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diff --git a/37192-8.txt b/37192-8.txt new file mode 100644 index 0000000..b27fe18 --- /dev/null +++ b/37192-8.txt @@ -0,0 +1,19520 @@ +The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III, by +Luís Camões + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III + +Author: Luís Camões + +Release Date: August 24, 2011 [EBook #37192] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +Notas de transcrição: + +O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro +impresso em 1843. + +Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns +pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, +e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos +inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em +particular quanto à acentuação. + + + * * * * * + + + + + + CLASSICOS PORTUGUEZES. + + TOMO II. + + CAMÕES. + + II. + + + +PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT, +Rua Racine, 28, junto ao Odeon. + + + +OBRAS COMPLETAS + +DE + +LUIS DE CAMÕES, + +CORRECTAS E EMENDADAS + +PELO CUIDADO E DILIGENCIA + +DE + +J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro. + + +TOMO TERCEIRO. + + +LISBOA. + +ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ, +NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY, +3, quai Malaquais, près le pont des Arts. + +1843 + + + + + * * * * * + +RIMAS. + + * * * * * + + +RIMAS. + + + + +REDONDILHAS. + + + Sôbolos rios que vão + Por Babylonia, me achei, + Onde sentado chorei + As lembranças de Sião, + E quanto nella passei. + Alli o rio corrente + De meus olhos foi manado; + E tudo bem comparado, + Babylonia ao mal presente, + Sião ao tempo passado. + + Alli lembranças contentes + N'alma se representárão; + E minhas cousas ausentes + Se fizerão tão presentes, + Como se nunca passárão. + Alli, despois d'acordado, + Co'o rosto banhado em ágoa, + Deste sonho imaginado, + Vi que todo o bem passado + Não he gôsto, mas he mágoa. + + E vi que todos os danos + Se causavão das mudanças, + E as mudanças dos anos; + Onde vi quantos enganos + Faz o tempo ás esperanças. + Alli vi o maior bem + Quão pouco espaço que dura; + O mal quão depressa vem; + E quão triste estado tem + Quem se fia da ventura. + + Vi aquillo que mais val + Qu'então s'entende melhor, + Quando mais perdido for: + Vi ao bem succeder mal, + E ao mal muito peor. + E vi com muito trabalho + Comprar arrependimento: + Vi nenhum contentamento; + E vejo-me a mi, qu'espalho + Tristes palavras ao vento. + + Bem são rios estas ágoas + Com que banho este papel: + Bem parece ser cruel + Variedade de mágoas, + E confusão de Babel. + Como homem, que por exemplo + Dos trances em que se achou, + Despois que a guerra deixou, + Pelas paredes do templo + Suas armas pendurou: + + Assi, despois qu'assentei + Que tudo o tempo gastava, + Da tristeza que tomei, + Nos salgueiros pendurei + Os orgãos com que cantava. + Aquelle instrumento ledo + Deixei da vida passada, + Dizendo: Musica amada, + Deixo-vos neste arvoredo + Á memoria consagrada. + + Frauta minha, que tangendo + Os montes fazieis vir + Par'onde estaveis, correndo; + E as ágoas, que hião descendo, + Tornavão logo a subir; + Jamais vos não ouvirão + Os tigres, que s'amansavão; + E as ovelhas, que pastavão, + Das hervas se fartarão, + Que por vos ouvir deixavão. + + Ja não fareis docemente + Em rosas tornar abrolhos + Na ribeira florecente; + Nem poreis freio á corrente, + E mais se for dos meus olhos. + Não movereis a espessura, + Nem podereis ja trazer + Atraz vós a fonte pura; + Pois não pudestes mover + Desconcertos da ventura. + + Ficareis offerecida + Á Fama, que sempre vela, + Frauta de mi tão querida; + Porque mudando-se a vida, + Se mudão os gostos della. + Acha a tenra mocidade + Prazeres accommodados; + E logo a maior idade + Ja sente por pouquidade + Aquelles gostos passados. + + Hum gôsto, que hoje s'alcança, + Á manhãa ja o não vejo: + Assi nos traz a mudança + D'esperança em esperança, + E de desejo em desejo. + Mas em vida tão escassa + Qu'esperança será forte? + Fraqueza da humana sorte, + Que quanto da vida passa + Está recitando a morte! + + Mas deixar nesta espessura + O canto da mocidade: + Não cuide a gente futura + Que será obra da idade + O que he fôrça da ventura. + Qu'idade, tempo, e espanto + De ver quão ligeiro passe, + Nunca em mi puderão tanto, + Que, postoque deixo o canto, + A causa delle deixasse. + + Mas em tristezas e nojos, + Em gôsto e contentamento; + Por sol, por neve, por vento, + _Tendré presente á los ojos + Por quien muero tan contento._ + Orgãos e frauta deixava, + Despôjo meu tão querido, + No salgueiro que alli'stava, + Que para tropheo ficava + De quem me tinha vencido. + + Mas lembranças da affeição + Que alli captivo me tinha, + Me perguntárão então, + Qu'era da musica minha, + Que eu cantava em Sião? + Que foi daquelle cantar, + Das gentes tão celebrado? + Porque o deixava de usar, + Pois sempre ajuda a passar + Qualquer trabalho passado? + + Canta o caminhante ledo + No caminho trabalhoso + Por entre o espêsso arvoredo; + E de noite o temeroso + Cantando refreia o medo. + Canta o preso docemente, + Os duros grilhões tocando; + Canta o segador contente; + E o trabalhador, cantando, + O trabalho menos sente. + + Eu qu'estas cousas senti + N'alma de mágoas tão cheia, + Como dirá, respondi, + Quem alheio está de si + Doce canto em terra alheia? + Como poderá cantar + Quem em chôro banha o peito? + Porque, se quem trabalhar + Canta por menos cansar, + Eu só descansos engeito. + + Que não parece razão, + Nem sería cousa idonia, + Por abrandar a paixão + Que cantasse em Babylonia + As cantigas de Sião. + Que quando a muita graveza + De saudade quebrante + Esta vital fortaleza, + Antes morra de tristeza, + Que por abrandá-la cante. + + Que se o fino pensamento + Só na tristeza consiste, + Não tenho medo ao tormento: + Que morrer de puro triste, + Que maior contentamento? + Nem na frauta cantarei + O que passo, e passei ja, + Nem menos o escreverei; + Porque a penna cansará, + E eu não descansarei. + + Que se vida tão pequena + S'accrescenta em terra estranha; + E se Amor assi o ordena, + Razão he que canse a penna + D'escrever pena tamanha. + Porém, se para assentar + O que sente o coração, + A penna ja me cansar, + Não canse para voar + A memoria em Sião. + + Terra bem-aventurada, + Se por algum movimento + D'alma me fores tirada, + Minha penna seja dada + A perpétuo esquecimento. + A pena deste destêrro, + Qu'eu mais desejo esculpida + Em pedra, ou em duro ferro, + Essa nunca seja ouvida, + Em castigo de meu êrro. + + E se eu cantar quizer + Em Babylonia sujeito, + Hierusalem, sem te ver, + A voz, quando a mover, + Se me congele no peito; + A minha lingua se apegue + Ás fauces, pois te perdi, + S'em quanto viver assi + Houver tempo, em que te negue, + Ou que m'esqueça de ti. + + Mas ó tu, terra de glória. + S'eu nunca vi tua essencia, + Como me lembras na ausencia? + Não me lembras na memoria, + Senão na reminiscencia: + Que a alma he taboa rasa, + Que com a escrita doutrina + Celeste tanto imagina, + Que vôa da propria casa, + E sobe á patria divina. + + Não he logo a saudade + Das terras onde nasceo + A carne, mas he do Ceo, + Daquella santa Cidade, + Donde est'alma descendeo. + E aquella humana figura, + Que cá me póde alterar, + Não he quem se ha de buscar; + He raio da formosura, + Que só se deve d'amar. + + Que os olhos, e a luz que ateia + O fogo que cá sujeita, + Não do sol, nem da candeia, + He sombra daquella ideia, + Qu'em Deos está mais perfeita. + E os que cá me captivárão, + São poderosos affeitos + Qu'os corações tee sujeitos; + Sophistas, que m'ensinárão + Maos caminhos por direitos. + + Destes o mando tyrano + M'obriga com desatino + A cantar ao som do dano + Cantares d'amor profano, + Por versos d'amor divino. + Mas eu, lustrado co'o santo + Raio, na terra de dor, + De confusões e d'espanto + Como hei de cantar o canto, + Que só se deve ao Senhor? + + Tanto póde o beneficio + Da graça que dá saude, + Que ordena que a vida mude: + E o qu'eu tomei por vício, + Me faz grao para a virtude; + E faz qu'este natural + Amor, que tanto se préza, + Suba da sombra ao real, + Da particular belleza + Para a belleza geral. + + Fique logo pendurada + A frauta com que tangi, + Ó Hierusalem sagrada, + E tome a lyra dourada + Para só cantar de ti; + Não captivo e ferrolhado + Na Babylonia infernal, + Mas dos vicios desatado, + E cá desta a ti levado, + Patria minha natural. + + E s'eu mais der a cerviz + A mundanos accidentes, + Duros, tyrannos e urgentes, + Risque-se quanto ja fiz + Do grão livro dos viventes. + E, tomando ja na mão + A lyra santa e capaz + D'outra mais alta invenção, + Calle-se esta confusão, + Cante-se a visão de paz. + + Ouça-me o pastor e o rei, + Retumbe este accento santo, + Mova-se no mundo espanto; + Que do que ja mal cantei + A palinodia ja canto. + A vós só me quero ir, + Senhor, e grão Capitão + Da alta tôrre de Sião, + Á qual não posso subir, + Se me vós não dais a mão. + + No grão dia singular, + Que na lyra em douto som + Hierusalem celebrar, + Lembrae-vos de castigar + Os ruins filhos de Edom. + Aquelles que tintos vão + No pobre sangue innocente, + Soberbos co'o poder vão, + Arrazá-los igualmente: + Conheção que humanos são. + + E aquelle poder tão duro + Dos affectos com que venho, + Qu'encendem alma e engenho; + Que ja m'entrárão o muro + Do livre arbitrio que tenho; + Estes, que tão furiosos + Gritando vem a escalar-me, + Maos espiritos damnosos, + Que querem como forçosos + Do alicerce derribar-me; + + Derribae-os, fiquem sós, + De fôrças fracos, imbelles; + Porque não podemos nós, + Nem com elles ir a vós, + Nem sem vós tirar-nos delles. + Não basta minha fraqueza + Para me dar defensão, + Se vós, santo Capitão, + Nesta minha Fortaleza + Não puzerdes guarnição. + + E tu, ó carne, qu'encantas, + Filha de Babel tão feia, + Toda de miseria cheia, + Que mil vezes te levantas + Contra quem te senhoreia; + Beato só póde ser + Quem co'a ajuda celeste + Contra ti prevalecer, + E te vier a fazer + O mal que lhe tu fizeste: + + Quem com disciplina crua + Se fere mais que huma vez; + Cuja alma, de vicios nua, + Faz nodas na carne sua, + Que ja a carne n'alma fez. + E beato quem tomar + Seus pensamentos recentes, + E em nascendo os affogar, + Por não virem a parar + Em vicios graves e urgentes: + + Quem com elles logo der + Na pedra do furor santo, + E batendo os desfizer + Na Pedra, que veio a ser + Emfim cabeça do canto: + Quem logo, quando imagina + Nos vicios da carne má, + Os pensamentos declina + Áquella Carne divina, + Que na Cruz esteve ja. + + Quem do vil contentamento + Cá deste mundo visibil, + Quanto ao homem for possibil, + Passar logo entendimento + Para o mundo intelligibil; + Alli achará alegria + Em tudo perfeita, e cheia + De tão suave harmonia, + Que nem por pouca recreia, + Nem por sobeja enfastia. + + Alli verá tão profundo + Mysterio na summa Alteza, + Que, vencida a natureza, + Os mores faustos do mundo + Julgue por maior baixeza. + Ó tu, divino aposento, + Minha patria singular, + Se só com te imaginar, + Tanto sobe o entendimento, + Que fara se em ti se achar? + + Ditoso quem se partir + Para ti, terra excellente, + Tão justo e tão penitente, + Que despois de a ti subir, + Lá descanse eternamente! + + * * * * * + + +CARTA A HUMA DAMA. + + Querendo escrever hum dia + O mal, que tanto estimei; + Cuidando no que poria, + Vi Amor que me dizia: + Escreve, qu'eu notarei. + E como para se ler + Não era historia pequena + A que de mi quiz fazer, + Das azas tirou a penna + Com que me fez escrever. + + E, logo como a tirou, + Me disse: Aviva os espritos; + Que pois em teu favor sou, + Esta penna, que te dou, + Fara voar teus escritos. + E dando-me a padecer + Tudo o que quiz que puzesse, + Pude emfim delle dizer, + Que me deo com qu'escrevesse + O que me deo a escrever. + + Eu qu'este engano entendi, + Disse-lhe: Qu'escreverei? + Respondeo, dizendo assi: + Altos effeitos de mi. + E daquella a quem te dei. + E ja que te manifesto + Todas minhas estranhezas, + Escreve, pois que te prézas, + Milagres d'hum claro gesto, + E de quem o vio, tristezas. + + Ah Senhora, em quem se apura + A fé de meu pensamento! + Escutae e estae a tento, + Que com vossa formosura + Iguala Amor meu tormento. + E, postoque tão remota + Estejais de m'escutar + Por me não remediar, + Ouvi, que pois Amor nota, + Milagres se hão de notar. + + Escrevem varios Authores, + Que junto da clara fonte + Do Ganges, os moradores + Vivem do cheiro das flores + Que nascem naquelle monte. + Se os sentidos podem dar + Mantimento ao viver, + Não he logo d'espantar, + S'estes vivem de cheirar, + Que viva eu só de vos ver. + + Huma árvore se conhece, + Que na geral alegria + Ella tanto s'entristece, + Que, como he noite, florece, + E perde as flores de dia. + Eu, qu'em ver-vos sinto o preço + Qu'em vossa vista consiste, + Em a vendo m'entristeço, + Porque sei que não mereço + A glória de ver-me triste. + + Hum Rei de grande poder + Com veneno foi criado, + Porque, sendo costumado, + Não lhe pudesse empecer, + Se despois lhe fosse dado. + Eu, que criei de pequena + A vista a quanto padece, + Desta sorte m'acontece, + Que não me faz mal a pena, + Senão quando me fallece. + + Quem da doença Real + De longe enfêrmo se sente, + Por segredo natural + Fica são vendo somente + Hum volatil animal. + Do mal, que Amor em mi cria, + Quando aquella Phenix vejo, + São de todo ficaria; + Mas fica-me hydropesia, + Que quanto mais, mais desejo. + + Da vibora he verdadeiro, + Se a consorte vai buscar, + Qu'em se querendo juntar, + Deixa a peçonha primeiro, + Porque lh'impede o gerar. + Assi quando m'apresento + Á vossa vista inhumana, + A peçonha do tormento + Deixo á parte, porque dana + Tamanho contentamento. + + Querendo Amor sustentar-se, + Fez huma vontade esquiva + D'huma estatua namorar-se: + Despois, por manifestar-se, + Converteo-a em mulher viva. + De quem m'irei eu queixando, + Ou quem direi que m'engana + Se vou seguindo e buscando + Huma imagem, que d'humana + Em pedra se vai tornando? + + D'huma fonte se sabía, + Da qual certo se provava + Que quem sôbre ella jurava, + Se falsidade dizia, + Dos olhos logo cegava. + Vós, que minha liberdade, + Senhora, tyrannizais, + Injustamente mandais, + Quando vos fallo verdade, + Que vos não possa ver mais. + + Da palma s'escreve e canta + Ser tão dura e tão forçosa, + Que pêzo não a quebranta, + Mas antes, de presunçosa, + Com elle mais se levanta. + Co'o pêzo do mal que dais, + A constancia qu'em mi vejo, + Não somente ma dobrais, + Mas dobra-se meu desejo, + Com qu'então vos quero mais. + + Se alguem os olhos quizer + Ás andorinhas quebrar, + Logo a mãe, sem se deter, + Huma herva lhe vai buscar + Que lhes faz outros nascer. + Eu que os olhos tenho attento + Nos vossos, qu'estrellas são, + Cegão-se os do entendimento, + Mas nascem-me os da razão + De folgar com meu tormento. + + Lá para onde o sol sahe, + Descobrimos, navegando, + Hum novo rio admirando, + Que o lenho que nelle cahe, + Em pedra se vai tornando. + Não s'espantem disto as gentes; + Mais razão será qu'espante + Hum coração tão possante, + Que com lagrimas ardentes + Se converte em diamante. + + Póde hum mudo nadador + Na linha e cana influir + Tão venenoso vigor, + Que faz mais não se bulir + O braço do pescador. + Se começão de beber + Deste veneno excellente + Meus olhos, sem se deter, + Não se sabem mais mover + A nada que se apresente. + + Isto são claros sinais + Do muito qu'em mi podeis: + Nem podeis desejar mais; + Que se ver-vos desejais, + Em mi claro vos vereis. + E quereis ver a que fim + Em mi tanto bem se pôs? + Porque quiz Amor assim, + Que por vos verdes a vós, + Tambem me visseis a mim. + + Dos males que m'ordenais, + Qu'inda tenho por pequenos, + Sabei, se mos escutais, + Que ja não sei dizer mais, + Nem vós podeis saber menos. + Mas ja que a tanto tormento + Não se acha quem resista, + Eu, Senhora, me contento + De terdes meu soffrimento + Por alvo de vossa vista. + + Quantos contrarios consente + Amor, por mais padecer! + Que aquella vista excellente, + Que me faz viver contente, + Me faça tão triste ser! + Mas dou este entendimento + Ao mal, que tanto m'offende, + Como na vela s'entende, + Que se se apaga co'o vento, + Co'o mesmo vento se accende. + + Exprimentou-se algum'hora + D'ave, que chamão Camão, + Que se da casa, onde mora, + Vê adúltera senhora, + Morre de pura paixão. + A dor he tão sem medida, + Que remedio lhe não val. + Mas oh ditoso animal, + Que póde perder a vida, + Quando vê tamanho mal! + + Nos gôstos de vos querer + Estava agora enlevado, + Se não fôra salteado + Das lembranças de temer + Ser por outrem desamado. + Estas suspeitas tão frias, + Com que o pensamento sonha, + São assi como as harpias, + Que as mais doces iguarias + Vão converter em peçonha. + + Faz-me este mal infinito + Não poder ja mais dizer, + Por não vir a corromper + Os gostos que tenho escrito, + Co'os males qu'hei d'escrever. + Não quero que s'apregôe + Mal tanto para encobrir, + Porque em quanto aqui s'ouvir + Nenhuma outra cousa sôe, + Que a glória de vos servir. + + * * * * * + + +Á MESMA. + + Dama d'estranho primor, + Se vos for + Pezada minha firmeza, + Olhae não me deis tristeza, + Porque a converto em amor. + E se cuidais + De me matar, quando usais + D'esquivança, + Irei tomar por vingança + Amar-vos cada vez mais. + + Porém vosso pensamento, + Como isento, + Seguirá sua tenção, + Crendo qu'em tanta affeição + Não haja accrescentamento. + Não creais + Que desta arte vos façais + Invencibil; + Que Amor sôbre o impossibil + Amostra que póde mais. + + Mas ja da tenção que sigo, + Me desdigo; + Que se ha tanto poder nelle, + Tambem vós podeis mais qu'elle + Neste mal que usais comigo. + Mas se for + O vosso poder maior + Entre nós, + Quem poderá mais que vós, + Se vós podeis mais que Amor? + + Despois que, Dama, vos vi, + Entendi, + Que perdêra Amor seu preço; + Pois o favor que lh'eu peço, + Vos pede elle para si. + Nem duvido + Que não póde, de sentido, + Resistir; + Pois em vez de vos ferir, + Ficou de vos ver ferido. + + Mas pois vossa vista he tal + Em meu mal, + Que posso de vós querer? + Que mal poderei valer, + Onde o mesmo Amor não val. + Se attentar, + Nenhum bem posso esperar: + E oxalá + Que vos alembrasse ja, + Sequer para me matar. + + Mas nem com isto creais + Que façais + Meus serviços mais pequenos; + Porqu'eu, quando espero menos, + Sabei qu'então quero mais. + Nada espero; + Mas de mi crede este fero, + Qu'em ser vosso, + Vos quero tudo o que posso, + E não posso quanto quero. + + Só por esta phantasia + Merecia + De meus males algum fruito; + E não era certo muito + Para o muito que queria. + De maneira, + Que não he, na derradeira, + Grande espanto, + Que quem, Dama, vos quer tanto, + Que outro tanto de vós queira. + + * * * * * + + +A HUMAS SUSPEITAS. + + Suspeitas, que me quereis? + Qu'eu vos quero dar lugar + Que de certas me mateis, + Se a causa, de que nasceis, + Vós quizesseis confessar. + Que de não lhe achar desculpa, + A grande mágoa passada + Me tee a alma tão cansada, + Que se me confessa a culpa, + Te-la-hei por desculpada. + + Ora vêde que perigos + Tee cercado o coração, + Que no meio da oppressão + A seus proprios inimigos + Vai pedir a defensão! + Que, suspeitas, eu bem sei, + Como se claro vos visse, + Que he certo o que ja cuidei; + Que nunca mal suspeitei, + Que certo me não sahisse. + + Mas queria esta certeza + Daquella que me atormenta; + Porque em tamanha estreiteza + Ver que disso se contenta, + He descanso da tristeza. + Porque se esta só verdade + Me confessa limpa e nua + De cautela e falsidade, + Não póde a minha vontade + Desconforme ser da sua. + + Por segredo namorado + He certo estar conhecido + Que o mal de ser engeitado + Mais atormenta sabido + Mil vezes, que suspeitado. + Mas eu só, em quem se ordena + Novo modo de querella, + De medo da dor pequena, + Venho a achar na maior pena + O refrigerio para ella. + + Ja nas iras m'inflammei, + Nas vinganças, nos furores, + Que ja doudo imaginei; + E ja mais doudo jurei + De arrancar d'alma os amores. + Ja determinei mudar-me + Para outra parte com ira; + Despois vim a concertar-me + Que era bom certificar-me + No que mostrava a mentira. + + Mas despois ja de cansadas + As furias do imaginar, + Vinha emfim a rebentar + Em lagrimas magoadas, + E bem para magoar. + E deixando-se vencer + Os meus fingidos enganos + De tão claros desenganos, + Não posso menos fazer, + Que contentar-me co'os danos. + + E pedir que me tirassem + Este mal de suspeitar + Que me vejo atormentar, + Indaque me confessassem + Quanto me póde matar. + Olhae bem se me trazeis, + Senhora, pôsto no fim; + Pois neste estado a que vim, + Para que vós confesseis, + Se dão os tratos a mim. + + Mas para que tudo possa + Amor, que tudo encaminha, + Tal justiça lhe convinha; + Porque da culpa, qu'he vossa, + Venha a ser a morte minha. + Justiça tão mal olhada + Olhae com que côr se doura, + Que quero, ao fim da jornada, + Que vós sejais confessada, + Para qu'eu seja o que moura! + + Pois confessae-vos jagora, + Indaque tenho temor + Que nem nesta última hora + Me ha de perdoar Amor + Vossos peccados, Senhora. + E assi vou desesperado, + Porque estes são os costumes + D'amor que he mal empregado; + Do qual vou ja condemnado + Ao inferno de ciumes. + + * * * * * + + +LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO.[1] + + Corre sem vela e sem leme + O tempo desordenado, + D'hum grande vento levado: + O que perigo não teme, + He de pouco exprimentado. + As redeas trazem na mão + Os que redeas não tiverão: + Vendo quanto mal fizerão + A cobiça e ambição, + Disfarçados se acolhêrão. + + A nao, que se vai perder, + Destrue mil esperanças: + Vejo o mao que vem a ter; + Vejo perigos correr + Quem não cuida que ha mudanças. + Os que nunca em sella andárão, + Na sella postos se vem: + De fazer mal não deixárão; + De demonio hábito tem + Os que o justo profanárão. + + Que poderá vir a ser + O mal nunca refreado? + Anda, por certo, enganado + Aquelle que quer valer, + Levando o caminho errado. + He para os bons confusão, + Ver que os maos prevalecêrão; + Que, pôsto se detiverão + Com esta simulação, + Sempre castigos tiverão: + + Não porque governe o leme + Em mar envolto e turbado, + Que tee seu rumo mudado, + Se perece grita e geme + Em tempo desordenado. + Terem justo galardão, + E dor dos que merecêrão, + Sempre castigos tiverão + Sem nenhuma redempção, + Postoque se detiverão. + + Na tormenta, se vier, + Desespere na bonança, + Quem manhas não sabe ter: + Sem que lhe valha gemer, + Verá falsar a balança. + Os que nunca trabalhárão, + Tendo o que lhe não convem, + Se ao innocente enganárão, + Perderão o eterno bem, + Se do mal não s'apartárão. + +[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não parece obra do poeta. +Nelle não fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria +passar-lhe um traço por cima: o que não ousamos fazer por andar em +todas as edições. + + _Nota dos editores._ + + * * * * * + + +CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS. + +_A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:_ + + Se não quereis padecer + Huma, ou duas horas tristes, + Sabeis que haveis de fazer? + Volveros por dó venistes, + Que aqui não ha que comer. + E, postoque aqui leais + Trovinha que vos enleia, + Corrido não estejais; + Porque por mais que corrais, + Não heis de alcançar a ceia. + +_A segunda a D. Francisco de Almeida._ + + Heliogabalo zombava + Das pessoas convidadas; + E de sorte as enganava, + Que as iguarias que dava, + Vinhão nos pratos pintadas. + Não temais tal travessura, + Pois ja não póde ser nova; + Porque a cêa está segura + De vos não vir em pintura; + Mas ha de vir toda em trova. + +_A terceira a Heitor da Silveira._ + + Cêa não a papareis: + Com tudo, porque não minta, + Para beber achareis, + Não Caparica, mas tinta, + E mil cousas que papeis. + E vós torceis o focinho + Com esta amphibologia? + Pois sabei que a Poesia + Vos dá aqui tinta por vinho, + E papéis por iguaria. + +_A quarta a João Lopes Leitão, a quem o Author fez huns versos, que vão +adiante, sôbre huma peça de cacha, que deo a huma Dama._ + + Porque os que vos convidárão + Vosso estomago não danem, + Por justa causa ordenárão, + Se trovas vos enganárão, + Que trovas vos desenganem. + Vós tereis isto por tacha, + Converter tudo em trovar; + Pois se me virdes zombar, + Não cuideis, Senhor, que he cacha, + Que aqui não ha que cachar. + +_Responde João Lopes._ + + Pezar ora não de são, + Eu juro pelo Ceo bento, + Se de comer não me dão, + Qu'eu não sou camaleão, + Que m'hei de manter do vento. + +_Responde o Author._ + + Senhor, não vos agasteis, + Porque Deos vos proverá; + E se mais saber quereis, + Nas costas deste lereis + As iguarias que ha. + +_Virado o papel, dizia assi:_ + + Tendes nem migalha assada; + Cousa nenhuma de môlho; + E nada feito em empada; + E vento de tigelada; + Picar no dente em remôlho: + De fumo tendes taçalhos; + Ave da pena que sente + Quem da fome anda doente; + Bocejar de vinho e d'alhos; + Manjar em branco excellente. + +_A derradeira a Francisco de Mello._ + + D'hum homem, que teve o scetro + Da vêa maravilhosa, + Não foi cousa duvidosa, + Que se lhe tornava em metro + O qu'hia a dizer em prosa. + De mi vos quero affirmar + Que faça cousas mais novas, + De quanto podeis cuidar; + E esta cêa, que he manjar, + Vos faça na boca em trovas. + + * * * * * + + +NA INDIA AO VISO-REI, COM O MOTE ADIANTE. + + Conde, cujo illustre peito + Merece nome de Rei, + Do qual muito certo sei + Que lhe fica sendo estreito + O cargo de Viso-Rei; + Servirdes-vos d'occupar-me + Tanto contra meu Planeta, + Não foi senão azas dar-me, + Com as quaes vou a queimar-me, + Como o faz a borboleta. + + E s'eu a penna tomar, + Que tão mal cortada tenho, + Será para celebrar + Vosso valor singular + Dino de mais alto engenho. + Que se o meu vos celebrasse, + Necessario me sería + Que os olhos d'aguia tomasse, + Só para que não cegasse + No sol de vossa valia. + + Vossos feitos sublimados + Nas armas, dignos de gloria, + São no mundo tão soados, + Qu'em vós de vossos passados + Se resuscita a memoria. + Pois aquelle ânimo estranho, + Prompto para todo effeito, + Espanta todo o conceito: + Como coração tamanho + Vos póde caber no peito? + + A clemencia, que asserena + Coração tão singular, + S'eu nisso puzesse a penna, + Sería encerrar o mar + Em cova muito pequena. + Bem basta, Senhor, que agora + Vos sirvais de me occupar; + Que assi fareis aparar + A penna, com que algum'hora + Vos vereis ao ceo voar. + + Assi vos irei louvando, + Vós a mi do chão erguendo, + Ambos o mundo espantando; + Vós com a espada cortando, + Eu com a penna escrevendo. + +_Mote que lhe mandou o Viso-Rei._ + + Muito sou meu inimigo, + Pois que não tiro de mi + Cuidados, com que nasci, + Que põe a vida em perigo. + Oxalá que fôra assi! + +_Volta._ + + Viver eu, sendo mortal, + De cuidados rodeado, + Parece meu natural; + Que a peçonha não faz mal + A quem foi nella criado. + Tanto sou meu inimigo, + Que por não tirar de mi + Cuidados, com que nasci, + Porei a vida em perigo. + Oxalá que fôra assi! + + Tanto vim a accrescentar + Cuidados, que nunca amansão + Em quanto a vida durar, + Que canso ja de cuidar + Como cuidados não cansão. + S'estes cuidados, que digo, + Dessem fim a mi e a si, + Farião pazes comigo; + Que pôr a vida em perigo, + O bom fôra para mi. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS OBRAS SUAS. + + Senhora, s'eu alcançasse + No tempo que ler quereis, + Que a dita dos meus papéis + Pola minha se trocasse; + E por ver + Tudo o que posso escrever + Em mais breve relação, + Indo eu onde elles vão, + Por mi só quizesseis ler; + + Despois de ver hum cuidado + Tão contente de seu mal, + Verieis o natural + Do que aqui vêdes pintado; + Que o perfeito + Amor, de que sou sogeito, + Vereis aspero e cruel, + Aqui com tinta e papel, + Em mi com sangue no peito. + + Que hum continuo imaginar + Naquillo que Amor ordena, + He pena, que emfim por penna + Se não póde declarar; + Que se eu levo + Dentro n'alma quanto devo + De trasladar em papéis, + Vêde que melhor lereis, + Se a mi, se aquillo qu'escrevo? + + * * * * * + + +A HUMA SENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO DE SITIM AMARELLO. + + Se derivais da verdade + Esta palavra _Sitim_, + Achareis sem falsidade, + Que apos o _si_ tee o _tim_, + Que tine em toda a Cidade. + Bem vejo que m'entendeis; + Mas porque não falle em vão, + Sabei que a esta Nação + Tanto que o _si_ concedeis, + O _tim_ logo está na mão. + + E quem da fama s'arreda, + Que tudo vai descobrir, + Deve sempre de fugir + De sitins, porque da seda + Seu natural he rugir. + Mas panno fino e delgado, + Qual a raxa e outros assi, + Dura, aquenta, e he callado, + Amoroso, e dá de si + Mais que _sitim_, nem brocado. + + Mas estes, que sedas são + Com quem s'enganão mil Damas, + Mais vos tomão, do que dão; + Promettem, mas não darão, + Senão nodoas para as famas. + E se não me quereis crer, + Ou tomais outro caminho, + Por exemplo o podeis ver, + Quando lá virdes arder + A casa d'algum vizinho. + + Oh feminina simpreza, + Donde estão culpas a pares, + Que por hum Dom de nobreza, + Deixão dões da natureza, + Mais altos e singulares! + Hum Dom, que anda enxertado + No nome, e nas obras não. + Fallo como exprimentado; + Que _sitim_ desta feição + Eu tenho muito cortado. + + Dizem-me qu'era amarello; + E quem assi o quiz dar, + Só para me Deos vingar, + Se vem á mão amarê-lo, + O qu'eu não posso cuidar. + Porque quem sabe viver + Por estas artes manhosas, + (Isto bem póde não ser) + Dá a meninas formosas, + Somente polas fazer. + + Quem vos isto diz, Senhora, + Servio nas vossas armadas + Muito, mas anda ja fóra; + E póde ser qu'inda agora + Traz abertas as fréchadas. + E, postoque desfavores + O tirão de servidor, + Quer-vos ventura melhor; + Que dos antigos amores + Inda lhe fica este amor. + + * * * * * + + +A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS. + + Peço-vos que me digais + As orações que rezastes, + Se são polos que matastes, + Se por vós que assi matais? + Se são por vós, são perdidas; + Que qual será a oração, + Que seja satisfação, + Senhora, de tantas vidas? + + Que se vêdes quantos vem + A só vida vos pedir, + Como vos ha Deos de ouvir, + Se vós não ouvis ninguem? + Não podeis ser perdoada + Com mãos a matar tão prontas, + Que se n'huma trazeis contas, + Na outra trazeis espada. + + Se dizeis que encommendando + Os que matastes andais; + Se rezais por quem matais, + Para que matais rezando? + Que se na fôrça do orar + Levantais as mãos aos Ceos, + Não as ergueis para Deos, + Erguei-las para matar. + + E quando os olhos cerrais, + Toda enlevada na fé, + Cerrão-se os de quem vos vê, + Para nunca verem mais. + Pois se assi forem tratados + Os que vos vem quando orais, + Essas horas que rezais, + São as horas dos finados. + + Pois logo, se sois servida + Que tantos mortos não sejão, + Não rezeis onde vos vejão, + Ou vêde para dar vida. + Ou se quereis escusar + Estes males que causastes, + Resuscitae quem matastes, + Não tereis por quem rezar. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNA. + + Se n'alma e no pensamento + Por vosso me manifesto, + Não me peza do que sento; + Que se não soffrer tormento, + Faço offensa a vosso gesto. + E, pois quanto Amor ordena, + E quanto est'alma deseja, + Tudo á morte me condena, + Não quero senão que seja + Tudo pena, pena, pena. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS. + + Sem olhos vi o mal claro, + Que dos olhos se seguio: + Pois cara sem olhos vio + Olhos, que lhe custão caro. + D'olhos não faço menção, + Pois quereis que olhos não sejão; + Vendo-vos, olhos sobejão, + Não vos vendo, olhos não são. + + * * * * * + + +DISPARATES NA INDIA. + + Este mundo es el camino + Adó hay ducientos váos, + Ou por onde bons e maos, + Todos somos del merino. + Mas os maos são de teor, + Que desque mudão a côr, + Chamão logo a ElRei compadre; + E emfim dejadlos, mi madre, + Que sempre tee hum sabor + De quem torto nasce, tarde s'endireita. + + Deixae a hum que se abone: + Diz logo de muito sengo, + Villas y castillos tengo, + Todos á mi mandar sone. + Então eu, qu'estou de môlho, + Com a lagrima no ôlho, + Polo virar do envés, + Digo-lhe: _tu ex illis es_, + E por isso não te ólho; + Pois honra e proveito não cabem n'hum saco. + + Vereis huns, que no seu seio + Cuidão que trazem París, + E querem com dous ceitís, + Fender anca pelo meio. + Vereis mancebindo de arte, + Com espada em talabarte: + Não ha mais Italiano. + A este direis: Meu mano, + Vós sois galante que farte; + Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido. + + Outros em cada theatro, + Por officio lhe ouvirês + Que se matarán con tres, + Y lo mismo haran con cuatro. + Prezão-se de dar respostas, + Com palavras bem compostas; + Mas se lhe meteis a mão, + Na paz mostrão coração, + Na guerra mostrão as costas; + Porque aqui torce a porca o rabo. + + Outros vejo por ahi, + A que se acha mal o fundo, + Que andão emendando o mundo, + E não se emendão a si. + Estes respondem a quem + Delles não entende bem + El dolor que está secreto; + Mas porém quem for discreto, + Responder-lhe-ha muito bem: + Assi entrou o mundo, assi ha de sahir. + + Achareis rafeiro velho, + Que se quer vender por galgo: + Diz que o dinheiro he fidalgo, + Que o sangue todo he vermelho. + Se elle mais alto o dissera, + Este pelote puzera: + Que o seu eco lhe responda; + Que su padre era de Ronda, + Y su madre de Antequera, + E quer cobrir o ceo co'huma joeira. + + Fraldas largas, grave aspeito, + Para Senador Romano. + Oh que grandissimo engano! + Que Momo lhe abrisse o peito! + Consciencia, que sobeja, + Siso, com que o mundo reja, + Mansidão outro que si; + Mas que lobo está em ti, + Metido em pelle de oveja! + E sabem-no poucos. + + Guardae-vos de huns meus Senhores, + Que ainda comprão e vendem; + Huns, qu'he certo, que descendem + Da geração de pastores: + Mostrão-se-vos bons amigos; + Mas se vos vem em perigos, + Escarrão-vos nas paredes; + Que de fóra dormiredes, + Irmão, que he tempo de figos; + Porque de rabo de porco nunca bom virote. + + Que direis d'huns, que as entranhas + Lh'estão ardendo em cobiça, + E se tee mando, a justiça + Fazem de teas de aranhas? + Com suas hypocrisias, + Que são de vossas espias: + Para os pequenos huns Neros, + Para os grandes tudo feros. + Pois tu, parvo, não sabías, + Que lá vão leis, onde querem cruzados? + + Mas tornando a huns enfadonhos, + Cujas cousas são notorias; + Huns, que contão mil histórias + Mais desmanchadas que sonhos; + Huns mais parvos que zamboas, + Qu'estudão palavras boas, + A que ignorancia os atiça: + Estes paguem por justiça, + Que tee morto mil pessoas, + Por vida de quanto quero. + + Adonde tienen las mentes + Huns secretos trovadores, + Que fazem cartas d'amores, + De que ficão mui contentes? + Não querem sahir á praça; + Trazem trova por negaça; + E se lha gabais, qu'he boa, + Diz qu'he de certa pessoa. + Ora que quereis que faça, + Senão ir-me por esse mundo? + + Ó tu, como me atarracas, + Escudeiro de Solia, + Com bocaes de fidalguia, + Trazido quasi com vacas; + Importuno a importunar, + Morto por desenterrar + Parentes, que cheirão ja! + Voto a tal, que me fara + Hum destes nunca fallar + Mais com viva alma. + + Huns, que fallão muito, vi, + De que quizera fugir; + Huns que, emfim, sem se sentir, + Andão fallando entre si; + Porfiosos sem razão; + E desque tomão a mão, + Fallão sem necessidade; + E se algum'hora he verdade, + Deve ser na confissão; + Porque quem não mente... Ja m'entendeis. + + Oh vós, quem quer que me lerdes, + Qu'haveis de ser avisado, + Que dizeis ao namorado + Que caça vento com redes? + Jura por vida da Dama; + Falla comsigo na cama; + Passêa de noite e escarra; + Por falsete na guitarra + Põe sempre: Viva que ama, + Porque calça a seu proposito. + + Mas deixemos, se quizerdes, + Por hum pouco as travessuras, + Porqu'entre quatro maduras + Leveis tambem cinco verdes. + Deitemos-nos mais ao mar; + E se algum se arrecear, + Passe tres ou quatro trovas. + E vós tomais côres novas? + Mas não he para espantar; + Que quem porcos ha menos, + Em cada mouta lhe roncão. + + Ó vós, que sois Secretarios + Das consciencias Reais, + E que entre os homens estais + Por Senhores ordinarios; + Porque não pondes hum freio + Ao roubar, que vai sem meio, + Debaixo de bom governo? + Pois hum pedaço de inferno + Por pouco dinheiro alheio + Se vende a Mouro e a Judeo. + + Porque a mente, affeiçoada + Sempre á Real dignidade, + Vos faz julgar por bondade + A malicia desculpada. + Move a presença Real + Huma affeição natural, + Que logo inclina ao Juiz + A seu favor: e não diz + Hum rifão muito geral, + Que o Abbade donde canta, dahi janta? + + E vós bailais a esse som: + Por isso, gentís pastores, + Vos chama a vós mercadores + Hum que só foi pastor bom. + + * * * * * + + +A JOÃO LOPES LEITÃO, SÔBRE HUMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU +A HUMA DAMA, QUE SE LHE FAZIA DONZELLA. + +_Mote._ + + Se vossa Dama vos dá + Tudo quanto vós quizestes, + Dizei-me: p'ra que lhe déstes + O que vos ella fez ja? + +_Volta._ + + Sendo os restos envidados, + E vós de cachas mil contos + Sabeis com quão poucos pontos, + Que lhos achastes quebrados; + Se o que tee, isso vos dá, + Vós mui bem lho merecestes, + Porque se a cacha lhe déstes + Tinha-vo-la feita ja. + + * * * * * + + +MOTE. + + Menina formosa e crua, + Bem sei eu + Quem deixará de ser seu, + Se vós quizereis ser sua. + +_Voltas._ + + Menina mais que na idade, + Se para me querer bem + Vos não vejo ter vontade, + He porque outrem vo-la tem; + Tee-vo-la, e faz-vo-la crua. + Porém eu + Ja tomára não ser meu, + Se vós não foreis tão sua. + + Nos olhos, e na feição + Vos vi, quando vos olhava, + Tanta graça, que vos dava + De graça este coração: + Não o quizestes de crua, + Por ser meu: + Se outrem vos dera o seu, + Póde ser foreis mais sua. + + Menina, tende maneira, + Que ainda não venha a ser, + Pois não quereis quem vos quer, + Que queirais quem vos não queira. + Olhae não me sejais crua, + Que pois eu + Quero ser vosso, e não meu, + Sêde vós minha, e não sua. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA DOENTE + +_Mote._ + + Da doença, em que ora ardeis, + Eu fôra vossa mézinha + Só com vós serdes a minha. + +_Voltas._ + + He muito para notar + Cura tão bem acertada, + Que podereis ser curada + Somente com me curar. + Se quereis, Dama, trocar, + Ambos temos a mézinha, + Eu a vossa, e vós a minha. + + Olhae, que não quer Amor, + (Porque fiquemos iguais) + Pois meu ardor não curais, + Que se cure vosso ardor. + Eu cá sinto vossa dor; + E se vós sentis a minha, + Dae e tomae a mézinha. + + * * * * * + + +OUTRO + + Deo, Senhora, por sentença + Amor, que fosseis doente, + Para fazerdes á gente + Doce e formosa a doença. + +_Voltas._ + + Não sabendo Amor curar, + Foi a doença fazer + Formosa para se ver, + Doce para se passar. + Então vendo a differença + Que ha de vós a toda a gente, + Mandou, que fôsseis doente, + Para glória da doença. + + E digo-vos de verdade, + Que a saude anda invejosa, + Por ver estar tão formosa + Em vós essa enfermidade. + Não façais logo detença, + Senhora, em estar doente, + Porque adoecerá a gente, + Com desejos da doença. + + Qu'eu por ter, formosa Dama, + A doença, qu'em vós vejo, + Vos confesso, que desejo + De cahir comvosco em cama. + Se consentis, que me vença + Deste mal, não houve gente + Da saude tão contente, + Como eu serei da doença. + + * * * * * + + +AO MESMO + + Olhae que dura sentença + Foi amor dar contra mi! + Que porqu'em vós me perdi, + Em vós me busque a doença. + Claro está, + Que em vós só me achará; + Qu'em mi, se me vem buscar, + Não poderá mais achar, + Que a fórma do que foi ja. + + Que s'em vós Amor se pôs, + Senhora, he forçado assi, + Que o mal, que me busca a mi, + Que vos faça mal a vós. + Sem mentir, + Amor me quiz destruir + Por modo nunca cuidado, + Pois ha de ser ja forçado + Pezar-vos de vos servir. + + Mas sois tão desconhecida, + E são meus males de sorte, + Que vos ameaça a morte, + Porque me negais a vida. + Se por boa + Tal justiça se pregoa; + Quando desta sorte for, + Havei vós perdão de Amor, + Que a parte ja vos perdoa. + + Mas o que mais temo, emfim, + He que nesta differença, + Que se não torne a doença, + Se me não tornais a mim. + De verdade, + Que ja vossa humanidade + De que se queixe não tem; + Pois para as almas tambem + Fez Amor enfermidade. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA VESTIDA DE DÓ. + +_Mote._ + + De atormentado e perdido, + Ja vos não peço, senão + Que tenhais no coração + O que tendes no vestido. + +_Volta._ + + Se de dó vestida andais + Por quem ja vida não tem + Porque não o haveis de quem + Vós tantas vezes matais? + Que brado sem ser ouvido, + E nunca vejo senão + Cruezas no coração, + E grande dó no vestido. + + * * * * * + + +A DONA GUIOMAR DE BLASFÉ, QUEIMANDO-SE COM HUMA VÉLA NO ROSTO. + +_Mote._ + + Amor, que todos offende, + Teve, Senhora, por gôsto, + Que sentisse o vosso rosto + O que nas almas accende. + +_Volta._ + + Aquelle rosto que traz + O mundo todo abrazado, + Se foi da flamma tocado, + Foi porque sinta o que faz. + Bem sei que Amor se vos rende; + Porém o seu presupposto + Foi sentir o vosso rosto + O que nas almas accende. + + * * * * * + + +A HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, QUE CHAMAVÃO QUARESMA. + +_Mote._ + + Não estejais aggravada, + Senão se for de vós mesma; + Porqu'a mulher, que he errada, + Com razão pela Quaresma + Deve ser disciplinada. + +_Voltas._ + + Quererdes profano amor + Em Quaresma, he consciencia: + Açoutes e penitencia + Vos está muito melhor. + Não fiqueis disto affrontada, + Pois a culpa he vossa mesma; + Que mulher, que he tão malvada, + He bem que pela Quaresma + Seja bem disciplinada. + + Se a penitencia vos val, + Mui bem açoutada estais; + Pois por Quaresma pagais + Vossos vicios do carnal. + Não torneis a ser errada, + Nem condemneis a vós mesma, + Pois estais ja emendada; + E não sereis por Quaresma + Outra vez disciplinada. + + * * * * * + + +A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, QUE LHE PROMETTEO. + + Quem no mundo quizer ser + Havido por singular, + Para mais s'engrandecer, + Ha de trazer sempre o dar + Nas ancas do prometter. + E ja que vossa mercê, + Largueza tee por divisa, + Como o mundo todo vê, + Ha mister que tanto dê, + Que venha a dar a camisa. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME FOÃ DOS ANJOS + +_Mote._ + + Senhora, pois me chamais + Tão sem razão tão mão nome, + Inda o diabo vos tome. + +_Voltas._ + + Quem quer que vio, ou que leo, + Terá por novo e moderno, + Ter quem vive no inferno, + O pensamento no ceo. + Mas se a vós vos pareceo, + Que m'estava bem tal nome, + Esse diabo vos tome. + + Perdido mais que ninguem + Confesso, Senhora, ser; + Mas o diabo não quer + Aos Anjos tamanho bem. + Pois logo não me convem, + Ou se me convem tal nome, + Será para que vos tome. + + Se vos benzeis com cautella, + Como de Anjo, e não de luz, + Mal póde fugir da Cruz, + Quem vós tendes pôsto nella. + Mas ja que foi minha estrella + Ser diabo, e ter tal nome, + Guardae-vos, que vos não tome. + + Ja que chegais tanto ao cabo, + Com as mãos, postas aos ceos + Vou sempre pedindo a Deos, + Que vos leve este diabo. + Eu, Senhora, não me gabo; + Mas pois que me dais tal nome, + Tomo-o, para que vos tome. + + * * * * * + + +A HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR. + +_Mote._ + + Qual terá culpa de nós + Neste mal, que todo he meu? + Quando vindes, não vou eu, + Quando vou, não vindes vós. + +_Volta._ + + Reinando Amor em dous peitos, + Tece tantas falsidades, + Que de conformes vontades + Faz desconformes effeitos. + Igualmente vive em nós; + Mas por desconcêrto seu + Vos leva, se venho eu, + Me leva, se vindes vós. + + * * * * * + + +MOTE SEU. + + Descalça vai pela neve: + Assi faz quem Amor serve. + +_Voltas._ + + Os privilegios, que os Reis + Não pódem dar, póde amor, + Que faz qualquer amador + Livre das humanas leis. + Mortes e guerras crueis, + Ferro, frio, fogo e neve, + Tudo soffre quem o serve. + + Moça formosa despreza + Todo o frio, e toda a dor. + Olhae quanto póde Amor + Mais que a propria natureza. + Medo, nem delicadeza + Lh'impede que passe a neve. + Assi faz quem Amor serve. + + Por mais trabalhos que leve, + A tudo se off'receria; + Passa pela neve fria, + Mais alva que a propria neve; + Com todo frio se atreve. + Vêde em que fogo ferve + O triste, que a Amor serve. + + * * * * * + + +OUTRO ALHEIO + + A dor que a minha alma sente, + Não na sabe toda a gente. + +_Voltas._ + + Qu'estranho caso de Amor! + Que desejado tormento! + Que venho a ser avarento + Das dores de minha dor! + Por me não tratar peor, + Se se sabe, ou se se sente, + Não na digo a toda a gente. + + Minha dor e causa della + De ninguem ouso fiar; + Que sería aventurar + A perder-me, ou a perdella. + E pois só com padecella, + A minha alma está contente, + Não quero que o saiba a gente. + + Ande no peito escondida, + Dentro n'alma sepultada; + De mi só seja chorada, + De ninguem seja sentida. + Ou me mate, ou me dê vida, + Ou viva triste ou contente, + Não ma saiba toda a gente. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + D'alma, e de quanto tiver, + Quero que me despojeis, + Com tanto, que me deixeis + Os olhos para vos ver. + +_Volta._ + + Cousa este corpo não tem, + Que ja não tenhais rendida: + Despois de tirar-lhe a vida, + Tirae-lhe a morte tambem. + Se mais tenho que perder, + Mais quero que me leveis, + Com tanto que me deixeis + Os olhos para vos ver. + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Amores de huma casada, + Que eu vi pelo meu mal. + +_Voltas._ + + N'huma casada fui pôr + Os olhos, de si senhores: + Cuidei que fossem amores, + Elles fizerão-se amor. + Faz-se o desejo maior + Donde o remedio não val, + Em perigo de meu mal. + + Não me paraceo que Amor + Pudesse tanto comigo, + Que donde entra por amigo, + Se levante por senhor. + Leva-me de dor em dor, + E de final em final, + Cada vez para mor mal. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + Enforquei minha esperança; + Mas Amor foi tão madraço, + Que lhe cortou o baraço. + +_Volta._ + + Foi a esperança julgada + Por sentença da Ventura, + Que pois me leve á pendura, + Que fosse dependurada: + Vem Cupido com a espada, + Corta-lhe cerce o baraço. + Cupido, foste madraço. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + Puz o coração nos olhos, + E os olhos puz no chão, + Por vingar o coração. + +_Volta._ + + O coração invejoso + Como dos olhos andava, + Sempre remoques me dava + Que não era o meu mimoso: + Venho eu de piedoso + Do Senhor meu coração, + E boto os olhos no chão. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + Puz meus olhos n'huma funda, + E fiz hum tiro com ella + Ás grades d'huma janella. + +_Volta._ + + Huma Dama, de malvada, + Tomou seus olhos na mão; + E tirou-me huma pedrada + Com elles ao coração. + Armei minha funda então, + E puz os meus olhos nella, + Trape, quebrei-lhe a janella. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + De pequena tomei amor, + Porque o não entendi; + Agora que o conheci, + Mata-me com desfavor. + +_Voltas._ + + Vi-o moço e pequenino, + E a mesma idade ensina + Que s'incline huma menina + Ás amostras d'hum menino: + Ouvi-lhe chamar Amor, + Pelo nome me venci; + Nunca tal engano vi, + Nem tamanho desamor. + + Cresceo-me de dia em dia + Com a idade a affeição, + Porque amor de criação, + N'alma, e na vida se cria. + Criou-se em mi este amor, + E senhoreou-se de mi: + Agora que o conheci, + Mata-me com desfavor. + + As flores me torna abrolhos, + A morte me determina + Quem eu trouxe de menina + Nas meninas de meus olhos. + Desta mágoa e desta dor + Tenho sabido que emfim + Por amor me perco a mim + Por quem de mi perde amor. + + Parece ser caso estranho + O que Amor em mi ordena, + Qu'em idade tão pequena + Haja tormento tamanho. + Sejão milagres d'Amor, + Hei-os de soffrer assi, + Até que haja dó de mi + Quem entender esta dor. + + * * * * * + + +CANTIGA VELHA. + + Apartárão-se os meus olhos + De mi tão longe. + Falsos amores, + Falsos, maos, enganadores. + +_Voltas._ + + Tratárão-me com cautella, + Por m'enganar mais asinha; + Dei-lhe posse d'alma minha, + Forão-me fugir com ella. + Não ha vê-los, nem ha vella, + De mi tão longe. + Falsos amores, + Falsos, maos, enganadores! + + Entreguei-lhe a liberdade, + E, emfim, da vida o melhor; + Forão-se; e do desamor + Fizerão necessidade. + Quem teve a sua vontade + De si tão longe? + Falsos amores, + E oxalá enganadores! + + * * * * * + + +OUTRA. + + Falso Cavalheiro, ingrato, + Enganais-me, + Vós dizeis, que eu vos mato, + E vós matais-me. + +_Voltas._ + + Costumadas artes são + Para enganar innocencias, + Piedosas apparencias + Sôbre isento coração. + Eu vos amo, e vós ingrato + Magoais-me, + Dizendo, que eu vos mato, + E vós matais-me. + + Vêde agora qual de nós + Anda mais perto do fim, + Que a justiça faz-se em mim, + E o pregão diz que sois vós. + Quando mais verdade trato + Levantais-me + Que vos desamo e vos mato, + E vós matais-me. + + * * * * * + + +PROPRIO. + + Se de meu mal me contento, + He porque para vós vejo + Em todo o mundo desejo, + E em ninguem merecimento. + +_Volta._ + + Para quem vos soube olhar + Tão impossivel foi ser + O poder-vos merecer, + Como o não vos desejar. + Pois logo a meu pensamento + Nenhum remedio lhe vejo, + Senão se der o desejo + Azas ao merecimento. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vós, Senhora, tudo tendes, + Senão que tendes os olhos verdes. + +_Voltas._ + + Dotou em vós natureza + O summo da perfeição; + Que o qu'em vós he senão, + He em outras gentileza: + O verde não se despreza, + Que, agora que vós os tendes, + São bellos os olhos verdes. + + Ouro e azul he a melhor + Côr, por que a gente se perde; + Mas a graça desse verde + Tira a graça a toda côr. + Fica agora sendo a flor + A côr, que nos olhos tendes, + Porque são vossos e verdes. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Para que me dan tormento, + Aprovechando tan poco? + Perdido, mas no tan loco, + Que descubra lo que siento. + +_Voltas._ + + Tiempo perdido es aquel + Que se passa en darme afan, + Pues cuanto más me lo dan, + Tanto menos siento dél. + Que descubra lo que siento? + No lo haré, que no es tan poco; + Que no puede ser tan loco + Quien tiene tal pensamiento. + + Sepan que me manda Amor, + Que de tan dulce querella, + A nadie dé parte della, + Porque la sienta mayor. + Es tan dulce mi tormento, + Que aun se me antoja poco; + Y si es mucho, quedo loco + De gusto de lo que siento. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + De vuestros ojos centellas, + Que encienden pechos de hielo, + Suben por el aire al cielo, + Y en llegando son estrellas. + +_Voltas._ + + Falsos loores os dan, + Que essas centellas tan raras + No son nel cielo mas claras + Que en los ojos donde estan. + Porque cuando miro en ellas + Lo como alumbran al suelo, + No sé que seran nel cielo; + Mas sé que acá son estrellas. + + Ni se puede presumir + Que al cielo suban, Señora; + Que la lumbre que en vós mora, + No tiene más que subir; + Mas pienso que dan querellas + Á Dios nel octavo cielo, + Porque son acá en el suelo + Dos tan hermosas estrellas. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + De dentro tengo mi mal, + Que de fuera no hay señal. + +_Volta._ + + Mi nueva y dulce querella + Es invisible á la gente; + El alma sola la siente, + Que el cuerpo no es dino della. + Como la viva centella + Se encubre en el pedernal, + De dentro tengo mi mal. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Amor loco, amor loco, + Yo por vós, y vós por otro. + +_Voltas._ + + Dióme Amor tormentos dós, + Para que pene doblado; + Uno es verme desamado, + Otro es mancilla de vós. + Ved que ordena Amor en nós! + Porque vós haceisme loco, + Que seais loca por otro. + + Tratais Amor de manera, + Que porque asi me tratais, + Quiere que, pues no me amais, + Que ameis otro que no os quiera. + Mas con todo, si no os viera + De todo loca por otro, + Con mas razon fuera loco. + + Y tan contrario viviendo, + Alfin, alfin, conformamos; + Pues ambos a dós buscamos + Lo que mas nos vá huyendo. + Voy tras vós siempre siguiendo, + Y vós huyendo por otro: + Andais loca, y me haceis loco. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vêde bem se nos meus dias + Os desgostos vi sobejos, + Pois tenho medo a desejos, + E quero mal a alegrias. + +_Volta._ + + Se desejos fui ja ter, + Servírão de atormentar-me; + Se algum bem póde alegrar-me, + Quiz-me antes entristecer. + Passei annos, passei dias + Em desgostos tão sobejos, + Que só por não ter desejos, + Perderei mil alegrias. + + * * * * * + + +PROPIO. + + Pois he mais vosso que meu, + Senhora, meu coração, + Eu vosso captivo são, + Meus olhos, lembre-vos eu. + +_Volta._ + + Lembre-vos minha tristeza, + Que jamais nunca me deixa; + Lembre-vos com quanta queixa + Se queixa minha firmeza: + Lembre-vos que não he meu + Este triste coração; + E pois ha tanta razão, + Meus olhos, lembre-vos eu. + + * * * * * + + +OUTRO. + + Senhora, pois minha vida + Tendes em vosso poder; + Por serdes della servida, + Não queirais que destruida + Possa ser. + +_Volta._ + + Isto não por me pezar + De morrer, se vós quizerdes; + Que melhor me he acabar + Mil vezes, que supportar + Os males que me fizerdes; + Mas só por serdes servida + De mi, em quanto viver, + Vos peço que minha vida + Não queirais que destruida + Possa ser. + + * * * * * + + +OUTRO. + + Pois damno me faz olhar-vos, + Não quero, por não perder-vos, + Que ninguem me veja ver-vos. + +_Voltas._ + + De ver-vos a não vos ver + Ha dous extremos mortaes; + E são elles em si taes, + Que hum por hum me faz morrer; + Mas antes quero escolher, + Que possa viver sem ver-vos, + Minh'alma, por não perder-vos. + + Deste tamanho perigo + Que remedio posso ter, + Se vivo só com vos ver, + Se vos não vejo, perigo? + Mas quero acabar comigo, + Que ninguem me veja ver-vos, + Senhora, por não perder-vos. + + * * * * * + + +A TRES DAMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVÃO. + +_Mote._ + + Não sei se m'engana Helena, + Se Maria, se Joanna; + Não sei qual dellas m'engana. + +_Voltas._ + + Huma diz que me quer bem, + Outra jura que me quer; + Mas em jura de mulher + Quem crerá, se ellas não crem? + Não posso não crer a Helena, + A Maria, nem Joanna; + Mas não sei qual mais m'engana. + + Huma faz-me juramentos + Que só meu amor estima, + A outra diz que se fina, + Joanna, que bebe os ventos. + Se cuido que mente Helena, + Tambem mentirá Joanna; + Mas quem mente não m'engana. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA MAL EMPREGADA. + +_Mote._ + + Menina, não sei dizer, + Vendo-vos tão acabada, + Quão triste estou por vos ver + Formosa e mal empregada. + +_Voltas._ + + Quem tão mal vos empregou, + Pouco de mi se dohia, + Pois não vio o quanto me hia + Em tirar-me o que tirou. + Obriga o primor que tem + Lindeza tão extremada + Que digão quantos a vem, + Formosa e mal empregada! + + Tomastes da formosura + Quanto della desejastes, + E com ella me guardastes + Para tão triste ventura. + Mataveis sendo solteira, + Matais agora em casada; + Matais de toda a maneira, + Formosa e mal empregada. + + * * * * * + + +A HUMA Foãa Gonçalves. + +_Mote._ + + Com vossos olhos, Gonçalves, + Senhora, captivo tendes + Este meu coração Mendes. + +_Volta._ + + Eu sou boa testimunha, + Que Amor tem por cousa má, + Que olhos, que são homens ja, + Se nomeiem sem alcunha; + Pois o coração apunha, + E diz, olhos, pois vós tendes, + Chamae-me coração Mendes. + + * * * * * + + +OUTRO + + De que me serve fugir + De morte, dor e perigo, + Se me eu levo comigo? + +_Voltas._ + + Tenho-me persuadido, + Por razão conveniente, + Que não posso ser contente, + Pois que pude ser nascido. + Anda sempre tão unido + O meu tormento comigo, + Qu'eu mesmo sou meu perigo. + + E se de mi me livrasse, + Nenhum gôsto me sería: + Quem, senão eu, não teria + Mal, que esse bem me tirasse? + Fôrça he logo que assi passe, + Ou com desgôsto comigo, + Ou sem gôsto e sem perigo. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS. + + Quando me quer enganar + A minha bella perjura, + Para mais me confirmar + O que quer certificar, + Polos seus olhos me jura. + Como meu contentamento + Todo se rege por elles, + Imagina o pensamento, + Que se faz aggravo a elles + Não crer tão grão juramento. + + Porém como em casos tais + Ando ja visto e corrente, + Sem outros certos sinais, + Quanto me ella jura mais, + Tanto mais cuido que mente. + Então vendo-lhe offender + Huns taes olhos como aquelles, + Deixo-me antes tudo crer, + Só pola não constranger + A jurar falso por elles. + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Ha hum bem, que chega e foge; + E chama-se este bem tal, + Ter bem para sentir mal. + +_Volta._ + + Quem viveo sempre n'hum ser, + Inda que seja em pobreza, + Não vio o bem da riqueza, + Nem o mal d'empobrecer: + Não ganhou para perder; + Mas ganhou com vida igual + Não ter bem, nem sentir mal. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO. + +_Mote._ + + Olhos, não vos mereci + Que tenhais tal condição, + Tão liberaes para o chão, + Tão irosos para mi. + +_Volta._ + + Baixos e honestos andais, + Por vos negardes a quem + Não quer mais que aquelle bem, + Que vós no chão espalhais? + Se pouco vos mereci, + Não m'estimeis mais que o chão, + A quem vós o galardão + Dais, e mo negais a mi. + + * * * * * + + +PROPRIO. + + Venceo-me Amor, não o nego; + Tee mais fôrça qu'eu assaz; + Que como he cego e rapaz, + Dá-me porrada de cego. + +_Volta._ + + Só porque he rapaz ruim, + Dei-lhe hum boféte zombando. + Diz-me: Ó mao, estais me dando, + Porque sois maior que mim? + Pois se eu vos descarrégo, + E em dizendo isto, chaz; + Torna-me outra; tá rapaz, + Que dás porrada de cego. + + * * * * * + + +AO DESCONCERTO DO MUNDO. + + Os bons vi sempre passar + No mundo graves tormentos; + E para mais m'espantar, + Os maos vi sempre nadar + Em mar de contentamentos. + Cuidando alcançar assi + O bem tão mal ordenado, + Fui mao; mas fui castigado. + Assi, que só para mi + Anda o mundo concertado. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA. + +_Mote._ + + Perguntais-me, quem me mata? + Não quero responder nada, + Por vos não fazer culpada. + +_Volta._ + + E se a penna não me atiça, + A dizer pena tão forte, + Quero-me entregar á morte, + Antes que a vós á justiça. + Porém se tendes cobiça + De vos verdes tão culpada, + Direi que não sinto nada. + + * * * * * + + +MOTE. + + Esconjuro-te, Domingas, + Pois me dás tanto cuidado, + Que me digas se te vingas, + Viverei menos penado. + +_Voltas._ + + Juravas-me, que outras cabras + Folgavas de apascentar; + Eu por não me magoar, + Fingia qu'erão palabras. + Agora d'arte te vingas + D'algum meu doudo peccado, + Qu'inda que queiras, Domingas, + Não posso ser enganado. + + Qualquer cousa busca o seu; + A fonte vai para o Tejo, + E tu para o teu desejo, + Por te vingares do meu. + De mi t'esqueces, Domingas, + Como eu faço do meu gado: + Praza a Deos, que se te vingas, + Que morra desesperado. + + Na phantasia te pinto, + Fallo-te, responde o monte, + Busco o rio, busco a fonte, + Endoudeço, e não o sinto: + Domingas no valle brado, + Responde o eco Domingas; + E tu inda te não vingas + De me ver doudo tornado! + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Se a alma ver-se não póde + Onde pensamentos ferem, + Que farei para me crerem? + +_Voltas._ + + Se n'alma huma só ferida + Faz na vida mil sinais, + Tanto se descobre mais, + Quanto he mais escondida. + S'esta dor tão conhecida + Me não vem, porque não querem, + Que farei para ma crerem? + + Se se pudesse bem ver + Quanto callo, e quanto sento, + Despois de tanto tormento + Cuidaria alegre ser. + Mas se não me querem crer + Olhos, que tão mal me ferem, + Que farei para me crerem? + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vosso bem querer, Senhora, + Vosso mal melhor me fôra. + +_Voltas._ + + Ja agora certo conheço + Ser melhor todo tormento, + Onde o arrependimento + Se compra por justo preço. + Enganou-me hum bom comêço; + Mas o fim me diz agora + Que o mal melhor me fôra. + + Quando hum bem he tão damnoso, + Que sendo bem, dá cuidado, + O damno fica obrigado + A ser menos perigoso. + Mas se a mi por desditoso, + Co'o bem me foi mal, Senhora, + Co'o vosso mal bem me fôra. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Se me desta terra for, + Eu vos levarei, amor. + +_Voltas._ + + Se me for, e vos deixar, + (Ponho por caso, que possa) + Est'alma minha, qu'he vossa, + Comvosco m'ha de ficar. + Assi que só por levar + A minha alma, se me for, + Vos levarei, meu amor. + + Que mal póde maltratar-me, + Que comvosco seja mal? + Ou que bem póde ser tal, + Que sem vós possa alegrar-me? + O mal não póde enojar-me, + O bem me será maior, + Se vos levar, meu amor. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Pequenos contentamentos, + Hi buscar quem contenteis, + Que a mi não me conheceis. + +_Voltas._ + + Os gostos, que tantas dores + Fizerão ja valer menos, + Não os acceita pequenos, + Quem nunca teve maiores: + Bem parecem vãos favores, + Pois tão tarde me quereis, + Qu'inda me não conheceis. + + Offereceis-me alegria, + Tendo-me ja cego e mouco: + He baixeza acceitar pouco, + Quem tanto vos merecia. + Ide-vos por outra via, + Pois o bem que me deveis, + Nunca mo satisfareis. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Perdigão perdeo a penna, + Não ha mal que lhe não venha. + +_Voltas._ + + Perdigão, que o pensamento + Subio a hum alto lugar, + Perde a penna do voar, + Ganha a pena do tormento: + Não tee no ar, nem no vento, + Azas com que se sostenha: + Não ha mal que lhe não venha. + + Quiz voar a huma alta torre, + Mas achou-se desasado; + E vendo-se despennado, + De puro penado morre. + Se a queixumes se soccorre, + Lança no fogo mais lenha: + Não ha mal que lhe não venha. + + * * * * * + + +A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA. + + Pois a tantas perdições, + Senhoras, quereis dar vida, + Ditosa seja a ferida, + Que tee taes Cirurgiões! + Pois ventura + Me subio a tanta altura, + Que me sejais valedoras, + Ditosa seja a tristura, + Que se cura + Por vossos rogos, Senhoras! + + Ser minha pena mortal, + Ja qu'entendeis, que he assi, + Não quero fallar por mi, + Que por mi falla meu mal. + Sois formosas, + Haveis de ser piedosas, + Por ser tudo d'huma côr; + Que pois Amor vos fez rosas + Milagrosas, + Fazei milagres de Amor. + + Pedi a quem vós sabeis, + Que saiba de meu trabalho, + Não pelo qu'eu nisso valho, + Mas pelo que vós valeis. + Que o valer + De vosso alto merecer, + Com lho pedir de giolhos, + Fara qu'em meu padecer + Possa ver + O poder que tee seus olhos. + + Vossa muita formosura + Com a sua tanto val, + Que me rio de meu mal, + Quando cuido em quem me cura. + A meus ais, + Peço-vos que lhe valhais, + Damas de Amor tão valídas, + Que nunca tal dor sintais, + Que queirais, + Onde não sejais queridas. + + * * * * * + + +CANTIGA ALHEIA. + + Na fonte está Leonor + Lavando a talha, e chorando, + Ás amigas perguntando: + Vistes lá o meu amor? + +_Voltas._ + + Pôsto o pensamento nelle, + Porque a tudo o Amor a obriga, + Cantava, mas a cantiga + Erão suspiros por elle. + Nisto estava Leonor + O seu desejo enganando, + Ás amigas perguntando: + Vistes lá o meu amor? + + O rosto sôbre hua mão, + Os olhos no chão pregados, + Que de chorar ja cansados, + Algum descanso lhe dão; + Desta sorte Leonor + Suspende de quando em quando + Sua dor; e em si tornando, + Mais pezada sente a dor. + + Não deita dos olhos ágoa, + Que não quer que a dor s'abrande + Amor, porque em mágoa grande + Sécca as lagrimas a mágoa. + Despois que de seu amor + Soube novas perguntando, + D'improviso a vi chorando. + Olhae que extremos de dor! + + * * * * * + + +ESTAS TROVAS MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA +DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO D. +FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FÓRA, PEDINDO-LHE O +FIZESSE DESEMBARGAR. + + Que diabo ha tão damnado, + Que não tema a cutilada + Dos fios seccos da espada + Do fero Miguel armado? + Pois se tanto hum golpe seu + Sôa na infernal cadeia; + Do que o demonio arreceia + Como não fugirei eu? + + Com razão lhe fugiria, + Se contr'elle, e contra tudo + Não tivesse hum forte escudo + Só em Vossa Senhoria. + Por tanto, Senhor, proveja, + Pois me tee ao remo atado, + Que antes que seja embarcado, + Eu desembargado seja. + + * * * * * + + +ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, INVERNANDO EM GOA. + + Vossa Senhoria creia + Que não apura o engenho + Fome, se he como a que tenho, + Mas afraca e corta a veia. + E quem o contrário sente, + Está farto em toda a hora, + Como estou faminto agora: + Mas Martha, se está contente, + Dá-lhe pouco de quem chora. + + E pois Vossa Senhoria + Em geral a tudo acode, + Acuda a mi, que só póde + Dar-me no engenho valia. + Esperte esta Musa minha, + Que o tempo traz somnolenta; + Valha-lhe nesta tormenta + Com essa doce mézinha, + Que só dá vida e contenta. + + Acuda com provisão, + Não de papel, mas provída + D'ouro e prata; que esta vida + Não sustentão papéis, não. + De feitor a thesoureiro + Ser-me-hia trabalho grande; + Vossa Senhoria mande + Algum remedio, primeiro, + Com que a morte o ferro abrande. + +_Ajuda de Luis de Camões._ + + Nos livros doutos se trata + Que o grande Achilles insano + Deo a morte a Heitor Troiano; + Mas agora a fome mata + O nosso Heitor Lusitano. + Só ella o póde acabar, + Se essa vossa condição + Liberal e singular + Não mete entr'elles bastão, + Bastante para o fartar. + + * * * * * + + +A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO. + +_Esparsa._ + + Não posso chegar ao cabo + De tamanho desarranjo, + Que sendo vós, Senhora, Anjo, + Vos queira tanto o Diabo. + Dais manifesto sinal + De minha muita firmeza, + Que os diabos querem mal + Aos Anjos por natureza. + + * * * * * + + +CANTIGA. + + Vi chorar huns claros olhos, + Quando delles me partia. + Oh que mágoa! Oh que alegria! + +_Voltas._ + + Polo meu apartamento + Se arrazárão todos d'ágoa. + Quem cuidou qu'em tanta mágoa + Achasse contentamento? + Julgue todo entendimento + Qual mais sentir se devia, + Se esta dor, se esta alegria? + + Quando mais perdido estive, + Então deo a est'alma minha + Na maior mágoa que tinha, + O maior gôsto que tive. + Assi, se minha alma vive, + Foi porque me defendia + Desta dor esta alegria? + + O bem, que Amor me não deu + No tempo que desejei, + Quando delle me apartei, + Me confessou, qu'era meu. + Agora que farei eu, + Se a fortuna me desvia + De lograr esta alegria? + + Não sei se foi enganado, + Pois me tinha defendido + Das íras de mal querido, + No mal de ser apartado. + Agora peno dobrado, + Achando no fim do dia + O princípio da alegria. + + * * * * * + + +VILLANCETE PASTORIL. + + Deos te salve, Vasco amigo. + Não me fallas? Como assi? + Bofé, Gil, não 'stava aqui. + +_Voltas._ + + Pois onde te hão de fallar, + Se não 'stás onde appareces? + Se Magdanela conheces, + Nella me pódes achar. + E como te hão d'ir buscar + Aonde fogem de ti? + Pois nem eu estou em mi. + + Porque te não acharei + Em ti, como em Magdanela? + Porque me fui perder nella + O dia que me ganhei. + Quem tão bem falla, não sei + Como anda fóra de si. + Ella falla dentro em mi. + + Como estás aqui presente, + Se lá tens a alma e a vida? + Porqu'he d'hum'alma perdida + Apparecer sempre á gente. + Se es morto, bem se consente + Que todos fujão de ti. + Eu tambem fujo de mi. + + * * * * * + + +OUTRO PASTORIL. + + Porque no miras, Giraldo, + Mi zampoña como suena? + Porque no me mira Elena. + +_Voltas._ + + Vuelve acá, no estês pasmado, + Mira que gentil sonar! + Como te podrá mirar + Quien no puede ser mirado? + Y que bueno enamorado! + No dirás, si es mala, o buena? + No, que me hizo mudo Elena. + + Mira tan dulce armonía, + Déjate dessos enojos. + Tengo clavados los ojos + Con que mirar te podia. + Ansí Dios te dé alegría: + No vés cuan dulce que suena? + No, porque no veo Elena. + + * * * * * + + +OUTRO PASTORIL. + + Crescem, Camilla, os abrolhos + De chorares por Cincero: + Não he muito, que lhe quero, + Belisa, mais que meus olhos. + +_Voltas._ + + Sempre os teus olhos estão, + Camilla, d'ágoas banhados. + De se verem desamados + Póde ser que chorarão. + Si, mas crescem os abrolhos, + E tu cegas por Cincero. + S'eu não vejo quem mais quero, + Para que quero mais olhos? + + Se se foi ha mais d'hum mês, + Teus olhos não cansarão? + Não, que apos elle se vão + Estas lagrimas que vês. + Fazem logo estes abrolhos + O mato espinhoso e fero. + Pois eu não vejo a Cincero, + Isso só verão meus olhos. + + Chorando queres morrer? + Mais quero viver chorando. + Tu não vês que vás cegando? + Se cego, como hei de ver? + Põe na vista outros antolhos. + Não posso, nem menos quero. + Outra para outro Cincero, + Antes não quero ter olhos. + + * * * * * + + +A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES. + +_Mote._ + + Olhos, em qu'estão mil flores, + E com tanta graça olhais, + Que parece que os Amores + Morão onde vós morais. + +_Volta._ + + Vem-se rosas e boninas, + Olhos, nesse vosso ver; + Vem-se mil almas arder + No fogo dessas meninas. + E di-lo-hão minhas dores, + Meus suspiros e meus ais; + E dirão mais, que os amores + Morão onde vós morais. + + * * * * * + + +MOTE. + + Quem se confia em huns olhos, + Nas meninas delles vê + Que meninas não tee fé. + +_Voltas._ + + Quem põe suas confianças + Em meninas sem assento, + Offereça o soffrimento + A duzentas mil mudanças. + Mostrão no ar esperanças; + Mas em seus olhos se vê + Como não tee n'alma fé. + + Enganão ao parecer, + Porque no caso d'amar, + São mulheres no matar, + E meninas no querer. + Quem em seus olhos se crer, + Cem mil graças nelles vê; + Vê-las sim, mas não ter fé. + + Amostrão-vos n'hum momento + Favores assi a mólhos; + Mas na mudança dos olhos + Se lhe muda o pensamento. + Em nada ja tee assento, + E o que mais nelles se vê + He formosura sem fé. + + * * * * * + + +LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA. + +_Cantiga Velha._ + + Sois formosa, e tudo tendes, + Senão que tendes os olhos verdes, + +_Voltas._ + + Ninguem vos póde tirar + Serdes tão bem assombrada; + Mas heis-me de perdoar, + Que os olhos não valem nada. + Fostes mal aconselhada + Em querer que fossem verdes: + Trabalhae de os esconderdes. + + A vossa testa he jardim, + Onde Amor se desenfada; + He tão branca e bem talhada, + Que parece de marfim. + Assi he; e quanto a mim, + Isso vos nasce de a terdes + Tão perto dos olhos verdes. + + Os cabellos desatados + O mesmo sol escurecem; + Senão que por ser ondados, + Algum tanto desmerecem: + Mas á fé, que se parecem + A furto dos olhos verdes, + Não vos peze, não, de os terdes. + + As pestanas tee mostrado + Ser raios, que abrazão vidas: + Se não forão tão compridas, + Tudo o mais era pintado: + Ellas me tinhão levado + A alma, sem o vós saberdes, + Se não forão os olhos verdes. + + O mimo desse carão + Nem pôr-lhe os olhos consente: + O ser liso e transparente + Rouba todo o coração: + Inda assi achareis nação, + Que lhe não peze de os verdes; + Mas não seja co'os olhos verdes. + + Esse riso, que he compôsto + De quantas graças nascêrão, + Senão que alguns me disserão, + Vos faz covinhas no rôsto. + Na vontade tenho posto + Dar-vos a alma, se quizerdes, + A trôco dos olhos verdes. + + Nunca se vio, nem se escreve + Boca co'huma graça igual, + Se não fôra de coral, + E os dentes de côr de neve. + Dou-me eu a Deos, que me leve! + Soffrerei quanto tiverdes, + Não me tenhais olhos verdes. + + Essa garganta merece + Outras palavras não minhas, + Senão qu'he feita em rosquinhas + D'alfenim, ao que parece. + Eu sei bem quem se offerece + A tomar tudo o que tendes, + E tambem os olhos verdes. + + Essas mãos são ferropeas: + Só o vê-las enfeitiça; + Senão que são alvas, cheias, + E tee a feição roliça; + Com que appellais por justiça, + Para com ellas prenderdes + Quem vê vossos olhos verdes. + + A vossa galantaria + Matará a quem fallardes: + Tendes huns desdens e tardes, + Que eu logo vos roubaria. + Oh dou-me a Santa Maria! + Sou cujo de quanto tendes, + E tambem desses olhos verdes. + + * * * * * + + +AO MESMO. + + Tudo tendes singular, + Com que os corações rendeis, + Senão que rindo, fazeis + Covinhas para enterrar: + E para resuscitar + Tee força a graça que tendes; + Senão que tendes os olhos verdes. + + Tudo, Senhora, alcançais, + Quanto o ser formosa alcança, + Senão que dais esperança + Co'os olhos com que matais. + Se acaso os alevantais, + He para as almas renderdes; + Senão que tendes os olhos verdes. + + * * * * * + + +A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS +GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR +PRINCÍPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA. + + Cinco gallinhas e meia + Deve o Senhor de Cascais; + E a meia vinha cheia + De appetite para as mais. + + * * * * * + + +MOTE. + + Catharina bem promette; + Ora má! como ella mente! + +_Voltas._ + + Catharina he mais formosa + Para mi, que a luz do dia; + Mas mais formosa sería, + Se não fosse mentirosa. + Hoje a vejo piedosa, + Á manhãa tão differente, + Que sempre cuido que mente. + + Prometteo-me hontem de vir, + Nunca mais appareceo; + Creio que não prometteo, + Senão só por me mentir. + Faz-me, emfim, chorar e rir; + Rio, quando me promette, + Mas chóro quando me mente. + + Jurou-me aquella cadella + De vir, pela alma que tinha; + Enganou-me; tinha a minha; + Deo-lhe pouco de perdella. + A vida gasto apos ella, + Porque ma dá, se promette, + Mas tira-ma, quando mente. + + Má, mentirosa, malvada, + Dizei, porque me mentis? + Prometteis, e então fugis? + Pois sem tornar, tudo he nada. + Não sois bem aconselhada; + Que quem promette, se mente, + O que perde não o sente. + + Tudo vos consentiria + Quanto quizesseis fazer, + Se este vosso prometter + Fosse por me ter hum dia. + Todo então me desfaria + Com gôsto; e vós de contente, + Zombarieis de quem mente. + + Mas pois folgais de mentir, + Promettendo de me ver, + Eu vos deixo o prometter, + Deixae-me vós o servir: + Haveis então de sentir + Quanto a minha vida sente + O servir a quem lhe mente. + + Catharina me mentio + Muitas vezes, sem ter lei, + E todas lhe perdoei + Por huma só que cumprio. + Se como me consentio + Fallar-lhe, o mais me consente, + Nunca mais direi que mente. + + * * * * * + + +MOTE. + + A alma, qu'está offrecida + A tudo, nada lhe he forte; + Assi passa o bem da vida, + Como passa o mal da morte. + +_Volta._ + + De maneira me succede + O que temo, e o que desejo, + Que sempre o que temo, vejo, + Nunca o que a vontade pede. + Tenho tão offerecida + Alma e vida a toda a sorte, + Que isso me dera da morte, + Como ja me dá da vida. + + * * * * * + + +MOTE. + + Ferro, fogo, frio e calma, + Todo o mundo acabarão; + Mas nunca vos tirarão, + Alma minha, da minha alma. + +_Volta._ + + Não vos guardei, quando vinha, + Em tôrre, fôrça, ou engenho; + Que mais guardada vos tenho + Em vós, que sois alma minha. + Alli nem frio, nem calma, + Não podem ter jurdição; + Na vida sim, porém não + Em vós que tenho por alma. + + * * * * * + + +MOTE. + + Esperei, ja não espero + De mais vos servir, Senhora; + Pois me fazeis cada hora + Tanto mal, que desespéro. + +_Volta._ + + Pois sei certo que folgais, + Quando mais mal me fazeis, + E que nunca descansais, + Senão quando me mostrais + Quão pouco bem me quereis; + Servir-vos mais não espero + Pois meu viver empeora + Com me fazerdes, Senhora, + Tanto mal, que desespéro. + + * * * * * + + +MOTE. + + Descalça vai para a fonte + Leonor pela verdura; + Vai formosa, e não segura. + +_Voltas._ + + Leva na cabeça o pote, + O testo nas mãos de prata, + Cinta de fina escarlata, + Sainho de chamalote: + Traz a vasquinha de cote, + Mais branca que a neve pura; + Vai formosa, e não segura. + + Descobre a touca a garganta, + Cabellos de ouro entrançado, + Fita de côr d'encarnado, + Tão linda que o mundo espanta: + Chove nella graça tanta, + Que dá graça á formosura; + Vai formosa, e não segura. + + * * * * * + + +MOTE. + + Quem disser que a barca pende, + Dir-lhe-hei, mana, que mente. + +_Voltas._ + + Se vos quereis embarcar, + E para isso estais no caes, + Entrae logo: que tardaes? + Olhae qu'está preamar: + E se outrem, por vos fretar, + Vos disser qu'esta que pende, + Dir-lhe-hei, mana, que mente. + + Esta barca he de carreira; + Tee seus apparelhos novos: + Não ha como ella outra em Povos + Boa de leme, e veleira: + Mas, se por ser a primeira, + Vos disser alguem que pende, + Dir-lhe-hei, mana, que mente. + + * * * * * + + +MOTE. + + Com razão queixar-me posso + De vós, que mal vos queixais; + Pois, Senhora, vos sangrais, + Que seja n'hum corpo vosso. + +_Voltas._ + + Eu para levar a palma, + Com que ser vosso mereça, + Quero que o corpo padeça + Por vós, que delle sois alma. + Vós do corpo vos queixais, + Eu queixar-me de vós posso, + Porque, tendo hum corpo vosso, + Na minha alma vos sangrais. + + E sem fazer differença + No que de mi possuis, + Pelo pouco que sentis, + Dais á minh'alma doença. + Porque dous aventurais? + Oh não seja o damno nosso! + Sangre-se este corpo vosso, + Porque, minha alma, vivais. + + E inda, se attentardes bem, + Seguis medicina errada, + Porque para ser sangrada + Hum'alma sangue não tem. + E pois em mi sarar posso + Males, que á minha alma dais, + Se inda outra vez vos sangrais, + Seja neste corpo vosso. + + * * * * * + + +MOTE. + + Ojos, herido me habeis, + Acabad ya de matarme; + Mas muerto volved á mirarme, + Porque me resusciteis. + +_Voltas._ + + Pues me distes tal herida, + Con gana de darme muerte, + El morir me es dulce suerte, + Pues con morir me dais vida. + Ojos, qué os deteneis? + Acabad ya de matarme; + Mas muerto volved á mirarme, + Porque me resusciteis. + + La llaga cierto ya es mia, + Aunque, ojos, vós no querrais; + Mas si la muerte me dais, + El morir me es alegría. + Y así digo que acabeis, + O ojos, ya de matarme; + Mas muerto volved á mirarme, + Porque me resusciteis. + + * * * * * + + +A DONA FRANCISCA DE ARAGÃO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO: + + Mas porém a que cuidados? + + Tanto maiores tormentos + Forão sempre os que soffri, + Daquillo que cabe em mi, + Que não sei que pensamentos + São os para que nasci. + Quando vejo este meu peito + A perigos arriscados + Inclinado, bem suspeito + Que a cuidados sou sujeito, + _Mas porém a que cuidados?_ + +_Ao mesmo._ + + Que vindes em mi buscar, + Cuidados, que sou captivo? + Eu não tenho que vos dar: + Se vindes a me matar, + Ja ha muito que não vivo: + Se vindes, porque me dais + Tormentos desesperados, + Eu, que sempre soffri mais, + Não digo que não venhais; + _Mas porém a que cuidados?_ + +_Ao mesmo._ + + Se as penas que Amor me deu, + Vem por tão suaves meios, + Não ha que temer receios; + Que val hum cuidado meu + Por mil descansos alheios. + Ter n'huns olhos tão formosos + Os sentidos enlevados, + Bem sei qu'em baixos estados + São cuidados perigosos; + _Mas porém a que cuidados?..._ + +_Carta com a glosa acima._ + +Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sería assi mais +seguro: mas agora que he servida de me tornar a resuscitar, por me +mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de +agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de +novo me dá, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me fica +mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei +tres entendimentos, segundo as palavras delle pudérão soffrer: se forem +bons, he mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas. + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Campos bem-aventurados, + Tornae-vos agora tristes; + Que os dias, em que me vistes, + Alegres ja são passados. + +_Glosa._ + + Campos cheios de prazer, + Vós qu'estais reverdecendo, + Ja m'alegrei com vos ver; + Agora venho a temer + Qu'entristeçais em me vendo. + E pois a vista alegrais + Dos olhos desesperados, + Não quero que me vejais, + Para que sempre sejais, + _Campos, bem-aventurados._ + + Porém se por accidente + Vos pezar de meu tormento, + Sabereis que Amor consente + Que tudo me descontente, + Senão descontentamento. + Por isso vós, arvoredos, + Que ja nos meus olhos vistes + Mais alegria, que medos, + Se mos quereis fazer ledos, + _Tornae-vos agora tristes._ + + Ja me vistes ledo ser, + Mas despois que o falso Amor + Tão triste me fez viver, + Ledos folgo de vos ver, + Porque me dobreis a dor. + E se este gôsto sobejo + De minha dor me sentistes, + Julgae quanto mais desejo + As horas que vos não vejo, + _Que os dias em que me vistes._ + + O tempo, qu'he desigual, + De seccos, verdes vos tem; + Porqu'em vosso natural + Se muda o mal para o bem, + Mas o meu para mor mal. + Se perguntais, verdes prados, + Pelos tempos differentes + Que de Amor me forão dados, + Tristes, aqui são presentes, + _Alegres, ja são passados._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Trabalhos descansarião + Se para vós trabalhasse; + Tempos tristes passarião, + Se algum'hora vos lembrasse. + +_Glosa._ + + Nunca o prazer se conhece, + Senão despois da tormenta: + Tão pouco o bem permanece, + Que se o descanso florece, + Logo o trabalho arrebenta. + Sempre os bens se lograrião, + Mas os males tudo atalhão; + Porém ja que assi porfião, + Onde descansos trabalhão, + _Trabalhos descansarião._ + + Qualquer trabalho me fôra + Por vós grão contentamento: + Nada sentira, Senhora, + Se víra disto algum'hora + Em vós hum conhecimento. + Por mal que o mal me tratasse, + Tudo por bem tomaria; + Postoque o corpo cansasse, + A alma descansaria, + _Se para vós trabalhasse._ + + Quem vossas cruezas ja + Soffreo, a tudo se poz; + Costumado ficará; + E muito melhor será, + Se trabalhar para vós. + Tristezas esquecerião, + Postoque mal me tratárão; + Annos não me lembrarião, + Que como est'outros passarão, + _Tempos tristes passarião._ + + Se fosse galardoado + Este trabalho tão duro, + Não vivêra magoado. + Mas não o foi o passado, + Como o será o futuro? + De cansar não cansaria, + Se quizereis, que cansasse; + Cavar, morrer, fa-lo-hia; + Tudo, emfim, esqueceria, + _Se algum'hora vos lembrasse._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Triste vida se me ordena, + Pois quer vossa condição + Que os males, que dais por pena, + Me fiquem por galardão. + +_Glosa._ + + Despois de sempre soffrer, + Senhora, vossas cruezas, + A pezar de meu querer, + Me quereis satisfazer + Meus serviços com tristezas. + Mas, pois em balde resiste + Quem vossa vista condena, + Prestes estou para a pena; + Que de galardão tão triste + _Triste vida se me ordena._ + + De contente do mal meu + A tão grande extremo vim, + Que consinto em minha fim: + Assi que vós e mais eu, + Ambos somos contra mim. + Mas que soffra meu tormento, + Sem querer mais galardão, + Não he fóra de razão + Que queira meu soffrimento, + _Pois quer vossa condição._ + + O mal, que vós dais por bem, + Esse, Senhora, he mortal; + Que o mal, que dais como mal, + Em muito menos se tem, + Por costume natural. + Mas porém nesta victoria, + Que comigo he bem pequena, + A maior dor me condena + A pena, que dais por gloria, + _Que os males, que dais por pena._ + + Que mor bem me possa vir, + Que servir-vos, não o sei. + Pois que mais quero eu pedir, + Se quanto mais vos servir, + Tanto mais vos deverei? + Se vossos merecimentos + De tão alta estima são, + Assaz de favor me dão + Em querer que meus tormentos + _Me fiquem por galardão._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Ja não posso ser contente, + Tenho a esperança perdida; + Ando perdido entre a gente, + Nem morro, nem tenho vida. + +_Glosa._ + + Despois que meu cruel Fado + Destruio huma esperança, + Em que me vi levantado, + No mal fiquei sem mudança, + E do bem desesperado. + O coração, que isto sente, + Á sua dor não resiste, + Porque vê mui claramente + Que pois nasci para triste, + _Ja não posso ser contente._ + + Por isso, contentamentos, + Fugi de quem vos despreza: + Ja fiz outros fundamentos, + Ja fiz senhora a tristeza + De todos meus pensamentos. + O menos que lh'entreguei, + Foi esta cansada vida: + Cuido que nisto acertei, + Porque de quanto esperei + _Tenho a esperança perdida._ + + Acabar de me perder + Fôra ja muito melhor; + Tivera fim esta dor, + Que não podendo mor ser, + Cada vez a sinto mor. + De vós desejo esconder-me, + E de mi principalmente, + Onde ninguem possa ver-me; + Que pois me ganho em perder-me, + _Ando perdido entre a gente._ + + Gostos de mudanças cheios, + Não me busqueis, não vos quero: + Tenho-vos por tão alheios, + Que do bem que não espero, + Inda me ficão receios. + Em pena tão sem medida, + Em tormento tão esquivo + Que morra, ninguem duvída; + Mas eu se morro, ou se vivo, + _Nem morro, nem tenho vida._ + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA. + +_Mote._ + + A morte, pois que sou vosso, + Não a quero; mas se vem, + Ha de ser todo meu bem. + +_Glosa._ + + Amor, qu'em meu pensamento + Com tanta fé se fundou, + Me tee dado hum regimento, + Que quando vir meu tormento + Me salve com cujo sou. + E com esta defensão, + Com que tudo vencer posso, + Diz a causa ao coração: + Não tee em mi jurdição + _A morte, pois que sou vosso._ + + Por exprimentar hum dia + Amor se me achava forte + Nesta fé, como dizia, + Me convidou com a morte, + Só por ver se a temeria. + E como ella seja a cousa + Onde está todo meu bem, + Respondi-lhe, como quem + Quer dizer mais, e não ousa: + _Não a quero, mas se vem..._ + + Não disse mais, porque então + Entendeo quanto me toca; + E se tinha dito o não, + Muitas vezes diz a boca, + O que nega o coração. + Toda a cousa defendida + Em mais estima se tem: + Por isso he cousa sabida, + Que perder por vós a vida + _Ha de ser todo meu bem._ + + * * * * * + + +Á MESMA DAMA. + + Vejo-a n'alma pintada, + Quando me pede o desejo + O natural que não vejo. + +_Glosa._ + + Se só de ver puramente + Me transformei no que vi, + De vista tão excellente + Mal poderei ser ausente, + Em quanto o não for de mi. + Porque a alma namorada + A traz tão bem debuxada, + E a memoria tanto voa, + Que se a não vejo em pessoa, + _Vejo-a n'alma pintada._ + + O desejo, que s'estende + Ao que menos se concede, + Sôbre vós pede e pretende, + Como o doente que pede + O que mais se lhe defende. + Eu, qu'em ausencia vos vejo, + Tenho piedade e pejo + De me ver tão pobre estar, + Qu'então não tenho que dar, + _Quando me pede o desejo._ + + Como áquelle que cegou, + He cousa vista e notoria, + Que a natureza ordenou + Que se lhe dobre em memoria + O qu'em vista lhe faltou: + Assi a mi, que não vejo + Co'os olhos o que desejo, + Na memoria e na firmeza + Me concede a natureza + _O natural que não vejo._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Sem vós, e com meu cuidado, + Olhae com quem, e sem quem. + +_Glosa._ + + Vendo Amor que com vos ver + Mais levemente soffria + Os males que me fazia, + Não me pôde isto soffrer; + Conjurou-se com meu Fado; + Hum novo mal me ordenou: + Ambos me levão forçado, + Não sei onde, pois que vou + _Sem vós e com meu cuidado._ + + Não sei qual he mais estranho + Destes dous males que sigo, + Se não vos ver, se comigo + Levar imigo tamanho. + O que fica, e o que vem, + Hum me mata, outro desejo: + Com tal mal, e sem tal bem, + Em taes extremos me vejo: + _Olhae com quem, e sem quem_! + + * * * * * + + +AO MESMO. + + Amor, cuja providencia + Foi sempre que não errasse, + Porque n'alma vos levasse, + Respeitando o mal d'ausencia, + Quiz qu'em vós me transformasse. + E vendo-me ir maltratado, + Eu e meu cuidado sós, + Proveo nisso de attentado, + Por não me ausentar de vós, + _Sem vós, e com meu cuidado._ + + Mas est'alma, qu'eu trazia, + Porque vós nella morais, + Deixa-me cego, e sem guia; + Que ha por melhor companhia + Ficar onde vós ficais. + Assi me vou de meu bem, + Onde quer a forte estrella, + Sem alma, qu'em si vos tem, + Co'o mal de viver sem ella: + _Olhae com quem, e sem quem_! + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Sem ventura he por demais. + +_Glosa._ + + Todo o trabalhado bem + Promette gostoso fruito; + Mas os trabalhos, que vem, + Para quem dita não tem + Valem pouco, e custão muito. + Rompe toda a pedra dura, + Faz os homens immortais + O trabalho quando atura; + Mas querer achar ventura, + _Sem ventura, he por demais._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Minh'alma, lembrae-vos della. + +_Glosa._ + + Pois o ver-vos tenho em mais + Que mil vidas que me deis, + Assi como a que me dais, + Meu bem, ja que mo negais, + Meus olhos, não mo negueis. + E se a tal estado vim + Guiado de minha estrella, + Quando houverdes dó de mim, + Minha vida, dae-lhe a fim, + _Minh'alma, lembrae-vos della._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Tudo póde huma affeição. + +_Glosa._ + + Tee tal jurdição Amor + N'alma donde se aposenta, + E de que se faz senhor, + Que a liberta e isenta + De todo humano temor. + E com mui justa razão, + Como senhor soberano, + Que Amor não consente dano. + E pois me soffre tenção, + Gritarei por desengano: + _Tudo póde huma affeição._ + + * * * * * + + +TROVA DE BOSCÃO. + + Justa fué mi perdicion; + De mis males soy contento; + Ya no espero galardon, + Pues vuestro merecimiento + Satisfizo mi pasion. + +_Glosa._ + + Despues que Amor me formó + Todo de amor, cual me veo, + En las leyes, que me dió, + El mirar me consintió, + Y defendióme el deseo. + Mas el alma, como injusta, + En viendo tal perfeccion, + Dió al deseo ocasion: + Y pues quebré ley tan justa, + _Justa fué mi perdicion._ + + Mostrándoseme el Amor + Mas benigno que cruel, + Sobre tirano traidor, + De zelos de mi dolor, + Quiso tomar parte en él. + Yo que tan dulce tormento + No quiero dallo, aunque peco, + Resisto, y no lo consiento; + Mas si me lo toma á trueco + _De mis males, soy contento._ + + Señora, ved lo que ordena + Este Amor tan falso nuestro! + Por pagar á costa agena, + Manda que de un mirar vuestro + Haga el premio de mi pena. + Mas vos, para que veais + Tan engañosa intencion, + Aunque muerto me sintais, + No mireis, que si mirais, + _Ya no espero galardon._ + + Pues que premio (me direis) + Esperas que será bueno? + Sabed, sino lo sabeis, + Que es lo mas de lo que peno + Lo menos que mereceis. + Quien hace al mal tan ufano, + Y tan libre al sentimiento? + El deseo? No, que es vano. + El amor? No, que es tirano. + _Pues? Vuestro merecimiento._ + + No pudiendo Amor robarme + De mis tan caros despojos, + Aunque fué por mas honrarme, + Vos sola para matarme + Le prestastes vuestros ojos. + Matáranme ambos á dos; + Mas á vos con mas razon + Debe el la satisfaccion; + Que á mi por él, y por vos, + _Satisfizo mi pasion._ + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Todo es poco lo posible. + +_Glosa._ + + Ved que engaño señorea + Nuestro juicio tan loco, + Que por mucho que se crea, + Todo el bien, que se desea, + Alcanzado, queda poco. + Un bien de cualquiera grado, + Si de haberse es imposible, + Queda mucho deseado. + Mas para mucho, alcanzado, + _Todo es poco lo posible._ + +_Outro._ + + Posible es á mi cuidado + Poderme hacer satisfecho, + Si fuera posible al hado + Hacer no hecho lo hecho, + Y futuro lo pasado. + Si olvido pudiera haber, + Fuera remedio sufrible; + Mas ya que no puede ser, + Para contento me hacer, + _Todo es poco lo posible._ + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vos teneis mi corazon. + +_Glosa._ + + Mi corazon me han robado; + Y Amor viendo mis enojos, + Me dijo: Fuéte llevado + Por los mas hermosos ojos, + Que desque vivo he mirado. + Gracias sobrenaturales + Te lo tienen en prision. + Y si Amor tiene razon, + Señora, por las señales, + _Vos teneis mi corazon._ + + * * * * * + + +MOTE. + + Qué veré que me contente? + +_Glosa._ + + Desque una vez yo miré, + Señora, vuestra beldad, + Jamas por mi voluntad + Los ojos de vos quité. + Pues sin vos placer no siente + Mi vida, ni lo desea, + Si no quereis que yo os vea, + _Qué veré que me contente?_ + + * * * * * + + +MOTE. + + Sem vós, e com meu cuidado. + +_Glosa._ + + Querendo Amor esconder-vos + Em parte que vos não visse, + Co'o extremo de querer-vos + Cegou-me os olhos com ver-vos, + Levou-vos, sem que vos visse. + Eu cego, mas atinado, + Quando vi que vos não via, + Do mesmo Amor indignado, + Ja vêdes qual ficaria + _Sem vós e com meu cuidado._ + + * * * * * + + +MOTE. + + Retrato, vós não sois meu; + Retratárão-vos mui mal; + Que a serdes meu natural, + Foreis mofino como eu. + +_Glosa._ + + Indaqu'em vós a arte vença + O que o natural tee dado, + Não fostes bem retratado; + Que ha em vós mais differença, + Que no vivo do pintado. + Se o lugar se considera + Do alto estado, que vos deu + A sorte, qu'eu mais quizera; + Se he qu'eu sou quem d'antes era, + _Retrato, vós não sois meu._ + + Vós na vossa glória pôsto, + Eu na minha sepultura, + Vós com bens, eu com desgôsto; + Pareceis-vos ao meu rosto, + E não ja á minha ventura. + E pois nella e vós errarão + O qu'em mi he principal, + Muito em ambos s'enganárão. + Se por mi vós retratárão, + _Retratárão-vos mui mal._ + + Mas se esse rosto fingido + Quizerão representar, + E houverão por bom partido + Dar-vos a alma do sentido + Para a glória do lugar; + Víreis, pôsto nessa alteza, + Que vos não ha cousa igual; + E que nem a maior mal + Podeis vir, nem mor baixeza, + _Que a serdes meu natural._ + + Por isso não confesseis + Serdes meu, qu'he desatino, + Com que o lugar perdereis: + Se conservar-vos quereis, + Blazonae que sois divino. + Que se nesta occasião + Conhecessem qu'ereis meu, + Por meu vos derão de mão, + . . . . . . . . . . + _Fôreis mofino, como eu._ + + * * * * * + + +MOTE. + + Foi-se gastando a esperança, + Fui entendendo os enganos; + Do mal ficárão-me os danos, + E do bem só a lembrança. + +_Glosa._ + + Nunca em prazeres passados + Tive firmeza segura. + Antes tão arrebatados, + Qu'inda não erão chegados, + Quando mos levou ventura. + E como quem desconfia + Ter em tal sorte mudança, + No meio desta porfia, + De quanto bem pretendia + _Foi-se gastando a esperança._ + + Não tive por desatino + A occasião de perdella; + Mas foi culpa do destino, + Que a ninguem, como mais dino, + Amor pudéra sostella. + Dei-lhe tudo o qu'era seu, + Não receando taes danos + Deste, a quem alma lhe deu: + Quando ja não era meu, + _Fui entendendo os enganos._ + + Fiquei deste mal sobejo + A quem a causa compete + Dizer-lhe tudo o que vejo, + Que Amor acceita o desejo, + Mas mente no que promete. + Que se a mi se me obrigou + A dar-me bens soberanos, + Foi engano que ordenou; + Que do bem tudo levou, + _Do mal ficárão-me os danos._ + + E se dor tão desigual + Soffro em mi com padecellos, + Quero de novo soffrellos; + Que por a causa ser tal, + Não determino offendellos. + Dobre-se o mal, falte a vida, + Cresça a fé, falte a esperança, + Pois foi mal agradecida; + Fique a dor n'alma imprimida, + _E do bem só a lembrança._ + + * * * * * + + +ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA. + + Aquella captiva, + Que me tee captivo, + Porque nella vivo, + Ja não quer que viva. + Eu nunca vi rosa + Em suaves mólhos, + Que para meus olhos + Fosse mais formosa. + + Nem no campo flores, + Nem no ceo estrellas, + Me parecem bellas, + Como os meus amores. + Rosto singular, + Olhos socegados, + Pretos e cansados, + Mas não de matar. + + Huma graça viva, + Que nelles lhe mora, + Para ser senhora + De quem he captiva. + Pretos os cabellos, + Onde o povo vão + Perde opinião, + Que os louros são bellos. + + Pretidão de Amor, + Tão doce a figura, + Que a neve lhe jura + Que trocára a cór. + Leda mansidão, + Que o siso acompanha, + Bem parece estranha, + Mas barbara não. + + Presença serena, + Que a tormenta amansa: + Nella emfim descansa + Toda minha pena. + Esta he a captiva, + Que me tee captivo; + E pois nella vivo, + He fôrça que viva. + + * * * * * + + +MOTE. + + Quem ora soubesse + Onde o Amor nasce, + Que o semeasse! + +_Voltas._ + + D'Amor e seus danos + Me fiz lavrador; + Semeava amor, + E colhia enganos; + Não vi, em meus anos, + Homem que apanhasse + O que semeasse. + + Vi terra florída + De lindos abrolhos, + Lindos para os olhos, + Duros para a vida. + Mas a rez perdida, + Que tal herva pasce, + Em forte hora nasce. + + Com quanto perdi, + Trabalhava em vão: + Se semeei grão, + Grande dor colhi. + Amor nunca vi + Que muito durasse, + Que não magoasse. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Se me levão ágoas, + Nos olhos as levo. + +_Voltas._ + + Se de saudade + Morrerei ou não, + Meus olhos dirão + De mi a verdade. + Por elles me atrevo + A lançar as ágoas, + Que mostrem as mágoas + Que nesta alma levo. + + As ágoas, qu'em vão + Me fazem chorar, + Se ellas são do mar, + Estas de amar são. + Por ellas relévo + Todas minhas mágoas; + Que se fôrça d'ágoas + Me leva, eu as levo. + + Todas me entristecem, + Todas são salgadas; + Porém as choradas + Doces me parecem. + Correi, doces ágoas, + Que se em vós m'enlévo, + Não doem as mágoas, + Que no peito levo. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Menina dos olhos verdes, + Porque me não vedes? + +_Voltas._ + + Elles verdes são, + E tee por usança + Na côr esperança, + E nas obras não. + Vossa condição + Não he d'olhos verdes, + Porque me não vêdes. + + Isenções a mólhos + Qu'elles dizem terdes, + Não são d'olhos verdes, + Nem de verdes olhos. + Sirvo de giolhos, + E vós não me credes, + Porque me não vêdes. + + Havião de ser, + Porque possa vê-los, + Que huns olhos tão bellos + Não se hão d'esconder: + Mas fazeis-me crer, + Que ja não são verdes, + Porque me não vêdes. + + Verdes não o são, + No que alcanço delles; + Verdes são aquelles + Qu'esperança dão. + Se na condição + Está serem verdes, + Porque me não vedes? + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Trocae o cuidado, + Senhora, comigo; + Vereis o perigo, + Qu'he ser desamado. + +_Voltas._ + + Se trocar desejo + O amor entre nós, + He para qu'em vós + Vejais o que vejo. + E sendo trocado + Este amor comigo, + Ser-vos-ha castigo + Terdes meu cuidado. + + Tendes o sentido + D'Amor livre e isento, + E cuidais qu'he vento + Ser tão mal querido. + Não seja o cuidado + Tão vosso inimigo, + Que queira o perigo + De ser desamado. + + Mas nunca foi tal + Este meu querer, + Que a quem tanto quer, + Queira tanto mal + Seja eu maltratado, + E nunca o castigo + Vos mostre o perigo, + Qu'he ser desamado. + + * * * * * + + +Á TENÇÃO DE MIRAGUARDA. + + Ver, e mais guardar + De ver outro dia, + Quem o acabaria? + +_Voltas._ + + Da lindeza vossa, + Dama, quem a vê, + Impossivel he + Que guardar-se possa. + Se faz tanta mossa + Ver-vos hum só dia, + Quem se guardaria? + + Melhor deve ser + Neste aventurar + Ver, e não guardar, + Que guardar e ver. + Ver e defender, + Muito bom sería, + Mas quem poderia? + + * * * * * + + +MOTE. + + Irme quiero, madre, + Á aquella galera, + Con el marinero, + Á ser marinera. + +_Voltas._ + + Madre, si me fuere, + Do quiera que vó, + No lo quiero yo, + Que el Amor lo quiere. + Aquel niño fiero, + Hace que me mueva + Por un marinero + Á ser marinera. + + El que todo puede, + Madre, no podrá, + Pues el alma vá, + Que el cuerpo se quede. + Con él por que muero + Voy, porque no muera; + Que si es marinero, + Seré marinera. + + Es tirana ley + Del niño Señor, + Que por un amor + Se deseche un Rey. + Pues desta manera + Quiero irme, quiero + Por un marinero + Á ser marinera. + + Decid, ondas, cuando + Vistes vos doncella, + Siendo tierna y bella, + Andar navegando? + Mas qué no se espera + Daquel niño fiero? + Vea yo quien quiero, + Sea marinera. + + * * * * * + + +MOTE. + + Saudade minha, + Quando vos veria? + +_Voltas._ + + Este tempo vão, + Esta vida escassa, + Para todos passa, + Só para mi não. + Os dias se vão + Sem ver este dia, + Quando vos veria. + + Vêde esta mudança + Se está bem perdida, + Em tão curta vida + Tão longa esperança. + Se este bem se alcança, + Tudo soffreria, + Quando vos veria. + + Saudosa dor, + Eu bem vos entendo; + Mas não me defendo, + Porque offendo Amor. + Se fôsseis maior, + Em maior valia + Vos estimaria. + + Minha saudade, + Charo penhor meu, + A quem direi eu + Tamanha verdade? + Na minha vontade + De noite e de dia + Sempre vos teria. + + * * * * * + + +MOTE. + + Vida da minha alma, + Não vos posso ver: + Isto não he vida + Para se soffrer. + +_Voltas._ + + Quando vos eu via, + Esse bem lograva, + A vida estimava, + Pois então vivia; + Porque vos servia + Só para vos ver. + Ja que vos não vejo + Para qu'he viver? + + Vivo sem razão, + Porqu'em minha dor + Não a poz Amor; + Que inimigos são. + Mui grande traição + Me obriga a fazer + Que viva, Senhora, + Sem vos poder ver. + + Não me atrevo ja, + Minha tão querida, + A chamar-vos vida, + Porque a tenho má. + Ninguem cuidará, + Que isto póde ser, + Sendo-me vós vida, + Não poder viver. + + * * * * * + + +MOTE. + + Coifa de beirame + Namorou Joanne. + +_Voltas._ + + Por cousa tão pouca + Andas namorado? + Amas o toucado, + E não quem o touca? + Ando cega e louca + Por ti, meu Joanne, + Tu pelo beirame. + + Amas o vestido? + Es falso amador. + Tu não vês que Amor + Se pinta despido? + Cego e mui perdido + Andas por beirame, + E eu por ti, Joanne. + + A todos encanta + Tua parvoice; + De tua doudice + Gonçalo s'espanta, + E zombando canta: + Coifa de beirame, + Namorou Joanne. + + Eu não sei que viste + Neste meu toucado, + Que tão namorado + Delle te sentiste. + Não te veja triste; + Ama-me, Joanne, + E deixa o beirame. + + Joanne gemia, + Maria chorava, + E assi lamentava + O mal que sentia: + (Os olhos feria, + E não o beirame, + Que matou Joanne) + + Não sei do que vem + Amares vestido; + Que o mesmo Cupido + Vestido não tem. + Sabes de que vem + Amares beirame? + Vem de ser Joanne. + + * * * * * + + +MOTE. + + Se Helena apartar + Do campo seus olhos, + Nascerão abrolhos. + +_Voltas._ + + A verdura amena, + Gados, que pasceis, + Sabei que a deveis + Aos olhos d'Helena. + Os ventos serena, + Faz flores d'abrolhos + O ar de seus olhos. + + Faz serras florídas, + Faz claras as fontes: + S'isto faz nos montes, + Que fara nas vidas? + Tra-las suspendidas, + Como hervas em mólhos, + Na luz de seus olhos. + + Os corações prende + Com graça inhumana; + De cada pestana + Hum'alma lhe pende. + Amor se lhe rende, + E pôsto em giolhos, + Pasma nos seus olhos. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Verdes são os campos + De côr de limão; + Assi são os olhos + Do meu coração. + +_Voltas._ + + Campo, que t'estendes + Com verdura bella; + Ovelhas, que nella + Vosso pasto tendes; + D'hervas vos mantendes + Que traz o verão; + E eu das lembranças + Do meu coração. + + Gados, que pasceis + Com contentamento, + Vosso mantimento + Não no entendeis. + Isso que comeis, + Não são hervas, não; + São graça dos olhos + Do meu coração. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Verdes são as hortas + Com rosas e flores: + Moças, que as régão, + Matão-me d'amores. + +_Voltas._ + + Entre estes penedos + Que daqui parecem, + Verdes hervas crescem, + Altos arvoredos. + Vai destes rochedos + Ágoa, com que as flores + D'outras são regadas, + Que mátão d'amores. + + Com ágoa, que cai + Daquella espessura, + Outra se mistura, + Que dos olhos sai: + Toda junta vai + Regar brancas flores; + Onde ha outros olhos, + Que mátão d'amores. + + Celestes jardins, + As flores estrellas: + Hortelôas dellas + São huns seraphins. + Rosas e jasmins + De diversas côres, + Anjos, que as régão, + Mátão-me d'amores. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Menina formosa, + Dizei de que vem + Serdes rigorosa + A quem vos quer bem? + +_Voltas._ + + Não sei quem assella + Vossa formosura; + Que quem he tão dura + Não póde ser bella. + Vós sereis formosa; + Mas a razão tem + Que quem he irosa, + Não parece bem. + + A mostra he de bella, + As obras são cruas: + Pois qual destas duas + Ficará na sella? + Se ficar _irosa_, + Não vos está bem: + Fique antes _formosa_, + Que mais fôrça tem. + + O Amor formoso + Se pinta e se chama: + Se he amor, ama, + Se ama, he piedoso. + Diz agora a grosa + Que este texto tem, + Que quem he formosa + Ha de querer bem. + + Havei dó, menina, + Dessa formosura; + Que se a terra he dura, + Secca-se a bonina. + Sêde piedosa; + Não veja ninguem + Que por rigorosa + Percais tanto bem. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Tende-me mão nelle, + Que hum real me deve. + +_Voltas._ + + C'hum real d'amor, + Dous de confiança, + E tres d'esperança, + Me foge o trédor. + Falso desamor + S'encerra naquelle + Que hum real me deve. + + Pedio-mo emprestado, + Não lhe quiz penhor: + He mao pagador; + Tendo-mo afferrado. + C'hum cordel atado, + Ao Tronco se leve; + Que hum real me deve. + + Por esta travéssa + Se vai acolhendo: + Ei-lo vai correndo, + Fugindo a grã pressa. + Nesta mão, e nessa + O falso se atreve, + Que hum real me deve. + + Comprou-me o amor, + Sem lhe fazer preço: + Eu não lhe mereço + Dar-me desfavor. + Dá-me tanta dor, + Que ando apos elle + Pelo que me deve. + + Eu de cá bradando, + Elle vai fugindo; + Elle sempre rindo, + Eu sempre chorando. + E de quando em quando + No amor se atreve, + Como que não deve. + + A fallar verdade + Elle ja pagou; + Mas ainda ficou + Devendo ametade. + Minha liberdade + He a que me deve: + Só nella se atreve. + + * * * * * + + +MOTE. + + Dó la mi ventura, + Que no veo alguna? + +_Voltas._ + + Sepa quien padece, + Que en la sepultura + Se esconde ventura + De quien la merece. + Allá me parece, + Que quiere fortuna + Que yo halle alguna. + + Naciendo mesquino, + Dolor fué mi cama; + Tristeza fué el ama, + Cuidado el padrino. + Vestióse el destino + Negra vestidura, + Huyó la ventura. + + No se halló tormento, + Que alli no se hallase; + Ni bien, que pasase, + Sinó como viento. + Oh qué nacimiento, + Que luego en la cuna + Me siguió fortuna! + + Esta dicha mia, + Que siempre busqué, + Buscándola, hallé + Que no la hallaria; + Que quien nace en dia + D'estrella tan dura, + Nunca halla ventura. + + No puso mi estrella + Mas ventura em min: + Ansí vive en fin + Quien nace sin ella. + No me quejo della; + Quéjome que atura + Vida tan escura. + + * * * * * + + +MOTE. + + Vida de minha alma. + +_Volta._ + + Dous tormentos vejo + Grandes por extremo: + Se vos vejo, temo, + E se não, desejo. + Quando me despejo, + E venho a escolher, + Temendo o desejo, + Desejo temer. + + * * * * * + + +CANTIGA ALHEIA. + + Pastora da serra, + Da serra da Estrella, + Perco-me por ella. + +_Voltas._ + + Nos seus olhos bellos + Tanto Amor se atreve, + Que abraza entre a neve + Quantos ousão vellos. + Não sólta os cabellos + Aurora mais bella: + Perco-me por ella. + + Não teve esta serra + No meio d'altura + Mais que a formosura, + Que nella se encerra. + Bem ceo fica a terra, + Que tee tal estrella: + Perco-me por ella. + + Sendo entre pastores + Causa de mil males, + Não se ouvem nos vales + Senão seus louvores. + Eu só por amores + Não sei fallar nella, + Sei morrer por ella. + + D'alguns, que sentindo + Seu mal vão mostrando. + Se ri, não cuidando + Qu'inda paga rindo. + Eu triste, encobrindo + Só meus males della, + Perco-me por ella. + + Se flores deseja + Por ventura bellas, + Das que colhe dellas + Mil morrem d'inveja. + Não ha quem não veja + Todo o melhor nella: + Perco-me por ella. + + Se n'ágoa corrente + Seus olhos inclina, + Faz a luz divina + Parar a corrente. + Tal se vê, que sente + Por ver-se a ágoa nella: + Perco-me por ella. + + * * * * * + + +ENDECHAS. + + Vós sois huma Dama + Das feias do mundo; + De toda a má fama + Sois cabo profundo. + + A vossa figura + Não he para ver; + Em vosso poder + Não ha formosura. + + Vós fostes dotada + De toda a maldade; + Perfeita beldade + De vós he tirada. + + Sois muito acabada + De taixa e de glosa: + Pois quanto a formosa, + Em vós não ha nada. + + Do grão merecer + Sois bem apartada; + Andais alongada + Do bem parecer. + + Bem claro mostrais + Em vós fealdade: + Não ha hi maldade, + Que não precedais. + + De fresco carão + Vos vejo ausente; + Em vós he presente + A má condição. + + De ter perfeição + Mui alheia estais; + Mui muito alcançais + De pouca razão. + + * * * * * + + +ENDECHAS. + + Vai o bem fugindo, + Cresce o mal co'os annos, + Vão-se descubrindo + Co'o tempo os enganos. + + Amor e alegria. + Menos tempo dura. + Triste de quem fia + Nos bens da ventura! + + Bem sem fundamento + Tee certa a mudança, + Certo o sentimento + Na dor da lembrança. + + Quem vive contente, + Viva receoso: + Mal que se não sente, + He mais perigoso. + + Quem males sentio, + Saiba ja temer; + E pelo que vio + Julgue o qu'ha de ser. + + Alegre vivia, + Triste vivo agora; + Chora a alma de dia, + E de noite chora. + + Confesso os enganos + De meu pensamento: + Bem de tantos annos + Foi-se n'hum momento. + + Meus olhos, que vistes? + Pois vos atrevestes, + Chorae, olhos tristes, + O bem que perdestes. + + A luz do sol pura + Só a vós se negue; + Seja noite escura, + Nunca a manhãa chegue. + + O campo floreça, + Murmurem as ágoas, + Tudo me entristeça, + Cresção minhas mágoas. + + Quizera mostrar + O mal que padeço; + Não lhe dá lugar + Quem lhe deu comêço. + + Em tristes cuidados + Passo a triste vida; + Cuidados cansados, + Vida aborrecida. + + Nunca pude crer + O que agora creio: + Cegou-me o prazer + Do mal que me veio. + + Ah ventura minha, + Como me negaste! + Hum so bem que tinha, + Porque mo roubaste? + + Triste fantasia + Quanta cousa guarda! + Quem ja visse o dia, + Que tanto lhe tarda! + + Nesta vida cega + Nada permanece; + O qu'inda não chega, + Ja desaparece. + + Qualquer esperança + Foge como o vento: + Tudo faz mudança, + Salvo meu tormento. + + Amor cego e triste, + Quem o tee padece: + Mal quem lhe resiste! + Mal quem lhe obedece! + + No meu mal esquivo + Sei como Amor trata: + E pois nelle vivo, + Nenhum amor mata. + + * * * * * + + + +SEXTINAS. + + +SEXTINA I. + + Foge-me pouco a pouco a curta vida, + Se por caso he verdade qu'inda vivo; + Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos; + Chóro por o passado; e em quanto fallo, + Se me passão os dias passo a passo. + Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena. + + Que maneira tão aspera de pena! + Pois nunca hum'hora vio tão longa vida + Em que do mal mover se visse hum passo. + Que mais me monta ser morto que vivo? + Para que chóro, emfim? para que fallo, + Se lograr-me não pude de meus olhos? + + Oh formosos, gentís e claros olhos, + Cuja ausencia me move a tanta pena, + Quanta se não comprende em quanto fallo! + Se no fim de tão longa e curta vida + De vós m'inflammasse inda o raio vivo, + Por bem teria todo o mal que passo. + + Mas bem sei que primeiro o extremo passo + Me ha de vir a cerrar os tristes olhos, + Que Amor me mostre aquelles por quem vivo. + Testimunhas serão a tinta e penna, + Qu'escrevêrão de tão molesta vida + O menos que passei, e o mais que fallo. + + Oh que não sei qu'escrevo, nem que fallo! + Pois se d'hum pensamento em outro passo, + Vejo tão triste genero de vida, + Que se lhe não valerem tanto os olhos, + Não posso imaginar qual seja a penna + Qu'esta pena traslade com que vivo. + + N'alma tenho contino hum fogo vivo, + Que se não respirasse no que fallo, + Estaria ja feita cinza a pena; + Mas sôbre a maior dor que soffro e passo, + O temperão com lagrimas os olhos: + Com que, se foge, não se acaba a vida. + + Morrendo estou na vida, e em morte vivo; + Vejo sem olhos, e sem lingua fallo; + E juntamente passo gloria e pena. + + * * * * * + + +SEXTINA II. + + A culpa de meu mal só tee meus olhos, + Pois que derão a Amor entrada n'alma, + Para que perdesse eu a liberdade. + Mas quem póde fugir a huma brandura, + Que despois de vos pôr em tantos males, + Dá por bens o perder por ella a vida? + + Assaz de pouco faz quem perde a vida + Por condição tão dura e brandos olhos; + Pois de tal qualidade são meus males, + Que o mais pequeno delles toca n'alma. + Não s'engane com mostras de brandura + Quem quizer conservar a liberdade. + + Roubadora he de toda liberdade + (E oxalá perdoasse á triste vida!) + Esta que o falso Amor chama brandura, + Ai meus antes imigos, que meus olhos! + Que mal vos tinha feito esta vossa alma, + Para vós lhe fazerdes tantos males? + + Cresção de dia em dia embora os males; + Perca-se embora a antigua liberdade; + Transforme-se em Amor esta triste alma; + Padeça embora esta innocente vida; + Que bem me págão tudo estes meus olhos, + Quando de outros, se os vem, vem a brandura. + + Mas como nelles póde haver brandura, + Se causadores são de tantos males? + Engano foi d'Amor, porque meus olhos + Dessem por bem perdida a liberdade. + Ja não tenho que dar senão a vida, + Se a vida ja não deo, quem ja deo a alma. + + Que póde ja'sperar quem a sua alma + Captiva eterna fez d'huma brandura, + Que quando vos dá morte, diz qu'he vida? + Forçado me he gritar nestes meus males, + Olhos meus: pois por vós a liberdade + Perdi, de vós me queixarei, meus olhos. + + Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma, + Pois dais a liberdade a tal brandura, + Que para dar mais males, dá mais vida. + + * * * * * + + +SEXTINA III. + + Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia, + Amanhecido só para meu damno! + Pudeste-me apartar daquella vista + Por quem vivia com meu mal contente? + Ah se o supremo fôras desta vida, + Qu'em ti se começára a minha glória! + + Mas como eu não nasci para ter glória, + Senão pena que cresça cada dia, + O ceo m'está negando o fim da vida, + Porque não tenha fim com ella o damno: + Para que nunca possa ser contente, + Da vista me tirou aquella vista. + + Suave, deleitosa, alegre vista, + Donde pendia toda a minha gloria, + Por quem na mor tristeza fui contente; + Quando será que veja aquelle dia + Em que deixe de ver tão grave damno, + E em que me deixe tão penosa vida? + + Como desejarei humana vida, + Ausente d'hua mais que humana vista, + Que tão glorioso me fazia o damno! + Vejo o meu damno sem a sua glória; + Á minha noite falta ja seu dia: + Triste tudo se vê, nada contente. + + Pois sem ti ja não posso ser contente, + Mal posso desejar sem ti a vida; + Sem ti ja ver não posso claro dia, + Não posso sem te ver desejar vista; + Na tua vista só se via a glória, + Não ver a glória tua he ver meu damno. + + Não via maior glória que meu damno, + Quando do damno meu eras contente: + Agora me he tormento a maior glória, + Que póde prometter-me Amor na vida, + Pois tornar-te não póde á minha vista, + Que só na tua achava a luz do dia. + + E pois de dia em dia cresce o damno, + Nem posso sem tal vista ser contente, + Só com perder a vida acharei glória. + + * * * * * + + +SEXTINA IV. + + Sempre me queixarei desta crueza + Que Amor usou comigo quando o tempo, + A pezar de meu duro e triste fado, + A meus males queria dar remedio, + Em apartar de mi aquella vista, + Por quem me contentava a triste vida. + + Levára-me, oxalá, traz ella a vida, + Para que não sentira esta crueza + De me ver apartado de tal vista! + E praza a Deos não veja o proprio tempo + Em mi, sem esperança de remedio, + A desesperação d'hum triste fado! + + Porém ja acabe o triste e duro fado! + Acabe o tempo ja tão triste vida, + Qu'em sua morte só tee seu remedio. + O deixar-me viver he mor crueza, + Pois desespéro ja d'em algum tempo + Tornar a ver aquella doce vista. + + Duro Amor! se pagava só tal vista + Todo o mal que por ti me fez meu fado, + Porque quizeste que a levasse o tempo? + E se o assi quizeste, porque a vida + Me deixas para ver tanta crueza, + Quando em não vê-la só vejo o remedio? + + Tu só de minha dor eras remedio, + Suave, deleitosa e bella vista. + Sem ti, que posso eu ver senão crueza? + Sem ti, qual bem me póde dar o fado, + Se não he consentir que acabe a vida? + Mas elle della me dilata o tempo. + + Azas para voar vejo no tempo, + Que com voar a muitos foi remedio; + E só não vôa para a minha vida. + Para que a quero eu sem tua vista? + Para que quer tambem o triste fado + Que não acabe o tempo tal crueza? + + Não poderão fazer crueza, ou tempo, + Fôrça de fado, ou falta de remedio, + Qu'essa vista m'esqueça em toda a vida. + + * * * * * + + + + +ELEGIAS + + +ELEGIA I. + + O sulmonense Ovidio desterrado + Na aspereza do Ponto, imaginando + Ver-se de seus Penates apartado; + + Sua chara mulher desamparando, + Seus doces filhos, seu contentamento, + De sua Patria os olhos apartando; + + Não podendo encobrir o sentimento, + Aos montes ja, ja aos rios se queixava + De seu escuro e triste nascimento. + + O curso das estrellas contemplava, + E aquella ordem com que discorria + O ceo e o ar, e a terra adonde estava. + + Os peixes por o mar nadando via, + As feras por o monte procedendo + Como o seu natural lhes permittia. + + De suas fontes via estar nascendo + Os saudosos rios de crystal, + Á sua natureza obedecendo. + + Assi só, de seu proprio natural + Apartado, se via em terra estranha, + A cuja triste dor não acha igual. + + Só sua doce Musa o acompanha + Nos soidosos versos qu'escrevia, + E nos lamentos com que o campo banha. + + Dest'arte me figura a phantasia + A vida com que morro, desterrado + Do bem qu'em outro tempo possuia. + + Aqui contemplo o gôsto ja passado, + Que nunca passará por a memoria + De quem o traz na mente debuxado. + + Aqui vejo caduca e debil glória + Desenganar meu êrro co'a mudança + Que faz a fragil vida transitoria. + + Aqui me representa esta lembrança + Quão pouca culpa tenho; e m'entristece + Ver sem razão a pena que m'alcança. + + Que a pena que com causa se padece, + A causa tira o sentimento della; + Mas muito doe a que se não merece. + + Quando a roxa manhãa, dourada e bella, + Abre as portas ao sol e cahe o orvalho, + E torna a seus queixumes Philomela; + + Este cuidado, que co'o somno atalho, + Em sonhos me parece; que o que a gente + Por seu descanso tee me dá trabalho. + + E despois de acordado cegamente, + (Ou, por melhor dizer, desacordado, + Que pouco acôrdo logra hum descontente) + + Daqui me vou, com passo carregado, + A hum outeiro erguido, e alli m'assento, + Soltando toda a redea a meu cuidado. + + Despois de farto ja de meu tormento, + Estendo estes meus olhos saudosos + Á parte donde tinha o pensamento. + + Não vejo senão montes pedregosos; + E sem graça e sem flor os campos vejo, + Que ja floridos víra, e graciosos. + + Vejo o puro, suave e rico Tejo, + Com as concavas barcas, que nadando + Vão pondo em doce effeito o seu desejo. + + Humas com brando vento navegando, + Outras com leves reinos brandamente + As crystallinas ágoas apartando. + + D'alli fallo com a ágoa que não sente + Com cujo sentimento est'alma sae + Em lagrimas desfeita claramente. + + Ó fugitivas ondas, esperae; + Que pois me não levais em companhia, + Ao menos estas lagrimas levae. + + Até que venha aquelle alegre dia + Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo. + Mas tanto tempo, quem o passaria? + + Não póde tanto bem chegar tão cedo: + Porque primeiro a vida acabará, + Que se acabe tão aspero degredo. + + Mas essa triste morte que virá, + S'em tão contrário estado me acabasse, + Est'alma assi impaciente adonde irá? + + Que se ás portas Tartaricas chegasse, + Temo que tanto mal por a memoria + Nem ao passar do Lethe lhe passasse. + + Que se a Tantalo e Ticio for notoria + A pena com que vai, e que a atormenta, + A pena que lá tee, terão por glória. + + Essa imaginação, emfim, me augmenta + Mil mágoas no sentido, porque a vida + De imaginações tristes se contenta. + + Que pois de todo vive consumida, + Porque o mal que possue se resuma, + Imagina na glória possuida. + + Até que a noite eterna me consuma, + Ou veja aquelle dia desejado + Em que a Fortuna faça o que costuma; + + Se nella ha hi mudar-se hum triste estado. + + * * * * * + + +ELEGIA II. + + Aquella que d'amor descomedido + Por o formoso moço se perdeo, + Que só por si d'amores foi perdido; + + Despois que a deosa em pedra a converteo + De seu humano gesto verdadeiro, + A última voz só lhe concedeo. + + Assi meu mal do proprio ser primeiro + Outra cousa nenhua me consente, + Qu'este canto qu'escrevo derradeiro. + + E se huma pouca vida, estando ausente, + Me deixa Amor, he porque o pensamento + Sinta a perda do bem d'estar presente. + + Senhor, se vos espanta o soffrimento + Que tenho em tanto mal para escrevê-lo, + Furto este breve espaço a meu tormento. + + Porque quem tee poder para soffrê-lo, + Sem se acabar a vida co'o cuidado, + Tambem terá poder para dizê-lo. + + Nem eu escrevo hum mal ja acostumado; + Mas n'alma minha triste e saudosa + A saudade escreve, e eu traslado. + + Ando gastando a vida trabalhosa, + E esparzindo a contínua soidade + Ao longo d'huma praia soidosa. + + Vejo do mar a instabilidade, + Como com seu ruido impetuoso + Retumba na maior concavidade. + + De furibundas ondas poderoso, + Na terra, a seu pezar, está tomando + Lugar, em que s'estenda, cavernoso. + + Ella, como mais fraca, lh'está dando + As concavas entranhas, onde esteja + Sempre com som profundo suspirando. + + A todas estas cousas tenho inveja + Tamanha, que não sei determinar-me, + Por mais determinado que me veja. + + Se quero em tanto mal desesperar-me, + Não posso, porque Amor e saudade + Nem licença me dão para matar-me. + + Ás vezes cuido em mi, se a novidade + E estranheza das cousas, co'a mudança, + Poderião mudar huma vontade. + + E com isto figuro na lembrança + A nova terra, o novo trato humano, + A estrangeira progenie, a estranha usança. + + Subo-me ao monte que Hercules Thebano + Do altissimo Calpe dividio, + Dando caminho ao mar Mediterrano; + + D'alli'stou tenteando adonde vio + O pomar das Hesperidas, matando + A serpe que a seu passo resistio. + + Estou-me em outra parte figurando + O poderoso Anteo, que derribado + Mais fôrça se lhe vinha accrescentando; + + Porém do Herculeo braço sobjugado, + No ar deixando a vida, não podendo + Dos soccorros da mãe ser ajudado. + + Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo, + Nem com as armas tão continuadas, + D'amorosas lembranças me defendo. + + Todas as cousas vejo demudadas, + Porque o tempo ligeiro não consente + Qu'estejão de firmeza acompanhadas. + + Vi ja que a Primavera, de contente, + Em variadas côres revestia + O monte, o campo, o valle, alegremente. + + Vi ja das altas aves a harmonia, + Que até duros penedos convidava + A algum suave modo d'alegria. + + Vi ja que tudo, emfim, me contentava, + E que, de muito cheio de firmeza, + Hum mal por mil prazeres não trocava. + + Tal me tee a mudança e estranheza, + Que se vou por os prados, a verdura + Parece que se sécca de tristeza. + + Mas isto he ja costume da ventura; + Porque aos olhos que vivem descontentes, + Descontente o prazer se lhes figura. + + Oh graves e insoffriveis accidentes + De Fortuna e d'Amor! que penitencia + Tão grave dais aos peitos innocentes! + + Não basta examinar-me a paciencia + Com temores e falsas esperanças, + Sem que tambem me tente o mal de ausencia? + + Trazeis hum brando espirito em mudanças, + Para que nunca possa ser mudado + De lagrimas, suspiros e lembranças. + + E s'estiver ao mal acostumado, + Tambem no mal não consentis firmeza, + Para que nunca viva descansado. + + Ja quieto m'achava co'a tristeza; + E alli não me faltava hum brando engano. + Que tirasse desejos da fraqueza. + + Mas vendo-me enganado estar ufano, + Deo á roda a Fortuna; e deo comigo + Onde de novo chóro o novo dano. + + Ja deve de bastar o que aqui digo, + Para dar a entender o mais que calo + A quem ja vio tão aspero perigo. + + E se nos brandos peitos faz abalo + Hum peito magoado e descontente, + Que obriga a quem o ouve a consolá-lo; + + Não quero mais senão que largamente, + Senhor, me mandeis novas dessa terra; + Que alguma dellas me fara contente. + + Porque se o duro Fado me desterra + Tanto tempo do bem, que o fraco esprito + Desampare a prisão onde s'encerra; + + Ao som das negras ágoas do Cocito, + Ao pé dos carregados arvoredos + Cantarei o que n'alma tenho escrito. + + E por entre estes horridos penedos + A quem negou Natura o claro dia, + Entre tormentos asperos e medos, + + Com a trémula voz, cansada e fria, + Celebrarei o gesto claro e puro, + Que nunca perderei da phantasia. + + O Musico de Thracia, ja seguro + De perder sua Eurydice, tangendo + Me ajudará ferindo o ar escuro. + + As namoradas sombras, revolvendo + Memorias do passado, me ouvirão; + E com seu chôro o rio irá crescendo. + + Em Salmonêo as penas faltarão, + E das filhas de Belo juntamente + De lagrimas os vasos s'encherão. + + Que se amor não se perde em vida ausente, + Menos se perderá por morte escura: + Porque, emfim, a alma vive eternamente, + + E amor he effeito d'alma, e sempre dura. + + * * * * * + + +ELEGIA III. + + O poeta Simonides fallando + Co'o Capitão Themistocles hum dia, + Em cousas de sciencia praticando; + + Hum'arte singular lhe promettia, + Qu'então compunha, com que lh'ensinasse + A lembrar-se de tudo o que fazia; + + Onde tão subtis regras lhe mostrasse, + Que nunca lhe passassem da memoria + Em nenhum tempo as cousas que passasse. + + Bem merecia, certo, fama e gloria + Quem dava regra contra o esquecimento, + Que sepulta qualquer antigua historia. + + Mas o Capitão claro, cujo intento + Bem differente estava, porque havia + Do passado as lembranças por tormento; + + Oh illustre Simonides! (dizia) + Pois tanto em teu engenho te confias, + Que mostras á memoria nova via; + + Se me désses hum'arte, qu'em meus dias + Me não lembrasse nada do passado, + Oh quanto melhor obra me farias! + + S'este excellente dito ponderado + Fosse por quem se visse estar ausente, + Em longas esperanças degradado; + + Oh como bradaria justamente, + Simonides, inventa novas artes; + Não midas o passado co'o presente! + + Que se he forçado andar por várias partes + Buscando á vida algum descanço honesto, + Que tu, Fortuna injusta, mal repartes; + + E se o duro trabalho, he manifesto + Que por grave que seja, ha de passar-se + Com animoso esprito e ledo gesto; + + De que serve ás pessoas o lembrar-se + Do que se passou ja, pois tudo passa, + Senão d'entristecer-se e magoar-se? + + S'em outro corpo hum'alma se traspassa, + Não como quiz Pythagoras na morte, + Mas como quer Amor na vida escassa; + + E s'este Amor no mundo está de sorte, + Que na virtude só d'hum lindo objecto + Tee hum corpo, sem alma, vivo e forte; + + Onde este objecto falta, qu'he defecto + Tamanho para a vida, que ja nella + M'está chamando á pena a dura Alecto; + + Porque me não criára a minha Estrella + Selvatico no mundo, e habitante + Na dura Scythia, e no mais duro della? + + Ou no Caucaso horrendo, fraco infante + Criado ao peito d'huma tigre Hircana, + Homem fôra formado de diamante; + + Porque a cerviz ferina e inhumana + Não submettêra ao jugo e dura lei + Daquelle que dá vida quando engana. + + Ou em pago das ágoas qu'estilei, + As que passei do mar, forão do Lete, + Para que m'esquecêra o que passei. + + Porque o bem que a esperança vãa promette, + Ou a morte o estorva, ou a mudança, + Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete. + + Ja, Senhor, cahirá como a lembrança, + No mal, do bem passado he triste e dura, + Pois nasce aonde morre a esperança. + + E se quizer saber como se apura + Em almas saudosas, não s'enfade + De ler tão longa e misera escriptura. + + Soltava Eolo a redea e liberdade + Ao manso Favonio brandamente, + E eu a tinha ja sôlta á saudade. + + Neptuno tinha pôsto o seu tridente; + A proa a branca escuma dividia, + Com a gente maritima contente. + + O côro das Nereidas nos seguia; + Os ventos, namorada Galatêa + Comsigo socegados os movia. + + Das argenteas conchinhas Panopêa + Andava por o mar fazendo mólhos, + Melanto, Dinamene, com Ligea. + + Eu, trazendo lembranças por antolhos, + Trazia os olhos n'ágoa socegada, + E a ágoa sem socêgo nos meus olhos. + + A bem-aventurança ja passada + Diante de mi tinha tão presente, + Como se não mudasse o tempo nada. + + E com o gesto immoto e descontente, + Co'hum suspiro profundo e mal ouvido, + Por não mostrar meu mal a toda a gente, + + Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido + Em puro amor tivestes, e inda agora + Da memoria o não tendes esquecido; + + Se por ventura fordes algum'hora + Adonde entra o grão Tejo a dar tributo + A Tethys, que vós tendes por Senhora; + + Ou ja por ver o verde prado enxuto, + Ou ja por colher ouro rutilante, + Das Tagicas areias rico fruto; + + Nellas em verso erotico e elegante + Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes; + Póde ser que algum peito se quebrante. + + E contando de mi memorias tristes, + Os pastores do Tejo, que me ouvião, + Oução de vós as mágoas que me ouvistes. + + Ellas, que ja no gesto m'entendião, + Nos meneios das ondas me mostravão + Qu'em quanto lhes pedia consentião. + + Estas lembranças, que me acompanhavão + Por a tranquillidade da bonança, + Nem na tormenta triste me deixavão. + + Porque chegando ao Cabo da Esperança, + Comêço da saudade que renova, + Lembrando a longa e aspera mudança; + + Debaixo estando ja da estrella nova + Que no novo Hemispherio resplandece, + Dando do segundo axe certa prova; + + Eis a noite com nuvens s'escurece; + Do ar subitamente foge o dia; + E todo o largo Oceano s'embravece. + + A máchina do mundo parecia + Qu'em tormentas se vinha desfazendo; + Em serras todo o mar se convertia. + + Lutando Boreas fero e Noto horrendo. + Sonoras tempestades levantavão, + Das naos as velas concavas rompendo. + + As cordas co'o ruido assoviavão; + Os marinheiros, ja desesperados, + Com gritos para o ceo o ar coalhavão. + + Os raios por Vulcano fabricados + Vibrava o fero e aspero Tonante, + Tremendo os Polos ambos de assombrados. + + Amor alli, mostrando-se possante, + E que por algum medo não fugia, + Mas quanto mais trabalho, mais constante; + + Vendo a morte presente, em mi dizia: + Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse, + Nada do que passei me lembraria. + + Emfim, nunca houve cousa que mudasse + O firme amor intrinseco daquelle + Em quem alguma vez de siso entrasse. + + Huma cousa, Senhor, por certa asselle, + Que nunca amor se affina, nem se apura, + Em quanto está presente a causa delle. + + Dest'arte me chegou minha ventura + A esta desejada e longa terra, + De todo pobre honrado sepultura. + + Vi quanta vaidade em nós s'encerra, + E nos proprios quão pouca; contra quem + Foi logo necessario termos guerra. + + Huma Ilha que o Rei de Porcá tem, + E que o Rei da Pimenta lhe tomára, + Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem. + + Com huma grossa armada, que juntára + O Viso-Rei, de Goa nos partimos + Com toda a gente d'armas que se achára. + + E com pouco trabalho destruimos + A gente no curvo arco exercitada: + Com morte, com incendios os punimos. + + Era a Ilha com ágoas alagada, + De modo que se andava em almadias: + Emfim, outra Veneza trasladada. + + Nella nos detivemos sós dous dias, + Que forão para alguns os derradeiros, + Pois passárão da Estyge as ondas frias. + + Qu'estes são os remedios verdadeiros + Que para a vida estão apparelhados + Aos que a querem ter por cavalleiros. + + Oh Lavradores bem-aventurados! + Se conhecessem seu contentamento, + Como vivem no campo socegados! + + Dá-lhes a justa terra o mantimento; + Dá-lhes a fonte clara d'ágoa pura; + Mungem suas ovelhas cento a cento. + + Não vem o mar irado, a noite escura, + Por ir buscar a pedra do Oriente; + Não temem o furor da guerra dura. + + Vive hum com suas árvores contente, + Sem lhe quebrar o somno repousado + A grã cobiça d'ouro reluzente. + + Se lhe falta o vestido perfumado, + E da formosa côr de Assyria tinto, + E das torçaes Attalicos lavrado; + + Se não tee as delicias de Corinto, + E se de Pario os marmores lhe faltão, + O pyropo, a esmeralda e o jacinto; + + Se suas casas de ouro não s'esmaltão, + Esmalta-se-lhe o campo de mil flores, + Onde os cabritos seus comendo sáltão. + + Alli lhe mostra o campo várias côres; + Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno; + Alli se affina o canto dos pastores. + + Alli cantára Tityro e Sileno. + Emfim, por estas partes caminhou + A sãa Justiça para o ceo sereno. + + Ditoso seja aquelle que alcançou + Poder viver na doce companhia + Das mansas ovelhinhas que criou! + + Este bem facilmente alcançaria + As causas naturaes de toda cousa; + Como se gera a chuva e neve fria: + + Os trabalhos do sol, que não repousa; + E porque nos dá lua a luz alhêa, + Se tolher-nos de Phebo os raios ousa: + + E como tão depressa o ceo rodêa; + E como hum só os outros traz comsigo; + E se he benigna ou dura Cytherêa. + + Bem mal póde entender isto que digo, + Quem ha de andar seguindo o fero Marte; + Que sempre os olhos traz em seu perigo. + + Porém seja, Senhor, de qualquer arte, + Pois postoque a Fortuna possa tanto, + Que tão longe de todo o bem me aparte; + + Não poderá apartar meu duro canto + Desta obrigação sua, em quanto a morte + Me não entrega ao duro Radamanto; + + Se para tristes ha tão leda sorte. + + * * * * * + + +ELEGIA IV. + + Despois que Magalhães teve tecida + A breve historia sua, que illustrasse + A Terra Santa Cruz, pouco sabida; + + Imaginando a quem a dedicasse, + Ou com cujo favor defenderia + Seu livro d'algum zoilo que ladrasse; + + Tendo nisto occupada a phantasia, + Lhe sobreveio hum somno repousado, + Antes que o sol abrisse o claro dia. + + Em sonhos lhe apparece todo armado + Marte, brandindo a lança furiosa, + Com que fez quem o vio todo enfiado; + + Dizendo em voz pezada e temerosa: + Não he justo que a outrem se offereça + Obra alguma que possa ser famosa, + + Senão a quem por armas resplandeça + No largo inundo com tal nome e fama, + Que louvor immortal sempre mereça. + + Disse assi: quando Apollo, que da flama + Celeste guia os carros, de outra parte + Se lhe presenta, e por seu nome o chama, + + Dizendo: Magalhães, postoque Marte + Com seu terror t'espante, todavia + Comigo deves só de aconselhar-te. + + Hum Varão sapiente, em quem Thalia + Poz seus thesouros, e eu minha sciencia, + Defender tuas obras poderia. + + He justo que a escriptura na prudencia + Ache só defensão; porque a dureza + Das armas he contrária da eloquencia. + + Assi disse: e tocando com destreza + A cithara dourada, começou + A mitigar de Marte a fortaleza. + + Mas Mercurio, que sempre costumou + Pacificar porfias duvidosas, + Co'o Caducêo na mão, que sempre usou, + + Determina compor as perigosas + Opiniões dos deoses inimigos + Com suaves razões e ponderosas. + + E disse: Bem sabemos dos antigos + Heroes, e dos modernos, que provárão + De Belona os gravissimos perigos, + + Como tão bem mil vezes concordárão + As armas com as letras; porque as Musas + A muitos na milicia acompanhárão. + + Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas + Guerras o estudo deixão grande espaço; + Que as armas jamais delle são escusas. + + N'huma mão livros, n'outra ferro e aço; + Aquella rege e ensina; est'outra fere: + Mais co'o saber se vence, que co'o braço. + + Pois, logo, hum Varão grande se requere, + Que com teus dões (Apollo) illustre seja, + E de ti (Marte) palma e glória espere. + + Este vos darei eu, em quem se veja + Saber e esfôrço no sereno peito, + Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja. + + Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito, + Todas nove nos braços o tomárão, + Criando-o co'o seu leite no seu leito: + + As Artes e as Sciencias lh'ensinárão; + Inclinação divina lh'influírão + Ás virtudes moraes, que logo o ornárão. + + Daqui nos exercidos o seguírão + Das armas no Oriente, onde primeiro + Hum soldado gentil instituírão. + + Alli taes provas fez de Cavalleiro, + Que, de Christão magnanimo e seguro, + A si mesmo venceo por derradeiro. + + Despois, ja Capitão forte e maduro, + Governando toda a Aurea Chersoneso, + Lhe defendeo co'o braço o debil muro. + + Porque vindo a cercá-la todo o pêso + Do poder dos Achens, que se sustenta + De alheio sangue, em furia todo acceso; + + Este só que a ti, Marte, representa, + O castigou de sorte, que vencido + De ter quem vivo fique se contenta. + + E logo qu'este Reino defendido + Deixou, segunda vez com maior glória + Para o ir governar foi elegido. + + Mas não perdendo ainda da memoria + Os amigos o seu govêrno brando, + Os imigos o damno da victoria; + + Huns com amor intrinseco esperando + Estão por elle, e os outros congelados + O estão com frio medo receando. + + Vêde pois se serião debellados + Por seu claro valor, se lá tornasse, + E dos Indicos mares degradados. + + Porqu'he justo que nunca lhe negasse + O conselho do Olympo alto e subido + Favor e ajuda com que pelejasse. + + Aqui só póde ser bem dirigido + De Magalhães o estudo: este só deve + Ser de vós, claros deoses, escolhido. + + Assi Mercurio disse; e em termo breve + Conformados se vem Apollo e Marte; + E voou juntamente o somno leve. + + Acorda Magalhães, e ja se parte + A offrecer-vos, Senhor claro e famoso, + Tudo o que nelle poz sciencia e arte. + + Tee claro estylo, e engenho curioso, + Para poder de vós ser recebido, + Com mão benigna, de ânimo amoroso. + + Pois se só de não ser favorecido + Hum alto esprito fica baixo e escuro; + Este seja comvosco defendido, + + Como o foi de Malaca o debil muro. + + * * * * * + + +ELEGIA V. + + Aquelle mover de olhos excellente, + Aquelle vivo espirito inflammado + Do crystallino rosto transparente; + + Aquelle gesto immoto e repousado, + Qu'estando n'alma propriamente escrito, + Não póde ser em verso trasladado; + + Aquelle parecer, que he infinito + Para se comprender d'engenho humano; + O qual offendo em quanto tenho dito; + + Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano, + E tanto a engrandecer-me a phantasia, + Que não vi maior glória que meu dano. + + Oh bem-aventurado seja o dia + Em que tomei tão doce pensamento, + Que de todos os outros me desvia! + + E bem-aventurado o soffrimento + Que soube ser capaz de tanta pena, + Vendo que o foi da causa o entendimento! + + Faça-me quem me mata, o mal que ordena, + Trate-me com enganos, desamores; + Qu'então me salva, quando me condena. + + E se de tão suaves desfavores + Penando vive hum'alma consumida, + Oh que doce penar! que doces dores! + + E se huma condição endurecida + Tambem me nega a morte por meu dano, + Oh que doce morrer! que doce vida! + + E se me mostra hum gesto lindo humano, + Como que de meu mal culpada se acha, + Oh que doce mentir! que doce engano! + + E s'em querer-lhe tanto ponho tacha, + Mostrando refrear o pensamento, + Oh que doce fingir! que doce cacha! + + Assi que ponho ja no soffrimento + A parte principal de minha glória, + Tomando por melhor todo tormento. + + Se sinto tanto bem só co'a memoria + De ver-vos, linda Dama, vencedora; + Que quero eu mais que ser vossa victoria? + + Se tanto a vossa vista mais namora, + Quanto eu sou menos para merecer-vos; + Que quero eu mais que ter-vos por senhora? + + Se procede este bem de conhecer-vos, + E consiste o vencer em ser vencido, + Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos? + + S'em meu proveito faz qualquer partido, + Só na vista d'huns olhos tão serenos, + Que quero eu mais ganhar que ser perdido? + + Se, emfim, os meus espritos, de pequenos, + A merecer não chegão seu tormento, + Que quero eu mais, que o mais não seja menos? + + A causa, pois, m'esforça o soffrimento; + Porque, a pezar do mal que me resiste, + De todos os trabalhos me contento; + + Que a razão faz a pena alegre, ou triste. + + * * * * * + + +ELEGIA VI. + + Entre rusticas serras e fragosas, + Compostas d'asperissimos rochedos, + De salitradas lapas cavernosas; + + Onde gretando os humidos penedos + Orvalhados de neve branca e fria, + Brotando estão de si mil arvoredos; + + Huma floresta fez verde e sombria + A natureza experta, que rodeia, + Como elevado muro, a serrania. + + Neste formoso sítio se recreia + O lascivo Cupido entre as boninas, + Que sempre hum brando Zephyro meneia. + + Da candida cecem, das clavellinas, + Da salva, mangerona e das mosquetas, + Das rubicundas flores hyacinthinas, + + Muitas capellas tece, que de setas + Lhe servem contra peitos de donzellas, + A quem d'inveja traz sempre inquietas. + + Não são d'huma só côr as flores bellas; + Que humas esmalta verde, outras rosado, + Entre as azues crescendo as amarellas. + + Dos agrestes loureiros rodeado, + Faz o valle huma sombra deleitosa, + Quando apparece o sol mais levantado. + + E por cima da relva bem graciosa + As gottas de crystal quasi imitando + Estão do aljofar puro a luz formosa. + + As crystallinas fontes, que brotando + Por entre alvos seixinhos se derivão, + Das árvores os troncos vão banhando. + + Entre as limpidas ágoas, qu'inda esquivão + O formoso pastor que se perdeo, + Preso das falsas mostras que o captivão, + + Cresce a por cuja causa s'esqueceo + A linda Cytherêa de Vulcano, + Quando presa d'Amor se lhe rendeo. + + Na brancura do rosto soberano, + Inda as crueis feridas apparecem + Do javali cerdoso e deshumano. + + As rosas que de sangue resplandecem, + As candidas boninas marchetadas, + Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem. + + Do matutino orvalho rociadas, + As flores rutilantes e cheirosas + Estão como por cima prateadas. + + Os humidos botões abrindo as rosas, + Que os agudos espinhos vão cercando, + No prado se vem rindo deliciosas. + + A mellifera abelha, susurrando + Por cima das boninas que rodeia, + Está co'o som das ágoas concertando. + + Do trémulo regato a branda areia + De jacinthos se cobre e de vieiras, + Qu'encrespão da corrente a branca veia. + + Os álamos s'abração co'as videiras + De sorte, que s'enxérga escassamente + Se são os cachos seus, se das parreiras; + + E pendendo por cima da corrente, + Outro formoso bosque debuxando + Estão no fundo della brandamente. + + Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando + Do perfido cunhado a crueldade, + Mágoas em melodias transformando. + + A solitaria rôla com soidade + Desfaz o rouco peito, ja cansada + De que não move a morte a piedade. + + A domestica Progne anda banhada + No sangue de seus filhos, em vingança + Da triste Philomela profanada. + + De competir co'o merlo não descança + O garrulo calhandro, qu'enrouquece + Por não perder callado a confiança. + + Em quanto o pobre ninho ajunta e tece + O sonoro canario, modulando + Engana a grave pena que padece. + + Alguns versos s'escuta derramando + O vário pintasirgo, tão saudaveis, + Que produzem memorias d'amor brando. + + Por os direitos troncos ha notaveis + Epigrammas; alguns d'antigua historia, + Que contra o duro tempo são duraveis. + + Huns de cruel tormento, outros de glória, + Conforme a liberdade do qu'escreve, + Estranhos casos mostrão á memoria. + + O que neste lugar contente esteve, + Contente declarou seu pensamento, + E os prazeres tambem que nelle teve. + + Mas outros, declarando o sentimento + Que dos olhos destila tristes ágoas, + Deixárão mil lembranças de tormento. + + Abrazando-se alguns em vivas frágoas, + Escrevêrão do bosque em muitas partes + Gostos d'Amor agora, agora mágoas. + + Porque, cruel menino, o premio partes + A quem serás[2] tyranno se lho negas, + E injusto e desigual, se lho repartes? + + Porqu'enganas as almas que tão cegas + Arrastas apos ti, de error captivas? + Porque a crueis rigores as entregas? + + Para que contra hum peito assi t'esquivas, + Que humilde se sujeita a teu cuidado, + Com enganos de sombras fugitivas? + + Levas, como a menino, hum pobre a nado, + N'huma apparencia falsa embevecido, + Quando co'os braços corta o mar inchado. + + Querendo-se tornar, vê-se perdido; + Ja grita que se affoga; e tu zombando, + Da praia entre os penedos escondido! + + O triste, que conhece ir-se affogando, + No meio da arriscada zombaria + Por divino soccorro está clamando. + + Mas eu de que m'espanto, se dizia + Hum sabio que d'enganos se temesse + O que tomasse a hum cego tal por guia? + + Nunca nelle a firmeza permanece; + Se nos dá gôsto algum, muda-se logo; + Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece. + + Anda co'os corações sempre em hum jôgo; + Humas vezes os faz de pedra fria, + Outras os faz de neve, outras de fogo. + + Tornando ao bosque meu que descrevia, + Despois de ter contado da frescura + Que nelle tão pomposa apparecia, + + Referir quero agora huma aventura + Que nelle ao vão Narciso aconteceo, + Digna de se chorar com mágoa pura. + + Castigo foi que o moço mereceo + Por se mostrar esquivo com aquella, + Qu'em viva pedra Juno converteo. + + Ardia em fogo d'alma a vãa donzella, + Soffrendo hum duro peito; que a Narciso, + Quando ella mais se abraza, mais congela. + + E quando a fraca Nympha mais de siso + Mostrava hum signal certo de firmeza, + Então se provocava o moço a riso. + + Ja d'huma profundissima tristeza + A descora o rigor que a consumia. + Como diz desfavor mal com belleza! + + O gelado pastor folgava e ria; + Mas vendo-a de seu gôsto andar contente, + Por não a contentar s'entristecia. + + He tal o seu rigor, que não consente + Que seja o gôsto proprio festejado; + Antes disso se mostra descontente. + + Mas o cego Cupido, d'affrontado, + Em vingança da fé que desprezou, + Fez que fosse de si mesmo enganado. + + Casualmente hum dia se chegou + A beber n'huma fonte crystallina, + Que de si nova sêde lhe causou. + + Vendo a sua figura peregrina + Que a fonte dentro em si representava, + Se perdeo por imagem tão divina. + + Como ja, d'enlevado, não cuidava + Nos enganos que a sombra lhe fazia, + Vendo o formoso rosto, suspirava. + + Por as avaras ágoas se metia; + E quanto mais molhava os tenros braços, + Então mais vivamente o fogo ardia. + + Vendo-se assi prender em duros laços, + Ao sentimento obriga a paciencia, + Dando, fóra de si, ao vento abraços. + + Embevecido todo n'apparencia, + Sem saber de cuidado o que sentia, + Não fez ao doce engano resistencia. + + Ao ver-se longe mais, mais perto via + O peregrino gesto; e se chegava, + Então para mais longe lhe fugia. + + Vendo, emfim, como em tudo o remedava + Cahio no torpe engano que tivera, + A tempo que de si ja preso estava. + + A belleza que a tantas morte dera, + De si mesma se abraza e se captiva. + Quão longe então de si ver-se quizera! + + Ella se abranda propria; ella se esquiva; + E sendo ella somente a que se amava, + Ella se chama ingrata e fugitiva. + + A formosura, pois, que namorava, + Com tal difficuldade era seguida, + Qu'estando dentro em si, mui longe estava. + + A solitaria Nympha, qu'escondida + Ja nas cavernas concavas se via, + Dos males que lhe ouvio foi commovida. + + Das namoradas mágoas que dizia + O namorado moço, ella somente + Os ultimos accentos repetia. + + Elle vendo-se estar alli presente, + As crystallinas ágoas accusava + De que ellas o fazião descontente. + + Outras vezes á fonte, quando a olhava, + Ja cego, e sem juizo, agradecia + A figura que dentro lhe mostrava. + + Mas vendo qu'ella em nada se dohia + De seu grave tormento, grita e chora. + Quanto erra quem de sombras se confia! + + Ja lhe pede que saia para fóra. + Ignorando que sempre fóra esteve + A belleza que nelle proprio mora. + + Despois que longo espaço se deteve + Nestes queixumes seus tão lastimosos, + Que com tão longo ser, julgou por breve; + + Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos, + Do valle se despede e da espessura, + Dando soluços da alma vagarosos. + + Entregue na vontade da ventura, + Ou, por melhor dizer, de seus enganos, + Ao centro se arrojou da fonte pura. + + Dest'arte feneceo em tenros anos + Narciso, dando exemplo á formosura + De que tema, se he tal, tambem seus danos. + + Sentimento mostrou da sorte dura + O namorado Jupiter, mudando + Ao moço em flor purpurea, qu'inda dura. + + Aquellas claras ágoas rodeando, + Onde por seus amores se perdeo, + Está despois da morte acompanhando. + + Tanto no seu engano procedeo, + Que não sabe na morte inda apartar-se + Dos erros que na vida commetteo. + + Bem póde o coração desenganar-se, + Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado, + Não costuma na morte resfriar-se. + + Porque despois do corpo sepultado, + Prisão onde s'encerra o fraco esprito, + Eternamente chora o seu cuidado. + + E das escuras ágoas do Cocito + A rapida corrente refreando, + Celebra o lindo gesto n'alma escrito. + + Lá se está co'os favores recreando; + E se foi desprezado, lá padece, + As duras esquivanças lamentando. + + Nem dos avaros olhos lá s'esquece, + Que de formoso verde a terra esmaltão, + Por não ver os do triste qu'endoudece. + + Assi que os desfavores nunca faltão, + Até despois da morte perseguindo + Hum triste coração que desbaratão. + + Triste de quem em vão lhe vai fugindo! + +[2] Este terceto foi viciado na cópia e depois, ao que parece, corrigido +por mão estranha. A versificação está certa, mas o sentido he absurdo: +e se a verdadeira lição não he: + + Porque, cruel menino, o premio partes + De modo que es tyranno, quando o negas, + E injusto e desigual, quando o repartes? + +não podemos adivinhar qual seja. _Nota dos Editores._ + + * * * * * + + +ELEGIA VII. + + Ao pé d'hum'alta faia vi sentado, + N'hum valle deleitoso e bem florido, + A Almeno, pastor triste e namorado. + + Outro no mundo póde haver nascido + Mui queixoso de Amor; porém não tanto, + Como este amante, por amar perdido. + + Ja Venus hia recolhendo o manto + Escuro com que a terra se mostrava, + Para ajudar d'Almeno o triste pranto. + + Apollo sôbre os montes derramava + Seus dourados cabellos, que fazião + Ao triste inda mais triste do qu'estava. + + As flores por o prado s'estendião. + E das que finas mais erão as côres, + Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião. + + Ja guiavão seus gados os pastores, + Que, deixando-os no campo deleitoso, + Com ellas praticavão só d'amores. + + Mas era esta alegria hum perigoso + Estado para Almeno entristecido; + E por isso a deixava pressuroso, + + Buscando outro lugar: contra Cupido + Claramente exclamava, e o arguia + De contrário, d'astuto e fementido. + + De quando em quando a frauta que tangia. + Numeros dava ao ar tão docemente, + Que as aves provocava a melodia. + + Cego assi desta dor, deste accidente, + Com os olhos em lagrimas banhados, + Postos no ceo, dizia tristemente: + + Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados, + Porque mos déste tu para offender-te, + Quando livre vivia nestes prados? + + Não vês quanto me negas merecer-te + O bem que me mostravas, se deixasse + Ferir meu coração para soffrer-te? + + Qual bem me has dado, Amor, que me durasse? + Ou qual me has promettido, que hajas dado? + Ou qual déste, que muito não custasse? + + Mostra-me quem puzeste em tal estado, + Que pudesse viver de ti contente, + Ou quem de ti não fosse lastimado? + + Inimigo cruel de toda a gente, + Ja não quero teu bem, só meu mal quero; + Se de ti nem meu mal se me consente. + + Inda que de teus bens ja desespéro, + Não desprézo dos males o tormento; + Antes o prezo mais, quando he mais fero. + + Arrebatado deste pensamento + Hia o triste pastor com hum contino + Pranto, que lhe avivava o sentimento. + + Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino, + Qu'era de Amor plantado; e parecendo + Lhe está menos humano que divino. + + Nelle a dor sua esteve suspendendo: + Porém não, como cervo, está ferido, + Reparo ao mal que leva pretendendo. + + Apparecia o sítio tão florído, + Que provocava a não vulgar espanto, + Entre huns altos ulmeiros escondido. + + D'hum crystallino orvalho tinha o manto, + Quando entrou nelle o misero pastor, + E as tenções explicou neste seu canto. + + Ó bellas rosas, vós que sois amor, + He por dita humildade, ou he baixeza, + O ter apar de vós murta, que he dor? + + Papoulas conversais, que são tristeza! + Não desprezais o cardo, que he tormento! + Admittis a hortelãa, sendo crueza! + + Dos goivos longe vejo o sentimento; + Dos jasmins perto estou vendo o perigo; + Dos malmequeres vejo o soffrimento. + + Deste me temerei como inimigo; + Mas traz por armas salva, que he razão: + Com ella acabará tambem comigo. + + As minhas vem a ser huma affeição, + Que são os puros cravos misturados + Co'a vontade sujeita, que he limão. + + Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados! + Ai crespa mangerona, que es prazer! + Vós sós devieis adornar os prados. + + Não pódem dous oppostos juntos ser: + Onde se põe giesta, que he lembrança, + Junto do rosmaninho, que he 'squecer? + + Bem peza do leve álamo a mudança; + Do roxo goivo anima o pensamento + Do cypreste odorifero a esperança. + + O trevo, que he sentido apartamento, + Cérca o mangericão, que se interpreta + Memoria a quem offende o esquecimento. + + Mais importuna que o jardim de Creta, + A ameixieira a flor está soltando: + A segurelha vejo, que he discreta. + + As hervas que daqui irei tomando, + São a pura cecem, qu'he saudade; + Cravos, medo de ver qual de amor ando. + + E, de ter mui perdida a liberdade, + Tomarei madresylva entendimento; + Legação tomarei, porqu'he verdade. + + Marmeleiro me dá arrependimento: + Por a salva, que he gôsto, tomarei + Coentro opposto ao meu contentamento. + + Conhecimento firme nunca achei, + Que violetas são; e, quando o houvera, + Qual meu damno então fôra, bem o sei. + + Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera + Ver-vos aqui menor, pois sois victória, + Que de mi alcançou chamma severa! + + Mas se quereis que tenha alguma glória, + Por galardão d'amar e ser sujeito, + Perderei de tormentos a memoria. + + Porém, pois mo negais, de todo engeito + A palma, qu'he ventura; e na parreira, + Qu'he'sperança perdida, me deleito. + + Entretanto co'a flor da laranjeira, + Qu'he desafio duro e arriscado, + Posso arguir da hora derradeira. + + Ja não se quer deter o meu cuidado + Com a romãa descanso: a brevidade + Das maravilhas só tee desejado. + + E vós, ovelhas minhas, sem piedade + Vos apartae de mi, se algum desejo + Tendes de ter do pasto mais vontade. + + Se muita de me verdes em vós vejo, + Toda a minha de ver-vos hei perdido + Á força do poder d'amor sobejo. + + Lograe do Tejo o placido ruido; + Sós lograe estas veigas florecidas: + Pois se perde o pastor vosso querido, + + Não gosteis de com elle ser perdidas. + + * * * * * + + +ELEGIA VIII. + + Belisa, unico bem desta alma triste, + Descanso singular de minha vida, + Throno donde o poder d'Amor consiste; + + Formosa fera, a quem está rendida + D'Amor a que he mais livre liberdade, + Ganhada mais, se mais por ti perdida; + + Quão contrário parece na beldade, + Que os corações captiva com brandura, + Alguma nódoa haver de crueldade! + + Quão contrário parece em formosura, + Que deixa muito atraz quanto he humano, + Esquiva condição, ou alma dura! + + Quão mal parece em quem só co'hum engano + Póde dar vida ao coração sujeito, + Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano! + + Quão mal parece que hum amor perfeito + Não seja d'outro igual remunerado, + Inda que seja, acaso, contrafeito! + + Quão mal parece estar desesperado + Quem tanto por ti soffre e tee soffrido, + Devendo estar de penas alliviado! + + Porém peor parece quem rendido + Não for a hum parecer que tudo rende, + Por mais qu'em seu rigor viva offendido. + + E inda peor parece quem defende + O ser essa belleza sempre amada, + Por mais qu'em vão se canse o que a pretende. + + Se quem te mostra amor te desagrada, + Só pódes pretender o não ser vista, + Mas não despois de vista o ser deixada. + + Quão mal sabe o valor de tua vista + Quem cuida que o que della acaso alcança + Póde achar coração que lhe resista! + + Quão bem pareceria huma esperança + Ja concedida a meu amor ardente, + Não sempre huma mortal desconfiança! + + Se hum padecer por ti constantemente + Pudesse ser reparo a quem mais te ama, + Inda esperar pudera o ser contente. + + Mas eu temo que aquella immensa chama + Com que a teu bello imperio me levaste, + Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama. + + Se a Olympica belleza assi imitaste, + Que brandamente move hum amor puro, + Porque tão dura condição tomaste? + + Qual elevado, qual soberbo muro + Este mal, que m'occupa o pensamento, + Contado, não tornára menos duro? + + Tu, qu'es a causa só de meu tormento, + Tu, que somente podes gloriar-me, + Queres que as minhas queixas leve o vento? + + Tu, que me pagarias com matar-me, + Inda a morte me negas vezes tantas? + Ai, que me deras vida em morte dar-me! + + Usa piedade, tu, que o mundo espantas + Co'os bellos olhos, com que o douras tanto, + Se acaso a vê-lo brandos os levantas. + + Estende-se na terra o negro manto, + E á noute dá alegria a luz alheia; + Mas nos meus olhos tristes dura o pranto. + + Torna a manhãa despois alegre e cheia + Da luz que o chôro enxuga á bella Aurora; + Mas do meu chôro nunca enxuga a veia. + + Lagrimas ja não são qu'esta alma chora, + Mas amor he vital que dentro arde, + E por a luz dos olhos salta fóra. + + Como inda a morte quer que mais aguarde? + Não tarde ja, mas corra a mal tão fero. + Mas ja por mais que corra virá tarde. + + Nem no supremo trance de ti 'spero + Qu'inda com ver o estado em que me has pôsto + Queiras, crua, entender quanto te quero. + + Ai! se volveres esse bello rosto + Ao lugar triste em que morrer me vires, + Não por desgôsto teu, mas por teu gôsto, + + Não quero de ti, não, que alli suspires, + Nem que de dar-me a morte te arrependas, + Mas que os olhos de ver-me então não tires. + + Assi nunca pastor a quem te rendas, + Te faça conhecer o que me fazes, + Para que com teu mal meu mal entendas! + + Como ja agora não te satisfazes + Das penas deste amor, que por querer-te, + De teu merecimento são capazes? + + Pois quem com outro merito render-te + Presume, (oh raro monstro de belleza!) + Muito mais longe está de merecer-te. + + Este si, que merece a grã crueza + Com que tu d'acabar-me a vida tratas, + Pois diante de ti, de si se preza. + + Se cuidas que com isto desbaratas + O meu constante amor, porque não viva, + Elle mais vive quando mais me matas. + + Se o dar-me morte tens por glória altiva, + Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina + A matar mais de branda que d'esquiva. + + S'esta alma tua julgas por indina + Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde, + Do descoberto mal a faze dina. + + Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde, + A poder reduzir-te a ser piedosa? + Ou m'acaba de todo, ou me responde. + + Mas por mais que te mostres rigorosa, + Deixar meu pensamento m'he impossivel, + Igualmente que a ti não ser formosa. + + E por mais qu'esta dor seja terrivel, + Somente o contemplar a causa della, + Inda que a faz maior, a faz soffrivel + + Porém chegando a não poder soffrê-la, + Perdendo a vida; quando a morte chame, + Não perderei o gôsto de perdê-la. + + He justo qu'eu por ti mil mortes ame: + Mas vê tu se te illustra, quando offensa + Minha mortal o teu valor se chame. + + Bem vês que huma beldade tão immensa + De vencer-me tee glória bem pequena, + Pois só render-me tomo por defensa. + + Mas ja que amor tão puro me condena, + Contente fico assaz desta victoria; + Que não me dão meus males tanta pena, + + Quanto o serem por ti me dá de glória. + + * * * * * + + +ELEGIA IX. + + A vida me aborrece, a morte quero: + Será eterno o meu mal, segundo entendo, + Pois na mor esperança desespéro. + + Sem viver vivo, por morrer vivendo + Por não verdes, Senhora, como eu vejo, + Quanto de mi por vós me ando esquecendo. + + Seja-me agradecido este desejo; + Ingrata não sejais a quem vos ama + Com puro e honestissimo despejo. + + A culpa que me pondes, ponde-a á fama, + Que pregôa de vós celeste vida + Que os corações d'amor divino inflama. + + Humana, quando não agradecida, + Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso, + Antes que a alma do corpo se despida. + + Mas que posso eu fazer, pois ja não posso + Hum tormento domar tão forte e duro, + Homem formado só de carne e de osso? + + Em minha fé segura me asseguro; + Porqu'esta, quando he grande, jamais erra, + Se resulta d'amor sincero e puro. + + Essa beldade santa me faz guerra; + Por ella hei de morrer, inda que veja + Tornar o brando rio em dura serra. + + Que cousa tenho eu ja que minha seja? + Quem não deseja a vossa formosura, + Não póde assegurar que o ceo deseja. + + De qu'eu sempre a deseje estae segura: + Neste desejo meu nunca mudança + Hão de ver as mudanças da ventura. + + A vida tenho posta na balança + Da glória singular, do damno esquivo; + Que o perdê-la por vós he mor bonança. + + Se vos offendo, cuido que não vivo: + Olhae se muito mais que de offender-vos, + Das esperanças do viver me privo. + + O que temo somente he só perder-vos; + O que quero somente he só adorar-vos; + O que somente adoro he só querer-vos. + + Querer-vos sem deixar de venerar-vos; + Desejar-vos somente por servir-vos; + Por servir a amor vil não desejar-vos: + + Somente ver-vos, e somente ouvir-vos + Pretendo; e pois somente isto pretendo, + Deveis a estes sentidos permittir-vos. + + Isto somente, (oh cego!) estou dizendo, + Como se fôra pouco isto somente! + Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo? + + Se o não merece o meu amor decente; + Se morte por amar-vos se merece, + Morra eu, Senhora; e vós ficae contente. + + Se vos aggrava quem por vós padece; + Se vos vee a offender quem vos quer tanto, + Quem desta sorte errou não desmerece. + + Que quando os olhos da razão levanto + Ao ceo d'essa rarissima belleza, + De não morrer por ella só m'espanto. + + Deixae-me contentar desta tristeza, + E fazer de meus olhos largo rio; + Se algum póde abrandar vossa dureza. + + Correndo sempre as lagrimas em fio, + Farei crescer as hervas por os prados, + Pois ja d'outra alegria desconfio. + + No monte darei pasto a meus cuidados; + E serão de mi sempre entre os pastores + Esses divinos olhos celebrados. + + Aprenderão de mi os amadores + Aquillo que se chama amor sublime, + Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores. + + E nenhum havera que a pena estime + Mais soberana por a causa della, + Que a que teve até então não desestime; + + E qu'inveja não mostre á minha estrella. + + * * * * * + + +ELEGIA X. + + Que tristes novas, ou que novo dano, + Qu'inopinado mal incerto sôa, + Tingindo de temor o vulto humano? + + Que vejo? as praias humidas de Goa + Ferver com gente attonita e turbada + Do rumor que de boca em boca vôa! + + He morto D. Miguel (ah crua espada!) + E parte da lustrosa companhia + Que alegre s'embarcou na triste Armada: + + E d'espingarda ardente e lança fria + Passado por o torpe e iniquo braço, + Que nossas altas famas injuría. + + Não lhe valeo escudo, ou peito d'aço, + Não ânimo d'avós claros herdado, + Com que temer se fez por longo espaço. + + Não ver-se em de redor todo cercado + D'irados inimigos, qu'exhalavão + A negra alma do corpo traspassado. + + Não as fortes palavras que voavão + A animar os incertos companheiros, + Que timidos as costas lhe mostravão. + + Mas ja postos, nos termos derradeiros, + (Rotos por partes mil e traspassados + Os membros, no valor somente inteiros) + + Os olhos (de furor acompanhados, + Qu'inda na morte as vidas amedrentão + Dos duros inimigos espantados) + + Postos no ceo, parece que presentão + A alma pura á suprema Eternidade, + Por quem os ceos e a terra se sustentão. + + E pedindo dos erros, que na idade + Immatura e innocente ja fizera, + Perdão á pia e justa Magestade, + + As rosas apartou da neve fria; + E, como debil flor, a quem fallece + O radical humor de que vivia, + + Nas mãos do Coro Angelico, que dece, + S'entrega; e vai lograr a vida eterna, + Que com morte tão justa se merece. + + Vai-te, alma, em paz á gloria sempiterna; + Vai, que quem por a Lei sacra e divina + A sólta, áquelle a dá que o ceo governa. + + Mas se de tal valor foi morte dina, + A ausencia que do gôsto nos saltêa, + A perpétua saudade nos inclina. + + Deixa pois tu, formosa Cytherêa, + Do gentil filho e neto de Cyniras + O pranto por a morte horrida e fêa. + + E tu, dourado Apollo, que suspiras + Por o crespo Jacintho, moço charo, + Por quem a clara luz ao mundo tiras; + + Vinde e chorae hum moço em tudo raro, + Não de ferino dente vulnerado, + Nem de risco sujeito a algum reparo: + + Mas só de ferro imigo traspassado; + Que sem duvida incerta, ou frio medo, + A vida poz nas mãos de Marte irado. + + Tambem tu, moço Idalio, assiste quedo; + Deixa de dar o venenoso mel + A beber por os olhos, triste e ledo. + + Pois os formosos olhos de Miguel + Ja cobertos se vem do escuro manto + Da lei geral a todos mais cruel. + + E vós, filhas de Thespis, que co'o canto + Podeis bem mitigar a dor immensa + Dos irmãos generosos e alto pranto; + + Não consintais que fação larga offensa + Á grande integridade, a que se devem + Ágoas não só, do damno recompensa. + + Que ja diante os olhos me descrevem, + Quando as bocas da Fama voadora + Ao patrio e claro Tejo as novas levem, + + A profunda tristeza; qu'em hum'hora + Tal posse tomará dos altos peitos, + Que delles o discurso lance fóra. + + Alli de dor os corações sujeitos + Hão de lançar de si toda a memoria + D'exemplos claros, solidos respeitos. + + Mas, porém se igualais a vida á glória, + Ó claro Dom Philippe, e pretendeis + Deixar-nos de acções vossas larga historia; + + Eu não vos persuado a que estreiteis + O coração na Estoica disciplina, + Onde livre d'affectos vos mostreis. + + Que mal a natureza determina + Medo, esperanças, dores e alegria, + Como o Cynico velho nos ensina. + + Immanidade estupida (dizia + O Sulmonense canto) e vil rudeza, + He não sentir affectos que a alma cria. + + Porém se o sentir nada for bruteza, + E se paixão devida se consente, + Tambem o sentir muito he ja fraqueza. + + Em vós hum soffrer alto s'exprimente, + Qual nos fortes Varões foi conhecido, + Como em estranha, em Lusitana gente. + + Bem conheço que o corpo assi perdido, + Como de illustre tumulo carece, + Será de brutas feras consumido. + + Mas consola-me, emfim, que se parece + Ao grande bisavô, que por a vida + Real, a sua á Maura lança offrece. + + Em pedaços a gente enfurecida + O corpo alli lhe deixa; e com mão dura + Lhe nega a sepultura merecida. + + Facil he a perda aqui da sepultura: + Diogenes prudente, e Theodoro + Pouco sentem do corpo essa jactura. + + Assi formoso e inteiro, assi decoro + Adorna quem o tee, como o tomou, + Quando se ouvir o extremo som canoro. + + Mas ai! qual terror subito occupou + O vosso claro peito, ó Portuguezes? + Qual pavido temor vos congelou? + + Que lançadas, que golpes, que revézes + Vos fizerão fazer tamanha injúria + Aos fortes Lusitanicos arnezes? + + Ou ja de Capitão sobeja incuria, + Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava + Com seu peito dos barbaros a furia. + + Ou ja do ferreo cano a fôrça brava + Com estrondos que atroão mar e terra, + Os corações ardentes congelava? + + Ah! quem vos fez que os impetos da guerra + Não sustentasseis com valor ousado, + Desprezando o temor que a vida encerra? + + A vida por a Patria e por o Estado + Pondo nossos avós, a nós deixárão, + Em terra e mar, exemplo sublimado. + + Elles a desprezar nos ensinárão + Todo temor. Pois como agora os netos + Subitamente assi degenerárão? + + Não pódem, certo, não, viver quietos + Com feia infamia peitos generosos, + Ja em publicos lugares, ja em secretos. + + Mortos d'Esparta os Héroes valerosos + Da fera multidão, fazendo extremos, + Taes Epitaphios tinhão gloriosos: + + _Dirás, Hóspede, tu, que aqui jazemos + Passados do inimigo ferro, em quanto + Ás santas Leis da Patria obedecemos._ + + Fugindo os Persas vão com frio espanto, + Mas achão as mulheres no caminho, + Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto. + + Pois do damno fugís, vendo-o visinho, + Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizião) + Outra vez no materno e escuro ninho. + + Vêde quaes com mais glória ficarião, + Se aquelles que morrêrão por o Estado, + S'estes a quem mulheres injurião? + + Mas tu, claro Miguel, que ja acordado + Deste sonho tão breve, estás naquella + Tôrre do ceo, seguro e repousado; + + Onde, com Deos unida a forte e bella + Alma, com teus Maiores reluzindo, + Trocaste cada chaga em clara estrella; + + Co'os pés o crystallino ceo medindo, + Nada d'essas altissimas Espheras, + Nem da terreste aos olhos encobrindo; + + Agora hum curso e outro consideras, + Agora a vaidade dos mortaes, + Que tu tambem passáras se vivêras, + + . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . + + * * * * * + + +ELEGIA XI. + + Se quando contemplamos as secretas + Causas, por que este mundo se sustenta, + E o revolver dos ceos e dos planetas; + + E se quando á memoria se presenta + Este curso do sol tão bem medido, + Que hum ponto só não míngua, nem s'augmenta; + + Aquelle effeito, tarde conhecido, + Da lua na mudança tão constante, + Que minguar e crescer he seu partido; + + Aquella natureza tão possante + Dos ceos, que tão conformes e contrarios + Caminhão, sem parar hum breve instante; + + Aquelles movimentos ordinarios, + A que responde o tempo, que não mente, + Co'os effeitos da terra necessarios; + + Se quando, emfim, revolve subtilmente + Tantas cousas a leve phantasia, + Sagaz escrutadora e diligente; + + Bem vê, se da razão se não desvia, + Aquelle unico Ser, alto e divino, + Que tudo póde, manda, move e cria. + + Sem fim e sem princípio, hum Ser contino; + Hum Padre grande, a quem tudo he possibil, + Por mais que o difficulte humano atino: + + Hum saber infinito, incomprehensibil; + Huma verdade que nas cousas anda, + Que mora no visibil e invisibil. + + Esta potencia, emfim, que tudo manda, + Esta Causa das causas, revestida + Foi desta nossa carne miseranda. + + Do amor e da justiça compellida, + Por os erros da gente, em mãos da gente + (Como se Deos não fôsse) deixa a vida. + + Oh Christão descuidado e negligente! + Pondera-o com discurso repousado; + E ver-te-has advertido facilmente. + + Ólha aquelle Deos alto e increado, + Senhor das cousas todas, que fundou + O ceo, a terra, o fogo, o mar irado; + + Não do confuso caos, como cuidou + A falsa Theologia, e povo escuro, + Que nesta só verdade tanto errou; + + Não dos atomos leves d'Epicuro; + Não do fundo Oceano, como Thales, + Mas só do pensamento casto e puro. + + Ólha, animal humano, quanto vales, + Pois este immenso Deos por ti padece + Novo estylo de morte, novos males. + + Ólha que o sol no Olympo s'escurece, + Não por opposição de outro Planeta; + Mas só porque virtude lhe fallece. + + Não vês que a grande máchina inquieta + Do mundo se desfaz toda em tristeza, + E não por causa natural secreta? + + Não vês como se perde a Natureza? + O ar se turba? o mar batendo geme, + Desfazendo das pedras a dureza? + + Não vês que cahe o monte, a terra treme? + E que lá na remota e grande Athenas + O docto Areopagita exclama e teme? + + Oh summo Deos! tu mesmo te condenas, + Por o mal em qu'eu só sou o culpado, + A tamanhas affrontas, tantas penas? + + Por mi, Senhor, no mundo reputado + Por falso, e violador da sacra Lei? + A fama a ti se põe do meu peccado? + + Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei. + Pois como entre ladrões eu não padeço? + A pena a ti se dá do qu'eu errei? + + Eu servo sem valor, tu immenso preço, + Em preço vil te pões, por me tirares + Do captiveiro eterno que mereço? + + Eu por perder-te, e tu por me ganhares + Te dás aos soltos homens, que te vendem, + Só para os homens presos resgatares? + + A ti, que as almas sóltas, a ti prendem? + A ti summo Juiz, ante Juizes + Te accusão por o error dos que te offendem? + + Chamão-te malfeitor; não contradizes: + Sendo tu dos Prophetas a certeza, + Dizem que quem te fere prophetizes. + + Rim-se de ti; tu choras a crueza + Que sôbre elles virá: a gente dura, + Por quem tu vens ao mundo, te despreza. + + O teu rosto, de cuja formosura + Se veste o ceo e o sol resplandecente, + Diante quem pasmada está a Natura, + + Com cruas bofetadas da vil gente, + De precioso sangue está banhado, + Cuspido, atropellado cruelmente. + + Aquelle corpo tenro e delicado, + Sôbre todos os Santos sacrosanto, + A açoutes rigorosos desangrado; + + Despois coberto mal d'hum pobre manto, + Que se pegava ás carnes magoadas + Para dobrar-lhe as dores outro tanto. + + Magoavão-no as chagas não curadas, + Hum tormento causando-lhe excessivo + Ao despir por as mãos crueis e iradas. + + As venerandas barbas de Deos vivo + De resplandor ornadas, s'arrancavão + Para desempenhar a Adão captivo. + + Com cordas por as ruas o levavão, + Levando sôbre os hombros o trophéo + Da victoria qu'as almas alcançavão. + + Ó tu, que passas, homem Cyrenêo, + Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro, + Que agora, como humano, enfraqueceo. + + Ólha que o corpo afflicto do marteiro, + E dos longos jejuns debilitado, + Não póde ja co'o pêso do madeiro. + + Oh não enfraqueçais, Deos incarnado! + Essas quédas, que tanto vos magôão, + Supportae Cavalleiro sublimado. + + Aquellas altas vozes, que lá sôão, + Dos Padres são, que o Limbo tee escuro, + E ja de louro e palma vos corôão. + + Todos vos bradão que subais o muro + Da cidade infernal, e que arvoreis + Em cima essa bandeira mui seguro. + + Oh Santos Padres! não vos apresseis; + Pois muito mais a Deos, que a vós, custárão + Essas duras prisões em que jazeis. + + Aquellas mãos que o mundo edificárão, + Aquelles pés que pízão as estrellas, + Com durissimos pregos s'encravárão. + + Mas qual será o humano qu'as querellas + Da angustiada Virgem contemplasse, + Sem se mover a dor e mágoa dellas? + + E que dos olhos seus não destillasse + Tanta cópia de lagrimas ardentes, + Que carreiras no rosto sinalasse? + + Oh quem lhe víra os olhos refulgentes + Convertendo-se em fontes, e regando + Aquellas faces bellas e excellentes! + + Quem a ouvíra com vozes ir tocando + As estrellas, a quem responde o ceo, + Co'os accentos dos Anjos retumbando! + + Quem víra quando o puro rosto ergueo + A ver o Filho, que na Cruz pendia, + Donde a nossa saude descendeo! + + Que mágoas tão chorosas que diria! + Que palavras tão miseras e tristes + Para o ceo, para a gente espalharia! + + Pois que sería, Virgem, quando vistes + Com fel nojoso, e com vinagre amaro + Matar a sêde ao Filho que paristes? + + Não era este o licor suave e claro, + Que para o confortar então darieis + A quem vos era, mais que a vida, charo. + + Como, Virgem Senhora, não corrieis + A dar as puras tetas ao Cordeiro, + Que padecer na Cruz com sêde vieis? + + Não era só, não, esse o verdadeiro + Poto, que vosso Filho desejava, + Morrendo por o mundo em hum madeiro; + + Mas era a salvação que alli ganhava + Para o misero Adão, que alli bebia + Na fonte que do peito lhe manava. + + Pois, ó pura e Santissima Maria, + Que, emfim, sentistes esta mágoa, quanto + A grave causa della o requeria; + + D'essa Fonte sagrada e peito santo + M'alcançae huma gotta, com que lave + A culpa que me aggrava e pesa tanto. + + Do licor salutifero e suave + M'abrangei, com que mate a sêde dura + Deste mundo tão cego, torpe e grave. + + Assi, Senhora, toda criatura + Que vive e vivirá, e não conhece + A Lei de vosso Filho, a abrace pura; + + O falsissimo herege, que carece + Da graça, e com damnado e falso esprito + Perturba a Santa Igreja, que florece; + + O povo pertinaz no antiguo rito, + Que só o destêrro seu, que tanto dura, + Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito; + + O torpe Ismaelita, que mistura + As Leis, e com preceitos tão viciosos + Na terra estende a seita falsa e impura; + + Os idolatras maos, supersticiosos, + Varios de opiniões e de costumes, + Levados de conceitos fabulosos; + + As mais remotas gentes, onde o lume + Da nossa Fé não chega, nem que tenhão + Religião alguma se presume; + + Assi todos, emfim, Senhora, venhão + A confessar hum Deos crucificado, + E por nenhum respeito se detenhão. + + E d'hum e d'outro o vício ja deixado, + O seu Nome, co'o vosso nesse dia, + Seja por todo o mundo celebrado; + + E respóndão os ceos: JESUS, MARIA. + + * * * * * + + +ELEGIA XII. ACROSTICA. + + Juizo extremo, horrifico e tremendo, + E Juiz sempiterno, alto e celeste, + Significará a terra, humedecendo. + Ver-se-ha nella hum suor que manifeste + Como em carne vem Deos, para que o veja + Homem toda esta máchina terreste; + Rei justo, que dos corpos e almas seja + Juiz; e quando o mundo cego e inculto + Sôbre espinhos crueis deitado seja, + Todo vão simulacro e gentil culto + Ousará engeitar a gente; e guerra + Fará co'o mar o fogo, e cru tumulto. + Immensa luz, que as carnes desenterra, + Lançará fóra as portas vãas do Averno, + Hum Justo e outro alçando á santa terra. + Outros, que são os maos, no fogo eterno + Deitará, descobrindo-se os segredos, + E sendo claro todo feito interno. + Desfeitos serão montes e penedos, + E será tudo pranto e estridor duro; + Obras de grande dor e tristes medos. + Será tornado o sol de todo escuro, + E destruida a máchina do mundo, + Sem luz as luzes todas do Orbe puro; + Altos serão os valles, e em profundo + Lugar se abaterão os altos montes; + Vibrará mares vento furibundo: + Haverá só de chammas vivas fontes: + De trombeta tremenda som terribil, + Ouvido, fara pallidas as frontes. + Responderá dos maos gemido horribil. + + * * * * * + + + + +EPISTOLAS. + + +EPISTOLA I. + + Quem póde ser no mundo tão quieto, + Ou quem terá tão livre o pensamento, + Quem tão exprimentado, ou tão discreto, + Tão fóra, emfim, de humano entendimento, + Que ou com público effeito, ou com secreto, + Lhe não revolva e espante o sentimento, + Deixando-lhe o juizo quasi incerto, + Ver e notar do mundo o desconcêrto? + + Quem ha que veja aquelle que vivia + De latrocinios, mortes e adulterios, + Que ao juizo das gentes merecia + Perpétua pena, immensos vituperios, + Se a Fortuna em contrário o leva e guia, + Mostrando, emfim, que tudo são mysterios, + Em alteza d'estados triumphante, + Que por livre que seja não s'espante? + + Quem ha que veja aquelle, que tão clara + Teve a vida, qu'em tudo por perfeito + O proprio Momo ás gentes o julgára, + Inda quando lhe visse aberto o peito, + Se a má Fortuna, ao bom somente avara, + O reprime, e lhe nega seu direito, + Que lhe não fique o peito congelado, + Por mais e mais que seja exprimentado? + + Democrito dos deoses proferia + Que erão sós dous; a Pena, e o Beneficio. + Segredo algum será da phantasia, + De qu'eu achar não posso claro indicio. + Que se ambos vem por não cuidada via + A quem os não merece, he grande vício + Em deoses sem-justiça e sem-razão. + Mas Democrito o disse, e Paulo não. + + Dir-me-heis, que s'este estranho desconcêrto + Novamente no mundo se mostrasse, + Que por livre que fosse e mui experto, + Não era d'espantar se m'espantasse. + Mas que se ja de Socrates foi certo + Que nenhum grande caso lhe mudasse + O vulto, ou de prudente, ou de constante, + Exemplo tome delle, e não m'espante. + + Parece a razão boa; mas eu digo + Deste uso da Fortuna tão damnado + Que quanto he mais usado e mais antigo, + Tanto he mais estranhado e blasphemado. + Porque, se o Ceo, das gentes tão amigo + Não dá á Fortuna tempo limitado, + Não he para causar mui grande espanto, + Que mal tão mal olhado dure tanto? + + Outro espanto maior aqui m'enleia, + Que com quanto Fortuna tão profana + Com estes desconcertos senhoreia, + A nenhuma pessoa desengana. + Não ha ninguem, que assente, nem que creia + Este discurso vão da vida humana, + Por mais que philosophe, nem qu'entenda, + Que algum pouco do mundo não pretenda. + + Diogenes pisava de Platão + Com seus sordidos pés o rico estrado, + Mostrando outra mais alta presumpção + Em desprezar o fausto tão prezado. + Diogenes, não vês que extremos são + Esses que segues, de mais alto estado? + Pois se de desprezar te prezas muito, + Ja pretendes do mundo fama e fruito. + + Deixo agora Reis grandes, cujo estudo + He fartar esta sêde cubiçosa + De querer dominar e mandar tudo, + Com fama larga e pompa sumptuosa. + Deixo aquelles que tomão por escudo + De seus vicios e vida vergonhosa + A nobreza de seus antecessores, + E não cuidão de si que são peores. + + Aquelle deixo, a quem do somno esperta + O grão favor do Rei que serve e adora, + E se mantee dest'aura falsa e incerta, + Que de corações tantos he senhora. + Deixo aquelles qu'estão co'a boca aberta + Por s'encher de thesouros de hora em hora, + Doentes desta falsa hydropesia, + Que quanto mais alcança, mais queria. + + Deixo outras obras vãas do vulgo errado, + A quem não ha ninguem que contradiga, + Nem de outra cousa alguma he governado, + Que d'huma opinião e usança antiga. + Mas pergunto ora a Cesar esforçado, + Ora a Platão divino, que me diga, + Este das muitas terras em que andou, + Aquelle de vencê-las, que alcançou? + + Cesar dirá: Sou digno de memoria: + Vencendo povos varios e esforçados, + Fui Monarca do mundo; e larga historia + Ficará de meus feitos sublimados. + He verdade: mas esse mando e glória, + Lograste-o muito tempo? Os conjurados + Bruto e Cassio dirão que, se venceste, + Emfim, emfim, ás mãos dos teus morreste. + + Dirá Platão: Por ver o Etna e o Nilo + Fui a Sicilia, Egypto e outras partes, + Só por ver e escrever em alto estilo + Da natural sciencia e muitas artes. + O tempo he breve, e queres consumi-lo, + Platão, todo em trabalhos? e repartes + Tão mal de teu estudo as breves horas, + Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras? + + Pois quanto des que vive ja apartada + A alma desta prisão terreste e escura; + Está em tamanhas cousas occupada, + Que da fama, que fica, nada cura. + E se o corpo terreno sinta nada, + O Cynico dirá se por ventura + No campo, onde lançado morto estava, + De si os cães, ou as aves enxotava. + + Quem tão baixa tivesse a phantasia, + Que nunca em mores cousas a metesse, + Qu'em só levar seu gado á fonte fria, + E mungir-lhe do leite que bebesse, + Quão bem-aventurado que sería! + Que por mais que a Fortuna revolvesse, + Nunca em si sentiria maior pena, + Que pezar-lhe de a vida ser pequena. + + Veria erguer do sol a roxa face, + Veria correr sempre a clara fonte, + Sem imaginar a ágoa donde nace, + Nem quem a luz occulta no Horizonte. + Tangendo a frauta donde o gado pace, + Conheceria as hervas do alto monte, + Em Deos creria simples e quieto, + Sem mais especular algum secreto. + + D'hum certo Trasilao se lê e escreve + Entre as cousas da velha antiguidade, + Que perdido grão tempo o siso teve + Por causa d'huma grave enfermidade; + E em quanto, de si fóra, doudo esteve, + Tinha por teima, e cria por verdade, + Qu'erão suas, das naos que navegavão, + Quantas no porto Píreo ancoravão. + + Por hum Senhor mui grande se teria, + (Além da vida alegre que passava) + Pois nas que se perdião não perdia, + E das que vinhão salvas se alegrava. + Não tardou muito tempo, quando hum dia + Huncrito, seu irmão, que ausente estava, + Á terra chega; e vendo o irmão perdido, + Do fraternal amor foi commovido. + + Aos Medicos o entrega, e com aviso + O faz estar á cura refusada. + Triste! que por tornar-lhe o antigo siso + Lhe tira a doce vida descansada. + As hervas Apollineas d'improviso + O tornão á saude ja passada. + Sisudo Trasilao, ao charo irmão + Agradece a vontade, a obra não. + + Porque despois de ver-se no perigo + Do trabalho a que o siso o obrigava, + E despois de não ver o estado antigo, + Que a louca presumpção lhe apresentava: + Oh inimigo irmão, com côr de amigo! + Para que me tiraste (suspirava) + Da mais quieta vida e livre em tudo, + Que nunca pôde ter nenhum sisudo? + + Por qual Senhor algum eu me trocára, + Ou por qual algum Rei de mais grandeza? + Que me dava que o mundo se acabára, + Ou que a ordem mudasse a natureza? + Agora me he penosa a vida chara; + Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza. + Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso + Que na doudice só consiste o siso. + + Vêdes aqui, Senhor, bem claramente + Como a Fortuna em todos tee poder, + Senão só no que menos sabe e sente; + Em quem nenhum desejo póde haver. + Este se póde rir da cega gente; + Neste não póde nada acontecer; + Nem estara suspenso na balança + Do temor mao, da perfida esperança. + + Mas se o sereno Ceo me concedêra + Qualquer quieto, humilde e doce estado, + Onde com minhas Musas só vivêra, + Sem ver-me em terra alheia degradado; + E alli outrem ninguem me conhecêra, + Nem eu conhecêra outro mais honrado, + Senão a vós, tambem como eu contente; + Que bem sei que o serieis facilmente: + + E ao longo d'huma clara e pura fonte, + Qu'em borbulhas nascendo, convidasse + Ao doce passarinho, que nos conte + Quem da chara consorte o apartasse; + Despois, cobrindo a neve o verde monte, + Ao gasalhado o frio nos levasse, + Avivando o juizo ao doce estudo, + Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo. + + Cantára-nos aquelle, que tão claro + O fez o fogo da árvore Phebêa, + A qual elle em estylo grande e raro + Louvando, o crystallino Sorga enfrêa; + Tangêra-nos na frauta Sanazaro, + Ora nos montes, ora por a arêa; + Passára celebrando o Tejo ufano + O brando e doce Lasso Castelhano. + + E comnosco tambem se achára aquella, + Cuja lembrança, e cujo claro gesto + N'alma somente vejo, porque nella + Está em essencia puro e manifesto; + Por alta influição de minha estrella + Mitigando o rigor do peito honesto, + Entretecendo rosas nos cabellos, + De que tomasse a luz o sol em vellos; + + E em quanto por Verão flores colhesse, + Ou por Inverno ao fogo accommodado, + O que de mi sentíra nos dissesse, + De puro amor o peito salteado; + Não pedíra então eu, que Amor me désse + Do insano Trasilao o doudo estado; + Mas que alli me dobrasse o entendimento, + Por ter de tanto bem conhecimento. + + Mas por onde me leva a phantasia? + Porqu'imagino em bem-aventuranças, + Se tão longe a Fortuna me desvia, + Qu'inda me não consente as esperanças? + Se hum novo pensamento Amor me cria + Onde o lugar, o tempo, as esquivanças + Do bem me fazem tão desamparado, + Que não póde ser mais qui'maginado? + + Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou + Contra mi, porque mais me magoasse: + Amor a hum vão desejo me obrigou, + Só para que a Fortuna mo negasse. + O tempo a tal estado me chegou; + E nelle quiz que a vida se acabasse; + Se ha em mi acabar-se, o qu'eu não creio; + Que até da muita vida me receio. + + * * * * * + + +EPISTOLA II. + + Como nos vossos hombros tão constantes + (Principe illustre e raro) sustenteis + Tantos negocios arduos e importantes, + Dignos do largo Imperio, que regeis; + Como sempre nas armas rutilantes + Vestido, o mar e a terra segureis + Do pirata insolente, e do tyrano + Jugo do potentissimo Othomano; + + E como com virtude necessaria, + Mal entendida do juizo alheio, + Á desordem do vulgo temeraria + Na santa paz ponhais o duro freio; + Se com minha escriptura longa e vária + Vos occupasse o tempo, certo creio + Que com vagante e ociosa phantasia + Contra o commum proveito peccaria. + + E não menos sería reputado + Por doce adulador, sagaz e agudo, + Que contra meu tão baixo e triste estado + Busco favor em vós que podeis tudo, + Se contra a opinião do vulgo errado + Vos celebrasse em verso humilde e rudo. + Dirão, que com lisonja ajuda peço + Contra a miseria injusta que padeço. + + Porém, porque a verdade póde tanto + No livre arbitrio, (como disse bem + Ao Rei Dario o moço sabio e santo, + Que foi reedificar Hierusalem) + Esta m'obriga a qu'em humilde canto, + Contra a tenção que a plebe ignara tem, + Vos faça claro a quem vos não alcança; + E não de premio algum vil esperança. + + Romulo, Baccho e outros que alcançárão + Nomes de semideoses soberanos, + Em quanto por o mundo exercitárão + Altos feitos, e quasi mais que humanos, + Com justissima causa se queixárão + Que não lhes respondêrão os mundanos + Favores do rumor justos e iguaes + A seus merecimentos immortaes. + + Aquelle, que nos braços poderosos + Tirou a vida ao Tingitano Anteo, + E a quem os seus trabalhos tão famosos + Fizerão Cidadão do claro ceo; + Achou que a má tenção dos invejosos + Não se doma, senão despois que o véo + Se rompe corporal: porque na vida + Ninguem alcança a glória merecida. + + Pois logo, se Barões tão excellentes + Forão do baixo vulgo molestados, + O vituperio vil das rudas gentes, + He louvor dos Reaes, e sublimados. + Quem no lume dos vossos Ascendentes + Poderá pôr os olhos, que abalados + Lhes não fiquem da luz, vendo os maiores + Vossos passados, Reis e Imperadores? + + Quem verá aquelle Pae da Patria sua, + Açoute do soberbo Castelhano, + Que o duro jugo só, co'a espada nua, + Removeo do pescoço Lusitano, + Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua + Memoria causará, se não m'engano, + Que qualquer teu menor tanto s'estime, + Que nunca possa ser senão sublime? + + Nisto não fallo mais, porque conheço + Que da materia se me baixa o engenho. + Mas, pois a dizer tudo m'offereço, + E dias ha que no desejo o tenho, + Sendo vós de tão alto e illustre preço, + A vida fostes pôr n'hum fraco lenho, + Por largo mar e undosa tempestade, + Só por servir á Regia Magestade. + + E despois de tomar a redea dura + Na mão, do povo indomito qu'estava + Costumado a larguezas, e á soltura + Do pezado govêrno que acabava; + Quem não terá por santa e justa cura, + Qual do vosso conceito s'esperava, + A tão desenfreada enfermidade + Applicar-lhe contrária qualidade? + + Não he muito, Senhor, se o moderado + Govêrno se blasphema e se desama; + Porque o povo á largueza costumado, + Á lei serena e justa, dura chama. + Pois o zelo em virtude só fundado + De salvar almas da Tartarea flama + Com a ágoa salutifera de Christo, + Poderá por ventura ser malquisto? + + Quem quizesse negar tão grã verdade, + Qual he o seu effeito santo e pio; + Negue tambem ao sol a claridade, + E certifique mais que o fogo he frio. + Se o successo he contrário da vontade + Nas obras que são boas, e ha desvio; + Está nas mãos dos homens comettellas, + E nas de Deos está o successo dellas. + + Sei eu, e sabem todos que os futuros + Verão por vós o Estado accrescentado, + Serão memoria vossa os fortes muros + Do Cambaico Damão bem sustendado: + Da ruina mortal serão seguros, + Tendo todo o alicerce seu fundado + Sôbre orfãas amparadas com maridos, + E pagos os serviços bem devidos. + + Quãmanha infamia ao Principe he perder-se + Pouco do Estado seu, que inteiro herdou, + Tanto por glória grande deve ter-se + Se accrescentado e próspero o deixou. + Nunca consentio Roma ennobrecer-se + Com triumphos alguem, se não ganhou + Provincia com que o Imperio s'augmentasse, + Por maiores victorias qu'alcançasse. + + Póde tomar o vosso nome dino + Damão, por honra sua clara e pura, + Como ja do primeiro Constantino + Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura. + E tu, Rei, que no Reino Neptunino, + Lá no seio Gangetico a Natura + Te aposentou, de ser tão inimigo + Deste Estado não ficas sem castigo. + + Bem viste contra ti nadantes aves + Cortar a espumosa ágoa navegando; + Ouviste o som das tubas, não suaves, + Mas com temor horrifero soando; + Sentiste os golpes asperos e graves + Do Lusitano braço nunca brando. + Não soffreste o grão brado penetrante, + Que os trovões imitava do Tonante. + + Mas antes dando as costas e a victoria + Á Bragancez ventura não corrido, + Déste bem a entender quão grande glória + He de tal vencedor o ser vencido. + Quem faz obras tão dignas de memoria + Sempre será famoso e conhecido, + Onde os altos juizos o estimarem, + Qu'estes sós tee poder de fama darem. + + Não vos temais, Senhor, do povo ignaro, + Tão ingrato a quem tanto faz por elle; + Mas sabei qu'he signal de serdes claro + O ser agora tão malquisto delle. + Themistocles, da patria sua amparo, + O forte e liberal Cimon, e aquelle + Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo, + Testimunhas serão de quanto digo. + + Pois ao justo Aristídes hum robusto, + Votando no ostracismo costumado, + Lhe disse claro assi: Porque era justo + Desejava que fosse desterrado. + Pachitas por fugir do povo injusto + Calumnioso, dando no Senado + Conta de Lesbos, qu'elle ja mandára, + Se tirou co'o seu ferro a vida chara. + + Demosthenes, lançado das tormentas + Populares, Ó Pallas! foi dizendo, + Que de tres monstros grandes te contentas, + Do drago e moucho, e do vil povo horrendo! + Que glórias immortaes houve, qu'isentas + Do veneno vulgar fossem, vivendo? + Pois mil exemplos deixo de Romanos, + E vós tambem sois hum dos Lusitanos. + + * * * * * + + +EPISTOLA III. + + Mui alto Rei, a quem os Ceos em sorte + Derão o nome augusto e sublimado + Daquelle Cavalleiro que na morte, + Por Christo, foi de settas mil passado; + Pois delle o fiel peito, casto e forte, + Co'o nome Imperial tendes tomado, + Tomae tambem a setta veneranda + Que a vós o Successor de Pedro manda. + + Ja por ordem do Ceo, que o consentio, + Tendes o braço seu, reliquia chara, + Defensor contra o gladio que ferio + O povo que David contar mandára. + No qual, pois tudo em vós se permittio, + Presagio temos, e esperança clara, + Que sereis braço forte e soberano + Contra o soberbo gladio Mauritano. + + E o que hum presagio tal agora encerra, + Nos faz ter por mais certo e verdadeiro + A setta, que vos dá quem he na terra + Dos celestes thesouros Dispenseiro: + Que as vossas settas são na justa guerra + Agudas, e entrarão por derradeiro + (Cahindo a vossos pés povo sem lei) + Nos peitos que inimigos são do Rei. + + Quando vossas bandeiras despregava + Albuquerque fortissimo com glória + Por as praias de Persia, e alcançava + De Nações tão remotas a victoria; + As settas embebidas, que tirava + O arco Armusiano (he larga historia) + Nos ares, Deos querendo, se viravão, + Pregando-se nos peitos que as tiravão. + + O querido de Deos, por quem peleja, + O ar tambem e o vento conjurado + Ao atambor lhe acodem, porque veja + Que o que a Deos ama, he de Deos amado: + Os contrarios revéis á Madre Igreja + Atroarão co'o tom do Ceo irado. + Que assi deo ja favor maior que humano + A Josué Hebreo, Teodosio Hispano. + + Pois se as settas tiradas da inimiga + Corda, contra si só nocivas são, + Que farão, Rei, as vossas que tee liga + Com a que ja tocou Sebastião? + Tinta vem do seu sangue, com que obriga + A levantar a Deos o coração, + Crendo bem que as que vós despedireis, + No sangue Sarraceno as tingireis. + + Ascanio, (se trazer me he concedido + Entre santos exemplos hum profano) + Rei do Imperio, despois tão conhecido, + De Roma, e só reliquia do Troiano, + Vingou com setta e ânimo atrevido + As soberbas palavras de Numano; + E logo foi dalli remunerado + Com louvores de Apollo, e celebrado. + + Assi vós, Rei, que fostes segurança + De nossa liberdade, e que nos dais + De grandes bens certissima esperança; + Nos costumes, e aspecto que mostrais, + Concebemos segura confiança + Que Deos, a quem servis e venerais, + Vos fara vingador dos seus revéis, + E os premios vos dará que mereceis. + + Estes humildes versos, que pregão + São destes vossos Reinos com verdade, + Recebei com benigna e Real mão, + Pois he devida a Reis benignidade. + Tenhão (se não merecem galardão) + Favor sequer da Regia Magestade: + Assi tenhais de quem ja tendes tanto, + Com o nome e reliquia, favor santo. + + * * * * * + + +EPISTOLA IV. + + Senhora, s'encobrir por algum'arte + Pudera esta occasião de meu tormento, + Não creias que chegára a declarar-te + Este meu perigoso pensamento. + Mas por mais que te offenda, não sou parte + No crime de tamanho atrevimento: + Elle he d'amor; e delle fui forçado + A que te declarasse o meu cuidado. + + Se merece castigo a confiança + Com que descubro agora o que padeço, + Aqui prompto me tens; toma a vingança + Que por tão grave culpa te mereço. + Bem me podes negar toda esperança, + Mas eu não desistir deste comêço; + Porque tempo e Fortuna não são parte + Para deixar hum'hora só de amar-te. + + Ja que ver-te os meus olhos alcançárão, + Descansem neste bem com alegria, + Pois ja com ver os teus tanto ganhárão, + Quanto, estando sem vê-los, se perdia. + Que glória querem mais, se a ver chegárão + Aquella pura luz que vence ao dia? + Qual mor bem ha no mundo que querer-te, + Se não ha mais que ver despois de ver-te? + + Minhas dores mortaes, bella Senhora, + Tirárão a virtude ao soffrimento; + E fazendo-se mais em qualquer hora, + Levando vão traz ti meu pensamento: + Porém soberbos vejo desde agora, + Por a causa gentil de seu tormento, + Minha alma, meu desejo, meu sentido, + Porque á tua belleza se hão rendido. + + A par de tua rara formosura + Se desconhece o mor merecimento; + A tua claridade torna escura + Do sol a clara luz em hum momento. + Se Zeuxis ao formar bella figura, + A vista em ti pudera pôr attento, + Mais alto original houvera achado + Para admirar o mundo co'o traslado. + + Aquelles qu'escrevêrão mil louvores + De formosura, graça e gentileza, + Todos forão, Senhora, huns borradores + De tua perfeitissima belleza. + Agora se vê claro em teus primores + Qu'em ti s'esmerou mais a natureza; + E qu'erão os seus cantos prophecias + Do que havias de ser em nossos dias. + + Vê, pois, se vinha a ser culpavel falta + Em mi o não render-te amante a vida, + E se deixar d'amar glória tão alta + Era digno da pena mais crescida. + Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta + Co'o castigo de culpa assi atrevida: + E quando della caia, maior glória + Tera o Tejo, que o Pó, com sua historia. + + * * * * * + + + + +OITAVAS. + + +GLOSA DO SONETO 14. + + Despois que a clara Aurora a noite escura + Com novo resplandor foi desfazendo, + E Phebo por os montes e espessura + Os seus dourados raios estendendo; + Se buscava nos valles a verdura + O manso gado a luz serena vendo, + Quando a férvida sésta ja abrazava, + _Todo animal da calma repousava._ + + Ja por fugir do sol o fogo ardente, + As sombras os rebanhos vão buscando; + Os tenros cabritinhos juntamente + Apos as mansas mães hião saltando; + Tangendo as suas frautas docemente + Os pastores, estavão enganando + A grã chamma solar qu'então ardia; + _Só Liso o ardor della não sentia._ + + Tristes lembranças tanto o traspassavão, + Que a dura sésta nelles só passava; + O tempo qu'em prazer outros gastavão, + Em celebrar seu mal elle o gastava; + As festas que com jogos celebravão, + Elle com suspirar as celebrava: + Nada buscava mais, mais não queria + _Que o repouso do fogo em qu'elle ardia._ + + Os repetidos jogos dos pastores, + As lutas entre a rama repetidas, + Em nada lhe divertem suas dores; + Mas antes n'alegria as vê crescidas. + Como o repouso roubão os amores + Ás almas que para elles são nascidas, + Elle, todo o repouso qu'esperava, + _Consistia na Nympha que buscava._ + + Com o chôro, que ja corria em fio + Por o pallido rosto, augmenta as fontes, + Que levão ágoa estranha ao claro rio + Que os valles vai regando entre altos montes. + Com suspiros a quem o ecco pio + Responde de apartados horizontes, + Os ventos parecia qu'enfreava, + _Os montes parecia que abalava._ + + Que ás queixas de seus doces pensamentos + Se movessem os montes mais constantes, + Se parassem os mais veloces ventos, + Qu'estavão, que corrião circumstantes, + Bem se devia á dor de seus tormentos, + E inda que fosse em peitos de diamantes; + Que hum peito de diamante abrandaria + _O triste som das mágoas que dizia._ + + Porém elle as dizia a outro peito, + Mais, que diamante, inexpugnavel, duro: + A fé lh'encarecia, a que sogeito + O tinha em pena eterna o amor puro; + Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito, + Quanto mais offendido, mais seguro: + A Nympha mais segura tudo ouvia, + _Mas nada o duro peito commovia._ + + As lástimas aqui tanto crescêrão, + Que s'em montes de Hircania s'escuitárão, + Tigres nos seios seus mover puderão, + E pedras nos seus cumes abrandárão. + Mas se no peito as tristes vozes dérão + Daquella fera humana que buscárão, + Elle d'as admittir se retirava; + _Que na vontade de outro pôsto estava._ + + Desenganado ja da triste sorte, + De que mal fino amor se desengana, + Com a desperança só de sua morte + Aquellas penas últimas engana. + Deixando na espessura o claro Norte, + Para elle de outra luz mais soberana, + A hum valle aberto então sahir procura, + _Cansado ja de andar por a espessura._ + + Deixando as suas cabras que pascessem + Naquelle verde prado as frescas flores; + Porque os Satyros leves o soubessem, + E os sylvestres Faunos amadores; + Tambem porque os pastores o entendessem, + Todo o processo e fim de seus amores + Escreveo (sem em nada haver mudança) + _No tronco d'huma faia por lembrança._ + + Por lembrança no tronco d'huma faia, + Que vai sahindo ao ceo de puro altiva + Na verde, prateada e aurea praia, + Por onde o claro Tejo se deriva; + Porque tambem ao ceo sua dor saia + Sôbre aquella corrente fugitiva, + Escrita no papel da natureza; + _Escreve estas palavras de tristeza:_ + + Natercia, Nympha bella, por quem vivo + Em tal tormento, tempo algum me olhou; + Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo + Daquelle brando olhar que m'enganou, + O amor tornava em desamor esquivo; + E d'hum tormento tal a outro passou. + Em cousas tão sujeitas a mudança + _Nunca ponha ninguem sua esperança._ + + Para dar proveitosos desenganos + Dos enganos que são de Amor effeitos, + E dos dous sexos publicar, humanos, + A origem das mudanças de seus peitos; + Estas letras aqui por longos anos + Digão a corações a amar sujeitos + Em peito varonil, que de ventura, + _Em peito feminil, que de natura..._ + + Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado + Cahio ao pé da faia em qu'escrevia, + Não podendo seguir o começado, + Porque a alma ja do corpo lhe sahia. + Tres vezes, com accento mal formado, + Para exemplo futuro repetia: + Amantes, entendei que a mór belleza + _Somente em ser mudavel tem firmeza._ + + * * * * * + + +GLOSA DO SONETO 194. + + _Cá nesta Babylonia adonde mana_ + Hypocrisia, engano e falsidade; + Cá donde ousada toda carne humana + A todo arbitrio vive da vontade; + Cá donde enrouqueceo da Lusitana + Musa o furor heroico e suavidade; + Cá donde se produz por cega via + _Materia a quanto mal o mundo cría_; + + _Cá donde o puro Amor não tee valia_, + Porque Baccho o tee hoje desterrado; + Cá donde a frecha d'ouro não feria, + Senão cabello preto e alfenado; + Cá donde a loura trança não se via, + Nem o rosto de sangue matizado; + Cá donde nada val a glória humana, + _Que a mãe, que manda mais, tudo profana_; + + _Cá donde o mal se affina, o bem se dana_, + Se algum a terra em si quer produzir; + Cá donde a falsa gente Mahometana + A glória toda funda em adquirir; + Cá donde multiplica a mão tyrana, + Professa em mais crescer, matar, mentir; + Cá donde o fazer bem he villania, + _E póde mais que a honra a tyrannia_; + + _Cá donde a errada e cega Monarchia_ + De fabulosas leis está vivendo, + E á fôrça d'hum amor engrandecia + O nefando Alcorão em qu'está crendo; + Cá donde nada val a Poesia, + E s'está da lei della escarnecendo; + Cá donde a fidalguia Mahometana + _Cuida qu'um nome vão a Deos engana._ + + _Cá nesta Babylonia, onde a Nobreza_ + Da Lusitana gente se perdeo; + E do grão Sebastião toda a grandeza + Irreparavelmente se abateo; + Cá donde algum mentir não he baixeza, + E os meritos esmola (assi cresceo + Da cobiça mortal a semrazão) + _Co'o esfôrço e saber, pedindo vão._ + + _Ás portas da cobiça e da vileza_ + Estes netos de Agar estão sentados + Em bancos de torpissima riqueza, + Todos de tyrannia marchetados. + He do feio Alcorão summa a largueza + Que tee para que sejão perdoados + De quantos erros commettendo estão + _Cá neste escuro cáos de confusão._ + + _Cumprindo o curso estou da natureza_, + Illustre Dama, neste labyrintho; + Mas quem usa comigo mais crueza, + He tua condição, que n'alma sinto. + Acabe-se algum dia tal tristeza, + E este sentido mal qu'em versos pinto: + E pois n'alma he sentido e coração, + _Ve se m'esquecerei de ti, Sião._ + + * * * * * + + +A SANTA URSULA. + + D'huma formosa virgem desposada, + Que d'outras onze mil, tambem formosas, + Entrou no claro Olympo acompanhada, + Com corôas de lyrios e de rosas; + De Christo Esposo seu tão namorada, + Que delle as quiz fazer todas esposas; + Amor, vida e martyrio cantar quero, + Fiado no favor que della espero. + + Alcança, Ursula bella, (que diante + De tão bello esquadrão foste por guia) + De teu suave Amor, que de ti cante + O seu amor que no teu peito ardia. + Meu verso para ti mais se levante, + Ó Christifera, ó heroica companhia; + Tanto se mostre aqui mais soberano, + Quanto o divino Amor excede o humano. + + E vós, unica Mãe e Virgem pura, + Pois sois das que tal ordem escolhêrão, + Que fostes, sois, sereis guarda segura + Da pureza que a Deos offerecêrão; + Neste canto me dae melhor ventura + Do que atégora as Musas vãas me derão: + Vossas servas serão de mi servidas, + Cantadas suas mortes, suas vidas. + + Serenissima Infante, produzida + Do grão Tronco Real, sublime Planta; + No titulo, nas obras e na vida, + Retrato natural de Ursula Santa, + Desta virgem, tambem de Reis nascida, + Ouvi com ledo rosto o que se canta; + Dae o sentido hum pouco a tal sogeito: + Não lhe tire seu preço o meu defeito. + + No tempo que Ciriáco se sentava + Na Cadeira de Pedro pescador, + De que com sãa doutrina apascentava + As Ovelhas de Christo, Bom Pastor; + Teve Bretanha hum Rei, que professava + A Lei que deo no mundo o Redemptor, + Justo e temente ao Ceo, pio e devoto, + Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto. + + De virtudes hum novo exemplo e raro, + Em idade e belleza florecia + Ursula, por quem Noto era mais claro, + Que por todo o poder que possuia; + Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro, + Com quem todas as graças repartia; + Prudente, honesta e docta a maravilha, + De tão ditoso pae ditosa filha. + + Aquella que por o ar com ligeireza + As pennas de mil azas abre e cerra, + E que com velocissima presteza + Com outros tantos pés corre por terra; + Aquella, que de sua natureza + Não cuida em quanto diz se acerta ou erra, + E d'huma em outra boca se derrama: + Aquella, emfim, a quem chamamos Fama; + + Hia por todo o mundo divulgando + Extremos desta virgem soberana, + Aquella formosura celebrando + Com que Amor cego a tanta vista engana: + Mais hia a d'alma sua publicando, + Porqu'era mais divina do que humana: + Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto, + Qu'em huns criava amor, n'outros espanto. + + Ouvidos seus louvores, muitas vezes + Desejou desta virgem fazer nora + Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes, + Idolatras então, cegos agora. + Ó povo cego e leve! as torpes fezes + Aparta do ouro puro e lança fóra, + Torna-te ao teu pastor, perdido gado! + Ólha que vás sem elle mal guiado. + + Hum filho deste Rei (de quem dizia + Que ser de Ursula sogro desejava) + Movido do rumor que della ouvia, + Ja dentro no seu peito a namorava. + Alli seu amor, delle, lhe offrecia; + Alli por o amor della suspirava. + Suspira elle por ella; ella suspira + Tambem por outro amor que nunca vira. + + Mandou o Rei Inglez Embaixadores + Com pompa Regia e lustre sumptuoso, + (Do grande Reino seu grandes Senhores) + A Noto, Rei não tanto poderoso. + Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores + Ardia toda do celeste Esposo) + Para esposa do filho, que sabia + Que ja d'amores della todo ardia. + + O Rei Bretão se achava descontente + Com a nova embaixada de Inglaterra: + Receia que se nella não consente, + O gentio lhe mova cruel guerra: + Porque sendo mais rico e mais potente, + Assi no largo mar, como na terra, + Quando desprezos visse de seu rôgo, + Podia pôr Bretanha a ferro e fogo. + + Sôbre este não errado pensamento + Do medo de perder seu senhorio, + Novo discurso tinha e novo intento, + Com que se achava mais medroso e frio. + Estranhava o fazer ajuntamento + Da catholica filha co'hum gentio; + Pois nem a Lei de Christo o permittia, + Nem Ursula fiel o admittiria. + + Estando o pae em tal angústia pôsto, + Divinamente a filha ja inspirada, + Lhe assegurava com sereno rosto + Que consentir podia na embaixada; + Dizendo que se o Inglez levava gôsto + D'ella com seu herdeiro ser casada, + Primeiro lhe mandasse dez donzellas, + Do Reino as mais illustres, as mais bellas. + + Que mil daria a cada virgem destas, + E que a ella outras mil tambem daria, + Todas de claro sangue, e em vista honestas. + (Dest'arte a conta de onze mil fazia) + Que por trez annos dilação nas festas, + Além do ja pedido, lhe pedia; + E naos e mantimentos, porque todas + Fossem com ella a Roma antes das bodas. + + Alli sua pureza e virgindade + Queria com solemne e sacro voto + Consagrar á divina Potestade, + Que o ceo e a terra fez de proprio moto. + E que deixasse a vãa gentilidade + Seu filho, para genro ser de Noto, + Para que neste espaço doutrinado + Fosse na Fé de Christo, e baptizado. + + Com estas condições Ursula disse + Ao charo pae, que, a ser dellas contente, + Podia responder; e despedisse + A proposta daquelle Rei potente: + Ou porque ouvindo-as elle desistisse, + Podendo-se acceitar difficilmente; + Ou porque, quando as virgens concedesse, + Comsigo a seu Senhor onze mil désse. + + Oh Divino saber, quão soberano + Conselho he sempre o teu! quão remontado! + Oh quanto o mor saber te cede humano, + Por mais que de razões vá mais ornado! + Ja dos idolos deixa o cego engano + O Principe, da virgem namorado; + Ja terno pede ao pae quanto ella pede; + Ja o pae quanto lhe roga lhe concede. + + Ja para ti, ó virgem bella e branda, + Com huma singular velocidade, + Juntar se via d'huma e d'outra banda + De feminil nobreza tenra idade. + As naos apparelhar o Rei ja manda; + Ja nellas se recolhe a Virgindade; + Ja dão para Bretanha ao vento velas. + O coração do noivo vai com ellas. + + Ja vem a tomar porto onde esperava + Ursula alvoroçada em grã maneira; + Que para as receber alli se achava, + Como senhora não, mas companheira. + Quão falsa era a Lei dellas lhes mostrava, + A de Christo quão pura e verdadeira. + Ja se baptiza huma e outra Dama; + Damas Ursula ja do ceo lhes chama. + + A Fama, que não sabe repousar, + Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha; + A gente que concorre não tee par, + Por ver a nunca vista maravilha. + Outros vem por servir e acompanhar + A Virgem de Rei nora, de Rei filha. + Movem-se muitos Bispos de Bretanha; + Pantalo em vida e morte os acompanha. + + Por ti, deixando o Reino, co'a familia + E quatro filhas suas, s'embarcou, + Juliana, Victoria, Aurea, Babilia; + (Hum filho tinha mais que mais levou) + Gerasina, Rainha de Sicilia, + E com devido amor te acompanhou; + Qu'he justo que comtigo vão Rainhas, + Quando tu para o Rei dos Reis caminhas. + + Ja se partem as bellas peregrinas, + As mãos ao claro Empyreo levantadas; + Ja rompem, ja, por ondas crystallinas + As naos de formosura carregadas. + Quando, dizei, ó ágoas Neptuninas, + Fostes de tal belleza navegadas? + Nunca, despois que a terra descobristes, + A tal frota por vós caminho abristes. + + Com vento sempre igual, com mar bonança, + Sem perigos alguns, sem algum pejo, + Ceyla forão tomar, porto de França, + Onde pouca demora fazer vejo. + O coração da virgem não descança, + Saudosa do fim de seu desejo; + Manda que levem ferro, soltem linho + Que leve por o mar o negro pinho. + + O vento nova posse vai tomando + Das virgens que lhe são encommendadas: + Com tal prosperidade vão voando, + Que ja deixão atraz ondas salgadas: + Ja nas doces do Rheno estão entrando, + Onde tee suas vidas limitadas: + Huma cidade vem á lingua da ágoa, + Que de vê-las morrer não teve mágoa. + + Ah Colonia cruel, que não t'encobres + A tão formosos olhos, que seguros + As altas tôrres vião que descobres, + Lustrosos edificios, fortes muros! + Permitte o largo Ceo que fama cobres + De ser tão dura mãe de peitos duros? + Duros peitos, que a tantos, limpos de êrro + Virão abrir sem dor com impio ferro! + + Estando neste porto a bella Armada + Tomando o necessario mantimento, + Para poder seguir sua jornada, + E dar terceira vez o treu ao vento; + Sendo parte da noite ja passada, + A virgem lá no seu retrahimento, + Quando estava dormindo toda a frota, + A Christo orou assi, branda e devota: + + Amor, divino Amor, Amor suave, + Amor, que amando vou toda rendida; + Com quem não ha na vida pena grave, + Sem quem glória real não ha na vida; + Amor, que do meu peito tens a chave, + Amor, de cujo amor ando ferida, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que não vejo? + + Amor, que d'amor cheio e de brandura, + D'amor enches est'alma saudosa; + Amor, sem cujo amor e formosura, + Não póde nunca haver cousa formosa; + Amor, com cujo amor anda segura + Huma vida tão fraca e duvidosa, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que não vejo? + + Amor, que por amor te dispuzeste + A restaurar o mundo errado e triste; + Amor, que por amor do ceo desceste; + Amor, que por amor á Cruz subiste; + Amor, que por amor a vida déste; + Amor, que por amor a glória abriste, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que não vejo? + + Amor, que mais e mais sempre te augmentas + No coração que lá comtigo trazes; + Amor, que d'amor puro te sustentas + No fogo em que tu mesmo arder me fazes; + Amor, que sem amor não te contentas, + De tudo com amor te satisfazes, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que não vejo? + + Amor, que com amor me captivaste; + (Se livre póde ser quem não captivas) + Amor, qu'em taes prisões m'asseguraste + As esperanças d'antes fugitivas: + Amor, que suspirando m'ensinaste + A derramar por ti lagrimas vivas, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que não vejo? + + Quando verei hum dia em que offereça + Por ti ao cruel ferro o peito forte, + E cercada de virgens appareça + Na tua soberana e eterna Corte; + Onde lá cada huma te mereça, + Cá passando comigo a propria morte; + E todas dando o sangue juntas, todas + Celebremos comtigo eternas bodas? + + Faze-me ja, Senhor, esta vontade + Que tenho de te ver, que sempre tive, + Des que me deo lugar a tenra idade, + E lume de razão nesta alma vive. + Não queiras, meu Amor, que a saudade + Sem tal bem a mi só da vida prive; + Que se muito se alarga este destêrro, + Por ella irei a ti, não por o ferro. + + Desata o meu espirito saudoso, + Do nó mortal em que se vai detendo, + Primeiro que tres vezes pressuroso + O sol os doze Signos vá correndo. + Espaço he que tomei, meu doce Esposo, + Para outro esposo meu ir entretendo: + Mas a meu amor crendo, de ti creio + Que acabes com a vida o meu receio. + + Inda neste fervente e justo rôgo + Ursula suspirando procedia, + Quando d'hum resplandor como de fogo + Divina voz ouvio, que assi dizia: + Ó virgem, que soubeste fazer jôgo + Do que no mundo tee maior valia, + Entende que da volta que fizeres, + Aqui quero que seja o que tu queres. + + Tanto que tal resposta do Ceo teve, + Não quiz do que esperava perder hora: + Ja lhe parece larga a noite breve, + E que ja tarda muito a bella aurora. + Em descobrindo Apollo o carro leve, + Do porto de Colonia sahio fóra. + Ja Basilêa em breve tempo toma: + E a pé d'alli partirão para Roma. + + O Pastor summo, Ciriáco santo, + As sahe a receber, e as acompanha + Com gôzo espritual, com grande espanto + De ver em tal idade fé tamanha. + Dizer se póde mal, mal cuidar quanto + Se goza o Real sangue de Bretanha, + Os veneraveis Templos visitando + Daquelles que tambem foi imitando. + + Na propria noite deste proprio dia + Que Roma ver as virgens mereceo, + A quem de Pedro a Barca então regía + Revelou o que rege a terra e ceo + Que martyrio tambem receberia + Onde Ursula co'as mais o recebeo: + Deixa contente o grão Pontificado, + Desejoso de ser martyrizado. + + Por mais que todo o Clero soffre mal + Mover-se por aquellas Estrangeiras, + Movido da Vontade divinal + O bom Pastor se vai com as Cordeiras. + Hum Arcebispo leva, hum Cardeal: + Tres Bispos deixão vagas tres Cadeiras, + De Luca, Ravicana e de Ravenna: + Mauricio me ficava ja na penna. + + Despois de n'ágoa entrar, donde sahírão, + Com tão formoso sol tantas estrellas, + Ja as ancoras debaixo acima tirão, + E de cima ja abaixo soltão vellas. + Estas naos lá adiante outras naos vírão, + Que fazendo-se vem na volta dellas; + Conhecêrão-se logo as duas frotas: + Ambas d'hum Reino são, ambas devotas. + + Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra, + Vinha de Ursula bella o bello esposo, + Que reinar não queria ja na terra, + Do ceo ja namorado e saudoso. + Do seu primeiro amor venceo a guerra + A fôrça d'outro amor mais poderoso: + Amando ja em seu Deos a esposa bella, + Para o poder achar, buscava a ella. + + A mãe, ja convertida, traz comsigo; + O pae, ja Christão feito, fallecêra, + Com que soube evitar o grão castigo + Que, morrendo Gentio, não soubera. + Amor celeste, como aqui não digo + O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!) + Por meio d'huma virgem foste meio + Com que gente copiosa a Christo veio. + + Vinha mais nesta nova companhia + Florencia, irmãa do Rei, da mãe cuidado; + Florencia, qu'em belleza florecia, + Como flor em jardim bem cultivado. + Tambem a frota Bispos dous trazia, + Hum Marcello, Clemente outro chamado: + O primeiro ja em Grecia bago teve; + Do segundo o Bispado não s'escreve. + + Outra Virgem viuva alli mais vinha, + Que desposada sendo em tenra idade, + Antes das bodas enviuvado tinha, + E promettida a Christo a castidade. + Esta do mesmo Rei era sobrinha, + Filha da Imperatriz da grã cidade, + Onde por culpa nossa, ou pouca dita, + Seu throno agora tee o fero Scita. + + Estes, que adverte repetida historia + Deixárão só por Deos altos Estados, + Com outros, de que he menos a memoria, + Forão divinamente amoestados + Que todos, para entrar juntos na glória, + Ao côro virginal fossem juntados, + Com quem na terra Martyres serião, + E no ceo para sempre reinarião. + + Sería estranho o gôzo que sentírão + Aquellas bem nascidas almas santas, + Quando juntas alli todas se vírão + De partes tão remotas, e