tão excellentes
+ Forão do baixo vulgo molestados,
+ O vituperio vil das rudas gentes,
+ He louvor dos Reaes, e sublimados.
+ Quem no lume dos vossos Ascendentes
+ Poderá pôr os olhos, que abalados
+ Lhes não fiquem da luz, vendo os maiores
+ Vossos passados, Reis e Imperadores?
+
+ Quem verá aquelle Pae da Patria sua,
+ Açoute do soberbo Castelhano,
+ Que o duro jugo só, co'a espada nua,
+ Removeo do pescoço Lusitano,
+ Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua
+ Memoria causará, se não m'engano,
+ Que qualquer teu menor tanto s'estime,
+ Que nunca possa ser senão sublime?
+
+ Nisto não fallo mais, porque conheço
+ Que da materia se me baixa o engenho.
+ Mas, pois a dizer tudo m'offereço,
+ E dias ha que no desejo o tenho,
+ Sendo vós de tão alto e illustre preço,
+ A vida fostes pôr n'hum fraco lenho,
+ Por largo mar e undosa tempestade,
+ Só por servir á Regia Magestade.
+
+ E despois de tomar a redea dura
+ Na mão, do povo indomito qu'estava
+ Costumado a larguezas, e á soltura
+ Do pezado govêrno que acabava;
+ Quem não terá por santa e justa cura,
+ Qual do vosso conceito s'esperava,
+ A tão desenfreada enfermidade
+ Applicar-lhe contrária qualidade?
+
+ Não he muito, Senhor, se o moderado
+ Govêrno se blasphema e se desama;
+ Porque o povo á largueza costumado,
+ Á lei serena e justa, dura chama.
+ Pois o zelo em virtude só fundado
+ De salvar almas da Tartarea flama
+ Com a ágoa salutifera de Christo,
+ Poderá por ventura ser malquisto?
+
+ Quem quizesse negar tão grã verdade,
+ Qual he o seu effeito santo e pio;
+ Negue tambem ao sol a claridade,
+ E certifique mais que o fogo he frio.
+ Se o successo he contrário da vontade
+ Nas obras que são boas, e ha desvio;
+ Está nas mãos dos homens comettellas,
+ E nas de Deos está o successo dellas.
+
+ Sei eu, e sabem todos que os futuros
+ Verão por vós o Estado accrescentado,
+ Serão memoria vossa os fortes muros
+ Do Cambaico Damão bem sustendado:
+ Da ruina mortal serão seguros,
+ Tendo todo o alicerce seu fundado
+ Sôbre orfãas amparadas com maridos,
+ E pagos os serviços bem devidos.
+
+ Quãmanha infamia ao Principe he perder-se
+ Pouco do Estado seu, que inteiro herdou,
+ Tanto por glória grande deve ter-se
+ Se accrescentado e próspero o deixou.
+ Nunca consentio Roma ennobrecer-se
+ Com triumphos alguem, se não ganhou
+ Provincia com que o Imperio s'augmentasse,
+ Por maiores victorias qu'alcançasse.
+
+ Póde tomar o vosso nome dino
+ Damão, por honra sua clara e pura,
+ Como ja do primeiro Constantino
+ Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura.
+ E tu, Rei, que no Reino Neptunino,
+ Lá no seio Gangetico a Natura
+ Te aposentou, de ser tão inimigo
+ Deste Estado não ficas sem castigo.
+
+ Bem viste contra ti nadantes aves
+ Cortar a espumosa ágoa navegando;
+ Ouviste o som das tubas, não suaves,
+ Mas com temor horrifero soando;
+ Sentiste os golpes asperos e graves
+ Do Lusitano braço nunca brando.
+ Não soffreste o grão brado penetrante,
+ Que os trovões imitava do Tonante.
+
+ Mas antes dando as costas e a victoria
+ Á Bragancez ventura não corrido,
+ Déste bem a entender quão grande glória
+ He de tal vencedor o ser vencido.
+ Quem faz obras tão dignas de memoria
+ Sempre será famoso e conhecido,
+ Onde os altos juizos o estimarem,
+ Qu'estes sós tee poder de fama darem.
+
+ Não vos temais, Senhor, do povo ignaro,
+ Tão ingrato a quem tanto faz por elle;
+ Mas sabei qu'he signal de serdes claro
+ O ser agora tão malquisto delle.
+ Themistocles, da patria sua amparo,
+ O forte e liberal Cimon, e aquelle
+ Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo,
+ Testimunhas serão de quanto digo.
+
+ Pois ao justo Aristídes hum robusto,
+ Votando no ostracismo costumado,
+ Lhe disse claro assi: Porque era justo
+ Desejava que fosse desterrado.
+ Pachitas por fugir do povo injusto
+ Calumnioso, dando no Senado
+ Conta de Lesbos, qu'elle ja mandára,
+ Se tirou co'o seu ferro a vida chara.
+
+ Demosthenes, lançado das tormentas
+ Populares, Ó Pallas! foi dizendo,
+ Que de tres monstros grandes te contentas,
+ Do drago e moucho, e do vil povo horrendo!
+ Que glórias immortaes houve, qu'isentas
+ Do veneno vulgar fossem, vivendo?
+ Pois mil exemplos deixo de Romanos,
+ E vós tambem sois hum dos Lusitanos.
+
+ * * * * *
+
+
+EPISTOLA III.
+
+ Mui alto Rei, a quem os Ceos em sorte
+ Derão o nome augusto e sublimado
+ Daquelle Cavalleiro que na morte,
+ Por Christo, foi de settas mil passado;
+ Pois delle o fiel peito, casto e forte,
+ Co'o nome Imperial tendes tomado,
+ Tomae tambem a setta veneranda
+ Que a vós o Successor de Pedro manda.
+
+ Ja por ordem do Ceo, que o consentio,
+ Tendes o braço seu, reliquia chara,
+ Defensor contra o gladio que ferio
+ O povo que David contar mandára.
+ No qual, pois tudo em vós se permittio,
+ Presagio temos, e esperança clara,
+ Que sereis braço forte e soberano
+ Contra o soberbo gladio Mauritano.
+
+ E o que hum presagio tal agora encerra,
+ Nos faz ter por mais certo e verdadeiro
+ A setta, que vos dá quem he na terra
+ Dos celestes thesouros Dispenseiro:
+ Que as vossas settas são na justa guerra
+ Agudas, e entrarão por derradeiro
+ (Cahindo a vossos pés povo sem lei)
+ Nos peitos que inimigos são do Rei.
+
+ Quando vossas bandeiras despregava
+ Albuquerque fortissimo com glória
+ Por as praias de Persia, e alcançava
+ De Nações tão remotas a victoria;
+ As settas embebidas, que tirava
+ O arco Armusiano (he larga historia)
+ Nos ares, Deos querendo, se viravão,
+ Pregando-se nos peitos que as tiravão.
+
+ O querido de Deos, por quem peleja,
+ O ar tambem e o vento conjurado
+ Ao atambor lhe acodem, porque veja
+ Que o que a Deos ama, he de Deos amado:
+ Os contrarios revéis á Madre Igreja
+ Atroarão co'o tom do Ceo irado.
+ Que assi deo ja favor maior que humano
+ A Josué Hebreo, Teodosio Hispano.
+
+ Pois se as settas tiradas da inimiga
+ Corda, contra si só nocivas são,
+ Que farão, Rei, as vossas que tee liga
+ Com a que ja tocou Sebastião?
+ Tinta vem do seu sangue, com que obriga
+ A levantar a Deos o coração,
+ Crendo bem que as que vós despedireis,
+ No sangue Sarraceno as tingireis.
+
+ Ascanio, (se trazer me he concedido
+ Entre santos exemplos hum profano)
+ Rei do Imperio, despois tão conhecido,
+ De Roma, e só reliquia do Troiano,
+ Vingou com setta e ânimo atrevido
+ As soberbas palavras de Numano;
+ E logo foi dalli remunerado
+ Com louvores de Apollo, e celebrado.
+
+ Assi vós, Rei, que fostes segurança
+ De nossa liberdade, e que nos dais
+ De grandes bens certissima esperança;
+ Nos costumes, e aspecto que mostrais,
+ Concebemos segura confiança
+ Que Deos, a quem servis e venerais,
+ Vos fara vingador dos seus revéis,
+ E os premios vos dará que mereceis.
+
+ Estes humildes versos, que pregão
+ São destes vossos Reinos com verdade,
+ Recebei com benigna e Real mão,
+ Pois he devida a Reis benignidade.
+ Tenhão (se não merecem galardão)
+ Favor sequer da Regia Magestade:
+ Assi tenhais de quem ja tendes tanto,
+ Com o nome e reliquia, favor santo.
+
+ * * * * *
+
+
+EPISTOLA IV.
+
+ Senhora, s'encobrir por algum'arte
+ Pudera esta occasião de meu tormento,
+ Não creias que chegára a declarar-te
+ Este meu perigoso pensamento.
+ Mas por mais que te offenda, não sou parte
+ No crime de tamanho atrevimento:
+ Elle he d'amor; e delle fui forçado
+ A que te declarasse o meu cuidado.
+
+ Se merece castigo a confiança
+ Com que descubro agora o que padeço,
+ Aqui prompto me tens; toma a vingança
+ Que por tão grave culpa te mereço.
+ Bem me podes negar toda esperança,
+ Mas eu não desistir deste comêço;
+ Porque tempo e Fortuna não são parte
+ Para deixar hum'hora só de amar-te.
+
+ Ja que ver-te os meus olhos alcançárão,
+ Descansem neste bem com alegria,
+ Pois ja com ver os teus tanto ganhárão,
+ Quanto, estando sem vê-los, se perdia.
+ Que glória querem mais, se a ver chegárão
+ Aquella pura luz que vence ao dia?
+ Qual mor bem ha no mundo que querer-te,
+ Se não ha mais que ver despois de ver-te?
+
+ Minhas dores mortaes, bella Senhora,
+ Tirárão a virtude ao soffrimento;
+ E fazendo-se mais em qualquer hora,
+ Levando vão traz ti meu pensamento:
+ Porém soberbos vejo desde agora,
+ Por a causa gentil de seu tormento,
+ Minha alma, meu desejo, meu sentido,
+ Porque á tua belleza se hão rendido.
+
+ A par de tua rara formosura
+ Se desconhece o mor merecimento;
+ A tua claridade torna escura
+ Do sol a clara luz em hum momento.
+ Se Zeuxis ao formar bella figura,
+ A vista em ti pudera pôr attento,
+ Mais alto original houvera achado
+ Para admirar o mundo co'o traslado.
+
+ Aquelles qu'escrevêrão mil louvores
+ De formosura, graça e gentileza,
+ Todos forão, Senhora, huns borradores
+ De tua perfeitissima belleza.
+ Agora se vê claro em teus primores
+ Qu'em ti s'esmerou mais a natureza;
+ E qu'erão os seus cantos prophecias
+ Do que havias de ser em nossos dias.
+
+ Vê, pois, se vinha a ser culpavel falta
+ Em mi o não render-te amante a vida,
+ E se deixar d'amar glória tão alta
+ Era digno da pena mais crescida.
+ Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta
+ Co'o castigo de culpa assi atrevida:
+ E quando della caia, maior glória
+ Tera o Tejo, que o Pó, com sua historia.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+OITAVAS.
+
+
+GLOSA DO SONETO 14.
+
+ Despois que a clara Aurora a noite escura
+ Com novo resplandor foi desfazendo,
+ E Phebo por os montes e espessura
+ Os seus dourados raios estendendo;
+ Se buscava nos valles a verdura
+ O manso gado a luz serena vendo,
+ Quando a férvida sésta ja abrazava,
+ _Todo animal da calma repousava._
+
+ Ja por fugir do sol o fogo ardente,
+ As sombras os rebanhos vão buscando;
+ Os tenros cabritinhos juntamente
+ Apos as mansas mães hião saltando;
+ Tangendo as suas frautas docemente
+ Os pastores, estavão enganando
+ A grã chamma solar qu'então ardia;
+ _Só Liso o ardor della não sentia._
+
+ Tristes lembranças tanto o traspassavão,
+ Que a dura sésta nelles só passava;
+ O tempo qu'em prazer outros gastavão,
+ Em celebrar seu mal elle o gastava;
+ As festas que com jogos celebravão,
+ Elle com suspirar as celebrava:
+ Nada buscava mais, mais não queria
+ _Que o repouso do fogo em qu'elle ardia._
+
+ Os repetidos jogos dos pastores,
+ As lutas entre a rama repetidas,
+ Em nada lhe divertem suas dores;
+ Mas antes n'alegria as vê crescidas.
+ Como o repouso roubão os amores
+ Ás almas que para elles são nascidas,
+ Elle, todo o repouso qu'esperava,
+ _Consistia na Nympha que buscava._
+
+ Com o chôro, que ja corria em fio
+ Por o pallido rosto, augmenta as fontes,
+ Que levão ágoa estranha ao claro rio
+ Que os valles vai regando entre altos montes.
+ Com suspiros a quem o ecco pio
+ Responde de apartados horizontes,
+ Os ventos parecia qu'enfreava,
+ _Os montes parecia que abalava._
+
+ Que ás queixas de seus doces pensamentos
+ Se movessem os montes mais constantes,
+ Se parassem os mais veloces ventos,
+ Qu'estavão, que corrião circumstantes,
+ Bem se devia á dor de seus tormentos,
+ E inda que fosse em peitos de diamantes;
+ Que hum peito de diamante abrandaria
+ _O triste som das mágoas que dizia._
+
+ Porém elle as dizia a outro peito,
+ Mais, que diamante, inexpugnavel, duro:
+ A fé lh'encarecia, a que sogeito
+ O tinha em pena eterna o amor puro;
+ Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito,
+ Quanto mais offendido, mais seguro:
+ A Nympha mais segura tudo ouvia,
+ _Mas nada o duro peito commovia._
+
+ As lástimas aqui tanto crescêrão,
+ Que s'em montes de Hircania s'escuitárão,
+ Tigres nos seios seus mover puderão,
+ E pedras nos seus cumes abrandárão.
+ Mas se no peito as tristes vozes dérão
+ Daquella fera humana que buscárão,
+ Elle d'as admittir se retirava;
+ _Que na vontade de outro pôsto estava._
+
+ Desenganado ja da triste sorte,
+ De que mal fino amor se desengana,
+ Com a desperança só de sua morte
+ Aquellas penas últimas engana.
+ Deixando na espessura o claro Norte,
+ Para elle de outra luz mais soberana,
+ A hum valle aberto então sahir procura,
+ _Cansado ja de andar por a espessura._
+
+ Deixando as suas cabras que pascessem
+ Naquelle verde prado as frescas flores;
+ Porque os Satyros leves o soubessem,
+ E os sylvestres Faunos amadores;
+ Tambem porque os pastores o entendessem,
+ Todo o processo e fim de seus amores
+ Escreveo (sem em nada haver mudança)
+ _No tronco d'huma faia por lembrança._
+
+ Por lembrança no tronco d'huma faia,
+ Que vai sahindo ao ceo de puro altiva
+ Na verde, prateada e aurea praia,
+ Por onde o claro Tejo se deriva;
+ Porque tambem ao ceo sua dor saia
+ Sôbre aquella corrente fugitiva,
+ Escrita no papel da natureza;
+ _Escreve estas palavras de tristeza:_
+
+ Natercia, Nympha bella, por quem vivo
+ Em tal tormento, tempo algum me olhou;
+ Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo
+ Daquelle brando olhar que m'enganou,
+ O amor tornava em desamor esquivo;
+ E d'hum tormento tal a outro passou.
+ Em cousas tão sujeitas a mudança
+ _Nunca ponha ninguem sua esperança._
+
+ Para dar proveitosos desenganos
+ Dos enganos que são de Amor effeitos,
+ E dos dous sexos publicar, humanos,
+ A origem das mudanças de seus peitos;
+ Estas letras aqui por longos anos
+ Digão a corações a amar sujeitos
+ Em peito varonil, que de ventura,
+ _Em peito feminil, que de natura..._
+
+ Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado
+ Cahio ao pé da faia em qu'escrevia,
+ Não podendo seguir o começado,
+ Porque a alma ja do corpo lhe sahia.
+ Tres vezes, com accento mal formado,
+ Para exemplo futuro repetia:
+ Amantes, entendei que a mór belleza
+ _Somente em ser mudavel tem firmeza._
+
+ * * * * *
+
+
+GLOSA DO SONETO 194.
+
+ _Cá nesta Babylonia adonde mana_
+ Hypocrisia, engano e falsidade;
+ Cá donde ousada toda carne humana
+ A todo arbitrio vive da vontade;
+ Cá donde enrouqueceo da Lusitana
+ Musa o furor heroico e suavidade;
+ Cá donde se produz por cega via
+ _Materia a quanto mal o mundo cría_;
+
+ _Cá donde o puro Amor não tee valia_,
+ Porque Baccho o tee hoje desterrado;
+ Cá donde a frecha d'ouro não feria,
+ Senão cabello preto e alfenado;
+ Cá donde a loura trança não se via,
+ Nem o rosto de sangue matizado;
+ Cá donde nada val a glória humana,
+ _Que a mãe, que manda mais, tudo profana_;
+
+ _Cá donde o mal se affina, o bem se dana_,
+ Se algum a terra em si quer produzir;
+ Cá donde a falsa gente Mahometana
+ A glória toda funda em adquirir;
+ Cá donde multiplica a mão tyrana,
+ Professa em mais crescer, matar, mentir;
+ Cá donde o fazer bem he villania,
+ _E póde mais que a honra a tyrannia_;
+
+ _Cá donde a errada e cega Monarchia_
+ De fabulosas leis está vivendo,
+ E á fôrça d'hum amor engrandecia
+ O nefando Alcorão em qu'está crendo;
+ Cá donde nada val a Poesia,
+ E s'está da lei della escarnecendo;
+ Cá donde a fidalguia Mahometana
+ _Cuida qu'um nome vão a Deos engana._
+
+ _Cá nesta Babylonia, onde a Nobreza_
+ Da Lusitana gente se perdeo;
+ E do grão Sebastião toda a grandeza
+ Irreparavelmente se abateo;
+ Cá donde algum mentir não he baixeza,
+ E os meritos esmola (assi cresceo
+ Da cobiça mortal a semrazão)
+ _Co'o esfôrço e saber, pedindo vão._
+
+ _Ás portas da cobiça e da vileza_
+ Estes netos de Agar estão sentados
+ Em bancos de torpissima riqueza,
+ Todos de tyrannia marchetados.
+ He do feio Alcorão summa a largueza
+ Que tee para que sejão perdoados
+ De quantos erros commettendo estão
+ _Cá neste escuro cáos de confusão._
+
+ _Cumprindo o curso estou da natureza_,
+ Illustre Dama, neste labyrintho;
+ Mas quem usa comigo mais crueza,
+ He tua condição, que n'alma sinto.
+ Acabe-se algum dia tal tristeza,
+ E este sentido mal qu'em versos pinto:
+ E pois n'alma he sentido e coração,
+ _Ve se m'esquecerei de ti, Sião._
+
+ * * * * *
+
+
+A SANTA URSULA.
+
+ D'huma formosa virgem desposada,
+ Que d'outras onze mil, tambem formosas,
+ Entrou no claro Olympo acompanhada,
+ Com corôas de lyrios e de rosas;
+ De Christo Esposo seu tão namorada,
+ Que delle as quiz fazer todas esposas;
+ Amor, vida e martyrio cantar quero,
+ Fiado no favor que della espero.
+
+ Alcança, Ursula bella, (que diante
+ De tão bello esquadrão foste por guia)
+ De teu suave Amor, que de ti cante
+ O seu amor que no teu peito ardia.
+ Meu verso para ti mais se levante,
+ Ó Christifera, ó heroica companhia;
+ Tanto se mostre aqui mais soberano,
+ Quanto o divino Amor excede o humano.
+
+ E vós, unica Mãe e Virgem pura,
+ Pois sois das que tal ordem escolhêrão,
+ Que fostes, sois, sereis guarda segura
+ Da pureza que a Deos offerecêrão;
+ Neste canto me dae melhor ventura
+ Do que atégora as Musas vãas me derão:
+ Vossas servas serão de mi servidas,
+ Cantadas suas mortes, suas vidas.
+
+ Serenissima Infante, produzida
+ Do grão Tronco Real, sublime Planta;
+ No titulo, nas obras e na vida,
+ Retrato natural de Ursula Santa,
+ Desta virgem, tambem de Reis nascida,
+ Ouvi com ledo rosto o que se canta;
+ Dae o sentido hum pouco a tal sogeito:
+ Não lhe tire seu preço o meu defeito.
+
+ No tempo que Ciriáco se sentava
+ Na Cadeira de Pedro pescador,
+ De que com sãa doutrina apascentava
+ As Ovelhas de Christo, Bom Pastor;
+ Teve Bretanha hum Rei, que professava
+ A Lei que deo no mundo o Redemptor,
+ Justo e temente ao Ceo, pio e devoto,
+ Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto.
+
+ De virtudes hum novo exemplo e raro,
+ Em idade e belleza florecia
+ Ursula, por quem Noto era mais claro,
+ Que por todo o poder que possuia;
+ Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro,
+ Com quem todas as graças repartia;
+ Prudente, honesta e docta a maravilha,
+ De tão ditoso pae ditosa filha.
+
+ Aquella que por o ar com ligeireza
+ As pennas de mil azas abre e cerra,
+ E que com velocissima presteza
+ Com outros tantos pés corre por terra;
+ Aquella, que de sua natureza
+ Não cuida em quanto diz se acerta ou erra,
+ E d'huma em outra boca se derrama:
+ Aquella, emfim, a quem chamamos Fama;
+
+ Hia por todo o mundo divulgando
+ Extremos desta virgem soberana,
+ Aquella formosura celebrando
+ Com que Amor cego a tanta vista engana:
+ Mais hia a d'alma sua publicando,
+ Porqu'era mais divina do que humana:
+ Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto,
+ Qu'em huns criava amor, n'outros espanto.
+
+ Ouvidos seus louvores, muitas vezes
+ Desejou desta virgem fazer nora
+ Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes,
+ Idolatras então, cegos agora.
+ Ó povo cego e leve! as torpes fezes
+ Aparta do ouro puro e lança fóra,
+ Torna-te ao teu pastor, perdido gado!
+ Ólha que vás sem elle mal guiado.
+
+ Hum filho deste Rei (de quem dizia
+ Que ser de Ursula sogro desejava)
+ Movido do rumor que della ouvia,
+ Ja dentro no seu peito a namorava.
+ Alli seu amor, delle, lhe offrecia;
+ Alli por o amor della suspirava.
+ Suspira elle por ella; ella suspira
+ Tambem por outro amor que nunca vira.
+
+ Mandou o Rei Inglez Embaixadores
+ Com pompa Regia e lustre sumptuoso,
+ (Do grande Reino seu grandes Senhores)
+ A Noto, Rei não tanto poderoso.
+ Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores
+ Ardia toda do celeste Esposo)
+ Para esposa do filho, que sabia
+ Que ja d'amores della todo ardia.
+
+ O Rei Bretão se achava descontente
+ Com a nova embaixada de Inglaterra:
+ Receia que se nella não consente,
+ O gentio lhe mova cruel guerra:
+ Porque sendo mais rico e mais potente,
+ Assi no largo mar, como na terra,
+ Quando desprezos visse de seu rôgo,
+ Podia pôr Bretanha a ferro e fogo.
+
+ Sôbre este não errado pensamento
+ Do medo de perder seu senhorio,
+ Novo discurso tinha e novo intento,
+ Com que se achava mais medroso e frio.
+ Estranhava o fazer ajuntamento
+ Da catholica filha co'hum gentio;
+ Pois nem a Lei de Christo o permittia,
+ Nem Ursula fiel o admittiria.
+
+ Estando o pae em tal angústia pôsto,
+ Divinamente a filha ja inspirada,
+ Lhe assegurava com sereno rosto
+ Que consentir podia na embaixada;
+ Dizendo que se o Inglez levava gôsto
+ D'ella com seu herdeiro ser casada,
+ Primeiro lhe mandasse dez donzellas,
+ Do Reino as mais illustres, as mais bellas.
+
+ Que mil daria a cada virgem destas,
+ E que a ella outras mil tambem daria,
+ Todas de claro sangue, e em vista honestas.
+ (Dest'arte a conta de onze mil fazia)
+ Que por trez annos dilação nas festas,
+ Além do ja pedido, lhe pedia;
+ E naos e mantimentos, porque todas
+ Fossem com ella a Roma antes das bodas.
+
+ Alli sua pureza e virgindade
+ Queria com solemne e sacro voto
+ Consagrar á divina Potestade,
+ Que o ceo e a terra fez de proprio moto.
+ E que deixasse a vãa gentilidade
+ Seu filho, para genro ser de Noto,
+ Para que neste espaço doutrinado
+ Fosse na Fé de Christo, e baptizado.
+
+ Com estas condições Ursula disse
+ Ao charo pae, que, a ser dellas contente,
+ Podia responder; e despedisse
+ A proposta daquelle Rei potente:
+ Ou porque ouvindo-as elle desistisse,
+ Podendo-se acceitar difficilmente;
+ Ou porque, quando as virgens concedesse,
+ Comsigo a seu Senhor onze mil désse.
+
+ Oh Divino saber, quão soberano
+ Conselho he sempre o teu! quão remontado!
+ Oh quanto o mor saber te cede humano,
+ Por mais que de razões vá mais ornado!
+ Ja dos idolos deixa o cego engano
+ O Principe, da virgem namorado;
+ Ja terno pede ao pae quanto ella pede;
+ Ja o pae quanto lhe roga lhe concede.
+
+ Ja para ti, ó virgem bella e branda,
+ Com huma singular velocidade,
+ Juntar se via d'huma e d'outra banda
+ De feminil nobreza tenra idade.
+ As naos apparelhar o Rei ja manda;
+ Ja nellas se recolhe a Virgindade;
+ Ja dão para Bretanha ao vento velas.
+ O coração do noivo vai com ellas.
+
+ Ja vem a tomar porto onde esperava
+ Ursula alvoroçada em grã maneira;
+ Que para as receber alli se achava,
+ Como senhora não, mas companheira.
+ Quão falsa era a Lei dellas lhes mostrava,
+ A de Christo quão pura e verdadeira.
+ Ja se baptiza huma e outra Dama;
+ Damas Ursula ja do ceo lhes chama.
+
+ A Fama, que não sabe repousar,
+ Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha;
+ A gente que concorre não tee par,
+ Por ver a nunca vista maravilha.
+ Outros vem por servir e acompanhar
+ A Virgem de Rei nora, de Rei filha.
+ Movem-se muitos Bispos de Bretanha;
+ Pantalo em vida e morte os acompanha.
+
+ Por ti, deixando o Reino, co'a familia
+ E quatro filhas suas, s'embarcou,
+ Juliana, Victoria, Aurea, Babilia;
+ (Hum filho tinha mais que mais levou)
+ Gerasina, Rainha de Sicilia,
+ E com devido amor te acompanhou;
+ Qu'he justo que comtigo vão Rainhas,
+ Quando tu para o Rei dos Reis caminhas.
+
+ Ja se partem as bellas peregrinas,
+ As mãos ao claro Empyreo levantadas;
+ Ja rompem, ja, por ondas crystallinas
+ As naos de formosura carregadas.
+ Quando, dizei, ó ágoas Neptuninas,
+ Fostes de tal belleza navegadas?
+ Nunca, despois que a terra descobristes,
+ A tal frota por vós caminho abristes.
+
+ Com vento sempre igual, com mar bonança,
+ Sem perigos alguns, sem algum pejo,
+ Ceyla forão tomar, porto de França,
+ Onde pouca demora fazer vejo.
+ O coração da virgem não descança,
+ Saudosa do fim de seu desejo;
+ Manda que levem ferro, soltem linho
+ Que leve por o mar o negro pinho.
+
+ O vento nova posse vai tomando
+ Das virgens que lhe são encommendadas:
+ Com tal prosperidade vão voando,
+ Que ja deixão atraz ondas salgadas:
+ Ja nas doces do Rheno estão entrando,
+ Onde tee suas vidas limitadas:
+ Huma cidade vem á lingua da ágoa,
+ Que de vê-las morrer não teve mágoa.
+
+ Ah Colonia cruel, que não t'encobres
+ A tão formosos olhos, que seguros
+ As altas tôrres vião que descobres,
+ Lustrosos edificios, fortes muros!
+ Permitte o largo Ceo que fama cobres
+ De ser tão dura mãe de peitos duros?
+ Duros peitos, que a tantos, limpos de êrro
+ Virão abrir sem dor com impio ferro!
+
+ Estando neste porto a bella Armada
+ Tomando o necessario mantimento,
+ Para poder seguir sua jornada,
+ E dar terceira vez o treu ao vento;
+ Sendo parte da noite ja passada,
+ A virgem lá no seu retrahimento,
+ Quando estava dormindo toda a frota,
+ A Christo orou assi, branda e devota:
+
+ Amor, divino Amor, Amor suave,
+ Amor, que amando vou toda rendida;
+ Com quem não ha na vida pena grave,
+ Sem quem glória real não ha na vida;
+ Amor, que do meu peito tens a chave,
+ Amor, de cujo amor ando ferida,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que não vejo?
+
+ Amor, que d'amor cheio e de brandura,
+ D'amor enches est'alma saudosa;
+ Amor, sem cujo amor e formosura,
+ Não póde nunca haver cousa formosa;
+ Amor, com cujo amor anda segura
+ Huma vida tão fraca e duvidosa,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que não vejo?
+
+ Amor, que por amor te dispuzeste
+ A restaurar o mundo errado e triste;
+ Amor, que por amor do ceo desceste;
+ Amor, que por amor á Cruz subiste;
+ Amor, que por amor a vida déste;
+ Amor, que por amor a glória abriste,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que não vejo?
+
+ Amor, que mais e mais sempre te augmentas
+ No coração que lá comtigo trazes;
+ Amor, que d'amor puro te sustentas
+ No fogo em que tu mesmo arder me fazes;
+ Amor, que sem amor não te contentas,
+ De tudo com amor te satisfazes,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que não vejo?
+
+ Amor, que com amor me captivaste;
+ (Se livre póde ser quem não captivas)
+ Amor, qu'em taes prisões m'asseguraste
+ As esperanças d'antes fugitivas:
+ Amor, que suspirando m'ensinaste
+ A derramar por ti lagrimas vivas,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que não vejo?
+
+ Quando verei hum dia em que offereça
+ Por ti ao cruel ferro o peito forte,
+ E cercada de virgens appareça
+ Na tua soberana e eterna Corte;
+ Onde lá cada huma te mereça,
+ Cá passando comigo a propria morte;
+ E todas dando o sangue juntas, todas
+ Celebremos comtigo eternas bodas?
+
+ Faze-me ja, Senhor, esta vontade
+ Que tenho de te ver, que sempre tive,
+ Des que me deo lugar a tenra idade,
+ E lume de razão nesta alma vive.
+ Não queiras, meu Amor, que a saudade
+ Sem tal bem a mi só da vida prive;
+ Que se muito se alarga este destêrro,
+ Por ella irei a ti, não por o ferro.
+
+ Desata o meu espirito saudoso,
+ Do nó mortal em que se vai detendo,
+ Primeiro que tres vezes pressuroso
+ O sol os doze Signos vá correndo.
+ Espaço he que tomei, meu doce Esposo,
+ Para outro esposo meu ir entretendo:
+ Mas a meu amor crendo, de ti creio
+ Que acabes com a vida o meu receio.
+
+ Inda neste fervente e justo rôgo
+ Ursula suspirando procedia,
+ Quando d'hum resplandor como de fogo
+ Divina voz ouvio, que assi dizia:
+ Ó virgem, que soubeste fazer jôgo
+ Do que no mundo tee maior valia,
+ Entende que da volta que fizeres,
+ Aqui quero que seja o que tu queres.
+
+ Tanto que tal resposta do Ceo teve,
+ Não quiz do que esperava perder hora:
+ Ja lhe parece larga a noite breve,
+ E que ja tarda muito a bella aurora.
+ Em descobrindo Apollo o carro leve,
+ Do porto de Colonia sahio fóra.
+ Ja Basilêa em breve tempo toma:
+ E a pé d'alli partirão para Roma.
+
+ O Pastor summo, Ciriáco santo,
+ As sahe a receber, e as acompanha
+ Com gôzo espritual, com grande espanto
+ De ver em tal idade fé tamanha.
+ Dizer se póde mal, mal cuidar quanto
+ Se goza o Real sangue de Bretanha,
+ Os veneraveis Templos visitando
+ Daquelles que tambem foi imitando.
+
+ Na propria noite deste proprio dia
+ Que Roma ver as virgens mereceo,
+ A quem de Pedro a Barca então regía
+ Revelou o que rege a terra e ceo
+ Que martyrio tambem receberia
+ Onde Ursula co'as mais o recebeo:
+ Deixa contente o grão Pontificado,
+ Desejoso de ser martyrizado.
+
+ Por mais que todo o Clero soffre mal
+ Mover-se por aquellas Estrangeiras,
+ Movido da Vontade divinal
+ O bom Pastor se vai com as Cordeiras.
+ Hum Arcebispo leva, hum Cardeal:
+ Tres Bispos deixão vagas tres Cadeiras,
+ De Luca, Ravicana e de Ravenna:
+ Mauricio me ficava ja na penna.
+
+ Despois de n'ágoa entrar, donde sahírão,
+ Com tão formoso sol tantas estrellas,
+ Ja as ancoras debaixo acima tirão,
+ E de cima ja abaixo soltão vellas.
+ Estas naos lá adiante outras naos vírão,
+ Que fazendo-se vem na volta dellas;
+ Conhecêrão-se logo as duas frotas:
+ Ambas d'hum Reino são, ambas devotas.
+
+ Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra,
+ Vinha de Ursula bella o bello esposo,
+ Que reinar não queria ja na terra,
+ Do ceo ja namorado e saudoso.
+ Do seu primeiro amor venceo a guerra
+ A fôrça d'outro amor mais poderoso:
+ Amando ja em seu Deos a esposa bella,
+ Para o poder achar, buscava a ella.
+
+ A mãe, ja convertida, traz comsigo;
+ O pae, ja Christão feito, fallecêra,
+ Com que soube evitar o grão castigo
+ Que, morrendo Gentio, não soubera.
+ Amor celeste, como aqui não digo
+ O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!)
+ Por meio d'huma virgem foste meio
+ Com que gente copiosa a Christo veio.
+
+ Vinha mais nesta nova companhia
+ Florencia, irmãa do Rei, da mãe cuidado;
+ Florencia, qu'em belleza florecia,
+ Como flor em jardim bem cultivado.
+ Tambem a frota Bispos dous trazia,
+ Hum Marcello, Clemente outro chamado:
+ O primeiro ja em Grecia bago teve;
+ Do segundo o Bispado não s'escreve.
+
+ Outra Virgem viuva alli mais vinha,
+ Que desposada sendo em tenra idade,
+ Antes das bodas enviuvado tinha,
+ E promettida a Christo a castidade.
+ Esta do mesmo Rei era sobrinha,
+ Filha da Imperatriz da grã cidade,
+ Onde por culpa nossa, ou pouca dita,
+ Seu throno agora tee o fero Scita.
+
+ Estes, que adverte repetida historia
+ Deixárão só por Deos altos Estados,
+ Com outros, de que he menos a memoria,
+ Forão divinamente amoestados
+ Que todos, para entrar juntos na glória,
+ Ao côro virginal fossem juntados,
+ Com quem na terra Martyres serião,
+ E no ceo para sempre reinarião.
+
+ Sería estranho o gôzo que sentírão
+ Aquellas bem nascidas almas santas,
+ Quando juntas alli todas se vírão
+ De partes tão remotas, e de tantas.
+ Sem estorvos, que d'antes o impedírão,
+ As duas, mais que todas, bellas plantas
+ Alli abraços se dão sem algum pejo,
+ Ambas conformes ja n'hum só desejo.
+
+ Alli faria o Rei acatamento
+ A quem deixou da Barca o grão govêrno;
+ E elle, conforme a seu merecimento,
+ Responderia com amor paterno.
+ Não faltaria em tal recebimento
+ Prazer exterior, prazer interno;
+ Inda que nos estados differentes,
+ Todos serião huns em ser contentes.
+
+ O vento as brancas velas não enchia,
+ Corria o frio Rheno então mais quedo;
+ Antes para Colonia não corria,
+ Porque as virgens não fossem lá tão cedo.
+ Parece que ja claro conhecia
+ (Oh côro virginal, sereno e ledo!)
+ Que lá vos esperava a impia morte.
+ Agora, ó Musa, conta de que sorte.
+
+ Aquelle que na fórma de serpente
+ Deixou aos dous primeiros enganados,
+ Invejoso de ver que tanta gente
+ Se convertia á Lei dos Baptizados;
+ No caração entrou manhosamente
+ De dous gentios Principes damnados,
+ Da soberba Romãa Cavaleria,
+ Por encurtar a Fé que s'estendia.
+
+ A Fama os assegura com certeza
+ Que a virgem a Colonia ja voltava,
+ Com toda a casta juvenil belleza
+ Que por amor do Ceo peregrinava.
+ Fizerão avisar com grã presteza
+ A hum parente, que Julio se chamava,
+ Soberbo Capitão dos Hunnos feros;
+ Que todos para todas forão Neros.
+
+ Eis logo o cego Principe gentio,
+ Com gente innumeravel de seu mando,
+ A praia a tomar vem do mesmo rio
+ Por onde as virgens vinhão navegando.
+ Ja descobrem aquelle, este navio
+ Os qu'estão do mais alto atalaiando:
+ Ás armas veloz corre o bruto povo,
+ Por de novo as tingir no sangue novo.
+
+ Vindo a frota a surgir junto do muro,
+ Onde lhe parecia estar segura,
+ (Oh virgens que buscais? lugar seguro
+ Adonde vos espera a sepultura!)
+ Entra com mão armada o povo duro
+ Por esta peregrina formosura:
+ Ja começa a provar os aços fortes;
+ Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes.
+
+ Ja nu todas as virgens offrecião
+ O delicado collo, o tenro peito:
+ Era para caber quantas cahião,
+ Todo largo lugar lugar estreito.
+ Do puro sangue os rios que corrião,
+ Outro vermelho mar ja tinhão feito.
+ Tu só, Córdula, á morte t'escondeste;
+ Mas despois a buscaste e recebeste.
+
+ Ciriáco o primeiro, bem constante,
+ A vida ao ferro offrece sem espanto:
+ O moço Rei Inglez cahio diante
+ Daquelles castos olhos que amou tanto.
