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+The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III, by
+Luís Camões
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
+
+Author: Luís Camões
+
+Release Date: August 24, 2011 [EBook #37192]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
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+
+Notas de transcrição:
+
+O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro
+impresso em 1843.
+
+Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
+pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto,
+e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos
+inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em
+particular quanto à acentuação.
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+
+ CLASSICOS PORTUGUEZES.
+
+ TOMO II.
+
+ CAMÕES.
+
+ II.
+
+
+
+PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,
+Rua Racine, 28, junto ao Odeon.
+
+
+
+OBRAS COMPLETAS
+
+DE
+
+LUIS DE CAMÕES,
+
+CORRECTAS E EMENDADAS
+
+PELO CUIDADO E DILIGENCIA
+
+DE
+
+J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.
+
+
+TOMO TERCEIRO.
+
+
+LISBOA.
+
+ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,
+NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,
+3, quai Malaquais, près le pont des Arts.
+
+1843
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+RIMAS.
+
+ * * * * *
+
+
+RIMAS.
+
+
+
+
+REDONDILHAS.
+
+
+ Sôbolos rios que vão
+ Por Babylonia, me achei,
+ Onde sentado chorei
+ As lembranças de Sião,
+ E quanto nella passei.
+ Alli o rio corrente
+ De meus olhos foi manado;
+ E tudo bem comparado,
+ Babylonia ao mal presente,
+ Sião ao tempo passado.
+
+ Alli lembranças contentes
+ N'alma se representárão;
+ E minhas cousas ausentes
+ Se fizerão tão presentes,
+ Como se nunca passárão.
+ Alli, despois d'acordado,
+ Co'o rosto banhado em ágoa,
+ Deste sonho imaginado,
+ Vi que todo o bem passado
+ Não he gôsto, mas he mágoa.
+
+ E vi que todos os danos
+ Se causavão das mudanças,
+ E as mudanças dos anos;
+ Onde vi quantos enganos
+ Faz o tempo ás esperanças.
+ Alli vi o maior bem
+ Quão pouco espaço que dura;
+ O mal quão depressa vem;
+ E quão triste estado tem
+ Quem se fia da ventura.
+
+ Vi aquillo que mais val
+ Qu'então s'entende melhor,
+ Quando mais perdido for:
+ Vi ao bem succeder mal,
+ E ao mal muito peor.
+ E vi com muito trabalho
+ Comprar arrependimento:
+ Vi nenhum contentamento;
+ E vejo-me a mi, qu'espalho
+ Tristes palavras ao vento.
+
+ Bem são rios estas ágoas
+ Com que banho este papel:
+ Bem parece ser cruel
+ Variedade de mágoas,
+ E confusão de Babel.
+ Como homem, que por exemplo
+ Dos trances em que se achou,
+ Despois que a guerra deixou,
+ Pelas paredes do templo
+ Suas armas pendurou:
+
+ Assi, despois qu'assentei
+ Que tudo o tempo gastava,
+ Da tristeza que tomei,
+ Nos salgueiros pendurei
+ Os orgãos com que cantava.
+ Aquelle instrumento ledo
+ Deixei da vida passada,
+ Dizendo: Musica amada,
+ Deixo-vos neste arvoredo
+ Á memoria consagrada.
+
+ Frauta minha, que tangendo
+ Os montes fazieis vir
+ Par'onde estaveis, correndo;
+ E as ágoas, que hião descendo,
+ Tornavão logo a subir;
+ Jamais vos não ouvirão
+ Os tigres, que s'amansavão;
+ E as ovelhas, que pastavão,
+ Das hervas se fartarão,
+ Que por vos ouvir deixavão.
+
+ Ja não fareis docemente
+ Em rosas tornar abrolhos
+ Na ribeira florecente;
+ Nem poreis freio á corrente,
+ E mais se for dos meus olhos.
+ Não movereis a espessura,
+ Nem podereis ja trazer
+ Atraz vós a fonte pura;
+ Pois não pudestes mover
+ Desconcertos da ventura.
+
+ Ficareis offerecida
+ Á Fama, que sempre vela,
+ Frauta de mi tão querida;
+ Porque mudando-se a vida,
+ Se mudão os gostos della.
+ Acha a tenra mocidade
+ Prazeres accommodados;
+ E logo a maior idade
+ Ja sente por pouquidade
+ Aquelles gostos passados.
+
+ Hum gôsto, que hoje s'alcança,
+ Á manhãa ja o não vejo:
+ Assi nos traz a mudança
+ D'esperança em esperança,
+ E de desejo em desejo.
+ Mas em vida tão escassa
+ Qu'esperança será forte?
+ Fraqueza da humana sorte,
+ Que quanto da vida passa
+ Está recitando a morte!
+
+ Mas deixar nesta espessura
+ O canto da mocidade:
+ Não cuide a gente futura
+ Que será obra da idade
+ O que he fôrça da ventura.
+ Qu'idade, tempo, e espanto
+ De ver quão ligeiro passe,
+ Nunca em mi puderão tanto,
+ Que, postoque deixo o canto,
+ A causa delle deixasse.
+
+ Mas em tristezas e nojos,
+ Em gôsto e contentamento;
+ Por sol, por neve, por vento,
+ _Tendré presente á los ojos
+ Por quien muero tan contento._
+ Orgãos e frauta deixava,
+ Despôjo meu tão querido,
+ No salgueiro que alli'stava,
+ Que para tropheo ficava
+ De quem me tinha vencido.
+
+ Mas lembranças da affeição
+ Que alli captivo me tinha,
+ Me perguntárão então,
+ Qu'era da musica minha,
+ Que eu cantava em Sião?
+ Que foi daquelle cantar,
+ Das gentes tão celebrado?
+ Porque o deixava de usar,
+ Pois sempre ajuda a passar
+ Qualquer trabalho passado?
+
+ Canta o caminhante ledo
+ No caminho trabalhoso
+ Por entre o espêsso arvoredo;
+ E de noite o temeroso
+ Cantando refreia o medo.
+ Canta o preso docemente,
+ Os duros grilhões tocando;
+ Canta o segador contente;
+ E o trabalhador, cantando,
+ O trabalho menos sente.
+
+ Eu qu'estas cousas senti
+ N'alma de mágoas tão cheia,
+ Como dirá, respondi,
+ Quem alheio está de si
+ Doce canto em terra alheia?
+ Como poderá cantar
+ Quem em chôro banha o peito?
+ Porque, se quem trabalhar
+ Canta por menos cansar,
+ Eu só descansos engeito.
+
+ Que não parece razão,
+ Nem sería cousa idonia,
+ Por abrandar a paixão
+ Que cantasse em Babylonia
+ As cantigas de Sião.
+ Que quando a muita graveza
+ De saudade quebrante
+ Esta vital fortaleza,
+ Antes morra de tristeza,
+ Que por abrandá-la cante.
+
+ Que se o fino pensamento
+ Só na tristeza consiste,
+ Não tenho medo ao tormento:
+ Que morrer de puro triste,
+ Que maior contentamento?
+ Nem na frauta cantarei
+ O que passo, e passei ja,
+ Nem menos o escreverei;
+ Porque a penna cansará,
+ E eu não descansarei.
+
+ Que se vida tão pequena
+ S'accrescenta em terra estranha;
+ E se Amor assi o ordena,
+ Razão he que canse a penna
+ D'escrever pena tamanha.
+ Porém, se para assentar
+ O que sente o coração,
+ A penna ja me cansar,
+ Não canse para voar
+ A memoria em Sião.
+
+ Terra bem-aventurada,
+ Se por algum movimento
+ D'alma me fores tirada,
+ Minha penna seja dada
+ A perpétuo esquecimento.
+ A pena deste destêrro,
+ Qu'eu mais desejo esculpida
+ Em pedra, ou em duro ferro,
+ Essa nunca seja ouvida,
+ Em castigo de meu êrro.
+
+ E se eu cantar quizer
+ Em Babylonia sujeito,
+ Hierusalem, sem te ver,
+ A voz, quando a mover,
+ Se me congele no peito;
+ A minha lingua se apegue
+ Ás fauces, pois te perdi,
+ S'em quanto viver assi
+ Houver tempo, em que te negue,
+ Ou que m'esqueça de ti.
+
+ Mas ó tu, terra de glória.
+ S'eu nunca vi tua essencia,
+ Como me lembras na ausencia?
+ Não me lembras na memoria,
+ Senão na reminiscencia:
+ Que a alma he taboa rasa,
+ Que com a escrita doutrina
+ Celeste tanto imagina,
+ Que vôa da propria casa,
+ E sobe á patria divina.
+
+ Não he logo a saudade
+ Das terras onde nasceo
+ A carne, mas he do Ceo,
+ Daquella santa Cidade,
+ Donde est'alma descendeo.
+ E aquella humana figura,
+ Que cá me póde alterar,
+ Não he quem se ha de buscar;
+ He raio da formosura,
+ Que só se deve d'amar.
+
+ Que os olhos, e a luz que ateia
+ O fogo que cá sujeita,
+ Não do sol, nem da candeia,
+ He sombra daquella ideia,
+ Qu'em Deos está mais perfeita.
+ E os que cá me captivárão,
+ São poderosos affeitos
+ Qu'os corações tẽe sujeitos;
+ Sophistas, que m'ensinárão
+ Maos caminhos por direitos.
+
+ Destes o mando tyrano
+ M'obriga com desatino
+ A cantar ao som do dano
+ Cantares d'amor profano,
+ Por versos d'amor divino.
+ Mas eu, lustrado co'o santo
+ Raio, na terra de dor,
+ De confusões e d'espanto
+ Como hei de cantar o canto,
+ Que só se deve ao Senhor?
+
+ Tanto póde o beneficio
+ Da graça que dá saude,
+ Que ordena que a vida mude:
+ E o qu'eu tomei por vício,
+ Me faz grao para a virtude;
+ E faz qu'este natural
+ Amor, que tanto se préza,
+ Suba da sombra ao real,
+ Da particular belleza
+ Para a belleza geral.
+
+ Fique logo pendurada
+ A frauta com que tangi,
+ Ó Hierusalem sagrada,
+ E tome a lyra dourada
+ Para só cantar de ti;
+ Não captivo e ferrolhado
+ Na Babylonia infernal,
+ Mas dos vicios desatado,
+ E cá desta a ti levado,
+ Patria minha natural.
+
+ E s'eu mais der a cerviz
+ A mundanos accidentes,
+ Duros, tyrannos e urgentes,
+ Risque-se quanto ja fiz
+ Do grão livro dos viventes.
+ E, tomando ja na mão
+ A lyra santa e capaz
+ D'outra mais alta invenção,
+ Calle-se esta confusão,
+ Cante-se a visão de paz.
+
+ Ouça-me o pastor e o rei,
+ Retumbe este accento santo,
+ Mova-se no mundo espanto;
+ Que do que ja mal cantei
+ A palinodia ja canto.
+ A vós só me quero ir,
+ Senhor, e grão Capitão
+ Da alta tôrre de Sião,
+ Á qual não posso subir,
+ Se me vós não dais a mão.
+
+ No grão dia singular,
+ Que na lyra em douto som
+ Hierusalem celebrar,
+ Lembrae-vos de castigar
+ Os ruins filhos de Edom.
+ Aquelles que tintos vão
+ No pobre sangue innocente,
+ Soberbos co'o poder vão,
+ Arrazá-los igualmente:
+ Conheção que humanos são.
+
+ E aquelle poder tão duro
+ Dos affectos com que venho,
+ Qu'encendem alma e engenho;
+ Que ja m'entrárão o muro
+ Do livre arbitrio que tenho;
+ Estes, que tão furiosos
+ Gritando vem a escalar-me,
+ Maos espiritos damnosos,
+ Que querem como forçosos
+ Do alicerce derribar-me;
+
+ Derribae-os, fiquem sós,
+ De fôrças fracos, imbelles;
+ Porque não podemos nós,
+ Nem com elles ir a vós,
+ Nem sem vós tirar-nos delles.
+ Não basta minha fraqueza
+ Para me dar defensão,
+ Se vós, santo Capitão,
+ Nesta minha Fortaleza
+ Não puzerdes guarnição.
+
+ E tu, ó carne, qu'encantas,
+ Filha de Babel tão feia,
+ Toda de miseria cheia,
+ Que mil vezes te levantas
+ Contra quem te senhoreia;
+ Beato só póde ser
+ Quem co'a ajuda celeste
+ Contra ti prevalecer,
+ E te vier a fazer
+ O mal que lhe tu fizeste:
+
+ Quem com disciplina crua
+ Se fere mais que huma vez;
+ Cuja alma, de vicios nua,
+ Faz nodas na carne sua,
+ Que ja a carne n'alma fez.
+ E beato quem tomar
+ Seus pensamentos recentes,
+ E em nascendo os affogar,
+ Por não virem a parar
+ Em vicios graves e urgentes:
+
+ Quem com elles logo der
+ Na pedra do furor santo,
+ E batendo os desfizer
+ Na Pedra, que veio a ser
+ Emfim cabeça do canto:
+ Quem logo, quando imagina
+ Nos vicios da carne má,
+ Os pensamentos declina
+ Áquella Carne divina,
+ Que na Cruz esteve ja.
+
+ Quem do vil contentamento
+ Cá deste mundo visibil,
+ Quanto ao homem for possibil,
+ Passar logo entendimento
+ Para o mundo intelligibil;
+ Alli achará alegria
+ Em tudo perfeita, e cheia
+ De tão suave harmonia,
+ Que nem por pouca recreia,
+ Nem por sobeja enfastia.
+
+ Alli verá tão profundo
+ Mysterio na summa Alteza,
+ Que, vencida a natureza,
+ Os mores faustos do mundo
+ Julgue por maior baixeza.
+ Ó tu, divino aposento,
+ Minha patria singular,
+ Se só com te imaginar,
+ Tanto sobe o entendimento,
+ Que fara se em ti se achar?
+
+ Ditoso quem se partir
+ Para ti, terra excellente,
+ Tão justo e tão penitente,
+ Que despois de a ti subir,
+ Lá descanse eternamente!
+
+ * * * * *
+
+
+CARTA A HUMA DAMA.
+
+ Querendo escrever hum dia
+ O mal, que tanto estimei;
+ Cuidando no que poria,
+ Vi Amor que me dizia:
+ Escreve, qu'eu notarei.
+ E como para se ler
+ Não era historia pequena
+ A que de mi quiz fazer,
+ Das azas tirou a penna
+ Com que me fez escrever.
+
+ E, logo como a tirou,
+ Me disse: Aviva os espritos;
+ Que pois em teu favor sou,
+ Esta penna, que te dou,
+ Fara voar teus escritos.
+ E dando-me a padecer
+ Tudo o que quiz que puzesse,
+ Pude emfim delle dizer,
+ Que me deo com qu'escrevesse
+ O que me deo a escrever.
+
+ Eu qu'este engano entendi,
+ Disse-lhe: Qu'escreverei?
+ Respondeo, dizendo assi:
+ Altos effeitos de mi.
+ E daquella a quem te dei.
+ E ja que te manifesto
+ Todas minhas estranhezas,
+ Escreve, pois que te prézas,
+ Milagres d'hum claro gesto,
+ E de quem o vio, tristezas.
+
+ Ah Senhora, em quem se apura
+ A fé de meu pensamento!
+ Escutae e estae a tento,
+ Que com vossa formosura
+ Iguala Amor meu tormento.
+ E, postoque tão remota
+ Estejais de m'escutar
+ Por me não remediar,
+ Ouvi, que pois Amor nota,
+ Milagres se hão de notar.
+
+ Escrevem varios Authores,
+ Que junto da clara fonte
+ Do Ganges, os moradores
+ Vivem do cheiro das flores
+ Que nascem naquelle monte.
+ Se os sentidos podem dar
+ Mantimento ao viver,
+ Não he logo d'espantar,
+ S'estes vivem de cheirar,
+ Que viva eu só de vos ver.
+
+ Huma árvore se conhece,
+ Que na geral alegria
+ Ella tanto s'entristece,
+ Que, como he noite, florece,
+ E perde as flores de dia.
+ Eu, qu'em ver-vos sinto o preço
+ Qu'em vossa vista consiste,
+ Em a vendo m'entristeço,
+ Porque sei que não mereço
+ A glória de ver-me triste.
+
+ Hum Rei de grande poder
+ Com veneno foi criado,
+ Porque, sendo costumado,
+ Não lhe pudesse empecer,
+ Se despois lhe fosse dado.
+ Eu, que criei de pequena
+ A vista a quanto padece,
+ Desta sorte m'acontece,
+ Que não me faz mal a pena,
+ Senão quando me fallece.
+
+ Quem da doença Real
+ De longe enfêrmo se sente,
+ Por segredo natural
+ Fica são vendo somente
+ Hum volatil animal.
+ Do mal, que Amor em mi cria,
+ Quando aquella Phenix vejo,
+ São de todo ficaria;
+ Mas fica-me hydropesia,
+ Que quanto mais, mais desejo.
+
+ Da vibora he verdadeiro,
+ Se a consorte vai buscar,
+ Qu'em se querendo juntar,
+ Deixa a peçonha primeiro,
+ Porque lh'impede o gerar.
+ Assi quando m'apresento
+ Á vossa vista inhumana,
+ A peçonha do tormento
+ Deixo á parte, porque dana
+ Tamanho contentamento.
+
+ Querendo Amor sustentar-se,
+ Fez huma vontade esquiva
+ D'huma estatua namorar-se:
+ Despois, por manifestar-se,
+ Converteo-a em mulher viva.
+ De quem m'irei eu queixando,
+ Ou quem direi que m'engana
+ Se vou seguindo e buscando
+ Huma imagem, que d'humana
+ Em pedra se vai tornando?
+
+ D'huma fonte se sabía,
+ Da qual certo se provava
+ Que quem sôbre ella jurava,
+ Se falsidade dizia,
+ Dos olhos logo cegava.
+ Vós, que minha liberdade,
+ Senhora, tyrannizais,
+ Injustamente mandais,
+ Quando vos fallo verdade,
+ Que vos não possa ver mais.
+
+ Da palma s'escreve e canta
+ Ser tão dura e tão forçosa,
+ Que pêzo não a quebranta,
+ Mas antes, de presunçosa,
+ Com elle mais se levanta.
+ Co'o pêzo do mal que dais,
+ A constancia qu'em mi vejo,
+ Não somente ma dobrais,
+ Mas dobra-se meu desejo,
+ Com qu'então vos quero mais.
+
+ Se alguem os olhos quizer
+ Ás andorinhas quebrar,
+ Logo a mãe, sem se deter,
+ Huma herva lhe vai buscar
+ Que lhes faz outros nascer.
+ Eu que os olhos tenho attento
+ Nos vossos, qu'estrellas são,
+ Cegão-se os do entendimento,
+ Mas nascem-me os da razão
+ De folgar com meu tormento.
+
+ Lá para onde o sol sahe,
+ Descobrimos, navegando,
+ Hum novo rio admirando,
+ Que o lenho que nelle cahe,
+ Em pedra se vai tornando.
+ Não s'espantem disto as gentes;
+ Mais razão será qu'espante
+ Hum coração tão possante,
+ Que com lagrimas ardentes
+ Se converte em diamante.
+
+ Póde hum mudo nadador
+ Na linha e cana influir
+ Tão venenoso vigor,
+ Que faz mais não se bulir
+ O braço do pescador.
+ Se começão de beber
+ Deste veneno excellente
+ Meus olhos, sem se deter,
+ Não se sabem mais mover
+ A nada que se apresente.
+
+ Isto são claros sinais
+ Do muito qu'em mi podeis:
+ Nem podeis desejar mais;
+ Que se ver-vos desejais,
+ Em mi claro vos vereis.
+ E quereis ver a que fim
+ Em mi tanto bem se pôs?
+ Porque quiz Amor assim,
+ Que por vos verdes a vós,
+ Tambem me visseis a mim.
+
+ Dos males que m'ordenais,
+ Qu'inda tenho por pequenos,
+ Sabei, se mos escutais,
+ Que ja não sei dizer mais,
+ Nem vós podeis saber menos.
+ Mas ja que a tanto tormento
+ Não se acha quem resista,
+ Eu, Senhora, me contento
+ De terdes meu soffrimento
+ Por alvo de vossa vista.
+
+ Quantos contrarios consente
+ Amor, por mais padecer!
+ Que aquella vista excellente,
+ Que me faz viver contente,
+ Me faça tão triste ser!
+ Mas dou este entendimento
+ Ao mal, que tanto m'offende,
+ Como na vela s'entende,
+ Que se se apaga co'o vento,
+ Co'o mesmo vento se accende.
+
+ Exprimentou-se algum'hora
+ D'ave, que chamão Camão,
+ Que se da casa, onde mora,
+ Vê adúltera senhora,
+ Morre de pura paixão.
+ A dor he tão sem medida,
+ Que remedio lhe não val.
+ Mas oh ditoso animal,
+ Que póde perder a vida,
+ Quando vê tamanho mal!
+
+ Nos gôstos de vos querer
+ Estava agora enlevado,
+ Se não fôra salteado
+ Das lembranças de temer
+ Ser por outrem desamado.
+ Estas suspeitas tão frias,
+ Com que o pensamento sonha,
+ São assi como as harpias,
+ Que as mais doces iguarias
+ Vão converter em peçonha.
+
+ Faz-me este mal infinito
+ Não poder ja mais dizer,
+ Por não vir a corromper
+ Os gostos que tenho escrito,
+ Co'os males qu'hei d'escrever.
+ Não quero que s'apregôe
+ Mal tanto para encobrir,
+ Porque em quanto aqui s'ouvir
+ Nenhuma outra cousa sôe,
+ Que a glória de vos servir.
+
+ * * * * *
+
+
+Á MESMA.
+
+ Dama d'estranho primor,
+ Se vos for
+ Pezada minha firmeza,
+ Olhae não me deis tristeza,
+ Porque a converto em amor.
+ E se cuidais
+ De me matar, quando usais
+ D'esquivança,
+ Irei tomar por vingança
+ Amar-vos cada vez mais.
+
+ Porém vosso pensamento,
+ Como isento,
+ Seguirá sua tenção,
+ Crendo qu'em tanta affeição
+ Não haja accrescentamento.
+ Não creais
+ Que desta arte vos façais
+ Invencibil;
+ Que Amor sôbre o impossibil
+ Amostra que póde mais.
+
+ Mas ja da tenção que sigo,
+ Me desdigo;
+ Que se ha tanto poder nelle,
+ Tambem vós podeis mais qu'elle
+ Neste mal que usais comigo.
+ Mas se for
+ O vosso poder maior
+ Entre nós,
+ Quem poderá mais que vós,
+ Se vós podeis mais que Amor?
+
+ Despois que, Dama, vos vi,
+ Entendi,
+ Que perdêra Amor seu preço;
+ Pois o favor que lh'eu peço,
+ Vos pede elle para si.
+ Nem duvido
+ Que não póde, de sentido,
+ Resistir;
+ Pois em vez de vos ferir,
+ Ficou de vos ver ferido.
+
+ Mas pois vossa vista he tal
+ Em meu mal,
+ Que posso de vós querer?
+ Que mal poderei valer,
+ Onde o mesmo Amor não val.
+ Se attentar,
+ Nenhum bem posso esperar:
+ E oxalá
+ Que vos alembrasse ja,
+ Sequer para me matar.
+
+ Mas nem com isto creais
+ Que façais
+ Meus serviços mais pequenos;
+ Porqu'eu, quando espero menos,
+ Sabei qu'então quero mais.
+ Nada espero;
+ Mas de mi crede este fero,
+ Qu'em ser vosso,
+ Vos quero tudo o que posso,
+ E não posso quanto quero.
+
+ Só por esta phantasia
+ Merecia
+ De meus males algum fruito;
+ E não era certo muito
+ Para o muito que queria.
+ De maneira,
+ Que não he, na derradeira,
+ Grande espanto,
+ Que quem, Dama, vos quer tanto,
+ Que outro tanto de vós queira.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMAS SUSPEITAS.
+
+ Suspeitas, que me quereis?
+ Qu'eu vos quero dar lugar
+ Que de certas me mateis,
+ Se a causa, de que nasceis,
+ Vós quizesseis confessar.
+ Que de não lhe achar desculpa,
+ A grande mágoa passada
+ Me tẽe a alma tão cansada,
+ Que se me confessa a culpa,
+ Te-la-hei por desculpada.
+
+ Ora vêde que perigos
+ Tẽe cercado o coração,
+ Que no meio da oppressão
+ A seus proprios inimigos
+ Vai pedir a defensão!
+ Que, suspeitas, eu bem sei,
+ Como se claro vos visse,
+ Que he certo o que ja cuidei;
+ Que nunca mal suspeitei,
+ Que certo me não sahisse.
+
+ Mas queria esta certeza
+ Daquella que me atormenta;
+ Porque em tamanha estreiteza
+ Ver que disso se contenta,
+ He descanso da tristeza.
+ Porque se esta só verdade
+ Me confessa limpa e nua
+ De cautela e falsidade,
+ Não póde a minha vontade
+ Desconforme ser da sua.
+
+ Por segredo namorado
+ He certo estar conhecido
+ Que o mal de ser engeitado
+ Mais atormenta sabido
+ Mil vezes, que suspeitado.
+ Mas eu só, em quem se ordena
+ Novo modo de querella,
+ De medo da dor pequena,
+ Venho a achar na maior pena
+ O refrigerio para ella.
+
+ Ja nas iras m'inflammei,
+ Nas vinganças, nos furores,
+ Que ja doudo imaginei;
+ E ja mais doudo jurei
+ De arrancar d'alma os amores.
+ Ja determinei mudar-me
+ Para outra parte com ira;
+ Despois vim a concertar-me
+ Que era bom certificar-me
+ No que mostrava a mentira.
+
+ Mas despois ja de cansadas
+ As furias do imaginar,
+ Vinha emfim a rebentar
+ Em lagrimas magoadas,
+ E bem para magoar.
+ E deixando-se vencer
+ Os meus fingidos enganos
+ De tão claros desenganos,
+ Não posso menos fazer,
+ Que contentar-me co'os danos.
+
+ E pedir que me tirassem
+ Este mal de suspeitar
+ Que me vejo atormentar,
+ Indaque me confessassem
+ Quanto me póde matar.
+ Olhae bem se me trazeis,
+ Senhora, pôsto no fim;
+ Pois neste estado a que vim,
+ Para que vós confesseis,
+ Se dão os tratos a mim.
+
+ Mas para que tudo possa
+ Amor, que tudo encaminha,
+ Tal justiça lhe convinha;
+ Porque da culpa, qu'he vossa,
+ Venha a ser a morte minha.
+ Justiça tão mal olhada
+ Olhae com que côr se doura,
+ Que quero, ao fim da jornada,
+ Que vós sejais confessada,
+ Para qu'eu seja o que moura!
+
+ Pois confessae-vos jagora,
+ Indaque tenho temor
+ Que nem nesta última hora
+ Me ha de perdoar Amor
+ Vossos peccados, Senhora.
+ E assi vou desesperado,
+ Porque estes são os costumes
+ D'amor que he mal empregado;
+ Do qual vou ja condemnado
+ Ao inferno de ciumes.
+
+ * * * * *
+
+
+LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO.[1]
+
+ Corre sem vela e sem leme
+ O tempo desordenado,
+ D'hum grande vento levado:
+ O que perigo não teme,
+ He de pouco exprimentado.
+ As redeas trazem na mão
+ Os que redeas não tiverão:
+ Vendo quanto mal fizerão
+ A cobiça e ambição,
+ Disfarçados se acolhêrão.
+
+ A nao, que se vai perder,
+ Destrue mil esperanças:
+ Vejo o mao que vem a ter;
+ Vejo perigos correr
+ Quem não cuida que ha mudanças.
+ Os que nunca em sella andárão,
+ Na sella postos se vem:
+ De fazer mal não deixárão;
+ De demonio hábito tem
+ Os que o justo profanárão.
+
+ Que poderá vir a ser
+ O mal nunca refreado?
+ Anda, por certo, enganado
+ Aquelle que quer valer,
+ Levando o caminho errado.
+ He para os bons confusão,
+ Ver que os maos prevalecêrão;
+ Que, pôsto se detiverão
+ Com esta simulação,
+ Sempre castigos tiverão:
+
+ Não porque governe o leme
+ Em mar envolto e turbado,
+ Que tẽe seu rumo mudado,
+ Se perece grita e geme
+ Em tempo desordenado.
+ Terem justo galardão,
+ E dor dos que merecêrão,
+ Sempre castigos tiverão
+ Sem nenhuma redempção,
+ Postoque se detiverão.
+
+ Na tormenta, se vier,
+ Desespere na bonança,
+ Quem manhas não sabe ter:
+ Sem que lhe valha gemer,
+ Verá falsar a balança.
+ Os que nunca trabalhárão,
+ Tendo o que lhe não convem,
+ Se ao innocente enganárão,
+ Perderão o eterno bem,
+ Se do mal não s'apartárão.
+
+[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não parece obra do poeta.
+Nelle não fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria
+passar-lhe um traço por cima: o que não ousamos fazer por andar em
+todas as edições.
+
+ _Nota dos editores._
+
+ * * * * *
+
+
+CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS.
+
+_A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:_
+
+ Se não quereis padecer
+ Huma, ou duas horas tristes,
+ Sabeis que haveis de fazer?
+ Volveros por dó venistes,
+ Que aqui não ha que comer.
+ E, postoque aqui leais
+ Trovinha que vos enleia,
+ Corrido não estejais;
+ Porque por mais que corrais,
+ Não heis de alcançar a ceia.
+
+_A segunda a D. Francisco de Almeida._
+
+ Heliogabalo zombava
+ Das pessoas convidadas;
+ E de sorte as enganava,
+ Que as iguarias que dava,
+ Vinhão nos pratos pintadas.
+ Não temais tal travessura,
+ Pois ja não póde ser nova;
+ Porque a cêa está segura
+ De vos não vir em pintura;
+ Mas ha de vir toda em trova.
+
+_A terceira a Heitor da Silveira._
+
+ Cêa não a papareis:
+ Com tudo, porque não minta,
+ Para beber achareis,
+ Não Caparica, mas tinta,
+ E mil cousas que papeis.
+ E vós torceis o focinho
+ Com esta amphibologia?
+ Pois sabei que a Poesia
+ Vos dá aqui tinta por vinho,
+ E papéis por iguaria.
+
+_A quarta a João Lopes Leitão, a quem o Author fez huns versos, que vão
+adiante, sôbre huma peça de cacha, que deo a huma Dama._
+
+ Porque os que vos convidárão
+ Vosso estomago não danem,
+ Por justa causa ordenárão,
+ Se trovas vos enganárão,
+ Que trovas vos desenganem.
+ Vós tereis isto por tacha,
+ Converter tudo em trovar;
+ Pois se me virdes zombar,
+ Não cuideis, Senhor, que he cacha,
+ Que aqui não ha que cachar.
+
+_Responde João Lopes._
+
+ Pezar ora não de são,
+ Eu juro pelo Ceo bento,
+ Se de comer não me dão,
+ Qu'eu não sou camaleão,
+ Que m'hei de manter do vento.
+
+_Responde o Author._
+
+ Senhor, não vos agasteis,
+ Porque Deos vos proverá;
+ E se mais saber quereis,
+ Nas costas deste lereis
+ As iguarias que ha.
+
+_Virado o papel, dizia assi:_
+
+ Tendes nem migalha assada;
+ Cousa nenhuma de môlho;
+ E nada feito em empada;
+ E vento de tigelada;
+ Picar no dente em remôlho:
+ De fumo tendes taçalhos;
+ Ave da pena que sente
+ Quem da fome anda doente;
+ Bocejar de vinho e d'alhos;
+ Manjar em branco excellente.
+
+_A derradeira a Francisco de Mello._
+
+ D'hum homem, que teve o scetro
+ Da vêa maravilhosa,
+ Não foi cousa duvidosa,
+ Que se lhe tornava em metro
+ O qu'hia a dizer em prosa.
+ De mi vos quero affirmar
+ Que faça cousas mais novas,
+ De quanto podeis cuidar;
+ E esta cêa, que he manjar,
+ Vos faça na boca em trovas.
+
+ * * * * *
+
+
+NA INDIA AO VISO-REI, COM O MOTE ADIANTE.
+
+ Conde, cujo illustre peito
+ Merece nome de Rei,
+ Do qual muito certo sei
+ Que lhe fica sendo estreito
+ O cargo de Viso-Rei;
+ Servirdes-vos d'occupar-me
+ Tanto contra meu Planeta,
+ Não foi senão azas dar-me,
+ Com as quaes vou a queimar-me,
+ Como o faz a borboleta.
+
+ E s'eu a penna tomar,
+ Que tão mal cortada tenho,
+ Será para celebrar
+ Vosso valor singular
+ Dino de mais alto engenho.
+ Que se o meu vos celebrasse,
+ Necessario me sería
+ Que os olhos d'aguia tomasse,
+ Só para que não cegasse
+ No sol de vossa valia.
+
+ Vossos feitos sublimados
+ Nas armas, dignos de gloria,
+ São no mundo tão soados,
+ Qu'em vós de vossos passados
+ Se resuscita a memoria.
+ Pois aquelle ânimo estranho,
+ Prompto para todo effeito,
+ Espanta todo o conceito:
+ Como coração tamanho
+ Vos póde caber no peito?
+
+ A clemencia, que asserena
+ Coração tão singular,
+ S'eu nisso puzesse a penna,
+ Sería encerrar o mar
+ Em cova muito pequena.
+ Bem basta, Senhor, que agora
+ Vos sirvais de me occupar;
+ Que assi fareis aparar
+ A penna, com que algum'hora
+ Vos vereis ao ceo voar.
+
+ Assi vos irei louvando,
+ Vós a mi do chão erguendo,
+ Ambos o mundo espantando;
+ Vós com a espada cortando,
+ Eu com a penna escrevendo.
+
+_Mote que lhe mandou o Viso-Rei._
+
+ Muito sou meu inimigo,
+ Pois que não tiro de mi
+ Cuidados, com que nasci,
+ Que põe a vida em perigo.
+ Oxalá que fôra assi!
+
+_Volta._
+
+ Viver eu, sendo mortal,
+ De cuidados rodeado,
+ Parece meu natural;
+ Que a peçonha não faz mal
+ A quem foi nella criado.
+ Tanto sou meu inimigo,
+ Que por não tirar de mi
+ Cuidados, com que nasci,
+ Porei a vida em perigo.
+ Oxalá que fôra assi!
+
+ Tanto vim a accrescentar
+ Cuidados, que nunca amansão
+ Em quanto a vida durar,
+ Que canso ja de cuidar
+ Como cuidados não cansão.
+ S'estes cuidados, que digo,
+ Dessem fim a mi e a si,
+ Farião pazes comigo;
+ Que pôr a vida em perigo,
+ O bom fôra para mi.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS OBRAS SUAS.
+
+ Senhora, s'eu alcançasse
+ No tempo que ler quereis,
+ Que a dita dos meus papéis
+ Pola minha se trocasse;
+ E por ver
+ Tudo o que posso escrever
+ Em mais breve relação,
+ Indo eu onde elles vão,
+ Por mi só quizesseis ler;
+
+ Despois de ver hum cuidado
+ Tão contente de seu mal,
+ Verieis o natural
+ Do que aqui vêdes pintado;
+ Que o perfeito
+ Amor, de que sou sogeito,
+ Vereis aspero e cruel,
+ Aqui com tinta e papel,
+ Em mi com sangue no peito.
+
+ Que hum continuo imaginar
+ Naquillo que Amor ordena,
+ He pena, que emfim por penna
+ Se não póde declarar;
+ Que se eu levo
+ Dentro n'alma quanto devo
+ De trasladar em papéis,
+ Vêde que melhor lereis,
+ Se a mi, se aquillo qu'escrevo?
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA SENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO DE SITIM AMARELLO.
+
+ Se derivais da verdade
+ Esta palavra _Sitim_,
+ Achareis sem falsidade,
+ Que apos o _si_ tẽe o _tim_,
+ Que tine em toda a Cidade.
+ Bem vejo que m'entendeis;
+ Mas porque não falle em vão,
+ Sabei que a esta Nação
+ Tanto que o _si_ concedeis,
+ O _tim_ logo está na mão.
+
+ E quem da fama s'arreda,
+ Que tudo vai descobrir,
+ Deve sempre de fugir
+ De sitins, porque da seda
+ Seu natural he rugir.
+ Mas panno fino e delgado,
+ Qual a raxa e outros assi,
+ Dura, aquenta, e he callado,
+ Amoroso, e dá de si
+ Mais que _sitim_, nem brocado.
+
+ Mas estes, que sedas são
+ Com quem s'enganão mil Damas,
+ Mais vos tomão, do que dão;
+ Promettem, mas não darão,
+ Senão nodoas para as famas.
+ E se não me quereis crer,
+ Ou tomais outro caminho,
+ Por exemplo o podeis ver,
+ Quando lá virdes arder
+ A casa d'algum vizinho.
+
+ Oh feminina simpreza,
+ Donde estão culpas a pares,
+ Que por hum Dom de nobreza,
+ Deixão dões da natureza,
+ Mais altos e singulares!
+ Hum Dom, que anda enxertado
+ No nome, e nas obras não.
+ Fallo como exprimentado;
+ Que _sitim_ desta feição
+ Eu tenho muito cortado.
+
+ Dizem-me qu'era amarello;
+ E quem assi o quiz dar,
+ Só para me Deos vingar,
+ Se vem á mão amarê-lo,
+ O qu'eu não posso cuidar.
+ Porque quem sabe viver
+ Por estas artes manhosas,
+ (Isto bem póde não ser)
+ Dá a meninas formosas,
+ Somente polas fazer.
+
+ Quem vos isto diz, Senhora,
+ Servio nas vossas armadas
+ Muito, mas anda ja fóra;
+ E póde ser qu'inda agora
+ Traz abertas as fréchadas.
+ E, postoque desfavores
+ O tirão de servidor,
+ Quer-vos ventura melhor;
+ Que dos antigos amores
+ Inda lhe fica este amor.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS.
+
+ Peço-vos que me digais
+ As orações que rezastes,
+ Se são polos que matastes,
+ Se por vós que assi matais?
+ Se são por vós, são perdidas;
+ Que qual será a oração,
+ Que seja satisfação,
+ Senhora, de tantas vidas?
+
+ Que se vêdes quantos vem
+ A só vida vos pedir,
+ Como vos ha Deos de ouvir,
+ Se vós não ouvis ninguem?
+ Não podeis ser perdoada
+ Com mãos a matar tão prontas,
+ Que se n'huma trazeis contas,
+ Na outra trazeis espada.
+
+ Se dizeis que encommendando
+ Os que matastes andais;
+ Se rezais por quem matais,
+ Para que matais rezando?
+ Que se na fôrça do orar
+ Levantais as mãos aos Ceos,
+ Não as ergueis para Deos,
+ Erguei-las para matar.
+
+ E quando os olhos cerrais,
+ Toda enlevada na fé,
+ Cerrão-se os de quem vos vê,
+ Para nunca verem mais.
+ Pois se assi forem tratados
+ Os que vos vem quando orais,
+ Essas horas que rezais,
+ São as horas dos finados.
+
+ Pois logo, se sois servida
+ Que tantos mortos não sejão,
+ Não rezeis onde vos vejão,
+ Ou vêde para dar vida.
+ Ou se quereis escusar
+ Estes males que causastes,
+ Resuscitae quem matastes,
+ Não tereis por quem rezar.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNA.
+
+ Se n'alma e no pensamento
+ Por vosso me manifesto,
+ Não me peza do que sento;
+ Que se não soffrer tormento,
+ Faço offensa a vosso gesto.
+ E, pois quanto Amor ordena,
+ E quanto est'alma deseja,
+ Tudo á morte me condena,
+ Não quero senão que seja
+ Tudo pena, pena, pena.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS.
+
+ Sem olhos vi o mal claro,
+ Que dos olhos se seguio:
+ Pois cara sem olhos vio
+ Olhos, que lhe custão caro.
+ D'olhos não faço menção,
+ Pois quereis que olhos não sejão;
+ Vendo-vos, olhos sobejão,
+ Não vos vendo, olhos não são.
+
+ * * * * *
+
+
+DISPARATES NA INDIA.
+
+ Este mundo es el camino
+ Adó hay ducientos váos,
+ Ou por onde bons e maos,
+ Todos somos del merino.
+ Mas os maos são de teor,
+ Que desque mudão a côr,
+ Chamão logo a ElRei compadre;
+ E emfim dejadlos, mi madre,
+ Que sempre tẽe hum sabor
+ De quem torto nasce, tarde s'endireita.
+
+ Deixae a hum que se abone:
+ Diz logo de muito sengo,
+ Villas y castillos tengo,
+ Todos á mi mandar sone.
+ Então eu, qu'estou de môlho,
+ Com a lagrima no ôlho,
+ Polo virar do envés,
+ Digo-lhe: _tu ex illis es_,
+ E por isso não te ólho;
+ Pois honra e proveito não cabem n'hum saco.
+
+ Vereis huns, que no seu seio
+ Cuidão que trazem París,
+ E querem com dous ceitís,
+ Fender anca pelo meio.
+ Vereis mancebindo de arte,
+ Com espada em talabarte:
+ Não ha mais Italiano.
+ A este direis: Meu mano,
+ Vós sois galante que farte;
+ Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido.
+
+ Outros em cada theatro,
+ Por officio lhe ouvirês
+ Que se matarán con tres,
+ Y lo mismo haran con cuatro.
+ Prezão-se de dar respostas,
+ Com palavras bem compostas;
+ Mas se lhe meteis a mão,
+ Na paz mostrão coração,
+ Na guerra mostrão as costas;
+ Porque aqui torce a porca o rabo.
+
+ Outros vejo por ahi,
+ A que se acha mal o fundo,
+ Que andão emendando o mundo,
+ E não se emendão a si.
+ Estes respondem a quem
+ Delles não entende bem
+ El dolor que está secreto;
+ Mas porém quem for discreto,
+ Responder-lhe-ha muito bem:
+ Assi entrou o mundo, assi ha de sahir.
+
+ Achareis rafeiro velho,
+ Que se quer vender por galgo:
+ Diz que o dinheiro he fidalgo,
+ Que o sangue todo he vermelho.
+ Se elle mais alto o dissera,
+ Este pelote puzera:
+ Que o seu eco lhe responda;
+ Que su padre era de Ronda,
+ Y su madre de Antequera,
+ E quer cobrir o ceo co'huma joeira.
+
+ Fraldas largas, grave aspeito,
+ Para Senador Romano.
+ Oh que grandissimo engano!
+ Que Momo lhe abrisse o peito!
+ Consciencia, que sobeja,
+ Siso, com que o mundo reja,
+ Mansidão outro que si;
+ Mas que lobo está em ti,
+ Metido em pelle de oveja!
+ E sabem-no poucos.
+
+ Guardae-vos de huns meus Senhores,
+ Que ainda comprão e vendem;
+ Huns, qu'he certo, que descendem
+ Da geração de pastores:
+ Mostrão-se-vos bons amigos;
+ Mas se vos vem em perigos,
+ Escarrão-vos nas paredes;
+ Que de fóra dormiredes,
+ Irmão, que he tempo de figos;
+ Porque de rabo de porco nunca bom virote.
+
+ Que direis d'huns, que as entranhas
+ Lh'estão ardendo em cobiça,
+ E se tẽe mando, a justiça
+ Fazem de teas de aranhas?
+ Com suas hypocrisias,
+ Que são de vossas espias:
+ Para os pequenos huns Neros,
+ Para os grandes tudo feros.
+ Pois tu, parvo, não sabías,
+ Que lá vão leis, onde querem cruzados?
+
+ Mas tornando a huns enfadonhos,
+ Cujas cousas são notorias;
+ Huns, que contão mil histórias
+ Mais desmanchadas que sonhos;
+ Huns mais parvos que zamboas,
+ Qu'estudão palavras boas,
+ A que ignorancia os atiça:
+ Estes paguem por justiça,
+ Que tẽe morto mil pessoas,
+ Por vida de quanto quero.
+
+ Adonde tienen las mentes
+ Huns secretos trovadores,
+ Que fazem cartas d'amores,
+ De que ficão mui contentes?
+ Não querem sahir á praça;
+ Trazem trova por negaça;
+ E se lha gabais, qu'he boa,
+ Diz qu'he de certa pessoa.
+ Ora que quereis que faça,
+ Senão ir-me por esse mundo?
+
+ Ó tu, como me atarracas,
+ Escudeiro de Solia,
+ Com bocaes de fidalguia,
+ Trazido quasi com vacas;
+ Importuno a importunar,
+ Morto por desenterrar
+ Parentes, que cheirão ja!
+ Voto a tal, que me fara
+ Hum destes nunca fallar
+ Mais com viva alma.
+
+ Huns, que fallão muito, vi,
+ De que quizera fugir;
+ Huns que, emfim, sem se sentir,
+ Andão fallando entre si;
+ Porfiosos sem razão;
+ E desque tomão a mão,
+ Fallão sem necessidade;
+ E se algum'hora he verdade,
+ Deve ser na confissão;
+ Porque quem não mente... Ja m'entendeis.
+
+ Oh vós, quem quer que me lerdes,
+ Qu'haveis de ser avisado,
+ Que dizeis ao namorado
+ Que caça vento com redes?
+ Jura por vida da Dama;
+ Falla comsigo na cama;
+ Passêa de noite e escarra;
+ Por falsete na guitarra
+ Põe sempre: Viva que ama,
+ Porque calça a seu proposito.
+
+ Mas deixemos, se quizerdes,
+ Por hum pouco as travessuras,
+ Porqu'entre quatro maduras
+ Leveis tambem cinco verdes.
+ Deitemos-nos mais ao mar;
+ E se algum se arrecear,
+ Passe tres ou quatro trovas.
+ E vós tomais côres novas?
+ Mas não he para espantar;
+ Que quem porcos ha menos,
+ Em cada mouta lhe roncão.
+
+ Ó vós, que sois Secretarios
+ Das consciencias Reais,
+ E que entre os homens estais
+ Por Senhores ordinarios;
+ Porque não pondes hum freio
+ Ao roubar, que vai sem meio,
+ Debaixo de bom governo?
+ Pois hum pedaço de inferno
+ Por pouco dinheiro alheio
+ Se vende a Mouro e a Judeo.
+
+ Porque a mente, affeiçoada
+ Sempre á Real dignidade,
+ Vos faz julgar por bondade
+ A malicia desculpada.
+ Move a presença Real
+ Huma affeição natural,
+ Que logo inclina ao Juiz
+ A seu favor: e não diz
+ Hum rifão muito geral,
+ Que o Abbade donde canta, dahi janta?
+
+ E vós bailais a esse som:
+ Por isso, gentís pastores,
+ Vos chama a vós mercadores
+ Hum que só foi pastor bom.
+
+ * * * * *
+
+
+A JOÃO LOPES LEITÃO, SÔBRE HUMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU
+A HUMA DAMA, QUE SE LHE FAZIA DONZELLA.
+
+_Mote._
+
+ Se vossa Dama vos dá
+ Tudo quanto vós quizestes,
+ Dizei-me: p'ra que lhe déstes
+ O que vos ella fez ja?
+
+_Volta._
+
+ Sendo os restos envidados,
+ E vós de cachas mil contos
+ Sabeis com quão poucos pontos,
+ Que lhos achastes quebrados;
+ Se o que tẽe, isso vos dá,
+ Vós mui bem lho merecestes,
+ Porque se a cacha lhe déstes
+ Tinha-vo-la feita ja.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Menina formosa e crua,
+ Bem sei eu
+ Quem deixará de ser seu,
+ Se vós quizereis ser sua.
+
+_Voltas._
+
+ Menina mais que na idade,
+ Se para me querer bem
+ Vos não vejo ter vontade,
+ He porque outrem vo-la tem;
+ Tẽe-vo-la, e faz-vo-la crua.
+ Porém eu
+ Ja tomára não ser meu,
+ Se vós não foreis tão sua.
+
+ Nos olhos, e na feição
+ Vos vi, quando vos olhava,
+ Tanta graça, que vos dava
+ De graça este coração:
+ Não o quizestes de crua,
+ Por ser meu:
+ Se outrem vos dera o seu,
+ Póde ser foreis mais sua.
+
+ Menina, tende maneira,
+ Que ainda não venha a ser,
+ Pois não quereis quem vos quer,
+ Que queirais quem vos não queira.
+ Olhae não me sejais crua,
+ Que pois eu
+ Quero ser vosso, e não meu,
+ Sêde vós minha, e não sua.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA DOENTE
+
+_Mote._
+
+ Da doença, em que ora ardeis,
+ Eu fôra vossa mézinha
+ Só com vós serdes a minha.
+
+_Voltas._
+
+ He muito para notar
+ Cura tão bem acertada,
+ Que podereis ser curada
+ Somente com me curar.
+ Se quereis, Dama, trocar,
+ Ambos temos a mézinha,
+ Eu a vossa, e vós a minha.
+
+ Olhae, que não quer Amor,
+ (Porque fiquemos iguais)
+ Pois meu ardor não curais,
+ Que se cure vosso ardor.
+ Eu cá sinto vossa dor;
+ E se vós sentis a minha,
+ Dae e tomae a mézinha.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO
+
+ Deo, Senhora, por sentença
+ Amor, que fosseis doente,
+ Para fazerdes á gente
+ Doce e formosa a doença.
+
+_Voltas._
+
+ Não sabendo Amor curar,
+ Foi a doença fazer
+ Formosa para se ver,
+ Doce para se passar.
+ Então vendo a differença
+ Que ha de vós a toda a gente,
+ Mandou, que fôsseis doente,
+ Para glória da doença.
+
+ E digo-vos de verdade,
+ Que a saude anda invejosa,
+ Por ver estar tão formosa
+ Em vós essa enfermidade.
+ Não façais logo detença,
+ Senhora, em estar doente,
+ Porque adoecerá a gente,
+ Com desejos da doença.
+
+ Qu'eu por ter, formosa Dama,
+ A doença, qu'em vós vejo,
+ Vos confesso, que desejo
+ De cahir comvosco em cama.
+ Se consentis, que me vença
+ Deste mal, não houve gente
+ Da saude tão contente,
+ Como eu serei da doença.
+
+ * * * * *
+
+
+AO MESMO
+
+ Olhae que dura sentença
+ Foi amor dar contra mi!
+ Que porqu'em vós me perdi,
+ Em vós me busque a doença.
+ Claro está,
+ Que em vós só me achará;
+ Qu'em mi, se me vem buscar,
+ Não poderá mais achar,
+ Que a fórma do que foi ja.
+
+ Que s'em vós Amor se pôs,
+ Senhora, he forçado assi,
+ Que o mal, que me busca a mi,
+ Que vos faça mal a vós.
+ Sem mentir,
+ Amor me quiz destruir
+ Por modo nunca cuidado,
+ Pois ha de ser ja forçado
+ Pezar-vos de vos servir.
+
+ Mas sois tão desconhecida,
+ E são meus males de sorte,
+ Que vos ameaça a morte,
+ Porque me negais a vida.
+ Se por boa
+ Tal justiça se pregoa;
+ Quando desta sorte for,
+ Havei vós perdão de Amor,
+ Que a parte ja vos perdoa.
+
+ Mas o que mais temo, emfim,
+ He que nesta differença,
+ Que se não torne a doença,
+ Se me não tornais a mim.
+ De verdade,
+ Que ja vossa humanidade
+ De que se queixe não tem;
+ Pois para as almas tambem
+ Fez Amor enfermidade.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA VESTIDA DE DÓ.
+
+_Mote._
+
+ De atormentado e perdido,
+ Ja vos não peço, senão
+ Que tenhais no coração
+ O que tendes no vestido.
+
+_Volta._
+
+ Se de dó vestida andais
+ Por quem ja vida não tem
+ Porque não o haveis de quem
+ Vós tantas vezes matais?
+ Que brado sem ser ouvido,
+ E nunca vejo senão
+ Cruezas no coração,
+ E grande dó no vestido.
+
+ * * * * *
+
+
+A DONA GUIOMAR DE BLASFÉ, QUEIMANDO-SE COM HUMA VÉLA NO ROSTO.
+
+_Mote._
+
+ Amor, que todos offende,
+ Teve, Senhora, por gôsto,
+ Que sentisse o vosso rosto
+ O que nas almas accende.
+
+_Volta._
+
+ Aquelle rosto que traz
+ O mundo todo abrazado,
+ Se foi da flamma tocado,
+ Foi porque sinta o que faz.
+ Bem sei que Amor se vos rende;
+ Porém o seu presupposto
+ Foi sentir o vosso rosto
+ O que nas almas accende.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, QUE CHAMAVÃO QUARESMA.
+
+_Mote._
+
+ Não estejais aggravada,
+ Senão se for de vós mesma;
+ Porqu'a mulher, que he errada,
+ Com razão pela Quaresma
+ Deve ser disciplinada.
+
+_Voltas._
+
+ Quererdes profano amor
+ Em Quaresma, he consciencia:
+ Açoutes e penitencia
+ Vos está muito melhor.
+ Não fiqueis disto affrontada,
+ Pois a culpa he vossa mesma;
+ Que mulher, que he tão malvada,
+ He bem que pela Quaresma
+ Seja bem disciplinada.
+
+ Se a penitencia vos val,
+ Mui bem açoutada estais;
+ Pois por Quaresma pagais
+ Vossos vicios do carnal.
+ Não torneis a ser errada,
+ Nem condemneis a vós mesma,
+ Pois estais ja emendada;
+ E não sereis por Quaresma
+ Outra vez disciplinada.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, QUE LHE PROMETTEO.
+
+ Quem no mundo quizer ser
+ Havido por singular,
+ Para mais s'engrandecer,
+ Ha de trazer sempre o dar
+ Nas ancas do prometter.
+ E ja que vossa mercê,
+ Largueza tẽe por divisa,
+ Como o mundo todo vê,
+ Ha mister que tanto dê,
+ Que venha a dar a camisa.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME FOÃ DOS ANJOS
+
+_Mote._
+
+ Senhora, pois me chamais
+ Tão sem razão tão mão nome,
+ Inda o diabo vos tome.
+
+_Voltas._
+
+ Quem quer que vio, ou que leo,
+ Terá por novo e moderno,
+ Ter quem vive no inferno,
+ O pensamento no ceo.
+ Mas se a vós vos pareceo,
+ Que m'estava bem tal nome,
+ Esse diabo vos tome.
+
+ Perdido mais que ninguem
+ Confesso, Senhora, ser;
+ Mas o diabo não quer
+ Aos Anjos tamanho bem.
+ Pois logo não me convem,
+ Ou se me convem tal nome,
+ Será para que vos tome.
+
+ Se vos benzeis com cautella,
+ Como de Anjo, e não de luz,
+ Mal póde fugir da Cruz,
+ Quem vós tendes pôsto nella.
+ Mas ja que foi minha estrella
+ Ser diabo, e ter tal nome,
+ Guardae-vos, que vos não tome.
+
+ Ja que chegais tanto ao cabo,
+ Com as mãos, postas aos ceos
+ Vou sempre pedindo a Deos,
+ Que vos leve este diabo.
+ Eu, Senhora, não me gabo;
+ Mas pois que me dais tal nome,
+ Tomo-o, para que vos tome.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR.
+
+_Mote._
+
+ Qual terá culpa de nós
+ Neste mal, que todo he meu?
+ Quando vindes, não vou eu,
+ Quando vou, não vindes vós.
+
+_Volta._
+
+ Reinando Amor em dous peitos,
+ Tece tantas falsidades,
+ Que de conformes vontades
+ Faz desconformes effeitos.
+ Igualmente vive em nós;
+ Mas por desconcêrto seu
+ Vos leva, se venho eu,
+ Me leva, se vindes vós.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE SEU.
+
+ Descalça vai pela neve:
+ Assi faz quem Amor serve.
+
+_Voltas._
+
+ Os privilegios, que os Reis
+ Não pódem dar, póde amor,
+ Que faz qualquer amador
+ Livre das humanas leis.
+ Mortes e guerras crueis,
+ Ferro, frio, fogo e neve,
+ Tudo soffre quem o serve.
+
+ Moça formosa despreza
+ Todo o frio, e toda a dor.
+ Olhae quanto póde Amor
+ Mais que a propria natureza.
+ Medo, nem delicadeza
+ Lh'impede que passe a neve.
+ Assi faz quem Amor serve.
+
+ Por mais trabalhos que leve,
+ A tudo se off'receria;
+ Passa pela neve fria,
+ Mais alva que a propria neve;
+ Com todo frio se atreve.
+ Vêde em que fogo ferve
+ O triste, que a Amor serve.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO ALHEIO
+
+ A dor que a minha alma sente,
+ Não na sabe toda a gente.
+
+_Voltas._
+
+ Qu'estranho caso de Amor!
+ Que desejado tormento!
+ Que venho a ser avarento
+ Das dores de minha dor!
+ Por me não tratar peor,
+ Se se sabe, ou se se sente,
+ Não na digo a toda a gente.
+
+ Minha dor e causa della
+ De ninguem ouso fiar;
+ Que sería aventurar
+ A perder-me, ou a perdella.
+ E pois só com padecella,
+ A minha alma está contente,
+ Não quero que o saiba a gente.
+
+ Ande no peito escondida,
+ Dentro n'alma sepultada;
+ De mi só seja chorada,
+ De ninguem seja sentida.
+ Ou me mate, ou me dê vida,
+ Ou viva triste ou contente,
+ Não ma saiba toda a gente.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ D'alma, e de quanto tiver,
+ Quero que me despojeis,
+ Com tanto, que me deixeis
+ Os olhos para vos ver.
+
+_Volta._
+
+ Cousa este corpo não tem,
+ Que ja não tenhais rendida:
+ Despois de tirar-lhe a vida,
+ Tirae-lhe a morte tambem.
+ Se mais tenho que perder,
+ Mais quero que me leveis,
+ Com tanto que me deixeis
+ Os olhos para vos ver.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Amores de huma casada,
+ Que eu vi pelo meu mal.
+
+_Voltas._
+
+ N'huma casada fui pôr
+ Os olhos, de si senhores:
+ Cuidei que fossem amores,
+ Elles fizerão-se amor.
+ Faz-se o desejo maior
+ Donde o remedio não val,
+ Em perigo de meu mal.
+
+ Não me paraceo que Amor
+ Pudesse tanto comigo,
+ Que donde entra por amigo,
+ Se levante por senhor.
+ Leva-me de dor em dor,
+ E de final em final,
+ Cada vez para mor mal.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ Enforquei minha esperança;
+ Mas Amor foi tão madraço,
+ Que lhe cortou o baraço.
+
+_Volta._
+
+ Foi a esperança julgada
+ Por sentença da Ventura,
+ Que pois me leve á pendura,
+ Que fosse dependurada:
+ Vem Cupido com a espada,
+ Corta-lhe cerce o baraço.
+ Cupido, foste madraço.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ Puz o coração nos olhos,
+ E os olhos puz no chão,
+ Por vingar o coração.
+
+_Volta._
+
+ O coração invejoso
+ Como dos olhos andava,
+ Sempre remoques me dava
+ Que não era o meu mimoso:
+ Venho eu de piedoso
+ Do Senhor meu coração,
+ E boto os olhos no chão.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ Puz meus olhos n'huma funda,
+ E fiz hum tiro com ella
+ Ás grades d'huma janella.
+
+_Volta._
+
+ Huma Dama, de malvada,
+ Tomou seus olhos na mão;
+ E tirou-me huma pedrada
+ Com elles ao coração.
+ Armei minha funda então,
+ E puz os meus olhos nella,
+ Trape, quebrei-lhe a janella.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ De pequena tomei amor,
+ Porque o não entendi;
+ Agora que o conheci,
+ Mata-me com desfavor.
+
+_Voltas._
+
+ Vi-o moço e pequenino,
+ E a mesma idade ensina
+ Que s'incline huma menina
+ Ás amostras d'hum menino:
+ Ouvi-lhe chamar Amor,
+ Pelo nome me venci;
+ Nunca tal engano vi,
+ Nem tamanho desamor.
+
+ Cresceo-me de dia em dia
+ Com a idade a affeição,
+ Porque amor de criação,
+ N'alma, e na vida se cria.
+ Criou-se em mi este amor,
+ E senhoreou-se de mi:
+ Agora que o conheci,
+ Mata-me com desfavor.
+
+ As flores me torna abrolhos,
+ A morte me determina
+ Quem eu trouxe de menina
+ Nas meninas de meus olhos.
+ Desta mágoa e desta dor
+ Tenho sabido que emfim
+ Por amor me perco a mim
+ Por quem de mi perde amor.
+
+ Parece ser caso estranho
+ O que Amor em mi ordena,
+ Qu'em idade tão pequena
+ Haja tormento tamanho.
+ Sejão milagres d'Amor,
+ Hei-os de soffrer assi,
+ Até que haja dó de mi
+ Quem entender esta dor.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA VELHA.
+
+ Apartárão-se os meus olhos
+ De mi tão longe.
+ Falsos amores,
+ Falsos, maos, enganadores.
+
+_Voltas._
+
+ Tratárão-me com cautella,
+ Por m'enganar mais asinha;
+ Dei-lhe posse d'alma minha,
+ Forão-me fugir com ella.
+ Não ha vê-los, nem ha vella,
+ De mi tão longe.
+ Falsos amores,
+ Falsos, maos, enganadores!
+
+ Entreguei-lhe a liberdade,
+ E, emfim, da vida o melhor;
+ Forão-se; e do desamor
+ Fizerão necessidade.
+ Quem teve a sua vontade
+ De si tão longe?
+ Falsos amores,
+ E oxalá enganadores!
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRA.
+
+ Falso Cavalheiro, ingrato,
+ Enganais-me,
+ Vós dizeis, que eu vos mato,
+ E vós matais-me.
+
+_Voltas._
+
+ Costumadas artes são
+ Para enganar innocencias,
+ Piedosas apparencias
+ Sôbre isento coração.
+ Eu vos amo, e vós ingrato
+ Magoais-me,
+ Dizendo, que eu vos mato,
+ E vós matais-me.
+
+ Vêde agora qual de nós
+ Anda mais perto do fim,
+ Que a justiça faz-se em mim,
+ E o pregão diz que sois vós.
+ Quando mais verdade trato
+ Levantais-me
+ Que vos desamo e vos mato,
+ E vós matais-me.
+
+ * * * * *
+
+
+PROPRIO.
+
+ Se de meu mal me contento,
+ He porque para vós vejo
+ Em todo o mundo desejo,
+ E em ninguem merecimento.
+
+_Volta._
+
+ Para quem vos soube olhar
+ Tão impossivel foi ser
+ O poder-vos merecer,
+ Como o não vos desejar.
+ Pois logo a meu pensamento
+ Nenhum remedio lhe vejo,
+ Senão se der o desejo
+ Azas ao merecimento.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vós, Senhora, tudo tendes,
+ Senão que tendes os olhos verdes.
+
+_Voltas._
+
+ Dotou em vós natureza
+ O summo da perfeição;
+ Que o qu'em vós he senão,
+ He em outras gentileza:
+ O verde não se despreza,
+ Que, agora que vós os tendes,
+ São bellos os olhos verdes.
+
+ Ouro e azul he a melhor
+ Côr, por que a gente se perde;
+ Mas a graça desse verde
+ Tira a graça a toda côr.
+ Fica agora sendo a flor
+ A côr, que nos olhos tendes,
+ Porque são vossos e verdes.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Para que me dan tormento,
+ Aprovechando tan poco?
+ Perdido, mas no tan loco,
+ Que descubra lo que siento.
+
+_Voltas._
+
+ Tiempo perdido es aquel
+ Que se passa en darme afan,
+ Pues cuanto más me lo dan,
+ Tanto menos siento dél.
+ Que descubra lo que siento?
+ No lo haré, que no es tan poco;
+ Que no puede ser tan loco
+ Quien tiene tal pensamiento.
+
+ Sepan que me manda Amor,
+ Que de tan dulce querella,
+ A nadie dé parte della,
+ Porque la sienta mayor.
+ Es tan dulce mi tormento,
+ Que aun se me antoja poco;
+ Y si es mucho, quedo loco
+ De gusto de lo que siento.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ De vuestros ojos centellas,
+ Que encienden pechos de hielo,
+ Suben por el aire al cielo,
+ Y en llegando son estrellas.
+
+_Voltas._
+
+ Falsos loores os dan,
+ Que essas centellas tan raras
+ No son nel cielo mas claras
+ Que en los ojos donde estan.
+ Porque cuando miro en ellas
+ Lo como alumbran al suelo,
+ No sé que seran nel cielo;
+ Mas sé que acá son estrellas.
+
+ Ni se puede presumir
+ Que al cielo suban, Señora;
+ Que la lumbre que en vós mora,
+ No tiene más que subir;
+ Mas pienso que dan querellas
+ Á Dios nel octavo cielo,
+ Porque son acá en el suelo
+ Dos tan hermosas estrellas.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ De dentro tengo mi mal,
+ Que de fuera no hay señal.
+
+_Volta._
+
+ Mi nueva y dulce querella
+ Es invisible á la gente;
+ El alma sola la siente,
+ Que el cuerpo no es dino della.
+ Como la viva centella
+ Se encubre en el pedernal,
+ De dentro tengo mi mal.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Amor loco, amor loco,
+ Yo por vós, y vós por otro.
+
+_Voltas._
+
+ Dióme Amor tormentos dós,
+ Para que pene doblado;
+ Uno es verme desamado,
+ Otro es mancilla de vós.
+ Ved que ordena Amor en nós!
+ Porque vós haceisme loco,
+ Que seais loca por otro.
+
+ Tratais Amor de manera,
+ Que porque asi me tratais,
+ Quiere que, pues no me amais,
+ Que ameis otro que no os quiera.
+ Mas con todo, si no os viera
+ De todo loca por otro,
+ Con mas razon fuera loco.
+
+ Y tan contrario viviendo,
+ Alfin, alfin, conformamos;
+ Pues ambos a dós buscamos
+ Lo que mas nos vá huyendo.
+ Voy tras vós siempre siguiendo,
+ Y vós huyendo por otro:
+ Andais loca, y me haceis loco.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vêde bem se nos meus dias
+ Os desgostos vi sobejos,
+ Pois tenho medo a desejos,
+ E quero mal a alegrias.
+
+_Volta._
+
+ Se desejos fui ja ter,
+ Servírão de atormentar-me;
+ Se algum bem póde alegrar-me,
+ Quiz-me antes entristecer.
+ Passei annos, passei dias
+ Em desgostos tão sobejos,
+ Que só por não ter desejos,
+ Perderei mil alegrias.
+
+ * * * * *
+
+
+PROPIO.
+
+ Pois he mais vosso que meu,
+ Senhora, meu coração,
+ Eu vosso captivo são,
+ Meus olhos, lembre-vos eu.
+
+_Volta._
+
+ Lembre-vos minha tristeza,
+ Que jamais nunca me deixa;
+ Lembre-vos com quanta queixa
+ Se queixa minha firmeza:
+ Lembre-vos que não he meu
+ Este triste coração;
+ E pois ha tanta razão,
+ Meus olhos, lembre-vos eu.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO.
+
+ Senhora, pois minha vida
+ Tendes em vosso poder;
+ Por serdes della servida,
+ Não queirais que destruida
+ Possa ser.
+
+_Volta._
+
+ Isto não por me pezar
+ De morrer, se vós quizerdes;
+ Que melhor me he acabar
+ Mil vezes, que supportar
+ Os males que me fizerdes;
+ Mas só por serdes servida
+ De mi, em quanto viver,
+ Vos peço que minha vida
+ Não queirais que destruida
+ Possa ser.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO.
+
+ Pois damno me faz olhar-vos,
+ Não quero, por não perder-vos,
+ Que ninguem me veja ver-vos.
+
+_Voltas._
+
+ De ver-vos a não vos ver
+ Ha dous extremos mortaes;
+ E são elles em si taes,
+ Que hum por hum me faz morrer;
+ Mas antes quero escolher,
+ Que possa viver sem ver-vos,
+ Minh'alma, por não perder-vos.
+
+ Deste tamanho perigo
+ Que remedio posso ter,
+ Se vivo só com vos ver,
+ Se vos não vejo, perigo?
+ Mas quero acabar comigo,
+ Que ninguem me veja ver-vos,
+ Senhora, por não perder-vos.
+
+ * * * * *
+
+
+A TRES DAMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVÃO.
+
+_Mote._
+
+ Não sei se m'engana Helena,
+ Se Maria, se Joanna;
+ Não sei qual dellas m'engana.
+
+_Voltas._
+
+ Huma diz que me quer bem,
+ Outra jura que me quer;
+ Mas em jura de mulher
+ Quem crerá, se ellas não crem?
+ Não posso não crer a Helena,
+ A Maria, nem Joanna;
+ Mas não sei qual mais m'engana.
+
+ Huma faz-me juramentos
+ Que só meu amor estima,
+ A outra diz que se fina,
+ Joanna, que bebe os ventos.
+ Se cuido que mente Helena,
+ Tambem mentirá Joanna;
+ Mas quem mente não m'engana.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA MAL EMPREGADA.
+
+_Mote._
+
+ Menina, não sei dizer,
+ Vendo-vos tão acabada,
+ Quão triste estou por vos ver
+ Formosa e mal empregada.
+
+_Voltas._
+
+ Quem tão mal vos empregou,
+ Pouco de mi se dohia,
+ Pois não vio o quanto me hia
+ Em tirar-me o que tirou.
+ Obriga o primor que tem
+ Lindeza tão extremada
+ Que digão quantos a vem,
+ Formosa e mal empregada!
+
+ Tomastes da formosura
+ Quanto della desejastes,
+ E com ella me guardastes
+ Para tão triste ventura.
+ Mataveis sendo solteira,
+ Matais agora em casada;
+ Matais de toda a maneira,
+ Formosa e mal empregada.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA Foãa Gonçalves.
+
+_Mote._
+
+ Com vossos olhos, Gonçalves,
+ Senhora, captivo tendes
+ Este meu coração Mendes.
+
+_Volta._
+
+ Eu sou boa testimunha,
+ Que Amor tem por cousa má,
+ Que olhos, que são homens ja,
+ Se nomeiem sem alcunha;
+ Pois o coração apunha,
+ E diz, olhos, pois vós tendes,
+ Chamae-me coração Mendes.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO
+
+ De que me serve fugir
+ De morte, dor e perigo,
+ Se me eu levo comigo?
+
+_Voltas._
+
+ Tenho-me persuadido,
+ Por razão conveniente,
+ Que não posso ser contente,
+ Pois que pude ser nascido.
+ Anda sempre tão unido
+ O meu tormento comigo,
+ Qu'eu mesmo sou meu perigo.
+
+ E se de mi me livrasse,
+ Nenhum gôsto me sería:
+ Quem, senão eu, não teria
+ Mal, que esse bem me tirasse?
+ Fôrça he logo que assi passe,
+ Ou com desgôsto comigo,
+ Ou sem gôsto e sem perigo.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.
+
+ Quando me quer enganar
+ A minha bella perjura,
+ Para mais me confirmar
+ O que quer certificar,
+ Polos seus olhos me jura.
+ Como meu contentamento
+ Todo se rege por elles,
+ Imagina o pensamento,
+ Que se faz aggravo a elles
+ Não crer tão grão juramento.
+
+ Porém como em casos tais
+ Ando ja visto e corrente,
+ Sem outros certos sinais,
+ Quanto me ella jura mais,
+ Tanto mais cuido que mente.
+ Então vendo-lhe offender
+ Huns taes olhos como aquelles,
+ Deixo-me antes tudo crer,
+ Só pola não constranger
+ A jurar falso por elles.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Ha hum bem, que chega e foge;
+ E chama-se este bem tal,
+ Ter bem para sentir mal.
+
+_Volta._
+
+ Quem viveo sempre n'hum ser,
+ Inda que seja em pobreza,
+ Não vio o bem da riqueza,
+ Nem o mal d'empobrecer:
+ Não ganhou para perder;
+ Mas ganhou com vida igual
+ Não ter bem, nem sentir mal.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.
+
+_Mote._
+
+ Olhos, não vos mereci
+ Que tenhais tal condição,
+ Tão liberaes para o chão,
+ Tão irosos para mi.
+
+_Volta._
+
+ Baixos e honestos andais,
+ Por vos negardes a quem
+ Não quer mais que aquelle bem,
+ Que vós no chão espalhais?
+ Se pouco vos mereci,
+ Não m'estimeis mais que o chão,
+ A quem vós o galardão
+ Dais, e mo negais a mi.
+
+ * * * * *
+
+
+PROPRIO.
+
+ Venceo-me Amor, não o nego;
+ Tẽe mais fôrça qu'eu assaz;
+ Que como he cego e rapaz,
+ Dá-me porrada de cego.
+
+_Volta._
+
+ Só porque he rapaz ruim,
+ Dei-lhe hum boféte zombando.
+ Diz-me: Ó mao, estais me dando,
+ Porque sois maior que mim?
+ Pois se eu vos descarrégo,
+ E em dizendo isto, chaz;
+ Torna-me outra; tá rapaz,
+ Que dás porrada de cego.
+
+ * * * * *
+
+
+AO DESCONCERTO DO MUNDO.
+
+ Os bons vi sempre passar
+ No mundo graves tormentos;
+ E para mais m'espantar,
+ Os maos vi sempre nadar
+ Em mar de contentamentos.
+ Cuidando alcançar assi
+ O bem tão mal ordenado,
+ Fui mao; mas fui castigado.
+ Assi, que só para mi
+ Anda o mundo concertado.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.
+
+_Mote._
+
+ Perguntais-me, quem me mata?
+ Não quero responder nada,
+ Por vos não fazer culpada.
+
+_Volta._
+
+ E se a penna não me atiça,
+ A dizer pena tão forte,
+ Quero-me entregar á morte,
+ Antes que a vós á justiça.
+ Porém se tendes cobiça
+ De vos verdes tão culpada,
+ Direi que não sinto nada.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Esconjuro-te, Domingas,
+ Pois me dás tanto cuidado,
+ Que me digas se te vingas,
+ Viverei menos penado.
+
+_Voltas._
+
+ Juravas-me, que outras cabras
+ Folgavas de apascentar;
+ Eu por não me magoar,
+ Fingia qu'erão palabras.
+ Agora d'arte te vingas
+ D'algum meu doudo peccado,
+ Qu'inda que queiras, Domingas,
+ Não posso ser enganado.
+
+ Qualquer cousa busca o seu;
+ A fonte vai para o Tejo,
+ E tu para o teu desejo,
+ Por te vingares do meu.
+ De mi t'esqueces, Domingas,
+ Como eu faço do meu gado:
+ Praza a Deos, que se te vingas,
+ Que morra desesperado.
+
+ Na phantasia te pinto,
+ Fallo-te, responde o monte,
+ Busco o rio, busco a fonte,
+ Endoudeço, e não o sinto:
+ Domingas no valle brado,
+ Responde o eco Domingas;
+ E tu inda te não vingas
+ De me ver doudo tornado!
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Se a alma ver-se não póde
+ Onde pensamentos ferem,
+ Que farei para me crerem?
+
+_Voltas._
+
+ Se n'alma huma só ferida
+ Faz na vida mil sinais,
+ Tanto se descobre mais,
+ Quanto he mais escondida.
+ S'esta dor tão conhecida
+ Me não vem, porque não querem,
+ Que farei para ma crerem?
+
+ Se se pudesse bem ver
+ Quanto callo, e quanto sento,
+ Despois de tanto tormento
+ Cuidaria alegre ser.
+ Mas se não me querem crer
+ Olhos, que tão mal me ferem,
+ Que farei para me crerem?
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vosso bem querer, Senhora,
+ Vosso mal melhor me fôra.
+
+_Voltas._
+
+ Ja agora certo conheço
+ Ser melhor todo tormento,
+ Onde o arrependimento
+ Se compra por justo preço.
+ Enganou-me hum bom comêço;
+ Mas o fim me diz agora
+ Que o mal melhor me fôra.
+
+ Quando hum bem he tão damnoso,
+ Que sendo bem, dá cuidado,
+ O damno fica obrigado
+ A ser menos perigoso.
+ Mas se a mi por desditoso,
+ Co'o bem me foi mal, Senhora,
+ Co'o vosso mal bem me fôra.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Se me desta terra for,
+ Eu vos levarei, amor.
+
+_Voltas._
+
+ Se me for, e vos deixar,
+ (Ponho por caso, que possa)
+ Est'alma minha, qu'he vossa,
+ Comvosco m'ha de ficar.
+ Assi que só por levar
+ A minha alma, se me for,
+ Vos levarei, meu amor.
+
+ Que mal póde maltratar-me,
+ Que comvosco seja mal?
+ Ou que bem póde ser tal,
+ Que sem vós possa alegrar-me?
+ O mal não póde enojar-me,
+ O bem me será maior,
+ Se vos levar, meu amor.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Pequenos contentamentos,
+ Hi buscar quem contenteis,
+ Que a mi não me conheceis.
+
+_Voltas._
+
+ Os gostos, que tantas dores
+ Fizerão ja valer menos,
+ Não os acceita pequenos,
+ Quem nunca teve maiores:
+ Bem parecem vãos favores,
+ Pois tão tarde me quereis,
+ Qu'inda me não conheceis.
+
+ Offereceis-me alegria,
+ Tendo-me ja cego e mouco:
+ He baixeza acceitar pouco,
+ Quem tanto vos merecia.
+ Ide-vos por outra via,
+ Pois o bem que me deveis,
+ Nunca mo satisfareis.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Perdigão perdeo a penna,
+ Não ha mal que lhe não venha.
+
+_Voltas._
+
+ Perdigão, que o pensamento
+ Subio a hum alto lugar,
+ Perde a penna do voar,
+ Ganha a pena do tormento:
+ Não tẽe no ar, nem no vento,
+ Azas com que se sostenha:
+ Não ha mal que lhe não venha.
+
+ Quiz voar a huma alta torre,
+ Mas achou-se desasado;
+ E vendo-se despennado,
+ De puro penado morre.
+ Se a queixumes se soccorre,
+ Lança no fogo mais lenha:
+ Não ha mal que lhe não venha.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA.
+
+ Pois a tantas perdições,
+ Senhoras, quereis dar vida,
+ Ditosa seja a ferida,
+ Que tẽe taes Cirurgiões!
+ Pois ventura
+ Me subio a tanta altura,
+ Que me sejais valedoras,
+ Ditosa seja a tristura,
+ Que se cura
+ Por vossos rogos, Senhoras!
+
+ Ser minha pena mortal,
+ Ja qu'entendeis, que he assi,
+ Não quero fallar por mi,
+ Que por mi falla meu mal.
+ Sois formosas,
+ Haveis de ser piedosas,
+ Por ser tudo d'huma côr;
+ Que pois Amor vos fez rosas
+ Milagrosas,
+ Fazei milagres de Amor.
+
+ Pedi a quem vós sabeis,
+ Que saiba de meu trabalho,
+ Não pelo qu'eu nisso valho,
+ Mas pelo que vós valeis.
+ Que o valer
+ De vosso alto merecer,
+ Com lho pedir de giolhos,
+ Fara qu'em meu padecer
+ Possa ver
+ O poder que tẽe seus olhos.
+
+ Vossa muita formosura
+ Com a sua tanto val,
+ Que me rio de meu mal,
+ Quando cuido em quem me cura.
+ A meus ais,
+ Peço-vos que lhe valhais,
+ Damas de Amor tão valídas,
+ Que nunca tal dor sintais,
+ Que queirais,
+ Onde não sejais queridas.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA ALHEIA.
+
+ Na fonte está Leonor
+ Lavando a talha, e chorando,
+ Ás amigas perguntando:
+ Vistes lá o meu amor?
+
+_Voltas._
+
+ Pôsto o pensamento nelle,
+ Porque a tudo o Amor a obriga,
+ Cantava, mas a cantiga
+ Erão suspiros por elle.
+ Nisto estava Leonor
+ O seu desejo enganando,
+ Ás amigas perguntando:
+ Vistes lá o meu amor?
+
+ O rosto sôbre hũa mão,
+ Os olhos no chão pregados,
+ Que de chorar ja cansados,
+ Algum descanso lhe dão;
+ Desta sorte Leonor
+ Suspende de quando em quando
+ Sua dor; e em si tornando,
+ Mais pezada sente a dor.
+
+ Não deita dos olhos ágoa,
+ Que não quer que a dor s'abrande
+ Amor, porque em mágoa grande
+ Sécca as lagrimas a mágoa.
+ Despois que de seu amor
+ Soube novas perguntando,
+ D'improviso a vi chorando.
+ Olhae que extremos de dor!
+
+ * * * * *
+
+
+ESTAS TROVAS MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA
+DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO D.
+FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FÓRA, PEDINDO-LHE O
+FIZESSE DESEMBARGAR.
+
+ Que diabo ha tão damnado,
+ Que não tema a cutilada
+ Dos fios seccos da espada
+ Do fero Miguel armado?
+ Pois se tanto hum golpe seu
+ Sôa na infernal cadeia;
+ Do que o demonio arreceia
+ Como não fugirei eu?
+
+ Com razão lhe fugiria,
+ Se contr'elle, e contra tudo
+ Não tivesse hum forte escudo
+ Só em Vossa Senhoria.
+ Por tanto, Senhor, proveja,
+ Pois me tẽe ao remo atado,
+ Que antes que seja embarcado,
+ Eu desembargado seja.
+
+ * * * * *
+
+
+ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, INVERNANDO EM GOA.
+
+ Vossa Senhoria creia
+ Que não apura o engenho
+ Fome, se he como a que tenho,
+ Mas afraca e corta a veia.
+ E quem o contrário sente,
+ Está farto em toda a hora,
+ Como estou faminto agora:
+ Mas Martha, se está contente,
+ Dá-lhe pouco de quem chora.
+
+ E pois Vossa Senhoria
+ Em geral a tudo acode,
+ Acuda a mi, que só póde
+ Dar-me no engenho valia.
+ Esperte esta Musa minha,
+ Que o tempo traz somnolenta;
+ Valha-lhe nesta tormenta
+ Com essa doce mézinha,
+ Que só dá vida e contenta.
+
+ Acuda com provisão,
+ Não de papel, mas provída
+ D'ouro e prata; que esta vida
+ Não sustentão papéis, não.
+ De feitor a thesoureiro
+ Ser-me-hia trabalho grande;
+ Vossa Senhoria mande
+ Algum remedio, primeiro,
+ Com que a morte o ferro abrande.
+
+_Ajuda de Luis de Camões._
+
+ Nos livros doutos se trata
+ Que o grande Achilles insano
+ Deo a morte a Heitor Troiano;
+ Mas agora a fome mata
+ O nosso Heitor Lusitano.
+ Só ella o póde acabar,
+ Se essa vossa condição
+ Liberal e singular
+ Não mete entr'elles bastão,
+ Bastante para o fartar.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.
+
+_Esparsa._
+
+ Não posso chegar ao cabo
+ De tamanho desarranjo,
+ Que sendo vós, Senhora, Anjo,
+ Vos queira tanto o Diabo.
+ Dais manifesto sinal
+ De minha muita firmeza,
+ Que os diabos querem mal
+ Aos Anjos por natureza.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA.
+
+ Vi chorar huns claros olhos,
+ Quando delles me partia.
+ Oh que mágoa! Oh que alegria!
+
+_Voltas._
+
+ Polo meu apartamento
+ Se arrazárão todos d'ágoa.
+ Quem cuidou qu'em tanta mágoa
+ Achasse contentamento?
+ Julgue todo entendimento
+ Qual mais sentir se devia,
+ Se esta dor, se esta alegria?
+
+ Quando mais perdido estive,
+ Então deo a est'alma minha
+ Na maior mágoa que tinha,
+ O maior gôsto que tive.
+ Assi, se minha alma vive,
+ Foi porque me defendia
+ Desta dor esta alegria?
+
+ O bem, que Amor me não deu
+ No tempo que desejei,
+ Quando delle me apartei,
+ Me confessou, qu'era meu.
+ Agora que farei eu,
+ Se a fortuna me desvia
+ De lograr esta alegria?
+
+ Não sei se foi enganado,
+ Pois me tinha defendido
+ Das íras de mal querido,
+ No mal de ser apartado.
+ Agora peno dobrado,
+ Achando no fim do dia
+ O princípio da alegria.
+
+ * * * * *
+
+
+VILLANCETE PASTORIL.
+
+ Deos te salve, Vasco amigo.
+ Não me fallas? Como assi?
+ Bofé, Gil, não 'stava aqui.
+
+_Voltas._
+
+ Pois onde te hão de fallar,
+ Se não 'stás onde appareces?
+ Se Magdanela conheces,
+ Nella me pódes achar.
+ E como te hão d'ir buscar
+ Aonde fogem de ti?
+ Pois nem eu estou em mi.
+
+ Porque te não acharei
+ Em ti, como em Magdanela?
+ Porque me fui perder nella
+ O dia que me ganhei.
+ Quem tão bem falla, não sei
+ Como anda fóra de si.
+ Ella falla dentro em mi.
+
+ Como estás aqui presente,
+ Se lá tens a alma e a vida?
+ Porqu'he d'hum'alma perdida
+ Apparecer sempre á gente.
+ Se es morto, bem se consente
+ Que todos fujão de ti.
+ Eu tambem fujo de mi.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO PASTORIL.
+
+ Porque no miras, Giraldo,
+ Mi zampoña como suena?
+ Porque no me mira Elena.
+
+_Voltas._
+
+ Vuelve acá, no estês pasmado,
+ Mira que gentil sonar!
+ Como te podrá mirar
+ Quien no puede ser mirado?
+ Y que bueno enamorado!
+ No dirás, si es mala, o buena?
+ No, que me hizo mudo Elena.
+
+ Mira tan dulce armonía,
+ Déjate dessos enojos.
+ Tengo clavados los ojos
+ Con que mirar te podia.
+ Ansí Dios te dé alegría:
+ No vés cuan dulce que suena?
+ No, porque no veo Elena.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO PASTORIL.
+
+ Crescem, Camilla, os abrolhos
+ De chorares por Cincero:
+ Não he muito, que lhe quero,
+ Belisa, mais que meus olhos.
+
+_Voltas._
+
+ Sempre os teus olhos estão,
+ Camilla, d'ágoas banhados.
+ De se verem desamados
+ Póde ser que chorarão.
+ Si, mas crescem os abrolhos,
+ E tu cegas por Cincero.
+ S'eu não vejo quem mais quero,
+ Para que quero mais olhos?
+
+ Se se foi ha mais d'hum mês,
+ Teus olhos não cansarão?
+ Não, que apos elle se vão
+ Estas lagrimas que vês.
+ Fazem logo estes abrolhos
+ O mato espinhoso e fero.
+ Pois eu não vejo a Cincero,
+ Isso só verão meus olhos.
+
+ Chorando queres morrer?
+ Mais quero viver chorando.
+ Tu não vês que vás cegando?
+ Se cego, como hei de ver?
+ Põe na vista outros antolhos.
+ Não posso, nem menos quero.
+ Outra para outro Cincero,
+ Antes não quero ter olhos.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES.
+
+_Mote._
+
+ Olhos, em qu'estão mil flores,
+ E com tanta graça olhais,
+ Que parece que os Amores
+ Morão onde vós morais.
+
+_Volta._
+
+ Vem-se rosas e boninas,
+ Olhos, nesse vosso ver;
+ Vem-se mil almas arder
+ No fogo dessas meninas.
+ E di-lo-hão minhas dores,
+ Meus suspiros e meus ais;
+ E dirão mais, que os amores
+ Morão onde vós morais.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Quem se confia em huns olhos,
+ Nas meninas delles vê
+ Que meninas não tẽe fé.
+
+_Voltas._
+
+ Quem põe suas confianças
+ Em meninas sem assento,
+ Offereça o soffrimento
+ A duzentas mil mudanças.
+ Mostrão no ar esperanças;
+ Mas em seus olhos se vê
+ Como não tẽe n'alma fé.
+
+ Enganão ao parecer,
+ Porque no caso d'amar,
+ São mulheres no matar,
+ E meninas no querer.
+ Quem em seus olhos se crer,
+ Cem mil graças nelles vê;
+ Vê-las sim, mas não ter fé.
+
+ Amostrão-vos n'hum momento
+ Favores assi a mólhos;
+ Mas na mudança dos olhos
+ Se lhe muda o pensamento.
+ Em nada ja tẽe assento,
+ E o que mais nelles se vê
+ He formosura sem fé.
+
+ * * * * *
+
+
+LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA.
+
+_Cantiga Velha._
+
+ Sois formosa, e tudo tendes,
+ Senão que tendes os olhos verdes,
+
+_Voltas._
+
+ Ninguem vos póde tirar
+ Serdes tão bem assombrada;
+ Mas heis-me de perdoar,
+ Que os olhos não valem nada.
+ Fostes mal aconselhada
+ Em querer que fossem verdes:
+ Trabalhae de os esconderdes.
+
+ A vossa testa he jardim,
+ Onde Amor se desenfada;
+ He tão branca e bem talhada,
+ Que parece de marfim.
+ Assi he; e quanto a mim,
+ Isso vos nasce de a terdes
+ Tão perto dos olhos verdes.
+
+ Os cabellos desatados
+ O mesmo sol escurecem;
+ Senão que por ser ondados,
+ Algum tanto desmerecem:
+ Mas á fé, que se parecem
+ A furto dos olhos verdes,
+ Não vos peze, não, de os terdes.
+
+ As pestanas tẽe mostrado
+ Ser raios, que abrazão vidas:
+ Se não forão tão compridas,
+ Tudo o mais era pintado:
+ Ellas me tinhão levado
+ A alma, sem o vós saberdes,
+ Se não forão os olhos verdes.
+
+ O mimo desse carão
+ Nem pôr-lhe os olhos consente:
+ O ser liso e transparente
+ Rouba todo o coração:
+ Inda assi achareis nação,
+ Que lhe não peze de os verdes;
+ Mas não seja co'os olhos verdes.
+
+ Esse riso, que he compôsto
+ De quantas graças nascêrão,
+ Senão que alguns me disserão,
+ Vos faz covinhas no rôsto.
+ Na vontade tenho posto
+ Dar-vos a alma, se quizerdes,
+ A trôco dos olhos verdes.
+
+ Nunca se vio, nem se escreve
+ Boca co'huma graça igual,
+ Se não fôra de coral,
+ E os dentes de côr de neve.
+ Dou-me eu a Deos, que me leve!
+ Soffrerei quanto tiverdes,
+ Não me tenhais olhos verdes.
+
+ Essa garganta merece
+ Outras palavras não minhas,
+ Senão qu'he feita em rosquinhas
+ D'alfenim, ao que parece.
+ Eu sei bem quem se offerece
+ A tomar tudo o que tendes,
+ E tambem os olhos verdes.
+
+ Essas mãos são ferropeas:
+ Só o vê-las enfeitiça;
+ Senão que são alvas, cheias,
+ E tẽe a feição roliça;
+ Com que appellais por justiça,
+ Para com ellas prenderdes
+ Quem vê vossos olhos verdes.
+
+ A vossa galantaria
+ Matará a quem fallardes:
+ Tendes huns desdens e tardes,
+ Que eu logo vos roubaria.
+ Oh dou-me a Santa Maria!
+ Sou cujo de quanto tendes,
+ E tambem desses olhos verdes.
+
+ * * * * *
+
+
+AO MESMO.
+
+ Tudo tendes singular,
+ Com que os corações rendeis,
+ Senão que rindo, fazeis
+ Covinhas para enterrar:
+ E para resuscitar
+ Tẽe força a graça que tendes;
+ Senão que tendes os olhos verdes.
+
+ Tudo, Senhora, alcançais,
+ Quanto o ser formosa alcança,
+ Senão que dais esperança
+ Co'os olhos com que matais.
+ Se acaso os alevantais,
+ He para as almas renderdes;
+ Senão que tendes os olhos verdes.
+
+ * * * * *
+
+
+A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS
+GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR
+PRINCÍPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA.
+
+ Cinco gallinhas e meia
+ Deve o Senhor de Cascais;
+ E a meia vinha cheia
+ De appetite para as mais.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Catharina bem promette;
+ Ora má! como ella mente!
+
+_Voltas._
+
+ Catharina he mais formosa
+ Para mi, que a luz do dia;
+ Mas mais formosa sería,
+ Se não fosse mentirosa.
+ Hoje a vejo piedosa,
+ Á manhãa tão differente,
+ Que sempre cuido que mente.
+
+ Prometteo-me hontem de vir,
+ Nunca mais appareceo;
+ Creio que não prometteo,
+ Senão só por me mentir.
+ Faz-me, emfim, chorar e rir;
+ Rio, quando me promette,
+ Mas chóro quando me mente.
+
+ Jurou-me aquella cadella
+ De vir, pela alma que tinha;
+ Enganou-me; tinha a minha;
+ Deo-lhe pouco de perdella.
+ A vida gasto apos ella,
+ Porque ma dá, se promette,
+ Mas tira-ma, quando mente.
+
+ Má, mentirosa, malvada,
+ Dizei, porque me mentis?
+ Prometteis, e então fugis?
+ Pois sem tornar, tudo he nada.
+ Não sois bem aconselhada;
+ Que quem promette, se mente,
+ O que perde não o sente.
+
+ Tudo vos consentiria
+ Quanto quizesseis fazer,
+ Se este vosso prometter
+ Fosse por me ter hum dia.
+ Todo então me desfaria
+ Com gôsto; e vós de contente,
+ Zombarieis de quem mente.
+
+ Mas pois folgais de mentir,
+ Promettendo de me ver,
+ Eu vos deixo o prometter,
+ Deixae-me vós o servir:
+ Haveis então de sentir
+ Quanto a minha vida sente
+ O servir a quem lhe mente.
+
+ Catharina me mentio
+ Muitas vezes, sem ter lei,
+ E todas lhe perdoei
+ Por huma só que cumprio.
+ Se como me consentio
+ Fallar-lhe, o mais me consente,
+ Nunca mais direi que mente.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ A alma, qu'está offrecida
+ A tudo, nada lhe he forte;
+ Assi passa o bem da vida,
+ Como passa o mal da morte.
+
+_Volta._
+
+ De maneira me succede
+ O que temo, e o que desejo,
+ Que sempre o que temo, vejo,
+ Nunca o que a vontade pede.
+ Tenho tão offerecida
+ Alma e vida a toda a sorte,
+ Que isso me dera da morte,
+ Como ja me dá da vida.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Ferro, fogo, frio e calma,
+ Todo o mundo acabarão;
+ Mas nunca vos tirarão,
+ Alma minha, da minha alma.
+
+_Volta._
+
+ Não vos guardei, quando vinha,
+ Em tôrre, fôrça, ou engenho;
+ Que mais guardada vos tenho
+ Em vós, que sois alma minha.
+ Alli nem frio, nem calma,
+ Não podem ter jurdição;
+ Na vida sim, porém não
+ Em vós que tenho por alma.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Esperei, ja não espero
+ De mais vos servir, Senhora;
+ Pois me fazeis cada hora
+ Tanto mal, que desespéro.
+
+_Volta._
+
+ Pois sei certo que folgais,
+ Quando mais mal me fazeis,
+ E que nunca descansais,
+ Senão quando me mostrais
+ Quão pouco bem me quereis;
+ Servir-vos mais não espero
+ Pois meu viver empeora
+ Com me fazerdes, Senhora,
+ Tanto mal, que desespéro.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Descalça vai para a fonte
+ Leonor pela verdura;
+ Vai formosa, e não segura.
+
+_Voltas._
+
+ Leva na cabeça o pote,
+ O testo nas mãos de prata,
+ Cinta de fina escarlata,
+ Sainho de chamalote:
+ Traz a vasquinha de cote,
+ Mais branca que a neve pura;
+ Vai formosa, e não segura.
+
+ Descobre a touca a garganta,
+ Cabellos de ouro entrançado,
+ Fita de côr d'encarnado,
+ Tão linda que o mundo espanta:
+ Chove nella graça tanta,
+ Que dá graça á formosura;
+ Vai formosa, e não segura.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Quem disser que a barca pende,
+ Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+
+_Voltas._
+
+ Se vos quereis embarcar,
+ E para isso estais no caes,
+ Entrae logo: que tardaes?
+ Olhae qu'está preamar:
+ E se outrem, por vos fretar,
+ Vos disser qu'esta que pende,
+ Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+
+ Esta barca he de carreira;
+ Tẽe seus apparelhos novos:
+ Não ha como ella outra em Povos
+ Boa de leme, e veleira:
+ Mas, se por ser a primeira,
+ Vos disser alguem que pende,
+ Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Com razão queixar-me posso
+ De vós, que mal vos queixais;
+ Pois, Senhora, vos sangrais,
+ Que seja n'hum corpo vosso.
+
+_Voltas._
+
+ Eu para levar a palma,
+ Com que ser vosso mereça,
+ Quero que o corpo padeça
+ Por vós, que delle sois alma.
+ Vós do corpo vos queixais,
+ Eu queixar-me de vós posso,
+ Porque, tendo hum corpo vosso,
+ Na minha alma vos sangrais.
+
+ E sem fazer differença
+ No que de mi possuis,
+ Pelo pouco que sentis,
+ Dais á minh'alma doença.
+ Porque dous aventurais?
+ Oh não seja o damno nosso!
+ Sangre-se este corpo vosso,
+ Porque, minha alma, vivais.
+
+ E inda, se attentardes bem,
+ Seguis medicina errada,
+ Porque para ser sangrada
+ Hum'alma sangue não tem.
+ E pois em mi sarar posso
+ Males, que á minha alma dais,
+ Se inda outra vez vos sangrais,
+ Seja neste corpo vosso.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Ojos, herido me habeis,
+ Acabad ya de matarme;
+ Mas muerto volved á mirarme,
+ Porque me resusciteis.
+
+_Voltas._
+
+ Pues me distes tal herida,
+ Con gana de darme muerte,
+ El morir me es dulce suerte,
+ Pues con morir me dais vida.
+ Ojos, qué os deteneis?
+ Acabad ya de matarme;
+ Mas muerto volved á mirarme,
+ Porque me resusciteis.
+
+ La llaga cierto ya es mia,
+ Aunque, ojos, vós no querrais;
+ Mas si la muerte me dais,
+ El morir me es alegría.
+ Y así digo que acabeis,
+ O ojos, ya de matarme;
+ Mas muerto volved á mirarme,
+ Porque me resusciteis.
+
+ * * * * *
+
+
+A DONA FRANCISCA DE ARAGÃO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO:
+
+ Mas porém a que cuidados?
+
+ Tanto maiores tormentos
+ Forão sempre os que soffri,
+ Daquillo que cabe em mi,
+ Que não sei que pensamentos
+ São os para que nasci.
+ Quando vejo este meu peito
+ A perigos arriscados
+ Inclinado, bem suspeito
+ Que a cuidados sou sujeito,
+ _Mas porém a que cuidados?_
+
+_Ao mesmo._
+
+ Que vindes em mi buscar,
+ Cuidados, que sou captivo?
+ Eu não tenho que vos dar:
+ Se vindes a me matar,
+ Ja ha muito que não vivo:
+ Se vindes, porque me dais
+ Tormentos desesperados,
+ Eu, que sempre soffri mais,
+ Não digo que não venhais;
+ _Mas porém a que cuidados?_
+
+_Ao mesmo._
+
+ Se as penas que Amor me deu,
+ Vem por tão suaves meios,
+ Não ha que temer receios;
+ Que val hum cuidado meu
+ Por mil descansos alheios.
+ Ter n'huns olhos tão formosos
+ Os sentidos enlevados,
+ Bem sei qu'em baixos estados
+ São cuidados perigosos;
+ _Mas porém a que cuidados?..._
+
+_Carta com a glosa acima._
+
+Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sería assi mais
+seguro: mas agora que he servida de me tornar a resuscitar, por me
+mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de
+agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de
+novo me dá, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me fica
+mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei
+tres entendimentos, segundo as palavras delle pudérão soffrer: se forem
+bons, he mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Campos bem-aventurados,
+ Tornae-vos agora tristes;
+ Que os dias, em que me vistes,
+ Alegres ja são passados.
+
+_Glosa._
+
+ Campos cheios de prazer,
+ Vós qu'estais reverdecendo,
+ Ja m'alegrei com vos ver;
+ Agora venho a temer
+ Qu'entristeçais em me vendo.
+ E pois a vista alegrais
+ Dos olhos desesperados,
+ Não quero que me vejais,
+ Para que sempre sejais,
+ _Campos, bem-aventurados._
+
+ Porém se por accidente
+ Vos pezar de meu tormento,
+ Sabereis que Amor consente
+ Que tudo me descontente,
+ Senão descontentamento.
+ Por isso vós, arvoredos,
+ Que ja nos meus olhos vistes
+ Mais alegria, que medos,
+ Se mos quereis fazer ledos,
+ _Tornae-vos agora tristes._
+
+ Ja me vistes ledo ser,
+ Mas despois que o falso Amor
+ Tão triste me fez viver,
+ Ledos folgo de vos ver,
+ Porque me dobreis a dor.
+ E se este gôsto sobejo
+ De minha dor me sentistes,
+ Julgae quanto mais desejo
+ As horas que vos não vejo,
+ _Que os dias em que me vistes._
+
+ O tempo, qu'he desigual,
+ De seccos, verdes vos tem;
+ Porqu'em vosso natural
+ Se muda o mal para o bem,
+ Mas o meu para mor mal.
+ Se perguntais, verdes prados,
+ Pelos tempos differentes
+ Que de Amor me forão dados,
+ Tristes, aqui são presentes,
+ _Alegres, ja são passados._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Trabalhos descansarião
+ Se para vós trabalhasse;
+ Tempos tristes passarião,
+ Se algum'hora vos lembrasse.
+
+_Glosa._
+
+ Nunca o prazer se conhece,
+ Senão despois da tormenta:
+ Tão pouco o bem permanece,
+ Que se o descanso florece,
+ Logo o trabalho arrebenta.
+ Sempre os bens se lograrião,
+ Mas os males tudo atalhão;
+ Porém ja que assi porfião,
+ Onde descansos trabalhão,
+ _Trabalhos descansarião._
+
+ Qualquer trabalho me fôra
+ Por vós grão contentamento:
+ Nada sentira, Senhora,
+ Se víra disto algum'hora
+ Em vós hum conhecimento.
+ Por mal que o mal me tratasse,
+ Tudo por bem tomaria;
+ Postoque o corpo cansasse,
+ A alma descansaria,
+ _Se para vós trabalhasse._
+
+ Quem vossas cruezas ja
+ Soffreo, a tudo se poz;
+ Costumado ficará;
+ E muito melhor será,
+ Se trabalhar para vós.
+ Tristezas esquecerião,
+ Postoque mal me tratárão;
+ Annos não me lembrarião,
+ Que como est'outros passarão,
+ _Tempos tristes passarião._
+
+ Se fosse galardoado
+ Este trabalho tão duro,
+ Não vivêra magoado.
+ Mas não o foi o passado,
+ Como o será o futuro?
+ De cansar não cansaria,
+ Se quizereis, que cansasse;
+ Cavar, morrer, fa-lo-hia;
+ Tudo, emfim, esqueceria,
+ _Se algum'hora vos lembrasse._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Triste vida se me ordena,
+ Pois quer vossa condição
+ Que os males, que dais por pena,
+ Me fiquem por galardão.
+
+_Glosa._
+
+ Despois de sempre soffrer,
+ Senhora, vossas cruezas,
+ A pezar de meu querer,
+ Me quereis satisfazer
+ Meus serviços com tristezas.
+ Mas, pois em balde resiste
+ Quem vossa vista condena,
+ Prestes estou para a pena;
+ Que de galardão tão triste
+ _Triste vida se me ordena._
+
+ De contente do mal meu
+ A tão grande extremo vim,
+ Que consinto em minha fim:
+ Assi que vós e mais eu,
+ Ambos somos contra mim.
+ Mas que soffra meu tormento,
+ Sem querer mais galardão,
+ Não he fóra de razão
+ Que queira meu soffrimento,
+ _Pois quer vossa condição._
+
+ O mal, que vós dais por bem,
+ Esse, Senhora, he mortal;
+ Que o mal, que dais como mal,
+ Em muito menos se tem,
+ Por costume natural.
+ Mas porém nesta victoria,
+ Que comigo he bem pequena,
+ A maior dor me condena
+ A pena, que dais por gloria,
+ _Que os males, que dais por pena._
+
+ Que mor bem me possa vir,
+ Que servir-vos, não o sei.
+ Pois que mais quero eu pedir,
+ Se quanto mais vos servir,
+ Tanto mais vos deverei?
+ Se vossos merecimentos
+ De tão alta estima são,
+ Assaz de favor me dão
+ Em querer que meus tormentos
+ _Me fiquem por galardão._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Ja não posso ser contente,
+ Tenho a esperança perdida;
+ Ando perdido entre a gente,
+ Nem morro, nem tenho vida.
+
+_Glosa._
+
+ Despois que meu cruel Fado
+ Destruio huma esperança,
+ Em que me vi levantado,
+ No mal fiquei sem mudança,
+ E do bem desesperado.
+ O coração, que isto sente,
+ Á sua dor não resiste,
+ Porque vê mui claramente
+ Que pois nasci para triste,
+ _Ja não posso ser contente._
+
+ Por isso, contentamentos,
+ Fugi de quem vos despreza:
+ Ja fiz outros fundamentos,
+ Ja fiz senhora a tristeza
+ De todos meus pensamentos.
+ O menos que lh'entreguei,
+ Foi esta cansada vida:
+ Cuido que nisto acertei,
+ Porque de quanto esperei
+ _Tenho a esperança perdida._
+
+ Acabar de me perder
+ Fôra ja muito melhor;
+ Tivera fim esta dor,
+ Que não podendo mor ser,
+ Cada vez a sinto mor.
+ De vós desejo esconder-me,
+ E de mi principalmente,
+ Onde ninguem possa ver-me;
+ Que pois me ganho em perder-me,
+ _Ando perdido entre a gente._
+
+ Gostos de mudanças cheios,
+ Não me busqueis, não vos quero:
+ Tenho-vos por tão alheios,
+ Que do bem que não espero,
+ Inda me ficão receios.
+ Em pena tão sem medida,
+ Em tormento tão esquivo
+ Que morra, ninguem duvída;
+ Mas eu se morro, ou se vivo,
+ _Nem morro, nem tenho vida._
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA.
+
+_Mote._
+
+ A morte, pois que sou vosso,
+ Não a quero; mas se vem,
+ Ha de ser todo meu bem.
+
+_Glosa._
+
+ Amor, qu'em meu pensamento
+ Com tanta fé se fundou,
+ Me tẽe dado hum regimento,
+ Que quando vir meu tormento
+ Me salve com cujo sou.
+ E com esta defensão,
+ Com que tudo vencer posso,
+ Diz a causa ao coração:
+ Não tẽe em mi jurdição
+ _A morte, pois que sou vosso._
+
+ Por exprimentar hum dia
+ Amor se me achava forte
+ Nesta fé, como dizia,
+ Me convidou com a morte,
+ Só por ver se a temeria.
+ E como ella seja a cousa
+ Onde está todo meu bem,
+ Respondi-lhe, como quem
+ Quer dizer mais, e não ousa:
+ _Não a quero, mas se vem..._
+
+ Não disse mais, porque então
+ Entendeo quanto me toca;
+ E se tinha dito o não,
+ Muitas vezes diz a boca,
+ O que nega o coração.
+ Toda a cousa defendida
+ Em mais estima se tem:
+ Por isso he cousa sabida,
+ Que perder por vós a vida
+ _Ha de ser todo meu bem._
+
+ * * * * *
+
+
+Á MESMA DAMA.
+
+ Vejo-a n'alma pintada,
+ Quando me pede o desejo
+ O natural que não vejo.
+
+_Glosa._
+
+ Se só de ver puramente
+ Me transformei no que vi,
+ De vista tão excellente
+ Mal poderei ser ausente,
+ Em quanto o não for de mi.
+ Porque a alma namorada
+ A traz tão bem debuxada,
+ E a memoria tanto voa,
+ Que se a não vejo em pessoa,
+ _Vejo-a n'alma pintada._
+
+ O desejo, que s'estende
+ Ao que menos se concede,
+ Sôbre vós pede e pretende,
+ Como o doente que pede
+ O que mais se lhe defende.
+ Eu, qu'em ausencia vos vejo,
+ Tenho piedade e pejo
+ De me ver tão pobre estar,
+ Qu'então não tenho que dar,
+ _Quando me pede o desejo._
+
+ Como áquelle que cegou,
+ He cousa vista e notoria,
+ Que a natureza ordenou
+ Que se lhe dobre em memoria
+ O qu'em vista lhe faltou:
+ Assi a mi, que não vejo
+ Co'os olhos o que desejo,
+ Na memoria e na firmeza
+ Me concede a natureza
+ _O natural que não vejo._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Sem vós, e com meu cuidado,
+ Olhae com quem, e sem quem.
+
+_Glosa._
+
+ Vendo Amor que com vos ver
+ Mais levemente soffria
+ Os males que me fazia,
+ Não me pôde isto soffrer;
+ Conjurou-se com meu Fado;
+ Hum novo mal me ordenou:
+ Ambos me levão forçado,
+ Não sei onde, pois que vou
+ _Sem vós e com meu cuidado._
+
+ Não sei qual he mais estranho
+ Destes dous males que sigo,
+ Se não vos ver, se comigo
+ Levar imigo tamanho.
+ O que fica, e o que vem,
+ Hum me mata, outro desejo:
+ Com tal mal, e sem tal bem,
+ Em taes extremos me vejo:
+ _Olhae com quem, e sem quem_!
+
+ * * * * *
+
+
+AO MESMO.
+
+ Amor, cuja providencia
+ Foi sempre que não errasse,
+ Porque n'alma vos levasse,
+ Respeitando o mal d'ausencia,
+ Quiz qu'em vós me transformasse.
+ E vendo-me ir maltratado,
+ Eu e meu cuidado sós,
+ Proveo nisso de attentado,
+ Por não me ausentar de vós,
+ _Sem vós, e com meu cuidado._
+
+ Mas est'alma, qu'eu trazia,
+ Porque vós nella morais,
+ Deixa-me cego, e sem guia;
+ Que ha por melhor companhia
+ Ficar onde vós ficais.
+ Assi me vou de meu bem,
+ Onde quer a forte estrella,
+ Sem alma, qu'em si vos tem,
+ Co'o mal de viver sem ella:
+ _Olhae com quem, e sem quem_!
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Sem ventura he por demais.
+
+_Glosa._
+
+ Todo o trabalhado bem
+ Promette gostoso fruito;
+ Mas os trabalhos, que vem,
+ Para quem dita não tem
+ Valem pouco, e custão muito.
+ Rompe toda a pedra dura,
+ Faz os homens immortais
+ O trabalho quando atura;
+ Mas querer achar ventura,
+ _Sem ventura, he por demais._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Minh'alma, lembrae-vos della.
+
+_Glosa._
+
+ Pois o ver-vos tenho em mais
+ Que mil vidas que me deis,
+ Assi como a que me dais,
+ Meu bem, ja que mo negais,
+ Meus olhos, não mo negueis.
+ E se a tal estado vim
+ Guiado de minha estrella,
+ Quando houverdes dó de mim,
+ Minha vida, dae-lhe a fim,
+ _Minh'alma, lembrae-vos della._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Tudo póde huma affeição.
+
+_Glosa._
+
+ Tẽe tal jurdição Amor
+ N'alma donde se aposenta,
+ E de que se faz senhor,
+ Que a liberta e isenta
+ De todo humano temor.
+ E com mui justa razão,
+ Como senhor soberano,
+ Que Amor não consente dano.
+ E pois me soffre tenção,
+ Gritarei por desengano:
+ _Tudo póde huma affeição._
+
+ * * * * *
+
+
+TROVA DE BOSCÃO.
+
+ Justa fué mi perdicion;
+ De mis males soy contento;
+ Ya no espero galardon,
+ Pues vuestro merecimiento
+ Satisfizo mi pasion.
+
+_Glosa._
+
+ Despues que Amor me formó
+ Todo de amor, cual me veo,
+ En las leyes, que me dió,
+ El mirar me consintió,
+ Y defendióme el deseo.
+ Mas el alma, como injusta,
+ En viendo tal perfeccion,
+ Dió al deseo ocasion:
+ Y pues quebré ley tan justa,
+ _Justa fué mi perdicion._
+
+ Mostrándoseme el Amor
+ Mas benigno que cruel,
+ Sobre tirano traidor,
+ De zelos de mi dolor,
+ Quiso tomar parte en él.
+ Yo que tan dulce tormento
+ No quiero dallo, aunque peco,
+ Resisto, y no lo consiento;
+ Mas si me lo toma á trueco
+ _De mis males, soy contento._
+
+ Señora, ved lo que ordena
+ Este Amor tan falso nuestro!
+ Por pagar á costa agena,
+ Manda que de un mirar vuestro
+ Haga el premio de mi pena.
+ Mas vos, para que veais
+ Tan engañosa intencion,
+ Aunque muerto me sintais,
+ No mireis, que si mirais,
+ _Ya no espero galardon._
+
+ Pues que premio (me direis)
+ Esperas que será bueno?
+ Sabed, sino lo sabeis,
+ Que es lo mas de lo que peno
+ Lo menos que mereceis.
+ Quien hace al mal tan ufano,
+ Y tan libre al sentimiento?
+ El deseo? No, que es vano.
+ El amor? No, que es tirano.
+ _Pues? Vuestro merecimiento._
+
+ No pudiendo Amor robarme
+ De mis tan caros despojos,
+ Aunque fué por mas honrarme,
+ Vos sola para matarme
+ Le prestastes vuestros ojos.
+ Matáranme ambos á dos;
+ Mas á vos con mas razon
+ Debe el la satisfaccion;
+ Que á mi por él, y por vos,
+ _Satisfizo mi pasion._
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Todo es poco lo posible.
+
+_Glosa._
+
+ Ved que engaño señorea
+ Nuestro juicio tan loco,
+ Que por mucho que se crea,
+ Todo el bien, que se desea,
+ Alcanzado, queda poco.
+ Un bien de cualquiera grado,
+ Si de haberse es imposible,
+ Queda mucho deseado.
+ Mas para mucho, alcanzado,
+ _Todo es poco lo posible._
+
+_Outro._
+
+ Posible es á mi cuidado
+ Poderme hacer satisfecho,
+ Si fuera posible al hado
+ Hacer no hecho lo hecho,
+ Y futuro lo pasado.
+ Si olvido pudiera haber,
+ Fuera remedio sufrible;
+ Mas ya que no puede ser,
+ Para contento me hacer,
+ _Todo es poco lo posible._
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vos teneis mi corazon.
+
+_Glosa._
+
+ Mi corazon me han robado;
+ Y Amor viendo mis enojos,
+ Me dijo: Fuéte llevado
+ Por los mas hermosos ojos,
+ Que desque vivo he mirado.
+ Gracias sobrenaturales
+ Te lo tienen en prision.
+ Y si Amor tiene razon,
+ Señora, por las señales,
+ _Vos teneis mi corazon._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Qué veré que me contente?
+
+_Glosa._
+
+ Desque una vez yo miré,
+ Señora, vuestra beldad,
+ Jamas por mi voluntad
+ Los ojos de vos quité.
+ Pues sin vos placer no siente
+ Mi vida, ni lo desea,
+ Si no quereis que yo os vea,
+ _Qué veré que me contente?_
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Sem vós, e com meu cuidado.
+
+_Glosa._
+
+ Querendo Amor esconder-vos
+ Em parte que vos não visse,
+ Co'o extremo de querer-vos
+ Cegou-me os olhos com ver-vos,
+ Levou-vos, sem que vos visse.
+ Eu cego, mas atinado,
+ Quando vi que vos não via,
+ Do mesmo Amor indignado,
+ Ja vêdes qual ficaria
+ _Sem vós e com meu cuidado._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Retrato, vós não sois meu;
+ Retratárão-vos mui mal;
+ Que a serdes meu natural,
+ Foreis mofino como eu.
+
+_Glosa._
+
+ Indaqu'em vós a arte vença
+ O que o natural tẽe dado,
+ Não fostes bem retratado;
+ Que ha em vós mais differença,
+ Que no vivo do pintado.
+ Se o lugar se considera
+ Do alto estado, que vos deu
+ A sorte, qu'eu mais quizera;
+ Se he qu'eu sou quem d'antes era,
+ _Retrato, vós não sois meu._
+
+ Vós na vossa glória pôsto,
+ Eu na minha sepultura,
+ Vós com bens, eu com desgôsto;
+ Pareceis-vos ao meu rosto,
+ E não ja á minha ventura.
+ E pois nella e vós errarão
+ O qu'em mi he principal,
+ Muito em ambos s'enganárão.
+ Se por mi vós retratárão,
+ _Retratárão-vos mui mal._
+
+ Mas se esse rosto fingido
+ Quizerão representar,
+ E houverão por bom partido
+ Dar-vos a alma do sentido
+ Para a glória do lugar;
+ Víreis, pôsto nessa alteza,
+ Que vos não ha cousa igual;
+ E que nem a maior mal
+ Podeis vir, nem mor baixeza,
+ _Que a serdes meu natural._
+
+ Por isso não confesseis
+ Serdes meu, qu'he desatino,
+ Com que o lugar perdereis:
+ Se conservar-vos quereis,
+ Blazonae que sois divino.
+ Que se nesta occasião
+ Conhecessem qu'ereis meu,
+ Por meu vos derão de mão,
+ . . . . . . . . . .
+ _Fôreis mofino, como eu._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Foi-se gastando a esperança,
+ Fui entendendo os enganos;
+ Do mal ficárão-me os danos,
+ E do bem só a lembrança.
+
+_Glosa._
+
+ Nunca em prazeres passados
+ Tive firmeza segura.
+ Antes tão arrebatados,
+ Qu'inda não erão chegados,
+ Quando mos levou ventura.
+ E como quem desconfia
+ Ter em tal sorte mudança,
+ No meio desta porfia,
+ De quanto bem pretendia
+ _Foi-se gastando a esperança._
+
+ Não tive por desatino
+ A occasião de perdella;
+ Mas foi culpa do destino,
+ Que a ninguem, como mais dino,
+ Amor pudéra sostella.
+ Dei-lhe tudo o qu'era seu,
+ Não receando taes danos
+ Deste, a quem alma lhe deu:
+ Quando ja não era meu,
+ _Fui entendendo os enganos._
+
+ Fiquei deste mal sobejo
+ A quem a causa compete
+ Dizer-lhe tudo o que vejo,
+ Que Amor acceita o desejo,
+ Mas mente no que promete.
+ Que se a mi se me obrigou
+ A dar-me bens soberanos,
+ Foi engano que ordenou;
+ Que do bem tudo levou,
+ _Do mal ficárão-me os danos._
+
+ E se dor tão desigual
+ Soffro em mi com padecellos,
+ Quero de novo soffrellos;
+ Que por a causa ser tal,
+ Não determino offendellos.
+ Dobre-se o mal, falte a vida,
+ Cresça a fé, falte a esperança,
+ Pois foi mal agradecida;
+ Fique a dor n'alma imprimida,
+ _E do bem só a lembrança._
+
+ * * * * *
+
+
+ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA.
+
+ Aquella captiva,
+ Que me tẽe captivo,
+ Porque nella vivo,
+ Ja não quer que viva.
+ Eu nunca vi rosa
+ Em suaves mólhos,
+ Que para meus olhos
+ Fosse mais formosa.
+
+ Nem no campo flores,
+ Nem no ceo estrellas,
+ Me parecem bellas,
+ Como os meus amores.
+ Rosto singular,
+ Olhos socegados,
+ Pretos e cansados,
+ Mas não de matar.
+
+ Huma graça viva,
+ Que nelles lhe mora,
+ Para ser senhora
+ De quem he captiva.
+ Pretos os cabellos,
+ Onde o povo vão
+ Perde opinião,
+ Que os louros são bellos.
+
+ Pretidão de Amor,
+ Tão doce a figura,
+ Que a neve lhe jura
+ Que trocára a cór.
+ Leda mansidão,
+ Que o siso acompanha,
+ Bem parece estranha,
+ Mas barbara não.
+
+ Presença serena,
+ Que a tormenta amansa:
+ Nella emfim descansa
+ Toda minha pena.
+ Esta he a captiva,
+ Que me tẽe captivo;
+ E pois nella vivo,
+ He fôrça que viva.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Quem ora soubesse
+ Onde o Amor nasce,
+ Que o semeasse!
+
+_Voltas._
+
+ D'Amor e seus danos
+ Me fiz lavrador;
+ Semeava amor,
+ E colhia enganos;
+ Não vi, em meus anos,
+ Homem que apanhasse
+ O que semeasse.
+
+ Vi terra florída
+ De lindos abrolhos,
+ Lindos para os olhos,
+ Duros para a vida.
+ Mas a rez perdida,
+ Que tal herva pasce,
+ Em forte hora nasce.
+
+ Com quanto perdi,
+ Trabalhava em vão:
+ Se semeei grão,
+ Grande dor colhi.
+ Amor nunca vi
+ Que muito durasse,
+ Que não magoasse.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Se me levão ágoas,
+ Nos olhos as levo.
+
+_Voltas._
+
+ Se de saudade
+ Morrerei ou não,
+ Meus olhos dirão
+ De mi a verdade.
+ Por elles me atrevo
+ A lançar as ágoas,
+ Que mostrem as mágoas
+ Que nesta alma levo.
+
+ As ágoas, qu'em vão
+ Me fazem chorar,
+ Se ellas são do mar,
+ Estas de amar são.
+ Por ellas relévo
+ Todas minhas mágoas;
+ Que se fôrça d'ágoas
+ Me leva, eu as levo.
+
+ Todas me entristecem,
+ Todas são salgadas;
+ Porém as choradas
+ Doces me parecem.
+ Correi, doces ágoas,
+ Que se em vós m'enlévo,
+ Não doem as mágoas,
+ Que no peito levo.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Menina dos olhos verdes,
+ Porque me não vedes?
+
+_Voltas._
+
+ Elles verdes são,
+ E tẽe por usança
+ Na côr esperança,
+ E nas obras não.
+ Vossa condição
+ Não he d'olhos verdes,
+ Porque me não vêdes.
+
+ Isenções a mólhos
+ Qu'elles dizem terdes,
+ Não são d'olhos verdes,
+ Nem de verdes olhos.
+ Sirvo de giolhos,
+ E vós não me credes,
+ Porque me não vêdes.
+
+ Havião de ser,
+ Porque possa vê-los,
+ Que huns olhos tão bellos
+ Não se hão d'esconder:
+ Mas fazeis-me crer,
+ Que ja não são verdes,
+ Porque me não vêdes.
+
+ Verdes não o são,
+ No que alcanço delles;
+ Verdes são aquelles
+ Qu'esperança dão.
+ Se na condição
+ Está serem verdes,
+ Porque me não vedes?
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Trocae o cuidado,
+ Senhora, comigo;
+ Vereis o perigo,
+ Qu'he ser desamado.
+
+_Voltas._
+
+ Se trocar desejo
+ O amor entre nós,
+ He para qu'em vós
+ Vejais o que vejo.
+ E sendo trocado
+ Este amor comigo,
+ Ser-vos-ha castigo
+ Terdes meu cuidado.
+
+ Tendes o sentido
+ D'Amor livre e isento,
+ E cuidais qu'he vento
+ Ser tão mal querido.
+ Não seja o cuidado
+ Tão vosso inimigo,
+ Que queira o perigo
+ De ser desamado.
+
+ Mas nunca foi tal
+ Este meu querer,
+ Que a quem tanto quer,
+ Queira tanto mal
+ Seja eu maltratado,
+ E nunca o castigo
+ Vos mostre o perigo,
+ Qu'he ser desamado.
+
+ * * * * *
+
+
+Á TENÇÃO DE MIRAGUARDA.
+
+ Ver, e mais guardar
+ De ver outro dia,
+ Quem o acabaria?
+
+_Voltas._
+
+ Da lindeza vossa,
+ Dama, quem a vê,
+ Impossivel he
+ Que guardar-se possa.
+ Se faz tanta mossa
+ Ver-vos hum só dia,
+ Quem se guardaria?
+
+ Melhor deve ser
+ Neste aventurar
+ Ver, e não guardar,
+ Que guardar e ver.
+ Ver e defender,
+ Muito bom sería,
+ Mas quem poderia?
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Irme quiero, madre,
+ Á aquella galera,
+ Con el marinero,
+ Á ser marinera.
+
+_Voltas._
+
+ Madre, si me fuere,
+ Do quiera que vó,
+ No lo quiero yo,
+ Que el Amor lo quiere.
+ Aquel niño fiero,
+ Hace que me mueva
+ Por un marinero
+ Á ser marinera.
+
+ El que todo puede,
+ Madre, no podrá,
+ Pues el alma vá,
+ Que el cuerpo se quede.
+ Con él por que muero
+ Voy, porque no muera;
+ Que si es marinero,
+ Seré marinera.
+
+ Es tirana ley
+ Del niño Señor,
+ Que por un amor
+ Se deseche un Rey.
+ Pues desta manera
+ Quiero irme, quiero
+ Por un marinero
+ Á ser marinera.
+
+ Decid, ondas, cuando
+ Vistes vos doncella,
+ Siendo tierna y bella,
+ Andar navegando?
+ Mas qué no se espera
+ Daquel niño fiero?
+ Vea yo quien quiero,
+ Sea marinera.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Saudade minha,
+ Quando vos veria?
+
+_Voltas._
+
+ Este tempo vão,
+ Esta vida escassa,
+ Para todos passa,
+ Só para mi não.
+ Os dias se vão
+ Sem ver este dia,
+ Quando vos veria.
+
+ Vêde esta mudança
+ Se está bem perdida,
+ Em tão curta vida
+ Tão longa esperança.
+ Se este bem se alcança,
+ Tudo soffreria,
+ Quando vos veria.
+
+ Saudosa dor,
+ Eu bem vos entendo;
+ Mas não me defendo,
+ Porque offendo Amor.
+ Se fôsseis maior,
+ Em maior valia
+ Vos estimaria.
+
+ Minha saudade,
+ Charo penhor meu,
+ A quem direi eu
+ Tamanha verdade?
+ Na minha vontade
+ De noite e de dia
+ Sempre vos teria.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Vida da minha alma,
+ Não vos posso ver:
+ Isto não he vida
+ Para se soffrer.
+
+_Voltas._
+
+ Quando vos eu via,
+ Esse bem lograva,
+ A vida estimava,
+ Pois então vivia;
+ Porque vos servia
+ Só para vos ver.
+ Ja que vos não vejo
+ Para qu'he viver?
+
+ Vivo sem razão,
+ Porqu'em minha dor
+ Não a poz Amor;
+ Que inimigos são.
+ Mui grande traição
+ Me obriga a fazer
+ Que viva, Senhora,
+ Sem vos poder ver.
+
+ Não me atrevo ja,
+ Minha tão querida,
+ A chamar-vos vida,
+ Porque a tenho má.
+ Ninguem cuidará,
+ Que isto póde ser,
+ Sendo-me vós vida,
+ Não poder viver.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Coifa de beirame
+ Namorou Joanne.
+
+_Voltas._
+
+ Por cousa tão pouca
+ Andas namorado?
+ Amas o toucado,
+ E não quem o touca?
+ Ando cega e louca
+ Por ti, meu Joanne,
+ Tu pelo beirame.
+
+ Amas o vestido?
+ Es falso amador.
+ Tu não vês que Amor
+ Se pinta despido?
+ Cego e mui perdido
+ Andas por beirame,
+ E eu por ti, Joanne.
+
+ A todos encanta
+ Tua parvoice;
+ De tua doudice
+ Gonçalo s'espanta,
+ E zombando canta:
+ Coifa de beirame,
+ Namorou Joanne.
+
+ Eu não sei que viste
+ Neste meu toucado,
+ Que tão namorado
+ Delle te sentiste.
+ Não te veja triste;
+ Ama-me, Joanne,
+ E deixa o beirame.
+
+ Joanne gemia,
+ Maria chorava,
+ E assi lamentava
+ O mal que sentia:
+ (Os olhos feria,
+ E não o beirame,
+ Que matou Joanne)
+
+ Não sei do que vem
+ Amares vestido;
+ Que o mesmo Cupido
+ Vestido não tem.
+ Sabes de que vem
+ Amares beirame?
+ Vem de ser Joanne.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Se Helena apartar
+ Do campo seus olhos,
+ Nascerão abrolhos.
+
+_Voltas._
+
+ A verdura amena,
+ Gados, que pasceis,
+ Sabei que a deveis
+ Aos olhos d'Helena.
+ Os ventos serena,
+ Faz flores d'abrolhos
+ O ar de seus olhos.
+
+ Faz serras florídas,
+ Faz claras as fontes:
+ S'isto faz nos montes,
+ Que fara nas vidas?
+ Tra-las suspendidas,
+ Como hervas em mólhos,
+ Na luz de seus olhos.
+
+ Os corações prende
+ Com graça inhumana;
+ De cada pestana
+ Hum'alma lhe pende.
+ Amor se lhe rende,
+ E pôsto em giolhos,
+ Pasma nos seus olhos.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Verdes são os campos
+ De côr de limão;
+ Assi são os olhos
+ Do meu coração.
+
+_Voltas._
+
+ Campo, que t'estendes
+ Com verdura bella;
+ Ovelhas, que nella
+ Vosso pasto tendes;
+ D'hervas vos mantendes
+ Que traz o verão;
+ E eu das lembranças
+ Do meu coração.
+
+ Gados, que pasceis
+ Com contentamento,
+ Vosso mantimento
+ Não no entendeis.
+ Isso que comeis,
+ Não são hervas, não;
+ São graça dos olhos
+ Do meu coração.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Verdes são as hortas
+ Com rosas e flores:
+ Moças, que as régão,
+ Matão-me d'amores.
+
+_Voltas._
+
+ Entre estes penedos
+ Que daqui parecem,
+ Verdes hervas crescem,
+ Altos arvoredos.
+ Vai destes rochedos
+ Ágoa, com que as flores
+ D'outras são regadas,
+ Que mátão d'amores.
+
+ Com ágoa, que cai
+ Daquella espessura,
+ Outra se mistura,
+ Que dos olhos sai:
+ Toda junta vai
+ Regar brancas flores;
+ Onde ha outros olhos,
+ Que mátão d'amores.
+
+ Celestes jardins,
+ As flores estrellas:
+ Hortelôas dellas
+ São huns seraphins.
+ Rosas e jasmins
+ De diversas côres,
+ Anjos, que as régão,
+ Mátão-me d'amores.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Menina formosa,
+ Dizei de que vem
+ Serdes rigorosa
+ A quem vos quer bem?
+
+_Voltas._
+
+ Não sei quem assella
+ Vossa formosura;
+ Que quem he tão dura
+ Não póde ser bella.
+ Vós sereis formosa;
+ Mas a razão tem
+ Que quem he irosa,
+ Não parece bem.
+
+ A mostra he de bella,
+ As obras são cruas:
+ Pois qual destas duas
+ Ficará na sella?
+ Se ficar _irosa_,
+ Não vos está bem:
+ Fique antes _formosa_,
+ Que mais fôrça tem.
+
+ O Amor formoso
+ Se pinta e se chama:
+ Se he amor, ama,
+ Se ama, he piedoso.
+ Diz agora a grosa
+ Que este texto tem,
+ Que quem he formosa
+ Ha de querer bem.
+
+ Havei dó, menina,
+ Dessa formosura;
+ Que se a terra he dura,
+ Secca-se a bonina.
+ Sêde piedosa;
+ Não veja ninguem
+ Que por rigorosa
+ Percais tanto bem.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Tende-me mão nelle,
+ Que hum real me deve.
+
+_Voltas._
+
+ C'hum real d'amor,
+ Dous de confiança,
+ E tres d'esperança,
+ Me foge o trédor.
+ Falso desamor
+ S'encerra naquelle
+ Que hum real me deve.
+
+ Pedio-mo emprestado,
+ Não lhe quiz penhor:
+ He mao pagador;
+ Tendo-mo afferrado.
+ C'hum cordel atado,
+ Ao Tronco se leve;
+ Que hum real me deve.
+
+ Por esta travéssa
+ Se vai acolhendo:
+ Ei-lo vai correndo,
+ Fugindo a grã pressa.
+ Nesta mão, e nessa
+ O falso se atreve,
+ Que hum real me deve.
+
+ Comprou-me o amor,
+ Sem lhe fazer preço:
+ Eu não lhe mereço
+ Dar-me desfavor.
+ Dá-me tanta dor,
+ Que ando apos elle
+ Pelo que me deve.
+
+ Eu de cá bradando,
+ Elle vai fugindo;
+ Elle sempre rindo,
+ Eu sempre chorando.
+ E de quando em quando
+ No amor se atreve,
+ Como que não deve.
+
+ A fallar verdade
+ Elle ja pagou;
+ Mas ainda ficou
+ Devendo ametade.
+ Minha liberdade
+ He a que me deve:
+ Só nella se atreve.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Dó la mi ventura,
+ Que no veo alguna?
+
+_Voltas._
+
+ Sepa quien padece,
+ Que en la sepultura
+ Se esconde ventura
+ De quien la merece.
+ Allá me parece,
+ Que quiere fortuna
+ Que yo halle alguna.
+
+ Naciendo mesquino,
+ Dolor fué mi cama;
+ Tristeza fué el ama,
+ Cuidado el padrino.
+ Vestióse el destino
+ Negra vestidura,
+ Huyó la ventura.
+
+ No se halló tormento,
+ Que alli no se hallase;
+ Ni bien, que pasase,
+ Sinó como viento.
+ Oh qué nacimiento,
+ Que luego en la cuna
+ Me siguió fortuna!
+
+ Esta dicha mia,
+ Que siempre busqué,
+ Buscándola, hallé
+ Que no la hallaria;
+ Que quien nace en dia
+ D'estrella tan dura,
+ Nunca halla ventura.
+
+ No puso mi estrella
+ Mas ventura em min:
+ Ansí vive en fin
+ Quien nace sin ella.
+ No me quejo della;
+ Quéjome que atura
+ Vida tan escura.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Vida de minha alma.
+
+_Volta._
+
+ Dous tormentos vejo
+ Grandes por extremo:
+ Se vos vejo, temo,
+ E se não, desejo.
+ Quando me despejo,
+ E venho a escolher,
+ Temendo o desejo,
+ Desejo temer.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA ALHEIA.
+
+ Pastora da serra,
+ Da serra da Estrella,
+ Perco-me por ella.
+
+_Voltas._
+
+ Nos seus olhos bellos
+ Tanto Amor se atreve,
+ Que abraza entre a neve
+ Quantos ousão vellos.
+ Não sólta os cabellos
+ Aurora mais bella:
+ Perco-me por ella.
+
+ Não teve esta serra
+ No meio d'altura
+ Mais que a formosura,
+ Que nella se encerra.
+ Bem ceo fica a terra,
+ Que tẽe tal estrella:
+ Perco-me por ella.
+
+ Sendo entre pastores
+ Causa de mil males,
+ Não se ouvem nos vales
+ Senão seus louvores.
+ Eu só por amores
+ Não sei fallar nella,
+ Sei morrer por ella.
+
+ D'alguns, que sentindo
+ Seu mal vão mostrando.
+ Se ri, não cuidando
+ Qu'inda paga rindo.
+ Eu triste, encobrindo
+ Só meus males della,
+ Perco-me por ella.
+
+ Se flores deseja
+ Por ventura bellas,
+ Das que colhe dellas
+ Mil morrem d'inveja.
+ Não ha quem não veja
+ Todo o melhor nella:
+ Perco-me por ella.
+
+ Se n'ágoa corrente
+ Seus olhos inclina,
+ Faz a luz divina
+ Parar a corrente.
+ Tal se vê, que sente
+ Por ver-se a ágoa nella:
+ Perco-me por ella.
+
+ * * * * *
+
+
+ENDECHAS.
+
+ Vós sois huma Dama
+ Das feias do mundo;
+ De toda a má fama
+ Sois cabo profundo.
+
+ A vossa figura
+ Não he para ver;
+ Em vosso poder
+ Não ha formosura.
+
+ Vós fostes dotada
+ De toda a maldade;
+ Perfeita beldade
+ De vós he tirada.
+
+ Sois muito acabada
+ De taixa e de glosa:
+ Pois quanto a formosa,
+ Em vós não ha nada.
+
+ Do grão merecer
+ Sois bem apartada;
+ Andais alongada
+ Do bem parecer.
+
+ Bem claro mostrais
+ Em vós fealdade:
+ Não ha hi maldade,
+ Que não precedais.
+
+ De fresco carão
+ Vos vejo ausente;
+ Em vós he presente
+ A má condição.
+
+ De ter perfeição
+ Mui alheia estais;
+ Mui muito alcançais
+ De pouca razão.
+
+ * * * * *
+
+
+ENDECHAS.
+
+ Vai o bem fugindo,
+ Cresce o mal co'os annos,
+ Vão-se descubrindo
+ Co'o tempo os enganos.
+
+ Amor e alegria.
+ Menos tempo dura.
+ Triste de quem fia
+ Nos bens da ventura!
+
+ Bem sem fundamento
+ Tẽe certa a mudança,
+ Certo o sentimento
+ Na dor da lembrança.
+
+ Quem vive contente,
+ Viva receoso:
+ Mal que se não sente,
+ He mais perigoso.
+
+ Quem males sentio,
+ Saiba ja temer;
+ E pelo que vio
+ Julgue o qu'ha de ser.
+
+ Alegre vivia,
+ Triste vivo agora;
+ Chora a alma de dia,
+ E de noite chora.
+
+ Confesso os enganos
+ De meu pensamento:
+ Bem de tantos annos
+ Foi-se n'hum momento.
+
+ Meus olhos, que vistes?
+ Pois vos atrevestes,
+ Chorae, olhos tristes,
+ O bem que perdestes.
+
+ A luz do sol pura
+ Só a vós se negue;
+ Seja noite escura,
+ Nunca a manhãa chegue.
+
+ O campo floreça,
+ Murmurem as ágoas,
+ Tudo me entristeça,
+ Cresção minhas mágoas.
+
+ Quizera mostrar
+ O mal que padeço;
+ Não lhe dá lugar
+ Quem lhe deu comêço.
+
+ Em tristes cuidados
+ Passo a triste vida;
+ Cuidados cansados,
+ Vida aborrecida.
+
+ Nunca pude crer
+ O que agora creio:
+ Cegou-me o prazer
+ Do mal que me veio.
+
+ Ah ventura minha,
+ Como me negaste!
+ Hum so bem que tinha,
+ Porque mo roubaste?
+
+ Triste fantasia
+ Quanta cousa guarda!
+ Quem ja visse o dia,
+ Que tanto lhe tarda!
+
+ Nesta vida cega
+ Nada permanece;
+ O qu'inda não chega,
+ Ja desaparece.
+
+ Qualquer esperança
+ Foge como o vento:
+ Tudo faz mudança,
+ Salvo meu tormento.
+
+ Amor cego e triste,
+ Quem o tẽe padece:
+ Mal quem lhe resiste!
+ Mal quem lhe obedece!
+
+ No meu mal esquivo
+ Sei como Amor trata:
+ E pois nelle vivo,
+ Nenhum amor mata.
+
+ * * * * *
+
+
+
+SEXTINAS.
+
+
+SEXTINA I.
+
+ Foge-me pouco a pouco a curta vida,
+ Se por caso he verdade qu'inda vivo;
+ Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos;
+ Chóro por o passado; e em quanto fallo,
+ Se me passão os dias passo a passo.
+ Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena.
+
+ Que maneira tão aspera de pena!
+ Pois nunca hum'hora vio tão longa vida
+ Em que do mal mover se visse hum passo.
+ Que mais me monta ser morto que vivo?
+ Para que chóro, emfim? para que fallo,
+ Se lograr-me não pude de meus olhos?
+
+ Oh formosos, gentís e claros olhos,
+ Cuja ausencia me move a tanta pena,
+ Quanta se não comprende em quanto fallo!
+ Se no fim de tão longa e curta vida
+ De vós m'inflammasse inda o raio vivo,
+ Por bem teria todo o mal que passo.
+
+ Mas bem sei que primeiro o extremo passo
+ Me ha de vir a cerrar os tristes olhos,
+ Que Amor me mostre aquelles por quem vivo.
+ Testimunhas serão a tinta e penna,
+ Qu'escrevêrão de tão molesta vida
+ O menos que passei, e o mais que fallo.
+
+ Oh que não sei qu'escrevo, nem que fallo!
+ Pois se d'hum pensamento em outro passo,
+ Vejo tão triste genero de vida,
+ Que se lhe não valerem tanto os olhos,
+ Não posso imaginar qual seja a penna
+ Qu'esta pena traslade com que vivo.
+
+ N'alma tenho contino hum fogo vivo,
+ Que se não respirasse no que fallo,
+ Estaria ja feita cinza a pena;
+ Mas sôbre a maior dor que soffro e passo,
+ O temperão com lagrimas os olhos:
+ Com que, se foge, não se acaba a vida.
+
+ Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
+ Vejo sem olhos, e sem lingua fallo;
+ E juntamente passo gloria e pena.
+
+ * * * * *
+
+
+SEXTINA II.
+
+ A culpa de meu mal só tẽe meus olhos,
+ Pois que derão a Amor entrada n'alma,
+ Para que perdesse eu a liberdade.
+ Mas quem póde fugir a huma brandura,
+ Que despois de vos pôr em tantos males,
+ Dá por bens o perder por ella a vida?
+
+ Assaz de pouco faz quem perde a vida
+ Por condição tão dura e brandos olhos;
+ Pois de tal qualidade são meus males,
+ Que o mais pequeno delles toca n'alma.
+ Não s'engane com mostras de brandura
+ Quem quizer conservar a liberdade.
+
+ Roubadora he de toda liberdade
+ (E oxalá perdoasse á triste vida!)
+ Esta que o falso Amor chama brandura,
+ Ai meus antes imigos, que meus olhos!
+ Que mal vos tinha feito esta vossa alma,
+ Para vós lhe fazerdes tantos males?
+
+ Cresção de dia em dia embora os males;
+ Perca-se embora a antigua liberdade;
+ Transforme-se em Amor esta triste alma;
+ Padeça embora esta innocente vida;
+ Que bem me págão tudo estes meus olhos,
+ Quando de outros, se os vem, vem a brandura.
+
+ Mas como nelles póde haver brandura,
+ Se causadores são de tantos males?
+ Engano foi d'Amor, porque meus olhos
+ Dessem por bem perdida a liberdade.
+ Ja não tenho que dar senão a vida,
+ Se a vida ja não deo, quem ja deo a alma.
+
+ Que póde ja'sperar quem a sua alma
+ Captiva eterna fez d'huma brandura,
+ Que quando vos dá morte, diz qu'he vida?
+ Forçado me he gritar nestes meus males,
+ Olhos meus: pois por vós a liberdade
+ Perdi, de vós me queixarei, meus olhos.
+
+ Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma,
+ Pois dais a liberdade a tal brandura,
+ Que para dar mais males, dá mais vida.
+
+ * * * * *
+
+
+SEXTINA III.
+
+ Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia,
+ Amanhecido só para meu damno!
+ Pudeste-me apartar daquella vista
+ Por quem vivia com meu mal contente?
+ Ah se o supremo fôras desta vida,
+ Qu'em ti se começára a minha glória!
+
+ Mas como eu não nasci para ter glória,
+ Senão pena que cresça cada dia,
+ O ceo m'está negando o fim da vida,
+ Porque não tenha fim com ella o damno:
+ Para que nunca possa ser contente,
+ Da vista me tirou aquella vista.
+
+ Suave, deleitosa, alegre vista,
+ Donde pendia toda a minha gloria,
+ Por quem na mor tristeza fui contente;
+ Quando será que veja aquelle dia
+ Em que deixe de ver tão grave damno,
+ E em que me deixe tão penosa vida?
+
+ Como desejarei humana vida,
+ Ausente d'hũa mais que humana vista,
+ Que tão glorioso me fazia o damno!
+ Vejo o meu damno sem a sua glória;
+ Á minha noite falta ja seu dia:
+ Triste tudo se vê, nada contente.
+
+ Pois sem ti ja não posso ser contente,
+ Mal posso desejar sem ti a vida;
+ Sem ti ja ver não posso claro dia,
+ Não posso sem te ver desejar vista;
+ Na tua vista só se via a glória,
+ Não ver a glória tua he ver meu damno.
+
+ Não via maior glória que meu damno,
+ Quando do damno meu eras contente:
+ Agora me he tormento a maior glória,
+ Que póde prometter-me Amor na vida,
+ Pois tornar-te não póde á minha vista,
+ Que só na tua achava a luz do dia.
+
+ E pois de dia em dia cresce o damno,
+ Nem posso sem tal vista ser contente,
+ Só com perder a vida acharei glória.
+
+ * * * * *
+
+
+SEXTINA IV.
+
+ Sempre me queixarei desta crueza
+ Que Amor usou comigo quando o tempo,
+ A pezar de meu duro e triste fado,
+ A meus males queria dar remedio,
+ Em apartar de mi aquella vista,
+ Por quem me contentava a triste vida.
+
+ Levára-me, oxalá, traz ella a vida,
+ Para que não sentira esta crueza
+ De me ver apartado de tal vista!
+ E praza a Deos não veja o proprio tempo
+ Em mi, sem esperança de remedio,
+ A desesperação d'hum triste fado!
+
+ Porém ja acabe o triste e duro fado!
+ Acabe o tempo ja tão triste vida,
+ Qu'em sua morte só tẽe seu remedio.
+ O deixar-me viver he mor crueza,
+ Pois desespéro ja d'em algum tempo
+ Tornar a ver aquella doce vista.
+
+ Duro Amor! se pagava só tal vista
+ Todo o mal que por ti me fez meu fado,
+ Porque quizeste que a levasse o tempo?
+ E se o assi quizeste, porque a vida
+ Me deixas para ver tanta crueza,
+ Quando em não vê-la só vejo o remedio?
+
+ Tu só de minha dor eras remedio,
+ Suave, deleitosa e bella vista.
+ Sem ti, que posso eu ver senão crueza?
+ Sem ti, qual bem me póde dar o fado,
+ Se não he consentir que acabe a vida?
+ Mas elle della me dilata o tempo.
+
+ Azas para voar vejo no tempo,
+ Que com voar a muitos foi remedio;
+ E só não vôa para a minha vida.
+ Para que a quero eu sem tua vista?
+ Para que quer tambem o triste fado
+ Que não acabe o tempo tal crueza?
+
+ Não poderão fazer crueza, ou tempo,
+ Fôrça de fado, ou falta de remedio,
+ Qu'essa vista m'esqueça em toda a vida.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ELEGIAS
+
+
+ELEGIA I.
+
+ O sulmonense Ovidio desterrado
+ Na aspereza do Ponto, imaginando
+ Ver-se de seus Penates apartado;
+
+ Sua chara mulher desamparando,
+ Seus doces filhos, seu contentamento,
+ De sua Patria os olhos apartando;
+
+ Não podendo encobrir o sentimento,
+ Aos montes ja, ja aos rios se queixava
+ De seu escuro e triste nascimento.
+
+ O curso das estrellas contemplava,
+ E aquella ordem com que discorria
+ O ceo e o ar, e a terra adonde estava.
+
+ Os peixes por o mar nadando via,
+ As feras por o monte procedendo
+ Como o seu natural lhes permittia.
+
+ De suas fontes via estar nascendo
+ Os saudosos rios de crystal,
+ Á sua natureza obedecendo.
+
+ Assi só, de seu proprio natural
+ Apartado, se via em terra estranha,
+ A cuja triste dor não acha igual.
+
+ Só sua doce Musa o acompanha
+ Nos soidosos versos qu'escrevia,
+ E nos lamentos com que o campo banha.
+
+ Dest'arte me figura a phantasia
+ A vida com que morro, desterrado
+ Do bem qu'em outro tempo possuia.
+
+ Aqui contemplo o gôsto ja passado,
+ Que nunca passará por a memoria
+ De quem o traz na mente debuxado.
+
+ Aqui vejo caduca e debil glória
+ Desenganar meu êrro co'a mudança
+ Que faz a fragil vida transitoria.
+
+ Aqui me representa esta lembrança
+ Quão pouca culpa tenho; e m'entristece
+ Ver sem razão a pena que m'alcança.
+
+ Que a pena que com causa se padece,
+ A causa tira o sentimento della;
+ Mas muito doe a que se não merece.
+
+ Quando a roxa manhãa, dourada e bella,
+ Abre as portas ao sol e cahe o orvalho,
+ E torna a seus queixumes Philomela;
+
+ Este cuidado, que co'o somno atalho,
+ Em sonhos me parece; que o que a gente
+ Por seu descanso tẽe me dá trabalho.
+
+ E despois de acordado cegamente,
+ (Ou, por melhor dizer, desacordado,
+ Que pouco acôrdo logra hum descontente)
+
+ Daqui me vou, com passo carregado,
+ A hum outeiro erguido, e alli m'assento,
+ Soltando toda a redea a meu cuidado.
+
+ Despois de farto ja de meu tormento,
+ Estendo estes meus olhos saudosos
+ Á parte donde tinha o pensamento.
+
+ Não vejo senão montes pedregosos;
+ E sem graça e sem flor os campos vejo,
+ Que ja floridos víra, e graciosos.
+
+ Vejo o puro, suave e rico Tejo,
+ Com as concavas barcas, que nadando
+ Vão pondo em doce effeito o seu desejo.
+
+ Humas com brando vento navegando,
+ Outras com leves reinos brandamente
+ As crystallinas ágoas apartando.
+
+ D'alli fallo com a ágoa que não sente
+ Com cujo sentimento est'alma sae
+ Em lagrimas desfeita claramente.
+
+ Ó fugitivas ondas, esperae;
+ Que pois me não levais em companhia,
+ Ao menos estas lagrimas levae.
+
+ Até que venha aquelle alegre dia
+ Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo.
+ Mas tanto tempo, quem o passaria?
+
+ Não póde tanto bem chegar tão cedo:
+ Porque primeiro a vida acabará,
+ Que se acabe tão aspero degredo.
+
+ Mas essa triste morte que virá,
+ S'em tão contrário estado me acabasse,
+ Est'alma assi impaciente adonde irá?
+
+ Que se ás portas Tartaricas chegasse,
+ Temo que tanto mal por a memoria
+ Nem ao passar do Lethe lhe passasse.
+
+ Que se a Tantalo e Ticio for notoria
+ A pena com que vai, e que a atormenta,
+ A pena que lá tẽe, terão por glória.
+
+ Essa imaginação, emfim, me augmenta
+ Mil mágoas no sentido, porque a vida
+ De imaginações tristes se contenta.
+
+ Que pois de todo vive consumida,
+ Porque o mal que possue se resuma,
+ Imagina na glória possuida.
+
+ Até que a noite eterna me consuma,
+ Ou veja aquelle dia desejado
+ Em que a Fortuna faça o que costuma;
+
+ Se nella ha hi mudar-se hum triste estado.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA II.
+
+ Aquella que d'amor descomedido
+ Por o formoso moço se perdeo,
+ Que só por si d'amores foi perdido;
+
+ Despois que a deosa em pedra a converteo
+ De seu humano gesto verdadeiro,
+ A última voz só lhe concedeo.
+
+ Assi meu mal do proprio ser primeiro
+ Outra cousa nenhũa me consente,
+ Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.
+
+ E se huma pouca vida, estando ausente,
+ Me deixa Amor, he porque o pensamento
+ Sinta a perda do bem d'estar presente.
+
+ Senhor, se vos espanta o soffrimento
+ Que tenho em tanto mal para escrevê-lo,
+ Furto este breve espaço a meu tormento.
+
+ Porque quem tẽe poder para soffrê-lo,
+ Sem se acabar a vida co'o cuidado,
+ Tambem terá poder para dizê-lo.
+
+ Nem eu escrevo hum mal ja acostumado;
+ Mas n'alma minha triste e saudosa
+ A saudade escreve, e eu traslado.
+
+ Ando gastando a vida trabalhosa,
+ E esparzindo a contínua soidade
+ Ao longo d'huma praia soidosa.
+
+ Vejo do mar a instabilidade,
+ Como com seu ruido impetuoso
+ Retumba na maior concavidade.
+
+ De furibundas ondas poderoso,
+ Na terra, a seu pezar, está tomando
+ Lugar, em que s'estenda, cavernoso.
+
+ Ella, como mais fraca, lh'está dando
+ As concavas entranhas, onde esteja
+ Sempre com som profundo suspirando.
+
+ A todas estas cousas tenho inveja
+ Tamanha, que não sei determinar-me,
+ Por mais determinado que me veja.
+
+ Se quero em tanto mal desesperar-me,
+ Não posso, porque Amor e saudade
+ Nem licença me dão para matar-me.
+
+ Ás vezes cuido em mi, se a novidade
+ E estranheza das cousas, co'a mudança,
+ Poderião mudar huma vontade.
+
+ E com isto figuro na lembrança
+ A nova terra, o novo trato humano,
+ A estrangeira progenie, a estranha usança.
+
+ Subo-me ao monte que Hercules Thebano
+ Do altissimo Calpe dividio,
+ Dando caminho ao mar Mediterrano;
+
+ D'alli'stou tenteando adonde vio
+ O pomar das Hesperidas, matando
+ A serpe que a seu passo resistio.
+
+ Estou-me em outra parte figurando
+ O poderoso Anteo, que derribado
+ Mais fôrça se lhe vinha accrescentando;
+
+ Porém do Herculeo braço sobjugado,
+ No ar deixando a vida, não podendo
+ Dos soccorros da mãe ser ajudado.
+
+ Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo,
+ Nem com as armas tão continuadas,
+ D'amorosas lembranças me defendo.
+
+ Todas as cousas vejo demudadas,
+ Porque o tempo ligeiro não consente
+ Qu'estejão de firmeza acompanhadas.
+
+ Vi ja que a Primavera, de contente,
+ Em variadas côres revestia
+ O monte, o campo, o valle, alegremente.
+
+ Vi ja das altas aves a harmonia,
+ Que até duros penedos convidava
+ A algum suave modo d'alegria.
+
+ Vi ja que tudo, emfim, me contentava,
+ E que, de muito cheio de firmeza,
+ Hum mal por mil prazeres não trocava.
+
+ Tal me tẽe a mudança e estranheza,
+ Que se vou por os prados, a verdura
+ Parece que se sécca de tristeza.
+
+ Mas isto he ja costume da ventura;
+ Porque aos olhos que vivem descontentes,
+ Descontente o prazer se lhes figura.
+
+ Oh graves e insoffriveis accidentes
+ De Fortuna e d'Amor! que penitencia
+ Tão grave dais aos peitos innocentes!
+
+ Não basta examinar-me a paciencia
+ Com temores e falsas esperanças,
+ Sem que tambem me tente o mal de ausencia?
+
+ Trazeis hum brando espirito em mudanças,
+ Para que nunca possa ser mudado
+ De lagrimas, suspiros e lembranças.
+
+ E s'estiver ao mal acostumado,
+ Tambem no mal não consentis firmeza,
+ Para que nunca viva descansado.
+
+ Ja quieto m'achava co'a tristeza;
+ E alli não me faltava hum brando engano.
+ Que tirasse desejos da fraqueza.
+
+ Mas vendo-me enganado estar ufano,
+ Deo á roda a Fortuna; e deo comigo
+ Onde de novo chóro o novo dano.
+
+ Ja deve de bastar o que aqui digo,
+ Para dar a entender o mais que calo
+ A quem ja vio tão aspero perigo.
+
+ E se nos brandos peitos faz abalo
+ Hum peito magoado e descontente,
+ Que obriga a quem o ouve a consolá-lo;
+
+ Não quero mais senão que largamente,
+ Senhor, me mandeis novas dessa terra;
+ Que alguma dellas me fara contente.
+
+ Porque se o duro Fado me desterra
+ Tanto tempo do bem, que o fraco esprito
+ Desampare a prisão onde s'encerra;
+
+ Ao som das negras ágoas do Cocito,
+ Ao pé dos carregados arvoredos
+ Cantarei o que n'alma tenho escrito.
+
+ E por entre estes horridos penedos
+ A quem negou Natura o claro dia,
+ Entre tormentos asperos e medos,
+
+ Com a trémula voz, cansada e fria,
+ Celebrarei o gesto claro e puro,
+ Que nunca perderei da phantasia.
+
+ O Musico de Thracia, ja seguro
+ De perder sua Eurydice, tangendo
+ Me ajudará ferindo o ar escuro.
+
+ As namoradas sombras, revolvendo
+ Memorias do passado, me ouvirão;
+ E com seu chôro o rio irá crescendo.
+
+ Em Salmonêo as penas faltarão,
+ E das filhas de Belo juntamente
+ De lagrimas os vasos s'encherão.
+
+ Que se amor não se perde em vida ausente,
+ Menos se perderá por morte escura:
+ Porque, emfim, a alma vive eternamente,
+
+ E amor he effeito d'alma, e sempre dura.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA III.
+
+ O poeta Simonides fallando
+ Co'o Capitão Themistocles hum dia,
+ Em cousas de sciencia praticando;
+
+ Hum'arte singular lhe promettia,
+ Qu'então compunha, com que lh'ensinasse
+ A lembrar-se de tudo o que fazia;
+
+ Onde tão subtis regras lhe mostrasse,
+ Que nunca lhe passassem da memoria
+ Em nenhum tempo as cousas que passasse.
+
+ Bem merecia, certo, fama e gloria
+ Quem dava regra contra o esquecimento,
+ Que sepulta qualquer antigua historia.
+
+ Mas o Capitão claro, cujo intento
+ Bem differente estava, porque havia
+ Do passado as lembranças por tormento;
+
+ Oh illustre Simonides! (dizia)
+ Pois tanto em teu engenho te confias,
+ Que mostras á memoria nova via;
+
+ Se me désses hum'arte, qu'em meus dias
+ Me não lembrasse nada do passado,
+ Oh quanto melhor obra me farias!
+
+ S'este excellente dito ponderado
+ Fosse por quem se visse estar ausente,
+ Em longas esperanças degradado;
+
+ Oh como bradaria justamente,
+ Simonides, inventa novas artes;
+ Não midas o passado co'o presente!
+
+ Que se he forçado andar por várias partes
+ Buscando á vida algum descanço honesto,
+ Que tu, Fortuna injusta, mal repartes;
+
+ E se o duro trabalho, he manifesto
+ Que por grave que seja, ha de passar-se
+ Com animoso esprito e ledo gesto;
+
+ De que serve ás pessoas o lembrar-se
+ Do que se passou ja, pois tudo passa,
+ Senão d'entristecer-se e magoar-se?
+
+ S'em outro corpo hum'alma se traspassa,
+ Não como quiz Pythagoras na morte,
+ Mas como quer Amor na vida escassa;
+
+ E s'este Amor no mundo está de sorte,
+ Que na virtude só d'hum lindo objecto
+ Tẽe hum corpo, sem alma, vivo e forte;
+
+ Onde este objecto falta, qu'he defecto
+ Tamanho para a vida, que ja nella
+ M'está chamando á pena a dura Alecto;
+
+ Porque me não criára a minha Estrella
+ Selvatico no mundo, e habitante
+ Na dura Scythia, e no mais duro della?
+
+ Ou no Caucaso horrendo, fraco infante
+ Criado ao peito d'huma tigre Hircana,
+ Homem fôra formado de diamante;
+
+ Porque a cerviz ferina e inhumana
+ Não submettêra ao jugo e dura lei
+ Daquelle que dá vida quando engana.
+
+ Ou em pago das ágoas qu'estilei,
+ As que passei do mar, forão do Lete,
+ Para que m'esquecêra o que passei.
+
+ Porque o bem que a esperança vãa promette,
+ Ou a morte o estorva, ou a mudança,
+ Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete.
+
+ Ja, Senhor, cahirá como a lembrança,
+ No mal, do bem passado he triste e dura,
+ Pois nasce aonde morre a esperança.
+
+ E se quizer saber como se apura
+ Em almas saudosas, não s'enfade
+ De ler tão longa e misera escriptura.
+
+ Soltava Eolo a redea e liberdade
+ Ao manso Favonio brandamente,
+ E eu a tinha ja sôlta á saudade.
+
+ Neptuno tinha pôsto o seu tridente;
+ A proa a branca escuma dividia,
+ Com a gente maritima contente.
+
+ O côro das Nereidas nos seguia;
+ Os ventos, namorada Galatêa
+ Comsigo socegados os movia.
+
+ Das argenteas conchinhas Panopêa
+ Andava por o mar fazendo mólhos,
+ Melanto, Dinamene, com Ligea.
+
+ Eu, trazendo lembranças por antolhos,
+ Trazia os olhos n'ágoa socegada,
+ E a ágoa sem socêgo nos meus olhos.
+
+ A bem-aventurança ja passada
+ Diante de mi tinha tão presente,
+ Como se não mudasse o tempo nada.
+
+ E com o gesto immoto e descontente,
+ Co'hum suspiro profundo e mal ouvido,
+ Por não mostrar meu mal a toda a gente,
+
+ Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido
+ Em puro amor tivestes, e inda agora
+ Da memoria o não tendes esquecido;
+
+ Se por ventura fordes algum'hora
+ Adonde entra o grão Tejo a dar tributo
+ A Tethys, que vós tendes por Senhora;
+
+ Ou ja por ver o verde prado enxuto,
+ Ou ja por colher ouro rutilante,
+ Das Tagicas areias rico fruto;
+
+ Nellas em verso erotico e elegante
+ Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes;
+ Póde ser que algum peito se quebrante.
+
+ E contando de mi memorias tristes,
+ Os pastores do Tejo, que me ouvião,
+ Oução de vós as mágoas que me ouvistes.
+
+ Ellas, que ja no gesto m'entendião,
+ Nos meneios das ondas me mostravão
+ Qu'em quanto lhes pedia consentião.
+
+ Estas lembranças, que me acompanhavão
+ Por a tranquillidade da bonança,
+ Nem na tormenta triste me deixavão.
+
+ Porque chegando ao Cabo da Esperança,
+ Comêço da saudade que renova,
+ Lembrando a longa e aspera mudança;
+
+ Debaixo estando ja da estrella nova
+ Que no novo Hemispherio resplandece,
+ Dando do segundo axe certa prova;
+
+ Eis a noite com nuvens s'escurece;
+ Do ar subitamente foge o dia;
+ E todo o largo Oceano s'embravece.
+
+ A máchina do mundo parecia
+ Qu'em tormentas se vinha desfazendo;
+ Em serras todo o mar se convertia.
+
+ Lutando Boreas fero e Noto horrendo.
+ Sonoras tempestades levantavão,
+ Das naos as velas concavas rompendo.
+
+ As cordas co'o ruido assoviavão;
+ Os marinheiros, ja desesperados,
+ Com gritos para o ceo o ar coalhavão.
+
+ Os raios por Vulcano fabricados
+ Vibrava o fero e aspero Tonante,
+ Tremendo os Polos ambos de assombrados.
+
+ Amor alli, mostrando-se possante,
+ E que por algum medo não fugia,
+ Mas quanto mais trabalho, mais constante;
+
+ Vendo a morte presente, em mi dizia:
+ Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse,
+ Nada do que passei me lembraria.
+
+ Emfim, nunca houve cousa que mudasse
+ O firme amor intrinseco daquelle
+ Em quem alguma vez de siso entrasse.
+
+ Huma cousa, Senhor, por certa asselle,
+ Que nunca amor se affina, nem se apura,
+ Em quanto está presente a causa delle.
+
+ Dest'arte me chegou minha ventura
+ A esta desejada e longa terra,
+ De todo pobre honrado sepultura.
+
+ Vi quanta vaidade em nós s'encerra,
+ E nos proprios quão pouca; contra quem
+ Foi logo necessario termos guerra.
+
+ Huma Ilha que o Rei de Porcá tem,
+ E que o Rei da Pimenta lhe tomára,
+ Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem.
+
+ Com huma grossa armada, que juntára
+ O Viso-Rei, de Goa nos partimos
+ Com toda a gente d'armas que se achára.
+
+ E com pouco trabalho destruimos
+ A gente no curvo arco exercitada:
+ Com morte, com incendios os punimos.
+
+ Era a Ilha com ágoas alagada,
+ De modo que se andava em almadias:
+ Emfim, outra Veneza trasladada.
+
+ Nella nos detivemos sós dous dias,
+ Que forão para alguns os derradeiros,
+ Pois passárão da Estyge as ondas frias.
+
+ Qu'estes são os remedios verdadeiros
+ Que para a vida estão apparelhados
+ Aos que a querem ter por cavalleiros.
+
+ Oh Lavradores bem-aventurados!
+ Se conhecessem seu contentamento,
+ Como vivem no campo socegados!
+
+ Dá-lhes a justa terra o mantimento;
+ Dá-lhes a fonte clara d'ágoa pura;
+ Mungem suas ovelhas cento a cento.
+
+ Não vem o mar irado, a noite escura,
+ Por ir buscar a pedra do Oriente;
+ Não temem o furor da guerra dura.
+
+ Vive hum com suas árvores contente,
+ Sem lhe quebrar o somno repousado
+ A grã cobiça d'ouro reluzente.
+
+ Se lhe falta o vestido perfumado,
+ E da formosa côr de Assyria tinto,
+ E das torçaes Attalicos lavrado;
+
+ Se não tẽe as delicias de Corinto,
+ E se de Pario os marmores lhe faltão,
+ O pyropo, a esmeralda e o jacinto;
+
+ Se suas casas de ouro não s'esmaltão,
+ Esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
+ Onde os cabritos seus comendo sáltão.
+
+ Alli lhe mostra o campo várias côres;
+ Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno;
+ Alli se affina o canto dos pastores.
+
+ Alli cantára Tityro e Sileno.
+ Emfim, por estas partes caminhou
+ A sãa Justiça para o ceo sereno.
+
+ Ditoso seja aquelle que alcançou
+ Poder viver na doce companhia
+ Das mansas ovelhinhas que criou!
+
+ Este bem facilmente alcançaria
+ As causas naturaes de toda cousa;
+ Como se gera a chuva e neve fria:
+
+ Os trabalhos do sol, que não repousa;
+ E porque nos dá lũa a luz alhêa,
+ Se tolher-nos de Phebo os raios ousa:
+
+ E como tão depressa o ceo rodêa;
+ E como hum só os outros traz comsigo;
+ E se he benigna ou dura Cytherêa.
+
+ Bem mal póde entender isto que digo,
+ Quem ha de andar seguindo o fero Marte;
+ Que sempre os olhos traz em seu perigo.
+
+ Porém seja, Senhor, de qualquer arte,
+ Pois postoque a Fortuna possa tanto,
+ Que tão longe de todo o bem me aparte;
+
+ Não poderá apartar meu duro canto
+ Desta obrigação sua, em quanto a morte
+ Me não entrega ao duro Radamanto;
+
+ Se para tristes ha tão leda sorte.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA IV.
+
+ Despois que Magalhães teve tecida
+ A breve historia sua, que illustrasse
+ A Terra Santa Cruz, pouco sabida;
+
+ Imaginando a quem a dedicasse,
+ Ou com cujo favor defenderia
+ Seu livro d'algum zoilo que ladrasse;
+
+ Tendo nisto occupada a phantasia,
+ Lhe sobreveio hum somno repousado,
+ Antes que o sol abrisse o claro dia.
+
+ Em sonhos lhe apparece todo armado
+ Marte, brandindo a lança furiosa,
+ Com que fez quem o vio todo enfiado;
+
+ Dizendo em voz pezada e temerosa:
+ Não he justo que a outrem se offereça
+ Obra alguma que possa ser famosa,
+
+ Senão a quem por armas resplandeça
+ No largo inundo com tal nome e fama,
+ Que louvor immortal sempre mereça.
+
+ Disse assi: quando Apollo, que da flama
+ Celeste guia os carros, de outra parte
+ Se lhe presenta, e por seu nome o chama,
+
+ Dizendo: Magalhães, postoque Marte
+ Com seu terror t'espante, todavia
+ Comigo deves só de aconselhar-te.
+
+ Hum Varão sapiente, em quem Thalia
+ Poz seus thesouros, e eu minha sciencia,
+ Defender tuas obras poderia.
+
+ He justo que a escriptura na prudencia
+ Ache só defensão; porque a dureza
+ Das armas he contrária da eloquencia.
+
+ Assi disse: e tocando com destreza
+ A cithara dourada, começou
+ A mitigar de Marte a fortaleza.
+
+ Mas Mercurio, que sempre costumou
+ Pacificar porfias duvidosas,
+ Co'o Caducêo na mão, que sempre usou,
+
+ Determina compor as perigosas
+ Opiniões dos deoses inimigos
+ Com suaves razões e ponderosas.
+
+ E disse: Bem sabemos dos antigos
+ Heroes, e dos modernos, que provárão
+ De Belona os gravissimos perigos,
+
+ Como tão bem mil vezes concordárão
+ As armas com as letras; porque as Musas
+ A muitos na milicia acompanhárão.
+
+ Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas
+ Guerras o estudo deixão grande espaço;
+ Que as armas jamais delle são escusas.
+
+ N'huma mão livros, n'outra ferro e aço;
+ Aquella rege e ensina; est'outra fere:
+ Mais co'o saber se vence, que co'o braço.
+
+ Pois, logo, hum Varão grande se requere,
+ Que com teus dões (Apollo) illustre seja,
+ E de ti (Marte) palma e glória espere.
+
+ Este vos darei eu, em quem se veja
+ Saber e esfôrço no sereno peito,
+ Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja.
+
+ Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito,
+ Todas nove nos braços o tomárão,
+ Criando-o co'o seu leite no seu leito:
+
+ As Artes e as Sciencias lh'ensinárão;
+ Inclinação divina lh'influírão
+ Ás virtudes moraes, que logo o ornárão.
+
+ Daqui nos exercidos o seguírão
+ Das armas no Oriente, onde primeiro
+ Hum soldado gentil instituírão.
+
+ Alli taes provas fez de Cavalleiro,
+ Que, de Christão magnanimo e seguro,
+ A si mesmo venceo por derradeiro.
+
+ Despois, ja Capitão forte e maduro,
+ Governando toda a Aurea Chersoneso,
+ Lhe defendeo co'o braço o debil muro.
+
+ Porque vindo a cercá-la todo o pêso
+ Do poder dos Achens, que se sustenta
+ De alheio sangue, em furia todo acceso;
+
+ Este só que a ti, Marte, representa,
+ O castigou de sorte, que vencido
+ De ter quem vivo fique se contenta.
+
+ E logo qu'este Reino defendido
+ Deixou, segunda vez com maior glória
+ Para o ir governar foi elegido.
+
+ Mas não perdendo ainda da memoria
+ Os amigos o seu govêrno brando,
+ Os imigos o damno da victoria;
+
+ Huns com amor intrinseco esperando
+ Estão por elle, e os outros congelados
+ O estão com frio medo receando.
+
+ Vêde pois se serião debellados
+ Por seu claro valor, se lá tornasse,
+ E dos Indicos mares degradados.
+
+ Porqu'he justo que nunca lhe negasse
+ O conselho do Olympo alto e subido
+ Favor e ajuda com que pelejasse.
+
+ Aqui só póde ser bem dirigido
+ De Magalhães o estudo: este só deve
+ Ser de vós, claros deoses, escolhido.
+
+ Assi Mercurio disse; e em termo breve
+ Conformados se vem Apollo e Marte;
+ E voou juntamente o somno leve.
+
+ Acorda Magalhães, e ja se parte
+ A offrecer-vos, Senhor claro e famoso,
+ Tudo o que nelle poz sciencia e arte.
+
+ Tẽe claro estylo, e engenho curioso,
+ Para poder de vós ser recebido,
+ Com mão benigna, de ânimo amoroso.
+
+ Pois se só de não ser favorecido
+ Hum alto esprito fica baixo e escuro;
+ Este seja comvosco defendido,
+
+ Como o foi de Malaca o debil muro.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA V.
+
+ Aquelle mover de olhos excellente,
+ Aquelle vivo espirito inflammado
+ Do crystallino rosto transparente;
+
+ Aquelle gesto immoto e repousado,
+ Qu'estando n'alma propriamente escrito,
+ Não póde ser em verso trasladado;
+
+ Aquelle parecer, que he infinito
+ Para se comprender d'engenho humano;
+ O qual offendo em quanto tenho dito;
+
+ Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano,
+ E tanto a engrandecer-me a phantasia,
+ Que não vi maior glória que meu dano.
+
+ Oh bem-aventurado seja o dia
+ Em que tomei tão doce pensamento,
+ Que de todos os outros me desvia!
+
+ E bem-aventurado o soffrimento
+ Que soube ser capaz de tanta pena,
+ Vendo que o foi da causa o entendimento!
+
+ Faça-me quem me mata, o mal que ordena,
+ Trate-me com enganos, desamores;
+ Qu'então me salva, quando me condena.
+
+ E se de tão suaves desfavores
+ Penando vive hum'alma consumida,
+ Oh que doce penar! que doces dores!
+
+ E se huma condição endurecida
+ Tambem me nega a morte por meu dano,
+ Oh que doce morrer! que doce vida!
+
+ E se me mostra hum gesto lindo humano,
+ Como que de meu mal culpada se acha,
+ Oh que doce mentir! que doce engano!
+
+ E s'em querer-lhe tanto ponho tacha,
+ Mostrando refrear o pensamento,
+ Oh que doce fingir! que doce cacha!
+
+ Assi que ponho ja no soffrimento
+ A parte principal de minha glória,
+ Tomando por melhor todo tormento.
+
+ Se sinto tanto bem só co'a memoria
+ De ver-vos, linda Dama, vencedora;
+ Que quero eu mais que ser vossa victoria?
+
+ Se tanto a vossa vista mais namora,
+ Quanto eu sou menos para merecer-vos;
+ Que quero eu mais que ter-vos por senhora?
+
+ Se procede este bem de conhecer-vos,
+ E consiste o vencer em ser vencido,
+ Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?
+
+ S'em meu proveito faz qualquer partido,
+ Só na vista d'huns olhos tão serenos,
+ Que quero eu mais ganhar que ser perdido?
+
+ Se, emfim, os meus espritos, de pequenos,
+ A merecer não chegão seu tormento,
+ Que quero eu mais, que o mais não seja menos?
+
+ A causa, pois, m'esforça o soffrimento;
+ Porque, a pezar do mal que me resiste,
+ De todos os trabalhos me contento;
+
+ Que a razão faz a pena alegre, ou triste.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA VI.
+
+ Entre rusticas serras e fragosas,
+ Compostas d'asperissimos rochedos,
+ De salitradas lapas cavernosas;
+
+ Onde gretando os humidos penedos
+ Orvalhados de neve branca e fria,
+ Brotando estão de si mil arvoredos;
+
+ Huma floresta fez verde e sombria
+ A natureza experta, que rodeia,
+ Como elevado muro, a serrania.
+
+ Neste formoso sítio se recreia
+ O lascivo Cupido entre as boninas,
+ Que sempre hum brando Zephyro meneia.
+
+ Da candida cecem, das clavellinas,
+ Da salva, mangerona e das mosquetas,
+ Das rubicundas flores hyacinthinas,
+
+ Muitas capellas tece, que de setas
+ Lhe servem contra peitos de donzellas,
+ A quem d'inveja traz sempre inquietas.
+
+ Não são d'huma só côr as flores bellas;
+ Que humas esmalta verde, outras rosado,
+ Entre as azues crescendo as amarellas.
+
+ Dos agrestes loureiros rodeado,
+ Faz o valle huma sombra deleitosa,
+ Quando apparece o sol mais levantado.
+
+ E por cima da relva bem graciosa
+ As gottas de crystal quasi imitando
+ Estão do aljofar puro a luz formosa.
+
+ As crystallinas fontes, que brotando
+ Por entre alvos seixinhos se derivão,
+ Das árvores os troncos vão banhando.
+
+ Entre as limpidas ágoas, qu'inda esquivão
+ O formoso pastor que se perdeo,
+ Preso das falsas mostras que o captivão,
+
+ Cresce a por cuja causa s'esqueceo
+ A linda Cytherêa de Vulcano,
+ Quando presa d'Amor se lhe rendeo.
+
+ Na brancura do rosto soberano,
+ Inda as crueis feridas apparecem
+ Do javali cerdoso e deshumano.
+
+ As rosas que de sangue resplandecem,
+ As candidas boninas marchetadas,
+ Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem.
+
+ Do matutino orvalho rociadas,
+ As flores rutilantes e cheirosas
+ Estão como por cima prateadas.
+
+ Os humidos botões abrindo as rosas,
+ Que os agudos espinhos vão cercando,
+ No prado se vem rindo deliciosas.
+
+ A mellifera abelha, susurrando
+ Por cima das boninas que rodeia,
+ Está co'o som das ágoas concertando.
+
+ Do trémulo regato a branda areia
+ De jacinthos se cobre e de vieiras,
+ Qu'encrespão da corrente a branca veia.
+
+ Os álamos s'abração co'as videiras
+ De sorte, que s'enxérga escassamente
+ Se são os cachos seus, se das parreiras;
+
+ E pendendo por cima da corrente,
+ Outro formoso bosque debuxando
+ Estão no fundo della brandamente.
+
+ Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando
+ Do perfido cunhado a crueldade,
+ Mágoas em melodias transformando.
+
+ A solitaria rôla com soidade
+ Desfaz o rouco peito, ja cansada
+ De que não move a morte a piedade.
+
+ A domestica Progne anda banhada
+ No sangue de seus filhos, em vingança
+ Da triste Philomela profanada.
+
+ De competir co'o merlo não descança
+ O garrulo calhandro, qu'enrouquece
+ Por não perder callado a confiança.
+
+ Em quanto o pobre ninho ajunta e tece
+ O sonoro canario, modulando
+ Engana a grave pena que padece.
+
+ Alguns versos s'escuta derramando
+ O vário pintasirgo, tão saudaveis,
+ Que produzem memorias d'amor brando.
+
+ Por os direitos troncos ha notaveis
+ Epigrammas; alguns d'antigua historia,
+ Que contra o duro tempo são duraveis.
+
+ Huns de cruel tormento, outros de glória,
+ Conforme a liberdade do qu'escreve,
+ Estranhos casos mostrão á memoria.
+
+ O que neste lugar contente esteve,
+ Contente declarou seu pensamento,
+ E os prazeres tambem que nelle teve.
+
+ Mas outros, declarando o sentimento
+ Que dos olhos destila tristes ágoas,
+ Deixárão mil lembranças de tormento.
+
+ Abrazando-se alguns em vivas frágoas,
+ Escrevêrão do bosque em muitas partes
+ Gostos d'Amor agora, agora mágoas.
+
+ Porque, cruel menino, o premio partes
+ A quem serás[2] tyranno se lho negas,
+ E injusto e desigual, se lho repartes?
+
+ Porqu'enganas as almas que tão cegas
+ Arrastas apos ti, de error captivas?
+ Porque a crueis rigores as entregas?
+
+ Para que contra hum peito assi t'esquivas,
+ Que humilde se sujeita a teu cuidado,
+ Com enganos de sombras fugitivas?
+
+ Levas, como a menino, hum pobre a nado,
+ N'huma apparencia falsa embevecido,
+ Quando co'os braços corta o mar inchado.
+
+ Querendo-se tornar, vê-se perdido;
+ Ja grita que se affoga; e tu zombando,
+ Da praia entre os penedos escondido!
+
+ O triste, que conhece ir-se affogando,
+ No meio da arriscada zombaria
+ Por divino soccorro está clamando.
+
+ Mas eu de que m'espanto, se dizia
+ Hum sabio que d'enganos se temesse
+ O que tomasse a hum cego tal por guia?
+
+ Nunca nelle a firmeza permanece;
+ Se nos dá gôsto algum, muda-se logo;
+ Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece.
+
+ Anda co'os corações sempre em hum jôgo;
+ Humas vezes os faz de pedra fria,
+ Outras os faz de neve, outras de fogo.
+
+ Tornando ao bosque meu que descrevia,
+ Despois de ter contado da frescura
+ Que nelle tão pomposa apparecia,
+
+ Referir quero agora huma aventura
+ Que nelle ao vão Narciso aconteceo,
+ Digna de se chorar com mágoa pura.
+
+ Castigo foi que o moço mereceo
+ Por se mostrar esquivo com aquella,
+ Qu'em viva pedra Juno converteo.
+
+ Ardia em fogo d'alma a vãa donzella,
+ Soffrendo hum duro peito; que a Narciso,
+ Quando ella mais se abraza, mais congela.
+
+ E quando a fraca Nympha mais de siso
+ Mostrava hum signal certo de firmeza,
+ Então se provocava o moço a riso.
+
+ Ja d'huma profundissima tristeza
+ A descora o rigor que a consumia.
+ Como diz desfavor mal com belleza!
+
+ O gelado pastor folgava e ria;
+ Mas vendo-a de seu gôsto andar contente,
+ Por não a contentar s'entristecia.
+
+ He tal o seu rigor, que não consente
+ Que seja o gôsto proprio festejado;
+ Antes disso se mostra descontente.
+
+ Mas o cego Cupido, d'affrontado,
+ Em vingança da fé que desprezou,
+ Fez que fosse de si mesmo enganado.
+
+ Casualmente hum dia se chegou
+ A beber n'huma fonte crystallina,
+ Que de si nova sêde lhe causou.
+
+ Vendo a sua figura peregrina
+ Que a fonte dentro em si representava,
+ Se perdeo por imagem tão divina.
+
+ Como ja, d'enlevado, não cuidava
+ Nos enganos que a sombra lhe fazia,
+ Vendo o formoso rosto, suspirava.
+
+ Por as avaras ágoas se metia;
+ E quanto mais molhava os tenros braços,
+ Então mais vivamente o fogo ardia.
+
+ Vendo-se assi prender em duros laços,
+ Ao sentimento obriga a paciencia,
+ Dando, fóra de si, ao vento abraços.
+
+ Embevecido todo n'apparencia,
+ Sem saber de cuidado o que sentia,
+ Não fez ao doce engano resistencia.
+
+ Ao ver-se longe mais, mais perto via
+ O peregrino gesto; e se chegava,
+ Então para mais longe lhe fugia.
+
+ Vendo, emfim, como em tudo o remedava
+ Cahio no torpe engano que tivera,
+ A tempo que de si ja preso estava.
+
+ A belleza que a tantas morte dera,
+ De si mesma se abraza e se captiva.
+ Quão longe então de si ver-se quizera!
+
+ Ella se abranda propria; ella se esquiva;
+ E sendo ella somente a que se amava,
+ Ella se chama ingrata e fugitiva.
+
+ A formosura, pois, que namorava,
+ Com tal difficuldade era seguida,
+ Qu'estando dentro em si, mui longe estava.
+
+ A solitaria Nympha, qu'escondida
+ Ja nas cavernas concavas se via,
+ Dos males que lhe ouvio foi commovida.
+
+ Das namoradas mágoas que dizia
+ O namorado moço, ella somente
+ Os ultimos accentos repetia.
+
+ Elle vendo-se estar alli presente,
+ As crystallinas ágoas accusava
+ De que ellas o fazião descontente.
+
+ Outras vezes á fonte, quando a olhava,
+ Ja cego, e sem juizo, agradecia
+ A figura que dentro lhe mostrava.
+
+ Mas vendo qu'ella em nada se dohia
+ De seu grave tormento, grita e chora.
+ Quanto erra quem de sombras se confia!
+
+ Ja lhe pede que saia para fóra.
+ Ignorando que sempre fóra esteve
+ A belleza que nelle proprio mora.
+
+ Despois que longo espaço se deteve
+ Nestes queixumes seus tão lastimosos,
+ Que com tão longo ser, julgou por breve;
+
+ Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos,
+ Do valle se despede e da espessura,
+ Dando soluços da alma vagarosos.
+
+ Entregue na vontade da ventura,
+ Ou, por melhor dizer, de seus enganos,
+ Ao centro se arrojou da fonte pura.
+
+ Dest'arte feneceo em tenros anos
+ Narciso, dando exemplo á formosura
+ De que tema, se he tal, tambem seus danos.
+
+ Sentimento mostrou da sorte dura
+ O namorado Jupiter, mudando
+ Ao moço em flor purpurea, qu'inda dura.
+
+ Aquellas claras ágoas rodeando,
+ Onde por seus amores se perdeo,
+ Está despois da morte acompanhando.
+
+ Tanto no seu engano procedeo,
+ Que não sabe na morte inda apartar-se
+ Dos erros que na vida commetteo.
+
+ Bem póde o coração desenganar-se,
+ Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado,
+ Não costuma na morte resfriar-se.
+
+ Porque despois do corpo sepultado,
+ Prisão onde s'encerra o fraco esprito,
+ Eternamente chora o seu cuidado.
+
+ E das escuras ágoas do Cocito
+ A rapida corrente refreando,
+ Celebra o lindo gesto n'alma escrito.
+
+ Lá se está co'os favores recreando;
+ E se foi desprezado, lá padece,
+ As duras esquivanças lamentando.
+
+ Nem dos avaros olhos lá s'esquece,
+ Que de formoso verde a terra esmaltão,
+ Por não ver os do triste qu'endoudece.
+
+ Assi que os desfavores nunca faltão,
+ Até despois da morte perseguindo
+ Hum triste coração que desbaratão.
+
+ Triste de quem em vão lhe vai fugindo!
+
+[2] Este terceto foi viciado na cópia e depois, ao que parece, corrigido
+por mão estranha. A versificação está certa, mas o sentido he absurdo:
+e se a verdadeira lição não he:
+
+ Porque, cruel menino, o premio partes
+ De modo que es tyranno, quando o negas,
+ E injusto e desigual, quando o repartes?
+
+não podemos adivinhar qual seja. _Nota dos Editores._
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA VII.
+
+ Ao pé d'hum'alta faia vi sentado,
+ N'hum valle deleitoso e bem florido,
+ A Almeno, pastor triste e namorado.
+
+ Outro no mundo póde haver nascido
+ Mui queixoso de Amor; porém não tanto,
+ Como este amante, por amar perdido.
+
+ Ja Venus hia recolhendo o manto
+ Escuro com que a terra se mostrava,
+ Para ajudar d'Almeno o triste pranto.
+
+ Apollo sôbre os montes derramava
+ Seus dourados cabellos, que fazião
+ Ao triste inda mais triste do qu'estava.
+
+ As flores por o prado s'estendião.
+ E das que finas mais erão as côres,
+ Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião.
+
+ Ja guiavão seus gados os pastores,
+ Que, deixando-os no campo deleitoso,
+ Com ellas praticavão só d'amores.
+
+ Mas era esta alegria hum perigoso
+ Estado para Almeno entristecido;
+ E por isso a deixava pressuroso,
+
+ Buscando outro lugar: contra Cupido
+ Claramente exclamava, e o arguia
+ De contrário, d'astuto e fementido.
+
+ De quando em quando a frauta que tangia.
+ Numeros dava ao ar tão docemente,
+ Que as aves provocava a melodia.
+
+ Cego assi desta dor, deste accidente,
+ Com os olhos em lagrimas banhados,
+ Postos no ceo, dizia tristemente:
+
+ Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados,
+ Porque mos déste tu para offender-te,
+ Quando livre vivia nestes prados?
+
+ Não vês quanto me negas merecer-te
+ O bem que me mostravas, se deixasse
+ Ferir meu coração para soffrer-te?
+
+ Qual bem me has dado, Amor, que me durasse?
+ Ou qual me has promettido, que hajas dado?
+ Ou qual déste, que muito não custasse?
+
+ Mostra-me quem puzeste em tal estado,
+ Que pudesse viver de ti contente,
+ Ou quem de ti não fosse lastimado?
+
+ Inimigo cruel de toda a gente,
+ Ja não quero teu bem, só meu mal quero;
+ Se de ti nem meu mal se me consente.
+
+ Inda que de teus bens ja desespéro,
+ Não desprézo dos males o tormento;
+ Antes o prezo mais, quando he mais fero.
+
+ Arrebatado deste pensamento
+ Hia o triste pastor com hum contino
+ Pranto, que lhe avivava o sentimento.
+
+ Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino,
+ Qu'era de Amor plantado; e parecendo
+ Lhe está menos humano que divino.
+
+ Nelle a dor sua esteve suspendendo:
+ Porém não, como cervo, está ferido,
+ Reparo ao mal que leva pretendendo.
+
+ Apparecia o sítio tão florído,
+ Que provocava a não vulgar espanto,
+ Entre huns altos ulmeiros escondido.
+
+ D'hum crystallino orvalho tinha o manto,
+ Quando entrou nelle o misero pastor,
+ E as tenções explicou neste seu canto.
+
+ Ó bellas rosas, vós que sois amor,
+ He por dita humildade, ou he baixeza,
+ O ter apar de vós murta, que he dor?
+
+ Papoulas conversais, que são tristeza!
+ Não desprezais o cardo, que he tormento!
+ Admittis a hortelãa, sendo crueza!
+
+ Dos goivos longe vejo o sentimento;
+ Dos jasmins perto estou vendo o perigo;
+ Dos malmequeres vejo o soffrimento.
+
+ Deste me temerei como inimigo;
+ Mas traz por armas salva, que he razão:
+ Com ella acabará tambem comigo.
+
+ As minhas vem a ser huma affeição,
+ Que são os puros cravos misturados
+ Co'a vontade sujeita, que he limão.
+
+ Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados!
+ Ai crespa mangerona, que es prazer!
+ Vós sós devieis adornar os prados.
+
+ Não pódem dous oppostos juntos ser:
+ Onde se põe giesta, que he lembrança,
+ Junto do rosmaninho, que he 'squecer?
+
+ Bem peza do leve álamo a mudança;
+ Do roxo goivo anima o pensamento
+ Do cypreste odorifero a esperança.
+
+ O trevo, que he sentido apartamento,
+ Cérca o mangericão, que se interpreta
+ Memoria a quem offende o esquecimento.
+
+ Mais importuna que o jardim de Creta,
+ A ameixieira a flor está soltando:
+ A segurelha vejo, que he discreta.
+
+ As hervas que daqui irei tomando,
+ São a pura cecem, qu'he saudade;
+ Cravos, medo de ver qual de amor ando.
+
+ E, de ter mui perdida a liberdade,
+ Tomarei madresylva entendimento;
+ Legação tomarei, porqu'he verdade.
+
+ Marmeleiro me dá arrependimento:
+ Por a salva, que he gôsto, tomarei
+ Coentro opposto ao meu contentamento.
+
+ Conhecimento firme nunca achei,
+ Que violetas são; e, quando o houvera,
+ Qual meu damno então fôra, bem o sei.
+
+ Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera
+ Ver-vos aqui menor, pois sois victória,
+ Que de mi alcançou chamma severa!
+
+ Mas se quereis que tenha alguma glória,
+ Por galardão d'amar e ser sujeito,
+ Perderei de tormentos a memoria.
+
+ Porém, pois mo negais, de todo engeito
+ A palma, qu'he ventura; e na parreira,
+ Qu'he'sperança perdida, me deleito.
+
+ Entretanto co'a flor da laranjeira,
+ Qu'he desafio duro e arriscado,
+ Posso arguir da hora derradeira.
+
+ Ja não se quer deter o meu cuidado
+ Com a romãa descanso: a brevidade
+ Das maravilhas só tẽe desejado.
+
+ E vós, ovelhas minhas, sem piedade
+ Vos apartae de mi, se algum desejo
+ Tendes de ter do pasto mais vontade.
+
+ Se muita de me verdes em vós vejo,
+ Toda a minha de ver-vos hei perdido
+ Á força do poder d'amor sobejo.
+
+ Lograe do Tejo o placido ruido;
+ Sós lograe estas veigas florecidas:
+ Pois se perde o pastor vosso querido,
+
+ Não gosteis de com elle ser perdidas.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA VIII.
+
+ Belisa, unico bem desta alma triste,
+ Descanso singular de minha vida,
+ Throno donde o poder d'Amor consiste;
+
+ Formosa fera, a quem está rendida
+ D'Amor a que he mais livre liberdade,
+ Ganhada mais, se mais por ti perdida;
+
+ Quão contrário parece na beldade,
+ Que os corações captiva com brandura,
+ Alguma nódoa haver de crueldade!
+
+ Quão contrário parece em formosura,
+ Que deixa muito atraz quanto he humano,
+ Esquiva condição, ou alma dura!
+
+ Quão mal parece em quem só co'hum engano
+ Póde dar vida ao coração sujeito,
+ Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano!
+
+ Quão mal parece que hum amor perfeito
+ Não seja d'outro igual remunerado,
+ Inda que seja, acaso, contrafeito!
+
+ Quão mal parece estar desesperado
+ Quem tanto por ti soffre e tẽe soffrido,
+ Devendo estar de penas alliviado!
+
+ Porém peor parece quem rendido
+ Não for a hum parecer que tudo rende,
+ Por mais qu'em seu rigor viva offendido.
+
+ E inda peor parece quem defende
+ O ser essa belleza sempre amada,
+ Por mais qu'em vão se canse o que a pretende.
+
+ Se quem te mostra amor te desagrada,
+ Só pódes pretender o não ser vista,
+ Mas não despois de vista o ser deixada.
+
+ Quão mal sabe o valor de tua vista
+ Quem cuida que o que della acaso alcança
+ Póde achar coração que lhe resista!
+
+ Quão bem pareceria huma esperança
+ Ja concedida a meu amor ardente,
+ Não sempre huma mortal desconfiança!
+
+ Se hum padecer por ti constantemente
+ Pudesse ser reparo a quem mais te ama,
+ Inda esperar pudera o ser contente.
+
+ Mas eu temo que aquella immensa chama
+ Com que a teu bello imperio me levaste,
+ Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama.
+
+ Se a Olympica belleza assi imitaste,
+ Que brandamente move hum amor puro,
+ Porque tão dura condição tomaste?
+
+ Qual elevado, qual soberbo muro
+ Este mal, que m'occupa o pensamento,
+ Contado, não tornára menos duro?
+
+ Tu, qu'es a causa só de meu tormento,
+ Tu, que somente podes gloriar-me,
+ Queres que as minhas queixas leve o vento?
+
+ Tu, que me pagarias com matar-me,
+ Inda a morte me negas vezes tantas?
+ Ai, que me deras vida em morte dar-me!
+
+ Usa piedade, tu, que o mundo espantas
+ Co'os bellos olhos, com que o douras tanto,
+ Se acaso a vê-lo brandos os levantas.
+
+ Estende-se na terra o negro manto,
+ E á noute dá alegria a luz alheia;
+ Mas nos meus olhos tristes dura o pranto.
+
+ Torna a manhãa despois alegre e cheia
+ Da luz que o chôro enxuga á bella Aurora;
+ Mas do meu chôro nunca enxuga a veia.
+
+ Lagrimas ja não são qu'esta alma chora,
+ Mas amor he vital que dentro arde,
+ E por a luz dos olhos salta fóra.
+
+ Como inda a morte quer que mais aguarde?
+ Não tarde ja, mas corra a mal tão fero.
+ Mas ja por mais que corra virá tarde.
+
+ Nem no supremo trance de ti 'spero
+ Qu'inda com ver o estado em que me has pôsto
+ Queiras, crua, entender quanto te quero.
+
+ Ai! se volveres esse bello rosto
+ Ao lugar triste em que morrer me vires,
+ Não por desgôsto teu, mas por teu gôsto,
+
+ Não quero de ti, não, que alli suspires,
+ Nem que de dar-me a morte te arrependas,
+ Mas que os olhos de ver-me então não tires.
+
+ Assi nunca pastor a quem te rendas,
+ Te faça conhecer o que me fazes,
+ Para que com teu mal meu mal entendas!
+
+ Como ja agora não te satisfazes
+ Das penas deste amor, que por querer-te,
+ De teu merecimento são capazes?
+
+ Pois quem com outro merito render-te
+ Presume, (oh raro monstro de belleza!)
+ Muito mais longe está de merecer-te.
+
+ Este si, que merece a grã crueza
+ Com que tu d'acabar-me a vida tratas,
+ Pois diante de ti, de si se preza.
+
+ Se cuidas que com isto desbaratas
+ O meu constante amor, porque não viva,
+ Elle mais vive quando mais me matas.
+
+ Se o dar-me morte tens por glória altiva,
+ Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina
+ A matar mais de branda que d'esquiva.
+
+ S'esta alma tua julgas por indina
+ Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde,
+ Do descoberto mal a faze dina.
+
+ Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde,
+ A poder reduzir-te a ser piedosa?
+ Ou m'acaba de todo, ou me responde.
+
+ Mas por mais que te mostres rigorosa,
+ Deixar meu pensamento m'he impossivel,
+ Igualmente que a ti não ser formosa.
+
+ E por mais qu'esta dor seja terrivel,
+ Somente o contemplar a causa della,
+ Inda que a faz maior, a faz soffrivel
+
+ Porém chegando a não poder soffrê-la,
+ Perdendo a vida; quando a morte chame,
+ Não perderei o gôsto de perdê-la.
+
+ He justo qu'eu por ti mil mortes ame:
+ Mas vê tu se te illustra, quando offensa
+ Minha mortal o teu valor se chame.
+
+ Bem vês que huma beldade tão immensa
+ De vencer-me tẽe glória bem pequena,
+ Pois só render-me tomo por defensa.
+
+ Mas ja que amor tão puro me condena,
+ Contente fico assaz desta victoria;
+ Que não me dão meus males tanta pena,
+
+ Quanto o serem por ti me dá de glória.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA IX.
+
+ A vida me aborrece, a morte quero:
+ Será eterno o meu mal, segundo entendo,
+ Pois na mor esperança desespéro.
+
+ Sem viver vivo, por morrer vivendo
+ Por não verdes, Senhora, como eu vejo,
+ Quanto de mi por vós me ando esquecendo.
+
+ Seja-me agradecido este desejo;
+ Ingrata não sejais a quem vos ama
+ Com puro e honestissimo despejo.
+
+ A culpa que me pondes, ponde-a á fama,
+ Que pregôa de vós celeste vida
+ Que os corações d'amor divino inflama.
+
+ Humana, quando não agradecida,
+ Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso,
+ Antes que a alma do corpo se despida.
+
+ Mas que posso eu fazer, pois ja não posso
+ Hum tormento domar tão forte e duro,
+ Homem formado só de carne e de osso?
+
+ Em minha fé segura me asseguro;
+ Porqu'esta, quando he grande, jamais erra,
+ Se resulta d'amor sincero e puro.
+
+ Essa beldade santa me faz guerra;
+ Por ella hei de morrer, inda que veja
+ Tornar o brando rio em dura serra.
+
+ Que cousa tenho eu ja que minha seja?
+ Quem não deseja a vossa formosura,
+ Não póde assegurar que o ceo deseja.
+
+ De qu'eu sempre a deseje estae segura:
+ Neste desejo meu nunca mudança
+ Hão de ver as mudanças da ventura.
+
+ A vida tenho posta na balança
+ Da glória singular, do damno esquivo;
+ Que o perdê-la por vós he mor bonança.
+
+ Se vos offendo, cuido que não vivo:
+ Olhae se muito mais que de offender-vos,
+ Das esperanças do viver me privo.
+
+ O que temo somente he só perder-vos;
+ O que quero somente he só adorar-vos;
+ O que somente adoro he só querer-vos.
+
+ Querer-vos sem deixar de venerar-vos;
+ Desejar-vos somente por servir-vos;
+ Por servir a amor vil não desejar-vos:
+
+ Somente ver-vos, e somente ouvir-vos
+ Pretendo; e pois somente isto pretendo,
+ Deveis a estes sentidos permittir-vos.
+
+ Isto somente, (oh cego!) estou dizendo,
+ Como se fôra pouco isto somente!
+ Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo?
+
+ Se o não merece o meu amor decente;
+ Se morte por amar-vos se merece,
+ Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.
+
+ Se vos aggrava quem por vós padece;
+ Se vos vẽe a offender quem vos quer tanto,
+ Quem desta sorte errou não desmerece.
+
+ Que quando os olhos da razão levanto
+ Ao ceo d'essa rarissima belleza,
+ De não morrer por ella só m'espanto.
+
+ Deixae-me contentar desta tristeza,
+ E fazer de meus olhos largo rio;
+ Se algum póde abrandar vossa dureza.
+
+ Correndo sempre as lagrimas em fio,
+ Farei crescer as hervas por os prados,
+ Pois ja d'outra alegria desconfio.
+
+ No monte darei pasto a meus cuidados;
+ E serão de mi sempre entre os pastores
+ Esses divinos olhos celebrados.
+
+ Aprenderão de mi os amadores
+ Aquillo que se chama amor sublime,
+ Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores.
+
+ E nenhum havera que a pena estime
+ Mais soberana por a causa della,
+ Que a que teve até então não desestime;
+
+ E qu'inveja não mostre á minha estrella.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA X.
+
+ Que tristes novas, ou que novo dano,
+ Qu'inopinado mal incerto sôa,
+ Tingindo de temor o vulto humano?
+
+ Que vejo? as praias humidas de Goa
+ Ferver com gente attonita e turbada
+ Do rumor que de boca em boca vôa!
+
+ He morto D. Miguel (ah crua espada!)
+ E parte da lustrosa companhia
+ Que alegre s'embarcou na triste Armada:
+
+ E d'espingarda ardente e lança fria
+ Passado por o torpe e iniquo braço,
+ Que nossas altas famas injuría.
+
+ Não lhe valeo escudo, ou peito d'aço,
+ Não ânimo d'avós claros herdado,
+ Com que temer se fez por longo espaço.
+
+ Não ver-se em de redor todo cercado
+ D'irados inimigos, qu'exhalavão
+ A negra alma do corpo traspassado.
+
+ Não as fortes palavras que voavão
+ A animar os incertos companheiros,
+ Que timidos as costas lhe mostravão.
+
+ Mas ja postos, nos termos derradeiros,
+ (Rotos por partes mil e traspassados
+ Os membros, no valor somente inteiros)
+
+ Os olhos (de furor acompanhados,
+ Qu'inda na morte as vidas amedrentão
+ Dos duros inimigos espantados)
+
+ Postos no ceo, parece que presentão
+ A alma pura á suprema Eternidade,
+ Por quem os ceos e a terra se sustentão.
+
+ E pedindo dos erros, que na idade
+ Immatura e innocente ja fizera,
+ Perdão á pia e justa Magestade,
+
+ As rosas apartou da neve fria;
+ E, como debil flor, a quem fallece
+ O radical humor de que vivia,
+
+ Nas mãos do Coro Angelico, que dece,
+ S'entrega; e vai lograr a vida eterna,
+ Que com morte tão justa se merece.
+
+ Vai-te, alma, em paz á gloria sempiterna;
+ Vai, que quem por a Lei sacra e divina
+ A sólta, áquelle a dá que o ceo governa.
+
+ Mas se de tal valor foi morte dina,
+ A ausencia que do gôsto nos saltêa,
+ A perpétua saudade nos inclina.
+
+ Deixa pois tu, formosa Cytherêa,
+ Do gentil filho e neto de Cyniras
+ O pranto por a morte horrida e fêa.
+
+ E tu, dourado Apollo, que suspiras
+ Por o crespo Jacintho, moço charo,
+ Por quem a clara luz ao mundo tiras;
+
+ Vinde e chorae hum moço em tudo raro,
+ Não de ferino dente vulnerado,
+ Nem de risco sujeito a algum reparo:
+
+ Mas só de ferro imigo traspassado;
+ Que sem duvida incerta, ou frio medo,
+ A vida poz nas mãos de Marte irado.
+
+ Tambem tu, moço Idalio, assiste quedo;
+ Deixa de dar o venenoso mel
+ A beber por os olhos, triste e ledo.
+
+ Pois os formosos olhos de Miguel
+ Ja cobertos se vem do escuro manto
+ Da lei geral a todos mais cruel.
+
+ E vós, filhas de Thespis, que co'o canto
+ Podeis bem mitigar a dor immensa
+ Dos irmãos generosos e alto pranto;
+
+ Não consintais que fação larga offensa
+ Á grande integridade, a que se devem
+ Ágoas não só, do damno recompensa.
+
+ Que ja diante os olhos me descrevem,
+ Quando as bocas da Fama voadora
+ Ao patrio e claro Tejo as novas levem,
+
+ A profunda tristeza; qu'em hum'hora
+ Tal posse tomará dos altos peitos,
+ Que delles o discurso lance fóra.
+
+ Alli de dor os corações sujeitos
+ Hão de lançar de si toda a memoria
+ D'exemplos claros, solidos respeitos.
+
+ Mas, porém se igualais a vida á glória,
+ Ó claro Dom Philippe, e pretendeis
+ Deixar-nos de acções vossas larga historia;
+
+ Eu não vos persuado a que estreiteis
+ O coração na Estoica disciplina,
+ Onde livre d'affectos vos mostreis.
+
+ Que mal a natureza determina
+ Medo, esperanças, dores e alegria,
+ Como o Cynico velho nos ensina.
+
+ Immanidade estupida (dizia
+ O Sulmonense canto) e vil rudeza,
+ He não sentir affectos que a alma cria.
+
+ Porém se o sentir nada for bruteza,
+ E se paixão devida se consente,
+ Tambem o sentir muito he ja fraqueza.
+
+ Em vós hum soffrer alto s'exprimente,
+ Qual nos fortes Varões foi conhecido,
+ Como em estranha, em Lusitana gente.
+
+ Bem conheço que o corpo assi perdido,
+ Como de illustre tumulo carece,
+ Será de brutas feras consumido.
+
+ Mas consola-me, emfim, que se parece
+ Ao grande bisavô, que por a vida
+ Real, a sua á Maura lança offrece.
+
+ Em pedaços a gente enfurecida
+ O corpo alli lhe deixa; e com mão dura
+ Lhe nega a sepultura merecida.
+
+ Facil he a perda aqui da sepultura:
+ Diogenes prudente, e Theodoro
+ Pouco sentem do corpo essa jactura.
+
+ Assi formoso e inteiro, assi decoro
+ Adorna quem o tẽe, como o tomou,
+ Quando se ouvir o extremo som canoro.
+
+ Mas ai! qual terror subito occupou
+ O vosso claro peito, ó Portuguezes?
+ Qual pavido temor vos congelou?
+
+ Que lançadas, que golpes, que revézes
+ Vos fizerão fazer tamanha injúria
+ Aos fortes Lusitanicos arnezes?
+
+ Ou ja de Capitão sobeja incuria,
+ Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava
+ Com seu peito dos barbaros a furia.
+
+ Ou ja do ferreo cano a fôrça brava
+ Com estrondos que atroão mar e terra,
+ Os corações ardentes congelava?
+
+ Ah! quem vos fez que os impetos da guerra
+ Não sustentasseis com valor ousado,
+ Desprezando o temor que a vida encerra?
+
+ A vida por a Patria e por o Estado
+ Pondo nossos avós, a nós deixárão,
+ Em terra e mar, exemplo sublimado.
+
+ Elles a desprezar nos ensinárão
+ Todo temor. Pois como agora os netos
+ Subitamente assi degenerárão?
+
+ Não pódem, certo, não, viver quietos
+ Com feia infamia peitos generosos,
+ Ja em publicos lugares, ja em secretos.
+
+ Mortos d'Esparta os Héroes valerosos
+ Da fera multidão, fazendo extremos,
+ Taes Epitaphios tinhão gloriosos:
+
+ _Dirás, Hóspede, tu, que aqui jazemos
+ Passados do inimigo ferro, em quanto
+ Ás santas Leis da Patria obedecemos._
+
+ Fugindo os Persas vão com frio espanto,
+ Mas achão as mulheres no caminho,
+ Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto.
+
+ Pois do damno fugís, vendo-o visinho,
+ Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizião)
+ Outra vez no materno e escuro ninho.
+
+ Vêde quaes com mais glória ficarião,
+ Se aquelles que morrêrão por o Estado,
+ S'estes a quem mulheres injurião?
+
+ Mas tu, claro Miguel, que ja acordado
+ Deste sonho tão breve, estás naquella
+ Tôrre do ceo, seguro e repousado;
+
+ Onde, com Deos unida a forte e bella
+ Alma, com teus Maiores reluzindo,
+ Trocaste cada chaga em clara estrella;
+
+ Co'os pés o crystallino ceo medindo,
+ Nada d'essas altissimas Espheras,
+ Nem da terreste aos olhos encobrindo;
+
+ Agora hum curso e outro consideras,
+ Agora a vaidade dos mortaes,
+ Que tu tambem passáras se vivêras,
+
+ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA XI.
+
+ Se quando contemplamos as secretas
+ Causas, por que este mundo se sustenta,
+ E o revolver dos ceos e dos planetas;
+
+ E se quando á memoria se presenta
+ Este curso do sol tão bem medido,
+ Que hum ponto só não míngua, nem s'augmenta;
+
+ Aquelle effeito, tarde conhecido,
+ Da lua na mudança tão constante,
+ Que minguar e crescer he seu partido;
+
+ Aquella natureza tão possante
+ Dos ceos, que tão conformes e contrarios
+ Caminhão, sem parar hum breve instante;
+
+ Aquelles movimentos ordinarios,
+ A que responde o tempo, que não mente,
+ Co'os effeitos da terra necessarios;
+
+ Se quando, emfim, revolve subtilmente
+ Tantas cousas a leve phantasia,
+ Sagaz escrutadora e diligente;
+
+ Bem vê, se da razão se não desvia,
+ Aquelle unico Ser, alto e divino,
+ Que tudo póde, manda, move e cria.
