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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:07:23 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III + +Author: Luís Camões + +Release Date: August 24, 2011 [EBook #37192] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +Notas de transcrição: + +O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro +impresso em 1843. + +Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns +pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, +e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos +inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em +particular quanto à acentuação. + + + * * * * * + + + + + + CLASSICOS PORTUGUEZES. + + TOMO II. + + CAMÕES. + + II. + + + +PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT, +Rua Racine, 28, junto ao Odeon. + + + +OBRAS COMPLETAS + +DE + +LUIS DE CAMÕES, + +CORRECTAS E EMENDADAS + +PELO CUIDADO E DILIGENCIA + +DE + +J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro. + + +TOMO TERCEIRO. + + +LISBOA. + +ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ, +NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY, +3, quai Malaquais, près le pont des Arts. + +1843 + + + + + * * * * * + +RIMAS. + + * * * * * + + +RIMAS. + + + + +REDONDILHAS. + + + Sôbolos rios que vão + Por Babylonia, me achei, + Onde sentado chorei + As lembranças de Sião, + E quanto nella passei. + Alli o rio corrente + De meus olhos foi manado; + E tudo bem comparado, + Babylonia ao mal presente, + Sião ao tempo passado. + + Alli lembranças contentes + N'alma se representárão; + E minhas cousas ausentes + Se fizerão tão presentes, + Como se nunca passárão. + Alli, despois d'acordado, + Co'o rosto banhado em ágoa, + Deste sonho imaginado, + Vi que todo o bem passado + Não he gôsto, mas he mágoa. + + E vi que todos os danos + Se causavão das mudanças, + E as mudanças dos anos; + Onde vi quantos enganos + Faz o tempo ás esperanças. + Alli vi o maior bem + Quão pouco espaço que dura; + O mal quão depressa vem; + E quão triste estado tem + Quem se fia da ventura. + + Vi aquillo que mais val + Qu'então s'entende melhor, + Quando mais perdido for: + Vi ao bem succeder mal, + E ao mal muito peor. + E vi com muito trabalho + Comprar arrependimento: + Vi nenhum contentamento; + E vejo-me a mi, qu'espalho + Tristes palavras ao vento. + + Bem são rios estas ágoas + Com que banho este papel: + Bem parece ser cruel + Variedade de mágoas, + E confusão de Babel. + Como homem, que por exemplo + Dos trances em que se achou, + Despois que a guerra deixou, + Pelas paredes do templo + Suas armas pendurou: + + Assi, despois qu'assentei + Que tudo o tempo gastava, + Da tristeza que tomei, + Nos salgueiros pendurei + Os orgãos com que cantava. + Aquelle instrumento ledo + Deixei da vida passada, + Dizendo: Musica amada, + Deixo-vos neste arvoredo + Á memoria consagrada. + + Frauta minha, que tangendo + Os montes fazieis vir + Par'onde estaveis, correndo; + E as ágoas, que hião descendo, + Tornavão logo a subir; + Jamais vos não ouvirão + Os tigres, que s'amansavão; + E as ovelhas, que pastavão, + Das hervas se fartarão, + Que por vos ouvir deixavão. + + Ja não fareis docemente + Em rosas tornar abrolhos + Na ribeira florecente; + Nem poreis freio á corrente, + E mais se for dos meus olhos. + Não movereis a espessura, + Nem podereis ja trazer + Atraz vós a fonte pura; + Pois não pudestes mover + Desconcertos da ventura. + + Ficareis offerecida + Á Fama, que sempre vela, + Frauta de mi tão querida; + Porque mudando-se a vida, + Se mudão os gostos della. + Acha a tenra mocidade + Prazeres accommodados; + E logo a maior idade + Ja sente por pouquidade + Aquelles gostos passados. + + Hum gôsto, que hoje s'alcança, + Á manhãa ja o não vejo: + Assi nos traz a mudança + D'esperança em esperança, + E de desejo em desejo. + Mas em vida tão escassa + Qu'esperança será forte? + Fraqueza da humana sorte, + Que quanto da vida passa + Está recitando a morte! + + Mas deixar nesta espessura + O canto da mocidade: + Não cuide a gente futura + Que será obra da idade + O que he fôrça da ventura. + Qu'idade, tempo, e espanto + De ver quão ligeiro passe, + Nunca em mi puderão tanto, + Que, postoque deixo o canto, + A causa delle deixasse. + + Mas em tristezas e nojos, + Em gôsto e contentamento; + Por sol, por neve, por vento, + _Tendré presente á los ojos + Por quien muero tan contento._ + Orgãos e frauta deixava, + Despôjo meu tão querido, + No salgueiro que alli'stava, + Que para tropheo ficava + De quem me tinha vencido. + + Mas lembranças da affeição + Que alli captivo me tinha, + Me perguntárão então, + Qu'era da musica minha, + Que eu cantava em Sião? + Que foi daquelle cantar, + Das gentes tão celebrado? + Porque o deixava de usar, + Pois sempre ajuda a passar + Qualquer trabalho passado? + + Canta o caminhante ledo + No caminho trabalhoso + Por entre o espêsso arvoredo; + E de noite o temeroso + Cantando refreia o medo. + Canta o preso docemente, + Os duros grilhões tocando; + Canta o segador contente; + E o trabalhador, cantando, + O trabalho menos sente. + + Eu qu'estas cousas senti + N'alma de mágoas tão cheia, + Como dirá, respondi, + Quem alheio está de si + Doce canto em terra alheia? + Como poderá cantar + Quem em chôro banha o peito? + Porque, se quem trabalhar + Canta por menos cansar, + Eu só descansos engeito. + + Que não parece razão, + Nem sería cousa idonia, + Por abrandar a paixão + Que cantasse em Babylonia + As cantigas de Sião. + Que quando a muita graveza + De saudade quebrante + Esta vital fortaleza, + Antes morra de tristeza, + Que por abrandá-la cante. + + Que se o fino pensamento + Só na tristeza consiste, + Não tenho medo ao tormento: + Que morrer de puro triste, + Que maior contentamento? + Nem na frauta cantarei + O que passo, e passei ja, + Nem menos o escreverei; + Porque a penna cansará, + E eu não descansarei. + + Que se vida tão pequena + S'accrescenta em terra estranha; + E se Amor assi o ordena, + Razão he que canse a penna + D'escrever pena tamanha. + Porém, se para assentar + O que sente o coração, + A penna ja me cansar, + Não canse para voar + A memoria em Sião. + + Terra bem-aventurada, + Se por algum movimento + D'alma me fores tirada, + Minha penna seja dada + A perpétuo esquecimento. + A pena deste destêrro, + Qu'eu mais desejo esculpida + Em pedra, ou em duro ferro, + Essa nunca seja ouvida, + Em castigo de meu êrro. + + E se eu cantar quizer + Em Babylonia sujeito, + Hierusalem, sem te ver, + A voz, quando a mover, + Se me congele no peito; + A minha lingua se apegue + Ás fauces, pois te perdi, + S'em quanto viver assi + Houver tempo, em que te negue, + Ou que m'esqueça de ti. + + Mas ó tu, terra de glória. + S'eu nunca vi tua essencia, + Como me lembras na ausencia? + Não me lembras na memoria, + Senão na reminiscencia: + Que a alma he taboa rasa, + Que com a escrita doutrina + Celeste tanto imagina, + Que vôa da propria casa, + E sobe á patria divina. + + Não he logo a saudade + Das terras onde nasceo + A carne, mas he do Ceo, + Daquella santa Cidade, + Donde est'alma descendeo. + E aquella humana figura, + Que cá me póde alterar, + Não he quem se ha de buscar; + He raio da formosura, + Que só se deve d'amar. + + Que os olhos, e a luz que ateia + O fogo que cá sujeita, + Não do sol, nem da candeia, + He sombra daquella ideia, + Qu'em Deos está mais perfeita. + E os que cá me captivárão, + São poderosos affeitos + Qu'os corações tẽe sujeitos; + Sophistas, que m'ensinárão + Maos caminhos por direitos. + + Destes o mando tyrano + M'obriga com desatino + A cantar ao som do dano + Cantares d'amor profano, + Por versos d'amor divino. + Mas eu, lustrado co'o santo + Raio, na terra de dor, + De confusões e d'espanto + Como hei de cantar o canto, + Que só se deve ao Senhor? + + Tanto póde o beneficio + Da graça que dá saude, + Que ordena que a vida mude: + E o qu'eu tomei por vício, + Me faz grao para a virtude; + E faz qu'este natural + Amor, que tanto se préza, + Suba da sombra ao real, + Da particular belleza + Para a belleza geral. + + Fique logo pendurada + A frauta com que tangi, + Ó Hierusalem sagrada, + E tome a lyra dourada + Para só cantar de ti; + Não captivo e ferrolhado + Na Babylonia infernal, + Mas dos vicios desatado, + E cá desta a ti levado, + Patria minha natural. + + E s'eu mais der a cerviz + A mundanos accidentes, + Duros, tyrannos e urgentes, + Risque-se quanto ja fiz + Do grão livro dos viventes. + E, tomando ja na mão + A lyra santa e capaz + D'outra mais alta invenção, + Calle-se esta confusão, + Cante-se a visão de paz. + + Ouça-me o pastor e o rei, + Retumbe este accento santo, + Mova-se no mundo espanto; + Que do que ja mal cantei + A palinodia ja canto. + A vós só me quero ir, + Senhor, e grão Capitão + Da alta tôrre de Sião, + Á qual não posso subir, + Se me vós não dais a mão. + + No grão dia singular, + Que na lyra em douto som + Hierusalem celebrar, + Lembrae-vos de castigar + Os ruins filhos de Edom. + Aquelles que tintos vão + No pobre sangue innocente, + Soberbos co'o poder vão, + Arrazá-los igualmente: + Conheção que humanos são. + + E aquelle poder tão duro + Dos affectos com que venho, + Qu'encendem alma e engenho; + Que ja m'entrárão o muro + Do livre arbitrio que tenho; + Estes, que tão furiosos + Gritando vem a escalar-me, + Maos espiritos damnosos, + Que querem como forçosos + Do alicerce derribar-me; + + Derribae-os, fiquem sós, + De fôrças fracos, imbelles; + Porque não podemos nós, + Nem com elles ir a vós, + Nem sem vós tirar-nos delles. + Não basta minha fraqueza + Para me dar defensão, + Se vós, santo Capitão, + Nesta minha Fortaleza + Não puzerdes guarnição. + + E tu, ó carne, qu'encantas, + Filha de Babel tão feia, + Toda de miseria cheia, + Que mil vezes te levantas + Contra quem te senhoreia; + Beato só póde ser + Quem co'a ajuda celeste + Contra ti prevalecer, + E te vier a fazer + O mal que lhe tu fizeste: + + Quem com disciplina crua + Se fere mais que huma vez; + Cuja alma, de vicios nua, + Faz nodas na carne sua, + Que ja a carne n'alma fez. + E beato quem tomar + Seus pensamentos recentes, + E em nascendo os affogar, + Por não virem a parar + Em vicios graves e urgentes: + + Quem com elles logo der + Na pedra do furor santo, + E batendo os desfizer + Na Pedra, que veio a ser + Emfim cabeça do canto: + Quem logo, quando imagina + Nos vicios da carne má, + Os pensamentos declina + Áquella Carne divina, + Que na Cruz esteve ja. + + Quem do vil contentamento + Cá deste mundo visibil, + Quanto ao homem for possibil, + Passar logo entendimento + Para o mundo intelligibil; + Alli achará alegria + Em tudo perfeita, e cheia + De tão suave harmonia, + Que nem por pouca recreia, + Nem por sobeja enfastia. + + Alli verá tão profundo + Mysterio na summa Alteza, + Que, vencida a natureza, + Os mores faustos do mundo + Julgue por maior baixeza. + Ó tu, divino aposento, + Minha patria singular, + Se só com te imaginar, + Tanto sobe o entendimento, + Que fara se em ti se achar? + + Ditoso quem se partir + Para ti, terra excellente, + Tão justo e tão penitente, + Que despois de a ti subir, + Lá descanse eternamente! + + * * * * * + + +CARTA A HUMA DAMA. + + Querendo escrever hum dia + O mal, que tanto estimei; + Cuidando no que poria, + Vi Amor que me dizia: + Escreve, qu'eu notarei. + E como para se ler + Não era historia pequena + A que de mi quiz fazer, + Das azas tirou a penna + Com que me fez escrever. + + E, logo como a tirou, + Me disse: Aviva os espritos; + Que pois em teu favor sou, + Esta penna, que te dou, + Fara voar teus escritos. + E dando-me a padecer + Tudo o que quiz que puzesse, + Pude emfim delle dizer, + Que me deo com qu'escrevesse + O que me deo a escrever. + + Eu qu'este engano entendi, + Disse-lhe: Qu'escreverei? + Respondeo, dizendo assi: + Altos effeitos de mi. + E daquella a quem te dei. + E ja que te manifesto + Todas minhas estranhezas, + Escreve, pois que te prézas, + Milagres d'hum claro gesto, + E de quem o vio, tristezas. + + Ah Senhora, em quem se apura + A fé de meu pensamento! + Escutae e estae a tento, + Que com vossa formosura + Iguala Amor meu tormento. + E, postoque tão remota + Estejais de m'escutar + Por me não remediar, + Ouvi, que pois Amor nota, + Milagres se hão de notar. + + Escrevem varios Authores, + Que junto da clara fonte + Do Ganges, os moradores + Vivem do cheiro das flores + Que nascem naquelle monte. + Se os sentidos podem dar + Mantimento ao viver, + Não he logo d'espantar, + S'estes vivem de cheirar, + Que viva eu só de vos ver. + + Huma árvore se conhece, + Que na geral alegria + Ella tanto s'entristece, + Que, como he noite, florece, + E perde as flores de dia. + Eu, qu'em ver-vos sinto o preço + Qu'em vossa vista consiste, + Em a vendo m'entristeço, + Porque sei que não mereço + A glória de ver-me triste. + + Hum Rei de grande poder + Com veneno foi criado, + Porque, sendo costumado, + Não lhe pudesse empecer, + Se despois lhe fosse dado. + Eu, que criei de pequena + A vista a quanto padece, + Desta sorte m'acontece, + Que não me faz mal a pena, + Senão quando me fallece. + + Quem da doença Real + De longe enfêrmo se sente, + Por segredo natural + Fica são vendo somente + Hum volatil animal. + Do mal, que Amor em mi cria, + Quando aquella Phenix vejo, + São de todo ficaria; + Mas fica-me hydropesia, + Que quanto mais, mais desejo. + + Da vibora he verdadeiro, + Se a consorte vai buscar, + Qu'em se querendo juntar, + Deixa a peçonha primeiro, + Porque lh'impede o gerar. + Assi quando m'apresento + Á vossa vista inhumana, + A peçonha do tormento + Deixo á parte, porque dana + Tamanho contentamento. + + Querendo Amor sustentar-se, + Fez huma vontade esquiva + D'huma estatua namorar-se: + Despois, por manifestar-se, + Converteo-a em mulher viva. + De quem m'irei eu queixando, + Ou quem direi que m'engana + Se vou seguindo e buscando + Huma imagem, que d'humana + Em pedra se vai tornando? + + D'huma fonte se sabía, + Da qual certo se provava + Que quem sôbre ella jurava, + Se falsidade dizia, + Dos olhos logo cegava. + Vós, que minha liberdade, + Senhora, tyrannizais, + Injustamente mandais, + Quando vos fallo verdade, + Que vos não possa ver mais. + + Da palma s'escreve e canta + Ser tão dura e tão forçosa, + Que pêzo não a quebranta, + Mas antes, de presunçosa, + Com elle mais se levanta. + Co'o pêzo do mal que dais, + A constancia qu'em mi vejo, + Não somente ma dobrais, + Mas dobra-se meu desejo, + Com qu'então vos quero mais. + + Se alguem os olhos quizer + Ás andorinhas quebrar, + Logo a mãe, sem se deter, + Huma herva lhe vai buscar + Que lhes faz outros nascer. + Eu que os olhos tenho attento + Nos vossos, qu'estrellas são, + Cegão-se os do entendimento, + Mas nascem-me os da razão + De folgar com meu tormento. + + Lá para onde o sol sahe, + Descobrimos, navegando, + Hum novo rio admirando, + Que o lenho que nelle cahe, + Em pedra se vai tornando. + Não s'espantem disto as gentes; + Mais razão será qu'espante + Hum coração tão possante, + Que com lagrimas ardentes + Se converte em diamante. + + Póde hum mudo nadador + Na linha e cana influir + Tão venenoso vigor, + Que faz mais não se bulir + O braço do pescador. + Se começão de beber + Deste veneno excellente + Meus olhos, sem se deter, + Não se sabem mais mover + A nada que se apresente. + + Isto são claros sinais + Do muito qu'em mi podeis: + Nem podeis desejar mais; + Que se ver-vos desejais, + Em mi claro vos vereis. + E quereis ver a que fim + Em mi tanto bem se pôs? + Porque quiz Amor assim, + Que por vos verdes a vós, + Tambem me visseis a mim. + + Dos males que m'ordenais, + Qu'inda tenho por pequenos, + Sabei, se mos escutais, + Que ja não sei dizer mais, + Nem vós podeis saber menos. + Mas ja que a tanto tormento + Não se acha quem resista, + Eu, Senhora, me contento + De terdes meu soffrimento + Por alvo de vossa vista. + + Quantos contrarios consente + Amor, por mais padecer! + Que aquella vista excellente, + Que me faz viver contente, + Me faça tão triste ser! + Mas dou este entendimento + Ao mal, que tanto m'offende, + Como na vela s'entende, + Que se se apaga co'o vento, + Co'o mesmo vento se accende. + + Exprimentou-se algum'hora + D'ave, que chamão Camão, + Que se da casa, onde mora, + Vê adúltera senhora, + Morre de pura paixão. + A dor he tão sem medida, + Que remedio lhe não val. + Mas oh ditoso animal, + Que póde perder a vida, + Quando vê tamanho mal! + + Nos gôstos de vos querer + Estava agora enlevado, + Se não fôra salteado + Das lembranças de temer + Ser por outrem desamado. + Estas suspeitas tão frias, + Com que o pensamento sonha, + São assi como as harpias, + Que as mais doces iguarias + Vão converter em peçonha. + + Faz-me este mal infinito + Não poder ja mais dizer, + Por não vir a corromper + Os gostos que tenho escrito, + Co'os males qu'hei d'escrever. + Não quero que s'apregôe + Mal tanto para encobrir, + Porque em quanto aqui s'ouvir + Nenhuma outra cousa sôe, + Que a glória de vos servir. + + * * * * * + + +Á MESMA. + + Dama d'estranho primor, + Se vos for + Pezada minha firmeza, + Olhae não me deis tristeza, + Porque a converto em amor. + E se cuidais + De me matar, quando usais + D'esquivança, + Irei tomar por vingança + Amar-vos cada vez mais. + + Porém vosso pensamento, + Como isento, + Seguirá sua tenção, + Crendo qu'em tanta affeição + Não haja accrescentamento. + Não creais + Que desta arte vos façais + Invencibil; + Que Amor sôbre o impossibil + Amostra que póde mais. + + Mas ja da tenção que sigo, + Me desdigo; + Que se ha tanto poder nelle, + Tambem vós podeis mais qu'elle + Neste mal que usais comigo. + Mas se for + O vosso poder maior + Entre nós, + Quem poderá mais que vós, + Se vós podeis mais que Amor? + + Despois que, Dama, vos vi, + Entendi, + Que perdêra Amor seu preço; + Pois o favor que lh'eu peço, + Vos pede elle para si. + Nem duvido + Que não póde, de sentido, + Resistir; + Pois em vez de vos ferir, + Ficou de vos ver ferido. + + Mas pois vossa vista he tal + Em meu mal, + Que posso de vós querer? + Que mal poderei valer, + Onde o mesmo Amor não val. + Se attentar, + Nenhum bem posso esperar: + E oxalá + Que vos alembrasse ja, + Sequer para me matar. + + Mas nem com isto creais + Que façais + Meus serviços mais pequenos; + Porqu'eu, quando espero menos, + Sabei qu'então quero mais. + Nada espero; + Mas de mi crede este fero, + Qu'em ser vosso, + Vos quero tudo o que posso, + E não posso quanto quero. + + Só por esta phantasia + Merecia + De meus males algum fruito; + E não era certo muito + Para o muito que queria. + De maneira, + Que não he, na derradeira, + Grande espanto, + Que quem, Dama, vos quer tanto, + Que outro tanto de vós queira. + + * * * * * + + +A HUMAS SUSPEITAS. + + Suspeitas, que me quereis? + Qu'eu vos quero dar lugar + Que de certas me mateis, + Se a causa, de que nasceis, + Vós quizesseis confessar. + Que de não lhe achar desculpa, + A grande mágoa passada + Me tẽe a alma tão cansada, + Que se me confessa a culpa, + Te-la-hei por desculpada. + + Ora vêde que perigos + Tẽe cercado o coração, + Que no meio da oppressão + A seus proprios inimigos + Vai pedir a defensão! + Que, suspeitas, eu bem sei, + Como se claro vos visse, + Que he certo o que ja cuidei; + Que nunca mal suspeitei, + Que certo me não sahisse. + + Mas queria esta certeza + Daquella que me atormenta; + Porque em tamanha estreiteza + Ver que disso se contenta, + He descanso da tristeza. + Porque se esta só verdade + Me confessa limpa e nua + De cautela e falsidade, + Não póde a minha vontade + Desconforme ser da sua. + + Por segredo namorado + He certo estar conhecido + Que o mal de ser engeitado + Mais atormenta sabido + Mil vezes, que suspeitado. + Mas eu só, em quem se ordena + Novo modo de querella, + De medo da dor pequena, + Venho a achar na maior pena + O refrigerio para ella. + + Ja nas iras m'inflammei, + Nas vinganças, nos furores, + Que ja doudo imaginei; + E ja mais doudo jurei + De arrancar d'alma os amores. + Ja determinei mudar-me + Para outra parte com ira; + Despois vim a concertar-me + Que era bom certificar-me + No que mostrava a mentira. + + Mas despois ja de cansadas + As furias do imaginar, + Vinha emfim a rebentar + Em lagrimas magoadas, + E bem para magoar. + E deixando-se vencer + Os meus fingidos enganos + De tão claros desenganos, + Não posso menos fazer, + Que contentar-me co'os danos. + + E pedir que me tirassem + Este mal de suspeitar + Que me vejo atormentar, + Indaque me confessassem + Quanto me póde matar. + Olhae bem se me trazeis, + Senhora, pôsto no fim; + Pois neste estado a que vim, + Para que vós confesseis, + Se dão os tratos a mim. + + Mas para que tudo possa + Amor, que tudo encaminha, + Tal justiça lhe convinha; + Porque da culpa, qu'he vossa, + Venha a ser a morte minha. + Justiça tão mal olhada + Olhae com que côr se doura, + Que quero, ao fim da jornada, + Que vós sejais confessada, + Para qu'eu seja o que moura! + + Pois confessae-vos jagora, + Indaque tenho temor + Que nem nesta última hora + Me ha de perdoar Amor + Vossos peccados, Senhora. + E assi vou desesperado, + Porque estes são os costumes + D'amor que he mal empregado; + Do qual vou ja condemnado + Ao inferno de ciumes. + + * * * * * + + +LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO.[1] + + Corre sem vela e sem leme + O tempo desordenado, + D'hum grande vento levado: + O que perigo não teme, + He de pouco exprimentado. + As redeas trazem na mão + Os que redeas não tiverão: + Vendo quanto mal fizerão + A cobiça e ambição, + Disfarçados se acolhêrão. + + A nao, que se vai perder, + Destrue mil esperanças: + Vejo o mao que vem a ter; + Vejo perigos correr + Quem não cuida que ha mudanças. + Os que nunca em sella andárão, + Na sella postos se vem: + De fazer mal não deixárão; + De demonio hábito tem + Os que o justo profanárão. + + Que poderá vir a ser + O mal nunca refreado? + Anda, por certo, enganado + Aquelle que quer valer, + Levando o caminho errado. + He para os bons confusão, + Ver que os maos prevalecêrão; + Que, pôsto se detiverão + Com esta simulação, + Sempre castigos tiverão: + + Não porque governe o leme + Em mar envolto e turbado, + Que tẽe seu rumo mudado, + Se perece grita e geme + Em tempo desordenado. + Terem justo galardão, + E dor dos que merecêrão, + Sempre castigos tiverão + Sem nenhuma redempção, + Postoque se detiverão. + + Na tormenta, se vier, + Desespere na bonança, + Quem manhas não sabe ter: + Sem que lhe valha gemer, + Verá falsar a balança. + Os que nunca trabalhárão, + Tendo o que lhe não convem, + Se ao innocente enganárão, + Perderão o eterno bem, + Se do mal não s'apartárão. + +[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não parece obra do poeta. +Nelle não fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria +passar-lhe um traço por cima: o que não ousamos fazer por andar em +todas as edições. + + _Nota dos editores._ + + * * * * * + + +CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS. + +_A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:_ + + Se não quereis padecer + Huma, ou duas horas tristes, + Sabeis que haveis de fazer? + Volveros por dó venistes, + Que aqui não ha que comer. + E, postoque aqui leais + Trovinha que vos enleia, + Corrido não estejais; + Porque por mais que corrais, + Não heis de alcançar a ceia. + +_A segunda a D. Francisco de Almeida._ + + Heliogabalo zombava + Das pessoas convidadas; + E de sorte as enganava, + Que as iguarias que dava, + Vinhão nos pratos pintadas. + Não temais tal travessura, + Pois ja não póde ser nova; + Porque a cêa está segura + De vos não vir em pintura; + Mas ha de vir toda em trova. + +_A terceira a Heitor da Silveira._ + + Cêa não a papareis: + Com tudo, porque não minta, + Para beber achareis, + Não Caparica, mas tinta, + E mil cousas que papeis. + E vós torceis o focinho + Com esta amphibologia? + Pois sabei que a Poesia + Vos dá aqui tinta por vinho, + E papéis por iguaria. + +_A quarta a João Lopes Leitão, a quem o Author fez huns versos, que vão +adiante, sôbre huma peça de cacha, que deo a huma Dama._ + + Porque os que vos convidárão + Vosso estomago não danem, + Por justa causa ordenárão, + Se trovas vos enganárão, + Que trovas vos desenganem. + Vós tereis isto por tacha, + Converter tudo em trovar; + Pois se me virdes zombar, + Não cuideis, Senhor, que he cacha, + Que aqui não ha que cachar. + +_Responde João Lopes._ + + Pezar ora não de são, + Eu juro pelo Ceo bento, + Se de comer não me dão, + Qu'eu não sou camaleão, + Que m'hei de manter do vento. + +_Responde o Author._ + + Senhor, não vos agasteis, + Porque Deos vos proverá; + E se mais saber quereis, + Nas costas deste lereis + As iguarias que ha. + +_Virado o papel, dizia assi:_ + + Tendes nem migalha assada; + Cousa nenhuma de môlho; + E nada feito em empada; + E vento de tigelada; + Picar no dente em remôlho: + De fumo tendes taçalhos; + Ave da pena que sente + Quem da fome anda doente; + Bocejar de vinho e d'alhos; + Manjar em branco excellente. + +_A derradeira a Francisco de Mello._ + + D'hum homem, que teve o scetro + Da vêa maravilhosa, + Não foi cousa duvidosa, + Que se lhe tornava em metro + O qu'hia a dizer em prosa. + De mi vos quero affirmar + Que faça cousas mais novas, + De quanto podeis cuidar; + E esta cêa, que he manjar, + Vos faça na boca em trovas. + + * * * * * + + +NA INDIA AO VISO-REI, COM O MOTE ADIANTE. + + Conde, cujo illustre peito + Merece nome de Rei, + Do qual muito certo sei + Que lhe fica sendo estreito + O cargo de Viso-Rei; + Servirdes-vos d'occupar-me + Tanto contra meu Planeta, + Não foi senão azas dar-me, + Com as quaes vou a queimar-me, + Como o faz a borboleta. + + E s'eu a penna tomar, + Que tão mal cortada tenho, + Será para celebrar + Vosso valor singular + Dino de mais alto engenho. + Que se o meu vos celebrasse, + Necessario me sería + Que os olhos d'aguia tomasse, + Só para que não cegasse + No sol de vossa valia. + + Vossos feitos sublimados + Nas armas, dignos de gloria, + São no mundo tão soados, + Qu'em vós de vossos passados + Se resuscita a memoria. + Pois aquelle ânimo estranho, + Prompto para todo effeito, + Espanta todo o conceito: + Como coração tamanho + Vos póde caber no peito? + + A clemencia, que asserena + Coração tão singular, + S'eu nisso puzesse a penna, + Sería encerrar o mar + Em cova muito pequena. + Bem basta, Senhor, que agora + Vos sirvais de me occupar; + Que assi fareis aparar + A penna, com que algum'hora + Vos vereis ao ceo voar. + + Assi vos irei louvando, + Vós a mi do chão erguendo, + Ambos o mundo espantando; + Vós com a espada cortando, + Eu com a penna escrevendo. + +_Mote que lhe mandou o Viso-Rei._ + + Muito sou meu inimigo, + Pois que não tiro de mi + Cuidados, com que nasci, + Que põe a vida em perigo. + Oxalá que fôra assi! + +_Volta._ + + Viver eu, sendo mortal, + De cuidados rodeado, + Parece meu natural; + Que a peçonha não faz mal + A quem foi nella criado. + Tanto sou meu inimigo, + Que por não tirar de mi + Cuidados, com que nasci, + Porei a vida em perigo. + Oxalá que fôra assi! + + Tanto vim a accrescentar + Cuidados, que nunca amansão + Em quanto a vida durar, + Que canso ja de cuidar + Como cuidados não cansão. + S'estes cuidados, que digo, + Dessem fim a mi e a si, + Farião pazes comigo; + Que pôr a vida em perigo, + O bom fôra para mi. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS OBRAS SUAS. + + Senhora, s'eu alcançasse + No tempo que ler quereis, + Que a dita dos meus papéis + Pola minha se trocasse; + E por ver + Tudo o que posso escrever + Em mais breve relação, + Indo eu onde elles vão, + Por mi só quizesseis ler; + + Despois de ver hum cuidado + Tão contente de seu mal, + Verieis o natural + Do que aqui vêdes pintado; + Que o perfeito + Amor, de que sou sogeito, + Vereis aspero e cruel, + Aqui com tinta e papel, + Em mi com sangue no peito. + + Que hum continuo imaginar + Naquillo que Amor ordena, + He pena, que emfim por penna + Se não póde declarar; + Que se eu levo + Dentro n'alma quanto devo + De trasladar em papéis, + Vêde que melhor lereis, + Se a mi, se aquillo qu'escrevo? + + * * * * * + + +A HUMA SENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO DE SITIM AMARELLO. + + Se derivais da verdade + Esta palavra _Sitim_, + Achareis sem falsidade, + Que apos o _si_ tẽe o _tim_, + Que tine em toda a Cidade. + Bem vejo que m'entendeis; + Mas porque não falle em vão, + Sabei que a esta Nação + Tanto que o _si_ concedeis, + O _tim_ logo está na mão. + + E quem da fama s'arreda, + Que tudo vai descobrir, + Deve sempre de fugir + De sitins, porque da seda + Seu natural he rugir. + Mas panno fino e delgado, + Qual a raxa e outros assi, + Dura, aquenta, e he callado, + Amoroso, e dá de si + Mais que _sitim_, nem brocado. + + Mas estes, que sedas são + Com quem s'enganão mil Damas, + Mais vos tomão, do que dão; + Promettem, mas não darão, + Senão nodoas para as famas. + E se não me quereis crer, + Ou tomais outro caminho, + Por exemplo o podeis ver, + Quando lá virdes arder + A casa d'algum vizinho. + + Oh feminina simpreza, + Donde estão culpas a pares, + Que por hum Dom de nobreza, + Deixão dões da natureza, + Mais altos e singulares! + Hum Dom, que anda enxertado + No nome, e nas obras não. + Fallo como exprimentado; + Que _sitim_ desta feição + Eu tenho muito cortado. + + Dizem-me qu'era amarello; + E quem assi o quiz dar, + Só para me Deos vingar, + Se vem á mão amarê-lo, + O qu'eu não posso cuidar. + Porque quem sabe viver + Por estas artes manhosas, + (Isto bem póde não ser) + Dá a meninas formosas, + Somente polas fazer. + + Quem vos isto diz, Senhora, + Servio nas vossas armadas + Muito, mas anda ja fóra; + E póde ser qu'inda agora + Traz abertas as fréchadas. + E, postoque desfavores + O tirão de servidor, + Quer-vos ventura melhor; + Que dos antigos amores + Inda lhe fica este amor. + + * * * * * + + +A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS. + + Peço-vos que me digais + As orações que rezastes, + Se são polos que matastes, + Se por vós que assi matais? + Se são por vós, são perdidas; + Que qual será a oração, + Que seja satisfação, + Senhora, de tantas vidas? + + Que se vêdes quantos vem + A só vida vos pedir, + Como vos ha Deos de ouvir, + Se vós não ouvis ninguem? + Não podeis ser perdoada + Com mãos a matar tão prontas, + Que se n'huma trazeis contas, + Na outra trazeis espada. + + Se dizeis que encommendando + Os que matastes andais; + Se rezais por quem matais, + Para que matais rezando? + Que se na fôrça do orar + Levantais as mãos aos Ceos, + Não as ergueis para Deos, + Erguei-las para matar. + + E quando os olhos cerrais, + Toda enlevada na fé, + Cerrão-se os de quem vos vê, + Para nunca verem mais. + Pois se assi forem tratados + Os que vos vem quando orais, + Essas horas que rezais, + São as horas dos finados. + + Pois logo, se sois servida + Que tantos mortos não sejão, + Não rezeis onde vos vejão, + Ou vêde para dar vida. + Ou se quereis escusar + Estes males que causastes, + Resuscitae quem matastes, + Não tereis por quem rezar. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNA. + + Se n'alma e no pensamento + Por vosso me manifesto, + Não me peza do que sento; + Que se não soffrer tormento, + Faço offensa a vosso gesto. + E, pois quanto Amor ordena, + E quanto est'alma deseja, + Tudo á morte me condena, + Não quero senão que seja + Tudo pena, pena, pena. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS. + + Sem olhos vi o mal claro, + Que dos olhos se seguio: + Pois cara sem olhos vio + Olhos, que lhe custão caro. + D'olhos não faço menção, + Pois quereis que olhos não sejão; + Vendo-vos, olhos sobejão, + Não vos vendo, olhos não são. + + * * * * * + + +DISPARATES NA INDIA. + + Este mundo es el camino + Adó hay ducientos váos, + Ou por onde bons e maos, + Todos somos del merino. + Mas os maos são de teor, + Que desque mudão a côr, + Chamão logo a ElRei compadre; + E emfim dejadlos, mi madre, + Que sempre tẽe hum sabor + De quem torto nasce, tarde s'endireita. + + Deixae a hum que se abone: + Diz logo de muito sengo, + Villas y castillos tengo, + Todos á mi mandar sone. + Então eu, qu'estou de môlho, + Com a lagrima no ôlho, + Polo virar do envés, + Digo-lhe: _tu ex illis es_, + E por isso não te ólho; + Pois honra e proveito não cabem n'hum saco. + + Vereis huns, que no seu seio + Cuidão que trazem París, + E querem com dous ceitís, + Fender anca pelo meio. + Vereis mancebindo de arte, + Com espada em talabarte: + Não ha mais Italiano. + A este direis: Meu mano, + Vós sois galante que farte; + Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido. + + Outros em cada theatro, + Por officio lhe ouvirês + Que se matarán con tres, + Y lo mismo haran con cuatro. + Prezão-se de dar respostas, + Com palavras bem compostas; + Mas se lhe meteis a mão, + Na paz mostrão coração, + Na guerra mostrão as costas; + Porque aqui torce a porca o rabo. + + Outros vejo por ahi, + A que se acha mal o fundo, + Que andão emendando o mundo, + E não se emendão a si. + Estes respondem a quem + Delles não entende bem + El dolor que está secreto; + Mas porém quem for discreto, + Responder-lhe-ha muito bem: + Assi entrou o mundo, assi ha de sahir. + + Achareis rafeiro velho, + Que se quer vender por galgo: + Diz que o dinheiro he fidalgo, + Que o sangue todo he vermelho. + Se elle mais alto o dissera, + Este pelote puzera: + Que o seu eco lhe responda; + Que su padre era de Ronda, + Y su madre de Antequera, + E quer cobrir o ceo co'huma joeira. + + Fraldas largas, grave aspeito, + Para Senador Romano. + Oh que grandissimo engano! + Que Momo lhe abrisse o peito! + Consciencia, que sobeja, + Siso, com que o mundo reja, + Mansidão outro que si; + Mas que lobo está em ti, + Metido em pelle de oveja! + E sabem-no poucos. + + Guardae-vos de huns meus Senhores, + Que ainda comprão e vendem; + Huns, qu'he certo, que descendem + Da geração de pastores: + Mostrão-se-vos bons amigos; + Mas se vos vem em perigos, + Escarrão-vos nas paredes; + Que de fóra dormiredes, + Irmão, que he tempo de figos; + Porque de rabo de porco nunca bom virote. + + Que direis d'huns, que as entranhas + Lh'estão ardendo em cobiça, + E se tẽe mando, a justiça + Fazem de teas de aranhas? + Com suas hypocrisias, + Que são de vossas espias: + Para os pequenos huns Neros, + Para os grandes tudo feros. + Pois tu, parvo, não sabías, + Que lá vão leis, onde querem cruzados? + + Mas tornando a huns enfadonhos, + Cujas cousas são notorias; + Huns, que contão mil histórias + Mais desmanchadas que sonhos; + Huns mais parvos que zamboas, + Qu'estudão palavras boas, + A que ignorancia os atiça: + Estes paguem por justiça, + Que tẽe morto mil pessoas, + Por vida de quanto quero. + + Adonde tienen las mentes + Huns secretos trovadores, + Que fazem cartas d'amores, + De que ficão mui contentes? + Não querem sahir á praça; + Trazem trova por negaça; + E se lha gabais, qu'he boa, + Diz qu'he de certa pessoa. + Ora que quereis que faça, + Senão ir-me por esse mundo? + + Ó tu, como me atarracas, + Escudeiro de Solia, + Com bocaes de fidalguia, + Trazido quasi com vacas; + Importuno a importunar, + Morto por desenterrar + Parentes, que cheirão ja! + Voto a tal, que me fara + Hum destes nunca fallar + Mais com viva alma. + + Huns, que fallão muito, vi, + De que quizera fugir; + Huns que, emfim, sem se sentir, + Andão fallando entre si; + Porfiosos sem razão; + E desque tomão a mão, + Fallão sem necessidade; + E se algum'hora he verdade, + Deve ser na confissão; + Porque quem não mente... Ja m'entendeis. + + Oh vós, quem quer que me lerdes, + Qu'haveis de ser avisado, + Que dizeis ao namorado + Que caça vento com redes? + Jura por vida da Dama; + Falla comsigo na cama; + Passêa de noite e escarra; + Por falsete na guitarra + Põe sempre: Viva que ama, + Porque calça a seu proposito. + + Mas deixemos, se quizerdes, + Por hum pouco as travessuras, + Porqu'entre quatro maduras + Leveis tambem cinco verdes. + Deitemos-nos mais ao mar; + E se algum se arrecear, + Passe tres ou quatro trovas. + E vós tomais côres novas? + Mas não he para espantar; + Que quem porcos ha menos, + Em cada mouta lhe roncão. + + Ó vós, que sois Secretarios + Das consciencias Reais, + E que entre os homens estais + Por Senhores ordinarios; + Porque não pondes hum freio + Ao roubar, que vai sem meio, + Debaixo de bom governo? + Pois hum pedaço de inferno + Por pouco dinheiro alheio + Se vende a Mouro e a Judeo. + + Porque a mente, affeiçoada + Sempre á Real dignidade, + Vos faz julgar por bondade + A malicia desculpada. + Move a presença Real + Huma affeição natural, + Que logo inclina ao Juiz + A seu favor: e não diz + Hum rifão muito geral, + Que o Abbade donde canta, dahi janta? + + E vós bailais a esse som: + Por isso, gentís pastores, + Vos chama a vós mercadores + Hum que só foi pastor bom. + + * * * * * + + +A JOÃO LOPES LEITÃO, SÔBRE HUMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU +A HUMA DAMA, QUE SE LHE FAZIA DONZELLA. + +_Mote._ + + Se vossa Dama vos dá + Tudo quanto vós quizestes, + Dizei-me: p'ra que lhe déstes + O que vos ella fez ja? + +_Volta._ + + Sendo os restos envidados, + E vós de cachas mil contos + Sabeis com quão poucos pontos, + Que lhos achastes quebrados; + Se o que tẽe, isso vos dá, + Vós mui bem lho merecestes, + Porque se a cacha lhe déstes + Tinha-vo-la feita ja. + + * * * * * + + +MOTE. + + Menina formosa e crua, + Bem sei eu + Quem deixará de ser seu, + Se vós quizereis ser sua. + +_Voltas._ + + Menina mais que na idade, + Se para me querer bem + Vos não vejo ter vontade, + He porque outrem vo-la tem; + Tẽe-vo-la, e faz-vo-la crua. + Porém eu + Ja tomára não ser meu, + Se vós não foreis tão sua. + + Nos olhos, e na feição + Vos vi, quando vos olhava, + Tanta graça, que vos dava + De graça este coração: + Não o quizestes de crua, + Por ser meu: + Se outrem vos dera o seu, + Póde ser foreis mais sua. + + Menina, tende maneira, + Que ainda não venha a ser, + Pois não quereis quem vos quer, + Que queirais quem vos não queira. + Olhae não me sejais crua, + Que pois eu + Quero ser vosso, e não meu, + Sêde vós minha, e não sua. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA DOENTE + +_Mote._ + + Da doença, em que ora ardeis, + Eu fôra vossa mézinha + Só com vós serdes a minha. + +_Voltas._ + + He muito para notar + Cura tão bem acertada, + Que podereis ser curada + Somente com me curar. + Se quereis, Dama, trocar, + Ambos temos a mézinha, + Eu a vossa, e vós a minha. + + Olhae, que não quer Amor, + (Porque fiquemos iguais) + Pois meu ardor não curais, + Que se cure vosso ardor. + Eu cá sinto vossa dor; + E se vós sentis a minha, + Dae e tomae a mézinha. + + * * * * * + + +OUTRO + + Deo, Senhora, por sentença + Amor, que fosseis doente, + Para fazerdes á gente + Doce e formosa a doença. + +_Voltas._ + + Não sabendo Amor curar, + Foi a doença fazer + Formosa para se ver, + Doce para se passar. + Então vendo a differença + Que ha de vós a toda a gente, + Mandou, que fôsseis doente, + Para glória da doença. + + E digo-vos de verdade, + Que a saude anda invejosa, + Por ver estar tão formosa + Em vós essa enfermidade. + Não façais logo detença, + Senhora, em estar doente, + Porque adoecerá a gente, + Com desejos da doença. + + Qu'eu por ter, formosa Dama, + A doença, qu'em vós vejo, + Vos confesso, que desejo + De cahir comvosco em cama. + Se consentis, que me vença + Deste mal, não houve gente + Da saude tão contente, + Como eu serei da doença. + + * * * * * + + +AO MESMO + + Olhae que dura sentença + Foi amor dar contra mi! + Que porqu'em vós me perdi, + Em vós me busque a doença. + Claro está, + Que em vós só me achará; + Qu'em mi, se me vem buscar, + Não poderá mais achar, + Que a fórma do que foi ja. + + Que s'em vós Amor se pôs, + Senhora, he forçado assi, + Que o mal, que me busca a mi, + Que vos faça mal a vós. + Sem mentir, + Amor me quiz destruir + Por modo nunca cuidado, + Pois ha de ser ja forçado + Pezar-vos de vos servir. + + Mas sois tão desconhecida, + E são meus males de sorte, + Que vos ameaça a morte, + Porque me negais a vida. + Se por boa + Tal justiça se pregoa; + Quando desta sorte for, + Havei vós perdão de Amor, + Que a parte ja vos perdoa. + + Mas o que mais temo, emfim, + He que nesta differença, + Que se não torne a doença, + Se me não tornais a mim. + De verdade, + Que ja vossa humanidade + De que se queixe não tem; + Pois para as almas tambem + Fez Amor enfermidade. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA VESTIDA DE DÓ. + +_Mote._ + + De atormentado e perdido, + Ja vos não peço, senão + Que tenhais no coração + O que tendes no vestido. + +_Volta._ + + Se de dó vestida andais + Por quem ja vida não tem + Porque não o haveis de quem + Vós tantas vezes matais? + Que brado sem ser ouvido, + E nunca vejo senão + Cruezas no coração, + E grande dó no vestido. + + * * * * * + + +A DONA GUIOMAR DE BLASFÉ, QUEIMANDO-SE COM HUMA VÉLA NO ROSTO. + +_Mote._ + + Amor, que todos offende, + Teve, Senhora, por gôsto, + Que sentisse o vosso rosto + O que nas almas accende. + +_Volta._ + + Aquelle rosto que traz + O mundo todo abrazado, + Se foi da flamma tocado, + Foi porque sinta o que faz. + Bem sei que Amor se vos rende; + Porém o seu presupposto + Foi sentir o vosso rosto + O que nas almas accende. + + * * * * * + + +A HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, QUE CHAMAVÃO QUARESMA. + +_Mote._ + + Não estejais aggravada, + Senão se for de vós mesma; + Porqu'a mulher, que he errada, + Com razão pela Quaresma + Deve ser disciplinada. + +_Voltas._ + + Quererdes profano amor + Em Quaresma, he consciencia: + Açoutes e penitencia + Vos está muito melhor. + Não fiqueis disto affrontada, + Pois a culpa he vossa mesma; + Que mulher, que he tão malvada, + He bem que pela Quaresma + Seja bem disciplinada. + + Se a penitencia vos val, + Mui bem açoutada estais; + Pois por Quaresma pagais + Vossos vicios do carnal. + Não torneis a ser errada, + Nem condemneis a vós mesma, + Pois estais ja emendada; + E não sereis por Quaresma + Outra vez disciplinada. + + * * * * * + + +A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, QUE LHE PROMETTEO. + + Quem no mundo quizer ser + Havido por singular, + Para mais s'engrandecer, + Ha de trazer sempre o dar + Nas ancas do prometter. + E ja que vossa mercê, + Largueza tẽe por divisa, + Como o mundo todo vê, + Ha mister que tanto dê, + Que venha a dar a camisa. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME FOÃ DOS ANJOS + +_Mote._ + + Senhora, pois me chamais + Tão sem razão tão mão nome, + Inda o diabo vos tome. + +_Voltas._ + + Quem quer que vio, ou que leo, + Terá por novo e moderno, + Ter quem vive no inferno, + O pensamento no ceo. + Mas se a vós vos pareceo, + Que m'estava bem tal nome, + Esse diabo vos tome. + + Perdido mais que ninguem + Confesso, Senhora, ser; + Mas o diabo não quer + Aos Anjos tamanho bem. + Pois logo não me convem, + Ou se me convem tal nome, + Será para que vos tome. + + Se vos benzeis com cautella, + Como de Anjo, e não de luz, + Mal póde fugir da Cruz, + Quem vós tendes pôsto nella. + Mas ja que foi minha estrella + Ser diabo, e ter tal nome, + Guardae-vos, que vos não tome. + + Ja que chegais tanto ao cabo, + Com as mãos, postas aos ceos + Vou sempre pedindo a Deos, + Que vos leve este diabo. + Eu, Senhora, não me gabo; + Mas pois que me dais tal nome, + Tomo-o, para que vos tome. + + * * * * * + + +A HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR. + +_Mote._ + + Qual terá culpa de nós + Neste mal, que todo he meu? + Quando vindes, não vou eu, + Quando vou, não vindes vós. + +_Volta._ + + Reinando Amor em dous peitos, + Tece tantas falsidades, + Que de conformes vontades + Faz desconformes effeitos. + Igualmente vive em nós; + Mas por desconcêrto seu + Vos leva, se venho eu, + Me leva, se vindes vós. + + * * * * * + + +MOTE SEU. + + Descalça vai pela neve: + Assi faz quem Amor serve. + +_Voltas._ + + Os privilegios, que os Reis + Não pódem dar, póde amor, + Que faz qualquer amador + Livre das humanas leis. + Mortes e guerras crueis, + Ferro, frio, fogo e neve, + Tudo soffre quem o serve. + + Moça formosa despreza + Todo o frio, e toda a dor. + Olhae quanto póde Amor + Mais que a propria natureza. + Medo, nem delicadeza + Lh'impede que passe a neve. + Assi faz quem Amor serve. + + Por mais trabalhos que leve, + A tudo se off'receria; + Passa pela neve fria, + Mais alva que a propria neve; + Com todo frio se atreve. + Vêde em que fogo ferve + O triste, que a Amor serve. + + * * * * * + + +OUTRO ALHEIO + + A dor que a minha alma sente, + Não na sabe toda a gente. + +_Voltas._ + + Qu'estranho caso de Amor! + Que desejado tormento! + Que venho a ser avarento + Das dores de minha dor! + Por me não tratar peor, + Se se sabe, ou se se sente, + Não na digo a toda a gente. + + Minha dor e causa della + De ninguem ouso fiar; + Que sería aventurar + A perder-me, ou a perdella. + E pois só com padecella, + A minha alma está contente, + Não quero que o saiba a gente. + + Ande no peito escondida, + Dentro n'alma sepultada; + De mi só seja chorada, + De ninguem seja sentida. + Ou me mate, ou me dê vida, + Ou viva triste ou contente, + Não ma saiba toda a gente. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + D'alma, e de quanto tiver, + Quero que me despojeis, + Com tanto, que me deixeis + Os olhos para vos ver. + +_Volta._ + + Cousa este corpo não tem, + Que ja não tenhais rendida: + Despois de tirar-lhe a vida, + Tirae-lhe a morte tambem. + Se mais tenho que perder, + Mais quero que me leveis, + Com tanto que me deixeis + Os olhos para vos ver. + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Amores de huma casada, + Que eu vi pelo meu mal. + +_Voltas._ + + N'huma casada fui pôr + Os olhos, de si senhores: + Cuidei que fossem amores, + Elles fizerão-se amor. + Faz-se o desejo maior + Donde o remedio não val, + Em perigo de meu mal. + + Não me paraceo que Amor + Pudesse tanto comigo, + Que donde entra por amigo, + Se levante por senhor. + Leva-me de dor em dor, + E de final em final, + Cada vez para mor mal. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + Enforquei minha esperança; + Mas Amor foi tão madraço, + Que lhe cortou o baraço. + +_Volta._ + + Foi a esperança julgada + Por sentença da Ventura, + Que pois me leve á pendura, + Que fosse dependurada: + Vem Cupido com a espada, + Corta-lhe cerce o baraço. + Cupido, foste madraço. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + Puz o coração nos olhos, + E os olhos puz no chão, + Por vingar o coração. + +_Volta._ + + O coração invejoso + Como dos olhos andava, + Sempre remoques me dava + Que não era o meu mimoso: + Venho eu de piedoso + Do Senhor meu coração, + E boto os olhos no chão. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + Puz meus olhos n'huma funda, + E fiz hum tiro com ella + Ás grades d'huma janella. + +_Volta._ + + Huma Dama, de malvada, + Tomou seus olhos na mão; + E tirou-me huma pedrada + Com elles ao coração. + Armei minha funda então, + E puz os meus olhos nella, + Trape, quebrei-lhe a janella. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + De pequena tomei amor, + Porque o não entendi; + Agora que o conheci, + Mata-me com desfavor. + +_Voltas._ + + Vi-o moço e pequenino, + E a mesma idade ensina + Que s'incline huma menina + Ás amostras d'hum menino: + Ouvi-lhe chamar Amor, + Pelo nome me venci; + Nunca tal engano vi, + Nem tamanho desamor. + + Cresceo-me de dia em dia + Com a idade a affeição, + Porque amor de criação, + N'alma, e na vida se cria. + Criou-se em mi este amor, + E senhoreou-se de mi: + Agora que o conheci, + Mata-me com desfavor. + + As flores me torna abrolhos, + A morte me determina + Quem eu trouxe de menina + Nas meninas de meus olhos. + Desta mágoa e desta dor + Tenho sabido que emfim + Por amor me perco a mim + Por quem de mi perde amor. + + Parece ser caso estranho + O que Amor em mi ordena, + Qu'em idade tão pequena + Haja tormento tamanho. + Sejão milagres d'Amor, + Hei-os de soffrer assi, + Até que haja dó de mi + Quem entender esta dor. + + * * * * * + + +CANTIGA VELHA. + + Apartárão-se os meus olhos + De mi tão longe. + Falsos amores, + Falsos, maos, enganadores. + +_Voltas._ + + Tratárão-me com cautella, + Por m'enganar mais asinha; + Dei-lhe posse d'alma minha, + Forão-me fugir com ella. + Não ha vê-los, nem ha vella, + De mi tão longe. + Falsos amores, + Falsos, maos, enganadores! + + Entreguei-lhe a liberdade, + E, emfim, da vida o melhor; + Forão-se; e do desamor + Fizerão necessidade. + Quem teve a sua vontade + De si tão longe? + Falsos amores, + E oxalá enganadores! + + * * * * * + + +OUTRA. + + Falso Cavalheiro, ingrato, + Enganais-me, + Vós dizeis, que eu vos mato, + E vós matais-me. + +_Voltas._ + + Costumadas artes são + Para enganar innocencias, + Piedosas apparencias + Sôbre isento coração. + Eu vos amo, e vós ingrato + Magoais-me, + Dizendo, que eu vos mato, + E vós matais-me. + + Vêde agora qual de nós + Anda mais perto do fim, + Que a justiça faz-se em mim, + E o pregão diz que sois vós. + Quando mais verdade trato + Levantais-me + Que vos desamo e vos mato, + E vós matais-me. + + * * * * * + + +PROPRIO. + + Se de meu mal me contento, + He porque para vós vejo + Em todo o mundo desejo, + E em ninguem merecimento. + +_Volta._ + + Para quem vos soube olhar + Tão impossivel foi ser + O poder-vos merecer, + Como o não vos desejar. + Pois logo a meu pensamento + Nenhum remedio lhe vejo, + Senão se der o desejo + Azas ao merecimento. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vós, Senhora, tudo tendes, + Senão que tendes os olhos verdes. + +_Voltas._ + + Dotou em vós natureza + O summo da perfeição; + Que o qu'em vós he senão, + He em outras gentileza: + O verde não se despreza, + Que, agora que vós os tendes, + São bellos os olhos verdes. + + Ouro e azul he a melhor + Côr, por que a gente se perde; + Mas a graça desse verde + Tira a graça a toda côr. + Fica agora sendo a flor + A côr, que nos olhos tendes, + Porque são vossos e verdes. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Para que me dan tormento, + Aprovechando tan poco? + Perdido, mas no tan loco, + Que descubra lo que siento. + +_Voltas._ + + Tiempo perdido es aquel + Que se passa en darme afan, + Pues cuanto más me lo dan, + Tanto menos siento dél. + Que descubra lo que siento? + No lo haré, que no es tan poco; + Que no puede ser tan loco + Quien tiene tal pensamiento. + + Sepan que me manda Amor, + Que de tan dulce querella, + A nadie dé parte della, + Porque la sienta mayor. + Es tan dulce mi tormento, + Que aun se me antoja poco; + Y si es mucho, quedo loco + De gusto de lo que siento. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + De vuestros ojos centellas, + Que encienden pechos de hielo, + Suben por el aire al cielo, + Y en llegando son estrellas. + +_Voltas._ + + Falsos loores os dan, + Que essas centellas tan raras + No son nel cielo mas claras + Que en los ojos donde estan. + Porque cuando miro en ellas + Lo como alumbran al suelo, + No sé que seran nel cielo; + Mas sé que acá son estrellas. + + Ni se puede presumir + Que al cielo suban, Señora; + Que la lumbre que en vós mora, + No tiene más que subir; + Mas pienso que dan querellas + Á Dios nel octavo cielo, + Porque son acá en el suelo + Dos tan hermosas estrellas. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + De dentro tengo mi mal, + Que de fuera no hay señal. + +_Volta._ + + Mi nueva y dulce querella + Es invisible á la gente; + El alma sola la siente, + Que el cuerpo no es dino della. + Como la viva centella + Se encubre en el pedernal, + De dentro tengo mi mal. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Amor loco, amor loco, + Yo por vós, y vós por otro. + +_Voltas._ + + Dióme Amor tormentos dós, + Para que pene doblado; + Uno es verme desamado, + Otro es mancilla de vós. + Ved que ordena Amor en nós! + Porque vós haceisme loco, + Que seais loca por otro. + + Tratais Amor de manera, + Que porque asi me tratais, + Quiere que, pues no me amais, + Que ameis otro que no os quiera. + Mas con todo, si no os viera + De todo loca por otro, + Con mas razon fuera loco. + + Y tan contrario viviendo, + Alfin, alfin, conformamos; + Pues ambos a dós buscamos + Lo que mas nos vá huyendo. + Voy tras vós siempre siguiendo, + Y vós huyendo por otro: + Andais loca, y me haceis loco. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vêde bem se nos meus dias + Os desgostos vi sobejos, + Pois tenho medo a desejos, + E quero mal a alegrias. + +_Volta._ + + Se desejos fui ja ter, + Servírão de atormentar-me; + Se algum bem póde alegrar-me, + Quiz-me antes entristecer. + Passei annos, passei dias + Em desgostos tão sobejos, + Que só por não ter desejos, + Perderei mil alegrias. + + * * * * * + + +PROPIO. + + Pois he mais vosso que meu, + Senhora, meu coração, + Eu vosso captivo são, + Meus olhos, lembre-vos eu. + +_Volta._ + + Lembre-vos minha tristeza, + Que jamais nunca me deixa; + Lembre-vos com quanta queixa + Se queixa minha firmeza: + Lembre-vos que não he meu + Este triste coração; + E pois ha tanta razão, + Meus olhos, lembre-vos eu. + + * * * * * + + +OUTRO. + + Senhora, pois minha vida + Tendes em vosso poder; + Por serdes della servida, + Não queirais que destruida + Possa ser. + +_Volta._ + + Isto não por me pezar + De morrer, se vós quizerdes; + Que melhor me he acabar + Mil vezes, que supportar + Os males que me fizerdes; + Mas só por serdes servida + De mi, em quanto viver, + Vos peço que minha vida + Não queirais que destruida + Possa ser. + + * * * * * + + +OUTRO. + + Pois damno me faz olhar-vos, + Não quero, por não perder-vos, + Que ninguem me veja ver-vos. + +_Voltas._ + + De ver-vos a não vos ver + Ha dous extremos mortaes; + E são elles em si taes, + Que hum por hum me faz morrer; + Mas antes quero escolher, + Que possa viver sem ver-vos, + Minh'alma, por não perder-vos. + + Deste tamanho perigo + Que remedio posso ter, + Se vivo só com vos ver, + Se vos não vejo, perigo? + Mas quero acabar comigo, + Que ninguem me veja ver-vos, + Senhora, por não perder-vos. + + * * * * * + + +A TRES DAMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVÃO. + +_Mote._ + + Não sei se m'engana Helena, + Se Maria, se Joanna; + Não sei qual dellas m'engana. + +_Voltas._ + + Huma diz que me quer bem, + Outra jura que me quer; + Mas em jura de mulher + Quem crerá, se ellas não crem? + Não posso não crer a Helena, + A Maria, nem Joanna; + Mas não sei qual mais m'engana. + + Huma faz-me juramentos + Que só meu amor estima, + A outra diz que se fina, + Joanna, que bebe os ventos. + Se cuido que mente Helena, + Tambem mentirá Joanna; + Mas quem mente não m'engana. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA MAL EMPREGADA. + +_Mote._ + + Menina, não sei dizer, + Vendo-vos tão acabada, + Quão triste estou por vos ver + Formosa e mal empregada. + +_Voltas._ + + Quem tão mal vos empregou, + Pouco de mi se dohia, + Pois não vio o quanto me hia + Em tirar-me o que tirou. + Obriga o primor que tem + Lindeza tão extremada + Que digão quantos a vem, + Formosa e mal empregada! + + Tomastes da formosura + Quanto della desejastes, + E com ella me guardastes + Para tão triste ventura. + Mataveis sendo solteira, + Matais agora em casada; + Matais de toda a maneira, + Formosa e mal empregada. + + * * * * * + + +A HUMA Foãa Gonçalves. + +_Mote._ + + Com vossos olhos, Gonçalves, + Senhora, captivo tendes + Este meu coração Mendes. + +_Volta._ + + Eu sou boa testimunha, + Que Amor tem por cousa má, + Que olhos, que são homens ja, + Se nomeiem sem alcunha; + Pois o coração apunha, + E diz, olhos, pois vós tendes, + Chamae-me coração Mendes. + + * * * * * + + +OUTRO + + De que me serve fugir + De morte, dor e perigo, + Se me eu levo comigo? + +_Voltas._ + + Tenho-me persuadido, + Por razão conveniente, + Que não posso ser contente, + Pois que pude ser nascido. + Anda sempre tão unido + O meu tormento comigo, + Qu'eu mesmo sou meu perigo. + + E se de mi me livrasse, + Nenhum gôsto me sería: + Quem, senão eu, não teria + Mal, que esse bem me tirasse? + Fôrça he logo que assi passe, + Ou com desgôsto comigo, + Ou sem gôsto e sem perigo. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS. + + Quando me quer enganar + A minha bella perjura, + Para mais me confirmar + O que quer certificar, + Polos seus olhos me jura. + Como meu contentamento + Todo se rege por elles, + Imagina o pensamento, + Que se faz aggravo a elles + Não crer tão grão juramento. + + Porém como em casos tais + Ando ja visto e corrente, + Sem outros certos sinais, + Quanto me ella jura mais, + Tanto mais cuido que mente. + Então vendo-lhe offender + Huns taes olhos como aquelles, + Deixo-me antes tudo crer, + Só pola não constranger + A jurar falso por elles. + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Ha hum bem, que chega e foge; + E chama-se este bem tal, + Ter bem para sentir mal. + +_Volta._ + + Quem viveo sempre n'hum ser, + Inda que seja em pobreza, + Não vio o bem da riqueza, + Nem o mal d'empobrecer: + Não ganhou para perder; + Mas ganhou com vida igual + Não ter bem, nem sentir mal. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO. + +_Mote._ + + Olhos, não vos mereci + Que tenhais tal condição, + Tão liberaes para o chão, + Tão irosos para mi. + +_Volta._ + + Baixos e honestos andais, + Por vos negardes a quem + Não quer mais que aquelle bem, + Que vós no chão espalhais? + Se pouco vos mereci, + Não m'estimeis mais que o chão, + A quem vós o galardão + Dais, e mo negais a mi. + + * * * * * + + +PROPRIO. + + Venceo-me Amor, não o nego; + Tẽe mais fôrça qu'eu assaz; + Que como he cego e rapaz, + Dá-me porrada de cego. + +_Volta._ + + Só porque he rapaz ruim, + Dei-lhe hum boféte zombando. + Diz-me: Ó mao, estais me dando, + Porque sois maior que mim? + Pois se eu vos descarrégo, + E em dizendo isto, chaz; + Torna-me outra; tá rapaz, + Que dás porrada de cego. + + * * * * * + + +AO DESCONCERTO DO MUNDO. + + Os bons vi sempre passar + No mundo graves tormentos; + E para mais m'espantar, + Os maos vi sempre nadar + Em mar de contentamentos. + Cuidando alcançar assi + O bem tão mal ordenado, + Fui mao; mas fui castigado. + Assi, que só para mi + Anda o mundo concertado. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA. + +_Mote._ + + Perguntais-me, quem me mata? + Não quero responder nada, + Por vos não fazer culpada. + +_Volta._ + + E se a penna não me atiça, + A dizer pena tão forte, + Quero-me entregar á morte, + Antes que a vós á justiça. + Porém se tendes cobiça + De vos verdes tão culpada, + Direi que não sinto nada. + + * * * * * + + +MOTE. + + Esconjuro-te, Domingas, + Pois me dás tanto cuidado, + Que me digas se te vingas, + Viverei menos penado. + +_Voltas._ + + Juravas-me, que outras cabras + Folgavas de apascentar; + Eu por não me magoar, + Fingia qu'erão palabras. + Agora d'arte te vingas + D'algum meu doudo peccado, + Qu'inda que queiras, Domingas, + Não posso ser enganado. + + Qualquer cousa busca o seu; + A fonte vai para o Tejo, + E tu para o teu desejo, + Por te vingares do meu. + De mi t'esqueces, Domingas, + Como eu faço do meu gado: + Praza a Deos, que se te vingas, + Que morra desesperado. + + Na phantasia te pinto, + Fallo-te, responde o monte, + Busco o rio, busco a fonte, + Endoudeço, e não o sinto: + Domingas no valle brado, + Responde o eco Domingas; + E tu inda te não vingas + De me ver doudo tornado! + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Se a alma ver-se não póde + Onde pensamentos ferem, + Que farei para me crerem? + +_Voltas._ + + Se n'alma huma só ferida + Faz na vida mil sinais, + Tanto se descobre mais, + Quanto he mais escondida. + S'esta dor tão conhecida + Me não vem, porque não querem, + Que farei para ma crerem? + + Se se pudesse bem ver + Quanto callo, e quanto sento, + Despois de tanto tormento + Cuidaria alegre ser. + Mas se não me querem crer + Olhos, que tão mal me ferem, + Que farei para me crerem? + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vosso bem querer, Senhora, + Vosso mal melhor me fôra. + +_Voltas._ + + Ja agora certo conheço + Ser melhor todo tormento, + Onde o arrependimento + Se compra por justo preço. + Enganou-me hum bom comêço; + Mas o fim me diz agora + Que o mal melhor me fôra. + + Quando hum bem he tão damnoso, + Que sendo bem, dá cuidado, + O damno fica obrigado + A ser menos perigoso. + Mas se a mi por desditoso, + Co'o bem me foi mal, Senhora, + Co'o vosso mal bem me fôra. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Se me desta terra for, + Eu vos levarei, amor. + +_Voltas._ + + Se me for, e vos deixar, + (Ponho por caso, que possa) + Est'alma minha, qu'he vossa, + Comvosco m'ha de ficar. + Assi que só por levar + A minha alma, se me for, + Vos levarei, meu amor. + + Que mal póde maltratar-me, + Que comvosco seja mal? + Ou que bem póde ser tal, + Que sem vós possa alegrar-me? + O mal não póde enojar-me, + O bem me será maior, + Se vos levar, meu amor. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Pequenos contentamentos, + Hi buscar quem contenteis, + Que a mi não me conheceis. + +_Voltas._ + + Os gostos, que tantas dores + Fizerão ja valer menos, + Não os acceita pequenos, + Quem nunca teve maiores: + Bem parecem vãos favores, + Pois tão tarde me quereis, + Qu'inda me não conheceis. + + Offereceis-me alegria, + Tendo-me ja cego e mouco: + He baixeza acceitar pouco, + Quem tanto vos merecia. + Ide-vos por outra via, + Pois o bem que me deveis, + Nunca mo satisfareis. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Perdigão perdeo a penna, + Não ha mal que lhe não venha. + +_Voltas._ + + Perdigão, que o pensamento + Subio a hum alto lugar, + Perde a penna do voar, + Ganha a pena do tormento: + Não tẽe no ar, nem no vento, + Azas com que se sostenha: + Não ha mal que lhe não venha. + + Quiz voar a huma alta torre, + Mas achou-se desasado; + E vendo-se despennado, + De puro penado morre. + Se a queixumes se soccorre, + Lança no fogo mais lenha: + Não ha mal que lhe não venha. + + * * * * * + + +A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA. + + Pois a tantas perdições, + Senhoras, quereis dar vida, + Ditosa seja a ferida, + Que tẽe taes Cirurgiões! + Pois ventura + Me subio a tanta altura, + Que me sejais valedoras, + Ditosa seja a tristura, + Que se cura + Por vossos rogos, Senhoras! + + Ser minha pena mortal, + Ja qu'entendeis, que he assi, + Não quero fallar por mi, + Que por mi falla meu mal. + Sois formosas, + Haveis de ser piedosas, + Por ser tudo d'huma côr; + Que pois Amor vos fez rosas + Milagrosas, + Fazei milagres de Amor. + + Pedi a quem vós sabeis, + Que saiba de meu trabalho, + Não pelo qu'eu nisso valho, + Mas pelo que vós valeis. + Que o valer + De vosso alto merecer, + Com lho pedir de giolhos, + Fara qu'em meu padecer + Possa ver + O poder que tẽe seus olhos. + + Vossa muita formosura + Com a sua tanto val, + Que me rio de meu mal, + Quando cuido em quem me cura. + A meus ais, + Peço-vos que lhe valhais, + Damas de Amor tão valídas, + Que nunca tal dor sintais, + Que queirais, + Onde não sejais queridas. + + * * * * * + + +CANTIGA ALHEIA. + + Na fonte está Leonor + Lavando a talha, e chorando, + Ás amigas perguntando: + Vistes lá o meu amor? + +_Voltas._ + + Pôsto o pensamento nelle, + Porque a tudo o Amor a obriga, + Cantava, mas a cantiga + Erão suspiros por elle. + Nisto estava Leonor + O seu desejo enganando, + Ás amigas perguntando: + Vistes lá o meu amor? + + O rosto sôbre hũa mão, + Os olhos no chão pregados, + Que de chorar ja cansados, + Algum descanso lhe dão; + Desta sorte Leonor + Suspende de quando em quando + Sua dor; e em si tornando, + Mais pezada sente a dor. + + Não deita dos olhos ágoa, + Que não quer que a dor s'abrande + Amor, porque em mágoa grande + Sécca as lagrimas a mágoa. + Despois que de seu amor + Soube novas perguntando, + D'improviso a vi chorando. + Olhae que extremos de dor! + + * * * * * + + +ESTAS TROVAS MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA +DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO D. +FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FÓRA, PEDINDO-LHE O +FIZESSE DESEMBARGAR. + + Que diabo ha tão damnado, + Que não tema a cutilada + Dos fios seccos da espada + Do fero Miguel armado? + Pois se tanto hum golpe seu + Sôa na infernal cadeia; + Do que o demonio arreceia + Como não fugirei eu? + + Com razão lhe fugiria, + Se contr'elle, e contra tudo + Não tivesse hum forte escudo + Só em Vossa Senhoria. + Por tanto, Senhor, proveja, + Pois me tẽe ao remo atado, + Que antes que seja embarcado, + Eu desembargado seja. + + * * * * * + + +ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, INVERNANDO EM GOA. + + Vossa Senhoria creia + Que não apura o engenho + Fome, se he como a que tenho, + Mas afraca e corta a veia. + E quem o contrário sente, + Está farto em toda a hora, + Como estou faminto agora: + Mas Martha, se está contente, + Dá-lhe pouco de quem chora. + + E pois Vossa Senhoria + Em geral a tudo acode, + Acuda a mi, que só póde + Dar-me no engenho valia. + Esperte esta Musa minha, + Que o tempo traz somnolenta; + Valha-lhe nesta tormenta + Com essa doce mézinha, + Que só dá vida e contenta. + + Acuda com provisão, + Não de papel, mas provída + D'ouro e prata; que esta vida + Não sustentão papéis, não. + De feitor a thesoureiro + Ser-me-hia trabalho grande; + Vossa Senhoria mande + Algum remedio, primeiro, + Com que a morte o ferro abrande. + +_Ajuda de Luis de Camões._ + + Nos livros doutos se trata + Que o grande Achilles insano + Deo a morte a Heitor Troiano; + Mas agora a fome mata + O nosso Heitor Lusitano. + Só ella o póde acabar, + Se essa vossa condição + Liberal e singular + Não mete entr'elles bastão, + Bastante para o fartar. + + * * * * * + + +A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO. + +_Esparsa._ + + Não posso chegar ao cabo + De tamanho desarranjo, + Que sendo vós, Senhora, Anjo, + Vos queira tanto o Diabo. + Dais manifesto sinal + De minha muita firmeza, + Que os diabos querem mal + Aos Anjos por natureza. + + * * * * * + + +CANTIGA. + + Vi chorar huns claros olhos, + Quando delles me partia. + Oh que mágoa! Oh que alegria! + +_Voltas._ + + Polo meu apartamento + Se arrazárão todos d'ágoa. + Quem cuidou qu'em tanta mágoa + Achasse contentamento? + Julgue todo entendimento + Qual mais sentir se devia, + Se esta dor, se esta alegria? + + Quando mais perdido estive, + Então deo a est'alma minha + Na maior mágoa que tinha, + O maior gôsto que tive. + Assi, se minha alma vive, + Foi porque me defendia + Desta dor esta alegria? + + O bem, que Amor me não deu + No tempo que desejei, + Quando delle me apartei, + Me confessou, qu'era meu. + Agora que farei eu, + Se a fortuna me desvia + De lograr esta alegria? + + Não sei se foi enganado, + Pois me tinha defendido + Das íras de mal querido, + No mal de ser apartado. + Agora peno dobrado, + Achando no fim do dia + O princípio da alegria. + + * * * * * + + +VILLANCETE PASTORIL. + + Deos te salve, Vasco amigo. + Não me fallas? Como assi? + Bofé, Gil, não 'stava aqui. + +_Voltas._ + + Pois onde te hão de fallar, + Se não 'stás onde appareces? + Se Magdanela conheces, + Nella me pódes achar. + E como te hão d'ir buscar + Aonde fogem de ti? + Pois nem eu estou em mi. + + Porque te não acharei + Em ti, como em Magdanela? + Porque me fui perder nella + O dia que me ganhei. + Quem tão bem falla, não sei + Como anda fóra de si. + Ella falla dentro em mi. + + Como estás aqui presente, + Se lá tens a alma e a vida? + Porqu'he d'hum'alma perdida + Apparecer sempre á gente. + Se es morto, bem se consente + Que todos fujão de ti. + Eu tambem fujo de mi. + + * * * * * + + +OUTRO PASTORIL. + + Porque no miras, Giraldo, + Mi zampoña como suena? + Porque no me mira Elena. + +_Voltas._ + + Vuelve acá, no estês pasmado, + Mira que gentil sonar! + Como te podrá mirar + Quien no puede ser mirado? + Y que bueno enamorado! + No dirás, si es mala, o buena? + No, que me hizo mudo Elena. + + Mira tan dulce armonía, + Déjate dessos enojos. + Tengo clavados los ojos + Con que mirar te podia. + Ansí Dios te dé alegría: + No vés cuan dulce que suena? + No, porque no veo Elena. + + * * * * * + + +OUTRO PASTORIL. + + Crescem, Camilla, os abrolhos + De chorares por Cincero: + Não he muito, que lhe quero, + Belisa, mais que meus olhos. + +_Voltas._ + + Sempre os teus olhos estão, + Camilla, d'ágoas banhados. + De se verem desamados + Póde ser que chorarão. + Si, mas crescem os abrolhos, + E tu cegas por Cincero. + S'eu não vejo quem mais quero, + Para que quero mais olhos? + + Se se foi ha mais d'hum mês, + Teus olhos não cansarão? + Não, que apos elle se vão + Estas lagrimas que vês. + Fazem logo estes abrolhos + O mato espinhoso e fero. + Pois eu não vejo a Cincero, + Isso só verão meus olhos. + + Chorando queres morrer? + Mais quero viver chorando. + Tu não vês que vás cegando? + Se cego, como hei de ver? + Põe na vista outros antolhos. + Não posso, nem menos quero. + Outra para outro Cincero, + Antes não quero ter olhos. + + * * * * * + + +A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES. + +_Mote._ + + Olhos, em qu'estão mil flores, + E com tanta graça olhais, + Que parece que os Amores + Morão onde vós morais. + +_Volta._ + + Vem-se rosas e boninas, + Olhos, nesse vosso ver; + Vem-se mil almas arder + No fogo dessas meninas. + E di-lo-hão minhas dores, + Meus suspiros e meus ais; + E dirão mais, que os amores + Morão onde vós morais. + + * * * * * + + +MOTE. + + Quem se confia em huns olhos, + Nas meninas delles vê + Que meninas não tẽe fé. + +_Voltas._ + + Quem põe suas confianças + Em meninas sem assento, + Offereça o soffrimento + A duzentas mil mudanças. + Mostrão no ar esperanças; + Mas em seus olhos se vê + Como não tẽe n'alma fé. + + Enganão ao parecer, + Porque no caso d'amar, + São mulheres no matar, + E meninas no querer. + Quem em seus olhos se crer, + Cem mil graças nelles vê; + Vê-las sim, mas não ter fé. + + Amostrão-vos n'hum momento + Favores assi a mólhos; + Mas na mudança dos olhos + Se lhe muda o pensamento. + Em nada ja tẽe assento, + E o que mais nelles se vê + He formosura sem fé. + + * * * * * + + +LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA. + +_Cantiga Velha._ + + Sois formosa, e tudo tendes, + Senão que tendes os olhos verdes, + +_Voltas._ + + Ninguem vos póde tirar + Serdes tão bem assombrada; + Mas heis-me de perdoar, + Que os olhos não valem nada. + Fostes mal aconselhada + Em querer que fossem verdes: + Trabalhae de os esconderdes. + + A vossa testa he jardim, + Onde Amor se desenfada; + He tão branca e bem talhada, + Que parece de marfim. + Assi he; e quanto a mim, + Isso vos nasce de a terdes + Tão perto dos olhos verdes. + + Os cabellos desatados + O mesmo sol escurecem; + Senão que por ser ondados, + Algum tanto desmerecem: + Mas á fé, que se parecem + A furto dos olhos verdes, + Não vos peze, não, de os terdes. + + As pestanas tẽe mostrado + Ser raios, que abrazão vidas: + Se não forão tão compridas, + Tudo o mais era pintado: + Ellas me tinhão levado + A alma, sem o vós saberdes, + Se não forão os olhos verdes. + + O mimo desse carão + Nem pôr-lhe os olhos consente: + O ser liso e transparente + Rouba todo o coração: + Inda assi achareis nação, + Que lhe não peze de os verdes; + Mas não seja co'os olhos verdes. + + Esse riso, que he compôsto + De quantas graças nascêrão, + Senão que alguns me disserão, + Vos faz covinhas no rôsto. + Na vontade tenho posto + Dar-vos a alma, se quizerdes, + A trôco dos olhos verdes. + + Nunca se vio, nem se escreve + Boca co'huma graça igual, + Se não fôra de coral, + E os dentes de côr de neve. + Dou-me eu a Deos, que me leve! + Soffrerei quanto tiverdes, + Não me tenhais olhos verdes. + + Essa garganta merece + Outras palavras não minhas, + Senão qu'he feita em rosquinhas + D'alfenim, ao que parece. + Eu sei bem quem se offerece + A tomar tudo o que tendes, + E tambem os olhos verdes. + + Essas mãos são ferropeas: + Só o vê-las enfeitiça; + Senão que são alvas, cheias, + E tẽe a feição roliça; + Com que appellais por justiça, + Para com ellas prenderdes + Quem vê vossos olhos verdes. + + A vossa galantaria + Matará a quem fallardes: + Tendes huns desdens e tardes, + Que eu logo vos roubaria. + Oh dou-me a Santa Maria! + Sou cujo de quanto tendes, + E tambem desses olhos verdes. + + * * * * * + + +AO MESMO. + + Tudo tendes singular, + Com que os corações rendeis, + Senão que rindo, fazeis + Covinhas para enterrar: + E para resuscitar + Tẽe força a graça que tendes; + Senão que tendes os olhos verdes. + + Tudo, Senhora, alcançais, + Quanto o ser formosa alcança, + Senão que dais esperança + Co'os olhos com que matais. + Se acaso os alevantais, + He para as almas renderdes; + Senão que tendes os olhos verdes. + + * * * * * + + +A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS +GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR +PRINCÍPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA. + + Cinco gallinhas e meia + Deve o Senhor de Cascais; + E a meia vinha cheia + De appetite para as mais. + + * * * * * + + +MOTE. + + Catharina bem promette; + Ora má! como ella mente! + +_Voltas._ + + Catharina he mais formosa + Para mi, que a luz do dia; + Mas mais formosa sería, + Se não fosse mentirosa. + Hoje a vejo piedosa, + Á manhãa tão differente, + Que sempre cuido que mente. + + Prometteo-me hontem de vir, + Nunca mais appareceo; + Creio que não prometteo, + Senão só por me mentir. + Faz-me, emfim, chorar e rir; + Rio, quando me promette, + Mas chóro quando me mente. + + Jurou-me aquella cadella + De vir, pela alma que tinha; + Enganou-me; tinha a minha; + Deo-lhe pouco de perdella. + A vida gasto apos ella, + Porque ma dá, se promette, + Mas tira-ma, quando mente. + + Má, mentirosa, malvada, + Dizei, porque me mentis? + Prometteis, e então fugis? + Pois sem tornar, tudo he nada. + Não sois bem aconselhada; + Que quem promette, se mente, + O que perde não o sente. + + Tudo vos consentiria + Quanto quizesseis fazer, + Se este vosso prometter + Fosse por me ter hum dia. + Todo então me desfaria + Com gôsto; e vós de contente, + Zombarieis de quem mente. + + Mas pois folgais de mentir, + Promettendo de me ver, + Eu vos deixo o prometter, + Deixae-me vós o servir: + Haveis então de sentir + Quanto a minha vida sente + O servir a quem lhe mente. + + Catharina me mentio + Muitas vezes, sem ter lei, + E todas lhe perdoei + Por huma só que cumprio. + Se como me consentio + Fallar-lhe, o mais me consente, + Nunca mais direi que mente. + + * * * * * + + +MOTE. + + A alma, qu'está offrecida + A tudo, nada lhe he forte; + Assi passa o bem da vida, + Como passa o mal da morte. + +_Volta._ + + De maneira me succede + O que temo, e o que desejo, + Que sempre o que temo, vejo, + Nunca o que a vontade pede. + Tenho tão offerecida + Alma e vida a toda a sorte, + Que isso me dera da morte, + Como ja me dá da vida. + + * * * * * + + +MOTE. + + Ferro, fogo, frio e calma, + Todo o mundo acabarão; + Mas nunca vos tirarão, + Alma minha, da minha alma. + +_Volta._ + + Não vos guardei, quando vinha, + Em tôrre, fôrça, ou engenho; + Que mais guardada vos tenho + Em vós, que sois alma minha. + Alli nem frio, nem calma, + Não podem ter jurdição; + Na vida sim, porém não + Em vós que tenho por alma. + + * * * * * + + +MOTE. + + Esperei, ja não espero + De mais vos servir, Senhora; + Pois me fazeis cada hora + Tanto mal, que desespéro. + +_Volta._ + + Pois sei certo que folgais, + Quando mais mal me fazeis, + E que nunca descansais, + Senão quando me mostrais + Quão pouco bem me quereis; + Servir-vos mais não espero + Pois meu viver empeora + Com me fazerdes, Senhora, + Tanto mal, que desespéro. + + * * * * * + + +MOTE. + + Descalça vai para a fonte + Leonor pela verdura; + Vai formosa, e não segura. + +_Voltas._ + + Leva na cabeça o pote, + O testo nas mãos de prata, + Cinta de fina escarlata, + Sainho de chamalote: + Traz a vasquinha de cote, + Mais branca que a neve pura; + Vai formosa, e não segura. + + Descobre a touca a garganta, + Cabellos de ouro entrançado, + Fita de côr d'encarnado, + Tão linda que o mundo espanta: + Chove nella graça tanta, + Que dá graça á formosura; + Vai formosa, e não segura. + + * * * * * + + +MOTE. + + Quem disser que a barca pende, + Dir-lhe-hei, mana, que mente. + +_Voltas._ + + Se vos quereis embarcar, + E para isso estais no caes, + Entrae logo: que tardaes? + Olhae qu'está preamar: + E se outrem, por vos fretar, + Vos disser qu'esta que pende, + Dir-lhe-hei, mana, que mente. + + Esta barca he de carreira; + Tẽe seus apparelhos novos: + Não ha como ella outra em Povos + Boa de leme, e veleira: + Mas, se por ser a primeira, + Vos disser alguem que pende, + Dir-lhe-hei, mana, que mente. + + * * * * * + + +MOTE. + + Com razão queixar-me posso + De vós, que mal vos queixais; + Pois, Senhora, vos sangrais, + Que seja n'hum corpo vosso. + +_Voltas._ + + Eu para levar a palma, + Com que ser vosso mereça, + Quero que o corpo padeça + Por vós, que delle sois alma. + Vós do corpo vos queixais, + Eu queixar-me de vós posso, + Porque, tendo hum corpo vosso, + Na minha alma vos sangrais. + + E sem fazer differença + No que de mi possuis, + Pelo pouco que sentis, + Dais á minh'alma doença. + Porque dous aventurais? + Oh não seja o damno nosso! + Sangre-se este corpo vosso, + Porque, minha alma, vivais. + + E inda, se attentardes bem, + Seguis medicina errada, + Porque para ser sangrada + Hum'alma sangue não tem. + E pois em mi sarar posso + Males, que á minha alma dais, + Se inda outra vez vos sangrais, + Seja neste corpo vosso. + + * * * * * + + +MOTE. + + Ojos, herido me habeis, + Acabad ya de matarme; + Mas muerto volved á mirarme, + Porque me resusciteis. + +_Voltas._ + + Pues me distes tal herida, + Con gana de darme muerte, + El morir me es dulce suerte, + Pues con morir me dais vida. + Ojos, qué os deteneis? + Acabad ya de matarme; + Mas muerto volved á mirarme, + Porque me resusciteis. + + La llaga cierto ya es mia, + Aunque, ojos, vós no querrais; + Mas si la muerte me dais, + El morir me es alegría. + Y así digo que acabeis, + O ojos, ya de matarme; + Mas muerto volved á mirarme, + Porque me resusciteis. + + * * * * * + + +A DONA FRANCISCA DE ARAGÃO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO: + + Mas porém a que cuidados? + + Tanto maiores tormentos + Forão sempre os que soffri, + Daquillo que cabe em mi, + Que não sei que pensamentos + São os para que nasci. + Quando vejo este meu peito + A perigos arriscados + Inclinado, bem suspeito + Que a cuidados sou sujeito, + _Mas porém a que cuidados?_ + +_Ao mesmo._ + + Que vindes em mi buscar, + Cuidados, que sou captivo? + Eu não tenho que vos dar: + Se vindes a me matar, + Ja ha muito que não vivo: + Se vindes, porque me dais + Tormentos desesperados, + Eu, que sempre soffri mais, + Não digo que não venhais; + _Mas porém a que cuidados?_ + +_Ao mesmo._ + + Se as penas que Amor me deu, + Vem por tão suaves meios, + Não ha que temer receios; + Que val hum cuidado meu + Por mil descansos alheios. + Ter n'huns olhos tão formosos + Os sentidos enlevados, + Bem sei qu'em baixos estados + São cuidados perigosos; + _Mas porém a que cuidados?..._ + +_Carta com a glosa acima._ + +Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sería assi mais +seguro: mas agora que he servida de me tornar a resuscitar, por me +mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de +agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de +novo me dá, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me fica +mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei +tres entendimentos, segundo as palavras delle pudérão soffrer: se forem +bons, he mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas. + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Campos bem-aventurados, + Tornae-vos agora tristes; + Que os dias, em que me vistes, + Alegres ja são passados. + +_Glosa._ + + Campos cheios de prazer, + Vós qu'estais reverdecendo, + Ja m'alegrei com vos ver; + Agora venho a temer + Qu'entristeçais em me vendo. + E pois a vista alegrais + Dos olhos desesperados, + Não quero que me vejais, + Para que sempre sejais, + _Campos, bem-aventurados._ + + Porém se por accidente + Vos pezar de meu tormento, + Sabereis que Amor consente + Que tudo me descontente, + Senão descontentamento. + Por isso vós, arvoredos, + Que ja nos meus olhos vistes + Mais alegria, que medos, + Se mos quereis fazer ledos, + _Tornae-vos agora tristes._ + + Ja me vistes ledo ser, + Mas despois que o falso Amor + Tão triste me fez viver, + Ledos folgo de vos ver, + Porque me dobreis a dor. + E se este gôsto sobejo + De minha dor me sentistes, + Julgae quanto mais desejo + As horas que vos não vejo, + _Que os dias em que me vistes._ + + O tempo, qu'he desigual, + De seccos, verdes vos tem; + Porqu'em vosso natural + Se muda o mal para o bem, + Mas o meu para mor mal. + Se perguntais, verdes prados, + Pelos tempos differentes + Que de Amor me forão dados, + Tristes, aqui são presentes, + _Alegres, ja são passados._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Trabalhos descansarião + Se para vós trabalhasse; + Tempos tristes passarião, + Se algum'hora vos lembrasse. + +_Glosa._ + + Nunca o prazer se conhece, + Senão despois da tormenta: + Tão pouco o bem permanece, + Que se o descanso florece, + Logo o trabalho arrebenta. + Sempre os bens se lograrião, + Mas os males tudo atalhão; + Porém ja que assi porfião, + Onde descansos trabalhão, + _Trabalhos descansarião._ + + Qualquer trabalho me fôra + Por vós grão contentamento: + Nada sentira, Senhora, + Se víra disto algum'hora + Em vós hum conhecimento. + Por mal que o mal me tratasse, + Tudo por bem tomaria; + Postoque o corpo cansasse, + A alma descansaria, + _Se para vós trabalhasse._ + + Quem vossas cruezas ja + Soffreo, a tudo se poz; + Costumado ficará; + E muito melhor será, + Se trabalhar para vós. + Tristezas esquecerião, + Postoque mal me tratárão; + Annos não me lembrarião, + Que como est'outros passarão, + _Tempos tristes passarião._ + + Se fosse galardoado + Este trabalho tão duro, + Não vivêra magoado. + Mas não o foi o passado, + Como o será o futuro? + De cansar não cansaria, + Se quizereis, que cansasse; + Cavar, morrer, fa-lo-hia; + Tudo, emfim, esqueceria, + _Se algum'hora vos lembrasse._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Triste vida se me ordena, + Pois quer vossa condição + Que os males, que dais por pena, + Me fiquem por galardão. + +_Glosa._ + + Despois de sempre soffrer, + Senhora, vossas cruezas, + A pezar de meu querer, + Me quereis satisfazer + Meus serviços com tristezas. + Mas, pois em balde resiste + Quem vossa vista condena, + Prestes estou para a pena; + Que de galardão tão triste + _Triste vida se me ordena._ + + De contente do mal meu + A tão grande extremo vim, + Que consinto em minha fim: + Assi que vós e mais eu, + Ambos somos contra mim. + Mas que soffra meu tormento, + Sem querer mais galardão, + Não he fóra de razão + Que queira meu soffrimento, + _Pois quer vossa condição._ + + O mal, que vós dais por bem, + Esse, Senhora, he mortal; + Que o mal, que dais como mal, + Em muito menos se tem, + Por costume natural. + Mas porém nesta victoria, + Que comigo he bem pequena, + A maior dor me condena + A pena, que dais por gloria, + _Que os males, que dais por pena._ + + Que mor bem me possa vir, + Que servir-vos, não o sei. + Pois que mais quero eu pedir, + Se quanto mais vos servir, + Tanto mais vos deverei? + Se vossos merecimentos + De tão alta estima são, + Assaz de favor me dão + Em querer que meus tormentos + _Me fiquem por galardão._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Ja não posso ser contente, + Tenho a esperança perdida; + Ando perdido entre a gente, + Nem morro, nem tenho vida. + +_Glosa._ + + Despois que meu cruel Fado + Destruio huma esperança, + Em que me vi levantado, + No mal fiquei sem mudança, + E do bem desesperado. + O coração, que isto sente, + Á sua dor não resiste, + Porque vê mui claramente + Que pois nasci para triste, + _Ja não posso ser contente._ + + Por isso, contentamentos, + Fugi de quem vos despreza: + Ja fiz outros fundamentos, + Ja fiz senhora a tristeza + De todos meus pensamentos. + O menos que lh'entreguei, + Foi esta cansada vida: + Cuido que nisto acertei, + Porque de quanto esperei + _Tenho a esperança perdida._ + + Acabar de me perder + Fôra ja muito melhor; + Tivera fim esta dor, + Que não podendo mor ser, + Cada vez a sinto mor. + De vós desejo esconder-me, + E de mi principalmente, + Onde ninguem possa ver-me; + Que pois me ganho em perder-me, + _Ando perdido entre a gente._ + + Gostos de mudanças cheios, + Não me busqueis, não vos quero: + Tenho-vos por tão alheios, + Que do bem que não espero, + Inda me ficão receios. + Em pena tão sem medida, + Em tormento tão esquivo + Que morra, ninguem duvída; + Mas eu se morro, ou se vivo, + _Nem morro, nem tenho vida._ + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA. + +_Mote._ + + A morte, pois que sou vosso, + Não a quero; mas se vem, + Ha de ser todo meu bem. + +_Glosa._ + + Amor, qu'em meu pensamento + Com tanta fé se fundou, + Me tẽe dado hum regimento, + Que quando vir meu tormento + Me salve com cujo sou. + E com esta defensão, + Com que tudo vencer posso, + Diz a causa ao coração: + Não tẽe em mi jurdição + _A morte, pois que sou vosso._ + + Por exprimentar hum dia + Amor se me achava forte + Nesta fé, como dizia, + Me convidou com a morte, + Só por ver se a temeria. + E como ella seja a cousa + Onde está todo meu bem, + Respondi-lhe, como quem + Quer dizer mais, e não ousa: + _Não a quero, mas se vem..._ + + Não disse mais, porque então + Entendeo quanto me toca; + E se tinha dito o não, + Muitas vezes diz a boca, + O que nega o coração. + Toda a cousa defendida + Em mais estima se tem: + Por isso he cousa sabida, + Que perder por vós a vida + _Ha de ser todo meu bem._ + + * * * * * + + +Á MESMA DAMA. + + Vejo-a n'alma pintada, + Quando me pede o desejo + O natural que não vejo. + +_Glosa._ + + Se só de ver puramente + Me transformei no que vi, + De vista tão excellente + Mal poderei ser ausente, + Em quanto o não for de mi. + Porque a alma namorada + A traz tão bem debuxada, + E a memoria tanto voa, + Que se a não vejo em pessoa, + _Vejo-a n'alma pintada._ + + O desejo, que s'estende + Ao que menos se concede, + Sôbre vós pede e pretende, + Como o doente que pede + O que mais se lhe defende. + Eu, qu'em ausencia vos vejo, + Tenho piedade e pejo + De me ver tão pobre estar, + Qu'então não tenho que dar, + _Quando me pede o desejo._ + + Como áquelle que cegou, + He cousa vista e notoria, + Que a natureza ordenou + Que se lhe dobre em memoria + O qu'em vista lhe faltou: + Assi a mi, que não vejo + Co'os olhos o que desejo, + Na memoria e na firmeza + Me concede a natureza + _O natural que não vejo._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Sem vós, e com meu cuidado, + Olhae com quem, e sem quem. + +_Glosa._ + + Vendo Amor que com vos ver + Mais levemente soffria + Os males que me fazia, + Não me pôde isto soffrer; + Conjurou-se com meu Fado; + Hum novo mal me ordenou: + Ambos me levão forçado, + Não sei onde, pois que vou + _Sem vós e com meu cuidado._ + + Não sei qual he mais estranho + Destes dous males que sigo, + Se não vos ver, se comigo + Levar imigo tamanho. + O que fica, e o que vem, + Hum me mata, outro desejo: + Com tal mal, e sem tal bem, + Em taes extremos me vejo: + _Olhae com quem, e sem quem_! + + * * * * * + + +AO MESMO. + + Amor, cuja providencia + Foi sempre que não errasse, + Porque n'alma vos levasse, + Respeitando o mal d'ausencia, + Quiz qu'em vós me transformasse. + E vendo-me ir maltratado, + Eu e meu cuidado sós, + Proveo nisso de attentado, + Por não me ausentar de vós, + _Sem vós, e com meu cuidado._ + + Mas est'alma, qu'eu trazia, + Porque vós nella morais, + Deixa-me cego, e sem guia; + Que ha por melhor companhia + Ficar onde vós ficais. + Assi me vou de meu bem, + Onde quer a forte estrella, + Sem alma, qu'em si vos tem, + Co'o mal de viver sem ella: + _Olhae com quem, e sem quem_! + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Sem ventura he por demais. + +_Glosa._ + + Todo o trabalhado bem + Promette gostoso fruito; + Mas os trabalhos, que vem, + Para quem dita não tem + Valem pouco, e custão muito. + Rompe toda a pedra dura, + Faz os homens immortais + O trabalho quando atura; + Mas querer achar ventura, + _Sem ventura, he por demais._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Minh'alma, lembrae-vos della. + +_Glosa._ + + Pois o ver-vos tenho em mais + Que mil vidas que me deis, + Assi como a que me dais, + Meu bem, ja que mo negais, + Meus olhos, não mo negueis. + E se a tal estado vim + Guiado de minha estrella, + Quando houverdes dó de mim, + Minha vida, dae-lhe a fim, + _Minh'alma, lembrae-vos della._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Tudo póde huma affeição. + +_Glosa._ + + Tẽe tal jurdição Amor + N'alma donde se aposenta, + E de que se faz senhor, + Que a liberta e isenta + De todo humano temor. + E com mui justa razão, + Como senhor soberano, + Que Amor não consente dano. + E pois me soffre tenção, + Gritarei por desengano: + _Tudo póde huma affeição._ + + * * * * * + + +TROVA DE BOSCÃO. + + Justa fué mi perdicion; + De mis males soy contento; + Ya no espero galardon, + Pues vuestro merecimiento + Satisfizo mi pasion. + +_Glosa._ + + Despues que Amor me formó + Todo de amor, cual me veo, + En las leyes, que me dió, + El mirar me consintió, + Y defendióme el deseo. + Mas el alma, como injusta, + En viendo tal perfeccion, + Dió al deseo ocasion: + Y pues quebré ley tan justa, + _Justa fué mi perdicion._ + + Mostrándoseme el Amor + Mas benigno que cruel, + Sobre tirano traidor, + De zelos de mi dolor, + Quiso tomar parte en él. + Yo que tan dulce tormento + No quiero dallo, aunque peco, + Resisto, y no lo consiento; + Mas si me lo toma á trueco + _De mis males, soy contento._ + + Señora, ved lo que ordena + Este Amor tan falso nuestro! + Por pagar á costa agena, + Manda que de un mirar vuestro + Haga el premio de mi pena. + Mas vos, para que veais + Tan engañosa intencion, + Aunque muerto me sintais, + No mireis, que si mirais, + _Ya no espero galardon._ + + Pues que premio (me direis) + Esperas que será bueno? + Sabed, sino lo sabeis, + Que es lo mas de lo que peno + Lo menos que mereceis. + Quien hace al mal tan ufano, + Y tan libre al sentimiento? + El deseo? No, que es vano. + El amor? No, que es tirano. + _Pues? Vuestro merecimiento._ + + No pudiendo Amor robarme + De mis tan caros despojos, + Aunque fué por mas honrarme, + Vos sola para matarme + Le prestastes vuestros ojos. + Matáranme ambos á dos; + Mas á vos con mas razon + Debe el la satisfaccion; + Que á mi por él, y por vos, + _Satisfizo mi pasion._ + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Todo es poco lo posible. + +_Glosa._ + + Ved que engaño señorea + Nuestro juicio tan loco, + Que por mucho que se crea, + Todo el bien, que se desea, + Alcanzado, queda poco. + Un bien de cualquiera grado, + Si de haberse es imposible, + Queda mucho deseado. + Mas para mucho, alcanzado, + _Todo es poco lo posible._ + +_Outro._ + + Posible es á mi cuidado + Poderme hacer satisfecho, + Si fuera posible al hado + Hacer no hecho lo hecho, + Y futuro lo pasado. + Si olvido pudiera haber, + Fuera remedio sufrible; + Mas ya que no puede ser, + Para contento me hacer, + _Todo es poco lo posible._ + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vos teneis mi corazon. + +_Glosa._ + + Mi corazon me han robado; + Y Amor viendo mis enojos, + Me dijo: Fuéte llevado + Por los mas hermosos ojos, + Que desque vivo he mirado. + Gracias sobrenaturales + Te lo tienen en prision. + Y si Amor tiene razon, + Señora, por las señales, + _Vos teneis mi corazon._ + + * * * * * + + +MOTE. + + Qué veré que me contente? + +_Glosa._ + + Desque una vez yo miré, + Señora, vuestra beldad, + Jamas por mi voluntad + Los ojos de vos quité. + Pues sin vos placer no siente + Mi vida, ni lo desea, + Si no quereis que yo os vea, + _Qué veré que me contente?