+ Espera, brando esposo, hum breve instante;
+ Espera a tua doce esposa, em tanto
+ Que outro Amor outro golpe lhe prepara;
+ E juntos entrareis na Patria chara.
+
+ Em qual terra, ó crueis, em qual cidade,
+ Entre quaes gentes mais a furor dadas,
+ Se não usou d'amor e de piedade
+ Com formosas donzellas desarmadas?
+ Como belleza tanta e tal idade
+ Vos deixou arrancar vossas espadas?
+ Ah lobos carniceiros, tigres bravos,
+ Filhos da crueldade, d'ira escravos!
+
+ De quantos animaes sustenta a terra
+ Nunca tanta crueza foi usada;
+ Inda que tenhão huns com outros guerra,
+ Nunca do macho a femia he lastimada:
+ Anda a cerva co'o cervo por a serra,
+ A novilha do touro acompanhada,
+ Á leoneza o leão defender preza:
+ Vós sós quebrais as leis da natureza?
+
+ Puderão outros olhos por ventura
+ De lagrimas divinas escusar-se,
+ Vendo, cuberta ja de névoa escura,
+ A luz de tantos bellos apagar-se?
+ Vendo a purpurea rosa, a cecem pura
+ Em tão formosas faces descorar-se?
+ As tranças d'ouro vendo, espedaçadas,
+ Por debaixo dos pés andar pizadas?
+
+ Na fôrça desta furia accesa e brava
+ O Tyranno cruel a vista ergueo
+ Á virgem, qu'invencivel animava
+ As almas que juntára para o Ceo.
+ Assi ja envolta em sangue como andava,
+ Da sua formosura se venceo;
+ E com doces razões, que Amor ensina,
+ A vencê-la d'amor se determina.
+
+ Fingindo se arrepende do passado,
+ (E de fingi-lo se arrepende azinha)
+ Sua vida lhe offrece e seu Estado,
+ Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha.
+ O seu amor lhe pede confiado;
+ O seu amor que dado a seu Deos tinha:
+ Pede-lhe o seu amor; antes não seu,
+ Porque ja dado o havia a quem lho deu.
+
+ Usa de mil lisonjas, mil enganos,
+ Por conseguir o seu desejo bruto.
+ A flor logra (dizia) de teus anos,
+ Colhe d'essa belleza o doce fruto:
+ Não dês materia nova a novos danos,
+ Não pagues verde á morte o seu tributo:
+ Olha que tens em mi (não são cautelas)
+ Outro Reino, outro esposo, outras donzelas.
+
+ Não faças mentirosa a natureza
+ Que dá d'amor em ti grande esperança.
+ Que se póde alcançar d'essa belleza,
+ Se ja piedade della não s'alcança?
+ Aos tigres, aos leões deixa a braveza,
+ E deixa aos meus soldados a vingança.
+ Se por ver-me cruel queres ser crua,
+ Ja te vingas de mi em cousa tua.
+
+ Volve esses olhos ja com mais brandura;
+ Esses olhos, d'Amor doce morada:
+ Delles não faça em mi a formosura,
+ O qu'em tantos ja fez a minha espada.
+ Se queres derribar minha ventura,
+ Que delles estar vejo pendurada,
+ Acabarei de ver quão pouca tenho,
+ Pois donde a matar vim a morrer venho.
+
+ Como do rôgo meu não te aproveitas,
+ Quando o teu risco a me rogar te obriga?
+ Ou não conheces bem a quem engeitas,
+ Ou m'engeitas por mais que seja e diga.
+ Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas?
+ Mais proprio era chamar-te dura imiga.
+ Mas não consente Amor nome tão duro
+ Em parecer tão brando e tão seguro.
+
+ Os raios desses olhos ja serenos
+ Enxuguem desse rosto as puras rosas;
+ O triste suspirar ja sôe menos
+ Nestas concavidades saudosas.
+ Não fação grande mal males pequenos;
+ Que não soffre esperanças vagarosas
+ Quem anda costumado em seus amores
+ A medir por seu gôsto seus favores.
+
+ Que gôsto podes ter de maltratar-me,
+ Vendo-me do passado arrependido?
+ Attenta que mais ganhas em ganhar-me,
+ Do que neste destrôço tens perdido.
+ Se queres insistir em desprezar-me,
+ Ver-me-has, sôbre amoroso, enfurecido.
+ Não me declaro mais, porque não quero
+ Que o medo faça o que d'amor espero.
+
+ Ah perfido amador! deixa o teu êrro.
+ Não vês quanto enganado e cego andas?
+ Aquella a quem não vence o duro ferro,
+ Como a podem vencer palavras brandas?
+ Manda a sua alma ja deste destêrro,
+ Com essas que a seu doce Esposo mandas.
+ Não a detenhas mais em teus amores,
+ Se dobrar-lhe não queres suas dores.
+
+ Vendo o cruel, emfim, que o que dizia,
+ Tomava a bella virgem por affronta,
+ E que quanto d'amor mais se accendia,
+ Ella delle fazia menos conta;
+ No concavo arco que na mão trazia,
+ Huma setta embebeo d'aguda ponta,
+ E o peito lhe passou de banda a banda.
+ Assi rendeo o esprito a virgem branda.
+
+ Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza;
+ As azas abre ja, ja a luz derrama;
+ Vôa com desusada ligeireza
+ Onde o teu Bem t'espera, onde te chama.
+ Verás baixa do mundo a mór alteza;
+ Verás qu'engana mais a quem mais ama;
+ E lá do teu Amor, cá suspirado,
+ O fructo colherás tão desejado.
+
+ Em paz te vae, ó alma pura e bella,
+ Mais bella inda no sangue que verteste;
+ Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella
+ Formosa Região, alta e celeste.
+ Coroada de glória immortal, nella
+ Com Christo lograrás, a quem te déste
+ Com tantas e tão bem nascidas almas,
+ (Formosura do Ceo) onze mil palmas.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+COMEDIAS.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+
+DO PROLOGO.
+
+ O MORDOMO, ou DONO DA CASA.
+ MARTIM CHINCHORRO.
+ AMBROSIO, Escudeiro.
+ LANÇAROTE, Moço.
+
+
+DA COMEDIA.
+
+ ELREI SELEUCO.
+ A RAINHA ESTRATONICA.
+ O PRINCIPE ANTIOCHO.
+ LEOCADIO, Pagem do Principe Antiocho.
+ FROLALTA, Criada da Rainha Estratonica.
+ HUM PORTEIRO DA CANA.
+ HUMA MOÇA DA CAMARA.
+ HUM PHYSICO, ou MEDICO.
+ SANCHO, Moço do Physico.
+ ALEXANDRE DA FONSECA, hum dos Musicos.
+
+
+
+ * * * * *
+
+
+ELREI SELEUCO.
+
+COMEDIA.
+
+
+
+
+PROLOGO.
+
+_Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa._
+
+Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quiz
+representar huma Farça; e diz, que por não se encontrar com outras ja
+feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo assi
+arrazoado satisfazer. E diz que quem se della não contentar, querendo
+outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da
+Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em
+casa do Boticario; e não lhe faltará que conte. Porém diz o Autor que
+usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto á obra, se não parecer
+bem a todos, o Autor diz que entende della menos que todos os que lha
+puderem emendar. Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que
+responde com hum dito de hum Philosopho, que diz: _Vós outros estudastes
+para praguejar, e eu para desprezar praguentos?_ Eu com tudo quero saber
+da Farça, em que ponto vai. Lançarote?
+
+MOÇO.
+
+Senhor.
+
+MORDOMO.
+
+São ja chegadas as figuras?
+
+MOÇO.
+
+Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida.
+
+MORDOMO.
+
+Como assi?
+
+MOÇO.
+
+Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com friza, nem talão de
+çapato, que não sahisse fóra do couce. Ora vierão huns embuçadetes, e
+quizerão entrar por fôrça; ei-lo arrancamento na mão: derão huma pedrada
+na cabeça ao Anjo, e rasgárão huma meia calça ao Ermitão; e agora diz o
+Anjo que não ha de entrar, até lhe não darem huma cabeça nova, nem o
+Ermitão até lhe não pôrem huma estopada na calça. Este pantufo se perdeo
+alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que não quero nada do
+alheio.
+
+MORDOMO.
+
+Se elle fôra outra peça de mais valia, tu botáras a consciencia pela
+porta fóra, para o metteres em tua casa.
+
+MOÇO.
+
+Oh! se o elle fôra, mais consciencia sería torná-lo a seu dono, quem o
+havia mister para si.
+
+MORDOMO.
+
+Ora vem cá: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos
+cá Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê para cá, e que traga
+comsigo o Senhor Romão d'Alvarenga, para que sôbre o Canto-chão botemos
+nosso contraponto de zombaria. Ouves, Lançarote? ir-lhe-has abrir a
+porta do quintal, porque mudemos o vinte aos que cuidão de entrar por
+fôrça.
+
+_Indo-se o Moço diz:_
+
+Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma
+bolsa com hum par de reales, que são bons para Escudeiro hypocrita; que
+são pouco, e valem muito?
+
+MORDOMO.
+
+Moço, que estás fazendo que não vás?
+
+MOÇO.
+
+Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fôra aquelle
+tempo, em que corrião as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para
+humas palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste?
+
+MORDOMO.
+
+Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dirá.
+
+_Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moço, e diz o Mordomo:_
+
+Não ha mais mao conselho, que ter hum villão destes mimoso, porque logo
+passão o pé além da mão, e zombão assi da gravidade de seu amo. Mas
+tornando ao que importa; vossas mercês he necessario que se cheguem huns
+para os outros, para darem lugar aos outros Senhores que hão de vir; que
+de outra maneira, se todo o corro se ha de gastar em palanques, será bom
+mandar fazer outro alvalade; e mais, que me hão de fazer mercê, que se
+hão de desembuçar, porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer
+mal: este só desgôsto tee hum Auto, que he como offício de Alcaide; ou
+haveis deixar entrar a todos, ou vos hão de ter por villão ruim.
+
+_Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro Ambrosio, e diz:_
+
+MARTIM.
+
+Entre v. m.
+
+AMBROSIO.
+
+Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou
+diante. Beijo as mãos a v. m. A verdade he esta, passear em casa
+juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; além
+disto Auto para esgaravatar os dentes: esta he a vida, de que se ha de
+fazer consciencia.
+
+MORDOMO.
+
+Senhor, o descanso dizem lá, que se ha de ter em quanto homem puder,
+porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu
+nome he.
+
+MARTIM.
+
+Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho
+traz mais somno comsigo que huma prégação comprida.
+
+MORDOMO.
+
+Senhor, por bom mo vendêrão, e eu o tomei á cala de sua boa fama. E se
+tal he, eu acho que, por outra parte, não ha tal vida, como ouvir hum
+villão, que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que huma
+pera-pão, e huma donzella, que vem podre de amor, fallando como
+Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.
+
+MARTIM.
+
+Para estes taes he grande peça rapaz travesso com mólho de junco, porque
+não andem mais ao coscorrão, mais roucos que huma cigarra, trazendo de
+si enfadamento.
+
+MOÇO.
+
+O lá Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro.
+Ora sus, ha hi quem dê mais? que ainda vos veja todas a mim ás
+rebatinhas: ora sus, venhão de mano em mano, ou de mana em mana.
+
+MORDOMO.
+
+Moço, falla bem ensinado.
+
+MOÇO.
+
+Senhor, não faz ao caso; que os erros por amores tee privilegio
+de Moedeiro.
+
+AMBROSIO.
+
+Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito por entrar.
+
+MOÇO.
+
+Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão.
+
+AMBROSIO.
+
+Oh que salgado moço! Zombas de mi? Vem cá. Donde es natural?
+
+MOÇO.
+
+Donde quer que me acho.
+
+AMBROSIO.
+
+Pergunto-te onde nasceste.
+
+MOÇO.
+
+Nas mãos das parteiras.
+
+AMBROSIO.
+
+Em que terra?
+
+MOÇO.
+
+Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida
+daquella hora, que não havia palmo de terra nella.
+
+MARTIM.
+
+Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para
+ver com que disparate respondes.
+
+MOÇO.
+
+A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio.
+
+MARTIM.
+
+Vem cá. De teu tio! E isso como?
+
+MOÇO.
+
+Como? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não entendem. Meu
+pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamão aos filhos sobrinhos; e
+daqui me ficou a mi ser filho de meu tio.
+
+MARTIM.
+
+Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este?
+
+MORDOMO.
+
+Aqui me veio ás mãos sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e
+mais tee outra cousa, que huma trova fa-la tão bem como vós, ou como
+eu, ou como o Chiado.
+
+AMBROSIO.
+
+Não! quanté disso nós havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto
+se vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este?
+
+MORDOMO.
+
+Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste á moça Briolanja, por amor
+de mi!
+
+MOÇO.
+
+Senhor, si, direi; mas aquella trova não he senão para quem a entender.
+
+MARTIM.
+
+Como! Tão escura he ella?
+
+MOÇO.
+
+Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu não sei escrever
+senão com carvão; e porém diz assi:
+
+ Por amor de vós, Briolanja,
+ Ando eu morto,
+ Pezar de meu avô torto.
+
+MARTIM.
+
+Oh como he galante! Que descuido tão gracioso! Mas vem cá: que culpa te
+tee teu avô nos desfavores que te tua dama dá?
+
+MOÇO.
+
+Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, não pezarei eu antes dos
+meus parentes, que dos alheios?
+
+MORDOMO.
+
+Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de gavetas, que
+trombeta de Serenissimo de la Valla.
+
+MOÇO.
+
+A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de
+mergulho a entenderão. E por isso mandem assoar os engenhos, e metão
+mais huma sardinha no entendimento; e póde ser que com esta servilha lhe
+calçará melhor: e todavia palra assi:
+
+ Vossos olhos tão daninhos
+ Me tratárão de feição,
+ Que não ha em meu coração
+ Em que atem dous reis de cominhos.
+ Meu bem anda sem focinhos
+ Por vós morto,
+ Pezar de meu avô torto.
+
+MARTIM.
+
+Ora bem: que tee de ver os cominhos com o teu coração?
+
+MOÇO.
+
+Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedella, não
+se podem comer senão com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era
+tendeira; e este he o verdadeiro entendimento.
+
+MARTIM.
+
+E aquella regra que diz, _Meu bem anda sem focinhos_, me dá tu a
+entender; que ella não dá nada de si.
+
+MOÇO.
+
+Nunca vossas mercês ouvirão dizer: _Meu bem e meu mal lutárão hum dia;
+meu bem era tal, que meu mal o vencia?_ Pois desta luta foi tamanha a
+quéda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por
+ficarem tão esfarrapados, que lhe não podião botar pedaço; por conselho
+dos Physicos lhos cortárão por lhe nelles não saltarem erpes; e daqui
+ficou: _Meu bem anda sem focinhos_, como diz o texto.
+
+AMBROSIO.
+
+Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por dia de S. Nicolao.
+
+MARTIM.
+
+Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natural para Logico.
+
+MOÇO.
+
+Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas não tão fria como vossas mercês.
+
+MORDOMO.
+
+Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por
+baixo desta mesa, e ouçamos este Representador, que vem mais amarrotado
+dos encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira
+da arca de cedro.
+
+MARTIM.
+
+Senhor, elle parece que aprende a cirurgião.
+
+AMBROSIO.
+
+Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos
+verdes.
+
+MORDOMO.
+
+Emfim, parece figura de Auto em verdade.
+
+_Entra o Representador._
+
+ He lei de direito, assaz verdadeira,
+ Julgar por si mesmos aquillo que vem;
+ Peloque, se cuidão que zombo de alguem,
+ Eu cuido que zombão da mesma maneira.
+
+E assi a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum conhecer seu
+proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me esquece o
+dito todo de ponto em claro: mas não sou de culpar, porque não ha mais
+que tres dias que mo derão. Mas em breves palavras direi a vossas mercês
+a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo até á ponta. Entrarão logo
+primeiramente quinze donzellas que vão fugidas de casa de seus paes, e
+vão com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos,
+metidos em hum covão, cantando: _Quem os amores tee em Cintra_; e
+despois de cantarem farão huma dança de espadas; cousa muito para ver:
+entra mais ElRei Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo
+Catharina Real com huns poucos de parvos n'huma joeira; e semeá-los-ha
+pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o
+Auto, com musica de chocalho e buzinas, que Cupido vem dar a huma
+alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-hão vossas mercês cada hum para suas
+pousadas, ou consoarão cá comnosco disso que ahi houver. Parece-me que
+nenhum diz que não. Ora pois ficareis _in vanum laboraverunt_, porque
+atégora zombei de vós, por me forrar do êrro da representação, como quem
+diz, _digo-to, antes que mo digas._
+
+AMBROSIO.
+
+Ora vos digo, Senhores, que se as figuras são todas taes, que acertarião
+em errar os ditos; aindaque me parece que este o não fez, senão a ser
+mais galante. Mas se assi he, ella he a melhor invenção que eu vi;
+porque jagora representações, todas he darem por praguentos; e são tão
+certas, que he melhor errá-las, que acertá-las.
+
+MORDOMO.
+
+Parece-me que entrão as figuras de siso: vejamos se são tão galantes na
+prática, como nos vestidos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+_Entra El Rei Seleuco, com a Rainha Estratonica._
+
+REI.
+
+ Senhora, desque a ventura
+ Me quiz dar-vos por mulher,
+ Me sinto emmeninecer;
+ Porqu'em vossa formosura
+ Perde a velhice seu ser.
+ Hum homem velho, cansado,
+ Não tee fôrça, nem vigor,
+ Para em si sentir amor:
+ Se não he qu'estou mudado
+ Com ser vosso n'outra côr.
+ Muito grande dita tem
+ A mulher que he formosa.
+
+RAINHA.
+
+ Senhor, grande: mas porém
+ Se a tal he virtuosa,
+ Quer-lhe a ventura mor bem.
+
+REI.
+
+ Si, mas porém nunca vemos
+ A natureza esmerar
+ Adonde haja que taxar;
+ Que quando ella faz extremos,
+ Em tudo quer-se extremar.
+ Eu fallo como quem sente
+ Em vós está calidade,
+ Pelo que vejo presente;
+ E se me esta mostra mente,
+ Mente-me a mesma verdade.
+ Huma só tristeza tenho
+ Que não tee a meninice,
+ Que no mor contentamento
+ O trabalho da velhice
+ Me embaraça o sentimento.
+
+RAINHA.
+
+ Senhor, novidades tais
+ Far-me-hão crer de verdade...
+
+REI.
+
+ Novidades lhe chamais!
+ Folgo, Senhora, que achais
+ Na velhice novidades.
+
+RAINHA.
+
+ Senhor, dias ha que sento
+ Em o Principe Antiôcho
+ Certo descontentamento:
+ Dera alguma cousa a trôco
+ Por saber seu sentimento.
+ Vejo-lhe amarello o rosto,
+ Ou de triste, ou de doente:
+ Ou elle anda mal disposto,
+ Ou lá tee certo desgôsto
+ Que o não deixa ser contente.
+ Mande, Senhor, vossa Alteza
+ A chamá-lo por alguem,
+ Saberemos que mal tem,
+ Se he doença de tristeza,
+ De que nasce, ou de que vem.
+
+REI.
+
+ Certo qu'eu me maravilho
+ Do que vos ouço dizer.
+ Que mal póde nelle haver?
+ Ide dizer a meu filho
+ Que me venha logo ver.
+
+RAINHA.
+
+ Se curar não se procura
+ Huma cousa destas tais,
+ Vem despois a crescer mais.
+ Quando ja não se acha cura,
+ Toda a cura he por demais.
+
+_Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome Leocadio._
+
+PRINCIPE.
+
+ Leocadio, se es avisado,
+ E não te falta saber,
+ Saber-me-has dar a entender,
+ Quem ama desesperado,
+ Que fim espera de haver?
+
+PAGEM.
+
+ Senhor, não.
+ Mas porém porque razão
+ Lhe avem sabê-lo, ou de que?
+
+PRINCIPE.
+
+ Pergunto-te a conclusão;
+ Não me perguntes porque.
+ Porque he minha pena tal,
+ E de tão estranho ser,
+ Que me hei de deixar morrer;
+ E por não cuidar no mal
+ O não ouso de dizer.
+ Que maneira de tormento
+ Tão estranho e evidente,
+ Que nem cuidar se consente!
+ Porque o mesmo pensamento
+ Ha medo do mal que sente.
+
+PAGEM.
+
+ Não entendo a Vossa Alteza.
+
+PRINCIPE.
+
+ Assi importa á minha dor.
+
+PAGEM.
+
+ E porque razão, Senhor?
+
+PRINCIPE.
+
+ Para que seja a tristeza
+ Castigo do meu temor.
+ Porque ordena
+ O Amor, que me condena,
+ Que se haja de sentir,
+ E sem dizer nem ouvir.
+ Bem-aventurada a pena
+ Que se póde descobrir!
+ Oh caso grande e medonho!
+ Oh duro tormento fero!
+ Verdade he isto, qu'eu quero?
+ Não he verdade, mas sonho
+ De que acordar não espero.
+ Quero-me chegar a ElRei
+ Meu pae, que ja m'está vendo.
+ Mas onde vou? Não m'entendo.
+ Com que olhos eu olharei
+ Hum pae, a quem tanto offendo?
+ Que novo modo de antolhos!
+ Porque neste atrevimento
+ Devêra meu sentimento
+ Para elle não ter olhos,
+ Nem para ella pensamento.
+
+_Chega aonde está ElRei, e diz:_
+
+REI.
+
+ Filho, como andais assi?
+ Que tanto desgôsto tomo
+ De vos ver como vos vi!
+
+PRINCIPE.
+
+ Não sei eu tanto de mi,
+ Que possa saber o como.
+ Dias ha ja, Senhor, que ando
+ Mal disposto, sem saber
+ Este mal que possa ser;
+ Que se nelle estou cuidando,
+ Quasi me vejo morrer.
+
+REI.
+
+ Pois, filho, será razão
+ Que meus Physicos vos vejão.
+
+PRINCIPE.
+
+ Os Physicos, Senhor, não;
+ Que os males qu'em mi estão,
+ São curas que me sobejão.
+
+RAINHA.
+
+ Deite-se; que na verdade
+ Hum corpo, deitado e manso,
+ Descansa á sua vontade.
+
+PRINCIPE.
+
+ Senhora, esta enfermidade
+ Não se cura com descanso.
+
+RAINHA.
+
+ Todavia, bom será
+ Que lhe fação huma cama.
+
+PRINCIPE.
+
+ (Hum coxim abastará,
+ Que assi não descansará
+ O repouso de quem ama.)
+
+REI.
+
+ Vamos, filho, para dentro,
+ Em quanto a cama se faz:
+ Repousae como capaz;
+ Que a mi me dá cá no centro
+ A pena que assi vos traz.
+
+_Vão-se, e vem huma moça a fazer a cama e diz:_
+
+MOÇA.
+
+ Mimos de grandes Senhores,
+ E suas extremidades,
+ Me hão de matar de amores,
+ Porque de meros dulçores
+ Adoecem.
+ Então logo lhes parecem
+ Aos outros, que são mamados;
+ E os que são mais privados,
+ Sôbre elles estremecem.
+ Certo (e assi Deos me ajude!)
+ Que são muito graciosos,
+ Porque de meros viçosos,
+ Não podem com a saude.
+ Mas deixallos,
+ Porque elles darão nos vallos,
+ Donde mais não se erguerão,
+ Inda que lhe dem a mão
+ Os seus privados vassallos.
+
+_Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e diz:_
+
+PORTEIRO.
+
+ Traz, traz.
+
+MOÇA.
+
+ Jesu! Quem'stá ahi?
+
+PORTEIRO.
+
+ Ja vós, mana, ereis mamada:
+ Para vos levar furtada
+ Nunca tal ensejo vi.
+ E vós estais descuidada!
+
+MOÇA.
+
+ E meus descuidos que fazem?
+
+PORTEIRO.
+
+ Vossos descuidos? cadella!
+ Ah minh'alma! Sois tão bella,
+ Qu'esses descuidos me trazem
+ Dous mil cuidados á vela.
+ Pois sou vosso ha tantos annos,
+ Mana, tirae os antolhos,
+ E vereis meus tristes dannos.
+
+MOÇA.
+
+ Não tenhais esses enganos.
+
+PORTEIRO.
+
+ Nem vós tenhais esses olhos;
+ Que de vossos olhos vem
+ Esta minha pena fera.
+
+MOÇA.
+
+ De meus olhos? Assim era.
+
+PORTEIRO.
+
+ Moça, que taes olhos tem,
+ Nenhuns olhos ver devêra.
+
+MOÇA.
+
+ E porque?
+
+PORTEIRO.
+
+ Porque cegais
+ A quantos olhos olhais,
+ Postoque por vós padecem.
+ Olhos, que tão bem parecem,
+ Porque não os castigais?
+
+MOÇA.
+
+ Deos dê siso, pois de vós
+ Tirou o que aos outros deu.
+
+PORTEIRO.
+
+ Desatae-me lá esses nós.
+ Que mais siso quero eu,
+ Que não ter siso por vós?
+
+MOÇA.
+
+ Fallais d'arte; eu vos prometo
+ Que a resposta vem á vela.
+ Isso he ôlho de panella.
+ Quanto ha ja que sois discreto?
+
+PORTEIRO.
+
+ Quanto ha ja que vós sois bella?
+
+MOÇA.
+
+ Dais-me logo a entender
+ Que eu sou feia, a meu ver.
+
+PORTEIRO.
+
+ E isso porque o entendeis?
+
+MOÇA.
+
+ Porque? Porque me dizeis
+ Que só de meu parecer
+ Vos procede o que sabeis.
+
+PORTEIRO.
+
+ He verdade.
+
+MOÇA.
+
+ Pois bem sento
+ Que o vosso saber he vento.
+ Fica a cousa declarada,
+ Meu parecer não ser nada.
+
+PORTEIRO.
+
+ Olhae aquelle argumento:
+ Além de bella, avisada!
+ Oh nem tanto, nem tão pouco!
+ Vêde vós o que fallais.
+
+MOÇA.
+
+ Cego no saber andais.
+
+PORTEIRO.
+
+ No siso, mas não tão louco
+ Como vós, mana, cuidais.
+ Ora dizei, duna má:
+ Que não amais, quem vos ama?
+
+MOÇA.
+
+ Ouvistes vós cantar ja,
+ _Velho malo, em minha cama?_
+ Ja m'entendereis.
+
+PORTEIRO.
+
+ Ha, ha.
+ Senhora, estais enganada;
+ Que com huma capa e espada,
+ E com este capuz fóra...
+
+MOÇA.
+
+ Ora bem: tirae-o ora,
+ E fazei huma levada.
+
+PORTEIRO.
+
+ Não: se m'eu hoje alvoróço,
+ Achar-me-heis d'outra feição.
+
+_Aqui tira o capuz e diz:_
+
+PORTEIRO.
+
+ Tenho má disposição?
+ Estas obras são de moço,
+ Se as mostras de velho são.
+
+MOÇA.
+
+ Tendes mui gentis meneios.
+
+PORTEIRO.
+
+ Não, Senhora; faço extremos.
+
+MOÇA.
+
+ Passeae ora, veremos
+ Se tendes tão bons passeios.
+
+PORTEIRO.
+
+ Tudo, Senhora, faremos.
+
+MOÇA.
+
+ Virae ora a essoutra mão.
+
+PORTEIRO.
+
+ Esta disposição vêde-a;
+ Que tenho gentil feição.
+
+MOÇA.
+
+ Tendes vós mui boa redea.
+ Soffreis ancas?
+
+PORTEIRO.
+
+ Isso não.
+
+MOÇA.
+
+ Por certo que tendes graça
+ Em tudo quanto fizerdes.
+ Fazei mais o que souberdes.
+
+PORTEIRO.
+
+ Não sei cousa que não faça,
+ Senhora, por me quererdes.
+
+MOÇA.
+
+ Tendes vós muito bom ar.
+
+PORTEIRO.
+
+ Mais qu'isto faz quem quer bem.
+
+MOÇA.
+
+ I-vos asinha, que vem
+ O Principe a se deitar.
+
+PORTEIRO.
+
+ Nunca huma pessoa tem
+ Hum'hora para fallar!
+
+_Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e diz:_
+
+PRINCIPE.
+
+ Seja a morte apercebida,
+ Porque ja o Amor ordena
+ A dar a meu mal sahida;
+ Porque o fim da minha vida
+ O seja da minha pena.
+ Não tarde, para tomar
+ Vingança de meu querer,
+ Pois não se póde dizer
+ Que não tee ja que esperar,
+ Nem com que satisfazer?
+ Os Physicos vem e vão,
+ Sem saberem minhas mágoas,
+ Nem o pulso me acharão;
+ E se o querem ver nas ágoas,
+ As dos olhos lho dirão.
+ Se com sangrias tambem
+ Procurão ver-me curado;
+ O temor de meu cuidado
+ O mais do sangue me tem
+ Nas veias todo coalhado.
+ Quero-me aqui encostar,
+ Que ja o esprito me cae.
+ Leocadio, vae-me chamar
+ Os Musicos de meu Pae;
+ Folgarei de ouvir cantar.
+
+_Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo assi:_
+
+PRINCIPE.
+
+ Senhora, qual desatino
+ Me trouxe a tanta tristura?
+ Foi, Senhora, por ventura
+ A fôrça do meu destino,
+ Como vossa formosura?
+ Bem conheço que não posso
+ Ter tão alto pensamento;
+ Mas disto só me contento,
+ Que se paga com ser vosso
+ O mor mal de meu tormento.
+
+_Entrão os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum delles:_
+
+ALEXANDRE.
+
+ Senhor, de que se acha mal
+ O Principe, ou que mal sente?
+
+PAGEM.
+
+ Senhor, sei que está doente;
+ Mas sua doença he tal,
+ Qu'entender se não consente.
+ Os Physicos vem e vão,
+ Huns e outros a meude,
+ Sem o poderem dar são.
+ Quanto mais cura lhe dão,
+ Então tee menos saude.
+ O Pae anda em sacrificios
+ Aos deoses, que lhe dem
+ A saude que convem;
+ Dizendo que por seus vicios
+ O mal a seu filho vem.
+ Eu suspeito qu'isto são
+ Alguns novos amorinhos,
+ Que tera no coração.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Amores! com quem serão,
+ Que lhe não dem de focinhos?
+
+PORTEIRO.
+
+ Senhores, que lhe parece
+ Da doença de Antiôcho?
+
+ALEXANDRE.
+
+ Diga-lha quem lha conhece.
+
+PAGEM.
+
+ Que toma morrer a trôco
+ De callar o que padece.
+
+PORTEIRO.
+
+ Isso he estar emperrado
+ Na doença; que he peor.
+ Tee-no os Physicos curado?
+
+ALEXANDRE.
+
+ Oh! que de mal del amor
+ No ha, Señor, sanador.
+
+PORTEIRO.
+
+ Fallais como exprimentado;
+ Qu'eu cuido que esta fadiga,
+ Que o faz com que desespere;
+ Y por mas tormento quiere
+ Que se sienta, y no se diga.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Pois, Senhor meu, isso asselle,
+ Porque a pena, que sabeis,
+ Que eu cuido que está nelle,
+ Dar-lhe-ha penas crueis,
+ Pues no hay quien la consuele.
+
+PORTEIRO.
+
+ Folgo, porque m'entendeis.
+
+PAGEM.
+
+ Hemo-nos, Senhores, de ir,
+ Porque nos está 'sperando.
+
+PORTEIRO.
+
+ Pois eu tambem hei de ir;
+ Que não me posso espedir
+ Donde vejo estar cantando.
+
+PRINCIPE.
+
+ Cantae, por amor de mi,
+ Alguma cantiga triste;
+ Que todo meu mal consiste
+ Na tristeza em que me vi.
+
+PORTEIRO.
+
+ Mande-lhe cantar hum chiste.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Chiste não, que he deshonesto,
+ E não tee esses extremos:
+ Outro canto mais modesto;
+ Porém não sei que diremos.
+
+PAGEM.
+
+ Gaoleão o dirá presto.
+
+PORTEIRO.
+
+ Dá licença V. Alteza
+ Que diga minha tenção?
+
+PRINCIPE.
+
+ Dizei: seja em canto-chão.
+
+PORTEIRO.
+
+ Pois crede qu'he subtileza.
+ Qu'os Anjos a comerão.
+ Digão esta:
+ _Enforquei minha esperança,
+ E o Amor foi tão madraço,
+ Que lhe cortou o baraço._
+
+ALEXANDRE.
+
+ Não me parece essa boa.
+
+PORTEIRO.
+
+ Haja eu perdão,
+ Porque não a entenderão.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Entender!
+
+PORTEIRO.
+
+ Bofé qu'he boa:
+ Não lhe cahis na feição?
+
+ALEXANDRE.
+
+ Dizei ora outra melhor,
+ Com que nos atarraqueis.
+
+PORTEIRO.
+
+ Ora esperae, e ouvireis:
+ Se a esta não dais louvor,
+ Quero que me degolleis.
+
+Cantiga.
+
+ Com vossos olhos Gonçalves,
+ Senhora, captivo tendes
+ Este meu coração Mendes.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Essa parece mui taibo,
+ Porque mostra bom indicio.
+
+PORTEIRO.
+
+ Vós cuidareis qu'eu que raivo.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Todavia tee mao saibo.
+ Ora mal lhe corre o offício.
+
+PRINCIPE.
+
+ Tá, não vá mais por diante
+ A zombaria, que he má:
+ Cantae qualquer dellas ja;
+ Qu'esse Porteiro he galante,
+ Ninguem o contentará.
+
+_Aqui cántão, e em acabando, diz o_
+
+PAGEM.
+
+ Parece que adormeceo.
+
+PORTEIRO.
+
+ Pois será bom que nos vamos.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Senhor, quer que nos vejamos?
+
+PORTEIRO.
+
+ Senhor vir-me-ha do ceo:
+ Releva-me que o façamos.
+
+_Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta, e diz:_
+
+RAINHA.
+
+ Frolalta, como ficava
+ Antiôcho em te tu vindo?
+
+FROLALTA.
+
+ Ficava-se despedindo
+ Da vida qu'então levava,
+ E assi seus dias cumprindo.
+
+RAINHA.
+
+ Oh grave caso d'amor!
+ Desesperada affeição!
+ Oh amor sem redempção,
+ Que alli te fazes maior
+ Onde tens menos razão!
+ No mais alto e fundo pégo
+ Alli tens maior porfia:
+ Razão de ti não se fia.
+ Quem a ti te chamou cego,
+ Mui bem soube o que dizia.
+ Por ventura hia chorando?
+
+FROLALTA.
+
+ Chorando hia e chamando
+ Ao Amor, Amor cruel;
+ E em, Senhora, se deitando
+ Lhe cahio este papel.
+
+RAINHA.
+
+ Que papel?
+
+FROLALTA.
+
+ Este, Senhora.
+
+RAINHA.
+
+ Amostra, que quero lê-lo.
+ Agora acabo de crê-lo;
+ Que ao que mostra por fóra,
+ Aqui lhe lançou o sello.
+
+_Aqui lê o papel e diz:_
+
+RAINHA.
+
+ Oh estranha pena fera!
+ Desditosa vida chara!
+ Oh quem nunca cá viera,
+ E com seu Pae não casára,
+ Ou em casando morrêra!
+
+FROLALTA.
+
+ Aindaque eu pêca são,
+ Senhora, tudo bem vejo.
+ Attente, que na eleição
+ O que lhe pede o desejo
+ Não consente o coração.
+
+RAINHA.
+
+ Frolalta, pois qu'es discreta
+ Nada te posso encobrir;
+ Porque, se queres sentir,
+ A huma mulher discreta
+ Tudo se ha de descobrir.
+ O dia qu'entrei aqui,
+ Que a Seleuco recebi,
+ Logo nesse mesmo dia
+ No Principe filho vi
+ Os olhos com que me via.
+ Este principio soffri-lho,
+ Para ver se se mudava;
+ Antes mais se accrescentava:
+ Eu amava-o como filho,
+ E elle d'outr'arte me amava.
+ Agora vejo-o no fim
+ Por se me não declarar.
+ E pois ja que a isso vim,
+ A morte que o levar,
+ Me leve tambem a mim.
+ Porque ja que minha sorte
+ Foi tão crua e desabrida,
+ Que me não quer dar sahida;
+ Sejamos juntos na morte,
+ Pois o não somos na vida.
+ Oh quem me mandou casar,
+ Para ver tal crueldade!
+ Ninguem venda a liberdade,
+ Pois não póde resgatar
+ Onde não tee a vontade.
+ Que não ha mor desvario,
+ Que o forçado casamento
+ Por alcançar alto assento;
+ Que, emfim, todo o senhorio
+ Está no contentamento.
+ Não sei se o vá ver agora,
+ Se será tempo conforme,
+ Ou se imos a deshora.
+
+FROLALTA.
+
+ Despois iremos, Senhora,
+ Que agora dizem que dorme.
+
+_Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:_
+
+PHYSICO.
+
+ Su madrasta oyó nombrar,
+ Y el pulso se le alteró:
+ Esto no entiendo yo,
+ Porque para le alterar
+ El corazon le obligó.
+ Pues que el corazon se altere,
+ Es porque en un momento
+ Algun nuevo vencimiento
+ De aficion terrible le hiere,
+ Que causa tal movimiento.
+ Pues que aficion cabe así
+ Con madrasta? Digo yo,
+ Dos razones hay aqui:
+ La una dice, que sí,
+ La otra dice, que no.
+ Empero yo determino
+ De exprimentar la verdad,
+ Y hacer una habilidad,
+ Que declare es agua, ó vino
+ Esta su enfermedad.
+ Porque toda esta mañana
+ Tengo estudiado su mal,
+ Sin ver causa efectual
+ De su dolencia inhumana,
+ Ni otra de su metal.
+ Llamar quiero este asnejon;
+ Mas aun debe de dormir,
+ Segun que es dormilon.
+ Sancho? ó Sancho?
+
+SANCHO.
+
+ Ah Señor.
+
+PHYSICO.
+
+ Ea, aun estás dormiendo?
+
+SANCHO.
+
+ Estoyme, Señor, vestiendo.
+
+PHYSICO.
+
+ Pues vellaco y sin sabor,
+ No me respondes dormiendo?
+ Vestios presto, ladron.
+ Oh qué mozo, y qué ventura!
+
+SANCHO.
+
+ (Mas qué amo y qué cabron!)