+
+ Sem fim e sem princípio, hum Ser contino;
+ Hum Padre grande, a quem tudo he possibil,
+ Por mais que o difficulte humano atino:
+
+ Hum saber infinito, incomprehensibil;
+ Huma verdade que nas cousas anda,
+ Que mora no visibil e invisibil.
+
+ Esta potencia, emfim, que tudo manda,
+ Esta Causa das causas, revestida
+ Foi desta nossa carne miseranda.
+
+ Do amor e da justiça compellida,
+ Por os erros da gente, em mãos da gente
+ (Como se Deos não fôsse) deixa a vida.
+
+ Oh Christão descuidado e negligente!
+ Pondera-o com discurso repousado;
+ E ver-te-has advertido facilmente.
+
+ Ólha aquelle Deos alto e increado,
+ Senhor das cousas todas, que fundou
+ O ceo, a terra, o fogo, o mar irado;
+
+ Não do confuso caos, como cuidou
+ A falsa Theologia, e povo escuro,
+ Que nesta só verdade tanto errou;
+
+ Não dos atomos leves d'Epicuro;
+ Não do fundo Oceano, como Thales,
+ Mas só do pensamento casto e puro.
+
+ Ólha, animal humano, quanto vales,
+ Pois este immenso Deos por ti padece
+ Novo estylo de morte, novos males.
+
+ Ólha que o sol no Olympo s'escurece,
+ Não por opposição de outro Planeta;
+ Mas só porque virtude lhe fallece.
+
+ Não vês que a grande máchina inquieta
+ Do mundo se desfaz toda em tristeza,
+ E não por causa natural secreta?
+
+ Não vês como se perde a Natureza?
+ O ar se turba? o mar batendo geme,
+ Desfazendo das pedras a dureza?
+
+ Não vês que cahe o monte, a terra treme?
+ E que lá na remota e grande Athenas
+ O docto Areopagita exclama e teme?
+
+ Oh summo Deos! tu mesmo te condenas,
+ Por o mal em qu'eu só sou o culpado,
+ A tamanhas affrontas, tantas penas?
+
+ Por mi, Senhor, no mundo reputado
+ Por falso, e violador da sacra Lei?
+ A fama a ti se põe do meu peccado?
+
+ Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei.
+ Pois como entre ladrões eu não padeço?
+ A pena a ti se dá do qu'eu errei?
+
+ Eu servo sem valor, tu immenso preço,
+ Em preço vil te pões, por me tirares
+ Do captiveiro eterno que mereço?
+
+ Eu por perder-te, e tu por me ganhares
+ Te dás aos soltos homens, que te vendem,
+ Só para os homens presos resgatares?
+
+ A ti, que as almas sóltas, a ti prendem?
+ A ti summo Juiz, ante Juizes
+ Te accusão por o error dos que te offendem?
+
+ Chamão-te malfeitor; não contradizes:
+ Sendo tu dos Prophetas a certeza,
+ Dizem que quem te fere prophetizes.
+
+ Rim-se de ti; tu choras a crueza
+ Que sôbre elles virá: a gente dura,
+ Por quem tu vens ao mundo, te despreza.
+
+ O teu rosto, de cuja formosura
+ Se veste o ceo e o sol resplandecente,
+ Diante quem pasmada está a Natura,
+
+ Com cruas bofetadas da vil gente,
+ De precioso sangue está banhado,
+ Cuspido, atropellado cruelmente.
+
+ Aquelle corpo tenro e delicado,
+ Sôbre todos os Santos sacrosanto,
+ A açoutes rigorosos desangrado;
+
+ Despois coberto mal d'hum pobre manto,
+ Que se pegava ás carnes magoadas
+ Para dobrar-lhe as dores outro tanto.
+
+ Magoavão-no as chagas não curadas,
+ Hum tormento causando-lhe excessivo
+ Ao despir por as mãos crueis e iradas.
+
+ As venerandas barbas de Deos vivo
+ De resplandor ornadas, s'arrancavão
+ Para desempenhar a Adão captivo.
+
+ Com cordas por as ruas o levavão,
+ Levando sôbre os hombros o trophéo
+ Da victoria qu'as almas alcançavão.
+
+ Ó tu, que passas, homem Cyrenêo,
+ Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro,
+ Que agora, como humano, enfraqueceo.
+
+ Ólha que o corpo afflicto do marteiro,
+ E dos longos jejuns debilitado,
+ Não póde ja co'o pêso do madeiro.
+
+ Oh não enfraqueçais, Deos incarnado!
+ Essas quédas, que tanto vos magôão,
+ Supportae Cavalleiro sublimado.
+
+ Aquellas altas vozes, que lá sôão,
+ Dos Padres são, que o Limbo tẽe escuro,
+ E ja de louro e palma vos corôão.
+
+ Todos vos bradão que subais o muro
+ Da cidade infernal, e que arvoreis
+ Em cima essa bandeira mui seguro.
+
+ Oh Santos Padres! não vos apresseis;
+ Pois muito mais a Deos, que a vós, custárão
+ Essas duras prisões em que jazeis.
+
+ Aquellas mãos que o mundo edificárão,
+ Aquelles pés que pízão as estrellas,
+ Com durissimos pregos s'encravárão.
+
+ Mas qual será o humano qu'as querellas
+ Da angustiada Virgem contemplasse,
+ Sem se mover a dor e mágoa dellas?
+
+ E que dos olhos seus não destillasse
+ Tanta cópia de lagrimas ardentes,
+ Que carreiras no rosto sinalasse?
+
+ Oh quem lhe víra os olhos refulgentes
+ Convertendo-se em fontes, e regando
+ Aquellas faces bellas e excellentes!
+
+ Quem a ouvíra com vozes ir tocando
+ As estrellas, a quem responde o ceo,
+ Co'os accentos dos Anjos retumbando!
+
+ Quem víra quando o puro rosto ergueo
+ A ver o Filho, que na Cruz pendia,
+ Donde a nossa saude descendeo!
+
+ Que mágoas tão chorosas que diria!
+ Que palavras tão miseras e tristes
+ Para o ceo, para a gente espalharia!
+
+ Pois que sería, Virgem, quando vistes
+ Com fel nojoso, e com vinagre amaro
+ Matar a sêde ao Filho que paristes?
+
+ Não era este o licor suave e claro,
+ Que para o confortar então darieis
+ A quem vos era, mais que a vida, charo.
+
+ Como, Virgem Senhora, não corrieis
+ A dar as puras tetas ao Cordeiro,
+ Que padecer na Cruz com sêde vieis?
+
+ Não era só, não, esse o verdadeiro
+ Poto, que vosso Filho desejava,
+ Morrendo por o mundo em hum madeiro;
+
+ Mas era a salvação que alli ganhava
+ Para o misero Adão, que alli bebia
+ Na fonte que do peito lhe manava.
+
+ Pois, ó pura e Santissima Maria,
+ Que, emfim, sentistes esta mágoa, quanto
+ A grave causa della o requeria;
+
+ D'essa Fonte sagrada e peito santo
+ M'alcançae huma gotta, com que lave
+ A culpa que me aggrava e pesa tanto.
+
+ Do licor salutifero e suave
+ M'abrangei, com que mate a sêde dura
+ Deste mundo tão cego, torpe e grave.
+
+ Assi, Senhora, toda criatura
+ Que vive e vivirá, e não conhece
+ A Lei de vosso Filho, a abrace pura;
+
+ O falsissimo herege, que carece
+ Da graça, e com damnado e falso esprito
+ Perturba a Santa Igreja, que florece;
+
+ O povo pertinaz no antiguo rito,
+ Que só o destêrro seu, que tanto dura,
+ Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito;
+
+ O torpe Ismaelita, que mistura
+ As Leis, e com preceitos tão viciosos
+ Na terra estende a seita falsa e impura;
+
+ Os idolatras maos, supersticiosos,
+ Varios de opiniões e de costumes,
+ Levados de conceitos fabulosos;
+
+ As mais remotas gentes, onde o lume
+ Da nossa Fé não chega, nem que tenhão
+ Religião alguma se presume;
+
+ Assi todos, emfim, Senhora, venhão
+ A confessar hum Deos crucificado,
+ E por nenhum respeito se detenhão.
+
+ E d'hum e d'outro o vício ja deixado,
+ O seu Nome, co'o vosso nesse dia,
+ Seja por todo o mundo celebrado;
+
+ E respóndão os ceos: JESUS, MARIA.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA XII. ACROSTICA.
+
+ Juizo extremo, horrifico e tremendo,
+ E Juiz sempiterno, alto e celeste,
+ Significará a terra, humedecendo.
+ Ver-se-ha nella hum suor que manifeste
+ Como em carne vem Deos, para que o veja
+ Homem toda esta máchina terreste;
+ Rei justo, que dos corpos e almas seja
+ Juiz; e quando o mundo cego e inculto
+ Sôbre espinhos crueis deitado seja,
+ Todo vão simulacro e gentil culto
+ Ousará engeitar a gente; e guerra
+ Fará co'o mar o fogo, e cru tumulto.
+ Immensa luz, que as carnes desenterra,
+ Lançará fóra as portas vãas do Averno,
+ Hum Justo e outro alçando á santa terra.
+ Outros, que são os maos, no fogo eterno
+ Deitará, descobrindo-se os segredos,
+ E sendo claro todo feito interno.
+ Desfeitos serão montes e penedos,
+ E será tudo pranto e estridor duro;
+ Obras de grande dor e tristes medos.
+ Será tornado o sol de todo escuro,
+ E destruida a máchina do mundo,
+ Sem luz as luzes todas do Orbe puro;
+ Altos serão os valles, e em profundo
+ Lugar se abaterão os altos montes;
+ Vibrará mares vento furibundo:
+ Haverá só de chammas vivas fontes:
+ De trombeta tremenda som terribil,
+ Ouvido, fara pallidas as frontes.
+ Responderá dos maos gemido horribil.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+EPISTOLAS.
+
+
+EPISTOLA I.
+
+ Quem póde ser no mundo tão quieto,
+ Ou quem terá tão livre o pensamento,
+ Quem tão exprimentado, ou tão discreto,
+ Tão fóra, emfim, de humano entendimento,
+ Que ou com público effeito, ou com secreto,
+ Lhe não revolva e espante o sentimento,
+ Deixando-lhe o juizo quasi incerto,
+ Ver e notar do mundo o desconcêrto?
+
+ Quem ha que veja aquelle que vivia
+ De latrocinios, mortes e adulterios,
+ Que ao juizo das gentes merecia
+ Perpétua pena, immensos vituperios,
+ Se a Fortuna em contrário o leva e guia,
+ Mostrando, emfim, que tudo são mysterios,
+ Em alteza d'estados triumphante,
+ Que por livre que seja não s'espante?
+
+ Quem ha que veja aquelle, que tão clara
+ Teve a vida, qu'em tudo por perfeito
+ O proprio Momo ás gentes o julgára,
+ Inda quando lhe visse aberto o peito,
+ Se a má Fortuna, ao bom somente avara,
+ O reprime, e lhe nega seu direito,
+ Que lhe não fique o peito congelado,
+ Por mais e mais que seja exprimentado?
+
+ Democrito dos deoses proferia
+ Que erão sós dous; a Pena, e o Beneficio.
+ Segredo algum será da phantasia,
+ De qu'eu achar não posso claro indicio.
+ Que se ambos vem por não cuidada via
+ A quem os não merece, he grande vício
+ Em deoses sem-justiça e sem-razão.
+ Mas Democrito o disse, e Paulo não.
+
+ Dir-me-heis, que s'este estranho desconcêrto
+ Novamente no mundo se mostrasse,
+ Que por livre que fosse e mui experto,
+ Não era d'espantar se m'espantasse.
+ Mas que se ja de Socrates foi certo
+ Que nenhum grande caso lhe mudasse
+ O vulto, ou de prudente, ou de constante,
+ Exemplo tome delle, e não m'espante.
+
+ Parece a razão boa; mas eu digo
+ Deste uso da Fortuna tão damnado
+ Que quanto he mais usado e mais antigo,
+ Tanto he mais estranhado e blasphemado.
+ Porque, se o Ceo, das gentes tão amigo
+ Não dá á Fortuna tempo limitado,
+ Não he para causar mui grande espanto,
+ Que mal tão mal olhado dure tanto?
+
+ Outro espanto maior aqui m'enleia,
+ Que com quanto Fortuna tão profana
+ Com estes desconcertos senhoreia,
+ A nenhuma pessoa desengana.
+ Não ha ninguem, que assente, nem que creia
+ Este discurso vão da vida humana,
+ Por mais que philosophe, nem qu'entenda,
+ Que algum pouco do mundo não pretenda.
+
+ Diogenes pisava de Platão
+ Com seus sordidos pés o rico estrado,
+ Mostrando outra mais alta presumpção
+ Em desprezar o fausto tão prezado.
+ Diogenes, não vês que extremos são
+ Esses que segues, de mais alto estado?
+ Pois se de desprezar te prezas muito,
+ Ja pretendes do mundo fama e fruito.
+
+ Deixo agora Reis grandes, cujo estudo
+ He fartar esta sêde cubiçosa
+ De querer dominar e mandar tudo,
+ Com fama larga e pompa sumptuosa.
+ Deixo aquelles que tomão por escudo
+ De seus vicios e vida vergonhosa
+ A nobreza de seus antecessores,
+ E não cuidão de si que são peores.
+
+ Aquelle deixo, a quem do somno esperta
+ O grão favor do Rei que serve e adora,
+ E se mantẽe dest'aura falsa e incerta,
+ Que de corações tantos he senhora.
+ Deixo aquelles qu'estão co'a boca aberta
+ Por s'encher de thesouros de hora em hora,
+ Doentes desta falsa hydropesia,
+ Que quanto mais alcança, mais queria.
+
+ Deixo outras obras vãas do vulgo errado,
+ A quem não ha ninguem que contradiga,
+ Nem de outra cousa alguma he governado,
+ Que d'huma opinião e usança antiga.
+ Mas pergunto ora a Cesar esforçado,
+ Ora a Platão divino, que me diga,
+ Este das muitas terras em que andou,
+ Aquelle de vencê-las, que alcançou?
+
+ Cesar dirá: Sou digno de memoria:
+ Vencendo povos varios e esforçados,
+ Fui Monarca do mundo; e larga historia
+ Ficará de meus feitos sublimados.
+ He verdade: mas esse mando e glória,
+ Lograste-o muito tempo? Os conjurados
+ Bruto e Cassio dirão que, se venceste,
+ Emfim, emfim, ás mãos dos teus morreste.
+
+ Dirá Platão: Por ver o Etna e o Nilo
+ Fui a Sicilia, Egypto e outras partes,
+ Só por ver e escrever em alto estilo
+ Da natural sciencia e muitas artes.
+ O tempo he breve, e queres consumi-lo,
+ Platão, todo em trabalhos? e repartes
+ Tão mal de teu estudo as breves horas,
+ Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras?
+
+ Pois quanto des que vive ja apartada
+ A alma desta prisão terreste e escura;
+ Está em tamanhas cousas occupada,
+ Que da fama, que fica, nada cura.
+ E se o corpo terreno sinta nada,
+ O Cynico dirá se por ventura
+ No campo, onde lançado morto estava,
+ De si os cães, ou as aves enxotava.
+
+ Quem tão baixa tivesse a phantasia,
+ Que nunca em mores cousas a metesse,
+ Qu'em só levar seu gado á fonte fria,
+ E mungir-lhe do leite que bebesse,
+ Quão bem-aventurado que sería!
+ Que por mais que a Fortuna revolvesse,
+ Nunca em si sentiria maior pena,
+ Que pezar-lhe de a vida ser pequena.
+
+ Veria erguer do sol a roxa face,
+ Veria correr sempre a clara fonte,
+ Sem imaginar a ágoa donde nace,
+ Nem quem a luz occulta no Horizonte.
+ Tangendo a frauta donde o gado pace,
+ Conheceria as hervas do alto monte,
+ Em Deos creria simples e quieto,
+ Sem mais especular algum secreto.
+
+ D'hum certo Trasilao se lê e escreve
+ Entre as cousas da velha antiguidade,
+ Que perdido grão tempo o siso teve
+ Por causa d'huma grave enfermidade;
+ E em quanto, de si fóra, doudo esteve,
+ Tinha por teima, e cria por verdade,
+ Qu'erão suas, das naos que navegavão,
+ Quantas no porto Píreo ancoravão.
+
+ Por hum Senhor mui grande se teria,
+ (Além da vida alegre que passava)
+ Pois nas que se perdião não perdia,
+ E das que vinhão salvas se alegrava.
+ Não tardou muito tempo, quando hum dia
+ Huncrito, seu irmão, que ausente estava,
+ Á terra chega; e vendo o irmão perdido,
+ Do fraternal amor foi commovido.
+
+ Aos Medicos o entrega, e com aviso
+ O faz estar á cura refusada.
+ Triste! que por tornar-lhe o antigo siso
+ Lhe tira a doce vida descansada.
+ As hervas Apollineas d'improviso
+ O tornão á saude ja passada.
+ Sisudo Trasilao, ao charo irmão
+ Agradece a vontade, a obra não.
+
+ Porque despois de ver-se no perigo
+ Do trabalho a que o siso o obrigava,
+ E despois de não ver o estado antigo,
+ Que a louca presumpção lhe apresentava:
+ Oh inimigo irmão, com côr de amigo!
+ Para que me tiraste (suspirava)
+ Da mais quieta vida e livre em tudo,
+ Que nunca pôde ter nenhum sisudo?
+
+ Por qual Senhor algum eu me trocára,
+ Ou por qual algum Rei de mais grandeza?
+ Que me dava que o mundo se acabára,
+ Ou que a ordem mudasse a natureza?
+ Agora me he penosa a vida chara;
+ Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza.
+ Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso
+ Que na doudice só consiste o siso.
+
+ Vêdes aqui, Senhor, bem claramente
+ Como a Fortuna em todos tẽe poder,
+ Senão só no que menos sabe e sente;
+ Em quem nenhum desejo póde haver.
+ Este se póde rir da cega gente;
+ Neste não póde nada acontecer;
+ Nem estara suspenso na balança
+ Do temor mao, da perfida esperança.
+
+ Mas se o sereno Ceo me concedêra
+ Qualquer quieto, humilde e doce estado,
+ Onde com minhas Musas só vivêra,
+ Sem ver-me em terra alheia degradado;
+ E alli outrem ninguem me conhecêra,
+ Nem eu conhecêra outro mais honrado,
+ Senão a vós, tambem como eu contente;
+ Que bem sei que o serieis facilmente:
+
+ E ao longo d'huma clara e pura fonte,
+ Qu'em borbulhas nascendo, convidasse
+ Ao doce passarinho, que nos conte
+ Quem da chara consorte o apartasse;
+ Despois, cobrindo a neve o verde monte,
+ Ao gasalhado o frio nos levasse,
+ Avivando o juizo ao doce estudo,
+ Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo.
+
+ Cantára-nos aquelle, que tão claro
+ O fez o fogo da árvore Phebêa,
+ A qual elle em estylo grande e raro
+ Louvando, o crystallino Sorga enfrêa;
+ Tangêra-nos na frauta Sanazaro,
+ Ora nos montes, ora por a arêa;
+ Passára celebrando o Tejo ufano
+ O brando e doce Lasso Castelhano.
+
+ E comnosco tambem se achára aquella,
+ Cuja lembrança, e cujo claro gesto
+ N'alma somente vejo, porque nella
+ Está em essencia puro e manifesto;
+ Por alta influição de minha estrella
+ Mitigando o rigor do peito honesto,
+ Entretecendo rosas nos cabellos,
+ De que tomasse a luz o sol em vellos;
+
+ E em quanto por Verão flores colhesse,
+ Ou por Inverno ao fogo accommodado,
+ O que de mi sentíra nos dissesse,
+ De puro amor o peito salteado;
+ Não pedíra então eu, que Amor me désse
+ Do insano Trasilao o doudo estado;
+ Mas que alli me dobrasse o entendimento,
+ Por ter de tanto bem conhecimento.
+
+ Mas por onde me leva a phantasia?
+ Porqu'imagino em bem-aventuranças,
+ Se tão longe a Fortuna me desvia,
+ Qu'inda me não consente as esperanças?
+ Se hum novo pensamento Amor me cria
+ Onde o lugar, o tempo, as esquivanças
+ Do bem me fazem tão desamparado,
+ Que não póde ser mais qui'maginado?
+
+ Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou
+ Contra mi, porque mais me magoasse:
+ Amor a hum vão desejo me obrigou,
+ Só para que a Fortuna mo negasse.
+ O tempo a tal estado me chegou;
+ E nelle quiz que a vida se acabasse;
+ Se ha em mi acabar-se, o qu'eu não creio;
+ Que até da muita vida me receio.
+
+ * * * * *
+
+
+EPISTOLA II.
+
+ Como nos vossos hombros tão constantes
+ (Principe illustre e raro) sustenteis
+ Tantos negocios arduos e importantes,
+ Dignos do largo Imperio, que regeis;
+ Como sempre nas armas rutilantes
+ Vestido, o mar e a terra segureis
+ Do pirata insolente, e do tyrano
+ Jugo do potentissimo Othomano;
+
+ E como com virtude necessaria,
+ Mal entendida do juizo alheio,
+ Á desordem do vulgo temeraria
+ Na santa paz ponhais o duro freio;
+ Se com minha escriptura longa e vária
+ Vos occupasse o tempo, certo creio
+ Que com vagante e ociosa phantasia
+ Contra o commum proveito peccaria.
+
+ E não menos sería reputado
+ Por doce adulador, sagaz e agudo,
+ Que contra meu tão baixo e triste estado
+ Busco favor em vós que podeis tudo,
+ Se contra a opinião do vulgo errado
+ Vos celebrasse em verso humilde e rudo.
+ Dirão, que com lisonja ajuda peço
+ Contra a miseria injusta que padeço.
+
+ Porém, porque a verdade póde tanto
+ No livre arbitrio, (como disse bem
+ Ao Rei Dario o moço sabio e santo,
+ Que foi reedificar Hierusalem)
+ Esta m'obriga a qu'em humilde canto,
+ Contra a tenção que a plebe ignara tem,
+ Vos faça claro a quem vos não alcança;
+ E não de premio algum vil esperança.
+
+ Romulo, Baccho e outros que alcançárão
+ Nomes de semideoses soberanos,
+ Em quanto por o mundo exercitárão
+ Altos feitos, e quasi mais que humanos,
+ Com justissima causa se queixárão
+ Que não lhes respondêrão os mundanos
+ Favores do rumor justos e iguaes
+ A seus merecimentos immortaes.
+
+ Aquelle, que nos braços poderosos
+ Tirou a vida ao Tingitano Anteo,
+ E a quem os seus trabalhos tão famosos
+ Fizerão Cidadão do claro ceo;
+ Achou que a má tenção dos invejosos
+ Não se doma, senão despois que o véo
+ Se rompe corporal: porque na vida
+ Ninguem alcança a glória merecida.
+
+ Pois logo, se Barões tão excellentes
+ Forão do baixo vulgo molestados,
+ O vituperio vil das rudas gentes,
+ He louvor dos Reaes, e sublimados.
+ Quem no lume dos vossos Ascendentes
+ Poderá pôr os olhos, que abalados
+ Lhes não fiquem da luz, vendo os maiores
+ Vossos passados, Reis e Imperadores?
+
+ Quem verá aquelle Pae da Patria sua,
+ Açoute do soberbo Castelhano,
+ Que o duro jugo só, co'a espada nua,
+ Removeo do pescoço Lusitano,
+ Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua
+ Memoria causará, se não m'engano,
+ Que qualquer teu menor tanto s'estime,
+ Que nunca possa ser senão sublime?
+
+ Nisto não fallo mais, porque conheço
+ Que da materia se me baixa o engenho.
+ Mas, pois a dizer tudo m'offereço,
+ E dias ha que no desejo o tenho,
+ Sendo vós de tão alto e illustre preço,
+ A vida fostes pôr n'hum fraco lenho,
+ Por largo mar e undosa tempestade,
+ Só por servir á Regia Magestade.
+
+ E despois de tomar a redea dura
+ Na mão, do povo indomito qu'estava
+ Costumado a larguezas, e á soltura
+ Do pezado govêrno que acabava;
+ Quem não terá por santa e justa cura,
+ Qual do vosso conceito s'esperava,
+ A tão desenfreada enfermidade
+ Applicar-lhe contrária qualidade?
+
+ Não he muito, Senhor, se o moderado
+ Govêrno se blasphema e se desama;
+ Porque o povo á largueza costumado,
+ Á lei serena e justa, dura chama.
+ Pois o zelo em virtude só fundado
+ De salvar almas da Tartarea flama
+ Com a ágoa salutifera de Christo,
+ Poderá por ventura ser malquisto?
+
+ Quem quizesse negar tão grã verdade,
+ Qual he o seu effeito santo e pio;
+ Negue tambem ao sol a claridade,
+ E certifique mais que o fogo he frio.
+ Se o successo he contrário da vontade
+ Nas obras que são boas, e ha desvio;
+ Está nas mãos dos homens comettellas,
+ E nas de Deos está o successo dellas.
+
+ Sei eu, e sabem todos que os futuros
+ Verão por vós o Estado accrescentado,
+ Serão memoria vossa os fortes muros
+ Do Cambaico Damão bem sustendado:
+ Da ruina mortal serão seguros,
+ Tendo todo o alicerce seu fundado
+ Sôbre orfãas amparadas com maridos,
+ E pagos os serviços bem devidos.
+
+ Quãmanha infamia ao Principe he perder-se
+ Pouco do Estado seu, que inteiro herdou,
+ Tanto por glória grande deve ter-se
+ Se accrescentado e próspero o deixou.
+ Nunca consentio Roma ennobrecer-se
+ Com triumphos alguem, se não ganhou
+ Provincia com que o Imperio s'augmentasse,
+ Por maiores victorias qu'alcançasse.
+
+ Póde tomar o vosso nome dino
+ Damão, por honra sua clara e pura,
+ Como ja do primeiro Constantino
+ Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura.
+ E tu, Rei, que no Reino Neptunino,
+ Lá no seio Gangetico a Natura
+ Te aposentou, de ser tão inimigo
+ Deste Estado não ficas sem castigo.
+
+ Bem viste contra ti nadantes aves
+ Cortar a espumosa ágoa navegando;
+ Ouviste o som das tubas, não suaves,
+ Mas com temor horrifero soando;
+ Sentiste os golpes asperos e graves
+ Do Lusitano braço nunca brando.
+ Não soffreste o grão brado penetrante,
+ Que os trovões imitava do Tonante.
+
+ Mas antes dando as costas e a victoria
+ Á Bragancez ventura não corrido,
+ Déste bem a entender quão grande glória
+ He de tal vencedor o ser vencido.
+ Quem faz obras tão dignas de memoria
+ Sempre será famoso e conhecido,
+ Onde os altos juizos o estimarem,
+ Qu'estes sós tẽe poder de fama darem.
+
+ Não vos temais, Senhor, do povo ignaro,
+ Tão ingrato a quem tanto faz por elle;
+ Mas sabei qu'he signal de serdes claro
+ O ser agora tão malquisto delle.
+ Themistocles, da patria sua amparo,
+ O forte e liberal Cimon, e aquelle
+ Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo,
+ Testimunhas serão de quanto digo.
+
+ Pois ao justo Aristídes hum robusto,
+ Votando no ostracismo costumado,
+ Lhe disse claro assi: Porque era justo
+ Desejava que fosse desterrado.
+ Pachitas por fugir do povo injusto
+ Calumnioso, dando no Senado
+ Conta de Lesbos, qu'elle ja mandára,
+ Se tirou co'o seu ferro a vida chara.
+
+ Demosthenes, lançado das tormentas
+ Populares, Ó Pallas! foi dizendo,
+ Que de tres monstros grandes te contentas,
+ Do drago e moucho, e do vil povo horrendo!
+ Que glórias immortaes houve, qu'isentas
+ Do veneno vulgar fossem, vivendo?
+ Pois mil exemplos deixo de Romanos,
+ E vós tambem sois hum dos Lusitanos.
+
+ * * * * *
+
+
+EPISTOLA III.
+
+ Mui alto Rei, a quem os Ceos em sorte
+ Derão o nome augusto e sublimado
+ Daquelle Cavalleiro que na morte,
+ Por Christo, foi de settas mil passado;
+ Pois delle o fiel peito, casto e forte,
+ Co'o nome Imperial tendes tomado,
+ Tomae tambem a setta veneranda
+ Que a vós o Successor de Pedro manda.
+
+ Ja por ordem do Ceo, que o consentio,
+ Tendes o braço seu, reliquia chara,
+ Defensor contra o gladio que ferio
+ O povo que David contar mandára.
+ No qual, pois tudo em vós se permittio,
+ Presagio temos, e esperança clara,
+ Que sereis braço forte e soberano
+ Contra o soberbo gladio Mauritano.
+
+ E o que hum presagio tal agora encerra,
+ Nos faz ter por mais certo e verdadeiro
+ A setta, que vos dá quem he na terra
+ Dos celestes thesouros Dispenseiro:
+ Que as vossas settas são na justa guerra
+ Agudas, e entrarão por derradeiro
+ (Cahindo a vossos pés povo sem lei)
+ Nos peitos que inimigos são do Rei.
+
+ Quando vossas bandeiras despregava
+ Albuquerque fortissimo com glória
+ Por as praias de Persia, e alcançava
+ De Nações tão remotas a victoria;
+ As settas embebidas, que tirava
+ O arco Armusiano (he larga historia)
+ Nos ares, Deos querendo, se viravão,
+ Pregando-se nos peitos que as tiravão.
+
+ O querido de Deos, por quem peleja,
+ O ar tambem e o vento conjurado
+ Ao atambor lhe acodem, porque veja
+ Que o que a Deos ama, he de Deos amado:
+ Os contrarios revéis á Madre Igreja
+ Atroarão co'o tom do Ceo irado.
+ Que assi deo ja favor maior que humano
+ A Josué Hebreo, Teodosio Hispano.
+
+ Pois se as settas tiradas da inimiga
+ Corda, contra si só nocivas são,
+ Que farão, Rei, as vossas que tẽe liga
+ Com a que ja tocou Sebastião?
+ Tinta vem do seu sangue, com que obriga
+ A levantar a Deos o coração,
+ Crendo bem que as que vós despedireis,
+ No sangue Sarraceno as tingireis.
+
+ Ascanio, (se trazer me he concedido
+ Entre santos exemplos hum profano)
+ Rei do Imperio, despois tão conhecido,
+ De Roma, e só reliquia do Troiano,
+ Vingou com setta e ânimo atrevido
+ As soberbas palavras de Numano;
+ E logo foi dalli remunerado
+ Com louvores de Apollo, e celebrado.
+
+ Assi vós, Rei, que fostes segurança
+ De nossa liberdade, e que nos dais
+ De grandes bens certissima esperança;
+ Nos costumes, e aspecto que mostrais,
+ Concebemos segura confiança
+ Que Deos, a quem servis e venerais,
+ Vos fara vingador dos seus revéis,
+ E os premios vos dará que mereceis.
+
+ Estes humildes versos, que pregão
+ São destes vossos Reinos com verdade,
+ Recebei com benigna e Real mão,
+ Pois he devida a Reis benignidade.
+ Tenhão (se não merecem galardão)
+ Favor sequer da Regia Magestade:
+ Assi tenhais de quem ja tendes tanto,
+ Com o nome e reliquia, favor santo.
+
+ * * * * *
+
+
+EPISTOLA IV.
+
+ Senhora, s'encobrir por algum'arte
+ Pudera esta occasião de meu tormento,
+ Não creias que chegára a declarar-te
+ Este meu perigoso pensamento.
+ Mas por mais que te offenda, não sou parte
+ No crime de tamanho atrevimento:
+ Elle he d'amor; e delle fui forçado
+ A que te declarasse o meu cuidado.
+
+ Se merece castigo a confiança
+ Com que descubro agora o que padeço,
+ Aqui prompto me tens; toma a vingança
+ Que por tão grave culpa te mereço.
+ Bem me podes negar toda esperança,
+ Mas eu não desistir deste comêço;
+ Porque tempo e Fortuna não são parte
+ Para deixar hum'hora só de amar-te.
+
+ Ja que ver-te os meus olhos alcançárão,
+ Descansem neste bem com alegria,
+ Pois ja com ver os teus tanto ganhárão,
+ Quanto, estando sem vê-los, se perdia.
+ Que glória querem mais, se a ver chegárão
+ Aquella pura luz que vence ao dia?
+ Qual mor bem ha no mundo que querer-te,
+ Se não ha mais que ver despois de ver-te?
+
+ Minhas dores mortaes, bella Senhora,
+ Tirárão a virtude ao soffrimento;
+ E fazendo-se mais em qualquer hora,
+ Levando vão traz ti meu pensamento:
+ Porém soberbos vejo desde agora,
+ Por a causa gentil de seu tormento,
+ Minha alma, meu desejo, meu sentido,
+ Porque á tua belleza se hão rendido.
+
+ A par de tua rara formosura
+ Se desconhece o mor merecimento;
+ A tua claridade torna escura
+ Do sol a clara luz em hum momento.
+ Se Zeuxis ao formar bella figura,
+ A vista em ti pudera pôr attento,
+ Mais alto original houvera achado
+ Para admirar o mundo co'o traslado.
+
+ Aquelles qu'escrevêrão mil louvores
+ De formosura, graça e gentileza,
+ Todos forão, Senhora, huns borradores
+ De tua perfeitissima belleza.
+ Agora se vê claro em teus primores
+ Qu'em ti s'esmerou mais a natureza;
+ E qu'erão os seus cantos prophecias
+ Do que havias de ser em nossos dias.
+
+ Vê, pois, se vinha a ser culpavel falta
+ Em mi o não render-te amante a vida,
+ E se deixar d'amar glória tão alta
+ Era digno da pena mais crescida.
+ Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta
+ Co'o castigo de culpa assi atrevida:
+ E quando della caia, maior glória
+ Tera o Tejo, que o Pó, com sua historia.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+OITAVAS.
+
+
+GLOSA DO SONETO 14.
+
+ Despois que a clara Aurora a noite escura
+ Com novo resplandor foi desfazendo,
+ E Phebo por os montes e espessura
+ Os seus dourados raios estendendo;
+ Se buscava nos valles a verdura
+ O manso gado a luz serena vendo,
+ Quando a férvida sésta ja abrazava,
+ _Todo animal da calma repousava._
+
+ Ja por fugir do sol o fogo ardente,
+ As sombras os rebanhos vão buscando;
+ Os tenros cabritinhos juntamente
+ Apos as mansas mães hião saltando;
+ Tangendo as suas frautas docemente
+ Os pastores, estavão enganando
+ A grã chamma solar qu'então ardia;
+ _Só Liso o ardor della não sentia._
+
+ Tristes lembranças tanto o traspassavão,
+ Que a dura sésta nelles só passava;
+ O tempo qu'em prazer outros gastavão,
+ Em celebrar seu mal elle o gastava;
+ As festas que com jogos celebravão,
+ Elle com suspirar as celebrava:
+ Nada buscava mais, mais não queria
+ _Que o repouso do fogo em qu'elle ardia._
+
+ Os repetidos jogos dos pastores,
+ As lutas entre a rama repetidas,
+ Em nada lhe divertem suas dores;
+ Mas antes n'alegria as vê crescidas.
+ Como o repouso roubão os amores
+ Ás almas que para elles são nascidas,
+ Elle, todo o repouso qu'esperava,
+ _Consistia na Nympha que buscava._
+
+ Com o chôro, que ja corria em fio
+ Por o pallido rosto, augmenta as fontes,
+ Que levão ágoa estranha ao claro rio
+ Que os valles vai regando entre altos montes.
+ Com suspiros a quem o ecco pio
+ Responde de apartados horizontes,
+ Os ventos parecia qu'enfreava,
+ _Os montes parecia que abalava._
+
+ Que ás queixas de seus doces pensamentos
+ Se movessem os montes mais constantes,
+ Se parassem os mais veloces ventos,
+ Qu'estavão, que corrião circumstantes,
+ Bem se devia á dor de seus tormentos,
+ E inda que fosse em peitos de diamantes;
+ Que hum peito de diamante abrandaria
+ _O triste som das mágoas que dizia._
+
+ Porém elle as dizia a outro peito,
+ Mais, que diamante, inexpugnavel, duro:
+ A fé lh'encarecia, a que sogeito
+ O tinha em pena eterna o amor puro;
+ Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito,
+ Quanto mais offendido, mais seguro:
+ A Nympha mais segura tudo ouvia,
+ _Mas nada o duro peito commovia._
+
+ As lástimas aqui tanto crescêrão,
+ Que s'em montes de Hircania s'escuitárão,
+ Tigres nos seios seus mover puderão,
+ E pedras nos seus cumes abrandárão.
+ Mas se no peito as tristes vozes dérão
+ Daquella fera humana que buscárão,
+ Elle d'as admittir se retirava;
+ _Que na vontade de outro pôsto estava._
+
+ Desenganado ja da triste sorte,
+ De que mal fino amor se desengana,
+ Com a desperança só de sua morte
+ Aquellas penas últimas engana.
+ Deixando na espessura o claro Norte,
+ Para elle de outra luz mais soberana,
+ A hum valle aberto então sahir procura,
+ _Cansado ja de andar por a espessura._
+
+ Deixando as suas cabras que pascessem
+ Naquelle verde prado as frescas flores;
+ Porque os Satyros leves o soubessem,
+ E os sylvestres Faunos amadores;
+ Tambem porque os pastores o entendessem,
+ Todo o processo e fim de seus amores
+ Escreveo (sem em nada haver mudança)
+ _No tronco d'huma faia por lembrança._
+
+ Por lembrança no tronco d'huma faia,
+ Que vai sahindo ao ceo de puro altiva
+ Na verde, prateada e aurea praia,
+ Por onde o claro Tejo se deriva;
+ Porque tambem ao ceo sua dor saia
+ Sôbre aquella corrente fugitiva,
+ Escrita no papel da natureza;
+ _Escreve estas palavras de tristeza:_
+
+ Natercia, Nympha bella, por quem vivo
+ Em tal tormento, tempo algum me olhou;
+ Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo
+ Daquelle brando olhar que m'enganou,
+ O amor tornava em desamor esquivo;
+ E d'hum tormento tal a outro passou.
+ Em cousas tão sujeitas a mudança
+ _Nunca ponha ninguem sua esperança._
+
+ Para dar proveitosos desenganos
+ Dos enganos que são de Amor effeitos,
+ E dos dous sexos publicar, humanos,
+ A origem das mudanças de seus peitos;
+ Estas letras aqui por longos anos
+ Digão a corações a amar sujeitos
+ Em peito varonil, que de ventura,
+ _Em peito feminil, que de natura..._
+
+ Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado
+ Cahio ao pé da faia em qu'escrevia,
+ Não podendo seguir o começado,
+ Porque a alma ja do corpo lhe sahia.
+ Tres vezes, com accento mal formado,
+ Para exemplo futuro repetia:
+ Amantes, entendei que a mór belleza
+ _Somente em ser mudavel tem firmeza._
+
+ * * * * *
+
+
+GLOSA DO SONETO 194.
+
+ _Cá nesta Babylonia adonde mana_
+ Hypocrisia, engano e falsidade;
+ Cá donde ousada toda carne humana
+ A todo arbitrio vive da vontade;
+ Cá donde enrouqueceo da Lusitana
+ Musa o furor heroico e suavidade;
+ Cá donde se produz por cega via
+ _Materia a quanto mal o mundo cría_;
+
+ _Cá donde o puro Amor não tẽe valia_,
+ Porque Baccho o tẽe hoje desterrado;
+ Cá donde a frecha d'ouro não feria,
+ Senão cabello preto e alfenado;
+ Cá donde a loura trança não se via,
+ Nem o rosto de sangue matizado;
+ Cá donde nada val a glória humana,
+ _Que a mãe, que manda mais, tudo profana_;
+
+ _Cá donde o mal se affina, o bem se dana_,
+ Se algum a terra em si quer produzir;
+ Cá donde a falsa gente Mahometana
+ A glória toda funda em adquirir;
+ Cá donde multiplica a mão tyrana,
+ Professa em mais crescer, matar, mentir;
+ Cá donde o fazer bem he villania,
+ _E póde mais que a honra a tyrannia_;
+
+ _Cá donde a errada e cega Monarchia_
+ De fabulosas leis está vivendo,
+ E á fôrça d'hum amor engrandecia
+ O nefando Alcorão em qu'está crendo;
+ Cá donde nada val a Poesia,
+ E s'está da lei della escarnecendo;
+ Cá donde a fidalguia Mahometana
+ _Cuida qu'um nome vão a Deos engana._
+
+ _Cá nesta Babylonia, onde a Nobreza_
+ Da Lusitana gente se perdeo;
+ E do grão Sebastião toda a grandeza
+ Irreparavelmente se abateo;
+ Cá donde algum mentir não he baixeza,
+ E os meritos esmola (assi cresceo
+ Da cobiça mortal a semrazão)
+ _Co'o esfôrço e saber, pedindo vão._
+
+ _Ás portas da cobiça e da vileza_
+ Estes netos de Agar estão sentados
+ Em bancos de torpissima riqueza,
+ Todos de tyrannia marchetados.
+ He do feio Alcorão summa a largueza
+ Que tẽe para que sejão perdoados
+ De quantos erros commettendo estão
+ _Cá neste escuro cáos de confusão._
+
+ _Cumprindo o curso estou da natureza_,
+ Illustre Dama, neste labyrintho;
+ Mas quem usa comigo mais crueza,
+ He tua condição, que n'alma sinto.
+ Acabe-se algum dia tal tristeza,
+ E este sentido mal qu'em versos pinto:
+ E pois n'alma he sentido e coração,
+ _Ve se m'esquecerei de ti, Sião._
+
+ * * * * *
+
+
+A SANTA URSULA.
+
+ D'huma formosa virgem desposada,
+ Que d'outras onze mil, tambem formosas,
+ Entrou no claro Olympo acompanhada,
+ Com corôas de lyrios e de rosas;
+ De Christo Esposo seu tão namorada,
+ Que delle as quiz fazer todas esposas;
+ Amor, vida e martyrio cantar quero,
+ Fiado no favor que della espero.
+
+ Alcança, Ursula bella, (que diante
+ De tão bello esquadrão foste por guia)
+ De teu suave Amor, que de ti cante
+ O seu amor que no teu peito ardia.
+ Meu verso para ti mais se levante,
+ Ó Christifera, ó heroica companhia;
+ Tanto se mostre aqui mais soberano,
+ Quanto o divino Amor excede o humano.
+
+ E vós, unica Mãe e Virgem pura,
+ Pois sois das que tal ordem escolhêrão,
+ Que fostes, sois, sereis guarda segura
+ Da pureza que a Deos offerecêrão;
+ Neste canto me dae melhor ventura
+ Do que atégora as Musas vãas me derão:
+ Vossas servas serão de mi servidas,
+ Cantadas suas mortes, suas vidas.
+
+ Serenissima Infante, produzida
+ Do grão Tronco Real, sublime Planta;
+ No titulo, nas obras e na vida,
+ Retrato natural de Ursula Santa,
+ Desta virgem, tambem de Reis nascida,
+ Ouvi com ledo rosto o que se canta;
+ Dae o sentido hum pouco a tal sogeito:
+ Não lhe tire seu preço o meu defeito.
+
+ No tempo que Ciriáco se sentava
+ Na Cadeira de Pedro pescador,
+ De que com sãa doutrina apascentava
+ As Ovelhas de Christo, Bom Pastor;
+ Teve Bretanha hum Rei, que professava
+ A Lei que deo no mundo o Redemptor,
+ Justo e temente ao Ceo, pio e devoto,
+ Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto.
+
+ De virtudes hum novo exemplo e raro,
+ Em idade e belleza florecia
+ Ursula, por quem Noto era mais claro,
+ Que por todo o poder que possuia;
+ Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro,
+ Com quem todas as graças repartia;
+ Prudente, honesta e docta a maravilha,
+ De tão ditoso pae ditosa filha.
+
+ Aquella que por o ar com ligeireza
+ As pennas de mil azas abre e cerra,
+ E que com velocissima presteza
+ Com outros tantos pés corre por terra;
+ Aquella, que de sua natureza
+ Não cuida em quanto diz se acerta ou erra,
+ E d'huma em outra boca se derrama:
+ Aquella, emfim, a quem chamamos Fama;
+
+ Hia por todo o mundo divulgando
+ Extremos desta virgem soberana,
+ Aquella formosura celebrando
+ Com que Amor cego a tanta vista engana:
+ Mais hia a d'alma sua publicando,
+ Porqu'era mais divina do que humana:
+ Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto,
+ Qu'em huns criava amor, n'outros espanto.
+
+ Ouvidos seus louvores, muitas vezes
+ Desejou desta virgem fazer nora
+ Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes,
+ Idolatras então, cegos agora.
+ Ó povo cego e leve! as torpes fezes
+ Aparta do ouro puro e lança fóra,
+ Torna-te ao teu pastor, perdido gado!
+ Ólha que vás sem elle mal guiado.
+
+ Hum filho deste Rei (de quem dizia
+ Que ser de Ursula sogro desejava)
+ Movido do rumor que della ouvia,
+ Ja dentro no seu peito a namorava.
+ Alli seu amor, delle, lhe offrecia;
+ Alli por o amor della suspirava.
+ Suspira elle por ella; ella suspira
+ Tambem por outro amor que nunca vira.
+
+ Mandou o Rei Inglez Embaixadores
+ Com pompa Regia e lustre sumptuoso,
+ (Do grande Reino seu grandes Senhores)
+ A Noto, Rei não tanto poderoso.
+ Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores
+ Ardia toda do celeste Esposo)
+ Para esposa do filho, que sabia
+ Que ja d'amores della todo ardia.
+
+ O Rei Bretão se achava descontente
+ Com a nova embaixada de Inglaterra:
+ Receia que se nella não consente,
+ O gentio lhe mova cruel guerra:
+ Porque sendo mais rico e mais potente,
+ Assi no largo mar, como na terra,
+ Quando desprezos visse de seu rôgo,
+ Podia pôr Bretanha a ferro e fogo.
+
+ Sôbre este não errado pensamento
+ Do medo de perder seu senhorio,
+ Novo discurso tinha e novo intento,
+ Com que se achava mais medroso e frio.
+ Estranhava o fazer ajuntamento
+ Da catholica filha co'hum gentio;
+ Pois nem a Lei de Christo o permittia,
+ Nem Ursula fiel o admittiria.
+
+ Estando o pae em tal angústia pôsto,
+ Divinamente a filha ja inspirada,
+ Lhe assegurava com sereno rosto
+ Que consentir podia na embaixada;
+ Dizendo que se o Inglez levava gôsto
+ D'ella com seu herdeiro ser casada,
+ Primeiro lhe mandasse dez donzellas,
+ Do Reino as mais illustres, as mais bellas.
+
+ Que mil daria a cada virgem destas,
+ E que a ella outras mil tambem daria,
+ Todas de claro sangue, e em vista honestas.
+ (Dest'arte a conta de onze mil fazia)
+ Que por trez annos dilação nas festas,
+ Além do ja pedido, lhe pedia;
+ E naos e mantimentos, porque todas
+ Fossem com ella a Roma antes das bodas.
+
+ Alli sua pureza e virgindade
+ Queria com solemne e sacro voto
+ Consagrar á divina Potestade,
+ Que o ceo e a terra fez de proprio moto.
+ E que deixasse a vãa gentilidade
+ Seu filho, para genro ser de Noto,
+ Para que neste espaço doutrinado
+ Fosse na Fé de Christo, e baptizado.
+
+ Com estas condições Ursula disse
+ Ao charo pae, que, a ser dellas contente,
+ Podia responder; e despedisse
+ A proposta daquelle Rei potente:
+ Ou porque ouvindo-as elle desistisse,
+ Podendo-se acceitar difficilmente;
+ Ou porque, quando as virgens concedesse,
+ Comsigo a seu Senhor onze mil désse.
+
+ Oh Divino saber, quão soberano
+ Conselho he sempre o teu! quão remontado!
+ Oh quanto o mor saber te cede humano,
+ Por mais que de razões vá mais ornado!
+ Ja dos idolos deixa o cego engano
+ O Principe, da virgem namorado;
+ Ja terno pede ao pae quanto ella pede;
+ Ja o pae quanto lhe roga lhe concede.
+
+ Ja para ti, ó virgem bella e branda,
+ Com huma singular velocidade,
+ Juntar se via d'huma e d'outra banda
+ De feminil nobreza tenra idade.
+ As naos apparelhar o Rei ja manda;
+ Ja nellas se recolhe a Virgindade;
+ Ja dão para Bretanha ao vento velas.
+ O coração do noivo vai com ellas.
+
+ Ja vem a tomar porto onde esperava
+ Ursula alvoroçada em grã maneira;
+ Que para as receber alli se achava,
+ Como senhora não, mas companheira.
+ Quão falsa era a Lei dellas lhes mostrava,
+ A de Christo quão pura e verdadeira.
+ Ja se baptiza huma e outra Dama;
+ Damas Ursula ja do ceo lhes chama.
+
+ A Fama, que não sabe repousar,
+ Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha;
+ A gente que concorre não tẽe par,
+ Por ver a nunca vista maravilha.
+ Outros vem por servir e acompanhar
+ A Virgem de Rei nora, de Rei filha.
+ Movem-se muitos Bispos de Bretanha;
+ Pantalo em vida e morte os acompanha.
+
+ Por ti, deixando o Reino, co'a familia
+ E quatro filhas suas, s'embarcou,
+ Juliana, Victoria, Aurea, Babilia;
+ (Hum filho tinha mais que mais levou)
+ Gerasina, Rainha de Sicilia,
+ E com devido amor te acompanhou;
+ Qu'he justo que comtigo vão Rainhas,
+ Quando tu para o Rei dos Reis caminhas.
+
+ Ja se partem as bellas peregrinas,
+ As mãos ao claro Empyreo levantadas;
+ Ja rompem, ja, por ondas crystallinas
+ As naos de formosura carregadas.
+ Quando, dizei, ó ágoas Neptuninas,
+ Fostes de tal belleza navegadas?
+ Nunca, despois que a terra descobristes,
+ A tal frota por vós caminho abristes.
+
+ Com vento sempre igual, com mar bonança,
+ Sem perigos alguns, sem algum pejo,
+ Ceyla forão tomar, porto de França,
+ Onde pouca demora fazer vejo.
+ O coração da virgem não descança,
+ Saudosa do fim de seu desejo;
+ Manda que levem ferro, soltem linho
+ Que leve por o mar o negro pinho.
+
+ O vento nova posse vai tomando
+ Das virgens que lhe são encommendadas:
+ Com tal prosperidade vão voando,
+ Que ja deixão atraz ondas salgadas:
+ Ja nas doces do Rheno estão entrando,
+ Onde tẽe suas vidas limitadas:
+ Huma cidade vem á lingua da ágoa,
+ Que de vê-las morrer não teve mágoa.
+
+ Ah Colonia cruel, que não t'encobres
+ A tão formosos olhos, que seguros
+ As altas tôrres vião que descobres,
+ Lustrosos edificios, fortes muros!
+ Permitte o largo Ceo que fama cobres
+ De ser tão dura mãe de peitos duros?
+ Duros peitos, que a tantos, limpos de êrro
+ Virão abrir sem dor com impio ferro!
+
+ Estando neste porto a bella Armada
+ Tomando o necessario mantimento,
+ Para poder seguir sua jornada,
+ E dar terceira vez o treu ao vento;
+ Sendo parte da noite ja passada,
+ A virgem lá no seu retrahimento,
+ Quando estava dormindo toda a frota,
+ A Christo orou assi, branda e devota:
+
+ Amor, divino Amor, Amor suave,
+ Amor, que amando vou toda rendida;
+ Com quem não ha na vida pena grave,
+ Sem quem glória real não ha na vida;
+ Amor, que do meu peito tens a chave,
+ Amor, de cujo amor ando ferida,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que não vejo?
+
+ Amor, que d'amor cheio e de brandura,
+ D'amor enches est'alma saudosa;
+ Amor, sem cujo amor e formosura,
+ Não póde nunca haver cousa formosa;
+ Amor, com cujo amor anda segura
+ Huma vida tão fraca e duvidosa,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que não vejo?
+
+ Amor, que por amor te dispuzeste
+ A restaurar o mundo errado e triste;
+ Amor, que por amor do ceo desceste;
+ Amor, que por amor á Cruz subiste;
+ Amor, que por amor a vida déste;
+ Amor, que por amor a glória abriste,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que não vejo?
+
+ Amor, que mais e mais sempre te augmentas
+ No coração que lá comtigo trazes;
+ Amor, que d'amor puro te sustentas
+ No fogo em que tu mesmo arder me fazes;
+ Amor, que sem amor não te contentas,
+ De tudo com amor te satisfazes,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que não vejo?
+
+ Amor, que com amor me captivaste;
+ (Se livre póde ser quem não captivas)
+ Amor, qu'em taes prisões m'asseguraste
+ As esperanças d'antes fugitivas:
+ Amor, que suspirando m'ensinaste
+ A derramar por ti lagrimas vivas,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que não vejo?
+
+ Quando verei hum dia em que offereça
+ Por ti ao cruel ferro o peito forte,
+ E cercada de virgens appareça
+ Na tua soberana e eterna Corte;
+ Onde lá cada huma te mereça,
+ Cá passando comigo a propria morte;
+ E todas dando o sangue juntas, todas
+ Celebremos comtigo eternas bodas?
+
+ Faze-me ja, Senhor, esta vontade
+ Que tenho de te ver, que sempre tive,
+ Des que me deo lugar a tenra idade,
+ E lume de razão nesta alma vive.
+ Não queiras, meu Amor, que a saudade
+ Sem tal bem a mi só da vida prive;
+ Que se muito se alarga este destêrro,
+ Por ella irei a ti, não por o ferro.
+
+ Desata o meu espirito saudoso,
+ Do nó mortal em que se vai detendo,
+ Primeiro que tres vezes pressuroso
+ O sol os doze Signos vá correndo.
+ Espaço he que tomei, meu doce Esposo,
+ Para outro esposo meu ir entretendo:
+ Mas a meu amor crendo, de ti creio
+ Que acabes com a vida o meu receio.
+
+ Inda neste fervente e justo rôgo
+ Ursula suspirando procedia,
+ Quando d'hum resplandor como de fogo
+ Divina voz ouvio, que assi dizia:
+ Ó virgem, que soubeste fazer jôgo
+ Do que no mundo tẽe maior valia,
+ Entende que da volta que fizeres,
+ Aqui quero que seja o que tu queres.
+
+ Tanto que tal resposta do Ceo teve,
+ Não quiz do que esperava perder hora:
+ Ja lhe parece larga a noite breve,
+ E que ja tarda muito a bella aurora.
+ Em descobrindo Apollo o carro leve,
+ Do porto de Colonia sahio fóra.
+ Ja Basilêa em breve tempo toma:
+ E a pé d'alli partirão para Roma.
+
+ O Pastor summo, Ciriáco santo,
+ As sahe a receber, e as acompanha
+ Com gôzo espritual, com grande espanto
+ De ver em tal idade fé tamanha.
+ Dizer se póde mal, mal cuidar quanto
+ Se goza o Real sangue de Bretanha,
+ Os veneraveis Templos visitando
+ Daquelles que tambem foi imitando.
+
+ Na propria noite deste proprio dia
+ Que Roma ver as virgens mereceo,
+ A quem de Pedro a Barca então regía
+ Revelou o que rege a terra e ceo
+ Que martyrio tambem receberia
+ Onde Ursula co'as mais o recebeo:
+ Deixa contente o grão Pontificado,
+ Desejoso de ser martyrizado.
+
+ Por mais que todo o Clero soffre mal
+ Mover-se por aquellas Estrangeiras,
+ Movido da Vontade divinal
+ O bom Pastor se vai com as Cordeiras.
+ Hum Arcebispo leva, hum Cardeal:
+ Tres Bispos deixão vagas tres Cadeiras,
+ De Luca, Ravicana e de Ravenna:
+ Mauricio me ficava ja na penna.
+
+ Despois de n'ágoa entrar, donde sahírão,
+ Com tão formoso sol tantas estrellas,
+ Ja as ancoras debaixo acima tirão,
+ E de cima ja abaixo soltão vellas.
+ Estas naos lá adiante outras naos vírão,
+ Que fazendo-se vem na volta dellas;
+ Conhecêrão-se logo as duas frotas:
+ Ambas d'hum Reino são, ambas devotas.
+
+ Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra,
+ Vinha de Ursula bella o bello esposo,
+ Que reinar não queria ja na terra,
+ Do ceo ja namorado e saudoso.
+ Do seu primeiro amor venceo a guerra
+ A fôrça d'outro amor mais poderoso:
+ Amando ja em seu Deos a esposa bella,
+ Para o poder achar, buscava a ella.
+
+ A mãe, ja convertida, traz comsigo;
+ O pae, ja Christão feito, fallecêra,
+ Com que soube evitar o grão castigo
+ Que, morrendo Gentio, não soubera.
+ Amor celeste, como aqui não digo
+ O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!)
+ Por meio d'huma virgem foste meio
+ Com que gente copiosa a Christo veio.
+
+ Vinha mais nesta nova companhia
+ Florencia, irmãa do Rei, da mãe cuidado;
+ Florencia, qu'em belleza florecia,
+ Como flor em jardim bem cultivado.
+ Tambem a frota Bispos dous trazia,
+ Hum Marcello, Clemente outro chamado:
+ O primeiro ja em Grecia bago teve;
+ Do segundo o Bispado não s'escreve.
+
+ Outra Virgem viuva alli mais vinha,
+ Que desposada sendo em tenra idade,
+ Antes das bodas enviuvado tinha,
+ E promettida a Christo a castidade.
+ Esta do mesmo Rei era sobrinha,
+ Filha da Imperatriz da grã cidade,
+ Onde por culpa nossa, ou pouca dita,
+ Seu throno agora tẽe o fero Scita.
+
+ Estes, que adverte repetida historia
+ Deixárão só por Deos altos Estados,
+ Com outros, de que he menos a memoria,
+ Forão divinamente amoestados
+ Que todos, para entrar juntos na glória,
+ Ao côro virginal fossem juntados,
+ Com quem na terra Martyres serião,
+ E no ceo para sempre reinarião.
+
+ Sería estranho o gôzo que sentírão
+ Aquellas bem nascidas almas santas,
+ Quando juntas alli todas se vírão
+ De partes tão remotas, e de tantas.
+ Sem estorvos, que d'antes o impedírão,
+ As duas, mais que todas, bellas plantas
+ Alli abraços se dão sem algum pejo,
+ Ambas conformes ja n'hum só desejo.
+
+ Alli faria o Rei acatamento
+ A quem deixou da Barca o grão govêrno;
+ E elle, conforme a seu merecimento,
+ Responderia com amor paterno.
+ Não faltaria em tal recebimento
+ Prazer exterior, prazer interno;
+ Inda que nos estados differentes,
+ Todos serião huns em ser contentes.
+
+ O vento as brancas velas não enchia,
+ Corria o frio Rheno então mais quedo;
+ Antes para Colonia não corria,
+ Porque as virgens não fossem lá tão cedo.
+ Parece que ja claro conhecia
+ (Oh côro virginal, sereno e ledo!)
+ Que lá vos esperava a impia morte.
+ Agora, ó Musa, conta de que sorte.
+
+ Aquelle que na fórma de serpente
+ Deixou aos dous primeiros enganados,
+ Invejoso de ver que tanta gente
+ Se convertia á Lei dos Baptizados;
+ No caração entrou manhosamente
+ De dous gentios Principes damnados,
+ Da soberba Romãa Cavaleria,
+ Por encurtar a Fé que s'estendia.
+
+ A Fama os assegura com certeza
+ Que a virgem a Colonia ja voltava,
+ Com toda a casta juvenil belleza
+ Que por amor do Ceo peregrinava.
+ Fizerão avisar com grã presteza
+ A hum parente, que Julio se chamava,
+ Soberbo Capitão dos Hunnos feros;
+ Que todos para todas forão Neros.
+
+ Eis logo o cego Principe gentio,
+ Com gente innumeravel de seu mando,
+ A praia a tomar vem do mesmo rio
+ Por onde as virgens vinhão navegando.
+ Ja descobrem aquelle, este navio
+ Os qu'estão do mais alto atalaiando:
+ Ás armas veloz corre o bruto povo,
+ Por de novo as tingir no sangue novo.
+
+ Vindo a frota a surgir junto do muro,
+ Onde lhe parecia estar segura,
+ (Oh virgens que buscais? lugar seguro
+ Adonde vos espera a sepultura!)
+ Entra com mão armada o povo duro
+ Por esta peregrina formosura:
+ Ja começa a provar os aços fortes;
+ Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes.
+
+ Ja nu todas as virgens offrecião
+ O delicado collo, o tenro peito:
+ Era para caber quantas cahião,
+ Todo largo lugar lugar estreito.
+ Do puro sangue os rios que corrião,
+ Outro vermelho mar ja tinhão feito.
+ Tu só, Córdula, á morte t'escondeste;
+ Mas despois a buscaste e recebeste.
+
+ Ciriáco o primeiro, bem constante,
+ A vida ao ferro offrece sem espanto:
+ O moço Rei Inglez cahio diante
+ Daquelles castos olhos que amou tanto.
+ Espera, brando esposo, hum breve instante;
+ Espera a tua doce esposa, em tanto
+ Que outro Amor outro golpe lhe prepara;
+ E juntos entrareis na Patria chara.
+
+ Em qual terra, ó crueis, em qual cidade,
+ Entre quaes gentes mais a furor dadas,
+ Se não usou d'amor e de piedade
+ Com formosas donzellas desarmadas?
+ Como belleza tanta e tal idade
+ Vos deixou arrancar vossas espadas?
+ Ah lobos carniceiros, tigres bravos,
+ Filhos da crueldade, d'ira escravos!
+
+ De quantos animaes sustenta a terra
+ Nunca tanta crueza foi usada;
+ Inda que tenhão huns com outros guerra,
+ Nunca do macho a femia he lastimada:
+ Anda a cerva co'o cervo por a serra,
+ A novilha do touro acompanhada,
+ Á leoneza o leão defender preza:
+ Vós sós quebrais as leis da natureza?
+
+ Puderão outros olhos por ventura
+ De lagrimas divinas escusar-se,
+ Vendo, cuberta ja de névoa escura,
+ A luz de tantos bellos apagar-se?
+ Vendo a purpurea rosa, a cecem pura
+ Em tão formosas faces descorar-se?
+ As tranças d'ouro vendo, espedaçadas,
+ Por debaixo dos pés andar pizadas?
+
+ Na fôrça desta furia accesa e brava
+ O Tyranno cruel a vista ergueo
+ Á virgem, qu'invencivel animava
+ As almas que juntára para o Ceo.
+ Assi ja envolta em sangue como andava,
+ Da sua formosura se venceo;
+ E com doces razões, que Amor ensina,
+ A vencê-la d'amor se determina.
+
+ Fingindo se arrepende do passado,
+ (E de fingi-lo se arrepende azinha)
+ Sua vida lhe offrece e seu Estado,
+ Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha.
+ O seu amor lhe pede confiado;
+ O seu amor que dado a seu Deos tinha:
+ Pede-lhe o seu amor; antes não seu,
+ Porque ja dado o havia a quem lho deu.
+
+ Usa de mil lisonjas, mil enganos,
+ Por conseguir o seu desejo bruto.
+ A flor logra (dizia) de teus anos,
+ Colhe d'essa belleza o doce fruto:
+ Não dês materia nova a novos danos,
+ Não pagues verde á morte o seu tributo:
+ Olha que tens em mi (não são cautelas)
+ Outro Reino, outro esposo, outras donzelas.
+
+ Não faças mentirosa a natureza
+ Que dá d'amor em ti grande esperança.
+ Que se póde alcançar d'essa belleza,
+ Se ja piedade della não s'alcança?
+ Aos tigres, aos leões deixa a braveza,
+ E deixa aos meus soldados a vingança.
+ Se por ver-me cruel queres ser crua,
+ Ja te vingas de mi em cousa tua.
+
+ Volve esses olhos ja com mais brandura;
+ Esses olhos, d'Amor doce morada:
+ Delles não faça em mi a formosura,
+ O qu'em tantos ja fez a minha espada.
+ Se queres derribar minha ventura,
+ Que delles estar vejo pendurada,
+ Acabarei de ver quão pouca tenho,
+ Pois donde a matar vim a morrer venho.
+
+ Como do rôgo meu não te aproveitas,
+ Quando o teu risco a me rogar te obriga?
+ Ou não conheces bem a quem engeitas,
+ Ou m'engeitas por mais que seja e diga.
+ Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas?
+ Mais proprio era chamar-te dura imiga.
+ Mas não consente Amor nome tão duro
+ Em parecer tão brando e tão seguro.
+
+ Os raios desses olhos ja serenos
+ Enxuguem desse rosto as puras rosas;
+ O triste suspirar ja sôe menos
+ Nestas concavidades saudosas.
+ Não fação grande mal males pequenos;
+ Que não soffre esperanças vagarosas
+ Quem anda costumado em seus amores
+ A medir por seu gôsto seus favores.
+
+ Que gôsto podes ter de maltratar-me,
+ Vendo-me do passado arrependido?
+ Attenta que mais ganhas em ganhar-me,
+ Do que neste destrôço tens perdido.
+ Se queres insistir em desprezar-me,
+ Ver-me-has, sôbre amoroso, enfurecido.
+ Não me declaro mais, porque não quero
+ Que o medo faça o que d'amor espero.
+
+ Ah perfido amador! deixa o teu êrro.
+ Não vês quanto enganado e cego andas?
+ Aquella a quem não vence o duro ferro,
+ Como a podem vencer palavras brandas?
+ Manda a sua alma ja deste destêrro,
+ Com essas que a seu doce Esposo mandas.
+ Não a detenhas mais em teus amores,
+ Se dobrar-lhe não queres suas dores.
+
+ Vendo o cruel, emfim, que o que dizia,
+ Tomava a bella virgem por affronta,
+ E que quanto d'amor mais se accendia,
+ Ella delle fazia menos conta;
+ No concavo arco que na mão trazia,
+ Huma setta embebeo d'aguda ponta,
+ E o peito lhe passou de banda a banda.
+ Assi rendeo o esprito a virgem branda.
+
+ Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza;
+ As azas abre ja, ja a luz derrama;
+ Vôa com desusada ligeireza
+ Onde o teu Bem t'espera, onde te chama.
+ Verás baixa do mundo a mór alteza;
+ Verás qu'engana mais a quem mais ama;
+ E lá do teu Amor, cá suspirado,
+ O fructo colherás tão desejado.
+
+ Em paz te vae, ó alma pura e bella,
+ Mais bella inda no sangue que verteste;
+ Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella
+ Formosa Região, alta e celeste.
+ Coroada de glória immortal, nella
+ Com Christo lograrás, a quem te déste
+ Com tantas e tão bem nascidas almas,
+ (Formosura do Ceo) onze mil palmas.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+COMEDIAS.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+
+DO PROLOGO.
+
+ O MORDOMO, ou DONO DA CASA.
+ MARTIM CHINCHORRO.
+ AMBROSIO, Escudeiro.
+ LANÇAROTE, Moço.
+
+
+DA COMEDIA.
+
+ ELREI SELEUCO.
+ A RAINHA ESTRATONICA.
+ O PRINCIPE ANTIOCHO.
+ LEOCADIO, Pagem do Principe Antiocho.
+ FROLALTA, Criada da Rainha Estratonica.
+ HUM PORTEIRO DA CANA.
+ HUMA MOÇA DA CAMARA.
+ HUM PHYSICO, ou MEDICO.
+ SANCHO, Moço do Physico.
+ ALEXANDRE DA FONSECA, hum dos Musicos.
+
+
+
+ * * * * *
+
+
+ELREI SELEUCO.
+
+COMEDIA.
+
+
+
+
+PROLOGO.
+
+_Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa._
+
+Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quiz
+representar huma Farça; e diz, que por não se encontrar com outras ja
+feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo assi
+arrazoado satisfazer. E diz que quem se della não contentar, querendo
+outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da
+Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em
+casa do Boticario; e não lhe faltará que conte. Porém diz o Autor que
+usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto á obra, se não parecer
+bem a todos, o Autor diz que entende della menos que todos os que lha
+puderem emendar. Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que
+responde com hum dito de hum Philosopho, que diz: _Vós outros estudastes
+para praguejar, e eu para desprezar praguentos?_ Eu com tudo quero saber
+da Farça, em que ponto vai. Lançarote?
+
+MOÇO.
+
+Senhor.
+
+MORDOMO.
+
+São ja chegadas as figuras?
+
+MOÇO.
+
+Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida.
+
+MORDOMO.
+
+Como assi?
+
+MOÇO.
+
+Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com friza, nem talão de
+çapato, que não sahisse fóra do couce. Ora vierão huns embuçadetes, e
+quizerão entrar por fôrça; ei-lo arrancamento na mão: derão huma pedrada
+na cabeça ao Anjo, e rasgárão huma meia calça ao Ermitão; e agora diz o
+Anjo que não ha de entrar, até lhe não darem huma cabeça nova, nem o
+Ermitão até lhe não pôrem huma estopada na calça. Este pantufo se perdeo
+alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que não quero nada do
+alheio.
+
+MORDOMO.
+
+Se elle fôra outra peça de mais valia, tu botáras a consciencia pela
+porta fóra, para o metteres em tua casa.
+
+MOÇO.
+
+Oh! se o elle fôra, mais consciencia sería torná-lo a seu dono, quem o
+havia mister para si.
+
+MORDOMO.
+
+Ora vem cá: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos
+cá Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê para cá, e que traga
+comsigo o Senhor Romão d'Alvarenga, para que sôbre o Canto-chão botemos
+nosso contraponto de zombaria. Ouves, Lançarote? ir-lhe-has abrir a
+porta do quintal, porque mudemos o vinte aos que cuidão de entrar por
+fôrça.
+
+_Indo-se o Moço diz:_
+
+Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma
+bolsa com hum par de reales, que são bons para Escudeiro hypocrita; que
+são pouco, e valem muito?
+
+MORDOMO.
+
+Moço, que estás fazendo que não vás?
+
+MOÇO.
+
+Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fôra aquelle
+tempo, em que corrião as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para
+humas palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste?
+
+MORDOMO.
+
+Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dirá.
+
+_Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moço, e diz o Mordomo:_
+
+Não ha mais mao conselho, que ter hum villão destes mimoso, porque logo
+passão o pé além da mão, e zombão assi da gravidade de seu amo. Mas
+tornando ao que importa; vossas mercês he necessario que se cheguem huns
+para os outros, para darem lugar aos outros Senhores que hão de vir; que
+de outra maneira, se todo o corro se ha de gastar em palanques, será bom
+mandar fazer outro alvalade; e mais, que me hão de fazer mercê, que se
+hão de desembuçar, porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer
+mal: este só desgôsto tẽe hum Auto, que he como offício de Alcaide; ou
+haveis deixar entrar a todos, ou vos hão de ter por villão ruim.
+
+_Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro Ambrosio, e diz:_
+
+MARTIM.
+
+Entre v. m.
+
+AMBROSIO.
+
+Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou
+diante. Beijo as mãos a v. m. A verdade he esta, passear em casa
+juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; além
+disto Auto para esgaravatar os dentes: esta he a vida, de que se ha de
+fazer consciencia.
+
+MORDOMO.
+
+Senhor, o descanso dizem lá, que se ha de ter em quanto homem puder,
+porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu
+nome he.
+
+MARTIM.
+
+Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho
+traz mais somno comsigo que huma prégação comprida.
+
+MORDOMO.
+
+Senhor, por bom mo vendêrão, e eu o tomei á cala de sua boa fama. E se
+tal he, eu acho que, por outra parte, não ha tal vida, como ouvir hum
+villão, que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que huma
+pera-pão, e huma donzella, que vem podre de amor, fallando como
+Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.
+
+MARTIM.
+
+Para estes taes he grande peça rapaz travesso com mólho de junco, porque
+não andem mais ao coscorrão, mais roucos que huma cigarra, trazendo de
+si enfadamento.
+
+MOÇO.
+
+O lá Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro.
+Ora sus, ha hi quem dê mais? que ainda vos veja todas a mim ás
+rebatinhas: ora sus, venhão de mano em mano, ou de mana em mana.
+
+MORDOMO.
+
+Moço, falla bem ensinado.
+
+MOÇO.
+
+Senhor, não faz ao caso; que os erros por amores tẽe privilegio
+de Moedeiro.
+
+AMBROSIO.
+
+Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito por entrar.
+
+MOÇO.
+
+Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão.
+
+AMBROSIO.
+
+Oh que salgado moço! Zombas de mi? Vem cá. Donde es natural?
+
+MOÇO.
+
+Donde quer que me acho.
+
+AMBROSIO.
+
+Pergunto-te onde nasceste.
+
+MOÇO.
+
+Nas mãos das parteiras.
+
+AMBROSIO.
+
+Em que terra?
+
+MOÇO.
+
+Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida
+daquella hora, que não havia palmo de terra nella.
+
+MARTIM.
+
+Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para
+ver com que disparate respondes.
+
+MOÇO.
+
+A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio.
+
+MARTIM.
+
+Vem cá. De teu tio! E isso como?
+
+MOÇO.
+
+Como? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não entendem. Meu
+pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamão aos filhos sobrinhos; e
+daqui me ficou a mi ser filho de meu tio.
+
+MARTIM.
+
+Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este?
+
+MORDOMO.
+
+Aqui me veio ás mãos sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e
+mais tẽe outra cousa, que huma trova fa-la tão bem como vós, ou como
+eu, ou como o Chiado.
+
+AMBROSIO.
+
+Não! quanté disso nós havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto
+se vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este?
+
+MORDOMO.
+
+Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste á moça Briolanja, por amor
+de mi!
+
+MOÇO.
+
+Senhor, si, direi; mas aquella trova não he senão para quem a entender.
+
+MARTIM.
+
+Como! Tão escura he ella?
+
+MOÇO.
+
+Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu não sei escrever
+senão com carvão; e porém diz assi:
+
+ Por amor de vós, Briolanja,
+ Ando eu morto,
+ Pezar de meu avô torto.
+
+MARTIM.
+
+Oh como he galante! Que descuido tão gracioso! Mas vem cá: que culpa te
+tẽe teu avô nos desfavores que te tua dama dá?
+
+MOÇO.
+
+Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, não pezarei eu antes dos
+meus parentes, que dos alheios?
+
+MORDOMO.
+
+Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de gavetas, que
+trombeta de Serenissimo de la Valla.
+
+MOÇO.
+
+A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de
+mergulho a entenderão. E por isso mandem assoar os engenhos, e metão
+mais huma sardinha no entendimento; e póde ser que com esta servilha lhe
+calçará melhor: e todavia palra assi:
+
+ Vossos olhos tão daninhos
+ Me tratárão de feição,
+ Que não ha em meu coração
+ Em que atem dous reis de cominhos.
+ Meu bem anda sem focinhos
+ Por vós morto,
+ Pezar de meu avô torto.
+
+MARTIM.
+
+Ora bem: que tẽe de ver os cominhos com o teu coração?
+
+MOÇO.
+
+Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedella, não
+se podem comer senão com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era
+tendeira; e este he o verdadeiro entendimento.
+
+MARTIM.
+
+E aquella regra que diz, _Meu bem anda sem focinhos_, me dá tu a
+entender; que ella não dá nada de si.
+
+MOÇO.
+
+Nunca vossas mercês ouvirão dizer: _Meu bem e meu mal lutárão hum dia;
+meu bem era tal, que meu mal o vencia?_ Pois desta luta foi tamanha a
+quéda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por
+ficarem tão esfarrapados, que lhe não podião botar pedaço; por conselho
+dos Physicos lhos cortárão por lhe nelles não saltarem erpes; e daqui
+ficou: _Meu bem anda sem focinhos_, como diz o texto.
+
+AMBROSIO.
+
+Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por dia de S. Nicolao.
+
+MARTIM.
+
+Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natural para Logico.
+
+MOÇO.
+
+Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas não tão fria como vossas mercês.
+
+MORDOMO.
+
+Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por
+baixo desta mesa, e ouçamos este Representador, que vem mais amarrotado
+dos encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira
+da arca de cedro.
+
+MARTIM.
+
+Senhor, elle parece que aprende a cirurgião.
+
+AMBROSIO.
+
+Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos
+verdes.
+
+MORDOMO.
+
+Emfim, parece figura de Auto em verdade.
+
+_Entra o Representador._
+
+ He lei de direito, assaz verdadeira,
+ Julgar por si mesmos aquillo que vem;
+ Peloque, se cuidão que zombo de alguem,
+ Eu cuido que zombão da mesma maneira.
+
+E assi a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum conhecer seu
+proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me esquece o
+dito todo de ponto em claro: mas não sou de culpar, porque não ha mais
+que tres dias que mo derão. Mas em breves palavras direi a vossas mercês
+a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo até á ponta. Entrarão logo
+primeiramente quinze donzellas que vão fugidas de casa de seus paes, e
+vão com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos,
+metidos em hum covão, cantando: _Quem os amores tẽe em Cintra_; e
+despois de cantarem farão huma dança de espadas; cousa muito para ver:
+entra mais ElRei Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo
+Catharina Real com huns poucos de parvos n'huma joeira; e semeá-los-ha
+pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o
+Auto, com musica de chocalho e buzinas, que Cupido vem dar a huma
+alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-hão vossas mercês cada hum para suas
+pousadas, ou consoarão cá comnosco disso que ahi houver. Parece-me que
+nenhum diz que não. Ora pois ficareis _in vanum laboraverunt_, porque
+atégora zombei de vós, por me forrar do êrro da representação, como quem
+diz, _digo-to, antes que mo digas._
+
+AMBROSIO.
+
+Ora vos digo, Senhores, que se as figuras são todas taes, que acertarião
+em errar os ditos; aindaque me parece que este o não fez, senão a ser
+mais galante. Mas se assi he, ella he a melhor invenção que eu vi;
+porque jagora representações, todas he darem por praguentos; e são tão
+certas, que he melhor errá-las, que acertá-las.
+
+MORDOMO.
+
+Parece-me que entrão as figuras de siso: vejamos se são tão galantes na
+prática, como nos vestidos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+_Entra El Rei Seleuco, com a Rainha Estratonica._
+
+REI.
+
+ Senhora, desque a ventura
+ Me quiz dar-vos por mulher,
+ Me sinto emmeninecer;
+ Porqu'em vossa formosura
+ Perde a velhice seu ser.
+ Hum homem velho, cansado,
+ Não tẽe fôrça, nem vigor,
+ Para em si sentir amor:
+ Se não he qu'estou mudado
+ Com ser vosso n'outra côr.
+ Muito grande dita tem
+ A mulher que he formosa.
+
+RAINHA.
+
+ Senhor, grande: mas porém
+ Se a tal he virtuosa,
+ Quer-lhe a ventura mor bem.
+
+REI.
+
+ Si, mas porém nunca vemos
+ A natureza esmerar
+ Adonde haja que taxar;
+ Que quando ella faz extremos,
+ Em tudo quer-se extremar.
+ Eu fallo como quem sente
+ Em vós está calidade,
+ Pelo que vejo presente;
+ E se me esta mostra mente,
+ Mente-me a mesma verdade.
+ Huma só tristeza tenho
+ Que não tẽe a meninice,
+ Que no mor contentamento
+ O trabalho da velhice
+ Me embaraça o sentimento.
+
+RAINHA.
+
+ Senhor, novidades tais
+ Far-me-hão crer de verdade...
+
+REI.
+
+ Novidades lhe chamais!
+ Folgo, Senhora, que achais
+ Na velhice novidades.
+
+RAINHA.
+
+ Senhor, dias ha que sento
+ Em o Principe Antiôcho
+ Certo descontentamento:
+ Dera alguma cousa a trôco
+ Por saber seu sentimento.
+ Vejo-lhe amarello o rosto,
+ Ou de triste, ou de doente:
+ Ou elle anda mal disposto,
+ Ou lá tẽe certo desgôsto
+ Que o não deixa ser contente.
+ Mande, Senhor, vossa Alteza
+ A chamá-lo por alguem,
+ Saberemos que mal tem,
+ Se he doença de tristeza,
+ De que nasce, ou de que vem.
+
+REI.
+
+ Certo qu'eu me maravilho
+ Do que vos ouço dizer.
+ Que mal póde nelle haver?
+ Ide dizer a meu filho
+ Que me venha logo ver.
+
+RAINHA.
+
+ Se curar não se procura
+ Huma cousa destas tais,
+ Vem despois a crescer mais.
+ Quando ja não se acha cura,
+ Toda a cura he por demais.
+
+_Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome Leocadio._
+
+PRINCIPE.
+
+ Leocadio, se es avisado,
+ E não te falta saber,
+ Saber-me-has dar a entender,
+ Quem ama desesperado,
+ Que fim espera de haver?
+
+PAGEM.
+
+ Senhor, não.
+ Mas porém porque razão
+ Lhe avem sabê-lo, ou de que?
+
+PRINCIPE.
+
+ Pergunto-te a conclusão;
+ Não me perguntes porque.
+ Porque he minha pena tal,
+ E de tão estranho ser,
+ Que me hei de deixar morrer;
+ E por não cuidar no mal
+ O não ouso de dizer.
+ Que maneira de tormento
+ Tão estranho e evidente,
+ Que nem cuidar se consente!
+ Porque o mesmo pensamento
+ Ha medo do mal que sente.
+
+PAGEM.
+
+ Não entendo a Vossa Alteza.
+
+PRINCIPE.
+
+ Assi importa á minha dor.
+
+PAGEM.
+
+ E porque razão, Senhor?
+
+PRINCIPE.
+
+ Para que seja a tristeza
+ Castigo do meu temor.
+ Porque ordena
+ O Amor, que me condena,
+ Que se haja de sentir,
+ E sem dizer nem ouvir.
+ Bem-aventurada a pena
+ Que se póde descobrir!
+ Oh caso grande e medonho!
+ Oh duro tormento fero!
+ Verdade he isto, qu'eu quero?
+ Não he verdade, mas sonho
+ De que acordar não espero.
+ Quero-me chegar a ElRei
+ Meu pae, que ja m'está vendo.
+ Mas onde vou? Não m'entendo.
+ Com que olhos eu olharei
+ Hum pae, a quem tanto offendo?
+ Que novo modo de antolhos!
+ Porque neste atrevimento
+ Devêra meu sentimento
+ Para elle não ter olhos,
+ Nem para ella pensamento.
+
+_Chega aonde está ElRei, e diz:_
+
+REI.
+
+ Filho, como andais assi?
+ Que tanto desgôsto tomo
+ De vos ver como vos vi!
+
+PRINCIPE.
+
+ Não sei eu tanto de mi,
+ Que possa saber o como.
+ Dias ha ja, Senhor, que ando
+ Mal disposto, sem saber
+ Este mal que possa ser;
+ Que se nelle estou cuidando,
+ Quasi me vejo morrer.
+
+REI.
+
+ Pois, filho, será razão
+ Que meus Physicos vos vejão.
+
+PRINCIPE.
+
+ Os Physicos, Senhor, não;
+ Que os males qu'em mi estão,
+ São curas que me sobejão.
+
+RAINHA.
+
+ Deite-se; que na verdade
+ Hum corpo, deitado e manso,
+ Descansa á sua vontade.
+
+PRINCIPE.
+
+ Senhora, esta enfermidade
+ Não se cura com descanso.
+
+RAINHA.
+
+ Todavia, bom será
+ Que lhe fação huma cama.
+
+PRINCIPE.
+
+ (Hum coxim abastará,
+ Que assi não descansará
+ O repouso de quem ama.)
+
+REI.
+
+ Vamos, filho, para dentro,
+ Em quanto a cama se faz:
+ Repousae como capaz;
+ Que a mi me dá cá no centro
+ A pena que assi vos traz.
+
+_Vão-se, e vem huma moça a fazer a cama e diz:_
+
+MOÇA.
+
+ Mimos de grandes Senhores,
+ E suas extremidades,
+ Me hão de matar de amores,
+ Porque de meros dulçores
+ Adoecem.
+ Então logo lhes parecem
+ Aos outros, que são mamados;
+ E os que são mais privados,
+ Sôbre elles estremecem.
+ Certo (e assi Deos me ajude!)
+ Que são muito graciosos,
+ Porque de meros viçosos,
+ Não podem com a saude.
+ Mas deixallos,
+ Porque elles darão nos vallos,
+ Donde mais não se erguerão,
+ Inda que lhe dem a mão
+ Os seus privados vassallos.
+
+_Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e diz:_
+
+PORTEIRO.
+
+ Traz, traz.
+
+MOÇA.
+
+ Jesu! Quem'stá ahi?
+
+PORTEIRO.
+
+ Ja vós, mana, ereis mamada:
+ Para vos levar furtada
+ Nunca tal ensejo vi.
+ E vós estais descuidada!
+
+MOÇA.
+
+ E meus descuidos que fazem?
+
+PORTEIRO.
+
+ Vossos descuidos? cadella!
+ Ah minh'alma! Sois tão bella,
+ Qu'esses descuidos me trazem
+ Dous mil cuidados á vela.
+ Pois sou vosso ha tantos annos,
+ Mana, tirae os antolhos,
+ E vereis meus tristes dannos.
+
+MOÇA.
+
+ Não tenhais esses enganos.
+
+PORTEIRO.
+
+ Nem vós tenhais esses olhos;
+ Que de vossos olhos vem
+ Esta minha pena fera.
+
+MOÇA.
+
+ De meus olhos? Assim era.
+
+PORTEIRO.
+
+ Moça, que taes olhos tem,
+ Nenhuns olhos ver devêra.
+
+MOÇA.
+
+ E porque?
+
+PORTEIRO.
+
+ Porque cegais
+ A quantos olhos olhais,
+ Postoque por vós padecem.
+ Olhos, que tão bem parecem,
+ Porque não os castigais?
+
+MOÇA.
+
+ Deos dê siso, pois de vós
+ Tirou o que aos outros deu.
+
+PORTEIRO.
+
+ Desatae-me lá esses nós.
+ Que mais siso quero eu,
+ Que não ter siso por vós?
+
+MOÇA.
+
+ Fallais d'arte; eu vos prometo
+ Que a resposta vem á vela.
+ Isso he ôlho de panella.
+ Quanto ha ja que sois discreto?
+
+PORTEIRO.
+
+ Quanto ha ja que vós sois bella?
+
+MOÇA.
+
+ Dais-me logo a entender
+ Que eu sou feia, a meu ver.
+
+PORTEIRO.
+
+ E isso porque o entendeis?
+
+MOÇA.
+
+ Porque? Porque me dizeis
+ Que só de meu parecer
+ Vos procede o que sabeis.
+
+PORTEIRO.
+
+ He verdade.
+
+MOÇA.
+
+ Pois bem sento
+ Que o vosso saber he vento.
+ Fica a cousa declarada,
+ Meu parecer não ser nada.
+
+PORTEIRO.
+
+ Olhae aquelle argumento:
+ Além de bella, avisada!
+ Oh nem tanto, nem tão pouco!
+ Vêde vós o que fallais.
+
+MOÇA.
+
+ Cego no saber andais.
+
+PORTEIRO.
+
+ No siso, mas não tão louco
+ Como vós, mana, cuidais.
+ Ora dizei, duna má:
+ Que não amais, quem vos ama?
+
+MOÇA.
+
+ Ouvistes vós cantar ja,
+ _Velho malo, em minha cama?_
+ Ja m'entendereis.
+
+PORTEIRO.
+
+ Ha, ha.
+ Senhora, estais enganada;
+ Que com huma capa e espada,
+ E com este capuz fóra...
+
+MOÇA.
+
+ Ora bem: tirae-o ora,
+ E fazei huma levada.
+
+PORTEIRO.
+
+ Não: se m'eu hoje alvoróço,
+ Achar-me-heis d'outra feição.
+
+_Aqui tira o capuz e diz:_
+
+PORTEIRO.
+
+ Tenho má disposição?
+ Estas obras são de moço,
+ Se as mostras de velho são.
+
+MOÇA.
+
+ Tendes mui gentis meneios.
+
+PORTEIRO.
+
+ Não, Senhora; faço extremos.
+
+MOÇA.
+
+ Passeae ora, veremos
+ Se tendes tão bons passeios.
+
+PORTEIRO.
+
+ Tudo, Senhora, faremos.
+
+MOÇA.
+
+ Virae ora a essoutra mão.
+
+PORTEIRO.
+
+ Esta disposição vêde-a;
+ Que tenho gentil feição.
+
+MOÇA.
+
+ Tendes vós mui boa redea.
+ Soffreis ancas?
+
+PORTEIRO.
+
+ Isso não.
+
+MOÇA.
+
+ Por certo que tendes graça
+ Em tudo quanto fizerdes.
+ Fazei mais o que souberdes.
+
+PORTEIRO.
+
+ Não sei cousa que não faça,
+ Senhora, por me quererdes.
+
+MOÇA.
+
+ Tendes vós muito bom ar.
+
+PORTEIRO.
+
+ Mais qu'isto faz quem quer bem.
+
+MOÇA.
+
+ I-vos asinha, que vem
+ O Principe a se deitar.
+
+PORTEIRO.
+
+ Nunca huma pessoa tem
+ Hum'hora para fallar!
+
+_Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e diz:_
+
+PRINCIPE.
+
+ Seja a morte apercebida,
+ Porque ja o Amor ordena
+ A dar a meu mal sahida;
+ Porque o fim da minha vida
+ O seja da minha pena.
+ Não tarde, para tomar
+ Vingança de meu querer,
+ Pois não se póde dizer
+ Que não tẽe ja que esperar,
+ Nem com que satisfazer?
+ Os Physicos vem e vão,
+ Sem saberem minhas mágoas,
+ Nem o pulso me acharão;
+ E se o querem ver nas ágoas,
+ As dos olhos lho dirão.
+ Se com sangrias tambem
+ Procurão ver-me curado;
+ O temor de meu cuidado
+ O mais do sangue me tem
+ Nas veias todo coalhado.
+ Quero-me aqui encostar,
+ Que ja o esprito me cae.
+ Leocadio, vae-me chamar
+ Os Musicos de meu Pae;
+ Folgarei de ouvir cantar.
+
+_Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo assi:_
+
+PRINCIPE.
+
+ Senhora, qual desatino
+ Me trouxe a tanta tristura?
+ Foi, Senhora, por ventura
+ A fôrça do meu destino,
+ Como vossa formosura?
+ Bem conheço que não posso
+ Ter tão alto pensamento;
+ Mas disto só me contento,
+ Que se paga com ser vosso
+ O mor mal de meu tormento.
+
+_Entrão os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum delles:_
+
+ALEXANDRE.
+
+ Senhor, de que se acha mal
+ O Principe, ou que mal sente?
+
+PAGEM.
+
+ Senhor, sei que está doente;
+ Mas sua doença he tal,
+ Qu'entender se não consente.
+ Os Physicos vem e vão,
+ Huns e outros a meude,
+ Sem o poderem dar são.
+ Quanto mais cura lhe dão,
+ Então tẽe menos saude.
+ O Pae anda em sacrificios
+ Aos deoses, que lhe dem
+ A saude que convem;
+ Dizendo que por seus vicios
+ O mal a seu filho vem.
+ Eu suspeito qu'isto são
+ Alguns novos amorinhos,
+ Que tera no coração.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Amores! com quem serão,
+ Que lhe não dem de focinhos?
+
+PORTEIRO.
+
+ Senhores, que lhe parece
+ Da doença de Antiôcho?
+
+ALEXANDRE.
+
+ Diga-lha quem lha conhece.
+
+PAGEM.
+
+ Que toma morrer a trôco
+ De callar o que padece.
+
+PORTEIRO.
+
+ Isso he estar emperrado
+ Na doença; que he peor.
+ Tẽe-no os Physicos curado?
+
+ALEXANDRE.
+
+ Oh! que de mal del amor
+ No ha, Señor, sanador.
+
+PORTEIRO.
+
+ Fallais como exprimentado;
+ Qu'eu cuido que esta fadiga,
+ Que o faz com que desespere;
+ Y por mas tormento quiere
+ Que se sienta, y no se diga.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Pois, Senhor meu, isso asselle,
+ Porque a pena, que sabeis,
+ Que eu cuido que está nelle,
+ Dar-lhe-ha penas crueis,
+ Pues no hay quien la consuele.
+
+PORTEIRO.
+
+ Folgo, porque m'entendeis.
+
+PAGEM.
+
+ Hemo-nos, Senhores, de ir,
+ Porque nos está 'sperando.
+
+PORTEIRO.
+
+ Pois eu tambem hei de ir;
+ Que não me posso espedir
+ Donde vejo estar cantando.
+
+PRINCIPE.
+
+ Cantae, por amor de mi,
+ Alguma cantiga triste;
+ Que todo meu mal consiste
+ Na tristeza em que me vi.
+
+PORTEIRO.
+
+ Mande-lhe cantar hum chiste.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Chiste não, que he deshonesto,
+ E não tẽe esses extremos:
+ Outro canto mais modesto;
+ Porém não sei que diremos.
+
+PAGEM.
+
+ Gaoleão o dirá presto.
+
+PORTEIRO.
+
+ Dá licença V. Alteza
+ Que diga minha tenção?
+
+PRINCIPE.
+
+ Dizei: seja em canto-chão.
+
+PORTEIRO.
+
+ Pois crede qu'he subtileza.
+ Qu'os Anjos a comerão.
+ Digão esta:
+ _Enforquei minha esperança,
+ E o Amor foi tão madraço,
+ Que lhe cortou o baraço._
+
+ALEXANDRE.
+
+ Não me parece essa boa.
+
+PORTEIRO.
+
+ Haja eu perdão,
+ Porque não a entenderão.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Entender!
+
+PORTEIRO.
+
+ Bofé qu'he boa:
+ Não lhe cahis na feição?
+
+ALEXANDRE.
+
+ Dizei ora outra melhor,
+ Com que nos atarraqueis.
+
+PORTEIRO.
+
+ Ora esperae, e ouvireis:
+ Se a esta não dais louvor,
+ Quero que me degolleis.
+
+Cantiga.
+
+ Com vossos olhos Gonçalves,
+ Senhora, captivo tendes
+ Este meu coração Mendes.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Essa parece mui taibo,
+ Porque mostra bom indicio.
+
+PORTEIRO.
+
+ Vós cuidareis qu'eu que raivo.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Todavia tẽe mao saibo.
+ Ora mal lhe corre o offício.
+
+PRINCIPE.
+
+ Tá, não vá mais por diante
+ A zombaria, que he má:
+ Cantae qualquer dellas ja;
+ Qu'esse Porteiro he galante,
+ Ninguem o contentará.
+
+_Aqui cántão, e em acabando, diz o_
+
+PAGEM.
+
+ Parece que adormeceo.
+
+PORTEIRO.
+
+ Pois será bom que nos vamos.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Senhor, quer que nos vejamos?
+
+PORTEIRO.
+
+ Senhor vir-me-ha do ceo:
+ Releva-me que o façamos.
+
+_Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta, e diz:_
+
+RAINHA.
+
+ Frolalta, como ficava
+ Antiôcho em te tu vindo?
+
+FROLALTA.
+
+ Ficava-se despedindo
+ Da vida qu'então levava,
+ E assi seus dias cumprindo.
+
+RAINHA.
+
+ Oh grave caso d'amor!
+ Desesperada affeição!
+ Oh amor sem redempção,
+ Que alli te fazes maior
+ Onde tens menos razão!
+ No mais alto e fundo pégo
+ Alli tens maior porfia:
+ Razão de ti não se fia.
+ Quem a ti te chamou cego,
+ Mui bem soube o que dizia.
+ Por ventura hia chorando?
+
+FROLALTA.
+
+ Chorando hia e chamando
+ Ao Amor, Amor cruel;
+ E em, Senhora, se deitando
+ Lhe cahio este papel.
+
+RAINHA.
+
+ Que papel?
+
+FROLALTA.
+
+ Este, Senhora.
+
+RAINHA.
+
+ Amostra, que quero lê-lo.
+ Agora acabo de crê-lo;
+ Que ao que mostra por fóra,
+ Aqui lhe lançou o sello.
+
+_Aqui lê o papel e diz:_
+
+RAINHA.
+
+ Oh estranha pena fera!
+ Desditosa vida chara!
+ Oh quem nunca cá viera,
+ E com seu Pae não casára,
+ Ou em casando morrêra!
+
+FROLALTA.
+
+ Aindaque eu pêca são,
+ Senhora, tudo bem vejo.
+ Attente, que na eleição
+ O que lhe pede o desejo
+ Não consente o coração.
+
+RAINHA.
+
+ Frolalta, pois qu'es discreta
+ Nada te posso encobrir;
+ Porque, se queres sentir,
+ A huma mulher discreta
+ Tudo se ha de descobrir.
+ O dia qu'entrei aqui,
+ Que a Seleuco recebi,
+ Logo nesse mesmo dia
+ No Principe filho vi
+ Os olhos com que me via.
+ Este principio soffri-lho,
+ Para ver se se mudava;
+ Antes mais se accrescentava:
+ Eu amava-o como filho,
+ E elle d'outr'arte me amava.
+ Agora vejo-o no fim
+ Por se me não declarar.
+ E pois ja que a isso vim,
+ A morte que o levar,
+ Me leve tambem a mim.
+ Porque ja que minha sorte
+ Foi tão crua e desabrida,
+ Que me não quer dar sahida;
+ Sejamos juntos na morte,
+ Pois o não somos na vida.
+ Oh quem me mandou casar,
+ Para ver tal crueldade!
+ Ninguem venda a liberdade,
+ Pois não póde resgatar
+ Onde não tẽe a vontade.
+ Que não ha mor desvario,
+ Que o forçado casamento
+ Por alcançar alto assento;
+ Que, emfim, todo o senhorio
+ Está no contentamento.
+ Não sei se o vá ver agora,
+ Se será tempo conforme,
+ Ou se imos a deshora.
+
+FROLALTA.
+
+ Despois iremos, Senhora,
+ Que agora dizem que dorme.
+
+_Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:_
+
+PHYSICO.
+
+ Su madrasta oyó nombrar,
+ Y el pulso se le alteró:
+ Esto no entiendo yo,
+ Porque para le alterar
+ El corazon le obligó.
+ Pues que el corazon se altere,
+ Es porque en un momento
+ Algun nuevo vencimiento
+ De aficion terrible le hiere,
+ Que causa tal movimiento.
+ Pues que aficion cabe así
+ Con madrasta? Digo yo,
+ Dos razones hay aqui:
+ La una dice, que sí,
+ La otra dice, que no.
+ Empero yo determino
+ De exprimentar la verdad,
+ Y hacer una habilidad,
+ Que declare es agua, ó vino
+ Esta su enfermedad.
+ Porque toda esta mañana
+ Tengo estudiado su mal,
+ Sin ver causa efectual
+ De su dolencia inhumana,
+ Ni otra de su metal.
+ Llamar quiero este asnejon;
+ Mas aun debe de dormir,
+ Segun que es dormilon.
+ Sancho? ó Sancho?
+
+SANCHO.
+
+ Ah Señor.
+
+PHYSICO.
+
+ Ea, aun estás dormiendo?
+
+SANCHO.
+
+ Estoyme, Señor, vestiendo.
+
+PHYSICO.
+
+ Pues vellaco y sin sabor,
+ No me respondes dormiendo?
+ Vestios presto, ladron.
+ Oh qué mozo, y qué ventura!
+
+SANCHO.
+
+ (Mas qué amo y qué cabron!)
+ Embíeme acá el ropon,
+ Que no hallo mi vestidura.
+
+PHYSICO.
+
+ Que embie el ropon acá?
+ Parece que os desmandais.
+
+SANCHO.
+
+ Que vaya, Señor? ha, ha.
+ Que buenos dias hayais.
+
+_Entra o moço embrulhado em huma manta, e diz:_
+
+PHYSICO.
+
+ Di como vienes así
+ Con la manta, y para qué?
+
+SANCHO.
+
+ Yo, Señor, se lo diré:
+ Por venir presto vestí
+ Lo que mas presto me hallé:
+ Porque viendo que él me llama,
+ Dormiendo yo sin afan,
+ Salté presto de la cama,
+ Que parezco un gavilan,
+ Hermoso como una dama.
+
+PHYSICO.
+
+ Mas es tu bovedad tanta,
+ Que vienes desta facion?
+
+SANCHO.
+
+ De mi vestido se espanta?
+ De noche sirve de manta,
+ Y de dia de ropon.
+
+PHYSICO.
+
+ Embióme ElRey á llamar
+ Otra vez.
+
+SANCHO.
+
+ Y á mí?
+
+PHYSICO.
+
+ Y á ti!
+
+SANCHO.
+
+ Y él qué presta allá sin mí?
+
+PHYSICO.
+
+ Qué puedes tu aprovechar?
+
+SANCHO.
+
+ Yo se lo diré de aqui:
+ Si por la ventura quiere
+ Para que le dé consejo,
+ Cuando doliente estuviere;
+ Digo, coma, si pudiere,
+ Y beba buen vino anejo;
+ Porque este es el licor
+ Que dá fuerza, y es sabroso;
+ Que segun dicen, Señor,
+ _Vinum lœtificat cor
+ Hominis_, y le es provechoso.
+
+PHYSICO.
+
+ Ya sabes la medicina,
+ Que Avicena nos refiere.
+
+SANCHO.
+
+ Pues, Señor! porque es divina.
+ Pero ElRey qué le quiere,
+ Qué manda, ó qué determina?
+
+PHYSICO.
+
+ El Principe está doliente.
+
+SANCHO.
+
+ Oh mesquino! Y qué mal ha?
+
+PHYSICO.
+
+ Y á ti, necio, que te vá?
+
+SANCHO.
+
+ O Señor, que es mi pariente!
+
+PHYSICO.
+
+ Gracioso el bovo está.
+ Y pues díme por tu fé:
+ Llorarás si se muriere?
+
+SANCHO.
+
+ No, Señor, no lloraré;
+ Empero, Señor, haré
+ La peor cara que pudiere.
+
+PHYSICO.
+
+ Ea, bovo, vé corriendo,
+ Y ensilla la mula ayna.
+
+SANCHO.
+
+ Véngala ensillar mejor.
+
+PHYSICO.
+
+ Oh velhaco, y sin sabor!
+
+SANCHO.
+
+ Yo por cierto no lo entiendo.
+ Pero una medicina
+ Le he de pedir, Dios queriendo,
+ (Porque ando atribulado,
+ Y no sé parte de mi
+ Con este nuevo cuidado)
+ Para un sayo esfarrapado,
+ Que me dicen hay allí.
+
+PHYSICO.
+
+ Ora ensilla; y nunca viva,
+ Pues sufro tus desatinos.
+
+SANCHO.
+
+ Señor, pasion no reciva:
+ _Ya cavalga Calaínos
+ A la sombra de una oliva._
+
+_Aqui sahe bolindo com a almofaça, e acorda o Principe e diz:_
+
+PRINCIPE.
+
+ Oh bella vista e humana,
+ Por quem tanto mal sostenho!
+ Oh Princeza soberana!
+ Como? nos braços vos tenho,
+ Ou este sonho m'engana?
+ Pois como, sonho, tambem
+ Me queres vir magoar?
+ E para me atormentar
+ Mostras-me a sombra do bem
+ Para assi mais m'enganar?
+ Assi que, com quanto canso,
+ Ja não posso achar atalho,
+ Pois que o somno quieto e manso,
+ Que os outros tẽe por descanso,
+ Me vem a mi por trabalho.
+ Pois ha hi tantos enganos
+ Que condemnão minha sorte;
+ Não o tenho ja por forte,
+ Se á volta de tantos danos
+ Viesse tambem a morte.
+
+_Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:_
+
+REI.
+
+ Andae e vêde se achais
+ O rasto deste segredo,
+ Que me dizem que alcançais;
+ Ainda que tenho medo
+ Que lhe seja por demais.
+
+PHYSICO.
+
+ Plega á Dios que aqueste sea
+ Para salud y remedio
+ Desta dolencia tan fea.
+ Yo buscaré todo el medio,
+ Que presto sano se vea.
+
+_Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:_
+
+PHYSICO.
+
+ Aflojen, Señor, sus ais.
+ Como se halla en su penar?
+
+PRINCIPE.
+
+ Como me acho perguntais?
+ E como se póde achar
+ Quem sempre se perde mais?
+
+PHYSICO.
+
+ (La respuesta abre el camino.)
+ Imagina de contino?
+
+PRINCIPE.
+
+ Não tenho outro mantimento,
+ Nem outro contentamento,
+ Senão o em que imagino.
+
+_Aqui entra a Rainha e diz:_
+
+RAINHA.
+
+ Como se sente, Senhor?
+ Tẽe a febre mais pequena?
+
+PRINCIPE.
+
+ Responda-lhe minha pena.
+
+PHYSICO.
+
+ (Conocido es su dolor.
+ Ora sea en hora buena,
+ Tomada está la tristeza
+ Á las manos.) Qué sentió?
+ (Usaré de subtileza.)
+
+_Diz contra ElRei:_
+
+ Cúmpleme que solo yo
+ Platique con Vuestra Alteza.
+
+REI.
+
+ Cheguemos-nos para cá.
+
+RAINHA.
+
+ Não deve desesperar,
+ Qu'em fim, se bem attentar,
+ Para tudo o tempo dá
+ Tempo para se curar.
+
+PRINCIPE.
+
+ Que cura poderá ter
+ Quem tẽe a cura, Senhora,
+ No impossivel haver?
+
+RAINHA.
+
+ Ficae-vos, Senhor, embora,
+ Que vos não sei responder.
+
+_Vai-se a Rainha, e diz ElRei:_
+
+REI.
+
+ Neste mal, que não comprendo,
+ Que meio dais de conselho?
+
+PHYSICO.
+
+ Señor, nada entiendo dello;
+ Y supuesto que lo entiendo,
+ Yo quisiera no entendello.
+
+REI.
+
+ Porque?
+
+PHYSICO.
+
+ Porque he entendido
+ Lo mas malo de entender,
+ Para lo que puede ser,
+ Porque anda, Señor, perdido
+ De amores por mi muger.
+
+REI.
+
+ Santo Deos! que! tal amor
+ Lhe dá doença tão fera!
+ Que remedio achais melhor?
+
+PHYSICO.
+
+ Forçado será que muera,
+ Porque no muera mi honor.
+
+REI.
+
+ Pois como! a hum só herdeiro
+ Deste Reino não dareis
+ Vossa mulher, pois podeis;
+ Que tudo faz o dinheiro?
+ Pois este não o engeiteis;
+ Dae-lha, porque eu espero
+ De vos dar dinheiro e honra,
+ Quanto eu para elle quero.
+
+PHYSICO.
+
+ No tira el mucho dinero
+ La mancha de la deshonra.
+
+REI.
+
+ Ora bem pouco defeito!
+ He pequice conhecida,
+ Quando deixa de ser feito;
+ Porque com elle dais vida
+ A quem vos dara proveito.
+
+PHYSICO.
+
+ Cuan facilmente aporfia
+ Quien en tal nunca se vió!
+ Del consejo que me dió,
+ Vuestra Alteza que haria
+ Si agora fuese yo?
+
+REI.
+
+ A mulher que eu tivesse
+ Dar-lha-hia. Oxalá
+ Que elle a Rainha quizesse!
+
+PHYSICO.
+
+ Pues déla, si le parece,
+ Que por ella muerto está.
+
+REI.
+
+ Que me dizeis?
+
+PHYSICO.
+
+ La verdad.
+
+REI.
+
+ Sem dúvida, tal sentistes?
+
+PHYSICO.
+
+ Sin duda, sin falsedad.
+ Pues, Señor, ahora tomad
+ Los consejos que me distes.
+
+REI.
+
+ Certamente, qu'eu o via
+ Em tudo quanto fallava.
+ Como o vistes? porque via?
+
+PHYSICO.
+
+ Nel pulso, que se alterava
+ Si la via, ó si la oia.
+
+REI.
+
+ Que maneira ha de haver?
+ Qu'eu certo me maravilho,
+ Possa mais o amor do filho,
+ Do que póde o da mulher.
+ Finalmente hei-lha de dar,
+ Que a ambos conheço o centro.
+ Quero-o ir alevantar,
+ E iremos para dentro
+ Neste caso praticar.
+
+_Diz contra o Principe:_
+
+ Levantae-vos, filho, d'hi
+ O melhor que vós puderdes,
+ E vindo-vos para aqui;
+ Porque, emfim, o que quizerdes
+ Tudo havereis de mi.
+
+PAGEM.
+
+ Ah Senhores, oulá, ou?
+
+PORTEIRO.
+
+ Viestes em conjunção
+ A melhor que póde ser:
+ Haveis aqui de fazer
+ A tosquia a hum rifão.
+
+PAGEM.
+
+ Deixae-me, Senhor, dizer:
+ Haveis isto de acabar,
+ Coração, hi bugiar,
+ No esteis preso en cadenas,
+ Que pois o amor vos deo penas,
+ Que vos lanceis a voar.
+
+PORTEIRO.
+
+ Por certo que bem comprou.
+
+PAGEM.
+
+ Ora sabeis o que vai?
+ Antiocho que casou
+ Com a mulher de seu Pai,
+ E o mesmo Pae o ordenou.
+
+PORTEIRO.
+
+ Isso como?
+
+PAGEM.
+
+ Não o sei;
+ Porque dizem que a amava,
+ E que só por ella andava
+ Para morrer; e ElRei
+ Deo-a a quem a desejava.
+
+PORTEIRO.
+
+ Se o casa por querer bem
+ Com a moça, a quem elle ama,
+ Direi eu que a mim me inflama
+ O amor mais que a ninguem.
+
+PAGEM.
+
+ Pois pedi-lhe a nossa dama.
+
+PORTEIRO.
+
+ Por São Gil, que ei-los cá vem,
+ Elle pela mão com ella.
+
+_Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mão, e diz:_
+
+REI.
+
+ Que mais ha hi que esperar?
+ Olhae qu'estranheza vai!
+ O muito amor ordenar,
+ Ir-se o filho namorar
+ D'huma mulher de seu Pai!
+ Querer bem foi sua dor,
+ Negar-lha será crueldade;
+ Assi que ja foi bondade
+ Usar eu de tal amor,
+ E de tal humanidade.
+ Ella deixou de reinar
+ Como fazia primeiro
+ Por se com elle casar;
+ E por amor verdadeiro
+ Tudo se póde deixar.
+ Eu que nella tinha pôsto
+ Todo o bem de meu cuidado,
+ Deixei mais que ella ha deixado;
+ Que mais se deixa no gôsto,
+ Que no poderoso estado.
+ Mas ja que tudo isto vemos,
+ Hajão festas de prazer,
+ As que melhor possão ser;
+ Porqu'em tão grandes extremos,
+ Extremos se hão de fazer.
+ Hajão cantos para ouvir,
+ Jogos, prazeres sem fundo;
+ Porque, se quereis sentir,
+ Deste modo entrou o mundo,
+ E assi ha de sahir.
+
+_Aqui vem os Musicos e cántão, e depois de cantarem, sahem-se todas as
+figuras, e diz_
+
+MARTIM CHINCHORRO.
+
+Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos;
+ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor
+festa que póde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das
+figuras nos acolheremos. Moço, accende esse mólho de cavacos, porque faz
+escuro, não vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço
+e as canastras.
+
+ESTACIO DA FONSECA.
+
+Não, Senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par de tições na
+mão; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvão-se desta
+pousada; e não tenhão isto por palavras, porque essas e plumas, o vento
+as leva.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+OS AMPHITRIÕES,
+
+COMEDIA.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+ AMPHITRIÃO.
+ ALCMENA, sua mulher.
+ CALLISTO.
+ FELISEO.
+ SOSEA, moço de Amphitrião.
+ BROMIA, sua criada.
+ BELFERRÃO, Patrão.
+ AURELIO, Primo de Alcmena.
+ HUM MOÇO DE AURELIO.
+ JUPITER.
+ MERCURIO.
+
+
+OS AMPHITRIÕES,
+
+COMEDIA.
+
+
+
+
+ACTO PRIMEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e Bromia._
+
+ALCMENA.
+
+ Ah Senhor Amphitrião,
+ Onde está todo meu bem!
+ Pois meus olhos vos não vem,
+ Fallarei co'o coração,
+ Que dentro n'alma vos tem.
+ Ausentes duas vontades,
+ Qual corre mores perigos,
+ Qual soffre mais crueldades,
+ Se vós entre os inimigos,
+ Se eu entre as saudades?
+ Que a ventura, que vos traz
+ Tão longe de vossa terra,
+ Tantos desconcertos faz,
+ Que se vos levou á guerra,
+ Não me quiz leixar em paz.
+ Bromia, quem com vida ter,
+ Da vida ja desespera,
+ Que lhe poderás dizer?
+
+BROMIA.
+
+ Que nunca se vio prazer,
+ Senão quando não se espera.
+ E por tanto não devia
+ De ter triste a phantasia;
+ Porque Vossa Mercê creia,
+ Que o prazer sempre salteia
+ Quem delle mais desconfia.
+ Eu tenho no coração,
+ Do Senhor Amphitrião
+ Venha hoje alguma nova:
+ Não receba alteração,
+ Que a verdadeira affeição
+ Na longa ausencia se prova.
+
+ALCMENA.
+
+ Dizei logo a Feliseo
+ Que chegue muito apressado
+ Ao caes, e busque mêo
+ De saber se algum recado
+ Do porto Persico vêo:
+ E mais lhe haveis de dizer,
+ (Isto vos dou por offício)
+ D'alguma nova saber,
+ Em quanto eu vou fazer
+ Aos Deoses o sacrificio.
+
+
+SCENA II.
+
+BROMIA.
+
+ Saudades de minh'ama,
+ Chorinhos e devoções,
+ Sacrificios e orações,
+ Me hão de lançar n'huma cama,
+ Certamente.
+ Nós mulheres de semente
+ Somos sedenho mui tosco:
+ Com qualquer vento que vente,
+ Queremos forçadamente
+ Que os Deoses vivão comnosco.
+ Quero Feliseo chamar,
+ E dizer-lhe aonde ha de ir.
+ Mas elle como me vir,
+ Logo ha de querer rinchar,
+ De travesso.
+ Eu que de zombar não cesso,
+ Por ficar com elle em salvo,
+ Lanço-lhe hum e outro remêsso;
+ Aos seus furto-lhe o alvo;
+ E então elle fica avesso.
+ Porque o melhor destas danças,
+ Com huns vindiços assi,
+ He trazê-los por aqui
+ Ó cheiro das esperanças,
+ Por viver.
+ Ha-os homem de trazer
+ Nos amores assi mornos,
+ Só para ter que fazer;
+ E despois ao remetter
+ Lançar-lhe a capa nos cornos.
+ Feliseo, se estais á mão,
+ Chegae cá, vem como hum gamo:
+ Bem sei que não chamo em vão.
+
+
+SCENA III.
+
+_Feliseo e Bromia._
+
+FELISEO.
+
+ Chamais-me? tambem vos chamo;
+ Porém eu ouço, e vós não:
+ Senhora, que me matais,
+ Se vós ja nunca me ouvis,
+ Ou me ouvis, e vos callais,
+ Dizei: porque me chamais
+ Se me vós a mim fugis?
+
+BROMIA.
+
+ Eu vos fujo?
+
+FELISEO.
+
+ Fugis, digo,
+ De dar a meus males cabo.
+
+BROMIA.
+
+ Sabei que desse perigo
+ Não fujo como de imigo,
+ Fujo como do diabo.
+
+FELISEO.
+
+ Dae ao demo essa tenção,
+ Usae antes de cortês,
+ Cahi vós nesta razão.
+
+BROMIA.
+
+ Do p'rigo fogem os pés,
+ Do diabo o coração.
+
+FELISEO.
+
+ Dizeis-me que nessa briga
+ Do meu coração fugis.
+
+BROMIA.
+
+ Ainda qu'eu isso diga...
+
+FELISEO.
+
+ Ah minha doce inimiga!
+ Bem sinto que me sentis.
+ Mas para que me chamais?
+
+BROMIA.
+
+ Manda-vos minha Senhora
+ Que chegueis daqui ao cais,
+ E algumas novas saibais
+ D' Amphitrião nesta hora.
+
+FELISEO.
+
+ Quem as não sabe de si,
+ D'outrem como as sabera?
+
+BROMIA.
+
+ Não as sabeis vós de mi.
+
+FELISEO.
+
+ Má trama venha por ti,
+ Duna feiticeira má!
+ Porque não me ólhas direito,
+ Cadella, que assi me cortas?
+
+BROMIA.
+
+ Porque vos quero dar portas;
+ Que s'eu olhar d'outro geito,
+ Trarei cem mil vidas mortas.
+
+FELISEO.
+
+ E pois para que me andais
+ Enganando ha cem mil annos?
+
+BROMIA.
+
+ Dou-vos vida com enganos.
+
+FELISEO.
+
+ Nesses enganinhos tais
+ Acho crueis desenganos.
+
+BROMIA.
+
+ Quant'esses vos quero eu dar:
+ Vós cuidais que estais na sella?
+ Pois podeis-vos descer della;
+ Qu'eu nunca vos pude olhar.
+
+FELISEO.
+
+ Jogais comigo á panella?
+ Tendes-me ha tanto captivo,
+ E desenganais-me agora?
+ Tudo isto he o que privo.
+ Assi que he isso, Senhora,
+ Dochelo morto, dochelo vivo?
+ Se me vós desenganais
+ No cabo de tantos annos,
+ Direi, se licença dais,
+ Dais-me vida com enganos,
+ Desenganos, ja chegais.
+ Mas se isso havia de ser,
+ Dizei, má desconhecida,
+ Destêrro de meu viver,
+ Que vos custava dizer
+ Amor, vae buscar tua vida?
+
+BROMIA.
+
+ Zombais? Fallais-me coprinhas?
+
+FELISEO.
+
+ Rir-vos-heis se vem á mão:
+ Copras não, mas isto são
+ Ansias y pasiones minhas
+ Dos bofes e coração.
+
+BROMIA.
+
+ Is-vos fazendo d'huns sengos.....
+
+FELISEO.
+
+ Perdóneme Dios si peco.
+
+BROMIA.
+
+ Nesses dentinhos framengos
+ Conheço que sois hum pêco
+ De todos quatro avoengos.
+
+FELISEO.
+
+ Tudo vos levo em capelo,
+ Ja qu'estais tanto em agraço.
+ Porém, fallando singelo,
+ A furto desse mao zêlo,
+ Quereis-me dar hum abraço?
+
+BROMIA.
+
+ Ora digo que não posso
+ Usar comvosco de fero:
+ Tomae-o.
+
+FELISEO.
+
+ Ja o não quero,
+ Porque esse abraço vosso,
+ Sabei que he engano mero.
+
+BROMIA.
+
+ Oh! vós sois d'huns sensabores...
+ Abraço pedis assim?
+ S'eu remango d'hum chapim...
+
+FELISEO.
+
+ Tudo isso são favores:
+ Zombae, vingae-vos de mim.
+
+BROMIA.
+
+ Vós de furioso touro
+ As garrochas não sentis.
+
+FELISEO.
+
+ Vedes, com isso sé mouro:
+ Quando cuido que sois ouro,
+ Acho-vos toda ceitis.
+
+BROMIA.
+
+ Emfim, sanha de villão
+ Vos fez perder hum bom dia.
+
+FELISEO.
+
+ Jagora o eu tomaria;
+ Quereis-mo dar?
+
+BROMIA.
+
+ Ora não.
+ Cocei-vos eu todavia.
+
+FELISEO.
+
+ Pois, Senhora, a quem vos ama
+ Sois tão desarrazoada,
+ Quero tomar outra dama;
+ Que não digão os d'Alfama
+ Que não tenho namorada.
+
+BROMIA.
+
+ Deixae-me.
+
+FELISEO.
+
+ Vós me deixais.
+
+BROMIA.
+
+ Deixae-me.
+
+FELISEO.
+
+ Zombais de mi?
+
+BROMIA.
+
+ Deixae-me. Pois m'engeitais,
+ Eu me ausentarei daqui
+ Onde me mais não vejais.
+
+FELISEO.
+
+ Boa está a zombaria!
+
+BROMIA.
+
+ Não são essas minhas manhas.
+
+FELISEO.
+
+ Porém is-vos todavia?
+
+BROMIA.
+
+ Voyme á las tierras estrañas.
+ Adó ventura me guia.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Feliseo só._
+
+ Phantasias de donzellas,
+ Não ha quem como eu as quebre;
+ Porque certo cuidão ellas,
+ Que com palavrinhas bellas
+ Nos vendem gato por lebre.
+ Esta tẽe lá para si
+ Qu'eu sou por ella finado;
+ E crê que zomba de mi;
+ E eu digo-lhe que, si,
+ Sou por ella esperdiçado.
+ Preza-se d'humas seguras;
+ E eu não quero mais Frandes:
+ Dou-lhe trela ás travessuras,
+ Porque destas coçaduras
+ Se fazem as chagas grandes.
+ Qu'estas, que andão sempre á vela,
+ Estas vos digo eu que coço;
+ Porque de firmes na sella,
+ Crem que falsão a costella,
+ E ficão pelo pescoço.
+ Que quando estas damas tais
+ Me cachão, então recacho.
+ Mas disto agora nó mais.
+ Quero-me ir daqui ao cais
+ Ver se algumas novas acho.
+
+
+SCENA V.
+
+_Jupiter e Mercurio._
+
+JUPITER.
+
+ Oh grande e alto destino!
+ Oh potencia tão profana!
+ Que a setta d'hum menino
+ Faça que meu ser divino
+ Se perca por cousa humana!
+ Que m'aproveitão os ceos,
+ Onde minha essencia mora
+ Com tanto poder, se agora
+ A quem me adora por deos,
+ Sirvo eu como a senhora?
+ Oh quão estranha affeição!
+ Quem em baixa cousa vai pôr
+ A vontade e o coração,
+ Sabe tão pouco d'Amor,
+ Quão pouco Amor de razão.
+ Mas que remedio hei de ter
+ Contra mulher tão terribil,
+ Que se não póde vencer?
+
+MERCURIO.
+
+ Alto Senhor, teu poder
+ O difficil faz possibil.
+
+JUPITER.
+
+ Tu não vês qu'esta mulher
+ Se preza de virtuosa?
+
+MERCURIO.
+
+ Senhor, tudo póde ser;
+ Que para quem muito quer,
+ Sempre a affeição he manhosa.
+ Seu marido está ausente
+ Na guerra, longe daqui;
+ Tu, qu'es Jupiter potente,
+ Tomarás sua fórma em ti;
+ Que o farás mui facilmente.
+ E eu me transformarei
+ Na de Sósea, criado seu;
+ E ao arraial me irei,
+ Onde logo saberei
+ Como se a batalha deu.
+ E assi poderás entrar,
+ Em lugar de seu marido;
+ E para que sejas crido,
+ Poderás tambem contar
+ Quanto eu lá tiver sabido.
+
+JUPITER.
+
+ Quem arde em tamanho fogo
+ Tira-lhe a virtude a côr
+ De subtil e sabedor;
+ E quem fóra está do jôgo
+ Enxérga o lanço melhor.
+ Mas tu, que dos sabedores
+ Tanto avante sempre estás,
+ Se deos es dos mercadores,
+ Sê-lo-has dos amadores,
+ Pois tal remedio me dás.
+ Ponha-se logo em effeito;
+ Que não soffre dilação
+ Quem o fogo tẽe no peito;
+ E tu vae logo direito
+ Aonde anda Amphitrião.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Feliseo e Callisto._
+
+FELISEO.
+
+ Adó bueno por aqui,
+ Tão longe do acostumado?
+
+CALLISTO.
+
+ Mais longe vou eu de mi,
+ D'ir perto de meu cuidado.
+
+FELISEO.
+
+ No andar vos conheci.
+
+CALLISTO.
+
+ E vós onde vos lançais,
+ Com vossa contemplação?
+
+FELISEO.
+
+ Eu chego daqui ao cais
+ A saber de Amphitrião:
+ Não sei se vou por demais.
+
+CALLISTO.
+
+ Porque por demais dizeis?
+
+FELISEO.
+
+ Porque nada alli ha certo.
+
+CALLISTO.
+
+ Novas lá não as busqueis,
+ Que aqui as tendes mais perto.
+
+FELISEO.
+
+ Pois dae-mas ja, se as sabeis.
+
+CALLISTO.
+
+ Hum navio he ja chegado
+ Á barra, que vem de lá;
+ Traz de Amphitrião recado,
+ Diz que o deixa embarcado
+ Para se vir para cá.
+ Tẽe vencido aquelle Rei;
+ E diz, segundo lhe ouvi,
+ Qu'esta noite será aqui.
+
+FELISEO.
+
+ Essas novas levarei
+ A Alcmena, que torne em si,
+ Porque ella tẽe maior guerra
+ Co'os temores de perdello,
+ Qu'elle co'o Rei dessa terra.
+
+CALLISTO.
+
+ Onde amor lançar o sello,
+ Nenhuma cousa o desterra.
+ Porqu'inda que o pensamento
+ Vos fique, Senhor, em calma,
+ Por morte ou apartamento;
+ Sempre vos lá ficão n'alma
+ As pégadas do tormento.
+
+FELISEO.
+
+ Isso he hum segredo mero,
+ A que o amor nos obriga:
+ Por isso em caso tão fero,
+ Senhor, nunca ninguem diga,
+ Ja lho quiz, e não lho quero.
+ Eu quiz bem a huma mulher,
+ Que vós conhecestes bem,
+ E, com muito lhe querer,
+ Casou-se.
+
+CALLISTO.
+
+ Oh! e com quem?
+ Que ainda o não posso crer.
+
+FELISEO.
+
+ Com hum Mercador, que veio
+ Agora do Egypto, rico.
+
+CALLISTO.
+
+ Isso traz ágoa no bico.
+ Esse homem he parvo, ou feio?
+
+FELISEO.
+
+ Pois vêdes? disso me pico.
+ E em pago desta traição,
+ Afóra outros mil descontos
+ Que traz comsigo a affeição,
+ Sempre os signaes destes pontos
+ Trarei no meu coração.
+
+CALLISTO.
+
+ Viste-la mais?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, vi,
+ Na janellinha da grade;
+ Passei, e disse-lhe assi:
+ Casada sem piedade,
+ Porque não a haveis de mi?
+
+CALLISTO.
+
+ Que vos disse?
+
+FELISEO.
+
+ Lá no centro
+ Lh'enxerguei pouca alegria;
+ E como quem lhe dohia,
+ Metendo-se para dentro
+ Disse: Ja pasó folia.
+
+CALLISTO.
+
+ Ah má sem conhecimento!
+ Quem lhe désse mil chofradas!
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, como são casadas,
+ Casão-se co'o esquecimento
+ Das cousas que são passadas.
+
+CALLISTO.
+
+ Lembranças de vos deixar
+ Picar-vos-hão como tojos.
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, haveis d'assentar
+ Que onde amor vos quer matar,
+ Siempre allá miran los ojos.
+ Hum motete lhe mandei
+ Hum dia, estando com febre,
+ Só da paixão que tomei.
+
+CALLISTO.
+
+ Pois vejamos quem tẽe lebre.
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, eu vo-lo direi.
+
+Mote.
+
+ Vós por outrem, e eu por vós;
+ Vós contente, e eu penado;
+ Vós casada, eu cansado.
+ Polos santos de minha dona!
+
+CALLISTO.
+
+ Senhor, vós só o fizestes?
+
+FELISEO.
+
+ Si, que ninguem me ajudou.
+
+CALLISTO.
+
+ Se vós só o compuzestes,
+ Crede, que extremos dissestes.
+ Nunca Orlando tal fallou.
+ Senhor, fizestes-lhe pé?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, si; e todo hum anno...
+ Vós zombais, se não m'engano?
+
+CALLISTO.
+
+ Não, mas dou-vos minha fé
+ Que nunca vi tão bom panno.
+
+FELISEO.
+
+ Ora olhe vossa mercê.
+
+Volta.
+
+ Olhae em quão fundos vaos
+ Por vossa causa me affógo,
+ Que outro me ganha no jôgo,
+ E eu triste pago os paos.
+ Olhos travessos e maos,
+ Inda eu veja o meu cuidado
+ Por esse vosso trocado.
+
+CALLISTO.
+
+ Não mais, qu'isso me degola.
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, eu haja perdão.
+
+CALLISTO.
+
+ Fizestes esse rifão
+ Em algum jôgo de bola?
+ E foi-lhe elle ter á mão?
+
+FELISEO.
+
+ Digo-vos que o vio, e lho leo
+ Hum moçozinho d'escola.
+
+CALLISTO.
+
+ Está isso assi do ceo.
+ Sabe ella jogar a bola?
+
+FELISEO.
+
+ Não.
+
+CALLISTO.
+
+ Pois não vos entendeo.
+ Ora eu ja cheguei a ler
+ Petrarca, e crede de mi
+ Que nunca tal cousa vi.
+ Onde mora o bom saber,
+ Logo dá sinal de si.
+ Onde _casada_ puzestes,
+ Dizei, porque não dissestes
+ _La que yo vi por mi mal._
+
+FELISEO.
+
+ Renunciava o metal;
+ Qu'em rifõeszinhos como estes,
+ Ha-se-de pôr tal com tal.
+ Que a trova trigo-tremez
+ Ha de ser toda d'hum pano;
+ Que parece muito Ingrez
+ N'hum pelote Portuguez
+ Todo hum quarto Castelhano.
+ Ouvi outra tambem minha,
+ Que fiz a certa tenção,
+ Clara, leve, bonitinha,
+ De feição, que esta trovinha,
+ He trovinha de feição.
+ Como eu hum dia me visse
+ Morto, e a mão na candêa,
+ E ella não me acodisse;
+ Fiz-lhe esta, porque sentisse
+ Que dava os fios á têa.
+ E o propósito he
+ Andar eu hum dia só;
+ E para que houvesse dó
+ De mi e de minha fé,
+ Lamentei-lhe como Jó.
+
+CALLISTO.
+
+ Andastes, Senhor, mui bem.
+
+FELISEO.
+
+ Ora, Senhor, attentai,
+ E vêde o saibo que tem;
+ Se he para a ver alguem.
+
+CALLISTO.
+
+ Ora dizei.
+
+FELISEO.
+
+ Ei-la vai.
+
+Trova.
+
+ Coração de carne crua,
+ Vê-lo teu amor aqui,
+ Que esmorecido por ti
+ Jaz no meio desta rua?
+
+CALLISTO.
+
+ Na rua, Senhor, jazia?
+ E era em tempo de lama?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, quem falla a quem ama,
+ De si mesmo se não fia:
+ Haveis de mentir á dama.
+
+CALLISTO.
+
+ Volta disso?
+
+FELISEO.
+
+ Singular,
+ Senão que he muito sentida;
+ Far-vos-ha, Senhor, chorar.
+
+CALLISTO.
+
+ Oh! diga, por sua vida!
+
+FELISEO.
+
+ Farei o que me mandar.
+
+Volta.
+
+ Porque não has delle mágoa,
+ Ó dura mais que ninguem,
+ Que anda o triste, que não tem
+ Quem lhe dê huma vez d'ágoa?
+ Não lhe negues teu querer,
+ Pois te não custa dinheiro;
+ Que, emfim, por derradeiro
+ A terra te ha de comer.
+
+CALLISTO.
+
+ Tal trova nunca se vio.
+ Agorentaste-la ja?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, não; ainda está
+ Como a sua mãe pario;
+ E não está muito má.
+
+CALLISTO.
+
+ He trova, que tẽe por seis;
+ Não a posso mais gabar.
+ Mas, pois, tal cousa fazeis,
+ Senhor, não m'ensinareis
+ Donde vem tão bem trovar?
+
+FELISEO.
+
+ Não he a cousa tão pequena,
+ Como, Senhor, a fizestes,
+ Essa que agora dissestes.
+ Mas porém vou dar a Alcmena
+ Estas novas que me déstes.
+ Despois, Senhor, nos veremos;
+ Ficae ja roendo esse osso.
+
+CALLISTO.
+
+ O roer, Senhor, he vosso.
+
+FELISEO.
+
+ Pois eu, por mais que zombemos,
+ Hei de ser vosso e revosso.
+
+CALLISTO.
+
+ Oh!.. Escusae-vos d'extremos,
+ Qu'isso, Senhor, me atarraca.
+ Mas nós nos encontraremos,
+ E sôbre isso envidaremos
+ Dous reales mais de saca.
+
+
+
+
+ACTO SEGUNDO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na fórma de Amphitrião,
+Mercurio na de Sosea escravo._
+
+JUPITER.
+
+ Mercurio, pois sou mudado
+ Nesta fórma natural,
+ Ólha e nota com cuidado,
+ Se está em mi o pintado
+ Apparente co'o real.
+
+MERCURIO.
+
+ Quem tão proprio se transforma.
+ Tenho por opinião,
+ Que na tal transformação
+ Lhe prestou natura a fôrma,
+ Com que fez Amphitrião.
+
+JUPITER.
+
+ Pois tu no gesto e na côr
+ Estás Sósea escravo seu.
+
+MERCURIO.
+
+ Muito mais faras, Senhor.
+
+JUPITER.
+
+ Não o faz senão o Amor,
+ Que nisto póde mais qu'eu.
+
+MERCURIO.
+
+ Ja, Senhor, te fiz menção
+ Como deo Amphitrião
+ A ElRei Terela a morte;
+ Que, na guerra igual, a sorte
+ Póde mais que o coração.
+ E despois de ser tomada
+ Toda a Cidade, com gloria
+ D'Amphitrião bem ganhada,
+ Como em sinal de victoria,
+ Esta copa lhe foi dada.
+ Por ella bebia ElRei,
+ Em quanto a vida queria;
+ E eu, porque te cumpria,
+ A seu escravo a furtei,
+ Que n'huma caixa a trazia.
+ Esta poderás levar
+ A Alcmena, por lhe mostrar
+ Verdadeiro, o que he fingido;
+ E dest'arte serás crido,
+ Sem mais outro ardil buscar.
+
+JUPITER.
+
+ Pois tudo tens ordenado
+ Por tão nova e subtil arte;
+ Como me vires entrado,
+ Irás dar este recado
+ A Phebo de minha parte:
+ Que faça mais devagar
+ Seu curso neste Hemispherio.
+ Que o que soe acostumar;
+ Qu'esta noite hei de ordenar
+ Hum caso de alto mysterio.
+ E á Esphera mais alta
+ Mandarás que fixa esteja,
+ Porque a noite maior seja:
+ Porque sempre o tempo falta,
+ Onde a alegria he sobeja.
+ E terás tamanho tento,
+ Que como isto se ordenar,
+ Venhas aqui vigiar,
+ Porque meu contentamento
+ Ninguem mo possa estorvar.
+
+MERCURIO.
+
+ Seja feito sem debate
+ Tudo como te convem.
+
+JUPITER.
+
+ Pois não parece ninguem,
+ Como homem de casa bate,
+ E muda a falla tambem.
+
+MERCURIO, _batendo à porta_.
+
+ Ó de la casa, en buena hora,
+ Darmehan de cenar aqui?
+
+BROMIA _dentro_.
+
+ Sósea parece que ouvi:
+ Alviçaras, minha Senhora,
+ Que na falla o conheci.
+
+
+SCENA II.
+
+_Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio._
+
+ALCMENA.
+
+ Zombais, Bromia, por ventura?
+
+BROMIA.
+
+ Senhora, não zombo, não.
+
+ALCMENA.
+
+ Vejo eu Amphitrião,
+ Ou a vista me afigura
+ O qu'está no coração?
+
+JUPITER.
+
+ Olhos, diante dos quais
+ Desejei mais este dia,
+ Que nenhuma outra alegria,
+ Senhora, nunca creais
+ Que lhe minta a phantasia.
+
+ALCMENA.
+
+ Oh presença mais querida
+ Que quantas formou Amor!
+ Isto he verdade, Senhor?
+ Acabe-se aqui a vida,
+ Por não ver prazer maior.
+
+JUPITER.
+
+ Pois esta hora de vos ver
+ Alcançar, Senhora, pude;
+ Para mais contente ser,
+ Conformem co'este prazer
+ Novas de vossa saude.
+
+ALCMENA.
+
+ Vida foi pezada e crua
+ A saude qu'eu sostinha;
+ Qu'em quanto, Senhor, a tinha,
+ Temer perigo na sua,
+ Me fez descuidar da minha.
+
+MERCURIO.
+
+ Y pues, mi Señora Alcmena,
+ Pese al demonio malvado,
+ No dirá á un su criado,
+ Vengais Sósea norabuena?
+
+ALCMENA.
+
+ Sejais, Sósea, bem chegado.
+
+BROMIA.
+
+ Bem mal cri eu, que pudesse
+ Ver-te, Sósea, hoje aqui.
+
+MERCURIO.
+
+ Pues tambien yo no creí
+ Que en mi vida te viese,
+ Segun las muertes que vi.
+
+ALCMENA.
+
+ Muito, Senhor, folgarei
+ Com novas do vencimento.
+
+JUPITER.
+
+ De tudo quanto passei,
+ Por vos dar contentamento,
+ Em summa vos contarei.
+ Trago, Senhora, a victoria
+ Daquelle Rei tão temido,
+ Com fama clara e notoria.
+ Porém maior foi a gloria
+ De me ver de vós vencido.
+ Sem me terem resistencia,
+ Os Grandes me obedêcerão,
+ Como ElRei morto tiverão:
+ Em sinal de obediencia
+ Esta copa me trouxerão.
+ ElRei por ella bebia:
+ (Ella, e tudo o mais he nosso)
+ Por onde claro se via,
+ Que tudo me obedecia,
+ Pois tinha nome de vosso.
+
+MERCURIO.
+
+ Si, mas luego de rondon
+ La fortuna dió la vuelta.
+
+ALCMENA.
+
+ Como?
+
+MERCURIO.
+
+ Fué gran perdicion,
+ Porque en aquella revuelta,
+ Me hurtaron mi jubon.
+ Pero bien me lo pagaron,
+ Cuando comigo riñeron;
+ Que aunque me despojaron
+ Si uno de seda llevaron,
+ Otro de azotes me dieron.
+
+ALCMENA.
+
+ Senhor, não posso gostar
+ De gôsto, que he tão immenso,
+ Senão muito devagar:
+ Faça-me mercê d'entrar,
+ E contar-mo-ha por extenso.
+
+
+SCENA III.
+
+_Mercurio e Bromia._
+
+MERCURIO.
+
+ Yo tambien te contaria,
+ Bromia, si quedas atrás,
+ Que una noche... enojartehas?
+
+BROMIA.
+
+ Que?
+
+MERCURIO.
+
+ Soñaba, que te tenia...
+ No me atrevo á decir mas.
+
+BROMIA.
+
+ Dize.
+
+MERCURIO.
+
+ Pardies, no diré.
+ Soñaba...
+
+BROMIA.
+
+ Bem: que sonhavas?
+
+MERCURIO.
+
+ Que cuando en la cama estavas
+ Que yo... enfin recordé.
+
+BROMIA.
+
+ Pois tudo isso receavas?
+
+MERCURIO.
+
+ Sabe Dios qué yo acá siento:
+ Sola una alma vive en dos,
+ La cual anda dentro en vos.
+
+BROMIA.
+
+ E que quer ella cá dentro?
+
+MERCURIO.
+
+ Tambien eso sabe Dios.
+
+
+SCENA IV.
+
+MERCURIO.
+
+ Bem se poderá enganar
+ Bromia, segundo ora estou,
+ Como Alcinena s'enganou;
+ Mas cumpre-me ir ordenar
+ O que meu Pae me mandou.
+ E porque seja guardada
+ Esta porta e vigiada
+ De toda a gente nascida,
+ Me será cousa forçada,
+ Ser tão depressa a tornada,
+ Quão prestes faço a partida.
+
+
+SCENA V.
+
+SOSEA, _cantando_.
+
+ Amphitrion esforzado
+ Bravo vá por la batalla,
+ Siete cabezas llevaba,
+ De las mejores que ha hallado.
+
+_Falla._
+
+ Quien viene de tierra agena,
+ Y de la muerte escapó,
+ La razon le permitió
+ Que cante como sirena,
+ Como agora hago yo.
+ Y pues canto tan gentil,
+ Fuera llanto si muriera.
+ Quiero cantar como quiera,
+ Una y otra, y mas de mil,
+ Que digan desta manera:
+
+_Canta._
+
+ Dongolondron, con dongolondrera,
+ Por el camino de Otera,
+ Rosas coge en la rosera,
+ Dongolondron, con dongolondrera.
+
+_Falla._
+
+ Cuando yo vengo á pensar
+ Que uno matarme quisiera,
+ No hago sino temblar,
+ Porque creo si muriera,
+ No pudiera mas cantar.
+ Porque estando á un rincon
+ De la casa adó quedé,
+ Senti muy grande ronron,
+ Y mirando, que miré?
+ Vi que era un gran raton.
+ Empero yo nunca sigo,
+ Sino consejos muy sanos;
+ Que en estes casos levianos,
+ Quien desprecia el enemigo,
+ Mil veces muere á sus manos.
+ Pero mi Señor alli
+ Mató al Rey de los Glipazos:
+ Yo como muerto le vi,
+ Juro á mi fé, que le dí
+ Mas de dos mil cuchillazos.
+ Y por me librar de afan,
+ Me voy siempre á cosa hecha
+ Probar mi mano derecha;
+ Que aquel es buen capitan,
+ Que del tiempo se aprovecha.
+ Que quien ha de pelear,
+ Ha de buscar tiempo y hora.
+ Pero quiero caminar,
+ Que me muero por contar
+ Todo aquesto á mi Señora.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Mercurio e Sósea._
+
+MERCURIO.
+
+ Mil vezes comigo vejo,
+ Para que meu Pae se affoute;
+ Pois em tão pequeno ensejo
+ Lhe mandei talhar a noute
+ Á medida do desejo.
+ E pois que como possante,
+ A mi tudo se reporta,
+ Chego agora neste instante
+ A estorvar qu'este bargante
+ Me não chegue a esta porta.
+
+SOSEA.
+
+ No sé que miedo, ó locura,
+ Neste pecho se me cria:
+ Por Dios que se me afigura,
+ Que ha mucho que es noche escura,
+ Sin que venga el claro dia.
+ Mas sabed, que pienso yo
+ Que el sol que no se acordó
+ De con el dia venir,
+ Que á noche cuando cenó
+ Algun buen vino bebió,
+ Que le hace tanto dormir.
+
+MERCURIO.
+
+ Ja sentes comprida a noute,
+ Qu'eu assi mandei fazer?
+ Pois mais te quero dizer,
+ Que sentirás muito açoute,
+ Se cá quizeres vir ter.
+ Porém, pois este bargante
+ Tẽe medroso coração,
+ Quero-me fingir ladrão,
+ Ou phantasma, e por diante
+ Não irá, se vem á mão.
+ E com tudo se passar,
+ A falla quero mudar
+ Na sua de tal feição,
+ Que couces, e porfiar,
+ Lhe fação hoje assentar
+ Que sou Sósea, e elle não.
+
+_Falla Castelhano._
+
+ No veo pasar ninguno,
+ En quien yo me pueda hartar.
+
+SOSEA.
+
+ Á quien oigo aqui hablar?
+ Mande Dios no sea alguno
+ Que me quiera aporrear.
+
+MERCURIO.
+
+ La carne de algun humano
+ Me seria muy sabrosa.
+
+SOSEA.
+
+ Oh quê voz tan temerosa!
+ Hombres comes, ó mi hermano?
+ No es mejor otra cosa?
+ Carne humana es muy mezquina.
+ Oh no comas deso, no!
+ Antes carne de gallina.
+ Pero se mas se avecina,
+ Qué mas gallina, que yo?
+
+MERCURIO.
+
+ Una voz de hombre ahora
+ Á la oreja me voló.
+
+SOSEA.
+
+ Pésete quien me parió:
+ La voz traigo boladora?
+ Ella quisiera ser yo.
+ Pues mi voz pudo volar
+ Do la pudieses oir;
+ Por contigo no reñir,
+ Me debiera de prestar
+ Las alas para huir.
+
+MERCURIO.
+
+ Qué buscas cabe esa puerta,
+ Hombre? Sé que eres ladron.
+
+SOSEA.
+
+ Ay que el alma tengo muerta!
+ Oh Júpiter me convierta
+ Las tripas en corazon!
+
+MERCURIO.
+
+ Quien eres? quieres hablar?
+
+SOSEA.
+
+ Soy quien mi voluntad quiere.
+
+MERCURIO.
+
+ Piensas que puedas burlar?
+
+SOSEA.
+
+ Y tú puédesme quitar
+ Que yo sea quien quisiere?
+
+MERCURIO.
+
+ Osas hablar tan osado,
+ Don vellaco bovarron?
+ Dí, quien eres?
+
+SOSEA.
+
+ Un criado
+ Del Señor Amphitrion,
+ Por nombre Sósea llamado.
+
+MERCURIO.
+
+ Pienso que el seso perdiste.
+ Como te llamas, mal hombre?
+
+SOSEA.
+
+ Sósea soy, si no me oiste.
+
+MERCURIO.
+
+ Como? en persona tan triste
+ Osas d'ensuciar mi nombre?
+ Estos puños llevarás,
+ Pues tener mi nombre quieres.
+ Quiéresme dicir quien eres?
+
+SOSEA.
+
+ O Señor, no me dés mas,
+ Que yo seré quien tú quisieres.
+
+MERCURIO.
+
+ Con tan nueva falsedad
+ Andais por esta Ciudad,
+ Delante de quien os mira?
+ Pues si sois Sosea, tomad.
+
+SOSEA.
+
+ Si me dás por la verdad,
+ Que me harás por la mentira?
+
+MERCURIO.
+
+ Y qué verdad es la tuya?
+ Que te quiero dar castigo.
+
+SOSEA.
+
+ Si no soy Sósea que digo,
+ Que Júpiter me destruya.
+
+MERCURIO.
+
+ Mirad el falso enemigo:
+ Tomad este bofeton,
+ Que yo soy Sósea, y no vos.
+
+SOSEA.
+
+ Tu Sósea?
+
+MERCURIO.
+
+ Sósea por Dios,
+ Escravo de Amphitrion.
+
+SOSEA.
+
+ De modo que tiene dos?
+
+MERCURIO.
+
+ No tendrá, aunque tú quieres;
+ Que á mi solo conoció.
+
+SOSEA.
+
+ Pues luego de quien soy yo?
+
+MERCURIO.
+
+ Si tú no sabes quien eres,
+ Quieres que yo lo sepa? No.
+
+SOSEA.
+
+ Enfin, has me de hacer crer
+ Que yo no soy quien ser solia?
+
+MERCURIO.
+
+ Quien solias tú de ser?
+
+SOSEA.
+
+ Tregoas me has de prometer,
+ Dirtelohé sin profia.
+
+MERCURIO.
+
+ Prometo.
+
+SOSEA.
+
+ No me darás?
+
+MERCURIO.
+
+ No, si no fuere razon.
+
+SOSEA.
+
+ Pues, hermano, tú sabrás
+ Que mi amo Amphitrion...
+
+MERCURIO.
+
+ Tu amo? Pues llevarás.
+ Mi amo es, que tuyo no.
+
+SOSEA.
+
+ Ay que un brazo me quebró!
+
+MERCURIO.
+
+ Mas que luego te matase.
+
+SOSEA.
+
+ Ojalá Dios ordenase
+ Que tú ahora fueses yo,
+ Y yo que te desmembrase!
+
+MERCURIO.
+
+ Esa tu tema tan loca,
+ Puños te la han de quitar.
+ Dime, di, vergũenza poca,
+ Qué hablas?
+
+SOSEA.
+
+ Qué puedo hablar,
+ Si me has quebrado la boca?
+
+MERCURIO.
+
+ Di quien eres, sin fatiga.
+
+SOSEA.
+
+ Soy un hombre, en quien tú dás.
+
+MERCURIO.
+
+ Díme pues, qué nombre has.
+
+SOSEA.
+
+ Como quieres tú que diga,
+ Para que no me dés más?
+
+MERCURIO.
+
+ No me has de hablar contrahecho.
+
+SOSEA.
+
+ Toda mi vida pasada
+ Sósea fuy, y con despecho
+ Ahora soy... qué? No nada;
+ Que tus manos me han deshecho.
+
+MERCURIO.
+
+ Cuyo eres, pues las sientes,
+ Dejando consejos vanos?
+ La verdad; que si me mientes,
+ Dás con la lengua en los dientes,
+ Y yo dóyte con las manos.
+
+SOSEA.
+
+ No conoces Amphitrion?
+
+MERCURIO.
+
+ Hombre sin seso te llamo.
+ Tan fuera estás de razon!
+ Piensas de mí, bovarron,
+ Que no conozco á mi amo?
+
+SOSEA.
+
+ En su casa conociste
+ Uno, que es Sósea llamado,
+ Hombre despreciado y triste?
+
+MERCURIO.
+
+ Desa suerte lo dijiste?
+ Yo soy triste y despreciado?
+ Pues sabe que te llegó
+ Á la muerte tu fortuna.
+
+SOSEA.
+
+ Pues logo si yo no soy yo,
+ Aunque nadie me mató;
+ Soy luego cosa ninguna.
+ Oh dioses, que desconcierto!
+ Yo por ventura soy muerto,
+ Ó murióme la razon?
+ Yo no soy de Amphitrion?
+ Él no me mandou del puerto?
+ Yo sé que no estoy loco.
+ De mi madre no naci?
+ No ando? No hablo aqui?
+
+MERCURIO.
+
+ Pues sosiega ahora un poco,
+ Que yo tambien diré de mí.
+ Yo no sé que yo soy yo?
+ Yo no te dí con mis manos?
+ Mi Señor no me llevó
+ Á la guerra, adó mató
+ Aquel Rey de los Thebanos?
+
+SOSEA.
+
+ Yo eso muy bien lo sé.
+ Empero tú qué hacias
+ Cuando la batalla vias?
+
+MERCURIO.
+
+ Escucha: yo lo diré,
+ Y cesaran tus porfías.
+ Cuando mi Señor andaba
+ Peleando, y derramaba
+ La sangre de algun mezquino;
+ Con una bota de vino
+ Yo la mia acrescentaba.
+
+SOSEA.
+
+ (Dice lo que yo hacia)
+ Con todo, saber queria
+ Sola una cosa, si puedo:
+ Tu pecho entonces sentia?
+
+MERCURIO.
+
+ Del beber grande alegria,
+ Y del pelear gran miedo.
+
+SOSEA.
+
+ Y despues?
+
+MERCURIO.
+
+ Muy reposado
+ Á dormir me eché de grado,
+ Desde el sol hasta la luna.
+
+SOSEA.
+
+ (Todo lo tiene contado.
+ Enfin, tengo averiguado
+ Que yo no soy cosa ninguna)
+ Pues de todo en un instante
+ Me has echado de mí fuera,
+ Aconséjame si quiera,
+ Quien seré daqui adelante,
+ Pues no soy quien de antes era.
+
+MERCURIO.
+
+ Cuando yo no ser quisiere
+ Ese, que tú ser deseas,
+ Despues que ya Sósea no fuere,
+ Dartehé, si te pluguiere,
+ Licencia que todo seas.
+ Y acógete luego, amigo,
+ Á buscar tu nombre, digo,
+ Pues Dios vida te dejó;
+ Que el Sósea queda comigo.
+
+SOSEA.
+
+ Pues contigo quedo yo,
+ Dios quede, hermano, contigo.
+ Ahora quiero ir allá
+ Adó mi Señora está,
+ Contarle como es venido
+ Mi Señor. Mas, oh perdido!
+ Si un otro yo tiene allá,
+ Todo lo terná sabido.
+
+MERCURIO.
+
+ Ah hombre.....
+
+SOSEA.
+
+ Mi voz sonó.
+
+MERCURIO.
+
+ Aonde vuelves ahora?
+
+SOSEA.
+
+ Por Dios no sé onde vó,
+ Porque si yo no soy yo,
+ Ni Alcmena es mi Señora.
+
+MERCURIO.
+
+ Adonde vas?
+
+SOSEA.
+
+ Con mensaje
+ Del Señor Amphitrion
+ Para Alcmena.
+
+MERCURIO.
+
+ Adó, salvaje?
+ Pues quebraste la omenaje,
+ Ahí verás tu perdicion.
+ Yo doyte consejos sanos,
+ Y porfias otra vez?
+
+SOSEA.
+
+ Altos dioses soberanos!
+ Pues me no valen las manos,
+ Aqui me valgan los pies. _Foge._
+
+MERCURIO.
+
+ Desta arte enseñan aqui
+ Á hurtar el nombre ageno?
+
+
+SCENA VII.
+
+SOSEA.
+
+ Ay Dios, como me acogí!
+ Ó Júpiter alto y bueno,
+ Cuan cerca la muerte vi!
+ Quiérome ir á mi Señor
+ Contarle cuanto hé pasado;
+ Y él me dirá de grado,
+ Si yo soy su servidor,
+ En que cosa me hé tornado.
+
+
+
+
+ACTO TERCEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter e Alcmena._
+
+JUPITER.
+
+ Toda a pessoa discreta
+ Terá, Senhora, assentado,
+ Que hum bem muito desejado
+ Se ha de alcançar por dieta,
+ Para ser sempre estimado.
+ E quem alcançado tem
+ Tamanho contentamento;
+ Por conservá-lo convem
+ Que tome por mantimento
+ A fome de tanto bem.
+ E por isso hei de tomar
+ Este tempo tão ditoso
+ Para a frota visitar;
+ E despois quando tornar,
+ Tornarei mais desejoso.
+ Que pois tão bom captiveiro
+ Me tẽe presa a liberdade,
+ Eu lhe prometto em verdade
+ Que torne ainda primeiro,
+ Que mo peça a saudade.
+
+ALCMENA.
+
+ Aindaque se possa ir
+ Mais asinha do que creio,
+ Como hei d'eu consentir
+ Que se haja de partir
+ Na mesma noite que veio?
+
+JUPITER.
+
+ Forçada he minha tornada,
+ Mas muito cedo virei;
+ Porque desque foi chegada
+ A este porto a Armada,
+ Ainda a não visitei.
+
+ALCMENA.
+
+ Pois, Senhor, tão pouco estais
+ Com quem vistes inda agora?
+ Faça-se como mandais.
+
+JUPITER.
+
+ Vós me vereis cá, Senhora,
+ Primeiro do que cuidais.
+
+
+SCENA II.
+
+_Amphitrião e Sosea._
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Emfim tu, que estás aqui,
+ Estavas ja lá primeiro?
+
+SOSEA.
+
+ Señor, crea que es ansí.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Eu nunca entendi de ti,
+ Qu'eras tambem chocarreiro.
+
+SOSEA.
+
+ Señor, yo que estoy presente,
+ No soy Sósea su criado?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Creio que não certamente,
+ Porque Sósea era avisado,
+ E tu es mui differente.
+
+SOSEA.
+
+ Pues, Señor, si en mí se vé
+ Que no soy quien de antes era,
+ Vuélvome.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ E para que?
+
+SOSEA.
+
+ Ver se á dicha me quedé
+ Durmiendo por la galera.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Pois me queres fazer crer
+ Huma doudice tão rasa,
+ Mais quero de ti saber:
+ Como não entraste em casa
+ D'Alcmena minha mulher?
+
+SOSEA.
+
+ Aunque Sósea quisiese,
+ La verdad no negará:
+ Aquel yo que allá está,
+ No quiso que á casa fuese
+ Estotro yo, que iba allá.
+ Y con furia tan crecida
+ Á mí se vino aquel hombre,
+ Que yo me puse en huida,
+ Y ansí le dejé mi nombre,
+ Por me dejar él la vida.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quem seria tão ousado,
+ Que tanto mal te fizesse?
+
+SOSEA.
+
+ Yo mismo Sósea llamado,
+ Que á casa era ya llegado,
+ Antes que de acá partise.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Tu chegaste antes de ti?
+ Este he gentil disparate.
+
+SOSEA.
+
+ Pues mas le digo daqui,
+ Que vengo huyendo de mí,
+ Porque yo mismo no me mate.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Erão dous, ou era hum só,
+ Quem te fez assi fugir?
+
+SOSEA.
+
+ Pésete quien me parió:
+ Digo, que era un solo yo:
+ Mil veces lo hé de decir?
+ Puede ser que naceria
+ De aquel hombre otro alguno,
+ Como aquel de mí nacia;
+ Porque aunque fuese él uno,
+ Por mas de cuatro tenia.
+ Él tenia mi aparencia,
+ Empero yo nunca vi
+ Tal fuerza, ni tal potencia:
+ Esta sola diferencia
+ Le tengo hallado de mí.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Pudeste delle saber
+ Cujo era?
+
+SOSEA.
+
+ Quien? aquel yo?
+ Tuyo, Señor, dijo ser.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Nunca eu tive mais que hum só,
+ E esse não quizera ter.
+
+SOSEA.
+
+ Pues, Señor, si el bien doblado
+ Te le muestra agora Dios,
+ Debe ser de ti alabado;
+ Pues de uno solo criado
+ Te ha hecho agora dos.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Antes para que conheças,
+ Que cousa he mao servidor,
+ Me pezará se assi for;
+ Que de tão ruins cabeças,
+ Quantas mais, tanto peor.
+ E ja que são tão incertos
+ Teus ditos para se crer;
+ Muito melhor deve ser
+ Que deixe teus desconcertos,
+ E va ver minha mulher.
+
+
+SCENA III.
+
+ALCMENA.
+
+ Que fado, que nascimento
+ De gente humana nascida,
+ Que d'escasso e avarento,
+ Nunca consentio na vida
+ Perfeito contentamento!
+ Amphitrião, que mostrou
+ Hum prazer tão desejado
+ A quem tanto o desejou;
+ Na noite, que foi chegado,
+ Nessa mesma se tornou!
+ De se tornar tão asinha
+ Sinto tanto entristecer
+ O sentido e alma minha,
+ Que certo que me adivinha
+ Algum novo desprazer.
+ Mas parece este que vem,
+ Se não estou enganada:
+ Se elle he, venha com bem,
+ Pois que com sua tornada
+ Tão transtornada me tem.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Amphitrião, Alcmena e Sosea._
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Com que palavras, Senhora,
+ Poderei engrandecer
+ Tão sublimado prazer,
+ Como he ver chegada a hora,
+ Em que vos pudesse ver?
+ Certo grão contentamento
+ Tive de meu vencimento;
+ Mas maior o hei de mim,
+ De me ver pôsto no fim
+ De tão longo apartamento.
+
+ALCMENA.
+
+ Ja eu disse o que sentia
+ De vinda tão desejada.
+ Mas diga-me todavia:
+ Como não foi ver a Armada,
+ Que me disse hoje este dia?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Della venho eu inda agora
+ Desejoso de vos ver,
+ Muito mais que de vencer.
+ Mas que me dizeis, Senhora,
+ Que hoje me ouvistes dizer?
+
+ALCMENA.
+
+ Se não estava remota,
+ Certamente que lhe ouvi,
+ Quando hoje partio daqui,
+ Que tornava a ver a frota.
+ Porque era forçado assi.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea.
+
+SOSEA.
+
+ Señor, aqui estoy yo.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Tu ouves tal desconcêrto?
+
+SOSEA.
+
+ Grandes orejas ganó,
+ Pues estando en casa oyó
+ Quien estava allá nel puerto!
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quando dizeis, que m'ouvistes?
+
+ALCMENA.
+
+ Hoje, quando vos partistes.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Donde?
+
+ALCMENA.
+
+ Daqui, de me ver.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Nunca vi grande prazer,
+ Que não tenha os cabos tristes.
+ Quantos males d'improviso
+ Que causão grandes mudanças!
+ Que mulher de tanto aviso,
+ Agora minhas lembranças
+ A tẽe fóra de juizo!
+
+ALCMENA.
+
+ Quereis-me fazer cuidar
+ Que poderia sonhar
+ O que pelos olhos vi?
+ Nunca vos eu mereci
+ Quererdes-me exprimentar.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Postoque he para pasmar
+ Ver hum caso tão estranho,
+ Todavia hei de attentar,
+ Se poderei concertar
+ Hum desconcêrto tamanho.
+ Quando dizeis que vim cá?
+
+ALCMENA.
+
+ Esta noite que passou.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Dae-me alguem que aqui se achou,
+ Que me visse.
+
+ALCMENA.
+
+ Esse que hi está,
+ Sósea que comvosco andou.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea, podes-te lembrar,
+ Que hontem me vistes aqui?
+
+SOSEA.
+
+ Nunca yo supe de mí
+ Que me pudiese acordar
+ De aquello que nunca vi.
+
+ALCMENA.
+
+ Ora eu creo, e he assi,
+ Que ambos vindes conjurados,
+ Para zombardes de mi;
+ Mas eu darei hoje aqui
+ Sinaes que sejão provados.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Que sinaes póde ahi haver
+ De mentira tão notoria,
+ Que nem foi, nem póde ser?
+
+ALCMENA.
+
+ Donde vim eu a saber
+ Novas de vossa victoria?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Que novas?
+
+ALCMENA.
+
+ Dir-vo-las-hei,
+ Assi como mas contastes:
+ Que na batalha matastes
+ Aquelle soberbo Rei,
+ E tudo desbaratastes:
+ Não fazendo resistencia
+ N'huma batalha tão crua,
+ Dando-vos obediencia,
+ Vos derão huma copa sua,
+ Lavrada por excellencia.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea he culpado só
+ Nestes acontecimentos.
+
+SOSEA.
+
+ Señor, son encantamientos,
+ Porque aquel hombre, que es yo,
+ Le contaria estos cuentos.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quem he esse, que vos deu
+ Taes novas, saber queria?
+
+ALCMENA.
+
+ Quem mo pergunta.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quem? Eu!
+ Quereis-me fazer sandeu?
+
+ALCMENA.
+
+ Mas vós me fazeis sandia.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ora quero perguntar:
+ Que fiz sendo aqui chegado?
+
+ALCMENA.
+
+ Puzemos-nos a cear.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ E despois de ter ceado?
+
+ALCMENA.
+
+ Fomos-nos ambos deitar.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Nunca queira Deos que possa
+ Achar-se na minha honra
+ Nenhuma falta nem mossa:
+ Seja isto doudice vossa,
+ Antes que minha deshonra.
+
+SOSEA.
+
+ Bien lo supe yo entender,
+ Que era esto encantaciones;
+ Y ahora me habrá de crer
+ Que dos Sóseas puede haber,
+ Pues hay dos Amphitriones.
+
+ALCMENA.
+
+ Com me quererdes tentar
+ Tão torvada me fizestes,
+ Que me não pôde lembrar
+ Que vos mandasse mostrar
+ A copa que me hontem déstes.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Eu? copa? Se isso ahi ha,
+ Que estou doudo cuidarei.
+
+SOSEA.
+
+ Señor, bien guardada está.
+
+ALCMENA.
+
+ Bromia?
+
+BROMIA, _de dentro_.
+
+ Senhora.
+
+ALCMENA.
+
+ Dae cá
+ A copa que hontem vos dei.
+
+SOSEA.
+
+ Pues yo parí otro yo,
+ Y vós otro Amphitrion,
+ No es mucha admiracion,
+ Si la copa otra parió,
+ Ni aun fuera de razon.
+
+
+SCENA V.
+
+_Amphitrião, Alcmena, Sosea e Bromia._
+
+BROMIA.
+
+ Eis-aqui a copa vem,
+ Testimunho da verdade.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Oh estranha novidade!
+
+ALCMENA.
+
+ Poder-me-ha dizer alguem
+ Que o que digo he falsidade?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea, quando hontem cá vinhas,
+ Poder-me-has negar, ladrão,
+ Que lhe déste as novas minhas,
+ E mais a copa que tinhas
+ Guardada na tua mão?
+
+SOSEA.
+
+ Señor, que no pude, no,
+ Ver á mi Señora Alcmena:
+ Si aquel eso acá ordenó,
+ No lleve este yo la pena
+ Del mal que hizo el otro yo.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ora eu não sei entender
+ Tal caso, nem lhe acho fundo:
+ Com tudo venho a dizer,
+ Que ha tantos males no mundo,
+ Que tudo se póde crer.
+ Se vos trouxer quem vos diga
+ Como esta noite dormi
+ Na nao, crereis que he assi?
+
+ALCMENA.
+
+ Nenhuma cousa me obriga
+ A que não creia o que vi.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Se o Patrão aqui vier,
+ Que he homem d'autoridade,
+ Crereis o que vos disser?
+
+ALCMENA.
+
+ Sim, que ninguem póde haver
+ Que me negue esta verdade.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Eu estou em concrusão
+ D'hoje desembaraçar
+ Tão enleada questão:
+ Á nao me quero tornar
+ A trazer cá Belferrão.
+ Sósea, até minha tornada
+ Fica nesta casa em vela;
+ Qu'eu armarei tal cilada
+ A quem ma a mim tẽe armada,
+ Que venha hoje a cahir nella.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Alcmena e Bromia._
+
+ALCMENA.
+
+ Oh mulher triste e suspensa
+ Da mais alta confusão
+ Que nunca vio coração!
+ Em que mereces a offensa,
+ Que te faz Amphitrião?
+ Sempre de mi foi amado,
+ Tanto quanto em mi se sente,
+ Co'o coração tão liado,
+ Que se de mi era ausente,
+ Nelle o via figurado.
+ E pois mulher, que cumprisse
+ Melhor qu'eu fidelidade,
+ Não a vi, nem quem me visse
+ Que dos limites sahisse
+ Hum pouco da honestidade.
+ Pois porque he tão maltratada
+ Innocencia tão singella?
+ Que a pena mais apertada,
+ He a culpa levantada
+ Ao coração livre della.
+ Mas ja que minh'alma está
+ Sem culpa do que padeço,
+ Seja o que for; qu'eu conheço
+ Que a verdade me porá
+ No qu'eu pola ter mereço.
+ Bromia?
+
+BROMIA.
+
+ Senhora.
+
+ALCMENA.
+
+ Hi mandar
+ A Feliseo, que vá
+ Meu primo Aurelio chamar;
+ Que lhe quero perguntar
+ Que conselho me dará.
+ E pois que Amphitrião
+ Vai buscar somente quem
+ Lhe ajude a sua tenção,
+ Quero eu ter aqui tambem
+ Quem me defenda a razão.
+
+
+
+
+ACTO QUARTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter, Alcmena e Sosea._
+
+JUPITER.
+
+ Grão desconcêrto tẽe feito
+ Amphitrião com Alcmena!
+ Qualquer delles tẽe direito:
+ Eu sou o que venço o preito,
+ E ambos págão a pena.
+ Quero-me ir lá desfazer
+ Tão trabalhosa demanda,
+ Por nos tornarmos a ver;
+ Porque, emfim, quem muito quer
+ Com qualquer desculpa abranda.
+ E pois ja que a affeição
+ Ha de mudar tão asinha,
+ Quero ir alcançar perdão
+ Da culpa, que sendo minha,
+ Parece d'Amphitrião.
+
+ALCMENA.
+
+ Parece que torna cá
+ Amphitrião, que ja se hia:
+ Não sei a que tornará.
+ Senão se lhe peza ja
+ Dos enganos que tecia.
+
+JUPITER.
+
+ Senhora, não haja error
+ Que tantos males me faça,
+ Porque se o contrário for,
+ Pequeno será o amor,
+ Que manencória desfaça.
+ E pois com tanta alegria
+ De tantos perigos vim,
+ Pezar-me-ha se achar no fim,
+ Que huma leve zombaria
+ Vos possa aggravar de mim.
+
+ALCMENA.
+
+ Com palavras de deshonra
+ Não se ha de tratar quem ama;
+ Nem zombaria se chama,
+ Por exprimentar a honra,
+ Pôr em tal perigo a fama.
+ Bem tive eu para mim,
+ Que era aquillo experiencia.
+
+JUPITER.
+
+ Errei no que commetti:
+ Bem me basta a penitencia
+ De quanto me arrependi.
+ E se fiz algum error,
+ Com que vosso amor se mude
+ De quem vo-lo tẽe maior;
+ Não exprimentei virtude,
+ Mas exprimentei amor.
+ Que se com caso tão vário
+ Folguei de vos agastar,
+ Foi amor accrescentar;
+ Porque ás vezes hum contrário
+ Faz seu contrário avisar.
+ Daqui vem, que a leve mágoa
+ Firmeza e affeições augmenta,
+ Como bem se vê na frágoa,
+ Onde o fogo se accrescenta,
+ Borrifando-o com pouca ágoa.
+ Se hum mal grande se alevanta
+ N'hum coração que maltrata,
+ A affeição se desbarata;
+ Porque onde a ágoa he tanta
+ O fogo d'amor se mata.
+ E pois tive tal tenção,
+ Perdoae, Senhora, a culpa
+ Deste vosso coração.
+
+ALCMENA.
+
+ Não se alcança assi perdão
+ D'erro que não tẽe desculpa.
+
+JUPITER.
+
+ Ora pois assi tratais
+ Quem em tanto risco pôs
+ O amor que vós negais,
+ Eu m'ausentarei de vós
+ Onde mais me não vejais.
+ Que, pois desculpa não tem
+ Coração que tanto quer,
+ Vou-me; que não será bem
+ Que quem vós não podeis ver,
+ Que possa mais ver ninguem.
+ Se algum'hora meu cuidado
+ Vos der dor, em que pequena;
+ Peço-vos, pois fui culpado,
+ Que vos não peze da pena
+ De quem vos foi tão pezado.
+ E despois que a desventura
+ Puzer este coração
+ Debaixo da sepultura,
+ As letras na pedra dura
+ Vossa dureza dirão.
+ Isto vos hei de dizer,
+ Que m'ensinou minha dor:
+ Se quizerdes leda ser,
+ Nunca exprimenteis amor
+ Em quem vo-lo não tiver.
+ Deixae-me ir; não me tenhais.
+
+ALCMENA.
+
+ Amphitrião, não choreis!
+ Amphitrião!
+
+JUPITER.
+
+ Que quereis,
+ Ou para que nomeais
+ Homem, que ver não podeis?
+
+ALCMENA.
+
+ Amphitrião, s'eu causei
+ Com manencória pequena
+ Cousa, com que o magoei;
+ Eu quero cahir na pena
+ Dessa culpa que lhe dei.
+
+JUPITER.
+
+ Sempre serei magoado
+ Se vossa má condição
+ Me não perdôa o passado.
+
+ALCMENA.
+
+ Perdôo, e peço perdão
+ De lhe não ter perdoado.
+
+SOSEA.
+
+ No le perdone, Señora,
+ Hasta que con devocion
+ Tambien me pida perdon;
+ Que bien se me acuerda ahora
+ Que me ha llamado ladron.
+
+JUPITER.
+
+ Sósea?
+
+SOSEA.
+
+ Señor.
+
+JUPITER.
+
+ Vae buscar
+ O Piloto Belferrão;
+ Dir-lhe-has, se desembarcar,
+ Que me parece razão
+ Que venha hoje cá cear.
+
+SOSEA.
+
+ Si, Señor, voy á la hora.
+
+JUPITER.
+
+ De nenhuma qualidade
+ Cure de fazer demora.
+ E nós vamos-nos, Senhora,
+ Confirmar nossa amizade.
+
+
+SCENA II.
+
+MERCURIO.
+
+ Grandes revoltas vão lá.
+ Grandes acontecimentos!
+ Cumpre-me que esteja cá,
+ Em quanto meu pae está
+ Em seus desenfadamentos.
+ Porque vi Amphitrião
+ Vir da nao mui apressado;
+ E tendo corrido e andado,
+ Não pôde achar Belferrão,
+ Que lhe era bem escusado.
+ Parece-me que virá
+ Ver se lhe abre aqui alguem;
+ Mas, porém, se chega cá,
+ Ja póde ser que se vá
+ Mais confuso do que vem.
+
+
+SCENA III.
+
+_Mercurio e Amphitrião._
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quiz-nos nossa natureza
+ Com tal condição fazer,
+ Que ja temos por certeza
+ Não haver grande prazer,
+ Sem mistura de tristeza.
+ Este decreto espantoso,
+ Que instituio nossa sorte,
+ He tal e tão rigoroso,
+ Que ninguem antes da morte
+ Se póde chamar ditoso.
+ Com esta justa balança
+ O Fado grande e profundo
+ Nos refreia a esperança,
+ Porque ninguem neste mundo
+ Busque bem-aventurança.
+ Eu, que cuidei de viver
+ Sempre contente de mi
+ Com tamanho Rei vencer,
+ Venho achar minha mulher
+ De todo fóra de si.
+ Mas d'outra parte, que digo?
+ Que s'he verdade o que vi,
+ E o que ella diz he assi;
+ Virei a cuidar comigo
+ Qu'eu sou o fóra de mi.
+ Quero ver se a acho ja
+ Fóra de tão seccos nós.
+ Ó de casa?
+
+MERCURIO.
+
+ O de allá?
+ Quien sois?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Abre.
+
+MERCURIO.
+
+ Santo Dios!
+ Pues no os conocen acá.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Oh que gentil desvario!
+ Abri-me ora se quizerdes.
+
+MERCURIO.
+
+ No haré, que en mí confio
+ Que de fuera dormiredes,
+ Que no comigo, amor mio.
+ (Que cancion para oir!)
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ah Sósea! zombas de mi?
+ (Ora quero-me fingir
+ Que ainda o não conheci,
+ Por ver se me quer abrir)
+ Ah Senhor, não abrireis?
+
+MERCURIO.
+
+ Qué quereis, hombre, por Dios?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Duas palavras de vós.
+
+MERCURIO.
+
+ Tengo dicho mas de seis,
+ E ahora me pedis dos?
+ De fuera podeis dormir,
+ Que entrar no podeis acá.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ora acabae, abri lá.
+
+MERCURIO.
+
+ Digo que no quiero abrir:
+ Dije dos palabras ya.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ora sus, bargante, abri.
+
+MERCURIO.
+
+ Si no te vuelves de aqui,
+ Á gran peligro te ofreces.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Velhaco, não me conheces.
+ Ou estás fóra de ti?
+
+MERCURIO.
+
+ Bonito venis, amor.
+ Quien sois, que hablais tan osado?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Abre, que sou teu Senhor.
+
+MERCURIO.
+
+ Vuélvase de esotro lado,
+ Y conocerlehé mejor.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea moço.
+
+MERCURIO.
+
+ Así me llamo,
+ Huélgome que lo sepais;
+ Empero digo que os vais,
+ Que Amphitrion es mi amo;
+ Vos id buscar quien seais.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Pois quero saber de ti:
+ Eu quem sou?
+
+MERCURIO.
+
+ Y quien sois vós?
+ Como os llaman?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Abri.
+
+MERCURIO.
+
+ Á vos os llaman Abri?
+ Pues, Abri, andad con Dios.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quem ha, que possa soffrer
+ Em sua honra tal destrôço,
+ Que para me endoudecer
+ Me tẽe negado a mulher,
+ E agora me nega o moço?
+
+MERCURIO.
+
+ Mira el encantador
+ Como se lastima y llora,
+ Y fuese tomar ahora
+ La forma de mi Señor,
+ Para engañar mi Señora.
+ Pues esperad, y no os vais,
+ Por un espacio pequeño;
+ Verná quien representais,
+ Y él os hará que volvais
+ El falso gesto á su dueño.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Vae, velhaco, e chama cá
+ Esse falso feiticeiro;
+ Que se elle lá dentro está,
+ Esta espada julgará
+ Qual de nós he o verdadeiro.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Amphitrião, Sosea e Belferrão._
+
+BELFERRÃO.
+
+ Ora ninguem presumíra
+ Que tinhas tão pouco siso;
+ Pois vás achar d'improviso
+ Tão bem forjada mentíra,
+ Que me faz cahir de riso.
+ Hum moço, que alevantou
+ Tal graça, nunca nasceo:
+ Porque vos jura que achou
+ Que ou elle em dous se perdeo,
+ Ou de hum dous se tornou.
+
+SOSEA.
+
+ Patron, que no burlo, no:
+ En uno son dos unidos,
+ Y en dos cuerpos repartidos;
+ Yo soy él, y él es yo,
+ De un padre y madre nacidos.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Esse tu que lá estás,
+ Tão velhaco he como ti?
+
+SOSEA.
+
+ Mas aun pienso que es mas:
+ Por delante y por detrás
+ Todo se parece á mí.
+ Y fue gran merced de Dios
+ Ayuntar á mí mas uno,
+ Que peor fuera de nos,
+ Si Dios me hiciera ninguno,
+ Que no de uno hacer dos.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Assi que, se te perdeste
+ Vieste a cobrar mais hum:
+ Mui gentil conta fizeste,
+ Pois que perdido soubeste
+ Que eras dous, sendo nenhum.
+
+SOSEA.
+
+ Pues teneis por abusion
+ Verdad tan clara, y tan rasa,
+ Aunque pone admiracion;
+ Quiera Dios, que allá en casa
+ No halleis otro Patron.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ O Patrão, que fui buscar,
+ Parece que vejo vir:
+ Não sei quem o foi chamar;
+ Mas que me ha de aproveitar
+ Se me não querem abrir?
+ Ah Belferrão!
+
+BELFERRÃO.
+
+ Ah Senhor!
+ Ja sinto que fui culpado;
+ Porque quem he convidado,
+ Se tão vagaroso for,
+ Merece não ser chamado.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ A vós quem vos convidou?
+
+BELFERRÃO.
+
+ Sósea, por mandado seu.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Disso, Patrão, não sei eu;
+ Que Sósea ja me negou,
+ E ja se não dá por meu.
+ E se alguem vos foi dizer
+ Qu'eu vos chamo á minha mesa;
+ Mal vos dara de comer
+ Quem de todo lhe he defesa
+ A casa, e mais a mulher.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Quem he esse tão ousado,
+ Que vos isso faz, Senhor?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Sósea, creio que enganado
+ Por algum encantador,
+ Que a honra me tẽe roubado.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Se elle aqui comigo vem,
+ Isso como póde ser?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ah! que a íra que vou ter,
+ Tão cega a vista me tem,
+ Que mo não deixava ver.
+ Porque razão, cavalleiro,
+ Não me abris quando vos mando?
+ Vós fazeis-vos chocarreiro?
+
+SOSEA.
+
+ Yo Señor? y como? y cuando?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quereis-lo saber primeiro?
+ Esperae, dir-se-vos-ha,
+ Mas será por outro son.
+
+SOSEA.
+
+ Ah Señor Amphitrion,
+ Porque matándome está,
+ Sin delito, y sin razon?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Agora que vos eu dou
+ Me chamais Amphitrião,
+ E para me abrirdes não?
+
+BELFERRÃO.
+
+ Este moço em que peccou?
+ Porque pena sem razão?
+ Não mais por amor de mi.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Não, que não sou seu Senhor;
+ Eu sou hum encantador.
+ Não o dizeis vós assi,
+ Ladrão, perro, enganador?
+
+SOSEA.
+
+ Porque fuy presto á llamar
+ Por su mandado al Patron,
+ Me quiere ahora matar?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Quem vo-lo mandou buscar?
+
+SOSEA.
+
+ Si no hay otro Amphitrion,
+ Vuestra merced sin dudar.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Eu te mandei?
+
+SOSEA.
+
+ Si Señor,
+ Si otro no.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Outro ha aqui,
+ Por quem tu zombes de mi?
+ Pois só desse encantador
+ Me quero vingar em ti.
+
+SOSEA.
+
+ Oh Júpiter, á quien bramo
+ Por su bondad que me vala!
+ Pues porque Sósea me llamo,
+ Yo mismo, y despues mi amo,
+ Me dieron venida mala!
+
+
+
+
+ACTO QUINTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter, Belferrão, Sosea e Amphitrião._
+
+JUPITER.
+
+ Quem he o tão atrevido,
+ Que aqui ousa de fazer
+ Tão revoltoso arruido
+ Com meus moços, sem temer,
+ Que fui sempre tão temido?
+ Quem aqui faz união,
+ Toma mui grande despejo.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Oh grande admiração!
+ Vejo eu outro Amphitrião,
+ Ou he sonho isto que vejo?
+
+SOSEA.
+
+ No mirais la encantacion,
+ Que aquel hizo á mi Señor?
+ El que sale, Belferron,
+ Es el cierto Amphitrion,
+ Que estotro es encantador.
+
+JUPITER.
+
+ Sósea?
+
+SOSEA.
+
+ Mi Señor, ya vó.
+
+JUPITER.
+
+ Patrão, só por vós espero.
+
+SOSEA.
+
+ No os lo dicia yo,
+ Que este era el verdadero,
+ Y esse que allá queda, no?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Bargante, aonde te vás?
+ Fazes teu Senhor sandeu?
+ Pois espera, e levarás.
+
+JUPITER.
+
+ Ó lá, tornae por detrás,
+ Não deis no moço, que he meu.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Vosso?
+
+JUPITER.
+
+ Meu.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Póde isto haver,
+ Que outrem minhas cousas tome?
+ Vós galante haveis de ser,
+ O que me tomais o nome,
+ Casa, moços e mulher.
+ Eu vos farei conhecer
+ Com quem tendes esse trato.
+
+JUPITER.
+
+ Sósea?
+
+SOSEA.
+
+ Señor.
+
+JUPITER.
+
+ Vae dizer,
+ Que apparelhem de comer,
+ Em quanto este doudo mato.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Oh Senhor, não seja assim,
+ Haja em vós concêrto algum!
+ E senão, pois aqui vim,
+ Farei que só tome em mim
+ Os golpes de cada hum.
+
+JUPITER.
+
+ Patrão, vossa boa estrella
+ Me fara deixar com vida
+ Quem me não merece tella.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Não a tenho eu merecida,
+ Pois que vos deixo com ella.
+
+BELFERRÃO.
+
+ O homem que for sisudo,
+ N'huma tão grande questão
+ Ha de tomar por escudo
+ A justiça, e a razão;
+ Que estas armas vencem tudo.
+ E pois essa natureza
+ Muitos homens faz iguais,
+ Dê qualquer de vós signais
+ De quem he, para certeza
+ Da fórma que ambos mostrais.
+
+JUPITER.
+
+ Sou contente de mostrar
+ Polos sinaes que vos dou,
+ Que são estes sem faltar.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Que sinaes podeis vós dar,
+ Para que sejais quem sou?
+
+JUPITER.
+
+ Estes, que logo vereis
+ Se são vãos, se de raiz.
+ Patrão, vós sêde juiz,
+ Que vós logo enxergareis
+ Qual mais verdade vos diz.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Eu não sinto onde consista
+ A cura desta doença,
+ Que ha tão pouca differença,
+ Que aquelle em que ponho a vista,
+ Por esse dou a sentença.
+ Mas, Senhor, vós que ordenastes
+ Que o juiz disto fosse eu,
+ Quando se a batalha deu,
+ Dizei, que m'encommendastes
+ Que ficasse a cargo meu?
+
+JUPITER.
+
+
+ Dei-vos cargo, qu'estivesse
+ Toda a Armada a bom recado,
+ E, se mal nos succedesse,
+ Que para os vivos houvesse
+ O refugio apparelhado.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Ora vós quantos dobrões
+ Esse dia m'entregastes?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Tres mil; e vós os contastes.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Ambos sois Amphitriões
+ Pelos sinaes que mostrastes.
+
+JUPITER.
+
+ Para ser mais conhecida
+ A tenção deste sandeu,
+ Vêde est'outro sinal meu,
+ Que he neste braço a ferida
+ Que me ElRei Terela deu.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Mostrae vós, Senhor, tambem.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Aqui o podeis olhar.
+
+BELFERRÃO.
+
+ Oh cousa para espantar!
+ Que ambos a ferida tem
+ D'hum tamanho, em hum lugar!
+
+
+SCENA II.
+
+_Jupiter, Amphitrião e Sosea._
+
+SOSEA.
+
+ Dice mi Señora Alcmena
+ Que no se ha de así de estar
+ Con un bobo á razonar,
+ Que se le enfria la cena.
+
+JUPITER.
+
+ Belferrão, vamos cear.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Belferrão, não me deixeis.
+ Como? tambem me negais?
+
+JUPITER.
+
+ Andae, não vos detenhais,
+ Vamos comer, se quereis,
+ Não ouçais hum doudo mais.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Ah maos! assi me ordenais
+ Offensa tão mal olhada?
+ Eu farei, se m'esperais,
+ Com que todos conheçais
+ Os fios da minha espada.
+
+JUPITER.
+
+ As portas prestes fechemos,
+ Não entre este doudo cá.
+
+SOSEA.
+
+ De fuera se dormirá:
+ Entre tanto que cenemos,
+ Puede pasearse allá.
+
+
+SCENA III.
+
+AMPHITRIÃO _só_.
+
+ Oh ira para não crer,
+ Em que minh'alma se abraza,
+ Que me faz endoudecer,
+ E não me ajuda a romper
+ As paredes desta casa!
+ E porque? Não tenho eu
+ Forças, que tudo destrua?
+ Pois que tanto a salvo seu,
+ Outrem acho que possua
+ A melhor parte do meu;
+ Eu irei hoje buscar
+ Quem me ajude a vir queimar
+ Toda esta casa sem pena,
+ Donde veja arder Alcmena,
+ Com quem a vejo enganar.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Aurelio e Moço._
+
+AURELIO.
+
+ No hallo á mis males culpa,
+ Para que merezca pena
+ La causa que me condena.
+
+MOÇO.
+
+ Essa está gentil desculpa
+ Para hoje dar a Alcmena!
+ Tẽe-no mandado chamar,
+ E elle está tão descuidado!
+
+AURELIO.
+
+ Moço, queres-me matar?
+ Que desculpa posso eu dar
+ Melhor qu'este meu cuidado?
+
+MOÇO.
+
+ E não ha mais que fazer?
+ Com isso a boca me tapa
+ Para mais nada dizer?
+
+AURELIO.
+
+ Ora dá-me cá essa capa
+ E vamos ver o que quer:
+ Não trates de mais razão,
+ Pois não ha quem te resista.
+ Que vejo? outra novação!
+
+MOÇO.
+
+ Que he?
+
+AURELIO.
+
+ Ou me mente a vista,
+ Ou eu vejo Amphitrião.
+
+MOÇO.
+
+ Eu ouvi a Feliseo,
+ Quando cá trouxe o recado,
+ Como elle era chegado,
+ E quiz-me dizer que veo
+ Do siso desconcertado.
+
+AURELIO.
+
+ Isso quero eu ir saber,
+ Pois que tal cousa se sôa.
+
+
+SCENA V.
+
+_Aurelio e Amphitrião._
+
+AURELIO.
+
+ Senhor, póde-se dizer
+ Que a vinda seja mui boa?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Essa não póde ella ser.
+
+AURELIO.
+
+ Porque não?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Porque he roubada
+ Minha honra sem temor,
+ E minha casa tomada,
+ E vossa Prima enganada
+ Por hum grande encantador.
+
+AURELIO.
+
+ Isso he certo?
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ E manifesto:
+ E tudo tẽe ja por seu
+ Adúltero e deshonesto:
+ Tẽe-me tomado o meu gesto,
+ E faz-lhe crer que sou eu.
+
+AURELIO.
+
+ Contais hum caso d'espanto!
+ E pois não podeis entrar,
+ Defendei-me por em tanto,
+ Que eu hei lá de chegar
+ Para ver quem póde tanto,
+
+
+SCENA VI.
+
+AMPHITRIÃO _só_.
+
+ Se ver deshonra tão clara
+ Me não tivera o sentido
+ Totalmente endoudecido,
+ Que gravemente chorára
+ Ver tão grande amor perdido!
+ E quando vejo a verdade
+ Do nosso amor e amizade
+ Desfeita com tanta mágoa
+ Enchem-se-me os olhos d'ágoa,
+ E a alma de saudade.
+ Assi que quiz minha estrella,
+ Para nunca ser contente,
+ Que agora, estando presente
+ Viva mais saudoso della,
+ Que quando della era ausente.
+ Esta porta vejo abrir
+ Com impeto demasiado,
+ Que poderei presumir,
+ Que vejo Aurelio sahir,
+ Como homem desatinado?
+
+
+SCENA VII.
+
+_Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea._
+
+AURELIO.
+
+ Oh estranha novidade!
+ Oh cousa para não crer!
+
+BELFERRÃO.
+
+ Venho cego de verdade,
+ Que não puderão soffrer
+ Meus olhos a claridade.
+
+SOSEA.
+
+ Oh triste, que vengo ciego
+ Con rayos, y con visiones!
+ Y destas encantaciones,
+ Si nuestra casa arde en fuego,
+ Han se de arder mis colchones.
+
+AURELIO.
+
+ Vamos a Amphitrião
+ Contar-lhe cousas tamanhas.
+
+AMPHITRIÃO.
+
+ Que vai lá? que cousas vão?
+
+AURELIO.
+
+ Maravilhas tão estranhas,
+ Que me treme o coração.
+ Porque aquelle homem, que assi
+ Tantos enganos teceo,
+ Como era cousa do Ceo,
+ Tanto qu'eu appareci,
+ Logo desappareceo.
+ E em desapparecendo
+ Com ruido grande e horrendo,
+ Toda a casa allumiou;
+ E de arte nos inflammou,
+ Que nos vimos acolhendo
+ Do raio que nos cegou.
+ Estes acontecimentos
+ Não são de humana pessoa.
+ Vós ouvis a voz que soa?
+ Escutae, estae attentos;
+ Vejamos o que pregôa.
+
+JUPITER, _de dentro_.
+
+ Amphitrião, qu'em teus dias
+ Vês tamanhas estranhezas,
+ Não t'espantem phantasias,
+ Que ás vezes grandes tristezas
+ Parem grandes alegrias.
+ Jupiter sou manifesto
+ Nas obras de admiração,
+ Que por mi causadas são:
+ Quiz-me vestir em teu gesto,
+ Por honrar tua geração.
+ Tua mulher parirá
+ Hum filho de mi gerado,
+ Que Hercules se chamará,
+ O mais valente e esforçado,
+ Que no mundo se achará.
+ Com este, teus successores
+ Se honrarão de serem teus;
+ E dar-lhe-hão os escriptores,
+ Por doze trabalhos seus,
+ Doze milhões de louvores.
+ E dessa illustre fadiga
+ Colherás mui rico fruito:
+ Enfim, a razão me obriga
+ Que tão pouco delle diga,
+ Porque o tempo dirá muito.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+FILODEMO,
+
+COMEDIA.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+ FILODEMO.
+ VILARDO, seu moço.
+ DIONYSA.
+ SOLINA, sua moça.
+ VENADORO.
+ MONTEIRO.
+ DORIANO, amigo de Filodemo.
+ HUM PASTOR.
+ HUM BOBO, filho do pastor.
+ FLORIMENA, pastora.
+ DOM LUSIDARDO, pae de Venadoro.
+ DOLOROSO, amigo de Vilardo.
+ TRES PASTORES.
+
+
+ARGUMENTO.
+
+Hum Fidalgo Portuguez, que acaso andava nos Reinos de Dinamarca, como
+por largos amores e maiores serviços, tivesse alcançado o amor de huma
+filha d'el Rei, foi-lhe necessario fugir com ella em huma galé, por
+quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo chegados á costa
+de Hespanha, onde elle era senhor de grande patrimonio, armou-se-lhe
+grande tormenta, que sem nenhum remedio, dando a galé á costa, se
+perdêrão todos miseravelmente, senão a Princeza, que em huma taboa foi á
+praia: a qual, como chegasse o tempo de seu parto, junto de huma fonte
+pario duas crianças, macho e femia; e não tardou muito que hum pastor
+Castelhano, que naquellas partes morava, ouvindo os tenros gritos dos
+meninos, lhe acudio a tempo que a mãe ja tinha espirado. Crescidas,
+emfim, as crianças debaixo da humanidade e criação daquelle pastor, o
+macho que Filodemo se chamou á vontade de quem os baptizára, levado da
+natural inclinação, deixando o campo, se foi para a cidade, aonde por
+musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo, irmão de seu
+Pae, a quem muitos annos servio sem saber o parentesco que entre ambos
+havia. E como de seu Pae não tivesse herdado nada mais que os altos
+espiritos, namorou-se de Dionysa, filha de seu Senhor e Tio, que
+incitada ao que por suas obras e boas partes merecia, ou porque ellas
+nada engeitão, lhe não queria mal. Aconteceo mais, que Venadoro, filho
+de D. Lusidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao exercicio da caça,
+andando hum dia no campo apos hum cervo, se perdeo dos seus; e indo dar
+em huma fonte, onde estava Florimena, irmãa de Filodemo (que assim lhe
+pozerão o nome) enchendo huma talha de ágoa, se perdeo de amores por
+ella, que se não soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava,
+até que seu Pae o não foi buscar. O qual informado pelo pastor que a
+criára (que era homem sabio na Arte Magica) de como a achára e como a
+criára, não teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha, e
+prima de Filodemo; e a Venadoro seu filho, com Florimena sua sobrinha,
+irmãa de Filodemo pastor; e tambem pela muita renda que tinha e de seu
+Pae ficára, de que elles erão verdadeiros herdeiros. Das mais
+particularidades da Comedia, fara menção o Auto, que he o seguinte.
+
+
+
+
+FILODEMO,
+
+COMEDIA.
+
+
+
+
+ACTO PRIMEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Filodemo e Vilardo._
+
+FILODEMO.
+
+ Moço Vilardo?
+
+VILARDO.
+
+ Ei-lo vae.
+
+FILODEMO.
+
+ Fallae era má, fallae,
+ E sahi cá para a sala.
+ O villão como se cala!
+
+VILARDO.
+
+ Pois, Senhor, sahi a meu pae,
+ Que quando dorme não fala.
+
+FILODEMO.
+
+ Trazei cá huma cadeira:
+ Ouvis, villão?
+
+VILARDO.
+
+ Senhor, sim.
+ (Se m'ella não traz a mim.
+ Vejo-lh'eu ruim maneira.)
+
+FILODEMO.
+
+ Acabae, villão ruim.
+ Que moço para servir
+ Quem tẽe as tristezas minhas!
+ Quem pudesse assi dormir!
+
+VILARDO.
+
+ Senhor, nestas manhãzinhas
+ Não ha hi senão cahir:
+ Por demais he trabalhar
+ Qu'este somno se me ausente.
+
+FILODEMO.
+
+ Porque?
+
+VILARDO.
+
+ Porque ha d'assentar
+ Que se não for com pão quente,
+ Não ha de desaferrar.
+
+FILODEMO.
+
+ Ora hi pelo que vos mando,
+ Villão feito de fermento. _Sahe Vilardo._
+ Triste do que vive amando
+ Sem ter outro mantimento,
+ Qu'estar só phantasiando!
+ Só hũa cousa me desculpa
+ Deste cuidado que sigo,
+ Ser de tamanho perigo,
+ Que cuido que a mesma culpa
+ Me fica sendo castigo.
+
+_Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante_
+
+FILODEMO.
+
+ Ora quero praticar
+ Só comigo hum pouco aqui;
+ Que despois que me perdi,
+ Desejo de me tomar
+ Estreita conta de mi.
+ Vae para fóra, Vilardo.
+ Torna cá: vae-me saber
+ Se se quer ja lá erguer
+ O Senhor Dom Lusidardo,
+ E vem-mo logo dizer. _Vai-se o moço._
+ Ora bem, minha ousadia,
+ Sem azas, pouco segura,
+ Quem vos deo tanta valia,
+ Que subais a phantasia
+ Onde não sobe a ventura?
+ Por ventura eu não nasci
+ No mato, sem mais valer,
+ Que o gado ao pasto trazer?
+ Pois donde me veio a mi
+ Saber-me tão bem perder?
+ Eu, nascido entre pastores,
+ Fui trazido dos currais,
+ E d'entre meus naturais
+ Para casa dos Senhores,
+ Donde vim a valer mais.
+ E agora logo tão cedo
+ Quiz mostrar a condição
+ De rustico e de villão!
+ Dando-me ventura o dedo,
+ Lhe quero tomar a mão!
+ Mas oh! qu'isto não he assi,
+ Nem são villãos meus cuidados,
+ Como eu delles entendi;
+ Mas antes, de sublimados,
+ Os não posso crer de mi.
+ Porque como hei eu de crer
+ Que me faça minha estrella
+ Tão alta pena soffrer,
+ Que somente pola ter
+ Mereço a gloria della?
+ Senão se amor, d'attentado,
+ Porque me não queixe delle,
+ Tẽe por ventura ordenado
+ Que mereça o meu cuidado,
+ Só por ter cuidado nelle.
+
+
+SCENA II.
+
+_Vilardo e Filodemo._
+
+VILARDO.
+
+ O Senhor Dom Lusidardo
+ Dorme com todo o convento;
+ E elle com o pensamento
+ Quer estar fazendo alardo
+ De castellinhos de vento!
+ Pois tão cedo se vestio,
+ Com seu damno se conforme,
+ Pezar de quem me pario;
+ Que ainda o sol não sahio:
+ Se vem á mão, tambem dorme.
+ Elle quer-se levantar
+ Assi pela manhãzinha!
+ Pois quero-o desenganar:
+ Nem por muito madrugar
+ Amanhece mais asinha.
+
+_Filodemo._
+
+ Traze-me a viola cá.
+
+VILARDO.
+
+ (Voto a tal que me vou rindo.)
+ Senhor, tambem dormirá.
+
+FILODEMO.
+
+ Traze-a, moço.
+
+VILARDO.
+
+ Si, virá,
+ Se não estiver dormindo.
+
+FILODEMO.
+
+ Ora hi polo que vos mando:
+ Não gracejeis.
+
+VILARDO.
+
+ Eis-me vou:
+ Pois, pezar de São Fernando!
+ Por ventura sou eu grou?
+ Sempre hei d'estar vigiando? _Sahe._
+
+FILODEMO.
+
+ Ah Senhora, que podeis
+ Ser remedio do que peno,
+ Quão mal ora cuidareis
+ Que viveis e que cabeis
+ N'hum coração tão pequeno!
+ Se vos fosse apresentado
+ Este tormento em que vivo,
+ Crerieis que foi ousado
+ Este vosso, de criado
+ Tornar-se vosso captivo?
+
+
+SCENA III.
+
+_Filodemo e Vilardo._
+
+VILARDO.
+
+ Ora eu creio, se he verdade
+ Qu'estou de todo acordado,
+ Que meu amo he namorado;
+ E a mi dá-me na vontade
+ Que anda hum pouco abalado.
+ E se tal he, eu daria
+ Por conhecer a donzella
+ A ração d'hoje este dia;
+ Porque a desenganaria,
+ Somente por ter dó della.
+ Havia-lhe perguntar:
+ Senhora, de que comeis?
+ Se comeis d'ouvir cantar,
+ De fallar bem, de trovar,
+ Em boa hora casareis.
+ Porém se vós comeis pão,
+ Tende, Senhora, resguardo;
+ Qu'eis-aqui está Vilardo,
+ Qu'he como hum camaleão,
+ Por isso, bus, fazei fardo.
+ E se vós sois das gamenhas,
+ E houverdes d'attentar
+ Por mais que por manducar,
+ Mi cama son duras peñas,
+ Mi dormir siempre es velar.
+ A viola, Senhor, vem
+ Sem primas, nem derradeiras:
+ Mas sabe o que lhe convem?
+ Se quer, Senhor, tanger bem,
+ Ha de haver mister terceiras.
+ E se estas cantigas vossas
+ Não forem para escutar,
+ E quizerdes espirar;
+ Ha mister cordas mais grossas,
+ Porque não possão quebrar.
+
+FILODEMO.
+
+ Vae para fóra.
+
+VILARDO.
+
+ Ja venho.
+
+FILODEMO.
+
+ Qu'eu só desta phantasia
+ Me sostenho e me mantenho.
+
+VILARDO.
+
+ Quamanha vista que tenho,
+ Que vejo a estrella do dia! _Sahe._
+
+
+SCENA IV.
+
+FILODEMO, _cantando_.
+
+ Adó sube el pensamiento,
+ Seria una gloria inmensa
+ Si allá fuese quien lo piensa.
+
+_Falla._
+
+ Qual espirito divino
+ Me fará a mi sabedor
+ Deste meu mal, se he amor,
+ Se por dita desatino?
+ Se he amor, diga-me qual
+ Póde ser seu fundamento,
+ Ou qual he seu natural,
+ Ou porque empregou tão mal
+ Hum tão alto pensamento.
+ Se he doudice, como em tudo
+ A vida me abraza e queima,
+ Ou quem vio n'hum peito rudo
+ Desatino tão sisudo,
+ Que toma tão doce teima?
+ Ah Senhora Dionysa,
+ Onde a natureza humana
+ Se mostrou tão soberana!
+ O que vós valeis me avisa,
+ Mas o qu'eu peno m' engana.
+
+
+SCENA V.
+
+_Solina e Filodemo._
+
+SOLINA.
+
+ Tomado estais vós agora,
+ Senhor, co'o furto nas mãos.
+
+FILODEMO.
+
+ Solina, minha Senhora,
+ Quantos pensamentos vãos
+ Me ouvirieis lançar fóra?
+
+SOLINA.
+
+ Oh Senhor, quão bem que sôa
+ O tanger de quando em quando!
+ Bem sei eu huma pessoa,
+ Que haja huma hora, e boa,
+ Que vos está escutando.
+
+FILODEMO.
+
+ Por vida vossa, zombais?
+ Quem he? quereis-mo dizer?
+
+SOLINA.
+
+ Não o haveis vós de saber,
+ Bofé se me não peitais.
+
+FILODEMO.
+
+ Dar-vos-hei quanto tiver,
+ Para taes tempos como estes.
+ Quem tivera voz dos Ceos,
+ Pois escutar me quizestes!
+
+SOLINA.
+
+ Assi pareça eu a Deos,
+ Como lhe vós parecestes.
+
+FILODEMO.
+
+ A Senhora Dionysa
+ Quer-se ja alevantar?
+
+SOLINA.
+
+ Assi me veja eu casar,
+ Como despida em camisa
+ Se ergueo por vos escutar.
+
+FILODEMO.
+
+ Em camisa levantada!
+ Tão ditosa he minha estrella?
+ Ou mo dizeis refalsada?
+
+SOLINA.
+
+ Pois bem me defendeo ella
+ Que vos não dissesse nada.
+
+FILODEMO.
+
+ Se pena de tantos annos
+ Merecer algum favor,
+ Para cura de meus dannos
+ Fartae-me desses engannos,
+ Que não quero mais de Amor.
+
+SOLINA.
+
+ Agora quero eu fallar
+ Neste caso com mais tento;
+ Quero agora perguntar:
+ E de siso his vós tomar
+ Hum tão alto pensamento?
+ Certo he minha maravilha,
+ Se vós isto não sentis
+ Bem: vós como não cahis
+ Que Dionysa qu'he filha
+ Do Senhor a quem servis?
+ Como? Vós não attentais
+ Os Grandes, de qu'he pedida?
+ Peço-vos que me digais
+ Qual he o fim que esperais
+ Neste caso, em vossa vida.
+ Que razão boa, ou que côr
+ Podeis dar a esta affeição?
+ Dizei-me vossa tenção.
+
+FILODEMO.
+
+ Onde vistes vós amor
+ Que se guie por razão?
+ Se quereis saber de mi
+ Que fim, ou de que theor
+ O pretendo em minha dor;
+ S'eu neste amor quero fim,
+ Sem fim me atormente Amor.
+ Mas vós com gloria fingida
+ Pretendeis de m'enganar,
+ Por assi mal me tratar:
+ Assi que me dais a vida
+ Somente por me matar.
+
+SOLINA.
+
+ Eu digo-vos a verdade.
+
+FILODEMO.
+
+ Da verdade fujo eu,
+ Porque se o Amor me deu
+ Pena de tal qualidade,
+ Assaz me custa do meu.
+
+SOLINA.
+
+ Fólgo muito de saber
+ Que sois amante tão fino.
+
+FILODEMO.
+
+ Pois mais vos quero dizer,
+ Que ás vezes no imaginar
+ Não ouso de m' estender.
+ Na hora que imaginei
+ Na causa de meu tormento,
+ Tamanha gloria levei,
+ Que por onças desejei
+ De lograr o pensamento.
+
+SOLINA.
+
+ Se me vós a mi jurardes
+ De me terdes em segredo
+ Huma cousa... mas hei medo
+ De logo tudo contardes.
+
+FILODEMO.
+
+ A quem?
+
+SOLINA.
+
+ Áquelle enxovedo.
+
+FILODEMO.
+
+ Qual?
+
+SOLINA.
+
+ Aquelle mao pezar,
+ Que ant'hontem comvosco hia.
+ Quem se fosse em vós fiar!
+ O que vos disse o outro dia,
+ Tudo lhe fostes contar.
+
+FILODEMO.
+
+ Que lhe contei?
+
+SOLINA.
+
+ Ja lh'esquece?
+
+FILODEMO.
+
+ Por certo qu'estou remoto.
+
+SOLINA.
+
+ Hi, que sois hum cesto roto.
+
+FILODEMO.
+
+ Esse homem tudo merece.
+
+SOLINA.
+
+ Vós sois muito seu devoto.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, não hajais medo:
+ Contae-m'isso, e far-me-hei mudo.
+
+SOLINA.
+
+ Senhor, o homem sisudo,
+ Se em taes cousas tẽe segredo,
+ Saiba que alcançará tudo.
+ A Senhora Dionysa
+ Crede que mal vos não quer:
+ Não vos posso mais dizer.
+ Isto tende por balisa
+ Com que vos saibais reger.
+ Qu'em mulheres, se attentais,
+ O querer está visibil;
+ E se bem vos governais,
+ Não desespereis do mais,
+ Porque, emfim, tudo he possibil.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, póde isso ser?
+
+SOLINA.
+
+ Si, que tudo o mundo tem:
+ Olhae não o saiba alguem.
+
+FILODEMO.
+
+ E que maneira hei de ter
+ Para crer tamanho bem?
+
+SOLINA.
+
+ Vós, Senhor, o sabereis;
+ E ja que vos descobri
+ Tamanho sogredo aqui,
+ Huma mercê me fareis
+ Em que me vai muito a mi.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, a tudo me obrigo
+ Quanto for em minha mão.
+
+SOLINA.
+
+ Pois dizei a vosso amigo
+ Que não gaste tempo em vão,
+ Nem queira amores comigo.
+ Porque eu tenho parentes,
+ Que me podem bem casar;
+ E mais que não quero andar
+ Agora em boca de gentes
+ A quem s'elle vai gabar.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, mal conheceis
+ O que vos quer Duriano:
+ Sabei-o, se o não sabeis,
+ Qu'em sua alma sente o dano
+ Do pouco que lhe quereis;
+ E que outra cousa não quer,
+ Que ter-vos sempre servida.
+
+SOLINA.
+
+ Pola sua negra vida,
+ Isso havia eu bem mister.
+
+FILODEMO.
+
+ Vós sois desagradecida!
+
+SOLINA.
+
+ Si, que tudo são enganos
+ Em tudo quanto fallais.
+
+FILODEMO.
+
+ Não quero que me creais:
+ Crede o tempo; que ha dous anos
+ Que vos serve, e inda mais.
+
+SOLINA.
+
+ Senhor, bem sei que m'engano;
+ Mas a vós, como a irmão,
+ Descubro este coração:
+ Sabei que a Duriano
+ Tenho sobeja affeição.
+ Olhae que lhe não digais
+ Isto que vos aqui digo.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, mal me tratais:
+ Inda que sou seu amigo,
+ Sabei que vosso sou mais.
+
+SOLINA.
+
+ E ja que vos confessei
+ Aquestas fraquezas minhas,
+ Que ha tanto que de mi sei;
+ Fazei vós nas cousas minhas
+ O qu'eu nas vossas farei.
+
+FILODEMO.
+
+ Vós enxergareis, Senhora,
+ O qu'eu por vós sei fazer.
+
+SOLINA.
+
+ Como me deixo esquecer!
+ Aqui estivera agora
+ Fallando té anoitecer.
+ Vou-me; e olhae quanto val
+ O que passou entre nós.
+
+FILODEMO.
+
+ E porque vos ides vós?
+
+SOLINA.
+
+ Porque parece ja mal
+ Estar aqui ambos sós.
+ E mais vou vestir agora
+ A quem vos dá tão má vida.
+ Ficae-vos, Senhor, embora.
+
+FILODEMO.
+
+ Nessa ide vós, Senhora,
+ Que ja vos tenho entendida.
+
+
+SCENA VI.
+
+FILODEMO _só_.
+
+ Ora se póde isto ser
+ Do qu'esta moça me avisa,
+ Que a Senhora Dionysa,
+ Por me ouvir, se fosse erguer
+ Da sua cama em camisa!
+ E diz que mal me não quer.
+ Não queria maior gloria;
+ Mas o que mais posso crer,
+ Que nem para lhe esquecer
+ Lhe passo pela memoria.
+ Mas ter Solina tambem
+ Em Duriano o intento,
+ He levar-me a lenha o vento;
+ Porque s'ella lhe quer bem,
+ Para bem vai meu tormento.
+ Mas foi-se este homem perder
+ Neste tempo, de maneira,
+ Por huma mulher solteira,
+ Que não me atrevo a fazer
+ Que hum pequeno bem lhe queira.
+ Porém far-lhe-hei hum partido,
+ Porqu'ella não se querelle:
+ Que se mostre seu perdido,
+ Inda que seja fingido,
+ Como lh'outrem faz a elle.
+ E ja que me satisfaz,
+ E tanto nisto se alcança,
+ Dê-lhe fingida esperança:
+ Do mal que lhe outrem faz,
+ Tomará nella vingança.