_ + + * * * * * + + +MOTE. + + Sem vós, e com meu cuidado. + +_Glosa._ + + Querendo Amor esconder-vos + Em parte que vos não visse, + Co'o extremo de querer-vos + Cegou-me os olhos com ver-vos, + Levou-vos, sem que vos visse. + Eu cego, mas atinado, + Quando vi que vos não via, + Do mesmo Amor indignado, + Ja vêdes qual ficaria + _Sem vós e com meu cuidado._ + + * * * * * + + +MOTE. + + Retrato, vós não sois meu; + Retratárão-vos mui mal; + Que a serdes meu natural, + Foreis mofino como eu. + +_Glosa._ + + Indaqu'em vós a arte vença + O que o natural tẽe dado, + Não fostes bem retratado; + Que ha em vós mais differença, + Que no vivo do pintado. + Se o lugar se considera + Do alto estado, que vos deu + A sorte, qu'eu mais quizera; + Se he qu'eu sou quem d'antes era, + _Retrato, vós não sois meu._ + + Vós na vossa glória pôsto, + Eu na minha sepultura, + Vós com bens, eu com desgôsto; + Pareceis-vos ao meu rosto, + E não ja á minha ventura. + E pois nella e vós errarão + O qu'em mi he principal, + Muito em ambos s'enganárão. + Se por mi vós retratárão, + _Retratárão-vos mui mal._ + + Mas se esse rosto fingido + Quizerão representar, + E houverão por bom partido + Dar-vos a alma do sentido + Para a glória do lugar; + Víreis, pôsto nessa alteza, + Que vos não ha cousa igual; + E que nem a maior mal + Podeis vir, nem mor baixeza, + _Que a serdes meu natural._ + + Por isso não confesseis + Serdes meu, qu'he desatino, + Com que o lugar perdereis: + Se conservar-vos quereis, + Blazonae que sois divino. + Que se nesta occasião + Conhecessem qu'ereis meu, + Por meu vos derão de mão, + . . . . . . . . . . + _Fôreis mofino, como eu._ + + * * * * * + + +MOTE. + + Foi-se gastando a esperança, + Fui entendendo os enganos; + Do mal ficárão-me os danos, + E do bem só a lembrança. + +_Glosa._ + + Nunca em prazeres passados + Tive firmeza segura. + Antes tão arrebatados, + Qu'inda não erão chegados, + Quando mos levou ventura. + E como quem desconfia + Ter em tal sorte mudança, + No meio desta porfia, + De quanto bem pretendia + _Foi-se gastando a esperança._ + + Não tive por desatino + A occasião de perdella; + Mas foi culpa do destino, + Que a ninguem, como mais dino, + Amor pudéra sostella. + Dei-lhe tudo o qu'era seu, + Não receando taes danos + Deste, a quem alma lhe deu: + Quando ja não era meu, + _Fui entendendo os enganos._ + + Fiquei deste mal sobejo + A quem a causa compete + Dizer-lhe tudo o que vejo, + Que Amor acceita o desejo, + Mas mente no que promete. + Que se a mi se me obrigou + A dar-me bens soberanos, + Foi engano que ordenou; + Que do bem tudo levou, + _Do mal ficárão-me os danos._ + + E se dor tão desigual + Soffro em mi com padecellos, + Quero de novo soffrellos; + Que por a causa ser tal, + Não determino offendellos. + Dobre-se o mal, falte a vida, + Cresça a fé, falte a esperança, + Pois foi mal agradecida; + Fique a dor n'alma imprimida, + _E do bem só a lembrança._ + + * * * * * + + +ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA. + + Aquella captiva, + Que me tẽe captivo, + Porque nella vivo, + Ja não quer que viva. + Eu nunca vi rosa + Em suaves mólhos, + Que para meus olhos + Fosse mais formosa. + + Nem no campo flores, + Nem no ceo estrellas, + Me parecem bellas, + Como os meus amores. + Rosto singular, + Olhos socegados, + Pretos e cansados, + Mas não de matar. + + Huma graça viva, + Que nelles lhe mora, + Para ser senhora + De quem he captiva. + Pretos os cabellos, + Onde o povo vão + Perde opinião, + Que os louros são bellos. + + Pretidão de Amor, + Tão doce a figura, + Que a neve lhe jura + Que trocára a cór. + Leda mansidão, + Que o siso acompanha, + Bem parece estranha, + Mas barbara não. + + Presença serena, + Que a tormenta amansa: + Nella emfim descansa + Toda minha pena. + Esta he a captiva, + Que me tẽe captivo; + E pois nella vivo, + He fôrça que viva. + + * * * * * + + +MOTE. + + Quem ora soubesse + Onde o Amor nasce, + Que o semeasse! + +_Voltas._ + + D'Amor e seus danos + Me fiz lavrador; + Semeava amor, + E colhia enganos; + Não vi, em meus anos, + Homem que apanhasse + O que semeasse. + + Vi terra florída + De lindos abrolhos, + Lindos para os olhos, + Duros para a vida. + Mas a rez perdida, + Que tal herva pasce, + Em forte hora nasce. + + Com quanto perdi, + Trabalhava em vão: + Se semeei grão, + Grande dor colhi. + Amor nunca vi + Que muito durasse, + Que não magoasse. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Se me levão ágoas, + Nos olhos as levo. + +_Voltas._ + + Se de saudade + Morrerei ou não, + Meus olhos dirão + De mi a verdade. + Por elles me atrevo + A lançar as ágoas, + Que mostrem as mágoas + Que nesta alma levo. + + As ágoas, qu'em vão + Me fazem chorar, + Se ellas são do mar, + Estas de amar são. + Por ellas relévo + Todas minhas mágoas; + Que se fôrça d'ágoas + Me leva, eu as levo. + + Todas me entristecem, + Todas são salgadas; + Porém as choradas + Doces me parecem. + Correi, doces ágoas, + Que se em vós m'enlévo, + Não doem as mágoas, + Que no peito levo. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Menina dos olhos verdes, + Porque me não vedes? + +_Voltas._ + + Elles verdes são, + E tẽe por usança + Na côr esperança, + E nas obras não. + Vossa condição + Não he d'olhos verdes, + Porque me não vêdes. + + Isenções a mólhos + Qu'elles dizem terdes, + Não são d'olhos verdes, + Nem de verdes olhos. + Sirvo de giolhos, + E vós não me credes, + Porque me não vêdes. + + Havião de ser, + Porque possa vê-los, + Que huns olhos tão bellos + Não se hão d'esconder: + Mas fazeis-me crer, + Que ja não são verdes, + Porque me não vêdes. + + Verdes não o são, + No que alcanço delles; + Verdes são aquelles + Qu'esperança dão. + Se na condição + Está serem verdes, + Porque me não vedes? + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Trocae o cuidado, + Senhora, comigo; + Vereis o perigo, + Qu'he ser desamado. + +_Voltas._ + + Se trocar desejo + O amor entre nós, + He para qu'em vós + Vejais o que vejo. + E sendo trocado + Este amor comigo, + Ser-vos-ha castigo + Terdes meu cuidado. + + Tendes o sentido + D'Amor livre e isento, + E cuidais qu'he vento + Ser tão mal querido. + Não seja o cuidado + Tão vosso inimigo, + Que queira o perigo + De ser desamado. + + Mas nunca foi tal + Este meu querer, + Que a quem tanto quer, + Queira tanto mal + Seja eu maltratado, + E nunca o castigo + Vos mostre o perigo, + Qu'he ser desamado. + + * * * * * + + +Á TENÇÃO DE MIRAGUARDA. + + Ver, e mais guardar + De ver outro dia, + Quem o acabaria? + +_Voltas._ + + Da lindeza vossa, + Dama, quem a vê, + Impossivel he + Que guardar-se possa. + Se faz tanta mossa + Ver-vos hum só dia, + Quem se guardaria? + + Melhor deve ser + Neste aventurar + Ver, e não guardar, + Que guardar e ver. + Ver e defender, + Muito bom sería, + Mas quem poderia? + + * * * * * + + +MOTE. + + Irme quiero, madre, + Á aquella galera, + Con el marinero, + Á ser marinera. + +_Voltas._ + + Madre, si me fuere, + Do quiera que vó, + No lo quiero yo, + Que el Amor lo quiere. + Aquel niño fiero, + Hace que me mueva + Por un marinero + Á ser marinera. + + El que todo puede, + Madre, no podrá, + Pues el alma vá, + Que el cuerpo se quede. + Con él por que muero + Voy, porque no muera; + Que si es marinero, + Seré marinera. + + Es tirana ley + Del niño Señor, + Que por un amor + Se deseche un Rey. + Pues desta manera + Quiero irme, quiero + Por un marinero + Á ser marinera. + + Decid, ondas, cuando + Vistes vos doncella, + Siendo tierna y bella, + Andar navegando? + Mas qué no se espera + Daquel niño fiero? + Vea yo quien quiero, + Sea marinera. + + * * * * * + + +MOTE. + + Saudade minha, + Quando vos veria? + +_Voltas._ + + Este tempo vão, + Esta vida escassa, + Para todos passa, + Só para mi não. + Os dias se vão + Sem ver este dia, + Quando vos veria. + + Vêde esta mudança + Se está bem perdida, + Em tão curta vida + Tão longa esperança. + Se este bem se alcança, + Tudo soffreria, + Quando vos veria. + + Saudosa dor, + Eu bem vos entendo; + Mas não me defendo, + Porque offendo Amor. + Se fôsseis maior, + Em maior valia + Vos estimaria. + + Minha saudade, + Charo penhor meu, + A quem direi eu + Tamanha verdade? + Na minha vontade + De noite e de dia + Sempre vos teria. + + * * * * * + + +MOTE. + + Vida da minha alma, + Não vos posso ver: + Isto não he vida + Para se soffrer. + +_Voltas._ + + Quando vos eu via, + Esse bem lograva, + A vida estimava, + Pois então vivia; + Porque vos servia + Só para vos ver. + Ja que vos não vejo + Para qu'he viver? + + Vivo sem razão, + Porqu'em minha dor + Não a poz Amor; + Que inimigos são. + Mui grande traição + Me obriga a fazer + Que viva, Senhora, + Sem vos poder ver. + + Não me atrevo ja, + Minha tão querida, + A chamar-vos vida, + Porque a tenho má. + Ninguem cuidará, + Que isto póde ser, + Sendo-me vós vida, + Não poder viver. + + * * * * * + + +MOTE. + + Coifa de beirame + Namorou Joanne. + +_Voltas._ + + Por cousa tão pouca + Andas namorado? + Amas o toucado, + E não quem o touca? + Ando cega e louca + Por ti, meu Joanne, + Tu pelo beirame. + + Amas o vestido? + Es falso amador. + Tu não vês que Amor + Se pinta despido? + Cego e mui perdido + Andas por beirame, + E eu por ti, Joanne. + + A todos encanta + Tua parvoice; + De tua doudice + Gonçalo s'espanta, + E zombando canta: + Coifa de beirame, + Namorou Joanne. + + Eu não sei que viste + Neste meu toucado, + Que tão namorado + Delle te sentiste. + Não te veja triste; + Ama-me, Joanne, + E deixa o beirame. + + Joanne gemia, + Maria chorava, + E assi lamentava + O mal que sentia: + (Os olhos feria, + E não o beirame, + Que matou Joanne) + + Não sei do que vem + Amares vestido; + Que o mesmo Cupido + Vestido não tem. + Sabes de que vem + Amares beirame? + Vem de ser Joanne. + + * * * * * + + +MOTE. + + Se Helena apartar + Do campo seus olhos, + Nascerão abrolhos. + +_Voltas._ + + A verdura amena, + Gados, que pasceis, + Sabei que a deveis + Aos olhos d'Helena. + Os ventos serena, + Faz flores d'abrolhos + O ar de seus olhos. + + Faz serras florídas, + Faz claras as fontes: + S'isto faz nos montes, + Que fara nas vidas? + Tra-las suspendidas, + Como hervas em mólhos, + Na luz de seus olhos. + + Os corações prende + Com graça inhumana; + De cada pestana + Hum'alma lhe pende. + Amor se lhe rende, + E pôsto em giolhos, + Pasma nos seus olhos. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Verdes são os campos + De côr de limão; + Assi são os olhos + Do meu coração. + +_Voltas._ + + Campo, que t'estendes + Com verdura bella; + Ovelhas, que nella + Vosso pasto tendes; + D'hervas vos mantendes + Que traz o verão; + E eu das lembranças + Do meu coração. + + Gados, que pasceis + Com contentamento, + Vosso mantimento + Não no entendeis. + Isso que comeis, + Não são hervas, não; + São graça dos olhos + Do meu coração. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Verdes são as hortas + Com rosas e flores: + Moças, que as régão, + Matão-me d'amores. + +_Voltas._ + + Entre estes penedos + Que daqui parecem, + Verdes hervas crescem, + Altos arvoredos. + Vai destes rochedos + Ágoa, com que as flores + D'outras são regadas, + Que mátão d'amores. + + Com ágoa, que cai + Daquella espessura, + Outra se mistura, + Que dos olhos sai: + Toda junta vai + Regar brancas flores; + Onde ha outros olhos, + Que mátão d'amores. + + Celestes jardins, + As flores estrellas: + Hortelôas dellas + São huns seraphins. + Rosas e jasmins + De diversas côres, + Anjos, que as régão, + Mátão-me d'amores. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Menina formosa, + Dizei de que vem + Serdes rigorosa + A quem vos quer bem? + +_Voltas._ + + Não sei quem assella + Vossa formosura; + Que quem he tão dura + Não póde ser bella. + Vós sereis formosa; + Mas a razão tem + Que quem he irosa, + Não parece bem. + + A mostra he de bella, + As obras são cruas: + Pois qual destas duas + Ficará na sella? + Se ficar _irosa_, + Não vos está bem: + Fique antes _formosa_, + Que mais fôrça tem. + + O Amor formoso + Se pinta e se chama: + Se he amor, ama, + Se ama, he piedoso. + Diz agora a grosa + Que este texto tem, + Que quem he formosa + Ha de querer bem. + + Havei dó, menina, + Dessa formosura; + Que se a terra he dura, + Secca-se a bonina. + Sêde piedosa; + Não veja ninguem + Que por rigorosa + Percais tanto bem. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Tende-me mão nelle, + Que hum real me deve. + +_Voltas._ + + C'hum real d'amor, + Dous de confiança, + E tres d'esperança, + Me foge o trédor. + Falso desamor + S'encerra naquelle + Que hum real me deve. + + Pedio-mo emprestado, + Não lhe quiz penhor: + He mao pagador; + Tendo-mo afferrado. + C'hum cordel atado, + Ao Tronco se leve; + Que hum real me deve. + + Por esta travéssa + Se vai acolhendo: + Ei-lo vai correndo, + Fugindo a grã pressa. + Nesta mão, e nessa + O falso se atreve, + Que hum real me deve. + + Comprou-me o amor, + Sem lhe fazer preço: + Eu não lhe mereço + Dar-me desfavor. + Dá-me tanta dor, + Que ando apos elle + Pelo que me deve. + + Eu de cá bradando, + Elle vai fugindo; + Elle sempre rindo, + Eu sempre chorando. + E de quando em quando + No amor se atreve, + Como que não deve. + + A fallar verdade + Elle ja pagou; + Mas ainda ficou + Devendo ametade. + Minha liberdade + He a que me deve: + Só nella se atreve. + + * * * * * + + +MOTE. + + Dó la mi ventura, + Que no veo alguna? + +_Voltas._ + + Sepa quien padece, + Que en la sepultura + Se esconde ventura + De quien la merece. + Allá me parece, + Que quiere fortuna + Que yo halle alguna. + + Naciendo mesquino, + Dolor fué mi cama; + Tristeza fué el ama, + Cuidado el padrino. + Vestióse el destino + Negra vestidura, + Huyó la ventura. + + No se halló tormento, + Que alli no se hallase; + Ni bien, que pasase, + Sinó como viento. + Oh qué nacimiento, + Que luego en la cuna + Me siguió fortuna! + + Esta dicha mia, + Que siempre busqué, + Buscándola, hallé + Que no la hallaria; + Que quien nace en dia + D'estrella tan dura, + Nunca halla ventura. + + No puso mi estrella + Mas ventura em min: + Ansí vive en fin + Quien nace sin ella. + No me quejo della; + Quéjome que atura + Vida tan escura. + + * * * * * + + +MOTE. + + Vida de minha alma. + +_Volta._ + + Dous tormentos vejo + Grandes por extremo: + Se vos vejo, temo, + E se não, desejo. + Quando me despejo, + E venho a escolher, + Temendo o desejo, + Desejo temer. + + * * * * * + + +CANTIGA ALHEIA. + + Pastora da serra, + Da serra da Estrella, + Perco-me por ella. + +_Voltas._ + + Nos seus olhos bellos + Tanto Amor se atreve, + Que abraza entre a neve + Quantos ousão vellos. + Não sólta os cabellos + Aurora mais bella: + Perco-me por ella. + + Não teve esta serra + No meio d'altura + Mais que a formosura, + Que nella se encerra. + Bem ceo fica a terra, + Que tẽe tal estrella: + Perco-me por ella. + + Sendo entre pastores + Causa de mil males, + Não se ouvem nos vales + Senão seus louvores. + Eu só por amores + Não sei fallar nella, + Sei morrer por ella. + + D'alguns, que sentindo + Seu mal vão mostrando. + Se ri, não cuidando + Qu'inda paga rindo. + Eu triste, encobrindo + Só meus males della, + Perco-me por ella. + + Se flores deseja + Por ventura bellas, + Das que colhe dellas + Mil morrem d'inveja. + Não ha quem não veja + Todo o melhor nella: + Perco-me por ella. + + Se n'ágoa corrente + Seus olhos inclina, + Faz a luz divina + Parar a corrente. + Tal se vê, que sente + Por ver-se a ágoa nella: + Perco-me por ella. + + * * * * * + + +ENDECHAS. + + Vós sois huma Dama + Das feias do mundo; + De toda a má fama + Sois cabo profundo. + + A vossa figura + Não he para ver; + Em vosso poder + Não ha formosura. + + Vós fostes dotada + De toda a maldade; + Perfeita beldade + De vós he tirada. + + Sois muito acabada + De taixa e de glosa: + Pois quanto a formosa, + Em vós não ha nada. + + Do grão merecer + Sois bem apartada; + Andais alongada + Do bem parecer. + + Bem claro mostrais + Em vós fealdade: + Não ha hi maldade, + Que não precedais. + + De fresco carão + Vos vejo ausente; + Em vós he presente + A má condição. + + De ter perfeição + Mui alheia estais; + Mui muito alcançais + De pouca razão. + + * * * * * + + +ENDECHAS. + + Vai o bem fugindo, + Cresce o mal co'os annos, + Vão-se descubrindo + Co'o tempo os enganos. + + Amor e alegria. + Menos tempo dura. + Triste de quem fia + Nos bens da ventura! + + Bem sem fundamento + Tẽe certa a mudança, + Certo o sentimento + Na dor da lembrança. + + Quem vive contente, + Viva receoso: + Mal que se não sente, + He mais perigoso. + + Quem males sentio, + Saiba ja temer; + E pelo que vio + Julgue o qu'ha de ser. + + Alegre vivia, + Triste vivo agora; + Chora a alma de dia, + E de noite chora. + + Confesso os enganos + De meu pensamento: + Bem de tantos annos + Foi-se n'hum momento. + + Meus olhos, que vistes? + Pois vos atrevestes, + Chorae, olhos tristes, + O bem que perdestes. + + A luz do sol pura + Só a vós se negue; + Seja noite escura, + Nunca a manhãa chegue. + + O campo floreça, + Murmurem as ágoas, + Tudo me entristeça, + Cresção minhas mágoas. + + Quizera mostrar + O mal que padeço; + Não lhe dá lugar + Quem lhe deu comêço. + + Em tristes cuidados + Passo a triste vida; + Cuidados cansados, + Vida aborrecida. + + Nunca pude crer + O que agora creio: + Cegou-me o prazer + Do mal que me veio. + + Ah ventura minha, + Como me negaste! + Hum so bem que tinha, + Porque mo roubaste? + + Triste fantasia + Quanta cousa guarda! + Quem ja visse o dia, + Que tanto lhe tarda! + + Nesta vida cega + Nada permanece; + O qu'inda não chega, + Ja desaparece. + + Qualquer esperança + Foge como o vento: + Tudo faz mudança, + Salvo meu tormento. + + Amor cego e triste, + Quem o tẽe padece: + Mal quem lhe resiste! + Mal quem lhe obedece! + + No meu mal esquivo + Sei como Amor trata: + E pois nelle vivo, + Nenhum amor mata. + + * * * * * + + + +SEXTINAS. + + +SEXTINA I. + + Foge-me pouco a pouco a curta vida, + Se por caso he verdade qu'inda vivo; + Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos; + Chóro por o passado; e em quanto fallo, + Se me passão os dias passo a passo. + Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena. + + Que maneira tão aspera de pena! + Pois nunca hum'hora vio tão longa vida + Em que do mal mover se visse hum passo. + Que mais me monta ser morto que vivo? + Para que chóro, emfim? para que fallo, + Se lograr-me não pude de meus olhos? + + Oh formosos, gentís e claros olhos, + Cuja ausencia me move a tanta pena, + Quanta se não comprende em quanto fallo! + Se no fim de tão longa e curta vida + De vós m'inflammasse inda o raio vivo, + Por bem teria todo o mal que passo. + + Mas bem sei que primeiro o extremo passo + Me ha de vir a cerrar os tristes olhos, + Que Amor me mostre aquelles por quem vivo. + Testimunhas serão a tinta e penna, + Qu'escrevêrão de tão molesta vida + O menos que passei, e o mais que fallo. + + Oh que não sei qu'escrevo, nem que fallo! + Pois se d'hum pensamento em outro passo, + Vejo tão triste genero de vida, + Que se lhe não valerem tanto os olhos, + Não posso imaginar qual seja a penna + Qu'esta pena traslade com que vivo. + + N'alma tenho contino hum fogo vivo, + Que se não respirasse no que fallo, + Estaria ja feita cinza a pena; + Mas sôbre a maior dor que soffro e passo, + O temperão com lagrimas os olhos: + Com que, se foge, não se acaba a vida. + + Morrendo estou na vida, e em morte vivo; + Vejo sem olhos, e sem lingua fallo; + E juntamente passo gloria e pena. + + * * * * * + + +SEXTINA II. + + A culpa de meu mal só tẽe meus olhos, + Pois que derão a Amor entrada n'alma, + Para que perdesse eu a liberdade. + Mas quem póde fugir a huma brandura, + Que despois de vos pôr em tantos males, + Dá por bens o perder por ella a vida? + + Assaz de pouco faz quem perde a vida + Por condição tão dura e brandos olhos; + Pois de tal qualidade são meus males, + Que o mais pequeno delles toca n'alma. + Não s'engane com mostras de brandura + Quem quizer conservar a liberdade. + + Roubadora he de toda liberdade + (E oxalá perdoasse á triste vida!) + Esta que o falso Amor chama brandura, + Ai meus antes imigos, que meus olhos! + Que mal vos tinha feito esta vossa alma, + Para vós lhe fazerdes tantos males? + + Cresção de dia em dia embora os males; + Perca-se embora a antigua liberdade; + Transforme-se em Amor esta triste alma; + Padeça embora esta innocente vida; + Que bem me págão tudo estes meus olhos, + Quando de outros, se os vem, vem a brandura. + + Mas como nelles póde haver brandura, + Se causadores são de tantos males? + Engano foi d'Amor, porque meus olhos + Dessem por bem perdida a liberdade. + Ja não tenho que dar senão a vida, + Se a vida ja não deo, quem ja deo a alma. + + Que póde ja'sperar quem a sua alma + Captiva eterna fez d'huma brandura, + Que quando vos dá morte, diz qu'he vida? + Forçado me he gritar nestes meus males, + Olhos meus: pois por vós a liberdade + Perdi, de vós me queixarei, meus olhos. + + Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma, + Pois dais a liberdade a tal brandura, + Que para dar mais males, dá mais vida. + + * * * * * + + +SEXTINA III. + + Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia, + Amanhecido só para meu damno! + Pudeste-me apartar daquella vista + Por quem vivia com meu mal contente? + Ah se o supremo fôras desta vida, + Qu'em ti se começára a minha glória! + + Mas como eu não nasci para ter glória, + Senão pena que cresça cada dia, + O ceo m'está negando o fim da vida, + Porque não tenha fim com ella o damno: + Para que nunca possa ser contente, + Da vista me tirou aquella vista. + + Suave, deleitosa, alegre vista, + Donde pendia toda a minha gloria, + Por quem na mor tristeza fui contente; + Quando será que veja aquelle dia + Em que deixe de ver tão grave damno, + E em que me deixe tão penosa vida? + + Como desejarei humana vida, + Ausente d'hũa mais que humana vista, + Que tão glorioso me fazia o damno! + Vejo o meu damno sem a sua glória; + Á minha noite falta ja seu dia: + Triste tudo se vê, nada contente. + + Pois sem ti ja não posso ser contente, + Mal posso desejar sem ti a vida; + Sem ti ja ver não posso claro dia, + Não posso sem te ver desejar vista; + Na tua vista só se via a glória, + Não ver a glória tua he ver meu damno. + + Não via maior glória que meu damno, + Quando do damno meu eras contente: + Agora me he tormento a maior glória, + Que póde prometter-me Amor na vida, + Pois tornar-te não póde á minha vista, + Que só na tua achava a luz do dia. + + E pois de dia em dia cresce o damno, + Nem posso sem tal vista ser contente, + Só com perder a vida acharei glória. + + * * * * * + + +SEXTINA IV. + + Sempre me queixarei desta crueza + Que Amor usou comigo quando o tempo, + A pezar de meu duro e triste fado, + A meus males queria dar remedio, + Em apartar de mi aquella vista, + Por quem me contentava a triste vida. + + Levára-me, oxalá, traz ella a vida, + Para que não sentira esta crueza + De me ver apartado de tal vista! + E praza a Deos não veja o proprio tempo + Em mi, sem esperança de remedio, + A desesperação d'hum triste fado! + + Porém ja acabe o triste e duro fado! + Acabe o tempo ja tão triste vida, + Qu'em sua morte só tẽe seu remedio. + O deixar-me viver he mor crueza, + Pois desespéro ja d'em algum tempo + Tornar a ver aquella doce vista. + + Duro Amor! se pagava só tal vista + Todo o mal que por ti me fez meu fado, + Porque quizeste que a levasse o tempo? + E se o assi quizeste, porque a vida + Me deixas para ver tanta crueza, + Quando em não vê-la só vejo o remedio? + + Tu só de minha dor eras remedio, + Suave, deleitosa e bella vista. + Sem ti, que posso eu ver senão crueza? + Sem ti, qual bem me póde dar o fado, + Se não he consentir que acabe a vida? + Mas elle della me dilata o tempo. + + Azas para voar vejo no tempo, + Que com voar a muitos foi remedio; + E só não vôa para a minha vida. + Para que a quero eu sem tua vista? + Para que quer tambem o triste fado + Que não acabe o tempo tal crueza? + + Não poderão fazer crueza, ou tempo, + Fôrça de fado, ou falta de remedio, + Qu'essa vista m'esqueça em toda a vida. + + * * * * * + + + + +ELEGIAS + + +ELEGIA I. + + O sulmonense Ovidio desterrado + Na aspereza do Ponto, imaginando + Ver-se de seus Penates apartado; + + Sua chara mulher desamparando, + Seus doces filhos, seu contentamento, + De sua Patria os olhos apartando; + + Não podendo encobrir o sentimento, + Aos montes ja, ja aos rios se queixava + De seu escuro e triste nascimento. + + O curso das estrellas contemplava, + E aquella ordem com que discorria + O ceo e o ar, e a terra adonde estava. + + Os peixes por o mar nadando via, + As feras por o monte procedendo + Como o seu natural lhes permittia. + + De suas fontes via estar nascendo + Os saudosos rios de crystal, + Á sua natureza obedecendo. + + Assi só, de seu proprio natural + Apartado, se via em terra estranha, + A cuja triste dor não acha igual. + + Só sua doce Musa o acompanha + Nos soidosos versos qu'escrevia, + E nos lamentos com que o campo banha. + + Dest'arte me figura a phantasia + A vida com que morro, desterrado + Do bem qu'em outro tempo possuia. + + Aqui contemplo o gôsto ja passado, + Que nunca passará por a memoria + De quem o traz na mente debuxado. + + Aqui vejo caduca e debil glória + Desenganar meu êrro co'a mudança + Que faz a fragil vida transitoria. + + Aqui me representa esta lembrança + Quão pouca culpa tenho; e m'entristece + Ver sem razão a pena que m'alcança. + + Que a pena que com causa se padece, + A causa tira o sentimento della; + Mas muito doe a que se não merece. + + Quando a roxa manhãa, dourada e bella, + Abre as portas ao sol e cahe o orvalho, + E torna a seus queixumes Philomela; + + Este cuidado, que co'o somno atalho, + Em sonhos me parece; que o que a gente + Por seu descanso tẽe me dá trabalho. + + E despois de acordado cegamente, + (Ou, por melhor dizer, desacordado, + Que pouco acôrdo logra hum descontente) + + Daqui me vou, com passo carregado, + A hum outeiro erguido, e alli m'assento, + Soltando toda a redea a meu cuidado. + + Despois de farto ja de meu tormento, + Estendo estes meus olhos saudosos + Á parte donde tinha o pensamento. + + Não vejo senão montes pedregosos; + E sem graça e sem flor os campos vejo, + Que ja floridos víra, e graciosos. + + Vejo o puro, suave e rico Tejo, + Com as concavas barcas, que nadando + Vão pondo em doce effeito o seu desejo. + + Humas com brando vento navegando, + Outras com leves reinos brandamente + As crystallinas ágoas apartando. + + D'alli fallo com a ágoa que não sente + Com cujo sentimento est'alma sae + Em lagrimas desfeita claramente. + + Ó fugitivas ondas, esperae; + Que pois me não levais em companhia, + Ao menos estas lagrimas levae. + + Até que venha aquelle alegre dia + Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo. + Mas tanto tempo, quem o passaria? + + Não póde tanto bem chegar tão cedo: + Porque primeiro a vida acabará, + Que se acabe tão aspero degredo. + + Mas essa triste morte que virá, + S'em tão contrário estado me acabasse, + Est'alma assi impaciente adonde irá? + + Que se ás portas Tartaricas chegasse, + Temo que tanto mal por a memoria + Nem ao passar do Lethe lhe passasse. + + Que se a Tantalo e Ticio for notoria + A pena com que vai, e que a atormenta, + A pena que lá tẽe, terão por glória. + + Essa imaginação, emfim, me augmenta + Mil mágoas no sentido, porque a vida + De imaginações tristes se contenta. + + Que pois de todo vive consumida, + Porque o mal que possue se resuma, + Imagina na glória possuida. + + Até que a noite eterna me consuma, + Ou veja aquelle dia desejado + Em que a Fortuna faça o que costuma; + + Se nella ha hi mudar-se hum triste estado. + + * * * * * + + +ELEGIA II. + + Aquella que d'amor descomedido + Por o formoso moço se perdeo, + Que só por si d'amores foi perdido; + + Despois que a deosa em pedra a converteo + De seu humano gesto verdadeiro, + A última voz só lhe concedeo. + + Assi meu mal do proprio ser primeiro + Outra cousa nenhũa me consente, + Qu'este canto qu'escrevo derradeiro. + + E se huma pouca vida, estando ausente, + Me deixa Amor, he porque o pensamento + Sinta a perda do bem d'estar presente. + + Senhor, se vos espanta o soffrimento + Que tenho em tanto mal para escrevê-lo, + Furto este breve espaço a meu tormento. + + Porque quem tẽe poder para soffrê-lo, + Sem se acabar a vida co'o cuidado, + Tambem terá poder para dizê-lo. + + Nem eu escrevo hum mal ja acostumado; + Mas n'alma minha triste e saudosa + A saudade escreve, e eu traslado. + + Ando gastando a vida trabalhosa, + E esparzindo a contínua soidade + Ao longo d'huma praia soidosa. + + Vejo do mar a instabilidade, + Como com seu ruido impetuoso + Retumba na maior concavidade. + + De furibundas ondas poderoso, + Na terra, a seu pezar, está tomando + Lugar, em que s'estenda, cavernoso. + + Ella, como mais fraca, lh'está dando + As concavas entranhas, onde esteja + Sempre com som profundo suspirando. + + A todas estas cousas tenho inveja + Tamanha, que não sei determinar-me, + Por mais determinado que me veja. + + Se quero em tanto mal desesperar-me, + Não posso, porque Amor e saudade + Nem licença me dão para matar-me. + + Ás vezes cuido em mi, se a novidade + E estranheza das cousas, co'a mudança, + Poderião mudar huma vontade. + + E com isto figuro na lembrança + A nova terra, o novo trato humano, + A estrangeira progenie, a estranha usança. + + Subo-me ao monte que Hercules Thebano + Do altissimo Calpe dividio, + Dando caminho ao mar Mediterrano; + + D'alli'stou tenteando adonde vio + O pomar das Hesperidas, matando + A serpe que a seu passo resistio. + + Estou-me em outra parte figurando + O poderoso Anteo, que derribado + Mais fôrça se lhe vinha accrescentando; + + Porém do Herculeo braço sobjugado, + No ar deixando a vida, não podendo + Dos soccorros da mãe ser ajudado. + + Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo, + Nem com as armas tão continuadas, + D'amorosas lembranças me defendo. + + Todas as cousas vejo demudadas, + Porque o tempo ligeiro não consente + Qu'estejão de firmeza acompanhadas. + + Vi ja que a Primavera, de contente, + Em variadas côres revestia + O monte, o campo, o valle, alegremente. + + Vi ja das altas aves a harmonia, + Que até duros penedos convidava + A algum suave modo d'alegria. + + Vi ja que tudo, emfim, me contentava, + E que, de muito cheio de firmeza, + Hum mal por mil prazeres não trocava. + + Tal me tẽe a mudança e estranheza, + Que se vou por os prados, a verdura + Parece que se sécca de tristeza. + + Mas isto he ja costume da ventura; + Porque aos olhos que vivem descontentes, + Descontente o prazer se lhes figura. + + Oh graves e insoffriveis accidentes + De Fortuna e d'Amor! que penitencia + Tão grave dais aos peitos innocentes! + + Não basta examinar-me a paciencia + Com temores e falsas esperanças, + Sem que tambem me tente o mal de ausencia? + + Trazeis hum brando espirito em mudanças, + Para que nunca possa ser mudado + De lagrimas, suspiros e lembranças. + + E s'estiver ao mal acostumado, + Tambem no mal não consentis firmeza, + Para que nunca viva descansado. + + Ja quieto m'achava co'a tristeza; + E alli não me faltava hum brando engano. + Que tirasse desejos da fraqueza. + + Mas vendo-me enganado estar ufano, + Deo á roda a Fortuna; e deo comigo + Onde de novo chóro o novo dano. + + Ja deve de bastar o que aqui digo, + Para dar a entender o mais que calo + A quem ja vio tão aspero perigo. + + E se nos brandos peitos faz abalo + Hum peito magoado e descontente, + Que obriga a quem o ouve a consolá-lo; + + Não quero mais senão que largamente, + Senhor, me mandeis novas dessa terra; + Que alguma dellas me fara contente. + + Porque se o duro Fado me desterra + Tanto tempo do bem, que o fraco esprito + Desampare a prisão onde s'encerra; + + Ao som das negras ágoas do Cocito, + Ao pé dos carregados arvoredos + Cantarei o que n'alma tenho escrito. + + E por entre estes horridos penedos + A quem negou Natura o claro dia, + Entre tormentos asperos e medos, + + Com a trémula voz, cansada e fria, + Celebrarei o gesto claro e puro, + Que nunca perderei da phantasia. + + O Musico de Thracia, ja seguro + De perder sua Eurydice, tangendo + Me ajudará ferindo o ar escuro. + + As namoradas sombras, revolvendo + Memorias do passado, me ouvirão; + E com seu chôro o rio irá crescendo. + + Em Salmonêo as penas faltarão, + E das filhas de Belo juntamente + De lagrimas os vasos s'encherão. + + Que se amor não se perde em vida ausente, + Menos se perderá por morte escura: + Porque, emfim, a alma vive eternamente, + + E amor he effeito d'alma, e sempre dura. + + * * * * * + + +ELEGIA III. + + O poeta Simonides fallando + Co'o Capitão Themistocles hum dia, + Em cousas de sciencia praticando; + + Hum'arte singular lhe promettia, + Qu'então compunha, com que lh'ensinasse + A lembrar-se de tudo o que fazia; + + Onde tão subtis regras lhe mostrasse, + Que nunca lhe passassem da memoria + Em nenhum tempo as cousas que passasse. + + Bem merecia, certo, fama e gloria + Quem dava regra contra o esquecimento, + Que sepulta qualquer antigua historia. + + Mas o Capitão claro, cujo intento + Bem differente estava, porque havia + Do passado as lembranças por tormento; + + Oh illustre Simonides! (dizia) + Pois tanto em teu engenho te confias, + Que mostras á memoria nova via; + + Se me désses hum'arte, qu'em meus dias + Me não lembrasse nada do passado, + Oh quanto melhor obra me farias! + + S'este excellente dito ponderado + Fosse por quem se visse estar ausente, + Em longas esperanças degradado; + + Oh como bradaria justamente, + Simonides, inventa novas artes; + Não midas o passado co'o presente! + + Que se he forçado andar por várias partes + Buscando á vida algum descanço honesto, + Que tu, Fortuna injusta, mal repartes; + + E se o duro trabalho, he manifesto + Que por grave que seja, ha de passar-se + Com animoso esprito e ledo gesto; + + De que serve ás pessoas o lembrar-se + Do que se passou ja, pois tudo passa, + Senão d'entristecer-se e magoar-se? + + S'em outro corpo hum'alma se traspassa, + Não como quiz Pythagoras na morte, + Mas como quer Amor na vida escassa; + + E s'este Amor no mundo está de sorte, + Que na virtude só d'hum lindo objecto + Tẽe hum corpo, sem alma, vivo e forte; + + Onde este objecto falta, qu'he defecto + Tamanho para a vida, que ja nella + M'está chamando á pena a dura Alecto; + + Porque me não criára a minha Estrella + Selvatico no mundo, e habitante + Na dura Scythia, e no mais duro della? + + Ou no Caucaso horrendo, fraco infante + Criado ao peito d'huma tigre Hircana, + Homem fôra formado de diamante; + + Porque a cerviz ferina e inhumana + Não submettêra ao jugo e dura lei + Daquelle que dá vida quando engana. + + Ou em pago das ágoas qu'estilei, + As que passei do mar, forão do Lete, + Para que m'esquecêra o que passei. + + Porque o bem que a esperança vãa promette, + Ou a morte o estorva, ou a mudança, + Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete. + + Ja, Senhor, cahirá como a lembrança, + No mal, do bem passado he triste e dura, + Pois nasce aonde morre a esperança. + + E se quizer saber como se apura + Em almas saudosas, não s'enfade + De ler tão longa e misera escriptura. + + Soltava Eolo a redea e liberdade + Ao manso Favonio brandamente, + E eu a tinha ja sôlta á saudade. + + Neptuno tinha pôsto o seu tridente; + A proa a branca escuma dividia, + Com a gente maritima contente. + + O côro das Nereidas nos seguia; + Os ventos, namorada Galatêa + Comsigo socegados os movia. + + Das argenteas conchinhas Panopêa + Andava por o mar fazendo mólhos, + Melanto, Dinamene, com Ligea. + + Eu, trazendo lembranças por antolhos, + Trazia os olhos n'ágoa socegada, + E a ágoa sem socêgo nos meus olhos. + + A bem-aventurança ja passada + Diante de mi tinha tão presente, + Como se não mudasse o tempo nada. + + E com o gesto immoto e descontente, + Co'hum suspiro profundo e mal ouvido, + Por não mostrar meu mal a toda a gente, + + Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido + Em puro amor tivestes, e inda agora + Da memoria o não tendes esquecido; + + Se por ventura fordes algum'hora + Adonde entra o grão Tejo a dar tributo + A Tethys, que vós tendes por Senhora; + + Ou ja por ver o verde prado enxuto, + Ou ja por colher ouro rutilante, + Das Tagicas areias rico fruto; + + Nellas em verso erotico e elegante + Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes; + Póde ser que algum peito se quebrante. + + E contando de mi memorias tristes, + Os pastores do Tejo, que me ouvião, + Oução de vós as mágoas que me ouvistes. + + Ellas, que ja no gesto m'entendião, + Nos meneios das ondas me mostravão + Qu'em quanto lhes pedia consentião. + + Estas lembranças, que me acompanhavão + Por a tranquillidade da bonança, + Nem na tormenta triste me deixavão. + + Porque chegando ao Cabo da Esperança, + Comêço da saudade que renova, + Lembrando a longa e aspera mudança; + + Debaixo estando ja da estrella nova + Que no novo Hemispherio resplandece, + Dando do segundo axe certa prova; + + Eis a noite com nuvens s'escurece; + Do ar subitamente foge o dia; + E todo o largo Oceano s'embravece. + + A máchina do mundo parecia + Qu'em tormentas se vinha desfazendo; + Em serras todo o mar se convertia. + + Lutando Boreas fero e Noto horrendo. + Sonoras tempestades levantavão, + Das naos as velas concavas rompendo. + + As cordas co'o ruido assoviavão; + Os marinheiros, ja desesperados, + Com gritos para o ceo o ar coalhavão. + + Os raios por Vulcano fabricados + Vibrava o fero e aspero Tonante, + Tremendo os Polos ambos de assombrados. + + Amor alli, mostrando-se possante, + E que por algum medo não fugia, + Mas quanto mais trabalho, mais constante; + + Vendo a morte presente, em mi dizia: + Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse, + Nada do que passei me lembraria. + + Emfim, nunca houve cousa que mudasse + O firme amor intrinseco daquelle + Em quem alguma vez de siso entrasse. + + Huma cousa, Senhor, por certa asselle, + Que nunca amor se affina, nem se apura, + Em quanto está presente a causa delle. + + Dest'arte me chegou minha ventura + A esta desejada e longa terra, + De todo pobre honrado sepultura. + + Vi quanta vaidade em nós s'encerra, + E nos proprios quão pouca; contra quem + Foi logo necessario termos guerra. + + Huma Ilha que o Rei de Porcá tem, + E que o Rei da Pimenta lhe tomára, + Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem. + + Com huma grossa armada, que juntára + O Viso-Rei, de Goa nos partimos + Com toda a gente d'armas que se achára. + + E com pouco trabalho destruimos + A gente no curvo arco exercitada: + Com morte, com incendios os punimos. + + Era a Ilha com ágoas alagada, + De modo que se andava em almadias: + Emfim, outra Veneza trasladada. + + Nella nos detivemos sós dous dias, + Que forão para alguns os derradeiros, + Pois passárão da Estyge as ondas frias. + + Qu'estes são os remedios verdadeiros + Que para a vida estão apparelhados + Aos que a querem ter por cavalleiros. + + Oh Lavradores bem-aventurados! + Se conhecessem seu contentamento, + Como vivem no campo socegados! + + Dá-lhes a justa terra o mantimento; + Dá-lhes a fonte clara d'ágoa pura; + Mungem suas ovelhas cento a cento. + + Não vem o mar irado, a noite escura, + Por ir buscar a pedra do Oriente; + Não temem o furor da guerra dura. + + Vive hum com suas árvores contente, + Sem lhe quebrar o somno repousado + A grã cobiça d'ouro reluzente. + + Se lhe falta o vestido perfumado, + E da formosa côr de Assyria tinto, + E das torçaes Attalicos lavrado; + + Se não tẽe as delicias de Corinto, + E se de Pario os marmores lhe faltão, + O pyropo, a esmeralda e o jacinto; + + Se suas casas de ouro não s'esmaltão, + Esmalta-se-lhe o campo de mil flores, + Onde os cabritos seus comendo sáltão. + + Alli lhe mostra o campo várias côres; + Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno; + Alli se affina o canto dos pastores. + + Alli cantára Tityro e Sileno. + Emfim, por estas partes caminhou + A sãa Justiça para o ceo sereno. + + Ditoso seja aquelle que alcançou + Poder viver na doce companhia + Das mansas ovelhinhas que criou! + + Este bem facilmente alcançaria + As causas naturaes de toda cousa; + Como se gera a chuva e neve fria: + + Os trabalhos do sol, que não repousa; + E porque nos dá lũa a luz alhêa, + Se tolher-nos de Phebo os raios ousa: + + E como tão depressa o ceo rodêa; + E como hum só os outros traz comsigo; + E se he benigna ou dura Cytherêa. + + Bem mal póde entender isto que digo, + Quem ha de andar seguindo o fero Marte; + Que sempre os olhos traz em seu perigo. + + Porém seja, Senhor, de qualquer arte, + Pois postoque a Fortuna possa tanto, + Que tão longe de todo o bem me aparte; + + Não poderá apartar meu duro canto + Desta obrigação sua, em quanto a morte + Me não entrega ao duro Radamanto; + + Se para tristes ha tão leda sorte. + + * * * * * + + +ELEGIA IV. + + Despois que Magalhães teve tecida + A breve historia sua, que illustrasse + A Terra Santa Cruz, pouco sabida; + + Imaginando a quem a dedicasse, + Ou com cujo favor defenderia + Seu livro d'algum zoilo que ladrasse; + + Tendo nisto occupada a phantasia, + Lhe sobreveio hum somno repousado, + Antes que o sol abrisse o claro dia. + + Em sonhos lhe apparece todo armado + Marte, brandindo a lança furiosa, + Com que fez quem o vio todo enfiado; + + Dizendo em voz pezada e temerosa: + Não he justo que a outrem se offereça + Obra alguma que possa ser famosa, + + Senão a quem por armas resplandeça + No largo inundo com tal nome e fama, + Que louvor immortal sempre mereça. + + Disse assi: quando Apollo, que da flama + Celeste guia os carros, de outra parte + Se lhe presenta, e por seu nome o chama, + + Dizendo: Magalhães, postoque Marte + Com seu terror t'espante, todavia + Comigo deves só de aconselhar-te. + + Hum Varão sapiente, em quem Thalia + Poz seus thesouros, e eu minha sciencia, + Defender tuas obras poderia. + + He justo que a escriptura na prudencia + Ache só defensão; porque a dureza + Das armas he contrária da eloquencia. + + Assi disse: e tocando com destreza + A cithara dourada, começou + A mitigar de Marte a fortaleza. + + Mas Mercurio, que sempre costumou + Pacificar porfias duvidosas, + Co'o Caducêo na mão, que sempre usou, + + Determina compor as perigosas + Opiniões dos deoses inimigos + Com suaves razões e ponderosas. + + E disse: Bem sabemos dos antigos + Heroes, e dos modernos, que provárão + De Belona os gravissimos perigos, + + Como tão bem mil vezes concordárão + As armas com as letras; porque as Musas + A muitos na milicia acompanhárão. + + Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas + Guerras o estudo deixão grande espaço; + Que as armas jamais delle são escusas. + + N'huma mão livros, n'outra ferro e aço; + Aquella rege e ensina; est'outra fere: + Mais co'o saber se vence, que co'o braço. + + Pois, logo, hum Varão grande se requere, + Que com teus dões (Apollo) illustre seja, + E de ti (Marte) palma e glória espere. + + Este vos darei eu, em quem se veja + Saber e esfôrço no sereno peito, + Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja. + + Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito, + Todas nove nos braços o tomárão, + Criando-o co'o seu leite no seu leito: + + As Artes e as Sciencias lh'ensinárão; + Inclinação divina lh'influírão + Ás virtudes moraes, que logo o ornárão. + + Daqui nos exercidos o seguírão + Das armas no Oriente, onde primeiro + Hum soldado gentil instituírão. + + Alli taes provas fez de Cavalleiro, + Que, de Christão magnanimo e seguro, + A si mesmo venceo por derradeiro. + + Despois, ja Capitão forte e maduro, + Governando toda a Aurea Chersoneso, + Lhe defendeo co'o braço o debil muro. + + Porque vindo a cercá-la todo o pêso + Do poder dos Achens, que se sustenta + De alheio sangue, em furia todo acceso; + + Este só que a ti, Marte, representa, + O castigou de sorte, que vencido + De ter quem vivo fique se contenta. + + E logo qu'este Reino defendido + Deixou, segunda vez com maior glória + Para o ir governar foi elegido. + + Mas não perdendo ainda da memoria + Os amigos o seu govêrno brando, + Os imigos o damno da victoria; + + Huns com amor intrinseco esperando + Estão por elle, e os outros congelados + O estão com frio medo receando. + + Vêde pois se serião debellados + Por seu claro valor, se lá tornasse, + E dos Indicos mares degradados. + + Porqu'he justo que nunca lhe negasse + O conselho do Olympo alto e subido + Favor e ajuda com que pelejasse. + + Aqui só póde ser bem dirigido + De Magalhães o estudo: este só deve + Ser de vós, claros deoses, escolhido. + + Assi Mercurio disse; e em termo breve + Conformados se vem Apollo e Marte; + E voou juntamente o somno leve. + + Acorda Magalhães, e ja se parte + A offrecer-vos, Senhor claro e famoso, + Tudo o que nelle poz sciencia e arte. + + Tẽe claro estylo, e engenho curioso, + Para poder de vós ser recebido, + Com mão benigna, de ânimo amoroso. + + Pois se só de não ser favorecido + Hum alto esprito fica baixo e escuro; + Este seja comvosco defendido, + + Como o foi de Malaca o debil muro. + + * * * * * + + +ELEGIA V. + + Aquelle mover de olhos excellente, + Aquelle vivo espirito inflammado + Do crystallino rosto transparente; + + Aquelle gesto immoto e repousado, + Qu'estando n'alma propriamente escrito, + Não póde ser em verso trasladado; + + Aquelle parecer, que he infinito + Para se comprender d'engenho humano; + O qual offendo em quanto tenho dito; + + Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano, + E tanto a engrandecer-me a phantasia, + Que não vi maior glória que meu dano. + + Oh bem-aventurado seja o dia + Em que tomei tão doce pensamento, + Que de todos os outros me desvia! + + E bem-aventurado o soffrimento + Que soube ser capaz de tanta pena, + Vendo que o foi da causa o entendimento! + + Faça-me quem me mata, o mal que ordena, + Trate-me com enganos, desamores; + Qu'então me salva, quando me condena. + + E se de tão suaves desfavores + Penando vive hum'alma consumida, + Oh que doce penar! que doces dores! + + E se huma condição endurecida + Tambem me nega a morte por meu dano, + Oh que doce morrer! que doce vida! + + E se me mostra hum gesto lindo humano, + Como que de meu mal culpada se acha, + Oh que doce mentir! que doce engano! + + E s'em querer-lhe tanto ponho tacha, + Mostrando refrear o pensamento, + Oh que doce fingir! que doce cacha! + + Assi que ponho ja no soffrimento + A parte principal de minha glória, + Tomando por melhor todo tormento. + + Se sinto tanto bem só co'a memoria + De ver-vos, linda Dama, vencedora; + Que quero eu mais que ser vossa victoria? + + Se tanto a vossa vista mais namora, + Quanto eu sou menos para merecer-vos; + Que quero eu mais que ter-vos por senhora? + + Se procede este bem de conhecer-vos, + E consiste o vencer em ser vencido, + Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos? + + S'em meu proveito faz qualquer partido, + Só na vista d'huns olhos tão serenos, + Que quero eu mais ganhar que ser perdido? + + Se, emfim, os meus espritos, de pequenos, + A merecer não chegão seu tormento, + Que quero eu mais, que o mais não seja menos? + + A causa, pois, m'esforça o soffrimento; + Porque, a pezar do mal que me resiste, + De todos os trabalhos me contento; + + Que a razão faz a pena alegre, ou triste. + + * * * * * + + +ELEGIA VI. + + Entre rusticas serras e fragosas, + Compostas d'asperissimos rochedos, + De salitradas lapas cavernosas; + + Onde gretando os humidos penedos + Orvalhados de neve branca e fria, + Brotando estão de si mil arvoredos; + + Huma floresta fez verde e sombria + A natureza experta, que rodeia, + Como elevado muro, a serrania. + + Neste formoso sítio se recreia + O lascivo Cupido entre as boninas, + Que sempre hum brando Zephyro meneia. + + Da candida cecem, das clavellinas, + Da salva, mangerona e das mosquetas, + Das rubicundas flores hyacinthinas, + + Muitas capellas tece, que de setas + Lhe servem contra peitos de donzellas, + A quem d'inveja traz sempre inquietas. + + Não são d'huma só côr as flores bellas; + Que humas esmalta verde, outras rosado, + Entre as azues crescendo as amarellas. + + Dos agrestes loureiros rodeado, + Faz o valle huma sombra deleitosa, + Quando apparece o sol mais levantado. + + E por cima da relva bem graciosa + As gottas de crystal quasi imitando + Estão do aljofar puro a luz formosa. + + As crystallinas fontes, que brotando + Por entre alvos seixinhos se derivão, + Das árvores os troncos vão banhando. + + Entre as limpidas ágoas, qu'inda esquivão + O formoso pastor que se perdeo, + Preso das falsas mostras que o captivão, + + Cresce a por cuja causa s'esqueceo + A linda Cytherêa de Vulcano, + Quando presa d'Amor se lhe rendeo. + + Na brancura do rosto soberano, + Inda as crueis feridas apparecem + Do javali cerdoso e deshumano. + + As rosas que de sangue resplandecem, + As candidas boninas marchetadas, + Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem. + + Do matutino orvalho rociadas, + As flores rutilantes e cheirosas + Estão como por cima prateadas. + + Os humidos botões abrindo as rosas, + Que os agudos espinhos vão cercando, + No prado se vem rindo deliciosas. + + A mellifera abelha, susurrando + Por cima das boninas que rodeia, + Está co'o som das ágoas concertando. + + Do trémulo regato a branda areia + De jacinthos se cobre e de vieiras, + Qu'encrespão da corrente a branca veia. + + Os álamos s'abração co'as videiras + De sorte, que s'enxérga escassamente + Se são os cachos seus, se das parreiras; + + E pendendo por cima da corrente, + Outro formoso bosque debuxando + Estão no fundo della brandamente. + + Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando + Do perfido cunhado a crueldade, + Mágoas em melodias transformando. + + A solitaria rôla com soidade + Desfaz o rouco peito, ja cansada + De que não move a morte a piedade. + + A domestica Progne anda banhada + No sangue de seus filhos, em vingança + Da triste Philomela profanada. + + De competir co'o merlo não descança + O garrulo calhandro, qu'enrouquece + Por não perder callado a confiança. + + Em quanto o pobre ninho ajunta e tece + O sonoro canario, modulando + Engana a grave pena que padece. + + Alguns versos s'escuta derramando + O vário pintasirgo, tão saudaveis, + Que produzem memorias d'amor brando. + + Por os direitos troncos ha notaveis + Epigrammas; alguns d'antigua historia, + Que contra o duro tempo são duraveis. + + Huns de cruel tormento, outros de glória, + Conforme a liberdade do qu'escreve, + Estranhos casos mostrão á memoria. + + O que neste lugar contente esteve, + Contente declarou seu pensamento, + E os prazeres tambem que nelle teve. + + Mas outros, declarando o sentimento + Que dos olhos destila tristes ágoas, + Deixárão mil lembranças de tormento. + + Abrazando-se alguns em vivas frágoas, + Escrevêrão do bosque em muitas partes + Gostos d'Amor agora, agora mágoas. + + Porque, cruel menino, o premio partes + A quem serás[2] tyranno se lho negas, + E injusto e desigual, se lho repartes? + + Porqu'enganas as almas que tão cegas + Arrastas apos ti, de error captivas? + Porque a crueis rigores as entregas? + + Para que contra hum peito assi t'esquivas, + Que humilde se sujeita a teu cuidado, + Com enganos de sombras fugitivas? + + Levas, como a menino, hum pobre a nado, + N'huma apparencia falsa embevecido, + Quando co'os braços corta o mar inchado. + + Querendo-se tornar, vê-se perdido; + Ja grita que se affoga; e tu zombando, + Da praia entre os penedos escondido! + + O triste, que conhece ir-se affogando, + No meio da arriscada zombaria + Por divino soccorro está clamando. + + Mas eu de que m'espanto, se dizia + Hum sabio que d'enganos se temesse + O que tomasse a hum cego tal por guia? + + Nunca nelle a firmeza permanece; + Se nos dá gôsto algum, muda-se logo; + Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece. + + Anda co'os corações sempre em hum jôgo; + Humas vezes os faz de pedra fria, + Outras os faz de neve, outras de fogo. + + Tornando ao bosque meu que descrevia, + Despois de ter contado da frescura + Que nelle tão pomposa apparecia, + + Referir quero agora huma aventura + Que nelle ao vão Narciso aconteceo, + Digna de se chorar com mágoa pura. + + Castigo foi que o moço mereceo + Por se mostrar esquivo com aquella, + Qu'em viva pedra Juno converteo. + + Ardia em fogo d'alma a vãa donzella, + Soffrendo hum duro peito; que a Narciso, + Quando ella mais se abraza, mais congela. + + E quando a fraca Nympha mais de siso + Mostrava hum signal certo de firmeza, + Então se provocava o moço a riso. + + Ja d'huma profundissima tristeza + A descora o rigor que a consumia. + Como diz desfavor mal com belleza! + + O gelado pastor folgava e ria; + Mas vendo-a de seu gôsto andar contente, + Por não a contentar s'entristecia. + + He tal o seu rigor, que não consente + Que seja o gôsto proprio festejado; + Antes disso se mostra descontente. + + Mas o cego Cupido, d'affrontado, + Em vingança da fé que desprezou, + Fez que fosse de si mesmo enganado. + + Casualmente hum dia se chegou + A beber n'huma fonte crystallina, + Que de si nova sêde lhe causou. + + Vendo a sua figura peregrina + Que a fonte dentro em si representava, + Se perdeo por imagem tão divina. + + Como ja, d'enlevado, não cuidava + Nos enganos que a sombra lhe fazia, + Vendo o formoso rosto, suspirava. + + Por as avaras ágoas se metia; + E quanto mais molhava os tenros braços, + Então mais vivamente o fogo ardia. + + Vendo-se assi prender em duros laços, + Ao sentimento obriga a paciencia, + Dando, fóra de si, ao vento abraços. + + Embevecido todo n'apparencia, + Sem saber de cuidado o que sentia, + Não fez ao doce engano resistencia. + + Ao ver-se longe mais, mais perto via + O peregrino gesto; e se chegava, + Então para mais longe lhe fugia. + + Vendo, emfim, como em tudo o remedava + Cahio no torpe engano que tivera, + A tempo que de si ja preso estava. + + A belleza que a tantas morte dera, + De si mesma se abraza e se captiva. + Quão longe então de si ver-se quizera! + + Ella se abranda propria; ella se esquiva; + E sendo ella somente a que se amava, + Ella se chama ingrata e fugitiva. + + A formosura, pois, que namorava, + Com tal difficuldade era seguida, + Qu'estando dentro em si, mui longe estava. + + A solitaria Nympha, qu'escondida + Ja nas cavernas concavas se via, + Dos males que lhe ouvio foi commovida. + + Das namoradas mágoas que dizia + O namorado moço, ella somente + Os ultimos accentos repetia. + + Elle vendo-se estar alli presente, + As crystallinas ágoas accusava + De que ellas o fazião descontente. + + Outras vezes á fonte, quando a olhava, + Ja cego, e sem juizo, agradecia + A figura que dentro lhe mostrava. + + Mas vendo qu'ella em nada se dohia + De seu grave tormento, grita e chora. + Quanto erra quem de sombras se confia! + + Ja lhe pede que saia para fóra. + Ignorando que sempre fóra esteve + A belleza que nelle proprio mora. + + Despois que longo espaço se deteve + Nestes queixumes seus tão lastimosos, + Que com tão longo ser, julgou por breve; + + Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos, + Do valle se despede e da espessura, + Dando soluços da alma vagarosos. + + Entregue na vontade da ventura, + Ou, por melhor dizer, de seus enganos, + Ao centro se arrojou da fonte pura. + + Dest'arte feneceo em tenros anos + Narciso, dando exemplo á formosura + De que tema, se he tal, tambem seus danos. + + Sentimento mostrou da sorte dura + O namorado Jupiter, mudando + Ao moço em flor purpurea, qu'inda dura. + + Aquellas claras ágoas rodeando, + Onde por seus amores se perdeo, + Está despois da morte acompanhando. + + Tanto no seu engano procedeo, + Que não sabe na morte inda apartar-se + Dos erros que na vida commetteo. + + Bem póde o coração desenganar-se, + Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado, + Não costuma na morte resfriar-se. + + Porque despois do corpo sepultado, + Prisão onde s'encerra o fraco esprito, + Eternamente chora o seu cuidado. + + E das escuras ágoas do Cocito + A rapida corrente refreando, + Celebra o lindo gesto n'alma escrito. + + Lá se está co'os favores recreando; + E se foi desprezado, lá padece, + As duras esquivanças lamentando. + + Nem dos avaros olhos lá s'esquece, + Que de formoso verde a terra esmaltão, + Por não ver os do triste qu'endoudece. + + Assi que os desfavores nunca faltão, + Até despois da morte perseguindo + Hum triste coração que desbaratão. + + Triste de quem em vão lhe vai fugindo! + +[2] Este terceto foi viciado na cópia e depois, ao que parece, corrigido +por mão estranha. A versificação está certa, mas o sentido he absurdo: +e se a verdadeira lição não he: + + Porque, cruel menino, o premio partes + De modo que es tyranno, quando o negas, + E injusto e desigual, quando o repartes? + +não podemos adivinhar qual seja. _Nota dos Editores._ + + * * * * * + + +ELEGIA VII. + + Ao pé d'hum'alta faia vi sentado, + N'hum valle deleitoso e bem florido, + A Almeno, pastor triste e namorado. + + Outro no mundo póde haver nascido + Mui queixoso de Amor; porém não tanto, + Como este amante, por amar perdido. + + Ja Venus hia recolhendo o manto + Escuro com que a terra se mostrava, + Para ajudar d'Almeno o triste pranto. + + Apollo sôbre os montes derramava + Seus dourados cabellos, que fazião + Ao triste inda mais triste do qu'estava. + + As flores por o prado s'estendião. + E das que finas mais erão as côres, + Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião. + + Ja guiavão seus gados os pastores, + Que, deixando-os no campo deleitoso, + Com ellas praticavão só d'amores. + + Mas era esta alegria hum perigoso + Estado para Almeno entristecido; + E por isso a deixava pressuroso, + + Buscando outro lugar: contra Cupido + Claramente exclamava, e o arguia + De contrário, d'astuto e fementido. + + De quando em quando a frauta que tangia. + Numeros dava ao ar tão docemente, + Que as aves provocava a melodia. + + Cego assi desta dor, deste accidente, + Com os olhos em lagrimas banhados, + Postos no ceo, dizia tristemente: + + Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados, + Porque mos déste tu para offender-te, + Quando livre vivia nestes prados? + + Não vês quanto me negas merecer-te + O bem que me mostravas, se deixasse + Ferir meu coração para soffrer-te? + + Qual bem me has dado, Amor, que me durasse? + Ou qual me has promettido, que hajas dado? + Ou qual déste, que muito não custasse? + + Mostra-me quem puzeste em tal estado, + Que pudesse viver de ti contente, + Ou quem de ti não fosse lastimado? + + Inimigo cruel de toda a gente, + Ja não quero teu bem, só meu mal quero; + Se de ti nem meu mal se me consente. + + Inda que de teus bens ja desespéro, + Não desprézo dos males o tormento; + Antes o prezo mais, quando he mais fero. + + Arrebatado deste pensamento + Hia o triste pastor com hum contino + Pranto, que lhe avivava o sentimento. + + Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino, + Qu'era de Amor plantado; e parecendo + Lhe está menos humano que divino. + + Nelle a dor sua esteve suspendendo: + Porém não, como cervo, está ferido, + Reparo ao mal que leva pretendendo. + + Apparecia o sítio tão florído, + Que provocava a não vulgar espanto, + Entre huns altos ulmeiros escondido. + + D'hum crystallino orvalho tinha o manto, + Quando entrou nelle o misero pastor, + E as tenções explicou neste seu canto. + + Ó bellas rosas, vós que sois amor, + He por dita humildade, ou he baixeza, + O ter apar de vós murta, que he dor? + + Papoulas conversais, que são tristeza! + Não desprezais o cardo, que he tormento! + Admittis a hortelãa, sendo crueza! + + Dos goivos longe vejo o sentimento; + Dos jasmins perto estou vendo o perigo; + Dos malmequeres vejo o soffrimento. + + Deste me temerei como inimigo; + Mas traz por armas salva, que he razão: + Com ella acabará tambem comigo. + + As minhas vem a ser huma affeição, + Que são os puros cravos misturados + Co'a vontade sujeita, que he limão. + + Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados! + Ai crespa mangerona, que es prazer! + Vós sós devieis adornar os prados. + + Não pódem dous oppostos juntos ser: + Onde se põe giesta, que he lembrança, + Junto do rosmaninho, que he 'squecer? + + Bem peza do leve álamo a mudança; + Do roxo goivo anima o pensamento + Do cypreste odorifero a esperança. + + O trevo, que he sentido apartamento, + Cérca o mangericão, que se interpreta + Memoria a quem offende o esquecimento. + + Mais importuna que o jardim de Creta, + A ameixieira a flor está soltando: + A segurelha vejo, que he discreta. + + As hervas que daqui irei tomando, + São a pura cecem, qu'he saudade; + Cravos, medo de ver qual de amor ando. + + E, de ter mui perdida a liberdade, + Tomarei madresylva entendimento; + Legação tomarei, porqu'he verdade. + + Marmeleiro me dá arrependimento: + Por a salva, que he gôsto, tomarei + Coentro opposto ao meu contentamento. + + Conhecimento firme nunca achei, + Que violetas são; e, quando o houvera, + Qual meu damno então fôra, bem o sei. + + Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera + Ver-vos aqui menor, pois sois victória, + Que de mi alcançou chamma severa! + + Mas se quereis que tenha alguma glória, + Por galardão d'amar e ser sujeito, + Perderei de tormentos a memoria. + + Porém, pois mo negais, de todo engeito + A palma, qu'he ventura; e na parreira, + Qu'he'sperança perdida, me deleito. + + Entretanto co'a flor da laranjeira, + Qu'he desafio duro e arriscado, + Posso arguir da hora derradeira. + + Ja não se quer deter o meu cuidado + Com a romãa descanso: a brevidade + Das maravilhas só tẽe desejado. + + E vós, ovelhas minhas, sem piedade + Vos apartae de mi, se algum desejo + Tendes de ter do pasto mais vontade. + + Se muita de me verdes em vós vejo, + Toda a minha de ver-vos hei perdido + Á força do poder d'amor sobejo. + + Lograe do Tejo o placido ruido; + Sós lograe estas veigas florecidas: + Pois se perde o pastor vosso querido, + + Não gosteis de com elle ser perdidas. + + * * * * * + + +ELEGIA VIII. + + Belisa, unico bem desta alma triste, + Descanso singular de minha vida, + Throno donde o poder d'Amor consiste; + + Formosa fera, a quem está rendida + D'Amor a que he mais livre liberdade, + Ganhada mais, se mais por ti perdida; + + Quão contrário parece na beldade, + Que os corações captiva com brandura, + Alguma nódoa haver de crueldade! + + Quão contrário parece em formosura, + Que deixa muito atraz quanto he humano, + Esquiva condição, ou alma dura! + + Quão mal parece em quem só co'hum engano + Póde dar vida ao coração sujeito, + Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano! + + Quão mal parece que hum amor perfeito + Não seja d'outro igual remunerado, + Inda que seja, acaso, contrafeito! + + Quão mal parece estar desesperado + Quem tanto por ti soffre e tẽe soffrido, + Devendo estar de penas alliviado! + + Porém peor parece quem rendido + Não for a hum parecer que tudo rende, + Por mais qu'em seu rigor viva offendido. + + E inda peor parece quem defende + O ser essa belleza sempre amada, + Por mais qu'em vão se canse o que a pretende. + + Se quem te mostra amor te desagrada, + Só pódes pretender o não ser vista, + Mas não despois de vista o ser deixada. + + Quão mal sabe o valor de tua vista + Quem cuida que o que della acaso alcança + Póde achar coração que lhe resista! + + Quão bem pareceria huma esperança + Ja concedida a meu amor ardente, + Não sempre huma mortal desconfiança! + + Se hum padecer por ti constantemente + Pudesse ser reparo a quem mais te ama, + Inda esperar pudera o ser contente. + + Mas eu temo que aquella immensa chama + Com que a teu bello imperio me levaste, + Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama. + + Se a Olympica belleza assi imitaste, + Que brandamente move hum amor puro, + Porque tão dura condição tomaste? + + Qual elevado, qual soberbo muro + Este mal, que m'occupa o pensamento, + Contado, não tornára menos duro? + + Tu, qu'es a causa só de meu tormento, + Tu, que somente podes gloriar-me, + Queres que as minhas queixas leve o vento? + + Tu, que me pagarias com matar-me, + Inda a morte me negas vezes tantas? + Ai, que me deras vida em morte dar-me! + + Usa piedade, tu, que o mundo espantas + Co'os bellos olhos, com que o douras tanto, + Se acaso a vê-lo brandos os levantas. + + Estende-se na terra o negro manto, + E á noute dá alegria a luz alheia; + Mas nos meus olhos tristes dura o pranto. + + Torna a manhãa despois alegre e cheia + Da luz que o chôro enxuga á bella Aurora; + Mas do meu chôro nunca enxuga a veia. + + Lagrimas ja não são qu'esta alma chora, + Mas amor he vital que dentro arde, + E por a luz dos olhos salta fóra. + + Como inda a morte quer que mais aguarde? + Não tarde ja, mas corra a mal tão fero. + Mas ja por mais que corra virá tarde. + + Nem no supremo trance de ti 'spero + Qu'inda com ver o estado em que me has pôsto + Queiras, crua, entender quanto te quero. + + Ai! se volveres esse bello rosto + Ao lugar triste em que morrer me vires, + Não por desgôsto teu, mas por teu gôsto, + + Não quero de ti, não, que alli suspires, + Nem que de dar-me a morte te arrependas, + Mas que os olhos de ver-me então não tires. + + Assi nunca pastor a quem te rendas, + Te faça conhecer o que me fazes, + Para que com teu mal meu mal entendas! + + Como ja agora não te satisfazes + Das penas deste amor, que por querer-te, + De teu merecimento são capazes? + + Pois quem com outro merito render-te + Presume, (oh raro monstro de belleza!) + Muito mais longe está de merecer-te. + + Este si, que merece a grã crueza + Com que tu d'acabar-me a vida tratas, + Pois diante de ti, de si se preza. + + Se cuidas que com isto desbaratas + O meu constante amor, porque não viva, + Elle mais vive quando mais me matas. + + Se o dar-me morte tens por glória altiva, + Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina + A matar mais de branda que d'esquiva. + + S'esta alma tua julgas por indina + Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde, + Do descoberto mal a faze dina. + + Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde, + A poder reduzir-te a ser piedosa? + Ou m'acaba de todo, ou me responde. + + Mas por mais que te mostres rigorosa, + Deixar meu pensamento m'he impossivel, + Igualmente que a ti não ser formosa. + + E por mais qu'esta dor seja terrivel, + Somente o contemplar a causa della, + Inda que a faz maior, a faz soffrivel + + Porém chegando a não poder soffrê-la, + Perdendo a vida; quando a morte chame, + Não perderei o gôsto de perdê-la. + + He justo qu'eu por ti mil mortes ame: + Mas vê tu se te illustra, quando offensa + Minha mortal o teu valor se chame. + + Bem vês que huma beldade tão immensa + De vencer-me tẽe glória bem pequena, + Pois só render-me tomo por defensa. + + Mas ja que amor tão puro me condena, + Contente fico assaz desta victoria; + Que não me dão meus males tanta pena, + + Quanto o serem por ti me dá de glória. + + * * * * * + + +ELEGIA IX. + + A vida me aborrece, a morte quero: + Será eterno o meu mal, segundo entendo, + Pois na mor esperança desespéro. + + Sem viver vivo, por morrer vivendo + Por não verdes, Senhora, como eu vejo, + Quanto de mi por vós me ando esquecendo. + + Seja-me agradecido este desejo; + Ingrata não sejais a quem vos ama + Com puro e honestissimo despejo. + + A culpa que me pondes, ponde-a á fama, + Que pregôa de vós celeste vida + Que os corações d'amor divino inflama. + + Humana, quando não agradecida, + Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso, + Antes que a alma do corpo se despida. + + Mas que posso eu fazer, pois ja não posso + Hum tormento domar tão forte e duro, + Homem formado só de carne e de osso? + + Em minha fé segura me asseguro; + Porqu'esta, quando he grande, jamais erra, + Se resulta d'amor sincero e puro. + + Essa beldade santa me faz guerra; + Por ella hei de morrer, inda que veja + Tornar o brando rio em dura serra. + + Que cousa tenho eu ja que minha seja? + Quem não deseja a vossa formosura, + Não póde assegurar que o ceo deseja. + + De qu'eu sempre a deseje estae segura: + Neste desejo meu nunca mudança + Hão de ver as mudanças da ventura. + + A vida tenho posta na balança + Da glória singular, do damno esquivo; + Que o perdê-la por vós he mor bonança. + + Se vos offendo, cuido que não vivo: + Olhae se muito mais que de offender-vos, + Das esperanças do viver me privo. + + O que temo somente he só perder-vos; + O que quero somente he só adorar-vos; + O que somente adoro he só querer-vos. + + Querer-vos sem deixar de venerar-vos; + Desejar-vos somente por servir-vos; + Por servir a amor vil não desejar-vos: + + Somente ver-vos, e somente ouvir-vos + Pretendo; e pois somente isto pretendo, + Deveis a estes sentidos permittir-vos. + + Isto somente, (oh cego!) estou dizendo, + Como se fôra pouco isto somente! + Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo? + + Se o não merece o meu amor decente; + Se morte por amar-vos se merece, + Morra eu, Senhora; e vós ficae contente. + + Se vos aggrava quem por vós padece; + Se vos vẽe a offender quem vos quer tanto, + Quem desta sorte errou não desmerece. + + Que quando os olhos da razão levanto + Ao ceo d'essa rarissima belleza, + De não morrer por ella só m'espanto. + + Deixae-me contentar desta tristeza, + E fazer de meus olhos largo rio; + Se algum póde abrandar vossa dureza. + + Correndo sempre as lagrimas em fio, + Farei crescer as hervas por os prados, + Pois ja d'outra alegria desconfio. + + No monte darei pasto a meus cuidados; + E serão de mi sempre entre os pastores + Esses divinos olhos celebrados. + + Aprenderão de mi os amadores + Aquillo que se chama amor sublime, + Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores. + + E nenhum havera que a pena estime + Mais soberana por a causa della, + Que a que teve até então não desestime; + + E qu'inveja não mostre á minha estrella. + + * * * * * + + +ELEGIA X. + + Que tristes novas, ou que novo dano, + Qu'inopinado mal incerto sôa, + Tingindo de temor o vulto humano? + + Que vejo? as praias humidas de Goa + Ferver com gente attonita e turbada + Do rumor que de boca em boca vôa! + + He morto D. Miguel (ah crua espada!) + E parte da lustrosa companhia + Que alegre s'embarcou na triste Armada: + + E d'espingarda ardente e lança fria + Passado por o torpe e iniquo braço, + Que nossas altas famas injuría. + + Não lhe valeo escudo, ou peito d'aço, + Não ânimo d'avós claros herdado, + Com que temer se fez por longo espaço. + + Não ver-se em de redor todo cercado + D'irados inimigos, qu'exhalavão + A negra alma do corpo traspassado. + + Não as fortes palavras que voavão + A animar os incertos companheiros, + Que timidos as costas lhe mostravão. + + Mas ja postos, nos termos derradeiros, + (Rotos por partes mil e traspassados + Os membros, no valor somente inteiros) + + Os olhos (de furor acompanhados, + Qu'inda na morte as vidas amedrentão + Dos duros inimigos espantados) + + Postos no ceo, parece que presentão + A alma pura á suprema Eternidade, + Por quem os ceos e a terra se sustentão. + + E pedindo dos erros, que na idade + Immatura e innocente ja fizera, + Perdão á pia e justa Magestade, + + As rosas apartou da neve fria; + E, como debil flor, a quem fallece + O radical humor de que vivia, + + Nas mãos do Coro Angelico, que dece, + S'entrega; e vai lograr a vida eterna, + Que com morte tão justa se merece. + + Vai-te, alma, em paz á gloria sempiterna; + Vai, que quem por a Lei sacra e divina + A sólta, áquelle a dá que o ceo governa. + + Mas se de tal valor foi morte dina, + A ausencia que do gôsto nos saltêa, + A perpétua saudade nos inclina. + + Deixa pois tu, formosa Cytherêa, + Do gentil filho e neto de Cyniras + O pranto por a morte horrida e fêa. + + E tu, dourado Apollo, que suspiras + Por o crespo Jacintho, moço charo, + Por quem a clara luz ao mundo tiras; + + Vinde e chorae hum moço em tudo raro, + Não de ferino dente vulnerado, + Nem de risco sujeito a algum reparo: + + Mas só de ferro imigo traspassado; + Que sem duvida incerta, ou frio medo, + A vida poz nas mãos de Marte irado. + + Tambem tu, moço Idalio, assiste quedo; + Deixa de dar o venenoso mel + A beber por os olhos, triste e ledo. + + Pois os formosos olhos de Miguel + Ja cobertos se vem do escuro manto + Da lei geral a todos mais cruel. + + E vós, filhas de Thespis, que co'o canto + Podeis bem mitigar a dor immensa + Dos irmãos generosos e alto pranto; + + Não consintais que fação larga offensa + Á grande integridade, a que se devem + Ágoas não só, do damno recompensa. + + Que ja diante os olhos me descrevem, + Quando as bocas da Fama voadora + Ao patrio e claro Tejo as novas levem, + + A profunda tristeza; qu'em hum'hora + Tal posse tomará dos altos peitos, + Que delles o discurso lance fóra. + + Alli de dor os corações sujeitos + Hão de lançar de si toda a memoria + D'exemplos claros, solidos respeitos. + + Mas, porém se igualais a vida á glória, + Ó claro Dom Philippe, e pretendeis + Deixar-nos de acções vossas larga historia; + + Eu não vos persuado a que estreiteis + O coração na Estoica disciplina, + Onde livre d'affectos vos mostreis. + + Que mal a natureza determina + Medo, esperanças, dores e alegria, + Como o Cynico velho nos ensina. + + Immanidade estupida (dizia + O Sulmonense canto) e vil rudeza, + He não sentir affectos que a alma cria. + + Porém se o sentir nada for bruteza, + E se paixão devida se consente, + Tambem o sentir muito he ja fraqueza. + + Em vós hum soffrer alto s'exprimente, + Qual nos fortes Varões foi conhecido, + Como em estranha, em Lusitana gente. + + Bem conheço que o corpo assi perdido, + Como de illustre tumulo carece, + Será de brutas feras consumido. + + Mas consola-me, emfim, que se parece + Ao grande bisavô, que por a vida + Real, a sua á Maura lança offrece. + + Em pedaços a gente enfurecida + O corpo alli lhe deixa; e com mão dura + Lhe nega a sepultura merecida. + + Facil he a perda aqui da sepultura: + Diogenes prudente, e Theodoro + Pouco sentem do corpo essa jactura. + + Assi formoso e inteiro, assi decoro + Adorna quem o tẽe, como o tomou, + Quando se ouvir o extremo som canoro. + + Mas ai! qual terror subito occupou + O vosso claro peito, ó Portuguezes? + Qual pavido temor vos congelou? + + Que lançadas, que golpes, que revézes + Vos fizerão fazer tamanha injúria + Aos fortes Lusitanicos arnezes? + + Ou ja de Capitão sobeja incuria, + Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava + Com seu peito dos barbaros a furia. + + Ou ja do ferreo cano a fôrça brava + Com estrondos que atroão mar e terra, + Os corações ardentes congelava? + + Ah! quem vos fez que os impetos da guerra + Não sustentasseis com valor ousado, + Desprezando o temor que a vida encerra? + + A vida por a Patria e por o Estado + Pondo nossos avós, a nós deixárão, + Em terra e mar, exemplo sublimado. + + Elles a desprezar nos ensinárão + Todo temor. Pois como agora os netos + Subitamente assi degenerárão? + + Não pódem, certo, não, viver quietos + Com feia infamia peitos generosos, + Ja em publicos lugares, ja em secretos. + + Mortos d'Esparta os Héroes valerosos + Da fera multidão, fazendo extremos, + Taes Epitaphios tinhão gloriosos: + + _Dirás, Hóspede, tu, que aqui jazemos + Passados do inimigo ferro, em quanto + Ás santas Leis da Patria obedecemos._ + + Fugindo os Persas vão com frio espanto, + Mas achão as mulheres no caminho, + Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto. + + Pois do damno fugís, vendo-o visinho, + Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizião) + Outra vez no materno e escuro ninho. + + Vêde quaes com mais glória ficarião, + Se aquelles que morrêrão por o Estado, + S'estes a quem mulheres injurião? + + Mas tu, claro Miguel, que ja acordado + Deste sonho tão breve, estás naquella + Tôrre do ceo, seguro e repousado; + + Onde, com Deos unida a forte e bella + Alma, com teus Maiores reluzindo, + Trocaste cada chaga em clara estrella; + + Co'os pés o crystallino ceo medindo, + Nada d'essas altissimas Espheras, + Nem da terreste aos olhos encobrindo; + + Agora hum curso e outro consideras, + Agora a vaidade dos mortaes, + Que tu tambem passáras se vivêras, + + . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . + + * * * * * + + +ELEGIA XI. + + Se quando contemplamos as secretas + Causas, por que este mundo se sustenta, + E o revolver dos ceos e dos planetas; + + E se quando á memoria se presenta + Este curso do sol tão bem medido, + Que hum ponto só não míngua, nem s'augmenta; + + Aquelle effeito, tarde conhecido, + Da lua na mudança tão constante, + Que minguar e crescer he seu partido; + + Aquella natureza tão possante + Dos ceos, que tão conformes e contrarios + Caminhão, sem parar hum breve instante; + + Aquelles movimentos ordinarios, + A que responde o tempo, que não mente, + Co'os effeitos da terra necessarios; + + Se quando, emfim, revolve subtilmente + Tantas cousas a leve phantasia, + Sagaz escrutadora e diligente; + + Bem vê, se da razão se não desvia, + Aquelle unico Ser, alto e divino, + Que tudo póde, manda, move e cria. + + Sem fim e sem princípio, hum Ser contino; + Hum Padre grande, a quem tudo he possibil, + Por mais que o difficulte humano atino: + + Hum saber infinito, incomprehensibil; + Huma verdade que nas cousas anda, + Que mora no visibil e invisibil. + + Esta potencia, emfim, que tudo manda, + Esta Causa das causas, revestida + Foi desta nossa carne miseranda. + + Do amor e da justiça compellida, + Por os erros da gente, em mãos da gente + (Como se Deos não fôsse) deixa a vida. + + Oh Christão descuidado e negligente! + Pondera-o com discurso repousado; + E ver-te-has advertido facilmente. + + Ólha aquelle Deos alto e increado, + Senhor das cousas todas, que fundou + O ceo, a terra, o fogo, o mar irado; + + Não do confuso caos, como cuidou + A falsa Theologia, e povo escuro, + Que nesta só verdade tanto errou; + + Não dos atomos leves d'Epicuro; + Não do fundo Oceano, como Thales, + Mas só do pensamento casto e puro. + + Ólha, animal humano, quanto vales, + Pois este immenso Deos por ti padece + Novo estylo de morte, novos males. + + Ólha que o sol no Olympo s'escurece, + Não por opposição de outro Planeta; + Mas só porque virtude lhe fallece. + + Não vês que a grande máchina inquieta + Do mundo se desfaz toda em tristeza, + E não por causa natural secreta? + + Não vês como se perde a Natureza? + O ar se turba? o mar batendo geme, + Desfazendo das pedras a dureza? + + Não vês que cahe o monte, a terra treme? + E que lá na remota e grande Athenas + O docto Areopagita exclama e teme? + + Oh summo Deos! tu mesmo te condenas, + Por o mal em qu'eu só sou o culpado, + A tamanhas affrontas, tantas penas? + + Por mi, Senhor, no mundo reputado + Por falso, e violador da sacra Lei? + A fama a ti se põe do meu peccado? + + Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei. + Pois como entre ladrões eu não padeço? + A pena a ti se dá do qu'eu errei? + + Eu servo sem valor, tu immenso preço, + Em preço vil te pões, por me tirares + Do captiveiro eterno que mereço? + + Eu por perder-te, e tu por me ganhares + Te dás aos soltos homens, que te vendem, + Só para os homens presos resgatares? + + A ti, que as almas sóltas, a ti prendem? + A ti summo Juiz, ante Juizes + Te accusão por o error dos que te offendem? + + Chamão-te malfeitor; não contradizes: + Sendo tu dos Prophetas a certeza, + Dizem que quem te fere prophetizes. + + Rim-se de ti; tu choras a crueza + Que sôbre elles virá: a gente dura, + Por quem tu vens ao mundo, te despreza. + + O teu rosto, de cuja formosura + Se veste o ceo e o sol resplandecente, + Diante quem pasmada está a Natura, + + Com cruas bofetadas da vil gente, + De precioso sangue está banhado, + Cuspido, atropellado cruelmente. + + Aquelle corpo tenro e delicado, + Sôbre todos os Santos sacrosanto, + A açoutes rigorosos desangrado; + + Despois coberto mal d'hum pobre manto, + Que se pegava ás carnes magoadas + Para dobrar-lhe as dores outro tanto. + + Magoavão-no as chagas não curadas, + Hum tormento causando-lhe excessivo + Ao despir por as mãos crueis e iradas. + + As venerandas barbas de Deos vivo + De resplandor ornadas, s'arrancavão + Para desempenhar a Adão captivo. + + Com cordas por as ruas o levavão, + Levando sôbre os hombros o trophéo + Da victoria qu'as almas alcançavão. + + Ó tu, que passas, homem Cyrenêo, + Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro, + Que agora, como humano, enfraqueceo. + + Ólha que o corpo afflicto do marteiro, + E dos longos jejuns debilitado, + Não póde ja co'o pêso do madeiro. + + Oh não enfraqueçais, Deos incarnado! + Essas quédas, que tanto vos magôão, + Supportae Cavalleiro sublimado. + + Aquellas altas vozes, que lá sôão, + Dos Padres são, que o Limbo tẽe escuro, + E ja de louro e palma vos corôão. + + Todos vos bradão que subais o muro + Da cidade infernal, e que arvoreis + Em cima essa bandeira mui seguro. + + Oh Santos Padres! não vos apresseis; + Pois muito mais a Deos, que a vós, custárão + Essas duras prisões em que jazeis. + + Aquellas mãos que o mundo edificárão, + Aquelles pés que pízão as estrellas, + Com durissimos pregos s'encravárão. + + Mas qual será o humano qu'as querellas + Da angustiada Virgem contemplasse, + Sem se mover a dor e mágoa dellas? + + E que dos olhos seus não destillasse + Tanta cópia de lagrimas ardentes, + Que carreiras no rosto sinalasse? + + Oh quem lhe víra os olhos refulgentes + Convertendo-se em fontes, e regando + Aquellas faces bellas e excellentes! + + Quem a ouvíra com vozes ir tocando + As estrellas, a quem responde o ceo, + Co'os accentos dos Anjos retumbando! + + Quem víra quando o puro rosto ergueo + A ver o Filho, que na Cruz pendia, + Donde a nossa saude descendeo! + + Que mágoas tão chorosas que diria! + Que palavras tão miseras e tristes + Para o ceo, para a gente espalharia! + + Pois que sería, Virgem, quando vistes + Com fel nojoso, e com vinagre amaro + Matar a sêde ao Filho que paristes? + + Não era este o licor suave e claro, + Que para o confortar então darieis + A quem vos era, mais que a vida, charo. + + Como, Virgem Senhora, não corrieis + A dar as puras tetas ao Cordeiro, + Que padecer na Cruz com sêde vieis? + + Não era só, não, esse o verdadeiro + Poto, que vosso Filho desejava, + Morrendo por o mundo em hum madeiro; + + Mas era a salvação que alli ganhava + Para o misero Adão, que alli bebia + Na fonte que do peito lhe manava. + + Pois, ó pura e Santissima Maria, + Que, emfim, sentistes esta mágoa, quanto + A grave causa della o requeria; + + D'essa Fonte sagrada e peito santo + M'alcançae huma gotta, com que lave + A culpa que me aggrava e pesa tanto. + + Do licor salutifero e suave + M'abrangei, com que mate a sêde dura + Deste mundo tão cego, torpe e grave. + + Assi, Senhora, toda criatura + Que vive e vivirá, e não conhece + A Lei de vosso Filho, a abrace pura; + + O falsissimo herege, que carece + Da graça, e com damnado e falso esprito + Perturba a Santa Igreja, que florece; + + O povo pertinaz no antiguo rito, + Que só o destêrro seu, que tanto dura, + Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito; + + O torpe Ismaelita, que mistura + As Leis, e com preceitos tão viciosos + Na terra estende a seita falsa e impura; + + Os idolatras maos, supersticiosos, + Varios de opiniões e de costumes, + Levados de conceitos fabulosos; + + As mais remotas gentes, onde o lume + Da nossa Fé não chega, nem que tenhão + Religião alguma se presume; + + Assi todos, emfim, Senhora, venhão + A confessar hum Deos crucificado, + E por nenhum respeito se detenhão. + + E d'hum e d'outro o vício ja deixado, + O seu Nome, co'o vosso nesse dia, + Seja por todo o mundo celebrado; + + E respóndão os ceos: JESUS, MARIA. + + * * * * * + + +ELEGIA XII. ACROSTICA. + + Juizo extremo, horrifico e tremendo, + E Juiz sempiterno, alto e celeste, + Significará a terra, humedecendo. + Ver-se-ha nella hum suor que manifeste + Como em carne vem Deos, para que o veja + Homem toda esta máchina terreste; + Rei justo, que dos corpos e almas seja + Juiz; e quando o mundo cego e inculto + Sôbre espinhos crueis deitado seja, + Todo vão simulacro e gentil culto + Ousará engeitar a gente; e guerra + Fará co'o mar o fogo, e cru tumulto. + Immensa luz, que as carnes desenterra, + Lançará fóra as portas vãas do Averno, + Hum Justo e outro alçando á santa terra. + Outros, que são os maos, no fogo eterno + Deitará, descobrindo-se os segredos, + E sendo claro todo feito interno. + Desfeitos serão montes e penedos, + E será tudo pranto e estridor duro; + Obras de grande dor e tristes medos. + Será tornado o sol de todo escuro, + E destruida a máchina do mundo, + Sem luz as luzes todas do Orbe puro; + Altos serão os valles, e em profundo + Lugar se abaterão os altos montes; + Vibrará mares vento furibundo: + Haverá só de chammas vivas fontes: + De trombeta tremenda som terribil, + Ouvido, fara pallidas as frontes. + Responderá dos maos gemido horribil. + + * * * * * + + + + +EPISTOLAS. + + +EPISTOLA I. + + Quem póde ser no mundo tão quieto, + Ou quem terá tão livre o pensamento, + Quem tão exprimentado, ou tão discreto, + Tão fóra, emfim, de humano entendimento, + Que ou com público effeito, ou com secreto, + Lhe não revolva e espante o sentimento, + Deixando-lhe o juizo quasi incerto, + Ver e notar do mundo o desconcêrto? + + Quem ha que veja aquelle que vivia + De latrocinios, mortes e adulterios, + Que ao juizo das gentes merecia + Perpétua pena, immensos vituperios, + Se a Fortuna em contrário o leva e guia, + Mostrando, emfim, que tudo são mysterios, + Em alteza d'estados triumphante, + Que por livre que seja não s'espante? + + Quem ha que veja aquelle, que tão clara + Teve a vida, qu'em tudo por perfeito + O proprio Momo ás gentes o julgára, + Inda quando lhe visse aberto o peito, + Se a má Fortuna, ao bom somente avara, + O reprime, e lhe nega seu direito, + Que lhe não fique o peito congelado, + Por mais e mais que seja exprimentado? + + Democrito dos deoses proferia + Que erão sós dous; a Pena, e o Beneficio. + Segredo algum será da phantasia, + De qu'eu achar não posso claro indicio. + Que se ambos vem por não cuidada via + A quem os não merece, he grande vício + Em deoses sem-justiça e sem-razão. + Mas Democrito o disse, e Paulo não. + + Dir-me-heis, que s'este estranho desconcêrto + Novamente no mundo se mostrasse, + Que por livre que fosse e mui experto, + Não era d'espantar se m'espantasse. + Mas que se ja de Socrates foi certo + Que nenhum grande caso lhe mudasse + O vulto, ou de prudente, ou de constante, + Exemplo tome delle, e não m'espante. + + Parece a razão boa; mas eu digo + Deste uso da Fortuna tão damnado + Que quanto he mais usado e mais antigo, + Tanto he mais estranhado e blasphemado. + Porque, se o Ceo, das gentes tão amigo + Não dá á Fortuna tempo limitado, + Não he para causar mui grande espanto, + Que mal tão mal olhado dure tanto? + + Outro espanto maior aqui m'enleia, + Que com quanto Fortuna tão profana + Com estes desconcertos senhoreia, + A nenhuma pessoa desengana. + Não ha ninguem, que assente, nem que creia + Este discurso vão da vida humana, + Por mais que philosophe, nem qu'entenda, + Que algum pouco do mundo não pretenda. + + Diogenes pisava de Platão + Com seus sordidos pés o rico estrado, + Mostrando outra mais alta presumpção + Em desprezar o fausto tão prezado. + Diogenes, não vês que extremos são + Esses que segues, de mais alto estado? + Pois se de desprezar te prezas muito, + Ja pretendes do mundo fama e fruito. + + Deixo agora Reis grandes, cujo estudo + He fartar esta sêde cubiçosa + De querer dominar e mandar tudo, + Com fama larga e pompa sumptuosa. + Deixo aquelles que tomão por escudo + De seus vicios e vida vergonhosa + A nobreza de seus antecessores, + E não cuidão de si que são peores. + + Aquelle deixo, a quem do somno esperta + O grão favor do Rei que serve e adora, + E se mantẽe dest'aura falsa e incerta, + Que de corações tantos he senhora. + Deixo aquelles qu'estão co'a boca aberta + Por s'encher de thesouros de hora em hora, + Doentes desta falsa hydropesia, + Que quanto mais alcança, mais queria. + + Deixo outras obras vãas do vulgo errado, + A quem não ha ninguem que contradiga, + Nem de outra cousa alguma he governado, + Que d'huma opinião e usança antiga. + Mas pergunto ora a Cesar esforçado, + Ora a Platão divino, que me diga, + Este das muitas terras em que andou, + Aquelle de vencê-las, que alcançou? + + Cesar dirá: Sou digno de memoria: + Vencendo povos varios e esforçados, + Fui Monarca do mundo; e larga historia + Ficará de meus feitos sublimados. + He verdade: mas esse mando e glória, + Lograste-o muito tempo? Os conjurados + Bruto e Cassio dirão que, se venceste, + Emfim, emfim, ás mãos dos teus morreste. + + Dirá Platão: Por ver o Etna e o Nilo + Fui a Sicilia, Egypto e outras partes, + Só por ver e escrever em alto estilo + Da natural sciencia e muitas artes. + O tempo he breve, e queres consumi-lo, + Platão, todo em trabalhos? e repartes + Tão mal de teu estudo as breves horas, + Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras? + + Pois quanto des que vive ja apartada + A alma desta prisão terreste e escura; + Está em tamanhas cousas occupada, + Que da fama, que fica, nada cura. + E se o corpo terreno sinta nada, + O Cynico dirá se por ventura + No campo, onde lançado morto estava, + De si os cães, ou as aves enxotava. + + Quem tão baixa tivesse a phantasia, + Que nunca em mores cousas a metesse, + Qu'em só levar seu gado á fonte fria, + E mungir-lhe do leite que bebesse, + Quão bem-aventurado que sería! + Que por mais que a Fortuna revolvesse, + Nunca em si sentiria maior pena, + Que pezar-lhe de a vida ser pequena. + + Veria erguer do sol a roxa face, + Veria correr sempre a clara fonte, + Sem imaginar a ágoa donde nace, + Nem quem a luz occulta no Horizonte. + Tangendo a frauta donde o gado pace, + Conheceria as hervas do alto monte, + Em Deos creria simples e quieto, + Sem mais especular algum secreto. + + D'hum certo Trasilao se lê e escreve + Entre as cousas da velha antiguidade, + Que perdido grão tempo o siso teve + Por causa d'huma grave enfermidade; + E em quanto, de si fóra, doudo esteve, + Tinha por teima, e cria por verdade, + Qu'erão suas, das naos que navegavão, + Quantas no porto Píreo ancoravão. + + Por hum Senhor mui grande se teria, + (Além da vida alegre que passava) + Pois nas que se perdião não perdia, + E das que vinhão salvas se alegrava. + Não tardou muito tempo, quando hum dia + Huncrito, seu irmão, que ausente estava, + Á terra chega; e vendo o irmão perdido, + Do fraternal amor foi commovido. + + Aos Medicos o entrega, e com aviso + O faz estar á cura refusada. + Triste! que por tornar-lhe o antigo siso + Lhe tira a doce vida descansada. + As hervas Apollineas d'improviso + O tornão á saude ja passada. + Sisudo Trasilao, ao charo irmão + Agradece a vontade, a obra não. + + Porque despois de ver-se no perigo + Do trabalho a que o siso o obrigava, + E despois de não ver o estado antigo, + Que a louca presumpção lhe apresentava: + Oh inimigo irmão, com côr de amigo! + Para que me tiraste (suspirava) + Da mais quieta vida e livre em tudo, + Que nunca pôde ter nenhum sisudo? + + Por qual Senhor algum eu me trocára, + Ou por qual algum Rei de mais grandeza? + Que me dava que o mundo se acabára, + Ou que a ordem mudasse a natureza? + Agora me he penosa a vida chara; + Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza. + Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso + Que na doudice só consiste o siso. + + Vêdes aqui, Senhor, bem claramente + Como a Fortuna em todos tẽe poder, + Senão só no que menos sabe e sente; + Em quem nenhum desejo póde haver. + Este