+ Embíeme acá el ropon,
+ Que no hallo mi vestidura.
+
+PHYSICO.
+
+ Que embie el ropon acá?
+ Parece que os desmandais.
+
+SANCHO.
+
+ Que vaya, Señor? ha, ha.
+ Que buenos dias hayais.
+
+_Entra o moço embrulhado em huma manta, e diz:_
+
+PHYSICO.
+
+ Di como vienes así
+ Con la manta, y para qué?
+
+SANCHO.
+
+ Yo, Señor, se lo diré:
+ Por venir presto vestí
+ Lo que mas presto me hallé:
+ Porque viendo que él me llama,
+ Dormiendo yo sin afan,
+ Salté presto de la cama,
+ Que parezco un gavilan,
+ Hermoso como una dama.
+
+PHYSICO.
+
+ Mas es tu bovedad tanta,
+ Que vienes desta facion?
+
+SANCHO.
+
+ De mi vestido se espanta?
+ De noche sirve de manta,
+ Y de dia de ropon.
+
+PHYSICO.
+
+ Embióme ElRey á llamar
+ Otra vez.
+
+SANCHO.
+
+ Y á mí?
+
+PHYSICO.
+
+ Y á ti!
+
+SANCHO.
+
+ Y él qué presta allá sin mí?
+
+PHYSICO.
+
+ Qué puedes tu aprovechar?
+
+SANCHO.
+
+ Yo se lo diré de aqui:
+ Si por la ventura quiere
+ Para que le dé consejo,
+ Cuando doliente estuviere;
+ Digo, coma, si pudiere,
+ Y beba buen vino anejo;
+ Porque este es el licor
+ Que dá fuerza, y es sabroso;
+ Que segun dicen, Señor,
+ _Vinum loetificat cor
+ Hominis_, y le es provechoso.
+
+PHYSICO.
+
+ Ya sabes la medicina,
+ Que Avicena nos refiere.
+
+SANCHO.
+
+ Pues, Señor! porque es divina.
+ Pero ElRey qué le quiere,
+ Qué manda, ó qué determina?
+
+PHYSICO.
+
+ El Principe está doliente.
+
+SANCHO.
+
+ Oh mesquino! Y qué mal ha?
+
+PHYSICO.
+
+ Y á ti, necio, que te vá?
+
+SANCHO.
+
+ O Señor, que es mi pariente!
+
+PHYSICO.
+
+ Gracioso el bovo está.
+ Y pues díme por tu fé:
+ Llorarás si se muriere?
+
+SANCHO.
+
+ No, Señor, no lloraré;
+ Empero, Señor, haré
+ La peor cara que pudiere.
+
+PHYSICO.
+
+ Ea, bovo, vé corriendo,
+ Y ensilla la mula ayna.
+
+SANCHO.
+
+ Véngala ensillar mejor.
+
+PHYSICO.
+
+ Oh velhaco, y sin sabor!
+
+SANCHO.
+
+ Yo por cierto no lo entiendo.
+ Pero una medicina
+ Le he de pedir, Dios queriendo,
+ (Porque ando atribulado,
+ Y no sé parte de mi
+ Con este nuevo cuidado)
+ Para un sayo esfarrapado,
+ Que me dicen hay allí.
+
+PHYSICO.
+
+ Ora ensilla; y nunca viva,
+ Pues sufro tus desatinos.
+
+SANCHO.
+
+ Señor, pasion no reciva:
+ _Ya cavalga Calaínos
+ A la sombra de una oliva._
+
+_Aqui sahe bolindo com a almofaça, e acorda o Principe e diz:_
+
+PRINCIPE.
+
+ Oh bella vista e humana,
+ Por quem tanto mal sostenho!
+ Oh Princeza soberana!
+ Como? nos braços vos tenho,
+ Ou este sonho m'engana?
+ Pois como, sonho, tambem
+ Me queres vir magoar?
+ E para me atormentar
+ Mostras-me a sombra do bem
+ Para assi mais m'enganar?
+ Assi que, com quanto canso,
+ Ja não posso achar atalho,
+ Pois que o somno quieto e manso,
+ Que os outros tee por descanso,
+ Me vem a mi por trabalho.
+ Pois ha hi tantos enganos
+ Que condemnão minha sorte;
+ Não o tenho ja por forte,
+ Se á volta de tantos danos
+ Viesse tambem a morte.
+
+_Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:_
+
+REI.
+
+ Andae e vêde se achais
+ O rasto deste segredo,
+ Que me dizem que alcançais;
+ Ainda que tenho medo
+ Que lhe seja por demais.
+
+PHYSICO.
+
+ Plega á Dios que aqueste sea
+ Para salud y remedio
+ Desta dolencia tan fea.
+ Yo buscaré todo el medio,
+ Que presto sano se vea.
+
+_Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:_
+
+PHYSICO.
+
+ Aflojen, Señor, sus ais.
+ Como se halla en su penar?
+
+PRINCIPE.
+
+ Como me acho perguntais?
+ E como se póde achar
+ Quem sempre se perde mais?
+
+PHYSICO.
+
+ (La respuesta abre el camino.)
+ Imagina de contino?
+
+PRINCIPE.
+
+ Não tenho outro mantimento,
+ Nem outro contentamento,
+ Senão o em que imagino.
+
+_Aqui entra a Rainha e diz:_
+
+RAINHA.
+
+ Como se sente, Senhor?
+ Tee a febre mais pequena?
+
+PRINCIPE.
+
+ Responda-lhe minha pena.
+
+PHYSICO.
+
+ (Conocido es su dolor.
+ Ora sea en hora buena,
+ Tomada está la tristeza
+ Á las manos.) Qué sentió?
+ (Usaré de subtileza.)
+
+_Diz contra ElRei:_
+
+ Cúmpleme que solo yo
+ Platique con Vuestra Alteza.
+
+REI.
+
+ Cheguemos-nos para cá.
+
+RAINHA.
+
+ Não deve desesperar,
+ Qu'em fim, se bem attentar,
+ Para tudo o tempo dá
+ Tempo para se curar.
+
+PRINCIPE.
+
+ Que cura poderá ter
+ Quem tee a cura, Senhora,
+ No impossivel haver?
+
+RAINHA.
+
+ Ficae-vos, Senhor, embora,
+ Que vos não sei responder.
+
+_Vai-se a Rainha, e diz ElRei:_
+
+REI.
+
+ Neste mal, que não comprendo,
+ Que meio dais de conselho?
+
+PHYSICO.
+
+ Señor, nada entiendo dello;
+ Y supuesto que lo entiendo,
+ Yo quisiera no entendello.
+
+REI.
+
+ Porque?
+
+PHYSICO.
+
+ Porque he entendido
+ Lo mas malo de entender,
+ Para lo que puede ser,
+ Porque anda, Señor, perdido
+ De amores por mi muger.
+
+REI.
+
+ Santo Deos! que! tal amor
+ Lhe dá doença tão fera!
+ Que remedio achais melhor?
+
+PHYSICO.
+
+ Forçado será que muera,
+ Porque no muera mi honor.
+
+REI.
+
+ Pois como! a hum só herdeiro
+ Deste Reino não dareis
+ Vossa mulher, pois podeis;
+ Que tudo faz o dinheiro?
+ Pois este não o engeiteis;
+ Dae-lha, porque eu espero
+ De vos dar dinheiro e honra,
+ Quanto eu para elle quero.
+
+PHYSICO.
+
+ No tira el mucho dinero
+ La mancha de la deshonra.
+
+REI.
+
+ Ora bem pouco defeito!
+ He pequice conhecida,
+ Quando deixa de ser feito;
+ Porque com elle dais vida
+ A quem vos dara proveito.
+
+PHYSICO.
+
+ Cuan facilmente aporfia
+ Quien en tal nunca se vió!
+ Del consejo que me dió,
+ Vuestra Alteza que haria
+ Si agora fuese yo?
+
+REI.
+
+ A mulher que eu tivesse
+ Dar-lha-hia. Oxalá
+ Que elle a Rainha quizesse!
+
+PHYSICO.
+
+ Pues déla, si le parece,
+ Que por ella muerto está.
+
+REI.
+
+ Que me dizeis?
+
+PHYSICO.
+
+ La verdad.
+
+REI.
+
+ Sem dúvida, tal sentistes?
+
+PHYSICO.
+
+ Sin duda, sin falsedad.
+ Pues, Señor, ahora tomad
+ Los consejos que me distes.
+
+REI.
+
+ Certamente, qu'eu o via
+ Em tudo quanto fallava.
+ Como o vistes? porque via?
+
+PHYSICO.
+
+ Nel pulso, que se alterava
+ Si la via, ó si la oia.
+
+REI.
+
+ Que maneira ha de haver?
+ Qu'eu certo me maravilho,
+ Possa mais o amor do filho,
+ Do que póde o da mulher.
+ Finalmente hei-lha de dar,
+ Que a ambos conheço o centro.
+ Quero-o ir alevantar,
+ E iremos para dentro
+ Neste caso praticar.
+
+_Diz contra o Principe:_
+
+ Levantae-vos, filho, d'hi
+ O melhor que vós puderdes,
+ E vindo-vos para aqui;
+ Porque, emfim, o que quizerdes
+ Tudo havereis de mi.
+
+PAGEM.
+
+ Ah Senhores, oulá, ou?
+
+PORTEIRO.
+
+ Viestes em conjunção
+ A melhor que póde ser:
+ Haveis aqui de fazer
+ A tosquia a hum rifão.
+
+PAGEM.
+
+ Deixae-me, Senhor, dizer:
+ Haveis isto de acabar,
+ Coração, hi bugiar,
+ No esteis preso en cadenas,
+ Que pois o amor vos deo penas,
+ Que vos lanceis a voar.
+
+PORTEIRO.
+
+ Por certo que bem comprou.
+
+PAGEM.
+
+ Ora sabeis o que vai?
+ Antiocho que casou
+ Com a mulher de seu Pai,
+ E o mesmo Pae o ordenou.
+
+PORTEIRO.
+
+ Isso como?
+
+PAGEM.
+
+ Não o sei;
+ Porque dizem que a amava,
+ E que só por ella andava
+ Para morrer; e ElRei
+ Deo-a a quem a desejava.
+
+PORTEIRO.
+
+ Se o casa por querer bem
+ Com a moça, a quem elle ama,
+ Direi eu que a mim me inflama
+ O amor mais que a ninguem.
+
+PAGEM.
+
+ Pois pedi-lhe a nossa dama.
+
+PORTEIRO.
+
+ Por São Gil, que ei-los cá vem,
+ Elle pela mão com ella.
+
+_Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mão, e diz:_
+
+REI.
+
+ Que mais ha hi que esperar?
+ Olhae qu'estranheza vai!
+ O muito amor ordenar,
+ Ir-se o filho namorar
+ D'huma mulher de seu Pai!
+ Querer bem foi sua dor,
+ Negar-lha será crueldade;
+ Assi que ja foi bondade
+ Usar eu de tal amor,
+ E de tal humanidade.
+ Ella deixou de reinar
+ Como fazia primeiro
+ Por se com elle casar;
+ E por amor verdadeiro
+ Tudo se póde deixar.
+ Eu que nella tinha pôsto
+ Todo o bem de meu cuidado,
+ Deixei mais que ella ha deixado;
+ Que mais se deixa no gôsto,
+ Que no poderoso estado.
+ Mas ja que tudo isto vemos,
+ Hajão festas de prazer,
+ As que melhor possão ser;
+ Porqu'em tão grandes extremos,
+ Extremos se hão de fazer.
+ Hajão cantos para ouvir,
+ Jogos, prazeres sem fundo;
+ Porque, se quereis sentir,
+ Deste modo entrou o mundo,
+ E assi ha de sahir.
+
+_Aqui vem os Musicos e cántão, e depois de cantarem, sahem-se todas as
+figuras, e diz_
+
+MARTIM CHINCHORRO.
+
+Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos;
+ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor
+festa que póde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das
+figuras nos acolheremos. Moço, accende esse mólho de cavacos, porque faz
+escuro, não vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço
+e as canastras.
+
+ESTACIO DA FONSECA.
+
+Não, Senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par de tições na
+mão; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvão-se desta
+pousada; e não tenhão isto por palavras, porque essas e plumas, o vento
+as leva.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+OS AMPHITRIÕES,
+
+COMEDIA.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+ AMPHITRIÃO.
+ ALCMENA, sua mulher.
+ CALLISTO.
+ FELISEO.
+ SOSEA, moço de Amphitrião.
+ BROMIA, sua criada.
+ BELFERRÃO, Patrão.
+ AURELIO, Primo de Alcmena.
+ HUM MOÇO DE AURELIO.
+ JUPITER.
+ MERCURIO.
+
+
+OS AMPHITRIÕES,
+
+COMEDIA.
+
+
+
+
+ACTO PRIMEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e Bromia._
+
+ALCMENA.
+
+ Ah Senhor Amphitrião,
+ Onde está todo meu bem!
+ Pois meus olhos vos não vem,
+ Fallarei co'o coração,
+ Que dentro n'alma vos tem.
+ Ausentes duas vontades,
+ Qual corre mores perigos,
+ Qual soffre mais crueldades,
+ Se vós entre os inimigos,
+ Se eu entre as saudades?
+ Que a ventura, que vos traz
+ Tão longe de vossa terra,
+ Tantos desconcertos faz,
+ Que se vos levou á guerra,
+ Não me quiz leixar em paz.
+ Bromia, quem com vida ter,
+ Da vida ja desespera,
+ Que lhe poderás dizer?
+
+BROMIA.
+
+ Que nunca se vio prazer,
+ Senão quando não se espera.
+ E por tanto não devia
+ De ter triste a phantasia;
+ Porque Vossa Mercê creia,
+ Que o prazer sempre salteia
+ Quem delle mais desconfia.
+ Eu tenho no coração,
+ Do Senhor Amphitrião
+ Venha hoje alguma nova:
+ Não receba alteração,
+ Que a verdadeira affeição
+ Na longa ausencia se prova.
+
+ALCMENA.
+
+ Dizei logo a Feliseo
+ Que chegue muito apressado
+ Ao caes, e busque mêo
+ De saber se algum recado
+ Do porto Persico vêo:
+ E mais lhe haveis de dizer,
+ (Isto vos dou por offício)
+ D'alguma nova saber,
+ Em quanto eu vou fazer
+ Aos Deoses o sacrificio.
+
+
+SCENA II.
+
+BROMIA.
+
+ Saudades de minh'ama,
+ Chorinhos e devoções,
+ Sacrificios e orações,
+ Me hão de lançar n'huma cama,
+ Certamente.
+ Nós mulheres de semente
+ Somos sedenho mui tosco:
+ Com qualquer vento que vente,
+ Queremos forçadamente
+ Que os Deoses vivão comnosco.
+ Quero Feliseo chamar,
+ E dizer-lhe aonde ha de ir.
+ Mas elle como me vir,
+ Logo ha de querer rinchar,
+ De travesso.
+ Eu que de zombar não cesso,
+ Por ficar com elle em salvo,
+ Lanço-lhe hum e outro remêsso;
+ Aos seus furto-lhe o alvo;
+ E então elle fica avesso.
+ Porque o melhor destas danças,
+ Com huns vindiços assi,
+ He trazê-los por aqui
+ Ó cheiro das esperanças,
+ Por viver.
+ Ha-os homem de trazer
+ Nos amores assi mornos,
+ Só para ter que fazer;
+ E despois ao remetter
+ Lançar-lhe a capa nos cornos.
+ Feliseo, se estais á mão,
+ Chegae cá, vem como hum gamo:
+ Bem sei que não chamo em vão.
+
+
+SCENA III.
+
+_Feliseo e Bromia._
+
+FELISEO.
+
+ Chamais-me? tambem vos chamo;
+ Porém eu ouço, e vós não:
+ Senhora, que me matais,
+ Se vós ja nunca me ouvis,
+ Ou me ouvis, e vos callais,
+ Dizei: porque me chamais
+ Se me vós a mim fugis?
+
+BROMIA.
+
+ Eu vos fujo?
+
+FELISEO.
+
+ Fugis, digo,
+ De dar a meus males cabo.
+
+BROMIA.
+
+ Sabei que desse perigo
+ Não fujo como de imigo,
+ Fujo como do diabo.
+
+FELISEO.
+
+ Dae ao demo essa tenção,
+ Usae antes de cortês,
+ Cahi vós nesta razão.
+
+BROMIA.
+
+ Do p'rigo fogem os pés,
+ Do diabo o coração.
+
+FELISEO.
+
+ Dizeis-me que nessa briga
+ Do meu coração fugis.
+
+BROMIA.
+
+ Ainda qu'eu isso diga...
+
+FELISEO.
+
+ Ah minha doce inimiga!
+ Bem sinto que me sentis.
+ Mas para que me chamais?
+
+BROMIA.
+
+ Manda-vos minha Senhora
+ Que chegueis daqui ao cais,
+ E algumas novas saibais
+ D' Amphitrião nesta hora.
+
+FELISEO.
+
+ Quem as não sabe de si,
+ D'outrem como as sabera?
+
+BROMIA.
+
+ Não as sabeis vós de mi.
+
+FELISEO.
+
+ Má trama venha por ti,
+ Duna feiticeira má!
+ Porque não me ólhas direito,
+ Cadella, que assi me cortas?
+
+BROMIA.
+
+ Porque vos quero dar portas;
+ Que s'eu olhar d'outro geito,
+ Trarei cem mil vidas mortas.
+
+FELISEO.
+
+ E pois para que me andais
+ Enganando ha cem mil annos?
+
+BROMIA.
+
+ Dou-vos vida com enganos.
+
+FELISEO.
+
+ Nesses enganinhos tais
+ Acho crueis desenganos.
+
+BROMIA.
+
+ Quant'esses vos quero eu dar:
+ Vós cuidais que estais na sella?
+ Pois podeis-vos descer della;
+ Qu'eu nunca vos pude olhar.
+
+FELISEO.
+
+ Jogais comigo á panella?
+ Tendes-me ha tanto captivo,
+ E desenganais-me agora?
+ Tudo isto he o que privo.
+ Assi que he isso, Senhora,
+ Dochelo morto, dochelo vivo?
+ Se me vós desenganais
+ No cabo de tantos annos,
+ Direi, se licença dais,
+ Dais-me vida com enganos,
+ Desenganos, ja chegais.
+ Mas se isso havia de ser,
+ Dizei, má desconhecida,
+ Destêrro de meu viver,
+ Que vos custava dizer
+ Amor, vae buscar tua vida?
+
+BROMIA.
+
+ Zombais? Fallais-me coprinhas?
+
+FELISEO.
+
+ Rir-vos-heis se vem á mão:
+ Copras não, mas isto são
+ Ansias y pasiones minhas
+ Dos bofes e coração.
+
+BROMIA.
+
+ Is-vos fazendo d'huns sengos.....
+
+FELISEO.
+
+ Perdóneme Dios si peco.
+
+BROMIA.
+
+ Nesses dentinhos framengos
+ Conheço que sois hum pêco
+ De todos quatro avoengos.
+
+FELISEO.
+
+ Tudo vos levo em capelo,
+ Ja qu'estais tanto em agraço.
+ Porém, fallando singelo,
+ A furto desse mao zêlo,
+ Quereis-me dar hum abraço?
+
+BROMIA.
+
+ Ora digo que não posso
+ Usar comvosco de fero:
+ Tomae-o.
+
+FELISEO.
+
+ Ja o não quero,
+ Porque esse abraço vosso,
+ Sabei que he engano mero.
+
+BROMIA.
+
+ Oh! vós sois d'huns sensabores...
+ Abraço pedis assim?
+ S'eu remango d'hum chapim...
+
+FELISEO.
+
+ Tudo isso são favores:
+ Zombae, vingae-vos de mim.
+
+BROMIA.
+
+ Vós de furioso touro
+ As garrochas não sentis.
+
+FELISEO.
+
+ Vedes, com isso sé mouro:
+ Quando cuido que sois ouro,
+ Acho-vos toda ceitis.
+
+BROMIA.
+
+ Emfim, sanha de villão
+ Vos fez perder hum bom dia.
+
+FELISEO.
+
+ Jagora o eu tomaria;
+ Quereis-mo dar?
+
+BROMIA.
+
+ Ora não.
+ Cocei-vos eu todavia.
+
+FELISEO.
+
+ Pois, Senhora, a quem vos ama
+ Sois tão desarrazoada,
+ Quero tomar outra dama;
+ Que não digão os d'Alfama
+ Que não tenho namorada.
+
+BROMIA.
+
+ Deixae-me.
+
+FELISEO.
+
+ Vós me deixais.
+
+BROMIA.
+
+ Deixae-me.
+
+FELISEO.
+
+ Zombais de mi?
+
+BROMIA.
+
+ Deixae-me. Pois m'engeitais,
+ Eu me ausentarei daqui
+ Onde me mais não vejais.
+
+FELISEO.
+
+ Boa está a zombaria!
+
+BROMIA.
+
+ Não são essas minhas manhas.
+
+FELISEO.
+
+ Porém is-vos todavia?
+
+BROMIA.
+
+ Voyme á las tierras estrañas.
+ Adó ventura me guia.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Feliseo só._
+
+ Phantasias de donzellas,
+ Não ha quem como eu as quebre;
+ Porque certo cuidão ellas,
+ Que com palavrinhas bellas
+ Nos vendem gato por lebre.
+ Esta tee lá para si
+ Qu'eu sou por ella finado;
+ E crê que zomba de mi;
+ E eu digo-lhe que, si,
+ Sou por ella esperdiçado.
+ Preza-se d'humas seguras;
+ E eu não quero mais Frandes:
+ Dou-lhe trela ás travessuras,
+ Porque destas coçaduras
+ Se fazem as chagas grandes.
+ Qu'estas, que andão sempre á vela,
+ Estas vos digo eu que coço;
+ Porque de firmes na sella,
+ Crem que falsão a costella,
+ E ficão pelo pescoço.
+ Que quando estas damas tais
+ Me cachão, então recacho.
+ Mas disto agora nó mais.
+ Quero-me ir daqui ao cais
+ Ver se algumas novas acho.
+
+
+SCENA V.
+
+_Jupiter e Mercurio._
+
+JUPITER.
+
+ Oh grande e alto destino!
+ Oh potencia tão profana!
+ Que a setta d'hum menino
+ Faça que meu ser divino
+ Se perca por cousa humana!
+ Que m'aproveitão os ceos,
+ Onde minha essencia mora
+ Com tanto poder, se agora
+ A quem me adora por deos,
+ Sirvo eu como a senhora?
+ Oh quão estranha affeição!
+ Quem em baixa cousa vai pôr
+ A vontade e o coração,
+ Sabe tão pouco d'Amor,
+ Quão pouco Amor de razão.
+ Mas que remedio hei de ter
+ Contra mulher tão terribil,
+ Que se não póde vencer?
+
+MERCURIO.
+
+ Alto Senhor, teu poder
+ O difficil faz possibil.
+
+JUPITER.
+
+ Tu não vês qu'esta mulher
+ Se preza de virtuosa?
+
+MERCURIO.
+
+ Senhor, tudo póde ser;
+ Que para quem muito quer,
+ Sempre a affeição he manhosa.
+ Seu marido está ausente
+ Na guerra, longe daqui;
+ Tu, qu'es Jupiter potente,
+ Tomarás sua fórma em ti;
+ Que o farás mui facilmente.
+ E eu me transformarei
+ Na de Sósea, criado seu;
+ E ao arraial me irei,
+ Onde logo saberei
+ Como se a batalha deu.
+ E assi poderás entrar,
+ Em lugar de seu marido;
+ E para que sejas crido,
+ Poderás tambem contar
+ Quanto eu lá tiver sabido.
+
+JUPITER.
+
+ Quem arde em tamanho fogo
+ Tira-lhe a virtude a côr
+ De subtil e sabedor;
+ E quem fóra está do jôgo
+ Enxérga o lanço melhor.
+ Mas tu, que dos sabedores
+ Tanto avante sempre estás,
+ Se deos es dos mercadores,
+ Sê-lo-has dos amadores,
+ Pois tal remedio me dás.
+ Ponha-se logo em effeito;
+ Que não soffre dilação
+ Quem o fogo tee no peito;
+ E tu vae logo direito
+ Aonde anda Amphitrião.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Feliseo e Callisto._
+
+FELISEO.
+
+ Adó bueno por aqui,
+ Tão longe do acostumado?
+
+CALLISTO.
+
+ Mais longe vou eu de mi,
+ D'ir perto de meu cuidado.
+
+FELISEO.
+
+ No andar vos conheci.
+
+CALLISTO.
+
+ E vós onde vos lançais,
+ Com vossa contemplação?
+
+FELISEO.
+
+ Eu chego daqui ao cais
+ A saber de Amphitrião:
+ Não sei se vou por demais.
+
+CALLISTO.
+
+ Porque por demais dizeis?
+
+FELISEO.
+
+ Porque nada alli ha certo.
+
+CALLISTO.
+
+ Novas lá não as busqueis,
+ Que aqui as tendes mais perto.
+
+FELISEO.
+
+ Pois dae-mas ja, se as sabeis.
+
+CALLISTO.
+
+ Hum navio he ja chegado
+ Á barra, que vem de lá;
+ Traz de Amphitrião recado,
+ Diz que o deixa embarcado
+ Para se vir para cá.
+ Tee vencido aquelle Rei;
+ E diz, segundo lhe ouvi,
+ Qu'esta noite será aqui.
+
+FELISEO.
+
+ Essas novas levarei
+ A Alcmena, que torne em si,
+ Porque ella tee maior guerra
+ Co'os temores de perdello,
+ Qu'elle co'o Rei dessa terra.
+
+CALLISTO.
+
+ Onde amor lançar o sello,
+ Nenhuma cousa o desterra.
+ Porqu'inda que o pensamento
+ Vos fique, Senhor, em calma,
+ Por morte ou apartamento;
+ Sempre vos lá ficão n'alma
+ As pégadas do tormento.
+
+FELISEO.
+
+ Isso he hum segredo mero,
+ A que o amor nos obriga:
+ Por isso em caso tão fero,
+ Senhor, nunca ninguem diga,
+ Ja lho quiz, e não lho quero.
+ Eu quiz bem a huma mulher,
+ Que vós conhecestes bem,
+ E, com muito lhe querer,
+ Casou-se.
+
+CALLISTO.
+
+ Oh! e com quem?
+ Que ainda o não posso crer.
+
+FELISEO.
+
+ Com hum Mercador, que veio
+ Agora do Egypto, rico.
+
+CALLISTO.
+
+ Isso traz ágoa no bico.
+ Esse homem he parvo, ou feio?
+
+FELISEO.
+
+ Pois vêdes? disso me pico.
+ E em pago desta traição,
+ Afóra outros mil descontos
+ Que traz comsigo a affeição,
+ Sempre os signaes destes pontos
+ Trarei no meu coração.
+
+CALLISTO.
+
+ Viste-la mais?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, vi,
+ Na janellinha da grade;
+ Passei, e disse-lhe assi:
+ Casada sem piedade,
+ Porque não a haveis de mi?
+
+CALLISTO.
+
+ Que vos disse?
+
+FELISEO.
+
+ Lá no centro
+ Lh'enxerguei pouca alegria;
+ E como quem lhe dohia,
+ Metendo-se para dentro
+ Disse: Ja pasó folia.
+
+CALLISTO.
+
+ Ah má sem conhecimento!
+ Quem lhe désse mil chofradas!
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, como são casadas,
+ Casão-se co'o esquecimento
+ Das cousas que são passadas.
+
+CALLISTO.
+
+ Lembranças de vos deixar
+ Picar-vos-hão como tojos.
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, haveis d'assentar
+ Que onde amor vos quer matar,
+ Siempre allá miran los ojos.
+ Hum motete lhe mandei
+ Hum dia, estando com febre,
+ Só da paixão que tomei.
+
+CALLISTO.
+
+ Pois vejamos quem tee lebre.
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, eu vo-lo direi.
+
+Mote.
+
+ Vós por outrem, e eu por vós;
+ Vós contente, e eu penado;
+ Vós casada, eu cansado.
+ Polos santos de minha dona!
+
+CALLISTO.
+
+ Senhor, vós só o fizestes?
+
+FELISEO.
+
+ Si, que ninguem me ajudou.
+
+CALLISTO.
+
+ Se vós só o compuzestes,
+ Crede, que extremos dissestes.
+ Nunca Orlando tal fallou.
+ Senhor, fizestes-lhe pé?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, si; e todo hum anno...
+ Vós zombais, se não m'engano?
+
+CALLISTO.
+
+ Não, mas dou-vos minha fé
+ Que nunca vi tão bom panno.
+
+FELISEO.
+
+ Ora olhe vossa mercê.
+
+Volta.
+
+ Olhae em quão fundos vaos
+ Por vossa causa me affógo,
+ Que outro me ganha no jôgo,
+ E eu triste pago os paos.
+ Olhos travessos e maos,
+ Inda eu veja o meu cuidado
+ Por esse vosso trocado.
+
+CALLISTO.
+
+ Não mais, qu'isso me degola.
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, eu haja perdão.
+
+CALLISTO.
+
+ Fizestes esse rifão
+ Em algum jôgo de bola?
+ E foi-lhe elle ter á mão?
+
+FELISEO.
+
+ Digo-vos que o vio, e lho leo
+ Hum moçozinho d'escola.
+
+CALLISTO.
+
+ Está isso assi do ceo.
+ Sabe ella jogar a bola?
+
+FELISEO.
+
+ Não.
+
+CALLISTO.
+
+ Pois não vos entendeo.
+ Ora eu ja cheguei a ler
+ Petrarca, e crede de mi
+ Que nunca tal cousa vi.
+ Onde mora o bom saber,
+ Logo dá sinal de si.
+ Onde _casada_ puzestes,
+ Dizei, porque não dissestes
+ _La que yo vi por mi mal._
+
+FELISEO.
+
+ Renunciava o metal;
+ Qu'em rifõeszinhos como estes,
+ Ha-se-de pôr tal com tal.
+ Que a trova trigo-tremez
+ Ha de ser toda d'hum pano;
+ Que parece muito Ingrez
+ N'hum pelote Portuguez
+ Todo hum quarto Castelhano.
+ Ouvi outra tambem minha,
+ Que fiz a certa tenção,
+ Clara, leve, bonitinha,
+ De feição, que esta trovinha,
+ He trovinha de feição.
+ Como eu hum dia me visse
+ Morto, e a mão na candêa,
+ E ella não me acodisse;
+ Fiz-lhe esta, porque sentisse
+ Que dava os fios á têa.
+ E o propósito he
+ Andar eu hum dia só;
+ E para que houvesse dó
+ De mi e de minha fé,
+ Lamentei-lhe como Jó.
+
+CALLISTO.
+
+ Andastes, Senhor, mui bem.
+
+FELISEO.
+
+ Ora, Senhor, attentai,
+ E vêde o saibo que tem;
+ Se he para a ver alguem.
+
+CALLISTO.
+
+ Ora dizei.
+
+FELISEO.
+
+ Ei-la vai.
+
+Trova.
+
+ Coração de carne crua,
+ Vê-lo teu amor aqui,
+ Que esmorecido por ti
+ Jaz no meio desta rua?
+
+CALLISTO.
+
+ Na rua, Senhor, jazia?
+ E era em tempo de lama?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, quem falla a quem ama,
+ De si mesmo se não fia:
+ Haveis de mentir á dama.
+
+CALLISTO.
+
+ Volta disso?
+
+FELISEO.
+
+ Singular,
+ Senão que he muito sentida;
+ Far-vos-ha, Senhor, chorar.
+
+CALLISTO.
+
+ Oh! diga, por sua vida!
+
+FELISEO.
+
+ Farei o que me mandar.
+
+Volta.
+
+ Porque não has delle mágoa,
+ Ó dura mais que ninguem,
+ Que anda o triste, que não tem
+ Quem lhe dê huma vez d'ágoa?
+ Não lhe negues teu querer,
+ Pois te não custa dinheiro;
+ Que, emfim, por derradeiro
+ A terra te ha de comer.
+
+CALLISTO.
+
+ Tal trova nunca se vio.
+ Agorentaste-la ja?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, não; ainda está
+ Como a sua mãe pario;
+ E não está muito má.
+
+CALLISTO.
+
+ He trova, que tee por seis;
+ Não a posso mais gabar.
+ Mas, pois, tal cousa fazeis,
+ Senhor, não m'ensinareis
+ Donde vem tão bem trovar?
+
+FELISEO.
+
+ Não he a cousa tão pequena,
+ Como, Senhor, a fizestes,
+ Essa que agora dissestes.
+ Mas porém vou dar a Alcmena
+ Estas novas que me déstes.
+ Despois, Senhor, nos veremos;
+ Ficae ja roendo esse osso.
+
+CALLISTO.
+
+ O roer, Senhor, he vosso.
+
+FELISEO.
+
+ Pois eu, por mais que zombemos,
+ Hei de ser vosso e revosso.
+
+CALLISTO.
+
+ Oh!.. Escusae-vos d'extremos,
+ Qu'isso, Senhor, me atarraca.
+ Mas nós nos encontraremos,
+ E sôbre isso envidaremos
+ Dous reales mais de saca.
+
+
+
+
+ACTO SEGUNDO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na fórma de Amphitrião,
+Mercurio na de Sosea escravo._
+
+JUPITER.
+
+ Mercurio, pois sou mudado
+ Nesta fórma natural,
+ Ólha e nota com cuidado,
+ Se está em mi o pintado
+ Apparente co'o real.
+
+MERCURIO.
+
+ Quem tão proprio se transforma.
+ Tenho por opinião,
+ Que na tal transformação
+ Lhe prestou natura a fôrma,
+ Com que fez Amphitrião.
+
+JUPITER.
+
+ Pois tu no gesto e na côr
+ Estás Sósea escravo seu.
+
+MERCURIO.
+
+ Muito mais faras, Senhor.
+
+JUPITER.
+
+ Não o faz senão o Amor,
+ Que nisto póde mais qu'eu.
+
+MERCURIO.
+
+ Ja, Senhor, te fiz menção
+ Como deo Amphitrião
+ A ElRei Terela a morte;
+ Que, na guerra igual, a sorte
+ Póde mais que o coração.
+ E despois de ser tomada
+ Toda a Cidade, com gloria
+ D'Amphitrião bem ganhada,
+ Como em sinal de victoria,
+ Esta copa lhe foi dada.
+ Por ella bebia ElRei,
+ Em quanto a vida queria;
+ E eu, porque te cumpria,
+ A seu escravo a furtei,
+ Que n'huma caixa a trazia.
+ Esta poderás levar
+ A Alcmena, por lhe mostrar
+ Verdadeiro, o que he fingido;
+ E dest'arte serás crido,
+ Sem mais outro ardil buscar.
+
+JUPITER.
+
+ Pois tudo tens ordenado
+ Por tão nova e subtil arte;
+ Como me vires entrado,
+ Irás dar este recado
+ A Phebo de minha parte:
+ Que faça mais devagar
+ Seu curso neste Hemispherio.
+ Que o que soe acostumar;
+ Qu'esta noite hei de ordenar
+ Hum caso de alto mysterio.
+ E á Esphera mais alta
+ Mandarás que fixa esteja,
+ Porque a noite maior seja:
+ Porque sempre o tempo falta,
+ Onde a alegria he sobeja.
+ E terás tamanho tento,
+ Que como isto se ordenar,
+ Venhas aqui vigiar,
+ Porque meu contentamento
+ Ninguem mo possa estorvar.
+
+MERCURIO.
+
+ Seja feito sem debate
+ Tudo como te convem.
+
+JUPITER.
+
+ Pois não parece ninguem,
+ Como homem de casa bate,
+ E muda a falla tambem.
+
+MERCURIO, _batendo à porta_.
+
+ Ó de la casa, en buena hora,
+ Darmehan de cenar aqui?
+
+BROMIA _dentro_.
+
+ Sósea parece que ouvi:
+ Alviçaras, minha Senhora,
+ Que na falla o conheci.
+
+
+SCENA II.
+
+_Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio._
+
+ALCMENA.
+
+ Zombais, Bromia, por ventura?
+
+BROMIA.
+
+ Senhora, não zombo, não.
+
+ALCMENA.
+
+ Vejo eu Amphitrião,
+ Ou a vista me afigura
+ O qu'está no coração?
+
+JUPITER.
+
+ Olhos, diante dos quais
+ Desejei mais este dia,
+ Que nenhuma outra alegria,
+ Senhora, nunca creais
+ Que lhe minta a phantasia.
+
+ALCMENA.
+
+ Oh presença mais querida
+ Que quantas formou Amor!
+ Isto he verdade, Senhor?
+ Acabe-se aqui a vida,
+ Por não ver prazer maior.
+
+JUPITER.
+
+ Pois esta hora de vos ver
+ Alcançar, Senhora, pude;
+ Para mais contente ser,
+ Conformem co'este prazer
+ Novas de vossa saude.
+
+ALCMENA.
+
+ Vida foi pezada e crua
+ A saude qu'eu sostinha;
+ Qu'em quanto, Senhor, a tinha,
+ Temer perigo na sua,
+ Me fez descuidar da minha.
+
+MERCURIO.
+
+ Y pues, mi Señora Alcmena,
+ Pese al demonio malvado,
+ No dirá á un su criado,
+ Vengais Sósea norabuena?
+
+ALCMENA.
+
+ Sejais, Sósea, bem chegado.
+
+BROMIA.
+
+ Bem mal cri eu, que pudesse
+ Ver-te, Sósea, hoje aqui.
+
+MERCURIO.
+
+ Pues tambien yo no creí
+ Que en mi vida te viese,
+ Segun las muertes que vi.
+
+ALCMENA.
+
+ Muito, Senhor, folgarei
+ Com novas do vencimento.
+
+JUPITER.
+
+ De tudo quanto passei,
+ Por vos dar contentamento,
+ Em summa vos contarei.
+ Trago, Senhora, a victoria
+ Daquelle Rei tão temido,
+ Com fama clara e notoria.
+ Porém maior foi a gloria
+ De me ver de vós vencido.
+ Sem me terem resistencia,
+ Os Grandes me obedêcerão,
+ Como ElRei morto tiverão:
+ Em sinal de obediencia
+ Esta copa me trouxerão.
+ ElRei por ella bebia:
+ (Ella, e tudo o mais he nosso)
+ Por onde claro se via,
+ Que tudo me obedecia,
+ Pois tinha nome de vosso.
+
+MERCURIO.
+
+ Si, mas luego de rondon
+ La fortuna dió la vuelta.
+
+ALCMENA.
+
+ Como?