+
+
+SCENA VII.
+
+VILARDO _só_.
+
+ Ora boa está a cilada
+ De meu amo com sua ama,
+ Que se levantou da cama
+ Por ouvi-lo! Está tomada:
+ Assi a tome má trama.
+ E mais crede que quem canta,
+ Ainda descantará;
+ E quem do leito, onde está,
+ Por ouvi-lo se levanta,
+ Mor desatino fará.
+ Quem havia de cuidar,
+ Que dama formosa e bella
+ Saltasse o demonio nella,
+ Para a fazer namorar
+ De quem não he igual della?
+ Que me dizeis a Solina?
+ Como se faz Celestina,
+ Que por não lhe haver inveja
+ Tambem para si deseja
+ O que o desejo lh'ensina!
+ Crede que se me alvoróço,
+ Que a hei de tomar por dama;
+ E não será grão destrôço,
+ Pois o amo quer a ama,
+ Que a moça queira o moço.
+ Vou-me; que vejo lá vir
+ Venadoro, apercebido
+ Para a caça se partir:
+ E voto a tal, que he partido
+ Para ver e para ouvir.
+ Que he razão justa e rasa
+ Que seu folgar se desconte
+ Em quem arde como brasa;
+ Que se vai caçar ao monte,
+ Fique outrem caçando em casa.
+
+
+SCENA VIII.
+
+VENADORO _só_.
+
+ Aprovada antiguamente
+ Foi, e muito de louvar
+ A occupação do caçar,
+ E da mais antigua gente
+ Havida por singular.
+ He o mais contrário officio
+ Que tẽe a ociosidade,
+ Mãe de todo o bruto vício:
+ Por este limpo exercicio
+ Se reserva a castidade.
+ Este dos grandes Senhores
+ Foi sempre muito estimado;
+ E he grande parte do estado
+ Ter monteiros, caçadores,
+ Como officio qu'he prezado.
+ Pois logo porque razão
+ A meu pae ha de pezar
+ De me ver ir a caçar?
+ E tão boa occupação
+ Que mal me póde causar?
+
+
+SCENA IX.
+
+_Venadoro e o Monteiro._
+
+MONTEIRO.
+
+ Senhor, venho alvoroçado,
+ E mais com muita razão.
+
+VENADORO.
+
+ Como assi?
+
+MONTEIRO.
+
+ Que me he chegado
+ O mais extremado cão,
+ Que nunca caçou veado.
+ Vejamos que me ha de dar.
+
+VENADORO.
+
+ Dar-vos-hei quanto tiver;
+ Mas ha-se d'exprimentar,
+ Para se poder julgar
+ As manhas que póde ter.
+
+MONTEIRO.
+
+ Póde assentar qu'este cão,
+ Que tẽe das manhas a chave.
+ Bem feito? Em admiração.
+ Pois em ligeiro? He huma ave.
+ Em commetter? Hum leão.
+ Com porcos? Maravilhoso.
+ Com veados? Extremado.
+ Sobeja-lhe o ser manhoso.
+
+VENADORO.
+
+ Pois eu ando desejoso
+ D'irmos matar hum veado.
+
+MONTEIRO.
+
+ Pois, Senhor, como não vae?
+
+VENADORO.
+
+ Vamos, e vós mui ligeiro
+ O necessario ordenae;
+ Qu'eu quero chegar primeiro
+ Pedir licença a meu pae.
+
+
+
+
+ACTO SEGUNDO.
+
+
+SCENA I.
+
+DURIANO.
+
+Pois não creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pôr pé em ramo verde, té
+lhe dar trezentos açoutes. Despois de ter gastado perto de trezentos
+cruzados com ella, porque logo lhe não mandei o setim para as mangas,
+fez de mim mangas ao demo. Não desejo eu de saber, senão qual he o
+galante que me succedeo; que se vo-lo eu colho a balravento, eu lhe
+farei botar ao mar quantas esperanças lhe a fortuna tẽe cortado á
+minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com o dinheiro, como a
+maré com a lũa: bolsa cheia, amor em ágoas vivas; mas se vasa, vereis
+espraiar este engano, e deixar em sêcco quantos gostos andavão como o
+peixe na ágoa.
+
+
+SCENA II.
+
+_Filodemo e Duriano._
+
+FILODEMO.
+
+Ó lá! cá sois vós? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me
+sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos
+tire como huma alma.
+
+DURIANO.
+
+Oh maravilhosa pessoa! Vós he certo que vos prezais de mais certo em
+casa, que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem á mão, os
+pensamentos com os focinhos quebrados, de cahirem onde vós sabeis. Pois
+sabeis, Senhor Filodemo, quaes são os que me mátão? Huns muito bem
+almofaçados, que com dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezão de
+brandos na conversação, e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo
+que não darão meia hora de triste pelo thesouro de Veneza; e gábão mais
+Garcilasso que Boscão; e ambos lhe sahem das mãos virgens; e tudo isto
+por vos meterem em consciencia que se não achou para mais o grão Capitão
+Gonçalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia do mundo
+farão altos espiritos: e eu não trocarei duas pescoçadas da minha etc.,
+depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e
+fingir-se-me bebada, porque o não pareça, por quantos Sonetos estão
+escriptos polos troncos dos árvores do vale Luso, nem por quantas
+Madamas Lauras vós idolatrais.
+
+FILODEMO.
+
+Tá, tá, não vades avante, que vos perdeis.
+
+DURIANO.
+
+Aposto que adivinho o que quereis dizer?
+
+FILODEMO.
+
+Que?
+
+DURIANO.
+
+Que se me não acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a
+herege de amor.
+
+FILODEMO.
+
+Oh que certeza tamanha, o muito peccador não se conhecer por esse!
+
+DURIANO.
+
+Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinião! Mas
+tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he
+cousa de vossa saude, tudo farei.
+
+FILODEMO.
+
+Como templará el destemplado? Quem poderá dar o que não tẽe, Senhor
+Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo: não póde ser que a natureza não
+faça em vós o que a razão não póde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porém
+he necessario que primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis
+para hum canto da casa todos esses maos pensamentos; porque segundo
+andais mal avinhado, damnareis tudo aquillo que agora lançarem em vós.
+Ja vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra cousa que não he
+servir a Senhora Dionysa; e postoque a desigualdade dos estados o não
+consinta, eu não pretendo della mais que o não pretender della nada,
+porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que este meu amor he como
+a ave Phenix, que de si só nasce, e não de outro nenhum interesse.
+
+DURIANO.
+
+Bem praticado está isso; mas dias ha que eu não creio em sonhos.
+
+FILODEMO.
+
+Porque?
+
+DURIANO.
+
+Eu vo-lo direi: porque todos vós-outros os que amais pela passiva,
+dizeis que o amor fino como melão, não ha de querer mais de sua dama que
+amá-la; e virá logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a
+trezentos Platões, mais çafado que as luvas de hum pagem d'arte,
+mostrando razões verisimeis e apparentes, para não quererdes mais de
+vossa dama que vê-la; e ao mais até fallar com ella. Pois inda achareis
+outros esquadrinhadores d'amor, mais especulativos, que defenderão a
+justa por não emprenhar o desejo; e eu (faço-vos voto solemne) se a
+qualquer destes lhe entregassem sua dama tosada e apparelhada entre dous
+pratos, eu fico que não ficasse pedra sôbre pedra: e eu ja de mi vos sei
+confessar que os meus amores hão de ser pela activa, e que ella ha de
+ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu de,
+vá v. m. co'a historia por diante.
+
+FILODEMO.
+
+Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida entre os
+Doctores: assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mão,
+bem trinta ou quarenta legoas pelo sertão dentro de hum pensamento,
+senão quando me tomou á traição Solina; e entre muitas palavras que
+tivemos, me descobrio que a Senhora Dionysa se levantára da cama por me
+ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando quasi hora e meia.
+
+DURIANO.
+
+Cobras e tostões, sinal de terra: pois ainda vos não fazia tanto avante.
+
+FILODEMO.
+
+Finalmente, veio-me a descobrir, que me não queria mal, que foi para mi
+o maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a
+soffrer por sua causa, e não tenho agora sogeito para tamanho bem.
+
+DURIANO.
+
+Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser são. Se vos
+deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca
+chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanças ao leme;
+que eu vos faço bom que ás duas enxadadas acheis ágoa. E que mais
+passastes?
+
+FILODEMO.
+
+A maior graça do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vós; e
+me quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vós merecesseis.
+
+DURIANO.
+
+Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor?
+porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que
+dizer poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella
+quer que eu caia.
+
+FILODEMO.
+
+Nem eu não quero que lho queirais, mas que lhe façais crer que lho quereis.
+
+DURIANO.
+
+Não... quanté dessa maneira me offereço a romper meia duzia de serviços
+alinhavados ás panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais
+fiel amante que nunca calçou esporas; e se isto não bastar, salgan las
+palabras mas sangrientas del corazon, entoadas de feição, que digão que
+sou hum Mancias, e peor ainda.
+
+FILODEMO.
+
+Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro,
+irmão da Senhora Dionysa, he fóra á caça; e sem elle fica a casa
+despejada; e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu
+passatempo he enxertar e dispôr, e outros exercicios d'agricultura,
+naturaes a velhos: e pois o tempo nos vem á medida do desejo, vamo-nos
+lá; e se puderdes fallar, fazei de vós mil manjares, porque lhe façais
+crer que sois mais esperdiçado d'amor que hum Braz Quadrado.
+
+DURIANO.
+
+Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas,
+com que vosso feito venha á luz.
+
+
+SCENA III.
+
+_Dionysa e Solina._
+
+DIONYSA.
+
+ Solina, mana.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora.
+
+DIONYSA.
+
+ Trazei-me cá a almofada;
+ Que a casa está despejada,
+ E esta varanda cá fóra
+ Está melhor assombrada.
+ Trazei a vossa tambem
+ Para estarmos cá lavrando;
+ Em quanto meu pae não vem,
+ Estaremos praticando,
+ Sem nos estorvar ninguem.
+
+SOLINA.
+
+ Este he o mesmo lugar
+ Onde estava o bem logrado,
+ Tal que de muito enlevado
+ Se esquecia do cantar
+ Por se enlevar no cuidado.
+
+DIONYSA.
+
+ Vós, mana, sois mui ruim!
+ Logo lhe fostes contar
+ Que me ergui polo escutar.
+
+SOLINA.
+
+ Eu o disse?
+
+DIONYSA.
+
+ Eu não o ouvi?
+ Como mo quereis negar?
+
+SOLINA.
+
+ E pois isso que releva?
+ Que se perde nisso agora?
+
+DIONYSA.
+
+ Que se perde! Assi, Senhora,
+ Folgareis vós que se atreva
+ A contá-lo lá por fóra?
+ Que se lhe meta em cabeça
+ Alguma parvoa tenção?
+ Que faça, se vem á mão,
+ Algũa cousa que pareça?
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, não tẽe razão.
+
+DIONYSA.
+
+ Eu sei mui bem attentar
+ Do que se ha de ter receio,
+ E do que he para estimar.
+
+SOLINA.
+
+ Não he o demo tão feio
+ Como alguem o quer pintar;
+ E não se espera isso delle,
+ Que não he ora tão moço.
+ E Vossa Mercê asselle
+ Que qualquer segredo nelle
+ He como huma pedra em poço.
+
+DIONYSA.
+
+ E eu que segredo quero
+ Co'hum criado de meu pae?
+
+SOLINA.
+
+ E vós, mana, fazeis fero?
+ Ao diante vos espero,
+ Se adiante o caso vae.
+
+DIONYSA.
+
+ O madraço! quem o vir
+ Fallar de siso co'ella...
+ Então vós, gentil donzella,
+ Folgais muito de o ouvir?
+
+SOLINA.
+
+ Si, porque me falla nella;
+ E eu como ouço fallar
+ Nella, como quem não sente,
+ Folgo de o escutar,
+ Só para lhe vir contar
+ O que della diz a gente;
+ Qu'eu não quero nada delle.
+ E mais, porque está fallando?
+ Não m'esteve ella rogando
+ Que fosse fallar com elle?
+
+DIONYSA.
+
+ Disse-vo-lo assi zombando.
+ Vós logo tomais em grosso
+ Tudo quanto me escutais.
+ Parvo! que vê-lo não posso.
+
+SOLINA.
+
+ Ella alli, e o cão co'o osso!
+ Inda isto ha de vir a mais.
+ Pois que tal odio lhe tem,
+ Fallemos, Senhora, em al;
+ Mas eu digo que ninguem
+ Merece por querer bem
+ Que a quem lho quer, queira mal.
+
+DIONYSA.
+
+ Deixae-o vós doudejar.
+ Se meu pae, ou meu irmão,
+ O vierem a aventar,
+ Não ha elle de folgar.
+
+SOLINA.
+
+ Deos meterá nisso a mão.
+
+DIONYSA.
+
+ Ora hi polas almofadas,
+ Que quero hum pouco lavrar;
+ Por ter em que me occupar;
+ Qu'em cousas tão mal olhadas
+ Não se ha o tempo de gastar.
+
+SOLINA.
+
+ Que cousa somos mulheres!
+ Como somos perigosas!
+ E mais estas tão viçosas
+ Qu'estão á boca _que queres_
+ E adoecem de mimosas!
+ Se eu não caminho agora
+ A seu desejo e vontade;
+ Como faz esta Senhora,
+ Fazem-se logo nessa hora
+ Na volta da honestidade.
+ Quem a vira o outro dia
+ Hum poucochinho agastada,
+ Dar no chão com a almofada,
+ E enlevar a phantasia,
+ Toda n'outra transformada!
+ Outro dia lhe ouvirão
+ Lançar suspiros a mólhos,
+ E com a imaginação
+ Cahir-lhe a agulha da mão,
+ E as lagrimas dos olhos.
+ Ouvir-lhe-heis á derradeira
+ A ventura maldizer,
+ Porque a foi fazer mulher.
+ Então diz que quer ser Freira;
+ E não se sabe entender.
+ Então gaba-o de discreto,
+ De musico e bem disposto,
+ De bom corpo e de bom rosto.
+ Quanté então eu vos prometo,
+ Que não tẽe delle desgôsto.
+ Despois, se vem a attentar,
+ Diz que he muito mal feito
+ Amar homem deste geito;
+ E que não póde alcançar
+ Pôr seu desejo em effeito.
+ Logo se faz tão Senhora,
+ Logo lhe ameaça a vida,
+ Logo se mostra nessa hora
+ Muito segura de fóra,
+ E de dentro está sentida.
+ Bofé, segundo vou vendo,
+ Se esta postema vier,
+ Como eu suspeito, a crescer,
+ Muito ha que della entendo
+ O fim que póde vir ter.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Duriano e Filodemo._
+
+DURIANO.
+
+Ora deixae-a ir, que á vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como
+hei de fazer; que não ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se.
+
+FILODEMO.
+
+Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a dê á Senhora
+Dionysa; que me vai nisso muito.
+
+DURIANO.
+
+Por mulher de tão bom engenho a tendes?
+
+FILODEMO.
+
+E porque me perguntais isso?
+
+DURIANO.
+
+Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta
+mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta.
+
+FILODEMO.
+
+Não lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por isso lhe
+fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fação
+á vossa tenção.
+
+DURIANO.
+
+Deixae-me vós a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes
+vintes, que vós; e eu vo-la farei hoje vir a nós sem gafas; e vós
+entretanto acolhei-vos a sagrado, porque ei-la lá vem.
+
+FILODEMO.
+
+Olhae lá: fazei que a não vêdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a
+nosso caso.
+
+DURIANO.
+
+Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia
+no la espero remediar. Pois não devia assi de ser, polos santos
+Evangelhos! mas muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos,
+andão ás vessas. Ora, emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen
+aflojar cuando mas duelen.)
+
+
+SCENA V.
+
+_Solina e Duriano._
+
+SOLINA, _com a almofada_.
+
+ Aqui anda passeando
+ Duriano, e só comsigo
+ Pensamentos praticando:
+ Daqui posso estar notando
+ Com quem sonha, se he comigo.
+
+DURIANO.
+
+ Ah quão longe estará agora
+ Minha Senhora Solina
+ De saber que estou bem fóra
+ De ter outra por senhora,
+ Segundo o amor determina!
+ Porém se determinasse
+ Minha bem-aventurança
+ Que de meu mal lhe pezasse.
+ Até que nella tomasse
+ Do que lhe quero vingança!...
+
+SOLINA.
+
+ (Comigo sonha por certo.
+ Ora quero-me mostrar,
+ Assi como por acêrto:
+ Chegar-me-hei mais ao perto,
+ Por ver se me quer fallar.)
+ Sempre esta casa ha d'estar
+ Acompanhada de gente,
+ Que não possa homem passar!
+
+DURIANO.
+
+ Á traição vindes tomar
+ Quem ja feridas não sente?
+
+SOLINA.
+
+ Logo me a mi parecia
+ Que era elle o que passeava.
+
+DURIANO.
+
+ E eu mal adivinhava
+ Que me viesse este dia,
+ Que ha tantos que desejava.
+ Se huns olhos por vos servir,
+ Com o amor que vos conquista,
+ Se atrevêrão a subir
+ Os muros da vossa vista,
+ Que culpa tẽe quem vos vir?
+ E se esta minha affeição,
+ Que vos serve de giolhos,
+ Não fez êrro na tenção,
+ Tomae vingança nos olhos,
+ E deixae o coração.
+
+SOLINA.
+
+ Ora agora me vem riso.
+ Assi que vós sois, Senhor,
+ De siso meu servidor?
+
+DURIANO.
+
+ De siso não, porque o siso
+ Me tẽe tirado o amor.
+ Porque o amor, se attentais,
+ N'hum tão verdadeiro amante
+ Não deixa siso bastante;
+ Senão se siso chamais
+ A doudice tão galante.
+
+SOLINA.
+
+ Como Deos está nos Ceos,
+ Que se he verdade o que temo,
+ Que fez isto Filodemo.
+
+DURIANO.
+
+ Mas fê-lo o démo; que Deos
+ Não faz mal tanto em extremo.
+
+SOLINA.
+
+ Bem. Vós, Senhor Duriano,
+ Porque zombareis de mim?
+
+DURIANO.
+
+ Eu zombo?
+
+SOLINA.
+
+ Eu não m' engano.
+
+DURIANO.
+
+ S' eu zombo, inda em meu dano
+ Vejais vós mui cedo a fim.
+ Mas vós, Senhora Solina,
+ Porque me querereis mal?
+
+SOLINA.
+
+ Sou mofina.
+
+DURIANO.
+
+ Oh! real.
+ Assi que minha mofina
+ He minha imiga mortal.
+ Dias ha qu'eu imagino
+ Qu'em vos amar e servir
+ Não ha amador mais fino;
+ Mas sinto que de mofino
+ Me fino sem o sentir.
+
+SOLINA.
+
+ Bem derivais: quanté assi
+ Á popa o dito vos veio.
+
+DURIANO.
+
+ Vir-me-ha de vós, porque creio
+ Que vós fallais dentro em mi,
+ Como esprito em corpo alheio.
+ E assi que em estas piós
+ A cahir, Senhora, vim;
+ Bem parecerá entre nós,
+ Pois vós andais dentro em mim,
+ Que ande eu tambem dentro em vós.
+
+SOLINA.
+
+ He bem: que fallar he esse?
+
+DURIANO.
+
+ Dentro na vossa alma, digo,
+ Lá andasse, e lá morresse!
+ E se isto mal vos parece,
+ Dae-me a morte por castigo.
+
+SOLINA.
+
+ Ah mao! Como sois malvado!
+
+DURIANO.
+
+ Mas vós como sois malvada,
+ Que de hum pouco mais de nada
+ Fazeis hum homem armado,
+ Como quem 'stá sempre armada!
+ Dizei-me, Solina, mana.
+
+SOLINA.
+
+ Qu'he isso? Tirae lá a mão:
+ Oh! vós sois mao cortezão.
+
+DURIANO.
+
+ O que vos quero m'engana,
+ Mas o que desejo não.
+ Não ha aqui senão paredes,
+ As quaes não fallão, nem vem.
+
+SOLINA.
+
+ Está isso muito bem.
+ Bem: e vós, Senhor, não vêdes
+ Que poderá vir alguem?
+
+DURIANO.
+
+ Que vos custão dous abraços?
+
+SOLINA.
+
+ Não quero tantos despejos.
+
+DURIANO.
+
+ Pois que farão meus desejos,
+ Que querem ter-vos nos braços,
+ E dar-vos trezentos beijos?
+
+SOLINA.
+
+ Olhae que pouca vergonha!
+ Hi-vos d'hi, boca de praga.
+
+DURIANO.
+
+ Eu não sei certo a que ponha
+ Mostrardes-me a triaga,
+ E virdes-me a dar peçonha.
+
+SOLINA.
+
+ Ora ide rir á feira,
+ E não sejais dessa laia.
+
+DURIANO.
+
+ Se vêdes minha canseira,
+ Porque lhe não dais maneira?
+
+SOLINA.
+
+ Que maneira?
+
+DURIANO.
+
+ A da saia.
+
+SOLINA.
+
+ Por minha alma, hei de vos dar
+ Meia duzia de porradas.
+
+DURIANO.
+
+ Oh que gostosas pancadas!
+ Mui bem vos podeis vingar,
+ Qu'em mim são bem empregadas.
+
+SOLINA.
+
+ Ao diabo, que o eu dou.
+ Como me doeo a mão!
+
+DURIANO.
+
+ Mostrae cá, minha affeição,
+ Que essa dor me magoou
+ Dentro no meu coração.
+
+SOLINA.
+
+ Ora hi-vos embora asinha.
+
+DURIANO.
+
+ Por amor de mi, Senhora,
+ Não fareis huma cousinha?
+
+SOLINA.
+
+ Digo que vades embora.
+ Que cousa?
+
+DURIANO.
+
+ Esta cartinha.
+
+SOLINA.
+
+ Que carta?
+
+DURIANO.
+
+ De Filodemo
+ A Dionysa vossa ama.
+
+SOLINA.
+
+ Dizei, que tome outra dama,
+ E dê os amores ao démo.
+
+DURIANO.
+
+ Não andemos pola rama.
+ Senhora, (aqui para nós)
+ Que sentis della com elle?
+
+SOLINA.
+
+ Grandes alforges sois vós!
+ Pois hi-lhe dizer que appelle.
+
+DURIANO.
+
+ Fallae, que aqui 'stamos sós.
+
+SOLINA.
+
+ Qualquer honesta se abala,
+ Como sabe que he querida.
+ Ella he por elle perdida:
+ Nunca n'outra cousa falla.
+
+DURIANO.
+
+ Ora vou-lhe dar a vida.
+
+SOLINA.
+
+ E eu não lhe disse ja
+ Quanta affeição lh'ella tem?
+
+DURIANO.
+
+ Não se fia de ninguem,
+ Nem crê que para elle ha
+ No mundo tamanho bem.
+
+SOLINA.
+
+ Dir-vos-hia de mim lá
+ O que lh'eu disse zombando?
+
+DURIANO.
+
+ Não disse, por S. Fernando!
+
+SOLINA.
+
+ Ora ide-vos.
+
+DURIANO.
+
+ Que me va!
+ E mandais que torne? Quando?
+
+SOLINA.
+
+ Quando eu cá vir lugar,
+ Vo-lo mandarei dizer.
+
+DURIANO.
+
+ Se o quizerdes buscar,
+ Não vos deve de faltar,
+ Se não faltar o querer.
+
+SOLINA.
+
+ Não falta.
+
+DURIANO.
+
+ Dae-me hum abraço
+ Em sinal do que quereis.
+
+SOLINA.
+
+ Tá, que o não levareis.
+
+DURIANO.
+
+ De quantos serviços faço
+ Nenhum pagar me quereis?
+
+SOLINA.
+
+ Pagar-vos-hão algum'hora,
+ Que isso a mi tambem me toca;
+ Mas agora hi-vos embora.
+
+DURIANO.
+
+ Essas mãos beijo, Senhora,
+ Em quanto não posso a boca.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Solina que traz a almofada, e Dionysa._
+
+SOLINA.
+
+ Ja Vossa Mercê dirá
+ Qu'estive muito tardando.
+
+DIONYSA.
+
+ Bem vos detivestes lá.
+ Bofé que estava cuidando
+ Em não sei que.
+
+SOLINA.
+
+ Que será?
+ Aqui somos. (Quanté agora
+ Está ella transportada.)
+
+DIONYSA.
+
+ Que rosnais vós lá, Senhora?
+
+SOLINA.
+
+ Digo que tardei lá fóra
+ Em buscar esta almofada.
+ Que estava ella agora só
+ Comsigo phantasiando?
+
+DIONYSA.
+
+ Bofé que estava cuidando
+ Qu'he muito para haver dó
+ Da mulher que vive amando.
+ Que hum homem póde passar
+ A vida mais occupado:
+ Com passear, com caçar,
+ Com correr, com cavalgar,
+ Fórra parte do cuidado.
+ Mas a coitada
+ Da mulher sempre encerrada,
+ Que não tẽe contentamento,
+ Não tẽe desenfadamento,
+ Mais que agulha e almofada?
+ Então isto vem parir
+ Os grandes erros da gente:
+ Forão mil vezes cahir
+ Princezas d'alta semente.
+ Lembra-me que ouvi contar
+ De tantas affeiçoadas
+ Em baixo e pobre lugar,
+ Que as que agora vão errar
+ Podem ficar desculpadas.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, a muita affeição
+ Nas Princezas d'alto estado
+ Não he muita admiração;
+ Que no sangue delicado
+ Faz amor mais impressão.
+ Mas deixando isto á parte,
+ Se m'ella quizer peitar,
+ Prometto de lhe mostrar
+ Huma cousa muito d'arte,
+ Que lá dentro fui achar.
+
+DIONYSA.
+
+ Que cousa?
+
+SOLINA.
+
+ Cousa d'esprito.
+
+DIONYSA.
+
+ Algum panno de lavores?
+
+SOLINA.
+
+ Inda ella não deo no fito?
+ Cartinha sem sobre-escripto,
+ Que parece ser de amores.
+
+DIONYSA.
+
+ Essa he a boa ventura?
+
+SOLINA.
+
+ Bofé que mo pareceo.
+
+DIONYSA.
+
+ E essa donde nasceo?
+
+SOLINA.
+
+ No meu cesto da costura:
+ Não sei quem m'alli meteo.
+
+DIONYSA.
+
+ Mostrae-ma; não hajais medo,
+ Mana. Eu que vos descobri...
+
+SOLINA.
+
+ E se ella vem para mi,
+ Logo quer ver meu segredo?
+ Não a veja: vá-se d'hi.
+ Ei-la-ahi.
+
+DIONYSA.
+
+ Cuja será?
+
+SOLINA.
+
+ Não sei certo cuja he.
+
+DIONYSA.
+
+ Si; sabeis.
+
+SOLINA.
+
+ Não sei, bofé.
+
+DIONYSA.
+
+ Ora a carta mo dirá.
+
+SOLINA.
+
+ Pois leia Vossa Mercê.
+
+_Abre Dionysa a carta, e lê-a._
+
+Se para merecer minha pena me não falta mais que viver contente della,
+ja logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo
+triste, senão por não ser para tão doce tristeza. Se tendes por offensa
+commetter tamanha ousadia; por maior a devieis ter, se a não
+commettesse; que amor acostumado he fazer os extremos á medida das
+affeições, e as affeições á medida da causa dellas. Pois logo, nem o meu
+amor póde ser pouco, nem fazer menos: se este não bastar para
+consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o que pelo ter
+mereço; e senão muitas graças ao Amor, que me soube dar hum cuidado, que
+com tê-lo se paga o trabalho de soffrê-lo.
+
+SOLINA.
+
+ Quanta parvoice diz!
+
+DIONYSA.
+
+ Ora muito boa está!
+ Como vós, mana, sois má!
+ Não sejais vós tão biliz;
+ Que bem vos entendo ja.
+ Cuja he?
+
+SOLINA.
+
+ E eu que sei?
+
+DIONYSA.
+
+ Pois quem o sabe?
+
+SOLINA.
+
+ O démo.
+
+DIONYSA.
+
+ Certo que he de quem temo;
+ Que os ditos que nella achei
+ São todos de Filodemo.
+ Este homem, que atrevimento
+ He este que foi tomar?
+ Qual será seu fundamento?
+ Que mil vezes me faz dar
+ Mil voltas ao pensamento.
+ Não entendo delle nada.
+ Mas inda qu'isto he assi,
+ Disso que delle entendi,
+ Me sinto tão alterada,
+ Que me arreceio de mi.
+ Eu inda agora não creio
+ Que he verdade este amor;
+ Mas praza a Deos, se assi for,
+ Que inda este meu arreceio
+ Se não converta em temor.
+
+SOLINA.
+
+ Ja vós, ja sêdes,
+ Peixes, nas redes.
+ Senhora, quem mais confia,
+ Mais asinha a cahir vem:
+ Natural he o querer bem;
+ Que o amor n'alma se cria,
+ Sem o sentir quem o tem.
+ Filodemo, no que ouvi,
+ Tẽe-lhe sobeja affeição;
+ E postoque o creia assi,
+ Ou eu sonhei, ou ouvi.
+ Que era d'alta geração.
+ Logo na phisionomia,
+ Nas manhas, artes e geito,
+ Mostra mui grande respeito:
+ Nem tão alta phantasia
+ Não se põe em baixo peito.
+
+DIONYSA.
+
+ Tudo isso cuido, e vi
+ Mil vezes miudamente;
+ Mas estas mostras assi
+ São desculpas para mi,
+ E não para toda a gente.
+
+SOLINA.
+
+ O seu moço vejo vir
+ A nós, seu passo contado:
+ Este he muito para ouvir,
+ Que diz que me quer servir
+ D'amores esperdiçado.
+
+
+SCENA VII.
+
+_Vilardo, Solina e Dionysa._
+
+VILARDO.
+
+ Senhora, o Senhor seu pae,
+ Mesmo de Vossa Mercê,
+ Ja lá para casa vae:
+ Por isso, Senhora, andae,
+ Que elle me mandou n'hum pé;
+ E diz que fosse jantar
+ Vossa Mercê mesmamente.
+
+SOLINA.
+
+ E ja veio do pomar?
+
+DIONYSA.
+
+ Oh quem pudéra escusar
+ De comer, nem de ver gente!
+ (Nenhuma côr de verdade
+ Tenho do que m'elle manda.)
+
+VILARDO.
+
+ S'ella sem vontade anda,
+ Eu lh'emprestarei vontade,
+ Empreste-m'ella a vianda.
+
+SOLINA.
+
+ Va, Senhora, por não dar
+ Mais em que cuidar á gente.
+
+DIONYSA.
+
+ Irei, mas não por jantar;
+ Que quem vive descontente
+ Mantem-se de imaginar.
+
+VILARDO.
+
+ Pois tambem cá minhas dores
+ Me não deixão comer pão;
+ Nem come minha affeição
+ Senão sopadas d'amores,
+ E mil postas de paixão.
+ Das lagrimas caldo faço,
+ Do coração escudella;
+ Esses olhos são panella
+ Que coze bofes e baço,
+ Com toda a mais cabedella.
+
+
+SCENA VIII.
+
+_O Monteiro, um pastor e um bobo._
+
+MONTEIRO.
+
+ Perdeo-se por esta brenha
+ Venadoro, meu Senhor,
+ Sem que novas delle tenha:
+ Queira Deos que inda não venha
+ Desta perda outra maior.
+ Contra esta parte daqui
+ Des pos hum cervo correo,
+ Logo desappareceo:
+ Como da vista o perdi,
+ O gosto se me perdeo.
+ Eu, e os mais caçadores,
+ Corremos montes e covas;
+ Fallamos com lavradores
+ Deste valle, e com pastores,
+ Sem acharmos delle novas.
+ Quero ver nestes casais
+ Que cobre aquelle arvoredo,
+ Se acharei pastores mais,
+ Que me dem alguns sinais
+ Que me possão tornar ledo.
+
+_Chama._
+
+ Ó dos casaes, ó de lá:
+ Ah pastores, não fallais?
+
+PASTOR.
+
+ Quien sois, ó lo que buscais?
+
+MONTEIRO.
+
+ Ouvis? Chegae para cá.
+
+PASTOR.
+
+ Dicid vos lo que mandais.
+
+BOBO.
+
+ No vayais adó os llamó,
+ Padre, sin saber quien es.
+
+PASTOR.
+
+ Porque?
+
+BOBO.
+
+ Porque este es
+ Aquel ladron que hurtó
+ El asno del Portugues.
+ Y se vais adó estan,
+ Os juro al cuerpo sagrado
+ De San Pisco, y San Juan,
+ Que tambien os hurtarán,
+ Que sois asno mas honrado.
+
+PASTOR.
+
+ Déjame ir, que me llamó.
+
+BOBO.
+
+ No, por vida de mi madre;
+ Que si allá vais, muerto so',
+ Y desta vez quedo yo,
+ Sin asno, triste! y sin padre.
+
+MONTEIRO.
+
+ Vinde, que vo-lo encommendo,
+ E em vossas mãos me ponho.
+
+BOBO.
+
+ No vais, que dijo _en comiendo_.
+ Encomiendoos al demonio! _(Ao Monteiro.)_
+ Y esso es lo que andais haciendo?
+
+PASTOR.
+
+ Déjame ir adó está,
+ Que no es cosa que me espante.
+
+BOBO.
+
+ No quereis sino ir allá?
+ Pues echadle pan delante,
+ Puede ser amansará.
+
+PASTOR.
+
+ Dios os guarde! Qué cosa es
+ Esa por que voceais?
+
+MONTEIRO.
+
+ Dar-m'heis novas, ou sinais
+ D'hum Fidalgo Portugues,
+ Se passou por onde andais?
+
+BOBO.
+
+ Yo so' Hidalgo Portugues:
+ Que manda su Señoria?
+
+PASTOR.
+
+ Cállate: oh que nescio es!
+
+BOBO.
+
+ Padre, no me dejarés
+ Ser lo que quisiere un dia?
+ Ah Santo Dios verdadero!
+ No seré lo que otros son?
+ Digo ahora que no quiero
+ Ser Alonsico, el vaquero.
+
+PASTOR.
+
+ Cállate ya, bobarron.
+
+BOBO.
+
+ Ya me callo: ahora un poco
+ He de ser lo que yo quisiere.
+
+PASTOR.
+
+ Señor, diga lo que quiere,
+ Porque este mochacho es loco,
+ Y muero porque no muere.
+
+MONTEIRO.
+
+ Digo, que se por ventura
+ Sabeis o que ando buscando:
+ Hum Fidalgo, que caçando
+ Se perdeo nesta espessura
+ Apos hum cervo andando.
+ Tenho esta parte corrida,
+ Sem delle poder saber:
+ Trago a alegria perdida;
+ E se de todo a perder,
+ Perca-se tambem a vida.
+ Porque só polo buscar
+ Tenho trabalhos assás.
+
+BOBO.
+
+ (Yo no puedo callar mas.)
+
+PASTOR.
+
+ (Como no puedes callar?
+ Quítate allá para tras.)
+ Cuanto por aquesta tierra,
+ No siento nueva ninguna.
+
+MONTEIRO.
+
+ Oh trabalhosa fortuna!
+
+PASTOR.
+
+ Mas detras daquesta sierra
+ Hallareis, por dicha, alguna;
+ Que unas choças de vaqueros
+ Portugueses allí estan;
+ Y ahí muchas veces van
+ Cazadores Cavalleros:
+ Puede ser que lo sabran.
+
+MONTEIRO.
+
+ Quero-me ir lá saber.
+ Ficae-vos a Deos, pastor.
+
+PASTOR.
+
+ Dios os livre de dolor.
+
+BOBO.
+
+ Y á nos dé siempre comer
+ Pan y sopas, qu'es mejor.
+ Mirad lo que os notifico:
+ En aquel valle, acullá,
+ Anda paciendo un burrico,
+ Hidalgo, manso, y bonico;
+ Puede ser que ese será.
+
+PASTOR.
+
+ Calla, y acaba de andar.
+
+BOBO.
+
+ Ya ando.
+
+PASTOR.
+
+ Quieres callar?
+ Bobo, que tan poco sabe!
+
+BOBO.
+
+ No diceis que ande y acabe?
+ Ando, y no quiero acabar.
+
+
+
+
+ACTO TERCEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Florimena, pastora, com hum pote que vai á fonte._
+
+FLORIMENA.
+
+ Por este formoso prado
+ Tudo quanto a vista alcança
+ Tão alegre está tornado,
+ Que a qualquer desesperado
+ Póde dar certa esperança.
+ O monte, e sua aspereza,
+ De flores se veste ledo;
+ Reverdece o arvoredo,
+ Somente em minha tristeza
+ Está sempre o tempo quedo.
+ Junto desta fonte pura,
+ Segundo a muitos ouvi,
+ D'altos parentes nasci:
+ Foi como quiz a Ventura,
+ Mas não como eu mereci.
+ O dia que fui nascida,
+ Minha mãe do parto forte
+ Foi sem cura fallecida;
+ E o dia que me deo vida
+ Lhe dei eu a ella a morte.
+ Do mesmo parto nasceo
+ Meu irmão, que entre os cabritos
+ Comigo tambem viveo;
+ Mas, assi como cresceo,
+ Crescêrão nelle os espritos.
+ Foi-se buscar a cidade;
+ Teve juizo e saber;
+ Eu fiquei, como mulher,
+ E não tive faculdade
+ Para poder mais valer.
+ A hum pastor obedeço
+ Por pae, que d'outro não sei;
+ E, pola mãe que matei,
+ A huma cabra conheço,
+ De cujo leite mamei.
+ Mas porém, ja qu'este monte
+ Me obriga e meu nascimento,
+ Quero, pois quer meu tormento,
+ Encher a talha na fonte
+ Que co'os olhos accrescento.
+
+_Finge que enche a talha._
+
+
+SCENA II.
+
+_Venadoro e Florimena._
+
+VENADORO.
+
+ Pois que me vim alongar
+ Dos caminhos e da gente,
+ Fortuna, que o consente,
+ Se devia contentar
+ De me ter tão descontente.
+ Porém, segundo adivinho,
+ Por tão espêsso arvoredo,
+ Por tão aspero rochedo,
+ Quanto mais busco o caminho,
+ Tanto mais delle me arredo.
+ O cavallo, como amigo,
+ Ja cansado me trazia:
+ Mas deixou-me todavia;
+ Que mal pudera comigo
+ Quem comsigo não podia.
+ Quero-me aqui assentar
+ Á sombra, nesta hervinha,
+ Porque canso ja de andar;
+ Mas inda a fortuna minha
+ Não cansa de me cansar.
+ Junto desta fonte pura
+ Não sei quem cuido qu'está;
+ Mas no coração me dá
+ Que aqui me guarda a Ventura
+ Alguma ventura má.
+ Ou ganhado, ou bem perdido,
+ Faça, emfim, o que quizer,
+ Qu'eu o fim disto hei de ver?
+ Que ja venho apercebido
+ A tudo quanto vier.
+ Oh que formosa serrana
+ Á vista se me offerece!
+ Deosa dos montes parece;
+ E se he certo que he humana,
+ O monte não a merece.
+ Pastora tão delicada,
+ De gesto tão singular,
+ Parece-me qu'em lugar
+ De perguntar pola estrada,
+ Por mim lhe hei de perguntar.
+ Atéqui sempre zombei
+ De qualquer outra pessoa
+ Que affeiçoada topei;
+ Mas agora zombarei
+ De quem se não affeiçoa.
+ Serrana, cuja pintura
+ Tanto a alma me moveo,
+ Dizei-me: Por qual ventura
+ Andareis nesta espessura,
+ Merecendo estar no ceo?
+
+FLORIMENA.
+
+ Tamanho inconveniente
+ Andar na serra parece?
+ Pois a ventura da gente
+ Sempre he mui diferente
+ Do que, ao parecer, merece.
+
+VENADORO.
+
+ Tal resposta he manifesto
+ Não se parecer co'as cabras.
+ Pois não vos parece honesto
+ Saberdes matar co'o gesto,
+ Senão inda com palabras?
+ No mato tudo he rudeza.
+ Ha tal gesto e discrição?
+ Não o creio.
+
+FLORIMENA.
+
+ Porque não?
+ Não supprirá natureza
+ Onde falta criação?
+
+VENADORO.
+
+ Ja logo nisso, Senhora,
+ Dizeis, se não sinto mal,
+ Que do vosso natural
+ Não era serdes pastora.
+
+FLORIMENA.
+
+ Digo, mas pouco me val.
+
+VENADORO.
+
+ Pois quem vos pôde trazer
+ Á conversação do monte?
+
+FLORIMENA.
+
+ Perguntae-o a essa fonte;
+ Que as cousas duras de crer,
+ Hum as faça, outro as conte.
+
+VENADORO.
+
+ Esta fonte, que está aqui,
+ Que sabe do que dizeis?
+
+FLORIMENA.
+
+ Senhor, mais não pergunteis.
+ Porque outra cousa de mi
+ Sabei que não sabereis.
+ De vós agora sabei,
+ O que não tendes sabido:
+ Se quereis ágoa, bebei;
+ Se andais por dita perdido,
+ Eu vos encaminharei.
+
+VENADORO.
+
+ Senhora, eu não vos pedia
+ Que ninguem m'encaminhasse;
+ Que o caminho qu'eu queria,
+ Se o eu agora achasse,
+ Mais perdido me acharia.
+ Não quero passar daqui;
+ E não vos pareça espanto
+ Qu'em vos vendo me rendi;
+ Porque quando me perdi,
+ Não cuidei de ganhar tanto.
+
+FLORIMENA.
+
+ Senhor, quem na serra mora
+ Tambem entende a verdade
+ Dos enganos da cidade:
+ Vá-se embora, ou fique embora,
+ Qual for mais sua vontade.
+
+VENADORO.
+
+ Oh lindissima donzella,
+ A quem a ventura ordena
+ Que me guie como estrella!
+ Quereis-me deixar a pena,
+ E levar-me a causa della?
+ E ja que vos conjurastes
+ Vós e Amor para matar-me,
+ Oh não deixeis d'escutar-me!
+ Pois a vida me tirastes,
+ Não me tireis o queixar-me!
+ Qu'eu, em sangue e em nobreza
+ O claro Ceo me extremou;
+ E a Fortuna me dotou
+ De grandes bens e riqueza,
+ Que sempre a muitos negou.
+ Andando caçando aqui,
+ Apos hum cervo ferido,
+ Permittio meu fado assi,
+ Que andando dos meus perdido,
+ Me venha perder a mi.
+ E porqu'inda mais passasse
+ Do que tinha por passar,
+ Buscando quem m'ensinasse,
+ Por que via me tornasse,
+ Acho quem me faz ficar.
+ Que vingança permittio
+ A fortuna n'hum perdido!
+ Oh que tyranno partido,
+ Que quem o cervo ferio,
+ Vá como cervo ferido!
+ Ambos feridos n'hum monte,
+ Eu a elle, outrem a mi:
+ Huma differença ha aqui,
+ Qu'elle vai sarar á fonte,
+ E eu nella me feri.
+ E pois que tão transformado
+ Me tẽe vossa formosura,
+ Hum de nós troque o estado.
+ Ou vós para o povoado,
+ Ou eu para a espessura.
+
+FLORIMENA.
+
+ Dos arminhos he certeza,
+ Se lhe a cova alguem çujar,
+ Morar fóra, antes d'entrar:
+ D'estimar muito a limpeza
+ Pola vida a vai trocar:
+ Tambem quem na serra mora
+ Tanto estima a honestidade,
+ Que antes toma ser pastora,
+ Que perder a honestidade
+ A trôco de ser Senhora.
+ Se mais quereis, esta fonte
+ Vos descubra o mais de mim:
+ O que ella vio, ella o conte;
+ Porque eu vou-me para o monte,
+ Porque ha ja muito que vim.
+
+
+SCENA III.
+
+VENADORO.
+
+ Ó linda minha inimiga,
+ Gentil pastora, esperae!
+ Pois que tanto amor me obriga,
+ Consenti-me que vos siga;
+ Vá o corpo onde alma vae.
+ E pois por vós me perdi,
+ E neste estado Amor pôs
+ Os olhos com que vos vi,
+ Pois os deixaste sem mi,
+ Oh não os deixeis sem vós!
+ Porque a Fortuna me disse
+ Que nas serras, onde andais,
+ Em estes extremos tais,
+ Não era bem que vos visse
+ Para não ver de vós mais.
+ E pois Amor se quiz ver
+ Da livre vida vingado,
+ Em que eu sohia viver;
+ Faça em mi o que quizer,
+ Que aqui vou ao jugo atado.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo._
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh Santo Deos verdadeiro,
+ A quem o mundo obedece!
+ Meu filho não apparece.
+ E que me dizeis, Monteiro?
+
+MONTEIRO.
+
+ Digo-lhe que m' entristece.
+ Qu'eu corri por esses montes,
+ Bem quinze leguas, ou mais,
+ E busquei polos casais,
+ Por serras, montes e fontes,
+ Sem ver novas, nem sinais.
+ Toda a gente que levou,
+ Buscando-o, muito cansada
+ Pelo mato anda espalhada;
+ Mas ainda ninguem tomou,
+ Que soubesse delle nada.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh fortuna nunca igual!
+ Quem me fara sabedor
+ De meu filho e meu amor?
+ Que se he muito grande o mal,
+ Muito mor he o temor.
+ Quem tolhe que não achasse
+ Algum leão temeroso
+ N'algum monte cavernoso,
+ Que sua fome fartasse
+ Em seu corpo tão formoso?
+ Quem ha que saiba, ou que visse,
+ Que das montanhas erguidas
+ Algum monstro não sahisse,
+ E com seu sangue tingisse
+ As hervas nellas nascidas?
+ Oh filho! vai-me a lembrar
+ Quantas vezes os mandava
+ Que deixasseis o caçar!
+ Não cuidei de adivinhar
+ O que Fortuna ordenava.
+ Eu irei, filho, buscar-vos
+ Por esses montes, por hi,
+ Ou a perder-me, ou cobrar-vos;
+ Que morte que quiz matar-vos,
+ Quero que me mate a mi.
+ Onde fostes fenecido,
+ Seja tambem vosso pae;
+ Ser-me-ha acontecido,
+ Como a virote que vae
+ Buscar outro que he perdido.
+ Vós só haveis de ficar,
+ Filodemo, encarregado
+ Para esta casa guardar;
+ Que de vosso bom cuidado
+ Tudo se póde fiar.
+ Ide-vos a fazer prestes,
+ Mandae cavallos sellar;
+ Pois achá-lo não pudestes,
+ Ir-m'heis buscar o lugar
+ Onde da vista o perdestes.
+
+
+SCENA V.
+
+_O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o seu._
+
+_Canta._
+
+ Los mochachos del Obispo
+ No comen cosa mimosa,
+ Ni zanca d'araña, ni cosa mimosa.
+
+_Falla._
+
+ De su sayo colorado
+ Tan lozano me vestió,
+ Que yo ya no soy yo,
+ Ya por otro estoy trocado;
+ Que este sayo me trocó.
+ Oh qué asno Portugues,
+ Que loco por Florimena,
+ Deseó zamarra agena,
+ Y dame por enterés
+ Una zamarra tan buena!
+ Como yo vi la bobilla
+ Andar con él en questiones,
+ Y parársele amarilla,
+ Díjele: Florimenilla,
+ Andais en dongolondrones?
+ Él me dijo: Matalote,
+ No tengais dello desmayo.
+ Y en esto, como un rayo,
+ Tomóme mi capirote,
+ Y dióme su capisayo.
+ Capirote, en buena fé,
+ Si vos, cuando en mi entrastes,
+ Capisayo vos tornastes,
+ Que yo por eso cantaré,
+ Pues ansí me mejorastes.
+
+_Canta._
+
+ Lyrio, lyrio, lyrio loco,
+ Con qué? Con capirotada.
+ Por hablar con la golosa
+ De amores, mirad la cosa!
+ Zamarrilla tan hermosa,
+ Que me ha dado tan honrada,
+ Con qué? Con capirotada.
+
+_Falla._
+
+ Yo entonces respondí:
+ Señor, dame pan y queso,
+ Mas despues que lo entendí,
+ Dije á ella: Dale un beso,
+ Que él me dió zamarra á mí.
+ Ahora me mirarán
+ Cuantos á la eglesia fueren;
+ Y aquellos que no me quieren,
+ Ahora me rogarán.
+ Sabeis porque no querré?
+ Porque estoy ahidalgado;
+ Y cuando fuere rogado,
+ Cantando responderé,
+ Que ya estoy otro tornado.
+
+_Canta e baila._
+
+ Soropicote, picote, mozas,
+ Ahora quiero amores con vosotras.
+
+
+SCENA VI.
+
+_O Pastor e o Bobo._
+
+PASTOR.
+
+ Hijo Alonsillo.
+
+BOBO.
+
+ Hijo Alonsillo.
+
+PASTOR.
+
+ No me quieres escuchar?
+
+BOBO.
+
+ Pues déjame suspirar.
+
+PASTOR.
+
+ Escúchame ahora, asnillo,
+ Lo que te quiero mandar.
+ Véte al valle de las rosas,
+ Y di á Anton del Lugar
+ Que si puede acá llegar,
+ Porque tengo muchas cosas
+ Que importan para le hablar.
+ Porque es aqui llegado
+ Á este valle un hombre honrado,
+ Mancebo de casta buena,
+ Que amores de Florimena
+ Le traen loco y penado.
+ Dice que quiere casar
+ Con ella, que su tormento
+ No le deja reposar;
+ Y que venga festejar
+ Tan dichoso casamiento.
+
+BOBO.
+
+ Dicid, padre, tambien vos,
+ No quereis casar comigo?
+ Casemos ambos adós.
+
+PASTOR.
+
+ Vé, y haz lo que te digo.
+
+BOBO.
+
+ Responde, padre, por Dios.
+
+PASTOR.
+
+ Vé luego, y vuelve apresado.
+ Anda. No quieres andar?
+
+BOBO.
+
+ Pues que me habeis empujado,
+ Juro á mi de desandar
+ Todo cuanto tengo andado.
+
+PASTOR.
+
+ Trabajoso es este insano!
+ Nunca hace lo que quereis.
+
+BOBO.
+
+ Ora no os apasioneis,
+ Mi padrecico lozano:
+ Que burlaba, no lo veis?
+
+PASTOR.
+
+ Véte dahi.
+
+BOBO.
+
+ Héme aqui.
+
+PASTOR.
+
+ Vé donde te dije.
+
+BOBO.
+
+ Ya vengo.
+ Oh que padrasto que tengo,
+ Que asi me manda por ahi,
+ Siendo camino tan luengo!
+
+
+
+
+ACTO QUARTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Dionysa e Solina._
+
+DIONYSA.
+
+ Oh Solina, minha amiga,
+ Que todo este coração
+ Tenho posto em vossa mão;
+ Amor me manda que diga,
+ Vergonha me diz que não.
+ Que farei?
+ Como me descobrirei?
+ Porque a tamanho tormento
+ Mais remedio lhe não sei,
+ Que entregá-lo ao soffrimento.
+ Meu pae muito entristecido
+ Se vai pela serra erguida,
+ Ja da vida aborrecido,
+ Buscando o filho perdido,
+ Tendo a filha cá perdida!
+ Sem cuidar,
+ Foi a casa encommendar
+ A quem destruir lha quer:
+ Olhae que gentil saber,
+ Que vai comigo deixar
+ Quem me não deixa viver.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, em tanto desgôsto.
+ Não posso meter a mão;
+ Mas como diz o rifão,
+ Mais val vergonha no rosto,
+ Que mágoa no coração.
+ E bofé, se eu tanto amasse,
+ E visse tempo e sazão,
+ Sem seu pae, sem seu irmão,
+ Que a nuvem triste tirasse
+ De cima do coração.
+
+DIONYSA.
+
+ Ah mana! que tenho medo,
+ Que s'eu em tal consentisse
+ Que logo o mundo o sentisse,
+ Porque nunca houve segredo,
+ Que, emfim, se não descobrisse.
+
+SOLINA.
+
+ Se eu tantas dobras tivesse
+ Como quantas houve erradas,
+ Sem que o mundo o soubesse,
+ Á fé qu'eu enriquecesse,
+ E fosse das mais honradas.
+
+DIONYSA.
+
+ Sabeis que tenho em vontade?
+
+SOLINA.
+
+ Que podeis, Senhora, ter?
+
+DIONYSA.
+
+ Fallar-lhe, só para ver
+ Se he por ventura verdade
+ O que dizeis que me quer.
+
+SOLINA.
+
+ Bofé, mana, dizeis bem,
+ E eu o mandarei chamar,
+ Como para lhe rogar
+ Que hum annel, que lá me tem,
+ Que mo mande concertar.
+
+DIONYSA.
+
+ Dizeis mui bem.
+
+SOLINA.
+
+ Vou-me lá
+ Chamar o seu moço á sala;
+ E s'este parvo vem cá,
+ Com elle hum pouco rirá,
+ Que sempre amores me fala.
+ Vilardo, moço?
+
+
+SCENA II.
+
+_Vilardo e Solina._
+
+VILARDO.
+
+ Quem chama?
+
+SOLINA.
+
+ Vem cá, moço; eu te chamo.
+ Qu'he de teu amo?
+
+VILARDO.
+
+ Ah que dama!
+ Perguntais-me por meu amo,
+ E não por hum que vos ama?
+
+SOLINA.
+
+ E quem he esse amador,
+ Que quer ter comigo passo?
+ Será elle algum madrasso?
+
+VILARDO.
+
+ Eu sou o mesmo, que o amor
+ Me quebra pelo espinhasso.
+ E mais vós sabei de mi,
+ Se eu a dizê-lo me atrevo,
+ Que desque esses olhos vi,
+ Que yo ni como, ni bebo,
+ Ni hago vida sin ti.
+ E mais para namorado
+ Não sou ora tão madraço.
+
+SOLINA.
+
+ Sois muito desmazelado.
+
+VILARDO.
+
+ Mas antes, de delicado
+ Caio pedaço a pedaço.
+ E mais eu soffrer não posso
+ Que me façais tanto fero,
+ Qu'estou ja posto no osso,
+ Porque sou vosso e revosso,
+ Por vida de quanto quero.
+
+SOLINA.
+
+ Feros está cheia a rua.
+ Ora estou bem aviada!
+
+VILARDO.
+
+ Cupido, por vida tua,
+ Que a não faças tão crua,
+ Pois que te não faço nada!
+ Amor, Amor, mas te pido,
+ Que quando se for deitar,
+ Que le digas al oido:
+ Devieis-vos de lembrar
+ Neste tempo de hum perdido.
+
+SOLINA.
+
+ E tu ja fazes coprinhas?
+ Ainda tu trovarás?
+
+VILARDO.
+
+ Quem eu? Por estas barbinhas,
+ Que se vós virdes as minhas,
+ Que digais que não são más.
+
+SOLINA.
+
+ Ora, pois me quereis bem,
+ Dizei-me huma.
+
+VILARDO.
+
+ Ei-la aqui;
+ E veja o saibo que tem;
+ Porque esta trovinha assi,
+ Saiba qu'he trova do assem.
+
+_Trova._
+
+ Passarinhos, que voais
+ Nesta manhãa tão serena,
+ Sabei que só minha pena
+ Póde encher mil cabeçais.
+
+SOLINA.
+
+ O rifão está salgado.
+ Essa pena te dou eu?
+
+VILARDO.
+
+ Vós e Amor, que de malvado,
+ Me tẽe melhor empennado,
+ Que nenhum virote seu.
+ Pois se me ouvíreis cantar!
+
+SOLINA.
+
+ E tu es tambem cantor?
+
+VILARDO.
+
+ Canto melhor que hum açor.
+ Quereis que vos venha dar
+ Musiqueta de primor,
+ E que vos mande tanger
+ Muito melhor que ninguem?
+
+SOLINA.
+
+ Ja isso quizera ver.
+
+VILARDO.
+
+ Querer-me-heis, se o eu fizer,
+ Algum pedaço de bem?
+
+SOLINA.
+
+ Querer-te-hei trinta pedaços.
+
+VILARDO.
+
+ E esse querer dará fruito,
+ Que me tire destes laços?
+
+SOLINA.
+
+ E que fruito?
+
+VILARDO.
+
+ Dous abraços.
+
+SOLINA.
+
+ Esse fruito custa muito.
+
+VILARDO.
+
+ Esse he o amor qu'em vós ha?
+ Pezar de minha mãe torta!
+
+SOLINA.
+
+ Ora hi, chamae logo lá
+ Vosso amo que venha cá,
+ Porque he cousa que importa.
+
+VILARDO.
+
+ Logo?
+
+SOLINA.
+
+ Logo nessas horas.
+
+VILARDO.
+
+ Não estarei aqui mais?
+
+SOLINA.
+
+ Não. Ainda ahi estais?
+ Vós haveis mister esporas.
+
+VILARDO.
+
+ Irei, porque me mandais.
+
+
+SCENA III.
+
+_O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor._
+
+PASTOR.
+
+ Mas de un mez es ya pasado
+ Que en esta sierra andais;
+ Y es caso mal mirado
+ Que andeis guardando ganado
+ Por una que tanto amais.
+ Y si os determinais
+ En querer casar con ella,
+ Juro á mi que nada errais;
+ Y si eso es para habella,
+ En vano cabras guardais.
+ Ya me distes vuestra fé
+ (Sábenlo estas tierras todas):
+ Yo con ella me engañé,
+ Que luego mandar llamé
+ Quien festejase las bodas.
+ Y agora dicis con pena,
+ Que es dura cosa casar:
+ Pues volveos hora buena,
+ Que no habeis de engañar
+ Con palabras Florimena.
+
+VENADORO.
+
+ Quem se ha de ter coração
+ Para tamanho temor?
+ Que em mim pegando estão.
+ De huma parte a razão.
+ E d'outra parte o Amor.
+ Tambem vejo que perdella
+ Será minha perdição;
+ Que bem me diz a affeição,
+ Que pouco faço por ella,
+ Pois não desfaço em quem são.
+
+PASTOR.
+
+ Digoos, si por bajeza
+ Dicis que no os conviene,
+ Daros hé una certeza,
+ Que en sangre y en nobleza,
+ Tanto como vos la tiene.
+
+VENADORO.
+
+ Pastor, digo que daqui
+ Farei tudo que quizerdes;
+ E se mais quereis de mi,
+ Digo que vos dou o si
+ Para tudo o que quizerdes.
+
+PASTOR.
+
+ Dios os dé su bendicion;
+ Y pues que casais con ella,
+ Yo os afirmo en conclusion,
+ Que aun de vos y mas della
+ Verná gran generacion.
+ Yo me voy por ella, hijo,
+ Tomadla asi mal compuesta;
+ Verná quien haga la fiesta;
+ Que en placer y regocijo
+ Nos festeje esta floresta.
+
+
+SCENA IV.
+
+VENADORO _só_.
+
+ Ó ribeiras tão formosas,
+ Valles, campos pastoris,
+ Porque vos não revestis
+ De novas flores e rosas,
+ Se minha gloria sentis?
+ Porque não seccais, abrolhos?
+ E vós, ágoa, que regando,
+ Os olhos his alegrando,
+ Correi, que tambem meus olhos
+ D'alegres estão manando.
+ Ah pastora, em quem espero
+ Poder viver descansado!
+ Comtigo guardarei gado,
+ Que ja eu sem ti não quero
+ Nenhuma alteza d'estado.
+ Diga o que quizer a gente,
+ Tudo terei n'huma palha,
+ Porque está claro e evidente
+ Que não ha honra que valha
+ Contra a vida descontente.
+
+
+SCENA V.
+
+_Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante do pastor, que
+traz Florimena._
+
+PASTOR.
+
+ Pues el amor os obliga
+ Á que hagais tan buena liga,
+ Tomando á Dios por testigo,
+ Daqui os la entrego, amigo,
+ Por muger y por amiga.
+
+VENADORO.
+
+ Consentis nisto, Senhora?
+
+FLORIMENA.
+
+ Senhor, em tudo consento.
+
+VENADORO.
+
+ Oh grande contentamento!
+
+FLORIMENA.
+
+ Saiba que nunca tégora
+ Lhe houve inveja ao tormento.
+
+PASTOR.
+
+ Asi lo dices, bobilla?
+ Oh! mala dolor os duela!
+ Pero no es maravilla
+ Quien consiente ansi la silla,
+ Consienta tambien la espuela.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Tornão a bailar e cantar, e acabado, entra D. Lusidardo, e o Monteiro,
+que andão em busca de Venadoro._
+
+LUSIDARDO.
+
+ Tres dias ha ja que ando
+ Por esta larga espessura
+ A Venadoro buscando;
+ E o que delle vou achando
+ He como quer a Ventura.
+
+MONTEIRO.
+
+ Senhor, cuido que lá vejo
+ Huns lavradores cantar.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Hi diante perguntar.
+
+MONTEIRO.
+
+ Cumprido he seu desejo,
+ Se a vista não m'enganar.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Como assi?
+
+MONTEIRO.
+
+ Elle não vê
+ Aquelle pastor loução
+ Com huma moça pela mão?
+ Se Venadoro não he,
+ Nem eu o Monteiro são.
+
+PASTOR.
+
+ Quien veo allá asomar,
+ Que se viene á nuestras bodas?
+
+BOBO.
+
+ No los dejemos llegar,
+ Que nos vernan á roubar,
+ Juro á mi, las migas todas.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh Venadoro, meu filho!
+ Es tu este?
+
+VENADORO.
+
+ Tal estou,
+ Que cuido que este não sou.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Certo que me maravilho
+ De quem tanto te mudou.
+ Como estais assi mudado
+ No rosto e mais no vestido!
+
+VENADORO.
+
+ Ando ja n'outro trocado,
+ Tanto, que fiquei pasmado
+ De como fui conhecido.
+ E se Vossa Mercê vem
+ Para me levar daqui,
+ Mais ha de levar que a mi;
+ E ha de ser quem me tem
+ Todo transformado em si.
+
+BOBO.
+
+ Eso porque lo entendeis?
+ Por las migas por ventura?
+ Voto á tal no llevareis:
+ Por mas y por mas que andeis
+ No hareis tal travesura.
+
+VENADORO.
+
+ Esta formosa donzella
+ Em mi teve tal poder,
+ Que folguei de me perder;
+ Pois, emfim, vim achar nella
+ O que não cuidei de ser.
+ Tanto em mi pôde este amor,
+ Que a tenho recebida;
+ E se o êrro grave for,
+ Aqui quero ser pastor:
+ Deixe-me ter esta vida.
+
+LUSIDARDO.
+
+ He certo tal casamento?
+
+VENADORO.
+
+ Tenha-o por cousa segura.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh grande acontecimento!
+ Dest'arte sabe a ventura
+ Aguar hum contentamento!
+
+PASTOR.
+
+ Óigame, Señor, á mi,
+ Como hombre sabio, discreto,
+ Porque acaeció así,
+ Y lo que supo hasta aqui
+ Lo puede tener por cierto.
+ Muchos años son corridos
+ Que en esta fuente abierta,
+ En estos valles floridos
+ Hallé dos niños nascidos,
+ Y á su madre casi muerta.
+ Los niños chicos crié,
+ (Y desto cierto me arreo)
+ Y á la madre sepulté;
+ Y despues un gran deseo
+ De saber esto tomé.
+ Como yo fuese enseñado
+ De chico á la mágica arte
+ Por mi padre, que es finado;
+ Muy conoscido y nombrado
+ Soy por tal en toda parte.
+ Yo con yervas de la sierra,
+ Animales y otras cosas
+ Haré, si el arte no se yerra,
+ Que desciendan á la tierra
+ Las estrellas luminosas.
+ Soy, en fin, certificado
+ Que la madre de los dos
+ Fué Princeza de alto estado.
+ Y por un caso nombrado
+ La trajo á esta tierra Dios.
+ El macho, como creció,
+ Deseoso de otro bien,
+ Á la Corte se partió:
+ La hembra es esta por quien
+ Vuestro hijo se perdió.
+ Y si mas quiere, Señor,
+ De mi arte, prestamente
+ Dello le haré sabedor;
+ Mas ha de ser de tenor
+ Que no lo sepa la gente.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Mas vamos-nos, se quereis,
+ Que não soffro dilação,
+ A minha casa, e então
+ Lá disso me informareis,
+ Que caso he de admiração.
+ E vós, filho, não cuideis
+ Que a gloria de vos achar
+ Não he tanto d'estimar,
+ Qu'em qualquer 'stado que esteis,
+ Não folgue de vos levar.
+
+
+
+
+ACTO QUINTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Solina, Dionysa e Filodemo._
+
+SOLINA.
+
+ Eis Filodemo lá vem:
+ Asinha acudio ao leme.
+
+DIONYSA.
+
+ Isso he de quem quer bem;
+ Mas não sei se o vio alguem,
+ Porque quem espera teme.
+ Agora me quizera eu
+ Daqui cem mil leguas ver.
+
+FILODEMO.
+
+ Folgára eu assi de ser,
+ Porqu'este cuidado meu
+ Fôra mais de agradecer.
+ Que quando por accidente
+ A Fortuna desastrada
+ Vos apartasse da gente
+ N'hum deserto, onde somente
+ Das feras fosseis guardada;
+ Lá por ferro, fogo e ágoa
+ Buscar minha morte iria;
+ A voz ronca, a lingua fria,
+ Tamanho mal, tanta mágoa
+ Ás montanhas contaria.
+ Lá, mui contente e ufano
+ De mostrar amor tão puro,
+ Poderia ser que o dano,
+ Que não move hum peito humano,
+ Que movesse hum monte duro.
+
+DIONYSA.
+
+ Nesse deserto apartado
+ De toda a conversação
+ Merecieis degradado
+ Por justiça, com pregão
+ Que dissesse: _Por ousado_.
+ E eu tambem merecia
+ Metida a grave tormento,
+ Pois que, como não devia,
+ Vim a dar consentimento
+ A tão sobeja ousadia.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, se me atrevi,
+ Fiz tudo o que Amor ordena;
+ E se pouco mereci,
+ Tudo o que perco por mi,
+ Mereço por minha pena.
+ E se Amor pôde vencer,
+ Levando de mi a palma,
+ Eu não lho pude tolher;
+ Que os homens não tẽe poder
+ Sôbre os affectos da alma.
+ E ainda que pudera
+ Resistir contra o mal meu.
+ Saiba que o não fizera;
+ Que pouco valêra eu,
+ Se contra vós me valêra.
+ Não deve logo ter culpa
+ Quem se venceo d'armas tais:
+ Assi que nisto, e no mais,
+ Tomo por minha desculpa
+ Vós mesma que me culpais.
+ E se este atrevimento
+ Com tudo for de culpar,
+ Acabae de me matar;
+ Que aqui tenho hum soffrimento
+ Que tudo póde passar.
+ E se esta penitencia,
+ Que faço em me perder,
+ Algum bem vos merecer,
+ Fique em vossa consciencia
+ O que me podeis dever.
+ Que dizeis a isto, Senhora?
+
+DIONYSA.
+
+ Eu que vos posso dizer?
+ Ja não tenho em mi poder,
+ Segundo me sinto agora,
+ Para poder responder.
+ Respondei-lhe, vós Solina,
+ Pois que a vós me entreguei.
+
+SOLINA.
+
+ Bofé não responderei:
+ Veja ella o que determina.
+
+DIONYSA.
+
+ Não o vejo, nem o sei.
+
+SOLINA.
+
+ Pois eu tambem não sei nada.
+
+DIONYSA.
+
+ Porque?
+
+SOLINA.
+
+ Do que eu fizer,
+ Se despois se arrepender,
+ Dirá qu'eu fui a culpada.
+
+DIONYSA.
+
+ Eu só quero a culpa ter.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, por não errar,
+ Não quero que fique em mim.
+ Esta noite no jardim
+ Ambos podem praticar
+ Como isto venha a bom fim.
+ Lá poderão ajustar
+ Entr'ambos o parecer;
+ Qu'eu não m'hei nisso de achar,
+ Que não quero temperar
+ O que outrem ha de comer.
+
+DIONYSA.
+
+ Vós vêdes a torvação,
+ Que lá nessa casa vae?
+
+SOLINA.
+
+ Dá-me cá no coração
+ Que he vindo o Senhor seu pae
+ Com o Senhor seu irmão.
+
+DIONYSA.
+
+ Filodemo, hi-vos embora,
+ Fallae depois com Solina.
+
+SOLINA.
+
+ Vamos-nos tambem, Senhora.
+ Receber seu pae lá fóra;
+ Não venha sentir a mina.
+
+
+SCENA II.
+
+_Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina com os Musicos._
+
+VILARDO.
+
+Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre andão rugindo as sedas.
+
+DOLOROSO.
+
+Avante, que bem sei que o não dizeis polas sedas de Veneza.
+
+VILARDO.
+
+Ja sabeis que esta nossa Solina he tão Celestina, que não ha quem a
+traga a nós.
+
+DOLOROSO.
+
+Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, dará e tomará
+quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher
+de sua arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes
+são como homens sisudos; se de noite se achão em algum arruido, onde
+possão fugir sem serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia
+quem ha de cuidar que hum tão honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem
+pode ser, porque noite escura he capa de Judeos e de envergonhados.
+
+VILARDO.
+
+Mui gentil comparação he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi
+zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous
+meus amigos, que logo hão de vir aqui ter comnosco.
+
+DOLOROSO.
+
+Que tal he a musica que determinas de lhe dar? Não seja de siso; porque
+será a maior parvoice do mundo, porque não concerta com a parvoice que
+tu finges.
+
+VILARDO.
+
+A musica não he senão das nossas; mas faço-te queixume, que nem com hum
+cão de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra.
+
+DOLOROSO.
+
+Nem as acharás senão alugadas; mas eu não sou de opinião que teus amores
+te custem dinheiro. Ora ja lá apparecem os outros companheiros, e eu
+tambem ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto á popa, porque
+daqui iremos á porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum
+certo requerimento.
+
+VILARDO.
+
+Vossas Mercês vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem
+temperadas?
+
+DOLOROSO.
+
+Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justiça entretanto.
+
+VILARDO.
+
+Ora sus: fazei como se temperasseis cabeça de pescada com seu figado e
+bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa
+nova.
+
+_Neste passo se dá a musica com todos quatro, hum tange guitarra, outro
+pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito velhas, e no melhor
+diz Vilardo:_
+
+Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he.
+
+DOLOROSO.
+
+Justiça, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui não ha outro valhacouto que
+nos valha, que pôr os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras.
+
+
+SCENA III.
+
+O MONTEIRO _só_.
+
+Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quão gracioso sería
+quem o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoço, porque
+não podessem entender nelle Meirinhos, Almotacés da limpeza, trabalhos,
+esperanças, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora
+notae bem de quantas côres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo:
+perdeo-se Venadoro na caça, eis a casa toda envolta como rio: o pae
+enfadado, a irmãa triste, a gente desgostosa; tudo, emfim, fóra do
+couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados como
+camaleão, decepado dos pés e das mãos, por huma serranica d'Alentejo; e
+veio acaso a sahir de maneira fóra da madre, que a recebeo por mulher; e
+rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as lembranças de seu pae;
+pois tanto tomou ao pé da letra o que Deos disse: _Por esta deixarás teu
+pae e mãe_. E attentae isto por me fazer mercê: cuidareis que este caso
+era _solus peregrinus_: sabei que os não dá a fortuna senão aos pares,
+como quédas. Dionysa mais mimosa e mais guardada de seu pae que bicho de
+seda, moça sem fel como pombinha, que nos annos não tinha feito inda o
+enequim; mais formosa que huma manhãa do S. João, mais mansa que o Rio
+Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso, mais delicada que hum
+pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua conversação se
+poderá soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a parricida,
+com tanto que dissesse o pregão o porque; porque vos não fieis em
+castanhas (não sei se diga, se o cale, que de magoado me trava pola
+manga a falla da garganta; mas, com tudo, não ha quem se tenha) seu pae
+a achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo que
+perdêra, que do que alli perdia: eu, coitado de mi, que meta os dentes
+nos cabeçaes se desejar ave de penna.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Duriano e o Monteiro._
+
+DURIANO, _como cantando_.
+
+Ti ri ri, ti ri rão.
+
+MONTEIRO.
+
+Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos são esses? Onde he cá a ida
+agora?
+
+DURIANO.
+
+Vou assi como parvo, porque o melhor he não saber homem nada de si.
+
+MONTEIRO.
+
+Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo
+que ficou só em casa?
+
+DURIANO.
+
+Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se não he isso
+caso para sahir com elle a desafio.
+
+MONTEIRO.
+
+Porque?
+
+DURIANO.
+
+Porque não basta que lhe dê a Fortuna gostos tão medidos sôbre o funil,
+que lhe põe nos braços Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou
+cabellos ao vento, senão ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe
+vem a descobrir, que he filho de não sei quem, nem quem não.
+
+MONTEIRO.
+
+Esses são outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja
+sôbre isso não sei que fábulas.
+
+DURIANO.
+
+Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que não he menos que Principe, e peor ainda.
+Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor Dom Lusidardo que aggravado
+del Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca?
+
+MONTEIRO.
+
+Tudo isso ouvi ja.
+
+DURIANO.
+
+Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que ElRei de Dinamarca
+lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moça; e como
+era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher
+abalão, desejou ella de ver geração delle; senão quando, livre-nos Deos!
+se lhe começou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos não se
+desistem em nove dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle então
+necessario acolher-se com ella, porque não colhessem a ella com elle:
+acolheu-se em huma galé; e vêde la Princeza em huma galera nueva, con el
+marinero á ser marinera. Finalmente, vindo navegando todo esse Oceano
+Germanico, bancos de Frandes, mar d'Inglaterra, e trazidos á costa
+d'Hespanha, não os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella
+buscavão: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a
+galé á costa, onde feita pedaços, morrêrão todos desastradamente, sem
+escapar mais que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece
+que a Fortuna guardava para dar o descanso, que a seu pae e mãe negára.
+Sahio finalmente a moça na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria
+huma Princeza mais delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher
+pola terra estranha e despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde,
+despois de ter perdido toda a esperança de ter algum remedio, derão-lhe
+as dores de parto junto de huma fonte, aonde em breve espaço lançou duas
+crianças, macho e femia, como vizagras. E como a fraca compreição da
+delicada mulher não pudesse sustentar tantos e tão desacostumados
+trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia que desejava de dar,
+deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae, que por causa
+de seus nascimentos a vida lhe tirárão, como acontece a viboras. E como
+as crianças fossem destinadas ao que vêdes, não faltou hum pastor que as
+criasse, que alli veio ter, dando a mãe a alma a Deos: de maneira que,
+por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e a femia
+he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro.
+
+MONTEIRO.
+
+Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo
+namorar a filha do Senhor que serve: não haverá logo por mal o Senhor
+Dom Lusidardo tomar por genro e nora, quem acha por sobrinhos.
+
+DURIANO.
+
+Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se
+parece natural com seu irmão, e Florimena com sua mãe.
+
+MONTEIRO.
+
+Dae-me a entender, como se creo tão de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de
+quem isso contou.
+
+DURIANO.
+
+No caso não ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou
+todo o caso; e fez ao pastor muitas mercês, e mandou fazer muitas festas
+solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o
+mesmo parentesco tẽe com a Senhora Dionysa, estão fóra de crer tamanho
+contentamento; cuido que zombão delle.
+
+MONTEIRO.
+
+Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu
+matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo:
+dissimulemos.
+
+
+SCENA V.
+
+_Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela mão, e Filodemo a
+Dionysa._
+
+LUSIDARDO.
+
+ Quem não ficará pasmado
+ De ver que por tal caminho
+ Tẽe a Ventura ordenado
+ Filodemo, meu criado,
+ Vir ser meu genro e sobrinho!
+ Quem não pasmará agora
+ De ver a ventura minha,
+ Que tẽe tornado n'hum'hora
+ Florimena, huma pastora,
+ Ser minha nora e sobrinha!
+ Dem-se graças ao Senhor,
+ Cujo segredo he profundo;
+ Pois que vemos que quiz dar
+ A ventura e o amor
+ Por prazeres deste mundo.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+CARTAS.
+
+
+
+
+CARTAS.
+
+
+CARTA I.
+
+Desejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito desejar a não vi;
+porque este he o mais certo costume da Fortuna, consentir que mais se
+deseje o que mais presto ha de negar. Mas porque outras naos me não
+fação tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar que vos não lembro,
+determinei de vos obrigar agora com esta; na qual pouco mais ou menos
+vereis o que quero que me escrevais dessa terra. Em pago do qual, d'ante
+mão vos pago com novas desta, que não serão más no fundo de huma arca
+para aviso de alguns aventureiros, que cuidão que todo o mato he
+ouregãos, e não sabem que cá e lá más fadas ha.
+
+Despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo,
+mandei enforcar a quantas esperanças dera de comer até então, com pregão
+público: _Por falsificadoras de moeda_. E desenganei esses pensamentos,
+que por casa trazia, porque em mim não ficasse pedra sobre pedra. E assi
+posto em estado, que me não via senão por entre lusco e fusco, as
+derradeiras palavras que na nao disse, forão as de Scipião Africano:
+_Ingrata patria, non possidebis ossa mea_. Porque quando cuido, que sem
+peccado que me obrigasse a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de
+más linguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas de pura inveja,
+de verem _su amada yedra de sí arrancada, y en otro muro asida_.... Da
+qual tambem amizades mais brandas que cera, se accendião em odios que
+disparavão lume que me deitava mais pingos na fama, que nos couros de
+hum leitão. Então ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude
+de Achilles, que não podia ser cortado senão pelas solas dos pés; as
+quaes de mas não verem nunca, me fez ver as de muitos, e não engeitar
+conversações da mesma impressão, a quem fracos punhão mao nome, vingando
+com a lingua o que não podião com o braço. Emfim, Senhor, eu não sei com
+que me pague saber tão bem fugir a quantos laços nessa terra me armavão
+os acontecimentos, como com me vir para esta, onde vivo mais venerado
+que os touros de Merceana, e mais quieto que a cella de hum Frade
+Prégador. Da terra vos sei dizer que he mãe de villões ruins, e madrasta
+de homens honrados. Porque os que se cá lanção a buscar dinheiro, sempre
+se sustentão sobre ágoa como bexigas; mas os que sua opinião deita á las
+armas Mouriscote, como maré corpos mortos á praia, sabei que antes que
+amadureção, se seccão. Ja estes que tomavão esta opinião de valentes ás
+costas, crede que nunca riberas de Duero arriba cavalgaron Zamoranos,
+que roncas de tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem ao
+effeito da obra, salvão-se com dizer que se não podem fazer tamanhas
+duas cousas, como he, prometter e dar. Informado disto veio a esta terra
+João Toscano, que, como se achava em algum magusto de rufiões,
+verdadeiramente que alli era su comer las carnes crudas, su beber la
+viva sangre. Callisto de Siqueira se veio cá mais humanamente, porque
+assi o prometteo em huma tormenta grande em que se vio. Mas hum Manoel
+Serrão, que, _sicut et nos_, manqueja de hum olho, se tẽe cá provado
+arrezoadamente, porque fui tomado por juiz de certas palavras, de que
+elle fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de sua pessoa era
+cá tido em boa conta. Se das damas da terra quereis novas, as quaes são
+obrigatorias a huma carta, como marinheiros á festa de S. Frei Pero
+Gonçalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de maduras, que não ha
+cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quizerem lançar pedaço. Pois as que
+a terra dá? além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe falleis alguns
+amores de Petrarca, ou de Boscão; respondem-vos huma linguagem meada de
+hervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança ágoa
+na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgae, Senhor, o que sentirá
+hum estomago costumado a resistir ás falsidades de hum rostinho de
+tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho novo com ágoa,
+vendo-se agora entre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como
+não chorará las memorias de in illo tempore! Por amor de mi, que ás
+mulheres dessa terra digais de minha parte que se querem absolutamente
+ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis mezes de má vida
+por esse mar, que eu as espero com procissão e palio, revestido em
+pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe irão entregar as chaves da
+cidade, e reconhecerão toda a obediencia, a que por sua muita idade são
+ja obrigadas. Por agora não mais, senão que este Soneto[3]
+que aqui vai, que fiz á morte de Dom Antonio de Noronha, vos mando em
+sinal de quanto della me pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a
+qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe, que me parece
+melhor que quantas fiz. Tambem vo-la mandára para a mostrardes lá a
+Miguel Dias, que pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver;
+mas a occupação de escrever muitas cartas para o Reino, me não deo
+lugar. Tambem lá escrevo a Luis de Lemos em resposta d'outra que vi sua:
+se lha não derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual tudo se perde.
+
+Vale.
+
+[3] He o Soneto 12.
+
+ * * * * *
+
+
+CARTA II.
+
+Esta vai com a candeia na mão morrer nas de v. m.; e se dahi passar,
+seja em cinza; porque não quero que do meu pouco comão muitos. E se
+todavia quizer meter mais mãos na escudella, mande-lhe lavar o nome, e
+valha sem cunhos.
+
+ La mar en medio y tierras, he dejado
+ Á cuanto bien cuitado yo tenia:
+ Cuan vano imaginar, cuan claro engaño
+ Es darme yo á entender que con partirme
+ De mí se ha de partir un mal tamaño!
+
+Quão mal está no caso quem cuida que a mudança do lugar muda a dor do
+sentimento! E senão, diga-o quien dijo que la ausencia causa olvido.
+Porque emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes
+cuidados jogão meus pensamentos á barreira, tendo-me ja, pelo costume,
+tão contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo
+uso dos annos se converte em natureza. Pois o que he para mor mal, tenho
+eu para mor bem. Aindaque, para viver no mundo, me debruo d'outro panno,
+por não parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum para ser outro,
+sendo outro para ser hum; mas a dor dissimulada dara seu fruito; que a
+tristeza no coração, he como a traça no panno.
+
+ E por tão triste me tenho,
+ Que se sentisse alegria,
+ De triste não viviria.
+ Porque a tal sorte vim,
+ Que não vejo bem algum
+ Em quanto vejo,
+ Que não nasceo para mim;
+ E por não sentir nenhum,
+ Nenhum desejo.
+
+Porque cousas impossiveis, he melhor esquecê-las que deseja-las. E por isso
+
+ Só, tristeza, vos queria,
+ Pois minha ventura quer
+ Que só ella
+ Conheça por alegria;
+ E que se outra quizer,
+ Morra por ella.
+
+Pouco sabe da tristeza quem (sem remedio para ella) diz ao triste que se
+alegre. Pois não vê que alheios contentamentos a hum coração
+descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dóbrão o que padece.
+Vós, se vem á mão, esperais de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de
+bons propositos. Pois desenganae-vos, que desque professei tristeza,
+nunca mais soube jogar a outro fito. E porque não digais, que não sou
+gente fóra do meu bairro, vêdes, vai huma volta feita a este mote, que
+escolhi na manada dos engeitados; e cuido que não he tão dedo queimado,
+que não seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi:
+
+ Não quero, não quero
+ Jubão amarello.
+
+ Se de negro for,
+ Tão bem me parece,
+ Quanto me aborrece
+ Toda alegre côr:
+ Côr que mostra dor,
+ Quero, e não quero
+ Jubão amarello.
+
+Parece-vos que se póde dizer mais? Não me respondais: Quem gabará a
+noiva? porque assentae, que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que
+não he tão pequena habilidade. E porque vos não pareça, que foi mais
+acertar, que querê-lo fazer; vêdes, vai outra do mesmo jaez, com tanto
+que se não vá a pasmar.
+
+ Perdigão perdeo a penna,
+ Não ha mal, que lhe não venha.
+
+ Em hum mal outro começa,
+ Que nunca vem só nenhum;
+ E o triste que tẽe hum,
+ A soffrer outro se offreça;
+ E só pelo ter conheça,
+ Que basta hum só que tenha,
+ Para que outro lhe venha.
+
+Que graça será esperardes de mim propositos em cousa que os não tẽe
+para comigo? Pois ainda que queira, não posso o que quero; que hum sentido
+remontado, de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe succede assi; e cada
+hum acode ao que lhe mais doe; e mais eu, que o que mais me entristece
+he ter contentamento, pois fujo delle, que minha alma o aborrece, porque
+lhe lembra que he virtude viver sem elle. Que ja sabeis que mágoa he,
+vê-lo-has e não o paparás. Por fugir destes inconvenientes,
+
+ Toda a cousa descontente
+ Contentar-me só convinha
+ De meu gôsto:
+ Que o mal, de que sou doente,
+ Sua mais certa mézinha
+ He desgôsto.
+
+Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que não podes haver, dá-o pola tua alma. O
+mal sem remedio, o mais certo que tẽe, he fazer da necessidade virtude:
+quanto mais, se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque,
+emfim, allegados son iguales los que viven por sus manos etc. A este
+proposito, pouco mais ou menos, se fizerão humas voltas a hum mote
+d'enchemão, que diz por sua arte zombando, mais que não de siso (que
+toda a galantaria he tirá-la donde se não espera), o qual crede que tẽe
+mais que roer do que hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida,
+e mande escumar o entendimento, que d'outra maneira, de fuera
+dormiredes, pastorcico. E o meu Senhor diz assi:
+
+ Dava-lhe o vento no chapeirão,
+ Quer lhe dê, quer não.
+
+ Bem o póde revolver,
+ Que o vento não traz mais fruito;
+ E mais vento he sentir muito
+ O que, emfim, fim ha de ter.
+ O melhor, he melhor ser,
+ Que o vento no chapeirão,
+ Quer lhe dê, quer não.
+
+Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem do mal, que o mal do
+bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado; e a morte até
+matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque para tomar
+a palha a esta materia, são necessarias azas de Nebri. Mas vós sois
+homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mi vos
+sei dar he:
+
+ Que esperança me despede,
+ Tristeza não me fallece,
+ E tudo o mais me aborrece.
+ Ja que mais não mereceo
+ Minha estrella,
+ Só a tristeza conheço,
+ Pois que para mi nasceo,
+ E eu para ella.
+
+No mundo não tẽe boa sorte, senão quem tẽe por boa a que tẽe. E
+daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhae de que maneira:
+
+ Vivo assi ao revés,
+ Tomando por certa vida
+ Certa morte,
+ Com que fólgo em que me pês;
+ Pois minha sorte he servida
+ De tal sorte.
+
+Huma cousa sabei, que o mal, inda que ás vezes o vejais louvar, não ha
+quem o louve com a boca, que o não tache com o coração.
+
+ Ajuda-me a soffrer
+ Vida tão sem soffrimento,
+ E tão sem vida,
+ Ver que, emfim, fim hão de ter
+ Desgôsto e contentamento
+ Sem medida.
+
+Attentae que não são maos confeitos de enforcado, para os que estão com
+o baraço na garganta, cuidar que o bem e o mal, aindaque sejão
+differentes na vida, são conformes na morte; porque vemos
+
+ Que não ha tão alta sorte,
+ Nem ventura tão subida,
+ Ou desastrada,
+ A quem o assópro da morte
+ Não sopre o fogo da vida.
+
+ A seu fim todas cousas vão correndo;
+ Nem ha cousa, que o tempo não consuma,
+ Nem vida, que de si tanto presuma,
+ Que se não veja nada, em se vendo.
+
+ Que o mais certo que temos,
+ He não termos nada certo
+ Cá na terra.
+ Pois para seus não nascemos;
+ Se o seu nos dá incerto,
+ Nada erra.
+
+Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se fez a hum certo
+recontro que se teve com este destruidor de bons propositos, e não se
+acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte:
+
+ Forçou-me amor hum dia, que jogasse;
+ Deo as cartas, e az de ouros levantou;
+ E sem respeitar mão, logo triumphou,
+ Cuidando que o metal, que me enganasse.
+
+ Dizendo, pois triumphou, que triumphasse
+ A huma sota de ouros, que jogou,
+ Eu então por burlar quem me burlou,
+ Tres paos joguei, e disse que ganhasse.
+
+Principes de condição, ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos
+que a pobreza: fazem com sua fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias
+de seus avós, onde não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma
+hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim, para dar que fallar a
+hum convento. Duas cousas não se soffrem sem discordia; companhia no
+amar, mandar villão ruim sôbre cousa de seu interesse. Não se póde ter
+paciencia com quem quer que lhe fação o que não faz. Desagradecimentos
+de boas obras destruem a vontade para não fazê-las a amigo, que tẽe
+mais conta com o interesse, que com a amizade: rezae delle, que he dos cá
+nomeados.
+
+Grande trabalho he querer fazer alegre rosto, quando o coração está
+triste: panno he, que não toma nunca bem esta tinta; que a lua recebe a
+claridade do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá honra no que
+dá: não tẽe que agradecer, quem, no que recebe, a não recebe; porque
+bem comprado vai o que com ella se compra. Não se dá de graça o que se
+pede muito. Estai certo, que quem não tẽe huma vida, tẽe muitas. Onde
+a razão se governa pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que
+louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto comsigo, como males de que
+se não guardárão, podendo. Não ha alma sem corpo, que tantos corpos faça
+sem almas, como este purgatorio, a que chamais honra: onde muitas vezes
+os homens cuidão que a ganhão, ahi a perdem. Onde ha inveja, não ha
+amizade; nem a póde haver em desigual conversação. Bem mereceo o engano,
+quem creo mais o que lhe dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver
+no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual,
+perguntae-lhe donde vem: vereis que algo tiene en el cuerpo, que le
+duele. Ora temperae-me lá esta gaita, que nem assi, nem assi achareis
+meio real de descanso nesta vida; ella nos trata somente como alheios de
+si, e com razão;
+
+ Pois somente nos he dada
+ Para que ganhemos nella
+ O que sabemos.
+ Se se gasta mal gastada,
+ Juntamente com perdella
+ Nos perdemos.
+
+Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, he a mais
+fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão breve he,
+
+ Ponderemos e vejamos
+ Que ganhamos em viver
+ Os que nascemos:
+ Veremos, que não ganhamos,
+ Senão algum bem fazer,
+ Se o fazemos.
+
+E por isso respeitando,
+
+ Que o por vir tal será,
+ Enthesouremos;
+ Porque ao certo não sabemos
+ Quando a morte pedirá
+ Que lhe paguemos.
+
+Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte: sendo
+mais aborrecida que a verdade, tẽe-se em menos conta que a virtude. Mas
+com tudo, com seu pensamento, quando lhe vem á vontade, acarreta mil
+pensamentos vãos; que tudo para com ella he hum lume de palhas. Nenhuma
+cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem na mor bonança,
+como ella; porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras,
+dando com os corpos á costa; e, se vem á mão, com as almas no inferno,
+que he bem ruim gasalhado.
+
+ E pois todos isto temos,
+ Não nos engane a riqueza,
+ Por que tanto esmorecemos,
+ Traz que vamos;
+ Ja que temos por certeza
+ Que quando mais a queremos,
+ A deixamos.
+
+ Gastâmos em alcançá-la
+ A vida; e quando queremos
+ Usar della,
+ Nos tira a morte lográ-la:
+ Assi que a Deos perdemos,
+ E a ella.
+
+Porque ja ouvirieis dizer: _Ninho feito, pêga morta_. Que me dizeis ao
+contentamento do mundo, que toda a dura delle está emquanto se alcança?
+Porque acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque
+acabado de alcançar, he passado; e maior saudade deixa, do que he o
+contentamento que deo. Esperae, por me fazer mercê, que lhe quero dar
+humas palavrinhas de proposito.
+
+ Mundo, se te conhecemos,
+ Porque tanto desejamos
+ Teus enganos?
+ E se assi te queremos,
+ Mui sem causa nos queixamos
+ De teus danos.
+
+ Tu não enganas ninguem;
+ Pois a quem te desejar,
+ Vemos que danas:
+ Se te querem qual te vem,
+ Se se querem enganar,
+ Ninguem enganas.
+
+ Vejão-se os bens que tiverão
+ Os que mais em alcançar-te
+ Se esmerárão;
+ Que huns vivendo, não vivêrão,
+ E outros, só com deixar-te,
+ Descansárão.
+
+ Se esta tão clara fé
+ Te põe claros teus enganos,
+ Desengana:
+ Sobejamente mal vê,
+ Quem com tantos desenganos
+ Se engana.
+
+ Mas como tu sempre mores
+ No engano em que andamos,
+ E que vemos,
+ Não cremos o que tu podes,
+ Senão o que desejamos
+ E queremos.
+
+ Nada te póde estimar
+ Quem bem quizer conhecer-te
+ E estimar-te;
+
+ Qu'em te perder ou ganhar,
+ O mais seguro ganhar-te
+ He perder-te.
+
+ E quem em ti determina
+ Descanso poder achar,
+ Saiba que erra;
+ Que sendo a alma divina,
+ Não a póde descansar
+ Nada da terra.
+
+ Nascemos para morrer,
+ Morremos para ter vida,
+ Em ti morrendo:
+ O mais certo he merecer
+ Nós a vida conhecida,
+ Ca vivendo.
+
+ Emfim, mundo, es estalagem,
+ Em que pousão nossas vidas
+ De corrida:
+ De ti levão de passagem
+ Ser bem ou mal recebidas
+ Na outra vida.
+
+Á fuera, á fuera Rodrigo, que eu se muito for por este caminho, darei em
+enfadonho, de que me parece me não livrará, nem ainda privilegio de
+Cidadão do Porto. E pois me vendo a vós, soffrei-me com meus encargos. E
+porque não digais que sou herege de amor, e que lhe não sei orações,
+vêdes, vai huma: _Di, Juan, de qué murió Blas?_ com hum pé á Portugueza,
+e outro á Castelhana: e não vos espanteis da libré, que eu em qualquer
+palmo desta materia perco o norte. E os supplicantes dizem assi:
+
+ Di, Juan, de que murió Blas,
+ Tan niño y tan mal logrado?
+ Gil, murió de desamado.
+
+ Dime, Juan, quien se engañó,
+ Que con amor se engañase,
+ Pensando que el bien hallase,
+ Adonde el mal cierto halló?
+ Despues que el engaño vió,
+ Que hizo desenganado?
+ Gil, murió de desamado.
+
+ Travou com elle pendença,
+ Em ter razão confiado;
+ Mas Amor, como he letrado,
+ Houve contr'elle a sentença:
+ E co'aquella differença,
+ Disse entre si o coitado:
+ Gil, morreo de desamado.
+
+ Quem tẽe razão tão cerrada,
+ Que não saiba, sendo rudo
+ E sem respeito,
+ Que sem Deos he tudo nada,
+ E nada com elle tudo
+ Sem defeito?
+
+ E sendo isto assi tão certo,
+ Como todos confessamos
+ E sabemos;
+ Não troquemos pelo incerto
+ O em que tão certo estamos,
+ Pois o vemos.
+
+A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Phaeton,
+porque del dicho al hecho, vá gran trecho. E de saber as cousas a passar
+por ellas, ha mais differença, que de consolar a ser consolado. Mas assi
+entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos a reprehendê-lo, e poucos a
+emendá-lo. E com isto amaino, beijando essas poderosas mãos huma
+quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa nosso Senhor etc.
+
+ * * * * *
+
+_O seguinte fragmento de uma composição satyrica em prosa e verso, em
+que Luis de Camões descreve uns jogos de canas, com que na cidade de Goa
+se festejou a successão de Francisco Barreto no governo daquelle Estado,
+appareceo na 3.ª edição das suas Rimas, com as duas antecedentes cartas,
+e em seguimento da ultima. O intento do poeta he mostrar por meio das
+divisas que tirárão os Justadores, que todos elles erão ou sacerdotes de
+Baccho, ou parvos, ou homens perdidos._
+
+.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa hum morcego; ave
+em que foi convertida Alcithoe com as irmãas, por desprezarem os
+sacrificios de Baccho. E como aquelle, que se em tal êrro cahisse, não
+queria ser convertido em tão baixo animal e tão nojoso, dizia a sua
+letra assi em Castelhano:
+
+ Si yo desobedeciere
+ Á tu deidad santa y pura,
+ En al mudes mi figura.
+
+Alguns praguentos quizerão dizer que esta letra era maliciosa, e que não
+queria dizer tanto desejar este galante de ser mudado em al, como que
+desejava almudes deste licor. Mas he muito grande falsidade, que sendo a
+letra assi feita, acaso acertou de sahir aquella palavra, com que
+molhava as suas quem tirava a divisa. Do que o innocente Autor, despois
+ficou para se enforcar. Mas outro galante, que de fino bebado ja passava
+os limites do bom e costumado beber, tirou por divisa huma palmeira;
+árvore, que entre os Antigos significava victoria; e ao pé della alguns
+ramos de vides e de parreiras pizadas; e dizia a letra assi:
+
+ Ficae vencidas, sem gloria,
+ Vós vides e vós parreiras;
+ Porque os ramos das palmeiras
+ São os que tẽe a victoria.
+
+Tambem aqui não faltárão praguentos, que quizerão dizer que este devoto,
+deixando ja atraz Portugal, commettia com valeroso animo Orracas e
+Fullas, tendo em pouco Caparicas e Seixaes. Mas quem ha que fuja de más
+linguas, ou de mal costumadas gargantas?
+
+Outro galante, a quem fazia mal ao estomago beber o vinho agoado, tirou
+por divisa huma peça de chamalote sem ágoas, que apresentava Baccho; e
+dizia a letra, como por parte do mesmo Baccho:
+
+ Sem ágoas, Senhor, levaio
+ Se for bom,
+ Que las aguas de Moncaio
+ Frias son.
+
+Aqui não tiverão praguentos que dizer, por ser opinião de physica, serem
+melhores os mantimentos simples, que os compostos.
+
+Outro, que no beber lançava a barra inda mais além que os acima
+escritos, tirou por divisa huma salamandra, passeando por cima de humas
+brazas de fogo; e a letra dizia:
+
+ En el fuego vivo yo.
+
+Mas o pintor errando as letras, acertou de pôr: _De fuego la bebo yo_.
+Donde os praguentos quizerão adivinhar que este galante bebia Orraca de
+fogo. O demonio foi fazer tal êrro, para delle sahir tamanho acêrto.
+
+Outro devoto, que desque estava quente, dizia dos companheiros,
+quaesquer que fossem, o que de cada hum sabía, sem respeito, tirou por
+divisa hum demoninhado, lançando os olhos em alvo, escumando e apontando
+com o dedo para hum frasco de vinho; e dizia a letra:
+
+ Se fallar demasiado,
+ Não mo tachem, porque, emfim,
+ Aquella alma falla em mim.
+
+Sendo atéqui introduzidos os religiosos de Baccho, pedírão dous d'outra
+religião que tambem os deixassem jogar as canas, e que elles tirarião
+tal divisa, com que se tirasse a limpo sua habilidade; e sendo entrados
+ambos juntos, por certa conformidade que havia entre ambos, trouxerão
+pintados nas bandeiras cada hum seu par de pombas; e dizia a letra:
+
+ Se como vós ha hi par,
+ Vós o podereis julgar.
+
+Certo, que atéqui chegou a malicia dos homens, porque tão subtilmente
+quizerão interpretar a innocencia desta letra, que tomárão a derradeira
+syllaba da primeira regra, e ajuntárão-na com a primeira da derradeira,
+que vem a dizer _parvos_; e disserão que juntos significavão isso
+aquelles dous innocentes. Mal peccado! tão errada anda a maldade humana,
+que logo tẽe por parvos aos que sabem pouco!
+
+Outro homem entrou tambem por adherencia nas canas, o qual dizem que
+tinha partes maravilhosas; porque era tão perfeito em suas cousas, que o
+seu comer havia de ser o melhor temperado e o mais suave do mundo; e os
+seus vestidos erão sempre dos mais finos pannos e sitins, que se
+podessem descobrir; e esta perfeição até nos amores e amizades se lhe
+estendia, porque com os amigos sempre tinha subtilezas de conversação, e
+com as amigas hum fingir que queria o que não queria. E, emfim, até no
+jogar usava daquellas manhas todas, as que para ganhar erão necessarias.
+E tinha mais hum revez da fortuna recebido, que se lhe estendia desde a
+ponta do nariz até huma orelha. Este Senhor tirou por divisa huma camisa
+toda lavrada de pontinhos, lavor antigo; e a letra dizia assi:
+
+ Pontos de honrado e sisudo
+ Sempre na vida quiz ter;
+ Apontado no viver,
+ Apontado mais que tudo
+ Em meu vestir e comer.
+ Pontos subtis no meu gôsto,
+ Mais subtis no conversar:
+ Tanto me vim a apontar,
+ Que apontado trago o rosto,
+ E as cartas para jogar.
+
+Muitos outros homens illustres quizerão ser admittidos nestas festas e
+canas, e que se fizera memoria delles, conforme suas qualidades; mas
+infinita escritura fôra, segundo todos os homens da India são
+assinalados; e por isto esses bastem para servirem de amostra do que ha
+nos mais.
+
+FIM.
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+NOTAS.
+
+
+
+
+NOTAS.
+
+Pag. 16. V. 17. _Não do sol, mas da candea._] Todas as ed.; mas he lição
+viciosa, porque se a luz do sol não he sombra daquella idea, que em Deos
+está mais perfeita, menos o será a da candea. Exclue o poeta uma e outra
+destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto cá nos
+seduz e encanta. Corrigimos portanto:
+
+ *Não do sol, nem da candea.*
+
+
+P. 67. V. 4. _De mim tão longe._] Todas as ed.; mas he êrro, porque o
+poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e
+pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si tão longe? Corrigimos:
+
+ *De si tão longe.*
+
+
+P. 123. V. 25.
+
+ _Vós na minha gloria posto.
+ Eu na vossa sepultura._]
+
+Todas as ed. Mas he justamente o contrário:
+
+ *Vós na vossa gloria posto,
+ Eu na minha sepultura.*
+
+
+P. 124. V. 9.
+
+ _Mas se esse rosto fingido
+ Quizereis representar,
+ Houvera por bom partido
+ Dar-lho a alma do sentido
+ Para a gloria do lugar._]
+
+Assim andão corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos:
+
+ *Mas se esse rosto fingido
+ Quizerão representar,
+ E houverão por bom partido
+ Dar-vos a alma do sentido
+ Para a gloria do lugar:
+ Víreis etc.*
+
+
+P. 148. V. 1. _Vai o bem fugindo etc._] Estas endeixas, que
+evidentemente são do poeta, andão na 1.ª e 2.ª edição das Rimas; na 3.ª
+aindaque apontadas no index, forão supprimidas por descuido: nós as
+restituimos.
+
+
+P. 164. V. 23. _E amor he effeito d'alma._] Todas as ed. Parece que deve
+ser _affeito d'alma_.
+
+
+P. 183. V. 7. _Sem saber do cuidado o que sentia._] Todas as ed.; mas he
+êrro: corrigimos:
+
+ *Sem saber de cuidado o que sentia;*
+
+isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia.
+
+
+P. 185. V. 20. _Ao pé d'uma alta faia etc._] Esta que inadvertidamente
+aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes edições,
+propriamente não he senão uma Egloga, que se deve ajuntar ás mais.
+
+
+P. 185. V. 24. _Tão queixoso d'Amor_] Faria e Sousa. He vicio:
+corrigimos: _Mui queixoso d'Amor_.
+
+
+P. 186. V. 8. _As roxas brancas Nymphas_] Faria e Sousa. He corrupção de
+texto: corrigimos:
+
+ *Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião,*
+
+porque se entende flores.
+
+
+P. 188. V. 15. _Junto do rosmaninho, que he crescer_] Faria e Sousa. He
+corrupção de texto: corrigimos:
+
+ *Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.*
+
+
+P. 191. V. 25. _Ai que me deras vida a morte dar-me_] Faria e Sousa. He
+corrupção de texto: corrigimos:
+
+ *Ai que me deras vida em morte dar-me.*
+
+
+P. 197. V. 23. _E como debil flamma a quem fallece O radical humor de
+que vivia_] Faria e Sousa. He corrupção de texto; porque o radical humor
+só pode faltar as plantas: corrigimos:
+
+ *E como debil flor etc.*
+
+
+P. 215. V. 15.
+
+ _Por qual, Senhor, algum eu me trocára. Ou por qual algum rei de
+ mais grandeza_]
+
+Faria e Sousa. Não julgamos correcto o dizer: _por qual algum_: devem
+portanto estes versos ler-se como nas primeiras edições:
+
+ *Por que Rei, por que duque eu me trocára,
+ Por que Senhor de grande fortaleza?*
+
+
+P. 220. V. 30.
+
+ _Se o successo he contrário da vontade As obras que são boas, e o
+ desvio_]
+
+Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos:
+
+ *Se o successo he contrário da vontade
+ Nas obras que são boas, e ha desvio etc.*
+
+
+P. 221. V. 41. _Quanto de infamia_] Faria e Sousa. Quãmanha infamia, 3.ª
+ed. Esta ultima nos parece ser a lição do poeta.
+
+
+P. 222. V. 29. _Populares a Pallas._] Todas as ed. He vicio de texto:
+corrigimos:
+
+ *Populares (ó Pallas) etc.*
+
+
+P. 223. V. 17. _E pois que tudo em vos se permittio_] Faria e Sousa. _No
+qual, pois tudo em vós etc._] 3.ª ed. Preferimos esta lição, que nos
+parece ser a do poeta.
+
+
+P. 224. V. 11.
+
+ _O querido de Deos por quem peleja
+ O ar tambem, e o vento socegado,
+ Ao atambor acode, porque veja
+ Que quem a Deos ama, he de Deos amado_
+
+Assim se lião estes quatro versos na 3.ª edição. Manoel de Faria corrigio:
+
+ _Oh querido de Deos, por quem peleja
+ O ar tambem, e o vento socegado!
+ Ao tambor acode, porque veja
+ Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado._
+
+Mas esta apostrophe, por elle introduzida, não tem aqui lugar; porque o
+poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas
+praias da Persia conseguia victoria daquellas nações tão remotas, as
+settas, que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravão no
+ar, pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravão; e continúa,
+observando que o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o
+vento conjurado em seu favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja
+que o que a Deos ama, he delle amado e favorecido. Este he o sentido
+natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo que estes versos erão imitação
+dest'outros de Claudiano:
+
+ _O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris
+ Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether,
+ Et conjurati veniunt ad classica venti._
+
+julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e não accommodá-los
+ao seu intento, metteo aqui esta exclamação forçada, sem nem ao menos
+saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: _Yo dudo si esta
+exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian._ E assim
+estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Nós seguimos a
+lição antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue
+vicio de cópia, corrigimos:
+
+ *O querido de Deos, por quem peleja,
+ O ar tambem e o vento socegado
+ Ao atambor lhe acodem, porque veja
+ Que o que a Deos ama, he de Deos amado.*
+
+
+P. 225. V. 3. _Com louvores de Apollo celebrado._] Todas as ed.; mas
+aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos:
+
+ *Com louvores de Apollo, e celebrado.*
+
+
+P. 228. V. 1. _Depois que a clara aurora a noite escura._] Esta glosa do
+Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente não he
+obra do poeta: por inadvertencia as conservámos nesta edição.
+
+
+P. 257. L. 7. _Que são muito e valem pouco._] Todas as ed.; mas o que o
+poeta quer dizer, he que um par de reales são cousa pouca, mas para um
+escudeiro pobre valem muito. Corrigimos:
+
+ *Que são pouco, e valem muito.*
+
+
+P. 258. L. 17. _Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal._] Todas as
+ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos:
+
+ *Que tal dizem, que he?*
+
+
+P. 259. L. 1. _E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como
+Apostolo, mais piedosa que huma lamentação._] Todas as ed.; mas he
+vicio: corrigimos:
+
+ *Que vem podre de amor etc.*
+
+
+P. 259. L. 8. _Olá, Senhores._] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos:
+
+ *Olá, Senhoras.*
+
+
+P. 286. V. 1. _Mas qué amo y cararon._] Lição vulgar. He grande estrago
+de texto: corrigimos:
+
+ *Mas qué amo y qué cabron!*
+
+
+P. 369. V. 11. _Esperai, dir-vo-lo-ha._] Faria. He êrro: deve ler-se:
+
+ *Dir-se-vos-ha.*
+
+
+P. 370. V. 14.
+
+ _Pois só desse encantador
+ Me quero vingar de ti._]
+
+Lição vulgar: he viciosa: corrigimos:
+
+ *Pois so desse encantador
+ Me quero vingar em ti.*
+
+
+P. 374. V. 48. _E se mal vos succedesse._] Lição vulgar: he êrro de
+cópia ou de impressão: corrigimos:
+
+ *E se mal nos succedesse.*
+
+
+P. 386. L. 11. _O qual informado pelo pastor que a achára, (que era
+homem sabio na arte magica) e como a criára._] Lição vulgar; mas a
+oração esta imperfeita: corrigimos: *O qual informado pelo pastor etc.;
+de como a achára e como a criára.*
+
+
+P. 402. V. 17. _E levar-me a lenha o vento._] Lição vulgar: He viciosa,
+porque falta a clausula da oração: corrigimos:
+
+ *He levar-me a lenha o vento.*
+
+
+P. 418. L. 5. _Pois não devia assi de ser posantos e vanselos._] Lição
+vulgar. Estranha corrupção de texto: corrigimos:
+
+ *Pois não devia assi de ser, polos Santos Evangelhos.*
+
+
+P. 418. V. 6. _Que os amos e os cangrejos._] Lição vulgar. He viciosa:
+corrigimos:
+
+ *Que o amor e os cangrejos.*
+
+
+P. 447. V. 16.
+
+ _Que das montanhas erguidas
+ D'algum monte não sahisse._]
+
+Lição vulgar. Não he menos notavel esta corrupção: corrigimos:
+
+ *Que das montanhas erguidas
+ Algum monstro não sahisse.*
+
+
+P. 453. V. 20. _Se tanto amasse._] Lição vulgar; mas aqui ha vicio de
+texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma
+exprimir-se. Corrigimos:
+
+ *Se eu tanto amasse.*
+
+
+Pag. 467. V. 12.
+
+ _Que quando por accidente
+ Da fortuna desastrado
+ Fosse apartado da gente
+ N'um lugar onde somente
+ Das feras fosse guardado:
+ E por ferro, fogo e ágoa
+ Buscar minha morte iria._]
+
+Lição vulgar. Mas a corrupção de texto não póde ser mais visivel.
+Comtudo não difficil atinar-se com o sentido do poeta.
+
+Acaba de dizer Dionysa a Filodemo que tomára ver-se dalli cem mil
+leguas, pelo perigo que corria a sua honestidade. Responde-lhe este, que
+isso desejava tambem elle que succedesse; porque nesse caso teria
+occasião de fazer por ella uma fineza, que fosse mais de agradecer; e
+vem a ser, que quando ella por algum caso da fortuna fosse apartada da
+gente n'um deserto onde não tivesse por guarda, senão as feras; por
+ferro, fogo e ágoa lá iria elle buscar a sua morte. E porque não póde
+ser outro o sentido do poeta, corrigimos:
+
+ *Que quando por accidente
+ A fortuna desastrada
+ Vos apartasse da gente
+ N'um deserto, onde somente
+ Das feras fosseis guardada;
+ Lá por ferro, fogo e ágoa
+ Buscar minha morte iria etc.*
+
+
+P. 475. L. 20. _Que estas cidras não se desistem em nove dias, senão em
+nove mezes._] Lição vulgar. Não ha maior corrupção de texto. Que tem as
+cidras que desistir? Que o poeta não disse um tal absurdo, he fóra de
+toda a dúvida. O que elle disse foi isto:
+
+*E porque estes sirgos não se desistem em nove dias, senão em nove
+mezes, foi-lhe a elle necessario acolher-se com ella etc.*
+
+Sirgo he o envolucro, onde se encerra o bicho da seda, quando passa ao
+estado de metamorphose, e onde se conserva doze dias, ou nove, como diz
+o poeta. Mas a ignorancia transformou sirgos em cidras.
+
+
+P. 482. L. 7. Porque quando cuido que sem peccado que me obrigasse a
+tres dias de purgatorio, passei tres mil de más linguas, peores tenções,
+damnadas vontades, nascidas de pura inveja de verem _su amada yedra de
+si arrancada, y en otro muro asida..._ Aqui ha lacuna porque falta o
+verbo da oração.
+
+
+P. 489. V. 28.
+
+ _A quem não assopre a morte
+ Nem sopre o fogo da vida._]
+
+Lição vulgar; mas a do poeta he:
+
+ *A quem o assôpro da morte
+ Não sopre o fogo da vida.*
+
+
+P. 490. L. 26. _Tres cousas não se soffrem sem discordia; companhia,
+namorar, mandar villão ruim sobre cousa de seu interesse._] Todas as ed.
+Mas o vicio he palpavel: corrigimos: *Duas cousas não se soffrem sem
+discordia; companhia no amar, mandar villão ruim sobre cousa de seu
+interesse.*
+
+
+
+
+INDEX.
+
+
+REDONDILHAS &c.
+
+ Pag.
+
+ 100 A alma que está offrecida
+ 61 A dor que a minha alma sente
+ 113 A morte, pois que sou vosso
+ 71 Amor loco, amor loco
+ 57 Amor que todos offende
+ 63 Amores de huma casada
+ 66 Apartárão-se os meus olhos
+ 126 Aquella captiva
+
+ 107 Campos bem-aventurados
+ 99 Catharina bem promette
+ 98 Cinco gallinhas e meia
+ 136 Coifa de beirame
+ 103 Com razão queixar-me posso
+ 76 Com vossos olhos, Gonçalves
+ 38 Conde, cujo illustre peito
+ 33 Corre sem vela e sem leme
+ 93 Crescem, Camilla, os abrolhos
+
+ 53 Da doença em que ora ardeis
+ 62 D'alma e de quanto tiver
+ 28 Dama d'estranho primor
+ 56 De atormentado e perdido
+ 70 De dentro tengo mi mal
+ 65 De pequena tomei amor
+ 76 De que me serve fugir
+ 70 De vuestros ojos centellas
+ 54 Deo, Senhora, por sentença
+ 91 Deos te salve, Vasco amigo
+ 60 Descalça vai pela neve
+ 102 Descalça vai para a fonte
+ 143 Dó la mi ventura
+
+ 63 Enforquei minha esperança
+ 80 Esconjuro-te, Domingas
+ 101 Esperei, ja não espero
+ 46 Este mundo es el camino
+
+ 67 Falso cavalleiro ingrato
+ 101 Ferro, fogo, frio e calma
+ 125 Foi-se gastando a esperança
+
+ 78 Ha hum bem que chega e foge
+
+ 132 Irme quiero, madre
+
+ 112 Ja não posso ser contente
+ 119 Justa fue mi perdicion
+
+ 105 Mas porém a que cuidados
+ 140 Menina formosa
+ 52 Menina formosa e crua
+ 75 Menina, não sei dizer
+ 129 Menina dos olhos verdes
+ 118 Minh'alma, lembrae-vos della
+
+ 86 Na fonte está Leonor
+ 57 Não estejais aggravada
+ 89 Não posso chegar ao cabo
+ 74 Não sei se m'engana Helena
+
+ 104 Ojos, herido me habeis
+ 55 Olhae que dura sentença
+ 94 Olhos em que estão mil flores
+ 78 Olhos, não vos mereci
+ 79 Os bons vi sempre passar
+
+ 69 Para que me dan tormento
+ 145 Pastora da serra
+ 43 Peço-vos que me digais
+ 83 Pequenos contentamentos
+ 84 Perdigão perdeo a penna
+ 80 Perguntais-me quem me mata
+ 85 Pois a tantas perdições
+ 73 Pois damno me faz olhar-vos
+ 72 Pois he mais vosso que meu
+ 92 Porqué no miras, Giraldo
+ 64 Puz o coração nos olhos
+
+ 60 Qual terá culpa de nós
+ 77 Quando me quer enganar
+ 87 Que diabo ha tão damnado
+ 122 Qué veré que me contente
+ 103 Quem disser que a barca pende
+ 58 Quem no mundo quizer ser
+ 128 Quem ora soubesse
+ 94 Quem se confia em huns olhos
+ 21 Querendo escrever hum dia
+
+ 123 Retrato, vós não sois meu
+
+ 134 Saudade minha
+ 81 Se a alma ver-se não póde
+ 68 Se de meu mal me contento
+ 41 Se derivais da verdade
+ 137 Se Helena apartar
+ 83 Se me desta terra for
+ 128 Se me levão agoas
+ 45 Se n'alma e no pensamento
+ 35 Se não quereis padecer
+ 51 Se vossa Dama vos dá
+ 45 Sem olhos vi o mal claro
+ 117 Sem ventura he por demais
+ 116 Sem vós, e com meu cuidado
+ 59 Senhora, pois me chamais
+ 73 Senhora, pois minha vida
+ 40 Senhora, s'eu alcançasse
+ 95 Sois formosa e tudo tendes
+ 9 Sôbolos rios que vão
+ 30 Suspeitas, que me quereis
+
+ 141 Tende-me mão nelle
+ 121 Todo es poco lo posible
+ 109 Trabalhos descansarião
+ 110 Triste vida se me ordena
+ 131 Trocae o cuidado
+ 118 Tudo póde huma affeição
+ 98 Tudo tendes singular
+
+ 148 Vai o bem fugindo
+ 72 Vêde bem se nos meus dias
+ 115 Vejo-a n'alma pintada
+ 79 Venceo-me Amor, não o nego
+ 132 Ver e mais guardar
+ 138 Verdes são os campos
+ 139 Verdes são as hortas
+ 90 Vi chorar huns claros olhos
+ 135 Vida da minha alma
+ 68 Vós, Senhora, tudo tendes
+ 146 Vós sois huma Dama
+ 122 Vos teneis mi corazon
+ 88 Vossa Senhoria creia
+ 82 Vosso bem querer, Senhora
+
+SEXTINAS.
+
+ 152 A culpa de meu mal só tem meus olhos
+ 151 Foge-me pouco a pouco a curta vida
+ 154 Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia
+ 155 Sempre me queixarei desta crueza
+
+ELEGIAS.
+
+ 194 A vida me aborrece, a morte quero
+ 185 Ao pé d'hum'alta faia vi sentado
+ 160 Aquella que de amor descomedido
+ 175 Aquelle mover de olhos excellente
+ 190 Belisa, unico bem desta alma minha
+ 172 Depois que Magalhães teve tecida [4]
+ 177 Entre rusticas serras e fragosas
+ 208 Juizo extremo, horrifico e tremendo
+ 164 O poeta Simonides fallando
+ 157 O sulmonense Ovidio desterrado
+ 196 Que tristes novas, ou que novo damno [5]
+ 202 Se quando contemplamos as secretas
+
+ [4] A D. Leoniz Pereira, havendo-lhe Pedro de Magalhães
+ Gandavo dedicado o seu livro intitulado: _Historia da
+ Provincia de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos
+ Brasil_. Impresso em Lisboa 1576.
+
+ [5] Á morte de D. Miguel de Menezes na India, filho de D.
+ Henrique de Menezes, Governador da casa do Civil. Foi
+ dirigida a seu irmão D. Philipe de Menezes.
+
+EPISTOLAS.
+
+ 217 Como nos vossos hombros tão constantes [6]
+ 223 Mui alto Rei a quem os ceos em sorte [7]
+ 210 Quem póde ser no mundo tão quieto [8]
+ 225 Senhora se encobrir por alguma arte
+
+ [6] A D. Constantino de Bragança, Viso-Rei da India.
+
+ [7] Sobre a setta que o Papa enviou a ElRei D. Sebastião
+ no anno de 1575.
+
+ [8] A D. Antonio de Noronha, sôbre o desconcêrto do mundo.
+
+OITAVAS.
+
+ 232 Cá nesta Babylonia adonde mana
+ 228 Despois que a clara Aurora a noite escura
+ 234 D'huma formosa virgem desposada
+
+COMEDIAS.
+
+ 255 ElRei Seleuco
+ 301 Os Amphitriões
+ 385 Filodemo
+
+CARTAS.
+
+ 481 Carta 1.ª
+ 484 Carta 2.ª
+
+ 503 NOTAS
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões
+ Tomo III, by Luís Camões
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES ***
+
+***** This file should be named 37192-0.txt or 37192-0.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/3/7/1/9/37192/
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+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
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+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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@@ -0,0 +1,19520 @@
+The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Cames, Tomo III, by
+Lus Cames
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Obras Completas de Luis de Cames, Tomo III
+
+Author: Lus Cames
+
+Release Date: August 24, 2011 [EBook #37192]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+Notas de transcrio:
+
+O texto aqui transcrito, uma cpia integral e inalterada do livro
+impresso em 1843.
+
+Mantivemos a grafia usada na edio impressa, tendo sido corrigidos alguns
+pequenos erros tipogrficos evidentes, que no alteram a leitura do texto,
+e que por isso no considermos necessrio assinal-los. Mantivemos
+inclusivamente as eventuais incoerncias de grafia de algumas palavras, em
+particular quanto acentuao.
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+
+ CLASSICOS PORTUGUEZES.
+
+ TOMO II.
+
+ CAMES.
+
+ II.
+
+
+
+PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,
+Rua Racine, 28, junto ao Odeon.
+
+
+
+OBRAS COMPLETAS
+
+DE
+
+LUIS DE CAMES,
+
+CORRECTAS E EMENDADAS
+
+PELO CUIDADO E DILIGENCIA
+
+DE
+
+J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.
+
+
+TOMO TERCEIRO.
+
+
+LISBOA.
+
+ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,
+NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,
+3, quai Malaquais, prs le pont des Arts.
+
+1843
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+RIMAS.
+
+ * * * * *
+
+
+RIMAS.
+
+
+
+
+REDONDILHAS.
+
+
+ Sbolos rios que vo
+ Por Babylonia, me achei,
+ Onde sentado chorei
+ As lembranas de Sio,
+ E quanto nella passei.
+ Alli o rio corrente
+ De meus olhos foi manado;
+ E tudo bem comparado,
+ Babylonia ao mal presente,
+ Sio ao tempo passado.
+
+ Alli lembranas contentes
+ N'alma se representro;
+ E minhas cousas ausentes
+ Se fizero to presentes,
+ Como se nunca passro.
+ Alli, despois d'acordado,
+ Co'o rosto banhado em goa,
+ Deste sonho imaginado,
+ Vi que todo o bem passado
+ No he gsto, mas he mgoa.
+
+ E vi que todos os danos
+ Se causavo das mudanas,
+ E as mudanas dos anos;
+ Onde vi quantos enganos
+ Faz o tempo s esperanas.
+ Alli vi o maior bem
+ Quo pouco espao que dura;
+ O mal quo depressa vem;
+ E quo triste estado tem
+ Quem se fia da ventura.
+
+ Vi aquillo que mais val
+ Qu'ento s'entende melhor,
+ Quando mais perdido for:
+ Vi ao bem succeder mal,
+ E ao mal muito peor.
+ E vi com muito trabalho
+ Comprar arrependimento:
+ Vi nenhum contentamento;
+ E vejo-me a mi, qu'espalho
+ Tristes palavras ao vento.
+
+ Bem so rios estas goas
+ Com que banho este papel:
+ Bem parece ser cruel
+ Variedade de mgoas,
+ E confuso de Babel.
+ Como homem, que por exemplo
+ Dos trances em que se achou,
+ Despois que a guerra deixou,
+ Pelas paredes do templo
+ Suas armas pendurou:
+
+ Assi, despois qu'assentei
+ Que tudo o tempo gastava,
+ Da tristeza que tomei,
+ Nos salgueiros pendurei
+ Os orgos com que cantava.
+ Aquelle instrumento ledo
+ Deixei da vida passada,
+ Dizendo: Musica amada,
+ Deixo-vos neste arvoredo
+ memoria consagrada.
+
+ Frauta minha, que tangendo
+ Os montes fazieis vir
+ Par'onde estaveis, correndo;
+ E as goas, que hio descendo,
+ Tornavo logo a subir;
+ Jamais vos no ouviro
+ Os tigres, que s'amansavo;
+ E as ovelhas, que pastavo,
+ Das hervas se fartaro,
+ Que por vos ouvir deixavo.
+
+ Ja no fareis docemente
+ Em rosas tornar abrolhos
+ Na ribeira florecente;
+ Nem poreis freio corrente,
+ E mais se for dos meus olhos.
+ No movereis a espessura,
+ Nem podereis ja trazer
+ Atraz vs a fonte pura;
+ Pois no pudestes mover
+ Desconcertos da ventura.
+
+ Ficareis offerecida
+ Fama, que sempre vela,
+ Frauta de mi to querida;
+ Porque mudando-se a vida,
+ Se mudo os gostos della.
+ Acha a tenra mocidade
+ Prazeres accommodados;
+ E logo a maior idade
+ Ja sente por pouquidade
+ Aquelles gostos passados.
+
+ Hum gsto, que hoje s'alcana,
+ manha ja o no vejo:
+ Assi nos traz a mudana
+ D'esperana em esperana,
+ E de desejo em desejo.
+ Mas em vida to escassa
+ Qu'esperana ser forte?
+ Fraqueza da humana sorte,
+ Que quanto da vida passa
+ Est recitando a morte!
+
+ Mas deixar nesta espessura
+ O canto da mocidade:
+ No cuide a gente futura
+ Que ser obra da idade
+ O que he fra da ventura.
+ Qu'idade, tempo, e espanto
+ De ver quo ligeiro passe,
+ Nunca em mi pudero tanto,
+ Que, postoque deixo o canto,
+ A causa delle deixasse.
+
+ Mas em tristezas e nojos,
+ Em gsto e contentamento;
+ Por sol, por neve, por vento,
+ _Tendr presente los ojos
+ Por quien muero tan contento._
+ Orgos e frauta deixava,
+ Despjo meu to querido,
+ No salgueiro que alli'stava,
+ Que para tropheo ficava
+ De quem me tinha vencido.
+
+ Mas lembranas da affeio
+ Que alli captivo me tinha,
+ Me perguntro ento,
+ Qu'era da musica minha,
+ Que eu cantava em Sio?
+ Que foi daquelle cantar,
+ Das gentes to celebrado?
+ Porque o deixava de usar,
+ Pois sempre ajuda a passar
+ Qualquer trabalho passado?
+
+ Canta o caminhante ledo
+ No caminho trabalhoso
+ Por entre o espsso arvoredo;
+ E de noite o temeroso
+ Cantando refreia o medo.
+ Canta o preso docemente,
+ Os duros grilhes tocando;
+ Canta o segador contente;
+ E o trabalhador, cantando,
+ O trabalho menos sente.
+
+ Eu qu'estas cousas senti
+ N'alma de mgoas to cheia,
+ Como dir, respondi,
+ Quem alheio est de si
+ Doce canto em terra alheia?
+ Como poder cantar
+ Quem em chro banha o peito?
+ Porque, se quem trabalhar
+ Canta por menos cansar,
+ Eu s descansos engeito.
+
+ Que no parece razo,
+ Nem sera cousa idonia,
+ Por abrandar a paixo
+ Que cantasse em Babylonia
+ As cantigas de Sio.
+ Que quando a muita graveza
+ De saudade quebrante
+ Esta vital fortaleza,
+ Antes morra de tristeza,
+ Que por abrand-la cante.
+
+ Que se o fino pensamento
+ S na tristeza consiste,
+ No tenho medo ao tormento:
+ Que morrer de puro triste,
+ Que maior contentamento?
+ Nem na frauta cantarei
+ O que passo, e passei ja,
+ Nem menos o escreverei;
+ Porque a penna cansar,
+ E eu no descansarei.
+
+ Que se vida to pequena
+ S'accrescenta em terra estranha;
+ E se Amor assi o ordena,
+ Razo he que canse a penna
+ D'escrever pena tamanha.
+ Porm, se para assentar
+ O que sente o corao,
+ A penna ja me cansar,
+ No canse para voar
+ A memoria em Sio.
+
+ Terra bem-aventurada,
+ Se por algum movimento
+ D'alma me fores tirada,
+ Minha penna seja dada
+ A perptuo esquecimento.
+ A pena deste destrro,
+ Qu'eu mais desejo esculpida
+ Em pedra, ou em duro ferro,
+ Essa nunca seja ouvida,
+ Em castigo de meu rro.
+
+ E se eu cantar quizer
+ Em Babylonia sujeito,
+ Hierusalem, sem te ver,
+ A voz, quando a mover,
+ Se me congele no peito;
+ A minha lingua se apegue
+ s fauces, pois te perdi,
+ S'em quanto viver assi
+ Houver tempo, em que te negue,
+ Ou que m'esquea de ti.
+
+ Mas tu, terra de glria.
+ S'eu nunca vi tua essencia,
+ Como me lembras na ausencia?
+ No me lembras na memoria,
+ Seno na reminiscencia:
+ Que a alma he taboa rasa,
+ Que com a escrita doutrina
+ Celeste tanto imagina,
+ Que va da propria casa,
+ E sobe patria divina.
+
+ No he logo a saudade
+ Das terras onde nasceo
+ A carne, mas he do Ceo,
+ Daquella santa Cidade,
+ Donde est'alma descendeo.
+ E aquella humana figura,
+ Que c me pde alterar,
+ No he quem se ha de buscar;
+ He raio da formosura,
+ Que s se deve d'amar.
+
+ Que os olhos, e a luz que ateia
+ O fogo que c sujeita,
+ No do sol, nem da candeia,
+ He sombra daquella ideia,
+ Qu'em Deos est mais perfeita.
+ E os que c me captivro,
+ So poderosos affeitos
+ Qu'os coraes tee sujeitos;
+ Sophistas, que m'ensinro
+ Maos caminhos por direitos.
+
+ Destes o mando tyrano
+ M'obriga com desatino
+ A cantar ao som do dano
+ Cantares d'amor profano,
+ Por versos d'amor divino.
+ Mas eu, lustrado co'o santo
+ Raio, na terra de dor,
+ De confuses e d'espanto
+ Como hei de cantar o canto,
+ Que s se deve ao Senhor?
+
+ Tanto pde o beneficio
+ Da graa que d saude,
+ Que ordena que a vida mude:
+ E o qu'eu tomei por vcio,
+ Me faz grao para a virtude;
+ E faz qu'este natural
+ Amor, que tanto se prza,
+ Suba da sombra ao real,
+ Da particular belleza
+ Para a belleza geral.
+
+ Fique logo pendurada
+ A frauta com que tangi,
+ Hierusalem sagrada,
+ E tome a lyra dourada
+ Para s cantar de ti;
+ No captivo e ferrolhado
+ Na Babylonia infernal,
+ Mas dos vicios desatado,
+ E c desta a ti levado,
+ Patria minha natural.
+
+ E s'eu mais der a cerviz
+ A mundanos accidentes,
+ Duros, tyrannos e urgentes,
+ Risque-se quanto ja fiz
+ Do gro livro dos viventes.
+ E, tomando ja na mo
+ A lyra santa e capaz
+ D'outra mais alta inveno,
+ Calle-se esta confuso,
+ Cante-se a viso de paz.
+
+ Oua-me o pastor e o rei,
+ Retumbe este accento santo,
+ Mova-se no mundo espanto;
+ Que do que ja mal cantei
+ A palinodia ja canto.
+ A vs s me quero ir,
+ Senhor, e gro Capito
+ Da alta trre de Sio,
+ qual no posso subir,
+ Se me vs no dais a mo.
+
+ No gro dia singular,
+ Que na lyra em douto som
+ Hierusalem celebrar,
+ Lembrae-vos de castigar
+ Os ruins filhos de Edom.
+ Aquelles que tintos vo
+ No pobre sangue innocente,
+ Soberbos co'o poder vo,
+ Arraz-los igualmente:
+ Conheo que humanos so.
+
+ E aquelle poder to duro
+ Dos affectos com que venho,
+ Qu'encendem alma e engenho;
+ Que ja m'entrro o muro
+ Do livre arbitrio que tenho;
+ Estes, que to furiosos
+ Gritando vem a escalar-me,
+ Maos espiritos damnosos,
+ Que querem como forosos
+ Do alicerce derribar-me;
+
+ Derribae-os, fiquem ss,
+ De fras fracos, imbelles;
+ Porque no podemos ns,
+ Nem com elles ir a vs,
+ Nem sem vs tirar-nos delles.
+ No basta minha fraqueza
+ Para me dar defenso,
+ Se vs, santo Capito,
+ Nesta minha Fortaleza
+ No puzerdes guarnio.
+
+ E tu, carne, qu'encantas,
+ Filha de Babel to feia,
+ Toda de miseria cheia,
+ Que mil vezes te levantas
+ Contra quem te senhoreia;
+ Beato s pde ser
+ Quem co'a ajuda celeste
+ Contra ti prevalecer,
+ E te vier a fazer
+ O mal que lhe tu fizeste:
+
+ Quem com disciplina crua
+ Se fere mais que huma vez;
+ Cuja alma, de vicios nua,
+ Faz nodas na carne sua,
+ Que ja a carne n'alma fez.
+ E beato quem tomar
+ Seus pensamentos recentes,
+ E em nascendo os affogar,
+ Por no virem a parar
+ Em vicios graves e urgentes:
+
+ Quem com elles logo der
+ Na pedra do furor santo,
+ E batendo os desfizer
+ Na Pedra, que veio a ser
+ Emfim cabea do canto:
+ Quem logo, quando imagina
+ Nos vicios da carne m,
+ Os pensamentos declina
+ quella Carne divina,
+ Que na Cruz esteve ja.
+
+ Quem do vil contentamento
+ C deste mundo visibil,
+ Quanto ao homem for possibil,
+ Passar logo entendimento
+ Para o mundo intelligibil;
+ Alli achar alegria
+ Em tudo perfeita, e cheia
+ De to suave harmonia,
+ Que nem por pouca recreia,
+ Nem por sobeja enfastia.
+
+ Alli ver to profundo
+ Mysterio na summa Alteza,
+ Que, vencida a natureza,
+ Os mores faustos do mundo
+ Julgue por maior baixeza.
+ tu, divino aposento,
+ Minha patria singular,
+ Se s com te imaginar,
+ Tanto sobe o entendimento,
+ Que fara se em ti se achar?
+
+ Ditoso quem se partir
+ Para ti, terra excellente,
+ To justo e to penitente,
+ Que despois de a ti subir,
+ L descanse eternamente!
+
+ * * * * *
+
+
+CARTA A HUMA DAMA.
+
+ Querendo escrever hum dia
+ O mal, que tanto estimei;
+ Cuidando no que poria,
+ Vi Amor que me dizia:
+ Escreve, qu'eu notarei.
+ E como para se ler
+ No era historia pequena
+ A que de mi quiz fazer,
+ Das azas tirou a penna
+ Com que me fez escrever.
+
+ E, logo como a tirou,
+ Me disse: Aviva os espritos;
+ Que pois em teu favor sou,
+ Esta penna, que te dou,
+ Fara voar teus escritos.
+ E dando-me a padecer
+ Tudo o que quiz que puzesse,
+ Pude emfim delle dizer,
+ Que me deo com qu'escrevesse
+ O que me deo a escrever.
+
+ Eu qu'este engano entendi,
+ Disse-lhe: Qu'escreverei?
+ Respondeo, dizendo assi:
+ Altos effeitos de mi.
+ E daquella a quem te dei.
+ E ja que te manifesto
+ Todas minhas estranhezas,
+ Escreve, pois que te przas,
+ Milagres d'hum claro gesto,
+ E de quem o vio, tristezas.
+
+ Ah Senhora, em quem se apura
+ A f de meu pensamento!
+ Escutae e estae a tento,
+ Que com vossa formosura
+ Iguala Amor meu tormento.
+ E, postoque to remota
+ Estejais de m'escutar
+ Por me no remediar,
+ Ouvi, que pois Amor nota,
+ Milagres se ho de notar.
+
+ Escrevem varios Authores,
+ Que junto da clara fonte
+ Do Ganges, os moradores
+ Vivem do cheiro das flores
+ Que nascem naquelle monte.
+ Se os sentidos podem dar
+ Mantimento ao viver,
+ No he logo d'espantar,
+ S'estes vivem de cheirar,
+ Que viva eu s de vos ver.
+
+ Huma rvore se conhece,
+ Que na geral alegria
+ Ella tanto s'entristece,
+ Que, como he noite, florece,
+ E perde as flores de dia.
+ Eu, qu'em ver-vos sinto o preo
+ Qu'em vossa vista consiste,
+ Em a vendo m'entristeo,
+ Porque sei que no mereo
+ A glria de ver-me triste.
+
+ Hum Rei de grande poder
+ Com veneno foi criado,
+ Porque, sendo costumado,
+ No lhe pudesse empecer,
+ Se despois lhe fosse dado.
+ Eu, que criei de pequena
+ A vista a quanto padece,
+ Desta sorte m'acontece,
+ Que no me faz mal a pena,
+ Seno quando me fallece.
+
+ Quem da doena Real
+ De longe enfrmo se sente,
+ Por segredo natural
+ Fica so vendo somente
+ Hum volatil animal.
+ Do mal, que Amor em mi cria,
+ Quando aquella Phenix vejo,
+ So de todo ficaria;
+ Mas fica-me hydropesia,
+ Que quanto mais, mais desejo.
+
+ Da vibora he verdadeiro,
+ Se a consorte vai buscar,
+ Qu'em se querendo juntar,
+ Deixa a peonha primeiro,
+ Porque lh'impede o gerar.
+ Assi quando m'apresento
+ vossa vista inhumana,
+ A peonha do tormento
+ Deixo parte, porque dana
+ Tamanho contentamento.
+
+ Querendo Amor sustentar-se,
+ Fez huma vontade esquiva
+ D'huma estatua namorar-se:
+ Despois, por manifestar-se,
+ Converteo-a em mulher viva.
+ De quem m'irei eu queixando,
+ Ou quem direi que m'engana
+ Se vou seguindo e buscando
+ Huma imagem, que d'humana
+ Em pedra se vai tornando?
+
+ D'huma fonte se saba,
+ Da qual certo se provava
+ Que quem sbre ella jurava,
+ Se falsidade dizia,
+ Dos olhos logo cegava.
+ Vs, que minha liberdade,
+ Senhora, tyrannizais,
+ Injustamente mandais,
+ Quando vos fallo verdade,
+ Que vos no possa ver mais.
+
+ Da palma s'escreve e canta
+ Ser to dura e to forosa,
+ Que pzo no a quebranta,
+ Mas antes, de presunosa,
+ Com elle mais se levanta.
+ Co'o pzo do mal que dais,
+ A constancia qu'em mi vejo,
+ No somente ma dobrais,
+ Mas dobra-se meu desejo,
+ Com qu'ento vos quero mais.
+
+ Se alguem os olhos quizer
+ s andorinhas quebrar,
+ Logo a me, sem se deter,
+ Huma herva lhe vai buscar
+ Que lhes faz outros nascer.
+ Eu que os olhos tenho attento
+ Nos vossos, qu'estrellas so,
+ Cego-se os do entendimento,
+ Mas nascem-me os da razo
+ De folgar com meu tormento.
+
+ L para onde o sol sahe,
+ Descobrimos, navegando,
+ Hum novo rio admirando,
+ Que o lenho que nelle cahe,
+ Em pedra se vai tornando.
+ No s'espantem disto as gentes;
+ Mais razo ser qu'espante
+ Hum corao to possante,
+ Que com lagrimas ardentes
+ Se converte em diamante.
+
+ Pde hum mudo nadador
+ Na linha e cana influir
+ To venenoso vigor,
+ Que faz mais no se bulir
+ O brao do pescador.
+ Se comeo de beber
+ Deste veneno excellente
+ Meus olhos, sem se deter,
+ No se sabem mais mover
+ A nada que se apresente.
+
+ Isto so claros sinais
+ Do muito qu'em mi podeis:
+ Nem podeis desejar mais;
+ Que se ver-vos desejais,
+ Em mi claro vos vereis.
+ E quereis ver a que fim
+ Em mi tanto bem se ps?
+ Porque quiz Amor assim,
+ Que por vos verdes a vs,
+ Tambem me visseis a mim.
+
+ Dos males que m'ordenais,
+ Qu'inda tenho por pequenos,
+ Sabei, se mos escutais,
+ Que ja no sei dizer mais,
+ Nem vs podeis saber menos.
+ Mas ja que a tanto tormento
+ No se acha quem resista,
+ Eu, Senhora, me contento
+ De terdes meu soffrimento
+ Por alvo de vossa vista.
+
+ Quantos contrarios consente
+ Amor, por mais padecer!
+ Que aquella vista excellente,
+ Que me faz viver contente,
+ Me faa to triste ser!
+ Mas dou este entendimento
+ Ao mal, que tanto m'offende,
+ Como na vela s'entende,
+ Que se se apaga co'o vento,
+ Co'o mesmo vento se accende.
+
+ Exprimentou-se algum'hora
+ D'ave, que chamo Camo,
+ Que se da casa, onde mora,
+ V adltera senhora,
+ Morre de pura paixo.
+ A dor he to sem medida,
+ Que remedio lhe no val.
+ Mas oh ditoso animal,
+ Que pde perder a vida,
+ Quando v tamanho mal!
+
+ Nos gstos de vos querer
+ Estava agora enlevado,
+ Se no fra salteado
+ Das lembranas de temer
+ Ser por outrem desamado.
+ Estas suspeitas to frias,
+ Com que o pensamento sonha,
+ So assi como as harpias,
+ Que as mais doces iguarias
+ Vo converter em peonha.
+
+ Faz-me este mal infinito
+ No poder ja mais dizer,
+ Por no vir a corromper
+ Os gostos que tenho escrito,
+ Co'os males qu'hei d'escrever.
+ No quero que s'aprege
+ Mal tanto para encobrir,
+ Porque em quanto aqui s'ouvir
+ Nenhuma outra cousa se,
+ Que a glria de vos servir.
+
+ * * * * *
+
+
+ MESMA.
+
+ Dama d'estranho primor,
+ Se vos for
+ Pezada minha firmeza,
+ Olhae no me deis tristeza,
+ Porque a converto em amor.
+ E se cuidais
+ De me matar, quando usais
+ D'esquivana,
+ Irei tomar por vingana
+ Amar-vos cada vez mais.
+
+ Porm vosso pensamento,
+ Como isento,
+ Seguir sua teno,
+ Crendo qu'em tanta affeio
+ No haja accrescentamento.
+ No creais
+ Que desta arte vos faais
+ Invencibil;
+ Que Amor sbre o impossibil
+ Amostra que pde mais.
+
+ Mas ja da teno que sigo,
+ Me desdigo;
+ Que se ha tanto poder nelle,
+ Tambem vs podeis mais qu'elle
+ Neste mal que usais comigo.
+ Mas se for
+ O vosso poder maior
+ Entre ns,
+ Quem poder mais que vs,
+ Se vs podeis mais que Amor?
+
+ Despois que, Dama, vos vi,
+ Entendi,
+ Que perdra Amor seu preo;
+ Pois o favor que lh'eu peo,
+ Vos pede elle para si.
+ Nem duvido
+ Que no pde, de sentido,
+ Resistir;
+ Pois em vez de vos ferir,
+ Ficou de vos ver ferido.
+
+ Mas pois vossa vista he tal
+ Em meu mal,
+ Que posso de vs querer?
+ Que mal poderei valer,
+ Onde o mesmo Amor no val.
+ Se attentar,
+ Nenhum bem posso esperar:
+ E oxal
+ Que vos alembrasse ja,
+ Sequer para me matar.
+
+ Mas nem com isto creais
+ Que faais
+ Meus servios mais pequenos;
+ Porqu'eu, quando espero menos,
+ Sabei qu'ento quero mais.
+ Nada espero;
+ Mas de mi crede este fero,
+ Qu'em ser vosso,
+ Vos quero tudo o que posso,
+ E no posso quanto quero.
+
+ S por esta phantasia
+ Merecia
+ De meus males algum fruito;
+ E no era certo muito
+ Para o muito que queria.
+ De maneira,
+ Que no he, na derradeira,
+ Grande espanto,
+ Que quem, Dama, vos quer tanto,
+ Que outro tanto de vs queira.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMAS SUSPEITAS.
+
+ Suspeitas, que me quereis?
+ Qu'eu vos quero dar lugar
+ Que de certas me mateis,
+ Se a causa, de que nasceis,
+ Vs quizesseis confessar.
+ Que de no lhe achar desculpa,
+ A grande mgoa passada
+ Me tee a alma to cansada,
+ Que se me confessa a culpa,
+ Te-la-hei por desculpada.
+
+ Ora vde que perigos
+ Tee cercado o corao,
+ Que no meio da oppresso
+ A seus proprios inimigos
+ Vai pedir a defenso!
+ Que, suspeitas, eu bem sei,
+ Como se claro vos visse,
+ Que he certo o que ja cuidei;
+ Que nunca mal suspeitei,
+ Que certo me no sahisse.
+
+ Mas queria esta certeza
+ Daquella que me atormenta;
+ Porque em tamanha estreiteza
+ Ver que disso se contenta,
+ He descanso da tristeza.
+ Porque se esta s verdade
+ Me confessa limpa e nua
+ De cautela e falsidade,
+ No pde a minha vontade
+ Desconforme ser da sua.
+
+ Por segredo namorado
+ He certo estar conhecido
+ Que o mal de ser engeitado
+ Mais atormenta sabido
+ Mil vezes, que suspeitado.
+ Mas eu s, em quem se ordena
+ Novo modo de querella,
+ De medo da dor pequena,
+ Venho a achar na maior pena
+ O refrigerio para ella.
+
+ Ja nas iras m'inflammei,
+ Nas vinganas, nos furores,
+ Que ja doudo imaginei;
+ E ja mais doudo jurei
+ De arrancar d'alma os amores.
+ Ja determinei mudar-me
+ Para outra parte com ira;
+ Despois vim a concertar-me
+ Que era bom certificar-me
+ No que mostrava a mentira.
+
+ Mas despois ja de cansadas
+ As furias do imaginar,
+ Vinha emfim a rebentar
+ Em lagrimas magoadas,
+ E bem para magoar.
+ E deixando-se vencer
+ Os meus fingidos enganos
+ De to claros desenganos,
+ No posso menos fazer,
+ Que contentar-me co'os danos.
+
+ E pedir que me tirassem
+ Este mal de suspeitar
+ Que me vejo atormentar,
+ Indaque me confessassem
+ Quanto me pde matar.
+ Olhae bem se me trazeis,
+ Senhora, psto no fim;
+ Pois neste estado a que vim,
+ Para que vs confesseis,
+ Se do os tratos a mim.
+
+ Mas para que tudo possa
+ Amor, que tudo encaminha,
+ Tal justia lhe convinha;
+ Porque da culpa, qu'he vossa,
+ Venha a ser a morte minha.
+ Justia to mal olhada
+ Olhae com que cr se doura,
+ Que quero, ao fim da jornada,
+ Que vs sejais confessada,
+ Para qu'eu seja o que moura!
+
+ Pois confessae-vos jagora,
+ Indaque tenho temor
+ Que nem nesta ltima hora
+ Me ha de perdoar Amor
+ Vossos peccados, Senhora.
+ E assi vou desesperado,
+ Porque estes so os costumes
+ D'amor que he mal empregado;
+ Do qual vou ja condemnado
+ Ao inferno de ciumes.
+
+ * * * * *
+
+
+LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO.[1]
+
+ Corre sem vela e sem leme
+ O tempo desordenado,
+ D'hum grande vento levado:
+ O que perigo no teme,
+ He de pouco exprimentado.
+ As redeas trazem na mo
+ Os que redeas no tivero:
+ Vendo quanto mal fizero
+ A cobia e ambio,
+ Disfarados se acolhro.
+
+ A nao, que se vai perder,
+ Destrue mil esperanas:
+ Vejo o mao que vem a ter;
+ Vejo perigos correr
+ Quem no cuida que ha mudanas.
+ Os que nunca em sella andro,
+ Na sella postos se vem:
+ De fazer mal no deixro;
+ De demonio hbito tem
+ Os que o justo profanro.
+
+ Que poder vir a ser
+ O mal nunca refreado?
+ Anda, por certo, enganado
+ Aquelle que quer valer,
+ Levando o caminho errado.
+ He para os bons confuso,
+ Ver que os maos prevalecro;
+ Que, psto se detivero
+ Com esta simulao,
+ Sempre castigos tivero:
+
+ No porque governe o leme
+ Em mar envolto e turbado,
+ Que tee seu rumo mudado,
+ Se perece grita e geme
+ Em tempo desordenado.
+ Terem justo galardo,
+ E dor dos que merecro,
+ Sempre castigos tivero
+ Sem nenhuma redempo,
+ Postoque se detivero.
+
+ Na tormenta, se vier,
+ Desespere na bonana,
+ Quem manhas no sabe ter:
+ Sem que lhe valha gemer,
+ Ver falsar a balana.
+ Os que nunca trabalhro,
+ Tendo o que lhe no convem,
+ Se ao innocente enganro,
+ Perdero o eterno bem,
+ Se do mal no s'apartro.
+
+[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, no parece obra do poeta.
+Nelle no fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria
+passar-lhe um trao por cima: o que no ousamos fazer por andar em
+todas as edies.
+
+ _Nota dos editores._
+
+ * * * * *
+
+
+CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS.
+
+_A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:_
+
+ Se no quereis padecer
+ Huma, ou duas horas tristes,
+ Sabeis que haveis de fazer?
+ Volveros por d venistes,
+ Que aqui no ha que comer.
+ E, postoque aqui leais
+ Trovinha que vos enleia,
+ Corrido no estejais;
+ Porque por mais que corrais,
+ No heis de alcanar a ceia.
+
+_A segunda a D. Francisco de Almeida._
+
+ Heliogabalo zombava
+ Das pessoas convidadas;
+ E de sorte as enganava,
+ Que as iguarias que dava,
+ Vinho nos pratos pintadas.
+ No temais tal travessura,
+ Pois ja no pde ser nova;
+ Porque a ca est segura
+ De vos no vir em pintura;
+ Mas ha de vir toda em trova.
+
+_A terceira a Heitor da Silveira._
+
+ Ca no a papareis:
+ Com tudo, porque no minta,
+ Para beber achareis,
+ No Caparica, mas tinta,
+ E mil cousas que papeis.
+ E vs torceis o focinho
+ Com esta amphibologia?
+ Pois sabei que a Poesia
+ Vos d aqui tinta por vinho,
+ E papis por iguaria.
+
+_A quarta a Joo Lopes Leito, a quem o Author fez huns versos, que vo
+adiante, sbre huma pea de cacha, que deo a huma Dama._
+
+ Porque os que vos convidro
+ Vosso estomago no danem,
+ Por justa causa ordenro,
+ Se trovas vos enganro,
+ Que trovas vos desenganem.
+ Vs tereis isto por tacha,
+ Converter tudo em trovar;
+ Pois se me virdes zombar,
+ No cuideis, Senhor, que he cacha,
+ Que aqui no ha que cachar.
+
+_Responde Joo Lopes._
+
+ Pezar ora no de so,
+ Eu juro pelo Ceo bento,
+ Se de comer no me do,
+ Qu'eu no sou camaleo,
+ Que m'hei de manter do vento.
+
+_Responde o Author._
+
+ Senhor, no vos agasteis,
+ Porque Deos vos prover;
+ E se mais saber quereis,
+ Nas costas deste lereis
+ As iguarias que ha.
+
+_Virado o papel, dizia assi:_
+
+ Tendes nem migalha assada;
+ Cousa nenhuma de mlho;
+ E nada feito em empada;
+ E vento de tigelada;
+ Picar no dente em remlho:
+ De fumo tendes taalhos;
+ Ave da pena que sente
+ Quem da fome anda doente;
+ Bocejar de vinho e d'alhos;
+ Manjar em branco excellente.
+
+_A derradeira a Francisco de Mello._
+
+ D'hum homem, que teve o scetro
+ Da va maravilhosa,
+ No foi cousa duvidosa,
+ Que se lhe tornava em metro
+ O qu'hia a dizer em prosa.
+ De mi vos quero affirmar
+ Que faa cousas mais novas,
+ De quanto podeis cuidar;
+ E esta ca, que he manjar,
+ Vos faa na boca em trovas.
+
+ * * * * *
+
+
+NA INDIA AO VISO-REI, COM O MOTE ADIANTE.
+
+ Conde, cujo illustre peito
+ Merece nome de Rei,
+ Do qual muito certo sei
+ Que lhe fica sendo estreito
+ O cargo de Viso-Rei;
+ Servirdes-vos d'occupar-me
+ Tanto contra meu Planeta,
+ No foi seno azas dar-me,
+ Com as quaes vou a queimar-me,
+ Como o faz a borboleta.
+
+ E s'eu a penna tomar,
+ Que to mal cortada tenho,
+ Ser para celebrar
+ Vosso valor singular
+ Dino de mais alto engenho.
+ Que se o meu vos celebrasse,
+ Necessario me sera
+ Que os olhos d'aguia tomasse,
+ S para que no cegasse
+ No sol de vossa valia.
+
+ Vossos feitos sublimados
+ Nas armas, dignos de gloria,
+ So no mundo to soados,
+ Qu'em vs de vossos passados
+ Se resuscita a memoria.
+ Pois aquelle nimo estranho,
+ Prompto para todo effeito,
+ Espanta todo o conceito:
+ Como corao tamanho
+ Vos pde caber no peito?
+
+ A clemencia, que asserena
+ Corao to singular,
+ S'eu nisso puzesse a penna,
+ Sera encerrar o mar
+ Em cova muito pequena.
+ Bem basta, Senhor, que agora
+ Vos sirvais de me occupar;
+ Que assi fareis aparar
+ A penna, com que algum'hora
+ Vos vereis ao ceo voar.
+
+ Assi vos irei louvando,
+ Vs a mi do cho erguendo,
+ Ambos o mundo espantando;
+ Vs com a espada cortando,
+ Eu com a penna escrevendo.
+
+_Mote que lhe mandou o Viso-Rei._
+
+ Muito sou meu inimigo,
+ Pois que no tiro de mi
+ Cuidados, com que nasci,
+ Que pe a vida em perigo.
+ Oxal que fra assi!
+
+_Volta._
+
+ Viver eu, sendo mortal,
+ De cuidados rodeado,
+ Parece meu natural;
+ Que a peonha no faz mal
+ A quem foi nella criado.
+ Tanto sou meu inimigo,
+ Que por no tirar de mi
+ Cuidados, com que nasci,
+ Porei a vida em perigo.
+ Oxal que fra assi!
+
+ Tanto vim a accrescentar
+ Cuidados, que nunca amanso
+ Em quanto a vida durar,
+ Que canso ja de cuidar
+ Como cuidados no canso.
+ S'estes cuidados, que digo,
+ Dessem fim a mi e a si,
+ Fario pazes comigo;
+ Que pr a vida em perigo,
+ O bom fra para mi.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS OBRAS SUAS.
+
+ Senhora, s'eu alcanasse
+ No tempo que ler quereis,
+ Que a dita dos meus papis
+ Pola minha se trocasse;
+ E por ver
+ Tudo o que posso escrever
+ Em mais breve relao,
+ Indo eu onde elles vo,
+ Por mi s quizesseis ler;
+
+ Despois de ver hum cuidado
+ To contente de seu mal,
+ Verieis o natural
+ Do que aqui vdes pintado;
+ Que o perfeito
+ Amor, de que sou sogeito,
+ Vereis aspero e cruel,
+ Aqui com tinta e papel,
+ Em mi com sangue no peito.
+
+ Que hum continuo imaginar
+ Naquillo que Amor ordena,
+ He pena, que emfim por penna
+ Se no pde declarar;
+ Que se eu levo
+ Dentro n'alma quanto devo
+ De trasladar em papis,
+ Vde que melhor lereis,
+ Se a mi, se aquillo qu'escrevo?
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA SENHORA, A QUEM DERO HUM PEDAO DE SITIM AMARELLO.
+
+ Se derivais da verdade
+ Esta palavra _Sitim_,
+ Achareis sem falsidade,
+ Que apos o _si_ tee o _tim_,
+ Que tine em toda a Cidade.
+ Bem vejo que m'entendeis;
+ Mas porque no falle em vo,
+ Sabei que a esta Nao
+ Tanto que o _si_ concedeis,
+ O _tim_ logo est na mo.
+
+ E quem da fama s'arreda,
+ Que tudo vai descobrir,
+ Deve sempre de fugir
+ De sitins, porque da seda
+ Seu natural he rugir.
+ Mas panno fino e delgado,
+ Qual a raxa e outros assi,
+ Dura, aquenta, e he callado,
+ Amoroso, e d de si
+ Mais que _sitim_, nem brocado.
+
+ Mas estes, que sedas so
+ Com quem s'engano mil Damas,
+ Mais vos tomo, do que do;
+ Promettem, mas no daro,
+ Seno nodoas para as famas.
+ E se no me quereis crer,
+ Ou tomais outro caminho,
+ Por exemplo o podeis ver,
+ Quando l virdes arder
+ A casa d'algum vizinho.
+
+ Oh feminina simpreza,
+ Donde esto culpas a pares,
+ Que por hum Dom de nobreza,
+ Deixo des da natureza,
+ Mais altos e singulares!
+ Hum Dom, que anda enxertado
+ No nome, e nas obras no.
+ Fallo como exprimentado;
+ Que _sitim_ desta feio
+ Eu tenho muito cortado.
+
+ Dizem-me qu'era amarello;
+ E quem assi o quiz dar,
+ S para me Deos vingar,
+ Se vem mo amar-lo,
+ O qu'eu no posso cuidar.
+ Porque quem sabe viver
+ Por estas artes manhosas,
+ (Isto bem pde no ser)
+ D a meninas formosas,
+ Somente polas fazer.
+
+ Quem vos isto diz, Senhora,
+ Servio nas vossas armadas
+ Muito, mas anda ja fra;
+ E pde ser qu'inda agora
+ Traz abertas as frchadas.
+ E, postoque desfavores
+ O tiro de servidor,
+ Quer-vos ventura melhor;
+ Que dos antigos amores
+ Inda lhe fica este amor.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS.
+
+ Peo-vos que me digais
+ As oraes que rezastes,
+ Se so polos que matastes,
+ Se por vs que assi matais?
+ Se so por vs, so perdidas;
+ Que qual ser a orao,
+ Que seja satisfao,
+ Senhora, de tantas vidas?
+
+ Que se vdes quantos vem
+ A s vida vos pedir,
+ Como vos ha Deos de ouvir,
+ Se vs no ouvis ninguem?
+ No podeis ser perdoada
+ Com mos a matar to prontas,
+ Que se n'huma trazeis contas,
+ Na outra trazeis espada.
+
+ Se dizeis que encommendando
+ Os que matastes andais;
+ Se rezais por quem matais,
+ Para que matais rezando?
+ Que se na fra do orar
+ Levantais as mos aos Ceos,
+ No as ergueis para Deos,
+ Erguei-las para matar.
+
+ E quando os olhos cerrais,
+ Toda enlevada na f,
+ Cerro-se os de quem vos v,
+ Para nunca verem mais.
+ Pois se assi forem tratados
+ Os que vos vem quando orais,
+ Essas horas que rezais,
+ So as horas dos finados.
+
+ Pois logo, se sois servida
+ Que tantos mortos no sejo,
+ No rezeis onde vos vejo,
+ Ou vde para dar vida.
+ Ou se quereis escusar
+ Estes males que causastes,
+ Resuscitae quem matastes,
+ No tereis por quem rezar.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNA.
+
+ Se n'alma e no pensamento
+ Por vosso me manifesto,
+ No me peza do que sento;
+ Que se no soffrer tormento,
+ Fao offensa a vosso gesto.
+ E, pois quanto Amor ordena,
+ E quanto est'alma deseja,
+ Tudo morte me condena,
+ No quero seno que seja
+ Tudo pena, pena, pena.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS.
+
+ Sem olhos vi o mal claro,
+ Que dos olhos se seguio:
+ Pois cara sem olhos vio
+ Olhos, que lhe custo caro.
+ D'olhos no fao meno,
+ Pois quereis que olhos no sejo;
+ Vendo-vos, olhos sobejo,
+ No vos vendo, olhos no so.
+
+ * * * * *
+
+
+DISPARATES NA INDIA.
+
+ Este mundo es el camino
+ Ad hay ducientos vos,
+ Ou por onde bons e maos,
+ Todos somos del merino.
+ Mas os maos so de teor,
+ Que desque mudo a cr,
+ Chamo logo a ElRei compadre;
+ E emfim dejadlos, mi madre,
+ Que sempre tee hum sabor
+ De quem torto nasce, tarde s'endireita.
+
+ Deixae a hum que se abone:
+ Diz logo de muito sengo,
+ Villas y castillos tengo,
+ Todos mi mandar sone.
+ Ento eu, qu'estou de mlho,
+ Com a lagrima no lho,
+ Polo virar do envs,
+ Digo-lhe: _tu ex illis es_,
+ E por isso no te lho;
+ Pois honra e proveito no cabem n'hum saco.
+
+ Vereis huns, que no seu seio
+ Cuido que trazem Pars,
+ E querem com dous ceits,
+ Fender anca pelo meio.
+ Vereis mancebindo de arte,
+ Com espada em talabarte:
+ No ha mais Italiano.
+ A este direis: Meu mano,
+ Vs sois galante que farte;
+ Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido.
+
+ Outros em cada theatro,
+ Por officio lhe ouvirs
+ Que se matarn con tres,
+ Y lo mismo haran con cuatro.
+ Prezo-se de dar respostas,
+ Com palavras bem compostas;
+ Mas se lhe meteis a mo,
+ Na paz mostro corao,
+ Na guerra mostro as costas;
+ Porque aqui torce a porca o rabo.
+
+ Outros vejo por ahi,
+ A que se acha mal o fundo,
+ Que ando emendando o mundo,
+ E no se emendo a si.
+ Estes respondem a quem
+ Delles no entende bem
+ El dolor que est secreto;
+ Mas porm quem for discreto,
+ Responder-lhe-ha muito bem:
+ Assi entrou o mundo, assi ha de sahir.
+
+ Achareis rafeiro velho,
+ Que se quer vender por galgo:
+ Diz que o dinheiro he fidalgo,
+ Que o sangue todo he vermelho.
+ Se elle mais alto o dissera,
+ Este pelote puzera:
+ Que o seu eco lhe responda;
+ Que su padre era de Ronda,
+ Y su madre de Antequera,
+ E quer cobrir o ceo co'huma joeira.
+
+ Fraldas largas, grave aspeito,
+ Para Senador Romano.
+ Oh que grandissimo engano!
+ Que Momo lhe abrisse o peito!
+ Consciencia, que sobeja,
+ Siso, com que o mundo reja,
+ Mansido outro que si;
+ Mas que lobo est em ti,
+ Metido em pelle de oveja!
+ E sabem-no poucos.
+
+ Guardae-vos de huns meus Senhores,
+ Que ainda compro e vendem;
+ Huns, qu'he certo, que descendem
+ Da gerao de pastores:
+ Mostro-se-vos bons amigos;
+ Mas se vos vem em perigos,
+ Escarro-vos nas paredes;
+ Que de fra dormiredes,
+ Irmo, que he tempo de figos;
+ Porque de rabo de porco nunca bom virote.
+
+ Que direis d'huns, que as entranhas
+ Lh'esto ardendo em cobia,
+ E se tee mando, a justia
+ Fazem de teas de aranhas?
+ Com suas hypocrisias,
+ Que so de vossas espias:
+ Para os pequenos huns Neros,
+ Para os grandes tudo feros.
+ Pois tu, parvo, no sabas,
+ Que l vo leis, onde querem cruzados?
+
+ Mas tornando a huns enfadonhos,
+ Cujas cousas so notorias;
+ Huns, que conto mil histrias
+ Mais desmanchadas que sonhos;
+ Huns mais parvos que zamboas,
+ Qu'estudo palavras boas,
+ A que ignorancia os atia:
+ Estes paguem por justia,
+ Que tee morto mil pessoas,
+ Por vida de quanto quero.
+
+ Adonde tienen las mentes
+ Huns secretos trovadores,
+ Que fazem cartas d'amores,
+ De que fico mui contentes?
+ No querem sahir praa;
+ Trazem trova por negaa;
+ E se lha gabais, qu'he boa,
+ Diz qu'he de certa pessoa.
+ Ora que quereis que faa,
+ Seno ir-me por esse mundo?
+
+ tu, como me atarracas,
+ Escudeiro de Solia,
+ Com bocaes de fidalguia,
+ Trazido quasi com vacas;
+ Importuno a importunar,
+ Morto por desenterrar
+ Parentes, que cheiro ja!
+ Voto a tal, que me fara
+ Hum destes nunca fallar
+ Mais com viva alma.
+
+ Huns, que fallo muito, vi,
+ De que quizera fugir;
+ Huns que, emfim, sem se sentir,
+ Ando fallando entre si;
+ Porfiosos sem razo;
+ E desque tomo a mo,
+ Fallo sem necessidade;
+ E se algum'hora he verdade,
+ Deve ser na confisso;
+ Porque quem no mente... Ja m'entendeis.
+
+ Oh vs, quem quer que me lerdes,
+ Qu'haveis de ser avisado,
+ Que dizeis ao namorado
+ Que caa vento com redes?
+ Jura por vida da Dama;
+ Falla comsigo na cama;
+ Passa de noite e escarra;
+ Por falsete na guitarra
+ Pe sempre: Viva que ama,
+ Porque cala a seu proposito.
+
+ Mas deixemos, se quizerdes,
+ Por hum pouco as travessuras,
+ Porqu'entre quatro maduras
+ Leveis tambem cinco verdes.
+ Deitemos-nos mais ao mar;
+ E se algum se arrecear,
+ Passe tres ou quatro trovas.
+ E vs tomais cres novas?
+ Mas no he para espantar;
+ Que quem porcos ha menos,
+ Em cada mouta lhe ronco.
+
+ vs, que sois Secretarios
+ Das consciencias Reais,
+ E que entre os homens estais
+ Por Senhores ordinarios;
+ Porque no pondes hum freio
+ Ao roubar, que vai sem meio,
+ Debaixo de bom governo?
+ Pois hum pedao de inferno
+ Por pouco dinheiro alheio
+ Se vende a Mouro e a Judeo.
+
+ Porque a mente, affeioada
+ Sempre Real dignidade,
+ Vos faz julgar por bondade
+ A malicia desculpada.
+ Move a presena Real
+ Huma affeio natural,
+ Que logo inclina ao Juiz
+ A seu favor: e no diz
+ Hum rifo muito geral,
+ Que o Abbade donde canta, dahi janta?
+
+ E vs bailais a esse som:
+ Por isso, gents pastores,
+ Vos chama a vs mercadores
+ Hum que s foi pastor bom.
+
+ * * * * *
+
+
+A JOO LOPES LEITO, SBRE HUMA PEA DE CACHA QUE MANDOU
+A HUMA DAMA, QUE SE LHE FAZIA DONZELLA.
+
+_Mote._
+
+ Se vossa Dama vos d
+ Tudo quanto vs quizestes,
+ Dizei-me: p'ra que lhe dstes
+ O que vos ella fez ja?
+
+_Volta._
+
+ Sendo os restos envidados,
+ E vs de cachas mil contos
+ Sabeis com quo poucos pontos,
+ Que lhos achastes quebrados;
+ Se o que tee, isso vos d,
+ Vs mui bem lho merecestes,
+ Porque se a cacha lhe dstes
+ Tinha-vo-la feita ja.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Menina formosa e crua,
+ Bem sei eu
+ Quem deixar de ser seu,
+ Se vs quizereis ser sua.
+
+_Voltas._
+
+ Menina mais que na idade,
+ Se para me querer bem
+ Vos no vejo ter vontade,
+ He porque outrem vo-la tem;
+ Tee-vo-la, e faz-vo-la crua.
+ Porm eu
+ Ja tomra no ser meu,
+ Se vs no foreis to sua.
+
+ Nos olhos, e na feio
+ Vos vi, quando vos olhava,
+ Tanta graa, que vos dava
+ De graa este corao:
+ No o quizestes de crua,
+ Por ser meu:
+ Se outrem vos dera o seu,
+ Pde ser foreis mais sua.
+
+ Menina, tende maneira,
+ Que ainda no venha a ser,
+ Pois no quereis quem vos quer,
+ Que queirais quem vos no queira.
+ Olhae no me sejais crua,
+ Que pois eu
+ Quero ser vosso, e no meu,
+ Sde vs minha, e no sua.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA DOENTE
+
+_Mote._
+
+ Da doena, em que ora ardeis,
+ Eu fra vossa mzinha
+ S com vs serdes a minha.
+
+_Voltas._
+
+ He muito para notar
+ Cura to bem acertada,
+ Que podereis ser curada
+ Somente com me curar.
+ Se quereis, Dama, trocar,
+ Ambos temos a mzinha,
+ Eu a vossa, e vs a minha.
+
+ Olhae, que no quer Amor,
+ (Porque fiquemos iguais)
+ Pois meu ardor no curais,
+ Que se cure vosso ardor.
+ Eu c sinto vossa dor;
+ E se vs sentis a minha,
+ Dae e tomae a mzinha.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO
+
+ Deo, Senhora, por sentena
+ Amor, que fosseis doente,
+ Para fazerdes gente
+ Doce e formosa a doena.
+
+_Voltas._
+
+ No sabendo Amor curar,
+ Foi a doena fazer
+ Formosa para se ver,
+ Doce para se passar.
+ Ento vendo a differena
+ Que ha de vs a toda a gente,
+ Mandou, que fsseis doente,
+ Para glria da doena.
+
+ E digo-vos de verdade,
+ Que a saude anda invejosa,
+ Por ver estar to formosa
+ Em vs essa enfermidade.
+ No faais logo detena,
+ Senhora, em estar doente,
+ Porque adoecer a gente,
+ Com desejos da doena.
+
+ Qu'eu por ter, formosa Dama,
+ A doena, qu'em vs vejo,
+ Vos confesso, que desejo
+ De cahir comvosco em cama.
+ Se consentis, que me vena
+ Deste mal, no houve gente
+ Da saude to contente,
+ Como eu serei da doena.
+
+ * * * * *
+
+
+AO MESMO
+
+ Olhae que dura sentena
+ Foi amor dar contra mi!
+ Que porqu'em vs me perdi,
+ Em vs me busque a doena.
+ Claro est,
+ Que em vs s me achar;
+ Qu'em mi, se me vem buscar,
+ No poder mais achar,
+ Que a frma do que foi ja.
+
+ Que s'em vs Amor se ps,
+ Senhora, he forado assi,
+ Que o mal, que me busca a mi,
+ Que vos faa mal a vs.
+ Sem mentir,
+ Amor me quiz destruir
+ Por modo nunca cuidado,
+ Pois ha de ser ja forado
+ Pezar-vos de vos servir.
+
+ Mas sois to desconhecida,
+ E so meus males de sorte,
+ Que vos ameaa a morte,
+ Porque me negais a vida.
+ Se por boa
+ Tal justia se pregoa;
+ Quando desta sorte for,
+ Havei vs perdo de Amor,
+ Que a parte ja vos perdoa.
+
+ Mas o que mais temo, emfim,
+ He que nesta differena,
+ Que se no torne a doena,
+ Se me no tornais a mim.
+ De verdade,
+ Que ja vossa humanidade
+ De que se queixe no tem;
+ Pois para as almas tambem
+ Fez Amor enfermidade.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA VESTIDA DE D.
+
+_Mote._
+
+ De atormentado e perdido,
+ Ja vos no peo, seno
+ Que tenhais no corao
+ O que tendes no vestido.
+
+_Volta._
+
+ Se de d vestida andais
+ Por quem ja vida no tem
+ Porque no o haveis de quem
+ Vs tantas vezes matais?
+ Que brado sem ser ouvido,
+ E nunca vejo seno
+ Cruezas no corao,
+ E grande d no vestido.
+
+ * * * * *
+
+
+A DONA GUIOMAR DE BLASF, QUEIMANDO-SE COM HUMA VLA NO ROSTO.
+
+_Mote._
+
+ Amor, que todos offende,
+ Teve, Senhora, por gsto,
+ Que sentisse o vosso rosto
+ O que nas almas accende.
+
+_Volta._
+
+ Aquelle rosto que traz
+ O mundo todo abrazado,
+ Se foi da flamma tocado,
+ Foi porque sinta o que faz.
+ Bem sei que Amor se vos rende;
+ Porm o seu presupposto
+ Foi sentir o vosso rosto
+ O que nas almas accende.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA MULHER, AOUTADA POR HUM HOMEM, QUE CHAMAVO QUARESMA.
+
+_Mote._
+
+ No estejais aggravada,
+ Seno se for de vs mesma;
+ Porqu'a mulher, que he errada,
+ Com razo pela Quaresma
+ Deve ser disciplinada.
+
+_Voltas._
+
+ Quererdes profano amor
+ Em Quaresma, he consciencia:
+ Aoutes e penitencia
+ Vos est muito melhor.
+ No fiqueis disto affrontada,
+ Pois a culpa he vossa mesma;
+ Que mulher, que he to malvada,
+ He bem que pela Quaresma
+ Seja bem disciplinada.
+
+ Se a penitencia vos val,
+ Mui bem aoutada estais;
+ Pois por Quaresma pagais
+ Vossos vicios do carnal.
+ No torneis a ser errada,
+ Nem condemneis a vs mesma,
+ Pois estais ja emendada;
+ E no sereis por Quaresma
+ Outra vez disciplinada.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, QUE LHE PROMETTEO.
+
+ Quem no mundo quizer ser
+ Havido por singular,
+ Para mais s'engrandecer,
+ Ha de trazer sempre o dar
+ Nas ancas do prometter.
+ E ja que vossa merc,
+ Largueza tee por divisa,
+ Como o mundo todo v,
+ Ha mister que tanto d,
+ Que venha a dar a camisa.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME FO DOS ANJOS
+
+_Mote._
+
+ Senhora, pois me chamais
+ To sem razo to mo nome,
+ Inda o diabo vos tome.
+
+_Voltas._
+
+ Quem quer que vio, ou que leo,
+ Ter por novo e moderno,
+ Ter quem vive no inferno,
+ O pensamento no ceo.
+ Mas se a vs vos pareceo,
+ Que m'estava bem tal nome,
+ Esse diabo vos tome.
+
+ Perdido mais que ninguem
+ Confesso, Senhora, ser;
+ Mas o diabo no quer
+ Aos Anjos tamanho bem.
+ Pois logo no me convem,
+ Ou se me convem tal nome,
+ Ser para que vos tome.
+
+ Se vos benzeis com cautella,
+ Como de Anjo, e no de luz,
+ Mal pde fugir da Cruz,
+ Quem vs tendes psto nella.
+ Mas ja que foi minha estrella
+ Ser diabo, e ter tal nome,
+ Guardae-vos, que vos no tome.
+
+ Ja que chegais tanto ao cabo,
+ Com as mos, postas aos ceos
+ Vou sempre pedindo a Deos,
+ Que vos leve este diabo.
+ Eu, Senhora, no me gabo;
+ Mas pois que me dais tal nome,
+ Tomo-o, para que vos tome.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUM AMIGO, QUE NO PODIA ENCONTRAR.
+
+_Mote._
+
+ Qual ter culpa de ns
+ Neste mal, que todo he meu?
+ Quando vindes, no vou eu,
+ Quando vou, no vindes vs.
+
+_Volta._
+
+ Reinando Amor em dous peitos,
+ Tece tantas falsidades,
+ Que de conformes vontades
+ Faz desconformes effeitos.
+ Igualmente vive em ns;
+ Mas por desconcrto seu
+ Vos leva, se venho eu,
+ Me leva, se vindes vs.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE SEU.
+
+ Descala vai pela neve:
+ Assi faz quem Amor serve.
+
+_Voltas._
+
+ Os privilegios, que os Reis
+ No pdem dar, pde amor,
+ Que faz qualquer amador
+ Livre das humanas leis.
+ Mortes e guerras crueis,
+ Ferro, frio, fogo e neve,
+ Tudo soffre quem o serve.
+
+ Moa formosa despreza
+ Todo o frio, e toda a dor.
+ Olhae quanto pde Amor
+ Mais que a propria natureza.
+ Medo, nem delicadeza
+ Lh'impede que passe a neve.
+ Assi faz quem Amor serve.
+
+ Por mais trabalhos que leve,
+ A tudo se off'receria;
+ Passa pela neve fria,
+ Mais alva que a propria neve;
+ Com todo frio se atreve.
+ Vde em que fogo ferve
+ O triste, que a Amor serve.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO ALHEIO
+
+ A dor que a minha alma sente,
+ No na sabe toda a gente.
+
+_Voltas._
+
+ Qu'estranho caso de Amor!
+ Que desejado tormento!
+ Que venho a ser avarento
+ Das dores de minha dor!
+ Por me no tratar peor,
+ Se se sabe, ou se se sente,
+ No na digo a toda a gente.
+
+ Minha dor e causa della
+ De ninguem ouso fiar;
+ Que sera aventurar
+ A perder-me, ou a perdella.
+ E pois s com padecella,
+ A minha alma est contente,
+ No quero que o saiba a gente.
+
+ Ande no peito escondida,
+ Dentro n'alma sepultada;
+ De mi s seja chorada,
+ De ninguem seja sentida.
+ Ou me mate, ou me d vida,
+ Ou viva triste ou contente,
+ No ma saiba toda a gente.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ D'alma, e de quanto tiver,
+ Quero que me despojeis,
+ Com tanto, que me deixeis
+ Os olhos para vos ver.
+
+_Volta._
+
+ Cousa este corpo no tem,
+ Que ja no tenhais rendida:
+ Despois de tirar-lhe a vida,
+ Tirae-lhe a morte tambem.
+ Se mais tenho que perder,
+ Mais quero que me leveis,
+ Com tanto que me deixeis
+ Os olhos para vos ver.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Amores de huma casada,
+ Que eu vi pelo meu mal.
+
+_Voltas._
+
+ N'huma casada fui pr
+ Os olhos, de si senhores:
+ Cuidei que fossem amores,
+ Elles fizero-se amor.
+ Faz-se o desejo maior
+ Donde o remedio no val,
+ Em perigo de meu mal.
+
+ No me paraceo que Amor
+ Pudesse tanto comigo,
+ Que donde entra por amigo,
+ Se levante por senhor.
+ Leva-me de dor em dor,
+ E de final em final,
+ Cada vez para mor mal.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ Enforquei minha esperana;
+ Mas Amor foi to madrao,
+ Que lhe cortou o barao.
+
+_Volta._
+
+ Foi a esperana julgada
+ Por sentena da Ventura,
+ Que pois me leve pendura,
+ Que fosse dependurada:
+ Vem Cupido com a espada,
+ Corta-lhe cerce o barao.
+ Cupido, foste madrao.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ Puz o corao nos olhos,
+ E os olhos puz no cho,
+ Por vingar o corao.
+
+_Volta._
+
+ O corao invejoso
+ Como dos olhos andava,
+ Sempre remoques me dava
+ Que no era o meu mimoso:
+ Venho eu de piedoso
+ Do Senhor meu corao,
+ E boto os olhos no cho.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO SEU
+
+ Puz meus olhos n'huma funda,
+ E fiz hum tiro com ella
+ s grades d'huma janella.
+
+_Volta._
+
+ Huma Dama, de malvada,
+ Tomou seus olhos na mo;
+ E tirou-me huma pedrada
+ Com elles ao corao.
+ Armei minha funda ento,
+ E puz os meus olhos nella,
+ Trape, quebrei-lhe a janella.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ De pequena tomei amor,
+ Porque o no entendi;
+ Agora que o conheci,
+ Mata-me com desfavor.
+
+_Voltas._
+
+ Vi-o moo e pequenino,
+ E a mesma idade ensina
+ Que s'incline huma menina
+ s amostras d'hum menino:
+ Ouvi-lhe chamar Amor,
+ Pelo nome me venci;
+ Nunca tal engano vi,
+ Nem tamanho desamor.
+
+ Cresceo-me de dia em dia
+ Com a idade a affeio,
+ Porque amor de criao,
+ N'alma, e na vida se cria.
+ Criou-se em mi este amor,
+ E senhoreou-se de mi:
+ Agora que o conheci,
+ Mata-me com desfavor.
+
+ As flores me torna abrolhos,
+ A morte me determina
+ Quem eu trouxe de menina
+ Nas meninas de meus olhos.
+ Desta mgoa e desta dor
+ Tenho sabido que emfim
+ Por amor me perco a mim
+ Por quem de mi perde amor.
+
+ Parece ser caso estranho
+ O que Amor em mi ordena,
+ Qu'em idade to pequena
+ Haja tormento tamanho.
+ Sejo milagres d'Amor,
+ Hei-os de soffrer assi,
+ At que haja d de mi
+ Quem entender esta dor.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA VELHA.
+
+ Apartro-se os meus olhos
+ De mi to longe.
+ Falsos amores,
+ Falsos, maos, enganadores.
+
+_Voltas._
+
+ Tratro-me com cautella,
+ Por m'enganar mais asinha;
+ Dei-lhe posse d'alma minha,
+ Foro-me fugir com ella.
+ No ha v-los, nem ha vella,
+ De mi to longe.
+ Falsos amores,
+ Falsos, maos, enganadores!
+
+ Entreguei-lhe a liberdade,
+ E, emfim, da vida o melhor;
+ Foro-se; e do desamor
+ Fizero necessidade.
+ Quem teve a sua vontade
+ De si to longe?
+ Falsos amores,
+ E oxal enganadores!
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRA.
+
+ Falso Cavalheiro, ingrato,
+ Enganais-me,
+ Vs dizeis, que eu vos mato,
+ E vs matais-me.
+
+_Voltas._
+
+ Costumadas artes so
+ Para enganar innocencias,
+ Piedosas apparencias
+ Sbre isento corao.
+ Eu vos amo, e vs ingrato
+ Magoais-me,
+ Dizendo, que eu vos mato,
+ E vs matais-me.
+
+ Vde agora qual de ns
+ Anda mais perto do fim,
+ Que a justia faz-se em mim,
+ E o prego diz que sois vs.
+ Quando mais verdade trato
+ Levantais-me
+ Que vos desamo e vos mato,
+ E vs matais-me.
+
+ * * * * *
+
+
+PROPRIO.
+
+ Se de meu mal me contento,
+ He porque para vs vejo
+ Em todo o mundo desejo,
+ E em ninguem merecimento.
+
+_Volta._
+
+ Para quem vos soube olhar
+ To impossivel foi ser
+ O poder-vos merecer,
+ Como o no vos desejar.
+ Pois logo a meu pensamento
+ Nenhum remedio lhe vejo,
+ Seno se der o desejo
+ Azas ao merecimento.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vs, Senhora, tudo tendes,
+ Seno que tendes os olhos verdes.
+
+_Voltas._
+
+ Dotou em vs natureza
+ O summo da perfeio;
+ Que o qu'em vs he seno,
+ He em outras gentileza:
+ O verde no se despreza,
+ Que, agora que vs os tendes,
+ So bellos os olhos verdes.
+
+ Ouro e azul he a melhor
+ Cr, por que a gente se perde;
+ Mas a graa desse verde
+ Tira a graa a toda cr.
+ Fica agora sendo a flor
+ A cr, que nos olhos tendes,
+ Porque so vossos e verdes.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Para que me dan tormento,
+ Aprovechando tan poco?
+ Perdido, mas no tan loco,
+ Que descubra lo que siento.
+
+_Voltas._
+
+ Tiempo perdido es aquel
+ Que se passa en darme afan,
+ Pues cuanto ms me lo dan,
+ Tanto menos siento dl.
+ Que descubra lo que siento?
+ No lo har, que no es tan poco;
+ Que no puede ser tan loco
+ Quien tiene tal pensamiento.
+
+ Sepan que me manda Amor,
+ Que de tan dulce querella,
+ A nadie d parte della,
+ Porque la sienta mayor.
+ Es tan dulce mi tormento,
+ Que aun se me antoja poco;
+ Y si es mucho, quedo loco
+ De gusto de lo que siento.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ De vuestros ojos centellas,
+ Que encienden pechos de hielo,
+ Suben por el aire al cielo,
+ Y en llegando son estrellas.
+
+_Voltas._
+
+ Falsos loores os dan,
+ Que essas centellas tan raras
+ No son nel cielo mas claras
+ Que en los ojos donde estan.
+ Porque cuando miro en ellas
+ Lo como alumbran al suelo,
+ No s que seran nel cielo;
+ Mas s que ac son estrellas.
+
+ Ni se puede presumir
+ Que al cielo suban, Seora;
+ Que la lumbre que en vs mora,
+ No tiene ms que subir;
+ Mas pienso que dan querellas
+ Dios nel octavo cielo,
+ Porque son ac en el suelo
+ Dos tan hermosas estrellas.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ De dentro tengo mi mal,
+ Que de fuera no hay seal.
+
+_Volta._
+
+ Mi nueva y dulce querella
+ Es invisible la gente;
+ El alma sola la siente,
+ Que el cuerpo no es dino della.
+ Como la viva centella
+ Se encubre en el pedernal,
+ De dentro tengo mi mal.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Amor loco, amor loco,
+ Yo por vs, y vs por otro.
+
+_Voltas._
+
+ Dime Amor tormentos ds,
+ Para que pene doblado;
+ Uno es verme desamado,
+ Otro es mancilla de vs.
+ Ved que ordena Amor en ns!
+ Porque vs haceisme loco,
+ Que seais loca por otro.
+
+ Tratais Amor de manera,
+ Que porque asi me tratais,
+ Quiere que, pues no me amais,
+ Que ameis otro que no os quiera.
+ Mas con todo, si no os viera
+ De todo loca por otro,
+ Con mas razon fuera loco.
+
+ Y tan contrario viviendo,
+ Alfin, alfin, conformamos;
+ Pues ambos a ds buscamos
+ Lo que mas nos v huyendo.
+ Voy tras vs siempre siguiendo,
+ Y vs huyendo por otro:
+ Andais loca, y me haceis loco.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vde bem se nos meus dias
+ Os desgostos vi sobejos,
+ Pois tenho medo a desejos,
+ E quero mal a alegrias.
+
+_Volta._
+
+ Se desejos fui ja ter,
+ Servro de atormentar-me;
+ Se algum bem pde alegrar-me,
+ Quiz-me antes entristecer.
+ Passei annos, passei dias
+ Em desgostos to sobejos,
+ Que s por no ter desejos,
+ Perderei mil alegrias.
+
+ * * * * *
+
+
+PROPIO.
+
+ Pois he mais vosso que meu,
+ Senhora, meu corao,
+ Eu vosso captivo so,
+ Meus olhos, lembre-vos eu.
+
+_Volta._
+
+ Lembre-vos minha tristeza,
+ Que jamais nunca me deixa;
+ Lembre-vos com quanta queixa
+ Se queixa minha firmeza:
+ Lembre-vos que no he meu
+ Este triste corao;
+ E pois ha tanta razo,
+ Meus olhos, lembre-vos eu.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO.
+
+ Senhora, pois minha vida
+ Tendes em vosso poder;
+ Por serdes della servida,
+ No queirais que destruida
+ Possa ser.
+
+_Volta._
+
+ Isto no por me pezar
+ De morrer, se vs quizerdes;
+ Que melhor me he acabar
+ Mil vezes, que supportar
+ Os males que me fizerdes;
+ Mas s por serdes servida
+ De mi, em quanto viver,
+ Vos peo que minha vida
+ No queirais que destruida
+ Possa ser.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO.
+
+ Pois damno me faz olhar-vos,
+ No quero, por no perder-vos,
+ Que ninguem me veja ver-vos.
+
+_Voltas._
+
+ De ver-vos a no vos ver
+ Ha dous extremos mortaes;
+ E so elles em si taes,
+ Que hum por hum me faz morrer;
+ Mas antes quero escolher,
+ Que possa viver sem ver-vos,
+ Minh'alma, por no perder-vos.
+
+ Deste tamanho perigo
+ Que remedio posso ter,
+ Se vivo s com vos ver,
+ Se vos no vejo, perigo?
+ Mas quero acabar comigo,
+ Que ninguem me veja ver-vos,
+ Senhora, por no perder-vos.
+
+ * * * * *
+
+
+A TRES DAMAS, QUE LHE DIZIO QUE O AMAVO.
+
+_Mote._
+
+ No sei se m'engana Helena,
+ Se Maria, se Joanna;
+ No sei qual dellas m'engana.
+
+_Voltas._
+
+ Huma diz que me quer bem,
+ Outra jura que me quer;
+ Mas em jura de mulher
+ Quem crer, se ellas no crem?
+ No posso no crer a Helena,
+ A Maria, nem Joanna;
+ Mas no sei qual mais m'engana.
+
+ Huma faz-me juramentos
+ Que s meu amor estima,
+ A outra diz que se fina,
+ Joanna, que bebe os ventos.
+ Se cuido que mente Helena,
+ Tambem mentir Joanna;
+ Mas quem mente no m'engana.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA MAL EMPREGADA.
+
+_Mote._
+
+ Menina, no sei dizer,
+ Vendo-vos to acabada,
+ Quo triste estou por vos ver
+ Formosa e mal empregada.
+
+_Voltas._
+
+ Quem to mal vos empregou,
+ Pouco de mi se dohia,
+ Pois no vio o quanto me hia
+ Em tirar-me o que tirou.
+ Obriga o primor que tem
+ Lindeza to extremada
+ Que digo quantos a vem,
+ Formosa e mal empregada!
+
+ Tomastes da formosura
+ Quanto della desejastes,
+ E com ella me guardastes
+ Para to triste ventura.
+ Mataveis sendo solteira,
+ Matais agora em casada;
+ Matais de toda a maneira,
+ Formosa e mal empregada.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA Foa Gonalves.
+
+_Mote._
+
+ Com vossos olhos, Gonalves,
+ Senhora, captivo tendes
+ Este meu corao Mendes.
+
+_Volta._
+
+ Eu sou boa testimunha,
+ Que Amor tem por cousa m,
+ Que olhos, que so homens ja,
+ Se nomeiem sem alcunha;
+ Pois o corao apunha,
+ E diz, olhos, pois vs tendes,
+ Chamae-me corao Mendes.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO
+
+ De que me serve fugir
+ De morte, dor e perigo,
+ Se me eu levo comigo?
+
+_Voltas._
+
+ Tenho-me persuadido,
+ Por razo conveniente,
+ Que no posso ser contente,
+ Pois que pude ser nascido.
+ Anda sempre to unido
+ O meu tormento comigo,
+ Qu'eu mesmo sou meu perigo.
+
+ E se de mi me livrasse,
+ Nenhum gsto me sera:
+ Quem, seno eu, no teria
+ Mal, que esse bem me tirasse?
+ Fra he logo que assi passe,
+ Ou com desgsto comigo,
+ Ou sem gsto e sem perigo.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.
+
+ Quando me quer enganar
+ A minha bella perjura,
+ Para mais me confirmar
+ O que quer certificar,
+ Polos seus olhos me jura.
+ Como meu contentamento
+ Todo se rege por elles,
+ Imagina o pensamento,
+ Que se faz aggravo a elles
+ No crer to gro juramento.
+
+ Porm como em casos tais
+ Ando ja visto e corrente,
+ Sem outros certos sinais,
+ Quanto me ella jura mais,
+ Tanto mais cuido que mente.
+ Ento vendo-lhe offender
+ Huns taes olhos como aquelles,
+ Deixo-me antes tudo crer,
+ S pola no constranger
+ A jurar falso por elles.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Ha hum bem, que chega e foge;
+ E chama-se este bem tal,
+ Ter bem para sentir mal.
+
+_Volta._
+
+ Quem viveo sempre n'hum ser,
+ Inda que seja em pobreza,
+ No vio o bem da riqueza,
+ Nem o mal d'empobrecer:
+ No ganhou para perder;
+ Mas ganhou com vida igual
+ No ter bem, nem sentir mal.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.
+
+_Mote._
+
+ Olhos, no vos mereci
+ Que tenhais tal condio,
+ To liberaes para o cho,
+ To irosos para mi.
+
+_Volta._
+
+ Baixos e honestos andais,
+ Por vos negardes a quem
+ No quer mais que aquelle bem,
+ Que vs no cho espalhais?
+ Se pouco vos mereci,
+ No m'estimeis mais que o cho,
+ A quem vs o galardo
+ Dais, e mo negais a mi.
+
+ * * * * *
+
+
+PROPRIO.
+
+ Venceo-me Amor, no o nego;
+ Tee mais fra qu'eu assaz;
+ Que como he cego e rapaz,
+ D-me porrada de cego.
+
+_Volta._
+
+ S porque he rapaz ruim,
+ Dei-lhe hum bofte zombando.
+ Diz-me: mao, estais me dando,
+ Porque sois maior que mim?
+ Pois se eu vos descarrgo,
+ E em dizendo isto, chaz;
+ Torna-me outra; t rapaz,
+ Que ds porrada de cego.
+
+ * * * * *
+
+
+AO DESCONCERTO DO MUNDO.
+
+ Os bons vi sempre passar
+ No mundo graves tormentos;
+ E para mais m'espantar,
+ Os maos vi sempre nadar
+ Em mar de contentamentos.
+ Cuidando alcanar assi
+ O bem to mal ordenado,
+ Fui mao; mas fui castigado.
+ Assi, que s para mi
+ Anda o mundo concertado.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.
+
+_Mote._
+
+ Perguntais-me, quem me mata?
+ No quero responder nada,
+ Por vos no fazer culpada.
+
+_Volta._
+
+ E se a penna no me atia,
+ A dizer pena to forte,
+ Quero-me entregar morte,
+ Antes que a vs justia.
+ Porm se tendes cobia
+ De vos verdes to culpada,
+ Direi que no sinto nada.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Esconjuro-te, Domingas,
+ Pois me ds tanto cuidado,
+ Que me digas se te vingas,
+ Viverei menos penado.
+
+_Voltas._
+
+ Juravas-me, que outras cabras
+ Folgavas de apascentar;
+ Eu por no me magoar,
+ Fingia qu'ero palabras.
+ Agora d'arte te vingas
+ D'algum meu doudo peccado,
+ Qu'inda que queiras, Domingas,
+ No posso ser enganado.
+
+ Qualquer cousa busca o seu;
+ A fonte vai para o Tejo,
+ E tu para o teu desejo,
+ Por te vingares do meu.
+ De mi t'esqueces, Domingas,
+ Como eu fao do meu gado:
+ Praza a Deos, que se te vingas,
+ Que morra desesperado.
+
+ Na phantasia te pinto,
+ Fallo-te, responde o monte,
+ Busco o rio, busco a fonte,
+ Endoudeo, e no o sinto:
+ Domingas no valle brado,
+ Responde o eco Domingas;
+ E tu inda te no vingas
+ De me ver doudo tornado!
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Se a alma ver-se no pde
+ Onde pensamentos ferem,
+ Que farei para me crerem?
+
+_Voltas._
+
+ Se n'alma huma s ferida
+ Faz na vida mil sinais,
+ Tanto se descobre mais,
+ Quanto he mais escondida.
+ S'esta dor to conhecida
+ Me no vem, porque no querem,
+ Que farei para ma crerem?
+
+ Se se pudesse bem ver
+ Quanto callo, e quanto sento,
+ Despois de tanto tormento
+ Cuidaria alegre ser.
+ Mas se no me querem crer
+ Olhos, que to mal me ferem,
+ Que farei para me crerem?
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vosso bem querer, Senhora,
+ Vosso mal melhor me fra.
+
+_Voltas._
+
+ Ja agora certo conheo
+ Ser melhor todo tormento,
+ Onde o arrependimento
+ Se compra por justo preo.
+ Enganou-me hum bom como;
+ Mas o fim me diz agora
+ Que o mal melhor me fra.
+
+ Quando hum bem he to damnoso,
+ Que sendo bem, d cuidado,
+ O damno fica obrigado
+ A ser menos perigoso.
+ Mas se a mi por desditoso,
+ Co'o bem me foi mal, Senhora,
+ Co'o vosso mal bem me fra.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Se me desta terra for,
+ Eu vos levarei, amor.
+
+_Voltas._
+
+ Se me for, e vos deixar,
+ (Ponho por caso, que possa)
+ Est'alma minha, qu'he vossa,
+ Comvosco m'ha de ficar.
+ Assi que s por levar
+ A minha alma, se me for,
+ Vos levarei, meu amor.
+
+ Que mal pde maltratar-me,
+ Que comvosco seja mal?
+ Ou que bem pde ser tal,
+ Que sem vs possa alegrar-me?
+ O mal no pde enojar-me,
+ O bem me ser maior,
+ Se vos levar, meu amor.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Pequenos contentamentos,
+ Hi buscar quem contenteis,
+ Que a mi no me conheceis.
+
+_Voltas._
+
+ Os gostos, que tantas dores
+ Fizero ja valer menos,
+ No os acceita pequenos,
+ Quem nunca teve maiores:
+ Bem parecem vos favores,
+ Pois to tarde me quereis,
+ Qu'inda me no conheceis.
+
+ Offereceis-me alegria,
+ Tendo-me ja cego e mouco:
+ He baixeza acceitar pouco,
+ Quem tanto vos merecia.
+ Ide-vos por outra via,
+ Pois o bem que me deveis,
+ Nunca mo satisfareis.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Perdigo perdeo a penna,
+ No ha mal que lhe no venha.
+
+_Voltas._
+
+ Perdigo, que o pensamento
+ Subio a hum alto lugar,
+ Perde a penna do voar,
+ Ganha a pena do tormento:
+ No tee no ar, nem no vento,
+ Azas com que se sostenha:
+ No ha mal que lhe no venha.
+
+ Quiz voar a huma alta torre,
+ Mas achou-se desasado;
+ E vendo-se despennado,
+ De puro penado morre.
+ Se a queixumes se soccorre,
+ Lana no fogo mais lenha:
+ No ha mal que lhe no venha.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA.
+
+ Pois a tantas perdies,
+ Senhoras, quereis dar vida,
+ Ditosa seja a ferida,
+ Que tee taes Cirurgies!
+ Pois ventura
+ Me subio a tanta altura,
+ Que me sejais valedoras,
+ Ditosa seja a tristura,
+ Que se cura
+ Por vossos rogos, Senhoras!
+
+ Ser minha pena mortal,
+ Ja qu'entendeis, que he assi,
+ No quero fallar por mi,
+ Que por mi falla meu mal.
+ Sois formosas,
+ Haveis de ser piedosas,
+ Por ser tudo d'huma cr;
+ Que pois Amor vos fez rosas
+ Milagrosas,
+ Fazei milagres de Amor.
+
+ Pedi a quem vs sabeis,
+ Que saiba de meu trabalho,
+ No pelo qu'eu nisso valho,
+ Mas pelo que vs valeis.
+ Que o valer
+ De vosso alto merecer,
+ Com lho pedir de giolhos,
+ Fara qu'em meu padecer
+ Possa ver
+ O poder que tee seus olhos.
+
+ Vossa muita formosura
+ Com a sua tanto val,
+ Que me rio de meu mal,
+ Quando cuido em quem me cura.
+ A meus ais,
+ Peo-vos que lhe valhais,
+ Damas de Amor to valdas,
+ Que nunca tal dor sintais,
+ Que queirais,
+ Onde no sejais queridas.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA ALHEIA.
+
+ Na fonte est Leonor
+ Lavando a talha, e chorando,
+ s amigas perguntando:
+ Vistes l o meu amor?
+
+_Voltas._
+
+ Psto o pensamento nelle,
+ Porque a tudo o Amor a obriga,
+ Cantava, mas a cantiga
+ Ero suspiros por elle.
+ Nisto estava Leonor
+ O seu desejo enganando,
+ s amigas perguntando:
+ Vistes l o meu amor?
+
+ O rosto sbre hua mo,
+ Os olhos no cho pregados,
+ Que de chorar ja cansados,
+ Algum descanso lhe do;
+ Desta sorte Leonor
+ Suspende de quando em quando
+ Sua dor; e em si tornando,
+ Mais pezada sente a dor.
+
+ No deita dos olhos goa,
+ Que no quer que a dor s'abrande
+ Amor, porque em mgoa grande
+ Scca as lagrimas a mgoa.
+ Despois que de seu amor
+ Soube novas perguntando,
+ D'improviso a vi chorando.
+ Olhae que extremos de dor!
+
+ * * * * *
+
+
+ESTAS TROVAS MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA
+DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO D.
+FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FRA, PEDINDO-LHE O
+FIZESSE DESEMBARGAR.
+
+ Que diabo ha to damnado,
+ Que no tema a cutilada
+ Dos fios seccos da espada
+ Do fero Miguel armado?
+ Pois se tanto hum golpe seu
+ Sa na infernal cadeia;
+ Do que o demonio arreceia
+ Como no fugirei eu?
+
+ Com razo lhe fugiria,
+ Se contr'elle, e contra tudo
+ No tivesse hum forte escudo
+ S em Vossa Senhoria.
+ Por tanto, Senhor, proveja,
+ Pois me tee ao remo atado,
+ Que antes que seja embarcado,
+ Eu desembargado seja.
+
+ * * * * *
+
+
+ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, INVERNANDO EM GOA.
+
+ Vossa Senhoria creia
+ Que no apura o engenho
+ Fome, se he como a que tenho,
+ Mas afraca e corta a veia.
+ E quem o contrrio sente,
+ Est farto em toda a hora,
+ Como estou faminto agora:
+ Mas Martha, se est contente,
+ D-lhe pouco de quem chora.
+
+ E pois Vossa Senhoria
+ Em geral a tudo acode,
+ Acuda a mi, que s pde
+ Dar-me no engenho valia.
+ Esperte esta Musa minha,
+ Que o tempo traz somnolenta;
+ Valha-lhe nesta tormenta
+ Com essa doce mzinha,
+ Que s d vida e contenta.
+
+ Acuda com proviso,
+ No de papel, mas provda
+ D'ouro e prata; que esta vida
+ No sustento papis, no.
+ De feitor a thesoureiro
+ Ser-me-hia trabalho grande;
+ Vossa Senhoria mande
+ Algum remedio, primeiro,
+ Com que a morte o ferro abrande.
+
+_Ajuda de Luis de Cames._
+
+ Nos livros doutos se trata
+ Que o grande Achilles insano
+ Deo a morte a Heitor Troiano;
+ Mas agora a fome mata
+ O nosso Heitor Lusitano.
+ S ella o pde acabar,
+ Se essa vossa condio
+ Liberal e singular
+ No mete entr'elles basto,
+ Bastante para o fartar.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.
+
+_Esparsa._
+
+ No posso chegar ao cabo
+ De tamanho desarranjo,
+ Que sendo vs, Senhora, Anjo,
+ Vos queira tanto o Diabo.
+ Dais manifesto sinal
+ De minha muita firmeza,
+ Que os diabos querem mal
+ Aos Anjos por natureza.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA.
+
+ Vi chorar huns claros olhos,
+ Quando delles me partia.
+ Oh que mgoa! Oh que alegria!
+
+_Voltas._
+
+ Polo meu apartamento
+ Se arrazro todos d'goa.
+ Quem cuidou qu'em tanta mgoa
+ Achasse contentamento?
+ Julgue todo entendimento
+ Qual mais sentir se devia,
+ Se esta dor, se esta alegria?
+
+ Quando mais perdido estive,
+ Ento deo a est'alma minha
+ Na maior mgoa que tinha,
+ O maior gsto que tive.
+ Assi, se minha alma vive,
+ Foi porque me defendia
+ Desta dor esta alegria?
+
+ O bem, que Amor me no deu
+ No tempo que desejei,
+ Quando delle me apartei,
+ Me confessou, qu'era meu.
+ Agora que farei eu,
+ Se a fortuna me desvia
+ De lograr esta alegria?
+
+ No sei se foi enganado,
+ Pois me tinha defendido
+ Das ras de mal querido,
+ No mal de ser apartado.
+ Agora peno dobrado,
+ Achando no fim do dia
+ O princpio da alegria.
+
+ * * * * *
+
+
+VILLANCETE PASTORIL.
+
+ Deos te salve, Vasco amigo.
+ No me fallas? Como assi?
+ Bof, Gil, no 'stava aqui.
+
+_Voltas._
+
+ Pois onde te ho de fallar,
+ Se no 'sts onde appareces?
+ Se Magdanela conheces,
+ Nella me pdes achar.
+ E como te ho d'ir buscar
+ Aonde fogem de ti?
+ Pois nem eu estou em mi.
+
+ Porque te no acharei
+ Em ti, como em Magdanela?
+ Porque me fui perder nella
+ O dia que me ganhei.
+ Quem to bem falla, no sei
+ Como anda fra de si.
+ Ella falla dentro em mi.
+
+ Como ests aqui presente,
+ Se l tens a alma e a vida?
+ Porqu'he d'hum'alma perdida
+ Apparecer sempre gente.
+ Se es morto, bem se consente
+ Que todos fujo de ti.
+ Eu tambem fujo de mi.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO PASTORIL.
+
+ Porque no miras, Giraldo,
+ Mi zampoa como suena?
+ Porque no me mira Elena.
+
+_Voltas._
+
+ Vuelve ac, no ests pasmado,
+ Mira que gentil sonar!
+ Como te podr mirar
+ Quien no puede ser mirado?
+ Y que bueno enamorado!
+ No dirs, si es mala, o buena?
+ No, que me hizo mudo Elena.
+
+ Mira tan dulce armona,
+ Djate dessos enojos.
+ Tengo clavados los ojos
+ Con que mirar te podia.
+ Ans Dios te d alegra:
+ No vs cuan dulce que suena?
+ No, porque no veo Elena.
+
+ * * * * *
+
+
+OUTRO PASTORIL.
+
+ Crescem, Camilla, os abrolhos
+ De chorares por Cincero:
+ No he muito, que lhe quero,
+ Belisa, mais que meus olhos.
+
+_Voltas._
+
+ Sempre os teus olhos esto,
+ Camilla, d'goas banhados.
+ De se verem desamados
+ Pde ser que choraro.
+ Si, mas crescem os abrolhos,
+ E tu cegas por Cincero.
+ S'eu no vejo quem mais quero,
+ Para que quero mais olhos?
+
+ Se se foi ha mais d'hum ms,
+ Teus olhos no cansaro?
+ No, que apos elle se vo
+ Estas lagrimas que vs.
+ Fazem logo estes abrolhos
+ O mato espinhoso e fero.
+ Pois eu no vejo a Cincero,
+ Isso s vero meus olhos.
+
+ Chorando queres morrer?
+ Mais quero viver chorando.
+ Tu no vs que vs cegando?
+ Se cego, como hei de ver?
+ Pe na vista outros antolhos.
+ No posso, nem menos quero.
+ Outra para outro Cincero,
+ Antes no quero ter olhos.
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES.
+
+_Mote._
+
+ Olhos, em qu'esto mil flores,
+ E com tanta graa olhais,
+ Que parece que os Amores
+ Moro onde vs morais.
+
+_Volta._
+
+ Vem-se rosas e boninas,
+ Olhos, nesse vosso ver;
+ Vem-se mil almas arder
+ No fogo dessas meninas.
+ E di-lo-ho minhas dores,
+ Meus suspiros e meus ais;
+ E diro mais, que os amores
+ Moro onde vs morais.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Quem se confia em huns olhos,
+ Nas meninas delles v
+ Que meninas no tee f.
+
+_Voltas._
+
+ Quem pe suas confianas
+ Em meninas sem assento,
+ Offerea o soffrimento
+ A duzentas mil mudanas.
+ Mostro no ar esperanas;
+ Mas em seus olhos se v
+ Como no tee n'alma f.
+
+ Engano ao parecer,
+ Porque no caso d'amar,
+ So mulheres no matar,
+ E meninas no querer.
+ Quem em seus olhos se crer,
+ Cem mil graas nelles v;
+ V-las sim, mas no ter f.
+
+ Amostro-vos n'hum momento
+ Favores assi a mlhos;
+ Mas na mudana dos olhos
+ Se lhe muda o pensamento.
+ Em nada ja tee assento,
+ E o que mais nelles se v
+ He formosura sem f.
+
+ * * * * *
+
+
+LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA.
+
+_Cantiga Velha._
+
+ Sois formosa, e tudo tendes,
+ Seno que tendes os olhos verdes,
+
+_Voltas._
+
+ Ninguem vos pde tirar
+ Serdes to bem assombrada;
+ Mas heis-me de perdoar,
+ Que os olhos no valem nada.
+ Fostes mal aconselhada
+ Em querer que fossem verdes:
+ Trabalhae de os esconderdes.
+
+ A vossa testa he jardim,
+ Onde Amor se desenfada;
+ He to branca e bem talhada,
+ Que parece de marfim.
+ Assi he; e quanto a mim,
+ Isso vos nasce de a terdes
+ To perto dos olhos verdes.
+
+ Os cabellos desatados
+ O mesmo sol escurecem;
+ Seno que por ser ondados,
+ Algum tanto desmerecem:
+ Mas f, que se parecem
+ A furto dos olhos verdes,
+ No vos peze, no, de os terdes.
+
+ As pestanas tee mostrado
+ Ser raios, que abrazo vidas:
+ Se no foro to compridas,
+ Tudo o mais era pintado:
+ Ellas me tinho levado
+ A alma, sem o vs saberdes,
+ Se no foro os olhos verdes.
+
+ O mimo desse caro
+ Nem pr-lhe os olhos consente:
+ O ser liso e transparente
+ Rouba todo o corao:
+ Inda assi achareis nao,
+ Que lhe no peze de os verdes;
+ Mas no seja co'os olhos verdes.
+
+ Esse riso, que he compsto
+ De quantas graas nascro,
+ Seno que alguns me dissero,
+ Vos faz covinhas no rsto.