se póde rir da cega gente; + Neste não póde nada acontecer; + Nem estara suspenso na balança + Do temor mao, da perfida esperança. + + Mas se o sereno Ceo me concedêra + Qualquer quieto, humilde e doce estado, + Onde com minhas Musas só vivêra, + Sem ver-me em terra alheia degradado; + E alli outrem ninguem me conhecêra, + Nem eu conhecêra outro mais honrado, + Senão a vós, tambem como eu contente; + Que bem sei que o serieis facilmente: + + E ao longo d'huma clara e pura fonte, + Qu'em borbulhas nascendo, convidasse + Ao doce passarinho, que nos conte + Quem da chara consorte o apartasse; + Despois, cobrindo a neve o verde monte, + Ao gasalhado o frio nos levasse, + Avivando o juizo ao doce estudo, + Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo. + + Cantára-nos aquelle, que tão claro + O fez o fogo da árvore Phebêa, + A qual elle em estylo grande e raro + Louvando, o crystallino Sorga enfrêa; + Tangêra-nos na frauta Sanazaro, + Ora nos montes, ora por a arêa; + Passára celebrando o Tejo ufano + O brando e doce Lasso Castelhano. + + E comnosco tambem se achára aquella, + Cuja lembrança, e cujo claro gesto + N'alma somente vejo, porque nella + Está em essencia puro e manifesto; + Por alta influição de minha estrella + Mitigando o rigor do peito honesto, + Entretecendo rosas nos cabellos, + De que tomasse a luz o sol em vellos; + + E em quanto por Verão flores colhesse, + Ou por Inverno ao fogo accommodado, + O que de mi sentíra nos dissesse, + De puro amor o peito salteado; + Não pedíra então eu, que Amor me désse + Do insano Trasilao o doudo estado; + Mas que alli me dobrasse o entendimento, + Por ter de tanto bem conhecimento. + + Mas por onde me leva a phantasia? + Porqu'imagino em bem-aventuranças, + Se tão longe a Fortuna me desvia, + Qu'inda me não consente as esperanças? + Se hum novo pensamento Amor me cria + Onde o lugar, o tempo, as esquivanças + Do bem me fazem tão desamparado, + Que não póde ser mais qui'maginado? + + Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou + Contra mi, porque mais me magoasse: + Amor a hum vão desejo me obrigou, + Só para que a Fortuna mo negasse. + O tempo a tal estado me chegou; + E nelle quiz que a vida se acabasse; + Se ha em mi acabar-se, o qu'eu não creio; + Que até da muita vida me receio. + + * * * * * + + +EPISTOLA II. + + Como nos vossos hombros tão constantes + (Principe illustre e raro) sustenteis + Tantos negocios arduos e importantes, + Dignos do largo Imperio, que regeis; + Como sempre nas armas rutilantes + Vestido, o mar e a terra segureis + Do pirata insolente, e do tyrano + Jugo do potentissimo Othomano; + + E como com virtude necessaria, + Mal entendida do juizo alheio, + Á desordem do vulgo temeraria + Na santa paz ponhais o duro freio; + Se com minha escriptura longa e vária + Vos occupasse o tempo, certo creio + Que com vagante e ociosa phantasia + Contra o commum proveito peccaria. + + E não menos sería reputado + Por doce adulador, sagaz e agudo, + Que contra meu tão baixo e triste estado + Busco favor em vós que podeis tudo, + Se contra a opinião do vulgo errado + Vos celebrasse em verso humilde e rudo. + Dirão, que com lisonja ajuda peço + Contra a miseria injusta que padeço. + + Porém, porque a verdade póde tanto + No livre arbitrio, (como disse bem + Ao Rei Dario o moço sabio e santo, + Que foi reedificar Hierusalem) + Esta m'obriga a qu'em humilde canto, + Contra a tenção que a plebe ignara tem, + Vos faça claro a quem vos não alcança; + E não de premio algum vil esperança. + + Romulo, Baccho e outros que alcançárão + Nomes de semideoses soberanos, + Em quanto por o mundo exercitárão + Altos feitos, e quasi mais que humanos, + Com justissima causa se queixárão + Que não lhes respondêrão os mundanos + Favores do rumor justos e iguaes + A seus merecimentos immortaes. + + Aquelle, que nos braços poderosos + Tirou a vida ao Tingitano Anteo, + E a quem os seus trabalhos tão famosos + Fizerão Cidadão do claro ceo; + Achou que a má tenção dos invejosos + Não se doma, senão despois que o véo + Se rompe corporal: porque na vida + Ninguem alcança a glória merecida. + + Pois logo, se Barões tão excellentes + Forão do baixo vulgo molestados, + O vituperio vil das rudas gentes, + He louvor dos Reaes, e sublimados. + Quem no lume dos vossos Ascendentes + Poderá pôr os olhos, que abalados + Lhes não fiquem da luz, vendo os maiores + Vossos passados, Reis e Imperadores? + + Quem verá aquelle Pae da Patria sua, + Açoute do soberbo Castelhano, + Que o duro jugo só, co'a espada nua, + Removeo do pescoço Lusitano, + Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua + Memoria causará, se não m'engano, + Que qualquer teu menor tanto s'estime, + Que nunca possa ser senão sublime? + + Nisto não fallo mais, porque conheço + Que da materia se me baixa o engenho. + Mas, pois a dizer tudo m'offereço, + E dias ha que no desejo o tenho, + Sendo vós de tão alto e illustre preço, + A vida fostes pôr n'hum fraco lenho, + Por largo mar e undosa tempestade, + Só por servir á Regia Magestade. + + E despois de tomar a redea dura + Na mão, do povo indomito qu'estava + Costumado a larguezas, e á soltura + Do pezado govêrno que acabava; + Quem não terá por santa e justa cura, + Qual do vosso conceito s'esperava, + A tão desenfreada enfermidade + Applicar-lhe contrária qualidade? + + Não he muito, Senhor, se o moderado + Govêrno se blasphema e se desama; + Porque o povo á largueza costumado, + Á lei serena e justa, dura chama. + Pois o zelo em virtude só fundado + De salvar almas da Tartarea flama + Com a ágoa salutifera de Christo, + Poderá por ventura ser malquisto? + + Quem quizesse negar tão grã verdade, + Qual he o seu effeito santo e pio; + Negue tambem ao sol a claridade, + E certifique mais que o fogo he frio. + Se o successo he contrário da vontade + Nas obras que são boas, e ha desvio; + Está nas mãos dos homens comettellas, + E nas de Deos está o successo dellas. + + Sei eu, e sabem todos que os futuros + Verão por vós o Estado accrescentado, + Serão memoria vossa os fortes muros + Do Cambaico Damão bem sustendado: + Da ruina mortal serão seguros, + Tendo todo o alicerce seu fundado + Sôbre orfãas amparadas com maridos, + E pagos os serviços bem devidos. + + Quãmanha infamia ao Principe he perder-se + Pouco do Estado seu, que inteiro herdou, + Tanto por glória grande deve ter-se + Se accrescentado e próspero o deixou. + Nunca consentio Roma ennobrecer-se + Com triumphos alguem, se não ganhou + Provincia com que o Imperio s'augmentasse, + Por maiores victorias qu'alcançasse. + + Póde tomar o vosso nome dino + Damão, por honra sua clara e pura, + Como ja do primeiro Constantino + Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura. + E tu, Rei, que no Reino Neptunino, + Lá no seio Gangetico a Natura + Te aposentou, de ser tão inimigo + Deste Estado não ficas sem castigo. + + Bem viste contra ti nadantes aves + Cortar a espumosa ágoa navegando; + Ouviste o som das tubas, não suaves, + Mas com temor horrifero soando; + Sentiste os golpes asperos e graves + Do Lusitano braço nunca brando. + Não soffreste o grão brado penetrante, + Que os trovões imitava do Tonante. + + Mas antes dando as costas e a victoria + Á Bragancez ventura não corrido, + Déste bem a entender quão grande glória + He de tal vencedor o ser vencido. + Quem faz obras tão dignas de memoria + Sempre será famoso e conhecido, + Onde os altos juizos o estimarem, + Qu'estes sós tẽe poder de fama darem. + + Não vos temais, Senhor, do povo ignaro, + Tão ingrato a quem tanto faz por elle; + Mas sabei qu'he signal de serdes claro + O ser agora tão malquisto delle. + Themistocles, da patria sua amparo, + O forte e liberal Cimon, e aquelle + Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo, + Testimunhas serão de quanto digo. + + Pois ao justo Aristídes hum robusto, + Votando no ostracismo costumado, + Lhe disse claro assi: Porque era justo + Desejava que fosse desterrado. + Pachitas por fugir do povo injusto + Calumnioso, dando no Senado + Conta de Lesbos, qu'elle ja mandára, + Se tirou co'o seu ferro a vida chara. + + Demosthenes, lançado das tormentas + Populares, Ó Pallas! foi dizendo, + Que de tres monstros grandes te contentas, + Do drago e moucho, e do vil povo horrendo! + Que glórias immortaes houve, qu'isentas + Do veneno vulgar fossem, vivendo? + Pois mil exemplos deixo de Romanos, + E vós tambem sois hum dos Lusitanos. + + * * * * * + + +EPISTOLA III. + + Mui alto Rei, a quem os Ceos em sorte + Derão o nome augusto e sublimado + Daquelle Cavalleiro que na morte, + Por Christo, foi de settas mil passado; + Pois delle o fiel peito, casto e forte, + Co'o nome Imperial tendes tomado, + Tomae tambem a setta veneranda + Que a vós o Successor de Pedro manda. + + Ja por ordem do Ceo, que o consentio, + Tendes o braço seu, reliquia chara, + Defensor contra o gladio que ferio + O povo que David contar mandára. + No qual, pois tudo em vós se permittio, + Presagio temos, e esperança clara, + Que sereis braço forte e soberano + Contra o soberbo gladio Mauritano. + + E o que hum presagio tal agora encerra, + Nos faz ter por mais certo e verdadeiro + A setta, que vos dá quem he na terra + Dos celestes thesouros Dispenseiro: + Que as vossas settas são na justa guerra + Agudas, e entrarão por derradeiro + (Cahindo a vossos pés povo sem lei) + Nos peitos que inimigos são do Rei. + + Quando vossas bandeiras despregava + Albuquerque fortissimo com glória + Por as praias de Persia, e alcançava + De Nações tão remotas a victoria; + As settas embebidas, que tirava + O arco Armusiano (he larga historia) + Nos ares, Deos querendo, se viravão, + Pregando-se nos peitos que as tiravão. + + O querido de Deos, por quem peleja, + O ar tambem e o vento conjurado + Ao atambor lhe acodem, porque veja + Que o que a Deos ama, he de Deos amado: + Os contrarios revéis á Madre Igreja + Atroarão co'o tom do Ceo irado. + Que assi deo ja favor maior que humano + A Josué Hebreo, Teodosio Hispano. + + Pois se as settas tiradas da inimiga + Corda, contra si só nocivas são, + Que farão, Rei, as vossas que tẽe liga + Com a que ja tocou Sebastião? + Tinta vem do seu sangue, com que obriga + A levantar a Deos o coração, + Crendo bem que as que vós despedireis, + No sangue Sarraceno as tingireis. + + Ascanio, (se trazer me he concedido + Entre santos exemplos hum profano) + Rei do Imperio, despois tão conhecido, + De Roma, e só reliquia do Troiano, + Vingou com setta e ânimo atrevido + As soberbas palavras de Numano; + E logo foi dalli remunerado + Com louvores de Apollo, e celebrado. + + Assi vós, Rei, que fostes segurança + De nossa liberdade, e que nos dais + De grandes bens certissima esperança; + Nos costumes, e aspecto que mostrais, + Concebemos segura confiança + Que Deos, a quem servis e venerais, + Vos fara vingador dos seus revéis, + E os premios vos dará que mereceis. + + Estes humildes versos, que pregão + São destes vossos Reinos com verdade, + Recebei com benigna e Real mão, + Pois he devida a Reis benignidade. + Tenhão (se não merecem galardão) + Favor sequer da Regia Magestade: + Assi tenhais de quem ja tendes tanto, + Com o nome e reliquia, favor santo. + + * * * * * + + +EPISTOLA IV. + + Senhora, s'encobrir por algum'arte + Pudera esta occasião de meu tormento, + Não creias que chegára a declarar-te + Este meu perigoso pensamento. + Mas por mais que te offenda, não sou parte + No crime de tamanho atrevimento: + Elle he d'amor; e delle fui forçado + A que te declarasse o meu cuidado. + + Se merece castigo a confiança + Com que descubro agora o que padeço, + Aqui prompto me tens; toma a vingança + Que por tão grave culpa te mereço. + Bem me podes negar toda esperança, + Mas eu não desistir deste comêço; + Porque tempo e Fortuna não são parte + Para deixar hum'hora só de amar-te. + + Ja que ver-te os meus olhos alcançárão, + Descansem neste bem com alegria, + Pois ja com ver os teus tanto ganhárão, + Quanto, estando sem vê-los, se perdia. + Que glória querem mais, se a ver chegárão + Aquella pura luz que vence ao dia? + Qual mor bem ha no mundo que querer-te, + Se não ha mais que ver despois de ver-te? + + Minhas dores mortaes, bella Senhora, + Tirárão a virtude ao soffrimento; + E fazendo-se mais em qualquer hora, + Levando vão traz ti meu pensamento: + Porém soberbos vejo desde agora, + Por a causa gentil de seu tormento, + Minha alma, meu desejo, meu sentido, + Porque á tua belleza se hão rendido. + + A par de tua rara formosura + Se desconhece o mor merecimento; + A tua claridade torna escura + Do sol a clara luz em hum momento. + Se Zeuxis ao formar bella figura, + A vista em ti pudera pôr attento, + Mais alto original houvera achado + Para admirar o mundo co'o traslado. + + Aquelles qu'escrevêrão mil louvores + De formosura, graça e gentileza, + Todos forão, Senhora, huns borradores + De tua perfeitissima belleza. + Agora se vê claro em teus primores + Qu'em ti s'esmerou mais a natureza; + E qu'erão os seus cantos prophecias + Do que havias de ser em nossos dias. + + Vê, pois, se vinha a ser culpavel falta + Em mi o não render-te amante a vida, + E se deixar d'amar glória tão alta + Era digno da pena mais crescida. + Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta + Co'o castigo de culpa assi atrevida: + E quando della caia, maior glória + Tera o Tejo, que o Pó, com sua historia. + + * * * * * + + + + +OITAVAS. + + +GLOSA DO SONETO 14. + + Despois que a clara Aurora a noite escura + Com novo resplandor foi desfazendo, + E Phebo por os montes e espessura + Os seus dourados raios estendendo; + Se buscava nos valles a verdura + O manso gado a luz serena vendo, + Quando a férvida sésta ja abrazava, + _Todo animal da calma repousava._ + + Ja por fugir do sol o fogo ardente, + As sombras os rebanhos vão buscando; + Os tenros cabritinhos juntamente + Apos as mansas mães hião saltando; + Tangendo as suas frautas docemente + Os pastores, estavão enganando + A grã chamma solar qu'então ardia; + _Só Liso o ardor della não sentia._ + + Tristes lembranças tanto o traspassavão, + Que a dura sésta nelles só passava; + O tempo qu'em prazer outros gastavão, + Em celebrar seu mal elle o gastava; + As festas que com jogos celebravão, + Elle com suspirar as celebrava: + Nada buscava mais, mais não queria + _Que o repouso do fogo em qu'elle ardia._ + + Os repetidos jogos dos pastores, + As lutas entre a rama repetidas, + Em nada lhe divertem suas dores; + Mas antes n'alegria as vê crescidas. + Como o repouso roubão os amores + Ás almas que para elles são nascidas, + Elle, todo o repouso qu'esperava, + _Consistia na Nympha que buscava._ + + Com o chôro, que ja corria em fio + Por o pallido rosto, augmenta as fontes, + Que levão ágoa estranha ao claro rio + Que os valles vai regando entre altos montes. + Com suspiros a quem o ecco pio + Responde de apartados horizontes, + Os ventos parecia qu'enfreava, + _Os montes parecia que abalava._ + + Que ás queixas de seus doces pensamentos + Se movessem os montes mais constantes, + Se parassem os mais veloces ventos, + Qu'estavão, que corrião circumstantes, + Bem se devia á dor de seus tormentos, + E inda que fosse em peitos de diamantes; + Que hum peito de diamante abrandaria + _O triste som das mágoas que dizia._ + + Porém elle as dizia a outro peito, + Mais, que diamante, inexpugnavel, duro: + A fé lh'encarecia, a que sogeito + O tinha em pena eterna o amor puro; + Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito, + Quanto mais offendido, mais seguro: + A Nympha mais segura tudo ouvia, + _Mas nada o duro peito commovia._ + + As lástimas aqui tanto crescêrão, + Que s'em montes de Hircania s'escuitárão, + Tigres nos seios seus mover puderão, + E pedras nos seus cumes abrandárão. + Mas se no peito as tristes vozes dérão + Daquella fera humana que buscárão, + Elle d'as admittir se retirava; + _Que na vontade de outro pôsto estava._ + + Desenganado ja da triste sorte, + De que mal fino amor se desengana, + Com a desperança só de sua morte + Aquellas penas últimas engana. + Deixando na espessura o claro Norte, + Para elle de outra luz mais soberana, + A hum valle aberto então sahir procura, + _Cansado ja de andar por a espessura._ + + Deixando as suas cabras que pascessem + Naquelle verde prado as frescas flores; + Porque os Satyros leves o soubessem, + E os sylvestres Faunos amadores; + Tambem porque os pastores o entendessem, + Todo o processo e fim de seus amores + Escreveo (sem em nada haver mudança) + _No tronco d'huma faia por lembrança._ + + Por lembrança no tronco d'huma faia, + Que vai sahindo ao ceo de puro altiva + Na verde, prateada e aurea praia, + Por onde o claro Tejo se deriva; + Porque tambem ao ceo sua dor saia + Sôbre aquella corrente fugitiva, + Escrita no papel da natureza; + _Escreve estas palavras de tristeza:_ + + Natercia, Nympha bella, por quem vivo + Em tal tormento, tempo algum me olhou; + Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo + Daquelle brando olhar que m'enganou, + O amor tornava em desamor esquivo; + E d'hum tormento tal a outro passou. + Em cousas tão sujeitas a mudança + _Nunca ponha ninguem sua esperança._ + + Para dar proveitosos desenganos + Dos enganos que são de Amor effeitos, + E dos dous sexos publicar, humanos, + A origem das mudanças de seus peitos; + Estas letras aqui por longos anos + Digão a corações a amar sujeitos + Em peito varonil, que de ventura, + _Em peito feminil, que de natura..._ + + Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado + Cahio ao pé da faia em qu'escrevia, + Não podendo seguir o começado, + Porque a alma ja do corpo lhe sahia. + Tres vezes, com accento mal formado, + Para exemplo futuro repetia: + Amantes, entendei que a mór belleza + _Somente em ser mudavel tem firmeza._ + + * * * * * + + +GLOSA DO SONETO 194. + + _Cá nesta Babylonia adonde mana_ + Hypocrisia, engano e falsidade; + Cá donde ousada toda carne humana + A todo arbitrio vive da vontade; + Cá donde enrouqueceo da Lusitana + Musa o furor heroico e suavidade; + Cá donde se produz por cega via + _Materia a quanto mal o mundo cría_; + + _Cá donde o puro Amor não tẽe valia_, + Porque Baccho o tẽe hoje desterrado; + Cá donde a frecha d'ouro não feria, + Senão cabello preto e alfenado; + Cá donde a loura trança não se via, + Nem o rosto de sangue matizado; + Cá donde nada val a glória humana, + _Que a mãe, que manda mais, tudo profana_; + + _Cá donde o mal se affina, o bem se dana_, + Se algum a terra em si quer produzir; + Cá donde a falsa gente Mahometana + A glória toda funda em adquirir; + Cá donde multiplica a mão tyrana, + Professa em mais crescer, matar, mentir; + Cá donde o fazer bem he villania, + _E póde mais que a honra a tyrannia_; + + _Cá donde a errada e cega Monarchia_ + De fabulosas leis está vivendo, + E á fôrça d'hum amor engrandecia + O nefando Alcorão em qu'está crendo; + Cá donde nada val a Poesia, + E s'está da lei della escarnecendo; + Cá donde a fidalguia Mahometana + _Cuida qu'um nome vão a Deos engana._ + + _Cá nesta Babylonia, onde a Nobreza_ + Da Lusitana gente se perdeo; + E do grão Sebastião toda a grandeza + Irreparavelmente se abateo; + Cá donde algum mentir não he baixeza, + E os meritos esmola (assi cresceo + Da cobiça mortal a semrazão) + _Co'o esfôrço e saber, pedindo vão._ + + _Ás portas da cobiça e da vileza_ + Estes netos de Agar estão sentados + Em bancos de torpissima riqueza, + Todos de tyrannia marchetados. + He do feio Alcorão summa a largueza + Que tẽe para que sejão perdoados + De quantos erros commettendo estão + _Cá neste escuro cáos de confusão._ + + _Cumprindo o curso estou da natureza_, + Illustre Dama, neste labyrintho; + Mas quem usa comigo mais crueza, + He tua condição, que n'alma sinto. + Acabe-se algum dia tal tristeza, + E este sentido mal qu'em versos pinto: + E pois n'alma he sentido e coração, + _Ve se m'esquecerei de ti, Sião._ + + * * * * * + + +A SANTA URSULA. + + D'huma formosa virgem desposada, + Que d'outras onze mil, tambem formosas, + Entrou no claro Olympo acompanhada, + Com corôas de lyrios e de rosas; + De Christo Esposo seu tão namorada, + Que delle as quiz fazer todas esposas; + Amor, vida e martyrio cantar quero, + Fiado no favor que della espero. + + Alcança, Ursula bella, (que diante + De tão bello esquadrão foste por guia) + De teu suave Amor, que de ti cante + O seu amor que no teu peito ardia. + Meu verso para ti mais se levante, + Ó Christifera, ó heroica companhia; + Tanto se mostre aqui mais soberano, + Quanto o divino Amor excede o humano. + + E vós, unica Mãe e Virgem pura, + Pois sois das que tal ordem escolhêrão, + Que fostes, sois, sereis guarda segura + Da pureza que a Deos offerecêrão; + Neste canto me dae melhor ventura + Do que atégora as Musas vãas me derão: + Vossas servas serão de mi servidas, + Cantadas suas mortes, suas vidas. + + Serenissima Infante, produzida + Do grão Tronco Real, sublime Planta; + No titulo, nas obras e na vida, + Retrato natural de Ursula Santa, + Desta virgem, tambem de Reis nascida, + Ouvi com ledo rosto o que se canta; + Dae o sentido hum pouco a tal sogeito: + Não lhe tire seu preço o meu defeito. + + No tempo que Ciriáco se sentava + Na Cadeira de Pedro pescador, + De que com sãa doutrina apascentava + As Ovelhas de Christo, Bom Pastor; + Teve Bretanha hum Rei, que professava + A Lei que deo no mundo o Redemptor, + Justo e temente ao Ceo, pio e devoto, + Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto. + + De virtudes hum novo exemplo e raro, + Em idade e belleza florecia + Ursula, por quem Noto era mais claro, + Que por todo o poder que possuia; + Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro, + Com quem todas as graças repartia; + Prudente, honesta e docta a maravilha, + De tão ditoso pae ditosa filha. + + Aquella que por o ar com ligeireza + As pennas de mil azas abre e cerra, + E que com velocissima presteza + Com outros tantos pés corre por terra; + Aquella, que de sua natureza + Não cuida em quanto diz se acerta ou erra, + E d'huma em outra boca se derrama: + Aquella, emfim, a quem chamamos Fama; + + Hia por todo o mundo divulgando + Extremos desta virgem soberana, + Aquella formosura celebrando + Com que Amor cego a tanta vista engana: + Mais hia a d'alma sua publicando, + Porqu'era mais divina do que humana: + Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto, + Qu'em huns criava amor, n'outros espanto. + + Ouvidos seus louvores, muitas vezes + Desejou desta virgem fazer nora + Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes, + Idolatras então, cegos agora. + Ó povo cego e leve! as torpes fezes + Aparta do ouro puro e lança fóra, + Torna-te ao teu pastor, perdido gado! + Ólha que vás sem elle mal guiado. + + Hum filho deste Rei (de quem dizia + Que ser de Ursula sogro desejava) + Movido do rumor que della ouvia, + Ja dentro no seu peito a namorava. + Alli seu amor, delle, lhe offrecia; + Alli por o amor della suspirava. + Suspira elle por ella; ella suspira + Tambem por outro amor que nunca vira. + + Mandou o Rei Inglez Embaixadores + Com pompa Regia e lustre sumptuoso, + (Do grande Reino seu grandes Senhores) + A Noto, Rei não tanto poderoso. + Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores + Ardia toda do celeste Esposo) + Para esposa do filho, que sabia + Que ja d'amores della todo ardia. + + O Rei Bretão se achava descontente + Com a nova embaixada de Inglaterra: + Receia que se nella não consente, + O gentio lhe mova cruel guerra: + Porque sendo mais rico e mais potente, + Assi no largo mar, como na terra, + Quando desprezos visse de seu rôgo, + Podia pôr Bretanha a ferro e fogo. + + Sôbre este não errado pensamento + Do medo de perder seu senhorio, + Novo discurso tinha e novo intento, + Com que se achava mais medroso e frio. + Estranhava o fazer ajuntamento + Da catholica filha co'hum gentio; + Pois nem a Lei de Christo o permittia, + Nem Ursula fiel o admittiria. + + Estando o pae em tal angústia pôsto, + Divinamente a filha ja inspirada, + Lhe assegurava com sereno rosto + Que consentir podia na embaixada; + Dizendo que se o Inglez levava gôsto + D'ella com seu herdeiro ser casada, + Primeiro lhe mandasse dez donzellas, + Do Reino as mais illustres, as mais bellas. + + Que mil daria a cada virgem destas, + E que a ella outras mil tambem daria, + Todas de claro sangue, e em vista honestas. + (Dest'arte a conta de onze mil fazia) + Que por trez annos dilação nas festas, + Além do ja pedido, lhe pedia; + E naos e mantimentos, porque todas + Fossem com ella a Roma antes das bodas. + + Alli sua pureza e virgindade + Queria com solemne e sacro voto + Consagrar á divina Potestade, + Que o ceo e a terra fez de proprio moto. + E que deixasse a vãa gentilidade + Seu filho, para genro ser de Noto, + Para que neste espaço doutrinado + Fosse na Fé de Christo, e baptizado. + + Com estas condições Ursula disse + Ao charo pae, que, a ser dellas contente, + Podia responder; e despedisse + A proposta daquelle Rei potente: + Ou porque ouvindo-as elle desistisse, + Podendo-se acceitar difficilmente; + Ou porque, quando as virgens concedesse, + Comsigo a seu Senhor onze mil désse. + + Oh Divino saber, quão soberano + Conselho he sempre o teu! quão remontado! + Oh quanto o mor saber te cede humano, + Por mais que de razões vá mais ornado! + Ja dos idolos deixa o cego engano + O Principe, da virgem namorado; + Ja terno pede ao pae quanto ella pede; + Ja o pae quanto lhe roga lhe concede. + + Ja para ti, ó virgem bella e branda, + Com huma singular velocidade, + Juntar se via d'huma e d'outra banda + De feminil nobreza tenra idade. + As naos apparelhar o Rei ja manda; + Ja nellas se recolhe a Virgindade; + Ja dão para Bretanha ao vento velas. + O coração do noivo vai com ellas. + + Ja vem a tomar porto onde esperava + Ursula alvoroçada em grã maneira; + Que para as receber alli se achava, + Como senhora não, mas companheira. + Quão falsa era a Lei dellas lhes mostrava, + A de Christo quão pura e verdadeira. + Ja se baptiza huma e outra Dama; + Damas Ursula ja do ceo lhes chama. + + A Fama, que não sabe repousar, + Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha; + A gente que concorre não tẽe par, + Por ver a nunca vista maravilha. + Outros vem por servir e acompanhar + A Virgem de Rei nora, de Rei filha. + Movem-se muitos Bispos de Bretanha; + Pantalo em vida e morte os acompanha. + + Por ti, deixando o Reino, co'a familia + E quatro filhas suas, s'embarcou, + Juliana, Victoria, Aurea, Babilia; + (Hum filho tinha mais que mais levou) + Gerasina, Rainha de Sicilia, + E com devido amor te acompanhou; + Qu'he justo que comtigo vão Rainhas, + Quando tu para o Rei dos Reis caminhas. + + Ja se partem as bellas peregrinas, + As mãos ao claro Empyreo levantadas; + Ja rompem, ja, por ondas crystallinas + As naos de formosura carregadas. + Quando, dizei, ó ágoas Neptuninas, + Fostes de tal belleza navegadas? + Nunca, despois que a terra descobristes, + A tal frota por vós caminho abristes. + + Com vento sempre igual, com mar bonança, + Sem perigos alguns, sem algum pejo, + Ceyla forão tomar, porto de França, + Onde pouca demora fazer vejo. + O coração da virgem não descança, + Saudosa do fim de seu desejo; + Manda que levem ferro, soltem linho + Que leve por o mar o negro pinho. + + O vento nova posse vai tomando + Das virgens que lhe são encommendadas: + Com tal prosperidade vão voando, + Que ja deixão atraz ondas salgadas: + Ja nas doces do Rheno estão entrando, + Onde tẽe suas vidas limitadas: + Huma cidade vem á lingua da ágoa, + Que de vê-las morrer não teve mágoa. + + Ah Colonia cruel, que não t'encobres + A tão formosos olhos, que seguros + As altas tôrres vião que descobres, + Lustrosos edificios, fortes muros! + Permitte o largo Ceo que fama cobres + De ser tão dura mãe de peitos duros? + Duros peitos, que a tantos, limpos de êrro + Virão abrir sem dor com impio ferro! + + Estando neste porto a bella Armada + Tomando o necessario mantimento, + Para poder seguir sua jornada, + E dar terceira vez o treu ao vento; + Sendo parte da noite ja passada, + A virgem lá no seu retrahimento, + Quando estava dormindo toda a frota, + A Christo orou assi, branda e devota: + + Amor, divino Amor, Amor suave, + Amor, que amando vou toda rendida; + Com quem não ha na vida pena grave, + Sem quem glória real não ha na vida; + Amor, que do meu peito tens a chave, + Amor, de cujo amor ando ferida, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que não vejo? + + Amor, que d'amor cheio e de brandura, + D'amor enches est'alma saudosa; + Amor, sem cujo amor e formosura, + Não póde nunca haver cousa formosa; + Amor, com cujo amor anda segura + Huma vida tão fraca e duvidosa, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que não vejo? + + Amor, que por amor te dispuzeste + A restaurar o mundo errado e triste; + Amor, que por amor do ceo desceste; + Amor, que por amor á Cruz subiste; + Amor, que por amor a vida déste; + Amor, que por amor a glória abriste, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que não vejo? + + Amor, que mais e mais sempre te augmentas + No coração que lá comtigo trazes; + Amor, que d'amor puro te sustentas + No fogo em que tu mesmo arder me fazes; + Amor, que sem amor não te contentas, + De tudo com amor te satisfazes, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que não vejo? + + Amor, que com amor me captivaste; + (Se livre póde ser quem não captivas) + Amor, qu'em taes prisões m'asseguraste + As esperanças d'antes fugitivas: + Amor, que suspirando m'ensinaste + A derramar por ti lagrimas vivas, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que não vejo? + + Quando verei hum dia em que offereça + Por ti ao cruel ferro o peito forte, + E cercada de virgens appareça + Na tua soberana e eterna Corte; + Onde lá cada huma te mereça, + Cá passando comigo a propria morte; + E todas dando o sangue juntas, todas + Celebremos comtigo eternas bodas? + + Faze-me ja, Senhor, esta vontade + Que tenho de te ver, que sempre tive, + Des que me deo lugar a tenra idade, + E lume de razão nesta alma vive. + Não queiras, meu Amor, que a saudade + Sem tal bem a mi só da vida prive; + Que se muito se alarga este destêrro, + Por ella irei a ti, não por o ferro. + + Desata o meu espirito saudoso, + Do nó mortal em que se vai detendo, + Primeiro que tres vezes pressuroso + O sol os doze Signos vá correndo. + Espaço he que tomei, meu doce Esposo, + Para outro esposo meu ir entretendo: + Mas a meu amor crendo, de ti creio + Que acabes com a vida o meu receio. + + Inda neste fervente e justo rôgo + Ursula suspirando procedia, + Quando d'hum resplandor como de fogo + Divina voz ouvio, que assi dizia: + Ó virgem, que soubeste fazer jôgo + Do que no mundo tẽe maior valia, + Entende que da volta que fizeres, + Aqui quero que seja o que tu queres. + + Tanto que tal resposta do Ceo teve, + Não quiz do que esperava perder hora: + Ja lhe parece larga a noite breve, + E que ja tarda muito a bella aurora. + Em descobrindo Apollo o carro leve, + Do porto de Colonia sahio fóra. + Ja Basilêa em breve tempo toma: + E a pé d'alli partirão para Roma. + + O Pastor summo, Ciriáco santo, + As sahe a receber, e as acompanha + Com gôzo espritual, com grande espanto + De ver em tal idade fé tamanha. + Dizer se póde mal, mal cuidar quanto + Se goza o Real sangue de Bretanha, + Os veneraveis Templos visitando + Daquelles que tambem foi imitando. + + Na propria noite deste proprio dia + Que Roma ver as virgens mereceo, + A quem de Pedro a Barca então regía + Revelou o que rege a terra e ceo + Que martyrio tambem receberia + Onde Ursula co'as mais o recebeo: + Deixa contente o grão Pontificado, + Desejoso de ser martyrizado. + + Por mais que todo o Clero soffre mal + Mover-se por aquellas Estrangeiras, + Movido da Vontade divinal + O bom Pastor se vai com as Cordeiras. + Hum Arcebispo leva, hum Cardeal: + Tres Bispos deixão vagas tres Cadeiras, + De Luca, Ravicana e de Ravenna: + Mauricio me ficava ja na penna. + + Despois de n'ágoa entrar, donde sahírão, + Com tão formoso sol tantas estrellas, + Ja as ancoras debaixo acima tirão, + E de cima ja abaixo soltão vellas. + Estas naos lá adiante outras naos vírão, + Que fazendo-se vem na volta dellas; + Conhecêrão-se logo as duas frotas: + Ambas d'hum Reino são, ambas devotas. + + Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra, + Vinha de Ursula bella o bello esposo, + Que reinar não queria ja na terra, + Do ceo ja namorado e saudoso. + Do seu primeiro amor venceo a guerra + A fôrça d'outro amor mais poderoso: + Amando ja em seu Deos a esposa bella, + Para o poder achar, buscava a ella. + + A mãe, ja convertida, traz comsigo; + O pae, ja Christão feito, fallecêra, + Com que soube evitar o grão castigo + Que, morrendo Gentio, não soubera. + Amor celeste, como aqui não digo + O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!) + Por meio d'huma virgem foste meio + Com que gente copiosa a Christo veio. + + Vinha mais nesta nova companhia + Florencia, irmãa do Rei, da mãe cuidado; + Florencia, qu'em belleza florecia, + Como flor em jardim bem cultivado. + Tambem a frota Bispos dous trazia, + Hum Marcello, Clemente outro chamado: + O primeiro ja em Grecia bago teve; + Do segundo o Bispado não s'escreve. + + Outra Virgem viuva alli mais vinha, + Que desposada sendo em tenra idade, + Antes das bodas enviuvado tinha, + E promettida a Christo a castidade. + Esta do mesmo Rei era sobrinha, + Filha da Imperatriz da grã cidade, + Onde por culpa nossa, ou pouca dita, + Seu throno agora tẽe o fero Scita. + + Estes, que adverte repetida historia + Deixárão só por Deos altos Estados, + Com outros, de que he menos a memoria, + Forão divinamente amoestados + Que todos, para entrar juntos na glória, + Ao côro virginal fossem juntados, + Com quem na terra Martyres serião, + E no ceo para sempre reinarião. + + Sería estranho o gôzo que sentírão + Aquellas bem nascidas almas santas, + Quando juntas alli todas se vírão + De partes tão remotas, e de tantas. + Sem estorvos, que d'antes o impedírão, + As duas, mais que todas, bellas plantas + Alli abraços se dão sem algum pejo, + Ambas conformes ja n'hum só desejo. + + Alli faria o Rei acatamento + A quem deixou da Barca o grão govêrno; + E elle, conforme a seu merecimento, + Responderia com amor paterno. + Não faltaria em tal recebimento + Prazer exterior, prazer interno; + Inda que nos estados differentes, + Todos serião huns em ser contentes. + + O vento as brancas velas não enchia, + Corria o frio Rheno então mais quedo; + Antes para Colonia não corria, + Porque as virgens não fossem lá tão cedo. + Parece que ja claro conhecia + (Oh côro virginal, sereno e ledo!) + Que lá vos esperava a impia morte. + Agora, ó Musa, conta de que sorte. + + Aquelle que na fórma de serpente + Deixou aos dous primeiros enganados, + Invejoso de ver que tanta gente + Se convertia á Lei dos Baptizados; + No caração entrou manhosamente + De dous gentios Principes damnados, + Da soberba Romãa Cavaleria, + Por encurtar a Fé que s'estendia. + + A Fama os assegura com certeza + Que a virgem a Colonia ja voltava, + Com toda a casta juvenil belleza + Que por amor do Ceo peregrinava. + Fizerão avisar com grã presteza + A hum parente, que Julio se chamava, + Soberbo Capitão dos Hunnos feros; + Que todos para todas forão Neros. + + Eis logo o cego Principe gentio, + Com gente innumeravel de seu mando, + A praia a tomar vem do mesmo rio + Por onde as virgens vinhão navegando. + Ja descobrem aquelle, este navio + Os qu'estão do mais alto atalaiando: + Ás armas veloz corre o bruto povo, + Por de novo as tingir no sangue novo. + + Vindo a frota a surgir junto do muro, + Onde lhe parecia estar segura, + (Oh virgens que buscais? lugar seguro + Adonde vos espera a sepultura!) + Entra com mão armada o povo duro + Por esta peregrina formosura: + Ja começa a provar os aços fortes; + Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes. + + Ja nu todas as virgens offrecião + O delicado collo, o tenro peito: + Era para caber quantas cahião, + Todo largo lugar lugar estreito. + Do puro sangue os rios que corrião, + Outro vermelho mar ja tinhão feito. + Tu só, Córdula, á morte t'escondeste; + Mas despois a buscaste e recebeste. + + Ciriáco o primeiro, bem constante, + A vida ao ferro offrece sem espanto: + O moço Rei Inglez cahio diante + Daquelles castos olhos que amou tanto. + Espera, brando esposo, hum breve instante; + Espera a tua doce esposa, em tanto + Que outro Amor outro golpe lhe prepara; + E juntos entrareis na Patria chara. + + Em qual terra, ó crueis, em qual cidade, + Entre quaes gentes mais a furor dadas, + Se não usou d'amor e de piedade + Com formosas donzellas desarmadas? + Como belleza tanta e tal idade + Vos deixou arrancar vossas espadas? + Ah lobos carniceiros, tigres bravos, + Filhos da crueldade, d'ira escravos! + + De quantos animaes sustenta a terra + Nunca tanta crueza foi usada; + Inda que tenhão huns com outros guerra, + Nunca do macho a femia he lastimada: + Anda a cerva co'o cervo por a serra, + A novilha do touro acompanhada, + Á leoneza o leão defender preza: + Vós sós quebrais as leis da natureza? + + Puderão outros olhos por ventura + De lagrimas divinas escusar-se, + Vendo, cuberta ja de névoa escura, + A luz de tantos bellos apagar-se? + Vendo a purpurea rosa, a cecem pura + Em tão formosas faces descorar-se? + As tranças d'ouro vendo, espedaçadas, + Por debaixo dos pés andar pizadas? + + Na fôrça desta furia accesa e brava + O Tyranno cruel a vista ergueo + Á virgem, qu'invencivel animava + As almas que juntára para o Ceo. + Assi ja envolta em sangue como andava, + Da sua formosura se venceo; + E com doces razões, que Amor ensina, + A vencê-la d'amor se determina. + + Fingindo se arrepende do passado, + (E de fingi-lo se arrepende azinha) + Sua vida lhe offrece e seu Estado, + Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha. + O seu amor lhe pede confiado; + O seu amor que dado a seu Deos tinha: + Pede-lhe o seu amor; antes não seu, + Porque ja dado o havia a quem lho deu. + + Usa de mil lisonjas, mil enganos, + Por conseguir o seu desejo bruto. + A flor logra (dizia) de teus anos, + Colhe d'essa belleza o doce fruto: + Não dês materia nova a novos danos, + Não pagues verde á morte o seu tributo: + Olha que tens em mi (não são cautelas) + Outro Reino, outro esposo, outras donzelas. + + Não faças mentirosa a natureza + Que dá d'amor em ti grande esperança. + Que se póde alcançar d'essa belleza, + Se ja piedade della não s'alcança? + Aos tigres, aos leões deixa a braveza, + E deixa aos meus soldados a vingança. + Se por ver-me cruel queres ser crua, + Ja te vingas de mi em cousa tua. + + Volve esses olhos ja com mais brandura; + Esses olhos, d'Amor doce morada: + Delles não faça em mi a formosura, + O qu'em tantos ja fez a minha espada. + Se queres derribar minha ventura, + Que delles estar vejo pendurada, + Acabarei de ver quão pouca tenho, + Pois donde a matar vim a morrer venho. + + Como do rôgo meu não te aproveitas, + Quando o teu risco a me rogar te obriga? + Ou não conheces bem a quem engeitas, + Ou m'engeitas por mais que seja e diga. + Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas? + Mais proprio era chamar-te dura imiga. + Mas não consente Amor nome tão duro + Em parecer tão brando e tão seguro. + + Os raios desses olhos ja serenos + Enxuguem desse rosto as puras rosas; + O triste suspirar ja sôe menos + Nestas concavidades saudosas. + Não fação grande mal males pequenos; + Que não soffre esperanças vagarosas + Quem anda costumado em seus amores + A medir por seu gôsto seus favores. + + Que gôsto podes ter de maltratar-me, + Vendo-me do passado arrependido? + Attenta que mais ganhas em ganhar-me, + Do que neste destrôço tens perdido. + Se queres insistir em desprezar-me, + Ver-me-has, sôbre amoroso, enfurecido. + Não me declaro mais, porque não quero + Que o medo faça o que d'amor espero. + + Ah perfido amador! deixa o teu êrro. + Não vês quanto enganado e cego andas? + Aquella a quem não vence o duro ferro, + Como a podem vencer palavras brandas? + Manda a sua alma ja deste destêrro, + Com essas que a seu doce Esposo mandas. + Não a detenhas mais em teus amores, + Se dobrar-lhe não queres suas dores. + + Vendo o cruel, emfim, que o que dizia, + Tomava a bella virgem por affronta, + E que quanto d'amor mais se accendia, + Ella delle fazia menos conta; + No concavo arco que na mão trazia, + Huma setta embebeo d'aguda ponta, + E o peito lhe passou de banda a banda. + Assi rendeo o esprito a virgem branda. + + Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza; + As azas abre ja, ja a luz derrama; + Vôa com desusada ligeireza + Onde o teu Bem t'espera, onde te chama. + Verás baixa do mundo a mór alteza; + Verás qu'engana mais a quem mais ama; + E lá do teu Amor, cá suspirado, + O fructo colherás tão desejado. + + Em paz te vae, ó alma pura e bella, + Mais bella inda no sangue que verteste; + Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella + Formosa Região, alta e celeste. + Coroada de glória immortal, nella + Com Christo lograrás, a quem te déste + Com tantas e tão bem nascidas almas, + (Formosura do Ceo) onze mil palmas. + + * * * * * + + + + +COMEDIAS. + + +INTERLOCUTORES. + + +DO PROLOGO. + + O MORDOMO, ou DONO DA CASA. + MARTIM CHINCHORRO. + AMBROSIO, Escudeiro. + LANÇAROTE, Moço. + + +DA COMEDIA. + + ELREI SELEUCO. + A RAINHA ESTRATONICA. + O PRINCIPE ANTIOCHO. + LEOCADIO, Pagem do Principe Antiocho. + FROLALTA, Criada da Rainha Estratonica. + HUM PORTEIRO DA CANA. + HUMA MOÇA DA CAMARA. + HUM PHYSICO, ou MEDICO. + SANCHO, Moço do Physico. + ALEXANDRE DA FONSECA, hum dos Musicos. + + + + * * * * * + + +ELREI SELEUCO. + +COMEDIA. + + + + +PROLOGO. + +_Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa._ + +Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quiz +representar huma Farça; e diz, que por não se encontrar com outras ja +feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo assi +arrazoado satisfazer. E diz que quem se della não contentar, querendo +outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da +Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em +casa do Boticario; e não lhe faltará que conte. Porém diz o Autor que +usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto á obra, se não parecer +bem a todos, o Autor diz que entende della menos que todos os que lha +puderem emendar. Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que +responde com hum dito de hum Philosopho, que diz: _Vós outros estudastes +para praguejar, e eu para desprezar praguentos?_ Eu com tudo quero saber +da Farça, em que ponto vai. Lançarote? + +MOÇO. + +Senhor. + +MORDOMO. + +São ja chegadas as figuras? + +MOÇO. + +Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida. + +MORDOMO. + +Como assi? + +MOÇO. + +Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com friza, nem talão de +çapato, que não sahisse fóra do couce. Ora vierão huns embuçadetes, e +quizerão entrar por fôrça; ei-lo arrancamento na mão: derão huma pedrada +na cabeça ao Anjo, e rasgárão huma meia calça ao Ermitão; e agora diz o +Anjo que não ha de entrar, até lhe não darem huma cabeça nova, nem o +Ermitão até lhe não pôrem huma estopada na calça. Este pantufo se perdeo +alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que não quero nada do +alheio. + +MORDOMO. + +Se elle fôra outra peça de mais valia, tu botáras a consciencia pela +porta fóra, para o metteres em tua casa. + +MOÇO. + +Oh! se o elle fôra, mais consciencia sería torná-lo a seu dono, quem o +havia mister para si. + +MORDOMO. + +Ora vem cá: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos +cá Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê para cá, e que traga +comsigo o Senhor Romão d'Alvarenga, para que sôbre o Canto-chão botemos +nosso contraponto de zombaria. Ouves, Lançarote? ir-lhe-has abrir a +porta do quintal, porque mudemos o vinte aos que cuidão de entrar por +fôrça. + +_Indo-se o Moço diz:_ + +Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma +bolsa com hum par de reales, que são bons para Escudeiro hypocrita; que +são pouco, e valem muito? + +MORDOMO. + +Moço, que estás fazendo que não vás? + +MOÇO. + +Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fôra aquelle +tempo, em que corrião as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para +humas palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste? + +MORDOMO. + +Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dirá. + +_Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moço, e diz o Mordomo:_ + +Não ha mais mao conselho, que ter hum villão destes mimoso, porque logo +passão o pé além da mão, e zombão assi da gravidade de seu amo. Mas +tornando ao que importa; vossas mercês he necessario que se cheguem huns +para os outros, para darem lugar aos outros Senhores que hão de vir; que +de outra maneira, se todo o corro se ha de gastar em palanques, será bom +mandar fazer outro alvalade; e mais, que me hão de fazer mercê, que se +hão de desembuçar, porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer +mal: este só desgôsto tẽe hum Auto, que he como offício de Alcaide; ou +haveis deixar entrar a todos, ou vos hão de ter por villão ruim. + +_Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro Ambrosio, e diz:_ + +MARTIM. + +Entre v. m. + +AMBROSIO. + +Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou +diante. Beijo as mãos a v. m. A verdade he esta, passear em casa +juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; além +disto Auto para esgaravatar os dentes: esta he a vida, de que se ha de +fazer consciencia. + +MORDOMO. + +Senhor, o descanso dizem lá, que se ha de ter em quanto homem puder, +porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu +nome he. + +MARTIM. + +Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho +traz mais somno comsigo que huma prégação comprida. + +MORDOMO. + +Senhor, por bom mo vendêrão, e eu o tomei á cala de sua boa fama. E se +tal he, eu acho que, por outra parte, não ha tal vida, como ouvir hum +villão, que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que huma +pera-pão, e huma donzella, que vem podre de amor, fallando como +Apostolo, mais piedosa que huma lamentação. + +MARTIM. + +Para estes taes he grande peça rapaz travesso com mólho de junco, porque +não andem mais ao coscorrão, mais roucos que huma cigarra, trazendo de +si enfadamento. + +MOÇO. + +O lá Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro. +Ora sus, ha hi quem dê mais? que ainda vos veja todas a mim ás +rebatinhas: ora sus, venhão de mano em mano, ou de mana em mana. + +MORDOMO. + +Moço, falla bem ensinado. + +MOÇO. + +Senhor, não faz ao caso; que os erros por amores tẽe privilegio +de Moedeiro. + +AMBROSIO. + +Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito por entrar. + +MOÇO. + +Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão. + +AMBROSIO. + +Oh que salgado moço! Zombas de mi? Vem cá. Donde es natural? + +MOÇO. + +Donde quer que me acho. + +AMBROSIO. + +Pergunto-te onde nasceste. + +MOÇO. + +Nas mãos das parteiras. + +AMBROSIO. + +Em que terra? + +MOÇO. + +Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida +daquella hora, que não havia palmo de terra nella. + +MARTIM. + +Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para +ver com que disparate respondes. + +MOÇO. + +A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio. + +MARTIM. + +Vem cá. De teu tio! E isso como? + +MOÇO. + +Como? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não entendem. Meu +pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamão aos filhos sobrinhos; e +daqui me ficou a mi ser filho de meu tio. + +MARTIM. + +Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este? + +MORDOMO. + +Aqui me veio ás mãos sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e +mais tẽe outra cousa, que huma trova fa-la tão bem como vós, ou como +eu, ou como o Chiado. + +AMBROSIO. + +Não! quanté disso nós havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto +se vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este? + +MORDOMO. + +Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste á moça Briolanja, por amor +de mi! + +MOÇO. + +Senhor, si, direi; mas aquella trova não he senão para quem a entender. + +MARTIM. + +Como! Tão escura he ella? + +MOÇO. + +Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu não sei escrever +senão com carvão; e porém diz assi: + + Por amor de vós, Briolanja, + Ando eu morto, + Pezar de meu avô torto. + +MARTIM. + +Oh como he galante! Que descuido tão gracioso! Mas vem cá: que culpa te +tẽe teu avô nos desfavores que te tua dama dá? + +MOÇO. + +Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, não pezarei eu antes dos +meus parentes, que dos alheios? + +MORDOMO. + +Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de gavetas, que +trombeta de Serenissimo de la Valla. + +MOÇO. + +A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de +mergulho a entenderão. E por isso mandem assoar os engenhos, e metão +mais huma sardinha no entendimento; e póde ser que com esta servilha lhe +calçará melhor: e todavia palra assi: + + Vossos olhos tão daninhos + Me tratárão de feição, + Que não ha em meu coração + Em que atem dous reis de cominhos. + Meu bem anda sem focinhos + Por vós morto, + Pezar de meu avô torto. + +MARTIM. + +Ora bem: que tẽe de ver os cominhos com o teu coração? + +MOÇO. + +Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedella, não +se podem comer senão com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era +tendeira; e este he o verdadeiro entendimento. + +MARTIM. + +E aquella regra que diz, _Meu bem anda sem focinhos_, me dá tu a +entender; que ella não dá nada de si. + +MOÇO. + +Nunca vossas mercês ouvirão dizer: _Meu bem e meu mal lutárão hum dia; +meu bem era tal, que meu mal o vencia?_ Pois desta luta foi tamanha a +quéda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por +ficarem tão esfarrapados, que lhe não podião botar pedaço; por conselho +dos Physicos lhos cortárão por lhe nelles não saltarem erpes; e daqui +ficou: _Meu bem anda sem focinhos_, como diz o texto. + +AMBROSIO. + +Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por dia de S. Nicolao. + +MARTIM. + +Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natural para Logico. + +MOÇO. + +Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas não tão fria como vossas mercês. + +MORDOMO. + +Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por +baixo desta mesa, e ouçamos este Representador, que vem mais amarrotado +dos encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira +da arca de cedro. + +MARTIM. + +Senhor, elle parece que aprende a cirurgião. + +AMBROSIO. + +Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos +verdes. + +MORDOMO. + +Emfim, parece figura de Auto em verdade. + +_Entra o Representador._ + + He lei de direito, assaz verdadeira, + Julgar por si mesmos aquillo que vem; + Peloque, se cuidão que zombo de alguem, + Eu cuido que zombão da mesma maneira. + +E assi a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum conhecer seu +proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me esquece o +dito todo de ponto em claro: mas não sou de culpar, porque não ha mais +que tres dias que mo derão. Mas em breves palavras direi a vossas mercês +a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo até á ponta. Entrarão logo +primeiramente quinze donzellas que vão fugidas de casa de seus paes, e +vão com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos, +metidos em hum covão, cantando: _Quem os amores tẽe em Cintra_; e +despois de cantarem farão huma dança de espadas; cousa muito para ver: +entra mais ElRei Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo +Catharina Real com huns poucos de parvos n'huma joeira; e semeá-los-ha +pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o +Auto, com musica de chocalho e buzinas, que Cupido vem dar a huma +alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-hão vossas mercês cada hum para suas +pousadas, ou consoarão cá comnosco disso que ahi houver. Parece-me que +nenhum diz que não. Ora pois ficareis _in vanum laboraverunt_, porque +atégora zombei de vós, por me forrar do êrro da representação, como quem +diz, _digo-to, antes que mo digas._ + +AMBROSIO. + +Ora vos digo, Senhores, que se as figuras são todas taes, que acertarião +em errar os ditos; aindaque me parece que este o não fez, senão a ser +mais galante. Mas se assi he, ella he a melhor invenção que eu vi; +porque jagora representações, todas he darem por praguentos; e são tão +certas, que he melhor errá-las, que acertá-las. + +MORDOMO. + +Parece-me que entrão as figuras de siso: vejamos se são tão galantes na +prática, como nos vestidos. + + + * * * * * + + +_Entra El Rei Seleuco, com a Rainha Estratonica._ + +REI. + + Senhora, desque a ventura + Me quiz dar-vos por mulher, + Me sinto emmeninecer; + Porqu'em vossa formosura + Perde a velhice seu ser. + Hum homem velho, cansado, + Não tẽe fôrça, nem vigor, + Para em si sentir amor: + Se não he qu'estou mudado + Com ser vosso n'outra côr. + Muito grande dita tem + A mulher que he formosa. + +RAINHA. + + Senhor, grande: mas porém + Se a tal he virtuosa, + Quer-lhe a ventura mor bem. + +REI. + + Si, mas porém nunca vemos + A natureza esmerar + Adonde haja que taxar; + Que quando ella faz extremos, + Em tudo quer-se extremar. + Eu fallo como quem sente + Em vós está calidade, + Pelo que vejo presente; + E se me esta mostra mente, + Mente-me a mesma verdade. + Huma só tristeza tenho + Que não tẽe a meninice, + Que no mor contentamento + O trabalho da velhice + Me embaraça o sentimento. + +RAINHA. + + Senhor, novidades tais + Far-me-hão crer de verdade... + +REI. + + Novidades lhe chamais! + Folgo, Senhora, que achais + Na velhice novidades. + +RAINHA. + + Senhor, dias ha que sento + Em o Principe Antiôcho + Certo descontentamento: + Dera alguma cousa a trôco + Por saber seu sentimento. + Vejo-lhe amarello o rosto, + Ou de triste, ou de doente: + Ou elle anda mal disposto, + Ou lá tẽe certo desgôsto + Que o não deixa ser contente. + Mande, Senhor, vossa Alteza + A chamá-lo por alguem, + Saberemos que mal tem, + Se he doença de tristeza, + De que nasce, ou de que vem. + +REI. + + Certo qu'eu me maravilho + Do que vos ouço dizer. + Que mal póde nelle haver? + Ide dizer a meu filho + Que me venha logo ver. + +RAINHA. + + Se curar não se procura + Huma cousa destas tais, + Vem despois a crescer mais. + Quando ja não se acha cura, + Toda a cura he por demais. + +_Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome Leocadio._ + +PRINCIPE. + + Leocadio, se es avisado, + E não te falta saber, + Saber-me-has dar a entender, + Quem ama desesperado, + Que fim espera de haver? + +PAGEM. + + Senhor, não. + Mas porém porque razão + Lhe avem sabê-lo, ou de que? + +PRINCIPE. + + Pergunto-te a conclusão; + Não me perguntes porque. + Porque he minha pena tal, + E de tão estranho ser, + Que me hei de deixar morrer; + E por não cuidar no mal + O não ouso de dizer. + Que maneira de tormento + Tão estranho e evidente, + Que nem cuidar se consente! + Porque o mesmo pensamento + Ha medo do mal que sente. + +PAGEM. + + Não entendo a Vossa Alteza. + +PRINCIPE. + + Assi importa á minha dor. + +PAGEM. + + E porque razão, Senhor? + +PRINCIPE. + + Para que seja a tristeza + Castigo do meu temor. + Porque ordena + O Amor, que me condena, + Que se haja de sentir, + E sem dizer nem ouvir. + Bem-aventurada a pena + Que se póde descobrir! + Oh caso grande e medonho! + Oh duro tormento fero! + Verdade he isto, qu'eu quero? + Não he verdade, mas sonho + De que acordar não espero. + Quero-me chegar a ElRei + Meu pae, que ja m'está vendo. + Mas onde vou? Não m'entendo. + Com que olhos eu olharei + Hum pae, a quem tanto offendo? + Que novo modo de antolhos! + Porque neste atrevimento + Devêra meu sentimento + Para elle não ter olhos, + Nem para ella pensamento. + +_Chega aonde está ElRei, e diz:_ + +REI. + + Filho, como andais assi? + Que tanto desgôsto tomo + De vos ver como vos vi! + +PRINCIPE. + + Não sei eu tanto de mi, + Que possa saber o como. + Dias ha ja, Senhor, que ando + Mal disposto, sem saber + Este mal que possa ser; + Que se nelle estou cuidando, + Quasi me vejo morrer. + +REI. + + Pois, filho, será razão + Que meus Physicos vos vejão. + +PRINCIPE. + + Os Physicos, Senhor, não; + Que os males qu'em mi estão, + São curas que me sobejão. + +RAINHA. + + Deite-se; que na verdade + Hum corpo, deitado e manso, + Descansa á sua vontade. + +PRINCIPE. + + Senhora, esta enfermidade + Não se cura com descanso. + +RAINHA. + + Todavia, bom será + Que lhe fação huma cama. + +PRINCIPE. + + (Hum coxim abastará, + Que assi não descansará + O repouso de quem ama.) + +REI. + + Vamos, filho, para dentro, + Em quanto a cama se faz: + Repousae como capaz; + Que a mi me dá cá no centro + A pena que assi vos traz. + +_Vão-se, e vem huma moça a fazer a cama e diz:_ + +MOÇA. + + Mimos de grandes Senhores, + E suas extremidades, + Me hão de matar de amores, + Porque de meros dulçores + Adoecem. + Então logo lhes parecem + Aos outros, que são mamados; + E os que são mais privados, + Sôbre elles estremecem. + Certo (e assi Deos me ajude!) + Que são muito graciosos, + Porque de meros viçosos, + Não podem com a saude. + Mas deixallos, + Porque elles darão nos vallos, + Donde mais não se erguerão, + Inda que lhe dem a mão + Os seus privados vassallos. + +_Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e diz:_ + +PORTEIRO. + + Traz, traz. + +MOÇA. + + Jesu! Quem'stá ahi? + +PORTEIRO. + + Ja vós, mana, ereis mamada: + Para vos levar furtada + Nunca tal ensejo vi. + E vós estais descuidada! + +MOÇA. + + E meus descuidos que fazem? + +PORTEIRO. + + Vossos descuidos? cadella! + Ah minh'alma! Sois tão bella, + Qu'esses descuidos me trazem + Dous mil cuidados á vela. + Pois sou vosso ha tantos annos, + Mana, tirae os antolhos, + E vereis meus tristes dannos. + +MOÇA. + + Não tenhais esses enganos. + +PORTEIRO. + + Nem vós tenhais esses olhos; + Que de vossos olhos vem + Esta minha pena fera. + +MOÇA. + + De meus olhos? Assim era. + +PORTEIRO. + + Moça, que taes olhos tem, + Nenhuns olhos ver devêra. + +MOÇA. + + E porque? + +PORTEIRO. + + Porque cegais + A quantos olhos olhais, + Postoque por vós padecem. + Olhos, que tão bem parecem, + Porque não os castigais? + +MOÇA. + + Deos dê siso, pois de vós + Tirou o que aos outros deu. + +PORTEIRO. + + Desatae-me lá esses nós. + Que mais siso quero eu, + Que não ter siso por vós? + +MOÇA. + + Fallais d'arte; eu vos prometo + Que a resposta vem á vela. + Isso he ôlho de panella. + Quanto ha ja que sois discreto? + +PORTEIRO. + + Quanto ha ja que vós sois bella? + +MOÇA. + + Dais-me logo a entender + Que eu sou feia, a meu ver. + +PORTEIRO. + + E isso porque o entendeis? + +MOÇA. + + Porque? Porque me dizeis + Que só de meu parecer + Vos procede o que sabeis. + +PORTEIRO. + + He verdade. + +MOÇA. + + Pois bem sento + Que o vosso saber he vento. + Fica a cousa declarada, + Meu parecer não ser nada. + +PORTEIRO. + + Olhae aquelle argumento: + Além de bella, avisada! + Oh nem tanto, nem tão pouco! + Vêde vós o que fallais. + +MOÇA. + + Cego no saber andais. + +PORTEIRO. + + No siso, mas não tão louco + Como vós, mana, cuidais. + Ora dizei, duna má: + Que não amais, quem vos ama? + +MOÇA. + + Ouvistes vós cantar ja, + _Velho malo, em minha cama?_ + Ja m'entendereis. + +PORTEIRO. + + Ha, ha. + Senhora, estais enganada; + Que com huma capa e espada, + E com este capuz fóra... + +MOÇA. + + Ora bem: tirae-o ora, + E fazei huma levada. + +PORTEIRO. + + Não: se m'eu hoje alvoróço, + Achar-me-heis d'outra feição. + +_Aqui tira o capuz e diz:_ + +PORTEIRO. + + Tenho má disposição? + Estas obras são de moço, + Se as mostras de velho são. + +MOÇA. + + Tendes mui gentis meneios. + +PORTEIRO. + + Não, Senhora; faço extremos. + +MOÇA. + + Passeae ora, veremos + Se tendes tão bons passeios. + +PORTEIRO. + + Tudo, Senhora, faremos. + +MOÇA. + + Virae ora a essoutra mão. + +PORTEIRO. + + Esta disposição vêde-a; + Que tenho gentil feição. + +MOÇA. + + Tendes vós mui boa redea. + Soffreis ancas? + +PORTEIRO. + + Isso não. + +MOÇA. + + Por certo que tendes graça + Em tudo quanto fizerdes. + Fazei mais o que souberdes. + +PORTEIRO. + + Não sei cousa que não faça, + Senhora, por me quererdes. + +MOÇA. + + Tendes vós muito bom ar. + +PORTEIRO. + + Mais qu'isto faz quem quer bem. + +MOÇA. + + I-vos asinha, que vem + O Principe a se deitar. + +PORTEIRO. + + Nunca huma pessoa tem + Hum'hora para fallar! + +_Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e diz:_ + +PRINCIPE. + + Seja a morte apercebida, + Porque ja o Amor ordena + A dar a meu mal sahida; + Porque o fim da minha vida + O seja da minha pena. + Não tarde, para tomar + Vingança de meu querer, + Pois não se póde dizer + Que não tẽe ja que esperar, + Nem com que satisfazer? + Os Physicos vem e vão, + Sem saberem minhas mágoas, + Nem o pulso me acharão; + E se o querem ver nas ágoas, + As dos olhos lho dirão. + Se com sangrias tambem + Procurão ver-me curado; + O temor de meu cuidado + O mais do sangue me tem + Nas veias todo coalhado. + Quero-me aqui encostar, + Que ja o esprito me cae. + Leocadio, vae-me chamar + Os Musicos de meu Pae; + Folgarei de ouvir cantar. + +_Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo assi:_ + +PRINCIPE. + + Senhora, qual desatino + Me trouxe a tanta tristura? + Foi, Senhora, por ventura + A fôrça do meu destino, + Como vossa formosura? + Bem conheço que não posso + Ter tão alto pensamento; + Mas disto só me contento, + Que se paga com ser vosso + O mor mal de meu tormento. + +_Entrão os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum delles:_ + +ALEXANDRE. + + Senhor, de que se acha mal + O Principe, ou que mal sente? + +PAGEM. + + Senhor, sei que está doente; + Mas sua doença he tal, + Qu'entender se não consente. + Os Physicos vem e vão, + Huns e outros a meude, + Sem o poderem dar são. + Quanto mais cura lhe dão, + Então tẽe menos saude. + O Pae anda em sacrificios + Aos deoses, que lhe dem + A saude que convem; + Dizendo que por seus vicios + O mal a seu filho vem. + Eu suspeito qu'isto são + Alguns novos amorinhos, + Que tera no coração. + +ALEXANDRE. + + Amores! com quem serão, + Que lhe não dem de focinhos? + +PORTEIRO. + + Senhores, que lhe parece + Da doença de Antiôcho? + +ALEXANDRE. + + Diga-lha quem lha conhece. + +PAGEM. + + Que toma morrer a trôco + De callar o que padece. + +PORTEIRO. + + Isso he estar emperrado + Na doença; que he peor. + Tẽe-no os Physicos curado? + +ALEXANDRE. + + Oh! que de mal del amor + No ha, Señor, sanador. + +PORTEIRO. + + Fallais como exprimentado; + Qu'eu cuido que esta fadiga, + Que o faz com que desespere; + Y por mas tormento quiere + Que se sienta, y no se diga. + +ALEXANDRE. + + Pois, Senhor meu, isso asselle, + Porque a pena, que sabeis, + Que eu cuido que está nelle, + Dar-lhe-ha penas crueis, + Pues no hay quien la consuele. + +PORTEIRO. + + Folgo, porque m'entendeis. + +PAGEM. + + Hemo-nos, Senhores, de ir, + Porque nos está 'sperando. + +PORTEIRO. + + Pois eu tambem hei de ir; + Que não me posso espedir + Donde vejo estar cantando. + +PRINCIPE. + + Cantae, por amor de mi, + Alguma cantiga triste; + Que todo meu mal consiste + Na tristeza em que me vi. + +PORTEIRO. + + Mande-lhe cantar hum chiste. + +ALEXANDRE. + + Chiste não, que he deshonesto, + E não tẽe esses extremos: + Outro canto mais modesto; + Porém não sei que diremos. + +PAGEM. + + Gaoleão o dirá presto. + +PORTEIRO. + + Dá licença V. Alteza + Que diga minha tenção? + +PRINCIPE. + + Dizei: seja em canto-chão. + +PORTEIRO. + + Pois crede qu'he subtileza. + Qu'os Anjos a comerão. + Digão esta: + _Enforquei minha esperança, + E o Amor foi tão madraço, + Que lhe cortou o baraço._ + +ALEXANDRE. + + Não me parece essa boa. + +PORTEIRO. + + Haja eu perdão, + Porque não a entenderão. + +ALEXANDRE. + + Entender! + +PORTEIRO. + + Bofé qu'he boa: + Não lhe cahis na feição? + +ALEXANDRE. + + Dizei ora outra melhor, + Com que nos atarraqueis. + +PORTEIRO. + + Ora esperae, e ouvireis: + Se a esta não dais louvor, + Quero que me degolleis. + +Cantiga. + + Com vossos olhos Gonçalves, + Senhora, captivo tendes + Este meu coração Mendes. + +ALEXANDRE. + + Essa parece mui taibo, + Porque mostra bom indicio. + +PORTEIRO. + + Vós cuidareis qu'eu que raivo. + +ALEXANDRE. + + Todavia tẽe mao saibo. + Ora mal lhe corre o offício. + +PRINCIPE. + + Tá, não vá mais por diante + A zombaria, que he má: + Cantae qualquer dellas ja; + Qu'esse Porteiro he galante, + Ninguem o contentará. + +_Aqui cántão, e em acabando, diz o_ + +PAGEM. + + Parece que adormeceo. + +PORTEIRO. + + Pois será bom que nos vamos. + +ALEXANDRE. + + Senhor, quer que nos vejamos? + +PORTEIRO. + + Senhor vir-me-ha do ceo: + Releva-me que o façamos. + +_Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta, e diz:_ + +RAINHA. + + Frolalta, como ficava + Antiôcho em te tu vindo? + +FROLALTA. + + Ficava-se despedindo + Da vida qu'então levava, + E assi seus dias cumprindo. + +RAINHA. + + Oh grave caso d'amor! + Desesperada affeição! + Oh amor sem redempção, + Que alli te fazes maior + Onde tens menos razão! + No mais alto e fundo pégo + Alli tens maior porfia: + Razão de ti não se fia. + Quem a ti te chamou cego, + Mui bem soube o que dizia. + Por ventura hia chorando? + +FROLALTA. + + Chorando hia e chamando + Ao Amor, Amor cruel; + E em, Senhora, se deitando + Lhe cahio este papel. + +RAINHA. + + Que papel? + +FROLALTA. + + Este, Senhora. + +RAINHA. + + Amostra, que quero lê-lo. + Agora acabo de crê-lo; + Que ao que mostra por fóra, + Aqui lhe lançou o sello. + +_Aqui lê o papel e diz:_ + +RAINHA. + + Oh estranha pena fera! + Desditosa vida chara! + Oh quem nunca cá viera, + E com seu Pae não casára, + Ou em casando morrêra! + +FROLALTA. + + Aindaque eu pêca são, + Senhora, tudo bem vejo. + Attente, que na eleição + O que lhe pede o desejo + Não consente o coração. + +RAINHA. + + Frolalta, pois qu'es discreta + Nada te posso encobrir; + Porque, se queres sentir, + A huma mulher discreta + Tudo se ha de descobrir. + O dia qu'entrei aqui, + Que a Seleuco recebi, + Logo nesse mesmo dia + No Principe filho vi + Os olhos com que me via. + Este principio soffri-lho, + Para ver se se mudava; + Antes mais se accrescentava: + Eu amava-o como filho, + E elle d'outr'arte me amava. + Agora vejo-o no fim + Por se me não declarar. + E pois ja que a isso vim, + A morte que o levar, + Me leve tambem a mim. + Porque ja que minha sorte + Foi tão crua e desabrida, + Que me não quer dar sahida; + Sejamos juntos na morte, + Pois o não somos na vida. + Oh quem me mandou casar, + Para ver tal crueldade! + Ninguem venda a liberdade, + Pois não póde resgatar + Onde não tẽe a vontade. + Que não ha mor desvario, + Que o forçado casamento + Por alcançar alto assento; + Que, emfim, todo o senhorio + Está no contentamento. + Não sei se o vá ver agora, + Se será tempo conforme, + Ou se imos a deshora. + +FROLALTA. + + Despois iremos, Senhora, + Que agora dizem que dorme. + +_Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:_ + +PHYSICO. + + Su madrasta oyó nombrar, + Y el pulso se le alteró: + Esto no entiendo yo, + Porque para le alterar + El corazon le obligó. + Pues que el corazon se altere, + Es porque en un momento + Algun nuevo vencimiento + De aficion terrible le hiere, + Que causa tal movimiento. + Pues que aficion cabe así + Con madrasta? Digo yo, + Dos razones hay aqui: + La una dice, que sí, + La otra dice, que no. + Empero yo determino + De exprimentar la verdad, + Y hacer una habilidad, + Que declare es agua, ó vino + Esta su enfermedad. + Porque toda esta mañana + Tengo estudiado su mal, + Sin ver causa efectual + De su dolencia inhumana, + Ni otra de su metal. + Llamar quiero este asnejon; + Mas aun debe de dormir, + Segun que es dormilon. + Sancho? ó Sancho? + +SANCHO. + + Ah Señor. + +PHYSICO. + + Ea, aun estás dormiendo? + +SANCHO. + + Estoyme, Señor, vestiendo. + +PHYSICO. + + Pues vellaco y sin sabor, + No me respondes dormiendo? + Vestios presto, ladron. + Oh qué mozo, y qué ventura! + +SANCHO. + + (Mas qué amo y qué cabron!) + Embíeme acá el ropon, + Que no hallo mi vestidura. + +PHYSICO. + + Que embie el ropon acá? + Parece que os desmandais. + +SANCHO. + + Que vaya, Señor? ha, ha. + Que buenos dias hayais. + +_Entra o moço embrulhado em huma manta, e diz:_ + +PHYSICO. + + Di como vienes así + Con la manta, y para qué? + +SANCHO. + + Yo, Señor, se lo diré: + Por venir presto vestí + Lo que mas presto me hallé: + Porque viendo que él me llama, + Dormiendo yo sin afan, + Salté presto de la cama, + Que parezco un gavilan, + Hermoso como una dama. + +PHYSICO. + + Mas es tu bovedad tanta, + Que vienes desta facion? + +SANCHO. + + De mi vestido se espanta? + De noche sirve de manta, + Y de dia de ropon. + +PHYSICO. + + Embióme ElRey á llamar + Otra vez. + +SANCHO. + + Y á mí? + +PHYSICO. + + Y á ti! + +SANCHO. + + Y él qué presta allá sin mí? + +PHYSICO. + + Qué puedes tu aprovechar? + +SANCHO. + + Yo se lo diré de aqui: + Si por la ventura quiere + Para que le dé consejo, + Cuando doliente estuviere; + Digo, coma, si pudiere, + Y beba buen vino anejo; + Porque este es el licor + Que dá fuerza, y es sabroso; + Que segun dicen, Señor, + _Vinum lœtificat cor + Hominis_, y le es provechoso. + +PHYSICO. + + Ya sabes la medicina, + Que Avicena nos refiere. + +SANCHO. + + Pues, Señor! porque es divina. + Pero ElRey qué le quiere, + Qué manda, ó qué determina? + +PHYSICO. + + El Principe está doliente. + +SANCHO. + + Oh mesquino! Y qué mal ha? + +PHYSICO. + + Y á ti, necio, que te vá? + +SANCHO. + + O Señor, que es mi pariente! + +PHYSICO. + + Gracioso el bovo está. + Y pues díme por tu fé: + Llorarás si se muriere? + +SANCHO. + + No, Señor, no lloraré; + Empero, Señor, haré + La peor cara que pudiere. + +PHYSICO. + + Ea, bovo, vé corriendo, + Y ensilla la mula ayna. + +SANCHO. + + Véngala ensillar mejor. + +PHYSICO. + + Oh velhaco, y sin sabor! + +SANCHO. + + Yo por cierto no lo entiendo. + Pero una medicina + Le he de pedir, Dios queriendo, + (Porque ando atribulado, + Y no sé parte de mi + Con este nuevo cuidado) + Para un sayo esfarrapado, + Que me dicen hay allí. + +PHYSICO. + + Ora ensilla; y nunca viva, + Pues sufro tus desatinos. + +SANCHO. + + Señor, pasion no reciva: + _Ya cavalga Calaínos + A la sombra de una oliva._ + +_Aqui sahe bolindo com a almofaça, e acorda o Principe e diz:_ + +PRINCIPE. + + Oh bella vista e humana, + Por quem tanto mal sostenho! + Oh Princeza soberana! + Como? nos braços vos tenho, + Ou este sonho m'engana? + Pois como, sonho, tambem + Me queres vir magoar? + E para me atormentar + Mostras-me a sombra do bem + Para assi mais m'enganar? + Assi que, com quanto canso, + Ja não posso achar atalho, + Pois que o somno quieto e manso, + Que os outros tẽe por descanso, + Me vem a mi por trabalho. + Pois ha hi tantos enganos + Que condemnão minha sorte; + Não o tenho ja por forte, + Se á volta de tantos danos + Viesse tambem a morte. + +_Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:_ + +REI. + + Andae e vêde se achais + O rasto deste segredo, + Que me dizem que alcançais; + Ainda que tenho medo + Que lhe seja por demais. + +PHYSICO. + + Plega á Dios que aqueste sea + Para salud y remedio + Desta dolencia tan fea. + Yo buscaré todo el medio, + Que presto sano se vea. + +_Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:_ + +PHYSICO. + + Aflojen, Señor, sus ais. + Como se halla en su penar? + +PRINCIPE. + + Como me acho perguntais? + E como se póde achar + Quem sempre se perde mais? + +PHYSICO. + + (La respuesta abre el camino.) + Imagina de contino? + +PRINCIPE. + + Não tenho outro mantimento, + Nem outro contentamento, + Senão o em que imagino. + +_Aqui entra a Rainha e diz:_ + +RAINHA. + + Como se sente, Senhor? + Tẽe a febre mais pequena? + +PRINCIPE. + + Responda-lhe minha pena. + +PHYSICO. + + (Conocido es su dolor. + Ora sea en hora buena, + Tomada está la tristeza + Á las manos.) Qué sentió? + (Usaré de subtileza.) + +_Diz contra ElRei:_ + + Cúmpleme que solo yo + Platique con Vuestra Alteza. + +REI. + + Cheguemos-nos para cá. + +RAINHA. + + Não deve desesperar, + Qu'em fim, se bem attentar, + Para tudo o tempo dá + Tempo para se curar. + +PRINCIPE. + + Que cura poderá ter + Quem tẽe a cura, Senhora, + No impossivel haver? + +RAINHA. + + Ficae-vos, Senhor, embora, + Que vos não sei responder. + +_Vai-se a Rainha, e diz ElRei:_ + +REI. + + Neste mal, que não comprendo, + Que meio dais de conselho? + +PHYSICO. + + Señor, nada entiendo dello; + Y supuesto que lo entiendo, + Yo quisiera no entendello. + +REI. + + Porque? + +PHYSICO. + + Porque he entendido + Lo mas malo de entender, + Para lo que puede ser, + Porque anda, Señor, perdido + De amores por mi muger. + +REI. + + Santo Deos! que! tal amor + Lhe dá doença tão fera! + Que remedio achais melhor? + +PHYSICO. + + Forçado será que muera, + Porque no muera mi honor. + +REI. + + Pois como! a hum só herdeiro + Deste Reino não dareis + Vossa mulher, pois podeis; + Que tudo faz o dinheiro? + Pois este não o engeiteis; + Dae-lha, porque eu espero + De vos dar dinheiro e honra, + Quanto eu para elle quero. + +PHYSICO. + + No tira el mucho dinero + La mancha de la deshonra. + +REI. + + Ora bem pouco defeito! + He pequice conhecida, + Quando deixa de ser feito; + Porque com elle dais vida + A quem vos dara proveito. + +PHYSICO. + + Cuan facilmente aporfia + Quien en tal nunca se vió! + Del consejo que me dió, + Vuestra Alteza que haria + Si agora fuese yo? + +REI. + + A mulher que eu tivesse + Dar-lha-hia. Oxalá + Que elle a Rainha quizesse! + +PHYSICO. + + Pues déla, si le parece, + Que por ella muerto está. + +REI. + + Que me dizeis? + +PHYSICO. + + La verdad. + +REI. + + Sem dúvida, tal sentistes? + +PHYSICO. + + Sin duda, sin falsedad. + Pues, Señor, ahora tomad + Los consejos que me distes. + +REI. + + Certamente, qu'eu o via + Em tudo quanto fallava. + Como o vistes? porque via? + +PHYSICO. + + Nel pulso, que se alterava + Si la via, ó si la oia. + +REI. + + Que maneira ha de haver? + Qu'eu certo me maravilho, + Possa mais o amor do filho, + Do que póde o da mulher. + Finalmente hei-lha de dar, + Que a ambos conheço o centro. + Quero-o ir alevantar, + E iremos para dentro + Neste caso praticar. + +_Diz contra o Principe:_ + + Levantae-vos, filho, d'hi + O melhor que vós puderdes, + E vindo-vos para aqui; + Porque, emfim, o que quizerdes + Tudo havereis de mi. + +PAGEM. + + Ah Senhores, oulá, ou? + +PORTEIRO. + + Viestes em conjunção + A melhor que póde ser: + Haveis aqui de fazer + A tosquia a hum rifão. + +PAGEM. + + Deixae-me, Senhor, dizer: + Haveis isto de acabar, + Coração, hi bugiar, + No esteis preso en cadenas, + Que pois o amor vos deo penas, + Que vos lanceis a voar. + +PORTEIRO. + + Por certo que bem comprou. + +PAGEM. + + Ora sabeis o que vai? + Antiocho que casou + Com a mulher de seu Pai, + E o mesmo Pae o ordenou. + +PORTEIRO. + + Isso como? + +PAGEM. + + Não o sei; + Porque dizem que a amava, + E que só por ella andava + Para morrer; e ElRei + Deo-a a quem a desejava. + +PORTEIRO. + + Se o casa por querer bem + Com a moça, a quem elle ama, + Direi eu que a mim me inflama + O amor mais que a ninguem. + +PAGEM. + + Pois pedi-lhe a nossa dama. + +PORTEIRO. + + Por São Gil, que ei-los cá vem, + Elle pela mão com ella. + +_Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mão, e diz:_ + +REI. + + Que mais ha hi que esperar? + Olhae qu'estranheza vai! + O muito amor ordenar, + Ir-se o filho namorar + D'huma mulher de seu Pai! + Querer bem foi sua dor, + Negar-lha será crueldade; + Assi que ja foi bondade + Usar eu de tal amor, + E de tal humanidade. + Ella deixou de reinar + Como fazia primeiro + Por se com elle casar; + E por amor verdadeiro + Tudo se póde deixar. + Eu que nella tinha pôsto + Todo o bem de meu cuidado, + Deixei mais que ella ha deixado; + Que mais se deixa no gôsto, + Que no poderoso estado. + Mas ja que tudo isto vemos, + Hajão festas de prazer, + As que melhor possão ser; + Porqu'em tão grandes extremos, + Extremos se hão de fazer. + Hajão cantos para ouvir, + Jogos, prazeres sem fundo; + Porque, se quereis sentir, + Deste modo entrou o mundo, + E assi ha de sahir. + +_Aqui vem os Musicos e cántão, e depois de cantarem, sahem-se todas as +figuras, e diz_ + +MARTIM CHINCHORRO. + +Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos; +ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor +festa que póde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das +figuras nos acolheremos. Moço, accende esse mólho de cavacos, porque faz +escuro, não vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço +e as canastras. + +ESTACIO DA FONSECA. + +Não, Senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par de tições na +mão; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvão-se desta +pousada; e não tenhão isto por palavras, porque essas e plumas, o vento +as leva. + + * * * * * + + + + +OS AMPHITRIÕES, + +COMEDIA. + + +INTERLOCUTORES. + + AMPHITRIÃO. + ALCMENA, sua mulher. + CALLISTO. + FELISEO. + SOSEA, moço de Amphitrião. + BROMIA, sua criada. + BELFERRÃO, Patrão. + AURELIO, Primo de Alcmena. + HUM MOÇO DE AURELIO. + JUPITER. + MERCURIO. + + +OS AMPHITRIÕES, + +COMEDIA. + + + + +ACTO PRIMEIRO. + + +SCENA I. + +_Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e Bromia._ + +ALCMENA. + + Ah Senhor Amphitrião, + Onde está todo meu bem! + Pois meus olhos vos não vem, + Fallarei co'o coração, + Que dentro n'alma vos tem. + Ausentes duas vontades, + Qual corre mores perigos, + Qual soffre mais crueldades, + Se vós entre os inimigos, + Se eu entre as saudades? + Que a ventura, que vos traz + Tão longe de vossa terra, + Tantos desconcertos faz, + Que se vos levou á guerra, + Não me quiz leixar em paz. + Bromia, quem com vida ter, + Da vida ja desespera, + Que lhe poderás dizer? + +BROMIA. + + Que nunca se vio prazer, + Senão quando não se espera. + E por tanto não devia + De ter triste a phantasia; + Porque Vossa Mercê creia, + Que o prazer sempre salteia + Quem delle mais desconfia. + Eu tenho no coração, + Do Senhor Amphitrião + Venha hoje alguma nova: + Não receba alteração, + Que a verdadeira affeição + Na longa ausencia se prova. + +ALCMENA. + + Dizei logo a Feliseo + Que chegue muito apressado + Ao caes, e busque mêo + De saber se algum recado + Do porto Persico vêo: + E mais lhe haveis de dizer, + (Isto vos dou por offício) + D'alguma nova saber, + Em quanto eu vou fazer + Aos Deoses o sacrificio. + + +SCENA II. + +BROMIA. + + Saudades de minh'ama, + Chorinhos e devoções, + Sacrificios e orações, + Me hão de lançar n'huma cama, + Certamente. + Nós mulheres de semente + Somos sedenho mui tosco: + Com qualquer vento que vente, + Queremos forçadamente + Que os Deoses vivão comnosco. + Quero Feliseo chamar, + E dizer-lhe aonde ha de ir. + Mas elle como me vir, + Logo ha de querer rinchar, + De travesso. + Eu que de zombar não cesso, + Por ficar com elle em salvo, + Lanço-lhe hum e outro remêsso; + Aos seus furto-lhe o alvo; + E então elle fica avesso. + Porque o melhor destas danças, + Com huns vindiços assi, + He trazê-los por aqui + Ó cheiro das esperanças, + Por viver. + Ha-os homem de trazer + Nos amores assi mornos, + Só para ter que fazer; + E despois ao remetter + Lançar-lhe a capa nos cornos. + Feliseo, se estais á mão, + Chegae cá, vem como hum gamo: + Bem sei que não chamo em vão. + + +SCENA III. + +_Feliseo e Bromia._ + +FELISEO. + + Chamais-me? tambem vos chamo; + Porém eu ouço, e vós não: + Senhora, que me matais, + Se vós ja nunca me ouvis, + Ou me ouvis, e vos callais, + Dizei: porque me chamais + Se me vós a mim fugis? + +BROMIA. + + Eu vos fujo? + +FELISEO. + + Fugis, digo, + De dar a meus males cabo. + +BROMIA. + + Sabei que desse perigo + Não fujo como de imigo, + Fujo como do diabo. + +FELISEO. + + Dae ao demo essa tenção, + Usae antes de cortês, + Cahi vós nesta razão. + +BROMIA. + + Do p'rigo fogem os pés, + Do diabo o coração. + +FELISEO. + + Dizeis-me que nessa briga + Do meu coração fugis. + +BROMIA. + + Ainda qu'eu isso diga... + +FELISEO. + + Ah minha doce inimiga! + Bem sinto que me sentis. + Mas para que me chamais? + +BROMIA. + + Manda-vos minha Senhora + Que chegueis daqui ao cais, + E algumas novas saibais + D' Amphitrião nesta hora. + +FELISEO. + + Quem as não sabe de si, + D'outrem como as sabera? + +BROMIA. + + Não as sabeis vós de mi. + +FELISEO. + + Má trama venha por ti, + Duna feiticeira má! + Porque não me ólhas direito, + Cadella, que assi me cortas? + +BROMIA. + + Porque vos quero dar portas; + Que s'eu olhar d'outro geito, + Trarei cem mil vidas mortas. + +FELISEO. + + E pois para que me andais + Enganando ha cem mil annos? + +BROMIA. + + Dou-vos vida com enganos. + +FELISEO. + + Nesses enganinhos tais + Acho crueis desenganos. + +BROMIA. + + Quant'esses vos quero eu dar: + Vós cuidais que estais na sella? + Pois podeis-vos descer della; + Qu'eu nunca vos pude olhar. + +FELISEO. + + Jogais comigo á panella? + Tendes-me ha tanto captivo, + E desenganais-me agora? + Tudo isto he o que privo. + Assi que he isso, Senhora, + Dochelo morto, dochelo vivo? + Se me vós desenganais + No cabo de tantos annos, + Direi, se licença dais, + Dais-me vida com enganos, + Desenganos, ja chegais. + Mas se isso havia de ser, + Dizei, má desconhecida, + Destêrro de meu viver, + Que vos custava dizer + Amor, vae buscar tua vida? + +BROMIA. + + Zombais? Fallais-me coprinhas? + +FELISEO. + + Rir-vos-heis se vem á mão: + Copras não, mas isto são + Ansias y pasiones minhas + Dos bofes e coração. + +BROMIA. + + Is-vos fazendo d'huns sengos..... + +FELISEO. + + Perdóneme Dios si peco. + +BROMIA. + + Nesses dentinhos framengos + Conheço que sois hum pêco + De todos quatro avoengos. + +FELISEO. + + Tudo vos levo em capelo, + Ja qu'estais tanto em agraço. + Porém, fallando singelo, + A furto desse mao zêlo, + Quereis-me dar hum abraço? + +BROMIA. + + Ora digo que não posso + Usar comvosco de fero: + Tomae-o. + +FELISEO. + + Ja o não quero, + Porque esse abraço vosso, + Sabei que he engano mero. + +BROMIA. + + Oh! vós sois d'huns sensabores... + Abraço pedis assim? + S'eu remango d'hum chapim... + +FELISEO. + + Tudo isso são favores: + Zombae, vingae-vos de mim. + +BROMIA. + + Vós de furioso touro + As garrochas não sentis. + +FELISEO. + + Vedes, com isso sé mouro: + Quando cuido que sois ouro, + Acho-vos toda ceitis. + +BROMIA. + + Emfim, sanha de villão + Vos fez perder hum bom dia. + +FELISEO. + + Jagora o eu tomaria; + Quereis-mo dar? + +BROMIA. + + Ora não. + Cocei-vos eu todavia. + +FELISEO. + + Pois, Senhora, a quem vos ama + Sois tão desarrazoada, + Quero tomar outra dama; + Que não digão os d'Alfama + Que não tenho namorada. + +BROMIA. + + Deixae-me. + +FELISEO. + + Vós me deixais. + +BROMIA. + + Deixae-me. + +FELISEO. + + Zombais de mi? + +BROMIA. + + Deixae-me. Pois m'engeitais, + Eu me ausentarei daqui + Onde me mais não vejais. + +FELISEO. + + Boa está a zombaria! + +BROMIA. + + Não são essas minhas manhas. + +FELISEO. + + Porém is-vos todavia? + +BROMIA. + + Voyme á las tierras estrañas. + Adó ventura me guia. + + +SCENA IV. + +_Feliseo só._ + + Phantasias de donzellas, + Não ha quem como eu as quebre; + Porque certo cuidão ellas, + Que com palavrinhas bellas + Nos vendem gato por lebre. + Esta tẽe lá para si + Qu'eu sou por ella finado; + E crê que zomba de mi; + E eu digo-lhe que, si, + Sou por ella esperdiçado. + Preza-se d'humas seguras; + E eu não quero mais Frandes: + Dou-lhe trela ás travessuras, + Porque destas coçaduras + Se fazem as chagas grandes. + Qu'estas, que andão sempre á vela, + Estas vos digo eu que coço; + Porque de firmes na sella, + Crem que falsão a costella, + E ficão pelo pescoço. + Que quando estas damas tais + Me cachão, então recacho. + Mas disto agora nó mais. + Quero-me ir daqui ao cais + Ver se algumas novas acho. + + +SCENA V. + +_Jupiter e Mercurio._ + +JUPITER. + + Oh grande e alto destino! + Oh potencia tão profana! + Que a setta d'hum menino + Faça que meu ser divino + Se perca por cousa humana! + Que m'aproveitão os ceos, + Onde minha essencia mora + Com tanto poder, se agora + A quem me adora por deos, + Sirvo eu como a senhora? + Oh quão estranha affeição! + Quem em baixa cousa vai pôr + A vontade e o coração, + Sabe tão pouco d'Amor, + Quão pouco Amor de razão. + Mas que remedio hei de ter + Contra mulher tão terribil, + Que se não póde vencer? + +MERCURIO. + + Alto Senhor, teu poder + O difficil faz possibil. + +JUPITER. + + Tu não vês qu'esta mulher + Se preza de virtuosa? + +MERCURIO. + + Senhor, tudo póde ser; + Que para quem muito quer, + Sempre a affeição he manhosa. + Seu marido está ausente + Na guerra, longe daqui; + Tu, qu'es Jupiter potente, + Tomarás sua fórma em ti; + Que o farás mui facilmente. + E eu me transformarei + Na de Sósea, criado seu; + E ao arraial me irei, + Onde logo saberei + Como se a batalha deu. + E assi poderás entrar, + Em lugar de seu marido; + E para que sejas crido, + Poderás tambem contar + Quanto eu lá tiver sabido. + +JUPITER. + + Quem arde em tamanho fogo + Tira-lhe a virtude a côr + De subtil e sabedor; + E quem fóra está do jôgo + Enxérga o lanço melhor. + Mas tu, que dos sabedores + Tanto avante sempre estás, + Se deos es dos mercadores, + Sê-lo-has dos amadores, + Pois tal remedio me dás. + Ponha-se logo em effeito; + Que não soffre dilação + Quem o fogo tẽe no peito; + E tu vae logo direito + Aonde anda Amphitrião. + + +SCENA VI. + +_Feliseo e Callisto._ + +FELISEO. + + Adó bueno por aqui, + Tão longe do acostumado? + +CALLISTO. + + Mais longe vou eu de mi, + D'ir perto de meu cuidado. + +FELISEO. + + No andar vos conheci. + +CALLISTO. + + E vós onde vos lançais, + Com vossa contemplação? + +FELISEO. + + Eu chego daqui ao cais + A saber de Amphitrião: + Não sei se vou por demais. + +CALLISTO. + + Porque por demais dizeis? + +FELISEO. + + Porque nada alli ha certo. + +CALLISTO. + + Novas lá não as busqueis, + Que aqui as tendes mais perto. + +FELISEO. + + Pois dae-mas ja, se as sabeis. + +CALLISTO. + + Hum navio he ja chegado + Á barra, que vem de lá; + Traz de Amphitrião recado, + Diz que o deixa embarcado + Para se vir para cá. + Tẽe vencido aquelle Rei; + E diz, segundo lhe ouvi, + Qu'esta noite será aqui. + +FELISEO. + + Essas novas levarei + A Alcmena, que torne em si, + Porque ella tẽe maior guerra + Co'os temores de perdello, + Qu'elle co'o Rei dessa terra. + +CALLISTO. + + Onde amor lançar o sello, + Nenhuma cousa o desterra. + Porqu'inda que o pensamento + Vos fique, Senhor, em calma, + Por morte ou apartamento; + Sempre vos lá ficão n'alma + As pégadas do tormento. + +FELISEO. + + Isso he hum segredo mero, + A que o amor nos obriga: + Por isso em caso tão fero, + Senhor, nunca ninguem diga, + Ja lho quiz, e não lho quero. + Eu quiz bem a huma mulher, + Que vós conhecestes bem, + E, com muito lhe querer, + Casou-se. + +CALLISTO. + + Oh! e com quem? + Que ainda o não posso crer. + +FELISEO. + + Com hum Mercador, que veio + Agora do Egypto, rico. + +CALLISTO. + + Isso traz ágoa no bico. + Esse homem he parvo, ou feio? + +FELISEO. + + Pois vêdes? disso me pico. + E em pago desta traição, + Afóra outros mil descontos + Que traz comsigo a affeição, + Sempre os signaes destes pontos + Trarei no meu coração. + +CALLISTO. + + Viste-la mais? + +FELISEO. + + Senhor, vi, + Na janellinha da grade; + Passei, e disse-lhe assi: + Casada sem piedade, + Porque não a haveis de mi? + +CALLISTO. + + Que vos disse? + +FELISEO. + + Lá no centro + Lh'enxerguei pouca alegria; + E como quem lhe dohia, + Metendo-se para dentro + Disse: Ja pasó folia. + +CALLISTO. + + Ah má sem conhecimento! + Quem lhe désse mil chofradas! + +FELISEO. + + Senhor, como são casadas, + Casão-se co'o esquecimento + Das cousas que são passadas. + +CALLISTO. + + Lembranças de vos deixar + Picar-vos-hão como tojos. + +FELISEO. + + Senhor, haveis d'assentar + Que onde amor vos quer matar, + Siempre allá miran los ojos. + Hum motete lhe mandei + Hum dia, estando com febre, + Só da paixão que tomei. + +CALLISTO. + + Pois vejamos quem tẽe lebre. + +FELISEO. + + Senhor, eu vo-lo direi. + +Mote. + + Vós por outrem, e eu por vós; + Vós contente, e eu penado; + Vós casada, eu cansado. + Polos santos de minha dona! + +CALLISTO. + + Senhor, vós só o fizestes? + +FELISEO. + + Si, que ninguem me ajudou. + +CALLISTO. + + Se vós só o compuzestes, + Crede, que extremos dissestes. + Nunca Orlando tal fallou. + Senhor, fizestes-lhe pé? + +FELISEO. + + Senhor, si; e todo hum anno... + Vós zombais, se não m'engano? + +CALLISTO. + + Não, mas dou-vos minha fé + Que nunca vi tão bom panno. + +FELISEO. + + Ora olhe vossa mercê. + +Volta. + + Olhae em quão fundos vaos + Por vossa causa me affógo, + Que outro me ganha no jôgo, + E eu triste pago os paos. + Olhos travessos e maos, + Inda eu veja o meu cuidado + Por esse vosso trocado. + +CALLISTO. + + Não mais, qu'isso me degola. + +FELISEO. + + Senhor, eu haja perdão. + +CALLISTO. + + Fizestes esse rifão + Em algum jôgo de bola? + E foi-lhe elle ter á mão? + +FELISEO. + + Digo-vos que o vio, e lho leo + Hum moçozinho d'escola. + +CALLISTO. + + Está isso assi do ceo. + Sabe ella jogar a bola? + +FELISEO. + + Não. + +CALLISTO. + + Pois não vos entendeo. + Ora eu ja cheguei a ler + Petrarca, e crede de mi + Que nunca tal cousa vi. + Onde mora o bom saber, + Logo dá sinal de si. + Onde _casada_ puzestes, + Dizei, porque não dissestes + _La que yo vi por mi mal._ + +FELISEO. + + Renunciava o metal; + Qu'em rifõeszinhos como estes, + Ha-se-de pôr tal com tal. + Que a trova trigo-tremez + Ha de ser toda d'hum pano; + Que parece muito Ingrez + N'hum pelote Portuguez + Todo hum quarto Castelhano. + Ouvi outra tambem minha, + Que fiz a certa tenção, + Clara, leve, bonitinha, + De feição, que esta trovinha, + He trovinha de feição. + Como eu hum dia me visse + Morto, e a mão na candêa, + E ella não me acodisse; + Fiz-lhe esta, porque sentisse + Que dava os fios á têa. + E o propósito he + Andar eu hum dia só; + E para que houvesse dó + De mi e de minha fé, + Lamentei-lhe como Jó. + +CALLISTO. + + Andastes, Senhor, mui bem. + +FELISEO. + + Ora, Senhor, attentai, + E vêde o saibo que tem; + Se he para a ver alguem. + +CALLISTO. + + Ora dizei. + +FELISEO. + + Ei-la vai. + +Trova. + + Coração de carne crua, + Vê-lo teu amor aqui, + Que esmorecido por ti + Jaz no meio desta rua? + +CALLISTO. + + Na rua, Senhor, jazia? + E era em tempo de lama? + +FELISEO. + + Senhor, quem falla a quem ama, + De si mesmo se não fia: + Haveis de mentir á dama. + +CALLISTO. + + Volta disso? + +FELISEO. + + Singular, + Senão que he muito sentida; + Far-vos-ha, Senhor, chorar. + +CALLISTO. + + Oh! diga, por sua vida! + +FELISEO. + + Farei o que me mandar. + +Volta. + + Porque não has delle mágoa, + Ó dura mais que ninguem, + Que anda o triste, que não tem + Quem lhe dê huma vez d'ágoa? + Não lhe negues teu querer, + Pois te não custa dinheiro; + Que, emfim, por derradeiro + A terra te ha de comer. + +CALLISTO. + + Tal trova nunca se vio. + Agorentaste-la ja? + +FELISEO. + + Senhor, não; ainda está + Como a sua mãe pario; + E não está muito má. + +CALLISTO. + + He trova, que tẽe por seis; + Não a posso mais gabar. + Mas, pois, tal cousa fazeis, + Senhor, não m'ensinareis + Donde vem tão bem trovar? + +FELISEO. + + Não he a cousa tão pequena, + Como, Senhor, a fizestes, + Essa que agora dissestes. + Mas porém vou dar a Alcmena + Estas novas que me déstes. + Despois, Senhor, nos veremos; + Ficae ja roendo esse osso. + +CALLISTO. + + O roer, Senhor, he vosso. + +FELISEO. + + Pois eu, por mais que zombemos, + Hei de ser vosso e revosso. + +CALLISTO. + + Oh!.. Escusae-vos d'extremos, + Qu'isso, Senhor, me atarraca. + Mas nós nos encontraremos, + E sôbre isso envidaremos + Dous reales mais de saca. + + + + +ACTO