+
+MERCURIO.
+
+ Fué gran perdicion,
+ Porque en aquella revuelta,
+ Me hurtaron mi jubon.
+ Pero bien me lo pagaron,
+ Cuando comigo riñeron;
+ Que aunque me despojaron
+ Si uno de seda llevaron,
+ Otro de azotes me dieron.
+
+ALCMENA.
+
+ Senhor, não posso gostar
+ De gôsto, que he tão immenso,
+ Senão muito devagar:
+ Faça-me mercê d'entrar,
+ E contar-mo-ha por extenso.
+
+
+SCENA III.
+
+_Mercurio e Bromia._
+
+MERCURIO.
+
+ Yo tambien te contaria,
+ Bromia, si quedas atrás,
+ Que una noche... enojartehas?
+
+BROMIA.
+
+ Que?
+
+MERCURIO.
+
+ Soñaba, que te tenia...
+ No me atrevo á decir mas.
+
+BROMIA.
+
+ Dize.
+
+MERCURIO.
+
+ Pardies, no diré.
+ Soñaba...
+
+BROMIA.
+
+ Bem: que sonhavas?
+
+MERCURIO.
+
+ Que cuando en la cama estavas
+ Que yo... enfin recordé.
+
+BROMIA.
+
+ Pois tudo isso receavas?
+
+MERCURIO.
+
+ Sabe Dios qué yo acá siento:
+ Sola una alma vive en dos,
+ La cual anda dentro en vos.
+
+BROMIA.
+
+ E que quer ella cá dentro?
+
+MERCURIO.
+
+ Tambien eso sabe Dios.
+
+
+SCENA IV.
+
+MERCURIO.
+
+ Bem se poderá enganar
+ Bromia, segundo ora estou,
+ Como Alcinena s'enganou;
+ Mas cumpre-me ir ordenar
+ O que meu Pae me mandou.
+ E porque seja guardada
+ Esta porta e vigiada
+ De toda a gente nascida,
+ Me será cousa forçada,
+ Ser tão depressa a tornada,
+ Quão prestes faço a partida.
+
+
+SCENA V.
+
+SOSEA, _cantando_.
+
+ Amphitrion esforzado
+ Bravo vá por la batalla,
+ Siete cabezas llevaba,
+ De las mejores que ha hallado.
+
+_Falla._
+
+ Quien viene de tierra agena,
+ Y de la muerte escapó,
+ La razon le permitió
+ Que cante como sirena,
+ Como agora hago yo.
+ Y pues canto tan gentil,
+ Fuera llanto si muriera.
+ Quiero cantar como quiera,
+ Una y otra, y mas de mil,
+ Que digan desta manera:
+
+_Canta._
+
+ Dongolondron, con dongolondrera,
+ Por el camino de Otera,
+ Rosas coge en la rosera,
+ Dongolondron, con dongolondrera.
+
+_Falla._
+
+ Cuando yo vengo á pensar
+ Que uno matarme quisiera,
+ No hago sino temblar,
+ Porque creo si muriera,
+ No pudiera mas cantar.
+ Porque estando á un rincon
+ De la casa adó quedé,
+ Senti muy grande ronron,
+ Y mirando, que miré?
+ Vi que era un gran raton.
+ Empero yo nunca sigo,
+ Sino consejos muy sanos;
+ Que en estes casos levianos,
+ Quien desprecia el enemigo,
+ Mil veces muere á sus manos.
+ Pero mi Señor alli
+ Mató al Rey de los Glipazos:
+ Yo como muerto le vi,
+ Juro á mi fé, que le dí
+ Mas de dos mil cuchillazos.
+ Y por me librar de afan,
+ Me voy siempre á cosa hecha
+ Probar mi mano derecha;
+ Que aquel es buen capitan,
+ Que del tiempo se aprovecha.
+ Que quien ha de pelear,
+ Ha de buscar tiempo y hora.
+ Pero quiero caminar,
+ Que me muero por contar
+ Todo aquesto á mi Señora.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Mercurio e Sósea._
+
+MERCURIO.
+
+ Mil vezes comigo vejo,
+ Para que meu Pae se affoute;
+ Pois em tão pequeno ensejo
+ Lhe mandei talhar a noute
+ Á medida do desejo.
+ E pois que como possante,
+ A mi tudo se reporta,
+ Chego agora neste instante
+ A estorvar qu'este bargante
+ Me não chegue a esta porta.
+
+SOSEA.
+
+ No sé que miedo, ó locura,
+ Neste pecho se me cria:
+ Por Dios que se me afigura,
+ Que ha mucho que es noche escura,
+ Sin que venga el claro dia.
+ Mas sabed, que pienso yo
+ Que el sol que no se acordó
+ De con el dia venir,
+ Que á noche cuando cenó
+ Algun buen vino bebió,
+ Que le hace tanto dormir.
+
+MERCURIO.
+
+ Ja sentes comprida a noute,
+ Qu'eu assi mandei fazer?
+ Pois mais te quero dizer,
+ Que sentirás muito açoute,
+ Se cá quizeres vir ter.
+ Porém, pois este bargante
+ Tee medroso coração,
+ Quero-me fingir ladrão,
+ Ou phantasma, e por diante
+ Não irá, se vem á mão.
+ E com tudo se passar,
+ A falla quero mudar
+ Na sua de tal feição,
+ Que couces, e porfiar,
+ Lhe fação hoje assentar
+ Que sou Sósea, e elle não.
+
+_Falla Castelhano._
+
+ No veo pasar ninguno,
+ En quien yo me pueda hartar.
+
+SOSEA.
+
+ Á quien oigo aqui hablar?
+ Mande Dios no sea alguno
+ Que me quiera aporrear.
+
+MERCURIO.
+
+ La carne de algun humano
+ Me seria muy sabrosa.
+
+SOSEA.
+
+ Oh quê voz tan temerosa!
+ Hombres comes, ó mi hermano?
+ No es mejor otra cosa?
+ Carne humana es muy mezquina.
+ Oh no comas deso, no!
+ Antes carne de gallina.
+ Pero se mas se avecina,
+ Qué mas gallina, que yo?
+
+MERCURIO.
+
+ Una voz de hombre ahora
+ Á la oreja me voló.
+
+SOSEA.
+
+ Pésete quien me parió:
+ La voz traigo boladora?
+ Ella quisiera ser yo.
+ Pues mi voz pudo volar
+ Do la pudieses oir;
+ Por contigo no reñir,
+ Me debiera de prestar
+ Las alas para huir.
+
+MERCURIO.
+
+ Qué buscas cabe esa puerta,
+ Hombre? Sé que eres ladron.
+
+SOSEA.
+
+ Ay que el alma tengo muerta!
+ Oh Júpiter me convierta
+ Las tripas en corazon!
+
+MERCURIO.
+
+ Quien eres? quieres hablar?
+
+SOSEA.
+
+ Soy quien mi voluntad quiere.
+
+MERCURIO.
+
+ Piensas que puedas burlar?
+
+SOSEA.
+
+ Y tú puédesme quitar
+ Que yo sea quien quisiere?
+
+MERCURIO.
+
+ Osas hablar tan osado,
+ Don vellaco bovarron?
+ Dí, quien eres?
+
+SOSEA.
+
+ Un criado
+ Del Señor Amphitrion,
+ Por nombre Sósea llamado.
+
+MERCURIO.
+
+ Pienso que el seso perdiste.
+ Como te llamas, mal hombre?
+
+SOSEA.
+
+ Sósea soy, si no me oiste.
+
+MERCURIO.
+
+ Como? en persona tan triste
+ Osas d'ensuciar mi nombre?
+ Estos puños llevarás,
+ Pues tener mi nombre quieres.
+ Quiéresme dicir quien eres?
+
+SOSEA.
+
+ O Señor, no me dés mas,
+ Que yo seré quien tú quisieres.
+
+MERCURIO.
+
+ Con tan nueva falsedad
+ Andais por esta Ciudad,
+ Delante de quien os mira?
+ Pues si sois Sosea, tomad.
+
+SOSEA.
+
+ Si me dás por la verdad,
+ Que me harás por la mentira?
+
+MERCURIO.
+
+ Y qué verdad es la tuya?
+ Que te quiero dar castigo.
+
+SOSEA.
+
+ Si no soy Sósea que digo,
+ Que Júpiter me destruya.
+
+MERCURIO.
+
+ Mirad el falso enemigo:
+ Tomad este bofeton,
+ Que yo soy Sósea, y no vos.
+
+SOSEA.
+
+ Tu Sósea?
+
+MERCURIO.
+
+ Sósea por Dios,
+ Escravo de Amphitrion.
+
+SOSEA.
+
+ De modo que tiene dos?
+
+MERCURIO.
+
+ No tendrá, aunque tú quieres;
+ Que á mi solo conoció.
+
+SOSEA.
+
+ Pues luego de quien soy yo?
+
+MERCURIO.
+
+ Si tú no sabes quien eres,
+ Quieres que yo lo sepa? No.
+
+SOSEA.
+
+ Enfin, has me de hacer crer
+ Que yo no soy quien ser solia?
+
+MERCURIO.
+
+ Quien solias tú de ser?
+
+SOSEA.
+
+ Tregoas me has de prometer,
+ Dirtelohé sin profia.
+
+MERCURIO.
+
+ Prometo.
+
+SOSEA.
+
+ No me darás?
+
+MERCURIO.
+
+ No, si no fuere razon.
+
+SOSEA.
+
+ Pues, hermano, tú sabrás
+ Que mi amo Amphitrion...
+
+MERCURIO.
+
+ Tu amo? Pues llevarás.
+ Mi amo es, que tuyo no.
+
+SOSEA.
+
+ Ay que un brazo me quebró!
+
+MERCURIO.
+
+ Mas que luego te matase.
+
+SOSEA.
+
+ Ojalá Dios ordenase
+ Que tú ahora fueses yo,
+ Y yo que te desmembrase!
+
+MERCURIO.
+
+ Esa tu tema tan loca,
+ Puños te la han de quitar.
+ Dime, di, verguenza poca,
+ Qué hablas?
+
+SOSEA.
+
+ Qué puedo hablar,
+ Si me has quebrado la boca?
+
+MERCURIO.
+
+ Di quien eres, sin fatiga.
+
+SOSEA.
+
+ Soy un hombre, en quien tú dás.
+
+MERCURIO.
+
+ Díme pues, qué nombre has.
+
+SOSEA.
+
+ Como quieres tú que diga,
+ Para que no me dés más?
+
+MERCURIO.
+
+ No me has de hablar contrahecho.
+
+SOSEA.
+
+ Toda mi vida pasada
+ Sósea fuy, y con despecho
+ Ahora soy... qué? No nada;
+ Que tus manos me han deshecho.
+
+MERCURIO.
+
+ Cuyo eres, pues las sientes,
+ Dejando consejos vanos?
+ La verdad; que si me mientes,
+ Dás con la lengua en los dientes,
+ Y yo dóyte con las manos.
+
+SOSEA.
+
+ No conoces Amphitrion?
+
+MERCURIO.
+
+ Hombre sin seso te llamo.
+ Tan fuera estás de razon!
+ Piensas de mí, bovarron,
+ Que no conozco á mi amo?
+
+SOSEA.
+
+ En su casa conociste
+ Uno, que es Sósea llamado,
+ Hombre despreciado y triste?
+
+MERCURIO.
+
+ Desa suerte lo dijiste?
+ Yo soy triste y despreciado?
+ Pues sabe que te llegó
+ Á la muerte tu fortuna.
+
+SOSEA.
+
+ Pues logo si yo no soy yo,
+ Aunque nadie me mató;
+ Soy luego cosa ninguna.
+ Oh dioses, que desconcierto!
+ Yo por ventura soy muerto,
+ Ó murióme la razon?
+ Yo no soy de Amphitrion?
+ Él no me mandou del puerto?
+ Yo sé que no estoy loco.
+ De mi madre no naci?
+ No ando? No hablo aqui?
+
+MERCURIO.
+
+ Pues sosiega ahora un poco,
+ Que yo tambien diré de mí.
+ Yo no sé que yo soy yo?
+ Yo no te dí con mis manos?
+ Mi Señor no me llevó
+ Á la guerra, adó mató
+ Aquel Rey de los Thebanos?
+
+SOSEA.
+
+ Yo eso muy bien lo sé.
+ Empero tú qué hacias
+ Cuando la batalla vias?
+
+MERCURIO.
+
+ Escucha: yo lo diré,
+ Y cesaran tus porfías.
+ Cuando mi Señor andaba
+ Peleando, y derramaba
+ La sangre de algun mezquino;
+ Con una bota de vino
+ Yo la mia acrescentaba.
+
+SOSEA.
+
+ (Dice lo que yo hacia)
+ Con todo, saber queria
+ Sola una cosa, si puedo:
+ Tu pecho entonces sentia?
+
+MERCURIO.
+
+ Del beber grande alegria,
+ Y del pelear gran miedo.
+
+SOSEA.
+
+ Y despues?
+
+MERCURIO.
+
+ Muy reposado
+ Á dormir me eché de grado,
+ Desde el sol hasta la luna.
+
+SOSEA.
+
+ (Todo lo tiene contado.
+ Enfin, tengo averiguado
+ Que yo no soy cosa ninguna)
+ Pues de todo en un instante
+ Me has echado de mí fuera,
+ Aconséjame si quiera,
+ Quien seré daqui adelante,
+ Pues no soy quien de antes era.
+
+MERCURIO.
+
+ Cuando yo no ser quisiere
+ Ese, que tú ser deseas,
+ Despues que ya Sósea no fuere,
+ Dartehé, si te pluguiere,
+ Licencia que todo seas.
+ Y acógete luego, amigo,
+ Á buscar tu nombre, digo,
+ Pues Dios vida te dejó;
+ Que el Sósea queda comigo.
+
+SOSEA.
+
+ Pues contigo quedo yo,
+ Dios quede, hermano, contigo.
+ Ahora quiero ir allá
+ Adó mi Señora está,
+ Contarle como es venido
+ Mi Señor. Mas, oh perdido!
+ Si un otro yo tiene allá,
+ Todo lo terná sabido.
+
+MERCURIO.
+
+ Ah hombre.....
+
+SOSEA.
+
+ Mi voz sonó.
+
+MERCURIO.
+
+ Aonde vuelves ahora?
+
+SOSEA.
+
+ Por Dios no sé onde vó,
+ Porque si yo no soy yo,
+ Ni Alcmena es mi Señora.
+
+MERCURIO.
+
+ Adonde vas?
+
+SOSEA.
+
+ Con mensaje
+ Del Señor Amphitrion
+ Para Alcmena.
+
+MERCURIO.
+
+ Adó, salvaje?
+ Pues quebraste la omenaje,
+ Ahí verás tu perdicion.
+ Yo doyte consejos sanos,
+ Y porfias otra vez?
+
+SOSEA.
+
+ Altos dioses soberanos!
+ Pues me no valen las manos,
+ Aqui me valgan los pies. _Foge._
+
+MERCURIO.
+
+ Desta arte enseñan aqui
+ Á hurtar el nombre ageno?
+
+
+SCENA VII.
+
+SOSEA.
+
+ Ay Dios, como me acogí!
+ Ó Júpiter alto y bueno,
+ Cuan cerca la muerte vi!
+ Quiérome ir á mi Señor
+ Contarle cuanto hé pasado;
+ Y él me dirá de grado,
+ Si yo soy su servidor,
+ En que cosa me hé tornado.
+
+
+
+
+ACTO TERCEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter e Alcmena._
+
+JUPITER.
+
+ Toda a pessoa discreta
+ Terá, Senhora, assentado,
+ Que hum bem muito desejado
+ Se ha de alcançar por dieta,
+ Para ser sempre estimado.
+ E quem alcançado tem
+ Tamanho contentamento;
+ Por conservá-lo convem
+ Que tome por mantimento
+ A fome de tanto bem.
+ E por isso hei de tomar
+ Este tempo tão ditoso
+ Para a frota visitar;
+ E despois quando tornar,
+ Tornarei mais desejoso.
+ Que pois tão bom captiveiro
+ Me tee presa a liberdade,
+ Eu lhe prometto em verdade
+ Que torne ainda primeiro,
+ Que mo peça a saudade.
+
+ALCMENA.
+
+ Aindaque se possa ir
+ Mais asinha do que creio,
+ Como hei d'eu consentir
+ Que se haja de partir
+ Na mesma noite que veio?
+
+JUPITER.
+
+ Forçada he minha tornada,
+ Mas muito cedo virei;
+ Porque desque foi chegada
+ A este porto a Armada,
+ Ainda a não visitei.
+
+ALCMENA.
+
+ Pois, Senhor, tão pouco estais
+ Com quem vistes inda agora?
+ Faça-se como mandais.
+
+JUPITER.
+
+ Vós me vereis cá, Senhora,
+ Primeiro do que cuidais.
+
+
+SCENA II.
+
+_Amphitrião e Sosea._
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Emfim tu, que estás aqui,
+ Estavas ja lá primeiro?
+
+SOSEA.
+
+ Señor, crea que es ansí.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Eu nunca entendi de ti,
+ Qu'eras tambem chocarreiro.
+
+SOSEA.
+
+ Señor, yo que estoy presente,
+ No soy Sósea su criado?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Creio que não certamente,
+ Porque Sósea era avisado,
+ E tu es mui differente.
+
+SOSEA.
+
+ Pues, Señor, si en mí se vé
+ Que no soy quien de antes era,
+ Vuélvome.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ E para que?
+
+SOSEA.
+
+ Ver se á dicha me quedé
+ Durmiendo por la galera.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Pois me queres fazer crer
+ Huma doudice tão rasa,
+ Mais quero de ti saber:
+ Como não entraste em casa
+ D'Alcmena minha mulher?
+
+SOSEA.
+
+ Aunque Sósea quisiese,
+ La verdad no negará:
+ Aquel yo que allá está,
+ No quiso que á casa fuese
+ Estotro yo, que iba allá.
+ Y con furia tan crecida
+ Á mí se vino aquel hombre,
+ Que yo me puse en huida,
+ Y ansí le dejé mi nombre,
+ Por me dejar él la vida.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quem seria tão ousado,
+ Que tanto mal te fizesse?
+
+SOSEA.
+
+ Yo mismo Sósea llamado,
+ Que á casa era ya llegado,
+ Antes que de acá partise.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Tu chegaste antes de ti?
+ Este he gentil disparate.
+
+SOSEA.
+
+ Pues mas le digo daqui,
+ Que vengo huyendo de mí,
+ Porque yo mismo no me mate.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Erão dous, ou era hum só,
+ Quem te fez assi fugir?
+
+SOSEA.
+
+ Pésete quien me parió:
+ Digo, que era un solo yo:
+ Mil veces lo hé de decir?
+ Puede ser que naceria
+ De aquel hombre otro alguno,
+ Como aquel de mí nacia;
+ Porque aunque fuese él uno,
+ Por mas de cuatro tenia.
+ Él tenia mi aparencia,
+ Empero yo nunca vi
+ Tal fuerza, ni tal potencia:
+ Esta sola diferencia
+ Le tengo hallado de mí.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Pudeste delle saber
+ Cujo era?
+
+SOSEA.
+
+ Quien? aquel yo?
+ Tuyo, Señor, dijo ser.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Nunca eu tive mais que hum só,
+ E esse não quizera ter.
+
+SOSEA.
+
+ Pues, Señor, si el bien doblado
+ Te le muestra agora Dios,
+ Debe ser de ti alabado;
+ Pues de uno solo criado
+ Te ha hecho agora dos.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Antes para que conheças,
+ Que cousa he mao servidor,
+ Me pezará se assi for;
+ Que de tão ruins cabeças,
+ Quantas mais, tanto peor.
+ E ja que são tão incertos
+ Teus ditos para se crer;
+ Muito melhor deve ser
+ Que deixe teus desconcertos,
+ E va ver minha mulher.
+
+
+SCENA III.
+
+ALCMENA.
+
+ Que fado, que nascimento
+ De gente humana nascida,
+ Que d'escasso e avarento,
+ Nunca consentio na vida
+ Perfeito contentamento!
+ Amphitrião, que mostrou
+ Hum prazer tão desejado
+ A quem tanto o desejou;
+ Na noite, que foi chegado,
+ Nessa mesma se tornou!
+ De se tornar tão asinha
+ Sinto tanto entristecer
+ O sentido e alma minha,
+ Que certo que me adivinha
+ Algum novo desprazer.
+ Mas parece este que vem,
+ Se não estou enganada:
+ Se elle he, venha com bem,
+ Pois que com sua tornada
+ Tão transtornada me tem.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Amphitrião, Alcmena e Sosea._
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Com que palavras, Senhora,
+ Poderei engrandecer
+ Tão sublimado prazer,
+ Como he ver chegada a hora,
+ Em que vos pudesse ver?
+ Certo grão contentamento
+ Tive de meu vencimento;
+ Mas maior o hei de mim,
+ De me ver pôsto no fim
+ De tão longo apartamento.
+
+ALCMENA.
+
+ Ja eu disse o que sentia
+ De vinda tão desejada.
+ Mas diga-me todavia:
+ Como não foi ver a Armada,
+ Que me disse hoje este dia?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Della venho eu inda agora
+ Desejoso de vos ver,
+ Muito mais que de vencer.
+ Mas que me dizeis, Senhora,
+ Que hoje me ouvistes dizer?
+
+ALCMENA.
+
+ Se não estava remota,
+ Certamente que lhe ouvi,
+ Quando hoje partio daqui,
+ Que tornava a ver a frota.
+ Porque era forçado assi.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea.
+
+SOSEA.
+
+ Señor, aqui estoy yo.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Tu ouves tal desconcêrto?
+
+SOSEA.
+
+ Grandes orejas ganó,
+ Pues estando en casa oyó
+ Quien estava allá nel puerto!
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quando dizeis, que m'ouvistes?
+
+ALCMENA.
+
+ Hoje, quando vos partistes.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Donde?
+
+ALCMENA.
+
+ Daqui, de me ver.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Nunca vi grande prazer,
+ Que não tenha os cabos tristes.
+ Quantos males d'improviso
+ Que causão grandes mudanças!
+ Que mulher de tanto aviso,
+ Agora minhas lembranças
+ A tee fóra de juizo!
+
+ALCMENA.
+
+ Quereis-me fazer cuidar
+ Que poderia sonhar
+ O que pelos olhos vi?
+ Nunca vos eu mereci
+ Quererdes-me exprimentar.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Postoque he para pasmar
+ Ver hum caso tão estranho,
+ Todavia hei de attentar,
+ Se poderei concertar
+ Hum desconcêrto tamanho.
+ Quando dizeis que vim cá?
+
+ALCMENA.
+
+ Esta noite que passou.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Dae-me alguem que aqui se achou,
+ Que me visse.
+
+ALCMENA.
+
+ Esse que hi está,
+ Sósea que comvosco andou.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea, podes-te lembrar,
+ Que hontem me vistes aqui?
+
+SOSEA.
+
+ Nunca yo supe de mí
+ Que me pudiese acordar
+ De aquello que nunca vi.
+
+ALCMENA.
+
+ Ora eu creo, e he assi,
+ Que ambos vindes conjurados,
+ Para zombardes de mi;
+ Mas eu darei hoje aqui
+ Sinaes que sejão provados.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Que sinaes póde ahi haver
+ De mentira tão notoria,
+ Que nem foi, nem póde ser?
+
+ALCMENA.
+
+ Donde vim eu a saber
+ Novas de vossa victoria?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Que novas?
+
+ALCMENA.
+
+ Dir-vo-las-hei,
+ Assi como mas contastes:
+ Que na batalha matastes
+ Aquelle soberbo Rei,
+ E tudo desbaratastes:
+ Não fazendo resistencia
+ N'huma batalha tão crua,
+ Dando-vos obediencia,
+ Vos derão huma copa sua,
+ Lavrada por excellencia.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea he culpado só
+ Nestes acontecimentos.
+
+SOSEA.
+
+ Señor, son encantamientos,
+ Porque aquel hombre, que es yo,
+ Le contaria estos cuentos.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quem he esse, que vos deu
+ Taes novas, saber queria?
+
+ALCMENA.
+
+ Quem mo pergunta.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quem? Eu!
+ Quereis-me fazer sandeu?
+
+ALCMENA.
+
+ Mas vós me fazeis sandia.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ora quero perguntar:
+ Que fiz sendo aqui chegado?
+
+ALCMENA.
+
+ Puzemos-nos a cear.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ E despois de ter ceado?
+
+ALCMENA.
+
+ Fomos-nos ambos deitar.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Nunca queira Deos que possa
+ Achar-se na minha honra
+ Nenhuma falta nem mossa:
+ Seja isto doudice vossa,
+ Antes que minha deshonra.
+
+SOSEA.
+
+ Bien lo supe yo entender,
+ Que era esto encantaciones;
+ Y ahora me habrá de crer
+ Que dos Sóseas puede haber,
+ Pues hay dos Amphitriones.
+
+ALCMENA.
+
+ Com me quererdes tentar
+ Tão torvada me fizestes,
+ Que me não pôde lembrar
+ Que vos mandasse mostrar
+ A copa que me hontem déstes.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Eu? copa? Se isso ahi ha,
+ Que estou doudo cuidarei.
+
+SOSEA.
+
+ Señor, bien guardada está.
+
+ALCMENA.
+
+ Bromia?
+
+BROMIA, _de dentro_.
+
+ Senhora.
+
+ALCMENA.
+
+ Dae cá
+ A copa que hontem vos dei.
+
+SOSEA.
+
+ Pues yo parí otro yo,
+ Y vós otro Amphitrion,
+ No es mucha admiracion,
+ Si la copa otra parió,
+ Ni aun fuera de razon.
+
+
+SCENA V.
+
+_Amphitrião, Alcmena, Sosea e Bromia._
+
+BROMIA.
+
+ Eis-aqui a copa vem,
+ Testimunho da verdade.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Oh estranha novidade!
+
+ALCMENA.
+
+ Poder-me-ha dizer alguem
+ Que o que digo he falsidade?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea, quando hontem cá vinhas,
+ Poder-me-has negar, ladrão,
+ Que lhe déste as novas minhas,
+ E mais a copa que tinhas
+ Guardada na tua mão?
+
+SOSEA.
+
+ Señor, que no pude, no,
+ Ver á mi Señora Alcmena:
+ Si aquel eso acá ordenó,
+ No lleve este yo la pena
+ Del mal que hizo el otro yo.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ora eu não sei entender
+ Tal caso, nem lhe acho fundo:
+ Com tudo venho a dizer,
+ Que ha tantos males no mundo,
+ Que tudo se póde crer.
+ Se vos trouxer quem vos diga
+ Como esta noite dormi
+ Na nao, crereis que he assi?
+
+ALCMENA.
+
+ Nenhuma cousa me obriga
+ A que não creia o que vi.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Se o Patrão aqui vier,
+ Que he homem d'autoridade,
+ Crereis o que vos disser?
+
+ALCMENA.
+
+ Sim, que ninguem póde haver
+ Que me negue esta verdade.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Eu estou em concrusão
+ D'hoje desembaraçar
+ Tão enleada questão:
+ Á nao me quero tornar
+ A trazer cá Belferrão.
+ Sósea, até minha tornada
+ Fica nesta casa em vela;
+ Qu'eu armarei tal cilada
+ A quem ma a mim tee armada,
+ Que venha hoje a cahir nella.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Alcmena e Bromia._
+
+ALCMENA.
+
+ Oh mulher triste e suspensa
+ Da mais alta confusão
+ Que nunca vio coração!
+ Em que mereces a offensa,
+ Que te faz Amphitrião?
+ Sempre de mi foi amado,
+ Tanto quanto em mi se sente,
+ Co'o coração tão liado,
+ Que se de mi era ausente,
+ Nelle o via figurado.
+ E pois mulher, que cumprisse
+ Melhor qu'eu fidelidade,
+ Não a vi, nem quem me visse
+ Que dos limites sahisse
+ Hum pouco da honestidade.
+ Pois porque he tão maltratada
+ Innocencia tão singella?
+ Que a pena mais apertada,
+ He a culpa levantada
+ Ao coração livre della.
+ Mas ja que minh'alma está
+ Sem culpa do que padeço,
+ Seja o que for; qu'eu conheço
+ Que a verdade me porá
+ No qu'eu pola ter mereço.
+ Bromia?
+
+BROMIA.
+
+ Senhora.
+
+ALCMENA.
+
+ Hi mandar
+ A Feliseo, que vá
+ Meu primo Aurelio chamar;
+ Que lhe quero perguntar
+ Que conselho me dará.
+ E pois que Amphitrião
+ Vai buscar somente quem
+ Lhe ajude a sua tenção,
+ Quero eu ter aqui tambem
+ Quem me defenda a razão.
+
+
+
+
+ACTO QUARTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter, Alcmena e Sosea._
+
+JUPITER.
+
+ Grão desconcêrto tee feito
+ Amphitrião com Alcmena!
+ Qualquer delles tee direito:
+ Eu sou o que venço o preito,
+ E ambos págão a pena.
+ Quero-me ir lá desfazer
+ Tão trabalhosa demanda,
+ Por nos tornarmos a ver;
+ Porque, emfim, quem muito quer
+ Com qualquer desculpa abranda.
+ E pois ja que a affeição
+ Ha de mudar tão asinha,
+ Quero ir alcançar perdão
+ Da culpa, que sendo minha,
+ Parece d'Amphitrião.
+
+ALCMENA.
+
+ Parece que torna cá
+ Amphitrião, que ja se hia:
+ Não sei a que tornará.
+ Senão se lhe peza ja
+ Dos enganos que tecia.
+
+JUPITER.
+
+ Senhora, não haja error
+ Que tantos males me faça,
+ Porque se o contrário for,
+ Pequeno será o amor,
+ Que manencória desfaça.
+ E pois com tanta alegria
+ De tantos perigos vim,
+ Pezar-me-ha se achar no fim,
+ Que huma leve zombaria
+ Vos possa aggravar de mim.
+
+ALCMENA.
+
+ Com palavras de deshonra
+ Não se ha de tratar quem ama;
+ Nem zombaria se chama,
+ Por exprimentar a honra,
+ Pôr em tal perigo a fama.
+ Bem tive eu para mim,
+ Que era aquillo experiencia.
+
+JUPITER.
+
+ Errei no que commetti:
+ Bem me basta a penitencia
+ De quanto me arrependi.
+ E se fiz algum error,
+ Com que vosso amor se mude
+ De quem vo-lo tee maior;
+ Não exprimentei virtude,
+ Mas exprimentei amor.
+ Que se com caso tão vário
+ Folguei de vos agastar,
+ Foi amor accrescentar;
+ Porque ás vezes hum contrário
+ Faz seu contrário avisar.
+ Daqui vem, que a leve mágoa
+ Firmeza e affeições augmenta,
+ Como bem se vê na frágoa,
+ Onde o fogo se accrescenta,
+ Borrifando-o com pouca ágoa.
+ Se hum mal grande se alevanta
+ N'hum coração que maltrata,
+ A affeição se desbarata;
+ Porque onde a ágoa he tanta
+ O fogo d'amor se mata.
+ E pois tive tal tenção,
+ Perdoae, Senhora, a culpa
+ Deste vosso coração.
+
+ALCMENA.
+
+ Não se alcança assi perdão
+ D'erro que não tee desculpa.
+
+JUPITER.
+
+ Ora pois assi tratais
+ Quem em tanto risco pôs
+ O amor que vós negais,
+ Eu m'ausentarei de vós
+ Onde mais me não vejais.
+ Que, pois desculpa não tem
+ Coração que tanto quer,
+ Vou-me; que não será bem
+ Que quem vós não podeis ver,
+ Que possa mais ver ninguem.
+ Se algum'hora meu cuidado
+ Vos der dor, em que pequena;
+ Peço-vos, pois fui culpado,
+ Que vos não peze da pena
+ De quem vos foi tão pezado.
+ E despois que a desventura
+ Puzer este coração
+ Debaixo da sepultura,
+ As letras na pedra dura
+ Vossa dureza dirão.
+ Isto vos hei de dizer,
+ Que m'ensinou minha dor:
+ Se quizerdes leda ser,
+ Nunca exprimenteis amor
+ Em quem vo-lo não tiver.
+ Deixae-me ir; não me tenhais.
+
+ALCMENA.
+
+ Amphitrião, não choreis!
+ Amphitrião!
+
+JUPITER.
+
+ Que quereis,
+ Ou para que nomeais
+ Homem, que ver não podeis?
+
+ALCMENA.
+
+ Amphitrião, s'eu causei
+ Com manencória pequena
+ Cousa, com que o magoei;
+ Eu quero cahir na pena
+ Dessa culpa que lhe dei.
+
+JUPITER.
+
+ Sempre serei magoado
+ Se vossa má condição
+ Me não perdôa o passado.
+
+ALCMENA.
+
+ Perdôo, e peço perdão
+ De lhe não ter perdoado.
+
+SOSEA.
+
+ No le perdone, Señora,
+ Hasta que con devocion
+ Tambien me pida perdon;
+ Que bien se me acuerda ahora
+ Que me ha llamado ladron.
+
+JUPITER.
+
+ Sósea?
+
+SOSEA.
+
+ Señor.
+
+JUPITER.
+
+ Vae buscar
+ O Piloto Belferrão;
+ Dir-lhe-has, se desembarcar,
+ Que me parece razão
+ Que venha hoje cá cear.
+
+SOSEA.
+
+ Si, Señor, voy á la hora.
+
+JUPITER.
+
+ De nenhuma qualidade
+ Cure de fazer demora.
+ E nós vamos-nos, Senhora,
+ Confirmar nossa amizade.
+
+
+SCENA II.
+
+MERCURIO.
+
+ Grandes revoltas vão lá.
+ Grandes acontecimentos!
+ Cumpre-me que esteja cá,
+ Em quanto meu pae está
+ Em seus desenfadamentos.
+ Porque vi Amphitrião
+ Vir da nao mui apressado;
+ E tendo corrido e andado,
+ Não pôde achar Belferrão,
+ Que lhe era bem escusado.
+ Parece-me que virá
+ Ver se lhe abre aqui alguem;
+ Mas, porém, se chega cá,
+ Ja póde ser que se vá
+ Mais confuso do que vem.
+
+
+SCENA III.
+
+_Mercurio e Amphitrião._
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quiz-nos nossa natureza
+ Com tal condição fazer,
+ Que ja temos por certeza
+ Não haver grande prazer,
+ Sem mistura de tristeza.
+ Este decreto espantoso,
+ Que instituio nossa sorte,
+ He tal e tão rigoroso,
+ Que ninguem antes da morte
+ Se póde chamar ditoso.
+ Com esta justa balança
+ O Fado grande e profundo
+ Nos refreia a esperança,
+ Porque ninguem neste mundo
+ Busque bem-aventurança.
+ Eu, que cuidei de viver
+ Sempre contente de mi
+ Com tamanho Rei vencer,
+ Venho achar minha mulher
+ De todo fóra de si.
+ Mas d'outra parte, que digo?
+ Que s'he verdade o que vi,
+ E o que ella diz he assi;
+ Virei a cuidar comigo
+ Qu'eu sou o fóra de mi.
+ Quero ver se a acho ja
+ Fóra de tão seccos nós.
+ Ó de casa?
+
+MERCURIO.
+
+ O de allá?
+ Quien sois?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Abre.
+
+MERCURIO.
+
+ Santo Dios!
+ Pues no os conocen acá.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Oh que gentil desvario!
+ Abri-me ora se quizerdes.
+
+MERCURIO.
+
+ No haré, que en mí confio
+ Que de fuera dormiredes,
+ Que no comigo, amor mio.
+ (Que cancion para oir!)
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ah Sósea! zombas de mi?
+ (Ora quero-me fingir
+ Que ainda o não conheci,
+ Por ver se me quer abrir)
+ Ah Senhor, não abrireis?
+
+MERCURIO.
+
+ Qué quereis, hombre, por Dios?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Duas palavras de vós.
+
+MERCURIO.
+
+ Tengo dicho mas de seis,
+ E ahora me pedis dos?
+ De fuera podeis dormir,
+ Que entrar no podeis acá.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ora acabae, abri lá.
+
+MERCURIO.
+
+ Digo que no quiero abrir:
+ Dije dos palabras ya.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ora sus, bargante, abri.
+
+MERCURIO.
+
+ Si no te vuelves de aqui,
+ Á gran peligro te ofreces.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Velhaco, não me conheces.
+ Ou estás fóra de ti?
+
+MERCURIO.
+
+ Bonito venis, amor.
+ Quien sois, que hablais tan osado?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Abre, que sou teu Senhor.
+
+MERCURIO.
+
+ Vuélvase de esotro lado,
+ Y conocerlehé mejor.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea moço.
+
+MERCURIO.
+
+ Así me llamo,
+ Huélgome que lo sepais;
+ Empero digo que os vais,
+ Que Amphitrion es mi amo;
+ Vos id buscar quien seais.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Pois quero saber de ti:
+ Eu quem sou?
+
+MERCURIO.
+
+ Y quien sois vós?
+ Como os llaman?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Abri.
+
+MERCURIO.
+
+ Á vos os llaman Abri?
+ Pues, Abri, andad con Dios.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quem ha, que possa soffrer
+ Em sua honra tal destrôço,
+ Que para me endoudecer
+ Me tee negado a mulher,
+ E agora me nega o moço?
+
+MERCURIO.
+
+ Mira el encantador
+ Como se lastima y llora,
+ Y fuese tomar ahora
+ La forma de mi Señor,
+ Para engañar mi Señora.
+ Pues esperad, y no os vais,
+ Por un espacio pequeño;
+ Verná quien representais,
+ Y él os hará que volvais
+ El falso gesto á su dueño.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Vae, velhaco, e chama cá
+ Esse falso feiticeiro;
+ Que se elle lá dentro está,
+ Esta espada julgará
+ Qual de nós he o verdadeiro.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Amphitrião, Sosea e Belferrão._
+
+BELFERRÃO.
+
+ Ora ninguem presumíra
+ Que tinhas tão pouco siso;
+ Pois vás achar d'improviso
+ Tão bem forjada mentíra,
+ Que me faz cahir de riso.
+ Hum moço, que alevantou
+ Tal graça, nunca nasceo:
+ Porque vos jura que achou
+ Que ou elle em dous se perdeo,
+ Ou de hum dous se tornou.
+
+SOSEA.
+
+ Patron, que no burlo, no:
+ En uno son dos unidos,
+ Y en dos cuerpos repartidos;
+ Yo soy él, y él es yo,
+ De un padre y madre nacidos.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Esse tu que lá estás,
+ Tão velhaco he como ti?