+ Na vontade tenho posto
+ Dar-vos a alma, se quizerdes,
+ A trco dos olhos verdes.
+
+ Nunca se vio, nem se escreve
+ Boca co'huma graa igual,
+ Se no fra de coral,
+ E os dentes de cr de neve.
+ Dou-me eu a Deos, que me leve!
+ Soffrerei quanto tiverdes,
+ No me tenhais olhos verdes.
+
+ Essa garganta merece
+ Outras palavras no minhas,
+ Seno qu'he feita em rosquinhas
+ D'alfenim, ao que parece.
+ Eu sei bem quem se offerece
+ A tomar tudo o que tendes,
+ E tambem os olhos verdes.
+
+ Essas mos so ferropeas:
+ S o v-las enfeitia;
+ Seno que so alvas, cheias,
+ E tee a feio rolia;
+ Com que appellais por justia,
+ Para com ellas prenderdes
+ Quem v vossos olhos verdes.
+
+ A vossa galantaria
+ Matar a quem fallardes:
+ Tendes huns desdens e tardes,
+ Que eu logo vos roubaria.
+ Oh dou-me a Santa Maria!
+ Sou cujo de quanto tendes,
+ E tambem desses olhos verdes.
+
+ * * * * *
+
+
+AO MESMO.
+
+ Tudo tendes singular,
+ Com que os coraes rendeis,
+ Seno que rindo, fazeis
+ Covinhas para enterrar:
+ E para resuscitar
+ Tee fora a graa que tendes;
+ Seno que tendes os olhos verdes.
+
+ Tudo, Senhora, alcanais,
+ Quanto o ser formosa alcana,
+ Seno que dais esperana
+ Co'os olhos com que matais.
+ Se acaso os alevantais,
+ He para as almas renderdes;
+ Seno que tendes os olhos verdes.
+
+ * * * * *
+
+
+A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS
+GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR
+PRINCPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA.
+
+ Cinco gallinhas e meia
+ Deve o Senhor de Cascais;
+ E a meia vinha cheia
+ De appetite para as mais.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Catharina bem promette;
+ Ora m! como ella mente!
+
+_Voltas._
+
+ Catharina he mais formosa
+ Para mi, que a luz do dia;
+ Mas mais formosa sera,
+ Se no fosse mentirosa.
+ Hoje a vejo piedosa,
+ manha to differente,
+ Que sempre cuido que mente.
+
+ Prometteo-me hontem de vir,
+ Nunca mais appareceo;
+ Creio que no prometteo,
+ Seno s por me mentir.
+ Faz-me, emfim, chorar e rir;
+ Rio, quando me promette,
+ Mas chro quando me mente.
+
+ Jurou-me aquella cadella
+ De vir, pela alma que tinha;
+ Enganou-me; tinha a minha;
+ Deo-lhe pouco de perdella.
+ A vida gasto apos ella,
+ Porque ma d, se promette,
+ Mas tira-ma, quando mente.
+
+ M, mentirosa, malvada,
+ Dizei, porque me mentis?
+ Prometteis, e ento fugis?
+ Pois sem tornar, tudo he nada.
+ No sois bem aconselhada;
+ Que quem promette, se mente,
+ O que perde no o sente.
+
+ Tudo vos consentiria
+ Quanto quizesseis fazer,
+ Se este vosso prometter
+ Fosse por me ter hum dia.
+ Todo ento me desfaria
+ Com gsto; e vs de contente,
+ Zombarieis de quem mente.
+
+ Mas pois folgais de mentir,
+ Promettendo de me ver,
+ Eu vos deixo o prometter,
+ Deixae-me vs o servir:
+ Haveis ento de sentir
+ Quanto a minha vida sente
+ O servir a quem lhe mente.
+
+ Catharina me mentio
+ Muitas vezes, sem ter lei,
+ E todas lhe perdoei
+ Por huma s que cumprio.
+ Se como me consentio
+ Fallar-lhe, o mais me consente,
+ Nunca mais direi que mente.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ A alma, qu'est offrecida
+ A tudo, nada lhe he forte;
+ Assi passa o bem da vida,
+ Como passa o mal da morte.
+
+_Volta._
+
+ De maneira me succede
+ O que temo, e o que desejo,
+ Que sempre o que temo, vejo,
+ Nunca o que a vontade pede.
+ Tenho to offerecida
+ Alma e vida a toda a sorte,
+ Que isso me dera da morte,
+ Como ja me d da vida.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Ferro, fogo, frio e calma,
+ Todo o mundo acabaro;
+ Mas nunca vos tiraro,
+ Alma minha, da minha alma.
+
+_Volta._
+
+ No vos guardei, quando vinha,
+ Em trre, fra, ou engenho;
+ Que mais guardada vos tenho
+ Em vs, que sois alma minha.
+ Alli nem frio, nem calma,
+ No podem ter jurdio;
+ Na vida sim, porm no
+ Em vs que tenho por alma.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Esperei, ja no espero
+ De mais vos servir, Senhora;
+ Pois me fazeis cada hora
+ Tanto mal, que desespro.
+
+_Volta._
+
+ Pois sei certo que folgais,
+ Quando mais mal me fazeis,
+ E que nunca descansais,
+ Seno quando me mostrais
+ Quo pouco bem me quereis;
+ Servir-vos mais no espero
+ Pois meu viver empeora
+ Com me fazerdes, Senhora,
+ Tanto mal, que desespro.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Descala vai para a fonte
+ Leonor pela verdura;
+ Vai formosa, e no segura.
+
+_Voltas._
+
+ Leva na cabea o pote,
+ O testo nas mos de prata,
+ Cinta de fina escarlata,
+ Sainho de chamalote:
+ Traz a vasquinha de cote,
+ Mais branca que a neve pura;
+ Vai formosa, e no segura.
+
+ Descobre a touca a garganta,
+ Cabellos de ouro entranado,
+ Fita de cr d'encarnado,
+ To linda que o mundo espanta:
+ Chove nella graa tanta,
+ Que d graa formosura;
+ Vai formosa, e no segura.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Quem disser que a barca pende,
+ Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+
+_Voltas._
+
+ Se vos quereis embarcar,
+ E para isso estais no caes,
+ Entrae logo: que tardaes?
+ Olhae qu'est preamar:
+ E se outrem, por vos fretar,
+ Vos disser qu'esta que pende,
+ Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+
+ Esta barca he de carreira;
+ Tee seus apparelhos novos:
+ No ha como ella outra em Povos
+ Boa de leme, e veleira:
+ Mas, se por ser a primeira,
+ Vos disser alguem que pende,
+ Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Com razo queixar-me posso
+ De vs, que mal vos queixais;
+ Pois, Senhora, vos sangrais,
+ Que seja n'hum corpo vosso.
+
+_Voltas._
+
+ Eu para levar a palma,
+ Com que ser vosso merea,
+ Quero que o corpo padea
+ Por vs, que delle sois alma.
+ Vs do corpo vos queixais,
+ Eu queixar-me de vs posso,
+ Porque, tendo hum corpo vosso,
+ Na minha alma vos sangrais.
+
+ E sem fazer differena
+ No que de mi possuis,
+ Pelo pouco que sentis,
+ Dais minh'alma doena.
+ Porque dous aventurais?
+ Oh no seja o damno nosso!
+ Sangre-se este corpo vosso,
+ Porque, minha alma, vivais.
+
+ E inda, se attentardes bem,
+ Seguis medicina errada,
+ Porque para ser sangrada
+ Hum'alma sangue no tem.
+ E pois em mi sarar posso
+ Males, que minha alma dais,
+ Se inda outra vez vos sangrais,
+ Seja neste corpo vosso.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Ojos, herido me habeis,
+ Acabad ya de matarme;
+ Mas muerto volved mirarme,
+ Porque me resusciteis.
+
+_Voltas._
+
+ Pues me distes tal herida,
+ Con gana de darme muerte,
+ El morir me es dulce suerte,
+ Pues con morir me dais vida.
+ Ojos, qu os deteneis?
+ Acabad ya de matarme;
+ Mas muerto volved mirarme,
+ Porque me resusciteis.
+
+ La llaga cierto ya es mia,
+ Aunque, ojos, vs no querrais;
+ Mas si la muerte me dais,
+ El morir me es alegra.
+ Y as digo que acabeis,
+ O ojos, ya de matarme;
+ Mas muerto volved mirarme,
+ Porque me resusciteis.
+
+ * * * * *
+
+
+A DONA FRANCISCA DE ARAGO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO:
+
+ Mas porm a que cuidados?
+
+ Tanto maiores tormentos
+ Foro sempre os que soffri,
+ Daquillo que cabe em mi,
+ Que no sei que pensamentos
+ So os para que nasci.
+ Quando vejo este meu peito
+ A perigos arriscados
+ Inclinado, bem suspeito
+ Que a cuidados sou sujeito,
+ _Mas porm a que cuidados?_
+
+_Ao mesmo._
+
+ Que vindes em mi buscar,
+ Cuidados, que sou captivo?
+ Eu no tenho que vos dar:
+ Se vindes a me matar,
+ Ja ha muito que no vivo:
+ Se vindes, porque me dais
+ Tormentos desesperados,
+ Eu, que sempre soffri mais,
+ No digo que no venhais;
+ _Mas porm a que cuidados?_
+
+_Ao mesmo._
+
+ Se as penas que Amor me deu,
+ Vem por to suaves meios,
+ No ha que temer receios;
+ Que val hum cuidado meu
+ Por mil descansos alheios.
+ Ter n'huns olhos to formosos
+ Os sentidos enlevados,
+ Bem sei qu'em baixos estados
+ So cuidados perigosos;
+ _Mas porm a que cuidados?..._
+
+_Carta com a glosa acima._
+
+Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sera assi mais
+seguro: mas agora que he servida de me tornar a resuscitar, por me
+mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de
+agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de
+novo me d, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, no me fica
+mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei
+tres entendimentos, segundo as palavras delle pudro soffrer: se forem
+bons, he mote de v. m.: se maos, so as glosas minhas.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Campos bem-aventurados,
+ Tornae-vos agora tristes;
+ Que os dias, em que me vistes,
+ Alegres ja so passados.
+
+_Glosa._
+
+ Campos cheios de prazer,
+ Vs qu'estais reverdecendo,
+ Ja m'alegrei com vos ver;
+ Agora venho a temer
+ Qu'entristeais em me vendo.
+ E pois a vista alegrais
+ Dos olhos desesperados,
+ No quero que me vejais,
+ Para que sempre sejais,
+ _Campos, bem-aventurados._
+
+ Porm se por accidente
+ Vos pezar de meu tormento,
+ Sabereis que Amor consente
+ Que tudo me descontente,
+ Seno descontentamento.
+ Por isso vs, arvoredos,
+ Que ja nos meus olhos vistes
+ Mais alegria, que medos,
+ Se mos quereis fazer ledos,
+ _Tornae-vos agora tristes._
+
+ Ja me vistes ledo ser,
+ Mas despois que o falso Amor
+ To triste me fez viver,
+ Ledos folgo de vos ver,
+ Porque me dobreis a dor.
+ E se este gsto sobejo
+ De minha dor me sentistes,
+ Julgae quanto mais desejo
+ As horas que vos no vejo,
+ _Que os dias em que me vistes._
+
+ O tempo, qu'he desigual,
+ De seccos, verdes vos tem;
+ Porqu'em vosso natural
+ Se muda o mal para o bem,
+ Mas o meu para mor mal.
+ Se perguntais, verdes prados,
+ Pelos tempos differentes
+ Que de Amor me foro dados,
+ Tristes, aqui so presentes,
+ _Alegres, ja so passados._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Trabalhos descansario
+ Se para vs trabalhasse;
+ Tempos tristes passario,
+ Se algum'hora vos lembrasse.
+
+_Glosa._
+
+ Nunca o prazer se conhece,
+ Seno despois da tormenta:
+ To pouco o bem permanece,
+ Que se o descanso florece,
+ Logo o trabalho arrebenta.
+ Sempre os bens se logrario,
+ Mas os males tudo atalho;
+ Porm ja que assi porfio,
+ Onde descansos trabalho,
+ _Trabalhos descansario._
+
+ Qualquer trabalho me fra
+ Por vs gro contentamento:
+ Nada sentira, Senhora,
+ Se vra disto algum'hora
+ Em vs hum conhecimento.
+ Por mal que o mal me tratasse,
+ Tudo por bem tomaria;
+ Postoque o corpo cansasse,
+ A alma descansaria,
+ _Se para vs trabalhasse._
+
+ Quem vossas cruezas ja
+ Soffreo, a tudo se poz;
+ Costumado ficar;
+ E muito melhor ser,
+ Se trabalhar para vs.
+ Tristezas esquecerio,
+ Postoque mal me tratro;
+ Annos no me lembrario,
+ Que como est'outros passaro,
+ _Tempos tristes passario._
+
+ Se fosse galardoado
+ Este trabalho to duro,
+ No vivra magoado.
+ Mas no o foi o passado,
+ Como o ser o futuro?
+ De cansar no cansaria,
+ Se quizereis, que cansasse;
+ Cavar, morrer, fa-lo-hia;
+ Tudo, emfim, esqueceria,
+ _Se algum'hora vos lembrasse._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Triste vida se me ordena,
+ Pois quer vossa condio
+ Que os males, que dais por pena,
+ Me fiquem por galardo.
+
+_Glosa._
+
+ Despois de sempre soffrer,
+ Senhora, vossas cruezas,
+ A pezar de meu querer,
+ Me quereis satisfazer
+ Meus servios com tristezas.
+ Mas, pois em balde resiste
+ Quem vossa vista condena,
+ Prestes estou para a pena;
+ Que de galardo to triste
+ _Triste vida se me ordena._
+
+ De contente do mal meu
+ A to grande extremo vim,
+ Que consinto em minha fim:
+ Assi que vs e mais eu,
+ Ambos somos contra mim.
+ Mas que soffra meu tormento,
+ Sem querer mais galardo,
+ No he fra de razo
+ Que queira meu soffrimento,
+ _Pois quer vossa condio._
+
+ O mal, que vs dais por bem,
+ Esse, Senhora, he mortal;
+ Que o mal, que dais como mal,
+ Em muito menos se tem,
+ Por costume natural.
+ Mas porm nesta victoria,
+ Que comigo he bem pequena,
+ A maior dor me condena
+ A pena, que dais por gloria,
+ _Que os males, que dais por pena._
+
+ Que mor bem me possa vir,
+ Que servir-vos, no o sei.
+ Pois que mais quero eu pedir,
+ Se quanto mais vos servir,
+ Tanto mais vos deverei?
+ Se vossos merecimentos
+ De to alta estima so,
+ Assaz de favor me do
+ Em querer que meus tormentos
+ _Me fiquem por galardo._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Ja no posso ser contente,
+ Tenho a esperana perdida;
+ Ando perdido entre a gente,
+ Nem morro, nem tenho vida.
+
+_Glosa._
+
+ Despois que meu cruel Fado
+ Destruio huma esperana,
+ Em que me vi levantado,
+ No mal fiquei sem mudana,
+ E do bem desesperado.
+ O corao, que isto sente,
+ sua dor no resiste,
+ Porque v mui claramente
+ Que pois nasci para triste,
+ _Ja no posso ser contente._
+
+ Por isso, contentamentos,
+ Fugi de quem vos despreza:
+ Ja fiz outros fundamentos,
+ Ja fiz senhora a tristeza
+ De todos meus pensamentos.
+ O menos que lh'entreguei,
+ Foi esta cansada vida:
+ Cuido que nisto acertei,
+ Porque de quanto esperei
+ _Tenho a esperana perdida._
+
+ Acabar de me perder
+ Fra ja muito melhor;
+ Tivera fim esta dor,
+ Que no podendo mor ser,
+ Cada vez a sinto mor.
+ De vs desejo esconder-me,
+ E de mi principalmente,
+ Onde ninguem possa ver-me;
+ Que pois me ganho em perder-me,
+ _Ando perdido entre a gente._
+
+ Gostos de mudanas cheios,
+ No me busqueis, no vos quero:
+ Tenho-vos por to alheios,
+ Que do bem que no espero,
+ Inda me fico receios.
+ Em pena to sem medida,
+ Em tormento to esquivo
+ Que morra, ninguem duvda;
+ Mas eu se morro, ou se vivo,
+ _Nem morro, nem tenho vida._
+
+ * * * * *
+
+
+A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA.
+
+_Mote._
+
+ A morte, pois que sou vosso,
+ No a quero; mas se vem,
+ Ha de ser todo meu bem.
+
+_Glosa._
+
+ Amor, qu'em meu pensamento
+ Com tanta f se fundou,
+ Me tee dado hum regimento,
+ Que quando vir meu tormento
+ Me salve com cujo sou.
+ E com esta defenso,
+ Com que tudo vencer posso,
+ Diz a causa ao corao:
+ No tee em mi jurdio
+ _A morte, pois que sou vosso._
+
+ Por exprimentar hum dia
+ Amor se me achava forte
+ Nesta f, como dizia,
+ Me convidou com a morte,
+ S por ver se a temeria.
+ E como ella seja a cousa
+ Onde est todo meu bem,
+ Respondi-lhe, como quem
+ Quer dizer mais, e no ousa:
+ _No a quero, mas se vem..._
+
+ No disse mais, porque ento
+ Entendeo quanto me toca;
+ E se tinha dito o no,
+ Muitas vezes diz a boca,
+ O que nega o corao.
+ Toda a cousa defendida
+ Em mais estima se tem:
+ Por isso he cousa sabida,
+ Que perder por vs a vida
+ _Ha de ser todo meu bem._
+
+ * * * * *
+
+
+ MESMA DAMA.
+
+ Vejo-a n'alma pintada,
+ Quando me pede o desejo
+ O natural que no vejo.
+
+_Glosa._
+
+ Se s de ver puramente
+ Me transformei no que vi,
+ De vista to excellente
+ Mal poderei ser ausente,
+ Em quanto o no for de mi.
+ Porque a alma namorada
+ A traz to bem debuxada,
+ E a memoria tanto voa,
+ Que se a no vejo em pessoa,
+ _Vejo-a n'alma pintada._
+
+ O desejo, que s'estende
+ Ao que menos se concede,
+ Sbre vs pede e pretende,
+ Como o doente que pede
+ O que mais se lhe defende.
+ Eu, qu'em ausencia vos vejo,
+ Tenho piedade e pejo
+ De me ver to pobre estar,
+ Qu'ento no tenho que dar,
+ _Quando me pede o desejo._
+
+ Como quelle que cegou,
+ He cousa vista e notoria,
+ Que a natureza ordenou
+ Que se lhe dobre em memoria
+ O qu'em vista lhe faltou:
+ Assi a mi, que no vejo
+ Co'os olhos o que desejo,
+ Na memoria e na firmeza
+ Me concede a natureza
+ _O natural que no vejo._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Sem vs, e com meu cuidado,
+ Olhae com quem, e sem quem.
+
+_Glosa._
+
+ Vendo Amor que com vos ver
+ Mais levemente soffria
+ Os males que me fazia,
+ No me pde isto soffrer;
+ Conjurou-se com meu Fado;
+ Hum novo mal me ordenou:
+ Ambos me levo forado,
+ No sei onde, pois que vou
+ _Sem vs e com meu cuidado._
+
+ No sei qual he mais estranho
+ Destes dous males que sigo,
+ Se no vos ver, se comigo
+ Levar imigo tamanho.
+ O que fica, e o que vem,
+ Hum me mata, outro desejo:
+ Com tal mal, e sem tal bem,
+ Em taes extremos me vejo:
+ _Olhae com quem, e sem quem_!
+
+ * * * * *
+
+
+AO MESMO.
+
+ Amor, cuja providencia
+ Foi sempre que no errasse,
+ Porque n'alma vos levasse,
+ Respeitando o mal d'ausencia,
+ Quiz qu'em vs me transformasse.
+ E vendo-me ir maltratado,
+ Eu e meu cuidado ss,
+ Proveo nisso de attentado,
+ Por no me ausentar de vs,
+ _Sem vs, e com meu cuidado._
+
+ Mas est'alma, qu'eu trazia,
+ Porque vs nella morais,
+ Deixa-me cego, e sem guia;
+ Que ha por melhor companhia
+ Ficar onde vs ficais.
+ Assi me vou de meu bem,
+ Onde quer a forte estrella,
+ Sem alma, qu'em si vos tem,
+ Co'o mal de viver sem ella:
+ _Olhae com quem, e sem quem_!
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Sem ventura he por demais.
+
+_Glosa._
+
+ Todo o trabalhado bem
+ Promette gostoso fruito;
+ Mas os trabalhos, que vem,
+ Para quem dita no tem
+ Valem pouco, e custo muito.
+ Rompe toda a pedra dura,
+ Faz os homens immortais
+ O trabalho quando atura;
+ Mas querer achar ventura,
+ _Sem ventura, he por demais._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Minh'alma, lembrae-vos della.
+
+_Glosa._
+
+ Pois o ver-vos tenho em mais
+ Que mil vidas que me deis,
+ Assi como a que me dais,
+ Meu bem, ja que mo negais,
+ Meus olhos, no mo negueis.
+ E se a tal estado vim
+ Guiado de minha estrella,
+ Quando houverdes d de mim,
+ Minha vida, dae-lhe a fim,
+ _Minh'alma, lembrae-vos della._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE ALHEIO.
+
+ Tudo pde huma affeio.
+
+_Glosa._
+
+ Tee tal jurdio Amor
+ N'alma donde se aposenta,
+ E de que se faz senhor,
+ Que a liberta e isenta
+ De todo humano temor.
+ E com mui justa razo,
+ Como senhor soberano,
+ Que Amor no consente dano.
+ E pois me soffre teno,
+ Gritarei por desengano:
+ _Tudo pde huma affeio._
+
+ * * * * *
+
+
+TROVA DE BOSCO.
+
+ Justa fu mi perdicion;
+ De mis males soy contento;
+ Ya no espero galardon,
+ Pues vuestro merecimiento
+ Satisfizo mi pasion.
+
+_Glosa._
+
+ Despues que Amor me form
+ Todo de amor, cual me veo,
+ En las leyes, que me di,
+ El mirar me consinti,
+ Y defendime el deseo.
+ Mas el alma, como injusta,
+ En viendo tal perfeccion,
+ Di al deseo ocasion:
+ Y pues quebr ley tan justa,
+ _Justa fu mi perdicion._
+
+ Mostrndoseme el Amor
+ Mas benigno que cruel,
+ Sobre tirano traidor,
+ De zelos de mi dolor,
+ Quiso tomar parte en l.
+ Yo que tan dulce tormento
+ No quiero dallo, aunque peco,
+ Resisto, y no lo consiento;
+ Mas si me lo toma trueco
+ _De mis males, soy contento._
+
+ Seora, ved lo que ordena
+ Este Amor tan falso nuestro!
+ Por pagar costa agena,
+ Manda que de un mirar vuestro
+ Haga el premio de mi pena.
+ Mas vos, para que veais
+ Tan engaosa intencion,
+ Aunque muerto me sintais,
+ No mireis, que si mirais,
+ _Ya no espero galardon._
+
+ Pues que premio (me direis)
+ Esperas que ser bueno?
+ Sabed, sino lo sabeis,
+ Que es lo mas de lo que peno
+ Lo menos que mereceis.
+ Quien hace al mal tan ufano,
+ Y tan libre al sentimiento?
+ El deseo? No, que es vano.
+ El amor? No, que es tirano.
+ _Pues? Vuestro merecimiento._
+
+ No pudiendo Amor robarme
+ De mis tan caros despojos,
+ Aunque fu por mas honrarme,
+ Vos sola para matarme
+ Le prestastes vuestros ojos.
+ Matranme ambos dos;
+ Mas vos con mas razon
+ Debe el la satisfaccion;
+ Que mi por l, y por vos,
+ _Satisfizo mi pasion._
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Todo es poco lo posible.
+
+_Glosa._
+
+ Ved que engao seorea
+ Nuestro juicio tan loco,
+ Que por mucho que se crea,
+ Todo el bien, que se desea,
+ Alcanzado, queda poco.
+ Un bien de cualquiera grado,
+ Si de haberse es imposible,
+ Queda mucho deseado.
+ Mas para mucho, alcanzado,
+ _Todo es poco lo posible._
+
+_Outro._
+
+ Posible es mi cuidado
+ Poderme hacer satisfecho,
+ Si fuera posible al hado
+ Hacer no hecho lo hecho,
+ Y futuro lo pasado.
+ Si olvido pudiera haber,
+ Fuera remedio sufrible;
+ Mas ya que no puede ser,
+ Para contento me hacer,
+ _Todo es poco lo posible._
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Vos teneis mi corazon.
+
+_Glosa._
+
+ Mi corazon me han robado;
+ Y Amor viendo mis enojos,
+ Me dijo: Fute llevado
+ Por los mas hermosos ojos,
+ Que desque vivo he mirado.
+ Gracias sobrenaturales
+ Te lo tienen en prision.
+ Y si Amor tiene razon,
+ Seora, por las seales,
+ _Vos teneis mi corazon._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Qu ver que me contente?
+
+_Glosa._
+
+ Desque una vez yo mir,
+ Seora, vuestra beldad,
+ Jamas por mi voluntad
+ Los ojos de vos quit.
+ Pues sin vos placer no siente
+ Mi vida, ni lo desea,
+ Si no quereis que yo os vea,
+ _Qu ver que me contente?_
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Sem vs, e com meu cuidado.
+
+_Glosa._
+
+ Querendo Amor esconder-vos
+ Em parte que vos no visse,
+ Co'o extremo de querer-vos
+ Cegou-me os olhos com ver-vos,
+ Levou-vos, sem que vos visse.
+ Eu cego, mas atinado,
+ Quando vi que vos no via,
+ Do mesmo Amor indignado,
+ Ja vdes qual ficaria
+ _Sem vs e com meu cuidado._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Retrato, vs no sois meu;
+ Retratro-vos mui mal;
+ Que a serdes meu natural,
+ Foreis mofino como eu.
+
+_Glosa._
+
+ Indaqu'em vs a arte vena
+ O que o natural tee dado,
+ No fostes bem retratado;
+ Que ha em vs mais differena,
+ Que no vivo do pintado.
+ Se o lugar se considera
+ Do alto estado, que vos deu
+ A sorte, qu'eu mais quizera;
+ Se he qu'eu sou quem d'antes era,
+ _Retrato, vs no sois meu._
+
+ Vs na vossa glria psto,
+ Eu na minha sepultura,
+ Vs com bens, eu com desgsto;
+ Pareceis-vos ao meu rosto,
+ E no ja minha ventura.
+ E pois nella e vs erraro
+ O qu'em mi he principal,
+ Muito em ambos s'enganro.
+ Se por mi vs retratro,
+ _Retratro-vos mui mal._
+
+ Mas se esse rosto fingido
+ Quizero representar,
+ E houvero por bom partido
+ Dar-vos a alma do sentido
+ Para a glria do lugar;
+ Vreis, psto nessa alteza,
+ Que vos no ha cousa igual;
+ E que nem a maior mal
+ Podeis vir, nem mor baixeza,
+ _Que a serdes meu natural._
+
+ Por isso no confesseis
+ Serdes meu, qu'he desatino,
+ Com que o lugar perdereis:
+ Se conservar-vos quereis,
+ Blazonae que sois divino.
+ Que se nesta occasio
+ Conhecessem qu'ereis meu,
+ Por meu vos dero de mo,
+ . . . . . . . . . .
+ _Freis mofino, como eu._
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Foi-se gastando a esperana,
+ Fui entendendo os enganos;
+ Do mal ficro-me os danos,
+ E do bem s a lembrana.
+
+_Glosa._
+
+ Nunca em prazeres passados
+ Tive firmeza segura.
+ Antes to arrebatados,
+ Qu'inda no ero chegados,
+ Quando mos levou ventura.
+ E como quem desconfia
+ Ter em tal sorte mudana,
+ No meio desta porfia,
+ De quanto bem pretendia
+ _Foi-se gastando a esperana._
+
+ No tive por desatino
+ A occasio de perdella;
+ Mas foi culpa do destino,
+ Que a ninguem, como mais dino,
+ Amor pudra sostella.
+ Dei-lhe tudo o qu'era seu,
+ No receando taes danos
+ Deste, a quem alma lhe deu:
+ Quando ja no era meu,
+ _Fui entendendo os enganos._
+
+ Fiquei deste mal sobejo
+ A quem a causa compete
+ Dizer-lhe tudo o que vejo,
+ Que Amor acceita o desejo,
+ Mas mente no que promete.
+ Que se a mi se me obrigou
+ A dar-me bens soberanos,
+ Foi engano que ordenou;
+ Que do bem tudo levou,
+ _Do mal ficro-me os danos._
+
+ E se dor to desigual
+ Soffro em mi com padecellos,
+ Quero de novo soffrellos;
+ Que por a causa ser tal,
+ No determino offendellos.
+ Dobre-se o mal, falte a vida,
+ Cresa a f, falte a esperana,
+ Pois foi mal agradecida;
+ Fique a dor n'alma imprimida,
+ _E do bem s a lembrana._
+
+ * * * * *
+
+
+ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA.
+
+ Aquella captiva,
+ Que me tee captivo,
+ Porque nella vivo,
+ Ja no quer que viva.
+ Eu nunca vi rosa
+ Em suaves mlhos,
+ Que para meus olhos
+ Fosse mais formosa.
+
+ Nem no campo flores,
+ Nem no ceo estrellas,
+ Me parecem bellas,
+ Como os meus amores.
+ Rosto singular,
+ Olhos socegados,
+ Pretos e cansados,
+ Mas no de matar.
+
+ Huma graa viva,
+ Que nelles lhe mora,
+ Para ser senhora
+ De quem he captiva.
+ Pretos os cabellos,
+ Onde o povo vo
+ Perde opinio,
+ Que os louros so bellos.
+
+ Pretido de Amor,
+ To doce a figura,
+ Que a neve lhe jura
+ Que trocra a cr.
+ Leda mansido,
+ Que o siso acompanha,
+ Bem parece estranha,
+ Mas barbara no.
+
+ Presena serena,
+ Que a tormenta amansa:
+ Nella emfim descansa
+ Toda minha pena.
+ Esta he a captiva,
+ Que me tee captivo;
+ E pois nella vivo,
+ He fra que viva.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Quem ora soubesse
+ Onde o Amor nasce,
+ Que o semeasse!
+
+_Voltas._
+
+ D'Amor e seus danos
+ Me fiz lavrador;
+ Semeava amor,
+ E colhia enganos;
+ No vi, em meus anos,
+ Homem que apanhasse
+ O que semeasse.
+
+ Vi terra florda
+ De lindos abrolhos,
+ Lindos para os olhos,
+ Duros para a vida.
+ Mas a rez perdida,
+ Que tal herva pasce,
+ Em forte hora nasce.
+
+ Com quanto perdi,
+ Trabalhava em vo:
+ Se semeei gro,
+ Grande dor colhi.
+ Amor nunca vi
+ Que muito durasse,
+ Que no magoasse.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Se me levo goas,
+ Nos olhos as levo.
+
+_Voltas._
+
+ Se de saudade
+ Morrerei ou no,
+ Meus olhos diro
+ De mi a verdade.
+ Por elles me atrevo
+ A lanar as goas,
+ Que mostrem as mgoas
+ Que nesta alma levo.
+
+ As goas, qu'em vo
+ Me fazem chorar,
+ Se ellas so do mar,
+ Estas de amar so.
+ Por ellas relvo
+ Todas minhas mgoas;
+ Que se fra d'goas
+ Me leva, eu as levo.
+
+ Todas me entristecem,
+ Todas so salgadas;
+ Porm as choradas
+ Doces me parecem.
+ Correi, doces goas,
+ Que se em vs m'enlvo,
+ No doem as mgoas,
+ Que no peito levo.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Menina dos olhos verdes,
+ Porque me no vedes?
+
+_Voltas._
+
+ Elles verdes so,
+ E tee por usana
+ Na cr esperana,
+ E nas obras no.
+ Vossa condio
+ No he d'olhos verdes,
+ Porque me no vdes.
+
+ Isenes a mlhos
+ Qu'elles dizem terdes,
+ No so d'olhos verdes,
+ Nem de verdes olhos.
+ Sirvo de giolhos,
+ E vs no me credes,
+ Porque me no vdes.
+
+ Havio de ser,
+ Porque possa v-los,
+ Que huns olhos to bellos
+ No se ho d'esconder:
+ Mas fazeis-me crer,
+ Que ja no so verdes,
+ Porque me no vdes.
+
+ Verdes no o so,
+ No que alcano delles;
+ Verdes so aquelles
+ Qu'esperana do.
+ Se na condio
+ Est serem verdes,
+ Porque me no vedes?
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Trocae o cuidado,
+ Senhora, comigo;
+ Vereis o perigo,
+ Qu'he ser desamado.
+
+_Voltas._
+
+ Se trocar desejo
+ O amor entre ns,
+ He para qu'em vs
+ Vejais o que vejo.
+ E sendo trocado
+ Este amor comigo,
+ Ser-vos-ha castigo
+ Terdes meu cuidado.
+
+ Tendes o sentido
+ D'Amor livre e isento,
+ E cuidais qu'he vento
+ Ser to mal querido.
+ No seja o cuidado
+ To vosso inimigo,
+ Que queira o perigo
+ De ser desamado.
+
+ Mas nunca foi tal
+ Este meu querer,
+ Que a quem tanto quer,
+ Queira tanto mal
+ Seja eu maltratado,
+ E nunca o castigo
+ Vos mostre o perigo,
+ Qu'he ser desamado.
+
+ * * * * *
+
+
+ TENO DE MIRAGUARDA.
+
+ Ver, e mais guardar
+ De ver outro dia,
+ Quem o acabaria?
+
+_Voltas._
+
+ Da lindeza vossa,
+ Dama, quem a v,
+ Impossivel he
+ Que guardar-se possa.
+ Se faz tanta mossa
+ Ver-vos hum s dia,
+ Quem se guardaria?
+
+ Melhor deve ser
+ Neste aventurar
+ Ver, e no guardar,
+ Que guardar e ver.
+ Ver e defender,
+ Muito bom sera,
+ Mas quem poderia?
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Irme quiero, madre,
+ aquella galera,
+ Con el marinero,
+ ser marinera.
+
+_Voltas._
+
+ Madre, si me fuere,
+ Do quiera que v,
+ No lo quiero yo,
+ Que el Amor lo quiere.
+ Aquel nio fiero,
+ Hace que me mueva
+ Por un marinero
+ ser marinera.
+
+ El que todo puede,
+ Madre, no podr,
+ Pues el alma v,
+ Que el cuerpo se quede.
+ Con l por que muero
+ Voy, porque no muera;
+ Que si es marinero,
+ Ser marinera.
+
+ Es tirana ley
+ Del nio Seor,
+ Que por un amor
+ Se deseche un Rey.
+ Pues desta manera
+ Quiero irme, quiero
+ Por un marinero
+ ser marinera.
+
+ Decid, ondas, cuando
+ Vistes vos doncella,
+ Siendo tierna y bella,
+ Andar navegando?
+ Mas qu no se espera
+ Daquel nio fiero?
+ Vea yo quien quiero,
+ Sea marinera.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Saudade minha,
+ Quando vos veria?
+
+_Voltas._
+
+ Este tempo vo,
+ Esta vida escassa,
+ Para todos passa,
+ S para mi no.
+ Os dias se vo
+ Sem ver este dia,
+ Quando vos veria.
+
+ Vde esta mudana
+ Se est bem perdida,
+ Em to curta vida
+ To longa esperana.
+ Se este bem se alcana,
+ Tudo soffreria,
+ Quando vos veria.
+
+ Saudosa dor,
+ Eu bem vos entendo;
+ Mas no me defendo,
+ Porque offendo Amor.
+ Se fsseis maior,
+ Em maior valia
+ Vos estimaria.
+
+ Minha saudade,
+ Charo penhor meu,
+ A quem direi eu
+ Tamanha verdade?
+ Na minha vontade
+ De noite e de dia
+ Sempre vos teria.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Vida da minha alma,
+ No vos posso ver:
+ Isto no he vida
+ Para se soffrer.
+
+_Voltas._
+
+ Quando vos eu via,
+ Esse bem lograva,
+ A vida estimava,
+ Pois ento vivia;
+ Porque vos servia
+ S para vos ver.
+ Ja que vos no vejo
+ Para qu'he viver?
+
+ Vivo sem razo,
+ Porqu'em minha dor
+ No a poz Amor;
+ Que inimigos so.
+ Mui grande traio
+ Me obriga a fazer
+ Que viva, Senhora,
+ Sem vos poder ver.
+
+ No me atrevo ja,
+ Minha to querida,
+ A chamar-vos vida,
+ Porque a tenho m.
+ Ninguem cuidar,
+ Que isto pde ser,
+ Sendo-me vs vida,
+ No poder viver.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Coifa de beirame
+ Namorou Joanne.
+
+_Voltas._
+
+ Por cousa to pouca
+ Andas namorado?
+ Amas o toucado,
+ E no quem o touca?
+ Ando cega e louca
+ Por ti, meu Joanne,
+ Tu pelo beirame.
+
+ Amas o vestido?
+ Es falso amador.
+ Tu no vs que Amor
+ Se pinta despido?
+ Cego e mui perdido
+ Andas por beirame,
+ E eu por ti, Joanne.
+
+ A todos encanta
+ Tua parvoice;
+ De tua doudice
+ Gonalo s'espanta,
+ E zombando canta:
+ Coifa de beirame,
+ Namorou Joanne.
+
+ Eu no sei que viste
+ Neste meu toucado,
+ Que to namorado
+ Delle te sentiste.
+ No te veja triste;
+ Ama-me, Joanne,
+ E deixa o beirame.
+
+ Joanne gemia,
+ Maria chorava,
+ E assi lamentava
+ O mal que sentia:
+ (Os olhos feria,
+ E no o beirame,
+ Que matou Joanne)
+
+ No sei do que vem
+ Amares vestido;
+ Que o mesmo Cupido
+ Vestido no tem.
+ Sabes de que vem
+ Amares beirame?
+ Vem de ser Joanne.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Se Helena apartar
+ Do campo seus olhos,
+ Nascero abrolhos.
+
+_Voltas._
+
+ A verdura amena,
+ Gados, que pasceis,
+ Sabei que a deveis
+ Aos olhos d'Helena.
+ Os ventos serena,
+ Faz flores d'abrolhos
+ O ar de seus olhos.
+
+ Faz serras flordas,
+ Faz claras as fontes:
+ S'isto faz nos montes,
+ Que fara nas vidas?
+ Tra-las suspendidas,
+ Como hervas em mlhos,
+ Na luz de seus olhos.
+
+ Os coraes prende
+ Com graa inhumana;
+ De cada pestana
+ Hum'alma lhe pende.
+ Amor se lhe rende,
+ E psto em giolhos,
+ Pasma nos seus olhos.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Verdes so os campos
+ De cr de limo;
+ Assi so os olhos
+ Do meu corao.
+
+_Voltas._
+
+ Campo, que t'estendes
+ Com verdura bella;
+ Ovelhas, que nella
+ Vosso pasto tendes;
+ D'hervas vos mantendes
+ Que traz o vero;
+ E eu das lembranas
+ Do meu corao.
+
+ Gados, que pasceis
+ Com contentamento,
+ Vosso mantimento
+ No no entendeis.
+ Isso que comeis,
+ No so hervas, no;
+ So graa dos olhos
+ Do meu corao.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Verdes so as hortas
+ Com rosas e flores:
+ Moas, que as rgo,
+ Mato-me d'amores.
+
+_Voltas._
+
+ Entre estes penedos
+ Que daqui parecem,
+ Verdes hervas crescem,
+ Altos arvoredos.
+ Vai destes rochedos
+ goa, com que as flores
+ D'outras so regadas,
+ Que mto d'amores.
+
+ Com goa, que cai
+ Daquella espessura,
+ Outra se mistura,
+ Que dos olhos sai:
+ Toda junta vai
+ Regar brancas flores;
+ Onde ha outros olhos,
+ Que mto d'amores.
+
+ Celestes jardins,
+ As flores estrellas:
+ Hortelas dellas
+ So huns seraphins.
+ Rosas e jasmins
+ De diversas cres,
+ Anjos, que as rgo,
+ Mto-me d'amores.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Menina formosa,
+ Dizei de que vem
+ Serdes rigorosa
+ A quem vos quer bem?
+
+_Voltas._
+
+ No sei quem assella
+ Vossa formosura;
+ Que quem he to dura
+ No pde ser bella.
+ Vs sereis formosa;
+ Mas a razo tem
+ Que quem he irosa,
+ No parece bem.
+
+ A mostra he de bella,
+ As obras so cruas:
+ Pois qual destas duas
+ Ficar na sella?
+ Se ficar _irosa_,
+ No vos est bem:
+ Fique antes _formosa_,
+ Que mais fra tem.
+
+ O Amor formoso
+ Se pinta e se chama:
+ Se he amor, ama,
+ Se ama, he piedoso.
+ Diz agora a grosa
+ Que este texto tem,
+ Que quem he formosa
+ Ha de querer bem.
+
+ Havei d, menina,
+ Dessa formosura;
+ Que se a terra he dura,
+ Secca-se a bonina.
+ Sde piedosa;
+ No veja ninguem
+ Que por rigorosa
+ Percais tanto bem.
+
+ * * * * *
+
+
+ALHEIO.
+
+ Tende-me mo nelle,
+ Que hum real me deve.
+
+_Voltas._
+
+ C'hum real d'amor,
+ Dous de confiana,
+ E tres d'esperana,
+ Me foge o trdor.
+ Falso desamor
+ S'encerra naquelle
+ Que hum real me deve.
+
+ Pedio-mo emprestado,
+ No lhe quiz penhor:
+ He mao pagador;
+ Tendo-mo afferrado.
+ C'hum cordel atado,
+ Ao Tronco se leve;
+ Que hum real me deve.
+
+ Por esta travssa
+ Se vai acolhendo:
+ Ei-lo vai correndo,
+ Fugindo a gr pressa.
+ Nesta mo, e nessa
+ O falso se atreve,
+ Que hum real me deve.
+
+ Comprou-me o amor,
+ Sem lhe fazer preo:
+ Eu no lhe mereo
+ Dar-me desfavor.
+ D-me tanta dor,
+ Que ando apos elle
+ Pelo que me deve.
+
+ Eu de c bradando,
+ Elle vai fugindo;
+ Elle sempre rindo,
+ Eu sempre chorando.
+ E de quando em quando
+ No amor se atreve,
+ Como que no deve.
+
+ A fallar verdade
+ Elle ja pagou;
+ Mas ainda ficou
+ Devendo ametade.
+ Minha liberdade
+ He a que me deve:
+ S nella se atreve.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ D la mi ventura,
+ Que no veo alguna?
+
+_Voltas._
+
+ Sepa quien padece,
+ Que en la sepultura
+ Se esconde ventura
+ De quien la merece.
+ All me parece,
+ Que quiere fortuna
+ Que yo halle alguna.
+
+ Naciendo mesquino,
+ Dolor fu mi cama;
+ Tristeza fu el ama,
+ Cuidado el padrino.
+ Vestise el destino
+ Negra vestidura,
+ Huy la ventura.
+
+ No se hall tormento,
+ Que alli no se hallase;
+ Ni bien, que pasase,
+ Sin como viento.
+ Oh qu nacimiento,
+ Que luego en la cuna
+ Me sigui fortuna!
+
+ Esta dicha mia,
+ Que siempre busqu,
+ Buscndola, hall
+ Que no la hallaria;
+ Que quien nace en dia
+ D'estrella tan dura,
+ Nunca halla ventura.
+
+ No puso mi estrella
+ Mas ventura em min:
+ Ans vive en fin
+ Quien nace sin ella.
+ No me quejo della;
+ Qujome que atura
+ Vida tan escura.
+
+ * * * * *
+
+
+MOTE.
+
+ Vida de minha alma.
+
+_Volta._
+
+ Dous tormentos vejo
+ Grandes por extremo:
+ Se vos vejo, temo,
+ E se no, desejo.
+ Quando me despejo,
+ E venho a escolher,
+ Temendo o desejo,
+ Desejo temer.
+
+ * * * * *
+
+
+CANTIGA ALHEIA.
+
+ Pastora da serra,
+ Da serra da Estrella,
+ Perco-me por ella.
+
+_Voltas._
+
+ Nos seus olhos bellos
+ Tanto Amor se atreve,
+ Que abraza entre a neve
+ Quantos ouso vellos.
+ No slta os cabellos
+ Aurora mais bella:
+ Perco-me por ella.
+
+ No teve esta serra
+ No meio d'altura
+ Mais que a formosura,
+ Que nella se encerra.
+ Bem ceo fica a terra,
+ Que tee tal estrella:
+ Perco-me por ella.
+
+ Sendo entre pastores
+ Causa de mil males,
+ No se ouvem nos vales
+ Seno seus louvores.
+ Eu s por amores
+ No sei fallar nella,
+ Sei morrer por ella.
+
+ D'alguns, que sentindo
+ Seu mal vo mostrando.
+ Se ri, no cuidando
+ Qu'inda paga rindo.
+ Eu triste, encobrindo
+ S meus males della,
+ Perco-me por ella.
+
+ Se flores deseja
+ Por ventura bellas,
+ Das que colhe dellas
+ Mil morrem d'inveja.
+ No ha quem no veja
+ Todo o melhor nella:
+ Perco-me por ella.
+
+ Se n'goa corrente
+ Seus olhos inclina,
+ Faz a luz divina
+ Parar a corrente.
+ Tal se v, que sente
+ Por ver-se a goa nella:
+ Perco-me por ella.
+
+ * * * * *
+
+
+ENDECHAS.
+
+ Vs sois huma Dama
+ Das feias do mundo;
+ De toda a m fama
+ Sois cabo profundo.
+
+ A vossa figura
+ No he para ver;
+ Em vosso poder
+ No ha formosura.
+
+ Vs fostes dotada
+ De toda a maldade;
+ Perfeita beldade
+ De vs he tirada.
+
+ Sois muito acabada
+ De taixa e de glosa:
+ Pois quanto a formosa,
+ Em vs no ha nada.
+
+ Do gro merecer
+ Sois bem apartada;
+ Andais alongada
+ Do bem parecer.
+
+ Bem claro mostrais
+ Em vs fealdade:
+ No ha hi maldade,
+ Que no precedais.
+
+ De fresco caro
+ Vos vejo ausente;
+ Em vs he presente
+ A m condio.
+
+ De ter perfeio
+ Mui alheia estais;
+ Mui muito alcanais
+ De pouca razo.
+
+ * * * * *
+
+
+ENDECHAS.
+
+ Vai o bem fugindo,
+ Cresce o mal co'os annos,
+ Vo-se descubrindo
+ Co'o tempo os enganos.
+
+ Amor e alegria.
+ Menos tempo dura.
+ Triste de quem fia
+ Nos bens da ventura!
+
+ Bem sem fundamento
+ Tee certa a mudana,
+ Certo o sentimento
+ Na dor da lembrana.
+
+ Quem vive contente,
+ Viva receoso:
+ Mal que se no sente,
+ He mais perigoso.
+
+ Quem males sentio,
+ Saiba ja temer;
+ E pelo que vio
+ Julgue o qu'ha de ser.
+
+ Alegre vivia,
+ Triste vivo agora;
+ Chora a alma de dia,
+ E de noite chora.
+
+ Confesso os enganos
+ De meu pensamento:
+ Bem de tantos annos
+ Foi-se n'hum momento.
+
+ Meus olhos, que vistes?
+ Pois vos atrevestes,
+ Chorae, olhos tristes,
+ O bem que perdestes.
+
+ A luz do sol pura
+ S a vs se negue;
+ Seja noite escura,
+ Nunca a manha chegue.
+
+ O campo florea,
+ Murmurem as goas,
+ Tudo me entristea,
+ Creso minhas mgoas.
+
+ Quizera mostrar
+ O mal que padeo;
+ No lhe d lugar
+ Quem lhe deu como.
+
+ Em tristes cuidados
+ Passo a triste vida;
+ Cuidados cansados,
+ Vida aborrecida.
+
+ Nunca pude crer
+ O que agora creio:
+ Cegou-me o prazer
+ Do mal que me veio.
+
+ Ah ventura minha,
+ Como me negaste!
+ Hum so bem que tinha,
+ Porque mo roubaste?
+
+ Triste fantasia
+ Quanta cousa guarda!
+ Quem ja visse o dia,
+ Que tanto lhe tarda!
+
+ Nesta vida cega
+ Nada permanece;
+ O qu'inda no chega,
+ Ja desaparece.
+
+ Qualquer esperana
+ Foge como o vento:
+ Tudo faz mudana,
+ Salvo meu tormento.
+
+ Amor cego e triste,
+ Quem o tee padece:
+ Mal quem lhe resiste!
+ Mal quem lhe obedece!
+
+ No meu mal esquivo
+ Sei como Amor trata:
+ E pois nelle vivo,
+ Nenhum amor mata.
+
+ * * * * *
+
+
+
+SEXTINAS.
+
+
+SEXTINA I.
+
+ Foge-me pouco a pouco a curta vida,
+ Se por caso he verdade qu'inda vivo;
+ Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos;
+ Chro por o passado; e em quanto fallo,
+ Se me passo os dias passo a passo.
+ Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena.
+
+ Que maneira to aspera de pena!
+ Pois nunca hum'hora vio to longa vida
+ Em que do mal mover se visse hum passo.
+ Que mais me monta ser morto que vivo?
+ Para que chro, emfim? para que fallo,
+ Se lograr-me no pude de meus olhos?
+
+ Oh formosos, gents e claros olhos,
+ Cuja ausencia me move a tanta pena,
+ Quanta se no comprende em quanto fallo!
+ Se no fim de to longa e curta vida
+ De vs m'inflammasse inda o raio vivo,
+ Por bem teria todo o mal que passo.
+
+ Mas bem sei que primeiro o extremo passo
+ Me ha de vir a cerrar os tristes olhos,
+ Que Amor me mostre aquelles por quem vivo.
+ Testimunhas sero a tinta e penna,
+ Qu'escrevro de to molesta vida
+ O menos que passei, e o mais que fallo.
+
+ Oh que no sei qu'escrevo, nem que fallo!
+ Pois se d'hum pensamento em outro passo,
+ Vejo to triste genero de vida,
+ Que se lhe no valerem tanto os olhos,
+ No posso imaginar qual seja a penna
+ Qu'esta pena traslade com que vivo.
+
+ N'alma tenho contino hum fogo vivo,
+ Que se no respirasse no que fallo,
+ Estaria ja feita cinza a pena;
+ Mas sbre a maior dor que soffro e passo,
+ O tempero com lagrimas os olhos:
+ Com que, se foge, no se acaba a vida.
+
+ Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
+ Vejo sem olhos, e sem lingua fallo;
+ E juntamente passo gloria e pena.
+
+ * * * * *
+
+
+SEXTINA II.
+
+ A culpa de meu mal s tee meus olhos,
+ Pois que dero a Amor entrada n'alma,
+ Para que perdesse eu a liberdade.
+ Mas quem pde fugir a huma brandura,
+ Que despois de vos pr em tantos males,
+ D por bens o perder por ella a vida?
+
+ Assaz de pouco faz quem perde a vida
+ Por condio to dura e brandos olhos;
+ Pois de tal qualidade so meus males,
+ Que o mais pequeno delles toca n'alma.
+ No s'engane com mostras de brandura
+ Quem quizer conservar a liberdade.
+
+ Roubadora he de toda liberdade
+ (E oxal perdoasse triste vida!)
+ Esta que o falso Amor chama brandura,
+ Ai meus antes imigos, que meus olhos!
+ Que mal vos tinha feito esta vossa alma,
+ Para vs lhe fazerdes tantos males?
+
+ Creso de dia em dia embora os males;
+ Perca-se embora a antigua liberdade;
+ Transforme-se em Amor esta triste alma;
+ Padea embora esta innocente vida;
+ Que bem me pgo tudo estes meus olhos,
+ Quando de outros, se os vem, vem a brandura.
+
+ Mas como nelles pde haver brandura,
+ Se causadores so de tantos males?
+ Engano foi d'Amor, porque meus olhos
+ Dessem por bem perdida a liberdade.
+ Ja no tenho que dar seno a vida,
+ Se a vida ja no deo, quem ja deo a alma.
+
+ Que pde ja'sperar quem a sua alma
+ Captiva eterna fez d'huma brandura,
+ Que quando vos d morte, diz qu'he vida?
+ Forado me he gritar nestes meus males,
+ Olhos meus: pois por vs a liberdade
+ Perdi, de vs me queixarei, meus olhos.
+
+ Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma,
+ Pois dais a liberdade a tal brandura,
+ Que para dar mais males, d mais vida.
+
+ * * * * *
+
+
+SEXTINA III.
+
+ Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia,
+ Amanhecido s para meu damno!
+ Pudeste-me apartar daquella vista
+ Por quem vivia com meu mal contente?
+ Ah se o supremo fras desta vida,
+ Qu'em ti se comera a minha glria!
+
+ Mas como eu no nasci para ter glria,
+ Seno pena que cresa cada dia,
+ O ceo m'est negando o fim da vida,
+ Porque no tenha fim com ella o damno:
+ Para que nunca possa ser contente,
+ Da vista me tirou aquella vista.
+
+ Suave, deleitosa, alegre vista,
+ Donde pendia toda a minha gloria,
+ Por quem na mor tristeza fui contente;
+ Quando ser que veja aquelle dia
+ Em que deixe de ver to grave damno,
+ E em que me deixe to penosa vida?
+
+ Como desejarei humana vida,
+ Ausente d'hua mais que humana vista,
+ Que to glorioso me fazia o damno!
+ Vejo o meu damno sem a sua glria;
+ minha noite falta ja seu dia:
+ Triste tudo se v, nada contente.
+
+ Pois sem ti ja no posso ser contente,
+ Mal posso desejar sem ti a vida;
+ Sem ti ja ver no posso claro dia,
+ No posso sem te ver desejar vista;
+ Na tua vista s se via a glria,
+ No ver a glria tua he ver meu damno.
+
+ No via maior glria que meu damno,
+ Quando do damno meu eras contente:
+ Agora me he tormento a maior glria,
+ Que pde prometter-me Amor na vida,
+ Pois tornar-te no pde minha vista,
+ Que s na tua achava a luz do dia.
+
+ E pois de dia em dia cresce o damno,
+ Nem posso sem tal vista ser contente,
+ S com perder a vida acharei glria.
+
+ * * * * *
+
+
+SEXTINA IV.
+
+ Sempre me queixarei desta crueza
+ Que Amor usou comigo quando o tempo,
+ A pezar de meu duro e triste fado,
+ A meus males queria dar remedio,
+ Em apartar de mi aquella vista,
+ Por quem me contentava a triste vida.
+
+ Levra-me, oxal, traz ella a vida,
+ Para que no sentira esta crueza
+ De me ver apartado de tal vista!
+ E praza a Deos no veja o proprio tempo
+ Em mi, sem esperana de remedio,
+ A desesperao d'hum triste fado!
+
+ Porm ja acabe o triste e duro fado!
+ Acabe o tempo ja to triste vida,
+ Qu'em sua morte s tee seu remedio.
+ O deixar-me viver he mor crueza,
+ Pois desespro ja d'em algum tempo
+ Tornar a ver aquella doce vista.
+
+ Duro Amor! se pagava s tal vista
+ Todo o mal que por ti me fez meu fado,
+ Porque quizeste que a levasse o tempo?
+ E se o assi quizeste, porque a vida
+ Me deixas para ver tanta crueza,
+ Quando em no v-la s vejo o remedio?
+
+ Tu s de minha dor eras remedio,
+ Suave, deleitosa e bella vista.
+ Sem ti, que posso eu ver seno crueza?
+ Sem ti, qual bem me pde dar o fado,
+ Se no he consentir que acabe a vida?
+ Mas elle della me dilata o tempo.
+
+ Azas para voar vejo no tempo,
+ Que com voar a muitos foi remedio;
+ E s no va para a minha vida.
+ Para que a quero eu sem tua vista?
+ Para que quer tambem o triste fado
+ Que no acabe o tempo tal crueza?
+
+ No podero fazer crueza, ou tempo,
+ Fra de fado, ou falta de remedio,
+ Qu'essa vista m'esquea em toda a vida.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ELEGIAS
+
+
+ELEGIA I.
+
+ O sulmonense Ovidio desterrado
+ Na aspereza do Ponto, imaginando
+ Ver-se de seus Penates apartado;
+
+ Sua chara mulher desamparando,
+ Seus doces filhos, seu contentamento,
+ De sua Patria os olhos apartando;
+
+ No podendo encobrir o sentimento,
+ Aos montes ja, ja aos rios se queixava
+ De seu escuro e triste nascimento.
+
+ O curso das estrellas contemplava,
+ E aquella ordem com que discorria
+ O ceo e o ar, e a terra adonde estava.
+
+ Os peixes por o mar nadando via,
+ As feras por o monte procedendo
+ Como o seu natural lhes permittia.
+
+ De suas fontes via estar nascendo
+ Os saudosos rios de crystal,
+ sua natureza obedecendo.
+
+ Assi s, de seu proprio natural
+ Apartado, se via em terra estranha,
+ A cuja triste dor no acha igual.
+
+ S sua doce Musa o acompanha
+ Nos soidosos versos qu'escrevia,
+ E nos lamentos com que o campo banha.
+
+ Dest'arte me figura a phantasia
+ A vida com que morro, desterrado
+ Do bem qu'em outro tempo possuia.
+
+ Aqui contemplo o gsto ja passado,
+ Que nunca passar por a memoria
+ De quem o traz na mente debuxado.
+
+ Aqui vejo caduca e debil glria
+ Desenganar meu rro co'a mudana
+ Que faz a fragil vida transitoria.
+
+ Aqui me representa esta lembrana
+ Quo pouca culpa tenho; e m'entristece
+ Ver sem razo a pena que m'alcana.
+
+ Que a pena que com causa se padece,
+ A causa tira o sentimento della;
+ Mas muito doe a que se no merece.
+
+ Quando a roxa manha, dourada e bella,
+ Abre as portas ao sol e cahe o orvalho,
+ E torna a seus queixumes Philomela;
+
+ Este cuidado, que co'o somno atalho,
+ Em sonhos me parece; que o que a gente
+ Por seu descanso tee me d trabalho.
+
+ E despois de acordado cegamente,
+ (Ou, por melhor dizer, desacordado,
+ Que pouco acrdo logra hum descontente)
+
+ Daqui me vou, com passo carregado,
+ A hum outeiro erguido, e alli m'assento,
+ Soltando toda a redea a meu cuidado.
+
+ Despois de farto ja de meu tormento,
+ Estendo estes meus olhos saudosos
+ parte donde tinha o pensamento.
+
+ No vejo seno montes pedregosos;
+ E sem graa e sem flor os campos vejo,
+ Que ja floridos vra, e graciosos.
+
+ Vejo o puro, suave e rico Tejo,
+ Com as concavas barcas, que nadando
+ Vo pondo em doce effeito o seu desejo.
+
+ Humas com brando vento navegando,
+ Outras com leves reinos brandamente
+ As crystallinas goas apartando.
+
+ D'alli fallo com a goa que no sente
+ Com cujo sentimento est'alma sae
+ Em lagrimas desfeita claramente.
+
+ fugitivas ondas, esperae;
+ Que pois me no levais em companhia,
+ Ao menos estas lagrimas levae.
+
+ At que venha aquelle alegre dia
+ Qu'eu v onde vs ides, livre e ledo.
+ Mas tanto tempo, quem o passaria?
+
+ No pde tanto bem chegar to cedo:
+ Porque primeiro a vida acabar,
+ Que se acabe to aspero degredo.
+
+ Mas essa triste morte que vir,
+ S'em to contrrio estado me acabasse,
+ Est'alma assi impaciente adonde ir?
+
+ Que se s portas Tartaricas chegasse,
+ Temo que tanto mal por a memoria
+ Nem ao passar do Lethe lhe passasse.
+
+ Que se a Tantalo e Ticio for notoria
+ A pena com que vai, e que a atormenta,
+ A pena que l tee, tero por glria.
+
+ Essa imaginao, emfim, me augmenta
+ Mil mgoas no sentido, porque a vida
+ De imaginaes tristes se contenta.
+
+ Que pois de todo vive consumida,
+ Porque o mal que possue se resuma,
+ Imagina na glria possuida.
+
+ At que a noite eterna me consuma,
+ Ou veja aquelle dia desejado
+ Em que a Fortuna faa o que costuma;
+
+ Se nella ha hi mudar-se hum triste estado.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA II.
+
+ Aquella que d'amor descomedido
+ Por o formoso moo se perdeo,
+ Que s por si d'amores foi perdido;
+
+ Despois que a deosa em pedra a converteo
+ De seu humano gesto verdadeiro,
+ A ltima voz s lhe concedeo.
+
+ Assi meu mal do proprio ser primeiro
+ Outra cousa nenhua me consente,
+ Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.
+
+ E se huma pouca vida, estando ausente,
+ Me deixa Amor, he porque o pensamento
+ Sinta a perda do bem d'estar presente.
+
+ Senhor, se vos espanta o soffrimento
+ Que tenho em tanto mal para escrev-lo,
+ Furto este breve espao a meu tormento.
+
+ Porque quem tee poder para soffr-lo,
+ Sem se acabar a vida co'o cuidado,
+ Tambem ter poder para diz-lo.
+
+ Nem eu escrevo hum mal ja acostumado;
+ Mas n'alma minha triste e saudosa
+ A saudade escreve, e eu traslado.
+
+ Ando gastando a vida trabalhosa,
+ E esparzindo a contnua soidade
+ Ao longo d'huma praia soidosa.
+
+ Vejo do mar a instabilidade,
+ Como com seu ruido impetuoso
+ Retumba na maior concavidade.
+
+ De furibundas ondas poderoso,
+ Na terra, a seu pezar, est tomando
+ Lugar, em que s'estenda, cavernoso.
+
+ Ella, como mais fraca, lh'est dando
+ As concavas entranhas, onde esteja
+ Sempre com som profundo suspirando.
+
+ A todas estas cousas tenho inveja
+ Tamanha, que no sei determinar-me,
+ Por mais determinado que me veja.
+
+ Se quero em tanto mal desesperar-me,
+ No posso, porque Amor e saudade
+ Nem licena me do para matar-me.
+
+ s vezes cuido em mi, se a novidade
+ E estranheza das cousas, co'a mudana,
+ Poderio mudar huma vontade.
+
+ E com isto figuro na lembrana
+ A nova terra, o novo trato humano,
+ A estrangeira progenie, a estranha usana.
+
+ Subo-me ao monte que Hercules Thebano
+ Do altissimo Calpe dividio,
+ Dando caminho ao mar Mediterrano;
+
+ D'alli'stou tenteando adonde vio
+ O pomar das Hesperidas, matando
+ A serpe que a seu passo resistio.
+
+ Estou-me em outra parte figurando
+ O poderoso Anteo, que derribado
+ Mais fra se lhe vinha accrescentando;
+
+ Porm do Herculeo brao sobjugado,
+ No ar deixando a vida, no podendo
+ Dos soccorros da me ser ajudado.
+
+ Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo,
+ Nem com as armas to continuadas,
+ D'amorosas lembranas me defendo.
+
+ Todas as cousas vejo demudadas,
+ Porque o tempo ligeiro no consente
+ Qu'estejo de firmeza acompanhadas.
+
+ Vi ja que a Primavera, de contente,
+ Em variadas cres revestia
+ O monte, o campo, o valle, alegremente.
+
+ Vi ja das altas aves a harmonia,
+ Que at duros penedos convidava
+ A algum suave modo d'alegria.
+
+ Vi ja que tudo, emfim, me contentava,
+ E que, de muito cheio de firmeza,
+ Hum mal por mil prazeres no trocava.
+
+ Tal me tee a mudana e estranheza,
+ Que se vou por os prados, a verdura
+ Parece que se scca de tristeza.
+
+ Mas isto he ja costume da ventura;
+ Porque aos olhos que vivem descontentes,
+ Descontente o prazer se lhes figura.
+
+ Oh graves e insoffriveis accidentes
+ De Fortuna e d'Amor! que penitencia
+ To grave dais aos peitos innocentes!
+
+ No basta examinar-me a paciencia
+ Com temores e falsas esperanas,
+ Sem que tambem me tente o mal de ausencia?
+
+ Trazeis hum brando espirito em mudanas,
+ Para que nunca possa ser mudado
+ De lagrimas, suspiros e lembranas.
+
+ E s'estiver ao mal acostumado,
+ Tambem no mal no consentis firmeza,
+ Para que nunca viva descansado.
+
+ Ja quieto m'achava co'a tristeza;
+ E alli no me faltava hum brando engano.
+ Que tirasse desejos da fraqueza.
+
+ Mas vendo-me enganado estar ufano,
+ Deo roda a Fortuna; e deo comigo
+ Onde de novo chro o novo dano.
+
+ Ja deve de bastar o que aqui digo,
+ Para dar a entender o mais que calo
+ A quem ja vio to aspero perigo.
+
+ E se nos brandos peitos faz abalo
+ Hum peito magoado e descontente,
+ Que obriga a quem o ouve a consol-lo;
+
+ No quero mais seno que largamente,
+ Senhor, me mandeis novas dessa terra;
+ Que alguma dellas me fara contente.
+
+ Porque se o duro Fado me desterra
+ Tanto tempo do bem, que o fraco esprito
+ Desampare a priso onde s'encerra;
+
+ Ao som das negras goas do Cocito,
+ Ao p dos carregados arvoredos
+ Cantarei o que n'alma tenho escrito.
+
+ E por entre estes horridos penedos
+ A quem negou Natura o claro dia,
+ Entre tormentos asperos e medos,
+
+ Com a trmula voz, cansada e fria,
+ Celebrarei o gesto claro e puro,
+ Que nunca perderei da phantasia.
+
+ O Musico de Thracia, ja seguro
+ De perder sua Eurydice, tangendo
+ Me ajudar ferindo o ar escuro.
+
+ As namoradas sombras, revolvendo
+ Memorias do passado, me ouviro;
+ E com seu chro o rio ir crescendo.
+
+ Em Salmono as penas faltaro,
+ E das filhas de Belo juntamente
+ De lagrimas os vasos s'enchero.
+
+ Que se amor no se perde em vida ausente,
+ Menos se perder por morte escura:
+ Porque, emfim, a alma vive eternamente,
+
+ E amor he effeito d'alma, e sempre dura.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA III.
+
+ O poeta Simonides fallando
+ Co'o Capito Themistocles hum dia,
+ Em cousas de sciencia praticando;
+
+ Hum'arte singular lhe promettia,
+ Qu'ento compunha, com que lh'ensinasse
+ A lembrar-se de tudo o que fazia;
+
+ Onde to subtis regras lhe mostrasse,
+ Que nunca lhe passassem da memoria
+ Em nenhum tempo as cousas que passasse.
+
+ Bem merecia, certo, fama e gloria
+ Quem dava regra contra o esquecimento,
+ Que sepulta qualquer antigua historia.
+
+ Mas o Capito claro, cujo intento
+ Bem differente estava, porque havia
+ Do passado as lembranas por tormento;
+
+ Oh illustre Simonides! (dizia)
+ Pois tanto em teu engenho te confias,
+ Que mostras memoria nova via;
+
+ Se me dsses hum'arte, qu'em meus dias
+ Me no lembrasse nada do passado,
+ Oh quanto melhor obra me farias!
+
+ S'este excellente dito ponderado
+ Fosse por quem se visse estar ausente,
+ Em longas esperanas degradado;
+
+ Oh como bradaria justamente,
+ Simonides, inventa novas artes;
+ No midas o passado co'o presente!
+
+ Que se he forado andar por vrias partes
+ Buscando vida algum descano honesto,
+ Que tu, Fortuna injusta, mal repartes;
+
+ E se o duro trabalho, he manifesto
+ Que por grave que seja, ha de passar-se
+ Com animoso esprito e ledo gesto;
+
+ De que serve s pessoas o lembrar-se
+ Do que se passou ja, pois tudo passa,
+ Seno d'entristecer-se e magoar-se?
+
+ S'em outro corpo hum'alma se traspassa,
+ No como quiz Pythagoras na morte,
+ Mas como quer Amor na vida escassa;
+
+ E s'este Amor no mundo est de sorte,
+ Que na virtude s d'hum lindo objecto
+ Tee hum corpo, sem alma, vivo e forte;
+
+ Onde este objecto falta, qu'he defecto
+ Tamanho para a vida, que ja nella
+ M'est chamando pena a dura Alecto;
+
+ Porque me no crira a minha Estrella
+ Selvatico no mundo, e habitante
+ Na dura Scythia, e no mais duro della?
+
+ Ou no Caucaso horrendo, fraco infante
+ Criado ao peito d'huma tigre Hircana,
+ Homem fra formado de diamante;
+
+ Porque a cerviz ferina e inhumana
+ No submettra ao jugo e dura lei
+ Daquelle que d vida quando engana.
+
+ Ou em pago das goas qu'estilei,
+ As que passei do mar, foro do Lete,
+ Para que m'esquecra o que passei.
+
+ Porque o bem que a esperana va promette,
+ Ou a morte o estorva, ou a mudana,
+ Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete.
+
+ Ja, Senhor, cahir como a lembrana,
+ No mal, do bem passado he triste e dura,
+ Pois nasce aonde morre a esperana.
+
+ E se quizer saber como se apura
+ Em almas saudosas, no s'enfade
+ De ler to longa e misera escriptura.
+
+ Soltava Eolo a redea e liberdade
+ Ao manso Favonio brandamente,
+ E eu a tinha ja slta saudade.
+
+ Neptuno tinha psto o seu tridente;
+ A proa a branca escuma dividia,
+ Com a gente maritima contente.
+
+ O cro das Nereidas nos seguia;
+ Os ventos, namorada Galata
+ Comsigo socegados os movia.
+
+ Das argenteas conchinhas Panopa
+ Andava por o mar fazendo mlhos,
+ Melanto, Dinamene, com Ligea.
+
+ Eu, trazendo lembranas por antolhos,
+ Trazia os olhos n'goa socegada,
+ E a goa sem socgo nos meus olhos.
+
+ A bem-aventurana ja passada
+ Diante de mi tinha to presente,
+ Como se no mudasse o tempo nada.
+
+ E com o gesto immoto e descontente,
+ Co'hum suspiro profundo e mal ouvido,
+ Por no mostrar meu mal a toda a gente,
+
+ Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido
+ Em puro amor tivestes, e inda agora
+ Da memoria o no tendes esquecido;
+
+ Se por ventura fordes algum'hora
+ Adonde entra o gro Tejo a dar tributo
+ A Tethys, que vs tendes por Senhora;
+
+ Ou ja por ver o verde prado enxuto,
+ Ou ja por colher ouro rutilante,
+ Das Tagicas areias rico fruto;
+
+ Nellas em verso erotico e elegante
+ Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes;
+ Pde ser que algum peito se quebrante.
+
+ E contando de mi memorias tristes,
+ Os pastores do Tejo, que me ouvio,
+ Ouo de vs as mgoas que me ouvistes.
+
+ Ellas, que ja no gesto m'entendio,
+ Nos meneios das ondas me mostravo
+ Qu'em quanto lhes pedia consentio.
+
+ Estas lembranas, que me acompanhavo
+ Por a tranquillidade da bonana,
+ Nem na tormenta triste me deixavo.
+
+ Porque chegando ao Cabo da Esperana,
+ Como da saudade que renova,
+ Lembrando a longa e aspera mudana;
+
+ Debaixo estando ja da estrella nova
+ Que no novo Hemispherio resplandece,
+ Dando do segundo axe certa prova;
+
+ Eis a noite com nuvens s'escurece;
+ Do ar subitamente foge o dia;
+ E todo o largo Oceano s'embravece.
+
+ A mchina do mundo parecia
+ Qu'em tormentas se vinha desfazendo;
+ Em serras todo o mar se convertia.
+
+ Lutando Boreas fero e Noto horrendo.
+ Sonoras tempestades levantavo,
+ Das naos as velas concavas rompendo.
+
+ As cordas co'o ruido assoviavo;
+ Os marinheiros, ja desesperados,
+ Com gritos para o ceo o ar coalhavo.
+
+ Os raios por Vulcano fabricados
+ Vibrava o fero e aspero Tonante,
+ Tremendo os Polos ambos de assombrados.
+
+ Amor alli, mostrando-se possante,
+ E que por algum medo no fugia,
+ Mas quanto mais trabalho, mais constante;
+
+ Vendo a morte presente, em mi dizia:
+ Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse,
+ Nada do que passei me lembraria.
+
+ Emfim, nunca houve cousa que mudasse
+ O firme amor intrinseco daquelle
+ Em quem alguma vez de siso entrasse.
+
+ Huma cousa, Senhor, por certa asselle,
+ Que nunca amor se affina, nem se apura,
+ Em quanto est presente a causa delle.
+
+ Dest'arte me chegou minha ventura
+ A esta desejada e longa terra,
+ De todo pobre honrado sepultura.
+
+ Vi quanta vaidade em ns s'encerra,
+ E nos proprios quo pouca; contra quem
+ Foi logo necessario termos guerra.
+
+ Huma Ilha que o Rei de Porc tem,
+ E que o Rei da Pimenta lhe tomra,
+ Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem.
+
+ Com huma grossa armada, que juntra
+ O Viso-Rei, de Goa nos partimos
+ Com toda a gente d'armas que se achra.
+
+ E com pouco trabalho destruimos
+ A gente no curvo arco exercitada:
+ Com morte, com incendios os punimos.
+
+ Era a Ilha com goas alagada,
+ De modo que se andava em almadias:
+ Emfim, outra Veneza trasladada.
+
+ Nella nos detivemos ss dous dias,
+ Que foro para alguns os derradeiros,
+ Pois passro da Estyge as ondas frias.
+
+ Qu'estes so os remedios verdadeiros
+ Que para a vida esto apparelhados
+ Aos que a querem ter por cavalleiros.
+
+ Oh Lavradores bem-aventurados!
+ Se conhecessem seu contentamento,
+ Como vivem no campo socegados!
+
+ D-lhes a justa terra o mantimento;
+ D-lhes a fonte clara d'goa pura;
+ Mungem suas ovelhas cento a cento.
+
+ No vem o mar irado, a noite escura,
+ Por ir buscar a pedra do Oriente;
+ No temem o furor da guerra dura.
+
+ Vive hum com suas rvores contente,
+ Sem lhe quebrar o somno repousado
+ A gr cobia d'ouro reluzente.
+
+ Se lhe falta o vestido perfumado,
+ E da formosa cr de Assyria tinto,
+ E das toraes Attalicos lavrado;
+
+ Se no tee as delicias de Corinto,
+ E se de Pario os marmores lhe falto,
+ O pyropo, a esmeralda e o jacinto;
+
+ Se suas casas de ouro no s'esmalto,
+ Esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
+ Onde os cabritos seus comendo slto.
+
+ Alli lhe mostra o campo vrias cres;
+ Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno;
+ Alli se affina o canto dos pastores.
+
+ Alli cantra Tityro e Sileno.
+ Emfim, por estas partes caminhou
+ A sa Justia para o ceo sereno.
+
+ Ditoso seja aquelle que alcanou
+ Poder viver na doce companhia
+ Das mansas ovelhinhas que criou!
+
+ Este bem facilmente alcanaria
+ As causas naturaes de toda cousa;
+ Como se gera a chuva e neve fria:
+
+ Os trabalhos do sol, que no repousa;
+ E porque nos d lua a luz alha,
+ Se tolher-nos de Phebo os raios ousa:
+
+ E como to depressa o ceo roda;
+ E como hum s os outros traz comsigo;
+ E se he benigna ou dura Cythera.
+
+ Bem mal pde entender isto que digo,
+ Quem ha de andar seguindo o fero Marte;
+ Que sempre os olhos traz em seu perigo.
+
+ Porm seja, Senhor, de qualquer arte,
+ Pois postoque a Fortuna possa tanto,
+ Que to longe de todo o bem me aparte;
+
+ No poder apartar meu duro canto
+ Desta obrigao sua, em quanto a morte
+ Me no entrega ao duro Radamanto;
+
+ Se para tristes ha to leda sorte.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA IV.
+
+ Despois que Magalhes teve tecida
+ A breve historia sua, que illustrasse
+ A Terra Santa Cruz, pouco sabida;
+
+ Imaginando a quem a dedicasse,
+ Ou com cujo favor defenderia
+ Seu livro d'algum zoilo que ladrasse;
+
+ Tendo nisto occupada a phantasia,
+ Lhe sobreveio hum somno repousado,
+ Antes que o sol abrisse o claro dia.
+
+ Em sonhos lhe apparece todo armado
+ Marte, brandindo a lana furiosa,
+ Com que fez quem o vio todo enfiado;
+
+ Dizendo em voz pezada e temerosa:
+ No he justo que a outrem se offerea
+ Obra alguma que possa ser famosa,
+
+ Seno a quem por armas resplandea
+ No largo inundo com tal nome e fama,
+ Que louvor immortal sempre merea.
+
+ Disse assi: quando Apollo, que da flama
+ Celeste guia os carros, de outra parte
+ Se lhe presenta, e por seu nome o chama,
+
+ Dizendo: Magalhes, postoque Marte
+ Com seu terror t'espante, todavia
+ Comigo deves s de aconselhar-te.
+
+ Hum Varo sapiente, em quem Thalia
+ Poz seus thesouros, e eu minha sciencia,
+ Defender tuas obras poderia.
+
+ He justo que a escriptura na prudencia
+ Ache s defenso; porque a dureza
+ Das armas he contrria da eloquencia.
+
+ Assi disse: e tocando com destreza
+ A cithara dourada, comeou
+ A mitigar de Marte a fortaleza.
+
+ Mas Mercurio, que sempre costumou
+ Pacificar porfias duvidosas,
+ Co'o Caduco na mo, que sempre usou,
+
+ Determina compor as perigosas
+ Opinies dos deoses inimigos
+ Com suaves razes e ponderosas.
+
+ E disse: Bem sabemos dos antigos
+ Heroes, e dos modernos, que provro
+ De Belona os gravissimos perigos,
+
+ Como to bem mil vezes concordro
+ As armas com as letras; porque as Musas
+ A muitos na milicia acompanhro.
+
+ Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas
+ Guerras o estudo deixo grande espao;
+ Que as armas jamais delle so escusas.
+
+ N'huma mo livros, n'outra ferro e ao;
+ Aquella rege e ensina; est'outra fere:
+ Mais co'o saber se vence, que co'o brao.
+
+ Pois, logo, hum Varo grande se requere,
+ Que com teus des (Apollo) illustre seja,
+ E de ti (Marte) palma e glria espere.
+
+ Este vos darei eu, em quem se veja
+ Saber e esfro no sereno peito,
+ Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja.
+
+ Deste as Irmas em vendo o bom sogeito,
+ Todas nove nos braos o tomro,
+ Criando-o co'o seu leite no seu leito:
+
+ As Artes e as Sciencias lh'ensinro;
+ Inclinao divina lh'influro
+ s virtudes moraes, que logo o ornro.
+
+ Daqui nos exercidos o seguro
+ Das armas no Oriente, onde primeiro
+ Hum soldado gentil instituro.
+
+ Alli taes provas fez de Cavalleiro,
+ Que, de Christo magnanimo e seguro,
+ A si mesmo venceo por derradeiro.
+
+ Despois, ja Capito forte e maduro,
+ Governando toda a Aurea Chersoneso,
+ Lhe defendeo co'o brao o debil muro.
+
+ Porque vindo a cerc-la todo o pso
+ Do poder dos Achens, que se sustenta
+ De alheio sangue, em furia todo acceso;
+
+ Este s que a ti, Marte, representa,
+ O castigou de sorte, que vencido
+ De ter quem vivo fique se contenta.
+
+ E logo qu'este Reino defendido
+ Deixou, segunda vez com maior glria
+ Para o ir governar foi elegido.
+
+ Mas no perdendo ainda da memoria
+ Os amigos o seu govrno brando,
+ Os imigos o damno da victoria;
+
+ Huns com amor intrinseco esperando
+ Esto por elle, e os outros congelados
+ O esto com frio medo receando.
+
+ Vde pois se serio debellados
+ Por seu claro valor, se l tornasse,
+ E dos Indicos mares degradados.
+
+ Porqu'he justo que nunca lhe negasse
+ O conselho do Olympo alto e subido
+ Favor e ajuda com que pelejasse.
+
+ Aqui s pde ser bem dirigido
+ De Magalhes o estudo: este s deve
+ Ser de vs, claros deoses, escolhido.
+
+ Assi Mercurio disse; e em termo breve
+ Conformados se vem Apollo e Marte;
+ E voou juntamente o somno leve.
+
+ Acorda Magalhes, e ja se parte
+ A offrecer-vos, Senhor claro e famoso,
+ Tudo o que nelle poz sciencia e arte.
+
+ Tee claro estylo, e engenho curioso,
+ Para poder de vs ser recebido,
+ Com mo benigna, de nimo amoroso.
+
+ Pois se s de no ser favorecido
+ Hum alto esprito fica baixo e escuro;
+ Este seja comvosco defendido,
+
+ Como o foi de Malaca o debil muro.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA V.
+
+ Aquelle mover de olhos excellente,
+ Aquelle vivo espirito inflammado
+ Do crystallino rosto transparente;
+
+ Aquelle gesto immoto e repousado,
+ Qu'estando n'alma propriamente escrito,
+ No pde ser em verso trasladado;
+
+ Aquelle parecer, que he infinito
+ Para se comprender d'engenho humano;
+ O qual offendo em quanto tenho dito;
+
+ Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano,
+ E tanto a engrandecer-me a phantasia,
+ Que no vi maior glria que meu dano.
+
+ Oh bem-aventurado seja o dia
+ Em que tomei to doce pensamento,
+ Que de todos os outros me desvia!
+
+ E bem-aventurado o soffrimento
+ Que soube ser capaz de tanta pena,
+ Vendo que o foi da causa o entendimento!
+
+ Faa-me quem me mata, o mal que ordena,
+ Trate-me com enganos, desamores;
+ Qu'ento me salva, quando me condena.
+
+ E se de to suaves desfavores
+ Penando vive hum'alma consumida,
+ Oh que doce penar! que doces dores!
+
+ E se huma condio endurecida
+ Tambem me nega a morte por meu dano,
+ Oh que doce morrer! que doce vida!
+
+ E se me mostra hum gesto lindo humano,
+ Como que de meu mal culpada se acha,
+ Oh que doce mentir! que doce engano!
+
+ E s'em querer-lhe tanto ponho tacha,
+ Mostrando refrear o pensamento,
+ Oh que doce fingir! que doce cacha!
+
+ Assi que ponho ja no soffrimento
+ A parte principal de minha glria,
+ Tomando por melhor todo tormento.
+
+ Se sinto tanto bem s co'a memoria
+ De ver-vos, linda Dama, vencedora;
+ Que quero eu mais que ser vossa victoria?
+
+ Se tanto a vossa vista mais namora,
+ Quanto eu sou menos para merecer-vos;
+ Que quero eu mais que ter-vos por senhora?
+
+ Se procede este bem de conhecer-vos,
+ E consiste o vencer em ser vencido,
+ Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?
+
+ S'em meu proveito faz qualquer partido,
+ S na vista d'huns olhos to serenos,
+ Que quero eu mais ganhar que ser perdido?
+
+ Se, emfim, os meus espritos, de pequenos,
+ A merecer no chego seu tormento,
+ Que quero eu mais, que o mais no seja menos?
+
+ A causa, pois, m'esfora o soffrimento;
+ Porque, a pezar do mal que me resiste,
+ De todos os trabalhos me contento;
+
+ Que a razo faz a pena alegre, ou triste.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA VI.
+
+ Entre rusticas serras e fragosas,
+ Compostas d'asperissimos rochedos,
+ De salitradas lapas cavernosas;
+
+ Onde gretando os humidos penedos
+ Orvalhados de neve branca e fria,
+ Brotando esto de si mil arvoredos;
+
+ Huma floresta fez verde e sombria
+ A natureza experta, que rodeia,
+ Como elevado muro, a serrania.
+
+ Neste formoso stio se recreia
+ O lascivo Cupido entre as boninas,
+ Que sempre hum brando Zephyro meneia.
+
+ Da candida cecem, das clavellinas,
+ Da salva, mangerona e das mosquetas,
+ Das rubicundas flores hyacinthinas,
+
+ Muitas capellas tece, que de setas
+ Lhe servem contra peitos de donzellas,
+ A quem d'inveja traz sempre inquietas.
+
+ No so d'huma s cr as flores bellas;
+ Que humas esmalta verde, outras rosado,
+ Entre as azues crescendo as amarellas.
+
+ Dos agrestes loureiros rodeado,
+ Faz o valle huma sombra deleitosa,
+ Quando apparece o sol mais levantado.
+
+ E por cima da relva bem graciosa
+ As gottas de crystal quasi imitando
+ Esto do aljofar puro a luz formosa.
+
+ As crystallinas fontes, que brotando
+ Por entre alvos seixinhos se derivo,
+ Das rvores os troncos vo banhando.
+
+ Entre as limpidas goas, qu'inda esquivo
+ O formoso pastor que se perdeo,
+ Preso das falsas mostras que o captivo,
+
+ Cresce a por cuja causa s'esqueceo
+ A linda Cythera de Vulcano,
+ Quando presa d'Amor se lhe rendeo.
+
+ Na brancura do rosto soberano,
+ Inda as crueis feridas apparecem
+ Do javali cerdoso e deshumano.
+
+ As rosas que de sangue resplandecem,
+ As candidas boninas marchetadas,
+ Qual roxo esmalte vista bem se offrecem.
+
+ Do matutino orvalho rociadas,
+ As flores rutilantes e cheirosas
+ Esto como por cima prateadas.
+
+ Os humidos botes abrindo as rosas,
+ Que os agudos espinhos vo cercando,
+ No prado se vem rindo deliciosas.
+
+ A mellifera abelha, susurrando
+ Por cima das boninas que rodeia,
+ Est co'o som das goas concertando.
+
+ Do trmulo regato a branda areia
+ De jacinthos se cobre e de vieiras,
+ Qu'encrespo da corrente a branca veia.
+
+ Os lamos s'abrao co'as videiras
+ De sorte, que s'enxrga escassamente
+ Se so os cachos seus, se das parreiras;
+
+ E pendendo por cima da corrente,
+ Outro formoso bosque debuxando
+ Esto no fundo della brandamente.
+
+ Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando
+ Do perfido cunhado a crueldade,
+ Mgoas em melodias transformando.
+
+ A solitaria rla com soidade
+ Desfaz o rouco peito, ja cansada
+ De que no move a morte a piedade.
+
+ A domestica Progne anda banhada
+ No sangue de seus filhos, em vingana
+ Da triste Philomela profanada.
+
+ De competir co'o merlo no descana
+ O garrulo calhandro, qu'enrouquece
+ Por no perder callado a confiana.
+
+ Em quanto o pobre ninho ajunta e tece
+ O sonoro canario, modulando
+ Engana a grave pena que padece.
+
+ Alguns versos s'escuta derramando
+ O vrio pintasirgo, to saudaveis,
+ Que produzem memorias d'amor brando.
+
+ Por os direitos troncos ha notaveis
+ Epigrammas; alguns d'antigua historia,
+ Que contra o duro tempo so duraveis.
+
+ Huns de cruel tormento, outros de glria,
+ Conforme a liberdade do qu'escreve,
+ Estranhos casos mostro memoria.
+
+ O que neste lugar contente esteve,
+ Contente declarou seu pensamento,
+ E os prazeres tambem que nelle teve.
+
+ Mas outros, declarando o sentimento
+ Que dos olhos destila tristes goas,
+ Deixro mil lembranas de tormento.
+
+ Abrazando-se alguns em vivas frgoas,
+ Escrevro do bosque em muitas partes
+ Gostos d'Amor agora, agora mgoas.
+
+ Porque, cruel menino, o premio partes
+ A quem sers[2] tyranno se lho negas,
+ E injusto e desigual, se lho repartes?
+
+ Porqu'enganas as almas que to cegas
+ Arrastas apos ti, de error captivas?
+ Porque a crueis rigores as entregas?
+
+ Para que contra hum peito assi t'esquivas,
+ Que humilde se sujeita a teu cuidado,
+ Com enganos de sombras fugitivas?
+
+ Levas, como a menino, hum pobre a nado,
+ N'huma apparencia falsa embevecido,
+ Quando co'os braos corta o mar inchado.
+
+ Querendo-se tornar, v-se perdido;
+ Ja grita que se affoga; e tu zombando,
+ Da praia entre os penedos escondido!
+
+ O triste, que conhece ir-se affogando,
+ No meio da arriscada zombaria
+ Por divino soccorro est clamando.
+
+ Mas eu de que m'espanto, se dizia
+ Hum sabio que d'enganos se temesse
+ O que tomasse a hum cego tal por guia?
+
+ Nunca nelle a firmeza permanece;
+ Se nos d gsto algum, muda-se logo;
+ Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece.
+
+ Anda co'os coraes sempre em hum jgo;
+ Humas vezes os faz de pedra fria,
+ Outras os faz de neve, outras de fogo.
+
+ Tornando ao bosque meu que descrevia,
+ Despois de ter contado da frescura
+ Que nelle to pomposa apparecia,
+
+ Referir quero agora huma aventura
+ Que nelle ao vo Narciso aconteceo,
+ Digna de se chorar com mgoa pura.
+
+ Castigo foi que o moo mereceo
+ Por se mostrar esquivo com aquella,
+ Qu'em viva pedra Juno converteo.
+
+ Ardia em fogo d'alma a va donzella,
+ Soffrendo hum duro peito; que a Narciso,
+ Quando ella mais se abraza, mais congela.
+
+ E quando a fraca Nympha mais de siso
+ Mostrava hum signal certo de firmeza,
+ Ento se provocava o moo a riso.
+
+ Ja d'huma profundissima tristeza
+ A descora o rigor que a consumia.
+ Como diz desfavor mal com belleza!
+
+ O gelado pastor folgava e ria;
+ Mas vendo-a de seu gsto andar contente,
+ Por no a contentar s'entristecia.
+
+ He tal o seu rigor, que no consente
+ Que seja o gsto proprio festejado;
+ Antes disso se mostra descontente.
+
+ Mas o cego Cupido, d'affrontado,
+ Em vingana da f que desprezou,
+ Fez que fosse de si mesmo enganado.
+
+ Casualmente hum dia se chegou
+ A beber n'huma fonte crystallina,
+ Que de si nova sde lhe causou.
+
+ Vendo a sua figura peregrina
+ Que a fonte dentro em si representava,
+ Se perdeo por imagem to divina.
+
+ Como ja, d'enlevado, no cuidava
+ Nos enganos que a sombra lhe fazia,
+ Vendo o formoso rosto, suspirava.
+
+ Por as avaras goas se metia;
+ E quanto mais molhava os tenros braos,
+ Ento mais vivamente o fogo ardia.
+
+ Vendo-se assi prender em duros laos,
+ Ao sentimento obriga a paciencia,
+ Dando, fra de si, ao vento abraos.
+
+ Embevecido todo n'apparencia,
+ Sem saber de cuidado o que sentia,
+ No fez ao doce engano resistencia.
+
+ Ao ver-se longe mais, mais perto via
+ O peregrino gesto; e se chegava,
+ Ento para mais longe lhe fugia.
+
+ Vendo, emfim, como em tudo o remedava
+ Cahio no torpe engano que tivera,
+ A tempo que de si ja preso estava.
+
+ A belleza que a tantas morte dera,
+ De si mesma se abraza e se captiva.
+ Quo longe ento de si ver-se quizera!
+
+ Ella se abranda propria; ella se esquiva;
+ E sendo ella somente a que se amava,
+ Ella se chama ingrata e fugitiva.
+
+ A formosura, pois, que namorava,
+ Com tal difficuldade era seguida,
+ Qu'estando dentro em si, mui longe estava.
+
+ A solitaria Nympha, qu'escondida
+ Ja nas cavernas concavas se via,
+ Dos males que lhe ouvio foi commovida.
+
+ Das namoradas mgoas que dizia
+ O namorado moo, ella somente
+ Os ultimos accentos repetia.
+
+ Elle vendo-se estar alli presente,
+ As crystallinas goas accusava
+ De que ellas o fazio descontente.
+
+ Outras vezes fonte, quando a olhava,
+ Ja cego, e sem juizo, agradecia
+ A figura que dentro lhe mostrava.
+
+ Mas vendo qu'ella em nada se dohia
+ De seu grave tormento, grita e chora.
+ Quanto erra quem de sombras se confia!
+
+ Ja lhe pede que saia para fra.
+ Ignorando que sempre fra esteve
+ A belleza que nelle proprio mora.
+
+ Despois que longo espao se deteve
+ Nestes queixumes seus to lastimosos,
+ Que com to longo ser, julgou por breve;
+
+ Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos,
+ Do valle se despede e da espessura,
+ Dando soluos da alma vagarosos.
+
+ Entregue na vontade da ventura,
+ Ou, por melhor dizer, de seus enganos,
+ Ao centro se arrojou da fonte pura.
+
+ Dest'arte feneceo em tenros anos
+ Narciso, dando exemplo formosura
+ De que tema, se he tal, tambem seus danos.
+
+ Sentimento mostrou da sorte dura
+ O namorado Jupiter, mudando
+ Ao moo em flor purpurea, qu'inda dura.
+
+ Aquellas claras goas rodeando,
+ Onde por seus amores se perdeo,
+ Est despois da morte acompanhando.
+
+ Tanto no seu engano procedeo,
+ Que no sabe na morte inda apartar-se
+ Dos erros que na vida commetteo.
+
+ Bem pde o corao desenganar-se,
+ Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado,
+ No costuma na morte resfriar-se.
+
+ Porque despois do corpo sepultado,
+ Priso onde s'encerra o fraco esprito,
+ Eternamente chora o seu cuidado.
+
+ E das escuras goas do Cocito
+ A rapida corrente refreando,
+ Celebra o lindo gesto n'alma escrito.
+
+ L se est co'os favores recreando;
+ E se foi desprezado, l padece,
+ As duras esquivanas lamentando.
+
+ Nem dos avaros olhos l s'esquece,
+ Que de formoso verde a terra esmalto,
+ Por no ver os do triste qu'endoudece.
+
+ Assi que os desfavores nunca falto,
+ At despois da morte perseguindo
+ Hum triste corao que desbarato.
+
+ Triste de quem em vo lhe vai fugindo!
+
+[2] Este terceto foi viciado na cpia e depois, ao que parece, corrigido
+por mo estranha. A versificao est certa, mas o sentido he absurdo:
+e se a verdadeira lio no he:
+
+ Porque, cruel menino, o premio partes
+ De modo que es tyranno, quando o negas,
+ E injusto e desigual, quando o repartes?
+
+no podemos adivinhar qual seja. _Nota dos Editores._
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA VII.
+
+ Ao p d'hum'alta faia vi sentado,
+ N'hum valle deleitoso e bem florido,
+ A Almeno, pastor triste e namorado.
+
+ Outro no mundo pde haver nascido
+ Mui queixoso de Amor; porm no tanto,
+ Como este amante, por amar perdido.
+
+ Ja Venus hia recolhendo o manto
+ Escuro com que a terra se mostrava,
+ Para ajudar d'Almeno o triste pranto.
+
+ Apollo sbre os montes derramava
+ Seus dourados cabellos, que fazio
+ Ao triste inda mais triste do qu'estava.
+
+ As flores por o prado s'estendio.
+ E das que finas mais ero as cres,
+ Brancas, roxas, as Nymphas mais colhio.
+
+ Ja guiavo seus gados os pastores,
+ Que, deixando-os no campo deleitoso,
+ Com ellas praticavo s d'amores.
+
+ Mas era esta alegria hum perigoso
+ Estado para Almeno entristecido;
+ E por isso a deixava pressuroso,
+
+ Buscando outro lugar: contra Cupido
+ Claramente exclamava, e o arguia
+ De contrrio, d'astuto e fementido.
+
+ De quando em quando a frauta que tangia.
+ Numeros dava ao ar to docemente,
+ Que as aves provocava a melodia.
+
+ Cego assi desta dor, deste accidente,
+ Com os olhos em lagrimas banhados,
+ Postos no ceo, dizia tristemente:
+
+ Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados,
+ Porque mos dste tu para offender-te,
+ Quando livre vivia nestes prados?
+
+ No vs quanto me negas merecer-te
+ O bem que me mostravas, se deixasse
+ Ferir meu corao para soffrer-te?
+
+ Qual bem me has dado, Amor, que me durasse?
+ Ou qual me has promettido, que hajas dado?
+ Ou qual dste, que muito no custasse?
+
+ Mostra-me quem puzeste em tal estado,
+ Que pudesse viver de ti contente,
+ Ou quem de ti no fosse lastimado?
+
+ Inimigo cruel de toda a gente,
+ Ja no quero teu bem, s meu mal quero;
+ Se de ti nem meu mal se me consente.
+
+ Inda que de teus bens ja desespro,
+ No desprzo dos males o tormento;
+ Antes o prezo mais, quando he mais fero.
+
+ Arrebatado deste pensamento
+ Hia o triste pastor com hum contino
+ Pranto, que lhe avivava o sentimento.
+
+ Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino,
+ Qu'era de Amor plantado; e parecendo
+ Lhe est menos humano que divino.
+
+ Nelle a dor sua esteve suspendendo:
+ Porm no, como cervo, est ferido,
+ Reparo ao mal que leva pretendendo.
+
+ Apparecia o stio to flordo,
+ Que provocava a no vulgar espanto,
+ Entre huns altos ulmeiros escondido.
+
+ D'hum crystallino orvalho tinha o manto,
+ Quando entrou nelle o misero pastor,
+ E as tenes explicou neste seu canto.
+
+ bellas rosas, vs que sois amor,
+ He por dita humildade, ou he baixeza,
+ O ter apar de vs murta, que he dor?
+
+ Papoulas conversais, que so tristeza!
+ No desprezais o cardo, que he tormento!
+ Admittis a hortela, sendo crueza!
+
+ Dos goivos longe vejo o sentimento;
+ Dos jasmins perto estou vendo o perigo;
+ Dos malmequeres vejo o soffrimento.
+
+ Deste me temerei como inimigo;
+ Mas traz por armas salva, que he razo:
+ Com ella acabar tambem comigo.
+
+ As minhas vem a ser huma affeio,
+ Que so os puros cravos misturados
+ Co'a vontade sujeita, que he limo.
+
+ Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados!
+ Ai crespa mangerona, que es prazer!
+ Vs ss devieis adornar os prados.
+
+ No pdem dous oppostos juntos ser:
+ Onde se pe giesta, que he lembrana,
+ Junto do rosmaninho, que he 'squecer?
+
+ Bem peza do leve lamo a mudana;
+ Do roxo goivo anima o pensamento
+ Do cypreste odorifero a esperana.
+
+ O trevo, que he sentido apartamento,
+ Crca o mangerico, que se interpreta
+ Memoria a quem offende o esquecimento.
+
+ Mais importuna que o jardim de Creta,
+ A ameixieira a flor est soltando:
+ A segurelha vejo, que he discreta.
+
+ As hervas que daqui irei tomando,
+ So a pura cecem, qu'he saudade;
+ Cravos, medo de ver qual de amor ando.
+
+ E, de ter mui perdida a liberdade,
+ Tomarei madresylva entendimento;
+ Legao tomarei, porqu'he verdade.
+
+ Marmeleiro me d arrependimento:
+ Por a salva, que he gsto, tomarei
+ Coentro opposto ao meu contentamento.
+
+ Conhecimento firme nunca achei,
+ Que violetas so; e, quando o houvera,
+ Qual meu damno ento fra, bem o sei.
+
+ Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera
+ Ver-vos aqui menor, pois sois victria,
+ Que de mi alcanou chamma severa!
+
+ Mas se quereis que tenha alguma glria,
+ Por galardo d'amar e ser sujeito,
+ Perderei de tormentos a memoria.
+
+ Porm, pois mo negais, de todo engeito
+ A palma, qu'he ventura; e na parreira,
+ Qu'he'sperana perdida, me deleito.
+
+ Entretanto co'a flor da laranjeira,
+ Qu'he desafio duro e arriscado,
+ Posso arguir da hora derradeira.
+
+ Ja no se quer deter o meu cuidado
+ Com a roma descanso: a brevidade
+ Das maravilhas s tee desejado.
+
+ E vs, ovelhas minhas, sem piedade
+ Vos apartae de mi, se algum desejo
+ Tendes de ter do pasto mais vontade.
+
+ Se muita de me verdes em vs vejo,
+ Toda a minha de ver-vos hei perdido
+ fora do poder d'amor sobejo.
+
+ Lograe do Tejo o placido ruido;
+ Ss lograe estas veigas florecidas:
+ Pois se perde o pastor vosso querido,
+
+ No gosteis de com elle ser perdidas.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA VIII.
+
+ Belisa, unico bem desta alma triste,
+ Descanso singular de minha vida,
+ Throno donde o poder d'Amor consiste;
+
+ Formosa fera, a quem est rendida
+ D'Amor a que he mais livre liberdade,
+ Ganhada mais, se mais por ti perdida;
+
+ Quo contrrio parece na beldade,
+ Que os coraes captiva com brandura,
+ Alguma ndoa haver de crueldade!
+
+ Quo contrrio parece em formosura,
+ Que deixa muito atraz quanto he humano,
+ Esquiva condio, ou alma dura!
+
+ Quo mal parece em quem s co'hum engano
+ Pde dar vida ao corao sujeito,
+ Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano!
+
+ Quo mal parece que hum amor perfeito
+ No seja d'outro igual remunerado,
+ Inda que seja, acaso, contrafeito!
+
+ Quo mal parece estar desesperado
+ Quem tanto por ti soffre e tee soffrido,
+ Devendo estar de penas alliviado!
+
+ Porm peor parece quem rendido
+ No for a hum parecer que tudo rende,
+ Por mais qu'em seu rigor viva offendido.
+
+ E inda peor parece quem defende
+ O ser essa belleza sempre amada,
+ Por mais qu'em vo se canse o que a pretende.
+
+ Se quem te mostra amor te desagrada,
+ S pdes pretender o no ser vista,
+ Mas no despois de vista o ser deixada.
+
+ Quo mal sabe o valor de tua vista
+ Quem cuida que o que della acaso alcana
+ Pde achar corao que lhe resista!
+
+ Quo bem pareceria huma esperana
+ Ja concedida a meu amor ardente,
+ No sempre huma mortal desconfiana!
+
+ Se hum padecer por ti constantemente
+ Pudesse ser reparo a quem mais te ama,
+ Inda esperar pudera o ser contente.
+
+ Mas eu temo que aquella immensa chama
+ Com que a teu bello imperio me levaste,
+ Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama.
+
+ Se a Olympica belleza assi imitaste,
+ Que brandamente move hum amor puro,
+ Porque to dura condio tomaste?
+
+ Qual elevado, qual soberbo muro
+ Este mal, que m'occupa o pensamento,
+ Contado, no tornra menos duro?
+
+ Tu, qu'es a causa s de meu tormento,
+ Tu, que somente podes gloriar-me,
+ Queres que as minhas queixas leve o vento?
+
+ Tu, que me pagarias com matar-me,
+ Inda a morte me negas vezes tantas?
+ Ai, que me deras vida em morte dar-me!
+
+ Usa piedade, tu, que o mundo espantas
+ Co'os bellos olhos, com que o douras tanto,
+ Se acaso a v-lo brandos os levantas.
+
+ Estende-se na terra o negro manto,
+ E noute d alegria a luz alheia;
+ Mas nos meus olhos tristes dura o pranto.
+
+ Torna a manha despois alegre e cheia
+ Da luz que o chro enxuga bella Aurora;
+ Mas do meu chro nunca enxuga a veia.
+
+ Lagrimas ja no so qu'esta alma chora,
+ Mas amor he vital que dentro arde,
+ E por a luz dos olhos salta fra.
+
+ Como inda a morte quer que mais aguarde?
+ No tarde ja, mas corra a mal to fero.
+ Mas ja por mais que corra vir tarde.
+
+ Nem no supremo trance de ti 'spero
+ Qu'inda com ver o estado em que me has psto
+ Queiras, crua, entender quanto te quero.
+
+ Ai! se volveres esse bello rosto
+ Ao lugar triste em que morrer me vires,
+ No por desgsto teu, mas por teu gsto,
+
+ No quero de ti, no, que alli suspires,
+ Nem que de dar-me a morte te arrependas,
+ Mas que os olhos de ver-me ento no tires.
+
+ Assi nunca pastor a quem te rendas,
+ Te faa conhecer o que me fazes,
+ Para que com teu mal meu mal entendas!
+
+ Como ja agora no te satisfazes
+ Das penas deste amor, que por querer-te,
+ De teu merecimento so capazes?
+
+ Pois quem com outro merito render-te
+ Presume, (oh raro monstro de belleza!)
+ Muito mais longe est de merecer-te.
+
+ Este si, que merece a gr crueza
+ Com que tu d'acabar-me a vida tratas,
+ Pois diante de ti, de si se preza.
+
+ Se cuidas que com isto desbaratas
+ O meu constante amor, porque no viva,
+ Elle mais vive quando mais me matas.
+
+ Se o dar-me morte tens por glria altiva,
+ Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina
+ A matar mais de branda que d'esquiva.
+
+ S'esta alma tua julgas por indina
+ Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde,
+ Do descoberto mal a faze dina.
+
+ Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde,
+ A poder reduzir-te a ser piedosa?
+ Ou m'acaba de todo, ou me responde.
+
+ Mas por mais que te mostres rigorosa,
+ Deixar meu pensamento m'he impossivel,
+ Igualmente que a ti no ser formosa.
+
+ E por mais qu'esta dor seja terrivel,
+ Somente o contemplar a causa della,
+ Inda que a faz maior, a faz soffrivel
+
+ Porm chegando a no poder soffr-la,
+ Perdendo a vida; quando a morte chame,
+ No perderei o gsto de perd-la.
+
+ He justo qu'eu por ti mil mortes ame:
+ Mas v tu se te illustra, quando offensa
+ Minha mortal o teu valor se chame.
+
+ Bem vs que huma beldade to immensa
+ De vencer-me tee glria bem pequena,
+ Pois s render-me tomo por defensa.
+
+ Mas ja que amor to puro me condena,
+ Contente fico assaz desta victoria;
+ Que no me do meus males tanta pena,
+
+ Quanto o serem por ti me d de glria.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA IX.
+
+ A vida me aborrece, a morte quero:
+ Ser eterno o meu mal, segundo entendo,
+ Pois na mor esperana desespro.
+
+ Sem viver vivo, por morrer vivendo
+ Por no verdes, Senhora, como eu vejo,
+ Quanto de mi por vs me ando esquecendo.
+
+ Seja-me agradecido este desejo;
+ Ingrata no sejais a quem vos ama
+ Com puro e honestissimo despejo.
+
+ A culpa que me pondes, ponde-a fama,
+ Que prega de vs celeste vida
+ Que os coraes d'amor divino inflama.
+
+ Humana, quando no agradecida,
+ Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso,
+ Antes que a alma do corpo se despida.
+
+ Mas que posso eu fazer, pois ja no posso
+ Hum tormento domar to forte e duro,
+ Homem formado s de carne e de osso?
+
+ Em minha f segura me asseguro;
+ Porqu'esta, quando he grande, jamais erra,
+ Se resulta d'amor sincero e puro.
+
+ Essa beldade santa me faz guerra;
+ Por ella hei de morrer, inda que veja
+ Tornar o brando rio em dura serra.
+
+ Que cousa tenho eu ja que minha seja?
+ Quem no deseja a vossa formosura,
+ No pde assegurar que o ceo deseja.
+
+ De qu'eu sempre a deseje estae segura:
+ Neste desejo meu nunca mudana
+ Ho de ver as mudanas da ventura.
+
+ A vida tenho posta na balana
+ Da glria singular, do damno esquivo;
+ Que o perd-la por vs he mor bonana.
+
+ Se vos offendo, cuido que no vivo:
+ Olhae se muito mais que de offender-vos,
+ Das esperanas do viver me privo.
+
+ O que temo somente he s perder-vos;
+ O que quero somente he s adorar-vos;
+ O que somente adoro he s querer-vos.
+
+ Querer-vos sem deixar de venerar-vos;
+ Desejar-vos somente por servir-vos;
+ Por servir a amor vil no desejar-vos:
+
+ Somente ver-vos, e somente ouvir-vos
+ Pretendo; e pois somente isto pretendo,
+ Deveis a estes sentidos permittir-vos.
+
+ Isto somente, (oh cego!) estou dizendo,
+ Como se fra pouco isto somente!
+ Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo?
+
+ Se o no merece o meu amor decente;
+ Se morte por amar-vos se merece,
+ Morra eu, Senhora; e vs ficae contente.
+
+ Se vos aggrava quem por vs padece;
+ Se vos vee a offender quem vos quer tanto,
+ Quem desta sorte errou no desmerece.
+
+ Que quando os olhos da razo levanto
+ Ao ceo d'essa rarissima belleza,
+ De no morrer por ella s m'espanto.
+
+ Deixae-me contentar desta tristeza,
+ E fazer de meus olhos largo rio;
+ Se algum pde abrandar vossa dureza.
+
+ Correndo sempre as lagrimas em fio,
+ Farei crescer as hervas por os prados,
+ Pois ja d'outra alegria desconfio.
+
+ No monte darei pasto a meus cuidados;
+ E sero de mi sempre entre os pastores
+ Esses divinos olhos celebrados.
+
+ Aprendero de mi os amadores
+ Aquillo que se chama amor sublime,
+ Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores.
+
+ E nenhum havera que a pena estime
+ Mais soberana por a causa della,
+ Que a que teve at ento no desestime;
+
+ E qu'inveja no mostre minha estrella.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA X.
+
+ Que tristes novas, ou que novo dano,
+ Qu'inopinado mal incerto sa,
+ Tingindo de temor o vulto humano?
+
+ Que vejo? as praias humidas de Goa
+ Ferver com gente attonita e turbada
+ Do rumor que de boca em boca va!
+
+ He morto D. Miguel (ah crua espada!)
+ E parte da lustrosa companhia
+ Que alegre s'embarcou na triste Armada:
+
+ E d'espingarda ardente e lana fria
+ Passado por o torpe e iniquo brao,
+ Que nossas altas famas injura.
+
+ No lhe valeo escudo, ou peito d'ao,
+ No nimo d'avs claros herdado,
+ Com que temer se fez por longo espao.
+
+ No ver-se em de redor todo cercado
+ D'irados inimigos, qu'exhalavo
+ A negra alma do corpo traspassado.
+
+ No as fortes palavras que voavo
+ A animar os incertos companheiros,
+ Que timidos as costas lhe mostravo.
+
+ Mas ja postos, nos termos derradeiros,
+ (Rotos por partes mil e traspassados
+ Os membros, no valor somente inteiros)
+
+ Os olhos (de furor acompanhados,
+ Qu'inda na morte as vidas amedrento
+ Dos duros inimigos espantados)
+
+ Postos no ceo, parece que presento
+ A alma pura suprema Eternidade,
+ Por quem os ceos e a terra se sustento.
+
+ E pedindo dos erros, que na idade
+ Immatura e innocente ja fizera,
+ Perdo pia e justa Magestade,
+
+ As rosas apartou da neve fria;
+ E, como debil flor, a quem fallece
+ O radical humor de que vivia,
+
+ Nas mos do Coro Angelico, que dece,
+ S'entrega; e vai lograr a vida eterna,
+ Que com morte to justa se merece.
+
+ Vai-te, alma, em paz gloria sempiterna;
+ Vai, que quem por a Lei sacra e divina
+ A slta, quelle a d que o ceo governa.
+
+ Mas se de tal valor foi morte dina,
+ A ausencia que do gsto nos salta,
+ A perptua saudade nos inclina.
+
+ Deixa pois tu, formosa Cythera,
+ Do gentil filho e neto de Cyniras
+ O pranto por a morte horrida e fa.
+
+ E tu, dourado Apollo, que suspiras
+ Por o crespo Jacintho, moo charo,
+ Por quem a clara luz ao mundo tiras;
+
+ Vinde e chorae hum moo em tudo raro,
+ No de ferino dente vulnerado,
+ Nem de risco sujeito a algum reparo:
+
+ Mas s de ferro imigo traspassado;
+ Que sem duvida incerta, ou frio medo,
+ A vida poz nas mos de Marte irado.
+
+ Tambem tu, moo Idalio, assiste quedo;
+ Deixa de dar o venenoso mel
+ A beber por os olhos, triste e ledo.
+
+ Pois os formosos olhos de Miguel
+ Ja cobertos se vem do escuro manto
+ Da lei geral a todos mais cruel.
+
+ E vs, filhas de Thespis, que co'o canto
+ Podeis bem mitigar a dor immensa
+ Dos irmos generosos e alto pranto;
+
+ No consintais que fao larga offensa
+ grande integridade, a que se devem
+ goas no s, do damno recompensa.
+
+ Que ja diante os olhos me descrevem,
+ Quando as bocas da Fama voadora
+ Ao patrio e claro Tejo as novas levem,
+
+ A profunda tristeza; qu'em hum'hora
+ Tal posse tomar dos altos peitos,
+ Que delles o discurso lance fra.
+
+ Alli de dor os coraes sujeitos
+ Ho de lanar de si toda a memoria
+ D'exemplos claros, solidos respeitos.
+
+ Mas, porm se igualais a vida glria,
+ claro Dom Philippe, e pretendeis
+ Deixar-nos de aces vossas larga historia;
+
+ Eu no vos persuado a que estreiteis
+ O corao na Estoica disciplina,
+ Onde livre d'affectos vos mostreis.
+
+ Que mal a natureza determina
+ Medo, esperanas, dores e alegria,
+ Como o Cynico velho nos ensina.
+
+ Immanidade estupida (dizia
+ O Sulmonense canto) e vil rudeza,
+ He no sentir affectos que a alma cria.
+
+ Porm se o sentir nada for bruteza,
+ E se paixo devida se consente,
+ Tambem o sentir muito he ja fraqueza.
+
+ Em vs hum soffrer alto s'exprimente,
+ Qual nos fortes Vares foi conhecido,
+ Como em estranha, em Lusitana gente.
+
+ Bem conheo que o corpo assi perdido,
+ Como de illustre tumulo carece,
+ Ser de brutas feras consumido.
+
+ Mas consola-me, emfim, que se parece
+ Ao grande bisav, que por a vida
+ Real, a sua Maura lana offrece.
+
+ Em pedaos a gente enfurecida
+ O corpo alli lhe deixa; e com mo dura
+ Lhe nega a sepultura merecida.
+
+ Facil he a perda aqui da sepultura:
+ Diogenes prudente, e Theodoro
+ Pouco sentem do corpo essa jactura.
+
+ Assi formoso e inteiro, assi decoro
+ Adorna quem o tee, como o tomou,
+ Quando se ouvir o extremo som canoro.
+
+ Mas ai! qual terror subito occupou
+ O vosso claro peito, Portuguezes?
+ Qual pavido temor vos congelou?
+
+ Que lanadas, que golpes, que revzes
+ Vos fizero fazer tamanha injria
+ Aos fortes Lusitanicos arnezes?
+
+ Ou ja de Capito sobeja incuria,
+ Ou fraqueza? No: qu'elle sustentava
+ Com seu peito dos barbaros a furia.
+
+ Ou ja do ferreo cano a fra brava
+ Com estrondos que atroo mar e terra,
+ Os coraes ardentes congelava?
+
+ Ah! quem vos fez que os impetos da guerra
+ No sustentasseis com valor ousado,
+ Desprezando o temor que a vida encerra?
+
+ A vida por a Patria e por o Estado
+ Pondo nossos avs, a ns deixro,
+ Em terra e mar, exemplo sublimado.
+
+ Elles a desprezar nos ensinro
+ Todo temor. Pois como agora os netos
+ Subitamente assi degenerro?
+
+ No pdem, certo, no, viver quietos
+ Com feia infamia peitos generosos,
+ Ja em publicos lugares, ja em secretos.
+
+ Mortos d'Esparta os Hroes valerosos
+ Da fera multido, fazendo extremos,
+ Taes Epitaphios tinho gloriosos:
+
+ _Dirs, Hspede, tu, que aqui jazemos
+ Passados do inimigo ferro, em quanto
+ s santas Leis da Patria obedecemos._
+
+ Fugindo os Persas vo com frio espanto,
+ Mas acho as mulheres no caminho,
+ Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto.
+
+ Pois do damno fugs, vendo-o visinho,
+ Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizio)
+ Outra vez no materno e escuro ninho.
+
+ Vde quaes com mais glria ficario,
+ Se aquelles que morrro por o Estado,
+ S'estes a quem mulheres injurio?
+
+ Mas tu, claro Miguel, que ja acordado
+ Deste sonho to breve, ests naquella
+ Trre do ceo, seguro e repousado;
+
+ Onde, com Deos unida a forte e bella
+ Alma, com teus Maiores reluzindo,
+ Trocaste cada chaga em clara estrella;
+
+ Co'os ps o crystallino ceo medindo,
+ Nada d'essas altissimas Espheras,
+ Nem da terreste aos olhos encobrindo;
+
+ Agora hum curso e outro consideras,
+ Agora a vaidade dos mortaes,
+ Que tu tambem passras se vivras,
+
+ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA XI.
+
+ Se quando contemplamos as secretas
+ Causas, por que este mundo se sustenta,
+ E o revolver dos ceos e dos planetas;
+
+ E se quando memoria se presenta
+ Este curso do sol to bem medido,
+ Que hum ponto s no mngua, nem s'augmenta;
+
+ Aquelle effeito, tarde conhecido,
+ Da lua na mudana to constante,
+ Que minguar e crescer he seu partido;
+
+ Aquella natureza to possante
+ Dos ceos, que to conformes e contrarios
+ Caminho, sem parar hum breve instante;
+
+ Aquelles movimentos ordinarios,
+ A que responde o tempo, que no mente,
+ Co'os effeitos da terra necessarios;
+
+ Se quando, emfim, revolve subtilmente
+ Tantas cousas a leve phantasia,
+ Sagaz escrutadora e diligente;
+
+ Bem v, se da razo se no desvia,
+ Aquelle unico Ser, alto e divino,
+ Que tudo pde, manda, move e cria.
+
+ Sem fim e sem princpio, hum Ser contino;
+ Hum Padre grande, a quem tudo he possibil,
+ Por mais que o difficulte humano atino:
+
+ Hum saber infinito, incomprehensibil;
+ Huma verdade que nas cousas anda,
+ Que mora no visibil e invisibil.
+
+ Esta potencia, emfim, que tudo manda,
+ Esta Causa das causas, revestida
+ Foi desta nossa carne miseranda.
+
+ Do amor e da justia compellida,
+ Por os erros da gente, em mos da gente
+ (Como se Deos no fsse) deixa a vida.
+
+ Oh Christo descuidado e negligente!
+ Pondera-o com discurso repousado;
+ E ver-te-has advertido facilmente.
+
+ lha aquelle Deos alto e increado,
+ Senhor das cousas todas, que fundou
+ O ceo, a terra, o fogo, o mar irado;
+
+ No do confuso caos, como cuidou
+ A falsa Theologia, e povo escuro,
+ Que nesta s verdade tanto errou;
+
+ No dos atomos leves d'Epicuro;
+ No do fundo Oceano, como Thales,
+ Mas s do pensamento casto e puro.
+
+ lha, animal humano, quanto vales,
+ Pois este immenso Deos por ti padece
+ Novo estylo de morte, novos males.
+
+ lha que o sol no Olympo s'escurece,
+ No por opposio de outro Planeta;
+ Mas s porque virtude lhe fallece.
+
+ No vs que a grande mchina inquieta
+ Do mundo se desfaz toda em tristeza,
+ E no por causa natural secreta?
+
+ No vs como se perde a Natureza?
+ O ar se turba? o mar batendo geme,
+ Desfazendo das pedras a dureza?
+
+ No vs que cahe o monte, a terra treme?
+ E que l na remota e grande Athenas
+ O docto Areopagita exclama e teme?
+
+ Oh summo Deos! tu mesmo te condenas,
+ Por o mal em qu'eu s sou o culpado,
+ A tamanhas affrontas, tantas penas?
+
+ Por mi, Senhor, no mundo reputado
+ Por falso, e violador da sacra Lei?
+ A fama a ti se pe do meu peccado?
+
+ Eu, Senhor, sou ladro, tu justo Rei.
+ Pois como entre ladres eu no padeo?
+ A pena a ti se d do qu'eu errei?
+
+ Eu servo sem valor, tu immenso preo,
+ Em preo vil te pes, por me tirares
+ Do captiveiro eterno que mereo?
+
+ Eu por perder-te, e tu por me ganhares
+ Te ds aos soltos homens, que te vendem,
+ S para os homens presos resgatares?
+
+ A ti, que as almas sltas, a ti prendem?
+ A ti summo Juiz, ante Juizes
+ Te accuso por o error dos que te offendem?
+
+ Chamo-te malfeitor; no contradizes:
+ Sendo tu dos Prophetas a certeza,
+ Dizem que quem te fere prophetizes.
+
+ Rim-se de ti; tu choras a crueza
+ Que sbre elles vir: a gente dura,
+ Por quem tu vens ao mundo, te despreza.
+
+ O teu rosto, de cuja formosura
+ Se veste o ceo e o sol resplandecente,
+ Diante quem pasmada est a Natura,
+
+ Com cruas bofetadas da vil gente,
+ De precioso sangue est banhado,
+ Cuspido, atropellado cruelmente.
+
+ Aquelle corpo tenro e delicado,
+ Sbre todos os Santos sacrosanto,
+ A aoutes rigorosos desangrado;
+
+ Despois coberto mal d'hum pobre manto,
+ Que se pegava s carnes magoadas
+ Para dobrar-lhe as dores outro tanto.
+
+ Magoavo-no as chagas no curadas,
+ Hum tormento causando-lhe excessivo
+ Ao despir por as mos crueis e iradas.
+
+ As venerandas barbas de Deos vivo
+ De resplandor ornadas, s'arrancavo
+ Para desempenhar a Ado captivo.
+
+ Com cordas por as ruas o levavo,
+ Levando sbre os hombros o tropho
+ Da victoria qu'as almas alcanavo.
+
+ tu, que passas, homem Cyreno,
+ Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro,
+ Que agora, como humano, enfraqueceo.
+
+ lha que o corpo afflicto do marteiro,
+ E dos longos jejuns debilitado,
+ No pde ja co'o pso do madeiro.
+
+ Oh no enfraqueais, Deos incarnado!
+ Essas qudas, que tanto vos mago,
+ Supportae Cavalleiro sublimado.
+
+ Aquellas altas vozes, que l so,
+ Dos Padres so, que o Limbo tee escuro,
+ E ja de louro e palma vos coro.
+
+ Todos vos brado que subais o muro
+ Da cidade infernal, e que arvoreis
+ Em cima essa bandeira mui seguro.
+
+ Oh Santos Padres! no vos apresseis;
+ Pois muito mais a Deos, que a vs, custro
+ Essas duras prises em que jazeis.
+
+ Aquellas mos que o mundo edificro,
+ Aquelles ps que pzo as estrellas,
+ Com durissimos pregos s'encravro.
+
+ Mas qual ser o humano qu'as querellas
+ Da angustiada Virgem contemplasse,
+ Sem se mover a dor e mgoa dellas?
+
+ E que dos olhos seus no destillasse
+ Tanta cpia de lagrimas ardentes,
+ Que carreiras no rosto sinalasse?
+
+ Oh quem lhe vra os olhos refulgentes
+ Convertendo-se em fontes, e regando
+ Aquellas faces bellas e excellentes!
+
+ Quem a ouvra com vozes ir tocando
+ As estrellas, a quem responde o ceo,
+ Co'os accentos dos Anjos retumbando!
+
+ Quem vra quando o puro rosto ergueo
+ A ver o Filho, que na Cruz pendia,
+ Donde a nossa saude descendeo!
+
+ Que mgoas to chorosas que diria!
+ Que palavras to miseras e tristes
+ Para o ceo, para a gente espalharia!
+
+ Pois que sera, Virgem, quando vistes
+ Com fel nojoso, e com vinagre amaro
+ Matar a sde ao Filho que paristes?
+
+ No era este o licor suave e claro,
+ Que para o confortar ento darieis
+ A quem vos era, mais que a vida, charo.
+
+ Como, Virgem Senhora, no corrieis
+ A dar as puras tetas ao Cordeiro,
+ Que padecer na Cruz com sde vieis?
+
+ No era s, no, esse o verdadeiro
+ Poto, que vosso Filho desejava,
+ Morrendo por o mundo em hum madeiro;
+
+ Mas era a salvao que alli ganhava
+ Para o misero Ado, que alli bebia
+ Na fonte que do peito lhe manava.
+
+ Pois, pura e Santissima Maria,
+ Que, emfim, sentistes esta mgoa, quanto
+ A grave causa della o requeria;
+
+ D'essa Fonte sagrada e peito santo
+ M'alcanae huma gotta, com que lave
+ A culpa que me aggrava e pesa tanto.
+
+ Do licor salutifero e suave
+ M'abrangei, com que mate a sde dura
+ Deste mundo to cego, torpe e grave.
+
+ Assi, Senhora, toda criatura
+ Que vive e vivir, e no conhece
+ A Lei de vosso Filho, a abrace pura;
+
+ O falsissimo herege, que carece
+ Da graa, e com damnado e falso esprito
+ Perturba a Santa Igreja, que florece;
+
+ O povo pertinaz no antiguo rito,
+ Que s o destrro seu, que tanto dura,
+ Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito;
+
+ O torpe Ismaelita, que mistura
+ As Leis, e com preceitos to viciosos
+ Na terra estende a seita falsa e impura;
+
+ Os idolatras maos, supersticiosos,
+ Varios de opinies e de costumes,
+ Levados de conceitos fabulosos;
+
+ As mais remotas gentes, onde o lume
+ Da nossa F no chega, nem que tenho
+ Religio alguma se presume;
+
+ Assi todos, emfim, Senhora, venho
+ A confessar hum Deos crucificado,
+ E por nenhum respeito se detenho.
+
+ E d'hum e d'outro o vcio ja deixado,
+ O seu Nome, co'o vosso nesse dia,
+ Seja por todo o mundo celebrado;
+
+ E respndo os ceos: JESUS, MARIA.
+
+ * * * * *
+
+
+ELEGIA XII. ACROSTICA.
+
+ Juizo extremo, horrifico e tremendo,
+ E Juiz sempiterno, alto e celeste,
+ Significar a terra, humedecendo.
+ Ver-se-ha nella hum suor que manifeste
+ Como em carne vem Deos, para que o veja
+ Homem toda esta mchina terreste;
+ Rei justo, que dos corpos e almas seja
+ Juiz; e quando o mundo cego e inculto
+ Sbre espinhos crueis deitado seja,
+ Todo vo simulacro e gentil culto
+ Ousar engeitar a gente; e guerra
+ Far co'o mar o fogo, e cru tumulto.
+ Immensa luz, que as carnes desenterra,
+ Lanar fra as portas vas do Averno,
+ Hum Justo e outro alando santa terra.
+ Outros, que so os maos, no fogo eterno
+ Deitar, descobrindo-se os segredos,
+ E sendo claro todo feito interno.
+ Desfeitos sero montes e penedos,
+ E ser tudo pranto e estridor duro;
+ Obras de grande dor e tristes medos.
+ Ser tornado o sol de todo escuro,
+ E destruida a mchina do mundo,
+ Sem luz as luzes todas do Orbe puro;
+ Altos sero os valles, e em profundo
+ Lugar se abatero os altos montes;
+ Vibrar mares vento furibundo:
+ Haver s de chammas vivas fontes:
+ De trombeta tremenda som terribil,
+ Ouvido, fara pallidas as frontes.
+ Responder dos maos gemido horribil.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+EPISTOLAS.
+
+
+EPISTOLA I.
+
+ Quem pde ser no mundo to quieto,
+ Ou quem ter to livre o pensamento,
+ Quem to exprimentado, ou to discreto,
+ To fra, emfim, de humano entendimento,
+ Que ou com pblico effeito, ou com secreto,
+ Lhe no revolva e espante o sentimento,
+ Deixando-lhe o juizo quasi incerto,
+ Ver e notar do mundo o desconcrto?
+
+ Quem ha que veja aquelle que vivia
+ De latrocinios, mortes e adulterios,
+ Que ao juizo das gentes merecia
+ Perptua pena, immensos vituperios,
+ Se a Fortuna em contrrio o leva e guia,
+ Mostrando, emfim, que tudo so mysterios,
+ Em alteza d'estados triumphante,
+ Que por livre que seja no s'espante?
+
+ Quem ha que veja aquelle, que to clara
+ Teve a vida, qu'em tudo por perfeito
+ O proprio Momo s gentes o julgra,
+ Inda quando lhe visse aberto o peito,
+ Se a m Fortuna, ao bom somente avara,
+ O reprime, e lhe nega seu direito,
+ Que lhe no fique o peito congelado,
+ Por mais e mais que seja exprimentado?
+
+ Democrito dos deoses proferia
+ Que ero ss dous; a Pena, e o Beneficio.
+ Segredo algum ser da phantasia,
+ De qu'eu achar no posso claro indicio.
+ Que se ambos vem por no cuidada via
+ A quem os no merece, he grande vcio
+ Em deoses sem-justia e sem-razo.
+ Mas Democrito o disse, e Paulo no.
+
+ Dir-me-heis, que s'este estranho desconcrto
+ Novamente no mundo se mostrasse,
+ Que por livre que fosse e mui experto,
+ No era d'espantar se m'espantasse.
+ Mas que se ja de Socrates foi certo
+ Que nenhum grande caso lhe mudasse
+ O vulto, ou de prudente, ou de constante,
+ Exemplo tome delle, e no m'espante.
+
+ Parece a razo boa; mas eu digo
+ Deste uso da Fortuna to damnado
+ Que quanto he mais usado e mais antigo,
+ Tanto he mais estranhado e blasphemado.
+ Porque, se o Ceo, das gentes to amigo
+ No d Fortuna tempo limitado,
+ No he para causar mui grande espanto,
+ Que mal to mal olhado dure tanto?
+
+ Outro espanto maior aqui m'enleia,
+ Que com quanto Fortuna to profana
+ Com estes desconcertos senhoreia,
+ A nenhuma pessoa desengana.
+ No ha ninguem, que assente, nem que creia
+ Este discurso vo da vida humana,
+ Por mais que philosophe, nem qu'entenda,
+ Que algum pouco do mundo no pretenda.
+
+ Diogenes pisava de Plato
+ Com seus sordidos ps o rico estrado,
+ Mostrando outra mais alta presumpo
+ Em desprezar o fausto to prezado.
+ Diogenes, no vs que extremos so
+ Esses que segues, de mais alto estado?
+ Pois se de desprezar te prezas muito,
+ Ja pretendes do mundo fama e fruito.
+
+ Deixo agora Reis grandes, cujo estudo
+ He fartar esta sde cubiosa
+ De querer dominar e mandar tudo,
+ Com fama larga e pompa sumptuosa.
+ Deixo aquelles que tomo por escudo
+ De seus vicios e vida vergonhosa
+ A nobreza de seus antecessores,
+ E no cuido de si que so peores.
+
+ Aquelle deixo, a quem do somno esperta
+ O gro favor do Rei que serve e adora,
+ E se mantee dest'aura falsa e incerta,
+ Que de coraes tantos he senhora.
+ Deixo aquelles qu'esto co'a boca aberta
+ Por s'encher de thesouros de hora em hora,
+ Doentes desta falsa hydropesia,
+ Que quanto mais alcana, mais queria.
+
+ Deixo outras obras vas do vulgo errado,
+ A quem no ha ninguem que contradiga,
+ Nem de outra cousa alguma he governado,
+ Que d'huma opinio e usana antiga.
+ Mas pergunto ora a Cesar esforado,
+ Ora a Plato divino, que me diga,
+ Este das muitas terras em que andou,
+ Aquelle de venc-las, que alcanou?
+
+ Cesar dir: Sou digno de memoria:
+ Vencendo povos varios e esforados,
+ Fui Monarca do mundo; e larga historia
+ Ficar de meus feitos sublimados.
+ He verdade: mas esse mando e glria,
+ Lograste-o muito tempo? Os conjurados
+ Bruto e Cassio diro que, se venceste,
+ Emfim, emfim, s mos dos teus morreste.
+
+ Dir Plato: Por ver o Etna e o Nilo
+ Fui a Sicilia, Egypto e outras partes,
+ S por ver e escrever em alto estilo
+ Da natural sciencia e muitas artes.
+ O tempo he breve, e queres consumi-lo,
+ Plato, todo em trabalhos? e repartes
+ To mal de teu estudo as breves horas,
+ Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras?
+
+ Pois quanto des que vive ja apartada
+ A alma desta priso terreste e escura;
+ Est em tamanhas cousas occupada,
+ Que da fama, que fica, nada cura.
+ E se o corpo terreno sinta nada,
+ O Cynico dir se por ventura
+ No campo, onde lanado morto estava,
+ De si os ces, ou as aves enxotava.
+
+ Quem to baixa tivesse a phantasia,
+ Que nunca em mores cousas a metesse,
+ Qu'em s levar seu gado fonte fria,
+ E mungir-lhe do leite que bebesse,
+ Quo bem-aventurado que sera!
+ Que por mais que a Fortuna revolvesse,
+ Nunca em si sentiria maior pena,
+ Que pezar-lhe de a vida ser pequena.
+
+ Veria erguer do sol a roxa face,
+ Veria correr sempre a clara fonte,
+ Sem imaginar a goa donde nace,
+ Nem quem a luz occulta no Horizonte.
+ Tangendo a frauta donde o gado pace,
+ Conheceria as hervas do alto monte,
+ Em Deos creria simples e quieto,
+ Sem mais especular algum secreto.
+
+ D'hum certo Trasilao se l e escreve
+ Entre as cousas da velha antiguidade,
+ Que perdido gro tempo o siso teve
+ Por causa d'huma grave enfermidade;
+ E em quanto, de si fra, doudo esteve,
+ Tinha por teima, e cria por verdade,
+ Qu'ero suas, das naos que navegavo,
+ Quantas no porto Preo ancoravo.
+
+ Por hum Senhor mui grande se teria,
+ (Alm da vida alegre que passava)
+ Pois nas que se perdio no perdia,
+ E das que vinho salvas se alegrava.
+ No tardou muito tempo, quando hum dia
+ Huncrito, seu irmo, que ausente estava,
+ terra chega; e vendo o irmo perdido,
+ Do fraternal amor foi commovido.
+
+ Aos Medicos o entrega, e com aviso
+ O faz estar cura refusada.
+ Triste! que por tornar-lhe o antigo siso
+ Lhe tira a doce vida descansada.
+ As hervas Apollineas d'improviso
+ O torno saude ja passada.
+ Sisudo Trasilao, ao charo irmo
+ Agradece a vontade, a obra no.
+
+ Porque despois de ver-se no perigo
+ Do trabalho a que o siso o obrigava,
+ E despois de no ver o estado antigo,
+ Que a louca presumpo lhe apresentava:
+ Oh inimigo irmo, com cr de amigo!
+ Para que me tiraste (suspirava)
+ Da mais quieta vida e livre em tudo,
+ Que nunca pde ter nenhum sisudo?
+
+ Por qual Senhor algum eu me trocra,
+ Ou por qual algum Rei de mais grandeza?
+ Que me dava que o mundo se acabra,
+ Ou que a ordem mudasse a natureza?
+ Agora me he penosa a vida chara;
+ Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza.
+ Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso
+ Que na doudice s consiste o siso.
+
+ Vdes aqui, Senhor, bem claramente
+ Como a Fortuna em todos tee poder,
+ Seno s no que menos sabe e sente;
+ Em quem nenhum desejo pde haver.
+ Este se pde rir da cega gente;
+ Neste no pde nada acontecer;
+ Nem estara suspenso na balana
+ Do temor mao, da perfida esperana.
+
+ Mas se o sereno Ceo me concedra
+ Qualquer quieto, humilde e doce estado,
+ Onde com minhas Musas s vivra,
+ Sem ver-me em terra alheia degradado;
+ E alli outrem ninguem me conhecra,
+ Nem eu conhecra outro mais honrado,
+ Seno a vs, tambem como eu contente;
+ Que bem sei que o serieis facilmente:
+
+ E ao longo d'huma clara e pura fonte,
+ Qu'em borbulhas nascendo, convidasse
+ Ao doce passarinho, que nos conte
+ Quem da chara consorte o apartasse;
+ Despois, cobrindo a neve o verde monte,
+ Ao gasalhado o frio nos levasse,
+ Avivando o juizo ao doce estudo,
+ Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo.
+
+ Cantra-nos aquelle, que to claro
+ O fez o fogo da rvore Pheba,
+ A qual elle em estylo grande e raro
+ Louvando, o crystallino Sorga enfra;
+ Tangra-nos na frauta Sanazaro,
+ Ora nos montes, ora por a ara;
+ Passra celebrando o Tejo ufano
+ O brando e doce Lasso Castelhano.
+
+ E comnosco tambem se achra aquella,
+ Cuja lembrana, e cujo claro gesto
+ N'alma somente vejo, porque nella
+ Est em essencia puro e manifesto;
+ Por alta influio de minha estrella
+ Mitigando o rigor do peito honesto,
+ Entretecendo rosas nos cabellos,
+ De que tomasse a luz o sol em vellos;
+
+ E em quanto por Vero flores colhesse,
+ Ou por Inverno ao fogo accommodado,
+ O que de mi sentra nos dissesse,
+ De puro amor o peito salteado;
+ No pedra ento eu, que Amor me dsse
+ Do insano Trasilao o doudo estado;
+ Mas que alli me dobrasse o entendimento,
+ Por ter de tanto bem conhecimento.
+
+ Mas por onde me leva a phantasia?
+ Porqu'imagino em bem-aventuranas,
+ Se to longe a Fortuna me desvia,
+ Qu'inda me no consente as esperanas?
+ Se hum novo pensamento Amor me cria
+ Onde o lugar, o tempo, as esquivanas
+ Do bem me fazem to desamparado,
+ Que no pde ser mais qui'maginado?
+
+ Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou
+ Contra mi, porque mais me magoasse:
+ Amor a hum vo desejo me obrigou,
+ S para que a Fortuna mo negasse.
+ O tempo a tal estado me chegou;
+ E nelle quiz que a vida se acabasse;
+ Se ha em mi acabar-se, o qu'eu no creio;
+ Que at da muita vida me receio.
+
+ * * * * *
+
+
+EPISTOLA II.
+
+ Como nos vossos hombros to constantes
+ (Principe illustre e raro) sustenteis
+ Tantos negocios arduos e importantes,
+ Dignos do largo Imperio, que regeis;
+ Como sempre nas armas rutilantes
+ Vestido, o mar e a terra segureis
+ Do pirata insolente, e do tyrano
+ Jugo do potentissimo Othomano;
+
+ E como com virtude necessaria,
+ Mal entendida do juizo alheio,
+ desordem do vulgo temeraria
+ Na santa paz ponhais o duro freio;
+ Se com minha escriptura longa e vria
+ Vos occupasse o tempo, certo creio
+ Que com vagante e ociosa phantasia
+ Contra o commum proveito peccaria.
+
+ E no menos sera reputado
+ Por doce adulador, sagaz e agudo,
+ Que contra meu to baixo e triste estado
+ Busco favor em vs que podeis tudo,
+ Se contra a opinio do vulgo errado
+ Vos celebrasse em verso humilde e rudo.
+ Diro, que com lisonja ajuda peo
+ Contra a miseria injusta que padeo.
+
+ Porm, porque a verdade pde tanto
+ No livre arbitrio, (como disse bem
+ Ao Rei Dario o moo sabio e santo,
+ Que foi reedificar Hierusalem)
+ Esta m'obriga a qu'em humilde canto,
+ Contra a teno que a plebe ignara tem,
+ Vos faa claro a quem vos no alcana;
+ E no de premio algum vil esperana.
+
+ Romulo, Baccho e outros que alcanro
+ Nomes de semideoses soberanos,
+ Em quanto por o mundo exercitro
+ Altos feitos, e quasi mais que humanos,
+ Com justissima causa se queixro
+ Que no lhes respondro os mundanos
+ Favores do rumor justos e iguaes
+ A seus merecimentos immortaes.
+
+ Aquelle, que nos braos poderosos
+ Tirou a vida ao Tingitano Anteo,
+ E a quem os seus trabalhos to famosos
+ Fizero Cidado do claro ceo;
+ Achou que a m teno dos invejosos
+ No se doma, seno despois que o vo
+ Se rompe corporal: porque na vida
+ Ninguem alcana a glria merecida.
+
+ Pois logo, se Bares to excellentes
+ Foro do baixo vulgo molestados,
+ O vituperio vil das rudas gentes,
+ He louvor dos Reaes, e sublimados.
+ Quem no lume dos vossos Ascendentes
+ Poder pr os olhos, que abalados
+ Lhes no fiquem da luz, vendo os maiores
+ Vossos passados, Reis e Imperadores?
+
+ Quem ver aquelle Pae da Patria sua,
+ Aoute do soberbo Castelhano,
+ Que o duro jugo s, co'a espada nua,
+ Removeo do pescoo Lusitano,
+ Que no diga: gro Nuno, a eterna tua
+ Memoria causar, se no m'engano,
+ Que qualquer teu menor tanto s'estime,
+ Que nunca possa ser seno sublime?
+
+ Nisto no fallo mais, porque conheo
+ Que da materia se me baixa o engenho.
+ Mas, pois a dizer tudo m'offereo,
+ E dias ha que no desejo o tenho,
+ Sendo vs de to alto e illustre preo,
+ A vida fostes pr n'hum fraco lenho,
+ Por largo mar e undosa tempestade,
+ S por servir Regia Magestade.
+
+ E despois de tomar a redea dura
+ Na mo, do povo indomito qu'estava
+ Costumado a larguezas, e soltura
+ Do pezado govrno que acabava;
+ Quem no ter por santa e justa cura,
+ Qual do vosso conceito s'esperava,
+ A to desenfreada enfermidade
+ Applicar-lhe contrria qualidade?
+
+ No he muito, Senhor, se o moderado
+ Govrno se blasphema e se desama;
+ Porque o povo largueza costumado,
+ lei serena e justa, dura chama.
+ Pois o zelo em virtude s fundado
+ De salvar almas da Tartarea flama
+ Com a goa salutifera de Christo,
+ Poder por ventura ser malquisto?
+
+ Quem quizesse negar to gr verdade,
+ Qual he o seu effeito santo e pio;
+ Negue tambem ao sol a claridade,
+ E certifique mais que o fogo he frio.
+ Se o successo he contrrio da vontade
+ Nas obras que so boas, e ha desvio;
+ Est nas mos dos homens comettellas,
+ E nas de Deos est o successo dellas.
+
+ Sei eu, e sabem todos que os futuros
+ Vero por vs o Estado accrescentado,
+ Sero memoria vossa os fortes muros
+ Do Cambaico Damo bem sustendado:
+ Da ruina mortal sero seguros,
+ Tendo todo o alicerce seu fundado
+ Sbre orfas amparadas com maridos,
+ E pagos os servios bem devidos.
+
+ Qumanha infamia ao Principe he perder-se
+ Pouco do Estado seu, que inteiro herdou,
+ Tanto por glria grande deve ter-se
+ Se accrescentado e prspero o deixou.
+ Nunca consentio Roma ennobrecer-se
+ Com triumphos alguem, se no ganhou
+ Provincia com que o Imperio s'augmentasse,
+ Por maiores victorias qu'alcanasse.
+
+ Pde tomar o vosso nome dino
+ Damo, por honra sua clara e pura,
+ Como ja do primeiro Constantino
+ Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura.
+ E tu, Rei, que no Reino Neptunino,
+ L no seio Gangetico a Natura
+ Te aposentou, de ser to inimigo
+ Deste Estado no ficas sem castigo.
+
+ Bem viste contra ti nadantes aves
+ Cortar a espumosa goa navegando;
+ Ouviste o som das tubas, no suaves,
+ Mas com temor horrifero soando;
+ Sentiste os golpes asperos e graves
+ Do Lusitano brao nunca brando.
+ No soffreste o gro brado penetrante,
+ Que os troves imitava do Tonante.
+
+ Mas antes dando as costas e a victoria
+ Bragancez ventura no corrido,
+ Dste bem a entender quo grande glria
+ He de tal vencedor o ser vencido.
+ Quem faz obras to dignas de memoria
+ Sempre ser famoso e conhecido,
+ Onde os altos juizos o estimarem,
+ Qu'estes ss tee poder de fama darem.
+
+ No vos temais, Senhor, do povo ignaro,
+ To ingrato a quem tanto faz por elle;
+ Mas sabei qu'he signal de serdes claro
+ O ser agora to malquisto delle.
+ Themistocles, da patria sua amparo,
+ O forte e liberal Cimon, e aquelle
+ Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo,
+ Testimunhas sero de quanto digo.
+
+ Pois ao justo Aristdes hum robusto,
+ Votando no ostracismo costumado,
+ Lhe disse claro assi: Porque era justo
+ Desejava que fosse desterrado.
+ Pachitas por fugir do povo injusto
+ Calumnioso, dando no Senado
+ Conta de Lesbos, qu'elle ja mandra,
+ Se tirou co'o seu ferro a vida chara.
+
+ Demosthenes, lanado das tormentas
+ Populares, Pallas! foi dizendo,
+ Que de tres monstros grandes te contentas,
+ Do drago e moucho, e do vil povo horrendo!
+ Que glrias immortaes houve, qu'isentas
+ Do veneno vulgar fossem, vivendo?
+ Pois mil exemplos deixo de Romanos,
+ E vs tambem sois hum dos Lusitanos.
+
+ * * * * *
+
+
+EPISTOLA III.
+
+ Mui alto Rei, a quem os Ceos em sorte
+ Dero o nome augusto e sublimado
+ Daquelle Cavalleiro que na morte,
+ Por Christo, foi de settas mil passado;
+ Pois delle o fiel peito, casto e forte,
+ Co'o nome Imperial tendes tomado,
+ Tomae tambem a setta veneranda
+ Que a vs o Successor de Pedro manda.
+
+ Ja por ordem do Ceo, que o consentio,
+ Tendes o brao seu, reliquia chara,
+ Defensor contra o gladio que ferio
+ O povo que David contar mandra.
+ No qual, pois tudo em vs se permittio,
+ Presagio temos, e esperana clara,
+ Que sereis brao forte e soberano
+ Contra o soberbo gladio Mauritano.
+
+ E o que hum presagio tal agora encerra,
+ Nos faz ter por mais certo e verdadeiro
+ A setta, que vos d quem he na terra
+ Dos celestes thesouros Dispenseiro:
+ Que as vossas settas so na justa guerra
+ Agudas, e entraro por derradeiro
+ (Cahindo a vossos ps povo sem lei)
+ Nos peitos que inimigos so do Rei.
+
+ Quando vossas bandeiras despregava
+ Albuquerque fortissimo com glria
+ Por as praias de Persia, e alcanava
+ De Naes to remotas a victoria;
+ As settas embebidas, que tirava
+ O arco Armusiano (he larga historia)
+ Nos ares, Deos querendo, se viravo,
+ Pregando-se nos peitos que as tiravo.
+
+ O querido de Deos, por quem peleja,
+ O ar tambem e o vento conjurado
+ Ao atambor lhe acodem, porque veja
+ Que o que a Deos ama, he de Deos amado:
+ Os contrarios revis Madre Igreja
+ Atroaro co'o tom do Ceo irado.
+ Que assi deo ja favor maior que humano
+ A Josu Hebreo, Teodosio Hispano.
+
+ Pois se as settas tiradas da inimiga
+ Corda, contra si s nocivas so,
+ Que faro, Rei, as vossas que tee liga
+ Com a que ja tocou Sebastio?
+ Tinta vem do seu sangue, com que obriga
+ A levantar a Deos o corao,
+ Crendo bem que as que vs despedireis,
+ No sangue Sarraceno as tingireis.
+
+ Ascanio, (se trazer me he concedido
+ Entre santos exemplos hum profano)
+ Rei do Imperio, despois to conhecido,
+ De Roma, e s reliquia do Troiano,
+ Vingou com setta e nimo atrevido
+ As soberbas palavras de Numano;
+ E logo foi dalli remunerado
+ Com louvores de Apollo, e celebrado.
+
+ Assi vs, Rei, que fostes segurana
+ De nossa liberdade, e que nos dais
+ De grandes bens certissima esperana;
+ Nos costumes, e aspecto que mostrais,
+ Concebemos segura confiana
+ Que Deos, a quem servis e venerais,
+ Vos fara vingador dos seus revis,
+ E os premios vos dar que mereceis.
+
+ Estes humildes versos, que prego
+ So destes vossos Reinos com verdade,
+ Recebei com benigna e Real mo,
+ Pois he devida a Reis benignidade.
+ Tenho (se no merecem galardo)
+ Favor sequer da Regia Magestade:
+ Assi tenhais de quem ja tendes tanto,
+ Com o nome e reliquia, favor santo.
+
+ * * * * *
+
+
+EPISTOLA IV.
+
+ Senhora, s'encobrir por algum'arte
+ Pudera esta occasio de meu tormento,
+ No creias que chegra a declarar-te
+ Este meu perigoso pensamento.
+ Mas por mais que te offenda, no sou parte
+ No crime de tamanho atrevimento:
+ Elle he d'amor; e delle fui forado
+ A que te declarasse o meu cuidado.
+
+ Se merece castigo a confiana
+ Com que descubro agora o que padeo,
+ Aqui prompto me tens; toma a vingana
+ Que por to grave culpa te mereo.
+ Bem me podes negar toda esperana,
+ Mas eu no desistir deste como;
+ Porque tempo e Fortuna no so parte
+ Para deixar hum'hora s de amar-te.
+
+ Ja que ver-te os meus olhos alcanro,
+ Descansem neste bem com alegria,
+ Pois ja com ver os teus tanto ganhro,
+ Quanto, estando sem v-los, se perdia.
+ Que glria querem mais, se a ver chegro
+ Aquella pura luz que vence ao dia?
+ Qual mor bem ha no mundo que querer-te,
+ Se no ha mais que ver despois de ver-te?
+
+ Minhas dores mortaes, bella Senhora,
+ Tirro a virtude ao soffrimento;
+ E fazendo-se mais em qualquer hora,
+ Levando vo traz ti meu pensamento:
+ Porm soberbos vejo desde agora,
+ Por a causa gentil de seu tormento,
+ Minha alma, meu desejo, meu sentido,
+ Porque tua belleza se ho rendido.
+
+ A par de tua rara formosura
+ Se desconhece o mor merecimento;
+ A tua claridade torna escura
+ Do sol a clara luz em hum momento.
+ Se Zeuxis ao formar bella figura,
+ A vista em ti pudera pr attento,
+ Mais alto original houvera achado
+ Para admirar o mundo co'o traslado.
+
+ Aquelles qu'escrevro mil louvores
+ De formosura, graa e gentileza,
+ Todos foro, Senhora, huns borradores
+ De tua perfeitissima belleza.
+ Agora se v claro em teus primores
+ Qu'em ti s'esmerou mais a natureza;
+ E qu'ero os seus cantos prophecias
+ Do que havias de ser em nossos dias.
+
+ V, pois, se vinha a ser culpavel falta
+ Em mi o no render-te amante a vida,
+ E se deixar d'amar glria to alta
+ Era digno da pena mais crescida.
+ Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta
+ Co'o castigo de culpa assi atrevida:
+ E quando della caia, maior glria
+ Tera o Tejo, que o P, com sua historia.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+OITAVAS.
+
+
+GLOSA DO SONETO 14.
+
+ Despois que a clara Aurora a noite escura
+ Com novo resplandor foi desfazendo,
+ E Phebo por os montes e espessura
+ Os seus dourados raios estendendo;
+ Se buscava nos valles a verdura
+ O manso gado a luz serena vendo,
+ Quando a frvida ssta ja abrazava,
+ _Todo animal da calma repousava._
+
+ Ja por fugir do sol o fogo ardente,
+ As sombras os rebanhos vo buscando;
+ Os tenros cabritinhos juntamente
+ Apos as mansas mes hio saltando;
+ Tangendo as suas frautas docemente
+ Os pastores, estavo enganando
+ A gr chamma solar qu'ento ardia;
+ _S Liso o ardor della no sentia._
+
+ Tristes lembranas tanto o traspassavo,
+ Que a dura ssta nelles s passava;
+ O tempo qu'em prazer outros gastavo,
+ Em celebrar seu mal elle o gastava;
+ As festas que com jogos celebravo,
+ Elle com suspirar as celebrava:
+ Nada buscava mais, mais no queria
+ _Que o repouso do fogo em qu'elle ardia._
+
+ Os repetidos jogos dos pastores,
+ As lutas entre a rama repetidas,
+ Em nada lhe divertem suas dores;
+ Mas antes n'alegria as v crescidas.
+ Como o repouso roubo os amores
+ s almas que para elles so nascidas,
+ Elle, todo o repouso qu'esperava,
+ _Consistia na Nympha que buscava._
+
+ Com o chro, que ja corria em fio
+ Por o pallido rosto, augmenta as fontes,
+ Que levo goa estranha ao claro rio
+ Que os valles vai regando entre altos montes.
+ Com suspiros a quem o ecco pio
+ Responde de apartados horizontes,
+ Os ventos parecia qu'enfreava,
+ _Os montes parecia que abalava._
+
+ Que s queixas de seus doces pensamentos
+ Se movessem os montes mais constantes,
+ Se parassem os mais veloces ventos,
+ Qu'estavo, que corrio circumstantes,
+ Bem se devia dor de seus tormentos,
+ E inda que fosse em peitos de diamantes;
+ Que hum peito de diamante abrandaria
+ _O triste som das mgoas que dizia._
+
+ Porm elle as dizia a outro peito,
+ Mais, que diamante, inexpugnavel, duro:
+ A f lh'encarecia, a que sogeito
+ O tinha em pena eterna o amor puro;
+ Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito,
+ Quanto mais offendido, mais seguro:
+ A Nympha mais segura tudo ouvia,
+ _Mas nada o duro peito commovia._
+
+ As lstimas aqui tanto crescro,
+ Que s'em montes de Hircania s'escuitro,
+ Tigres nos seios seus mover pudero,
+ E pedras nos seus cumes abrandro.
+ Mas se no peito as tristes vozes dro
+ Daquella fera humana que buscro,
+ Elle d'as admittir se retirava;
+ _Que na vontade de outro psto estava._
+
+ Desenganado ja da triste sorte,
+ De que mal fino amor se desengana,
+ Com a desperana s de sua morte
+ Aquellas penas ltimas engana.
+ Deixando na espessura o claro Norte,
+ Para elle de outra luz mais soberana,
+ A hum valle aberto ento sahir procura,
+ _Cansado ja de andar por a espessura._
+
+ Deixando as suas cabras que pascessem
+ Naquelle verde prado as frescas flores;
+ Porque os Satyros leves o soubessem,
+ E os sylvestres Faunos amadores;
+ Tambem porque os pastores o entendessem,
+ Todo o processo e fim de seus amores
+ Escreveo (sem em nada haver mudana)
+ _No tronco d'huma faia por lembrana._
+
+ Por lembrana no tronco d'huma faia,
+ Que vai sahindo ao ceo de puro altiva
+ Na verde, prateada e aurea praia,
+ Por onde o claro Tejo se deriva;
+ Porque tambem ao ceo sua dor saia
+ Sbre aquella corrente fugitiva,
+ Escrita no papel da natureza;
+ _Escreve estas palavras de tristeza:_
+
+ Natercia, Nympha bella, por quem vivo
+ Em tal tormento, tempo algum me olhou;
+ Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo
+ Daquelle brando olhar que m'enganou,
+ O amor tornava em desamor esquivo;
+ E d'hum tormento tal a outro passou.
+ Em cousas to sujeitas a mudana
+ _Nunca ponha ninguem sua esperana._
+
+ Para dar proveitosos desenganos
+ Dos enganos que so de Amor effeitos,
+ E dos dous sexos publicar, humanos,
+ A origem das mudanas de seus peitos;
+ Estas letras aqui por longos anos
+ Digo a coraes a amar sujeitos
+ Em peito varonil, que de ventura,
+ _Em peito feminil, que de natura..._
+
+ Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado
+ Cahio ao p da faia em qu'escrevia,
+ No podendo seguir o comeado,
+ Porque a alma ja do corpo lhe sahia.
+ Tres vezes, com accento mal formado,
+ Para exemplo futuro repetia:
+ Amantes, entendei que a mr belleza
+ _Somente em ser mudavel tem firmeza._
+
+ * * * * *
+
+
+GLOSA DO SONETO 194.
+
+ _C nesta Babylonia adonde mana_
+ Hypocrisia, engano e falsidade;
+ C donde ousada toda carne humana
+ A todo arbitrio vive da vontade;
+ C donde enrouqueceo da Lusitana
+ Musa o furor heroico e suavidade;
+ C donde se produz por cega via
+ _Materia a quanto mal o mundo cra_;
+
+ _C donde o puro Amor no tee valia_,
+ Porque Baccho o tee hoje desterrado;
+ C donde a frecha d'ouro no feria,
+ Seno cabello preto e alfenado;
+ C donde a loura trana no se via,
+ Nem o rosto de sangue matizado;
+ C donde nada val a glria humana,
+ _Que a me, que manda mais, tudo profana_;
+
+ _C donde o mal se affina, o bem se dana_,
+ Se algum a terra em si quer produzir;
+ C donde a falsa gente Mahometana
+ A glria toda funda em adquirir;
+ C donde multiplica a mo tyrana,
+ Professa em mais crescer, matar, mentir;
+ C donde o fazer bem he villania,
+ _E pde mais que a honra a tyrannia_;
+
+ _C donde a errada e cega Monarchia_
+ De fabulosas leis est vivendo,
+ E fra d'hum amor engrandecia
+ O nefando Alcoro em qu'est crendo;
+ C donde nada val a Poesia,
+ E s'est da lei della escarnecendo;
+ C donde a fidalguia Mahometana
+ _Cuida qu'um nome vo a Deos engana._
+
+ _C nesta Babylonia, onde a Nobreza_
+ Da Lusitana gente se perdeo;
+ E do gro Sebastio toda a grandeza
+ Irreparavelmente se abateo;
+ C donde algum mentir no he baixeza,
+ E os meritos esmola (assi cresceo
+ Da cobia mortal a semrazo)
+ _Co'o esfro e saber, pedindo vo._
+
+ _s portas da cobia e da vileza_
+ Estes netos de Agar esto sentados
+ Em bancos de torpissima riqueza,
+ Todos de tyrannia marchetados.
+ He do feio Alcoro summa a largueza
+ Que tee para que sejo perdoados
+ De quantos erros commettendo esto
+ _C neste escuro cos de confuso._
+
+ _Cumprindo o curso estou da natureza_,
+ Illustre Dama, neste labyrintho;
+ Mas quem usa comigo mais crueza,
+ He tua condio, que n'alma sinto.
+ Acabe-se algum dia tal tristeza,
+ E este sentido mal qu'em versos pinto:
+ E pois n'alma he sentido e corao,
+ _Ve se m'esquecerei de ti, Sio._
+
+ * * * * *
+
+
+A SANTA URSULA.
+
+ D'huma formosa virgem desposada,
+ Que d'outras onze mil, tambem formosas,
+ Entrou no claro Olympo acompanhada,
+ Com coras de lyrios e de rosas;
+ De Christo Esposo seu to namorada,
+ Que delle as quiz fazer todas esposas;
+ Amor, vida e martyrio cantar quero,
+ Fiado no favor que della espero.
+
+ Alcana, Ursula bella, (que diante
+ De to bello esquadro foste por guia)
+ De teu suave Amor, que de ti cante
+ O seu amor que no teu peito ardia.
+ Meu verso para ti mais se levante,
+ Christifera, heroica companhia;
+ Tanto se mostre aqui mais soberano,
+ Quanto o divino Amor excede o humano.
+
+ E vs, unica Me e Virgem pura,
+ Pois sois das que tal ordem escolhro,
+ Que fostes, sois, sereis guarda segura
+ Da pureza que a Deos offerecro;
+ Neste canto me dae melhor ventura
+ Do que atgora as Musas vas me dero:
+ Vossas servas sero de mi servidas,
+ Cantadas suas mortes, suas vidas.
+
+ Serenissima Infante, produzida
+ Do gro Tronco Real, sublime Planta;
+ No titulo, nas obras e na vida,
+ Retrato natural de Ursula Santa,
+ Desta virgem, tambem de Reis nascida,
+ Ouvi com ledo rosto o que se canta;
+ Dae o sentido hum pouco a tal sogeito:
+ No lhe tire seu preo o meu defeito.
+
+ No tempo que Cirico se sentava
+ Na Cadeira de Pedro pescador,
+ De que com sa doutrina apascentava
+ As Ovelhas de Christo, Bom Pastor;
+ Teve Bretanha hum Rei, que professava
+ A Lei que deo no mundo o Redemptor,
+ Justo e temente ao Ceo, pio e devoto,
+ Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto.
+
+ De virtudes hum novo exemplo e raro,
+ Em idade e belleza florecia
+ Ursula, por quem Noto era mais claro,
+ Que por todo o poder que possuia;
+ Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro,
+ Com quem todas as graas repartia;
+ Prudente, honesta e docta a maravilha,
+ De to ditoso pae ditosa filha.
+
+ Aquella que por o ar com ligeireza
+ As pennas de mil azas abre e cerra,
+ E que com velocissima presteza
+ Com outros tantos ps corre por terra;
+ Aquella, que de sua natureza
+ No cuida em quanto diz se acerta ou erra,
+ E d'huma em outra boca se derrama:
+ Aquella, emfim, a quem chamamos Fama;
+
+ Hia por todo o mundo divulgando
+ Extremos desta virgem soberana,
+ Aquella formosura celebrando
+ Com que Amor cego a tanta vista engana:
+ Mais hia a d'alma sua publicando,
+ Porqu'era mais divina do que humana:
+ Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto,
+ Qu'em huns criava amor, n'outros espanto.
+
+ Ouvidos seus louvores, muitas vezes
+ Desejou desta virgem fazer nora
+ Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes,
+ Idolatras ento, cegos agora.
+ povo cego e leve! as torpes fezes
+ Aparta do ouro puro e lana fra,
+ Torna-te ao teu pastor, perdido gado!
+ lha que vs sem elle mal guiado.
+
+ Hum filho deste Rei (de quem dizia
+ Que ser de Ursula sogro desejava)
+ Movido do rumor que della ouvia,
+ Ja dentro no seu peito a namorava.
+ Alli seu amor, delle, lhe offrecia;
+ Alli por o amor della suspirava.
+ Suspira elle por ella; ella suspira
+ Tambem por outro amor que nunca vira.
+
+ Mandou o Rei Inglez Embaixadores
+ Com pompa Regia e lustre sumptuoso,
+ (Do grande Reino seu grandes Senhores)
+ A Noto, Rei no tanto poderoso.
+ Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores
+ Ardia toda do celeste Esposo)
+ Para esposa do filho, que sabia
+ Que ja d'amores della todo ardia.
+
+ O Rei Breto se achava descontente
+ Com a nova embaixada de Inglaterra:
+ Receia que se nella no consente,
+ O gentio lhe mova cruel guerra:
+ Porque sendo mais rico e mais potente,
+ Assi no largo mar, como na terra,
+ Quando desprezos visse de seu rgo,
+ Podia pr Bretanha a ferro e fogo.
+
+ Sbre este no errado pensamento
+ Do medo de perder seu senhorio,
+ Novo discurso tinha e novo intento,
+ Com que se achava mais medroso e frio.
+ Estranhava o fazer ajuntamento
+ Da catholica filha co'hum gentio;
+ Pois nem a Lei de Christo o permittia,
+ Nem Ursula fiel o admittiria.
+
+ Estando o pae em tal angstia psto,
+ Divinamente a filha ja inspirada,
+ Lhe assegurava com sereno rosto
+ Que consentir podia na embaixada;
+ Dizendo que se o Inglez levava gsto
+ D'ella com seu herdeiro ser casada,
+ Primeiro lhe mandasse dez donzellas,
+ Do Reino as mais illustres, as mais bellas.
+
+ Que mil daria a cada virgem destas,
+ E que a ella outras mil tambem daria,
+ Todas de claro sangue, e em vista honestas.
+ (Dest'arte a conta de onze mil fazia)
+ Que por trez annos dilao nas festas,
+ Alm do ja pedido, lhe pedia;
+ E naos e mantimentos, porque todas
+ Fossem com ella a Roma antes das bodas.
+
+ Alli sua pureza e virgindade
+ Queria com solemne e sacro voto
+ Consagrar divina Potestade,
+ Que o ceo e a terra fez de proprio moto.
+ E que deixasse a va gentilidade
+ Seu filho, para genro ser de Noto,
+ Para que neste espao doutrinado
+ Fosse na F de Christo, e baptizado.
+
+ Com estas condies Ursula disse
+ Ao charo pae, que, a ser dellas contente,
+ Podia responder; e despedisse
+ A proposta daquelle Rei potente:
+ Ou porque ouvindo-as elle desistisse,
+ Podendo-se acceitar difficilmente;
+ Ou porque, quando as virgens concedesse,
+ Comsigo a seu Senhor onze mil dsse.
+
+ Oh Divino saber, quo soberano
+ Conselho he sempre o teu! quo remontado!
+ Oh quanto o mor saber te cede humano,
+ Por mais que de razes v mais ornado!
+ Ja dos idolos deixa o cego engano
+ O Principe, da virgem namorado;
+ Ja terno pede ao pae quanto ella pede;
+ Ja o pae quanto lhe roga lhe concede.
+
+ Ja para ti, virgem bella e branda,
+ Com huma singular velocidade,
+ Juntar se via d'huma e d'outra banda
+ De feminil nobreza tenra idade.
+ As naos apparelhar o Rei ja manda;
+ Ja nellas se recolhe a Virgindade;
+ Ja do para Bretanha ao vento velas.
+ O corao do noivo vai com ellas.
+
+ Ja vem a tomar porto onde esperava
+ Ursula alvoroada em gr maneira;
+ Que para as receber alli se achava,
+ Como senhora no, mas companheira.
+ Quo falsa era a Lei dellas lhes mostrava,
+ A de Christo quo pura e verdadeira.
+ Ja se baptiza huma e outra Dama;
+ Damas Ursula ja do ceo lhes chama.
+
+ A Fama, que no sabe repousar,
+ Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha;
+ A gente que concorre no tee par,
+ Por ver a nunca vista maravilha.
+ Outros vem por servir e acompanhar
+ A Virgem de Rei nora, de Rei filha.
+ Movem-se muitos Bispos de Bretanha;
+ Pantalo em vida e morte os acompanha.
+
+ Por ti, deixando o Reino, co'a familia
+ E quatro filhas suas, s'embarcou,
+ Juliana, Victoria, Aurea, Babilia;
+ (Hum filho tinha mais que mais levou)
+ Gerasina, Rainha de Sicilia,
+ E com devido amor te acompanhou;
+ Qu'he justo que comtigo vo Rainhas,
+ Quando tu para o Rei dos Reis caminhas.
+
+ Ja se partem as bellas peregrinas,
+ As mos ao claro Empyreo levantadas;
+ Ja rompem, ja, por ondas crystallinas
+ As naos de formosura carregadas.
+ Quando, dizei, goas Neptuninas,
+ Fostes de tal belleza navegadas?
+ Nunca, despois que a terra descobristes,
+ A tal frota por vs caminho abristes.
+
+ Com vento sempre igual, com mar bonana,
+ Sem perigos alguns, sem algum pejo,
+ Ceyla foro tomar, porto de Frana,
+ Onde pouca demora fazer vejo.
+ O corao da virgem no descana,
+ Saudosa do fim de seu desejo;
+ Manda que levem ferro, soltem linho
+ Que leve por o mar o negro pinho.
+
+ O vento nova posse vai tomando
+ Das virgens que lhe so encommendadas:
+ Com tal prosperidade vo voando,
+ Que ja deixo atraz ondas salgadas:
+ Ja nas doces do Rheno esto entrando,
+ Onde tee suas vidas limitadas:
+ Huma cidade vem lingua da goa,
+ Que de v-las morrer no teve mgoa.
+
+ Ah Colonia cruel, que no t'encobres
+ A to formosos olhos, que seguros
+ As altas trres vio que descobres,
+ Lustrosos edificios, fortes muros!
+ Permitte o largo Ceo que fama cobres
+ De ser to dura me de peitos duros?
+ Duros peitos, que a tantos, limpos de rro
+ Viro abrir sem dor com impio ferro!
+
+ Estando neste porto a bella Armada
+ Tomando o necessario mantimento,
+ Para poder seguir sua jornada,
+ E dar terceira vez o treu ao vento;
+ Sendo parte da noite ja passada,
+ A virgem l no seu retrahimento,
+ Quando estava dormindo toda a frota,
+ A Christo orou assi, branda e devota:
+
+ Amor, divino Amor, Amor suave,
+ Amor, que amando vou toda rendida;
+ Com quem no ha na vida pena grave,
+ Sem quem glria real no ha na vida;
+ Amor, que do meu peito tens a chave,
+ Amor, de cujo amor ando ferida,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que no vejo?
+
+ Amor, que d'amor cheio e de brandura,
+ D'amor enches est'alma saudosa;
+ Amor, sem cujo amor e formosura,
+ No pde nunca haver cousa formosa;
+ Amor, com cujo amor anda segura
+ Huma vida to fraca e duvidosa,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que no vejo?
+
+ Amor, que por amor te dispuzeste
+ A restaurar o mundo errado e triste;
+ Amor, que por amor do ceo desceste;
+ Amor, que por amor Cruz subiste;
+ Amor, que por amor a vida dste;
+ Amor, que por amor a glria abriste,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que no vejo?
+
+ Amor, que mais e mais sempre te augmentas
+ No corao que l comtigo trazes;
+ Amor, que d'amor puro te sustentas
+ No fogo em que tu mesmo arder me fazes;
+ Amor, que sem amor no te contentas,
+ De tudo com amor te satisfazes,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que no vejo?
+
+ Amor, que com amor me captivaste;
+ (Se livre pde ser quem no captivas)
+ Amor, qu'em taes prises m'asseguraste
+ As esperanas d'antes fugitivas:
+ Amor, que suspirando m'ensinaste
+ A derramar por ti lagrimas vivas,
+ Quando verei, Amor, o que desejo,
+ Para que veja, Amor, o que no vejo?
+
+ Quando verei hum dia em que offerea
+ Por ti ao cruel ferro o peito forte,
+ E cercada de virgens apparea
+ Na tua soberana e eterna Corte;
+ Onde l cada huma te merea,
+ C passando comigo a propria morte;
+ E todas dando o sangue juntas, todas
+ Celebremos comtigo eternas bodas?
+
+ Faze-me ja, Senhor, esta vontade
+ Que tenho de te ver, que sempre tive,
+ Des que me deo lugar a tenra idade,
+ E lume de razo nesta alma vive.
+ No queiras, meu Amor, que a saudade
+ Sem tal bem a mi s da vida prive;
+ Que se muito se alarga este destrro,
+ Por ella irei a ti, no por o ferro.
+
+ Desata o meu espirito saudoso,
+ Do n mortal em que se vai detendo,
+ Primeiro que tres vezes pressuroso
+ O sol os doze Signos v correndo.
+ Espao he que tomei, meu doce Esposo,
+ Para outro esposo meu ir entretendo:
+ Mas a meu amor crendo, de ti creio
+ Que acabes com a vida o meu receio.
+
+ Inda neste fervente e justo rgo
+ Ursula suspirando procedia,
+ Quando d'hum resplandor como de fogo
+ Divina voz ouvio, que assi dizia:
+ virgem, que soubeste fazer jgo
+ Do que no mundo tee maior valia,
+ Entende que da volta que fizeres,
+ Aqui quero que seja o que tu queres.
+
+ Tanto que tal resposta do Ceo teve,
+ No quiz do que esperava perder hora:
+ Ja lhe parece larga a noite breve,
+ E que ja tarda muito a bella aurora.
+ Em descobrindo Apollo o carro leve,
+ Do porto de Colonia sahio fra.
+ Ja Basila em breve tempo toma:
+ E a p d'alli partiro para Roma.
+
+ O Pastor summo, Cirico santo,
+ As sahe a receber, e as acompanha
+ Com gzo espritual, com grande espanto
+ De ver em tal idade f tamanha.
+ Dizer se pde mal, mal cuidar quanto
+ Se goza o Real sangue de Bretanha,
+ Os veneraveis Templos visitando
+ Daquelles que tambem foi imitando.
+
+ Na propria noite deste proprio dia
+ Que Roma ver as virgens mereceo,
+ A quem de Pedro a Barca ento rega
+ Revelou o que rege a terra e ceo
+ Que martyrio tambem receberia
+ Onde Ursula co'as mais o recebeo:
+ Deixa contente o gro Pontificado,
+ Desejoso de ser martyrizado.
+
+ Por mais que todo o Clero soffre mal
+ Mover-se por aquellas Estrangeiras,
+ Movido da Vontade divinal
+ O bom Pastor se vai com as Cordeiras.
+ Hum Arcebispo leva, hum Cardeal:
+ Tres Bispos deixo vagas tres Cadeiras,
+ De Luca, Ravicana e de Ravenna:
+ Mauricio me ficava ja na penna.
+
+ Despois de n'goa entrar, donde sahro,
+ Com to formoso sol tantas estrellas,
+ Ja as ancoras debaixo acima tiro,
+ E de cima ja abaixo solto vellas.
+ Estas naos l adiante outras naos vro,
+ Que fazendo-se vem na volta dellas;
+ Conhecro-se logo as duas frotas:
+ Ambas d'hum Reino so, ambas devotas.
+
+ Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra,
+ Vinha de Ursula bella o bello esposo,
+ Que reinar no queria ja na terra,
+ Do ceo ja namorado e saudoso.
+ Do seu primeiro amor venceo a guerra
+ A fra d'outro amor mais poderoso:
+ Amando ja em seu Deos a esposa bella,
+ Para o poder achar, buscava a ella.
+
+ A me, ja convertida, traz comsigo;
+ O pae, ja Christo feito, fallecra,
+ Com que soube evitar o gro castigo
+ Que, morrendo Gentio, no soubera.
+ Amor celeste, como aqui no digo
+ O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!)
+ Por meio d'huma virgem foste meio
+ Com que gente copiosa a Christo veio.
+
+ Vinha mais nesta nova companhia
+ Florencia, irma do Rei, da me cuidado;
+ Florencia, qu'em belleza florecia,
+ Como flor em jardim bem cultivado.
+ Tambem a frota Bispos dous trazia,
+ Hum Marcello, Clemente outro chamado:
+ O primeiro ja em Grecia bago teve;
+ Do segundo o Bispado no s'escreve.
+
+ Outra Virgem viuva alli mais vinha,
+ Que desposada sendo em tenra idade,
+ Antes das bodas enviuvado tinha,
+ E promettida a Christo a castidade.
+ Esta do mesmo Rei era sobrinha,
+ Filha da Imperatriz da gr cidade,
+ Onde por culpa nossa, ou pouca dita,
+ Seu throno agora tee o fero Scita.
+
+ Estes, que adverte repetida historia
+ Deixro s por Deos altos Estados,
+ Com outros, de que he menos a memoria,
+ Foro divinamente amoestados
+ Que todos, para entrar juntos na glria,
+ Ao cro virginal fossem juntados,
+ Com quem na terra Martyres serio,
+ E no ceo para sempre reinario.
+
+ Sera estranho o gzo que sentro
+ Aquellas bem nascidas almas santas,
+ Quando juntas alli todas se vro
+ De partes to remotas, e de tantas.
+ Sem estorvos, que d'antes o impedro,
+ As duas, mais que todas, bellas plantas
+ Alli abraos se do sem algum pejo,
+ Ambas conformes ja n'hum s desejo.
+
+ Alli faria o Rei acatamento
+ A quem deixou da Barca o gro govrno;
+ E elle, conforme a seu merecimento,
+ Responderia com amor paterno.
+ No faltaria em tal recebimento
+ Prazer exterior, prazer interno;
+ Inda que nos estados differentes,
+ Todos serio huns em ser contentes.
+
+ O vento as brancas velas no enchia,
+ Corria o frio Rheno ento mais quedo;
+ Antes para Colonia no corria,
+ Porque as virgens no fossem l to cedo.
+ Parece que ja claro conhecia
+ (Oh cro virginal, sereno e ledo!)
+ Que l vos esperava a impia morte.
+ Agora, Musa, conta de que sorte.
+
+ Aquelle que na frma de serpente
+ Deixou aos dous primeiros enganados,
+ Invejoso de ver que tanta gente
+ Se convertia Lei dos Baptizados;
+ No carao entrou manhosamente
+ De dous gentios Principes damnados,
+ Da soberba Roma Cavaleria,
+ Por encurtar a F que s'estendia.
+
+ A Fama os assegura com certeza
+ Que a virgem a Colonia ja voltava,
+ Com toda a casta juvenil belleza
+ Que por amor do Ceo peregrinava.
+ Fizero avisar com gr presteza
+ A hum parente, que Julio se chamava,
+ Soberbo Capito dos Hunnos feros;
+ Que todos para todas foro Neros.
+
+ Eis logo o cego Principe gentio,
+ Com gente innumeravel de seu mando,
+ A praia a tomar vem do mesmo rio
+ Por onde as virgens vinho navegando.
+ Ja descobrem aquelle, este navio
+ Os qu'esto do mais alto atalaiando:
+ s armas veloz corre o bruto povo,
+ Por de novo as tingir no sangue novo.
+
+ Vindo a frota a surgir junto do muro,
+ Onde lhe parecia estar segura,
+ (Oh virgens que buscais? lugar seguro
+ Adonde vos espera a sepultura!)
+ Entra com mo armada o povo duro
+ Por esta peregrina formosura:
+ Ja comea a provar os aos fortes;
+ Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes.
+
+ Ja nu todas as virgens offrecio
+ O delicado collo, o tenro peito:
+ Era para caber quantas cahio,
+ Todo largo lugar lugar estreito.
+ Do puro sangue os rios que corrio,
+ Outro vermelho mar ja tinho feito.
+ Tu s, Crdula, morte t'escondeste;
+ Mas despois a buscaste e recebeste.
+
+ Cirico o primeiro, bem constante,
+ A vida ao ferro offrece sem espanto:
+ O moo Rei Inglez cahio diante
+ Daquelles castos olhos que amou tanto.
+ Espera, brando esposo, hum breve instante;
+ Espera a tua doce esposa, em tanto
+ Que outro Amor outro golpe lhe prepara;
+ E juntos entrareis na Patria chara.
+
+ Em qual terra, crueis, em qual cidade,
+ Entre quaes gentes mais a furor dadas,
+ Se no usou d'amor e de piedade
+ Com formosas donzellas desarmadas?
+ Como belleza tanta e tal idade
+ Vos deixou arrancar vossas espadas?
+ Ah lobos carniceiros, tigres bravos,
+ Filhos da crueldade, d'ira escravos!
+
+ De quantos animaes sustenta a terra
+ Nunca tanta crueza foi usada;
+ Inda que tenho huns com outros guerra,
+ Nunca do macho a femia he lastimada:
+ Anda a cerva co'o cervo por a serra,
+ A novilha do touro acompanhada,
+ leoneza o leo defender preza:
+ Vs ss quebrais as leis da natureza?
+
+ Pudero outros olhos por ventura
+ De lagrimas divinas escusar-se,
+ Vendo, cuberta ja de nvoa escura,
+ A luz de tantos bellos apagar-se?
+ Vendo a purpurea rosa, a cecem pura
+ Em to formosas faces descorar-se?
+ As tranas d'ouro vendo, espedaadas,
+ Por debaixo dos ps andar pizadas?
+
+ Na fra desta furia accesa e brava
+ O Tyranno cruel a vista ergueo
+ virgem, qu'invencivel animava
+ As almas que juntra para o Ceo.
+ Assi ja envolta em sangue como andava,
+ Da sua formosura se venceo;
+ E com doces razes, que Amor ensina,
+ A venc-la d'amor se determina.
+
+ Fingindo se arrepende do passado,
+ (E de fingi-lo se arrepende azinha)
+ Sua vida lhe offrece e seu Estado,
+ Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha.
+ O seu amor lhe pede confiado;
+ O seu amor que dado a seu Deos tinha:
+ Pede-lhe o seu amor; antes no seu,
+ Porque ja dado o havia a quem lho deu.
+
+ Usa de mil lisonjas, mil enganos,
+ Por conseguir o seu desejo bruto.
+ A flor logra (dizia) de teus anos,
+ Colhe d'essa belleza o doce fruto:
+ No ds materia nova a novos danos,
+ No pagues verde morte o seu tributo:
+ Olha que tens em mi (no so cautelas)
+ Outro Reino, outro esposo, outras donzelas.
+
+ No faas mentirosa a natureza
+ Que d d'amor em ti grande esperana.
+ Que se pde alcanar d'essa belleza,
+ Se ja piedade della no s'alcana?
+ Aos tigres, aos lees deixa a braveza,
+ E deixa aos meus soldados a vingana.
+ Se por ver-me cruel queres ser crua,
+ Ja te vingas de mi em cousa tua.
+
+ Volve esses olhos ja com mais brandura;
+ Esses olhos, d'Amor doce morada:
+ Delles no faa em mi a formosura,
+ O qu'em tantos ja fez a minha espada.
+ Se queres derribar minha ventura,
+ Que delles estar vejo pendurada,
+ Acabarei de ver quo pouca tenho,
+ Pois donde a matar vim a morrer venho.
+
+ Como do rgo meu no te aproveitas,
+ Quando o teu risco a me rogar te obriga?
+ Ou no conheces bem a quem engeitas,
+ Ou m'engeitas por mais que seja e diga.
+ Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas?
+ Mais proprio era chamar-te dura imiga.
+ Mas no consente Amor nome to duro
+ Em parecer to brando e to seguro.
+
+ Os raios desses olhos ja serenos
+ Enxuguem desse rosto as puras rosas;
+ O triste suspirar ja se menos
+ Nestas concavidades saudosas.
+ No fao grande mal males pequenos;
+ Que no soffre esperanas vagarosas
+ Quem anda costumado em seus amores
+ A medir por seu gsto seus favores.
+
+ Que gsto podes ter de maltratar-me,
+ Vendo-me do passado arrependido?
+ Attenta que mais ganhas em ganhar-me,
+ Do que neste destro tens perdido.
+ Se queres insistir em desprezar-me,
+ Ver-me-has, sbre amoroso, enfurecido.
+ No me declaro mais, porque no quero
+ Que o medo faa o que d'amor espero.
+
+ Ah perfido amador! deixa o teu rro.
+ No vs quanto enganado e cego andas?
+ Aquella a quem no vence o duro ferro,
+ Como a podem vencer palavras brandas?
+ Manda a sua alma ja deste destrro,
+ Com essas que a seu doce Esposo mandas.
+ No a detenhas mais em teus amores,
+ Se dobrar-lhe no queres suas dores.
+
+ Vendo o cruel, emfim, que o que dizia,
+ Tomava a bella virgem por affronta,
+ E que quanto d'amor mais se accendia,
+ Ella delle fazia menos conta;
+ No concavo arco que na mo trazia,
+ Huma setta embebeo d'aguda ponta,
+ E o peito lhe passou de banda a banda.
+ Assi rendeo o esprito a virgem branda.
+
+ Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza;
+ As azas abre ja, ja a luz derrama;
+ Va com desusada ligeireza
+ Onde o teu Bem t'espera, onde te chama.
+ Vers baixa do mundo a mr alteza;
+ Vers qu'engana mais a quem mais ama;
+ E l do teu Amor, c suspirado,
+ O fructo colhers to desejado.
+
+ Em paz te vae, alma pura e bella,
+ Mais bella inda no sangue que verteste;
+ Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella
+ Formosa Regio, alta e celeste.
+ Coroada de glria immortal, nella
+ Com Christo logrars, a quem te dste
+ Com tantas e to bem nascidas almas,
+ (Formosura do Ceo) onze mil palmas.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+COMEDIAS.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+
+DO PROLOGO.
+
+ O MORDOMO, ou DONO DA CASA.
+ MARTIM CHINCHORRO.
+ AMBROSIO, Escudeiro.
+ LANAROTE, Moo.
+
+
+DA COMEDIA.
+
+ ELREI SELEUCO.
+ A RAINHA ESTRATONICA.
+ O PRINCIPE ANTIOCHO.
+ LEOCADIO, Pagem do Principe Antiocho.
+ FROLALTA, Criada da Rainha Estratonica.
+ HUM PORTEIRO DA CANA.
+ HUMA MOA DA CAMARA.
+ HUM PHYSICO, ou MEDICO.
+ SANCHO, Moo do Physico.
+ ALEXANDRE DA FONSECA, hum dos Musicos.
+
+
+
+ * * * * *
+
+
+ELREI SELEUCO.
+
+COMEDIA.
+
+
+
+
+PROLOGO.
+
+_Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa._
+
+Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quiz
+representar huma Fara; e diz, que por no se encontrar com outras ja
+feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo assi
+arrazoado satisfazer. E diz que quem se della no contentar, querendo
+outros novos acontecimentos, que se v aos soalheiros dos Escudeiros da
+Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em
+casa do Boticario; e no lhe faltar que conte. Porm diz o Autor que
+usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto obra, se no parecer
+bem a todos, o Autor diz que entende della menos que todos os que lha
+puderem emendar. Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que
+responde com hum dito de hum Philosopho, que diz: _Vs outros estudastes
+para praguejar, e eu para desprezar praguentos?_ Eu com tudo quero saber
+da Fara, em que ponto vai. Lanarote?
+
+MOO.
+
+Senhor.
+
+MORDOMO.
+
+So ja chegadas as figuras?
+
+MOO.
+
+Chegadas so ellas quasi ao fim de sua vida.
+
+MORDOMO.
+
+Como assi?
+
+MOO.
+
+Porque foi a gente tanta, que no ficou capa com friza, nem talo de
+apato, que no sahisse fra do couce. Ora viero huns embuadetes, e
+quizero entrar por fra; ei-lo arrancamento na mo: dero huma pedrada
+na cabea ao Anjo, e rasgro huma meia cala ao Ermito; e agora diz o
+Anjo que no ha de entrar, at lhe no darem huma cabea nova, nem o
+Ermito at lhe no prem huma estopada na cala. Este pantufo se perdeo
+alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que no quero nada do
+alheio.
+
+MORDOMO.
+
+Se elle fra outra pea de mais valia, tu botras a consciencia pela
+porta fra, para o metteres em tua casa.
+
+MOO.
+
+Oh! se o elle fra, mais consciencia sera torn-lo a seu dono, quem o
+havia mister para si.
+
+MORDOMO.
+
+Ora vem c: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos
+c Auto com grande fogueira; que se venha sua merc para c, e que traga
+comsigo o Senhor Romo d'Alvarenga, para que sbre o Canto-cho botemos
+nosso contraponto de zombaria. Ouves, Lanarote? ir-lhe-has abrir a
+porta do quintal, porque mudemos o vinte aos que cuido de entrar por
+fra.
+
+_Indo-se o Moo diz:_
+
+Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma
+bolsa com hum par de reales, que so bons para Escudeiro hypocrita; que
+so pouco, e valem muito?
+
+MORDOMO.
+
+Moo, que ests fazendo que no vs?
+
+MOO.
+
+Senhor, estou tardando, e porm estou cuidando que se agora fra aquelle
+tempo, em que corrio as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para
+humas palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste?
+
+MORDOMO.
+
+Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dir.
+
+_Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moo, e diz o Mordomo:_
+
+No ha mais mao conselho, que ter hum villo destes mimoso, porque logo
+passo o p alm da mo, e zombo assi da gravidade de seu amo. Mas
+tornando ao que importa; vossas mercs he necessario que se cheguem huns
+para os outros, para darem lugar aos outros Senhores que ho de vir; que
+de outra maneira, se todo o corro se ha de gastar em palanques, ser bom
+mandar fazer outro alvalade; e mais, que me ho de fazer merc, que se
+ho de desembuar, porque eu no sei quem me quer bem, nem quem me quer
+mal: este s desgsto tee hum Auto, que he como offcio de Alcaide; ou
+haveis deixar entrar a todos, ou vos ho de ter por villo ruim.
+
+_Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro Ambrosio, e diz:_
+
+MARTIM.
+
+Entre v. m.
+
+AMBROSIO.
+
+Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou
+diante. Beijo as mos a v. m. A verdade he esta, passear em casa
+juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; alm
+disto Auto para esgaravatar os dentes: esta he a vida, de que se ha de
+fazer consciencia.
+
+MORDOMO.
+
+Senhor, o descanso dizem l, que se ha de ter em quanto homem puder,
+porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu p, que seu
+nome he.
+
+MARTIM.
+
+Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho
+traz mais somno comsigo que huma prgao comprida.
+
+MORDOMO.
+
+Senhor, por bom mo vendro, e eu o tomei cala de sua boa fama. E se
+tal he, eu acho que, por outra parte, no ha tal vida, como ouvir hum
+villo, que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que huma
+pera-po, e huma donzella, que vem podre de amor, fallando como
+Apostolo, mais piedosa que huma lamentao.
+
+MARTIM.
+
+Para estes taes he grande pea rapaz travesso com mlho de junco, porque
+no andem mais ao coscorro, mais roucos que huma cigarra, trazendo de
+si enfadamento.
+
+MOO.
+
+O l Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro.
+Ora sus, ha hi quem d mais? que ainda vos veja todas a mim s
+rebatinhas: ora sus, venho de mano em mano, ou de mana em mana.
+
+MORDOMO.
+
+Moo, falla bem ensinado.
+
+MOO.
+
+Senhor, no faz ao caso; que os erros por amores tee privilegio
+de Moedeiro.
+
+AMBROSIO.
+
+ rapaz, no me entendes? Pergunto-te se tardaro muito por entrar.
+
+MOO.
+
+Parece-me, Senhor, que antes que amanhea comearo.
+
+AMBROSIO.
+
+Oh que salgado moo! Zombas de mi? Vem c. Donde es natural?
+
+MOO.
+
+Donde quer que me acho.
+
+AMBROSIO.
+
+Pergunto-te onde nasceste.
+
+MOO.
+
+Nas mos das parteiras.
+
+AMBROSIO.
+
+Em que terra?
+
+MOO.
+
+Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida
+daquella hora, que no havia palmo de terra nella.
+
+MARTIM.
+
+Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para
+ver com que disparate respondes.
+
+MOO.
+
+A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio.
+
+MARTIM.
+
+Vem c. De teu tio! E isso como?
+
+MOO.
+
+Como? Isto, Senhor, he adivinhao, que vossas mercs no entendem. Meu
+pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamo aos filhos sobrinhos; e
+daqui me ficou a mi ser filho de meu tio.
+
+MARTIM.
+
+Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este?
+
+MORDOMO.
+
+Aqui me veio s mos sem pis nem nada; e eu por gracioso o tomei; e
+mais tee outra cousa, que huma trova fa-la to bem como vs, ou como
+eu, ou como o Chiado.
+
+AMBROSIO.
+
+No! quant disso ns havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto
+se vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este?
+
+MORDOMO.
+
+Vem c, moo: dize aquella trova que fizeste moa Briolanja, por amor
+de mi!
+
+MOO.
+
+Senhor, si, direi; mas aquella trova no he seno para quem a entender.
+
+MARTIM.
+
+Como! To escura he ella?
+
+MOO.
+
+Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu no sei escrever
+seno com carvo; e porm diz assi:
+
+ Por amor de vs, Briolanja,
+ Ando eu morto,
+ Pezar de meu av torto.
+
+MARTIM.
+
+Oh como he galante! Que descuido to gracioso! Mas vem c: que culpa te
+tee teu av nos desfavores que te tua dama d?
+
+MOO.
+
+Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, no pezarei eu antes dos
+meus parentes, que dos alheios?
+
+MORDOMO.
+
+Pois ouo vossas mercs a volta; que he mais cheia de gavetas, que
+trombeta de Serenissimo de la Valla.
+
+MOO.
+
+A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de
+mergulho a entendero. E por isso mandem assoar os engenhos, e meto
+mais huma sardinha no entendimento; e pde ser que com esta servilha lhe
+calar melhor: e todavia palra assi:
+
+ Vossos olhos to daninhos
+ Me tratro de feio,
+ Que no ha em meu corao
+ Em que atem dous reis de cominhos.
+ Meu bem anda sem focinhos
+ Por vs morto,
+ Pezar de meu av torto.
+
+MARTIM.
+
+Ora bem: que tee de ver os cominhos com o teu corao?
+
+MOO.
+
+Pois, Senhores, corao, bofes, bao e toda a outra mais cabedella, no
+se podem comer seno com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era
+tendeira; e este he o verdadeiro entendimento.
+
+MARTIM.
+
+E aquella regra que diz, _Meu bem anda sem focinhos_, me d tu a
+entender; que ella no d nada de si.
+
+MOO.
+
+Nunca vossas mercs ouviro dizer: _Meu bem e meu mal lutro hum dia;
+meu bem era tal, que meu mal o vencia?_ Pois desta luta foi tamanha a
+quda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por
+ficarem to esfarrapados, que lhe no podio botar pedao; por conselho
+dos Physicos lhos cortro por lhe nelles no saltarem erpes; e daqui
+ficou: _Meu bem anda sem focinhos_, como diz o texto.
+
+AMBROSIO.
+
+Tu fazes ja melhores argumentos, que moos de estudo por dia de S. Nicolao.
+
+MARTIM.
+
+Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moo he natural para Logico.
+
+MOO.
+
+Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas no to fria como vossas mercs.
+
+MORDOMO.
+
+Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moo, mete-te aqui por
+baixo desta mesa, e ouamos este Representador, que vem mais amarrotado
+dos encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira
+da arca de cedro.
+
+MARTIM.
+
+Senhor, elle parece que aprende a cirurgio.
+
+AMBROSIO.
+
+Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos
+verdes.
+
+MORDOMO.
+
+Emfim, parece figura de Auto em verdade.
+
+_Entra o Representador._
+
+ He lei de direito, assaz verdadeira,
+ Julgar por si mesmos aquillo que vem;
+ Peloque, se cuido que zombo de alguem,
+ Eu cuido que zombo da mesma maneira.
+
+E assi a qualquer parece que est mais dobrado, sem nenhum conhecer seu
+proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me esquece o
+dito todo de ponto em claro: mas no sou de culpar, porque no ha mais
+que tres dias que mo dero. Mas em breves palavras direi a vossas mercs
+a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo at ponta. Entraro logo
+primeiramente quinze donzellas que vo fugidas de casa de seus paes, e
+vo com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos,
+metidos em hum covo, cantando: _Quem os amores tee em Cintra_; e
+despois de cantarem faro huma dana de espadas; cousa muito para ver:
+entra mais ElRei Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo
+Catharina Real com huns poucos de parvos n'huma joeira; e seme-los-ha
+pela casa, de que nascer muito mantimento ao riso. E nisto fenecer o
+Auto, com musica de chocalho e buzinas, que Cupido vem dar a huma
+alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-ho vossas mercs cada hum para suas
+pousadas, ou consoaro c comnosco disso que ahi houver. Parece-me que
+nenhum diz que no. Ora pois ficareis _in vanum laboraverunt_, porque
+atgora zombei de vs, por me forrar do rro da representao, como quem
+diz, _digo-to, antes que mo digas._
+
+AMBROSIO.
+
+Ora vos digo, Senhores, que se as figuras so todas taes, que acertario
+em errar os ditos; aindaque me parece que este o no fez, seno a ser
+mais galante. Mas se assi he, ella he a melhor inveno que eu vi;
+porque jagora representaes, todas he darem por praguentos; e so to
+certas, que he melhor err-las, que acert-las.
+
+MORDOMO.
+
+Parece-me que entro as figuras de siso: vejamos se so to galantes na
+prtica, como nos vestidos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+_Entra El Rei Seleuco, com a Rainha Estratonica._
+
+REI.
+
+ Senhora, desque a ventura
+ Me quiz dar-vos por mulher,
+ Me sinto emmeninecer;
+ Porqu'em vossa formosura
+ Perde a velhice seu ser.
+ Hum homem velho, cansado,
+ No tee fra, nem vigor,
+ Para em si sentir amor:
+ Se no he qu'estou mudado
+ Com ser vosso n'outra cr.
+ Muito grande dita tem
+ A mulher que he formosa.
+
+RAINHA.
+
+ Senhor, grande: mas porm
+ Se a tal he virtuosa,
+ Quer-lhe a ventura mor bem.
+
+REI.
+
+ Si, mas porm nunca vemos
+ A natureza esmerar
+ Adonde haja que taxar;
+ Que quando ella faz extremos,
+ Em tudo quer-se extremar.
+ Eu fallo como quem sente
+ Em vs est calidade,
+ Pelo que vejo presente;
+ E se me esta mostra mente,
+ Mente-me a mesma verdade.
+ Huma s tristeza tenho
+ Que no tee a meninice,
+ Que no mor contentamento
+ O trabalho da velhice
+ Me embaraa o sentimento.
+
+RAINHA.
+
+ Senhor, novidades tais
+ Far-me-ho crer de verdade...
+
+REI.
+
+ Novidades lhe chamais!
+ Folgo, Senhora, que achais
+ Na velhice novidades.
+
+RAINHA.
+
+ Senhor, dias ha que sento
+ Em o Principe Anticho
+ Certo descontentamento:
+ Dera alguma cousa a trco
+ Por saber seu sentimento.
+ Vejo-lhe amarello o rosto,
+ Ou de triste, ou de doente:
+ Ou elle anda mal disposto,
+ Ou l tee certo desgsto
+ Que o no deixa ser contente.
+ Mande, Senhor, vossa Alteza
+ A cham-lo por alguem,
+ Saberemos que mal tem,
+ Se he doena de tristeza,
+ De que nasce, ou de que vem.
+
+REI.
+
+ Certo qu'eu me maravilho
+ Do que vos ouo dizer.
+ Que mal pde nelle haver?
+ Ide dizer a meu filho
+ Que me venha logo ver.
+
+RAINHA.
+
+ Se curar no se procura
+ Huma cousa destas tais,
+ Vem despois a crescer mais.
+ Quando ja no se acha cura,
+ Toda a cura he por demais.
+
+_Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome Leocadio._
+
+PRINCIPE.
+
+ Leocadio, se es avisado,
+ E no te falta saber,
+ Saber-me-has dar a entender,
+ Quem ama desesperado,
+ Que fim espera de haver?
+
+PAGEM.
+
+ Senhor, no.
+ Mas porm porque razo
+ Lhe avem sab-lo, ou de que?
+
+PRINCIPE.
+
+ Pergunto-te a concluso;
+ No me perguntes porque.
+ Porque he minha pena tal,
+ E de to estranho ser,
+ Que me hei de deixar morrer;
+ E por no cuidar no mal
+ O no ouso de dizer.
+ Que maneira de tormento
+ To estranho e evidente,
+ Que nem cuidar se consente!
+ Porque o mesmo pensamento
+ Ha medo do mal que sente.
+
+PAGEM.
+
+ No entendo a Vossa Alteza.
+
+PRINCIPE.
+
+ Assi importa minha dor.
+
+PAGEM.
+
+ E porque razo, Senhor?
+
+PRINCIPE.
+
+ Para que seja a tristeza
+ Castigo do meu temor.
+ Porque ordena
+ O Amor, que me condena,
+ Que se haja de sentir,
+ E sem dizer nem ouvir.
+ Bem-aventurada a pena
+ Que se pde descobrir!
+ Oh caso grande e medonho!
+ Oh duro tormento fero!
+ Verdade he isto, qu'eu quero?
+ No he verdade, mas sonho
+ De que acordar no espero.
+ Quero-me chegar a ElRei
+ Meu pae, que ja m'est vendo.
+ Mas onde vou? No m'entendo.
+ Com que olhos eu olharei
+ Hum pae, a quem tanto offendo?
+ Que novo modo de antolhos!
+ Porque neste atrevimento
+ Devra meu sentimento
+ Para elle no ter olhos,
+ Nem para ella pensamento.
+
+_Chega aonde est ElRei, e diz:_
+
+REI.
+
+ Filho, como andais assi?
+ Que tanto desgsto tomo
+ De vos ver como vos vi!
+
+PRINCIPE.
+
+ No sei eu tanto de mi,
+ Que possa saber o como.
+ Dias ha ja, Senhor, que ando
+ Mal disposto, sem saber
+ Este mal que possa ser;
+ Que se nelle estou cuidando,
+ Quasi me vejo morrer.
+
+REI.
+
+ Pois, filho, ser razo
+ Que meus Physicos vos vejo.
+
+PRINCIPE.
+
+ Os Physicos, Senhor, no;
+ Que os males qu'em mi esto,
+ So curas que me sobejo.
+
+RAINHA.
+
+ Deite-se; que na verdade
+ Hum corpo, deitado e manso,
+ Descansa sua vontade.
+
+PRINCIPE.
+
+ Senhora, esta enfermidade
+ No se cura com descanso.
+
+RAINHA.
+
+ Todavia, bom ser
+ Que lhe fao huma cama.
+
+PRINCIPE.
+
+ (Hum coxim abastar,
+ Que assi no descansar
+ O repouso de quem ama.)
+
+REI.
+
+ Vamos, filho, para dentro,
+ Em quanto a cama se faz:
+ Repousae como capaz;
+ Que a mi me d c no centro
+ A pena que assi vos traz.
+
+_Vo-se, e vem huma moa a fazer a cama e diz:_
+
+MOA.
+
+ Mimos de grandes Senhores,
+ E suas extremidades,
+ Me ho de matar de amores,
+ Porque de meros dulores
+ Adoecem.
+ Ento logo lhes parecem
+ Aos outros, que so mamados;
+ E os que so mais privados,
+ Sbre elles estremecem.
+ Certo (e assi Deos me ajude!)
+ Que so muito graciosos,
+ Porque de meros viosos,
+ No podem com a saude.
+ Mas deixallos,
+ Porque elles daro nos vallos,
+ Donde mais no se erguero,
+ Inda que lhe dem a mo
+ Os seus privados vassallos.
+
+_Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e diz:_
+
+PORTEIRO.
+
+ Traz, traz.
+
+MOA.
+
+ Jesu! Quem'st ahi?
+
+PORTEIRO.
+
+ Ja vs, mana, ereis mamada:
+ Para vos levar furtada
+ Nunca tal ensejo vi.
+ E vs estais descuidada!
+
+MOA.
+
+ E meus descuidos que fazem?
+
+PORTEIRO.
+
+ Vossos descuidos? cadella!
+ Ah minh'alma! Sois to bella,
+ Qu'esses descuidos me trazem
+ Dous mil cuidados vela.
+ Pois sou vosso ha tantos annos,
+ Mana, tirae os antolhos,
+ E vereis meus tristes dannos.
+
+MOA.
+
+ No tenhais esses enganos.
+
+PORTEIRO.
+
+ Nem vs tenhais esses olhos;
+ Que de vossos olhos vem
+ Esta minha pena fera.
+
+MOA.
+
+ De meus olhos? Assim era.
+
+PORTEIRO.
+
+ Moa, que taes olhos tem,
+ Nenhuns olhos ver devra.
+
+MOA.
+
+ E porque?
+
+PORTEIRO.
+
+ Porque cegais
+ A quantos olhos olhais,
+ Postoque por vs padecem.
+ Olhos, que to bem parecem,
+ Porque no os castigais?
+
+MOA.
+
+ Deos d siso, pois de vs
+ Tirou o que aos outros deu.
+
+PORTEIRO.
+
+ Desatae-me l esses ns.
+ Que mais siso quero eu,
+ Que no ter siso por vs?
+
+MOA.
+
+ Fallais d'arte; eu vos prometo
+ Que a resposta vem vela.
+ Isso he lho de panella.
+ Quanto ha ja que sois discreto?
+
+PORTEIRO.
+
+ Quanto ha ja que vs sois bella?
+
+MOA.
+
+ Dais-me logo a entender
+ Que eu sou feia, a meu ver.
+
+PORTEIRO.
+
+ E isso porque o entendeis?
+
+MOA.
+
+ Porque? Porque me dizeis
+ Que s de meu parecer
+ Vos procede o que sabeis.
+
+PORTEIRO.
+
+ He verdade.
+
+MOA.
+
+ Pois bem sento
+ Que o vosso saber he vento.
+ Fica a cousa declarada,
+ Meu parecer no ser nada.
+
+PORTEIRO.
+
+ Olhae aquelle argumento:
+ Alm de bella, avisada!
+ Oh nem tanto, nem to pouco!
+ Vde vs o que fallais.
+
+MOA.
+
+ Cego no saber andais.
+
+PORTEIRO.
+
+ No siso, mas no to louco
+ Como vs, mana, cuidais.
+ Ora dizei, duna m:
+ Que no amais, quem vos ama?
+
+MOA.
+
+ Ouvistes vs cantar ja,
+ _Velho malo, em minha cama?_
+ Ja m'entendereis.
+
+PORTEIRO.
+
+ Ha, ha.
+ Senhora, estais enganada;
+ Que com huma capa e espada,
+ E com este capuz fra...
+
+MOA.
+
+ Ora bem: tirae-o ora,
+ E fazei huma levada.
+
+PORTEIRO.
+
+ No: se m'eu hoje alvoro,
+ Achar-me-heis d'outra feio.
+
+_Aqui tira o capuz e diz:_
+
+PORTEIRO.
+
+ Tenho m disposio?
+ Estas obras so de moo,
+ Se as mostras de velho so.
+
+MOA.
+
+ Tendes mui gentis meneios.
+
+PORTEIRO.
+
+ No, Senhora; fao extremos.
+
+MOA.
+
+ Passeae ora, veremos
+ Se tendes to bons passeios.
+
+PORTEIRO.
+
+ Tudo, Senhora, faremos.
+
+MOA.
+
+ Virae ora a essoutra mo.
+
+PORTEIRO.
+
+ Esta disposio vde-a;
+ Que tenho gentil feio.
+
+MOA.
+
+ Tendes vs mui boa redea.
+ Soffreis ancas?
+
+PORTEIRO.
+
+ Isso no.
+
+MOA.
+
+ Por certo que tendes graa
+ Em tudo quanto fizerdes.
+ Fazei mais o que souberdes.
+
+PORTEIRO.
+
+ No sei cousa que no faa,
+ Senhora, por me quererdes.
+
+MOA.
+
+ Tendes vs muito bom ar.
+
+PORTEIRO.
+
+ Mais qu'isto faz quem quer bem.
+
+MOA.
+
+ I-vos asinha, que vem
+ O Principe a se deitar.
+
+PORTEIRO.
+
+ Nunca huma pessoa tem
+ Hum'hora para fallar!
+
+_Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e diz:_
+
+PRINCIPE.
+
+ Seja a morte apercebida,
+ Porque ja o Amor ordena
+ A dar a meu mal sahida;
+ Porque o fim da minha vida
+ O seja da minha pena.
+ No tarde, para tomar
+ Vingana de meu querer,
+ Pois no se pde dizer
+ Que no tee ja que esperar,
+ Nem com que satisfazer?
+ Os Physicos vem e vo,
+ Sem saberem minhas mgoas,
+ Nem o pulso me acharo;
+ E se o querem ver nas goas,
+ As dos olhos lho diro.
+ Se com sangrias tambem
+ Procuro ver-me curado;
+ O temor de meu cuidado
+ O mais do sangue me tem
+ Nas veias todo coalhado.
+ Quero-me aqui encostar,
+ Que ja o esprito me cae.
+ Leocadio, vae-me chamar
+ Os Musicos de meu Pae;
+ Folgarei de ouvir cantar.
+
+_Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo assi:_
+
+PRINCIPE.
+
+ Senhora, qual desatino
+ Me trouxe a tanta tristura?
+ Foi, Senhora, por ventura
+ A fra do meu destino,
+ Como vossa formosura?
+ Bem conheo que no posso
+ Ter to alto pensamento;
+ Mas disto s me contento,
+ Que se paga com ser vosso
+ O mor mal de meu tormento.
+
+_Entro os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum delles:_
+
+ALEXANDRE.
+
+ Senhor, de que se acha mal
+ O Principe, ou que mal sente?
+
+PAGEM.
+
+ Senhor, sei que est doente;
+ Mas sua doena he tal,
+ Qu'entender se no consente.
+ Os Physicos vem e vo,
+ Huns e outros a meude,
+ Sem o poderem dar so.
+ Quanto mais cura lhe do,
+ Ento tee menos saude.
+ O Pae anda em sacrificios
+ Aos deoses, que lhe dem
+ A saude que convem;
+ Dizendo que por seus vicios
+ O mal a seu filho vem.
+ Eu suspeito qu'isto so
+ Alguns novos amorinhos,
+ Que tera no corao.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Amores! com quem sero,
+ Que lhe no dem de focinhos?
+
+PORTEIRO.
+
+ Senhores, que lhe parece
+ Da doena de Anticho?
+
+ALEXANDRE.
+
+ Diga-lha quem lha conhece.
+
+PAGEM.
+
+ Que toma morrer a trco
+ De callar o que padece.
+
+PORTEIRO.
+
+ Isso he estar emperrado
+ Na doena; que he peor.
+ Tee-no os Physicos curado?
+
+ALEXANDRE.
+
+ Oh! que de mal del amor
+ No ha, Seor, sanador.
+
+PORTEIRO.