de tantas. + Sem estorvos, que d'antes o impedírão, + As duas, mais que todas, bellas plantas + Alli abraços se dão sem algum pejo, + Ambas conformes ja n'hum só desejo. + + Alli faria o Rei acatamento + A quem deixou da Barca o grão govêrno; + E elle, conforme a seu merecimento, + Responderia com amor paterno. + Não faltaria em tal recebimento + Prazer exterior, prazer interno; + Inda que nos estados differentes, + Todos serião huns em ser contentes. + + O vento as brancas velas não enchia, + Corria o frio Rheno então mais quedo; + Antes para Colonia não corria, + Porque as virgens não fossem lá tão cedo. + Parece que ja claro conhecia + (Oh côro virginal, sereno e ledo!) + Que lá vos esperava a impia morte. + Agora, ó Musa, conta de que sorte. + + Aquelle que na fórma de serpente + Deixou aos dous primeiros enganados, + Invejoso de ver que tanta gente + Se convertia á Lei dos Baptizados; + No caração entrou manhosamente + De dous gentios Principes damnados, + Da soberba Romãa Cavaleria, + Por encurtar a Fé que s'estendia. + + A Fama os assegura com certeza + Que a virgem a Colonia ja voltava, + Com toda a casta juvenil belleza + Que por amor do Ceo peregrinava. + Fizerão avisar com grã presteza + A hum parente, que Julio se chamava, + Soberbo Capitão dos Hunnos feros; + Que todos para todas forão Neros. + + Eis logo o cego Principe gentio, + Com gente innumeravel de seu mando, + A praia a tomar vem do mesmo rio + Por onde as virgens vinhão navegando. + Ja descobrem aquelle, este navio + Os qu'estão do mais alto atalaiando: + Ás armas veloz corre o bruto povo, + Por de novo as tingir no sangue novo. + + Vindo a frota a surgir junto do muro, + Onde lhe parecia estar segura, + (Oh virgens que buscais? lugar seguro + Adonde vos espera a sepultura!) + Entra com mão armada o povo duro + Por esta peregrina formosura: + Ja começa a provar os aços fortes; + Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes. + + Ja nu todas as virgens offrecião + O delicado collo, o tenro peito: + Era para caber quantas cahião, + Todo largo lugar lugar estreito. + Do puro sangue os rios que corrião, + Outro vermelho mar ja tinhão feito. + Tu só, Córdula, á morte t'escondeste; + Mas despois a buscaste e recebeste. + + Ciriáco o primeiro, bem constante, + A vida ao ferro offrece sem espanto: + O moço Rei Inglez cahio diante + Daquelles castos olhos que amou tanto. + Espera, brando esposo, hum breve instante; + Espera a tua doce esposa, em tanto + Que outro Amor outro golpe lhe prepara; + E juntos entrareis na Patria chara. + + Em qual terra, ó crueis, em qual cidade, + Entre quaes gentes mais a furor dadas, + Se não usou d'amor e de piedade + Com formosas donzellas desarmadas? + Como belleza tanta e tal idade + Vos deixou arrancar vossas espadas? + Ah lobos carniceiros, tigres bravos, + Filhos da crueldade, d'ira escravos! + + De quantos animaes sustenta a terra + Nunca tanta crueza foi usada; + Inda que tenhão huns com outros guerra, + Nunca do macho a femia he lastimada: + Anda a cerva co'o cervo por a serra, + A novilha do touro acompanhada, + Á leoneza o leão defender preza: + Vós sós quebrais as leis da natureza? + + Puderão outros olhos por ventura + De lagrimas divinas escusar-se, + Vendo, cuberta ja de névoa escura, + A luz de tantos bellos apagar-se? + Vendo a purpurea rosa, a cecem pura + Em tão formosas faces descorar-se? + As tranças d'ouro vendo, espedaçadas, + Por debaixo dos pés andar pizadas? + + Na fôrça desta furia accesa e brava + O Tyranno cruel a vista ergueo + Á virgem, qu'invencivel animava + As almas que juntára para o Ceo. + Assi ja envolta em sangue como andava, + Da sua formosura se venceo; + E com doces razões, que Amor ensina, + A vencê-la d'amor se determina. + + Fingindo se arrepende do passado, + (E de fingi-lo se arrepende azinha) + Sua vida lhe offrece e seu Estado, + Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha. + O seu amor lhe pede confiado; + O seu amor que dado a seu Deos tinha: + Pede-lhe o seu amor; antes não seu, + Porque ja dado o havia a quem lho deu. + + Usa de mil lisonjas, mil enganos, + Por conseguir o seu desejo bruto. + A flor logra (dizia) de teus anos, + Colhe d'essa belleza o doce fruto: + Não dês materia nova a novos danos, + Não pagues verde á morte o seu tributo: + Olha que tens em mi (não são cautelas) + Outro Reino, outro esposo, outras donzelas. + + Não faças mentirosa a natureza + Que dá d'amor em ti grande esperança. + Que se póde alcançar d'essa belleza, + Se ja piedade della não s'alcança? + Aos tigres, aos leões deixa a braveza, + E deixa aos meus soldados a vingança. + Se por ver-me cruel queres ser crua, + Ja te vingas de mi em cousa tua. + + Volve esses olhos ja com mais brandura; + Esses olhos, d'Amor doce morada: + Delles não faça em mi a formosura, + O qu'em tantos ja fez a minha espada. + Se queres derribar minha ventura, + Que delles estar vejo pendurada, + Acabarei de ver quão pouca tenho, + Pois donde a matar vim a morrer venho. + + Como do rôgo meu não te aproveitas, + Quando o teu risco a me rogar te obriga? + Ou não conheces bem a quem engeitas, + Ou m'engeitas por mais que seja e diga. + Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas? + Mais proprio era chamar-te dura imiga. + Mas não consente Amor nome tão duro + Em parecer tão brando e tão seguro. + + Os raios desses olhos ja serenos + Enxuguem desse rosto as puras rosas; + O triste suspirar ja sôe menos + Nestas concavidades saudosas. + Não fação grande mal males pequenos; + Que não soffre esperanças vagarosas + Quem anda costumado em seus amores + A medir por seu gôsto seus favores. + + Que gôsto podes ter de maltratar-me, + Vendo-me do passado arrependido? + Attenta que mais ganhas em ganhar-me, + Do que neste destrôço tens perdido. + Se queres insistir em desprezar-me, + Ver-me-has, sôbre amoroso, enfurecido. + Não me declaro mais, porque não quero + Que o medo faça o que d'amor espero. + + Ah perfido amador! deixa o teu êrro. + Não vês quanto enganado e cego andas? + Aquella a quem não vence o duro ferro, + Como a podem vencer palavras brandas? + Manda a sua alma ja deste destêrro, + Com essas que a seu doce Esposo mandas. + Não a detenhas mais em teus amores, + Se dobrar-lhe não queres suas dores. + + Vendo o cruel, emfim, que o que dizia, + Tomava a bella virgem por affronta, + E que quanto d'amor mais se accendia, + Ella delle fazia menos conta; + No concavo arco que na mão trazia, + Huma setta embebeo d'aguda ponta, + E o peito lhe passou de banda a banda. + Assi rendeo o esprito a virgem branda. + + Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza; + As azas abre ja, ja a luz derrama; + Vôa com desusada ligeireza + Onde o teu Bem t'espera, onde te chama. + Verás baixa do mundo a mór alteza; + Verás qu'engana mais a quem mais ama; + E lá do teu Amor, cá suspirado, + O fructo colherás tão desejado. + + Em paz te vae, ó alma pura e bella, + Mais bella inda no sangue que verteste; + Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella + Formosa Região, alta e celeste. + Coroada de glória immortal, nella + Com Christo lograrás, a quem te déste + Com tantas e tão bem nascidas almas, + (Formosura do Ceo) onze mil palmas. + + * * * * * + + + + +COMEDIAS. + + +INTERLOCUTORES. + + +DO PROLOGO. + + O MORDOMO, ou DONO DA CASA. + MARTIM CHINCHORRO. + AMBROSIO, Escudeiro. + LANÇAROTE, Moço. + + +DA COMEDIA. + + ELREI SELEUCO. + A RAINHA ESTRATONICA. + O PRINCIPE ANTIOCHO. + LEOCADIO, Pagem do Principe Antiocho. + FROLALTA, Criada da Rainha Estratonica. + HUM PORTEIRO DA CANA. + HUMA MOÇA DA CAMARA. + HUM PHYSICO, ou MEDICO. + SANCHO, Moço do Physico. + ALEXANDRE DA FONSECA, hum dos Musicos. + + + + * * * * * + + +ELREI SELEUCO. + +COMEDIA. + + + + +PROLOGO. + +_Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa._ + +Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quiz +representar huma Farça; e diz, que por não se encontrar com outras ja +feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo assi +arrazoado satisfazer. E diz que quem se della não contentar, querendo +outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da +Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em +casa do Boticario; e não lhe faltará que conte. Porém diz o Autor que +usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto á obra, se não parecer +bem a todos, o Autor diz que entende della menos que todos os que lha +puderem emendar. Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que +responde com hum dito de hum Philosopho, que diz: _Vós outros estudastes +para praguejar, e eu para desprezar praguentos?_ Eu com tudo quero saber +da Farça, em que ponto vai. Lançarote? + +MOÇO. + +Senhor. + +MORDOMO. + +São ja chegadas as figuras? + +MOÇO. + +Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida. + +MORDOMO. + +Como assi? + +MOÇO. + +Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com friza, nem talão de +çapato, que não sahisse fóra do couce. Ora vierão huns embuçadetes, e +quizerão entrar por fôrça; ei-lo arrancamento na mão: derão huma pedrada +na cabeça ao Anjo, e rasgárão huma meia calça ao Ermitão; e agora diz o +Anjo que não ha de entrar, até lhe não darem huma cabeça nova, nem o +Ermitão até lhe não pôrem huma estopada na calça. Este pantufo se perdeo +alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que não quero nada do +alheio. + +MORDOMO. + +Se elle fôra outra peça de mais valia, tu botáras a consciencia pela +porta fóra, para o metteres em tua casa. + +MOÇO. + +Oh! se o elle fôra, mais consciencia sería torná-lo a seu dono, quem o +havia mister para si. + +MORDOMO. + +Ora vem cá: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos +cá Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê para cá, e que traga +comsigo o Senhor Romão d'Alvarenga, para que sôbre o Canto-chão botemos +nosso contraponto de zombaria. Ouves, Lançarote? ir-lhe-has abrir a +porta do quintal, porque mudemos o vinte aos que cuidão de entrar por +fôrça. + +_Indo-se o Moço diz:_ + +Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma +bolsa com hum par de reales, que são bons para Escudeiro hypocrita; que +são pouco, e valem muito? + +MORDOMO. + +Moço, que estás fazendo que não vás? + +MOÇO. + +Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fôra aquelle +tempo, em que corrião as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para +humas palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste? + +MORDOMO. + +Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dirá. + +_Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moço, e diz o Mordomo:_ + +Não ha mais mao conselho, que ter hum villão destes mimoso, porque logo +passão o pé além da mão, e zombão assi da gravidade de seu amo. Mas +tornando ao que importa; vossas mercês he necessario que se cheguem huns +para os outros, para darem lugar aos outros Senhores que hão de vir; que +de outra maneira, se todo o corro se ha de gastar em palanques, será bom +mandar fazer outro alvalade; e mais, que me hão de fazer mercê, que se +hão de desembuçar, porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer +mal: este só desgôsto tee hum Auto, que he como offício de Alcaide; ou +haveis deixar entrar a todos, ou vos hão de ter por villão ruim. + +_Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro Ambrosio, e diz:_ + +MARTIM. + +Entre v. m. + +AMBROSIO. + +Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou +diante. Beijo as mãos a v. m. A verdade he esta, passear em casa +juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; além +disto Auto para esgaravatar os dentes: esta he a vida, de que se ha de +fazer consciencia. + +MORDOMO. + +Senhor, o descanso dizem lá, que se ha de ter em quanto homem puder, +porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu +nome he. + +MARTIM. + +Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho +traz mais somno comsigo que huma prégação comprida. + +MORDOMO. + +Senhor, por bom mo vendêrão, e eu o tomei á cala de sua boa fama. E se +tal he, eu acho que, por outra parte, não ha tal vida, como ouvir hum +villão, que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que huma +pera-pão, e huma donzella, que vem podre de amor, fallando como +Apostolo, mais piedosa que huma lamentação. + +MARTIM. + +Para estes taes he grande peça rapaz travesso com mólho de junco, porque +não andem mais ao coscorrão, mais roucos que huma cigarra, trazendo de +si enfadamento. + +MOÇO. + +O lá Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro. +Ora sus, ha hi quem dê mais? que ainda vos veja todas a mim ás +rebatinhas: ora sus, venhão de mano em mano, ou de mana em mana. + +MORDOMO. + +Moço, falla bem ensinado. + +MOÇO. + +Senhor, não faz ao caso; que os erros por amores tee privilegio +de Moedeiro. + +AMBROSIO. + +Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito por entrar. + +MOÇO. + +Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão. + +AMBROSIO. + +Oh que salgado moço! Zombas de mi? Vem cá. Donde es natural? + +MOÇO. + +Donde quer que me acho. + +AMBROSIO. + +Pergunto-te onde nasceste. + +MOÇO. + +Nas mãos das parteiras. + +AMBROSIO. + +Em que terra? + +MOÇO. + +Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida +daquella hora, que não havia palmo de terra nella. + +MARTIM. + +Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para +ver com que disparate respondes. + +MOÇO. + +A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio. + +MARTIM. + +Vem cá. De teu tio! E isso como? + +MOÇO. + +Como? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não entendem. Meu +pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamão aos filhos sobrinhos; e +daqui me ficou a mi ser filho de meu tio. + +MARTIM. + +Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este? + +MORDOMO. + +Aqui me veio ás mãos sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e +mais tee outra cousa, que huma trova fa-la tão bem como vós, ou como +eu, ou como o Chiado. + +AMBROSIO. + +Não! quanté disso nós havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto +se vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este? + +MORDOMO. + +Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste á moça Briolanja, por amor +de mi! + +MOÇO. + +Senhor, si, direi; mas aquella trova não he senão para quem a entender. + +MARTIM. + +Como! Tão escura he ella? + +MOÇO. + +Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu não sei escrever +senão com carvão; e porém diz assi: + + Por amor de vós, Briolanja, + Ando eu morto, + Pezar de meu avô torto. + +MARTIM. + +Oh como he galante! Que descuido tão gracioso! Mas vem cá: que culpa te +tee teu avô nos desfavores que te tua dama dá? + +MOÇO. + +Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, não pezarei eu antes dos +meus parentes, que dos alheios? + +MORDOMO. + +Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de gavetas, que +trombeta de Serenissimo de la Valla. + +MOÇO. + +A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de +mergulho a entenderão. E por isso mandem assoar os engenhos, e metão +mais huma sardinha no entendimento; e póde ser que com esta servilha lhe +calçará melhor: e todavia palra assi: + + Vossos olhos tão daninhos + Me tratárão de feição, + Que não ha em meu coração + Em que atem dous reis de cominhos. + Meu bem anda sem focinhos + Por vós morto, + Pezar de meu avô torto. + +MARTIM. + +Ora bem: que tee de ver os cominhos com o teu coração? + +MOÇO. + +Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedella, não +se podem comer senão com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era +tendeira; e este he o verdadeiro entendimento. + +MARTIM. + +E aquella regra que diz, _Meu bem anda sem focinhos_, me dá tu a +entender; que ella não dá nada de si. + +MOÇO. + +Nunca vossas mercês ouvirão dizer: _Meu bem e meu mal lutárão hum dia; +meu bem era tal, que meu mal o vencia?_ Pois desta luta foi tamanha a +quéda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por +ficarem tão esfarrapados, que lhe não podião botar pedaço; por conselho +dos Physicos lhos cortárão por lhe nelles não saltarem erpes; e daqui +ficou: _Meu bem anda sem focinhos_, como diz o texto. + +AMBROSIO. + +Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por dia de S. Nicolao. + +MARTIM. + +Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natural para Logico. + +MOÇO. + +Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas não tão fria como vossas mercês. + +MORDOMO. + +Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por +baixo desta mesa, e ouçamos este Representador, que vem mais amarrotado +dos encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira +da arca de cedro. + +MARTIM. + +Senhor, elle parece que aprende a cirurgião. + +AMBROSIO. + +Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos +verdes. + +MORDOMO. + +Emfim, parece figura de Auto em verdade. + +_Entra o Representador._ + + He lei de direito, assaz verdadeira, + Julgar por si mesmos aquillo que vem; + Peloque, se cuidão que zombo de alguem, + Eu cuido que zombão da mesma maneira. + +E assi a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum conhecer seu +proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me esquece o +dito todo de ponto em claro: mas não sou de culpar, porque não ha mais +que tres dias que mo derão. Mas em breves palavras direi a vossas mercês +a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo até á ponta. Entrarão logo +primeiramente quinze donzellas que vão fugidas de casa de seus paes, e +vão com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos, +metidos em hum covão, cantando: _Quem os amores tee em Cintra_; e +despois de cantarem farão huma dança de espadas; cousa muito para ver: +entra mais ElRei Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo +Catharina Real com huns poucos de parvos n'huma joeira; e semeá-los-ha +pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o +Auto, com musica de chocalho e buzinas, que Cupido vem dar a huma +alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-hão vossas mercês cada hum para suas +pousadas, ou consoarão cá comnosco disso que ahi houver. Parece-me que +nenhum diz que não. Ora pois ficareis _in vanum laboraverunt_, porque +atégora zombei de vós, por me forrar do êrro da representação, como quem +diz, _digo-to, antes que mo digas._ + +AMBROSIO. + +Ora vos digo, Senhores, que se as figuras são todas taes, que acertarião +em errar os ditos; aindaque me parece que este o não fez, senão a ser +mais galante. Mas se assi he, ella he a melhor invenção que eu vi; +porque jagora representações, todas he darem por praguentos; e são tão +certas, que he melhor errá-las, que acertá-las. + +MORDOMO. + +Parece-me que entrão as figuras de siso: vejamos se são tão galantes na +prática, como nos vestidos. + + + * * * * * + + +_Entra El Rei Seleuco, com a Rainha Estratonica._ + +REI. + + Senhora, desque a ventura + Me quiz dar-vos por mulher, + Me sinto emmeninecer; + Porqu'em vossa formosura + Perde a velhice seu ser. + Hum homem velho, cansado, + Não tee fôrça, nem vigor, + Para em si sentir amor: + Se não he qu'estou mudado + Com ser vosso n'outra côr. + Muito grande dita tem + A mulher que he formosa. + +RAINHA. + + Senhor, grande: mas porém + Se a tal he virtuosa, + Quer-lhe a ventura mor bem. + +REI. + + Si, mas porém nunca vemos + A natureza esmerar + Adonde haja que taxar; + Que quando ella faz extremos, + Em tudo quer-se extremar. + Eu fallo como quem sente + Em vós está calidade, + Pelo que vejo presente; + E se me esta mostra mente, + Mente-me a mesma verdade. + Huma só tristeza tenho + Que não tee a meninice, + Que no mor contentamento + O trabalho da velhice + Me embaraça o sentimento. + +RAINHA. + + Senhor, novidades tais + Far-me-hão crer de verdade... + +REI. + + Novidades lhe chamais! + Folgo, Senhora, que achais + Na velhice novidades. + +RAINHA. + + Senhor, dias ha que sento + Em o Principe Antiôcho + Certo descontentamento: + Dera alguma cousa a trôco + Por saber seu sentimento. + Vejo-lhe amarello o rosto, + Ou de triste, ou de doente: + Ou elle anda mal disposto, + Ou lá tee certo desgôsto + Que o não deixa ser contente. + Mande, Senhor, vossa Alteza + A chamá-lo por alguem, + Saberemos que mal tem, + Se he doença de tristeza, + De que nasce, ou de que vem. + +REI. + + Certo qu'eu me maravilho + Do que vos ouço dizer. + Que mal póde nelle haver? + Ide dizer a meu filho + Que me venha logo ver. + +RAINHA. + + Se curar não se procura + Huma cousa destas tais, + Vem despois a crescer mais. + Quando ja não se acha cura, + Toda a cura he por demais. + +_Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome Leocadio._ + +PRINCIPE. + + Leocadio, se es avisado, + E não te falta saber, + Saber-me-has dar a entender, + Quem ama desesperado, + Que fim espera de haver? + +PAGEM. + + Senhor, não. + Mas porém porque razão + Lhe avem sabê-lo, ou de que? + +PRINCIPE. + + Pergunto-te a conclusão; + Não me perguntes porque. + Porque he minha pena tal, + E de tão estranho ser, + Que me hei de deixar morrer; + E por não cuidar no mal + O não ouso de dizer. + Que maneira de tormento + Tão estranho e evidente, + Que nem cuidar se consente! + Porque o mesmo pensamento + Ha medo do mal que sente. + +PAGEM. + + Não entendo a Vossa Alteza. + +PRINCIPE. + + Assi importa á minha dor. + +PAGEM. + + E porque razão, Senhor? + +PRINCIPE. + + Para que seja a tristeza + Castigo do meu temor. + Porque ordena + O Amor, que me condena, + Que se haja de sentir, + E sem dizer nem ouvir. + Bem-aventurada a pena + Que se póde descobrir! + Oh caso grande e medonho! + Oh duro tormento fero! + Verdade he isto, qu'eu quero? + Não he verdade, mas sonho + De que acordar não espero. + Quero-me chegar a ElRei + Meu pae, que ja m'está vendo. + Mas onde vou? Não m'entendo. + Com que olhos eu olharei + Hum pae, a quem tanto offendo? + Que novo modo de antolhos! + Porque neste atrevimento + Devêra meu sentimento + Para elle não ter olhos, + Nem para ella pensamento. + +_Chega aonde está ElRei, e diz:_ + +REI. + + Filho, como andais assi? + Que tanto desgôsto tomo + De vos ver como vos vi! + +PRINCIPE. + + Não sei eu tanto de mi, + Que possa saber o como. + Dias ha ja, Senhor, que ando + Mal disposto, sem saber + Este mal que possa ser; + Que se nelle estou cuidando, + Quasi me vejo morrer. + +REI. + + Pois, filho, será razão + Que meus Physicos vos vejão. + +PRINCIPE. + + Os Physicos, Senhor, não; + Que os males qu'em mi estão, + São curas que me sobejão. + +RAINHA. + + Deite-se; que na verdade + Hum corpo, deitado e manso, + Descansa á sua vontade. + +PRINCIPE. + + Senhora, esta enfermidade + Não se cura com descanso. + +RAINHA. + + Todavia, bom será + Que lhe fação huma cama. + +PRINCIPE. + + (Hum coxim abastará, + Que assi não descansará + O repouso de quem ama.) + +REI. + + Vamos, filho, para dentro, + Em quanto a cama se faz: + Repousae como capaz; + Que a mi me dá cá no centro + A pena que assi vos traz. + +_Vão-se, e vem huma moça a fazer a cama e diz:_ + +MOÇA. + + Mimos de grandes Senhores, + E suas extremidades, + Me hão de matar de amores, + Porque de meros dulçores + Adoecem. + Então logo lhes parecem + Aos outros, que são mamados; + E os que são mais privados, + Sôbre elles estremecem. + Certo (e assi Deos me ajude!) + Que são muito graciosos, + Porque de meros viçosos, + Não podem com a saude. + Mas deixallos, + Porque elles darão nos vallos, + Donde mais não se erguerão, + Inda que lhe dem a mão + Os seus privados vassallos. + +_Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e diz:_ + +PORTEIRO. + + Traz, traz. + +MOÇA. + + Jesu! Quem'stá ahi? + +PORTEIRO. + + Ja vós, mana, ereis mamada: + Para vos levar furtada + Nunca tal ensejo vi. + E vós estais descuidada! + +MOÇA. + + E meus descuidos que fazem? + +PORTEIRO. + + Vossos descuidos? cadella! + Ah minh'alma! Sois tão bella, + Qu'esses descuidos me trazem + Dous mil cuidados á vela. + Pois sou vosso ha tantos annos, + Mana, tirae os antolhos, + E vereis meus tristes dannos. + +MOÇA. + + Não tenhais esses enganos. + +PORTEIRO. + + Nem vós tenhais esses olhos; + Que de vossos olhos vem + Esta minha pena fera. + +MOÇA. + + De meus olhos? Assim era. + +PORTEIRO. + + Moça, que taes olhos tem, + Nenhuns olhos ver devêra. + +MOÇA. + + E porque? + +PORTEIRO. + + Porque cegais + A quantos olhos olhais, + Postoque por vós padecem. + Olhos, que tão bem parecem, + Porque não os castigais? + +MOÇA. + + Deos dê siso, pois de vós + Tirou o que aos outros deu. + +PORTEIRO. + + Desatae-me lá esses nós. + Que mais siso quero eu, + Que não ter siso por vós? + +MOÇA. + + Fallais d'arte; eu vos prometo + Que a resposta vem á vela. + Isso he ôlho de panella. + Quanto ha ja que sois discreto? + +PORTEIRO. + + Quanto ha ja que vós sois bella? + +MOÇA. + + Dais-me logo a entender + Que eu sou feia, a meu ver. + +PORTEIRO. + + E isso porque o entendeis? + +MOÇA. + + Porque? Porque me dizeis + Que só de meu parecer + Vos procede o que sabeis. + +PORTEIRO. + + He verdade. + +MOÇA. + + Pois bem sento + Que o vosso saber he vento. + Fica a cousa declarada, + Meu parecer não ser nada. + +PORTEIRO. + + Olhae aquelle argumento: + Além de bella, avisada! + Oh nem tanto, nem tão pouco! + Vêde vós o que fallais. + +MOÇA. + + Cego no saber andais. + +PORTEIRO. + + No siso, mas não tão louco + Como vós, mana, cuidais. + Ora dizei, duna má: + Que não amais, quem vos ama? + +MOÇA. + + Ouvistes vós cantar ja, + _Velho malo, em minha cama?_ + Ja m'entendereis. + +PORTEIRO. + + Ha, ha. + Senhora, estais enganada; + Que com huma capa e espada, + E com este capuz fóra... + +MOÇA. + + Ora bem: tirae-o ora, + E fazei huma levada. + +PORTEIRO. + + Não: se m'eu hoje alvoróço, + Achar-me-heis d'outra feição. + +_Aqui tira o capuz e diz:_ + +PORTEIRO. + + Tenho má disposição? + Estas obras são de moço, + Se as mostras de velho são. + +MOÇA. + + Tendes mui gentis meneios. + +PORTEIRO. + + Não, Senhora; faço extremos. + +MOÇA. + + Passeae ora, veremos + Se tendes tão bons passeios. + +PORTEIRO. + + Tudo, Senhora, faremos. + +MOÇA. + + Virae ora a essoutra mão. + +PORTEIRO. + + Esta disposição vêde-a; + Que tenho gentil feição. + +MOÇA. + + Tendes vós mui boa redea. + Soffreis ancas? + +PORTEIRO. + + Isso não. + +MOÇA. + + Por certo que tendes graça + Em tudo quanto fizerdes. + Fazei mais o que souberdes. + +PORTEIRO. + + Não sei cousa que não faça, + Senhora, por me quererdes. + +MOÇA. + + Tendes vós muito bom ar. + +PORTEIRO. + + Mais qu'isto faz quem quer bem. + +MOÇA. + + I-vos asinha, que vem + O Principe a se deitar. + +PORTEIRO. + + Nunca huma pessoa tem + Hum'hora para fallar! + +_Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e diz:_ + +PRINCIPE. + + Seja a morte apercebida, + Porque ja o Amor ordena + A dar a meu mal sahida; + Porque o fim da minha vida + O seja da minha pena. + Não tarde, para tomar + Vingança de meu querer, + Pois não se póde dizer + Que não tee ja que esperar, + Nem com que satisfazer? + Os Physicos vem e vão, + Sem saberem minhas mágoas, + Nem o pulso me acharão; + E se o querem ver nas ágoas, + As dos olhos lho dirão. + Se com sangrias tambem + Procurão ver-me curado; + O temor de meu cuidado + O mais do sangue me tem + Nas veias todo coalhado. + Quero-me aqui encostar, + Que ja o esprito me cae. + Leocadio, vae-me chamar + Os Musicos de meu Pae; + Folgarei de ouvir cantar. + +_Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo assi:_ + +PRINCIPE. + + Senhora, qual desatino + Me trouxe a tanta tristura? + Foi, Senhora, por ventura + A fôrça do meu destino, + Como vossa formosura? + Bem conheço que não posso + Ter tão alto pensamento; + Mas disto só me contento, + Que se paga com ser vosso + O mor mal de meu tormento. + +_Entrão os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum delles:_ + +ALEXANDRE. + + Senhor, de que se acha mal + O Principe, ou que mal sente? + +PAGEM. + + Senhor, sei que está doente; + Mas sua doença he tal, + Qu'entender se não consente. + Os Physicos vem e vão, + Huns e outros a meude, + Sem o poderem dar são. + Quanto mais cura lhe dão, + Então tee menos saude. + O Pae anda em sacrificios + Aos deoses, que lhe dem + A saude que convem; + Dizendo que por seus vicios + O mal a seu filho vem. + Eu suspeito qu'isto são + Alguns novos amorinhos, + Que tera no coração. + +ALEXANDRE. + + Amores! com quem serão, + Que lhe não dem de focinhos? + +PORTEIRO. + + Senhores, que lhe parece + Da doença de Antiôcho? + +ALEXANDRE. + + Diga-lha quem lha conhece. + +PAGEM. + + Que toma morrer a trôco + De callar o que padece. + +PORTEIRO. + + Isso he estar emperrado + Na doença; que he peor. + Tee-no os Physicos curado? + +ALEXANDRE. + + Oh! que de mal del amor + No ha, Señor, sanador. + +PORTEIRO. + + Fallais como exprimentado; + Qu'eu cuido que esta fadiga, + Que o faz com que desespere; + Y por mas tormento quiere + Que se sienta, y no se diga. + +ALEXANDRE. + + Pois, Senhor meu, isso asselle, + Porque a pena, que sabeis, + Que eu cuido que está nelle, + Dar-lhe-ha penas crueis, + Pues no hay quien la consuele. + +PORTEIRO. + + Folgo, porque m'entendeis. + +PAGEM. + + Hemo-nos, Senhores, de ir, + Porque nos está 'sperando. + +PORTEIRO. + + Pois eu tambem hei de ir; + Que não me posso espedir + Donde vejo estar cantando. + +PRINCIPE. + + Cantae, por amor de mi, + Alguma cantiga triste; + Que todo meu mal consiste + Na tristeza em que me vi. + +PORTEIRO. + + Mande-lhe cantar hum chiste. + +ALEXANDRE. + + Chiste não, que he deshonesto, + E não tee esses extremos: + Outro canto mais modesto; + Porém não sei que diremos. + +PAGEM. + + Gaoleão o dirá presto. + +PORTEIRO. + + Dá licença V. Alteza + Que diga minha tenção? + +PRINCIPE. + + Dizei: seja em canto-chão. + +PORTEIRO. + + Pois crede qu'he subtileza. + Qu'os Anjos a comerão. + Digão esta: + _Enforquei minha esperança, + E o Amor foi tão madraço, + Que lhe cortou o baraço._ + +ALEXANDRE. + + Não me parece essa boa. + +PORTEIRO. + + Haja eu perdão, + Porque não a entenderão. + +ALEXANDRE. + + Entender! + +PORTEIRO. + + Bofé qu'he boa: + Não lhe cahis na feição? + +ALEXANDRE. + + Dizei ora outra melhor, + Com que nos atarraqueis. + +PORTEIRO. + + Ora esperae, e ouvireis: + Se a esta não dais louvor, + Quero que me degolleis. + +Cantiga. + + Com vossos olhos Gonçalves, + Senhora, captivo tendes + Este meu coração Mendes. + +ALEXANDRE. + + Essa parece mui taibo, + Porque mostra bom indicio. + +PORTEIRO. + + Vós cuidareis qu'eu que raivo. + +ALEXANDRE. + + Todavia tee mao saibo. + Ora mal lhe corre o offício. + +PRINCIPE. + + Tá, não vá mais por diante + A zombaria, que he má: + Cantae qualquer dellas ja; + Qu'esse Porteiro he galante, + Ninguem o contentará. + +_Aqui cántão, e em acabando, diz o_ + +PAGEM. + + Parece que adormeceo. + +PORTEIRO. + + Pois será bom que nos vamos. + +ALEXANDRE. + + Senhor, quer que nos vejamos? + +PORTEIRO. + + Senhor vir-me-ha do ceo: + Releva-me que o façamos. + +_Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta, e diz:_ + +RAINHA. + + Frolalta, como ficava + Antiôcho em te tu vindo? + +FROLALTA. + + Ficava-se despedindo + Da vida qu'então levava, + E assi seus dias cumprindo. + +RAINHA. + + Oh grave caso d'amor! + Desesperada affeição! + Oh amor sem redempção, + Que alli te fazes maior + Onde tens menos razão! + No mais alto e fundo pégo + Alli tens maior porfia: + Razão de ti não se fia. + Quem a ti te chamou cego, + Mui bem soube o que dizia. + Por ventura hia chorando? + +FROLALTA. + + Chorando hia e chamando + Ao Amor, Amor cruel; + E em, Senhora, se deitando + Lhe cahio este papel. + +RAINHA. + + Que papel? + +FROLALTA. + + Este, Senhora. + +RAINHA. + + Amostra, que quero lê-lo. + Agora acabo de crê-lo; + Que ao que mostra por fóra, + Aqui lhe lançou o sello. + +_Aqui lê o papel e diz:_ + +RAINHA. + + Oh estranha pena fera! + Desditosa vida chara! + Oh quem nunca cá viera, + E com seu Pae não casára, + Ou em casando morrêra! + +FROLALTA. + + Aindaque eu pêca são, + Senhora, tudo bem vejo. + Attente, que na eleição + O que lhe pede o desejo + Não consente o coração. + +RAINHA. + + Frolalta, pois qu'es discreta + Nada te posso encobrir; + Porque, se queres sentir, + A huma mulher discreta + Tudo se ha de descobrir. + O dia qu'entrei aqui, + Que a Seleuco recebi, + Logo nesse mesmo dia + No Principe filho vi + Os olhos com que me via. + Este principio soffri-lho, + Para ver se se mudava; + Antes mais se accrescentava: + Eu amava-o como filho, + E elle d'outr'arte me amava. + Agora vejo-o no fim + Por se me não declarar. + E pois ja que a isso vim, + A morte que o levar, + Me leve tambem a mim. + Porque ja que minha sorte + Foi tão crua e desabrida, + Que me não quer dar sahida; + Sejamos juntos na morte, + Pois o não somos na vida. + Oh quem me mandou casar, + Para ver tal crueldade! + Ninguem venda a liberdade, + Pois não póde resgatar + Onde não tee a vontade. + Que não ha mor desvario, + Que o forçado casamento + Por alcançar alto assento; + Que, emfim, todo o senhorio + Está no contentamento. + Não sei se o vá ver agora, + Se será tempo conforme, + Ou se imos a deshora. + +FROLALTA. + + Despois iremos, Senhora, + Que agora dizem que dorme. + +_Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:_ + +PHYSICO. + + Su madrasta oyó nombrar, + Y el pulso se le alteró: + Esto no entiendo yo, + Porque para le alterar + El corazon le obligó. + Pues que el corazon se altere, + Es porque en un momento + Algun nuevo vencimiento + De aficion terrible le hiere, + Que causa tal movimiento. + Pues que aficion cabe así + Con madrasta? Digo yo, + Dos razones hay aqui: + La una dice, que sí, + La otra dice, que no. + Empero yo determino + De exprimentar la verdad, + Y hacer una habilidad, + Que declare es agua, ó vino + Esta su enfermedad. + Porque toda esta mañana + Tengo estudiado su mal, + Sin ver causa efectual + De su dolencia inhumana, + Ni otra de su metal. + Llamar quiero este asnejon; + Mas aun debe de dormir, + Segun que es dormilon. + Sancho? ó Sancho? + +SANCHO. + + Ah Señor. + +PHYSICO. + + Ea, aun estás dormiendo? + +SANCHO. + + Estoyme, Señor, vestiendo. + +PHYSICO. + + Pues vellaco y sin sabor, + No me respondes dormiendo? + Vestios presto, ladron. + Oh qué mozo, y qué ventura! + +SANCHO. + + (Mas qué amo y qué cabron!) + Embíeme acá el ropon, + Que no hallo mi vestidura. + +PHYSICO. + + Que embie el ropon acá? + Parece que os desmandais. + +SANCHO. + + Que vaya, Señor? ha, ha. + Que buenos dias hayais. + +_Entra o moço embrulhado em huma manta, e diz:_ + +PHYSICO. + + Di como vienes así + Con la manta, y para qué? + +SANCHO. + + Yo, Señor, se lo diré: + Por venir presto vestí + Lo que mas presto me hallé: + Porque viendo que él me llama, + Dormiendo yo sin afan, + Salté presto de la cama, + Que parezco un gavilan, + Hermoso como una dama. + +PHYSICO. + + Mas es tu bovedad tanta, + Que vienes desta facion? + +SANCHO. + + De mi vestido se espanta? + De noche sirve de manta, + Y de dia de ropon. + +PHYSICO. + + Embióme ElRey á llamar + Otra vez. + +SANCHO. + + Y á mí? + +PHYSICO. + + Y á ti! + +SANCHO. + + Y él qué presta allá sin mí? + +PHYSICO. + + Qué puedes tu aprovechar? + +SANCHO. + + Yo se lo diré de aqui: + Si por la ventura quiere + Para que le dé consejo, + Cuando doliente estuviere; + Digo, coma, si pudiere, + Y beba buen vino anejo; + Porque este es el licor + Que dá fuerza, y es sabroso; + Que segun dicen, Señor, + _Vinum loetificat cor + Hominis_, y le es provechoso. + +PHYSICO. + + Ya sabes la medicina, + Que Avicena nos refiere. + +SANCHO. + + Pues, Señor! porque es divina. + Pero ElRey qué le quiere, + Qué manda, ó qué determina? + +PHYSICO. + + El Principe está doliente. + +SANCHO. + + Oh mesquino! Y qué mal ha? + +PHYSICO. + + Y á ti, necio, que te vá? + +SANCHO. + + O Señor, que es mi pariente! + +PHYSICO. + + Gracioso el bovo está. + Y pues díme por tu fé: + Llorarás si se muriere? + +SANCHO. + + No, Señor, no lloraré; + Empero, Señor, haré + La peor cara que pudiere. + +PHYSICO. + + Ea, bovo, vé corriendo, + Y ensilla la mula ayna. + +SANCHO. + + Véngala ensillar mejor. + +PHYSICO. + + Oh velhaco, y sin sabor! + +SANCHO. + + Yo por cierto no lo entiendo. + Pero una medicina + Le he de pedir, Dios queriendo, + (Porque ando atribulado, + Y no sé parte de mi + Con este nuevo cuidado) + Para un sayo esfarrapado, + Que me dicen hay allí. + +PHYSICO. + + Ora ensilla; y nunca viva, + Pues sufro tus desatinos. + +SANCHO. + + Señor, pasion no reciva: + _Ya cavalga Calaínos + A la sombra de una oliva._ + +_Aqui sahe bolindo com a almofaça, e acorda o Principe e diz:_ + +PRINCIPE. + + Oh bella vista e humana, + Por quem tanto mal sostenho! + Oh Princeza soberana! + Como? nos braços vos tenho, + Ou este sonho m'engana? + Pois como, sonho, tambem + Me queres vir magoar? + E para me atormentar + Mostras-me a sombra do bem + Para assi mais m'enganar? + Assi que, com quanto canso, + Ja não posso achar atalho, + Pois que o somno quieto e manso, + Que os outros tee por descanso, + Me vem a mi por trabalho. + Pois ha hi tantos enganos + Que condemnão minha sorte; + Não o tenho ja por forte, + Se á volta de tantos danos + Viesse tambem a morte. + +_Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:_ + +REI. + + Andae e vêde se achais + O rasto deste segredo, + Que me dizem que alcançais; + Ainda que tenho medo + Que lhe seja por demais. + +PHYSICO. + + Plega á Dios que aqueste sea + Para salud y remedio + Desta dolencia tan fea. + Yo buscaré todo el medio, + Que presto sano se vea. + +_Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:_ + +PHYSICO. + + Aflojen, Señor, sus ais. + Como se halla en su penar? + +PRINCIPE. + + Como me acho perguntais? + E como se póde achar + Quem sempre se perde mais? + +PHYSICO. + + (La respuesta abre el camino.) + Imagina de contino? + +PRINCIPE. + + Não tenho outro mantimento, + Nem outro contentamento, + Senão o em que imagino. + +_Aqui entra a Rainha e diz:_ + +RAINHA. + + Como se sente, Senhor? + Tee a febre mais pequena? + +PRINCIPE. + + Responda-lhe minha pena. + +PHYSICO. + + (Conocido es su dolor. + Ora sea en hora buena, + Tomada está la tristeza + Á las manos.) Qué sentió? + (Usaré de subtileza.) + +_Diz contra ElRei:_ + + Cúmpleme que solo yo + Platique con Vuestra Alteza. + +REI. + + Cheguemos-nos para cá. + +RAINHA. + + Não deve desesperar, + Qu'em fim, se bem attentar, + Para tudo o tempo dá + Tempo para se curar. + +PRINCIPE. + + Que cura poderá ter + Quem tee a cura, Senhora, + No impossivel haver? + +RAINHA. + + Ficae-vos, Senhor, embora, + Que vos não sei responder. + +_Vai-se a Rainha, e diz ElRei:_ + +REI. + + Neste mal, que não comprendo, + Que meio dais de conselho? + +PHYSICO. + + Señor, nada entiendo dello; + Y supuesto que lo entiendo, + Yo quisiera no entendello. + +REI. + + Porque? + +PHYSICO. + + Porque he entendido + Lo mas malo de entender, + Para lo que puede ser, + Porque anda, Señor, perdido + De amores por mi muger. + +REI. + + Santo Deos! que! tal amor + Lhe dá doença tão fera! + Que remedio achais melhor? + +PHYSICO. + + Forçado será que muera, + Porque no muera mi honor. + +REI. + + Pois como! a hum só herdeiro + Deste Reino não dareis + Vossa mulher, pois podeis; + Que tudo faz o dinheiro? + Pois este não o engeiteis; + Dae-lha, porque eu espero + De vos dar dinheiro e honra, + Quanto eu para elle quero. + +PHYSICO. + + No tira el mucho dinero + La mancha de la deshonra. + +REI. + + Ora bem pouco defeito! + He pequice conhecida, + Quando deixa de ser feito; + Porque com elle dais vida + A quem vos dara proveito. + +PHYSICO. + + Cuan facilmente aporfia + Quien en tal nunca se vió! + Del consejo que me dió, + Vuestra Alteza que haria + Si agora fuese yo? + +REI. + + A mulher que eu tivesse + Dar-lha-hia. Oxalá + Que elle a Rainha quizesse! + +PHYSICO. + + Pues déla, si le parece, + Que por ella muerto está. + +REI. + + Que me dizeis? + +PHYSICO. + + La verdad. + +REI. + + Sem dúvida, tal sentistes? + +PHYSICO. + + Sin duda, sin falsedad. + Pues, Señor, ahora tomad + Los consejos que me distes. + +REI. + + Certamente, qu'eu o via + Em tudo quanto fallava. + Como o vistes? porque via? + +PHYSICO. + + Nel pulso, que se alterava + Si la via, ó si la oia. + +REI. + + Que maneira ha de haver? + Qu'eu certo me maravilho, + Possa mais o amor do filho, + Do que póde o da mulher. + Finalmente hei-lha de dar, + Que a ambos conheço o centro. + Quero-o ir alevantar, + E iremos para dentro + Neste caso praticar. + +_Diz contra o Principe:_ + + Levantae-vos, filho, d'hi + O melhor que vós puderdes, + E vindo-vos para aqui; + Porque, emfim, o que quizerdes + Tudo havereis de mi. + +PAGEM. + + Ah Senhores, oulá, ou? + +PORTEIRO. + + Viestes em conjunção + A melhor que póde ser: + Haveis aqui de fazer + A tosquia a hum rifão. + +PAGEM. + + Deixae-me, Senhor, dizer: + Haveis isto de acabar, + Coração, hi bugiar, + No esteis preso en cadenas, + Que pois o amor vos deo penas, + Que vos lanceis a voar. + +PORTEIRO. + + Por certo que bem comprou. + +PAGEM. + + Ora sabeis o que vai? + Antiocho que casou + Com a mulher de seu Pai, + E o mesmo Pae o ordenou. + +PORTEIRO. + + Isso como? + +PAGEM. + + Não o sei; + Porque dizem que a amava, + E que só por ella andava + Para morrer; e ElRei + Deo-a a quem a desejava. + +PORTEIRO. + + Se o casa por querer bem + Com a moça, a quem elle ama, + Direi eu que a mim me inflama + O amor mais que a ninguem. + +PAGEM. + + Pois pedi-lhe a nossa dama. + +PORTEIRO. + + Por São Gil, que ei-los cá vem, + Elle pela mão com ella. + +_Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mão, e diz:_ + +REI. + + Que mais ha hi que esperar? + Olhae qu'estranheza vai! + O muito amor ordenar, + Ir-se o filho namorar + D'huma mulher de seu Pai! + Querer bem foi sua dor, + Negar-lha será crueldade; + Assi que ja foi bondade + Usar eu de tal amor, + E de tal humanidade. + Ella deixou de reinar + Como fazia primeiro + Por se com elle casar; + E por amor verdadeiro + Tudo se póde deixar. + Eu que nella tinha pôsto + Todo o bem de meu cuidado, + Deixei mais que ella ha deixado; + Que mais se deixa no gôsto, + Que no poderoso estado. + Mas ja que tudo isto vemos, + Hajão festas de prazer, + As que melhor possão ser; + Porqu'em tão grandes extremos, + Extremos se hão de fazer. + Hajão cantos para ouvir, + Jogos, prazeres sem fundo; + Porque, se quereis sentir, + Deste modo entrou o mundo, + E assi ha de sahir. + +_Aqui vem os Musicos e cántão, e depois de cantarem, sahem-se todas as +figuras, e diz_ + +MARTIM CHINCHORRO. + +Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos; +ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor +festa que póde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das +figuras nos acolheremos. Moço, accende esse mólho de cavacos, porque faz +escuro, não vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço +e as canastras. + +ESTACIO DA FONSECA. + +Não, Senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par de tições na +mão; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvão-se desta +pousada; e não tenhão isto por palavras, porque essas e plumas, o vento +as leva. + + * * * * * + + + + +OS AMPHITRIÕES, + +COMEDIA. + + +INTERLOCUTORES. + + AMPHITRIÃO. + ALCMENA, sua mulher. + CALLISTO. + FELISEO. + SOSEA, moço de Amphitrião. + BROMIA, sua criada. + BELFERRÃO, Patrão. + AURELIO, Primo de Alcmena. + HUM MOÇO DE AURELIO. + JUPITER. + MERCURIO. + + +OS AMPHITRIÕES, + +COMEDIA. + + + + +ACTO PRIMEIRO. + + +SCENA I. + +_Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e Bromia._ + +ALCMENA. + + Ah Senhor Amphitrião, + Onde está todo meu bem! + Pois meus olhos vos não vem, + Fallarei co'o coração, + Que dentro n'alma vos tem. + Ausentes duas vontades, + Qual corre mores perigos, + Qual soffre mais crueldades, + Se vós entre os inimigos, + Se eu entre as saudades? + Que a ventura, que vos traz + Tão longe de vossa terra, + Tantos desconcertos faz, + Que se vos levou á guerra, + Não me quiz leixar em paz. + Bromia, quem com vida ter, + Da vida ja desespera, + Que lhe poderás dizer? + +BROMIA. + + Que nunca se vio prazer, + Senão quando não se espera. + E por tanto não devia + De ter triste a phantasia; + Porque Vossa Mercê creia, + Que o prazer sempre salteia + Quem delle mais desconfia. + Eu tenho no coração, + Do Senhor Amphitrião + Venha hoje alguma nova: + Não receba alteração, + Que a verdadeira affeição + Na longa ausencia se prova. + +ALCMENA. + + Dizei logo a Feliseo + Que chegue muito apressado + Ao caes, e busque mêo + De saber se algum recado + Do porto Persico vêo: + E mais lhe haveis de dizer, + (Isto vos dou por offício) + D'alguma nova saber, + Em quanto eu vou fazer + Aos Deoses o sacrificio. + + +SCENA II. + +BROMIA. + + Saudades de minh'ama, + Chorinhos e devoções, + Sacrificios e orações, + Me hão de lançar n'huma cama, + Certamente. + Nós mulheres de semente + Somos sedenho mui tosco: + Com qualquer vento que vente, + Queremos forçadamente + Que os Deoses vivão comnosco. + Quero Feliseo chamar, + E dizer-lhe aonde ha de ir. + Mas elle como me vir, + Logo ha de querer rinchar, + De travesso. + Eu que de zombar não cesso, + Por ficar com elle em salvo, + Lanço-lhe hum e outro remêsso; + Aos seus furto-lhe o alvo; + E então elle fica avesso. + Porque o melhor destas danças, + Com huns vindiços assi, + He trazê-los por aqui + Ó cheiro das esperanças, + Por viver. + Ha-os homem de trazer + Nos amores assi mornos, + Só para ter que fazer; + E despois ao remetter + Lançar-lhe a capa nos cornos. + Feliseo, se estais á mão, + Chegae cá, vem como hum gamo: + Bem sei que não chamo em vão. + + +SCENA III. + +_Feliseo e Bromia._ + +FELISEO. + + Chamais-me? tambem vos chamo; + Porém eu ouço, e vós não: + Senhora, que me matais, + Se vós ja nunca me ouvis, + Ou me ouvis, e vos callais, + Dizei: porque me chamais + Se me vós a mim fugis? + +BROMIA. + + Eu vos fujo? + +FELISEO. + + Fugis, digo, + De dar a meus males cabo. + +BROMIA. + + Sabei que desse perigo + Não fujo como de imigo, + Fujo como do diabo. + +FELISEO. + + Dae ao demo essa tenção, + Usae antes de cortês, + Cahi vós nesta razão. + +BROMIA. + + Do p'rigo fogem os pés, + Do diabo o coração. + +FELISEO. + + Dizeis-me que nessa briga + Do meu coração fugis. + +BROMIA. + + Ainda qu'eu isso diga... + +FELISEO. + + Ah minha doce inimiga! + Bem sinto que me sentis. + Mas para que me chamais? + +BROMIA. + + Manda-vos minha Senhora + Que chegueis daqui ao cais, + E algumas novas saibais + D' Amphitrião nesta hora. + +FELISEO. + + Quem as não sabe de si, + D'outrem como as sabera? + +BROMIA. + + Não as sabeis vós de mi. + +FELISEO. + + Má trama venha por ti, + Duna feiticeira má! + Porque não me ólhas direito, + Cadella, que assi me cortas? + +BROMIA. + + Porque vos quero dar portas; + Que s'eu olhar d'outro geito, + Trarei cem mil vidas mortas. + +FELISEO. + + E pois para que me andais + Enganando ha cem mil annos? + +BROMIA. + + Dou-vos vida com enganos. + +FELISEO. + + Nesses enganinhos tais + Acho crueis desenganos. + +BROMIA. + + Quant'esses vos quero eu dar: + Vós cuidais que estais na sella? + Pois podeis-vos descer della; + Qu'eu nunca vos pude olhar. + +FELISEO. + + Jogais comigo á panella? + Tendes-me ha tanto captivo, + E desenganais-me agora? + Tudo isto he o que privo. + Assi que he isso, Senhora, + Dochelo morto, dochelo vivo? + Se me vós desenganais + No cabo de tantos annos, + Direi, se licença dais, + Dais-me vida com enganos, + Desenganos, ja chegais. + Mas se isso havia de ser, + Dizei, má desconhecida, + Destêrro de meu viver, + Que vos custava dizer + Amor, vae buscar tua vida? + +BROMIA. + + Zombais? Fallais-me coprinhas? + +FELISEO. + + Rir-vos-heis se vem á mão: + Copras não, mas isto são + Ansias y pasiones minhas + Dos bofes e coração. + +BROMIA. + + Is-vos fazendo d'huns sengos..... + +FELISEO. + + Perdóneme Dios si peco. + +BROMIA. + + Nesses dentinhos framengos + Conheço que sois hum pêco + De todos quatro avoengos. + +FELISEO. + + Tudo vos levo em capelo, + Ja qu'estais tanto em agraço. + Porém, fallando singelo, + A furto desse mao zêlo, + Quereis-me dar hum abraço? + +BROMIA. + + Ora digo que não posso + Usar comvosco de fero: + Tomae-o. + +FELISEO. + + Ja o não quero, + Porque esse abraço vosso, + Sabei que he engano mero. + +BROMIA. + + Oh! vós sois d'huns sensabores... + Abraço pedis assim? + S'eu remango d'hum chapim... + +FELISEO. + + Tudo isso são favores: + Zombae, vingae-vos de mim. + +BROMIA. + + Vós de furioso touro + As garrochas não sentis. + +FELISEO. + + Vedes, com isso sé mouro: + Quando cuido que sois ouro, + Acho-vos toda ceitis. + +BROMIA. + + Emfim, sanha de villão + Vos fez perder hum bom dia. + +FELISEO. + + Jagora o eu tomaria; + Quereis-mo dar? + +BROMIA. + + Ora não. + Cocei-vos eu todavia. + +FELISEO. + + Pois, Senhora, a quem vos ama + Sois tão desarrazoada, + Quero tomar outra dama; + Que não digão os d'Alfama + Que não tenho namorada. + +BROMIA. + + Deixae-me. + +FELISEO. + + Vós me deixais. + +BROMIA. + + Deixae-me. + +FELISEO. + + Zombais de mi? + +BROMIA. + + Deixae-me. Pois m'engeitais, + Eu me ausentarei daqui + Onde me mais não vejais. + +FELISEO. + + Boa está a zombaria! + +BROMIA. + + Não são essas minhas manhas. + +FELISEO. + + Porém is-vos todavia? + +BROMIA. + + Voyme á las tierras estrañas. + Adó ventura me guia. + + +SCENA IV. + +_Feliseo só._ + + Phantasias de donzellas, + Não ha quem como eu as quebre; + Porque certo cuidão ellas, + Que com palavrinhas bellas + Nos vendem gato por lebre. + Esta tee lá para si + Qu'eu sou por ella finado; + E crê que zomba de mi; + E eu digo-lhe que, si, + Sou por ella esperdiçado. + Preza-se d'humas seguras; + E eu não quero mais Frandes: + Dou-lhe trela ás travessuras, + Porque destas coçaduras + Se fazem as chagas grandes. + Qu'estas, que andão sempre á vela, + Estas vos digo eu que coço; + Porque de firmes na sella, + Crem que falsão a costella, + E ficão pelo pescoço. + Que quando estas damas tais + Me cachão, então recacho. + Mas disto agora nó mais. + Quero-me ir daqui ao cais + Ver se algumas novas acho. + + +SCENA V. + +_Jupiter e Mercurio._ + +JUPITER. + + Oh grande e alto destino! + Oh potencia tão profana! + Que a setta d'hum menino + Faça que meu ser divino + Se perca por cousa humana! + Que m'aproveitão os ceos, + Onde minha essencia mora + Com tanto poder, se agora + A quem me adora por deos, + Sirvo eu como a senhora? + Oh quão estranha affeição! + Quem em baixa cousa vai pôr + A vontade e o coração, + Sabe tão pouco d'Amor, + Quão pouco Amor de razão. + Mas que remedio hei de ter + Contra mulher tão terribil, + Que se não póde vencer? + +MERCURIO. + + Alto Senhor, teu poder + O difficil faz possibil. + +JUPITER. + + Tu não vês qu'esta mulher + Se preza de virtuosa? + +MERCURIO. + + Senhor, tudo póde ser; + Que para quem muito quer, + Sempre a affeição he manhosa. + Seu marido está ausente + Na guerra, longe daqui; + Tu, qu'es Jupiter potente, + Tomarás sua fórma em ti; + Que o farás mui facilmente. + E eu me transformarei + Na de Sósea, criado seu; + E ao arraial me irei, + Onde logo saberei + Como se a batalha deu. + E assi poderás entrar, + Em lugar de seu marido; + E para que sejas crido, + Poderás tambem contar + Quanto eu lá tiver sabido. + +JUPITER. + + Quem arde em tamanho fogo + Tira-lhe a virtude a côr + De subtil e sabedor; + E quem fóra está do jôgo + Enxérga o lanço melhor. + Mas tu, que dos sabedores + Tanto avante sempre estás, + Se deos es dos mercadores, + Sê-lo-has dos amadores, + Pois tal remedio me dás. + Ponha-se logo em effeito; + Que não soffre dilação + Quem o fogo tee no peito; + E tu vae logo direito + Aonde anda Amphitrião. + + +SCENA VI. + +_Feliseo e Callisto._ + +FELISEO. + + Adó bueno por aqui, + Tão longe do acostumado? + +CALLISTO. + + Mais longe vou eu de mi, + D'ir perto de meu cuidado. + +FELISEO. + + No andar vos conheci. + +CALLISTO. + + E vós onde vos lançais, + Com vossa contemplação? + +FELISEO. + + Eu chego daqui ao cais + A saber de Amphitrião: + Não sei se vou por demais. + +CALLISTO. + + Porque por demais dizeis? + +FELISEO. + + Porque nada alli ha certo. + +CALLISTO. + + Novas lá não as busqueis, + Que aqui as tendes mais perto. + +FELISEO. + + Pois dae-mas ja, se as sabeis. + +CALLISTO. + + Hum navio he ja chegado + Á barra, que vem de lá; + Traz de Amphitrião recado, + Diz que o deixa embarcado + Para se vir para cá. + Tee vencido aquelle Rei; + E diz, segundo lhe ouvi, + Qu'esta noite será aqui. + +FELISEO. + + Essas novas levarei + A Alcmena, que torne em si, + Porque ella tee maior guerra + Co'os temores de perdello, + Qu'elle co'o Rei dessa terra. + +CALLISTO. + + Onde amor lançar o sello, + Nenhuma cousa o desterra. + Porqu'inda que o pensamento + Vos fique, Senhor, em calma, + Por morte ou apartamento; + Sempre vos lá ficão n'alma + As pégadas do tormento. + +FELISEO. + + Isso he hum segredo mero, + A que o amor nos obriga: + Por isso em caso tão fero, + Senhor, nunca ninguem diga, + Ja lho quiz, e não lho quero. + Eu quiz bem a huma mulher, + Que vós conhecestes bem, + E, com muito lhe querer, + Casou-se. + +CALLISTO. + + Oh! e com quem? + Que ainda o não posso crer. + +FELISEO. + + Com hum Mercador, que veio + Agora do Egypto, rico. + +CALLISTO. + + Isso traz ágoa no bico. + Esse homem he parvo, ou feio? + +FELISEO. + + Pois vêdes? disso me pico. + E em pago desta traição, + Afóra outros mil descontos + Que traz comsigo a affeição, + Sempre os signaes destes pontos + Trarei no meu coração. + +CALLISTO. + + Viste-la mais? + +FELISEO. + + Senhor, vi, + Na janellinha da grade; + Passei, e disse-lhe assi: + Casada sem piedade, + Porque não a haveis de mi? + +CALLISTO. + + Que vos disse? + +FELISEO. + + Lá no centro + Lh'enxerguei pouca alegria; + E como quem lhe dohia, + Metendo-se para dentro + Disse: Ja pasó folia. + +CALLISTO. + + Ah má sem conhecimento! + Quem lhe désse mil chofradas! + +FELISEO. + + Senhor, como são casadas, + Casão-se co'o esquecimento + Das cousas que são passadas. + +CALLISTO. + + Lembranças de vos deixar + Picar-vos-hão como tojos. + +FELISEO. + + Senhor, haveis d'assentar + Que onde amor vos quer matar, + Siempre allá miran los ojos. + Hum motete lhe mandei + Hum dia, estando com febre, + Só da paixão que tomei. + +CALLISTO. + + Pois vejamos quem tee lebre. + +FELISEO. + + Senhor, eu vo-lo direi. + +Mote. + + Vós por outrem, e eu por vós; + Vós contente, e eu penado; + Vós casada, eu cansado. + Polos santos de minha dona! + +CALLISTO. + + Senhor, vós só o fizestes? + +FELISEO. + + Si, que