+
+SOSEA.
+
+ Mas aun pienso que es mas:
+ Por delante y por detrás
+ Todo se parece á mí.
+ Y fue gran merced de Dios
+ Ayuntar á mí mas uno,
+ Que peor fuera de nos,
+ Si Dios me hiciera ninguno,
+ Que no de uno hacer dos.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Assi que, se te perdeste
+ Vieste a cobrar mais hum:
+ Mui gentil conta fizeste,
+ Pois que perdido soubeste
+ Que eras dous, sendo nenhum.
+
+SOSEA.
+
+ Pues teneis por abusion
+ Verdad tan clara, y tan rasa,
+ Aunque pone admiracion;
+ Quiera Dios, que allá en casa
+ No halleis otro Patron.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ O Patrão, que fui buscar,
+ Parece que vejo vir:
+ Não sei quem o foi chamar;
+ Mas que me ha de aproveitar
+ Se me não querem abrir?
+ Ah Belferrão!
+
+BELFERRÃO.
+
+ Ah Senhor!
+ Ja sinto que fui culpado;
+ Porque quem he convidado,
+ Se tão vagaroso for,
+ Merece não ser chamado.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ A vós quem vos convidou?
+
+BELFERRÃO.
+
+ Sósea, por mandado seu.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Disso, Patrão, não sei eu;
+ Que Sósea ja me negou,
+ E ja se não dá por meu.
+ E se alguem vos foi dizer
+ Qu'eu vos chamo á minha mesa;
+ Mal vos dara de comer
+ Quem de todo lhe he defesa
+ A casa, e mais a mulher.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Quem he esse tão ousado,
+ Que vos isso faz, Senhor?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea, creio que enganado
+ Por algum encantador,
+ Que a honra me tee roubado.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Se elle aqui comigo vem,
+ Isso como póde ser?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ah! que a íra que vou ter,
+ Tão cega a vista me tem,
+ Que mo não deixava ver.
+ Porque razão, cavalleiro,
+ Não me abris quando vos mando?
+ Vós fazeis-vos chocarreiro?
+
+SOSEA.
+
+ Yo Señor? y como? y cuando?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quereis-lo saber primeiro?
+ Esperae, dir-se-vos-ha,
+ Mas será por outro son.
+
+SOSEA.
+
+ Ah Señor Amphitrion,
+ Porque matándome está,
+ Sin delito, y sin razon?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Agora que vos eu dou
+ Me chamais Amphitrião,
+ E para me abrirdes não?
+
+BELFERRÃO.
+
+ Este moço em que peccou?
+ Porque pena sem razão?
+ Não mais por amor de mi.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Não, que não sou seu Senhor;
+ Eu sou hum encantador.
+ Não o dizeis vós assi,
+ Ladrão, perro, enganador?
+
+SOSEA.
+
+ Porque fuy presto á llamar
+ Por su mandado al Patron,
+ Me quiere ahora matar?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quem vo-lo mandou buscar?
+
+SOSEA.
+
+ Si no hay otro Amphitrion,
+ Vuestra merced sin dudar.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Eu te mandei?
+
+SOSEA.
+
+ Si Señor,
+ Si otro no.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Outro ha aqui,
+ Por quem tu zombes de mi?
+ Pois só desse encantador
+ Me quero vingar em ti.
+
+SOSEA.
+
+ Oh Júpiter, á quien bramo
+ Por su bondad que me vala!
+ Pues porque Sósea me llamo,
+ Yo mismo, y despues mi amo,
+ Me dieron venida mala!
+
+
+
+
+ACTO QUINTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter, Belferrão, Sosea e Amphitrião._
+
+JUPITER.
+
+ Quem he o tão atrevido,
+ Que aqui ousa de fazer
+ Tão revoltoso arruido
+ Com meus moços, sem temer,
+ Que fui sempre tão temido?
+ Quem aqui faz união,
+ Toma mui grande despejo.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Oh grande admiração!
+ Vejo eu outro Amphitrião,
+ Ou he sonho isto que vejo?
+
+SOSEA.
+
+ No mirais la encantacion,
+ Que aquel hizo á mi Señor?
+ El que sale, Belferron,
+ Es el cierto Amphitrion,
+ Que estotro es encantador.
+
+JUPITER.
+
+ Sósea?
+
+SOSEA.
+
+ Mi Señor, ya vó.
+
+JUPITER.
+
+ Patrão, só por vós espero.
+
+SOSEA.
+
+ No os lo dicia yo,
+ Que este era el verdadero,
+ Y esse que allá queda, no?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Bargante, aonde te vás?
+ Fazes teu Senhor sandeu?
+ Pois espera, e levarás.
+
+JUPITER.
+
+ Ó lá, tornae por detrás,
+ Não deis no moço, que he meu.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Vosso?
+
+JUPITER.
+
+ Meu.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Póde isto haver,
+ Que outrem minhas cousas tome?
+ Vós galante haveis de ser,
+ O que me tomais o nome,
+ Casa, moços e mulher.
+ Eu vos farei conhecer
+ Com quem tendes esse trato.
+
+JUPITER.
+
+ Sósea?
+
+SOSEA.
+
+ Señor.
+
+JUPITER.
+
+ Vae dizer,
+ Que apparelhem de comer,
+ Em quanto este doudo mato.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Oh Senhor, não seja assim,
+ Haja em vós concêrto algum!
+ E senão, pois aqui vim,
+ Farei que só tome em mim
+ Os golpes de cada hum.
+
+JUPITER.
+
+ Patrão, vossa boa estrella
+ Me fara deixar com vida
+ Quem me não merece tella.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Não a tenho eu merecida,
+ Pois que vos deixo com ella.
+
+BELFERRÃO.
+
+ O homem que for sisudo,
+ N'huma tão grande questão
+ Ha de tomar por escudo
+ A justiça, e a razão;
+ Que estas armas vencem tudo.
+ E pois essa natureza
+ Muitos homens faz iguais,
+ Dê qualquer de vós signais
+ De quem he, para certeza
+ Da fórma que ambos mostrais.
+
+JUPITER.
+
+ Sou contente de mostrar
+ Polos sinaes que vos dou,
+ Que são estes sem faltar.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Que sinaes podeis vós dar,
+ Para que sejais quem sou?
+
+JUPITER.
+
+ Estes, que logo vereis
+ Se são vãos, se de raiz.
+ Patrão, vós sêde juiz,
+ Que vós logo enxergareis
+ Qual mais verdade vos diz.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Eu não sinto onde consista
+ A cura desta doença,
+ Que ha tão pouca differença,
+ Que aquelle em que ponho a vista,
+ Por esse dou a sentença.
+ Mas, Senhor, vós que ordenastes
+ Que o juiz disto fosse eu,
+ Quando se a batalha deu,
+ Dizei, que m'encommendastes
+ Que ficasse a cargo meu?
+
+JUPITER.
+
+
+ Dei-vos cargo, qu'estivesse
+ Toda a Armada a bom recado,
+ E, se mal nos succedesse,
+ Que para os vivos houvesse
+ O refugio apparelhado.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Ora vós quantos dobrões
+ Esse dia m'entregastes?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Tres mil; e vós os contastes.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Ambos sois Amphitriões
+ Pelos sinaes que mostrastes.
+
+JUPITER.
+
+ Para ser mais conhecida
+ A tenção deste sandeu,
+ Vêde est'outro sinal meu,
+ Que he neste braço a ferida
+ Que me ElRei Terela deu.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Mostrae vós, Senhor, tambem.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Aqui o podeis olhar.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Oh cousa para espantar!
+ Que ambos a ferida tem
+ D'hum tamanho, em hum lugar!
+
+
+SCENA II.
+
+_Jupiter, Amphitrião e Sosea._
+
+SOSEA.
+
+ Dice mi Señora Alcmena
+ Que no se ha de así de estar
+ Con un bobo á razonar,
+ Que se le enfria la cena.
+
+JUPITER.
+
+ Belferrão, vamos cear.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Belferrão, não me deixeis.
+ Como? tambem me negais?
+
+JUPITER.
+
+ Andae, não vos detenhais,
+ Vamos comer, se quereis,
+ Não ouçais hum doudo mais.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ah maos! assi me ordenais
+ Offensa tão mal olhada?
+ Eu farei, se m'esperais,
+ Com que todos conheçais
+ Os fios da minha espada.
+
+JUPITER.
+
+ As portas prestes fechemos,
+ Não entre este doudo cá.
+
+SOSEA.
+
+ De fuera se dormirá:
+ Entre tanto que cenemos,
+ Puede pasearse allá.
+
+
+SCENA III.
+
+AMPHITRIÃO _só_.
+
+ Oh ira para não crer,
+ Em que minh'alma se abraza,
+ Que me faz endoudecer,
+ E não me ajuda a romper
+ As paredes desta casa!
+ E porque? Não tenho eu
+ Forças, que tudo destrua?
+ Pois que tanto a salvo seu,
+ Outrem acho que possua
+ A melhor parte do meu;
+ Eu irei hoje buscar
+ Quem me ajude a vir queimar
+ Toda esta casa sem pena,
+ Donde veja arder Alcmena,
+ Com quem a vejo enganar.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Aurelio e Moço._
+
+AURELIO.
+
+ No hallo á mis males culpa,
+ Para que merezca pena
+ La causa que me condena.
+
+MOÇO.
+
+ Essa está gentil desculpa
+ Para hoje dar a Alcmena!
+ Tee-no mandado chamar,
+ E elle está tão descuidado!
+
+AURELIO.
+
+ Moço, queres-me matar?
+ Que desculpa posso eu dar
+ Melhor qu'este meu cuidado?
+
+MOÇO.
+
+ E não ha mais que fazer?
+ Com isso a boca me tapa
+ Para mais nada dizer?
+
+AURELIO.
+
+ Ora dá-me cá essa capa
+ E vamos ver o que quer:
+ Não trates de mais razão,
+ Pois não ha quem te resista.
+ Que vejo? outra novação!
+
+MOÇO.
+
+ Que he?
+
+AURELIO.
+
+ Ou me mente a vista,
+ Ou eu vejo Amphitrião.
+
+MOÇO.
+
+ Eu ouvi a Feliseo,
+ Quando cá trouxe o recado,
+ Como elle era chegado,
+ E quiz-me dizer que veo
+ Do siso desconcertado.
+
+AURELIO.
+
+ Isso quero eu ir saber,
+ Pois que tal cousa se sôa.
+
+
+SCENA V.
+
+_Aurelio e Amphitrião._
+
+AURELIO.
+
+ Senhor, póde-se dizer
+ Que a vinda seja mui boa?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Essa não póde ella ser.
+
+AURELIO.
+
+ Porque não?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Porque he roubada
+ Minha honra sem temor,
+ E minha casa tomada,
+ E vossa Prima enganada
+ Por hum grande encantador.
+
+AURELIO.
+
+ Isso he certo?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ E manifesto:
+ E tudo tee ja por seu
+ Adúltero e deshonesto:
+ Tee-me tomado o meu gesto,
+ E faz-lhe crer que sou eu.
+
+AURELIO.
+
+ Contais hum caso d'espanto!
+ E pois não podeis entrar,
+ Defendei-me por em tanto,
+ Que eu hei lá de chegar
+ Para ver quem póde tanto,
+
+
+SCENA VI.
+
+AMPHITRIÃO _só_.
+
+ Se ver deshonra tão clara
+ Me não tivera o sentido
+ Totalmente endoudecido,
+ Que gravemente chorára
+ Ver tão grande amor perdido!
+ E quando vejo a verdade
+ Do nosso amor e amizade
+ Desfeita com tanta mágoa
+ Enchem-se-me os olhos d'ágoa,
+ E a alma de saudade.
+ Assi que quiz minha estrella,
+ Para nunca ser contente,
+ Que agora, estando presente
+ Viva mais saudoso della,
+ Que quando della era ausente.
+ Esta porta vejo abrir
+ Com impeto demasiado,
+ Que poderei presumir,
+ Que vejo Aurelio sahir,
+ Como homem desatinado?
+
+
+SCENA VII.
+
+_Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea._
+
+AURELIO.
+
+ Oh estranha novidade!
+ Oh cousa para não crer!
+
+BELFERRÃO.
+
+ Venho cego de verdade,
+ Que não puderão soffrer
+ Meus olhos a claridade.
+
+SOSEA.
+
+ Oh triste, que vengo ciego
+ Con rayos, y con visiones!
+ Y destas encantaciones,
+ Si nuestra casa arde en fuego,
+ Han se de arder mis colchones.
+
+AURELIO.
+
+ Vamos a Amphitrião
+ Contar-lhe cousas tamanhas.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Que vai lá? que cousas vão?
+
+AURELIO.
+
+ Maravilhas tão estranhas,
+ Que me treme o coração.
+ Porque aquelle homem, que assi
+ Tantos enganos teceo,
+ Como era cousa do Ceo,
+ Tanto qu'eu appareci,
+ Logo desappareceo.
+ E em desapparecendo
+ Com ruido grande e horrendo,
+ Toda a casa allumiou;
+ E de arte nos inflammou,
+ Que nos vimos acolhendo
+ Do raio que nos cegou.
+ Estes acontecimentos
+ Não são de humana pessoa.
+ Vós ouvis a voz que soa?
+ Escutae, estae attentos;
+ Vejamos o que pregôa.
+
+JUPITER, _de dentro_.
+
+ Amphitrião, qu'em teus dias
+ Vês tamanhas estranhezas,
+ Não t'espantem phantasias,
+ Que ás vezes grandes tristezas
+ Parem grandes alegrias.
+ Jupiter sou manifesto
+ Nas obras de admiração,
+ Que por mi causadas são:
+ Quiz-me vestir em teu gesto,
+ Por honrar tua geração.
+ Tua mulher parirá
+ Hum filho de mi gerado,
+ Que Hercules se chamará,
+ O mais valente e esforçado,
+ Que no mundo se achará.
+ Com este, teus successores
+ Se honrarão de serem teus;
+ E dar-lhe-hão os escriptores,
+ Por doze trabalhos seus,
+ Doze milhões de louvores.
+ E dessa illustre fadiga
+ Colherás mui rico fruito:
+ Enfim, a razão me obriga
+ Que tão pouco delle diga,
+ Porque o tempo dirá muito.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+FILODEMO,
+
+COMEDIA.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+ FILODEMO.
+ VILARDO, seu moço.
+ DIONYSA.
+ SOLINA, sua moça.
+ VENADORO.
+ MONTEIRO.
+ DORIANO, amigo de Filodemo.
+ HUM PASTOR.
+ HUM BOBO, filho do pastor.
+ FLORIMENA, pastora.
+ DOM LUSIDARDO, pae de Venadoro.
+ DOLOROSO, amigo de Vilardo.
+ TRES PASTORES.
+
+
+ARGUMENTO.
+
+Hum Fidalgo Portuguez, que acaso andava nos Reinos de Dinamarca, como
+por largos amores e maiores serviços, tivesse alcançado o amor de huma
+filha d'el Rei, foi-lhe necessario fugir com ella em huma galé, por
+quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo chegados á costa
+de Hespanha, onde elle era senhor de grande patrimonio, armou-se-lhe
+grande tormenta, que sem nenhum remedio, dando a galé á costa, se
+perdêrão todos miseravelmente, senão a Princeza, que em huma taboa foi á
+praia: a qual, como chegasse o tempo de seu parto, junto de huma fonte
+pario duas crianças, macho e femia; e não tardou muito que hum pastor
+Castelhano, que naquellas partes morava, ouvindo os tenros gritos dos
+meninos, lhe acudio a tempo que a mãe ja tinha espirado. Crescidas,
+emfim, as crianças debaixo da humanidade e criação daquelle pastor, o
+macho que Filodemo se chamou á vontade de quem os baptizára, levado da
+natural inclinação, deixando o campo, se foi para a cidade, aonde por
+musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo, irmão de seu
+Pae, a quem muitos annos servio sem saber o parentesco que entre ambos
+havia. E como de seu Pae não tivesse herdado nada mais que os altos
+espiritos, namorou-se de Dionysa, filha de seu Senhor e Tio, que
+incitada ao que por suas obras e boas partes merecia, ou porque ellas
+nada engeitão, lhe não queria mal. Aconteceo mais, que Venadoro, filho
+de D. Lusidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao exercicio da caça,
+andando hum dia no campo apos hum cervo, se perdeo dos seus; e indo dar
+em huma fonte, onde estava Florimena, irmãa de Filodemo (que assim lhe
+pozerão o nome) enchendo huma talha de ágoa, se perdeo de amores por
+ella, que se não soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava,
+até que seu Pae o não foi buscar. O qual informado pelo pastor que a
+criára (que era homem sabio na Arte Magica) de como a achára e como a
+criára, não teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha, e
+prima de Filodemo; e a Venadoro seu filho, com Florimena sua sobrinha,
+irmãa de Filodemo pastor; e tambem pela muita renda que tinha e de seu
+Pae ficára, de que elles erão verdadeiros herdeiros. Das mais
+particularidades da Comedia, fara menção o Auto, que he o seguinte.
+
+
+
+
+FILODEMO,
+
+COMEDIA.
+
+
+
+
+ACTO PRIMEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Filodemo e Vilardo._
+
+FILODEMO.
+
+ Moço Vilardo?
+
+VILARDO.
+
+ Ei-lo vae.
+
+FILODEMO.
+
+ Fallae era má, fallae,
+ E sahi cá para a sala.
+ O villão como se cala!
+
+VILARDO.
+
+ Pois, Senhor, sahi a meu pae,
+ Que quando dorme não fala.
+
+FILODEMO.
+
+ Trazei cá huma cadeira:
+ Ouvis, villão?
+
+VILARDO.
+
+ Senhor, sim.
+ (Se m'ella não traz a mim.
+ Vejo-lh'eu ruim maneira.)
+
+FILODEMO.
+
+ Acabae, villão ruim.
+ Que moço para servir
+ Quem tee as tristezas minhas!
+ Quem pudesse assi dormir!
+
+VILARDO.
+
+ Senhor, nestas manhãzinhas
+ Não ha hi senão cahir:
+ Por demais he trabalhar
+ Qu'este somno se me ausente.
+
+FILODEMO.
+
+ Porque?
+
+VILARDO.
+
+ Porque ha d'assentar
+ Que se não for com pão quente,
+ Não ha de desaferrar.
+
+FILODEMO.
+
+ Ora hi pelo que vos mando,
+ Villão feito de fermento. _Sahe Vilardo._
+ Triste do que vive amando
+ Sem ter outro mantimento,
+ Qu'estar só phantasiando!
+ Só hua cousa me desculpa
+ Deste cuidado que sigo,
+ Ser de tamanho perigo,
+ Que cuido que a mesma culpa
+ Me fica sendo castigo.
+
+_Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante_
+
+FILODEMO.
+
+ Ora quero praticar
+ Só comigo hum pouco aqui;
+ Que despois que me perdi,
+ Desejo de me tomar
+ Estreita conta de mi.
+ Vae para fóra, Vilardo.
+ Torna cá: vae-me saber
+ Se se quer ja lá erguer
+ O Senhor Dom Lusidardo,
+ E vem-mo logo dizer. _Vai-se o moço._
+ Ora bem, minha ousadia,
+ Sem azas, pouco segura,
+ Quem vos deo tanta valia,
+ Que subais a phantasia
+ Onde não sobe a ventura?
+ Por ventura eu não nasci
+ No mato, sem mais valer,
+ Que o gado ao pasto trazer?
+ Pois donde me veio a mi
+ Saber-me tão bem perder?
+ Eu, nascido entre pastores,
+ Fui trazido dos currais,
+ E d'entre meus naturais
+ Para casa dos Senhores,
+ Donde vim a valer mais.
+ E agora logo tão cedo
+ Quiz mostrar a condição
+ De rustico e de villão!
+ Dando-me ventura o dedo,
+ Lhe quero tomar a mão!
+ Mas oh! qu'isto não he assi,
+ Nem são villãos meus cuidados,
+ Como eu delles entendi;
+ Mas antes, de sublimados,
+ Os não posso crer de mi.
+ Porque como hei eu de crer
+ Que me faça minha estrella
+ Tão alta pena soffrer,
+ Que somente pola ter
+ Mereço a gloria della?
+ Senão se amor, d'attentado,
+ Porque me não queixe delle,
+ Tee por ventura ordenado
+ Que mereça o meu cuidado,
+ Só por ter cuidado nelle.
+
+
+SCENA II.
+
+_Vilardo e Filodemo._
+
+VILARDO.
+
+ O Senhor Dom Lusidardo
+ Dorme com todo o convento;
+ E elle com o pensamento
+ Quer estar fazendo alardo
+ De castellinhos de vento!
+ Pois tão cedo se vestio,
+ Com seu damno se conforme,
+ Pezar de quem me pario;
+ Que ainda o sol não sahio:
+ Se vem á mão, tambem dorme.
+ Elle quer-se levantar
+ Assi pela manhãzinha!
+ Pois quero-o desenganar:
+ Nem por muito madrugar
+ Amanhece mais asinha.
+
+_Filodemo._
+
+ Traze-me a viola cá.
+
+VILARDO.
+
+ (Voto a tal que me vou rindo.)
+ Senhor, tambem dormirá.
+
+FILODEMO.
+
+ Traze-a, moço.
+
+VILARDO.
+
+ Si, virá,
+ Se não estiver dormindo.
+
+FILODEMO.
+
+ Ora hi polo que vos mando:
+ Não gracejeis.
+
+VILARDO.
+
+ Eis-me vou:
+ Pois, pezar de São Fernando!
+ Por ventura sou eu grou?
+ Sempre hei d'estar vigiando? _Sahe._
+
+FILODEMO.
+
+ Ah Senhora, que podeis
+ Ser remedio do que peno,
+ Quão mal ora cuidareis
+ Que viveis e que cabeis
+ N'hum coração tão pequeno!
+ Se vos fosse apresentado
+ Este tormento em que vivo,
+ Crerieis que foi ousado
+ Este vosso, de criado
+ Tornar-se vosso captivo?
+
+
+SCENA III.
+
+_Filodemo e Vilardo._
+
+VILARDO.
+
+ Ora eu creio, se he verdade
+ Qu'estou de todo acordado,
+ Que meu amo he namorado;
+ E a mi dá-me na vontade
+ Que anda hum pouco abalado.
+ E se tal he, eu daria
+ Por conhecer a donzella
+ A ração d'hoje este dia;
+ Porque a desenganaria,
+ Somente por ter dó della.
+ Havia-lhe perguntar:
+ Senhora, de que comeis?
+ Se comeis d'ouvir cantar,
+ De fallar bem, de trovar,
+ Em boa hora casareis.
+ Porém se vós comeis pão,
+ Tende, Senhora, resguardo;
+ Qu'eis-aqui está Vilardo,
+ Qu'he como hum camaleão,
+ Por isso, bus, fazei fardo.
+ E se vós sois das gamenhas,
+ E houverdes d'attentar
+ Por mais que por manducar,
+ Mi cama son duras peñas,
+ Mi dormir siempre es velar.
+ A viola, Senhor, vem
+ Sem primas, nem derradeiras:
+ Mas sabe o que lhe convem?
+ Se quer, Senhor, tanger bem,
+ Ha de haver mister terceiras.
+ E se estas cantigas vossas
+ Não forem para escutar,
+ E quizerdes espirar;
+ Ha mister cordas mais grossas,
+ Porque não possão quebrar.
+
+FILODEMO.
+
+ Vae para fóra.
+
+VILARDO.
+
+ Ja venho.
+
+FILODEMO.
+
+ Qu'eu só desta phantasia
+ Me sostenho e me mantenho.
+
+VILARDO.
+
+ Quamanha vista que tenho,
+ Que vejo a estrella do dia! _Sahe._
+
+
+SCENA IV.
+
+FILODEMO, _cantando_.
+
+ Adó sube el pensamiento,
+ Seria una gloria inmensa
+ Si allá fuese quien lo piensa.
+
+_Falla._
+
+ Qual espirito divino
+ Me fará a mi sabedor
+ Deste meu mal, se he amor,
+ Se por dita desatino?
+ Se he amor, diga-me qual
+ Póde ser seu fundamento,
+ Ou qual he seu natural,
+ Ou porque empregou tão mal
+ Hum tão alto pensamento.
+ Se he doudice, como em tudo
+ A vida me abraza e queima,
+ Ou quem vio n'hum peito rudo
+ Desatino tão sisudo,
+ Que toma tão doce teima?
+ Ah Senhora Dionysa,
+ Onde a natureza humana
+ Se mostrou tão soberana!
+ O que vós valeis me avisa,
+ Mas o qu'eu peno m' engana.
+
+
+SCENA V.
+
+_Solina e Filodemo._
+
+SOLINA.
+
+ Tomado estais vós agora,
+ Senhor, co'o furto nas mãos.
+
+FILODEMO.
+
+ Solina, minha Senhora,
+ Quantos pensamentos vãos
+ Me ouvirieis lançar fóra?
+
+SOLINA.
+
+ Oh Senhor, quão bem que sôa
+ O tanger de quando em quando!
+ Bem sei eu huma pessoa,
+ Que haja huma hora, e boa,
+ Que vos está escutando.
+
+FILODEMO.
+
+ Por vida vossa, zombais?
+ Quem he? quereis-mo dizer?
+
+SOLINA.
+
+ Não o haveis vós de saber,
+ Bofé se me não peitais.
+
+FILODEMO.
+
+ Dar-vos-hei quanto tiver,
+ Para taes tempos como estes.
+ Quem tivera voz dos Ceos,
+ Pois escutar me quizestes!
+
+SOLINA.
+
+ Assi pareça eu a Deos,
+ Como lhe vós parecestes.
+
+FILODEMO.
+
+ A Senhora Dionysa
+ Quer-se ja alevantar?
+
+SOLINA.
+
+ Assi me veja eu casar,
+ Como despida em camisa
+ Se ergueo por vos escutar.
+
+FILODEMO.
+
+ Em camisa levantada!
+ Tão ditosa he minha estrella?
+ Ou mo dizeis refalsada?
+
+SOLINA.
+
+ Pois bem me defendeo ella
+ Que vos não dissesse nada.
+
+FILODEMO.
+
+ Se pena de tantos annos
+ Merecer algum favor,
+ Para cura de meus dannos
+ Fartae-me desses engannos,
+ Que não quero mais de Amor.
+
+SOLINA.
+
+ Agora quero eu fallar
+ Neste caso com mais tento;
+ Quero agora perguntar:
+ E de siso his vós tomar
+ Hum tão alto pensamento?
+ Certo he minha maravilha,
+ Se vós isto não sentis
+ Bem: vós como não cahis
+ Que Dionysa qu'he filha
+ Do Senhor a quem servis?
+ Como? Vós não attentais
+ Os Grandes, de qu'he pedida?
+ Peço-vos que me digais
+ Qual he o fim que esperais
+ Neste caso, em vossa vida.
+ Que razão boa, ou que côr
+ Podeis dar a esta affeição?
+ Dizei-me vossa tenção.
+
+FILODEMO.
+
+ Onde vistes vós amor
+ Que se guie por razão?
+ Se quereis saber de mi
+ Que fim, ou de que theor
+ O pretendo em minha dor;
+ S'eu neste amor quero fim,
+ Sem fim me atormente Amor.
+ Mas vós com gloria fingida
+ Pretendeis de m'enganar,
+ Por assi mal me tratar:
+ Assi que me dais a vida
+ Somente por me matar.
+
+SOLINA.
+
+ Eu digo-vos a verdade.
+
+FILODEMO.
+
+ Da verdade fujo eu,
+ Porque se o Amor me deu
+ Pena de tal qualidade,
+ Assaz me custa do meu.
+
+SOLINA.
+
+ Fólgo muito de saber
+ Que sois amante tão fino.
+
+FILODEMO.
+
+ Pois mais vos quero dizer,
+ Que ás vezes no imaginar
+ Não ouso de m' estender.
+ Na hora que imaginei
+ Na causa de meu tormento,
+ Tamanha gloria levei,
+ Que por onças desejei
+ De lograr o pensamento.
+
+SOLINA.
+
+ Se me vós a mi jurardes
+ De me terdes em segredo
+ Huma cousa... mas hei medo
+ De logo tudo contardes.
+
+FILODEMO.
+
+ A quem?
+
+SOLINA.
+
+ Áquelle enxovedo.
+
+FILODEMO.
+
+ Qual?
+
+SOLINA.
+
+ Aquelle mao pezar,
+ Que ant'hontem comvosco hia.
+ Quem se fosse em vós fiar!
+ O que vos disse o outro dia,
+ Tudo lhe fostes contar.
+
+FILODEMO.
+
+ Que lhe contei?
+
+SOLINA.
+
+ Ja lh'esquece?
+
+FILODEMO.
+
+ Por certo qu'estou remoto.
+
+SOLINA.
+
+ Hi, que sois hum cesto roto.
+
+FILODEMO.
+
+ Esse homem tudo merece.
+
+SOLINA.
+
+ Vós sois muito seu devoto.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, não hajais medo:
+ Contae-m'isso, e far-me-hei mudo.
+
+SOLINA.
+
+ Senhor, o homem sisudo,
+ Se em taes cousas tee segredo,
+ Saiba que alcançará tudo.
+ A Senhora Dionysa
+ Crede que mal vos não quer:
+ Não vos posso mais dizer.
+ Isto tende por balisa
+ Com que vos saibais reger.
+ Qu'em mulheres, se attentais,
+ O querer está visibil;
+ E se bem vos governais,
+ Não desespereis do mais,
+ Porque, emfim, tudo he possibil.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, póde isso ser?
+
+SOLINA.
+
+ Si, que tudo o mundo tem:
+ Olhae não o saiba alguem.
+
+FILODEMO.
+
+ E que maneira hei de ter
+ Para crer tamanho bem?
+
+SOLINA.
+
+ Vós, Senhor, o sabereis;
+ E ja que vos descobri
+ Tamanho sogredo aqui,
+ Huma mercê me fareis
+ Em que me vai muito a mi.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, a tudo me obrigo
+ Quanto for em minha mão.
+
+SOLINA.
+
+ Pois dizei a vosso amigo
+ Que não gaste tempo em vão,
+ Nem queira amores comigo.
+ Porque eu tenho parentes,
+ Que me podem bem casar;
+ E mais que não quero andar
+ Agora em boca de gentes
+ A quem s'elle vai gabar.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, mal conheceis
+ O que vos quer Duriano:
+ Sabei-o, se o não sabeis,
+ Qu'em sua alma sente o dano
+ Do pouco que lhe quereis;
+ E que outra cousa não quer,
+ Que ter-vos sempre servida.
+
+SOLINA.
+
+ Pola sua negra vida,
+ Isso havia eu bem mister.
+
+FILODEMO.
+
+ Vós sois desagradecida!
+
+SOLINA.
+
+ Si, que tudo são enganos
+ Em tudo quanto fallais.
+
+FILODEMO.
+
+ Não quero que me creais:
+ Crede o tempo; que ha dous anos
+ Que vos serve, e inda mais.
+
+SOLINA.
+
+ Senhor, bem sei que m'engano;
+ Mas a vós, como a irmão,
+ Descubro este coração:
+ Sabei que a Duriano
+ Tenho sobeja affeição.
+ Olhae que lhe não digais
+ Isto que vos aqui digo.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, mal me tratais:
+ Inda que sou seu amigo,
+ Sabei que vosso sou mais.
+
+SOLINA.
+
+ E ja que vos confessei
+ Aquestas fraquezas minhas,
+ Que ha tanto que de mi sei;
+ Fazei vós nas cousas minhas
+ O qu'eu nas vossas farei.
+
+FILODEMO.
+
+ Vós enxergareis, Senhora,
+ O qu'eu por vós sei fazer.
+
+SOLINA.
+
+ Como me deixo esquecer!
+ Aqui estivera agora
+ Fallando té anoitecer.
+ Vou-me; e olhae quanto val
+ O que passou entre nós.
+
+FILODEMO.
+
+ E porque vos ides vós?
+
+SOLINA.
+
+ Porque parece ja mal
+ Estar aqui ambos sós.
+ E mais vou vestir agora
+ A quem vos dá tão má vida.
+ Ficae-vos, Senhor, embora.
+
+FILODEMO.
+
+ Nessa ide vós, Senhora,
+ Que ja vos tenho entendida.
+
+
+SCENA VI.
+
+FILODEMO _só_.
+
+ Ora se póde isto ser
+ Do qu'esta moça me avisa,
+ Que a Senhora Dionysa,
+ Por me ouvir, se fosse erguer
+ Da sua cama em camisa!
+ E diz que mal me não quer.
+ Não queria maior gloria;
+ Mas o que mais posso crer,
+ Que nem para lhe esquecer
+ Lhe passo pela memoria.
+ Mas ter Solina tambem
+ Em Duriano o intento,
+ He levar-me a lenha o vento;
+ Porque s'ella lhe quer bem,
+ Para bem vai meu tormento.
+ Mas foi-se este homem perder
+ Neste tempo, de maneira,
+ Por huma mulher solteira,
+ Que não me atrevo a fazer
+ Que hum pequeno bem lhe queira.
+ Porém far-lhe-hei hum partido,
+ Porqu'ella não se querelle:
+ Que se mostre seu perdido,
+ Inda que seja fingido,
+ Como lh'outrem faz a elle.
+ E ja que me satisfaz,
+ E tanto nisto se alcança,
+ Dê-lhe fingida esperança:
+ Do mal que lhe outrem faz,
+ Tomará nella vingança.
+
+
+SCENA VII.
+
+VILARDO _só_.
+
+ Ora boa está a cilada
+ De meu amo com sua ama,
+ Que se levantou da cama
+ Por ouvi-lo! Está tomada:
+ Assi a tome má trama.
+ E mais crede que quem canta,
+ Ainda descantará;
+ E quem do leito, onde está,
+ Por ouvi-lo se levanta,
+ Mor desatino fará.
+ Quem havia de cuidar,
+ Que dama formosa e bella
+ Saltasse o demonio nella,
+ Para a fazer namorar
+ De quem não he igual della?
+ Que me dizeis a Solina?
+ Como se faz Celestina,
+ Que por não lhe haver inveja
+ Tambem para si deseja
+ O que o desejo lh'ensina!
+ Crede que se me alvoróço,
+ Que a hei de tomar por dama;
+ E não será grão destrôço,
+ Pois o amo quer a ama,
+ Que a moça queira o moço.
+ Vou-me; que vejo lá vir
+ Venadoro, apercebido
+ Para a caça se partir:
+ E voto a tal, que he partido
+ Para ver e para ouvir.
+ Que he razão justa e rasa
+ Que seu folgar se desconte
+ Em quem arde como brasa;
+ Que se vai caçar ao monte,
+ Fique outrem caçando em casa.
+
+
+SCENA VIII.
+
+VENADORO _só_.
+
+ Aprovada antiguamente
+ Foi, e muito de louvar
+ A occupação do caçar,
+ E da mais antigua gente
+ Havida por singular.
+ He o mais contrário officio
+ Que tee a ociosidade,
+ Mãe de todo o bruto vício:
+ Por este limpo exercicio
+ Se reserva a castidade.
+ Este dos grandes Senhores
+ Foi sempre muito estimado;
+ E he grande parte do estado
+ Ter monteiros, caçadores,
+ Como officio qu'he prezado.
+ Pois logo porque razão
+ A meu pae ha de pezar
+ De me ver ir a caçar?
+ E tão boa occupação
+ Que mal me póde causar?
+
+
+SCENA IX.
+
+_Venadoro e o Monteiro._
+
+MONTEIRO.
+
+ Senhor, venho alvoroçado,
+ E mais com muita razão.
+
+VENADORO.
+
+ Como assi?
+
+MONTEIRO.
+
+ Que me he chegado
+ O mais extremado cão,
+ Que nunca caçou veado.
+ Vejamos que me ha de dar.
+
+VENADORO.
+
+ Dar-vos-hei quanto tiver;
+ Mas ha-se d'exprimentar,
+ Para se poder julgar
+ As manhas que póde ter.
+
+MONTEIRO.
+
+ Póde assentar qu'este cão,
+ Que tee das manhas a chave.
+ Bem feito? Em admiração.
+ Pois em ligeiro? He huma ave.
+ Em commetter? Hum leão.
+ Com porcos? Maravilhoso.
+ Com veados? Extremado.
+ Sobeja-lhe o ser manhoso.
+
+VENADORO.
+
+ Pois eu ando desejoso
+ D'irmos matar hum veado.
+
+MONTEIRO.
+
+ Pois, Senhor, como não vae?
+
+VENADORO.
+
+ Vamos, e vós mui ligeiro
+ O necessario ordenae;
+ Qu'eu quero chegar primeiro
+ Pedir licença a meu pae.
+
+
+
+
+ACTO SEGUNDO.
+
+
+SCENA I.
+
+DURIANO.
+
+Pois não creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pôr pé em ramo verde, té
+lhe dar trezentos açoutes. Despois de ter gastado perto de trezentos
+cruzados com ella, porque logo lhe não mandei o setim para as mangas,
+fez de mim mangas ao demo. Não desejo eu de saber, senão qual he o
+galante que me succedeo; que se vo-lo eu colho a balravento, eu lhe
+farei botar ao mar quantas esperanças lhe a fortuna tee cortado á
+minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com o dinheiro, como a
+maré com a lua: bolsa cheia, amor em ágoas vivas; mas se vasa, vereis
+espraiar este engano, e deixar em sêcco quantos gostos andavão como o
+peixe na ágoa.
+
+
+SCENA II.
+
+_Filodemo e Duriano._
+
+FILODEMO.
+
+Ó lá! cá sois vós? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me
+sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos
+tire como huma alma.
+
+DURIANO.
+
+Oh maravilhosa pessoa! Vós he certo que vos prezais de mais certo em
+casa, que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem á mão, os
+pensamentos com os focinhos quebrados, de cahirem onde vós sabeis. Pois
+sabeis, Senhor Filodemo, quaes são os que me mátão? Huns muito bem
+almofaçados, que com dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezão de
+brandos na conversação, e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo
+que não darão meia hora de triste pelo thesouro de Veneza; e gábão mais
+Garcilasso que Boscão; e ambos lhe sahem das mãos virgens; e tudo isto
+por vos meterem em consciencia que se não achou para mais o grão Capitão
+Gonçalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia do mundo
+farão altos espiritos: e eu não trocarei duas pescoçadas da minha etc.,
+depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e
+fingir-se-me bebada, porque o não pareça, por quantos Sonetos estão
+escriptos polos troncos dos árvores do vale Luso, nem por quantas
+Madamas Lauras vós idolatrais.