SEGUNDO. + + +SCENA I. + +_Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na fórma de Amphitrião, +Mercurio na de Sosea escravo._ + +JUPITER. + + Mercurio, pois sou mudado + Nesta fórma natural, + Ólha e nota com cuidado, + Se está em mi o pintado + Apparente co'o real. + +MERCURIO. + + Quem tão proprio se transforma. + Tenho por opinião, + Que na tal transformação + Lhe prestou natura a fôrma, + Com que fez Amphitrião. + +JUPITER. + + Pois tu no gesto e na côr + Estás Sósea escravo seu. + +MERCURIO. + + Muito mais faras, Senhor. + +JUPITER. + + Não o faz senão o Amor, + Que nisto póde mais qu'eu. + +MERCURIO. + + Ja, Senhor, te fiz menção + Como deo Amphitrião + A ElRei Terela a morte; + Que, na guerra igual, a sorte + Póde mais que o coração. + E despois de ser tomada + Toda a Cidade, com gloria + D'Amphitrião bem ganhada, + Como em sinal de victoria, + Esta copa lhe foi dada. + Por ella bebia ElRei, + Em quanto a vida queria; + E eu, porque te cumpria, + A seu escravo a furtei, + Que n'huma caixa a trazia. + Esta poderás levar + A Alcmena, por lhe mostrar + Verdadeiro, o que he fingido; + E dest'arte serás crido, + Sem mais outro ardil buscar. + +JUPITER. + + Pois tudo tens ordenado + Por tão nova e subtil arte; + Como me vires entrado, + Irás dar este recado + A Phebo de minha parte: + Que faça mais devagar + Seu curso neste Hemispherio. + Que o que soe acostumar; + Qu'esta noite hei de ordenar + Hum caso de alto mysterio. + E á Esphera mais alta + Mandarás que fixa esteja, + Porque a noite maior seja: + Porque sempre o tempo falta, + Onde a alegria he sobeja. + E terás tamanho tento, + Que como isto se ordenar, + Venhas aqui vigiar, + Porque meu contentamento + Ninguem mo possa estorvar. + +MERCURIO. + + Seja feito sem debate + Tudo como te convem. + +JUPITER. + + Pois não parece ninguem, + Como homem de casa bate, + E muda a falla tambem. + +MERCURIO, _batendo à porta_. + + Ó de la casa, en buena hora, + Darmehan de cenar aqui? + +BROMIA _dentro_. + + Sósea parece que ouvi: + Alviçaras, minha Senhora, + Que na falla o conheci. + + +SCENA II. + +_Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio._ + +ALCMENA. + + Zombais, Bromia, por ventura? + +BROMIA. + + Senhora, não zombo, não. + +ALCMENA. + + Vejo eu Amphitrião, + Ou a vista me afigura + O qu'está no coração? + +JUPITER. + + Olhos, diante dos quais + Desejei mais este dia, + Que nenhuma outra alegria, + Senhora, nunca creais + Que lhe minta a phantasia. + +ALCMENA. + + Oh presença mais querida + Que quantas formou Amor! + Isto he verdade, Senhor? + Acabe-se aqui a vida, + Por não ver prazer maior. + +JUPITER. + + Pois esta hora de vos ver + Alcançar, Senhora, pude; + Para mais contente ser, + Conformem co'este prazer + Novas de vossa saude. + +ALCMENA. + + Vida foi pezada e crua + A saude qu'eu sostinha; + Qu'em quanto, Senhor, a tinha, + Temer perigo na sua, + Me fez descuidar da minha. + +MERCURIO. + + Y pues, mi Señora Alcmena, + Pese al demonio malvado, + No dirá á un su criado, + Vengais Sósea norabuena? + +ALCMENA. + + Sejais, Sósea, bem chegado. + +BROMIA. + + Bem mal cri eu, que pudesse + Ver-te, Sósea, hoje aqui. + +MERCURIO. + + Pues tambien yo no creí + Que en mi vida te viese, + Segun las muertes que vi. + +ALCMENA. + + Muito, Senhor, folgarei + Com novas do vencimento. + +JUPITER. + + De tudo quanto passei, + Por vos dar contentamento, + Em summa vos contarei. + Trago, Senhora, a victoria + Daquelle Rei tão temido, + Com fama clara e notoria. + Porém maior foi a gloria + De me ver de vós vencido. + Sem me terem resistencia, + Os Grandes me obedêcerão, + Como ElRei morto tiverão: + Em sinal de obediencia + Esta copa me trouxerão. + ElRei por ella bebia: + (Ella, e tudo o mais he nosso) + Por onde claro se via, + Que tudo me obedecia, + Pois tinha nome de vosso. + +MERCURIO. + + Si, mas luego de rondon + La fortuna dió la vuelta. + +ALCMENA. + + Como? + +MERCURIO. + + Fué gran perdicion, + Porque en aquella revuelta, + Me hurtaron mi jubon. + Pero bien me lo pagaron, + Cuando comigo riñeron; + Que aunque me despojaron + Si uno de seda llevaron, + Otro de azotes me dieron. + +ALCMENA. + + Senhor, não posso gostar + De gôsto, que he tão immenso, + Senão muito devagar: + Faça-me mercê d'entrar, + E contar-mo-ha por extenso. + + +SCENA III. + +_Mercurio e Bromia._ + +MERCURIO. + + Yo tambien te contaria, + Bromia, si quedas atrás, + Que una noche... enojartehas? + +BROMIA. + + Que? + +MERCURIO. + + Soñaba, que te tenia... + No me atrevo á decir mas. + +BROMIA. + + Dize. + +MERCURIO. + + Pardies, no diré. + Soñaba... + +BROMIA. + + Bem: que sonhavas? + +MERCURIO. + + Que cuando en la cama estavas + Que yo... enfin recordé. + +BROMIA. + + Pois tudo isso receavas? + +MERCURIO. + + Sabe Dios qué yo acá siento: + Sola una alma vive en dos, + La cual anda dentro en vos. + +BROMIA. + + E que quer ella cá dentro? + +MERCURIO. + + Tambien eso sabe Dios. + + +SCENA IV. + +MERCURIO. + + Bem se poderá enganar + Bromia, segundo ora estou, + Como Alcinena s'enganou; + Mas cumpre-me ir ordenar + O que meu Pae me mandou. + E porque seja guardada + Esta porta e vigiada + De toda a gente nascida, + Me será cousa forçada, + Ser tão depressa a tornada, + Quão prestes faço a partida. + + +SCENA V. + +SOSEA, _cantando_. + + Amphitrion esforzado + Bravo vá por la batalla, + Siete cabezas llevaba, + De las mejores que ha hallado. + +_Falla._ + + Quien viene de tierra agena, + Y de la muerte escapó, + La razon le permitió + Que cante como sirena, + Como agora hago yo. + Y pues canto tan gentil, + Fuera llanto si muriera. + Quiero cantar como quiera, + Una y otra, y mas de mil, + Que digan desta manera: + +_Canta._ + + Dongolondron, con dongolondrera, + Por el camino de Otera, + Rosas coge en la rosera, + Dongolondron, con dongolondrera. + +_Falla._ + + Cuando yo vengo á pensar + Que uno matarme quisiera, + No hago sino temblar, + Porque creo si muriera, + No pudiera mas cantar. + Porque estando á un rincon + De la casa adó quedé, + Senti muy grande ronron, + Y mirando, que miré? + Vi que era un gran raton. + Empero yo nunca sigo, + Sino consejos muy sanos; + Que en estes casos levianos, + Quien desprecia el enemigo, + Mil veces muere á sus manos. + Pero mi Señor alli + Mató al Rey de los Glipazos: + Yo como muerto le vi, + Juro á mi fé, que le dí + Mas de dos mil cuchillazos. + Y por me librar de afan, + Me voy siempre á cosa hecha + Probar mi mano derecha; + Que aquel es buen capitan, + Que del tiempo se aprovecha. + Que quien ha de pelear, + Ha de buscar tiempo y hora. + Pero quiero caminar, + Que me muero por contar + Todo aquesto á mi Señora. + + +SCENA VI. + +_Mercurio e Sósea._ + +MERCURIO. + + Mil vezes comigo vejo, + Para que meu Pae se affoute; + Pois em tão pequeno ensejo + Lhe mandei talhar a noute + Á medida do desejo. + E pois que como possante, + A mi tudo se reporta, + Chego agora neste instante + A estorvar qu'este bargante + Me não chegue a esta porta. + +SOSEA. + + No sé que miedo, ó locura, + Neste pecho se me cria: + Por Dios que se me afigura, + Que ha mucho que es noche escura, + Sin que venga el claro dia. + Mas sabed, que pienso yo + Que el sol que no se acordó + De con el dia venir, + Que á noche cuando cenó + Algun buen vino bebió, + Que le hace tanto dormir. + +MERCURIO. + + Ja sentes comprida a noute, + Qu'eu assi mandei fazer? + Pois mais te quero dizer, + Que sentirás muito açoute, + Se cá quizeres vir ter. + Porém, pois este bargante + Tẽe medroso coração, + Quero-me fingir ladrão, + Ou phantasma, e por diante + Não irá, se vem á mão. + E com tudo se passar, + A falla quero mudar + Na sua de tal feição, + Que couces, e porfiar, + Lhe fação hoje assentar + Que sou Sósea, e elle não. + +_Falla Castelhano._ + + No veo pasar ninguno, + En quien yo me pueda hartar. + +SOSEA. + + Á quien oigo aqui hablar? + Mande Dios no sea alguno + Que me quiera aporrear. + +MERCURIO. + + La carne de algun humano + Me seria muy sabrosa. + +SOSEA. + + Oh quê voz tan temerosa! + Hombres comes, ó mi hermano? + No es mejor otra cosa? + Carne humana es muy mezquina. + Oh no comas deso, no! + Antes carne de gallina. + Pero se mas se avecina, + Qué mas gallina, que yo? + +MERCURIO. + + Una voz de hombre ahora + Á la oreja me voló. + +SOSEA. + + Pésete quien me parió: + La voz traigo boladora? + Ella quisiera ser yo. + Pues mi voz pudo volar + Do la pudieses oir; + Por contigo no reñir, + Me debiera de prestar + Las alas para huir. + +MERCURIO. + + Qué buscas cabe esa puerta, + Hombre? Sé que eres ladron. + +SOSEA. + + Ay que el alma tengo muerta! + Oh Júpiter me convierta + Las tripas en corazon! + +MERCURIO. + + Quien eres? quieres hablar? + +SOSEA. + + Soy quien mi voluntad quiere. + +MERCURIO. + + Piensas que puedas burlar? + +SOSEA. + + Y tú puédesme quitar + Que yo sea quien quisiere? + +MERCURIO. + + Osas hablar tan osado, + Don vellaco bovarron? + Dí, quien eres? + +SOSEA. + + Un criado + Del Señor Amphitrion, + Por nombre Sósea llamado. + +MERCURIO. + + Pienso que el seso perdiste. + Como te llamas, mal hombre? + +SOSEA. + + Sósea soy, si no me oiste. + +MERCURIO. + + Como? en persona tan triste + Osas d'ensuciar mi nombre? + Estos puños llevarás, + Pues tener mi nombre quieres. + Quiéresme dicir quien eres? + +SOSEA. + + O Señor, no me dés mas, + Que yo seré quien tú quisieres. + +MERCURIO. + + Con tan nueva falsedad + Andais por esta Ciudad, + Delante de quien os mira? + Pues si sois Sosea, tomad. + +SOSEA. + + Si me dás por la verdad, + Que me harás por la mentira? + +MERCURIO. + + Y qué verdad es la tuya? + Que te quiero dar castigo. + +SOSEA. + + Si no soy Sósea que digo, + Que Júpiter me destruya. + +MERCURIO. + + Mirad el falso enemigo: + Tomad este bofeton, + Que yo soy Sósea, y no vos. + +SOSEA. + + Tu Sósea? + +MERCURIO. + + Sósea por Dios, + Escravo de Amphitrion. + +SOSEA. + + De modo que tiene dos? + +MERCURIO. + + No tendrá, aunque tú quieres; + Que á mi solo conoció. + +SOSEA. + + Pues luego de quien soy yo? + +MERCURIO. + + Si tú no sabes quien eres, + Quieres que yo lo sepa? No. + +SOSEA. + + Enfin, has me de hacer crer + Que yo no soy quien ser solia? + +MERCURIO. + + Quien solias tú de ser? + +SOSEA. + + Tregoas me has de prometer, + Dirtelohé sin profia. + +MERCURIO. + + Prometo. + +SOSEA. + + No me darás? + +MERCURIO. + + No, si no fuere razon. + +SOSEA. + + Pues, hermano, tú sabrás + Que mi amo Amphitrion... + +MERCURIO. + + Tu amo? Pues llevarás. + Mi amo es, que tuyo no. + +SOSEA. + + Ay que un brazo me quebró! + +MERCURIO. + + Mas que luego te matase. + +SOSEA. + + Ojalá Dios ordenase + Que tú ahora fueses yo, + Y yo que te desmembrase! + +MERCURIO. + + Esa tu tema tan loca, + Puños te la han de quitar. + Dime, di, vergũenza poca, + Qué hablas? + +SOSEA. + + Qué puedo hablar, + Si me has quebrado la boca? + +MERCURIO. + + Di quien eres, sin fatiga. + +SOSEA. + + Soy un hombre, en quien tú dás. + +MERCURIO. + + Díme pues, qué nombre has. + +SOSEA. + + Como quieres tú que diga, + Para que no me dés más? + +MERCURIO. + + No me has de hablar contrahecho. + +SOSEA. + + Toda mi vida pasada + Sósea fuy, y con despecho + Ahora soy... qué? No nada; + Que tus manos me han deshecho. + +MERCURIO. + + Cuyo eres, pues las sientes, + Dejando consejos vanos? + La verdad; que si me mientes, + Dás con la lengua en los dientes, + Y yo dóyte con las manos. + +SOSEA. + + No conoces Amphitrion? + +MERCURIO. + + Hombre sin seso te llamo. + Tan fuera estás de razon! + Piensas de mí, bovarron, + Que no conozco á mi amo? + +SOSEA. + + En su casa conociste + Uno, que es Sósea llamado, + Hombre despreciado y triste? + +MERCURIO. + + Desa suerte lo dijiste? + Yo soy triste y despreciado? + Pues sabe que te llegó + Á la muerte tu fortuna. + +SOSEA. + + Pues logo si yo no soy yo, + Aunque nadie me mató; + Soy luego cosa ninguna. + Oh dioses, que desconcierto! + Yo por ventura soy muerto, + Ó murióme la razon? + Yo no soy de Amphitrion? + Él no me mandou del puerto? + Yo sé que no estoy loco. + De mi madre no naci? + No ando? No hablo aqui? + +MERCURIO. + + Pues sosiega ahora un poco, + Que yo tambien diré de mí. + Yo no sé que yo soy yo? + Yo no te dí con mis manos? + Mi Señor no me llevó + Á la guerra, adó mató + Aquel Rey de los Thebanos? + +SOSEA. + + Yo eso muy bien lo sé. + Empero tú qué hacias + Cuando la batalla vias? + +MERCURIO. + + Escucha: yo lo diré, + Y cesaran tus porfías. + Cuando mi Señor andaba + Peleando, y derramaba + La sangre de algun mezquino; + Con una bota de vino + Yo la mia acrescentaba. + +SOSEA. + + (Dice lo que yo hacia) + Con todo, saber queria + Sola una cosa, si puedo: + Tu pecho entonces sentia? + +MERCURIO. + + Del beber grande alegria, + Y del pelear gran miedo. + +SOSEA. + + Y despues? + +MERCURIO. + + Muy reposado + Á dormir me eché de grado, + Desde el sol hasta la luna. + +SOSEA. + + (Todo lo tiene contado. + Enfin, tengo averiguado + Que yo no soy cosa ninguna) + Pues de todo en un instante + Me has echado de mí fuera, + Aconséjame si quiera, + Quien seré daqui adelante, + Pues no soy quien de antes era. + +MERCURIO. + + Cuando yo no ser quisiere + Ese, que tú ser deseas, + Despues que ya Sósea no fuere, + Dartehé, si te pluguiere, + Licencia que todo seas. + Y acógete luego, amigo, + Á buscar tu nombre, digo, + Pues Dios vida te dejó; + Que el Sósea queda comigo. + +SOSEA. + + Pues contigo quedo yo, + Dios quede, hermano, contigo. + Ahora quiero ir allá + Adó mi Señora está, + Contarle como es venido + Mi Señor. Mas, oh perdido! + Si un otro yo tiene allá, + Todo lo terná sabido. + +MERCURIO. + + Ah hombre..... + +SOSEA. + + Mi voz sonó. + +MERCURIO. + + Aonde vuelves ahora? + +SOSEA. + + Por Dios no sé onde vó, + Porque si yo no soy yo, + Ni Alcmena es mi Señora. + +MERCURIO. + + Adonde vas? + +SOSEA. + + Con mensaje + Del Señor Amphitrion + Para Alcmena. + +MERCURIO. + + Adó, salvaje? + Pues quebraste la omenaje, + Ahí verás tu perdicion. + Yo doyte consejos sanos, + Y porfias otra vez? + +SOSEA. + + Altos dioses soberanos! + Pues me no valen las manos, + Aqui me valgan los pies. _Foge._ + +MERCURIO. + + Desta arte enseñan aqui + Á hurtar el nombre ageno? + + +SCENA VII. + +SOSEA. + + Ay Dios, como me acogí! + Ó Júpiter alto y bueno, + Cuan cerca la muerte vi! + Quiérome ir á mi Señor + Contarle cuanto hé pasado; + Y él me dirá de grado, + Si yo soy su servidor, + En que cosa me hé tornado. + + + + +ACTO TERCEIRO. + + +SCENA I. + +_Jupiter e Alcmena._ + +JUPITER. + + Toda a pessoa discreta + Terá, Senhora, assentado, + Que hum bem muito desejado + Se ha de alcançar por dieta, + Para ser sempre estimado. + E quem alcançado tem + Tamanho contentamento; + Por conservá-lo convem + Que tome por mantimento + A fome de tanto bem. + E por isso hei de tomar + Este tempo tão ditoso + Para a frota visitar; + E despois quando tornar, + Tornarei mais desejoso. + Que pois tão bom captiveiro + Me tẽe presa a liberdade, + Eu lhe prometto em verdade + Que torne ainda primeiro, + Que mo peça a saudade. + +ALCMENA. + + Aindaque se possa ir + Mais asinha do que creio, + Como hei d'eu consentir + Que se haja de partir + Na mesma noite que veio? + +JUPITER. + + Forçada he minha tornada, + Mas muito cedo virei; + Porque desque foi chegada + A este porto a Armada, + Ainda a não visitei. + +ALCMENA. + + Pois, Senhor, tão pouco estais + Com quem vistes inda agora? + Faça-se como mandais. + +JUPITER. + + Vós me vereis cá, Senhora, + Primeiro do que cuidais. + + +SCENA II. + +_Amphitrião e Sosea._ + +AMPHITRIÃO. + + Emfim tu, que estás aqui, + Estavas ja lá primeiro? + +SOSEA. + + Señor, crea que es ansí. + +AMPHITRIÃO. + + Eu nunca entendi de ti, + Qu'eras tambem chocarreiro. + +SOSEA. + + Señor, yo que estoy presente, + No soy Sósea su criado? + +AMPHITRIÃO. + + Creio que não certamente, + Porque Sósea era avisado, + E tu es mui differente. + +SOSEA. + + Pues, Señor, si en mí se vé + Que no soy quien de antes era, + Vuélvome. + +AMPHITRIÃO. + + E para que? + +SOSEA. + + Ver se á dicha me quedé + Durmiendo por la galera. + +AMPHITRIÃO. + + Pois me queres fazer crer + Huma doudice tão rasa, + Mais quero de ti saber: + Como não entraste em casa + D'Alcmena minha mulher? + +SOSEA. + + Aunque Sósea quisiese, + La verdad no negará: + Aquel yo que allá está, + No quiso que á casa fuese + Estotro yo, que iba allá. + Y con furia tan crecida + Á mí se vino aquel hombre, + Que yo me puse en huida, + Y ansí le dejé mi nombre, + Por me dejar él la vida. + +AMPHITRIÃO. + + Quem seria tão ousado, + Que tanto mal te fizesse? + +SOSEA. + + Yo mismo Sósea llamado, + Que á casa era ya llegado, + Antes que de acá partise. + +AMPHITRIÃO. + + Tu chegaste antes de ti? + Este he gentil disparate. + +SOSEA. + + Pues mas le digo daqui, + Que vengo huyendo de mí, + Porque yo mismo no me mate. + +AMPHITRIÃO. + + Erão dous, ou era hum só, + Quem te fez assi fugir? + +SOSEA. + + Pésete quien me parió: + Digo, que era un solo yo: + Mil veces lo hé de decir? + Puede ser que naceria + De aquel hombre otro alguno, + Como aquel de mí nacia; + Porque aunque fuese él uno, + Por mas de cuatro tenia. + Él tenia mi aparencia, + Empero yo nunca vi + Tal fuerza, ni tal potencia: + Esta sola diferencia + Le tengo hallado de mí. + +AMPHITRIÃO. + + Pudeste delle saber + Cujo era? + +SOSEA. + + Quien? aquel yo? + Tuyo, Señor, dijo ser. + +AMPHITRIÃO. + + Nunca eu tive mais que hum só, + E esse não quizera ter. + +SOSEA. + + Pues, Señor, si el bien doblado + Te le muestra agora Dios, + Debe ser de ti alabado; + Pues de uno solo criado + Te ha hecho agora dos. + +AMPHITRIÃO. + + Antes para que conheças, + Que cousa he mao servidor, + Me pezará se assi for; + Que de tão ruins cabeças, + Quantas mais, tanto peor. + E ja que são tão incertos + Teus ditos para se crer; + Muito melhor deve ser + Que deixe teus desconcertos, + E va ver minha mulher. + + +SCENA III. + +ALCMENA. + + Que fado, que nascimento + De gente humana nascida, + Que d'escasso e avarento, + Nunca consentio na vida + Perfeito contentamento! + Amphitrião, que mostrou + Hum prazer tão desejado + A quem tanto o desejou; + Na noite, que foi chegado, + Nessa mesma se tornou! + De se tornar tão asinha + Sinto tanto entristecer + O sentido e alma minha, + Que certo que me adivinha + Algum novo desprazer. + Mas parece este que vem, + Se não estou enganada: + Se elle he, venha com bem, + Pois que com sua tornada + Tão transtornada me tem. + + +SCENA IV. + +_Amphitrião, Alcmena e Sosea._ + +AMPHITRIÃO. + + Com que palavras, Senhora, + Poderei engrandecer + Tão sublimado prazer, + Como he ver chegada a hora, + Em que vos pudesse ver? + Certo grão contentamento + Tive de meu vencimento; + Mas maior o hei de mim, + De me ver pôsto no fim + De tão longo apartamento. + +ALCMENA. + + Ja eu disse o que sentia + De vinda tão desejada. + Mas diga-me todavia: + Como não foi ver a Armada, + Que me disse hoje este dia? + +AMPHITRIÃO. + + Della venho eu inda agora + Desejoso de vos ver, + Muito mais que de vencer. + Mas que me dizeis, Senhora, + Que hoje me ouvistes dizer? + +ALCMENA. + + Se não estava remota, + Certamente que lhe ouvi, + Quando hoje partio daqui, + Que tornava a ver a frota. + Porque era forçado assi. + +AMPHITRIÃO. + + Sósea. + +SOSEA. + + Señor, aqui estoy yo. + +AMPHITRIÃO. + + Tu ouves tal desconcêrto? + +SOSEA. + + Grandes orejas ganó, + Pues estando en casa oyó + Quien estava allá nel puerto! + +AMPHITRIÃO. + + Quando dizeis, que m'ouvistes? + +ALCMENA. + + Hoje, quando vos partistes. + +AMPHITRIÃO. + + Donde? + +ALCMENA. + + Daqui, de me ver. + +AMPHITRIÃO. + + Nunca vi grande prazer, + Que não tenha os cabos tristes. + Quantos males d'improviso + Que causão grandes mudanças! + Que mulher de tanto aviso, + Agora minhas lembranças + A tẽe fóra de juizo! + +ALCMENA. + + Quereis-me fazer cuidar + Que poderia sonhar + O que pelos olhos vi? + Nunca vos eu mereci + Quererdes-me exprimentar. + +AMPHITRIÃO. + + Postoque he para pasmar + Ver hum caso tão estranho, + Todavia hei de attentar, + Se poderei concertar + Hum desconcêrto tamanho. + Quando dizeis que vim cá? + +ALCMENA. + + Esta noite que passou. + +AMPHITRIÃO. + + Dae-me alguem que aqui se achou, + Que me visse. + +ALCMENA. + + Esse que hi está, + Sósea que comvosco andou. + +AMPHITRIÃO. + + Sósea, podes-te lembrar, + Que hontem me vistes aqui? + +SOSEA. + + Nunca yo supe de mí + Que me pudiese acordar + De aquello que nunca vi. + +ALCMENA. + + Ora eu creo, e he assi, + Que ambos vindes conjurados, + Para zombardes de mi; + Mas eu darei hoje aqui + Sinaes que sejão provados. + +AMPHITRIÃO. + + Que sinaes póde ahi haver + De mentira tão notoria, + Que nem foi, nem póde ser? + +ALCMENA. + + Donde vim eu a saber + Novas de vossa victoria? + +AMPHITRIÃO. + + Que novas? + +ALCMENA. + + Dir-vo-las-hei, + Assi como mas contastes: + Que na batalha matastes + Aquelle soberbo Rei, + E tudo desbaratastes: + Não fazendo resistencia + N'huma batalha tão crua, + Dando-vos obediencia, + Vos derão huma copa sua, + Lavrada por excellencia. + +AMPHITRIÃO. + + Sósea he culpado só + Nestes acontecimentos. + +SOSEA. + + Señor, son encantamientos, + Porque aquel hombre, que es yo, + Le contaria estos cuentos. + +AMPHITRIÃO. + + Quem he esse, que vos deu + Taes novas, saber queria? + +ALCMENA. + + Quem mo pergunta. + +AMPHITRIÃO. + + Quem? Eu! + Quereis-me fazer sandeu? + +ALCMENA. + + Mas vós me fazeis sandia. + +AMPHITRIÃO. + + Ora quero perguntar: + Que fiz sendo aqui chegado? + +ALCMENA. + + Puzemos-nos a cear. + +AMPHITRIÃO. + + E despois de ter ceado? + +ALCMENA. + + Fomos-nos ambos deitar. + +AMPHITRIÃO. + + Nunca queira Deos que possa + Achar-se na minha honra + Nenhuma falta nem mossa: + Seja isto doudice vossa, + Antes que minha deshonra. + +SOSEA. + + Bien lo supe yo entender, + Que era esto encantaciones; + Y ahora me habrá de crer + Que dos Sóseas puede haber, + Pues hay dos Amphitriones. + +ALCMENA. + + Com me quererdes tentar + Tão torvada me fizestes, + Que me não pôde lembrar + Que vos mandasse mostrar + A copa que me hontem déstes. + +AMPHITRIÃO. + + Eu? copa? Se isso ahi ha, + Que estou doudo cuidarei. + +SOSEA. + + Señor, bien guardada está. + +ALCMENA. + + Bromia? + +BROMIA, _de dentro_. + + Senhora. + +ALCMENA. + + Dae cá + A copa que hontem vos dei. + +SOSEA. + + Pues yo parí otro yo, + Y vós otro Amphitrion, + No es mucha admiracion, + Si la copa otra parió, + Ni aun fuera de razon. + + +SCENA V. + +_Amphitrião, Alcmena, Sosea e Bromia._ + +BROMIA. + + Eis-aqui a copa vem, + Testimunho da verdade. + +AMPHITRIÃO. + + Oh estranha novidade! + +ALCMENA. + + Poder-me-ha dizer alguem + Que o que digo he falsidade? + +AMPHITRIÃO. + + Sósea, quando hontem cá vinhas, + Poder-me-has negar, ladrão, + Que lhe déste as novas minhas, + E mais a copa que tinhas + Guardada na tua mão? + +SOSEA. + + Señor, que no pude, no, + Ver á mi Señora Alcmena: + Si aquel eso acá ordenó, + No lleve este yo la pena + Del mal que hizo el otro yo. + +AMPHITRIÃO. + + Ora eu não sei entender + Tal caso, nem lhe acho fundo: + Com tudo venho a dizer, + Que ha tantos males no mundo, + Que tudo se póde crer. + Se vos trouxer quem vos diga + Como esta noite dormi + Na nao, crereis que he assi? + +ALCMENA. + + Nenhuma cousa me obriga + A que não creia o que vi. + +AMPHITRIÃO. + + Se o Patrão aqui vier, + Que he homem d'autoridade, + Crereis o que vos disser? + +ALCMENA. + + Sim, que ninguem póde haver + Que me negue esta verdade. + +AMPHITRIÃO. + + Eu estou em concrusão + D'hoje desembaraçar + Tão enleada questão: + Á nao me quero tornar + A trazer cá Belferrão. + Sósea, até minha tornada + Fica nesta casa em vela; + Qu'eu armarei tal cilada + A quem ma a mim tẽe armada, + Que venha hoje a cahir nella. + + +SCENA VI. + +_Alcmena e Bromia._ + +ALCMENA. + + Oh mulher triste e suspensa + Da mais alta confusão + Que nunca vio coração! + Em que mereces a offensa, + Que te faz Amphitrião? + Sempre de mi foi amado, + Tanto quanto em mi se sente, + Co'o coração tão liado, + Que se de mi era ausente, + Nelle o via figurado. + E pois mulher, que cumprisse + Melhor qu'eu fidelidade, + Não a vi, nem quem me visse + Que dos limites sahisse + Hum pouco da honestidade. + Pois porque he tão maltratada + Innocencia tão singella? + Que a pena mais apertada, + He a culpa levantada + Ao coração livre della. + Mas ja que minh'alma está + Sem culpa do que padeço, + Seja o que for; qu'eu conheço + Que a verdade me porá + No qu'eu pola ter mereço. + Bromia? + +BROMIA. + + Senhora. + +ALCMENA. + + Hi mandar + A Feliseo, que vá + Meu primo Aurelio chamar; + Que lhe quero perguntar + Que conselho me dará. + E pois que Amphitrião + Vai buscar somente quem + Lhe ajude a sua tenção, + Quero eu ter aqui tambem + Quem me defenda a razão. + + + + +ACTO QUARTO. + + +SCENA I. + +_Jupiter, Alcmena e Sosea._ + +JUPITER. + + Grão desconcêrto tẽe feito + Amphitrião com Alcmena! + Qualquer delles tẽe direito: + Eu sou o que venço o preito, + E ambos págão a pena. + Quero-me ir lá desfazer + Tão trabalhosa demanda, + Por nos tornarmos a ver; + Porque, emfim, quem muito quer + Com qualquer desculpa abranda. + E pois ja que a affeição + Ha de mudar tão asinha, + Quero ir alcançar perdão + Da culpa, que sendo minha, + Parece d'Amphitrião. + +ALCMENA. + + Parece que torna cá + Amphitrião, que ja se hia: + Não sei a que tornará. + Senão se lhe peza ja + Dos enganos que tecia. + +JUPITER. + + Senhora, não haja error + Que tantos males me faça, + Porque se o contrário for, + Pequeno será o amor, + Que manencória desfaça. + E pois com tanta alegria + De tantos perigos vim, + Pezar-me-ha se achar no fim, + Que huma leve zombaria + Vos possa aggravar de mim. + +ALCMENA. + + Com palavras de deshonra + Não se ha de tratar quem ama; + Nem zombaria se chama, + Por exprimentar a honra, + Pôr em tal perigo a fama. + Bem tive eu para mim, + Que era aquillo experiencia. + +JUPITER. + + Errei no que commetti: + Bem me basta a penitencia + De quanto me arrependi. + E se fiz algum error, + Com que vosso amor se mude + De quem vo-lo tẽe maior; + Não exprimentei virtude, + Mas exprimentei amor. + Que se com caso tão vário + Folguei de vos agastar, + Foi amor accrescentar; + Porque ás vezes hum contrário + Faz seu contrário avisar. + Daqui vem, que a leve mágoa + Firmeza e affeições augmenta, + Como bem se vê na frágoa, + Onde o fogo se accrescenta, + Borrifando-o com pouca ágoa. + Se hum mal grande se alevanta + N'hum coração que maltrata, + A affeição se desbarata; + Porque onde a ágoa he tanta + O fogo d'amor se mata. + E pois tive tal tenção, + Perdoae, Senhora, a culpa + Deste vosso coração. + +ALCMENA. + + Não se alcança assi perdão + D'erro que não tẽe desculpa. + +JUPITER. + + Ora pois assi tratais + Quem em tanto risco pôs + O amor que vós negais, + Eu m'ausentarei de vós + Onde mais me não vejais. + Que, pois desculpa não tem + Coração que tanto quer, + Vou-me; que não será bem + Que quem vós não podeis ver, + Que possa mais ver ninguem. + Se algum'hora meu cuidado + Vos der dor, em que pequena; + Peço-vos, pois fui culpado, + Que vos não peze da pena + De quem vos foi tão pezado. + E despois que a desventura + Puzer este coração + Debaixo da sepultura, + As letras na pedra dura + Vossa dureza dirão. + Isto vos hei de dizer, + Que m'ensinou minha dor: + Se quizerdes leda ser, + Nunca exprimenteis amor + Em quem vo-lo não tiver. + Deixae-me ir; não me tenhais. + +ALCMENA. + + Amphitrião, não choreis! + Amphitrião! + +JUPITER. + + Que quereis, + Ou para que nomeais + Homem, que ver não podeis? + +ALCMENA. + + Amphitrião, s'eu causei + Com manencória pequena + Cousa, com que o magoei; + Eu quero cahir na pena + Dessa culpa que lhe dei. + +JUPITER. + + Sempre serei magoado + Se vossa má condição + Me não perdôa o passado. + +ALCMENA. + + Perdôo, e peço perdão + De lhe não ter perdoado. + +SOSEA. + + No le perdone, Señora, + Hasta que con devocion + Tambien me pida perdon; + Que bien se me acuerda ahora + Que me ha llamado ladron. + +JUPITER. + + Sósea? + +SOSEA. + + Señor. + +JUPITER. + + Vae buscar + O Piloto Belferrão; + Dir-lhe-has, se desembarcar, + Que me parece razão + Que venha hoje cá cear. + +SOSEA. + + Si, Señor, voy á la hora. + +JUPITER. + + De nenhuma qualidade + Cure de fazer demora. + E nós vamos-nos, Senhora, + Confirmar nossa amizade. + + +SCENA II. + +MERCURIO. + + Grandes revoltas vão lá. + Grandes acontecimentos! + Cumpre-me que esteja cá, + Em quanto meu pae está + Em seus desenfadamentos. + Porque vi Amphitrião + Vir da nao mui apressado; + E tendo corrido e andado, + Não pôde achar Belferrão, + Que lhe era bem escusado. + Parece-me que virá + Ver se lhe abre aqui alguem; + Mas, porém, se chega cá, + Ja póde ser que se vá + Mais confuso do que vem. + + +SCENA III. + +_Mercurio e Amphitrião._ + +AMPHITRIÃO. + + Quiz-nos nossa natureza + Com tal condição fazer, + Que ja temos por certeza + Não haver grande prazer, + Sem mistura de tristeza. + Este decreto espantoso, + Que instituio nossa sorte, + He tal e tão rigoroso, + Que ninguem antes da morte + Se póde chamar ditoso. + Com esta justa balança + O Fado grande e profundo + Nos refreia a esperança, + Porque ninguem neste mundo + Busque bem-aventurança. + Eu, que cuidei de viver + Sempre contente de mi + Com tamanho Rei vencer, + Venho achar minha mulher + De todo fóra de si. + Mas d'outra parte, que digo? + Que s'he verdade o que vi, + E o que ella diz he assi; + Virei a cuidar comigo + Qu'eu sou o fóra de mi. + Quero ver se a acho ja + Fóra de tão seccos nós. + Ó de casa? + +MERCURIO. + + O de allá? + Quien sois? + +AMPHITRIÃO. + + Abre. + +MERCURIO. + + Santo Dios! + Pues no os conocen acá. + +AMPHITRIÃO. + + Oh que gentil desvario! + Abri-me ora se quizerdes. + +MERCURIO. + + No haré, que en mí confio + Que de fuera dormiredes, + Que no comigo, amor mio. + (Que cancion para oir!) + +AMPHITRIÃO. + + Ah Sósea! zombas de mi? + (Ora quero-me fingir + Que ainda o não conheci, + Por ver se me quer abrir) + Ah Senhor, não abrireis? + +MERCURIO. + + Qué quereis, hombre, por Dios? + +AMPHITRIÃO. + + Duas palavras de vós. + +MERCURIO. + + Tengo dicho mas de seis, + E ahora me pedis dos? + De fuera podeis dormir, + Que entrar no podeis acá. + +AMPHITRIÃO. + + Ora acabae, abri lá. + +MERCURIO. + + Digo que no quiero abrir: + Dije dos palabras ya. + +AMPHITRIÃO. + + Ora sus, bargante, abri. + +MERCURIO. + + Si no te vuelves de aqui, + Á gran peligro te ofreces. + +AMPHITRIÃO. + + Velhaco, não me conheces. + Ou estás fóra de ti? + +MERCURIO. + + Bonito venis, amor. + Quien sois, que hablais tan osado? + +AMPHITRIÃO. + + Abre, que sou teu Senhor. + +MERCURIO. + + Vuélvase de esotro lado, + Y conocerlehé mejor. + +AMPHITRIÃO. + + Sósea moço. + +MERCURIO. + + Así me llamo, + Huélgome que lo sepais; + Empero digo que os vais, + Que Amphitrion es mi amo; + Vos id buscar quien seais. + +AMPHITRIÃO. + + Pois quero saber de ti: + Eu quem sou? + +MERCURIO. + + Y quien sois vós? + Como os llaman? + +AMPHITRIÃO. + + Abri. + +MERCURIO. + + Á vos os llaman Abri? + Pues, Abri, andad con Dios. + +AMPHITRIÃO. + + Quem ha, que possa soffrer + Em sua honra tal destrôço, + Que para me endoudecer + Me tẽe negado a mulher, + E agora me nega o moço? + +MERCURIO. + + Mira el encantador + Como se lastima y llora, + Y fuese tomar ahora + La forma de mi Señor, + Para engañar mi Señora. + Pues esperad, y no os vais, + Por un espacio pequeño; + Verná quien representais, + Y él os hará que volvais + El falso gesto á su dueño. + +AMPHITRIÃO. + + Vae, velhaco, e chama cá + Esse falso feiticeiro; + Que se elle lá dentro está, + Esta espada julgará + Qual de nós he o verdadeiro. + + +SCENA IV. + +_Amphitrião, Sosea e Belferrão._ + +BELFERRÃO. + + Ora ninguem presumíra + Que tinhas tão pouco siso; + Pois vás achar d'improviso + Tão bem forjada mentíra, + Que me faz cahir de riso. + Hum moço, que alevantou + Tal graça, nunca nasceo: + Porque vos jura que achou + Que ou elle em dous se perdeo, + Ou de hum dous se tornou. + +SOSEA. + + Patron, que no burlo, no: + En uno son dos unidos, + Y en dos cuerpos repartidos; + Yo soy él, y él es yo, + De un padre y madre nacidos. + +BELFERRÃO. + + Esse tu que lá estás, + Tão velhaco he como ti? + +SOSEA. + + Mas aun pienso que es mas: + Por delante y por detrás + Todo se parece á mí. + Y fue gran merced de Dios + Ayuntar á mí mas uno, + Que peor fuera de nos, + Si Dios me hiciera ninguno, + Que no de uno hacer dos. + +BELFERRÃO. + + Assi que, se te perdeste + Vieste a cobrar mais hum: + Mui gentil conta fizeste, + Pois que perdido soubeste + Que eras dous, sendo nenhum. + +SOSEA. + + Pues teneis por abusion + Verdad tan clara, y tan rasa, + Aunque pone admiracion; + Quiera Dios, que allá en casa + No halleis otro Patron. + +AMPHITRIÃO. + + O Patrão, que fui buscar, + Parece que vejo vir: + Não sei quem o foi chamar; + Mas que me ha de aproveitar + Se me não querem abrir? + Ah Belferrão! + +BELFERRÃO. + + Ah Senhor! + Ja sinto que fui culpado; + Porque quem he convidado, + Se tão vagaroso for, + Merece não ser chamado. + +AMPHITRIÃO. + + A vós quem vos convidou? + +BELFERRÃO. + + Sósea, por mandado seu. + +AMPHITRIÃO. + + Disso, Patrão, não sei eu; + Que Sósea ja me negou, + E ja se não dá por meu. + E se alguem vos foi dizer + Qu'eu vos chamo á minha mesa; + Mal vos dara de comer + Quem de todo lhe he defesa + A casa, e mais a mulher. + +BELFERRÃO. + + Quem he esse tão ousado, + Que vos isso faz, Senhor? + +AMPHITRIÃO. + + Sósea, creio que enganado + Por algum encantador, + Que a honra me tẽe roubado. + +BELFERRÃO. + + Se elle aqui comigo vem, + Isso como póde ser? + +AMPHITRIÃO. + + Ah! que a íra que vou ter, + Tão cega a vista me tem, + Que mo não deixava ver. + Porque razão, cavalleiro, + Não me abris quando vos mando? + Vós fazeis-vos chocarreiro? + +SOSEA. + + Yo Señor? y como? y cuando? + +AMPHITRIÃO. + + Quereis-lo saber primeiro? + Esperae, dir-se-vos-ha, + Mas será por outro son. + +SOSEA. + + Ah Señor Amphitrion, + Porque matándome está, + Sin delito, y sin razon? + +AMPHITRIÃO. + + Agora que vos eu dou + Me chamais Amphitrião, + E para me abrirdes não? + +BELFERRÃO. + + Este moço em que peccou? + Porque pena sem razão? + Não mais por amor de mi. + +AMPHITRIÃO. + + Não, que não sou seu Senhor; + Eu sou hum encantador. + Não o dizeis vós assi, + Ladrão, perro, enganador? + +SOSEA. + + Porque fuy presto á llamar + Por su mandado al Patron, + Me quiere ahora matar? + +AMPHITRIÃO. + + Quem vo-lo mandou buscar? + +SOSEA. + + Si no hay otro Amphitrion, + Vuestra merced sin dudar. + +AMPHITRIÃO. + + Eu te mandei? + +SOSEA. + + Si Señor, + Si otro no. + +AMPHITRIÃO. + + Outro ha aqui, + Por quem tu zombes de mi? + Pois só desse encantador + Me quero vingar em ti. + +SOSEA. + + Oh Júpiter, á quien bramo + Por su bondad que me vala! + Pues porque Sósea me llamo, + Yo mismo, y despues mi amo, + Me dieron venida mala! + + + + +ACTO QUINTO. + + +SCENA I. + +_Jupiter, Belferrão, Sosea e Amphitrião._ + +JUPITER. + + Quem he o tão atrevido, + Que aqui ousa de fazer + Tão revoltoso arruido + Com meus moços, sem temer, + Que fui sempre tão temido? + Quem aqui faz união, + Toma mui grande despejo. + +BELFERRÃO. + + Oh grande admiração! + Vejo eu outro Amphitrião, + Ou he sonho isto que vejo? + +SOSEA. + + No mirais la encantacion, + Que aquel hizo á mi Señor? + El que sale, Belferron, + Es el cierto Amphitrion, + Que estotro es encantador. + +JUPITER. + + Sósea? + +SOSEA. + + Mi Señor, ya vó. + +JUPITER. + + Patrão, só por vós espero. + +SOSEA. + + No os lo dicia yo, + Que este era el verdadero, + Y esse que allá queda, no? + +AMPHITRIÃO. + + Bargante, aonde te vás? + Fazes teu Senhor sandeu? + Pois espera, e levarás. + +JUPITER. + + Ó lá, tornae por detrás, + Não deis no moço, que he meu. + +AMPHITRIÃO. + + Vosso? + +JUPITER. + + Meu. + +AMPHITRIÃO. + + Póde isto haver, + Que outrem minhas cousas tome? + Vós galante haveis de ser, + O que me tomais o nome, + Casa, moços e mulher. + Eu vos farei conhecer + Com quem tendes esse trato. + +JUPITER. + + Sósea? + +SOSEA. + + Señor. + +JUPITER. + + Vae dizer, + Que apparelhem de comer, + Em quanto este doudo mato. + +BELFERRÃO. + + Oh Senhor, não seja assim, + Haja em vós concêrto algum! + E senão, pois aqui vim, + Farei que só tome em mim + Os golpes de cada hum. + +JUPITER. + + Patrão, vossa boa estrella + Me fara deixar com vida + Quem me não merece tella. + +AMPHITRIÃO. + + Não a tenho eu merecida, + Pois que vos deixo com ella. + +BELFERRÃO. + + O homem que for sisudo, + N'huma tão grande questão + Ha de tomar por escudo + A justiça, e a razão; + Que estas armas vencem tudo. + E pois essa natureza + Muitos homens faz iguais, + Dê qualquer de vós signais + De quem he, para certeza + Da fórma que ambos mostrais. + +JUPITER. + + Sou contente de mostrar + Polos sinaes que vos dou, + Que são estes sem faltar. + +AMPHITRIÃO. + + Que sinaes podeis vós dar, + Para que sejais quem sou? + +JUPITER. + + Estes, que logo vereis + Se são vãos, se de raiz. + Patrão, vós sêde juiz, + Que vós logo enxergareis + Qual mais verdade vos diz. + +BELFERRÃO. + + Eu não sinto onde consista + A cura desta doença, + Que ha tão pouca differença, + Que aquelle em que ponho a vista, + Por esse dou a sentença. + Mas, Senhor, vós que ordenastes + Que o juiz disto fosse eu, + Quando se a batalha deu, + Dizei, que m'encommendastes + Que ficasse a cargo meu? + +JUPITER. + + + Dei-vos cargo, qu'estivesse + Toda a Armada a bom recado, + E, se mal nos succedesse, + Que para os vivos houvesse + O refugio apparelhado. + +BELFERRÃO. + + Ora vós quantos dobrões + Esse dia m'entregastes? + +AMPHITRIÃO. + + Tres mil; e vós os contastes. + +BELFERRÃO. + + Ambos sois Amphitriões + Pelos sinaes que mostrastes. + +JUPITER. + + Para ser mais conhecida + A tenção deste sandeu, + Vêde est'outro sinal meu, + Que he neste braço a ferida + Que me ElRei Terela deu. + +BELFERRÃO. + + Mostrae vós, Senhor, tambem. + +AMPHITRIÃO. + + Aqui o podeis olhar. + +BELFERRÃO. + + Oh cousa para espantar! + Que ambos a ferida tem + D'hum tamanho, em hum lugar! + + +SCENA II. + +_Jupiter, Amphitrião e Sosea._ + +SOSEA. + + Dice mi Señora Alcmena + Que no se ha de así de estar + Con un bobo á razonar, + Que se le enfria la cena. + +JUPITER. + + Belferrão, vamos cear. + +AMPHITRIÃO. + + Belferrão, não me deixeis. + Como? tambem me negais? + +JUPITER. + + Andae, não vos detenhais, + Vamos comer, se quereis, + Não ouçais hum doudo mais. + +AMPHITRIÃO. + + Ah maos! assi me ordenais + Offensa tão mal olhada? + Eu farei, se m'esperais, + Com que todos conheçais + Os fios da minha espada. + +JUPITER. + + As portas prestes fechemos, + Não entre este doudo cá. + +SOSEA. + + De fuera se dormirá: + Entre tanto que cenemos, + Puede pasearse allá. + + +SCENA III. + +AMPHITRIÃO _só_. + + Oh ira para não crer, + Em que minh'alma se abraza, + Que me faz endoudecer, + E não me ajuda a romper + As paredes desta casa! + E porque? Não tenho eu + Forças, que tudo destrua? + Pois que tanto a salvo seu, + Outrem acho que possua + A melhor parte do meu; + Eu irei hoje buscar + Quem me ajude a vir queimar + Toda esta casa sem pena, + Donde veja arder Alcmena, + Com quem a vejo enganar. + + +SCENA IV. + +_Aurelio e Moço._ + +AURELIO. + + No hallo á mis males culpa, + Para que merezca pena + La causa que me condena. + +MOÇO. + + Essa está gentil desculpa + Para hoje dar a Alcmena! + Tẽe-no mandado chamar, + E elle está tão descuidado! + +AURELIO. + + Moço, queres-me matar? + Que desculpa posso eu dar + Melhor qu'este meu cuidado? + +MOÇO. + + E não ha mais que fazer? + Com isso a boca me tapa + Para mais nada dizer? + +AURELIO. + + Ora dá-me cá essa capa + E vamos ver o que quer: + Não trates de mais razão, + Pois não ha quem te resista. + Que vejo? outra novação! + +MOÇO. + + Que he? + +AURELIO. + + Ou me mente a vista, + Ou eu vejo Amphitrião. + +MOÇO. + + Eu ouvi a Feliseo, + Quando cá trouxe o recado, + Como elle era chegado, + E quiz-me dizer que veo + Do siso desconcertado. + +AURELIO. + + Isso quero eu ir saber, + Pois que tal cousa se sôa. + + +SCENA V. + +_Aurelio e Amphitrião._ + +AURELIO. + + Senhor, póde-se dizer + Que a vinda seja mui boa? + +AMPHITRIÃO. + + Essa não póde ella ser. + +AURELIO. + + Porque não? + +AMPHITRIÃO. + + Porque he roubada + Minha honra sem temor, + E minha casa tomada, + E vossa Prima enganada + Por hum grande encantador. + +AURELIO. + + Isso he certo? + +AMPHITRIÃO. + + E manifesto: + E tudo tẽe ja por seu + Adúltero e deshonesto: + Tẽe-me tomado o meu gesto, + E faz-lhe crer que sou eu. + +AURELIO. + + Contais hum caso d'espanto! + E pois não podeis entrar, + Defendei-me por em tanto, + Que eu hei lá de chegar + Para ver quem póde tanto, + + +SCENA VI. + +AMPHITRIÃO _só_. + + Se ver deshonra tão clara + Me não tivera o sentido + Totalmente endoudecido, + Que gravemente chorára + Ver tão grande amor perdido! + E quando vejo a verdade + Do nosso amor e amizade + Desfeita com tanta mágoa + Enchem-se-me os olhos d'ágoa, + E a alma de saudade. + Assi que quiz minha estrella, + Para nunca ser contente, + Que agora, estando presente + Viva mais saudoso della, + Que quando della era ausente. + Esta porta vejo abrir + Com impeto demasiado, + Que poderei presumir, + Que vejo Aurelio sahir, + Como homem desatinado? + + +SCENA VII. + +_Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea._ + +AURELIO. + + Oh estranha novidade! + Oh cousa para não crer! + +BELFERRÃO. + + Venho cego de verdade, + Que não puderão soffrer + Meus olhos a claridade. + +SOSEA. + + Oh triste, que vengo ciego + Con rayos, y con visiones! + Y destas encantaciones, + Si nuestra casa arde en fuego, + Han se de arder mis colchones. + +AURELIO. + + Vamos a Amphitrião + Contar-lhe cousas tamanhas. + +AMPHITRIÃO. + + Que vai lá? que cousas vão? + +AURELIO. + + Maravilhas tão estranhas, + Que me treme o coração. + Porque aquelle homem, que assi + Tantos enganos teceo, + Como era cousa do Ceo, + Tanto qu'eu appareci, + Logo desappareceo. + E em desapparecendo + Com ruido grande e horrendo, + Toda a casa allumiou; + E de arte nos inflammou, + Que nos vimos acolhendo + Do raio que nos cegou. + Estes acontecimentos + Não são de humana pessoa. + Vós ouvis a voz que soa? + Escutae, estae attentos; + Vejamos o que pregôa. + +JUPITER, _de dentro_. + + Amphitrião, qu'em teus dias + Vês tamanhas estranhezas, + Não t'espantem phantasias, + Que ás vezes grandes tristezas + Parem grandes alegrias. + Jupiter sou manifesto + Nas obras de admiração, + Que por mi causadas são: + Quiz-me vestir em teu gesto, + Por honrar tua geração. + Tua mulher parirá + Hum filho de mi gerado, + Que Hercules se chamará, + O mais valente e esforçado, + Que no mundo se achará. + Com este, teus successores + Se honrarão de serem teus; + E dar-lhe-hão os escriptores, + Por doze trabalhos seus, + Doze milhões de louvores. + E dessa illustre fadiga + Colherás mui rico fruito: + Enfim, a razão me obriga + Que tão pouco delle diga, + Porque o tempo dirá muito. + + * * * * * + + + + +FILODEMO, + +COMEDIA. + + +INTERLOCUTORES. + + FILODEMO. + VILARDO, seu moço. + DIONYSA. + SOLINA, sua moça. + VENADORO. + MONTEIRO. + DORIANO, amigo de Filodemo. + HUM PASTOR. + HUM BOBO, filho do pastor. + FLORIMENA, pastora. + DOM LUSIDARDO, pae de Venadoro. + DOLOROSO, amigo de Vilardo. + TRES PASTORES. + + +ARGUMENTO. + +Hum Fidalgo Portuguez, que acaso andava nos Reinos de Dinamarca, como +por largos amores e maiores serviços, tivesse alcançado o amor de huma +filha d'el Rei, foi-lhe necessario fugir com ella em huma galé, por +quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo chegados á costa +de Hespanha, onde elle era senhor de grande patrimonio, armou-se-lhe +grande tormenta, que sem nenhum remedio, dando a galé á costa, se +perdêrão todos miseravelmente, senão a Princeza, que em huma taboa foi á +praia: a qual, como chegasse o tempo de seu parto, junto de huma fonte +pario duas crianças, macho e femia; e não tardou muito que hum pastor +Castelhano, que naquellas partes morava, ouvindo os tenros gritos dos +meninos, lhe acudio a tempo que a mãe ja tinha espirado. Crescidas, +emfim, as crianças debaixo da humanidade e criação daquelle pastor, o +macho que Filodemo se chamou á vontade de quem os baptizára, levado da +natural inclinação, deixando o campo, se foi para a cidade, aonde por +musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo, irmão de seu +Pae, a quem muitos annos servio sem saber o parentesco que entre ambos +havia. E como de seu Pae não tivesse herdado nada mais que os altos +espiritos, namorou-se de Dionysa, filha de seu Senhor e Tio, que +incitada ao que por suas obras e boas partes merecia, ou porque ellas +nada engeitão, lhe não queria mal. Aconteceo mais, que Venadoro, filho +de D. Lusidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao exercicio da caça, +andando hum dia no campo apos hum cervo, se perdeo dos seus; e indo dar +em huma fonte, onde estava Florimena, irmãa de Filodemo (que assim lhe +pozerão o nome) enchendo huma talha de ágoa, se perdeo de amores por +ella, que se não soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava, +até que seu Pae o não foi buscar. O qual informado pelo pastor que a +criára (que era homem sabio na Arte Magica) de como a achára e como a +criára, não teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha, e +prima de Filodemo; e a Venadoro seu filho, com Florimena sua sobrinha, +irmãa de Filodemo pastor; e tambem pela muita renda que tinha e de seu +Pae ficára, de que elles erão verdadeiros herdeiros. Das mais +particularidades da Comedia, fara menção o Auto, que he o seguinte. + + + + +FILODEMO, + +COMEDIA. + + + + +ACTO PRIMEIRO. + + +SCENA I. + +_Filodemo e Vilardo._ + +FILODEMO. + + Moço Vilardo? + +VILARDO. + + Ei-lo vae. + +FILODEMO. + + Fallae era má, fallae, + E sahi cá para a sala. + O villão como se cala! + +VILARDO. + + Pois, Senhor, sahi a meu pae, + Que quando dorme não fala. + +FILODEMO. + + Trazei cá huma cadeira: + Ouvis, villão? + +VILARDO. + + Senhor, sim. + (Se m'ella não traz a mim. + Vejo-lh'eu ruim maneira.) + +FILODEMO. + + Acabae, villão ruim. + Que moço para servir + Quem tẽe as tristezas minhas! + Quem pudesse assi dormir! + +VILARDO. + + Senhor, nestas manhãzinhas + Não ha hi senão cahir: + Por demais he trabalhar + Qu'este somno se me ausente. + +FILODEMO. + + Porque? + +VILARDO. + + Porque ha d'assentar + Que se não for com pão quente, + Não ha de desaferrar. + +FILODEMO. + + Ora hi pelo que vos mando, + Villão feito de fermento. _Sahe Vilardo._ + Triste do que vive amando + Sem ter outro mantimento, + Qu'estar só phantasiando! + Só hũa cousa me desculpa + Deste cuidado que sigo, + Ser de tamanho perigo, + Que cuido que a mesma culpa + Me fica sendo castigo. + +_Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante_ + +FILODEMO. + + Ora quero praticar + Só comigo hum pouco aqui; + Que despois que me perdi, + Desejo de me tomar + Estreita conta de mi. + Vae para fóra, Vilardo. + Torna cá: vae-me saber + Se se quer ja lá erguer + O Senhor Dom Lusidardo, + E vem-mo logo dizer. _Vai-se o moço._ + Ora bem, minha ousadia, + Sem azas, pouco segura, + Quem vos deo tanta valia, + Que subais a phantasia + Onde não sobe a ventura? + Por ventura eu não nasci + No mato, sem mais valer, + Que o gado ao pasto trazer? + Pois donde me veio a mi + Saber-me tão bem perder? + Eu, nascido entre pastores, + Fui trazido dos currais, + E d'entre meus naturais + Para casa dos Senhores, + Donde vim a valer mais. + E agora logo tão cedo + Quiz mostrar a condição + De rustico e de villão! + Dando-me ventura o dedo, + Lhe quero tomar a mão! + Mas oh! qu'isto não he assi, + Nem são villãos meus cuidados, + Como eu delles entendi; + Mas antes, de sublimados, + Os não posso crer de mi. + Porque como hei eu de crer + Que me faça minha estrella + Tão alta pena soffrer, + Que somente pola ter + Mereço a gloria della? + Senão se amor, d'attentado, + Porque me não queixe delle, + Tẽe por ventura ordenado + Que mereça o meu cuidado, + Só por ter cuidado nelle. + + +SCENA II. + +_Vilardo e Filodemo._ + +VILARDO. + + O Senhor Dom Lusidardo + Dorme com todo o convento; + E elle com o pensamento + Quer estar fazendo alardo + De castellinhos de vento! + Pois tão cedo se vestio, + Com seu damno se conforme, + Pezar de quem me pario; + Que ainda o sol não sahio: + Se vem á mão, tambem dorme. + Elle quer-se levantar + Assi pela manhãzinha! + Pois quero-o desenganar: + Nem por muito madrugar + Amanhece mais asinha. + +_Filodemo._ + + Traze-me a viola cá. + +VILARDO. + + (Voto a tal que me vou rindo.) + Senhor, tambem dormirá. + +FILODEMO. + + Traze-a, moço. + +VILARDO. + + Si, virá, + Se não estiver dormindo. + +FILODEMO. + + Ora hi polo que vos mando: + Não gracejeis. + +VILARDO. + + Eis-me vou: + Pois, pezar de São Fernando! + Por ventura sou eu grou? + Sempre hei d'estar vigiando? _Sahe._ + +FILODEMO. + + Ah Senhora, que podeis + Ser remedio do que peno, + Quão mal ora cuidareis + Que viveis e que cabeis + N'hum coração tão pequeno! + Se vos fosse apresentado + Este tormento em que vivo, + Crerieis que foi ousado + Este vosso, de criado + Tornar-se vosso captivo? + + +SCENA III. + +_Filodemo e Vilardo._ + +VILARDO. + + Ora eu creio, se he verdade + Qu'estou de todo acordado, + Que meu amo he namorado; + E a mi dá-me na vontade + Que anda hum pouco abalado. + E se tal he, eu daria + Por conhecer a donzella + A ração d'hoje este dia; + Porque a desenganaria, + Somente por ter dó della. + Havia-lhe perguntar: + Senhora, de que comeis? + Se comeis d'ouvir cantar, + De fallar bem, de trovar, + Em boa hora casareis. + Porém se vós comeis pão, + Tende, Senhora, resguardo; + Qu'eis-aqui está Vilardo, + Qu'he como hum camaleão, + Por isso, bus, fazei fardo. + E se vós sois das gamenhas, + E houverdes d'attentar + Por mais que por manducar, + Mi cama son duras peñas, + Mi dormir siempre es velar. + A viola, Senhor, vem + Sem primas, nem derradeiras: + Mas sabe o que lhe convem? + Se quer, Senhor, tanger bem, + Ha de haver mister terceiras. + E se estas cantigas vossas + Não forem para escutar, + E quizerdes espirar; + Ha mister cordas mais grossas, + Porque não possão quebrar. + +FILODEMO. + + Vae para fóra. + +VILARDO. + + Ja venho. + +FILODEMO. + + Qu'eu só desta phantasia + Me sostenho e me mantenho. + +VILARDO. + + Quamanha vista que tenho, + Que vejo a estrella do dia! _Sahe._ + + +SCENA IV. + +FILODEMO, _cantando_. + + Adó sube el pensamiento, + Seria una gloria inmensa + Si allá fuese quien lo piensa. + +_Falla._ + + Qual espirito divino + Me fará a mi sabedor + Deste meu mal, se he amor, + Se por dita desatino? + Se he amor, diga-me qual + Póde ser seu fundamento, + Ou qual he seu natural, + Ou porque empregou tão mal + Hum tão alto pensamento. + Se he doudice, como em tudo + A vida me abraza e queima, + Ou quem vio n'hum peito rudo + Desatino tão sisudo, + Que toma tão doce teima? + Ah Senhora Dionysa, + Onde a natureza humana + Se mostrou tão soberana! + O que vós valeis me avisa, + Mas o qu'eu peno m' engana. + + +SCENA V. + +_Solina e Filodemo._ + +SOLINA. + + Tomado estais vós agora, + Senhor, co'o furto nas mãos. + +FILODEMO. + + Solina, minha Senhora, + Quantos pensamentos vãos + Me ouvirieis lançar fóra? + +SOLINA. + + Oh Senhor, quão bem que sôa + O tanger de quando em quando! + Bem sei eu huma pessoa, + Que haja huma hora, e boa, + Que vos está escutando. + +FILODEMO. + + Por vida vossa, zombais? + Quem he? quereis-mo dizer? + +SOLINA. + + Não o haveis vós de saber, + Bofé se me não peitais. + +FILODEMO. + + Dar-vos-hei quanto tiver, + Para taes tempos como estes. + Quem tivera voz dos Ceos, + Pois escutar me quizestes! + +SOLINA. + + Assi pareça eu a Deos, + Como lhe vós parecestes. + +FILODEMO. + + A Senhora Dionysa + Quer-se ja alevantar? + +SOLINA. + + Assi me veja eu casar, + Como despida em camisa + Se ergueo por vos escutar. + +FILODEMO. + + Em camisa levantada! + Tão ditosa he minha estrella? + Ou mo dizeis refalsada? + +SOLINA. + + Pois bem me defendeo ella + Que vos não dissesse nada. + +FILODEMO. + + Se pena de tantos annos + Merecer algum favor, + Para cura de meus dannos + Fartae-me desses engannos, + Que não quero mais de Amor. + +SOLINA. + + Agora quero eu fallar + Neste caso com mais tento; + Quero agora perguntar: + E de siso his vós tomar + Hum tão alto pensamento? + Certo he minha maravilha, + Se vós isto não sentis + Bem: vós como não cahis + Que Dionysa qu'he filha + Do Senhor a quem servis? + Como? Vós não attentais + Os Grandes, de qu'he pedida? + Peço-vos que me digais + Qual he o fim que esperais + Neste caso, em vossa vida. + Que razão boa, ou que côr + Podeis dar a esta affeição? + Dizei-me vossa tenção. + +FILODEMO. + + Onde vistes vós amor + Que se guie por razão? + Se quereis saber de mi + Que fim, ou de que theor + O pretendo em minha dor; + S'eu neste amor quero fim, + Sem fim me atormente Amor. + Mas vós com gloria fingida + Pretendeis de m'enganar, + Por assi mal me tratar: + Assi que me dais a vida + Somente por me matar. + +SOLINA. + + Eu digo-vos a verdade. + +FILODEMO. + + Da verdade fujo eu, + Porque se o Amor me deu + Pena de tal qualidade, + Assaz me custa do meu. + +SOLINA. + + Fólgo muito de saber + Que sois amante tão fino. + +FILODEMO. + + Pois mais vos quero dizer, + Que ás vezes no imaginar + Não ouso de m' estender. + Na hora que imaginei + Na causa de meu tormento, + Tamanha gloria levei, + Que por onças desejei + De lograr o pensamento. + +SOLINA. + + Se me vós a mi jurardes + De me terdes em segredo + Huma cousa... mas hei medo + De logo tudo contardes. + +FILODEMO. + + A quem? + +SOLINA. + + Áquelle enxovedo. + +FILODEMO. + + Qual? + +SOLINA. + + Aquelle mao pezar, + Que ant'hontem comvosco hia. + Quem se fosse em vós fiar! + O que vos disse o outro dia, + Tudo lhe fostes contar. + +FILODEMO. + + Que lhe contei? + +SOLINA. + + Ja lh'esquece? + +FILODEMO. + + Por certo qu'estou remoto. + +SOLINA. + + Hi, que sois hum cesto roto. + +FILODEMO. + + Esse homem tudo merece. + +SOLINA. + + Vós sois muito seu devoto. + +FILODEMO. + + Senhora, não hajais medo: + Contae-m'isso, e far-me-hei mudo. + +SOLINA. + + Senhor, o homem sisudo, + Se em taes cousas tẽe segredo, + Saiba que alcançará tudo. + A Senhora Dionysa + Crede que mal vos não quer: + Não vos posso mais dizer. + Isto tende por balisa + Com que vos saibais reger. + Qu'em mulheres, se attentais, + O querer está visibil; + E se bem vos governais, + Não desespereis do mais, + Porque, emfim, tudo he possibil. + +FILODEMO. + + Senhora, póde isso ser? + +SOLINA. + + Si, que tudo o mundo tem: + Olhae não o saiba alguem. + +FILODEMO. + + E que maneira hei de ter + Para crer tamanho bem? + +SOLINA. + + Vós, Senhor, o sabereis; + E ja que vos descobri + Tamanho sogredo aqui, + Huma mercê me fareis + Em que me vai muito a mi. + +FILODEMO. + + Senhora, a tudo me obrigo + Quanto for em minha mão. + +SOLINA. + + Pois dizei a vosso amigo + Que não gaste tempo em vão, + Nem queira amores comigo. + Porque eu tenho parentes, + Que me podem bem casar; + E mais que não quero andar + Agora em boca de gentes + A quem s'elle vai gabar. + +FILODEMO. + + Senhora, mal conheceis + O que vos quer Duriano: + Sabei-o, se o não sabeis, + Qu'em sua alma sente o dano + Do pouco que lhe quereis; + E que outra cousa não quer, + Que ter-vos sempre servida. + +SOLINA. + + Pola sua negra vida, + Isso havia eu bem mister. + +FILODEMO. + + Vós sois desagradecida! + +SOLINA. + + Si, que tudo são enganos + Em tudo quanto fallais. + +FILODEMO. + + Não quero que me creais: + Crede o tempo; que ha dous anos + Que vos serve, e inda mais. + +SOLINA. + + Senhor, bem sei que m'engano; + Mas a vós, como a irmão, + Descubro este coração: + Sabei que a Duriano + Tenho sobeja affeição. + Olhae que lhe não digais + Isto que vos aqui digo. + +FILODEMO. + + Senhora, mal me tratais: + Inda que sou seu amigo, + Sabei que vosso sou mais. + +SOLINA. + + E ja que vos confessei + Aquestas fraquezas minhas, + Que ha tanto que de mi sei; + Fazei vós nas cousas minhas + O qu'eu nas vossas farei. + +FILODEMO. + + Vós enxergareis, Senhora, + O qu'eu por vós sei fazer. + +SOLINA. + + Como me deixo esquecer! + Aqui estivera agora + Fallando té anoitecer. + Vou-me; e olhae quanto val + O que passou entre nós. + +FILODEMO. + + E porque vos ides vós? + +SOLINA. + + Porque parece ja mal + Estar aqui ambos sós. + E mais vou vestir agora + A quem vos dá tão má vida. + Ficae-vos, Senhor, embora. + +FILODEMO. + + Nessa ide vós, Senhora, + Que ja vos tenho entendida. + + +SCENA VI. + +FILODEMO _só_. + + Ora se póde isto ser + Do qu'esta moça me avisa, + Que a Senhora Dionysa, + Por me ouvir, se fosse erguer + Da sua cama em camisa! + E diz que mal me não quer. + Não queria maior gloria; + Mas o que mais posso crer, + Que nem para lhe esquecer + Lhe passo pela memoria. + Mas ter Solina tambem + Em Duriano o intento, + He levar-me a lenha o vento; + Porque s'ella lhe quer bem, + Para bem vai meu tormento. + Mas foi-se este homem perder + Neste tempo, de maneira, + Por huma mulher solteira, + Que não me atrevo a fazer + Que hum pequeno bem lhe queira. + Porém far-lhe-hei hum partido, + Porqu'ella não se querelle: + Que se mostre seu perdido, + Inda que seja fingido, + Como lh'outrem faz a elle. + E ja que me satisfaz, + E tanto nisto se alcança, + Dê-lhe fingida esperança: + Do mal que lhe outrem faz, + Tomará nella vingança. + + +SCENA VII. + +VILARDO _só_. + + Ora boa está a cilada + De meu amo com sua ama, + Que se levantou da cama + Por ouvi-lo! Está tomada: + Assi a tome má trama. + E mais crede que quem canta, + Ainda descantará; + E quem do leito, onde está, + Por ouvi-lo se levanta, + Mor desatino fará. + Quem havia de cuidar, + Que dama formosa e bella + Saltasse o demonio nella, + Para a fazer namorar + De quem não he igual della? + Que me dizeis a Solina? + Como se faz Celestina, + Que por não lhe haver inveja + Tambem para si deseja + O que o desejo lh'ensina! + Crede que se me alvoróço, + Que a hei de tomar por dama; + E não será grão destrôço, + Pois o amo quer a ama, + Que a moça queira o moço. + Vou-me; que vejo lá vir + Venadoro, apercebido + Para a caça se partir: + E voto a tal, que he partido + Para ver e para ouvir. + Que he razão justa e rasa + Que seu folgar se desconte + Em quem arde como brasa; + Que se vai caçar ao monte, + Fique outrem caçando em casa. + + +SCENA VIII. + +VENADORO _só_. + + Aprovada antiguamente + Foi, e muito de louvar + A occupação do caçar, + E da mais antigua gente + Havida por singular. + He o mais contrário officio + Que tẽe a ociosidade, + Mãe de todo o bruto vício: + Por este limpo exercicio + Se reserva a castidade. + Este dos grandes Senhores + Foi sempre muito estimado; + E he grande parte do estado + Ter monteiros, caçadores, + Como officio qu'he prezado. + Pois logo porque razão + A meu pae ha de pezar + De me ver ir a caçar? + E tão boa occupação + Que mal me póde causar? + + +SCENA IX. + +_Venadoro e o Monteiro._ + +MONTEIRO. + + Senhor, venho alvoroçado, + E mais com muita razão. + +VENADORO. + + Como assi? + +MONTEIRO. + + Que me he chegado + O mais extremado cão, + Que nunca caçou veado. + Vejamos que me ha de dar. + +VENADORO. + + Dar-vos-hei quanto tiver; + Mas ha-se d'exprimentar, + Para se poder julgar + As manhas que póde ter. + +MONTEIRO. + + Póde assentar qu'este cão, + Que tẽe das manhas a chave. + Bem feito? Em admiração. + Pois em ligeiro? He huma ave. + Em commetter? Hum leão. + Com porcos? Maravilhoso. + Com veados? Extremado. + Sobeja-lhe o ser manhoso. + +VENADORO. + + Pois eu ando desejoso + D'irmos matar hum veado. + +MONTEIRO. + + Pois, Senhor, como não vae? + +VENADORO. + + Vamos, e vós mui ligeiro + O necessario ordenae; + Qu'eu quero chegar primeiro + Pedir licença a meu pae. + + + + +ACTO SEGUNDO. + + +SCENA I. + +DURIANO. + +Pois não creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pôr pé em ramo verde, té +lhe dar trezentos açoutes. Despois de ter gastado perto de trezentos +cruzados com ella, porque logo lhe não mandei o setim para as mangas, +fez de mim mangas ao demo. Não desejo eu de saber, senão qual he o +galante que me succedeo; que se vo-lo eu colho a balravento, eu lhe +farei botar ao mar quantas esperanças lhe a fortuna tẽe cortado á +minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com o dinheiro, como a +maré com a lũa: bolsa cheia, amor em ágoas vivas; mas se vasa, vereis +espraiar este engano, e deixar em sêcco quantos gostos andavão como o +peixe na ágoa. + + +SCENA II. + +_Filodemo e Duriano._ + +FILODEMO. + +Ó lá! cá sois vós? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me +sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos +tire como huma alma. + +DURIANO. + +Oh maravilhosa pessoa! Vós he certo que vos prezais de mais certo em +casa, que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem á mão, os +pensamentos com os focinhos quebrados, de cahirem onde vós sabeis. Pois +sabeis, Senhor Filodemo, quaes são os que me mátão? Huns muito bem +almofaçados, que com dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezão de +brandos na conversação, e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo +que não darão meia hora de triste pelo thesouro de Veneza; e gábão mais +Garcilasso que Boscão; e ambos lhe sahem das mãos virgens; e tudo isto +por vos meterem em consciencia que se não achou para mais o grão Capitão +Gonçalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia do mundo +farão altos espiritos: e eu não trocarei duas pescoçadas da minha etc., +depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e +fingir-se-me bebada, porque o não pareça, por quantos Sonetos estão +escriptos polos troncos dos árvores do vale Luso, nem por quantas +Madamas Lauras vós idolatrais. + +FILODEMO. + +Tá, tá, não vades avante, que vos perdeis. + +DURIANO. + +Aposto que adivinho o que quereis dizer? + +FILODEMO. + +Que? + +DURIANO. + +Que se me não acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a +herege de amor. + +FILODEMO. + +Oh que certeza tamanha, o muito peccador não se conhecer por esse! + +DURIANO. + +Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinião! Mas +tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he +cousa de vossa saude, tudo farei. + +FILODEMO. + +Como templará el destemplado? Quem poderá dar o que não tẽe, Senhor +Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo: não póde ser que a natureza não +faça em vós o que a razão não póde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porém +he necessario que primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis +para hum canto da casa todos esses maos pensamentos; porque segundo +andais mal avinhado, damnareis tudo aquillo que agora lançarem em vós. +Ja vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra cousa que não he +servir a Senhora Dionysa; e postoque a desigualdade dos estados o não +consinta, eu não pretendo della mais que o não pretender della nada, +porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que este meu amor he como +a ave Phenix, que de si só nasce, e não de outro nenhum interesse. + +DURIANO. + +Bem praticado está isso; mas dias ha que eu não creio em sonhos. + +FILODEMO. + +Porque? + +DURIANO. + +Eu vo-lo direi: porque todos vós-outros os que amais pela passiva, +dizeis que o amor fino como melão, não ha de querer mais de sua dama que +amá-la; e virá logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a +trezentos Platões, mais çafado que as luvas de hum pagem d'arte, +mostrando razões verisimeis e apparentes, para não quererdes mais de +vossa dama que vê-la; e ao mais até fallar com ella. Pois inda achareis +outros esquadrinhadores d'amor, mais especulativos, que defenderão a +justa por não emprenhar o desejo; e eu (faço-vos voto solemne) se a +qualquer destes lhe entregassem sua dama tosada e apparelhada entre dous +pratos, eu fico que não ficasse pedra sôbre pedra: e eu ja de mi vos sei +confessar que os meus amores hão de ser pela activa, e que ella ha de +ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu de, +vá v. m. co'a historia por diante. + +FILODEMO. + +Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida entre os +Doctores: assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mão, +bem trinta ou quarenta legoas pelo sertão dentro de hum pensamento, +senão quando me tomou á traição Solina; e entre muitas palavras que +tivemos, me descobrio que a Senhora Dionysa se levantára da cama por me +ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando quasi hora e meia. + +DURIANO. + +Cobras e tostões, sinal de terra: pois ainda vos não fazia tanto avante. + +FILODEMO. + +Finalmente, veio-me a descobrir, que me não queria mal, que foi para mi +o maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a +soffrer por sua causa, e não tenho agora sogeito para tamanho bem. + +DURIANO. + +Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser são. Se vos +deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca +chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanças ao leme; +que eu vos faço bom que ás duas enxadadas acheis ágoa. E que mais +passastes? + +FILODEMO. + +A maior graça do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vós; e +me quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vós merecesseis. + +DURIANO. + +Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor? +porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que +dizer poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella +quer que eu caia. + +FILODEMO. + +Nem eu não quero que lho queirais, mas que lhe façais crer que lho quereis. + +DURIANO. + +Não... quanté dessa maneira me offereço a romper meia duzia de serviços +alinhavados ás panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais +fiel amante que nunca calçou esporas; e se isto não bastar, salgan las +palabras mas sangrientas del corazon, entoadas de feição, que digão que +sou hum Mancias, e peor ainda. + +FILODEMO. + +Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro, +irmão da Senhora Dionysa, he fóra á caça; e sem elle fica a casa +despejada; e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu +passatempo he enxertar e dispôr, e outros exercicios d'agricultura, +naturaes a velhos: e pois o tempo nos vem á medida do desejo, vamo-nos +lá; e se puderdes fallar, fazei de vós mil manjares, porque lhe façais +crer que sois mais esperdiçado d'amor que hum Braz Quadrado. + +DURIANO. + +Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas, +com que vosso feito venha á luz. + + +SCENA III. + +_Dionysa e Solina._ + +DIONYSA. + + Solina, mana. + +SOLINA. + + Senhora. + +DIONYSA. + + Trazei-me cá a almofada; + Que a casa está despejada, + E esta varanda cá fóra + Está melhor assombrada. + Trazei a vossa tambem + Para estarmos cá lavrando; + Em quanto meu pae não vem, + Estaremos praticando, + Sem nos estorvar ninguem. + +SOLINA. + + Este he o mesmo lugar + Onde estava o bem logrado, + Tal que de muito enlevado + Se esquecia do cantar + Por se enlevar no cuidado. + +DIONYSA. + + Vós, mana, sois mui ruim! + Logo lhe fostes contar + Que me ergui polo escutar. + +SOLINA. + + Eu o disse? + +DIONYSA. + + Eu não o ouvi? + Como mo quereis negar? + +SOLINA. + + E pois isso que releva? + Que se perde nisso agora? + +DIONYSA. + + Que se perde! Assi, Senhora, + Folgareis vós que se atreva + A contá-lo lá por fóra? + Que se lhe meta em cabeça + Alguma parvoa tenção? + Que faça, se vem á mão, + Algũa cousa que pareça? + +SOLINA. + + Senhora, não tẽe razão. + +DIONYSA. + + Eu sei mui bem attentar + Do que se ha de ter receio, + E do que he para estimar. + +SOLINA. + + Não he o demo tão feio + Como alguem o quer pintar; + E não se espera isso delle, + Que não he ora tão moço. + E Vossa Mercê asselle + Que qualquer segredo nelle + He como huma pedra em poço. + +DIONYSA. + + E eu que segredo quero + Co'hum criado de meu pae? + +SOLINA. + + E vós, mana, fazeis fero? + Ao diante vos espero, + Se adiante o caso vae. + +DIONYSA. + + O madraço! quem o vir + Fallar de siso co'ella... + Então vós, gentil donzella, + Folgais muito de o ouvir? + +SOLINA. + + Si, porque me falla nella; + E eu como ouço fallar + Nella, como quem não sente, + Folgo de o escutar, + Só para lhe vir contar + O que della diz a gente; + Qu'eu não quero nada delle. + E mais, porque está fallando? + Não m'esteve ella rogando + Que fosse fallar com elle? + +DIONYSA. + + Disse-vo-lo assi zombando. + Vós logo tomais em grosso + Tudo quanto me escutais. + Parvo! que vê-lo não posso. + +SOLINA. + + Ella alli, e o cão co'o osso! + Inda isto ha de vir a mais. + Pois que tal odio lhe tem, + Fallemos, Senhora, em al; + Mas eu digo que ninguem + Merece por querer bem + Que a quem lho quer, queira mal. + +DIONYSA. + + Deixae-o vós doudejar. + Se meu pae, ou meu irmão, + O vierem a aventar, + Não ha elle de folgar. + +SOLINA. + + Deos meterá nisso a mão. + +DIONYSA. + + Ora hi polas almofadas, + Que quero hum pouco lavrar; + Por ter em que me occupar; + Qu'em cousas tão mal olhadas + Não se ha o tempo de gastar. + +SOLINA. + + Que cousa somos mulheres! + Como somos perigosas! + E mais estas tão viçosas + Qu'estão á boca _que queres_ + E adoecem de mimosas! + Se eu não caminho agora + A seu desejo e vontade; + Como faz esta Senhora, + Fazem-se logo nessa hora + Na volta da honestidade. + Quem a vira o outro dia + Hum poucochinho agastada, + Dar no chão com a almofada, + E enlevar a phantasia, + Toda n'outra transformada! + Outro dia lhe ouvirão + Lançar suspiros a mólhos, + E com a imaginação + Cahir-lhe a agulha da mão, + E as lagrimas dos olhos. + Ouvir-lhe-heis á derradeira + A ventura maldizer, + Porque a foi fazer mulher. + Então diz que quer ser Freira; + E não se sabe entender. + Então gaba-o de discreto, + De musico e bem disposto, + De bom corpo e de bom rosto. + Quanté então eu vos prometo, + Que não tẽe delle desgôsto. + Despois, se vem a attentar, + Diz que he muito mal feito + Amar homem deste geito; + E que não póde alcançar + Pôr seu desejo em effeito. + Logo se faz tão Senhora, + Logo lhe ameaça a vida, + Logo se mostra nessa hora + Muito segura de fóra, + E de dentro está sentida. + Bofé, segundo vou vendo, + Se esta postema vier, + Como eu suspeito, a crescer, + Muito ha que della entendo + O fim que póde vir ter. + + +SCENA IV. + +_Duriano e Filodemo._ + +DURIANO. + +Ora deixae-a ir, que á vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como +hei de fazer; que não ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se. + +FILODEMO. + +Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a dê á Senhora +Dionysa; que me vai nisso muito. + +DURIANO. + +Por mulher de tão bom engenho a tendes? + +FILODEMO. + +E porque me perguntais isso? + +DURIANO. + +Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta +mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta. + +FILODEMO. + +Não lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por isso lhe +fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fação +á vossa tenção. + +DURIANO. + +Deixae-me vós a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes +vintes, que vós; e eu vo-la farei hoje vir a nós sem gafas; e vós +entretanto acolhei-vos a sagrado, porque ei-la lá vem. + +FILODEMO. + +Olhae lá: fazei que a não vêdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a +nosso caso. + +DURIANO. + +Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia +no la espero remediar. Pois não devia assi de ser, polos santos +Evangelhos! mas muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos, +andão ás vessas. Ora, emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen +aflojar cuando mas duelen.) + + +SCENA V. + +_Solina e Duriano._ + +SOLINA, _com a almofada_. + + Aqui anda passeando + Duriano, e só comsigo + Pensamentos praticando: + Daqui posso estar notando + Com quem sonha, se he comigo. + +DURIANO. + + Ah quão longe estará agora + Minha Senhora Solina + De saber que estou bem fóra + De ter outra por senhora, + Segundo o amor determina! + Porém se determinasse + Minha bem-aventurança + Que de meu mal lhe pezasse. + Até que nella tomasse + Do que lhe quero vingança!... + +SOLINA. + + (Comigo sonha por certo. + Ora quero-me mostrar, + Assi como por acêrto: + Chegar-me-hei mais ao perto, + Por ver se me quer fallar.) + Sempre esta casa ha d'estar + Acompanhada de gente, + Que não possa homem passar! + +DURIANO. + + Á traição vindes tomar + Quem ja feridas não sente? + +SOLINA. + + Logo me a mi parecia + Que era elle o que passeava. + +DURIANO. + + E eu mal adivinhava + Que me viesse este dia, + Que ha tantos que desejava. + Se huns olhos por vos servir, + Com o amor que vos conquista, + Se atrevêrão a subir + Os muros da vossa vista, + Que culpa tẽe quem vos vir? + E se esta minha affeição, + Que vos serve de giolhos, + Não fez êrro na tenção, + Tomae vingança nos olhos, + E deixae o coração. + +SOLINA. + + Ora agora me vem riso. + Assi que vós sois, Senhor, + De siso meu servidor? + +DURIANO. + + De siso não, porque o siso + Me tẽe tirado o amor. + Porque o amor, se attentais, + N'hum tão verdadeiro amante + Não deixa siso bastante; + Senão se siso chamais + A doudice tão galante. + +SOLINA. + + Como Deos está nos Ceos, + Que se he verdade o que temo, + Que fez isto Filodemo. + +DURIANO. + + Mas fê-lo o démo; que Deos + Não faz mal tanto em extremo. + +SOLINA. + + Bem. Vós, Senhor Duriano, + Porque zombareis de mim? + +DURIANO. + + Eu zombo? + +SOLINA. + + Eu não m' engano. + +DURIANO. + + S' eu zombo, inda em meu dano + Vejais vós mui cedo a fim. + Mas vós, Senhora Solina, + Porque me querereis mal? + +SOLINA. + + Sou mofina. + +DURIANO. + + Oh! real. + Assi que minha mofina + He minha imiga mortal. + Dias ha qu'eu imagino + Qu'em vos amar e servir + Não ha amador mais fino; + Mas sinto que de mofino + Me fino sem o sentir. + +SOLINA. + + Bem derivais: quanté assi + Á popa o dito vos veio. + +DURIANO. + + Vir-me-ha de vós, porque creio + Que vós fallais dentro em mi, + Como esprito em corpo alheio. + E assi que em estas piós + A cahir, Senhora, vim; + Bem parecerá entre nós, + Pois vós andais dentro em mim, + Que ande eu tambem dentro em vós. + +SOLINA. + + He bem: que fallar he esse? + +DURIANO. + + Dentro na vossa alma, digo, + Lá andasse, e lá morresse! + E se isto mal vos parece, + Dae-me a morte por castigo. + +SOLINA. + + Ah mao! Como sois malvado! + +DURIANO. + + Mas vós como sois malvada, + Que de hum pouco mais de nada + Fazeis hum homem armado, + Como quem 'stá sempre armada! + Dizei-me, Solina, mana. + +SOLINA. + + Qu'he isso? Tirae lá a mão: + Oh! vós sois mao cortezão. + +DURIANO. + + O que vos quero m'engana, + Mas o que desejo não. + Não ha aqui senão paredes, + As quaes não fallão, nem vem. + +SOLINA. + + Está isso muito bem. + Bem: e vós, Senhor, não vêdes + Que poderá vir alguem? + +DURIANO. + + Que vos custão dous abraços? + +SOLINA. + + Não quero tantos despejos. + +DURIANO. + + Pois que farão meus desejos, + Que querem ter-vos nos braços, + E dar-vos trezentos beijos? + +SOLINA. + + Olhae que pouca vergonha! + Hi-vos d'hi, boca de praga. + +DURIANO. + + Eu não sei certo a que ponha + Mostrardes-me a triaga, + E virdes-me a dar peçonha. + +SOLINA. + + Ora ide rir á feira, + E não sejais dessa laia. + +DURIANO. + + Se vêdes minha canseira, + Porque lhe não dais maneira? + +SOLINA. + + Que maneira? + +DURIANO. + + A da saia. + +SOLINA. + + Por minha alma, hei de vos dar + Meia duzia de porradas. + +DURIANO. + + Oh que gostosas pancadas! + Mui bem vos podeis vingar, + Qu'em mim são bem empregadas. + +SOLINA. + + Ao diabo, que o eu dou. + Como me doeo a mão! + +DURIANO. + + Mostrae cá, minha affeição, + Que essa dor me magoou + Dentro no meu coração. + +SOLINA. + + Ora hi-vos embora asinha. + +DURIANO. + + Por amor de mi, Senhora, + Não fareis huma cousinha? + +SOLINA. + + Digo que vades embora. + Que cousa? + +DURIANO. + + Esta cartinha. + +SOLINA. + + Que carta? + +DURIANO. + + De Filodemo + A Dionysa vossa ama. + +SOLINA. + + Dizei, que tome outra dama, + E dê os amores ao démo. + +DURIANO. + + Não andemos pola rama. + Senhora, (aqui para nós) + Que sentis della com elle? + +SOLINA. + + Grandes alforges sois vós! + Pois hi-lhe dizer que appelle. + +DURIANO. + + Fallae, que aqui 'stamos sós. + +SOLINA. + + Qualquer honesta se abala, + Como sabe que he querida. + Ella he por elle perdida: + Nunca n'outra cousa falla. + +DURIANO. + + Ora vou-lhe dar a vida. + +SOLINA. + + E eu não lhe disse ja + Quanta affeição lh'ella tem? + +DURIANO. + + Não se fia de ninguem, + Nem crê que para elle ha + No mundo tamanho bem. + +SOLINA. + + Dir-vos-hia de mim lá + O que lh'eu disse zombando? + +DURIANO. + + Não disse, por S. Fernando! + +SOLINA. + + Ora ide-vos. + +DURIANO. + + Que me va! + E mandais que torne? Quando? + +SOLINA. + + Quando eu cá vir lugar, + Vo-lo mandarei dizer. + +DURIANO. + + Se o quizerdes buscar, + Não vos deve de faltar, + Se não faltar o querer. + +SOLINA. + + Não falta. + +DURIANO. + + Dae-me hum abraço + Em sinal do que quereis. + +SOLINA. + + Tá, que o não levareis. + +DURIANO. + + De quantos serviços faço + Nenhum pagar me quereis? + +SOLINA. + + Pagar-vos-hão algum'hora, + Que isso a mi tambem me toca; + Mas agora hi-vos embora. + +DURIANO. + + Essas mãos beijo, Senhora, + Em quanto não posso a boca. + + +SCENA VI. + +_Solina que traz a almofada, e Dionysa._ + +SOLINA. + + Ja Vossa Mercê dirá + Qu'estive muito tardando. + +DIONYSA. + + Bem vos detivestes lá. + Bofé que estava cuidando + Em não sei que. + +SOLINA. + + Que será? + Aqui somos. (Quanté agora + Está ella transportada.) + +DIONYSA. + + Que rosnais vós lá, Senhora? + +SOLINA. + + Digo que tardei lá fóra + Em buscar esta almofada. + Que estava ella agora só + Comsigo phantasiando? + +DIONYSA. + + Bofé que estava cuidando + Qu'he muito para haver dó + Da mulher que vive amando. + Que hum homem póde passar + A vida mais occupado: + Com passear, com caçar, + Com correr, com cavalgar, + Fórra parte do cuidado. + Mas a coitada + Da mulher sempre encerrada, + Que não tẽe contentamento, + Não tẽe desenfadamento, + Mais que agulha e almofada? + Então isto vem parir + Os grandes erros da gente: + Forão mil vezes cahir + Princezas d'alta semente. + Lembra-me que ouvi contar + De tantas affeiçoadas + Em baixo e pobre lugar, + Que as que agora vão errar + Podem ficar desculpadas. + +SOLINA. + + Senhora, a muita affeição + Nas Princezas d'alto estado + Não he muita admiração; + Que no sangue delicado + Faz amor mais impressão. + Mas deixando isto á parte, + Se m'ella quizer peitar, + Prometto de lhe mostrar + Huma cousa muito d'arte, + Que lá dentro fui achar. + +DIONYSA. + + Que cousa? + +SOLINA. + + Cousa d'esprito. + +DIONYSA. + + Algum panno de lavores? + +SOLINA. + + Inda ella não deo no fito? + Cartinha sem sobre-escripto, + Que parece ser de amores. + +DIONYSA. + + Essa he a boa ventura? + +SOLINA. + + Bofé que mo pareceo. + +DIONYSA. + + E essa donde nasceo? + +SOLINA. + + No meu cesto da costura: + Não sei quem m'alli meteo. + +DIONYSA. + + Mostrae-ma; não hajais medo, + Mana. Eu que vos descobri... + +SOLINA. + + E se ella vem para mi, + Logo quer ver meu segredo? + Não a veja: vá-se d'hi. + Ei-la-ahi. + +DIONYSA. + + Cuja será? + +SOLINA. + + Não sei certo cuja he. + +DIONYSA. + + Si; sabeis. + +SOLINA. + + Não sei, bofé. + +DIONYSA. + + Ora a carta mo dirá. + +SOLINA. + + Pois leia Vossa Mercê. + +_Abre Dionysa a carta, e lê-a._ + +Se para merecer minha pena me não falta mais que viver contente della, +ja logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo +triste, senão por não ser para tão doce tristeza. Se tendes por offensa +commetter tamanha ousadia; por maior a devieis ter, se a não +commettesse; que amor acostumado he fazer os extremos á medida das +affeições, e as affeições á medida da causa dellas. Pois logo, nem o meu +amor póde ser pouco, nem fazer menos: se este não bastar para +consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o que pelo ter +mereço; e senão muitas graças ao Amor, que me soube dar hum cuidado, que +com tê-lo se paga o trabalho de soffrê-lo. + +SOLINA. + + Quanta parvoice diz! + +DIONYSA. + + Ora muito boa está! + Como vós, mana, sois má! + Não sejais vós tão biliz; + Que bem vos entendo ja. + Cuja he? + +SOLINA. + + E eu que sei? + +DIONYSA. + + Pois quem o sabe? + +SOLINA. + + O démo. + +DIONYSA. + + Certo que he de quem temo; + Que os ditos que nella achei + São todos de Filodemo. + Este homem, que atrevimento + He este que foi tomar? + Qual será seu fundamento? + Que mil vezes me faz dar + Mil voltas ao pensamento. + Não entendo delle nada. + Mas inda qu'isto he assi, + Disso que delle entendi, + Me sinto tão alterada, + Que me arreceio de mi. + Eu inda agora não creio + Que he verdade este amor; + Mas praza a Deos, se assi for, + Que inda este meu arreceio + Se não converta em temor. + +SOLINA. + + Ja vós, ja sêdes, + Peixes, nas redes. + Senhora, quem mais confia, + Mais asinha a cahir vem: + Natural he o querer bem; + Que o amor n'alma se cria, + Sem o sentir quem o tem. + Filodemo, no que ouvi, + Tẽe-lhe sobeja affeição; + E postoque o creia assi, + Ou eu sonhei, ou ouvi. + Que era d'alta geração. + Logo na phisionomia, + Nas manhas, artes e geito, + Mostra mui grande respeito: + Nem tão alta phantasia + Não se põe em baixo peito. + +DIONYSA. + + Tudo isso cuido, e vi + Mil vezes miudamente; + Mas estas mostras assi + São desculpas para mi, + E não para toda a gente. + +SOLINA. + + O seu moço vejo vir + A nós, seu passo contado: + Este he muito para ouvir, + Que diz que me quer servir + D'amores esperdiçado. + + +SCENA VII. + +_Vilardo, Solina e Dionysa._ + +VILARDO. + + Senhora, o Senhor seu pae, + Mesmo de Vossa Mercê, + Ja lá para casa vae: + Por isso, Senhora, andae, + Que elle me mandou n'hum pé; + E diz que fosse jantar + Vossa Mercê mesmamente. + +SOLINA. + + E ja veio do pomar? + +DIONYSA. + + Oh quem pudéra escusar + De comer, nem de ver gente! + (Nenhuma côr de verdade + Tenho do que m'elle manda.) + +VILARDO. + + S'ella sem vontade anda, + Eu lh'emprestarei vontade, + Empreste-m'ella a vianda. + +SOLINA. + + Va, Senhora, por não dar + Mais em que cuidar á gente. + +DIONYSA. + + Irei, mas não por jantar; + Que quem vive descontente + Mantem-se de imaginar. + +VILARDO. + + Pois tambem cá minhas dores + Me não deixão comer pão; + Nem come minha affeição + Senão sopadas d'amores, + E mil postas de paixão. + Das lagrimas caldo faço, + Do coração escudella; + Esses olhos são panella + Que coze bofes e baço, + Com toda a mais cabedella. + + +SCENA VIII. + +_O Monteiro, um pastor e um bobo._ + +MONTEIRO. + + Perdeo-se por esta brenha + Venadoro, meu Senhor, + Sem que novas delle tenha: + Queira Deos que inda não venha + Desta perda outra maior. + Contra esta parte daqui + Des pos hum cervo correo, + Logo desappareceo: + Como da vista o perdi, + O gosto se me perdeo. + Eu, e os mais caçadores, + Corremos montes e covas; + Fallamos com lavradores + Deste valle, e com pastores, + Sem acharmos delle novas. + Quero ver nestes casais + Que cobre aquelle arvoredo, + Se acharei pastores mais, + Que me dem alguns sinais + Que me possão tornar ledo. + +_Chama._ + + Ó dos casaes, ó de lá: + Ah pastores, não fallais? + +PASTOR. + + Quien sois, ó lo que buscais? + +MONTEIRO. + + Ouvis? Chegae para cá. + +PASTOR. + + Dicid vos lo que mandais. + +BOBO. + + No vayais adó os llamó, + Padre, sin saber quien es. + +PASTOR. + + Porque? + +BOBO. + + Porque este es + Aquel ladron que hurtó + El asno del Portugues. + Y se vais adó estan, + Os juro al cuerpo sagrado + De San Pisco, y San Juan, + Que tambien os hurtarán, + Que sois asno mas honrado. + +PASTOR. + + Déjame ir, que me llamó. + +BOBO. + + No, por vida de mi madre; + Que si allá vais, muerto so', + Y desta vez quedo yo, + Sin asno, triste! y sin padre. + +MONTEIRO. + + Vinde, que vo-lo encommendo, + E em vossas mãos me ponho. + +BOBO. + + No vais, que dijo _en comiendo_. + Encomiendoos al demonio! _(Ao Monteiro.)