ninguem me ajudou. + +CALLISTO. + + Se vós só o compuzestes, + Crede, que extremos dissestes. + Nunca Orlando tal fallou. + Senhor, fizestes-lhe pé? + +FELISEO. + + Senhor, si; e todo hum anno... + Vós zombais, se não m'engano? + +CALLISTO. + + Não, mas dou-vos minha fé + Que nunca vi tão bom panno. + +FELISEO. + + Ora olhe vossa mercê. + +Volta. + + Olhae em quão fundos vaos + Por vossa causa me affógo, + Que outro me ganha no jôgo, + E eu triste pago os paos. + Olhos travessos e maos, + Inda eu veja o meu cuidado + Por esse vosso trocado. + +CALLISTO. + + Não mais, qu'isso me degola. + +FELISEO. + + Senhor, eu haja perdão. + +CALLISTO. + + Fizestes esse rifão + Em algum jôgo de bola? + E foi-lhe elle ter á mão? + +FELISEO. + + Digo-vos que o vio, e lho leo + Hum moçozinho d'escola. + +CALLISTO. + + Está isso assi do ceo. + Sabe ella jogar a bola? + +FELISEO. + + Não. + +CALLISTO. + + Pois não vos entendeo. + Ora eu ja cheguei a ler + Petrarca, e crede de mi + Que nunca tal cousa vi. + Onde mora o bom saber, + Logo dá sinal de si. + Onde _casada_ puzestes, + Dizei, porque não dissestes + _La que yo vi por mi mal._ + +FELISEO. + + Renunciava o metal; + Qu'em rifõeszinhos como estes, + Ha-se-de pôr tal com tal. + Que a trova trigo-tremez + Ha de ser toda d'hum pano; + Que parece muito Ingrez + N'hum pelote Portuguez + Todo hum quarto Castelhano. + Ouvi outra tambem minha, + Que fiz a certa tenção, + Clara, leve, bonitinha, + De feição, que esta trovinha, + He trovinha de feição. + Como eu hum dia me visse + Morto, e a mão na candêa, + E ella não me acodisse; + Fiz-lhe esta, porque sentisse + Que dava os fios á têa. + E o propósito he + Andar eu hum dia só; + E para que houvesse dó + De mi e de minha fé, + Lamentei-lhe como Jó. + +CALLISTO. + + Andastes, Senhor, mui bem. + +FELISEO. + + Ora, Senhor, attentai, + E vêde o saibo que tem; + Se he para a ver alguem. + +CALLISTO. + + Ora dizei. + +FELISEO. + + Ei-la vai. + +Trova. + + Coração de carne crua, + Vê-lo teu amor aqui, + Que esmorecido por ti + Jaz no meio desta rua? + +CALLISTO. + + Na rua, Senhor, jazia? + E era em tempo de lama? + +FELISEO. + + Senhor, quem falla a quem ama, + De si mesmo se não fia: + Haveis de mentir á dama. + +CALLISTO. + + Volta disso? + +FELISEO. + + Singular, + Senão que he muito sentida; + Far-vos-ha, Senhor, chorar. + +CALLISTO. + + Oh! diga, por sua vida! + +FELISEO. + + Farei o que me mandar. + +Volta. + + Porque não has delle mágoa, + Ó dura mais que ninguem, + Que anda o triste, que não tem + Quem lhe dê huma vez d'ágoa? + Não lhe negues teu querer, + Pois te não custa dinheiro; + Que, emfim, por derradeiro + A terra te ha de comer. + +CALLISTO. + + Tal trova nunca se vio. + Agorentaste-la ja? + +FELISEO. + + Senhor, não; ainda está + Como a sua mãe pario; + E não está muito má. + +CALLISTO. + + He trova, que tee por seis; + Não a posso mais gabar. + Mas, pois, tal cousa fazeis, + Senhor, não m'ensinareis + Donde vem tão bem trovar? + +FELISEO. + + Não he a cousa tão pequena, + Como, Senhor, a fizestes, + Essa que agora dissestes. + Mas porém vou dar a Alcmena + Estas novas que me déstes. + Despois, Senhor, nos veremos; + Ficae ja roendo esse osso. + +CALLISTO. + + O roer, Senhor, he vosso. + +FELISEO. + + Pois eu, por mais que zombemos, + Hei de ser vosso e revosso. + +CALLISTO. + + Oh!.. Escusae-vos d'extremos, + Qu'isso, Senhor, me atarraca. + Mas nós nos encontraremos, + E sôbre isso envidaremos + Dous reales mais de saca. + + + + +ACTO SEGUNDO. + + +SCENA I. + +_Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na fórma de Amphitrião, +Mercurio na de Sosea escravo._ + +JUPITER. + + Mercurio, pois sou mudado + Nesta fórma natural, + Ólha e nota com cuidado, + Se está em mi o pintado + Apparente co'o real. + +MERCURIO. + + Quem tão proprio se transforma. + Tenho por opinião, + Que na tal transformação + Lhe prestou natura a fôrma, + Com que fez Amphitrião. + +JUPITER. + + Pois tu no gesto e na côr + Estás Sósea escravo seu. + +MERCURIO. + + Muito mais faras, Senhor. + +JUPITER. + + Não o faz senão o Amor, + Que nisto póde mais qu'eu. + +MERCURIO. + + Ja, Senhor, te fiz menção + Como deo Amphitrião + A ElRei Terela a morte; + Que, na guerra igual, a sorte + Póde mais que o coração. + E despois de ser tomada + Toda a Cidade, com gloria + D'Amphitrião bem ganhada, + Como em sinal de victoria, + Esta copa lhe foi dada. + Por ella bebia ElRei, + Em quanto a vida queria; + E eu, porque te cumpria, + A seu escravo a furtei, + Que n'huma caixa a trazia. + Esta poderás levar + A Alcmena, por lhe mostrar + Verdadeiro, o que he fingido; + E dest'arte serás crido, + Sem mais outro ardil buscar. + +JUPITER. + + Pois tudo tens ordenado + Por tão nova e subtil arte; + Como me vires entrado, + Irás dar este recado + A Phebo de minha parte: + Que faça mais devagar + Seu curso neste Hemispherio. + Que o que soe acostumar; + Qu'esta noite hei de ordenar + Hum caso de alto mysterio. + E á Esphera mais alta + Mandarás que fixa esteja, + Porque a noite maior seja: + Porque sempre o tempo falta, + Onde a alegria he sobeja. + E terás tamanho tento, + Que como isto se ordenar, + Venhas aqui vigiar, + Porque meu contentamento + Ninguem mo possa estorvar. + +MERCURIO. + + Seja feito sem debate + Tudo como te convem. + +JUPITER. + + Pois não parece ninguem, + Como homem de casa bate, + E muda a falla tambem. + +MERCURIO, _batendo à porta_. + + Ó de la casa, en buena hora, + Darmehan de cenar aqui? + +BROMIA _dentro_. + + Sósea parece que ouvi: + Alviçaras, minha Senhora, + Que na falla o conheci. + + +SCENA II. + +_Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio._ + +ALCMENA. + + Zombais, Bromia, por ventura? + +BROMIA. + + Senhora, não zombo, não. + +ALCMENA. + + Vejo eu Amphitrião, + Ou a vista me afigura + O qu'está no coração? + +JUPITER. + + Olhos, diante dos quais + Desejei mais este dia, + Que nenhuma outra alegria, + Senhora, nunca creais + Que lhe minta a phantasia. + +ALCMENA. + + Oh presença mais querida + Que quantas formou Amor! + Isto he verdade, Senhor? + Acabe-se aqui a vida, + Por não ver prazer maior. + +JUPITER. + + Pois esta hora de vos ver + Alcançar, Senhora, pude; + Para mais contente ser, + Conformem co'este prazer + Novas de vossa saude. + +ALCMENA. + + Vida foi pezada e crua + A saude qu'eu sostinha; + Qu'em quanto, Senhor, a tinha, + Temer perigo na sua, + Me fez descuidar da minha. + +MERCURIO. + + Y pues, mi Señora Alcmena, + Pese al demonio malvado, + No dirá á un su criado, + Vengais Sósea norabuena? + +ALCMENA. + + Sejais, Sósea, bem chegado. + +BROMIA. + + Bem mal cri eu, que pudesse + Ver-te, Sósea, hoje aqui. + +MERCURIO. + + Pues tambien yo no creí + Que en mi vida te viese, + Segun las muertes que vi. + +ALCMENA. + + Muito, Senhor, folgarei + Com novas do vencimento. + +JUPITER. + + De tudo quanto passei, + Por vos dar contentamento, + Em summa vos contarei. + Trago, Senhora, a victoria + Daquelle Rei tão temido, + Com fama clara e notoria. + Porém maior foi a gloria + De me ver de vós vencido. + Sem me terem resistencia, + Os Grandes me obedêcerão, + Como ElRei morto tiverão: + Em sinal de obediencia + Esta copa me trouxerão. + ElRei por ella bebia: + (Ella, e tudo o mais he nosso) + Por onde claro se via, + Que tudo me obedecia, + Pois tinha nome de vosso. + +MERCURIO. + + Si, mas luego de rondon + La fortuna dió la vuelta. + +ALCMENA. + + Como? + +MERCURIO. + + Fué gran perdicion, + Porque en aquella revuelta, + Me hurtaron mi jubon. + Pero bien me lo pagaron, + Cuando comigo riñeron; + Que aunque me despojaron + Si uno de seda llevaron, + Otro de azotes me dieron. + +ALCMENA. + + Senhor, não posso gostar + De gôsto, que he tão immenso, + Senão muito devagar: + Faça-me mercê d'entrar, + E contar-mo-ha por extenso. + + +SCENA III. + +_Mercurio e Bromia._ + +MERCURIO. + + Yo tambien te contaria, + Bromia, si quedas atrás, + Que una noche... enojartehas? + +BROMIA. + + Que? + +MERCURIO. + + Soñaba, que te tenia... + No me atrevo á decir mas. + +BROMIA. + + Dize. + +MERCURIO. + + Pardies, no diré. + Soñaba... + +BROMIA. + + Bem: que sonhavas? + +MERCURIO. + + Que cuando en la cama estavas + Que yo... enfin recordé. + +BROMIA. + + Pois tudo isso receavas? + +MERCURIO. + + Sabe Dios qué yo acá siento: + Sola una alma vive en dos, + La cual anda dentro en vos. + +BROMIA. + + E que quer ella cá dentro? + +MERCURIO. + + Tambien eso sabe Dios. + + +SCENA IV. + +MERCURIO. + + Bem se poderá enganar + Bromia, segundo ora estou, + Como Alcinena s'enganou; + Mas cumpre-me ir ordenar + O que meu Pae me mandou. + E porque seja guardada + Esta porta e vigiada + De toda a gente nascida, + Me será cousa forçada, + Ser tão depressa a tornada, + Quão prestes faço a partida. + + +SCENA V. + +SOSEA, _cantando_. + + Amphitrion esforzado + Bravo vá por la batalla, + Siete cabezas llevaba, + De las mejores que ha hallado. + +_Falla._ + + Quien viene de tierra agena, + Y de la muerte escapó, + La razon le permitió + Que cante como sirena, + Como agora hago yo. + Y pues canto tan gentil, + Fuera llanto si muriera. + Quiero cantar como quiera, + Una y otra, y mas de mil, + Que digan desta manera: + +_Canta._ + + Dongolondron, con dongolondrera, + Por el camino de Otera, + Rosas coge en la rosera, + Dongolondron, con dongolondrera. + +_Falla._ + + Cuando yo vengo á pensar + Que uno matarme quisiera, + No hago sino temblar, + Porque creo si muriera, + No pudiera mas cantar. + Porque estando á un rincon + De la casa adó quedé, + Senti muy grande ronron, + Y mirando, que miré? + Vi que era un gran raton. + Empero yo nunca sigo, + Sino consejos muy sanos; + Que en estes casos levianos, + Quien desprecia el enemigo, + Mil veces muere á sus manos. + Pero mi Señor alli + Mató al Rey de los Glipazos: + Yo como muerto le vi, + Juro á mi fé, que le dí + Mas de dos mil cuchillazos. + Y por me librar de afan, + Me voy siempre á cosa hecha + Probar mi mano derecha; + Que aquel es buen capitan, + Que del tiempo se aprovecha. + Que quien ha de pelear, + Ha de buscar tiempo y hora. + Pero quiero caminar, + Que me muero por contar + Todo aquesto á mi Señora. + + +SCENA VI. + +_Mercurio e Sósea._ + +MERCURIO. + + Mil vezes comigo vejo, + Para que meu Pae se affoute; + Pois em tão pequeno ensejo + Lhe mandei talhar a noute + Á medida do desejo. + E pois que como possante, + A mi tudo se reporta, + Chego agora neste instante + A estorvar qu'este bargante + Me não chegue a esta porta. + +SOSEA. + + No sé que miedo, ó locura, + Neste pecho se me cria: + Por Dios que se me afigura, + Que ha mucho que es noche escura, + Sin que venga el claro dia. + Mas sabed, que pienso yo + Que el sol que no se acordó + De con el dia venir, + Que á noche cuando cenó + Algun buen vino bebió, + Que le hace tanto dormir. + +MERCURIO. + + Ja sentes comprida a noute, + Qu'eu assi mandei fazer? + Pois mais te quero dizer, + Que sentirás muito açoute, + Se cá quizeres vir ter. + Porém, pois este bargante + Tee medroso coração, + Quero-me fingir ladrão, + Ou phantasma, e por diante + Não irá, se vem á mão. + E com tudo se passar, + A falla quero mudar + Na sua de tal feição, + Que couces, e porfiar, + Lhe fação hoje assentar + Que sou Sósea, e elle não. + +_Falla Castelhano._ + + No veo pasar ninguno, + En quien yo me pueda hartar. + +SOSEA. + + Á quien oigo aqui hablar? + Mande Dios no sea alguno + Que me quiera aporrear. + +MERCURIO. + + La carne de algun humano + Me seria muy sabrosa. + +SOSEA. + + Oh quê voz tan temerosa! + Hombres comes, ó mi hermano? + No es mejor otra cosa? + Carne humana es muy mezquina. + Oh no comas deso, no! + Antes carne de gallina. + Pero se mas se avecina, + Qué mas gallina, que yo? + +MERCURIO. + + Una voz de hombre ahora + Á la oreja me voló. + +SOSEA. + + Pésete quien me parió: + La voz traigo boladora? + Ella quisiera ser yo. + Pues mi voz pudo volar + Do la pudieses oir; + Por contigo no reñir, + Me debiera de prestar + Las alas para huir. + +MERCURIO. + + Qué buscas cabe esa puerta, + Hombre? Sé que eres ladron. + +SOSEA. + + Ay que el alma tengo muerta! + Oh Júpiter me convierta + Las tripas en corazon! + +MERCURIO. + + Quien eres? quieres hablar? + +SOSEA. + + Soy quien mi voluntad quiere. + +MERCURIO. + + Piensas que puedas burlar? + +SOSEA. + + Y tú puédesme quitar + Que yo sea quien quisiere? + +MERCURIO. + + Osas hablar tan osado, + Don vellaco bovarron? + Dí, quien eres? + +SOSEA. + + Un criado + Del Señor Amphitrion, + Por nombre Sósea llamado. + +MERCURIO. + + Pienso que el seso perdiste. + Como te llamas, mal hombre? + +SOSEA. + + Sósea soy, si no me oiste. + +MERCURIO. + + Como? en persona tan triste + Osas d'ensuciar mi nombre? + Estos puños llevarás, + Pues tener mi nombre quieres. + Quiéresme dicir quien eres? + +SOSEA. + + O Señor, no me dés mas, + Que yo seré quien tú quisieres. + +MERCURIO. + + Con tan nueva falsedad + Andais por esta Ciudad, + Delante de quien os mira? + Pues si sois Sosea, tomad. + +SOSEA. + + Si me dás por la verdad, + Que me harás por la mentira? + +MERCURIO. + + Y qué verdad es la tuya? + Que te quiero dar castigo. + +SOSEA. + + Si no soy Sósea que digo, + Que Júpiter me destruya. + +MERCURIO. + + Mirad el falso enemigo: + Tomad este bofeton, + Que yo soy Sósea, y no vos. + +SOSEA. + + Tu Sósea? + +MERCURIO. + + Sósea por Dios, + Escravo de Amphitrion. + +SOSEA. + + De modo que tiene dos? + +MERCURIO. + + No tendrá, aunque tú quieres; + Que á mi solo conoció. + +SOSEA. + + Pues luego de quien soy yo? + +MERCURIO. + + Si tú no sabes quien eres, + Quieres que yo lo sepa? No. + +SOSEA. + + Enfin, has me de hacer crer + Que yo no soy quien ser solia? + +MERCURIO. + + Quien solias tú de ser? + +SOSEA. + + Tregoas me has de prometer, + Dirtelohé sin profia. + +MERCURIO. + + Prometo. + +SOSEA. + + No me darás? + +MERCURIO. + + No, si no fuere razon. + +SOSEA. + + Pues, hermano, tú sabrás + Que mi amo Amphitrion... + +MERCURIO. + + Tu amo? Pues llevarás. + Mi amo es, que tuyo no. + +SOSEA. + + Ay que un brazo me quebró! + +MERCURIO. + + Mas que luego te matase. + +SOSEA. + + Ojalá Dios ordenase + Que tú ahora fueses yo, + Y yo que te desmembrase! + +MERCURIO. + + Esa tu tema tan loca, + Puños te la han de quitar. + Dime, di, verguenza poca, + Qué hablas? + +SOSEA. + + Qué puedo hablar, + Si me has quebrado la boca? + +MERCURIO. + + Di quien eres, sin fatiga. + +SOSEA. + + Soy un hombre, en quien tú dás. + +MERCURIO. + + Díme pues, qué nombre has. + +SOSEA. + + Como quieres tú que diga, + Para que no me dés más? + +MERCURIO. + + No me has de hablar contrahecho. + +SOSEA. + + Toda mi vida pasada + Sósea fuy, y con despecho + Ahora soy... qué? No nada; + Que tus manos me han deshecho. + +MERCURIO. + + Cuyo eres, pues las sientes, + Dejando consejos vanos? + La verdad; que si me mientes, + Dás con la lengua en los dientes, + Y yo dóyte con las manos. + +SOSEA. + + No conoces Amphitrion? + +MERCURIO. + + Hombre sin seso te llamo. + Tan fuera estás de razon! + Piensas de mí, bovarron, + Que no conozco á mi amo? + +SOSEA. + + En su casa conociste + Uno, que es Sósea llamado, + Hombre despreciado y triste? + +MERCURIO. + + Desa suerte lo dijiste? + Yo soy triste y despreciado? + Pues sabe que te llegó + Á la muerte tu fortuna. + +SOSEA. + + Pues logo si yo no soy yo, + Aunque nadie me mató; + Soy luego cosa ninguna. + Oh dioses, que desconcierto! + Yo por ventura soy muerto, + Ó murióme la razon? + Yo no soy de Amphitrion? + Él no me mandou del puerto? + Yo sé que no estoy loco. + De mi madre no naci? + No ando? No hablo aqui? + +MERCURIO. + + Pues sosiega ahora un poco, + Que yo tambien diré de mí. + Yo no sé que yo soy yo? + Yo no te dí con mis manos? + Mi Señor no me llevó + Á la guerra, adó mató + Aquel Rey de los Thebanos? + +SOSEA. + + Yo eso muy bien lo sé. + Empero tú qué hacias + Cuando la batalla vias? + +MERCURIO. + + Escucha: yo lo diré, + Y cesaran tus porfías. + Cuando mi Señor andaba + Peleando, y derramaba + La sangre de algun mezquino; + Con una bota de vino + Yo la mia acrescentaba. + +SOSEA. + + (Dice lo que yo hacia) + Con todo, saber queria + Sola una cosa, si puedo: + Tu pecho entonces sentia? + +MERCURIO. + + Del beber grande alegria, + Y del pelear gran miedo. + +SOSEA. + + Y despues? + +MERCURIO. + + Muy reposado + Á dormir me eché de grado, + Desde el sol hasta la luna. + +SOSEA. + + (Todo lo tiene contado. + Enfin, tengo averiguado + Que yo no soy cosa ninguna) + Pues de todo en un instante + Me has echado de mí fuera, + Aconséjame si quiera, + Quien seré daqui adelante, + Pues no soy quien de antes era. + +MERCURIO. + + Cuando yo no ser quisiere + Ese, que tú ser deseas, + Despues que ya Sósea no fuere, + Dartehé, si te pluguiere, + Licencia que todo seas. + Y acógete luego, amigo, + Á buscar tu nombre, digo, + Pues Dios vida te dejó; + Que el Sósea queda comigo. + +SOSEA. + + Pues contigo quedo yo, + Dios quede, hermano, contigo. + Ahora quiero ir allá + Adó mi Señora está, + Contarle como es venido + Mi Señor. Mas, oh perdido! + Si un otro yo tiene allá, + Todo lo terná sabido. + +MERCURIO. + + Ah hombre..... + +SOSEA. + + Mi voz sonó. + +MERCURIO. + + Aonde vuelves ahora? + +SOSEA. + + Por Dios no sé onde vó, + Porque si yo no soy yo, + Ni Alcmena es mi Señora. + +MERCURIO. + + Adonde vas? + +SOSEA. + + Con mensaje + Del Señor Amphitrion + Para Alcmena. + +MERCURIO. + + Adó, salvaje? + Pues quebraste la omenaje, + Ahí verás tu perdicion. + Yo doyte consejos sanos, + Y porfias otra vez? + +SOSEA. + + Altos dioses soberanos! + Pues me no valen las manos, + Aqui me valgan los pies. _Foge._ + +MERCURIO. + + Desta arte enseñan aqui + Á hurtar el nombre ageno? + + +SCENA VII. + +SOSEA. + + Ay Dios, como me acogí! + Ó Júpiter alto y bueno, + Cuan cerca la muerte vi! + Quiérome ir á mi Señor + Contarle cuanto hé pasado; + Y él me dirá de grado, + Si yo soy su servidor, + En que cosa me hé tornado. + + + + +ACTO TERCEIRO. + + +SCENA I. + +_Jupiter e Alcmena._ + +JUPITER. + + Toda a pessoa discreta + Terá, Senhora, assentado, + Que hum bem muito desejado + Se ha de alcançar por dieta, + Para ser sempre estimado. + E quem alcançado tem + Tamanho contentamento; + Por conservá-lo convem + Que tome por mantimento + A fome de tanto bem. + E por isso hei de tomar + Este tempo tão ditoso + Para a frota visitar; + E despois quando tornar, + Tornarei mais desejoso. + Que pois tão bom captiveiro + Me tee presa a liberdade, + Eu lhe prometto em verdade + Que torne ainda primeiro, + Que mo peça a saudade. + +ALCMENA. + + Aindaque se possa ir + Mais asinha do que creio, + Como hei d'eu consentir + Que se haja de partir + Na mesma noite que veio? + +JUPITER. + + Forçada he minha tornada, + Mas muito cedo virei; + Porque desque foi chegada + A este porto a Armada, + Ainda a não visitei. + +ALCMENA. + + Pois, Senhor, tão pouco estais + Com quem vistes inda agora? + Faça-se como mandais. + +JUPITER. + + Vós me vereis cá, Senhora, + Primeiro do que cuidais. + + +SCENA II. + +_Amphitrião e Sosea._ + +AMPHITRIÃO. + + Emfim tu, que estás aqui, + Estavas ja lá primeiro? + +SOSEA. + + Señor, crea que es ansí. + +AMPHITRIÃO. + + Eu nunca entendi de ti, + Qu'eras tambem chocarreiro. + +SOSEA. + + Señor, yo que estoy presente, + No soy Sósea su criado? + +AMPHITRIÃO. + + Creio que não certamente, + Porque Sósea era avisado, + E tu es mui differente. + +SOSEA. + + Pues, Señor, si en mí se vé + Que no soy quien de antes era, + Vuélvome. + +AMPHITRIÃO. + + E para que? + +SOSEA. + + Ver se á dicha me quedé + Durmiendo por la galera. + +AMPHITRIÃO. + + Pois me queres fazer crer + Huma doudice tão rasa, + Mais quero de ti saber: + Como não entraste em casa + D'Alcmena minha mulher? + +SOSEA. + + Aunque Sósea quisiese, + La verdad no negará: + Aquel yo que allá está, + No quiso que á casa fuese + Estotro yo, que iba allá. + Y con furia tan crecida + Á mí se vino aquel hombre, + Que yo me puse en huida, + Y ansí le dejé mi nombre, + Por me dejar él la vida. + +AMPHITRIÃO. + + Quem seria tão ousado, + Que tanto mal te fizesse? + +SOSEA. + + Yo mismo Sósea llamado, + Que á casa era ya llegado, + Antes que de acá partise. + +AMPHITRIÃO. + + Tu chegaste antes de ti? + Este he gentil disparate. + +SOSEA. + + Pues mas le digo daqui, + Que vengo huyendo de mí, + Porque yo mismo no me mate. + +AMPHITRIÃO. + + Erão dous, ou era hum só, + Quem te fez assi fugir? + +SOSEA. + + Pésete quien me parió: + Digo, que era un solo yo: + Mil veces lo hé de decir? + Puede ser que naceria + De aquel hombre otro alguno, + Como aquel de mí nacia; + Porque aunque fuese él uno, + Por mas de cuatro tenia. + Él tenia mi aparencia, + Empero yo nunca vi + Tal fuerza, ni tal potencia: + Esta sola diferencia + Le tengo hallado de mí. + +AMPHITRIÃO. + + Pudeste delle saber + Cujo era? + +SOSEA. + + Quien? aquel yo? + Tuyo, Señor, dijo ser. + +AMPHITRIÃO. + + Nunca eu tive mais que hum só, + E esse não quizera ter. + +SOSEA. + + Pues, Señor, si el bien doblado + Te le muestra agora Dios, + Debe ser de ti alabado; + Pues de uno solo criado + Te ha hecho agora dos. + +AMPHITRIÃO. + + Antes para que conheças, + Que cousa he mao servidor, + Me pezará se assi for; + Que de tão ruins cabeças, + Quantas mais, tanto peor. + E ja que são tão incertos + Teus ditos para se crer; + Muito melhor deve ser + Que deixe teus desconcertos, + E va ver minha mulher. + + +SCENA III. + +ALCMENA. + + Que fado, que nascimento + De gente humana nascida, + Que d'escasso e avarento, + Nunca consentio na vida + Perfeito contentamento! + Amphitrião, que mostrou + Hum prazer tão desejado + A quem tanto o desejou; + Na noite, que foi chegado, + Nessa mesma se tornou! + De se tornar tão asinha + Sinto tanto entristecer + O sentido e alma minha, + Que certo que me adivinha + Algum novo desprazer. + Mas parece este que vem, + Se não estou enganada: + Se elle he, venha com bem, + Pois que com sua tornada + Tão transtornada me tem. + + +SCENA IV. + +_Amphitrião, Alcmena e Sosea._ + +AMPHITRIÃO. + + Com que palavras, Senhora, + Poderei engrandecer + Tão sublimado prazer, + Como he ver chegada a hora, + Em que vos pudesse ver? + Certo grão contentamento + Tive de meu vencimento; + Mas maior o hei de mim, + De me ver pôsto no fim + De tão longo apartamento. + +ALCMENA. + + Ja eu disse o que sentia + De vinda tão desejada. + Mas diga-me todavia: + Como não foi ver a Armada, + Que me disse hoje este dia? + +AMPHITRIÃO. + + Della venho eu inda agora + Desejoso de vos ver, + Muito mais que de vencer. + Mas que me dizeis, Senhora, + Que hoje me ouvistes dizer? + +ALCMENA. + + Se não estava remota, + Certamente que lhe ouvi, + Quando hoje partio daqui, + Que tornava a ver a frota. + Porque era forçado assi. + +AMPHITRIÃO. + + Sósea. + +SOSEA. + + Señor, aqui estoy yo. + +AMPHITRIÃO. + + Tu ouves tal desconcêrto? + +SOSEA. + + Grandes orejas ganó, + Pues estando en casa oyó + Quien estava allá nel puerto! + +AMPHITRIÃO. + + Quando dizeis, que m'ouvistes? + +ALCMENA. + + Hoje, quando vos partistes. + +AMPHITRIÃO. + + Donde? + +ALCMENA. + + Daqui, de me ver. + +AMPHITRIÃO. + + Nunca vi grande prazer, + Que não tenha os cabos tristes. + Quantos males d'improviso + Que causão grandes mudanças! + Que mulher de tanto aviso, + Agora minhas lembranças + A tee fóra de juizo! + +ALCMENA. + + Quereis-me fazer cuidar + Que poderia sonhar + O que pelos olhos vi? + Nunca vos eu mereci + Quererdes-me exprimentar. + +AMPHITRIÃO. + + Postoque he para pasmar + Ver hum caso tão estranho, + Todavia hei de attentar, + Se poderei concertar + Hum desconcêrto tamanho. + Quando dizeis que vim cá? + +ALCMENA. + + Esta noite que passou. + +AMPHITRIÃO. + + Dae-me alguem que aqui se achou, + Que me visse. + +ALCMENA. + + Esse que hi está, + Sósea que comvosco andou. + +AMPHITRIÃO. + + Sósea, podes-te lembrar, + Que hontem me vistes aqui? + +SOSEA. + + Nunca yo supe de mí + Que me pudiese acordar + De aquello que nunca vi. + +ALCMENA. + + Ora eu creo, e he assi, + Que ambos vindes conjurados, + Para zombardes de mi; + Mas eu darei hoje aqui + Sinaes que sejão provados. + +AMPHITRIÃO. + + Que sinaes póde ahi haver + De mentira tão notoria, + Que nem foi, nem póde ser? + +ALCMENA. + + Donde vim eu a saber + Novas de vossa victoria? + +AMPHITRIÃO. + + Que novas? + +ALCMENA. + + Dir-vo-las-hei, + Assi como mas contastes: + Que na batalha matastes + Aquelle soberbo Rei, + E tudo desbaratastes: + Não fazendo resistencia + N'huma batalha tão crua, + Dando-vos obediencia, + Vos derão huma copa sua, + Lavrada por excellencia. + +AMPHITRIÃO. + + Sósea he culpado só + Nestes acontecimentos. + +SOSEA. + + Señor, son encantamientos, + Porque aquel hombre, que es yo, + Le contaria estos cuentos. + +AMPHITRIÃO. + + Quem he esse, que vos deu + Taes novas, saber queria? + +ALCMENA. + + Quem mo pergunta. + +AMPHITRIÃO. + + Quem? Eu! + Quereis-me fazer sandeu? + +ALCMENA. + + Mas vós me fazeis sandia. + +AMPHITRIÃO. + + Ora quero perguntar: + Que fiz sendo aqui chegado? + +ALCMENA. + + Puzemos-nos a cear. + +AMPHITRIÃO. + + E despois de ter ceado? + +ALCMENA. + + Fomos-nos ambos deitar. + +AMPHITRIÃO. + + Nunca queira Deos que possa + Achar-se na minha honra + Nenhuma falta nem mossa: + Seja isto doudice vossa, + Antes que minha deshonra. + +SOSEA. + + Bien lo supe yo entender, + Que era esto encantaciones; + Y ahora me habrá de crer + Que dos Sóseas puede haber, + Pues hay dos Amphitriones. + +ALCMENA. + + Com me quererdes tentar + Tão torvada me fizestes, + Que me não pôde lembrar + Que vos mandasse mostrar + A copa que me hontem déstes. + +AMPHITRIÃO. + + Eu? copa? Se isso ahi ha, + Que estou doudo cuidarei. + +SOSEA. + + Señor, bien guardada está. + +ALCMENA. + + Bromia? + +BROMIA, _de dentro_. + + Senhora. + +ALCMENA. + + Dae cá + A copa que hontem vos dei. + +SOSEA. + + Pues yo parí otro yo, + Y vós otro Amphitrion, + No es mucha admiracion, + Si la copa otra parió, + Ni aun fuera de razon. + + +SCENA V. + +_Amphitrião, Alcmena, Sosea e Bromia._ + +BROMIA. + + Eis-aqui a copa vem, + Testimunho da verdade. + +AMPHITRIÃO. + + Oh estranha novidade! + +ALCMENA. + + Poder-me-ha dizer alguem + Que o que digo he falsidade? + +AMPHITRIÃO. + + Sósea, quando hontem cá vinhas, + Poder-me-has negar, ladrão, + Que lhe déste as novas minhas, + E mais a copa que tinhas + Guardada na tua mão? + +SOSEA. + + Señor, que no pude, no, + Ver á mi Señora Alcmena: + Si aquel eso acá ordenó, + No lleve este yo la pena + Del mal que hizo el otro yo. + +AMPHITRIÃO. + + Ora eu não sei entender + Tal caso, nem lhe acho fundo: + Com tudo venho a dizer, + Que ha tantos males no mundo, + Que tudo se póde crer. + Se vos trouxer quem vos diga + Como esta noite dormi + Na nao, crereis que he assi? + +ALCMENA. + + Nenhuma cousa me obriga + A que não creia o que vi. + +AMPHITRIÃO. + + Se o Patrão aqui vier, + Que he homem d'autoridade, + Crereis o que vos disser? + +ALCMENA. + + Sim, que ninguem póde haver + Que me negue esta verdade. + +AMPHITRIÃO. + + Eu estou em concrusão + D'hoje desembaraçar + Tão enleada questão: + Á nao me quero tornar + A trazer cá Belferrão. + Sósea, até minha tornada + Fica nesta casa em vela; + Qu'eu armarei tal cilada + A quem ma a mim tee armada, + Que venha hoje a cahir nella. + + +SCENA VI. + +_Alcmena e Bromia._ + +ALCMENA. + + Oh mulher triste e suspensa + Da mais alta confusão + Que nunca vio coração! + Em que mereces a offensa, + Que te faz Amphitrião? + Sempre de mi foi amado, + Tanto quanto em mi se sente, + Co'o coração tão liado, + Que se de mi era ausente, + Nelle o via figurado. + E pois mulher, que cumprisse + Melhor qu'eu fidelidade, + Não a vi, nem quem me visse + Que dos limites sahisse + Hum pouco da honestidade. + Pois porque he tão maltratada + Innocencia tão singella? + Que a pena mais apertada, + He a culpa levantada + Ao coração livre della. + Mas ja que minh'alma está + Sem culpa do que padeço, + Seja o que for; qu'eu conheço + Que a verdade me porá + No qu'eu pola ter mereço. + Bromia? + +BROMIA. + + Senhora. + +ALCMENA. + + Hi mandar + A Feliseo, que vá + Meu primo Aurelio chamar; + Que lhe quero perguntar + Que conselho me dará. + E pois que Amphitrião + Vai buscar somente quem + Lhe ajude a sua tenção, + Quero eu ter aqui tambem + Quem me defenda a razão. + + + + +ACTO QUARTO. + + +SCENA I. + +_Jupiter, Alcmena e Sosea._ + +JUPITER. + + Grão desconcêrto tee feito + Amphitrião com Alcmena! + Qualquer delles tee direito: + Eu sou o que venço o preito, + E ambos págão a pena. + Quero-me ir lá desfazer + Tão trabalhosa demanda, + Por nos tornarmos a ver; + Porque, emfim, quem muito quer + Com qualquer desculpa abranda. + E pois ja que a affeição + Ha de mudar tão asinha, + Quero ir alcançar perdão + Da culpa, que sendo minha, + Parece d'Amphitrião. + +ALCMENA. + + Parece que torna cá + Amphitrião, que ja se hia: + Não sei a que tornará. + Senão se lhe peza ja + Dos enganos que tecia. + +JUPITER. + + Senhora, não haja error + Que tantos males me faça, + Porque se o contrário for, + Pequeno será o amor, + Que manencória desfaça. + E pois com tanta alegria + De tantos perigos vim, + Pezar-me-ha se achar no fim, + Que huma leve zombaria + Vos possa aggravar de mim. + +ALCMENA. + + Com palavras de deshonra + Não se ha de tratar quem ama; + Nem zombaria se chama, + Por exprimentar a honra, + Pôr em tal perigo a fama. + Bem tive eu para mim, + Que era aquillo experiencia. + +JUPITER. + + Errei no que commetti: + Bem me basta a penitencia + De quanto me arrependi. + E se fiz algum error, + Com que vosso amor se mude + De quem vo-lo tee maior; + Não exprimentei virtude, + Mas exprimentei amor. + Que se com caso tão vário + Folguei de vos agastar, + Foi amor accrescentar; + Porque ás vezes hum contrário + Faz seu contrário avisar. + Daqui vem, que a leve mágoa + Firmeza e affeições augmenta, + Como bem se vê na frágoa, + Onde o fogo se accrescenta, + Borrifando-o com pouca ágoa. + Se hum mal grande se alevanta + N'hum coração que maltrata, + A affeição se desbarata; + Porque onde a ágoa he tanta + O fogo d'amor se mata. + E pois tive tal tenção, + Perdoae, Senhora, a culpa + Deste vosso coração. + +ALCMENA. + + Não se alcança assi perdão + D'erro que não tee desculpa. + +JUPITER. + + Ora pois assi tratais + Quem em tanto risco pôs + O amor que vós negais, + Eu m'ausentarei de vós + Onde mais me não vejais. + Que, pois desculpa não tem + Coração que tanto quer, + Vou-me; que não será bem + Que quem vós não podeis ver, + Que possa mais ver ninguem. + Se algum'hora meu cuidado + Vos der dor, em que pequena; + Peço-vos, pois fui culpado, + Que vos não peze da pena + De quem vos foi tão pezado. + E despois que a desventura + Puzer este coração + Debaixo da sepultura, + As letras na pedra dura + Vossa dureza dirão. + Isto vos hei de dizer, + Que m'ensinou minha dor: + Se quizerdes leda ser, + Nunca exprimenteis amor + Em quem vo-lo não tiver. + Deixae-me ir; não me tenhais. + +ALCMENA. + + Amphitrião, não choreis! + Amphitrião! + +JUPITER. + + Que quereis, + Ou para que nomeais + Homem, que ver não podeis? + +ALCMENA. + + Amphitrião, s'eu causei + Com manencória pequena + Cousa, com que o magoei; + Eu quero cahir na pena + Dessa culpa que lhe dei. + +JUPITER. + + Sempre serei magoado + Se vossa má condição + Me não perdôa o passado. + +ALCMENA. + + Perdôo, e peço perdão + De lhe não ter perdoado. + +SOSEA. + + No le perdone, Señora, + Hasta que con devocion + Tambien me pida perdon; + Que bien se me acuerda ahora + Que me ha llamado ladron. + +JUPITER. + + Sósea? + +SOSEA. + + Señor. + +JUPITER. + + Vae buscar + O Piloto Belferrão; + Dir-lhe-has, se desembarcar, + Que me parece razão + Que venha hoje cá cear. + +SOSEA. + + Si, Señor, voy á la hora. + +JUPITER. + + De nenhuma qualidade + Cure de fazer demora. + E nós vamos-nos, Senhora, + Confirmar nossa amizade. + + +SCENA II. + +MERCURIO. + + Grandes revoltas vão lá. + Grandes acontecimentos! + Cumpre-me que esteja cá, + Em quanto meu pae está + Em seus desenfadamentos. + Porque vi Amphitrião + Vir da nao mui apressado; + E tendo corrido e andado, + Não pôde achar Belferrão, + Que lhe era bem escusado. + Parece-me que virá + Ver se lhe abre aqui alguem; + Mas, porém, se chega cá, + Ja póde ser que se vá + Mais confuso do que vem. + + +SCENA III. + +_Mercurio e Amphitrião._ + +AMPHITRIÃO. + + Quiz-nos nossa natureza + Com tal condição fazer, + Que ja temos por certeza + Não haver grande prazer, + Sem mistura de tristeza. + Este decreto espantoso, + Que instituio nossa sorte, + He tal e tão rigoroso, + Que ninguem antes da morte + Se póde chamar ditoso. + Com esta justa balança + O Fado grande e profundo + Nos refreia a esperança, + Porque ninguem neste mundo + Busque bem-aventurança. + Eu, que cuidei de viver + Sempre contente de mi + Com tamanho Rei vencer, + Venho achar minha mulher + De todo fóra de si. + Mas d'outra parte, que digo? + Que s'he verdade o que vi, + E o que ella diz he assi; + Virei a cuidar comigo + Qu'eu sou o fóra de mi. + Quero ver se a acho ja + Fóra de tão seccos nós. + Ó de casa? + +MERCURIO. + + O de allá? + Quien sois? + +AMPHITRIÃO. + + Abre. + +MERCURIO. + + Santo Dios! + Pues no os conocen acá. + +AMPHITRIÃO. + + Oh que gentil desvario! + Abri-me ora se quizerdes. + +MERCURIO. + + No haré, que en mí confio + Que de fuera dormiredes, + Que no comigo, amor mio. + (Que cancion para oir!) + +AMPHITRIÃO. + + Ah Sósea! zombas de mi? + (Ora quero-me fingir + Que ainda o não conheci, + Por ver se me quer abrir) + Ah Senhor, não abrireis? + +MERCURIO. + + Qué quereis, hombre, por Dios? + +AMPHITRIÃO. + + Duas palavras de vós. + +MERCURIO. + + Tengo dicho mas de seis, + E ahora me pedis dos? + De fuera podeis dormir, + Que entrar no podeis acá. + +AMPHITRIÃO. + + Ora acabae, abri lá. + +MERCURIO. + + Digo que no quiero abrir: + Dije dos palabras ya. + +AMPHITRIÃO. + + Ora sus, bargante, abri. + +MERCURIO. + + Si no te vuelves de aqui, + Á gran peligro te ofreces. + +AMPHITRIÃO. + + Velhaco, não me conheces. + Ou estás fóra de ti? + +MERCURIO. + + Bonito venis, amor. + Quien sois, que hablais tan osado? + +AMPHITRIÃO. + + Abre, que sou teu Senhor. + +MERCURIO. + + Vuélvase de esotro lado, + Y conocerlehé mejor. + +AMPHITRIÃO. + + Sósea moço. + +MERCURIO. + + Así me llamo, + Huélgome que lo sepais; + Empero digo que os vais, + Que Amphitrion es mi amo; + Vos id buscar quien seais. + +AMPHITRIÃO. + + Pois quero saber de ti: + Eu quem sou? + +MERCURIO. + + Y quien sois vós? + Como os llaman? + +AMPHITRIÃO. + + Abri. + +MERCURIO. + + Á vos os llaman Abri? + Pues, Abri, andad con Dios. + +AMPHITRIÃO. + + Quem ha, que possa soffrer + Em sua honra tal destrôço, + Que para me endoudecer + Me tee negado a mulher, + E agora me nega o moço? + +MERCURIO. + + Mira el encantador + Como se lastima y llora, + Y fuese tomar ahora + La forma de mi Señor, + Para engañar mi Señora. + Pues esperad, y no os vais, + Por un espacio pequeño; + Verná quien representais, + Y él os hará que volvais + El falso gesto á su dueño. + +AMPHITRIÃO. + + Vae, velhaco, e chama cá + Esse falso feiticeiro; + Que se elle lá dentro está, + Esta espada julgará + Qual de nós he o verdadeiro. + + +SCENA IV. + +_Amphitrião, Sosea e Belferrão._ + +BELFERRÃO. + + Ora ninguem presumíra + Que tinhas tão pouco siso; + Pois vás achar d'improviso + Tão bem forjada mentíra, + Que me faz cahir de riso. + Hum moço, que alevantou + Tal graça, nunca nasceo: + Porque vos jura que achou + Que ou elle em dous se perdeo, + Ou de hum dous se tornou. + +SOSEA. + + Patron, que no burlo, no: + En uno son dos unidos, + Y en dos cuerpos repartidos; + Yo soy él, y él es yo, + De un padre y madre nacidos. + +BELFERRÃO. + + Esse tu que lá estás, + Tão velhaco he como ti? + +SOSEA. + + Mas aun pienso que es mas: + Por delante y por detrás + Todo se parece á mí. + Y fue gran merced de Dios + Ayuntar á mí mas uno, + Que peor fuera de nos, + Si Dios me hiciera ninguno, + Que no de uno hacer dos. + +BELFERRÃO. + + Assi que, se te perdeste + Vieste a cobrar mais hum: + Mui gentil conta fizeste, + Pois que perdido soubeste + Que eras dous, sendo nenhum. + +SOSEA. + + Pues teneis por abusion + Verdad tan clara, y tan rasa, + Aunque pone admiracion; + Quiera Dios, que allá en casa + No halleis otro Patron. + +AMPHITRIÃO. + + O Patrão, que fui buscar, + Parece que vejo vir: + Não sei quem o foi chamar; + Mas que me ha de aproveitar + Se me não querem abrir? + Ah Belferrão! + +BELFERRÃO. + + Ah Senhor! + Ja sinto que fui culpado; + Porque quem he convidado, + Se tão vagaroso for, + Merece não ser chamado. + +AMPHITRIÃO. + + A vós quem vos convidou? + +BELFERRÃO. + + Sósea, por mandado seu. + +AMPHITRIÃO. + + Disso, Patrão, não sei eu; + Que Sósea ja me negou, + E ja se não dá por meu. + E se alguem vos foi dizer + Qu'eu vos chamo á minha mesa; + Mal vos dara de comer + Quem de todo lhe he defesa + A casa, e mais a mulher. + +BELFERRÃO. + + Quem he esse tão ousado, + Que vos isso faz, Senhor? + +AMPHITRIÃO. + + Sósea, creio que enganado + Por algum encantador, + Que a honra me tee roubado. + +BELFERRÃO. + + Se elle aqui comigo vem, + Isso como póde ser? + +AMPHITRIÃO. + + Ah! que a íra que vou ter, + Tão cega a vista me tem, + Que mo não deixava ver. + Porque razão, cavalleiro, + Não me abris quando vos mando? + Vós fazeis-vos chocarreiro? + +SOSEA. + + Yo Señor? y como? y cuando? + +AMPHITRIÃO. + + Quereis-lo saber primeiro? + Esperae, dir-se-vos-ha, + Mas será por outro son. + +SOSEA. + + Ah Señor Amphitrion, + Porque matándome está, + Sin delito, y sin razon? + +AMPHITRIÃO. + + Agora que vos eu dou + Me chamais Amphitrião, + E para me abrirdes não? + +BELFERRÃO. + + Este moço em que peccou? + Porque pena sem razão? + Não mais por amor de mi. + +AMPHITRIÃO. + + Não, que não sou seu Senhor; + Eu sou hum encantador. + Não o dizeis vós assi, + Ladrão, perro, enganador? + +SOSEA. + + Porque fuy presto á llamar + Por su mandado al Patron, + Me quiere ahora matar? + +AMPHITRIÃO. + + Quem vo-lo mandou buscar? + +SOSEA. + + Si no hay otro Amphitrion, + Vuestra merced sin dudar. + +AMPHITRIÃO. + + Eu te mandei? + +SOSEA. + + Si Señor, + Si otro no. + +AMPHITRIÃO. + + Outro ha aqui, + Por quem tu zombes de mi? + Pois só desse encantador + Me quero vingar em ti. + +SOSEA. + + Oh Júpiter, á quien bramo + Por su bondad que me vala! + Pues porque Sósea me llamo, + Yo mismo, y despues mi amo, + Me dieron venida mala! + + + + +ACTO QUINTO. + + +SCENA I. + +_Jupiter, Belferrão, Sosea e Amphitrião._ + +JUPITER. + + Quem he o tão atrevido, + Que aqui ousa de fazer + Tão revoltoso arruido + Com meus moços, sem temer, + Que fui sempre tão temido? + Quem aqui faz união, + Toma mui grande despejo. + +BELFERRÃO. + + Oh grande admiração! + Vejo eu outro Amphitrião, + Ou he sonho isto que vejo? + +SOSEA. + + No mirais la encantacion, + Que aquel hizo á mi Señor? + El que sale, Belferron, + Es el cierto Amphitrion, + Que estotro es encantador. + +JUPITER. + + Sósea? + +SOSEA. + + Mi Señor, ya vó. + +JUPITER. + + Patrão, só por vós espero. + +SOSEA. + + No os lo dicia yo, + Que este era el verdadero, + Y esse que allá queda, no? + +AMPHITRIÃO. + + Bargante, aonde te vás? + Fazes teu Senhor sandeu? + Pois espera, e levarás. + +JUPITER. + + Ó lá, tornae por detrás, + Não deis no moço, que he meu. + +AMPHITRIÃO. + + Vosso? + +JUPITER. + + Meu. + +AMPHITRIÃO. + + Póde isto haver, + Que outrem minhas cousas tome? + Vós galante haveis de ser, + O que me tomais o nome, + Casa, moços e mulher. + Eu vos farei conhecer + Com quem tendes esse trato. + +JUPITER. + + Sósea? + +SOSEA. + + Señor. + +JUPITER. + + Vae dizer, + Que apparelhem de comer, + Em quanto este doudo mato. + +BELFERRÃO. + + Oh Senhor, não seja assim, + Haja em vós concêrto algum! + E senão, pois aqui vim, + Farei que só tome em mim + Os golpes de cada hum. + +JUPITER. + + Patrão, vossa boa estrella + Me fara deixar com vida + Quem me não merece tella. + +AMPHITRIÃO. + + Não a tenho eu merecida, + Pois que vos deixo com ella. + +BELFERRÃO. + + O homem que for sisudo, + N'huma tão grande questão + Ha de tomar por escudo + A justiça, e a razão; + Que estas armas vencem tudo. + E pois essa natureza + Muitos homens faz iguais, + Dê qualquer de vós signais + De quem he, para certeza + Da fórma que ambos mostrais. + +JUPITER. + + Sou contente de mostrar + Polos sinaes que vos dou, + Que são estes sem faltar. + +AMPHITRIÃO. + + Que sinaes podeis vós dar, + Para que sejais quem sou? + +JUPITER. + + Estes, que logo vereis + Se são vãos, se de raiz. + Patrão, vós sêde juiz, + Que vós logo enxergareis + Qual mais verdade vos diz. + +BELFERRÃO. + + Eu não sinto onde consista + A cura desta doença, + Que ha tão pouca differença, + Que aquelle em que ponho a vista, + Por esse dou a sentença. + Mas, Senhor, vós que ordenastes + Que o juiz disto fosse eu, + Quando se a batalha deu, + Dizei, que m'encommendastes + Que ficasse a cargo meu? + +JUPITER. + + + Dei-vos cargo, qu'estivesse + Toda a Armada a bom recado, + E, se mal nos succedesse, + Que para os vivos houvesse + O refugio apparelhado. + +BELFERRÃO. + + Ora vós quantos dobrões + Esse dia m'entregastes? + +AMPHITRIÃO. + + Tres mil; e vós os contastes. + +BELFERRÃO. + + Ambos sois Amphitriões + Pelos sinaes que mostrastes. + +JUPITER. + + Para ser mais conhecida + A tenção deste sandeu, + Vêde est'outro sinal meu, + Que he neste braço a ferida + Que me ElRei Terela deu. + +BELFERRÃO. + + Mostrae vós, Senhor, tambem. + +AMPHITRIÃO. + + Aqui o podeis olhar. + +BELFERRÃO. + + Oh cousa para espantar! + Que ambos a ferida tem + D'hum tamanho, em hum lugar! + + +SCENA II. + +_Jupiter, Amphitrião e Sosea._ + +SOSEA. + + Dice mi Señora Alcmena + Que no se ha de así de estar + Con un bobo á razonar, + Que se le enfria la cena. + +JUPITER. + + Belferrão, vamos cear. + +AMPHITRIÃO. + + Belferrão, não me deixeis. + Como? tambem me negais? + +JUPITER. + + Andae, não vos detenhais, + Vamos comer, se quereis, + Não ouçais hum doudo mais. + +AMPHITRIÃO. + + Ah maos! assi me ordenais + Offensa tão mal olhada? + Eu farei, se m'esperais, + Com que todos conheçais + Os fios da minha espada. + +JUPITER. + + As portas prestes fechemos, + Não entre este doudo cá. + +SOSEA. + + De fuera se dormirá: + Entre tanto que cenemos, + Puede pasearse allá. + + +SCENA III. + +AMPHITRIÃO _só_. + + Oh ira para não crer, + Em que minh'alma se abraza, + Que me faz endoudecer, + E não me ajuda a romper + As paredes desta casa! + E porque? Não tenho eu + Forças, que tudo destrua? + Pois que tanto a salvo seu, + Outrem acho que possua + A melhor parte do meu; + Eu irei hoje buscar + Quem me ajude a vir queimar + Toda esta casa sem pena, + Donde veja arder Alcmena, + Com quem a vejo enganar. + + +SCENA IV. + +_Aurelio e Moço._ + +AURELIO. + + No hallo á mis males culpa, + Para que merezca pena + La causa que me condena. + +MOÇO. + + Essa está gentil desculpa + Para hoje dar a Alcmena! + Tee-no mandado chamar, + E elle está tão descuidado! + +AURELIO. + + Moço, queres-me matar? + Que desculpa posso eu dar + Melhor qu'este meu cuidado? + +MOÇO. + + E não ha mais que fazer? + Com isso a boca me tapa + Para mais nada dizer? + +AURELIO. + + Ora dá-me cá essa capa + E vamos ver o que quer: + Não trates de mais razão, + Pois não ha quem te resista. + Que vejo? outra novação! + +MOÇO. + + Que he? + +AURELIO. + + Ou me mente a vista, + Ou eu vejo Amphitrião. + +MOÇO. + + Eu ouvi a Feliseo, + Quando cá trouxe o recado, + Como elle era chegado, + E quiz-me dizer que veo + Do siso desconcertado. + +AURELIO. + + Isso quero eu ir saber, + Pois que tal cousa se sôa. + + +SCENA V. + +_Aurelio e Amphitrião._ + +AURELIO. + + Senhor, póde-se dizer + Que a vinda seja mui boa? + +AMPHITRIÃO. + + Essa não póde ella ser. + +AURELIO. + + Porque não? + +AMPHITRIÃO. + + Porque he roubada + Minha honra sem temor, + E minha casa tomada, + E vossa Prima enganada + Por hum grande encantador. + +AURELIO. + + Isso he certo? + +AMPHITRIÃO. + + E manifesto: + E tudo tee ja por seu + Adúltero e deshonesto: + Tee-me tomado o meu gesto, + E faz-lhe crer que sou eu. + +AURELIO. + + Contais hum caso d'espanto! + E pois não podeis entrar, + Defendei-me por em tanto, + Que eu hei lá de chegar + Para ver quem póde tanto, + + +SCENA VI. + +AMPHITRIÃO _só_. + + Se ver deshonra tão clara + Me não tivera o sentido + Totalmente endoudecido, + Que gravemente chorára + Ver tão grande amor perdido! + E quando vejo a verdade + Do nosso amor e amizade + Desfeita com tanta mágoa + Enchem-se-me os olhos d'ágoa, + E a alma de saudade. + Assi que quiz minha estrella, + Para nunca ser contente, + Que agora, estando presente + Viva mais saudoso della, + Que quando della era ausente. + Esta porta vejo abrir + Com impeto demasiado, + Que poderei presumir, + Que vejo Aurelio sahir, + Como homem desatinado? + + +SCENA VII. + +_Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea._ + +AURELIO. + + Oh estranha novidade! + Oh cousa para não crer! + +BELFERRÃO. + + Venho cego de verdade, + Que não puderão soffrer + Meus olhos a claridade. + +SOSEA. + + Oh triste, que vengo ciego + Con rayos, y con visiones! + Y destas encantaciones, + Si nuestra casa arde en fuego, + Han se de arder mis colchones. + +AURELIO. + + Vamos a Amphitrião + Contar-lhe cousas tamanhas. + +AMPHITRIÃO. + + Que vai lá? que cousas vão? + +AURELIO. + + Maravilhas tão estranhas, + Que me treme o coração. + Porque aquelle homem, que assi + Tantos enganos teceo, + Como era cousa do Ceo, + Tanto qu'eu appareci, + Logo desappareceo. + E em desapparecendo + Com ruido grande e horrendo, + Toda a casa allumiou; + E de arte nos inflammou, + Que nos vimos acolhendo + Do raio que nos cegou. + Estes acontecimentos + Não são de humana pessoa. + Vós ouvis a voz que soa? + Escutae, estae attentos; + Vejamos o que pregôa. + +JUPITER, _de dentro_. + + Amphitrião, qu'em teus dias + Vês tamanhas estranhezas, + Não t'espantem phantasias, + Que ás vezes grandes tristezas + Parem grandes alegrias. + Jupiter sou manifesto + Nas obras de admiração, + Que por mi causadas são: + Quiz-me vestir em teu gesto, + Por honrar tua geração. + Tua mulher parirá + Hum filho de mi gerado, + Que Hercules se chamará, + O mais valente e esforçado, + Que no mundo se achará. + Com este, teus successores + Se honrarão de serem teus; + E dar-lhe-hão os escriptores, + Por doze trabalhos seus, + Doze milhões de louvores. + E dessa illustre fadiga + Colherás mui rico fruito: + Enfim, a razão me obriga + Que tão pouco delle diga, + Porque o tempo dirá muito. + + * * * * * + + + + +FILODEMO, + +COMEDIA. + + +INTERLOCUTORES. + + FILODEMO. + VILARDO, seu moço. + DIONYSA. + SOLINA, sua moça. + VENADORO. + MONTEIRO. + DORIANO, amigo de Filodemo. + HUM PASTOR. + HUM BOBO, filho do pastor. + FLORIMENA, pastora. + DOM LUSIDARDO, pae de Venadoro. + DOLOROSO, amigo de Vilardo. + TRES PASTORES. + + +ARGUMENTO. + +Hum Fidalgo Portuguez, que acaso andava nos Reinos de Dinamarca, como +por largos amores e maiores serviços, tivesse alcançado o amor de huma +filha d'el Rei, foi-lhe necessario fugir com ella em huma galé, por +quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo chegados á costa +de Hespanha, onde elle era senhor de grande patrimonio, armou-se-lhe +grande tormenta, que sem nenhum remedio, dando a galé á costa, se +perdêrão todos miseravelmente, senão a Princeza, que em huma taboa foi á +praia: a qual, como chegasse o tempo de seu parto, junto de huma fonte +pario duas crianças, macho e femia; e não tardou muito que hum pastor +Castelhano, que naquellas partes morava, ouvindo os tenros gritos dos +meninos, lhe acudio a tempo que a mãe ja tinha espirado. Crescidas, +emfim, as crianças debaixo da humanidade e criação daquelle pastor, o +macho que Filodemo se chamou á vontade de quem os baptizára, levado da +natural inclinação, deixando o campo, se foi para a cidade, aonde por +musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo, irmão de seu +Pae, a quem muitos annos servio sem saber o parentesco que entre ambos +havia. E como de seu Pae não tivesse herdado nada mais que os altos +espiritos, namorou-se de Dionysa, filha de seu Senhor e Tio, que +incitada ao que por suas obras e boas partes merecia, ou porque ellas +nada engeitão, lhe não queria mal. Aconteceo mais, que Venadoro, filho +de D. Lusidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao exercicio da caça, +andando hum dia no campo apos hum cervo, se perdeo dos seus; e indo dar +em huma fonte, onde estava Florimena, irmãa de Filodemo (que assim lhe +pozerão o nome) enchendo huma talha de ágoa, se perdeo de amores por +ella, que se não soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava, +até que seu Pae o não foi buscar. O qual informado pelo pastor que a +criára (que era homem sabio na Arte Magica) de como a achára e como a +criára, não teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha, e +prima de Filodemo; e a Venadoro seu filho, com Florimena sua sobrinha, +irmãa de Filodemo pastor; e tambem pela muita renda que tinha e de seu +Pae ficára, de que elles erão verdadeiros herdeiros. Das mais +particularidades da Comedia, fara menção o Auto, que he o seguinte. + + + + +FILODEMO, + +COMEDIA. + + + + +ACTO PRIMEIRO. + + +SCENA I. + +_Filodemo e Vilardo._ + +FILODEMO. + + Moço Vilardo? + +VILARDO. + + Ei-lo vae. + +FILODEMO. + + Fallae era má, fallae, + E sahi cá para a sala. + O villão como se cala! + +VILARDO. + + Pois, Senhor, sahi a meu pae, + Que quando dorme não fala. + +FILODEMO. + + Trazei cá huma cadeira: + Ouvis, villão? + +VILARDO. + + Senhor, sim. + (Se m'ella não traz a mim. + Vejo-lh'eu ruim maneira.) + +FILODEMO. + + Acabae, villão ruim. + Que moço para servir + Quem tee as tristezas minhas! + Quem pudesse assi dormir! + +VILARDO. + + Senhor, nestas manhãzinhas + Não ha hi senão cahir: + Por demais he trabalhar + Qu'este somno se me ausente. + +FILODEMO. + + Porque? + +VILARDO. + + Porque ha d'assentar + Que se não for com pão quente, + Não ha de desaferrar. + +FILODEMO. + + Ora hi pelo que vos mando, + Villão feito de fermento. _Sahe Vilardo._ + Triste do que vive amando + Sem ter outro mantimento, + Qu'estar só phantasiando! + Só hua cousa me desculpa + Deste cuidado que sigo, + Ser de tamanho perigo, + Que cuido que a mesma culpa + Me fica sendo castigo. + +_Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante_ + +FILODEMO. + + Ora quero praticar + Só comigo hum pouco aqui; + Que despois que me perdi, + Desejo de me tomar + Estreita conta de mi. + Vae para fóra, Vilardo. + Torna cá: vae-me saber + Se se quer ja lá erguer + O Senhor Dom Lusidardo, + E vem-mo logo dizer. _Vai-se o moço._ + Ora bem, minha ousadia, + Sem azas, pouco segura, + Quem vos deo tanta valia, + Que subais a phantasia + Onde não sobe a ventura? + Por ventura eu não nasci + No mato, sem mais valer, + Que o gado ao pasto trazer? + Pois donde me veio a mi + Saber-me tão bem perder? + Eu, nascido entre pastores, + Fui trazido dos currais, + E d'entre meus naturais + Para casa dos Senhores, + Donde vim a valer mais. + E agora logo tão cedo + Quiz mostrar a condição + De rustico e de villão! + Dando-me ventura o dedo, + Lhe quero tomar a mão! + Mas oh! qu'isto não he assi, + Nem são villãos meus cuidados, + Como eu delles entendi; + Mas antes, de sublimados, + Os não posso crer de mi. + Porque como hei eu de crer + Que me faça minha estrella + Tão alta pena soffrer, + Que somente pola ter + Mereço a gloria della? + Senão se amor, d'attentado, + Porque me não queixe delle, + Tee por ventura ordenado + Que mereça o meu cuidado, + Só por ter cuidado nelle. + + +SCENA II. + +_Vilardo e Filodemo._ + +VILARDO. + + O Senhor Dom Lusidardo + Dorme com todo o convento; + E elle com o pensamento + Quer estar fazendo alardo + De castellinhos de vento! + Pois tão cedo se vestio, + Com seu damno se conforme, + Pezar de quem me pario; + Que ainda o sol não sahio: + Se vem á mão, tambem dorme. + Elle quer-se levantar + Assi pela manhãzinha! + Pois quero-o desenganar: + Nem por muito madrugar + Amanhece mais asinha. + +_Filodemo._ + + Traze-me a viola cá. + +VILARDO. + + (Voto a tal que me vou rindo.) + Senhor, tambem dormirá. + +FILODEMO. + + Traze-a, moço. + +VILARDO. + + Si, virá, + Se não estiver dormindo. + +FILODEMO. + + Ora hi polo que vos mando: + Não gracejeis. + +VILARDO. + + Eis-me vou: + Pois, pezar de São Fernando! + Por ventura sou eu grou? + Sempre hei d'estar vigiando? _Sahe._ + +FILODEMO. + + Ah Senhora, que podeis + Ser remedio do que peno, + Quão mal ora cuidareis + Que viveis e que cabeis + N'hum coração tão pequeno! + Se vos fosse apresentado + Este tormento em que vivo, + Crerieis que foi ousado + Este vosso, de criado + Tornar-se vosso captivo? + + +SCENA III. + +_Filodemo e Vilardo._ + +VILARDO. + + Ora eu creio, se he verdade + Qu'estou de todo acordado, + Que meu amo he namorado; + E a mi dá-me na vontade + Que anda hum pouco abalado. + E se tal he, eu daria + Por conhecer a donzella + A ração d'hoje este dia; + Porque a desenganaria, + Somente por ter dó della. + Havia-lhe perguntar: + Senhora, de que comeis? + Se comeis d'ouvir cantar, + De fallar bem, de trovar, + Em boa hora casareis. + Porém se vós comeis pão, + Tende, Senhora, resguardo; + Qu'eis-aqui está Vilardo, + Qu'he como hum camaleão, + Por isso, bus, fazei fardo. + E se vós sois das gamenhas, + E houverdes d'attentar + Por mais que por manducar, + Mi cama son duras peñas, + Mi dormir siempre es velar. + A viola, Senhor, vem + Sem primas, nem derradeiras: + Mas sabe o que lhe convem? + Se quer, Senhor, tanger bem, + Ha de haver mister terceiras. + E se estas cantigas vossas + Não forem para escutar, + E quizerdes espirar; + Ha mister cordas mais grossas, + Porque não possão quebrar. + +FILODEMO. + + Vae para fóra. + +VILARDO. + + Ja venho. + +FILODEMO. + + Qu'eu só desta phantasia + Me sostenho e me mantenho. + +VILARDO. + + Quamanha vista que tenho, + Que vejo a estrella do dia! _Sahe._ + + +SCENA IV. + +FILODEMO, _cantando_. + + Adó sube el pensamiento, + Seria una gloria inmensa + Si allá fuese quien lo piensa. + +_Falla._ + + Qual espirito divino + Me fará a mi sabedor + Deste meu mal, se he amor, + Se por dita desatino? + Se he amor, diga-me qual + Póde ser seu fundamento, + Ou qual he seu natural, + Ou porque empregou tão mal + Hum tão alto pensamento. + Se he doudice, como em tudo + A vida me abraza e queima, + Ou quem vio n'hum peito rudo + Desatino tão sisudo, + Que toma tão doce teima? + Ah Senhora Dionysa, + Onde a natureza humana + Se mostrou tão soberana! + O que vós valeis me avisa, + Mas o qu'eu peno m' engana. + + +SCENA V. + +_Solina e Filodemo._ + +SOLINA. + + Tomado estais vós agora, + Senhor, co'o furto nas mãos. + +FILODEMO. + + Solina, minha Senhora, + Quantos pensamentos vãos + Me ouvirieis lançar fóra? + +SOLINA. + + Oh Senhor, quão bem que sôa + O tanger de quando em quando! + Bem sei eu huma pessoa, + Que haja huma hora, e boa, + Que vos está escutando. + +FILODEMO. + + Por vida vossa, zombais? + Quem he? quereis-mo dizer? + +SOLINA. + + Não o haveis vós de saber, + Bofé se me não peitais. + +FILODEMO. + + Dar-vos-hei quanto tiver, + Para taes tempos como estes. + Quem tivera voz dos Ceos, + Pois escutar me quizestes! + +SOLINA. + + Assi pareça eu a Deos, + Como lhe vós parecestes. + +FILODEMO. + + A Senhora Dionysa + Quer-se ja alevantar? + +SOLINA. + + Assi me veja eu casar, + Como despida em camisa + Se ergueo por vos escutar. + +FILODEMO. + + Em camisa levantada! + Tão ditosa he minha estrella? + Ou mo dizeis refalsada? + +SOLINA. + + Pois bem me defendeo ella + Que vos não dissesse nada. + +FILODEMO. + + Se pena de tantos annos + Merecer algum favor, + Para cura de meus dannos + Fartae-me desses engannos, + Que não quero mais de Amor. + +SOLINA. + + Agora quero eu fallar + Neste caso com mais tento; + Quero agora perguntar: + E de siso his vós tomar + Hum tão alto pensamento? + Certo he minha maravilha, + Se vós isto não sentis + Bem: vós como não cahis + Que Dionysa qu'he filha + Do Senhor a quem servis? + Como? Vós não attentais + Os Grandes, de qu'he pedida? + Peço-vos que me digais + Qual he o fim que esperais + Neste caso, em vossa vida. + Que razão boa, ou que côr + Podeis dar a esta affeição? + Dizei-me vossa tenção. + +FILODEMO. + + Onde vistes vós amor + Que se guie por razão? + Se quereis saber de mi + Que fim, ou de que theor + O pretendo em minha dor; + S'eu neste amor quero fim, + Sem fim me atormente Amor. + Mas vós com gloria fingida + Pretendeis de m'enganar, + Por assi mal me tratar: + Assi que me dais a vida + Somente por me matar. + +SOLINA. + + Eu digo-vos a verdade. + +FILODEMO. + + Da verdade fujo eu, + Porque se o Amor me deu + Pena de tal qualidade, + Assaz me custa do meu. + +SOLINA. + + Fólgo muito de saber + Que sois amante tão fino. + +FILODEMO. + + Pois mais vos quero dizer, + Que ás vezes no imaginar + Não ouso de m' estender. + Na hora que imaginei + Na causa de meu tormento, + Tamanha gloria levei, + Que por onças desejei + De lograr o pensamento. + +SOLINA. + + Se me vós a mi jurardes + De me terdes em segredo + Huma cousa... mas hei medo + De logo tudo contardes. + +FILODEMO. + + A quem? + +SOLINA. + + Áquelle enxovedo. + +FILODEMO. + + Qual? + +SOLINA. + + Aquelle mao pezar, + Que ant'hontem comvosco hia. + Quem se fosse em vós fiar! + O que vos disse o outro dia, + Tudo lhe fostes contar. + +FILODEMO. + + Que lhe contei? + +SOLINA. + + Ja lh'esquece? + +FILODEMO. + + Por certo qu'estou remoto. + +SOLINA. + + Hi, que sois hum cesto roto. + +FILODEMO. + + Esse homem tudo merece. + +SOLINA. + + Vós sois muito seu devoto. + +FILODEMO. + + Senhora, não hajais medo: + Contae-m'isso, e far-me-hei mudo. + +SOLINA. + + Senhor, o homem sisudo, + Se em taes cousas tee segredo, + Saiba que alcançará tudo. + A Senhora Dionysa + Crede que mal vos não quer: + Não vos posso mais dizer. + Isto tende por balisa + Com que vos saibais reger. + Qu'em mulheres, se attentais, + O querer está visibil; + E se bem vos governais, + Não desespereis do mais, + Porque, emfim, tudo he possibil. + +FILODEMO. + + Senhora, póde isso ser? + +SOLINA. + + Si, que tudo o mundo tem: + Olhae não o saiba alguem. + +FILODEMO. + + E que maneira hei de ter + Para crer tamanho bem? + +SOLINA. + + Vós, Senhor, o sabereis; + E ja que vos descobri + Tamanho sogredo aqui, + Huma mercê me fareis + Em que me vai muito a mi. + +FILODEMO. + + Senhora, a tudo me obrigo + Quanto for em minha mão. + +SOLINA. + + Pois dizei a vosso amigo + Que não gaste tempo em vão, + Nem queira amores comigo. + Porque eu tenho parentes, + Que me podem bem casar; + E mais que não quero andar + Agora em boca de gentes + A quem s'elle vai gabar. + +FILODEMO. + + Senhora, mal conheceis + O que vos quer Duriano: + Sabei-o, se o não sabeis, + Qu'em sua alma sente o dano + Do pouco que lhe quereis; + E que outra cousa não quer, + Que ter-vos sempre servida. + +SOLINA. + + Pola sua negra vida, + Isso havia eu bem mister. + +FILODEMO. + + Vós sois desagradecida! + +SOLINA. + + Si, que tudo são enganos + Em tudo quanto fallais. + +FILODEMO. + + Não quero que me creais: + Crede o tempo; que ha dous anos + Que vos serve, e inda mais. + +SOLINA. + + Senhor, bem sei que m'engano; + Mas a vós, como a irmão, + Descubro este coração: + Sabei que a Duriano + Tenho sobeja affeição. + Olhae que lhe não digais + Isto que vos aqui digo. + +FILODEMO. + + Senhora, mal me tratais: + Inda que sou seu amigo, + Sabei que vosso sou mais. + +SOLINA. + + E ja que vos confessei + Aquestas fraquezas minhas, + Que ha tanto que de mi sei; + Fazei vós nas cousas minhas + O qu'eu nas vossas farei. + +FILODEMO. + + Vós enxergareis, Senhora, + O qu'eu por vós sei fazer. + +SOLINA. + + Como me deixo esquecer! + Aqui estivera agora + Fallando té anoitecer. + Vou-me; e olhae quanto val + O que passou entre nós. + +FILODEMO. + + E porque vos ides vós? + +SOLINA. + + Porque parece ja mal + Estar aqui ambos sós. + E mais vou vestir agora + A quem vos dá tão má vida. + Ficae-vos, Senhor, embora. + +FILODEMO. + + Nessa ide vós, Senhora, + Que ja vos tenho entendida. + + +SCENA VI. + +FILODEMO _só_. + + Ora se póde isto ser + Do qu'esta moça me avisa, + Que a Senhora Dionysa, + Por me ouvir, se fosse erguer + Da sua cama em camisa! + E diz que mal me não quer. + Não queria maior gloria; + Mas o que mais posso crer, + Que nem para lhe esquecer + Lhe passo pela memoria. + Mas ter Solina tambem + Em Duriano o intento, + He levar-me a lenha o vento; + Porque s'ella lhe quer bem, + Para bem vai meu tormento. + Mas foi-se este homem perder + Neste tempo, de maneira, + Por huma mulher solteira, + Que não me atrevo a fazer + Que hum pequeno bem lhe queira. + Porém far-lhe-hei hum partido, + Porqu'ella não se querelle: + Que se mostre seu perdido, + Inda que seja fingido, + Como lh'outrem faz a elle. + E ja que me satisfaz, + E tanto nisto se alcança, + Dê-lhe fingida esperança: + Do mal que lhe outrem faz, + Tomará nella vingança. + + +SCENA VII. + +VILARDO _só_. + + Ora boa está a cilada + De meu amo com sua ama, + Que se levantou da cama + Por ouvi-lo! Está tomada: + Assi a tome má trama. + E mais crede que quem canta, + Ainda descantará; + E quem do leito, onde está, + Por ouvi-lo se levanta, + Mor desatino fará. + Quem havia de cuidar, + Que dama formosa e bella + Saltasse o demonio nella, + Para a fazer namorar + De quem não he igual della? + Que me dizeis a Solina? + Como se faz Celestina, + Que por não lhe haver inveja + Tambem para si deseja + O que o desejo lh'ensina! + Crede que se me alvoróço, + Que a hei de tomar por dama; + E não será grão destrôço, + Pois o amo quer a ama, + Que a moça queira o moço. + Vou-me; que vejo lá vir + Venadoro, apercebido + Para a caça se partir: + E voto a tal, que he partido + Para ver e para ouvir. + Que he razão justa e rasa + Que seu folgar se desconte + Em quem arde como brasa; + Que se vai caçar ao monte, + Fique outrem caçando em casa. + + +SCENA VIII. + +VENADORO _só_. + + Aprovada antiguamente + Foi, e muito de louvar + A occupação do caçar, + E da mais antigua gente + Havida por singular. + He o mais contrário officio + Que tee a ociosidade, + Mãe de todo o bruto vício: + Por este limpo exercicio + Se reserva a castidade. + Este dos grandes Senhores + Foi sempre muito estimado; + E he grande parte do estado + Ter monteiros, caçadores, + Como officio qu'he prezado. + Pois logo porque razão + A meu pae ha de pezar + De me ver ir a caçar? + E tão boa occupação + Que mal me póde causar? + + +SCENA IX. + +_Venadoro e o Monteiro._ + +MONTEIRO. + + Senhor, venho alvoroçado, + E mais com muita razão. + +VENADORO. + + Como assi? + +MONTEIRO. + + Que me he chegado + O mais extremado cão, + Que nunca caçou veado. + Vejamos que me ha de dar. + +VENADORO. + + Dar-vos-hei quanto tiver; + Mas ha-se d'exprimentar, + Para se poder julgar + As manhas que póde ter. + +MONTEIRO. + + Póde assentar qu'este cão, + Que tee das manhas a chave. + Bem feito? Em admiração. + Pois em ligeiro? He huma ave. + Em commetter? Hum leão. + Com porcos? Maravilhoso. + Com veados? Extremado. + Sobeja-lhe o ser manhoso. + +VENADORO. + + Pois eu ando desejoso + D'irmos matar hum veado. + +MONTEIRO. + + Pois, Senhor, como não vae? + +VENADORO. + + Vamos, e vós mui ligeiro + O necessario ordenae; + Qu'eu quero chegar primeiro + Pedir licença a meu pae. + + + + +ACTO SEGUNDO. + + +SCENA I. + +DURIANO. + +Pois não creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pôr pé em ramo verde, té +lhe dar trezentos açoutes. Despois de ter gastado perto de trezentos +cruzados com ella, porque logo lhe não mandei o setim para as mangas, +fez de mim mangas ao demo. Não desejo eu de saber, senão qual he o +galante que me succedeo; que se vo-lo eu colho a balravento, eu lhe +farei botar ao mar quantas esperanças lhe a fortuna tee cortado á +minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com o dinheiro, como a +maré com a lua: bolsa cheia, amor em ágoas vivas; mas se vasa, vereis +espraiar este engano, e deixar em sêcco quantos gostos andavão como o +peixe na ágoa. + + +SCENA II. + +_Filodemo e Duriano._ + +FILODEMO. + +Ó lá! cá sois vós? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me +sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos +tire como huma alma. + +DURIANO. + +Oh maravilhosa pessoa! Vós he certo que vos prezais de mais certo em +casa, que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem á mão, os +pensamentos com os focinhos quebrados, de cahirem onde vós sabeis. Pois +sabeis, Senhor Filodemo, quaes são os que me mátão? Huns muito bem +almofaçados, que com dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezão de +brandos na conversação, e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo +que não darão meia hora de triste pelo thesouro de Veneza; e gábão mais +Garcilasso que Boscão; e ambos lhe sahem das mãos virgens; e tudo isto +por vos meterem em consciencia que se não achou para mais o grão Capitão +Gonçalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia do mundo +farão altos espiritos: e eu não trocarei duas pescoçadas da minha etc., +depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e +fingir-se-me bebada, porque o não pareça, por quantos Sonetos estão +escriptos polos troncos dos árvores do vale Luso, nem por quantas +Madamas Lauras vós idolatrais. + +FILODEMO. + +Tá, tá, não vades avante, que vos perdeis. + +DURIANO. + +Aposto que adivinho o que quereis dizer? + +FILODEMO. + +Que? + +DURIANO. + +Que se me não acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a +herege de amor. + +FILODEMO. + +Oh que certeza tamanha, o muito peccador não se conhecer por esse! + +DURIANO. + +Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinião! Mas +tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he +cousa de vossa saude, tudo farei. + +FILODEMO. + +Como templará el destemplado? Quem poderá dar o que não tee, Senhor +Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo: não póde ser que a natureza não +faça em vós o que a razão não póde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porém +he necessario que primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis +para hum canto da casa todos esses maos pensamentos; porque segundo +andais mal avinhado, damnareis tudo aquillo que agora lançarem em vós. +Ja vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra cousa que não he +servir a Senhora Dionysa; e postoque a desigualdade dos estados o não +consinta, eu não pretendo della mais que o não pretender della nada, +porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que este meu amor he como +a ave Phenix, que de si só nasce, e não de outro nenhum interesse. + +DURIANO. + +Bem praticado está isso; mas dias ha que eu não creio em sonhos. + +FILODEMO. + +Porque? + +DURIANO. + +Eu vo-lo direi: porque todos vós-outros os que amais pela passiva, +dizeis que o amor fino como melão, não ha de querer mais de sua dama que +amá-la; e virá logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a +trezentos Platões, mais çafado que as luvas de hum pagem d'arte, +mostrando razões verisimeis e apparentes, para não quererdes mais de +vossa dama que vê-la; e ao mais até fallar com ella. Pois inda achareis +outros esquadrinhadores d'amor, mais especulativos, que defenderão a +justa por não emprenhar o desejo; e eu (faço-vos voto solemne) se a +qualquer destes lhe entregassem sua dama tosada e apparelhada entre dous +pratos, eu fico que não ficasse pedra sôbre pedra: e eu ja de mi vos sei +confessar que os meus amores hão de ser pela activa, e que ella ha de +ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu de, +vá v. m. co'a historia por diante. + +FILODEMO. + +Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida entre os +Doctores: assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mão, +bem trinta ou quarenta legoas pelo sertão dentro de hum pensamento, +senão quando me tomou á traição Solina; e entre muitas palavras que +tivemos, me descobrio que a Senhora Dionysa se levantára da cama por me +ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando quasi hora e meia. + +DURIANO. + +Cobras e tostões, sinal de terra: pois ainda vos não fazia tanto avante. + +FILODEMO. + +Finalmente, veio-me a descobrir, que me não queria mal, que foi para mi +o maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a +soffrer por sua causa, e não tenho agora sogeito para tamanho bem. + +DURIANO. + +Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser são. Se vos +deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca +chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanças ao leme; +que eu vos faço bom que ás duas enxadadas acheis ágoa. E que mais +passastes? + +FILODEMO. + +A maior graça do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vós; e +me quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vós merecesseis. + +DURIANO. + +Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor? +porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que +dizer poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella +quer que eu caia. + +FILODEMO. + +Nem eu não quero que lho queirais, mas que lhe façais crer que lho quereis. + +DURIANO. + +Não... quanté dessa maneira me offereço a romper meia duzia de serviços +alinhavados ás panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais +fiel amante que nunca calçou esporas; e se isto não bastar, salgan las +palabras mas sangrientas del corazon, entoadas de feição, que digão que +sou hum Mancias, e peor ainda. + +FILODEMO. + +Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro, +irmão da Senhora Dionysa, he fóra á caça; e sem elle fica a casa +despejada; e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu +passatempo he enxertar e dispôr, e outros exercicios d'agricultura, +naturaes a velhos: e pois o tempo nos vem á medida do desejo, vamo-nos +lá; e se puderdes fallar, fazei de vós mil manjares, porque lhe façais +crer que sois mais esperdiçado d'amor que hum Braz Quadrado. + +DURIANO. + +Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas, +com que vosso feito venha á luz. + + +SCENA III. + +_Dionysa e Solina._ + +DIONYSA. + + Solina, mana. + +SOLINA. + + Senhora. + +DIONYSA. + + Trazei-me cá a almofada; + Que a casa está despejada, + E esta varanda cá fóra + Está melhor assombrada. + Trazei a vossa tambem + Para estarmos cá lavrando; + Em quanto meu pae não vem, + Estaremos praticando, + Sem nos estorvar ninguem. + +SOLINA. + + Este he o mesmo lugar + Onde estava o bem logrado, + Tal que de muito enlevado + Se esquecia do cantar + Por se enlevar no cuidado. + +DIONYSA. + + Vós, mana, sois mui ruim! + Logo lhe fostes contar + Que me ergui polo escutar. + +SOLINA. + + Eu o disse? + +DIONYSA. + + Eu não o ouvi? + Como mo quereis negar? + +SOLINA. + + E pois isso que releva? + Que se perde nisso agora? + +DIONYSA. + + Que se perde! Assi, Senhora, + Folgareis vós que se atreva + A contá-lo lá por fóra? + Que se lhe meta em cabeça + Alguma parvoa tenção? + Que faça, se vem á mão, + Algua cousa que pareça? + +SOLINA. + + Senhora, não tee razão. + +DIONYSA. + + Eu sei mui bem attentar + Do que se ha de ter receio, + E do que he para estimar. + +SOLINA. + + Não he o demo tão feio + Como alguem o quer pintar; + E não se espera isso delle, + Que não he ora tão moço. + E Vossa Mercê asselle + Que qualquer segredo nelle + He como huma pedra em poço. + +DIONYSA. + + E eu que segredo quero + Co'hum criado de meu pae? + +SOLINA. + + E vós, mana, fazeis fero? + Ao diante vos espero, + Se adiante o caso vae. + +DIONYSA. + + O madraço! quem o vir + Fallar de siso co'ella... + Então vós, gentil donzella, + Folgais muito de o ouvir? + +SOLINA. + + Si, porque me falla nella; + E eu como ouço fallar + Nella, como quem não sente, + Folgo de o escutar, + Só para lhe vir contar + O que della diz a gente; + Qu'eu não quero nada delle. + E mais, porque está fallando? + Não m'esteve ella rogando + Que fosse fallar com elle? + +DIONYSA. + + Disse-vo-lo assi zombando. + Vós logo tomais em grosso + Tudo quanto me escutais. + Parvo! que vê-lo não posso. + +SOLINA. + + Ella alli, e o cão co'o osso! + Inda isto ha de vir a mais. + Pois que tal odio lhe tem, + Fallemos, Senhora, em al; + Mas eu digo que ninguem + Merece por querer bem + Que a quem lho quer, queira mal. + +DIONYSA. + + Deixae-o vós doudejar. + Se meu pae, ou meu irmão, + O vierem a aventar, + Não ha elle de folgar. + +SOLINA. + + Deos meterá nisso a mão. + +DIONYSA. + + Ora hi polas almofadas, + Que quero hum pouco lavrar; + Por ter em que me occupar; + Qu'em cousas tão mal olhadas + Não se ha o tempo de gastar. + +SOLINA. + + Que cousa somos mulheres! + Como somos perigosas! + E mais estas tão viçosas + Qu'estão á boca _que queres_ + E adoecem de mimosas! + Se eu não caminho agora + A seu desejo e vontade; + Como faz esta Senhora, + Fazem-se logo nessa hora + Na volta da honestidade. + Quem a vira o outro dia + Hum poucochinho agastada, + Dar no chão com a almofada, + E enlevar a phantasia, + Toda n'outra transformada! + Outro dia lhe ouvirão + Lançar suspiros a mólhos, + E com a imaginação + Cahir-lhe a agulha da mão, + E as lagrimas dos olhos. + Ouvir-lhe-heis á derradeira + A ventura maldizer, + Porque a foi fazer mulher. + Então diz que quer ser Freira; + E não se sabe entender. + Então gaba-o de discreto, + De musico e bem disposto, + De bom corpo e de bom rosto. + Quanté então eu vos prometo, + Que não tee delle desgôsto. + Despois, se vem a attentar, + Diz que he muito mal feito + Amar homem deste geito; + E que não póde alcançar + Pôr seu desejo em effeito. + Logo se faz tão Senhora, + Logo lhe ameaça a vida, + Logo se mostra nessa hora + Muito segura de fóra, + E de dentro está sentida. + Bofé, segundo vou vendo, + Se esta postema vier, + Como eu suspeito, a crescer, + Muito ha que della entendo + O fim que póde vir ter. + + +SCENA IV. + +_Duriano e Filodemo._ + +DURIANO. + +Ora deixae-a ir, que á vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como +hei de fazer; que não ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se. + +FILODEMO. + +Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a dê á Senhora +Dionysa; que me vai nisso muito. + +DURIANO. + +Por mulher de tão bom engenho a tendes? + +FILODEMO. + +E porque me perguntais isso? + +DURIANO. + +Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta +mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta. + +FILODEMO. + +Não lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por isso lhe +fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fação +á vossa tenção. + +DURIANO. + +Deixae-me vós a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes +vintes, que vós; e eu vo-la farei hoje vir a nós sem gafas; e vós +entretanto acolhei-vos a sagrado, porque ei-la lá vem. + +FILODEMO. + +Olhae lá: fazei que a não vêdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a +nosso caso. + +DURIANO. + +Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia +no la espero remediar. Pois não devia assi de ser, polos santos +Evangelhos! mas muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos, +andão ás vessas. Ora, emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen +aflojar cuando mas duelen.) + + +SCENA V. + +_Solina e Duriano._ + +SOLINA, _com a almofada_. + + Aqui anda passeando + Duriano, e só comsigo + Pensamentos praticando: + Daqui posso estar notando + Com quem sonha, se he comigo. + +DURIANO. + + Ah quão longe estará agora + Minha Senhora Solina + De saber que estou bem fóra + De ter outra por senhora, + Segundo o amor determina! + Porém se determinasse + Minha bem-aventurança + Que de meu mal lhe pezasse. + Até que nella tomasse + Do que lhe quero vingança!... + +SOLINA. + + (Comigo sonha por certo. + Ora quero-me mostrar, + Assi como por acêrto: + Chegar-me-hei mais ao perto, + Por ver se me quer fallar.) + Sempre esta casa ha d'estar + Acompanhada de gente, + Que não possa homem passar! + +DURIANO. + + Á traição vindes tomar + Quem ja feridas não sente? + +SOLINA. + + Logo me a mi parecia + Que era elle o que passeava. + +DURIANO. + + E eu mal adivinhava + Que me viesse este dia, + Que ha tantos que desejava. + Se huns olhos por vos servir, + Com o amor que vos conquista, + Se atrevêrão a subir + Os muros da vossa vista, + Que culpa tee quem vos vir? + E se esta minha affeição, + Que vos serve de giolhos, + Não fez êrro na tenção, + Tomae vingança nos olhos, + E deixae o coração. + +SOLINA. + + Ora agora me vem riso. + Assi que vós sois, Senhor, + De siso meu servidor? + +DURIANO. + + De siso não, porque o siso + Me tee tirado o amor. + Porque o amor, se attentais, + N'hum tão verdadeiro amante + Não deixa siso bastante; + Senão se siso chamais + A doudice tão galante. + +SOLINA. + + Como Deos está nos Ceos, + Que se he verdade o que temo, + Que fez isto Filodemo. + +DURIANO. + + Mas fê-lo o démo; que Deos + Não faz mal tanto em extremo. + +SOLINA. + + Bem. Vós, Senhor Duriano, + Porque zombareis de mim? + +DURIANO. + + Eu zombo? + +SOLINA. + + Eu não m' engano. + +DURIANO. + + S' eu zombo, inda em meu dano + Vejais vós mui cedo a fim. + Mas vós, Senhora Solina, + Porque me querereis mal? + +SOLINA. + + Sou mofina. + +DURIANO. + + Oh! real. + Assi que minha mofina + He minha imiga mortal. + Dias ha qu'eu imagino + Qu'em vos amar e servir + Não ha amador mais fino; + Mas sinto que de mofino + Me fino sem o sentir. + +SOLINA. + + Bem derivais: quanté assi + Á popa o dito vos veio. + +DURIANO. + + Vir-me-ha de vós, porque creio + Que vós fallais dentro em mi, + Como esprito em corpo alheio. + E assi que em estas piós + A cahir, Senhora, vim; + Bem parecerá entre nós, + Pois vós andais dentro em mim, + Que ande eu tambem dentro em vós. + +SOLINA. + + He bem: que fallar he esse? + +DURIANO. + + Dentro na vossa alma, digo, + Lá andasse, e lá morresse! + E se isto mal vos parece, + Dae-me a morte por castigo. + +SOLINA. + + Ah mao! Como sois malvado! + +DURIANO. + + Mas vós como sois malvada, + Que de hum pouco mais de nada + Fazeis hum homem armado, + Como quem 'stá sempre armada! + Dizei-me, Solina, mana. + +SOLINA. + + Qu'he isso? Tirae lá a mão: + Oh! vós sois mao cortezão. + +DURIANO. + + O que vos quero m'engana, + Mas o que desejo não. + Não ha aqui senão paredes, + As quaes não fallão, nem vem. + +SOLINA. + + Está isso muito bem. + Bem: e vós, Senhor, não vêdes + Que poderá vir alguem? + +DURIANO. + + Que vos custão dous abraços? + +SOLINA. + + Não quero tantos despejos. + +DURIANO. + + Pois que farão meus desejos, + Que querem ter-vos nos braços, + E dar-vos trezentos beijos? + +SOLINA. + + Olhae que pouca vergonha! + Hi-vos d'hi, boca de praga. + +DURIANO. + + Eu não sei certo a que ponha + Mostrardes-me a triaga, + E virdes-me a dar peçonha. + +SOLINA. + + Ora ide rir á feira, + E não sejais dessa laia. + +DURIANO. + + Se vêdes minha canseira, + Porque lhe não dais maneira? + +SOLINA. + + Que maneira? + +DURIANO. + + A da saia. + +SOLINA. + + Por minha alma, hei de vos dar + Meia duzia de porradas. + +DURIANO. + + Oh que gostosas pancadas! + Mui bem vos podeis vingar, + Qu'em mim são bem empregadas. + +SOLINA. + + Ao diabo, que o eu dou. + Como me doeo a mão! + +DURIANO. + + Mostrae cá, minha affeição, + Que essa dor me magoou + Dentro no meu coração. + +SOLINA. + + Ora hi-vos embora asinha. + +DURIANO. + + Por amor de mi, Senhora, + Não fareis huma cousinha? + +SOLINA. + + Digo que vades embora. + Que cousa? + +DURIANO. + + Esta cartinha. + +SOLINA. + + Que carta? + +DURIANO. + + De Filodemo + A Dionysa vossa ama. + +SOLINA. + + Dizei, que tome outra dama, + E dê os amores ao démo. + +DURIANO. + + Não andemos pola rama. + Senhora, (aqui para nós) + Que sentis della com elle? + +SOLINA. + + Grandes alforges sois vós! + Pois hi-lhe dizer que appelle. + +DURIANO. + + Fallae, que aqui 'stamos sós. + +SOLINA. + + Qualquer honesta se abala, + Como sabe que he querida. + Ella he por elle perdida: + Nunca n'outra cousa falla. + +DURIANO. + + Ora vou-lhe dar a vida. + +SOLINA. + + E eu não lhe disse ja + Quanta affeição lh'ella tem? + +DURIANO. + + Não se fia de ninguem, + Nem crê que para elle ha + No mundo tamanho bem. + +SOLINA. + + Dir-vos-hia de mim lá + O que lh'eu disse zombando? + +DURIANO. + + Não disse, por S. Fernando! + +SOLINA. + + Ora ide-vos. + +DURIANO. + + Que me va! + E mandais que torne? Quando? + +SOLINA. + + Quando eu cá vir lugar, + Vo-lo mandarei dizer. + +DURIANO. + + Se o quizerdes buscar, + Não vos deve de faltar, + Se não faltar o querer. + +SOLINA. + + Não falta. + +DURIANO. + + Dae-me hum abraço + Em sinal do que quereis. + +SOLINA. + + Tá, que o não levareis. + +DURIANO. + + De quantos serviços faço + Nenhum pagar me quereis? + +SOLINA. + + Pagar-vos-hão algum'hora, + Que isso a mi tambem me toca; + Mas agora hi-vos embora. + +DURIANO. + + Essas mãos beijo, Senhora, + Em quanto não posso a boca. + + +SCENA VI. + +_Solina que traz a almofada, e Dionysa._ + +SOLINA. + + Ja Vossa Mercê dirá + Qu'estive muito tardando. + +DIONYSA. + + Bem vos detivestes lá. + Bofé que estava cuidando + Em não sei que. + +SOLINA. + + Que será? + Aqui somos. (Quanté agora + Está ella transportada.) + +DIONYSA. + + Que rosnais vós lá, Senhora? + +SOLINA. + + Digo que tardei lá fóra + Em buscar esta almofada. + Que estava ella agora só + Comsigo phantasiando? + +DIONYSA. + + Bofé que estava cuidando + Qu'he muito para haver dó + Da mulher que vive amando. + Que hum homem póde passar + A vida mais occupado: + Com passear, com caçar, + Com correr, com cavalgar, + Fórra parte do cuidado. + Mas a coitada + Da mulher sempre encerrada, + Que não tee contentamento, + Não tee desenfadamento, + Mais que agulha e almofada? + Então isto vem parir + Os grandes erros da gente: + Forão mil vezes cahir + Princezas d'alta semente. + Lembra-me que ouvi contar + De tantas affeiçoadas + Em baixo e pobre lugar, + Que as que agora vão errar + Podem ficar desculpadas. + +SOLINA. + + Senhora, a muita affeição + Nas Princezas d'alto estado + Não he muita admiração; + Que no sangue delicado + Faz amor mais impressão. + Mas deixando isto á parte, + Se m'ella quizer peitar, + Prometto de lhe mostrar + Huma cousa muito d'arte, + Que lá dentro fui achar. + +DIONYSA. + + Que cousa? + +SOLINA. + + Cousa d'esprito. + +DIONYSA. + + Algum panno de lavores? + +SOLINA. + + Inda ella não deo no fito? + Cartinha sem sobre-escripto, + Que parece ser de amores. + +DIONYSA. + + Essa he a boa ventura? + +SOLINA. + + Bofé que mo pareceo. + +DIONYSA. + + E essa donde nasceo? + +SOLINA. + + No meu cesto da costura: + Não sei quem m'alli meteo. + +DIONYSA. + + Mostrae-ma; não hajais medo, + Mana. Eu que vos descobri... + +SOLINA. + + E se ella vem para mi, + Logo quer ver meu segredo? + Não a veja: vá-se d'hi. + Ei-la-ahi. + +DIONYSA. + + Cuja será? + +SOLINA. + + Não sei certo cuja he. + +DIONYSA. + + Si; sabeis. + +SOLINA. + + Não sei, bofé. + +DIONYSA. + + Ora a carta mo dirá. + +SOLINA. + + Pois leia Vossa Mercê. + +_Abre Dionysa a carta, e lê-a._ + +Se para merecer minha pena me não falta mais que viver contente della, +ja logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo +triste, senão por não ser para tão doce tristeza. Se tendes por offensa +commetter tamanha ousadia; por maior a devieis ter, se a não +commettesse; que amor acostumado he fazer os extremos á medida das +affeições, e as affeições á medida da causa dellas. Pois logo, nem o meu +amor póde ser pouco, nem fazer menos: se este não bastar para +consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o que pelo ter +mereço; e senão muitas graças ao Amor, que me soube dar hum cuidado, que +com tê-lo se paga o trabalho de soffrê-lo. + +SOLINA. + + Quanta parvoice diz! + +DIONYSA. + + Ora muito boa está! + Como vós, mana, sois má! + Não sejais vós tão biliz; + Que bem vos entendo ja. + Cuja he? + +SOLINA. + + E eu que sei? + +DIONYSA. + + Pois quem o sabe? + +SOLINA. + + O démo. + +DIONYSA. + + Certo que he de quem temo; + Que os ditos que nella achei + São todos de Filodemo. + Este homem, que atrevimento + He este que foi tomar? + Qual será seu fundamento? + Que mil vezes me faz dar + Mil voltas ao pensamento. + Não entendo delle nada. + Mas inda qu'isto he assi, + Disso que delle entendi, + Me sinto tão alterada, + Que me arreceio de mi. + Eu inda agora não creio + Que he verdade este amor; + Mas praza a Deos, se assi for, + Que inda este meu arreceio + Se não converta em temor. + +SOLINA. + + Ja vós, ja sêdes, + Peixes, nas redes. + Senhora, quem mais confia, + Mais asinha a cahir vem: + Natural he o querer bem; + Que o amor n'alma se cria, + Sem o sentir quem o tem. + Filodemo, no que ouvi, + Tee-lhe sobeja affeição; + E postoque o creia assi, + Ou eu sonhei, ou ouvi. + Que era d'alta geração. + Logo na phisionomia, + Nas manhas, artes e geito, + Mostra mui grande respeito: + Nem tão alta phantasia + Não se põe em baixo peito. + +DIONYSA. + + Tudo isso cuido, e vi + Mil vezes miudamente; + Mas estas mostras assi + São desculpas para mi, + E não para toda a gente. + +SOLINA. + + O seu moço vejo vir + A nós, seu passo contado: + Este he muito para ouvir, + Que diz que me quer servir + D'amores esperdiçado. + + +SCENA VII. + +_Vilardo, Solina e Dionysa._ + +VILARDO. + + Senhora, o Senhor seu pae, + Mesmo de Vossa Mercê, + Ja lá para casa vae: + Por isso, Senhora, andae, + Que elle me mandou n'hum pé; + E diz que fosse jantar + Vossa Mercê mesmamente. + +SOLINA. + + E ja veio do pomar? + +DIONYSA. + + Oh quem pudéra escusar + De comer, nem de ver gente! + (Nenhuma côr de verdade + Tenho do que m'elle manda.) + +VILARDO. + + S'ella sem vontade anda, + Eu lh'emprestarei vontade, + Empreste-m'ella a vianda. + +SOLINA. + + Va, Senhora, por não dar + Mais em que cuidar á gente. + +DIONYSA. + + Irei, mas não por jantar; + Que quem vive descontente + Mantem-se de imaginar. + +VILARDO. + + Pois tambem cá minhas dores + Me não deixão comer pão; + Nem come minha affeição + Senão sopadas d'amores, + E mil postas de paixão. + Das lagrimas caldo faço, + Do coração escudella; + Esses olhos são panella + Que coze bofes e baço, + Com toda a mais cabedella. + + +SCENA VIII. + +_O Monteiro, um pastor e um bobo._ + +MONTEIRO. + + Perdeo-se por esta brenha + Venadoro, meu Senhor, + Sem que novas delle tenha: + Queira Deos que inda não venha + Desta perda outra maior. + Contra esta parte daqui + Des pos hum cervo correo, + Logo desappareceo: + Como da vista o perdi, + O gosto se me perdeo. + Eu, e os mais caçadores, + Corremos montes e covas; + Fallamos com lavradores + Deste valle, e com pastores, + Sem acharmos delle novas. + Quero ver nestes casais + Que cobre aquelle arvoredo, + Se acharei pastores mais, + Que me dem alguns sinais + Que me possão tornar ledo. + +_Chama._ + + Ó dos casaes, ó de lá: + Ah pastores, não fallais? + +PASTOR. + + Quien sois, ó lo que buscais? + +MONTEIRO. + + Ouvis? Chegae para cá. + +PASTOR. + + Dicid vos lo que mandais. + +BOBO. + + No vayais adó os llamó, + Padre, sin saber quien es. + +PASTOR. + + Porque? + +BOBO. + + Porque este es + Aquel ladron que hurtó + El asno del Portugues. + Y se vais adó estan, + Os juro al cuerpo sagrado + De San Pisco, y San Juan, + Que tambien os hurtarán, + Que sois asno mas honrado. + +PASTOR. + + Déjame ir, que me llamó. + +BOBO. + + No, por vida de mi madre; + Que si allá vais, muerto so', + Y desta vez quedo yo, + Sin asno, triste! y sin padre. + +MONTEIRO. + + Vinde, que vo-lo encommendo, + E em vossas mãos me ponho. + +BOBO. + + No vais, que dijo _en comiendo_. + Encomiendoos al demonio! _(Ao Monteiro.)_ + Y esso es lo que andais haciendo? + +PASTOR. + + Déjame ir adó está, + Que no es cosa que me espante. + +BOBO. + + No quereis sino ir allá? + Pues echadle pan delante, + Puede ser amansará. + +PASTOR. + + Dios os guarde! Qué cosa es + Esa por que voceais? + +MONTEIRO. + + Dar-m'heis novas, ou sinais + D'hum Fidalgo Portugues, + Se passou por onde andais? + +BOBO. + + Yo so' Hidalgo Portugues: + Que manda su Señoria? + +PASTOR. + + Cállate: oh que nescio es! + +BOBO. + + Padre, no me dejarés + Ser lo que quisiere un dia? + Ah Santo Dios verdadero! + No seré lo que otros son? + Digo ahora que no quiero + Ser Alonsico, el vaquero. + +PASTOR. + + Cállate ya, bobarron. + +BOBO. + + Ya me callo: ahora un poco + He de ser lo que yo quisiere. + +PASTOR. + + Señor, diga lo que quiere, + Porque este mochacho es loco, + Y muero porque no muere. + +MONTEIRO. + + Digo, que se por ventura + Sabeis o que ando buscando: + Hum Fidalgo, que caçando + Se perdeo nesta espessura + Apos hum cervo andando. + Tenho esta parte corrida, + Sem delle poder saber: + Trago a alegria perdida; + E se de todo a perder, + Perca-se tambem a vida. + Porque só polo buscar + Tenho trabalhos assás. + +BOBO. + + (Yo no puedo callar mas.) + +PASTOR. + + (Como no puedes callar? + Quítate allá para tras.) + Cuanto por aquesta tierra, + No siento nueva ninguna. + +MONTEIRO. + + Oh trabalhosa fortuna! + +PASTOR. + + Mas detras daquesta sierra + Hallareis, por dicha, alguna; + Que unas choças de vaqueros + Portugueses allí estan; + Y ahí muchas veces van + Cazadores Cavalleros: + Puede ser que lo sabran. + +MONTEIRO. + + Quero-me ir lá saber. + Ficae-vos a Deos, pastor. + +PASTOR. + + Dios os livre de dolor. + +BOBO. + + Y á nos dé siempre comer + Pan y sopas, qu'es mejor. + Mirad lo que os notifico: + En aquel valle, acullá, + Anda paciendo un burrico, + Hidalgo, manso, y bonico; + Puede ser que ese será. + +PASTOR. + + Calla, y acaba de andar. + +BOBO. + + Ya ando. + +PASTOR. + + Quieres callar? + Bobo, que tan poco sabe! + +BOBO. + + No diceis que ande y acabe? + Ando, y no quiero acabar. + + + + +ACTO TERCEIRO. + + +SCENA I. + +_Florimena, pastora, com hum pote que vai á fonte._ + +FLORIMENA. + + Por este formoso prado + Tudo quanto a vista alcança + Tão alegre está tornado, + Que a qualquer desesperado + Póde dar certa esperança. + O monte, e sua aspereza, + De flores se veste ledo; + Reverdece o arvoredo, + Somente em minha tristeza + Está sempre o tempo quedo. + Junto desta fonte pura, + Segundo a muitos ouvi, + D'altos parentes nasci: + Foi como quiz a Ventura, + Mas não como eu mereci. + O dia que fui nascida, + Minha mãe do parto forte + Foi sem cura fallecida; + E o dia que me deo vida + Lhe dei eu a ella a morte. + Do mesmo parto nasceo + Meu irmão, que entre os cabritos + Comigo tambem viveo; + Mas, assi como cresceo, + Crescêrão nelle os espritos. + Foi-se buscar a cidade; + Teve juizo e saber; + Eu fiquei, como mulher, + E não tive faculdade + Para poder mais valer. + A hum pastor obedeço + Por pae, que d'outro não sei; + E, pola mãe que matei, + A huma cabra conheço, + De cujo leite mamei. + Mas porém, ja qu'este monte + Me obriga e meu nascimento, + Quero, pois quer meu tormento, + Encher a talha na fonte + Que co'os olhos accrescento. + +_Finge que enche a talha._ + + +SCENA II. + +_Venadoro e Florimena._ + +VENADORO. + + Pois que me vim alongar + Dos caminhos e da gente, + Fortuna, que o consente, + Se devia contentar + De me ter tão descontente. + Porém, segundo adivinho, + Por tão espêsso arvoredo, + Por tão aspero rochedo, + Quanto mais busco o caminho, + Tanto mais delle me arredo. + O cavallo, como amigo, + Ja cansado me trazia: + Mas deixou-me todavia; + Que mal pudera comigo + Quem comsigo não podia. + Quero-me aqui assentar + Á sombra, nesta hervinha, + Porque canso ja de andar; + Mas inda a fortuna minha + Não cansa de me cansar. + Junto desta fonte pura + Não sei quem cuido qu'está; + Mas no coração me dá + Que aqui me guarda a Ventura + Alguma ventura má. + Ou ganhado, ou bem perdido, + Faça, emfim, o que quizer, + Qu'eu o fim disto hei de ver? + Que ja venho apercebido + A tudo quanto vier. + Oh que formosa serrana + Á vista se me offerece! + Deosa dos montes parece; + E se he certo que he humana, + O monte não a merece. + Pastora tão delicada, + De gesto tão singular, + Parece-me qu'em lugar + De perguntar pola estrada, + Por mim lhe hei de perguntar. + Atéqui sempre zombei + De qualquer outra pessoa + Que affeiçoada topei; + Mas agora zombarei + De quem se não affeiçoa. + Serrana, cuja pintura + Tanto a alma me moveo, + Dizei-me: Por qual ventura + Andareis nesta espessura, + Merecendo estar no ceo? + +FLORIMENA. + + Tamanho inconveniente + Andar na serra parece? + Pois a ventura da gente + Sempre he mui diferente + Do que, ao parecer, merece. + +VENADORO. + + Tal resposta he manifesto + Não se parecer co'as cabras. + Pois não vos parece honesto + Saberdes matar co'o gesto, + Senão inda com palabras? + No mato tudo he rudeza. + Ha tal gesto e discrição? + Não o creio. + +FLORIMENA. + + Porque não? + Não supprirá natureza + Onde falta criação? + +VENADORO. + + Ja logo nisso, Senhora, + Dizeis, se não sinto mal, + Que do vosso natural + Não era serdes pastora. + +FLORIMENA. + + Digo, mas pouco me val. + +VENADORO. + + Pois quem vos pôde trazer + Á conversação do monte? + +FLORIMENA. + + Perguntae-o a essa fonte; + Que as cousas duras de crer, + Hum as faça, outro as conte. + +VENADORO. + + Esta fonte, que está aqui, + Que sabe do que dizeis? + +FLORIMENA. + + Senhor, mais não pergunteis. + Porque outra cousa de mi + Sabei que não sabereis. + De vós agora sabei, + O que não tendes sabido: + Se quereis ágoa, bebei; + Se andais por dita perdido, + Eu vos encaminharei. + +VENADORO. + + Senhora, eu não vos pedia + Que ninguem m'encaminhasse; + Que o caminho qu'eu queria, + Se o eu agora achasse, + Mais perdido me acharia. + Não quero passar daqui; + E não vos pareça espanto + Qu'em vos vendo me rendi; + Porque quando me perdi, + Não cuidei de ganhar tanto. + +FLORIMENA. + + Senhor, quem na serra mora + Tambem entende a verdade + Dos enganos da cidade: + Vá-se embora, ou fique embora, + Qual for mais sua vontade. + +VENADORO. + + Oh lindissima donzella, + A quem a ventura ordena + Que me guie como estrella! + Quereis-me deixar a pena, + E levar-me a causa della? + E ja que vos conjurastes + Vós e Amor para matar-me, + Oh não deixeis d'escutar-me! + Pois a vida me tirastes, + Não me tireis o queixar-me! + Qu'eu, em sangue e em nobreza + O claro Ceo me extremou; + E a Fortuna me dotou + De grandes bens e riqueza, + Que sempre a muitos negou. + Andando caçando aqui, + Apos hum cervo ferido, + Permittio meu fado assi, + Que andando dos meus perdido, + Me venha perder a mi. + E porqu'inda mais passasse + Do que tinha por passar, + Buscando quem m'ensinasse, + Por que via me tornasse, + Acho quem me faz ficar. + Que vingança permittio + A fortuna n'hum perdido! + Oh que tyranno partido, + Que quem o cervo ferio, + Vá como cervo ferido! + Ambos feridos n'hum monte, + Eu a elle, outrem a mi: + Huma differença ha aqui, + Qu'elle vai sarar á fonte, + E eu nella me feri. + E pois que tão transformado + Me tee vossa formosura, + Hum de nós troque o estado. + Ou vós para o povoado, + Ou eu para a espessura. + +FLORIMENA. + + Dos arminhos he certeza, + Se lhe a cova alguem çujar, + Morar fóra, antes d'entrar: + D'estimar muito a limpeza + Pola vida a vai trocar: + Tambem quem na serra mora + Tanto estima a honestidade, + Que antes toma ser pastora, + Que perder a honestidade + A trôco de ser Senhora. + Se mais quereis, esta fonte + Vos descubra o mais de mim: + O que ella vio, ella o conte; + Porque eu vou-me para o monte, + Porque ha ja muito que vim. + + +SCENA III. + +VENADORO. + + Ó linda minha inimiga, + Gentil pastora, esperae! + Pois que tanto amor me obriga, + Consenti-me que vos siga; + Vá o corpo onde alma vae. + E pois por vós me perdi, + E neste estado Amor pôs + Os olhos com que vos vi, + Pois os deixaste sem mi, + Oh não os deixeis sem vós! + Porque a Fortuna me disse + Que nas serras, onde andais, + Em estes extremos tais, + Não era bem que vos visse + Para não ver de vós mais. + E pois Amor se quiz ver + Da livre vida vingado, + Em que eu sohia viver; + Faça em mi o que quizer, + Que aqui vou ao jugo atado. + + +SCENA IV. + +_Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo._ + +LUSIDARDO. + + Oh Santo Deos verdadeiro, + A quem o mundo obedece! + Meu filho não apparece. + E que me dizeis, Monteiro? + +MONTEIRO. + + Digo-lhe que m' entristece. + Qu'eu corri por esses montes, + Bem quinze leguas, ou mais, + E busquei polos casais, + Por serras, montes e fontes, + Sem ver novas, nem sinais. + Toda a gente que levou, + Buscando-o, muito cansada + Pelo mato anda espalhada; + Mas ainda ninguem tomou, + Que soubesse delle nada. + +LUSIDARDO. + + Oh fortuna nunca igual! + Quem me fara sabedor + De meu filho e meu amor? + Que se he muito grande o mal, + Muito mor he o temor. + Quem tolhe que não achasse + Algum leão temeroso + N'algum monte cavernoso, + Que sua fome fartasse + Em seu corpo tão formoso? + Quem ha que saiba, ou que visse, + Que das montanhas erguidas + Algum monstro não sahisse, + E com seu sangue tingisse + As hervas nellas nascidas? + Oh filho! vai-me a lembrar + Quantas vezes os mandava + Que deixasseis o caçar! + Não cuidei de adivinhar + O que Fortuna ordenava. + Eu irei, filho, buscar-vos + Por esses montes, por hi, + Ou a perder-me, ou cobrar-vos; + Que morte que quiz matar-vos, + Quero que me mate a mi. + Onde fostes fenecido, + Seja tambem vosso pae; + Ser-me-ha acontecido, + Como a virote que vae + Buscar outro que he perdido. + Vós só haveis de ficar, + Filodemo, encarregado + Para esta casa guardar; + Que de vosso bom cuidado + Tudo se póde fiar. + Ide-vos a fazer prestes, + Mandae cavallos sellar; + Pois achá-lo não pudestes, + Ir-m'heis buscar o lugar + Onde da vista o perdestes. + + +SCENA V. + +_O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o seu._ + +_Canta._ + + Los mochachos del Obispo + No comen cosa mimosa, + Ni zanca d'araña, ni cosa mimosa. + +_Falla._ + + De su sayo colorado + Tan lozano me vestió, + Que yo ya no soy yo, + Ya por otro estoy trocado; + Que este sayo me trocó. + Oh qué asno Portugues, + Que loco por Florimena, + Deseó zamarra agena, + Y dame por enterés + Una zamarra tan buena! + Como yo vi la bobilla + Andar con él en questiones, + Y parársele amarilla, + Díjele: Florimenilla, + Andais en dongolondrones? + Él me dijo: Matalote, + No tengais dello desmayo. + Y en esto, como un rayo, + Tomóme mi capirote, + Y dióme su capisayo. + Capirote, en buena fé, + Si vos, cuando en mi entrastes, + Capisayo vos tornastes, + Que yo por eso cantaré, + Pues ansí me mejorastes. + +_Canta._ + + Lyrio, lyrio, lyrio loco, + Con qué? Con capirotada. + Por hablar con la golosa + De amores, mirad la cosa! + Zamarrilla tan hermosa, + Que me ha dado tan honrada, + Con qué? Con capirotada. + +_Falla._ + + Yo entonces respondí: + Señor, dame pan y queso, + Mas despues que lo entendí, + Dije á ella: Dale un beso, + Que él me dió zamarra á mí. + Ahora me mirarán + Cuantos á la eglesia fueren; + Y aquellos que no me quieren, + Ahora me rogarán. + Sabeis porque no querré? + Porque estoy ahidalgado; + Y cuando fuere rogado, + Cantando responderé, + Que ya estoy otro tornado. + +_Canta e baila._ + + Soropicote, picote, mozas, + Ahora quiero amores con vosotras. + + +SCENA VI. + +_O Pastor e o Bobo._ + +PASTOR. + + Hijo Alonsillo. + +BOBO. + + Hijo Alonsillo. + +PASTOR. + + No me quieres escuchar? + +BOBO. + + Pues déjame suspirar. + +PASTOR. + + Escúchame ahora, asnillo, + Lo que te quiero mandar. + Véte al valle de las rosas, + Y di á Anton del Lugar + Que si puede acá llegar, + Porque tengo muchas cosas + Que importan para le hablar. + Porque es aqui llegado + Á este valle un hombre honrado, + Mancebo de casta buena, + Que amores de Florimena + Le traen loco y penado. + Dice que quiere casar + Con ella, que su tormento + No le deja reposar; + Y que venga festejar + Tan dichoso casamiento. + +BOBO. + + Dicid, padre, tambien vos, + No quereis casar comigo? + Casemos ambos adós. + +PASTOR. + + Vé, y haz lo que te digo. + +BOBO. + + Responde, padre, por Dios. + +PASTOR. + + Vé luego, y vuelve apresado. + Anda. No quieres andar? + +BOBO. + + Pues que me habeis empujado, + Juro á mi de desandar + Todo cuanto tengo andado. + +PASTOR. + + Trabajoso es este insano! + Nunca hace lo que quereis. + +BOBO. + + Ora no os apasioneis, + Mi padrecico lozano: + Que burlaba, no lo veis? + +PASTOR. + + Véte dahi. + +BOBO. + + Héme aqui. + +PASTOR. + + Vé donde te dije. + +BOBO. + + Ya vengo. + Oh que padrasto que tengo, + Que asi me manda por ahi, + Siendo camino tan luengo! + + + + +ACTO QUARTO. + + +SCENA I. + +_Dionysa e Solina._ + +DIONYSA. + + Oh Solina, minha amiga, + Que todo este coração + Tenho posto em vossa mão; + Amor me manda que diga, + Vergonha me diz que não. + Que farei? + Como me descobrirei? + Porque a tamanho tormento + Mais remedio lhe não sei, + Que entregá-lo ao soffrimento. + Meu pae muito entristecido + Se vai pela serra erguida, + Ja da vida aborrecido, + Buscando o filho perdido, + Tendo a filha cá perdida! + Sem cuidar, + Foi a casa encommendar + A quem destruir lha quer: + Olhae que gentil saber, + Que vai comigo deixar + Quem me não deixa viver. + +SOLINA. + + Senhora, em tanto desgôsto. + Não posso meter a mão; + Mas como diz o rifão, + Mais val vergonha no rosto, + Que mágoa no coração. + E bofé, se eu tanto amasse, + E visse tempo e sazão, + Sem seu pae, sem seu irmão, + Que a nuvem triste tirasse + De cima do coração. + +DIONYSA. + + Ah mana! que tenho medo, + Que s'eu em tal consentisse + Que logo o mundo o sentisse, + Porque nunca houve segredo, + Que, emfim, se não descobrisse. + +SOLINA. + + Se eu tantas dobras tivesse + Como quantas houve erradas, + Sem que o mundo o soubesse, + Á fé qu'eu enriquecesse, + E fosse das mais honradas. + +DIONYSA. + + Sabeis que tenho em vontade? + +SOLINA. + + Que podeis, Senhora, ter? + +DIONYSA. + + Fallar-lhe, só para ver + Se he por ventura verdade + O que dizeis que me quer. + +SOLINA. + + Bofé, mana, dizeis bem, + E eu o mandarei chamar, + Como para lhe rogar + Que hum annel, que lá me tem, + Que mo mande concertar. + +DIONYSA. + + Dizeis mui bem. + +SOLINA. + + Vou-me lá + Chamar o seu moço á sala; + E s'este parvo vem cá, + Com elle hum pouco rirá, + Que sempre amores me fala. + Vilardo, moço? + + +SCENA II. + +_Vilardo e Solina._ + +VILARDO. + + Quem chama? + +SOLINA. + + Vem cá, moço; eu te chamo. + Qu'he de teu amo? + +VILARDO. + + Ah que dama! + Perguntais-me por meu amo, + E não por hum que vos ama? + +SOLINA. + + E quem he esse amador, + Que quer ter comigo passo? + Será elle algum madrasso? + +VILARDO. + + Eu sou o mesmo, que o amor + Me quebra pelo espinhasso. + E mais vós sabei de mi, + Se eu a dizê-lo me atrevo, + Que desque esses olhos vi, + Que yo ni como, ni bebo, + Ni hago vida sin ti. + E mais para namorado + Não sou ora tão madraço. + +SOLINA. + + Sois muito desmazelado. + +VILARDO. + + Mas antes, de delicado + Caio pedaço a pedaço. + E mais eu soffrer não posso + Que me façais tanto fero, + Qu'estou ja posto no osso, + Porque sou vosso e revosso, + Por vida de quanto quero. + +SOLINA. + + Feros está cheia a rua. + Ora estou bem aviada! + +VILARDO. + + Cupido, por vida tua, + Que a não faças tão crua, + Pois que te não faço nada! + Amor, Amor, mas te pido, + Que quando se for deitar, + Que le digas al oido: + Devieis-vos de lembrar + Neste tempo de hum perdido. + +SOLINA. + + E tu ja fazes coprinhas? + Ainda tu trovarás? + +VILARDO. + + Quem eu? Por estas barbinhas, + Que se vós virdes as minhas, + Que digais que não são más. + +SOLINA. + + Ora, pois me quereis bem, + Dizei-me huma. + +VILARDO. + + Ei-la aqui; + E veja o saibo que tem; + Porque esta trovinha assi, + Saiba qu'he trova do assem. + +_Trova._ + + Passarinhos, que voais + Nesta manhãa tão serena, + Sabei que só minha pena + Póde encher mil cabeçais. + +SOLINA. + + O rifão está salgado. + Essa pena te dou eu? + +VILARDO. + + Vós e Amor, que de malvado, + Me tee melhor empennado, + Que nenhum virote seu. + Pois se me ouvíreis cantar! + +SOLINA. + + E tu es tambem cantor? + +VILARDO. + + Canto melhor que hum açor. + Quereis que vos venha dar + Musiqueta de primor, + E que vos mande tanger + Muito melhor que ninguem? + +SOLINA. + + Ja isso quizera ver. + +VILARDO. + + Querer-me-heis, se o eu fizer, + Algum pedaço de bem? + +SOLINA. + + Querer-te-hei trinta pedaços. + +VILARDO. + + E esse querer dará fruito, + Que me tire destes laços? + +SOLINA. + + E que fruito? + +VILARDO. + + Dous abraços. + +SOLINA. + + Esse fruito custa muito. + +VILARDO. + + Esse he o amor qu'em vós ha? + Pezar de minha mãe torta! + +SOLINA. + + Ora hi, chamae logo lá + Vosso amo que venha cá, + Porque he cousa que importa. + +VILARDO. + + Logo? + +SOLINA. + + Logo nessas horas. + +VILARDO. + + Não estarei aqui mais? + +SOLINA. + + Não. Ainda ahi estais? + Vós haveis mister esporas. + +VILARDO. + + Irei, porque me mandais. + + +SCENA III. + +_O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor._ + +PASTOR. + + Mas de un mez es ya pasado + Que en esta sierra andais; + Y es caso mal mirado + Que andeis guardando ganado + Por una que tanto amais. + Y si os determinais + En querer casar con ella, + Juro á mi que nada errais; + Y si eso es para habella, + En vano cabras guardais. + Ya me distes vuestra fé + (Sábenlo estas tierras todas): + Yo con ella me engañé, + Que luego mandar llamé + Quien festejase las bodas. + Y agora dicis con pena, + Que es dura cosa casar: + Pues volveos hora buena, + Que no habeis de engañar + Con palabras Florimena. + +VENADORO. + + Quem se ha de ter coração + Para tamanho temor? + Que em mim pegando estão. + De huma parte a razão. + E d'outra parte o Amor. + Tambem vejo que perdella + Será minha perdição; + Que bem me diz a affeição, + Que pouco faço por ella, + Pois não desfaço em quem são. + +PASTOR. + + Digoos, si por bajeza + Dicis que no os conviene, + Daros hé una certeza, + Que en sangre y en nobleza, + Tanto como vos la tiene. + +VENADORO. + + Pastor, digo que daqui + Farei tudo que quizerdes; + E se mais quereis de mi, + Digo que vos dou o si + Para tudo o que quizerdes. + +PASTOR. + + Dios os dé su bendicion; + Y pues que casais con ella, + Yo os afirmo en conclusion, + Que aun de vos y mas della + Verná gran generacion. + Yo me voy por ella, hijo, + Tomadla asi mal compuesta; + Verná quien haga la fiesta; + Que en placer y regocijo + Nos festeje esta floresta. + + +SCENA IV. + +VENADORO _só_. + + Ó ribeiras tão formosas, + Valles, campos pastoris, + Porque vos não revestis + De novas flores e rosas, + Se minha gloria sentis? + Porque não seccais, abrolhos? + E vós, ágoa, que regando, + Os olhos his alegrando, + Correi, que tambem meus olhos + D'alegres estão manando. + Ah pastora, em quem espero + Poder viver descansado! + Comtigo guardarei gado, + Que ja eu sem ti não quero + Nenhuma alteza d'estado. + Diga o que quizer a gente, + Tudo terei n'huma palha, + Porque está claro e evidente + Que não ha honra que valha + Contra a vida descontente. + + +SCENA V. + +_Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante do pastor, que +traz Florimena._ + +PASTOR. + + Pues el amor os obliga + Á que hagais tan buena liga, + Tomando á Dios por testigo, + Daqui os la entrego, amigo, + Por muger y por amiga. + +VENADORO. + + Consentis nisto, Senhora? + +FLORIMENA. + + Senhor, em tudo consento. + +VENADORO. + + Oh grande contentamento! + +FLORIMENA. + + Saiba que nunca tégora + Lhe houve inveja ao tormento. + +PASTOR. + + Asi lo dices, bobilla? + Oh! mala dolor os duela! + Pero no es maravilla + Quien consiente ansi la silla, + Consienta tambien la espuela. + + +SCENA VI. + +_Tornão a bailar e cantar, e acabado, entra D. Lusidardo, e o Monteiro, +que andão em busca de Venadoro._ + +LUSIDARDO. + + Tres dias ha ja que ando + Por esta larga espessura + A Venadoro buscando; + E o que delle vou achando + He como quer a Ventura. + +MONTEIRO. + + Senhor, cuido que lá vejo + Huns lavradores cantar. + +LUSIDARDO. + + Hi diante perguntar. + +MONTEIRO. + + Cumprido he seu desejo, + Se a vista não m'enganar. + +LUSIDARDO. + + Como assi? + +MONTEIRO. + + Elle não vê + Aquelle pastor loução + Com huma moça pela mão? + Se Venadoro não he, + Nem eu o Monteiro são. + +PASTOR. + + Quien veo allá asomar, + Que se viene á nuestras bodas? + +BOBO. + + No los dejemos llegar, + Que nos vernan á roubar, + Juro á mi, las migas todas. + +LUSIDARDO. + + Oh Venadoro, meu filho! + Es tu este? + +VENADORO. + + Tal estou, + Que cuido que este não sou. + +LUSIDARDO. + + Certo que me maravilho + De quem tanto te mudou. + Como estais assi mudado + No rosto e mais no vestido! + +VENADORO. + + Ando ja n'outro trocado, + Tanto, que fiquei pasmado + De como fui conhecido. + E se Vossa Mercê vem + Para me levar daqui, + Mais ha de levar que a mi; + E ha de ser quem me tem + Todo transformado em si. + +BOBO. + + Eso porque lo entendeis? + Por las migas por ventura? + Voto á tal no llevareis: + Por mas y por mas que andeis + No hareis tal travesura. + +VENADORO. + + Esta formosa donzella + Em mi teve tal poder, + Que folguei de me perder; + Pois, emfim, vim achar nella + O que não cuidei de ser. + Tanto em mi pôde este amor, + Que a tenho recebida; + E se o êrro grave for, + Aqui quero ser pastor: + Deixe-me