+
+FILODEMO.
+
+Tá, tá, não vades avante, que vos perdeis.
+
+DURIANO.
+
+Aposto que adivinho o que quereis dizer?
+
+FILODEMO.
+
+Que?
+
+DURIANO.
+
+Que se me não acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a
+herege de amor.
+
+FILODEMO.
+
+Oh que certeza tamanha, o muito peccador não se conhecer por esse!
+
+DURIANO.
+
+Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinião! Mas
+tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he
+cousa de vossa saude, tudo farei.
+
+FILODEMO.
+
+Como templará el destemplado? Quem poderá dar o que não tee, Senhor
+Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo: não póde ser que a natureza não
+faça em vós o que a razão não póde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porém
+he necessario que primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis
+para hum canto da casa todos esses maos pensamentos; porque segundo
+andais mal avinhado, damnareis tudo aquillo que agora lançarem em vós.
+Ja vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra cousa que não he
+servir a Senhora Dionysa; e postoque a desigualdade dos estados o não
+consinta, eu não pretendo della mais que o não pretender della nada,
+porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que este meu amor he como
+a ave Phenix, que de si só nasce, e não de outro nenhum interesse.
+
+DURIANO.
+
+Bem praticado está isso; mas dias ha que eu não creio em sonhos.
+
+FILODEMO.
+
+Porque?
+
+DURIANO.
+
+Eu vo-lo direi: porque todos vós-outros os que amais pela passiva,
+dizeis que o amor fino como melão, não ha de querer mais de sua dama que
+amá-la; e virá logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a
+trezentos Platões, mais çafado que as luvas de hum pagem d'arte,
+mostrando razões verisimeis e apparentes, para não quererdes mais de
+vossa dama que vê-la; e ao mais até fallar com ella. Pois inda achareis
+outros esquadrinhadores d'amor, mais especulativos, que defenderão a
+justa por não emprenhar o desejo; e eu (faço-vos voto solemne) se a
+qualquer destes lhe entregassem sua dama tosada e apparelhada entre dous
+pratos, eu fico que não ficasse pedra sôbre pedra: e eu ja de mi vos sei
+confessar que os meus amores hão de ser pela activa, e que ella ha de
+ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu de,
+vá v. m. co'a historia por diante.
+
+FILODEMO.
+
+Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida entre os
+Doctores: assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mão,
+bem trinta ou quarenta legoas pelo sertão dentro de hum pensamento,
+senão quando me tomou á traição Solina; e entre muitas palavras que
+tivemos, me descobrio que a Senhora Dionysa se levantára da cama por me
+ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando quasi hora e meia.
+
+DURIANO.
+
+Cobras e tostões, sinal de terra: pois ainda vos não fazia tanto avante.
+
+FILODEMO.
+
+Finalmente, veio-me a descobrir, que me não queria mal, que foi para mi
+o maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a
+soffrer por sua causa, e não tenho agora sogeito para tamanho bem.
+
+DURIANO.
+
+Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser são. Se vos
+deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca
+chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanças ao leme;
+que eu vos faço bom que ás duas enxadadas acheis ágoa. E que mais
+passastes?
+
+FILODEMO.
+
+A maior graça do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vós; e
+me quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vós merecesseis.
+
+DURIANO.
+
+Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor?
+porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que
+dizer poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella
+quer que eu caia.
+
+FILODEMO.
+
+Nem eu não quero que lho queirais, mas que lhe façais crer que lho quereis.
+
+DURIANO.
+
+Não... quanté dessa maneira me offereço a romper meia duzia de serviços
+alinhavados ás panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais
+fiel amante que nunca calçou esporas; e se isto não bastar, salgan las
+palabras mas sangrientas del corazon, entoadas de feição, que digão que
+sou hum Mancias, e peor ainda.
+
+FILODEMO.
+
+Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro,
+irmão da Senhora Dionysa, he fóra á caça; e sem elle fica a casa
+despejada; e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu
+passatempo he enxertar e dispôr, e outros exercicios d'agricultura,
+naturaes a velhos: e pois o tempo nos vem á medida do desejo, vamo-nos
+lá; e se puderdes fallar, fazei de vós mil manjares, porque lhe façais
+crer que sois mais esperdiçado d'amor que hum Braz Quadrado.
+
+DURIANO.
+
+Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas,
+com que vosso feito venha á luz.
+
+
+SCENA III.
+
+_Dionysa e Solina._
+
+DIONYSA.
+
+ Solina, mana.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora.
+
+DIONYSA.
+
+ Trazei-me cá a almofada;
+ Que a casa está despejada,
+ E esta varanda cá fóra
+ Está melhor assombrada.
+ Trazei a vossa tambem
+ Para estarmos cá lavrando;
+ Em quanto meu pae não vem,
+ Estaremos praticando,
+ Sem nos estorvar ninguem.
+
+SOLINA.
+
+ Este he o mesmo lugar
+ Onde estava o bem logrado,
+ Tal que de muito enlevado
+ Se esquecia do cantar
+ Por se enlevar no cuidado.
+
+DIONYSA.
+
+ Vós, mana, sois mui ruim!
+ Logo lhe fostes contar
+ Que me ergui polo escutar.
+
+SOLINA.
+
+ Eu o disse?
+
+DIONYSA.
+
+ Eu não o ouvi?
+ Como mo quereis negar?
+
+SOLINA.
+
+ E pois isso que releva?
+ Que se perde nisso agora?
+
+DIONYSA.
+
+ Que se perde! Assi, Senhora,
+ Folgareis vós que se atreva
+ A contá-lo lá por fóra?
+ Que se lhe meta em cabeça
+ Alguma parvoa tenção?
+ Que faça, se vem á mão,
+ Algua cousa que pareça?
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, não tee razão.
+
+DIONYSA.
+
+ Eu sei mui bem attentar
+ Do que se ha de ter receio,
+ E do que he para estimar.
+
+SOLINA.
+
+ Não he o demo tão feio
+ Como alguem o quer pintar;
+ E não se espera isso delle,
+ Que não he ora tão moço.
+ E Vossa Mercê asselle
+ Que qualquer segredo nelle
+ He como huma pedra em poço.
+
+DIONYSA.
+
+ E eu que segredo quero
+ Co'hum criado de meu pae?
+
+SOLINA.
+
+ E vós, mana, fazeis fero?
+ Ao diante vos espero,
+ Se adiante o caso vae.
+
+DIONYSA.
+
+ O madraço! quem o vir
+ Fallar de siso co'ella...
+ Então vós, gentil donzella,
+ Folgais muito de o ouvir?
+
+SOLINA.
+
+ Si, porque me falla nella;
+ E eu como ouço fallar
+ Nella, como quem não sente,
+ Folgo de o escutar,
+ Só para lhe vir contar
+ O que della diz a gente;
+ Qu'eu não quero nada delle.
+ E mais, porque está fallando?
+ Não m'esteve ella rogando
+ Que fosse fallar com elle?
+
+DIONYSA.
+
+ Disse-vo-lo assi zombando.
+ Vós logo tomais em grosso
+ Tudo quanto me escutais.
+ Parvo! que vê-lo não posso.
+
+SOLINA.
+
+ Ella alli, e o cão co'o osso!
+ Inda isto ha de vir a mais.
+ Pois que tal odio lhe tem,
+ Fallemos, Senhora, em al;
+ Mas eu digo que ninguem
+ Merece por querer bem
+ Que a quem lho quer, queira mal.
+
+DIONYSA.
+
+ Deixae-o vós doudejar.
+ Se meu pae, ou meu irmão,
+ O vierem a aventar,
+ Não ha elle de folgar.
+
+SOLINA.
+
+ Deos meterá nisso a mão.
+
+DIONYSA.
+
+ Ora hi polas almofadas,
+ Que quero hum pouco lavrar;
+ Por ter em que me occupar;
+ Qu'em cousas tão mal olhadas
+ Não se ha o tempo de gastar.
+
+SOLINA.
+
+ Que cousa somos mulheres!
+ Como somos perigosas!
+ E mais estas tão viçosas
+ Qu'estão á boca _que queres_
+ E adoecem de mimosas!
+ Se eu não caminho agora
+ A seu desejo e vontade;
+ Como faz esta Senhora,
+ Fazem-se logo nessa hora
+ Na volta da honestidade.
+ Quem a vira o outro dia
+ Hum poucochinho agastada,
+ Dar no chão com a almofada,
+ E enlevar a phantasia,
+ Toda n'outra transformada!
+ Outro dia lhe ouvirão
+ Lançar suspiros a mólhos,
+ E com a imaginação
+ Cahir-lhe a agulha da mão,
+ E as lagrimas dos olhos.
+ Ouvir-lhe-heis á derradeira
+ A ventura maldizer,
+ Porque a foi fazer mulher.
+ Então diz que quer ser Freira;
+ E não se sabe entender.
+ Então gaba-o de discreto,
+ De musico e bem disposto,
+ De bom corpo e de bom rosto.
+ Quanté então eu vos prometo,
+ Que não tee delle desgôsto.
+ Despois, se vem a attentar,
+ Diz que he muito mal feito
+ Amar homem deste geito;
+ E que não póde alcançar
+ Pôr seu desejo em effeito.
+ Logo se faz tão Senhora,
+ Logo lhe ameaça a vida,
+ Logo se mostra nessa hora
+ Muito segura de fóra,
+ E de dentro está sentida.
+ Bofé, segundo vou vendo,
+ Se esta postema vier,
+ Como eu suspeito, a crescer,
+ Muito ha que della entendo
+ O fim que póde vir ter.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Duriano e Filodemo._
+
+DURIANO.
+
+Ora deixae-a ir, que á vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como
+hei de fazer; que não ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se.
+
+FILODEMO.
+
+Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a dê á Senhora
+Dionysa; que me vai nisso muito.
+
+DURIANO.
+
+Por mulher de tão bom engenho a tendes?
+
+FILODEMO.
+
+E porque me perguntais isso?
+
+DURIANO.
+
+Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta
+mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta.
+
+FILODEMO.
+
+Não lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por isso lhe
+fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fação
+á vossa tenção.
+
+DURIANO.
+
+Deixae-me vós a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes
+vintes, que vós; e eu vo-la farei hoje vir a nós sem gafas; e vós
+entretanto acolhei-vos a sagrado, porque ei-la lá vem.
+
+FILODEMO.
+
+Olhae lá: fazei que a não vêdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a
+nosso caso.
+
+DURIANO.
+
+Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia
+no la espero remediar. Pois não devia assi de ser, polos santos
+Evangelhos! mas muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos,
+andão ás vessas. Ora, emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen
+aflojar cuando mas duelen.)
+
+
+SCENA V.
+
+_Solina e Duriano._
+
+SOLINA, _com a almofada_.
+
+ Aqui anda passeando
+ Duriano, e só comsigo
+ Pensamentos praticando:
+ Daqui posso estar notando
+ Com quem sonha, se he comigo.
+
+DURIANO.
+
+ Ah quão longe estará agora
+ Minha Senhora Solina
+ De saber que estou bem fóra
+ De ter outra por senhora,
+ Segundo o amor determina!
+ Porém se determinasse
+ Minha bem-aventurança
+ Que de meu mal lhe pezasse.
+ Até que nella tomasse
+ Do que lhe quero vingança!...
+
+SOLINA.
+
+ (Comigo sonha por certo.
+ Ora quero-me mostrar,
+ Assi como por acêrto:
+ Chegar-me-hei mais ao perto,
+ Por ver se me quer fallar.)
+ Sempre esta casa ha d'estar
+ Acompanhada de gente,
+ Que não possa homem passar!
+
+DURIANO.
+
+ Á traição vindes tomar
+ Quem ja feridas não sente?
+
+SOLINA.
+
+ Logo me a mi parecia
+ Que era elle o que passeava.
+
+DURIANO.
+
+ E eu mal adivinhava
+ Que me viesse este dia,
+ Que ha tantos que desejava.
+ Se huns olhos por vos servir,
+ Com o amor que vos conquista,
+ Se atrevêrão a subir
+ Os muros da vossa vista,
+ Que culpa tee quem vos vir?
+ E se esta minha affeição,
+ Que vos serve de giolhos,
+ Não fez êrro na tenção,
+ Tomae vingança nos olhos,
+ E deixae o coração.
+
+SOLINA.
+
+ Ora agora me vem riso.
+ Assi que vós sois, Senhor,
+ De siso meu servidor?
+
+DURIANO.
+
+ De siso não, porque o siso
+ Me tee tirado o amor.
+ Porque o amor, se attentais,
+ N'hum tão verdadeiro amante
+ Não deixa siso bastante;
+ Senão se siso chamais
+ A doudice tão galante.
+
+SOLINA.
+
+ Como Deos está nos Ceos,
+ Que se he verdade o que temo,
+ Que fez isto Filodemo.
+
+DURIANO.
+
+ Mas fê-lo o démo; que Deos
+ Não faz mal tanto em extremo.
+
+SOLINA.
+
+ Bem. Vós, Senhor Duriano,
+ Porque zombareis de mim?
+
+DURIANO.
+
+ Eu zombo?
+
+SOLINA.
+
+ Eu não m' engano.
+
+DURIANO.
+
+ S' eu zombo, inda em meu dano
+ Vejais vós mui cedo a fim.
+ Mas vós, Senhora Solina,
+ Porque me querereis mal?
+
+SOLINA.
+
+ Sou mofina.
+
+DURIANO.
+
+ Oh! real.
+ Assi que minha mofina
+ He minha imiga mortal.
+ Dias ha qu'eu imagino
+ Qu'em vos amar e servir
+ Não ha amador mais fino;
+ Mas sinto que de mofino
+ Me fino sem o sentir.
+
+SOLINA.
+
+ Bem derivais: quanté assi
+ Á popa o dito vos veio.
+
+DURIANO.
+
+ Vir-me-ha de vós, porque creio
+ Que vós fallais dentro em mi,
+ Como esprito em corpo alheio.
+ E assi que em estas piós
+ A cahir, Senhora, vim;
+ Bem parecerá entre nós,
+ Pois vós andais dentro em mim,
+ Que ande eu tambem dentro em vós.
+
+SOLINA.
+
+ He bem: que fallar he esse?
+
+DURIANO.
+
+ Dentro na vossa alma, digo,
+ Lá andasse, e lá morresse!
+ E se isto mal vos parece,
+ Dae-me a morte por castigo.
+
+SOLINA.
+
+ Ah mao! Como sois malvado!
+
+DURIANO.
+
+ Mas vós como sois malvada,
+ Que de hum pouco mais de nada
+ Fazeis hum homem armado,
+ Como quem 'stá sempre armada!
+ Dizei-me, Solina, mana.
+
+SOLINA.
+
+ Qu'he isso? Tirae lá a mão:
+ Oh! vós sois mao cortezão.
+
+DURIANO.
+
+ O que vos quero m'engana,
+ Mas o que desejo não.
+ Não ha aqui senão paredes,
+ As quaes não fallão, nem vem.
+
+SOLINA.
+
+ Está isso muito bem.
+ Bem: e vós, Senhor, não vêdes
+ Que poderá vir alguem?
+
+DURIANO.
+
+ Que vos custão dous abraços?
+
+SOLINA.
+
+ Não quero tantos despejos.
+
+DURIANO.
+
+ Pois que farão meus desejos,
+ Que querem ter-vos nos braços,
+ E dar-vos trezentos beijos?
+
+SOLINA.
+
+ Olhae que pouca vergonha!
+ Hi-vos d'hi, boca de praga.
+
+DURIANO.
+
+ Eu não sei certo a que ponha
+ Mostrardes-me a triaga,
+ E virdes-me a dar peçonha.
+
+SOLINA.
+
+ Ora ide rir á feira,
+ E não sejais dessa laia.
+
+DURIANO.
+
+ Se vêdes minha canseira,
+ Porque lhe não dais maneira?
+
+SOLINA.
+
+ Que maneira?
+
+DURIANO.
+
+ A da saia.
+
+SOLINA.
+
+ Por minha alma, hei de vos dar
+ Meia duzia de porradas.
+
+DURIANO.
+
+ Oh que gostosas pancadas!
+ Mui bem vos podeis vingar,
+ Qu'em mim são bem empregadas.
+
+SOLINA.
+
+ Ao diabo, que o eu dou.
+ Como me doeo a mão!
+
+DURIANO.
+
+ Mostrae cá, minha affeição,
+ Que essa dor me magoou
+ Dentro no meu coração.
+
+SOLINA.
+
+ Ora hi-vos embora asinha.
+
+DURIANO.
+
+ Por amor de mi, Senhora,
+ Não fareis huma cousinha?
+
+SOLINA.
+
+ Digo que vades embora.
+ Que cousa?
+
+DURIANO.
+
+ Esta cartinha.
+
+SOLINA.
+
+ Que carta?
+
+DURIANO.
+
+ De Filodemo
+ A Dionysa vossa ama.
+
+SOLINA.
+
+ Dizei, que tome outra dama,
+ E dê os amores ao démo.
+
+DURIANO.
+
+ Não andemos pola rama.
+ Senhora, (aqui para nós)
+ Que sentis della com elle?
+
+SOLINA.
+
+ Grandes alforges sois vós!
+ Pois hi-lhe dizer que appelle.
+
+DURIANO.
+
+ Fallae, que aqui 'stamos sós.
+
+SOLINA.
+
+ Qualquer honesta se abala,
+ Como sabe que he querida.
+ Ella he por elle perdida:
+ Nunca n'outra cousa falla.
+
+DURIANO.
+
+ Ora vou-lhe dar a vida.
+
+SOLINA.
+
+ E eu não lhe disse ja
+ Quanta affeição lh'ella tem?
+
+DURIANO.
+
+ Não se fia de ninguem,
+ Nem crê que para elle ha
+ No mundo tamanho bem.
+
+SOLINA.
+
+ Dir-vos-hia de mim lá
+ O que lh'eu disse zombando?
+
+DURIANO.
+
+ Não disse, por S. Fernando!
+
+SOLINA.
+
+ Ora ide-vos.
+
+DURIANO.
+
+ Que me va!
+ E mandais que torne? Quando?
+
+SOLINA.
+
+ Quando eu cá vir lugar,
+ Vo-lo mandarei dizer.
+
+DURIANO.
+
+ Se o quizerdes buscar,
+ Não vos deve de faltar,
+ Se não faltar o querer.
+
+SOLINA.
+
+ Não falta.
+
+DURIANO.
+
+ Dae-me hum abraço
+ Em sinal do que quereis.
+
+SOLINA.
+
+ Tá, que o não levareis.
+
+DURIANO.
+
+ De quantos serviços faço
+ Nenhum pagar me quereis?
+
+SOLINA.
+
+ Pagar-vos-hão algum'hora,
+ Que isso a mi tambem me toca;
+ Mas agora hi-vos embora.
+
+DURIANO.
+
+ Essas mãos beijo, Senhora,
+ Em quanto não posso a boca.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Solina que traz a almofada, e Dionysa._
+
+SOLINA.
+
+ Ja Vossa Mercê dirá
+ Qu'estive muito tardando.
+
+DIONYSA.
+
+ Bem vos detivestes lá.
+ Bofé que estava cuidando
+ Em não sei que.
+
+SOLINA.
+
+ Que será?
+ Aqui somos. (Quanté agora
+ Está ella transportada.)
+
+DIONYSA.
+
+ Que rosnais vós lá, Senhora?
+
+SOLINA.
+
+ Digo que tardei lá fóra
+ Em buscar esta almofada.
+ Que estava ella agora só
+ Comsigo phantasiando?
+
+DIONYSA.
+
+ Bofé que estava cuidando
+ Qu'he muito para haver dó
+ Da mulher que vive amando.
+ Que hum homem póde passar
+ A vida mais occupado:
+ Com passear, com caçar,
+ Com correr, com cavalgar,
+ Fórra parte do cuidado.
+ Mas a coitada
+ Da mulher sempre encerrada,
+ Que não tee contentamento,
+ Não tee desenfadamento,
+ Mais que agulha e almofada?
+ Então isto vem parir
+ Os grandes erros da gente:
+ Forão mil vezes cahir
+ Princezas d'alta semente.
+ Lembra-me que ouvi contar
+ De tantas affeiçoadas
+ Em baixo e pobre lugar,
+ Que as que agora vão errar
+ Podem ficar desculpadas.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, a muita affeição
+ Nas Princezas d'alto estado
+ Não he muita admiração;
+ Que no sangue delicado
+ Faz amor mais impressão.
+ Mas deixando isto á parte,
+ Se m'ella quizer peitar,
+ Prometto de lhe mostrar
+ Huma cousa muito d'arte,
+ Que lá dentro fui achar.
+
+DIONYSA.
+
+ Que cousa?
+
+SOLINA.
+
+ Cousa d'esprito.
+
+DIONYSA.
+
+ Algum panno de lavores?
+
+SOLINA.
+
+ Inda ella não deo no fito?
+ Cartinha sem sobre-escripto,
+ Que parece ser de amores.
+
+DIONYSA.
+
+ Essa he a boa ventura?
+
+SOLINA.
+
+ Bofé que mo pareceo.
+
+DIONYSA.
+
+ E essa donde nasceo?
+
+SOLINA.
+
+ No meu cesto da costura:
+ Não sei quem m'alli meteo.
+
+DIONYSA.
+
+ Mostrae-ma; não hajais medo,
+ Mana. Eu que vos descobri...
+
+SOLINA.
+
+ E se ella vem para mi,
+ Logo quer ver meu segredo?
+ Não a veja: vá-se d'hi.
+ Ei-la-ahi.
+
+DIONYSA.
+
+ Cuja será?
+
+SOLINA.
+
+ Não sei certo cuja he.
+
+DIONYSA.
+
+ Si; sabeis.
+
+SOLINA.
+
+ Não sei, bofé.
+
+DIONYSA.
+
+ Ora a carta mo dirá.
+
+SOLINA.
+
+ Pois leia Vossa Mercê.
+
+_Abre Dionysa a carta, e lê-a._
+
+Se para merecer minha pena me não falta mais que viver contente della,
+ja logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo
+triste, senão por não ser para tão doce tristeza. Se tendes por offensa
+commetter tamanha ousadia; por maior a devieis ter, se a não
+commettesse; que amor acostumado he fazer os extremos á medida das
+affeições, e as affeições á medida da causa dellas. Pois logo, nem o meu
+amor póde ser pouco, nem fazer menos: se este não bastar para
+consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o que pelo ter
+mereço; e senão muitas graças ao Amor, que me soube dar hum cuidado, que
+com tê-lo se paga o trabalho de soffrê-lo.
+
+SOLINA.
+
+ Quanta parvoice diz!
+
+DIONYSA.
+
+ Ora muito boa está!
+ Como vós, mana, sois má!
+ Não sejais vós tão biliz;
+ Que bem vos entendo ja.
+ Cuja he?
+
+SOLINA.
+
+ E eu que sei?
+
+DIONYSA.
+
+ Pois quem o sabe?
+
+SOLINA.
+
+ O démo.
+
+DIONYSA.
+
+ Certo que he de quem temo;
+ Que os ditos que nella achei
+ São todos de Filodemo.
+ Este homem, que atrevimento
+ He este que foi tomar?
+ Qual será seu fundamento?
+ Que mil vezes me faz dar
+ Mil voltas ao pensamento.
+ Não entendo delle nada.
+ Mas inda qu'isto he assi,
+ Disso que delle entendi,
+ Me sinto tão alterada,
+ Que me arreceio de mi.
+ Eu inda agora não creio
+ Que he verdade este amor;
+ Mas praza a Deos, se assi for,
+ Que inda este meu arreceio
+ Se não converta em temor.
+
+SOLINA.
+
+ Ja vós, ja sêdes,
+ Peixes, nas redes.
+ Senhora, quem mais confia,
+ Mais asinha a cahir vem:
+ Natural he o querer bem;
+ Que o amor n'alma se cria,
+ Sem o sentir quem o tem.
+ Filodemo, no que ouvi,
+ Tee-lhe sobeja affeição;
+ E postoque o creia assi,
+ Ou eu sonhei, ou ouvi.
+ Que era d'alta geração.
+ Logo na phisionomia,
+ Nas manhas, artes e geito,
+ Mostra mui grande respeito:
+ Nem tão alta phantasia
+ Não se põe em baixo peito.
+
+DIONYSA.
+
+ Tudo isso cuido, e vi
+ Mil vezes miudamente;
+ Mas estas mostras assi
+ São desculpas para mi,
+ E não para toda a gente.
+
+SOLINA.
+
+ O seu moço vejo vir
+ A nós, seu passo contado:
+ Este he muito para ouvir,
+ Que diz que me quer servir
+ D'amores esperdiçado.
+
+
+SCENA VII.
+
+_Vilardo, Solina e Dionysa._
+
+VILARDO.
+
+ Senhora, o Senhor seu pae,
+ Mesmo de Vossa Mercê,
+ Ja lá para casa vae:
+ Por isso, Senhora, andae,
+ Que elle me mandou n'hum pé;
+ E diz que fosse jantar
+ Vossa Mercê mesmamente.
+
+SOLINA.
+
+ E ja veio do pomar?
+
+DIONYSA.
+
+ Oh quem pudéra escusar
+ De comer, nem de ver gente!
+ (Nenhuma côr de verdade
+ Tenho do que m'elle manda.)
+
+VILARDO.
+
+ S'ella sem vontade anda,
+ Eu lh'emprestarei vontade,
+ Empreste-m'ella a vianda.
+
+SOLINA.
+
+ Va, Senhora, por não dar
+ Mais em que cuidar á gente.
+
+DIONYSA.
+
+ Irei, mas não por jantar;
+ Que quem vive descontente
+ Mantem-se de imaginar.
+
+VILARDO.
+
+ Pois tambem cá minhas dores
+ Me não deixão comer pão;
+ Nem come minha affeição
+ Senão sopadas d'amores,
+ E mil postas de paixão.
+ Das lagrimas caldo faço,
+ Do coração escudella;
+ Esses olhos são panella
+ Que coze bofes e baço,
+ Com toda a mais cabedella.
+
+
+SCENA VIII.
+
+_O Monteiro, um pastor e um bobo._
+
+MONTEIRO.
+
+ Perdeo-se por esta brenha
+ Venadoro, meu Senhor,
+ Sem que novas delle tenha:
+ Queira Deos que inda não venha
+ Desta perda outra maior.
+ Contra esta parte daqui
+ Des pos hum cervo correo,
+ Logo desappareceo:
+ Como da vista o perdi,
+ O gosto se me perdeo.
+ Eu, e os mais caçadores,
+ Corremos montes e covas;
+ Fallamos com lavradores
+ Deste valle, e com pastores,
+ Sem acharmos delle novas.
+ Quero ver nestes casais
+ Que cobre aquelle arvoredo,
+ Se acharei pastores mais,
+ Que me dem alguns sinais
+ Que me possão tornar ledo.
+
+_Chama._
+
+ Ó dos casaes, ó de lá:
+ Ah pastores, não fallais?
+
+PASTOR.
+
+ Quien sois, ó lo que buscais?
+
+MONTEIRO.
+
+ Ouvis? Chegae para cá.
+
+PASTOR.
+
+ Dicid vos lo que mandais.
+
+BOBO.
+
+ No vayais adó os llamó,
+ Padre, sin saber quien es.
+
+PASTOR.
+
+ Porque?
+
+BOBO.
+
+ Porque este es
+ Aquel ladron que hurtó
+ El asno del Portugues.
+ Y se vais adó estan,
+ Os juro al cuerpo sagrado
+ De San Pisco, y San Juan,
+ Que tambien os hurtarán,
+ Que sois asno mas honrado.
+
+PASTOR.
+
+ Déjame ir, que me llamó.
+
+BOBO.
+
+ No, por vida de mi madre;
+ Que si allá vais, muerto so',
+ Y desta vez quedo yo,
+ Sin asno, triste! y sin padre.
+
+MONTEIRO.
+
+ Vinde, que vo-lo encommendo,
+ E em vossas mãos me ponho.
+
+BOBO.
+
+ No vais, que dijo _en comiendo_.
+ Encomiendoos al demonio! _(Ao Monteiro.)_
+ Y esso es lo que andais haciendo?
+
+PASTOR.
+
+ Déjame ir adó está,
+ Que no es cosa que me espante.
+
+BOBO.
+
+ No quereis sino ir allá?
+ Pues echadle pan delante,
+ Puede ser amansará.
+
+PASTOR.
+
+ Dios os guarde! Qué cosa es
+ Esa por que voceais?
+
+MONTEIRO.
+
+ Dar-m'heis novas, ou sinais
+ D'hum Fidalgo Portugues,
+ Se passou por onde andais?
+
+BOBO.
+
+ Yo so' Hidalgo Portugues:
+ Que manda su Señoria?
+
+PASTOR.
+
+ Cállate: oh que nescio es!
+
+BOBO.
+
+ Padre, no me dejarés
+ Ser lo que quisiere un dia?
+ Ah Santo Dios verdadero!
+ No seré lo que otros son?
+ Digo ahora que no quiero
+ Ser Alonsico, el vaquero.
+
+PASTOR.
+
+ Cállate ya, bobarron.
+
+BOBO.
+
+ Ya me callo: ahora un poco
+ He de ser lo que yo quisiere.
+
+PASTOR.
+
+ Señor, diga lo que quiere,
+ Porque este mochacho es loco,
+ Y muero porque no muere.
+
+MONTEIRO.
+
+ Digo, que se por ventura
+ Sabeis o que ando buscando:
+ Hum Fidalgo, que caçando
+ Se perdeo nesta espessura
+ Apos hum cervo andando.
+ Tenho esta parte corrida,
+ Sem delle poder saber:
+ Trago a alegria perdida;
+ E se de todo a perder,
+ Perca-se tambem a vida.
+ Porque só polo buscar
+ Tenho trabalhos assás.
+
+BOBO.
+
+ (Yo no puedo callar mas.)
+
+PASTOR.
+
+ (Como no puedes callar?
+ Quítate allá para tras.)
+ Cuanto por aquesta tierra,
+ No siento nueva ninguna.
+
+MONTEIRO.
+
+ Oh trabalhosa fortuna!
+
+PASTOR.
+
+ Mas detras daquesta sierra
+ Hallareis, por dicha, alguna;
+ Que unas choças de vaqueros
+ Portugueses allí estan;
+ Y ahí muchas veces van
+ Cazadores Cavalleros:
+ Puede ser que lo sabran.
+
+MONTEIRO.
+
+ Quero-me ir lá saber.
+ Ficae-vos a Deos, pastor.
+
+PASTOR.
+
+ Dios os livre de dolor.
+
+BOBO.
+
+ Y á nos dé siempre comer
+ Pan y sopas, qu'es mejor.
+ Mirad lo que os notifico:
+ En aquel valle, acullá,
+ Anda paciendo un burrico,
+ Hidalgo, manso, y bonico;
+ Puede ser que ese será.
+
+PASTOR.
+
+ Calla, y acaba de andar.
+
+BOBO.
+
+ Ya ando.
+
+PASTOR.
+
+ Quieres callar?
+ Bobo, que tan poco sabe!
+
+BOBO.
+
+ No diceis que ande y acabe?
+ Ando, y no quiero acabar.
+
+
+
+
+ACTO TERCEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Florimena, pastora, com hum pote que vai á fonte._
+
+FLORIMENA.
+
+ Por este formoso prado
+ Tudo quanto a vista alcança
+ Tão alegre está tornado,
+ Que a qualquer desesperado
+ Póde dar certa esperança.
+ O monte, e sua aspereza,
+ De flores se veste ledo;
+ Reverdece o arvoredo,
+ Somente em minha tristeza
+ Está sempre o tempo quedo.
+ Junto desta fonte pura,
+ Segundo a muitos ouvi,
+ D'altos parentes nasci:
+ Foi como quiz a Ventura,
+ Mas não como eu mereci.
+ O dia que fui nascida,
+ Minha mãe do parto forte
+ Foi sem cura fallecida;
+ E o dia que me deo vida
+ Lhe dei eu a ella a morte.
+ Do mesmo parto nasceo
+ Meu irmão, que entre os cabritos
+ Comigo tambem viveo;
+ Mas, assi como cresceo,
+ Crescêrão nelle os espritos.
+ Foi-se buscar a cidade;
+ Teve juizo e saber;
+ Eu fiquei, como mulher,
+ E não tive faculdade
+ Para poder mais valer.
+ A hum pastor obedeço
+ Por pae, que d'outro não sei;
+ E, pola mãe que matei,
+ A huma cabra conheço,
+ De cujo leite mamei.
+ Mas porém, ja qu'este monte
+ Me obriga e meu nascimento,
+ Quero, pois quer meu tormento,
+ Encher a talha na fonte
+ Que co'os olhos accrescento.
+
+_Finge que enche a talha._
+
+
+SCENA II.
+
+_Venadoro e Florimena._
+
+VENADORO.
+
+ Pois que me vim alongar
+ Dos caminhos e da gente,
+ Fortuna, que o consente,
+ Se devia contentar
+ De me ter tão descontente.
+ Porém, segundo adivinho,
+ Por tão espêsso arvoredo,
+ Por tão aspero rochedo,
+ Quanto mais busco o caminho,
+ Tanto mais delle me arredo.
+ O cavallo, como amigo,
+ Ja cansado me trazia:
+ Mas deixou-me todavia;
+ Que mal pudera comigo
+ Quem comsigo não podia.
+ Quero-me aqui assentar
+ Á sombra, nesta hervinha,
+ Porque canso ja de andar;
+ Mas inda a fortuna minha
+ Não cansa de me cansar.
+ Junto desta fonte pura
+ Não sei quem cuido qu'está;
+ Mas no coração me dá
+ Que aqui me guarda a Ventura
+ Alguma ventura má.
+ Ou ganhado, ou bem perdido,
+ Faça, emfim, o que quizer,
+ Qu'eu o fim disto hei de ver?
+ Que ja venho apercebido
+ A tudo quanto vier.
+ Oh que formosa serrana
+ Á vista se me offerece!
+ Deosa dos montes parece;
+ E se he certo que he humana,
+ O monte não a merece.
+ Pastora tão delicada,
+ De gesto tão singular,
+ Parece-me qu'em lugar
+ De perguntar pola estrada,
+ Por mim lhe hei de perguntar.
+ Atéqui sempre zombei
+ De qualquer outra pessoa
+ Que affeiçoada topei;
+ Mas agora zombarei
+ De quem se não affeiçoa.
+ Serrana, cuja pintura
+ Tanto a alma me moveo,
+ Dizei-me: Por qual ventura
+ Andareis nesta espessura,
+ Merecendo estar no ceo?
+
+FLORIMENA.
+
+ Tamanho inconveniente
+ Andar na serra parece?
+ Pois a ventura da gente
+ Sempre he mui diferente
+ Do que, ao parecer, merece.
+
+VENADORO.
+
+ Tal resposta he manifesto
+ Não se parecer co'as cabras.
+ Pois não vos parece honesto
+ Saberdes matar co'o gesto,
+ Senão inda com palabras?
+ No mato tudo he rudeza.
+ Ha tal gesto e discrição?
+ Não o creio.
+
+FLORIMENA.
+
+ Porque não?
+ Não supprirá natureza
+ Onde falta criação?
+
+VENADORO.
+
+ Ja logo nisso, Senhora,
+ Dizeis, se não sinto mal,
+ Que do vosso natural
+ Não era serdes pastora.
+
+FLORIMENA.
+
+ Digo, mas pouco me val.
+
+VENADORO.
+
+ Pois quem vos pôde trazer
+ Á conversação do monte?
+
+FLORIMENA.
+
+ Perguntae-o a essa fonte;
+ Que as cousas duras de crer,
+ Hum as faça, outro as conte.
+
+VENADORO.
+
+ Esta fonte, que está aqui,
+ Que sabe do que dizeis?
+
+FLORIMENA.
+
+ Senhor, mais não pergunteis.
+ Porque outra cousa de mi
+ Sabei que não sabereis.
+ De vós agora sabei,
+ O que não tendes sabido:
+ Se quereis ágoa, bebei;
+ Se andais por dita perdido,
+ Eu vos encaminharei.
+
+VENADORO.
+
+ Senhora, eu não vos pedia
+ Que ninguem m'encaminhasse;
+ Que o caminho qu'eu queria,
+ Se o eu agora achasse,
+ Mais perdido me acharia.
+ Não quero passar daqui;
+ E não vos pareça espanto
+ Qu'em vos vendo me rendi;
+ Porque quando me perdi,
+ Não cuidei de ganhar tanto.
+
+FLORIMENA.
+
+ Senhor, quem na serra mora
+ Tambem entende a verdade
+ Dos enganos da cidade:
+ Vá-se embora, ou fique embora,
+ Qual for mais sua vontade.
+
+VENADORO.
+
+ Oh lindissima donzella,
+ A quem a ventura ordena
+ Que me guie como estrella!
+ Quereis-me deixar a pena,
+ E levar-me a causa della?
+ E ja que vos conjurastes
+ Vós e Amor para matar-me,
+ Oh não deixeis d'escutar-me!
+ Pois a vida me tirastes,
+ Não me tireis o queixar-me!
+ Qu'eu, em sangue e em nobreza
+ O claro Ceo me extremou;
+ E a Fortuna me dotou
+ De grandes bens e riqueza,
+ Que sempre a muitos negou.
+ Andando caçando aqui,
+ Apos hum cervo ferido,
+ Permittio meu fado assi,
+ Que andando dos meus perdido,
+ Me venha perder a mi.
+ E porqu'inda mais passasse
+ Do que tinha por passar,
+ Buscando quem m'ensinasse,
+ Por que via me tornasse,
+ Acho quem me faz ficar.
+ Que vingança permittio
+ A fortuna n'hum perdido!
+ Oh que tyranno partido,
+ Que quem o cervo ferio,
+ Vá como cervo ferido!
+ Ambos feridos n'hum monte,
+ Eu a elle, outrem a mi:
+ Huma differença ha aqui,
+ Qu'elle vai sarar á fonte,
+ E eu nella me feri.
+ E pois que tão transformado
+ Me tee vossa formosura,
+ Hum de nós troque o estado.
+ Ou vós para o povoado,
+ Ou eu para a espessura.
+
+FLORIMENA.
+
+ Dos arminhos he certeza,
+ Se lhe a cova alguem çujar,
+ Morar fóra, antes d'entrar:
+ D'estimar muito a limpeza
+ Pola vida a vai trocar:
+ Tambem quem na serra mora
+ Tanto estima a honestidade,
+ Que antes toma ser pastora,
+ Que perder a honestidade
+ A trôco de ser Senhora.