+
+ Fallais como exprimentado;
+ Qu'eu cuido que esta fadiga,
+ Que o faz com que desespere;
+ Y por mas tormento quiere
+ Que se sienta, y no se diga.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Pois, Senhor meu, isso asselle,
+ Porque a pena, que sabeis,
+ Que eu cuido que est nelle,
+ Dar-lhe-ha penas crueis,
+ Pues no hay quien la consuele.
+
+PORTEIRO.
+
+ Folgo, porque m'entendeis.
+
+PAGEM.
+
+ Hemo-nos, Senhores, de ir,
+ Porque nos est 'sperando.
+
+PORTEIRO.
+
+ Pois eu tambem hei de ir;
+ Que no me posso espedir
+ Donde vejo estar cantando.
+
+PRINCIPE.
+
+ Cantae, por amor de mi,
+ Alguma cantiga triste;
+ Que todo meu mal consiste
+ Na tristeza em que me vi.
+
+PORTEIRO.
+
+ Mande-lhe cantar hum chiste.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Chiste no, que he deshonesto,
+ E no tee esses extremos:
+ Outro canto mais modesto;
+ Porm no sei que diremos.
+
+PAGEM.
+
+ Gaoleo o dir presto.
+
+PORTEIRO.
+
+ D licena V. Alteza
+ Que diga minha teno?
+
+PRINCIPE.
+
+ Dizei: seja em canto-cho.
+
+PORTEIRO.
+
+ Pois crede qu'he subtileza.
+ Qu'os Anjos a comero.
+ Digo esta:
+ _Enforquei minha esperana,
+ E o Amor foi to madrao,
+ Que lhe cortou o barao._
+
+ALEXANDRE.
+
+ No me parece essa boa.
+
+PORTEIRO.
+
+ Haja eu perdo,
+ Porque no a entendero.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Entender!
+
+PORTEIRO.
+
+ Bof qu'he boa:
+ No lhe cahis na feio?
+
+ALEXANDRE.
+
+ Dizei ora outra melhor,
+ Com que nos atarraqueis.
+
+PORTEIRO.
+
+ Ora esperae, e ouvireis:
+ Se a esta no dais louvor,
+ Quero que me degolleis.
+
+Cantiga.
+
+ Com vossos olhos Gonalves,
+ Senhora, captivo tendes
+ Este meu corao Mendes.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Essa parece mui taibo,
+ Porque mostra bom indicio.
+
+PORTEIRO.
+
+ Vs cuidareis qu'eu que raivo.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Todavia tee mao saibo.
+ Ora mal lhe corre o offcio.
+
+PRINCIPE.
+
+ T, no v mais por diante
+ A zombaria, que he m:
+ Cantae qualquer dellas ja;
+ Qu'esse Porteiro he galante,
+ Ninguem o contentar.
+
+_Aqui cnto, e em acabando, diz o_
+
+PAGEM.
+
+ Parece que adormeceo.
+
+PORTEIRO.
+
+ Pois ser bom que nos vamos.
+
+ALEXANDRE.
+
+ Senhor, quer que nos vejamos?
+
+PORTEIRO.
+
+ Senhor vir-me-ha do ceo:
+ Releva-me que o faamos.
+
+_Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta, e diz:_
+
+RAINHA.
+
+ Frolalta, como ficava
+ Anticho em te tu vindo?
+
+FROLALTA.
+
+ Ficava-se despedindo
+ Da vida qu'ento levava,
+ E assi seus dias cumprindo.
+
+RAINHA.
+
+ Oh grave caso d'amor!
+ Desesperada affeio!
+ Oh amor sem redempo,
+ Que alli te fazes maior
+ Onde tens menos razo!
+ No mais alto e fundo pgo
+ Alli tens maior porfia:
+ Razo de ti no se fia.
+ Quem a ti te chamou cego,
+ Mui bem soube o que dizia.
+ Por ventura hia chorando?
+
+FROLALTA.
+
+ Chorando hia e chamando
+ Ao Amor, Amor cruel;
+ E em, Senhora, se deitando
+ Lhe cahio este papel.
+
+RAINHA.
+
+ Que papel?
+
+FROLALTA.
+
+ Este, Senhora.
+
+RAINHA.
+
+ Amostra, que quero l-lo.
+ Agora acabo de cr-lo;
+ Que ao que mostra por fra,
+ Aqui lhe lanou o sello.
+
+_Aqui l o papel e diz:_
+
+RAINHA.
+
+ Oh estranha pena fera!
+ Desditosa vida chara!
+ Oh quem nunca c viera,
+ E com seu Pae no casra,
+ Ou em casando morrra!
+
+FROLALTA.
+
+ Aindaque eu pca so,
+ Senhora, tudo bem vejo.
+ Attente, que na eleio
+ O que lhe pede o desejo
+ No consente o corao.
+
+RAINHA.
+
+ Frolalta, pois qu'es discreta
+ Nada te posso encobrir;
+ Porque, se queres sentir,
+ A huma mulher discreta
+ Tudo se ha de descobrir.
+ O dia qu'entrei aqui,
+ Que a Seleuco recebi,
+ Logo nesse mesmo dia
+ No Principe filho vi
+ Os olhos com que me via.
+ Este principio soffri-lho,
+ Para ver se se mudava;
+ Antes mais se accrescentava:
+ Eu amava-o como filho,
+ E elle d'outr'arte me amava.
+ Agora vejo-o no fim
+ Por se me no declarar.
+ E pois ja que a isso vim,
+ A morte que o levar,
+ Me leve tambem a mim.
+ Porque ja que minha sorte
+ Foi to crua e desabrida,
+ Que me no quer dar sahida;
+ Sejamos juntos na morte,
+ Pois o no somos na vida.
+ Oh quem me mandou casar,
+ Para ver tal crueldade!
+ Ninguem venda a liberdade,
+ Pois no pde resgatar
+ Onde no tee a vontade.
+ Que no ha mor desvario,
+ Que o forado casamento
+ Por alcanar alto assento;
+ Que, emfim, todo o senhorio
+ Est no contentamento.
+ No sei se o v ver agora,
+ Se ser tempo conforme,
+ Ou se imos a deshora.
+
+FROLALTA.
+
+ Despois iremos, Senhora,
+ Que agora dizem que dorme.
+
+_Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:_
+
+PHYSICO.
+
+ Su madrasta oy nombrar,
+ Y el pulso se le alter:
+ Esto no entiendo yo,
+ Porque para le alterar
+ El corazon le oblig.
+ Pues que el corazon se altere,
+ Es porque en un momento
+ Algun nuevo vencimiento
+ De aficion terrible le hiere,
+ Que causa tal movimiento.
+ Pues que aficion cabe as
+ Con madrasta? Digo yo,
+ Dos razones hay aqui:
+ La una dice, que s,
+ La otra dice, que no.
+ Empero yo determino
+ De exprimentar la verdad,
+ Y hacer una habilidad,
+ Que declare es agua, vino
+ Esta su enfermedad.
+ Porque toda esta maana
+ Tengo estudiado su mal,
+ Sin ver causa efectual
+ De su dolencia inhumana,
+ Ni otra de su metal.
+ Llamar quiero este asnejon;
+ Mas aun debe de dormir,
+ Segun que es dormilon.
+ Sancho? Sancho?
+
+SANCHO.
+
+ Ah Seor.
+
+PHYSICO.
+
+ Ea, aun ests dormiendo?
+
+SANCHO.
+
+ Estoyme, Seor, vestiendo.
+
+PHYSICO.
+
+ Pues vellaco y sin sabor,
+ No me respondes dormiendo?
+ Vestios presto, ladron.
+ Oh qu mozo, y qu ventura!
+
+SANCHO.
+
+ (Mas qu amo y qu cabron!)
+ Embeme ac el ropon,
+ Que no hallo mi vestidura.
+
+PHYSICO.
+
+ Que embie el ropon ac?
+ Parece que os desmandais.
+
+SANCHO.
+
+ Que vaya, Seor? ha, ha.
+ Que buenos dias hayais.
+
+_Entra o moo embrulhado em huma manta, e diz:_
+
+PHYSICO.
+
+ Di como vienes as
+ Con la manta, y para qu?
+
+SANCHO.
+
+ Yo, Seor, se lo dir:
+ Por venir presto vest
+ Lo que mas presto me hall:
+ Porque viendo que l me llama,
+ Dormiendo yo sin afan,
+ Salt presto de la cama,
+ Que parezco un gavilan,
+ Hermoso como una dama.
+
+PHYSICO.
+
+ Mas es tu bovedad tanta,
+ Que vienes desta facion?
+
+SANCHO.
+
+ De mi vestido se espanta?
+ De noche sirve de manta,
+ Y de dia de ropon.
+
+PHYSICO.
+
+ Embime ElRey llamar
+ Otra vez.
+
+SANCHO.
+
+ Y m?
+
+PHYSICO.
+
+ Y ti!
+
+SANCHO.
+
+ Y l qu presta all sin m?
+
+PHYSICO.
+
+ Qu puedes tu aprovechar?
+
+SANCHO.
+
+ Yo se lo dir de aqui:
+ Si por la ventura quiere
+ Para que le d consejo,
+ Cuando doliente estuviere;
+ Digo, coma, si pudiere,
+ Y beba buen vino anejo;
+ Porque este es el licor
+ Que d fuerza, y es sabroso;
+ Que segun dicen, Seor,
+ _Vinum loetificat cor
+ Hominis_, y le es provechoso.
+
+PHYSICO.
+
+ Ya sabes la medicina,
+ Que Avicena nos refiere.
+
+SANCHO.
+
+ Pues, Seor! porque es divina.
+ Pero ElRey qu le quiere,
+ Qu manda, qu determina?
+
+PHYSICO.
+
+ El Principe est doliente.
+
+SANCHO.
+
+ Oh mesquino! Y qu mal ha?
+
+PHYSICO.
+
+ Y ti, necio, que te v?
+
+SANCHO.
+
+ O Seor, que es mi pariente!
+
+PHYSICO.
+
+ Gracioso el bovo est.
+ Y pues dme por tu f:
+ Llorars si se muriere?
+
+SANCHO.
+
+ No, Seor, no llorar;
+ Empero, Seor, har
+ La peor cara que pudiere.
+
+PHYSICO.
+
+ Ea, bovo, v corriendo,
+ Y ensilla la mula ayna.
+
+SANCHO.
+
+ Vngala ensillar mejor.
+
+PHYSICO.
+
+ Oh velhaco, y sin sabor!
+
+SANCHO.
+
+ Yo por cierto no lo entiendo.
+ Pero una medicina
+ Le he de pedir, Dios queriendo,
+ (Porque ando atribulado,
+ Y no s parte de mi
+ Con este nuevo cuidado)
+ Para un sayo esfarrapado,
+ Que me dicen hay all.
+
+PHYSICO.
+
+ Ora ensilla; y nunca viva,
+ Pues sufro tus desatinos.
+
+SANCHO.
+
+ Seor, pasion no reciva:
+ _Ya cavalga Calanos
+ A la sombra de una oliva._
+
+_Aqui sahe bolindo com a almofaa, e acorda o Principe e diz:_
+
+PRINCIPE.
+
+ Oh bella vista e humana,
+ Por quem tanto mal sostenho!
+ Oh Princeza soberana!
+ Como? nos braos vos tenho,
+ Ou este sonho m'engana?
+ Pois como, sonho, tambem
+ Me queres vir magoar?
+ E para me atormentar
+ Mostras-me a sombra do bem
+ Para assi mais m'enganar?
+ Assi que, com quanto canso,
+ Ja no posso achar atalho,
+ Pois que o somno quieto e manso,
+ Que os outros tee por descanso,
+ Me vem a mi por trabalho.
+ Pois ha hi tantos enganos
+ Que condemno minha sorte;
+ No o tenho ja por forte,
+ Se volta de tantos danos
+ Viesse tambem a morte.
+
+_Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:_
+
+REI.
+
+ Andae e vde se achais
+ O rasto deste segredo,
+ Que me dizem que alcanais;
+ Ainda que tenho medo
+ Que lhe seja por demais.
+
+PHYSICO.
+
+ Plega Dios que aqueste sea
+ Para salud y remedio
+ Desta dolencia tan fea.
+ Yo buscar todo el medio,
+ Que presto sano se vea.
+
+_Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:_
+
+PHYSICO.
+
+ Aflojen, Seor, sus ais.
+ Como se halla en su penar?
+
+PRINCIPE.
+
+ Como me acho perguntais?
+ E como se pde achar
+ Quem sempre se perde mais?
+
+PHYSICO.
+
+ (La respuesta abre el camino.)
+ Imagina de contino?
+
+PRINCIPE.
+
+ No tenho outro mantimento,
+ Nem outro contentamento,
+ Seno o em que imagino.
+
+_Aqui entra a Rainha e diz:_
+
+RAINHA.
+
+ Como se sente, Senhor?
+ Tee a febre mais pequena?
+
+PRINCIPE.
+
+ Responda-lhe minha pena.
+
+PHYSICO.
+
+ (Conocido es su dolor.
+ Ora sea en hora buena,
+ Tomada est la tristeza
+ las manos.) Qu senti?
+ (Usar de subtileza.)
+
+_Diz contra ElRei:_
+
+ Cmpleme que solo yo
+ Platique con Vuestra Alteza.
+
+REI.
+
+ Cheguemos-nos para c.
+
+RAINHA.
+
+ No deve desesperar,
+ Qu'em fim, se bem attentar,
+ Para tudo o tempo d
+ Tempo para se curar.
+
+PRINCIPE.
+
+ Que cura poder ter
+ Quem tee a cura, Senhora,
+ No impossivel haver?
+
+RAINHA.
+
+ Ficae-vos, Senhor, embora,
+ Que vos no sei responder.
+
+_Vai-se a Rainha, e diz ElRei:_
+
+REI.
+
+ Neste mal, que no comprendo,
+ Que meio dais de conselho?
+
+PHYSICO.
+
+ Seor, nada entiendo dello;
+ Y supuesto que lo entiendo,
+ Yo quisiera no entendello.
+
+REI.
+
+ Porque?
+
+PHYSICO.
+
+ Porque he entendido
+ Lo mas malo de entender,
+ Para lo que puede ser,
+ Porque anda, Seor, perdido
+ De amores por mi muger.
+
+REI.
+
+ Santo Deos! que! tal amor
+ Lhe d doena to fera!
+ Que remedio achais melhor?
+
+PHYSICO.
+
+ Forado ser que muera,
+ Porque no muera mi honor.
+
+REI.
+
+ Pois como! a hum s herdeiro
+ Deste Reino no dareis
+ Vossa mulher, pois podeis;
+ Que tudo faz o dinheiro?
+ Pois este no o engeiteis;
+ Dae-lha, porque eu espero
+ De vos dar dinheiro e honra,
+ Quanto eu para elle quero.
+
+PHYSICO.
+
+ No tira el mucho dinero
+ La mancha de la deshonra.
+
+REI.
+
+ Ora bem pouco defeito!
+ He pequice conhecida,
+ Quando deixa de ser feito;
+ Porque com elle dais vida
+ A quem vos dara proveito.
+
+PHYSICO.
+
+ Cuan facilmente aporfia
+ Quien en tal nunca se vi!
+ Del consejo que me di,
+ Vuestra Alteza que haria
+ Si agora fuese yo?
+
+REI.
+
+ A mulher que eu tivesse
+ Dar-lha-hia. Oxal
+ Que elle a Rainha quizesse!
+
+PHYSICO.
+
+ Pues dla, si le parece,
+ Que por ella muerto est.
+
+REI.
+
+ Que me dizeis?
+
+PHYSICO.
+
+ La verdad.
+
+REI.
+
+ Sem dvida, tal sentistes?
+
+PHYSICO.
+
+ Sin duda, sin falsedad.
+ Pues, Seor, ahora tomad
+ Los consejos que me distes.
+
+REI.
+
+ Certamente, qu'eu o via
+ Em tudo quanto fallava.
+ Como o vistes? porque via?
+
+PHYSICO.
+
+ Nel pulso, que se alterava
+ Si la via, si la oia.
+
+REI.
+
+ Que maneira ha de haver?
+ Qu'eu certo me maravilho,
+ Possa mais o amor do filho,
+ Do que pde o da mulher.
+ Finalmente hei-lha de dar,
+ Que a ambos conheo o centro.
+ Quero-o ir alevantar,
+ E iremos para dentro
+ Neste caso praticar.
+
+_Diz contra o Principe:_
+
+ Levantae-vos, filho, d'hi
+ O melhor que vs puderdes,
+ E vindo-vos para aqui;
+ Porque, emfim, o que quizerdes
+ Tudo havereis de mi.
+
+PAGEM.
+
+ Ah Senhores, oul, ou?
+
+PORTEIRO.
+
+ Viestes em conjuno
+ A melhor que pde ser:
+ Haveis aqui de fazer
+ A tosquia a hum rifo.
+
+PAGEM.
+
+ Deixae-me, Senhor, dizer:
+ Haveis isto de acabar,
+ Corao, hi bugiar,
+ No esteis preso en cadenas,
+ Que pois o amor vos deo penas,
+ Que vos lanceis a voar.
+
+PORTEIRO.
+
+ Por certo que bem comprou.
+
+PAGEM.
+
+ Ora sabeis o que vai?
+ Antiocho que casou
+ Com a mulher de seu Pai,
+ E o mesmo Pae o ordenou.
+
+PORTEIRO.
+
+ Isso como?
+
+PAGEM.
+
+ No o sei;
+ Porque dizem que a amava,
+ E que s por ella andava
+ Para morrer; e ElRei
+ Deo-a a quem a desejava.
+
+PORTEIRO.
+
+ Se o casa por querer bem
+ Com a moa, a quem elle ama,
+ Direi eu que a mim me inflama
+ O amor mais que a ninguem.
+
+PAGEM.
+
+ Pois pedi-lhe a nossa dama.
+
+PORTEIRO.
+
+ Por So Gil, que ei-los c vem,
+ Elle pela mo com ella.
+
+_Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mo, e diz:_
+
+REI.
+
+ Que mais ha hi que esperar?
+ Olhae qu'estranheza vai!
+ O muito amor ordenar,
+ Ir-se o filho namorar
+ D'huma mulher de seu Pai!
+ Querer bem foi sua dor,
+ Negar-lha ser crueldade;
+ Assi que ja foi bondade
+ Usar eu de tal amor,
+ E de tal humanidade.
+ Ella deixou de reinar
+ Como fazia primeiro
+ Por se com elle casar;
+ E por amor verdadeiro
+ Tudo se pde deixar.
+ Eu que nella tinha psto
+ Todo o bem de meu cuidado,
+ Deixei mais que ella ha deixado;
+ Que mais se deixa no gsto,
+ Que no poderoso estado.
+ Mas ja que tudo isto vemos,
+ Hajo festas de prazer,
+ As que melhor posso ser;
+ Porqu'em to grandes extremos,
+ Extremos se ho de fazer.
+ Hajo cantos para ouvir,
+ Jogos, prazeres sem fundo;
+ Porque, se quereis sentir,
+ Deste modo entrou o mundo,
+ E assi ha de sahir.
+
+_Aqui vem os Musicos e cnto, e depois de cantarem, sahem-se todas as
+figuras, e diz_
+
+MARTIM CHINCHORRO.
+
+Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos;
+ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor
+festa que pde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das
+figuras nos acolheremos. Moo, accende esse mlho de cavacos, porque faz
+escuro, no vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruo
+e as canastras.
+
+ESTACIO DA FONSECA.
+
+No, Senhor, mas o meu Pilarte ir com elles com hum par de ties na
+mo; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvo-se desta
+pousada; e no tenho isto por palavras, porque essas e plumas, o vento
+as leva.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+OS AMPHITRIES,
+
+COMEDIA.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+ AMPHITRIO.
+ ALCMENA, sua mulher.
+ CALLISTO.
+ FELISEO.
+ SOSEA, moo de Amphitrio.
+ BROMIA, sua criada.
+ BELFERRO, Patro.
+ AURELIO, Primo de Alcmena.
+ HUM MOO DE AURELIO.
+ JUPITER.
+ MERCURIO.
+
+
+OS AMPHITRIES,
+
+COMEDIA.
+
+
+
+
+ACTO PRIMEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e Bromia._
+
+ALCMENA.
+
+ Ah Senhor Amphitrio,
+ Onde est todo meu bem!
+ Pois meus olhos vos no vem,
+ Fallarei co'o corao,
+ Que dentro n'alma vos tem.
+ Ausentes duas vontades,
+ Qual corre mores perigos,
+ Qual soffre mais crueldades,
+ Se vs entre os inimigos,
+ Se eu entre as saudades?
+ Que a ventura, que vos traz
+ To longe de vossa terra,
+ Tantos desconcertos faz,
+ Que se vos levou guerra,
+ No me quiz leixar em paz.
+ Bromia, quem com vida ter,
+ Da vida ja desespera,
+ Que lhe poders dizer?
+
+BROMIA.
+
+ Que nunca se vio prazer,
+ Seno quando no se espera.
+ E por tanto no devia
+ De ter triste a phantasia;
+ Porque Vossa Merc creia,
+ Que o prazer sempre salteia
+ Quem delle mais desconfia.
+ Eu tenho no corao,
+ Do Senhor Amphitrio
+ Venha hoje alguma nova:
+ No receba alterao,
+ Que a verdadeira affeio
+ Na longa ausencia se prova.
+
+ALCMENA.
+
+ Dizei logo a Feliseo
+ Que chegue muito apressado
+ Ao caes, e busque mo
+ De saber se algum recado
+ Do porto Persico vo:
+ E mais lhe haveis de dizer,
+ (Isto vos dou por offcio)
+ D'alguma nova saber,
+ Em quanto eu vou fazer
+ Aos Deoses o sacrificio.
+
+
+SCENA II.
+
+BROMIA.
+
+ Saudades de minh'ama,
+ Chorinhos e devoes,
+ Sacrificios e oraes,
+ Me ho de lanar n'huma cama,
+ Certamente.
+ Ns mulheres de semente
+ Somos sedenho mui tosco:
+ Com qualquer vento que vente,
+ Queremos foradamente
+ Que os Deoses vivo comnosco.
+ Quero Feliseo chamar,
+ E dizer-lhe aonde ha de ir.
+ Mas elle como me vir,
+ Logo ha de querer rinchar,
+ De travesso.
+ Eu que de zombar no cesso,
+ Por ficar com elle em salvo,
+ Lano-lhe hum e outro remsso;
+ Aos seus furto-lhe o alvo;
+ E ento elle fica avesso.
+ Porque o melhor destas danas,
+ Com huns vindios assi,
+ He traz-los por aqui
+ cheiro das esperanas,
+ Por viver.
+ Ha-os homem de trazer
+ Nos amores assi mornos,
+ S para ter que fazer;
+ E despois ao remetter
+ Lanar-lhe a capa nos cornos.
+ Feliseo, se estais mo,
+ Chegae c, vem como hum gamo:
+ Bem sei que no chamo em vo.
+
+
+SCENA III.
+
+_Feliseo e Bromia._
+
+FELISEO.
+
+ Chamais-me? tambem vos chamo;
+ Porm eu ouo, e vs no:
+ Senhora, que me matais,
+ Se vs ja nunca me ouvis,
+ Ou me ouvis, e vos callais,
+ Dizei: porque me chamais
+ Se me vs a mim fugis?
+
+BROMIA.
+
+ Eu vos fujo?
+
+FELISEO.
+
+ Fugis, digo,
+ De dar a meus males cabo.
+
+BROMIA.
+
+ Sabei que desse perigo
+ No fujo como de imigo,
+ Fujo como do diabo.
+
+FELISEO.
+
+ Dae ao demo essa teno,
+ Usae antes de corts,
+ Cahi vs nesta razo.
+
+BROMIA.
+
+ Do p'rigo fogem os ps,
+ Do diabo o corao.
+
+FELISEO.
+
+ Dizeis-me que nessa briga
+ Do meu corao fugis.
+
+BROMIA.
+
+ Ainda qu'eu isso diga...
+
+FELISEO.
+
+ Ah minha doce inimiga!
+ Bem sinto que me sentis.
+ Mas para que me chamais?
+
+BROMIA.
+
+ Manda-vos minha Senhora
+ Que chegueis daqui ao cais,
+ E algumas novas saibais
+ D' Amphitrio nesta hora.
+
+FELISEO.
+
+ Quem as no sabe de si,
+ D'outrem como as sabera?
+
+BROMIA.
+
+ No as sabeis vs de mi.
+
+FELISEO.
+
+ M trama venha por ti,
+ Duna feiticeira m!
+ Porque no me lhas direito,
+ Cadella, que assi me cortas?
+
+BROMIA.
+
+ Porque vos quero dar portas;
+ Que s'eu olhar d'outro geito,
+ Trarei cem mil vidas mortas.
+
+FELISEO.
+
+ E pois para que me andais
+ Enganando ha cem mil annos?
+
+BROMIA.
+
+ Dou-vos vida com enganos.
+
+FELISEO.
+
+ Nesses enganinhos tais
+ Acho crueis desenganos.
+
+BROMIA.
+
+ Quant'esses vos quero eu dar:
+ Vs cuidais que estais na sella?
+ Pois podeis-vos descer della;
+ Qu'eu nunca vos pude olhar.
+
+FELISEO.
+
+ Jogais comigo panella?
+ Tendes-me ha tanto captivo,
+ E desenganais-me agora?
+ Tudo isto he o que privo.
+ Assi que he isso, Senhora,
+ Dochelo morto, dochelo vivo?
+ Se me vs desenganais
+ No cabo de tantos annos,
+ Direi, se licena dais,
+ Dais-me vida com enganos,
+ Desenganos, ja chegais.
+ Mas se isso havia de ser,
+ Dizei, m desconhecida,
+ Destrro de meu viver,
+ Que vos custava dizer
+ Amor, vae buscar tua vida?
+
+BROMIA.
+
+ Zombais? Fallais-me coprinhas?
+
+FELISEO.
+
+ Rir-vos-heis se vem mo:
+ Copras no, mas isto so
+ Ansias y pasiones minhas
+ Dos bofes e corao.
+
+BROMIA.
+
+ Is-vos fazendo d'huns sengos.....
+
+FELISEO.
+
+ Perdneme Dios si peco.
+
+BROMIA.
+
+ Nesses dentinhos framengos
+ Conheo que sois hum pco
+ De todos quatro avoengos.
+
+FELISEO.
+
+ Tudo vos levo em capelo,
+ Ja qu'estais tanto em agrao.
+ Porm, fallando singelo,
+ A furto desse mao zlo,
+ Quereis-me dar hum abrao?
+
+BROMIA.
+
+ Ora digo que no posso
+ Usar comvosco de fero:
+ Tomae-o.
+
+FELISEO.
+
+ Ja o no quero,
+ Porque esse abrao vosso,
+ Sabei que he engano mero.
+
+BROMIA.
+
+ Oh! vs sois d'huns sensabores...
+ Abrao pedis assim?
+ S'eu remango d'hum chapim...
+
+FELISEO.
+
+ Tudo isso so favores:
+ Zombae, vingae-vos de mim.
+
+BROMIA.
+
+ Vs de furioso touro
+ As garrochas no sentis.
+
+FELISEO.
+
+ Vedes, com isso s mouro:
+ Quando cuido que sois ouro,
+ Acho-vos toda ceitis.
+
+BROMIA.
+
+ Emfim, sanha de villo
+ Vos fez perder hum bom dia.
+
+FELISEO.
+
+ Jagora o eu tomaria;
+ Quereis-mo dar?
+
+BROMIA.
+
+ Ora no.
+ Cocei-vos eu todavia.
+
+FELISEO.
+
+ Pois, Senhora, a quem vos ama
+ Sois to desarrazoada,
+ Quero tomar outra dama;
+ Que no digo os d'Alfama
+ Que no tenho namorada.
+
+BROMIA.
+
+ Deixae-me.
+
+FELISEO.
+
+ Vs me deixais.
+
+BROMIA.
+
+ Deixae-me.
+
+FELISEO.
+
+ Zombais de mi?
+
+BROMIA.
+
+ Deixae-me. Pois m'engeitais,
+ Eu me ausentarei daqui
+ Onde me mais no vejais.
+
+FELISEO.
+
+ Boa est a zombaria!
+
+BROMIA.
+
+ No so essas minhas manhas.
+
+FELISEO.
+
+ Porm is-vos todavia?
+
+BROMIA.
+
+ Voyme las tierras estraas.
+ Ad ventura me guia.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Feliseo s._
+
+ Phantasias de donzellas,
+ No ha quem como eu as quebre;
+ Porque certo cuido ellas,
+ Que com palavrinhas bellas
+ Nos vendem gato por lebre.
+ Esta tee l para si
+ Qu'eu sou por ella finado;
+ E cr que zomba de mi;
+ E eu digo-lhe que, si,
+ Sou por ella esperdiado.
+ Preza-se d'humas seguras;
+ E eu no quero mais Frandes:
+ Dou-lhe trela s travessuras,
+ Porque destas coaduras
+ Se fazem as chagas grandes.
+ Qu'estas, que ando sempre vela,
+ Estas vos digo eu que coo;
+ Porque de firmes na sella,
+ Crem que falso a costella,
+ E fico pelo pescoo.
+ Que quando estas damas tais
+ Me cacho, ento recacho.
+ Mas disto agora n mais.
+ Quero-me ir daqui ao cais
+ Ver se algumas novas acho.
+
+
+SCENA V.
+
+_Jupiter e Mercurio._
+
+JUPITER.
+
+ Oh grande e alto destino!
+ Oh potencia to profana!
+ Que a setta d'hum menino
+ Faa que meu ser divino
+ Se perca por cousa humana!
+ Que m'aproveito os ceos,
+ Onde minha essencia mora
+ Com tanto poder, se agora
+ A quem me adora por deos,
+ Sirvo eu como a senhora?
+ Oh quo estranha affeio!
+ Quem em baixa cousa vai pr
+ A vontade e o corao,
+ Sabe to pouco d'Amor,
+ Quo pouco Amor de razo.
+ Mas que remedio hei de ter
+ Contra mulher to terribil,
+ Que se no pde vencer?
+
+MERCURIO.
+
+ Alto Senhor, teu poder
+ O difficil faz possibil.
+
+JUPITER.
+
+ Tu no vs qu'esta mulher
+ Se preza de virtuosa?
+
+MERCURIO.
+
+ Senhor, tudo pde ser;
+ Que para quem muito quer,
+ Sempre a affeio he manhosa.
+ Seu marido est ausente
+ Na guerra, longe daqui;
+ Tu, qu'es Jupiter potente,
+ Tomars sua frma em ti;
+ Que o fars mui facilmente.
+ E eu me transformarei
+ Na de Ssea, criado seu;
+ E ao arraial me irei,
+ Onde logo saberei
+ Como se a batalha deu.
+ E assi poders entrar,
+ Em lugar de seu marido;
+ E para que sejas crido,
+ Poders tambem contar
+ Quanto eu l tiver sabido.
+
+JUPITER.
+
+ Quem arde em tamanho fogo
+ Tira-lhe a virtude a cr
+ De subtil e sabedor;
+ E quem fra est do jgo
+ Enxrga o lano melhor.
+ Mas tu, que dos sabedores
+ Tanto avante sempre ests,
+ Se deos es dos mercadores,
+ S-lo-has dos amadores,
+ Pois tal remedio me ds.
+ Ponha-se logo em effeito;
+ Que no soffre dilao
+ Quem o fogo tee no peito;
+ E tu vae logo direito
+ Aonde anda Amphitrio.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Feliseo e Callisto._
+
+FELISEO.
+
+ Ad bueno por aqui,
+ To longe do acostumado?
+
+CALLISTO.
+
+ Mais longe vou eu de mi,
+ D'ir perto de meu cuidado.
+
+FELISEO.
+
+ No andar vos conheci.
+
+CALLISTO.
+
+ E vs onde vos lanais,
+ Com vossa contemplao?
+
+FELISEO.
+
+ Eu chego daqui ao cais
+ A saber de Amphitrio:
+ No sei se vou por demais.
+
+CALLISTO.
+
+ Porque por demais dizeis?
+
+FELISEO.
+
+ Porque nada alli ha certo.
+
+CALLISTO.
+
+ Novas l no as busqueis,
+ Que aqui as tendes mais perto.
+
+FELISEO.
+
+ Pois dae-mas ja, se as sabeis.
+
+CALLISTO.
+
+ Hum navio he ja chegado
+ barra, que vem de l;
+ Traz de Amphitrio recado,
+ Diz que o deixa embarcado
+ Para se vir para c.
+ Tee vencido aquelle Rei;
+ E diz, segundo lhe ouvi,
+ Qu'esta noite ser aqui.
+
+FELISEO.
+
+ Essas novas levarei
+ A Alcmena, que torne em si,
+ Porque ella tee maior guerra
+ Co'os temores de perdello,
+ Qu'elle co'o Rei dessa terra.
+
+CALLISTO.
+
+ Onde amor lanar o sello,
+ Nenhuma cousa o desterra.
+ Porqu'inda que o pensamento
+ Vos fique, Senhor, em calma,
+ Por morte ou apartamento;
+ Sempre vos l fico n'alma
+ As pgadas do tormento.
+
+FELISEO.
+
+ Isso he hum segredo mero,
+ A que o amor nos obriga:
+ Por isso em caso to fero,
+ Senhor, nunca ninguem diga,
+ Ja lho quiz, e no lho quero.
+ Eu quiz bem a huma mulher,
+ Que vs conhecestes bem,
+ E, com muito lhe querer,
+ Casou-se.
+
+CALLISTO.
+
+ Oh! e com quem?
+ Que ainda o no posso crer.
+
+FELISEO.
+
+ Com hum Mercador, que veio
+ Agora do Egypto, rico.
+
+CALLISTO.
+
+ Isso traz goa no bico.
+ Esse homem he parvo, ou feio?
+
+FELISEO.
+
+ Pois vdes? disso me pico.
+ E em pago desta traio,
+ Afra outros mil descontos
+ Que traz comsigo a affeio,
+ Sempre os signaes destes pontos
+ Trarei no meu corao.
+
+CALLISTO.
+
+ Viste-la mais?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, vi,
+ Na janellinha da grade;
+ Passei, e disse-lhe assi:
+ Casada sem piedade,
+ Porque no a haveis de mi?
+
+CALLISTO.
+
+ Que vos disse?
+
+FELISEO.
+
+ L no centro
+ Lh'enxerguei pouca alegria;
+ E como quem lhe dohia,
+ Metendo-se para dentro
+ Disse: Ja pas folia.
+
+CALLISTO.
+
+ Ah m sem conhecimento!
+ Quem lhe dsse mil chofradas!
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, como so casadas,
+ Caso-se co'o esquecimento
+ Das cousas que so passadas.
+
+CALLISTO.
+
+ Lembranas de vos deixar
+ Picar-vos-ho como tojos.
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, haveis d'assentar
+ Que onde amor vos quer matar,
+ Siempre all miran los ojos.
+ Hum motete lhe mandei
+ Hum dia, estando com febre,
+ S da paixo que tomei.
+
+CALLISTO.
+
+ Pois vejamos quem tee lebre.
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, eu vo-lo direi.
+
+Mote.
+
+ Vs por outrem, e eu por vs;
+ Vs contente, e eu penado;
+ Vs casada, eu cansado.
+ Polos santos de minha dona!
+
+CALLISTO.
+
+ Senhor, vs s o fizestes?
+
+FELISEO.
+
+ Si, que ninguem me ajudou.
+
+CALLISTO.
+
+ Se vs s o compuzestes,
+ Crede, que extremos dissestes.
+ Nunca Orlando tal fallou.
+ Senhor, fizestes-lhe p?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, si; e todo hum anno...
+ Vs zombais, se no m'engano?
+
+CALLISTO.
+
+ No, mas dou-vos minha f
+ Que nunca vi to bom panno.
+
+FELISEO.
+
+ Ora olhe vossa merc.
+
+Volta.
+
+ Olhae em quo fundos vaos
+ Por vossa causa me affgo,
+ Que outro me ganha no jgo,
+ E eu triste pago os paos.
+ Olhos travessos e maos,
+ Inda eu veja o meu cuidado
+ Por esse vosso trocado.
+
+CALLISTO.
+
+ No mais, qu'isso me degola.
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, eu haja perdo.
+
+CALLISTO.
+
+ Fizestes esse rifo
+ Em algum jgo de bola?
+ E foi-lhe elle ter mo?
+
+FELISEO.
+
+ Digo-vos que o vio, e lho leo
+ Hum moozinho d'escola.
+
+CALLISTO.
+
+ Est isso assi do ceo.
+ Sabe ella jogar a bola?
+
+FELISEO.
+
+ No.
+
+CALLISTO.
+
+ Pois no vos entendeo.
+ Ora eu ja cheguei a ler
+ Petrarca, e crede de mi
+ Que nunca tal cousa vi.
+ Onde mora o bom saber,
+ Logo d sinal de si.
+ Onde _casada_ puzestes,
+ Dizei, porque no dissestes
+ _La que yo vi por mi mal._
+
+FELISEO.
+
+ Renunciava o metal;
+ Qu'em rifeszinhos como estes,
+ Ha-se-de pr tal com tal.
+ Que a trova trigo-tremez
+ Ha de ser toda d'hum pano;
+ Que parece muito Ingrez
+ N'hum pelote Portuguez
+ Todo hum quarto Castelhano.
+ Ouvi outra tambem minha,
+ Que fiz a certa teno,
+ Clara, leve, bonitinha,
+ De feio, que esta trovinha,
+ He trovinha de feio.
+ Como eu hum dia me visse
+ Morto, e a mo na canda,
+ E ella no me acodisse;
+ Fiz-lhe esta, porque sentisse
+ Que dava os fios ta.
+ E o propsito he
+ Andar eu hum dia s;
+ E para que houvesse d
+ De mi e de minha f,
+ Lamentei-lhe como J.
+
+CALLISTO.
+
+ Andastes, Senhor, mui bem.
+
+FELISEO.
+
+ Ora, Senhor, attentai,
+ E vde o saibo que tem;
+ Se he para a ver alguem.
+
+CALLISTO.
+
+ Ora dizei.
+
+FELISEO.
+
+ Ei-la vai.
+
+Trova.
+
+ Corao de carne crua,
+ V-lo teu amor aqui,
+ Que esmorecido por ti
+ Jaz no meio desta rua?
+
+CALLISTO.
+
+ Na rua, Senhor, jazia?
+ E era em tempo de lama?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, quem falla a quem ama,
+ De si mesmo se no fia:
+ Haveis de mentir dama.
+
+CALLISTO.
+
+ Volta disso?
+
+FELISEO.
+
+ Singular,
+ Seno que he muito sentida;
+ Far-vos-ha, Senhor, chorar.
+
+CALLISTO.
+
+ Oh! diga, por sua vida!
+
+FELISEO.
+
+ Farei o que me mandar.
+
+Volta.
+
+ Porque no has delle mgoa,
+ dura mais que ninguem,
+ Que anda o triste, que no tem
+ Quem lhe d huma vez d'goa?
+ No lhe negues teu querer,
+ Pois te no custa dinheiro;
+ Que, emfim, por derradeiro
+ A terra te ha de comer.
+
+CALLISTO.
+
+ Tal trova nunca se vio.
+ Agorentaste-la ja?
+
+FELISEO.
+
+ Senhor, no; ainda est
+ Como a sua me pario;
+ E no est muito m.
+
+CALLISTO.
+
+ He trova, que tee por seis;
+ No a posso mais gabar.
+ Mas, pois, tal cousa fazeis,
+ Senhor, no m'ensinareis
+ Donde vem to bem trovar?
+
+FELISEO.
+
+ No he a cousa to pequena,
+ Como, Senhor, a fizestes,
+ Essa que agora dissestes.
+ Mas porm vou dar a Alcmena
+ Estas novas que me dstes.
+ Despois, Senhor, nos veremos;
+ Ficae ja roendo esse osso.
+
+CALLISTO.
+
+ O roer, Senhor, he vosso.
+
+FELISEO.
+
+ Pois eu, por mais que zombemos,
+ Hei de ser vosso e revosso.
+
+CALLISTO.
+
+ Oh!.. Escusae-vos d'extremos,
+ Qu'isso, Senhor, me atarraca.
+ Mas ns nos encontraremos,
+ E sbre isso envidaremos
+ Dous reales mais de saca.
+
+
+
+
+ACTO SEGUNDO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na frma de Amphitrio,
+Mercurio na de Sosea escravo._
+
+JUPITER.
+
+ Mercurio, pois sou mudado
+ Nesta frma natural,
+ lha e nota com cuidado,
+ Se est em mi o pintado
+ Apparente co'o real.
+
+MERCURIO.
+
+ Quem to proprio se transforma.
+ Tenho por opinio,
+ Que na tal transformao
+ Lhe prestou natura a frma,
+ Com que fez Amphitrio.
+
+JUPITER.
+
+ Pois tu no gesto e na cr
+ Ests Ssea escravo seu.
+
+MERCURIO.
+
+ Muito mais faras, Senhor.
+
+JUPITER.
+
+ No o faz seno o Amor,
+ Que nisto pde mais qu'eu.
+
+MERCURIO.
+
+ Ja, Senhor, te fiz meno
+ Como deo Amphitrio
+ A ElRei Terela a morte;
+ Que, na guerra igual, a sorte
+ Pde mais que o corao.
+ E despois de ser tomada
+ Toda a Cidade, com gloria
+ D'Amphitrio bem ganhada,
+ Como em sinal de victoria,
+ Esta copa lhe foi dada.
+ Por ella bebia ElRei,
+ Em quanto a vida queria;
+ E eu, porque te cumpria,
+ A seu escravo a furtei,
+ Que n'huma caixa a trazia.
+ Esta poders levar
+ A Alcmena, por lhe mostrar
+ Verdadeiro, o que he fingido;
+ E dest'arte sers crido,
+ Sem mais outro ardil buscar.
+
+JUPITER.
+
+ Pois tudo tens ordenado
+ Por to nova e subtil arte;
+ Como me vires entrado,
+ Irs dar este recado
+ A Phebo de minha parte:
+ Que faa mais devagar
+ Seu curso neste Hemispherio.
+ Que o que soe acostumar;
+ Qu'esta noite hei de ordenar
+ Hum caso de alto mysterio.
+ E Esphera mais alta
+ Mandars que fixa esteja,
+ Porque a noite maior seja:
+ Porque sempre o tempo falta,
+ Onde a alegria he sobeja.
+ E ters tamanho tento,
+ Que como isto se ordenar,
+ Venhas aqui vigiar,
+ Porque meu contentamento
+ Ninguem mo possa estorvar.
+
+MERCURIO.
+
+ Seja feito sem debate
+ Tudo como te convem.
+
+JUPITER.
+
+ Pois no parece ninguem,
+ Como homem de casa bate,
+ E muda a falla tambem.
+
+MERCURIO, _batendo porta_.
+
+ de la casa, en buena hora,
+ Darmehan de cenar aqui?
+
+BROMIA _dentro_.
+
+ Ssea parece que ouvi:
+ Alviaras, minha Senhora,
+ Que na falla o conheci.
+
+
+SCENA II.
+
+_Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio._
+
+ALCMENA.
+
+ Zombais, Bromia, por ventura?
+
+BROMIA.
+
+ Senhora, no zombo, no.
+
+ALCMENA.
+
+ Vejo eu Amphitrio,
+ Ou a vista me afigura
+ O qu'est no corao?
+
+JUPITER.
+
+ Olhos, diante dos quais
+ Desejei mais este dia,
+ Que nenhuma outra alegria,
+ Senhora, nunca creais
+ Que lhe minta a phantasia.
+
+ALCMENA.
+
+ Oh presena mais querida
+ Que quantas formou Amor!
+ Isto he verdade, Senhor?
+ Acabe-se aqui a vida,
+ Por no ver prazer maior.
+
+JUPITER.
+
+ Pois esta hora de vos ver
+ Alcanar, Senhora, pude;
+ Para mais contente ser,
+ Conformem co'este prazer
+ Novas de vossa saude.
+
+ALCMENA.
+
+ Vida foi pezada e crua
+ A saude qu'eu sostinha;
+ Qu'em quanto, Senhor, a tinha,
+ Temer perigo na sua,
+ Me fez descuidar da minha.
+
+MERCURIO.
+
+ Y pues, mi Seora Alcmena,
+ Pese al demonio malvado,
+ No dir un su criado,
+ Vengais Ssea norabuena?
+
+ALCMENA.
+
+ Sejais, Ssea, bem chegado.
+
+BROMIA.
+
+ Bem mal cri eu, que pudesse
+ Ver-te, Ssea, hoje aqui.
+
+MERCURIO.
+
+ Pues tambien yo no cre
+ Que en mi vida te viese,
+ Segun las muertes que vi.
+
+ALCMENA.
+
+ Muito, Senhor, folgarei
+ Com novas do vencimento.
+
+JUPITER.
+
+ De tudo quanto passei,
+ Por vos dar contentamento,
+ Em summa vos contarei.
+ Trago, Senhora, a victoria
+ Daquelle Rei to temido,
+ Com fama clara e notoria.
+ Porm maior foi a gloria
+ De me ver de vs vencido.
+ Sem me terem resistencia,
+ Os Grandes me obedcero,
+ Como ElRei morto tivero:
+ Em sinal de obediencia
+ Esta copa me trouxero.
+ ElRei por ella bebia:
+ (Ella, e tudo o mais he nosso)
+ Por onde claro se via,
+ Que tudo me obedecia,
+ Pois tinha nome de vosso.
+
+MERCURIO.
+
+ Si, mas luego de rondon
+ La fortuna di la vuelta.
+
+ALCMENA.
+
+ Como?
+
+MERCURIO.
+
+ Fu gran perdicion,
+ Porque en aquella revuelta,
+ Me hurtaron mi jubon.
+ Pero bien me lo pagaron,
+ Cuando comigo rieron;
+ Que aunque me despojaron
+ Si uno de seda llevaron,
+ Otro de azotes me dieron.
+
+ALCMENA.
+
+ Senhor, no posso gostar
+ De gsto, que he to immenso,
+ Seno muito devagar:
+ Faa-me merc d'entrar,
+ E contar-mo-ha por extenso.
+
+
+SCENA III.
+
+_Mercurio e Bromia._
+
+MERCURIO.
+
+ Yo tambien te contaria,
+ Bromia, si quedas atrs,
+ Que una noche... enojartehas?
+
+BROMIA.
+
+ Que?
+
+MERCURIO.
+
+ Soaba, que te tenia...
+ No me atrevo decir mas.
+
+BROMIA.
+
+ Dize.
+
+MERCURIO.
+
+ Pardies, no dir.
+ Soaba...
+
+BROMIA.
+
+ Bem: que sonhavas?
+
+MERCURIO.
+
+ Que cuando en la cama estavas
+ Que yo... enfin record.
+
+BROMIA.
+
+ Pois tudo isso receavas?
+
+MERCURIO.
+
+ Sabe Dios qu yo ac siento:
+ Sola una alma vive en dos,
+ La cual anda dentro en vos.
+
+BROMIA.
+
+ E que quer ella c dentro?
+
+MERCURIO.
+
+ Tambien eso sabe Dios.
+
+
+SCENA IV.
+
+MERCURIO.
+
+ Bem se poder enganar
+ Bromia, segundo ora estou,
+ Como Alcinena s'enganou;
+ Mas cumpre-me ir ordenar
+ O que meu Pae me mandou.
+ E porque seja guardada
+ Esta porta e vigiada
+ De toda a gente nascida,
+ Me ser cousa forada,
+ Ser to depressa a tornada,
+ Quo prestes fao a partida.
+
+
+SCENA V.
+
+SOSEA, _cantando_.
+
+ Amphitrion esforzado
+ Bravo v por la batalla,
+ Siete cabezas llevaba,
+ De las mejores que ha hallado.
+
+_Falla._
+
+ Quien viene de tierra agena,
+ Y de la muerte escap,
+ La razon le permiti
+ Que cante como sirena,
+ Como agora hago yo.
+ Y pues canto tan gentil,
+ Fuera llanto si muriera.
+ Quiero cantar como quiera,
+ Una y otra, y mas de mil,
+ Que digan desta manera:
+
+_Canta._
+
+ Dongolondron, con dongolondrera,
+ Por el camino de Otera,
+ Rosas coge en la rosera,
+ Dongolondron, con dongolondrera.
+
+_Falla._
+
+ Cuando yo vengo pensar
+ Que uno matarme quisiera,
+ No hago sino temblar,
+ Porque creo si muriera,
+ No pudiera mas cantar.
+ Porque estando un rincon
+ De la casa ad qued,
+ Senti muy grande ronron,
+ Y mirando, que mir?
+ Vi que era un gran raton.
+ Empero yo nunca sigo,
+ Sino consejos muy sanos;
+ Que en estes casos levianos,
+ Quien desprecia el enemigo,
+ Mil veces muere sus manos.
+ Pero mi Seor alli
+ Mat al Rey de los Glipazos:
+ Yo como muerto le vi,
+ Juro mi f, que le d
+ Mas de dos mil cuchillazos.
+ Y por me librar de afan,
+ Me voy siempre cosa hecha
+ Probar mi mano derecha;
+ Que aquel es buen capitan,
+ Que del tiempo se aprovecha.
+ Que quien ha de pelear,
+ Ha de buscar tiempo y hora.
+ Pero quiero caminar,
+ Que me muero por contar
+ Todo aquesto mi Seora.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Mercurio e Ssea._
+
+MERCURIO.
+
+ Mil vezes comigo vejo,
+ Para que meu Pae se affoute;
+ Pois em to pequeno ensejo
+ Lhe mandei talhar a noute
+ medida do desejo.
+ E pois que como possante,
+ A mi tudo se reporta,
+ Chego agora neste instante
+ A estorvar qu'este bargante
+ Me no chegue a esta porta.
+
+SOSEA.
+
+ No s que miedo, locura,
+ Neste pecho se me cria:
+ Por Dios que se me afigura,
+ Que ha mucho que es noche escura,
+ Sin que venga el claro dia.
+ Mas sabed, que pienso yo
+ Que el sol que no se acord
+ De con el dia venir,
+ Que noche cuando cen
+ Algun buen vino bebi,
+ Que le hace tanto dormir.
+
+MERCURIO.
+
+ Ja sentes comprida a noute,
+ Qu'eu assi mandei fazer?
+ Pois mais te quero dizer,
+ Que sentirs muito aoute,
+ Se c quizeres vir ter.
+ Porm, pois este bargante
+ Tee medroso corao,
+ Quero-me fingir ladro,
+ Ou phantasma, e por diante
+ No ir, se vem mo.
+ E com tudo se passar,
+ A falla quero mudar
+ Na sua de tal feio,
+ Que couces, e porfiar,
+ Lhe fao hoje assentar
+ Que sou Ssea, e elle no.
+
+_Falla Castelhano._
+
+ No veo pasar ninguno,
+ En quien yo me pueda hartar.
+
+SOSEA.
+
+ quien oigo aqui hablar?
+ Mande Dios no sea alguno
+ Que me quiera aporrear.
+
+MERCURIO.
+
+ La carne de algun humano
+ Me seria muy sabrosa.
+
+SOSEA.
+
+ Oh qu voz tan temerosa!
+ Hombres comes, mi hermano?
+ No es mejor otra cosa?
+ Carne humana es muy mezquina.
+ Oh no comas deso, no!
+ Antes carne de gallina.
+ Pero se mas se avecina,
+ Qu mas gallina, que yo?
+
+MERCURIO.
+
+ Una voz de hombre ahora
+ la oreja me vol.
+
+SOSEA.
+
+ Psete quien me pari:
+ La voz traigo boladora?
+ Ella quisiera ser yo.
+ Pues mi voz pudo volar
+ Do la pudieses oir;
+ Por contigo no reir,
+ Me debiera de prestar
+ Las alas para huir.
+
+MERCURIO.
+
+ Qu buscas cabe esa puerta,
+ Hombre? S que eres ladron.
+
+SOSEA.
+
+ Ay que el alma tengo muerta!
+ Oh Jpiter me convierta
+ Las tripas en corazon!
+
+MERCURIO.
+
+ Quien eres? quieres hablar?
+
+SOSEA.
+
+ Soy quien mi voluntad quiere.
+
+MERCURIO.
+
+ Piensas que puedas burlar?
+
+SOSEA.
+
+ Y t pudesme quitar
+ Que yo sea quien quisiere?
+
+MERCURIO.
+
+ Osas hablar tan osado,
+ Don vellaco bovarron?
+ D, quien eres?
+
+SOSEA.
+
+ Un criado
+ Del Seor Amphitrion,
+ Por nombre Ssea llamado.
+
+MERCURIO.
+
+ Pienso que el seso perdiste.
+ Como te llamas, mal hombre?
+
+SOSEA.
+
+ Ssea soy, si no me oiste.
+
+MERCURIO.
+
+ Como? en persona tan triste
+ Osas d'ensuciar mi nombre?
+ Estos puos llevars,
+ Pues tener mi nombre quieres.
+ Quiresme dicir quien eres?
+
+SOSEA.
+
+ O Seor, no me ds mas,
+ Que yo ser quien t quisieres.
+
+MERCURIO.
+
+ Con tan nueva falsedad
+ Andais por esta Ciudad,
+ Delante de quien os mira?
+ Pues si sois Sosea, tomad.
+
+SOSEA.
+
+ Si me ds por la verdad,
+ Que me hars por la mentira?
+
+MERCURIO.
+
+ Y qu verdad es la tuya?
+ Que te quiero dar castigo.
+
+SOSEA.
+
+ Si no soy Ssea que digo,
+ Que Jpiter me destruya.
+
+MERCURIO.
+
+ Mirad el falso enemigo:
+ Tomad este bofeton,
+ Que yo soy Ssea, y no vos.
+
+SOSEA.
+
+ Tu Ssea?
+
+MERCURIO.
+
+ Ssea por Dios,
+ Escravo de Amphitrion.
+
+SOSEA.
+
+ De modo que tiene dos?
+
+MERCURIO.
+
+ No tendr, aunque t quieres;
+ Que mi solo conoci.
+
+SOSEA.
+
+ Pues luego de quien soy yo?
+
+MERCURIO.
+
+ Si t no sabes quien eres,
+ Quieres que yo lo sepa? No.
+
+SOSEA.
+
+ Enfin, has me de hacer crer
+ Que yo no soy quien ser solia?
+
+MERCURIO.
+
+ Quien solias t de ser?
+
+SOSEA.
+
+ Tregoas me has de prometer,
+ Dirteloh sin profia.
+
+MERCURIO.
+
+ Prometo.
+
+SOSEA.
+
+ No me dars?
+
+MERCURIO.
+
+ No, si no fuere razon.
+
+SOSEA.
+
+ Pues, hermano, t sabrs
+ Que mi amo Amphitrion...
+
+MERCURIO.
+
+ Tu amo? Pues llevars.
+ Mi amo es, que tuyo no.
+
+SOSEA.
+
+ Ay que un brazo me quebr!
+
+MERCURIO.
+
+ Mas que luego te matase.
+
+SOSEA.
+
+ Ojal Dios ordenase
+ Que t ahora fueses yo,
+ Y yo que te desmembrase!
+
+MERCURIO.
+
+ Esa tu tema tan loca,
+ Puos te la han de quitar.
+ Dime, di, verguenza poca,
+ Qu hablas?
+
+SOSEA.
+
+ Qu puedo hablar,
+ Si me has quebrado la boca?
+
+MERCURIO.
+
+ Di quien eres, sin fatiga.
+
+SOSEA.
+
+ Soy un hombre, en quien t ds.
+
+MERCURIO.
+
+ Dme pues, qu nombre has.
+
+SOSEA.
+
+ Como quieres t que diga,
+ Para que no me ds ms?
+
+MERCURIO.
+
+ No me has de hablar contrahecho.
+
+SOSEA.
+
+ Toda mi vida pasada
+ Ssea fuy, y con despecho
+ Ahora soy... qu? No nada;
+ Que tus manos me han deshecho.
+
+MERCURIO.
+
+ Cuyo eres, pues las sientes,
+ Dejando consejos vanos?
+ La verdad; que si me mientes,
+ Ds con la lengua en los dientes,
+ Y yo dyte con las manos.
+
+SOSEA.
+
+ No conoces Amphitrion?
+
+MERCURIO.
+
+ Hombre sin seso te llamo.
+ Tan fuera ests de razon!
+ Piensas de m, bovarron,
+ Que no conozco mi amo?
+
+SOSEA.
+
+ En su casa conociste
+ Uno, que es Ssea llamado,
+ Hombre despreciado y triste?
+
+MERCURIO.
+
+ Desa suerte lo dijiste?
+ Yo soy triste y despreciado?
+ Pues sabe que te lleg
+ la muerte tu fortuna.
+
+SOSEA.
+
+ Pues logo si yo no soy yo,
+ Aunque nadie me mat;
+ Soy luego cosa ninguna.
+ Oh dioses, que desconcierto!
+ Yo por ventura soy muerto,
+ murime la razon?
+ Yo no soy de Amphitrion?
+ l no me mandou del puerto?
+ Yo s que no estoy loco.
+ De mi madre no naci?
+ No ando? No hablo aqui?
+
+MERCURIO.
+
+ Pues sosiega ahora un poco,
+ Que yo tambien dir de m.
+ Yo no s que yo soy yo?
+ Yo no te d con mis manos?
+ Mi Seor no me llev
+ la guerra, ad mat
+ Aquel Rey de los Thebanos?
+
+SOSEA.
+
+ Yo eso muy bien lo s.
+ Empero t qu hacias
+ Cuando la batalla vias?
+
+MERCURIO.
+
+ Escucha: yo lo dir,
+ Y cesaran tus porfas.
+ Cuando mi Seor andaba
+ Peleando, y derramaba
+ La sangre de algun mezquino;
+ Con una bota de vino
+ Yo la mia acrescentaba.
+
+SOSEA.
+
+ (Dice lo que yo hacia)
+ Con todo, saber queria
+ Sola una cosa, si puedo:
+ Tu pecho entonces sentia?
+
+MERCURIO.
+
+ Del beber grande alegria,
+ Y del pelear gran miedo.
+
+SOSEA.
+
+ Y despues?
+
+MERCURIO.
+
+ Muy reposado
+ dormir me ech de grado,
+ Desde el sol hasta la luna.
+
+SOSEA.
+
+ (Todo lo tiene contado.
+ Enfin, tengo averiguado
+ Que yo no soy cosa ninguna)
+ Pues de todo en un instante
+ Me has echado de m fuera,
+ Aconsjame si quiera,
+ Quien ser daqui adelante,
+ Pues no soy quien de antes era.
+
+MERCURIO.
+
+ Cuando yo no ser quisiere
+ Ese, que t ser deseas,
+ Despues que ya Ssea no fuere,
+ Darteh, si te pluguiere,
+ Licencia que todo seas.
+ Y acgete luego, amigo,
+ buscar tu nombre, digo,
+ Pues Dios vida te dej;
+ Que el Ssea queda comigo.
+
+SOSEA.
+
+ Pues contigo quedo yo,
+ Dios quede, hermano, contigo.
+ Ahora quiero ir all
+ Ad mi Seora est,
+ Contarle como es venido
+ Mi Seor. Mas, oh perdido!
+ Si un otro yo tiene all,
+ Todo lo tern sabido.
+
+MERCURIO.
+
+ Ah hombre.....
+
+SOSEA.
+
+ Mi voz son.
+
+MERCURIO.
+
+ Aonde vuelves ahora?
+
+SOSEA.
+
+ Por Dios no s onde v,
+ Porque si yo no soy yo,
+ Ni Alcmena es mi Seora.
+
+MERCURIO.
+
+ Adonde vas?
+
+SOSEA.
+
+ Con mensaje
+ Del Seor Amphitrion
+ Para Alcmena.
+
+MERCURIO.
+
+ Ad, salvaje?
+ Pues quebraste la omenaje,
+ Ah vers tu perdicion.
+ Yo doyte consejos sanos,
+ Y porfias otra vez?
+
+SOSEA.
+
+ Altos dioses soberanos!
+ Pues me no valen las manos,
+ Aqui me valgan los pies. _Foge._
+
+MERCURIO.
+
+ Desta arte ensean aqui
+ hurtar el nombre ageno?
+
+
+SCENA VII.
+
+SOSEA.
+
+ Ay Dios, como me acog!
+ Jpiter alto y bueno,
+ Cuan cerca la muerte vi!
+ Quirome ir mi Seor
+ Contarle cuanto h pasado;
+ Y l me dir de grado,
+ Si yo soy su servidor,
+ En que cosa me h tornado.
+
+
+
+
+ACTO TERCEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter e Alcmena._
+
+JUPITER.
+
+ Toda a pessoa discreta
+ Ter, Senhora, assentado,
+ Que hum bem muito desejado
+ Se ha de alcanar por dieta,
+ Para ser sempre estimado.
+ E quem alcanado tem
+ Tamanho contentamento;
+ Por conserv-lo convem
+ Que tome por mantimento
+ A fome de tanto bem.
+ E por isso hei de tomar
+ Este tempo to ditoso
+ Para a frota visitar;
+ E despois quando tornar,
+ Tornarei mais desejoso.
+ Que pois to bom captiveiro
+ Me tee presa a liberdade,
+ Eu lhe prometto em verdade
+ Que torne ainda primeiro,
+ Que mo pea a saudade.
+
+ALCMENA.
+
+ Aindaque se possa ir
+ Mais asinha do que creio,
+ Como hei d'eu consentir
+ Que se haja de partir
+ Na mesma noite que veio?
+
+JUPITER.
+
+ Forada he minha tornada,
+ Mas muito cedo virei;
+ Porque desque foi chegada
+ A este porto a Armada,
+ Ainda a no visitei.
+
+ALCMENA.
+
+ Pois, Senhor, to pouco estais
+ Com quem vistes inda agora?
+ Faa-se como mandais.
+
+JUPITER.
+
+ Vs me vereis c, Senhora,
+ Primeiro do que cuidais.
+
+
+SCENA II.
+
+_Amphitrio e Sosea._
+
+AMPHITRIO.
+
+ Emfim tu, que ests aqui,
+ Estavas ja l primeiro?
+
+SOSEA.
+
+ Seor, crea que es ans.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Eu nunca entendi de ti,
+ Qu'eras tambem chocarreiro.
+
+SOSEA.
+
+ Seor, yo que estoy presente,
+ No soy Ssea su criado?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Creio que no certamente,
+ Porque Ssea era avisado,
+ E tu es mui differente.
+
+SOSEA.
+
+ Pues, Seor, si en m se v
+ Que no soy quien de antes era,
+ Vulvome.
+
+AMPHITRIO.
+
+ E para que?
+
+SOSEA.
+
+ Ver se dicha me qued
+ Durmiendo por la galera.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Pois me queres fazer crer
+ Huma doudice to rasa,
+ Mais quero de ti saber:
+ Como no entraste em casa
+ D'Alcmena minha mulher?
+
+SOSEA.
+
+ Aunque Ssea quisiese,
+ La verdad no negar:
+ Aquel yo que all est,
+ No quiso que casa fuese
+ Estotro yo, que iba all.
+ Y con furia tan crecida
+ m se vino aquel hombre,
+ Que yo me puse en huida,
+ Y ans le dej mi nombre,
+ Por me dejar l la vida.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Quem seria to ousado,
+ Que tanto mal te fizesse?
+
+SOSEA.
+
+ Yo mismo Ssea llamado,
+ Que casa era ya llegado,
+ Antes que de ac partise.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Tu chegaste antes de ti?
+ Este he gentil disparate.
+
+SOSEA.
+
+ Pues mas le digo daqui,
+ Que vengo huyendo de m,
+ Porque yo mismo no me mate.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ero dous, ou era hum s,
+ Quem te fez assi fugir?
+
+SOSEA.
+
+ Psete quien me pari:
+ Digo, que era un solo yo:
+ Mil veces lo h de decir?
+ Puede ser que naceria
+ De aquel hombre otro alguno,
+ Como aquel de m nacia;
+ Porque aunque fuese l uno,
+ Por mas de cuatro tenia.
+ l tenia mi aparencia,
+ Empero yo nunca vi
+ Tal fuerza, ni tal potencia:
+ Esta sola diferencia
+ Le tengo hallado de m.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Pudeste delle saber
+ Cujo era?
+
+SOSEA.
+
+ Quien? aquel yo?
+ Tuyo, Seor, dijo ser.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Nunca eu tive mais que hum s,
+ E esse no quizera ter.
+
+SOSEA.
+
+ Pues, Seor, si el bien doblado
+ Te le muestra agora Dios,
+ Debe ser de ti alabado;
+ Pues de uno solo criado
+ Te ha hecho agora dos.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Antes para que conheas,
+ Que cousa he mao servidor,
+ Me pezar se assi for;
+ Que de to ruins cabeas,
+ Quantas mais, tanto peor.
+ E ja que so to incertos
+ Teus ditos para se crer;
+ Muito melhor deve ser
+ Que deixe teus desconcertos,
+ E va ver minha mulher.
+
+
+SCENA III.
+
+ALCMENA.
+
+ Que fado, que nascimento
+ De gente humana nascida,
+ Que d'escasso e avarento,
+ Nunca consentio na vida
+ Perfeito contentamento!
+ Amphitrio, que mostrou
+ Hum prazer to desejado
+ A quem tanto o desejou;
+ Na noite, que foi chegado,
+ Nessa mesma se tornou!
+ De se tornar to asinha
+ Sinto tanto entristecer
+ O sentido e alma minha,
+ Que certo que me adivinha
+ Algum novo desprazer.
+ Mas parece este que vem,
+ Se no estou enganada:
+ Se elle he, venha com bem,
+ Pois que com sua tornada
+ To transtornada me tem.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Amphitrio, Alcmena e Sosea._
+
+AMPHITRIO.
+
+ Com que palavras, Senhora,
+ Poderei engrandecer
+ To sublimado prazer,
+ Como he ver chegada a hora,
+ Em que vos pudesse ver?
+ Certo gro contentamento
+ Tive de meu vencimento;
+ Mas maior o hei de mim,
+ De me ver psto no fim
+ De to longo apartamento.
+
+ALCMENA.
+
+ Ja eu disse o que sentia
+ De vinda to desejada.
+ Mas diga-me todavia:
+ Como no foi ver a Armada,
+ Que me disse hoje este dia?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Della venho eu inda agora
+ Desejoso de vos ver,
+ Muito mais que de vencer.
+ Mas que me dizeis, Senhora,
+ Que hoje me ouvistes dizer?
+
+ALCMENA.
+
+ Se no estava remota,
+ Certamente que lhe ouvi,
+ Quando hoje partio daqui,
+ Que tornava a ver a frota.
+ Porque era forado assi.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ssea.
+
+SOSEA.
+
+ Seor, aqui estoy yo.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Tu ouves tal desconcrto?
+
+SOSEA.
+
+ Grandes orejas gan,
+ Pues estando en casa oy
+ Quien estava all nel puerto!
+
+AMPHITRIO.
+
+ Quando dizeis, que m'ouvistes?
+
+ALCMENA.
+
+ Hoje, quando vos partistes.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Donde?
+
+ALCMENA.
+
+ Daqui, de me ver.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Nunca vi grande prazer,
+ Que no tenha os cabos tristes.
+ Quantos males d'improviso
+ Que causo grandes mudanas!
+ Que mulher de tanto aviso,
+ Agora minhas lembranas
+ A tee fra de juizo!
+
+ALCMENA.
+
+ Quereis-me fazer cuidar
+ Que poderia sonhar
+ O que pelos olhos vi?
+ Nunca vos eu mereci
+ Quererdes-me exprimentar.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Postoque he para pasmar
+ Ver hum caso to estranho,
+ Todavia hei de attentar,
+ Se poderei concertar
+ Hum desconcrto tamanho.
+ Quando dizeis que vim c?
+
+ALCMENA.
+
+ Esta noite que passou.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Dae-me alguem que aqui se achou,
+ Que me visse.
+
+ALCMENA.
+
+ Esse que hi est,
+ Ssea que comvosco andou.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ssea, podes-te lembrar,
+ Que hontem me vistes aqui?
+
+SOSEA.
+
+ Nunca yo supe de m
+ Que me pudiese acordar
+ De aquello que nunca vi.
+
+ALCMENA.
+
+ Ora eu creo, e he assi,
+ Que ambos vindes conjurados,
+ Para zombardes de mi;
+ Mas eu darei hoje aqui
+ Sinaes que sejo provados.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Que sinaes pde ahi haver
+ De mentira to notoria,
+ Que nem foi, nem pde ser?
+
+ALCMENA.
+
+ Donde vim eu a saber
+ Novas de vossa victoria?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Que novas?
+
+ALCMENA.
+
+ Dir-vo-las-hei,
+ Assi como mas contastes:
+ Que na batalha matastes
+ Aquelle soberbo Rei,
+ E tudo desbaratastes:
+ No fazendo resistencia
+ N'huma batalha to crua,
+ Dando-vos obediencia,
+ Vos dero huma copa sua,
+ Lavrada por excellencia.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ssea he culpado s
+ Nestes acontecimentos.
+
+SOSEA.
+
+ Seor, son encantamientos,
+ Porque aquel hombre, que es yo,
+ Le contaria estos cuentos.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Quem he esse, que vos deu
+ Taes novas, saber queria?
+
+ALCMENA.
+
+ Quem mo pergunta.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Quem? Eu!
+ Quereis-me fazer sandeu?
+
+ALCMENA.
+
+ Mas vs me fazeis sandia.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ora quero perguntar:
+ Que fiz sendo aqui chegado?
+
+ALCMENA.
+
+ Puzemos-nos a cear.
+
+AMPHITRIO.
+
+ E despois de ter ceado?
+
+ALCMENA.
+
+ Fomos-nos ambos deitar.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Nunca queira Deos que possa
+ Achar-se na minha honra
+ Nenhuma falta nem mossa:
+ Seja isto doudice vossa,
+ Antes que minha deshonra.
+
+SOSEA.
+
+ Bien lo supe yo entender,
+ Que era esto encantaciones;
+ Y ahora me habr de crer
+ Que dos Sseas puede haber,
+ Pues hay dos Amphitriones.
+
+ALCMENA.
+
+ Com me quererdes tentar
+ To torvada me fizestes,
+ Que me no pde lembrar
+ Que vos mandasse mostrar
+ A copa que me hontem dstes.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Eu? copa? Se isso ahi ha,
+ Que estou doudo cuidarei.
+
+SOSEA.
+
+ Seor, bien guardada est.
+
+ALCMENA.
+
+ Bromia?
+
+BROMIA, _de dentro_.
+
+ Senhora.
+
+ALCMENA.
+
+ Dae c
+ A copa que hontem vos dei.
+
+SOSEA.
+
+ Pues yo par otro yo,
+ Y vs otro Amphitrion,
+ No es mucha admiracion,
+ Si la copa otra pari,
+ Ni aun fuera de razon.
+
+
+SCENA V.
+
+_Amphitrio, Alcmena, Sosea e Bromia._
+
+BROMIA.
+
+ Eis-aqui a copa vem,
+ Testimunho da verdade.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Oh estranha novidade!
+
+ALCMENA.
+
+ Poder-me-ha dizer alguem
+ Que o que digo he falsidade?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ssea, quando hontem c vinhas,
+ Poder-me-has negar, ladro,
+ Que lhe dste as novas minhas,
+ E mais a copa que tinhas
+ Guardada na tua mo?
+
+SOSEA.
+
+ Seor, que no pude, no,
+ Ver mi Seora Alcmena:
+ Si aquel eso ac orden,
+ No lleve este yo la pena
+ Del mal que hizo el otro yo.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ora eu no sei entender
+ Tal caso, nem lhe acho fundo:
+ Com tudo venho a dizer,
+ Que ha tantos males no mundo,
+ Que tudo se pde crer.
+ Se vos trouxer quem vos diga
+ Como esta noite dormi
+ Na nao, crereis que he assi?
+
+ALCMENA.
+
+ Nenhuma cousa me obriga
+ A que no creia o que vi.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Se o Patro aqui vier,
+ Que he homem d'autoridade,
+ Crereis o que vos disser?
+
+ALCMENA.
+
+ Sim, que ninguem pde haver
+ Que me negue esta verdade.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Eu estou em concruso
+ D'hoje desembaraar
+ To enleada questo:
+ nao me quero tornar
+ A trazer c Belferro.
+ Ssea, at minha tornada
+ Fica nesta casa em vela;
+ Qu'eu armarei tal cilada
+ A quem ma a mim tee armada,
+ Que venha hoje a cahir nella.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Alcmena e Bromia._
+
+ALCMENA.
+
+ Oh mulher triste e suspensa
+ Da mais alta confuso
+ Que nunca vio corao!
+ Em que mereces a offensa,
+ Que te faz Amphitrio?
+ Sempre de mi foi amado,
+ Tanto quanto em mi se sente,
+ Co'o corao to liado,
+ Que se de mi era ausente,
+ Nelle o via figurado.
+ E pois mulher, que cumprisse
+ Melhor qu'eu fidelidade,
+ No a vi, nem quem me visse
+ Que dos limites sahisse
+ Hum pouco da honestidade.
+ Pois porque he to maltratada
+ Innocencia to singella?
+ Que a pena mais apertada,
+ He a culpa levantada
+ Ao corao livre della.
+ Mas ja que minh'alma est
+ Sem culpa do que padeo,
+ Seja o que for; qu'eu conheo
+ Que a verdade me por
+ No qu'eu pola ter mereo.
+ Bromia?
+
+BROMIA.
+
+ Senhora.
+
+ALCMENA.
+
+ Hi mandar
+ A Feliseo, que v
+ Meu primo Aurelio chamar;
+ Que lhe quero perguntar
+ Que conselho me dar.
+ E pois que Amphitrio
+ Vai buscar somente quem
+ Lhe ajude a sua teno,
+ Quero eu ter aqui tambem
+ Quem me defenda a razo.
+
+
+
+
+ACTO QUARTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter, Alcmena e Sosea._
+
+JUPITER.
+
+ Gro desconcrto tee feito
+ Amphitrio com Alcmena!
+ Qualquer delles tee direito:
+ Eu sou o que veno o preito,
+ E ambos pgo a pena.
+ Quero-me ir l desfazer
+ To trabalhosa demanda,
+ Por nos tornarmos a ver;
+ Porque, emfim, quem muito quer
+ Com qualquer desculpa abranda.
+ E pois ja que a affeio
+ Ha de mudar to asinha,
+ Quero ir alcanar perdo
+ Da culpa, que sendo minha,
+ Parece d'Amphitrio.
+
+ALCMENA.
+
+ Parece que torna c
+ Amphitrio, que ja se hia:
+ No sei a que tornar.
+ Seno se lhe peza ja
+ Dos enganos que tecia.
+
+JUPITER.
+
+ Senhora, no haja error
+ Que tantos males me faa,
+ Porque se o contrrio for,
+ Pequeno ser o amor,
+ Que manencria desfaa.
+ E pois com tanta alegria
+ De tantos perigos vim,
+ Pezar-me-ha se achar no fim,
+ Que huma leve zombaria
+ Vos possa aggravar de mim.
+
+ALCMENA.
+
+ Com palavras de deshonra
+ No se ha de tratar quem ama;
+ Nem zombaria se chama,
+ Por exprimentar a honra,
+ Pr em tal perigo a fama.
+ Bem tive eu para mim,
+ Que era aquillo experiencia.
+
+JUPITER.
+
+ Errei no que commetti:
+ Bem me basta a penitencia
+ De quanto me arrependi.
+ E se fiz algum error,
+ Com que vosso amor se mude
+ De quem vo-lo tee maior;
+ No exprimentei virtude,
+ Mas exprimentei amor.
+ Que se com caso to vrio
+ Folguei de vos agastar,
+ Foi amor accrescentar;
+ Porque s vezes hum contrrio
+ Faz seu contrrio avisar.
+ Daqui vem, que a leve mgoa
+ Firmeza e affeies augmenta,
+ Como bem se v na frgoa,
+ Onde o fogo se accrescenta,
+ Borrifando-o com pouca goa.
+ Se hum mal grande se alevanta
+ N'hum corao que maltrata,
+ A affeio se desbarata;
+ Porque onde a goa he tanta
+ O fogo d'amor se mata.
+ E pois tive tal teno,
+ Perdoae, Senhora, a culpa
+ Deste vosso corao.
+
+ALCMENA.
+
+ No se alcana assi perdo
+ D'erro que no tee desculpa.
+
+JUPITER.
+
+ Ora pois assi tratais
+ Quem em tanto risco ps
+ O amor que vs negais,
+ Eu m'ausentarei de vs
+ Onde mais me no vejais.
+ Que, pois desculpa no tem
+ Corao que tanto quer,
+ Vou-me; que no ser bem
+ Que quem vs no podeis ver,
+ Que possa mais ver ninguem.
+ Se algum'hora meu cuidado
+ Vos der dor, em que pequena;
+ Peo-vos, pois fui culpado,
+ Que vos no peze da pena
+ De quem vos foi to pezado.
+ E despois que a desventura
+ Puzer este corao
+ Debaixo da sepultura,
+ As letras na pedra dura
+ Vossa dureza diro.
+ Isto vos hei de dizer,
+ Que m'ensinou minha dor:
+ Se quizerdes leda ser,
+ Nunca exprimenteis amor
+ Em quem vo-lo no tiver.
+ Deixae-me ir; no me tenhais.
+
+ALCMENA.
+
+ Amphitrio, no choreis!
+ Amphitrio!
+
+JUPITER.
+
+ Que quereis,
+ Ou para que nomeais
+ Homem, que ver no podeis?
+
+ALCMENA.
+
+ Amphitrio, s'eu causei
+ Com manencria pequena
+ Cousa, com que o magoei;
+ Eu quero cahir na pena
+ Dessa culpa que lhe dei.
+
+JUPITER.
+
+ Sempre serei magoado
+ Se vossa m condio
+ Me no perda o passado.
+
+ALCMENA.
+
+ Perdo, e peo perdo
+ De lhe no ter perdoado.
+
+SOSEA.
+
+ No le perdone, Seora,
+ Hasta que con devocion
+ Tambien me pida perdon;
+ Que bien se me acuerda ahora
+ Que me ha llamado ladron.
+
+JUPITER.
+
+ Ssea?
+
+SOSEA.
+
+ Seor.
+
+JUPITER.
+
+ Vae buscar
+ O Piloto Belferro;
+ Dir-lhe-has, se desembarcar,
+ Que me parece razo
+ Que venha hoje c cear.
+
+SOSEA.
+
+ Si, Seor, voy la hora.
+
+JUPITER.
+
+ De nenhuma qualidade
+ Cure de fazer demora.
+ E ns vamos-nos, Senhora,
+ Confirmar nossa amizade.
+
+
+SCENA II.
+
+MERCURIO.
+
+ Grandes revoltas vo l.
+ Grandes acontecimentos!
+ Cumpre-me que esteja c,
+ Em quanto meu pae est
+ Em seus desenfadamentos.
+ Porque vi Amphitrio
+ Vir da nao mui apressado;
+ E tendo corrido e andado,
+ No pde achar Belferro,
+ Que lhe era bem escusado.
+ Parece-me que vir
+ Ver se lhe abre aqui alguem;
+ Mas, porm, se chega c,
+ Ja pde ser que se v
+ Mais confuso do que vem.
+
+
+SCENA III.
+
+_Mercurio e Amphitrio._
+
+AMPHITRIO.
+
+ Quiz-nos nossa natureza
+ Com tal condio fazer,
+ Que ja temos por certeza
+ No haver grande prazer,
+ Sem mistura de tristeza.
+ Este decreto espantoso,
+ Que instituio nossa sorte,
+ He tal e to rigoroso,
+ Que ninguem antes da morte
+ Se pde chamar ditoso.
+ Com esta justa balana
+ O Fado grande e profundo
+ Nos refreia a esperana,
+ Porque ninguem neste mundo
+ Busque bem-aventurana.
+ Eu, que cuidei de viver
+ Sempre contente de mi
+ Com tamanho Rei vencer,
+ Venho achar minha mulher
+ De todo fra de si.
+ Mas d'outra parte, que digo?
+ Que s'he verdade o que vi,
+ E o que ella diz he assi;
+ Virei a cuidar comigo
+ Qu'eu sou o fra de mi.
+ Quero ver se a acho ja
+ Fra de to seccos ns.
+ de casa?
+
+MERCURIO.
+
+ O de all?
+ Quien sois?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Abre.
+
+MERCURIO.
+
+ Santo Dios!
+ Pues no os conocen ac.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Oh que gentil desvario!
+ Abri-me ora se quizerdes.
+
+MERCURIO.
+
+ No har, que en m confio
+ Que de fuera dormiredes,
+ Que no comigo, amor mio.
+ (Que cancion para oir!)
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ah Ssea! zombas de mi?
+ (Ora quero-me fingir
+ Que ainda o no conheci,
+ Por ver se me quer abrir)
+ Ah Senhor, no abrireis?
+
+MERCURIO.
+
+ Qu quereis, hombre, por Dios?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Duas palavras de vs.
+
+MERCURIO.
+
+ Tengo dicho mas de seis,
+ E ahora me pedis dos?
+ De fuera podeis dormir,
+ Que entrar no podeis ac.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ora acabae, abri l.
+
+MERCURIO.
+
+ Digo que no quiero abrir:
+ Dije dos palabras ya.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ora sus, bargante, abri.
+
+MERCURIO.
+
+ Si no te vuelves de aqui,
+ gran peligro te ofreces.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Velhaco, no me conheces.
+ Ou ests fra de ti?
+
+MERCURIO.
+
+ Bonito venis, amor.
+ Quien sois, que hablais tan osado?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Abre, que sou teu Senhor.
+
+MERCURIO.
+
+ Vulvase de esotro lado,
+ Y conocerleh mejor.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ssea moo.
+
+MERCURIO.
+
+ As me llamo,
+ Hulgome que lo sepais;
+ Empero digo que os vais,
+ Que Amphitrion es mi amo;
+ Vos id buscar quien seais.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Pois quero saber de ti:
+ Eu quem sou?
+
+MERCURIO.
+
+ Y quien sois vs?
+ Como os llaman?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Abri.
+
+MERCURIO.
+
+ vos os llaman Abri?
+ Pues, Abri, andad con Dios.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Quem ha, que possa soffrer
+ Em sua honra tal destro,
+ Que para me endoudecer
+ Me tee negado a mulher,
+ E agora me nega o moo?
+
+MERCURIO.
+
+ Mira el encantador
+ Como se lastima y llora,
+ Y fuese tomar ahora
+ La forma de mi Seor,
+ Para engaar mi Seora.
+ Pues esperad, y no os vais,
+ Por un espacio pequeo;
+ Vern quien representais,
+ Y l os har que volvais
+ El falso gesto su dueo.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Vae, velhaco, e chama c
+ Esse falso feiticeiro;
+ Que se elle l dentro est,
+ Esta espada julgar
+ Qual de ns he o verdadeiro.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Amphitrio, Sosea e Belferro._
+
+BELFERRO.
+
+ Ora ninguem presumra
+ Que tinhas to pouco siso;
+ Pois vs achar d'improviso
+ To bem forjada mentra,
+ Que me faz cahir de riso.
+ Hum moo, que alevantou
+ Tal graa, nunca nasceo:
+ Porque vos jura que achou
+ Que ou elle em dous se perdeo,
+ Ou de hum dous se tornou.
+
+SOSEA.
+
+ Patron, que no burlo, no:
+ En uno son dos unidos,
+ Y en dos cuerpos repartidos;
+ Yo soy l, y l es yo,
+ De un padre y madre nacidos.
+
+BELFERRO.
+
+ Esse tu que l ests,
+ To velhaco he como ti?
+
+SOSEA.
+
+ Mas aun pienso que es mas:
+ Por delante y por detrs
+ Todo se parece m.
+ Y fue gran merced de Dios
+ Ayuntar m mas uno,
+ Que peor fuera de nos,
+ Si Dios me hiciera ninguno,
+ Que no de uno hacer dos.
+
+BELFERRO.
+
+ Assi que, se te perdeste
+ Vieste a cobrar mais hum:
+ Mui gentil conta fizeste,
+ Pois que perdido soubeste
+ Que eras dous, sendo nenhum.
+
+SOSEA.
+
+ Pues teneis por abusion
+ Verdad tan clara, y tan rasa,
+ Aunque pone admiracion;
+ Quiera Dios, que all en casa
+ No halleis otro Patron.
+
+AMPHITRIO.
+
+ O Patro, que fui buscar,
+ Parece que vejo vir:
+ No sei quem o foi chamar;
+ Mas que me ha de aproveitar
+ Se me no querem abrir?
+ Ah Belferro!
+
+BELFERRO.
+
+ Ah Senhor!
+ Ja sinto que fui culpado;
+ Porque quem he convidado,
+ Se to vagaroso for,
+ Merece no ser chamado.
+
+AMPHITRIO.
+
+ A vs quem vos convidou?
+
+BELFERRO.
+
+ Ssea, por mandado seu.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Disso, Patro, no sei eu;
+ Que Ssea ja me negou,
+ E ja se no d por meu.
+ E se alguem vos foi dizer
+ Qu'eu vos chamo minha mesa;
+ Mal vos dara de comer
+ Quem de todo lhe he defesa
+ A casa, e mais a mulher.
+
+BELFERRO.
+
+ Quem he esse to ousado,
+ Que vos isso faz, Senhor?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ssea, creio que enganado
+ Por algum encantador,
+ Que a honra me tee roubado.
+
+BELFERRO.
+
+ Se elle aqui comigo vem,
+ Isso como pde ser?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ah! que a ra que vou ter,
+ To cega a vista me tem,
+ Que mo no deixava ver.
+ Porque razo, cavalleiro,
+ No me abris quando vos mando?
+ Vs fazeis-vos chocarreiro?
+
+SOSEA.
+
+ Yo Seor? y como? y cuando?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Quereis-lo saber primeiro?
+ Esperae, dir-se-vos-ha,
+ Mas ser por outro son.
+
+SOSEA.
+
+ Ah Seor Amphitrion,
+ Porque matndome est,
+ Sin delito, y sin razon?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Agora que vos eu dou
+ Me chamais Amphitrio,
+ E para me abrirdes no?
+
+BELFERRO.
+
+ Este moo em que peccou?
+ Porque pena sem razo?
+ No mais por amor de mi.
+
+AMPHITRIO.
+
+ No, que no sou seu Senhor;
+ Eu sou hum encantador.
+ No o dizeis vs assi,
+ Ladro, perro, enganador?
+
+SOSEA.
+
+ Porque fuy presto llamar
+ Por su mandado al Patron,
+ Me quiere ahora matar?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Quem vo-lo mandou buscar?
+
+SOSEA.
+
+ Si no hay otro Amphitrion,
+ Vuestra merced sin dudar.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Eu te mandei?
+
+SOSEA.
+
+ Si Seor,
+ Si otro no.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Outro ha aqui,
+ Por quem tu zombes de mi?
+ Pois s desse encantador
+ Me quero vingar em ti.
+
+SOSEA.
+
+ Oh Jpiter, quien bramo
+ Por su bondad que me vala!
+ Pues porque Ssea me llamo,
+ Yo mismo, y despues mi amo,
+ Me dieron venida mala!
+
+
+
+
+ACTO QUINTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Jupiter, Belferro, Sosea e Amphitrio._
+
+JUPITER.
+
+ Quem he o to atrevido,
+ Que aqui ousa de fazer
+ To revoltoso arruido
+ Com meus moos, sem temer,
+ Que fui sempre to temido?
+ Quem aqui faz unio,
+ Toma mui grande despejo.
+
+BELFERRO.
+
+ Oh grande admirao!
+ Vejo eu outro Amphitrio,
+ Ou he sonho isto que vejo?
+
+SOSEA.
+
+ No mirais la encantacion,
+ Que aquel hizo mi Seor?
+ El que sale, Belferron,
+ Es el cierto Amphitrion,
+ Que estotro es encantador.
+
+JUPITER.
+
+ Ssea?
+
+SOSEA.
+
+ Mi Seor, ya v.
+
+JUPITER.
+
+ Patro, s por vs espero.
+
+SOSEA.
+
+ No os lo dicia yo,
+ Que este era el verdadero,
+ Y esse que all queda, no?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Bargante, aonde te vs?
+ Fazes teu Senhor sandeu?
+ Pois espera, e levars.
+
+JUPITER.
+
+ l, tornae por detrs,
+ No deis no moo, que he meu.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Vosso?
+
+JUPITER.
+
+ Meu.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Pde isto haver,
+ Que outrem minhas cousas tome?
+ Vs galante haveis de ser,
+ O que me tomais o nome,
+ Casa, moos e mulher.
+ Eu vos farei conhecer
+ Com quem tendes esse trato.
+
+JUPITER.
+
+ Ssea?
+
+SOSEA.
+
+ Seor.
+
+JUPITER.
+
+ Vae dizer,
+ Que apparelhem de comer,
+ Em quanto este doudo mato.
+
+BELFERRO.
+
+ Oh Senhor, no seja assim,
+ Haja em vs concrto algum!
+ E seno, pois aqui vim,
+ Farei que s tome em mim
+ Os golpes de cada hum.
+
+JUPITER.
+
+ Patro, vossa boa estrella
+ Me fara deixar com vida
+ Quem me no merece tella.
+
+AMPHITRIO.
+
+ No a tenho eu merecida,
+ Pois que vos deixo com ella.
+
+BELFERRO.
+
+ O homem que for sisudo,
+ N'huma to grande questo
+ Ha de tomar por escudo
+ A justia, e a razo;
+ Que estas armas vencem tudo.
+ E pois essa natureza
+ Muitos homens faz iguais,
+ D qualquer de vs signais
+ De quem he, para certeza
+ Da frma que ambos mostrais.
+
+JUPITER.
+
+ Sou contente de mostrar
+ Polos sinaes que vos dou,
+ Que so estes sem faltar.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Que sinaes podeis vs dar,
+ Para que sejais quem sou?
+
+JUPITER.
+
+ Estes, que logo vereis
+ Se so vos, se de raiz.
+ Patro, vs sde juiz,
+ Que vs logo enxergareis
+ Qual mais verdade vos diz.
+
+BELFERRO.
+
+ Eu no sinto onde consista
+ A cura desta doena,
+ Que ha to pouca differena,
+ Que aquelle em que ponho a vista,
+ Por esse dou a sentena.
+ Mas, Senhor, vs que ordenastes
+ Que o juiz disto fosse eu,
+ Quando se a batalha deu,
+ Dizei, que m'encommendastes
+ Que ficasse a cargo meu?
+
+JUPITER.
+
+
+ Dei-vos cargo, qu'estivesse
+ Toda a Armada a bom recado,
+ E, se mal nos succedesse,
+ Que para os vivos houvesse
+ O refugio apparelhado.
+
+BELFERRO.
+
+ Ora vs quantos dobres
+ Esse dia m'entregastes?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Tres mil; e vs os contastes.
+
+BELFERRO.
+
+ Ambos sois Amphitries
+ Pelos sinaes que mostrastes.
+
+JUPITER.
+
+ Para ser mais conhecida
+ A teno deste sandeu,
+ Vde est'outro sinal meu,
+ Que he neste brao a ferida
+ Que me ElRei Terela deu.
+
+BELFERRO.
+
+ Mostrae vs, Senhor, tambem.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Aqui o podeis olhar.
+
+BELFERRO.
+
+ Oh cousa para espantar!
+ Que ambos a ferida tem
+ D'hum tamanho, em hum lugar!
+
+
+SCENA II.
+
+_Jupiter, Amphitrio e Sosea._
+
+SOSEA.
+
+ Dice mi Seora Alcmena
+ Que no se ha de as de estar
+ Con un bobo razonar,
+ Que se le enfria la cena.
+
+JUPITER.
+
+ Belferro, vamos cear.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Belferro, no me deixeis.
+ Como? tambem me negais?
+
+JUPITER.
+
+ Andae, no vos detenhais,
+ Vamos comer, se quereis,
+ No ouais hum doudo mais.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Ah maos! assi me ordenais
+ Offensa to mal olhada?
+ Eu farei, se m'esperais,
+ Com que todos conheais
+ Os fios da minha espada.
+
+JUPITER.
+
+ As portas prestes fechemos,
+ No entre este doudo c.
+
+SOSEA.
+
+ De fuera se dormir:
+ Entre tanto que cenemos,
+ Puede pasearse all.
+
+
+SCENA III.
+
+AMPHITRIO _s_.
+
+ Oh ira para no crer,
+ Em que minh'alma se abraza,
+ Que me faz endoudecer,
+ E no me ajuda a romper
+ As paredes desta casa!
+ E porque? No tenho eu
+ Foras, que tudo destrua?
+ Pois que tanto a salvo seu,
+ Outrem acho que possua
+ A melhor parte do meu;
+ Eu irei hoje buscar
+ Quem me ajude a vir queimar
+ Toda esta casa sem pena,
+ Donde veja arder Alcmena,
+ Com quem a vejo enganar.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Aurelio e Moo._
+
+AURELIO.
+
+ No hallo mis males culpa,
+ Para que merezca pena
+ La causa que me condena.
+
+MOO.
+
+ Essa est gentil desculpa
+ Para hoje dar a Alcmena!
+ Tee-no mandado chamar,
+ E elle est to descuidado!
+
+AURELIO.
+
+ Moo, queres-me matar?
+ Que desculpa posso eu dar
+ Melhor qu'este meu cuidado?
+
+MOO.
+
+ E no ha mais que fazer?
+ Com isso a boca me tapa
+ Para mais nada dizer?
+
+AURELIO.
+
+ Ora d-me c essa capa
+ E vamos ver o que quer:
+ No trates de mais razo,
+ Pois no ha quem te resista.
+ Que vejo? outra novao!
+
+MOO.
+
+ Que he?
+
+AURELIO.
+
+ Ou me mente a vista,
+ Ou eu vejo Amphitrio.
+
+MOO.
+
+ Eu ouvi a Feliseo,
+ Quando c trouxe o recado,
+ Como elle era chegado,
+ E quiz-me dizer que veo
+ Do siso desconcertado.
+
+AURELIO.
+
+ Isso quero eu ir saber,
+ Pois que tal cousa se sa.
+
+
+SCENA V.
+
+_Aurelio e Amphitrio._
+
+AURELIO.
+
+ Senhor, pde-se dizer
+ Que a vinda seja mui boa?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Essa no pde ella ser.
+
+AURELIO.
+
+ Porque no?
+
+AMPHITRIO.
+
+ Porque he roubada
+ Minha honra sem temor,
+ E minha casa tomada,
+ E vossa Prima enganada
+ Por hum grande encantador.
+
+AURELIO.
+
+ Isso he certo?
+
+AMPHITRIO.
+
+ E manifesto:
+ E tudo tee ja por seu
+ Adltero e deshonesto:
+ Tee-me tomado o meu gesto,
+ E faz-lhe crer que sou eu.
+
+AURELIO.
+
+ Contais hum caso d'espanto!
+ E pois no podeis entrar,
+ Defendei-me por em tanto,
+ Que eu hei l de chegar
+ Para ver quem pde tanto,
+
+
+SCENA VI.
+
+AMPHITRIO _s_.
+
+ Se ver deshonra to clara
+ Me no tivera o sentido
+ Totalmente endoudecido,
+ Que gravemente chorra
+ Ver to grande amor perdido!
+ E quando vejo a verdade
+ Do nosso amor e amizade
+ Desfeita com tanta mgoa
+ Enchem-se-me os olhos d'goa,
+ E a alma de saudade.
+ Assi que quiz minha estrella,
+ Para nunca ser contente,
+ Que agora, estando presente
+ Viva mais saudoso della,
+ Que quando della era ausente.
+ Esta porta vejo abrir
+ Com impeto demasiado,
+ Que poderei presumir,
+ Que vejo Aurelio sahir,
+ Como homem desatinado?
+
+
+SCENA VII.
+
+_Amphitrio, Aurelio, Belferro e Sosea._
+
+AURELIO.
+
+ Oh estranha novidade!
+ Oh cousa para no crer!
+
+BELFERRO.
+
+ Venho cego de verdade,
+ Que no pudero soffrer
+ Meus olhos a claridade.
+
+SOSEA.
+
+ Oh triste, que vengo ciego
+ Con rayos, y con visiones!
+ Y destas encantaciones,
+ Si nuestra casa arde en fuego,
+ Han se de arder mis colchones.
+
+AURELIO.
+
+ Vamos a Amphitrio
+ Contar-lhe cousas tamanhas.
+
+AMPHITRIO.
+
+ Que vai l? que cousas vo?
+
+AURELIO.
+
+ Maravilhas to estranhas,
+ Que me treme o corao.
+ Porque aquelle homem, que assi
+ Tantos enganos teceo,
+ Como era cousa do Ceo,
+ Tanto qu'eu appareci,
+ Logo desappareceo.
+ E em desapparecendo
+ Com ruido grande e horrendo,
+ Toda a casa allumiou;
+ E de arte nos inflammou,
+ Que nos vimos acolhendo
+ Do raio que nos cegou.
+ Estes acontecimentos
+ No so de humana pessoa.
+ Vs ouvis a voz que soa?
+ Escutae, estae attentos;
+ Vejamos o que prega.
+
+JUPITER, _de dentro_.
+
+ Amphitrio, qu'em teus dias
+ Vs tamanhas estranhezas,
+ No t'espantem phantasias,
+ Que s vezes grandes tristezas
+ Parem grandes alegrias.
+ Jupiter sou manifesto
+ Nas obras de admirao,
+ Que por mi causadas so:
+ Quiz-me vestir em teu gesto,
+ Por honrar tua gerao.
+ Tua mulher parir
+ Hum filho de mi gerado,
+ Que Hercules se chamar,
+ O mais valente e esforado,
+ Que no mundo se achar.
+ Com este, teus successores
+ Se honraro de serem teus;
+ E dar-lhe-ho os escriptores,
+ Por doze trabalhos seus,
+ Doze milhes de louvores.
+ E dessa illustre fadiga
+ Colhers mui rico fruito:
+ Enfim, a razo me obriga
+ Que to pouco delle diga,
+ Porque o tempo dir muito.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+FILODEMO,
+
+COMEDIA.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+ FILODEMO.
+ VILARDO, seu moo.
+ DIONYSA.
+ SOLINA, sua moa.
+ VENADORO.
+ MONTEIRO.
+ DORIANO, amigo de Filodemo.
+ HUM PASTOR.
+ HUM BOBO, filho do pastor.
+ FLORIMENA, pastora.
+ DOM LUSIDARDO, pae de Venadoro.
+ DOLOROSO, amigo de Vilardo.
+ TRES PASTORES.
+
+
+ARGUMENTO.
+
+Hum Fidalgo Portuguez, que acaso andava nos Reinos de Dinamarca, como
+por largos amores e maiores servios, tivesse alcanado o amor de huma
+filha d'el Rei, foi-lhe necessario fugir com ella em huma gal, por
+quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo chegados costa
+de Hespanha, onde elle era senhor de grande patrimonio, armou-se-lhe
+grande tormenta, que sem nenhum remedio, dando a gal costa, se
+perdro todos miseravelmente, seno a Princeza, que em huma taboa foi
+praia: a qual, como chegasse o tempo de seu parto, junto de huma fonte
+pario duas crianas, macho e femia; e no tardou muito que hum pastor
+Castelhano, que naquellas partes morava, ouvindo os tenros gritos dos
+meninos, lhe acudio a tempo que a me ja tinha espirado. Crescidas,
+emfim, as crianas debaixo da humanidade e criao daquelle pastor, o
+macho que Filodemo se chamou vontade de quem os baptizra, levado da
+natural inclinao, deixando o campo, se foi para a cidade, aonde por
+musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo, irmo de seu
+Pae, a quem muitos annos servio sem saber o parentesco que entre ambos
+havia. E como de seu Pae no tivesse herdado nada mais que os altos
+espiritos, namorou-se de Dionysa, filha de seu Senhor e Tio, que
+incitada ao que por suas obras e boas partes merecia, ou porque ellas
+nada engeito, lhe no queria mal. Aconteceo mais, que Venadoro, filho
+de D. Lusidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao exercicio da caa,
+andando hum dia no campo apos hum cervo, se perdeo dos seus; e indo dar
+em huma fonte, onde estava Florimena, irma de Filodemo (que assim lhe
+pozero o nome) enchendo huma talha de goa, se perdeo de amores por
+ella, que se no soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava,
+at que seu Pae o no foi buscar. O qual informado pelo pastor que a
+crira (que era homem sabio na Arte Magica) de como a achra e como a
+crira, no teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha, e
+prima de Filodemo; e a Venadoro seu filho, com Florimena sua sobrinha,
+irma de Filodemo pastor; e tambem pela muita renda que tinha e de seu
+Pae ficra, de que elles ero verdadeiros herdeiros. Das mais
+particularidades da Comedia, fara meno o Auto, que he o seguinte.
+
+
+
+
+FILODEMO,
+
+COMEDIA.
+
+
+
+
+ACTO PRIMEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Filodemo e Vilardo._
+
+FILODEMO.
+
+ Moo Vilardo?
+
+VILARDO.
+
+ Ei-lo vae.
+
+FILODEMO.
+
+ Fallae era m, fallae,
+ E sahi c para a sala.
+ O villo como se cala!
+
+VILARDO.
+
+ Pois, Senhor, sahi a meu pae,
+ Que quando dorme no fala.
+
+FILODEMO.
+
+ Trazei c huma cadeira:
+ Ouvis, villo?
+
+VILARDO.
+
+ Senhor, sim.
+ (Se m'ella no traz a mim.
+ Vejo-lh'eu ruim maneira.)
+
+FILODEMO.
+
+ Acabae, villo ruim.
+ Que moo para servir
+ Quem tee as tristezas minhas!
+ Quem pudesse assi dormir!
+
+VILARDO.
+
+ Senhor, nestas manhzinhas
+ No ha hi seno cahir:
+ Por demais he trabalhar
+ Qu'este somno se me ausente.
+
+FILODEMO.
+
+ Porque?
+
+VILARDO.
+
+ Porque ha d'assentar
+ Que se no for com po quente,
+ No ha de desaferrar.
+
+FILODEMO.
+
+ Ora hi pelo que vos mando,
+ Villo feito de fermento. _Sahe Vilardo._
+ Triste do que vive amando
+ Sem ter outro mantimento,
+ Qu'estar s phantasiando!
+ S hua cousa me desculpa
+ Deste cuidado que sigo,
+ Ser de tamanho perigo,
+ Que cuido que a mesma culpa
+ Me fica sendo castigo.
+
+_Vem o moo, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante_
+
+FILODEMO.
+
+ Ora quero praticar
+ S comigo hum pouco aqui;
+ Que despois que me perdi,
+ Desejo de me tomar
+ Estreita conta de mi.
+ Vae para fra, Vilardo.
+ Torna c: vae-me saber
+ Se se quer ja l erguer
+ O Senhor Dom Lusidardo,
+ E vem-mo logo dizer. _Vai-se o moo._
+ Ora bem, minha ousadia,
+ Sem azas, pouco segura,
+ Quem vos deo tanta valia,
+ Que subais a phantasia
+ Onde no sobe a ventura?
+ Por ventura eu no nasci
+ No mato, sem mais valer,
+ Que o gado ao pasto trazer?
+ Pois donde me veio a mi
+ Saber-me to bem perder?
+ Eu, nascido entre pastores,
+ Fui trazido dos currais,
+ E d'entre meus naturais
+ Para casa dos Senhores,
+ Donde vim a valer mais.
+ E agora logo to cedo
+ Quiz mostrar a condio
+ De rustico e de villo!
+ Dando-me ventura o dedo,
+ Lhe quero tomar a mo!
+ Mas oh! qu'isto no he assi,
+ Nem so villos meus cuidados,
+ Como eu delles entendi;
+ Mas antes, de sublimados,
+ Os no posso crer de mi.
+ Porque como hei eu de crer
+ Que me faa minha estrella
+ To alta pena soffrer,
+ Que somente pola ter
+ Mereo a gloria della?
+ Seno se amor, d'attentado,
+ Porque me no queixe delle,
+ Tee por ventura ordenado
+ Que merea o meu cuidado,
+ S por ter cuidado nelle.
+
+
+SCENA II.
+
+_Vilardo e Filodemo._
+
+VILARDO.
+
+ O Senhor Dom Lusidardo
+ Dorme com todo o convento;
+ E elle com o pensamento
+ Quer estar fazendo alardo
+ De castellinhos de vento!
+ Pois to cedo se vestio,
+ Com seu damno se conforme,
+ Pezar de quem me pario;
+ Que ainda o sol no sahio:
+ Se vem mo, tambem dorme.
+ Elle quer-se levantar
+ Assi pela manhzinha!
+ Pois quero-o desenganar:
+ Nem por muito madrugar
+ Amanhece mais asinha.
+
+_Filodemo._
+
+ Traze-me a viola c.
+
+VILARDO.
+
+ (Voto a tal que me vou rindo.)
+ Senhor, tambem dormir.
+
+FILODEMO.
+
+ Traze-a, moo.
+
+VILARDO.
+
+ Si, vir,
+ Se no estiver dormindo.
+
+FILODEMO.
+
+ Ora hi polo que vos mando:
+ No gracejeis.
+
+VILARDO.
+
+ Eis-me vou:
+ Pois, pezar de So Fernando!
+ Por ventura sou eu grou?
+ Sempre hei d'estar vigiando? _Sahe._
+
+FILODEMO.
+
+ Ah Senhora, que podeis
+ Ser remedio do que peno,
+ Quo mal ora cuidareis
+ Que viveis e que cabeis
+ N'hum corao to pequeno!
+ Se vos fosse apresentado
+ Este tormento em que vivo,
+ Crerieis que foi ousado
+ Este vosso, de criado
+ Tornar-se vosso captivo?
+
+
+SCENA III.
+
+_Filodemo e Vilardo._
+
+VILARDO.
+
+ Ora eu creio, se he verdade
+ Qu'estou de todo acordado,
+ Que meu amo he namorado;
+ E a mi d-me na vontade
+ Que anda hum pouco abalado.
+ E se tal he, eu daria
+ Por conhecer a donzella
+ A rao d'hoje este dia;
+ Porque a desenganaria,
+ Somente por ter d della.
+ Havia-lhe perguntar:
+ Senhora, de que comeis?
+ Se comeis d'ouvir cantar,
+ De fallar bem, de trovar,
+ Em boa hora casareis.
+ Porm se vs comeis po,
+ Tende, Senhora, resguardo;
+ Qu'eis-aqui est Vilardo,
+ Qu'he como hum camaleo,
+ Por isso, bus, fazei fardo.
+ E se vs sois das gamenhas,
+ E houverdes d'attentar
+ Por mais que por manducar,
+ Mi cama son duras peas,
+ Mi dormir siempre es velar.
+ A viola, Senhor, vem
+ Sem primas, nem derradeiras:
+ Mas sabe o que lhe convem?
+ Se quer, Senhor, tanger bem,
+ Ha de haver mister terceiras.
+ E se estas cantigas vossas
+ No forem para escutar,
+ E quizerdes espirar;
+ Ha mister cordas mais grossas,
+ Porque no posso quebrar.
+
+FILODEMO.
+
+ Vae para fra.
+
+VILARDO.
+
+ Ja venho.
+
+FILODEMO.
+
+ Qu'eu s desta phantasia
+ Me sostenho e me mantenho.
+
+VILARDO.
+
+ Quamanha vista que tenho,
+ Que vejo a estrella do dia! _Sahe._
+
+
+SCENA IV.
+
+FILODEMO, _cantando_.
+
+ Ad sube el pensamiento,
+ Seria una gloria inmensa
+ Si all fuese quien lo piensa.
+
+_Falla._
+
+ Qual espirito divino
+ Me far a mi sabedor
+ Deste meu mal, se he amor,
+ Se por dita desatino?
+ Se he amor, diga-me qual
+ Pde ser seu fundamento,
+ Ou qual he seu natural,
+ Ou porque empregou to mal
+ Hum to alto pensamento.
+ Se he doudice, como em tudo
+ A vida me abraza e queima,
+ Ou quem vio n'hum peito rudo
+ Desatino to sisudo,
+ Que toma to doce teima?
+ Ah Senhora Dionysa,
+ Onde a natureza humana
+ Se mostrou to soberana!
+ O que vs valeis me avisa,
+ Mas o qu'eu peno m' engana.
+
+
+SCENA V.
+
+_Solina e Filodemo._
+
+SOLINA.
+
+ Tomado estais vs agora,
+ Senhor, co'o furto nas mos.
+
+FILODEMO.
+
+ Solina, minha Senhora,
+ Quantos pensamentos vos
+ Me ouvirieis lanar fra?
+
+SOLINA.
+
+ Oh Senhor, quo bem que sa
+ O tanger de quando em quando!
+ Bem sei eu huma pessoa,
+ Que haja huma hora, e boa,
+ Que vos est escutando.
+
+FILODEMO.
+
+ Por vida vossa, zombais?
+ Quem he? quereis-mo dizer?
+
+SOLINA.
+
+ No o haveis vs de saber,
+ Bof se me no peitais.
+
+FILODEMO.
+
+ Dar-vos-hei quanto tiver,
+ Para taes tempos como estes.
+ Quem tivera voz dos Ceos,
+ Pois escutar me quizestes!
+
+SOLINA.
+
+ Assi parea eu a Deos,
+ Como lhe vs parecestes.
+
+FILODEMO.
+
+ A Senhora Dionysa
+ Quer-se ja alevantar?
+
+SOLINA.
+
+ Assi me veja eu casar,
+ Como despida em camisa
+ Se ergueo por vos escutar.
+
+FILODEMO.
+
+ Em camisa levantada!
+ To ditosa he minha estrella?
+ Ou mo dizeis refalsada?
+
+SOLINA.
+
+ Pois bem me defendeo ella
+ Que vos no dissesse nada.
+
+FILODEMO.
+
+ Se pena de tantos annos
+ Merecer algum favor,
+ Para cura de meus dannos
+ Fartae-me desses engannos,
+ Que no quero mais de Amor.
+
+SOLINA.
+
+ Agora quero eu fallar
+ Neste caso com mais tento;
+ Quero agora perguntar:
+ E de siso his vs tomar
+ Hum to alto pensamento?
+ Certo he minha maravilha,
+ Se vs isto no sentis
+ Bem: vs como no cahis
+ Que Dionysa qu'he filha
+ Do Senhor a quem servis?
+ Como? Vs no attentais
+ Os Grandes, de qu'he pedida?
+ Peo-vos que me digais
+ Qual he o fim que esperais
+ Neste caso, em vossa vida.
+ Que razo boa, ou que cr
+ Podeis dar a esta affeio?
+ Dizei-me vossa teno.
+
+FILODEMO.
+
+ Onde vistes vs amor
+ Que se guie por razo?
+ Se quereis saber de mi
+ Que fim, ou de que theor
+ O pretendo em minha dor;
+ S'eu neste amor quero fim,
+ Sem fim me atormente Amor.
+ Mas vs com gloria fingida
+ Pretendeis de m'enganar,
+ Por assi mal me tratar:
+ Assi que me dais a vida
+ Somente por me matar.
+
+SOLINA.
+
+ Eu digo-vos a verdade.
+
+FILODEMO.
+
+ Da verdade fujo eu,
+ Porque se o Amor me deu
+ Pena de tal qualidade,
+ Assaz me custa do meu.
+
+SOLINA.
+
+ Flgo muito de saber
+ Que sois amante to fino.
+
+FILODEMO.
+
+ Pois mais vos quero dizer,
+ Que s vezes no imaginar
+ No ouso de m' estender.
+ Na hora que imaginei
+ Na causa de meu tormento,
+ Tamanha gloria levei,
+ Que por onas desejei
+ De lograr o pensamento.
+
+SOLINA.
+
+ Se me vs a mi jurardes
+ De me terdes em segredo
+ Huma cousa... mas hei medo
+ De logo tudo contardes.
+
+FILODEMO.
+
+ A quem?
+
+SOLINA.
+
+ quelle enxovedo.
+
+FILODEMO.
+
+ Qual?
+
+SOLINA.
+
+ Aquelle mao pezar,
+ Que ant'hontem comvosco hia.
+ Quem se fosse em vs fiar!
+ O que vos disse o outro dia,
+ Tudo lhe fostes contar.
+
+FILODEMO.
+
+ Que lhe contei?
+
+SOLINA.
+
+ Ja lh'esquece?
+
+FILODEMO.
+
+ Por certo qu'estou remoto.
+
+SOLINA.
+
+ Hi, que sois hum cesto roto.
+
+FILODEMO.
+
+ Esse homem tudo merece.
+
+SOLINA.
+
+ Vs sois muito seu devoto.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, no hajais medo:
+ Contae-m'isso, e far-me-hei mudo.
+
+SOLINA.
+
+ Senhor, o homem sisudo,
+ Se em taes cousas tee segredo,
+ Saiba que alcanar tudo.
+ A Senhora Dionysa
+ Crede que mal vos no quer:
+ No vos posso mais dizer.
+ Isto tende por balisa
+ Com que vos saibais reger.
+ Qu'em mulheres, se attentais,
+ O querer est visibil;
+ E se bem vos governais,
+ No desespereis do mais,
+ Porque, emfim, tudo he possibil.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, pde isso ser?
+
+SOLINA.
+
+ Si, que tudo o mundo tem:
+ Olhae no o saiba alguem.
+
+FILODEMO.
+
+ E que maneira hei de ter
+ Para crer tamanho bem?
+
+SOLINA.
+
+ Vs, Senhor, o sabereis;
+ E ja que vos descobri
+ Tamanho sogredo aqui,
+ Huma merc me fareis
+ Em que me vai muito a mi.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, a tudo me obrigo
+ Quanto for em minha mo.
+
+SOLINA.
+
+ Pois dizei a vosso amigo
+ Que no gaste tempo em vo,
+ Nem queira amores comigo.
+ Porque eu tenho parentes,
+ Que me podem bem casar;
+ E mais que no quero andar
+ Agora em boca de gentes
+ A quem s'elle vai gabar.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, mal conheceis
+ O que vos quer Duriano:
+ Sabei-o, se o no sabeis,
+ Qu'em sua alma sente o dano
+ Do pouco que lhe quereis;
+ E que outra cousa no quer,
+ Que ter-vos sempre servida.
+
+SOLINA.
+
+ Pola sua negra vida,
+ Isso havia eu bem mister.
+
+FILODEMO.
+
+ Vs sois desagradecida!
+
+SOLINA.
+
+ Si, que tudo so enganos
+ Em tudo quanto fallais.
+
+FILODEMO.
+
+ No quero que me creais:
+ Crede o tempo; que ha dous anos
+ Que vos serve, e inda mais.
+
+SOLINA.
+
+ Senhor, bem sei que m'engano;
+ Mas a vs, como a irmo,
+ Descubro este corao:
+ Sabei que a Duriano
+ Tenho sobeja affeio.
+ Olhae que lhe no digais
+ Isto que vos aqui digo.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, mal me tratais:
+ Inda que sou seu amigo,
+ Sabei que vosso sou mais.
+
+SOLINA.
+
+ E ja que vos confessei
+ Aquestas fraquezas minhas,
+ Que ha tanto que de mi sei;
+ Fazei vs nas cousas minhas
+ O qu'eu nas vossas farei.
+
+FILODEMO.
+
+ Vs enxergareis, Senhora,
+ O qu'eu por vs sei fazer.
+
+SOLINA.
+
+ Como me deixo esquecer!
+ Aqui estivera agora
+ Fallando t anoitecer.
+ Vou-me; e olhae quanto val
+ O que passou entre ns.
+
+FILODEMO.
+
+ E porque vos ides vs?
+
+SOLINA.
+
+ Porque parece ja mal
+ Estar aqui ambos ss.
+ E mais vou vestir agora
+ A quem vos d to m vida.
+ Ficae-vos, Senhor, embora.
+
+FILODEMO.
+
+ Nessa ide vs, Senhora,
+ Que ja vos tenho entendida.
+
+
+SCENA VI.
+
+FILODEMO _s_.
+
+ Ora se pde isto ser
+ Do qu'esta moa me avisa,
+ Que a Senhora Dionysa,
+ Por me ouvir, se fosse erguer
+ Da sua cama em camisa!
+ E diz que mal me no quer.
+ No queria maior gloria;
+ Mas o que mais posso crer,
+ Que nem para lhe esquecer
+ Lhe passo pela memoria.
+ Mas ter Solina tambem
+ Em Duriano o intento,
+ He levar-me a lenha o vento;
+ Porque s'ella lhe quer bem,
+ Para bem vai meu tormento.
+ Mas foi-se este homem perder
+ Neste tempo, de maneira,
+ Por huma mulher solteira,
+ Que no me atrevo a fazer
+ Que hum pequeno bem lhe queira.
+ Porm far-lhe-hei hum partido,
+ Porqu'ella no se querelle:
+ Que se mostre seu perdido,
+ Inda que seja fingido,
+ Como lh'outrem faz a elle.
+ E ja que me satisfaz,
+ E tanto nisto se alcana,
+ D-lhe fingida esperana:
+ Do mal que lhe outrem faz,
+ Tomar nella vingana.
+
+
+SCENA VII.
+
+VILARDO _s_.
+
+ Ora boa est a cilada
+ De meu amo com sua ama,
+ Que se levantou da cama
+ Por ouvi-lo! Est tomada:
+ Assi a tome m trama.
+ E mais crede que quem canta,
+ Ainda descantar;
+ E quem do leito, onde est,
+ Por ouvi-lo se levanta,
+ Mor desatino far.
+ Quem havia de cuidar,
+ Que dama formosa e bella
+ Saltasse o demonio nella,
+ Para a fazer namorar
+ De quem no he igual della?
+ Que me dizeis a Solina?
+ Como se faz Celestina,
+ Que por no lhe haver inveja
+ Tambem para si deseja
+ O que o desejo lh'ensina!
+ Crede que se me alvoro,
+ Que a hei de tomar por dama;
+ E no ser gro destro,
+ Pois o amo quer a ama,
+ Que a moa queira o moo.
+ Vou-me; que vejo l vir
+ Venadoro, apercebido
+ Para a caa se partir:
+ E voto a tal, que he partido
+ Para ver e para ouvir.
+ Que he razo justa e rasa
+ Que seu folgar se desconte
+ Em quem arde como brasa;
+ Que se vai caar ao monte,
+ Fique outrem caando em casa.
+
+
+SCENA VIII.
+
+VENADORO _s_.
+
+ Aprovada antiguamente
+ Foi, e muito de louvar
+ A occupao do caar,
+ E da mais antigua gente
+ Havida por singular.
+ He o mais contrrio officio
+ Que tee a ociosidade,
+ Me de todo o bruto vcio:
+ Por este limpo exercicio
+ Se reserva a castidade.
+ Este dos grandes Senhores
+ Foi sempre muito estimado;
+ E he grande parte do estado
+ Ter monteiros, caadores,
+ Como officio qu'he prezado.
+ Pois logo porque razo
+ A meu pae ha de pezar
+ De me ver ir a caar?
+ E to boa occupao
+ Que mal me pde causar?
+
+
+SCENA IX.
+
+_Venadoro e o Monteiro._
+
+MONTEIRO.
+
+ Senhor, venho alvoroado,
+ E mais com muita razo.
+
+VENADORO.
+
+ Como assi?
+
+MONTEIRO.
+
+ Que me he chegado
+ O mais extremado co,
+ Que nunca caou veado.
+ Vejamos que me ha de dar.
+
+VENADORO.
+
+ Dar-vos-hei quanto tiver;
+ Mas ha-se d'exprimentar,
+ Para se poder julgar
+ As manhas que pde ter.
+
+MONTEIRO.
+
+ Pde assentar qu'este co,
+ Que tee das manhas a chave.
+ Bem feito? Em admirao.
+ Pois em ligeiro? He huma ave.
+ Em commetter? Hum leo.
+ Com porcos? Maravilhoso.
+ Com veados? Extremado.
+ Sobeja-lhe o ser manhoso.
+
+VENADORO.
+
+ Pois eu ando desejoso
+ D'irmos matar hum veado.
+
+MONTEIRO.
+
+ Pois, Senhor, como no vae?
+
+VENADORO.
+
+ Vamos, e vs mui ligeiro
+ O necessario ordenae;
+ Qu'eu quero chegar primeiro
+ Pedir licena a meu pae.
+
+
+
+
+ACTO SEGUNDO.
+
+
+SCENA I.
+
+DURIANO.
+
+Pois no creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pr p em ramo verde, t
+lhe dar trezentos aoutes. Despois de ter gastado perto de trezentos
+cruzados com ella, porque logo lhe no mandei o setim para as mangas,
+fez de mim mangas ao demo. No desejo eu de saber, seno qual he o
+galante que me succedeo; que se vo-lo eu colho a balravento, eu lhe
+farei botar ao mar quantas esperanas lhe a fortuna tee cortado
+minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com o dinheiro, como a
+mar com a lua: bolsa cheia, amor em goas vivas; mas se vasa, vereis
+espraiar este engano, e deixar em scco quantos gostos andavo como o
+peixe na goa.
+
+
+SCENA II.
+
+_Filodemo e Duriano._
+
+FILODEMO.
+
+ l! c sois vs? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me
+sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos
+tire como huma alma.
+
+DURIANO.
+
+Oh maravilhosa pessoa! Vs he certo que vos prezais de mais certo em
+casa, que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem mo, os
+pensamentos com os focinhos quebrados, de cahirem onde vs sabeis. Pois
+sabeis, Senhor Filodemo, quaes so os que me mto? Huns muito bem
+almofaados, que com dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezo de
+brandos na conversao, e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo
+que no daro meia hora de triste pelo thesouro de Veneza; e gbo mais
+Garcilasso que Bosco; e ambos lhe sahem das mos virgens; e tudo isto
+por vos meterem em consciencia que se no achou para mais o gro Capito
+Gonalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia do mundo
+faro altos espiritos: e eu no trocarei duas pescoadas da minha etc.,
+depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e
+fingir-se-me bebada, porque o no parea, por quantos Sonetos esto
+escriptos polos troncos dos rvores do vale Luso, nem por quantas
+Madamas Lauras vs idolatrais.
+
+FILODEMO.
+
+T, t, no vades avante, que vos perdeis.
+
+DURIANO.
+
+Aposto que adivinho o que quereis dizer?
+
+FILODEMO.
+
+Que?
+
+DURIANO.
+
+Que se me no acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a
+herege de amor.
+
+FILODEMO.
+
+Oh que certeza tamanha, o muito peccador no se conhecer por esse!
+
+DURIANO.
+
+Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinio! Mas
+tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he
+cousa de vossa saude, tudo farei.
+
+FILODEMO.
+
+Como templar el destemplado? Quem poder dar o que no tee, Senhor
+Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo: no pde ser que a natureza no
+faa em vs o que a razo no pde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porm
+he necessario que primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis
+para hum canto da casa todos esses maos pensamentos; porque segundo
+andais mal avinhado, damnareis tudo aquillo que agora lanarem em vs.
+Ja vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra cousa que no he
+servir a Senhora Dionysa; e postoque a desigualdade dos estados o no
+consinta, eu no pretendo della mais que o no pretender della nada,
+porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que este meu amor he como
+a ave Phenix, que de si s nasce, e no de outro nenhum interesse.
+
+DURIANO.
+
+Bem praticado est isso; mas dias ha que eu no creio em sonhos.
+
+FILODEMO.
+
+Porque?
+
+DURIANO.
+
+Eu vo-lo direi: porque todos vs-outros os que amais pela passiva,
+dizeis que o amor fino como melo, no ha de querer mais de sua dama que
+am-la; e vir logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a
+trezentos Plates, mais afado que as luvas de hum pagem d'arte,
+mostrando razes verisimeis e apparentes, para no quererdes mais de
+vossa dama que v-la; e ao mais at fallar com ella. Pois inda achareis
+outros esquadrinhadores d'amor, mais especulativos, que defendero a
+justa por no emprenhar o desejo; e eu (fao-vos voto solemne) se a
+qualquer destes lhe entregassem sua dama tosada e apparelhada entre dous
+pratos, eu fico que no ficasse pedra sbre pedra: e eu ja de mi vos sei
+confessar que os meus amores ho de ser pela activa, e que ella ha de
+ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu de,
+v v. m. co'a historia por diante.
+
+FILODEMO.
+
+Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dvida entre os
+Doctores: assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mo,
+bem trinta ou quarenta legoas pelo serto dentro de hum pensamento,
+seno quando me tomou traio Solina; e entre muitas palavras que
+tivemos, me descobrio que a Senhora Dionysa se levantra da cama por me
+ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando quasi hora e meia.
+
+DURIANO.
+
+Cobras e tostes, sinal de terra: pois ainda vos no fazia tanto avante.
+
+FILODEMO.
+
+Finalmente, veio-me a descobrir, que me no queria mal, que foi para mi
+o maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a
+soffrer por sua causa, e no tenho agora sogeito para tamanho bem.
+
+DURIANO.
+
+Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser so. Se vos
+deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca
+chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanas ao leme;
+que eu vos fao bom que s duas enxadadas acheis goa. E que mais
+passastes?
+
+FILODEMO.
+
+A maior graa do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vs; e
+me quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vs merecesseis.
+
+DURIANO.
+
+Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor?
+porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que
+dizer poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella
+quer que eu caia.
+
+FILODEMO.
+
+Nem eu no quero que lho queirais, mas que lhe faais crer que lho quereis.
+
+DURIANO.
+
+No... quant dessa maneira me offereo a romper meia duzia de servios
+alinhavados s panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais
+fiel amante que nunca calou esporas; e se isto no bastar, salgan las
+palabras mas sangrientas del corazon, entoadas de feio, que digo que
+sou hum Mancias, e peor ainda.
+
+FILODEMO.
+
+Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro,
+irmo da Senhora Dionysa, he fra caa; e sem elle fica a casa
+despejada; e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu
+passatempo he enxertar e dispr, e outros exercicios d'agricultura,
+naturaes a velhos: e pois o tempo nos vem medida do desejo, vamo-nos
+l; e se puderdes fallar, fazei de vs mil manjares, porque lhe faais
+crer que sois mais esperdiado d'amor que hum Braz Quadrado.
+
+DURIANO.
+
+Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas,
+com que vosso feito venha luz.
+
+
+SCENA III.
+
+_Dionysa e Solina._
+
+DIONYSA.
+
+ Solina, mana.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora.
+
+DIONYSA.
+
+ Trazei-me c a almofada;
+ Que a casa est despejada,
+ E esta varanda c fra
+ Est melhor assombrada.
+ Trazei a vossa tambem
+ Para estarmos c lavrando;
+ Em quanto meu pae no vem,
+ Estaremos praticando,
+ Sem nos estorvar ninguem.
+
+SOLINA.
+
+ Este he o mesmo lugar
+ Onde estava o bem logrado,
+ Tal que de muito enlevado
+ Se esquecia do cantar
+ Por se enlevar no cuidado.
+
+DIONYSA.
+
+ Vs, mana, sois mui ruim!
+ Logo lhe fostes contar
+ Que me ergui polo escutar.
+
+SOLINA.
+
+ Eu o disse?
+
+DIONYSA.
+
+ Eu no o ouvi?
+ Como mo quereis negar?
+
+SOLINA.
+
+ E pois isso que releva?
+ Que se perde nisso agora?
+
+DIONYSA.
+
+ Que se perde! Assi, Senhora,
+ Folgareis vs que se atreva
+ A cont-lo l por fra?
+ Que se lhe meta em cabea
+ Alguma parvoa teno?
+ Que faa, se vem mo,
+ Algua cousa que parea?
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, no tee razo.
+
+DIONYSA.
+
+ Eu sei mui bem attentar
+ Do que se ha de ter receio,
+ E do que he para estimar.
+
+SOLINA.
+
+ No he o demo to feio
+ Como alguem o quer pintar;
+ E no se espera isso delle,
+ Que no he ora to moo.
+ E Vossa Merc asselle
+ Que qualquer segredo nelle
+ He como huma pedra em poo.
+
+DIONYSA.
+
+ E eu que segredo quero
+ Co'hum criado de meu pae?
+
+SOLINA.
+
+ E vs, mana, fazeis fero?
+ Ao diante vos espero,
+ Se adiante o caso vae.
+
+DIONYSA.
+
+ O madrao! quem o vir
+ Fallar de siso co'ella...
+ Ento vs, gentil donzella,
+ Folgais muito de o ouvir?
+
+SOLINA.
+
+ Si, porque me falla nella;
+ E eu como ouo fallar
+ Nella, como quem no sente,
+ Folgo de o escutar,
+ S para lhe vir contar
+ O que della diz a gente;
+ Qu'eu no quero nada delle.
+ E mais, porque est fallando?
+ No m'esteve ella rogando
+ Que fosse fallar com elle?
+
+DIONYSA.
+
+ Disse-vo-lo assi zombando.
+ Vs logo tomais em grosso
+ Tudo quanto me escutais.
+ Parvo! que v-lo no posso.
+
+SOLINA.
+
+ Ella alli, e o co co'o osso!
+ Inda isto ha de vir a mais.
+ Pois que tal odio lhe tem,
+ Fallemos, Senhora, em al;
+ Mas eu digo que ninguem
+ Merece por querer bem
+ Que a quem lho quer, queira mal.
+
+DIONYSA.
+
+ Deixae-o vs doudejar.
+ Se meu pae, ou meu irmo,
+ O vierem a aventar,
+ No ha elle de folgar.
+
+SOLINA.
+
+ Deos meter nisso a mo.
+
+DIONYSA.
+
+ Ora hi polas almofadas,
+ Que quero hum pouco lavrar;
+ Por ter em que me occupar;
+ Qu'em cousas to mal olhadas
+ No se ha o tempo de gastar.
+
+SOLINA.
+
+ Que cousa somos mulheres!
+ Como somos perigosas!
+ E mais estas to viosas
+ Qu'esto boca _que queres_
+ E adoecem de mimosas!
+ Se eu no caminho agora
+ A seu desejo e vontade;
+ Como faz esta Senhora,
+ Fazem-se logo nessa hora
+ Na volta da honestidade.
+ Quem a vira o outro dia
+ Hum poucochinho agastada,
+ Dar no cho com a almofada,
+ E enlevar a phantasia,
+ Toda n'outra transformada!
+ Outro dia lhe ouviro
+ Lanar suspiros a mlhos,
+ E com a imaginao
+ Cahir-lhe a agulha da mo,
+ E as lagrimas dos olhos.
+ Ouvir-lhe-heis derradeira
+ A ventura maldizer,
+ Porque a foi fazer mulher.
+ Ento diz que quer ser Freira;
+ E no se sabe entender.
+ Ento gaba-o de discreto,
+ De musico e bem disposto,
+ De bom corpo e de bom rosto.
+ Quant ento eu vos prometo,
+ Que no tee delle desgsto.
+ Despois, se vem a attentar,
+ Diz que he muito mal feito
+ Amar homem deste geito;
+ E que no pde alcanar
+ Pr seu desejo em effeito.
+ Logo se faz to Senhora,
+ Logo lhe ameaa a vida,
+ Logo se mostra nessa hora
+ Muito segura de fra,
+ E de dentro est sentida.
+ Bof, segundo vou vendo,
+ Se esta postema vier,
+ Como eu suspeito, a crescer,
+ Muito ha que della entendo
+ O fim que pde vir ter.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Duriano e Filodemo._
+
+DURIANO.
+
+Ora deixae-a ir, que vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como
+hei de fazer; que no ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se.
+
+FILODEMO.
+
+Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a d Senhora
+Dionysa; que me vai nisso muito.
+
+DURIANO.
+
+Por mulher de to bom engenho a tendes?
+
+FILODEMO.
+
+E porque me perguntais isso?
+
+DURIANO.
+
+Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta
+mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta.
+
+FILODEMO.
+
+No lhe digais que vos disse nada, porque cuidar que por isso lhe
+fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fao
+ vossa teno.
+
+DURIANO.
+
+Deixae-me vs a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes
+vintes, que vs; e eu vo-la farei hoje vir a ns sem gafas; e vs
+entretanto acolhei-vos a sagrado, porque ei-la l vem.
+
+FILODEMO.
+
+Olhae l: fazei que a no vdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a
+nosso caso.
+
+DURIANO.
+
+Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia
+no la espero remediar. Pois no devia assi de ser, polos santos
+Evangelhos! mas muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos,
+ando s vessas. Ora, emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen
+aflojar cuando mas duelen.)
+
+
+SCENA V.
+
+_Solina e Duriano._
+
+SOLINA, _com a almofada_.
+
+ Aqui anda passeando
+ Duriano, e s comsigo
+ Pensamentos praticando:
+ Daqui posso estar notando
+ Com quem sonha, se he comigo.
+
+DURIANO.
+
+ Ah quo longe estar agora
+ Minha Senhora Solina
+ De saber que estou bem fra
+ De ter outra por senhora,
+ Segundo o amor determina!
+ Porm se determinasse
+ Minha bem-aventurana
+ Que de meu mal lhe pezasse.
+ At que nella tomasse
+ Do que lhe quero vingana!...
+
+SOLINA.
+
+ (Comigo sonha por certo.
+ Ora quero-me mostrar,
+ Assi como por acrto:
+ Chegar-me-hei mais ao perto,
+ Por ver se me quer fallar.)
+ Sempre esta casa ha d'estar
+ Acompanhada de gente,
+ Que no possa homem passar!
+
+DURIANO.
+
+ traio vindes tomar
+ Quem ja feridas no sente?
+
+SOLINA.
+
+ Logo me a mi parecia
+ Que era elle o que passeava.
+
+DURIANO.
+
+ E eu mal adivinhava
+ Que me viesse este dia,
+ Que ha tantos que desejava.
+ Se huns olhos por vos servir,
+ Com o amor que vos conquista,
+ Se atrevro a subir
+ Os muros da vossa vista,
+ Que culpa tee quem vos vir?
+ E se esta minha affeio,
+ Que vos serve de giolhos,
+ No fez rro na teno,
+ Tomae vingana nos olhos,
+ E deixae o corao.
+
+SOLINA.
+
+ Ora agora me vem riso.
+ Assi que vs sois, Senhor,
+ De siso meu servidor?
+
+DURIANO.
+
+ De siso no, porque o siso
+ Me tee tirado o amor.
+ Porque o amor, se attentais,
+ N'hum to verdadeiro amante
+ No deixa siso bastante;
+ Seno se siso chamais
+ A doudice to galante.
+
+SOLINA.
+
+ Como Deos est nos Ceos,
+ Que se he verdade o que temo,
+ Que fez isto Filodemo.
+
+DURIANO.
+
+ Mas f-lo o dmo; que Deos
+ No faz mal tanto em extremo.
+
+SOLINA.
+
+ Bem. Vs, Senhor Duriano,
+ Porque zombareis de mim?
+
+DURIANO.
+
+ Eu zombo?
+
+SOLINA.
+
+ Eu no m' engano.
+
+DURIANO.
+
+ S' eu zombo, inda em meu dano
+ Vejais vs mui cedo a fim.
+ Mas vs, Senhora Solina,
+ Porque me querereis mal?
+
+SOLINA.
+
+ Sou mofina.
+
+DURIANO.
+
+ Oh! real.
+ Assi que minha mofina
+ He minha imiga mortal.
+ Dias ha qu'eu imagino
+ Qu'em vos amar e servir
+ No ha amador mais fino;
+ Mas sinto que de mofino
+ Me fino sem o sentir.
+
+SOLINA.
+
+ Bem derivais: quant assi
+ popa o dito vos veio.
+
+DURIANO.
+
+ Vir-me-ha de vs, porque creio
+ Que vs fallais dentro em mi,
+ Como esprito em corpo alheio.
+ E assi que em estas pis
+ A cahir, Senhora, vim;
+ Bem parecer entre ns,
+ Pois vs andais dentro em mim,
+ Que ande eu tambem dentro em vs.
+
+SOLINA.
+
+ He bem: que fallar he esse?
+
+DURIANO.
+
+ Dentro na vossa alma, digo,
+ L andasse, e l morresse!
+ E se isto mal vos parece,
+ Dae-me a morte por castigo.
+
+SOLINA.
+
+ Ah mao! Como sois malvado!
+
+DURIANO.
+
+ Mas vs como sois malvada,
+ Que de hum pouco mais de nada
+ Fazeis hum homem armado,
+ Como quem 'st sempre armada!
+ Dizei-me, Solina, mana.
+
+SOLINA.
+
+ Qu'he isso? Tirae l a mo:
+ Oh! vs sois mao cortezo.
+
+DURIANO.
+
+ O que vos quero m'engana,
+ Mas o que desejo no.
+ No ha aqui seno paredes,
+ As quaes no fallo, nem vem.
+
+SOLINA.
+
+ Est isso muito bem.
+ Bem: e vs, Senhor, no vdes
+ Que poder vir alguem?
+
+DURIANO.
+
+ Que vos custo dous abraos?
+
+SOLINA.
+
+ No quero tantos despejos.
+
+DURIANO.
+
+ Pois que faro meus desejos,
+ Que querem ter-vos nos braos,
+ E dar-vos trezentos beijos?
+
+SOLINA.
+
+ Olhae que pouca vergonha!
+ Hi-vos d'hi, boca de praga.
+
+DURIANO.
+
+ Eu no sei certo a que ponha
+ Mostrardes-me a triaga,
+ E virdes-me a dar peonha.
+
+SOLINA.
+
+ Ora ide rir feira,
+ E no sejais dessa laia.
+
+DURIANO.
+
+ Se vdes minha canseira,
+ Porque lhe no dais maneira?
+
+SOLINA.
+
+ Que maneira?
+
+DURIANO.
+
+ A da saia.
+
+SOLINA.
+
+ Por minha alma, hei de vos dar
+ Meia duzia de porradas.
+
+DURIANO.
+
+ Oh que gostosas pancadas!
+ Mui bem vos podeis vingar,
+ Qu'em mim so bem empregadas.
+
+SOLINA.
+
+ Ao diabo, que o eu dou.
+ Como me doeo a mo!
+
+DURIANO.
+
+ Mostrae c, minha affeio,
+ Que essa dor me magoou
+ Dentro no meu corao.
+
+SOLINA.
+
+ Ora hi-vos embora asinha.
+
+DURIANO.
+
+ Por amor de mi, Senhora,
+ No fareis huma cousinha?
+
+SOLINA.
+
+ Digo que vades embora.
+ Que cousa?
+
+DURIANO.
+
+ Esta cartinha.
+
+SOLINA.
+
+ Que carta?
+
+DURIANO.
+
+ De Filodemo
+ A Dionysa vossa ama.
+
+SOLINA.
+
+ Dizei, que tome outra dama,
+ E d os amores ao dmo.
+
+DURIANO.
+
+ No andemos pola rama.
+ Senhora, (aqui para ns)
+ Que sentis della com elle?
+
+SOLINA.
+
+ Grandes alforges sois vs!
+ Pois hi-lhe dizer que appelle.
+
+DURIANO.
+
+ Fallae, que aqui 'stamos ss.
+
+SOLINA.
+
+ Qualquer honesta se abala,
+ Como sabe que he querida.
+ Ella he por elle perdida:
+ Nunca n'outra cousa falla.
+
+DURIANO.
+
+ Ora vou-lhe dar a vida.
+
+SOLINA.
+
+ E eu no lhe disse ja
+ Quanta affeio lh'ella tem?
+
+DURIANO.
+
+ No se fia de ninguem,
+ Nem cr que para elle ha
+ No mundo tamanho bem.
+
+SOLINA.
+
+ Dir-vos-hia de mim l
+ O que lh'eu disse zombando?
+
+DURIANO.
+
+ No disse, por S. Fernando!
+
+SOLINA.
+
+ Ora ide-vos.
+
+DURIANO.
+
+ Que me va!
+ E mandais que torne? Quando?
+
+SOLINA.
+
+ Quando eu c vir lugar,
+ Vo-lo mandarei dizer.
+
+DURIANO.
+
+ Se o quizerdes buscar,
+ No vos deve de faltar,
+ Se no faltar o querer.
+
+SOLINA.
+
+ No falta.
+
+DURIANO.
+
+ Dae-me hum abrao
+ Em sinal do que quereis.
+
+SOLINA.
+
+ T, que o no levareis.
+
+DURIANO.
+
+ De quantos servios fao
+ Nenhum pagar me quereis?
+
+SOLINA.
+
+ Pagar-vos-ho algum'hora,
+ Que isso a mi tambem me toca;
+ Mas agora hi-vos embora.
+
+DURIANO.
+
+ Essas mos beijo, Senhora,
+ Em quanto no posso a boca.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Solina que traz a almofada, e Dionysa._
+
+SOLINA.
+
+ Ja Vossa Merc dir
+ Qu'estive muito tardando.
+
+DIONYSA.
+
+ Bem vos detivestes l.
+ Bof que estava cuidando
+ Em no sei que.
+
+SOLINA.
+
+ Que ser?
+ Aqui somos. (Quant agora
+ Est ella transportada.)
+
+DIONYSA.
+
+ Que rosnais vs l, Senhora?
+
+SOLINA.
+
+ Digo que tardei l fra
+ Em buscar esta almofada.
+ Que estava ella agora s
+ Comsigo phantasiando?
+
+DIONYSA.
+
+ Bof que estava cuidando
+ Qu'he muito para haver d
+ Da mulher que vive amando.
+ Que hum homem pde passar
+ A vida mais occupado:
+ Com passear, com caar,
+ Com correr, com cavalgar,
+ Frra parte do cuidado.
+ Mas a coitada
+ Da mulher sempre encerrada,
+ Que no tee contentamento,
+ No tee desenfadamento,
+ Mais que agulha e almofada?
+ Ento isto vem parir
+ Os grandes erros da gente:
+ Foro mil vezes cahir
+ Princezas d'alta semente.
+ Lembra-me que ouvi contar
+ De tantas affeioadas
+ Em baixo e pobre lugar,
+ Que as que agora vo errar
+ Podem ficar desculpadas.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, a muita affeio
+ Nas Princezas d'alto estado
+ No he muita admirao;
+ Que no sangue delicado
+ Faz amor mais impresso.
+ Mas deixando isto parte,
+ Se m'ella quizer peitar,
+ Prometto de lhe mostrar
+ Huma cousa muito d'arte,
+ Que l dentro fui achar.
+
+DIONYSA.
+
+ Que cousa?
+
+SOLINA.
+
+ Cousa d'esprito.
+
+DIONYSA.
+
+ Algum panno de lavores?
+
+SOLINA.
+
+ Inda ella no deo no fito?
+ Cartinha sem sobre-escripto,
+ Que parece ser de amores.
+
+DIONYSA.
+
+ Essa he a boa ventura?
+
+SOLINA.
+
+ Bof que mo pareceo.
+
+DIONYSA.
+
+ E essa donde nasceo?
+
+SOLINA.
+
+ No meu cesto da costura:
+ No sei quem m'alli meteo.
+
+DIONYSA.
+
+ Mostrae-ma; no hajais medo,
+ Mana. Eu que vos descobri...
+
+SOLINA.
+
+ E se ella vem para mi,
+ Logo quer ver meu segredo?
+ No a veja: v-se d'hi.
+ Ei-la-ahi.
+
+DIONYSA.
+
+ Cuja ser?
+
+SOLINA.
+
+ No sei certo cuja he.
+
+DIONYSA.
+
+ Si; sabeis.
+
+SOLINA.
+
+ No sei, bof.
+
+DIONYSA.
+
+ Ora a carta mo dir.
+
+SOLINA.
+
+ Pois leia Vossa Merc.
+
+_Abre Dionysa a carta, e l-a._
+
+Se para merecer minha pena me no falta mais que viver contente della,
+ja logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo
+triste, seno por no ser para to doce tristeza. Se tendes por offensa
+commetter tamanha ousadia; por maior a devieis ter, se a no
+commettesse; que amor acostumado he fazer os extremos medida das
+affeies, e as affeies medida da causa dellas. Pois logo, nem o meu
+amor pde ser pouco, nem fazer menos: se este no bastar para
+consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o que pelo ter
+mereo; e seno muitas graas ao Amor, que me soube dar hum cuidado, que
+com t-lo se paga o trabalho de soffr-lo.
+
+SOLINA.
+
+ Quanta parvoice diz!
+
+DIONYSA.
+
+ Ora muito boa est!
+ Como vs, mana, sois m!
+ No sejais vs to biliz;
+ Que bem vos entendo ja.
+ Cuja he?
+
+SOLINA.
+
+ E eu que sei?
+
+DIONYSA.
+
+ Pois quem o sabe?
+
+SOLINA.
+
+ O dmo.
+
+DIONYSA.
+
+ Certo que he de quem temo;
+ Que os ditos que nella achei
+ So todos de Filodemo.
+ Este homem, que atrevimento
+ He este que foi tomar?
+ Qual ser seu fundamento?
+ Que mil vezes me faz dar
+ Mil voltas ao pensamento.
+ No entendo delle nada.
+ Mas inda qu'isto he assi,
+ Disso que delle entendi,
+ Me sinto to alterada,
+ Que me arreceio de mi.
+ Eu inda agora no creio
+ Que he verdade este amor;
+ Mas praza a Deos, se assi for,
+ Que inda este meu arreceio
+ Se no converta em temor.
+
+SOLINA.
+
+ Ja vs, ja sdes,
+ Peixes, nas redes.
+ Senhora, quem mais confia,
+ Mais asinha a cahir vem:
+ Natural he o querer bem;
+ Que o amor n'alma se cria,
+ Sem o sentir quem o tem.
+ Filodemo, no que ouvi,
+ Tee-lhe sobeja affeio;
+ E postoque o creia assi,
+ Ou eu sonhei, ou ouvi.
+ Que era d'alta gerao.
+ Logo na phisionomia,
+ Nas manhas, artes e geito,
+ Mostra mui grande respeito:
+ Nem to alta phantasia
+ No se pe em baixo peito.
+
+DIONYSA.
+
+ Tudo isso cuido, e vi
+ Mil vezes miudamente;
+ Mas estas mostras assi
+ So desculpas para mi,
+ E no para toda a gente.
+
+SOLINA.
+
+ O seu moo vejo vir
+ A ns, seu passo contado:
+ Este he muito para ouvir,
+ Que diz que me quer servir
+ D'amores esperdiado.
+
+
+SCENA VII.
+
+_Vilardo, Solina e Dionysa._
+
+VILARDO.
+
+ Senhora, o Senhor seu pae,
+ Mesmo de Vossa Merc,
+ Ja l para casa vae:
+ Por isso, Senhora, andae,
+ Que elle me mandou n'hum p;
+ E diz que fosse jantar
+ Vossa Merc mesmamente.
+
+SOLINA.
+
+ E ja veio do pomar?
+
+DIONYSA.
+
+ Oh quem pudra escusar
+ De comer, nem de ver gente!
+ (Nenhuma cr de verdade
+ Tenho do que m'elle manda.)
+
+VILARDO.
+
+ S'ella sem vontade anda,
+ Eu lh'emprestarei vontade,
+ Empreste-m'ella a vianda.
+
+SOLINA.
+
+ Va, Senhora, por no dar
+ Mais em que cuidar gente.
+
+DIONYSA.
+
+ Irei, mas no por jantar;
+ Que quem vive descontente
+ Mantem-se de imaginar.
+
+VILARDO.
+
+ Pois tambem c minhas dores
+ Me no deixo comer po;
+ Nem come minha affeio
+ Seno sopadas d'amores,
+ E mil postas de paixo.
+ Das lagrimas caldo fao,
+ Do corao escudella;
+ Esses olhos so panella
+ Que coze bofes e bao,
+ Com toda a mais cabedella.
+
+
+SCENA VIII.
+
+_O Monteiro, um pastor e um bobo._
+
+MONTEIRO.
+
+ Perdeo-se por esta brenha
+ Venadoro, meu Senhor,
+ Sem que novas delle tenha:
+ Queira Deos que inda no venha
+ Desta perda outra maior.
+ Contra esta parte daqui
+ Des pos hum cervo correo,
+ Logo desappareceo:
+ Como da vista o perdi,
+ O gosto se me perdeo.
+ Eu, e os mais caadores,
+ Corremos montes e covas;
+ Fallamos com lavradores
+ Deste valle, e com pastores,
+ Sem acharmos delle novas.
+ Quero ver nestes casais
+ Que cobre aquelle arvoredo,
+ Se acharei pastores mais,
+ Que me dem alguns sinais
+ Que me posso tornar ledo.
+
+_Chama._
+
+ dos casaes, de l:
+ Ah pastores, no fallais?
+
+PASTOR.
+
+ Quien sois, lo que buscais?
+
+MONTEIRO.
+
+ Ouvis? Chegae para c.
+
+PASTOR.
+
+ Dicid vos lo que mandais.
+
+BOBO.
+
+ No vayais ad os llam,
+ Padre, sin saber quien es.
+
+PASTOR.
+
+ Porque?
+
+BOBO.
+
+ Porque este es
+ Aquel ladron que hurt
+ El asno del Portugues.
+ Y se vais ad estan,
+ Os juro al cuerpo sagrado
+ De San Pisco, y San Juan,
+ Que tambien os hurtarn,
+ Que sois asno mas honrado.
+
+PASTOR.
+
+ Djame ir, que me llam.
+
+BOBO.
+
+ No, por vida de mi madre;
+ Que si all vais, muerto so',
+ Y desta vez quedo yo,
+ Sin asno, triste! y sin padre.
+
+MONTEIRO.
+
+ Vinde, que vo-lo encommendo,
+ E em vossas mos me ponho.
+
+BOBO.
+
+ No vais, que dijo _en comiendo_.
+ Encomiendoos al demonio! _(Ao Monteiro.)_
+ Y esso es lo que andais haciendo?
+
+PASTOR.
+
+ Djame ir ad est,
+ Que no es cosa que me espante.
+
+BOBO.
+
+ No quereis sino ir all?
+ Pues echadle pan delante,
+ Puede ser amansar.
+
+PASTOR.
+
+ Dios os guarde! Qu cosa es
+ Esa por que voceais?
+
+MONTEIRO.
+
+ Dar-m'heis novas, ou sinais
+ D'hum Fidalgo Portugues,
+ Se passou por onde andais?
+
+BOBO.
+
+ Yo so' Hidalgo Portugues:
+ Que manda su Seoria?
+
+PASTOR.
+
+ Cllate: oh que nescio es!
+
+BOBO.
+
+ Padre, no me dejars
+ Ser lo que quisiere un dia?
+ Ah Santo Dios verdadero!
+ No ser lo que otros son?
+ Digo ahora que no quiero
+ Ser Alonsico, el vaquero.
+
+PASTOR.
+
+ Cllate ya, bobarron.
+
+BOBO.
+
+ Ya me callo: ahora un poco
+ He de ser lo que yo quisiere.
+
+PASTOR.
+
+ Seor, diga lo que quiere,
+ Porque este mochacho es loco,
+ Y muero porque no muere.
+
+MONTEIRO.
+
+ Digo, que se por ventura
+ Sabeis o que ando buscando:
+ Hum Fidalgo, que caando
+ Se perdeo nesta espessura
+ Apos hum cervo andando.
+ Tenho esta parte corrida,
+ Sem delle poder saber:
+ Trago a alegria perdida;
+ E se de todo a perder,
+ Perca-se tambem a vida.
+ Porque s polo buscar
+ Tenho trabalhos asss.
+
+BOBO.
+
+ (Yo no puedo callar mas.)
+
+PASTOR.
+
+ (Como no puedes callar?
+ Qutate all para tras.)
+ Cuanto por aquesta tierra,
+ No siento nueva ninguna.
+
+MONTEIRO.
+
+ Oh trabalhosa fortuna!
+
+PASTOR.
+
+ Mas detras daquesta sierra
+ Hallareis, por dicha, alguna;
+ Que unas choas de vaqueros
+ Portugueses all estan;
+ Y ah muchas veces van
+ Cazadores Cavalleros:
+ Puede ser que lo sabran.
+
+MONTEIRO.
+
+ Quero-me ir l saber.
+ Ficae-vos a Deos, pastor.
+
+PASTOR.
+
+ Dios os livre de dolor.
+
+BOBO.
+
+ Y nos d siempre comer
+ Pan y sopas, qu'es mejor.
+ Mirad lo que os notifico:
+ En aquel valle, acull,
+ Anda paciendo un burrico,
+ Hidalgo, manso, y bonico;
+ Puede ser que ese ser.
+
+PASTOR.
+
+ Calla, y acaba de andar.
+
+BOBO.
+
+ Ya ando.
+
+PASTOR.
+
+ Quieres callar?
+ Bobo, que tan poco sabe!
+
+BOBO.
+
+ No diceis que ande y acabe?
+ Ando, y no quiero acabar.
+
+
+
+
+ACTO TERCEIRO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Florimena, pastora, com hum pote que vai fonte._
+
+FLORIMENA.
+
+ Por este formoso prado
+ Tudo quanto a vista alcana
+ To alegre est tornado,
+ Que a qualquer desesperado
+ Pde dar certa esperana.
+ O monte, e sua aspereza,
+ De flores se veste ledo;
+ Reverdece o arvoredo,
+ Somente em minha tristeza
+ Est sempre o tempo quedo.
+ Junto desta fonte pura,
+ Segundo a muitos ouvi,
+ D'altos parentes nasci:
+ Foi como quiz a Ventura,
+ Mas no como eu mereci.
+ O dia que fui nascida,
+ Minha me do parto forte
+ Foi sem cura fallecida;
+ E o dia que me deo vida
+ Lhe dei eu a ella a morte.
+ Do mesmo parto nasceo
+ Meu irmo, que entre os cabritos
+ Comigo tambem viveo;
+ Mas, assi como cresceo,
+ Crescro nelle os espritos.
+ Foi-se buscar a cidade;
+ Teve juizo e saber;
+ Eu fiquei, como mulher,
+ E no tive faculdade
+ Para poder mais valer.
+ A hum pastor obedeo
+ Por pae, que d'outro no sei;
+ E, pola me que matei,
+ A huma cabra conheo,
+ De cujo leite mamei.
+ Mas porm, ja qu'este monte
+ Me obriga e meu nascimento,
+ Quero, pois quer meu tormento,
+ Encher a talha na fonte
+ Que co'os olhos accrescento.
+
+_Finge que enche a talha._
+
+
+SCENA II.
+
+_Venadoro e Florimena._
+
+VENADORO.
+
+ Pois que me vim alongar
+ Dos caminhos e da gente,
+ Fortuna, que o consente,
+ Se devia contentar
+ De me ter to descontente.
+ Porm, segundo adivinho,
+ Por to espsso arvoredo,
+ Por to aspero rochedo,
+ Quanto mais busco o caminho,
+ Tanto mais delle me arredo.
+ O cavallo, como amigo,
+ Ja cansado me trazia:
+ Mas deixou-me todavia;
+ Que mal pudera comigo
+ Quem comsigo no podia.
+ Quero-me aqui assentar
+ sombra, nesta hervinha,
+ Porque canso ja de andar;
+ Mas inda a fortuna minha
+ No cansa de me cansar.
+ Junto desta fonte pura
+ No sei quem cuido qu'est;
+ Mas no corao me d
+ Que aqui me guarda a Ventura
+ Alguma ventura m.
+ Ou ganhado, ou bem perdido,
+ Faa, emfim, o que quizer,
+ Qu'eu o fim disto hei de ver?
+ Que ja venho apercebido
+ A tudo quanto vier.
+ Oh que formosa serrana
+ vista se me offerece!
+ Deosa dos montes parece;
+ E se he certo que he humana,
+ O monte no a merece.
+ Pastora to delicada,
+ De gesto to singular,
+ Parece-me qu'em lugar
+ De perguntar pola estrada,
+ Por mim lhe hei de perguntar.
+ Atqui sempre zombei
+ De qualquer outra pessoa
+ Que affeioada topei;
+ Mas agora zombarei
+ De quem se no affeioa.
+ Serrana, cuja pintura
+ Tanto a alma me moveo,
+ Dizei-me: Por qual ventura
+ Andareis nesta espessura,
+ Merecendo estar no ceo?
+
+FLORIMENA.
+
+ Tamanho inconveniente
+ Andar na serra parece?
+ Pois a ventura da gente
+ Sempre he mui diferente
+ Do que, ao parecer, merece.
+
+VENADORO.
+
+ Tal resposta he manifesto
+ No se parecer co'as cabras.
+ Pois no vos parece honesto
+ Saberdes matar co'o gesto,
+ Seno inda com palabras?
+ No mato tudo he rudeza.
+ Ha tal gesto e discrio?
+ No o creio.
+
+FLORIMENA.
+
+ Porque no?
+ No supprir natureza
+ Onde falta criao?
+
+VENADORO.
+
+ Ja logo nisso, Senhora,
+ Dizeis, se no sinto mal,
+ Que do vosso natural
+ No era serdes pastora.
+
+FLORIMENA.
+
+ Digo, mas pouco me val.
+
+VENADORO.
+
+ Pois quem vos pde trazer
+ conversao do monte?
+
+FLORIMENA.
+
+ Perguntae-o a essa fonte;
+ Que as cousas duras de crer,
+ Hum as faa, outro as conte.
+
+VENADORO.
+
+ Esta fonte, que est aqui,
+ Que sabe do que dizeis?
+
+FLORIMENA.
+
+ Senhor, mais no pergunteis.
+ Porque outra cousa de mi
+ Sabei que no sabereis.
+ De vs agora sabei,
+ O que no tendes sabido:
+ Se quereis goa, bebei;
+ Se andais por dita perdido,
+ Eu vos encaminharei.
+
+VENADORO.
+
+ Senhora, eu no vos pedia
+ Que ninguem m'encaminhasse;
+ Que o caminho qu'eu queria,
+ Se o eu agora achasse,
+ Mais perdido me acharia.
+ No quero passar daqui;
+ E no vos parea espanto
+ Qu'em vos vendo me rendi;
+ Porque quando me perdi,
+ No cuidei de ganhar tanto.
+
+FLORIMENA.
+
+ Senhor, quem na serra mora
+ Tambem entende a verdade
+ Dos enganos da cidade:
+ V-se embora, ou fique embora,
+ Qual for mais sua vontade.
+
+VENADORO.
+
+ Oh lindissima donzella,
+ A quem a ventura ordena
+ Que me guie como estrella!
+ Quereis-me deixar a pena,
+ E levar-me a causa della?
+ E ja que vos conjurastes
+ Vs e Amor para matar-me,
+ Oh no deixeis d'escutar-me!
+ Pois a vida me tirastes,
+ No me tireis o queixar-me!
+ Qu'eu, em sangue e em nobreza
+ O claro Ceo me extremou;
+ E a Fortuna me dotou
+ De grandes bens e riqueza,
+ Que sempre a muitos negou.
+ Andando caando aqui,
+ Apos hum cervo ferido,
+ Permittio meu fado assi,
+ Que andando dos meus perdido,
+ Me venha perder a mi.
+ E porqu'inda mais passasse
+ Do que tinha por passar,
+ Buscando quem m'ensinasse,
+ Por que via me tornasse,
+ Acho quem me faz ficar.
+ Que vingana permittio
+ A fortuna n'hum perdido!
+ Oh que tyranno partido,
+ Que quem o cervo ferio,
+ V como cervo ferido!
+ Ambos feridos n'hum monte,
+ Eu a elle, outrem a mi:
+ Huma differena ha aqui,
+ Qu'elle vai sarar fonte,
+ E eu nella me feri.
+ E pois que to transformado
+ Me tee vossa formosura,
+ Hum de ns troque o estado.
+ Ou vs para o povoado,
+ Ou eu para a espessura.
+
+FLORIMENA.
+
+ Dos arminhos he certeza,
+ Se lhe a cova alguem ujar,
+ Morar fra, antes d'entrar:
+ D'estimar muito a limpeza
+ Pola vida a vai trocar:
+ Tambem quem na serra mora
+ Tanto estima a honestidade,
+ Que antes toma ser pastora,
+ Que perder a honestidade
+ A trco de ser Senhora.
+ Se mais quereis, esta fonte
+ Vos descubra o mais de mim:
+ O que ella vio, ella o conte;
+ Porque eu vou-me para o monte,
+ Porque ha ja muito que vim.
+
+
+SCENA III.
+
+VENADORO.
+
+ linda minha inimiga,
+ Gentil pastora, esperae!
+ Pois que tanto amor me obriga,
+ Consenti-me que vos siga;
+ V o corpo onde alma vae.
+ E pois por vs me perdi,
+ E neste estado Amor ps
+ Os olhos com que vos vi,
+ Pois os deixaste sem mi,
+ Oh no os deixeis sem vs!
+ Porque a Fortuna me disse
+ Que nas serras, onde andais,
+ Em estes extremos tais,
+ No era bem que vos visse
+ Para no ver de vs mais.
+ E pois Amor se quiz ver
+ Da livre vida vingado,
+ Em que eu sohia viver;
+ Faa em mi o que quizer,
+ Que aqui vou ao jugo atado.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo._
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh Santo Deos verdadeiro,
+ A quem o mundo obedece!
+ Meu filho no apparece.
+ E que me dizeis, Monteiro?
+
+MONTEIRO.
+
+ Digo-lhe que m' entristece.
+ Qu'eu corri por esses montes,
+ Bem quinze leguas, ou mais,
+ E busquei polos casais,
+ Por serras, montes e fontes,
+ Sem ver novas, nem sinais.
+ Toda a gente que levou,
+ Buscando-o, muito cansada
+ Pelo mato anda espalhada;
+ Mas ainda ninguem tomou,
+ Que soubesse delle nada.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh fortuna nunca igual!
+ Quem me fara sabedor
+ De meu filho e meu amor?
+ Que se he muito grande o mal,
+ Muito mor he o temor.
+ Quem tolhe que no achasse
+ Algum leo temeroso
+ N'algum monte cavernoso,
+ Que sua fome fartasse
+ Em seu corpo to formoso?
+ Quem ha que saiba, ou que visse,
+ Que das montanhas erguidas
+ Algum monstro no sahisse,
+ E com seu sangue tingisse
+ As hervas nellas nascidas?
+ Oh filho! vai-me a lembrar
+ Quantas vezes os mandava
+ Que deixasseis o caar!
+ No cuidei de adivinhar
+ O que Fortuna ordenava.
+ Eu irei, filho, buscar-vos
+ Por esses montes, por hi,
+ Ou a perder-me, ou cobrar-vos;
+ Que morte que quiz matar-vos,
+ Quero que me mate a mi.
+ Onde fostes fenecido,
+ Seja tambem vosso pae;
+ Ser-me-ha acontecido,
+ Como a virote que vae
+ Buscar outro que he perdido.
+ Vs s haveis de ficar,
+ Filodemo, encarregado
+ Para esta casa guardar;
+ Que de vosso bom cuidado
+ Tudo se pde fiar.
+ Ide-vos a fazer prestes,
+ Mandae cavallos sellar;
+ Pois ach-lo no pudestes,
+ Ir-m'heis buscar o lugar
+ Onde da vista o perdestes.
+
+
+SCENA V.
+
+_O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o seu._
+
+_Canta._
+
+ Los mochachos del Obispo
+ No comen cosa mimosa,
+ Ni zanca d'araa, ni cosa mimosa.
+
+_Falla._
+
+ De su sayo colorado
+ Tan lozano me vesti,
+ Que yo ya no soy yo,
+ Ya por otro estoy trocado;
+ Que este sayo me troc.
+ Oh qu asno Portugues,
+ Que loco por Florimena,
+ Dese zamarra agena,
+ Y dame por enters
+ Una zamarra tan buena!
+ Como yo vi la bobilla
+ Andar con l en questiones,
+ Y parrsele amarilla,
+ Djele: Florimenilla,
+ Andais en dongolondrones?
+ l me dijo: Matalote,
+ No tengais dello desmayo.
+ Y en esto, como un rayo,
+ Tomme mi capirote,
+ Y dime su capisayo.
+ Capirote, en buena f,
+ Si vos, cuando en mi entrastes,
+ Capisayo vos tornastes,
+ Que yo por eso cantar,
+ Pues ans me mejorastes.
+
+_Canta._
+
+ Lyrio, lyrio, lyrio loco,
+ Con qu? Con capirotada.
+ Por hablar con la golosa
+ De amores, mirad la cosa!
+ Zamarrilla tan hermosa,
+ Que me ha dado tan honrada,
+ Con qu? Con capirotada.
+
+_Falla._
+
+ Yo entonces respond:
+ Seor, dame pan y queso,
+ Mas despues que lo entend,
+ Dije ella: Dale un beso,
+ Que l me di zamarra m.
+ Ahora me mirarn
+ Cuantos la eglesia fueren;
+ Y aquellos que no me quieren,
+ Ahora me rogarn.
+ Sabeis porque no querr?
+ Porque estoy ahidalgado;
+ Y cuando fuere rogado,
+ Cantando responder,
+ Que ya estoy otro tornado.
+
+_Canta e baila._
+
+ Soropicote, picote, mozas,
+ Ahora quiero amores con vosotras.
+
+
+SCENA VI.
+
+_O Pastor e o Bobo._
+
+PASTOR.
+
+ Hijo Alonsillo.
+
+BOBO.
+
+ Hijo Alonsillo.
+
+PASTOR.
+
+ No me quieres escuchar?
+
+BOBO.
+
+ Pues djame suspirar.
+
+PASTOR.
+
+ Escchame ahora, asnillo,
+ Lo que te quiero mandar.
+ Vte al valle de las rosas,
+ Y di Anton del Lugar
+ Que si puede ac llegar,
+ Porque tengo muchas cosas
+ Que importan para le hablar.
+ Porque es aqui llegado
+ este valle un hombre honrado,
+ Mancebo de casta buena,
+ Que amores de Florimena
+ Le traen loco y penado.
+ Dice que quiere casar
+ Con ella, que su tormento
+ No le deja reposar;
+ Y que venga festejar
+ Tan dichoso casamiento.
+
+BOBO.
+
+ Dicid, padre, tambien vos,
+ No quereis casar comigo?
+ Casemos ambos ads.
+
+PASTOR.
+
+ V, y haz lo que te digo.
+
+BOBO.
+
+ Responde, padre, por Dios.
+
+PASTOR.
+
+ V luego, y vuelve apresado.
+ Anda. No quieres andar?
+
+BOBO.
+
+ Pues que me habeis empujado,
+ Juro mi de desandar
+ Todo cuanto tengo andado.
+
+PASTOR.
+
+ Trabajoso es este insano!
+ Nunca hace lo que quereis.
+
+BOBO.
+
+ Ora no os apasioneis,
+ Mi padrecico lozano:
+ Que burlaba, no lo veis?
+
+PASTOR.
+
+ Vte dahi.
+
+BOBO.
+
+ Hme aqui.
+
+PASTOR.
+
+ V donde te dije.
+
+BOBO.
+
+ Ya vengo.
+ Oh que padrasto que tengo,
+ Que asi me manda por ahi,
+ Siendo camino tan luengo!
+
+
+
+
+ACTO QUARTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Dionysa e Solina._
+
+DIONYSA.
+
+ Oh Solina, minha amiga,
+ Que todo este corao
+ Tenho posto em vossa mo;
+ Amor me manda que diga,
+ Vergonha me diz que no.
+ Que farei?
+ Como me descobrirei?
+ Porque a tamanho tormento
+ Mais remedio lhe no sei,
+ Que entreg-lo ao soffrimento.
+ Meu pae muito entristecido
+ Se vai pela serra erguida,
+ Ja da vida aborrecido,
+ Buscando o filho perdido,
+ Tendo a filha c perdida!
+ Sem cuidar,
+ Foi a casa encommendar
+ A quem destruir lha quer:
+ Olhae que gentil saber,
+ Que vai comigo deixar
+ Quem me no deixa viver.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, em tanto desgsto.
+ No posso meter a mo;
+ Mas como diz o rifo,
+ Mais val vergonha no rosto,
+ Que mgoa no corao.
+ E bof, se eu tanto amasse,
+ E visse tempo e sazo,
+ Sem seu pae, sem seu irmo,
+ Que a nuvem triste tirasse
+ De cima do corao.
+
+DIONYSA.
+
+ Ah mana! que tenho medo,
+ Que s'eu em tal consentisse
+ Que logo o mundo o sentisse,
+ Porque nunca houve segredo,
+ Que, emfim, se no descobrisse.
+
+SOLINA.
+
+ Se eu tantas dobras tivesse
+ Como quantas houve erradas,
+ Sem que o mundo o soubesse,
+ f qu'eu enriquecesse,
+ E fosse das mais honradas.
+
+DIONYSA.
+
+ Sabeis que tenho em vontade?
+
+SOLINA.
+
+ Que podeis, Senhora, ter?
+
+DIONYSA.
+
+ Fallar-lhe, s para ver
+ Se he por ventura verdade
+ O que dizeis que me quer.
+
+SOLINA.
+
+ Bof, mana, dizeis bem,
+ E eu o mandarei chamar,
+ Como para lhe rogar
+ Que hum annel, que l me tem,
+ Que mo mande concertar.
+
+DIONYSA.
+
+ Dizeis mui bem.
+
+SOLINA.
+
+ Vou-me l
+ Chamar o seu moo sala;
+ E s'este parvo vem c,
+ Com elle hum pouco rir,
+ Que sempre amores me fala.
+ Vilardo, moo?
+
+
+SCENA II.
+
+_Vilardo e Solina._
+
+VILARDO.
+
+ Quem chama?
+
+SOLINA.
+
+ Vem c, moo; eu te chamo.
+ Qu'he de teu amo?
+
+VILARDO.
+
+ Ah que dama!
+ Perguntais-me por meu amo,
+ E no por hum que vos ama?
+
+SOLINA.
+
+ E quem he esse amador,
+ Que quer ter comigo passo?
+ Ser elle algum madrasso?
+
+VILARDO.
+
+ Eu sou o mesmo, que o amor
+ Me quebra pelo espinhasso.
+ E mais vs sabei de mi,
+ Se eu a diz-lo me atrevo,
+ Que desque esses olhos vi,
+ Que yo ni como, ni bebo,
+ Ni hago vida sin ti.
+ E mais para namorado
+ No sou ora to madrao.
+
+SOLINA.
+
+ Sois muito desmazelado.
+
+VILARDO.
+
+ Mas antes, de delicado
+ Caio pedao a pedao.
+ E mais eu soffrer no posso
+ Que me faais tanto fero,
+ Qu'estou ja posto no osso,
+ Porque sou vosso e revosso,
+ Por vida de quanto quero.
+
+SOLINA.
+
+ Feros est cheia a rua.
+ Ora estou bem aviada!
+
+VILARDO.
+
+ Cupido, por vida tua,
+ Que a no faas to crua,
+ Pois que te no fao nada!
+ Amor, Amor, mas te pido,
+ Que quando se for deitar,
+ Que le digas al oido:
+ Devieis-vos de lembrar
+ Neste tempo de hum perdido.
+
+SOLINA.
+
+ E tu ja fazes coprinhas?
+ Ainda tu trovars?
+
+VILARDO.
+
+ Quem eu? Por estas barbinhas,
+ Que se vs virdes as minhas,
+ Que digais que no so ms.
+
+SOLINA.
+
+ Ora, pois me quereis bem,
+ Dizei-me huma.
+
+VILARDO.
+
+ Ei-la aqui;
+ E veja o saibo que tem;
+ Porque esta trovinha assi,
+ Saiba qu'he trova do assem.
+
+_Trova._
+
+ Passarinhos, que voais
+ Nesta manha to serena,
+ Sabei que s minha pena
+ Pde encher mil cabeais.
+
+SOLINA.
+
+ O rifo est salgado.
+ Essa pena te dou eu?
+
+VILARDO.
+
+ Vs e Amor, que de malvado,
+ Me tee melhor empennado,
+ Que nenhum virote seu.
+ Pois se me ouvreis cantar!
+
+SOLINA.
+
+ E tu es tambem cantor?
+
+VILARDO.
+
+ Canto melhor que hum aor.
+ Quereis que vos venha dar
+ Musiqueta de primor,
+ E que vos mande tanger
+ Muito melhor que ninguem?
+
+SOLINA.
+
+ Ja isso quizera ver.
+
+VILARDO.
+
+ Querer-me-heis, se o eu fizer,
+ Algum pedao de bem?
+
+SOLINA.
+
+ Querer-te-hei trinta pedaos.
+
+VILARDO.
+
+ E esse querer dar fruito,
+ Que me tire destes laos?
+
+SOLINA.
+
+ E que fruito?
+
+VILARDO.
+
+ Dous abraos.
+
+SOLINA.
+
+ Esse fruito custa muito.
+
+VILARDO.
+
+ Esse he o amor qu'em vs ha?
+ Pezar de minha me torta!
+
+SOLINA.
+
+ Ora hi, chamae logo l
+ Vosso amo que venha c,
+ Porque he cousa que importa.
+
+VILARDO.
+
+ Logo?
+
+SOLINA.
+
+ Logo nessas horas.
+
+VILARDO.
+
+ No estarei aqui mais?
+
+SOLINA.
+
+ No. Ainda ahi estais?
+ Vs haveis mister esporas.
+
+VILARDO.
+
+ Irei, porque me mandais.
+
+
+SCENA III.
+
+_O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor._
+
+PASTOR.
+
+ Mas de un mez es ya pasado
+ Que en esta sierra andais;
+ Y es caso mal mirado
+ Que andeis guardando ganado
+ Por una que tanto amais.
+ Y si os determinais
+ En querer casar con ella,
+ Juro mi que nada errais;
+ Y si eso es para habella,
+ En vano cabras guardais.
+ Ya me distes vuestra f
+ (Sbenlo estas tierras todas):
+ Yo con ella me enga,
+ Que luego mandar llam
+ Quien festejase las bodas.
+ Y agora dicis con pena,
+ Que es dura cosa casar:
+ Pues volveos hora buena,
+ Que no habeis de engaar
+ Con palabras Florimena.
+
+VENADORO.
+
+ Quem se ha de ter corao
+ Para tamanho temor?
+ Que em mim pegando esto.
+ De huma parte a razo.
+ E d'outra parte o Amor.
+ Tambem vejo que perdella
+ Ser minha perdio;
+ Que bem me diz a affeio,
+ Que pouco fao por ella,
+ Pois no desfao em quem so.
+
+PASTOR.
+
+ Digoos, si por bajeza
+ Dicis que no os conviene,
+ Daros h una certeza,
+ Que en sangre y en nobleza,
+ Tanto como vos la tiene.
+
+VENADORO.
+
+ Pastor, digo que daqui
+ Farei tudo que quizerdes;
+ E se mais quereis de mi,
+ Digo que vos dou o si
+ Para tudo o que quizerdes.
+
+PASTOR.
+
+ Dios os d su bendicion;
+ Y pues que casais con ella,
+ Yo os afirmo en conclusion,
+ Que aun de vos y mas della
+ Vern gran generacion.
+ Yo me voy por ella, hijo,
+ Tomadla asi mal compuesta;
+ Vern quien haga la fiesta;
+ Que en placer y regocijo
+ Nos festeje esta floresta.
+
+
+SCENA IV.
+
+VENADORO _s_.
+
+ ribeiras to formosas,
+ Valles, campos pastoris,
+ Porque vos no revestis
+ De novas flores e rosas,
+ Se minha gloria sentis?
+ Porque no seccais, abrolhos?
+ E vs, goa, que regando,
+ Os olhos his alegrando,
+ Correi, que tambem meus olhos
+ D'alegres esto manando.
+ Ah pastora, em quem espero
+ Poder viver descansado!
+ Comtigo guardarei gado,
+ Que ja eu sem ti no quero
+ Nenhuma alteza d'estado.
+ Diga o que quizer a gente,
+ Tudo terei n'huma palha,
+ Porque est claro e evidente
+ Que no ha honra que valha
+ Contra a vida descontente.
+
+
+SCENA V.
+
+_Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante do pastor, que
+traz Florimena._
+
+PASTOR.
+
+ Pues el amor os obliga
+ que hagais tan buena liga,
+ Tomando Dios por testigo,
+ Daqui os la entrego, amigo,
+ Por muger y por amiga.
+
+VENADORO.
+
+ Consentis nisto, Senhora?
+
+FLORIMENA.
+
+ Senhor, em tudo consento.
+
+VENADORO.
+
+ Oh grande contentamento!
+
+FLORIMENA.
+
+ Saiba que nunca tgora
+ Lhe houve inveja ao tormento.
+
+PASTOR.
+
+ Asi lo dices, bobilla?
+ Oh! mala dolor os duela!
+ Pero no es maravilla
+ Quien consiente ansi la silla,
+ Consienta tambien la espuela.
+
+
+SCENA VI.
+
+_Torno a bailar e cantar, e acabado, entra D. Lusidardo, e o Monteiro,
+que ando em busca de Venadoro._
+
+LUSIDARDO.
+
+ Tres dias ha ja que ando
+ Por esta larga espessura
+ A Venadoro buscando;
+ E o que delle vou achando
+ He como quer a Ventura.
+
+MONTEIRO.
+
+ Senhor, cuido que l vejo
+ Huns lavradores cantar.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Hi diante perguntar.
+
+MONTEIRO.
+
+ Cumprido he seu desejo,
+ Se a vista no m'enganar.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Como assi?
+
+MONTEIRO.
+
+ Elle no v
+ Aquelle pastor louo
+ Com huma moa pela mo?
+ Se Venadoro no he,
+ Nem eu o Monteiro so.
+
+PASTOR.
+
+ Quien veo all asomar,
+ Que se viene nuestras bodas?
+
+BOBO.
+
+ No los dejemos llegar,
+ Que nos vernan roubar,
+ Juro mi, las migas todas.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh Venadoro, meu filho!
+ Es tu este?
+
+VENADORO.
+
+ Tal estou,
+ Que cuido que este no sou.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Certo que me maravilho
+ De quem tanto te mudou.
+ Como estais assi mudado
+ No rosto e mais no vestido!
+
+VENADORO.
+
+ Ando ja n'outro trocado,
+ Tanto, que fiquei pasmado
+ De como fui conhecido.
+ E se Vossa Merc vem
+ Para me levar daqui,
+ Mais ha de levar que a mi;
+ E ha de ser quem me tem
+ Todo transformado em si.
+
+BOBO.
+
+ Eso porque lo entendeis?
+ Por las migas por ventura?
+ Voto tal no llevareis:
+ Por mas y por mas que andeis
+ No hareis tal travesura.
+
+VENADORO.
+
+ Esta formosa donzella
+ Em mi teve tal poder,
+ Que folguei de me perder;
+ Pois, emfim, vim achar nella
+ O que no cuidei de ser.
+ Tanto em mi pde este amor,
+ Que a tenho recebida;
+ E se o rro grave for,
+ Aqui quero ser pastor:
+ Deixe-me ter esta vida.
+
+LUSIDARDO.
+
+ He certo tal casamento?
+
+VENADORO.
+
+ Tenha-o por cousa segura.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Oh grande acontecimento!
+ Dest'arte sabe a ventura
+ Aguar hum contentamento!
+
+PASTOR.
+
+ igame, Seor, mi,
+ Como hombre sabio, discreto,
+ Porque acaeci as,
+ Y lo que supo hasta aqui
+ Lo puede tener por cierto.
+ Muchos aos son corridos
+ Que en esta fuente abierta,
+ En estos valles floridos
+ Hall dos nios nascidos,
+ Y su madre casi muerta.
+ Los nios chicos cri,
+ (Y desto cierto me arreo)
+ Y la madre sepult;
+ Y despues un gran deseo
+ De saber esto tom.
+ Como yo fuese enseado
+ De chico la mgica arte
+ Por mi padre, que es finado;
+ Muy conoscido y nombrado
+ Soy por tal en toda parte.
+ Yo con yervas de la sierra,
+ Animales y otras cosas
+ Har, si el arte no se yerra,
+ Que desciendan la tierra
+ Las estrellas luminosas.
+ Soy, en fin, certificado
+ Que la madre de los dos
+ Fu Princeza de alto estado.
+ Y por un caso nombrado
+ La trajo esta tierra Dios.
+ El macho, como creci,
+ Deseoso de otro bien,
+ la Corte se parti:
+ La hembra es esta por quien
+ Vuestro hijo se perdi.
+ Y si mas quiere, Seor,
+ De mi arte, prestamente
+ Dello le har sabedor;
+ Mas ha de ser de tenor
+ Que no lo sepa la gente.
+
+LUSIDARDO.
+
+ Mas vamos-nos, se quereis,
+ Que no soffro dilao,
+ A minha casa, e ento
+ L disso me informareis,
+ Que caso he de admirao.
+ E vs, filho, no cuideis
+ Que a gloria de vos achar
+ No he tanto d'estimar,
+ Qu'em qualquer 'stado que esteis,
+ No folgue de vos levar.
+
+
+
+
+ACTO QUINTO.
+
+
+SCENA I.
+
+_Solina, Dionysa e Filodemo._
+
+SOLINA.
+
+ Eis Filodemo l vem:
+ Asinha acudio ao leme.
+
+DIONYSA.
+
+ Isso he de quem quer bem;
+ Mas no sei se o vio alguem,
+ Porque quem espera teme.
+ Agora me quizera eu
+ Daqui cem mil leguas ver.
+
+FILODEMO.
+
+ Folgra eu assi de ser,
+ Porqu'este cuidado meu
+ Fra mais de agradecer.
+ Que quando por accidente
+ A Fortuna desastrada
+ Vos apartasse da gente
+ N'hum deserto, onde somente
+ Das feras fosseis guardada;
+ L por ferro, fogo e goa
+ Buscar minha morte iria;
+ A voz ronca, a lingua fria,
+ Tamanho mal, tanta mgoa
+ s montanhas contaria.
+ L, mui contente e ufano
+ De mostrar amor to puro,
+ Poderia ser que o dano,
+ Que no move hum peito humano,
+ Que movesse hum monte duro.
+
+DIONYSA.
+
+ Nesse deserto apartado
+ De toda a conversao
+ Merecieis degradado
+ Por justia, com prego
+ Que dissesse: _Por ousado_.
+ E eu tambem merecia
+ Metida a grave tormento,
+ Pois que, como no devia,
+ Vim a dar consentimento
+ A to sobeja ousadia.
+
+FILODEMO.
+
+ Senhora, se me atrevi,
+ Fiz tudo o que Amor ordena;
+ E se pouco mereci,
+ Tudo o que perco por mi,
+ Mereo por minha pena.
+ E se Amor pde vencer,
+ Levando de mi a palma,
+ Eu no lho pude tolher;
+ Que os homens no tee poder
+ Sbre os affectos da alma.
+ E ainda que pudera
+ Resistir contra o mal meu.
+ Saiba que o no fizera;
+ Que pouco valra eu,
+ Se contra vs me valra.
+ No deve logo ter culpa
+ Quem se venceo d'armas tais:
+ Assi que nisto, e no mais,
+ Tomo por minha desculpa
+ Vs mesma que me culpais.
+ E se este atrevimento
+ Com tudo for de culpar,
+ Acabae de me matar;
+ Que aqui tenho hum soffrimento
+ Que tudo pde passar.
+ E se esta penitencia,
+ Que fao em me perder,
+ Algum bem vos merecer,
+ Fique em vossa consciencia
+ O que me podeis dever.
+ Que dizeis a isto, Senhora?
+
+DIONYSA.
+
+ Eu que vos posso dizer?
+ Ja no tenho em mi poder,
+ Segundo me sinto agora,
+ Para poder responder.
+ Respondei-lhe, vs Solina,
+ Pois que a vs me entreguei.
+
+SOLINA.
+
+ Bof no responderei:
+ Veja ella o que determina.
+
+DIONYSA.
+
+ No o vejo, nem o sei.
+
+SOLINA.
+
+ Pois eu tambem no sei nada.
+
+DIONYSA.
+
+ Porque?
+
+SOLINA.
+
+ Do que eu fizer,
+ Se despois se arrepender,
+ Dir qu'eu fui a culpada.
+
+DIONYSA.
+
+ Eu s quero a culpa ter.
+
+SOLINA.
+
+ Senhora, por no errar,
+ No quero que fique em mim.
+ Esta noite no jardim
+ Ambos podem praticar
+ Como isto venha a bom fim.
+ L podero ajustar
+ Entr'ambos o parecer;
+ Qu'eu no m'hei nisso de achar,
+ Que no quero temperar
+ O que outrem ha de comer.
+
+DIONYSA.
+
+ Vs vdes a torvao,
+ Que l nessa casa vae?
+
+SOLINA.
+
+ D-me c no corao
+ Que he vindo o Senhor seu pae
+ Com o Senhor seu irmo.
+
+DIONYSA.
+
+ Filodemo, hi-vos embora,
+ Fallae depois com Solina.
+
+SOLINA.
+
+ Vamos-nos tambem, Senhora.
+ Receber seu pae l fra;
+ No venha sentir a mina.
+
+
+SCENA II.
+
+_Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina com os Musicos._
+
+VILARDO.
+
+Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre ando rugindo as sedas.
+
+DOLOROSO.
+
+Avante, que bem sei que o no dizeis polas sedas de Veneza.
+
+VILARDO.
+
+Ja sabeis que esta nossa Solina he to Celestina, que no ha quem a
+traga a ns.
+
+DOLOROSO.
+
+Logo parece moa brigosa, que por d c aquellas palhas, dar e tomar
+quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher
+de sua arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes
+so como homens sisudos; se de noite se acho em algum arruido, onde
+posso fugir sem serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia
+quem ha de cuidar que hum to honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem
+pode ser, porque noite escura he capa de Judeos e de envergonhados.
+
+VILARDO.
+
+Mui gentil comparao he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi
+zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous
+meus amigos, que logo ho de vir aqui ter comnosco.
+
+DOLOROSO.
+
+Que tal he a musica que determinas de lhe dar? No seja de siso; porque
+ser a maior parvoice do mundo, porque no concerta com a parvoice que
+tu finges.
+
+VILARDO.
+
+A musica no he seno das nossas; mas fao-te queixume, que nem com hum
+co de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra.
+
+DOLOROSO.
+
+Nem as achars seno alugadas; mas eu no sou de opinio que teus amores
+te custem dinheiro. Ora ja l apparecem os outros companheiros, e eu
+tambem ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto popa, porque
+daqui iremos porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum
+certo requerimento.
+
+VILARDO.
+
+Vossas Mercs vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem
+temperadas?
+
+DOLOROSO.
+
+Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justia entretanto.
+
+VILARDO.
+
+Ora sus: fazei como se temperasseis cabea de pescada com seu figado e
+bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa
+nova.
+
+_Neste passo se d a musica com todos quatro, hum tange guitarra, outro
+pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito velhas, e no melhor
+diz Vilardo:_
+
+Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he.
+
+DOLOROSO.
+
+Justia, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui no ha outro valhacouto que
+nos valha, que pr os ps ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras.
+
+
+SCENA III.
+
+O MONTEIRO _s_.
+
+Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quo gracioso sera
+quem o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoo, porque
+no podessem entender nelle Meirinhos, Almotacs da limpeza, trabalhos,
+esperanas, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora
+notae bem de quantas cres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo:
+perdeo-se Venadoro na caa, eis a casa toda envolta como rio: o pae
+enfadado, a irma triste, a gente desgostosa; tudo, emfim, fra do
+couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados como
+camaleo, decepado dos ps e das mos, por huma serranica d'Alentejo; e
+veio acaso a sahir de maneira fra da madre, que a recebeo por mulher; e
+rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as lembranas de seu pae;
+pois tanto tomou ao p da letra o que Deos disse: _Por esta deixars teu
+pae e me_. E attentae isto por me fazer merc: cuidareis que este caso
+era _solus peregrinus_: sabei que os no d a fortuna seno aos pares,
+como qudas. Dionysa mais mimosa e mais guardada de seu pae que bicho de
+seda, moa sem fel como pombinha, que nos annos no tinha feito inda o
+enequim; mais formosa que huma manha do S. Joo, mais mansa que o Rio
+Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso, mais delicada que hum
+pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua conversao se
+poder soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a parricida,
+com tanto que dissesse o prego o porque; porque vos no fieis em
+castanhas (no sei se diga, se o cale, que de magoado me trava pola
+manga a falla da garganta; mas, com tudo, no ha quem se tenha) seu pae
+a achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo que
+perdra, que do que alli perdia: eu, coitado de mi, que meta os dentes
+nos cabeaes se desejar ave de penna.
+
+
+SCENA IV.
+
+_Duriano e o Monteiro._
+
+DURIANO, _como cantando_.
+
+Ti ri ri, ti ri ro.
+
+MONTEIRO.
+
+Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos so esses? Onde he c a ida
+agora?
+
+DURIANO.
+
+Vou assi como parvo, porque o melhor he no saber homem nada de si.
+
+MONTEIRO.
+
+Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo
+que ficou s em casa?
+
+DURIANO.
+
+Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se no he isso
+caso para sahir com elle a desafio.
+
+MONTEIRO.
+
+Porque?
+
+DURIANO.
+
+Porque no basta que lhe d a Fortuna gostos to medidos sbre o funil,
+que lhe pe nos braos Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou
+cabellos ao vento, seno ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe
+vem a descobrir, que he filho de no sei quem, nem quem no.
+
+MONTEIRO.
+
+Esses so outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja
+sbre isso no sei que fbulas.
+
+DURIANO.
+
+Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que no he menos que Principe, e peor ainda.
+Nunca ouvistes dizer de hum irmo do Senhor Dom Lusidardo que aggravado
+del Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca?
+
+MONTEIRO.
+
+Tudo isso ouvi ja.
+
+DURIANO.
+
+Pois esse galante, em satisfao de muitas mercs que ElRei de Dinamarca
+lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moa; e como
+era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher
+abalo, desejou ella de ver gerao delle; seno quando, livre-nos Deos!
+se lhe comeou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos no se
+desistem em nove dias, seno em nove mezes, foi-lhe a elle ento
+necessario acolher-se com ella, porque no colhessem a ella com elle:
+acolheu-se em huma gal; e vde la Princeza em huma galera nueva, con el
+marinero ser marinera. Finalmente, vindo navegando todo esse Oceano
+Germanico, bancos de Frandes, mar d'Inglaterra, e trazidos costa
+d'Hespanha, no os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella
+buscavo: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a
+gal costa, onde feita pedaos, morrro todos desastradamente, sem
+escapar mais que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece
+que a Fortuna guardava para dar o descanso, que a seu pae e me negra.
+Sahio finalmente a moa na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria
+huma Princeza mais delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher
+pola terra estranha e despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde,
+despois de ter perdido toda a esperana de ter algum remedio, dero-lhe
+as dores de parto junto de huma fonte, aonde em breve espao lanou duas
+crianas, macho e femia, como vizagras. E como a fraca compreio da
+delicada mulher no pudesse sustentar tantos e to desacostumados
+trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia que desejava de dar,
+deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae, que por causa
+de seus nascimentos a vida lhe tirro, como acontece a viboras. E como
+as crianas fossem destinadas ao que vdes, no faltou hum pastor que as
+criasse, que alli veio ter, dando a me a alma a Deos: de maneira que,
+por no gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e a femia
+he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro.
+
+MONTEIRO.
+
+Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo
+namorar a filha do Senhor que serve: no haver logo por mal o Senhor
+Dom Lusidardo tomar por genro e nora, quem acha por sobrinhos.
+
+DURIANO.
+
+Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se
+parece natural com seu irmo, e Florimena com sua me.
+
+MONTEIRO.
+
+Dae-me a entender, como se creo to de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de
+quem isso contou.
+
+DURIANO.
+
+No caso no ha dvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou
+todo o caso; e fez ao pastor muitas mercs, e mandou fazer muitas festas
+solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o
+mesmo parentesco tee com a Senhora Dionysa, esto fra de crer tamanho
+contentamento; cuido que zombo delle.
+
+MONTEIRO.
+
+Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu
+matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo:
+dissimulemos.
+
+
+SCENA V.
+
+_Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela mo, e Filodemo a
+Dionysa._
+
+LUSIDARDO.
+
+ Quem no ficar pasmado
+ De ver que por tal caminho
+ Tee a Ventura ordenado
+ Filodemo, meu criado,
+ Vir ser meu genro e sobrinho!
+ Quem no pasmar agora
+ De ver a ventura minha,
+ Que tee tornado n'hum'hora
+ Florimena, huma pastora,
+ Ser minha nora e sobrinha!
+ Dem-se graas ao Senhor,
+ Cujo segredo he profundo;
+ Pois que vemos que quiz dar
+ A ventura e o amor
+ Por prazeres deste mundo.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+CARTAS.
+
+
+
+
+CARTAS.
+
+
+CARTA I.
+
+Desejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito desejar a no vi;
+porque este he o mais certo costume da Fortuna, consentir que mais se
+deseje o que mais presto ha de negar. Mas porque outras naos me no
+fao tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar que vos no lembro,
+determinei de vos obrigar agora com esta; na qual pouco mais ou menos
+vereis o que quero que me escrevais dessa terra. Em pago do qual, d'ante
+mo vos pago com novas desta, que no sero ms no fundo de huma arca
+para aviso de alguns aventureiros, que cuido que todo o mato he
+ouregos, e no sabem que c e l ms fadas ha.
+
+Despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo,
+mandei enforcar a quantas esperanas dera de comer at ento, com prego
+pblico: _Por falsificadoras de moeda_. E desenganei esses pensamentos,
+que por casa trazia, porque em mim no ficasse pedra sobre pedra. E assi
+posto em estado, que me no via seno por entre lusco e fusco, as
+derradeiras palavras que na nao disse, foro as de Scipio Africano:
+_Ingrata patria, non possidebis ossa mea_. Porque quando cuido, que sem
+peccado que me obrigasse a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de
+ms linguas, peores tenes, damnadas vontades, nascidas de pura inveja,
+de verem _su amada yedra de s arrancada, y en otro muro asida_.... Da
+qual tambem amizades mais brandas que cera, se accendio em odios que
+disparavo lume que me deitava mais pingos na fama, que nos couros de
+hum leito. Ento ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude
+de Achilles, que no podia ser cortado seno pelas solas dos ps; as
+quaes de mas no verem nunca, me fez ver as de muitos, e no engeitar
+conversaes da mesma impresso, a quem fracos punho mao nome, vingando
+com a lingua o que no podio com o brao. Emfim, Senhor, eu no sei com
+que me pague saber to bem fugir a quantos laos nessa terra me armavo
+os acontecimentos, como com me vir para esta, onde vivo mais venerado
+que os touros de Merceana, e mais quieto que a cella de hum Frade
+Prgador. Da terra vos sei dizer que he me de villes ruins, e madrasta
+de homens honrados. Porque os que se c lano a buscar dinheiro, sempre
+se sustento sobre goa como bexigas; mas os que sua opinio deita las
+armas Mouriscote, como mar corpos mortos praia, sabei que antes que
+amadureo, se secco. Ja estes que tomavo esta opinio de valentes s
+costas, crede que nunca riberas de Duero arriba cavalgaron Zamoranos,
+que roncas de tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem ao
+effeito da obra, salvo-se com dizer que se no podem fazer tamanhas
+duas cousas, como he, prometter e dar. Informado disto veio a esta terra
+Joo Toscano, que, como se achava em algum magusto de rufies,
+verdadeiramente que alli era su comer las carnes crudas, su beber la
+viva sangre. Callisto de Siqueira se veio c mais humanamente, porque
+assi o prometteo em huma tormenta grande em que se vio. Mas hum Manoel
+Serro, que, _sicut et nos_, manqueja de hum olho, se tee c provado
+arrezoadamente, porque fui tomado por juiz de certas palavras, de que
+elle fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de sua pessoa era
+c tido em boa conta. Se das damas da terra quereis novas, as quaes so
+obrigatorias a huma carta, como marinheiros festa de S. Frei Pero
+Gonalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de maduras, que no ha
+cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quizerem lanar pedao. Pois as que
+a terra d? alm de serem de rala, fazei-me merc que lhe falleis alguns
+amores de Petrarca, ou de Bosco; respondem-vos huma linguagem meada de
+hervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lana goa
+na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgae, Senhor, o que sentir
+hum estomago costumado a resistir s falsidades de hum rostinho de
+tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho novo com goa,
+vendo-se agora entre esta carne de sal, que nenhum amor d de si. Como
+no chorar las memorias de in illo tempore! Por amor de mi, que s
+mulheres dessa terra digais de minha parte que se querem absolutamente
+ter alada com barao e prego, que no receiem seis mezes de m vida
+por esse mar, que eu as espero com procisso e palio, revestido em
+pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe iro entregar as chaves da
+cidade, e reconhecero toda a obediencia, a que por sua muita idade so
+ja obrigadas. Por agora no mais, seno que este Soneto[3]
+que aqui vai, que fiz morte de Dom Antonio de Noronha, vos mando em
+sinal de quanto della me pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a
+qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe, que me parece
+melhor que quantas fiz. Tambem vo-la mandra para a mostrardes l a
+Miguel Dias, que pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver;
+mas a occupao de escrever muitas cartas para o Reino, me no deo
+lugar. Tambem l escrevo a Luis de Lemos em resposta d'outra que vi sua:
+se lha no derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual tudo se perde.
+
+Vale.
+
+[3] He o Soneto 12.
+
+ * * * * *
+
+
+CARTA II.
+
+Esta vai com a candeia na mo morrer nas de v. m.; e se dahi passar,
+seja em cinza; porque no quero que do meu pouco como muitos. E se
+todavia quizer meter mais mos na escudella, mande-lhe lavar o nome, e
+valha sem cunhos.
+
+ La mar en medio y tierras, he dejado
+ cuanto bien cuitado yo tenia:
+ Cuan vano imaginar, cuan claro engao
+ Es darme yo entender que con partirme
+ De m se ha de partir un mal tamao!
+
+Quo mal est no caso quem cuida que a mudana do lugar muda a dor do
+sentimento! E seno, diga-o quien dijo que la ausencia causa olvido.
+Porque emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes
+cuidados jogo meus pensamentos barreira, tendo-me ja, pelo costume,
+to contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo
+uso dos annos se converte em natureza. Pois o que he para mor mal, tenho
+eu para mor bem. Aindaque, para viver no mundo, me debruo d'outro panno,
+por no parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum para ser outro,
+sendo outro para ser hum; mas a dor dissimulada dara seu fruito; que a
+tristeza no corao, he como a traa no panno.
+
+ E por to triste me tenho,
+ Que se sentisse alegria,
+ De triste no viviria.
+ Porque a tal sorte vim,
+ Que no vejo bem algum
+ Em quanto vejo,
+ Que no nasceo para mim;
+ E por no sentir nenhum,
+ Nenhum desejo.
+
+Porque cousas impossiveis, he melhor esquec-las que deseja-las. E por isso
+
+ S, tristeza, vos queria,
+ Pois minha ventura quer
+ Que s ella
+ Conhea por alegria;
+ E que se outra quizer,
+ Morra por ella.
+
+Pouco sabe da tristeza quem (sem remedio para ella) diz ao triste que se
+alegre. Pois no v que alheios contentamentos a hum corao
+descontente, no lhe remediando o que sente, lhe dbro o que padece.
+Vs, se vem mo, esperais de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de
+bons propositos. Pois desenganae-vos, que desque professei tristeza,
+nunca mais soube jogar a outro fito. E porque no digais, que no sou
+gente fra do meu bairro, vdes, vai huma volta feita a este mote, que
+escolhi na manada dos engeitados; e cuido que no he to dedo queimado,
+que no seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi:
+
+ No quero, no quero
+ Jubo amarello.
+
+ Se de negro for,
+ To bem me parece,
+ Quanto me aborrece
+ Toda alegre cr:
+ Cr que mostra dor,
+ Quero, e no quero
+ Jubo amarello.
+
+Parece-vos que se pde dizer mais? No me respondais: Quem gabar a
+noiva? porque assentae, que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que
+no he to pequena habilidade. E porque vos no parea, que foi mais
+acertar, que quer-lo fazer; vdes, vai outra do mesmo jaez, com tanto
+que se no v a pasmar.
+
+ Perdigo perdeo a penna,
+ No ha mal, que lhe no venha.
+
+ Em hum mal outro comea,
+ Que nunca vem s nenhum;
+ E o triste que tee hum,
+ A soffrer outro se offrea;
+ E s pelo ter conhea,
+ Que basta hum s que tenha,
+ Para que outro lhe venha.
+
+Que graa ser esperardes de mim propositos em cousa que os no tee
+para comigo? Pois ainda que queira, no posso o que quero; que hum sentido
+remontado, de no pr p em ramo verde, tudo lhe succede assi; e cada
+hum acode ao que lhe mais doe; e mais eu, que o que mais me entristece
+he ter contentamento, pois fujo delle, que minha alma o aborrece, porque
+lhe lembra que he virtude viver sem elle. Que ja sabeis que mgoa he,
+v-lo-has e no o papars. Por fugir destes inconvenientes,
+
+ Toda a cousa descontente
+ Contentar-me s convinha
+ De meu gsto:
+ Que o mal, de que sou doente,
+ Sua mais certa mzinha
+ He desgsto.
+
+Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que no podes haver, d-o pola tua alma. O
+mal sem remedio, o mais certo que tee, he fazer da necessidade virtude:
+quanto mais, se tudo to pouco dura, como o passado prazer. Porque,
+emfim, allegados son iguales los que viven por sus manos etc. A este
+proposito, pouco mais ou menos, se fizero humas voltas a hum mote
+d'enchemo, que diz por sua arte zombando, mais que no de siso (que
+toda a galantaria he tir-la donde se no espera), o qual crede que tee
+mais que roer do que hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida,
+e mande escumar o entendimento, que d'outra maneira, de fuera
+dormiredes, pastorcico. E o meu Senhor diz assi:
+
+ Dava-lhe o vento no chapeiro,
+ Quer lhe d, quer no.
+
+ Bem o pde revolver,
+ Que o vento no traz mais fruito;
+ E mais vento he sentir muito
+ O que, emfim, fim ha de ter.
+ O melhor, he melhor ser,
+ Que o vento no chapeiro,
+ Quer lhe d, quer no.
+
+Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem do mal, que o mal do
+bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado; e a morte at
+matar, mata. No sei se sereis marca de voar to alto; porque para tomar
+a palha a esta materia, so necessarias azas de Nebri. Mas vs sois
+homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mi vos
+sei dar he:
+
+ Que esperana me despede,
+ Tristeza no me fallece,
+ E tudo o mais me aborrece.
+ Ja que mais no mereceo
+ Minha estrella,
+ S a tristeza conheo,
+ Pois que para mi nasceo,
+ E eu para ella.
+
+No mundo no tee boa sorte, seno quem tee por boa a que tee. E
+daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhae de que maneira:
+
+ Vivo assi ao revs,
+ Tomando por certa vida
+ Certa morte,
+ Com que flgo em que me ps;
+ Pois minha sorte he servida
+ De tal sorte.
+
+Huma cousa sabei, que o mal, inda que s vezes o vejais louvar, no ha
+quem o louve com a boca, que o no tache com o corao.
+
+ Ajuda-me a soffrer
+ Vida to sem soffrimento,
+ E to sem vida,
+ Ver que, emfim, fim ho de ter
+ Desgsto e contentamento
+ Sem medida.
+
+Attentae que no so maos confeitos de enforcado, para os que esto com
+o barao na garganta, cuidar que o bem e o mal, aindaque sejo
+differentes na vida, so conformes na morte; porque vemos
+
+ Que no ha to alta sorte,
+ Nem ventura to subida,
+ Ou desastrada,
+ A quem o asspro da morte
+ No sopre o fogo da vida.
+
+ A seu fim todas cousas vo correndo;
+ Nem ha cousa, que o tempo no consuma,
+ Nem vida, que de si tanto presuma,
+ Que se no veja nada, em se vendo.
+
+ Que o mais certo que temos,
+ He no termos nada certo
+ C na terra.
+ Pois para seus no nascemos;
+ Se o seu nos d incerto,
+ Nada erra.
+
+Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se fez a hum certo
+recontro que se teve com este destruidor de bons propositos, e no se
+acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte:
+
+ Forou-me amor hum dia, que jogasse;
+ Deo as cartas, e az de ouros levantou;
+ E sem respeitar mo, logo triumphou,
+ Cuidando que o metal, que me enganasse.
+
+ Dizendo, pois triumphou, que triumphasse
+ A huma sota de ouros, que jogou,
+ Eu ento por burlar quem me burlou,
+ Tres paos joguei, e disse que ganhasse.
+
+Principes de condio, ainda que o sejo de sangue, so mais enfadonhos
+que a pobreza: fazem com sua fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias
+de seus avs, onde no ha trigo to joeirado, que no tenha alguma
+hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim, para dar que fallar a
+hum convento. Duas cousas no se soffrem sem discordia; companhia no
+amar, mandar villo ruim sbre cousa de seu interesse. No se pde ter
+paciencia com quem quer que lhe fao o que no faz. Desagradecimentos
+de boas obras destruem a vontade para no faz-las a amigo, que tee
+mais conta com o interesse, que com a amizade: rezae delle, que he dos c
+nomeados.
+
+Grande trabalho he querer fazer alegre rosto, quando o corao est
+triste: panno he, que no toma nunca bem esta tinta; que a lua recebe a
+claridade do sol, e o rosto do corao. Nada d quem no d honra no que
+d: no tee que agradecer, quem, no que recebe, a no recebe; porque
+bem comprado vai o que com ella se compra. No se d de graa o que se
+pede muito. Estai certo, que quem no tee huma vida, tee muitas. Onde
+a razo se governa pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que
+louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto comsigo, como males de que
+se no guardro, podendo. No ha alma sem corpo, que tantos corpos faa
+sem almas, como este purgatorio, a que chamais honra: onde muitas vezes
+os homens cuido que a ganho, ahi a perdem. Onde ha inveja, no ha
+amizade; nem a pde haver em desigual conversao. Bem mereceo o engano,
+quem creo mais o que lhe dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver
+no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual,
+perguntae-lhe donde vem: vereis que algo tiene en el cuerpo, que le
+duele. Ora temperae-me l esta gaita, que nem assi, nem assi achareis
+meio real de descanso nesta vida; ella nos trata somente como alheios de
+si, e com razo;
+
+ Pois somente nos he dada
+ Para que ganhemos nella
+ O que sabemos.
+ Se se gasta mal gastada,
+ Juntamente com perdella
+ Nos perdemos.
+
+Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, he a mais
+fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quo breve he,
+
+ Ponderemos e vejamos
+ Que ganhamos em viver
+ Os que nascemos:
+ Veremos, que no ganhamos,
+ Seno algum bem fazer,
+ Se o fazemos.
+
+E por isso respeitando,
+
+ Que o por vir tal ser,
+ Enthesouremos;
+ Porque ao certo no sabemos
+ Quando a morte pedir
+ Que lhe paguemos.
+
+Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte: sendo
+mais aborrecida que a verdade, tee-se em menos conta que a virtude. Mas
+com tudo, com seu pensamento, quando lhe vem vontade, acarreta mil
+pensamentos vos; que tudo para com ella he hum lume de palhas. Nenhuma
+cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem na mor bonana,
+como ella; porque quando lhe menos lembra, ento lhe arranca as amarras,
+dando com os corpos costa; e, se vem mo, com as almas no inferno,
+que he bem ruim gasalhado.
+
+ E pois todos isto temos,
+ No nos engane a riqueza,
+ Por que tanto esmorecemos,
+ Traz que vamos;
+ Ja que temos por certeza
+ Que quando mais a queremos,
+ A deixamos.
+
+ Gastmos em alcan-la
+ A vida; e quando queremos
+ Usar della,
+ Nos tira a morte logr-la:
+ Assi que a Deos perdemos,
+ E a ella.
+
+Porque ja ouvirieis dizer: _Ninho feito, pga morta_. Que me dizeis ao
+contentamento do mundo, que toda a dura delle est emquanto se alcana?
+Porque acabado de passar, acabado de esquecer. E com razo, porque
+acabado de alcanar, he passado; e maior saudade deixa, do que he o
+contentamento que deo. Esperae, por me fazer merc, que lhe quero dar
+humas palavrinhas de proposito.
+
+ Mundo, se te conhecemos,
+ Porque tanto desejamos
+ Teus enganos?
+ E se assi te queremos,
+ Mui sem causa nos queixamos
+ De teus danos.
+
+ Tu no enganas ninguem;
+ Pois a quem te desejar,
+ Vemos que danas:
+ Se te querem qual te vem,
+ Se se querem enganar,
+ Ninguem enganas.
+
+ Vejo-se os bens que tivero
+ Os que mais em alcanar-te
+ Se esmerro;
+ Que huns vivendo, no vivro,
+ E outros, s com deixar-te,
+ Descansro.
+
+ Se esta to clara f
+ Te pe claros teus enganos,
+ Desengana:
+ Sobejamente mal v,
+ Quem com tantos desenganos
+ Se engana.
+
+ Mas como tu sempre mores
+ No engano em que andamos,
+ E que vemos,
+ No cremos o que tu podes,
+ Seno o que desejamos
+ E queremos.
+
+ Nada te pde estimar
+ Quem bem quizer conhecer-te
+ E estimar-te;
+
+ Qu'em te perder ou ganhar,
+ O mais seguro ganhar-te
+ He perder-te.
+
+ E quem em ti determina
+ Descanso poder achar,
+ Saiba que erra;
+ Que sendo a alma divina,
+ No a pde descansar
+ Nada da terra.
+
+ Nascemos para morrer,
+ Morremos para ter vida,
+ Em ti morrendo:
+ O mais certo he merecer
+ Ns a vida conhecida,
+ Ca vivendo.