ter esta vida. + +LUSIDARDO. + + He certo tal casamento? + +VENADORO. + + Tenha-o por cousa segura. + +LUSIDARDO. + + Oh grande acontecimento! + Dest'arte sabe a ventura + Aguar hum contentamento! + +PASTOR. + + Óigame, Señor, á mi, + Como hombre sabio, discreto, + Porque acaeció así, + Y lo que supo hasta aqui + Lo puede tener por cierto. + Muchos años son corridos + Que en esta fuente abierta, + En estos valles floridos + Hallé dos niños nascidos, + Y á su madre casi muerta. + Los niños chicos crié, + (Y desto cierto me arreo) + Y á la madre sepulté; + Y despues un gran deseo + De saber esto tomé. + Como yo fuese enseñado + De chico á la mágica arte + Por mi padre, que es finado; + Muy conoscido y nombrado + Soy por tal en toda parte. + Yo con yervas de la sierra, + Animales y otras cosas + Haré, si el arte no se yerra, + Que desciendan á la tierra + Las estrellas luminosas. + Soy, en fin, certificado + Que la madre de los dos + Fué Princeza de alto estado. + Y por un caso nombrado + La trajo á esta tierra Dios. + El macho, como creció, + Deseoso de otro bien, + Á la Corte se partió: + La hembra es esta por quien + Vuestro hijo se perdió. + Y si mas quiere, Señor, + De mi arte, prestamente + Dello le haré sabedor; + Mas ha de ser de tenor + Que no lo sepa la gente. + +LUSIDARDO. + + Mas vamos-nos, se quereis, + Que não soffro dilação, + A minha casa, e então + Lá disso me informareis, + Que caso he de admiração. + E vós, filho, não cuideis + Que a gloria de vos achar + Não he tanto d'estimar, + Qu'em qualquer 'stado que esteis, + Não folgue de vos levar. + + + + +ACTO QUINTO. + + +SCENA I. + +_Solina, Dionysa e Filodemo._ + +SOLINA. + + Eis Filodemo lá vem: + Asinha acudio ao leme. + +DIONYSA. + + Isso he de quem quer bem; + Mas não sei se o vio alguem, + Porque quem espera teme. + Agora me quizera eu + Daqui cem mil leguas ver. + +FILODEMO. + + Folgára eu assi de ser, + Porqu'este cuidado meu + Fôra mais de agradecer. + Que quando por accidente + A Fortuna desastrada + Vos apartasse da gente + N'hum deserto, onde somente + Das feras fosseis guardada; + Lá por ferro, fogo e ágoa + Buscar minha morte iria; + A voz ronca, a lingua fria, + Tamanho mal, tanta mágoa + Ás montanhas contaria. + Lá, mui contente e ufano + De mostrar amor tão puro, + Poderia ser que o dano, + Que não move hum peito humano, + Que movesse hum monte duro. + +DIONYSA. + + Nesse deserto apartado + De toda a conversação + Merecieis degradado + Por justiça, com pregão + Que dissesse: _Por ousado_. + E eu tambem merecia + Metida a grave tormento, + Pois que, como não devia, + Vim a dar consentimento + A tão sobeja ousadia. + +FILODEMO. + + Senhora, se me atrevi, + Fiz tudo o que Amor ordena; + E se pouco mereci, + Tudo o que perco por mi, + Mereço por minha pena. + E se Amor pôde vencer, + Levando de mi a palma, + Eu não lho pude tolher; + Que os homens não tee poder + Sôbre os affectos da alma. + E ainda que pudera + Resistir contra o mal meu. + Saiba que o não fizera; + Que pouco valêra eu, + Se contra vós me valêra. + Não deve logo ter culpa + Quem se venceo d'armas tais: + Assi que nisto, e no mais, + Tomo por minha desculpa + Vós mesma que me culpais. + E se este atrevimento + Com tudo for de culpar, + Acabae de me matar; + Que aqui tenho hum soffrimento + Que tudo póde passar. + E se esta penitencia, + Que faço em me perder, + Algum bem vos merecer, + Fique em vossa consciencia + O que me podeis dever. + Que dizeis a isto, Senhora? + +DIONYSA. + + Eu que vos posso dizer? + Ja não tenho em mi poder, + Segundo me sinto agora, + Para poder responder. + Respondei-lhe, vós Solina, + Pois que a vós me entreguei. + +SOLINA. + + Bofé não responderei: + Veja ella o que determina. + +DIONYSA. + + Não o vejo, nem o sei. + +SOLINA. + + Pois eu tambem não sei nada. + +DIONYSA. + + Porque? + +SOLINA. + + Do que eu fizer, + Se despois se arrepender, + Dirá qu'eu fui a culpada. + +DIONYSA. + + Eu só quero a culpa ter. + +SOLINA. + + Senhora, por não errar, + Não quero que fique em mim. + Esta noite no jardim + Ambos podem praticar + Como isto venha a bom fim. + Lá poderão ajustar + Entr'ambos o parecer; + Qu'eu não m'hei nisso de achar, + Que não quero temperar + O que outrem ha de comer. + +DIONYSA. + + Vós vêdes a torvação, + Que lá nessa casa vae? + +SOLINA. + + Dá-me cá no coração + Que he vindo o Senhor seu pae + Com o Senhor seu irmão. + +DIONYSA. + + Filodemo, hi-vos embora, + Fallae depois com Solina. + +SOLINA. + + Vamos-nos tambem, Senhora. + Receber seu pae lá fóra; + Não venha sentir a mina. + + +SCENA II. + +_Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina com os Musicos._ + +VILARDO. + +Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre andão rugindo as sedas. + +DOLOROSO. + +Avante, que bem sei que o não dizeis polas sedas de Veneza. + +VILARDO. + +Ja sabeis que esta nossa Solina he tão Celestina, que não ha quem a +traga a nós. + +DOLOROSO. + +Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, dará e tomará +quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher +de sua arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes +são como homens sisudos; se de noite se achão em algum arruido, onde +possão fugir sem serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia +quem ha de cuidar que hum tão honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem +pode ser, porque noite escura he capa de Judeos e de envergonhados. + +VILARDO. + +Mui gentil comparação he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi +zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous +meus amigos, que logo hão de vir aqui ter comnosco. + +DOLOROSO. + +Que tal he a musica que determinas de lhe dar? Não seja de siso; porque +será a maior parvoice do mundo, porque não concerta com a parvoice que +tu finges. + +VILARDO. + +A musica não he senão das nossas; mas faço-te queixume, que nem com hum +cão de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra. + +DOLOROSO. + +Nem as acharás senão alugadas; mas eu não sou de opinião que teus amores +te custem dinheiro. Ora ja lá apparecem os outros companheiros, e eu +tambem ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto á popa, porque +daqui iremos á porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum +certo requerimento. + +VILARDO. + +Vossas Mercês vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem +temperadas? + +DOLOROSO. + +Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justiça entretanto. + +VILARDO. + +Ora sus: fazei como se temperasseis cabeça de pescada com seu figado e +bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa +nova. + +_Neste passo se dá a musica com todos quatro, hum tange guitarra, outro +pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito velhas, e no melhor +diz Vilardo:_ + +Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he. + +DOLOROSO. + +Justiça, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui não ha outro valhacouto que +nos valha, que pôr os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras. + + +SCENA III. + +O MONTEIRO _só_. + +Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quão gracioso sería +quem o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoço, porque +não podessem entender nelle Meirinhos, Almotacés da limpeza, trabalhos, +esperanças, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora +notae bem de quantas côres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo: +perdeo-se Venadoro na caça, eis a casa toda envolta como rio: o pae +enfadado, a irmãa triste, a gente desgostosa; tudo, emfim, fóra do +couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados como +camaleão, decepado dos pés e das mãos, por huma serranica d'Alentejo; e +veio acaso a sahir de maneira fóra da madre, que a recebeo por mulher; e +rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as lembranças de seu pae; +pois tanto tomou ao pé da letra o que Deos disse: _Por esta deixarás teu +pae e mãe_. E attentae isto por me fazer mercê: cuidareis que este caso +era _solus peregrinus_: sabei que os não dá a fortuna senão aos pares, +como quédas. Dionysa mais mimosa e mais guardada de seu pae que bicho de +seda, moça sem fel como pombinha, que nos annos não tinha feito inda o +enequim; mais formosa que huma manhãa do S. João, mais mansa que o Rio +Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso, mais delicada que hum +pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua conversação se +poderá soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a parricida, +com tanto que dissesse o pregão o porque; porque vos não fieis em +castanhas (não sei se diga, se o cale, que de magoado me trava pola +manga a falla da garganta; mas, com tudo, não ha quem se tenha) seu pae +a achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo que +perdêra, que do que alli perdia: eu, coitado de mi, que meta os dentes +nos cabeçaes se desejar ave de penna. + + +SCENA IV. + +_Duriano e o Monteiro._ + +DURIANO, _como cantando_. + +Ti ri ri, ti ri rão. + +MONTEIRO. + +Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos são esses? Onde he cá a ida +agora? + +DURIANO. + +Vou assi como parvo, porque o melhor he não saber homem nada de si. + +MONTEIRO. + +Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo +que ficou só em casa? + +DURIANO. + +Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se não he isso +caso para sahir com elle a desafio. + +MONTEIRO. + +Porque? + +DURIANO. + +Porque não basta que lhe dê a Fortuna gostos tão medidos sôbre o funil, +que lhe põe nos braços Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou +cabellos ao vento, senão ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe +vem a descobrir, que he filho de não sei quem, nem quem não. + +MONTEIRO. + +Esses são outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja +sôbre isso não sei que fábulas. + +DURIANO. + +Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que não he menos que Principe, e peor ainda. +Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor Dom Lusidardo que aggravado +del Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca? + +MONTEIRO. + +Tudo isso ouvi ja. + +DURIANO. + +Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que ElRei de Dinamarca +lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moça; e como +era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher +abalão, desejou ella de ver geração delle; senão quando, livre-nos Deos! +se lhe começou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos não se +desistem em nove dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle então +necessario acolher-se com ella, porque não colhessem a ella com elle: +acolheu-se em huma galé; e vêde la Princeza em huma galera nueva, con el +marinero á ser marinera. Finalmente, vindo navegando todo esse Oceano +Germanico, bancos de Frandes, mar d'Inglaterra, e trazidos á costa +d'Hespanha, não os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella +buscavão: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a +galé á costa, onde feita pedaços, morrêrão todos desastradamente, sem +escapar mais que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece +que a Fortuna guardava para dar o descanso, que a seu pae e mãe negára. +Sahio finalmente a moça na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria +huma Princeza mais delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher +pola terra estranha e despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde, +despois de ter perdido toda a esperança de ter algum remedio, derão-lhe +as dores de parto junto de huma fonte, aonde em breve espaço lançou duas +crianças, macho e femia, como vizagras. E como a fraca compreição da +delicada mulher não pudesse sustentar tantos e tão desacostumados +trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia que desejava de dar, +deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae, que por causa +de seus nascimentos a vida lhe tirárão, como acontece a viboras. E como +as crianças fossem destinadas ao que vêdes, não faltou hum pastor que as +criasse, que alli veio ter, dando a mãe a alma a Deos: de maneira que, +por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e a femia +he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro. + +MONTEIRO. + +Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo +namorar a filha do Senhor que serve: não haverá logo por mal o Senhor +Dom Lusidardo tomar por genro e nora, quem acha por sobrinhos. + +DURIANO. + +Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se +parece natural com seu irmão, e Florimena com sua mãe. + +MONTEIRO. + +Dae-me a entender, como se creo tão de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de +quem isso contou. + +DURIANO. + +No caso não ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou +todo o caso; e fez ao pastor muitas mercês, e mandou fazer muitas festas +solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o +mesmo parentesco tee com a Senhora Dionysa, estão fóra de crer tamanho +contentamento; cuido que zombão delle. + +MONTEIRO. + +Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu +matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo: +dissimulemos. + + +SCENA V. + +_Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela mão, e Filodemo a +Dionysa._ + +LUSIDARDO. + + Quem não ficará pasmado + De ver que por tal caminho + Tee a Ventura ordenado + Filodemo, meu criado, + Vir ser meu genro e sobrinho! + Quem não pasmará agora + De ver a ventura minha, + Que tee tornado n'hum'hora + Florimena, huma pastora, + Ser minha nora e sobrinha! + Dem-se graças ao Senhor, + Cujo segredo he profundo; + Pois que vemos que quiz dar + A ventura e o amor + Por prazeres deste mundo. + + * * * * * + + + + +CARTAS. + + + + +CARTAS. + + +CARTA I. + +Desejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito desejar a não vi; +porque este he o mais certo costume da Fortuna, consentir que mais se +deseje o que mais presto ha de negar. Mas porque outras naos me não +fação tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar que vos não lembro, +determinei de vos obrigar agora com esta; na qual pouco mais ou menos +vereis o que quero que me escrevais dessa terra. Em pago do qual, d'ante +mão vos pago com novas desta, que não serão más no fundo de huma arca +para aviso de alguns aventureiros, que cuidão que todo o mato he +ouregãos, e não sabem que cá e lá más fadas ha. + +Despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo, +mandei enforcar a quantas esperanças dera de comer até então, com pregão +público: _Por falsificadoras de moeda_. E desenganei esses pensamentos, +que por casa trazia, porque em mim não ficasse pedra sobre pedra. E assi +posto em estado, que me não via senão por entre lusco e fusco, as +derradeiras palavras que na nao disse, forão as de Scipião Africano: +_Ingrata patria, non possidebis ossa mea_. Porque quando cuido, que sem +peccado que me obrigasse a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de +más linguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas de pura inveja, +de verem _su amada yedra de sí arrancada, y en otro muro asida_.... Da +qual tambem amizades mais brandas que cera, se accendião em odios que +disparavão lume que me deitava mais pingos na fama, que nos couros de +hum leitão. Então ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude +de Achilles, que não podia ser cortado senão pelas solas dos pés; as +quaes de mas não verem nunca, me fez ver as de muitos, e não engeitar +conversações da mesma impressão, a quem fracos punhão mao nome, vingando +com a lingua o que não podião com o braço. Emfim, Senhor, eu não sei com +que me pague saber tão bem fugir a quantos laços nessa terra me armavão +os acontecimentos, como com me vir para esta, onde vivo mais venerado +que os touros de Merceana, e mais quieto que a cella de hum Frade +Prégador. Da terra vos sei dizer que he mãe de villões ruins, e madrasta +de homens honrados. Porque os que se cá lanção a buscar dinheiro, sempre +se sustentão sobre ágoa como bexigas; mas os que sua opinião deita á las +armas Mouriscote, como maré corpos mortos á praia, sabei que antes que +amadureção, se seccão. Ja estes que tomavão esta opinião de valentes ás +costas, crede que nunca riberas de Duero arriba cavalgaron Zamoranos, +que roncas de tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem ao +effeito da obra, salvão-se com dizer que se não podem fazer tamanhas +duas cousas, como he, prometter e dar. Informado disto veio a esta terra +João Toscano, que, como se achava em algum magusto de rufiões, +verdadeiramente que alli era su comer las carnes crudas, su beber la +viva sangre. Callisto de Siqueira se veio cá mais humanamente, porque +assi o prometteo em huma tormenta grande em que se vio. Mas hum Manoel +Serrão, que, _sicut et nos_, manqueja de hum olho, se tee cá provado +arrezoadamente, porque fui tomado por juiz de certas palavras, de que +elle fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de sua pessoa era +cá tido em boa conta. Se das damas da terra quereis novas, as quaes são +obrigatorias a huma carta, como marinheiros á festa de S. Frei Pero +Gonçalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de maduras, que não ha +cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quizerem lançar pedaço. Pois as que +a terra dá? além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe falleis alguns +amores de Petrarca, ou de Boscão; respondem-vos huma linguagem meada de +hervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança ágoa +na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgae, Senhor, o que sentirá +hum estomago costumado a resistir ás falsidades de hum rostinho de +tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho novo com ágoa, +vendo-se agora entre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como +não chorará las memorias de in illo tempore! Por amor de mi, que ás +mulheres dessa terra digais de minha parte que se querem absolutamente +ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis mezes de má vida +por esse mar, que eu as espero com procissão e palio, revestido em +pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe irão entregar as chaves da +cidade, e reconhecerão toda a obediencia, a que por sua muita idade são +ja obrigadas. Por agora não mais, senão que este Soneto[3] +que aqui vai, que fiz á morte de Dom Antonio de Noronha, vos mando em +sinal de quanto della me pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a +qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe, que me parece +melhor que quantas fiz. Tambem vo-la mandára para a mostrardes lá a +Miguel Dias, que pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver; +mas a occupação de escrever muitas cartas para o Reino, me não deo +lugar. Tambem lá escrevo a Luis de Lemos em resposta d'outra que vi sua: +se lha não derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual tudo se perde. + +Vale. + +[3] He o Soneto 12. + + * * * * * + + +CARTA II. + +Esta vai com a candeia na mão morrer nas de v. m.; e se dahi passar, +seja em cinza; porque não quero que do meu pouco comão muitos. E se +todavia quizer meter mais mãos na escudella, mande-lhe lavar o nome, e +valha sem cunhos. + + La mar en medio y tierras, he dejado + Á cuanto bien cuitado yo tenia: + Cuan vano imaginar, cuan claro engaño + Es darme yo á entender que con partirme + De mí se ha de partir un mal tamaño! + +Quão mal está no caso quem cuida que a mudança do lugar muda a dor do +sentimento! E senão, diga-o quien dijo que la ausencia causa olvido. +Porque emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes +cuidados jogão meus pensamentos á barreira, tendo-me ja, pelo costume, +tão contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo +uso dos annos se converte em natureza. Pois o que he para mor mal, tenho +eu para mor bem. Aindaque, para viver no mundo, me debruo d'outro panno, +por não parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum para ser outro, +sendo outro para ser hum; mas a dor dissimulada dara seu fruito; que a +tristeza no coração, he como a traça no panno. + + E por tão triste me tenho, + Que se sentisse alegria, + De triste não viviria. + Porque a tal sorte vim, + Que não vejo bem algum + Em quanto vejo, + Que não nasceo para mim; + E por não sentir nenhum, + Nenhum desejo. + +Porque cousas impossiveis, he melhor esquecê-las que deseja-las. E por isso + + Só, tristeza, vos queria, + Pois minha ventura quer + Que só ella + Conheça por alegria; + E que se outra quizer, + Morra por ella. + +Pouco sabe da tristeza quem (sem remedio para ella) diz ao triste que se +alegre. Pois não vê que alheios contentamentos a hum coração +descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dóbrão o que padece. +Vós, se vem á mão, esperais de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de +bons propositos. Pois desenganae-vos, que desque professei tristeza, +nunca mais soube jogar a outro fito. E porque não digais, que não sou +gente fóra do meu bairro, vêdes, vai huma volta feita a este mote, que +escolhi na manada dos engeitados; e cuido que não he tão dedo queimado, +que não seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi: + + Não quero, não quero + Jubão amarello. + + Se de negro for, + Tão bem me parece, + Quanto me aborrece + Toda alegre côr: + Côr que mostra dor, + Quero, e não quero + Jubão amarello. + +Parece-vos que se póde dizer mais? Não me respondais: Quem gabará a +noiva? porque assentae, que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que +não he tão pequena habilidade. E porque vos não pareça, que foi mais +acertar, que querê-lo fazer; vêdes, vai outra do mesmo jaez, com tanto +que se não vá a pasmar. + + Perdigão perdeo a penna, + Não ha mal, que lhe não venha. + + Em hum mal outro começa, + Que nunca vem só nenhum; + E o triste que tee hum, + A soffrer outro se offreça; + E só pelo ter conheça, + Que basta hum só que tenha, + Para que outro lhe venha. + +Que graça será esperardes de mim propositos em cousa que os não tee +para comigo? Pois ainda que queira, não posso o que quero; que hum sentido +remontado, de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe succede assi; e cada +hum acode ao que lhe mais doe; e mais eu, que o que mais me entristece +he ter contentamento, pois fujo delle, que minha alma o aborrece, porque +lhe lembra que he virtude viver sem elle. Que ja sabeis que mágoa he, +vê-lo-has e não o paparás. Por fugir destes inconvenientes, + + Toda a cousa descontente + Contentar-me só convinha + De meu gôsto: + Que o mal, de que sou doente, + Sua mais certa mézinha + He desgôsto. + +Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que não podes haver, dá-o pola tua alma. O +mal sem remedio, o mais certo que tee, he fazer da necessidade virtude: +quanto mais, se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque, +emfim, allegados son iguales los que viven por sus manos etc. A este +proposito, pouco mais ou menos, se fizerão humas voltas a hum mote +d'enchemão, que diz por sua arte zombando, mais que não de siso (que +toda a galantaria he tirá-la donde se não espera), o qual crede que tee +mais que roer do que hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida, +e mande escumar o entendimento, que d'outra maneira, de fuera +dormiredes, pastorcico. E o meu Senhor diz assi: + + Dava-lhe o vento no chapeirão, + Quer lhe dê, quer não. + + Bem o póde revolver, + Que o vento não traz mais fruito; + E mais vento he sentir muito + O que, emfim, fim ha de ter. + O melhor, he melhor ser, + Que o vento no chapeirão, + Quer lhe dê, quer não. + +Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem do mal, que o mal do +bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado; e a morte até +matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque para tomar +a palha a esta materia, são necessarias azas de Nebri. Mas vós sois +homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mi vos +sei dar he: + + Que esperança me despede, + Tristeza não me fallece, + E tudo o mais me aborrece. + Ja que mais não mereceo + Minha estrella, + Só a tristeza conheço, + Pois que para mi nasceo, + E eu para ella. + +No mundo não tee boa sorte, senão quem tee por boa a que tee. E +daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhae de que maneira: + + Vivo assi ao revés, + Tomando por certa vida + Certa morte, + Com que fólgo em que me pês; + Pois minha sorte he servida + De tal sorte. + +Huma cousa sabei, que o mal, inda que ás vezes o vejais louvar, não ha +quem o louve com a boca, que o não tache com o coração. + + Ajuda-me a soffrer + Vida tão sem soffrimento, + E tão sem vida, + Ver que, emfim, fim hão de ter + Desgôsto e contentamento + Sem medida. + +Attentae que não são maos confeitos de enforcado, para os que estão com +o baraço na garganta, cuidar que o bem e o mal, aindaque sejão +differentes na vida, são conformes na morte; porque vemos + + Que não ha tão alta sorte, + Nem ventura tão subida, + Ou desastrada, + A quem o assópro da morte + Não sopre o fogo da vida. + + A seu fim todas cousas vão correndo; + Nem ha cousa, que o tempo não consuma, + Nem vida, que de si tanto presuma, + Que se não veja nada, em se vendo. + + Que o mais certo que temos, + He não termos nada certo + Cá na terra. + Pois para seus não nascemos; + Se o seu nos dá incerto, + Nada erra. + +Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se fez a hum certo +recontro que se teve com este destruidor de bons propositos, e não se +acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte: + + Forçou-me amor hum dia, que jogasse; + Deo as cartas, e az de ouros levantou; + E sem respeitar mão, logo triumphou, + Cuidando que o metal, que me enganasse. + + Dizendo, pois triumphou, que triumphasse + A huma sota de ouros, que jogou, + Eu então por burlar quem me burlou, + Tres paos joguei, e disse que ganhasse. + +Principes de condição, ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos +que a pobreza: fazem com sua fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias +de seus avós, onde não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma +hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim, para dar que fallar a +hum convento. Duas cousas não se soffrem sem discordia; companhia no +amar, mandar villão ruim sôbre cousa de seu interesse. Não se póde ter +paciencia com quem quer que lhe fação o que não faz. Desagradecimentos +de boas obras destruem a vontade para não fazê-las a amigo, que tee +mais conta com o interesse, que com a amizade: rezae delle, que he dos cá +nomeados. + +Grande trabalho he querer fazer alegre rosto, quando o coração está +triste: panno he, que não toma nunca bem esta tinta; que a lua recebe a +claridade do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá honra no que +dá: não tee que agradecer, quem, no que recebe, a não recebe; porque +bem comprado vai o que com ella se compra. Não se dá de graça o que se +pede muito. Estai certo, que quem não tee huma vida, tee muitas. Onde +a razão se governa pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que +louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto comsigo, como males de que +se não guardárão, podendo. Não ha alma sem corpo, que tantos corpos faça +sem almas, como este purgatorio, a que chamais honra: onde muitas vezes +os homens cuidão que a ganhão, ahi a perdem. Onde ha inveja, não ha +amizade; nem a póde haver em desigual conversação. Bem mereceo o engano, +quem creo mais o que lhe dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver +no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual, +perguntae-lhe donde vem: vereis que algo tiene en el cuerpo, que le +duele. Ora temperae-me lá esta gaita, que nem assi, nem assi achareis +meio real de descanso nesta vida; ella nos trata somente como alheios de +si, e com razão; + + Pois somente nos he dada + Para que ganhemos nella + O que sabemos. + Se se gasta mal gastada, + Juntamente com perdella + Nos perdemos. + +Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, he a mais +fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão breve he, + + Ponderemos e vejamos + Que ganhamos em viver + Os que nascemos: + Veremos, que não ganhamos, + Senão algum bem fazer, + Se o fazemos. + +E por isso respeitando, + + Que o por vir tal será, + Enthesouremos; + Porque ao certo não sabemos + Quando a morte pedirá + Que lhe paguemos. + +Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte: sendo +mais aborrecida que a verdade, tee-se em menos conta que a virtude. Mas +com tudo, com seu pensamento, quando lhe vem á vontade, acarreta mil +pensamentos vãos; que tudo para com ella he hum lume de palhas. Nenhuma +cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem na mor bonança, +como ella; porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras, +dando com os corpos á costa; e, se vem á mão, com as almas no inferno, +que he bem ruim gasalhado. + + E pois todos isto temos, + Não nos engane a riqueza, + Por que tanto esmorecemos, + Traz que vamos; + Ja que temos por certeza + Que quando mais a queremos, + A deixamos. + + Gastâmos em alcançá-la + A vida; e quando queremos + Usar della, + Nos tira a morte lográ-la: + Assi que a Deos perdemos, + E a ella. + +Porque ja ouvirieis dizer: _Ninho feito, pêga morta_. Que me dizeis ao +contentamento do mundo, que toda a dura delle está emquanto se alcança? +Porque acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque +acabado de alcançar, he passado; e maior saudade deixa, do que he o +contentamento que deo. Esperae, por me fazer mercê, que lhe quero dar +humas palavrinhas de proposito. + + Mundo, se te conhecemos, + Porque tanto desejamos + Teus enganos? + E se assi te queremos, + Mui sem causa nos queixamos + De teus danos. + + Tu não enganas ninguem; + Pois a quem te desejar, + Vemos que danas: + Se te querem qual te vem, + Se se querem enganar, + Ninguem enganas. + + Vejão-se os bens que tiverão + Os que mais em alcançar-te + Se esmerárão; + Que huns vivendo, não vivêrão, + E outros, só com deixar-te, + Descansárão. + + Se esta tão clara fé + Te põe claros teus enganos, + Desengana: + Sobejamente mal vê, + Quem com tantos desenganos + Se engana. + + Mas como tu sempre mores + No engano em que andamos, + E que vemos, + Não cremos o que tu podes, + Senão o que desejamos + E queremos. + + Nada te póde estimar + Quem bem quizer conhecer-te + E estimar-te; + + Qu'em te perder ou ganhar, + O mais seguro ganhar-te + He perder-te. + + E quem em ti determina + Descanso poder achar, + Saiba que erra; + Que sendo a alma divina, + Não a póde descansar + Nada da terra. + + Nascemos para morrer, + Morremos para ter vida, + Em ti morrendo: + O mais certo he merecer + Nós a vida conhecida, + Ca vivendo. + + Emfim, mundo, es estalagem, + Em que pousão nossas vidas + De corrida: + De ti levão de passagem + Ser bem ou mal recebidas + Na outra vida. + +Á fuera, á fuera Rodrigo, que eu se muito for por este caminho, darei em +enfadonho, de que me parece me não livrará, nem ainda privilegio de +Cidadão do Porto. E pois me vendo a vós, soffrei-me com meus encargos. E +porque não digais que sou herege de amor, e que lhe não sei orações, +vêdes, vai huma: _Di, Juan, de qué murió Blas?_ com hum pé á Portugueza, +e outro á Castelhana: e não vos espanteis da libré, que eu em qualquer +palmo desta materia perco o norte. E os supplicantes dizem assi: + + Di, Juan, de que murió Blas, + Tan niño y tan mal logrado? + Gil, murió de desamado. + + Dime, Juan, quien se engañó, + Que con amor se engañase, + Pensando que el bien hallase, + Adonde el mal cierto halló? + Despues que el engaño vió, + Que hizo desenganado? + Gil, murió de desamado. + + Travou com elle pendença, + Em ter razão confiado; + Mas Amor, como he letrado, + Houve contr'elle a sentença: + E co'aquella differença, + Disse entre si o coitado: + Gil, morreo de desamado. + + Quem tee razão tão cerrada, + Que não saiba, sendo rudo + E sem respeito, + Que sem Deos he tudo nada, + E nada com elle tudo + Sem defeito? + + E sendo isto assi tão certo, + Como todos confessamos + E sabemos; + Não troquemos pelo incerto + O em que tão certo estamos, + Pois o vemos. + +A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Phaeton, +porque del dicho al hecho, vá gran trecho. E de saber as cousas a passar +por ellas, ha mais differença, que de consolar a ser consolado. Mas assi +entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos a reprehendê-lo, e poucos a +emendá-lo. E com isto amaino, beijando essas poderosas mãos huma +quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa nosso Senhor etc. + + * * * * * + +_O seguinte fragmento de uma composição satyrica em prosa e verso, em +que Luis de Camões descreve uns jogos de canas, com que na cidade de Goa +se festejou a successão de Francisco Barreto no governo daquelle Estado, +appareceo na 3.ª edição das suas Rimas, com as duas antecedentes cartas, +e em seguimento da ultima. O intento do poeta he mostrar por meio das +divisas que tirárão os Justadores, que todos elles erão ou sacerdotes de +Baccho, ou parvos, ou homens perdidos._ + +.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa hum morcego; ave +em que foi convertida Alcithoe com as irmãas, por desprezarem os +sacrificios de Baccho. E como aquelle, que se em tal êrro cahisse, não +queria ser convertido em tão baixo animal e tão nojoso, dizia a sua +letra assi em Castelhano: + + Si yo desobedeciere + Á tu deidad santa y pura, + En al mudes mi figura. + +Alguns praguentos quizerão dizer que esta letra era maliciosa, e que não +queria dizer tanto desejar este galante de ser mudado em al, como que +desejava almudes deste licor. Mas he muito grande falsidade, que sendo a +letra assi feita, acaso acertou de sahir aquella palavra, com que +molhava as suas quem tirava a divisa. Do que o innocente Autor, despois +ficou para se enforcar. Mas outro galante, que de fino bebado ja passava +os limites do bom e costumado beber, tirou por divisa huma palmeira; +árvore, que entre os Antigos significava victoria; e ao pé della alguns +ramos de vides e de parreiras pizadas; e dizia a letra assi: + + Ficae vencidas, sem gloria, + Vós vides e vós parreiras; + Porque os ramos das palmeiras + São os que tee a victoria. + +Tambem aqui não faltárão praguentos, que quizerão dizer que este devoto, +deixando ja atraz Portugal, commettia com valeroso animo Orracas e +Fullas, tendo em pouco Caparicas e Seixaes. Mas quem ha que fuja de más +linguas, ou de mal costumadas gargantas? + +Outro galante, a quem fazia mal ao estomago beber o vinho agoado, tirou +por divisa huma peça de chamalote sem ágoas, que apresentava Baccho; e +dizia a letra, como por parte do mesmo Baccho: + + Sem ágoas, Senhor, levaio + Se for bom, + Que las aguas de Moncaio + Frias son. + +Aqui não tiverão praguentos que dizer, por ser opinião de physica, serem +melhores os mantimentos simples, que os compostos. + +Outro, que no beber lançava a barra inda mais além que os acima +escritos, tirou por divisa huma salamandra, passeando por cima de humas +brazas de fogo; e a letra dizia: + + En el fuego vivo yo. + +Mas o pintor errando as letras, acertou de pôr: _De fuego la bebo yo_. +Donde os praguentos quizerão adivinhar que este galante bebia Orraca de +fogo. O demonio foi fazer tal êrro, para delle sahir tamanho acêrto. + +Outro devoto, que desque estava quente, dizia dos companheiros, +quaesquer que fossem, o que de cada hum sabía, sem respeito, tirou por +divisa hum demoninhado, lançando os olhos em alvo, escumando e apontando +com o dedo para hum frasco de vinho; e dizia a letra: + + Se fallar demasiado, + Não mo tachem, porque, emfim, + Aquella alma falla em mim. + +Sendo atéqui introduzidos os religiosos de Baccho, pedírão dous d'outra +religião que tambem os deixassem jogar as canas, e que elles tirarião +tal divisa, com que se tirasse a limpo sua habilidade; e sendo entrados +ambos juntos, por certa conformidade que havia entre ambos, trouxerão +pintados nas bandeiras cada hum seu par de pombas; e dizia a letra: + + Se como vós ha hi par, + Vós o podereis julgar. + +Certo, que atéqui chegou a malicia dos homens, porque tão subtilmente +quizerão interpretar a innocencia desta letra, que tomárão a derradeira +syllaba da primeira regra, e ajuntárão-na com a primeira da derradeira, +que vem a dizer _parvos_; e disserão que juntos significavão isso +aquelles dous innocentes. Mal peccado! tão errada anda a maldade humana, +que logo tee por parvos aos que sabem pouco! + +Outro homem entrou tambem por adherencia nas canas, o qual dizem que +tinha partes maravilhosas; porque era tão perfeito em suas cousas, que o +seu comer havia de ser o melhor temperado e o mais suave do mundo; e os +seus vestidos erão sempre dos mais finos pannos e sitins, que se +podessem descobrir; e esta perfeição até nos amores e amizades se lhe +estendia, porque com os amigos sempre tinha subtilezas de conversação, e +com as amigas hum fingir que queria o que não queria. E, emfim, até no +jogar usava daquellas manhas todas, as que para ganhar erão necessarias. +E tinha mais hum revez da fortuna recebido, que se lhe estendia desde a +ponta do nariz até huma orelha. Este Senhor tirou por divisa huma camisa +toda lavrada de pontinhos, lavor antigo; e a letra dizia assi: + + Pontos de honrado e sisudo + Sempre na vida quiz ter; + Apontado no viver, + Apontado mais que tudo + Em meu vestir e comer. + Pontos subtis no meu gôsto, + Mais subtis no conversar: + Tanto me vim a apontar, + Que apontado trago o rosto, + E as cartas para jogar. + +Muitos outros homens illustres quizerão ser admittidos nestas festas e +canas, e que se fizera memoria delles, conforme suas qualidades; mas +infinita escritura fôra, segundo todos os homens da India são +assinalados; e por isto esses bastem para servirem de amostra do que ha +nos mais. + +FIM. + + + * * * * * + + + + +NOTAS. + + + + +NOTAS. + +Pag. 16. V. 17. _Não do sol, mas da candea._] Todas as ed.; mas he lição +viciosa, porque se a luz do sol não he sombra daquella idea, que em Deos +está mais perfeita, menos o será a da candea. Exclue o poeta uma e outra +destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto cá nos +seduz e encanta. Corrigimos portanto: + + *Não do sol, nem da candea.* + + +P. 67. V. 4. _De mim tão longe._] Todas as ed.; mas he êrro, porque o +poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e +pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si tão longe? Corrigimos: + + *De si tão longe.* + + +P. 123. V. 25. + + _Vós na minha gloria posto. + Eu na vossa sepultura._] + +Todas as ed. Mas he justamente o contrário: + + *Vós na vossa gloria posto, + Eu na minha sepultura.* + + +P. 124. V. 9. + + _Mas se esse rosto fingido + Quizereis representar, + Houvera por bom partido + Dar-lho a alma do sentido + Para a gloria do lugar._] + +Assim andão corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos: + + *Mas se esse rosto fingido + Quizerão representar, + E houverão por bom partido + Dar-vos a alma do sentido + Para a gloria do lugar: + Víreis etc.* + + +P. 148. V. 1. _Vai o bem fugindo etc._] Estas endeixas, que +evidentemente são do poeta, andão na 1.ª e 2.ª edição das Rimas; na 3.ª +aindaque apontadas no index, forão supprimidas por descuido: nós as +restituimos. + + +P. 164. V. 23. _E amor he effeito d'alma._] Todas as ed. Parece que deve +ser _affeito d'alma_. + + +P. 183. V. 7. _Sem saber do cuidado o que sentia._] Todas as ed.; mas he +êrro: corrigimos: + + *Sem saber de cuidado o que sentia;* + +isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia. + + +P. 185. V. 20. _Ao pé d'uma alta faia etc._] Esta que inadvertidamente +aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes edições, +propriamente não he senão uma Egloga, que se deve ajuntar ás mais. + + +P. 185. V. 24. _Tão queixoso d'Amor_] Faria e Sousa. He vicio: +corrigimos: _Mui queixoso d'Amor_. + + +P. 186. V. 8. _As roxas brancas Nymphas_] Faria e Sousa. He corrupção de +texto: corrigimos: + + *Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião,* + +porque se entende flores. + + +P. 188. V. 15. _Junto do rosmaninho, que he crescer_] Faria e Sousa. He +corrupção de texto: corrigimos: + + *Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.* + + +P. 191. V. 25. _Ai que me deras vida a morte dar-me_] Faria e Sousa. He +corrupção de texto: corrigimos: + + *Ai que me deras vida em morte dar-me.* + + +P. 197. V. 23. _E como debil flamma a quem fallece O radical humor de +que vivia_] Faria e Sousa. He corrupção de texto; porque o radical humor +só pode faltar as plantas: corrigimos: + + *E como debil flor etc.* + + +P. 215. V. 15. + + _Por qual, Senhor, algum eu me trocára. Ou por qual algum rei de + mais grandeza_] + +Faria e Sousa. Não julgamos correcto o dizer: _por qual algum_: devem +portanto estes versos ler-se como nas primeiras edições: + + *Por que Rei, por que duque eu me trocára, + Por que Senhor de grande fortaleza?* + + +P. 220. V. 30. + + _Se o successo he contrário da vontade As obras que são boas, e o + desvio_] + +Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos: + + *Se o successo he contrário da vontade + Nas obras que são boas, e ha desvio etc.* + + +P. 221. V. 41. _Quanto de infamia_] Faria e Sousa. Quãmanha infamia, 3.ª +ed. Esta ultima nos parece ser a lição do poeta. + + +P. 222. V. 29. _Populares a Pallas._] Todas as ed. He vicio de texto: +corrigimos: + + *Populares (ó Pallas) etc.* + + +P. 223. V. 17. _E pois que tudo em vos se permittio_] Faria e Sousa. _No +qual, pois tudo em vós etc._] 3.ª ed. Preferimos esta lição, que nos +parece ser a do poeta. + + +P. 224. V. 11. + + _O querido de Deos por quem peleja + O ar tambem, e o vento socegado, + Ao atambor acode, porque veja + Que quem a Deos ama, he de Deos amado_ + +Assim se lião estes quatro versos na 3.ª edição. Manoel de Faria corrigio: + + _Oh querido de Deos, por quem peleja + O ar tambem, e o vento socegado! + Ao tambor acode, porque veja + Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado._ + +Mas esta apostrophe, por elle introduzida, não tem aqui lugar; porque o +poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas +praias da Persia conseguia victoria daquellas nações tão remotas, as +settas, que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravão no +ar, pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravão; e continúa, +observando que o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o +vento conjurado em seu favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja +que o que a Deos ama, he delle amado e favorecido. Este he o sentido +natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo que estes versos erão imitação +dest'outros de Claudiano: + + _O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris + Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether, + Et conjurati veniunt ad classica venti._ + +julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e não accommodá-los +ao seu intento, metteo aqui esta exclamação forçada, sem nem ao menos +saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: _Yo dudo si esta +exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian._ E assim +estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Nós seguimos a +lição antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue +vicio de cópia, corrigimos: + + *O querido de Deos, por quem peleja, + O ar tambem e o vento socegado + Ao atambor lhe acodem, porque veja + Que o que a Deos ama, he de Deos amado.* + + +P. 225. V. 3. _Com louvores de Apollo celebrado._] Todas as ed.; mas +aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos: + + *Com louvores de Apollo, e celebrado.* + + +P. 228. V. 1. _Depois que a clara aurora a noite escura._] Esta glosa do +Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente não he +obra do poeta: por inadvertencia as conservámos nesta edição. + + +P. 257. L. 7. _Que são muito e valem pouco._] Todas as ed.; mas o que o +poeta quer dizer, he que um par de reales são cousa pouca, mas para um +escudeiro pobre valem muito. Corrigimos: + + *Que são pouco, e valem muito.* + + +P. 258. L. 17. _Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal._] Todas as +ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos: + + *Que tal dizem, que he?* + + +P. 259. L. 1. _E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como +Apostolo, mais piedosa que huma lamentação._] Todas as ed.; mas he +vicio: corrigimos: + + *Que vem podre de amor etc.* + + +P. 259. L. 8. _Olá, Senhores._] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos: + + *Olá, Senhoras.* + + +P. 286. V. 1. _Mas qué amo y cararon._] Lição vulgar. He grande estrago +de texto: corrigimos: + + *Mas qué amo y qué cabron!* + + +P. 369. V. 11. _Esperai, dir-vo-lo-ha._] Faria. He êrro: deve ler-se: + + *Dir-se-vos-ha.* + + +P. 370. V. 14. + + _Pois só desse encantador + Me quero vingar de ti._] + +Lição vulgar: he viciosa: corrigimos: + + *Pois so desse encantador + Me quero vingar em ti.* + + +P. 374. V. 48. _E se mal vos succedesse._] Lição vulgar: he êrro de +cópia ou de impressão: corrigimos: + + *E se mal nos succedesse.* + + +P. 386. L. 11. _O qual informado pelo pastor que a achára, (que era +homem sabio na arte magica) e como a criára._] Lição vulgar; mas a +oração esta imperfeita: corrigimos: *O qual informado pelo pastor etc.; +de como a achára e como a criára.* + + +P. 402. V. 17. _E levar-me a lenha o vento._] Lição vulgar: He viciosa, +porque falta a clausula da oração: corrigimos: + + *He levar-me a lenha o vento.* + + +P. 418. L. 5. _Pois não devia assi de ser posantos e vanselos._] Lição +vulgar. Estranha corrupção de texto: corrigimos: + + *Pois não devia assi de ser, polos Santos Evangelhos.* + + +P. 418. V. 6. _Que os amos e os cangrejos._] Lição vulgar. He viciosa: +corrigimos: + + *Que o amor e os cangrejos.* + + +P. 447. V. 16. + + _Que das montanhas erguidas + D'algum monte não sahisse._] + +Lição vulgar. Não he menos notavel esta corrupção: corrigimos: + + *Que das montanhas erguidas + Algum monstro não sahisse.* + + +P. 453. V. 20. _Se tanto amasse._] Lição vulgar; mas aqui ha vicio de +texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma +exprimir-se. Corrigimos: + + *Se eu tanto amasse.* + + +Pag. 467. V. 12. + + _Que quando por accidente + Da fortuna desastrado + Fosse apartado da gente + N'um lugar onde somente + Das feras fosse guardado: + E por ferro, fogo e ágoa + Buscar minha morte iria._] + +Lição vulgar. Mas a corrupção de texto não póde ser mais visivel. +Comtudo não difficil atinar-se com o sentido do poeta. + +Acaba de dizer Dionysa a Filodemo que tomára ver-se dalli cem mil +leguas, pelo perigo que corria a sua honestidade. Responde-lhe este, que +isso desejava tambem elle que succedesse; porque nesse caso teria +occasião de fazer por ella uma fineza, que fosse mais de agradecer; e +vem a ser, que quando ella por algum caso da fortuna fosse apartada da +gente n'um deserto onde não tivesse por guarda, senão as feras; por +ferro, fogo e ágoa lá iria elle buscar a sua morte. E porque não póde +ser outro o sentido do poeta, corrigimos: + + *Que quando por accidente + A fortuna desastrada + Vos apartasse da gente + N'um deserto, onde somente + Das feras fosseis guardada; + Lá por ferro, fogo e ágoa + Buscar minha morte iria etc.* + + +P. 475. L. 20. _Que estas cidras não se desistem em nove dias, senão em +nove mezes._] Lição vulgar. Não ha maior corrupção de texto. Que tem as +cidras que desistir? Que o poeta não disse um tal absurdo, he fóra de +toda a dúvida. O que elle disse foi isto: + +*E porque estes sirgos não se desistem em nove dias, senão em nove +mezes, foi-lhe a elle necessario acolher-se com ella etc.* + +Sirgo he o envolucro, onde se encerra o bicho da seda, quando passa ao +estado de metamorphose, e onde se conserva doze dias, ou nove, como diz +o poeta. Mas a ignorancia transformou sirgos em cidras. + + +P. 482. L. 7. Porque quando cuido que sem peccado que me obrigasse a +tres dias de purgatorio, passei tres mil de más linguas, peores tenções, +damnadas vontades, nascidas de pura inveja de verem _su amada yedra de +si arrancada, y en otro muro asida..._ Aqui ha lacuna porque falta o +verbo da oração. + + +P. 489. V. 28. + + _A quem não assopre a morte + Nem sopre o fogo da vida._] + +Lição vulgar; mas a do poeta he: + + *A quem o assôpro da morte + Não sopre o fogo da vida.* + + +P. 490. L. 26. _Tres cousas não se soffrem sem discordia; companhia, +namorar, mandar villão ruim sobre cousa de seu interesse._] Todas as ed. +Mas o vicio he palpavel: corrigimos: *Duas cousas não se soffrem sem +discordia; companhia no amar, mandar villão ruim sobre cousa de seu +interesse.* + + + + +INDEX. + + +REDONDILHAS &c. + + Pag. + + 100 A alma que está offrecida + 61 A dor que a minha alma sente + 113 A morte, pois que sou vosso + 71 Amor loco, amor loco + 57 Amor que todos offende + 63 Amores de huma casada + 66 Apartárão-se os meus olhos + 126 Aquella captiva + + 107 Campos bem-aventurados + 99 Catharina bem promette + 98 Cinco gallinhas e meia + 136 Coifa de beirame + 103 Com razão queixar-me posso + 76 Com vossos olhos, Gonçalves + 38 Conde, cujo illustre peito + 33 Corre sem vela e sem leme + 93 Crescem, Camilla, os abrolhos + + 53 Da doença em que ora ardeis + 62 D'alma e de quanto tiver + 28 Dama d'estranho primor + 56 De atormentado e perdido + 70 De dentro tengo mi mal + 65 De pequena tomei amor + 76 De que me serve fugir + 70 De vuestros ojos centellas + 54 Deo, Senhora, por sentença + 91 Deos te salve, Vasco amigo + 60 Descalça vai pela neve + 102 Descalça vai para a fonte + 143 Dó la mi ventura + + 63 Enforquei minha esperança + 80 Esconjuro-te, Domingas + 101 Esperei, ja não espero + 46 Este mundo es el camino + + 67 Falso cavalleiro ingrato + 101 Ferro, fogo, frio e calma + 125 Foi-se gastando a esperança + + 78 Ha hum bem que chega e foge + + 132 Irme quiero, madre + + 112 Ja não posso ser contente + 119 Justa fue mi perdicion + + 105 Mas porém a que cuidados + 140 Menina formosa + 52 Menina formosa e crua + 75 Menina, não sei dizer + 129 Menina dos olhos verdes + 118 Minh'alma, lembrae-vos della + + 86 Na fonte está Leonor + 57 Não estejais aggravada + 89 Não posso chegar ao cabo + 74 Não sei se m'engana Helena + + 104 Ojos, herido me habeis + 55 Olhae que dura sentença + 94 Olhos em que estão mil flores + 78 Olhos, não vos mereci + 79 Os bons vi sempre passar + + 69 Para que me dan tormento + 145 Pastora da serra + 43 Peço-vos que me digais + 83 Pequenos contentamentos + 84 Perdigão perdeo a penna + 80 Perguntais-me quem me mata + 85 Pois a tantas perdições + 73 Pois damno me faz olhar-vos + 72 Pois he mais vosso que meu + 92 Porqué no miras, Giraldo + 64 Puz o coração nos olhos + + 60 Qual terá culpa de nós + 77 Quando me quer enganar + 87 Que diabo ha tão damnado + 122 Qué veré que me contente + 103 Quem disser que a barca pende + 58 Quem no mundo quizer ser + 128 Quem ora soubesse + 94 Quem se confia em huns olhos + 21 Querendo escrever hum dia + + 123 Retrato, vós não sois meu + + 134 Saudade minha + 81 Se a alma ver-se não póde + 68 Se de meu mal me contento + 41 Se derivais da verdade + 137 Se Helena apartar + 83 Se me desta terra for + 128 Se me levão agoas + 45 Se n'alma e no pensamento + 35 Se não quereis padecer + 51 Se vossa Dama vos dá + 45 Sem olhos vi o mal claro + 117 Sem ventura he por demais + 116 Sem vós, e com meu cuidado + 59 Senhora, pois me chamais + 73 Senhora, pois minha vida + 40 Senhora, s'eu alcançasse + 95 Sois formosa e tudo tendes + 9 Sôbolos rios que vão + 30 Suspeitas, que me quereis + + 141 Tende-me mão nelle + 121 Todo es poco lo posible + 109 Trabalhos descansarião + 110 Triste vida se me ordena + 131 Trocae o cuidado + 118 Tudo póde huma affeição + 98 Tudo tendes singular + + 148 Vai o bem fugindo + 72 Vêde bem se nos meus dias + 115 Vejo-a n'alma pintada + 79 Venceo-me Amor, não o nego + 132 Ver e mais guardar + 138 Verdes são os campos + 139 Verdes são as hortas + 90 Vi chorar huns claros olhos + 135 Vida da minha alma + 68 Vós, Senhora, tudo tendes + 146 Vós sois huma Dama + 122 Vos teneis mi corazon + 88 Vossa Senhoria creia + 82 Vosso bem querer, Senhora + +SEXTINAS. + + 152 A culpa de meu mal só tem meus olhos + 151 Foge-me pouco a pouco a curta vida + 154 Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia + 155 Sempre me queixarei desta crueza + +ELEGIAS. + + 194 A vida me aborrece, a morte quero + 185 Ao pé d'hum'alta faia vi sentado + 160 Aquella que de amor descomedido + 175 Aquelle mover de olhos excellente + 190 Belisa, unico bem desta alma minha + 172 Depois que Magalhães teve tecida [4] + 177 Entre rusticas serras e fragosas + 208 Juizo extremo, horrifico e tremendo + 164 O poeta Simonides fallando + 157 O sulmonense Ovidio desterrado + 196 Que tristes novas, ou que novo damno [5] + 202 Se quando contemplamos as secretas + + [4] A D. Leoniz Pereira, havendo-lhe Pedro de Magalhães + Gandavo dedicado o seu livro intitulado: _Historia da + Provincia de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos + Brasil_. Impresso em Lisboa 1576. + + [5] Á morte de D. Miguel de Menezes na India, filho de D. + Henrique de Menezes, Governador da casa do Civil. Foi + dirigida a seu irmão D. Philipe de Menezes. + +EPISTOLAS. + + 217 Como nos vossos hombros tão constantes [6] + 223 Mui alto Rei a quem os ceos em sorte [7] + 210 Quem póde ser no mundo tão quieto [8] + 225 Senhora se encobrir por alguma arte + + [6] A D. Constantino de Bragança, Viso-Rei da India. + + [7] Sobre a setta que o Papa enviou a ElRei D. Sebastião + no anno de 1575. + + [8] A D. Antonio de Noronha, sôbre o desconcêrto do mundo. + +OITAVAS. + + 232 Cá nesta Babylonia adonde mana + 228 Despois que a clara Aurora a noite escura + 234 D'huma formosa virgem desposada + +COMEDIAS. + + 255 ElRei Seleuco + 301 Os Amphitriões + 385 Filodemo + +CARTAS. + + 481 Carta 1.ª + 484 Carta 2.ª + + 503 NOTAS + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões + Tomo III, by Luís Camões + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES *** + +***** This file should be named 37192-8.txt or 37192-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/7/1/9/37192/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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