+ Se mais quereis, esta fonte
+ Vos descubra o mais de mim:
+ O que ella vio, ella o conte;
+ Porque eu vou-me para o monte,
+ Porque ha ja muito que vim.
+
+
+SCENA III.
+
+VENADORO.
+
+ Ó linda minha inimiga,
+ Gentil pastora, esperae!
+ Pois que tanto amor me obriga,
+ Consenti-me que vos siga;
+ Vá o corpo onde alma vae.
+ E pois por vós me perdi,
+ E neste estado Amor pôs
+ Os olhos com que vos vi,
+ Pois os deixaste sem mi,
+ Oh não os deixeis sem vós!
+ Porque a Fortuna me disse
+ Que nas serras, onde andais,
+ Em estes extremos tais,
+ Não era bem que vos visse
+ Para não ver de vós mais.
+ E pois Amor se quiz ver
+ Da livre vida vingado,
+ Em que eu sohia viver;
+ Faça em mi o que quizer,
+ Que aqui vou ao jugo atado.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo._
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh Santo Deos verdadeiro,
+ A quem o mundo obedece!
+ Meu filho não apparece.
+ E que me dizeis, Monteiro?
+
+MONTEIRO.
+
+ Digo-lhe que m' entristece.
+ Qu'eu corri por esses montes,
+ Bem quinze leguas, ou mais,
+ E busquei polos casais,
+ Por serras, montes e fontes,
+ Sem ver novas, nem sinais.
+ Toda a gente que levou,
+ Buscando-o, muito cansada
+ Pelo mato anda espalhada;
+ Mas ainda ninguem tomou,
+ Que soubesse delle nada.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh fortuna nunca igual!
+ Quem me fara sabedor
+ De meu filho e meu amor?
+ Que se he muito grande o mal,
+ Muito mor he o temor.
+ Quem tolhe que não achasse
+ Algum leão temeroso
+ N'algum monte cavernoso,
+ Que sua fome fartasse
+ Em seu corpo tão formoso?
+ Quem ha que saiba, ou que visse,
+ Que das montanhas erguidas
+ Algum monstro não sahisse,
+ E com seu sangue tingisse
+ As hervas nellas nascidas?
+ Oh filho! vai-me a lembrar
+ Quantas vezes os mandava
+ Que deixasseis o caçar!
+ Não cuidei de adivinhar
+ O que Fortuna ordenava.
+ Eu irei, filho, buscar-vos
+ Por esses montes, por hi,
+ Ou a perder-me, ou cobrar-vos;
+ Que morte que quiz matar-vos,
+ Quero que me mate a mi.
+ Onde fostes fenecido,
+ Seja tambem vosso pae;
+ Ser-me-ha acontecido,
+ Como a virote que vae
+ Buscar outro que he perdido.
+ Vós só haveis de ficar,
+ Filodemo, encarregado
+ Para esta casa guardar;
+ Que de vosso bom cuidado
+ Tudo se póde fiar.
+ Ide-vos a fazer prestes,
+ Mandae cavallos sellar;
+ Pois achá-lo não pudestes,
+ Ir-m'heis buscar o lugar
+ Onde da vista o perdestes.
+
+
+SCENA V.
+
+_O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o seu._
+
+_Canta._
+
+ Los mochachos del Obispo
+ No comen cosa mimosa,
+ Ni zanca d'araña, ni cosa mimosa.
+
+_Falla._
+
+ De su sayo colorado
+ Tan lozano me vestió,
+ Que yo ya no soy yo,
+ Ya por otro estoy trocado;
+ Que este sayo me trocó.
+ Oh qué asno Portugues,
+ Que loco por Florimena,
+ Deseó zamarra agena,
+ Y dame por enterés
+ Una zamarra tan buena!
+ Como yo vi la bobilla
+ Andar con él en questiones,
+ Y parársele amarilla,
+ Díjele: Florimenilla,
+ Andais en dongolondrones?
+ Él me dijo: Matalote,
+ No tengais dello desmayo.
+ Y en esto, como un rayo,
+ Tomóme mi capirote,
+ Y dióme su capisayo.
+ Capirote, en buena fé,
+ Si vos, cuando en mi entrastes,
+ Capisayo vos tornastes,
+ Que yo por eso cantaré,
+ Pues ansí me mejorastes.
+
+_Canta._
+
+ Lyrio, lyrio, lyrio loco,
+ Con qué? Con capirotada.
+ Por hablar con la golosa
+ De amores, mirad la cosa!
+ Zamarrilla tan hermosa,
+ Que me ha dado tan honrada,
+ Con qué? Con capirotada.
+
+_Falla._
+
+ Yo entonces respondí:
+ Señor, dame pan y queso,
+ Mas despues que lo entendí,
+ Dije á ella: Dale un beso,
+ Que él me dió zamarra á mí.
+ Ahora me mirarán
+ Cuantos á la eglesia fueren;
+ Y aquellos que no me quieren,
+ Ahora me rogarán.
+ Sabeis porque no querré?
+ Porque estoy ahidalgado;
+ Y cuando fuere rogado,
+ Cantando responderé,
+ Que ya estoy otro tornado.
+
+_Canta e baila._
+
+ Soropicote, picote, mozas,
+ Ahora quiero amores con vosotras.
+
+
+SCENA VI.
+
+_O Pastor e o Bobo._
+
+PASTOR.
+
+ Hijo Alonsillo.
+
+BOBO.
+
+ Hijo Alonsillo.
+
+PASTOR.
+
+ No me quieres escuchar?
+
+BOBO.
+
+ Pues déjame suspirar.
+
+PASTOR.
+
+ Escúchame ahora, asnillo,
+ Lo que te quiero mandar.
+ Véte al valle de las rosas,
+ Y di á Anton del Lugar
+ Que si puede acá llegar,
+ Porque tengo muchas cosas
+ Que importan para le hablar.
+ Porque es aqui llegado
+ Á este valle un hombre honrado,
+ Mancebo de casta buena,
+ Que amores de Florimena
+ Le traen loco y penado.
+ Dice que quiere casar
+ Con ella, que su tormento
+ No le deja reposar;
+ Y que venga festejar
+ Tan dichoso casamiento.
+
+BOBO.
+
+ Dicid, padre, tambien vos,
+ No quereis casar comigo?
+ Casemos ambos adós.
+
+PASTOR.
+
+ Vé, y haz lo que te digo.
+
+BOBO.
+
+ Responde, padre, por Dios.
+
+PASTOR.
+
+ Vé luego, y vuelve apresado.
+ Anda. No quieres andar?
+
+BOBO.
+
+ Pues que me habeis empujado,
+ Juro á mi de desandar
+ Todo cuanto tengo andado.
+
+PASTOR.
+
+ Trabajoso es este insano!
+ Nunca hace lo que quereis.
+
+BOBO.
+
+ Ora no os apasioneis,
+ Mi padrecico lozano:
+ Que burlaba, no lo veis?
+
+PASTOR.
+
+ Véte dahi.
+
+BOBO.
+
+ Héme aqui.
+
+PASTOR.
+
+ Vé donde te dije.
+
+BOBO.
+
+ Ya vengo.
+ Oh que padrasto que tengo,
+ Que asi me manda por ahi,
+ Siendo camino tan luengo!
+
+
+
+
+ACTO QUARTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Dionysa e Solina._
+
+DIONYSA.
+
+ Oh Solina, minha amiga,
+ Que todo este coração
+ Tenho posto em vossa mão;
+ Amor me manda que diga,
+ Vergonha me diz que não.
+ Que farei?
+ Como me descobrirei?
+ Porque a tamanho tormento
+ Mais remedio lhe não sei,
+ Que entregá-lo ao soffrimento.
+ Meu pae muito entristecido
+ Se vai pela serra erguida,
+ Ja da vida aborrecido,
+ Buscando o filho perdido,
+ Tendo a filha cá perdida!
+ Sem cuidar,
+ Foi a casa encommendar
+ A quem destruir lha quer:
+ Olhae que gentil saber,
+ Que vai comigo deixar
+ Quem me não deixa viver.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, em tanto desgôsto.
+ Não posso meter a mão;
+ Mas como diz o rifão,
+ Mais val vergonha no rosto,
+ Que mágoa no coração.
+ E bofé, se eu tanto amasse,
+ E visse tempo e sazão,
+ Sem seu pae, sem seu irmão,
+ Que a nuvem triste tirasse
+ De cima do coração.
+
+DIONYSA.
+
+ Ah mana! que tenho medo,
+ Que s'eu em tal consentisse
+ Que logo o mundo o sentisse,
+ Porque nunca houve segredo,
+ Que, emfim, se não descobrisse.
+
+SOLINA.
+
+ Se eu tantas dobras tivesse
+ Como quantas houve erradas,
+ Sem que o mundo o soubesse,
+ Á fé qu'eu enriquecesse,
+ E fosse das mais honradas.
+
+DIONYSA.
+
+ Sabeis que tenho em vontade?
+
+SOLINA.
+
+ Que podeis, Senhora, ter?
+
+DIONYSA.
+
+ Fallar-lhe, só para ver
+ Se he por ventura verdade
+ O que dizeis que me quer.
+
+SOLINA.
+
+ Bofé, mana, dizeis bem,
+ E eu o mandarei chamar,
+ Como para lhe rogar
+ Que hum annel, que lá me tem,
+ Que mo mande concertar.
+
+DIONYSA.
+
+ Dizeis mui bem.
+
+SOLINA.
+
+ Vou-me lá
+ Chamar o seu moço á sala;
+ E s'este parvo vem cá,
+ Com elle hum pouco rirá,
+ Que sempre amores me fala.
+ Vilardo, moço?
+
+
+SCENA II.
+
+_Vilardo e Solina._
+
+VILARDO.
+
+ Quem chama?
+
+SOLINA.
+
+ Vem cá, moço; eu te chamo.
+ Qu'he de teu amo?
+
+VILARDO.
+
+ Ah que dama!
+ Perguntais-me por meu amo,
+ E não por hum que vos ama?
+
+SOLINA.
+
+ E quem he esse amador,
+ Que quer ter comigo passo?
+ Será elle algum madrasso?
+
+VILARDO.
+
+ Eu sou o mesmo, que o amor
+ Me quebra pelo espinhasso.
+ E mais vós sabei de mi,
+ Se eu a dizê-lo me atrevo,
+ Que desque esses olhos vi,
+ Que yo ni como, ni bebo,
+ Ni hago vida sin ti.
+ E mais para namorado
+ Não sou ora tão madraço.
+
+SOLINA.
+
+ Sois muito desmazelado.
+
+VILARDO.
+
+ Mas antes, de delicado
+ Caio pedaço a pedaço.
+ E mais eu soffrer não posso
+ Que me façais tanto fero,
+ Qu'estou ja posto no osso,
+ Porque sou vosso e revosso,
+ Por vida de quanto quero.
+
+SOLINA.
+
+ Feros está cheia a rua.
+ Ora estou bem aviada!
+
+VILARDO.
+
+ Cupido, por vida tua,
+ Que a não faças tão crua,
+ Pois que te não faço nada!
+ Amor, Amor, mas te pido,
+ Que quando se for deitar,
+ Que le digas al oido:
+ Devieis-vos de lembrar
+ Neste tempo de hum perdido.
+
+SOLINA.
+
+ E tu ja fazes coprinhas?
+ Ainda tu trovarás?
+
+VILARDO.
+
+ Quem eu? Por estas barbinhas,
+ Que se vós virdes as minhas,
+ Que digais que não são más.
+
+SOLINA.
+
+ Ora, pois me quereis bem,
+ Dizei-me huma.
+
+VILARDO.
+
+ Ei-la aqui;
+ E veja o saibo que tem;
+ Porque esta trovinha assi,
+ Saiba qu'he trova do assem.
+
+_Trova._
+
+ Passarinhos, que voais
+ Nesta manhãa tão serena,
+ Sabei que só minha pena
+ Póde encher mil cabeçais.
+
+SOLINA.
+
+ O rifão está salgado.
+ Essa pena te dou eu?
+
+VILARDO.
+
+ Vós e Amor, que de malvado,
+ Me tee melhor empennado,
+ Que nenhum virote seu.
+ Pois se me ouvíreis cantar!
+
+SOLINA.
+
+ E tu es tambem cantor?
+
+VILARDO.
+
+ Canto melhor que hum açor.
+ Quereis que vos venha dar
+ Musiqueta de primor,
+ E que vos mande tanger
+ Muito melhor que ninguem?
+
+SOLINA.
+
+ Ja isso quizera ver.
+
+VILARDO.
+
+ Querer-me-heis, se o eu fizer,
+ Algum pedaço de bem?
+
+SOLINA.
+
+ Querer-te-hei trinta pedaços.
+
+VILARDO.
+
+ E esse querer dará fruito,
+ Que me tire destes laços?
+
+SOLINA.
+
+ E que fruito?
+
+VILARDO.
+
+ Dous abraços.
+
+SOLINA.
+
+ Esse fruito custa muito.
+
+VILARDO.
+
+ Esse he o amor qu'em vós ha?
+ Pezar de minha mãe torta!
+
+SOLINA.
+
+ Ora hi, chamae logo lá
+ Vosso amo que venha cá,
+ Porque he cousa que importa.
+
+VILARDO.
+
+ Logo?
+
+SOLINA.
+
+ Logo nessas horas.
+
+VILARDO.
+
+ Não estarei aqui mais?
+
+SOLINA.
+
+ Não. Ainda ahi estais?
+ Vós haveis mister esporas.
+
+VILARDO.
+
+ Irei, porque me mandais.
+
+
+SCENA III.
+
+_O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor._
+
+PASTOR.
+
+ Mas de un mez es ya pasado
+ Que en esta sierra andais;
+ Y es caso mal mirado
+ Que andeis guardando ganado
+ Por una que tanto amais.
+ Y si os determinais
+ En querer casar con ella,
+ Juro á mi que nada errais;
+ Y si eso es para habella,
+ En vano cabras guardais.
+ Ya me distes vuestra fé
+ (Sábenlo estas tierras todas):
+ Yo con ella me engañé,
+ Que luego mandar llamé
+ Quien festejase las bodas.
+ Y agora dicis con pena,
+ Que es dura cosa casar:
+ Pues volveos hora buena,
+ Que no habeis de engañar
+ Con palabras Florimena.
+
+VENADORO.
+
+ Quem se ha de ter coração
+ Para tamanho temor?
+ Que em mim pegando estão.
+ De huma parte a razão.
+ E d'outra parte o Amor.
+ Tambem vejo que perdella
+ Será minha perdição;
+ Que bem me diz a affeição,
+ Que pouco faço por ella,
+ Pois não desfaço em quem são.
+
+PASTOR.
+
+ Digoos, si por bajeza
+ Dicis que no os conviene,
+ Daros hé una certeza,
+ Que en sangre y en nobleza,
+ Tanto como vos la tiene.
+
+VENADORO.
+
+ Pastor, digo que daqui
+ Farei tudo que quizerdes;
+ E se mais quereis de mi,
+ Digo que vos dou o si
+ Para tudo o que quizerdes.
+
+PASTOR.
+
+ Dios os dé su bendicion;
+ Y pues que casais con ella,
+ Yo os afirmo en conclusion,
+ Que aun de vos y mas della
+ Verná gran generacion.
+ Yo me voy por ella, hijo,
+ Tomadla asi mal compuesta;
+ Verná quien haga la fiesta;
+ Que en placer y regocijo
+ Nos festeje esta floresta.
+
+
+SCENA IV.
+
+VENADORO _só_.
+
+ Ó ribeiras tão formosas,
+ Valles, campos pastoris,
+ Porque vos não revestis
+ De novas flores e rosas,
+ Se minha gloria sentis?
+ Porque não seccais, abrolhos?
+ E vós, ágoa, que regando,
+ Os olhos his alegrando,
+ Correi, que tambem meus olhos
+ D'alegres estão manando.
+ Ah pastora, em quem espero
+ Poder viver descansado!
+ Comtigo guardarei gado,
+ Que ja eu sem ti não quero
+ Nenhuma alteza d'estado.
+ Diga o que quizer a gente,
+ Tudo terei n'huma palha,
+ Porque está claro e evidente
+ Que não ha honra que valha
+ Contra a vida descontente.
+
+
+SCENA V.
+
+_Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante do pastor, que
+traz Florimena._
+
+PASTOR.
+
+ Pues el amor os obliga
+ Á que hagais tan buena liga,
+ Tomando á Dios por testigo,
+ Daqui os la entrego, amigo,
+ Por muger y por amiga.
+
+VENADORO.
+
+ Consentis nisto, Senhora?
+
+FLORIMENA.
+
+ Senhor, em tudo consento.
+
+VENADORO.
+
+ Oh grande contentamento!
+
+FLORIMENA.
+
+ Saiba que nunca tégora
+ Lhe houve inveja ao tormento.
+
+PASTOR.
+
+ Asi lo dices, bobilla?
+ Oh! mala dolor os duela!
+ Pero no es maravilla
+ Quien consiente ansi la silla,
+ Consienta tambien la espuela.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Tornão a bailar e cantar, e acabado, entra D. Lusidardo, e o Monteiro,
+que andão em busca de Venadoro._
+
+LUSIDARDO.
+
+ Tres dias ha ja que ando
+ Por esta larga espessura
+ A Venadoro buscando;
+ E o que delle vou achando
+ He como quer a Ventura.
+
+MONTEIRO.
+
+ Senhor, cuido que lá vejo
+ Huns lavradores cantar.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Hi diante perguntar.
+
+MONTEIRO.
+
+ Cumprido he seu desejo,
+ Se a vista não m'enganar.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Como assi?
+
+MONTEIRO.
+
+ Elle não vê
+ Aquelle pastor loução
+ Com huma moça pela mão?
+ Se Venadoro não he,
+ Nem eu o Monteiro são.
+
+PASTOR.
+
+ Quien veo allá asomar,
+ Que se viene á nuestras bodas?
+
+BOBO.
+
+ No los dejemos llegar,
+ Que nos vernan á roubar,
+ Juro á mi, las migas todas.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh Venadoro, meu filho!
+ Es tu este?
+
+VENADORO.
+
+ Tal estou,
+ Que cuido que este não sou.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Certo que me maravilho
+ De quem tanto te mudou.
+ Como estais assi mudado
+ No rosto e mais no vestido!
+
+VENADORO.
+
+ Ando ja n'outro trocado,
+ Tanto, que fiquei pasmado
+ De como fui conhecido.
+ E se Vossa Mercê vem
+ Para me levar daqui,
+ Mais ha de levar que a mi;
+ E ha de ser quem me tem
+ Todo transformado em si.
+
+BOBO.
+
+ Eso porque lo entendeis?
+ Por las migas por ventura?
+ Voto á tal no llevareis:
+ Por mas y por mas que andeis
+ No hareis tal travesura.
+
+VENADORO.
+
+ Esta formosa donzella
+ Em mi teve tal poder,
+ Que folguei de me perder;
+ Pois, emfim, vim achar nella
+ O que não cuidei de ser.
+ Tanto em mi pôde este amor,
+ Que a tenho recebida;
+ E se o êrro grave for,
+ Aqui quero ser pastor:
+ Deixe-me ter esta vida.
+
+LUSIDARDO.
+
+ He certo tal casamento?
+
+VENADORO.
+
+ Tenha-o por cousa segura.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh grande acontecimento!
+ Dest'arte sabe a ventura
+ Aguar hum contentamento!
+
+PASTOR.
+
+ Óigame, Señor, á mi,
+ Como hombre sabio, discreto,
+ Porque acaeció así,
+ Y lo que supo hasta aqui
+ Lo puede tener por cierto.
+ Muchos años son corridos
+ Que en esta fuente abierta,
+ En estos valles floridos
+ Hallé dos niños nascidos,
+ Y á su madre casi muerta.
+ Los niños chicos crié,
+ (Y desto cierto me arreo)
+ Y á la madre sepulté;
+ Y despues un gran deseo
+ De saber esto tomé.
+ Como yo fuese enseñado
+ De chico á la mágica arte
+ Por mi padre, que es finado;
+ Muy conoscido y nombrado
+ Soy por tal en toda parte.
+ Yo con yervas de la sierra,
+ Animales y otras cosas
+ Haré, si el arte no se yerra,
+ Que desciendan á la tierra
+ Las estrellas luminosas.
+ Soy, en fin, certificado
+ Que la madre de los dos
+ Fué Princeza de alto estado.
+ Y por un caso nombrado
+ La trajo á esta tierra Dios.
+ El macho, como creció,
+ Deseoso de otro bien,
+ Á la Corte se partió:
+ La hembra es esta por quien
+ Vuestro hijo se perdió.
+ Y si mas quiere, Señor,
+ De mi arte, prestamente
+ Dello le haré sabedor;
+ Mas ha de ser de tenor
+ Que no lo sepa la gente.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Mas vamos-nos, se quereis,
+ Que não soffro dilação,
+ A minha casa, e então
+ Lá disso me informareis,
+ Que caso he de admiração.
+ E vós, filho, não cuideis
+ Que a gloria de vos achar
+ Não he tanto d'estimar,
+ Qu'em qualquer 'stado que esteis,
+ Não folgue de vos levar.
+
+
+
+
+ACTO QUINTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Solina, Dionysa e Filodemo._
+
+SOLINA.
+
+ Eis Filodemo lá vem:
+ Asinha acudio ao leme.
+
+DIONYSA.
+
+ Isso he de quem quer bem;
+ Mas não sei se o vio alguem,
+ Porque quem espera teme.
+ Agora me quizera eu
+ Daqui cem mil leguas ver.
+
+FILODEMO.
+
+ Folgára eu assi de ser,
+ Porqu'este cuidado meu
+ Fôra mais de agradecer.
+ Que quando por accidente
+ A Fortuna desastrada
+ Vos apartasse da gente
+ N'hum deserto, onde somente
+ Das feras fosseis guardada;
+ Lá por ferro, fogo e ágoa
+ Buscar minha morte iria;
+ A voz ronca, a lingua fria,
+ Tamanho mal, tanta mágoa
+ Ás montanhas contaria.
+ Lá, mui contente e ufano
+ De mostrar amor tão puro,
+ Poderia ser que o dano,
+ Que não move hum peito humano,
+ Que movesse hum monte duro.
+
+DIONYSA.
+
+ Nesse deserto apartado
+ De toda a conversação
+ Merecieis degradado
+ Por justiça, com pregão
+ Que dissesse: _Por ousado_.
+ E eu tambem merecia
+ Metida a grave tormento,
+ Pois que, como não devia,
+ Vim a dar consentimento
+ A tão sobeja ousadia.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, se me atrevi,
+ Fiz tudo o que Amor ordena;
+ E se pouco mereci,
+ Tudo o que perco por mi,
+ Mereço por minha pena.
+ E se Amor pôde vencer,
+ Levando de mi a palma,
+ Eu não lho pude tolher;
+ Que os homens não tee poder
+ Sôbre os affectos da alma.
+ E ainda que pudera
+ Resistir contra o mal meu.
+ Saiba que o não fizera;
+ Que pouco valêra eu,
+ Se contra vós me valêra.
+ Não deve logo ter culpa
+ Quem se venceo d'armas tais:
+ Assi que nisto, e no mais,
+ Tomo por minha desculpa
+ Vós mesma que me culpais.
+ E se este atrevimento
+ Com tudo for de culpar,
+ Acabae de me matar;
+ Que aqui tenho hum soffrimento
+ Que tudo póde passar.
+ E se esta penitencia,
+ Que faço em me perder,
+ Algum bem vos merecer,
+ Fique em vossa consciencia
+ O que me podeis dever.
+ Que dizeis a isto, Senhora?
+
+DIONYSA.
+
+ Eu que vos posso dizer?
+ Ja não tenho em mi poder,
+ Segundo me sinto agora,
+ Para poder responder.
+ Respondei-lhe, vós Solina,
+ Pois que a vós me entreguei.
+
+SOLINA.
+
+ Bofé não responderei:
+ Veja ella o que determina.
+
+DIONYSA.
+
+ Não o vejo, nem o sei.
+
+SOLINA.
+
+ Pois eu tambem não sei nada.
+
+DIONYSA.
+
+ Porque?
+
+SOLINA.
+
+ Do que eu fizer,
+ Se despois se arrepender,
+ Dirá qu'eu fui a culpada.
+
+DIONYSA.
+
+ Eu só quero a culpa ter.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, por não errar,
+ Não quero que fique em mim.
+ Esta noite no jardim
+ Ambos podem praticar
+ Como isto venha a bom fim.
+ Lá poderão ajustar
+ Entr'ambos o parecer;
+ Qu'eu não m'hei nisso de achar,
+ Que não quero temperar
+ O que outrem ha de comer.
+
+DIONYSA.
+
+ Vós vêdes a torvação,
+ Que lá nessa casa vae?
+
+SOLINA.
+
+ Dá-me cá no coração
+ Que he vindo o Senhor seu pae
+ Com o Senhor seu irmão.
+
+DIONYSA.
+
+ Filodemo, hi-vos embora,
+ Fallae depois com Solina.
+
+SOLINA.
+
+ Vamos-nos tambem, Senhora.
+ Receber seu pae lá fóra;
+ Não venha sentir a mina.
+
+
+SCENA II.
+
+_Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina com os Musicos._
+
+VILARDO.
+
+Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre andão rugindo as sedas.
+
+DOLOROSO.
+
+Avante, que bem sei que o não dizeis polas sedas de Veneza.
+
+VILARDO.
+
+Ja sabeis que esta nossa Solina he tão Celestina, que não ha quem a
+traga a nós.
+
+DOLOROSO.
+
+Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, dará e tomará
+quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher
+de sua arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes
+são como homens sisudos; se de noite se achão em algum arruido, onde
+possão fugir sem serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia
+quem ha de cuidar que hum tão honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem
+pode ser, porque noite escura he capa de Judeos e de envergonhados.
+
+VILARDO.
+
+Mui gentil comparação he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi
+zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous
+meus amigos, que logo hão de vir aqui ter comnosco.
+
+DOLOROSO.
+
+Que tal he a musica que determinas de lhe dar? Não seja de siso; porque
+será a maior parvoice do mundo, porque não concerta com a parvoice que
+tu finges.
+
+VILARDO.
+
+A musica não he senão das nossas; mas faço-te queixume, que nem com hum
+cão de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra.
+
+DOLOROSO.
+
+Nem as acharás senão alugadas; mas eu não sou de opinião que teus amores
+te custem dinheiro. Ora ja lá apparecem os outros companheiros, e eu
+tambem ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto á popa, porque
+daqui iremos á porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum
+certo requerimento.
+
+VILARDO.
+
+Vossas Mercês vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem
+temperadas?
+
+DOLOROSO.
+
+Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justiça entretanto.
+
+VILARDO.
+
+Ora sus: fazei como se temperasseis cabeça de pescada com seu figado e
+bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa
+nova.
+
+_Neste passo se dá a musica com todos quatro, hum tange guitarra, outro
+pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito velhas, e no melhor
+diz Vilardo:_
+
+Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he.
+
+DOLOROSO.
+
+Justiça, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui não ha outro valhacouto que
+nos valha, que pôr os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras.
+
+
+SCENA III.
+
+O MONTEIRO _só_.
+
+Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quão gracioso sería
+quem o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoço, porque
+não podessem entender nelle Meirinhos, Almotacés da limpeza, trabalhos,
+esperanças, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora
+notae bem de quantas côres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo:
+perdeo-se Venadoro na caça, eis a casa toda envolta como rio: o pae
+enfadado, a irmãa triste, a gente desgostosa; tudo, emfim, fóra do
+couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados como
+camaleão, decepado dos pés e das mãos, por huma serranica d'Alentejo; e
+veio acaso a sahir de maneira fóra da madre, que a recebeo por mulher; e
+rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as lembranças de seu pae;
+pois tanto tomou ao pé da letra o que Deos disse: _Por esta deixarás teu
+pae e mãe_. E attentae isto por me fazer mercê: cuidareis que este caso
+era _solus peregrinus_: sabei que os não dá a fortuna senão aos pares,
+como quédas. Dionysa mais mimosa e mais guardada de seu pae que bicho de
+seda, moça sem fel como pombinha, que nos annos não tinha feito inda o
+enequim; mais formosa que huma manhãa do S. João, mais mansa que o Rio
+Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso, mais delicada que hum
+pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua conversação se
+poderá soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a parricida,
+com tanto que dissesse o pregão o porque; porque vos não fieis em
+castanhas (não sei se diga, se o cale, que de magoado me trava pola
+manga a falla da garganta; mas, com tudo, não ha quem se tenha) seu pae
+a achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo que
+perdêra, que do que alli perdia: eu, coitado de mi, que meta os dentes
+nos cabeçaes se desejar ave de penna.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Duriano e o Monteiro._
+
+DURIANO, _como cantando_.
+
+Ti ri ri, ti ri rão.
+
+MONTEIRO.
+
+Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos são esses? Onde he cá a ida
+agora?
+
+DURIANO.
+
+Vou assi como parvo, porque o melhor he não saber homem nada de si.
+
+MONTEIRO.
+
+Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo
+que ficou só em casa?
+
+DURIANO.
+
+Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se não he isso
+caso para sahir com elle a desafio.
+
+MONTEIRO.
+
+Porque?
+
+DURIANO.
+
+Porque não basta que lhe dê a Fortuna gostos tão medidos sôbre o funil,
+que lhe põe nos braços Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou
+cabellos ao vento, senão ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe
+vem a descobrir, que he filho de não sei quem, nem quem não.
+
+MONTEIRO.
+
+Esses são outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja
+sôbre isso não sei que fábulas.
+
+DURIANO.
+
+Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que não he menos que Principe, e peor ainda.
+Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor Dom Lusidardo que aggravado
+del Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca?
+
+MONTEIRO.
+
+Tudo isso ouvi ja.
+
+DURIANO.
+
+Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que ElRei de Dinamarca
+lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moça; e como
+era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher
+abalão, desejou ella de ver geração delle; senão quando, livre-nos Deos!
+se lhe começou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos não se
+desistem em nove dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle então
+necessario acolher-se com ella, porque não colhessem a ella com elle:
+acolheu-se em huma galé; e vêde la Princeza em huma galera nueva, con el
+marinero á ser marinera. Finalmente, vindo navegando todo esse Oceano
+Germanico, bancos de Frandes, mar d'Inglaterra, e trazidos á costa
+d'Hespanha, não os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella
+buscavão: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a
+galé á costa, onde feita pedaços, morrêrão todos desastradamente, sem
+escapar mais que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece
+que a Fortuna guardava para dar o descanso, que a seu pae e mãe negára.
+Sahio finalmente a moça na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria
+huma Princeza mais delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher
+pola terra estranha e despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde,
+despois de ter perdido toda a esperança de ter algum remedio, derão-lhe
+as dores de parto junto de huma fonte, aonde em breve espaço lançou duas
+crianças, macho e femia, como vizagras. E como a fraca compreição da
+delicada mulher não pudesse sustentar tantos e tão desacostumados
+trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia que desejava de dar,
+deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae, que por causa
+de seus nascimentos a vida lhe tirárão, como acontece a viboras. E como
+as crianças fossem destinadas ao que vêdes, não faltou hum pastor que as
+criasse, que alli veio ter, dando a mãe a alma a Deos: de maneira que,
+por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e a femia
+he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro.
+
+MONTEIRO.
+
+Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo
+namorar a filha do Senhor que serve: não haverá logo por mal o Senhor
+Dom Lusidardo tomar por genro e nora, quem acha por sobrinhos.
+
+DURIANO.
+
+Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se
+parece natural com seu irmão, e Florimena com sua mãe.
+
+MONTEIRO.
+
+Dae-me a entender, como se creo tão de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de
+quem isso contou.
+
+DURIANO.
+
+No caso não ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou
+todo o caso; e fez ao pastor muitas mercês, e mandou fazer muitas festas
+solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o
+mesmo parentesco tee com a Senhora Dionysa, estão fóra de crer tamanho
+contentamento; cuido que zombão delle.
+
+MONTEIRO.
+
+Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu
+matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo:
+dissimulemos.
+
+
+SCENA V.
+
+_Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela mão, e Filodemo a
+Dionysa._
+
+LUSIDARDO.
+
+ Quem não ficará pasmado
+ De ver que por tal caminho
+ Tee a Ventura ordenado
+ Filodemo, meu criado,
+ Vir ser meu genro e sobrinho!
+ Quem não pasmará agora
+ De ver a ventura minha,
+ Que tee tornado n'hum'hora
+ Florimena, huma pastora,
+ Ser minha nora e sobrinha!
+ Dem-se graças ao Senhor,
+ Cujo segredo he profundo;
+ Pois que vemos que quiz dar
+ A ventura e o amor
+ Por prazeres deste mundo.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+CARTAS.
+
+
+
+
+CARTAS.
+
+
+CARTA I.
+
+Desejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito desejar a não vi;
+porque este he o mais certo costume da Fortuna, consentir que mais se
+deseje o que mais presto ha de negar. Mas porque outras naos me não
+fação tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar que vos não lembro,
+determinei de vos obrigar agora com esta; na qual pouco mais ou menos
+vereis o que quero que me escrevais dessa terra. Em pago do qual, d'ante
+mão vos pago com novas desta, que não serão más no fundo de huma arca
+para aviso de alguns aventureiros, que cuidão que todo o mato he
+ouregãos, e não sabem que cá e lá más fadas ha.
+
+Despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo,
+mandei enforcar a quantas esperanças dera de comer até então, com pregão
+público: _Por falsificadoras de moeda_. E desenganei esses pensamentos,
+que por casa trazia, porque em mim não ficasse pedra sobre pedra. E assi
+posto em estado, que me não via senão por entre lusco e fusco, as
+derradeiras palavras que na nao disse, forão as de Scipião Africano:
+_Ingrata patria, non possidebis ossa mea_. Porque quando cuido, que sem
+peccado que me obrigasse a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de
+más linguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas de pura inveja,
+de verem _su amada yedra de sí arrancada, y en otro muro asida_.... Da
+qual tambem amizades mais brandas que cera, se accendião em odios que
+disparavão lume que me deitava mais pingos na fama, que nos couros de
+hum leitão. Então ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude
+de Achilles, que não podia ser cortado senão pelas solas dos pés; as
+quaes de mas não verem nunca, me fez ver as de muitos, e não engeitar
+conversações da mesma impressão, a quem fracos punhão mao nome, vingando
+com a lingua o que não podião com o braço. Emfim, Senhor, eu não sei com
+que me pague saber tão bem fugir a quantos laços nessa terra me armavão
+os acontecimentos, como com me vir para esta, onde vivo mais venerado
+que os touros de Merceana, e mais quieto que a cella de hum Frade
+Prégador. Da terra vos sei dizer que he mãe de villões ruins, e madrasta
+de homens honrados. Porque os que se cá lanção a buscar dinheiro, sempre
+se sustentão sobre ágoa como bexigas; mas os que sua opinião deita á las
+armas Mouriscote, como maré corpos mortos á praia, sabei que antes que
+amadureção, se seccão. Ja estes que tomavão esta opinião de valentes ás
+costas, crede que nunca riberas de Duero arriba cavalgaron Zamoranos,
+que roncas de tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem ao
+effeito da obra, salvão-se com dizer que se não podem fazer tamanhas
+duas cousas, como he, prometter e dar. Informado disto veio a esta terra
+João Toscano, que, como se achava em algum magusto de rufiões,
+verdadeiramente que alli era su comer las carnes crudas, su beber la
+viva sangre. Callisto de Siqueira se veio cá mais humanamente, porque
+assi o prometteo em huma tormenta grande em que se vio. Mas hum Manoel
+Serrão, que, _sicut et nos_, manqueja de hum olho, se tee cá provado
+arrezoadamente, porque fui tomado por juiz de certas palavras, de que
+elle fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de sua pessoa era
+cá tido em boa conta. Se das damas da terra quereis novas, as quaes são
+obrigatorias a huma carta, como marinheiros á festa de S. Frei Pero
+Gonçalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de maduras, que não ha
+cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quizerem lançar pedaço. Pois as que
+a terra dá? além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe falleis alguns
+amores de Petrarca, ou de Boscão; respondem-vos huma linguagem meada de
+hervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança ágoa
+na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgae, Senhor, o que sentirá
+hum estomago costumado a resistir ás falsidades de hum rostinho de
+tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho novo com ágoa,
+vendo-se agora entre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como
+não chorará las memorias de in illo tempore! Por amor de mi, que ás
+mulheres dessa terra digais de minha parte que se querem absolutamente
+ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis mezes de má vida
+por esse mar, que eu as espero com procissão e palio, revestido em
+pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe irão entregar as chaves da
+cidade, e reconhecerão toda a obediencia, a que por sua muita idade são
+ja obrigadas. Por agora não mais, senão que este Soneto[3]
+que aqui vai, que fiz á morte de Dom Antonio de Noronha, vos mando em
+sinal de quanto della me pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a
+qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe, que me parece
+melhor que quantas fiz. Tambem vo-la mandára para a mostrardes lá a
+Miguel Dias, que pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver;
+mas a occupação de escrever muitas cartas para o Reino, me não deo
+lugar. Tambem lá escrevo a Luis de Lemos em resposta d'outra que vi sua:
+se lha não derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual tudo se perde.
+
+Vale.
+
+[3] He o Soneto 12.
+
+ * * * * *
+
+
+CARTA II.
+
+Esta vai com a candeia na mão morrer nas de v. m.; e se dahi passar,
+seja em cinza; porque não quero que do meu pouco comão muitos. E se
+todavia quizer meter mais mãos na escudella, mande-lhe lavar o nome, e
+valha sem cunhos.
+
+ La mar en medio y tierras, he dejado
+ Á cuanto bien cuitado yo tenia:
+ Cuan vano imaginar, cuan claro engaño
+ Es darme yo á entender que con partirme
+ De mí se ha de partir un mal tamaño!
+
+Quão mal está no caso quem cuida que a mudança do lugar muda a dor do
+sentimento! E senão, diga-o quien dijo que la ausencia causa olvido.
+Porque emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes
+cuidados jogão meus pensamentos á barreira, tendo-me ja, pelo costume,
+tão contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo
+uso dos annos se converte em natureza. Pois o que he para mor mal, tenho
+eu para mor bem. Aindaque, para viver no mundo, me debruo d'outro panno,
+por não parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum para ser outro,
+sendo outro para ser hum; mas a dor dissimulada dara seu fruito; que a
+tristeza no coração, he como a traça no panno.