+
+ Emfim, mundo, es estalagem,
+ Em que pouso nossas vidas
+ De corrida:
+ De ti levo de passagem
+ Ser bem ou mal recebidas
+ Na outra vida.
+
+ fuera, fuera Rodrigo, que eu se muito for por este caminho, darei em
+enfadonho, de que me parece me no livrar, nem ainda privilegio de
+Cidado do Porto. E pois me vendo a vs, soffrei-me com meus encargos. E
+porque no digais que sou herege de amor, e que lhe no sei oraes,
+vdes, vai huma: _Di, Juan, de qu muri Blas?_ com hum p Portugueza,
+e outro Castelhana: e no vos espanteis da libr, que eu em qualquer
+palmo desta materia perco o norte. E os supplicantes dizem assi:
+
+ Di, Juan, de que muri Blas,
+ Tan nio y tan mal logrado?
+ Gil, muri de desamado.
+
+ Dime, Juan, quien se enga,
+ Que con amor se engaase,
+ Pensando que el bien hallase,
+ Adonde el mal cierto hall?
+ Despues que el engao vi,
+ Que hizo desenganado?
+ Gil, muri de desamado.
+
+ Travou com elle pendena,
+ Em ter razo confiado;
+ Mas Amor, como he letrado,
+ Houve contr'elle a sentena:
+ E co'aquella differena,
+ Disse entre si o coitado:
+ Gil, morreo de desamado.
+
+ Quem tee razo to cerrada,
+ Que no saiba, sendo rudo
+ E sem respeito,
+ Que sem Deos he tudo nada,
+ E nada com elle tudo
+ Sem defeito?
+
+ E sendo isto assi to certo,
+ Como todos confessamos
+ E sabemos;
+ No troquemos pelo incerto
+ O em que to certo estamos,
+ Pois o vemos.
+
+A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Phaeton,
+porque del dicho al hecho, v gran trecho. E de saber as cousas a passar
+por ellas, ha mais differena, que de consolar a ser consolado. Mas assi
+entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos a reprehend-lo, e poucos a
+emend-lo. E com isto amaino, beijando essas poderosas mos huma
+quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa nosso Senhor etc.
+
+ * * * * *
+
+_O seguinte fragmento de uma composio satyrica em prosa e verso, em
+que Luis de Cames descreve uns jogos de canas, com que na cidade de Goa
+se festejou a successo de Francisco Barreto no governo daquelle Estado,
+appareceo na 3. edio das suas Rimas, com as duas antecedentes cartas,
+e em seguimento da ultima. O intento do poeta he mostrar por meio das
+divisas que tirro os Justadores, que todos elles ero ou sacerdotes de
+Baccho, ou parvos, ou homens perdidos._
+
+.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa hum morcego; ave
+em que foi convertida Alcithoe com as irmas, por desprezarem os
+sacrificios de Baccho. E como aquelle, que se em tal rro cahisse, no
+queria ser convertido em to baixo animal e to nojoso, dizia a sua
+letra assi em Castelhano:
+
+ Si yo desobedeciere
+ tu deidad santa y pura,
+ En al mudes mi figura.
+
+Alguns praguentos quizero dizer que esta letra era maliciosa, e que no
+queria dizer tanto desejar este galante de ser mudado em al, como que
+desejava almudes deste licor. Mas he muito grande falsidade, que sendo a
+letra assi feita, acaso acertou de sahir aquella palavra, com que
+molhava as suas quem tirava a divisa. Do que o innocente Autor, despois
+ficou para se enforcar. Mas outro galante, que de fino bebado ja passava
+os limites do bom e costumado beber, tirou por divisa huma palmeira;
+rvore, que entre os Antigos significava victoria; e ao p della alguns
+ramos de vides e de parreiras pizadas; e dizia a letra assi:
+
+ Ficae vencidas, sem gloria,
+ Vs vides e vs parreiras;
+ Porque os ramos das palmeiras
+ So os que tee a victoria.
+
+Tambem aqui no faltro praguentos, que quizero dizer que este devoto,
+deixando ja atraz Portugal, commettia com valeroso animo Orracas e
+Fullas, tendo em pouco Caparicas e Seixaes. Mas quem ha que fuja de ms
+linguas, ou de mal costumadas gargantas?
+
+Outro galante, a quem fazia mal ao estomago beber o vinho agoado, tirou
+por divisa huma pea de chamalote sem goas, que apresentava Baccho; e
+dizia a letra, como por parte do mesmo Baccho:
+
+ Sem goas, Senhor, levaio
+ Se for bom,
+ Que las aguas de Moncaio
+ Frias son.
+
+Aqui no tivero praguentos que dizer, por ser opinio de physica, serem
+melhores os mantimentos simples, que os compostos.
+
+Outro, que no beber lanava a barra inda mais alm que os acima
+escritos, tirou por divisa huma salamandra, passeando por cima de humas
+brazas de fogo; e a letra dizia:
+
+ En el fuego vivo yo.
+
+Mas o pintor errando as letras, acertou de pr: _De fuego la bebo yo_.
+Donde os praguentos quizero adivinhar que este galante bebia Orraca de
+fogo. O demonio foi fazer tal rro, para delle sahir tamanho acrto.
+
+Outro devoto, que desque estava quente, dizia dos companheiros,
+quaesquer que fossem, o que de cada hum saba, sem respeito, tirou por
+divisa hum demoninhado, lanando os olhos em alvo, escumando e apontando
+com o dedo para hum frasco de vinho; e dizia a letra:
+
+ Se fallar demasiado,
+ No mo tachem, porque, emfim,
+ Aquella alma falla em mim.
+
+Sendo atqui introduzidos os religiosos de Baccho, pedro dous d'outra
+religio que tambem os deixassem jogar as canas, e que elles tirario
+tal divisa, com que se tirasse a limpo sua habilidade; e sendo entrados
+ambos juntos, por certa conformidade que havia entre ambos, trouxero
+pintados nas bandeiras cada hum seu par de pombas; e dizia a letra:
+
+ Se como vs ha hi par,
+ Vs o podereis julgar.
+
+Certo, que atqui chegou a malicia dos homens, porque to subtilmente
+quizero interpretar a innocencia desta letra, que tomro a derradeira
+syllaba da primeira regra, e ajuntro-na com a primeira da derradeira,
+que vem a dizer _parvos_; e dissero que juntos significavo isso
+aquelles dous innocentes. Mal peccado! to errada anda a maldade humana,
+que logo tee por parvos aos que sabem pouco!
+
+Outro homem entrou tambem por adherencia nas canas, o qual dizem que
+tinha partes maravilhosas; porque era to perfeito em suas cousas, que o
+seu comer havia de ser o melhor temperado e o mais suave do mundo; e os
+seus vestidos ero sempre dos mais finos pannos e sitins, que se
+podessem descobrir; e esta perfeio at nos amores e amizades se lhe
+estendia, porque com os amigos sempre tinha subtilezas de conversao, e
+com as amigas hum fingir que queria o que no queria. E, emfim, at no
+jogar usava daquellas manhas todas, as que para ganhar ero necessarias.
+E tinha mais hum revez da fortuna recebido, que se lhe estendia desde a
+ponta do nariz at huma orelha. Este Senhor tirou por divisa huma camisa
+toda lavrada de pontinhos, lavor antigo; e a letra dizia assi:
+
+ Pontos de honrado e sisudo
+ Sempre na vida quiz ter;
+ Apontado no viver,
+ Apontado mais que tudo
+ Em meu vestir e comer.
+ Pontos subtis no meu gsto,
+ Mais subtis no conversar:
+ Tanto me vim a apontar,
+ Que apontado trago o rosto,
+ E as cartas para jogar.
+
+Muitos outros homens illustres quizero ser admittidos nestas festas e
+canas, e que se fizera memoria delles, conforme suas qualidades; mas
+infinita escritura fra, segundo todos os homens da India so
+assinalados; e por isto esses bastem para servirem de amostra do que ha
+nos mais.
+
+FIM.
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+NOTAS.
+
+
+
+
+NOTAS.
+
+Pag. 16. V. 17. _No do sol, mas da candea._] Todas as ed.; mas he lio
+viciosa, porque se a luz do sol no he sombra daquella idea, que em Deos
+est mais perfeita, menos o ser a da candea. Exclue o poeta uma e outra
+destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto c nos
+seduz e encanta. Corrigimos portanto:
+
+ *No do sol, nem da candea.*
+
+
+P. 67. V. 4. _De mim to longe._] Todas as ed.; mas he rro, porque o
+poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e
+pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si to longe? Corrigimos:
+
+ *De si to longe.*
+
+
+P. 123. V. 25.
+
+ _Vs na minha gloria posto.
+ Eu na vossa sepultura._]
+
+Todas as ed. Mas he justamente o contrrio:
+
+ *Vs na vossa gloria posto,
+ Eu na minha sepultura.*
+
+
+P. 124. V. 9.
+
+ _Mas se esse rosto fingido
+ Quizereis representar,
+ Houvera por bom partido
+ Dar-lho a alma do sentido
+ Para a gloria do lugar._]
+
+Assim ando corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos:
+
+ *Mas se esse rosto fingido
+ Quizero representar,
+ E houvero por bom partido
+ Dar-vos a alma do sentido
+ Para a gloria do lugar:
+ Vreis etc.*
+
+
+P. 148. V. 1. _Vai o bem fugindo etc._] Estas endeixas, que
+evidentemente so do poeta, ando na 1. e 2. edio das Rimas; na 3.
+aindaque apontadas no index, foro supprimidas por descuido: ns as
+restituimos.
+
+
+P. 164. V. 23. _E amor he effeito d'alma._] Todas as ed. Parece que deve
+ser _affeito d'alma_.
+
+
+P. 183. V. 7. _Sem saber do cuidado o que sentia._] Todas as ed.; mas he
+rro: corrigimos:
+
+ *Sem saber de cuidado o que sentia;*
+
+isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia.
+
+
+P. 185. V. 20. _Ao p d'uma alta faia etc._] Esta que inadvertidamente
+aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes edies,
+propriamente no he seno uma Egloga, que se deve ajuntar s mais.
+
+
+P. 185. V. 24. _To queixoso d'Amor_] Faria e Sousa. He vicio:
+corrigimos: _Mui queixoso d'Amor_.
+
+
+P. 186. V. 8. _As roxas brancas Nymphas_] Faria e Sousa. He corrupo de
+texto: corrigimos:
+
+ *Brancas, roxas, as Nymphas mais colhio,*
+
+porque se entende flores.
+
+
+P. 188. V. 15. _Junto do rosmaninho, que he crescer_] Faria e Sousa. He
+corrupo de texto: corrigimos:
+
+ *Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.*
+
+
+P. 191. V. 25. _Ai que me deras vida a morte dar-me_] Faria e Sousa. He
+corrupo de texto: corrigimos:
+
+ *Ai que me deras vida em morte dar-me.*
+
+
+P. 197. V. 23. _E como debil flamma a quem fallece O radical humor de
+que vivia_] Faria e Sousa. He corrupo de texto; porque o radical humor
+s pode faltar as plantas: corrigimos:
+
+ *E como debil flor etc.*
+
+
+P. 215. V. 15.
+
+ _Por qual, Senhor, algum eu me trocra. Ou por qual algum rei de
+ mais grandeza_]
+
+Faria e Sousa. No julgamos correcto o dizer: _por qual algum_: devem
+portanto estes versos ler-se como nas primeiras edies:
+
+ *Por que Rei, por que duque eu me trocra,
+ Por que Senhor de grande fortaleza?*
+
+
+P. 220. V. 30.
+
+ _Se o successo he contrrio da vontade As obras que so boas, e o
+ desvio_]
+
+Faria e Sousa. He corrupo de texto: corrigimos:
+
+ *Se o successo he contrrio da vontade
+ Nas obras que so boas, e ha desvio etc.*
+
+
+P. 221. V. 41. _Quanto de infamia_] Faria e Sousa. Qumanha infamia, 3.
+ed. Esta ultima nos parece ser a lio do poeta.
+
+
+P. 222. V. 29. _Populares a Pallas._] Todas as ed. He vicio de texto:
+corrigimos:
+
+ *Populares ( Pallas) etc.*
+
+
+P. 223. V. 17. _E pois que tudo em vos se permittio_] Faria e Sousa. _No
+qual, pois tudo em vs etc._] 3. ed. Preferimos esta lio, que nos
+parece ser a do poeta.
+
+
+P. 224. V. 11.
+
+ _O querido de Deos por quem peleja
+ O ar tambem, e o vento socegado,
+ Ao atambor acode, porque veja
+ Que quem a Deos ama, he de Deos amado_
+
+Assim se lio estes quatro versos na 3. edio. Manoel de Faria corrigio:
+
+ _Oh querido de Deos, por quem peleja
+ O ar tambem, e o vento socegado!
+ Ao tambor acode, porque veja
+ Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado._
+
+Mas esta apostrophe, por elle introduzida, no tem aqui lugar; porque o
+poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas
+praias da Persia conseguia victoria daquellas naes to remotas, as
+settas, que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravo no
+ar, pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravo; e contina,
+observando que o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o
+vento conjurado em seu favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja
+que o que a Deos ama, he delle amado e favorecido. Este he o sentido
+natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo que estes versos ero imitao
+dest'outros de Claudiano:
+
+ _O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris
+ Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether,
+ Et conjurati veniunt ad classica venti._
+
+julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e no accommod-los
+ao seu intento, metteo aqui esta exclamao forada, sem nem ao menos
+saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: _Yo dudo si esta
+exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian._ E assim
+estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Ns seguimos a
+lio antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue
+vicio de cpia, corrigimos:
+
+ *O querido de Deos, por quem peleja,
+ O ar tambem e o vento socegado
+ Ao atambor lhe acodem, porque veja
+ Que o que a Deos ama, he de Deos amado.*
+
+
+P. 225. V. 3. _Com louvores de Apollo celebrado._] Todas as ed.; mas
+aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos:
+
+ *Com louvores de Apollo, e celebrado.*
+
+
+P. 228. V. 1. _Depois que a clara aurora a noite escura._] Esta glosa do
+Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente no he
+obra do poeta: por inadvertencia as conservmos nesta edio.
+
+
+P. 257. L. 7. _Que so muito e valem pouco._] Todas as ed.; mas o que o
+poeta quer dizer, he que um par de reales so cousa pouca, mas para um
+escudeiro pobre valem muito. Corrigimos:
+
+ *Que so pouco, e valem muito.*
+
+
+P. 258. L. 17. _Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal._] Todas as
+ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos:
+
+ *Que tal dizem, que he?*
+
+
+P. 259. L. 1. _E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como
+Apostolo, mais piedosa que huma lamentao._] Todas as ed.; mas he
+vicio: corrigimos:
+
+ *Que vem podre de amor etc.*
+
+
+P. 259. L. 8. _Ol, Senhores._] Lio vulgar. He viciosa: corrigimos:
+
+ *Ol, Senhoras.*
+
+
+P. 286. V. 1. _Mas qu amo y cararon._] Lio vulgar. He grande estrago
+de texto: corrigimos:
+
+ *Mas qu amo y qu cabron!*
+
+
+P. 369. V. 11. _Esperai, dir-vo-lo-ha._] Faria. He rro: deve ler-se:
+
+ *Dir-se-vos-ha.*
+
+
+P. 370. V. 14.
+
+ _Pois s desse encantador
+ Me quero vingar de ti._]
+
+Lio vulgar: he viciosa: corrigimos:
+
+ *Pois so desse encantador
+ Me quero vingar em ti.*
+
+
+P. 374. V. 48. _E se mal vos succedesse._] Lio vulgar: he rro de
+cpia ou de impresso: corrigimos:
+
+ *E se mal nos succedesse.*
+
+
+P. 386. L. 11. _O qual informado pelo pastor que a achra, (que era
+homem sabio na arte magica) e como a crira._] Lio vulgar; mas a
+orao esta imperfeita: corrigimos: *O qual informado pelo pastor etc.;
+de como a achra e como a crira.*
+
+
+P. 402. V. 17. _E levar-me a lenha o vento._] Lio vulgar: He viciosa,
+porque falta a clausula da orao: corrigimos:
+
+ *He levar-me a lenha o vento.*
+
+
+P. 418. L. 5. _Pois no devia assi de ser posantos e vanselos._] Lio
+vulgar. Estranha corrupo de texto: corrigimos:
+
+ *Pois no devia assi de ser, polos Santos Evangelhos.*
+
+
+P. 418. V. 6. _Que os amos e os cangrejos._] Lio vulgar. He viciosa:
+corrigimos:
+
+ *Que o amor e os cangrejos.*
+
+
+P. 447. V. 16.
+
+ _Que das montanhas erguidas
+ D'algum monte no sahisse._]
+
+Lio vulgar. No he menos notavel esta corrupo: corrigimos:
+
+ *Que das montanhas erguidas
+ Algum monstro no sahisse.*
+
+
+P. 453. V. 20. _Se tanto amasse._] Lio vulgar; mas aqui ha vicio de
+texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma
+exprimir-se. Corrigimos:
+
+ *Se eu tanto amasse.*
+
+
+Pag. 467. V. 12.
+
+ _Que quando por accidente
+ Da fortuna desastrado
+ Fosse apartado da gente
+ N'um lugar onde somente
+ Das feras fosse guardado:
+ E por ferro, fogo e goa
+ Buscar minha morte iria._]
+
+Lio vulgar. Mas a corrupo de texto no pde ser mais visivel.
+Comtudo no difficil atinar-se com o sentido do poeta.
+
+Acaba de dizer Dionysa a Filodemo que tomra ver-se dalli cem mil
+leguas, pelo perigo que corria a sua honestidade. Responde-lhe este, que
+isso desejava tambem elle que succedesse; porque nesse caso teria
+occasio de fazer por ella uma fineza, que fosse mais de agradecer; e
+vem a ser, que quando ella por algum caso da fortuna fosse apartada da
+gente n'um deserto onde no tivesse por guarda, seno as feras; por
+ferro, fogo e goa l iria elle buscar a sua morte. E porque no pde
+ser outro o sentido do poeta, corrigimos:
+
+ *Que quando por accidente
+ A fortuna desastrada
+ Vos apartasse da gente
+ N'um deserto, onde somente
+ Das feras fosseis guardada;
+ L por ferro, fogo e goa
+ Buscar minha morte iria etc.*
+
+
+P. 475. L. 20. _Que estas cidras no se desistem em nove dias, seno em
+nove mezes._] Lio vulgar. No ha maior corrupo de texto. Que tem as
+cidras que desistir? Que o poeta no disse um tal absurdo, he fra de
+toda a dvida. O que elle disse foi isto:
+
+*E porque estes sirgos no se desistem em nove dias, seno em nove
+mezes, foi-lhe a elle necessario acolher-se com ella etc.*
+
+Sirgo he o envolucro, onde se encerra o bicho da seda, quando passa ao
+estado de metamorphose, e onde se conserva doze dias, ou nove, como diz
+o poeta. Mas a ignorancia transformou sirgos em cidras.
+
+
+P. 482. L. 7. Porque quando cuido que sem peccado que me obrigasse a
+tres dias de purgatorio, passei tres mil de ms linguas, peores tenes,
+damnadas vontades, nascidas de pura inveja de verem _su amada yedra de
+si arrancada, y en otro muro asida..._ Aqui ha lacuna porque falta o
+verbo da orao.
+
+
+P. 489. V. 28.
+
+ _A quem no assopre a morte
+ Nem sopre o fogo da vida._]
+
+Lio vulgar; mas a do poeta he:
+
+ *A quem o asspro da morte
+ No sopre o fogo da vida.*
+
+
+P. 490. L. 26. _Tres cousas no se soffrem sem discordia; companhia,
+namorar, mandar villo ruim sobre cousa de seu interesse._] Todas as ed.
+Mas o vicio he palpavel: corrigimos: *Duas cousas no se soffrem sem
+discordia; companhia no amar, mandar villo ruim sobre cousa de seu
+interesse.*
+
+
+
+
+INDEX.
+
+
+REDONDILHAS &c.
+
+ Pag.
+
+ 100 A alma que est offrecida
+ 61 A dor que a minha alma sente
+ 113 A morte, pois que sou vosso
+ 71 Amor loco, amor loco
+ 57 Amor que todos offende
+ 63 Amores de huma casada
+ 66 Apartro-se os meus olhos
+ 126 Aquella captiva
+
+ 107 Campos bem-aventurados
+ 99 Catharina bem promette
+ 98 Cinco gallinhas e meia
+ 136 Coifa de beirame
+ 103 Com razo queixar-me posso
+ 76 Com vossos olhos, Gonalves
+ 38 Conde, cujo illustre peito
+ 33 Corre sem vela e sem leme
+ 93 Crescem, Camilla, os abrolhos
+
+ 53 Da doena em que ora ardeis
+ 62 D'alma e de quanto tiver
+ 28 Dama d'estranho primor
+ 56 De atormentado e perdido
+ 70 De dentro tengo mi mal
+ 65 De pequena tomei amor
+ 76 De que me serve fugir
+ 70 De vuestros ojos centellas
+ 54 Deo, Senhora, por sentena
+ 91 Deos te salve, Vasco amigo
+ 60 Descala vai pela neve
+ 102 Descala vai para a fonte
+ 143 D la mi ventura
+
+ 63 Enforquei minha esperana
+ 80 Esconjuro-te, Domingas
+ 101 Esperei, ja no espero
+ 46 Este mundo es el camino
+
+ 67 Falso cavalleiro ingrato
+ 101 Ferro, fogo, frio e calma
+ 125 Foi-se gastando a esperana
+
+ 78 Ha hum bem que chega e foge
+
+ 132 Irme quiero, madre
+
+ 112 Ja no posso ser contente
+ 119 Justa fue mi perdicion
+
+ 105 Mas porm a que cuidados
+ 140 Menina formosa
+ 52 Menina formosa e crua
+ 75 Menina, no sei dizer
+ 129 Menina dos olhos verdes
+ 118 Minh'alma, lembrae-vos della
+
+ 86 Na fonte est Leonor
+ 57 No estejais aggravada
+ 89 No posso chegar ao cabo
+ 74 No sei se m'engana Helena
+
+ 104 Ojos, herido me habeis
+ 55 Olhae que dura sentena
+ 94 Olhos em que esto mil flores
+ 78 Olhos, no vos mereci
+ 79 Os bons vi sempre passar
+
+ 69 Para que me dan tormento
+ 145 Pastora da serra
+ 43 Peo-vos que me digais
+ 83 Pequenos contentamentos
+ 84 Perdigo perdeo a penna
+ 80 Perguntais-me quem me mata
+ 85 Pois a tantas perdies
+ 73 Pois damno me faz olhar-vos
+ 72 Pois he mais vosso que meu
+ 92 Porqu no miras, Giraldo
+ 64 Puz o corao nos olhos
+
+ 60 Qual ter culpa de ns
+ 77 Quando me quer enganar
+ 87 Que diabo ha to damnado
+ 122 Qu ver que me contente
+ 103 Quem disser que a barca pende
+ 58 Quem no mundo quizer ser
+ 128 Quem ora soubesse
+ 94 Quem se confia em huns olhos
+ 21 Querendo escrever hum dia
+
+ 123 Retrato, vs no sois meu
+
+ 134 Saudade minha
+ 81 Se a alma ver-se no pde
+ 68 Se de meu mal me contento
+ 41 Se derivais da verdade
+ 137 Se Helena apartar
+ 83 Se me desta terra for
+ 128 Se me levo agoas
+ 45 Se n'alma e no pensamento
+ 35 Se no quereis padecer
+ 51 Se vossa Dama vos d
+ 45 Sem olhos vi o mal claro
+ 117 Sem ventura he por demais
+ 116 Sem vs, e com meu cuidado
+ 59 Senhora, pois me chamais
+ 73 Senhora, pois minha vida
+ 40 Senhora, s'eu alcanasse
+ 95 Sois formosa e tudo tendes
+ 9 Sbolos rios que vo
+ 30 Suspeitas, que me quereis
+
+ 141 Tende-me mo nelle
+ 121 Todo es poco lo posible
+ 109 Trabalhos descansario
+ 110 Triste vida se me ordena
+ 131 Trocae o cuidado
+ 118 Tudo pde huma affeio
+ 98 Tudo tendes singular
+
+ 148 Vai o bem fugindo
+ 72 Vde bem se nos meus dias
+ 115 Vejo-a n'alma pintada
+ 79 Venceo-me Amor, no o nego
+ 132 Ver e mais guardar
+ 138 Verdes so os campos
+ 139 Verdes so as hortas
+ 90 Vi chorar huns claros olhos
+ 135 Vida da minha alma
+ 68 Vs, Senhora, tudo tendes
+ 146 Vs sois huma Dama
+ 122 Vos teneis mi corazon
+ 88 Vossa Senhoria creia
+ 82 Vosso bem querer, Senhora
+
+SEXTINAS.
+
+ 152 A culpa de meu mal s tem meus olhos
+ 151 Foge-me pouco a pouco a curta vida
+ 154 Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia
+ 155 Sempre me queixarei desta crueza
+
+ELEGIAS.
+
+ 194 A vida me aborrece, a morte quero
+ 185 Ao p d'hum'alta faia vi sentado
+ 160 Aquella que de amor descomedido
+ 175 Aquelle mover de olhos excellente
+ 190 Belisa, unico bem desta alma minha
+ 172 Depois que Magalhes teve tecida [4]
+ 177 Entre rusticas serras e fragosas
+ 208 Juizo extremo, horrifico e tremendo
+ 164 O poeta Simonides fallando
+ 157 O sulmonense Ovidio desterrado
+ 196 Que tristes novas, ou que novo damno [5]
+ 202 Se quando contemplamos as secretas
+
+ [4] A D. Leoniz Pereira, havendo-lhe Pedro de Magalhes
+ Gandavo dedicado o seu livro intitulado: _Historia da
+ Provincia de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos
+ Brasil_. Impresso em Lisboa 1576.
+
+ [5] morte de D. Miguel de Menezes na India, filho de D.
+ Henrique de Menezes, Governador da casa do Civil. Foi
+ dirigida a seu irmo D. Philipe de Menezes.
+
+EPISTOLAS.
+
+ 217 Como nos vossos hombros to constantes [6]
+ 223 Mui alto Rei a quem os ceos em sorte [7]
+ 210 Quem pde ser no mundo to quieto [8]
+ 225 Senhora se encobrir por alguma arte
+
+ [6] A D. Constantino de Bragana, Viso-Rei da India.
+
+ [7] Sobre a setta que o Papa enviou a ElRei D. Sebastio
+ no anno de 1575.
+
+ [8] A D. Antonio de Noronha, sbre o desconcrto do mundo.
+
+OITAVAS.
+
+ 232 C nesta Babylonia adonde mana
+ 228 Despois que a clara Aurora a noite escura
+ 234 D'huma formosa virgem desposada
+
+COMEDIAS.
+
+ 255 ElRei Seleuco
+ 301 Os Amphitries
+ 385 Filodemo
+
+CARTAS.
+
+ 481 Carta 1.
+ 484 Carta 2.
+
+ 503 NOTAS
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Cames
+ Tomo III, by Lus Cames
+
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+works. See paragraph 1.E below.
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+
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
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@@ -0,0 +1,21611 @@
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+ <title>Obras Completas de Luiz de Camões, volume III</title>
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III, by
+Luís Camões
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
+
+Author: Luís Camões
+
+Release Date: August 24, 2011 [EBook #37192]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="fbox"><p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro
+impresso em 1843.</p>
+
+<p>Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
+pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto,
+e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos
+inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em
+particular quanto à acentuação.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+
+<p style="font-size: 1.1em;">CLASSICOS</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">PORTUGUEZES.</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">TOMO III.</p>
+
+<hr style="width: 20%">
+
+<p style="font-size: 1.4em;">CAMÕES.</p>
+
+<p style="font-size: 1em;">III.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr>
+<p style="text-align: center; font-size: small;">PARIZ.&mdash;NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,<br>
+Rua Racine, 26, junto ao Odeon.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;">OBRAS COMPLETAS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DE</p>
+
+<p style="font-size: 2em;"><strong>LUIS DE CAMÕES,</strong></p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">CORRECTAS E EMENDADAS</p>
+
+<p>PELO CUIDADO E DILIGENCIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.</p>
+
+<p style="font-size: 1em;">TOMO TERCEIRO.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.3em;">LISBOA.</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,<br>
+<span style="font-size: 1.1em;">NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,</span><br>
+3, quai Malaquais, près le pont des Arts.</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">1843</p>
+
+</div>
+
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span></p>
+
+
+
+
+<h1><big>RIMAS.</big></h1>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span></p>
+
+
+
+
+<h1>RIMAS.</h1>
+
+<h2>REDONDILHAS.</h2>
+
+
+<div id="redondilhas">
+
+<blockquote><big>S</big>ôbolos rios que vão<br>
+Por Babylonia, me achei,<br>
+Onde sentado chorei<br>
+As lembranças de Sião,<br>
+E quanto nella passei.<br>
+Alli o rio corrente<br>
+De meus olhos foi manado;<br>
+E tudo bem comparado,<br>
+Babylonia ao mal presente,<br>
+Sião ao tempo passado.<br>
+ <br>
+Alli lembranças contentes<br>
+N'alma se representárão;<br>
+E minhas cousas ausentes<br>
+Se fizerão tão presentes,<br>
+Como se nunca passárão.<br>
+Alli, despois d'acordado,<br>
+Co'o rosto banhado em ágoa,<br>
+Deste sonho imaginado,<br>
+Vi que todo o bem passado<br>
+Não he gôsto, mas he mágoa. <span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span><br>
+ <br>
+E vi que todos os danos<br>
+Se causavão das mudanças,<br>
+E as mudanças dos anos;<br>
+Onde vi quantos enganos<br>
+Faz o tempo ás esperanças.<br>
+Alli vi o maior bem<br>
+Quão pouco espaço que dura;<br>
+O mal quão depressa vem;<br>
+E quão triste estado tem<br>
+Quem se fia da ventura.<br>
+ <br>
+Vi aquillo que mais val<br>
+Qu'então s'entende melhor,<br>
+Quando mais perdido for:<br>
+Vi ao bem succeder mal,<br>
+E ao mal muito peor.<br>
+E vi com muito trabalho<br>
+Comprar arrependimento:<br>
+Vi nenhum contentamento;<br>
+E vejo-me a mi, qu'espalho<br>
+Tristes palavras ao vento.<br>
+ <br>
+Bem são rios estas ágoas<br>
+Com que banho este papel:<br>
+Bem parece ser cruel<br>
+Variedade de mágoas,<br>
+E confusão de Babel.<br>
+Como homem, que por exemplo<br>
+Dos trances em que se achou,<br>
+Despois que a guerra deixou,<br>
+Pelas paredes do templo<br>
+Suas armas pendurou:<br>
+ <br>
+Assi, despois qu'assentei <span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span><br>
+Que tudo o tempo gastava,<br>
+Da tristeza que tomei,<br>
+Nos salgueiros pendurei<br>
+Os orgãos com que cantava.<br>
+Aquelle instrumento ledo<br>
+Deixei da vida passada,<br>
+Dizendo: Musica amada,<br>
+Deixo-vos neste arvoredo<br>
+Á memoria consagrada.<br>
+ <br>
+Frauta minha, que tangendo<br>
+Os montes fazieis vir<br>
+Par'onde estaveis, correndo;<br>
+E as ágoas, que hião descendo,<br>
+Tornavão logo a subir;<br>
+Jamais vos não ouvirão<br>
+Os tigres, que s'amansavão;<br>
+E as ovelhas, que pastavão,<br>
+Das hervas se fartarão,<br>
+Que por vos ouvir deixavão.<br>
+ <br>
+Ja não fareis docemente<br>
+Em rosas tornar abrolhos<br>
+Na ribeira florecente;<br>
+Nem poreis freio á corrente,<br>
+E mais se for dos meus olhos.<br>
+Não movereis a espessura,<br>
+Nem podereis ja trazer<br>
+Atraz vós a fonte pura;<br>
+Pois não pudestes mover<br>
+Desconcertos da ventura.<br>
+ <br>
+Ficareis offerecida<br>
+Á Fama, que sempre vela, <span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span><br>
+Frauta de mi tão querida;<br>
+Porque mudando-se a vida,<br>
+Se mudão os gostos della.<br>
+Acha a tenra mocidade<br>
+Prazeres accommodados;<br>
+E logo a maior idade<br>
+Ja sente por pouquidade<br>
+Aquelles gostos passados.<br>
+ <br>
+Hum gôsto, que hoje s'alcança,<br>
+Á manhãa ja o não vejo:<br>
+Assi nos traz a mudança<br>
+D'esperança em esperança,<br>
+E de desejo em desejo.<br>
+Mas em vida tão escassa<br>
+Qu'esperança será forte?<br>
+Fraqueza da humana sorte,<br>
+Que quanto da vida passa<br>
+Está recitando a morte!<br>
+ <br>
+Mas deixar nesta espessura<br>
+O canto da mocidade:<br>
+Não cuide a gente futura<br>
+Que será obra da idade<br>
+O que he fôrça da ventura.<br>
+Qu'idade, tempo, e espanto<br>
+De ver quão ligeiro passe,<br>
+Nunca em mi puderão tanto,<br>
+Que, postoque deixo o canto,<br>
+A causa delle deixasse.<br>
+ <br>
+Mas em tristezas e nojos,<br>
+Em gôsto e contentamento;<br>
+Por sol, por neve, por vento, <span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span><br>
+<em>Tendré presente á los ojos<br>
+Por quien muero tan contento.</em><br>
+Orgãos e frauta deixava,<br>
+Despôjo meu tão querido,<br>
+No salgueiro que alli'stava,<br>
+Que para tropheo ficava<br>
+De quem me tinha vencido.<br>
+ <br>
+Mas lembranças da affeição<br>
+Que alli captivo me tinha,<br>
+Me perguntárão então,<br>
+Qu'era da musica minha,<br>
+Que eu cantava em Sião?<br>
+Que foi daquelle cantar,<br>
+Das gentes tão celebrado?<br>
+Porque o deixava de usar,<br>
+Pois sempre ajuda a passar<br>
+Qualquer trabalho passado?<br>
+ <br>
+Canta o caminhante ledo<br>
+No caminho trabalhoso<br>
+Por entre o espêsso arvoredo;<br>
+E de noite o temeroso<br>
+Cantando refreia o medo.<br>
+Canta o preso docemente,<br>
+Os duros grilhões tocando;<br>
+Canta o segador contente;<br>
+E o trabalhador, cantando,<br>
+O trabalho menos sente.<br>
+ <br>
+Eu qu'estas cousas senti<br>
+N'alma de mágoas tão cheia,<br>
+Como dirá, respondi,<br>
+Quem alheio está de si <span class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span><br>
+Doce canto em terra alheia?<br>
+Como poderá cantar<br>
+Quem em chôro banha o peito?<br>
+Porque, se quem trabalhar<br>
+Canta por menos cansar,<br>
+Eu só descansos engeito.<br>
+ <br>
+Que não parece razão,<br>
+Nem sería cousa idonia,<br>
+Por abrandar a paixão<br>
+Que cantasse em Babylonia<br>
+As cantigas de Sião.<br>
+Que quando a muita graveza<br>
+De saudade quebrante<br>
+Esta vital fortaleza,<br>
+Antes morra de tristeza,<br>
+Que por abrandá-la cante.<br>
+ <br>
+Que se o fino pensamento<br>
+Só na tristeza consiste,<br>
+Não tenho medo ao tormento:<br>
+Que morrer de puro triste,<br>
+Que maior contentamento?<br>
+Nem na frauta cantarei<br>
+O que passo, e passei ja,<br>
+Nem menos o escreverei;<br>
+Porque a penna cansará,<br>
+E eu não descansarei.<br>
+ <br>
+Que se vida tão pequena<br>
+S'accrescenta em terra estranha;<br>
+E se Amor assi o ordena,<br>
+Razão he que canse a penna<br>
+D'escrever pena tamanha. <span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span><br>
+Porém, se para assentar<br>
+O que sente o coração,<br>
+A penna ja me cansar,<br>
+Não canse para voar<br>
+A memoria em Sião.<br>
+ <br>
+Terra bem-aventurada,<br>
+Se por algum movimento<br>
+D'alma me fores tirada,<br>
+Minha penna seja dada<br>
+A perpétuo esquecimento.<br>
+A pena deste destêrro,<br>
+Qu'eu mais desejo esculpida<br>
+Em pedra, ou em duro ferro,<br>
+Essa nunca seja ouvida,<br>
+Em castigo de meu êrro.<br>
+ <br>
+E se eu cantar quizer<br>
+Em Babylonia sujeito,<br>
+Hierusalem, sem te ver,<br>
+A voz, quando a mover,<br>
+Se me congele no peito;<br>
+A minha lingua se apegue<br>
+Ás fauces, pois te perdi,<br>
+S'em quanto viver assi<br>
+Houver tempo, em que te negue,<br>
+Ou que m'esqueça de ti.<br>
+ <br>
+Mas ó tu, terra de glória.<br>
+S'eu nunca vi tua essencia,<br>
+Como me lembras na ausencia?<br>
+Não me lembras na memoria,<br>
+Senão na reminiscencia:<br>
+Que a alma he taboa rasa, <span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span><br>
+Que com a escrita doutrina<br>
+Celeste tanto imagina,<br>
+Que vôa da propria casa,<br>
+E sobe á patria divina.<br>
+ <br>
+Não he logo a saudade<br>
+Das terras onde nasceo<br>
+A carne, mas he do Ceo,<br>
+Daquella santa Cidade,<br>
+Donde est'alma descendeo.<br>
+E aquella humana figura,<br>
+Que cá me póde alterar,<br>
+Não he quem se ha de buscar;<br>
+He raio da formosura,<br>
+Que só se deve d'amar.<br>
+ <br>
+Que os olhos, e a luz que ateia<br>
+O fogo que cá sujeita,<br>
+Não do sol, nem da candeia,<br>
+He sombra daquella ideia,<br>
+Qu'em Deos está mais perfeita.<br>
+E os que cá me captivárão,<br>
+São poderosos affeitos<br>
+Qu'os corações tẽe sujeitos;<br>
+Sophistas, que m'ensinárão<br>
+Maos caminhos por direitos.<br>
+ <br>
+Destes o mando tyrano<br>
+M'obriga com desatino<br>
+A cantar ao som do dano<br>
+Cantares d'amor profano,<br>
+Por versos d'amor divino.<br>
+Mas eu, lustrado co'o santo<br>
+Raio, na terra de dor, <span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span><br>
+De confusões e d'espanto<br>
+Como hei de cantar o canto,<br>
+Que só se deve ao Senhor?<br>
+ <br>
+Tanto póde o beneficio<br>
+Da graça que dá saude,<br>
+Que ordena que a vida mude:<br>
+E o qu'eu tomei por vício,<br>
+Me faz grao para a virtude;<br>
+E faz qu'este natural<br>
+Amor, que tanto se préza,<br>
+Suba da sombra ao real,<br>
+Da particular belleza<br>
+Para a belleza geral.<br>
+ <br>
+Fique logo pendurada<br>
+A frauta com que tangi,<br>
+Ó Hierusalem sagrada,<br>
+E tome a lyra dourada<br>
+Para só cantar de ti;<br>
+Não captivo e ferrolhado<br>
+Na Babylonia infernal,<br>
+Mas dos vicios desatado,<br>
+E cá desta a ti levado,<br>
+Patria minha natural.<br>
+ <br>
+E s'eu mais der a cerviz<br>
+A mundanos accidentes,<br>
+Duros, tyrannos e urgentes,<br>
+Risque-se quanto ja fiz<br>
+Do grão livro dos viventes.<br>
+E, tomando ja na mão<br>
+A lyra santa e capaz<br>
+D'outra mais alta invenção, <span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span><br>
+Calle-se esta confusão,<br>
+Cante-se a visão de paz.<br>
+ <br>
+Ouça-me o pastor e o rei,<br>
+Retumbe este accento santo,<br>
+Mova-se no mundo espanto;<br>
+Que do que ja mal cantei<br>
+A palinodia ja canto.<br>
+A vós só me quero ir,<br>
+Senhor, e grão Capitão<br>
+Da alta tôrre de Sião,<br>
+Á qual não posso subir,<br>
+Se me vós não dais a mão.<br>
+ <br>
+No grão dia singular,<br>
+Que na lyra em douto som<br>
+Hierusalem celebrar,<br>
+Lembrae-vos de castigar<br>
+Os ruins filhos de Edom.<br>
+Aquelles que tintos vão<br>
+No pobre sangue innocente,<br>
+Soberbos co'o poder vão,<br>
+Arrazá-los igualmente:<br>
+Conheção que humanos são.<br>
+ <br>
+E aquelle poder tão duro<br>
+Dos affectos com que venho,<br>
+Qu'encendem alma e engenho;<br>
+Que ja m'entrárão o muro<br>
+Do livre arbitrio que tenho;<br>
+Estes, que tão furiosos<br>
+Gritando vem a escalar-me,<br>
+Maos espiritos damnosos,<br>
+Que querem como forçosos <span class="pn"><a name="pag_19">{19}</a></span><br>
+Do alicerce derribar-me;<br>
+ <br>
+Derribae-os, fiquem sós,<br>
+De fôrças fracos, imbelles;<br>
+Porque não podemos nós,<br>
+Nem com elles ir a vós,<br>
+Nem sem vós tirar-nos delles.<br>
+Não basta minha fraqueza<br>
+Para me dar defensão,<br>
+Se vós, santo Capitão,<br>
+Nesta minha Fortaleza<br>
+Não puzerdes guarnição.<br>
+ <br>
+E tu, ó carne, qu'encantas,<br>
+Filha de Babel tão feia,<br>
+Toda de miseria cheia,<br>
+Que mil vezes te levantas<br>
+Contra quem te senhoreia;<br>
+Beato só póde ser<br>
+Quem co'a ajuda celeste<br>
+Contra ti prevalecer,<br>
+E te vier a fazer<br>
+O mal que lhe tu fizeste:<br>
+ <br>
+Quem com disciplina crua<br>
+Se fere mais que huma vez;<br>
+Cuja alma, de vicios nua,<br>
+Faz nodas na carne sua,<br>
+Que ja a carne n'alma fez.<br>
+E beato quem tomar<br>
+Seus pensamentos recentes,<br>
+E em nascendo os affogar,<br>
+Por não virem a parar<br>
+Em vicios graves e urgentes: <span class="pn"><a name="pag_20">{20}</a></span><br>
+ <br>
+Quem com elles logo der<br>
+Na pedra do furor santo,<br>
+E batendo os desfizer<br>
+Na Pedra, que veio a ser<br>
+Emfim cabeça do canto:<br>
+Quem logo, quando imagina<br>
+Nos vicios da carne má,<br>
+Os pensamentos declina<br>
+Áquella Carne divina,<br>
+Que na Cruz esteve ja.<br>
+ <br>
+Quem do vil contentamento<br>
+Cá deste mundo visibil,<br>
+Quanto ao homem for possibil,<br>
+Passar logo entendimento<br>
+Para o mundo intelligibil;<br>
+Alli achará alegria<br>
+Em tudo perfeita, e cheia<br>
+De tão suave harmonia,<br>
+Que nem por pouca recreia,<br>
+Nem por sobeja enfastia.<br>
+ <br>
+Alli verá tão profundo<br>
+Mysterio na summa Alteza,<br>
+Que, vencida a natureza,<br>
+Os mores faustos do mundo<br>
+Julgue por maior baixeza.<br>
+Ó tu, divino aposento,<br>
+Minha patria singular,<br>
+Se só com te imaginar,<br>
+Tanto sobe o entendimento,<br>
+Que fara se em ti se achar?<br>
+ <br>
+Ditoso quem se partir <span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span><br>
+Para ti, terra excellente,<br>
+Tão justo e tão penitente,<br>
+Que despois de a ti subir,<br>
+Lá descanse eternamente!</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+
+<p class="centrado">C<small>ARTA A HUMA</small> D<small>AMA.</small></p>
+
+<blockquote><big>Q</big>uerendo escrever hum dia<br>
+O mal, que tanto estimei;<br>
+Cuidando no que poria,<br>
+Vi Amor que me dizia:<br>
+Escreve, qu'eu notarei.<br>
+E como para se ler<br>
+Não era historia pequena<br>
+A que de mi quiz fazer,<br>
+Das azas tirou a penna<br>
+Com que me fez escrever.<br>
+ <br>
+E, logo como a tirou,<br>
+Me disse: Aviva os espritos;<br>
+Que pois em teu favor sou,<br>
+Esta penna, que te dou,<br>
+Fara voar teus escritos.<br>
+E dando-me a padecer<br>
+Tudo o que quiz que puzesse,<br>
+Pude emfim delle dizer,<br>
+Que me deo com qu'escrevesse<br>
+O que me deo a escrever.<br>
+ <br>
+Eu qu'este engano entendi,<br>
+Disse-lhe: Qu'escreverei?<br>
+Respondeo, dizendo assi:<br>
+Altos effeitos de mi. <span class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span><br>
+E daquella a quem te dei.<br>
+E ja que te manifesto<br>
+Todas minhas estranhezas,<br>
+Escreve, pois que te prézas,<br>
+Milagres d'hum claro gesto,<br>
+E de quem o vio, tristezas.<br>
+ <br>
+Ah Senhora, em quem se apura<br>
+A fé de meu pensamento!<br>
+Escutae e estae a tento,<br>
+Que com vossa formosura<br>
+Iguala Amor meu tormento.<br>
+E, postoque tão remota<br>
+Estejais de m'escutar<br>
+Por me não remediar,<br>
+Ouvi, que pois Amor nota,<br>
+Milagres se hão de notar.<br>
+ <br>
+Escrevem varios Authores,<br>
+Que junto da clara fonte<br>
+Do Ganges, os moradores<br>
+Vivem do cheiro das flores<br>
+Que nascem naquelle monte.<br>
+Se os sentidos podem dar<br>
+Mantimento ao viver,<br>
+Não he logo d'espantar,<br>
+S'estes vivem de cheirar,<br>
+Que viva eu só de vos ver.<br>
+ <br>
+Huma árvore se conhece,<br>
+Que na geral alegria<br>
+Ella tanto s'entristece,<br>
+Que, como he noite, florece,<br>
+E perde as flores de dia. <span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span><br>
+Eu, qu'em ver-vos sinto o preço<br>
+Qu'em vossa vista consiste,<br>
+Em a vendo m'entristeço,<br>
+Porque sei que não mereço<br>
+A glória de ver-me triste.<br>
+ <br>
+Hum Rei de grande poder<br>
+Com veneno foi criado,<br>
+Porque, sendo costumado,<br>
+Não lhe pudesse empecer,<br>
+Se despois lhe fosse dado.<br>
+Eu, que criei de pequena<br>
+A vista a quanto padece,<br>
+Desta sorte m'acontece,<br>
+Que não me faz mal a pena,<br>
+Senão quando me fallece.<br>
+ <br>
+Quem da doença Real<br>
+De longe enfêrmo se sente,<br>
+Por segredo natural<br>
+Fica são vendo somente<br>
+Hum volatil animal.<br>
+Do mal, que Amor em mi cria,<br>
+Quando aquella Phenix vejo,<br>
+São de todo ficaria;<br>
+Mas fica-me hydropesia,<br>
+Que quanto mais, mais desejo.<br>
+ <br>
+Da vibora he verdadeiro,<br>
+Se a consorte vai buscar,<br>
+Qu'em se querendo juntar,<br>
+Deixa a peçonha primeiro,<br>
+Porque lh'impede o gerar.<br>
+Assi quando m'apresento <span class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span><br>
+Á vossa vista inhumana,<br>
+A peçonha do tormento<br>
+Deixo á parte, porque dana<br>
+Tamanho contentamento.<br>
+ <br>
+Querendo Amor sustentar-se,<br>
+Fez huma vontade esquiva<br>
+D'huma estatua namorar-se:<br>
+Despois, por manifestar-se,<br>
+Converteo-a em mulher viva.<br>
+De quem m'irei eu queixando,<br>
+Ou quem direi que m'engana<br>
+Se vou seguindo e buscando<br>
+Huma imagem, que d'humana<br>
+Em pedra se vai tornando?<br>
+ <br>
+D'huma fonte se sabía,<br>
+Da qual certo se provava<br>
+Que quem sôbre ella jurava,<br>
+Se falsidade dizia,<br>
+Dos olhos logo cegava.<br>
+Vós, que minha liberdade,<br>
+Senhora, tyrannizais,<br>
+Injustamente mandais,<br>
+Quando vos fallo verdade,<br>
+Que vos não possa ver mais.<br>
+ <br>
+Da palma s'escreve e canta<br>
+Ser tão dura e tão forçosa,<br>
+Que pêzo não a quebranta,<br>
+Mas antes, de presunçosa,<br>
+Com elle mais se levanta.<br>
+Co'o pêzo do mal que dais,<br>
+A constancia qu'em mi vejo, <span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span><br>
+Não somente ma dobrais,<br>
+Mas dobra-se meu desejo,<br>
+Com qu'então vos quero mais.<br>
+ <br>
+Se alguem os olhos quizer<br>
+Ás andorinhas quebrar,<br>
+Logo a mãe, sem se deter,<br>
+Huma herva lhe vai buscar<br>
+Que lhes faz outros nascer.<br>
+Eu que os olhos tenho attento<br>
+Nos vossos, qu'estrellas são,<br>
+Cegão-se os do entendimento,<br>
+Mas nascem-me os da razão<br>
+De folgar com meu tormento.<br>
+ <br>
+Lá para onde o sol sahe,<br>
+Descobrimos, navegando,<br>
+Hum novo rio admirando,<br>
+Que o lenho que nelle cahe,<br>
+Em pedra se vai tornando.<br>
+Não s'espantem disto as gentes;<br>
+Mais razão será qu'espante<br>
+Hum coração tão possante,<br>
+Que com lagrimas ardentes<br>
+Se converte em diamante.<br>
+ <br>
+Póde hum mudo nadador<br>
+Na linha e cana influir<br>
+Tão venenoso vigor,<br>
+Que faz mais não se bulir<br>
+O braço do pescador.<br>
+Se começão de beber<br>
+Deste veneno excellente<br>
+Meus olhos, sem se deter, <span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span><br>
+Não se sabem mais mover<br>
+A nada que se apresente.<br>
+ <br>
+Isto são claros sinais<br>
+Do muito qu'em mi podeis:<br>
+Nem podeis desejar mais;<br>
+Que se ver-vos desejais,<br>
+Em mi claro vos vereis.<br>
+E quereis ver a que fim<br>
+Em mi tanto bem se pôs?<br>
+Porque quiz Amor assim,<br>
+Que por vos verdes a vós,<br>
+Tambem me visseis a mim.<br>
+ <br>
+Dos males que m'ordenais,<br>
+Qu'inda tenho por pequenos,<br>
+Sabei, se mos escutais,<br>
+Que ja não sei dizer mais,<br>
+Nem vós podeis saber menos.<br>
+Mas ja que a tanto tormento<br>
+Não se acha quem resista,<br>
+Eu, Senhora, me contento<br>
+De terdes meu soffrimento<br>
+Por alvo de vossa vista.<br>
+ <br>
+Quantos contrarios consente<br>
+Amor, por mais padecer!<br>
+Que aquella vista excellente,<br>
+Que me faz viver contente,<br>
+Me faça tão triste ser!<br>
+Mas dou este entendimento<br>
+Ao mal, que tanto m'offende,<br>
+Como na vela s'entende,<br>
+Que se se apaga co'o vento, <span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span><br>
+Co'o mesmo vento se accende.<br>
+ <br>
+Exprimentou-se algum'hora<br>
+D'ave, que chamão Camão,<br>
+Que se da casa, onde mora,<br>
+Vê adúltera senhora,<br>
+Morre de pura paixão.<br>
+A dor he tão sem medida,<br>
+Que remedio lhe não val.<br>
+Mas oh ditoso animal,<br>
+Que póde perder a vida,<br>
+Quando vê tamanho mal!<br>
+ <br>
+Nos gôstos de vos querer<br>
+Estava agora enlevado,<br>
+Se não fôra salteado<br>
+Das lembranças de temer<br>
+Ser por outrem desamado.<br>
+Estas suspeitas tão frias,<br>
+Com que o pensamento sonha,<br>
+São assi como as harpias,<br>
+Que as mais doces iguarias<br>
+Vão converter em peçonha.<br>
+ <br>
+Faz-me este mal infinito<br>
+Não poder ja mais dizer,<br>
+Por não vir a corromper<br>
+Os gostos que tenho escrito,<br>
+Co'os males qu'hei d'escrever.<br>
+Não quero que s'apregôe<br>
+Mal tanto para encobrir,<br>
+Porque em quanto aqui s'ouvir<br>
+Nenhuma outra cousa sôe,<br>
+Que a glória de vos servir. <span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span></blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">Á <small>MESMA</small>.</p>
+
+<blockquote><big>D</big>ama d'estranho primor,<br>
+Se vos for<br>
+Pezada minha firmeza,<br>
+Olhae não me deis tristeza,<br>
+Porque a converto em amor.<br>
+E se cuidais<br>
+De me matar, quando usais<br>
+D'esquivança,<br>
+Irei tomar por vingança<br>
+Amar-vos cada vez mais.<br>
+ <br>
+Porém vosso pensamento,<br>
+Como isento,<br>
+Seguirá sua tenção,<br>
+Crendo qu'em tanta affeição<br>
+Não haja accrescentamento.<br>
+Não creais<br>
+Que desta arte vos façais<br>
+Invencibil;<br>
+Que Amor sôbre o impossibil<br>
+Amostra que póde mais.<br>
+ <br>
+Mas ja da tenção que sigo,<br>
+Me desdigo;<br>
+Que se ha tanto poder nelle,<br>
+Tambem vós podeis mais qu'elle<br>
+Neste mal que usais comigo.<br>
+Mas se for<br>
+O vosso poder maior<br>
+Entre nós,<br>
+Quem poderá mais que vós, <span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span><br>
+Se vós podeis mais que Amor?<br>
+ <br>
+Despois que, Dama, vos vi,<br>
+Entendi,<br>
+Que perdêra Amor seu preço;<br>
+Pois o favor que lh'eu peço,<br>
+Vos pede elle para si.<br>
+Nem duvido<br>
+Que não póde, de sentido,<br>
+Resistir;<br>
+Pois em vez de vos ferir,<br>
+Ficou de vos ver ferido.<br>
+ <br>
+Mas pois vossa vista he tal<br>
+Em meu mal,<br>
+Que posso de vós querer?<br>
+Que mal poderei valer,<br>
+Onde o mesmo Amor não val.<br>
+Se attentar,<br>
+Nenhum bem posso esperar:<br>
+E oxalá<br>
+Que vos alembrasse ja,<br>
+Sequer para me matar.<br>
+ <br>
+Mas nem com isto creais<br>
+Que façais<br>
+Meus serviços mais pequenos;<br>
+Porqu'eu, quando espero menos,<br>
+Sabei qu'então quero mais.<br>
+Nada espero;<br>
+Mas de mi crede este fero,<br>
+Qu'em ser vosso,<br>
+Vos quero tudo o que posso,<br>
+E não posso quanto quero. <span class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span><br>
+ <br>
+Só por esta phantasia<br>
+Merecia<br>
+De meus males algum fruito;<br>
+E não era certo muito<br>
+Para o muito que queria.<br>
+De maneira,<br>
+Que não he, na derradeira,<br>
+Grande espanto,<br>
+Que quem, Dama, vos quer tanto,<br>
+Que outro tanto de vós queira.</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMAS SUSPEITAS</small>.</p>
+
+<blockquote><big>S</big>uspeitas, que me quereis?<br>
+Qu'eu vos quero dar lugar<br>
+Que de certas me mateis,<br>
+Se a causa, de que nasceis,<br>
+Vós quizesseis confessar.<br>
+Que de não lhe achar desculpa,<br>
+A grande mágoa passada<br>
+Me tẽe a alma tão cansada,<br>
+Que se me confessa a culpa,<br>
+Te-la-hei por desculpada.<br>
+ <br>
+Ora vêde que perigos<br>
+Tẽe cercado o coração,<br>
+Que no meio da oppressão<br>
+A seus proprios inimigos<br>
+Vai pedir a defensão!<br>
+Que, suspeitas, eu bem sei,<br>
+Como se claro vos visse,<br>
+Que he certo o que ja cuidei; <span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span><br>
+Que nunca mal suspeitei,<br>
+Que certo me não sahisse.<br>
+ <br>
+Mas queria esta certeza<br>
+Daquella que me atormenta;<br>
+Porque em tamanha estreiteza<br>
+Ver que disso se contenta,<br>
+He descanso da tristeza.<br>
+Porque se esta só verdade<br>
+Me confessa limpa e nua<br>
+De cautela e falsidade,<br>
+Não póde a minha vontade<br>
+Desconforme ser da sua.<br>
+ <br>
+Por segredo namorado<br>
+He certo estar conhecido<br>
+Que o mal de ser engeitado<br>
+Mais atormenta sabido<br>
+Mil vezes, que suspeitado.<br>
+Mas eu só, em quem se ordena<br>
+Novo modo de querella,<br>
+De medo da dor pequena,<br>
+Venho a achar na maior pena<br>
+O refrigerio para ella.<br>
+ <br>
+Ja nas iras m'inflammei,<br>
+Nas vinganças, nos furores,<br>
+Que ja doudo imaginei;<br>
+E ja mais doudo jurei<br>
+De arrancar d'alma os amores.<br>
+Ja determinei mudar-me<br>
+Para outra parte com ira;<br>
+Despois vim a concertar-me<br>
+Que era bom certificar-me <span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span><br>
+No que mostrava a mentira.<br>
+ <br>
+Mas despois ja de cansadas<br>
+As furias do imaginar,<br>
+Vinha emfim a rebentar<br>
+Em lagrimas magoadas,<br>
+E bem para magoar.<br>
+E deixando-se vencer<br>
+Os meus fingidos enganos<br>
+De tão claros desenganos,<br>
+Não posso menos fazer,<br>
+Que contentar-me co'os danos.<br>
+ <br>
+E pedir que me tirassem<br>
+Este mal de suspeitar<br>
+Que me vejo atormentar,<br>
+Indaque me confessassem<br>
+Quanto me póde matar.<br>
+Olhae bem se me trazeis,<br>
+Senhora, pôsto no fim;<br>
+Pois neste estado a que vim,<br>
+Para que vós confesseis,<br>
+Se dão os tratos a mim.<br>
+ <br>
+Mas para que tudo possa<br>
+Amor, que tudo encaminha,<br>
+Tal justiça lhe convinha;<br>
+Porque da culpa, qu'he vossa,<br>
+Venha a ser a morte minha.<br>
+Justiça tão mal olhada<br>
+Olhae com que côr se doura,<br>
+Que quero, ao fim da jornada,<br>
+Que vós sejais confessada,<br>
+Para qu'eu seja o que moura! <span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span><br>
+ <br>
+Pois confessae-vos jagora,<br>
+Indaque tenho temor<br>
+Que nem nesta última hora<br>
+Me ha de perdoar Amor<br>
+Vossos peccados, Senhora.<br>
+E assi vou desesperado,<br>
+Porque estes são os costumes<br>
+D'amor que he mal empregado;<br>
+Do qual vou ja condemnado<br>
+Ao inferno de ciumes.</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">L<small>ABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO</small>.<sup><a href="#rodape1" name="m_rodape1">[1]</a></sup></p>
+
+<blockquote><big>C</big>orre sem vela e sem leme<br>
+O tempo desordenado,<br>
+D'hum grande vento levado:<br>
+O que perigo não teme,<br>
+He de pouco exprimentado.<br>
+As redeas trazem na mão<br>
+Os que redeas não tiverão:<br>
+Vendo quanto mal fizerão<br>
+A cobiça e ambição,<br>
+Disfarçados se acolhêrão.<br>
+ <br>
+A nao, que se vai perder,<br>
+Destrue mil esperanças: <span class="pn"><a name="pag_34">{34}</a></span><br>
+Vejo o mao que vem a ter;<br>
+Vejo perigos correr<br>
+Quem não cuida que ha mudanças.<br>
+Os que nunca em sella andárão,<br>
+Na sella postos se vem:<br>
+De fazer mal não deixárão;<br>
+De demonio hábito tem<br>
+Os que o justo profanárão.<br>
+ <br>
+Que poderá vir a ser<br>
+O mal nunca refreado?<br>
+Anda, por certo, enganado<br>
+Aquelle que quer valer,<br>
+Levando o caminho errado.<br>
+He para os bons confusão,<br>
+Ver que os maos prevalecêrão;<br>
+Que, pôsto se detiverão<br>
+Com esta simulação,<br>
+Sempre castigos tiverão:<br>
+ <br>
+Não porque governe o leme<br>
+Em mar envolto e turbado,<br>
+Que tẽe seu rumo mudado,<br>
+Se perece grita e geme<br>
+Em tempo desordenado.<br>
+Terem justo galardão,<br>
+E dor dos que merecêrão,<br>
+Sempre castigos tiverão<br>
+Sem nenhuma redempção,<br>
+Postoque se detiverão.<br>
+ <br>
+Na tormenta, se vier,<br>
+Desespere na bonança,<br>
+Quem manhas não sabe ter: <span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span><br>
+Sem que lhe valha gemer,<br>
+Verá falsar a balança.<br>
+Os que nunca trabalhárão,<br>
+Tendo o que lhe não convem,<br>
+Se ao innocente enganárão,<br>
+Perderão o eterno bem,<br>
+Se do mal não s'apartárão.</blockquote>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_rodape1" name="rodape1">[1]</a></sup> Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não
+parece obra do poeta. Nelle não fazemos emenda alguma,
+porque a unica judiciosa seria passar-lhe um traço por cima:
+o que não ousamos fazer por andar em todas as edições.</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Nota dos editores.</em></p>
+</div>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">C<small>ONVITE QUE FEZ NA</small> I<small>NDIA
+A CERTOS</small> F<small>IDALGOS</small>.</p>
+
+<p class="centrado"><em>A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:</em></p>
+
+<blockquote><big>S</big>e não quereis padecer<br>
+Huma, ou duas horas tristes,<br>
+Sabeis que haveis de fazer?<br>
+Volveros por dó venistes,<br>
+Que aqui não ha que comer.<br>
+E, postoque aqui leais<br>
+Trovinha que vos enleia,<br>
+Corrido não estejais;<br>
+Porque por mais que corrais,<br>
+Não heis de alcançar a ceia.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>A segunda a D. Francisco de Almeida.</em></p>
+
+<blockquote>Heliogabalo zombava<br>
+Das pessoas convidadas;<br>
+E de sorte as enganava,<br>
+Que as iguarias que dava,<br>
+Vinhão nos pratos pintadas. <span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span><br>
+Não temais tal travessura,<br>
+Pois ja não póde ser nova;<br>
+Porque a cêa está segura<br>
+De vos não vir em pintura;<br>
+Mas ha de vir toda em trova.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>A terceira a Heitor da Silveira.</em></p>
+
+<blockquote>Cêa não a papareis:<br>
+Com tudo, porque não minta,<br>
+Para beber achareis,<br>
+Não Caparica, mas tinta,<br>
+E mil cousas que papeis.<br>
+E vós torceis o focinho<br>
+Com esta amphibologia?<br>
+Pois sabei que a Poesia<br>
+Vos dá aqui tinta por vinho,<br>
+E papéis por iguaria.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>A quarta a João Lopes Leitão, a quem o Author fez
+huns versos, que vão adiante, sôbre huma peça de
+cacha, que deo a huma Dama.</em></p>
+
+<blockquote>Porque os que vos convidárão<br>
+Vosso estomago não danem,<br>
+Por justa causa ordenárão,<br>
+Se trovas vos enganárão,<br>
+Que trovas vos desenganem.<br>
+Vós tereis isto por tacha,<br>
+Converter tudo em trovar;<br>
+Pois se me virdes zombar,<br>
+Não cuideis, Senhor, que he cacha,<br>
+Que aqui não ha que cachar. <span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Responde João Lopes.</em></p>
+
+<blockquote>Pezar ora não de são,<br>
+Eu juro pelo Ceo bento,<br>
+Se de comer não me dão,<br>
+Qu'eu não sou camaleão,<br>
+Que m'hei de manter do vento.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Responde o Author.</em></p>
+
+<blockquote>Senhor, não vos agasteis,<br>
+Porque Deos vos proverá;<br>
+E se mais saber quereis,<br>
+Nas costas deste lereis<br>
+As iguarias que ha.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Virado o papel, dizia assi:</em></p>
+
+<blockquote>Tendes nem migalha assada;<br>
+Cousa nenhuma de môlho;<br>
+E nada feito em empada;<br>
+E vento de tigelada;<br>
+Picar no dente em remôlho:<br>
+De fumo tendes taçalhos;<br>
+Ave da pena que sente<br>
+Quem da fome anda doente;<br>
+Bocejar de vinho e d'alhos;<br>
+Manjar em branco excellente.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>A derradeira a Francisco de Mello.</em></p>
+
+<blockquote>D'hum homem, que teve o scetro<br>
+Da vêa maravilhosa,<br>
+Não foi cousa duvidosa, <span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span><br>
+Que se lhe tornava em metro<br>
+O qu'hia a dizer em prosa.<br>
+De mi vos quero affirmar<br>
+Que faça cousas mais novas,<br>
+De quanto podeis cuidar;<br>
+E esta cêa, que he manjar,<br>
+Vos faça na boca em trovas.</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">N<small>A</small> I<small>NDIA AO </small>V<small>ISO-</small>R<small>EI, COM O MOTE ADIANTE.</small></p>
+
+<blockquote><big>C</big>onde, cujo illustre peito<br>
+Merece nome de Rei,<br>
+Do qual muito certo sei<br>
+Que lhe fica sendo estreito<br>
+O cargo de Viso-Rei;<br>
+Servirdes-vos d'occupar-me<br>
+Tanto contra meu Planeta,<br>
+Não foi senão azas dar-me,<br>
+Com as quaes vou a queimar-me,<br>
+Como o faz a borboleta.<br>
+ <br>
+E s'eu a penna tomar,<br>
+Que tão mal cortada tenho,<br>
+Será para celebrar<br>
+Vosso valor singular<br>
+Dino de mais alto engenho.<br>
+Que se o meu vos celebrasse,<br>
+Necessario me sería<br>
+Que os olhos d'aguia tomasse,<br>
+Só para que não cegasse<br>
+No sol de vossa valia.<br>
+ <br>
+Vossos feitos sublimados <span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span><br>
+Nas armas, dignos de gloria,<br>
+São no mundo tão soados,<br>
+Qu'em vós de vossos passados<br>
+Se resuscita a memoria.<br>
+Pois aquelle ânimo estranho,<br>
+Prompto para todo effeito,<br>
+Espanta todo o conceito:<br>
+Como coração tamanho<br>
+Vos póde caber no peito?<br>
+ <br>
+A clemencia, que asserena<br>
+Coração tão singular,<br>
+S'eu nisso puzesse a penna,<br>
+Sería encerrar o mar<br>
+Em cova muito pequena.<br>
+Bem basta, Senhor, que agora<br>
+Vos sirvais de me occupar;<br>
+Que assi fareis aparar<br>
+A penna, com que algum'hora<br>
+Vos vereis ao ceo voar.<br>
+ <br>
+Assi vos irei louvando,<br>
+Vós a mi do chão erguendo,<br>
+Ambos o mundo espantando;<br>
+Vós com a espada cortando,<br>
+Eu com a penna escrevendo.</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Mote que lhe mandou o Viso-Rei.</em></p>
+
+<blockquote>Muito sou meu inimigo,<br>
+Pois que não tiro de mi<br>
+Cuidados, com que nasci,<br>
+Que põe a vida em perigo.<br>
+Oxalá que fôra assi! <span class="pn"><a name="pag_40">{40}</a></span></blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>Viver eu, sendo mortal,<br>
+De cuidados rodeado,<br>
+Parece meu natural;<br>
+Que a peçonha não faz mal<br>
+A quem foi nella criado.<br>
+Tanto sou meu inimigo,<br>
+Que por não tirar de mi<br>
+Cuidados, com que nasci,<br>
+Porei a vida em perigo.<br>
+Oxalá que fôra assi!<br>
+ <br>
+Tanto vim a accrescentar<br>
+Cuidados, que nunca amansão<br>
+Em quanto a vida durar,<br>
+Que canso ja de cuidar<br>
+Como cuidados não cansão.<br>
+S'estes cuidados, que digo,<br>
+Dessem fim a mi e a si,<br>
+Farião pazes comigo;<br>
+Que pôr a vida em perigo,<br>
+O bom fôra para mi.</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS
+OBRAS SUAS.</small></p>
+
+<blockquote><big>S</big>enhora, s'eu alcançasse<br>
+No tempo que ler quereis,<br>
+Que a dita dos meus papéis<br>
+Pola minha se trocasse;<br>
+E por ver <span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span><br>
+Tudo o que posso escrever<br>
+Em mais breve relação,<br>
+Indo eu onde elles vão,<br>
+Por mi só quizesseis ler;<br>
+<br>
+Despois de ver hum cuidado<br>
+Tão contente de seu mal,<br>
+Verieis o natural<br>
+Do que aqui vêdes pintado;<br>
+Que o perfeito<br>
+Amor, de que sou sogeito,<br>
+Vereis aspero e cruel,<br>
+Aqui com tinta e papel,<br>
+Em mi com sangue no peito.<br>
+<br>
+Que hum continuo imaginar<br>
+Naquillo que Amor ordena,<br>
+He pena, que emfim por penna<br>
+Se não póde declarar;<br>
+Que se eu levo<br>
+Dentro n'alma quanto devo<br>
+De trasladar em papéis,<br>
+Vêde que melhor lereis,<br>
+Se a mi, se aquillo qu'escrevo?</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA</small> S<small>ENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO DE
+SITIM AMARELLO.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e derivais da verdade<br>
+Esta palavra <em>Sitim</em>,<br>
+Achareis sem falsidade,<br>
+Que apos o <em>si</em> tẽe o <em>tim</em>,<br>
+Que tine em toda a Cidade. <span class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span><br>
+Bem vejo que m'entendeis;<br>
+Mas porque não falle em vão,<br>
+Sabei que a esta Nação<br>
+Tanto que o <em>si</em> concedeis,<br>
+O <em>tim</em> logo está na mão.<br>
+<br>
+E quem da fama s'arreda,<br>
+Que tudo vai descobrir,<br>
+Deve sempre de fugir<br>
+De sitins, porque da seda<br>
+Seu natural he rugir.<br>
+Mas panno fino e delgado,<br>
+Qual a raxa e outros assi,<br>
+Dura, aquenta, e he callado,<br>
+Amoroso, e dá de si<br>
+Mais que <em>sitim</em>, nem brocado.<br>
+<br>
+Mas estes, que sedas são<br>
+Com quem s'enganão mil Damas,<br>
+Mais vos tomão, do que dão;<br>
+Promettem, mas não darão,<br>
+Senão nodoas para as famas.<br>
+E se não me quereis crer,<br>
+Ou tomais outro caminho,<br>
+Por exemplo o podeis ver,<br>
+Quando lá virdes arder<br>
+A casa d'algum vizinho.<br>
+<br>
+Oh feminina simpreza,<br>
+Donde estão culpas a pares,<br>
+Que por hum Dom de nobreza,<br>
+Deixão dões da natureza,<br>
+Mais altos e singulares!<br>
+Hum Dom, que anda enxertado <span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span><br>
+No nome, e nas obras não.<br>
+Fallo como exprimentado;<br>
+Que <em>sitim</em> desta feição<br>
+Eu tenho muito cortado.<br>
+<br>
+Dizem-me qu'era amarello;<br>
+E quem assi o quiz dar,<br>
+Só para me Deos vingar,<br>
+Se vem á mão amarê-lo,<br>
+O qu'eu não posso cuidar.<br>
+Porque quem sabe viver<br>
+Por estas artes manhosas,<br>
+(Isto bem póde não ser)<br>
+Dá a meninas formosas,<br>
+Somente polas fazer.<br>
+<br>
+Quem vos isto diz, Senhora,<br>
+Servio nas vossas armadas<br>
+Muito, mas anda ja fóra;<br>
+E póde ser qu'inda agora<br>
+Traz abertas as fréchadas.<br>
+E, postoque desfavores<br>
+O tirão de servidor,<br>
+Quer-vos ventura melhor;<br>
+Que dos antigos amores<br>
+Inda lhe fica este amor.</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA</small> S<small>ENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>eço-vos que me digais<br>
+As orações que rezastes,<br>
+Se são polos que matastes,<br>
+Se por vós que assi matais? <span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span><br>
+Se são por vós, são perdidas;<br>
+Que qual será a oração,<br>
+Que seja satisfação,<br>
+Senhora, de tantas vidas?<br>
+<br>
+Que se vêdes quantos vem<br>
+A só vida vos pedir,<br>
+Como vos ha Deos de ouvir,<br>
+Se vós não ouvis ninguem?<br>
+Não podeis ser perdoada<br>
+Com mãos a matar tão prontas,<br>
+Que se n'huma trazeis contas,<br>
+Na outra trazeis espada.<br>
+<br>
+Se dizeis que encommendando<br>
+Os que matastes andais;<br>
+Se rezais por quem matais,<br>
+Para que matais rezando?<br>
+Que se na fôrça do orar<br>
+Levantais as mãos aos Ceos,<br>
+Não as ergueis para Deos,<br>
+Erguei-las para matar.<br>
+<br>
+E quando os olhos cerrais,<br>
+Toda enlevada na fé,<br>
+Cerrão-se os de quem vos vê,<br>
+Para nunca verem mais.<br>
+Pois se assi forem tratados<br>
+Os que vos vem quando orais,<br>
+Essas horas que rezais,<br>
+São as horas dos finados.<br>
+<br>
+Pois logo, se sois servida<br>
+Que tantos mortos não sejão,<br>
+Não rezeis onde vos vejão, <span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span><br>
+Ou vêde para dar vida.<br>
+Ou se quereis escusar<br>
+Estes males que causastes,<br>
+Resuscitae quem matastes,<br>
+Não tereis por quem rezar.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA</small> D<small>AMA QUE LHE DEO HUMA PENNA.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e n'alma e no pensamento<br>
+Por vosso me manifesto,<br>
+Não me peza do que sento;<br>
+Que se não soffrer tormento,<br>
+Faço offensa a vosso gesto.<br>
+E, pois quanto Amor ordena,<br>
+E quanto est'alma deseja,<br>
+Tudo á morte me condena,<br>
+Não quero senão que seja<br>
+Tudo pena, pena, pena.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA</small> D<small>AMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>em olhos vi o mal claro,<br>
+Que dos olhos se seguio:<br>
+Pois cara sem olhos vio<br>
+Olhos, que lhe custão caro.<br>
+D'olhos não faço menção,<br>
+Pois quereis que olhos não sejão;<br>
+Vendo-vos, olhos sobejão,<br>
+Não vos vendo, olhos não são. <span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">D<small>ISPARATES NA</small> I<small>NDIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>E</big>ste mundo es el camino<br>
+Adó hay ducientos váos,<br>
+Ou por onde bons e maos,<br>
+Todos somos del merino.<br>
+Mas os maos são de teor,<br>
+Que desque mudão a côr,<br>
+Chamão logo a ElRei compadre;<br>
+E emfim dejadlos, mi madre,<br>
+Que sempre tẽe hum sabor<br>
+De quem torto nasce, tarde s'endireita.<br>
+<br>
+Deixae a hum que se abone:<br>
+Diz logo de muito sengo,<br>
+Villas y castillos tengo,<br>
+Todos á mi mandar sone.<br>
+Então eu, qu'estou de môlho,<br>
+Com a lagrima no ôlho,<br>
+Polo virar do envés,<br>
+Digo-lhe: <em>tu ex illis es</em>,<br>
+E por isso não te ólho;<br>
+Pois honra e proveito não cabem n'hum saco.<br>
+<br>
+Vereis huns, que no seu seio<br>
+Cuidão que trazem París,<br>
+E querem com dous ceitís,<br>
+Fender anca pelo meio.<br>
+Vereis mancebindo de arte,<br>
+Com espada em talabarte:<br>
+Não ha mais Italiano.<br>
+A este direis: Meu mano,<br>
+Vós sois galante que farte;<br>
+Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido. <span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span><br>
+<br>
+Outros em cada theatro,<br>
+Por officio lhe ouvirês<br>
+Que se matarán con tres,<br>
+Y lo mismo haran con cuatro.<br>
+Prezão-se de dar respostas,<br>
+Com palavras bem compostas;<br>
+Mas se lhe meteis a mão,<br>
+Na paz mostrão coração,<br>
+Na guerra mostrão as costas;<br>
+Porque aqui torce a porca o rabo.<br>
+<br>
+Outros vejo por ahi,<br>
+A que se acha mal o fundo,<br>
+Que andão emendando o mundo,<br>
+E não se emendão a si.<br>
+Estes respondem a quem<br>
+Delles não entende bem<br>
+El dolor que está secreto;<br>
+Mas porém quem for discreto,<br>
+Responder-lhe-ha muito bem:<br>
+Assi entrou o mundo, assi ha de sahir.<br>
+<br>
+Achareis rafeiro velho,<br>
+Que se quer vender por galgo:<br>
+Diz que o dinheiro he fidalgo,<br>
+Que o sangue todo he vermelho.<br>
+Se elle mais alto o dissera,<br>
+Este pelote puzera:<br>
+Que o seu eco lhe responda;<br>
+Que su padre era de Ronda,<br>
+Y su madre de Antequera,<br>
+E quer cobrir o ceo co'huma joeira.<br>
+<br>
+Fraldas largas, grave aspeito, <span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span><br>
+Para Senador Romano.<br>
+Oh que grandissimo engano!<br>
+Que Momo lhe abrisse o peito!<br>
+Consciencia, que sobeja,<br>
+Siso, com que o mundo reja,<br>
+Mansidão outro que si;<br>
+Mas que lobo está em ti,<br>
+Metido em pelle de oveja!<br>
+E sabem-no poucos.<br>
+<br>
+Guardae-vos de huns meus Senhores,<br>
+Que ainda comprão e vendem;<br>
+Huns, qu'he certo, que descendem<br>
+Da geração de pastores:<br>
+Mostrão-se-vos bons amigos;<br>
+Mas se vos vem em perigos,<br>
+Escarrão-vos nas paredes;<br>
+Que de fóra dormiredes,<br>
+Irmão, que he tempo de figos;<br>
+Porque de rabo de porco nunca bom virote.<br>
+<br>
+Que direis d'huns, que as entranhas<br>
+Lh'estão ardendo em cobiça,<br>
+E se tẽe mando, a justiça<br>
+Fazem de teas de aranhas?<br>
+Com suas hypocrisias,<br>
+Que são de vossas espias:<br>
+Para os pequenos huns Neros,<br>
+Para os grandes tudo feros.<br>
+Pois tu, parvo, não sabías,<br>
+Que lá vão leis, onde querem cruzados?<br>
+<br>
+Mas tornando a huns enfadonhos,<br>
+Cujas cousas são notorias; <span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span><br>
+Huns, que contão mil histórias<br>
+Mais desmanchadas que sonhos;<br>
+Huns mais parvos que zamboas,<br>
+Qu'estudão palavras boas,<br>
+A que ignorancia os atiça:<br>
+Estes paguem por justiça,<br>
+Que tẽe morto mil <span class="typo" title="no original: possoas">pessoas</span>,<br>
+Por vida de quanto quero.<br>
+<br>
+Adonde tienen las mentes<br>
+Huns secretos trovadores,<br>
+Que fazem cartas d'amores,<br>
+De que ficão mui contentes?<br>
+Não querem sahir á praça;<br>
+Trazem trova por negaça;<br>
+E se lha gabais, qu'he boa,<br>
+Diz qu'he de certa pessoa.<br>
+Ora que quereis que faça,<br>
+Senão ir-me por esse mundo?<br>
+<br>
+Ó tu, como me atarracas,<br>
+Escudeiro de Solia,<br>
+Com bocaes de fidalguia,<br>
+Trazido quasi com vacas;<br>
+Importuno a importunar,<br>
+Morto por desenterrar<br>
+Parentes, que cheirão ja!<br>
+Voto a tal, que me fara<br>
+Hum destes nunca fallar<br>
+Mais com viva alma.<br>
+<br>
+Huns, que fallão muito, vi,<br>
+De que quizera fugir;<br>
+Huns que, emfim, sem se sentir, <span class="pn"><a name="pag_50">{50}</a></span><br>
+Andão fallando entre si;<br>
+Porfiosos sem razão;<br>
+E desque tomão a mão,<br>
+Fallão sem necessidade;<br>
+E se algum'hora he verdade,<br>
+Deve ser na confissão;<br>
+Porque quem não mente... Ja m'entendeis.<br>
+<br>
+Oh vós, quem quer que me lerdes,<br>
+Qu'haveis de ser avisado,<br>
+Que dizeis ao namorado<br>
+Que caça vento com redes?<br>
+Jura por vida da Dama;<br>
+Falla comsigo na cama;<br>
+Passêa de noite e escarra;<br>
+Por falsete na guitarra<br>
+Põe sempre: Viva que ama,<br>
+Porque calça a seu proposito.<br>
+<br>
+Mas deixemos, se quizerdes,<br>
+Por hum pouco as travessuras,<br>
+Porqu'entre quatro maduras<br>
+Leveis tambem cinco verdes.<br>
+Deitemos-nos mais ao mar;<br>
+E se algum se arrecear,<br>
+Passe tres ou quatro trovas.<br>
+E vós tomais côres novas?<br>
+Mas não he para espantar;<br>
+Que quem porcos ha menos,<br>
+Em cada mouta lhe roncão.<br>
+<br>
+Ó vós, que sois Secretarios<br>
+Das consciencias Reais,<br>
+E que entre os homens estais <span class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span><br>
+Por Senhores ordinarios;<br>
+Porque não pondes hum freio<br>
+Ao roubar, que vai sem meio,<br>
+Debaixo de bom governo?<br>
+Pois hum pedaço de inferno<br>
+Por pouco dinheiro alheio<br>
+Se vende a Mouro e a Judeo.<br>
+<br>
+Porque a mente, affeiçoada<br>
+Sempre á Real dignidade,<br>
+Vos faz julgar por bondade<br>
+A malicia desculpada.<br>
+Move a presença Real<br>
+Huma affeição natural,<br>
+Que logo inclina ao Juiz<br>
+A seu favor: e não diz<br>
+Hum rifão muito geral,<br>
+Que o Abbade donde canta, dahi janta?<br>
+<br>
+E vós bailais a esse som:<br>
+Por isso, gentís pastores,<br>
+Vos chama a vós mercadores<br>
+Hum que só foi pastor bom.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+
+<p class="centrado">A J<small>OÃO</small> L<small>OPES</small> L<small>EITÃO,<br>
+SÔBRE HUMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU A HUMA</small> D<small>AMA,
+QUE SE LHE FAZIA DONZELLA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Se vossa Dama vos dá<br>
+Tudo quanto vós quizestes,<br>
+Dizei-me: p'ra que lhe déstes<br>
+O que vos ella fez ja? <span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>endo os restos envidados,<br>
+E vós de cachas mil contos<br>
+Sabeis com quão poucos pontos,<br>
+Que lhos achastes quebrados;<br>
+Se o que tẽe, isso vos dá,<br>
+Vós mui bem lho merecestes,<br>
+Porque se a cacha lhe déstes<br>
+Tinha-vo-la feita ja.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Menina formosa e crua,<br>
+Bem sei eu<br>
+Quem deixará de ser seu,<br>
+Se vós quizereis ser sua.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>M</big>enina mais que na idade,<br>
+Se para me querer bem<br>
+Vos não vejo ter vontade,<br>
+He porque outrem vo-la tem;<br>
+Tẽe-vo-la, e faz-vo-la crua.<br>
+Porém eu<br>
+Ja tomára não ser meu,<br>
+Se vós não foreis tão sua.<br>
+<br>
+Nos olhos, e na feição<br>
+Vos vi, quando vos olhava,<br>
+Tanta graça, que vos dava<br>
+De graça este coração:<br>
+Não o quizestes de crua, <span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span><br>
+Por ser meu:<br>
+Se outrem vos dera o seu,<br>
+Póde ser foreis mais sua.<br>
+<br>
+Menina, tende maneira,<br>
+Que ainda não venha a ser,<br>
+Pois não quereis quem vos quer,<br>
+Que queirais quem vos não queira.<br>
+Olhae não me sejais crua,<br>
+Que pois eu<br>
+Quero ser vosso, e não meu,<br>
+Sêde vós minha, e não sua.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA DOENTE</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Da doença, em que ora ardeis,<br>
+Eu fôra vossa mézinha<br>
+Só com vós serdes a minha.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>H</big>e muito para notar<br>
+Cura tão bem acertada,<br>
+Que podereis ser curada<br>
+Somente com me curar.<br>
+Se quereis, Dama, trocar,<br>
+Ambos temos a mézinha,<br>
+Eu a vossa, e vós a minha.<br>
+<br>
+Olhae, que não quer Amor,<br>
+(Porque fiquemos iguais)<br>
+Pois meu ardor não curais,<br>
+Que se cure vosso ardor. <span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span><br>
+Eu cá sinto vossa dor;<br>
+E se vós sentis a minha,<br>
+Dae e tomae a mézinha.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO</small></p>
+
+<blockquote>
+Deo, Senhora, por sentença<br>
+Amor, que fosseis doente,<br>
+Para fazerdes á gente<br>
+Doce e formosa a doença.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>ão sabendo Amor curar,<br>
+Foi a doença fazer<br>
+Formosa para se ver,<br>
+Doce para se passar.<br>
+Então vendo a differença<br>
+Que ha de vós a toda a gente,<br>
+Mandou, que fôsseis doente,<br>
+Para glória da doença.<br>
+<br>
+E digo-vos de verdade,<br>
+Que a saude anda invejosa,<br>
+Por ver estar tão formosa<br>
+Em vós essa enfermidade.<br>
+Não façais logo detença,<br>
+Senhora, em estar doente,<br>
+Porque adoecerá a gente,<br>
+Com desejos da doença.<br>
+<br>
+Qu'eu por ter, formosa Dama,<br>
+A doença, qu'em vós vejo,<br>
+Vos confesso, que desejo <span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span><br>
+De cahir comvosco em cama.<br>
+Se consentis, que me vença<br>
+Deste mal, não houve gente<br>
+Da saude tão contente,<br>
+Como eu serei da doença.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>O MESMO</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>O</big>lhae que dura sentença<br>
+Foi amor dar contra mi!<br>
+Que porqu'em vós me perdi,<br>
+Em vós me busque a doença.<br>
+Claro está,<br>
+Que em vós só me achará;<br>
+Qu'em mi, se me vem buscar,<br>
+Não poderá mais achar,<br>
+Que a fórma do que foi ja.<br>
+<br>
+Que s'em vós Amor se pôs,<br>
+Senhora, he forçado assi,<br>
+Que o mal, que me busca a mi,<br>
+Que vos faça mal a vós.<br>
+Sem mentir,<br>
+Amor me quiz destruir<br>
+Por modo nunca cuidado,<br>
+Pois ha de ser ja forçado<br>
+Pezar-vos de vos servir.<br>
+<br>
+Mas sois tão desconhecida,<br>
+E são meus males de sorte,<br>
+Que vos ameaça a morte,<br>
+Porque me negais a vida.<br>
+Se por boa <span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span><br>
+Tal justiça se pregoa;<br>
+Quando desta sorte for,<br>
+Havei vós perdão de Amor,<br>
+Que a parte ja vos perdoa.<br>
+<br>
+Mas o que mais temo, emfim,<br>
+He que nesta differença,<br>
+Que se não torne a doença,<br>
+Se me não tornais a mim.<br>
+De verdade,<br>
+Que ja vossa humanidade<br>
+De que se queixe não tem;<br>
+Pois para as almas tambem<br>
+Fez Amor enfermidade.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA VESTIDA DE DÓ</small>.</p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+De atormentado e perdido,<br>
+Ja vos não peço, senão<br>
+Que tenhais no coração<br>
+O que tendes no vestido.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e de dó vestida andais<br>
+Por quem ja vida não tem<br>
+Porque não o haveis de quem<br>
+Vós tantas vezes matais?<br>
+Que brado sem ser ouvido,<br>
+E nunca vejo senão<br>
+Cruezas no coração,<br>
+E grande dó no vestido. <span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A D<small>ONA</small> G<small>UIOMAR DE</small> B<small>LASFÉ, QUEIMANDO-SE COM
+HUMA VÉLA NO ROSTO</small>.</p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Amor, que todos offende,<br>
+Teve, Senhora, por gôsto,<br>
+Que sentisse o vosso rosto<br>
+O que nas almas accende.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>quelle rosto que traz<br>
+O mundo todo abrazado,<br>
+Se foi da flamma tocado,<br>
+Foi porque sinta o que faz.<br>
+Bem sei que Amor se vos rende;<br>
+Porém o seu presupposto<br>
+Foi sentir o vosso rosto<br>
+O que nas almas accende.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, QUE
+CHAMAVÃO QUARESMA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Não estejais aggravada,<br>
+Senão se for de vós mesma;<br>
+Porqu'a mulher, que he errada,<br>
+Com razão pela Quaresma<br>
+Deve ser disciplinada.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uererdes profano amor<br>
+Em Quaresma, he consciencia:<br>
+Açoutes e penitencia <span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span><br>
+Vos está muito melhor.<br>
+Não fiqueis disto affrontada,<br>
+Pois a culpa he vossa mesma;<br>
+Que mulher, que he tão malvada,<br>
+He bem que pela Quaresma<br>
+Seja bem disciplinada.<br>
+<br>
+Se a penitencia vos val,<br>
+Mui bem açoutada estais;<br>
+Pois por Quaresma pagais<br>
+Vossos vicios do carnal.<br>
+Não torneis a ser errada,<br>
+Nem condemneis a vós mesma,<br>
+Pois estais ja emendada;<br>
+E não sereis por Quaresma<br>
+Outra vez disciplinada.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUM</small> F<small>IDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA,
+QUE LHE PROMETTEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem no mundo quizer ser<br>
+Havido por singular,<br>
+Para mais s'engrandecer,<br>
+Ha de trazer sempre o dar<br>
+Nas ancas do prometter.<br>
+E ja que vossa mercê,<br>
+Largueza tẽe por divisa,<br>
+Como o mundo todo vê,<br>
+Ha mister que tanto dê,<br>
+Que venha a dar a camisa. <span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME</small>
+F<small>OÃ DOS ANJOS</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Senhora, pois me chamais<br>
+Tão sem razão tão mão nome,<br>
+Inda o diabo vos tome.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem quer que vio, ou que leo,<br>
+Terá por novo e moderno,<br>
+Ter quem vive no inferno,<br>
+O pensamento no ceo.<br>
+Mas se a vós vos pareceo,<br>
+Que m'estava bem tal nome,<br>
+Esse diabo vos tome.<br>
+<br>
+Perdido mais que ninguem<br>
+Confesso, Senhora, ser;<br>
+Mas o diabo não quer<br>
+Aos Anjos tamanho bem.<br>
+Pois logo não me convem,<br>
+Ou se me convem tal nome,<br>
+Será para que vos tome.<br>
+<br>
+Se vos benzeis com cautella,<br>
+Como de Anjo, e não de luz,<br>
+Mal póde fugir da Cruz,<br>
+Quem vós tendes pôsto nella.<br>
+Mas ja que foi minha estrella<br>
+Ser diabo, e ter tal nome,<br>
+Guardae-vos, que vos não tome.<br>
+<br>
+Ja que chegais tanto ao cabo,<br>
+Com as mãos, postas aos ceos<br>
+Vou sempre pedindo a Deos, <span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span><br>
+Que vos leve este diabo.<br>
+Eu, Senhora, não me gabo;<br>
+Mas pois que me dais tal nome,<br>
+Tomo-o, para que vos tome.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR</small>.</p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Qual terá culpa de nós<br>
+Neste mal, que todo he meu?<br>
+Quando vindes, não vou eu,<br>
+Quando vou, não vindes vós.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>R</big>einando Amor em dous peitos,<br>
+Tece tantas falsidades,<br>
+Que de conformes vontades<br>
+Faz desconformes effeitos.<br>
+Igualmente vive em nós;<br>
+Mas por desconcêrto seu<br>
+Vos leva, se venho eu,<br>
+Me leva, se vindes vós.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE SEU</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Descalça vai pela neve:<br>
+Assi faz quem Amor serve.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>O</big>s privilegios, que os Reis<br>
+Não pódem dar, póde amor, <span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span><br>
+Que faz qualquer amador<br>
+Livre das humanas leis.<br>
+Mortes e guerras crueis,<br>
+Ferro, frio, fogo e neve,<br>
+Tudo soffre quem o serve.<br>
+<br>
+Moça formosa despreza<br>
+Todo o frio, e toda a dor.<br>
+Olhae quanto póde Amor<br>
+Mais que a propria natureza.<br>
+Medo, nem delicadeza<br>
+Lh'impede que passe a neve.<br>
+Assi faz quem Amor serve.<br>
+<br>
+Por mais trabalhos que leve,<br>
+A tudo se off'receria;<br>
+Passa pela neve fria,<br>
+Mais alva que a propria neve;<br>
+Com todo frio se atreve.<br>
+Vêde em que fogo ferve<br>
+O triste, que a Amor serve.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO ALHEIO</small></p>
+
+<blockquote>
+A dor que a minha alma sente,<br>
+Não na sabe toda a gente.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>u'estranho caso de Amor!<br>
+Que desejado tormento!<br>
+Que venho a ser avarento<br>
+Das dores de minha dor!<br>
+Por me não tratar peor, <span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span><br>
+Se se sabe, ou se se sente,<br>
+Não na digo a toda a gente.<br>
+<br>
+Minha dor e causa della<br>
+De ninguem ouso fiar;<br>
+Que sería aventurar<br>
+A perder-me, ou a perdella.<br>
+E pois só com padecella,<br>
+A minha alma está contente,<br>
+Não quero que o saiba a gente.<br>
+<br>
+Ande no peito escondida,<br>
+Dentro n'alma sepultada;<br>
+De mi só seja chorada,<br>
+De ninguem seja sentida.<br>
+Ou me mate, ou me dê vida,<br>
+Ou viva triste ou contente,<br>
+Não ma saiba toda a gente.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p>
+
+<blockquote>
+D'alma, e de quanto tiver,<br>
+Quero que me despojeis,<br>
+Com tanto, que me deixeis<br>
+Os olhos para vos ver.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>ousa este corpo não tem,<br>
+Que ja não tenhais rendida:<br>
+Despois de tirar-lhe a vida,<br>
+Tirae-lhe a morte tambem.<br>
+Se mais tenho que perder,<br>
+Mais quero que me leveis, <span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span><br>
+Com tanto que me deixeis<br>
+Os olhos para vos ver.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Amores de huma casada,<br>
+Que eu vi pelo meu mal.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>'huma casada fui pôr<br>
+Os olhos, de si senhores:<br>
+Cuidei que fossem amores,<br>
+Elles fizerão-se amor.<br>
+Faz-se o desejo maior<br>
+Donde o remedio não val,<br>
+Em perigo de meu mal.<br>
+<br>
+Não me paraceo que Amor<br>
+Pudesse tanto comigo,<br>
+Que donde entra por amigo,<br>
+Se levante por senhor.<br>
+Leva-me de dor em dor,<br>
+E de final em final,<br>
+Cada vez para mor mal.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p>
+
+<blockquote>
+Enforquei minha esperança;<br>
+Mas Amor foi tão madraço,<br>
+Que lhe cortou o baraço.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>F</big>oi a esperança julgada<br>
+Por sentença da Ventura, <span class="pn"><a name="pag_64">{64}</a></span><br>
+Que pois me leve á pendura,<br>
+Que fosse dependurada:<br>
+Vem Cupido com a espada,<br>
+Corta-lhe cerce o baraço.<br>
+Cupido, foste madraço.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p>
+
+<blockquote>
+Puz o coração nos olhos,<br>
+E os olhos puz no chão,<br>
+Por vingar o coração.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>O</big> coração invejoso<br>
+Como dos olhos andava,<br>
+Sempre remoques me dava<br>
+Que não era o meu mimoso:<br>
+Venho eu de piedoso<br>
+Do Senhor meu coração,<br>
+E boto os olhos no chão.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p>
+
+<blockquote>
+Puz meus olhos n'huma funda,<br>
+E fiz hum tiro com ella<br>
+Ás grades d'huma janella.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>H</big>uma Dama, de malvada,<br>
+Tomou seus olhos na mão;<br>
+E tirou-me huma pedrada <span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span><br>
+Com elles ao coração.<br>
+Armei minha funda então,<br>
+E puz os meus olhos nella,<br>
+Trape, quebrei-lhe a janella.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+De pequena tomei amor,<br>
+Porque o não entendi;<br>
+Agora que o conheci,<br>
+Mata-me com desfavor.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>i-o moço e pequenino,<br>
+E a mesma idade ensina<br>
+Que s'incline huma menina<br>
+Ás amostras d'hum menino:<br>
+Ouvi-lhe chamar Amor,<br>
+Pelo nome me venci;<br>
+Nunca tal engano vi,<br>
+Nem tamanho desamor.<br>
+<br>
+Cresceo-me de dia em dia<br>
+Com a idade a affeição,<br>
+Porque amor de criação,<br>
+N'alma, e na vida se cria.<br>
+Criou-se em mi este amor,<br>
+E senhoreou-se de mi:<br>
+Agora que o conheci,<br>
+Mata-me com desfavor.<br>
+<br>
+As flores me torna abrolhos,<br>
+A morte me determina<br>
+Quem eu trouxe de menina <span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span><br>
+Nas meninas de meus olhos.<br>
+Desta mágoa e desta dor<br>
+Tenho sabido que emfim<br>
+Por amor me perco a mim<br>
+Por quem de mi perde amor.<br>
+<br>
+Parece ser caso estranho<br>
+O que Amor em mi ordena,<br>
+Qu'em idade tão pequena<br>
+Haja tormento tamanho.<br>
+Sejão milagres d'Amor,<br>
+Hei-os de soffrer assi,<br>
+Até que haja dó de mi<br>
+Quem entender esta dor.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">C<small>ANTIGA VELHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Apartárão-se os meus olhos<br>
+De mi tão longe.<br>
+Falsos amores,<br>
+Falsos, maos, enganadores.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>T</big>ratárão-me com cautella,<br>
+Por m'enganar mais asinha;<br>
+Dei-lhe posse d'alma minha,<br>
+Forão-me fugir com ella.<br>
+Não ha vê-los, nem ha vella,<br>
+De mi tão longe.<br>
+Falsos amores,<br>
+Falsos, maos, enganadores!<br>
+<br>
+Entreguei-lhe a liberdade,<br>
+E, emfim, da vida o melhor; <span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span><br>
+Forão-se; e do desamor<br>
+Fizerão necessidade.<br>
+Quem teve a sua vontade<br>
+De si tão longe?<br>
+Falsos amores,<br>
+E oxalá enganadores!
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Falso Cavalheiro, ingrato,<br>
+Enganais-me,<br>
+Vós dizeis, que eu vos mato,<br>
+E vós matais-me.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>C</big>ostumadas artes são<br>
+Para enganar innocencias,<br>
+Piedosas apparencias<br>
+Sôbre isento coração.<br>
+Eu vos amo, e vós ingrato<br>
+Magoais-me,<br>
+Dizendo, que eu vos mato,<br>
+E vós matais-me.<br>
+<br>
+Vêde agora qual de nós<br>
+Anda mais perto do fim,<br>
+Que a justiça faz-se em mim,<br>
+E o pregão diz que sois vós.<br>
+Quando mais verdade trato<br>
+Levantais-me<br>
+Que vos desamo e vos mato,<br>
+E vós matais-me. <span class="pn"><a name="pag_68">{68}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">P<small>ROPRIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+Se de meu mal me contento,<br>
+He porque para vós vejo<br>
+Em todo o mundo desejo,<br>
+E em ninguem merecimento.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ara quem vos soube olhar<br>
+Tão impossivel foi ser<br>
+O poder-vos merecer,<br>
+Como o não vos desejar.<br>
+Pois logo a meu pensamento<br>
+Nenhum remedio lhe vejo,<br>
+Senão se der o desejo<br>
+Azas ao merecimento.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Vós, Senhora, tudo tendes,<br>
+Senão que tendes os olhos verdes.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>otou em vós natureza<br>
+O summo da perfeição;<br>
+Que o qu'em vós he senão,<br>
+He em outras gentileza:<br>
+O verde não se despreza,<br>
+Que, agora que vós os tendes,<br>
+São bellos os olhos verdes.<br>
+<br>
+Ouro e azul he a melhor<br>
+Côr, por que a gente se perde;<br>
+Mas a graça desse verde <span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span><br>
+Tira a graça a toda côr.<br>
+Fica agora sendo a flor<br>
+A côr, que nos olhos tendes,<br>
+Porque são vossos e verdes.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Para que me dan tormento,<br>
+Aprovechando tan poco?<br>
+Perdido, mas no tan loco,<br>
+Que descubra lo que siento.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>T</big>iempo perdido es aquel<br>
+Que se passa en darme afan,<br>
+Pues cuanto más me lo dan,<br>
+Tanto menos siento dél.<br>
+Que descubra lo que siento?<br>
+No lo haré, que no es tan poco;<br>
+Que no puede ser tan loco<br>
+Quien tiene tal pensamiento.<br>
+<br>
+Sepan que me manda Amor,<br>
+Que de tan dulce querella,<br>
+A nadie dé parte della,<br>
+Porque la sienta mayor.<br>
+Es tan dulce mi tormento,<br>
+Que aun se me antoja poco;<br>
+Y si es mucho, quedo loco<br>
+De gusto de lo que siento. <span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+De vuestros ojos centellas,<br>
+Que encienden pechos de hielo,<br>
+Suben por el aire al cielo,<br>
+Y en llegando son estrellas.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>F</big>alsos loores os dan,<br>
+Que essas centellas tan raras<br>
+No son nel cielo mas claras<br>
+Que en los ojos donde estan.<br>
+Porque cuando miro en ellas<br>
+Lo como alumbran al suelo,<br>
+No sé que seran nel cielo;<br>
+Mas sé que acá son estrellas.<br>
+<br>
+Ni se puede presumir<br>
+Que al cielo suban, Señora;<br>
+Que la lumbre que en vós mora,<br>
+No tiene más que subir;<br>
+Mas pienso que dan querellas<br>
+Á Dios nel octavo cielo,<br>
+Porque son acá en el suelo<br>
+Dos tan hermosas estrellas.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+De dentro tengo mi mal,<br>
+Que de fuera no hay señal.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>M</big>i nueva y dulce querella<br>
+Es invisible á la gente; <span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span><br>
+El alma sola la siente,<br>
+Que el cuerpo no es dino della.<br>
+Como la viva centella<br>
+Se encubre en el pedernal,<br>
+De dentro tengo mi mal.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+
+<blockquote>
+Amor loco, amor loco,<br>
+Yo por vós, y vós por otro.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>ióme Amor tormentos dós,<br>
+Para que pene doblado;<br>
+Uno es verme desamado,<br>
+Otro es mancilla de vós.<br>
+Ved que ordena Amor en nós!<br>
+Porque vós haceisme loco,<br>
+Que seais loca por otro.<br>
+<br>
+Tratais Amor de manera,<br>
+Que porque asi me tratais,<br>
+Quiere que, pues no me amais,<br>
+Que ameis otro que no os quiera.<br>
+Mas con todo, si no os viera<br>
+De todo loca por otro,<br>
+Con mas razon fuera loco.<br>
+<br>
+Y tan contrario viviendo,<br>
+Alfin, alfin, conformamos;<br>
+Pues ambos a dós buscamos<br>
+Lo que mas nos vá huyendo.<br>
+Voy tras vós siempre siguiendo, <span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span><br>
+Y vós huyendo por otro:<br>
+Andais loca, y me haceis loco.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+
+<blockquote>
+Vêde bem se nos meus dias<br>
+Os desgostos vi sobejos,<br>
+Pois tenho medo a desejos,<br>
+E quero mal a alegrias.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e desejos fui ja ter,<br>
+Servírão de atormentar-me;<br>
+Se algum bem póde alegrar-me,<br>
+Quiz-me antes entristecer.<br>
+Passei annos, passei dias<br>
+Em desgostos tão sobejos,<br>
+Que só por não ter desejos,<br>
+Perderei mil alegrias.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">P<small>ROPIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Pois he mais vosso que meu,<br>
+Senhora, meu coração,<br>
+Eu vosso captivo são,<br>
+Meus olhos, lembre-vos eu.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>L</big>embre-vos minha tristeza,<br>
+Que jamais nunca me deixa;<br>
+Lembre-vos com quanta queixa <span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span><br>
+Se queixa minha firmeza:<br>
+Lembre-vos que não he meu<br>
+Este triste coração;<br>
+E pois ha tanta razão,<br>
+Meus olhos, lembre-vos eu.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Senhora, pois minha vida<br>
+Tendes em vosso poder;<br>
+Por serdes della servida,<br>
+Não queirais que destruida<br>
+Possa ser.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>I</big>sto não por me pezar<br>
+De morrer, se vós quizerdes;<br>
+Que melhor me he acabar<br>
+Mil vezes, que supportar<br>
+Os males que me fizerdes;<br>
+Mas só por serdes servida<br>
+De mi, em quanto viver,<br>
+Vos peço que minha vida<br>
+Não queirais que destruida<br>
+Possa ser.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO</small>.</p>
+
+
+<blockquote>
+Pois damno me faz olhar-vos,<br>
+Não quero, por não perder-vos,<br>
+Que ninguem me veja ver-vos. <span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>e ver-vos a não vos ver<br>
+Ha dous extremos mortaes;<br>
+E são elles em si taes,<br>
+Que hum por hum me faz morrer;<br>
+Mas antes quero escolher,<br>
+Que possa viver sem ver-vos,<br>
+Minh'alma, por não perder-vos.<br>
+<br>
+Deste tamanho perigo<br>
+Que remedio posso ter,<br>
+Se vivo só com vos ver,<br>
+Se vos não vejo, perigo?<br>
+Mas quero acabar comigo,<br>
+Que ninguem me veja ver-vos,<br>
+Senhora, por não perder-vos.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>TRES</small> D<small>AMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVÃO.</small>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Não sei se m'engana Helena,<br>
+Se Maria, se Joanna;<br>
+Não sei qual dellas m'engana.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>H</big>uma diz que me quer bem,<br>
+Outra jura que <span class="typo" title="no original: mo">me</span> quer;<br>
+Mas em jura de mulher<br>
+Quem crerá, se ellas não crem?<br>
+Não posso não crer a Helena,<br>
+A Maria, nem Joanna;<br>
+Mas não sei qual mais m'engana.<br>
+<br>
+Huma faz-me juramentos <span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span><br>
+Que só meu amor estima,<br>
+A outra diz que se fina,<br>
+Joanna, que bebe os ventos.<br>
+Se cuido que mente Helena,<br>
+Tambem mentirá Joanna;<br>
+Mas quem mente não m'engana.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA MAL EMPREGADA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Menina, não sei dizer,<br>
+Vendo-vos tão acabada,<br>
+Quão triste estou por vos ver<br>
+Formosa e mal empregada.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem tão mal vos empregou,<br>
+Pouco de mi se dohia,<br>
+Pois não vio o quanto me hia<br>
+Em tirar-me o que tirou.<br>
+Obriga o primor que tem<br>
+Lindeza tão extremada<br>
+Que digão quantos a vem,<br>
+Formosa e mal empregada!<br>
+<br>
+Tomastes da formosura<br>
+Quanto della desejastes,<br>
+E com ella me guardastes<br>
+Para tão triste ventura.<br>
+Mataveis sendo solteira,<br>
+Matais agora em casada;<br>
+Matais de toda a maneira,<br>
+Formosa e mal empregada. <span class="pn"><a name="pag_76">{76}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> F<small>oãa</small> G<small>onçalves.</small>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Com vossos olhos, Gonçalves,<br>
+Senhora, captivo tendes<br>
+Este meu coração Mendes.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>E</big>u sou boa testimunha,<br>
+Que Amor tem por cousa má,<br>
+Que olhos, que são homens ja,<br>
+Se nomeiem sem alcunha;<br>
+Pois o coração apunha,<br>
+E diz, olhos, pois vós tendes,<br>
+Chamae-me coração Mendes.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO</small></p>
+
+<blockquote>
+De que me serve fugir<br>
+De morte, dor e perigo,<br>
+Se me eu levo comigo?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>T</big>enho-me persuadido,<br>
+Por razão conveniente,<br>
+Que não posso ser contente,<br>
+Pois que pude ser nascido.<br>
+Anda sempre tão unido<br>
+O meu tormento comigo,<br>
+Qu'eu mesmo sou meu perigo.<br>
+<br>
+E se de mi me livrasse,<br>
+Nenhum gôsto me sería:<br>
+Quem, senão eu, não teria <span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span><br>
+Mal, que esse bem me tirasse?<br>
+Fôrça he logo que assi passe,<br>
+Ou com desgôsto comigo,<br>
+Ou sem gôsto e sem perigo.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uando me quer enganar<br>
+A minha bella perjura,<br>
+Para mais me confirmar<br>
+O que quer certificar,<br>
+Polos seus olhos me jura.<br>
+Como meu contentamento<br>
+Todo se rege por elles,<br>
+Imagina o pensamento,<br>
+Que se faz aggravo a elles<br>
+Não crer tão grão juramento.<br>
+<br>
+Porém como em casos tais<br>
+Ando ja visto e corrente,<br>
+Sem outros certos sinais,<br>
+Quanto me ella jura mais,<br>
+Tanto mais cuido que mente.<br>
+Então vendo-lhe offender<br>
+Huns taes olhos como aquelles,<br>
+Deixo-me antes tudo crer,<br>
+Só pola não constranger<br>
+A jurar falso por elles. <span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Ha hum bem, que chega e foge;<br>
+E chama-se este bem tal,<br>
+Ter bem para sentir mal.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem viveo sempre n'hum ser,<br>
+Inda que seja em pobreza,<br>
+Não vio o bem da riqueza,<br>
+Nem o mal d'empobrecer:<br>
+Não ganhou para perder;<br>
+Mas ganhou com vida igual<br>
+Não ter bem, nem sentir mal.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Olhos, não vos mereci<br>
+Que tenhais tal condição,<br>
+Tão liberaes para o chão,<br>
+Tão irosos para mi.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>B</big>aixos e honestos andais,<br>
+Por vos negardes a quem<br>
+Não quer mais que aquelle bem,<br>
+Que vós no chão espalhais?<br>
+Se pouco vos mereci,<br>
+Não m'estimeis mais que o chão,<br>
+A quem vós o galardão<br>
+Dais, e mo negais a mi. <span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">P<small>ROPRIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+Venceo-me Amor, não o nego;<br>
+Tẽe mais fôrça qu'eu assaz;<br>
+Que como he cego e rapaz,<br>
+Dá-me porrada de cego.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>ó porque he rapaz ruim,<br>
+Dei-lhe hum boféte zombando.<br>
+Diz-me: Ó mao, estais me dando,<br>
+Porque sois maior que mim?<br>
+Pois se eu vos descarrégo,<br>
+E em dizendo isto, chaz;<br>
+Torna-me outra; tá rapaz,<br>
+Que dás porrada de cego.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>O DESCONCERTO DO MUNDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>O</big>s bons vi sempre passar<br>
+No mundo graves tormentos;<br>
+E para mais m'espantar,<br>
+Os maos vi sempre nadar<br>
+Em mar de contentamentos.<br>
+Cuidando alcançar assi<br>
+O bem tão mal ordenado,<br>
+Fui mao; mas fui castigado.<br>
+Assi, que só para mi<br>
+Anda o mundo concertado. <span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+<blockquote>
+Perguntais-me, quem me mata?<br>
+Não quero responder nada,<br>
+Por vos não fazer culpada.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>E</big> se a penna não me atiça,<br>
+A dizer pena tão forte,<br>
+Quero-me entregar á morte,<br>
+Antes que a vós á justiça.<br>
+Porém se tendes cobiça<br>
+De vos verdes tão culpada,<br>
+Direi que não sinto nada.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE.</small></p>
+
+<blockquote>
+Esconjuro-te, Domingas,<br>
+Pois me dás tanto cuidado,<br>
+Que me digas se te vingas,<br>
+Viverei menos penado.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>J</big>uravas-me, que outras cabras<br>
+Folgavas de apascentar;<br>
+Eu por não me magoar,<br>
+Fingia qu'erão palabras.<br>
+Agora d'arte te vingas<br>
+D'algum meu doudo peccado,<br>
+Qu'inda que queiras, Domingas,<br>
+Não posso ser enganado. <span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span><br>
+<br>
+Qualquer cousa busca o seu;<br>
+A fonte vai para o Tejo,<br>
+E tu para o teu desejo,<br>
+Por te vingares do meu.<br>
+De mi t'esqueces, Domingas,<br>
+Como eu faço do meu gado:<br>
+Praza a Deos, que se te vingas,<br>
+Que morra desesperado.<br>
+<br>
+Na phantasia te pinto,<br>
+Fallo-te, responde o monte,<br>
+Busco o rio, busco a fonte,<br>
+Endoudeço, e não o sinto:<br>
+Domingas no valle brado,<br>
+Responde o eco Domingas;<br>
+E tu inda te não vingas<br>
+De me ver doudo tornado!
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Se a alma ver-se não póde<br>
+Onde pensamentos ferem,<br>
+Que farei para me crerem?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e n'alma huma só ferida<br>
+Faz na vida mil sinais,<br>
+Tanto se descobre mais,<br>
+Quanto he mais escondida.<br>
+S'esta dor tão conhecida<br>
+Me não vem, porque não querem,<br>
+Que farei para ma crerem? <span class="pn"><a name="pag_82">{82}</a></span><br>
+<br>
+Se se pudesse bem ver<br>
+Quanto callo, e quanto sento,<br>
+Despois de tanto tormento<br>
+Cuidaria alegre ser.<br>
+Mas se não me querem crer<br>
+Olhos, que tão mal me ferem,<br>
+Que farei para me crerem?
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Vosso bem querer, Senhora,<br>
+Vosso mal melhor me fôra.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>J</big>a agora certo conheço<br>
+Ser melhor todo tormento,<br>
+Onde o arrependimento<br>
+Se compra por justo preço.<br>
+Enganou-me hum bom comêço;<br>
+Mas o fim me diz agora<br>
+Que o mal melhor me fôra.<br>
+<br>
+Quando hum bem he tão damnoso,<br>
+Que sendo bem, dá cuidado,<br>
+O damno fica obrigado<br>
+A ser menos perigoso.<br>
+Mas se a mi por desditoso,<br>
+Co'o bem me foi mal, Senhora,<br>
+Co'o vosso mal bem me fôra. <span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Se me desta terra for,<br>
+Eu vos levarei, amor.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e me for, e vos deixar,<br>
+(Ponho por caso, que possa)<br>
+Est'alma minha, qu'he vossa,<br>
+Comvosco m'ha de ficar.<br>
+Assi que só por levar<br>
+A minha alma, se me for,<br>
+Vos levarei, meu amor.<br>
+<br>
+Que mal póde maltratar-me,<br>
+Que comvosco seja mal?<br>
+Ou que bem póde ser tal,<br>
+Que sem vós possa alegrar-me?<br>
+O mal não póde enojar-me,<br>
+O bem me será maior,<br>
+Se vos levar, meu amor.
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Pequenos contentamentos,<br>
+Hi buscar quem contenteis,<br>
+Que a mi não me conheceis.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>O</big>s gostos, que tantas dores<br>
+Fizerão ja valer menos,<br>
+Não os acceita pequenos,<br>
+Quem nunca teve maiores:<br>
+Bem parecem vãos favores, <span class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span><br>
+Pois tão tarde me quereis,<br>
+Qu'inda me não conheceis.<br>
+<br>
+Offereceis-me alegria,<br>
+Tendo-me ja cego e mouco:<br>
+He baixeza acceitar pouco,<br>
+Quem tanto vos merecia.<br>
+Ide-vos por outra via,<br>
+Pois o bem que me deveis,<br>
+Nunca mo satisfareis.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Perdigão perdeo a penna,<br>
+Não ha mal que lhe não venha.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>erdigão, que o pensamento<br>
+Subio a hum alto lugar,<br>
+Perde a penna do voar,<br>
+Ganha a pena do tormento:<br>
+Não tẽe no ar, nem no vento,<br>
+Azas com que se sostenha:<br>
+Não ha mal que lhe não venha.<br>
+<br>
+Quiz voar a huma alta torre,<br>
+Mas achou-se desasado;<br>
+E vendo-se despennado,<br>
+De puro penado morre.<br>
+Se a queixumes se soccorre,<br>
+Lança no fogo mais lenha:<br>
+Não ha mal que lhe não venha. <span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMAS</small> S<small>ENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA
+COM HUMA</small> D<small>AMA.</small>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ois a tantas perdições,<br>
+Senhoras, quereis dar vida,<br>
+Ditosa seja a ferida,<br>
+Que tẽe taes Cirurgiões!<br>
+Pois ventura<br>
+Me subio a tanta altura,<br>
+Que me sejais valedoras,<br>
+Ditosa seja a tristura,<br>
+Que se cura<br>
+Por vossos rogos, Senhoras!<br>
+<br>
+Ser minha pena mortal,<br>
+Ja qu'entendeis, que he assi,<br>
+Não quero fallar por mi,<br>
+Que por mi falla meu mal.<br>
+Sois formosas,<br>
+Haveis de ser piedosas,<br>
+Por ser tudo d'huma côr;<br>
+Que pois Amor vos fez rosas<br>
+Milagrosas,<br>
+Fazei milagres de Amor.<br>
+<br>
+Pedi a quem vós sabeis,<br>
+Que saiba de meu trabalho,<br>
+Não pelo qu'eu nisso valho,<br>
+Mas pelo que vós valeis.<br>
+Que o valer<br>
+De vosso alto merecer,<br>
+Com lho pedir de giolhos,<br>
+Fara qu'em meu padecer <span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span><br>
+Possa ver<br>
+O poder que tẽe seus olhos.<br>
+<br>
+Vossa muita formosura<br>
+Com a sua tanto val,<br>
+Que me rio de meu mal,<br>
+Quando cuido em quem me cura.<br>
+A meus ais,<br>
+Peço-vos que lhe valhais,<br>
+Damas de Amor tão valídas,<br>
+Que nunca tal dor sintais,<br>
+Que queirais,<br>
+Onde não sejais queridas.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">C<small>ANTIGA ALHEIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Na fonte está Leonor<br>
+Lavando a talha, e chorando,<br>
+Ás amigas perguntando:<br>
+Vistes lá o meu amor?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ôsto o pensamento nelle,<br>
+Porque a tudo o Amor a obriga,<br>
+Cantava, mas a cantiga<br>
+Erão suspiros por elle.<br>
+Nisto estava Leonor<br>
+O seu desejo enganando,<br>
+Ás amigas perguntando:<br>
+Vistes lá o meu amor?<br>
+<br>
+O rosto sôbre hũa mão,<br>
+Os olhos no chão pregados, <span class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span><br>
+Que de chorar ja cansados,<br>
+Algum descanso lhe dão;<br>
+Desta sorte Leonor<br>
+Suspende de quando em quando<br>
+Sua dor; e em si tornando,<br>
+Mais pezada sente a dor.<br>
+<br>
+Não deita dos olhos ágoa,<br>
+Que não quer que a dor s'abrande<br>
+Amor, porque em mágoa grande<br>
+Sécca as lagrimas a mágoa.<br>
+Despois que de seu amor<br>
+Soube novas perguntando,<br>
+D'improviso a vi chorando.<br>
+Olhae que extremos de dor!
+</blockquote>
+
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">E<small>STAS TROVAS MANDOU O</small>
+A<small>UTOR DA CADEIA, EM QUE O
+TINHA EMBARGADO POR HUMA DIVIDA</small> M<small>IGUEL</small>
+R<small>OIZ,</small> F<small>IOS</small>
+S<small>ECOS D'ALCUNHA, AO</small> C<small>ONDE DO</small> R<small>EDONDO</small> D. F<small>RANCISCO</small>
+C<small>OUTINHO</small>, V<small>ISO</small>-R<small>EI, QUE SE EMBARCAVA PARA
+FÓRA, PEDINDO-LHE O FIZESSE DESEMBARGAR.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>ue diabo ha tão damnado,<br>
+Que não tema a cutilada<br>
+Dos fios seccos da espada<br>
+Do fero Miguel armado?<br>
+Pois se tanto hum golpe seu<br>
+Sôa na infernal cadeia;<br>
+Do que o demonio arreceia<br>
+Como não fugirei eu? <span class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span><br>
+<br>
+Com razão lhe fugiria,<br>
+Se contr'elle, e contra tudo<br>
+Não tivesse hum forte escudo<br>
+Só em Vossa Senhoria.<br>
+Por tanto, Senhor, proveja,<br>
+Pois me tẽe ao remo atado,<br>
+Que antes que seja embarcado,<br>
+Eu desembargado seja.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">E<small>STAS TROVAS MANDOU</small> H<small>EITOR DA</small> S<small>ILVEIRA AO MESMO</small>
+C<small>ONDE, INVERNANDO EM</small> G<small>OA.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>ossa Senhoria creia<br>
+Que não apura o engenho<br>
+Fome, se he como a que tenho,<br>
+Mas afraca e corta a veia.<br>
+E quem o contrário sente,<br>
+Está farto em toda a hora,<br>
+Como estou faminto agora:<br>
+Mas Martha, se está contente,<br>
+Dá-lhe pouco de quem chora.<br>
+<br>
+E pois Vossa Senhoria<br>
+Em geral a tudo acode,<br>
+Acuda a mi, que só póde<br>
+Dar-me no engenho valia.<br>
+Esperte esta Musa minha,<br>
+Que o tempo traz somnolenta;<br>
+Valha-lhe nesta tormenta<br>
+Com essa doce mézinha,<br>
+Que só dá vida e contenta. <span class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span><br>
+<br>
+Acuda com provisão,<br>
+Não de papel, mas provída<br>
+D'ouro e prata; que esta vida<br>
+Não sustentão papéis, não.<br>
+De feitor a thesoureiro<br>
+Ser-me-hia trabalho grande;<br>
+Vossa Senhoria mande<br>
+Algum remedio, primeiro,<br>
+Com que a morte o ferro abrande.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Ajuda de Luis de Camões.</em></p>
+
+<blockquote>
+Nos livros doutos se trata<br>
+Que o grande Achilles insano<br>
+Deo a morte a Heitor Troiano;<br>
+Mas agora a fome mata<br>
+O nosso Heitor Lusitano.<br>
+Só ella o póde acabar,<br>
+Se essa vossa condição<br>
+Liberal e singular<br>
+Não mete entr'elles bastão,<br>
+Bastante para o fartar.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA</small> S<small>ENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Esparsa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>ão posso chegar ao cabo<br>
+De tamanho desarranjo,<br>
+Que sendo vós, Senhora, Anjo,<br>
+Vos queira tanto o Diabo. <span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span><br>
+Dais manifesto sinal<br>
+De minha muita firmeza,<br>
+Que os diabos querem mal<br>
+Aos Anjos por natureza.
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">C<small>ANTIGA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Vi chorar huns claros olhos,<br>
+Quando delles me partia.<br>
+Oh que mágoa! Oh que alegria!
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>P</big>olo meu apartamento<br>
+Se arrazárão todos d'ágoa.<br>
+Quem cuidou qu'em tanta mágoa<br>
+Achasse contentamento?<br>
+Julgue todo entendimento<br>
+Qual mais sentir se devia,<br>
+Se esta dor, se esta alegria?<br>
+<br>
+Quando mais perdido estive,<br>
+Então deo a est'alma minha<br>
+Na maior mágoa que tinha,<br>
+O maior gôsto que tive.<br>
+Assi, se minha alma vive,<br>
+Foi porque me defendia<br>
+Desta dor esta alegria?<br>
+<br>
+O bem, que Amor me não deu<br>
+No tempo que desejei,<br>
+Quando delle me apartei,<br>
+Me confessou, qu'era meu.<br>
+Agora que farei eu, <span class="pn"><a name="pag_91">{91}</a></span><br>
+Se a fortuna me desvia<br>
+De lograr esta alegria?<br>
+<br>
+Não sei se foi enganado,<br>
+Pois me tinha defendido<br>
+Das íras de mal querido,<br>
+No mal de ser apartado.<br>
+Agora peno dobrado,<br>
+Achando no fim do dia<br>
+O princípio da alegria.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">V<small>ILLANCETE PASTORIL.</small></p>
+
+<blockquote>
+Deos te salve, Vasco amigo.<br>
+Não me fallas? Como assi?<br>
+Bofé, Gil, não 'stava aqui.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ois onde te hão de fallar,<br>
+Se não 'stás onde appareces?<br>
+Se Magdanela conheces,<br>
+Nella me pódes achar.<br>
+E como te hão d'ir buscar<br>
+Aonde fogem de ti?<br>
+Pois nem eu estou em mi.<br>
+<br>
+Porque te não acharei<br>
+Em ti, como em Magdanela?<br>
+Porque me fui perder nella<br>
+O dia que me ganhei.<br>
+Quem tão bem falla, não sei<br>
+Como anda fóra de si.<br>
+Ella falla dentro em mi. <span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span><br>
+<br>
+Como estás aqui presente,<br>
+Se lá tens a alma e a vida?<br>
+Porqu'he d'hum'alma perdida<br>
+Apparecer sempre á gente.<br>
+Se es morto, bem se consente<br>
+Que todos fujão de ti.<br>
+Eu tambem fujo de mi.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO PASTORIL.</small></p>
+
+<blockquote>
+Porque no miras, Giraldo,<br>
+Mi zampoña como suena?<br>
+Porque no me mira Elena.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>uelve acá, no estês pasmado,<br>
+Mira que gentil sonar!<br>
+Como te podrá mirar<br>
+Quien no puede ser mirado?<br>
+Y que bueno enamorado!<br>
+No dirás, si es mala, o buena?<br>
+No, que me hizo mudo Elena.<br>
+<br>
+Mira tan dulce armonía,<br>
+Déjate dessos enojos.<br>
+Tengo clavados los ojos<br>
+Con que mirar te podia.<br>
+Ansí Dios te dé alegría:<br>
+No vés cuan dulce que suena?<br>
+No, porque no veo Elena. <span class="pn"><a name="pag_93">{93}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">O<small>UTRO PASTORIL.</small></p>
+
+<blockquote>
+Crescem, Camilla, os abrolhos<br>
+De chorares por Cincero:<br>
+Não he muito, que lhe quero,<br>
+Belisa, mais que meus olhos.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>empre os teus olhos estão,<br>
+Camilla, d'ágoas banhados.<br>
+De se verem desamados<br>
+Póde ser que chorarão.<br>
+Si, mas crescem os abrolhos,<br>
+E tu cegas por Cincero.<br>
+S'eu não vejo quem mais quero,<br>
+Para que quero mais olhos?<br>
+<br>
+Se se foi ha mais d'hum mês,<br>
+Teus olhos não cansarão?<br>
+Não, que apos elle se vão<br>
+Estas lagrimas que vês.<br>
+Fazem logo estes abrolhos<br>
+O mato espinhoso e fero.<br>
+Pois eu não vejo a Cincero,<br>
+Isso só verão meus olhos.<br>
+<br>
+Chorando queres morrer?<br>
+Mais quero viver chorando.<br>
+Tu não vês que vás cegando?<br>
+Se cego, como hei de ver?<br>
+Põe na vista outros antolhos.<br>
+Não posso, nem menos quero.<br>
+Outra para outro Cincero,<br>
+Antes não quero ter olhos. <span class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A <small>HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA</small> G<small>RACIA DE</small> M<small>ORAES.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+Olhos, em qu'estão mil flores,<br>
+E com tanta graça olhais,<br>
+Que parece que os Amores<br>
+Morão onde vós morais.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>em-se rosas e boninas,<br>
+Olhos, nesse vosso ver;<br>
+Vem-se mil almas arder<br>
+No fogo dessas meninas.<br>
+E di-lo-hão minhas dores,<br>
+Meus suspiros e meus ais;<br>
+E dirão mais, que os amores<br>
+Morão onde vós morais.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Quem se confia em huns olhos,<br>
+Nas meninas delles vê<br>
+Que meninas não tẽe fé.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem põe suas confianças<br>
+Em meninas sem assento,<br>
+Offereça o soffrimento<br>
+A duzentas mil mudanças.<br>
+Mostrão no ar esperanças;<br>
+Mas em seus olhos se vê<br>
+Como não tẽe n'alma fé.<br>
+<br>
+Enganão ao parecer, <span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span><br>
+Porque no caso d'amar,<br>
+São mulheres no matar,<br>
+E meninas no querer.<br>
+Quem em seus olhos se crer,<br>
+Cem mil graças nelles vê;<br>
+Vê-las sim, mas não ter fé.<br>
+<br>
+Amostrão-vos n'hum momento<br>
+Favores assi a mólhos;<br>
+Mas na mudança dos olhos<br>
+Se lhe muda o pensamento.<br>
+Em nada ja tẽe assento,<br>
+E o que mais nelles se vê<br>
+He formosura sem fé.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">L<small>OUVANDO E DESLOUVANDO UMA</small> D<small>AMA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Cantiga Velha.</em></p>
+
+<blockquote>
+Sois formosa, e tudo tendes,<br>
+Senão que tendes os olhos verdes,
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>inguem vos póde tirar<br>
+Serdes tão bem assombrada;<br>
+Mas heis-me de perdoar,<br>
+Que os olhos não valem nada.<br>
+Fostes mal aconselhada<br>
+Em querer que fossem verdes:<br>
+Trabalhae de os esconderdes.<br>
+<br>
+A vossa testa he jardim,<br>
+Onde Amor se desenfada;<br>
+He tão branca e bem talhada,<br>
+Que parece de marfim. <span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span><br>
+Assi he; e quanto a mim,<br>
+Isso vos nasce de a terdes<br>
+Tão perto dos olhos verdes.<br>
+<br>
+Os cabellos desatados<br>
+O mesmo sol escurecem;<br>
+Senão que por ser ondados,<br>
+Algum tanto desmerecem:<br>
+Mas á fé, que se parecem<br>
+A furto dos olhos verdes,<br>
+Não vos peze, não, de os terdes.<br>
+<br>
+As pestanas tẽe mostrado<br>
+Ser raios, que abrazão vidas:<br>
+Se não forão tão compridas,<br>
+Tudo o mais era pintado:<br>
+Ellas me tinhão levado<br>
+A alma, sem o vós saberdes,<br>
+Se não forão os olhos verdes.<br>
+<br>
+O mimo desse carão<br>
+Nem pôr-lhe os olhos consente:<br>
+O ser liso e transparente<br>
+Rouba todo o coração:<br>
+Inda assi achareis nação,<br>
+Que lhe não peze de os verdes;<br>
+Mas não seja co'os olhos verdes.<br>
+<br>
+Esse riso, que he compôsto<br>
+De quantas graças nascêrão,<br>
+Senão que alguns me disserão,<br>
+Vos faz covinhas no rôsto.<br>
+Na vontade tenho posto<br>
+Dar-vos a alma, se quizerdes,<br>
+A trôco dos olhos verdes. <span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span><br>
+<br>
+Nunca se vio, nem se escreve<br>
+Boca co'huma graça igual,<br>
+Se não fôra de coral,<br>
+E os dentes de côr de neve.<br>
+Dou-me eu a Deos, que me leve!<br>
+Soffrerei quanto tiverdes,<br>
+Não me tenhais olhos verdes.<br>
+<br>
+Essa garganta merece<br>
+Outras palavras não minhas,<br>
+Senão qu'he feita em rosquinhas<br>
+D'alfenim, ao que parece.<br>
+Eu sei bem quem se offerece<br>
+A tomar tudo o que tendes,<br>
+E tambem os olhos verdes.<br>
+<br>
+Essas mãos são ferropeas:<br>
+Só o vê-las enfeitiça;<br>
+Senão que são alvas, cheias,<br>
+E tẽe a feição roliça;<br>
+Com que appellais por justiça,<br>
+Para com ellas prenderdes<br>
+Quem vê vossos olhos verdes.<br>
+<br>
+A vossa galantaria<br>
+Matará a quem fallardes:<br>
+Tendes huns desdens e tardes,<br>
+Que eu logo vos roubaria.<br>
+Oh dou-me a Santa Maria!<br>
+Sou cujo de quanto tendes,<br>
+E tambem desses olhos verdes. <span class="pn"><a name="pag_98">{98}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>O MESMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>T</big>udo tendes singular,<br>
+Com que os corações rendeis,<br>
+Senão que rindo, fazeis<br>
+Covinhas para enterrar:<br>
+E para resuscitar<br>
+Tẽe força a graça que tendes;<br>
+Senão que tendes os olhos verdes.<br>
+<br>
+Tudo, Senhora, alcançais,<br>
+Quanto o ser formosa alcança,<br>
+Senão que dais esperança<br>
+Co'os olhos com que matais.<br>
+Se acaso os alevantais,<br>
+He para as almas renderdes;<br>
+Senão que tendes os olhos verdes.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A D<small>OM</small> A<small>NTONIO, SENHOR DE</small> C<small>ASCAES, QUE TENDO-LHE
+PROMETTIDO SEIS GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA
+QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR PRINCÍPIO DA PAGA
+MEIA GALLINHA RECHEADA.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>inco gallinhas e meia<br>
+Deve o Senhor de Cascais;<br>
+E a meia vinha cheia<br>
+De appetite para as mais. <span class="pn"><a name="pag_99">{99}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Catharina bem promette;<br>
+Ora má! como ella mente!
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>atharina he mais formosa<br>
+Para mi, que a luz do dia;<br>
+Mas mais formosa sería,<br>
+Se não fosse mentirosa.<br>
+Hoje a vejo piedosa,<br>
+Á manhãa tão differente,<br>
+Que sempre cuido que mente.<br>
+<br>
+Prometteo-me hontem de vir,<br>
+Nunca mais appareceo;<br>
+Creio que não prometteo,<br>
+Senão só por me mentir.<br>
+Faz-me, emfim, chorar e rir;<br>
+Rio, quando me promette,<br>
+Mas chóro quando me mente.<br>
+<br>
+Jurou-me aquella cadella<br>
+De vir, pela alma que tinha;<br>
+Enganou-me; tinha a minha;<br>
+Deo-lhe pouco de perdella.<br>
+A vida gasto apos ella,<br>
+Porque ma dá, se promette,<br>
+Mas tira-ma, quando mente.<br>
+<br>
+Má, mentirosa, malvada,<br>
+Dizei, porque me mentis?<br>
+Prometteis, e então fugis?<br>
+Pois sem tornar, tudo he nada.<br>
+Não sois bem aconselhada; <span class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span><br>
+Que quem promette, se mente,<br>
+O que perde não o sente.<br>
+<br>
+Tudo vos consentiria<br>
+Quanto quizesseis fazer,<br>
+Se este vosso prometter<br>
+Fosse por me ter hum dia.<br>
+Todo então me desfaria<br>
+Com gôsto; e vós de contente,<br>
+Zombarieis de quem mente.<br>
+<br>
+Mas pois folgais de mentir,<br>
+Promettendo de me ver,<br>
+Eu vos deixo o prometter,<br>
+Deixae-me vós o servir:<br>
+Haveis então de sentir<br>
+Quanto a minha vida sente<br>
+O servir a quem lhe mente.<br>
+<br>
+Catharina me mentio<br>
+Muitas vezes, sem ter lei,<br>
+E todas lhe perdoei<br>
+Por huma só que cumprio.<br>
+Se como me consentio<br>
+Fallar-lhe, o mais me consente,<br>
+Nunca mais direi que mente.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+A alma, qu'está offrecida<br>
+A tudo, nada lhe he forte;<br>
+Assi passa o bem da vida,<br>
+Como passa o mal da morte. <span class="pn"><a name="pag_101">{101}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>e maneira me succede<br>
+O que temo, e o que desejo,<br>
+Que sempre o que temo, vejo,<br>
+Nunca o que a vontade pede.<br>
+Tenho tão offerecida<br>
+Alma e vida a toda a sorte,<br>
+Que isso me dera da morte,<br>
+Como ja me dá da vida.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Ferro, fogo, frio e calma,<br>
+Todo o mundo acabarão;<br>
+Mas nunca vos tirarão,<br>
+Alma minha, da minha alma.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>ão vos guardei, quando vinha,<br>
+Em tôrre, fôrça, ou engenho;<br>
+Que mais guardada vos tenho<br>
+Em vós, que sois alma minha.<br>
+Alli nem frio, nem calma,<br>
+Não podem ter jurdição;<br>
+Na vida sim, porém não<br>
+Em vós que tenho por alma.
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Esperei, ja não espero<br>
+De mais vos servir, Senhora; <span class="pn"><a name="pag_102">{102}</a></span><br>
+Pois me fazeis cada hora<br>
+Tanto mal, que desespéro.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ois sei certo que folgais,<br>
+Quando mais mal me fazeis,<br>
+E que nunca descansais,<br>
+Senão quando me mostrais<br>
+Quão pouco bem me quereis;<br>
+Servir-vos mais não espero<br>
+Pois meu viver empeora<br>
+Com me fazerdes, Senhora,<br>
+Tanto mal, que desespéro.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Descalça vai para a fonte<br>
+Leonor pela verdura;<br>
+Vai formosa, e não segura.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>L</big>eva na cabeça o pote,<br>
+O testo nas mãos de prata,<br>
+Cinta de fina escarlata,<br>
+Sainho de chamalote:<br>
+Traz a vasquinha de cote,<br>
+Mais branca que a neve pura;<br>
+Vai formosa, e não segura.<br>
+<br>
+Descobre a touca a garganta,<br>
+Cabellos de ouro entrançado,<br>
+Fita de côr d'encarnado,<br>
+Tão linda que o mundo espanta:<br>
+Chove nella graça tanta, <span class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span><br>
+Que dá graça á formosura;<br>
+Vai formosa, e não segura.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Quem disser que a barca pende,<br>
+Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e vos quereis embarcar,<br>
+E para isso estais no caes,<br>
+Entrae logo: que tardaes?<br>
+Olhae qu'está preamar:<br>
+E se outrem, por vos fretar,<br>
+Vos disser qu'esta que pende,<br>
+Dir-lhe-hei, mana, que mente.<br>
+<br>
+Esta barca he de carreira;<br>
+Tẽe seus apparelhos novos:<br>
+Não ha como ella outra em Povos<br>
+Boa de leme, e veleira:<br>
+Mas, se por ser a primeira,<br>
+Vos disser alguem que pende,<br>
+Dir-lhe-hei, mana, que mente.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Com razão queixar-me posso<br>
+De vós, que mal vos queixais;<br>
+Pois, Senhora, vos sangrais,<br>
+Que seja n'hum corpo vosso. <span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>E</big>u para levar a palma,<br>
+Com que ser vosso mereça,<br>
+Quero que o corpo padeça<br>
+Por vós, que delle sois alma.<br>
+Vós do corpo vos queixais,<br>
+Eu queixar-me de vós posso,<br>
+Porque, tendo hum corpo vosso,<br>
+Na minha alma vos sangrais.<br>
+<br>
+E sem fazer differença<br>
+No que de mi possuis,<br>
+Pelo pouco que sentis,<br>
+Dais á minh'alma doença.<br>
+Porque dous aventurais?<br>
+Oh não seja o damno nosso!<br>
+Sangre-se este corpo vosso,<br>
+Porque, minha alma, vivais.<br>
+<br>
+E inda, se attentardes bem,<br>
+Seguis medicina errada,<br>
+Porque para ser sangrada<br>
+Hum'alma sangue não tem.<br>
+E pois em mi sarar posso<br>
+Males, que á minha alma dais,<br>
+Se inda outra vez vos sangrais,<br>
+Seja neste corpo vosso.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Ojos, herido me habeis,<br>
+Acabad ya de matarme; <span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span><br>
+Mas muerto volved á mirarme,<br>
+Porque me resusciteis.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ues me distes tal herida,<br>
+Con gana de darme muerte,<br>
+El morir me es dulce suerte,<br>
+Pues con morir me dais vida.<br>
+Ojos, qué os deteneis?<br>
+Acabad ya de matarme;<br>
+Mas muerto volved á mirarme,<br>
+Porque me resusciteis.<br>
+<br>
+La llaga cierto ya es mia,<br>
+Aunque, ojos, vós no querrais;<br>
+Mas si la muerte me dais,<br>
+El morir me es alegría.<br>
+Y así digo que acabeis,<br>
+O ojos, ya de matarme;<br>
+Mas muerto volved á mirarme,<br>
+Porque me resusciteis.
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A D<small>ONA</small> F<small>RANCISCA DE</small> A<small>RAGÃO, QUE LHE MANDOU
+GLOSAR ESTE VERSO:</small></p>
+
+<blockquote>
+Mas porém a que cuidados?<br>
+</blockquote>
+
+<blockquote>
+<big>T</big>anto maiores tormentos<br>
+Forão sempre os que soffri,<br>
+Daquillo que cabe em mi,<br>
+Que não sei que pensamentos<br>
+São os para que nasci. <span class="pn"><a name="pag_106">{106}</a></span><br>
+Quando vejo este meu peito<br>
+A perigos arriscados<br>
+Inclinado, bem suspeito<br>
+Que a cuidados sou sujeito,<br>
+<em>Mas porém a que cuidados?</em>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Ao mesmo.</em></p>
+
+<blockquote>
+Que vindes em mi buscar,<br>
+Cuidados, que sou captivo?<br>
+Eu não tenho que vos dar:<br>
+Se vindes a me matar,<br>
+Ja ha muito que não vivo:<br>
+Se vindes, porque me dais<br>
+Tormentos desesperados,<br>
+Eu, que sempre soffri mais,<br>
+Não digo que não venhais;<br>
+<em>Mas porém <span class="typo" title="no original: a que, cuidados">a que cuidados</span>?</em>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Ao mesmo.</em></p>
+
+<blockquote>
+Se as penas que Amor me deu,<br>
+Vem por tão suaves meios,<br>
+Não ha que temer receios;<br>
+Que val hum cuidado meu<br>
+Por mil descansos alheios.<br>
+Ter n'huns olhos tão formosos<br>
+Os sentidos enlevados,<br>
+Bem sei qu'em baixos estados<br>
+São cuidados perigosos;<br>
+<em>Mas porém a que cuidados?...</em>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Carta com a glosa acima.</em></p>
+
+<p>Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m.
+crendo me sería assi mais seguro: mas agora que he <span class="pn"><a name="pag_107">{107}</a></span>
+servida de me tornar a resuscitar, por me mostrar
+seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa
+he menos de agradecer, que huma morte descansada.
+Mas se esta vida, que agora de novo me dá, for
+para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me
+fica mais que desejar, que poder acertar com este
+mote de v. m., ao qual dei tres entendimentos, segundo
+as palavras delle pudérão soffrer: se forem bons, he
+mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas.</p>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Campos bem-aventurados,<br>
+Tornae-vos agora tristes;<br>
+Que os dias, em que me vistes,<br>
+Alegres ja são passados.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>ampos cheios de prazer,<br>
+Vós qu'estais reverdecendo,<br>
+Ja m'alegrei com vos ver;<br>
+Agora venho a temer<br>
+Qu'entristeçais em me vendo.<br>
+E pois a vista alegrais<br>
+Dos olhos desesperados,<br>
+Não quero que me vejais,<br>
+Para que sempre sejais,<br>
+<em>Campos, bem-aventurados.</em><br>
+<br>
+Porém se por accidente<br>
+Vos pezar de meu tormento,<br>
+Sabereis que Amor consente <span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span><br>
+Que tudo me descontente,<br>
+Senão descontentamento.<br>
+Por isso vós, arvoredos,<br>
+Que ja nos meus olhos vistes<br>
+Mais alegria, que medos,<br>
+Se mos quereis fazer ledos,<br>
+<em>Tornae-vos agora tristes.</em><br>
+<br>
+Ja me vistes ledo ser,<br>
+Mas despois que o falso Amor<br>
+Tão triste me fez viver,<br>
+Ledos folgo de vos ver,<br>
+Porque me dobreis a dor.<br>
+E se este gôsto sobejo<br>
+De minha dor me sentistes,<br>
+Julgae quanto mais desejo<br>
+As horas que vos não vejo,<br>
+<em>Que os dias em que me vistes.</em><br>
+<br>
+O tempo, qu'he desigual,<br>
+De seccos, verdes vos tem;<br>
+Porqu'em vosso natural<br>
+Se muda o mal para o bem,<br>
+Mas o meu para mor mal.<br>
+Se perguntais, verdes prados,<br>
+Pelos tempos differentes<br>
+Que de Amor me forão dados,<br>
+Tristes, aqui são presentes,<br>
+<em>Alegres, ja são passados.</em> <span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Trabalhos descansarião<br>
+Se para vós trabalhasse;<br>
+Tempos tristes passarião,<br>
+Se algum'hora vos lembrasse.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>unca o prazer se conhece,<br>
+Senão despois da tormenta:<br>
+Tão pouco o bem permanece,<br>
+Que se o descanso florece,<br>
+Logo o trabalho arrebenta.<br>
+Sempre os bens se lograrião,<br>
+Mas os males tudo atalhão;<br>
+Porém ja que assi porfião,<br>
+Onde descansos trabalhão,<br>
+<em>Trabalhos descansarião.</em><br>
+<br>
+Qualquer trabalho me fôra<br>
+Por vós grão contentamento:<br>
+Nada sentira, Senhora,<br>
+Se víra disto algum'hora<br>
+Em vós hum conhecimento.<br>
+Por mal que o mal me tratasse,<br>
+Tudo por bem tomaria;<br>
+Postoque o corpo cansasse,<br>
+A alma descansaria,<br>
+<em>Se para vós trabalhasse.</em><br>
+<br>
+Quem vossas cruezas ja<br>
+Soffreo, a tudo se poz;<br>
+Costumado ficará;<br>
+E muito melhor será,<br>
+Se trabalhar para vós. <span class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span><br>
+Tristezas esquecerião,<br>
+Postoque mal me tratárão;<br>
+Annos não me lembrarião,<br>
+Que como est'outros passarão,<br>
+<em>Tempos tristes passarião.</em><br>
+<br>
+Se fosse galardoado<br>
+Este trabalho tão duro,<br>
+Não vivêra magoado.<br>
+Mas não o foi o passado,<br>
+Como o será o futuro?<br>
+De cansar não cansaria,<br>
+Se quizereis, que cansasse;<br>
+Cavar, morrer, fa-lo-hia;<br>
+Tudo, emfim, esqueceria,<br>
+<em>Se algum'hora vos lembrasse.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Triste vida se me ordena,<br>
+Pois quer vossa condição<br>
+Que os males, que dais por pena,<br>
+Me fiquem por galardão.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>espois de sempre soffrer,<br>
+Senhora, vossas cruezas,<br>
+A pezar de meu querer,<br>
+Me quereis satisfazer<br>
+Meus serviços com tristezas.<br>
+Mas, pois em balde resiste<br>
+Quem vossa vista condena, <span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span><br>
+Prestes estou para a pena;<br>
+Que de galardão tão triste<br>
+<em>Triste vida se me ordena.</em><br>
+<br>
+De contente do mal meu<br>
+A tão grande extremo vim,<br>
+Que consinto em minha fim:<br>
+Assi que vós e mais eu,<br>
+Ambos somos contra mim.<br>
+Mas que soffra meu tormento,<br>
+Sem querer mais galardão,<br>
+Não he fóra de razão<br>
+Que queira meu soffrimento,<br>
+<em>Pois quer vossa condição.</em><br>
+<br>
+O mal, que vós dais por bem,<br>
+Esse, Senhora, he mortal;<br>
+Que o mal, que dais como mal,<br>
+Em muito menos se tem,<br>
+Por costume natural.<br>
+Mas porém nesta victoria,<br>
+Que comigo he bem pequena,<br>
+A maior dor me condena<br>
+A pena, que dais por gloria,<br>
+<em>Que os males, que dais por pena.</em><br>
+<br>
+Que mor bem me possa vir,<br>
+Que servir-vos, não o sei.<br>
+Pois que mais quero eu pedir,<br>
+Se quanto mais vos servir,<br>
+Tanto mais vos deverei?<br>
+Se vossos merecimentos<br>
+De tão alta estima são,<br>
+Assaz de favor me dão <span class="pn"><a name="pag_112">{112}</a></span><br>
+Em querer que meus tormentos<br>
+<em>Me fiquem por galardão.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Ja não posso ser contente,<br>
+Tenho a esperança perdida;<br>
+Ando perdido entre a gente,<br>
+Nem morro, nem tenho vida.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>espois que meu cruel Fado<br>
+Destruio huma esperança,<br>
+Em que me vi levantado,<br>
+No mal fiquei sem mudança,<br>
+E do bem desesperado.<br>
+O coração, que isto sente,<br>
+Á sua dor não resiste,<br>
+Porque vê mui claramente<br>
+Que pois nasci para triste,<br>
+<em>Ja não posso ser contente.</em><br>
+<br>
+Por isso, contentamentos,<br>
+Fugi de quem vos despreza:<br>
+Ja fiz outros fundamentos,<br>
+Ja fiz senhora a tristeza<br>
+De todos meus pensamentos.<br>
+O menos que lh'entreguei,<br>
+Foi esta cansada vida:<br>
+Cuido que nisto acertei,<br>
+Porque de quanto esperei<br>
+<em>Tenho a esperança perdida.</em> <span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span><br>
+<br>
+Acabar de me perder<br>
+Fôra ja muito melhor;<br>
+Tivera fim esta dor,<br>
+Que não podendo mor ser,<br>
+Cada vez a sinto mor.<br>
+De vós desejo esconder-me,<br>
+E de mi principalmente,<br>
+Onde ninguem possa ver-me;<br>
+Que pois me ganho em perder-me,<br>
+<em>Ando perdido entre a gente.</em><br>
+<br>
+Gostos de mudanças cheios,<br>
+Não me busqueis, não vos quero:<br>
+Tenho-vos por tão alheios,<br>
+Que do bem que não espero,<br>
+Inda me ficão receios.<br>
+Em pena tão sem medida,<br>
+Em tormento tão esquivo<br>
+Que morra, ninguem duvída;<br>
+Mas eu se morro, ou se vivo,<br>
+<em>Nem morro, nem tenho vida.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE SE CHAMAVA</small> A<small>NNA.</small></p>
+
+<p class="centrado"><em>Mote.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+A morte, pois que sou vosso,<br>
+Não a quero; mas se vem,<br>
+Ha de ser todo meu bem.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>mor, qu'em meu pensamento<br>
+Com tanta fé se fundou, <span class="pn"><a name="pag_114">{114}</a></span><br>
+Me tẽe dado hum regimento,<br>
+Que quando vir meu tormento<br>
+Me salve com cujo sou.<br>
+E com esta defensão,<br>
+Com que tudo vencer posso,<br>
+Diz a causa ao coração:<br>
+Não tẽe em mi jurdição<br>
+<em>A morte, pois que sou vosso.</em><br>
+<br>
+Por exprimentar hum dia<br>
+Amor se me achava forte<br>
+Nesta fé, como dizia,<br>
+Me convidou com a morte,<br>
+Só por ver se a temeria.<br>
+E como ella seja a cousa<br>
+Onde está todo meu bem,<br>
+Respondi-lhe, como quem<br>
+Quer dizer mais, e não ousa:<br>
+<em>Não a quero, mas se vem...</em><br>
+<br>
+Não disse mais, porque então<br>
+Entendeo quanto me toca;<br>
+E se tinha dito o não,<br>
+Muitas vezes diz a boca,<br>
+O que nega o coração.<br>
+Toda a cousa defendida<br>
+Em mais estima se tem:<br>
+Por isso he cousa sabida,<br>
+Que perder por vós a vida<br>
+<em>Ha de ser todo meu bem.</em>
+</blockquote>
+ <span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">Á <small>MESMA</small> D<small>AMA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Vejo-a n'alma pintada,<br>
+Quando me pede o desejo<br>
+O natural que não vejo.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e só de ver puramente<br>
+Me transformei no que vi,<br>
+De vista tão excellente<br>
+Mal poderei ser ausente,<br>
+Em quanto o não for de mi.<br>
+Porque a alma namorada<br>
+A traz tão bem debuxada,<br>
+E a memoria tanto voa,<br>
+Que se a não vejo em pessoa,<br>
+<em>Vejo-a n'alma pintada.</em><br>
+<br>
+O desejo, que s'estende<br>
+Ao que menos se concede,<br>
+Sôbre vós pede e pretende,<br>
+Como o doente que pede<br>
+O que mais se lhe defende.<br>
+Eu, qu'em ausencia vos vejo,<br>
+Tenho piedade e pejo<br>
+De me ver tão pobre estar,<br>
+Qu'então não tenho que dar,<br>
+<em>Quando me pede o desejo.</em><br>
+<br>
+Como áquelle que cegou,<br>
+He cousa vista e notoria,<br>
+Que a natureza ordenou<br>
+Que se lhe dobre em memoria<br>
+O qu'em vista lhe faltou:<br>
+Assi a mi, que não vejo <span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span><br>
+Co'os olhos o que desejo,<br>
+Na memoria e na firmeza<br>
+Me concede a natureza<br>
+<em>O natural que não vejo.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Sem vós, e com meu cuidado,<br>
+Olhae com quem, e sem quem.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>endo Amor que com vos ver<br>
+Mais levemente soffria<br>
+Os males que me fazia,<br>
+Não me pôde isto soffrer;<br>
+Conjurou-se com meu Fado;<br>
+Hum novo mal me ordenou:<br>
+Ambos me levão forçado,<br>
+Não sei onde, pois que vou<br>
+<em>Sem vós e com meu cuidado.</em><br>
+<br>
+Não sei qual he mais estranho<br>
+Destes dous males que sigo,<br>
+Se não vos ver, se comigo<br>
+Levar imigo tamanho.<br>
+O que fica, e o que vem,<br>
+Hum me mata, outro desejo:<br>
+Com tal mal, e sem tal bem,<br>
+Em taes extremos me vejo:<br>
+<em>Olhae com quem, e sem quem</em>!
+</blockquote>
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>O MESMO.</small>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>mor, cuja providencia<br>
+Foi sempre que não errasse, <span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span><br>
+Porque n'alma vos levasse,<br>
+Respeitando o mal d'ausencia,<br>
+Quiz qu'em vós me transformasse.<br>
+E vendo-me ir maltratado,<br>
+Eu e meu cuidado sós,<br>
+Proveo nisso de attentado,<br>
+Por não me ausentar de vós,<br>
+<em>Sem vós, e com meu cuidado.</em><br>
+<br>
+Mas est'alma, qu'eu trazia,<br>
+Porque vós nella morais,<br>
+Deixa-me cego, e sem guia;<br>
+Que ha por melhor companhia<br>
+Ficar onde vós ficais.<br>
+Assi me vou de meu bem,<br>
+Onde quer a forte estrella,<br>
+Sem alma, qu'em si vos tem,<br>
+Co'o mal de viver sem ella:<br>
+<em>Olhae com quem, e sem quem</em>!
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Sem ventura he por demais.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>T</big>odo o trabalhado bem<br>
+Promette gostoso fruito;<br>
+Mas os trabalhos, que vem,<br>
+Para quem dita não tem<br>
+Valem pouco, e custão muito.<br>
+Rompe toda a pedra dura,<br>
+Faz os homens immortais <span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span><br>
+O trabalho quando atura;<br>
+Mas querer achar ventura,<br>
+<em>Sem ventura, he por demais.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Minh'alma, lembrae-vos della.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>P</big>ois o ver-vos tenho em mais<br>
+Que mil vidas que me deis,<br>
+Assi como a que me dais,<br>
+Meu bem, ja que mo negais,<br>
+Meus olhos, não mo negueis.<br>
+E se a tal estado vim<br>
+Guiado de minha estrella,<br>
+Quando houverdes dó de mim,<br>
+Minha vida, dae-lhe a fim,<br>
+<em>Minh'alma, lembrae-vos della.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small>
+
+<blockquote>
+Tudo póde huma affeição.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>T</big>ẽe tal jurdição Amor<br>
+N'alma donde se aposenta,<br>
+E de que se faz senhor,<br>
+Que a liberta e isenta<br>
+De todo humano temor.<br>
+E com mui justa razão,<br>
+Como senhor soberano, <span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span><br>
+Que Amor não consente dano.<br>
+E pois me soffre tenção,<br>
+Gritarei por desengano:<br>
+<em>Tudo póde huma affeição.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">T<small>ROVA DE</small> B<small>OSCÃO.</small>
+
+<blockquote>
+Justa fué mi perdicion;<br>
+De mis males soy contento;<br>
+Ya no espero galardon,<br>
+Pues vuestro merecimiento<br>
+Satisfizo mi pasion.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>espues que Amor me formó<br>
+Todo de amor, cual me veo,<br>
+En las leyes, que me dió,<br>
+El mirar me consintió,<br>
+Y defendióme el deseo.<br>
+Mas el alma, como injusta,<br>
+En viendo tal perfeccion,<br>
+Dió al deseo ocasion:<br>
+Y pues quebré ley tan justa,<br>
+<em>Justa fué mi perdicion.</em><br>
+<br>
+Mostrándoseme el Amor<br>
+Mas benigno que cruel,<br>
+Sobre tirano traidor,<br>
+De zelos de mi dolor,<br>
+Quiso tomar parte en él.<br>
+Yo que tan dulce tormento<br>
+No quiero dallo, aunque peco, <span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span><br>
+Resisto, y no lo consiento;<br>
+Mas si me lo toma á trueco<br>
+<em>De mis males, soy contento.</em><br>
+<br>
+Señora, ved lo que ordena<br>
+Este Amor tan falso nuestro!<br>
+Por pagar á costa agena,<br>
+Manda que de un mirar vuestro<br>
+Haga el premio de mi pena.<br>
+Mas vos, para que veais<br>
+Tan engañosa intencion,<br>
+Aunque muerto me sintais,<br>
+No mireis, que si mirais,<br>
+<em>Ya no espero galardon.</em><br>
+<br>
+Pues que premio (me direis)<br>
+Esperas que será bueno?<br>
+Sabed, sino lo sabeis,<br>
+Que es lo mas de lo que peno<br>
+Lo menos que mereceis.<br>
+Quien hace al mal tan ufano,<br>
+Y tan libre al sentimiento?<br>
+El deseo? No, que es vano.<br>
+El amor? No, que es tirano.<br>
+<em>Pues? Vuestro merecimiento.</em><br>
+<br>
+No pudiendo Amor robarme<br>
+De mis tan caros despojos,<br>
+Aunque fué por mas honrarme,<br>
+Vos sola para matarme<br>
+Le prestastes vuestros ojos.<br>
+Matáranme ambos á dos;<br>
+Mas á vos con mas razon<br>
+Debe el la satisfaccion; <span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span><br>
+Que á mi por él, y por vos,<br>
+<em>Satisfizo mi pasion.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Todo es poco lo posible.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>ed que engaño señorea<br>
+Nuestro juicio tan loco,<br>
+Que por mucho que se crea,<br>
+Todo el bien, que se desea,<br>
+Alcanzado, queda poco.<br>
+Un bien de cualquiera grado,<br>
+Si de haberse es imposible,<br>
+Queda mucho deseado.<br>
+Mas para mucho, alcanzado,<br>
+<em>Todo es poco lo posible.</em>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Outro.</em></p>
+
+<blockquote>
+Posible es á mi cuidado<br>
+Poderme hacer satisfecho,<br>
+Si fuera posible al hado<br>
+Hacer no hecho lo hecho,<br>
+Y futuro lo pasado.<br>
+Si olvido pudiera haber,<br>
+Fuera remedio sufrible;<br>
+Mas ya que no puede ser,<br>
+Para contento me hacer,<br>
+<em>Todo es poco lo posible.</em> <span class="pn"><a name="pag_122">{122}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Vos teneis mi corazon.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>M</big>i corazon me han robado;<br>
+Y Amor viendo mis enojos,<br>
+Me dijo: Fuéte llevado<br>
+Por los mas hermosos ojos,<br>
+Que desque vivo he mirado.<br>
+Gracias sobrenaturales<br>
+Te lo tienen en prision.<br>
+Y si Amor tiene razon,<br>
+Señora, por las señales,<br>
+<em>Vos teneis mi corazon.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Qué veré que me contente?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>esque una vez yo miré,<br>
+Señora, vuestra beldad,<br>
+Jamas por mi voluntad<br>
+Los ojos de vos quité.<br>
+Pues sin vos placer no siente<br>
+Mi vida, ni lo desea,<br>
+Si no quereis que yo os vea,<br>
+<em>Qué veré que me contente?</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Sem vós, e com meu cuidado. <span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uerendo Amor esconder-vos<br>
+Em parte que vos não visse,<br>
+Co'o extremo de querer-vos<br>
+Cegou-me os olhos com ver-vos,<br>
+Levou-vos, sem que vos visse.<br>
+Eu cego, mas atinado,<br>
+Quando vi que vos não via,<br>
+Do mesmo Amor indignado,<br>
+Ja vêdes qual ficaria<br>
+<em>Sem vós e com meu cuidado.</em>
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Retrato, vós não sois meu;<br>
+Retratárão-vos mui mal;<br>
+Que a serdes meu natural,<br>
+Foreis mofino como eu.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>I</big>ndaqu'em vós a arte vença<br>
+O que o natural tẽe dado,<br>
+Não fostes bem retratado;<br>
+Que ha em vós mais differença,<br>
+Que no vivo do pintado.<br>
+Se o lugar se considera<br>
+Do alto estado, que vos deu<br>
+A sorte, qu'eu mais quizera;<br>
+Se he qu'eu sou quem d'antes era,<br>
+<em>Retrato, vós não sois meu.</em><br>
+<br>
+Vós na vossa glória pôsto,<br>
+Eu na minha sepultura, <span class="pn"><a name="pag_124">{124}</a></span><br>
+Vós com bens, eu com desgôsto;<br>
+Pareceis-vos ao meu rosto,<br>
+E não ja á minha ventura.<br>
+E pois nella e vós errarão<br>
+O qu'em mi he principal,<br>
+Muito em ambos s'enganárão.<br>
+Se por mi vós retratárão,<br>
+<em>Retratárão-vos mui mal.</em><br>
+<br>
+Mas se esse rosto fingido<br>
+Quizerão representar,<br>
+E houverão por bom partido<br>
+Dar-vos a alma do sentido<br>
+Para a glória do lugar;<br>
+Víreis, pôsto nessa alteza,<br>
+Que vos não ha cousa igual;<br>
+E que nem a maior mal<br>
+Podeis vir, nem mor baixeza,<br>
+<em>Que a serdes meu natural.</em><br>
+<br>
+Por isso não confesseis<br>
+Serdes meu, qu'he desatino,<br>
+Com que o lugar perdereis:<br>
+Se conservar-vos quereis,<br>
+Blazonae que sois divino.<br>
+Que se nesta occasião<br>
+Conhecessem qu'ereis meu,<br>
+Por meu vos derão de mão,<br>
+. . . . . . . . . .<br>
+<em>Fôreis mofino, como eu.</em> <span class="pn"><a name="pag_125">{125}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Foi-se gastando a esperança,<br>
+Fui entendendo os enganos;<br>
+Do mal ficárão-me os danos,<br>
+E do bem só a lembrança.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>N</big>unca em prazeres passados<br>
+Tive firmeza segura.<br>
+Antes tão arrebatados,<br>
+Qu'inda não erão chegados,<br>
+Quando mos levou ventura.<br>
+E como quem desconfia<br>
+Ter em tal sorte mudança,<br>
+No meio desta porfia,<br>
+De quanto bem pretendia<br>
+<em>Foi-se gastando a esperança.</em><br>
+<br>
+Não tive por desatino<br>
+A occasião de perdella;<br>
+Mas foi culpa do destino,<br>
+Que a ninguem, como mais dino,<br>
+Amor pudéra sostella.<br>
+Dei-lhe tudo o qu'era seu,<br>
+Não receando taes danos<br>
+Deste, a quem alma lhe deu:<br>
+Quando ja não era meu,<br>
+<em>Fui entendendo os enganos.</em><br>
+<br>
+Fiquei deste mal sobejo<br>
+A quem a causa compete<br>
+Dizer-lhe tudo o que vejo,<br>
+Que Amor acceita o desejo,<br>
+Mas mente no que promete. <span class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span><br>
+Que se a mi se me obrigou<br>
+A dar-me bens soberanos,<br>
+Foi engano que ordenou;<br>
+Que do bem tudo levou,<br>
+<em>Do mal ficárão-me os danos.</em><br>
+<br>
+E se dor tão desigual<br>
+Soffro em mi com padecellos,<br>
+Quero de novo soffrellos;<br>
+Que por a causa ser tal,<br>
+Não determino offendellos.<br>
+Dobre-se o mal, falte a vida,<br>
+Cresça a fé, falte a esperança,<br>
+Pois foi mal agradecida;<br>
+Fique a dor n'alma imprimida,<br>
+<em>E do bem só a lembrança.</em>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">E<small>NDECHAS A</small> B<small>ARBARA</small> E<small>SCRAVA.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>quella captiva,<br>
+Que me tẽe captivo,<br>
+Porque nella vivo,<br>
+Ja não quer que viva.<br>
+Eu nunca vi rosa<br>
+Em suaves mólhos,<br>
+Que para meus olhos<br>
+Fosse mais formosa.<br>
+<br>
+Nem no campo flores,<br>
+Nem no ceo estrellas,<br>
+Me parecem bellas,<br>
+Como os meus amores. <span class="pn"><a name="pag_127">{127}</a></span><br>
+Rosto singular,<br>
+Olhos socegados,<br>
+Pretos e cansados,<br>
+Mas não de matar.<br>
+<br>
+Huma graça viva,<br>
+Que nelles lhe mora,<br>
+Para ser senhora<br>
+De quem he captiva.<br>
+Pretos os cabellos,<br>
+Onde o povo vão<br>
+Perde opinião,<br>
+Que os louros são bellos.<br>
+<br>
+Pretidão de Amor,<br>
+Tão doce a figura,<br>
+Que a neve lhe jura<br>
+Que trocára a cór.<br>
+Leda mansidão,<br>
+Que o siso acompanha,<br>
+Bem parece estranha,<br>
+Mas barbara não.<br>
+<br>
+Presença serena,<br>
+Que a tormenta amansa:<br>
+Nella emfim descansa<br>
+Toda minha pena.<br>
+Esta he a captiva,<br>
+Que me tẽe captivo;<br>
+E pois nella vivo,<br>
+He fôrça que viva. <span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Quem ora soubesse<br>
+Onde o Amor nasce,<br>
+Que o semeasse!
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>D</big>'Amor e seus danos<br>
+Me fiz lavrador;<br>
+Semeava amor,<br>
+E colhia enganos;<br>
+Não vi, em meus anos,<br>
+Homem que apanhasse<br>
+O que semeasse.<br>
+<br>
+Vi terra florída<br>
+De lindos abrolhos,<br>
+Lindos para os olhos,<br>
+Duros para a vida.<br>
+Mas a rez perdida,<br>
+Que tal herva pasce,<br>
+Em forte hora nasce.<br>
+<br>
+Com quanto perdi,<br>
+Trabalhava em vão:<br>
+Se semeei grão,<br>
+Grande dor colhi.<br>
+Amor nunca vi<br>
+Que muito durasse,<br>
+Que não magoasse.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Se me levão ágoas,<br>
+Nos olhos as levo. <span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e de saudade<br>
+Morrerei ou não,<br>
+Meus olhos dirão<br>
+De mi a verdade.<br>
+Por elles me atrevo<br>
+A lançar as ágoas,<br>
+Que mostrem as mágoas<br>
+Que nesta alma levo.<br>
+<br>
+As ágoas, qu'em vão<br>
+Me fazem chorar,<br>
+Se ellas são do mar,<br>
+Estas de amar são.<br>
+Por ellas relévo<br>
+Todas minhas mágoas;<br>
+Que se fôrça d'ágoas<br>
+Me leva, eu as levo.<br>
+<br>
+Todas me entristecem,<br>
+Todas são salgadas;<br>
+Porém as choradas<br>
+Doces me parecem.<br>
+Correi, doces ágoas,<br>
+Que se em vós m'enlévo,<br>
+Não doem as mágoas,<br>
+Que no peito levo.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Menina dos olhos verdes,<br>
+Porque me não vedes?
+</blockquote> <span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>E</big>lles verdes são,<br>
+E tẽe por usança<br>
+Na côr esperança,<br>
+E nas obras não.<br>
+Vossa condição<br>
+Não he d'olhos verdes,<br>
+Porque me não vêdes.<br>
+<br>
+Isenções a mólhos<br>
+Qu'elles dizem terdes,<br>
+Não são d'olhos verdes,<br>
+Nem de verdes olhos.<br>
+Sirvo de giolhos,<br>
+E vós não me credes,<br>
+Porque me não vêdes.<br>
+<br>
+Havião de ser,<br>
+Porque possa vê-los,<br>
+Que huns olhos tão bellos<br>
+Não se hão d'esconder:<br>
+Mas fazeis-me crer,<br>
+Que ja não são verdes,<br>
+Porque me não vêdes.<br>
+<br>
+Verdes não o são,<br>
+No que alcanço delles;<br>
+Verdes são aquelles<br>
+Qu'esperança dão.<br>
+Se na condição<br>
+Está serem verdes,<br>
+Porque me não vedes? <span class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Trocae o cuidado,<br>
+Senhora, comigo;<br>
+Vereis o perigo,<br>
+Qu'he ser desamado.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e trocar desejo<br>
+O amor entre nós,<br>
+He para qu'em vós<br>
+Vejais o que vejo.<br>
+E sendo trocado<br>
+Este amor comigo,<br>
+Ser-vos-ha castigo<br>
+Terdes meu cuidado.<br>
+<br>
+Tendes o sentido<br>
+D'Amor livre e isento,<br>
+E cuidais qu'he vento<br>
+Ser tão mal querido.<br>
+Não seja o cuidado<br>
+Tão vosso inimigo,<br>
+Que queira o perigo<br>
+De ser desamado.<br>
+<br>
+Mas nunca foi tal<br>
+Este meu querer,<br>
+Que a quem tanto quer,<br>
+Queira tanto mal<br>
+Seja eu maltratado,<br>
+E nunca o castigo<br>
+Vos mostre o perigo,<br>
+Qu'he ser desamado. <span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">Á <small>TENÇÃO DE</small> M<small>IRAGUARDA.</small>
+
+<blockquote>
+Ver, e mais guardar<br>
+De ver outro dia,<br>
+Quem o acabaria?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>D</big>a lindeza vossa,<br>
+Dama, quem a vê,<br>
+Impossivel he<br>
+Que guardar-se possa.<br>
+Se faz tanta mossa<br>
+Ver-vos hum só dia,<br>
+Quem se guardaria?<br>
+<br>
+Melhor deve ser<br>
+Neste aventurar<br>
+Ver, e não guardar,<br>
+Que guardar e ver.<br>
+Ver e defender,<br>
+Muito bom sería,<br>
+Mas quem poderia?
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Irme quiero, madre,<br>
+Á aquella galera,<br>
+Con el marinero,<br>
+Á ser marinera.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>M</big>adre, si me fuere,<br>
+Do quiera que vó,<br>
+No lo quiero yo, <span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span><br>
+Que el Amor lo quiere.<br>
+Aquel niño fiero,<br>
+Hace que me mueva<br>
+Por un marinero<br>
+Á ser marinera.<br>
+<br>
+El que todo puede,<br>
+Madre, no podrá,<br>
+Pues el alma vá,<br>
+Que el cuerpo se quede.<br>
+Con él por que muero<br>
+Voy, porque no muera;<br>
+Que si es marinero,<br>
+Seré marinera.<br>
+<br>
+Es tirana ley<br>
+Del niño Señor,<br>
+Que por un amor<br>
+Se deseche un Rey.<br>
+Pues desta manera<br>
+Quiero irme, quiero<br>
+Por un marinero<br>
+Á ser marinera.<br>
+<br>
+Decid, ondas, cuando<br>
+Vistes vos doncella,<br>
+Siendo tierna y bella,<br>
+Andar navegando?<br>
+Mas qué no se espera<br>
+Daquel niño fiero?<br>
+Vea yo quien quiero,<br>
+Sea marinera. <span class="pn"><a name="pag_134">{134}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Saudade minha,<br>
+Quando vos veria?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>E</big>ste tempo vão,<br>
+Esta vida escassa,<br>
+Para todos passa,<br>
+Só para mi não.<br>
+Os dias se vão<br>
+Sem ver este dia,<br>
+Quando vos veria.<br>
+<br>
+Vêde esta mudança<br>
+Se está bem perdida,<br>
+Em tão curta vida<br>
+Tão longa esperança.<br>
+Se este bem se alcança,<br>
+Tudo soffreria,<br>
+Quando vos veria.<br>
+<br>
+Saudosa dor,<br>
+Eu bem vos entendo;<br>
+Mas não me defendo,<br>
+Porque offendo Amor.<br>
+Se fôsseis maior,<br>
+Em maior valia<br>
+Vos estimaria.<br>
+<br>
+Minha saudade,<br>
+Charo penhor meu,<br>
+A quem direi eu<br>
+Tamanha verdade?<br>
+Na minha vontade <span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span><br>
+De noite e de dia<br>
+Sempre vos teria.
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Vida da minha alma,<br>
+Não vos posso ver:<br>
+Isto não he vida<br>
+Para se soffrer.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uando vos eu via,<br>
+Esse bem lograva,<br>
+A vida estimava,<br>
+Pois então vivia;<br>
+Porque vos servia<br>
+Só para vos ver.<br>
+Ja que vos não vejo<br>
+Para qu'he viver?<br>
+<br>
+Vivo sem razão,<br>
+Porqu'em minha dor<br>
+Não a poz Amor;<br>
+Que inimigos são.<br>
+Mui grande traição<br>
+Me obriga a fazer<br>
+Que viva, Senhora,<br>
+Sem vos poder ver.<br>
+<br>
+Não me atrevo ja,<br>
+Minha tão querida,<br>
+A chamar-vos vida,<br>
+Porque a tenho má. <span class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span><br>
+Ninguem cuidará,<br>
+Que isto póde ser,<br>
+Sendo-me vós vida,<br>
+Não poder viver.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Coifa de beirame<br>
+Namorou Joanne.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>P</big>or cousa tão pouca<br>
+Andas namorado?<br>
+Amas o toucado,<br>
+E não quem o touca?<br>
+Ando cega e louca<br>
+Por ti, meu Joanne,<br>
+Tu pelo beirame.<br>
+<br>
+Amas o vestido?<br>
+Es falso amador.<br>
+Tu não vês que Amor<br>
+Se pinta despido?<br>
+Cego e mui perdido<br>
+Andas por beirame,<br>
+E eu por ti, Joanne.<br>
+<br>
+A todos encanta<br>
+Tua parvoice;<br>
+De tua doudice<br>
+Gonçalo s'espanta,<br>
+E zombando canta:<br>
+Coifa de beirame,<br>
+Namorou Joanne. <span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span><br>
+<br>
+Eu não sei que viste<br>
+Neste meu toucado,<br>
+Que tão namorado<br>
+Delle te sentiste.<br>
+Não te veja triste;<br>
+Ama-me, Joanne,<br>
+E deixa o beirame.<br>
+<br>
+Joanne gemia,<br>
+Maria chorava,<br>
+E assi lamentava<br>
+O mal que sentia:<br>
+(Os olhos feria,<br>
+E não o beirame,<br>
+Que matou Joanne)<br>
+<br>
+Não sei do que vem<br>
+Amares vestido;<br>
+Que o mesmo Cupido<br>
+Vestido não tem.<br>
+Sabes de que vem<br>
+Amares beirame?<br>
+Vem de ser Joanne.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Se Helena apartar<br>
+Do campo seus olhos,<br>
+Nascerão abrolhos.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>A</big> verdura amena,<br>
+Gados, que pasceis, <span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span><br>
+Sabei que a deveis<br>
+Aos olhos d'Helena.<br>
+Os ventos serena,<br>
+Faz flores d'abrolhos<br>
+O ar de seus olhos.<br>
+<br>
+Faz serras florídas,<br>
+Faz claras as fontes:<br>
+S'isto faz nos montes,<br>
+Que fara nas vidas?<br>
+Tra-las suspendidas,<br>
+Como hervas em mólhos,<br>
+Na luz de seus olhos.<br>
+<br>
+Os corações prende<br>
+Com graça inhumana;<br>
+De cada pestana<br>
+Hum'alma lhe pende.<br>
+Amor se lhe rende,<br>
+E pôsto em giolhos,<br>
+Pasma nos seus olhos.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Verdes são os campos<br>
+De côr de limão;<br>
+Assi são os olhos<br>
+Do meu coração.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>C</big>ampo, que t'estendes<br>
+Com verdura bella;<br>
+Ovelhas, que nella <span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span><br>
+Vosso pasto tendes;<br>
+D'hervas vos mantendes<br>
+Que traz o verão;<br>
+E eu das lembranças<br>
+Do meu coração.<br>
+<br>
+Gados, que pasceis<br>
+Com contentamento,<br>
+Vosso mantimento<br>
+Não no entendeis.<br>
+Isso que comeis,<br>
+Não são hervas, não;<br>
+São graça dos olhos<br>
+Do meu coração.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Verdes são as hortas<br>
+Com rosas e flores:<br>
+Moças, que as régão,<br>
+Matão-me d'amores.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>E</big>ntre estes penedos<br>
+Que daqui parecem,<br>
+Verdes hervas crescem,<br>
+Altos arvoredos.<br>
+Vai destes rochedos<br>
+Ágoa, com que as flores<br>
+D'outras são regadas,<br>
+Que mátão d'amores.<br>
+<br>
+Com ágoa, que cai<br>
+Daquella espessura, <span class="pn"><a name="pag_140">{140}</a></span><br>
+Outra se mistura,<br>
+Que dos olhos sai:<br>
+Toda junta vai<br>
+Regar brancas flores;<br>
+Onde ha outros olhos,<br>
+Que mátão d'amores.<br>
+<br>
+Celestes jardins,<br>
+As flores estrellas:<br>
+Hortelôas dellas<br>
+São huns seraphins.<br>
+Rosas e jasmins<br>
+De diversas côres,<br>
+Anjos, que as régão,<br>
+Mátão-me d'amores.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Menina formosa,<br>
+Dizei de que vem<br>
+Serdes rigorosa<br>
+A quem vos quer bem?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>N</big>ão sei quem assella<br>
+Vossa formosura;<br>
+Que quem he tão dura<br>
+Não póde ser bella.<br>
+Vós sereis formosa;<br>
+Mas a razão tem<br>
+Que quem he irosa,<br>
+Não parece bem. <span class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span><br>
+<br>
+A mostra he de bella,<br>
+As obras são cruas:<br>
+Pois qual destas duas<br>
+Ficará na sella?<br>
+Se ficar <em>irosa</em>,<br>
+Não vos está bem:<br>
+Fique antes <em>formosa</em>,<br>
+Que mais fôrça tem.<br>
+<br>
+O Amor formoso<br>
+Se pinta e se chama:<br>
+Se he amor, ama,<br>
+Se ama, he piedoso.<br>
+Diz agora a grosa<br>
+Que este texto tem,<br>
+Que quem he formosa<br>
+Ha de querer bem.<br>
+<br>
+Havei dó, menina,<br>
+Dessa formosura;<br>
+Que se a terra he dura,<br>
+Secca-se a bonina.<br>
+Sêde piedosa;<br>
+Não veja ninguem<br>
+Que por rigorosa<br>
+Percais tanto bem.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Tende-me mão nelle,<br>
+Que hum real me deve. <span class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>'hum real d'amor,<br>
+Dous de confiança,<br>
+E tres d'esperança,<br>
+Me foge o trédor.<br>
+Falso desamor<br>
+S'encerra naquelle<br>
+Que hum real me deve.<br>
+<br>
+Pedio-mo emprestado,<br>
+Não lhe quiz penhor:<br>
+He mao pagador;<br>
+Tendo-mo afferrado.<br>
+C'hum cordel atado,<br>
+Ao Tronco se leve;<br>
+Que hum real me deve.<br>
+<br>
+Por esta travéssa<br>
+Se vai acolhendo:<br>
+Ei-lo vai correndo,<br>
+Fugindo a grã pressa.<br>
+Nesta mão, e nessa<br>
+O falso se atreve,<br>
+Que hum real me deve.<br>
+<br>
+Comprou-me o amor,<br>
+Sem lhe fazer preço:<br>
+Eu não lhe mereço<br>
+Dar-me desfavor.<br>
+Dá-me tanta dor,<br>
+Que ando apos elle<br>
+Pelo que me deve.<br>
+<br>
+Eu de cá bradando,<br>
+Elle vai fugindo; <span class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span><br>
+Elle sempre rindo,<br>
+Eu sempre chorando.<br>
+E de quando em quando<br>
+No amor se atreve,<br>
+Como que não deve.<br>
+<br>
+A fallar verdade<br>
+Elle ja pagou;<br>
+Mas ainda ficou<br>
+Devendo ametade.<br>
+Minha liberdade<br>
+He a que me deve:<br>
+Só nella se atreve.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Dó la mi ventura,<br>
+Que no veo alguna?
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>S</big>epa quien padece,<br>
+Que en la sepultura<br>
+Se esconde ventura<br>
+De quien la merece.<br>
+Allá me parece,<br>
+Que quiere fortuna<br>
+Que yo halle alguna.<br>
+<br>
+Naciendo mesquino,<br>
+Dolor fué mi cama;<br>
+Tristeza fué el ama,<br>
+Cuidado el padrino.<br>
+Vestióse el destino <span class="pn"><a name="pag_144">{144}</a></span><br>
+Negra vestidura,<br>
+Huyó la ventura.<br>
+<br>
+No se halló tormento,<br>
+Que alli no se hallase;<br>
+Ni bien, que pasase,<br>
+Sinó como viento.<br>
+Oh qué nacimiento,<br>
+Que luego en la cuna<br>
+Me siguió fortuna!<br>
+<br>
+Esta dicha mia,<br>
+Que siempre busqué,<br>
+Buscándola, hallé<br>
+Que no la hallaria;<br>
+Que quien nace en dia<br>
+D'estrella tan dura,<br>
+Nunca halla ventura.<br>
+<br>
+No puso mi estrella<br>
+Mas ventura em min:<br>
+Ansí vive en fin<br>
+Quien nace sin ella.<br>
+No me quejo della;<br>
+Quéjome que atura<br>
+Vida tan escura.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p>
+
+<blockquote>
+Vida de minha alma.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Volta.</em></p>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>ous tormentos vejo<br>
+Grandes por extremo:<br>
+Se vos vejo, temo, <span class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span><br>
+E se não, desejo.<br>
+Quando me despejo,<br>
+E venho a escolher,<br>
+Temendo o desejo,<br>
+Desejo temer.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">C<small>ANTIGA ALHEIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+Pastora da serra,<br>
+Da serra da Estrella,<br>
+Perco-me por ella.
+</blockquote>
+
+<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p>
+
+
+<blockquote>
+<big>N</big>os seus olhos bellos<br>
+Tanto Amor se atreve,<br>
+Que abraza entre a neve<br>
+Quantos ousão vellos.<br>
+Não sólta os cabellos<br>
+Aurora mais bella:<br>
+Perco-me por ella.<br>
+<br>
+Não teve esta serra<br>
+No meio d'altura<br>
+Mais que a formosura,<br>
+Que nella se encerra.<br>
+Bem ceo fica a terra,<br>
+Que tẽe tal estrella:<br>
+Perco-me por ella.<br>
+<br>
+Sendo entre pastores<br>
+Causa de mil males,<br>
+Não se ouvem nos vales<br>
+Senão seus louvores.<br>
+Eu só por amores <span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span><br>
+Não sei fallar nella,<br>
+Sei morrer por ella.<br>
+<br>
+D'alguns, que sentindo<br>
+Seu mal vão mostrando.<br>
+Se ri, não cuidando<br>
+Qu'inda paga rindo.<br>
+Eu triste, encobrindo<br>
+Só meus males della,<br>
+Perco-me por ella.<br>
+<br>
+Se flores deseja<br>
+Por ventura bellas,<br>
+Das que colhe dellas<br>
+Mil morrem d'inveja.<br>
+Não ha quem não veja<br>
+Todo o melhor nella:<br>
+Perco-me por ella.<br>
+<br>
+Se n'ágoa corrente<br>
+Seus olhos inclina,<br>
+Faz a luz divina<br>
+Parar a corrente.<br>
+Tal se vê, que sente<br>
+Por ver-se a ágoa nella:<br>
+Perco-me por ella.
+</blockquote>
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">E<small>NDECHAS.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>ós sois huma Dama<br>
+Das feias do mundo;<br>
+De toda a má fama<br>
+Sois cabo profundo. <span class="pn"><a name="pag_147">{147}</a></span><br>
+<br>
+A vossa figura<br>
+Não he para ver;<br>
+Em vosso poder<br>
+Não ha formosura.<br>
+<br>
+Vós fostes dotada<br>
+De toda a maldade;<br>
+Perfeita beldade<br>
+De vós he tirada.<br>
+<br>
+Sois muito acabada<br>
+De taixa e de glosa:<br>
+Pois quanto a formosa,<br>
+Em vós não ha nada.<br>
+<br>
+Do grão merecer<br>
+Sois bem apartada;<br>
+Andais alongada<br>
+Do bem parecer.<br>
+<br>
+Bem claro mostrais<br>
+Em vós fealdade:<br>
+Não ha hi maldade,<br>
+Que não precedais.<br>
+<br>
+De fresco carão<br>
+Vos vejo ausente;<br>
+Em vós he presente<br>
+A má condição.<br>
+<br>
+De ter perfeição<br>
+Mui alheia estais;<br>
+Mui muito alcançais<br>
+De pouca razão. <span class="pn"><a name="pag_148">{148}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<p class="separador">&mdash;oOo&mdash;</p>
+
+<p class="centrado">E<small>NDECHAS.</small></p>
+
+<blockquote>
+<big>V</big>ai o bem fugindo,<br>
+Cresce o mal co'os annos,<br>
+Vão-se descubrindo<br>
+Co'o tempo os enganos.<br>
+<br>
+Amor e alegria.<br>
+Menos tempo dura.<br>
+Triste de quem fia<br>
+Nos bens da ventura!<br>
+<br>
+Bem sem fundamento<br>
+Tẽe certa a mudança,<br>
+Certo o sentimento<br>
+Na dor da lembrança.<br>
+<br>
+Quem vive contente,<br>
+Viva receoso:<br>
+Mal que se não sente,<br>
+He mais perigoso.<br>
+<br>
+Quem males sentio,<br>
+Saiba ja temer;<br>
+E pelo que vio<br>
+Julgue o qu'ha de ser.<br>
+<br>
+Alegre vivia,<br>
+Triste vivo agora;<br>
+Chora a alma de dia,<br>
+E de noite chora.<br>
+<br>
+Confesso os enganos<br>
+De meu pensamento:<br>
+Bem de tantos annos<br>
+Foi-se n'hum momento.<br>
+<br>
+Meus olhos, que vistes?<br>
+Pois vos atrevestes, <span class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span><br>
+Chorae, olhos tristes,<br>
+O bem que perdestes.<br>
+<br>
+A luz do sol pura<br>
+Só a vós se negue;<br>
+Seja noite escura,<br>
+Nunca a manhãa chegue.<br>
+<br>
+O campo floreça,<br>
+Murmurem as ágoas,<br>
+Tudo me entristeça,<br>
+Cresção minhas mágoas.<br>
+<br>
+Quizera mostrar<br>
+O mal que padeço;<br>
+Não lhe dá lugar<br>
+Quem lhe deu comêço.<br>
+<br>
+Em tristes cuidados<br>
+Passo a triste vida;<br>
+Cuidados cansados,<br>
+Vida aborrecida.<br>
+<br>
+Nunca pude crer<br>
+O que agora creio:<br>
+Cegou-me o prazer<br>
+Do mal que me veio.<br>
+<br>
+Ah ventura minha,<br>
+Como me negaste!<br>
+Hum so bem que tinha,<br>
+Porque mo roubaste?<br>
+<br>
+Triste fantasia<br>
+Quanta cousa guarda!<br>
+Quem ja visse o dia,<br>
+Que tanto lhe tarda!<br>
+<br>
+Nesta vida cega <span class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span><br>
+Nada permanece;<br>
+O qu'inda não chega,<br>
+Ja desaparece.<br>
+<br>
+Qualquer esperança<br>
+Foge como o vento:<br>
+Tudo faz mudança,<br>
+Salvo meu tormento.<br>
+<br>
+Amor cego e triste,<br>
+Quem o tẽe padece:<br>
+Mal quem lhe resiste!<br>
+Mal quem lhe obedece!<br>
+<br>
+No meu mal esquivo<br>
+Sei como Amor trata:<br>
+E pois nelle vivo,<br>
+Nenhum amor mata. <span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span>
+</blockquote>
+
+</div>
+
+
+<div id="sextinas">
+
+
+<h2>SEXTINAS.</h2>
+
+
+<h3>SEXTINA I.</h3>
+
+
+<blockquote>
+<big>F</big>oge-me pouco a pouco a curta vida,<br>
+Se por caso he verdade qu'inda vivo;<br>
+Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos;<br>
+Chóro por o passado; e em quanto fallo,<br>
+Se me passão os dias passo a passo.<br>
+Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena.<br>
+<br>
+Que maneira tão aspera de pena!<br>
+Pois nunca hum'hora vio tão longa vida<br>
+Em que do mal mover se visse hum passo.<br>
+Que mais me monta ser morto que vivo?<br>
+Para que chóro, emfim? para que fallo,<br>
+Se lograr-me não pude de meus olhos?<br>
+<br>
+Oh formosos, gentís e claros olhos,<br>
+Cuja ausencia me move a tanta pena,<br>
+Quanta se não comprende em quanto fallo!<br>
+Se no fim de tão longa e curta vida<br>
+De vós m'inflammasse inda o raio vivo,<br>
+Por bem teria todo o mal que passo.<br>
+<br>
+Mas bem sei que primeiro o extremo passo<br>
+Me ha de vir a cerrar os tristes olhos,<br>
+Que Amor me mostre aquelles por quem vivo.<br>
+Testimunhas serão a tinta e penna, <span class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span><br>
+Qu'escrevêrão de tão molesta vida<br>
+O menos que passei, e o mais que fallo.<br>
+<br>
+Oh que não sei qu'escrevo, nem que fallo!<br>
+Pois se d'hum pensamento em outro passo,<br>
+Vejo tão triste genero de vida,<br>
+Que se lhe não valerem tanto os olhos,<br>
+Não posso imaginar qual seja a penna<br>
+Qu'esta pena traslade com que vivo.<br>
+<br>
+N'alma tenho contino hum fogo vivo,<br>
+Que se não respirasse no que fallo,<br>
+Estaria ja feita cinza a pena;<br>
+Mas sôbre a maior dor que soffro e passo,<br>
+O temperão com lagrimas os olhos:<br>
+Com que, se foge, não se acaba a vida.<br>
+<br>
+Morrendo estou na vida, e em morte vivo;<br>
+Vejo sem olhos, e sem lingua fallo;<br>
+E juntamente passo gloria e pena.
+</blockquote>
+
+
+<h3>SEXTINA II.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>A</big> culpa de meu mal só tẽe meus olhos,<br>
+Pois que derão a Amor entrada n'alma,<br>
+Para que perdesse eu a liberdade.<br>
+Mas quem póde fugir a huma brandura,<br>
+Que despois de vos pôr em tantos males,<br>
+Dá por bens o perder por ella a vida?<br>
+<br>
+Assaz de pouco faz quem perde a vida<br>
+Por condição tão dura e brandos olhos;<br>
+Pois de tal qualidade são meus males, <span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span><br>
+Que o mais pequeno delles toca n'alma.<br>
+Não s'engane com mostras de brandura<br>
+Quem quizer conservar a liberdade.<br>
+<br>
+Roubadora he de toda liberdade<br>
+(E oxalá perdoasse á triste vida!)<br>
+Esta que o falso Amor chama brandura,<br>
+Ai meus antes imigos, que meus olhos!<br>
+Que mal vos tinha feito esta vossa alma,<br>
+Para vós lhe fazerdes tantos males?<br>
+<br>
+Cresção de dia em dia embora os males;<br>
+Perca-se embora a antigua liberdade;<br>
+Transforme-se em Amor esta triste alma;<br>
+Padeça embora esta innocente vida;<br>
+Que bem me págão tudo estes meus olhos,<br>
+Quando de outros, se os vem, vem a brandura.<br>
+<br>
+Mas como nelles póde haver brandura,<br>
+Se causadores são de tantos males?<br>
+Engano foi d'Amor, porque meus olhos<br>
+Dessem por bem perdida a liberdade.<br>
+Ja não tenho que dar senão a vida,<br>
+Se a vida ja não deo, quem ja deo a alma.<br>
+<br>
+Que póde ja'sperar quem a sua alma<br>
+Captiva eterna fez d'huma brandura,<br>
+Que quando vos dá morte, diz qu'he vida?<br>
+Forçado me he gritar nestes meus males,<br>
+Olhos meus: pois por vós a liberdade<br>
+Perdi, de vós me queixarei, meus olhos.<br>
+<br>
+Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma,<br>
+Pois dais a liberdade a tal brandura,<br>
+Que para dar mais males, dá mais vida. <span class="pn"><a name="pag_154">{154}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<h3>SEXTINA III.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>O</big>h triste, oh tenebroso, oh cruel dia,<br>
+Amanhecido só para meu damno!<br>
+Pudeste-me apartar daquella vista<br>
+Por quem vivia com meu mal contente?<br>
+Ah se o supremo fôras desta vida,<br>
+Qu'em ti se começára a minha glória!<br>
+<br>
+Mas como eu não nasci para ter glória,<br>
+Senão pena que cresça cada dia,<br>
+O ceo m'está negando o fim da vida,<br>
+Porque não tenha fim com ella o damno:<br>
+Para que nunca possa ser contente,<br>
+Da vista me tirou aquella vista.<br>
+<br>
+Suave, deleitosa, alegre vista,<br>
+Donde pendia toda a minha gloria,<br>
+Por quem na mor tristeza fui contente;<br>
+Quando será que veja aquelle dia<br>
+Em que deixe de ver tão grave damno,<br>
+E em que me deixe tão penosa vida?<br>
+<br>
+Como desejarei humana vida,<br>
+Ausente d'hũa mais que humana vista,<br>
+Que tão glorioso me fazia o damno!<br>
+Vejo o meu damno sem a sua glória;<br>
+Á minha noite falta ja seu dia:<br>
+Triste tudo se vê, nada contente.<br>
+<br>
+Pois sem ti ja não posso ser contente,<br>
+Mal posso desejar sem ti a vida;<br>
+Sem ti ja ver não posso claro dia, <span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span><br>
+Não posso sem te ver desejar vista;<br>
+Na tua vista só se via a glória,<br>
+Não ver a glória tua he ver meu damno.<br>
+<br>
+Não via maior glória que meu damno,<br>
+Quando do damno meu eras contente:<br>
+Agora me he tormento a maior glória,<br>
+Que póde prometter-me Amor na vida,<br>
+Pois tornar-te não póde á minha vista,<br>
+Que só na tua achava a luz do dia.<br>
+<br>
+E pois de dia em dia cresce o damno,<br>
+Nem posso sem tal vista ser contente,<br>
+Só com perder a vida acharei glória.
+</blockquote>
+
+
+<h3>SEXTINA IV.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>empre me queixarei desta crueza<br>
+Que Amor usou comigo quando o tempo,<br>
+A pezar de meu duro e triste fado,<br>
+A meus males queria dar remedio,<br>
+Em apartar de mi aquella vista,<br>
+Por quem me contentava a triste vida.<br>
+<br>
+Levára-me, oxalá, traz ella a vida,<br>
+Para que não sentira esta crueza<br>
+De me ver apartado de tal vista!<br>
+E praza a Deos não veja o proprio tempo<br>
+Em mi, sem esperança de remedio,<br>
+A desesperação d'hum triste fado!<br>
+<br>
+Porém ja acabe o triste e duro fado! <span class="pn"><a name="pag_156">{156}</a></span><br>
+Acabe o tempo ja tão triste vida,<br>
+Qu'em sua morte só tẽe seu remedio.<br>
+O deixar-me viver he mor crueza,<br>
+Pois desespéro ja d'em algum tempo<br>
+Tornar a ver aquella doce vista.<br>
+<br>
+Duro Amor! se pagava só tal vista<br>
+Todo o mal que por ti me fez meu fado,<br>
+Porque quizeste que a levasse o tempo?<br>
+E se o assi quizeste, porque a vida<br>
+Me deixas para ver tanta crueza,<br>
+Quando em não vê-la só vejo o remedio?<br>
+<br>
+Tu só de minha dor eras remedio,<br>
+Suave, deleitosa e bella vista.<br>
+Sem ti, que posso eu ver senão crueza?<br>
+Sem ti, qual bem me póde dar o fado,<br>
+Se não he consentir que acabe a vida?<br>
+Mas elle della me dilata o tempo.<br>
+<br>
+Azas para voar vejo no tempo,<br>
+Que com voar a muitos foi remedio;<br>
+E só não vôa para a minha vida.<br>
+Para que a quero eu sem tua vista?<br>
+Para que quer tambem o triste fado<br>
+Que não acabe o tempo tal crueza?<br>
+<br>
+Não poderão fazer crueza, ou tempo,<br>
+Fôrça de fado, ou falta de remedio,<br>
+Qu'essa vista m'esqueça em toda a vida. <span class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+</div>
+
+
+<div id="elegias">
+
+<h2>ELEGIAS</h2>
+
+
+<h3>ELEGIA I.</h3>
+
+
+<blockquote>
+<big>O</big> sulmonense Ovidio desterrado<br>
+Na aspereza do Ponto, imaginando<br>
+Ver-se de seus Penates apartado;<br>
+<br>
+Sua chara mulher desamparando,<br>
+Seus doces filhos, seu contentamento,<br>
+De sua Patria os olhos apartando;<br>
+<br>
+Não podendo encobrir o sentimento,<br>
+Aos montes ja, ja aos rios se queixava<br>
+De seu escuro e triste nascimento.<br>
+<br>
+O curso das estrellas contemplava,<br>
+E aquella ordem com que discorria<br>
+O ceo e o ar, e a terra adonde estava.<br>
+<br>
+Os peixes por o mar nadando via,<br>
+As feras por o monte procedendo<br>
+Como o seu natural lhes permittia.<br>
+<br>
+De suas fontes via estar nascendo<br>
+Os saudosos rios de crystal,<br>
+Á sua natureza obedecendo.<br>
+<br>
+Assi só, de seu proprio natural<br>
+Apartado, se via em terra estranha,<br>
+A cuja triste dor não acha igual. <span class="pn"><a name="pag_158">{158}</a></span><br>
+<br>
+Só sua doce Musa o acompanha<br>
+Nos soidosos versos qu'escrevia,<br>
+E nos lamentos com que o campo banha.<br>
+<br>
+Dest'arte me figura a phantasia<br>
+A vida com que morro, desterrado<br>
+Do bem qu'em outro tempo possuia.<br>
+<br>
+Aqui contemplo o gôsto ja passado,<br>
+Que nunca passará por a memoria<br>
+De quem o traz na mente debuxado.<br>
+<br>
+Aqui vejo caduca e debil glória<br>
+Desenganar meu êrro co'a mudança<br>
+Que faz a fragil vida transitoria.<br>
+<br>
+Aqui me representa esta lembrança<br>
+Quão pouca culpa tenho; e m'entristece<br>
+Ver sem razão a pena que m'alcança.<br>
+<br>
+Que a pena que com causa se padece,<br>
+A causa tira o sentimento della;<br>
+Mas muito doe a que se não merece.<br>
+<br>
+Quando a roxa manhãa, dourada e bella,<br>
+Abre as portas ao sol e cahe o orvalho,<br>
+E torna a seus queixumes Philomela;<br>
+<br>
+Este cuidado, que co'o somno atalho,<br>
+Em sonhos me parece; que o que a gente<br>
+Por seu descanso tẽe me dá trabalho.<br>
+<br>
+E despois de acordado cegamente,<br>
+(Ou, por melhor dizer, desacordado,<br>
+Que pouco acôrdo logra hum descontente)<br>
+<br>
+Daqui me vou, com passo carregado,<br>
+A hum outeiro erguido, e alli m'assento,<br>
+Soltando toda a redea a meu cuidado.<br>
+<br>
+Despois de farto ja de meu tormento, <span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span><br>
+Estendo estes meus olhos saudosos<br>
+Á parte donde tinha o pensamento.<br>
+<br>
+Não vejo senão montes pedregosos;<br>
+E sem graça e sem flor os campos vejo,<br>
+Que ja floridos víra, e graciosos.<br>
+<br>
+Vejo o puro, suave e rico Tejo,<br>
+Com as concavas barcas, que nadando<br>
+Vão pondo em doce effeito o seu desejo.<br>
+<br>
+Humas com brando vento navegando,<br>
+Outras com leves reinos brandamente<br>
+As crystallinas ágoas apartando.<br>
+<br>
+D'alli fallo com a ágoa que não sente<br>
+Com cujo sentimento est'alma sae<br>
+Em lagrimas desfeita claramente.<br>
+<br>
+Ó fugitivas ondas, esperae;<br>
+Que pois me não levais em companhia,<br>
+Ao menos estas lagrimas levae.<br>
+<br>
+Até que venha aquelle alegre dia<br>
+Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo.<br>
+Mas tanto tempo, quem o passaria?<br>
+<br>
+Não póde tanto bem chegar tão cedo:<br>
+Porque primeiro a vida acabará,<br>
+Que se acabe tão aspero degredo.<br>
+<br>
+Mas essa triste morte que virá,<br>
+S'em tão contrário estado me acabasse,<br>
+Est'alma assi impaciente adonde irá?<br>
+<br>
+Que se ás portas Tartaricas chegasse,<br>
+Temo que tanto mal por a memoria<br>
+Nem ao passar do Lethe lhe passasse.<br>
+<br>
+Que se a Tantalo e Ticio for notoria<br>
+A pena com que vai, e que a atormenta, <span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span><br>
+A pena que lá tẽe, terão por glória.<br>
+<br>
+Essa imaginação, emfim, me augmenta<br>
+Mil mágoas no sentido, porque a vida<br>
+De imaginações tristes se contenta.<br>
+<br>
+Que pois de todo vive consumida,<br>
+Porque o mal que possue se resuma,<br>
+Imagina na glória possuida.<br>
+<br>
+Até que a noite eterna me consuma,<br>
+Ou veja aquelle dia desejado<br>
+Em que a Fortuna faça o que costuma;<br>
+<br>
+Se nella ha hi mudar-se hum triste estado.
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA II.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>quella que d'amor descomedido<br>
+Por o formoso moço se perdeo,<br>
+Que só por si d'amores foi perdido;<br>
+<br>
+Despois que a deosa em pedra a converteo<br>
+De seu humano gesto verdadeiro,<br>
+A última voz só lhe concedeo.<br>
+<br>
+Assi meu mal do proprio ser primeiro<br>
+Outra cousa nenhũa me consente,<br>
+Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.<br>
+<br>
+E se huma pouca vida, estando ausente,<br>
+Me deixa Amor, he porque o pensamento<br>
+Sinta a perda do bem d'estar presente.<br>
+<br>
+Senhor, se vos espanta o soffrimento<br>
+Que tenho em tanto mal para escrevê-lo, <span class="pn"><a name="pag_161">{161}</a></span><br>
+Furto este breve espaço a meu tormento.<br>
+<br>
+Porque quem tẽe poder para soffrê-lo,<br>
+Sem se acabar a vida co'o cuidado,<br>
+Tambem terá poder para dizê-lo.<br>
+<br>
+Nem eu escrevo hum mal ja acostumado;<br>
+Mas n'alma minha triste e saudosa<br>
+A saudade escreve, e eu traslado.<br>
+<br>
+Ando gastando a vida trabalhosa,<br>
+E esparzindo a contínua soidade<br>
+Ao longo d'huma praia soidosa.<br>
+<br>
+Vejo do mar a instabilidade,<br>
+Como com seu ruido impetuoso<br>
+Retumba na maior concavidade.<br>
+<br>
+De furibundas ondas poderoso,<br>
+Na terra, a seu pezar, está tomando<br>
+Lugar, em que s'estenda, cavernoso.<br>
+<br>
+Ella, como mais fraca, lh'está dando<br>
+As concavas entranhas, onde esteja<br>
+Sempre com som profundo suspirando.<br>
+<br>
+A todas estas cousas tenho inveja<br>
+Tamanha, que não sei determinar-me,<br>
+Por mais determinado que me veja.<br>
+<br>
+Se quero em tanto mal desesperar-me,<br>
+Não posso, porque Amor e saudade<br>
+Nem licença me dão para matar-me.<br>
+<br>
+Ás vezes cuido em mi, se a novidade<br>
+E estranheza das cousas, co'a mudança,<br>
+Poderião mudar huma vontade.<br>
+<br>
+E com isto figuro na lembrança<br>
+A nova terra, o novo trato humano,<br>
+A estrangeira progenie, a estranha usança. <span class="pn"><a name="pag_162">{162}</a></span><br>
+<br>
+Subo-me ao monte que Hercules Thebano<br>
+Do altissimo Calpe dividio,<br>
+Dando caminho ao mar Mediterrano;<br>
+<br>
+D'alli'stou tenteando adonde vio<br>
+O pomar das Hesperidas, matando<br>
+A serpe que a seu passo resistio.<br>
+<br>
+Estou-me em outra parte figurando<br>
+O poderoso Anteo, que derribado<br>
+Mais fôrça se lhe vinha accrescentando;<br>
+<br>
+Porém do Herculeo braço sobjugado,<br>
+No ar deixando a vida, não podendo<br>
+Dos soccorros da mãe ser ajudado.<br>
+<br>
+Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo,<br>
+Nem com as armas tão continuadas,<br>
+D'amorosas lembranças me defendo.<br>
+<br>
+Todas as cousas vejo demudadas,<br>
+Porque o tempo ligeiro não consente<br>
+Qu'estejão de firmeza acompanhadas.<br>
+<br>
+Vi ja que a Primavera, de contente,<br>
+Em variadas côres revestia<br>
+O monte, o campo, o valle, alegremente.<br>
+<br>
+Vi ja das altas aves a harmonia,<br>
+Que até duros penedos convidava<br>
+A algum suave modo d'alegria.<br>
+<br>
+Vi ja que tudo, emfim, me contentava,<br>
+E que, de muito cheio de firmeza,<br>
+Hum mal por mil prazeres não trocava.<br>
+<br>
+Tal me tẽe a mudança e estranheza,<br>
+Que se vou por os prados, a verdura<br>
+Parece que se sécca de tristeza.<br>
+<br>
+Mas isto he ja costume da ventura; <span class="pn"><a name="pag_163">{163}</a></span><br>
+Porque aos olhos que vivem descontentes,<br>
+Descontente o prazer se lhes figura.<br>
+<br>
+Oh graves e insoffriveis accidentes<br>
+De Fortuna e d'Amor! que penitencia<br>
+Tão grave dais aos peitos innocentes!<br>
+<br>
+Não basta examinar-me a paciencia<br>
+Com temores e falsas esperanças,<br>
+Sem que tambem me tente o mal de ausencia?<br>
+<br>
+Trazeis hum brando espirito em mudanças,<br>
+Para que nunca possa ser mudado<br>
+De lagrimas, suspiros e lembranças.<br>
+<br>
+E s'estiver ao mal acostumado,<br>
+Tambem no mal não consentis firmeza,<br>
+Para que nunca viva descansado.<br>
+<br>
+Ja quieto m'achava co'a tristeza;<br>
+E alli não me faltava hum brando engano.<br>
+Que tirasse desejos da fraqueza.<br>
+<br>
+Mas vendo-me enganado estar ufano,<br>
+Deo á roda a Fortuna; e deo comigo<br>
+Onde de novo chóro o novo dano.<br>
+<br>
+Ja deve de bastar o que aqui digo,<br>
+Para dar a entender o mais que calo<br>
+A quem ja vio tão aspero perigo.<br>
+<br>
+E se nos brandos peitos faz abalo<br>
+Hum peito magoado e descontente,<br>
+Que obriga a quem o ouve a consolá-lo;<br>
+<br>
+Não quero mais senão que largamente,<br>
+Senhor, me mandeis novas dessa terra;<br>
+Que alguma dellas me fara contente.<br>
+<br>
+Porque se o duro Fado me desterra<br>
+Tanto tempo do bem, que o fraco esprito <span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span><br>
+Desampare a prisão onde s'encerra;<br>
+<br>
+Ao som das negras ágoas do Cocito,<br>
+Ao pé dos carregados arvoredos<br>
+Cantarei o que n'alma tenho escrito.<br>
+<br>
+E por entre estes horridos penedos<br>
+A quem negou Natura o claro dia,<br>
+Entre tormentos asperos e medos,<br>
+<br>
+Com a trémula voz, cansada e fria,<br>
+Celebrarei o gesto claro e puro,<br>
+Que nunca perderei da phantasia.<br>
+<br>
+O Musico de Thracia, ja seguro<br>
+De perder sua Eurydice, tangendo<br>
+Me ajudará ferindo o ar escuro.<br>
+<br>
+As namoradas sombras, revolvendo<br>
+Memorias do passado, me ouvirão;<br>
+E com seu chôro o rio irá crescendo.<br>
+<br>
+Em Salmonêo as penas faltarão,<br>
+E das filhas de Belo juntamente<br>
+De lagrimas os vasos s'encherão.<br>
+<br>
+Que se amor não se perde em vida ausente,<br>
+Menos se perderá por morte escura:<br>
+Porque, emfim, a alma vive eternamente,<br>
+<br>
+E amor he effeito d'alma, e sempre dura.