_ + Y esso es lo que andais haciendo? + +PASTOR. + + Déjame ir adó está, + Que no es cosa que me espante. + +BOBO. + + No quereis sino ir allá? + Pues echadle pan delante, + Puede ser amansará. + +PASTOR. + + Dios os guarde! Qué cosa es + Esa por que voceais? + +MONTEIRO. + + Dar-m'heis novas, ou sinais + D'hum Fidalgo Portugues, + Se passou por onde andais? + +BOBO. + + Yo so' Hidalgo Portugues: + Que manda su Señoria? + +PASTOR. + + Cállate: oh que nescio es! + +BOBO. + + Padre, no me dejarés + Ser lo que quisiere un dia? + Ah Santo Dios verdadero! + No seré lo que otros son? + Digo ahora que no quiero + Ser Alonsico, el vaquero. + +PASTOR. + + Cállate ya, bobarron. + +BOBO. + + Ya me callo: ahora un poco + He de ser lo que yo quisiere. + +PASTOR. + + Señor, diga lo que quiere, + Porque este mochacho es loco, + Y muero porque no muere. + +MONTEIRO. + + Digo, que se por ventura + Sabeis o que ando buscando: + Hum Fidalgo, que caçando + Se perdeo nesta espessura + Apos hum cervo andando. + Tenho esta parte corrida, + Sem delle poder saber: + Trago a alegria perdida; + E se de todo a perder, + Perca-se tambem a vida. + Porque só polo buscar + Tenho trabalhos assás. + +BOBO. + + (Yo no puedo callar mas.) + +PASTOR. + + (Como no puedes callar? + Quítate allá para tras.) + Cuanto por aquesta tierra, + No siento nueva ninguna. + +MONTEIRO. + + Oh trabalhosa fortuna! + +PASTOR. + + Mas detras daquesta sierra + Hallareis, por dicha, alguna; + Que unas choças de vaqueros + Portugueses allí estan; + Y ahí muchas veces van + Cazadores Cavalleros: + Puede ser que lo sabran. + +MONTEIRO. + + Quero-me ir lá saber. + Ficae-vos a Deos, pastor. + +PASTOR. + + Dios os livre de dolor. + +BOBO. + + Y á nos dé siempre comer + Pan y sopas, qu'es mejor. + Mirad lo que os notifico: + En aquel valle, acullá, + Anda paciendo un burrico, + Hidalgo, manso, y bonico; + Puede ser que ese será. + +PASTOR. + + Calla, y acaba de andar. + +BOBO. + + Ya ando. + +PASTOR. + + Quieres callar? + Bobo, que tan poco sabe! + +BOBO. + + No diceis que ande y acabe? + Ando, y no quiero acabar. + + + + +ACTO TERCEIRO. + + +SCENA I. + +_Florimena, pastora, com hum pote que vai á fonte._ + +FLORIMENA. + + Por este formoso prado + Tudo quanto a vista alcança + Tão alegre está tornado, + Que a qualquer desesperado + Póde dar certa esperança. + O monte, e sua aspereza, + De flores se veste ledo; + Reverdece o arvoredo, + Somente em minha tristeza + Está sempre o tempo quedo. + Junto desta fonte pura, + Segundo a muitos ouvi, + D'altos parentes nasci: + Foi como quiz a Ventura, + Mas não como eu mereci. + O dia que fui nascida, + Minha mãe do parto forte + Foi sem cura fallecida; + E o dia que me deo vida + Lhe dei eu a ella a morte. + Do mesmo parto nasceo + Meu irmão, que entre os cabritos + Comigo tambem viveo; + Mas, assi como cresceo, + Crescêrão nelle os espritos. + Foi-se buscar a cidade; + Teve juizo e saber; + Eu fiquei, como mulher, + E não tive faculdade + Para poder mais valer. + A hum pastor obedeço + Por pae, que d'outro não sei; + E, pola mãe que matei, + A huma cabra conheço, + De cujo leite mamei. + Mas porém, ja qu'este monte + Me obriga e meu nascimento, + Quero, pois quer meu tormento, + Encher a talha na fonte + Que co'os olhos accrescento. + +_Finge que enche a talha._ + + +SCENA II. + +_Venadoro e Florimena._ + +VENADORO. + + Pois que me vim alongar + Dos caminhos e da gente, + Fortuna, que o consente, + Se devia contentar + De me ter tão descontente. + Porém, segundo adivinho, + Por tão espêsso arvoredo, + Por tão aspero rochedo, + Quanto mais busco o caminho, + Tanto mais delle me arredo. + O cavallo, como amigo, + Ja cansado me trazia: + Mas deixou-me todavia; + Que mal pudera comigo + Quem comsigo não podia. + Quero-me aqui assentar + Á sombra, nesta hervinha, + Porque canso ja de andar; + Mas inda a fortuna minha + Não cansa de me cansar. + Junto desta fonte pura + Não sei quem cuido qu'está; + Mas no coração me dá + Que aqui me guarda a Ventura + Alguma ventura má. + Ou ganhado, ou bem perdido, + Faça, emfim, o que quizer, + Qu'eu o fim disto hei de ver? + Que ja venho apercebido + A tudo quanto vier. + Oh que formosa serrana + Á vista se me offerece! + Deosa dos montes parece; + E se he certo que he humana, + O monte não a merece. + Pastora tão delicada, + De gesto tão singular, + Parece-me qu'em lugar + De perguntar pola estrada, + Por mim lhe hei de perguntar. + Atéqui sempre zombei + De qualquer outra pessoa + Que affeiçoada topei; + Mas agora zombarei + De quem se não affeiçoa. + Serrana, cuja pintura + Tanto a alma me moveo, + Dizei-me: Por qual ventura + Andareis nesta espessura, + Merecendo estar no ceo? + +FLORIMENA. + + Tamanho inconveniente + Andar na serra parece? + Pois a ventura da gente + Sempre he mui diferente + Do que, ao parecer, merece. + +VENADORO. + + Tal resposta he manifesto + Não se parecer co'as cabras. + Pois não vos parece honesto + Saberdes matar co'o gesto, + Senão inda com palabras? + No mato tudo he rudeza. + Ha tal gesto e discrição? + Não o creio. + +FLORIMENA. + + Porque não? + Não supprirá natureza + Onde falta criação? + +VENADORO. + + Ja logo nisso, Senhora, + Dizeis, se não sinto mal, + Que do vosso natural + Não era serdes pastora. + +FLORIMENA. + + Digo, mas pouco me val. + +VENADORO. + + Pois quem vos pôde trazer + Á conversação do monte? + +FLORIMENA. + + Perguntae-o a essa fonte; + Que as cousas duras de crer, + Hum as faça, outro as conte. + +VENADORO. + + Esta fonte, que está aqui, + Que sabe do que dizeis? + +FLORIMENA. + + Senhor, mais não pergunteis. + Porque outra cousa de mi + Sabei que não sabereis. + De vós agora sabei, + O que não tendes sabido: + Se quereis ágoa, bebei; + Se andais por dita perdido, + Eu vos encaminharei. + +VENADORO. + + Senhora, eu não vos pedia + Que ninguem m'encaminhasse; + Que o caminho qu'eu queria, + Se o eu agora achasse, + Mais perdido me acharia. + Não quero passar daqui; + E não vos pareça espanto + Qu'em vos vendo me rendi; + Porque quando me perdi, + Não cuidei de ganhar tanto. + +FLORIMENA. + + Senhor, quem na serra mora + Tambem entende a verdade + Dos enganos da cidade: + Vá-se embora, ou fique embora, + Qual for mais sua vontade. + +VENADORO. + + Oh lindissima donzella, + A quem a ventura ordena + Que me guie como estrella! + Quereis-me deixar a pena, + E levar-me a causa della? + E ja que vos conjurastes + Vós e Amor para matar-me, + Oh não deixeis d'escutar-me! + Pois a vida me tirastes, + Não me tireis o queixar-me! + Qu'eu, em sangue e em nobreza + O claro Ceo me extremou; + E a Fortuna me dotou + De grandes bens e riqueza, + Que sempre a muitos negou. + Andando caçando aqui, + Apos hum cervo ferido, + Permittio meu fado assi, + Que andando dos meus perdido, + Me venha perder a mi. + E porqu'inda mais passasse + Do que tinha por passar, + Buscando quem m'ensinasse, + Por que via me tornasse, + Acho quem me faz ficar. + Que vingança permittio + A fortuna n'hum perdido! + Oh que tyranno partido, + Que quem o cervo ferio, + Vá como cervo ferido! + Ambos feridos n'hum monte, + Eu a elle, outrem a mi: + Huma differença ha aqui, + Qu'elle vai sarar á fonte, + E eu nella me feri. + E pois que tão transformado + Me tẽe vossa formosura, + Hum de nós troque o estado. + Ou vós para o povoado, + Ou eu para a espessura. + +FLORIMENA. + + Dos arminhos he certeza, + Se lhe a cova alguem çujar, + Morar fóra, antes d'entrar: + D'estimar muito a limpeza + Pola vida a vai trocar: + Tambem quem na serra mora + Tanto estima a honestidade, + Que antes toma ser pastora, + Que perder a honestidade + A trôco de ser Senhora. + Se mais quereis, esta fonte + Vos descubra o mais de mim: + O que ella vio, ella o conte; + Porque eu vou-me para o monte, + Porque ha ja muito que vim. + + +SCENA III. + +VENADORO. + + Ó linda minha inimiga, + Gentil pastora, esperae! + Pois que tanto amor me obriga, + Consenti-me que vos siga; + Vá o corpo onde alma vae. + E pois por vós me perdi, + E neste estado Amor pôs + Os olhos com que vos vi, + Pois os deixaste sem mi, + Oh não os deixeis sem vós! + Porque a Fortuna me disse + Que nas serras, onde andais, + Em estes extremos tais, + Não era bem que vos visse + Para não ver de vós mais. + E pois Amor se quiz ver + Da livre vida vingado, + Em que eu sohia viver; + Faça em mi o que quizer, + Que aqui vou ao jugo atado. + + +SCENA IV. + +_Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo._ + +LUSIDARDO. + + Oh Santo Deos verdadeiro, + A quem o mundo obedece! + Meu filho não apparece. + E que me dizeis, Monteiro? + +MONTEIRO. + + Digo-lhe que m' entristece. + Qu'eu corri por esses montes, + Bem quinze leguas, ou mais, + E busquei polos casais, + Por serras, montes e fontes, + Sem ver novas, nem sinais. + Toda a gente que levou, + Buscando-o, muito cansada + Pelo mato anda espalhada; + Mas ainda ninguem tomou, + Que soubesse delle nada. + +LUSIDARDO. + + Oh fortuna nunca igual! + Quem me fara sabedor + De meu filho e meu amor? + Que se he muito grande o mal, + Muito mor he o temor. + Quem tolhe que não achasse + Algum leão temeroso + N'algum monte cavernoso, + Que sua fome fartasse + Em seu corpo tão formoso? + Quem ha que saiba, ou que visse, + Que das montanhas erguidas + Algum monstro não sahisse, + E com seu sangue tingisse + As hervas nellas nascidas? + Oh filho! vai-me a lembrar + Quantas vezes os mandava + Que deixasseis o caçar! + Não cuidei de adivinhar + O que Fortuna ordenava. + Eu irei, filho, buscar-vos + Por esses montes, por hi, + Ou a perder-me, ou cobrar-vos; + Que morte que quiz matar-vos, + Quero que me mate a mi. + Onde fostes fenecido, + Seja tambem vosso pae; + Ser-me-ha acontecido, + Como a virote que vae + Buscar outro que he perdido. + Vós só haveis de ficar, + Filodemo, encarregado + Para esta casa guardar; + Que de vosso bom cuidado + Tudo se póde fiar. + Ide-vos a fazer prestes, + Mandae cavallos sellar; + Pois achá-lo não pudestes, + Ir-m'heis buscar o lugar + Onde da vista o perdestes. + + +SCENA V. + +_O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o seu._ + +_Canta._ + + Los mochachos del Obispo + No comen cosa mimosa, + Ni zanca d'araña, ni cosa mimosa. + +_Falla._ + + De su sayo colorado + Tan lozano me vestió, + Que yo ya no soy yo, + Ya por otro estoy trocado; + Que este sayo me trocó. + Oh qué asno Portugues, + Que loco por Florimena, + Deseó zamarra agena, + Y dame por enterés + Una zamarra tan buena! + Como yo vi la bobilla + Andar con él en questiones, + Y parársele amarilla, + Díjele: Florimenilla, + Andais en dongolondrones? + Él me dijo: Matalote, + No tengais dello desmayo. + Y en esto, como un rayo, + Tomóme mi capirote, + Y dióme su capisayo. + Capirote, en buena fé, + Si vos, cuando en mi entrastes, + Capisayo vos tornastes, + Que yo por eso cantaré, + Pues ansí me mejorastes. + +_Canta._ + + Lyrio, lyrio, lyrio loco, + Con qué? Con capirotada. + Por hablar con la golosa + De amores, mirad la cosa! + Zamarrilla tan hermosa, + Que me ha dado tan honrada, + Con qué? Con capirotada. + +_Falla._ + + Yo entonces respondí: + Señor, dame pan y queso, + Mas despues que lo entendí, + Dije á ella: Dale un beso, + Que él me dió zamarra á mí. + Ahora me mirarán + Cuantos á la eglesia fueren; + Y aquellos que no me quieren, + Ahora me rogarán. + Sabeis porque no querré? + Porque estoy ahidalgado; + Y cuando fuere rogado, + Cantando responderé, + Que ya estoy otro tornado. + +_Canta e baila._ + + Soropicote, picote, mozas, + Ahora quiero amores con vosotras. + + +SCENA VI. + +_O Pastor e o Bobo._ + +PASTOR. + + Hijo Alonsillo. + +BOBO. + + Hijo Alonsillo. + +PASTOR. + + No me quieres escuchar? + +BOBO. + + Pues déjame suspirar. + +PASTOR. + + Escúchame ahora, asnillo, + Lo que te quiero mandar. + Véte al valle de las rosas, + Y di á Anton del Lugar + Que si puede acá llegar, + Porque tengo muchas cosas + Que importan para le hablar. + Porque es aqui llegado + Á este valle un hombre honrado, + Mancebo de casta buena, + Que amores de Florimena + Le traen loco y penado. + Dice que quiere casar + Con ella, que su tormento + No le deja reposar; + Y que venga festejar + Tan dichoso casamiento. + +BOBO. + + Dicid, padre, tambien vos, + No quereis casar comigo? + Casemos ambos adós. + +PASTOR. + + Vé, y haz lo que te digo. + +BOBO. + + Responde, padre, por Dios. + +PASTOR. + + Vé luego, y vuelve apresado. + Anda. No quieres andar? + +BOBO. + + Pues que me habeis empujado, + Juro á mi de desandar + Todo cuanto tengo andado. + +PASTOR. + + Trabajoso es este insano! + Nunca hace lo que quereis. + +BOBO. + + Ora no os apasioneis, + Mi padrecico lozano: + Que burlaba, no lo veis? + +PASTOR. + + Véte dahi. + +BOBO. + + Héme aqui. + +PASTOR. + + Vé donde te dije. + +BOBO. + + Ya vengo. + Oh que padrasto que tengo, + Que asi me manda por ahi, + Siendo camino tan luengo! + + + + +ACTO QUARTO. + + +SCENA I. + +_Dionysa e Solina._ + +DIONYSA. + + Oh Solina, minha amiga, + Que todo este coração + Tenho posto em vossa mão; + Amor me manda que diga, + Vergonha me diz que não. + Que farei? + Como me descobrirei? + Porque a tamanho tormento + Mais remedio lhe não sei, + Que entregá-lo ao soffrimento. + Meu pae muito entristecido + Se vai pela serra erguida, + Ja da vida aborrecido, + Buscando o filho perdido, + Tendo a filha cá perdida! + Sem cuidar, + Foi a casa encommendar + A quem destruir lha quer: + Olhae que gentil saber, + Que vai comigo deixar + Quem me não deixa viver. + +SOLINA. + + Senhora, em tanto desgôsto. + Não posso meter a mão; + Mas como diz o rifão, + Mais val vergonha no rosto, + Que mágoa no coração. + E bofé, se eu tanto amasse, + E visse tempo e sazão, + Sem seu pae, sem seu irmão, + Que a nuvem triste tirasse + De cima do coração. + +DIONYSA. + + Ah mana! que tenho medo, + Que s'eu em tal consentisse + Que logo o mundo o sentisse, + Porque nunca houve segredo, + Que, emfim, se não descobrisse. + +SOLINA. + + Se eu tantas dobras tivesse + Como quantas houve erradas, + Sem que o mundo o soubesse, + Á fé qu'eu enriquecesse, + E fosse das mais honradas. + +DIONYSA. + + Sabeis que tenho em vontade? + +SOLINA. + + Que podeis, Senhora, ter? + +DIONYSA. + + Fallar-lhe, só para ver + Se he por ventura verdade + O que dizeis que me quer. + +SOLINA. + + Bofé, mana, dizeis bem, + E eu o mandarei chamar, + Como para lhe rogar + Que hum annel, que lá me tem, + Que mo mande concertar. + +DIONYSA. + + Dizeis mui bem. + +SOLINA. + + Vou-me lá + Chamar o seu moço á sala; + E s'este parvo vem cá, + Com elle hum pouco rirá, + Que sempre amores me fala. + Vilardo, moço? + + +SCENA II. + +_Vilardo e Solina._ + +VILARDO. + + Quem chama? + +SOLINA. + + Vem cá, moço; eu te chamo. + Qu'he de teu amo? + +VILARDO. + + Ah que dama! + Perguntais-me por meu amo, + E não por hum que vos ama? + +SOLINA. + + E quem he esse amador, + Que quer ter comigo passo? + Será elle algum madrasso? + +VILARDO. + + Eu sou o mesmo, que o amor + Me quebra pelo espinhasso. + E mais vós sabei de mi, + Se eu a dizê-lo me atrevo, + Que desque esses olhos vi, + Que yo ni como, ni bebo, + Ni hago vida sin ti. + E mais para namorado + Não sou ora tão madraço. + +SOLINA. + + Sois muito desmazelado. + +VILARDO. + + Mas antes, de delicado + Caio pedaço a pedaço. + E mais eu soffrer não posso + Que me façais tanto fero, + Qu'estou ja posto no osso, + Porque sou vosso e revosso, + Por vida de quanto quero. + +SOLINA. + + Feros está cheia a rua. + Ora estou bem aviada! + +VILARDO. + + Cupido, por vida tua, + Que a não faças tão crua, + Pois que te não faço nada! + Amor, Amor, mas te pido, + Que quando se for deitar, + Que le digas al oido: + Devieis-vos de lembrar + Neste tempo de hum perdido. + +SOLINA. + + E tu ja fazes coprinhas? + Ainda tu trovarás? + +VILARDO. + + Quem eu? Por estas barbinhas, + Que se vós virdes as minhas, + Que digais que não são más. + +SOLINA. + + Ora, pois me quereis bem, + Dizei-me huma. + +VILARDO. + + Ei-la aqui; + E veja o saibo que tem; + Porque esta trovinha assi, + Saiba qu'he trova do assem. + +_Trova._ + + Passarinhos, que voais + Nesta manhãa tão serena, + Sabei que só minha pena + Póde encher mil cabeçais. + +SOLINA. + + O rifão está salgado. + Essa pena te dou eu? + +VILARDO. + + Vós e Amor, que de malvado, + Me tẽe melhor empennado, + Que nenhum virote seu. + Pois se me ouvíreis cantar! + +SOLINA. + + E tu es tambem cantor? + +VILARDO. + + Canto melhor que hum açor. + Quereis que vos venha dar + Musiqueta de primor, + E que vos mande tanger + Muito melhor que ninguem? + +SOLINA. + + Ja isso quizera ver. + +VILARDO. + + Querer-me-heis, se o eu fizer, + Algum pedaço de bem? + +SOLINA. + + Querer-te-hei trinta pedaços. + +VILARDO. + + E esse querer dará fruito, + Que me tire destes laços? + +SOLINA. + + E que fruito? + +VILARDO. + + Dous abraços. + +SOLINA. + + Esse fruito custa muito. + +VILARDO. + + Esse he o amor qu'em vós ha? + Pezar de minha mãe torta! + +SOLINA. + + Ora hi, chamae logo lá + Vosso amo que venha cá, + Porque he cousa que importa. + +VILARDO. + + Logo? + +SOLINA. + + Logo nessas horas. + +VILARDO. + + Não estarei aqui mais? + +SOLINA. + + Não. Ainda ahi estais? + Vós haveis mister esporas. + +VILARDO. + + Irei, porque me mandais. + + +SCENA III. + +_O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor._ + +PASTOR. + + Mas de un mez es ya pasado + Que en esta sierra andais; + Y es caso mal mirado + Que andeis guardando ganado + Por una que tanto amais. + Y si os determinais + En querer casar con ella, + Juro á mi que nada errais; + Y si eso es para habella, + En vano cabras guardais. + Ya me distes vuestra fé + (Sábenlo estas tierras todas): + Yo con ella me engañé, + Que luego mandar llamé + Quien festejase las bodas. + Y agora dicis con pena, + Que es dura cosa casar: + Pues volveos hora buena, + Que no habeis de engañar + Con palabras Florimena. + +VENADORO. + + Quem se ha de ter coração + Para tamanho temor? + Que em mim pegando estão. + De huma parte a razão. + E d'outra parte o Amor. + Tambem vejo que perdella + Será minha perdição; + Que bem me diz a affeição, + Que pouco faço por ella, + Pois não desfaço em quem são. + +PASTOR. + + Digoos, si por bajeza + Dicis que no os conviene, + Daros hé una certeza, + Que en sangre y en nobleza, + Tanto como vos la tiene. + +VENADORO. + + Pastor, digo que daqui + Farei tudo que quizerdes; + E se mais quereis de mi, + Digo que vos dou o si + Para tudo o que quizerdes. + +PASTOR. + + Dios os dé su bendicion; + Y pues que casais con ella, + Yo os afirmo en conclusion, + Que aun de vos y mas della + Verná gran generacion. + Yo me voy por ella, hijo, + Tomadla asi mal compuesta; + Verná quien haga la fiesta; + Que en placer y regocijo + Nos festeje esta floresta. + + +SCENA IV. + +VENADORO _só_. + + Ó ribeiras tão formosas, + Valles, campos pastoris, + Porque vos não revestis + De novas flores e rosas, + Se minha gloria sentis? + Porque não seccais, abrolhos? + E vós, ágoa, que regando, + Os olhos his alegrando, + Correi, que tambem meus olhos + D'alegres estão manando. + Ah pastora, em quem espero + Poder viver descansado! + Comtigo guardarei gado, + Que ja eu sem ti não quero + Nenhuma alteza d'estado. + Diga o que quizer a gente, + Tudo terei n'huma palha, + Porque está claro e evidente + Que não ha honra que valha + Contra a vida descontente. + + +SCENA V. + +_Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante do pastor, que +traz Florimena._ + +PASTOR. + + Pues el amor os obliga + Á que hagais tan buena liga, + Tomando á Dios por testigo, + Daqui os la entrego, amigo, + Por muger y por amiga. + +VENADORO. + + Consentis nisto, Senhora? + +FLORIMENA. + + Senhor, em tudo consento. + +VENADORO. + + Oh grande contentamento! + +FLORIMENA. + + Saiba que nunca tégora + Lhe houve inveja ao tormento. + +PASTOR. + + Asi lo dices, bobilla? + Oh! mala dolor os duela! + Pero no es maravilla + Quien consiente ansi la silla, + Consienta tambien la espuela. + + +SCENA VI. + +_Tornão a bailar e cantar, e acabado, entra D. Lusidardo, e o Monteiro, +que andão em busca de Venadoro._ + +LUSIDARDO. + + Tres dias ha ja que ando + Por esta larga espessura + A Venadoro buscando; + E o que delle vou achando + He como quer a Ventura. + +MONTEIRO. + + Senhor, cuido que lá vejo + Huns lavradores cantar. + +LUSIDARDO. + + Hi diante perguntar. + +MONTEIRO. + + Cumprido he seu desejo, + Se a vista não m'enganar. + +LUSIDARDO. + + Como assi? + +MONTEIRO. + + Elle não vê + Aquelle pastor loução + Com huma moça pela mão? + Se Venadoro não he, + Nem eu o Monteiro são. + +PASTOR. + + Quien veo allá asomar, + Que se viene á nuestras bodas? + +BOBO. + + No los dejemos llegar, + Que nos vernan á roubar, + Juro á mi, las migas todas. + +LUSIDARDO. + + Oh Venadoro, meu filho! + Es tu este? + +VENADORO. + + Tal estou, + Que cuido que este não sou. + +LUSIDARDO. + + Certo que me maravilho + De quem tanto te mudou. + Como estais assi mudado + No rosto e mais no vestido! + +VENADORO. + + Ando ja n'outro trocado, + Tanto, que fiquei pasmado + De como fui conhecido. + E se Vossa Mercê vem + Para me levar daqui, + Mais ha de levar que a mi; + E ha de ser quem me tem + Todo transformado em si. + +BOBO. + + Eso porque lo entendeis? + Por las migas por ventura? + Voto á tal no llevareis: + Por mas y por mas que andeis + No hareis tal travesura. + +VENADORO. + + Esta formosa donzella + Em mi teve tal poder, + Que folguei de me perder; + Pois, emfim, vim achar nella + O que não cuidei de ser. + Tanto em mi pôde este amor, + Que a tenho recebida; + E se o êrro grave for, + Aqui quero ser pastor: + Deixe-me ter esta vida. + +LUSIDARDO. + + He certo tal casamento? + +VENADORO. + + Tenha-o por cousa segura. + +LUSIDARDO. + + Oh grande acontecimento! + Dest'arte sabe a ventura + Aguar hum contentamento! + +PASTOR. + + Óigame, Señor, á mi, + Como hombre sabio, discreto, + Porque acaeció así, + Y lo que supo hasta aqui + Lo puede tener por cierto. + Muchos años son corridos + Que en esta fuente abierta, + En estos valles floridos + Hallé dos niños nascidos, + Y á su madre casi muerta. + Los niños chicos crié, + (Y desto cierto me arreo) + Y á la madre sepulté; + Y despues un gran deseo + De saber esto tomé. + Como yo fuese enseñado + De chico á la mágica arte + Por mi padre, que es finado; + Muy conoscido y nombrado + Soy por tal en toda parte. + Yo con yervas de la sierra, + Animales y otras cosas + Haré, si el arte no se yerra, + Que desciendan á la tierra + Las estrellas luminosas. + Soy, en fin, certificado + Que la madre de los dos + Fué Princeza de alto estado. + Y por un caso nombrado + La trajo á esta tierra Dios. + El macho, como creció, + Deseoso de otro bien, + Á la Corte se partió: + La hembra es esta por quien + Vuestro hijo se perdió. + Y si mas quiere, Señor, + De mi arte, prestamente + Dello le haré sabedor; + Mas ha de ser de tenor + Que no lo sepa la gente. + +LUSIDARDO. + + Mas vamos-nos, se quereis, + Que não soffro dilação, + A minha casa, e então + Lá disso me informareis, + Que caso he de admiração. + E vós, filho, não cuideis + Que a gloria de vos achar + Não he tanto d'estimar, + Qu'em qualquer 'stado que esteis, + Não folgue de vos levar. + + + + +ACTO QUINTO. + + +SCENA I. + +_Solina, Dionysa e Filodemo._ + +SOLINA. + + Eis Filodemo lá vem: + Asinha acudio ao leme. + +DIONYSA. + + Isso he de quem quer bem; + Mas não sei se o vio alguem, + Porque quem espera teme. + Agora me quizera eu + Daqui cem mil leguas ver. + +FILODEMO. + + Folgára eu assi de ser, + Porqu'este cuidado meu + Fôra mais de agradecer. + Que quando por accidente + A Fortuna desastrada + Vos apartasse da gente + N'hum deserto, onde somente + Das feras fosseis guardada; + Lá por ferro, fogo e ágoa + Buscar minha morte iria; + A voz ronca, a lingua fria, + Tamanho mal, tanta mágoa + Ás montanhas contaria. + Lá, mui contente e ufano + De mostrar amor tão puro, + Poderia ser que o dano, + Que não move hum peito humano, + Que movesse hum monte duro. + +DIONYSA. + + Nesse deserto apartado + De toda a conversação + Merecieis degradado + Por justiça, com pregão + Que dissesse: _Por ousado_. + E eu tambem merecia + Metida a grave tormento, + Pois que, como não devia, + Vim a dar consentimento + A tão sobeja ousadia. + +FILODEMO. + + Senhora, se me atrevi, + Fiz tudo o que Amor ordena; + E se pouco mereci, + Tudo o que perco por mi, + Mereço por minha pena. + E se Amor pôde vencer, + Levando de mi a palma, + Eu não lho pude tolher; + Que os homens não tẽe poder + Sôbre os affectos da alma. + E ainda que pudera + Resistir contra o mal meu. + Saiba que o não fizera; + Que pouco valêra eu, + Se contra vós me valêra. + Não deve logo ter culpa + Quem se venceo d'armas tais: + Assi que nisto, e no mais, + Tomo por minha desculpa + Vós mesma que me culpais. + E se este atrevimento + Com tudo for de culpar, + Acabae de me matar; + Que aqui tenho hum soffrimento + Que tudo póde passar. + E se esta penitencia, + Que faço em me perder, + Algum bem vos merecer, + Fique em vossa consciencia + O que me podeis dever. + Que dizeis a isto, Senhora? + +DIONYSA. + + Eu que vos posso dizer? + Ja não tenho em mi poder, + Segundo me sinto agora, + Para poder responder. + Respondei-lhe, vós Solina, + Pois que a vós me entreguei. + +SOLINA. + + Bofé não responderei: + Veja ella o que determina. + +DIONYSA. + + Não o vejo, nem o sei. + +SOLINA. + + Pois eu tambem não sei nada. + +DIONYSA. + + Porque? + +SOLINA. + + Do que eu fizer, + Se despois se arrepender, + Dirá qu'eu fui a culpada. + +DIONYSA. + + Eu só quero a culpa ter. + +SOLINA. + + Senhora, por não errar, + Não quero que fique em mim. + Esta noite no jardim + Ambos podem praticar + Como isto venha a bom fim. + Lá poderão ajustar + Entr'ambos o parecer; + Qu'eu não m'hei nisso de achar, + Que não quero temperar + O que outrem ha de comer. + +DIONYSA. + + Vós vêdes a torvação, + Que lá nessa casa vae? + +SOLINA. + + Dá-me cá no coração + Que he vindo o Senhor seu pae + Com o Senhor seu irmão. + +DIONYSA. + + Filodemo, hi-vos embora, + Fallae depois com Solina. + +SOLINA. + + Vamos-nos tambem, Senhora. + Receber seu pae lá fóra; + Não venha sentir a mina. + + +SCENA II. + +_Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina com os Musicos._ + +VILARDO. + +Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre andão rugindo as sedas. + +DOLOROSO. + +Avante, que bem sei que o não dizeis polas sedas de Veneza. + +VILARDO. + +Ja sabeis que esta nossa Solina he tão Celestina, que não ha quem a +traga a nós. + +DOLOROSO. + +Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, dará e tomará +quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher +de sua arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes +são como homens sisudos; se de noite se achão em algum arruido, onde +possão fugir sem serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia +quem ha de cuidar que hum tão honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem +pode ser, porque noite escura he capa de Judeos e de envergonhados. + +VILARDO. + +Mui gentil comparação he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi +zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous +meus amigos, que logo hão de vir aqui ter comnosco. + +DOLOROSO. + +Que tal he a musica que determinas de lhe dar? Não seja de siso; porque +será a maior parvoice do mundo, porque não concerta com a parvoice que +tu finges. + +VILARDO. + +A musica não he senão das nossas; mas faço-te queixume, que nem com hum +cão de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra. + +DOLOROSO. + +Nem as acharás senão alugadas; mas eu não sou de opinião que teus amores +te custem dinheiro. Ora ja lá apparecem os outros companheiros, e eu +tambem ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto á popa, porque +daqui iremos á porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum +certo requerimento. + +VILARDO. + +Vossas Mercês vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem +temperadas? + +DOLOROSO. + +Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justiça entretanto. + +VILARDO. + +Ora sus: fazei como se temperasseis cabeça de pescada com seu figado e +bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa +nova. + +_Neste passo se dá a musica com todos quatro, hum tange guitarra, outro +pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito velhas, e no melhor +diz Vilardo:_ + +Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he. + +DOLOROSO. + +Justiça, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui não ha outro valhacouto que +nos valha, que pôr os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras. + + +SCENA III. + +O MONTEIRO _só_. + +Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quão gracioso sería +quem o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoço, porque +não podessem entender nelle Meirinhos, Almotacés da limpeza, trabalhos, +esperanças, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora +notae bem de quantas côres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo: +perdeo-se Venadoro na caça, eis a casa toda envolta como rio: o pae +enfadado, a irmãa triste, a gente desgostosa; tudo, emfim, fóra do +couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados como +camaleão, decepado dos pés e das mãos, por huma serranica d'Alentejo; e +veio acaso a sahir de maneira fóra da madre, que a recebeo por mulher; e +rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as lembranças de seu pae; +pois tanto tomou ao pé da letra o que Deos disse: _Por esta deixarás teu +pae e mãe_. E attentae isto por me fazer mercê: cuidareis que este caso +era _solus peregrinus_: sabei que os não dá a fortuna senão aos pares, +como quédas. Dionysa mais mimosa e mais guardada de seu pae que bicho de +seda, moça sem fel como pombinha, que nos annos não tinha feito inda o +enequim; mais formosa que huma manhãa do S. João, mais mansa que o Rio +Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso, mais delicada que hum +pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua conversação se +poderá soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a parricida, +com tanto que dissesse o pregão o porque; porque vos não fieis em +castanhas (não sei se diga, se o cale, que de magoado me trava pola +manga a falla da garganta; mas, com tudo, não ha quem se tenha) seu pae +a achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo que +perdêra, que do que alli perdia: eu, coitado de mi, que meta os dentes +nos cabeçaes se desejar ave de penna. + + +SCENA IV. + +_Duriano e o Monteiro._ + +DURIANO, _como cantando_. + +Ti ri ri, ti ri rão. + +MONTEIRO. + +Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos são esses? Onde he cá a ida +agora? + +DURIANO. + +Vou assi como parvo, porque o melhor he não saber homem nada de si. + +MONTEIRO. + +Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo +que ficou só em casa? + +DURIANO. + +Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se não he isso +caso para sahir com elle a desafio. + +MONTEIRO. + +Porque? + +DURIANO. + +Porque não basta que lhe dê a Fortuna gostos tão medidos sôbre o funil, +que lhe põe nos braços Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou +cabellos ao vento, senão ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe +vem a descobrir, que he filho de não sei quem, nem quem não. + +MONTEIRO. + +Esses são outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja +sôbre isso não sei que fábulas. + +DURIANO. + +Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que não he menos que Principe, e peor ainda. +Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor Dom Lusidardo que aggravado +del Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca? + +MONTEIRO. + +Tudo isso ouvi ja. + +DURIANO. + +Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que ElRei de Dinamarca +lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moça; e como +era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher +abalão, desejou ella de ver geração delle; senão quando, livre-nos Deos! +se lhe começou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos não se +desistem em nove dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle então +necessario acolher-se com ella, porque não colhessem a ella com elle: +acolheu-se em huma galé; e vêde la Princeza em huma galera nueva, con el +marinero á ser marinera. Finalmente, vindo navegando todo esse Oceano +Germanico, bancos de Frandes, mar d'Inglaterra, e trazidos á costa +d'Hespanha, não os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella +buscavão: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a +galé á costa, onde feita pedaços, morrêrão todos desastradamente, sem +escapar mais que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece +que a Fortuna guardava para dar o descanso, que a seu pae e mãe negára. +Sahio finalmente a moça na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria +huma Princeza mais delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher +pola terra estranha e despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde, +despois de ter perdido toda a esperança de ter algum remedio, derão-lhe +as dores de parto junto de huma fonte, aonde em breve espaço lançou duas +crianças, macho e femia, como vizagras. E como a fraca compreição da +delicada mulher não pudesse sustentar tantos e tão desacostumados +trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia que desejava de dar, +deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae, que por causa +de seus nascimentos a vida lhe tirárão, como acontece a viboras. E como +as crianças fossem destinadas ao que vêdes, não faltou hum pastor que as +criasse, que alli veio ter, dando a mãe a alma a Deos: de maneira que, +por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e a femia +he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro. + +MONTEIRO. + +Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo +namorar a filha do Senhor que serve: não haverá logo por mal o Senhor +Dom Lusidardo tomar por genro e nora, quem acha por sobrinhos. + +DURIANO. + +Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se +parece natural com seu irmão, e Florimena com sua mãe. + +MONTEIRO. + +Dae-me a entender, como se creo tão de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de +quem isso contou. + +DURIANO. + +No caso não ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou +todo o caso; e fez ao pastor muitas mercês, e mandou fazer muitas festas +solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o +mesmo parentesco tẽe com a Senhora Dionysa, estão fóra de crer tamanho +contentamento; cuido que zombão delle. + +MONTEIRO. + +Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu +matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo: +dissimulemos. + + +SCENA V. + +_Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela mão, e Filodemo a +Dionysa._ + +LUSIDARDO. + + Quem não ficará pasmado + De ver que por tal caminho + Tẽe a Ventura ordenado + Filodemo, meu criado, + Vir ser meu genro e sobrinho! + Quem não pasmará agora + De ver a ventura minha, + Que tẽe tornado n'hum'hora + Florimena, huma pastora, + Ser minha nora e sobrinha! + Dem-se graças ao Senhor, + Cujo segredo he profundo; + Pois que vemos que quiz dar + A ventura e o amor + Por prazeres deste mundo. + + * * * * * + + + + +CARTAS. + + + + +CARTAS. + + +CARTA I. + +Desejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito desejar a não vi; +porque este he o mais certo costume da Fortuna, consentir que mais se +deseje o que mais presto ha de negar. Mas porque outras naos me não +fação tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar que vos não lembro, +determinei de vos obrigar agora com esta; na qual pouco mais ou menos +vereis o que quero que me escrevais dessa terra. Em pago do qual, d'ante +mão vos pago com novas desta, que não serão más no fundo de huma arca +para aviso de alguns aventureiros, que cuidão que todo o mato he +ouregãos, e não sabem que cá e lá más fadas ha. + +Despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo, +mandei enforcar a quantas esperanças dera de comer até então, com pregão +público: _Por falsificadoras de moeda_. E desenganei esses pensamentos, +que por casa trazia, porque em mim não ficasse pedra sobre pedra. E assi +posto em estado, que me não via senão por entre lusco e fusco, as +derradeiras palavras que na nao disse, forão as de Scipião Africano: +_Ingrata patria, non possidebis ossa mea_. Porque quando cuido, que sem +peccado que me obrigasse a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de +más linguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas de pura inveja, +de verem _su amada yedra de sí arrancada, y en otro muro asida_.... Da +qual tambem amizades mais brandas que cera, se accendião em odios que +disparavão lume que me deitava mais pingos na fama, que nos couros de +hum leitão. Então ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude +de Achilles, que não podia ser cortado senão pelas solas dos pés; as +quaes de mas não verem nunca, me fez ver as de muitos, e não engeitar +conversações da mesma impressão, a quem fracos punhão mao nome, vingando +com a lingua o que não podião com o braço. Emfim, Senhor, eu não sei com +que me pague saber tão bem fugir a quantos laços nessa terra me armavão +os acontecimentos, como com me vir para esta, onde vivo mais venerado +que os touros de Merceana, e mais quieto que a cella de hum Frade +Prégador. Da terra vos sei dizer que he mãe de villões ruins, e madrasta +de homens honrados. Porque os que se cá lanção a buscar dinheiro, sempre +se sustentão sobre ágoa como bexigas; mas os que sua opinião deita á las +armas Mouriscote, como maré corpos mortos á praia, sabei que antes que +amadureção, se seccão. Ja estes que tomavão esta opinião de valentes ás +costas, crede que nunca riberas de Duero arriba cavalgaron Zamoranos, +que roncas de tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem ao +effeito da obra, salvão-se com dizer que se não podem fazer tamanhas +duas cousas, como he, prometter e dar. Informado disto veio a esta terra +João Toscano, que, como se achava em algum magusto de rufiões, +verdadeiramente que alli era su comer las carnes crudas, su beber la +viva sangre. Callisto de Siqueira se veio cá mais humanamente, porque +assi o prometteo em huma tormenta grande em que se vio. Mas hum Manoel +Serrão, que, _sicut et nos_, manqueja de hum olho, se tẽe cá provado +arrezoadamente, porque fui tomado por juiz de certas palavras, de que +elle fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de sua pessoa era +cá tido em boa conta. Se das damas da terra quereis novas, as quaes são +obrigatorias a huma carta, como marinheiros á festa de S. Frei Pero +Gonçalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de maduras, que não ha +cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quizerem lançar pedaço. Pois as que +a terra dá? além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe falleis alguns +amores de Petrarca, ou de Boscão; respondem-vos huma linguagem meada de +hervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança ágoa +na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgae, Senhor, o que sentirá +hum estomago costumado a resistir ás falsidades de hum rostinho de +tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho novo com ágoa, +vendo-se agora entre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como +não chorará las memorias de in illo tempore! Por amor de mi, que ás +mulheres dessa terra digais de minha parte que se querem absolutamente +ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis mezes de má vida +por esse mar, que eu as espero com procissão e palio, revestido em +pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe irão entregar as chaves da +cidade, e reconhecerão toda a obediencia, a que por sua muita idade são +ja obrigadas. Por agora não mais, senão que este Soneto[3] +que aqui vai, que fiz á morte de Dom Antonio de Noronha, vos mando em +sinal de quanto della me pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a +qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe, que me parece +melhor que quantas fiz. Tambem vo-la mandára para a mostrardes lá a +Miguel Dias, que pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver; +mas a occupação de escrever muitas cartas para o Reino, me não deo +lugar. Tambem lá escrevo a Luis de Lemos em resposta d'outra que vi sua: +se lha não derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual tudo se perde. + +Vale. + +[3] He o Soneto 12. + + * * * * * + + +CARTA II. + +Esta vai com a candeia na mão morrer nas de v. m.; e se dahi passar, +seja em cinza; porque não quero que do meu pouco comão muitos. E se +todavia quizer meter mais mãos na escudella, mande-lhe lavar o nome, e +valha sem cunhos. + + La mar en medio y tierras, he dejado + Á cuanto bien cuitado yo tenia: + Cuan vano imaginar, cuan claro engaño + Es darme yo á entender que con partirme + De mí se ha de partir un mal tamaño! + +Quão mal está no caso quem cuida que a mudança do lugar muda a dor do +sentimento! E senão, diga-o quien dijo que la ausencia causa olvido. +Porque emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes +cuidados jogão meus pensamentos á barreira, tendo-me ja, pelo costume, +tão contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo +uso dos annos se converte em natureza. Pois o que he para mor mal, tenho +eu para mor bem. Aindaque, para viver no mundo, me debruo d'outro panno, +por não parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum para ser outro, +sendo outro para ser hum; mas a dor dissimulada dara seu fruito; que a +tristeza no coração, he como a traça no panno. + + E por tão triste me tenho, + Que se sentisse alegria, + De triste não viviria. + Porque a tal sorte vim, + Que não vejo bem algum + Em quanto vejo, + Que não nasceo para mim; + E por não sentir nenhum, + Nenhum desejo. + +Porque cousas impossiveis, he melhor esquecê-las que deseja-las. E por isso + + Só, tristeza, vos queria, + Pois minha ventura quer + Que só ella + Conheça por alegria; + E que se outra quizer, + Morra por ella. + +Pouco sabe da tristeza quem (sem remedio para ella) diz ao triste que se +alegre. Pois não vê que alheios contentamentos a hum coração +descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dóbrão o que padece. +Vós, se vem á mão, esperais de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de +bons propositos. Pois desenganae-vos, que desque professei tristeza, +nunca mais soube jogar a outro fito. E porque não digais, que não sou +gente fóra do meu bairro, vêdes, vai huma volta feita a este mote, que +escolhi na manada dos engeitados; e cuido que não he tão dedo queimado, +que não seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi: + + Não quero, não quero + Jubão amarello. + + Se de negro for, + Tão bem me parece, + Quanto me aborrece + Toda alegre côr: + Côr que mostra dor, + Quero, e não quero + Jubão amarello. + +Parece-vos que se póde dizer mais? Não me respondais: Quem gabará a +noiva? porque assentae, que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que +não he tão pequena habilidade. E porque vos não pareça, que foi mais +acertar, que querê-lo fazer; vêdes, vai outra do mesmo jaez, com tanto +que se não vá a pasmar. + + Perdigão perdeo a penna, + Não ha mal, que lhe não venha. + + Em hum mal outro começa, + Que nunca vem só nenhum; + E o triste que tẽe hum, + A soffrer outro se offreça; + E só pelo ter conheça, + Que basta hum só que tenha, + Para que outro lhe venha. + +Que graça será esperardes de mim propositos em cousa que os não tẽe +para comigo? Pois ainda que queira, não posso o que quero; que hum sentido +remontado, de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe succede assi; e cada +hum acode ao que lhe mais doe; e mais eu, que o que mais me entristece +he ter contentamento, pois fujo delle, que minha alma o aborrece, porque +lhe lembra que he virtude viver sem elle. Que ja sabeis que mágoa he, +vê-lo-has e não o paparás. Por fugir destes inconvenientes, + + Toda a cousa descontente + Contentar-me só convinha + De meu gôsto: + Que o mal, de que sou doente, + Sua mais certa mézinha + He desgôsto. + +Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que não podes haver, dá-o pola tua alma. O +mal sem remedio, o mais certo que tẽe, he fazer da necessidade virtude: +quanto mais, se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque, +emfim, allegados son iguales los que viven por sus manos etc. A este +proposito, pouco mais ou menos, se fizerão humas voltas a hum mote +d'enchemão, que diz por sua arte zombando, mais que não de siso (que +toda a galantaria he tirá-la donde se não espera), o qual crede que tẽe +mais que roer do que hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida, +e mande escumar o entendimento, que d'outra maneira, de fuera +dormiredes, pastorcico. E o meu Senhor diz assi: + + Dava-lhe o vento no chapeirão, + Quer lhe dê, quer não. + + Bem o póde revolver, + Que o vento não traz mais fruito; + E mais vento he sentir muito + O que, emfim, fim ha de ter. + O melhor, he melhor ser, + Que o vento no chapeirão, + Quer lhe dê, quer não. + +Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem do mal, que o mal do +bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado; e a morte até +matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque para tomar +a palha a esta materia, são necessarias azas de Nebri. Mas vós sois +homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mi vos +sei dar he: + + Que esperança me despede, + Tristeza não me fallece, + E tudo o mais me aborrece. + Ja que mais não mereceo + Minha estrella, + Só a tristeza conheço, + Pois que para mi nasceo, + E eu para ella. + +No mundo não tẽe boa sorte, senão quem tẽe por boa a que tẽe. E +daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhae de que maneira: + + Vivo assi ao revés, + Tomando por certa vida + Certa morte, + Com que fólgo em que me pês; + Pois minha sorte he servida + De tal sorte. + +Huma cousa sabei, que o mal, inda que ás vezes o vejais louvar, não ha +quem o louve com a boca, que o não tache com o coração. + + Ajuda-me a soffrer + Vida tão sem soffrimento, + E tão sem vida, + Ver que, emfim, fim hão de ter + Desgôsto e contentamento + Sem medida. + +Attentae que não são maos confeitos de enforcado, para os que estão com +o baraço na garganta, cuidar que o bem e o mal, aindaque sejão +differentes na vida, são conformes na morte; porque vemos + + Que não ha tão alta sorte, + Nem ventura tão subida, + Ou desastrada, + A quem o assópro da morte + Não sopre o fogo da vida. + + A seu fim todas cousas vão correndo; + Nem ha cousa, que o tempo não consuma, + Nem vida, que de si tanto presuma, + Que se não veja nada, em se vendo. + + Que o mais certo que temos, + He não termos nada certo + Cá na terra. + Pois para seus não nascemos; + Se o seu nos dá incerto, + Nada erra. + +Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se fez a hum certo +recontro que se teve com este destruidor de bons propositos, e não se +acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte: + + Forçou-me amor hum dia, que jogasse; + Deo as cartas, e az de ouros levantou; + E sem respeitar mão, logo triumphou, + Cuidando que o metal, que me enganasse. + + Dizendo, pois triumphou, que triumphasse + A huma sota de ouros, que jogou, + Eu então por burlar quem me burlou, + Tres paos joguei, e disse que ganhasse. + +Principes de condição, ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos +que a pobreza: fazem com sua fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias +de seus avós, onde não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma +hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim, para dar que fallar a +hum convento. Duas cousas não se soffrem sem discordia; companhia no +amar, mandar villão ruim sôbre cousa de seu interesse. Não se póde ter +paciencia com quem quer que lhe fação o que não faz. Desagradecimentos +de boas obras destruem a vontade para não fazê-las a amigo, que tẽe +mais conta com o interesse, que com a amizade: rezae delle, que he dos cá +nomeados. + +Grande trabalho he querer fazer alegre rosto, quando o coração está +triste: panno he, que não toma nunca bem esta tinta; que a lua recebe a +claridade do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá honra no que +dá: não tẽe que agradecer, quem, no que recebe, a não recebe; porque +bem comprado vai o que com ella se compra. Não se dá de graça o que se +pede muito. Estai certo, que quem não tẽe huma vida, tẽe muitas. Onde +a razão se governa pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que +louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto comsigo, como males de que +se não guardárão, podendo. Não ha alma sem corpo, que tantos corpos faça +sem almas, como este purgatorio, a que chamais honra: onde muitas vezes +os homens cuidão que a ganhão, ahi a perdem. Onde ha inveja, não ha +amizade; nem a póde haver em desigual conversação. Bem mereceo o engano, +quem creo mais o que lhe dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver +no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual, +perguntae-lhe donde vem: vereis que algo tiene en el cuerpo, que le +duele. Ora temperae-me lá esta gaita, que nem assi, nem assi achareis +meio real de descanso nesta vida; ella nos trata somente como alheios de +si, e com razão; + + Pois somente nos he dada + Para que ganhemos nella + O que sabemos. + Se se gasta mal gastada, + Juntamente com perdella + Nos perdemos. + +Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, he a mais +fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão breve he, + + Ponderemos e vejamos + Que ganhamos em viver + Os que nascemos: + Veremos, que não ganhamos, + Senão algum bem fazer, + Se o fazemos. + +E por isso respeitando, + + Que o por vir tal será, + Enthesouremos; + Porque ao certo não sabemos + Quando a morte pedirá + Que lhe paguemos. + +Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte: sendo +mais aborrecida que a verdade, tẽe-se em menos conta que a virtude. Mas +com tudo, com seu pensamento, quando lhe vem á vontade, acarreta mil +pensamentos vãos; que tudo para com ella he hum lume de palhas. Nenhuma +cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem na mor bonança, +como ella; porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras, +dando com os corpos á costa; e, se vem á mão, com as almas no inferno, +que he bem ruim gasalhado. + + E pois todos isto temos, + Não nos engane a riqueza, + Por que tanto esmorecemos, + Traz que vamos; + Ja que temos por certeza + Que quando mais a queremos, + A deixamos. + + Gastâmos em alcançá-la + A vida; e quando queremos + Usar della, + Nos tira a morte lográ-la: + Assi que a Deos perdemos, + E a ella. + +Porque ja ouvirieis dizer: _Ninho feito, pêga morta_. Que me dizeis ao +contentamento do mundo, que toda a dura delle está emquanto se alcança? +Porque acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque +acabado de alcançar, he passado; e maior saudade deixa, do que he o +contentamento que deo. Esperae, por me fazer mercê, que lhe quero dar +humas palavrinhas de proposito. + + Mundo, se te conhecemos, + Porque tanto desejamos + Teus enganos? + E se assi te queremos, + Mui sem causa nos queixamos + De teus danos. + + Tu não enganas ninguem; + Pois a quem te desejar, + Vemos que danas: + Se te querem qual te vem, + Se se querem enganar, + Ninguem enganas. + + Vejão-se os bens que tiverão + Os que mais em alcançar-te + Se esmerárão; + Que huns vivendo, não vivêrão, + E outros, só com deixar-te, + Descansárão. + + Se esta tão clara fé + Te põe claros teus enganos, + Desengana: + Sobejamente mal vê, + Quem com tantos desenganos + Se engana. + + Mas como tu sempre mores + No engano em que andamos, + E que vemos, + Não cremos o que tu podes, + Senão o que desejamos + E queremos. + + Nada te póde estimar + Quem bem quizer conhecer-te + E estimar-te; + + Qu'em te perder ou ganhar, + O mais seguro ganhar-te + He perder-te. + + E quem em ti determina + Descanso poder achar, + Saiba que erra; + Que sendo a alma divina, + Não a póde descansar + Nada da terra. + + Nascemos para morrer, + Morremos para ter vida, + Em ti morrendo: + O mais certo he merecer + Nós a vida conhecida, + Ca vivendo. + + Emfim, mundo, es estalagem, + Em que pousão nossas vidas + De corrida: + De ti levão de passagem + Ser bem ou mal recebidas + Na outra vida. + +Á fuera, á fuera Rodrigo, que eu se muito for por este caminho, darei em +enfadonho, de que me parece me não livrará, nem ainda privilegio de +Cidadão do Porto. E pois me vendo a vós, soffrei-me com meus encargos. E +porque não digais que sou herege de amor, e que lhe não sei orações, +vêdes, vai huma: _Di, Juan, de qué murió Blas?_ com hum pé á Portugueza, +e outro á Castelhana: e não vos espanteis da libré, que eu em qualquer +palmo desta materia perco o norte. E os supplicantes dizem assi: + + Di, Juan, de que murió Blas, + Tan niño y tan mal logrado? + Gil, murió de desamado. + + Dime, Juan, quien se engañó, + Que con amor se engañase, + Pensando que el bien hallase, + Adonde el mal cierto halló? + Despues que el engaño vió, + Que hizo desenganado? + Gil, murió de desamado. + + Travou com elle pendença, + Em ter razão confiado; + Mas Amor, como he letrado, + Houve contr'elle a sentença: + E co'aquella differença, + Disse entre si o coitado: + Gil, morreo de desamado. + + Quem tẽe razão tão cerrada, + Que não saiba, sendo rudo + E sem respeito, + Que sem Deos he tudo nada, + E nada com elle tudo + Sem defeito? + + E sendo isto assi tão certo, + Como todos confessamos + E sabemos; + Não troquemos pelo incerto + O em que tão certo estamos, + Pois o vemos. + +A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Phaeton, +porque del dicho al hecho, vá gran trecho. E de saber as cousas a passar +por ellas, ha mais differença, que de consolar a ser consolado. Mas assi +entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos a reprehendê-lo, e poucos a +emendá-lo. E com isto amaino, beijando essas poderosas mãos huma +quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa nosso Senhor etc. + + * * * * * + +_O seguinte fragmento de uma composição satyrica em prosa e verso, em +que Luis de Camões descreve uns jogos de canas, com que na cidade de Goa +se festejou a successão de Francisco Barreto no governo daquelle Estado, +appareceo na 3.ª edição das suas Rimas, com as duas antecedentes cartas, +e em seguimento da ultima. O intento do poeta he mostrar por meio das +divisas que tirárão os Justadores, que todos elles erão ou sacerdotes de +Baccho, ou parvos, ou homens perdidos._ + +.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa hum morcego; ave +em que foi convertida Alcithoe com as irmãas, por desprezarem os +sacrificios de Baccho. E como aquelle, que se em tal êrro cahisse, não +queria ser convertido em tão baixo animal e tão nojoso, dizia a sua +letra assi em Castelhano: + + Si yo desobedeciere + Á tu deidad santa y pura, + En al mudes mi figura. + +Alguns praguentos quizerão dizer que esta letra era maliciosa, e que não +queria dizer tanto desejar este galante de ser mudado em al, como que +desejava almudes deste licor. Mas he muito grande falsidade, que sendo a +letra assi feita, acaso acertou de sahir aquella palavra, com que +molhava as suas quem tirava a divisa. Do que o innocente Autor, despois +ficou para se enforcar. Mas outro galante, que de fino bebado ja passava +os limites do bom e costumado beber, tirou por divisa huma palmeira; +árvore, que entre os Antigos significava victoria; e ao pé della alguns +ramos de vides e de parreiras pizadas; e dizia a letra assi: + + Ficae vencidas, sem gloria, + Vós vides e vós parreiras; + Porque os ramos das palmeiras + São os que tẽe a victoria. + +Tambem aqui não faltárão praguentos, que quizerão dizer que este devoto, +deixando ja atraz Portugal, commettia com valeroso animo Orracas e +Fullas, tendo em pouco Caparicas e Seixaes. Mas quem ha que fuja de más +linguas, ou de mal costumadas gargantas? + +Outro galante, a quem fazia mal ao estomago beber o vinho agoado, tirou +por divisa huma peça de chamalote sem ágoas, que apresentava Baccho; e +dizia a letra, como por parte do mesmo Baccho: + + Sem ágoas, Senhor, levaio + Se for bom, + Que las aguas de Moncaio + Frias son. + +Aqui não tiverão praguentos que dizer, por ser opinião de physica, serem +melhores os mantimentos simples, que os compostos. + +Outro, que no beber lançava a barra inda mais além que os acima +escritos, tirou por divisa huma salamandra, passeando por cima de humas +brazas de fogo; e a letra dizia: + + En el fuego vivo yo. + +Mas o pintor errando as letras, acertou de pôr: _De fuego la bebo yo_. +Donde os praguentos quizerão adivinhar que este galante bebia Orraca de +fogo. O demonio foi fazer tal êrro, para delle sahir tamanho acêrto. + +Outro devoto, que desque estava quente, dizia dos companheiros, +quaesquer que fossem, o que de cada hum sabía, sem respeito, tirou por +divisa hum demoninhado, lançando os olhos em alvo, escumando e apontando +com o dedo para hum frasco de vinho; e dizia a letra: + + Se fallar demasiado, + Não mo tachem, porque, emfim, + Aquella alma falla em mim. + +Sendo atéqui introduzidos os religiosos de Baccho, pedírão dous d'outra +religião que tambem os deixassem jogar as canas, e que elles tirarião +tal divisa, com que se tirasse a limpo sua habilidade; e sendo entrados +ambos juntos, por certa conformidade que havia entre ambos, trouxerão +pintados nas bandeiras cada hum seu par de pombas; e dizia a letra: + + Se como vós ha hi par, + Vós o podereis julgar. + +Certo, que atéqui chegou a malicia dos homens, porque tão subtilmente +quizerão interpretar a innocencia desta letra, que tomárão a derradeira +syllaba da primeira regra, e ajuntárão-na com a primeira da derradeira, +que vem a dizer _parvos_; e disserão que juntos significavão isso +aquelles dous innocentes. Mal peccado! tão errada anda a maldade humana, +que logo tẽe por parvos aos que sabem pouco! + +Outro homem entrou tambem por adherencia nas canas, o qual dizem que +tinha partes maravilhosas; porque era tão perfeito em suas cousas, que o +seu comer havia de ser o melhor temperado e o mais suave do mundo; e os +seus vestidos erão sempre dos mais finos pannos e sitins, que se +podessem descobrir; e esta perfeição até nos amores e amizades se lhe +estendia, porque com os amigos sempre tinha subtilezas de conversação, e +com as amigas hum fingir que queria o que não queria. E, emfim, até no +jogar usava daquellas manhas todas, as que para ganhar erão necessarias. +E tinha mais hum revez da fortuna recebido, que se lhe estendia desde a +ponta do nariz até huma orelha. Este Senhor tirou por divisa huma camisa +toda lavrada de pontinhos, lavor antigo; e a letra dizia assi: + + Pontos de honrado e sisudo + Sempre na vida quiz ter; + Apontado no viver, + Apontado mais que tudo + Em meu vestir e comer. + Pontos subtis no meu gôsto, + Mais subtis no conversar: + Tanto me vim a apontar, + Que apontado trago o rosto, + E as cartas para jogar. + +Muitos outros homens illustres quizerão ser admittidos nestas festas e +canas, e que se fizera memoria delles, conforme suas qualidades; mas +infinita escritura fôra, segundo todos os homens da India são +assinalados; e por isto esses bastem para servirem de amostra do que ha +nos mais. + +FIM. + + + * * * * * + + + + +NOTAS. + + + + +NOTAS. + +Pag. 16. V. 17. _Não do sol, mas da candea._] Todas as ed.; mas he lição +viciosa, porque se a luz do sol não he sombra daquella idea, que em Deos +está mais perfeita, menos o será a da candea. Exclue o poeta uma e outra +destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto cá nos +seduz e encanta. Corrigimos portanto: + + *Não do sol, nem da candea.* + + +P. 67. V. 4. _De mim tão longe._] Todas as ed.; mas he êrro, porque o +poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e +pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si tão longe? Corrigimos: + + *De si tão longe.* + + +P. 123. V. 25. + + _Vós na minha gloria posto. + Eu na vossa sepultura._] + +Todas as ed. Mas he justamente o contrário: + + *Vós na vossa gloria posto, + Eu na minha sepultura.* + + +P. 124. V. 9. + + _Mas se esse rosto fingido + Quizereis representar, + Houvera por bom partido + Dar-lho a alma do sentido + Para a gloria do lugar._] + +Assim andão corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos: + + *Mas se esse rosto fingido + Quizerão representar, + E houverão por bom partido + Dar-vos a alma do sentido + Para a gloria do lugar: + Víreis etc.* + + +P. 148. V. 1. _Vai o bem fugindo etc._] Estas endeixas, que +evidentemente são do poeta, andão na 1.ª e 2.ª edição das Rimas; na 3.ª +aindaque apontadas no index, forão supprimidas por descuido: nós as +restituimos. + + +P. 164. V. 23. _E amor he effeito d'alma._] Todas as ed. Parece que deve +ser _affeito d'alma_. + + +P. 183. V. 7. _Sem saber do cuidado o que sentia._] Todas as ed.; mas he +êrro: corrigimos: + + *Sem saber de cuidado o que sentia;* + +isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia. + + +P. 185. V. 20. _Ao pé d'uma alta faia etc._] Esta que inadvertidamente +aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes edições, +propriamente não he senão uma Egloga, que se deve ajuntar ás mais. + + +P. 185. V. 24. _Tão queixoso d'Amor_] Faria e Sousa. He vicio: +corrigimos: _Mui queixoso d'Amor_. + + +P. 186. V. 8. _As roxas brancas Nymphas_] Faria e Sousa. He corrupção de +texto: corrigimos: + + *Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião,* + +porque se entende flores. + + +P. 188. V. 15. _Junto do rosmaninho, que he crescer_] Faria e Sousa. He +corrupção de texto: corrigimos: + + *Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.* + + +P. 191. V. 25. _Ai que me deras vida a morte dar-me_] Faria e Sousa. He +corrupção de texto: corrigimos: + + *Ai que me deras vida em morte dar-me.* + + +P. 197. V. 23. _E como debil flamma a quem fallece O radical humor de +que vivia_] Faria e Sousa. He corrupção de texto; porque o radical humor +só pode faltar as plantas: corrigimos: + + *E como debil flor etc.* + + +P. 215. V. 15. + + _Por qual, Senhor, algum eu me trocára. Ou por qual algum rei de + mais grandeza_] + +Faria e Sousa. Não julgamos correcto o dizer: _por qual algum_: devem +portanto estes versos ler-se como nas primeiras edições: + + *Por que Rei, por que duque eu me trocára, + Por que Senhor de grande fortaleza?* + + +P. 220. V. 30. + + _Se o successo he contrário da vontade As obras que são boas, e o + desvio_] + +Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos: + + *Se o successo he contrário da vontade + Nas obras que são boas, e ha desvio etc.* + + +P. 221. V. 41. _Quanto de infamia_] Faria e Sousa. Quãmanha infamia, 3.ª +ed. Esta ultima nos parece ser a lição do poeta. + + +P. 222. V. 29. _Populares a Pallas._] Todas as ed. He vicio de texto: +corrigimos: + + *Populares (ó Pallas) etc.* + + +P. 223. V. 17. _E pois que tudo em vos se permittio_] Faria e Sousa. _No +qual, pois tudo em vós etc._] 3.ª ed. Preferimos esta lição, que nos +parece ser a do poeta. + + +P. 224. V. 11. + + _O querido de Deos por quem peleja + O ar tambem, e o vento socegado, + Ao atambor acode, porque veja + Que quem a Deos ama, he de Deos amado_ + +Assim se lião estes quatro versos na 3.ª edição. Manoel de Faria corrigio: + + _Oh querido de Deos, por quem peleja + O ar tambem, e o vento socegado! + Ao tambor acode, porque veja + Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado._ + +Mas esta apostrophe, por elle introduzida, não tem aqui lugar; porque o +poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas +praias da Persia conseguia victoria daquellas nações tão remotas, as +settas, que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravão no +ar, pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravão; e continúa, +observando que o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o +vento conjurado em seu favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja +que o que a Deos ama, he delle amado e favorecido. Este he o sentido +natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo que estes versos erão imitação +dest'outros de Claudiano: + + _O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris + Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether, + Et conjurati veniunt ad classica venti._ + +julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e não accommodá-los +ao seu intento, metteo aqui esta exclamação forçada, sem nem ao menos +saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: _Yo dudo si esta +exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian._ E assim +estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Nós seguimos a +lição antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue +vicio de cópia, corrigimos: + + *O querido de Deos, por quem peleja, + O ar tambem e o vento socegado + Ao atambor lhe acodem, porque veja + Que o que a Deos ama, he de Deos amado.* + + +P. 225. V. 3. _Com louvores de Apollo celebrado._] Todas as ed.; mas +aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos: + + *Com louvores de Apollo, e celebrado.* + + +P. 228. V. 1. _Depois que a clara aurora a noite escura._] Esta glosa do +Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente não he +obra do poeta: por inadvertencia as conservámos nesta edição. + + +P. 257. L. 7. _Que são muito e valem pouco._] Todas as ed.; mas o que o +poeta quer dizer, he que um par de reales são cousa pouca, mas para um +escudeiro pobre valem muito. Corrigimos: + + *Que são pouco, e valem muito.* + + +P. 258. L. 17. _Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal._] Todas as +ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos: + + *Que tal dizem, que he?* + + +P. 259. L. 1. _E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como +Apostolo, mais piedosa que huma lamentação._] Todas as ed.; mas he +vicio: corrigimos: + + *Que vem podre de amor etc.* + + +P. 259. L. 8. _Olá, Senhores._] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos: + + *Olá, Senhoras.* + + +P. 286. V. 1. _Mas qué amo y cararon._] Lição vulgar. He grande estrago +de texto: corrigimos: + + *Mas qué amo y qué cabron!* + + +P. 369. V. 11. _Esperai, dir-vo-lo-ha._] Faria. He êrro: deve ler-se: + + *Dir-se-vos-ha.* + + +P. 370. V. 14. + + _Pois só desse encantador + Me quero vingar de ti._] + +Lição vulgar: he viciosa: corrigimos: + + *Pois so desse encantador + Me quero vingar em ti.* + + +P. 374. V. 48. _E se mal vos succedesse._] Lição vulgar: he êrro de +cópia ou de impressão: corrigimos: + + *E se mal nos succedesse.* + + +P. 386. L. 11. _O qual informado pelo pastor que a achára, (que era +homem sabio na arte magica) e como a criára._] Lição vulgar; mas a +oração esta imperfeita: corrigimos: *O qual informado pelo pastor etc.; +de como a achára e como a criára.* + + +P. 402. V. 17. _E levar-me a lenha o vento._] Lição vulgar: He viciosa, +porque falta a clausula da oração: corrigimos: + + *He levar-me a lenha o vento.* + + +P. 418. L. 5. _Pois não devia assi de ser posantos e vanselos._] Lição +vulgar. Estranha corrupção de texto: corrigimos: + + *Pois não devia assi de ser, polos Santos Evangelhos.* + + +P. 418. V. 6. _Que os amos e os cangrejos._] Lição vulgar. He viciosa: +corrigimos: + + *Que o amor e os cangrejos.* + + +P. 447. V. 16. + + _Que das montanhas erguidas + D'algum monte não sahisse._] + +Lição vulgar. Não he menos notavel esta corrupção: corrigimos: + + *Que das montanhas erguidas + Algum monstro não sahisse.* + + +P. 453. V. 20. _Se tanto amasse._] Lição vulgar; mas aqui ha vicio de +texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma +exprimir-se. Corrigimos: + + *Se eu tanto amasse.* + + +Pag. 467. V. 12. + + _Que quando por accidente + Da fortuna desastrado + Fosse apartado da gente + N'um lugar onde somente + Das feras fosse guardado: + E por ferro, fogo e ágoa + Buscar minha morte iria._] + +Lição vulgar. Mas a corrupção de texto não póde ser mais visivel. +Comtudo não difficil atinar-se com o sentido do poeta. + +Acaba de dizer Dionysa a Filodemo que tomára ver-se dalli cem mil +leguas, pelo perigo que corria a sua honestidade. Responde-lhe este, que +isso desejava tambem elle que succedesse; porque nesse caso teria +occasião de fazer por ella uma fineza, que fosse mais de agradecer; e +vem a ser, que quando ella por algum caso da fortuna fosse apartada da +gente n'um deserto onde não tivesse por guarda, senão as feras; por +ferro, fogo e ágoa lá iria elle buscar a sua morte. E porque não póde +ser outro o sentido do poeta, corrigimos: + + *Que quando por accidente + A fortuna desastrada + Vos apartasse da gente + N'um deserto, onde somente + Das feras fosseis guardada; + Lá por ferro, fogo e ágoa + Buscar minha morte iria etc.* + + +P. 475. L. 20. _Que estas cidras não se desistem em nove dias, senão em +nove mezes._] Lição vulgar. Não ha maior corrupção de texto. Que tem as +cidras que desistir? Que o poeta não disse um tal absurdo, he fóra de +toda a dúvida. O que elle disse foi isto: + +*E porque estes sirgos não se desistem em nove dias, senão em nove +mezes, foi-lhe a elle necessario acolher-se com ella etc.* + +Sirgo he o envolucro, onde se encerra o bicho da seda, quando passa ao +estado de metamorphose, e onde se conserva doze dias, ou nove, como diz +o poeta. Mas a ignorancia transformou sirgos em cidras. + + +P. 482. L. 7. Porque quando cuido que sem peccado que me obrigasse a +tres dias de purgatorio, passei tres mil de más linguas, peores tenções, +damnadas vontades, nascidas de pura inveja de verem _su amada yedra de +si arrancada, y en otro muro asida..._ Aqui ha lacuna porque falta o +verbo da oração. + + +P. 489. V. 28. + + _A quem não assopre a morte + Nem sopre o fogo da vida._] + +Lição vulgar; mas a do poeta he: + + *A quem o assôpro da morte + Não sopre o fogo da vida.* + + +P. 490. L. 26. _Tres cousas não se soffrem sem discordia; companhia, +namorar, mandar villão ruim sobre cousa de seu interesse._] Todas as ed. +Mas o vicio he palpavel: corrigimos: *Duas cousas não se soffrem sem +discordia; companhia no amar, mandar villão ruim sobre cousa de seu +interesse.* + + + + +INDEX. + + +REDONDILHAS &c. + + Pag. + + 100 A alma que está offrecida + 61 A dor que a minha alma sente + 113 A morte, pois que sou vosso + 71 Amor loco, amor loco + 57 Amor que todos offende + 63 Amores de huma casada + 66 Apartárão-se os meus olhos + 126 Aquella captiva + + 107 Campos bem-aventurados + 99 Catharina bem promette + 98 Cinco gallinhas e meia + 136 Coifa de beirame + 103 Com razão queixar-me posso + 76 Com vossos olhos, Gonçalves + 38 Conde, cujo illustre peito + 33 Corre sem vela e sem leme + 93 Crescem, Camilla, os abrolhos + + 53 Da doença em que ora ardeis + 62 D'alma e de quanto tiver + 28 Dama d'estranho primor + 56 De atormentado e perdido + 70 De dentro tengo mi mal + 65 De pequena tomei amor + 76 De que me serve fugir + 70 De vuestros ojos centellas + 54 Deo, Senhora, por sentença + 91 Deos te salve, Vasco amigo + 60 Descalça vai pela neve + 102 Descalça vai para a fonte + 143 Dó la mi ventura + + 63 Enforquei minha esperança + 80 Esconjuro-te, Domingas + 101 Esperei, ja não espero + 46 Este mundo es el camino + + 67 Falso cavalleiro ingrato + 101 Ferro, fogo, frio e calma + 125 Foi-se gastando a esperança + + 78 Ha hum bem que chega e foge + + 132 Irme quiero, madre + + 112 Ja não posso ser contente + 119 Justa fue mi perdicion + + 105 Mas porém a que cuidados + 140 Menina formosa + 52 Menina formosa e crua + 75 Menina, não sei dizer + 129 Menina dos olhos verdes + 118 Minh'alma, lembrae-vos della + + 86 Na fonte está Leonor + 57 Não estejais aggravada + 89 Não posso chegar ao cabo + 74 Não sei se m'engana Helena + + 104 Ojos, herido me habeis + 55 Olhae que dura sentença + 94 Olhos em que estão mil flores + 78 Olhos, não vos mereci + 79 Os bons vi sempre passar + + 69 Para que me dan tormento + 145 Pastora da serra + 43 Peço-vos que me digais + 83 Pequenos contentamentos + 84 Perdigão perdeo a penna + 80 Perguntais-me quem me mata + 85 Pois a tantas perdições + 73 Pois damno me faz olhar-vos + 72 Pois he mais vosso que meu + 92 Porqué no miras, Giraldo + 64 Puz o coração nos olhos + + 60 Qual terá culpa de nós + 77 Quando me quer enganar + 87 Que diabo ha tão damnado + 122 Qué veré que me contente + 103 Quem disser que a barca pende + 58 Quem no mundo quizer ser + 128 Quem ora soubesse + 94 Quem se confia em huns olhos + 21 Querendo escrever hum dia + + 123 Retrato, vós não sois meu + + 134 Saudade minha + 81 Se a alma ver-se não póde + 68 Se de meu mal me contento + 41 Se derivais da verdade + 137 Se Helena apartar + 83 Se me desta terra for + 128 Se me levão agoas + 45 Se n'alma e no pensamento + 35 Se não quereis padecer + 51 Se vossa Dama vos dá + 45 Sem olhos vi o mal claro + 117 Sem ventura he por demais + 116 Sem vós, e com meu cuidado + 59 Senhora, pois me chamais + 73 Senhora, pois minha vida + 40 Senhora, s'eu alcançasse + 95 Sois formosa e tudo tendes + 9 Sôbolos rios que vão + 30 Suspeitas, que me quereis + + 141 Tende-me mão nelle + 121 Todo es poco lo posible + 109 Trabalhos descansarião + 110 Triste vida se me ordena + 131 Trocae o cuidado + 118 Tudo póde huma affeição + 98 Tudo tendes singular + + 148 Vai o bem fugindo + 72 Vêde bem se nos meus dias + 115 Vejo-a n'alma pintada + 79 Venceo-me Amor, não o nego + 132 Ver e mais guardar + 138 Verdes são os campos + 139 Verdes são as hortas + 90 Vi chorar huns claros olhos + 135 Vida da minha alma + 68 Vós, Senhora, tudo tendes + 146 Vós sois huma Dama + 122 Vos teneis mi corazon + 88 Vossa Senhoria creia + 82 Vosso bem querer, Senhora + +SEXTINAS. + + 152 A culpa de meu mal só tem meus olhos + 151 Foge-me pouco a pouco a curta vida + 154 Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia + 155 Sempre me queixarei desta crueza + +ELEGIAS. + + 194 A vida me aborrece, a morte quero + 185 Ao pé d'hum'alta faia vi sentado + 160 Aquella que de amor descomedido + 175 Aquelle mover de olhos excellente + 190 Belisa, unico bem desta alma minha + 172 Depois que Magalhães teve tecida [4] + 177 Entre rusticas serras e fragosas + 208 Juizo extremo, horrifico e tremendo + 164 O poeta Simonides fallando + 157 O sulmonense Ovidio desterrado + 196 Que tristes novas, ou que novo damno [5] + 202 Se quando contemplamos as secretas + + [4] A D. Leoniz Pereira, havendo-lhe Pedro de Magalhães + Gandavo dedicado o seu livro intitulado: _Historia da + Provincia de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos + Brasil_. Impresso em Lisboa 1576. + + [5] Á morte de D. Miguel de Menezes na India, filho de D. + Henrique de Menezes, Governador da casa do Civil. Foi + dirigida a seu irmão D. Philipe de Menezes. + +EPISTOLAS. + + 217 Como nos vossos hombros tão constantes [6] + 223 Mui alto Rei a quem os ceos em sorte [7] + 210 Quem póde ser no mundo tão quieto [8] + 225 Senhora se encobrir por alguma arte + + [6] A D. Constantino de Bragança, Viso-Rei da India. + + [7] Sobre a setta que o Papa enviou a ElRei D. Sebastião + no anno de 1575. + + [8] A D. Antonio de Noronha, sôbre o desconcêrto do mundo. + +OITAVAS. + + 232 Cá nesta Babylonia adonde mana + 228 Despois que a clara Aurora a noite escura + 234 D'huma formosa virgem desposada + +COMEDIAS. + + 255 ElRei Seleuco + 301 Os Amphitriões + 385 Filodemo + +CARTAS. + + 481 Carta 1.ª + 484 Carta 2.ª + + 503 NOTAS + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões + Tomo III, by Luís Camões + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES *** + +***** This file should be named 37192-0.txt or 37192-0.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/7/1/9/37192/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Obras Completas de Luis de Cames, Tomo III + +Author: Lus Cames + +Release Date: August 24, 2011 [EBook #37192] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +Notas de transcrio: + +O texto aqui transcrito, uma cpia integral e inalterada do livro +impresso em 1843. + +Mantivemos a grafia usada na edio impressa, tendo sido corrigidos alguns +pequenos erros tipogrficos evidentes, que no alteram a leitura do texto, +e que por isso no considermos necessrio assinal-los. Mantivemos +inclusivamente as eventuais incoerncias de grafia de algumas palavras, em +particular quanto acentuao. + + + * * * * * + + + + + + CLASSICOS PORTUGUEZES. + + TOMO II. + + CAMES. + + II. + + + +PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT, +Rua Racine, 28, junto ao Odeon. + + + +OBRAS COMPLETAS + +DE + +LUIS DE CAMES, + +CORRECTAS E EMENDADAS + +PELO CUIDADO E DILIGENCIA + +DE + +J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro. + + +TOMO TERCEIRO. + + +LISBOA. + +ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ, +NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY, +3, quai Malaquais, prs le pont des Arts. + +1843 + + + + + * * * * * + +RIMAS. + + * * * * * + + +RIMAS. + + + + +REDONDILHAS. + + + Sbolos rios que vo + Por Babylonia, me achei, + Onde sentado chorei + As lembranas de Sio, + E quanto nella passei. + Alli o rio corrente + De meus olhos foi manado; + E tudo bem comparado, + Babylonia ao mal presente, + Sio ao tempo passado. + + Alli lembranas contentes + N'alma se representro; + E minhas cousas ausentes + Se fizero to presentes, + Como se nunca passro. + Alli, despois d'acordado, + Co'o rosto banhado em goa, + Deste sonho imaginado, + Vi que todo o bem passado + No he gsto, mas he mgoa. + + E vi que todos os danos + Se causavo das mudanas, + E as mudanas dos anos; + Onde vi quantos enganos + Faz o tempo s esperanas. + Alli vi o maior bem + Quo pouco espao que dura; + O mal quo depressa vem; + E quo triste estado tem + Quem se fia da ventura. + + Vi aquillo que mais val + Qu'ento s'entende melhor, + Quando mais perdido for: + Vi ao bem succeder mal, + E ao mal muito peor. + E vi com muito trabalho + Comprar arrependimento: + Vi nenhum contentamento; + E vejo-me a mi, qu'espalho + Tristes palavras ao vento. + + Bem so rios estas goas + Com que banho este papel: + Bem parece ser cruel + Variedade de mgoas, + E confuso de Babel. + Como homem, que por exemplo + Dos trances em que se achou, + Despois que a guerra deixou, + Pelas paredes do templo + Suas armas pendurou: + + Assi, despois qu'assentei + Que tudo o tempo gastava, + Da tristeza que tomei, + Nos salgueiros pendurei + Os orgos com que cantava. + Aquelle instrumento ledo + Deixei da vida passada, + Dizendo: Musica amada, + Deixo-vos neste arvoredo + memoria consagrada. + + Frauta minha, que tangendo + Os montes fazieis vir + Par'onde estaveis, correndo; + E as goas, que hio descendo, + Tornavo logo a subir; + Jamais vos no ouviro + Os tigres, que s'amansavo; + E as ovelhas, que pastavo, + Das hervas se fartaro, + Que por vos ouvir deixavo. + + Ja no fareis docemente + Em rosas tornar abrolhos + Na ribeira florecente; + Nem poreis freio corrente, + E mais se for dos meus olhos. + No movereis a espessura, + Nem podereis ja trazer + Atraz vs a fonte pura; + Pois no pudestes mover + Desconcertos da ventura. + + Ficareis offerecida + Fama, que sempre vela, + Frauta de mi to querida; + Porque mudando-se a vida, + Se mudo os gostos della. + Acha a tenra mocidade + Prazeres accommodados; + E logo a maior idade + Ja sente por pouquidade + Aquelles gostos passados. + + Hum gsto, que hoje s'alcana, + manha ja o no vejo: + Assi nos traz a mudana + D'esperana em esperana, + E de desejo em desejo. + Mas em vida to escassa + Qu'esperana ser forte? + Fraqueza da humana sorte, + Que quanto da vida passa + Est recitando a morte! + + Mas deixar nesta espessura + O canto da mocidade: + No cuide a gente futura + Que ser obra da idade + O que he fra da ventura. + Qu'idade, tempo, e espanto + De ver quo ligeiro passe, + Nunca em mi pudero tanto, + Que, postoque deixo o canto, + A causa delle deixasse. + + Mas em tristezas e nojos, + Em gsto e contentamento; + Por sol, por neve, por vento, + _Tendr presente los ojos + Por quien muero tan contento._ + Orgos e frauta deixava, + Despjo meu to querido, + No salgueiro que alli'stava, + Que para tropheo ficava + De quem me tinha vencido. + + Mas lembranas da affeio + Que alli captivo me tinha, + Me perguntro ento, + Qu'era da musica minha, + Que eu cantava em Sio? + Que foi daquelle cantar, + Das gentes to celebrado? + Porque o deixava de usar, + Pois sempre ajuda a passar + Qualquer trabalho passado? + + Canta o caminhante ledo + No caminho trabalhoso + Por entre o espsso arvoredo; + E de noite o temeroso + Cantando refreia o medo. + Canta o preso docemente, + Os duros grilhes tocando; + Canta o segador contente; + E o trabalhador, cantando, + O trabalho menos sente. + + Eu qu'estas cousas senti + N'alma de mgoas to cheia, + Como dir, respondi, + Quem alheio est de si + Doce canto em terra alheia? + Como poder cantar + Quem em chro banha o peito? + Porque, se quem trabalhar + Canta por menos cansar, + Eu s descansos engeito. + + Que no parece razo, + Nem sera cousa idonia, + Por abrandar a paixo + Que cantasse em Babylonia + As cantigas de Sio. + Que quando a muita graveza + De saudade quebrante + Esta vital fortaleza, + Antes morra de tristeza, + Que por abrand-la cante. + + Que se o fino pensamento + S na tristeza consiste, + No tenho medo ao tormento: + Que morrer de puro triste, + Que maior contentamento? + Nem na frauta cantarei + O que passo, e passei ja, + Nem menos o escreverei; + Porque a penna cansar, + E eu no descansarei. + + Que se vida to pequena + S'accrescenta em terra estranha; + E se Amor assi o ordena, + Razo he que canse a penna + D'escrever pena tamanha. + Porm, se para assentar + O que sente o corao, + A penna ja me cansar, + No canse para voar + A memoria em Sio. + + Terra bem-aventurada, + Se por algum movimento + D'alma me fores tirada, + Minha penna seja dada + A perptuo esquecimento. + A pena deste destrro, + Qu'eu mais desejo esculpida + Em pedra, ou em duro ferro, + Essa nunca seja ouvida, + Em castigo de meu rro. + + E se eu cantar quizer + Em Babylonia sujeito, + Hierusalem, sem te ver, + A voz, quando a mover, + Se me congele no peito; + A minha lingua se apegue + s fauces, pois te perdi, + S'em quanto viver assi + Houver tempo, em que te negue, + Ou que m'esquea de ti. + + Mas tu, terra de glria. + S'eu nunca vi tua essencia, + Como me lembras na ausencia? + No me lembras na memoria, + Seno na reminiscencia: + Que a alma he taboa rasa, + Que com a escrita doutrina + Celeste tanto imagina, + Que va da propria casa, + E sobe patria divina. + + No he logo a saudade + Das terras onde nasceo + A carne, mas he do Ceo, + Daquella santa Cidade, + Donde est'alma descendeo. + E aquella humana figura, + Que c me pde alterar, + No he quem se ha de buscar; + He raio da formosura, + Que s se deve d'amar. + + Que os olhos, e a luz que ateia + O fogo que c sujeita, + No do sol, nem da candeia, + He sombra daquella ideia, + Qu'em Deos est mais perfeita. + E os que c me captivro, + So poderosos affeitos + Qu'os coraes tee sujeitos; + Sophistas, que m'ensinro + Maos caminhos por direitos. + + Destes o mando tyrano + M'obriga com desatino + A cantar ao som do dano + Cantares d'amor profano, + Por versos d'amor divino. + Mas eu, lustrado co'o santo + Raio, na terra de dor, + De confuses e d'espanto + Como hei de cantar o canto, + Que s se deve ao Senhor? + + Tanto pde o beneficio + Da graa que d saude, + Que ordena que a vida mude: + E o qu'eu tomei por vcio, + Me faz grao para a virtude; + E faz qu'este natural + Amor, que tanto se prza, + Suba da sombra ao real, + Da particular belleza + Para a belleza geral. + + Fique logo pendurada + A frauta com que tangi, + Hierusalem sagrada, + E tome a lyra dourada + Para s cantar de ti; + No captivo e ferrolhado + Na Babylonia infernal, + Mas dos vicios desatado, + E c desta a ti levado, + Patria minha natural. + + E s'eu mais der a cerviz + A mundanos accidentes, + Duros, tyrannos e urgentes, + Risque-se quanto ja fiz + Do gro livro dos viventes. + E, tomando ja na mo + A lyra santa e capaz + D'outra mais alta inveno, + Calle-se esta confuso, + Cante-se a viso de paz. + + Oua-me o pastor e o rei, + Retumbe este accento santo, + Mova-se no mundo espanto; + Que do que ja mal cantei + A palinodia ja canto. + A vs s me quero ir, + Senhor, e gro Capito + Da alta trre de Sio, + qual no posso subir, + Se me vs no dais a mo. + + No gro dia singular, + Que na lyra em douto som + Hierusalem celebrar, + Lembrae-vos de castigar + Os ruins filhos de Edom. + Aquelles que tintos vo + No pobre sangue innocente, + Soberbos co'o poder vo, + Arraz-los igualmente: + Conheo que humanos so. + + E aquelle poder to duro + Dos affectos com que venho, + Qu'encendem alma e engenho; + Que ja m'entrro o muro + Do livre arbitrio que tenho; + Estes, que to furiosos + Gritando vem a escalar-me, + Maos espiritos damnosos, + Que querem como forosos + Do alicerce derribar-me; + + Derribae-os, fiquem ss, + De fras fracos, imbelles; + Porque no podemos ns, + Nem com elles ir a vs, + Nem sem vs tirar-nos delles. + No basta minha fraqueza + Para me dar defenso, + Se vs, santo Capito, + Nesta minha Fortaleza + No puzerdes guarnio. + + E tu, carne, qu'encantas, + Filha de Babel to feia, + Toda de miseria cheia, + Que mil vezes te levantas + Contra quem te senhoreia; + Beato s pde ser + Quem co'a ajuda celeste + Contra ti prevalecer, + E te vier a fazer + O mal que lhe tu fizeste: + + Quem com disciplina crua + Se fere mais que huma vez; + Cuja alma, de vicios nua, + Faz nodas na carne sua, + Que ja a carne n'alma fez. + E beato quem tomar + Seus pensamentos recentes, + E em nascendo os affogar, + Por no virem a parar + Em vicios graves e urgentes: + + Quem com elles logo der + Na pedra do furor santo, + E batendo os desfizer + Na Pedra, que veio a ser + Emfim cabea do canto: + Quem logo, quando imagina + Nos vicios da carne m, + Os pensamentos declina + quella Carne divina, + Que na Cruz esteve ja. + + Quem do vil contentamento + C deste mundo visibil, + Quanto ao homem for possibil, + Passar logo entendimento + Para o mundo intelligibil; + Alli achar alegria + Em tudo perfeita, e cheia + De to suave harmonia, + Que nem por pouca recreia, + Nem por sobeja enfastia. + + Alli ver to profundo + Mysterio na summa Alteza, + Que, vencida a natureza, + Os mores faustos do mundo + Julgue por maior baixeza. + tu, divino aposento, + Minha patria singular, + Se s com te imaginar, + Tanto sobe o entendimento, + Que fara se em ti se achar? + + Ditoso quem se partir + Para ti, terra excellente, + To justo e to penitente, + Que despois de a ti subir, + L descanse eternamente! + + * * * * * + + +CARTA A HUMA DAMA. + + Querendo escrever hum dia + O mal, que tanto estimei; + Cuidando no que poria, + Vi Amor que me dizia: + Escreve, qu'eu notarei. + E como para se ler + No era historia pequena + A que de mi quiz fazer, + Das azas tirou a penna + Com que me fez escrever. + + E, logo como a tirou, + Me disse: Aviva os espritos; + Que pois em teu favor sou, + Esta penna, que te dou, + Fara voar teus escritos. + E dando-me a padecer + Tudo o que quiz que puzesse, + Pude emfim delle dizer, + Que me deo com qu'escrevesse + O que me deo a escrever. + + Eu qu'este engano entendi, + Disse-lhe: Qu'escreverei? + Respondeo, dizendo assi: + Altos effeitos de mi. + E daquella a quem te dei. + E ja que te manifesto + Todas minhas estranhezas, + Escreve, pois que te przas, + Milagres d'hum claro gesto, + E de quem o vio, tristezas. + + Ah Senhora, em quem se apura + A f de meu pensamento! + Escutae e estae a tento, + Que com vossa formosura + Iguala Amor meu tormento. + E, postoque to remota + Estejais de m'escutar + Por me no remediar, + Ouvi, que pois Amor nota, + Milagres se ho de notar. + + Escrevem varios Authores, + Que junto da clara fonte + Do Ganges, os moradores + Vivem do cheiro das flores + Que nascem naquelle monte. + Se os sentidos podem dar + Mantimento ao viver, + No he logo d'espantar, + S'estes vivem de cheirar, + Que viva eu s de vos ver. + + Huma rvore se conhece, + Que na geral alegria + Ella tanto s'entristece, + Que, como he noite, florece, + E perde as flores de dia. + Eu, qu'em ver-vos sinto o preo + Qu'em vossa vista consiste, + Em a vendo m'entristeo, + Porque sei que no mereo + A glria de ver-me triste. + + Hum Rei de grande poder + Com veneno foi criado, + Porque, sendo costumado, + No lhe pudesse empecer, + Se despois lhe fosse dado. + Eu, que criei de pequena + A vista a quanto padece, + Desta sorte m'acontece, + Que no me faz mal a pena, + Seno quando me fallece. + + Quem da doena Real + De longe enfrmo se sente, + Por segredo natural + Fica so vendo somente + Hum volatil animal. + Do mal, que Amor em mi cria, + Quando aquella Phenix vejo, + So de todo ficaria; + Mas fica-me hydropesia, + Que quanto mais, mais desejo. + + Da vibora he verdadeiro, + Se a consorte vai buscar, + Qu'em se querendo juntar, + Deixa a peonha primeiro, + Porque lh'impede o gerar. + Assi quando m'apresento + vossa vista inhumana, + A peonha do tormento + Deixo parte, porque dana + Tamanho contentamento. + + Querendo Amor sustentar-se, + Fez huma vontade esquiva + D'huma estatua namorar-se: + Despois, por manifestar-se, + Converteo-a em mulher viva. + De quem m'irei eu queixando, + Ou quem direi que m'engana + Se vou seguindo e buscando + Huma imagem, que d'humana + Em pedra se vai tornando? + + D'huma fonte se saba, + Da qual certo se provava + Que quem sbre ella jurava, + Se falsidade dizia, + Dos olhos logo cegava. + Vs, que minha liberdade, + Senhora, tyrannizais, + Injustamente mandais, + Quando vos fallo verdade, + Que vos no possa ver mais. + + Da palma s'escreve e canta + Ser to dura e to forosa, + Que pzo no a quebranta, + Mas antes, de presunosa, + Com elle mais se levanta. + Co'o pzo do mal que dais, + A constancia qu'em mi vejo, + No somente ma dobrais, + Mas dobra-se meu desejo, + Com qu'ento vos quero mais. + + Se alguem os olhos quizer + s andorinhas quebrar, + Logo a me, sem se deter, + Huma herva lhe vai buscar + Que lhes faz outros nascer. + Eu que os olhos tenho attento + Nos vossos, qu'estrellas so, + Cego-se os do entendimento, + Mas nascem-me os da razo + De folgar com meu tormento. + + L para onde o sol sahe, + Descobrimos, navegando, + Hum novo rio admirando, + Que o lenho que nelle cahe, + Em pedra se vai tornando. + No s'espantem disto as gentes; + Mais razo ser qu'espante + Hum corao to possante, + Que com lagrimas ardentes + Se converte em diamante. + + Pde hum mudo nadador + Na linha e cana influir + To venenoso vigor, + Que faz mais no se bulir + O brao do pescador. + Se comeo de beber + Deste veneno excellente + Meus olhos, sem se deter, + No se sabem mais mover + A nada que se apresente. + + Isto so claros sinais + Do muito qu'em mi podeis: + Nem podeis desejar mais; + Que se ver-vos desejais, + Em mi claro vos vereis. + E quereis ver a que fim + Em mi tanto bem se ps? + Porque quiz Amor assim, + Que por vos verdes a vs, + Tambem me visseis a mim. + + Dos males que m'ordenais, + Qu'inda tenho por pequenos, + Sabei, se mos escutais, + Que ja no sei dizer mais, + Nem vs podeis saber menos. + Mas ja que a tanto tormento + No se acha quem resista, + Eu, Senhora, me contento + De terdes meu soffrimento + Por alvo de vossa vista. + + Quantos contrarios consente + Amor, por mais padecer! + Que aquella vista excellente, + Que me faz viver contente, + Me faa to triste ser! + Mas dou este entendimento + Ao mal, que tanto m'offende, + Como na vela s'entende, + Que se se apaga co'o vento, + Co'o mesmo vento se accende. + + Exprimentou-se algum'hora + D'ave, que chamo Camo, + Que se da casa, onde mora, + V adltera senhora, + Morre de pura paixo. + A dor he to sem medida, + Que remedio lhe no val. + Mas oh ditoso animal, + Que pde perder a vida, + Quando v tamanho mal! + + Nos gstos de vos querer + Estava agora enlevado, + Se no fra salteado + Das lembranas de temer + Ser por outrem desamado. + Estas suspeitas to frias, + Com que o pensamento sonha, + So assi como as harpias, + Que as mais doces iguarias + Vo converter em peonha. + + Faz-me este mal infinito + No poder ja mais dizer, + Por no vir a corromper + Os gostos que tenho escrito, + Co'os males qu'hei d'escrever. + No quero que s'aprege + Mal tanto para encobrir, + Porque em quanto aqui s'ouvir + Nenhuma outra cousa se, + Que a glria de vos servir. + + * * * * * + + + MESMA. + + Dama d'estranho primor, + Se vos for + Pezada minha firmeza, + Olhae no me deis tristeza, + Porque a converto em amor. + E se cuidais + De me matar, quando usais + D'esquivana, + Irei tomar por vingana + Amar-vos cada vez mais. + + Porm vosso pensamento, + Como isento, + Seguir sua teno, + Crendo qu'em tanta affeio + No haja accrescentamento. + No creais + Que desta arte vos faais + Invencibil; + Que Amor sbre o impossibil + Amostra que pde mais. + + Mas ja da teno que sigo, + Me desdigo; + Que se ha tanto poder nelle, + Tambem vs podeis mais qu'elle + Neste mal que usais comigo. + Mas se for + O vosso poder maior + Entre ns, + Quem poder mais que vs, + Se vs podeis mais que Amor? + + Despois que, Dama, vos vi, + Entendi, + Que perdra Amor seu preo; + Pois o favor que lh'eu peo, + Vos pede elle para si. + Nem duvido + Que no pde, de sentido, + Resistir; + Pois em vez de vos ferir, + Ficou de vos ver ferido. + + Mas pois vossa vista he tal + Em meu mal, + Que posso de vs querer? + Que mal poderei valer, + Onde o mesmo Amor no val. + Se attentar, + Nenhum bem posso esperar: + E oxal + Que vos alembrasse ja, + Sequer para me matar. + + Mas nem com isto creais + Que faais + Meus servios mais pequenos; + Porqu'eu, quando espero menos, + Sabei qu'ento quero mais. + Nada espero; + Mas de mi crede este fero, + Qu'em ser vosso, + Vos quero tudo o que posso, + E no posso quanto quero. + + S por esta phantasia + Merecia + De meus males algum fruito; + E no era certo muito + Para o muito que queria. + De maneira, + Que no he, na derradeira, + Grande espanto, + Que quem, Dama, vos quer tanto, + Que outro tanto de vs queira. + + * * * * * + + +A HUMAS SUSPEITAS. + + Suspeitas, que me quereis? + Qu'eu vos quero dar lugar + Que de certas me mateis, + Se a causa, de que nasceis, + Vs quizesseis confessar. + Que de no lhe achar desculpa, + A grande mgoa passada + Me tee a alma to cansada, + Que se me confessa a culpa, + Te-la-hei por desculpada. + + Ora vde que perigos + Tee cercado o corao, + Que no meio da oppresso + A seus proprios inimigos + Vai pedir a defenso! + Que, suspeitas, eu bem sei, + Como se claro vos visse, + Que he certo o que ja cuidei; + Que nunca mal suspeitei, + Que certo me no sahisse. + + Mas queria esta certeza + Daquella que me atormenta; + Porque em tamanha estreiteza + Ver que disso se contenta, + He descanso da tristeza. + Porque se esta s verdade + Me confessa limpa e nua + De cautela e falsidade, + No pde a minha vontade + Desconforme ser da sua. + + Por segredo namorado + He certo estar conhecido + Que o mal de ser engeitado + Mais atormenta sabido + Mil vezes, que suspeitado. + Mas eu s, em quem se ordena + Novo modo de querella, + De medo da dor pequena, + Venho a achar na maior pena + O refrigerio para ella. + + Ja nas iras m'inflammei, + Nas vinganas, nos furores, + Que ja doudo imaginei; + E ja mais doudo jurei + De arrancar d'alma os amores. + Ja determinei mudar-me + Para outra parte com ira; + Despois vim a concertar-me + Que era bom certificar-me + No que mostrava a mentira. + + Mas despois ja de cansadas + As furias do imaginar, + Vinha emfim a rebentar + Em lagrimas magoadas, + E bem para magoar. + E deixando-se vencer + Os meus fingidos enganos + De to claros desenganos, + No posso menos fazer, + Que contentar-me co'os danos. + + E pedir que me tirassem + Este mal de suspeitar + Que me vejo atormentar, + Indaque me confessassem + Quanto me pde matar. + Olhae bem se me trazeis, + Senhora, psto no fim; + Pois neste estado a que vim, + Para que vs confesseis, + Se do os tratos a mim. + + Mas para que tudo possa + Amor, que tudo encaminha, + Tal justia lhe convinha; + Porque da culpa, qu'he vossa, + Venha a ser a morte minha. + Justia to mal olhada + Olhae com que cr se doura, + Que quero, ao fim da jornada, + Que vs sejais confessada, + Para qu'eu seja o que moura! + + Pois confessae-vos jagora, + Indaque tenho temor + Que nem nesta ltima hora + Me ha de perdoar Amor + Vossos peccados, Senhora. + E assi vou desesperado, + Porque estes so os costumes + D'amor que he mal empregado; + Do qual vou ja condemnado + Ao inferno de ciumes. + + * * * * * + + +LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO.[1] + + Corre sem vela e sem leme + O tempo desordenado, + D'hum grande vento levado: + O que perigo no teme, + He de pouco exprimentado. + As redeas trazem na mo + Os que redeas no tivero: + Vendo quanto mal fizero + A cobia e ambio, + Disfarados se acolhro. + + A nao, que se vai perder, + Destrue mil esperanas: + Vejo o mao que vem a ter; + Vejo perigos correr + Quem no cuida que ha mudanas. + Os que nunca em sella andro, + Na sella postos se vem: + De fazer mal no deixro; + De demonio hbito tem + Os que o justo profanro. + + Que poder vir a ser + O mal nunca refreado? + Anda, por certo, enganado + Aquelle que quer valer, + Levando o caminho errado. + He para os bons confuso, + Ver que os maos prevalecro; + Que, psto se detivero + Com esta simulao, + Sempre castigos tivero: + + No porque governe o leme + Em mar envolto e turbado, + Que tee seu rumo mudado, + Se perece grita e geme + Em tempo desordenado. + Terem justo galardo, + E dor dos que merecro, + Sempre castigos tivero + Sem nenhuma redempo, + Postoque se detivero. + + Na tormenta, se vier, + Desespere na bonana, + Quem manhas no sabe ter: + Sem que lhe valha gemer, + Ver falsar a balana. + Os que nunca trabalhro, + Tendo o que lhe no convem, + Se ao innocente enganro, + Perdero o eterno bem, + Se do mal no s'apartro. + +[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, no parece obra do poeta. +Nelle no fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria +passar-lhe um trao por cima: o que no ousamos fazer por andar em +todas as edies. + + _Nota dos editores._ + + * * * * * + + +CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS. + +_A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:_ + + Se no quereis padecer + Huma, ou duas horas tristes, + Sabeis que haveis de fazer? + Volveros por d venistes, + Que aqui no ha que comer. + E, postoque aqui leais + Trovinha que vos enleia, + Corrido no estejais; + Porque por mais que corrais, + No heis de alcanar a ceia. + +_A segunda a D. Francisco de Almeida._ + + Heliogabalo zombava + Das pessoas convidadas; + E de sorte as enganava, + Que as iguarias que dava, + Vinho nos pratos pintadas. + No temais tal travessura, + Pois ja no pde ser nova; + Porque a ca est segura + De vos no vir em pintura; + Mas ha de vir toda em trova. + +_A terceira a Heitor da Silveira._ + + Ca no a papareis: + Com tudo, porque no minta, + Para beber achareis, + No Caparica, mas tinta, + E mil cousas que papeis. + E vs torceis o focinho + Com esta amphibologia? + Pois sabei que a Poesia + Vos d aqui tinta por vinho, + E papis por iguaria. + +_A quarta a Joo Lopes Leito, a quem o Author fez huns versos, que vo +adiante, sbre huma pea de cacha, que deo a huma Dama._ + + Porque os que vos convidro + Vosso estomago no danem, + Por justa causa ordenro, + Se trovas vos enganro, + Que trovas vos desenganem. + Vs tereis isto por tacha, + Converter tudo em trovar; + Pois se me virdes zombar, + No cuideis, Senhor, que he cacha, + Que aqui no ha que cachar. + +_Responde Joo Lopes._ + + Pezar ora no de so, + Eu juro pelo Ceo bento, + Se de comer no me do, + Qu'eu no sou camaleo, + Que m'hei de manter do vento. + +_Responde o Author._ + + Senhor, no vos agasteis, + Porque Deos vos prover; + E se mais saber quereis, + Nas costas deste lereis + As iguarias que ha. + +_Virado o papel, dizia assi:_ + + Tendes nem migalha assada; + Cousa nenhuma de mlho; + E nada feito em empada; + E vento de tigelada; + Picar no dente em remlho: + De fumo tendes taalhos; + Ave da pena que sente + Quem da fome anda doente; + Bocejar de vinho e d'alhos; + Manjar em branco excellente. + +_A derradeira a Francisco de Mello._ + + D'hum homem, que teve o scetro + Da va maravilhosa, + No foi cousa duvidosa, + Que se lhe tornava em metro + O qu'hia a dizer em prosa. + De mi vos quero affirmar + Que faa cousas mais novas, + De quanto podeis cuidar; + E esta ca, que he manjar, + Vos faa na boca em trovas. + + * * * * * + + +NA INDIA AO VISO-REI, COM O MOTE ADIANTE. + + Conde, cujo illustre peito + Merece nome de Rei, + Do qual muito certo sei + Que lhe fica sendo estreito + O cargo de Viso-Rei; + Servirdes-vos d'occupar-me + Tanto contra meu Planeta, + No foi seno azas dar-me, + Com as quaes vou a queimar-me, + Como o faz a borboleta. + + E s'eu a penna tomar, + Que to mal cortada tenho, + Ser para celebrar + Vosso valor singular + Dino de mais alto engenho. + Que se o meu vos celebrasse, + Necessario me sera + Que os olhos d'aguia tomasse, + S para que no cegasse + No sol de vossa valia. + + Vossos feitos sublimados + Nas armas, dignos de gloria, + So no mundo to soados, + Qu'em vs de vossos passados + Se resuscita a memoria. + Pois aquelle nimo estranho, + Prompto para todo effeito, + Espanta todo o conceito: + Como corao tamanho + Vos pde caber no peito? + + A clemencia, que asserena + Corao to singular, + S'eu nisso puzesse a penna, + Sera encerrar o mar + Em cova muito pequena. + Bem basta, Senhor, que agora + Vos sirvais de me occupar; + Que assi fareis aparar + A penna, com que algum'hora + Vos vereis ao ceo voar. + + Assi vos irei louvando, + Vs a mi do cho erguendo, + Ambos o mundo espantando; + Vs com a espada cortando, + Eu com a penna escrevendo. + +_Mote que lhe mandou o Viso-Rei._ + + Muito sou meu inimigo, + Pois que no tiro de mi + Cuidados, com que nasci, + Que pe a vida em perigo. + Oxal que fra assi! + +_Volta._ + + Viver eu, sendo mortal, + De cuidados rodeado, + Parece meu natural; + Que a peonha no faz mal + A quem foi nella criado. + Tanto sou meu inimigo, + Que por no tirar de mi + Cuidados, com que nasci, + Porei a vida em perigo. + Oxal que fra assi! + + Tanto vim a accrescentar + Cuidados, que nunca amanso + Em quanto a vida durar, + Que canso ja de cuidar + Como cuidados no canso. + S'estes cuidados, que digo, + Dessem fim a mi e a si, + Fario pazes comigo; + Que pr a vida em perigo, + O bom fra para mi. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS OBRAS SUAS. + + Senhora, s'eu alcanasse + No tempo que ler quereis, + Que a dita dos meus papis + Pola minha se trocasse; + E por ver + Tudo o que posso escrever + Em mais breve relao, + Indo eu onde elles vo, + Por mi s quizesseis ler; + + Despois de ver hum cuidado + To contente de seu mal, + Verieis o natural + Do que aqui vdes pintado; + Que o perfeito + Amor, de que sou sogeito, + Vereis aspero e cruel, + Aqui com tinta e papel, + Em mi com sangue no peito. + + Que hum continuo imaginar + Naquillo que Amor ordena, + He pena, que emfim por penna + Se no pde declarar; + Que se eu levo + Dentro n'alma quanto devo + De trasladar em papis, + Vde que melhor lereis, + Se a mi, se aquillo qu'escrevo? + + * * * * * + + +A HUMA SENHORA, A QUEM DERO HUM PEDAO DE SITIM AMARELLO. + + Se derivais da verdade + Esta palavra _Sitim_, + Achareis sem falsidade, + Que apos o _si_ tee o _tim_, + Que tine em toda a Cidade. + Bem vejo que m'entendeis; + Mas porque no falle em vo, + Sabei que a esta Nao + Tanto que o _si_ concedeis, + O _tim_ logo est na mo. + + E quem da fama s'arreda, + Que tudo vai descobrir, + Deve sempre de fugir + De sitins, porque da seda + Seu natural he rugir. + Mas panno fino e delgado, + Qual a raxa e outros assi, + Dura, aquenta, e he callado, + Amoroso, e d de si + Mais que _sitim_, nem brocado. + + Mas estes, que sedas so + Com quem s'engano mil Damas, + Mais vos tomo, do que do; + Promettem, mas no daro, + Seno nodoas para as famas. + E se no me quereis crer, + Ou tomais outro caminho, + Por exemplo o podeis ver, + Quando l virdes arder + A casa d'algum vizinho. + + Oh feminina simpreza, + Donde esto culpas a pares, + Que por hum Dom de nobreza, + Deixo des da natureza, + Mais altos e singulares! + Hum Dom, que anda enxertado + No nome, e nas obras no. + Fallo como exprimentado; + Que _sitim_ desta feio + Eu tenho muito cortado. + + Dizem-me qu'era amarello; + E quem assi o quiz dar, + S para me Deos vingar, + Se vem mo amar-lo, + O qu'eu no posso cuidar. + Porque quem sabe viver + Por estas artes manhosas, + (Isto bem pde no ser) + D a meninas formosas, + Somente polas fazer. + + Quem vos isto diz, Senhora, + Servio nas vossas armadas + Muito, mas anda ja fra; + E pde ser qu'inda agora + Traz abertas as frchadas. + E, postoque desfavores + O tiro de servidor, + Quer-vos ventura melhor; + Que dos antigos amores + Inda lhe fica este amor. + + * * * * * + + +A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS. + + Peo-vos que me digais + As oraes que rezastes, + Se so polos que matastes, + Se por vs que assi matais? + Se so por vs, so perdidas; + Que qual ser a orao, + Que seja satisfao, + Senhora, de tantas vidas? + + Que se vdes quantos vem + A s vida vos pedir, + Como vos ha Deos de ouvir, + Se vs no ouvis ninguem? + No podeis ser perdoada + Com mos a matar to prontas, + Que se n'huma trazeis contas, + Na outra trazeis espada. + + Se dizeis que encommendando + Os que matastes andais; + Se rezais por quem matais, + Para que matais rezando? + Que se na fra do orar + Levantais as mos aos Ceos, + No as ergueis para Deos, + Erguei-las para matar. + + E quando os olhos cerrais, + Toda enlevada na f, + Cerro-se os de quem vos v, + Para nunca verem mais. + Pois se assi forem tratados + Os que vos vem quando orais, + Essas horas que rezais, + So as horas dos finados. + + Pois logo, se sois servida + Que tantos mortos no sejo, + No rezeis onde vos vejo, + Ou vde para dar vida. + Ou se quereis escusar + Estes males que causastes, + Resuscitae quem matastes, + No tereis por quem rezar. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNA. + + Se n'alma e no pensamento + Por vosso me manifesto, + No me peza do que sento; + Que se no soffrer tormento, + Fao offensa a vosso gesto. + E, pois quanto Amor ordena, + E quanto est'alma deseja, + Tudo morte me condena, + No quero seno que seja + Tudo pena, pena, pena. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS. + + Sem olhos vi o mal claro, + Que dos olhos se seguio: + Pois cara sem olhos vio + Olhos, que lhe custo caro. + D'olhos no fao meno, + Pois quereis que olhos no sejo; + Vendo-vos, olhos sobejo, + No vos vendo, olhos no so. + + * * * * * + + +DISPARATES NA INDIA. + + Este mundo es el camino + Ad hay ducientos vos, + Ou por onde bons e maos, + Todos somos del merino. + Mas os maos so de teor, + Que desque mudo a cr, + Chamo logo a ElRei compadre; + E emfim dejadlos, mi madre, + Que sempre tee hum sabor + De quem torto nasce, tarde s'endireita. + + Deixae a hum que se abone: + Diz logo de muito sengo, + Villas y castillos tengo, + Todos mi mandar sone. + Ento eu, qu'estou de mlho, + Com a lagrima no lho, + Polo virar do envs, + Digo-lhe: _tu ex illis es_, + E por isso no te lho; + Pois honra e proveito no cabem n'hum saco. + + Vereis huns, que no seu seio + Cuido que trazem Pars, + E querem com dous ceits, + Fender anca pelo meio. + Vereis mancebindo de arte, + Com espada em talabarte: + No ha mais Italiano. + A este direis: Meu mano, + Vs sois galante que farte; + Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido. + + Outros em cada theatro, + Por officio lhe ouvirs + Que se matarn con tres, + Y lo mismo haran con cuatro. + Prezo-se de dar respostas, + Com palavras bem compostas; + Mas se lhe meteis a mo, + Na paz mostro corao, + Na guerra mostro as costas; + Porque aqui torce a porca o rabo. + + Outros vejo por ahi, + A que se acha mal o fundo, + Que ando emendando o mundo, + E no se emendo a si. + Estes respondem a quem + Delles no entende bem + El dolor que est secreto; + Mas porm quem for discreto, + Responder-lhe-ha muito bem: + Assi entrou o mundo, assi ha de sahir. + + Achareis rafeiro velho, + Que se quer vender por galgo: + Diz que o dinheiro he fidalgo, + Que o sangue todo he vermelho. + Se elle mais alto o dissera, + Este pelote puzera: + Que o seu eco lhe responda; + Que su padre era de Ronda, + Y su madre de Antequera, + E quer cobrir o ceo co'huma joeira. + + Fraldas largas, grave aspeito, + Para Senador Romano. + Oh que grandissimo engano! + Que Momo lhe abrisse o peito! + Consciencia, que sobeja, + Siso, com que o mundo reja, + Mansido outro que si; + Mas que lobo est em ti, + Metido em pelle de oveja! + E sabem-no poucos. + + Guardae-vos de huns meus Senhores, + Que ainda compro e vendem; + Huns, qu'he certo, que descendem + Da gerao de pastores: + Mostro-se-vos bons amigos; + Mas se vos vem em perigos, + Escarro-vos nas paredes; + Que de fra dormiredes, + Irmo, que he tempo de figos; + Porque de rabo de porco nunca bom virote. + + Que direis d'huns, que as entranhas + Lh'esto ardendo em cobia, + E se tee mando, a justia + Fazem de teas de aranhas? + Com suas hypocrisias, + Que so de vossas espias: + Para os pequenos huns Neros, + Para os grandes tudo feros. + Pois tu, parvo, no sabas, + Que l vo leis, onde querem cruzados? + + Mas tornando a huns enfadonhos, + Cujas cousas so notorias; + Huns, que conto mil histrias + Mais desmanchadas que sonhos; + Huns mais parvos que zamboas, + Qu'estudo palavras boas, + A que ignorancia os atia: + Estes paguem por justia, + Que tee morto mil pessoas, + Por vida de quanto quero. + + Adonde tienen las mentes + Huns secretos trovadores, + Que fazem cartas d'amores, + De que fico mui contentes? + No querem sahir praa; + Trazem trova por negaa; + E se lha gabais, qu'he boa, + Diz qu'he de certa pessoa. + Ora que quereis que faa, + Seno ir-me por esse mundo? + + tu, como me atarracas, + Escudeiro de Solia, + Com bocaes de fidalguia, + Trazido quasi com vacas; + Importuno a importunar, + Morto por desenterrar + Parentes, que cheiro ja! + Voto a tal, que me fara + Hum destes nunca fallar + Mais com viva alma. + + Huns, que fallo muito, vi, + De que quizera fugir; + Huns que, emfim, sem se sentir, + Ando fallando entre si; + Porfiosos sem razo; + E desque tomo a mo, + Fallo sem necessidade; + E se algum'hora he verdade, + Deve ser na confisso; + Porque quem no mente... Ja m'entendeis. + + Oh vs, quem quer que me lerdes, + Qu'haveis de ser avisado, + Que dizeis ao namorado + Que caa vento com redes? + Jura por vida da Dama; + Falla comsigo na cama; + Passa de noite e escarra; + Por falsete na guitarra + Pe sempre: Viva que ama, + Porque cala a seu proposito. + + Mas deixemos, se quizerdes, + Por hum pouco as travessuras, + Porqu'entre quatro maduras + Leveis tambem cinco verdes. + Deitemos-nos mais ao mar; + E se algum se arrecear, + Passe tres ou quatro trovas. + E vs tomais cres novas? + Mas no he para espantar; + Que quem porcos ha menos, + Em cada mouta lhe ronco. + + vs, que sois Secretarios + Das consciencias Reais, + E que entre os homens estais + Por Senhores ordinarios; + Porque no pondes hum freio + Ao roubar, que vai sem meio, + Debaixo de bom governo? + Pois hum pedao de inferno + Por pouco dinheiro alheio + Se vende a Mouro e a Judeo. + + Porque a mente, affeioada + Sempre Real dignidade, + Vos faz julgar por bondade + A malicia desculpada. + Move a presena Real + Huma affeio natural, + Que logo inclina ao Juiz + A seu favor: e no diz + Hum rifo muito geral, + Que o Abbade donde canta, dahi janta? + + E vs bailais a esse som: + Por isso, gents pastores, + Vos chama a vs mercadores + Hum que s foi pastor bom. + + * * * * * + + +A JOO LOPES LEITO, SBRE HUMA PEA DE CACHA QUE MANDOU +A HUMA DAMA, QUE SE LHE FAZIA DONZELLA. + +_Mote._ + + Se vossa Dama vos d + Tudo quanto vs quizestes, + Dizei-me: p'ra que lhe dstes + O que vos ella fez ja? + +_Volta._ + + Sendo os restos envidados, + E vs de cachas mil contos + Sabeis com quo poucos pontos, + Que lhos achastes quebrados; + Se o que tee, isso vos d, + Vs mui bem lho merecestes, + Porque se a cacha lhe dstes + Tinha-vo-la feita ja. + + * * * * * + + +MOTE. + + Menina formosa e crua, + Bem sei eu + Quem deixar de ser seu, + Se vs quizereis ser sua. + +_Voltas._ + + Menina mais que na idade, + Se para me querer bem + Vos no vejo ter vontade, + He porque outrem vo-la tem; + Tee-vo-la, e faz-vo-la crua. + Porm eu + Ja tomra no ser meu, + Se vs no foreis to sua. + + Nos olhos, e na feio + Vos vi, quando vos olhava, + Tanta graa, que vos dava + De graa este corao: + No o quizestes de crua, + Por ser meu: + Se outrem vos dera o seu, + Pde ser foreis mais sua. + + Menina, tende maneira, + Que ainda no venha a ser, + Pois no quereis quem vos quer, + Que queirais quem vos no queira. + Olhae no me sejais crua, + Que pois eu + Quero ser vosso, e no meu, + Sde vs minha, e no sua. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA DOENTE + +_Mote._ + + Da doena, em que ora ardeis, + Eu fra vossa mzinha + S com vs serdes a minha. + +_Voltas._ + + He muito para notar + Cura to bem acertada, + Que podereis ser curada + Somente com me curar. + Se quereis, Dama, trocar, + Ambos temos a mzinha, + Eu a vossa, e vs a minha. + + Olhae, que no quer Amor, + (Porque fiquemos iguais) + Pois meu ardor no curais, + Que se cure vosso ardor. + Eu c sinto vossa dor; + E se vs sentis a minha, + Dae e tomae a mzinha. + + * * * * * + + +OUTRO + + Deo, Senhora, por sentena + Amor, que fosseis doente, + Para fazerdes gente + Doce e formosa a doena. + +_Voltas._ + + No sabendo Amor curar, + Foi a doena fazer + Formosa para se ver, + Doce para se passar. + Ento vendo a differena + Que ha de vs a toda a gente, + Mandou, que fsseis doente, + Para glria da doena. + + E digo-vos de verdade, + Que a saude anda invejosa, + Por ver estar to formosa + Em vs essa enfermidade. + No faais logo detena, + Senhora, em estar doente, + Porque adoecer a gente, + Com desejos da doena. + + Qu'eu por ter, formosa Dama, + A doena, qu'em vs vejo, + Vos confesso, que desejo + De cahir comvosco em cama. + Se consentis, que me vena + Deste mal, no houve gente + Da saude to contente, + Como eu serei da doena. + + * * * * * + + +AO MESMO + + Olhae que dura sentena + Foi amor dar contra mi! + Que porqu'em vs me perdi, + Em vs me busque a doena. + Claro est, + Que em vs s me achar; + Qu'em mi, se me vem buscar, + No poder mais achar, + Que a frma do que foi ja. + + Que s'em vs Amor se ps, + Senhora, he forado assi, + Que o mal, que me busca a mi, + Que vos faa mal a vs. + Sem mentir, + Amor me quiz destruir + Por modo nunca cuidado, + Pois ha de ser ja forado + Pezar-vos de vos servir. + + Mas sois to desconhecida, + E so meus males de sorte, + Que vos ameaa a morte, + Porque me negais a vida. + Se por boa + Tal justia se pregoa; + Quando desta sorte for, + Havei vs perdo de Amor, + Que a parte ja vos perdoa. + + Mas o que mais temo, emfim, + He que nesta differena, + Que se no torne a doena, + Se me no tornais a mim. + De verdade, + Que ja vossa humanidade + De que se queixe no tem; + Pois para as almas tambem + Fez Amor enfermidade. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA VESTIDA DE D. + +_Mote._ + + De atormentado e perdido, + Ja vos no peo, seno + Que tenhais no corao + O que tendes no vestido. + +_Volta._ + + Se de d vestida andais + Por quem ja vida no tem + Porque no o haveis de quem + Vs tantas vezes matais? + Que brado sem ser ouvido, + E nunca vejo seno + Cruezas no corao, + E grande d no vestido. + + * * * * * + + +A DONA GUIOMAR DE BLASF, QUEIMANDO-SE COM HUMA VLA NO ROSTO. + +_Mote._ + + Amor, que todos offende, + Teve, Senhora, por gsto, + Que sentisse o vosso rosto + O que nas almas accende. + +_Volta._ + + Aquelle rosto que traz + O mundo todo abrazado, + Se foi da flamma tocado, + Foi porque sinta o que faz. + Bem sei que Amor se vos rende; + Porm o seu presupposto + Foi sentir o vosso rosto + O que nas almas accende. + + * * * * * + + +A HUMA MULHER, AOUTADA POR HUM HOMEM, QUE CHAMAVO QUARESMA. + +_Mote._ + + No estejais aggravada, + Seno se for de vs mesma; + Porqu'a mulher, que he errada, + Com razo pela Quaresma + Deve ser disciplinada. + +_Voltas._ + + Quererdes profano amor + Em Quaresma, he consciencia: + Aoutes e penitencia + Vos est muito melhor. + No fiqueis disto affrontada, + Pois a culpa he vossa mesma; + Que mulher, que he to malvada, + He bem que pela Quaresma + Seja bem disciplinada. + + Se a penitencia vos val, + Mui bem aoutada estais; + Pois por Quaresma pagais + Vossos vicios do carnal. + No torneis a ser errada, + Nem condemneis a vs mesma, + Pois estais ja emendada; + E no sereis por Quaresma + Outra vez disciplinada. + + * * * * * + + +A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, QUE LHE PROMETTEO. + + Quem no mundo quizer ser + Havido por singular, + Para mais s'engrandecer, + Ha de trazer sempre o dar + Nas ancas do prometter. + E ja que vossa merc, + Largueza tee por divisa, + Como o mundo todo v, + Ha mister que tanto d, + Que venha a dar a camisa. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME FO DOS ANJOS + +_Mote._ + + Senhora, pois me chamais + To sem razo to mo nome, + Inda o diabo vos tome. + +_Voltas._ + + Quem quer que vio, ou que leo, + Ter por novo e moderno, + Ter quem vive no inferno, + O pensamento no ceo. + Mas se a vs vos pareceo, + Que m'estava bem tal nome, + Esse diabo vos tome. + + Perdido mais que ninguem + Confesso, Senhora, ser; + Mas o diabo no quer + Aos Anjos tamanho bem. + Pois logo no me convem, + Ou se me convem tal nome, + Ser para que vos tome. + + Se vos benzeis com cautella, + Como de Anjo, e no de luz, + Mal pde fugir da Cruz, + Quem vs tendes psto nella. + Mas ja que foi minha estrella + Ser diabo, e ter tal nome, + Guardae-vos, que vos no tome. + + Ja que chegais tanto ao cabo, + Com as mos, postas aos ceos + Vou sempre pedindo a Deos, + Que vos leve este diabo. + Eu, Senhora, no me gabo; + Mas pois que me dais tal nome, + Tomo-o, para que vos tome. + + * * * * * + + +A HUM AMIGO, QUE NO PODIA ENCONTRAR. + +_Mote._ + + Qual ter culpa de ns + Neste mal, que todo he meu? + Quando vindes, no vou eu, + Quando vou, no vindes vs. + +_Volta._ + + Reinando Amor em dous peitos, + Tece tantas falsidades, + Que de conformes vontades + Faz desconformes effeitos. + Igualmente vive em ns; + Mas por desconcrto seu + Vos leva, se venho eu, + Me leva, se vindes vs. + + * * * * * + + +MOTE SEU. + + Descala vai pela neve: + Assi faz quem Amor serve. + +_Voltas._ + + Os privilegios, que os Reis + No pdem dar, pde amor, + Que faz qualquer amador + Livre das humanas leis. + Mortes e guerras crueis, + Ferro, frio, fogo e neve, + Tudo soffre quem o serve. + + Moa formosa despreza + Todo o frio, e toda a dor. + Olhae quanto pde Amor + Mais que a propria natureza. + Medo, nem delicadeza + Lh'impede que passe a neve. + Assi faz quem Amor serve. + + Por mais trabalhos que leve, + A tudo se off'receria; + Passa pela neve fria, + Mais alva que a propria neve; + Com todo frio se atreve. + Vde em que fogo ferve + O triste, que a Amor serve. + + * * * * * + + +OUTRO ALHEIO + + A dor que a minha alma sente, + No na sabe toda a gente. + +_Voltas._ + + Qu'estranho caso de Amor! + Que desejado tormento! + Que venho a ser avarento + Das dores de minha dor! + Por me no tratar peor, + Se se sabe, ou se se sente, + No na digo a toda a gente. + + Minha dor e causa della + De ninguem ouso fiar; + Que sera aventurar + A perder-me, ou a perdella. + E pois s com padecella, + A minha alma est contente, + No quero que o saiba a gente. + + Ande no peito escondida, + Dentro n'alma sepultada; + De mi s seja chorada, + De ninguem seja sentida. + Ou me mate, ou me d vida, + Ou viva triste ou contente, + No ma saiba toda a gente. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + D'alma, e de quanto tiver, + Quero que me despojeis, + Com tanto, que me deixeis + Os olhos para vos ver. + +_Volta._ + + Cousa este corpo no tem, + Que ja no tenhais rendida: + Despois de tirar-lhe a vida, + Tirae-lhe a morte tambem. + Se mais tenho que perder, + Mais quero que me leveis, + Com tanto que me deixeis + Os olhos para vos ver. + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Amores de huma casada, + Que eu vi pelo meu mal. + +_Voltas._ + + N'huma casada fui pr + Os olhos, de si senhores: + Cuidei que fossem amores, + Elles fizero-se amor. + Faz-se o desejo maior + Donde o remedio no val, + Em perigo de meu mal. + + No me paraceo que Amor + Pudesse tanto comigo, + Que donde entra por amigo, + Se levante por senhor. + Leva-me de dor em dor, + E de final em final, + Cada vez para mor mal. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + Enforquei minha esperana; + Mas Amor foi to madrao, + Que lhe cortou o barao. + +_Volta._ + + Foi a esperana julgada + Por sentena da Ventura, + Que pois me leve pendura, + Que fosse dependurada: + Vem Cupido com a espada, + Corta-lhe cerce o barao. + Cupido, foste madrao. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + Puz o corao nos olhos, + E os olhos puz no cho, + Por vingar o corao. + +_Volta._ + + O corao invejoso + Como dos olhos andava, + Sempre remoques me dava + Que no era o meu mimoso: + Venho eu de piedoso + Do Senhor meu corao, + E boto os olhos no cho. + + * * * * * + + +OUTRO SEU + + Puz meus olhos n'huma funda, + E fiz hum tiro com ella + s grades d'huma janella. + +_Volta._ + + Huma Dama, de malvada, + Tomou seus olhos na mo; + E tirou-me huma pedrada + Com elles ao corao. + Armei minha funda ento, + E puz os meus olhos nella, + Trape, quebrei-lhe a janella. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + De pequena tomei amor, + Porque o no entendi; + Agora que o conheci, + Mata-me com desfavor. + +_Voltas._ + + Vi-o moo e pequenino, + E a mesma idade ensina + Que s'incline huma menina + s amostras d'hum menino: + Ouvi-lhe chamar Amor, + Pelo nome me venci; + Nunca tal engano vi, + Nem tamanho desamor. + + Cresceo-me de dia em dia + Com a idade a affeio, + Porque amor de criao, + N'alma, e na vida se cria. + Criou-se em mi este amor, + E senhoreou-se de mi: + Agora que o conheci, + Mata-me com desfavor. + + As flores me torna abrolhos, + A morte me determina + Quem eu trouxe de menina + Nas meninas de meus olhos. + Desta mgoa e desta dor + Tenho sabido que emfim + Por amor me perco a mim + Por quem de mi perde amor. + + Parece ser caso estranho + O que Amor em mi ordena, + Qu'em idade to pequena + Haja tormento tamanho. + Sejo milagres d'Amor, + Hei-os de soffrer assi, + At que haja d de mi + Quem entender esta dor. + + * * * * * + + +CANTIGA VELHA. + + Apartro-se os meus olhos + De mi to longe. + Falsos amores, + Falsos, maos, enganadores. + +_Voltas._ + + Tratro-me com cautella, + Por m'enganar mais asinha; + Dei-lhe posse d'alma minha, + Foro-me fugir com ella. + No ha v-los, nem ha vella, + De mi to longe. + Falsos amores, + Falsos, maos, enganadores! + + Entreguei-lhe a liberdade, + E, emfim, da vida o melhor; + Foro-se; e do desamor + Fizero necessidade. + Quem teve a sua vontade + De si to longe? + Falsos amores, + E oxal enganadores! + + * * * * * + + +OUTRA. + + Falso Cavalheiro, ingrato, + Enganais-me, + Vs dizeis, que eu vos mato, + E vs matais-me. + +_Voltas._ + + Costumadas artes so + Para enganar innocencias, + Piedosas apparencias + Sbre isento corao. + Eu vos amo, e vs ingrato + Magoais-me, + Dizendo, que eu vos mato, + E vs matais-me. + + Vde agora qual de ns + Anda mais perto do fim, + Que a justia faz-se em mim, + E o prego diz que sois vs. + Quando mais verdade trato + Levantais-me + Que vos desamo e vos mato, + E vs matais-me. + + * * * * * + + +PROPRIO. + + Se de meu mal me contento, + He porque para vs vejo + Em todo o mundo desejo, + E em ninguem merecimento. + +_Volta._ + + Para quem vos soube olhar + To impossivel foi ser + O poder-vos merecer, + Como o no vos desejar. + Pois logo a meu pensamento + Nenhum remedio lhe vejo, + Seno se der o desejo + Azas ao merecimento. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vs, Senhora, tudo tendes, + Seno que tendes os olhos verdes. + +_Voltas._ + + Dotou em vs natureza + O summo da perfeio; + Que o qu'em vs he seno, + He em outras gentileza: + O verde no se despreza, + Que, agora que vs os tendes, + So bellos os olhos verdes. + + Ouro e azul he a melhor + Cr, por que a gente se perde; + Mas a graa desse verde + Tira a graa a toda cr. + Fica agora sendo a flor + A cr, que nos olhos tendes, + Porque so vossos e verdes. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Para que me dan tormento, + Aprovechando tan poco? + Perdido, mas no tan loco, + Que descubra lo que siento. + +_Voltas._ + + Tiempo perdido es aquel + Que se passa en darme afan, + Pues cuanto ms me lo dan, + Tanto menos siento dl. + Que descubra lo que siento? + No lo har, que no es tan poco; + Que no puede ser tan loco + Quien tiene tal pensamiento. + + Sepan que me manda Amor, + Que de tan dulce querella, + A nadie d parte della, + Porque la sienta mayor. + Es tan dulce mi tormento, + Que aun se me antoja poco; + Y si es mucho, quedo loco + De gusto de lo que siento. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + De vuestros ojos centellas, + Que encienden pechos de hielo, + Suben por el aire al cielo, + Y en llegando son estrellas. + +_Voltas._ + + Falsos loores os dan, + Que essas centellas tan raras + No son nel cielo mas claras + Que en los ojos donde estan. + Porque cuando miro en ellas + Lo como alumbran al suelo, + No s que seran nel cielo; + Mas s que ac son estrellas. + + Ni se puede presumir + Que al cielo suban, Seora; + Que la lumbre que en vs mora, + No tiene ms que subir; + Mas pienso que dan querellas + Dios nel octavo cielo, + Porque son ac en el suelo + Dos tan hermosas estrellas. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + De dentro tengo mi mal, + Que de fuera no hay seal. + +_Volta._ + + Mi nueva y dulce querella + Es invisible la gente; + El alma sola la siente, + Que el cuerpo no es dino della. + Como la viva centella + Se encubre en el pedernal, + De dentro tengo mi mal. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Amor loco, amor loco, + Yo por vs, y vs por otro. + +_Voltas._ + + Dime Amor tormentos ds, + Para que pene doblado; + Uno es verme desamado, + Otro es mancilla de vs. + Ved que ordena Amor en ns! + Porque vs haceisme loco, + Que seais loca por otro. + + Tratais Amor de manera, + Que porque asi me tratais, + Quiere que, pues no me amais, + Que ameis otro que no os quiera. + Mas con todo, si no os viera + De todo loca por otro, + Con mas razon fuera loco. + + Y tan contrario viviendo, + Alfin, alfin, conformamos; + Pues ambos a ds buscamos + Lo que mas nos v huyendo. + Voy tras vs siempre siguiendo, + Y vs huyendo por otro: + Andais loca, y me haceis loco. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vde bem se nos meus dias + Os desgostos vi sobejos, + Pois tenho medo a desejos, + E quero mal a alegrias. + +_Volta._ + + Se desejos fui ja ter, + Servro de atormentar-me; + Se algum bem pde alegrar-me, + Quiz-me antes entristecer. + Passei annos, passei dias + Em desgostos to sobejos, + Que s por no ter desejos, + Perderei mil alegrias. + + * * * * * + + +PROPIO. + + Pois he mais vosso que meu, + Senhora, meu corao, + Eu vosso captivo so, + Meus olhos, lembre-vos eu. + +_Volta._ + + Lembre-vos minha tristeza, + Que jamais nunca me deixa; + Lembre-vos com quanta queixa + Se queixa minha firmeza: + Lembre-vos que no he meu + Este triste corao; + E pois ha tanta razo, + Meus olhos, lembre-vos eu. + + * * * * * + + +OUTRO. + + Senhora, pois minha vida + Tendes em vosso poder; + Por serdes della servida, + No queirais que destruida + Possa ser. + +_Volta._ + + Isto no por me pezar + De morrer, se vs quizerdes; + Que melhor me he acabar + Mil vezes, que supportar + Os males que me fizerdes; + Mas s por serdes servida + De mi, em quanto viver, + Vos peo que minha vida + No queirais que destruida + Possa ser. + + * * * * * + + +OUTRO. + + Pois damno me faz olhar-vos, + No quero, por no perder-vos, + Que ninguem me veja ver-vos. + +_Voltas._ + + De ver-vos a no vos ver + Ha dous extremos mortaes; + E so elles em si taes, + Que hum por hum me faz morrer; + Mas antes quero escolher, + Que possa viver sem ver-vos, + Minh'alma, por no perder-vos. + + Deste tamanho perigo + Que remedio posso ter, + Se vivo s com vos ver, + Se vos no vejo, perigo? + Mas quero acabar comigo, + Que ninguem me veja ver-vos, + Senhora, por no perder-vos. + + * * * * * + + +A TRES DAMAS, QUE LHE DIZIO QUE O AMAVO. + +_Mote._ + + No sei se m'engana Helena, + Se Maria, se Joanna; + No sei qual dellas m'engana. + +_Voltas._ + + Huma diz que me quer bem, + Outra jura que me quer; + Mas em jura de mulher + Quem crer, se ellas no crem? + No posso no crer a Helena, + A Maria, nem Joanna; + Mas no sei qual mais m'engana. + + Huma faz-me juramentos + Que s meu amor estima, + A outra diz que se fina, + Joanna, que bebe os ventos. + Se cuido que mente Helena, + Tambem mentir Joanna; + Mas quem mente no m'engana. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA MAL EMPREGADA. + +_Mote._ + + Menina, no sei dizer, + Vendo-vos to acabada, + Quo triste estou por vos ver + Formosa e mal empregada. + +_Voltas._ + + Quem to mal vos empregou, + Pouco de mi se dohia, + Pois no vio o quanto me hia + Em tirar-me o que tirou. + Obriga o primor que tem + Lindeza to extremada + Que digo quantos a vem, + Formosa e mal empregada! + + Tomastes da formosura + Quanto della desejastes, + E com ella me guardastes + Para to triste ventura. + Mataveis sendo solteira, + Matais agora em casada; + Matais de toda a maneira, + Formosa e mal empregada. + + * * * * * + + +A HUMA Foa Gonalves. + +_Mote._ + + Com vossos olhos, Gonalves, + Senhora, captivo tendes + Este meu corao Mendes. + +_Volta._ + + Eu sou boa testimunha, + Que Amor tem por cousa m, + Que olhos, que so homens ja, + Se nomeiem sem alcunha; + Pois o corao apunha, + E diz, olhos, pois vs tendes, + Chamae-me corao Mendes. + + * * * * * + + +OUTRO + + De que me serve fugir + De morte, dor e perigo, + Se me eu levo comigo? + +_Voltas._ + + Tenho-me persuadido, + Por razo conveniente, + Que no posso ser contente, + Pois que pude ser nascido. + Anda sempre to unido + O meu tormento comigo, + Qu'eu mesmo sou meu perigo. + + E se de mi me livrasse, + Nenhum gsto me sera: + Quem, seno eu, no teria + Mal, que esse bem me tirasse? + Fra he logo que assi passe, + Ou com desgsto comigo, + Ou sem gsto e sem perigo. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS. + + Quando me quer enganar + A minha bella perjura, + Para mais me confirmar + O que quer certificar, + Polos seus olhos me jura. + Como meu contentamento + Todo se rege por elles, + Imagina o pensamento, + Que se faz aggravo a elles + No crer to gro juramento. + + Porm como em casos tais + Ando ja visto e corrente, + Sem outros certos sinais, + Quanto me ella jura mais, + Tanto mais cuido que mente. + Ento vendo-lhe offender + Huns taes olhos como aquelles, + Deixo-me antes tudo crer, + S pola no constranger + A jurar falso por elles. + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Ha hum bem, que chega e foge; + E chama-se este bem tal, + Ter bem para sentir mal. + +_Volta._ + + Quem viveo sempre n'hum ser, + Inda que seja em pobreza, + No vio o bem da riqueza, + Nem o mal d'empobrecer: + No ganhou para perder; + Mas ganhou com vida igual + No ter bem, nem sentir mal. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO. + +_Mote._ + + Olhos, no vos mereci + Que tenhais tal condio, + To liberaes para o cho, + To irosos para mi. + +_Volta._ + + Baixos e honestos andais, + Por vos negardes a quem + No quer mais que aquelle bem, + Que vs no cho espalhais? + Se pouco vos mereci, + No m'estimeis mais que o cho, + A quem vs o galardo + Dais, e mo negais a mi. + + * * * * * + + +PROPRIO. + + Venceo-me Amor, no o nego; + Tee mais fra qu'eu assaz; + Que como he cego e rapaz, + D-me porrada de cego. + +_Volta._ + + S porque he rapaz ruim, + Dei-lhe hum bofte zombando. + Diz-me: mao, estais me dando, + Porque sois maior que mim? + Pois se eu vos descarrgo, + E em dizendo isto, chaz; + Torna-me outra; t rapaz, + Que ds porrada de cego. + + * * * * * + + +AO DESCONCERTO DO MUNDO. + + Os bons vi sempre passar + No mundo graves tormentos; + E para mais m'espantar, + Os maos vi sempre nadar + Em mar de contentamentos. + Cuidando alcanar assi + O bem to mal ordenado, + Fui mao; mas fui castigado. + Assi, que s para mi + Anda o mundo concertado. + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA. + +_Mote._ + + Perguntais-me, quem me mata? + No quero responder nada, + Por vos no fazer culpada. + +_Volta._ + + E se a penna no me atia, + A dizer pena to forte, + Quero-me entregar morte, + Antes que a vs justia. + Porm se tendes cobia + De vos verdes to culpada, + Direi que no sinto nada. + + * * * * * + + +MOTE. + + Esconjuro-te, Domingas, + Pois me ds tanto cuidado, + Que me digas se te vingas, + Viverei menos penado. + +_Voltas._ + + Juravas-me, que outras cabras + Folgavas de apascentar; + Eu por no me magoar, + Fingia qu'ero palabras. + Agora d'arte te vingas + D'algum meu doudo peccado, + Qu'inda que queiras, Domingas, + No posso ser enganado. + + Qualquer cousa busca o seu; + A fonte vai para o Tejo, + E tu para o teu desejo, + Por te vingares do meu. + De mi t'esqueces, Domingas, + Como eu fao do meu gado: + Praza a Deos, que se te vingas, + Que morra desesperado. + + Na phantasia te pinto, + Fallo-te, responde o monte, + Busco o rio, busco a fonte, + Endoudeo, e no o sinto: + Domingas no valle brado, + Responde o eco Domingas; + E tu inda te no vingas + De me ver doudo tornado! + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Se a alma ver-se no pde + Onde pensamentos ferem, + Que farei para me crerem? + +_Voltas._ + + Se n'alma huma s ferida + Faz na vida mil sinais, + Tanto se descobre mais, + Quanto he mais escondida. + S'esta dor to conhecida + Me no vem, porque no querem, + Que farei para ma crerem? + + Se se pudesse bem ver + Quanto callo, e quanto sento, + Despois de tanto tormento + Cuidaria alegre ser. + Mas se no me querem crer + Olhos, que to mal me ferem, + Que farei para me crerem? + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vosso bem querer, Senhora, + Vosso mal melhor me fra. + +_Voltas._ + + Ja agora certo conheo + Ser melhor todo tormento, + Onde o arrependimento + Se compra por justo preo. + Enganou-me hum bom como; + Mas o fim me diz agora + Que o mal melhor me fra. + + Quando hum bem he to damnoso, + Que sendo bem, d cuidado, + O damno fica obrigado + A ser menos perigoso. + Mas se a mi por desditoso, + Co'o bem me foi mal, Senhora, + Co'o vosso mal bem me fra. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Se me desta terra for, + Eu vos levarei, amor. + +_Voltas._ + + Se me for, e vos deixar, + (Ponho por caso, que possa) + Est'alma minha, qu'he vossa, + Comvosco m'ha de ficar. + Assi que s por levar + A minha alma, se me for, + Vos levarei, meu amor. + + Que mal pde maltratar-me, + Que comvosco seja mal? + Ou que bem pde ser tal, + Que sem vs possa alegrar-me? + O mal no pde enojar-me, + O bem me ser maior, + Se vos levar, meu amor. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Pequenos contentamentos, + Hi buscar quem contenteis, + Que a mi no me conheceis. + +_Voltas._ + + Os gostos, que tantas dores + Fizero ja valer menos, + No os acceita pequenos, + Quem nunca teve maiores: + Bem parecem vos favores, + Pois to tarde me quereis, + Qu'inda me no conheceis. + + Offereceis-me alegria, + Tendo-me ja cego e mouco: + He baixeza acceitar pouco, + Quem tanto vos merecia. + Ide-vos por outra via, + Pois o bem que me deveis, + Nunca mo satisfareis. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Perdigo perdeo a penna, + No ha mal que lhe no venha. + +_Voltas._ + + Perdigo, que o pensamento + Subio a hum alto lugar, + Perde a penna do voar, + Ganha a pena do tormento: + No tee no ar, nem no vento, + Azas com que se sostenha: + No ha mal que lhe no venha. + + Quiz voar a huma alta torre, + Mas achou-se desasado; + E vendo-se despennado, + De puro penado morre. + Se a queixumes se soccorre, + Lana no fogo mais lenha: + No ha mal que lhe no venha. + + * * * * * + + +A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA. + + Pois a tantas perdies, + Senhoras, quereis dar vida, + Ditosa seja a ferida, + Que tee taes Cirurgies! + Pois ventura + Me subio a tanta altura, + Que me sejais valedoras, + Ditosa seja a tristura, + Que se cura + Por vossos rogos, Senhoras! + + Ser minha pena mortal, + Ja qu'entendeis, que he assi, + No quero fallar por mi, + Que por mi falla meu mal. + Sois formosas, + Haveis de ser piedosas, + Por ser tudo d'huma cr; + Que pois Amor vos fez rosas + Milagrosas, + Fazei milagres de Amor. + + Pedi a quem vs sabeis, + Que saiba de meu trabalho, + No pelo qu'eu nisso valho, + Mas pelo que vs valeis. + Que o valer + De vosso alto merecer, + Com lho pedir de giolhos, + Fara qu'em meu padecer + Possa ver + O poder que tee seus olhos. + + Vossa muita formosura + Com a sua tanto val, + Que me rio de meu mal, + Quando cuido em quem me cura. + A meus ais, + Peo-vos que lhe valhais, + Damas de Amor to valdas, + Que nunca tal dor sintais, + Que queirais, + Onde no sejais queridas. + + * * * * * + + +CANTIGA ALHEIA. + + Na fonte est Leonor + Lavando a talha, e chorando, + s amigas perguntando: + Vistes l o meu amor? + +_Voltas._ + + Psto o pensamento nelle, + Porque a tudo o Amor a obriga, + Cantava, mas a cantiga + Ero suspiros por elle. + Nisto estava Leonor + O seu desejo enganando, + s amigas perguntando: + Vistes l o meu amor? + + O rosto sbre hua mo, + Os olhos no cho pregados, + Que de chorar ja cansados, + Algum descanso lhe do; + Desta sorte Leonor + Suspende de quando em quando + Sua dor; e em si tornando, + Mais pezada sente a dor. + + No deita dos olhos goa, + Que no quer que a dor s'abrande + Amor, porque em mgoa grande + Scca as lagrimas a mgoa. + Despois que de seu amor + Soube novas perguntando, + D'improviso a vi chorando. + Olhae que extremos de dor! + + * * * * * + + +ESTAS TROVAS MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA +DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO D. +FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FRA, PEDINDO-LHE O +FIZESSE DESEMBARGAR. + + Que diabo ha to damnado, + Que no tema a cutilada + Dos fios seccos da espada + Do fero Miguel armado? + Pois se tanto hum golpe seu + Sa na infernal cadeia; + Do que o demonio arreceia + Como no fugirei eu? + + Com razo lhe fugiria, + Se contr'elle, e contra tudo + No tivesse hum forte escudo + S em Vossa Senhoria. + Por tanto, Senhor, proveja, + Pois me tee ao remo atado, + Que antes que seja embarcado, + Eu desembargado seja. + + * * * * * + + +ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, INVERNANDO EM GOA. + + Vossa Senhoria creia + Que no apura o engenho + Fome, se he como a que tenho, + Mas afraca e corta a veia. + E quem o contrrio sente, + Est farto em toda a hora, + Como estou faminto agora: + Mas Martha, se est contente, + D-lhe pouco de quem chora. + + E pois Vossa Senhoria + Em geral a tudo acode, + Acuda a mi, que s pde + Dar-me no engenho valia. + Esperte esta Musa minha, + Que o tempo traz somnolenta; + Valha-lhe nesta tormenta + Com essa doce mzinha, + Que s d vida e contenta. + + Acuda com proviso, + No de papel, mas provda + D'ouro e prata; que esta vida + No sustento papis, no. + De feitor a thesoureiro + Ser-me-hia trabalho grande; + Vossa Senhoria mande + Algum remedio, primeiro, + Com que a morte o ferro abrande. + +_Ajuda de Luis de Cames._ + + Nos livros doutos se trata + Que o grande Achilles insano + Deo a morte a Heitor Troiano; + Mas agora a fome mata + O nosso Heitor Lusitano. + S ella o pde acabar, + Se essa vossa condio + Liberal e singular + No mete entr'elles basto, + Bastante para o fartar. + + * * * * * + + +A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO. + +_Esparsa._ + + No posso chegar ao cabo + De tamanho desarranjo, + Que sendo vs, Senhora, Anjo, + Vos queira tanto o Diabo. + Dais manifesto sinal + De minha muita firmeza, + Que os diabos querem mal + Aos Anjos por natureza. + + * * * * * + + +CANTIGA. + + Vi chorar huns claros olhos, + Quando delles me partia. + Oh que mgoa! Oh que alegria! + +_Voltas._ + + Polo meu apartamento + Se arrazro todos d'goa. + Quem cuidou qu'em tanta mgoa + Achasse contentamento? + Julgue todo entendimento + Qual mais sentir se devia, + Se esta dor, se esta alegria? + + Quando mais perdido estive, + Ento deo a est'alma minha + Na maior mgoa que tinha, + O maior gsto que tive. + Assi, se minha alma vive, + Foi porque me defendia + Desta dor esta alegria? + + O bem, que Amor me no deu + No tempo que desejei, + Quando delle me apartei, + Me confessou, qu'era meu. + Agora que farei eu, + Se a fortuna me desvia + De lograr esta alegria? + + No sei se foi enganado, + Pois me tinha defendido + Das ras de mal querido, + No mal de ser apartado. + Agora peno dobrado, + Achando no fim do dia + O princpio da alegria. + + * * * * * + + +VILLANCETE PASTORIL. + + Deos te salve, Vasco amigo. + No me fallas? Como assi? + Bof, Gil, no 'stava aqui. + +_Voltas._ + + Pois onde te ho de fallar, + Se no 'sts onde appareces? + Se Magdanela conheces, + Nella me pdes achar. + E como te ho d'ir buscar + Aonde fogem de ti? + Pois nem eu estou em mi. + + Porque te no acharei + Em ti, como em Magdanela? + Porque me fui perder nella + O dia que me ganhei. + Quem to bem falla, no sei + Como anda fra de si. + Ella falla dentro em mi. + + Como ests aqui presente, + Se l tens a alma e a vida? + Porqu'he d'hum'alma perdida + Apparecer sempre gente. + Se es morto, bem se consente + Que todos fujo de ti. + Eu tambem fujo de mi. + + * * * * * + + +OUTRO PASTORIL. + + Porque no miras, Giraldo, + Mi zampoa como suena? + Porque no me mira Elena. + +_Voltas._ + + Vuelve ac, no ests pasmado, + Mira que gentil sonar! + Como te podr mirar + Quien no puede ser mirado? + Y que bueno enamorado! + No dirs, si es mala, o buena? + No, que me hizo mudo Elena. + + Mira tan dulce armona, + Djate dessos enojos. + Tengo clavados los ojos + Con que mirar te podia. + Ans Dios te d alegra: + No vs cuan dulce que suena? + No, porque no veo Elena. + + * * * * * + + +OUTRO PASTORIL. + + Crescem, Camilla, os abrolhos + De chorares por Cincero: + No he muito, que lhe quero, + Belisa, mais que meus olhos. + +_Voltas._ + + Sempre os teus olhos esto, + Camilla, d'goas banhados. + De se verem desamados + Pde ser que choraro. + Si, mas crescem os abrolhos, + E tu cegas por Cincero. + S'eu no vejo quem mais quero, + Para que quero mais olhos? + + Se se foi ha mais d'hum ms, + Teus olhos no cansaro? + No, que apos elle se vo + Estas lagrimas que vs. + Fazem logo estes abrolhos + O mato espinhoso e fero. + Pois eu no vejo a Cincero, + Isso s vero meus olhos. + + Chorando queres morrer? + Mais quero viver chorando. + Tu no vs que vs cegando? + Se cego, como hei de ver? + Pe na vista outros antolhos. + No posso, nem menos quero. + Outra para outro Cincero, + Antes no quero ter olhos. + + * * * * * + + +A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES. + +_Mote._ + + Olhos, em qu'esto mil flores, + E com tanta graa olhais, + Que parece que os Amores + Moro onde vs morais. + +_Volta._ + + Vem-se rosas e boninas, + Olhos, nesse vosso ver; + Vem-se mil almas arder + No fogo dessas meninas. + E di-lo-ho minhas dores, + Meus suspiros e meus ais; + E diro mais, que os amores + Moro onde vs morais. + + * * * * * + + +MOTE. + + Quem se confia em huns olhos, + Nas meninas delles v + Que meninas no tee f. + +_Voltas._ + + Quem pe suas confianas + Em meninas sem assento, + Offerea o soffrimento + A duzentas mil mudanas. + Mostro no ar esperanas; + Mas em seus olhos se v + Como no tee n'alma f. + + Engano ao parecer, + Porque no caso d'amar, + So mulheres no matar, + E meninas no querer. + Quem em seus olhos se crer, + Cem mil graas nelles v; + V-las sim, mas no ter f. + + Amostro-vos n'hum momento + Favores assi a mlhos; + Mas na mudana dos olhos + Se lhe muda o pensamento. + Em nada ja tee assento, + E o que mais nelles se v + He formosura sem f. + + * * * * * + + +LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA. + +_Cantiga Velha._ + + Sois formosa, e tudo tendes, + Seno que tendes os olhos verdes, + +_Voltas._ + + Ninguem vos pde tirar + Serdes to bem assombrada; + Mas heis-me de perdoar, + Que os olhos no valem nada. + Fostes mal aconselhada + Em querer que fossem verdes: + Trabalhae de os esconderdes. + + A vossa testa he jardim, + Onde Amor se desenfada; + He to branca e bem talhada, + Que parece de marfim. + Assi he; e quanto a mim, + Isso vos nasce de a terdes + To perto dos olhos verdes. + + Os cabellos desatados + O mesmo sol escurecem; + Seno que por ser ondados, + Algum tanto desmerecem: + Mas f, que se parecem + A furto dos olhos verdes, + No vos peze, no, de os terdes. + + As pestanas tee mostrado + Ser raios, que abrazo vidas: + Se no foro to compridas, + Tudo o mais era pintado: + Ellas me tinho levado + A alma, sem o vs saberdes, + Se no foro os olhos verdes. + + O mimo desse caro + Nem pr-lhe os olhos consente: + O ser liso e transparente + Rouba todo o corao: + Inda assi achareis nao, + Que lhe no peze de os verdes; + Mas no seja co'os olhos verdes. + + Esse riso, que he compsto + De quantas graas nascro, + Seno que alguns me dissero, + Vos faz covinhas no rsto. + Na vontade tenho posto + Dar-vos a alma, se quizerdes, + A trco dos olhos verdes. + + Nunca se vio, nem se escreve + Boca co'huma graa igual, + Se no fra de coral, + E os dentes de cr de neve. + Dou-me eu a Deos, que me leve! + Soffrerei quanto tiverdes, + No me tenhais olhos verdes. + + Essa garganta merece + Outras palavras no minhas, + Seno qu'he feita em rosquinhas + D'alfenim, ao que parece. + Eu sei bem quem se offerece + A tomar tudo o que tendes, + E tambem os olhos verdes. + + Essas mos so ferropeas: + S o v-las enfeitia; + Seno que so alvas, cheias, + E tee a feio rolia; + Com que appellais por justia, + Para com ellas prenderdes + Quem v vossos olhos verdes. + + A vossa galantaria + Matar a quem fallardes: + Tendes huns desdens e tardes, + Que eu logo vos roubaria. + Oh dou-me a Santa Maria! + Sou cujo de quanto tendes, + E tambem desses olhos verdes. + + * * * * * + + +AO MESMO. + + Tudo tendes singular, + Com que os coraes rendeis, + Seno que rindo, fazeis + Covinhas para enterrar: + E para resuscitar + Tee fora a graa que tendes; + Seno que tendes os olhos verdes. + + Tudo, Senhora, alcanais, + Quanto o ser formosa alcana, + Seno que dais esperana + Co'os olhos com que matais. + Se acaso os alevantais, + He para as almas renderdes; + Seno que tendes os olhos verdes. + + * * * * * + + +A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS +GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR +PRINCPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA. + + Cinco gallinhas e meia + Deve o Senhor de Cascais; + E a meia vinha cheia + De appetite para as mais. + + * * * * * + + +MOTE. + + Catharina bem promette; + Ora m! como ella mente! + +_Voltas._ + + Catharina he mais formosa + Para mi, que a luz do dia; + Mas mais formosa sera, + Se no fosse mentirosa. + Hoje a vejo piedosa, + manha to differente, + Que sempre cuido que mente. + + Prometteo-me hontem de vir, + Nunca mais appareceo; + Creio que no prometteo, + Seno s por me mentir. + Faz-me, emfim, chorar e rir; + Rio, quando me promette, + Mas chro quando me mente. + + Jurou-me aquella cadella + De vir, pela alma que tinha; + Enganou-me; tinha a minha; + Deo-lhe pouco de perdella. + A vida gasto apos ella, + Porque ma d, se promette, + Mas tira-ma, quando mente. + + M, mentirosa, malvada, + Dizei, porque me mentis? + Prometteis, e ento fugis? + Pois sem tornar, tudo he nada. + No sois bem aconselhada; + Que quem promette, se mente, + O que perde no o sente. + + Tudo vos consentiria + Quanto quizesseis fazer, + Se este vosso prometter + Fosse por me ter hum dia. + Todo ento me desfaria + Com gsto; e vs de contente, + Zombarieis de quem mente. + + Mas pois folgais de mentir, + Promettendo de me ver, + Eu vos deixo o prometter, + Deixae-me vs o servir: + Haveis ento de sentir + Quanto a minha vida sente + O servir a quem lhe mente. + + Catharina me mentio + Muitas vezes, sem ter lei, + E todas lhe perdoei + Por huma s que cumprio. + Se como me consentio + Fallar-lhe, o mais me consente, + Nunca mais direi que mente. + + * * * * * + + +MOTE. + + A alma, qu'est offrecida + A tudo, nada lhe he forte; + Assi passa o bem da vida, + Como passa o mal da morte. + +_Volta._ + + De maneira me succede + O que temo, e o que desejo, + Que sempre o que temo, vejo, + Nunca o que a vontade pede. + Tenho to offerecida + Alma e vida a toda a sorte, + Que isso me dera da morte, + Como ja me d da vida. + + * * * * * + + +MOTE. + + Ferro, fogo, frio e calma, + Todo o mundo acabaro; + Mas nunca vos tiraro, + Alma minha, da minha alma. + +_Volta._ + + No vos guardei, quando vinha, + Em trre, fra, ou engenho; + Que mais guardada vos tenho + Em vs, que sois alma minha. + Alli nem frio, nem calma, + No podem ter jurdio; + Na vida sim, porm no + Em vs que tenho por alma. + + * * * * * + + +MOTE. + + Esperei, ja no espero + De mais vos servir, Senhora; + Pois me fazeis cada hora + Tanto mal, que desespro. + +_Volta._ + + Pois sei certo que folgais, + Quando mais mal me fazeis, + E que nunca descansais, + Seno quando me mostrais + Quo pouco bem me quereis; + Servir-vos mais no espero + Pois meu viver empeora + Com me fazerdes, Senhora, + Tanto mal, que desespro. + + * * * * * + + +MOTE. + + Descala vai para a fonte + Leonor pela verdura; + Vai formosa, e no segura. + +_Voltas._ + + Leva na cabea o pote, + O testo nas mos de prata, + Cinta de fina escarlata, + Sainho de chamalote: + Traz a vasquinha de cote, + Mais branca que a neve pura; + Vai formosa, e no segura. + + Descobre a touca a garganta, + Cabellos de ouro entranado, + Fita de cr d'encarnado, + To linda que o mundo espanta: + Chove nella graa tanta, + Que d graa formosura; + Vai formosa, e no segura. + + * * * * * + + +MOTE. + + Quem disser que a barca pende, + Dir-lhe-hei, mana, que mente. + +_Voltas._ + + Se vos quereis embarcar, + E para isso estais no caes, + Entrae logo: que tardaes? + Olhae qu'est preamar: + E se outrem, por vos fretar, + Vos disser qu'esta que pende, + Dir-lhe-hei, mana, que mente. + + Esta barca he de carreira; + Tee seus apparelhos novos: + No ha como ella outra em Povos + Boa de leme, e veleira: + Mas, se por ser a primeira, + Vos disser alguem que pende, + Dir-lhe-hei, mana, que mente. + + * * * * * + + +MOTE. + + Com razo queixar-me posso + De vs, que mal vos queixais; + Pois, Senhora, vos sangrais, + Que seja n'hum corpo vosso. + +_Voltas._ + + Eu para levar a palma, + Com que ser vosso merea, + Quero que o corpo padea + Por vs, que delle sois alma. + Vs do corpo vos queixais, + Eu queixar-me de vs posso, + Porque, tendo hum corpo vosso, + Na minha alma vos sangrais. + + E sem fazer differena + No que de mi possuis, + Pelo pouco que sentis, + Dais minh'alma doena. + Porque dous aventurais? + Oh no seja o damno nosso! + Sangre-se este corpo vosso, + Porque, minha alma, vivais. + + E inda, se attentardes bem, + Seguis medicina errada, + Porque para ser sangrada + Hum'alma sangue no tem. + E pois em mi sarar posso + Males, que minha alma dais, + Se inda outra vez vos sangrais, + Seja neste corpo vosso. + + * * * * * + + +MOTE. + + Ojos, herido me habeis, + Acabad ya de matarme; + Mas muerto volved mirarme, + Porque me resusciteis. + +_Voltas._ + + Pues me distes tal herida, + Con gana de darme muerte, + El morir me es dulce suerte, + Pues con morir me dais vida. + Ojos, qu os deteneis? + Acabad ya de matarme; + Mas muerto volved mirarme, + Porque me resusciteis. + + La llaga cierto ya es mia, + Aunque, ojos, vs no querrais; + Mas si la muerte me dais, + El morir me es alegra. + Y as digo que acabeis, + O ojos, ya de matarme; + Mas muerto volved mirarme, + Porque me resusciteis. + + * * * * * + + +A DONA FRANCISCA DE ARAGO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO: + + Mas porm a que cuidados? + + Tanto maiores tormentos + Foro sempre os que soffri, + Daquillo que cabe em mi, + Que no sei que pensamentos + So os para que nasci. + Quando vejo este meu peito + A perigos arriscados + Inclinado, bem suspeito + Que a cuidados sou sujeito, + _Mas porm a que cuidados?_ + +_Ao mesmo._ + + Que vindes em mi buscar, + Cuidados, que sou captivo? + Eu no tenho que vos dar: + Se vindes a me matar, + Ja ha muito que no vivo: + Se vindes, porque me dais + Tormentos desesperados, + Eu, que sempre soffri mais, + No digo que no venhais; + _Mas porm a que cuidados?_ + +_Ao mesmo._ + + Se as penas que Amor me deu, + Vem por to suaves meios, + No ha que temer receios; + Que val hum cuidado meu + Por mil descansos alheios. + Ter n'huns olhos to formosos + Os sentidos enlevados, + Bem sei qu'em baixos estados + So cuidados perigosos; + _Mas porm a que cuidados?..._ + +_Carta com a glosa acima._ + +Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sera assi mais +seguro: mas agora que he servida de me tornar a resuscitar, por me +mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de +agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de +novo me d, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, no me fica +mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei +tres entendimentos, segundo as palavras delle pudro soffrer: se forem +bons, he mote de v. m.: se maos, so as glosas minhas. + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Campos bem-aventurados, + Tornae-vos agora tristes; + Que os dias, em que me vistes, + Alegres ja so passados. + +_Glosa._ + + Campos cheios de prazer, + Vs qu'estais reverdecendo, + Ja m'alegrei com vos ver; + Agora venho a temer + Qu'entristeais em me vendo. + E pois a vista alegrais + Dos olhos desesperados, + No quero que me vejais, + Para que sempre sejais, + _Campos, bem-aventurados._ + + Porm se por accidente + Vos pezar de meu tormento, + Sabereis que Amor consente + Que tudo me descontente, + Seno descontentamento. + Por isso vs, arvoredos, + Que ja nos meus olhos vistes + Mais alegria, que medos, + Se mos quereis fazer ledos, + _Tornae-vos agora tristes._ + + Ja me vistes ledo ser, + Mas despois que o falso Amor + To triste me fez viver, + Ledos folgo de vos ver, + Porque me dobreis a dor. + E se este gsto sobejo + De minha dor me sentistes, + Julgae quanto mais desejo + As horas que vos no vejo, + _Que os dias em que me vistes._ + + O tempo, qu'he desigual, + De seccos, verdes vos tem; + Porqu'em vosso natural + Se muda o mal para o bem, + Mas o meu para mor mal. + Se perguntais, verdes prados, + Pelos tempos differentes + Que de Amor me foro dados, + Tristes, aqui so presentes, + _Alegres, ja so passados._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Trabalhos descansario + Se para vs trabalhasse; + Tempos tristes passario, + Se algum'hora vos lembrasse. + +_Glosa._ + + Nunca o prazer se conhece, + Seno despois da tormenta: + To pouco o bem permanece, + Que se o descanso florece, + Logo o trabalho arrebenta. + Sempre os bens se logrario, + Mas os males tudo atalho; + Porm ja que assi porfio, + Onde descansos trabalho, + _Trabalhos descansario._ + + Qualquer trabalho me fra + Por vs gro contentamento: + Nada sentira, Senhora, + Se vra disto algum'hora + Em vs hum conhecimento. + Por mal que o mal me tratasse, + Tudo por bem tomaria; + Postoque o corpo cansasse, + A alma descansaria, + _Se para vs trabalhasse._ + + Quem vossas cruezas ja + Soffreo, a tudo se poz; + Costumado ficar; + E muito melhor ser, + Se trabalhar para vs. + Tristezas esquecerio, + Postoque mal me tratro; + Annos no me lembrario, + Que como est'outros passaro, + _Tempos tristes passario._ + + Se fosse galardoado + Este trabalho to duro, + No vivra magoado. + Mas no o foi o passado, + Como o ser o futuro? + De cansar no cansaria, + Se quizereis, que cansasse; + Cavar, morrer, fa-lo-hia; + Tudo, emfim, esqueceria, + _Se algum'hora vos lembrasse._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Triste vida se me ordena, + Pois quer vossa condio + Que os males, que dais por pena, + Me fiquem por galardo. + +_Glosa._ + + Despois de sempre soffrer, + Senhora, vossas cruezas, + A pezar de meu querer, + Me quereis satisfazer + Meus servios com tristezas. + Mas, pois em balde resiste + Quem vossa vista condena, + Prestes estou para a pena; + Que de galardo to triste + _Triste vida se me ordena._ + + De contente do mal meu + A to grande extremo vim, + Que consinto em minha fim: + Assi que vs e mais eu, + Ambos somos contra mim. + Mas que soffra meu tormento, + Sem querer mais galardo, + No he fra de razo + Que queira meu soffrimento, + _Pois quer vossa condio._ + + O mal, que vs dais por bem, + Esse, Senhora, he mortal; + Que o mal, que dais como mal, + Em muito menos se tem, + Por costume natural. + Mas porm nesta victoria, + Que comigo he bem pequena, + A maior dor me condena + A pena, que dais por gloria, + _Que os males, que dais por pena._ + + Que mor bem me possa vir, + Que servir-vos, no o sei. + Pois que mais quero eu pedir, + Se quanto mais vos servir, + Tanto mais vos deverei? + Se vossos merecimentos + De to alta estima so, + Assaz de favor me do + Em querer que meus tormentos + _Me fiquem por galardo._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Ja no posso ser contente, + Tenho a esperana perdida; + Ando perdido entre a gente, + Nem morro, nem tenho vida. + +_Glosa._ + + Despois que meu cruel Fado + Destruio huma esperana, + Em que me vi levantado, + No mal fiquei sem mudana, + E do bem desesperado. + O corao, que isto sente, + sua dor no resiste, + Porque v mui claramente + Que pois nasci para triste, + _Ja no posso ser contente._ + + Por isso, contentamentos, + Fugi de quem vos despreza: + Ja fiz outros fundamentos, + Ja fiz senhora a tristeza + De todos meus pensamentos. + O menos que lh'entreguei, + Foi esta cansada vida: + Cuido que nisto acertei, + Porque de quanto esperei + _Tenho a esperana perdida._ + + Acabar de me perder + Fra ja muito melhor; + Tivera fim esta dor, + Que no podendo mor ser, + Cada vez a sinto mor. + De vs desejo esconder-me, + E de mi principalmente, + Onde ninguem possa ver-me; + Que pois me ganho em perder-me, + _Ando perdido entre a gente._ + + Gostos de mudanas cheios, + No me busqueis, no vos quero: + Tenho-vos por to alheios, + Que do bem que no espero, + Inda me fico receios. + Em pena to sem medida, + Em tormento to esquivo + Que morra, ninguem duvda; + Mas eu se morro, ou se vivo, + _Nem morro, nem tenho vida._ + + * * * * * + + +A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA. + +_Mote._ + + A morte, pois que sou vosso, + No a quero; mas se vem, + Ha de ser todo meu bem. + +_Glosa._ + + Amor, qu'em meu pensamento + Com tanta f se fundou, + Me tee dado hum regimento, + Que quando vir meu tormento + Me salve com cujo sou. + E com esta defenso, + Com que tudo vencer posso, + Diz a causa ao corao: + No tee em mi jurdio + _A morte, pois que sou vosso._ + + Por exprimentar hum dia + Amor se me achava forte + Nesta f, como dizia, + Me convidou com a morte, + S por ver se a temeria. + E como ella seja a cousa + Onde est todo meu bem, + Respondi-lhe, como quem + Quer dizer mais, e no ousa: + _No a quero, mas se vem..._ + + No disse mais, porque ento + Entendeo quanto me toca; + E se tinha dito o no, + Muitas vezes diz a boca, + O que nega o corao. + Toda a cousa defendida + Em mais estima se tem: + Por isso he cousa sabida, + Que perder por vs a vida + _Ha de ser todo meu bem._ + + * * * * * + + + MESMA DAMA. + + Vejo-a n'alma pintada, + Quando me pede o desejo + O natural que no vejo. + +_Glosa._ + + Se s de ver puramente + Me transformei no que vi, + De vista to excellente + Mal poderei ser ausente, + Em quanto o no for de mi. + Porque a alma namorada + A traz to bem debuxada, + E a memoria tanto voa, + Que se a no vejo em pessoa, + _Vejo-a n'alma pintada._ + + O desejo, que s'estende + Ao que menos se concede, + Sbre vs pede e pretende, + Como o doente que pede + O que mais se lhe defende. + Eu, qu'em ausencia vos vejo, + Tenho piedade e pejo + De me ver to pobre estar, + Qu'ento no tenho que dar, + _Quando me pede o desejo._ + + Como quelle que cegou, + He cousa vista e notoria, + Que a natureza ordenou + Que se lhe dobre em memoria + O qu'em vista lhe faltou: + Assi a mi, que no vejo + Co'os olhos o que desejo, + Na memoria e na firmeza + Me concede a natureza + _O natural que no vejo._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Sem vs, e com meu cuidado, + Olhae com quem, e sem quem. + +_Glosa._ + + Vendo Amor que com vos ver + Mais levemente soffria + Os males que me fazia, + No me pde isto soffrer; + Conjurou-se com meu Fado; + Hum novo mal me ordenou: + Ambos me levo forado, + No sei onde, pois que vou + _Sem vs e com meu cuidado._ + + No sei qual he mais estranho + Destes dous males que sigo, + Se no vos ver, se comigo + Levar imigo tamanho. + O que fica, e o que vem, + Hum me mata, outro desejo: + Com tal mal, e sem tal bem, + Em taes extremos me vejo: + _Olhae com quem, e sem quem_! + + * * * * * + + +AO MESMO. + + Amor, cuja providencia + Foi sempre que no errasse, + Porque n'alma vos levasse, + Respeitando o mal d'ausencia, + Quiz qu'em vs me transformasse. + E vendo-me ir maltratado, + Eu e meu cuidado ss, + Proveo nisso de attentado, + Por no me ausentar de vs, + _Sem vs, e com meu cuidado._ + + Mas est'alma, qu'eu trazia, + Porque vs nella morais, + Deixa-me cego, e sem guia; + Que ha por melhor companhia + Ficar onde vs ficais. + Assi me vou de meu bem, + Onde quer a forte estrella, + Sem alma, qu'em si vos tem, + Co'o mal de viver sem ella: + _Olhae com quem, e sem quem_! + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Sem ventura he por demais. + +_Glosa._ + + Todo o trabalhado bem + Promette gostoso fruito; + Mas os trabalhos, que vem, + Para quem dita no tem + Valem pouco, e custo muito. + Rompe toda a pedra dura, + Faz os homens immortais + O trabalho quando atura; + Mas querer achar ventura, + _Sem ventura, he por demais._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Minh'alma, lembrae-vos della. + +_Glosa._ + + Pois o ver-vos tenho em mais + Que mil vidas que me deis, + Assi como a que me dais, + Meu bem, ja que mo negais, + Meus olhos, no mo negueis. + E se a tal estado vim + Guiado de minha estrella, + Quando houverdes d de mim, + Minha vida, dae-lhe a fim, + _Minh'alma, lembrae-vos della._ + + * * * * * + + +MOTE ALHEIO. + + Tudo pde huma affeio. + +_Glosa._ + + Tee tal jurdio Amor + N'alma donde se aposenta, + E de que se faz senhor, + Que a liberta e isenta + De todo humano temor. + E com mui justa razo, + Como senhor soberano, + Que Amor no consente dano. + E pois me soffre teno, + Gritarei por desengano: + _Tudo pde huma affeio._ + + * * * * * + + +TROVA DE BOSCO. + + Justa fu mi perdicion; + De mis males soy contento; + Ya no espero galardon, + Pues vuestro merecimiento + Satisfizo mi pasion. + +_Glosa._ + + Despues que Amor me form + Todo de amor, cual me veo, + En las leyes, que me di, + El mirar me consinti, + Y defendime el deseo. + Mas el alma, como injusta, + En viendo tal perfeccion, + Di al deseo ocasion: + Y pues quebr ley tan justa, + _Justa fu mi perdicion._ + + Mostrndoseme el Amor + Mas benigno que cruel, + Sobre tirano traidor, + De zelos de mi dolor, + Quiso tomar parte en l. + Yo que tan dulce tormento + No quiero dallo, aunque peco, + Resisto, y no lo consiento; + Mas si me lo toma trueco + _De mis males, soy contento._ + + Seora, ved lo que ordena + Este Amor tan falso nuestro! + Por pagar costa agena, + Manda que de un mirar vuestro + Haga el premio de mi pena. + Mas vos, para que veais + Tan engaosa intencion, + Aunque muerto me sintais, + No mireis, que si mirais, + _Ya no espero galardon._ + + Pues que premio (me direis) + Esperas que ser bueno? + Sabed, sino lo sabeis, + Que es lo mas de lo que peno + Lo menos que mereceis. + Quien hace al mal tan ufano, + Y tan libre al sentimiento? + El deseo? No, que es vano. + El amor? No, que es tirano. + _Pues? Vuestro merecimiento._ + + No pudiendo Amor robarme + De mis tan caros despojos, + Aunque fu por mas honrarme, + Vos sola para matarme + Le prestastes vuestros ojos. + Matranme ambos dos; + Mas vos con mas razon + Debe el la satisfaccion; + Que mi por l, y por vos, + _Satisfizo mi pasion._ + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Todo es poco lo posible. + +_Glosa._ + + Ved que engao seorea + Nuestro juicio tan loco, + Que por mucho que se crea, + Todo el bien, que se desea, + Alcanzado, queda poco. + Un bien de cualquiera grado, + Si de haberse es imposible, + Queda mucho deseado. + Mas para mucho, alcanzado, + _Todo es poco lo posible._ + +_Outro._ + + Posible es mi cuidado + Poderme hacer satisfecho, + Si fuera posible al hado + Hacer no hecho lo hecho, + Y futuro lo pasado. + Si olvido pudiera haber, + Fuera remedio sufrible; + Mas ya que no puede ser, + Para contento me hacer, + _Todo es poco lo posible._ + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Vos teneis mi corazon. + +_Glosa._ + + Mi corazon me han robado; + Y Amor viendo mis enojos, + Me dijo: Fute llevado + Por los mas hermosos ojos, + Que desque vivo he mirado. + Gracias sobrenaturales + Te lo tienen en prision. + Y si Amor tiene razon, + Seora, por las seales, + _Vos teneis mi corazon._ + + * * * * * + + +MOTE. + + Qu ver que me contente? + +_Glosa._ + + Desque una vez yo mir, + Seora, vuestra beldad, + Jamas por mi voluntad + Los ojos de vos quit. + Pues sin vos placer no siente + Mi vida, ni lo desea, + Si no quereis que yo os vea, + _Qu ver que me contente?_ + + * * * * * + + +MOTE. + + Sem vs, e com meu cuidado. + +_Glosa._ + + Querendo Amor esconder-vos + Em parte que vos no visse, + Co'o extremo de querer-vos + Cegou-me os olhos com ver-vos, + Levou-vos, sem que vos visse. + Eu cego, mas atinado, + Quando vi que vos no via, + Do mesmo Amor indignado, + Ja vdes qual ficaria + _Sem vs e com meu cuidado._ + + * * * * * + + +MOTE. + + Retrato, vs no sois meu; + Retratro-vos mui mal; + Que a serdes meu natural, + Foreis mofino como eu. + +_Glosa._ + + Indaqu'em vs a arte vena + O que o natural tee dado, + No fostes bem retratado; + Que ha em vs mais differena, + Que no vivo do pintado. + Se o lugar se considera + Do alto estado, que vos deu + A sorte, qu'eu mais quizera; + Se he qu'eu sou quem d'antes era, + _Retrato, vs no sois meu._ + + Vs na vossa glria psto, + Eu na minha sepultura, + Vs com bens, eu com desgsto; + Pareceis-vos ao meu rosto, + E no ja minha ventura. + E pois nella e vs erraro + O qu'em mi he principal, + Muito em ambos s'enganro. + Se por mi vs retratro, + _Retratro-vos mui mal._ + + Mas se esse rosto fingido + Quizero representar, + E houvero por bom partido + Dar-vos a alma do sentido + Para a glria do lugar; + Vreis, psto nessa alteza, + Que vos no ha cousa igual; + E que nem a maior mal + Podeis vir, nem mor baixeza, + _Que a serdes meu natural._ + + Por isso no confesseis + Serdes meu, qu'he desatino, + Com que o lugar perdereis: + Se conservar-vos quereis, + Blazonae que sois divino. + Que se nesta occasio + Conhecessem qu'ereis meu, + Por meu vos dero de mo, + . . . . . . . . . . + _Freis mofino, como eu._ + + * * * * * + + +MOTE. + + Foi-se gastando a esperana, + Fui entendendo os enganos; + Do mal ficro-me os danos, + E do bem s a lembrana. + +_Glosa._ + + Nunca em prazeres passados + Tive firmeza segura. + Antes to arrebatados, + Qu'inda no ero chegados, + Quando mos levou ventura. + E como quem desconfia + Ter em tal sorte mudana, + No meio desta porfia, + De quanto bem pretendia + _Foi-se gastando a esperana._ + + No tive por desatino + A occasio de perdella; + Mas foi culpa do destino, + Que a ninguem, como mais dino, + Amor pudra sostella. + Dei-lhe tudo o qu'era seu, + No receando taes danos + Deste, a quem alma lhe deu: + Quando ja no era meu, + _Fui entendendo os enganos._ + + Fiquei deste mal sobejo + A quem a causa compete + Dizer-lhe tudo o que vejo, + Que Amor acceita o desejo, + Mas mente no que promete. + Que se a mi se me obrigou + A dar-me bens soberanos, + Foi engano que ordenou; + Que do bem tudo levou, + _Do mal ficro-me os danos._ + + E se dor to desigual + Soffro em mi com padecellos, + Quero de novo soffrellos; + Que por a causa ser tal, + No determino offendellos. + Dobre-se o mal, falte a vida, + Cresa a f, falte a esperana, + Pois foi mal agradecida; + Fique a dor n'alma imprimida, + _E do bem s a lembrana._ + + * * * * * + + +ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA. + + Aquella captiva, + Que me tee captivo, + Porque nella vivo, + Ja no quer que viva. + Eu nunca vi rosa + Em suaves mlhos, + Que para meus olhos + Fosse mais formosa. + + Nem no campo flores, + Nem no ceo estrellas, + Me parecem bellas, + Como os meus amores. + Rosto singular, + Olhos socegados, + Pretos e cansados, + Mas no de matar. + + Huma graa viva, + Que nelles lhe mora, + Para ser senhora + De quem he captiva. + Pretos os cabellos, + Onde o povo vo + Perde opinio, + Que os louros so bellos. + + Pretido de Amor, + To doce a figura, + Que a neve lhe jura + Que trocra a cr. + Leda mansido, + Que o siso acompanha, + Bem parece estranha, + Mas barbara no. + + Presena serena, + Que a tormenta amansa: + Nella emfim descansa + Toda minha pena. + Esta he a captiva, + Que me tee captivo; + E pois nella vivo, + He fra que viva. + + * * * * * + + +MOTE. + + Quem ora soubesse + Onde o Amor nasce, + Que o semeasse! + +_Voltas._ + + D'Amor e seus danos + Me fiz lavrador; + Semeava amor, + E colhia enganos; + No vi, em meus anos, + Homem que apanhasse + O que semeasse. + + Vi terra florda + De lindos abrolhos, + Lindos para os olhos, + Duros para a vida. + Mas a rez perdida, + Que tal herva pasce, + Em forte hora nasce. + + Com quanto perdi, + Trabalhava em vo: + Se semeei gro, + Grande dor colhi. + Amor nunca vi + Que muito durasse, + Que no magoasse. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Se me levo goas, + Nos olhos as levo. + +_Voltas._ + + Se de saudade + Morrerei ou no, + Meus olhos diro + De mi a verdade. + Por elles me atrevo + A lanar as goas, + Que mostrem as mgoas + Que nesta alma levo. + + As goas, qu'em vo + Me fazem chorar, + Se ellas so do mar, + Estas de amar so. + Por ellas relvo + Todas minhas mgoas; + Que se fra d'goas + Me leva, eu as levo. + + Todas me entristecem, + Todas so salgadas; + Porm as choradas + Doces me parecem. + Correi, doces goas, + Que se em vs m'enlvo, + No doem as mgoas, + Que no peito levo. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Menina dos olhos verdes, + Porque me no vedes? + +_Voltas._ + + Elles verdes so, + E tee por usana + Na cr esperana, + E nas obras no. + Vossa condio + No he d'olhos verdes, + Porque me no vdes. + + Isenes a mlhos + Qu'elles dizem terdes, + No so d'olhos verdes, + Nem de verdes olhos. + Sirvo de giolhos, + E vs no me credes, + Porque me no vdes. + + Havio de ser, + Porque possa v-los, + Que huns olhos to bellos + No se ho d'esconder: + Mas fazeis-me crer, + Que ja no so verdes, + Porque me no vdes. + + Verdes no o so, + No que alcano delles; + Verdes so aquelles + Qu'esperana do. + Se na condio + Est serem verdes, + Porque me no vedes? + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Trocae o cuidado, + Senhora, comigo; + Vereis o perigo, + Qu'he ser desamado. + +_Voltas._ + + Se trocar desejo + O amor entre ns, + He para qu'em vs + Vejais o que vejo. + E sendo trocado + Este amor comigo, + Ser-vos-ha castigo + Terdes meu cuidado. + + Tendes o sentido + D'Amor livre e isento, + E cuidais qu'he vento + Ser to mal querido. + No seja o cuidado + To vosso inimigo, + Que queira o perigo + De ser desamado. + + Mas nunca foi tal + Este meu querer, + Que a quem tanto quer, + Queira tanto mal + Seja eu maltratado, + E nunca o castigo + Vos mostre o perigo, + Qu'he ser desamado. + + * * * * * + + + TENO DE MIRAGUARDA. + + Ver, e mais guardar + De ver outro dia, + Quem o acabaria? + +_Voltas._ + + Da lindeza vossa, + Dama, quem a v, + Impossivel he + Que guardar-se possa. + Se faz tanta mossa + Ver-vos hum s dia, + Quem se guardaria? + + Melhor deve ser + Neste aventurar + Ver, e no guardar, + Que guardar e ver. + Ver e defender, + Muito bom sera, + Mas quem poderia? + + * * * * * + + +MOTE. + + Irme quiero, madre, + aquella galera, + Con el marinero, + ser marinera. + +_Voltas._ + + Madre, si me fuere, + Do quiera que v, + No lo quiero yo, + Que el Amor lo quiere. + Aquel nio fiero, + Hace que me mueva + Por un marinero + ser marinera. + + El que todo puede, + Madre, no podr, + Pues el alma v, + Que el cuerpo se quede. + Con l por que muero + Voy, porque no muera; + Que si es marinero, + Ser marinera. + + Es tirana ley + Del nio Seor, + Que por un amor + Se deseche un Rey. + Pues desta manera + Quiero irme, quiero + Por un marinero + ser marinera. + + Decid, ondas, cuando + Vistes vos doncella, + Siendo tierna y bella, + Andar navegando? + Mas qu no se espera + Daquel nio fiero? + Vea yo quien quiero, + Sea marinera. + + * * * * * + + +MOTE. + + Saudade minha, + Quando vos veria? + +_Voltas._ + + Este tempo vo, + Esta vida escassa, + Para todos passa, + S para mi no. + Os dias se vo + Sem ver este dia, + Quando vos veria. + + Vde esta mudana + Se est bem perdida, + Em to curta vida + To longa esperana. + Se este bem se alcana, + Tudo soffreria, + Quando vos veria. + + Saudosa dor, + Eu bem vos entendo; + Mas no me defendo, + Porque offendo Amor. + Se fsseis maior, + Em maior valia + Vos estimaria. + + Minha saudade, + Charo penhor meu, + A quem direi eu + Tamanha verdade? + Na minha vontade + De noite e de dia + Sempre vos teria. + + * * * * * + + +MOTE. + + Vida da minha alma, + No vos posso ver: + Isto no he vida + Para se soffrer. + +_Voltas._ + + Quando vos eu via, + Esse bem lograva, + A vida estimava, + Pois ento vivia; + Porque vos servia + S para vos ver. + Ja que vos no vejo + Para qu'he viver? + + Vivo sem razo, + Porqu'em minha dor + No a poz Amor; + Que inimigos so. + Mui grande traio + Me obriga a fazer + Que viva, Senhora, + Sem vos poder ver. + + No me atrevo ja, + Minha to querida, + A chamar-vos vida, + Porque a tenho m. + Ninguem cuidar, + Que isto pde ser, + Sendo-me vs vida, + No poder viver. + + * * * * * + + +MOTE. + + Coifa de beirame + Namorou Joanne. + +_Voltas._ + + Por cousa to pouca + Andas namorado? + Amas o toucado, + E no quem o touca? + Ando cega e louca + Por ti, meu Joanne, + Tu pelo beirame. + + Amas o vestido? + Es falso amador. + Tu no vs que Amor + Se pinta despido? + Cego e mui perdido + Andas por beirame, + E eu por ti, Joanne. + + A todos encanta + Tua parvoice; + De tua doudice + Gonalo s'espanta, + E zombando canta: + Coifa de beirame, + Namorou Joanne. + + Eu no sei que viste + Neste meu toucado, + Que to namorado + Delle te sentiste. + No te veja triste; + Ama-me, Joanne, + E deixa o beirame. + + Joanne gemia, + Maria chorava, + E assi lamentava + O mal que sentia: + (Os olhos feria, + E no o beirame, + Que matou Joanne) + + No sei do que vem + Amares vestido; + Que o mesmo Cupido + Vestido no tem. + Sabes de que vem + Amares beirame? + Vem de ser Joanne. + + * * * * * + + +MOTE. + + Se Helena apartar + Do campo seus olhos, + Nascero abrolhos. + +_Voltas._ + + A verdura amena, + Gados, que pasceis, + Sabei que a deveis + Aos olhos d'Helena. + Os ventos serena, + Faz flores d'abrolhos + O ar de seus olhos. + + Faz serras flordas, + Faz claras as fontes: + S'isto faz nos montes, + Que fara nas vidas? + Tra-las suspendidas, + Como hervas em mlhos, + Na luz de seus olhos. + + Os coraes prende + Com graa inhumana; + De cada pestana + Hum'alma lhe pende. + Amor se lhe rende, + E psto em giolhos, + Pasma nos seus olhos. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Verdes so os campos + De cr de limo; + Assi so os olhos + Do meu corao. + +_Voltas._ + + Campo, que t'estendes + Com verdura bella; + Ovelhas, que nella + Vosso pasto tendes; + D'hervas vos mantendes + Que traz o vero; + E eu das lembranas + Do meu corao. + + Gados, que pasceis + Com contentamento, + Vosso mantimento + No no entendeis. + Isso que comeis, + No so hervas, no; + So graa dos olhos + Do meu corao. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Verdes so as hortas + Com rosas e flores: + Moas, que as rgo, + Mato-me d'amores. + +_Voltas._ + + Entre estes penedos + Que daqui parecem, + Verdes hervas crescem, + Altos arvoredos. + Vai destes rochedos + goa, com que as flores + D'outras so regadas, + Que mto d'amores. + + Com goa, que cai + Daquella espessura, + Outra se mistura, + Que dos olhos sai: + Toda junta vai + Regar brancas flores; + Onde ha outros olhos, + Que mto d'amores. + + Celestes jardins, + As flores estrellas: + Hortelas dellas + So huns seraphins. + Rosas e jasmins + De diversas cres, + Anjos, que as rgo, + Mto-me d'amores. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Menina formosa, + Dizei de que vem + Serdes rigorosa + A quem vos quer bem? + +_Voltas._ + + No sei quem assella + Vossa formosura; + Que quem he to dura + No pde ser bella. + Vs sereis formosa; + Mas a razo tem + Que quem he irosa, + No parece bem. + + A mostra he de bella, + As obras so cruas: + Pois qual destas duas + Ficar na sella? + Se ficar _irosa_, + No vos est bem: + Fique antes _formosa_, + Que mais fra tem. + + O Amor formoso + Se pinta e se chama: + Se he amor, ama, + Se ama, he piedoso. + Diz agora a grosa + Que este texto tem, + Que quem he formosa + Ha de querer bem. + + Havei d, menina, + Dessa formosura; + Que se a terra he dura, + Secca-se a bonina. + Sde piedosa; + No veja ninguem + Que por rigorosa + Percais tanto bem. + + * * * * * + + +ALHEIO. + + Tende-me mo nelle, + Que hum real me deve. + +_Voltas._ + + C'hum real d'amor, + Dous de confiana, + E tres d'esperana, + Me foge o trdor. + Falso desamor + S'encerra naquelle + Que hum real me deve. + + Pedio-mo emprestado, + No lhe quiz penhor: + He mao pagador; + Tendo-mo afferrado. + C'hum cordel atado, + Ao Tronco se leve; + Que hum real me deve. + + Por esta travssa + Se vai acolhendo: + Ei-lo vai correndo, + Fugindo a gr pressa. + Nesta mo, e nessa + O falso se atreve, + Que hum real me deve. + + Comprou-me o amor, + Sem lhe fazer preo: + Eu no lhe mereo + Dar-me desfavor. + D-me tanta dor, + Que ando apos elle + Pelo que me deve. + + Eu de c bradando, + Elle vai fugindo; + Elle sempre rindo, + Eu sempre chorando. + E de quando em quando + No amor se atreve, + Como que no deve. + + A fallar verdade + Elle ja pagou; + Mas ainda ficou + Devendo ametade. + Minha liberdade + He a que me deve: + S nella se atreve. + + * * * * * + + +MOTE. + + D la mi ventura, + Que no veo alguna? + +_Voltas._ + + Sepa quien padece, + Que en la sepultura + Se esconde ventura + De quien la merece. + All me parece, + Que quiere fortuna + Que yo halle alguna. + + Naciendo mesquino, + Dolor fu mi cama; + Tristeza fu el ama, + Cuidado el padrino. + Vestise el destino + Negra vestidura, + Huy la ventura. + + No se hall tormento, + Que alli no se hallase; + Ni bien, que pasase, + Sin como viento. + Oh qu nacimiento, + Que luego en la cuna + Me sigui fortuna! + + Esta dicha mia, + Que siempre busqu, + Buscndola, hall + Que no la hallaria; + Que quien nace en dia + D'estrella tan dura, + Nunca halla ventura. + + No puso mi estrella + Mas ventura em min: + Ans vive en fin + Quien nace sin ella. + No me quejo della; + Qujome que atura + Vida tan escura. + + * * * * * + + +MOTE. + + Vida de minha alma. + +_Volta._ + + Dous tormentos vejo + Grandes por extremo: + Se vos vejo, temo, + E se no, desejo. + Quando me despejo, + E venho a escolher, + Temendo o desejo, + Desejo temer. + + * * * * * + + +CANTIGA ALHEIA. + + Pastora da serra, + Da serra da Estrella, + Perco-me por ella. + +_Voltas._ + + Nos seus olhos bellos + Tanto Amor se atreve, + Que abraza entre a neve + Quantos ouso vellos. + No slta os cabellos + Aurora mais bella: + Perco-me por ella. + + No teve esta serra + No meio d'altura + Mais que a formosura, + Que nella se encerra. + Bem ceo fica a terra, + Que tee tal estrella: + Perco-me por ella. + + Sendo entre pastores + Causa de mil males, + No se ouvem nos vales + Seno seus louvores. + Eu s por amores + No sei fallar nella, + Sei morrer por ella. + + D'alguns, que sentindo + Seu mal vo mostrando. + Se ri, no cuidando + Qu'inda paga rindo. + Eu triste, encobrindo + S meus males della, + Perco-me por ella. + + Se flores deseja + Por ventura bellas, + Das que colhe dellas + Mil morrem d'inveja. + No ha quem no veja + Todo o melhor nella: + Perco-me por ella. + + Se n'goa corrente + Seus olhos inclina, + Faz a luz divina + Parar a corrente. + Tal se v, que sente + Por ver-se a goa nella: + Perco-me por ella. + + * * * * * + + +ENDECHAS. + + Vs sois huma Dama + Das feias do mundo; + De toda a m fama + Sois cabo profundo. + + A vossa figura + No he para ver; + Em vosso poder + No ha formosura. + + Vs fostes dotada + De toda a maldade; + Perfeita beldade + De vs he tirada. + + Sois muito acabada + De taixa e de glosa: + Pois quanto a formosa, + Em vs no ha nada. + + Do gro merecer + Sois bem apartada; + Andais alongada + Do bem parecer. + + Bem claro mostrais + Em vs fealdade: + No ha hi maldade, + Que no precedais. + + De fresco caro + Vos vejo ausente; + Em vs he presente + A m condio. + + De ter perfeio + Mui alheia estais; + Mui muito alcanais + De pouca razo. + + * * * * * + + +ENDECHAS. + + Vai o bem fugindo, + Cresce o mal co'os annos, + Vo-se descubrindo + Co'o tempo os enganos. + + Amor e alegria. + Menos tempo dura. + Triste de quem fia + Nos bens da ventura! + + Bem sem fundamento + Tee certa a mudana, + Certo o sentimento + Na dor da lembrana. + + Quem vive contente, + Viva receoso: + Mal que se no sente, + He mais perigoso. + + Quem males sentio, + Saiba ja temer; + E pelo que vio + Julgue o qu'ha de ser. + + Alegre vivia, + Triste vivo agora; + Chora a alma de dia, + E de noite chora. + + Confesso os enganos + De meu pensamento: + Bem de tantos annos + Foi-se n'hum momento. + + Meus olhos, que vistes? + Pois vos atrevestes, + Chorae, olhos tristes, + O bem que perdestes. + + A luz do sol pura + S a vs se negue; + Seja noite escura, + Nunca a manha chegue. + + O campo florea, + Murmurem as goas, + Tudo me entristea, + Creso minhas mgoas. + + Quizera mostrar + O mal que padeo; + No lhe d lugar + Quem lhe deu como. + + Em tristes cuidados + Passo a triste vida; + Cuidados cansados, + Vida aborrecida. + + Nunca pude crer + O que agora creio: + Cegou-me o prazer + Do mal que me veio. + + Ah ventura minha, + Como me negaste! + Hum so bem que tinha, + Porque mo roubaste? + + Triste fantasia + Quanta cousa guarda! + Quem ja visse o dia, + Que tanto lhe tarda! + + Nesta vida cega + Nada permanece; + O qu'inda no chega, + Ja desaparece. + + Qualquer esperana + Foge como o vento: + Tudo faz mudana, + Salvo meu tormento. + + Amor cego e triste, + Quem o tee padece: + Mal quem lhe resiste! + Mal quem lhe obedece! + + No meu mal esquivo + Sei como Amor trata: + E pois nelle vivo, + Nenhum amor mata. + + * * * * * + + + +SEXTINAS. + + +SEXTINA I. + + Foge-me pouco a pouco a curta vida, + Se por caso he verdade qu'inda vivo; + Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos; + Chro por o passado; e em quanto fallo, + Se me passo os dias passo a passo. + Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena. + + Que maneira to aspera de pena! + Pois nunca hum'hora vio to longa vida + Em que do mal mover se visse hum passo. + Que mais me monta ser morto que vivo? + Para que chro, emfim? para que fallo, + Se lograr-me no pude de meus olhos? + + Oh formosos, gents e claros olhos, + Cuja ausencia me move a tanta pena, + Quanta se no comprende em quanto fallo! + Se no fim de to longa e curta vida + De vs m'inflammasse inda o raio vivo, + Por bem teria todo o mal que passo. + + Mas bem sei que primeiro o extremo passo + Me ha de vir a cerrar os tristes olhos, + Que Amor me mostre aquelles por quem vivo. + Testimunhas sero a tinta e penna, + Qu'escrevro de to molesta vida + O menos que passei, e o mais que fallo. + + Oh que no sei qu'escrevo, nem que fallo! + Pois se d'hum pensamento em outro passo, + Vejo to triste genero de vida, + Que se lhe no valerem tanto os olhos, + No posso imaginar qual seja a penna + Qu'esta pena traslade com que vivo. + + N'alma tenho contino hum fogo vivo, + Que se no respirasse no que fallo, + Estaria ja feita cinza a pena; + Mas sbre a maior dor que soffro e passo, + O tempero com lagrimas os olhos: + Com que, se foge, no se acaba a vida. + + Morrendo estou na vida, e em morte vivo; + Vejo sem olhos, e sem lingua fallo; + E juntamente passo gloria e pena. + + * * * * * + + +SEXTINA II. + + A culpa de meu mal s tee meus olhos, + Pois que dero a Amor entrada n'alma, + Para que perdesse eu a liberdade. + Mas quem pde fugir a huma brandura, + Que despois de vos pr em tantos males, + D por bens o perder por ella a vida? + + Assaz de pouco faz quem perde a vida + Por condio to dura e brandos olhos; + Pois de tal qualidade so meus males, + Que o mais pequeno delles toca n'alma. + No s'engane com mostras de brandura + Quem quizer conservar a liberdade. + + Roubadora he de toda liberdade + (E oxal perdoasse triste vida!) + Esta que o falso Amor chama brandura, + Ai meus antes imigos, que meus olhos! + Que mal vos tinha feito esta vossa alma, + Para vs lhe fazerdes tantos males? + + Creso de dia em dia embora os males; + Perca-se embora a antigua liberdade; + Transforme-se em Amor esta triste alma; + Padea embora esta innocente vida; + Que bem me pgo tudo estes meus olhos, + Quando de outros, se os vem, vem a brandura. + + Mas como nelles pde haver brandura, + Se causadores so de tantos males? + Engano foi d'Amor, porque meus olhos + Dessem por bem perdida a liberdade. + Ja no tenho que dar seno a vida, + Se a vida ja no deo, quem ja deo a alma. + + Que pde ja'sperar quem a sua alma + Captiva eterna fez d'huma brandura, + Que quando vos d morte, diz qu'he vida? + Forado me he gritar nestes meus males, + Olhos meus: pois por vs a liberdade + Perdi, de vs me queixarei, meus olhos. + + Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma, + Pois dais a liberdade a tal brandura, + Que para dar mais males, d mais vida. + + * * * * * + + +SEXTINA III. + + Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia, + Amanhecido s para meu damno! + Pudeste-me apartar daquella vista + Por quem vivia com meu mal contente? + Ah se o supremo fras desta vida, + Qu'em ti se comera a minha glria! + + Mas como eu no nasci para ter glria, + Seno pena que cresa cada dia, + O ceo m'est negando o fim da vida, + Porque no tenha fim com ella o damno: + Para que nunca possa ser contente, + Da vista me tirou aquella vista. + + Suave, deleitosa, alegre vista, + Donde pendia toda a minha gloria, + Por quem na mor tristeza fui contente; + Quando ser que veja aquelle dia + Em que deixe de ver to grave damno, + E em que me deixe to penosa vida? + + Como desejarei humana vida, + Ausente d'hua mais que humana vista, + Que to glorioso me fazia o damno! + Vejo o meu damno sem a sua glria; + minha noite falta ja seu dia: + Triste tudo se v, nada contente. + + Pois sem ti ja no posso ser contente, + Mal posso desejar sem ti a vida; + Sem ti ja ver no posso claro dia, + No posso sem te ver desejar vista; + Na tua vista s se via a glria, + No ver a glria tua he ver meu damno. + + No via maior glria que meu damno, + Quando do damno meu eras contente: + Agora me he tormento a maior glria, + Que pde prometter-me Amor na vida, + Pois tornar-te no pde minha vista, + Que s na tua achava a luz do dia. + + E pois de dia em dia cresce o damno, + Nem posso sem tal vista ser contente, + S com perder a vida acharei glria. + + * * * * * + + +SEXTINA IV. + + Sempre me queixarei desta crueza + Que Amor usou comigo quando o tempo, + A pezar de meu duro e triste fado, + A meus males queria dar remedio, + Em apartar de mi aquella vista, + Por quem me contentava a triste vida. + + Levra-me, oxal, traz ella a vida, + Para que no sentira esta crueza + De me ver apartado de tal vista! + E praza a Deos no veja o proprio tempo + Em mi, sem esperana de remedio, + A desesperao d'hum triste fado! + + Porm ja acabe o triste e duro fado! + Acabe o tempo ja to triste vida, + Qu'em sua morte s tee seu remedio. + O deixar-me viver he mor crueza, + Pois desespro ja d'em algum tempo + Tornar a ver aquella doce vista. + + Duro Amor! se pagava s tal vista + Todo o mal que por ti me fez meu fado, + Porque quizeste que a levasse o tempo? + E se o assi quizeste, porque a vida + Me deixas para ver tanta crueza, + Quando em no v-la s vejo o remedio? + + Tu s de minha dor eras remedio, + Suave, deleitosa e bella vista. + Sem ti, que posso eu ver seno crueza? + Sem ti, qual bem me pde dar o fado, + Se no he consentir que acabe a vida? + Mas elle della me dilata o tempo. + + Azas para voar vejo no tempo, + Que com voar a muitos foi remedio; + E s no va para a minha vida. + Para que a quero eu sem tua vista? + Para que quer tambem o triste fado + Que no acabe o tempo tal crueza? + + No podero fazer crueza, ou tempo, + Fra de fado, ou falta de remedio, + Qu'essa vista m'esquea em toda a vida. + + * * * * * + + + + +ELEGIAS + + +ELEGIA I. + + O sulmonense Ovidio desterrado + Na aspereza do Ponto, imaginando + Ver-se de seus Penates apartado; + + Sua chara mulher desamparando, + Seus doces filhos, seu contentamento, + De sua Patria os olhos apartando; + + No podendo encobrir o sentimento, + Aos montes ja, ja aos rios se queixava + De seu escuro e triste nascimento. + + O curso das estrellas contemplava, + E aquella ordem com que discorria + O ceo e o ar, e a terra adonde estava. + + Os peixes por o mar nadando via, + As feras por o monte procedendo + Como o seu natural lhes permittia. + + De suas fontes via estar nascendo + Os saudosos rios de crystal, + sua natureza obedecendo. + + Assi s, de seu proprio natural + Apartado, se via em terra estranha, + A cuja triste dor no acha igual. + + S sua doce Musa o acompanha + Nos soidosos versos qu'escrevia, + E nos lamentos com que o campo banha. + + Dest'arte me figura a phantasia + A vida com que morro, desterrado + Do bem qu'em outro tempo possuia. + + Aqui contemplo o gsto ja passado, + Que nunca passar por a memoria + De quem o traz na mente debuxado. + + Aqui vejo caduca e debil glria + Desenganar meu rro co'a mudana + Que faz a fragil vida transitoria. + + Aqui me representa esta lembrana + Quo pouca culpa tenho; e m'entristece + Ver sem razo a pena que m'alcana. + + Que a pena que com causa se padece, + A causa tira o sentimento della; + Mas muito doe a que se no merece. + + Quando a roxa manha, dourada e bella, + Abre as portas ao sol e cahe o orvalho, + E torna a seus queixumes Philomela; + + Este cuidado, que co'o somno atalho, + Em sonhos me parece; que o que a gente + Por seu descanso tee me d trabalho. + + E despois de acordado cegamente, + (Ou, por melhor dizer, desacordado, + Que pouco acrdo logra hum descontente) + + Daqui me vou, com passo carregado, + A hum outeiro erguido, e alli m'assento, + Soltando toda a redea a meu cuidado. + + Despois de farto ja de meu tormento, + Estendo estes meus olhos saudosos + parte donde tinha o pensamento. + + No vejo seno montes