+
+ E por tão triste me tenho,
+ Que se sentisse alegria,
+ De triste não viviria.
+ Porque a tal sorte vim,
+ Que não vejo bem algum
+ Em quanto vejo,
+ Que não nasceo para mim;
+ E por não sentir nenhum,
+ Nenhum desejo.
+
+Porque cousas impossiveis, he melhor esquecê-las que deseja-las. E por isso
+
+ Só, tristeza, vos queria,
+ Pois minha ventura quer
+ Que só ella
+ Conheça por alegria;
+ E que se outra quizer,
+ Morra por ella.
+
+Pouco sabe da tristeza quem (sem remedio para ella) diz ao triste que se
+alegre. Pois não vê que alheios contentamentos a hum coração
+descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dóbrão o que padece.
+Vós, se vem á mão, esperais de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de
+bons propositos. Pois desenganae-vos, que desque professei tristeza,
+nunca mais soube jogar a outro fito. E porque não digais, que não sou
+gente fóra do meu bairro, vêdes, vai huma volta feita a este mote, que
+escolhi na manada dos engeitados; e cuido que não he tão dedo queimado,
+que não seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi:
+
+ Não quero, não quero
+ Jubão amarello.
+
+ Se de negro for,
+ Tão bem me parece,
+ Quanto me aborrece
+ Toda alegre côr:
+ Côr que mostra dor,
+ Quero, e não quero
+ Jubão amarello.
+
+Parece-vos que se póde dizer mais? Não me respondais: Quem gabará a
+noiva? porque assentae, que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que
+não he tão pequena habilidade. E porque vos não pareça, que foi mais
+acertar, que querê-lo fazer; vêdes, vai outra do mesmo jaez, com tanto
+que se não vá a pasmar.
+
+ Perdigão perdeo a penna,
+ Não ha mal, que lhe não venha.
+
+ Em hum mal outro começa,
+ Que nunca vem só nenhum;
+ E o triste que tee hum,
+ A soffrer outro se offreça;
+ E só pelo ter conheça,
+ Que basta hum só que tenha,
+ Para que outro lhe venha.
+
+Que graça será esperardes de mim propositos em cousa que os não tee
+para comigo? Pois ainda que queira, não posso o que quero; que hum sentido
+remontado, de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe succede assi; e cada
+hum acode ao que lhe mais doe; e mais eu, que o que mais me entristece
+he ter contentamento, pois fujo delle, que minha alma o aborrece, porque
+lhe lembra que he virtude viver sem elle. Que ja sabeis que mágoa he,
+vê-lo-has e não o paparás. Por fugir destes inconvenientes,
+
+ Toda a cousa descontente
+ Contentar-me só convinha
+ De meu gôsto:
+ Que o mal, de que sou doente,
+ Sua mais certa mézinha
+ He desgôsto.
+
+Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que não podes haver, dá-o pola tua alma. O
+mal sem remedio, o mais certo que tee, he fazer da necessidade virtude:
+quanto mais, se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque,
+emfim, allegados son iguales los que viven por sus manos etc. A este
+proposito, pouco mais ou menos, se fizerão humas voltas a hum mote
+d'enchemão, que diz por sua arte zombando, mais que não de siso (que
+toda a galantaria he tirá-la donde se não espera), o qual crede que tee
+mais que roer do que hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida,
+e mande escumar o entendimento, que d'outra maneira, de fuera
+dormiredes, pastorcico. E o meu Senhor diz assi:
+
+ Dava-lhe o vento no chapeirão,
+ Quer lhe dê, quer não.
+
+ Bem o póde revolver,
+ Que o vento não traz mais fruito;
+ E mais vento he sentir muito
+ O que, emfim, fim ha de ter.
+ O melhor, he melhor ser,
+ Que o vento no chapeirão,
+ Quer lhe dê, quer não.
+
+Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem do mal, que o mal do
+bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado; e a morte até
+matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque para tomar
+a palha a esta materia, são necessarias azas de Nebri. Mas vós sois
+homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mi vos
+sei dar he:
+
+ Que esperança me despede,
+ Tristeza não me fallece,
+ E tudo o mais me aborrece.
+ Ja que mais não mereceo
+ Minha estrella,
+ Só a tristeza conheço,
+ Pois que para mi nasceo,
+ E eu para ella.
+
+No mundo não tee boa sorte, senão quem tee por boa a que tee. E
+daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhae de que maneira:
+
+ Vivo assi ao revés,
+ Tomando por certa vida
+ Certa morte,
+ Com que fólgo em que me pês;
+ Pois minha sorte he servida
+ De tal sorte.
+
+Huma cousa sabei, que o mal, inda que ás vezes o vejais louvar, não ha
+quem o louve com a boca, que o não tache com o coração.
+
+ Ajuda-me a soffrer
+ Vida tão sem soffrimento,
+ E tão sem vida,
+ Ver que, emfim, fim hão de ter
+ Desgôsto e contentamento
+ Sem medida.
+
+Attentae que não são maos confeitos de enforcado, para os que estão com
+o baraço na garganta, cuidar que o bem e o mal, aindaque sejão
+differentes na vida, são conformes na morte; porque vemos
+
+ Que não ha tão alta sorte,
+ Nem ventura tão subida,
+ Ou desastrada,
+ A quem o assópro da morte
+ Não sopre o fogo da vida.
+
+ A seu fim todas cousas vão correndo;
+ Nem ha cousa, que o tempo não consuma,
+ Nem vida, que de si tanto presuma,
+ Que se não veja nada, em se vendo.
+
+ Que o mais certo que temos,
+ He não termos nada certo
+ Cá na terra.
+ Pois para seus não nascemos;
+ Se o seu nos dá incerto,
+ Nada erra.
+
+Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se fez a hum certo
+recontro que se teve com este destruidor de bons propositos, e não se
+acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte:
+
+ Forçou-me amor hum dia, que jogasse;
+ Deo as cartas, e az de ouros levantou;
+ E sem respeitar mão, logo triumphou,
+ Cuidando que o metal, que me enganasse.
+
+ Dizendo, pois triumphou, que triumphasse
+ A huma sota de ouros, que jogou,
+ Eu então por burlar quem me burlou,
+ Tres paos joguei, e disse que ganhasse.
+
+Principes de condição, ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos
+que a pobreza: fazem com sua fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias
+de seus avós, onde não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma
+hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim, para dar que fallar a
+hum convento. Duas cousas não se soffrem sem discordia; companhia no
+amar, mandar villão ruim sôbre cousa de seu interesse. Não se póde ter
+paciencia com quem quer que lhe fação o que não faz. Desagradecimentos
+de boas obras destruem a vontade para não fazê-las a amigo, que tee
+mais conta com o interesse, que com a amizade: rezae delle, que he dos cá
+nomeados.
+
+Grande trabalho he querer fazer alegre rosto, quando o coração está
+triste: panno he, que não toma nunca bem esta tinta; que a lua recebe a
+claridade do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá honra no que
+dá: não tee que agradecer, quem, no que recebe, a não recebe; porque
+bem comprado vai o que com ella se compra. Não se dá de graça o que se
+pede muito. Estai certo, que quem não tee huma vida, tee muitas. Onde
+a razão se governa pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que
+louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto comsigo, como males de que
+se não guardárão, podendo. Não ha alma sem corpo, que tantos corpos faça
+sem almas, como este purgatorio, a que chamais honra: onde muitas vezes
+os homens cuidão que a ganhão, ahi a perdem. Onde ha inveja, não ha
+amizade; nem a póde haver em desigual conversação. Bem mereceo o engano,
+quem creo mais o que lhe dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver
+no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual,
+perguntae-lhe donde vem: vereis que algo tiene en el cuerpo, que le
+duele. Ora temperae-me lá esta gaita, que nem assi, nem assi achareis
+meio real de descanso nesta vida; ella nos trata somente como alheios de
+si, e com razão;
+
+ Pois somente nos he dada
+ Para que ganhemos nella
+ O que sabemos.
+ Se se gasta mal gastada,
+ Juntamente com perdella
+ Nos perdemos.
+
+Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, he a mais
+fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão breve he,
+
+ Ponderemos e vejamos
+ Que ganhamos em viver
+ Os que nascemos:
+ Veremos, que não ganhamos,
+ Senão algum bem fazer,
+ Se o fazemos.
+
+E por isso respeitando,
+
+ Que o por vir tal será,
+ Enthesouremos;
+ Porque ao certo não sabemos
+ Quando a morte pedirá
+ Que lhe paguemos.
+
+Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte: sendo
+mais aborrecida que a verdade, tee-se em menos conta que a virtude. Mas
+com tudo, com seu pensamento, quando lhe vem á vontade, acarreta mil
+pensamentos vãos; que tudo para com ella he hum lume de palhas. Nenhuma
+cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem na mor bonança,
+como ella; porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras,
+dando com os corpos á costa; e, se vem á mão, com as almas no inferno,
+que he bem ruim gasalhado.
+
+ E pois todos isto temos,
+ Não nos engane a riqueza,
+ Por que tanto esmorecemos,
+ Traz que vamos;
+ Ja que temos por certeza
+ Que quando mais a queremos,
+ A deixamos.
+
+ Gastâmos em alcançá-la
+ A vida; e quando queremos
+ Usar della,
+ Nos tira a morte lográ-la:
+ Assi que a Deos perdemos,
+ E a ella.
+
+Porque ja ouvirieis dizer: _Ninho feito, pêga morta_. Que me dizeis ao
+contentamento do mundo, que toda a dura delle está emquanto se alcança?
+Porque acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque
+acabado de alcançar, he passado; e maior saudade deixa, do que he o
+contentamento que deo. Esperae, por me fazer mercê, que lhe quero dar
+humas palavrinhas de proposito.
+
+ Mundo, se te conhecemos,
+ Porque tanto desejamos
+ Teus enganos?
+ E se assi te queremos,
+ Mui sem causa nos queixamos
+ De teus danos.
+
+ Tu não enganas ninguem;
+ Pois a quem te desejar,
+ Vemos que danas:
+ Se te querem qual te vem,
+ Se se querem enganar,
+ Ninguem enganas.
+
+ Vejão-se os bens que tiverão
+ Os que mais em alcançar-te
+ Se esmerárão;
+ Que huns vivendo, não vivêrão,
+ E outros, só com deixar-te,
+ Descansárão.
+
+ Se esta tão clara fé
+ Te põe claros teus enganos,
+ Desengana:
+ Sobejamente mal vê,
+ Quem com tantos desenganos
+ Se engana.
+
+ Mas como tu sempre mores
+ No engano em que andamos,
+ E que vemos,
+ Não cremos o que tu podes,
+ Senão o que desejamos
+ E queremos.
+
+ Nada te póde estimar
+ Quem bem quizer conhecer-te
+ E estimar-te;
+
+ Qu'em te perder ou ganhar,
+ O mais seguro ganhar-te
+ He perder-te.
+
+ E quem em ti determina
+ Descanso poder achar,
+ Saiba que erra;
+ Que sendo a alma divina,
+ Não a póde descansar
+ Nada da terra.
+
+ Nascemos para morrer,
+ Morremos para ter vida,
+ Em ti morrendo:
+ O mais certo he merecer
+ Nós a vida conhecida,
+ Ca vivendo.
+
+ Emfim, mundo, es estalagem,
+ Em que pousão nossas vidas
+ De corrida:
+ De ti levão de passagem
+ Ser bem ou mal recebidas
+ Na outra vida.
+
+Á fuera, á fuera Rodrigo, que eu se muito for por este caminho, darei em
+enfadonho, de que me parece me não livrará, nem ainda privilegio de
+Cidadão do Porto. E pois me vendo a vós, soffrei-me com meus encargos. E
+porque não digais que sou herege de amor, e que lhe não sei orações,
+vêdes, vai huma: _Di, Juan, de qué murió Blas?_ com hum pé á Portugueza,
+e outro á Castelhana: e não vos espanteis da libré, que eu em qualquer
+palmo desta materia perco o norte. E os supplicantes dizem assi:
+
+ Di, Juan, de que murió Blas,
+ Tan niño y tan mal logrado?
+ Gil, murió de desamado.
+
+ Dime, Juan, quien se engañó,
+ Que con amor se engañase,
+ Pensando que el bien hallase,
+ Adonde el mal cierto halló?
+ Despues que el engaño vió,
+ Que hizo desenganado?
+ Gil, murió de desamado.
+
+ Travou com elle pendença,
+ Em ter razão confiado;
+ Mas Amor, como he letrado,
+ Houve contr'elle a sentença:
+ E co'aquella differença,
+ Disse entre si o coitado:
+ Gil, morreo de desamado.
+
+ Quem tee razão tão cerrada,
+ Que não saiba, sendo rudo
+ E sem respeito,
+ Que sem Deos he tudo nada,
+ E nada com elle tudo
+ Sem defeito?
+
+ E sendo isto assi tão certo,
+ Como todos confessamos
+ E sabemos;
+ Não troquemos pelo incerto
+ O em que tão certo estamos,
+ Pois o vemos.
+
+A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Phaeton,
+porque del dicho al hecho, vá gran trecho. E de saber as cousas a passar
+por ellas, ha mais differença, que de consolar a ser consolado. Mas assi
+entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos a reprehendê-lo, e poucos a
+emendá-lo. E com isto amaino, beijando essas poderosas mãos huma
+quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa nosso Senhor etc.
+
+ * * * * *
+
+_O seguinte fragmento de uma composição satyrica em prosa e verso, em
+que Luis de Camões descreve uns jogos de canas, com que na cidade de Goa
+se festejou a successão de Francisco Barreto no governo daquelle Estado,
+appareceo na 3.ª edição das suas Rimas, com as duas antecedentes cartas,
+e em seguimento da ultima. O intento do poeta he mostrar por meio das
+divisas que tirárão os Justadores, que todos elles erão ou sacerdotes de
+Baccho, ou parvos, ou homens perdidos._
+
+.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa hum morcego; ave
+em que foi convertida Alcithoe com as irmãas, por desprezarem os
+sacrificios de Baccho. E como aquelle, que se em tal êrro cahisse, não
+queria ser convertido em tão baixo animal e tão nojoso, dizia a sua
+letra assi em Castelhano:
+
+ Si yo desobedeciere
+ Á tu deidad santa y pura,
+ En al mudes mi figura.
+
+Alguns praguentos quizerão dizer que esta letra era maliciosa, e que não
+queria dizer tanto desejar este galante de ser mudado em al, como que
+desejava almudes deste licor. Mas he muito grande falsidade, que sendo a
+letra assi feita, acaso acertou de sahir aquella palavra, com que
+molhava as suas quem tirava a divisa. Do que o innocente Autor, despois
+ficou para se enforcar. Mas outro galante, que de fino bebado ja passava
+os limites do bom e costumado beber, tirou por divisa huma palmeira;
+árvore, que entre os Antigos significava victoria; e ao pé della alguns
+ramos de vides e de parreiras pizadas; e dizia a letra assi:
+
+ Ficae vencidas, sem gloria,
+ Vós vides e vós parreiras;
+ Porque os ramos das palmeiras
+ São os que tee a victoria.
+
+Tambem aqui não faltárão praguentos, que quizerão dizer que este devoto,
+deixando ja atraz Portugal, commettia com valeroso animo Orracas e
+Fullas, tendo em pouco Caparicas e Seixaes. Mas quem ha que fuja de más
+linguas, ou de mal costumadas gargantas?
+
+Outro galante, a quem fazia mal ao estomago beber o vinho agoado, tirou
+por divisa huma peça de chamalote sem ágoas, que apresentava Baccho; e
+dizia a letra, como por parte do mesmo Baccho:
+
+ Sem ágoas, Senhor, levaio
+ Se for bom,
+ Que las aguas de Moncaio
+ Frias son.
+
+Aqui não tiverão praguentos que dizer, por ser opinião de physica, serem
+melhores os mantimentos simples, que os compostos.
+
+Outro, que no beber lançava a barra inda mais além que os acima
+escritos, tirou por divisa huma salamandra, passeando por cima de humas
+brazas de fogo; e a letra dizia:
+
+ En el fuego vivo yo.
+
+Mas o pintor errando as letras, acertou de pôr: _De fuego la bebo yo_.
+Donde os praguentos quizerão adivinhar que este galante bebia Orraca de
+fogo. O demonio foi fazer tal êrro, para delle sahir tamanho acêrto.
+
+Outro devoto, que desque estava quente, dizia dos companheiros,
+quaesquer que fossem, o que de cada hum sabía, sem respeito, tirou por
+divisa hum demoninhado, lançando os olhos em alvo, escumando e apontando
+com o dedo para hum frasco de vinho; e dizia a letra:
+
+ Se fallar demasiado,
+ Não mo tachem, porque, emfim,
+ Aquella alma falla em mim.
+
+Sendo atéqui introduzidos os religiosos de Baccho, pedírão dous d'outra
+religião que tambem os deixassem jogar as canas, e que elles tirarião
+tal divisa, com que se tirasse a limpo sua habilidade; e sendo entrados
+ambos juntos, por certa conformidade que havia entre ambos, trouxerão
+pintados nas bandeiras cada hum seu par de pombas; e dizia a letra:
+
+ Se como vós ha hi par,
+ Vós o podereis julgar.
+
+Certo, que atéqui chegou a malicia dos homens, porque tão subtilmente
+quizerão interpretar a innocencia desta letra, que tomárão a derradeira
+syllaba da primeira regra, e ajuntárão-na com a primeira da derradeira,
+que vem a dizer _parvos_; e disserão que juntos significavão isso
+aquelles dous innocentes. Mal peccado! tão errada anda a maldade humana,
+que logo tee por parvos aos que sabem pouco!
+
+Outro homem entrou tambem por adherencia nas canas, o qual dizem que
+tinha partes maravilhosas; porque era tão perfeito em suas cousas, que o
+seu comer havia de ser o melhor temperado e o mais suave do mundo; e os
+seus vestidos erão sempre dos mais finos pannos e sitins, que se
+podessem descobrir; e esta perfeição até nos amores e amizades se lhe
+estendia, porque com os amigos sempre tinha subtilezas de conversação, e
+com as amigas hum fingir que queria o que não queria. E, emfim, até no
+jogar usava daquellas manhas todas, as que para ganhar erão necessarias.
+E tinha mais hum revez da fortuna recebido, que se lhe estendia desde a
+ponta do nariz até huma orelha. Este Senhor tirou por divisa huma camisa
+toda lavrada de pontinhos, lavor antigo; e a letra dizia assi:
+
+ Pontos de honrado e sisudo
+ Sempre na vida quiz ter;
+ Apontado no viver,
+ Apontado mais que tudo
+ Em meu vestir e comer.
+ Pontos subtis no meu gôsto,
+ Mais subtis no conversar:
+ Tanto me vim a apontar,
+ Que apontado trago o rosto,
+ E as cartas para jogar.
+
+Muitos outros homens illustres quizerão ser admittidos nestas festas e
+canas, e que se fizera memoria delles, conforme suas qualidades; mas
+infinita escritura fôra, segundo todos os homens da India são
+assinalados; e por isto esses bastem para servirem de amostra do que ha
+nos mais.
+
+FIM.
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+NOTAS.
+
+
+
+
+NOTAS.
+
+Pag. 16. V. 17. _Não do sol, mas da candea._] Todas as ed.; mas he lição
+viciosa, porque se a luz do sol não he sombra daquella idea, que em Deos
+está mais perfeita, menos o será a da candea. Exclue o poeta uma e outra
+destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto cá nos
+seduz e encanta. Corrigimos portanto:
+
+ *Não do sol, nem da candea.*
+
+
+P. 67. V. 4. _De mim tão longe._] Todas as ed.; mas he êrro, porque o
+poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e
+pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si tão longe? Corrigimos:
+
+ *De si tão longe.*
+
+
+P. 123. V. 25.
+
+ _Vós na minha gloria posto.
+ Eu na vossa sepultura._]
+
+Todas as ed. Mas he justamente o contrário:
+
+ *Vós na vossa gloria posto,
+ Eu na minha sepultura.*
+
+
+P. 124. V. 9.
+
+ _Mas se esse rosto fingido
+ Quizereis representar,
+ Houvera por bom partido
+ Dar-lho a alma do sentido
+ Para a gloria do lugar._]
+
+Assim andão corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos:
+
+ *Mas se esse rosto fingido
+ Quizerão representar,
+ E houverão por bom partido
+ Dar-vos a alma do sentido
+ Para a gloria do lugar:
+ Víreis etc.*
+
+
+P. 148. V. 1. _Vai o bem fugindo etc._] Estas endeixas, que
+evidentemente são do poeta, andão na 1.ª e 2.ª edição das Rimas; na 3.ª
+aindaque apontadas no index, forão supprimidas por descuido: nós as
+restituimos.
+
+
+P. 164. V. 23. _E amor he effeito d'alma._] Todas as ed. Parece que deve
+ser _affeito d'alma_.
+
+
+P. 183. V. 7. _Sem saber do cuidado o que sentia._] Todas as ed.; mas he
+êrro: corrigimos:
+
+ *Sem saber de cuidado o que sentia;*
+
+isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia.
+
+
+P. 185. V. 20. _Ao pé d'uma alta faia etc._] Esta que inadvertidamente
+aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes edições,
+propriamente não he senão uma Egloga, que se deve ajuntar ás mais.
+
+
+P. 185. V. 24. _Tão queixoso d'Amor_] Faria e Sousa. He vicio:
+corrigimos: _Mui queixoso d'Amor_.
+
+
+P. 186. V. 8. _As roxas brancas Nymphas_] Faria e Sousa. He corrupção de
+texto: corrigimos:
+
+ *Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião,*
+
+porque se entende flores.
+
+
+P. 188. V. 15. _Junto do rosmaninho, que he crescer_] Faria e Sousa. He
+corrupção de texto: corrigimos:
+
+ *Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.*
+
+
+P. 191. V. 25. _Ai que me deras vida a morte dar-me_] Faria e Sousa. He
+corrupção de texto: corrigimos:
+
+ *Ai que me deras vida em morte dar-me.*
+
+
+P. 197. V. 23. _E como debil flamma a quem fallece O radical humor de
+que vivia_] Faria e Sousa. He corrupção de texto; porque o radical humor
+só pode faltar as plantas: corrigimos:
+
+ *E como debil flor etc.*
+
+
+P. 215. V. 15.
+
+ _Por qual, Senhor, algum eu me trocára. Ou por qual algum rei de
+ mais grandeza_]
+
+Faria e Sousa. Não julgamos correcto o dizer: _por qual algum_: devem
+portanto estes versos ler-se como nas primeiras edições:
+
+ *Por que Rei, por que duque eu me trocára,
+ Por que Senhor de grande fortaleza?*
+
+
+P. 220. V. 30.
+
+ _Se o successo he contrário da vontade As obras que são boas, e o
+ desvio_]
+
+Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos:
+
+ *Se o successo he contrário da vontade
+ Nas obras que são boas, e ha desvio etc.*
+
+
+P. 221. V. 41. _Quanto de infamia_] Faria e Sousa. Quãmanha infamia, 3.ª
+ed. Esta ultima nos parece ser a lição do poeta.
+
+
+P. 222. V. 29. _Populares a Pallas._] Todas as ed. He vicio de texto:
+corrigimos:
+
+ *Populares (ó Pallas) etc.*
+
+
+P. 223. V. 17. _E pois que tudo em vos se permittio_] Faria e Sousa. _No
+qual, pois tudo em vós etc._] 3.ª ed. Preferimos esta lição, que nos
+parece ser a do poeta.
+
+
+P. 224. V. 11.
+
+ _O querido de Deos por quem peleja
+ O ar tambem, e o vento socegado,
+ Ao atambor acode, porque veja
+ Que quem a Deos ama, he de Deos amado_
+
+Assim se lião estes quatro versos na 3.ª edição. Manoel de Faria corrigio:
+
+ _Oh querido de Deos, por quem peleja
+ O ar tambem, e o vento socegado!
+ Ao tambor acode, porque veja
+ Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado._
+
+Mas esta apostrophe, por elle introduzida, não tem aqui lugar; porque o
+poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas
+praias da Persia conseguia victoria daquellas nações tão remotas, as
+settas, que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravão no
+ar, pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravão; e continúa,
+observando que o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o
+vento conjurado em seu favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja
+que o que a Deos ama, he delle amado e favorecido. Este he o sentido
+natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo que estes versos erão imitação
+dest'outros de Claudiano:
+
+ _O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris
+ Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether,
+ Et conjurati veniunt ad classica venti._
+
+julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e não accommodá-los
+ao seu intento, metteo aqui esta exclamação forçada, sem nem ao menos
+saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: _Yo dudo si esta
+exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian._ E assim
+estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Nós seguimos a
+lição antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue
+vicio de cópia, corrigimos:
+
+ *O querido de Deos, por quem peleja,
+ O ar tambem e o vento socegado
+ Ao atambor lhe acodem, porque veja
+ Que o que a Deos ama, he de Deos amado.*
+
+
+P. 225. V. 3. _Com louvores de Apollo celebrado._] Todas as ed.; mas
+aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos:
+
+ *Com louvores de Apollo, e celebrado.*
+
+
+P. 228. V. 1. _Depois que a clara aurora a noite escura._] Esta glosa do
+Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente não he
+obra do poeta: por inadvertencia as conservámos nesta edição.
+
+
+P. 257. L. 7. _Que são muito e valem pouco._] Todas as ed.; mas o que o
+poeta quer dizer, he que um par de reales são cousa pouca, mas para um
+escudeiro pobre valem muito. Corrigimos:
+
+ *Que são pouco, e valem muito.*
+
+
+P. 258. L. 17. _Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal._] Todas as
+ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos:
+
+ *Que tal dizem, que he?*
+
+
+P. 259. L. 1. _E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como
+Apostolo, mais piedosa que huma lamentação._] Todas as ed.; mas he
+vicio: corrigimos:
+
+ *Que vem podre de amor etc.*
+
+
+P. 259. L. 8. _Olá, Senhores._] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos:
+
+ *Olá, Senhoras.*
+
+
+P. 286. V. 1. _Mas qué amo y cararon._] Lição vulgar. He grande estrago
+de texto: corrigimos:
+
+ *Mas qué amo y qué cabron!*
+
+
+P. 369. V. 11. _Esperai, dir-vo-lo-ha._] Faria. He êrro: deve ler-se:
+
+ *Dir-se-vos-ha.*
+
+
+P. 370. V. 14.
+
+ _Pois só desse encantador
+ Me quero vingar de ti._]
+
+Lição vulgar: he viciosa: corrigimos:
+
+ *Pois so desse encantador
+ Me quero vingar em ti.*
+
+
+P. 374. V. 48. _E se mal vos succedesse._] Lição vulgar: he êrro de
+cópia ou de impressão: corrigimos:
+
+ *E se mal nos succedesse.*
+
+
+P. 386. L. 11. _O qual informado pelo pastor que a achára, (que era
+homem sabio na arte magica) e como a criára._] Lição vulgar; mas a
+oração esta imperfeita: corrigimos: *O qual informado pelo pastor etc.;
+de como a achára e como a criára.*
+
+
+P. 402. V. 17. _E levar-me a lenha o vento._] Lição vulgar: He viciosa,
+porque falta a clausula da oração: corrigimos:
+
+ *He levar-me a lenha o vento.*
+
+
+P. 418. L. 5. _Pois não devia assi de ser posantos e vanselos._] Lição
+vulgar. Estranha corrupção de texto: corrigimos:
+
+ *Pois não devia assi de ser, polos Santos Evangelhos.*
+
+
+P. 418. V. 6. _Que os amos e os cangrejos._] Lição vulgar. He viciosa:
+corrigimos:
+
+ *Que o amor e os cangrejos.*
+
+
+P. 447. V. 16.
+
+ _Que das montanhas erguidas
+ D'algum monte não sahisse._]
+
+Lição vulgar. Não he menos notavel esta corrupção: corrigimos:
+
+ *Que das montanhas erguidas
+ Algum monstro não sahisse.*
+
+
+P. 453. V. 20. _Se tanto amasse._] Lição vulgar; mas aqui ha vicio de
+texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma
+exprimir-se. Corrigimos:
+
+ *Se eu tanto amasse.*
+
+
+Pag. 467. V. 12.
+
+ _Que quando por accidente
+ Da fortuna desastrado
+ Fosse apartado da gente
+ N'um lugar onde somente
+ Das feras fosse guardado:
+ E por ferro, fogo e ágoa
+ Buscar minha morte iria._]
+
+Lição vulgar. Mas a corrupção de texto não póde ser mais visivel.
+Comtudo não difficil atinar-se com o sentido do poeta.
+
+Acaba de dizer Dionysa a Filodemo que tomára ver-se dalli cem mil
+leguas, pelo perigo que corria a sua honestidade. Responde-lhe este, que
+isso desejava tambem elle que succedesse; porque nesse caso teria
+occasião de fazer por ella uma fineza, que fosse mais de agradecer; e
+vem a ser, que quando ella por algum caso da fortuna fosse apartada da
+gente n'um deserto onde não tivesse por guarda, senão as feras; por
+ferro, fogo e ágoa lá iria elle buscar a sua morte. E porque não póde
+ser outro o sentido do poeta, corrigimos:
+
+ *Que quando por accidente
+ A fortuna desastrada
+ Vos apartasse da gente
+ N'um deserto, onde somente
+ Das feras fosseis guardada;
+ Lá por ferro, fogo e ágoa
+ Buscar minha morte iria etc.*
+
+
+P. 475. L. 20. _Que estas cidras não se desistem em nove dias, senão em
+nove mezes._] Lição vulgar. Não ha maior corrupção de texto. Que tem as
+cidras que desistir? Que o poeta não disse um tal absurdo, he fóra de
+toda a dúvida. O que elle disse foi isto:
+
+*E porque estes sirgos não se desistem em nove dias, senão em nove
+mezes, foi-lhe a elle necessario acolher-se com ella etc.*
+
+Sirgo he o envolucro, onde se encerra o bicho da seda, quando passa ao
+estado de metamorphose, e onde se conserva doze dias, ou nove, como diz
+o poeta. Mas a ignorancia transformou sirgos em cidras.
+
+
+P. 482. L. 7. Porque quando cuido que sem peccado que me obrigasse a
+tres dias de purgatorio, passei tres mil de más linguas, peores tenções,
+damnadas vontades, nascidas de pura inveja de verem _su amada yedra de
+si arrancada, y en otro muro asida..._ Aqui ha lacuna porque falta o
+verbo da oração.
+
+
+P. 489. V. 28.
+
+ _A quem não assopre a morte
+ Nem sopre o fogo da vida._]
+
+Lição vulgar; mas a do poeta he:
+
+ *A quem o assôpro da morte
+ Não sopre o fogo da vida.*
+
+
+P. 490. L. 26. _Tres cousas não se soffrem sem discordia; companhia,
+namorar, mandar villão ruim sobre cousa de seu interesse._] Todas as ed.
+Mas o vicio he palpavel: corrigimos: *Duas cousas não se soffrem sem
+discordia; companhia no amar, mandar villão ruim sobre cousa de seu
+interesse.*
+
+
+
+
+INDEX.
+
+
+REDONDILHAS &c.
+
+ Pag.
+
+ 100 A alma que está offrecida
+ 61 A dor que a minha alma sente
+ 113 A morte, pois que sou vosso
+ 71 Amor loco, amor loco
+ 57 Amor que todos offende
+ 63 Amores de huma casada
+ 66 Apartárão-se os meus olhos
+ 126 Aquella captiva
+
+ 107 Campos bem-aventurados
+ 99 Catharina bem promette
+ 98 Cinco gallinhas e meia
+ 136 Coifa de beirame
+ 103 Com razão queixar-me posso
+ 76 Com vossos olhos, Gonçalves
+ 38 Conde, cujo illustre peito
+ 33 Corre sem vela e sem leme
+ 93 Crescem, Camilla, os abrolhos
+
+ 53 Da doença em que ora ardeis
+ 62 D'alma e de quanto tiver
+ 28 Dama d'estranho primor
+ 56 De atormentado e perdido
+ 70 De dentro tengo mi mal
+ 65 De pequena tomei amor
+ 76 De que me serve fugir
+ 70 De vuestros ojos centellas
+ 54 Deo, Senhora, por sentença
+ 91 Deos te salve, Vasco amigo
+ 60 Descalça vai pela neve
+ 102 Descalça vai para a fonte
+ 143 Dó la mi ventura
+
+ 63 Enforquei minha esperança
+ 80 Esconjuro-te, Domingas
+ 101 Esperei, ja não espero
+ 46 Este mundo es el camino
+
+ 67 Falso cavalleiro ingrato
+ 101 Ferro, fogo, frio e calma
+ 125 Foi-se gastando a esperança
+
+ 78 Ha hum bem que chega e foge
+
+ 132 Irme quiero, madre
+
+ 112 Ja não posso ser contente
+ 119 Justa fue mi perdicion
+
+ 105 Mas porém a que cuidados
+ 140 Menina formosa
+ 52 Menina formosa e crua
+ 75 Menina, não sei dizer
+ 129 Menina dos olhos verdes
+ 118 Minh'alma, lembrae-vos della
+
+ 86 Na fonte está Leonor
+ 57 Não estejais aggravada
+ 89 Não posso chegar ao cabo
+ 74 Não sei se m'engana Helena
+
+ 104 Ojos, herido me habeis
+ 55 Olhae que dura sentença
+ 94 Olhos em que estão mil flores
+ 78 Olhos, não vos mereci
+ 79 Os bons vi sempre passar
+
+ 69 Para que me dan tormento
+ 145 Pastora da serra
+ 43 Peço-vos que me digais
+ 83 Pequenos contentamentos
+ 84 Perdigão perdeo a penna
+ 80 Perguntais-me quem me mata
+ 85 Pois a tantas perdições
+ 73 Pois damno me faz olhar-vos
+ 72 Pois he mais vosso que meu
+ 92 Porqué no miras, Giraldo
+ 64 Puz o coração nos olhos
+
+ 60 Qual terá culpa de nós
+ 77 Quando me quer enganar
+ 87 Que diabo ha tão damnado
+ 122 Qué veré que me contente
+ 103 Quem disser que a barca pende
+ 58 Quem no mundo quizer ser
+ 128 Quem ora soubesse
+ 94 Quem se confia em huns olhos
+ 21 Querendo escrever hum dia
+
+ 123 Retrato, vós não sois meu
+
+ 134 Saudade minha
+ 81 Se a alma ver-se não póde
+ 68 Se de meu mal me contento
+ 41 Se derivais da verdade
+ 137 Se Helena apartar
+ 83 Se me desta terra for
+ 128 Se me levão agoas
+ 45 Se n'alma e no pensamento
+ 35 Se não quereis padecer
+ 51 Se vossa Dama vos dá
+ 45 Sem olhos vi o mal claro
+ 117 Sem ventura he por demais
+ 116 Sem vós, e com meu cuidado
+ 59 Senhora, pois me chamais
+ 73 Senhora, pois minha vida
+ 40 Senhora, s'eu alcançasse
+ 95 Sois formosa e tudo tendes
+ 9 Sôbolos rios que vão
+ 30 Suspeitas, que me quereis
+
+ 141 Tende-me mão nelle
+ 121 Todo es poco lo posible
+ 109 Trabalhos descansarião
+ 110 Triste vida se me ordena
+ 131 Trocae o cuidado
+ 118 Tudo póde huma affeição
+ 98 Tudo tendes singular
+
+ 148 Vai o bem fugindo
+ 72 Vêde bem se nos meus dias
+ 115 Vejo-a n'alma pintada
+ 79 Venceo-me Amor, não o nego
+ 132 Ver e mais guardar
+ 138 Verdes são os campos
+ 139 Verdes são as hortas
+ 90 Vi chorar huns claros olhos
+ 135 Vida da minha alma
+ 68 Vós, Senhora, tudo tendes
+ 146 Vós sois huma Dama
+ 122 Vos teneis mi corazon
+ 88 Vossa Senhoria creia
+ 82 Vosso bem querer, Senhora
+
+SEXTINAS.
+
+ 152 A culpa de meu mal só tem meus olhos
+ 151 Foge-me pouco a pouco a curta vida
+ 154 Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia
+ 155 Sempre me queixarei desta crueza
+
+ELEGIAS.
+
+ 194 A vida me aborrece, a morte quero
+ 185 Ao pé d'hum'alta faia vi sentado
+ 160 Aquella que de amor descomedido
+ 175 Aquelle mover de olhos excellente
+ 190 Belisa, unico bem desta alma minha
+ 172 Depois que Magalhães teve tecida [4]
+ 177 Entre rusticas serras e fragosas
+ 208 Juizo extremo, horrifico e tremendo
+ 164 O poeta Simonides fallando
+ 157 O sulmonense Ovidio desterrado
+ 196 Que tristes novas, ou que novo damno [5]
+ 202 Se quando contemplamos as secretas
+
+ [4] A D. Leoniz Pereira, havendo-lhe Pedro de Magalhães
+ Gandavo dedicado o seu livro intitulado: _Historia da
+ Provincia de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos
+ Brasil_. Impresso em Lisboa 1576.
+
+ [5] Á morte de D. Miguel de Menezes na India, filho de D.
+ Henrique de Menezes, Governador da casa do Civil. Foi
+ dirigida a seu irmão D. Philipe de Menezes.
+
+EPISTOLAS.
+
+ 217 Como nos vossos hombros tão constantes [6]
+ 223 Mui alto Rei a quem os ceos em sorte [7]
+ 210 Quem póde ser no mundo tão quieto [8]
+ 225 Senhora se encobrir por alguma arte
+
+ [6] A D. Constantino de Bragança, Viso-Rei da India.
+
+ [7] Sobre a setta que o Papa enviou a ElRei D. Sebastião
+ no anno de 1575.
+
+ [8] A D. Antonio de Noronha, sôbre o desconcêrto do mundo.
+
+OITAVAS.
+
+ 232 Cá nesta Babylonia adonde mana
+ 228 Despois que a clara Aurora a noite escura
+ 234 D'huma formosa virgem desposada
+
+COMEDIAS.
+
+ 255 ElRei Seleuco
+ 301 Os Amphitriões
+ 385 Filodemo
+
+CARTAS.
+
+ 481 Carta 1.ª
+ 484 Carta 2.ª
+
+ 503 NOTAS
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões
+ Tomo III, by Luís Camões
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES ***
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
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+works. See paragraph 1.E below.
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+
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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