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA III.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>O</big> poeta Simonides fallando<br>
+Co'o Capitão Themistocles hum dia,<br>
+Em cousas de sciencia praticando; <span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span><br>
+<br>
+Hum'arte singular lhe promettia,<br>
+Qu'então compunha, com que lh'ensinasse<br>
+A lembrar-se de tudo o que fazia;<br>
+<br>
+Onde tão subtis regras lhe mostrasse,<br>
+Que nunca lhe passassem da memoria<br>
+Em nenhum tempo as cousas que passasse.<br>
+<br>
+Bem merecia, certo, fama e gloria<br>
+Quem dava regra contra o esquecimento,<br>
+Que sepulta qualquer antigua historia.<br>
+<br>
+Mas o Capitão claro, cujo intento<br>
+Bem differente estava, porque havia<br>
+Do passado as lembranças por tormento;<br>
+<br>
+Oh illustre Simonides! (dizia)<br>
+Pois tanto em teu engenho te confias,<br>
+Que mostras á memoria nova via;<br>
+<br>
+Se me désses hum'arte, qu'em meus dias<br>
+Me não lembrasse nada do passado,<br>
+Oh quanto melhor obra me farias!<br>
+<br>
+S'este excellente dito ponderado<br>
+Fosse por quem se visse estar ausente,<br>
+Em longas esperanças degradado;<br>
+<br>
+Oh como bradaria justamente,<br>
+Simonides, inventa novas artes;<br>
+Não midas o passado co'o presente!<br>
+<br>
+Que se he forçado andar por várias partes<br>
+Buscando á vida algum descanço honesto,<br>
+Que tu, Fortuna injusta, mal repartes;<br>
+<br>
+E se o duro trabalho, he manifesto<br>
+Que por grave que seja, ha de passar-se<br>
+Com animoso esprito e ledo gesto;<br>
+<br>
+De que serve ás pessoas o lembrar-se <span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span><br>
+Do que se passou ja, pois tudo passa,<br>
+Senão d'entristecer-se e magoar-se?<br>
+<br>
+S'em outro corpo hum'alma se traspassa,<br>
+Não como quiz Pythagoras na morte,<br>
+Mas como quer Amor na vida escassa;<br>
+<br>
+E s'este Amor no mundo está de sorte,<br>
+Que na virtude só d'hum lindo objecto<br>
+Tẽe hum corpo, sem alma, vivo e forte;<br>
+<br>
+Onde este objecto falta, qu'he defecto<br>
+Tamanho para a vida, que ja nella<br>
+M'está chamando á pena a dura Alecto;<br>
+<br>
+Porque me não criára a minha Estrella<br>
+Selvatico no mundo, e habitante<br>
+Na dura Scythia, e no mais duro della?<br>
+<br>
+Ou no Caucaso horrendo, fraco infante<br>
+Criado ao peito d'huma tigre Hircana,<br>
+Homem fôra formado de diamante;<br>
+<br>
+Porque a cerviz ferina e inhumana<br>
+Não submettêra ao jugo e dura lei<br>
+Daquelle que dá vida quando engana.<br>
+<br>
+Ou em pago das ágoas qu'estilei,<br>
+As que passei do mar, forão do Lete,<br>
+Para que m'esquecêra o que passei.<br>
+<br>
+Porque o bem que a esperança vãa promette,<br>
+Ou a morte o estorva, ou a mudança,<br>
+Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete.<br>
+<br>
+Ja, Senhor, cahirá como a lembrança,<br>
+No mal, do bem passado he triste e dura,<br>
+Pois nasce aonde morre a esperança.<br>
+<br>
+E se quizer saber como se apura<br>
+Em almas saudosas, não s'enfade <span class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span><br>
+De ler tão longa e misera escriptura.<br>
+<br>
+Soltava Eolo a redea e liberdade<br>
+Ao manso Favonio brandamente,<br>
+E eu a tinha ja sôlta á saudade.<br>
+<br>
+Neptuno tinha pôsto o seu tridente;<br>
+A proa a branca escuma dividia,<br>
+Com a gente maritima contente.<br>
+<br>
+O côro das Nereidas nos seguia;<br>
+Os ventos, namorada Galatêa<br>
+Comsigo socegados os movia.<br>
+<br>
+Das argenteas conchinhas Panopêa<br>
+Andava por o mar fazendo mólhos,<br>
+Melanto, Dinamene, com Ligea.<br>
+<br>
+Eu, trazendo lembranças por antolhos,<br>
+Trazia os olhos n'ágoa socegada,<br>
+E a ágoa sem socêgo nos meus olhos.<br>
+<br>
+A bem-aventurança ja passada<br>
+Diante de mi tinha tão presente,<br>
+Como se não mudasse o tempo nada.<br>
+<br>
+E com o gesto immoto e descontente,<br>
+Co'hum suspiro profundo e mal ouvido,<br>
+Por não mostrar meu mal a toda a gente,<br>
+<br>
+Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido<br>
+Em puro amor tivestes, e inda agora<br>
+Da memoria o não tendes esquecido;<br>
+<br>
+Se por ventura fordes algum'hora<br>
+Adonde entra o grão Tejo a dar tributo<br>
+A Tethys, que vós tendes por Senhora;<br>
+<br>
+Ou ja por ver o verde prado enxuto,<br>
+Ou ja por colher ouro rutilante,<br>
+Das Tagicas areias rico fruto; <span class="pn"><a name="pag_168">{168}</a></span><br>
+<br>
+Nellas em verso erotico e elegante<br>
+Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes;<br>
+Póde ser que algum peito se quebrante.<br>
+<br>
+E contando de mi memorias tristes,<br>
+Os pastores do Tejo, que me ouvião,<br>
+Oução de vós as mágoas que me ouvistes.<br>
+<br>
+Ellas, que ja no gesto m'entendião,<br>
+Nos meneios das ondas me mostravão<br>
+Qu'em quanto lhes pedia consentião.<br>
+<br>
+Estas lembranças, que me acompanhavão<br>
+Por a tranquillidade da bonança,<br>
+Nem na tormenta triste me deixavão.<br>
+<br>
+Porque chegando ao Cabo da Esperança,<br>
+Comêço da saudade que renova,<br>
+Lembrando a longa e aspera mudança;<br>
+<br>
+Debaixo estando ja da estrella nova<br>
+Que no novo Hemispherio resplandece,<br>
+Dando do segundo axe certa prova;<br>
+<br>
+Eis a noite com nuvens s'escurece;<br>
+Do ar subitamente foge o dia;<br>
+E todo o largo Oceano s'embravece.<br>
+<br>
+A máchina do mundo parecia<br>
+Qu'em tormentas se vinha desfazendo;<br>
+Em serras todo o mar se convertia.<br>
+<br>
+Lutando Boreas fero e Noto horrendo.<br>
+Sonoras tempestades levantavão,<br>
+Das naos as velas concavas rompendo.<br>
+<br>
+As cordas co'o ruido assoviavão;<br>
+Os marinheiros, ja desesperados,<br>
+Com gritos para o ceo o ar coalhavão.<br>
+<br>
+Os raios por Vulcano fabricados <span class="pn"><a name="pag_169">{169}</a></span><br>
+Vibrava o fero e aspero Tonante,<br>
+Tremendo os Polos ambos de assombrados.<br>
+<br>
+Amor alli, mostrando-se possante,<br>
+E que por algum medo não fugia,<br>
+Mas quanto mais trabalho, mais constante;<br>
+<br>
+Vendo a morte presente, em mi dizia:<br>
+Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse,<br>
+Nada do que passei me lembraria.<br>
+<br>
+Emfim, nunca houve cousa que mudasse<br>
+O firme amor intrinseco daquelle<br>
+Em quem alguma vez de siso entrasse.<br>
+<br>
+Huma cousa, Senhor, por certa asselle,<br>
+Que nunca amor se affina, nem se apura,<br>
+Em quanto está presente a causa delle.<br>
+<br>
+Dest'arte me chegou minha ventura<br>
+A esta desejada e longa terra,<br>
+De todo pobre honrado sepultura.<br>
+<br>
+Vi quanta vaidade em nós s'encerra,<br>
+E nos proprios quão pouca; contra quem<br>
+Foi logo necessario termos guerra.<br>
+<br>
+Huma Ilha que o Rei de Porcá tem,<br>
+E que o Rei da Pimenta lhe tomára,<br>
+Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem.<br>
+<br>
+Com huma grossa armada, que juntára<br>
+O Viso-Rei, de Goa nos partimos<br>
+Com toda a gente d'armas que se achára.<br>
+<br>
+E com pouco trabalho destruimos<br>
+A gente no curvo arco exercitada:<br>
+Com morte, com incendios os punimos.<br>
+<br>
+Era a Ilha com ágoas alagada,<br>
+De modo que se andava em almadias: <span class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span><br>
+Emfim, outra Veneza trasladada.<br>
+<br>
+Nella nos detivemos sós dous dias,<br>
+Que forão para alguns os derradeiros,<br>
+Pois passárão da Estyge as ondas frias.<br>
+<br>
+Qu'estes são os remedios verdadeiros<br>
+Que para a vida estão apparelhados<br>
+Aos que a querem ter por cavalleiros.<br>
+<br>
+Oh Lavradores bem-aventurados!<br>
+Se conhecessem seu contentamento,<br>
+Como vivem no campo socegados!<br>
+<br>
+Dá-lhes a justa terra o mantimento;<br>
+Dá-lhes a fonte clara d'ágoa pura;<br>
+Mungem suas ovelhas cento a cento.<br>
+<br>
+Não vem o mar irado, a noite escura,<br>
+Por ir buscar a pedra do Oriente;<br>
+Não temem o furor da guerra dura.<br>
+<br>
+Vive hum com suas árvores contente,<br>
+Sem lhe quebrar o somno repousado<br>
+A grã cobiça d'ouro reluzente.<br>
+<br>
+Se lhe falta o vestido perfumado,<br>
+E da formosa côr de Assyria tinto,<br>
+E das torçaes Attalicos lavrado;<br>
+<br>
+Se não tẽe as delicias de Corinto,<br>
+E se de Pario os marmores lhe faltão,<br>
+O pyropo, a esmeralda e o jacinto;<br>
+<br>
+Se suas casas de ouro não s'esmaltão,<br>
+Esmalta-se-lhe o campo de mil flores,<br>
+Onde os cabritos seus comendo sáltão.<br>
+<br>
+Alli lhe mostra o campo várias côres;<br>
+Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno;<br>
+Alli se affina o canto dos pastores. <span class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span><br>
+<br>
+Alli cantára Tityro e Sileno.<br>
+Emfim, por estas partes caminhou<br>
+A sãa Justiça para o ceo sereno.<br>
+<br>
+Ditoso seja aquelle que alcançou<br>
+Poder viver na doce companhia<br>
+Das mansas ovelhinhas que criou!<br>
+<br>
+Este bem facilmente alcançaria<br>
+As causas naturaes de toda cousa;<br>
+Como se gera a chuva e neve fria:<br>
+<br>
+Os trabalhos do sol, que não repousa;<br>
+E porque nos dá lũa a luz alhêa,<br>
+Se tolher-nos de Phebo os raios ousa:<br>
+<br>
+E como tão depressa o ceo rodêa;<br>
+E como hum só os outros traz comsigo;<br>
+E se he benigna ou dura Cytherêa.<br>
+<br>
+Bem mal póde entender isto que digo,<br>
+Quem ha de andar seguindo o fero Marte;<br>
+Que sempre os olhos traz em seu perigo.<br>
+<br>
+Porém seja, Senhor, de qualquer arte,<br>
+Pois postoque a Fortuna possa tanto,<br>
+Que tão longe de todo o bem me aparte;<br>
+<br>
+Não poderá apartar meu duro canto<br>
+Desta obrigação sua, em quanto a morte<br>
+Me não entrega ao duro Radamanto;<br>
+<br>
+Se para tristes ha tão leda sorte. <span class="pn"><a name="pag_172">{172}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<h3>ELEGIA IV.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>espois que Magalhães teve tecida<br>
+A breve historia sua, que illustrasse<br>
+A Terra Santa Cruz, pouco sabida;<br>
+<br>
+Imaginando a quem a dedicasse,<br>
+Ou com cujo favor defenderia<br>
+Seu livro d'algum zoilo que ladrasse;<br>
+<br>
+Tendo nisto occupada a phantasia,<br>
+Lhe sobreveio hum somno repousado,<br>
+Antes que o sol abrisse o claro dia.<br>
+<br>
+Em sonhos lhe apparece todo armado<br>
+Marte, brandindo a lança furiosa,<br>
+Com que fez quem o vio todo enfiado;<br>
+<br>
+Dizendo em voz pezada e temerosa:<br>
+Não he justo que a outrem se offereça<br>
+Obra alguma que possa ser famosa,<br>
+<br>
+Senão a quem por armas resplandeça<br>
+No largo inundo com tal nome e fama,<br>
+Que louvor immortal sempre mereça.<br>
+<br>
+Disse assi: quando Apollo, que da flama<br>
+Celeste guia os carros, de outra parte<br>
+Se lhe presenta, e por seu nome o chama,<br>
+<br>
+Dizendo: Magalhães, postoque Marte<br>
+Com seu terror t'espante, todavia<br>
+Comigo deves só de aconselhar-te.<br>
+<br>
+Hum Varão sapiente, em quem Thalia<br>
+Poz seus thesouros, e eu minha sciencia,<br>
+Defender tuas obras poderia. <span class="pn"><a name="pag_173">{173}</a></span><br>
+<br>
+He justo que a escriptura na prudencia<br>
+Ache só defensão; porque a dureza<br>
+Das armas he contrária da eloquencia.<br>
+<br>
+Assi disse: e tocando com destreza<br>
+A cithara dourada, começou<br>
+A mitigar de Marte a fortaleza.<br>
+<br>
+Mas Mercurio, que sempre costumou<br>
+Pacificar porfias duvidosas,<br>
+Co'o Caducêo na mão, que sempre usou,<br>
+<br>
+Determina compor as perigosas<br>
+Opiniões dos deoses inimigos<br>
+Com suaves razões e ponderosas.<br>
+<br>
+E disse: Bem sabemos dos antigos<br>
+Heroes, e dos modernos, que provárão<br>
+De Belona os gravissimos perigos,<br>
+<br>
+Como tão bem mil vezes concordárão<br>
+As armas com as letras; porque as Musas<br>
+A muitos na milicia acompanhárão.<br>
+<br>
+Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas<br>
+Guerras o estudo deixão grande espaço;<br>
+Que as armas jamais delle são escusas.<br>
+<br>
+N'huma mão livros, n'outra ferro e aço;<br>
+Aquella rege e ensina; est'outra fere:<br>
+Mais co'o saber se vence, que co'o braço.<br>
+<br>
+Pois, logo, hum Varão grande se requere,<br>
+Que com teus dões (Apollo) illustre seja,<br>
+E de ti (Marte) palma e glória espere.<br>
+<br>
+Este vos darei eu, em quem se veja<br>
+Saber e esfôrço no sereno peito,<br>
+Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja.<br>
+<br>
+Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito, <span class="pn"><a name="pag_174">{174}</a></span><br>
+Todas nove nos braços o tomárão,<br>
+Criando-o co'o seu leite no seu leito:<br>
+<br>
+As Artes e as Sciencias lh'ensinárão;<br>
+Inclinação divina lh'influírão<br>
+Ás virtudes moraes, que logo o ornárão.<br>
+<br>
+Daqui nos exercidos o seguírão<br>
+Das armas no Oriente, onde primeiro<br>
+Hum soldado gentil instituírão.<br>
+<br>
+Alli taes provas fez de Cavalleiro,<br>
+Que, de Christão magnanimo e seguro,<br>
+A si mesmo venceo por derradeiro.<br>
+<br>
+Despois, ja Capitão forte e maduro,<br>
+Governando toda a Aurea Chersoneso,<br>
+Lhe defendeo co'o braço o debil muro.<br>
+<br>
+Porque vindo a cercá-la todo o pêso<br>
+Do poder dos Achens, que se sustenta<br>
+De alheio sangue, em furia todo acceso;<br>
+<br>
+Este só que a ti, Marte, representa,<br>
+O castigou de sorte, que vencido<br>
+De ter quem vivo fique se contenta.<br>
+<br>
+E logo qu'este Reino defendido<br>
+Deixou, segunda vez com maior glória<br>
+Para o ir governar foi elegido.<br>
+<br>
+Mas não perdendo ainda da memoria<br>
+Os amigos o seu govêrno brando,<br>
+Os imigos o damno da victoria;<br>
+<br>
+Huns com amor intrinseco esperando<br>
+Estão por elle, e os outros congelados<br>
+O estão com frio medo receando.<br>
+<br>
+Vêde pois se serião debellados<br>
+Por seu claro valor, se lá tornasse, <span class="pn"><a name="pag_175">{175}</a></span><br>
+E dos Indicos mares degradados.<br>
+<br>
+Porqu'he justo que nunca lhe negasse<br>
+O conselho do Olympo alto e subido<br>
+Favor e ajuda com que pelejasse.<br>
+<br>
+Aqui só póde ser bem dirigido<br>
+De Magalhães o estudo: este só deve<br>
+Ser de vós, claros deoses, escolhido.<br>
+<br>
+Assi Mercurio disse; e em termo breve<br>
+Conformados se vem Apollo e Marte;<br>
+E voou juntamente o somno leve.<br>
+<br>
+Acorda Magalhães, e ja se parte<br>
+A offrecer-vos, Senhor claro e famoso,<br>
+Tudo o que nelle poz sciencia e arte.<br>
+<br>
+Tẽe claro estylo, e engenho curioso,<br>
+Para poder de vós ser recebido,<br>
+Com mão benigna, de ânimo amoroso.<br>
+<br>
+Pois se só de não ser favorecido<br>
+Hum alto esprito fica baixo e escuro;<br>
+Este seja comvosco defendido,<br>
+<br>
+Como o foi de Malaca o debil muro.
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA V.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>quelle mover de olhos excellente,<br>
+Aquelle vivo espirito inflammado<br>
+Do crystallino rosto transparente;<br>
+<br>
+Aquelle gesto immoto e repousado,<br>
+Qu'estando n'alma propriamente escrito,<br>
+Não póde ser em verso trasladado; <span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span><br>
+<br>
+Aquelle parecer, que he infinito<br>
+Para se comprender d'engenho humano;<br>
+O qual offendo em quanto tenho dito;<br>
+<br>
+Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano,<br>
+E tanto a engrandecer-me a phantasia,<br>
+Que não vi maior glória que meu dano.<br>
+<br>
+Oh bem-aventurado seja o dia<br>
+Em que tomei tão doce pensamento,<br>
+Que de todos os outros me desvia!<br>
+<br>
+E bem-aventurado o soffrimento<br>
+Que soube ser capaz de tanta pena,<br>
+Vendo que o foi da causa o entendimento!<br>
+<br>
+Faça-me quem me mata, o mal que ordena,<br>
+Trate-me com enganos, desamores;<br>
+Qu'então me salva, quando me condena.<br>
+<br>
+E se de tão suaves desfavores<br>
+Penando vive hum'alma consumida,<br>
+Oh que doce penar! que doces dores!<br>
+<br>
+E se huma condição endurecida<br>
+Tambem me nega a morte por meu dano,<br>
+Oh que doce morrer! que doce vida!<br>
+<br>
+E se me mostra hum gesto lindo humano,<br>
+Como que de meu mal culpada se acha,<br>
+Oh que doce mentir! que doce engano!<br>
+<br>
+E s'em querer-lhe tanto ponho tacha,<br>
+Mostrando refrear o pensamento,<br>
+Oh que doce fingir! que doce cacha!<br>
+<br>
+Assi que ponho ja no soffrimento<br>
+A parte principal de minha glória,<br>
+Tomando por melhor todo tormento.<br>
+<br>
+Se sinto tanto bem só co'a memoria <span class="pn"><a name="pag_177">{177}</a></span><br>
+De ver-vos, linda Dama, vencedora;<br>
+Que quero eu mais que ser vossa victoria?<br>
+<br>
+Se tanto a vossa vista mais namora,<br>
+Quanto eu sou menos para merecer-vos;<br>
+Que quero eu mais que ter-vos por senhora?<br>
+<br>
+Se procede este bem de conhecer-vos,<br>
+E consiste o vencer em ser vencido,<br>
+Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?<br>
+<br>
+S'em meu proveito faz qualquer partido,<br>
+Só na vista d'huns olhos tão serenos,<br>
+Que quero eu mais ganhar que ser perdido?<br>
+<br>
+Se, emfim, os meus espritos, de pequenos,<br>
+A merecer não chegão seu tormento,<br>
+Que quero eu mais, que o mais não seja menos?<br>
+<br>
+A causa, pois, m'esforça o soffrimento;<br>
+Porque, a pezar do mal que me resiste,<br>
+De todos os trabalhos me contento;<br>
+<br>
+Que a razão faz a pena alegre, ou triste.
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA VI.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>E</big>ntre rusticas serras e fragosas,<br>
+Compostas d'asperissimos rochedos,<br>
+De salitradas lapas cavernosas;<br>
+<br>
+Onde gretando os humidos penedos<br>
+Orvalhados de neve branca e fria,<br>
+Brotando estão de si mil arvoredos;<br>
+<br>
+Huma floresta fez verde e sombria<br>
+A natureza experta, que rodeia, <span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span><br>
+Como elevado muro, a serrania.<br>
+<br>
+Neste formoso sítio se recreia<br>
+O lascivo Cupido entre as boninas,<br>
+Que sempre hum brando Zephyro meneia.<br>
+<br>
+Da candida cecem, das clavellinas,<br>
+Da salva, mangerona e das mosquetas,<br>
+Das rubicundas flores hyacinthinas,<br>
+<br>
+Muitas capellas tece, que de setas<br>
+Lhe servem contra peitos de donzellas,<br>
+A quem d'inveja traz sempre inquietas.<br>
+<br>
+Não são d'huma só côr as flores bellas;<br>
+Que humas esmalta verde, outras rosado,<br>
+Entre as azues crescendo as amarellas.<br>
+<br>
+Dos agrestes loureiros rodeado,<br>
+Faz o valle huma sombra deleitosa,<br>
+Quando apparece o sol mais levantado.<br>
+<br>
+E por cima da relva bem graciosa<br>
+As gottas de crystal quasi imitando<br>
+Estão do aljofar puro a luz formosa.<br>
+<br>
+As crystallinas fontes, que brotando<br>
+Por entre alvos seixinhos se derivão,<br>
+Das árvores os troncos vão banhando.<br>
+<br>
+Entre as limpidas ágoas, qu'inda esquivão<br>
+O formoso pastor que se perdeo,<br>
+Preso das falsas mostras que o captivão,<br>
+<br>
+Cresce a por cuja causa s'esqueceo<br>
+A linda Cytherêa de Vulcano,<br>
+Quando presa d'Amor se lhe rendeo.<br>
+<br>
+Na brancura do rosto soberano,<br>
+Inda as crueis feridas apparecem<br>
+Do javali cerdoso e deshumano. <span class="pn"><a name="pag_179">{179}</a></span><br>
+<br>
+As rosas que de sangue resplandecem,<br>
+As candidas boninas marchetadas,<br>
+Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem.<br>
+<br>
+Do matutino orvalho rociadas,<br>
+As flores rutilantes e cheirosas<br>
+Estão como por cima prateadas.<br>
+<br>
+Os humidos botões abrindo as rosas,<br>
+Que os agudos espinhos vão cercando,<br>
+No prado se vem rindo deliciosas.<br>
+<br>
+A mellifera abelha, susurrando<br>
+Por cima das boninas que rodeia,<br>
+Está co'o som das ágoas concertando.<br>
+<br>
+Do trémulo regato a branda areia<br>
+De jacinthos se cobre e de vieiras,<br>
+Qu'encrespão da corrente a branca veia.<br>
+<br>
+Os álamos s'abração co'as videiras<br>
+De sorte, que s'enxérga escassamente<br>
+Se são os cachos seus, se das parreiras;<br>
+<br>
+E pendendo por cima da corrente,<br>
+Outro formoso bosque debuxando<br>
+Estão no fundo della brandamente.<br>
+<br>
+Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando<br>
+Do perfido cunhado a crueldade,<br>
+Mágoas em melodias transformando.<br>
+<br>
+A solitaria rôla com soidade<br>
+Desfaz o rouco peito, ja cansada<br>
+De que não move a morte a piedade.<br>
+<br>
+A domestica Progne anda banhada<br>
+No sangue de seus filhos, em vingança<br>
+Da triste Philomela profanada.<br>
+<br>
+De competir co'o merlo não descança <span class="pn"><a name="pag_180">{180}</a></span><br>
+O garrulo calhandro, qu'enrouquece<br>
+Por não perder callado a confiança.<br>
+<br>
+Em quanto o pobre ninho ajunta e tece<br>
+O sonoro canario, modulando<br>
+Engana a grave pena que padece.<br>
+<br>
+Alguns versos s'escuta derramando<br>
+O vário pintasirgo, tão saudaveis,<br>
+Que produzem memorias d'amor brando.<br>
+<br>
+Por os direitos troncos ha notaveis<br>
+Epigrammas; alguns d'antigua historia,<br>
+Que contra o duro tempo são duraveis.<br>
+<br>
+Huns de cruel tormento, outros de glória,<br>
+Conforme a liberdade do qu'escreve,<br>
+Estranhos casos mostrão á memoria.<br>
+<br>
+O que neste lugar contente esteve,<br>
+Contente declarou seu pensamento,<br>
+E os prazeres tambem que nelle teve.<br>
+<br>
+Mas outros, declarando o sentimento<br>
+Que dos olhos destila tristes ágoas,<br>
+Deixárão mil lembranças de tormento.<br>
+<br>
+Abrazando-se alguns em vivas frágoas,<br>
+Escrevêrão do bosque em muitas partes<br>
+Gostos d'Amor agora, agora mágoas.<br>
+<br>
+Porque, cruel menino, o premio partes<br>
+A quem serás<sup><a href="#rodape2" name="m_rodape2">[2]</a></sup> tyranno se lho negas, <span class="pn"><a name="pag_181">{181}</a></span><br>
+E injusto e desigual, se lho repartes?<br>
+<br>
+Porqu'enganas as almas que tão cegas<br>
+Arrastas apos ti, de error captivas?<br>
+Porque a crueis rigores as entregas?<br>
+<br>
+Para que contra hum peito assi t'esquivas,<br>
+Que humilde se sujeita a teu cuidado,<br>
+Com enganos de sombras fugitivas?<br>
+<br>
+Levas, como a menino, hum pobre a nado,<br>
+N'huma apparencia falsa embevecido,<br>
+Quando co'os braços corta o mar inchado.<br>
+<br>
+Querendo-se tornar, vê-se perdido;<br>
+Ja grita que se affoga; e tu zombando,<br>
+Da praia entre os penedos escondido!<br>
+<br>
+O triste, que conhece ir-se affogando,<br>
+No meio da arriscada zombaria<br>
+Por divino soccorro está clamando.<br>
+<br>
+Mas eu de que m'espanto, se dizia<br>
+Hum sabio que d'enganos se temesse<br>
+O que tomasse a hum cego tal por guia?<br>
+<br>
+Nunca nelle a firmeza permanece;<br>
+Se nos dá gôsto algum, muda-se logo;<br>
+Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece.<br>
+<br>
+Anda co'os corações sempre em hum jôgo;<br>
+Humas vezes os faz de pedra fria,<br>
+Outras os faz de neve, outras de fogo.<br>
+<br>
+Tornando ao bosque meu que descrevia,<br>
+Despois de ter contado da frescura<br>
+Que nelle tão pomposa apparecia,<br>
+<br>
+Referir quero agora huma aventura<br>
+Que nelle ao vão Narciso aconteceo,<br>
+Digna de se chorar com mágoa pura. <span class="pn"><a name="pag_182">{182}</a></span><br>
+<br>
+Castigo foi que o moço mereceo<br>
+Por se mostrar esquivo com aquella,<br>
+Qu'em viva pedra Juno converteo.<br>
+<br>
+Ardia em fogo d'alma a vãa donzella,<br>
+Soffrendo hum duro peito; que a Narciso,<br>
+Quando ella mais se abraza, mais congela.<br>
+<br>
+E quando a fraca Nympha mais de siso<br>
+Mostrava hum signal certo de firmeza,<br>
+Então se provocava o moço a riso.<br>
+<br>
+Ja d'huma profundissima tristeza<br>
+A descora o rigor que a consumia.<br>
+Como diz desfavor mal com belleza!<br>
+<br>
+O gelado pastor folgava e ria;<br>
+Mas vendo-a de seu gôsto andar contente,<br>
+Por não a contentar s'entristecia.<br>
+<br>
+He tal o seu rigor, que não consente<br>
+Que seja o gôsto proprio festejado;<br>
+Antes disso se mostra descontente.<br>
+<br>
+Mas o cego Cupido, d'affrontado,<br>
+Em vingança da fé que desprezou,<br>
+Fez que fosse de si mesmo enganado.<br>
+<br>
+Casualmente hum dia se chegou<br>
+A beber n'huma fonte crystallina,<br>
+Que de si nova sêde lhe causou.<br>
+<br>
+Vendo a sua figura peregrina<br>
+Que a fonte dentro em si representava,<br>
+Se perdeo por imagem tão divina.<br>
+<br>
+Como ja, d'enlevado, não cuidava<br>
+Nos enganos que a sombra lhe fazia,<br>
+Vendo o formoso rosto, suspirava.<br>
+<br>
+Por as avaras ágoas se metia; <span class="pn"><a name="pag_183">{183}</a></span><br>
+E quanto mais molhava os tenros braços,<br>
+Então mais vivamente o fogo ardia.<br>
+<br>
+Vendo-se assi prender em duros laços,<br>
+Ao sentimento obriga a paciencia,<br>
+Dando, fóra de si, ao vento abraços.<br>
+<br>
+Embevecido todo n'apparencia,<br>
+Sem saber de cuidado o que sentia,<br>
+Não fez ao doce engano resistencia.<br>
+<br>
+Ao ver-se longe mais, mais perto via<br>
+O peregrino gesto; e se chegava,<br>
+Então para mais longe lhe fugia.<br>
+<br>
+Vendo, emfim, como em tudo o remedava<br>
+Cahio no torpe engano que tivera,<br>
+A tempo que de si ja preso estava.<br>
+<br>
+A belleza que a tantas morte dera,<br>
+De si mesma se abraza e se captiva.<br>
+Quão longe então de si ver-se quizera!<br>
+<br>
+Ella se abranda propria; ella se esquiva;<br>
+E sendo ella somente a que se amava,<br>
+Ella se chama ingrata e fugitiva.<br>
+<br>
+A formosura, pois, que namorava,<br>
+Com tal difficuldade era seguida,<br>
+Qu'estando dentro em si, mui longe estava.<br>
+<br>
+A solitaria Nympha, qu'escondida<br>
+Ja nas cavernas concavas se via,<br>
+Dos males que lhe ouvio foi commovida.<br>
+<br>
+Das namoradas mágoas que dizia<br>
+O namorado moço, ella somente<br>
+Os ultimos accentos repetia.<br>
+<br>
+Elle vendo-se estar alli presente,<br>
+As crystallinas ágoas accusava <span class="pn"><a name="pag_184">{184}</a></span><br>
+De que ellas o fazião descontente.<br>
+<br>
+Outras vezes á fonte, quando a olhava,<br>
+Ja cego, e sem juizo, agradecia<br>
+A figura que dentro lhe mostrava.<br>
+<br>
+Mas vendo qu'ella em nada se dohia<br>
+De seu grave tormento, grita e chora.<br>
+Quanto erra quem de sombras se confia!<br>
+<br>
+Ja lhe pede que saia para fóra.<br>
+Ignorando que sempre fóra esteve<br>
+A belleza que nelle proprio mora.<br>
+<br>
+Despois que longo espaço se deteve<br>
+Nestes queixumes seus tão lastimosos,<br>
+Que com tão longo ser, julgou por breve;<br>
+<br>
+Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos,<br>
+Do valle se despede e da espessura,<br>
+Dando soluços da alma vagarosos.<br>
+<br>
+Entregue na vontade da ventura,<br>
+Ou, por melhor dizer, de seus enganos,<br>
+Ao centro se arrojou da fonte pura.<br>
+<br>
+Dest'arte feneceo em tenros anos<br>
+Narciso, dando exemplo á formosura<br>
+De que tema, se he tal, tambem seus danos.<br>
+<br>
+Sentimento mostrou da sorte dura<br>
+O namorado Jupiter, mudando<br>
+Ao moço em flor purpurea, qu'inda dura.<br>
+<br>
+Aquellas claras ágoas rodeando,<br>
+Onde por seus amores se perdeo,<br>
+Está despois da morte acompanhando.<br>
+<br>
+Tanto no seu engano procedeo,<br>
+Que não sabe na morte inda apartar-se<br>
+Dos erros que na vida commetteo. <span class="pn"><a name="pag_185">{185}</a></span><br>
+<br>
+Bem póde o coração desenganar-se,<br>
+Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado,<br>
+Não costuma na morte resfriar-se.<br>
+<br>
+Porque despois do corpo sepultado,<br>
+Prisão onde s'encerra o fraco esprito,<br>
+Eternamente chora o seu cuidado.<br>
+<br>
+E das escuras ágoas do Cocito<br>
+A rapida corrente refreando,<br>
+Celebra o lindo gesto n'alma escrito.<br>
+<br>
+Lá se está co'os favores recreando;<br>
+E se foi desprezado, lá padece,<br>
+As duras esquivanças lamentando.<br>
+<br>
+Nem dos avaros olhos lá s'esquece,<br>
+Que de formoso verde a terra esmaltão,<br>
+Por não ver os do triste qu'endoudece.<br>
+<br>
+Assi que os desfavores nunca faltão,<br>
+Até despois da morte perseguindo<br>
+Hum triste coração que desbaratão.<br>
+<br>
+Triste de quem em vão lhe vai fugindo!
+</blockquote>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_rodape2" name="rodape2">[2]</a></sup> Este terceto foi viciado na cópia e depois, ao que
+parece, corrigido por mão estranha. A versificação está certa,
+mas o sentido he absurdo: e se a verdadeira lição não he:</p>
+
+<blockquote>
+Porque, cruel menino, o premio partes<br>
+De modo que es tyranno, quando o negas,<br>
+E injusto e desigual, quando o repartes?
+</blockquote>
+
+<p class="ni">não podemos adivinhar qual seja. <em>Nota dos Editores.</em></p>
+</div>
+
+
+<h3>ELEGIA VII.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>A</big>o pé d'hum'alta faia vi sentado,<br>
+N'hum valle deleitoso e bem florido,<br>
+A Almeno, pastor triste e namorado.<br>
+<br>
+Outro no mundo póde haver nascido<br>
+Mui queixoso de Amor; porém não tanto,<br>
+Como este amante, por amar perdido.<br>
+<br>
+Ja Venus hia recolhendo o manto <span class="pn"><a name="pag_186">{186}</a></span><br>
+Escuro com que a terra se mostrava,<br>
+Para ajudar d'Almeno o triste pranto.<br>
+<br>
+Apollo sôbre os montes derramava<br>
+Seus dourados cabellos, que fazião<br>
+Ao triste inda mais triste do qu'estava.<br>
+<br>
+As flores por o prado s'estendião.<br>
+E das que finas mais erão as côres,<br>
+Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião.<br>
+<br>
+Ja guiavão seus gados os pastores,<br>
+Que, deixando-os no campo deleitoso,<br>
+Com ellas praticavão só d'amores.<br>
+<br>
+Mas era esta alegria hum perigoso<br>
+Estado para Almeno entristecido;<br>
+E por isso a deixava pressuroso,<br>
+<br>
+Buscando outro lugar: contra Cupido<br>
+Claramente exclamava, e o arguia<br>
+De contrário, d'astuto e fementido.<br>
+<br>
+De quando em quando a frauta que tangia.<br>
+Numeros dava ao ar tão docemente,<br>
+Que as aves provocava a melodia.<br>
+<br>
+Cego assi desta dor, deste accidente,<br>
+Com os olhos em lagrimas banhados,<br>
+Postos no ceo, dizia tristemente:<br>
+<br>
+Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados,<br>
+Porque mos déste tu para offender-te,<br>
+Quando livre vivia nestes prados?<br>
+<br>
+Não vês quanto me negas merecer-te<br>
+O bem que me mostravas, se deixasse<br>
+Ferir meu coração para soffrer-te?<br>
+<br>
+Qual bem me has dado, Amor, que me durasse?<br>
+Ou qual me has promettido, que hajas dado? <span class="pn"><a name="pag_187">{187}</a></span><br>
+Ou qual déste, que muito não custasse?<br>
+<br>
+Mostra-me quem puzeste em tal estado,<br>
+Que pudesse viver de ti contente,<br>
+Ou quem de ti não fosse lastimado?<br>
+<br>
+Inimigo cruel de toda a gente,<br>
+Ja não quero teu bem, só meu mal quero;<br>
+Se de ti nem meu mal se me consente.<br>
+<br>
+Inda que de teus bens ja desespéro,<br>
+Não desprézo dos males o tormento;<br>
+Antes o prezo mais, quando he mais fero.<br>
+<br>
+Arrebatado deste pensamento<br>
+Hia o triste pastor com hum contino<br>
+Pranto, que lhe avivava o sentimento.<br>
+<br>
+Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino,<br>
+Qu'era de Amor plantado; e parecendo<br>
+Lhe está menos humano que divino.<br>
+<br>
+Nelle a dor sua esteve suspendendo:<br>
+Porém não, como cervo, está ferido,<br>
+Reparo ao mal que leva pretendendo.<br>
+<br>
+Apparecia o sítio tão florído,<br>
+Que provocava a não vulgar espanto,<br>
+Entre huns altos ulmeiros escondido.<br>
+<br>
+D'hum crystallino orvalho tinha o manto,<br>
+Quando entrou nelle o misero pastor,<br>
+E as tenções explicou neste seu canto.<br>
+<br>
+Ó bellas rosas, vós que sois amor,<br>
+He por dita humildade, ou he baixeza,<br>
+O ter apar de vós murta, que he dor?<br>
+<br>
+Papoulas conversais, que são tristeza!<br>
+Não desprezais o cardo, que he tormento!<br>
+Admittis a hortelãa, sendo crueza! <span class="pn"><a name="pag_188">{188}</a></span><br>
+<br>
+Dos goivos longe vejo o sentimento;<br>
+Dos jasmins perto estou vendo o perigo;<br>
+<span class="typo" title="no original: Do">Dos</span> malmequeres vejo o soffrimento.<br>
+<br>
+Deste me temerei como inimigo;<br>
+Mas traz por armas salva, que he razão:<br>
+Com ella acabará tambem comigo.<br>
+<br>
+As minhas vem a ser huma affeição,<br>
+Que são os puros cravos misturados<br>
+Co'a vontade sujeita, que he limão.<br>
+<br>
+Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados!<br>
+Ai crespa mangerona, que es prazer!<br>
+Vós sós devieis adornar os prados.<br>
+<br>
+Não pódem dous oppostos juntos ser:<br>
+Onde se põe giesta, que he lembrança,<br>
+Junto do rosmaninho, que he 'squecer?<br>
+<br>
+Bem peza do leve álamo a mudança;<br>
+Do roxo goivo anima o pensamento<br>
+Do cypreste odorifero a esperança.<br>
+<br>
+O trevo, que he sentido apartamento,<br>
+Cérca o mangericão, que se interpreta<br>
+Memoria a quem offende o esquecimento.<br>
+<br>
+Mais importuna que o jardim de Creta,<br>
+A ameixieira a flor está soltando:<br>
+A segurelha vejo, que he discreta.<br>
+<br>
+As hervas que daqui irei tomando,<br>
+São a pura cecem, qu'he saudade;<br>
+Cravos, medo de ver qual de amor ando.<br>
+<br>
+E, de ter mui perdida a liberdade,<br>
+Tomarei madresylva entendimento;<br>
+Legação tomarei, porqu'he verdade.<br>
+<br>
+Marmeleiro me dá arrependimento: <span class="pn"><a name="pag_189">{189}</a></span><br>
+Por a salva, que he gôsto, tomarei<br>
+Coentro opposto ao meu contentamento.<br>
+<br>
+Conhecimento firme nunca achei,<br>
+Que violetas são; e, quando o houvera,<br>
+Qual meu damno então fôra, bem o sei.<br>
+<br>
+Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera<br>
+Ver-vos aqui menor, pois sois victória,<br>
+Que de mi alcançou chamma severa!<br>
+<br>
+Mas se quereis que tenha alguma glória,<br>
+Por galardão d'amar e ser sujeito,<br>
+Perderei de tormentos a memoria.<br>
+<br>
+Porém, pois mo negais, de todo engeito<br>
+A palma, qu'he ventura; e na parreira,<br>
+Qu'he'sperança perdida, me deleito.<br>
+<br>
+Entretanto co'a flor da laranjeira,<br>
+Qu'he desafio duro e arriscado,<br>
+Posso arguir da hora derradeira.<br>
+<br>
+Ja não se quer deter o meu cuidado<br>
+Com a romãa descanso: a brevidade<br>
+Das maravilhas só tẽe desejado.<br>
+<br>
+E vós, ovelhas minhas, sem piedade<br>
+Vos apartae de mi, se algum desejo<br>
+Tendes de ter do pasto mais vontade.<br>
+<br>
+Se muita de me verdes em vós vejo,<br>
+Toda a minha de ver-vos hei perdido<br>
+Á força do poder d'amor sobejo.<br>
+<br>
+Lograe do Tejo o placido ruido;<br>
+Sós lograe estas veigas florecidas:<br>
+Pois se perde o pastor vosso querido,<br>
+<br>
+Não gosteis de com elle ser perdidas. <span class="pn"><a name="pag_190">{190}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<h3>ELEGIA VIII.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>B</big>elisa, unico bem desta alma triste,<br>
+Descanso singular de minha vida,<br>
+Throno donde o poder d'Amor consiste;<br>
+<br>
+Formosa fera, a quem está rendida<br>
+D'Amor a que he mais livre liberdade,<br>
+Ganhada mais, se mais por ti perdida;<br>
+<br>
+Quão contrário parece na beldade,<br>
+Que os corações captiva com brandura,<br>
+Alguma nódoa haver de crueldade!<br>
+<br>
+Quão contrário parece em formosura,<br>
+Que deixa muito atraz quanto he humano,<br>
+Esquiva condição, ou alma dura!<br>
+<br>
+Quão mal parece em quem só co'hum engano<br>
+Póde dar vida ao coração sujeito,<br>
+Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano!<br>
+<br>
+Quão mal parece que hum amor perfeito<br>
+Não seja d'outro igual remunerado,<br>
+Inda que seja, acaso, contrafeito!<br>
+<br>
+Quão mal parece estar desesperado<br>
+Quem tanto por ti soffre e tẽe soffrido,<br>
+Devendo estar de penas alliviado!<br>
+<br>
+Porém peor parece quem rendido<br>
+Não for a hum parecer que tudo rende,<br>
+Por mais qu'em seu rigor viva offendido.<br>
+<br>
+E inda peor parece quem defende<br>
+O ser essa belleza sempre amada,<br>
+Por mais qu'em vão se canse o que a pretende.<br>
+<br>
+Se quem te mostra amor te desagrada,<br>
+Só pódes pretender o não ser vista, <span class="pn"><a name="pag_191">{191}</a></span><br>
+Mas não despois de vista o ser deixada.<br>
+<br>
+Quão mal sabe o valor de tua vista<br>
+Quem cuida que o que della acaso alcança<br>
+Póde achar coração que lhe resista!<br>
+<br>
+Quão bem pareceria huma esperança<br>
+Ja concedida a meu amor ardente,<br>
+Não sempre huma mortal desconfiança!<br>
+<br>
+Se hum padecer por ti constantemente<br>
+Pudesse ser reparo a quem mais te ama,<br>
+Inda esperar pudera o ser contente.<br>
+<br>
+Mas eu temo que aquella immensa chama<br>
+Com que a teu bello imperio me levaste,<br>
+Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama.<br>
+<br>
+Se a Olympica belleza assi imitaste,<br>
+Que brandamente move hum amor puro,<br>
+Porque tão dura condição tomaste?<br>
+<br>
+Qual elevado, qual soberbo muro<br>
+Este mal, que m'occupa o pensamento,<br>
+Contado, não tornára menos duro?<br>
+<br>
+Tu, qu'es a causa só de meu tormento,<br>
+Tu, que somente podes gloriar-me,<br>
+Queres que as minhas queixas leve o vento?<br>
+<br>
+Tu, que me pagarias com matar-me,<br>
+Inda a morte me negas vezes tantas?<br>
+Ai, que me deras vida em morte dar-me!<br>
+<br>
+Usa piedade, tu, que o mundo espantas<br>
+Co'os bellos olhos, com que o douras tanto,<br>
+Se acaso a vê-lo brandos os levantas.<br>
+<br>
+Estende-se na terra o negro manto,<br>
+E á noute dá alegria a luz alheia;<br>
+Mas nos meus olhos tristes dura o pranto. <span class="pn"><a name="pag_192">{192}</a></span><br>
+<br>
+Torna a manhãa despois alegre e cheia<br>
+Da luz que o chôro enxuga á bella Aurora;<br>
+Mas do meu chôro nunca enxuga a veia.<br>
+<br>
+Lagrimas ja não são qu'esta alma chora,<br>
+Mas amor he vital que dentro arde,<br>
+E por a luz dos olhos salta fóra.<br>
+<br>
+Como inda a morte quer que mais aguarde?<br>
+Não tarde ja, mas corra a mal tão fero.<br>
+Mas ja por mais que corra virá tarde.<br>
+<br>
+Nem no supremo trance de ti 'spero<br>
+Qu'inda com ver o estado em que me has pôsto<br>
+Queiras, crua, entender quanto te quero.<br>
+<br>
+Ai! se volveres esse bello rosto<br>
+Ao lugar triste em que morrer me vires,<br>
+Não por desgôsto teu, mas por teu gôsto,<br>
+<br>
+Não quero de ti, não, que alli suspires,<br>
+Nem que de dar-me a morte te arrependas,<br>
+Mas que os olhos de ver-me então não tires.<br>
+<br>
+Assi nunca pastor a quem te rendas,<br>
+Te faça conhecer o que me fazes,<br>
+Para que com teu mal meu mal entendas!<br>
+<br>
+Como ja agora não te satisfazes<br>
+Das penas deste amor, que por querer-te,<br>
+De teu merecimento são capazes?<br>
+<br>
+Pois quem com outro merito render-te<br>
+Presume, (oh raro monstro de belleza!)<br>
+Muito mais longe está de merecer-te.<br>
+<br>
+Este si, que merece a grã crueza<br>
+Com que tu d'acabar-me a vida tratas,<br>
+Pois diante de ti, de si se preza.<br>
+<br>
+Se cuidas que com isto desbaratas <span class="pn"><a name="pag_193">{193}</a></span><br>
+O meu constante amor, porque não viva,<br>
+Elle mais vive quando mais me matas.<br>
+<br>
+Se o dar-me morte tens por glória altiva,<br>
+Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina<br>
+A matar mais de branda que d'esquiva.<br>
+<br>
+S'esta alma tua julgas por indina<br>
+Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde,<br>
+Do descoberto mal a faze dina.<br>
+<br>
+Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde,<br>
+A poder reduzir-te a ser piedosa?<br>
+Ou m'acaba de todo, ou me responde.<br>
+<br>
+Mas por mais que te mostres rigorosa,<br>
+Deixar meu pensamento m'he impossivel,<br>
+Igualmente que a ti não ser formosa.<br>
+<br>
+E por mais qu'esta dor seja terrivel,<br>
+Somente o contemplar a causa della,<br>
+Inda que a faz maior, a faz soffrivel<br>
+<br>
+Porém chegando a não poder soffrê-la,<br>
+Perdendo a vida; quando a morte chame,<br>
+Não perderei o gôsto de perdê-la.<br>
+<br>
+He justo qu'eu por ti mil mortes ame:<br>
+Mas vê tu se te illustra, quando offensa<br>
+Minha mortal o teu valor se chame.<br>
+<br>
+Bem vês que huma beldade tão immensa<br>
+De vencer-me tẽe glória bem pequena,<br>
+Pois só render-me tomo por defensa.<br>
+<br>
+Mas ja que amor tão puro me condena,<br>
+Contente fico assaz desta victoria;<br>
+Que não me dão meus males tanta pena,<br>
+<br>
+Quanto o serem por ti me dá de glória. <span class="pn"><a name="pag_194">{194}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<h3>ELEGIA IX.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>A</big> vida me aborrece, a morte quero:<br>
+Será eterno o meu mal, segundo entendo,<br>
+Pois na mor esperança desespéro.<br>
+<br>
+Sem viver vivo, por morrer vivendo<br>
+Por não verdes, Senhora, como eu vejo,<br>
+Quanto de mi por vós me ando esquecendo.<br>
+<br>
+Seja-me agradecido este desejo;<br>
+Ingrata não sejais a quem vos ama<br>
+Com puro e honestissimo despejo.<br>
+<br>
+A culpa que me pondes, ponde-a á fama,<br>
+Que pregôa de vós celeste vida<br>
+Que os corações d'amor divino inflama.<br>
+<br>
+Humana, quando não agradecida,<br>
+Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso,<br>
+Antes que a alma do corpo se despida.<br>
+<br>
+Mas que posso eu fazer, pois ja não posso<br>
+Hum tormento domar tão forte e duro,<br>
+Homem formado só de carne e de osso?<br>
+<br>
+Em minha fé segura me asseguro;<br>
+Porqu'esta, quando he grande, jamais erra,<br>
+Se resulta d'amor sincero e puro.<br>
+<br>
+Essa beldade santa me faz guerra;<br>
+Por ella hei de morrer, inda que veja<br>
+Tornar o brando rio em dura serra.<br>
+<br>
+Que cousa tenho eu ja que minha seja?<br>
+Quem não deseja a vossa formosura,<br>
+Não póde assegurar que o ceo deseja.<br>
+<br>
+De qu'eu sempre a deseje estae segura: <span class="pn"><a name="pag_195">{195}</a></span><br>
+Neste desejo meu nunca mudança<br>
+Hão de ver as mudanças da ventura.<br>
+<br>
+A vida tenho posta na balança<br>
+Da glória singular, do damno esquivo;<br>
+Que o perdê-la por vós he mor bonança.<br>
+<br>
+Se vos offendo, cuido que não vivo:<br>
+Olhae se muito mais que de offender-vos,<br>
+Das esperanças do viver me privo.<br>
+<br>
+O que temo somente he só perder-vos;<br>
+O que quero somente he só adorar-vos;<br>
+O que somente adoro he só querer-vos.<br>
+<br>
+Querer-vos sem deixar de venerar-vos;<br>
+Desejar-vos somente por servir-vos;<br>
+Por servir a amor vil não desejar-vos:<br>
+<br>
+Somente ver-vos, e somente ouvir-vos<br>
+Pretendo; e pois somente isto pretendo,<br>
+Deveis a estes sentidos permittir-vos.<br>
+<br>
+Isto somente, (oh cego!) estou dizendo,<br>
+Como se fôra pouco isto somente!<br>
+Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo?<br>
+<br>
+Se o não merece o meu amor decente;<br>
+Se morte por amar-vos se merece,<br>
+Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.<br>
+<br>
+Se vos aggrava quem por vós padece;<br>
+Se vos vẽe a offender quem vos quer tanto,<br>
+Quem desta sorte errou não desmerece.<br>
+<br>
+Que quando os olhos da razão levanto<br>
+Ao ceo d'essa rarissima belleza,<br>
+De não morrer por ella só m'espanto.<br>
+<br>
+Deixae-me contentar desta tristeza,<br>
+E fazer de meus olhos largo rio; <span class="pn"><a name="pag_196">{196}</a></span><br>
+Se algum póde abrandar vossa dureza.<br>
+<br>
+Correndo sempre as lagrimas em fio,<br>
+Farei crescer as hervas por os prados,<br>
+Pois ja d'outra alegria desconfio.<br>
+<br>
+No monte darei pasto a meus cuidados;<br>
+E serão de mi sempre entre os pastores<br>
+Esses divinos olhos celebrados.<br>
+<br>
+Aprenderão de mi os amadores<br>
+Aquillo que se chama amor sublime,<br>
+Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores.<br>
+<br>
+E nenhum havera que a pena estime<br>
+Mais soberana por a causa della,<br>
+Que a que teve até então não desestime;<br>
+<br>
+E qu'inveja não mostre á minha estrella.
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA X.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>ue tristes novas, ou que novo dano,<br>
+Qu'inopinado mal incerto sôa,<br>
+Tingindo de temor o vulto humano?<br>
+<br>
+Que vejo? as praias humidas de Goa<br>
+Ferver com gente attonita e turbada<br>
+Do rumor que de boca em boca vôa!<br>
+<br>
+He morto D. Miguel (ah crua espada!)<br>
+E parte da lustrosa companhia<br>
+Que alegre s'embarcou na triste Armada:<br>
+<br>
+E d'espingarda ardente e lança fria<br>
+Passado por o torpe e iniquo braço,<br>
+Que nossas altas famas injuría. <span class="pn"><a name="pag_197">{197}</a></span><br>
+<br>
+Não lhe valeo escudo, ou peito d'aço,<br>
+Não ânimo d'avós claros herdado,<br>
+Com que temer se fez por longo espaço.<br>
+<br>
+Não ver-se em de redor todo cercado<br>
+D'irados inimigos, qu'exhalavão<br>
+A negra alma do corpo traspassado.<br>
+<br>
+Não as fortes palavras que voavão<br>
+A animar os incertos companheiros,<br>
+Que timidos as costas lhe mostravão.<br>
+<br>
+Mas ja postos, nos termos derradeiros,<br>
+(Rotos por partes mil e traspassados<br>
+Os membros, no valor somente inteiros)<br>
+<br>
+Os olhos (de furor acompanhados,<br>
+Qu'inda na morte as vidas amedrentão<br>
+Dos duros inimigos espantados)<br>
+<br>
+Postos no ceo, parece que presentão<br>
+A alma pura á suprema Eternidade,<br>
+Por quem os ceos e a terra se sustentão.<br>
+<br>
+E pedindo dos erros, que na idade<br>
+Immatura e innocente ja fizera,<br>
+Perdão á pia e justa Magestade,<br>
+<br>
+As rosas apartou da neve fria;<br>
+E, como debil flor, a quem fallece<br>
+O radical humor de que vivia,<br>
+<br>
+Nas mãos do Coro Angelico, que dece,<br>
+S'entrega; e vai lograr a vida eterna,<br>
+Que com morte tão justa se merece.<br>
+<br>
+Vai-te, alma, em paz á gloria sempiterna;<br>
+Vai, que quem por a Lei sacra e divina<br>
+A sólta, áquelle a dá que o ceo governa.<br>
+<br>
+Mas se de tal valor foi morte dina, <span class="pn"><a name="pag_198">{198}</a></span><br>
+A ausencia que do gôsto nos saltêa,<br>
+A perpétua saudade nos inclina.<br>
+<br>
+Deixa pois tu, formosa Cytherêa,<br>
+Do gentil filho e neto de Cyniras<br>
+O pranto por a morte horrida e fêa.<br>
+<br>
+E tu, dourado Apollo, que suspiras<br>
+Por o crespo Jacintho, moço charo,<br>
+Por quem a clara luz ao mundo tiras;<br>
+<br>
+Vinde e chorae hum moço em tudo raro,<br>
+Não de ferino dente vulnerado,<br>
+Nem de risco sujeito a algum reparo:<br>
+<br>
+Mas só de ferro imigo traspassado;<br>
+Que sem duvida incerta, ou frio medo,<br>
+A vida poz nas mãos de Marte irado.<br>
+<br>
+Tambem tu, moço Idalio, assiste quedo;<br>
+Deixa de dar o venenoso mel<br>
+A beber por os olhos, triste e ledo.<br>
+<br>
+Pois os formosos olhos de Miguel<br>
+Ja cobertos se vem do escuro manto<br>
+Da lei geral a todos mais cruel.<br>
+<br>
+E vós, filhas de Thespis, que co'o canto<br>
+Podeis bem mitigar a dor immensa<br>
+Dos irmãos generosos e alto pranto;<br>
+<br>
+Não consintais que fação larga offensa<br>
+Á grande integridade, a que se devem<br>
+Ágoas não só, do damno recompensa.<br>
+<br>
+Que ja diante os olhos me descrevem,<br>
+Quando as bocas da Fama voadora<br>
+Ao patrio e claro Tejo as novas levem,<br>
+<br>
+A profunda tristeza; qu'em hum'hora<br>
+Tal posse tomará dos altos peitos, <span class="pn"><a name="pag_199">{199}</a></span><br>
+Que delles o discurso lance fóra.<br>
+<br>
+Alli de dor os corações sujeitos<br>
+Hão de lançar de si toda a memoria<br>
+D'exemplos claros, solidos respeitos.<br>
+<br>
+Mas, porém se igualais a vida á glória,<br>
+Ó claro Dom Philippe, e pretendeis<br>
+Deixar-nos de acções vossas larga historia;<br>
+<br>
+Eu não vos persuado a que estreiteis<br>
+O coração na Estoica disciplina,<br>
+Onde livre d'affectos vos mostreis.<br>
+<br>
+Que mal a natureza determina<br>
+Medo, esperanças, dores e alegria,<br>
+Como o Cynico velho nos ensina.<br>
+<br>
+Immanidade estupida (dizia<br>
+O Sulmonense canto) e vil rudeza,<br>
+He não sentir affectos que a alma cria.<br>
+<br>
+Porém se o sentir nada for bruteza,<br>
+E se paixão devida se consente,<br>
+Tambem o sentir muito he ja fraqueza.<br>
+<br>
+Em vós hum soffrer alto s'exprimente,<br>
+Qual nos fortes Varões foi conhecido,<br>
+Como em estranha, em Lusitana gente.<br>
+<br>
+Bem conheço que o corpo assi perdido,<br>
+Como de illustre tumulo carece,<br>
+Será de brutas feras consumido.<br>
+<br>
+Mas consola-me, emfim, que se parece<br>
+Ao grande bisavô, que por a vida<br>
+Real, a sua á Maura lança offrece.<br>
+<br>
+Em pedaços a gente enfurecida<br>
+O corpo alli lhe deixa; e com mão dura<br>
+Lhe nega a sepultura merecida. <span class="pn"><a name="pag_200">{200}</a></span><br>
+<br>
+Facil he a perda aqui da sepultura:<br>
+Diogenes prudente, e Theodoro<br>
+Pouco sentem do corpo essa jactura.<br>
+<br>
+Assi formoso e inteiro, assi decoro<br>
+Adorna quem o tẽe, como o tomou,<br>
+Quando se ouvir o extremo som canoro.<br>
+<br>
+Mas ai! qual terror subito occupou<br>
+O vosso claro peito, ó Portuguezes?<br>
+Qual pavido temor vos congelou?<br>
+<br>
+Que lançadas, que golpes, que revézes<br>
+Vos fizerão fazer tamanha injúria<br>
+Aos fortes Lusitanicos arnezes?<br>
+<br>
+Ou ja de Capitão sobeja incuria,<br>
+Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava<br>
+Com seu peito dos barbaros a furia.<br>
+<br>
+Ou ja do ferreo cano a fôrça brava<br>
+Com estrondos que atroão mar e terra,<br>
+Os corações ardentes congelava?<br>
+<br>
+Ah! quem vos fez que os impetos da guerra<br>
+Não sustentasseis com valor ousado,<br>
+Desprezando o temor que a vida encerra?<br>
+<br>
+A vida por a Patria e por o Estado<br>
+Pondo nossos avós, a nós deixárão,<br>
+Em terra e mar, exemplo sublimado.<br>
+<br>
+Elles a desprezar nos ensinárão<br>
+Todo temor. Pois como agora os netos<br>
+Subitamente assi degenerárão?<br>
+<br>
+Não pódem, certo, não, viver quietos<br>
+Com feia infamia peitos generosos,<br>
+Ja em publicos lugares, ja em secretos.<br>
+<br>
+Mortos d'Esparta os Héroes valerosos <span class="pn"><a name="pag_201">{201}</a></span><br>
+Da fera multidão, fazendo extremos,<br>
+Taes Epitaphios tinhão gloriosos:<br>
+<br>
+<em>Dirás, Hóspede, tu, que aqui jazemos<br>
+Passados do inimigo ferro, em quanto<br>
+Ás santas Leis da Patria obedecemos.</em><br>
+<br>
+Fugindo os Persas vão com frio espanto,<br>
+Mas achão as mulheres no caminho,<br>
+Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto.<br>
+<br>
+Pois do damno fugís, vendo-o visinho,<br>
+Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizião)<br>
+Outra vez no materno e escuro ninho.<br>
+<br>
+Vêde quaes com mais glória ficarião,<br>
+Se aquelles que morrêrão por o Estado,<br>
+S'estes a quem mulheres injurião?<br>
+<br>
+Mas tu, claro Miguel, que ja acordado<br>
+Deste sonho tão breve, estás naquella<br>
+Tôrre do ceo, seguro e repousado;<br>
+<br>
+Onde, com Deos unida a forte e bella<br>
+Alma, com teus Maiores reluzindo,<br>
+Trocaste cada chaga em clara estrella;<br>
+<br>
+Co'os pés o crystallino ceo medindo,<br>
+Nada d'essas altissimas Espheras,<br>
+Nem da terreste aos olhos encobrindo;<br>
+<br>
+Agora hum curso e outro consideras,<br>
+Agora a vaidade dos mortaes,<br>
+Que tu tambem passáras se vivêras,<br>
+<br>
+. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .<span class="pn"><a name="pag_202">{202}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+
+<h3>ELEGIA XI.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>e quando contemplamos as secretas<br>
+Causas, por que este mundo se sustenta,<br>
+E o revolver dos ceos e dos planetas;<br>
+<br>
+E se quando á memoria se presenta<br>
+Este curso do sol tão bem medido,<br>
+Que hum ponto só não míngua, nem s'augmenta;<br>
+<br>
+Aquelle effeito, tarde conhecido,<br>
+Da lua na mudança tão constante,<br>
+Que minguar e crescer he seu partido;<br>
+<br>
+Aquella natureza tão possante<br>
+Dos ceos, que tão conformes e contrarios<br>
+Caminhão, sem parar hum breve instante;<br>
+<br>
+Aquelles movimentos ordinarios,<br>
+A que responde o tempo, que não mente,<br>
+Co'os effeitos da terra necessarios;<br>
+<br>
+Se quando, emfim, revolve subtilmente<br>
+Tantas cousas a leve phantasia,<br>
+Sagaz escrutadora e diligente;<br>
+<br>
+Bem vê, se da razão se não desvia,<br>
+Aquelle unico Ser, alto e divino,<br>
+Que tudo póde, manda, move e cria.<br>
+<br>
+Sem fim e sem princípio, hum Ser contino;<br>
+Hum Padre grande, a quem tudo he possibil,<br>
+Por mais que o difficulte humano atino:<br>
+<br>
+Hum saber infinito, incomprehensibil;<br>
+Huma verdade que nas cousas anda,<br>
+Que mora no visibil e invisibil.<br>
+<br>
+Esta potencia, emfim, que tudo manda, <span class="pn"><a name="pag_203">{203}</a></span><br>
+Esta Causa das causas, revestida<br>
+Foi desta nossa carne miseranda.<br>
+<br>
+Do amor e da justiça compellida,<br>
+Por os erros da gente, em mãos da gente<br>
+(Como se Deos não fôsse) deixa a vida.<br>
+<br>
+Oh Christão descuidado e negligente!<br>
+Pondera-o com discurso repousado;<br>
+E ver-te-has advertido facilmente.<br>
+<br>
+Ólha aquelle Deos alto e increado,<br>
+Senhor das cousas todas, que fundou<br>
+O ceo, a terra, o fogo, o mar irado;<br>
+<br>
+Não do confuso caos, como cuidou<br>
+A falsa Theologia, e povo escuro,<br>
+Que nesta só verdade tanto errou;<br>
+<br>
+Não dos atomos leves d'Epicuro;<br>
+Não do fundo Oceano, como Thales,<br>
+Mas só do pensamento casto e puro.<br>
+<br>
+Ólha, animal humano, quanto vales,<br>
+Pois este immenso Deos por ti padece<br>
+Novo estylo de morte, novos males.<br>
+<br>
+Ólha que o sol no Olympo s'escurece,<br>
+Não por opposição de outro Planeta;<br>
+Mas só porque virtude lhe fallece.<br>
+<br>
+Não vês que a grande máchina inquieta<br>
+Do mundo se desfaz toda em tristeza,<br>
+E não por causa natural secreta?<br>
+<br>
+Não vês como se perde a Natureza?<br>
+O ar se turba? o mar batendo geme,<br>
+Desfazendo das pedras a dureza?<br>
+<br>
+Não vês que cahe o monte, a terra treme?<br>
+E que lá na remota e grande Athenas <span class="pn"><a name="pag_204">{204}</a></span><br>
+O docto Areopagita exclama e teme?<br>
+<br>
+Oh summo Deos! tu mesmo te condenas,<br>
+Por o mal em qu'eu só sou o culpado,<br>
+A tamanhas affrontas, tantas penas?<br>
+<br>
+Por mi, Senhor, no mundo reputado<br>
+Por falso, e violador da sacra Lei?<br>
+A fama a ti se põe do meu peccado?<br>
+<br>
+Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei.<br>
+Pois como entre ladrões eu não padeço?<br>
+A pena a ti se dá do qu'eu errei?<br>
+<br>
+Eu servo sem valor, tu immenso preço,<br>
+Em preço vil te pões, por me tirares<br>
+Do captiveiro eterno que mereço?<br>
+<br>
+Eu por perder-te, e tu por me ganhares<br>
+Te dás aos soltos homens, que te vendem,<br>
+Só para os homens presos resgatares?<br>
+<br>
+A ti, que as almas sóltas, a ti prendem?<br>
+A ti summo Juiz, ante Juizes<br>
+Te accusão por o error dos que te offendem?<br>
+<br>
+Chamão-te malfeitor; não contradizes:<br>
+Sendo tu dos Prophetas a certeza,<br>
+Dizem que quem te fere prophetizes.<br>
+<br>
+Rim-se de ti; tu choras a crueza<br>
+Que sôbre elles virá: a gente dura,<br>
+Por quem tu vens ao mundo, te despreza.<br>
+<br>
+O teu rosto, de cuja formosura<br>
+Se veste o ceo e o sol resplandecente,<br>
+Diante quem pasmada está a Natura,<br>
+<br>
+Com cruas bofetadas da vil gente,<br>
+De precioso sangue está banhado,<br>
+Cuspido, atropellado cruelmente. <span class="pn"><a name="pag_205">{205}</a></span><br>
+<br>
+Aquelle corpo tenro e delicado,<br>
+Sôbre todos os Santos sacrosanto,<br>
+A açoutes rigorosos desangrado;<br>
+<br>
+Despois coberto mal d'hum pobre manto,<br>
+Que se pegava ás carnes magoadas<br>
+Para dobrar-lhe as dores outro tanto.<br>
+<br>
+Magoavão-no as chagas não curadas,<br>
+Hum tormento causando-lhe excessivo<br>
+Ao despir por as mãos crueis e iradas.<br>
+<br>
+As venerandas barbas de Deos vivo<br>
+De resplandor ornadas, s'arrancavão<br>
+Para desempenhar a Adão captivo.<br>
+<br>
+Com cordas por as ruas o levavão,<br>
+Levando sôbre os hombros o trophéo<br>
+Da victoria qu'as almas alcançavão.<br>
+<br>
+Ó tu, que passas, homem Cyrenêo,<br>
+Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro,<br>
+Que agora, como humano, enfraqueceo.<br>
+<br>
+Ólha que o corpo afflicto do marteiro,<br>
+E dos longos jejuns debilitado,<br>
+Não póde ja co'o pêso do madeiro.<br>
+<br>
+Oh não enfraqueçais, Deos incarnado!<br>
+Essas quédas, que tanto vos magôão,<br>
+Supportae Cavalleiro sublimado.<br>
+<br>
+Aquellas altas vozes, que lá sôão,<br>
+Dos Padres são, que o Limbo tẽe escuro,<br>
+E ja de louro e palma vos corôão.<br>
+<br>
+Todos vos bradão que subais o muro<br>
+Da cidade infernal, e que arvoreis<br>
+Em cima essa bandeira mui seguro.<br>
+<br>
+Oh Santos Padres! não vos apresseis; <span class="pn"><a name="pag_206">{206}</a></span><br>
+Pois muito mais a Deos, que a vós, custárão<br>
+Essas duras prisões em que jazeis.<br>
+<br>
+Aquellas mãos que o mundo edificárão,<br>
+Aquelles pés que pízão as estrellas,<br>
+Com durissimos pregos s'encravárão.<br>
+<br>
+Mas qual será o humano qu'as querellas<br>
+Da angustiada Virgem contemplasse,<br>
+Sem se mover a dor e mágoa dellas?<br>
+<br>
+E que dos olhos seus não destillasse<br>
+Tanta cópia de lagrimas ardentes,<br>
+Que carreiras no rosto sinalasse?<br>
+<br>
+Oh quem lhe víra os olhos refulgentes<br>
+Convertendo-se em fontes, e regando<br>
+Aquellas faces bellas e excellentes!<br>
+<br>
+Quem a ouvíra com vozes ir tocando<br>
+As estrellas, a quem responde o ceo,<br>
+Co'os accentos dos Anjos retumbando!<br>
+<br>
+Quem víra quando o puro rosto ergueo<br>
+A ver o Filho, que na Cruz pendia,<br>
+Donde a nossa saude descendeo!<br>
+<br>
+Que mágoas tão chorosas que diria!<br>
+Que palavras tão miseras e tristes<br>
+Para o ceo, para a gente espalharia!<br>
+<br>
+Pois que sería, Virgem, quando vistes<br>
+Com fel nojoso, e com vinagre amaro<br>
+Matar a sêde ao Filho que paristes?<br>
+<br>
+Não era este o licor suave e claro,<br>
+Que para o confortar então darieis<br>
+A quem vos era, mais que a vida, charo.<br>
+<br>
+Como, Virgem Senhora, não corrieis<br>
+A dar as puras tetas ao Cordeiro, <span class="pn"><a name="pag_207">{207}</a></span><br>
+Que padecer na Cruz com sêde vieis?<br>
+<br>
+Não era só, não, esse o verdadeiro<br>
+Poto, que vosso Filho desejava,<br>
+Morrendo por o mundo em hum madeiro;<br>
+<br>
+Mas era a salvação que alli ganhava<br>
+Para o misero Adão, que alli bebia<br>
+Na fonte que do peito lhe manava.<br>
+<br>
+Pois, ó pura e Santissima Maria,<br>
+Que, emfim, sentistes esta mágoa, quanto<br>
+A grave causa della o requeria;<br>
+<br>
+D'essa Fonte sagrada e peito santo<br>
+M'alcançae huma gotta, com que lave<br>
+A culpa que me aggrava e pesa tanto.<br>
+<br>
+Do licor salutifero e suave<br>
+M'abrangei, com que mate a sêde dura<br>
+Deste mundo tão cego, torpe e grave.<br>
+<br>
+Assi, Senhora, toda criatura<br>
+Que vive e vivirá, e não conhece<br>
+A Lei de vosso Filho, a abrace pura;<br>
+<br>
+O falsissimo herege, que carece<br>
+Da graça, e com damnado e falso esprito<br>
+Perturba a Santa Igreja, que florece;<br>
+<br>
+O povo pertinaz no antiguo rito,<br>
+Que só o destêrro seu, que tanto dura,<br>
+Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito;<br>
+<br>
+O torpe Ismaelita, que mistura<br>
+As Leis, e com preceitos tão viciosos<br>
+Na terra estende a seita falsa e impura;<br>
+<br>
+Os idolatras maos, supersticiosos,<br>
+Varios de opiniões e de costumes,<br>
+Levados de conceitos fabulosos; <span class="pn"><a name="pag_208">{208}</a></span><br>
+<br>
+As mais remotas gentes, onde o lume<br>
+Da nossa Fé não chega, nem que tenhão<br>
+Religião alguma se presume;<br>
+<br>
+Assi todos, emfim, Senhora, venhão<br>
+A confessar hum Deos crucificado,<br>
+E por nenhum respeito se detenhão.<br>
+<br>
+E d'hum e d'outro o vício ja deixado,<br>
+O seu Nome, co'o vosso nesse dia,<br>
+Seja por todo o mundo celebrado;<br>
+<br>
+E respóndão os ceos: J<small>ESUS,</small> M<small>ARIA.</small>
+</blockquote>
+
+
+<h3>ELEGIA XII. ACROSTICA.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>J</big>uizo extremo, horrifico e tremendo,<br>
+E Juiz sempiterno, alto e celeste,<br>
+Significará a terra, humedecendo.<br>
+Ver-se-ha nella hum suor que manifeste<br>
+Como em carne vem Deos, para que o veja<br>
+Homem toda esta máchina terreste;<br>
+Rei justo, que dos corpos e almas seja<br>
+Juiz; e quando o mundo cego e inculto<br>
+Sôbre espinhos crueis deitado seja,<br>
+Todo vão simulacro e gentil culto<br>
+Ousará engeitar a gente; e guerra<br>
+Fará co'o mar o fogo, e cru tumulto.<br>
+Immensa luz, que as carnes desenterra,<br>
+Lançará fóra as portas vãas do Averno,<br>
+Hum Justo e outro alçando á santa terra. <span class="pn"><a name="pag_209">{209}</a></span><br>
+Outros, que são os maos, no fogo eterno<br>
+Deitará, descobrindo-se os segredos,<br>
+E sendo claro todo feito interno.<br>
+Desfeitos serão montes e penedos,<br>
+E será tudo pranto e estridor duro;<br>
+Obras de grande dor e tristes medos.<br>
+Será tornado o sol de todo escuro,<br>
+E destruida a máchina do mundo,<br>
+Sem luz as luzes todas do Orbe puro;<br>
+Altos serão os valles, e em profundo<br>
+Lugar se abaterão os altos montes;<br>
+Vibrará mares vento furibundo:<br>
+Haverá só de chammas vivas fontes:<br>
+De trombeta tremenda som terribil,<br>
+Ouvido, fara pallidas as frontes.<br>
+Responderá dos maos gemido horribil. <span class="pn"><a name="pag_210">{210}</a></span>
+</blockquote>
+
+</div>
+
+
+<div id="epistolas">
+
+<h2>EPISTOLAS.</h2>
+
+
+<h3>EPISTOLA I.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>Q</big>uem póde ser no mundo tão quieto,<br>
+Ou quem terá tão livre o pensamento,<br>
+Quem tão exprimentado, ou tão discreto,<br>
+Tão fóra, emfim, de humano entendimento,<br>
+Que ou com público effeito, ou com secreto,<br>
+Lhe não revolva e espante o sentimento,<br>
+Deixando-lhe o juizo quasi incerto,<br>
+Ver e notar do mundo o desconcêrto?<br>
+<br>
+Quem ha que veja aquelle que vivia<br>
+De latrocinios, mortes e adulterios,<br>
+Que ao juizo das gentes merecia<br>
+Perpétua pena, immensos vituperios,<br>
+Se a Fortuna em contrário o leva e guia,<br>
+Mostrando, emfim, que tudo são mysterios,<br>
+Em alteza d'estados triumphante,<br>
+Que por livre que seja não s'espante?<br>
+<br>
+Quem ha que veja aquelle, que tão clara<br>
+Teve a vida, qu'em tudo por perfeito<br>
+O proprio Momo ás gentes o julgára,<br>
+Inda quando lhe visse aberto o peito,<br>
+Se a má Fortuna, ao bom somente avara,<br>
+O reprime, e lhe nega seu direito, <span class="pn"><a name="pag_211">{211}</a></span><br>
+Que lhe não fique o peito congelado,<br>
+Por mais e mais que seja exprimentado?<br>
+<br>
+Democrito dos deoses proferia<br>
+Que erão sós dous; a Pena, e o Beneficio.<br>
+Segredo algum será da phantasia,<br>
+De qu'eu achar não posso claro indicio.<br>
+Que se ambos vem por não cuidada via<br>
+A quem os não merece, he grande vício<br>
+Em deoses sem-justiça e sem-razão.<br>
+Mas Democrito o disse, e Paulo não.<br>
+<br>
+Dir-me-heis, que s'este estranho desconcêrto<br>
+Novamente no mundo se mostrasse,<br>
+Que por livre que fosse e mui experto,<br>
+Não era d'espantar se m'espantasse.<br>
+Mas que se ja de Socrates foi certo<br>
+Que nenhum grande caso lhe mudasse<br>
+O vulto, ou de prudente, ou de constante,<br>
+Exemplo tome delle, e não m'espante.<br>
+<br>
+Parece a razão boa; mas eu digo<br>
+Deste uso da Fortuna tão damnado<br>
+Que quanto he mais usado e mais antigo,<br>
+Tanto he mais estranhado e blasphemado.<br>
+Porque, se o Ceo, das gentes tão amigo<br>
+Não dá á Fortuna tempo limitado,<br>
+Não he para causar mui grande espanto,<br>
+Que mal tão mal olhado dure tanto?<br>
+<br>
+Outro espanto maior aqui m'enleia,<br>
+Que com quanto Fortuna tão profana<br>
+Com estes desconcertos senhoreia,<br>
+A nenhuma pessoa desengana.<br>
+Não ha ninguem, que assente, nem que creia <span class="pn"><a name="pag_212">{212}</a></span><br>
+Este discurso vão da vida humana,<br>
+Por mais que philosophe, nem qu'entenda,<br>
+Que algum pouco do mundo não pretenda.<br>
+<br>
+Diogenes pisava de Platão<br>
+Com seus sordidos pés o rico estrado,<br>
+Mostrando outra mais alta presumpção<br>
+Em desprezar o fausto tão prezado.<br>
+Diogenes, não vês que extremos são<br>
+Esses que segues, de mais alto estado?<br>
+Pois se de desprezar te prezas muito,<br>
+Ja pretendes do mundo fama e fruito.<br>
+<br>
+Deixo agora Reis grandes, cujo estudo<br>
+He fartar esta sêde cubiçosa<br>
+De querer dominar e mandar tudo,<br>
+Com fama larga e pompa sumptuosa.<br>
+Deixo aquelles que tomão por escudo<br>
+De seus vicios e vida vergonhosa<br>
+A nobreza de seus antecessores,<br>
+E não cuidão de si que são peores.<br>
+<br>
+Aquelle deixo, a quem do somno esperta<br>
+O grão favor do Rei que serve e adora,<br>
+E se mantẽe dest'aura falsa e incerta,<br>
+Que de corações tantos he senhora.<br>
+Deixo aquelles qu'estão co'a boca aberta<br>
+Por s'encher de thesouros de hora em hora,<br>
+Doentes desta falsa hydropesia,<br>
+Que quanto mais alcança, mais queria.<br>
+<br>
+Deixo outras obras vãas do vulgo errado,<br>
+A quem não ha ninguem que contradiga,<br>
+Nem de outra cousa alguma he governado,<br>
+Que d'huma opinião e usança antiga. <span class="pn"><a name="pag_213">{213}</a></span><br>
+Mas pergunto ora a Cesar esforçado,<br>
+Ora a Platão divino, que me diga,<br>
+Este das muitas terras em que andou,<br>
+Aquelle de vencê-las, que alcançou?<br>
+<br>
+Cesar dirá: Sou digno de <span class="typo" title="no original: momoria">memoria</span>:<br>
+Vencendo povos varios e esforçados,<br>
+Fui Monarca do mundo; e larga historia<br>
+Ficará de meus feitos sublimados.<br>
+He verdade: mas esse mando e glória,<br>
+Lograste-o muito tempo? Os conjurados<br>
+Bruto e Cassio dirão que, se venceste,<br>
+Emfim, emfim, ás mãos dos teus morreste.<br>
+<br>
+Dirá Platão: Por ver o Etna e o Nilo<br>
+Fui a Sicilia, Egypto e outras partes,<br>
+Só por ver e escrever em alto estilo<br>
+Da natural sciencia e muitas artes.<br>
+O tempo he breve, e queres consumi-lo,<br>
+Platão, todo em trabalhos? e repartes<br>
+Tão mal de teu estudo as breves horas,<br>
+Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras?<br>
+<br>
+Pois quanto des que vive ja apartada<br>
+A alma desta prisão terreste e escura;<br>
+Está em tamanhas cousas occupada,<br>
+Que da fama, que fica, nada cura.<br>
+E se o corpo terreno sinta nada,<br>
+O Cynico dirá se por ventura<br>
+No campo, onde lançado morto estava,<br>
+De si os cães, ou as aves enxotava.<br>
+<br>
+Quem tão baixa tivesse a phantasia,<br>
+Que nunca em mores cousas a metesse,<br>
+Qu'em só levar seu gado á fonte fria, <span class="pn"><a name="pag_214">{214}</a></span><br>
+E mungir-lhe do leite que bebesse,<br>
+Quão bem-aventurado que sería!<br>
+Que por mais que a Fortuna revolvesse,<br>
+Nunca em si sentiria maior pena,<br>
+Que pezar-lhe de a vida ser pequena.<br>
+<br>
+Veria erguer do sol a roxa face,<br>
+Veria correr sempre a clara fonte,<br>
+Sem imaginar a ágoa donde nace,<br>
+Nem quem a luz occulta no Horizonte.<br>
+Tangendo a frauta donde o gado pace,<br>
+Conheceria as hervas do alto monte,<br>
+Em Deos creria simples e quieto,<br>
+Sem mais especular algum secreto.<br>
+<br>
+D'hum certo Trasilao se lê e escreve<br>
+Entre as cousas da velha antiguidade,<br>
+Que perdido grão tempo o siso teve<br>
+Por causa d'huma grave enfermidade;<br>
+E em quanto, de si fóra, doudo esteve,<br>
+Tinha por teima, e cria por verdade,<br>
+Qu'erão suas, das naos que navegavão,<br>
+Quantas no porto Píreo ancoravão.<br>
+<br>
+Por hum Senhor mui grande se teria,<br>
+(Além da vida alegre que passava)<br>
+Pois nas que se perdião não perdia,<br>
+E das que vinhão salvas se alegrava.<br>
+Não tardou muito tempo, quando hum dia<br>
+Huncrito, seu irmão, que ausente estava,<br>
+Á terra chega; e vendo o irmão perdido,<br>
+Do fraternal amor foi commovido.<br>
+<br>
+Aos Medicos o entrega, e com aviso<br>
+O faz estar á cura refusada. <span class="pn"><a name="pag_215">{215}</a></span><br>
+Triste! que por tornar-lhe o antigo siso<br>
+Lhe tira a doce vida descansada.<br>
+As hervas Apollineas d'improviso<br>
+O tornão á saude ja passada.<br>
+Sisudo Trasilao, ao charo irmão<br>
+Agradece a vontade, a obra não.<br>
+<br>
+Porque despois de ver-se no perigo<br>
+Do trabalho a que o siso o obrigava,<br>
+E despois de não ver o estado antigo,<br>
+Que a louca presumpção lhe apresentava:<br>
+Oh inimigo irmão, com côr de amigo!<br>
+Para que me tiraste (suspirava)<br>
+Da mais quieta vida e livre em tudo,<br>
+Que nunca pôde ter nenhum sisudo?<br>
+<br>
+Por qual Senhor algum eu me trocára,<br>
+Ou por qual algum Rei de mais grandeza?<br>
+Que me dava que o mundo se acabára,<br>
+Ou que a ordem mudasse a natureza?<br>
+Agora me he penosa a vida chara;<br>
+Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza.<br>
+Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso<br>
+Que na doudice só consiste o siso.<br>
+<br>
+Vêdes aqui, Senhor, bem claramente<br>
+Como a Fortuna em todos tẽe poder,<br>
+Senão só no que menos sabe e sente;<br>
+Em quem nenhum desejo póde haver.<br>
+Este se póde rir da cega gente;<br>
+Neste não póde nada acontecer;<br>
+Nem estara suspenso na balança<br>
+Do temor mao, da perfida esperança.<br>
+<br>
+Mas se o sereno Ceo me concedêra <span class="pn"><a name="pag_216">{216}</a></span><br>
+Qualquer quieto, humilde e doce estado,<br>
+Onde com minhas Musas só vivêra,<br>
+Sem ver-me em terra alheia degradado;<br>
+E alli outrem ninguem me conhecêra,<br>
+Nem eu conhecêra outro mais honrado,<br>
+Senão a vós, tambem como eu contente;<br>
+Que bem sei que o serieis facilmente:<br>
+<br>
+E ao longo d'huma clara e pura fonte,<br>
+Qu'em borbulhas nascendo, convidasse<br>
+Ao doce passarinho, que nos conte<br>
+Quem da chara consorte o apartasse;<br>
+Despois, cobrindo a neve o verde monte,<br>
+Ao gasalhado o frio nos levasse,<br>
+Avivando o juizo ao doce estudo,<br>
+Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo.<br>
+<br>
+Cantára-nos aquelle, que tão claro<br>
+O fez o fogo da árvore Phebêa,<br>
+A qual elle em estylo grande e raro<br>
+Louvando, o crystallino Sorga enfrêa;<br>
+Tangêra-nos na frauta Sanazaro,<br>
+Ora nos montes, ora por a arêa;<br>
+Passára celebrando o Tejo ufano<br>
+O brando e doce Lasso Castelhano.<br>
+<br>
+E comnosco tambem se achára aquella,<br>
+Cuja lembrança, e cujo claro gesto<br>
+N'alma somente vejo, porque nella<br>
+Está em essencia puro e manifesto;<br>
+Por alta influição de minha estrella<br>
+Mitigando o rigor do peito honesto,<br>
+Entretecendo rosas nos cabellos,<br>
+De que tomasse a luz o sol em vellos; <span class="pn"><a name="pag_217">{217}</a></span><br>
+<br>
+E em quanto por Verão flores colhesse,<br>
+Ou por Inverno ao fogo accommodado,<br>
+O que de mi sentíra nos dissesse,<br>
+De puro amor o peito salteado;<br>
+Não pedíra então eu, que Amor me désse<br>
+Do insano Trasilao o doudo estado;<br>
+Mas que alli me dobrasse o entendimento,<br>
+Por ter de tanto bem conhecimento.<br>
+<br>
+Mas por onde me leva a phantasia?<br>
+Porqu'imagino em bem-aventuranças,<br>
+Se tão longe a Fortuna me desvia,<br>
+Qu'inda me não consente as esperanças?<br>
+Se hum novo pensamento Amor me cria<br>
+Onde o lugar, o tempo, as esquivanças<br>
+Do bem me fazem tão desamparado,<br>
+Que não póde ser mais qui'maginado?<br>
+<br>
+Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou<br>
+Contra mi, porque mais me magoasse:<br>
+Amor a hum vão desejo me obrigou,<br>
+Só para que a Fortuna mo negasse.<br>
+O tempo a tal estado me chegou;<br>
+E nelle quiz que a vida se acabasse;<br>
+Se ha em mi acabar-se, o qu'eu não creio;<br>
+Que até da muita vida me receio.
+</blockquote>
+
+
+<h3>EPISTOLA II.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>C</big>omo nos vossos hombros tão constantes<br>
+(Principe illustre e raro) sustenteis <span class="pn"><a name="pag_218">{218}</a></span><br>
+Tantos negocios arduos e importantes,<br>
+Dignos do largo Imperio, que regeis;<br>
+Como sempre nas armas rutilantes<br>
+Vestido, o mar e a terra segureis<br>
+Do pirata insolente, e do tyrano<br>
+Jugo do potentissimo Othomano;<br>
+<br>
+E como com virtude necessaria,<br>
+Mal entendida do juizo alheio,<br>
+Á desordem do vulgo temeraria<br>
+Na santa paz ponhais o duro freio;<br>
+Se com minha escriptura longa e vária<br>
+Vos occupasse o tempo, certo creio<br>
+Que com vagante e ociosa phantasia<br>
+Contra o commum proveito peccaria.<br>
+<br>
+E não menos sería reputado<br>
+Por doce adulador, sagaz e agudo,<br>
+Que contra meu tão baixo e triste estado<br>
+Busco favor em vós que podeis tudo,<br>
+Se contra a opinião do vulgo errado<br>
+Vos celebrasse em verso humilde e rudo.<br>
+Dirão, que com lisonja ajuda peço<br>
+Contra a miseria injusta que padeço.<br>
+<br>
+Porém, porque a verdade póde tanto<br>
+No livre arbitrio, (como disse bem<br>
+Ao Rei Dario o moço sabio e santo,<br>
+Que foi reedificar Hierusalem)<br>
+Esta m'obriga a qu'em humilde canto,<br>
+Contra a tenção que a plebe ignara tem,<br>
+Vos faça claro a quem vos não alcança;<br>
+E não de premio algum vil esperança.<br>
+<br>
+Romulo, Baccho e outros que alcançárão <span class="pn"><a name="pag_219">{219}</a></span><br>
+Nomes de semideoses soberanos,<br>
+Em quanto por o mundo exercitárão<br>
+Altos feitos, e quasi mais que humanos,<br>
+Com justissima causa se queixárão<br>
+Que não lhes respondêrão os mundanos<br>
+Favores do rumor justos e iguaes<br>
+A seus merecimentos immortaes.<br>
+<br>
+Aquelle, que nos braços poderosos<br>
+Tirou a vida ao Tingitano Anteo,<br>
+E a quem os seus trabalhos tão famosos<br>
+Fizerão Cidadão do claro ceo;<br>
+Achou que a má tenção dos invejosos<br>
+Não se doma, senão despois que o véo<br>
+Se rompe corporal: porque na vida<br>
+Ninguem alcança a glória merecida.<br>
+<br>
+Pois logo, se Barões tão excellentes<br>
+Forão do baixo vulgo molestados,<br>
+O vituperio vil das rudas gentes,<br>
+He louvor dos Reaes, e sublimados.<br>
+Quem no lume dos vossos Ascendentes<br>
+Poderá pôr os olhos, que abalados<br>
+Lhes não fiquem da luz, vendo os maiores<br>
+Vossos passados, Reis e Imperadores?<br>
+<br>
+Quem verá aquelle Pae da Patria sua,<br>
+Açoute do soberbo Castelhano,<br>
+Que o duro jugo só, co'a espada nua,<br>
+Removeo do pescoço Lusitano,<br>
+Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua<br>
+Memoria causará, se não m'engano,<br>
+Que qualquer teu menor tanto s'estime,<br>
+Que nunca possa ser senão sublime? <span class="pn"><a name="pag_220">{220}</a></span><br>
+<br>
+Nisto não fallo mais, porque conheço<br>
+Que da materia se me baixa o engenho.<br>
+Mas, pois a dizer tudo m'offereço,<br>
+E dias ha que no desejo o tenho,<br>
+Sendo vós de tão alto e illustre preço,<br>
+A vida fostes pôr n'hum fraco lenho,<br>
+Por largo mar e undosa tempestade,<br>
+Só por servir á Regia Magestade.<br>
+<br>
+E despois de tomar a redea dura<br>
+Na mão, do povo indomito qu'estava<br>
+Costumado a larguezas, e á soltura<br>
+Do pezado govêrno que acabava;<br>
+Quem não terá por santa e justa cura,<br>
+Qual do vosso conceito s'esperava,<br>
+A tão desenfreada enfermidade<br>
+Applicar-lhe contrária qualidade?<br>
+<br>
+Não he muito, Senhor, se o moderado<br>
+Govêrno se blasphema e se desama;<br>
+Porque o povo á largueza costumado,<br>
+Á lei serena e justa, dura chama.<br>
+Pois o zelo em virtude só fundado<br>
+De salvar almas da Tartarea flama<br>
+Com a ágoa salutifera de Christo,<br>
+Poderá por ventura ser malquisto?<br>
+<br>
+Quem quizesse negar tão grã verdade,<br>
+Qual he o seu effeito santo e pio;<br>
+Negue tambem ao sol a claridade,<br>
+E certifique mais que o fogo he frio.<br>
+Se o successo he contrário da vontade<br>
+Nas obras que são boas, e ha desvio; <span class="pn"><a name="pag_221">{221}</a></span><br>
+Está nas mãos dos homens comettellas,<br>
+E nas de Deos está o successo dellas.<br>
+<br>
+Sei eu, e sabem todos que os futuros<br>
+Verão por vós o Estado accrescentado,<br>
+Serão memoria vossa os fortes muros<br>
+Do Cambaico Damão bem sustendado:<br>
+Da ruina mortal serão seguros,<br>
+Tendo todo o alicerce seu fundado<br>
+Sôbre orfãas amparadas com maridos,<br>
+E pagos os serviços bem devidos.<br>
+<br>
+Quãmanha infamia ao Principe he perder-se<br>
+Pouco do Estado seu, que inteiro herdou,<br>
+Tanto por glória grande deve ter-se<br>
+Se accrescentado e próspero o deixou.<br>
+Nunca consentio Roma ennobrecer-se<br>
+Com triumphos alguem, se não ganhou<br>
+Provincia com que o Imperio s'augmentasse,<br>
+Por maiores victorias qu'alcançasse.<br>
+<br>
+Póde tomar o vosso nome dino<br>
+Damão, por honra sua clara e pura,<br>
+Como ja do primeiro Constantino<br>
+Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura.<br>
+E tu, Rei, que no Reino Neptunino,<br>
+Lá no seio Gangetico a Natura<br>
+Te aposentou, de ser tão inimigo<br>
+Deste Estado não ficas sem castigo.<br>
+<br>
+Bem viste contra ti nadantes aves<br>
+Cortar a espumosa ágoa navegando;<br>
+Ouviste o som das tubas, não suaves,<br>
+Mas com temor horrifero soando;<br>
+Sentiste os golpes asperos e graves <span class="pn"><a name="pag_222">{222}</a></span><br>
+Do Lusitano braço nunca brando.<br>
+Não soffreste o grão brado penetrante,<br>
+Que os trovões imitava do Tonante.<br>
+<br>
+Mas antes dando as costas e a victoria<br>
+Á Bragancez ventura não corrido,<br>
+Déste bem a entender quão grande glória<br>
+He de tal vencedor o ser vencido.<br>
+Quem faz obras tão dignas de memoria<br>
+Sempre será famoso e conhecido,<br>
+Onde os altos juizos o estimarem,<br>
+Qu'estes sós tẽe poder de fama darem.<br>
+<br>
+Não vos temais, Senhor, do povo ignaro,<br>
+Tão ingrato a quem tanto faz por elle;<br>
+Mas sabei qu'he signal de serdes claro<br>
+O ser agora tão malquisto delle.<br>
+Themistocles, da patria sua amparo,<br>
+O forte e liberal Cimon, e aquelle<br>
+Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo,<br>
+Testimunhas serão de quanto digo.<br>
+<br>
+Pois ao justo Aristídes hum robusto,<br>
+Votando no ostracismo costumado,<br>
+Lhe disse claro assi: Porque era justo<br>
+Desejava que fosse desterrado.<br>
+Pachitas por fugir do povo injusto<br>
+Calumnioso, dando no Senado<br>
+Conta de Lesbos, qu'elle ja mandára,<br>
+Se tirou co'o seu ferro a vida chara.<br>
+<br>
+Demosthenes, lançado das tormentas<br>
+Populares, Ó Pallas! foi dizendo,<br>
+Que de tres monstros grandes te contentas,<br>
+Do drago e moucho, e do vil povo horrendo! <span class="pn"><a name="pag_223">{223}</a></span><br>
+Que glórias immortaes houve, qu'isentas<br>
+Do veneno vulgar fossem, vivendo?<br>
+Pois mil exemplos deixo de Romanos,<br>
+E vós tambem sois hum dos Lusitanos.
+</blockquote>
+
+
+<h3>EPISTOLA III.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>M</big>ui alto Rei, a quem os Ceos em sorte<br>
+Derão o nome augusto e sublimado<br>
+Daquelle Cavalleiro que na morte,<br>
+Por Christo, foi de settas mil passado;<br>
+Pois delle o fiel peito, casto e forte,<br>
+Co'o nome Imperial tendes tomado,<br>
+Tomae tambem a setta veneranda<br>
+Que a vós o Successor de Pedro manda.<br>
+<br>
+Ja por ordem do Ceo, que o consentio,<br>
+Tendes o braço seu, reliquia chara,<br>
+Defensor contra o gladio que ferio<br>
+O povo que David contar mandára.<br>
+No qual, pois tudo em vós se permittio,<br>
+Presagio temos, e esperança clara,<br>
+Que sereis braço forte e soberano<br>
+Contra o soberbo gladio Mauritano.<br>
+<br>
+E o que hum presagio tal agora encerra,<br>
+Nos faz ter por mais certo e verdadeiro<br>
+A setta, que vos dá quem he na terra<br>
+Dos celestes thesouros Dispenseiro:<br>
+Que as vossas settas são na justa guerra<br>
+Agudas, e entrarão por derradeiro <span class="pn"><a name="pag_224">{224}</a></span><br>
+(Cahindo a vossos pés povo sem lei)<br>
+Nos peitos que inimigos são do Rei.<br>
+<br>
+Quando vossas bandeiras despregava<br>
+Albuquerque fortissimo com glória<br>
+Por as praias de Persia, e alcançava<br>
+De Nações tão remotas a victoria;<br>
+As settas embebidas, que tirava<br>
+O arco Armusiano (he larga historia)<br>
+Nos ares, Deos querendo, se viravão,<br>
+Pregando-se nos peitos que as tiravão.<br>
+<br>
+O querido de Deos, por quem peleja,<br>
+O ar tambem e o vento conjurado<br>
+Ao atambor lhe acodem, porque veja<br>
+Que o que a Deos ama, he de Deos amado:<br>
+Os contrarios revéis á Madre Igreja<br>
+Atroarão co'o tom do Ceo irado.<br>
+Que assi deo ja favor maior que humano<br>
+A Josué Hebreo, Teodosio Hispano.<br>
+<br>
+Pois se as settas tiradas da inimiga<br>
+Corda, contra si só nocivas são,<br>
+Que farão, Rei, as vossas que tẽe liga<br>
+Com a que ja tocou Sebastião?<br>
+Tinta vem do seu sangue, com que obriga<br>
+A levantar a Deos o coração,<br>
+Crendo bem que as que vós despedireis,<br>
+No sangue Sarraceno as tingireis.<br>
+<br>
+Ascanio, (se trazer me he concedido<br>
+Entre santos exemplos hum profano)<br>
+Rei do Imperio, despois tão conhecido,<br>
+De Roma, e só reliquia do Troiano,<br>
+Vingou com setta e ânimo atrevido <span class="pn"><a name="pag_225">{225}</a></span><br>
+As soberbas palavras de Numano;<br>
+E logo foi dalli remunerado<br>
+Com louvores de Apollo, e celebrado.<br>
+<br>
+Assi vós, Rei, que fostes segurança<br>
+De nossa liberdade, e que nos dais<br>
+De grandes bens certissima esperança;<br>
+Nos costumes, e aspecto que mostrais,<br>
+Concebemos segura confiança<br>
+Que Deos, a quem servis e venerais,<br>
+Vos fara vingador dos seus revéis,<br>
+E os premios vos dará que mereceis.<br>
+<br>
+Estes humildes versos, que pregão<br>
+São destes vossos Reinos com verdade,<br>
+Recebei com benigna e Real mão,<br>
+Pois he devida a Reis benignidade.<br>
+Tenhão (se não merecem galardão)<br>
+Favor sequer da Regia Magestade:<br>
+Assi tenhais de quem ja tendes tanto,<br>
+Com o nome e reliquia, favor santo.
+</blockquote>
+
+
+<h3>EPISTOLA IV.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>S</big>enhora, s'encobrir por algum'arte<br>
+Pudera esta occasião de meu tormento,<br>
+Não creias que chegára a declarar-te<br>
+Este meu perigoso pensamento.<br>
+Mas por mais que te offenda, não sou parte<br>
+No crime de tamanho atrevimento: <span class="pn"><a name="pag_226">{226}</a></span><br>
+Elle he d'amor; e delle fui forçado<br>
+A que te declarasse o meu cuidado.<br>
+<br>
+Se merece castigo a confiança<br>
+Com que descubro agora o que padeço,<br>
+Aqui prompto me tens; toma a vingança<br>
+Que por tão grave culpa te mereço.<br>
+Bem me podes negar toda esperança,<br>
+Mas eu não desistir deste comêço;<br>
+Porque tempo e Fortuna não são parte<br>
+Para deixar hum'hora só de amar-te.<br>
+<br>
+Ja que ver-te os meus olhos alcançárão,<br>
+Descansem neste bem com alegria,<br>
+Pois ja com ver os teus tanto ganhárão,<br>
+Quanto, estando sem vê-los, se perdia.<br>
+Que glória querem mais, se a ver chegárão<br>
+Aquella pura luz que vence ao dia?<br>
+Qual mor bem ha no mundo que querer-te,<br>
+Se não ha mais que ver despois de ver-te?<br>
+<br>
+Minhas dores mortaes, bella Senhora,<br>
+Tirárão a virtude ao soffrimento;<br>
+E fazendo-se mais em qualquer hora,<br>
+Levando vão traz ti meu pensamento:<br>
+Porém soberbos vejo desde agora,<br>
+Por a causa gentil de seu tormento,<br>
+Minha alma, meu desejo, meu sentido,<br>
+Porque á tua belleza se hão rendido.<br>
+<br>
+A par de tua rara formosura<br>
+Se desconhece o mor merecimento;<br>
+A tua claridade torna escura<br>
+Do sol a clara luz em hum momento.<br>
+Se Zeuxis ao formar bella figura, <span class="pn"><a name="pag_227">{227}</a></span><br>
+A vista em ti pudera pôr attento,<br>
+Mais alto original houvera achado<br>
+Para admirar o mundo co'o traslado.<br>
+<br>
+Aquelles qu'escrevêrão mil louvores<br>
+De formosura, graça e gentileza,<br>
+Todos forão, Senhora, huns borradores<br>
+De tua perfeitissima belleza.<br>
+Agora se vê claro em teus primores<br>
+Qu'em ti s'esmerou mais a natureza;<br>
+E qu'erão os seus cantos prophecias<br>
+Do que havias de ser em nossos dias.<br>
+<br>
+Vê, pois, se vinha a ser culpavel falta<br>
+Em mi o não render-te amante a vida,<br>
+E se deixar d'amar glória tão alta<br>
+Era digno da pena mais crescida.<br>
+Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta<br>
+Co'o castigo de culpa assi atrevida:<br>
+E quando della caia, maior glória<br>
+Tera o Tejo, que o Pó, com sua historia. <span class="pn"><a name="pag_228">{228}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+</div>
+
+
+
+<div id="oitavas">
+
+<h2>OITAVAS.</h2>
+
+
+<h3>GLOSA DO SONETO 14.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>espois que a clara Aurora a noite escura<br>
+Com novo resplandor foi desfazendo,<br>
+E Phebo por os montes e espessura<br>
+Os seus dourados raios estendendo;<br>
+Se buscava nos valles a verdura<br>
+O manso gado a luz serena vendo,<br>
+Quando a férvida sésta ja abrazava,<br>
+<em>Todo animal da calma repousava.</em><br>
+<br>
+Ja por fugir do sol o fogo ardente,<br>
+As sombras os rebanhos vão buscando;<br>
+Os tenros cabritinhos juntamente<br>
+Apos as mansas mães hião saltando;<br>
+Tangendo as suas frautas docemente<br>
+Os pastores, estavão enganando<br>
+A grã chamma solar qu'então ardia;<br>
+<em>Só Liso o ardor della não sentia.</em><br>
+<br>
+Tristes lembranças tanto o traspassavão,<br>
+Que a dura sésta nelles só passava;<br>
+O tempo qu'em prazer outros gastavão,<br>
+Em celebrar seu mal elle o gastava;<br>
+As festas que com jogos celebravão,<br>
+Elle com suspirar as celebrava: <span class="pn"><a name="pag_229">{229}</a></span><br>
+Nada buscava mais, mais não queria<br>
+<em>Que o repouso do fogo em qu'elle ardia.</em><br>
+<br>
+Os repetidos jogos dos pastores,<br>
+As lutas entre a rama repetidas,<br>
+Em nada lhe divertem suas dores;<br>
+Mas antes n'alegria as vê crescidas.<br>
+Como o repouso roubão os amores<br>
+Ás almas que para elles são nascidas,<br>
+Elle, todo o repouso qu'esperava,<br>
+<em>Consistia na Nympha que buscava.</em><br>
+<br>
+Com o chôro, que ja corria em fio<br>
+Por o pallido rosto, augmenta as fontes,<br>
+Que levão ágoa estranha ao claro rio<br>
+Que os valles vai regando entre altos montes.<br>
+Com suspiros a quem o ecco pio<br>
+Responde de apartados horizontes,<br>
+Os ventos parecia qu'enfreava,<br>
+<em>Os montes parecia que abalava.</em><br>
+<br>
+Que ás queixas de seus doces pensamentos<br>
+Se movessem os montes mais constantes,<br>
+Se parassem os mais veloces ventos,<br>
+Qu'estavão, que corrião circumstantes,<br>
+Bem se devia á dor de seus tormentos,<br>
+E inda que fosse em peitos de diamantes;<br>
+Que hum peito de diamante abrandaria<br>
+<em>O triste som das mágoas que dizia.</em><br>
+<br>
+Porém elle as dizia a outro peito,<br>
+Mais, que diamante, inexpugnavel, duro:<br>
+A fé lh'encarecia, a que sogeito<br>
+O tinha em pena eterna o amor puro;<br>
+Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito, <span class="pn"><a name="pag_230">{230}</a></span><br>
+Quanto mais offendido, mais seguro:<br>
+A Nympha mais segura tudo ouvia,<br>
+<em>Mas nada o duro peito commovia.</em><br>
+<br>
+As lástimas aqui tanto crescêrão,<br>
+Que s'em montes de Hircania s'escuitárão,<br>
+Tigres nos seios seus mover puderão,<br>
+E pedras nos seus cumes abrandárão.<br>
+Mas se no peito as tristes vozes dérão<br>
+Daquella fera humana que buscárão,<br>
+Elle d'as admittir se retirava;<br>
+<em>Que na vontade de outro pôsto estava.</em><br>
+<br>
+Desenganado ja da triste sorte,<br>
+De que mal fino amor se desengana,<br>
+Com a desperança só de sua morte<br>
+Aquellas penas últimas engana.<br>
+Deixando na espessura o claro Norte,<br>
+Para elle de outra luz mais soberana,<br>
+A hum valle aberto então sahir procura,<br>
+<em>Cansado ja de andar por a espessura.</em><br>
+<br>
+Deixando as suas cabras que pascessem<br>
+Naquelle verde prado as frescas flores;<br>
+Porque os Satyros leves o soubessem,<br>
+E os sylvestres Faunos amadores;<br>
+Tambem porque os pastores o entendessem,<br>
+Todo o processo e fim de seus amores<br>
+Escreveo (sem em nada haver mudança)<br>
+<em>No tronco d'huma faia por lembrança.</em><br>
+<br>
+Por lembrança no tronco d'huma faia,<br>
+Que vai sahindo ao ceo de puro altiva<br>
+Na verde, prateada e aurea praia,<br>
+Por onde o claro Tejo se deriva; <span class="pn"><a name="pag_231">{231}</a></span><br>
+Porque tambem ao ceo sua dor saia<br>
+Sôbre aquella corrente fugitiva,<br>
+Escrita no papel da natureza;<br>
+<em>Escreve estas palavras de tristeza:</em><br>
+<br>
+Natercia, Nympha bella, por quem vivo<br>
+Em tal tormento, tempo algum me olhou;<br>
+Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo<br>
+Daquelle brando olhar que m'enganou,<br>
+O amor tornava em desamor esquivo;<br>
+E d'hum tormento tal a outro passou.<br>
+Em cousas tão sujeitas a mudança<br>
+<em>Nunca ponha ninguem sua esperança.</em><br>
+<br>
+Para dar proveitosos desenganos<br>
+Dos enganos que são de Amor effeitos,<br>
+E dos dous sexos publicar, humanos,<br>
+A origem das mudanças de seus peitos;<br>
+Estas letras aqui por longos anos<br>
+Digão a corações a amar sujeitos<br>
+Em peito varonil, que de ventura,<br>
+<em>Em peito feminil, que de natura...</em><br>
+<br>
+Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado<br>
+Cahio ao pé da faia em qu'escrevia,<br>
+Não podendo seguir o começado,<br>
+Porque a alma ja do corpo lhe sahia.<br>
+Tres vezes, com accento mal formado,<br>
+Para exemplo futuro repetia:<br>
+Amantes, entendei que a mór belleza<br>
+<em>Somente em ser mudavel tem firmeza.</em> <span class="pn"><a name="pag_232">{232}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<h3>GLOSA DO SONETO 194.</h3>
+
+<blockquote>
+<em><big>C</big>á nesta Babylonia adonde mana</em><br>
+Hypocrisia, engano e falsidade;<br>
+Cá donde ousada toda carne humana<br>
+A todo arbitrio vive da vontade;<br>
+Cá donde enrouqueceo da Lusitana<br>
+Musa o furor heroico e suavidade;<br>
+Cá donde se produz por cega via<br>
+<em>Materia a quanto mal o mundo cría</em>;<br>
+<br>
+<em>Cá donde o puro Amor não tẽe valia</em>,<br>
+Porque Baccho o tẽe hoje desterrado;<br>
+Cá donde a frecha d'ouro não feria,<br>
+Senão cabello preto e alfenado;<br>
+Cá donde a loura trança não se via,<br>
+Nem o rosto de sangue matizado;<br>
+Cá donde nada val a glória humana,<br>
+<em>Que a mãe, que manda mais, tudo profana</em>;<br>
+<br>
+<em>Cá donde o mal se affina, o bem se dana</em>,<br>
+Se algum a terra em si quer produzir;<br>
+Cá donde a falsa gente Mahometana<br>
+A glória toda funda em adquirir;<br>
+Cá donde multiplica a mão tyrana,<br>
+Professa em mais crescer, matar, mentir;<br>
+Cá donde o fazer bem he villania,<br>
+<em>E póde mais que a honra a tyrannia</em>;<br>
+<br>
+<em>Cá donde a errada e cega Monarchia</em><br>
+De fabulosas leis está vivendo,<br>
+E á fôrça d'hum amor engrandecia<br>
+O nefando Alcorão em qu'está crendo; <span class="pn"><a name="pag_233">{233}</a></span><br>
+Cá donde nada val a Poesia,<br>
+E s'está da lei della escarnecendo;<br>
+Cá donde a fidalguia Mahometana<br>
+<em>Cuida qu'um nome vão a Deos engana.</em><br>
+<br>
+<em>Cá nesta Babylonia, onde a Nobreza</em><br>
+Da Lusitana gente se perdeo;<br>
+E do grão Sebastião toda a grandeza<br>
+Irreparavelmente se abateo;<br>
+Cá donde algum mentir não he baixeza,<br>
+E os meritos esmola (assi cresceo<br>
+Da cobiça mortal a semrazão)<br>
+<em>Co'o esfôrço e saber, pedindo vão.</em><br>
+<br>
+<em>Ás portas da cobiça e da vileza</em><br>
+Estes netos de Agar estão sentados<br>
+Em bancos de torpissima riqueza,<br>
+Todos de tyrannia marchetados.<br>
+He do feio Alcorão summa a largueza<br>
+Que tẽe para que sejão perdoados<br>
+De quantos erros commettendo estão<br>
+<em>Cá neste escuro cáos de confusão.</em><br>
+<br>
+<em>Cumprindo o curso estou da natureza</em>,<br>
+Illustre Dama, neste labyrintho;<br>
+Mas quem usa comigo mais crueza,<br>
+He tua condição, que n'alma sinto.<br>
+Acabe-se algum dia tal tristeza,<br>
+E este sentido mal qu'em versos pinto:<br>
+E pois n'alma he sentido e coração,<br>
+<em>Ve se m'esquecerei de ti, Sião.</em> <span class="pn"><a name="pag_234">{234}</a></span>
+</blockquote>
+
+
+<h3>A SANTA URSULA.</h3>
+
+<blockquote>
+<big>D</big>'huma formosa virgem desposada,<br>
+Que d'outras onze mil, tambem formosas,<br>
+Entrou no claro Olympo acompanhada,<br>
+Com corôas de lyrios e de rosas;<br>
+De Christo Esposo seu tão namorada,<br>
+Que delle as quiz fazer todas esposas;<br>
+Amor, vida e martyrio cantar quero,<br>
+Fiado no favor que della espero.<br>
+<br>
+Alcança, Ursula bella, (que diante<br>
+De tão bello esquadrão foste por guia)<br>
+De teu suave Amor, que de ti cante<br>
+O seu amor que no teu peito ardia.<br>
+Meu verso para ti mais se levante,<br>
+Ó Christifera, ó heroica companhia;<br>
+Tanto se mostre aqui mais soberano,<br>
+Quanto o divino Amor excede o humano.<br>
+<br>
+E vós, unica Mãe e Virgem pura,<br>
+Pois sois das que tal ordem escolhêrão,<br>
+Que fostes, sois, sereis guarda segura<br>
+Da pureza que a Deos offerecêrão;<br>
+Neste canto me dae melhor ventura<br>
+Do que atégora as Musas vãas me derão:<br>
+Vossas servas serão de mi servidas,<br>
+Cantadas suas mortes, suas vidas.<br>
+<br>
+Serenissima Infante, produzida<br>
+Do grão Tronco Real, sublime Planta;<br>
+No titulo, nas obras e na vida, <span class="pn"><a name="pag_235">{235}</a></span><br>
+Retrato natural de Ursula Santa,<br>
+Desta virgem, tambem de Reis nascida,<br>
+Ouvi com ledo rosto o que se canta;<br>
+Dae o sentido hum pouco a tal sogeito:<br>
+Não lhe tire seu preço o meu defeito.<br>
+<br>
+No tempo que Ciriáco se sentava<br>
+Na Cadeira de Pedro pescador,<br>
+De que com sãa doutrina apascentava<br>
+As Ovelhas de Christo, Bom Pastor;<br>
+Teve Bretanha hum Rei, que professava<br>
+A Lei que deo no mundo o Redemptor,<br>
+Justo e temente ao Ceo, pio e devoto,<br>
+Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto.<br>
+<br>
+De virtudes hum novo exemplo e raro,<br>
+Em idade e belleza florecia<br>
+Ursula, por quem Noto era mais claro,<br>
+Que por todo o poder que possuia;<br>
+Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro,<br>
+Com quem todas as graças repartia;<br>
+Prudente, honesta e docta a maravilha,<br>
+De tão ditoso pae ditosa filha.<br>
+<br>
+Aquella que por o ar com ligeireza<br>
+As pennas de mil azas abre e cerra,<br>
+E que com velocissima presteza<br>
+Com outros tantos pés corre por terra;<br>
+Aquella, que de sua natureza<br>
+Não cuida em quanto diz se acerta ou erra,<br>
+E d'huma em outra boca se derrama:<br>
+Aquella, emfim, a quem chamamos Fama;<br>
+<br>
+Hia por todo o mundo divulgando<br>
+Extremos desta virgem soberana, <span class="pn"><a name="pag_236">{236}</a></span><br>
+Aquella formosura celebrando<br>
+Com que Amor cego a tanta vista engana:<br>
+Mais hia a d'alma sua publicando,<br>
+Porqu'era mais divina do que humana:<br>
+Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto,<br>
+Qu'em huns criava amor, n'outros espanto.<br>
+<br>
+Ouvidos seus louvores, muitas vezes<br>
+Desejou desta virgem fazer nora<br>
+Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes,<br>
+Idolatras então, cegos agora.<br>
+Ó povo cego e leve! as torpes fezes<br>
+Aparta do ouro puro e lança fóra,<br>
+Torna-te ao teu pastor, perdido gado!<br>
+Ólha que vás sem elle mal guiado.<br>
+<br>
+Hum filho deste Rei (de quem dizia<br>
+Que ser de Ursula sogro desejava)<br>
+Movido do rumor que della ouvia,<br>
+Ja dentro no seu peito a namorava.<br>
+Alli seu amor, delle, lhe offrecia;<br>
+Alli por o amor della suspirava.<br>
+Suspira elle por ella; ella suspira<br>
+Tambem por outro amor que nunca vira.<br>
+<br>
+Mandou o Rei Inglez Embaixadores<br>
+Com pompa Regia e lustre sumptuoso,<br>
+(Do grande Reino seu grandes Senhores)<br>
+A Noto, Rei não tanto poderoso.<br>
+Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores<br>
+Ardia toda do celeste Esposo)<br>
+Para esposa do filho, que sabia<br>
+Que ja d'amores della todo ardia.<br>
+<br>
+O Rei Bretão se achava descontente <span class="pn"><a name="pag_237">{237}</a></span><br>
+Com a nova embaixada de Inglaterra:<br>
+Receia que se nella não consente,<br>
+O gentio lhe mova cruel guerra:<br>
+Porque sendo mais rico e mais potente,<br>
+Assi no largo mar, como na terra,<br>
+Quando desprezos visse de seu rôgo,<br>
+Podia pôr Bretanha a ferro e fogo.<br>
+<br>
+Sôbre este não errado pensamento<br>
+Do medo de perder seu senhorio,<br>
+Novo discurso tinha e novo intento,<br>
+Com que se achava mais medroso e frio.<br>
+Estranhava o fazer ajuntamento<br>
+Da catholica filha co'hum gentio;<br>
+Pois nem a Lei de Christo o permittia,<br>
+Nem Ursula fiel o admittiria.<br>
+<br>
+Estando o pae em tal angústia pôsto,<br>
+Divinamente a filha ja inspirada,<br>
+Lhe assegurava com sereno rosto<br>
+Que consentir podia na embaixada;<br>
+Dizendo que se o Inglez levava gôsto<br>
+D'ella com seu herdeiro ser casada,<br>
+Primeiro lhe mandasse dez donzellas,<br>
+Do Reino as mais illustres, as mais bellas.<br>
+<br>
+Que mil daria a cada virgem destas,<br>
+E que a ella outras mil tambem daria,<br>
+Todas de claro sangue, e em vista honestas.<br>
+(Dest'arte a conta de onze mil fazia)<br>
+Que por trez annos dilação nas festas,<br>
+Além do ja pedido, lhe pedia;<br>
+E naos e mantimentos, porque todas<br>
+Fossem com ella a Roma antes das bodas. <span class="pn"><a name="pag_238">{238}</a></span><br>
+<br>
+Alli sua pureza e virgindade<br>
+Queria com solemne e sacro voto<br>
+Consagrar á divina Potestade,<br>
+Que o ceo e a terra fez de proprio moto.<br>
+E que deixasse a vãa gentilidade<br>
+Seu filho, para genro ser de Noto,<br>
+Para que neste espaço doutrinado<br>
+Fosse na Fé de Christo, e baptizado.<br>
+<br>
+Com estas condições Ursula disse<br>
+Ao charo pae, que, a ser dellas contente,<br>
+Podia responder; e despedisse<br>
+A proposta daquelle Rei potente:<br>
+Ou porque ouvindo-as elle desistisse,<br>
+Podendo-se acceitar difficilmente;<br>
+Ou porque, quando as virgens concedesse,<br>
+Comsigo a seu Senhor onze mil désse.<br>
+<br>
+Oh Divino saber, quão soberano<br>
+Conselho he sempre o teu! quão remontado!<br>
+Oh quanto o mor saber te cede humano,<br>
+Por mais que de razões vá mais ornado!<br>
+Ja dos idolos deixa o cego engano<br>
+O Principe, da virgem namorado;<br>
+Ja terno pede ao pae quanto ella pede;<br>
+Ja o pae quanto lhe roga lhe concede.<br>
+<br>
+Ja para ti, ó virgem bella e branda,<br>
+Com huma singular velocidade,<br>
+Juntar se via d'huma e d'outra banda<br>
+De feminil nobreza tenra idade.<br>
+As naos apparelhar o Rei ja manda;<br>
+Ja nellas se recolhe a Virgindade; <span class="pn"><a name="pag_239">{239}</a></span><br>
+Ja dão para Bretanha ao vento velas.<br>
+O coração do noivo vai com ellas.<br>
+<br>
+Ja vem a tomar porto onde esperava<br>
+Ursula alvoroçada em grã maneira;<br>
+Que para as receber alli se achava,<br>
+Como senhora não, mas companheira.<br>
+Quão falsa era a Lei dellas lhes mostrava,<br>
+A de Christo quão pura e verdadeira.<br>
+Ja se baptiza huma e outra Dama;<br>
+Damas Ursula ja do ceo lhes chama.<br>
+<br>
+A Fama, que não sabe repousar,<br>
+Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha;<br>
+A gente que concorre não tẽe par,<br>
+Por ver a nunca vista maravilha.<br>
+Outros vem por servir e acompanhar<br>
+A Virgem de Rei nora, de Rei filha.<br>
+Movem-se muitos Bispos de Bretanha;<br>
+Pantalo em vida e morte os acompanha.<br>
+<br>
+Por ti, deixando o Reino, co'a familia<br>
+E quatro filhas suas, s'embarcou,<br>
+Juliana, Victoria, Aurea, Babilia;<br>
+(Hum filho tinha mais que mais levou)<br>
+Gerasina, Rainha de Sicilia,<br>
+E com devido amor te acompanhou;<br>
+Qu'he justo que comtigo vão Rainhas,<br>
+Quando tu para o Rei dos Reis caminhas.<br>
+<br>
+Ja se partem as bellas peregrinas,<br>
+As mãos ao claro Empyreo levantadas;<br>
+Ja rompem, ja, por ondas crystallinas<br>
+As naos de formosura carregadas.<br>
+Quando, dizei, ó ágoas Neptuninas, <span class="pn"><a name="pag_240">{240}</a></span><br>
+Fostes de tal belleza navegadas?<br>
+Nunca, despois que a terra descobristes,<br>
+A tal frota por vós caminho abristes.<br>
+<br>
+Com vento sempre igual, com mar bonança,<br>
+Sem perigos alguns, sem algum pejo,<br>
+Ceyla forão tomar, porto de França,<br>
+Onde pouca demora fazer vejo.<br>
+O coração da virgem não descança,<br>
+Saudosa do fim de seu desejo;<br>
+Manda que levem ferro, soltem linho<br>
+Que leve por o mar o negro pinho.<br>
+<br>
+O vento nova posse vai tomando<br>
+Das virgens que lhe são encommendadas:<br>
+Com tal prosperidade vão voando,<br>
+Que ja deixão atraz ondas salgadas:<br>
+Ja nas doces do Rheno estão entrando,<br>
+Onde tẽe suas vidas limitadas:<br>
+Huma cidade vem á lingua da ágoa,<br>
+Que de vê-las morrer não teve mágoa.<br>
+<br>
+Ah Colonia cruel, que não t'encobres<br>
+A tão formosos olhos, que seguros<br>
+As altas tôrres vião que descobres,<br>
+Lustrosos edificios, fortes muros!<br>
+Permitte o largo Ceo que fama cobres<br>
+De ser tão dura mãe de peitos duros?<br>
+Duros peitos, que a tantos, limpos de êrro<br>
+Virão abrir sem dor com impio ferro!<br>
+<br>
+Estando neste porto a bella Armada<br>
+Tomando o necessario mantimento,<br>
+Para poder seguir sua jornada,<br>
+E dar terceira vez o treu ao vento; <span class="pn"><a name="pag_241">{241}</a></span><br>
+Sendo parte da noite ja passada,<br>
+A virgem lá no seu retrahimento,<br>
+Quando estava dormindo toda a frota,<br>
+A Christo orou assi, branda e devota:<br>
+<br>
+Amor, divino Amor, Amor suave,<br>
+Amor, que amando vou toda rendida;<br>
+Com quem não ha na vida pena grave,<br>
+Sem quem glória real não ha na vida;<br>
+Amor, que do meu peito tens a chave,<br>
+Amor, de cujo amor ando ferida,<br>
+Quando verei, Amor, o que desejo,<br>
+Para que veja, Amor, o que não vejo?<br>
+<br>
+Amor, que d'amor cheio e de brandura,<br>
+D'amor enches est'alma saudosa;<br>
+Amor, sem cujo amor e formosura,<br>
+Não póde nunca haver cousa formosa;<br>
+Amor, com cujo amor anda segura<br>
+Huma vida tão fraca e duvidosa,<br>
+Quando verei, Amor, o que desejo,<br>
+Para que veja, Amor, o que não vejo?<br>
+<br>
+Amor, que por amor te dispuzeste<br>
+A restaurar o mundo errado e triste;<br>
+Amor, que por amor do ceo desceste;<br>
+Amor, que por amor á Cruz subiste;<br>
+Amor, que por amor a vida déste;<br>
+Amor, que por amor a glória abriste,<br>
+Quando verei, Amor, o que desejo,<br>
+Para que veja, Amor, o que não vejo?<br>
+<br>
+Amor, que mais e mais sempre te augmentas<br>
+No coração que lá comtigo trazes;<br>
+Amor, que d'amor puro te sustentas <span class="pn"><a name="pag_242">{242}</a></span><br>
+No fogo em que tu mesmo arder me fazes;<br>
+Amor, que sem amor não te contentas,<br>
+De tudo com amor te satisfazes,<br>
+Quando verei, Amor, o que desejo,<br>
+Para que veja, Amor, o que não vejo?<br>
+<br>
+Amor, que com amor me captivaste;<br>
+(Se livre póde ser quem não captivas)<br>
+Amor, qu'em taes prisões m'asseguraste<br>
+As esperanças d'antes fugitivas:<br>
+Amor, que suspirando m'ensinaste<br>
+A derramar por ti lagrimas vivas,<br>
+Quando verei, Amor, o que desejo,<br>
+Para que veja, Amor, o que não vejo?<br>
+<br>
+Quando verei hum dia em que offereça<br>
+Por ti ao cruel ferro o peito forte,<br>
+E cercada de virgens appareça<br>
+Na tua soberana e eterna Corte;<br>
+Onde lá cada huma te mereça,<br>
+Cá passando comigo a propria morte;<br>
+E todas dando o sangue juntas, todas<br>
+Celebremos comtigo eternas bodas?<br>
+<br>
+Faze-me ja, Senhor, esta vontade<br>
+Que tenho de te ver, que sempre tive,<br>
+Des que me deo lugar a tenra idade,<br>
+E lume de razão nesta alma vive.<br>
+Não queiras, meu Amor, que a saudade<br>
+Sem tal bem a mi só da vida prive;<br>
+Que se muito se alarga este destêrro,<br>
+Por ella irei a ti, não por o ferro.<br>
+<br>
+Desata o meu espirito saudoso,<br>
+Do nó mortal em que se vai detendo, <span class="pn"><a name="pag_243">{243}</a></span><br>
+Primeiro que tres vezes pressuroso<br>
+O sol os doze Signos vá correndo.<br>
+Espaço he que tomei, meu doce Esposo,<br>
+Para outro esposo meu ir entretendo:<br>
+Mas a meu amor crendo, de ti creio<br>
+Que acabes com a vida o meu receio.<br>
+<br>
+Inda neste fervente e justo rôgo<br>
+Ursula suspirando procedia,<br>
+Quando d'hum resplandor como de fogo<br>
+Divina voz ouvio, que assi dizia:<br>
+Ó virgem, que soubeste fazer jôgo<br>
+Do que no mundo tẽe maior valia,<br>
+Entende que da volta que fizeres,<br>
+Aqui quero que seja o que tu queres.<br>
+<br>
+Tanto que tal resposta do Ceo teve,<br>
+Não quiz do que esperava perder hora:<br>
+Ja lhe parece larga a noite breve,<br>
+E que ja tarda muito a bella aurora.<br>
+Em descobrindo Apollo o carro leve,<br>
+Do porto de Colonia sahio fóra.<br>
+Ja Basilêa em breve tempo toma:<br>
+E a pé d'alli partirão para Roma.<br>
+<br>
+O Pastor summo, Ciriáco santo,<br>
+As sahe a receber, e as acompanha<br>
+Com gôzo espritual, com grande espanto<br>
+De ver em tal idade fé tamanha.<br>
+Dizer se póde mal, mal cuidar quanto<br>
+Se goza o Real sangue de Bretanha,<br>
+Os veneraveis Templos visitando<br>
+Daquelles que tambem foi imitando.<br>
+<br>
+Na propria noite deste proprio dia <span class="pn"><a name="pag_244">{244}</a></span><br>
+Que Roma ver as virgens mereceo,<br>
+A quem de Pedro a Barca então regía<br>
+Revelou o que rege a terra e ceo<br>
+Que martyrio tambem receberia<br>
+Onde Ursula co'as mais o recebeo:<br>
+Deixa contente o grão Pontificado,<br>
+Desejoso de ser martyrizado.<br>
+<br>
+Por mais que todo o Clero soffre mal<br>
+Mover-se por aquellas Estrangeiras,<br>
+Movido da Vontade divinal<br>
+O bom Pastor se vai com as Cordeiras.<br>
+Hum Arcebispo leva, hum Cardeal:<br>
+Tres Bispos deixão vagas tres Cadeiras,<br>
+De Luca, Ravicana e de Ravenna:<br>
+Mauricio me ficava ja na penna.<br>
+<br>
+Despois de n'ágoa entrar, donde sahírão,<br>
+Com tão formoso sol tantas estrellas,<br>
+Ja as ancoras debaixo acima tirão,<br>
+E de cima ja abaixo soltão vellas.<br>
+Estas naos lá adiante outras naos vírão,<br>
+Que fazendo-se vem na volta dellas;<br>
+Conhecêrão-se logo as duas frotas:<br>
+Ambas d'hum Reino são, ambas devotas.<br>
+<br>
+Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra,<br>
+Vinha de Ursula bella o bello esposo,<br>
+Que reinar não queria ja na terra,<br>
+Do ceo ja namorado e saudoso.<br>
+Do seu primeiro amor venceo a guerra<br>
+A fôrça d'outro amor mais poderoso:<br>
+Amando ja em seu Deos a esposa bella,<br>
+Para o poder achar, buscava a ella. <span class="pn"><a name="pag_245">{245}</a></span><br>
+<br>
+A mãe, ja convertida, traz comsigo;<br>
+O pae, ja Christão feito, fallecêra,<br>
+Com que soube evitar o grão castigo<br>
+Que, morrendo Gentio, não soubera.<br>
+Amor celeste, como aqui não digo<br>
+O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!)<br>
+Por meio d'huma virgem foste meio<br>
+Com que gente copiosa a Christo veio.<br>
+<br>
+Vinha mais nesta nova companhia<br>
+Florencia, irmãa do Rei, da mãe cuidado;<br>
+Florencia, qu'em belleza florecia,<br>
+Como flor em jardim bem cultivado.<br>
+Tambem a frota Bispos dous trazia,<br>
+Hum Marcello, Clemente outro chamado:<br>
+O primeiro ja em Grecia bago teve;<br>
+Do segundo o Bispado não s'escreve.<br>
+<br>
+Outra Virgem viuva alli mais vinha,<br>
+Que desposada sendo em tenra idade,<br>
+Antes das bodas enviuvado tinha,<br>
+E promettida a Christo a castidade.<br>
+Esta do mesmo Rei era sobrinha,<br>
+Filha da Imperatriz da grã cidade,<br>
+Onde por culpa nossa, ou pouca dita,<br>
+Seu throno agora tẽe o fero Scita.<br>
+<br>
+Estes, que adverte repetida historia<br>
+Deixárão só por Deos altos Estados,<br>
+Com outros, de que he menos a memoria,<br>
+Forão divinamente amoestados<br>
+Que todos, para entrar juntos na glória,<br>
+Ao côro virginal fossem juntados, <span class="pn"><a name="pag_246">{246}</a></span><br>
+Com quem na terra Martyres serião,<br>
+E no ceo para sempre reinarião.<br>
+<br>
+Sería estranho o gôzo que sentírão<br>
+Aquellas bem nascidas almas santas,<br>
+Quando juntas alli todas se vírão<br>
+De partes tão remotas, e de tantas.<br>
+Sem estorvos, que d'antes o impedírão,<br>
+As duas, mais que todas, bellas plantas<br>
+Alli abraços se dão sem algum pejo,<br>
+Ambas conformes ja n'hum só desejo.<br>
+<br>
+Alli faria o Rei acatamento<br>
+A quem deixou da Barca o grão govêrno;<br>
+E elle, conforme a seu merecimento,<br>
+Responderia com amor paterno.<br>
+Não faltaria em tal recebimento<br>
+Prazer exterior, prazer interno;<br>
+Inda que nos estados differentes,<br>
+Todos serião huns em ser contentes.<br>
+<br>
+O vento as brancas velas não enchia,<br>
+Corria o frio Rheno então mais quedo;<br>
+Antes para Colonia não corria,<br>
+Porque as virgens não fossem lá tão cedo.<br>
+Parece que ja claro conhecia<br>
+(Oh côro virginal, sereno e ledo!)<br>
+Que lá vos esperava a impia morte.<br>
+Agora, ó Musa, conta de que sorte.<br>
+<br>
+Aquelle que na fórma de serpente<br>
+Deixou aos dous primeiros enganados,<br>
+Invejoso de ver que tanta gente<br>
+Se convertia á Lei dos Baptizados;<br>
+No caração entrou manhosamente <span class="pn"><a name="pag_247">{247}</a></span><br>
+De dous gentios Principes damnados,<br>
+Da soberba Romãa Cavaleria,<br>
+Por encurtar a Fé que s'estendia.<br>
+<br>
+A Fama os assegura com certeza<br>
+Que a virgem a Colonia ja voltava,<br>
+Com toda a casta juvenil belleza<br>
+Que por amor do Ceo peregrinava.<br>
+Fizerão avisar com grã presteza<br>
+A hum parente, que Julio se chamava,<br>
+Soberbo Capitão dos Hunnos feros;<br>
+Que todos para todas forão Neros.<br>
+<br>
+Eis logo o cego Principe gentio,<br>
+Com gente innumeravel de seu mando,<br>
+A praia a tomar vem do mesmo rio<br>
+Por onde as virgens vinhão navegando.<br>
+Ja descobrem aquelle, este navio<br>
+Os qu'estão do mais alto atalaiando:<br>
+Ás armas veloz corre o bruto povo,<br>
+Por de novo as tingir no sangue novo.<br>
+<br>
+Vindo a frota a surgir junto do muro,<br>
+Onde lhe parecia estar segura,<br>
+(Oh virgens que buscais? lugar seguro<br>
+Adonde vos espera a sepultura!)<br>
+Entra com mão armada o povo duro<br>
+Por esta peregrina formosura:<br>
+Ja começa a provar os aços fortes;<br>
+Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes.<br>
+<br>
+Ja nu todas as virgens offrecião<br>
+O delicado collo, o tenro peito:<br>
+Era para caber quantas cahião,<br>
+Todo largo lugar lugar estreito. <span class="pn"><a name="pag_248">{248}</a></span><br>
+Do puro sangue os rios que corrião,<br>
+Outro vermelho mar ja tinhão feito.<br>
+Tu só, Córdula, á morte t'escondeste;<br>
+Mas despois a buscaste e recebeste.<br>
+<br>
+Ciriáco o primeiro, bem constante,<br>
+A vida ao ferro offrece sem espanto:<br>
+O moço Rei Inglez cahio diante<br>
+Daquelles castos olhos que amou tanto.<br>
+Espera, brando esposo, hum breve instante;<br>
+Espera a tua doce esposa, em tanto<br>
+Que outro Amor outro golpe lhe prepara;<br>
+E juntos entrareis na Patria chara.<br>
+<br>
+Em qual terra, ó crueis, em qual cidade,<br>
+Entre quaes gentes mais a furor dadas,<br>
+Se não usou d'amor e de piedade<br>
+Com formosas donzellas desarmadas?<br>
+Como belleza tanta e tal idade<br>
+Vos deixou arrancar vossas espadas?<br>
+Ah lobos carniceiros, tigres bravos,<br>
+Filhos da crueldade, d'ira escravos!<br>
+<br>
+De quantos animaes sustenta a terra<br>
+Nunca tanta crueza foi usada;<br>
+Inda que tenhão huns com outros guerra,<br>
+Nunca do macho a femia he lastimada:<br>
+Anda a cerva co'o cervo por a serra,<br>
+A novilha do touro acompanhada,<br>
+Á leoneza o leão defender preza:<br>
+Vós sós quebrais as leis da natureza?<br>
+<br>
+Puderão outros olhos por ventura<br>
+De lagrimas divinas escusar-se,<br>
+Vendo, cuberta ja de névoa escura, <span class="pn"><a name="pag_249">{249}</a></span><br>
+A luz de tantos bellos apagar-se?<br>
+Vendo a purpurea rosa, a cecem pura<br>
+Em tão formosas faces descorar-se?<br>
+As tranças d'ouro vendo, espedaçadas,<br>
+Por debaixo dos pés andar pizadas?<br>
+<br>
+Na fôrça desta furia accesa e brava<br>
+O Tyranno cruel a vista ergueo<br>
+Á virgem, qu'invencivel animava<br>
+As almas que juntára para o Ceo.<br>
+Assi ja envolta em sangue como andava,<br>
+Da sua formosura se venceo;<br>
+E com doces razões, que Amor ensina,<br>
+A vencê-la d'amor se determina.<br>
+<br>
+Fingindo se arrepende do passado,<br>
+(E de fingi-lo se arrepende azinha)<br>
+Sua vida lhe offrece e seu Estado,<br>
+Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha.<br>
+O seu amor lhe pede confiado;<br>
+O seu amor que dado a seu Deos tinha:<br>
+Pede-lhe o seu amor; antes não seu,<br>
+Porque ja dado o havia a quem lho deu.<br>
+<br>
+Usa de mil lisonjas, mil enganos,<br>
+Por conseguir o seu desejo bruto.<br>
+A flor logra (dizia) de teus anos,<br>
+Colhe d'essa belleza o doce fruto:<br>
+Não dês materia nova a novos danos,<br>
+Não pagues verde á morte o seu tributo:<br>
+Olha que tens em mi (não são cautelas)<br>
+Outro Reino, outro esposo, outras donzelas.<br>
+<br>
+Não faças mentirosa a natureza<br>
+Que dá d'amor em ti grande esperança. <span class="pn"><a name="pag_250">{250}</a></span><br>
+Que se póde alcançar d'essa belleza,<br>
+Se ja piedade della não s'alcança?<br>
+Aos tigres, aos leões deixa a braveza,<br>
+E deixa aos meus soldados a vingança.<br>
+Se por ver-me cruel queres ser crua,<br>
+Ja te vingas de mi em cousa tua.<br>
+<br>
+Volve esses olhos ja com mais brandura;<br>
+Esses olhos, d'Amor doce morada:<br>
+Delles não faça em mi a formosura,<br>
+O qu'em tantos ja fez a minha espada.<br>
+Se queres derribar minha ventura,<br>
+Que delles estar vejo pendurada,<br>
+Acabarei de ver quão pouca tenho,<br>
+Pois donde a matar vim a morrer venho.<br>
+<br>
+Como do rôgo meu não te aproveitas,<br>
+Quando o teu risco a me rogar te obriga?<br>
+Ou não conheces bem a quem engeitas,<br>
+Ou m'engeitas por mais que seja e diga.<br>
+Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas?<br>
+Mais proprio era chamar-te dura imiga.<br>
+Mas não consente Amor nome tão duro<br>
+Em parecer tão brando e tão seguro.<br>
+<br>
+Os raios desses olhos ja serenos<br>
+Enxuguem desse rosto as puras rosas;<br>
+O triste suspirar ja sôe menos<br>
+Nestas concavidades saudosas.<br>
+Não fação grande mal males pequenos;<br>
+Que não soffre esperanças vagarosas<br>
+Quem anda costumado em seus amores<br>
+A medir por seu gôsto seus favores.<br>
+<br>
+Que gôsto podes ter de maltratar-me, <span class="pn"><a name="pag_251">{251}</a></span><br>
+Vendo-me do passado arrependido?<br>
+Attenta que mais ganhas em ganhar-me,<br>
+Do que neste destrôço tens perdido.<br>
+Se queres insistir em desprezar-me,<br>
+Ver-me-has, sôbre amoroso, enfurecido.<br>
+Não me declaro mais, porque não quero<br>
+Que o medo faça o que d'amor espero.<br>
+<br>
+Ah perfido amador! deixa o teu êrro.<br>
+Não vês quanto enganado e cego andas?<br>
+Aquella a quem não vence o duro ferro,<br>
+Como a podem vencer palavras brandas?<br>
+Manda a sua alma ja deste destêrro,<br>
+Com essas que a seu doce Esposo mandas.<br>
+Não a detenhas mais em teus amores,<br>
+Se dobrar-lhe não queres suas dores.<br>
+<br>
+Vendo o cruel, emfim, que o que dizia,<br>
+Tomava a bella virgem por affronta,<br>
+E que quanto d'amor mais se accendia,<br>
+Ella delle fazia menos conta;<br>
+No concavo arco que na mão trazia,<br>
+Huma setta embebeo d'aguda ponta,<br>
+E o peito lhe passou de banda a banda.<br>
+Assi rendeo o esprito a virgem branda.<br>
+<br>
+Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza;<br>
+As azas abre ja, ja a luz derrama;<br>
+Vôa com desusada ligeireza<br>
+Onde o teu Bem t'espera, onde te chama.<br>
+Verás baixa do mundo a mór alteza;<br>
+Verás qu'engana mais a quem mais ama;<br>
+E lá do teu Amor, cá suspirado,<br>
+O fructo colherás tão desejado. <span class="pn"><a name="pag_252">{252}</a></span><br>
+<br>
+Em paz te vae, ó alma pura e bella,<br>
+Mais bella inda no sangue que verteste;<br>
+Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella<br>
+Formosa Região, alta e celeste.<br>
+Coroada de glória immortal, nella<br>
+Com Christo lograrás, a quem te déste<br>
+Com tantas e tão bem nascidas almas,<br>
+(Formosura do Ceo) onze mil palmas.
+</blockquote>
+
+</div>
+
+
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a name="pag_255">{255}</a></span></p>
+
+<div id="comedias">
+<h1>COMEDIAS.</h1>
+
+<h2>INTERLOCUTORES.</h2>
+
+<h3>DO PROLOGO.</h3>
+
+<p class="ni">O M<small>ORDOMO</small>, ou D<small>ONO DA</small>
+C<small>ASA</small>.<br>
+M<small>ARTIM</small> C<small>HINCHORRO</small>.<br>
+A<small>MBROSIO</small>, Escudeiro.<br>
+L<small>ANÇAROTE</small>, Moço.</p>
+
+<h3>DA COMEDIA.</h3>
+
+<p class="ni">E<small>L</small>R<small>EI</small> S<small>ELEUCO</small>.<br>
+A R<small>AINHA</small> E<small>STRATONICA.</small><br>
+O P<small>RINCIPE</small> A<small>NTIOCHO.</small><br>
+L<small>EOCADIO</small>, Pagem do Principe Antiocho.<br>
+F<small>ROLALTA</small>, Criada da Rainha Estratonica.<br>
+H<small>UM</small> P<small>ORTEIRO DA</small> C<small>ANA.</small><br>
+H<small>UMA</small> M<small>OÇA DA</small> C<small>AMARA.</small><br>
+H<small>UM</small> P<small>HYSICO</small>, ou M<small>EDICO</small>.<br>
+S<small>ANCHO</small>, Moço do Physico.<br>
+A<small>LEXANDRE DA</small> F<small>ONSECA</small>, hum dos Musicos.</p>
+
+
+<h1>ELREI SELEUCO.</h1>
+
+<h3>COMEDIA.</h3>
+
+<h2>PROLOGO.</h2>
+
+<p class="inst_cena"><em>Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa.</em></p>
+
+<p class="ni"><big>E</big>is, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival
+noite, me quiz representar huma Farça; e diz, que por não se encontrar com
+outras ja feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo
+assi arrazoado satisfazer. E diz que quem se della não contentar, querendo
+outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da
+Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do
+Boticario; e não lhe faltará que conte. Porém diz o Autor que usou nesta
+obra da maneira de Isopete. Ora quanto á obra, se não parecer bem a todos, o
+Autor diz que entende della menos que todos os que lha puderem emendar.
+Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que responde com hum dito de
+hum Philosopho, que diz: <em>Vós outros estudastes para praguejar, e eu para
+desprezar praguentos?</em> Eu com tudo quero saber da Farça, em que ponto vai.
+Lançarote? <span class="pn"><a name="pag_256">{256}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Senhor.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>São ja chegadas as figuras?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Como assi?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com friza, nem talão de
+çapato, que não sahisse fóra do couce. Ora vierão huns embuçadetes, e
+quizerão entrar por fôrça; ei-lo arrancamento na mão: derão huma pedrada
+na cabeça ao Anjo, e rasgárão huma meia calça ao Ermitão; e agora diz o
+Anjo que não ha de entrar, até lhe não darem huma cabeça nova, nem o
+Ermitão até lhe não pôrem huma estopada na calça. Este pantufo se perdeo
+alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que não quero nada do
+alheio.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Se elle fôra outra peça de mais valia, tu botáras a consciencia pela
+porta fóra, para o metteres em tua casa.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Oh! se o elle fôra, mais consciencia sería torná-lo a seu dono, quem o
+havia mister para si.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Ora vem cá: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos cá
+Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê para cá, e que traga comsigo
+o Senhor Romão d'Alvarenga, para que sôbre <span class="pn"><a
+name="pag_257">{257}</a></span> o Canto-chão botemos nosso contraponto de
+zombaria. Ouves, Lançarote? ir-lhe-has abrir a porta do quintal, porque
+mudemos o vinte aos que cuidão de entrar por fôrça.</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Indo-se o Moço diz:</em></p>
+
+<p>Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma bolsa
+com hum par de reales, que são bons para Escudeiro hypocrita; que são pouco,
+e valem muito?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Moço, que estás fazendo que não vás?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fôra aquelle
+tempo, em que corrião as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para humas
+palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dirá.</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moço, e
+diz o Mordomo:</em></p>
+
+<p>Não ha mais mao conselho, que ter hum villão destes mimoso, porque logo
+passão o pé além da mão, e zombão assi da gravidade de seu amo. Mas
+tornando ao que importa; vossas mercês he necessario que se cheguem huns para
+os outros, para darem lugar aos outros Senhores que hão de vir; que de outra
+maneira, se todo o corro se ha de gastar em <span class="pn"><a
+name="pag_258">{258}</a></span> palanques, será bom mandar fazer outro
+alvalade; e mais, que me hão de fazer mercê, que se hão de desembuçar,
+porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer mal: este só desgôsto
+tẽe hum Auto, que he como offício de Alcaide; ou haveis deixar entrar a
+todos, ou vos hão de ter por villão ruim.</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro
+Ambrosio, e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Entre v. m.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou diante.
+Beijo as mãos a v. m. A verdade he esta, passear em casa juncada, fogueira com
+castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; além disto Auto para esgaravatar
+os dentes: esta he a vida, de que se ha de fazer consciencia.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Senhor, o descanso dizem lá, que se ha de ter em quanto homem puder, porque
+os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu nome he.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho
+traz mais somno comsigo que huma prégação comprida.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Senhor, por bom mo vendêrão, e eu o tomei á cala de sua boa fama. E se
+tal he, eu acho que, por outra parte, não ha tal vida, como ouvir hum villão,
+que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que <span class="pn"><a
+name="pag_259">{259}</a></span> huma pera-pão, e huma donzella, que vem podre
+de amor, fallando como Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Para estes taes he grande peça rapaz travesso com mólho de junco, porque
+não andem mais ao coscorrão, mais roucos que huma cigarra, trazendo de si
+enfadamento.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>O lá Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro. Ora
+sus, ha hi quem dê mais? que ainda vos veja todas a mim ás rebatinhas: ora
+sus, venhão de mano em mano, ou de mana em mana.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Moço, falla bem ensinado.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Senhor, não faz ao caso; que os erros por amores tẽe privilegio de
+Moedeiro.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito por entrar.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Oh que salgado moço! Zombas de mi? Vem cá. Donde es natural?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Donde quer que me acho.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Pergunto-te onde nasceste. <span class="pn"><a
+name="pag_260">{260}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Nas mãos das parteiras.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Em que terra?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida daquella
+hora, que não havia palmo de terra nella.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para ver
+com que disparate respondes.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Vem cá. De teu tio! E isso como?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Como? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não entendem. Meu
+pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamão aos filhos sobrinhos; e daqui me
+ficou a mi ser filho de meu tio.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Aqui me veio ás mãos sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e mais
+tẽe outra cousa, que huma trova fa-la tão bem como vós, ou como eu, ou como
+o Chiado. <span class="pn"><a name="pag_261">{261}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Não! quanté disso nós havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto se
+vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste á moça Briolanja, por amor
+de mi!</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Senhor, si, direi; mas aquella trova não he senão para quem a entender.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Como! Tão escura he ella?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu não sei escrever
+senão com carvão; e porém diz assi:</p>
+
+<blockquote>
+ Por amor de vós, Briolanja,<br>
+ Ando eu morto,<br>
+ Pezar de meu avô torto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Oh como he galante! Que descuido tão gracioso! Mas vem cá: que culpa te
+tẽe teu avô nos desfavores que te tua dama dá?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, não pezarei eu antes dos meus
+parentes, que dos alheios?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de gavetas, que
+trombeta de Serenissimo de la Valla. <span class="pn"><a
+name="pag_262">{262}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de mergulho
+a entenderão. E por isso mandem assoar os engenhos, e metão mais huma
+sardinha no entendimento; e póde ser que com esta servilha lhe calçará
+melhor: e todavia palra assi:</p>
+
+<blockquote>
+ Vossos olhos tão daninhos<br>
+ Me tratárão de feição,<br>
+ Que não ha em meu coração<br>
+ Em que atem dous reis de cominhos.<br>
+ Meu bem anda sem focinhos<br>
+ Por vós morto,<br>
+ Pezar de meu avô torto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Ora bem: que tẽe de ver os cominhos com o teu coração?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedella, não
+se podem comer senão com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era tendeira;
+e este he o verdadeiro entendimento.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>E aquella regra que diz, <em>Meu bem anda sem focinhos</em>, me dá tu a
+entender; que ella não dá nada de si.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Nunca vossas mercês ouvirão dizer: <em>Meu bem e meu mal lutárão hum
+dia; meu bem era tal, que meu mal o vencia?</em> Pois desta luta foi tamanha a
+quéda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por
+ficarem tão esfarrapados, que lhe <span class="pn"><a
+name="pag_263">{263}</a></span> não podião botar pedaço; por conselho dos
+Physicos lhos cortárão por lhe nelles não saltarem erpes; e daqui ficou:
+<em>Meu bem anda sem focinhos</em>, como diz o texto.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por dia de S.