pedregosos; + E sem graa e sem flor os campos vejo, + Que ja floridos vra, e graciosos. + + Vejo o puro, suave e rico Tejo, + Com as concavas barcas, que nadando + Vo pondo em doce effeito o seu desejo. + + Humas com brando vento navegando, + Outras com leves reinos brandamente + As crystallinas goas apartando. + + D'alli fallo com a goa que no sente + Com cujo sentimento est'alma sae + Em lagrimas desfeita claramente. + + fugitivas ondas, esperae; + Que pois me no levais em companhia, + Ao menos estas lagrimas levae. + + At que venha aquelle alegre dia + Qu'eu v onde vs ides, livre e ledo. + Mas tanto tempo, quem o passaria? + + No pde tanto bem chegar to cedo: + Porque primeiro a vida acabar, + Que se acabe to aspero degredo. + + Mas essa triste morte que vir, + S'em to contrrio estado me acabasse, + Est'alma assi impaciente adonde ir? + + Que se s portas Tartaricas chegasse, + Temo que tanto mal por a memoria + Nem ao passar do Lethe lhe passasse. + + Que se a Tantalo e Ticio for notoria + A pena com que vai, e que a atormenta, + A pena que l tee, tero por glria. + + Essa imaginao, emfim, me augmenta + Mil mgoas no sentido, porque a vida + De imaginaes tristes se contenta. + + Que pois de todo vive consumida, + Porque o mal que possue se resuma, + Imagina na glria possuida. + + At que a noite eterna me consuma, + Ou veja aquelle dia desejado + Em que a Fortuna faa o que costuma; + + Se nella ha hi mudar-se hum triste estado. + + * * * * * + + +ELEGIA II. + + Aquella que d'amor descomedido + Por o formoso moo se perdeo, + Que s por si d'amores foi perdido; + + Despois que a deosa em pedra a converteo + De seu humano gesto verdadeiro, + A ltima voz s lhe concedeo. + + Assi meu mal do proprio ser primeiro + Outra cousa nenhua me consente, + Qu'este canto qu'escrevo derradeiro. + + E se huma pouca vida, estando ausente, + Me deixa Amor, he porque o pensamento + Sinta a perda do bem d'estar presente. + + Senhor, se vos espanta o soffrimento + Que tenho em tanto mal para escrev-lo, + Furto este breve espao a meu tormento. + + Porque quem tee poder para soffr-lo, + Sem se acabar a vida co'o cuidado, + Tambem ter poder para diz-lo. + + Nem eu escrevo hum mal ja acostumado; + Mas n'alma minha triste e saudosa + A saudade escreve, e eu traslado. + + Ando gastando a vida trabalhosa, + E esparzindo a contnua soidade + Ao longo d'huma praia soidosa. + + Vejo do mar a instabilidade, + Como com seu ruido impetuoso + Retumba na maior concavidade. + + De furibundas ondas poderoso, + Na terra, a seu pezar, est tomando + Lugar, em que s'estenda, cavernoso. + + Ella, como mais fraca, lh'est dando + As concavas entranhas, onde esteja + Sempre com som profundo suspirando. + + A todas estas cousas tenho inveja + Tamanha, que no sei determinar-me, + Por mais determinado que me veja. + + Se quero em tanto mal desesperar-me, + No posso, porque Amor e saudade + Nem licena me do para matar-me. + + s vezes cuido em mi, se a novidade + E estranheza das cousas, co'a mudana, + Poderio mudar huma vontade. + + E com isto figuro na lembrana + A nova terra, o novo trato humano, + A estrangeira progenie, a estranha usana. + + Subo-me ao monte que Hercules Thebano + Do altissimo Calpe dividio, + Dando caminho ao mar Mediterrano; + + D'alli'stou tenteando adonde vio + O pomar das Hesperidas, matando + A serpe que a seu passo resistio. + + Estou-me em outra parte figurando + O poderoso Anteo, que derribado + Mais fra se lhe vinha accrescentando; + + Porm do Herculeo brao sobjugado, + No ar deixando a vida, no podendo + Dos soccorros da me ser ajudado. + + Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo, + Nem com as armas to continuadas, + D'amorosas lembranas me defendo. + + Todas as cousas vejo demudadas, + Porque o tempo ligeiro no consente + Qu'estejo de firmeza acompanhadas. + + Vi ja que a Primavera, de contente, + Em variadas cres revestia + O monte, o campo, o valle, alegremente. + + Vi ja das altas aves a harmonia, + Que at duros penedos convidava + A algum suave modo d'alegria. + + Vi ja que tudo, emfim, me contentava, + E que, de muito cheio de firmeza, + Hum mal por mil prazeres no trocava. + + Tal me tee a mudana e estranheza, + Que se vou por os prados, a verdura + Parece que se scca de tristeza. + + Mas isto he ja costume da ventura; + Porque aos olhos que vivem descontentes, + Descontente o prazer se lhes figura. + + Oh graves e insoffriveis accidentes + De Fortuna e d'Amor! que penitencia + To grave dais aos peitos innocentes! + + No basta examinar-me a paciencia + Com temores e falsas esperanas, + Sem que tambem me tente o mal de ausencia? + + Trazeis hum brando espirito em mudanas, + Para que nunca possa ser mudado + De lagrimas, suspiros e lembranas. + + E s'estiver ao mal acostumado, + Tambem no mal no consentis firmeza, + Para que nunca viva descansado. + + Ja quieto m'achava co'a tristeza; + E alli no me faltava hum brando engano. + Que tirasse desejos da fraqueza. + + Mas vendo-me enganado estar ufano, + Deo roda a Fortuna; e deo comigo + Onde de novo chro o novo dano. + + Ja deve de bastar o que aqui digo, + Para dar a entender o mais que calo + A quem ja vio to aspero perigo. + + E se nos brandos peitos faz abalo + Hum peito magoado e descontente, + Que obriga a quem o ouve a consol-lo; + + No quero mais seno que largamente, + Senhor, me mandeis novas dessa terra; + Que alguma dellas me fara contente. + + Porque se o duro Fado me desterra + Tanto tempo do bem, que o fraco esprito + Desampare a priso onde s'encerra; + + Ao som das negras goas do Cocito, + Ao p dos carregados arvoredos + Cantarei o que n'alma tenho escrito. + + E por entre estes horridos penedos + A quem negou Natura o claro dia, + Entre tormentos asperos e medos, + + Com a trmula voz, cansada e fria, + Celebrarei o gesto claro e puro, + Que nunca perderei da phantasia. + + O Musico de Thracia, ja seguro + De perder sua Eurydice, tangendo + Me ajudar ferindo o ar escuro. + + As namoradas sombras, revolvendo + Memorias do passado, me ouviro; + E com seu chro o rio ir crescendo. + + Em Salmono as penas faltaro, + E das filhas de Belo juntamente + De lagrimas os vasos s'enchero. + + Que se amor no se perde em vida ausente, + Menos se perder por morte escura: + Porque, emfim, a alma vive eternamente, + + E amor he effeito d'alma, e sempre dura. + + * * * * * + + +ELEGIA III. + + O poeta Simonides fallando + Co'o Capito Themistocles hum dia, + Em cousas de sciencia praticando; + + Hum'arte singular lhe promettia, + Qu'ento compunha, com que lh'ensinasse + A lembrar-se de tudo o que fazia; + + Onde to subtis regras lhe mostrasse, + Que nunca lhe passassem da memoria + Em nenhum tempo as cousas que passasse. + + Bem merecia, certo, fama e gloria + Quem dava regra contra o esquecimento, + Que sepulta qualquer antigua historia. + + Mas o Capito claro, cujo intento + Bem differente estava, porque havia + Do passado as lembranas por tormento; + + Oh illustre Simonides! (dizia) + Pois tanto em teu engenho te confias, + Que mostras memoria nova via; + + Se me dsses hum'arte, qu'em meus dias + Me no lembrasse nada do passado, + Oh quanto melhor obra me farias! + + S'este excellente dito ponderado + Fosse por quem se visse estar ausente, + Em longas esperanas degradado; + + Oh como bradaria justamente, + Simonides, inventa novas artes; + No midas o passado co'o presente! + + Que se he forado andar por vrias partes + Buscando vida algum descano honesto, + Que tu, Fortuna injusta, mal repartes; + + E se o duro trabalho, he manifesto + Que por grave que seja, ha de passar-se + Com animoso esprito e ledo gesto; + + De que serve s pessoas o lembrar-se + Do que se passou ja, pois tudo passa, + Seno d'entristecer-se e magoar-se? + + S'em outro corpo hum'alma se traspassa, + No como quiz Pythagoras na morte, + Mas como quer Amor na vida escassa; + + E s'este Amor no mundo est de sorte, + Que na virtude s d'hum lindo objecto + Tee hum corpo, sem alma, vivo e forte; + + Onde este objecto falta, qu'he defecto + Tamanho para a vida, que ja nella + M'est chamando pena a dura Alecto; + + Porque me no crira a minha Estrella + Selvatico no mundo, e habitante + Na dura Scythia, e no mais duro della? + + Ou no Caucaso horrendo, fraco infante + Criado ao peito d'huma tigre Hircana, + Homem fra formado de diamante; + + Porque a cerviz ferina e inhumana + No submettra ao jugo e dura lei + Daquelle que d vida quando engana. + + Ou em pago das goas qu'estilei, + As que passei do mar, foro do Lete, + Para que m'esquecra o que passei. + + Porque o bem que a esperana va promette, + Ou a morte o estorva, ou a mudana, + Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete. + + Ja, Senhor, cahir como a lembrana, + No mal, do bem passado he triste e dura, + Pois nasce aonde morre a esperana. + + E se quizer saber como se apura + Em almas saudosas, no s'enfade + De ler to longa e misera escriptura. + + Soltava Eolo a redea e liberdade + Ao manso Favonio brandamente, + E eu a tinha ja slta saudade. + + Neptuno tinha psto o seu tridente; + A proa a branca escuma dividia, + Com a gente maritima contente. + + O cro das Nereidas nos seguia; + Os ventos, namorada Galata + Comsigo socegados os movia. + + Das argenteas conchinhas Panopa + Andava por o mar fazendo mlhos, + Melanto, Dinamene, com Ligea. + + Eu, trazendo lembranas por antolhos, + Trazia os olhos n'goa socegada, + E a goa sem socgo nos meus olhos. + + A bem-aventurana ja passada + Diante de mi tinha to presente, + Como se no mudasse o tempo nada. + + E com o gesto immoto e descontente, + Co'hum suspiro profundo e mal ouvido, + Por no mostrar meu mal a toda a gente, + + Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido + Em puro amor tivestes, e inda agora + Da memoria o no tendes esquecido; + + Se por ventura fordes algum'hora + Adonde entra o gro Tejo a dar tributo + A Tethys, que vs tendes por Senhora; + + Ou ja por ver o verde prado enxuto, + Ou ja por colher ouro rutilante, + Das Tagicas areias rico fruto; + + Nellas em verso erotico e elegante + Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes; + Pde ser que algum peito se quebrante. + + E contando de mi memorias tristes, + Os pastores do Tejo, que me ouvio, + Ouo de vs as mgoas que me ouvistes. + + Ellas, que ja no gesto m'entendio, + Nos meneios das ondas me mostravo + Qu'em quanto lhes pedia consentio. + + Estas lembranas, que me acompanhavo + Por a tranquillidade da bonana, + Nem na tormenta triste me deixavo. + + Porque chegando ao Cabo da Esperana, + Como da saudade que renova, + Lembrando a longa e aspera mudana; + + Debaixo estando ja da estrella nova + Que no novo Hemispherio resplandece, + Dando do segundo axe certa prova; + + Eis a noite com nuvens s'escurece; + Do ar subitamente foge o dia; + E todo o largo Oceano s'embravece. + + A mchina do mundo parecia + Qu'em tormentas se vinha desfazendo; + Em serras todo o mar se convertia. + + Lutando Boreas fero e Noto horrendo. + Sonoras tempestades levantavo, + Das naos as velas concavas rompendo. + + As cordas co'o ruido assoviavo; + Os marinheiros, ja desesperados, + Com gritos para o ceo o ar coalhavo. + + Os raios por Vulcano fabricados + Vibrava o fero e aspero Tonante, + Tremendo os Polos ambos de assombrados. + + Amor alli, mostrando-se possante, + E que por algum medo no fugia, + Mas quanto mais trabalho, mais constante; + + Vendo a morte presente, em mi dizia: + Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse, + Nada do que passei me lembraria. + + Emfim, nunca houve cousa que mudasse + O firme amor intrinseco daquelle + Em quem alguma vez de siso entrasse. + + Huma cousa, Senhor, por certa asselle, + Que nunca amor se affina, nem se apura, + Em quanto est presente a causa delle. + + Dest'arte me chegou minha ventura + A esta desejada e longa terra, + De todo pobre honrado sepultura. + + Vi quanta vaidade em ns s'encerra, + E nos proprios quo pouca; contra quem + Foi logo necessario termos guerra. + + Huma Ilha que o Rei de Porc tem, + E que o Rei da Pimenta lhe tomra, + Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem. + + Com huma grossa armada, que juntra + O Viso-Rei, de Goa nos partimos + Com toda a gente d'armas que se achra. + + E com pouco trabalho destruimos + A gente no curvo arco exercitada: + Com morte, com incendios os punimos. + + Era a Ilha com goas alagada, + De modo que se andava em almadias: + Emfim, outra Veneza trasladada. + + Nella nos detivemos ss dous dias, + Que foro para alguns os derradeiros, + Pois passro da Estyge as ondas frias. + + Qu'estes so os remedios verdadeiros + Que para a vida esto apparelhados + Aos que a querem ter por cavalleiros. + + Oh Lavradores bem-aventurados! + Se conhecessem seu contentamento, + Como vivem no campo socegados! + + D-lhes a justa terra o mantimento; + D-lhes a fonte clara d'goa pura; + Mungem suas ovelhas cento a cento. + + No vem o mar irado, a noite escura, + Por ir buscar a pedra do Oriente; + No temem o furor da guerra dura. + + Vive hum com suas rvores contente, + Sem lhe quebrar o somno repousado + A gr cobia d'ouro reluzente. + + Se lhe falta o vestido perfumado, + E da formosa cr de Assyria tinto, + E das toraes Attalicos lavrado; + + Se no tee as delicias de Corinto, + E se de Pario os marmores lhe falto, + O pyropo, a esmeralda e o jacinto; + + Se suas casas de ouro no s'esmalto, + Esmalta-se-lhe o campo de mil flores, + Onde os cabritos seus comendo slto. + + Alli lhe mostra o campo vrias cres; + Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno; + Alli se affina o canto dos pastores. + + Alli cantra Tityro e Sileno. + Emfim, por estas partes caminhou + A sa Justia para o ceo sereno. + + Ditoso seja aquelle que alcanou + Poder viver na doce companhia + Das mansas ovelhinhas que criou! + + Este bem facilmente alcanaria + As causas naturaes de toda cousa; + Como se gera a chuva e neve fria: + + Os trabalhos do sol, que no repousa; + E porque nos d lua a luz alha, + Se tolher-nos de Phebo os raios ousa: + + E como to depressa o ceo roda; + E como hum s os outros traz comsigo; + E se he benigna ou dura Cythera. + + Bem mal pde entender isto que digo, + Quem ha de andar seguindo o fero Marte; + Que sempre os olhos traz em seu perigo. + + Porm seja, Senhor, de qualquer arte, + Pois postoque a Fortuna possa tanto, + Que to longe de todo o bem me aparte; + + No poder apartar meu duro canto + Desta obrigao sua, em quanto a morte + Me no entrega ao duro Radamanto; + + Se para tristes ha to leda sorte. + + * * * * * + + +ELEGIA IV. + + Despois que Magalhes teve tecida + A breve historia sua, que illustrasse + A Terra Santa Cruz, pouco sabida; + + Imaginando a quem a dedicasse, + Ou com cujo favor defenderia + Seu livro d'algum zoilo que ladrasse; + + Tendo nisto occupada a phantasia, + Lhe sobreveio hum somno repousado, + Antes que o sol abrisse o claro dia. + + Em sonhos lhe apparece todo armado + Marte, brandindo a lana furiosa, + Com que fez quem o vio todo enfiado; + + Dizendo em voz pezada e temerosa: + No he justo que a outrem se offerea + Obra alguma que possa ser famosa, + + Seno a quem por armas resplandea + No largo inundo com tal nome e fama, + Que louvor immortal sempre merea. + + Disse assi: quando Apollo, que da flama + Celeste guia os carros, de outra parte + Se lhe presenta, e por seu nome o chama, + + Dizendo: Magalhes, postoque Marte + Com seu terror t'espante, todavia + Comigo deves s de aconselhar-te. + + Hum Varo sapiente, em quem Thalia + Poz seus thesouros, e eu minha sciencia, + Defender tuas obras poderia. + + He justo que a escriptura na prudencia + Ache s defenso; porque a dureza + Das armas he contrria da eloquencia. + + Assi disse: e tocando com destreza + A cithara dourada, comeou + A mitigar de Marte a fortaleza. + + Mas Mercurio, que sempre costumou + Pacificar porfias duvidosas, + Co'o Caduco na mo, que sempre usou, + + Determina compor as perigosas + Opinies dos deoses inimigos + Com suaves razes e ponderosas. + + E disse: Bem sabemos dos antigos + Heroes, e dos modernos, que provro + De Belona os gravissimos perigos, + + Como to bem mil vezes concordro + As armas com as letras; porque as Musas + A muitos na milicia acompanhro. + + Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas + Guerras o estudo deixo grande espao; + Que as armas jamais delle so escusas. + + N'huma mo livros, n'outra ferro e ao; + Aquella rege e ensina; est'outra fere: + Mais co'o saber se vence, que co'o brao. + + Pois, logo, hum Varo grande se requere, + Que com teus des (Apollo) illustre seja, + E de ti (Marte) palma e glria espere. + + Este vos darei eu, em quem se veja + Saber e esfro no sereno peito, + Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja. + + Deste as Irmas em vendo o bom sogeito, + Todas nove nos braos o tomro, + Criando-o co'o seu leite no seu leito: + + As Artes e as Sciencias lh'ensinro; + Inclinao divina lh'influro + s virtudes moraes, que logo o ornro. + + Daqui nos exercidos o seguro + Das armas no Oriente, onde primeiro + Hum soldado gentil instituro. + + Alli taes provas fez de Cavalleiro, + Que, de Christo magnanimo e seguro, + A si mesmo venceo por derradeiro. + + Despois, ja Capito forte e maduro, + Governando toda a Aurea Chersoneso, + Lhe defendeo co'o brao o debil muro. + + Porque vindo a cerc-la todo o pso + Do poder dos Achens, que se sustenta + De alheio sangue, em furia todo acceso; + + Este s que a ti, Marte, representa, + O castigou de sorte, que vencido + De ter quem vivo fique se contenta. + + E logo qu'este Reino defendido + Deixou, segunda vez com maior glria + Para o ir governar foi elegido. + + Mas no perdendo ainda da memoria + Os amigos o seu govrno brando, + Os imigos o damno da victoria; + + Huns com amor intrinseco esperando + Esto por elle, e os outros congelados + O esto com frio medo receando. + + Vde pois se serio debellados + Por seu claro valor, se l tornasse, + E dos Indicos mares degradados. + + Porqu'he justo que nunca lhe negasse + O conselho do Olympo alto e subido + Favor e ajuda com que pelejasse. + + Aqui s pde ser bem dirigido + De Magalhes o estudo: este s deve + Ser de vs, claros deoses, escolhido. + + Assi Mercurio disse; e em termo breve + Conformados se vem Apollo e Marte; + E voou juntamente o somno leve. + + Acorda Magalhes, e ja se parte + A offrecer-vos, Senhor claro e famoso, + Tudo o que nelle poz sciencia e arte. + + Tee claro estylo, e engenho curioso, + Para poder de vs ser recebido, + Com mo benigna, de nimo amoroso. + + Pois se s de no ser favorecido + Hum alto esprito fica baixo e escuro; + Este seja comvosco defendido, + + Como o foi de Malaca o debil muro. + + * * * * * + + +ELEGIA V. + + Aquelle mover de olhos excellente, + Aquelle vivo espirito inflammado + Do crystallino rosto transparente; + + Aquelle gesto immoto e repousado, + Qu'estando n'alma propriamente escrito, + No pde ser em verso trasladado; + + Aquelle parecer, que he infinito + Para se comprender d'engenho humano; + O qual offendo em quanto tenho dito; + + Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano, + E tanto a engrandecer-me a phantasia, + Que no vi maior glria que meu dano. + + Oh bem-aventurado seja o dia + Em que tomei to doce pensamento, + Que de todos os outros me desvia! + + E bem-aventurado o soffrimento + Que soube ser capaz de tanta pena, + Vendo que o foi da causa o entendimento! + + Faa-me quem me mata, o mal que ordena, + Trate-me com enganos, desamores; + Qu'ento me salva, quando me condena. + + E se de to suaves desfavores + Penando vive hum'alma consumida, + Oh que doce penar! que doces dores! + + E se huma condio endurecida + Tambem me nega a morte por meu dano, + Oh que doce morrer! que doce vida! + + E se me mostra hum gesto lindo humano, + Como que de meu mal culpada se acha, + Oh que doce mentir! que doce engano! + + E s'em querer-lhe tanto ponho tacha, + Mostrando refrear o pensamento, + Oh que doce fingir! que doce cacha! + + Assi que ponho ja no soffrimento + A parte principal de minha glria, + Tomando por melhor todo tormento. + + Se sinto tanto bem s co'a memoria + De ver-vos, linda Dama, vencedora; + Que quero eu mais que ser vossa victoria? + + Se tanto a vossa vista mais namora, + Quanto eu sou menos para merecer-vos; + Que quero eu mais que ter-vos por senhora? + + Se procede este bem de conhecer-vos, + E consiste o vencer em ser vencido, + Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos? + + S'em meu proveito faz qualquer partido, + S na vista d'huns olhos to serenos, + Que quero eu mais ganhar que ser perdido? + + Se, emfim, os meus espritos, de pequenos, + A merecer no chego seu tormento, + Que quero eu mais, que o mais no seja menos? + + A causa, pois, m'esfora o soffrimento; + Porque, a pezar do mal que me resiste, + De todos os trabalhos me contento; + + Que a razo faz a pena alegre, ou triste. + + * * * * * + + +ELEGIA VI. + + Entre rusticas serras e fragosas, + Compostas d'asperissimos rochedos, + De salitradas lapas cavernosas; + + Onde gretando os humidos penedos + Orvalhados de neve branca e fria, + Brotando esto de si mil arvoredos; + + Huma floresta fez verde e sombria + A natureza experta, que rodeia, + Como elevado muro, a serrania. + + Neste formoso stio se recreia + O lascivo Cupido entre as boninas, + Que sempre hum brando Zephyro meneia. + + Da candida cecem, das clavellinas, + Da salva, mangerona e das mosquetas, + Das rubicundas flores hyacinthinas, + + Muitas capellas tece, que de setas + Lhe servem contra peitos de donzellas, + A quem d'inveja traz sempre inquietas. + + No so d'huma s cr as flores bellas; + Que humas esmalta verde, outras rosado, + Entre as azues crescendo as amarellas. + + Dos agrestes loureiros rodeado, + Faz o valle huma sombra deleitosa, + Quando apparece o sol mais levantado. + + E por cima da relva bem graciosa + As gottas de crystal quasi imitando + Esto do aljofar puro a luz formosa. + + As crystallinas fontes, que brotando + Por entre alvos seixinhos se derivo, + Das rvores os troncos vo banhando. + + Entre as limpidas goas, qu'inda esquivo + O formoso pastor que se perdeo, + Preso das falsas mostras que o captivo, + + Cresce a por cuja causa s'esqueceo + A linda Cythera de Vulcano, + Quando presa d'Amor se lhe rendeo. + + Na brancura do rosto soberano, + Inda as crueis feridas apparecem + Do javali cerdoso e deshumano. + + As rosas que de sangue resplandecem, + As candidas boninas marchetadas, + Qual roxo esmalte vista bem se offrecem. + + Do matutino orvalho rociadas, + As flores rutilantes e cheirosas + Esto como por cima prateadas. + + Os humidos botes abrindo as rosas, + Que os agudos espinhos vo cercando, + No prado se vem rindo deliciosas. + + A mellifera abelha, susurrando + Por cima das boninas que rodeia, + Est co'o som das goas concertando. + + Do trmulo regato a branda areia + De jacinthos se cobre e de vieiras, + Qu'encrespo da corrente a branca veia. + + Os lamos s'abrao co'as videiras + De sorte, que s'enxrga escassamente + Se so os cachos seus, se das parreiras; + + E pendendo por cima da corrente, + Outro formoso bosque debuxando + Esto no fundo della brandamente. + + Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando + Do perfido cunhado a crueldade, + Mgoas em melodias transformando. + + A solitaria rla com soidade + Desfaz o rouco peito, ja cansada + De que no move a morte a piedade. + + A domestica Progne anda banhada + No sangue de seus filhos, em vingana + Da triste Philomela profanada. + + De competir co'o merlo no descana + O garrulo calhandro, qu'enrouquece + Por no perder callado a confiana. + + Em quanto o pobre ninho ajunta e tece + O sonoro canario, modulando + Engana a grave pena que padece. + + Alguns versos s'escuta derramando + O vrio pintasirgo, to saudaveis, + Que produzem memorias d'amor brando. + + Por os direitos troncos ha notaveis + Epigrammas; alguns d'antigua historia, + Que contra o duro tempo so duraveis. + + Huns de cruel tormento, outros de glria, + Conforme a liberdade do qu'escreve, + Estranhos casos mostro memoria. + + O que neste lugar contente esteve, + Contente declarou seu pensamento, + E os prazeres tambem que nelle teve. + + Mas outros, declarando o sentimento + Que dos olhos destila tristes goas, + Deixro mil lembranas de tormento. + + Abrazando-se alguns em vivas frgoas, + Escrevro do bosque em muitas partes + Gostos d'Amor agora, agora mgoas. + + Porque, cruel menino, o premio partes + A quem sers[2] tyranno se lho negas, + E injusto e desigual, se lho repartes? + + Porqu'enganas as almas que to cegas + Arrastas apos ti, de error captivas? + Porque a crueis rigores as entregas? + + Para que contra hum peito assi t'esquivas, + Que humilde se sujeita a teu cuidado, + Com enganos de sombras fugitivas? + + Levas, como a menino, hum pobre a nado, + N'huma apparencia falsa embevecido, + Quando co'os braos corta o mar inchado. + + Querendo-se tornar, v-se perdido; + Ja grita que se affoga; e tu zombando, + Da praia entre os penedos escondido! + + O triste, que conhece ir-se affogando, + No meio da arriscada zombaria + Por divino soccorro est clamando. + + Mas eu de que m'espanto, se dizia + Hum sabio que d'enganos se temesse + O que tomasse a hum cego tal por guia? + + Nunca nelle a firmeza permanece; + Se nos d gsto algum, muda-se logo; + Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece. + + Anda co'os coraes sempre em hum jgo; + Humas vezes os faz de pedra fria, + Outras os faz de neve, outras de fogo. + + Tornando ao bosque meu que descrevia, + Despois de ter contado da frescura + Que nelle to pomposa apparecia, + + Referir quero agora huma aventura + Que nelle ao vo Narciso aconteceo, + Digna de se chorar com mgoa pura. + + Castigo foi que o moo mereceo + Por se mostrar esquivo com aquella, + Qu'em viva pedra Juno converteo. + + Ardia em fogo d'alma a va donzella, + Soffrendo hum duro peito; que a Narciso, + Quando ella mais se abraza, mais congela. + + E quando a fraca Nympha mais de siso + Mostrava hum signal certo de firmeza, + Ento se provocava o moo a riso. + + Ja d'huma profundissima tristeza + A descora o rigor que a consumia. + Como diz desfavor mal com belleza! + + O gelado pastor folgava e ria; + Mas vendo-a de seu gsto andar contente, + Por no a contentar s'entristecia. + + He tal o seu rigor, que no consente + Que seja o gsto proprio festejado; + Antes disso se mostra descontente. + + Mas o cego Cupido, d'affrontado, + Em vingana da f que desprezou, + Fez que fosse de si mesmo enganado. + + Casualmente hum dia se chegou + A beber n'huma fonte crystallina, + Que de si nova sde lhe causou. + + Vendo a sua figura peregrina + Que a fonte dentro em si representava, + Se perdeo por imagem to divina. + + Como ja, d'enlevado, no cuidava + Nos enganos que a sombra lhe fazia, + Vendo o formoso rosto, suspirava. + + Por as avaras goas se metia; + E quanto mais molhava os tenros braos, + Ento mais vivamente o fogo ardia. + + Vendo-se assi prender em duros laos, + Ao sentimento obriga a paciencia, + Dando, fra de si, ao vento abraos. + + Embevecido todo n'apparencia, + Sem saber de cuidado o que sentia, + No fez ao doce engano resistencia. + + Ao ver-se longe mais, mais perto via + O peregrino gesto; e se chegava, + Ento para mais longe lhe fugia. + + Vendo, emfim, como em tudo o remedava + Cahio no torpe engano que tivera, + A tempo que de si ja preso estava. + + A belleza que a tantas morte dera, + De si mesma se abraza e se captiva. + Quo longe ento de si ver-se quizera! + + Ella se abranda propria; ella se esquiva; + E sendo ella somente a que se amava, + Ella se chama ingrata e fugitiva. + + A formosura, pois, que namorava, + Com tal difficuldade era seguida, + Qu'estando dentro em si, mui longe estava. + + A solitaria Nympha, qu'escondida + Ja nas cavernas concavas se via, + Dos males que lhe ouvio foi commovida. + + Das namoradas mgoas que dizia + O namorado moo, ella somente + Os ultimos accentos repetia. + + Elle vendo-se estar alli presente, + As crystallinas goas accusava + De que ellas o fazio descontente. + + Outras vezes fonte, quando a olhava, + Ja cego, e sem juizo, agradecia + A figura que dentro lhe mostrava. + + Mas vendo qu'ella em nada se dohia + De seu grave tormento, grita e chora. + Quanto erra quem de sombras se confia! + + Ja lhe pede que saia para fra. + Ignorando que sempre fra esteve + A belleza que nelle proprio mora. + + Despois que longo espao se deteve + Nestes queixumes seus to lastimosos, + Que com to longo ser, julgou por breve; + + Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos, + Do valle se despede e da espessura, + Dando soluos da alma vagarosos. + + Entregue na vontade da ventura, + Ou, por melhor dizer, de seus enganos, + Ao centro se arrojou da fonte pura. + + Dest'arte feneceo em tenros anos + Narciso, dando exemplo formosura + De que tema, se he tal, tambem seus danos. + + Sentimento mostrou da sorte dura + O namorado Jupiter, mudando + Ao moo em flor purpurea, qu'inda dura. + + Aquellas claras goas rodeando, + Onde por seus amores se perdeo, + Est despois da morte acompanhando. + + Tanto no seu engano procedeo, + Que no sabe na morte inda apartar-se + Dos erros que na vida commetteo. + + Bem pde o corao desenganar-se, + Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado, + No costuma na morte resfriar-se. + + Porque despois do corpo sepultado, + Priso onde s'encerra o fraco esprito, + Eternamente chora o seu cuidado. + + E das escuras goas do Cocito + A rapida corrente refreando, + Celebra o lindo gesto n'alma escrito. + + L se est co'os favores recreando; + E se foi desprezado, l padece, + As duras esquivanas lamentando. + + Nem dos avaros olhos l s'esquece, + Que de formoso verde a terra esmalto, + Por no ver os do triste qu'endoudece. + + Assi que os desfavores nunca falto, + At despois da morte perseguindo + Hum triste corao que desbarato. + + Triste de quem em vo lhe vai fugindo! + +[2] Este terceto foi viciado na cpia e depois, ao que parece, corrigido +por mo estranha. A versificao est certa, mas o sentido he absurdo: +e se a verdadeira lio no he: + + Porque, cruel menino, o premio partes + De modo que es tyranno, quando o negas, + E injusto e desigual, quando o repartes? + +no podemos adivinhar qual seja. _Nota dos Editores._ + + * * * * * + + +ELEGIA VII. + + Ao p d'hum'alta faia vi sentado, + N'hum valle deleitoso e bem florido, + A Almeno, pastor triste e namorado. + + Outro no mundo pde haver nascido + Mui queixoso de Amor; porm no tanto, + Como este amante, por amar perdido. + + Ja Venus hia recolhendo o manto + Escuro com que a terra se mostrava, + Para ajudar d'Almeno o triste pranto. + + Apollo sbre os montes derramava + Seus dourados cabellos, que fazio + Ao triste inda mais triste do qu'estava. + + As flores por o prado s'estendio. + E das que finas mais ero as cres, + Brancas, roxas, as Nymphas mais colhio. + + Ja guiavo seus gados os pastores, + Que, deixando-os no campo deleitoso, + Com ellas praticavo s d'amores. + + Mas era esta alegria hum perigoso + Estado para Almeno entristecido; + E por isso a deixava pressuroso, + + Buscando outro lugar: contra Cupido + Claramente exclamava, e o arguia + De contrrio, d'astuto e fementido. + + De quando em quando a frauta que tangia. + Numeros dava ao ar to docemente, + Que as aves provocava a melodia. + + Cego assi desta dor, deste accidente, + Com os olhos em lagrimas banhados, + Postos no ceo, dizia tristemente: + + Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados, + Porque mos dste tu para offender-te, + Quando livre vivia nestes prados? + + No vs quanto me negas merecer-te + O bem que me mostravas, se deixasse + Ferir meu corao para soffrer-te? + + Qual bem me has dado, Amor, que me durasse? + Ou qual me has promettido, que hajas dado? + Ou qual dste, que muito no custasse? + + Mostra-me quem puzeste em tal estado, + Que pudesse viver de ti contente, + Ou quem de ti no fosse lastimado? + + Inimigo cruel de toda a gente, + Ja no quero teu bem, s meu mal quero; + Se de ti nem meu mal se me consente. + + Inda que de teus bens ja desespro, + No desprzo dos males o tormento; + Antes o prezo mais, quando he mais fero. + + Arrebatado deste pensamento + Hia o triste pastor com hum contino + Pranto, que lhe avivava o sentimento. + + Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino, + Qu'era de Amor plantado; e parecendo + Lhe est menos humano que divino. + + Nelle a dor sua esteve suspendendo: + Porm no, como cervo, est ferido, + Reparo ao mal que leva pretendendo. + + Apparecia o stio to flordo, + Que provocava a no vulgar espanto, + Entre huns altos ulmeiros escondido. + + D'hum crystallino orvalho tinha o manto, + Quando entrou nelle o misero pastor, + E as tenes explicou neste seu canto. + + bellas rosas, vs que sois amor, + He por dita humildade, ou he baixeza, + O ter apar de vs murta, que he dor? + + Papoulas conversais, que so tristeza! + No desprezais o cardo, que he tormento! + Admittis a hortela, sendo crueza! + + Dos goivos longe vejo o sentimento; + Dos jasmins perto estou vendo o perigo; + Dos malmequeres vejo o soffrimento. + + Deste me temerei como inimigo; + Mas traz por armas salva, que he razo: + Com ella acabar tambem comigo. + + As minhas vem a ser huma affeio, + Que so os puros cravos misturados + Co'a vontade sujeita, que he limo. + + Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados! + Ai crespa mangerona, que es prazer! + Vs ss devieis adornar os prados. + + No pdem dous oppostos juntos ser: + Onde se pe giesta, que he lembrana, + Junto do rosmaninho, que he 'squecer? + + Bem peza do leve lamo a mudana; + Do roxo goivo anima o pensamento + Do cypreste odorifero a esperana. + + O trevo, que he sentido apartamento, + Crca o mangerico, que se interpreta + Memoria a quem offende o esquecimento. + + Mais importuna que o jardim de Creta, + A ameixieira a flor est soltando: + A segurelha vejo, que he discreta. + + As hervas que daqui irei tomando, + So a pura cecem, qu'he saudade; + Cravos, medo de ver qual de amor ando. + + E, de ter mui perdida a liberdade, + Tomarei madresylva entendimento; + Legao tomarei, porqu'he verdade. + + Marmeleiro me d arrependimento: + Por a salva, que he gsto, tomarei + Coentro opposto ao meu contentamento. + + Conhecimento firme nunca achei, + Que violetas so; e, quando o houvera, + Qual meu damno ento fra, bem o sei. + + Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera + Ver-vos aqui menor, pois sois victria, + Que de mi alcanou chamma severa! + + Mas se quereis que tenha alguma glria, + Por galardo d'amar e ser sujeito, + Perderei de tormentos a memoria. + + Porm, pois mo negais, de todo engeito + A palma, qu'he ventura; e na parreira, + Qu'he'sperana perdida, me deleito. + + Entretanto co'a flor da laranjeira, + Qu'he desafio duro e arriscado, + Posso arguir da hora derradeira. + + Ja no se quer deter o meu cuidado + Com a roma descanso: a brevidade + Das maravilhas s tee desejado. + + E vs, ovelhas minhas, sem piedade + Vos apartae de mi, se algum desejo + Tendes de ter do pasto mais vontade. + + Se muita de me verdes em vs vejo, + Toda a minha de ver-vos hei perdido + fora do poder d'amor sobejo. + + Lograe do Tejo o placido ruido; + Ss lograe estas veigas florecidas: + Pois se perde o pastor vosso querido, + + No gosteis de com elle ser perdidas. + + * * * * * + + +ELEGIA VIII. + + Belisa, unico bem desta alma triste, + Descanso singular de minha vida, + Throno donde o poder d'Amor consiste; + + Formosa fera, a quem est rendida + D'Amor a que he mais livre liberdade, + Ganhada mais, se mais por ti perdida; + + Quo contrrio parece na beldade, + Que os coraes captiva com brandura, + Alguma ndoa haver de crueldade! + + Quo contrrio parece em formosura, + Que deixa muito atraz quanto he humano, + Esquiva condio, ou alma dura! + + Quo mal parece em quem s co'hum engano + Pde dar vida ao corao sujeito, + Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano! + + Quo mal parece que hum amor perfeito + No seja d'outro igual remunerado, + Inda que seja, acaso, contrafeito! + + Quo mal parece estar desesperado + Quem tanto por ti soffre e tee soffrido, + Devendo estar de penas alliviado! + + Porm peor parece quem rendido + No for a hum parecer que tudo rende, + Por mais qu'em seu rigor viva offendido. + + E inda peor parece quem defende + O ser essa belleza sempre amada, + Por mais qu'em vo se canse o que a pretende. + + Se quem te mostra amor te desagrada, + S pdes pretender o no ser vista, + Mas no despois de vista o ser deixada. + + Quo mal sabe o valor de tua vista + Quem cuida que o que della acaso alcana + Pde achar corao que lhe resista! + + Quo bem pareceria huma esperana + Ja concedida a meu amor ardente, + No sempre huma mortal desconfiana! + + Se hum padecer por ti constantemente + Pudesse ser reparo a quem mais te ama, + Inda esperar pudera o ser contente. + + Mas eu temo que aquella immensa chama + Com que a teu bello imperio me levaste, + Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama. + + Se a Olympica belleza assi imitaste, + Que brandamente move hum amor puro, + Porque to dura condio tomaste? + + Qual elevado, qual soberbo muro + Este mal, que m'occupa o pensamento, + Contado, no tornra menos duro? + + Tu, qu'es a causa s de meu tormento, + Tu, que somente podes gloriar-me, + Queres que as minhas queixas leve o vento? + + Tu, que me pagarias com matar-me, + Inda a morte me negas vezes tantas? + Ai, que me deras vida em morte dar-me! + + Usa piedade, tu, que o mundo espantas + Co'os bellos olhos, com que o douras tanto, + Se acaso a v-lo brandos os levantas. + + Estende-se na terra o negro manto, + E noute d alegria a luz alheia; + Mas nos meus olhos tristes dura o pranto. + + Torna a manha despois alegre e cheia + Da luz que o chro enxuga bella Aurora; + Mas do meu chro nunca enxuga a veia. + + Lagrimas ja no so qu'esta alma chora, + Mas amor he vital que dentro arde, + E por a luz dos olhos salta fra. + + Como inda a morte quer que mais aguarde? + No tarde ja, mas corra a mal to fero. + Mas ja por mais que corra vir tarde. + + Nem no supremo trance de ti 'spero + Qu'inda com ver o estado em que me has psto + Queiras, crua, entender quanto te quero. + + Ai! se volveres esse bello rosto + Ao lugar triste em que morrer me vires, + No por desgsto teu, mas por teu gsto, + + No quero de ti, no, que alli suspires, + Nem que de dar-me a morte te arrependas, + Mas que os olhos de ver-me ento no tires. + + Assi nunca pastor a quem te rendas, + Te faa conhecer o que me fazes, + Para que com teu mal meu mal entendas! + + Como ja agora no te satisfazes + Das penas deste amor, que por querer-te, + De teu merecimento so capazes? + + Pois quem com outro merito render-te + Presume, (oh raro monstro de belleza!) + Muito mais longe est de merecer-te. + + Este si, que merece a gr crueza + Com que tu d'acabar-me a vida tratas, + Pois diante de ti, de si se preza. + + Se cuidas que com isto desbaratas + O meu constante amor, porque no viva, + Elle mais vive quando mais me matas. + + Se o dar-me morte tens por glria altiva, + Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina + A matar mais de branda que d'esquiva. + + S'esta alma tua julgas por indina + Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde, + Do descoberto mal a faze dina. + + Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde, + A poder reduzir-te a ser piedosa? + Ou m'acaba de todo, ou me responde. + + Mas por mais que te mostres rigorosa, + Deixar meu pensamento m'he impossivel, + Igualmente que a ti no ser formosa. + + E por mais qu'esta dor seja terrivel, + Somente o contemplar a causa della, + Inda que a faz maior, a faz soffrivel + + Porm chegando a no poder soffr-la, + Perdendo a vida; quando a morte chame, + No perderei o gsto de perd-la. + + He justo qu'eu por ti mil mortes ame: + Mas v tu se te illustra, quando offensa + Minha mortal o teu valor se chame. + + Bem vs que huma beldade to immensa + De vencer-me tee glria bem pequena, + Pois s render-me tomo por defensa. + + Mas ja que amor to puro me condena, + Contente fico assaz desta victoria; + Que no me do meus males tanta pena, + + Quanto o serem por ti me d de glria. + + * * * * * + + +ELEGIA IX. + + A vida me aborrece, a morte quero: + Ser eterno o meu mal, segundo entendo, + Pois na mor esperana desespro. + + Sem viver vivo, por morrer vivendo + Por no verdes, Senhora, como eu vejo, + Quanto de mi por vs me ando esquecendo. + + Seja-me agradecido este desejo; + Ingrata no sejais a quem vos ama + Com puro e honestissimo despejo. + + A culpa que me pondes, ponde-a fama, + Que prega de vs celeste vida + Que os coraes d'amor divino inflama. + + Humana, quando no agradecida, + Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso, + Antes que a alma do corpo se despida. + + Mas que posso eu fazer, pois ja no posso + Hum tormento domar to forte e duro, + Homem formado s de carne e de osso? + + Em minha f segura me asseguro; + Porqu'esta, quando he grande, jamais erra, + Se resulta d'amor sincero e puro. + + Essa beldade santa me faz guerra; + Por ella hei de morrer, inda que veja + Tornar o brando rio em dura serra. + + Que cousa tenho eu ja que minha seja? + Quem no deseja a vossa formosura, + No pde assegurar que o ceo deseja. + + De qu'eu sempre a deseje estae segura: + Neste desejo meu nunca mudana + Ho de ver as mudanas da ventura. + + A vida tenho posta na balana + Da glria singular, do damno esquivo; + Que o perd-la por vs he mor bonana. + + Se vos offendo, cuido que no vivo: + Olhae se muito mais que de offender-vos, + Das esperanas do viver me privo. + + O que temo somente he s perder-vos; + O que quero somente he s adorar-vos; + O que somente adoro he s querer-vos. + + Querer-vos sem deixar de venerar-vos; + Desejar-vos somente por servir-vos; + Por servir a amor vil no desejar-vos: + + Somente ver-vos, e somente ouvir-vos + Pretendo; e pois somente isto pretendo, + Deveis a estes sentidos permittir-vos. + + Isto somente, (oh cego!) estou dizendo, + Como se fra pouco isto somente! + Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo? + + Se o no merece o meu amor decente; + Se morte por amar-vos se merece, + Morra eu, Senhora; e vs ficae contente. + + Se vos aggrava quem por vs padece; + Se vos vee a offender quem vos quer tanto, + Quem desta sorte errou no desmerece. + + Que quando os olhos da razo levanto + Ao ceo d'essa rarissima belleza, + De no morrer por ella s m'espanto. + + Deixae-me contentar desta tristeza, + E fazer de meus olhos largo rio; + Se algum pde abrandar vossa dureza. + + Correndo sempre as lagrimas em fio, + Farei crescer as hervas por os prados, + Pois ja d'outra alegria desconfio. + + No monte darei pasto a meus cuidados; + E sero de mi sempre entre os pastores + Esses divinos olhos celebrados. + + Aprendero de mi os amadores + Aquillo que se chama amor sublime, + Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores. + + E nenhum havera que a pena estime + Mais soberana por a causa della, + Que a que teve at ento no desestime; + + E qu'inveja no mostre minha estrella. + + * * * * * + + +ELEGIA X. + + Que tristes novas, ou que novo dano, + Qu'inopinado mal incerto sa, + Tingindo de temor o vulto humano? + + Que vejo? as praias humidas de Goa + Ferver com gente attonita e turbada + Do rumor que de boca em boca va! + + He morto D. Miguel (ah crua espada!) + E parte da lustrosa companhia + Que alegre s'embarcou na triste Armada: + + E d'espingarda ardente e lana fria + Passado por o torpe e iniquo brao, + Que nossas altas famas injura. + + No lhe valeo escudo, ou peito d'ao, + No nimo d'avs claros herdado, + Com que temer se fez por longo espao. + + No ver-se em de redor todo cercado + D'irados inimigos, qu'exhalavo + A negra alma do corpo traspassado. + + No as fortes palavras que voavo + A animar os incertos companheiros, + Que timidos as costas lhe mostravo. + + Mas ja postos, nos termos derradeiros, + (Rotos por partes mil e traspassados + Os membros, no valor somente inteiros) + + Os olhos (de furor acompanhados, + Qu'inda na morte as vidas amedrento + Dos duros inimigos espantados) + + Postos no ceo, parece que presento + A alma pura suprema Eternidade, + Por quem os ceos e a terra se sustento. + + E pedindo dos erros, que na idade + Immatura e innocente ja fizera, + Perdo pia e justa Magestade, + + As rosas apartou da neve fria; + E, como debil flor, a quem fallece + O radical humor de que vivia, + + Nas mos do Coro Angelico, que dece, + S'entrega; e vai lograr a vida eterna, + Que com morte to justa se merece. + + Vai-te, alma, em paz gloria sempiterna; + Vai, que quem por a Lei sacra e divina + A slta, quelle a d que o ceo governa. + + Mas se de tal valor foi morte dina, + A ausencia que do gsto nos salta, + A perptua saudade nos inclina. + + Deixa pois tu, formosa Cythera, + Do gentil filho e neto de Cyniras + O pranto por a morte horrida e fa. + + E tu, dourado Apollo, que suspiras + Por o crespo Jacintho, moo charo, + Por quem a clara luz ao mundo tiras; + + Vinde e chorae hum moo em tudo raro, + No de ferino dente vulnerado, + Nem de risco sujeito a algum reparo: + + Mas s de ferro imigo traspassado; + Que sem duvida incerta, ou frio medo, + A vida poz nas mos de Marte irado. + + Tambem tu, moo Idalio, assiste quedo; + Deixa de dar o venenoso mel + A beber por os olhos, triste e ledo. + + Pois os formosos olhos de Miguel + Ja cobertos se vem do escuro manto + Da lei geral a todos mais cruel. + + E vs, filhas de Thespis, que co'o canto + Podeis bem mitigar a dor immensa + Dos irmos generosos e alto pranto; + + No consintais que fao larga offensa + grande integridade, a que se devem + goas no s, do damno recompensa. + + Que ja diante os olhos me descrevem, + Quando as bocas da Fama voadora + Ao patrio e claro Tejo as novas levem, + + A profunda tristeza; qu'em hum'hora + Tal posse tomar dos altos peitos, + Que delles o discurso lance fra. + + Alli de dor os coraes sujeitos + Ho de lanar de si toda a memoria + D'exemplos claros, solidos respeitos. + + Mas, porm se igualais a vida glria, + claro Dom Philippe, e pretendeis + Deixar-nos de aces vossas larga historia; + + Eu no vos persuado a que estreiteis + O corao na Estoica disciplina, + Onde livre d'affectos vos mostreis. + + Que mal a natureza determina + Medo, esperanas, dores e alegria, + Como o Cynico velho nos ensina. + + Immanidade estupida (dizia + O Sulmonense canto) e vil rudeza, + He no sentir affectos que a alma cria. + + Porm se o sentir nada for bruteza, + E se paixo devida se consente, + Tambem o sentir muito he ja fraqueza. + + Em vs hum soffrer alto s'exprimente, + Qual nos fortes Vares foi conhecido, + Como em estranha, em Lusitana gente. + + Bem conheo que o corpo assi perdido, + Como de illustre tumulo carece, + Ser de brutas feras consumido. + + Mas consola-me, emfim, que se parece + Ao grande bisav, que por a vida + Real, a sua Maura lana offrece. + + Em pedaos a gente enfurecida + O corpo alli lhe deixa; e com mo dura + Lhe nega a sepultura merecida. + + Facil he a perda aqui da sepultura: + Diogenes prudente, e Theodoro + Pouco sentem do corpo essa jactura. + + Assi formoso e inteiro, assi decoro + Adorna quem o tee, como o tomou, + Quando se ouvir o extremo som canoro. + + Mas ai! qual terror subito occupou + O vosso claro peito, Portuguezes? + Qual pavido temor vos congelou? + + Que lanadas, que golpes, que revzes + Vos fizero fazer tamanha injria + Aos fortes Lusitanicos arnezes? + + Ou ja de Capito sobeja incuria, + Ou fraqueza? No: qu'elle sustentava + Com seu peito dos barbaros a furia. + + Ou ja do ferreo cano a fra brava + Com estrondos que atroo mar e terra, + Os coraes ardentes congelava? + + Ah! quem vos fez que os impetos da guerra + No sustentasseis com valor ousado, + Desprezando o temor que a vida encerra? + + A vida por a Patria e por o Estado + Pondo nossos avs, a ns deixro, + Em terra e mar, exemplo sublimado. + + Elles a desprezar nos ensinro + Todo temor. Pois como agora os netos + Subitamente assi degenerro? + + No pdem, certo, no, viver quietos + Com feia infamia peitos generosos, + Ja em publicos lugares, ja em secretos. + + Mortos d'Esparta os Hroes valerosos + Da fera multido, fazendo extremos, + Taes Epitaphios tinho gloriosos: + + _Dirs, Hspede, tu, que aqui jazemos + Passados do inimigo ferro, em quanto + s santas Leis da Patria obedecemos._ + + Fugindo os Persas vo com frio espanto, + Mas acho as mulheres no caminho, + Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto. + + Pois do damno fugs, vendo-o visinho, + Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizio) + Outra vez no materno e escuro ninho. + + Vde quaes com mais glria ficario, + Se aquelles que morrro por o Estado, + S'estes a quem mulheres injurio? + + Mas tu, claro Miguel, que ja acordado + Deste sonho to breve, ests naquella + Trre do ceo, seguro e repousado; + + Onde, com Deos unida a forte e bella + Alma, com teus Maiores reluzindo, + Trocaste cada chaga em clara estrella; + + Co'os ps o crystallino ceo medindo, + Nada d'essas altissimas Espheras, + Nem da terreste aos olhos encobrindo; + + Agora hum curso e outro consideras, + Agora a vaidade dos mortaes, + Que tu tambem passras se vivras, + + . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . + + * * * * * + + +ELEGIA XI. + + Se quando contemplamos as secretas + Causas, por que este mundo se sustenta, + E o revolver dos ceos e dos planetas; + + E se quando memoria se presenta + Este curso do sol to bem medido, + Que hum ponto s no mngua, nem s'augmenta; + + Aquelle effeito, tarde conhecido, + Da lua na mudana to constante, + Que minguar e crescer he seu partido; + + Aquella natureza to possante + Dos ceos, que to conformes e contrarios + Caminho, sem parar hum breve instante; + + Aquelles movimentos ordinarios, + A que responde o tempo, que no mente, + Co'os effeitos da terra necessarios; + + Se quando, emfim, revolve subtilmente + Tantas cousas a leve phantasia, + Sagaz escrutadora e diligente; + + Bem v, se da razo se no desvia, + Aquelle unico Ser, alto e divino, + Que tudo pde, manda, move e cria. + + Sem fim e sem princpio, hum Ser contino; + Hum Padre grande, a quem tudo he possibil, + Por mais que o difficulte humano atino: + + Hum saber infinito, incomprehensibil; + Huma verdade que nas cousas anda, + Que mora no visibil e invisibil. + + Esta potencia, emfim, que tudo manda, + Esta Causa das causas, revestida + Foi desta nossa carne miseranda. + + Do amor e da justia compellida, + Por os erros da gente, em mos da gente + (Como se Deos no fsse) deixa a vida. + + Oh Christo descuidado e negligente! + Pondera-o com discurso repousado; + E ver-te-has advertido facilmente. + + lha aquelle Deos alto e increado, + Senhor das cousas todas, que fundou + O ceo, a terra, o fogo, o mar irado; + + No do confuso caos, como cuidou + A falsa Theologia, e povo escuro, + Que nesta s verdade tanto errou; + + No dos atomos leves d'Epicuro; + No do fundo Oceano, como Thales, + Mas s do pensamento casto e puro. + + lha, animal humano, quanto vales, + Pois este immenso Deos por ti padece + Novo estylo de morte, novos males. + + lha que o sol no Olympo s'escurece, + No por opposio de outro Planeta; + Mas s porque virtude lhe fallece. + + No vs que a grande mchina inquieta + Do mundo se desfaz toda em tristeza, + E no por causa natural secreta? + + No vs como se perde a Natureza? + O ar se turba? o mar batendo geme, + Desfazendo das pedras a dureza? + + No vs que cahe o monte, a terra treme? + E que l na remota e grande Athenas + O docto Areopagita exclama e teme? + + Oh summo Deos! tu mesmo te condenas, + Por o mal em qu'eu s sou o culpado, + A tamanhas affrontas, tantas penas? + + Por mi, Senhor, no mundo reputado + Por falso, e violador da sacra Lei? + A fama a ti se pe do meu peccado? + + Eu, Senhor, sou ladro, tu justo Rei. + Pois como entre ladres eu no padeo? + A pena a ti se d do qu'eu errei? + + Eu servo sem valor, tu immenso preo, + Em preo vil te pes, por me tirares + Do captiveiro eterno que mereo? + + Eu por perder-te, e tu por me ganhares + Te ds aos soltos homens, que te vendem, + S para os homens presos resgatares? + + A ti, que as almas sltas, a ti prendem? + A ti summo Juiz, ante Juizes + Te accuso por o error dos que te offendem? + + Chamo-te malfeitor; no contradizes: + Sendo tu dos Prophetas a certeza, + Dizem que quem te fere prophetizes. + + Rim-se de ti; tu choras a crueza + Que sbre elles vir: a gente dura, + Por quem tu vens ao mundo, te despreza. + + O teu rosto, de cuja formosura + Se veste o ceo e o sol resplandecente, + Diante quem pasmada est a Natura, + + Com cruas bofetadas da vil gente, + De precioso sangue est banhado, + Cuspido, atropellado cruelmente. + + Aquelle corpo tenro e delicado, + Sbre todos os Santos sacrosanto, + A aoutes rigorosos desangrado; + + Despois coberto mal d'hum pobre manto, + Que se pegava s carnes magoadas + Para dobrar-lhe as dores outro tanto. + + Magoavo-no as chagas no curadas, + Hum tormento causando-lhe excessivo + Ao despir por as mos crueis e iradas. + + As venerandas barbas de Deos vivo + De resplandor ornadas, s'arrancavo + Para desempenhar a Ado captivo. + + Com cordas por as ruas o levavo, + Levando sbre os hombros o tropho + Da victoria qu'as almas alcanavo. + + tu, que passas, homem Cyreno, + Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro, + Que agora, como humano, enfraqueceo. + + lha que o corpo afflicto do marteiro, + E dos longos jejuns debilitado, + No pde ja co'o pso do madeiro. + + Oh no enfraqueais, Deos incarnado! + Essas qudas, que tanto vos mago, + Supportae Cavalleiro sublimado. + + Aquellas altas vozes, que l so, + Dos Padres so, que o Limbo tee escuro, + E ja de louro e palma vos coro. + + Todos vos brado que subais o muro + Da cidade infernal, e que arvoreis + Em cima essa bandeira mui seguro. + + Oh Santos Padres! no vos apresseis; + Pois muito mais a Deos, que a vs, custro + Essas duras prises em que jazeis. + + Aquellas mos que o mundo edificro, + Aquelles ps que pzo as estrellas, + Com durissimos pregos s'encravro. + + Mas qual ser o humano qu'as querellas + Da angustiada Virgem contemplasse, + Sem se mover a dor e mgoa dellas? + + E que dos olhos seus no destillasse + Tanta cpia de lagrimas ardentes, + Que carreiras no rosto sinalasse? + + Oh quem lhe vra os olhos refulgentes + Convertendo-se em fontes, e regando + Aquellas faces bellas e excellentes! + + Quem a ouvra com vozes ir tocando + As estrellas, a quem responde o ceo, + Co'os accentos dos Anjos retumbando! + + Quem vra quando o puro rosto ergueo + A ver o Filho, que na Cruz pendia, + Donde a nossa saude descendeo! + + Que mgoas to chorosas que diria! + Que palavras to miseras e tristes + Para o ceo, para a gente espalharia! + + Pois que sera, Virgem, quando vistes + Com fel nojoso, e com vinagre amaro + Matar a sde ao Filho que paristes? + + No era este o licor suave e claro, + Que para o confortar ento darieis + A quem vos era, mais que a vida, charo. + + Como, Virgem Senhora, no corrieis + A dar as puras tetas ao Cordeiro, + Que padecer na Cruz com sde vieis? + + No era s, no, esse o verdadeiro + Poto, que vosso Filho desejava, + Morrendo por o mundo em hum madeiro; + + Mas era a salvao que alli ganhava + Para o misero Ado, que alli bebia + Na fonte que do peito lhe manava. + + Pois, pura e Santissima Maria, + Que, emfim, sentistes esta mgoa, quanto + A grave causa della o requeria; + + D'essa Fonte sagrada e peito santo + M'alcanae huma gotta, com que lave + A culpa que me aggrava e pesa tanto. + + Do licor salutifero e suave + M'abrangei, com que mate a sde dura + Deste mundo to cego, torpe e grave. + + Assi, Senhora, toda criatura + Que vive e vivir, e no conhece + A Lei de vosso Filho, a abrace pura; + + O falsissimo herege, que carece + Da graa, e com damnado e falso esprito + Perturba a Santa Igreja, que florece; + + O povo pertinaz no antiguo rito, + Que s o destrro seu, que tanto dura, + Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito; + + O torpe Ismaelita, que mistura + As Leis, e com preceitos to viciosos + Na terra estende a seita falsa e impura; + + Os idolatras maos, supersticiosos, + Varios de opinies e de costumes, + Levados de conceitos fabulosos; + + As mais remotas gentes, onde o lume + Da nossa F no chega, nem que tenho + Religio alguma se presume; + + Assi todos, emfim, Senhora, venho + A confessar hum Deos crucificado, + E por nenhum respeito se detenho. + + E d'hum e d'outro o vcio ja deixado, + O seu Nome, co'o vosso nesse dia, + Seja por todo o mundo celebrado; + + E respndo os ceos: JESUS, MARIA. + + * * * * * + + +ELEGIA XII. ACROSTICA. + + Juizo extremo, horrifico e tremendo, + E Juiz sempiterno, alto e celeste, + Significar a terra, humedecendo. + Ver-se-ha nella hum suor que manifeste + Como em carne vem Deos, para que o veja + Homem toda esta mchina terreste; + Rei justo, que dos corpos e almas seja + Juiz; e quando o mundo cego e inculto + Sbre espinhos crueis deitado seja, + Todo vo simulacro e gentil culto + Ousar engeitar a gente; e guerra + Far co'o mar o fogo, e cru tumulto. + Immensa luz, que as carnes desenterra, + Lanar fra as portas vas do Averno, + Hum Justo e outro alando santa terra. + Outros, que so os maos, no fogo eterno + Deitar, descobrindo-se os segredos, + E sendo claro todo feito interno. + Desfeitos sero montes e penedos, + E ser tudo pranto e estridor duro; + Obras de grande dor e tristes medos. + Ser tornado o sol de todo escuro, + E destruida a mchina do mundo, + Sem luz as luzes todas do Orbe puro; + Altos sero os valles, e em profundo + Lugar se abatero os altos montes; + Vibrar mares vento furibundo: + Haver s de chammas vivas fontes: + De trombeta tremenda som terribil, + Ouvido, fara pallidas as frontes. + Responder dos maos gemido horribil. + + * * * * * + + + + +EPISTOLAS. + + +EPISTOLA I. + + Quem pde ser no mundo to quieto, + Ou quem ter to livre o pensamento, + Quem to exprimentado, ou to discreto, + To fra, emfim, de humano entendimento, + Que ou com pblico effeito, ou com secreto, + Lhe no revolva e espante o sentimento, + Deixando-lhe o juizo quasi incerto, + Ver e notar do mundo o desconcrto? + + Quem ha que veja aquelle que vivia + De latrocinios, mortes e adulterios, + Que ao juizo das gentes merecia + Perptua pena, immensos vituperios, + Se a Fortuna em contrrio o leva e guia, + Mostrando, emfim, que tudo so mysterios, + Em alteza d'estados triumphante, + Que por livre que seja no s'espante? + + Quem ha que veja aquelle, que to clara + Teve a vida, qu'em tudo por perfeito + O proprio Momo s gentes o julgra, + Inda quando lhe visse aberto o peito, + Se a m Fortuna, ao bom somente avara, + O reprime, e lhe nega seu direito, + Que lhe no fique o peito congelado, + Por mais e mais que seja exprimentado? + + Democrito dos deoses proferia + Que ero ss dous; a Pena, e o Beneficio. + Segredo algum ser da phantasia, + De qu'eu achar no posso claro indicio. + Que se ambos vem por no cuidada via + A quem os no merece, he grande vcio + Em deoses sem-justia e sem-razo. + Mas Democrito o disse, e Paulo no. + + Dir-me-heis, que s'este estranho desconcrto + Novamente no mundo se mostrasse, + Que por livre que fosse e mui experto, + No era d'espantar se m'espantasse. + Mas que se ja de Socrates foi certo + Que nenhum grande caso lhe mudasse + O vulto, ou de prudente, ou de constante, + Exemplo tome delle, e no m'espante. + + Parece a razo boa; mas eu digo + Deste uso da Fortuna to damnado + Que quanto he mais usado e mais antigo, + Tanto he mais estranhado e blasphemado. + Porque, se o Ceo, das gentes to amigo + No d Fortuna tempo limitado, + No he para causar mui grande espanto, + Que mal to mal olhado dure tanto? + + Outro espanto maior aqui m'enleia, + Que com quanto Fortuna to profana + Com estes desconcertos senhoreia, + A nenhuma pessoa desengana. + No ha ninguem, que assente, nem que creia + Este discurso vo da vida humana, + Por mais que philosophe, nem qu'entenda, + Que algum pouco do mundo no pretenda. + + Diogenes pisava de Plato + Com seus sordidos ps o rico estrado, + Mostrando outra mais alta presumpo + Em desprezar o fausto to prezado. + Diogenes, no vs que extremos so + Esses que segues, de mais alto estado? + Pois se de desprezar te prezas muito, + Ja pretendes do mundo fama e fruito. + + Deixo agora Reis grandes, cujo estudo + He fartar esta sde cubiosa + De querer dominar e mandar tudo, + Com fama larga e pompa sumptuosa. + Deixo aquelles que tomo por escudo + De seus vicios e vida vergonhosa + A nobreza de seus antecessores, + E no cuido de si que so peores. + + Aquelle deixo, a quem do somno esperta + O gro favor do Rei que serve e adora, + E se mantee dest'aura falsa e incerta, + Que de coraes tantos he senhora. + Deixo aquelles qu'esto co'a boca aberta + Por s'encher de thesouros de hora em hora, + Doentes desta falsa hydropesia, + Que quanto mais alcana, mais queria. + + Deixo outras obras vas do vulgo errado, + A quem no ha ninguem que contradiga, + Nem de outra cousa alguma he governado, + Que d'huma opinio e usana antiga. + Mas pergunto ora a Cesar esforado, + Ora a Plato divino, que me diga, + Este das muitas terras em que andou, + Aquelle de venc-las, que alcanou? + + Cesar dir: Sou digno de memoria: + Vencendo povos varios e esforados, + Fui Monarca do mundo; e larga historia + Ficar de meus feitos sublimados. + He verdade: mas esse mando e glria, + Lograste-o muito tempo? Os conjurados + Bruto e Cassio diro que, se venceste, + Emfim, emfim, s mos dos teus morreste. + + Dir Plato: Por ver o Etna e o Nilo + Fui a Sicilia, Egypto e outras partes, + S por ver e escrever em alto estilo + Da natural sciencia e muitas artes. + O tempo he breve, e queres consumi-lo, + Plato, todo em trabalhos? e repartes + To mal de teu estudo as breves horas, + Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras? + + Pois quanto des que vive ja apartada + A alma desta priso terreste e escura; + Est em tamanhas cousas occupada, + Que da fama, que fica, nada cura. + E se o corpo terreno sinta nada, + O Cynico dir se por ventura + No campo, onde lanado morto estava, + De si os ces, ou as aves enxotava. + + Quem to baixa tivesse a phantasia, + Que nunca em mores cousas a metesse, + Qu'em s levar seu gado fonte fria, + E mungir-lhe do leite que bebesse, + Quo bem-aventurado que sera! + Que por mais que a Fortuna revolvesse, + Nunca em si sentiria maior pena, + Que pezar-lhe de a vida ser pequena. + + Veria erguer do sol a roxa face, + Veria correr sempre a clara fonte, + Sem imaginar a goa donde nace, + Nem quem a luz occulta no Horizonte. + Tangendo a frauta donde o gado pace, + Conheceria as hervas do alto monte, + Em Deos creria simples e quieto, + Sem mais especular algum secreto. + + D'hum certo Trasilao se l e escreve + Entre as cousas da velha antiguidade, + Que perdido gro tempo o siso teve + Por causa d'huma grave enfermidade; + E em quanto, de si fra, doudo esteve, + Tinha por teima, e cria por verdade, + Qu'ero suas, das naos que navegavo, + Quantas no porto Preo ancoravo. + + Por hum Senhor mui grande se teria, + (Alm da vida alegre que passava) + Pois nas que se perdio no perdia, + E das que vinho salvas se alegrava. + No tardou muito tempo, quando hum dia + Huncrito, seu irmo, que ausente estava, + terra chega; e vendo o irmo perdido, + Do fraternal amor foi commovido. + + Aos Medicos o entrega, e com aviso + O faz estar cura refusada. + Triste! que por tornar-lhe o antigo siso + Lhe tira a doce vida descansada. + As hervas Apollineas d'improviso + O torno saude ja passada. + Sisudo Trasilao, ao charo irmo + Agradece a vontade, a obra no. + + Porque despois de ver-se no perigo + Do trabalho a que o siso o obrigava, + E despois de no ver o estado antigo, + Que a louca presumpo lhe apresentava: + Oh inimigo irmo, com cr de amigo! + Para que me tiraste (suspirava) + Da mais quieta vida e livre em tudo, + Que nunca pde ter nenhum sisudo? + + Por qual Senhor algum eu me trocra, + Ou por qual algum Rei de mais grandeza? + Que me dava que o mundo se acabra, + Ou que a ordem mudasse a natureza? + Agora me he penosa a vida chara; + Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza. + Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso + Que na doudice s consiste o siso. + + Vdes aqui, Senhor, bem claramente + Como a Fortuna em todos tee poder, + Seno s no que menos sabe e sente; + Em quem nenhum desejo pde haver. + Este se pde rir da cega gente; + Neste no pde nada acontecer; + Nem estara suspenso na balana + Do temor mao, da perfida esperana. + + Mas se o sereno Ceo me concedra + Qualquer quieto, humilde e doce estado, + Onde com minhas Musas s vivra, + Sem ver-me em terra alheia degradado; + E alli outrem ninguem me conhecra, + Nem eu conhecra outro mais honrado, + Seno a vs, tambem como eu contente; + Que bem sei que o serieis facilmente: + + E ao longo d'huma clara e pura fonte, + Qu'em borbulhas nascendo, convidasse + Ao doce passarinho, que nos conte + Quem da chara consorte o apartasse; + Despois, cobrindo a neve o verde monte, + Ao gasalhado o frio nos levasse, + Avivando o juizo ao doce estudo, + Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo. + + Cantra-nos aquelle, que to claro + O fez o fogo da rvore Pheba, + A qual elle em estylo grande e raro + Louvando, o crystallino Sorga enfra; + Tangra-nos na frauta Sanazaro, + Ora nos montes, ora por a ara; + Passra celebrando o Tejo ufano + O brando e doce Lasso Castelhano. + + E comnosco tambem se achra aquella, + Cuja lembrana, e cujo claro gesto + N'alma somente vejo, porque nella + Est em essencia puro e manifesto; + Por alta influio de minha estrella + Mitigando o rigor do peito honesto, + Entretecendo rosas nos cabellos, + De que tomasse a luz o sol em vellos; + + E em quanto por Vero flores colhesse, + Ou por Inverno ao fogo accommodado, + O que de mi sentra nos dissesse, + De puro amor o peito salteado; + No pedra ento eu, que Amor me dsse + Do insano Trasilao o doudo estado; + Mas que alli me dobrasse o entendimento, + Por ter de tanto bem conhecimento. + + Mas por onde me leva a phantasia? + Porqu'imagino em bem-aventuranas, + Se to longe a Fortuna me desvia, + Qu'inda me no consente as esperanas? + Se hum novo pensamento Amor me cria + Onde o lugar, o tempo, as esquivanas + Do bem me fazem to desamparado, + Que no pde ser mais qui'maginado? + + Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou + Contra mi, porque mais me magoasse: + Amor a hum vo desejo me obrigou, + S para que a Fortuna mo negasse. + O tempo a tal estado me chegou; + E nelle quiz que a vida se acabasse; + Se ha em mi acabar-se, o qu'eu no creio; + Que at da muita vida me receio. + + * * * * * + + +EPISTOLA II. + + Como nos vossos hombros to constantes + (Principe illustre e raro) sustenteis + Tantos negocios arduos e importantes, + Dignos do largo Imperio, que regeis; + Como sempre nas armas rutilantes + Vestido, o mar e a terra segureis + Do pirata insolente, e do tyrano + Jugo do potentissimo Othomano; + + E como com virtude necessaria, + Mal entendida do juizo alheio, + desordem do vulgo temeraria + Na santa paz ponhais o duro freio; + Se com minha escriptura longa e vria + Vos occupasse o tempo, certo creio + Que com vagante e ociosa phantasia + Contra o commum proveito peccaria. + + E no menos sera reputado + Por doce adulador, sagaz e agudo, + Que contra meu to baixo e triste estado + Busco favor em vs que podeis tudo, + Se contra a opinio do vulgo errado + Vos celebrasse em verso humilde e rudo. + Diro, que com lisonja ajuda peo + Contra a miseria injusta que padeo. + + Porm, porque a verdade pde tanto + No livre arbitrio, (como disse bem + Ao Rei Dario o moo sabio e santo, + Que foi reedificar Hierusalem) + Esta m'obriga a qu'em humilde canto, + Contra a teno que a plebe ignara tem, + Vos faa claro a quem vos no alcana; + E no de premio algum vil esperana. + + Romulo, Baccho e outros que alcanro + Nomes de semideoses soberanos, + Em quanto por o mundo exercitro + Altos feitos, e quasi mais que humanos, + Com justissima causa se queixro + Que no lhes respondro os mundanos + Favores do rumor justos e iguaes + A seus merecimentos immortaes. + + Aquelle, que nos braos poderosos + Tirou a vida ao Tingitano Anteo, + E a quem os seus trabalhos to famosos + Fizero Cidado do claro ceo; + Achou que a m teno dos invejosos + No se doma, seno despois que o vo + Se rompe corporal: porque na vida + Ninguem alcana a glria merecida. + + Pois logo, se Bares to excellentes + Foro do baixo vulgo molestados, + O vituperio vil das rudas gentes, + He louvor dos Reaes, e sublimados. + Quem no lume dos vossos Ascendentes + Poder pr os olhos, que abalados + Lhes no fiquem da luz, vendo os maiores + Vossos passados, Reis e Imperadores? + + Quem ver aquelle Pae da Patria sua, + Aoute do soberbo Castelhano, + Que o duro jugo s, co'a espada nua, + Removeo do pescoo Lusitano, + Que no diga: gro Nuno, a eterna tua + Memoria causar, se no m'engano, + Que qualquer teu menor tanto s'estime, + Que nunca possa ser seno sublime? + + Nisto no fallo mais, porque conheo + Que da materia se me baixa o engenho. + Mas, pois a dizer tudo m'offereo, + E dias ha que no desejo o tenho, + Sendo vs de to alto e illustre preo, + A vida fostes pr n'hum fraco lenho, + Por largo mar e undosa tempestade, + S por servir Regia Magestade. + + E despois de tomar a redea dura + Na mo, do povo indomito qu'estava + Costumado a larguezas, e soltura + Do pezado govrno que acabava; + Quem no ter por santa e justa cura, + Qual do vosso conceito s'esperava, + A to desenfreada enfermidade + Applicar-lhe contrria qualidade? + + No he muito, Senhor, se o moderado + Govrno se blasphema e se desama; + Porque o povo largueza costumado, + lei serena e justa, dura chama. + Pois o zelo em virtude s fundado + De salvar almas da Tartarea flama + Com a goa salutifera de Christo, + Poder por ventura ser malquisto? + + Quem quizesse negar to gr verdade, + Qual he o seu effeito santo e pio; + Negue tambem ao sol a claridade, + E certifique mais que o fogo he frio. + Se o successo he contrrio da vontade + Nas obras que so boas, e ha desvio; + Est nas mos dos homens comettellas, + E nas de Deos est o successo dellas. + + Sei eu, e sabem todos que os futuros + Vero por vs o Estado accrescentado, + Sero memoria vossa os fortes muros + Do Cambaico Damo bem sustendado: + Da ruina mortal sero seguros, + Tendo todo o alicerce seu fundado + Sbre orfas amparadas com maridos, + E pagos os servios bem devidos. + + Qumanha infamia ao Principe he perder-se + Pouco do Estado seu, que inteiro herdou, + Tanto por glria grande deve ter-se + Se accrescentado e prspero o deixou. + Nunca consentio Roma ennobrecer-se + Com triumphos alguem, se no ganhou + Provincia com que o Imperio s'augmentasse, + Por maiores victorias qu'alcanasse. + + Pde tomar o vosso nome dino + Damo, por honra sua clara e pura, + Como ja do primeiro Constantino + Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura. + E tu, Rei, que no Reino Neptunino, + L no seio Gangetico a Natura + Te aposentou, de ser to inimigo + Deste Estado no ficas sem castigo. + + Bem viste contra ti nadantes aves + Cortar a espumosa goa navegando; + Ouviste o som das tubas, no suaves, + Mas com temor horrifero soando; + Sentiste os golpes asperos e graves + Do Lusitano brao nunca brando. + No soffreste o gro brado penetrante, + Que os troves imitava do Tonante. + + Mas antes dando as costas e a victoria + Bragancez ventura no corrido, + Dste bem a entender quo grande glria + He de tal vencedor o ser vencido. + Quem faz obras to dignas de memoria + Sempre ser famoso e conhecido, + Onde os altos juizos o estimarem, + Qu'estes ss tee poder de fama darem. + + No vos temais, Senhor, do povo ignaro, + To ingrato a quem tanto faz por elle; + Mas sabei qu'he signal de serdes claro + O ser agora to malquisto delle. + Themistocles, da patria sua amparo, + O forte e liberal Cimon, e aquelle + Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo, + Testimunhas sero de quanto digo. + + Pois ao justo Aristdes hum robusto, + Votando no ostracismo costumado, + Lhe disse claro assi: Porque era justo + Desejava que fosse desterrado. + Pachitas por fugir do povo injusto + Calumnioso, dando no Senado + Conta de Lesbos, qu'elle ja mandra, + Se tirou co'o seu ferro a vida chara. + + Demosthenes, lanado das tormentas + Populares, Pallas! foi dizendo, + Que de tres monstros grandes te contentas, + Do drago e moucho, e do vil povo horrendo! + Que glrias immortaes houve, qu'isentas + Do veneno vulgar fossem, vivendo? + Pois mil exemplos deixo de Romanos, + E vs tambem sois hum dos Lusitanos. + + * * * * * + + +EPISTOLA III. + + Mui alto Rei, a quem os Ceos em sorte + Dero o nome augusto e sublimado + Daquelle Cavalleiro que na morte, + Por Christo, foi de settas mil passado; + Pois delle o fiel peito, casto e forte, + Co'o nome Imperial tendes tomado, + Tomae tambem a setta veneranda + Que a vs o Successor de Pedro manda. + + Ja por ordem do Ceo, que o consentio, + Tendes o brao seu, reliquia chara, + Defensor contra o gladio que ferio + O povo que David contar mandra. + No qual, pois tudo em vs se permittio, + Presagio temos, e esperana clara, + Que sereis brao forte e soberano + Contra o soberbo gladio Mauritano. + + E o que hum presagio tal agora encerra, + Nos faz ter por mais certo e verdadeiro + A setta, que vos d quem he na terra + Dos celestes thesouros Dispenseiro: + Que as vossas settas so na justa guerra + Agudas, e entraro por derradeiro + (Cahindo a vossos ps povo sem lei) + Nos peitos que inimigos so do Rei. + + Quando vossas bandeiras despregava + Albuquerque fortissimo com glria + Por as praias de Persia, e alcanava + De Naes to remotas a victoria; + As settas embebidas, que tirava + O arco Armusiano (he larga historia) + Nos ares, Deos querendo, se viravo, + Pregando-se nos peitos que as tiravo. + + O querido de Deos, por quem peleja, + O ar tambem e o vento conjurado + Ao atambor lhe acodem, porque veja + Que o que a Deos ama, he de Deos amado: + Os contrarios revis Madre Igreja + Atroaro co'o tom do Ceo irado. + Que assi deo ja favor maior que humano + A Josu Hebreo, Teodosio Hispano. + + Pois se as settas tiradas da inimiga + Corda, contra si s nocivas so, + Que faro, Rei, as vossas que tee liga + Com a que ja tocou Sebastio? + Tinta vem do seu sangue, com que obriga + A levantar a Deos o corao, + Crendo bem que as que vs despedireis, + No sangue Sarraceno as tingireis. + + Ascanio, (se trazer me he concedido + Entre santos exemplos hum profano) + Rei do Imperio, despois to conhecido, + De Roma, e s reliquia do Troiano, + Vingou com setta e nimo atrevido + As soberbas palavras de Numano; + E logo foi dalli remunerado + Com louvores de Apollo, e celebrado. + + Assi vs, Rei, que fostes segurana + De nossa liberdade, e que nos dais + De grandes bens certissima esperana; + Nos costumes, e aspecto que mostrais, + Concebemos segura confiana + Que Deos, a quem servis e venerais, + Vos fara vingador dos seus revis, + E os premios vos dar que mereceis. + + Estes humildes versos, que prego + So destes vossos Reinos com verdade, + Recebei com benigna e Real mo, + Pois he devida a Reis benignidade. + Tenho (se no merecem galardo) + Favor sequer da Regia Magestade: + Assi tenhais de quem ja tendes tanto, + Com o nome e reliquia, favor santo. + + * * * * * + + +EPISTOLA IV. + + Senhora, s'encobrir por algum'arte + Pudera esta occasio de meu tormento, + No creias que chegra a declarar-te + Este meu perigoso pensamento. + Mas por mais que te offenda, no sou parte + No crime de tamanho atrevimento: + Elle he d'amor; e delle fui forado + A que te declarasse o meu cuidado. + + Se merece castigo a confiana + Com que descubro agora o que padeo, + Aqui prompto me tens; toma a vingana + Que por to grave culpa te mereo. + Bem me podes negar toda esperana, + Mas eu no desistir deste como; + Porque tempo e Fortuna no so parte + Para deixar hum'hora s de amar-te. + + Ja que ver-te os meus olhos alcanro, + Descansem neste bem com alegria, + Pois ja com ver os teus tanto ganhro, + Quanto, estando sem v-los, se perdia. + Que glria querem mais, se a ver chegro + Aquella pura luz que vence ao dia? + Qual mor bem ha no mundo que querer-te, + Se no ha mais que ver despois de ver-te? + + Minhas dores mortaes, bella Senhora, + Tirro a virtude ao soffrimento; + E fazendo-se mais em qualquer hora, + Levando vo traz ti meu pensamento: + Porm soberbos vejo desde agora, + Por a causa gentil de seu tormento, + Minha alma, meu desejo, meu sentido, + Porque tua belleza se ho rendido. + + A par de tua rara formosura + Se desconhece o mor merecimento; + A tua claridade torna escura + Do sol a clara luz em hum momento. + Se Zeuxis ao formar bella figura, + A vista em ti pudera pr attento, + Mais alto original houvera achado + Para admirar o mundo co'o traslado. + + Aquelles qu'escrevro mil louvores + De formosura, graa e gentileza, + Todos foro, Senhora, huns borradores + De tua perfeitissima belleza. + Agora se v claro em teus primores + Qu'em ti s'esmerou mais a natureza; + E qu'ero os seus cantos prophecias + Do que havias de ser em nossos dias. + + V, pois, se vinha a ser culpavel falta + Em mi o no render-te amante a vida, + E se deixar d'amar glria to alta + Era digno da pena mais crescida. + Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta + Co'o castigo de culpa assi atrevida: + E quando della caia, maior glria + Tera o Tejo, que o P, com sua historia. + + * * * * * + + + + +OITAVAS. + + +GLOSA DO SONETO 14. + + Despois que a clara Aurora a noite escura + Com novo resplandor foi desfazendo, + E Phebo por os montes e espessura + Os seus dourados raios estendendo; + Se buscava nos valles a verdura + O manso gado a luz serena vendo, + Quando a frvida ssta ja abrazava, + _Todo animal da calma repousava._ + + Ja por fugir do sol o fogo ardente, + As sombras os rebanhos vo buscando; + Os tenros cabritinhos juntamente + Apos as mansas mes hio saltando; + Tangendo as suas frautas docemente + Os pastores, estavo enganando + A gr chamma solar qu'ento ardia; + _S Liso o ardor della no sentia._ + + Tristes lembranas tanto o traspassavo, + Que a dura ssta nelles s passava; + O tempo qu'em prazer outros gastavo, + Em celebrar seu mal elle o gastava; + As festas que com jogos celebravo, + Elle com suspirar as celebrava: + Nada buscava mais, mais no queria + _Que o repouso do fogo em qu'elle ardia._ + + Os repetidos jogos dos pastores, + As lutas entre a rama repetidas, + Em nada lhe divertem suas dores; + Mas antes n'alegria as v crescidas. + Como o repouso roubo os amores + s almas que para elles so nascidas, + Elle, todo o repouso qu'esperava, + _Consistia na Nympha que buscava._ + + Com o chro, que ja corria em fio + Por o pallido rosto, augmenta as fontes, + Que levo goa estranha ao claro rio + Que os valles vai regando entre altos montes. + Com suspiros a quem o ecco pio + Responde de apartados horizontes, + Os ventos parecia qu'enfreava, + _Os montes parecia que abalava._ + + Que s queixas de seus doces pensamentos + Se movessem os montes mais constantes, + Se parassem os mais veloces ventos, + Qu'estavo, que corrio circumstantes, + Bem se devia dor de seus tormentos, + E inda que fosse em peitos de diamantes; + Que hum peito de diamante abrandaria + _O triste som das mgoas que dizia._ + + Porm elle as dizia a outro peito, + Mais, que diamante, inexpugnavel, duro: + A f lh'encarecia, a que sogeito + O tinha em pena eterna o amor puro; + Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito, + Quanto mais offendido, mais seguro: + A Nympha mais segura tudo ouvia, + _Mas nada o duro peito commovia._ + + As lstimas aqui tanto crescro, + Que s'em montes de Hircania s'escuitro, + Tigres nos seios seus mover pudero, + E pedras nos seus cumes abrandro. + Mas se no peito as tristes vozes dro + Daquella fera humana que buscro, + Elle d'as admittir se retirava; + _Que na vontade de outro psto estava._ + + Desenganado ja da triste sorte, + De que mal fino amor se desengana, + Com a desperana s de sua morte + Aquellas penas ltimas engana. + Deixando na espessura o claro Norte, + Para elle de outra luz mais soberana, + A hum valle aberto ento sahir procura, + _Cansado ja de andar por a espessura._ + + Deixando as suas cabras que pascessem + Naquelle verde prado as frescas flores; + Porque os Satyros leves o soubessem, + E os sylvestres Faunos amadores; + Tambem porque os pastores o entendessem, + Todo o processo e fim de seus amores + Escreveo (sem em nada haver mudana) + _No tronco d'huma faia por lembrana._ + + Por lembrana no tronco d'huma faia, + Que vai sahindo ao ceo de puro altiva + Na verde, prateada e aurea praia, + Por onde o claro Tejo se deriva; + Porque tambem ao ceo sua dor saia + Sbre aquella corrente fugitiva, + Escrita no papel da natureza; + _Escreve estas palavras de tristeza:_ + + Natercia, Nympha bella, por quem vivo + Em tal tormento, tempo algum me olhou; + Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo + Daquelle brando olhar que m'enganou, + O amor tornava em desamor esquivo; + E d'hum tormento tal a outro passou. + Em cousas to sujeitas a mudana + _Nunca ponha ninguem sua esperana._ + + Para dar proveitosos desenganos + Dos enganos que so de Amor effeitos, + E dos dous sexos publicar, humanos, + A origem das mudanas de seus peitos; + Estas letras aqui por longos anos + Digo a coraes a amar sujeitos + Em peito varonil, que de ventura, + _Em peito feminil, que de natura..._ + + Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado + Cahio ao p da faia em qu'escrevia, + No podendo seguir o comeado, + Porque a alma ja do corpo lhe sahia. + Tres vezes, com accento mal formado, + Para exemplo futuro repetia: + Amantes, entendei que a mr belleza + _Somente em ser mudavel tem firmeza._ + + * * * * * + + +GLOSA DO SONETO 194. + + _C nesta Babylonia adonde mana_ + Hypocrisia, engano e falsidade; + C donde ousada toda carne humana + A todo arbitrio vive da vontade; + C donde enrouqueceo da Lusitana + Musa o furor heroico e suavidade; + C donde se produz por cega via + _Materia a quanto mal o mundo cra_; + + _C donde o puro Amor no tee valia_, + Porque Baccho o tee hoje desterrado; + C donde a frecha d'ouro no feria, + Seno cabello preto e alfenado; + C donde a loura trana no se via, + Nem o rosto de sangue matizado; + C donde nada val a glria humana, + _Que a me, que manda mais, tudo profana_; + + _C donde o mal se affina, o bem se dana_, + Se algum a terra em si quer produzir; + C donde a falsa gente Mahometana + A glria toda funda em adquirir; + C donde multiplica a mo tyrana, + Professa em mais crescer, matar, mentir; + C donde o fazer bem he villania, + _E pde mais que a honra a tyrannia_; + + _C donde a errada e cega Monarchia_ + De fabulosas leis est vivendo, + E fra d'hum amor engrandecia + O nefando Alcoro em qu'est crendo; + C donde nada val a Poesia, + E s'est da lei della escarnecendo; + C donde a fidalguia Mahometana + _Cuida qu'um nome vo a Deos engana._ + + _C nesta Babylonia, onde a Nobreza_ + Da Lusitana gente se perdeo; + E do gro Sebastio toda a grandeza + Irreparavelmente se abateo; + C donde algum mentir no he baixeza, + E os meritos esmola (assi cresceo + Da cobia mortal a semrazo) + _Co'o esfro e saber, pedindo vo._ + + _s portas da cobia e da vileza_ + Estes netos de Agar esto sentados + Em bancos de torpissima riqueza, + Todos de tyrannia marchetados. + He do feio Alcoro summa a largueza + Que tee para que sejo perdoados + De quantos erros commettendo esto + _C neste escuro cos de confuso._ + + _Cumprindo o curso estou da natureza_, + Illustre Dama, neste labyrintho; + Mas quem usa comigo mais crueza, + He tua condio, que n'alma sinto. + Acabe-se algum dia tal tristeza, + E este sentido mal qu'em versos pinto: + E pois n'alma he sentido e corao, + _Ve se m'esquecerei de ti, Sio._ + + * * * * * + + +A SANTA URSULA. + + D'huma formosa virgem desposada, + Que d'outras onze mil, tambem formosas, + Entrou no claro Olympo acompanhada, + Com coras de lyrios e de rosas; + De Christo Esposo seu to namorada, + Que delle as quiz fazer todas esposas; + Amor, vida e martyrio cantar quero, + Fiado no favor que della espero. + + Alcana, Ursula bella, (que diante + De to bello esquadro foste por guia) + De teu suave Amor, que de ti cante + O seu amor que no teu peito ardia. + Meu verso para ti mais se levante, + Christifera, heroica companhia; + Tanto se mostre aqui mais soberano, + Quanto o divino Amor excede o humano. + + E vs, unica Me e Virgem pura, + Pois sois das que tal ordem escolhro, + Que fostes, sois, sereis guarda segura + Da pureza que a Deos offerecro; + Neste canto me dae melhor ventura + Do que atgora as Musas vas me dero: + Vossas servas sero de mi servidas, + Cantadas suas mortes, suas vidas. + + Serenissima Infante, produzida + Do gro Tronco Real, sublime Planta; + No titulo, nas obras e na vida, + Retrato natural de Ursula Santa, + Desta virgem, tambem de Reis nascida, + Ouvi com ledo rosto o que se canta; + Dae o sentido hum pouco a tal sogeito: + No lhe tire seu preo o meu defeito. + + No tempo que Cirico se sentava + Na Cadeira de Pedro pescador, + De que com sa doutrina apascentava + As Ovelhas de Christo, Bom Pastor; + Teve Bretanha hum Rei, que professava + A Lei que deo no mundo o Redemptor, + Justo e temente ao Ceo, pio e devoto, + Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto. + + De virtudes hum novo exemplo e raro, + Em idade e belleza florecia + Ursula, por quem Noto era mais claro, + Que por todo o poder que possuia; + Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro, + Com quem todas as graas repartia; + Prudente, honesta e docta a maravilha, + De to ditoso pae ditosa filha. + + Aquella que por o ar com ligeireza + As pennas de mil azas abre e cerra, + E que com velocissima presteza + Com outros tantos ps corre por terra; + Aquella, que de sua natureza + No cuida em quanto diz se acerta ou erra, + E d'huma em outra boca se derrama: + Aquella, emfim, a quem chamamos Fama; + + Hia por todo o mundo divulgando + Extremos desta virgem soberana, + Aquella formosura celebrando + Com que Amor cego a tanta vista engana: + Mais hia a d'alma sua publicando, + Porqu'era mais divina do que humana: + Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto, + Qu'em huns criava amor, n'outros espanto. + + Ouvidos seus louvores, muitas vezes + Desejou desta virgem fazer nora + Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes, + Idolatras ento, cegos agora. + povo cego e leve! as torpes fezes + Aparta do ouro puro e lana fra, + Torna-te ao teu pastor, perdido gado! + lha que vs sem elle mal guiado. + + Hum filho deste Rei (de quem dizia + Que ser de Ursula sogro desejava) + Movido do rumor que della ouvia, + Ja dentro no seu peito a namorava. + Alli seu amor, delle, lhe offrecia; + Alli por o amor della suspirava. + Suspira elle por ella; ella suspira + Tambem por outro amor que nunca vira. + + Mandou o Rei Inglez Embaixadores + Com pompa Regia e lustre sumptuoso, + (Do grande Reino seu grandes Senhores) + A Noto, Rei no tanto poderoso. + Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores + Ardia toda do celeste Esposo) + Para esposa do filho, que sabia + Que ja d'amores della todo ardia. + + O Rei Breto se achava descontente + Com a nova embaixada de Inglaterra: + Receia que se nella no consente, + O gentio lhe mova cruel guerra: + Porque sendo mais rico e mais potente, + Assi no largo mar, como na terra, + Quando desprezos visse de seu rgo, + Podia pr Bretanha a ferro e fogo. + + Sbre este no errado pensamento + Do medo de perder seu senhorio, + Novo discurso tinha e novo intento, + Com que se achava mais medroso e frio. + Estranhava o fazer ajuntamento + Da catholica filha co'hum gentio; + Pois nem a Lei de Christo o permittia, + Nem Ursula fiel o admittiria. + + Estando o pae em tal angstia psto, + Divinamente a filha ja inspirada, + Lhe assegurava com sereno rosto + Que consentir podia na embaixada; + Dizendo que se o Inglez levava gsto + D'ella com seu herdeiro ser casada, + Primeiro lhe mandasse dez donzellas, + Do Reino as mais illustres, as mais bellas. + + Que mil daria a cada virgem destas, + E que a ella outras mil tambem daria, + Todas de claro sangue, e em vista honestas. + (Dest'arte a conta de onze mil fazia) + Que por trez annos dilao nas festas, + Alm do ja pedido, lhe pedia; + E naos e mantimentos, porque todas + Fossem com ella a Roma antes das bodas. + + Alli sua pureza e virgindade + Queria com solemne e sacro voto + Consagrar divina Potestade, + Que o ceo e a terra fez de proprio moto. + E que deixasse a va gentilidade + Seu filho, para genro ser de Noto, + Para que neste espao doutrinado + Fosse na F de Christo, e baptizado. + + Com estas condies Ursula disse + Ao charo pae, que, a ser dellas contente, + Podia responder; e despedisse + A proposta daquelle Rei potente: + Ou porque ouvindo-as elle desistisse, + Podendo-se acceitar difficilmente; + Ou porque, quando as virgens concedesse, + Comsigo a seu Senhor onze mil dsse. + + Oh Divino saber, quo soberano + Conselho he sempre o teu! quo remontado! + Oh quanto o mor saber te cede humano, + Por mais que de razes v mais ornado! + Ja dos idolos deixa o cego engano + O Principe, da virgem namorado; + Ja terno pede ao pae quanto ella pede; + Ja o pae quanto lhe roga lhe concede. + + Ja para ti, virgem bella e branda, + Com huma singular velocidade, + Juntar se via d'huma e d'outra banda + De feminil nobreza tenra idade. + As naos apparelhar o Rei ja manda; + Ja nellas se recolhe a Virgindade; + Ja do para Bretanha ao vento velas. + O corao do noivo vai com ellas. + + Ja vem a tomar porto onde esperava + Ursula alvoroada em gr maneira; + Que para as receber alli se achava, + Como senhora no, mas companheira. + Quo falsa era a Lei dellas lhes mostrava, + A de Christo quo pura e verdadeira. + Ja se baptiza huma e outra Dama; + Damas Ursula ja do ceo lhes chama. + + A Fama, que no sabe repousar, + Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha; + A gente que concorre no tee par, + Por ver a nunca vista maravilha. + Outros vem por servir e acompanhar + A Virgem de Rei nora, de Rei filha. + Movem-se muitos Bispos de Bretanha; + Pantalo em vida e morte os acompanha. + + Por ti, deixando o Reino, co'a familia + E quatro filhas suas, s'embarcou, + Juliana, Victoria, Aurea, Babilia; + (Hum filho tinha mais que mais levou) + Gerasina, Rainha de Sicilia, + E com devido amor te acompanhou; + Qu'he justo que comtigo vo Rainhas, + Quando tu para o Rei dos Reis caminhas. + + Ja se partem as bellas peregrinas, + As mos ao claro Empyreo levantadas; + Ja rompem, ja, por ondas crystallinas + As naos de formosura carregadas. + Quando, dizei, goas Neptuninas, + Fostes de tal belleza navegadas? + Nunca, despois que a terra descobristes, + A tal frota por vs caminho abristes. + + Com vento sempre igual, com mar bonana, + Sem perigos alguns, sem algum pejo, + Ceyla foro tomar, porto de Frana, + Onde pouca demora fazer vejo. + O corao da virgem no descana, + Saudosa do fim de seu desejo; + Manda que levem ferro, soltem linho + Que leve por o mar o negro pinho. + + O vento nova posse vai tomando + Das virgens que lhe so encommendadas: + Com tal prosperidade vo voando, + Que ja deixo atraz ondas salgadas: + Ja nas doces do Rheno esto entrando, + Onde tee suas vidas limitadas: + Huma cidade vem lingua da goa, + Que de v-las morrer no teve mgoa. + + Ah Colonia cruel, que no t'encobres + A to formosos olhos, que seguros + As altas trres vio que descobres, + Lustrosos edificios, fortes muros! + Permitte o largo Ceo que fama cobres + De ser to dura me de peitos duros? + Duros peitos, que a tantos, limpos de rro + Viro abrir sem dor com impio ferro! + + Estando neste porto a bella Armada + Tomando o necessario mantimento, + Para poder seguir sua jornada, + E dar terceira vez o treu ao vento; + Sendo parte da noite ja passada, + A virgem l no seu retrahimento, + Quando estava dormindo toda a frota, + A Christo orou assi, branda e devota: + + Amor, divino