+Nicolao.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natural para Logico.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<p>Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas não tão fria como vossas
+mercês.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por
+baixo desta mesa, e ouçamos este Representador, que vem mais amarrotado dos
+encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira da arca de
+cedro.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p>
+
+<p>Senhor, elle parece que aprende a cirurgião.</p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos
+verdes.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Emfim, parece figura de Auto em verdade.</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra o Representador.</em></p>
+
+<blockquote>
+ He lei de direito, assaz verdadeira,<br>
+ Julgar por si mesmos aquillo que vem;<br>
+ Peloque, se cuidão que zombo de alguem,<br>
+ Eu cuido que zombão da mesma maneira. <span class="pn"><a
+ name="pag_264">{264}</a></span></blockquote>
+
+<p class="ni">E assi a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum
+conhecer seu proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me
+esquece o dito todo de ponto em claro: mas não sou de culpar, porque não ha
+mais que tres dias que mo derão. Mas em breves palavras direi a vossas mercês
+a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo até á ponta. Entrarão logo
+primeiramente quinze donzellas que vão fugidas de casa de seus paes, e vão
+com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos, metidos em
+hum covão, cantando: <em>Quem os amores tẽe em Cintra</em>; e despois de
+cantarem farão huma dança de espadas; cousa muito para ver: entra mais ElRei
+Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo Catharina Real com huns poucos
+de parvos n'huma joeira; e semeá-los-ha pela casa, de que nascerá muito
+mantimento ao riso. E nisto fenecerá o Auto, com musica de chocalho e buzinas,
+que Cupido vem dar a huma alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-hão vossas
+mercês cada hum para suas pousadas, ou consoarão cá comnosco disso que ahi
+houver. Parece-me que nenhum diz que não. Ora pois ficareis <em>in vanum
+laboraverunt</em>, porque atégora zombei de vós, por me forrar do êrro da
+representação, como quem diz, <em>digo-to, antes que mo digas.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p>
+
+<p>Ora vos digo, Senhores, que se as figuras são todas taes, que acertarião
+em errar os ditos; aindaque me parece que este o não fez, senão a ser mais
+galante. Mas se assi he, ella he a melhor invenção que eu vi; porque jagora
+representações, todas he <span class="pn"><a name="pag_265">{265}</a></span>
+darem por praguentos; e são tão certas, que he melhor errá-las, que
+acertá-las.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p>
+
+<p>Parece-me que entrão as figuras de siso: vejamos se são tão galantes na
+prática, como nos vestidos.</p>
+
+<p class="centrado inst_cena">&mdash;</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra El Rei Seleuco, com a Rainha
+Estratonica.</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>S</big>enhora, desque a ventura<br>
+ Me quiz dar-vos por mulher,<br>
+ Me sinto emmeninecer;<br>
+ Porqu'em vossa formosura<br>
+ Perde a velhice seu ser.<br>
+ Hum homem velho, cansado,<br>
+ Não tẽe fôrça, nem vigor,<br>
+ Para em si sentir amor:<br>
+ Se não he qu'estou mudado<br>
+ Com ser vosso n'outra côr.<br>
+ Muito grande dita tem<br>
+ A mulher que he formosa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, grande: mas porém<br>
+ Se a tal he virtuosa,<br>
+ Quer-lhe a ventura mor bem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, mas porém nunca vemos<br>
+ A natureza esmerar<br>
+ Adonde haja que taxar;<br>
+ Que quando ella faz extremos, <span class="pn"><a
+ name="pag_266">{266}</a></span><br>
+ Em tudo quer-se extremar.<br>
+ Eu fallo como quem sente<br>
+ Em vós está calidade,<br>
+ Pelo que vejo presente;<br>
+ E se me esta mostra mente,<br>
+ Mente-me a mesma verdade.<br>
+ Huma só tristeza tenho<br>
+ Que não tẽe a meninice,<br>
+ Que no mor contentamento<br>
+ O trabalho da velhice<br>
+ Me embaraça o sentimento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, novidades tais<br>
+ Far-me-hão crer de verdade...</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Novidades lhe chamais!<br>
+ Folgo, Senhora, que achais<br>
+ Na velhice novidades.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, dias ha que sento<br>
+ Em o Principe Antiôcho<br>
+ Certo descontentamento:<br>
+ Dera alguma cousa a trôco<br>
+ Por saber seu sentimento.<br>
+ Vejo-lhe amarello o rosto,<br>
+ Ou de triste, ou de doente:<br>
+ Ou elle anda mal disposto,<br>
+ Ou lá tẽe certo desgôsto<br>
+ Que o não deixa ser contente.<br>
+ Mande, Senhor, vossa Alteza<br>
+ A chamá-lo por alguem, <span class="pn"><a
+ name="pag_267">{267}</a></span><br>
+ Saberemos que mal tem,<br>
+ Se he doença de tristeza,<br>
+ De que nasce, ou de que vem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Certo qu'eu me maravilho<br>
+ Do que vos ouço dizer.<br>
+ Que mal póde nelle haver?<br>
+ Ide dizer a meu filho<br>
+ Que me venha logo ver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se curar não se procura<br>
+ Huma cousa destas tais,<br>
+ Vem despois a crescer mais.<br>
+ Quando ja não se acha cura,<br>
+ Toda a cura he por demais.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome
+Leocadio.</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Leocadio, se es avisado,<br>
+ E não te falta saber,<br>
+ Saber-me-has dar a entender,<br>
+ Quem ama desesperado,<br>
+ Que fim espera de haver?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, não.<br>
+ Mas porém porque razão<br>
+ Lhe avem sabê-lo, ou de que?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pergunto-te a conclusão;<br>
+ Não me perguntes porque. <span class="pn"><a
+ name="pag_268">{268}</a></span><br>
+ Porque he minha pena tal,<br>
+ E de tão estranho ser,<br>
+ Que me hei de deixar morrer;<br>
+ E por não cuidar no mal<br>
+ O não ouso de dizer.<br>
+ Que maneira de tormento<br>
+ Tão estranho e evidente,<br>
+ Que nem cuidar se consente!<br>
+ Porque o mesmo pensamento<br>
+ Ha medo do mal que sente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não entendo a Vossa Alteza.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Assi importa á minha dor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E porque razão, Senhor?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Para que seja a tristeza<br>
+ Castigo do meu temor.<br>
+ Porque ordena<br>
+ O Amor, que me condena,<br>
+ Que se haja de sentir,<br>
+ E sem dizer nem ouvir.<br>
+ Bem-aventurada a pena<br>
+ Que se póde descobrir!<br>
+ Oh caso grande e medonho!<br>
+ Oh duro tormento fero!<br>
+ Verdade he isto, qu'eu quero?<br>
+ Não he verdade, mas sonho<br>
+ De que acordar não espero.<br>
+ Quero-me chegar a ElRei <span class="pn"><a
+ name="pag_269">{269}</a></span><br>
+ Meu pae, que ja m'está vendo.<br>
+ Mas onde vou? Não m'entendo.<br>
+ Com que olhos eu olharei<br>
+ Hum pae, a quem tanto offendo?<br>
+ Que novo modo de antolhos!<br>
+ Porque neste atrevimento<br>
+ Devêra meu sentimento<br>
+ Para elle não ter olhos,<br>
+ Nem para ella pensamento.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Chega aonde está ElRei, e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Filho, como andais assi?<br>
+ Que tanto desgôsto tomo<br>
+ De vos ver como vos vi!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não sei eu tanto de mi,<br>
+ Que possa saber o como.<br>
+ Dias ha ja, Senhor, que ando<br>
+ Mal disposto, sem saber<br>
+ Este mal que possa ser;<br>
+ Que se nelle estou cuidando,<br>
+ Quasi me vejo morrer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, filho, será razão<br>
+ Que meus Physicos vos vejão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Os Physicos, Senhor, não;<br>
+ Que os males qu'em mi estão,<br>
+ São curas que me sobejão. <span class="pn"><a
+ name="pag_270">{270}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deite-se; que na verdade<br>
+ Hum corpo, deitado e manso,<br>
+ Descansa á sua vontade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, esta enfermidade<br>
+ Não se cura com descanso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Todavia, bom será<br>
+ Que lhe fação huma cama.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Hum coxim abastará,<br>
+ Que assi não descansará<br>
+ O repouso de quem ama.)</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vamos, filho, para dentro,<br>
+ Em quanto a cama se faz:<br>
+ Repousae como capaz;<br>
+ Que a mi me dá cá no centro<br>
+ A pena que assi vos traz.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vão-se, e vem huma moça a fazer a cama e
+diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mimos de grandes Senhores,<br>
+ E suas extremidades,<br>
+ Me hão de matar de amores,<br>
+ Porque de meros dulçores<br>
+ Adoecem.<br>
+ Então logo lhes parecem<br>
+ Aos outros, que são mamados;<br>
+ E os que são mais privados, <span class="pn"><a
+ name="pag_271">{271}</a></span><br>
+ Sôbre elles estremecem.<br>
+ Certo (e assi Deos me ajude!)<br>
+ Que são muito graciosos,<br>
+ Porque de meros viçosos,<br>
+ Não podem com a saude.<br>
+ Mas deixallos,<br>
+ Porque elles darão nos vallos,<br>
+ Donde mais não se erguerão,<br>
+ Inda que lhe dem a mão<br>
+ Os seus privados vassallos.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e
+diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Traz, traz.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+             Jesu! Quem'stá ahi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja vós, mana, ereis mamada:<br>
+ Para vos levar furtada<br>
+ Nunca tal ensejo vi.<br>
+ E vós estais descuidada!</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E meus descuidos que fazem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vossos descuidos? cadella!<br>
+ Ah minh'alma! Sois tão bella,<br>
+ Qu'esses descuidos me trazem<br>
+ Dous mil cuidados á vela.<br>
+ Pois sou vosso ha tantos annos,<br>
+ Mana, tirae os antolhos,<br>
+ E vereis meus tristes dannos. <span class="pn"><a
+ name="pag_272">{272}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não tenhais esses enganos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nem vós tenhais esses olhos;<br>
+ Que de vossos olhos vem<br>
+ Esta minha pena fera.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De meus olhos? Assim era.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Moça, que taes olhos tem,<br>
+ Nenhuns olhos ver devêra.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E porque?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Porque cegais<br>
+ A quantos olhos olhais,<br>
+ Postoque por vós padecem.<br>
+ Olhos, que tão bem parecem,<br>
+ Porque não os castigais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deos dê siso, pois de vós<br>
+ Tirou o que aos outros deu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Desatae-me lá esses nós.<br>
+ Que mais siso quero eu,<br>
+ Que não ter siso por vós?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fallais d'arte; eu vos prometo<br>
+ Que a resposta vem á vela.<br>
+ Isso he ôlho de panella.<br>
+ Quanto ha ja que sois discreto? <span class="pn"><a
+ name="pag_273">{273}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quanto ha ja que vós sois bella?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dais-me logo a entender<br>
+ Que eu sou feia, a meu ver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E isso porque o entendeis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque? Porque me dizeis<br>
+ Que só de meu parecer<br>
+ Vos procede o que sabeis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ He verdade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Pois bem sento<br>
+ Que o vosso saber he vento.<br>
+ Fica a cousa declarada,<br>
+ Meu parecer não ser nada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Olhae aquelle argumento:<br>
+ Além de bella, avisada!<br>
+ Oh nem tanto, nem tão pouco!<br>
+ Vêde vós o que fallais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cego no saber andais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No siso, mas não tão louco<br>
+ Como vós, mana, cuidais.<br>
+ Ora dizei, duna má:<br>
+ Que não amais, quem vos ama? <span class="pn"><a
+ name="pag_274">{274}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ouvistes vós cantar ja,<br>
+ <em>Velho malo, em minha cama?</em><br>
+ Ja m'entendereis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                    Ha, ha.<br>
+ Senhora, estais enganada;<br>
+ Que com huma capa e espada,<br>
+ E com este capuz fóra...</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora bem: tirae-o ora,<br>
+ E fazei huma levada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não: se m'eu hoje alvoróço,<br>
+ Achar-me-heis d'outra feição.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui tira o capuz e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tenho má disposição?<br>
+ Estas obras são de moço,<br>
+ Se as mostras de velho são.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tendes mui gentis meneios.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não, Senhora; faço extremos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Passeae ora, veremos<br>
+ Se tendes tão bons passeios.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tudo, Senhora, faremos. <span class="pn"><a name="pag_275">{275}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Virae ora a essoutra mão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esta disposição vêde-a;<br>
+ Que tenho gentil feição.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tendes vós mui boa redea.<br>
+ Soffreis ancas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Isso não.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por certo que tendes graça<br>
+ Em tudo quanto fizerdes.<br>
+ Fazei mais o que souberdes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não sei cousa que não faça,<br>
+ Senhora, por me quererdes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tendes vós muito bom ar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mais qu'isto faz quem quer bem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ I-vos asinha, que vem<br>
+ O Principe a se deitar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nunca huma pessoa tem<br>
+ Hum'hora para fallar!</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e
+diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Seja a morte apercebida, <span class="pn"><a
+ name="pag_276">{276}</a></span><br>
+ Porque ja o Amor ordena<br>
+ A dar a meu mal sahida;<br>
+ Porque o fim da minha vida<br>
+ O seja da minha pena.<br>
+ Não tarde, para tomar<br>
+ Vingança de meu querer,<br>
+ Pois não se póde dizer<br>
+ Que não tẽe ja que esperar,<br>
+ Nem com que satisfazer?<br>
+ Os Physicos vem e vão,<br>
+ Sem saberem minhas mágoas,<br>
+ Nem o pulso me acharão;<br>
+ E se o querem ver nas ágoas,<br>
+ As dos olhos lho dirão.<br>
+ Se com sangrias tambem<br>
+ Procurão ver-me curado;<br>
+ O temor de meu cuidado<br>
+ O mais do sangue me tem<br>
+ Nas veias todo coalhado.<br>
+ Quero-me aqui encostar,<br>
+ Que ja o esprito me cae.<br>
+ Leocadio, vae-me chamar<br>
+ Os Musicos de meu Pae;<br>
+ Folgarei de ouvir cantar.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo
+assi:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, qual desatino<br>
+ Me trouxe a tanta tristura?<br>
+ Foi, Senhora, por ventura <span class="pn"><a
+ name="pag_277">{277}</a></span><br>
+ A fôrça do meu destino,<br>
+ Como vossa formosura?<br>
+ Bem conheço que não posso<br>
+ Ter tão alto pensamento;<br>
+ Mas disto só me contento,<br>
+ Que se paga com ser vosso<br>
+ O mor mal de meu tormento.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entrão os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum
+delles:</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, de que se acha mal<br>
+ O Principe, ou que mal sente?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, sei que está doente;<br>
+ Mas sua doença he tal,<br>
+ Qu'entender se não consente.<br>
+ Os Physicos vem e vão,<br>
+ Huns e outros a meude,<br>
+ Sem o poderem dar são.<br>
+ Quanto mais cura lhe dão,<br>
+ Então tẽe menos saude.<br>
+ O Pae anda em sacrificios<br>
+ Aos deoses, que lhe dem<br>
+ A saude que convem;<br>
+ Dizendo que por seus vicios<br>
+ O mal a seu filho vem.<br>
+ Eu suspeito qu'isto são<br>
+ Alguns novos amorinhos,<br>
+ Que tera no coração. <span class="pn"><a name="pag_278">{278}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Amores! com quem serão,<br>
+ Que lhe não dem de focinhos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhores, que lhe parece<br>
+ Da doença de Antiôcho?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Diga-lha quem lha conhece.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que toma morrer a trôco<br>
+ De callar o que padece.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso he estar emperrado<br>
+ Na doença; que he peor.<br>
+ Tẽe-no os Physicos curado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh! que de mal del amor<br>
+ No ha, Señor, sanador.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fallais como exprimentado;<br>
+ Qu'eu cuido que esta fadiga,<br>
+ Que o faz com que desespere;<br>
+ Y por mas tormento quiere<br>
+ Que se sienta, y no se diga.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, Senhor meu, isso asselle,<br>
+ Porque a pena, que sabeis,<br>
+ Que eu cuido que está nelle,<br>
+ Dar-lhe-ha penas crueis,<br>
+ Pues no hay quien la consuele. <span class="pn"><a
+ name="pag_279">{279}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Folgo, porque m'entendeis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hemo-nos, Senhores, de ir,<br>
+ Porque nos está 'sperando.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois eu tambem hei de ir;<br>
+ Que não me posso espedir<br>
+ Donde vejo estar cantando.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cantae, por amor de mi,<br>
+ Alguma cantiga triste;<br>
+ Que todo meu mal consiste<br>
+ Na tristeza em que me vi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mande-lhe cantar hum chiste.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Chiste não, que he deshonesto,<br>
+ E não tẽe esses extremos:<br>
+ Outro canto mais modesto;<br>
+ Porém não sei que diremos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Gaoleão o dirá presto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dá licença V. Alteza<br>
+ Que diga minha tenção?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizei: seja em canto-chão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois crede qu'he subtileza.<br>
+ Qu'os Anjos a comerão. <span class="pn"><a name="pag_280"
+ id="pag_280">{280}</a></span><br>
+ Digão esta:<br>
+ <em>Enforquei minha esperança,<br>
+ E o Amor foi tão madraço,<br>
+ Que lhe cortou o baraço.</em></blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não me parece essa boa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Haja eu perdão,<br>
+ Porque não a entenderão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Entender!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Bofé qu'he boa:<br>
+ Não lhe cahis na feição?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizei ora outra melhor,<br>
+ Com que nos atarraqueis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora esperae, e ouvireis:<br>
+ Se a esta não dais louvor,<br>
+ Quero que me degolleis.</blockquote>
+
+<p class="espacado">Cantiga.</p>
+
+<blockquote>
+ Com vossos olhos Gonçalves,<br>
+ Senhora, captivo tendes<br>
+ Este meu coração Mendes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essa parece mui taibo,<br>
+ Porque mostra bom indicio.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós cuidareis qu'eu que raivo. <span class="pn"><a
+ name="pag_281">{281}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Todavia tẽe mao saibo.<br>
+ Ora mal lhe corre o offício.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tá, não vá mais por diante<br>
+ A zombaria, que he má:<br>
+ Cantae qualquer dellas ja;<br>
+ Qu'esse Porteiro he galante,<br>
+ Ninguem o contentará.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui cántão, e em acabando, diz o</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Parece que adormeceo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois será bom que nos vamos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, quer que nos vejamos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor vir-me-ha do ceo:<br>
+ Releva-me que o façamos.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta,
+e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Frolalta, como ficava<br>
+ Antiôcho em te tu vindo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ficava-se despedindo<br>
+ Da vida qu'então levava,<br>
+ E assi seus dias cumprindo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh grave caso d'amor! <span class="pn"><a name="pag_282">{282}</a></span><br>
+ Desesperada affeição!<br>
+ Oh amor sem redempção,<br>
+ Que alli te fazes maior<br>
+ Onde tens menos razão!<br>
+ No mais alto e fundo pégo<br>
+ Alli tens maior porfia:<br>
+ Razão de ti não se fia.<br>
+ Quem a ti te chamou cego,<br>
+ Mui bem soube o que dizia.<br>
+ Por ventura hia chorando?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Chorando hia e chamando<br>
+ Ao Amor, Amor cruel;<br>
+ E em, Senhora, se deitando<br>
+ Lhe cahio este papel.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que papel?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Este, Senhora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Amostra, que quero lê-lo.<br>
+ Agora acabo de crê-lo;<br>
+ Que ao que mostra por fóra,<br>
+ Aqui lhe lançou o sello.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui lê o papel e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh estranha pena fera!<br>
+ Desditosa vida chara!<br>
+ Oh quem nunca cá viera, <span class="pn"><a
+ name="pag_283">{283}</a></span><br>
+ E com seu Pae não casára,<br>
+ Ou em casando morrêra!</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aindaque eu pêca são,<br>
+ Senhora, tudo bem vejo.<br>
+ Attente, que na eleição<br>
+ O que lhe pede o desejo<br>
+ Não consente o coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Frolalta, pois qu'es discreta<br>
+ Nada te posso encobrir;<br>
+ Porque, se queres sentir,<br>
+ A huma mulher discreta<br>
+ Tudo se ha de descobrir.<br>
+ O dia qu'entrei aqui,<br>
+ Que a Seleuco recebi,<br>
+ Logo nesse mesmo dia<br>
+ No Principe filho vi<br>
+ Os olhos com que me via.<br>
+ Este principio soffri-lho,<br>
+ Para ver se se mudava;<br>
+ Antes mais se accrescentava:<br>
+ Eu amava-o como filho,<br>
+ E elle d'outr'arte me amava.<br>
+ Agora vejo-o no fim<br>
+ Por se me não declarar.<br>
+ E pois ja que a isso vim,<br>
+ A morte que o levar,<br>
+ Me leve tambem a mim.<br>
+ Porque ja que minha sorte<br>
+ Foi tão crua e desabrida, <span class="pn"><a
+ name="pag_284">{284}</a></span><br>
+ Que me não quer dar sahida;<br>
+ Sejamos juntos na morte,<br>
+ Pois o não somos na vida.<br>
+ Oh quem me mandou casar,<br>
+ Para ver tal crueldade!<br>
+ Ninguem venda a liberdade,<br>
+ Pois não póde resgatar<br>
+ Onde não tẽe a vontade.<br>
+ Que não ha mor desvario,<br>
+ Que o forçado casamento<br>
+ Por alcançar alto assento;<br>
+ Que, emfim, todo o senhorio<br>
+ Está no contentamento.<br>
+ Não sei se o vá ver agora,<br>
+ Se será tempo conforme,<br>
+ Ou se imos a deshora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Despois iremos, Senhora,<br>
+ Que agora dizem que dorme.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o
+diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Su madrasta oyó nombrar,<br>
+ Y el pulso se le alteró:<br>
+ Esto no entiendo yo,<br>
+ Porque para le alterar<br>
+ El corazon le obligó.<br>
+ Pues que el corazon se altere,<br>
+ Es porque en un momento<br>
+ Algun nuevo vencimiento<br>
+ De aficion terrible le hiere, <span class="pn"><a
+ name="pag_285">{285}</a></span><br>
+ Que causa tal movimiento.<br>
+ Pues que aficion cabe así<br>
+ Con madrasta? Digo yo,<br>
+ Dos razones hay aqui:<br>
+ La una dice, que sí,<br>
+ La otra dice, que no.<br>
+ Empero yo determino<br>
+ De exprimentar la verdad,<br>
+ Y hacer una habilidad,<br>
+ Que declare es agua, ó vino<br>
+ Esta su enfermedad.<br>
+ Porque toda esta mañana<br>
+ Tengo estudiado su mal,<br>
+ Sin ver causa efectual<br>
+ De su dolencia inhumana,<br>
+ Ni otra de su metal.<br>
+ Llamar quiero este asnejon;<br>
+ Mas aun debe de dormir,<br>
+ Segun que es dormilon.<br>
+ Sancho? ó Sancho?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Ah Señor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ea, aun estás dormiendo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Estoyme, Señor, vestiendo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues vellaco y sin sabor,<br>
+ No me respondes dormiendo?<br>
+ Vestios presto, ladron.<br>
+ Oh qué mozo, y qué ventura! <span class="pn"><a
+ name="pag_286">{286}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Mas qué amo y qué cabron!)<br>
+ Embíeme acá el ropon,<br>
+ Que no hallo mi vestidura.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que embie el ropon acá?<br>
+ Parece que os desmandais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que vaya, Señor? ha, ha.<br>
+ Que buenos dias hayais.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra o moço embrulhado em huma manta, e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Di como vienes así<br>
+ Con la manta, y para qué?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo, Señor, se lo diré:<br>
+ Por venir presto vestí<br>
+ Lo que mas presto me hallé:<br>
+ Porque viendo que él me llama,<br>
+ Dormiendo yo sin afan,<br>
+ Salté presto de la cama,<br>
+ Que parezco un gavilan,<br>
+ Hermoso como una dama.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas es tu bovedad tanta,<br>
+ Que vienes desta facion?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De mi vestido se espanta?<br>
+ De noche sirve de manta,<br>
+ Y de dia de ropon. <span class="pn"><a name="pag_287">{287}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Embióme ElRey á llamar<br>
+ Otra vez.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+            Y á mí?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                        Y á ti!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y él qué presta allá sin mí?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qué puedes tu aprovechar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo se lo diré de aqui:<br>
+ Si por la ventura quiere<br>
+ Para que le dé consejo,<br>
+ Cuando doliente estuviere;<br>
+ Digo, coma, si pudiere,<br>
+ Y beba buen vino anejo;<br>
+ Porque este es el licor<br>
+ Que dá fuerza, y es sabroso;<br>
+ Que segun dicen, Señor,<br>
+ <em>Vinum lœtificat cor<br>
+ Hominis</em>, y le es provechoso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ya sabes la medicina,<br>
+ Que Avicena nos refiere.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues, Señor! porque es divina.<br>
+ Pero ElRey qué le quiere,<br>
+ Qué manda, ó qué determina? <span class="pn"><a
+ name="pag_288">{288}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ El Principe está doliente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh mesquino! Y qué mal ha?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y á ti, necio, que te vá?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O Señor, que es mi pariente!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Gracioso el bovo está.<br>
+ Y pues díme por tu fé:<br>
+ Llorarás si se muriere?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No, Señor, no lloraré;<br>
+ Empero, Señor, haré<br>
+ La peor cara que pudiere.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ea, bovo, vé corriendo,<br>
+ Y ensilla la mula ayna.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Véngala ensillar mejor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh velhaco, y sin sabor!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo por cierto no lo entiendo.<br>
+ Pero una medicina<br>
+ Le he de pedir, Dios queriendo,<br>
+ (Porque ando atribulado,<br>
+ Y no sé parte de mi<br>
+ Con este nuevo cuidado) <span class="pn"><a
+ name="pag_289">{289}</a></span><br>
+ Para un sayo esfarrapado,<br>
+ Que me dicen hay allí.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora ensilla; y nunca viva,<br>
+ Pues sufro tus desatinos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, pasion no reciva:<br>
+ <em>Ya cavalga Calaínos<br>
+ A la sombra de una oliva.</em></blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui sahe bolindo com a almofaça, e acorda o Principe
+e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh bella vista e humana,<br>
+ Por quem tanto mal sostenho!<br>
+ Oh Princeza soberana!<br>
+ Como? nos braços vos tenho,<br>
+ Ou este sonho m'engana?<br>
+ Pois como, sonho, tambem<br>
+ Me queres vir magoar?<br>
+ E para me atormentar<br>
+ Mostras-me a sombra do bem<br>
+ Para assi mais m'enganar?<br>
+ Assi que, com quanto canso,<br>
+ Ja não posso achar atalho,<br>
+ Pois que o somno quieto e manso,<br>
+ Que os outros tẽe por descanso,<br>
+ Me vem a mi por trabalho.<br>
+ Pois ha hi tantos enganos<br>
+ Que condemnão minha sorte;<br>
+ Não o tenho ja por forte, <span class="pn"><a
+ name="pag_290">{290}</a></span><br>
+ Se á volta de tantos danos<br>
+ Viesse tambem a morte.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Andae e vêde se achais<br>
+ O rasto deste segredo,<br>
+ Que me dizem que alcançais;<br>
+ Ainda que tenho medo<br>
+ Que lhe seja por demais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Plega á Dios que aqueste sea<br>
+ Para salud y remedio<br>
+ Desta dolencia tan fea.<br>
+ Yo buscaré todo el medio,<br>
+ Que presto sano se vea.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aflojen, Señor, sus ais.<br>
+ Como se halla en su penar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como me acho perguntais?<br>
+ E como se póde achar<br>
+ Quem sempre se perde mais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (La respuesta abre el camino.)<br>
+ Imagina de contino?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não tenho outro mantimento, <span class="pn"><a
+ name="pag_291">{291}</a></span><br>
+ Nem outro contentamento,<br>
+ Senão o em que imagino.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui entra a Rainha e diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como se sente, Senhor?<br>
+ Tẽe a febre mais pequena?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Responda-lhe minha pena.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Conocido es su dolor.<br>
+ Ora sea en hora buena,<br>
+ Tomada está la tristeza<br>
+ Á las manos.) Qué sentió?<br>
+ (Usaré de subtileza.)</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Diz contra ElRei:</em></p>
+
+<blockquote>
+ Cúmpleme que solo yo<br>
+ Platique con Vuestra Alteza.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cheguemos-nos para cá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não deve desesperar,<br>
+ Qu'em fim, se bem attentar,<br>
+ Para tudo o tempo dá<br>
+ Tempo para se curar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que cura poderá ter<br>
+ Quem tẽe a cura, Senhora,<br>
+ No impossivel haver? <span class="pn"><a name="pag_292">{292}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ficae-vos, Senhor, embora,<br>
+ Que vos não sei responder.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vai-se a Rainha, e diz ElRei:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Neste mal, que não comprendo,<br>
+ Que meio dais de conselho?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, nada entiendo dello;<br>
+ Y supuesto que lo entiendo,<br>
+ Yo quisiera no entendello.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Porque he entendido<br>
+ Lo mas malo de entender,<br>
+ Para lo que puede ser,<br>
+ Porque anda, Señor, perdido<br>
+ De amores por mi muger.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Santo Deos! que! tal amor<br>
+ Lhe dá doença tão fera!<br>
+ Que remedio achais melhor?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Forçado será que muera,<br>
+ Porque no muera mi honor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois como! a hum só herdeiro<br>
+ Deste Reino não dareis<br>
+ Vossa mulher, pois podeis; <span class="pn"><a
+ name="pag_293">{293}</a></span><br>
+ Que tudo faz o dinheiro?<br>
+ Pois este não o engeiteis;<br>
+ Dae-lha, porque eu espero<br>
+ De vos dar dinheiro e honra,<br>
+ Quanto eu para elle quero.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No tira el mucho dinero<br>
+ La mancha de la deshonra.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora bem pouco defeito!<br>
+ He pequice conhecida,<br>
+ Quando deixa de ser feito;<br>
+ Porque com elle dais vida<br>
+ A quem vos dara proveito.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cuan facilmente aporfia<br>
+ Quien en tal nunca se vió!<br>
+ Del consejo que me dió,<br>
+ Vuestra Alteza que haria<br>
+ Si agora fuese yo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ A mulher que eu tivesse<br>
+ Dar-lha-hia. Oxalá<br>
+ Que elle a Rainha quizesse!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues déla, si le parece,<br>
+ Que por ella muerto está.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que me dizeis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              La verdad. <span class="pn"><a
+ name="pag_294">{294}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sem dúvida, tal sentistes?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sin duda, sin falsedad.<br>
+ Pues, Señor, ahora tomad<br>
+ Los consejos que me distes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Certamente, qu'eu o via<br>
+ Em tudo quanto fallava.<br>
+ Como o vistes? porque via?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nel pulso, que se alterava<br>
+ Si la via, ó si la oia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que maneira ha de haver?<br>
+ Qu'eu certo me maravilho,<br>
+ Possa mais o amor do filho,<br>
+ Do que póde o da mulher.<br>
+ Finalmente hei-lha de dar,<br>
+ Que a ambos conheço o centro.<br>
+ Quero-o ir alevantar,<br>
+ E iremos para dentro<br>
+ Neste caso praticar.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Diz contra o Principe:</em></p>
+
+<blockquote>
+ Levantae-vos, filho, d'hi<br>
+ O melhor que vós puderdes,<br>
+ E vindo-vos para aqui;<br>
+ Porque, emfim, o que quizerdes<br>
+ Tudo havereis de mi. <span class="pn"><a name="pag_295">{295}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah Senhores, oulá, ou?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Viestes em conjunção<br>
+ A melhor que póde ser:<br>
+ Haveis aqui de fazer<br>
+ A tosquia a hum rifão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deixae-me, Senhor, dizer:<br>
+ Haveis isto de acabar,<br>
+ Coração, hi bugiar,<br>
+ No esteis preso en cadenas,<br>
+ Que pois o amor vos deo penas,<br>
+ Que vos lanceis a voar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por certo que bem comprou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora sabeis o que vai?<br>
+ Antiocho que casou<br>
+ Com a mulher de seu Pai,<br>
+ E o mesmo Pae o ordenou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso como?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Não o sei;<br>
+ Porque dizem que a amava,<br>
+ E que só por ella andava<br>
+ Para morrer; e ElRei<br>
+ Deo-a a quem a desejava.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se o casa por querer bem <span class="pn"><a
+ name="pag_296">{296}</a></span><br>
+ Com a moça, a quem elle ama,<br>
+ Direi eu que a mim me inflama<br>
+ O amor mais que a ninguem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois pedi-lhe a nossa dama.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por São Gil, que ei-los cá vem,<br>
+ Elle pela mão com ella.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mão, e
+diz:</em></p>
+
+<p class="personagem">R<small>EI.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que mais ha hi que esperar?<br>
+ Olhae qu'estranheza vai!<br>
+ O muito amor ordenar,<br>
+ Ir-se o filho namorar<br>
+ D'huma mulher de seu Pai!<br>
+ Querer bem foi sua dor,<br>
+ Negar-lha será crueldade;<br>
+ Assi que ja foi bondade<br>
+ Usar eu de tal amor,<br>
+ E de tal humanidade.<br>
+ Ella deixou de reinar<br>
+ Como fazia primeiro<br>
+ Por se com elle casar;<br>
+ E por amor verdadeiro<br>
+ Tudo se póde deixar.<br>
+ Eu que nella tinha pôsto<br>
+ Todo o bem de meu cuidado,<br>
+ Deixei mais que ella ha deixado;<br>
+ Que mais se deixa no gôsto,<br>
+ Que no poderoso estado. <span class="pn"><a
+ name="pag_297">{297}</a></span><br>
+ Mas ja que tudo isto vemos,<br>
+ Hajão festas de prazer,<br>
+ As que melhor possão ser;<br>
+ Porqu'em tão grandes extremos,<br>
+ Extremos se hão de fazer.<br>
+ Hajão cantos para ouvir,<br>
+ Jogos, prazeres sem fundo;<br>
+ Porque, se quereis sentir,<br>
+ Deste modo entrou o mundo,<br>
+ E assi ha de sahir.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aqui vem os Musicos e cántão, e depois de cantarem,
+sahem-se todas as figuras, e diz</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ARTIM</small> C<small>HINCHORRO.</small></p>
+
+<p>Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos; ou
+vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor festa que
+póde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das figuras nos
+acolheremos. Moço, accende esse mólho de cavacos, porque faz escuro, não
+vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço e as canastras.</p>
+
+<p class="personagem">E<small>STACIO DA</small> F<small>ONSECA.</small></p>
+
+<p>Não, Senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par de tições na
+mão; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvão-se desta pousada;
+e não tenhão isto por palavras, porque essas e plumas, o vento as leva. <span
+class="pn"><a name="pag_298">{298}</a></span> <span class="pn"><a
+name="pag_299">{299}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a name="pag_301">{301}</a></span></p>
+
+<h1>OS AMPHITRIÕES,</h1>
+
+<h2>COMEDIA.</h2>
+
+<h3>INTERLOCUTORES.</h3>
+
+<p class="ni">A<small>MPHITRIÃO</small>.<br>
+A<small>LCMENA</small>, sua mulher.<br>
+C<small>ALLISTO</small>.<br>
+F<small>ELISEO</small>.<br>
+S<small>OSEA</small>, moço de Amphitrião.<br>
+B<small>ROMIA</small>, sua criada.<br>
+B<small>ELFERRÃO</small>, Patrão.<br>
+A<small>URELIO</small>, Primo de Alcmena.<br>
+H<small>UM MOÇO DE</small> A<small>URELIO.</small><br>
+J<small>UPITER</small>.<br>
+M<small>ERCURIO</small>.</p>
+
+<h1>OS AMPHITRIÕES,</h1>
+
+<h3>COMEDIA.</h3>
+
+<h2>ACTO PRIMEIRO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e
+Bromia.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>A</big>h Senhor Amphitrião,<br>
+ Onde está todo meu bem!<br>
+ Pois meus olhos vos não vem,<br>
+ Fallarei co'o coração,<br>
+ Que dentro n'alma vos tem.<br>
+ Ausentes duas vontades,<br>
+ Qual corre mores perigos,<br>
+ Qual soffre mais crueldades,<br>
+ Se vós entre os inimigos,<br>
+ Se eu entre as saudades?<br>
+ Que a ventura, que vos traz<br>
+ Tão longe de vossa terra,<br>
+ Tantos desconcertos faz,<br>
+ Que se vos levou á guerra,<br>
+ Não me quiz leixar em paz. <span class="pn"><a
+ name="pag_302">{302}</a></span><br>
+ Bromia, quem com vida ter,<br>
+ Da vida ja desespera,<br>
+ Que lhe poderás dizer?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que nunca se vio prazer,<br>
+ Senão quando não se espera.<br>
+ E por tanto não devia<br>
+ De ter triste a phantasia;<br>
+ Porque Vossa Mercê creia,<br>
+ Que o prazer sempre salteia<br>
+ Quem delle mais desconfia.<br>
+ Eu tenho no coração,<br>
+ Do Senhor Amphitrião<br>
+ Venha hoje alguma nova:<br>
+ Não receba alteração,<br>
+ Que a verdadeira affeição<br>
+ Na longa ausencia se prova.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizei logo a Feliseo<br>
+ Que chegue muito apressado<br>
+ Ao caes, e busque mêo<br>
+ De saber se algum recado<br>
+ Do porto Persico vêo:<br>
+ E mais lhe haveis de dizer,<br>
+ (Isto vos dou por offício)<br>
+ D'alguma nova saber,<br>
+ Em quanto eu vou fazer<br>
+ Aos Deoses o sacrificio. <span class="pn"><a name="pag_303">{303}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Saudades de minh'ama,<br>
+ Chorinhos e devoções,<br>
+ Sacrificios e orações,<br>
+ Me hão de lançar n'huma cama,<br>
+ Certamente.<br>
+ Nós mulheres de semente<br>
+ Somos sedenho mui tosco:<br>
+ Com qualquer vento que vente,<br>
+ Queremos forçadamente<br>
+ Que os Deoses vivão comnosco.<br>
+ Quero Feliseo chamar,<br>
+ E dizer-lhe aonde ha de ir.<br>
+ Mas elle como me vir,<br>
+ Logo ha de querer rinchar,<br>
+ De travesso.<br>
+ Eu que de zombar não cesso,<br>
+ Por ficar com elle em salvo,<br>
+ Lanço-lhe hum e outro remêsso;<br>
+ Aos seus furto-lhe o alvo;<br>
+ E então elle fica avesso.<br>
+ Porque o melhor destas danças,<br>
+ Com huns vindiços assi,<br>
+ He trazê-los por aqui<br>
+ Ó cheiro das esperanças,<br>
+ Por viver.<br>
+ Ha-os homem de trazer<br>
+ Nos amores assi mornos,<br>
+ Só para ter que fazer; <span class="pn"><a
+ name="pag_304">{304}</a></span><br>
+ E despois ao remetter<br>
+ Lançar-lhe a capa nos cornos.<br>
+ Feliseo, se estais á mão,<br>
+ Chegae cá, vem como hum gamo:<br>
+ Bem sei que não chamo em vão.</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Feliseo e Bromia.</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Chamais-me? tambem vos chamo;<br>
+ Porém eu ouço, e vós não:<br>
+ Senhora, que me matais,<br>
+ Se vós ja nunca me ouvis,<br>
+ Ou me ouvis, e vos callais,<br>
+ Dizei: porque me chamais<br>
+ Se me vós a mim fugis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu vos fujo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Fugis, digo,<br>
+ De dar a meus males cabo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sabei que desse perigo<br>
+ Não fujo como de imigo,<br>
+ Fujo como do diabo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dae ao demo essa tenção,<br>
+ Usae antes de cortês,<br>
+ Cahi vós nesta razão. <span class="pn"><a name="pag_305">{305}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Do p'rigo fogem os pés,<br>
+ Do diabo o coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizeis-me que nessa briga<br>
+ Do meu coração fugis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ainda qu'eu isso diga...</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah minha doce inimiga!<br>
+ Bem sinto que me sentis.<br>
+ Mas para que me chamais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Manda-vos minha Senhora<br>
+ Que chegueis daqui ao cais,<br>
+ E algumas novas saibais<br>
+ D' Amphitrião nesta hora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem as não sabe de si,<br>
+ D'outrem como as sabera?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não as sabeis vós de mi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Má trama venha por ti,<br>
+ Duna feiticeira má!<br>
+ Porque não me ólhas direito,<br>
+ Cadella, que assi me cortas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque vos quero dar portas;<br>
+ Que s'eu olhar d'outro geito,<br>
+ Trarei cem mil vidas mortas. <span class="pn"><a
+ name="pag_306">{306}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E pois para que me andais<br>
+ Enganando ha cem mil annos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dou-vos vida com enganos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nesses enganinhos tais<br>
+ Acho crueis desenganos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quant'esses vos quero eu dar:<br>
+ Vós cuidais que estais na sella?<br>
+ Pois podeis-vos descer della;<br>
+ Qu'eu nunca vos pude olhar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Jogais comigo á panella?<br>
+ Tendes-me ha tanto captivo,<br>
+ E desenganais-me agora?<br>
+ Tudo isto he o que privo.<br>
+ Assi que he isso, Senhora,<br>
+ Dochelo morto, dochelo vivo?<br>
+ Se me vós desenganais<br>
+ No cabo de tantos annos,<br>
+ Direi, se licença dais,<br>
+ Dais-me vida com enganos,<br>
+ Desenganos, ja chegais.<br>
+ Mas se isso havia de ser,<br>
+ Dizei, má desconhecida,<br>
+ Destêrro de meu viver,<br>
+ Que vos custava dizer<br>
+ Amor, vae buscar tua vida? <span class="pn"><a
+name="pag_307">{307}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Zombais? Fallais-me coprinhas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Rir-vos-heis se vem á mão:<br>
+ Copras não, mas isto são<br>
+ Ansias y pasiones minhas<br>
+ Dos bofes e coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Is-vos fazendo d'huns sengos.....</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Perdóneme Dios si peco.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nesses dentinhos framengos<br>
+ Conheço que sois hum pêco<br>
+ De todos quatro avoengos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tudo vos levo em capelo,<br>
+ Ja qu'estais tanto em agraço.<br>
+ Porém, fallando singelo,<br>
+ A furto desse mao zêlo,<br>
+ Quereis-me dar hum abraço?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora digo que não posso<br>
+ Usar comvosco de fero:<br>
+ Tomae-o.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Ja o não quero,<br>
+ Porque esse abraço vosso,<br>
+ Sabei que he engano mero.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh! vós sois d'huns sensabores... <span class="pn"><a
+ name="pag_308">{308}</a></span><br>
+ Abraço pedis assim?<br>
+ S'eu remango d'hum chapim...</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tudo isso são favores:<br>
+ Zombae, vingae-vos de mim.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós de furioso touro<br>
+ As garrochas não sentis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vedes, com isso sé mouro:<br>
+ Quando cuido que sois ouro,<br>
+ Acho-vos toda ceitis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Emfim, sanha de villão<br>
+ Vos fez perder hum bom dia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Jagora o eu tomaria;<br>
+ Quereis-mo dar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Ora não.<br>
+ Cocei-vos eu todavia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, Senhora, a quem vos ama<br>
+ Sois tão desarrazoada,<br>
+ Quero tomar outra dama;<br>
+ Que não digão os d'Alfama<br>
+ Que não tenho namorada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deixae-me.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Vós me deixais. <span class="pn"><a
+ name="pag_309">{309}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deixae-me.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+            Zombais de mi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deixae-me. Pois m'engeitais,<br>
+ Eu me ausentarei daqui<br>
+ Onde me mais não vejais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Boa está a zombaria!</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não são essas minhas manhas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porém is-vos todavia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Voyme á las tierras estrañas.<br>
+ Adó ventura me guia.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Feliseo só.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Phantasias de donzellas,<br>
+ Não ha quem como eu as quebre;<br>
+ Porque certo cuidão ellas,<br>
+ Que com palavrinhas bellas<br>
+ Nos vendem gato por lebre.<br>
+ Esta tẽe lá para si<br>
+ Qu'eu sou por ella finado;<br>
+ E crê que zomba de mi;<br>
+ E eu digo-lhe que, si, <span class="pn"><a name="pag_310">{310}</a></span><br>
+ Sou por ella esperdiçado.<br>
+ Preza-se d'humas seguras;<br>
+ E eu não quero mais Frandes:<br>
+ Dou-lhe trela ás travessuras,<br>
+ Porque destas coçaduras<br>
+ Se fazem as chagas grandes.<br>
+ Qu'estas, que andão sempre á vela,<br>
+ Estas vos digo eu que coço;<br>
+ Porque de firmes na sella,<br>
+ Crem que falsão a costella,<br>
+ E ficão pelo pescoço.<br>
+ Que quando estas damas tais<br>
+ Me cachão, então recacho.<br>
+ Mas disto agora nó mais.<br>
+ Quero-me ir daqui ao cais<br>
+ Ver se algumas novas acho.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter e Mercurio.</em></p>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh grande e alto destino!<br>
+ Oh potencia tão profana!<br>
+ Que a setta d'hum menino<br>
+ Faça que meu ser divino<br>
+ Se perca por cousa humana!<br>
+ Que m'aproveitão os ceos,<br>
+ Onde minha essencia mora<br>
+ Com tanto poder, se agora <span class="pn"><a
+ name="pag_311">{311}</a></span><br>
+ A quem me adora por deos,<br>
+ Sirvo eu como a senhora?<br>
+ Oh quão estranha affeição!<br>
+ Quem em baixa cousa vai pôr<br>
+ A vontade e o coração,<br>
+ Sabe tão pouco d'Amor,<br>
+ Quão pouco Amor de razão.<br>
+ Mas que remedio hei de ter<br>
+ Contra mulher tão terribil,<br>
+ Que se não póde vencer?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Alto Senhor, teu poder<br>
+ O difficil faz possibil.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tu não vês qu'esta mulher<br>
+ Se preza de virtuosa?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, tudo póde ser;<br>
+ Que para quem muito quer,<br>
+ Sempre a affeição he manhosa.<br>
+ Seu marido está ausente<br>
+ Na guerra, longe daqui;<br>
+ Tu, qu'es Jupiter potente,<br>
+ Tomarás sua fórma em ti;<br>
+ Que o farás mui facilmente.<br>
+ E eu me transformarei<br>
+ Na de Sósea, criado seu;<br>
+ E ao arraial me irei,<br>
+ Onde logo saberei<br>
+ Como se a batalha deu.<br>
+ E assi poderás entrar, <span class="pn"><a
+ name="pag_312">{312}</a></span><br>
+ Em lugar de seu marido;<br>
+ E para que sejas crido,<br>
+ Poderás tambem contar<br>
+ Quanto eu lá tiver sabido.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem arde em tamanho fogo<br>
+ Tira-lhe a virtude a côr<br>
+ De subtil e sabedor;<br>
+ E quem fóra está do jôgo<br>
+ Enxérga o lanço melhor.<br>
+ Mas tu, que dos sabedores<br>
+ Tanto avante sempre estás,<br>
+ Se deos es dos mercadores,<br>
+ Sê-lo-has dos amadores,<br>
+ Pois tal remedio me dás.<br>
+ Ponha-se logo em effeito;<br>
+ Que não soffre dilação<br>
+ Quem o fogo tẽe no peito;<br>
+ E tu vae logo direito<br>
+ Aonde anda Amphitrião.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Feliseo e Callisto.</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Adó bueno por aqui,<br>
+ Tão longe do acostumado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mais longe vou eu de mi,<br>
+ D'ir perto de meu cuidado. <span class="pn"><a
+name="pag_313">{313}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No andar vos conheci.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E vós onde vos lançais,<br>
+ Com vossa contemplação?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu chego daqui ao cais<br>
+ A saber de Amphitrião:<br>
+ Não sei se vou por demais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque por demais dizeis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque nada alli ha certo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Novas lá não as busqueis,<br>
+ Que aqui as tendes mais perto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois dae-mas ja, se as sabeis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hum navio he ja chegado<br>
+ Á barra, que vem de lá;<br>
+ Traz de Amphitrião recado,<br>
+ Diz que o deixa embarcado<br>
+ Para se vir para cá.<br>
+ Tẽe vencido aquelle Rei;<br>
+ E diz, segundo lhe ouvi,<br>
+ Qu'esta noite será aqui.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essas novas levarei<br>
+ A Alcmena, que torne em si,<br>
+ Porque ella tẽe maior guerra <span class="pn"><a
+ name="pag_314">{314}</a></span><br>
+ Co'os temores de perdello,<br>
+ Qu'elle co'o Rei dessa terra.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Onde amor lançar o sello,<br>
+ Nenhuma cousa o desterra.<br>
+ Porqu'inda que o pensamento<br>
+ Vos fique, Senhor, em calma,<br>
+ Por morte ou apartamento;<br>
+ Sempre vos lá ficão n'alma<br>
+ As pégadas do tormento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso he hum segredo mero,<br>
+ A que o amor nos obriga:<br>
+ Por isso em caso tão fero,<br>
+ Senhor, nunca ninguem diga,<br>
+ Ja lho quiz, e não lho quero.<br>
+ Eu quiz bem a huma mulher,<br>
+ Que vós conhecestes bem,<br>
+ E, com muito lhe querer,<br>
+ Casou-se.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Oh! e com quem?<br>
+ Que ainda o não posso crer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Com hum Mercador, que veio<br>
+ Agora do Egypto, rico.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso traz ágoa no bico.<br>
+ Esse homem he parvo, ou feio?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois vêdes? disso me pico. <span class="pn"><a
+ name="pag_315">{315}</a></span><br>
+ E em pago desta traição,<br>
+ Afóra outros mil descontos<br>
+ Que traz comsigo a affeição,<br>
+ Sempre os signaes destes pontos<br>
+ Trarei no meu coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Viste-la mais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Senhor, vi,<br>
+ Na janellinha da grade;<br>
+ Passei, e disse-lhe assi:<br>
+ Casada sem piedade,<br>
+ Porque não a haveis de mi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que vos disse?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Lá no centro<br>
+ Lh'enxerguei pouca alegria;<br>
+ E como quem lhe dohia,<br>
+ Metendo-se para dentro<br>
+ Disse: Ja pasó folia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah má sem conhecimento!<br>
+ Quem lhe désse mil chofradas!</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, como são casadas,<br>
+ Casão-se co'o esquecimento<br>
+ Das cousas que são passadas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Lembranças de vos deixar<br>
+ Picar-vos-hão como tojos. <span class="pn"><a
+name="pag_316">{316}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, haveis d'assentar<br>
+ Que onde amor vos quer matar,<br>
+ Siempre allá miran los ojos.<br>
+ Hum motete lhe mandei<br>
+ Hum dia, estando com febre,<br>
+ Só da paixão que tomei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois vejamos quem tẽe lebre.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, eu vo-lo direi.</blockquote>
+
+<p class="espacado">Mote.</p>
+
+<blockquote>
+ Vós por outrem, e eu por vós;<br>
+ Vós contente, e eu penado;<br>
+ Vós casada, eu cansado.<br>
+ Polos santos de minha dona!</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, vós só o fizestes?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, que ninguem me ajudou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se vós só o compuzestes,<br>
+ Crede, que extremos dissestes.<br>
+ Nunca Orlando tal fallou.<br>
+ Senhor, fizestes-lhe pé?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, si; e todo hum anno...<br>
+ Vós zombais, se não m'engano? <span class="pn"><a
+ name="pag_317">{317}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não, mas dou-vos minha fé<br>
+ Que nunca vi tão bom panno.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora olhe vossa mercê.</blockquote>
+
+<p class="espacado">Volta.</p>
+
+<blockquote>
+ Olhae em quão fundos vaos<br>
+ Por vossa causa me affógo,<br>
+ Que outro me ganha no jôgo,<br>
+ E eu triste pago os paos.<br>
+ Olhos travessos e maos,<br>
+ Inda eu veja o meu cuidado<br>
+ Por esse vosso trocado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não mais, qu'isso me degola.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, eu haja perdão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fizestes esse rifão<br>
+ Em algum jôgo de bola?<br>
+ E foi-lhe elle ter á mão?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo-vos que o vio, e lho leo<br>
+ Hum moçozinho d'escola.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Está isso assi do ceo.<br>
+ Sabe ella jogar a bola?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não. <span class="pn"><a name="pag_318">{318}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+      Pois não vos entendeo.<br>
+ Ora eu ja cheguei a ler<br>
+ Petrarca, e crede de mi<br>
+ Que nunca tal cousa vi.<br>
+ Onde mora o bom saber,<br>
+ Logo dá sinal de si.<br>
+ Onde <em>casada</em> puzestes,<br>
+ Dizei, porque não dissestes<br>
+ <em>La que yo vi por mi mal.</em></blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Renunciava o metal;<br>
+ Qu'em rifõeszinhos como estes,<br>
+ Ha-se-de pôr tal com tal.<br>
+ Que a trova trigo-tremez<br>
+ Ha de ser toda d'hum pano;<br>
+ Que parece muito Ingrez<br>
+ N'hum pelote Portuguez<br>
+ Todo hum quarto Castelhano.<br>
+ Ouvi outra tambem minha,<br>
+ Que fiz a certa tenção,<br>
+ Clara, leve, bonitinha,<br>
+ De feição, que esta trovinha,<br>
+ He trovinha de feição.<br>
+ Como eu hum dia me visse<br>
+ Morto, e a mão na candêa,<br>
+ E ella não me acodisse;<br>
+ Fiz-lhe esta, porque sentisse<br>
+ Que dava os fios á têa.<br>
+ E o propósito he<br>
+ Andar eu hum dia só; <span class="pn"><a name="pag_319">{319}</a></span><br>
+ E para que houvesse dó<br>
+ De mi e de minha fé,<br>
+ Lamentei-lhe como Jó.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Andastes, Senhor, mui bem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora, Senhor, attentai,<br>
+ E vêde o saibo que tem;<br>
+ Se he para a ver alguem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora dizei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Ei-la vai.</blockquote>
+
+<p class="espacado">Trova.</p>
+
+<blockquote>
+ Coração de carne crua,<br>
+ Vê-lo teu amor aqui,<br>
+ Que esmorecido por ti<br>
+ Jaz no meio desta rua?</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Na rua, Senhor, jazia?<br>
+ E era em tempo de lama?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, quem falla a quem ama,<br>
+ De si mesmo se não fia:<br>
+ Haveis de mentir á dama.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Volta disso?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Singular, <span class="pn"><a
+ name="pag_320">{320}</a></span><br>
+ Senão que he muito sentida;<br>
+ Far-vos-ha, Senhor, chorar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh! diga, por sua vida!</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Farei o que me mandar.</blockquote>
+
+<p class="espacado">Volta.</p>
+
+<blockquote>
+ Porque não has delle mágoa,<br>
+ Ó dura mais que ninguem,<br>
+ Que anda o triste, que não tem<br>
+ Quem lhe dê huma vez d'ágoa?<br>
+ Não lhe negues teu querer,<br>
+ Pois te não custa dinheiro;<br>
+ Que, emfim, por derradeiro<br>
+ A terra te ha de comer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tal trova nunca se vio.<br>
+ Agorentaste-la ja?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, não; ainda está<br>
+ Como a sua mãe pario;<br>
+ E não está muito má.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ He trova, que tẽe por seis;<br>
+ Não a posso mais gabar.<br>
+ Mas, pois, tal cousa fazeis,<br>
+ Senhor, não m'ensinareis<br>
+ Donde vem tão bem trovar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não he a cousa tão pequena, <span class="pn"><a
+ name="pag_321">{321}</a></span><br>
+ Como, Senhor, a fizestes,<br>
+ Essa que agora dissestes.<br>
+ Mas porém vou dar a Alcmena<br>
+ Estas novas que me déstes.<br>
+ Despois, Senhor, nos veremos;<br>
+ Ficae ja roendo esse osso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O roer, Senhor, he vosso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois eu, por mais que zombemos,<br>
+ Hei de ser vosso e revosso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh!.. Escusae-vos d'extremos,<br>
+ Qu'isso, Senhor, me atarraca.<br>
+ Mas nós nos encontraremos,<br>
+ E sôbre isso envidaremos<br>
+ Dous reales mais de saca.</blockquote>
+
+<h2>ACTO SEGUNDO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na fórma de
+Amphitrião, Mercurio na de Sosea escravo.</em></p>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>M</big>ercurio, pois sou mudado<br>
+ Nesta fórma natural,<br>
+ Ólha e nota com cuidado, <span class="pn"><a
+ name="pag_322">{322}</a></span><br>
+ Se está em mi o pintado<br>
+ Apparente co'o real.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem tão proprio se transforma.<br>
+ Tenho por opinião,<br>
+ Que na tal transformação<br>
+ Lhe prestou natura a fôrma,<br>
+ Com que fez Amphitrião.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois tu no gesto e na côr<br>
+ Estás Sósea escravo seu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Muito mais faras, Senhor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não o faz senão o Amor,<br>
+ Que nisto póde mais qu'eu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja, Senhor, te fiz menção<br>
+ Como deo Amphitrião<br>
+ A ElRei Terela a morte;<br>
+ Que, na guerra igual, a sorte<br>
+ Póde mais que o coração.<br>
+ E despois de ser tomada<br>
+ Toda a Cidade, com gloria<br>
+ D'Amphitrião bem ganhada,<br>
+ Como em sinal de victoria,<br>
+ Esta copa lhe foi dada.<br>
+ Por ella bebia ElRei,<br>
+ Em quanto a vida queria;<br>
+ E eu, porque te cumpria,<br>
+ A seu escravo a furtei, <span class="pn"><a
+ name="pag_323">{323}</a></span><br>
+ Que n'huma caixa a trazia.<br>
+ Esta poderás levar<br>
+ A Alcmena, por lhe mostrar<br>
+ Verdadeiro, o que he fingido;<br>
+ E dest'arte serás crido,<br>
+ Sem mais outro ardil buscar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois tudo tens ordenado<br>
+ Por tão nova e subtil arte;<br>
+ Como me vires entrado,<br>
+ Irás dar este recado<br>
+ A Phebo de minha parte:<br>
+ Que faça mais devagar<br>
+ Seu curso neste Hemispherio.<br>
+ Que o que soe acostumar;<br>
+ Qu'esta noite hei de ordenar<br>
+ Hum caso de alto mysterio.<br>
+ E á Esphera mais alta<br>
+ Mandarás que fixa esteja,<br>
+ Porque a noite maior seja:<br>
+ Porque sempre o tempo falta,<br>
+ Onde a alegria he sobeja.<br>
+ E terás tamanho tento,<br>
+ Que como isto se ordenar,<br>
+ Venhas aqui vigiar,<br>
+ Porque meu contentamento<br>
+ Ninguem mo possa estorvar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Seja feito sem debate<br>
+ Tudo como te convem. <span class="pn"><a name="pag_324">{324}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois não parece ninguem,<br>
+ Como homem de casa bate,<br>
+ E muda a falla tambem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO</small>, <em>batendo à porta</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Ó de la casa, en buena hora,<br>
+ Darmehan de cenar aqui?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA</small> <em>dentro</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Sósea parece que ouvi:<br>
+ Alviçaras, minha Senhora,<br>
+ Que na falla o conheci.</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Zombais, Bromia, por ventura?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, não zombo, não.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vejo eu Amphitrião,<br>
+ Ou a vista me afigura<br>
+ O qu'está no coração?</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Olhos, diante dos quais<br>
+ Desejei mais este dia,<br>
+ Que nenhuma outra alegria,<br>
+ Senhora, nunca creais<br>
+ Que lhe minta a phantasia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh presença mais querida <span class="pn"><a
+ name="pag_325">{325}</a></span><br>
+ Que quantas formou Amor!<br>
+ Isto he verdade, Senhor?<br>
+ Acabe-se aqui a vida,<br>
+ Por não ver prazer maior.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois esta hora de vos ver<br>
+ Alcançar, Senhora, pude;<br>
+ Para mais contente ser,<br>
+ Conformem co'este prazer<br>
+ Novas de vossa saude.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vida foi pezada e crua<br>
+ A saude qu'eu sostinha;<br>
+ Qu'em quanto, Senhor, a tinha,<br>
+ Temer perigo na sua,<br>
+ Me fez descuidar da minha.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y pues, mi Señora Alcmena,<br>
+ Pese al demonio malvado,<br>
+ No dirá á un su criado,<br>
+ Vengais Sósea norabuena?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sejais, Sósea, bem chegado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bem mal cri eu, que pudesse<br>
+ Ver-te, Sósea, hoje aqui.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues tambien yo no creí<br>
+ Que en mi vida te viese,<br>
+ Segun las muertes que vi. <span class="pn"><a name="pag_326">{326}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Muito, Senhor, folgarei<br>
+ Com novas do vencimento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De tudo quanto passei,<br>
+ Por vos dar contentamento,<br>
+ Em summa vos contarei.<br>
+ Trago, Senhora, a victoria<br>
+ Daquelle Rei tão temido,<br>
+ Com fama clara e notoria.<br>
+ Porém maior foi a gloria<br>
+ De me ver de vós vencido.<br>
+ Sem me terem resistencia,<br>
+ Os Grandes me obedêcerão,<br>
+ Como ElRei morto tiverão:<br>
+ Em sinal de obediencia<br>
+ Esta copa me trouxerão.<br>
+ ElRei por ella bebia:<br>
+ (Ella, e tudo o mais he nosso)<br>
+ Por onde claro se via,<br>
+ Que tudo me obedecia,<br>
+ Pois tinha nome de vosso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, mas luego de rondon<br>
+ La fortuna dió la vuelta.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Fué gran perdicion,<br>
+ Porque en aquella revuelta,<br>
+ Me hurtaron mi jubon. <span class="pn"><a name="pag_327">{327}</a></span><br>
+ Pero bien me lo pagaron,<br>
+ Cuando comigo riñeron;<br>
+ Que aunque me despojaron<br>
+ Si uno de seda llevaron,<br>
+ Otro de azotes me dieron.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, não posso gostar<br>
+ De gôsto, que he tão immenso,<br>
+ Senão muito devagar:<br>
+ Faça-me mercê d'entrar,<br>
+ E contar-mo-ha por extenso.</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Mercurio e Bromia.</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo tambien te contaria,<br>
+ Bromia, si quedas atrás,<br>
+ Que una noche... enojartehas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+       Soñaba, que te tenia...<br>
+ No me atrevo á decir mas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dize.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+       Pardies, no diré.<br>
+ Soñaba... <span class="pn"><a name="pag_328">{328}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Bem: que sonhavas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que cuando en la cama estavas<br>
+ Que yo... enfin recordé.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois tudo isso receavas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sabe Dios qué yo acá siento:<br>
+ Sola una alma vive en dos,<br>
+ La cual anda dentro en vos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E que quer ella cá dentro?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tambien eso sabe Dios.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bem se poderá enganar<br>
+ Bromia, segundo ora estou,<br>
+ Como Alcinena s'enganou;<br>
+ Mas cumpre-me ir ordenar<br>
+ O que meu Pae me mandou.<br>
+ E porque seja guardada<br>
+ Esta porta e vigiada<br>
+ De toda a gente nascida,<br>
+ Me será cousa forçada,<br>
+ Ser tão depressa a tornada,<br>
+ Quão prestes faço a partida. <span class="pn"><a
+ name="pag_329">{329}</a></span></blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA</small>, <em>cantando</em>.</p>
+
+<blockquote>
+  Amphitrion esforzado<br>
+ Bravo vá por la batalla,<br>
+ Siete cabezas llevaba,<br>
+ De las mejores que ha hallado.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Quien viene de tierra agena,<br>
+ Y de la muerte escapó,<br>
+ La razon le permitió<br>
+ Que cante como sirena,<br>
+ Como agora hago yo.<br>
+ Y pues canto tan gentil,<br>
+ Fuera llanto si muriera.<br>
+ Quiero cantar como quiera,<br>
+ Una y otra, y mas de mil,<br>
+ Que digan desta manera:</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Canta.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Dongolondron, con dongolondrera,<br>
+ Por el camino de Otera,<br>
+ Rosas coge en la rosera,<br>
+ Dongolondron, con dongolondrera.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Cuando yo vengo á pensar<br>
+ Que uno matarme quisiera,<br>
+ No hago sino temblar,<br>
+ Porque creo si muriera, <span class="pn"><a
+ name="pag_330">{330}</a></span><br>
+ No pudiera mas cantar.<br>
+ Porque estando á un rincon<br>
+ De la casa adó quedé,<br>
+ Senti muy grande ronron,<br>
+ Y mirando, que miré?<br>
+ Vi que era un gran raton.<br>
+ Empero yo nunca sigo,<br>
+ Sino consejos muy sanos;<br>
+ Que en estes casos levianos,<br>
+ Quien desprecia el enemigo,<br>
+ Mil veces muere á sus manos.<br>
+ Pero mi Señor alli<br>
+ Mató al Rey de los Glipazos:<br>
+ Yo como muerto le vi,<br>
+ Juro á mi fé, que le dí<br>
+ Mas de dos mil cuchillazos.<br>
+ Y por me librar de afan,<br>
+ Me voy siempre á cosa hecha<br>
+ Probar mi mano derecha;<br>
+ Que aquel es buen capitan,<br>
+ Que del tiempo se aprovecha.<br>
+ Que quien ha de pelear,<br>
+ Ha de buscar tiempo y hora.<br>
+ Pero quiero caminar,<br>
+ Que me muero por contar<br>
+ Todo aquesto á mi Señora. <span class="pn"><a
+ name="pag_331">{331}</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Mercurio e Sósea.</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mil vezes comigo vejo,<br>
+ Para que meu Pae se affoute;<br>
+ Pois em tão pequeno ensejo<br>
+ Lhe mandei talhar a noute<br>
+ Á medida do desejo.<br>
+ E pois que como possante,<br>
+ A mi tudo se reporta,<br>
+ Chego agora neste instante<br>
+ A estorvar qu'este bargante<br>
+ Me não chegue a esta porta.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No sé que miedo, ó locura,<br>
+ Neste pecho se me cria:<br>
+ Por Dios que se me afigura,<br>
+ Que ha mucho que es noche escura,<br>
+ Sin que venga el claro dia.<br>
+ Mas sabed, que pienso yo<br>
+ Que el sol que no se acordó<br>
+ De con el dia venir,<br>
+ Que á noche cuando cenó<br>
+ Algun buen vino bebió,<br>
+ Que le hace tanto dormir.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja sentes comprida a noute,<br>
+ Qu'eu assi mandei fazer?<br>
+ Pois mais te quero dizer,<br>
+ Que sentirás muito açoute, <span class="pn"><a
+ name="pag_332">{332}</a></span><br>
+ Se cá quizeres vir ter.<br>
+ Porém, pois este bargante<br>
+ Tẽe medroso coração,<br>
+ Quero-me fingir ladrão,<br>
+ Ou phantasma, e por diante<br>
+ Não irá, se vem á mão.<br>
+ E com tudo se passar,<br>
+ A falla quero mudar<br>
+ Na sua de tal feição,<br>
+ Que couces, e porfiar,<br>
+ Lhe fação hoje assentar<br>
+ Que sou Sósea, e elle não.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla Castelhano.</em></p>
+
+<blockquote>
+ No veo pasar ninguno,<br>
+ En quien yo me pueda hartar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Á quien oigo aqui hablar?<br>
+ Mande Dios no sea alguno<br>
+ Que me quiera aporrear.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ La carne de algun humano<br>
+ Me seria muy sabrosa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh quê voz tan temerosa!<br>
+ Hombres comes, ó mi hermano?<br>
+ No es mejor otra cosa?<br>
+ Carne humana es muy mezquina.<br>
+ Oh no comas deso, no!<br>
+ Antes carne de gallina. <span class="pn"><a
+ name="pag_333">{333}</a></span><br>
+ Pero se mas se avecina,<br>
+ Qué mas gallina, que yo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Una voz de hombre ahora<br>
+ Á la oreja me voló.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pésete quien me parió:<br>
+ La voz traigo boladora?<br>
+ Ella quisiera ser yo.<br>
+ Pues mi voz pudo volar<br>
+ Do la pudieses oir;<br>
+ Por contigo no reñir,<br>
+ Me debiera de prestar<br>
+ Las alas para huir.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qué buscas cabe esa puerta,<br>
+ Hombre? Sé que eres ladron.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ay que el alma tengo muerta!<br>
+ Oh Júpiter me convierta<br>
+ Las tripas en corazon!</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quien eres? quieres hablar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Soy quien mi voluntad quiere.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Piensas que puedas burlar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y tú puédesme quitar<br>
+ Que yo sea quien quisiere? <span class="pn"><a
+name="pag_334">{334}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Osas hablar tan osado,<br>
+ Don vellaco bovarron?<br>
+ Dí, quien eres?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Un criado<br>
+ Del Señor Amphitrion,<br>
+ Por nombre Sósea llamado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pienso que el seso perdiste.<br>
+ Como te llamas, mal hombre?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea soy, si no me oiste.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como? en persona tan triste<br>
+ Osas d'ensuciar mi nombre?<br>
+ Estos puños llevarás,<br>
+ Pues tener mi nombre quieres.<br>
+ Quiéresme dicir quien eres?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O Señor, no me dés mas,<br>
+ Que yo seré quien tú quisieres.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Con tan nueva falsedad<br>
+ Andais por esta Ciudad,<br>
+ Delante de quien os mira?<br>
+ Pues si sois Sosea, tomad.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si me dás por la verdad,<br>
+ Que me harás por la mentira? <span class="pn"><a
+ name="pag_335">{335}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y qué verdad es la tuya?<br>
+ Que te quiero dar castigo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si no soy Sósea que digo,<br>
+ Que Júpiter me destruya.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mirad el falso enemigo:<br>
+ Tomad este bofeton,<br>
+ Que yo soy Sósea, y no vos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tu Sósea?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Sósea por Dios,<br>
+ Escravo de Amphitrion.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De modo que tiene dos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No tendrá, aunque tú quieres;<br>
+ Que á mi solo conoció.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues luego de quien soy yo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si tú no sabes quien eres,<br>
+ Quieres que yo lo sepa? No.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Enfin, has me de hacer crer<br>
+ Que yo no soy quien ser solia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quien solias tú de ser? <span class="pn"><a name="pag_336">{336}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tregoas me has de prometer,<br>
+ Dirtelohé sin profia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Prometo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+           No me darás?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No, si no fuere razon.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues, hermano, tú sabrás<br>
+ Que mi amo Amphitrion...</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tu amo? Pues llevarás.<br>
+ Mi amo es, que tuyo no.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ay que un brazo me quebró!</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas que luego te matase.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ojalá Dios ordenase<br>
+ Que tú ahora fueses yo,<br>
+ Y yo que te desmembrase!</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esa tu tema tan loca,<br>
+ Puños te la han de quitar.<br>
+ Dime, di, vergũenza poca,<br>
+ Qué hablas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Qué puedo hablar,<br>
+ Si me has quebrado la boca? <span class="pn"><a
+ name="pag_337">{337}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Di quien eres, sin fatiga.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Soy un hombre, en quien tú dás.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Díme pues, qué nombre has.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como quieres tú que diga,<br>
+ Para que no me dés más?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No me has de hablar contrahecho.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Toda mi vida pasada<br>
+ Sósea fuy, y con despecho<br>
+ Ahora soy... qué? No nada;<br>
+ Que tus manos me han deshecho.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cuyo eres, pues las sientes,<br>
+ Dejando consejos vanos?<br>
+ La verdad; que si me mientes,<br>
+ Dás con la lengua en los dientes,<br>
+ Y yo dóyte con las manos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No conoces Amphitrion?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hombre sin seso te llamo.<br>
+ Tan fuera estás de razon!<br>
+ Piensas de mí, bovarron,<br>
+ Que no conozco á mi amo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ En su casa conociste <span class="pn"><a name="pag_338">{338}</a></span><br>
+ Uno, que es Sósea llamado,<br>
+ Hombre despreciado y triste?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Desa suerte lo dijiste?<br>
+ Yo soy triste y despreciado?<br>
+ Pues sabe que te llegó<br>
+ Á la muerte tu fortuna.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues logo si yo no soy yo,<br>
+ Aunque nadie me mató;<br>
+ Soy luego cosa ninguna.<br>
+ Oh dioses, que desconcierto!<br>
+ Yo por ventura soy muerto,<br>
+ Ó murióme la razon?<br>
+ Yo no soy de Amphitrion?<br>
+ Él no me mandou del puerto?<br>
+ Yo sé que no estoy loco.<br>
+ De mi madre no naci?<br>
+ No ando? No hablo aqui?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues sosiega ahora un poco,<br>
+ Que yo tambien diré de mí.<br>
+ Yo no sé que yo soy yo?<br>
+ Yo no te dí con mis manos?<br>
+ Mi Señor no me llevó<br>
+ Á la guerra, adó mató<br>
+ Aquel Rey de los Thebanos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo eso muy bien lo sé.<br>
+ Empero tú qué hacias<br>
+ Cuando la batalla vias? <span class="pn"><a name="pag_339">{339}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Escucha: yo lo diré,<br>
+ Y cesaran tus porfías.<br>
+ Cuando mi Señor andaba<br>
+ Peleando, y derramaba<br>
+ La sangre de algun mezquino;<br>
+ Con una bota de vino<br>
+ Yo la mia acrescentaba.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Dice lo que yo hacia)<br>
+ Con todo, saber queria<br>
+ Sola una cosa, si puedo:<br>
+ Tu pecho entonces sentia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Del beber grande alegria,<br>
+ Y del pelear gran miedo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y despues?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Muy reposado<br>
+ Á dormir me eché de grado,<br>
+ Desde el sol hasta la luna.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Todo lo tiene contado.<br>
+ Enfin, tengo averiguado<br>
+ Que yo no soy cosa ninguna)<br>
+ Pues de todo en un instante<br>
+ Me has echado de mí fuera,<br>
+ Aconséjame si quiera,<br>
+ Quien seré daqui adelante,<br>
+ Pues no soy quien de antes era. <span class="pn"><a
+ name="pag_340">{340}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cuando yo no ser quisiere<br>
+ Ese, que tú ser deseas,<br>
+ Despues que ya Sósea no fuere,<br>
+ Dartehé, si te pluguiere,<br>
+ Licencia que todo seas.<br>
+ Y acógete luego, amigo,<br>
+ Á buscar tu nombre, digo,<br>
+ Pues Dios vida te dejó;<br>
+ Que el Sósea queda comigo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues contigo quedo yo,<br>
+ Dios quede, hermano, contigo.<br>
+ Ahora quiero ir allá<br>
+ Adó mi Señora está,<br>
+ Contarle como es venido<br>
+ Mi Señor. Mas, oh perdido!<br>
+ Si un otro yo tiene allá,<br>
+ Todo lo terná sabido.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah hombre.....</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Mi voz sonó.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aonde vuelves ahora?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por Dios no sé onde vó,<br>
+ Porque si yo no soy yo,<br>
+ Ni Alcmena es mi Señora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Adonde vas? <span class="pn"><a name="pag_341">{341}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Con mensaje<br>
+ Del Señor Amphitrion<br>
+ Para Alcmena.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Adó, salvaje?<br>
+ Pues quebraste la omenaje,<br>
+ Ahí verás tu perdicion.<br>
+ Yo doyte consejos sanos,<br>
+ Y porfias otra vez?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Altos dioses soberanos!<br>
+ Pues me no valen las manos,<br>
+ Aqui me valgan los pies.            <em>Foge.</em></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Desta arte enseñan aqui<br>
+ Á hurtar el nombre ageno?</blockquote>
+
+<h3>SCENA VII.</h3>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ay Dios, como me acogí!<br>
+ Ó Júpiter alto y bueno,<br>
+ Cuan cerca la muerte vi!<br>
+ Quiérome ir á mi Señor<br>
+ Contarle cuanto hé pasado;<br>
+ Y él me dirá de grado,<br>
+ Si yo soy su servidor,<br>
+ En que cosa me hé tornado. <span class="pn"><a
+ name="pag_342">{342}</a></span></blockquote>
+
+<h2>ACTO TERCEIRO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter e Alcmena.</em></p>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>T</big>oda a pessoa discreta<br>
+ Terá, Senhora, assentado,<br>
+ Que hum bem muito desejado<br>
+ Se ha de alcançar por dieta,<br>
+ Para ser sempre estimado.<br>
+ E quem alcançado tem<br>
+ Tamanho contentamento;<br>
+ Por conservá-lo convem<br>
+ Que tome por mantimento<br>
+ A fome de tanto bem.<br>
+ E por isso hei de tomar<br>
+ Este tempo tão ditoso<br>
+ Para a frota visitar;<br>
+ E despois quando tornar,<br>
+ Tornarei mais desejoso.<br>
+ Que pois tão bom captiveiro<br>
+ Me tẽe presa a liberdade,<br>
+ Eu lhe prometto em verdade<br>
+ Que torne ainda primeiro,<br>
+ Que mo peça a saudade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aindaque se possa ir<br>
+ Mais asinha do que creio,<br>
+ Como hei d'eu consentir <span class="pn"><a
+ name="pag_343">{343}</a></span><br>
+ Que se haja de partir<br>
+ Na mesma noite que veio?</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Forçada he minha tornada,<br>
+ Mas muito cedo virei;<br>
+ Porque desque foi chegada<br>
+ A este porto a Armada,<br>
+ Ainda a não visitei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, Senhor, tão pouco estais<br>
+ Com quem vistes inda agora?<br>
+ Faça-se como mandais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós me vereis cá, Senhora,<br>
+ Primeiro do que cuidais.</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Amphitrião e Sosea.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Emfim tu, que estás aqui,<br>
+ Estavas ja lá primeiro?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, crea que es ansí.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu nunca entendi de ti,<br>
+ Qu'eras tambem chocarreiro.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, yo que estoy presente,<br>
+ No soy Sósea su criado? <span class="pn"><a name="pag_344">{344}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Creio que não certamente,<br>
+ Porque Sósea era avisado,<br>
+ E tu es mui differente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues, Señor, si en mí se vé<br>
+ Que no soy quien de antes era,<br>
+ Vuélvome.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+             E para que?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ver se á dicha me quedé<br>
+ Durmiendo por la galera.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois me queres fazer crer<br>
+ Huma doudice tão rasa,<br>
+ Mais quero de ti saber:<br>
+ Como não entraste em casa<br>
+ D'Alcmena minha mulher?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aunque Sósea quisiese,<br>
+ La verdad no negará:<br>
+ Aquel yo que allá está,<br>
+ No quiso que á casa fuese<br>
+ Estotro yo, que iba allá.<br>
+ Y con furia tan crecida<br>
+ Á mí se vino aquel hombre,<br>
+ Que yo me puse en huida,<br>
+ Y ansí le dejé mi nombre,<br>
+ Por me dejar él la vida. <span class="pn"><a name="pag_345">{345}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem seria tão ousado,<br>
+ Que tanto mal te fizesse?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo mismo Sósea llamado,<br>
+ Que á casa era ya llegado,<br>
+ Antes que de acá partise.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tu chegaste antes de ti?<br>
+ Este he gentil disparate.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues mas le digo daqui,<br>
+ Que vengo huyendo de mí,<br>
+ Porque yo mismo no me mate.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Erão dous, ou era hum só,<br>
+ Quem te fez assi fugir?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pésete quien me parió:<br>
+ Digo, que era un solo yo:<br>
+ Mil veces lo hé de decir?<br>
+ Puede ser que naceria<br>
+ De aquel hombre otro alguno,<br>
+ Como aquel de mí nacia;<br>
+ Porque aunque fuese él uno,<br>
+ Por mas de cuatro tenia.<br>
+ Él tenia mi aparencia,<br>
+ Empero yo nunca vi<br>
+ Tal fuerza, ni tal potencia:<br>
+ Esta sola diferencia<br>
+ Le tengo hallado de mí. <span class="pn"><a name="pag_346">{346}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pudeste delle saber<br>
+ Cujo era?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+             Quien? aquel yo?<br>
+ Tuyo, Señor, dijo ser.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nunca eu tive mais que hum só,<br>
+ E esse não quizera ter.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues, Señor, si el bien doblado<br>
+ Te le muestra agora Dios,<br>
+ Debe ser de ti alabado;<br>
+ Pues de uno solo criado<br>
+ Te ha hecho agora dos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Antes para que conheças,<br>
+ Que cousa he mao servidor,<br>
+ Me pezará se assi for;<br>
+ Que de tão ruins cabeças,<br>
+ Quantas mais, tanto peor.<br>
+ E ja que são tão incertos<br>
+ Teus ditos para se crer;<br>
+ Muito melhor deve ser<br>
+ Que deixe teus desconcertos,<br>
+ E va ver minha mulher. <span class="pn"><a name="pag_347">{347}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que fado, que nascimento<br>
+ De gente humana nascida,<br>
+ Que d'escasso e avarento,<br>
+ Nunca consentio na vida<br>
+ Perfeito contentamento!<br>
+ Amphitrião, que mostrou<br>
+ Hum prazer tão desejado<br>
+ A quem tanto o desejou;<br>
+ Na noite, que foi chegado,<br>
+ Nessa mesma se tornou!<br>
+ De se tornar tão asinha<br>
+ Sinto tanto entristecer<br>
+ O sentido e alma minha,<br>
+ Que certo que me adivinha<br>
+ Algum novo desprazer.<br>
+ Mas parece este que vem,<br>
+ Se não estou enganada:<br>
+ Se elle he, venha com bem,<br>
+ Pois que com sua tornada<br>
+ Tão transtornada me tem.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Alcmena e Sosea.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Com que palavras, Senhora,<br>
+ Poderei engrandecer<br>
+ Tão sublimado prazer, <span class="pn"><a name="pag_348">{348}</a></span><br>
+ Como he ver chegada a hora,<br>
+ Em que vos pudesse ver?<br>
+ Certo grão contentamento<br>
+ Tive de meu vencimento;<br>
+ Mas maior o hei de mim,<br>
+ De me ver pôsto no fim<br>
+ De tão longo apartamento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja eu disse o que sentia<br>
+ De vinda tão desejada.<br>
+ Mas diga-me todavia:<br>
+ Como não foi ver a Armada,<br>
+ Que me disse hoje este dia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Della venho eu inda agora<br>
+ Desejoso de vos ver,<br>
+ Muito mais que de vencer.<br>
+ Mas que me dizeis, Senhora,<br>
+ Que hoje me ouvistes dizer?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se não estava remota,<br>
+ Certamente que lhe ouvi,<br>
+ Quando hoje partio daqui,<br>
+ Que tornava a ver a frota.<br>
+ Porque era forçado assi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+        Señor, aqui estoy yo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tu ouves tal desconcêrto? <span class="pn"><a
+name="pag_349">{349}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Grandes orejas ganó,<br>
+ Pues estando en casa oyó<br>
+ Quien estava allá nel puerto!</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quando dizeis, que m'ouvistes?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hoje, quando vos partistes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Donde?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Daqui, de me ver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nunca vi grande prazer,<br>
+ Que não tenha os cabos tristes.<br>
+ Quantos males d'improviso<br>
+ Que causão grandes mudanças!<br>
+ Que mulher de tanto aviso,<br>
+ Agora minhas lembranças<br>
+ A tẽe fóra de juizo!</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quereis-me fazer cuidar<br>
+ Que poderia sonhar<br>
+ O que pelos olhos vi?<br>
+ Nunca vos eu mereci<br>
+ Quererdes-me exprimentar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Postoque he para pasmar<br>
+ Ver hum caso tão estranho,<br>
+ Todavia hei de attentar,<br>
+ Se poderei concertar <span class="pn"><a name="pag_350">{350}</a></span><br>
+ Hum desconcêrto tamanho.<br>
+ Quando dizeis que vim cá?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esta noite que passou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dae-me alguem que aqui se achou,<br>
+ Que me visse.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Esse que hi está,<br>
+ Sósea que comvosco andou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea, podes-te lembrar,<br>
+ Que hontem me vistes aqui?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nunca yo supe de mí<br>
+ Que me pudiese acordar<br>
+ De aquello que nunca vi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora eu creo, e he assi,<br>
+ Que ambos vindes conjurados,<br>
+ Para zombardes de mi;<br>
+ Mas eu darei hoje aqui<br>
+ Sinaes que sejão provados.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que sinaes póde ahi haver<br>
+ De mentira tão notoria,<br>
+ Que nem foi, nem póde ser?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Donde vim eu a saber<br>
+ Novas de vossa victoria? <span class="pn"><a name="pag_351">{351}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que novas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Dir-vo-las-hei,<br>
+ Assi como mas contastes:<br>
+ Que na batalha matastes<br>
+ Aquelle soberbo Rei,<br>
+ E tudo desbaratastes:<br>
+ Não fazendo resistencia<br>
+ N'huma batalha tão crua,<br>
+ Dando-vos obediencia,<br>
+ Vos derão huma copa sua,<br>
+ Lavrada por excellencia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea he culpado só<br>
+ Nestes acontecimentos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, son encantamientos,<br>
+ Porque aquel hombre, que es yo,<br>
+ Le contaria estos cuentos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem he esse, que vos deu<br>
+ Taes novas, saber queria?<br>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem mo pergunta.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                       Quem? Eu!<br>
+ Quereis-me fazer sandeu?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas vós me fazeis sandia. <span class="pn"><a
+name="pag_352">{352}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora quero perguntar:<br>
+ Que fiz sendo aqui chegado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Puzemos-nos a cear.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E despois de ter ceado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fomos-nos ambos deitar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nunca queira Deos que possa<br>
+ Achar-se na minha honra<br>
+ Nenhuma falta nem mossa:<br>
+ Seja isto doudice vossa,<br>
+ Antes que minha deshonra.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bien lo supe yo entender,<br>
+ Que era esto encantaciones;<br>
+ Y ahora me habrá de crer<br>
+ Que dos Sóseas puede haber,<br>
+ Pues hay dos Amphitriones.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Com me quererdes tentar<br>
+ Tão torvada me fizestes,<br>
+ Que me não pôde lembrar<br>
+ Que vos mandasse mostrar<br>
+ A copa que me hontem déstes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu? copa? Se isso ahi ha,<br>
+ Que estou doudo cuidarei. <span class="pn"><a name="pag_353">{353}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, bien guardada está.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bromia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA</small>, <em>de dentro</em>.</p>
+
+<blockquote>
+          Senhora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                      Dae cá<br>
+ A copa que hontem vos dei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues yo parí otro yo,<br>
+ Y vós otro Amphitrion,<br>
+ No es mucha admiracion,<br>
+ Si la copa otra parió,<br>
+ Ni aun fuera de razon.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Alcmena, Sosea e Bromia.</em></p>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eis-aqui a copa vem,<br>
+ Testimunho da verdade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh estranha novidade!</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Poder-me-ha dizer alguem<br>
+ Que o que digo he falsidade?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea, quando hontem cá vinhas,<br>
+ Poder-me-has negar, ladrão, <span class="pn"><a
+ name="pag_354">{354}</a></span><br>
+ Que lhe déste as novas minhas,<br>
+ E mais a copa que tinhas<br>
+ Guardada na tua mão?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, que no pude, no,<br>
+ Ver á mi Señora Alcmena:<br>
+ Si aquel eso acá ordenó,<br>
+ No lleve este yo la pena<br>
+ Del mal que hizo el otro yo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora eu não sei entender<br>
+ Tal caso, nem lhe acho fundo:<br>
+ Com tudo venho a dizer,<br>
+ Que ha tantos males no mundo,<br>
+ Que tudo se póde crer.<br>
+ Se vos trouxer quem vos diga<br>
+ Como esta noite dormi<br>
+ Na nao, crereis que he assi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nenhuma cousa me obriga<br>
+ A que não creia o que vi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se o Patrão aqui vier,<br>
+ Que he homem d'autoridade,<br>
+ Crereis o que vos disser?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sim, que ninguem póde haver<br>
+ Que me negue esta verdade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu estou em concrusão<br>
+ D'hoje desembaraçar <span class="pn"><a name="pag_355">{355}</a></span><br>
+ Tão enleada questão:<br>
+ Á nao me quero tornar<br>
+ A trazer cá Belferrão.<br>
+ Sósea, até minha tornada<br>
+ Fica nesta casa em vela;<br>
+ Qu'eu armarei tal cilada<br>
+ A quem ma a mim tẽe armada,<br>
+ Que venha hoje a cahir nella.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Alcmena e Bromia.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh mulher triste e suspensa<br>
+ Da mais alta confusão<br>
+ Que nunca vio coração!<br>
+ Em que mereces a offensa,<br>
+ Que te faz Amphitrião?<br>
+ Sempre de mi foi amado,<br>
+ Tanto quanto em mi se sente,<br>
+ Co'o coração tão liado,<br>
+ Que se de mi era ausente,<br>
+ Nelle o via figurado.<br>
+ E pois mulher, que cumprisse<br>
+ Melhor qu'eu fidelidade,<br>
+ Não a vi, nem quem me visse<br>
+ Que dos limites sahisse<br>
+ Hum pouco da honestidade.<br>
+ Pois porque he tão maltratada<br>
+ Innocencia tão singella? <span class="pn"><a
+ name="pag_356">{356}</a></span><br>
+ Que a pena mais apertada,<br>
+ He a culpa levantada<br>
+ Ao coração livre della.<br>
+ Mas ja que minh'alma está<br>
+ Sem culpa do que padeço,<br>
+ Seja o que for; qu'eu conheço<br>
+ Que a verdade me porá<br>
+ No qu'eu pola ter mereço.<br>
+ Bromia?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p>
+
+<blockquote>
+        Senhora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                      Hi mandar<br>
+ A Feliseo, que vá<br>
+ Meu primo Aurelio chamar;<br>
+ Que lhe quero perguntar<br>
+ Que conselho me dará.<br>
+ E pois que Amphitrião<br>
+ Vai buscar somente quem<br>
+ Lhe ajude a sua tenção,<br>
+ Quero eu ter aqui tambem<br>
+ Quem me defenda a razão. <span class="pn"><a name="pag_357">{357}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h2>ACTO QUARTO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter, Alcmena e Sosea.</em></p>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>G</big>rão desconcêrto tẽe feito<br>
+ Amphitrião com Alcmena!<br>
+ Qualquer delles tẽe direito:<br>
+ Eu sou o que venço o preito,<br>
+ E ambos págão a pena.<br>
+ Quero-me ir lá desfazer<br>
+ Tão trabalhosa demanda,<br>
+ Por nos tornarmos a ver;<br>
+ Porque, emfim, quem muito quer<br>
+ Com qualquer desculpa abranda.<br>
+ E pois ja que a affeição<br>
+ Ha de mudar tão asinha,<br>
+ Quero ir alcançar perdão<br>
+ Da culpa, que sendo minha,<br>
+ Parece d'Amphitrião.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Parece que torna cá<br>
+ Amphitrião, que ja se hia:<br>
+ Não sei a que tornará.<br>
+ Senão se lhe peza ja<br>
+ Dos enganos que tecia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, não haja error<br>
+ Que tantos males me faça, <span class="pn"><a
+ name="pag_358">{358}</a></span><br>
+ Porque se o contrário for,<br>
+ Pequeno será o amor,<br>
+ Que manencória desfaça.<br>
+ E pois com tanta alegria<br>
+ De tantos perigos vim,<br>
+ Pezar-me-ha se achar no fim,<br>
+ Que huma leve zombaria<br>
+ Vos possa aggravar de mim.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Com palavras de deshonra<br>
+ Não se ha de tratar quem ama;<br>
+ Nem zombaria se chama,<br>
+ Por exprimentar a honra,<br>
+ Pôr em tal perigo a fama.<br>
+ Bem tive eu para mim,<br>
+ Que era aquillo experiencia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Errei no que commetti:<br>
+ Bem me basta a penitencia<br>
+ De quanto me arrependi.<br>
+ E se fiz algum error,<br>
+ Com que vosso amor se mude<br>
+ De quem vo-lo tẽe maior;<br>
+ Não exprimentei virtude,<br>
+ Mas exprimentei amor.<br>
+ Que se com caso tão vário<br>
+ Folguei de vos agastar,<br>
+ Foi amor accrescentar;<br>
+ Porque ás vezes hum contrário<br>
+ Faz seu contrário avisar.<br>
+ Daqui vem, que a leve mágoa <span class="pn"><a
+ name="pag_359">{359}</a></span><br>
+ Firmeza e affeições augmenta,<br>
+ Como bem se vê na frágoa,<br>
+ Onde o fogo se accrescenta,<br>
+ Borrifando-o com pouca ágoa.<br>
+ Se hum mal grande se alevanta<br>
+ N'hum coração que maltrata,<br>
+ A affeição se desbarata;<br>
+ Porque onde a ágoa he tanta<br>
+ O fogo d'amor se mata.<br>
+ E pois tive tal tenção,<br>
+ Perdoae, Senhora, a culpa<br>
+ Deste vosso coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não se alcança assi perdão<br>
+ D'erro que não tẽe desculpa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora pois assi tratais<br>
+ Quem em tanto risco pôs<br>
+ O amor que vós negais,<br>
+ Eu m'ausentarei de vós<br>
+ Onde mais me não vejais.<br>
+ Que, pois desculpa não tem<br>
+ Coração que tanto quer,<br>
+ Vou-me; que não será bem<br>
+ Que quem vós não podeis ver,<br>
+ Que possa mais ver ninguem.<br>
+ Se algum'hora meu cuidado<br>
+ Vos der dor, em que pequena;<br>
+ Peço-vos, pois fui culpado,<br>
+ Que vos não peze da pena<br>
+ De quem vos foi tão pezado. <span class="pn"><a
+ name="pag_360">{360}</a></span><br>
+ E despois que a desventura<br>
+ Puzer este coração<br>
+ Debaixo da sepultura,<br>
+ As letras na pedra dura<br>
+ Vossa dureza dirão.<br>
+ Isto vos hei de dizer,<br>
+ Que m'ensinou minha dor:<br>
+ Se quizerdes leda ser,<br>
+ Nunca exprimenteis amor<br>
+ Em quem vo-lo não tiver.<br>
+ Deixae-me ir; não me tenhais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Amphitrião, não choreis!<br>
+ Amphitrião!</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Que quereis,<br>
+ Ou para que nomeais<br>
+ Homem, que ver não podeis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Amphitrião, s'eu causei<br>
+ Com manencória pequena<br>
+ Cousa, com que o magoei;<br>
+ Eu quero cahir na pena<br>
+ Dessa culpa que lhe dei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sempre serei magoado<br>
+ Se vossa má condição<br>
+ Me não perdôa o passado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Perdôo, e peço perdão<br>
+ De lhe não ter perdoado. <span class="pn"><a name="pag_361">{361}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No le perdone, Señora,<br>
+ Hasta que con devocion<br>
+ Tambien me pida perdon;<br>
+ Que bien se me acuerda ahora<br>
+ Que me ha llamado ladron.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+        Señor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Vae buscar<br>
+ O Piloto Belferrão;<br>
+ Dir-lhe-has, se desembarcar,<br>
+ Que me parece razão<br>
+ Que venha hoje cá cear.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, Señor, voy á la hora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De nenhuma qualidade<br>
+ Cure de fazer demora.<br>
+ E nós vamos-nos, Senhora,<br>
+ Confirmar nossa amizade.</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Grandes revoltas vão lá.<br>
+ Grandes acontecimentos!<br>
+ Cumpre-me que esteja cá,<br>
+ Em quanto meu pae está <span class="pn"><a
+ name="pag_362">{362}</a></span><br>
+ Em seus desenfadamentos.<br>
+ Porque vi Amphitrião<br>
+ Vir da nao mui apressado;<br>
+ E tendo corrido e andado,<br>
+ Não pôde achar Belferrão,<br>
+ Que lhe era bem escusado.<br>
+ Parece-me que virá<br>
+ Ver se lhe abre aqui alguem;<br>
+ Mas, porém, se chega cá,<br>
+ Ja póde ser que se vá<br>
+ Mais confuso do que vem.</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Mercurio e Amphitrião.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quiz-nos nossa natureza<br>
+ Com tal condição fazer,<br>
+ Que ja temos por certeza<br>
+ Não haver grande prazer,<br>
+ Sem mistura de tristeza.<br>
+ Este decreto espantoso,<br>
+ Que instituio nossa sorte,<br>
+ He tal e tão rigoroso,<br>
+ Que ninguem antes da morte<br>
+ Se póde chamar ditoso.<br>
+ Com esta justa balança<br>
+ O Fado grande e profundo<br>
+ Nos refreia a esperança,<br>
+ Porque ninguem neste mundo<br>
+ Busque bem-aventurança. <span class="pn"><a
+ name="pag_363">{363}</a></span><br>
+ Eu, que cuidei de viver<br>
+ Sempre contente de mi<br>
+ Com tamanho Rei vencer,<br>
+ Venho achar minha mulher<br>
+ De todo fóra de si.<br>
+ Mas d'outra parte, que digo?<br>
+ Que s'he verdade o que vi,<br>
+ E o que ella diz he assi;<br>
+ Virei a cuidar comigo<br>
+ Qu'eu sou o fóra de mi.<br>
+ Quero ver se a acho ja<br>
+ Fóra de tão seccos nós.<br>
+ Ó de casa?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 O de allá?<br>
+ Quien sois?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+               Abre.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                        Santo Dios!<br>
+ Pues no os conocen acá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh que gentil desvario!<br>
+ Abri-me ora se quizerdes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No haré, que en mí confio<br>
+ Que de fuera dormiredes,<br>
+ Que no comigo, amor mio.<br>
+ (Que cancion para oir!)</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah Sósea! zombas de mi? <span class="pn"><a
+ name="pag_364">{364}</a></span><br>
+ (Ora quero-me fingir<br>
+ Que ainda o não conheci,<br>
+ Por ver se me quer abrir)<br>
+ Ah Senhor, não abrireis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qué quereis, hombre, por Dios?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Duas palavras de vós.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tengo dicho mas de seis,<br>
+ E ahora me pedis dos?<br>
+ De fuera podeis dormir,<br>
+ Que entrar no podeis acá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora acabae, abri lá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo que no quiero abrir:<br>
+ Dije dos palabras ya.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora sus, bargante, abri.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si no te vuelves de aqui,<br>
+ Á gran peligro te ofreces.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Velhaco, não me conheces.<br>
+ Ou estás fóra de ti?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bonito venis, amor.<br>
+ Quien sois, que hablais tan osado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Abre, que sou teu Senhor. <span class="pn"><a name="pag_365">{365}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vuélvase de esotro lado,<br>
+ Y conocerlehé mejor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea moço.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+               Así me llamo,<br>
+ Huélgome que lo sepais;<br>
+ Empero digo que os vais,<br>
+ Que Amphitrion es mi amo;<br>
+ Vos id buscar quien seais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois quero saber de ti:<br>
+ Eu quem sou?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Y quien sois vós?<br>
+ Como os llaman?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Abri.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Á vos os llaman Abri?<br>
+ Pues, Abri, andad con Dios.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem ha, que possa soffrer<br>
+ Em sua honra tal destrôço,<br>
+ Que para me endoudecer<br>
+ Me tẽe negado a mulher,<br>
+ E agora me nega o moço?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mira el encantador<br>
+ Como se lastima y llora, <span class="pn"><a
+ name="pag_366">{366}</a></span><br>
+ Y fuese tomar ahora<br>
+ La forma de mi Señor,<br>
+ Para engañar mi Señora.<br>
+ Pues esperad, y no os vais,<br>
+ Por un espacio pequeño;<br>
+ Verná quien representais,<br>
+ Y él os hará que volvais<br>
+ El falso gesto á su dueño.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vae, velhaco, e chama cá<br>
+ Esse falso feiticeiro;<br>
+ Que se elle lá dentro está,<br>
+ Esta espada julgará<br>
+ Qual de nós he o verdadeiro.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Sosea e Belferrão.</em></p>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora ninguem presumíra<br>
+ Que tinhas tão pouco siso;<br>
+ Pois vás achar d'improviso<br>
+ Tão bem forjada mentíra,<br>
+ Que me faz cahir de riso.<br>
+ Hum moço, que alevantou<br>
+ Tal graça, nunca nasceo:<br>
+ Porque vos jura que achou<br>
+ Que ou elle em dous se perdeo,<br>
+ Ou de hum dous se tornou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Patron, que no burlo, no: <span class="pn"><a
+ name="pag_367">{367}</a></span><br>
+ En uno son dos unidos,<br>
+ Y en dos cuerpos repartidos;<br>
+ Yo soy él, y él es yo,<br>
+ De un padre y madre nacidos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esse tu que lá estás,<br>
+ Tão velhaco he como ti?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas aun pienso que es mas:<br>
+ Por delante y por detrás<br>
+ Todo se parece á mí.<br>
+ Y fue gran merced de Dios<br>
+ Ayuntar á mí mas uno,<br>
+ Que peor fuera de nos,<br>
+ Si Dios me hiciera ninguno,<br>
+ Que no de uno hacer dos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Assi que, se te perdeste<br>
+ Vieste a cobrar mais hum:<br>
+ Mui gentil conta fizeste,<br>
+ Pois que perdido soubeste<br>
+ Que eras dous, sendo nenhum.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues teneis por abusion<br>
+ Verdad tan clara, y tan rasa,<br>
+ Aunque pone admiracion;<br>
+ Quiera Dios, que allá en casa<br>
+ No halleis otro Patron.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O Patrão, que fui buscar,<br>
+ Parece que vejo vir: <span class="pn"><a name="pag_368">{368}</a></span><br>
+ Não sei quem o foi chamar;<br>
+ Mas que me ha de aproveitar<br>
+ Se me não querem abrir?<br>
+ Ah Belferrão!</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Ah Senhor!<br>
+ Ja sinto que fui culpado;<br>
+ Porque quem he convidado,<br>
+ Se tão vagaroso for,<br>
+ Merece não ser chamado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ A vós quem vos convidou?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea, por mandado seu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Disso, Patrão, não sei eu;<br>
+ Que Sósea ja me negou,<br>
+ E ja se não dá por meu.<br>
+ E se alguem vos foi dizer<br>
+ Qu'eu vos chamo á minha mesa;<br>
+ Mal vos dara de comer<br>
+ Quem de todo lhe he defesa<br>
+ A casa, e mais a mulher.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem he esse tão ousado,<br>
+ Que vos isso faz, Senhor?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea, creio que enganado<br>
+ Por algum encantador,<br>
+ Que a honra me tẽe roubado. <span class="pn"><a
+ name="pag_369">{369}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se elle aqui comigo vem,<br>
+ Isso como póde ser?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah! que a íra que vou ter,<br>
+ Tão cega a vista me tem,<br>
+ Que mo não deixava ver.<br>
+ Porque razão, cavalleiro,<br>
+ Não me abris quando vos mando?<br>
+ Vós fazeis-vos chocarreiro?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo Señor? y como? y cuando?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quereis-lo saber primeiro?<br>
+ Esperae, dir-se-vos-ha,<br>
+ Mas será por outro son.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah Señor Amphitrion,<br>
+ Porque matándome está,<br>
+ Sin delito, y sin razon?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Agora que vos eu dou<br>
+ Me chamais Amphitrião,<br>
+ E para me abrirdes não?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Este moço em que peccou?<br>
+ Porque pena sem razão?<br>
+ Não mais por amor de mi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não, que não sou seu Senhor;<br>
+ Eu sou hum encantador. <span class="pn"><a name="pag_370">{370}</a></span><br>
+ Não o dizeis vós assi,<br>
+ Ladrão, perro, enganador?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque fuy presto á llamar<br>
+ Por su mandado al Patron,<br>
+ Me quiere ahora matar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem vo-lo mandou buscar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si no hay otro Amphitrion,<br>
+ Vuestra merced sin dudar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu te mandei?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Si Señor,<br>
+ Si otro no.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Outro ha aqui,<br>
+ Por quem tu zombes de mi?<br>
+ Pois só desse encantador<br>
+ Me quero vingar em ti.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh Júpiter, á quien bramo<br>
+ Por su bondad que me vala!<br>
+ Pues porque Sósea me llamo,<br>
+ Yo mismo, y despues mi amo,<br>
+ Me dieron venida mala! <span class="pn"><a name="pag_371">{371}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h2>ACTO QUINTO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter, Belferrão, Sosea e Amphitrião.</em></p>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>Q</big>uem he o tão atrevido,<br>
+ Que aqui ousa de fazer<br>
+ Tão revoltoso arruido<br>
+ Com meus moços, sem temer,<br>
+ Que fui sempre tão temido?<br>
+ Quem aqui faz união,<br>
+ Toma mui grande despejo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh grande admiração!<br>
+ Vejo eu outro Amphitrião,<br>
+ Ou he sonho isto que vejo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No mirais la encantacion,<br>
+ Que aquel hizo á mi Señor?<br>
+ El que sale, Belferron,<br>
+ Es el cierto Amphitrion,<br>
+ Que estotro es encantador.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Mi Señor, ya vó.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Patrão, só por vós espero. <span class="pn"><a
+ name="pag_372">{372}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No os lo dicia yo,<br>
+ Que este era el verdadero,<br>
+ Y esse que allá queda, no?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bargante, aonde te vás?<br>
+ Fazes teu Senhor sandeu?<br>
+ Pois espera, e levarás.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ó lá, tornae por detrás,<br>
+ Não deis no moço, que he meu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vosso?</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Meu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Póde isto haver,<br>
+ Que outrem minhas cousas tome?<br>
+ Vós galante haveis de ser,<br>
+ O que me tomais o nome,<br>
+ Casa, moços e mulher.<br>
+ Eu vos farei conhecer<br>
+ Com quem tendes esse trato.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sósea?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Señor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Vae dizer,<br>
+ Que apparelhem de comer,<br>
+ Em quanto este doudo mato. <span class="pn"><a
+name="pag_373">{373}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh Senhor, não seja assim,<br>
+ Haja em vós concêrto algum!<br>
+ E senão, pois aqui vim,<br>
+ Farei que só tome em mim<br>
+ Os golpes de cada hum.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Patrão, vossa boa estrella<br>
+ Me fara deixar com vida<br>
+ Quem me não merece tella.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não a tenho eu merecida,<br>
+ Pois que vos deixo com ella.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O homem que for sisudo,<br>
+ N'huma tão grande questão<br>
+ Ha de tomar por escudo<br>
+ A justiça, e a razão;<br>
+ Que estas armas vencem tudo.<br>
+ E pois essa natureza<br>
+ Muitos homens faz iguais,<br>
+ Dê qualquer de vós signais<br>
+ De quem he, para certeza<br>
+ Da fórma que ambos mostrais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sou contente de mostrar<br>
+ Polos sinaes que vos dou,<br>
+ Que são estes sem faltar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que sinaes podeis vós dar,<br>
+ Para que sejais quem sou? <span class="pn"><a name="pag_374">{374}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Estes, que logo vereis<br>
+ Se são vãos, se de raiz.<br>
+ Patrão, vós sêde juiz,<br>
+ Que vós logo enxergareis<br>
+ Qual mais verdade vos diz.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu não sinto onde consista<br>
+ A cura desta doença,<br>
+ Que ha tão pouca differença,<br>
+ Que aquelle em que ponho a vista,<br>
+ Por esse dou a sentença.<br>
+ Mas, Senhor, vós que ordenastes<br>
+ Que o juiz disto fosse eu,<br>
+ Quando se a batalha deu,<br>
+ Dizei, que m'encommendastes<br>
+ Que ficasse a cargo meu?</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <br>
+ Dei-vos cargo, qu'estivesse<br>
+ Toda a Armada a bom recado,<br>
+ E, se mal nos succedesse,<br>
+ Que para os vivos houvesse<br>
+ O refugio apparelhado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora vós quantos dobrões<br>
+ Esse dia m'entregastes?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tres mil; e vós os contastes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ambos sois Amphitriões<br>
+ Pelos sinaes que mostrastes. <span class="pn"><a
+ name="pag_375">{375}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Para ser mais conhecida<br>
+ A tenção deste sandeu,<br>
+ Vêde est'outro sinal meu,<br>
+ Que he neste braço a ferida<br>
+ Que me ElRei Terela deu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mostrae vós, Senhor, tambem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Aqui o podeis olhar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh cousa para espantar!<br>
+ Que ambos a ferida tem<br>
+ D'hum tamanho, em hum lugar!</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Jupiter, Amphitrião e Sosea.</em></p>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dice mi Señora Alcmena<br>
+ Que no se ha de así de estar<br>
+ Con un bobo á razonar,<br>
+ Que se le enfria la cena.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Belferrão, vamos cear.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Belferrão, não me deixeis.<br>
+ Como? tambem me negais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Andae, não vos detenhais, <span class="pn"><a
+ name="pag_376">{376}</a></span><br>
+ Vamos comer, se quereis,<br>
+ Não ouçais hum doudo mais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah maos! assi me ordenais<br>
+ Offensa tão mal olhada?<br>
+ Eu farei, se m'esperais,<br>
+ Com que todos conheçais<br>
+ Os fios da minha espada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p>
+
+<blockquote>
+ As portas prestes fechemos,<br>
+ Não entre este doudo cá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De fuera se dormirá:<br>
+ Entre tanto que cenemos,<br>
+ Puede pasearse allá.</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Oh ira para não crer,<br>
+ Em que minh'alma se abraza,<br>
+ Que me faz endoudecer,<br>
+ E não me ajuda a romper<br>
+ As paredes desta casa!<br>
+ E porque? Não tenho eu<br>
+ Forças, que tudo destrua?<br>
+ Pois que tanto a salvo seu,<br>
+ Outrem acho que possua<br>
+ A melhor parte do meu;<br>
+ Eu irei hoje buscar <span class="pn"><a name="pag_377">{377}</a></span><br>
+ Quem me ajude a vir queimar<br>
+ Toda esta casa sem pena,<br>
+ Donde veja arder Alcmena,<br>
+ Com quem a vejo enganar.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aurelio e Moço.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No hallo á mis males culpa,<br>
+ Para que merezca pena<br>
+ La causa que me condena.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essa está gentil desculpa<br>
+ Para hoje dar a Alcmena!<br>
+ Tẽe-no mandado chamar,<br>
+ E elle está tão descuidado!</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Moço, queres-me matar?<br>
+ Que desculpa posso eu dar<br>
+ Melhor qu'este meu cuidado?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E não ha mais que fazer?<br>
+ Com isso a boca me tapa<br>
+ Para mais nada dizer?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora dá-me cá essa capa<br>
+ E vamos ver o que quer:<br>
+ Não trates de mais razão,<br>
+ Pois não ha quem te resista.<br>
+ Que vejo? outra novação! <span class="pn"><a
+name="pag_378">{378}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que he?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Ou me mente a vista,<br>
+ Ou eu vejo Amphitrião.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu ouvi a Feliseo,<br>
+ Quando cá trouxe o recado,<br>
+ Como elle era chegado,<br>
+ E quiz-me dizer que veo<br>
+ Do siso desconcertado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso quero eu ir saber,<br>
+ Pois que tal cousa se sôa.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Aurelio e Amphitrião.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, póde-se dizer<br>
+ Que a vinda seja mui boa?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essa não póde ella ser.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque não?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Porque he roubada<br>
+ Minha honra sem temor,<br>
+ E minha casa tomada,<br>
+ E vossa Prima enganada<br>
+ Por hum grande encantador. <span class="pn"><a
+name="pag_379">{379}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso he certo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   E manifesto:<br>
+ E tudo tẽe ja por seu<br>
+ Adúltero e deshonesto:<br>
+ Tẽe-me tomado o meu gesto,<br>
+ E faz-lhe crer que sou eu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Contais hum caso d'espanto!<br>
+ E pois não podeis entrar,<br>
+ Defendei-me por em tanto,<br>
+ Que eu hei lá de chegar<br>
+ Para ver quem póde tanto,</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Se ver deshonra tão clara<br>
+ Me não tivera o sentido<br>
+ Totalmente endoudecido,<br>
+ Que gravemente chorára<br>
+ Ver tão grande amor perdido!<br>
+ E quando vejo a verdade<br>
+ Do nosso amor e amizade<br>
+ Desfeita com tanta mágoa<br>
+ Enchem-se-me os olhos d'ágoa,<br>
+ E a alma de saudade.<br>
+ Assi que quiz minha estrella,<br>
+ Para nunca ser contente, <span class="pn"><a
+ name="pag_380">{380}</a></span><br>
+ Que agora, estando presente<br>
+ Viva mais saudoso della,<br>
+ Que quando della era ausente.<br>
+ Esta porta vejo abrir<br>
+ Com impeto demasiado,<br>
+ Que poderei presumir,<br>
+ Que vejo Aurelio sahir,<br>
+ Como homem desatinado?</blockquote>
+
+<h3>SCENA VII.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea.</em></p>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh estranha novidade!<br>
+ Oh cousa para não crer!</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Venho cego de verdade,<br>
+ Que não puderão soffrer<br>
+ Meus olhos a claridade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh triste, que vengo ciego<br>
+ Con rayos, y con visiones!<br>
+ Y destas encantaciones,<br>
+ Si nuestra casa arde en fuego,<br>
+ Han se de arder mis colchones.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vamos a Amphitrião<br>
+ Contar-lhe cousas tamanhas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que vai lá? que cousas vão? <span class="pn"><a
+ name="pag_381">{381}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Maravilhas tão estranhas,<br>
+ Que me treme o coração.<br>
+ Porque aquelle homem, que assi<br>
+ Tantos enganos teceo,<br>
+ Como era cousa do Ceo,<br>
+ Tanto qu'eu appareci,<br>
+ Logo desappareceo.<br>
+ E em desapparecendo<br>
+ Com ruido grande e horrendo,<br>
+ Toda a casa allumiou;<br>
+ E de arte nos inflammou,<br>
+ Que nos vimos acolhendo<br>
+ Do raio que nos cegou.<br>
+ Estes acontecimentos<br>
+ Não são de humana pessoa.<br>
+ Vós ouvis a voz que soa?<br>
+ Escutae, estae attentos;<br>
+ Vejamos o que pregôa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">J<small>UPITER</small>, <em>de dentro</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Amphitrião, qu'em teus dias<br>
+ Vês tamanhas estranhezas,<br>
+ Não t'espantem phantasias,<br>
+ Que ás vezes grandes tristezas<br>
+ Parem grandes alegrias.<br>
+ Jupiter sou manifesto<br>
+ Nas obras de admiração,<br>
+ Que por mi causadas são:<br>
+ Quiz-me vestir em teu gesto,<br>
+ Por honrar tua geração.<br>
+ Tua mulher parirá <span class="pn"><a name="pag_382">{382}</a></span><br>
+ Hum filho de mi gerado,<br>
+ Que Hercules se chamará,<br>
+ O mais valente e esforçado,<br>
+ Que no mundo se achará.<br>
+ Com este, teus successores<br>
+ Se honrarão de serem teus;<br>
+ E dar-lhe-hão os escriptores,<br>
+ Por doze trabalhos seus,<br>
+ Doze milhões de louvores.<br>
+ E dessa illustre fadiga<br>
+ Colherás mui rico fruito:<br>
+ Enfim, a razão me obriga<br>
+ Que tão pouco delle diga,<br>
+ Porque o tempo dirá muito. <span class="pn"><a
+ name="pag_383">{383}</a></span></blockquote>
+
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a
+name="pag_385">{385}</a></span></p>
+
+<h1>FILODEMO,</h1>
+
+<h2>COMEDIA.</h2>
+
+<h3>INTERLOCUTORES.</h3>
+
+<p class="ni">F<small>ILODEMO</small>. <br>
+V<small>ILARDO</small>, seu moço. <br>
+D<small>IONYSA</small>. <br>
+S<small>OLINA</small>, sua moça. <br>
+V<small>ENADORO</small>. <br>
+M<small>ONTEIRO</small>. <br>
+D<small>ORIANO</small>, amigo de Filodemo. <br>
+H<small>UM</small> P<small>ASTOR</small>. <br>
+H<small>UM</small> B<small>OBO</small>, filho do pastor. <br>
+F<small>LORIMENA</small>, pastora. <br>
+D<small>OM</small> L<small>USIDARDO</small>, pae de Venadoro. <br>
+D<small>OLOROSO</small>, amigo de Vilardo. <br>
+T<small>RES</small> P<small>ASTORES</small>.</p>
+
+<h3>ARGUMENTO.</h3>
+
+<p class="ni"><big>H</big>um Fidalgo Portuguez, que acaso andava nos Reinos de
+Dinamarca, como por largos amores e maiores serviços, tivesse alcançado o
+amor de huma filha d'el Rei, foi-lhe necessario fugir com ella em huma galé,
+por quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo chegados á costa
+de Hespanha, onde elle era senhor de grande patrimonio, armou-se-lhe grande
+tormenta, que sem nenhum remedio, dando a galé á costa, se perdêrão todos
+miseravelmente, senão a Princeza, que em huma taboa foi á praia: a qual, como
+chegasse o tempo de seu parto, junto de huma fonte pario duas crianças, macho
+e femia; e não tardou muito que hum pastor Castelhano, que naquellas partes
+morava, ouvindo os tenros gritos dos meninos, lhe acudio a tempo que a mãe ja
+tinha espirado. Crescidas, emfim, as crianças debaixo da humanidade e
+criação daquelle pastor, o macho que Filodemo se chamou á vontade de quem os
+baptizára, levado da natural inclinação, deixando o campo, se foi para a
+cidade, aonde por musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo,
+irmão de seu Pae, a quem muitos annos servio sem saber o parentesco que entre
+ambos havia. E como de seu Pae não tivesse herdado nada mais que os altos
+espiritos, namorou-se de Dionysa, filha de seu Senhor e Tio, que incitada ao
+que <span class="pn"><a name="pag_386">{386}</a></span> por suas obras e boas
+partes merecia, ou porque ellas nada engeitão, lhe não queria mal. Aconteceo
+mais, que Venadoro, filho de D. Lusidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao
+exercicio da caça, andando hum dia no campo apos hum cervo, se perdeo dos
+seus; e indo dar em huma fonte, onde estava Florimena, irmãa de Filodemo (que
+assim lhe pozerão o nome) enchendo huma talha de ágoa, se perdeo de amores
+por ella, que se não soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava,
+até que seu Pae o não foi buscar. O qual informado pelo pastor que a criára
+(que era homem sabio na Arte Magica) de como a achára e como a criára, não
+teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha, e prima de Filodemo; e
+a Venadoro seu filho, com Florimena sua sobrinha, irmãa de Filodemo pastor; e
+tambem pela muita renda que tinha e de seu Pae ficára, de que elles erão
+verdadeiros herdeiros. Das mais particularidades da Comedia, fara menção o
+Auto, que he o seguinte. <span class="pn"><a name="pag_387">{387}</a></span></p>
+
+<h1>FILODEMO,</h1>
+
+<h3>COMEDIA.</h3>
+
+<h2>ACTO PRIMEIRO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Filodemo e Vilardo.</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>M</big>oço Vilardo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Ei-lo vae.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fallae era má, fallae,<br>
+ E sahi cá para a sala.<br>
+ O villão como se cala!</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, Senhor, sahi a meu pae,<br>
+ Que quando dorme não fala.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Trazei cá huma cadeira:<br>
+ Ouvis, villão? <span class="pn"><a name="pag_388">{388}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Senhor, sim.<br>
+ (Se m'ella não traz a mim.<br>
+ Vejo-lh'eu ruim maneira.)</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Acabae, villão ruim.<br>
+ Que moço para servir<br>
+ Quem tẽe as tristezas minhas!<br>
+ Quem pudesse assi dormir!</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, nestas manhãzinhas<br>
+ Não ha hi senão cahir:<br>
+ Por demais he trabalhar<br>
+ Qu'este somno se me ausente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+        Porque ha d'assentar<br>
+ Que se não for com pão quente,<br>
+ Não ha de desaferrar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora hi pelo que vos mando,<br>
+ Villão feito de fermento.      <em>Sahe Vilardo.</em><br>
+ Triste do que vive amando<br>
+ Sem ter outro mantimento,<br>
+ Qu'estar só phantasiando!<br>
+ Só hũa cousa me desculpa<br>
+ Deste cuidado que sigo,<br>
+ Ser de tamanho perigo,<br>
+ Que cuido que a mesma culpa<br>
+ Me fica sendo castigo. <span class="pn"><a name="pag_389">{389}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz
+avante</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora quero praticar<br>
+ Só comigo hum pouco aqui;<br>
+ Que despois que me perdi,<br>
+ Desejo de me tomar<br>
+ Estreita conta de mi.<br>
+ Vae para fóra, Vilardo.<br>
+ Torna cá: vae-me saber<br>
+ Se se quer ja lá erguer<br>
+ O Senhor Dom Lusidardo,<br>
+ E vem-mo logo dizer.      <em>Vai-se o moço.</em><br>
+ Ora bem, minha ousadia,<br>
+ Sem azas, pouco segura,<br>
+ Quem vos deo tanta valia,<br>
+ Que subais a phantasia<br>
+ Onde não sobe a ventura?<br>
+ Por ventura eu não nasci<br>
+ No mato, sem mais valer,<br>
+ Que o gado ao pasto trazer?<br>
+ Pois donde me veio a mi<br>
+ Saber-me tão bem perder?<br>
+ Eu, nascido entre pastores,<br>
+ Fui trazido dos currais,<br>
+ E d'entre meus naturais<br>
+ Para casa dos Senhores,<br>
+ Donde vim a valer mais.<br>
+ E agora logo tão cedo<br>
+ Quiz mostrar a condição<br>
+ De rustico e de villão!<br>
+ Dando-me ventura o dedo, <span class="pn"><a
+ name="pag_390">{390}</a></span><br>
+ Lhe quero tomar a mão!<br>
+ Mas oh! qu'isto não he assi,<br>
+ Nem são villãos meus cuidados,<br>
+ Como eu delles entendi;<br>
+ Mas antes, de sublimados,<br>
+ Os não posso crer de mi.<br>
+ Porque como hei eu de crer<br>
+ Que me faça minha estrella<br>
+ Tão alta pena soffrer,<br>
+ Que somente pola ter<br>
+ Mereço a gloria della?<br>
+ Senão se amor, d'attentado,<br>
+ Porque me não queixe delle,<br>
+ Tẽe por ventura ordenado<br>
+ Que mereça o meu cuidado,<br>
+ Só por ter cuidado nelle.</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vilardo e Filodemo.</em></p>
+
+<p class="personagem">VILARDO.</p>
+
+<blockquote>
+ O Senhor Dom Lusidardo<br>
+ Dorme com todo o convento;<br>
+ E elle com o pensamento<br>
+ Quer estar fazendo alardo<br>
+ De castellinhos de vento!<br>
+ Pois tão cedo se vestio,<br>
+ Com seu damno se conforme,<br>
+ Pezar de quem me pario;<br>
+ Que ainda o sol não sahio: <span class="pn"><a
+ name="pag_391">{391}</a></span><br>
+ Se vem á mão, tambem dorme.<br>
+ Elle quer-se levantar<br>
+ Assi pela manhãzinha!<br>
+ Pois quero-o desenganar:<br>
+ Nem por muito madrugar<br>
+ Amanhece mais asinha.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Filodemo.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Traze-me a viola cá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Voto a tal que me vou rindo.)<br>
+ Senhor, tambem dormirá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Traze-a, moço.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Si, virá,<br>
+ Se não estiver dormindo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora hi polo que vos mando:<br>
+ Não gracejeis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Eis-me vou:<br>
+ Pois, pezar de São Fernando!<br>
+ Por ventura sou eu grou?<br>
+ Sempre hei d'estar vigiando?      <em>Sahe.</em></blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah Senhora, que podeis<br>
+ Ser remedio do que peno,<br>
+ Quão mal ora cuidareis<br>
+ Que viveis e que cabeis<br>
+ N'hum coração tão pequeno!<br>
+ Se vos fosse apresentado <span class="pn"><a
+ name="pag_392">{392}</a></span><br>
+ Este tormento em que vivo,<br>
+ Crerieis que foi ousado<br>
+ Este vosso, de criado<br>
+ Tornar-se vosso captivo?</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Filodemo e Vilardo.</em></p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora eu creio, se he verdade<br>
+ Qu'estou de todo acordado,<br>
+ Que meu amo he namorado;<br>
+ E a mi dá-me na vontade<br>
+ Que anda hum pouco abalado.<br>
+ E se tal he, eu daria<br>
+ Por conhecer a donzella<br>
+ A ração d'hoje este dia;<br>
+ Porque a desenganaria,<br>
+ Somente por ter dó della.<br>
+ Havia-lhe perguntar:<br>
+ Senhora, de que comeis?<br>
+ Se comeis d'ouvir cantar,<br>
+ De fallar bem, de trovar,<br>
+ Em boa hora casareis.<br>
+ Porém se vós comeis pão,<br>
+ Tende, Senhora, resguardo;<br>
+ Qu'eis-aqui está Vilardo,<br>
+ Qu'he como hum camaleão,<br>
+ Por isso, bus, fazei fardo.<br>
+ E se vós sois das gamenhas, <span class="pn"><a
+ name="pag_393">{393}</a></span><br>
+ E houverdes d'attentar<br>
+ Por mais que por manducar,<br>
+ Mi cama son duras peñas,<br>
+ Mi dormir siempre es velar.<br>
+ A viola, Senhor, vem<br>
+ Sem primas, nem derradeiras:<br>
+ Mas sabe o que lhe convem?<br>
+ Se quer, Senhor, tanger bem,<br>
+ Ha de haver mister terceiras.<br>
+ E se estas cantigas vossas<br>
+ Não forem para escutar,<br>
+ E quizerdes espirar;<br>
+ Ha mister cordas mais grossas,<br>
+ Porque não possão quebrar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vae para fóra.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Ja venho.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qu'eu só desta phantasia<br>
+ Me sostenho e me mantenho.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quamanha vista que tenho,<br>
+ Que vejo a estrella do dia!      <em>Sahe.</em></blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO</small>, <em>cantando</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Adó sube el pensamiento,<br>
+ Seria una gloria inmensa<br>
+ Si allá fuese quien lo piensa. <span class="pn"><a
+ name="pag_394">{394}</a></span></blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Qual espirito divino<br>
+ Me fará a mi sabedor<br>
+ Deste meu mal, se he amor,<br>
+ Se por dita desatino?<br>
+ Se he amor, diga-me qual<br>
+ Póde ser seu fundamento,<br>
+ Ou qual he seu natural,<br>
+ Ou porque empregou tão mal<br>
+ Hum tão alto pensamento.<br>
+ Se he doudice, como em tudo<br>
+ A vida me abraza e queima,<br>
+ Ou quem vio n'hum peito rudo<br>
+ Desatino tão sisudo,<br>
+ Que toma tão doce teima?<br>
+ Ah Senhora Dionysa,<br>
+ Onde a natureza humana<br>
+ Se mostrou tão soberana!<br>
+ O que vós valeis me avisa,<br>
+ Mas o qu'eu peno m' engana.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Solina e Filodemo.</em></p>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tomado estais vós agora,<br>
+ Senhor, co'o furto nas mãos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Solina, minha Senhora,<br>
+ Quantos pensamentos vãos<br>
+ Me ouvirieis lançar fóra? <span class="pn"><a
+ name="pag_395">{395}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh Senhor, quão bem que sôa<br>
+ O tanger de quando em quando!<br>
+ Bem sei eu huma pessoa,<br>
+ Que haja huma hora, e boa,<br>
+ Que vos está escutando.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por vida vossa, zombais?<br>
+ Quem he? quereis-mo dizer?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não o haveis vós de saber,<br>
+ Bofé se me não peitais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dar-vos-hei quanto tiver,<br>
+ Para taes tempos como estes.<br>
+ Quem tivera voz dos Ceos,<br>
+ Pois escutar me quizestes!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Assi pareça eu a Deos,<br>
+ Como lhe vós parecestes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ A Senhora Dionysa<br>
+ Quer-se ja alevantar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Assi me veja eu casar,<br>
+ Como despida em camisa<br>
+ Se ergueo por vos escutar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Em camisa levantada!<br>
+ Tão ditosa he minha estrella?<br>
+ Ou mo dizeis refalsada? <span class="pn"><a name="pag_396">{396}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois bem me defendeo ella<br>
+ Que vos não dissesse nada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se pena de tantos annos<br>
+ Merecer algum favor,<br>
+ Para cura de meus dannos<br>
+ Fartae-me desses engannos,<br>
+ Que não quero mais de Amor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Agora quero eu fallar<br>
+ Neste caso com mais tento;<br>
+ Quero agora perguntar:<br>
+ E de siso his vós tomar<br>
+ Hum tão alto pensamento?<br>
+ Certo he minha maravilha,<br>
+ Se vós isto não sentis<br>
+ Bem: vós como não cahis<br>
+ Que Dionysa qu'he filha<br>
+ Do Senhor a quem servis?<br>
+ Como? Vós não attentais<br>
+ Os Grandes, de qu'he pedida?<br>
+ Peço-vos que me digais<br>
+ Qual he o fim que esperais<br>
+ Neste caso, em vossa vida.<br>
+ Que razão boa, ou que côr<br>
+ Podeis dar a esta affeição?<br>
+ Dizei-me vossa tenção.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Onde vistes vós amor<br>
+ Que se guie por razão? <span class="pn"><a
+ name="pag_397">{397}</a></span><br>
+ Se quereis saber de mi<br>
+ Que fim, ou de que theor<br>
+ O pretendo em minha dor;<br>
+ S'eu neste amor quero fim,<br>
+ Sem fim me atormente Amor.<br>
+ Mas vós com gloria fingida<br>
+ Pretendeis de m'enganar,<br>
+ Por assi mal me tratar:<br>
+ Assi que me dais a vida<br>
+ Somente por me matar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu digo-vos a verdade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Da verdade fujo eu,<br>
+ Porque se o Amor me deu<br>
+ Pena de tal qualidade,<br>
+ Assaz me custa do meu.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fólgo muito de saber<br>
+ Que sois amante tão fino.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois mais vos quero dizer,<br>
+ Que ás vezes no imaginar<br>
+ Não ouso de m' estender.<br>
+ Na hora que imaginei<br>
+ Na causa de meu tormento,<br>
+ Tamanha gloria levei,<br>
+ Que por onças desejei<br>
+ De lograr o pensamento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se me vós a mi jurardes <span class="pn"><a
+ name="pag_398">{398}</a></span><br>
+ De me terdes em segredo<br>
+ Huma cousa... mas hei medo<br>
+ De logo tudo contardes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ A quem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+            Áquelle enxovedo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qual?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Aquelle mao pezar,<br>
+ Que ant'hontem comvosco hia.<br>
+ Quem se fosse em vós fiar!<br>
+ O que vos disse o outro dia,<br>
+ Tudo lhe fostes contar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que lhe contei?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Ja lh'esquece?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por certo qu'estou remoto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hi, que sois hum cesto roto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esse homem tudo merece.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós sois muito seu devoto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, não hajais medo:<br>
+ Contae-m'isso, e far-me-hei mudo. <span class="pn"><a
+ name="pag_399">{399}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, o homem sisudo,<br>
+ Se em taes cousas tẽe segredo,<br>
+ Saiba que alcançará tudo.<br>
+ A Senhora Dionysa<br>
+ Crede que mal vos não quer:<br>
+ Não vos posso mais dizer.<br>
+ Isto tende por balisa<br>
+ Com que vos saibais reger.<br>
+ Qu'em mulheres, se attentais,<br>
+ O querer está visibil;<br>
+ E se bem vos governais,<br>
+ Não desespereis do mais,<br>
+ Porque, emfim, tudo he possibil.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, póde isso ser?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, que tudo o mundo tem:<br>
+ Olhae não o saiba alguem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E que maneira hei de ter<br>
+ Para crer tamanho bem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós, Senhor, o sabereis;<br>
+ E ja que vos descobri<br>
+ Tamanho sogredo aqui,<br>
+ Huma mercê me fareis<br>
+ Em que me vai muito a mi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, a tudo me obrigo<br>
+ Quanto for em minha mão. <span class="pn"><a name="pag_400">{400}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois dizei a vosso amigo<br>
+ Que não gaste tempo em vão,<br>
+ Nem queira amores comigo.<br>
+ Porque eu tenho parentes,<br>
+ Que me podem bem casar;<br>
+ E mais que não quero andar<br>
+ Agora em boca de gentes<br>
+ A quem s'elle vai gabar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, mal conheceis<br>
+ O que vos quer Duriano:<br>
+ Sabei-o, se o não sabeis,<br>
+ Qu'em sua alma sente o dano<br>
+ Do pouco que lhe quereis;<br>
+ E que outra cousa não quer,<br>
+ Que ter-vos sempre servida.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pola sua negra vida,<br>
+ Isso havia eu bem mister.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós sois desagradecida!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, que tudo são enganos<br>
+ Em tudo quanto fallais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não quero que me creais:<br>
+ Crede o tempo; que ha dous anos<br>
+ Que vos serve, e inda mais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, bem sei que m'engano; <span class="pn"><a
+ name="pag_401">{401}</a></span><br>
+ Mas a vós, como a irmão,<br>
+ Descubro este coração:<br>
+ Sabei que a Duriano<br>
+ Tenho sobeja affeição.<br>
+ Olhae que lhe não digais<br>
+ Isto que vos aqui digo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, mal me tratais:<br>
+ Inda que sou seu amigo,<br>
+ Sabei que vosso sou mais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E ja que vos confessei<br>
+ Aquestas fraquezas minhas,<br>
+ Que ha tanto que de mi sei;<br>
+ Fazei vós nas cousas minhas<br>
+ O qu'eu nas vossas farei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós enxergareis, Senhora,<br>
+ O qu'eu por vós sei fazer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como me deixo esquecer!<br>
+ Aqui estivera agora<br>
+ Fallando té anoitecer.<br>
+ Vou-me; e olhae quanto val<br>
+ O que passou entre nós.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E porque vos ides vós?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque parece ja mal<br>
+ Estar aqui ambos sós.<br>
+ E mais vou vestir agora <span class="pn"><a
+ name="pag_402">{402}</a></span><br>
+ A quem vos dá tão má vida.<br>
+ Ficae-vos, Senhor, embora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nessa ide vós, Senhora,<br>
+ Que ja vos tenho entendida.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Ora se póde isto ser<br>
+ Do qu'esta moça me avisa,<br>
+ Que a Senhora Dionysa,<br>
+ Por me ouvir, se fosse erguer<br>
+ Da sua cama em camisa!<br>
+ E diz que mal me não quer.<br>
+ Não queria maior gloria;<br>
+ Mas o que mais posso crer,<br>
+ Que nem para lhe esquecer<br>
+ Lhe passo pela memoria.<br>
+ Mas ter Solina tambem<br>
+ Em Duriano o intento,<br>
+ He levar-me a lenha o vento;<br>
+ Porque s'ella lhe quer bem,<br>
+ Para bem vai meu tormento.<br>
+ Mas foi-se este homem perder<br>
+ Neste tempo, de maneira,<br>
+ Por huma mulher solteira,<br>
+ Que não me atrevo a fazer<br>
+ Que hum pequeno bem lhe queira.<br>
+ Porém far-lhe-hei hum partido, <span class="pn"><a
+ name="pag_403">{403}</a></span><br>
+ Porqu'ella não se querelle:<br>
+ Que se mostre seu perdido,<br>
+ Inda que seja fingido,<br>
+ Como lh'outrem faz a elle.<br>
+ E ja que me satisfaz,<br>
+ E tanto nisto se alcança,<br>
+ Dê-lhe fingida esperança:<br>
+ Do mal que lhe outrem faz,<br>
+ Tomará nella vingança.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VII.</h3>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Ora boa está a cilada<br>
+ De meu amo com sua ama,<br>
+ Que se levantou da cama<br>
+ Por ouvi-lo! Está tomada:<br>
+ Assi a tome má trama.<br>
+ E mais crede que quem canta,<br>
+ Ainda descantará;<br>
+ E quem do leito, onde está,<br>
+ Por ouvi-lo se levanta,<br>
+ Mor desatino fará.<br>
+ Quem havia de cuidar,<br>
+ Que dama formosa e bella<br>
+ Saltasse o demonio nella,<br>
+ Para a fazer namorar<br>
+ De quem não he igual della?<br>
+ Que me dizeis a Solina?<br>
+ Como se faz Celestina, <span class="pn"><a name="pag_404">{404}</a></span><br>
+ Que por não lhe haver inveja<br>
+ Tambem para si deseja<br>
+ O que o desejo lh'ensina!<br>
+ Crede que se me alvoróço,<br>
+ Que a hei de tomar por dama;<br>
+ E não será grão destrôço,<br>
+ Pois o amo quer a ama,<br>
+ Que a moça queira o moço.<br>
+ Vou-me; que vejo lá vir<br>
+ Venadoro, apercebido<br>
+ Para a caça se partir:<br>
+ E voto a tal, que he partido<br>
+ Para ver e para ouvir.<br>
+ Que he razão justa e rasa<br>
+ Que seu folgar se desconte<br>
+ Em quem arde como brasa;<br>
+ Que se vai caçar ao monte,<br>
+ Fique outrem caçando em casa.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VIII.</h3>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Aprovada antiguamente<br>
+ Foi, e muito de louvar<br>
+ A occupação do caçar,<br>
+ E da mais antigua gente<br>
+ Havida por singular.<br>
+ He o mais contrário officio<br>
+ Que tẽe a ociosidade,<br>
+ Mãe de todo o bruto vício: <span class="pn"><a
+ name="pag_405">{405}</a></span><br>
+ Por este limpo exercicio<br>
+ Se reserva a castidade.<br>
+ Este dos grandes Senhores<br>
+ Foi sempre muito estimado;<br>
+ E he grande parte do estado<br>
+ Ter monteiros, caçadores,<br>
+ Como officio qu'he prezado.<br>
+ Pois logo porque razão<br>
+ A meu pae ha de pezar<br>
+ De me ver ir a caçar?<br>
+ E tão boa occupação<br>
+ Que mal me póde causar?</blockquote>
+
+<h3>SCENA IX.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Venadoro e o Monteiro.</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, venho alvoroçado,<br>
+ E mais com muita razão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como assi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              Que me he chegado<br>
+ O mais extremado cão,<br>
+ Que nunca caçou veado.<br>
+ Vejamos que me ha de dar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dar-vos-hei quanto tiver;<br>
+ Mas ha-se d'exprimentar,<br>
+ Para se poder julgar<br>
+ As manhas que póde ter. <span class="pn"><a name="pag_406">{406}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Póde assentar qu'este cão,<br>
+ Que tẽe das manhas a chave.<br>
+ Bem feito? Em admiração.<br>
+ Pois em ligeiro? He huma ave.<br>
+ Em commetter? Hum leão.<br>
+ Com porcos? Maravilhoso.<br>
+ Com veados? Extremado.<br>
+ Sobeja-lhe o ser manhoso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois eu ando desejoso<br>
+ D'irmos matar hum veado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois, Senhor, como não vae?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vamos, e vós mui ligeiro<br>
+ O necessario ordenae;<br>
+ Qu'eu quero chegar primeiro<br>
+ Pedir licença a meu pae.</blockquote>
+
+<h2>ACTO SEGUNDO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p class="ni"><big>P</big>ois não creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pôr
+pé em ramo verde, té lhe dar trezentos açoutes. Despois de ter gastado perto
+de trezentos cruzados <span class="pn"><a name="pag_407">{407}</a></span> com
+ella, porque logo lhe não mandei o setim para as mangas, fez de mim mangas ao
+demo. Não desejo eu de saber, senão qual he o galante que me succedeo; que se
+vo-lo eu colho a balravento, eu lhe farei botar ao mar quantas esperanças lhe
+a fortuna tẽe cortado á minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com
+o dinheiro, como a maré com a lũa: bolsa cheia, amor em ágoas vivas; mas se
+vasa, vereis espraiar este engano, e deixar em sêcco quantos gostos andavão
+como o peixe na ágoa.</p>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Filodemo e Duriano.</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Ó lá! cá sois vós? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me
+sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos tire
+como huma alma.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Oh maravilhosa pessoa! Vós he certo que vos prezais de mais certo em casa,
+que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem á mão, os pensamentos com
+os focinhos quebrados, de cahirem onde vós sabeis. Pois sabeis, Senhor
+Filodemo, quaes são os que me mátão? Huns muito bem almofaçados, que com
+dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezão de brandos na conversação,
+e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo que não darão meia hora de
+triste pelo thesouro de Veneza; e gábão mais Garcilasso <span class="pn"><a
+name="pag_408">{408}</a></span> que Boscão; e ambos lhe sahem das mãos
+virgens; e tudo isto por vos meterem em consciencia que se não achou para mais
+o grão Capitão Gonçalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia
+do mundo farão altos espiritos: e eu não trocarei duas pescoçadas da minha
+etc., depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e
+fingir-se-me bebada, porque o não pareça, por quantos Sonetos estão
+escriptos polos troncos dos árvores do vale Luso, nem por quantas Madamas
+Lauras vós idolatrais.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Tá, tá, não vades avante, que vos perdeis.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Aposto que adivinho o que quereis dizer?</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Que?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Que se me não acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a
+herege de amor.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Oh que certeza tamanha, o muito peccador não se conhecer por esse!</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinião! Mas
+tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he cousa de
+vossa saude, tudo farei.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Como templará el destemplado? Quem poderá dar o que não tẽe, Senhor
+Duriano? Eu quero-vos <span class="pn"><a name="pag_409">{409}</a></span>
+deixar comer tudo: não póde ser que a natureza não faça em vós o que a
+razão não póde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porém he necessario que
+primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis para hum canto da casa todos
+esses maos pensamentos; porque segundo andais mal avinhado, damnareis tudo
+aquillo que agora lançarem em vós. Ja vos dei conta da pouca que tenho com
+toda a outra cousa que não he servir a Senhora Dionysa; e postoque a
+desigualdade dos estados o não consinta, eu não pretendo della mais que o
+não pretender della nada, porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que
+este meu amor he como a ave Phenix, que de si só nasce, e não de outro nenhum
+interesse.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Bem praticado está isso; mas dias ha que eu não creio em sonhos.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Porque?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Eu vo-lo direi: porque todos vós-outros os que amais pela passiva, dizeis
+que o amor fino como melão, não ha de querer mais de sua dama que amá-la; e
+virá logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a trezentos
+Platões, mais çafado que as luvas de hum pagem d'arte, mostrando razões
+verisimeis e apparentes, para não quererdes mais de vossa dama que vê-la; e
+ao mais até fallar com ella. Pois inda achareis outros esquadrinhadores
+d'amor, mais especulativos, que defenderão a justa por não emprenhar o
+desejo; e eu (faço-vos voto solemne) se a qualquer <span class="pn"><a
+name="pag_410">{410}</a></span> destes lhe entregassem sua dama tosada e
+apparelhada entre dous pratos, eu fico que não ficasse pedra sôbre pedra: e
+eu ja de mi vos sei confessar que os meus amores hão de ser pela activa, e que
+ella ha de ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu
+de, vá v. m. co'a historia por diante.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida entre os Doctores:
+assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mão, bem trinta ou
+quarenta legoas pelo sertão dentro de hum pensamento, senão quando me tomou
+á traição Solina; e entre muitas palavras que tivemos, me descobrio que a
+Senhora Dionysa se levantára da cama por me ouvir, e que estivera pela greta
+da porta espreitando quasi hora e meia.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Cobras e tostões, sinal de terra: pois ainda vos não fazia tanto
+avante.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Finalmente, veio-me a descobrir, que me não queria mal, que foi para mi o
+maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a soffrer por
+sua causa, e não tenho agora sogeito para tamanho bem.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser são. Se vos
+deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca
+chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanças ao leme; que eu
+vos faço bom que ás duas enxadadas acheis ágoa. E que mais passastes? <span
+class="pn"><a name="pag_411">{411}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>A maior graça do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vós; e me
+quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vós merecesseis.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor?
+porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que dizer
+poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella quer que eu
+caia.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Nem eu não quero que lho queirais, mas que lhe façais crer que lho
+quereis.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Não... quanté dessa maneira me offereço a romper meia duzia de serviços
+alinhavados ás panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais fiel
+amante que nunca calçou esporas; e se isto não bastar, salgan las palabras
+mas sangrientas del corazon, entoadas de feição, que digão que sou hum
+Mancias, e peor ainda.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro,
+irmão da Senhora Dionysa, he fóra á caça; e sem elle fica a casa despejada;
+e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu passatempo he enxertar e
+dispôr, e outros exercicios d'agricultura, naturaes a velhos: e pois o tempo
+nos vem á medida do desejo, vamo-nos lá; e se puderdes fallar, fazei de vós
+mil manjares, porque lhe façais crer que sois mais esperdiçado d'amor que hum
+Braz Quadrado. <span class="pn"><a name="pag_412">{412}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas, com
+que vosso feito venha á luz.</p>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Dionysa e Solina.</em></p>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Solina, mana.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Senhora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Trazei-me cá a almofada;<br>
+ Que a casa está despejada,<br>
+ E esta varanda cá fóra<br>
+ Está melhor assombrada.<br>
+ Trazei a vossa tambem<br>
+ Para estarmos cá lavrando;<br>
+ Em quanto meu pae não vem,<br>
+ Estaremos praticando,<br>
+ Sem nos estorvar ninguem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Este he o mesmo lugar<br>
+ Onde estava o bem logrado,<br>
+ Tal que de muito enlevado<br>
+ Se esquecia do cantar<br>
+ Por se enlevar no cuidado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós, mana, sois mui ruim!<br>
+ Logo lhe fostes contar<br>
+ Que me ergui polo escutar. <span class="pn"><a
+name="pag_413">{413}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu o disse?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+            Eu não o ouvi?<br>
+ Como mo quereis negar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E pois isso que releva?<br>
+ Que se perde nisso agora?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que se perde! Assi, Senhora,<br>
+ Folgareis vós que se atreva<br>
+ A contá-lo lá por fóra?<br>
+ Que se lhe meta em cabeça<br>
+ Alguma parvoa tenção?<br>
+ Que faça, se vem á mão,<br>
+ Algũa cousa que pareça?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, não tẽe razão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu sei mui bem attentar<br>
+ Do que se ha de ter receio,<br>
+ E do que he para estimar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não he o demo tão feio<br>
+ Como alguem o quer pintar;<br>
+ E não se espera isso delle,<br>
+ Que não he ora tão moço.<br>
+ E Vossa Mercê asselle<br>
+ Que qualquer segredo nelle<br>
+ He como huma pedra em poço. <span class="pn"><a
+ name="pag_414">{414}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E eu que segredo quero<br>
+ Co'hum criado de meu pae?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E vós, mana, fazeis fero?<br>
+ Ao diante vos espero,<br>
+ Se adiante o caso vae.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O madraço! quem o vir<br>
+ Fallar de siso co'ella...<br>
+ Então vós, gentil donzella,<br>
+ Folgais muito de o ouvir?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si, porque me falla nella;<br>
+ E eu como ouço fallar<br>
+ Nella, como quem não sente,<br>
+ Folgo de o escutar,<br>
+ Só para lhe vir contar<br>
+ O que della diz a gente;<br>
+ Qu'eu não quero nada delle.<br>
+ E mais, porque está fallando?<br>
+ Não m'esteve ella rogando<br>
+ Que fosse fallar com elle?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Disse-vo-lo assi zombando.<br>
+ Vós logo tomais em grosso<br>
+ Tudo quanto me escutais.<br>
+ Parvo! que vê-lo não posso.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ella alli, e o cão co'o osso!<br>
+ Inda isto ha de vir a mais. <span class="pn"><a
+ name="pag_415">{415}</a></span><br>
+ Pois que tal odio lhe tem,<br>
+ Fallemos, Senhora, em al;<br>
+ Mas eu digo que ninguem<br>
+ Merece por querer bem<br>
+ Que a quem lho quer, queira mal.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deixae-o vós doudejar.<br>
+ Se meu pae, ou meu irmão,<br>
+ O vierem a aventar,<br>
+ Não ha elle de folgar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Deos meterá nisso a mão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora hi polas almofadas,<br>
+ Que quero hum pouco lavrar;<br>
+ Por ter em que me occupar;<br>
+ Qu'em cousas tão mal olhadas<br>
+ Não se ha o tempo de gastar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que cousa somos mulheres!<br>
+ Como somos perigosas!<br>
+ E mais estas tão viçosas<br>
+ Qu'estão á boca <em>que queres</em><br>
+ E adoecem de mimosas!<br>
+ Se eu não caminho agora<br>
+ A seu desejo e vontade;<br>
+ Como faz esta Senhora,<br>
+ Fazem-se logo nessa hora<br>
+ Na volta da honestidade.<br>
+ Quem a vira o outro dia<br>
+ Hum poucochinho agastada, <span class="pn"><a
+ name="pag_416">{416}</a></span><br>
+ Dar no chão com a almofada,<br>
+ E enlevar a phantasia,<br>
+ Toda n'outra transformada!<br>
+ Outro dia lhe ouvirão<br>
+ Lançar suspiros a mólhos,<br>
+ E com a imaginação<br>
+ Cahir-lhe a agulha da mão,<br>
+ E as lagrimas dos olhos.<br>
+ Ouvir-lhe-heis á derradeira<br>
+ A ventura maldizer,<br>
+ Porque a foi fazer mulher.<br>
+ Então diz que quer ser Freira;<br>
+ E não se sabe entender.<br>
+ Então gaba-o de discreto,<br>
+ De musico e bem disposto,<br>
+ De bom corpo e de bom rosto.<br>
+ Quanté então eu vos prometo,<br>
+ Que não tẽe delle desgôsto.<br>
+ Despois, se vem a attentar,<br>
+ Diz que he muito mal feito<br>
+ Amar homem deste geito;<br>
+ E que não póde alcançar<br>
+ Pôr seu desejo em effeito.<br>
+ Logo se faz tão Senhora,<br>
+ Logo lhe ameaça a vida,<br>
+ Logo se mostra nessa hora<br>
+ Muito segura de fóra,<br>
+ E de dentro está sentida.<br>
+ Bofé, segundo vou vendo,<br>
+ Se esta postema vier,<br>
+ Como eu suspeito, a crescer, <span class="pn"><a
+ name="pag_417">{417}</a></span><br>
+ Muito ha que della entendo<br>
+ O fim que póde vir ter.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Duriano e Filodemo.</em></p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Ora deixae-a ir, que á vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como hei
+de fazer; que não ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a dê á Senhora
+Dionysa; que me vai nisso muito.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Por mulher de tão bom engenho a tendes?</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>E porque me perguntais isso?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta
+mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta.</p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Não lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por isso lhe
+fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fação á
+vossa tenção.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Deixae-me vós a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes
+vintes, que vós; e eu vo-la farei hoje vir a nós sem gafas; e vós entretanto
+acolhei-vos a sagrado, porque ei-la lá vem. <span class="pn"><a
+name="pag_418">{418}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<p>Olhae lá: fazei que a não vêdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a
+nosso caso.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia no
+la espero remediar. Pois não devia assi de ser, polos santos Evangelhos! mas
+muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos, andão ás vessas. Ora,
+emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen aflojar cuando mas
+duelen.)</p>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Solina e Duriano.</em></p>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA</small>, <em>com a almofada</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Aqui anda passeando<br>
+ Duriano, e só comsigo<br>
+ Pensamentos praticando:<br>
+ Daqui posso estar notando<br>
+ Com quem sonha, se he comigo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah quão longe estará agora<br>
+ Minha Senhora Solina<br>
+ De saber que estou bem fóra<br>
+ De ter outra por senhora,<br>
+ Segundo o amor determina!<br>
+ Porém se determinasse<br>
+ Minha bem-aventurança<br>
+ Que de meu mal lhe pezasse. <span class="pn"><a
+ name="pag_419">{419}</a></span><br>
+ Até que nella tomasse<br>
+ Do que lhe quero vingança!...</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Comigo sonha por certo.<br>
+ Ora quero-me mostrar,<br>
+ Assi como por acêrto:<br>
+ Chegar-me-hei mais ao perto,<br>
+ Por ver se me quer fallar.)<br>
+ Sempre esta casa ha d'estar<br>
+ Acompanhada de gente,<br>
+ Que não possa homem passar!</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Á traição vindes tomar<br>
+ Quem ja feridas não sente?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Logo me a mi parecia<br>
+ Que era elle o que passeava.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E eu mal adivinhava<br>
+ Que me viesse este dia,<br>
+ Que ha tantos que desejava.<br>
+ Se huns olhos por vos servir,<br>
+ Com o amor que vos conquista,<br>
+ Se atrevêrão a subir<br>
+ Os muros da vossa vista,<br>
+ Que culpa tẽe quem vos vir?<br>
+ E se esta minha affeição,<br>
+ Que vos serve de giolhos,<br>
+ Não fez êrro na tenção,<br>
+ Tomae vingança nos olhos,<br>
+ E deixae o coração. <span class="pn"><a name="pag_420">{420}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora agora me vem riso.<br>
+ Assi que vós sois, Senhor,<br>
+ De siso meu servidor?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De siso não, porque o siso<br>
+ Me tẽe tirado o amor.<br>
+ Porque o amor, se attentais,<br>
+ N'hum tão verdadeiro amante<br>
+ Não deixa siso bastante;<br>
+ Senão se siso chamais<br>
+ A doudice tão galante.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como Deos está nos Ceos,<br>
+ Que se he verdade o que temo,<br>
+ Que fez isto Filodemo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas fê-lo o démo; que Deos<br>
+ Não faz mal tanto em extremo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bem. Vós, Senhor Duriano,<br>
+ Porque zombareis de mim?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu zombo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Eu não m' engano.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ S' eu zombo, inda em meu dano<br>
+ Vejais vós mui cedo a fim.<br>
+ Mas vós, Senhora Solina,<br>
+ Porque me querereis mal? <span class="pn"><a name="pag_421">{421}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sou mofina.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Oh! real.<br>
+ Assi que minha mofina<br>
+ He minha imiga mortal.<br>
+ Dias ha qu'eu imagino<br>
+ Qu'em vos amar e servir<br>
+ Não ha amador mais fino;<br>
+ Mas sinto que de mofino<br>
+ Me fino sem o sentir.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bem derivais: quanté assi<br>
+ Á popa o dito vos veio.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vir-me-ha de vós, porque creio<br>
+ Que vós fallais dentro em mi,<br>
+ Como esprito em corpo alheio.<br>
+ E assi que em estas piós<br>
+ A cahir, Senhora, vim;<br>
+ Bem parecerá entre nós,<br>
+ Pois vós andais dentro em mim,<br>
+ Que ande eu tambem dentro em vós.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ He bem: que fallar he esse?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dentro na vossa alma, digo,<br>
+ Lá andasse, e lá morresse!<br>
+ E se isto mal vos parece,<br>
+ Dae-me a morte por castigo. <span class="pn"><a
+ name="pag_422">{422}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah mao! Como sois malvado!</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas vós como sois malvada,<br>
+ Que de hum pouco mais de nada<br>
+ Fazeis hum homem armado,<br>
+ Como quem 'stá sempre armada!<br>
+ Dizei-me, Solina, mana.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qu'he isso? Tirae lá a mão:<br>
+ Oh! vós sois mao cortezão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O que vos quero m'engana,<br>
+ Mas o que desejo não.<br>
+ Não ha aqui senão paredes,<br>
+ As quaes não fallão, nem vem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Está isso muito bem.<br>
+ Bem: e vós, Senhor, não vêdes<br>
+ Que poderá vir alguem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que vos custão dous abraços?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não quero tantos despejos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois que farão meus desejos,<br>
+ Que querem ter-vos nos braços,<br>
+ E dar-vos trezentos beijos?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Olhae que pouca vergonha!<br>
+ Hi-vos d'hi, boca de praga. <span class="pn"><a
+ name="pag_423">{423}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu não sei certo a que ponha<br>
+ Mostrardes-me a triaga,<br>
+ E virdes-me a dar peçonha.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora ide rir á feira,<br>
+ E não sejais dessa laia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se vêdes minha canseira,<br>
+ Porque lhe não dais maneira?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que maneira?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  A da saia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por minha alma, hei de vos dar<br>
+ Meia duzia de porradas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh que gostosas pancadas!<br>
+ Mui bem vos podeis vingar,<br>
+ Qu'em mim são bem empregadas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ao diabo, que o eu dou.<br>
+ Como me doeo a mão!</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mostrae cá, minha affeição,<br>
+ Que essa dor me magoou<br>
+ Dentro no meu coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora hi-vos embora asinha. <span class="pn"><a name="pag_424">{424}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Por amor de mi, Senhora,<br>
+ Não fareis huma cousinha?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo que vades embora.<br>
+ Que cousa?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+               Esta cartinha.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que carta?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+              De Filodemo<br>
+ A Dionysa vossa ama.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizei, que tome outra dama,<br>
+ E dê os amores ao démo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não andemos pola rama.<br>
+ Senhora, (aqui para nós)<br>
+ Que sentis della com elle?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Grandes alforges sois vós!<br>
+ Pois hi-lhe dizer que appelle.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fallae, que aqui 'stamos sós.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Qualquer honesta se abala,<br>
+ Como sabe que he querida.<br>
+ Ella he por elle perdida:<br>
+ Nunca n'outra cousa falla. <span class="pn"><a
+name="pag_425">{425}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora vou-lhe dar a vida.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E eu não lhe disse ja<br>
+ Quanta affeição lh'ella tem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não se fia de ninguem,<br>
+ Nem crê que para elle ha<br>
+ No mundo tamanho bem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dir-vos-hia de mim lá<br>
+ O que lh'eu disse zombando?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não disse, por S. Fernando!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora ide-vos.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Que me va!<br>
+ E mandais que torne? Quando?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quando eu cá vir lugar,<br>
+ Vo-lo mandarei dizer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se o quizerdes buscar,<br>
+ Não vos deve de faltar,<br>
+ Se não faltar o querer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não falta.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Dae-me hum abraço<br>
+ Em sinal do que quereis. <span class="pn"><a name="pag_426">{426}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tá, que o não levareis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ De quantos serviços faço<br>
+ Nenhum pagar me quereis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pagar-vos-hão algum'hora,<br>
+ Que isso a mi tambem me toca;<br>
+ Mas agora hi-vos embora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essas mãos beijo, Senhora,<br>
+ Em quanto não posso a boca.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Solina que traz a almofada, e Dionysa.</em></p>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja Vossa Mercê dirá<br>
+ Qu'estive muito tardando.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bem vos detivestes lá.<br>
+ Bofé que estava cuidando<br>
+ Em não sei que.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Que será?<br>
+ Aqui somos. (Quanté agora<br>
+ Está ella transportada.)</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que rosnais vós lá, Senhora?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo que tardei lá fóra <span class="pn"><a
+ name="pag_427">{427}</a></span><br>
+ Em buscar esta almofada.<br>
+ Que estava ella agora só<br>
+ Comsigo phantasiando?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bofé que estava cuidando<br>
+ Qu'he muito para haver dó<br>
+ Da mulher que vive amando.<br>
+ Que hum homem póde passar<br>
+ A vida mais occupado:<br>
+ Com passear, com caçar,<br>
+ Com correr, com cavalgar,<br>
+ Fórra parte do cuidado.<br>
+ Mas a coitada<br>
+ Da mulher sempre encerrada,<br>
+ Que não tẽe contentamento,<br>
+ Não tẽe desenfadamento,<br>
+ Mais que agulha e almofada?<br>
+ Então isto vem parir<br>
+ Os grandes erros da gente:<br>
+ Forão mil vezes cahir<br>
+ Princezas d'alta semente.<br>
+ Lembra-me que ouvi contar<br>
+ De tantas affeiçoadas<br>
+ Em baixo e pobre lugar,<br>
+ Que as que agora vão errar<br>
+ Podem ficar desculpadas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, a muita affeição<br>
+ Nas Princezas d'alto estado<br>
+ Não he muita admiração;<br>
+ Que no sangue delicado <span class="pn"><a name="pag_428">{428}</a></span><br>
+ Faz amor mais impressão.<br>
+ Mas deixando isto á parte,<br>
+ Se m'ella quizer peitar,<br>
+ Prometto de lhe mostrar<br>
+ Huma cousa muito d'arte,<br>
+ Que lá dentro fui achar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que cousa?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+               Cousa d'esprito.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Algum panno de lavores?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Inda ella não deo no fito?<br>
+ Cartinha sem sobre-escripto,<br>
+ Que parece ser de amores.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Essa he a boa ventura?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bofé que mo pareceo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E essa donde nasceo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No meu cesto da costura:<br>
+ Não sei quem m'alli meteo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mostrae-ma; não hajais medo,<br>
+ Mana. Eu que vos descobri...</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E se ella vem para mi,<br>
+ Logo quer ver meu segredo? <span class="pn"><a
+ name="pag_429">{429}</a></span><br>
+ Não a veja: vá-se d'hi.<br>
+ Ei-la-ahi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+             Cuja será?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não sei certo cuja he.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Si; sabeis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+             Não sei, bofé.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora a carta mo dirá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois leia Vossa Mercê.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Abre Dionysa a carta, e lê-a.</em></p>
+
+<p>Se para merecer minha pena me não falta mais que viver contente della, ja
+logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo triste, senão
+por não ser para tão doce tristeza. Se tendes por offensa commetter tamanha
+ousadia; por maior a devieis ter, se a não commettesse; que amor acostumado he
+fazer os extremos á medida das affeições, e as affeições á medida da
+causa dellas. Pois logo, nem o meu amor póde ser pouco, nem fazer menos: se
+este não bastar para consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o
+que pelo ter mereço; e senão muitas graças ao Amor, que me soube dar hum
+cuidado, que com tê-lo se paga o trabalho de soffrê-lo.</p>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quanta parvoice diz! <span class="pn"><a name="pag_430">{430}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora muito boa está!<br>
+ Como vós, mana, sois má!<br>
+ Não sejais vós tão biliz;<br>
+ Que bem vos entendo ja.<br>
+ Cuja he?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+           E eu que sei?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois quem o sabe?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                      O démo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Certo que he de quem temo;<br>
+ Que os ditos que nella achei<br>
+ São todos de Filodemo.<br>
+ Este homem, que atrevimento<br>
+ He este que foi tomar?<br>
+ Qual será seu fundamento?<br>
+ Que mil vezes me faz dar<br>
+ Mil voltas ao pensamento.<br>
+ Não entendo delle nada.<br>
+ Mas inda qu'isto he assi,<br>
+ Disso que delle entendi,<br>
+ Me sinto tão alterada,<br>
+ Que me arreceio de mi.<br>
+ Eu inda agora não creio<br>
+ Que he verdade este amor;<br>
+ Mas praza a Deos, se assi for,<br>
+ Que inda este meu arreceio<br>
+ Se não converta em temor. <span class="pn"><a
+name="pag_431">{431}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja vós, ja sêdes,<br>
+ Peixes, nas redes.<br>
+ Senhora, quem mais confia,<br>
+ Mais asinha a cahir vem:<br>
+ Natural he o querer bem;<br>
+ Que o amor n'alma se cria,<br>
+ Sem o sentir quem o tem.<br>
+ Filodemo, no que ouvi,<br>
+ Tẽe-lhe sobeja affeição;<br>
+ E postoque o creia assi,<br>
+ Ou eu sonhei, ou ouvi.<br>
+ Que era d'alta geração.<br>
+ Logo na phisionomia,<br>
+ Nas manhas, artes e geito,<br>
+ Mostra mui grande respeito:<br>
+ Nem tão alta phantasia<br>
+ Não se põe em baixo peito.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tudo isso cuido, e vi<br>
+ Mil vezes miudamente;<br>
+ Mas estas mostras assi<br>
+ São desculpas para mi,<br>
+ E não para toda a gente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O seu moço vejo vir<br>
+ A nós, seu passo contado:<br>
+ Este he muito para ouvir,<br>
+ Que diz que me quer servir<br>
+ D'amores esperdiçado. <span class="pn"><a name="pag_432">{432}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA VII.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vilardo, Solina e Dionysa.</em></p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, o Senhor seu pae,<br>
+ Mesmo de Vossa Mercê,<br>
+ Ja lá para casa vae:<br>
+ Por isso, Senhora, andae,<br>
+ Que elle me mandou n'hum pé;<br>
+ E diz que fosse jantar<br>
+ Vossa Mercê mesmamente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E ja veio do pomar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh quem pudéra escusar<br>
+ De comer, nem de ver gente!<br>
+ (Nenhuma côr de verdade<br>
+ Tenho do que m'elle manda.)</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ S'ella sem vontade anda,<br>
+ Eu lh'emprestarei vontade,<br>
+ Empreste-m'ella a vianda.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Va, Senhora, por não dar<br>
+ Mais em que cuidar á gente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Irei, mas não por jantar;<br>
+ Que quem vive descontente<br>
+ Mantem-se de imaginar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois tambem cá minhas dores <span class="pn"><a
+ name="pag_433">{433}</a></span><br>
+ Me não deixão comer pão;<br>
+ Nem come minha affeição<br>
+ Senão sopadas d'amores,<br>
+ E mil postas de paixão.<br>
+ Das lagrimas caldo faço,<br>
+ Do coração escudella;<br>
+ Esses olhos são panella<br>
+ Que coze bofes e baço,<br>
+ Com toda a mais cabedella.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VIII.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>O Monteiro, um pastor e um bobo.</em></p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Perdeo-se por esta brenha<br>
+ Venadoro, meu Senhor,<br>
+ Sem que novas delle tenha:<br>
+ Queira Deos que inda não venha<br>
+ Desta perda outra maior.<br>
+ Contra esta parte daqui<br>
+ Des pos hum cervo correo,<br>
+ Logo desappareceo:<br>
+ Como da vista o perdi,<br>
+ O gosto se me perdeo.<br>
+ Eu, e os mais caçadores,<br>
+ Corremos montes e covas;<br>
+ Fallamos com lavradores<br>
+ Deste valle, e com pastores,<br>
+ Sem acharmos delle novas.<br>
+ Quero ver nestes casais <span class="pn"><a
+ name="pag_434">{434}</a></span><br>
+ Que cobre aquelle arvoredo,<br>
+ Se acharei pastores mais,<br>
+ Que me dem alguns sinais<br>
+ Que me possão tornar ledo.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Chama.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Ó dos casaes, ó de lá:<br>
+ Ah pastores, não fallais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quien sois, ó lo que buscais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ouvis? Chegae para cá.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dicid vos lo que mandais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No vayais adó os llamó,<br>
+ Padre, sin saber quien es.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+          Porque este es<br>
+ Aquel ladron que hurtó<br>
+ El asno del Portugues.<br>
+ Y se vais adó estan,<br>
+ Os juro al cuerpo sagrado<br>
+ De San Pisco, y San Juan,<br>
+ Que tambien os hurtarán,<br>
+ Que sois asno mas honrado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Déjame ir, que me llamó.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No, por vida de mi madre; <span class="pn"><a
+ name="pag_435">{435}</a></span><br>
+ Que si allá vais, muerto so',<br>
+ Y desta vez quedo yo,<br>
+ Sin asno, triste! y sin padre.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vinde, que vo-lo encommendo,<br>
+ E em vossas mãos me ponho.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No vais, que dijo <em>en comiendo</em>.<br>
+ Encomiendoos al demonio!      <em>(Ao Monteiro.)</em><br>
+ Y esso es lo que andais haciendo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Déjame ir adó está,<br>
+ Que no es cosa que me espante.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No quereis sino ir allá?<br>
+ Pues echadle pan delante,<br>
+ Puede ser amansará.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dios os guarde! Qué cosa es<br>
+ Esa por que voceais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dar-m'heis novas, ou sinais<br>
+ D'hum Fidalgo Portugues,<br>
+ Se passou por onde andais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Yo so' Hidalgo Portugues:<br>
+ Que manda su Señoria?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cállate: oh que nescio es!</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Padre, no me dejarés <span class="pn"><a name="pag_436">{436}</a></span><br>
+ Ser lo que quisiere un dia?<br>
+ Ah Santo Dios verdadero!<br>
+ No seré lo que otros son?<br>
+ Digo ahora que no quiero<br>
+ Ser Alonsico, el vaquero.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cállate ya, bobarron.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ya me callo: ahora un poco<br>
+ He de ser lo que yo quisiere.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Señor, diga lo que quiere,<br>
+ Porque este mochacho es loco,<br>
+ Y muero porque no muere.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo, que se por ventura<br>
+ Sabeis o que ando buscando:<br>
+ Hum Fidalgo, que caçando<br>
+ Se perdeo nesta espessura<br>
+ Apos hum cervo andando.<br>
+ Tenho esta parte corrida,<br>
+ Sem delle poder saber:<br>
+ Trago a alegria perdida;<br>
+ E se de todo a perder,<br>
+ Perca-se tambem a vida.<br>
+ Porque só polo buscar<br>
+ Tenho trabalhos assás.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Yo no puedo callar mas.)</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ (Como no puedes callar? <span class="pn"><a
+ name="pag_437">{437}</a></span><br>
+ Quítate allá para tras.)<br>
+ Cuanto por aquesta tierra,<br>
+ No siento nueva ninguna.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh trabalhosa fortuna!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas detras daquesta sierra<br>
+ Hallareis, por dicha, alguna;<br>
+ Que unas choças de vaqueros<br>
+ Portugueses allí estan;<br>
+ Y ahí muchas veces van<br>
+ Cazadores Cavalleros:<br>
+ Puede ser que lo sabran.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quero-me ir lá saber.<br>
+ Ficae-vos a Deos, pastor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dios os livre de dolor.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Y á nos dé siempre comer<br>
+ Pan y sopas, qu'es mejor.<br>
+ Mirad lo que os notifico:<br>
+ En aquel valle, acullá,<br>
+ Anda paciendo un burrico,<br>
+ Hidalgo, manso, y bonico;<br>
+ Puede ser que ese será.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Calla, y acaba de andar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ya ando. <span class="pn"><a name="pag_438">{438}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Quieres callar?<br>
+ Bobo, que tan poco sabe!</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No diceis que ande y acabe?<br>
+ Ando, y no quiero acabar.</blockquote>
+
+<h2>ACTO TERCEIRO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Florimena, pastora, com hum pote que vai á
+fonte.</em></p>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>P</big>or este formoso prado<br>
+ Tudo quanto a vista alcança<br>
+ Tão alegre está tornado,<br>
+ Que a qualquer desesperado<br>
+ Póde dar certa esperança.<br>
+ O monte, e sua aspereza,<br>
+ De flores se veste ledo;<br>
+ Reverdece o arvoredo,<br>
+ Somente em minha tristeza<br>
+ Está sempre o tempo quedo.<br>
+ Junto desta fonte pura,<br>
+ Segundo a muitos ouvi,<br>
+ D'altos parentes nasci:<br>
+ Foi como quiz a Ventura, <span class="pn"><a
+ name="pag_439">{439}</a></span><br>
+ Mas não como eu mereci.<br>
+ O dia que fui nascida,<br>
+ Minha mãe do parto forte<br>
+ Foi sem cura fallecida;<br>
+ E o dia que me deo vida<br>
+ Lhe dei eu a ella a morte.<br>
+ Do mesmo parto nasceo<br>
+ Meu irmão, que entre os cabritos<br>
+ Comigo tambem viveo;<br>
+ Mas, assi como cresceo,<br>
+ Crescêrão nelle os espritos.<br>
+ Foi-se buscar a cidade;<br>
+ Teve juizo e saber;<br>
+ Eu fiquei, como mulher,<br>
+ E não tive faculdade<br>
+ Para poder mais valer.<br>
+ A hum pastor obedeço<br>
+ Por pae, que d'outro não sei;<br>
+ E, pola mãe que matei,<br>
+ A huma cabra conheço,<br>
+ De cujo leite mamei.<br>
+ Mas porém, ja qu'este monte<br>
+ Me obriga e meu nascimento,<br>
+ Quero, pois quer meu tormento,<br>
+ Encher a talha na fonte<br>
+ Que co'os olhos accrescento.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Finge que enche a talha.</em> <span class="pn"><a
+name="pag_440">{440}</a></span></p>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Venadoro e Florimena.</em></p>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois que me vim alongar<br>
+ Dos caminhos e da gente,<br>
+ Fortuna, que o consente,<br>
+ Se devia contentar<br>
+ De me ter tão descontente.<br>
+ Porém, segundo adivinho,<br>
+ Por tão espêsso arvoredo,<br>
+ Por tão aspero rochedo,<br>
+ Quanto mais busco o caminho,<br>
+ Tanto mais delle me arredo.<br>
+ O cavallo, como amigo,<br>
+ Ja cansado me trazia:<br>
+ Mas deixou-me todavia;<br>
+ Que mal pudera comigo<br>
+ Quem comsigo não podia.<br>
+ Quero-me aqui assentar<br>
+ Á sombra, nesta hervinha,<br>
+ Porque canso ja de andar;<br>
+ Mas inda a fortuna minha<br>
+ Não cansa de me cansar.<br>
+ Junto desta fonte pura<br>
+ Não sei quem cuido qu'está;<br>
+ Mas no coração me dá<br>
+ Que aqui me guarda a Ventura<br>
+ Alguma ventura má.<br>
+ Ou ganhado, ou bem perdido,<br>
+ Faça, emfim, o que quizer, <span class="pn"><a
+ name="pag_441">{441}</a></span><br>
+ Qu'eu o fim disto hei de ver?<br>
+ Que ja venho apercebido<br>
+ A tudo quanto vier.<br>
+ Oh que formosa serrana<br>
+ Á vista se me offerece!<br>
+ Deosa dos montes parece;<br>
+ E se he certo que he humana,<br>
+ O monte não a merece.<br>
+ Pastora tão delicada,<br>
+ De gesto tão singular,<br>
+ Parece-me qu'em lugar<br>
+ De perguntar pola estrada,<br>
+ Por mim lhe hei de perguntar.<br>
+ Atéqui sempre zombei<br>
+ De qualquer outra pessoa<br>
+ Que affeiçoada topei;<br>
+ Mas agora zombarei<br>
+ De quem se não affeiçoa.<br>
+ Serrana, cuja pintura<br>
+ Tanto a alma me moveo,<br>
+ Dizei-me: Por qual ventura<br>
+ Andareis nesta espessura,<br>
+ Merecendo estar no ceo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tamanho inconveniente<br>
+ Andar na serra parece?<br>
+ Pois a ventura da gente<br>
+ Sempre he mui diferente<br>
+ Do que, ao parecer, merece.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tal resposta he manifesto <span class="pn"><a
+ name="pag_442">{442}</a></span><br>
+ Não se parecer co'as cabras.<br>
+ Pois não vos parece honesto<br>
+ Saberdes matar co'o gesto,<br>
+ Senão inda com palabras?<br>
+ No mato tudo he rudeza.<br>
+ Ha tal gesto e discrição?<br>
+ Não o creio.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+               Porque não?<br>
+ Não supprirá natureza<br>
+ Onde falta criação?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja logo nisso, Senhora,<br>
+ Dizeis, se não sinto mal,<br>
+ Que do vosso natural<br>
+ Não era serdes pastora.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo, mas pouco me val.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois quem vos pôde trazer<br>
+ Á conversação do monte?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Perguntae-o a essa fonte;<br>
+ Que as cousas duras de crer,<br>
+ Hum as faça, outro as conte.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esta fonte, que está aqui,<br>
+ Que sabe do que dizeis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, mais não pergunteis.<br>
+ Porque outra cousa de mi <span class="pn"><a
+ name="pag_443">{443}</a></span><br>
+ Sabei que não sabereis.<br>
+ De vós agora sabei,<br>
+ O que não tendes sabido:<br>
+ Se quereis ágoa, bebei;<br>
+ Se andais por dita perdido,<br>
+ Eu vos encaminharei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, eu não vos pedia<br>
+ Que ninguem m'encaminhasse;<br>
+ Que o caminho qu'eu queria,<br>
+ Se o eu agora achasse,<br>
+ Mais perdido me acharia.<br>
+ Não quero passar daqui;<br>
+ E não vos pareça espanto<br>
+ Qu'em vos vendo me rendi;<br>
+ Porque quando me perdi,<br>
+ Não cuidei de ganhar tanto.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, quem na serra mora<br>
+ Tambem entende a verdade<br>
+ Dos enganos da cidade:<br>
+ Vá-se embora, ou fique embora,<br>
+ Qual for mais sua vontade.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh lindissima donzella,<br>
+ A quem a ventura ordena<br>
+ Que me guie como estrella!<br>
+ Quereis-me deixar a pena,<br>
+ E levar-me a causa della?<br>
+ E ja que vos conjurastes<br>
+ Vós e Amor para matar-me, <span class="pn"><a
+ name="pag_444">{444}</a></span><br>
+ Oh não deixeis d'escutar-me!<br>
+ Pois a vida me tirastes,<br>
+ Não me tireis o queixar-me!<br>
+ Qu'eu, em sangue e em nobreza<br>
+ O claro Ceo me extremou;<br>
+ E a Fortuna me dotou<br>
+ De grandes bens e riqueza,<br>
+ Que sempre a muitos negou.<br>
+ Andando caçando aqui,<br>
+ Apos hum cervo ferido,<br>
+ Permittio meu fado assi,<br>
+ Que andando dos meus perdido,<br>
+ Me venha perder a mi.<br>
+ E porqu'inda mais passasse<br>
+ Do que tinha por passar,<br>
+ Buscando quem m'ensinasse,<br>
+ Por que via me tornasse,<br>
+ Acho quem me faz ficar.<br>
+ Que vingança permittio<br>
+ A fortuna n'hum perdido!<br>
+ Oh que tyranno partido,<br>
+ Que quem o cervo ferio,<br>
+ Vá como cervo ferido!<br>
+ Ambos feridos n'hum monte,<br>
+ Eu a elle, outrem a mi:<br>
+ Huma differença ha aqui,<br>
+ Qu'elle vai sarar á fonte,<br>
+ E eu nella me feri.<br>
+ E pois que tão transformado<br>
+ Me tẽe vossa formosura,<br>
+ Hum de nós troque o estado. <span class="pn"><a
+ name="pag_445">{445}</a></span><br>
+ Ou vós para o povoado,<br>
+ Ou eu para a espessura.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dos arminhos he certeza,<br>
+ Se lhe a cova alguem çujar,<br>
+ Morar fóra, antes d'entrar:<br>
+ D'estimar muito a limpeza<br>
+ Pola vida a vai trocar:<br>
+ Tambem quem na serra mora<br>
+ Tanto estima a honestidade,<br>
+ Que antes toma ser pastora,<br>
+ Que perder a honestidade<br>
+ A trôco de ser Senhora.<br>
+ Se mais quereis, esta fonte<br>
+ Vos descubra o mais de mim:<br>
+ O que ella vio, ella o conte;<br>
+ Porque eu vou-me para o monte,<br>
+ Porque ha ja muito que vim.</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ó linda minha inimiga,<br>
+ Gentil pastora, esperae!<br>
+ Pois que tanto amor me obriga,<br>
+ Consenti-me que vos siga;<br>
+ Vá o corpo onde alma vae.<br>
+ E pois por vós me perdi,<br>
+ E neste estado Amor pôs<br>
+ Os olhos com que vos vi, <span class="pn"><a
+ name="pag_446">{446}</a></span><br>
+ Pois os deixaste sem mi,<br>
+ Oh não os deixeis sem vós!<br>
+ Porque a Fortuna me disse<br>
+ Que nas serras, onde andais,<br>
+ Em estes extremos tais,<br>
+ Não era bem que vos visse<br>
+ Para não ver de vós mais.<br>
+ E pois Amor se quiz ver<br>
+ Da livre vida vingado,<br>
+ Em que eu sohia viver;<br>
+ Faça em mi o que quizer,<br>
+ Que aqui vou ao jugo atado.</blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo.</em></p>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh Santo Deos verdadeiro,<br>
+ A quem o mundo obedece!<br>
+ Meu filho não apparece.<br>
+ E que me dizeis, Monteiro?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digo-lhe que m' entristece.<br>
+ Qu'eu corri por esses montes,<br>
+ Bem quinze leguas, ou mais,<br>
+ E busquei polos casais,<br>
+ Por serras, montes e fontes,<br>
+ Sem ver novas, nem sinais.<br>
+ Toda a gente que levou,<br>
+ Buscando-o, muito cansada <span class="pn"><a
+ name="pag_447">{447}</a></span><br>
+ Pelo mato anda espalhada;<br>
+ Mas ainda ninguem tomou,<br>
+ Que soubesse delle nada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh fortuna nunca igual!<br>
+ Quem me fara sabedor<br>
+ De meu filho e meu amor?<br>
+ Que se he muito grande o mal,<br>
+ Muito mor he o temor.<br>
+ Quem tolhe que não achasse<br>
+ Algum leão temeroso<br>
+ N'algum monte cavernoso,<br>
+ Que sua fome fartasse<br>
+ Em seu corpo tão formoso?<br>
+ Quem ha que saiba, ou que visse,<br>
+ Que das montanhas erguidas<br>
+ Algum monstro não sahisse,<br>
+ E com seu sangue tingisse<br>
+ As hervas nellas nascidas?<br>
+ Oh filho! vai-me a lembrar<br>
+ Quantas vezes os mandava<br>
+ Que deixasseis o caçar!<br>
+ Não cuidei de adivinhar<br>
+ O que Fortuna ordenava.<br>
+ Eu irei, filho, buscar-vos<br>
+ Por esses montes, por hi,<br>
+ Ou a perder-me, ou cobrar-vos;<br>
+ Que morte que quiz matar-vos,<br>
+ Quero que me mate a mi.<br>
+ Onde fostes fenecido,<br>
+ Seja tambem vosso pae; <span class="pn"><a name="pag_448">{448}</a></span><br>
+ Ser-me-ha acontecido,<br>
+ Como a virote que vae<br>
+ Buscar outro que he perdido.<br>
+ Vós só haveis de ficar,<br>
+ Filodemo, encarregado<br>
+ Para esta casa guardar;<br>
+ Que de vosso bom cuidado<br>
+ Tudo se póde fiar.<br>
+ Ide-vos a fazer prestes,<br>
+ Mandae cavallos sellar;<br>
+ Pois achá-lo não pudestes,<br>
+ Ir-m'heis buscar o lugar<br>
+ Onde da vista o perdestes.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o
+seu.</em></p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Canta.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Los mochachos del Obispo<br>
+ No comen cosa mimosa,<br>
+ Ni zanca d'araña, ni cosa mimosa.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p>
+
+<blockquote>
+ De su sayo colorado<br>
+ Tan lozano me vestió,<br>
+ Que yo ya no soy yo,<br>
+ Ya por otro estoy trocado;<br>
+ Que este sayo me trocó.<br>
+ Oh qué asno Portugues,<br>
+ Que loco por Florimena,<br>
+ Deseó zamarra agena, <span class="pn"><a name="pag_449">{449}</a></span><br>
+ Y dame por enterés<br>
+ Una zamarra tan buena!<br>
+ Como yo vi la bobilla<br>
+ Andar con él en questiones,<br>
+ Y parársele amarilla,<br>
+ Díjele: Florimenilla,<br>
+ Andais en dongolondrones?<br>
+ Él me dijo: Matalote,<br>
+ No tengais dello desmayo.<br>
+ Y en esto, como un rayo,<br>
+ Tomóme mi capirote,<br>
+ Y dióme su capisayo.<br>
+ Capirote, en buena fé,<br>
+ Si vos, cuando en mi entrastes,<br>
+ Capisayo vos tornastes,<br>
+ Que yo por eso cantaré,<br>
+ Pues ansí me mejorastes.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Canta.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Lyrio, lyrio, lyrio loco,<br>
+ Con qué? Con capirotada.<br>
+ Por hablar con la golosa<br>
+ De amores, mirad la cosa!<br>
+ Zamarrilla tan hermosa,<br>
+ Que me ha dado tan honrada,<br>
+ Con qué? Con capirotada.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Yo entonces respondí:<br>
+ Señor, dame pan y queso,<br>
+ Mas despues que lo entendí,<br>
+ Dije á ella: Dale un beso,<br>
+ Que él me dió zamarra á mí. <span class="pn"><a
+ name="pag_450">{450}</a></span><br>
+ Ahora me mirarán<br>
+ Cuantos á la eglesia fueren;<br>
+ Y aquellos que no me quieren,<br>
+ Ahora me rogarán.<br>
+ Sabeis porque no querré?<br>
+ Porque estoy ahidalgado;<br>
+ Y cuando fuere rogado,<br>
+ Cantando responderé,<br>
+ Que ya estoy otro tornado.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Canta e baila.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Soropicote, picote, mozas,<br>
+ Ahora quiero amores con vosotras.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>O Pastor e o Bobo.</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hijo Alonsillo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Hijo Alonsillo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No me quieres escuchar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues déjame suspirar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Escúchame ahora, asnillo,<br>
+ Lo que te quiero mandar.<br>
+ Véte al valle de las rosas,<br>
+ Y di á Anton del Lugar<br>
+ Que si puede acá llegar,<br>
+ Porque tengo muchas cosas <span class="pn"><a
+ name="pag_451">{451}</a></span><br>
+ Que importan para le hablar.<br>
+ Porque es aqui llegado<br>
+ Á este valle un hombre honrado,<br>
+ Mancebo de casta buena,<br>
+ Que amores de Florimena<br>
+ Le traen loco y penado.<br>
+ Dice que quiere casar<br>
+ Con ella, que su tormento<br>
+ No le deja reposar;<br>
+ Y que venga festejar<br>
+ Tan dichoso casamiento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dicid, padre, tambien vos,<br>
+ No quereis casar comigo?<br>
+ Casemos ambos adós.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vé, y haz lo que te digo.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Responde, padre, por Dios.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vé luego, y vuelve apresado.<br>
+ Anda. No quieres andar?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues que me habeis empujado,<br>
+ Juro á mi de desandar<br>
+ Todo cuanto tengo andado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Trabajoso es este insano!<br>
+ Nunca hace lo que quereis.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora no os apasioneis, <span class="pn"><a name="pag_452">{452}</a></span><br>
+ Mi padrecico lozano:<br>
+ Que burlaba, no lo veis?</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Véte dahi.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Héme aqui.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vé donde te dije.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                     Ya vengo.<br>
+ Oh que padrasto que tengo,<br>
+ Que asi me manda por ahi,<br>
+ Siendo camino tan luengo!</blockquote>
+
+<h2>ACTO QUARTO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Dionysa e Solina.</em></p>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>O</big>h Solina, minha amiga,<br>
+ Que todo este coração<br>
+ Tenho posto em vossa mão;<br>
+ Amor me manda que diga,<br>
+ Vergonha me diz que não.<br>
+ Que farei?<br>
+ Como me descobrirei? <span class="pn"><a name="pag_453">{453}</a></span><br>
+ Porque a tamanho tormento<br>
+ Mais remedio lhe não sei,<br>
+ Que entregá-lo ao soffrimento.<br>
+ Meu pae muito entristecido<br>
+ Se vai pela serra erguida,<br>
+ Ja da vida aborrecido,<br>
+ Buscando o filho perdido,<br>
+ Tendo a filha cá perdida!<br>
+ Sem cuidar,<br>
+ Foi a casa encommendar<br>
+ A quem destruir lha quer:<br>
+ Olhae que gentil saber,<br>
+ Que vai comigo deixar<br>
+ Quem me não deixa viver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, em tanto desgôsto.<br>
+ Não posso meter a mão;<br>
+ Mas como diz o rifão,<br>
+ Mais val vergonha no rosto,<br>
+ Que mágoa no coração.<br>
+ E bofé, se eu tanto amasse,<br>
+ E visse tempo e sazão,<br>
+ Sem seu pae, sem seu irmão,<br>
+ Que a nuvem triste tirasse<br>
+ De cima do coração.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ah mana! que tenho medo,<br>
+ Que s'eu em tal consentisse<br>
+ Que logo o mundo o sentisse,<br>
+ Porque nunca houve segredo,<br>
+ Que, emfim, se não descobrisse. <span class="pn"><a
+ name="pag_454">{454}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Se eu tantas dobras tivesse<br>
+ Como quantas houve erradas,<br>
+ Sem que o mundo o soubesse,<br>
+ Á fé qu'eu enriquecesse,<br>
+ E fosse das mais honradas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sabeis que tenho em vontade?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que podeis, Senhora, ter?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Fallar-lhe, só para ver<br>
+ Se he por ventura verdade<br>
+ O que dizeis que me quer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bofé, mana, dizeis bem,<br>
+ E eu o mandarei chamar,<br>
+ Como para lhe rogar<br>
+ Que hum annel, que lá me tem,<br>
+ Que mo mande concertar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dizeis mui bem.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Vou-me lá<br>
+ Chamar o seu moço á sala;<br>
+ E s'este parvo vem cá,<br>
+ Com elle hum pouco rirá,<br>
+ Que sempre amores me fala.<br>
+ Vilardo, moço? <span class="pn"><a name="pag_455">{455}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vilardo e Solina.</em></p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                Quem chama?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vem cá, moço; eu te chamo.<br>
+ Qu'he de teu amo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                   Ah que dama!<br>
+ Perguntais-me por meu amo,<br>
+ E não por hum que vos ama?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E quem he esse amador,<br>
+ Que quer ter comigo passo?<br>
+ Será elle algum madrasso?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu sou o mesmo, que o amor<br>
+ Me quebra pelo espinhasso.<br>
+ E mais vós sabei de mi,<br>
+ Se eu a dizê-lo me atrevo,<br>
+ Que desque esses olhos vi,<br>
+ Que yo ni como, ni bebo,<br>
+ Ni hago vida sin ti.<br>
+ E mais para namorado<br>
+ Não sou ora tão madraço.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Sois muito desmazelado.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas antes, de delicado <span class="pn"><a name="pag_456">{456}</a></span><br>
+ Caio pedaço a pedaço.<br>
+ E mais eu soffrer não posso<br>
+ Que me façais tanto fero,<br>
+ Qu'estou ja posto no osso,<br>
+ Porque sou vosso e revosso,<br>
+ Por vida de quanto quero.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Feros está cheia a rua.<br>
+ Ora estou bem aviada!</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cupido, por vida tua,<br>
+ Que a não faças tão crua,<br>
+ Pois que te não faço nada!<br>
+ Amor, Amor, mas te pido,<br>
+ Que quando se for deitar,<br>
+ Que le digas al oido:<br>
+ Devieis-vos de lembrar<br>
+ Neste tempo de hum perdido.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E tu ja fazes coprinhas?<br>
+ Ainda tu trovarás?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem eu? Por estas barbinhas,<br>
+ Que se vós virdes as minhas,<br>
+ Que digais que não são más.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora, pois me quereis bem,<br>
+ Dizei-me huma.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Ei-la aqui;<br>
+ E veja o saibo que tem; <span class="pn"><a
+ name="pag_457">{457}</a></span><br>
+ Porque esta trovinha assi,<br>
+ Saiba qu'he trova do assem.</blockquote>
+
+<p class="inst_cena"><em>Trova.</em></p>
+
+<blockquote>
+ Passarinhos, que voais<br>
+ Nesta manhãa tão serena,<br>
+ Sabei que só minha pena<br>
+ Póde encher mil cabeçais.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ O rifão está salgado.<br>
+ Essa pena te dou eu?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós e Amor, que de malvado,<br>
+ Me tẽe melhor empennado,<br>
+ Que nenhum virote seu.<br>
+ Pois se me ouvíreis cantar!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E tu es tambem cantor?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Canto melhor que hum açor.<br>
+ Quereis que vos venha dar<br>
+ Musiqueta de primor,<br>
+ E que vos mande tanger<br>
+ Muito melhor que ninguem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ja isso quizera ver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Querer-me-heis, se o eu fizer,<br>
+ Algum pedaço de bem?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Querer-te-hei trinta pedaços. <span class="pn"><a
+ name="pag_458">{458}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E esse querer dará fruito,<br>
+ Que me tire destes laços?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ E que fruito?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Dous abraços.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esse fruito custa muito.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esse he o amor qu'em vós ha?<br>
+ Pezar de minha mãe torta!</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ora hi, chamae logo lá<br>
+ Vosso amo que venha cá,<br>
+ Porque he cousa que importa.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Logo?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+         Logo nessas horas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não estarei aqui mais?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não. Ainda ahi estais?<br>
+ Vós haveis mister esporas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Irei, porque me mandais. <span class="pn"><a name="pag_459">{459}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor.</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas de un mez es ya pasado<br>
+ Que en esta sierra andais;<br>
+ Y es caso mal mirado<br>
+ Que andeis guardando ganado<br>
+ Por una que tanto amais.<br>
+ Y si os determinais<br>
+ En querer casar con ella,<br>
+ Juro á mi que nada errais;<br>
+ Y si eso es para habella,<br>
+ En vano cabras guardais.<br>
+ Ya me distes vuestra fé<br>
+ (Sábenlo estas tierras todas):<br>
+ Yo con ella me engañé,<br>
+ Que luego mandar llamé<br>
+ Quien festejase las bodas.<br>
+ Y agora dicis con pena,<br>
+ Que es dura cosa casar:<br>
+ Pues volveos hora buena,<br>
+ Que no habeis de engañar<br>
+ Con palabras Florimena.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem se ha de ter coração<br>
+ Para tamanho temor?<br>
+ Que em mim pegando estão.<br>
+ De huma parte a razão.<br>
+ E d'outra parte o Amor.<br>
+ Tambem vejo que perdella <span class="pn"><a
+ name="pag_460">{460}</a></span><br>
+ Será minha perdição;<br>
+ Que bem me diz a affeição,<br>
+ Que pouco faço por ella,<br>
+ Pois não desfaço em quem são.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Digoos, si por bajeza<br>
+ Dicis que no os conviene,<br>
+ Daros hé una certeza,<br>
+ Que en sangre y en nobleza,<br>
+ Tanto como vos la tiene.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pastor, digo que daqui<br>
+ Farei tudo que quizerdes;<br>
+ E se mais quereis de mi,<br>
+ Digo que vos dou o si<br>
+ Para tudo o que quizerdes.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dios os dé su bendicion;<br>
+ Y pues que casais con ella,<br>
+ Yo os afirmo en conclusion,<br>
+ Que aun de vos y mas della<br>
+ Verná gran generacion.<br>
+ Yo me voy por ella, hijo,<br>
+ Tomadla asi mal compuesta;<br>
+ Verná quien haga la fiesta;<br>
+ Que en placer y regocijo<br>
+ Nos festeje esta floresta. <span class="pn"><a
+name="pag_461">{461}</a></span></blockquote>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<blockquote>
+ Ó ribeiras tão formosas,<br>
+ Valles, campos pastoris,<br>
+ Porque vos não revestis<br>
+ De novas flores e rosas,<br>
+ Se minha gloria sentis?<br>
+ Porque não seccais, abrolhos?<br>
+ E vós, ágoa, que regando,<br>
+ Os olhos his alegrando,<br>
+ Correi, que tambem meus olhos<br>
+ D'alegres estão manando.<br>
+ Ah pastora, em quem espero<br>
+ Poder viver descansado!<br>
+ Comtigo guardarei gado,<br>
+ Que ja eu sem ti não quero<br>
+ Nenhuma alteza d'estado.<br>
+ Diga o que quizer a gente,<br>
+ Tudo terei n'huma palha,<br>
+ Porque está claro e evidente<br>
+ Que não ha honra que valha<br>
+ Contra a vida descontente.</blockquote>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante
+do pastor, que traz Florimena.</em></p>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pues el amor os obliga<br>
+ Á que hagais tan buena liga, <span class="pn"><a
+ name="pag_462">{462}</a></span><br>
+ Tomando á Dios por testigo,<br>
+ Daqui os la entrego, amigo,<br>
+ Por muger y por amiga.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Consentis nisto, Senhora?</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, em tudo consento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh grande contentamento!</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Saiba que nunca tégora<br>
+ Lhe houve inveja ao tormento.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Asi lo dices, bobilla?<br>
+ Oh! mala dolor os duela!<br>
+ Pero no es maravilla<br>
+ Quien consiente ansi la silla,<br>
+ Consienta tambien la espuela.</blockquote>
+
+<h3>SCENA VI.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Tornão a bailar e cantar, e acabado, entra D.
+Lusidardo, e o Monteiro, que andão em busca de Venadoro.</em></p>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tres dias ha ja que ando<br>
+ Por esta larga espessura<br>
+ A Venadoro buscando;<br>
+ E o que delle vou achando<br>
+ He como quer a Ventura. <span class="pn"><a name="pag_463">{463}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhor, cuido que lá vejo<br>
+ Huns lavradores cantar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Hi diante perguntar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Cumprido he seu desejo,<br>
+ Se a vista não m'enganar.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Como assi?</blockquote>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                  Elle não vê<br>
+ Aquelle pastor loução<br>
+ Com huma moça pela mão?<br>
+ Se Venadoro não he,<br>
+ Nem eu o Monteiro são.</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quien veo allá asomar,<br>
+ Que se viene á nuestras bodas?</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ No los dejemos llegar,<br>
+ Que nos vernan á roubar,<br>
+ Juro á mi, las migas todas.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh Venadoro, meu filho!<br>
+ Es tu este?</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+                 Tal estou,<br>
+ Que cuido que este não sou.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Certo que me maravilho <span class="pn"><a name="pag_464">{464}</a></span><br>
+ De quem tanto te mudou.<br>
+ Como estais assi mudado<br>
+ No rosto e mais no vestido!</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Ando ja n'outro trocado,<br>
+ Tanto, que fiquei pasmado<br>
+ De como fui conhecido.<br>
+ E se Vossa Mercê vem<br>
+ Para me levar daqui,<br>
+ Mais ha de levar que a mi;<br>
+ E ha de ser quem me tem<br>
+ Todo transformado em si.</blockquote>
+
+<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eso porque lo entendeis?<br>
+ Por las migas por ventura?<br>
+ Voto á tal no llevareis:<br>
+ Por mas y por mas que andeis<br>
+ No hareis tal travesura.</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Esta formosa donzella<br>
+ Em mi teve tal poder,<br>
+ Que folguei de me perder;<br>
+ Pois, emfim, vim achar nella<br>
+ O que não cuidei de ser.<br>
+ Tanto em mi pôde este amor,<br>
+ Que a tenho recebida;<br>
+ E se o êrro grave for,<br>
+ Aqui quero ser pastor:<br>
+ Deixe-me ter esta vida.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ He certo tal casamento? <span class="pn"><a name="pag_465">{465}</a></span>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Tenha-o por cousa segura.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Oh grande acontecimento!<br>
+ Dest'arte sabe a ventura<br>
+ Aguar hum contentamento!</blockquote>
+
+<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Óigame, Señor, á mi,<br>
+ Como hombre sabio, discreto,<br>
+ Porque acaeció así,<br>
+ Y lo que supo hasta aqui<br>
+ Lo puede tener por cierto.<br>
+ Muchos años son corridos<br>
+ Que en esta fuente abierta,<br>
+ En estos valles floridos<br>
+ Hallé dos niños nascidos,<br>
+ Y á su madre casi muerta.<br>
+ Los niños chicos crié,<br>
+ (Y desto cierto me arreo)<br>
+ Y á la madre sepulté;<br>
+ Y despues un gran deseo<br>
+ De saber esto tomé.<br>
+ Como yo fuese enseñado<br>
+ De chico á la mágica arte<br>
+ Por mi padre, que es finado;<br>
+ Muy conoscido y nombrado<br>
+ Soy por tal en toda parte.<br>
+ Yo con yervas de la sierra,<br>
+ Animales y otras cosas<br>
+ Haré, si el arte no se yerra,<br>
+ Que desciendan á la tierra <span class="pn"><a
+ name="pag_466">{466}</a></span><br>
+ Las estrellas luminosas.<br>
+ Soy, en fin, certificado<br>
+ Que la madre de los dos<br>
+ Fué Princeza de alto estado.<br>
+ Y por un caso nombrado<br>
+ La trajo á esta tierra Dios.<br>
+ El macho, como creció,<br>
+ Deseoso de otro bien,<br>
+ Á la Corte se partió:<br>
+ La hembra es esta por quien<br>
+ Vuestro hijo se perdió.<br>
+ Y si mas quiere, Señor,<br>
+ De mi arte, prestamente<br>
+ Dello le haré sabedor;<br>
+ Mas ha de ser de tenor<br>
+ Que no lo sepa la gente.</blockquote>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Mas vamos-nos, se quereis,<br>
+ Que não soffro dilação,<br>
+ A minha casa, e então<br>
+ Lá disso me informareis,<br>
+ Que caso he de admiração.<br>
+ E vós, filho, não cuideis<br>
+ Que a gloria de vos achar<br>
+ Não he tanto d'estimar,<br>
+ Qu'em qualquer 'stado que esteis,<br>
+ Não folgue de vos levar. <span class="pn"><a name="pag_467">{467}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h2>ACTO QUINTO.</h2>
+
+<h3>SCENA I.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Solina, Dionysa e Filodemo.</em></p>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ <big>E</big>is Filodemo lá vem:<br>
+ Asinha acudio ao leme.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Isso he de quem quer bem;<br>
+ Mas não sei se o vio alguem,<br>
+ Porque quem espera teme.<br>
+ Agora me quizera eu<br>
+ Daqui cem mil leguas ver.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Folgára eu assi de ser,<br>
+ Porqu'este cuidado meu<br>
+ Fôra mais de agradecer.<br>
+ Que quando por accidente<br>
+ A Fortuna desastrada<br>
+ Vos apartasse da gente<br>
+ N'hum deserto, onde somente<br>
+ Das feras fosseis guardada;<br>
+ Lá por ferro, fogo e ágoa<br>
+ Buscar minha morte iria;<br>
+ A voz ronca, a lingua fria,<br>
+ Tamanho mal, tanta mágoa<br>
+ Ás montanhas contaria.<br>
+ Lá, mui contente e ufano<br>
+ De mostrar amor tão puro, <span class="pn"><a
+ name="pag_468">{468}</a></span><br>
+ Poderia ser que o dano,<br>
+ Que não move hum peito humano,<br>
+ Que movesse hum monte duro.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Nesse deserto apartado<br>
+ De toda a conversação<br>
+ Merecieis degradado<br>
+ Por justiça, com pregão<br>
+ Que dissesse: <em>Por ousado</em>.<br>
+ E eu tambem merecia<br>
+ Metida a grave tormento,<br>
+ Pois que, como não devia,<br>
+ Vim a dar consentimento<br>
+ A tão sobeja ousadia.</blockquote>
+
+<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, se me atrevi,<br>
+ Fiz tudo o que Amor ordena;<br>
+ E se pouco mereci,<br>
+ Tudo o que perco por mi,<br>
+ Mereço por minha pena.<br>
+ E se Amor pôde vencer,<br>
+ Levando de mi a palma,<br>
+ Eu não lho pude tolher;<br>
+ Que os homens não tẽe poder<br>
+ Sôbre os affectos da alma.<br>
+ E ainda que pudera<br>
+ Resistir contra o mal meu.<br>
+ Saiba que o não fizera;<br>
+ Que pouco valêra eu,<br>
+ Se contra vós me valêra.<br>
+ Não deve logo ter culpa <span class="pn"><a
+ name="pag_469">{469}</a></span><br>
+ Quem se venceo d'armas tais:<br>
+ Assi que nisto, e no mais,<br>
+ Tomo por minha desculpa<br>
+ Vós mesma que me culpais.<br>
+ E se este atrevimento<br>
+ Com tudo for de culpar,<br>
+ Acabae de me matar;<br>
+ Que aqui tenho hum soffrimento<br>
+ Que tudo póde passar.<br>
+ E se esta penitencia,<br>
+ Que faço em me perder,<br>
+ Algum bem vos merecer,<br>
+ Fique em vossa consciencia<br>
+ O que me podeis dever.<br>
+ Que dizeis a isto, Senhora?</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu que vos posso dizer?<br>
+ Ja não tenho em mi poder,<br>
+ Segundo me sinto agora,<br>
+ Para poder responder.<br>
+ Respondei-lhe, vós Solina,<br>
+ Pois que a vós me entreguei.<br>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Bofé não responderei:<br>
+ Veja ella o que determina.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Não o vejo, nem o sei.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Pois eu tambem não sei nada.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Porque? <span class="pn"><a name="pag_470">{470}</a></span></blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+           Do que eu fizer,<br>
+ Se despois se arrepender,<br>
+ Dirá qu'eu fui a culpada.<br>
+</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Eu só quero a culpa ter.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Senhora, por não errar,<br>
+ Não quero que fique em mim.<br>
+ Esta noite no jardim<br>
+ Ambos podem praticar<br>
+ Como isto venha a bom fim.<br>
+ Lá poderão ajustar<br>
+ Entr'ambos o parecer;<br>
+ Qu'eu não m'hei nisso de achar,<br>
+ Que não quero temperar<br>
+ O que outrem ha de comer.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vós vêdes a torvação,<br>
+ Que lá nessa casa vae?</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Dá-me cá no coração<br>
+ Que he vindo o Senhor seu pae<br>
+ Com o Senhor seu irmão.</blockquote>
+
+<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Filodemo, hi-vos embora,<br>
+ Fallae depois com Solina.</blockquote>
+
+<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Vamos-nos tambem, Senhora.<br>
+ Receber seu pae lá fóra;<br>
+ Não venha sentir a mina. <span class="pn"><a name="pag_471">{471}</a></span>
+</blockquote>
+
+<h3>SCENA II.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina
+com os Musicos.</em></p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre andão rugindo as
+sedas.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Avante, que bem sei que o não dizeis polas sedas de Veneza.</p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>Ja sabeis que esta nossa Solina he tão Celestina, que não ha quem a traga
+a nós.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, dará e tomará
+quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher de sua
+arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes são como homens
+sisudos; se de noite se achão em algum arruido, onde possão fugir sem serem
+conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia quem ha de cuidar que hum tão
+honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem pode ser, porque noite escura he capa
+de Judeos e de envergonhados.</p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>Mui gentil comparação he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi
+zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous meus
+amigos, que logo hão de vir aqui ter comnosco.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Que tal he a musica que determinas de lhe dar? <span class="pn"><a
+name="pag_472">{472}</a></span> Não seja de siso; porque será a maior
+parvoice do mundo, porque não concerta com a parvoice que tu finges.</p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>A musica não he senão das nossas; mas faço-te queixume, que nem com hum
+cão de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Nem as acharás senão alugadas; mas eu não sou de opinião que teus amores
+te custem dinheiro. Ora ja lá apparecem os outros companheiros, e eu tambem
+ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto á popa, porque daqui iremos
+á porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum certo requerimento.</p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>Vossas Mercês vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem
+temperadas?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justiça entretanto.</p>
+
+<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p>
+
+<p>Ora sus: fazei como se temperasseis cabeça de pescada com seu figado e
+bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa
+nova.</p>
+
+<p class="inst_cena"><em>Neste passo se dá a musica com todos quatro, hum
+tange guitarra, outro pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito
+velhas, e no melhor diz Vilardo:</em></p>
+
+<p class="ni">Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p>
+
+<p>Justiça, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui não ha outro valhacouto que nos
+valha, que pôr os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras. <span
+class="pn"><a name="pag_473">{473}</a></span></p>
+
+<h3>SCENA III.</h3>
+
+<p class="personagem">O M<small>ONTEIRO</small> <em>só</em>.</p>
+
+<p>Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quão gracioso sería quem
+o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoço, porque não
+podessem entender nelle Meirinhos, Almotacés da limpeza, trabalhos,
+esperanças, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora notae bem
+de quantas côres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo: perdeo-se Venadoro na
+caça, eis a casa toda envolta como rio: o pae enfadado, a irmãa triste, a
+gente desgostosa; tudo, emfim, fóra do couce; e o galante aposentado nos matos
+com trajos mudados como camaleão, decepado dos pés e das mãos, por huma
+serranica d'Alentejo; e veio acaso a sahir de maneira fóra da madre, que a
+recebeo por mulher; e rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as
+lembranças de seu pae; pois tanto tomou ao pé da letra o que Deos disse:
+<em>Por esta deixarás teu pae e mãe</em>. E attentae isto por me fazer
+mercê: cuidareis que este caso era <em>solus peregrinus</em>: sabei que os
+não dá a fortuna senão aos pares, como quédas. Dionysa mais mimosa e mais
+guardada de seu pae que bicho de seda, moça sem fel como pombinha, que nos
+annos não tinha feito inda o enequim; mais formosa que huma manhãa do S.
+João, mais mansa que o Rio Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso,
+mais delicada que hum pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua
+conversação se poderá soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a
+parricida, <span class="pn"><a name="pag_474">{474}</a></span> com tanto que
+dissesse o pregão o porque; porque vos não fieis em castanhas (não sei se
+diga, se o cale, que de magoado me trava pola manga a falla da garganta; mas,
+com tudo, não ha quem se tenha) seu pae a achou esta noite no jardim com
+Filodemo, mais arrependida do tempo que perdêra, que do que alli perdia: eu,
+coitado de mi, que meta os dentes nos cabeçaes se desejar ave de penna.</p>
+
+<h3>SCENA IV.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Duriano e o Monteiro.</em></p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO</small>, <em>como cantando</em>.</p>
+
+<p>Ti ri ri, ti ri rão.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos são esses? Onde he cá a ida
+agora?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Vou assi como parvo, porque o melhor he não saber homem nada de si.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo que
+ficou só em casa?</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se não he isso
+caso para sahir com elle a desafio.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Porque? <span class="pn"><a name="pag_475">{475}</a></span></p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Porque não basta que lhe dê a Fortuna gostos tão medidos sôbre o funil,
+que lhe põe nos braços Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou
+cabellos ao vento, senão ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe vem a
+descobrir, que he filho de não sei quem, nem quem não.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Esses são outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja sôbre
+isso não sei que fábulas.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que não he menos que Principe, e peor ainda.
+Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor Dom Lusidardo que aggravado del
+Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca?</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Tudo isso ouvi ja.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que ElRei de Dinamarca
+lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moça; e como era bom
+justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher abalão,
+desejou ella de ver geração delle; senão quando, livre-nos Deos! se lhe
+começou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos não se desistem em nove
+dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle então necessario acolher-se com
+ella, porque não colhessem a ella com elle: acolheu-se em huma galé; e vêde
+la Princeza em huma galera nueva, con el marinero á ser marinera. Finalmente,
+vindo navegando todo esse Oceano Germanico, bancos de Frandes, <span
+class="pn"><a name="pag_476">{476}</a></span> mar d'Inglaterra, e trazidos á
+costa d'Hespanha, não os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella
+buscavão: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a galé á
+costa, onde feita pedaços, morrêrão todos desastradamente, sem escapar mais
+que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece que a Fortuna
+guardava para dar o descanso, que a seu pae e mãe negára. Sahio finalmente a
+moça na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria huma Princeza mais
+delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher pola terra estranha e
+despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde, despois de ter perdido toda a
+esperança de ter algum remedio, derão-lhe as dores de parto junto de huma
+fonte, aonde em breve espaço lançou duas crianças, macho e femia, como
+vizagras. E como a fraca compreição da delicada mulher não pudesse sustentar
+tantos e tão desacostumados trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia
+que desejava de dar, deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae,
+que por causa de seus nascimentos a vida lhe tirárão, como acontece a
+viboras. E como as crianças fossem destinadas ao que vêdes, não faltou hum
+pastor que as criasse, que alli veio ter, dando a mãe a alma a Deos: de
+maneira que, por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e
+a femia he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo
+namorar a filha do Senhor <span class="pn"><a name="pag_477">{477}</a></span>
+que serve: não haverá logo por mal o Senhor Dom Lusidardo tomar por genro e
+nora, quem acha por sobrinhos.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se
+parece natural com seu irmão, e Florimena com sua mãe.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Dae-me a entender, como se creo tão de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de
+quem isso contou.</p>
+
+<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p>
+
+<p>No caso não ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou
+todo o caso; e fez ao pastor muitas mercês, e mandou fazer muitas festas
+solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o mesmo
+parentesco tẽe com a Senhora Dionysa, estão fóra de crer tamanho
+contentamento; cuido que zombão delle.</p>
+
+<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p>
+
+<p>Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu
+matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo:
+dissimulemos.</p>
+
+<h3>SCENA V.</h3>
+
+<p class="inst_cena"><em>Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela
+mão, e Filodemo a Dionysa.</em></p>
+
+<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p>
+
+<blockquote>
+ Quem não ficará pasmado<br>
+ De ver que por tal caminho <span class="pn"><a
+ name="pag_478">{478}</a></span><br>
+ Tẽe a Ventura ordenado<br>
+ Filodemo, meu criado,<br>
+ Vir ser meu genro e sobrinho!<br>
+ Quem não pasmará agora<br>
+ De ver a ventura minha,<br>
+ Que tẽe tornado n'hum'hora<br>
+ Florimena, huma pastora,<br>
+ Ser minha nora e sobrinha!<br>
+ Dem-se graças ao Senhor,<br>
+ Cujo segredo he profundo;<br>
+ Pois que vemos que quiz dar<br>
+ A ventura e o amor<br>
+ Por prazeres deste mundo.</blockquote>
+</div>
+
+
+
+<div id="cartas">
+
+<h1>CARTAS.</h1>
+
+ <span class="pn"><a name="pag_481">{481}</a></span>
+
+
+<h2>CARTAS.</h2>
+
+
+<h3>CARTA I.</h3>
+
+<p class="ni"><big>D</big>esejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito
+desejar a não vi; porque este he o mais certo costume
+da Fortuna, consentir que mais se deseje o que mais
+presto ha de negar. Mas porque outras naos me não
+fação tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar
+que vos não lembro, determinei de vos obrigar
+agora com esta; na qual pouco mais ou menos vereis
+o que quero que me escrevais dessa terra. Em
+pago do qual, d'ante mão vos pago com novas
+desta, que não serão más no fundo de huma arca
+para aviso de alguns aventureiros, que cuidão que
+todo o mato he ouregãos, e não sabem que cá e lá
+más fadas ha.</p>
+
+<p>Despois que dessa terra parti, como quem o fazia
+para o outro mundo, mandei enforcar a quantas esperanças
+dera de comer até então, com pregão público:
+<em>Por falsificadoras de moeda</em>. E desenganei esses
+pensamentos, que por casa trazia, porque em mim não
+ficasse pedra sobre pedra. E assi posto em estado, que
+me não via senão por entre lusco e fusco, as derradeiras <span class="pn"><a name="pag_482">{482}</a></span>
+palavras que na nao disse, forão as de Scipião
+Africano: <em>Ingrata patria, non possidebis ossa mea</em>.
+Porque quando cuido, que sem peccado que me obrigasse
+a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de más
+linguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas
+de pura inveja, de verem <em>su amada yedra de sí arrancada,
+y en otro muro asida</em>.... Da qual tambem
+amizades mais brandas que cera, se accendião em
+odios que disparavão lume que me deitava mais pingos
+na fama, que nos couros de hum leitão. Então
+ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude
+de Achilles, que não podia ser cortado senão
+pelas solas dos pés; as quaes de mas não verem
+nunca, me fez ver as de muitos, e não engeitar conversações
+da mesma impressão, a quem fracos punhão
+mao nome, vingando com a lingua o que não podião
+com o braço. Emfim, Senhor, eu não sei com que
+me pague saber tão bem fugir a quantos laços nessa
+terra me armavão os acontecimentos, como com me
+vir para esta, onde vivo mais venerado que os touros
+de Merceana, e mais quieto que a cella de hum
+Frade Prégador. Da terra vos sei dizer que he mãe
+de villões ruins, e madrasta de homens honrados.
+Porque os que se cá lanção a buscar dinheiro, sempre
+se sustentão sobre ágoa como bexigas; mas os que
+sua opinião deita á las armas Mouriscote, como maré
+corpos mortos á praia, sabei que antes que amadureção,
+se seccão. Ja estes que tomavão esta opinião
+de valentes ás costas, crede que nunca riberas de
+Duero arriba cavalgaron Zamoranos, que roncas de
+tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem <span class="pn"><a name="pag_483">{483}</a></span>
+ao effeito da obra, salvão-se com dizer que se não
+podem fazer tamanhas duas cousas, como he, prometter
+e dar. Informado disto veio a esta terra João Toscano,
+que, como se achava em algum magusto de rufiões,
+verdadeiramente que alli era su comer las carnes
+crudas, su beber la viva sangre. Callisto de Siqueira
+se veio cá mais humanamente, porque assi o prometteo
+em huma tormenta grande em que se vio. Mas
+hum Manoel Serrão, que, <em>sicut et nos</em>, manqueja de
+hum olho, se tẽe cá provado arrezoadamente, porque
+fui tomado por juiz de certas palavras, de que elle
+fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de
+sua pessoa era cá tido em boa conta. Se das damas
+da terra quereis novas, as quaes são obrigatorias a
+huma carta, como marinheiros á festa de S. Frei Pero
+Gonçalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de
+maduras, que não ha cabo que lhe tenha os pontos,
+se lhe quizerem lançar pedaço. Pois as que a terra
+dá? além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe
+falleis alguns amores de Petrarca, ou de Boscão; respondem-vos
+huma linguagem meada de hervilhaca,
+que trava na garganta do entendimento, a qual vos
+lança ágoa na fervura da mor quentura do mundo.
+Ora julgae, Senhor, o que sentirá hum estomago costumado
+a resistir ás falsidades de hum rostinho de
+tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho
+novo com ágoa, vendo-se agora entre esta
+carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como não
+chorará las memorias de in illo tempore! Por amor
+de mi, que ás mulheres dessa terra digais de minha
+parte que se querem absolutamente ter alçada com baraço <span class="pn"><a name="pag_484">{484}</a></span>
+e pregão, que não receiem seis mezes de má vida
+por esse mar, que eu as espero com procissão e palio,
+revestido em pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe
+irão entregar as chaves da cidade, e reconhecerão
+toda a obediencia, a que por sua muita idade são ja
+obrigadas. Por agora não mais, senão que este Soneto<sup><a href="#rodape3" name="m_rodape3">[3]</a></sup>
+que aqui vai, que fiz á morte de Dom Antonio
+de Noronha, vos mando em sinal de quanto della me
+pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a
+qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe,
+que me parece melhor que quantas fiz. Tambem vo-la
+mandára para a mostrardes lá a Miguel Dias, que
+pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver;
+mas a occupação de escrever muitas cartas para o
+Reino, me não deo lugar. Tambem lá escrevo a Luis
+de Lemos em resposta d'outra que vi sua: se lha
+não derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual
+tudo se perde.</p>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 5em;">Vale.</p>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_rodape3" name="rodape3">[3]</a></sup> He o Soneto 12.</p>
+</div>
+
+
+<h3>CARTA II.</h3>
+
+<p class="ni"><big>E</big>sta vai com a candeia na mão morrer nas de v. m.;
+e se dahi passar, seja em cinza; porque não quero
+que do meu pouco comão muitos. E se todavia quizer
+meter mais mãos na escudella, mande-lhe lavar
+o nome, e valha sem cunhos. <span class="pn"><a name="pag_485">{485}</a></span></p>
+
+<blockquote class="verso">
+La mar en medio y tierras, he dejado<br>
+Á cuanto bien cuitado yo tenia:<br>
+Cuan vano imaginar, cuan claro engaño<br>
+Es darme yo á entender que con partirme<br>
+De mí se ha de partir un mal tamaño!
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Quão mal está no caso quem cuida que a mudança
+do lugar muda a dor do sentimento! E senão, diga-o
+quien dijo que la ausencia causa olvido. Porque
+emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha.
+Ao alvo destes cuidados jogão meus pensamentos á
+barreira, tendo-me ja, pelo costume, tão contente de
+triste, que triste me faria ser contente; porque o longo
+uso dos annos se converte em natureza. Pois o que
+he para mor mal, tenho eu para mor bem. Aindaque,
+para viver no mundo, me debruo d'outro panno, por
+não parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum
+para ser outro, sendo outro para ser hum; mas a dor
+dissimulada dara seu fruito; que a tristeza no coração,
+he como a traça no panno.</p>
+
+<blockquote class="verso">
+E por tão triste me tenho,<br>
+Que se sentisse alegria,<br>
+De triste não viviria.<br>
+Porque a tal sorte vim,<br>
+Que não vejo bem algum<br>
+Em quanto vejo,<br>
+Que não nasceo para mim;<br>
+E por não sentir nenhum,<br>
+Nenhum desejo.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Porque cousas impossiveis, he melhor esquecê-las que
+deseja-las. E por isso</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Só, tristeza, vos queria,<br>
+Pois minha ventura quer <span class="pn"><a name="pag_486">{486}</a></span><br>
+Que só ella<br>
+Conheça por alegria;<br>
+E que se outra quizer,<br>
+Morra por ella.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Pouco sabe da tristeza quem (sem remedio para ella)
+diz ao triste que se alegre. Pois não vê que alheios
+contentamentos a hum coração descontente, não lhe
+remediando o que sente, lhe dóbrão o que padece.
+Vós, se vem á mão, esperais de mim palavrinhas
+joeiradas, enforcadas de bons propositos. Pois desenganae-vos,
+que desque professei tristeza, nunca mais
+soube jogar a outro fito. E porque não digais, que não
+sou gente fóra do meu bairro, vêdes, vai huma volta
+feita a este mote, que escolhi na manada dos engeitados;
+e cuido que não he tão dedo queimado, que não
+seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Não quero, não quero<br>
+Jubão amarello.<br>
+<br>
+Se de negro for,<br>
+Tão bem me parece,<br>
+Quanto me aborrece<br>
+Toda alegre côr:<br>
+Côr que mostra dor,<br>
+Quero, e não quero<br>
+Jubão amarello.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Parece-vos que se póde dizer mais? Não me respondais:
+Quem gabará a noiva? porque assentae, que fui
+comendo e fazendo, ou assoprando, que não he tão
+pequena habilidade. E porque vos não pareça, que
+foi mais acertar, que querê-lo fazer; vêdes, vai outra
+do mesmo jaez, com tanto que se não vá a pasmar. <span class="pn"><a name="pag_487">{487}</a></span></p>
+
+<blockquote class="verso">
+Perdigão perdeo a penna,<br>
+Não ha mal, que lhe não venha.<br>
+<br>
+Em hum mal outro começa,<br>
+Que nunca vem só nenhum;<br>
+E o triste que tẽe hum,<br>
+A soffrer outro se offreça;<br>
+E só pelo ter conheça,<br>
+Que basta hum só que tenha,<br>
+Para que outro lhe venha.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Que graça será esperardes de mim propositos em
+cousa que os não tẽe para comigo? Pois ainda que
+queira, não posso o que quero; que hum sentido remontado,
+de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe succede
+assi; e cada hum acode ao que lhe mais doe; e
+mais eu, que o que mais me entristece he ter contentamento,
+pois fujo delle, que minha alma o aborrece,
+porque lhe lembra que he virtude viver sem elle.
+Que ja sabeis que mágoa he, vê-lo-has e não o paparás.
+Por fugir destes inconvenientes,</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Toda a cousa <span class="typo" title="no original: desontente">descontente</span><br>
+Contentar-me só convinha<br>
+De meu gôsto:<br>
+Que o mal, de que sou doente,<br>
+Sua mais certa mézinha<br>
+He desgôsto.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que não podes haver,
+dá-o pola tua alma. O mal sem remedio, o mais certo
+que tẽe, he fazer da necessidade virtude: quanto mais,
+se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque,
+emfim, allegados son iguales los que viven por
+sus manos etc. A este proposito, pouco mais ou
+ <span class="pn"><a name="pag_488">{488}</a></span>
+menos, se fizerão humas voltas a hum mote d'enchemão,
+que diz por sua arte zombando, mais que não
+de siso (que toda a galantaria he tirá-la donde se não
+espera), o qual crede que tẽe mais que roer do que
+hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida,
+e mande escumar o entendimento, que d'outra
+maneira, de fuera dormiredes, pastorcico. E o meu
+Senhor diz assi:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Dava-lhe o vento no chapeirão,<br>
+Quer lhe dê, quer não.<br>
+<br>
+Bem o póde revolver,<br>
+Que o vento não traz mais fruito;<br>
+E mais vento he sentir muito<br>
+O que, emfim, fim ha de ter.<br>
+O melhor, he melhor ser,<br>
+Que o vento no chapeirão,<br>
+Quer lhe dê, quer não.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem
+do mal, que o mal do bem; porque muito mais se
+sente o por vir, que o passado; e a morte até matar,
+mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto;
+porque para tomar a palha a esta materia, são necessarias
+azas de Nebri. Mas vós sois homem de prol,
+e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que
+de mi vos sei dar he:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Que esperança me despede,<br>
+Tristeza não me fallece,<br>
+E tudo o mais me aborrece.<br>
+Ja que mais não mereceo<br>
+Minha estrella,<br>
+Só a tristeza conheço, <span class="pn"><a name="pag_489">{489}</a></span><br>
+Pois que para mi nasceo,<br>
+E eu para ella.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">No mundo não tẽe boa sorte, senão quem tẽe por boa
+a que tẽe. E daqui me vem contentar-me de triste.
+Mas olhae de que maneira:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Vivo assi ao revés,<br>
+Tomando por certa vida<br>
+Certa morte,<br>
+Com que fólgo em que me pês;<br>
+Pois minha sorte he servida<br>
+De tal sorte.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Huma cousa sabei, que o mal, inda que ás vezes o
+vejais louvar, não ha quem o louve com a boca, que
+o não tache com o coração.</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Ajuda-me a soffrer<br>
+Vida tão sem soffrimento,<br>
+E tão sem vida,<br>
+Ver que, emfim, fim hão de ter<br>
+Desgôsto e contentamento<br>
+Sem medida.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Attentae que não são maos confeitos de enforcado,
+para os que estão com o baraço na garganta, cuidar
+que o bem e o mal, aindaque sejão differentes na
+vida, são conformes na morte; porque vemos</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Que não ha tão alta sorte,<br>
+Nem ventura tão subida,<br>
+Ou desastrada,<br>
+A quem o assópro da morte<br>
+Não sopre o fogo da vida.<br>
+<br>
+A seu fim todas cousas vão correndo;<br>
+Nem ha cousa, que o tempo não consuma, <span class="pn"><a name="pag_490">{490}</a></span><br>
+Nem vida, que de si tanto presuma,<br>
+Que se não veja nada, em se vendo.<br>
+<br>
+Que o mais certo que temos,<br>
+He não termos nada certo<br>
+Cá na terra.<br>
+Pois para seus não nascemos;<br>
+Se o seu nos dá incerto,<br>
+Nada erra.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se
+fez a hum certo recontro que se teve com este destruidor
+de bons propositos, e não se acabou, porque se
+teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Forçou-me amor hum dia, que jogasse;<br>
+Deo as cartas, e az de ouros levantou;<br>
+E sem respeitar mão, logo triumphou,<br>
+Cuidando que o metal, que me enganasse.<br>
+<br>
+Dizendo, pois triumphou, que triumphasse<br>
+A huma sota de ouros, que jogou,<br>
+Eu então por burlar quem me burlou,<br>
+Tres paos joguei, e disse que ganhasse.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Principes de condição, ainda que o sejão de sangue,
+são mais enfadonhos que a pobreza: fazem com sua
+fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias de seus avós,
+onde não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma
+hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim,
+para dar que fallar a hum convento. Duas cousas
+não se soffrem sem discordia; companhia no amar,
+mandar villão ruim sôbre cousa de seu interesse.
+Não se póde ter paciencia com quem quer que lhe
+fação o que não faz. Desagradecimentos de boas
+obras destruem a vontade para não fazê-las a amigo,
+ <span class="pn"><a name="pag_491">{491}</a></span>
+que tẽe mais conta com o interesse, que com a amizade:
+rezae delle, que he dos cá nomeados.</p>
+
+<p>Grande trabalho he querer fazer alegre rosto,
+quando o coração está triste: panno he, que não toma
+nunca bem esta tinta; que a lua recebe a claridade
+do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá
+honra no que dá: não tẽe que agradecer, quem, no
+que recebe, a não recebe; porque bem comprado vai
+o que com ella se compra. Não se dá de graça o
+que se pede muito. Estai certo, que quem não tẽe
+huma vida, tẽe muitas. Onde a razão se governa
+pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que
+louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto
+comsigo, como males de que se não guardárão, podendo.
+Não ha alma sem corpo, que tantos corpos
+faça sem almas, como este purgatorio, a que chamais
+honra: onde muitas vezes os homens cuidão que a
+ganhão, ahi a perdem. Onde ha inveja, não ha amizade;
+nem a póde haver em desigual conversação.
+Bem mereceo o engano, quem creo mais o que lhe
+dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver no
+mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo.
+E para muito pontual, perguntae-lhe donde vem: vereis
+que algo tiene en el cuerpo, que le duele. Ora
+temperae-me lá esta gaita, que nem assi, nem assi
+achareis meio real de descanso nesta vida; ella nos
+trata somente como alheios de si, e com razão;</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Pois somente nos he dada<br>
+Para que ganhemos nella<br>
+O que sabemos.<br>
+Se se gasta mal gastada, <span class="pn"><a name="pag_492">{492}</a></span><br>
+Juntamente com perdella<br>
+Nos perdemos.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que
+mais fazemos, he a mais fraca alfaia de que nos servimos.
+E se queremos ver quão breve he,</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Ponderemos e vejamos<br>
+Que ganhamos em viver<br>
+Os que nascemos:<br>
+Veremos, que não ganhamos,<br>
+Senão algum bem fazer,<br>
+Se o fazemos.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">E por isso respeitando,</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Que o por vir tal será,<br>
+Enthesouremos;<br>
+Porque ao certo não sabemos<br>
+Quando a morte pedirá<br>
+Que lhe paguemos.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada,
+que a morte: sendo mais aborrecida que a verdade,
+tẽe-se em menos conta que a virtude. Mas com
+tudo, com seu pensamento, quando lhe vem á vontade,
+acarreta mil pensamentos vãos; que tudo para com
+ella he hum lume de palhas. Nenhuma cousa me
+enche tanto as medidas para com estes que vivem na
+mor bonança, como ella; porque quando lhe menos
+lembra, então lhe arranca as amarras, dando com os
+corpos á costa; e, se vem á mão, com as almas no
+inferno, que he bem ruim gasalhado.</p>
+
+<blockquote class="verso">
+E pois todos isto temos,<br>
+Não nos engane a riqueza,<br>
+Por que tanto esmorecemos, <span class="pn"><a name="pag_493">{493}</a></span><br>
+Traz que vamos;<br>
+Ja que temos por certeza<br>
+Que quando mais a queremos,<br>
+A deixamos.<br>
+<br>
+Gastâmos em alcançá-la<br>
+A vida; e quando queremos<br>
+Usar della,<br>
+Nos tira a morte lográ-la:<br>
+Assi que a Deos perdemos,<br>
+E a ella.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Porque ja ouvirieis dizer: <em>Ninho feito, pêga morta</em>.
+Que me dizeis ao contentamento do mundo, que toda
+a dura delle está emquanto se alcança? Porque
+acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão,
+porque acabado de alcançar, he passado; e maior
+saudade deixa, do que he o contentamento que deo.
+Esperae, por me fazer mercê, que lhe quero dar humas
+palavrinhas de proposito.</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Mundo, se te conhecemos,<br>
+Porque tanto desejamos<br>
+Teus enganos?<br>
+E se assi te queremos,<br>
+Mui sem causa nos queixamos<br>
+De teus danos.<br>
+<br>
+Tu não enganas ninguem;<br>
+Pois a quem te desejar,<br>
+Vemos que danas:<br>
+Se te querem qual te vem,<br>
+Se se querem enganar,<br>
+Ninguem enganas.<br>
+<br>
+Vejão-se os bens que tiverão<br>
+Os que mais em alcançar-te<br>
+Se esmerárão;<br>
+Que huns vivendo, não vivêrão, <span class="pn"><a name="pag_494">{494}</a></span><br>
+E outros, só com deixar-te,<br>
+Descansárão.<br>
+<br>
+Se esta tão clara fé<br>
+Te põe claros teus enganos,<br>
+Desengana:<br>
+Sobejamente mal vê,<br>
+Quem com tantos desenganos<br>
+Se engana.<br>
+<br>
+Mas como tu sempre mores<br>
+No engano em que andamos,<br>
+E que vemos,<br>
+Não cremos o que tu podes,<br>
+Senão o que desejamos<br>
+E queremos.<br>
+<br>
+Nada te póde estimar<br>
+Quem bem quizer conhecer-te<br>
+E estimar-te;<br>
+<br>
+Qu'em te perder ou ganhar,<br>
+O mais seguro ganhar-te<br>
+He perder-te.<br>
+<br>
+E quem em ti determina<br>
+Descanso poder achar,<br>
+Saiba que erra;<br>
+Que sendo a alma divina,<br>
+Não a póde descansar<br>
+Nada da terra.<br>
+<br>
+Nascemos para morrer,<br>
+Morremos para ter vida,<br>
+Em ti morrendo:<br>
+O mais certo he merecer<br>
+Nós a vida conhecida,<br>
+Ca vivendo.<br>
+<br>
+Emfim, mundo, es estalagem,<br>
+Em que pousão nossas vidas<br>
+De corrida: <span class="pn"><a name="pag_495">{495}</a></span><br>
+De ti levão de passagem<br>
+Ser bem ou mal recebidas<br>
+Na outra vida.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Á fuera, á fuera Rodrigo, que eu se muito for por
+este caminho, darei em enfadonho, de que me parece
+me não livrará, nem ainda privilegio de Cidadão do
+Porto. E pois me vendo a vós, soffrei-me com meus
+encargos. E porque não digais que sou herege de
+amor, e que lhe não sei orações, vêdes, vai huma:
+<em>Di, Juan, de qué murió Blas?</em> com hum pé á Portugueza,
+e outro á Castelhana: e não vos espanteis
+da libré, que eu em qualquer palmo desta materia
+perco o norte. E os supplicantes dizem assi:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Di, Juan, de que murió Blas,<br>
+Tan niño y tan mal logrado?<br>
+Gil, murió de desamado.<br>
+<br>
+Dime, Juan, quien se engañó,<br>
+Que con amor se engañase,<br>
+Pensando que el bien hallase,<br>
+Adonde el mal cierto halló?<br>
+Despues que el engaño vió,<br>
+Que hizo desenganado?<br>
+Gil, murió de desamado.<br>
+<br>
+Travou com elle pendença,<br>
+Em ter razão confiado;<br>
+Mas Amor, como he letrado,<br>
+Houve contr'elle a sentença:<br>
+E co'aquella differença,<br>
+Disse entre si o coitado:<br>
+Gil, morreo de desamado.<br>
+<br>
+Quem tẽe razão tão cerrada,<br>
+Que não saiba, sendo rudo<br>
+E sem respeito, <span class="pn"><a name="pag_496">{496}</a></span><br>
+Que sem Deos he tudo nada,<br>
+E nada com elle tudo<br>
+Sem defeito?<br>
+<br>
+E sendo isto assi tão certo,<br>
+Como todos confessamos<br>
+E sabemos;<br>
+Não troquemos pelo incerto<br>
+O em que tão certo estamos,<br>
+Pois o vemos.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">A tudo isto podeis responder, que todos morremos do
+mal de Phaeton, porque del dicho al hecho, vá gran
+trecho. E de saber as cousas a passar por ellas,
+ha mais differença, que de consolar a ser consolado.
+Mas assi entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos
+a reprehendê-lo, e poucos a emendá-lo. E com isto
+amaino, beijando essas poderosas mãos huma quatrinqua
+de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa
+nosso Senhor etc.</p>
+
+<p class="centrado">&mdash;&mdash;</p>
+
+
+<p class="ni" style="font-size: small; margin-left: 2em; text-indent: -2em;"><em>O seguinte fragmento de uma composição satyrica em
+prosa e verso, em que Luis de Camões descreve uns
+jogos de canas, com que na cidade de Goa se festejou
+a successão de Francisco Barreto no governo daquelle
+Estado, appareceo na 3.ª edição das suas Rimas, com
+as duas antecedentes cartas, e em seguimento da ultima.
+O intento do poeta he mostrar por meio das divisas
+que tirárão os Justadores, que todos elles erão ou
+sacerdotes de Baccho, ou parvos, ou homens perdidos.</em></p>
+
+<p class="ni">.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa
+hum morcego; ave em que foi convertida Alcithoe com
+as irmãas, por desprezarem os sacrificios de Baccho.
+E como aquelle, que se em tal êrro cahisse, não <span class="pn"><a name="pag_497">{497}</a></span>
+queria ser convertido em tão baixo animal e tão
+nojoso, dizia a sua letra assi em Castelhano:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Si yo desobedeciere<br>
+Á tu deidad santa y pura,<br>
+En al mudes mi figura.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Alguns praguentos quizerão dizer que esta letra era
+maliciosa, e que não queria dizer tanto desejar este
+galante de ser mudado em al, como que desejava almudes
+deste licor. Mas he muito grande falsidade, que
+sendo a letra assi feita, acaso acertou de sahir aquella
+palavra, com que molhava as suas quem tirava a
+divisa. Do que o innocente Autor, despois ficou
+para se enforcar. Mas outro galante, que de fino
+bebado ja passava os limites do bom e costumado
+beber, tirou por divisa huma palmeira; árvore, que
+entre os Antigos significava victoria; e ao pé della
+alguns ramos de vides e de parreiras pizadas; e dizia
+a letra assi:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Ficae vencidas, sem gloria,<br>
+Vós vides e vós parreiras;<br>
+Porque os ramos das palmeiras<br>
+São os que tẽe a victoria.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Tambem aqui não faltárão praguentos, que quizerão
+dizer que este devoto, deixando ja atraz Portugal,
+commettia com valeroso animo Orracas e Fullas, tendo
+em pouco Caparicas e Seixaes. Mas quem ha que
+fuja de más linguas, ou de mal costumadas gargantas?</p>
+
+<p>Outro galante, a quem fazia mal ao estomago
+beber o vinho agoado, tirou por divisa huma peça de
+chamalote sem ágoas, que apresentava Baccho; e dizia
+a letra, como por parte do mesmo Baccho: <span class="pn"><a name="pag_498">{498}</a></span></p>
+
+<blockquote class="verso">
+Sem ágoas, Senhor, levaio<br>
+Se for bom,<br>
+Que las aguas de Moncaio<br>
+Frias son.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Aqui não tiverão praguentos que dizer, por ser opinião
+de physica, serem melhores os mantimentos simples,
+que os compostos.</p>
+
+<p>Outro, que no beber lançava a barra inda mais
+além que os acima escritos, tirou por divisa huma
+salamandra, passeando por cima de humas brazas de
+fogo; e a letra dizia:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+En el fuego vivo yo.
+</blockquote>
+
+<p class="ni">Mas o pintor errando as letras, acertou de pôr: <em>De
+fuego la bebo yo</em>. Donde os praguentos quizerão
+adivinhar que este galante bebia Orraca de fogo.
+O demonio foi fazer tal êrro, para delle sahir tamanho
+acêrto.</p>
+
+<p>Outro devoto, que desque estava quente, dizia
+dos companheiros, quaesquer que fossem, o que de
+cada hum sabía, sem respeito, tirou por divisa hum
+demoninhado, lançando os olhos em alvo, escumando
+e apontando com o dedo para hum frasco de vinho;
+e dizia a letra:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Se fallar demasiado,<br>
+Não mo tachem, porque, emfim,<br>
+Aquella alma falla em mim.
+</blockquote>
+
+<p>Sendo atéqui introduzidos os religiosos de Baccho,
+pedírão dous d'outra religião que tambem os deixassem
+jogar as canas, e que elles tirarião tal divisa,
+com que se tirasse a limpo sua habilidade; e sendo
+entrados ambos juntos, por certa conformidade que
+ <span class="pn"><a name="pag_499">{499}</a></span>
+havia entre ambos, trouxerão pintados nas bandeiras
+cada hum seu par de pombas; e dizia a letra:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Se como vós ha hi par,<br>
+Vós o podereis julgar.
+</blockquote>
+
+<p>Certo, que atéqui chegou a malicia dos homens,
+porque tão subtilmente quizerão interpretar a innocencia
+desta letra, que tomárão a derradeira syllaba
+da primeira regra, e ajuntárão-na com a primeira da
+derradeira, que vem a dizer <em>parvos</em>; e disserão que
+juntos significavão isso aquelles dous innocentes. Mal
+peccado! tão errada anda a maldade humana, que
+logo tẽe por parvos aos que sabem pouco!</p>
+
+<p>Outro homem entrou tambem por adherencia nas
+canas, o qual dizem que tinha partes maravilhosas;
+porque era tão perfeito em suas cousas, que o seu
+comer havia de ser o melhor temperado e o mais
+suave do mundo; e os seus vestidos erão sempre dos
+mais finos pannos e sitins, que se podessem descobrir;
+e esta perfeição até nos amores e amizades se lhe
+estendia, porque com os amigos sempre tinha subtilezas
+de conversação, e com as amigas hum fingir que
+queria o que não queria. E, emfim, até no jogar
+usava daquellas manhas todas, as que para ganhar
+erão necessarias. E tinha mais hum revez da fortuna
+recebido, que se lhe estendia desde a ponta do
+nariz até huma orelha. Este Senhor tirou por divisa
+huma camisa toda lavrada de pontinhos, lavor antigo;
+e a letra dizia assi:</p>
+
+<blockquote class="verso">
+Pontos de honrado e sisudo<br>
+Sempre na vida quiz ter;<br>
+Apontado no viver, <span class="pn"><a name="pag_500">{500}</a></span><br>
+Apontado mais que tudo<br>
+Em meu vestir e comer.<br>
+Pontos subtis no meu gôsto,<br>
+Mais subtis no conversar:<br>
+Tanto me vim a apontar,<br>
+Que apontado trago o rosto,<br>
+E as cartas para jogar.
+</blockquote>
+
+<p>Muitos outros homens illustres quizerão ser admittidos
+nestas festas e canas, e que se fizera memoria
+delles, conforme suas qualidades; mas infinita
+escritura fôra, segundo todos os homens da India são
+assinalados; e por isto esses bastem para servirem
+de amostra do que ha nos mais.</p>
+
+</div>
+
+
+<p class="centrado">FIM.</p>
+
+ <span class="pn"><a name="pag_501">{501}</a></span>
+
+
+
+
+<h1>NOTAS.</h1>
+
+
+<span class="pn"><a name="pag_503">{503}</a></span>
+
+
+<div id="notas">
+<h2>NOTAS.</h2>
+
+<p class="par_nota">Pag. 16. V. 17. <em>Não do sol, mas da candea.</em>] Todas as ed.; mas he
+lição viciosa, porque se a luz do sol não he sombra daquella idea, que em
+Deos está mais perfeita, menos o será a da candea. Exclue o poeta uma e outra
+destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto cá nos seduz
+e encanta. Corrigimos portanto:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Não do sol, nem da candea.</strong> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 67. V. 4. <em>De mim tão longe.</em>] Todas as ed.; mas he êrro, porque
+o poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e
+pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si tão longe? Corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>De si tão longe.</strong> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 123. V. 25.</p>
+
+<p></p>
+
+<blockquote>
+ <em>Vós na minha gloria posto.<br>
+ Eu na vossa sepultura.</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Todas as ed. Mas he justamente o contrário:</p>
+
+<p></p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Vós na vossa gloria posto,<br>
+ Eu na minha sepultura.</strong> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 124. V. 9. </p>
+
+<blockquote>
+ <em>Mas se esse rosto fingido<br>
+ Quizereis representar,<br>
+ Houvera por bom partido<br>
+ Dar-lho a alma do sentido<br>
+ Para a gloria do lugar.</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Assim andão corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos:
+<span class="pn"><a name="pag_504">{504}</a></span> </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Mas se esse rosto fingido<br>
+ Quizerão representar,<br>
+ E houverão por bom partido<br>
+ Dar-vos a alma do sentido<br>
+ Para a gloria do lugar:<br>
+ Víreis etc.</strong> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 148. V. 1. <em>Vai o bem fugindo etc.</em>] Estas endeixas, que
+evidentemente são do poeta, andão na 1.ª e 2.ª edição das Rimas; na 3.ª
+aindaque apontadas no index, forão supprimidas por descuido: nós as
+restituimos. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 164. V. 23. <em>E amor he effeito d'alma.</em>] Todas as ed. Parece que
+deve ser <em>affeito d'alma</em>. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 183. V. 7. <em>Sem saber do cuidado o que sentia.</em>] Todas as ed.; mas
+he êrro: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Sem saber de cuidado o que sentia;</strong></blockquote>
+
+<p class="ni">isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 185. V. 20. <em>Ao pé d'uma alta faia etc.</em>] Esta que
+inadvertidamente aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes
+edições, propriamente não he senão uma Egloga, que se deve ajuntar ás
+mais. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 185. V. 24. <em>Tão queixoso d'Amor</em>] Faria e Sousa. He vicio:
+corrigimos: <em>Mui queixoso d'Amor</em>. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 186. V. 8. <em>As roxas brancas Nymphas</em>] Faria e Sousa. He
+corrupção de texto: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião,</strong></blockquote>
+
+<p class="ni">porque se entende flores. </p>
+
+<p class="par_nota">P. 188. V. 15. <em>Junto do rosmaninho, que he crescer</em>] Faria e Sousa.
+He corrupção de texto: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.</strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 191. V. 25. <em>Ai que me deras vida a morte dar-me</em>] Faria e Sousa.
+He corrupção de texto: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Ai que me deras vida em morte dar-me.</strong><span class="pn"><a
+ name="pag_505" id="pag_505">{505}</a></span> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 197. V. 23. <em>E como debil flamma a quem fallece O radical humor de que
+vivia</em>] Faria e Sousa. He corrupção de texto; porque o radical humor só
+pode faltar as plantas: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>E como debil flor etc. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 215. V. 15. </p>
+
+<blockquote>
+ <em>Por qual, Senhor, algum eu me trocára. Ou por qual algum rei de mais
+ grandeza</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Faria e Sousa. Não julgamos correcto o dizer: <em>por qual
+algum</em>: devem portanto estes versos ler-se como nas primeiras edições:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Por que Rei, por que duque eu me trocára, <br>
+ Por que Senhor de grande fortaleza? </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 220. V. 30.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Se o successo he contrário da vontade As obras que são boas, e o
+ desvio</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos: </p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Se o successo he contrário da vontade <br>
+ Nas obras que são boas, e ha desvio etc. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 221. V. 41. <em>Quanto de infamia</em>] Faria e Sousa. Quãmanha infamia,
+3.ª ed. Esta ultima nos parece ser a lição do poeta.</p>
+
+<p class="par_nota">P. 222. V. 29. <em>Populares a Pallas.</em>] Todas as ed. He vicio de texto:
+corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Populares (ó Pallas) etc. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 223. V. 17. <em>E pois que tudo em vos se permittio</em>] Faria e Sousa.
+<em>No qual, pois tudo em vós etc.</em>] 3.ª ed. Preferimos esta lição, que
+nos parece ser a do poeta.</p>
+
+<p class="par_nota">P. 224. V. 11. </p>
+
+<blockquote>
+ <em>O querido de Deos por quem peleja <br>
+ O ar tambem, e o vento socegado, <span class="pn"><a name="pag_506"
+ id="pag_506">{506}</a></span><br>
+ Ao atambor acode, porque veja <br>
+ Que quem a Deos ama, he de Deos amado</em> </blockquote>
+
+<p class="ni">Assim se lião estes quatro versos na 3.ª edição. Manoel de
+Faria corrigio:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Oh querido de Deos, por quem peleja <br>
+ O ar tambem, e o vento socegado! <br>
+ Ao tambor acode, porque veja <br>
+ Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado.</em> </blockquote>
+
+<p class="ni">Mas esta apostrophe, por elle introduzida, não tem aqui lugar;
+porque o poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas
+praias da Persia conseguia victoria daquellas nações tão remotas, as settas,
+que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravão no ar,
+pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravão; e continúa, observando que
+o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o vento conjurado em seu
+favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja que o que a Deos ama, he delle
+amado e favorecido. Este he o sentido natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo
+que estes versos erão imitação dest'outros de Claudiano:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris <br>
+ Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether, <br>
+ Et conjurati veniunt ad classica venti.</em> </blockquote>
+
+<p class="ni">julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e não
+accommodá-los ao seu intento, metteo aqui esta exclamação forçada, sem nem
+ao menos saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: <em>Yo dudo si
+esta exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian.</em> E assim
+estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Nós seguimos a lição
+antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue vicio de
+cópia, corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>O querido de Deos, por quem peleja, <br>
+ O ar tambem e o vento socegado <br>
+ Ao atambor lhe acodem, porque veja <br>
+ Que o que a Deos ama, he de Deos amado.</strong> <span class="pn"><a
+ name="pag_507" id="pag_507">{507}</a></span> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 225. V. 3. <em>Com louvores de Apollo celebrado.</em>] Todas as ed.; mas
+aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Com louvores de Apollo, e celebrado. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 228. V. 1. <em>Depois que a clara aurora a noite escura.</em>] Esta glosa
+do Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente não he obra
+do poeta: por inadvertencia as conservámos nesta edição.</p>
+
+<p class="par_nota">P. 257. L. 7. <em>Que são muito e valem pouco.</em>] Todas as ed.; mas o
+que o poeta quer dizer, he que um par de reales são cousa pouca, mas para um
+escudeiro pobre valem muito. Corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que são pouco, e valem muito. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 258. L. 17. <em>Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal.</em>] Todas
+as ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que tal dizem, que he? </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 259. L. 1. <em>E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como
+Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.</em>] Todas as ed.; mas he vicio:
+corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que vem podre de amor etc. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 259. L. 8. <em>Olá, Senhores.</em>] Lição vulgar. He viciosa:
+corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Olá, Senhoras. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 286. V. 1. <em>Mas qué amo y cararon.</em>] Lição vulgar. He grande
+estrago de texto: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Mas qué amo y qué cabron! </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 369. V. 11. <em>Esperai, dir-vo-lo-ha.</em>] Faria. He êrro: deve
+ler-se:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Dir-se-vos-ha. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 370. V. 14.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Pois só desse encantador <br>
+ Me quero vingar de ti.</em>] <span class="pn"><a name="pag_508"
+ id="pag_508">{508}</a></span> </blockquote>
+
+<p class="ni">Lição vulgar: he viciosa: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Pois so desse encantador <br>
+ Me quero vingar em ti. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 374. V. 48. <em>E se mal vos succedesse.</em>] Lição vulgar: he êrro
+de cópia ou de impressão: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>E se mal nos succedesse. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 386. L. 11. <em>O qual informado pelo pastor que a achára, (que era
+homem sabio na arte magica) e como a criára.</em>] Lição vulgar; mas a
+oração esta imperfeita: corrigimos: <strong>O qual informado pelo pastor
+etc.; de como a achára e como a criára.</strong></p>
+
+<p class="par_nota">P. 402. V. 17. <em>E levar-me a lenha o vento.</em>] Lição vulgar: He
+viciosa, porque falta a clausula da oração: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>He levar-me a lenha o vento. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 418. L. 5. <em>Pois não devia assi de ser posantos e vanselos.</em>]
+Lição vulgar. Estranha corrupção de texto: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Pois não devia assi de ser, polos Santos
+ Evangelhos. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 418. V. 6. <em>Que os amos e os cangrejos.</em>] Lição vulgar. He
+viciosa: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que o amor e os cangrejos. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 447. V. 16.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Que das montanhas erguidas <br>
+ D'algum monte não sahisse.</em>] </blockquote>
+
+<p>Lição vulgar. Não he menos notavel esta corrupção: corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que das montanhas erguidas <br>
+ Algum monstro não sahisse. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 453. V. 20. <em>Se tanto amasse.</em>] Lição vulgar; mas aqui ha vicio
+de texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma exprimir-se.
+Corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Se eu tanto amasse.</strong> <span class="pn"><a
+ name="pag_509" id="pag_509">{509}</a></span> </blockquote>
+
+<p>Pag. 467. V. 12.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Que quando por accidente <br>
+ Da fortuna desastrado <br>
+ Fosse apartado da gente <br>
+ N'um lugar onde somente <br>
+ Das feras fosse guardado: <br>
+ E por ferro, fogo e ágoa <br>
+ Buscar minha morte iria.</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Lição vulgar. Mas a corrupção de texto não póde ser mais
+visivel. Comtudo não difficil atinar-se com o sentido do poeta.</p>
+
+<p>Acaba de dizer Dionysa a Filodemo que tomára ver-se dalli cem mil leguas,
+pelo perigo que corria a sua honestidade. Responde-lhe este, que isso desejava
+tambem elle que succedesse; porque nesse caso teria occasião de fazer por ella
+uma fineza, que fosse mais de agradecer; e vem a ser, que quando ella por algum
+caso da fortuna fosse apartada da gente n'um deserto onde não tivesse por
+guarda, senão as feras; por ferro, fogo e ágoa lá iria elle buscar a sua
+morte. E porque não póde ser outro o sentido do poeta, corrigimos:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>Que quando por accidente <br>
+ A fortuna desastrada <br>
+ Vos apartasse da gente <br>
+ N'um deserto, onde somente <br>
+ Das feras fosseis guardada; <br>
+ Lá por ferro, fogo e ágoa <br>
+ Buscar minha morte iria etc. </strong></blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 475. L. 20. <em>Que estas cidras não se desistem em nove dias, senão em
+nove mezes.</em>] Lição vulgar. Não ha maior corrupção de texto. Que tem
+as cidras que desistir? Que o poeta não disse um tal absurdo, he fóra de toda
+a dúvida. O que elle disse foi isto:</p>
+
+<p><strong>E porque estes sirgos não se desistem em nove dias, senão em nove
+mezes, foi-lhe a elle necessario acolher-se com ella etc.</strong> <span
+class="pn"><a name="pag_510">{510}</a></span></p>
+
+<p class="ni">Sirgo he o envolucro, onde se encerra o bicho da seda, quando
+passa ao estado de metamorphose, e onde se conserva doze dias, ou nove, como
+diz o poeta. Mas a ignorancia transformou sirgos em cidras.</p>
+
+<p class="par_nota">P. 482. L. 7. Porque quando cuido que sem peccado que me obrigasse a tres
+dias de purgatorio, passei tres mil de más linguas, peores tenções, damnadas
+vontades, nascidas de pura inveja de verem <em>su amada yedra de si arrancada,
+y en otro muro asida...</em> Aqui ha lacuna porque falta o verbo da
+oração.</p>
+
+<p class="par_nota">P. 489. V. 28.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>A quem não assopre a morte <br>
+ Nem sopre o fogo da vida.</em>] </blockquote>
+
+<p class="ni">Lição vulgar; mas a do poeta he:</p>
+
+<blockquote>
+ <strong>A quem o assôpro da morte <br>
+ Não sopre o fogo da vida.</strong> </blockquote>
+
+<p class="par_nota">P. 490. L. 26. <em>Tres cousas não se soffrem sem discordia; companhia,
+namorar, mandar villão ruim sobre cousa de seu interesse.</em>] Todas as ed.
+Mas o vicio he palpavel: corrigimos: <strong>Duas cousas não se soffrem sem
+discordia; companhia no amar, mandar villão ruim sobre cousa de seu
+interesse.</strong> <span class="pn"><a name="pag_511">{511}</a></span></p>
+</div>
+
+
+
+
+
+<h2>INDEX.</h2>
+
+
+<h4 class="indice">REDONDILHAS &amp;c.</h4>
+
+<p class="indice"><span class="lpn">Pag.</span> &nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_100"><span class="lpn">100</span> A alma que está offrecida</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_61"><span class="lpn">61</span> A dor que a minha alma sente</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_113"><span class="lpn">113</span> A morte, pois que sou vosso</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_71"><span class="lpn">71</span> Amor loco, amor loco</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_57"><span class="lpn">57</span> Amor que todos offende</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_63"><span class="lpn">63</span> Amores de huma casada</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_66"><span class="lpn">66</span> Apartárão-se os meus olhos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_126"><span class="lpn">126</span> Aquella captiva</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_107"><span class="lpn">107</span> Campos bem-aventurados</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_99"><span class="lpn">99</span> Catharina bem promette</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_98"><span class="lpn">98</span> Cinco gallinhas e meia</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_136"><span class="lpn">136</span> Coifa de beirame </a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_103"><span class="lpn">103</span> Com razão queixar-me posso</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_76"><span class="lpn">76</span> Com vossos olhos, Gonçalves</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_38"><span class="lpn">38</span> Conde, cujo illustre peito</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_33"><span class="lpn">33</span> Corre sem vela e sem leme</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_93"><span class="lpn">93</span> Crescem, Camilla, os abrolhos</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_53"><span class="lpn">53</span> Da doença em que ora ardeis</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_62"><span class="lpn">62</span> D'alma e de quanto tiver</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_28"><span class="lpn">28</span> Dama d'estranho primor</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_56"><span class="lpn">56</span> De atormentado e perdido</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_70"><span class="lpn">70</span> De dentro tengo mi mal</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_65"><span class="lpn">65</span> De pequena tomei amor</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_76"><span class="lpn">76</span> De que me serve fugir</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_70"><span class="lpn">70</span> De vuestros ojos centellas</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_54"><span class="lpn">54</span> Deo, Senhora, por sentença</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_91"><span class="lpn">91</span> Deos te salve, Vasco amigo</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_60"><span class="lpn">60</span> Descalça vai pela neve</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_102"><span class="lpn">102</span> Descalça vai para a fonte</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_143"><span class="lpn">143</span> Dó la mi ventura</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_63"><span class="lpn">63</span> Enforquei minha esperança</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_80"><span class="lpn">80</span> Esconjuro-te, Domingas</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_101"><span class="lpn">101</span> Esperei, ja não espero</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_46"><span class="lpn">46</span> Este mundo es el camino</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_67"><span class="lpn">67</span> Falso cavalleiro ingrato</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_101"><span class="lpn">101</span> Ferro, fogo, frio e calma</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_125"><span class="lpn">125</span> Foi-se gastando a esperança</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_78"><span class="lpn">78</span> Ha hum bem que chega e foge</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_132"><span class="lpn">132</span> Irme quiero, madre</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_112"><span class="lpn">112</span> Ja não posso ser contente</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_119"><span class="lpn">119</span> Justa fue mi perdicion</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_105"><span class="lpn">105</span> Mas porém a que cuidados</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_140"><span class="lpn">140</span> Menina formosa</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_52"><span class="lpn">52</span> Menina formosa e crua</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_75"><span class="lpn">75</span> Menina, não sei dizer</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_129"><span class="lpn">129</span> Menina dos olhos verdes</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_118"><span class="lpn">118</span> Minh'alma, lembrae-vos della</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_86"><span class="lpn">86</span> Na fonte está Leonor</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_57"><span class="lpn">57</span> Não estejais aggravada</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_89"><span class="lpn">89</span> Não posso chegar ao cabo</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_74"><span class="lpn">74</span> Não sei se m'engana Helena</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_104"><span class="lpn">104</span> Ojos, herido me habeis</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_55"><span class="lpn">55</span> Olhae que dura sentença</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_94"><span class="lpn">94</span> Olhos em que estão mil flores</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_78"><span class="lpn">78</span> Olhos, não vos mereci</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_79"><span class="lpn">79</span> Os bons vi sempre passar</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_69"><span class="lpn">69</span> Para que me dan tormento</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_145"><span class="lpn">145</span> Pastora da serra</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_43"><span class="lpn">43</span> Peço-vos que me digais</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_83"><span class="lpn">83</span> Pequenos contentamentos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_84"><span class="lpn">84</span> Perdigão perdeo a penna</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_80"><span class="lpn">80</span> Perguntais-me quem me mata</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_85"><span class="lpn">85</span> Pois a tantas perdições</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_73"><span class="lpn">73</span> Pois damno me faz olhar-vos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_72"><span class="lpn">72</span> Pois he mais vosso que meu</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_92"><span class="lpn">92</span> Porqué no miras, Giraldo</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_64"><span class="lpn">64</span> Puz o coração nos olhos</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_60"><span class="lpn">60</span> Qual terá culpa de nós</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_77"><span class="lpn">77</span> Quando me quer enganar</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_87"><span class="lpn">87</span> Que diabo ha tão damnado</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_122"><span class="lpn">122</span> Qué veré que me contente</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_103"><span class="lpn">103</span> Quem disser que a barca pende</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_58"><span class="lpn">58</span> Quem no mundo quizer ser</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_128"><span class="lpn">128</span> Quem ora soubesse</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_94"><span class="lpn">94</span> Quem se confia em huns olhos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_21"><span class="lpn">21</span> Querendo escrever hum dia</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+
+<p class="indice"><a href="#pag_123"><span class="lpn">123</span> Retrato, vós não sois meu</a></p>
+
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_134"><span class="lpn">134</span> Saudade minha</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_81"><span class="lpn">81</span> Se a alma ver-se não póde</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_68"><span class="lpn">68</span> Se de meu mal me contento</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_41"><span class="lpn">41</span> Se derivais da verdade</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_137"><span class="lpn">137</span> Se Helena apartar</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_83"><span class="lpn">83</span> Se me desta terra for</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_128"><span class="lpn">128</span> Se me levão agoas</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_45"><span class="lpn">45</span> Se n'alma e no pensamento</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_35"><span class="lpn">35</span> Se não quereis padecer</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_51"><span class="lpn">51</span> Se vossa Dama vos dá</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_45"><span class="lpn">45</span> Sem olhos vi o mal claro</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_117"><span class="lpn">117</span> Sem ventura he por demais</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_116"><span class="lpn">116</span> Sem vós, e com meu cuidado </a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_59"><span class="lpn">59</span> Senhora, pois me chamais</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_73"><span class="lpn">73</span> Senhora, pois minha vida</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_40"><span class="lpn">40</span> Senhora, s'eu alcançasse</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_95"><span class="lpn">95</span> Sois formosa e tudo tendes</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_9"><span class="lpn">9</span> Sôbolos rios que vão</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_30"><span class="lpn">30</span> Suspeitas, que me quereis</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_141"><span class="lpn">141</span> Tende-me mão nelle</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_121"><span class="lpn">121</span> Todo es poco lo posible</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_109"><span class="lpn">109</span> Trabalhos descansarião</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_110"><span class="lpn">110</span> Triste vida se me ordena</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_131"><span class="lpn">131</span> Trocae o cuidado</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_118"><span class="lpn">118</span> Tudo póde huma affeição</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_98"><span class="lpn">98</span> Tudo tendes singular</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_148"><span class="lpn">148</span> Vai o bem fugindo</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_72"><span class="lpn">72</span> Vêde bem se nos meus dias</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_115"><span class="lpn">115</span> Vejo-a n'alma pintada</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_79"><span class="lpn">79</span> Venceo-me Amor, não o nego</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_132"><span class="lpn">132</span> Ver e mais guardar</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_138"><span class="lpn">138</span> Verdes são os campos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_139"><span class="lpn">139</span> Verdes são as hortas</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_90"><span class="lpn">90</span> Vi chorar huns claros olhos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_135"><span class="lpn">135</span> Vida da minha alma</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_68"><span class="lpn">68</span> Vós, Senhora, tudo tendes</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_146"><span class="lpn">146</span> Vós sois huma Dama</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_122"><span class="lpn">122</span> Vos teneis mi corazon</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_88"><span class="lpn">88</span> Vossa Senhoria creia</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_82"><span class="lpn">82</span> Vosso bem querer, Senhora</a></p>
+
+
+<h4 class="indice">SEXTINAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_152"><span class="lpn">152</span> A culpa de meu mal só tem meus olhos</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_151"><span class="lpn">151</span> Foge-me pouco a pouco a curta vida</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_154"><span class="lpn">154</span> Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_155"><span class="lpn">155</span> Sempre me queixarei desta crueza</a></p>
+
+
+<h4 class="indice">ELEGIAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_194"><span class="lpn">194</span> A vida me aborrece, a morte quero</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_185"><span class="lpn">185</span> Ao pé d'hum'alta faia vi sentado</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_160"><span class="lpn">160</span> Aquella que de amor descomedido</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_175"><span class="lpn">175</span> Aquelle mover de olhos excellente </a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_190"><span class="lpn">190</span> Belisa, unico bem desta alma minha</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_172"><span class="lpn">172</span> Depois que Magalhães teve tecida</a><sup><a href="#rodape4" name="m_rodape4">[4]</a></sup></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_177"><span class="lpn">177</span> Entre rusticas serras e fragosas</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_208"><span class="lpn">208</span> Juizo extremo, horrifico e tremendo</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_164"><span class="lpn">164</span> O poeta Simonides fallando</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_157"><span class="lpn">157</span> O sulmonense Ovidio desterrado</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_196"><span class="lpn">196</span> Que tristes novas, ou que novo damno</a><sup><a href="#rodape5" name="m_rodape5">[5]</a></sup></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_202"><span class="lpn">202</span> Se quando contemplamos as secretas</a></p>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_rodape4" name="rodape4">[4]</a></sup> A D. Leoniz Pereira, havendo-lhe Pedro de Magalhães Gandavo
+dedicado o seu livro intitulado: <em>Historia da Provincia de Santa
+Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil</em>. Impresso em
+Lisboa 1576.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_rodape5" name="rodape5">[5]</a></sup> Á morte de D. Miguel de Menezes na India, filho de D. Henrique
+de Menezes, Governador da casa do Civil. Foi dirigida a
+seu irmão D. Philipe de Menezes.</p>
+</div>
+
+<h4 class="indice">EPISTOLAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_217"><span class="lpn">217</span> Como nos vossos hombros tão constantes</a><sup><a href="#rodape6" name="m_rodape6">[6]</a></sup></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_223"><span class="lpn">223</span> Mui alto Rei a quem os ceos em sorte</a><sup><a href="#rodape7" name="m_rodape7">[7]</a></sup></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_210"><span class="lpn">210</span> Quem póde ser no mundo tão quieto</a><sup><a href="#rodape8" name="m_rodape8">[8]</a></sup></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_225"><span class="lpn">225</span> Senhora se encobrir por alguma arte</a></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_rodape6" name="rodape6">[6]</a></sup> A D. Constantino de Bragança, Viso-Rei da India.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_rodape7" name="rodape7">[7]</a></sup> Sobre a setta que o Papa enviou a ElRei D. Sebastião no anno
+de 1575.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_rodape8" name="rodape8">[8]</a></sup> A D. Antonio de Noronha, sôbre o desconcêrto do mundo.</p>
+</div>
+
+<h4 class="indice">OITAVAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_232"><span class="lpn">232</span> Cá nesta Babylonia adonde mana</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_228"><span class="lpn">228</span> Despois que a clara Aurora a noite escura</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_234"><span class="lpn">234</span> D'huma formosa virgem desposada</a></p>
+
+<h4 class="indice">COMEDIAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_255"><span class="lpn">255</span> ElRei Seleuco</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_301"><span class="lpn">301</span> Os Amphitriões</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_385"><span class="lpn">385</span> Filodemo</a></p>
+
+<h4 class="indice">CARTAS.</h4>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_481"><span class="lpn">481</span> Carta 1.ª</a></p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_484"><span class="lpn">484</span> Carta 2.ª</a></p>
+
+<p class="indice">&nbsp;</p>
+
+<p class="indice"><a href="#pag_503"><span class="lpn">503</span> N<small>OTAS</small></a></p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões
+ Tomo III, by Luís Camões
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES ***
+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+
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+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+status under the laws that apply to them.
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