Amor, Amor suave, + Amor, que amando vou toda rendida; + Com quem no ha na vida pena grave, + Sem quem glria real no ha na vida; + Amor, que do meu peito tens a chave, + Amor, de cujo amor ando ferida, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que no vejo? + + Amor, que d'amor cheio e de brandura, + D'amor enches est'alma saudosa; + Amor, sem cujo amor e formosura, + No pde nunca haver cousa formosa; + Amor, com cujo amor anda segura + Huma vida to fraca e duvidosa, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que no vejo? + + Amor, que por amor te dispuzeste + A restaurar o mundo errado e triste; + Amor, que por amor do ceo desceste; + Amor, que por amor Cruz subiste; + Amor, que por amor a vida dste; + Amor, que por amor a glria abriste, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que no vejo? + + Amor, que mais e mais sempre te augmentas + No corao que l comtigo trazes; + Amor, que d'amor puro te sustentas + No fogo em que tu mesmo arder me fazes; + Amor, que sem amor no te contentas, + De tudo com amor te satisfazes, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que no vejo? + + Amor, que com amor me captivaste; + (Se livre pde ser quem no captivas) + Amor, qu'em taes prises m'asseguraste + As esperanas d'antes fugitivas: + Amor, que suspirando m'ensinaste + A derramar por ti lagrimas vivas, + Quando verei, Amor, o que desejo, + Para que veja, Amor, o que no vejo? + + Quando verei hum dia em que offerea + Por ti ao cruel ferro o peito forte, + E cercada de virgens apparea + Na tua soberana e eterna Corte; + Onde l cada huma te merea, + C passando comigo a propria morte; + E todas dando o sangue juntas, todas + Celebremos comtigo eternas bodas? + + Faze-me ja, Senhor, esta vontade + Que tenho de te ver, que sempre tive, + Des que me deo lugar a tenra idade, + E lume de razo nesta alma vive. + No queiras, meu Amor, que a saudade + Sem tal bem a mi s da vida prive; + Que se muito se alarga este destrro, + Por ella irei a ti, no por o ferro. + + Desata o meu espirito saudoso, + Do n mortal em que se vai detendo, + Primeiro que tres vezes pressuroso + O sol os doze Signos v correndo. + Espao he que tomei, meu doce Esposo, + Para outro esposo meu ir entretendo: + Mas a meu amor crendo, de ti creio + Que acabes com a vida o meu receio. + + Inda neste fervente e justo rgo + Ursula suspirando procedia, + Quando d'hum resplandor como de fogo + Divina voz ouvio, que assi dizia: + virgem, que soubeste fazer jgo + Do que no mundo tee maior valia, + Entende que da volta que fizeres, + Aqui quero que seja o que tu queres. + + Tanto que tal resposta do Ceo teve, + No quiz do que esperava perder hora: + Ja lhe parece larga a noite breve, + E que ja tarda muito a bella aurora. + Em descobrindo Apollo o carro leve, + Do porto de Colonia sahio fra. + Ja Basila em breve tempo toma: + E a p d'alli partiro para Roma. + + O Pastor summo, Cirico santo, + As sahe a receber, e as acompanha + Com gzo espritual, com grande espanto + De ver em tal idade f tamanha. + Dizer se pde mal, mal cuidar quanto + Se goza o Real sangue de Bretanha, + Os veneraveis Templos visitando + Daquelles que tambem foi imitando. + + Na propria noite deste proprio dia + Que Roma ver as virgens mereceo, + A quem de Pedro a Barca ento rega + Revelou o que rege a terra e ceo + Que martyrio tambem receberia + Onde Ursula co'as mais o recebeo: + Deixa contente o gro Pontificado, + Desejoso de ser martyrizado. + + Por mais que todo o Clero soffre mal + Mover-se por aquellas Estrangeiras, + Movido da Vontade divinal + O bom Pastor se vai com as Cordeiras. + Hum Arcebispo leva, hum Cardeal: + Tres Bispos deixo vagas tres Cadeiras, + De Luca, Ravicana e de Ravenna: + Mauricio me ficava ja na penna. + + Despois de n'goa entrar, donde sahro, + Com to formoso sol tantas estrellas, + Ja as ancoras debaixo acima tiro, + E de cima ja abaixo solto vellas. + Estas naos l adiante outras naos vro, + Que fazendo-se vem na volta dellas; + Conhecro-se logo as duas frotas: + Ambas d'hum Reino so, ambas devotas. + + Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra, + Vinha de Ursula bella o bello esposo, + Que reinar no queria ja na terra, + Do ceo ja namorado e saudoso. + Do seu primeiro amor venceo a guerra + A fra d'outro amor mais poderoso: + Amando ja em seu Deos a esposa bella, + Para o poder achar, buscava a ella. + + A me, ja convertida, traz comsigo; + O pae, ja Christo feito, fallecra, + Com que soube evitar o gro castigo + Que, morrendo Gentio, no soubera. + Amor celeste, como aqui no digo + O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!) + Por meio d'huma virgem foste meio + Com que gente copiosa a Christo veio. + + Vinha mais nesta nova companhia + Florencia, irma do Rei, da me cuidado; + Florencia, qu'em belleza florecia, + Como flor em jardim bem cultivado. + Tambem a frota Bispos dous trazia, + Hum Marcello, Clemente outro chamado: + O primeiro ja em Grecia bago teve; + Do segundo o Bispado no s'escreve. + + Outra Virgem viuva alli mais vinha, + Que desposada sendo em tenra idade, + Antes das bodas enviuvado tinha, + E promettida a Christo a castidade. + Esta do mesmo Rei era sobrinha, + Filha da Imperatriz da gr cidade, + Onde por culpa nossa, ou pouca dita, + Seu throno agora tee o fero Scita. + + Estes, que adverte repetida historia + Deixro s por Deos altos Estados, + Com outros, de que he menos a memoria, + Foro divinamente amoestados + Que todos, para entrar juntos na glria, + Ao cro virginal fossem juntados, + Com quem na terra Martyres serio, + E no ceo para sempre reinario. + + Sera estranho o gzo que sentro + Aquellas bem nascidas almas santas, + Quando juntas alli todas se vro + De partes to remotas, e de tantas. + Sem estorvos, que d'antes o impedro, + As duas, mais que todas, bellas plantas + Alli abraos se do sem algum pejo, + Ambas conformes ja n'hum s desejo. + + Alli faria o Rei acatamento + A quem deixou da Barca o gro govrno; + E elle, conforme a seu merecimento, + Responderia com amor paterno. + No faltaria em tal recebimento + Prazer exterior, prazer interno; + Inda que nos estados differentes, + Todos serio huns em ser contentes. + + O vento as brancas velas no enchia, + Corria o frio Rheno ento mais quedo; + Antes para Colonia no corria, + Porque as virgens no fossem l to cedo. + Parece que ja claro conhecia + (Oh cro virginal, sereno e ledo!) + Que l vos esperava a impia morte. + Agora, Musa, conta de que sorte. + + Aquelle que na frma de serpente + Deixou aos dous primeiros enganados, + Invejoso de ver que tanta gente + Se convertia Lei dos Baptizados; + No carao entrou manhosamente + De dous gentios Principes damnados, + Da soberba Roma Cavaleria, + Por encurtar a F que s'estendia. + + A Fama os assegura com certeza + Que a virgem a Colonia ja voltava, + Com toda a casta juvenil belleza + Que por amor do Ceo peregrinava. + Fizero avisar com gr presteza + A hum parente, que Julio se chamava, + Soberbo Capito dos Hunnos feros; + Que todos para todas foro Neros. + + Eis logo o cego Principe gentio, + Com gente innumeravel de seu mando, + A praia a tomar vem do mesmo rio + Por onde as virgens vinho navegando. + Ja descobrem aquelle, este navio + Os qu'esto do mais alto atalaiando: + s armas veloz corre o bruto povo, + Por de novo as tingir no sangue novo. + + Vindo a frota a surgir junto do muro, + Onde lhe parecia estar segura, + (Oh virgens que buscais? lugar seguro + Adonde vos espera a sepultura!) + Entra com mo armada o povo duro + Por esta peregrina formosura: + Ja comea a provar os aos fortes; + Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes. + + Ja nu todas as virgens offrecio + O delicado collo, o tenro peito: + Era para caber quantas cahio, + Todo largo lugar lugar estreito. + Do puro sangue os rios que corrio, + Outro vermelho mar ja tinho feito. + Tu s, Crdula, morte t'escondeste; + Mas despois a buscaste e recebeste. + + Cirico o primeiro, bem constante, + A vida ao ferro offrece sem espanto: + O moo Rei Inglez cahio diante + Daquelles castos olhos que amou tanto. + Espera, brando esposo, hum breve instante; + Espera a tua doce esposa, em tanto + Que outro Amor outro golpe lhe prepara; + E juntos entrareis na Patria chara. + + Em qual terra, crueis, em qual cidade, + Entre quaes gentes mais a furor dadas, + Se no usou d'amor e de piedade + Com formosas donzellas desarmadas? + Como belleza tanta e tal idade + Vos deixou arrancar vossas espadas? + Ah lobos carniceiros, tigres bravos, + Filhos da crueldade, d'ira escravos! + + De quantos animaes sustenta a terra + Nunca tanta crueza foi usada; + Inda que tenho huns com outros guerra, + Nunca do macho a femia he lastimada: + Anda a cerva co'o cervo por a serra, + A novilha do touro acompanhada, + leoneza o leo defender preza: + Vs ss quebrais as leis da natureza? + + Pudero outros olhos por ventura + De lagrimas divinas escusar-se, + Vendo, cuberta ja de nvoa escura, + A luz de tantos bellos apagar-se? + Vendo a purpurea rosa, a cecem pura + Em to formosas faces descorar-se? + As tranas d'ouro vendo, espedaadas, + Por debaixo dos ps andar pizadas? + + Na fra desta furia accesa e brava + O Tyranno cruel a vista ergueo + virgem, qu'invencivel animava + As almas que juntra para o Ceo. + Assi ja envolta em sangue como andava, + Da sua formosura se venceo; + E com doces razes, que Amor ensina, + A venc-la d'amor se determina. + + Fingindo se arrepende do passado, + (E de fingi-lo se arrepende azinha) + Sua vida lhe offrece e seu Estado, + Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha. + O seu amor lhe pede confiado; + O seu amor que dado a seu Deos tinha: + Pede-lhe o seu amor; antes no seu, + Porque ja dado o havia a quem lho deu. + + Usa de mil lisonjas, mil enganos, + Por conseguir o seu desejo bruto. + A flor logra (dizia) de teus anos, + Colhe d'essa belleza o doce fruto: + No ds materia nova a novos danos, + No pagues verde morte o seu tributo: + Olha que tens em mi (no so cautelas) + Outro Reino, outro esposo, outras donzelas. + + No faas mentirosa a natureza + Que d d'amor em ti grande esperana. + Que se pde alcanar d'essa belleza, + Se ja piedade della no s'alcana? + Aos tigres, aos lees deixa a braveza, + E deixa aos meus soldados a vingana. + Se por ver-me cruel queres ser crua, + Ja te vingas de mi em cousa tua. + + Volve esses olhos ja com mais brandura; + Esses olhos, d'Amor doce morada: + Delles no faa em mi a formosura, + O qu'em tantos ja fez a minha espada. + Se queres derribar minha ventura, + Que delles estar vejo pendurada, + Acabarei de ver quo pouca tenho, + Pois donde a matar vim a morrer venho. + + Como do rgo meu no te aproveitas, + Quando o teu risco a me rogar te obriga? + Ou no conheces bem a quem engeitas, + Ou m'engeitas por mais que seja e diga. + Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas? + Mais proprio era chamar-te dura imiga. + Mas no consente Amor nome to duro + Em parecer to brando e to seguro. + + Os raios desses olhos ja serenos + Enxuguem desse rosto as puras rosas; + O triste suspirar ja se menos + Nestas concavidades saudosas. + No fao grande mal males pequenos; + Que no soffre esperanas vagarosas + Quem anda costumado em seus amores + A medir por seu gsto seus favores. + + Que gsto podes ter de maltratar-me, + Vendo-me do passado arrependido? + Attenta que mais ganhas em ganhar-me, + Do que neste destro tens perdido. + Se queres insistir em desprezar-me, + Ver-me-has, sbre amoroso, enfurecido. + No me declaro mais, porque no quero + Que o medo faa o que d'amor espero. + + Ah perfido amador! deixa o teu rro. + No vs quanto enganado e cego andas? + Aquella a quem no vence o duro ferro, + Como a podem vencer palavras brandas? + Manda a sua alma ja deste destrro, + Com essas que a seu doce Esposo mandas. + No a detenhas mais em teus amores, + Se dobrar-lhe no queres suas dores. + + Vendo o cruel, emfim, que o que dizia, + Tomava a bella virgem por affronta, + E que quanto d'amor mais se accendia, + Ella delle fazia menos conta; + No concavo arco que na mo trazia, + Huma setta embebeo d'aguda ponta, + E o peito lhe passou de banda a banda. + Assi rendeo o esprito a virgem branda. + + Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza; + As azas abre ja, ja a luz derrama; + Va com desusada ligeireza + Onde o teu Bem t'espera, onde te chama. + Vers baixa do mundo a mr alteza; + Vers qu'engana mais a quem mais ama; + E l do teu Amor, c suspirado, + O fructo colhers to desejado. + + Em paz te vae, alma pura e bella, + Mais bella inda no sangue que verteste; + Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella + Formosa Regio, alta e celeste. + Coroada de glria immortal, nella + Com Christo logrars, a quem te dste + Com tantas e to bem nascidas almas, + (Formosura do Ceo) onze mil palmas. + + * * * * * + + + + +COMEDIAS. + + +INTERLOCUTORES. + + +DO PROLOGO. + + O MORDOMO, ou DONO DA CASA. + MARTIM CHINCHORRO. + AMBROSIO, Escudeiro. + LANAROTE, Moo. + + +DA COMEDIA. + + ELREI SELEUCO. + A RAINHA ESTRATONICA. + O PRINCIPE ANTIOCHO. + LEOCADIO, Pagem do Principe Antiocho. + FROLALTA, Criada da Rainha Estratonica. + HUM PORTEIRO DA CANA. + HUMA MOA DA CAMARA. + HUM PHYSICO, ou MEDICO. + SANCHO, Moo do Physico. + ALEXANDRE DA FONSECA, hum dos Musicos. + + + + * * * * * + + +ELREI SELEUCO. + +COMEDIA. + + + + +PROLOGO. + +_Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa._ + +Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quiz +representar huma Fara; e diz, que por no se encontrar com outras ja +feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo assi +arrazoado satisfazer. E diz que quem se della no contentar, querendo +outros novos acontecimentos, que se v aos soalheiros dos Escudeiros da +Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em +casa do Boticario; e no lhe faltar que conte. Porm diz o Autor que +usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto obra, se no parecer +bem a todos, o Autor diz que entende della menos que todos os que lha +puderem emendar. Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que +responde com hum dito de hum Philosopho, que diz: _Vs outros estudastes +para praguejar, e eu para desprezar praguentos?_ Eu com tudo quero saber +da Fara, em que ponto vai. Lanarote? + +MOO. + +Senhor. + +MORDOMO. + +So ja chegadas as figuras? + +MOO. + +Chegadas so ellas quasi ao fim de sua vida. + +MORDOMO. + +Como assi? + +MOO. + +Porque foi a gente tanta, que no ficou capa com friza, nem talo de +apato, que no sahisse fra do couce. Ora viero huns embuadetes, e +quizero entrar por fra; ei-lo arrancamento na mo: dero huma pedrada +na cabea ao Anjo, e rasgro huma meia cala ao Ermito; e agora diz o +Anjo que no ha de entrar, at lhe no darem huma cabea nova, nem o +Ermito at lhe no prem huma estopada na cala. Este pantufo se perdeo +alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que no quero nada do +alheio. + +MORDOMO. + +Se elle fra outra pea de mais valia, tu botras a consciencia pela +porta fra, para o metteres em tua casa. + +MOO. + +Oh! se o elle fra, mais consciencia sera torn-lo a seu dono, quem o +havia mister para si. + +MORDOMO. + +Ora vem c: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos +c Auto com grande fogueira; que se venha sua merc para c, e que traga +comsigo o Senhor Romo d'Alvarenga, para que sbre o Canto-cho botemos +nosso contraponto de zombaria. Ouves, Lanarote? ir-lhe-has abrir a +porta do quintal, porque mudemos o vinte aos que cuido de entrar por +fra. + +_Indo-se o Moo diz:_ + +Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma +bolsa com hum par de reales, que so bons para Escudeiro hypocrita; que +so pouco, e valem muito? + +MORDOMO. + +Moo, que ests fazendo que no vs? + +MOO. + +Senhor, estou tardando, e porm estou cuidando que se agora fra aquelle +tempo, em que corrio as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para +humas palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste? + +MORDOMO. + +Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dir. + +_Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moo, e diz o Mordomo:_ + +No ha mais mao conselho, que ter hum villo destes mimoso, porque logo +passo o p alm da mo, e zombo assi da gravidade de seu amo. Mas +tornando ao que importa; vossas mercs he necessario que se cheguem huns +para os outros, para darem lugar aos outros Senhores que ho de vir; que +de outra maneira, se todo o corro se ha de gastar em palanques, ser bom +mandar fazer outro alvalade; e mais, que me ho de fazer merc, que se +ho de desembuar, porque eu no sei quem me quer bem, nem quem me quer +mal: este s desgsto tee hum Auto, que he como offcio de Alcaide; ou +haveis deixar entrar a todos, ou vos ho de ter por villo ruim. + +_Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro Ambrosio, e diz:_ + +MARTIM. + +Entre v. m. + +AMBROSIO. + +Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou +diante. Beijo as mos a v. m. A verdade he esta, passear em casa +juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; alm +disto Auto para esgaravatar os dentes: esta he a vida, de que se ha de +fazer consciencia. + +MORDOMO. + +Senhor, o descanso dizem l, que se ha de ter em quanto homem puder, +porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu p, que seu +nome he. + +MARTIM. + +Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho +traz mais somno comsigo que huma prgao comprida. + +MORDOMO. + +Senhor, por bom mo vendro, e eu o tomei cala de sua boa fama. E se +tal he, eu acho que, por outra parte, no ha tal vida, como ouvir hum +villo, que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que huma +pera-po, e huma donzella, que vem podre de amor, fallando como +Apostolo, mais piedosa que huma lamentao. + +MARTIM. + +Para estes taes he grande pea rapaz travesso com mlho de junco, porque +no andem mais ao coscorro, mais roucos que huma cigarra, trazendo de +si enfadamento. + +MOO. + +O l Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro. +Ora sus, ha hi quem d mais? que ainda vos veja todas a mim s +rebatinhas: ora sus, venho de mano em mano, ou de mana em mana. + +MORDOMO. + +Moo, falla bem ensinado. + +MOO. + +Senhor, no faz ao caso; que os erros por amores tee privilegio +de Moedeiro. + +AMBROSIO. + + rapaz, no me entendes? Pergunto-te se tardaro muito por entrar. + +MOO. + +Parece-me, Senhor, que antes que amanhea comearo. + +AMBROSIO. + +Oh que salgado moo! Zombas de mi? Vem c. Donde es natural? + +MOO. + +Donde quer que me acho. + +AMBROSIO. + +Pergunto-te onde nasceste. + +MOO. + +Nas mos das parteiras. + +AMBROSIO. + +Em que terra? + +MOO. + +Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida +daquella hora, que no havia palmo de terra nella. + +MARTIM. + +Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para +ver com que disparate respondes. + +MOO. + +A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio. + +MARTIM. + +Vem c. De teu tio! E isso como? + +MOO. + +Como? Isto, Senhor, he adivinhao, que vossas mercs no entendem. Meu +pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamo aos filhos sobrinhos; e +daqui me ficou a mi ser filho de meu tio. + +MARTIM. + +Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este? + +MORDOMO. + +Aqui me veio s mos sem pis nem nada; e eu por gracioso o tomei; e +mais tee outra cousa, que huma trova fa-la to bem como vs, ou como +eu, ou como o Chiado. + +AMBROSIO. + +No! quant disso ns havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto +se vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este? + +MORDOMO. + +Vem c, moo: dize aquella trova que fizeste moa Briolanja, por amor +de mi! + +MOO. + +Senhor, si, direi; mas aquella trova no he seno para quem a entender. + +MARTIM. + +Como! To escura he ella? + +MOO. + +Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu no sei escrever +seno com carvo; e porm diz assi: + + Por amor de vs, Briolanja, + Ando eu morto, + Pezar de meu av torto. + +MARTIM. + +Oh como he galante! Que descuido to gracioso! Mas vem c: que culpa te +tee teu av nos desfavores que te tua dama d? + +MOO. + +Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, no pezarei eu antes dos +meus parentes, que dos alheios? + +MORDOMO. + +Pois ouo vossas mercs a volta; que he mais cheia de gavetas, que +trombeta de Serenissimo de la Valla. + +MOO. + +A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de +mergulho a entendero. E por isso mandem assoar os engenhos, e meto +mais huma sardinha no entendimento; e pde ser que com esta servilha lhe +calar melhor: e todavia palra assi: + + Vossos olhos to daninhos + Me tratro de feio, + Que no ha em meu corao + Em que atem dous reis de cominhos. + Meu bem anda sem focinhos + Por vs morto, + Pezar de meu av torto. + +MARTIM. + +Ora bem: que tee de ver os cominhos com o teu corao? + +MOO. + +Pois, Senhores, corao, bofes, bao e toda a outra mais cabedella, no +se podem comer seno com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era +tendeira; e este he o verdadeiro entendimento. + +MARTIM. + +E aquella regra que diz, _Meu bem anda sem focinhos_, me d tu a +entender; que ella no d nada de si. + +MOO. + +Nunca vossas mercs ouviro dizer: _Meu bem e meu mal lutro hum dia; +meu bem era tal, que meu mal o vencia?_ Pois desta luta foi tamanha a +quda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por +ficarem to esfarrapados, que lhe no podio botar pedao; por conselho +dos Physicos lhos cortro por lhe nelles no saltarem erpes; e daqui +ficou: _Meu bem anda sem focinhos_, como diz o texto. + +AMBROSIO. + +Tu fazes ja melhores argumentos, que moos de estudo por dia de S. Nicolao. + +MARTIM. + +Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moo he natural para Logico. + +MOO. + +Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas no to fria como vossas mercs. + +MORDOMO. + +Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moo, mete-te aqui por +baixo desta mesa, e ouamos este Representador, que vem mais amarrotado +dos encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira +da arca de cedro. + +MARTIM. + +Senhor, elle parece que aprende a cirurgio. + +AMBROSIO. + +Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos +verdes. + +MORDOMO. + +Emfim, parece figura de Auto em verdade. + +_Entra o Representador._ + + He lei de direito, assaz verdadeira, + Julgar por si mesmos aquillo que vem; + Peloque, se cuido que zombo de alguem, + Eu cuido que zombo da mesma maneira. + +E assi a qualquer parece que est mais dobrado, sem nenhum conhecer seu +proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me esquece o +dito todo de ponto em claro: mas no sou de culpar, porque no ha mais +que tres dias que mo dero. Mas em breves palavras direi a vossas mercs +a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo at ponta. Entraro logo +primeiramente quinze donzellas que vo fugidas de casa de seus paes, e +vo com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos, +metidos em hum covo, cantando: _Quem os amores tee em Cintra_; e +despois de cantarem faro huma dana de espadas; cousa muito para ver: +entra mais ElRei Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo +Catharina Real com huns poucos de parvos n'huma joeira; e seme-los-ha +pela casa, de que nascer muito mantimento ao riso. E nisto fenecer o +Auto, com musica de chocalho e buzinas, que Cupido vem dar a huma +alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-ho vossas mercs cada hum para suas +pousadas, ou consoaro c comnosco disso que ahi houver. Parece-me que +nenhum diz que no. Ora pois ficareis _in vanum laboraverunt_, porque +atgora zombei de vs, por me forrar do rro da representao, como quem +diz, _digo-to, antes que mo digas._ + +AMBROSIO. + +Ora vos digo, Senhores, que se as figuras so todas taes, que acertario +em errar os ditos; aindaque me parece que este o no fez, seno a ser +mais galante. Mas se assi he, ella he a melhor inveno que eu vi; +porque jagora representaes, todas he darem por praguentos; e so to +certas, que he melhor err-las, que acert-las. + +MORDOMO. + +Parece-me que entro as figuras de siso: vejamos se so to galantes na +prtica, como nos vestidos. + + + * * * * * + + +_Entra El Rei Seleuco, com a Rainha Estratonica._ + +REI. + + Senhora, desque a ventura + Me quiz dar-vos por mulher, + Me sinto emmeninecer; + Porqu'em vossa formosura + Perde a velhice seu ser. + Hum homem velho, cansado, + No tee fra, nem vigor, + Para em si sentir amor: + Se no he qu'estou mudado + Com ser vosso n'outra cr. + Muito grande dita tem + A mulher que he formosa. + +RAINHA. + + Senhor, grande: mas porm + Se a tal he virtuosa, + Quer-lhe a ventura mor bem. + +REI. + + Si, mas porm nunca vemos + A natureza esmerar + Adonde haja que taxar; + Que quando ella faz extremos, + Em tudo quer-se extremar. + Eu fallo como quem sente + Em vs est calidade, + Pelo que vejo presente; + E se me esta mostra mente, + Mente-me a mesma verdade. + Huma s tristeza tenho + Que no tee a meninice, + Que no mor contentamento + O trabalho da velhice + Me embaraa o sentimento. + +RAINHA. + + Senhor, novidades tais + Far-me-ho crer de verdade... + +REI. + + Novidades lhe chamais! + Folgo, Senhora, que achais + Na velhice novidades. + +RAINHA. + + Senhor, dias ha que sento + Em o Principe Anticho + Certo descontentamento: + Dera alguma cousa a trco + Por saber seu sentimento. + Vejo-lhe amarello o rosto, + Ou de triste, ou de doente: + Ou elle anda mal disposto, + Ou l tee certo desgsto + Que o no deixa ser contente. + Mande, Senhor, vossa Alteza + A cham-lo por alguem, + Saberemos que mal tem, + Se he doena de tristeza, + De que nasce, ou de que vem. + +REI. + + Certo qu'eu me maravilho + Do que vos ouo dizer. + Que mal pde nelle haver? + Ide dizer a meu filho + Que me venha logo ver. + +RAINHA. + + Se curar no se procura + Huma cousa destas tais, + Vem despois a crescer mais. + Quando ja no se acha cura, + Toda a cura he por demais. + +_Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome Leocadio._ + +PRINCIPE. + + Leocadio, se es avisado, + E no te falta saber, + Saber-me-has dar a entender, + Quem ama desesperado, + Que fim espera de haver? + +PAGEM. + + Senhor, no. + Mas porm porque razo + Lhe avem sab-lo, ou de que? + +PRINCIPE. + + Pergunto-te a concluso; + No me perguntes porque. + Porque he minha pena tal, + E de to estranho ser, + Que me hei de deixar morrer; + E por no cuidar no mal + O no ouso de dizer. + Que maneira de tormento + To estranho e evidente, + Que nem cuidar se consente! + Porque o mesmo pensamento + Ha medo do mal que sente. + +PAGEM. + + No entendo a Vossa Alteza. + +PRINCIPE. + + Assi importa minha dor. + +PAGEM. + + E porque razo, Senhor? + +PRINCIPE. + + Para que seja a tristeza + Castigo do meu temor. + Porque ordena + O Amor, que me condena, + Que se haja de sentir, + E sem dizer nem ouvir. + Bem-aventurada a pena + Que se pde descobrir! + Oh caso grande e medonho! + Oh duro tormento fero! + Verdade he isto, qu'eu quero? + No he verdade, mas sonho + De que acordar no espero. + Quero-me chegar a ElRei + Meu pae, que ja m'est vendo. + Mas onde vou? No m'entendo. + Com que olhos eu olharei + Hum pae, a quem tanto offendo? + Que novo modo de antolhos! + Porque neste atrevimento + Devra meu sentimento + Para elle no ter olhos, + Nem para ella pensamento. + +_Chega aonde est ElRei, e diz:_ + +REI. + + Filho, como andais assi? + Que tanto desgsto tomo + De vos ver como vos vi! + +PRINCIPE. + + No sei eu tanto de mi, + Que possa saber o como. + Dias ha ja, Senhor, que ando + Mal disposto, sem saber + Este mal que possa ser; + Que se nelle estou cuidando, + Quasi me vejo morrer. + +REI. + + Pois, filho, ser razo + Que meus Physicos vos vejo. + +PRINCIPE. + + Os Physicos, Senhor, no; + Que os males qu'em mi esto, + So curas que me sobejo. + +RAINHA. + + Deite-se; que na verdade + Hum corpo, deitado e manso, + Descansa sua vontade. + +PRINCIPE. + + Senhora, esta enfermidade + No se cura com descanso. + +RAINHA. + + Todavia, bom ser + Que lhe fao huma cama. + +PRINCIPE. + + (Hum coxim abastar, + Que assi no descansar + O repouso de quem ama.) + +REI. + + Vamos, filho, para dentro, + Em quanto a cama se faz: + Repousae como capaz; + Que a mi me d c no centro + A pena que assi vos traz. + +_Vo-se, e vem huma moa a fazer a cama e diz:_ + +MOA. + + Mimos de grandes Senhores, + E suas extremidades, + Me ho de matar de amores, + Porque de meros dulores + Adoecem. + Ento logo lhes parecem + Aos outros, que so mamados; + E os que so mais privados, + Sbre elles estremecem. + Certo (e assi Deos me ajude!) + Que so muito graciosos, + Porque de meros viosos, + No podem com a saude. + Mas deixallos, + Porque elles daro nos vallos, + Donde mais no se erguero, + Inda que lhe dem a mo + Os seus privados vassallos. + +_Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e diz:_ + +PORTEIRO. + + Traz, traz. + +MOA. + + Jesu! Quem'st ahi? + +PORTEIRO. + + Ja vs, mana, ereis mamada: + Para vos levar furtada + Nunca tal ensejo vi. + E vs estais descuidada! + +MOA. + + E meus descuidos que fazem? + +PORTEIRO. + + Vossos descuidos? cadella! + Ah minh'alma! Sois to bella, + Qu'esses descuidos me trazem + Dous mil cuidados vela. + Pois sou vosso ha tantos annos, + Mana, tirae os antolhos, + E vereis meus tristes dannos. + +MOA. + + No tenhais esses enganos. + +PORTEIRO. + + Nem vs tenhais esses olhos; + Que de vossos olhos vem + Esta minha pena fera. + +MOA. + + De meus olhos? Assim era. + +PORTEIRO. + + Moa, que taes olhos tem, + Nenhuns olhos ver devra. + +MOA. + + E porque? + +PORTEIRO. + + Porque cegais + A quantos olhos olhais, + Postoque por vs padecem. + Olhos, que to bem parecem, + Porque no os castigais? + +MOA. + + Deos d siso, pois de vs + Tirou o que aos outros deu. + +PORTEIRO. + + Desatae-me l esses ns. + Que mais siso quero eu, + Que no ter siso por vs? + +MOA. + + Fallais d'arte; eu vos prometo + Que a resposta vem vela. + Isso he lho de panella. + Quanto ha ja que sois discreto? + +PORTEIRO. + + Quanto ha ja que vs sois bella? + +MOA. + + Dais-me logo a entender + Que eu sou feia, a meu ver. + +PORTEIRO. + + E isso porque o entendeis? + +MOA. + + Porque? Porque me dizeis + Que s de meu parecer + Vos procede o que sabeis. + +PORTEIRO. + + He verdade. + +MOA. + + Pois bem sento + Que o vosso saber he vento. + Fica a cousa declarada, + Meu parecer no ser nada. + +PORTEIRO. + + Olhae aquelle argumento: + Alm de bella, avisada! + Oh nem tanto, nem to pouco! + Vde vs o que fallais. + +MOA. + + Cego no saber andais. + +PORTEIRO. + + No siso, mas no to louco + Como vs, mana, cuidais. + Ora dizei, duna m: + Que no amais, quem vos ama? + +MOA. + + Ouvistes vs cantar ja, + _Velho malo, em minha cama?_ + Ja m'entendereis. + +PORTEIRO. + + Ha, ha. + Senhora, estais enganada; + Que com huma capa e espada, + E com este capuz fra... + +MOA. + + Ora bem: tirae-o ora, + E fazei huma levada. + +PORTEIRO. + + No: se m'eu hoje alvoro, + Achar-me-heis d'outra feio. + +_Aqui tira o capuz e diz:_ + +PORTEIRO. + + Tenho m disposio? + Estas obras so de moo, + Se as mostras de velho so. + +MOA. + + Tendes mui gentis meneios. + +PORTEIRO. + + No, Senhora; fao extremos. + +MOA. + + Passeae ora, veremos + Se tendes to bons passeios. + +PORTEIRO. + + Tudo, Senhora, faremos. + +MOA. + + Virae ora a essoutra mo. + +PORTEIRO. + + Esta disposio vde-a; + Que tenho gentil feio. + +MOA. + + Tendes vs mui boa redea. + Soffreis ancas? + +PORTEIRO. + + Isso no. + +MOA. + + Por certo que tendes graa + Em tudo quanto fizerdes. + Fazei mais o que souberdes. + +PORTEIRO. + + No sei cousa que no faa, + Senhora, por me quererdes. + +MOA. + + Tendes vs muito bom ar. + +PORTEIRO. + + Mais qu'isto faz quem quer bem. + +MOA. + + I-vos asinha, que vem + O Principe a se deitar. + +PORTEIRO. + + Nunca huma pessoa tem + Hum'hora para fallar! + +_Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e diz:_ + +PRINCIPE. + + Seja a morte apercebida, + Porque ja o Amor ordena + A dar a meu mal sahida; + Porque o fim da minha vida + O seja da minha pena. + No tarde, para tomar + Vingana de meu querer, + Pois no se pde dizer + Que no tee ja que esperar, + Nem com que satisfazer? + Os Physicos vem e vo, + Sem saberem minhas mgoas, + Nem o pulso me acharo; + E se o querem ver nas goas, + As dos olhos lho diro. + Se com sangrias tambem + Procuro ver-me curado; + O temor de meu cuidado + O mais do sangue me tem + Nas veias todo coalhado. + Quero-me aqui encostar, + Que ja o esprito me cae. + Leocadio, vae-me chamar + Os Musicos de meu Pae; + Folgarei de ouvir cantar. + +_Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo assi:_ + +PRINCIPE. + + Senhora, qual desatino + Me trouxe a tanta tristura? + Foi, Senhora, por ventura + A fra do meu destino, + Como vossa formosura? + Bem conheo que no posso + Ter to alto pensamento; + Mas disto s me contento, + Que se paga com ser vosso + O mor mal de meu tormento. + +_Entro os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum delles:_ + +ALEXANDRE. + + Senhor, de que se acha mal + O Principe, ou que mal sente? + +PAGEM. + + Senhor, sei que est doente; + Mas sua doena he tal, + Qu'entender se no consente. + Os Physicos vem e vo, + Huns e outros a meude, + Sem o poderem dar so. + Quanto mais cura lhe do, + Ento tee menos saude. + O Pae anda em sacrificios + Aos deoses, que lhe dem + A saude que convem; + Dizendo que por seus vicios + O mal a seu filho vem. + Eu suspeito qu'isto so + Alguns novos amorinhos, + Que tera no corao. + +ALEXANDRE. + + Amores! com quem sero, + Que lhe no dem de focinhos? + +PORTEIRO. + + Senhores, que lhe parece + Da doena de Anticho? + +ALEXANDRE. + + Diga-lha quem lha conhece. + +PAGEM. + + Que toma morrer a trco + De callar o que padece. + +PORTEIRO. + + Isso he estar emperrado + Na doena; que he peor. + Tee-no os Physicos curado? + +ALEXANDRE. + + Oh! que de mal del amor + No ha, Seor, sanador. + +PORTEIRO. + + Fallais como exprimentado; + Qu'eu cuido que esta fadiga, + Que o faz com que desespere; + Y por mas tormento quiere + Que se sienta, y no se diga. + +ALEXANDRE. + + Pois, Senhor meu, isso asselle, + Porque a pena, que sabeis, + Que eu cuido que est nelle, + Dar-lhe-ha penas crueis, + Pues no hay quien la consuele. + +PORTEIRO. + + Folgo, porque m'entendeis. + +PAGEM. + + Hemo-nos, Senhores, de ir, + Porque nos est 'sperando. + +PORTEIRO. + + Pois eu tambem hei de ir; + Que no me posso espedir + Donde vejo estar cantando. + +PRINCIPE. + + Cantae, por amor de mi, + Alguma cantiga triste; + Que todo meu mal consiste + Na tristeza em que me vi. + +PORTEIRO. + + Mande-lhe cantar hum chiste. + +ALEXANDRE. + + Chiste no, que he deshonesto, + E no tee esses extremos: + Outro canto mais modesto; + Porm no sei que diremos. + +PAGEM. + + Gaoleo o dir presto. + +PORTEIRO. + + D licena V. Alteza + Que diga minha teno? + +PRINCIPE. + + Dizei: seja em canto-cho. + +PORTEIRO. + + Pois crede qu'he subtileza. + Qu'os Anjos a comero. + Digo esta: + _Enforquei minha esperana, + E o Amor foi to madrao, + Que lhe cortou o barao._ + +ALEXANDRE. + + No me parece essa boa. + +PORTEIRO. + + Haja eu perdo, + Porque no a entendero. + +ALEXANDRE. + + Entender! + +PORTEIRO. + + Bof qu'he boa: + No lhe cahis na feio? + +ALEXANDRE. + + Dizei ora outra melhor, + Com que nos atarraqueis. + +PORTEIRO. + + Ora esperae, e ouvireis: + Se a esta no dais louvor, + Quero que me degolleis. + +Cantiga. + + Com vossos olhos Gonalves, + Senhora, captivo tendes + Este meu corao Mendes. + +ALEXANDRE. + + Essa parece mui taibo, + Porque mostra bom indicio. + +PORTEIRO. + + Vs cuidareis qu'eu que raivo. + +ALEXANDRE. + + Todavia tee mao saibo. + Ora mal lhe corre o offcio. + +PRINCIPE. + + T, no v mais por diante + A zombaria, que he m: + Cantae qualquer dellas ja; + Qu'esse Porteiro he galante, + Ninguem o contentar. + +_Aqui cnto, e em acabando, diz o_ + +PAGEM. + + Parece que adormeceo. + +PORTEIRO. + + Pois ser bom que nos vamos. + +ALEXANDRE. + + Senhor, quer que nos vejamos? + +PORTEIRO. + + Senhor vir-me-ha do ceo: + Releva-me que o faamos. + +_Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta, e diz:_ + +RAINHA. + + Frolalta, como ficava + Anticho em te tu vindo? + +FROLALTA. + + Ficava-se despedindo + Da vida qu'ento levava, + E assi seus dias cumprindo. + +RAINHA. + + Oh grave caso d'amor! + Desesperada affeio! + Oh amor sem redempo, + Que alli te fazes maior + Onde tens menos razo! + No mais alto e fundo pgo + Alli tens maior porfia: + Razo de ti no se fia. + Quem a ti te chamou cego, + Mui bem soube o que dizia. + Por ventura hia chorando? + +FROLALTA. + + Chorando hia e chamando + Ao Amor, Amor cruel; + E em, Senhora, se deitando + Lhe cahio este papel. + +RAINHA. + + Que papel? + +FROLALTA. + + Este, Senhora. + +RAINHA. + + Amostra, que quero l-lo. + Agora acabo de cr-lo; + Que ao que mostra por fra, + Aqui lhe lanou o sello. + +_Aqui l o papel e diz:_ + +RAINHA. + + Oh estranha pena fera! + Desditosa vida chara! + Oh quem nunca c viera, + E com seu Pae no casra, + Ou em casando morrra! + +FROLALTA. + + Aindaque eu pca so, + Senhora, tudo bem vejo. + Attente, que na eleio + O que lhe pede o desejo + No consente o corao. + +RAINHA. + + Frolalta, pois qu'es discreta + Nada te posso encobrir; + Porque, se queres sentir, + A huma mulher discreta + Tudo se ha de descobrir. + O dia qu'entrei aqui, + Que a Seleuco recebi, + Logo nesse mesmo dia + No Principe filho vi + Os olhos com que me via. + Este principio soffri-lho, + Para ver se se mudava; + Antes mais se accrescentava: + Eu amava-o como filho, + E elle d'outr'arte me amava. + Agora vejo-o no fim + Por se me no declarar. + E pois ja que a isso vim, + A morte que o levar, + Me leve tambem a mim. + Porque ja que minha sorte + Foi to crua e desabrida, + Que me no quer dar sahida; + Sejamos juntos na morte, + Pois o no somos na vida. + Oh quem me mandou casar, + Para ver tal crueldade! + Ninguem venda a liberdade, + Pois no pde resgatar + Onde no tee a vontade. + Que no ha mor desvario, + Que o forado casamento + Por alcanar alto assento; + Que, emfim, todo o senhorio + Est no contentamento. + No sei se o v ver agora, + Se ser tempo conforme, + Ou se imos a deshora. + +FROLALTA. + + Despois iremos, Senhora, + Que agora dizem que dorme. + +_Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:_ + +PHYSICO. + + Su madrasta oy nombrar, + Y el pulso se le alter: + Esto no entiendo yo, + Porque para le alterar + El corazon le oblig. + Pues que el corazon se altere, + Es porque en un momento + Algun nuevo vencimiento + De aficion terrible le hiere, + Que causa tal movimiento. + Pues que aficion cabe as + Con madrasta? Digo yo, + Dos razones hay aqui: + La una dice, que s, + La otra dice, que no. + Empero yo determino + De exprimentar la verdad, + Y hacer una habilidad, + Que declare es agua, vino + Esta su enfermedad. + Porque toda esta maana + Tengo estudiado su mal, + Sin ver causa efectual + De su dolencia inhumana, + Ni otra de su metal. + Llamar quiero este asnejon; + Mas aun debe de dormir, + Segun que es dormilon. + Sancho? Sancho? + +SANCHO. + + Ah Seor. + +PHYSICO. + + Ea, aun ests dormiendo? + +SANCHO. + + Estoyme, Seor, vestiendo. + +PHYSICO. + + Pues vellaco y sin sabor, + No me respondes dormiendo? + Vestios presto, ladron. + Oh qu mozo, y qu ventura! + +SANCHO. + + (Mas qu amo y qu cabron!) + Embeme ac el ropon, + Que no hallo mi vestidura. + +PHYSICO. + + Que embie el ropon ac? + Parece que os desmandais. + +SANCHO. + + Que vaya, Seor? ha, ha. + Que buenos dias hayais. + +_Entra o moo embrulhado em huma manta, e diz:_ + +PHYSICO. + + Di como vienes as + Con la manta, y para qu? + +SANCHO. + + Yo, Seor, se lo dir: + Por venir presto vest + Lo que mas presto me hall: + Porque viendo que l me llama, + Dormiendo yo sin afan, + Salt presto de la cama, + Que parezco un gavilan, + Hermoso como una dama. + +PHYSICO. + + Mas es tu bovedad tanta, + Que vienes desta facion? + +SANCHO. + + De mi vestido se espanta? + De noche sirve de manta, + Y de dia de ropon. + +PHYSICO. + + Embime ElRey llamar + Otra vez. + +SANCHO. + + Y m? + +PHYSICO. + + Y ti! + +SANCHO. + + Y l qu presta all sin m? + +PHYSICO. + + Qu puedes tu aprovechar? + +SANCHO. + + Yo se lo dir de aqui: + Si por la ventura quiere + Para que le d consejo, + Cuando doliente estuviere; + Digo, coma, si pudiere, + Y beba buen vino anejo; + Porque este es el licor + Que d fuerza, y es sabroso; + Que segun dicen, Seor, + _Vinum loetificat cor + Hominis_, y le es provechoso. + +PHYSICO. + + Ya sabes la medicina, + Que Avicena nos refiere. + +SANCHO. + + Pues, Seor! porque es divina. + Pero ElRey qu le quiere, + Qu manda, qu determina? + +PHYSICO. + + El Principe est doliente. + +SANCHO. + + Oh mesquino! Y qu mal ha? + +PHYSICO. + + Y ti, necio, que te v? + +SANCHO. + + O Seor, que es mi pariente! + +PHYSICO. + + Gracioso el bovo est. + Y pues dme por tu f: + Llorars si se muriere? + +SANCHO. + + No, Seor, no llorar; + Empero, Seor, har + La peor cara que pudiere. + +PHYSICO. + + Ea, bovo, v corriendo, + Y ensilla la mula ayna. + +SANCHO. + + Vngala ensillar mejor. + +PHYSICO. + + Oh velhaco, y sin sabor! + +SANCHO. + + Yo por cierto no lo entiendo. + Pero una medicina + Le he de pedir, Dios queriendo, + (Porque ando atribulado, + Y no s parte de mi + Con este nuevo cuidado) + Para un sayo esfarrapado, + Que me dicen hay all. + +PHYSICO. + + Ora ensilla; y nunca viva, + Pues sufro tus desatinos. + +SANCHO. + + Seor, pasion no reciva: + _Ya cavalga Calanos + A la sombra de una oliva._ + +_Aqui sahe bolindo com a almofaa, e acorda o Principe e diz:_ + +PRINCIPE. + + Oh bella vista e humana, + Por quem tanto mal sostenho! + Oh Princeza soberana! + Como? nos braos vos tenho, + Ou este sonho m'engana? + Pois como, sonho, tambem + Me queres vir magoar? + E para me atormentar + Mostras-me a sombra do bem + Para assi mais m'enganar? + Assi que, com quanto canso, + Ja no posso achar atalho, + Pois que o somno quieto e manso, + Que os outros tee por descanso, + Me vem a mi por trabalho. + Pois ha hi tantos enganos + Que condemno minha sorte; + No o tenho ja por forte, + Se volta de tantos danos + Viesse tambem a morte. + +_Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:_ + +REI. + + Andae e vde se achais + O rasto deste segredo, + Que me dizem que alcanais; + Ainda que tenho medo + Que lhe seja por demais. + +PHYSICO. + + Plega Dios que aqueste sea + Para salud y remedio + Desta dolencia tan fea. + Yo buscar todo el medio, + Que presto sano se vea. + +_Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:_ + +PHYSICO. + + Aflojen, Seor, sus ais. + Como se halla en su penar? + +PRINCIPE. + + Como me acho perguntais? + E como se pde achar + Quem sempre se perde mais? + +PHYSICO. + + (La respuesta abre el camino.) + Imagina de contino? + +PRINCIPE. + + No tenho outro mantimento, + Nem outro contentamento, + Seno o em que imagino. + +_Aqui entra a Rainha e diz:_ + +RAINHA. + + Como se sente, Senhor? + Tee a febre mais pequena? + +PRINCIPE. + + Responda-lhe minha pena. + +PHYSICO. + + (Conocido es su dolor. + Ora sea en hora buena, + Tomada est la tristeza + las manos.) Qu senti? + (Usar de subtileza.) + +_Diz contra ElRei:_ + + Cmpleme que solo yo + Platique con Vuestra Alteza. + +REI. + + Cheguemos-nos para c. + +RAINHA. + + No deve desesperar, + Qu'em fim, se bem attentar, + Para tudo o tempo d + Tempo para se curar. + +PRINCIPE. + + Que cura poder ter + Quem tee a cura, Senhora, + No impossivel haver? + +RAINHA. + + Ficae-vos, Senhor, embora, + Que vos no sei responder. + +_Vai-se a Rainha, e diz ElRei:_ + +REI. + + Neste mal, que no comprendo, + Que meio dais de conselho? + +PHYSICO. + + Seor, nada entiendo dello; + Y supuesto que lo entiendo, + Yo quisiera no entendello. + +REI. + + Porque? + +PHYSICO. + + Porque he entendido + Lo mas malo de entender, + Para lo que puede ser, + Porque anda, Seor, perdido + De amores por mi muger. + +REI. + + Santo Deos! que! tal amor + Lhe d doena to fera! + Que remedio achais melhor? + +PHYSICO. + + Forado ser que muera, + Porque no muera mi honor. + +REI. + + Pois como! a hum s herdeiro + Deste Reino no dareis + Vossa mulher, pois podeis; + Que tudo faz o dinheiro? + Pois este no o engeiteis; + Dae-lha, porque eu espero + De vos dar dinheiro e honra, + Quanto eu para elle quero. + +PHYSICO. + + No tira el mucho dinero + La mancha de la deshonra. + +REI. + + Ora bem pouco defeito! + He pequice conhecida, + Quando deixa de ser feito; + Porque com elle dais vida + A quem vos dara proveito. + +PHYSICO. + + Cuan facilmente aporfia + Quien en tal nunca se vi! + Del consejo que me di, + Vuestra Alteza que haria + Si agora fuese yo? + +REI. + + A mulher que eu tivesse + Dar-lha-hia. Oxal + Que elle a Rainha quizesse! + +PHYSICO. + + Pues dla, si le parece, + Que por ella muerto est. + +REI. + + Que me dizeis? + +PHYSICO. + + La verdad. + +REI. + + Sem dvida, tal sentistes? + +PHYSICO. + + Sin duda, sin falsedad. + Pues, Seor, ahora tomad + Los consejos que me distes. + +REI. + + Certamente, qu'eu o via + Em tudo quanto fallava. + Como o vistes? porque via? + +PHYSICO. + + Nel pulso, que se alterava + Si la via, si la oia. + +REI. + + Que maneira ha de haver? + Qu'eu certo me maravilho, + Possa mais o amor do filho, + Do que pde o da mulher. + Finalmente hei-lha de dar, + Que a ambos conheo o centro. + Quero-o ir alevantar, + E iremos para dentro + Neste caso praticar. + +_Diz contra o Principe:_ + + Levantae-vos, filho, d'hi + O melhor que vs puderdes, + E vindo-vos para aqui; + Porque, emfim, o que quizerdes + Tudo havereis de mi. + +PAGEM. + + Ah Senhores, oul, ou? + +PORTEIRO. + + Viestes em conjuno + A melhor que pde ser: + Haveis aqui de fazer + A tosquia a hum rifo. + +PAGEM. + + Deixae-me, Senhor, dizer: + Haveis isto de acabar, + Corao, hi bugiar, + No esteis preso en cadenas, + Que pois o amor vos deo penas, + Que vos lanceis a voar. + +PORTEIRO. + + Por certo que bem comprou. + +PAGEM. + + Ora sabeis o que vai? + Antiocho que casou + Com a mulher de seu Pai, + E o mesmo Pae o ordenou. + +PORTEIRO. + + Isso como? + +PAGEM. + + No o sei; + Porque dizem que a amava, + E que s por ella andava + Para morrer; e ElRei + Deo-a a quem a desejava. + +PORTEIRO. + + Se o casa por querer bem + Com a moa, a quem elle ama, + Direi eu que a mim me inflama + O amor mais que a ninguem. + +PAGEM. + + Pois pedi-lhe a nossa dama. + +PORTEIRO. + + Por So Gil, que ei-los c vem, + Elle pela mo com ella. + +_Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mo, e diz:_ + +REI. + + Que mais ha hi que esperar? + Olhae qu'estranheza vai! + O muito amor ordenar, + Ir-se o filho namorar + D'huma mulher de seu Pai! + Querer bem foi sua dor, + Negar-lha ser crueldade; + Assi que ja foi bondade + Usar eu de tal amor, + E de tal humanidade. + Ella deixou de reinar + Como fazia primeiro + Por se com elle casar; + E por amor verdadeiro + Tudo se pde deixar. + Eu que nella tinha psto + Todo o bem de meu cuidado, + Deixei mais que ella ha deixado; + Que mais se deixa no gsto, + Que no poderoso estado. + Mas ja que tudo isto vemos, + Hajo festas de prazer, + As que melhor posso ser; + Porqu'em to grandes extremos, + Extremos se ho de fazer. + Hajo cantos para ouvir, + Jogos, prazeres sem fundo; + Porque, se quereis sentir, + Deste modo entrou o mundo, + E assi ha de sahir. + +_Aqui vem os Musicos e cnto, e depois de cantarem, sahem-se todas as +figuras, e diz_ + +MARTIM CHINCHORRO. + +Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos; +ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor +festa que pde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das +figuras nos acolheremos. Moo, accende esse mlho de cavacos, porque faz +escuro, no vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruo +e as canastras. + +ESTACIO DA FONSECA. + +No, Senhor, mas o meu Pilarte ir com elles com hum par de ties na +mo; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvo-se desta +pousada; e no tenho isto por palavras, porque essas e plumas, o vento +as leva. + + * * * * * + + + + +OS AMPHITRIES, + +COMEDIA. + + +INTERLOCUTORES. + + AMPHITRIO. + ALCMENA, sua mulher. + CALLISTO. + FELISEO. + SOSEA, moo de Amphitrio. + BROMIA, sua criada. + BELFERRO, Patro. + AURELIO, Primo de Alcmena. + HUM MOO DE AURELIO. + JUPITER. + MERCURIO. + + +OS AMPHITRIES, + +COMEDIA. + + + + +ACTO PRIMEIRO. + + +SCENA I. + +_Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e Bromia._ + +ALCMENA. + + Ah Senhor Amphitrio, + Onde est todo meu bem! + Pois meus olhos vos no vem, + Fallarei co'o corao, + Que dentro n'alma vos tem. + Ausentes duas vontades, + Qual corre mores perigos, + Qual soffre mais crueldades, + Se vs entre os inimigos, + Se eu entre as saudades? + Que a ventura, que vos traz + To longe de vossa terra, + Tantos desconcertos faz, + Que se vos levou guerra, + No me quiz leixar em paz. + Bromia, quem com vida ter, + Da vida ja desespera, + Que lhe poders dizer? + +BROMIA. + + Que nunca se vio prazer, + Seno quando no se espera. + E por tanto no devia + De ter triste a phantasia; + Porque Vossa Merc creia, + Que o prazer sempre salteia + Quem delle mais desconfia. + Eu tenho no corao, + Do Senhor Amphitrio + Venha hoje alguma nova: + No receba alterao, + Que a verdadeira affeio + Na longa ausencia se prova. + +ALCMENA. + + Dizei logo a Feliseo + Que chegue muito apressado + Ao caes, e busque mo + De saber se algum recado + Do porto Persico vo: + E mais lhe haveis de dizer, + (Isto vos dou por offcio) + D'alguma nova saber, + Em quanto eu vou fazer + Aos Deoses o sacrificio. + + +SCENA II. + +BROMIA. + + Saudades de minh'ama, + Chorinhos e devoes, + Sacrificios e oraes, + Me ho de lanar n'huma cama, + Certamente. + Ns mulheres de semente + Somos sedenho mui tosco: + Com qualquer vento que vente, + Queremos foradamente + Que os Deoses vivo comnosco. + Quero Feliseo chamar, + E dizer-lhe aonde ha de ir. + Mas elle como me vir, + Logo ha de querer rinchar, + De travesso. + Eu que de zombar no cesso, + Por ficar com elle em salvo, + Lano-lhe hum e outro remsso; + Aos seus furto-lhe o alvo; + E ento elle fica avesso. + Porque o melhor destas danas, + Com huns vindios assi, + He traz-los por aqui + cheiro das esperanas, + Por viver. + Ha-os homem de trazer + Nos amores assi mornos, + S para ter que fazer; + E despois ao remetter + Lanar-lhe a capa nos cornos. + Feliseo, se estais mo, + Chegae c, vem como hum gamo: + Bem sei que no chamo em vo. + + +SCENA III. + +_Feliseo e Bromia._ + +FELISEO. + + Chamais-me? tambem vos chamo; + Porm eu ouo, e vs no: + Senhora, que me matais, + Se vs ja nunca me ouvis, + Ou me ouvis, e vos callais, + Dizei: porque me chamais + Se me vs a mim fugis? + +BROMIA. + + Eu vos fujo? + +FELISEO. + + Fugis, digo, + De dar a meus males cabo. + +BROMIA. + + Sabei que desse perigo + No fujo como de imigo, + Fujo como do diabo. + +FELISEO. + + Dae ao demo essa teno, + Usae antes de corts, + Cahi vs nesta razo. + +BROMIA. + + Do p'rigo fogem os ps, + Do diabo o corao. + +FELISEO. + + Dizeis-me que nessa briga + Do meu corao fugis. + +BROMIA. + + Ainda qu'eu isso diga... + +FELISEO. + + Ah minha doce inimiga! + Bem sinto que me sentis. + Mas para que me chamais? + +BROMIA. + + Manda-vos minha Senhora + Que chegueis daqui ao cais, + E algumas novas saibais + D' Amphitrio nesta hora. + +FELISEO. + + Quem as no sabe de si, + D'outrem como as sabera? + +BROMIA. + + No as sabeis vs de mi. + +FELISEO. + + M trama venha por ti, + Duna feiticeira m! + Porque no me lhas direito, + Cadella, que assi me cortas? + +BROMIA. + + Porque vos quero dar portas; + Que s'eu olhar d'outro geito, + Trarei cem mil vidas mortas. + +FELISEO. + + E pois para que me andais + Enganando ha cem mil annos? + +BROMIA. + + Dou-vos vida com enganos. + +FELISEO. + + Nesses enganinhos tais + Acho crueis desenganos. + +BROMIA. + + Quant'esses vos quero eu dar: + Vs cuidais que estais na sella? + Pois podeis-vos descer della; + Qu'eu nunca vos pude olhar. + +FELISEO. + + Jogais comigo panella? + Tendes-me ha tanto captivo, + E desenganais-me agora? + Tudo isto he o que privo. + Assi que he isso, Senhora, + Dochelo morto, dochelo vivo? + Se me vs desenganais + No cabo de tantos annos, + Direi, se licena dais, + Dais-me vida com enganos, + Desenganos, ja chegais. + Mas se isso havia de ser, + Dizei, m desconhecida, + Destrro de meu viver, + Que vos custava dizer + Amor, vae buscar tua vida? + +BROMIA. + + Zombais? Fallais-me coprinhas? + +FELISEO. + + Rir-vos-heis se vem mo: + Copras no, mas isto so + Ansias y pasiones minhas + Dos bofes e corao. + +BROMIA. + + Is-vos fazendo d'huns sengos..... + +FELISEO. + + Perdneme Dios si peco. + +BROMIA. + + Nesses dentinhos framengos + Conheo que sois hum pco + De todos quatro avoengos. + +FELISEO. + + Tudo vos levo em capelo, + Ja qu'estais tanto em agrao. + Porm, fallando singelo, + A furto desse mao zlo, + Quereis-me dar hum abrao? + +BROMIA. + + Ora digo que no posso + Usar comvosco de fero: + Tomae-o. + +FELISEO. + + Ja o no quero, + Porque esse abrao vosso, + Sabei que he engano mero. + +BROMIA. + + Oh! vs sois d'huns sensabores... + Abrao pedis assim? + S'eu remango d'hum chapim... + +FELISEO. + + Tudo isso so favores: + Zombae, vingae-vos de mim. + +BROMIA. + + Vs de furioso touro + As garrochas no sentis. + +FELISEO. + + Vedes, com isso s mouro: + Quando cuido que sois ouro, + Acho-vos toda ceitis. + +BROMIA. + + Emfim, sanha de villo + Vos fez perder hum bom dia. + +FELISEO. + + Jagora o eu tomaria; + Quereis-mo dar? + +BROMIA. + + Ora no. + Cocei-vos eu todavia. + +FELISEO. + + Pois, Senhora, a quem vos ama + Sois to desarrazoada, + Quero tomar outra dama; + Que no digo os d'Alfama + Que no tenho namorada. + +BROMIA. + + Deixae-me. + +FELISEO. + + Vs me deixais. + +BROMIA. + + Deixae-me. + +FELISEO. + + Zombais de mi? + +BROMIA. + + Deixae-me. Pois m'engeitais, + Eu me ausentarei daqui + Onde me mais no vejais. + +FELISEO. + + Boa est a zombaria! + +BROMIA. + + No so essas minhas manhas. + +FELISEO. + + Porm is-vos todavia? + +BROMIA. + + Voyme las tierras estraas. + Ad ventura me guia. + + +SCENA IV. + +_Feliseo s._ + + Phantasias de donzellas, + No ha quem como eu as quebre; + Porque certo cuido ellas, + Que com palavrinhas bellas + Nos vendem gato por lebre. + Esta tee l para si + Qu'eu sou por ella finado; + E cr que zomba de mi; + E eu digo-lhe que, si, + Sou por ella esperdiado. + Preza-se d'humas seguras; + E eu no quero mais Frandes: + Dou-lhe trela s travessuras, + Porque destas coaduras + Se fazem as chagas grandes. + Qu'estas, que ando sempre vela, + Estas vos digo eu que coo; + Porque de firmes na sella, + Crem que falso a costella, + E fico pelo pescoo. + Que quando estas damas tais + Me cacho, ento recacho. + Mas disto agora n mais. + Quero-me ir daqui ao cais + Ver se algumas novas acho. + + +SCENA V. + +_Jupiter e Mercurio._ + +JUPITER. + + Oh grande e alto destino! + Oh potencia to profana! + Que a setta d'hum menino + Faa que meu ser divino + Se perca por cousa humana! + Que m'aproveito os ceos, + Onde minha essencia mora + Com tanto poder, se agora + A quem me adora por deos, + Sirvo eu como a senhora? + Oh quo estranha affeio! + Quem em baixa cousa vai pr + A vontade e o corao, + Sabe to pouco d'Amor, + Quo pouco Amor de razo. + Mas que remedio hei de ter + Contra mulher to terribil, + Que se no pde vencer? + +MERCURIO. + + Alto Senhor, teu poder + O difficil faz possibil. + +JUPITER. + + Tu no vs qu'esta mulher + Se preza de virtuosa? + +MERCURIO. + + Senhor, tudo pde ser; + Que para quem muito quer, + Sempre a affeio he manhosa. + Seu marido est ausente + Na guerra, longe daqui; + Tu, qu'es Jupiter potente, + Tomars sua frma em ti; + Que o fars mui facilmente. + E eu me transformarei + Na de Ssea, criado seu; + E ao arraial me irei, + Onde logo saberei + Como se a batalha deu. + E assi poders entrar, + Em lugar de seu marido; + E para que sejas crido, + Poders tambem contar + Quanto eu l tiver sabido. + +JUPITER. + + Quem arde em tamanho fogo + Tira-lhe a virtude a cr + De subtil e sabedor; + E quem fra est do jgo + Enxrga o lano melhor. + Mas tu, que dos sabedores + Tanto avante sempre ests, + Se deos es dos mercadores, + S-lo-has dos amadores, + Pois tal remedio me ds. + Ponha-se logo em effeito; + Que no soffre dilao + Quem o fogo tee no peito; + E tu vae logo direito + Aonde anda Amphitrio. + + +SCENA VI. + +_Feliseo e Callisto._ + +FELISEO. + + Ad bueno por aqui, + To longe do acostumado? + +CALLISTO. + + Mais longe vou eu de mi, + D'ir perto de meu cuidado. + +FELISEO. + + No andar vos conheci. + +CALLISTO. + + E vs onde vos lanais, + Com vossa contemplao? + +FELISEO. + + Eu chego daqui ao cais + A saber de Amphitrio: + No sei se vou por demais. + +CALLISTO. + + Porque por demais dizeis? + +FELISEO. + + Porque nada alli ha certo. + +CALLISTO. + + Novas l no as busqueis, + Que aqui as tendes mais perto. + +FELISEO. + + Pois dae-mas ja, se as sabeis. + +CALLISTO. + + Hum navio he ja chegado + barra, que vem de l; + Traz de Amphitrio recado, + Diz que o deixa embarcado + Para se vir para c. + Tee vencido aquelle Rei; + E diz, segundo lhe ouvi, + Qu'esta noite ser aqui. + +FELISEO. + + Essas novas levarei + A Alcmena, que torne em si, + Porque ella tee maior guerra + Co'os temores de perdello, + Qu'elle co'o Rei dessa terra. + +CALLISTO. + + Onde amor lanar o sello, + Nenhuma cousa o desterra. + Porqu'inda que o pensamento + Vos fique, Senhor, em calma, + Por morte ou apartamento; + Sempre vos l fico n'alma + As pgadas do tormento. + +FELISEO. + + Isso he hum segredo mero, + A que o amor nos obriga: + Por isso em caso to fero, + Senhor, nunca ninguem diga, + Ja lho quiz, e no lho quero. + Eu quiz bem a huma mulher, + Que vs conhecestes bem, + E, com muito lhe querer, + Casou-se. + +CALLISTO. + + Oh! e com quem? + Que ainda o no posso crer. + +FELISEO. + + Com hum Mercador, que veio + Agora do Egypto, rico. + +CALLISTO. + + Isso traz goa no bico. + Esse homem he parvo, ou feio? + +FELISEO. + + Pois vdes? disso me pico. + E em pago desta traio, + Afra outros mil descontos + Que traz comsigo a affeio, + Sempre os signaes destes pontos + Trarei no meu corao. + +CALLISTO. + + Viste-la mais? + +FELISEO. + + Senhor, vi, + Na janellinha da grade; + Passei, e disse-lhe assi: + Casada sem piedade, + Porque no a haveis de mi? + +CALLISTO. + + Que vos disse? + +FELISEO. + + L no centro + Lh'enxerguei pouca alegria; + E como quem lhe dohia, + Metendo-se para dentro + Disse: Ja pas folia. + +CALLISTO. + + Ah m sem conhecimento! + Quem lhe dsse mil chofradas! + +FELISEO. + + Senhor, como so casadas, + Caso-se co'o esquecimento + Das cousas que so passadas. + +CALLISTO. + + Lembranas de vos deixar + Picar-vos-ho como tojos. + +FELISEO. + + Senhor, haveis d'assentar + Que onde amor vos quer matar, + Siempre all miran los ojos. + Hum motete lhe mandei + Hum dia, estando com febre, + S da paixo que tomei. + +CALLISTO. + + Pois vejamos quem tee lebre. + +FELISEO. + + Senhor, eu vo-lo direi. + +Mote. + + Vs por outrem, e eu por vs; + Vs contente, e eu penado; + Vs casada, eu cansado. + Polos santos de minha dona! + +CALLISTO. + + Senhor, vs s o fizestes? + +FELISEO. + + Si, que ninguem me ajudou. + +CALLISTO. + + Se vs s o compuzestes, + Crede, que extremos dissestes. + Nunca Orlando tal fallou. + Senhor, fizestes-lhe p? + +FELISEO. + + Senhor, si; e todo hum anno... + Vs zombais, se no m'engano? + +CALLISTO. + + No, mas dou-vos minha f + Que nunca vi to bom panno. + +FELISEO. + + Ora olhe vossa merc. + +Volta. + + Olhae em quo fundos vaos + Por vossa causa me affgo, + Que outro me ganha no jgo, + E eu triste pago os paos. + Olhos travessos e maos, + Inda eu veja o meu cuidado + Por esse vosso trocado. + +CALLISTO. + + No mais, qu'isso me degola. + +FELISEO. + + Senhor, eu haja perdo. + +CALLISTO. + + Fizestes esse rifo + Em algum jgo de bola? + E foi-lhe elle ter mo? + +FELISEO. + + Digo-vos que o vio, e lho leo + Hum moozinho d'escola. + +CALLISTO. + + Est isso assi do ceo. + Sabe ella jogar a bola? + +FELISEO. + + No. + +CALLISTO. + + Pois no vos entendeo. + Ora eu ja cheguei a ler + Petrarca, e crede de mi + Que nunca tal cousa vi. + Onde mora o bom saber, + Logo d sinal de si. + Onde _casada_ puzestes, + Dizei, porque no dissestes + _La que yo vi por mi mal._ + +FELISEO. + + Renunciava o metal; + Qu'em rifeszinhos como estes, + Ha-se-de pr tal com tal. + Que a trova trigo-tremez + Ha de ser toda d'hum pano; + Que parece muito Ingrez + N'hum pelote Portuguez + Todo hum quarto Castelhano. + Ouvi outra tambem minha, + Que fiz a certa teno, + Clara, leve, bonitinha, + De feio, que esta trovinha, + He trovinha de feio. + Como eu hum dia me visse + Morto, e a mo na canda, + E ella no me acodisse; + Fiz-lhe esta, porque sentisse + Que dava os fios ta. + E o propsito he + Andar eu hum dia s; + E para que houvesse d + De mi e de minha f, + Lamentei-lhe como J. + +CALLISTO. + + Andastes, Senhor, mui bem. + +FELISEO. + + Ora, Senhor, attentai, + E vde o saibo que tem; + Se he para a ver alguem. + +CALLISTO. + + Ora dizei. + +FELISEO. + + Ei-la vai. + +Trova. + + Corao de carne crua, + V-lo teu amor aqui, + Que esmorecido por ti + Jaz no meio desta rua? + +CALLISTO. + + Na rua, Senhor, jazia? + E era em tempo de lama? + +FELISEO. + + Senhor, quem falla a quem ama, + De si mesmo se no fia: + Haveis de mentir dama. + +CALLISTO. + + Volta disso? + +FELISEO. + + Singular, + Seno que he muito sentida; + Far-vos-ha, Senhor, chorar. + +CALLISTO. + + Oh! diga, por sua vida! + +FELISEO. + + Farei o que me mandar. + +Volta. + + Porque no has delle mgoa, + dura mais que ninguem, + Que anda o triste, que no tem + Quem lhe d huma vez d'goa? + No lhe negues teu querer, + Pois te no custa dinheiro; + Que, emfim, por derradeiro + A terra te ha de comer. + +CALLISTO. + + Tal trova nunca se vio. + Agorentaste-la ja? + +FELISEO. + + Senhor, no; ainda est + Como a sua me pario; + E no est muito m. + +CALLISTO. + + He trova, que tee por seis; + No a posso mais gabar. + Mas, pois, tal cousa fazeis, + Senhor, no m'ensinareis + Donde vem to bem trovar? + +FELISEO. + + No he a cousa to pequena, + Como, Senhor, a fizestes, + Essa que agora dissestes. + Mas porm vou dar a Alcmena + Estas novas que me dstes. + Despois, Senhor, nos veremos; + Ficae ja roendo esse osso. + +CALLISTO. + + O roer, Senhor, he vosso. + +FELISEO. + + Pois eu, por mais que zombemos, + Hei de ser vosso e revosso. + +CALLISTO. + + Oh!.. Escusae-vos d'extremos, + Qu'isso, Senhor, me atarraca. + Mas ns nos encontraremos, + E sbre isso envidaremos + Dous reales mais de saca. + + + + +ACTO SEGUNDO. + + +SCENA I. + +_Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na frma de Amphitrio, +Mercurio na de Sosea escravo._ + +JUPITER. + + Mercurio, pois sou mudado + Nesta frma natural, + lha e nota com cuidado, + Se est em mi o pintado + Apparente co'o real. + +MERCURIO. + + Quem to proprio se transforma. + Tenho por opinio, + Que na tal transformao + Lhe prestou natura a frma, + Com que fez Amphitrio. + +JUPITER. + + Pois tu no gesto e na cr + Ests Ssea escravo seu. + +MERCURIO. + + Muito mais faras, Senhor. + +JUPITER. + + No o faz seno o Amor, + Que nisto pde mais qu'eu. + +MERCURIO. + + Ja, Senhor, te fiz meno + Como deo Amphitrio + A ElRei Terela a morte; + Que, na guerra igual, a sorte + Pde mais que o corao. + E despois de ser tomada + Toda a Cidade, com gloria + D'Amphitrio bem ganhada, + Como em sinal de victoria, + Esta copa lhe foi dada. + Por ella bebia ElRei, + Em quanto a vida queria; + E eu, porque te cumpria, + A seu escravo a furtei, + Que n'huma caixa a trazia. + Esta poders levar + A Alcmena, por lhe mostrar + Verdadeiro, o que he fingido; + E dest'arte sers crido, + Sem mais outro ardil buscar. + +JUPITER. + + Pois tudo tens ordenado + Por to nova e subtil arte; + Como me vires entrado, + Irs dar este recado + A Phebo de minha parte: + Que faa mais devagar + Seu curso neste Hemispherio. + Que o que soe acostumar; + Qu'esta noite hei de ordenar + Hum caso de alto mysterio. + E Esphera mais alta + Mandars que fixa esteja, + Porque a noite maior seja: + Porque sempre o tempo falta, + Onde a alegria he sobeja. + E ters tamanho tento, + Que como isto se ordenar, + Venhas aqui vigiar, + Porque meu contentamento + Ninguem mo possa estorvar. + +MERCURIO. + + Seja feito sem debate + Tudo como te convem. + +JUPITER. + + Pois no parece ninguem, + Como homem de casa bate, + E muda a falla tambem. + +MERCURIO, _batendo porta_. + + de la casa, en buena hora, + Darmehan de cenar aqui? + +BROMIA _dentro_. + + Ssea parece que ouvi: + Alviaras, minha Senhora, + Que na falla o conheci. + + +SCENA II. + +_Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio._ + +ALCMENA. + + Zombais, Bromia, por ventura? + +BROMIA. + + Senhora, no zombo, no. + +ALCMENA. + + Vejo eu Amphitrio, + Ou a vista me afigura + O qu'est no corao? + +JUPITER. + + Olhos, diante dos quais + Desejei mais este dia, + Que nenhuma outra alegria, + Senhora, nunca creais + Que lhe minta a phantasia. + +ALCMENA. + + Oh presena mais querida + Que quantas formou Amor! + Isto he verdade, Senhor? + Acabe-se aqui a vida, + Por no ver prazer maior. + +JUPITER. + + Pois esta hora de vos ver + Alcanar, Senhora, pude; + Para mais contente ser, + Conformem co'este prazer + Novas de vossa saude. + +ALCMENA. + + Vida foi pezada e crua + A saude qu'eu sostinha; + Qu'em quanto, Senhor, a tinha, + Temer perigo na sua, + Me fez descuidar da minha. + +MERCURIO. + + Y pues, mi Seora Alcmena, + Pese al demonio malvado, + No dir un su criado, + Vengais Ssea norabuena? + +ALCMENA. + + Sejais, Ssea, bem chegado. + +BROMIA. + + Bem mal cri eu, que pudesse + Ver-te, Ssea, hoje aqui. + +MERCURIO. + + Pues tambien yo no cre + Que en mi vida te viese, + Segun las muertes que vi. + +ALCMENA. + + Muito, Senhor, folgarei + Com novas do vencimento. + +JUPITER. + + De tudo quanto passei, + Por vos dar contentamento, + Em summa vos contarei. + Trago, Senhora, a victoria + Daquelle Rei to temido, + Com fama clara e notoria. + Porm maior foi a gloria + De me ver de vs vencido. + Sem me terem resistencia, + Os Grandes me obedcero, + Como ElRei morto tivero: + Em sinal de obediencia + Esta copa me trouxero. + ElRei por ella bebia: + (Ella, e tudo o mais he nosso) + Por onde claro se via, + Que tudo me obedecia, + Pois tinha nome de vosso. + +MERCURIO. + + Si, mas luego de rondon + La fortuna di la vuelta. + +ALCMENA. + + Como? + +MERCURIO. + + Fu gran perdicion, + Porque en aquella revuelta, + Me hurtaron mi jubon. + Pero bien me lo pagaron, + Cuando comigo rieron; + Que aunque me despojaron + Si uno de seda llevaron, + Otro de azotes me dieron. + +ALCMENA. + + Senhor, no posso gostar + De gsto, que he to immenso, + Seno muito devagar: + Faa-me merc d'entrar, + E contar-mo-ha por extenso. + + +SCENA III. + +_Mercurio e Bromia._ + +MERCURIO. + + Yo tambien te contaria, + Bromia, si quedas atrs, + Que una noche... enojartehas? + +BROMIA. + + Que? + +MERCURIO. + + Soaba, que te tenia... + No me atrevo decir mas. + +BROMIA. + + Dize. + +MERCURIO. + + Pardies, no dir. + Soaba... + +BROMIA. + + Bem: que sonhavas? + +MERCURIO. + + Que cuando en la cama estavas + Que yo... enfin record. + +BROMIA. + + Pois tudo isso receavas? + +MERCURIO. + + Sabe Dios qu yo ac siento: + Sola una alma vive en dos, + La cual anda dentro en vos. + +BROMIA. + + E que quer ella c dentro? + +MERCURIO. + + Tambien eso sabe Dios. + + +SCENA IV. + +MERCURIO. + + Bem se poder enganar + Bromia, segundo ora estou, + Como Alcinena s'enganou; + Mas cumpre-me ir ordenar + O que meu Pae me mandou. + E porque seja guardada + Esta porta e vigiada + De toda a gente nascida, + Me ser cousa forada, + Ser to depressa a tornada, + Quo prestes fao a partida. + + +SCENA V. + +SOSEA, _cantando_. + + Amphitrion esforzado + Bravo v por la batalla, + Siete cabezas llevaba, + De las mejores que ha hallado. + +_Falla._ + + Quien viene de tierra agena, + Y de la muerte escap, + La razon le permiti + Que cante como sirena, + Como agora hago yo. + Y pues canto tan gentil, + Fuera llanto si muriera. + Quiero cantar como quiera, + Una y otra, y mas de mil, + Que digan desta manera: + +_Canta._ + + Dongolondron, con dongolondrera, + Por el camino de Otera, + Rosas coge en la rosera, + Dongolondron, con dongolondrera. + +_Falla._ + + Cuando yo vengo pensar + Que uno matarme quisiera, + No hago sino temblar, + Porque creo si muriera, + No pudiera mas cantar. + Porque estando un rincon + De la casa ad qued, + Senti muy grande ronron, + Y mirando, que mir? + Vi que era un gran raton. + Empero yo nunca sigo, + Sino consejos muy sanos; + Que en estes casos levianos, + Quien desprecia el enemigo, + Mil veces muere sus manos. + Pero mi Seor alli + Mat al Rey de los Glipazos: + Yo como muerto le vi, + Juro mi f, que le d + Mas de dos mil cuchillazos. + Y por me librar de afan, + Me voy siempre cosa hecha + Probar mi mano derecha; + Que aquel es buen capitan, + Que del tiempo se aprovecha. + Que quien ha de pelear, + Ha de buscar tiempo y hora. + Pero quiero caminar, + Que me muero por contar + Todo aquesto mi Seora. + + +SCENA VI. + +_Mercurio e Ssea._ + +MERCURIO. + + Mil vezes comigo vejo, + Para que meu Pae se affoute; + Pois em to pequeno ensejo + Lhe mandei talhar a noute + medida do desejo. + E pois que como possante, + A mi tudo se reporta, + Chego agora neste instante + A estorvar qu'este bargante + Me no chegue a esta porta. + +SOSEA. + + No s que miedo, locura, + Neste pecho se me cria: + Por Dios que se me afigura, + Que ha mucho que es noche escura, + Sin que venga el claro dia. + Mas sabed, que pienso yo + Que el sol que no se acord + De con el dia venir, + Que noche cuando cen + Algun buen vino bebi, + Que le hace tanto dormir. + +MERCURIO. + + Ja sentes comprida a noute, + Qu'eu assi mandei fazer? + Pois mais te quero dizer, + Que sentirs muito aoute, + Se c quizeres vir ter. + Porm, pois este bargante + Tee medroso corao, + Quero-me fingir ladro, + Ou phantasma, e por diante + No ir, se vem mo. + E com tudo se passar, + A falla quero mudar + Na sua de tal feio, + Que couces, e porfiar, + Lhe fao hoje assentar + Que sou Ssea, e elle no. + +_Falla Castelhano._ + + No veo pasar ninguno, + En quien yo me pueda hartar. + +SOSEA. + + quien oigo aqui hablar? + Mande Dios no sea alguno + Que me quiera aporrear. + +MERCURIO. + + La carne de algun humano + Me seria muy sabrosa. + +SOSEA. + + Oh qu voz tan temerosa! + Hombres comes, mi hermano? + No es mejor otra cosa? + Carne humana es muy mezquina. + Oh no comas deso, no! + Antes carne de gallina. + Pero se mas se avecina, + Qu mas gallina, que yo? + +MERCURIO. + + Una voz de hombre ahora + la oreja me vol. + +SOSEA. + + Psete quien me pari: + La voz traigo boladora? + Ella quisiera ser yo. + Pues mi voz pudo volar + Do la pudieses oir; + Por contigo no reir, + Me debiera de prestar + Las alas para huir. + +MERCURIO. + + Qu buscas cabe esa puerta, + Hombre? S que eres ladron. + +SOSEA. + + Ay que el alma tengo muerta! + Oh Jpiter me convierta + Las tripas en corazon! + +MERCURIO. + + Quien eres? quieres hablar? + +SOSEA. + + Soy quien mi voluntad quiere. + +MERCURIO. + + Piensas que puedas burlar? + +SOSEA. + + Y t pudesme quitar + Que yo sea quien quisiere? + +MERCURIO. + + Osas hablar tan osado, + Don vellaco bovarron? + D, quien eres? + +SOSEA. + + Un criado + Del Seor Amphitrion, + Por nombre Ssea llamado. + +MERCURIO. + + Pienso que el seso perdiste. + Como te llamas, mal hombre? + +SOSEA. + + Ssea soy, si no me oiste. + +MERCURIO. + + Como? en persona tan triste + Osas d'ensuciar mi nombre? + Estos puos llevars, + Pues tener mi nombre quieres. + Quiresme dicir quien eres? + +SOSEA. + + O Seor, no me ds mas, + Que yo ser quien t quisieres. + +MERCURIO. + + Con tan nueva falsedad + Andais por esta Ciudad, + Delante de quien os mira? + Pues si sois Sosea, tomad. + +SOSEA. + + Si me ds por la verdad, + Que me hars por la mentira? + +MERCURIO. + + Y qu verdad es la tuya? + Que te quiero dar castigo. + +SOSEA. + + Si no soy Ssea que digo, + Que Jpiter me destruya. + +MERCURIO. + + Mirad el falso enemigo: + Tomad este bofeton, + Que yo soy Ssea, y no vos. + +SOSEA. + + Tu Ssea? + +MERCURIO. + + Ssea por Dios, + Escravo de Amphitrion. + +SOSEA. + + De modo que tiene dos? + +MERCURIO. + + No tendr, aunque t quieres; + Que mi solo conoci. + +SOSEA. + + Pues luego de quien soy yo? + +MERCURIO. + + Si t no sabes quien eres, + Quieres que yo lo sepa? No. + +SOSEA. + + Enfin, has me de hacer crer + Que yo no soy quien ser solia? + +MERCURIO. + + Quien solias t de ser? + +SOSEA. + + Tregoas me has de prometer, + Dirteloh sin profia. + +MERCURIO. + + Prometo. + +SOSEA. + + No me dars? + +MERCURIO. + + No, si no fuere razon. + +SOSEA. + + Pues, hermano, t sabrs + Que mi amo Amphitrion... + +MERCURIO. + + Tu amo? Pues llevars. + Mi amo es, que tuyo no. + +SOSEA. + + Ay que un brazo me quebr! + +MERCURIO. + + Mas que luego te matase. + +SOSEA. + + Ojal Dios ordenase + Que t ahora fueses yo, + Y yo que te desmembrase! + +MERCURIO. + + Esa tu tema tan loca, + Puos te la han de quitar. + Dime, di, verguenza poca, + Qu hablas? + +SOSEA. + + Qu puedo hablar, + Si me has quebrado la boca? + +MERCURIO. + + Di quien eres, sin fatiga. + +SOSEA. + + Soy un hombre, en quien t ds. + +MERCURIO. + + Dme pues, qu nombre has. + +SOSEA. + + Como quieres t que diga, + Para que no me ds ms? + +MERCURIO. + + No me has de hablar contrahecho. + +SOSEA. + + Toda mi vida pasada + Ssea fuy, y con despecho + Ahora soy... qu? No nada; + Que tus manos me han deshecho. + +MERCURIO. + + Cuyo eres, pues las sientes, + Dejando consejos vanos? + La verdad; que si me mientes, + Ds con la lengua en los dientes, + Y yo dyte con las manos. + +SOSEA. + + No conoces Amphitrion? + +MERCURIO. + + Hombre sin seso te llamo. + Tan fuera ests de razon! + Piensas de m, bovarron, + Que no conozco mi amo? + +SOSEA. + + En su casa conociste + Uno, que es Ssea llamado, + Hombre despreciado y triste? + +MERCURIO. + + Desa suerte lo dijiste? + Yo soy triste y despreciado? + Pues sabe que te lleg + la muerte tu fortuna. + +SOSEA. + + Pues logo si yo no soy yo, + Aunque nadie me mat; + Soy luego cosa ninguna. + Oh dioses, que desconcierto! + Yo por ventura soy muerto, + murime la razon? + Yo no soy de Amphitrion? + l no me mandou del puerto? + Yo s que no estoy loco. + De mi madre no naci? + No ando? No hablo aqui? + +MERCURIO. + + Pues sosiega ahora un poco, + Que yo tambien dir de m. + Yo no s que yo soy yo? + Yo no te d con mis manos? + Mi Seor no me llev + la guerra, ad mat + Aquel Rey de los Thebanos? + +SOSEA. + + Yo eso muy bien lo s. + Empero t qu hacias + Cuando la batalla vias? + +MERCURIO. + + Escucha: yo lo dir, + Y cesaran tus porfas. + Cuando mi Seor andaba + Peleando, y derramaba + La sangre de algun mezquino; + Con una bota de vino + Yo la mia acrescentaba. + +SOSEA. + + (Dice lo que yo hacia) + Con todo, saber queria + Sola una cosa, si puedo: + Tu pecho entonces sentia? + +MERCURIO. + + Del beber grande alegria, + Y del pelear gran miedo. + +SOSEA. + + Y despues? + +MERCURIO. + + Muy reposado + dormir me ech de grado, + Desde el sol hasta la luna. + +SOSEA. + + (Todo lo tiene contado. + Enfin, tengo averiguado + Que yo no soy cosa ninguna) + Pues de todo en un instante + Me has echado de m fuera, + Aconsjame si quiera, + Quien ser daqui adelante, + Pues no soy quien de antes era. + +MERCURIO. + + Cuando yo no ser quisiere + Ese, que t ser deseas, + Despues que ya Ssea no fuere, + Darteh, si te pluguiere, + Licencia que todo seas. + Y acgete luego, amigo, + buscar tu nombre, digo, + Pues Dios vida te dej; + Que el Ssea queda comigo. + +SOSEA. + + Pues contigo quedo yo, + Dios quede, hermano, contigo. + Ahora quiero ir all + Ad mi Seora est, + Contarle como es venido + Mi Seor. Mas, oh perdido! + Si un otro yo tiene all, + Todo lo tern sabido. + +MERCURIO. + + Ah hombre..... + +SOSEA. + + Mi voz son. + +MERCURIO. + + Aonde vuelves ahora? + +SOSEA. + + Por Dios no s onde v, + Porque si yo no soy yo, + Ni Alcmena es mi Seora. + +MERCURIO. + + Adonde vas? + +SOSEA. + + Con mensaje + Del Seor Amphitrion + Para Alcmena. + +MERCURIO. + + Ad, salvaje? + Pues quebraste la omenaje, + Ah vers tu perdicion. + Yo doyte consejos sanos, + Y porfias otra vez? + +SOSEA. + + Altos dioses soberanos! + Pues me no valen las manos, + Aqui me valgan los pies. _Foge._ + +MERCURIO. + + Desta arte ensean aqui + hurtar el nombre ageno? + + +SCENA VII. + +SOSEA. + + Ay Dios, como me acog! + Jpiter alto y bueno, + Cuan cerca la muerte vi! + Quirome ir mi Seor + Contarle cuanto h pasado; + Y l me dir de grado, + Si yo soy su servidor, + En que cosa me h tornado. + + + + +ACTO TERCEIRO. + + +SCENA I. + +_Jupiter e Alcmena._ + +JUPITER. + + Toda a pessoa discreta + Ter, Senhora, assentado, + Que hum bem muito desejado + Se ha de alcanar por dieta, + Para ser sempre estimado. + E quem alcanado tem + Tamanho contentamento; + Por conserv-lo convem + Que tome por mantimento + A fome de tanto bem. + E por isso hei de tomar + Este tempo to ditoso + Para a frota visitar; + E despois quando tornar, + Tornarei mais desejoso. + Que pois to bom captiveiro + Me tee presa a liberdade, + Eu lhe prometto em verdade + Que torne ainda primeiro, + Que mo pea a saudade. + +ALCMENA. + + Aindaque se possa ir + Mais asinha do que creio, + Como hei d'eu consentir + Que se haja de partir + Na mesma noite que veio? + +JUPITER. + + Forada he minha tornada, + Mas muito cedo virei; + Porque desque foi chegada + A este porto a Armada, + Ainda a no visitei. + +ALCMENA. + + Pois, Senhor, to pouco estais + Com quem vistes inda agora? + Faa-se como mandais. + +JUPITER. + + Vs me vereis c, Senhora, + Primeiro do que cuidais. + + +SCENA II. + +_Amphitrio e Sosea._ + +AMPHITRIO. + + Emfim tu, que ests aqui, + Estavas ja l primeiro? + +SOSEA. + + Seor, crea que es ans. + +AMPHITRIO. + + Eu nunca entendi de ti, + Qu'eras tambem chocarreiro. + +SOSEA. + + Seor, yo que estoy presente, + No soy Ssea su criado? + +AMPHITRIO. + + Creio que no certamente, + Porque Ssea era avisado, + E tu es mui differente. + +SOSEA. + + Pues, Seor, si en m se v + Que no soy quien de antes era, + Vulvome. + +AMPHITRIO. + + E para que? + +SOSEA. + + Ver se dicha me qued + Durmiendo por la galera. + +AMPHITRIO. + + Pois me queres fazer crer + Huma doudice to rasa, + Mais quero de ti saber: + Como no entraste em casa + D'Alcmena minha mulher? + +SOSEA. + + Aunque Ssea quisiese, + La verdad no negar: + Aquel yo que all est, + No quiso que casa fuese + Estotro yo, que iba all. + Y con furia tan crecida + m se vino aquel hombre, + Que yo me puse en huida, + Y ans le dej mi nombre, + Por me dejar l la vida. + +AMPHITRIO. + + Quem seria to ousado, + Que tanto mal te fizesse? + +SOSEA. + + Yo mismo Ssea llamado, + Que casa era ya llegado, + Antes que de ac partise. + +AMPHITRIO. + + Tu chegaste antes de ti? + Este he gentil disparate. + +SOSEA. + + Pues mas le digo daqui, + Que vengo huyendo de m, + Porque yo mismo no me mate. + +AMPHITRIO. + + Ero dous, ou era hum s, + Quem te fez assi fugir? + +SOSEA. + + Psete quien me pari: + Digo, que era un solo yo: + Mil veces lo h de decir? + Puede ser que naceria + De aquel hombre otro alguno, + Como aquel de m nacia; + Porque aunque fuese l uno, + Por mas de cuatro tenia. + l tenia mi aparencia, + Empero yo nunca vi + Tal fuerza, ni tal potencia: + Esta sola diferencia + Le tengo hallado de m. + +AMPHITRIO. + + Pudeste delle saber + Cujo era? + +SOSEA. + + Quien? aquel yo? + Tuyo, Seor, dijo ser. + +AMPHITRIO. + + Nunca eu tive mais que hum s, + E esse no quizera ter. + +SOSEA. + + Pues, Seor, si el bien doblado + Te le muestra agora Dios, + Debe ser de ti alabado; + Pues de uno solo criado + Te ha hecho agora dos. + +AMPHITRIO. + + Antes para que conheas, + Que cousa he mao servidor, + Me pezar se assi for; + Que de to ruins cabeas, + Quantas mais, tanto peor. + E ja que so to incertos + Teus ditos para se crer; + Muito melhor deve ser + Que deixe teus desconcertos, + E va ver minha mulher. + + +SCENA III. + +ALCMENA. + + Que fado, que nascimento + De gente humana nascida, + Que d'escasso e avarento, + Nunca consentio na vida + Perfeito contentamento! + Amphitrio, que mostrou + Hum prazer to desejado + A quem tanto o desejou; + Na noite, que foi chegado, + Nessa mesma se tornou! + De se tornar to asinha + Sinto tanto entristecer + O sentido e alma minha, + Que certo que me adivinha + Algum novo desprazer. + Mas parece este que vem, + Se no estou enganada: + Se elle he, venha com bem, + Pois que com sua tornada + To transtornada me tem. + + +SCENA IV. + +_Amphitrio, Alcmena e Sosea._ + +AMPHITRIO. + + Com que palavras, Senhora, + Poderei engrandecer + To sublimado prazer, + Como he ver chegada a hora, + Em que vos pudesse ver? + Certo gro contentamento + Tive de meu vencimento; + Mas maior o hei de mim, + De me ver psto no fim + De to longo apartamento. + +ALCMENA. + + Ja eu disse o que sentia + De vinda to desejada. + Mas diga-me todavia: + Como no foi ver a Armada, + Que me disse hoje este dia? + +AMPHITRIO. + + Della venho eu inda agora + Desejoso de vos ver, + Muito mais que de vencer. + Mas que me dizeis, Senhora, + Que hoje me ouvistes dizer? + +ALCMENA. + + Se no estava remota, + Certamente que lhe ouvi, + Quando hoje partio daqui, + Que tornava a ver a frota. + Porque era forado assi. + +AMPHITRIO. + + Ssea. + +SOSEA. + + Seor, aqui estoy yo. + +AMPHITRIO. + + Tu ouves tal desconcrto? + +SOSEA. + + Grandes orejas gan, + Pues estando en casa oy + Quien estava all nel puerto! + +AMPHITRIO. + + Quando dizeis, que m'ouvistes? + +ALCMENA. + + Hoje, quando vos partistes. + +AMPHITRIO. + + Donde? + +ALCMENA. + + Daqui, de me ver. + +AMPHITRIO. + + Nunca vi grande prazer, + Que no tenha os cabos tristes. + Quantos males d'improviso + Que causo grandes mudanas! + Que mulher de tanto aviso, + Agora minhas lembranas + A tee fra de juizo! + +ALCMENA. + + Quereis-me fazer cuidar + Que poderia sonhar + O que pelos olhos vi? + Nunca vos eu mereci + Quererdes-me exprimentar. + +AMPHITRIO. + + Postoque he para pasmar + Ver hum caso to estranho, + Todavia hei de attentar, + Se poderei concertar + Hum desconcrto tamanho. + Quando dizeis que vim c? + +ALCMENA. + + Esta noite que passou. + +AMPHITRIO. + + Dae-me alguem que aqui se achou, + Que me visse. + +ALCMENA. + + Esse que hi est, + Ssea que comvosco andou. + +AMPHITRIO. + + Ssea, podes-te lembrar, + Que hontem me vistes aqui? + +SOSEA. + + Nunca yo supe de m + Que me pudiese acordar + De aquello que nunca vi. + +ALCMENA. + + Ora eu creo, e he assi, + Que ambos vindes conjurados, + Para zombardes de mi; + Mas eu darei hoje aqui + Sinaes que sejo provados. + +AMPHITRIO. + + Que sinaes pde ahi haver + De mentira to notoria, + Que nem foi, nem pde ser? + +ALCMENA. + + Donde vim eu a saber + Novas de vossa victoria? + +AMPHITRIO. + + Que novas? + +ALCMENA. + + Dir-vo-las-hei, + Assi como mas contastes: + Que na batalha matastes + Aquelle soberbo Rei, + E tudo desbaratastes: + No fazendo resistencia + N'huma batalha to crua, + Dando-vos obediencia, + Vos dero huma copa sua, + Lavrada por excellencia. + +AMPHITRIO. + + Ssea he culpado s + Nestes acontecimentos. + +SOSEA. + + Seor, son encantamientos, + Porque aquel hombre, que es yo, + Le contaria estos cuentos. + +AMPHITRIO. + + Quem he esse, que vos deu + Taes novas, saber queria? + +ALCMENA. + + Quem mo pergunta. + +AMPHITRIO. + + Quem? Eu! + Quereis-me fazer sandeu? + +ALCMENA. + + Mas vs me fazeis sandia. + +AMPHITRIO. + + Ora quero perguntar: + Que fiz sendo aqui chegado? + +ALCMENA. + + Puzemos-nos a cear. + +AMPHITRIO. + + E despois de ter ceado? + +ALCMENA. + + Fomos-nos ambos deitar. + +AMPHITRIO. + + Nunca queira Deos que possa + Achar-se na minha honra + Nenhuma falta nem mossa: + Seja isto doudice vossa, + Antes que minha deshonra. + +SOSEA. + + Bien lo supe yo entender, + Que era esto encantaciones; + Y ahora me habr de crer + Que dos Sseas puede haber, + Pues hay dos Amphitriones. + +ALCMENA. + + Com me quererdes tentar + To torvada me fizestes, + Que me no pde lembrar + Que vos mandasse mostrar + A copa que me hontem dstes. + +AMPHITRIO. + + Eu? copa? Se isso ahi ha, + Que estou doudo cuidarei. + +SOSEA. + + Seor, bien guardada est. + +ALCMENA. + + Bromia? + +BROMIA, _de dentro_. + + Senhora. + +ALCMENA. + + Dae c + A copa que hontem vos dei. + +SOSEA. + + Pues yo par otro yo, + Y vs otro Amphitrion, + No es mucha admiracion, + Si la copa otra pari, + Ni aun fuera de razon. + + +SCENA V. + +_Amphitrio, Alcmena, Sosea e Bromia._ + +BROMIA. + + Eis-aqui a copa vem, + Testimunho da verdade. + +AMPHITRIO. + + Oh estranha novidade! + +ALCMENA. + + Poder-me-ha dizer alguem + Que o que digo he falsidade? + +AMPHITRIO. + + Ssea, quando hontem c vinhas, + Poder-me-has negar, ladro, + Que lhe dste as novas minhas, + E mais a copa que tinhas + Guardada na tua mo? + +SOSEA. + + Seor, que no pude, no, + Ver mi Seora Alcmena: + Si aquel eso ac orden, + No lleve este yo la pena + Del mal que hizo el otro yo. + +AMPHITRIO. + + Ora eu no sei entender + Tal caso, nem lhe acho fundo: + Com tudo venho a dizer, + Que ha tantos males no mundo, + Que tudo se pde crer. + Se vos trouxer quem vos diga + Como esta noite dormi + Na nao, crereis que he assi? + +ALCMENA. + + Nenhuma cousa me obriga + A que no creia o que vi. + +AMPHITRIO. + + Se o Patro aqui vier, + Que he homem d'autoridade, + Crereis o que vos disser? + +ALCMENA. + + Sim, que ninguem pde haver + Que me negue esta verdade. + +AMPHITRIO. + + Eu estou em concruso + D'hoje desembaraar + To enleada questo: + nao me quero tornar + A trazer c Belferro. + Ssea, at minha tornada + Fica nesta casa em vela; + Qu'eu armarei tal cilada + A quem ma a mim tee armada, + Que venha hoje a cahir nella. + + +SCENA VI. + +_Alcmena e Bromia._ + +ALCMENA. + + Oh mulher triste e suspensa + Da mais alta confuso + Que nunca vio corao! + Em que mereces a offensa, + Que te faz Amphitrio? + Sempre de mi foi amado, + Tanto quanto em mi se sente, + Co'o corao to liado, + Que se de mi era ausente, + Nelle o via figurado. + E pois mulher, que cumprisse + Melhor qu'eu fidelidade, + No a vi, nem quem me visse + Que dos limites sahisse + Hum pouco da honestidade. + Pois porque he to maltratada + Innocencia to singella? + Que a pena mais apertada, + He a culpa levantada + Ao corao livre della. + Mas ja que minh'alma est + Sem culpa do que padeo, + Seja o que for; qu'eu conheo + Que a verdade me por + No qu'eu pola ter mereo. + Bromia? + +BROMIA. + + Senhora. + +ALCMENA. + + Hi mandar + A Feliseo, que v + Meu primo Aurelio chamar; + Que lhe quero perguntar + Que conselho me dar. + E pois que Amphitrio + Vai buscar somente quem + Lhe ajude a sua teno, + Quero eu ter aqui tambem + Quem me defenda a razo. + + + + +ACTO QUARTO. + + +SCENA I. + +_Jupiter, Alcmena e Sosea._ + +JUPITER. + + Gro desconcrto tee feito + Amphitrio com Alcmena! + Qualquer delles tee direito: + Eu sou o que veno o preito, + E ambos pgo a pena. + Quero-me ir l desfazer + To trabalhosa demanda, + Por nos tornarmos a ver; + Porque, emfim, quem muito quer + Com qualquer desculpa abranda. + E pois ja que a affeio + Ha de mudar to asinha, + Quero ir alcanar perdo + Da culpa, que sendo minha, + Parece d'Amphitrio. + +ALCMENA. + + Parece que torna c + Amphitrio, que ja se hia: + No sei a que tornar. + Seno se lhe peza ja + Dos enganos que tecia. + +JUPITER. + + Senhora, no haja error + Que tantos males me faa, + Porque se o contrrio for, + Pequeno ser o amor, + Que manencria desfaa. + E pois com tanta alegria + De tantos perigos vim, + Pezar-me-ha se achar no fim, + Que huma leve zombaria + Vos possa aggravar de mim. + +ALCMENA. + + Com palavras de deshonra + No se ha de tratar quem ama; + Nem zombaria se chama, + Por exprimentar a honra, + Pr em tal perigo a fama. + Bem tive eu para mim, + Que era aquillo experiencia. + +JUPITER. + + Errei no que commetti: + Bem me basta a penitencia + De quanto me arrependi. + E se fiz algum error, + Com que vosso amor se mude + De quem vo-lo tee maior; + No exprimentei virtude, + Mas exprimentei amor. + Que se com caso to vrio + Folguei de vos agastar, + Foi amor accrescentar; + Porque s vezes hum contrrio + Faz seu contrrio avisar. + Daqui vem, que a leve mgoa + Firmeza e affeies augmenta, + Como bem se v na frgoa, + Onde o fogo se accrescenta, + Borrifando-o com pouca goa. + Se hum mal grande se alevanta + N'hum corao que maltrata, + A affeio se desbarata; + Porque onde a goa he tanta + O fogo d'amor se mata. + E pois tive tal teno, + Perdoae, Senhora, a culpa + Deste vosso corao. + +ALCMENA. + + No se alcana assi perdo + D'erro que no tee desculpa. + +JUPITER. + + Ora pois assi tratais + Quem em tanto risco ps + O amor que vs negais, + Eu m'ausentarei de vs + Onde mais me no vejais. + Que, pois desculpa no tem + Corao que tanto quer, + Vou-me; que no ser bem + Que quem vs no podeis ver, + Que possa mais ver ninguem. + Se algum'hora meu cuidado + Vos der dor, em que pequena; + Peo-vos, pois fui culpado, + Que vos no peze da pena + De quem vos foi to pezado. + E despois que a desventura + Puzer este corao + Debaixo da sepultura, + As letras na pedra dura + Vossa dureza diro. + Isto vos hei de dizer, + Que m'ensinou minha dor: + Se quizerdes leda ser, + Nunca exprimenteis amor + Em quem vo-lo no tiver. + Deixae-me ir; no me tenhais. + +ALCMENA. + + Amphitrio, no choreis! + Amphitrio! + +JUPITER. + + Que quereis, + Ou para que nomeais + Homem, que ver no podeis? + +ALCMENA. + + Amphitrio, s'eu causei + Com manencria pequena + Cousa, com que o magoei; + Eu quero cahir na pena + Dessa culpa que lhe dei. + +JUPITER. + + Sempre serei magoado + Se vossa m condio + Me no perda o passado. + +ALCMENA. + + Perdo, e peo perdo + De lhe no ter perdoado. + +SOSEA. + + No le perdone, Seora, + Hasta que con devocion + Tambien me pida perdon; + Que bien se me acuerda ahora + Que me ha llamado ladron. + +JUPITER. + + Ssea? + +SOSEA. + + Seor. + +JUPITER. + + Vae buscar + O Piloto Belferro; + Dir-lhe-has, se desembarcar, + Que me parece razo + Que venha hoje c cear. + +SOSEA. + + Si, Seor, voy la hora. + +JUPITER. + + De nenhuma qualidade + Cure de fazer demora. + E ns vamos-nos, Senhora, + Confirmar nossa amizade. + + +SCENA II. + +MERCURIO. + + Grandes revoltas vo l. + Grandes acontecimentos! + Cumpre-me que esteja c, + Em quanto meu pae est + Em seus desenfadamentos. + Porque vi Amphitrio + Vir da nao mui apressado; + E tendo corrido e andado, + No pde achar Belferro, + Que lhe era bem escusado. + Parece-me que vir + Ver se lhe abre aqui alguem; + Mas, porm, se chega c, + Ja pde ser que se v + Mais confuso do que vem. + + +SCENA III. + +_Mercurio e Amphitrio._ + +AMPHITRIO. + + Quiz-nos nossa natureza + Com tal condio fazer, + Que ja temos por certeza + No haver grande prazer, + Sem mistura de tristeza. + Este decreto espantoso, + Que instituio nossa sorte, + He tal e to rigoroso, + Que ninguem antes da morte + Se pde chamar ditoso. + Com esta justa balana + O Fado grande e profundo + Nos refreia a esperana, + Porque ninguem neste mundo + Busque bem-aventurana. + Eu, que cuidei de viver + Sempre contente de mi + Com tamanho Rei vencer, + Venho achar minha mulher + De todo fra de si. + Mas d'outra parte, que digo? + Que s'he verdade o que vi, + E o que ella diz he assi; + Virei a cuidar comigo + Qu'eu sou o fra de mi. + Quero ver se a acho ja + Fra de to seccos ns. + de casa? + +MERCURIO. + + O de all? + Quien sois? + +AMPHITRIO. + + Abre. + +MERCURIO. + + Santo Dios! + Pues no os conocen ac. + +AMPHITRIO. + + Oh que gentil desvario! + Abri-me ora se quizerdes. + +MERCURIO. + + No har, que en m confio + Que de fuera dormiredes, + Que no comigo, amor mio. + (Que cancion para oir!) + +AMPHITRIO. + + Ah Ssea! zombas de mi? + (Ora quero-me fingir + Que ainda o no conheci, + Por ver se me quer abrir) + Ah Senhor, no abrireis? + +MERCURIO. + + Qu quereis, hombre, por Dios? + +AMPHITRIO. + + Duas palavras de vs. + +MERCURIO. + + Tengo dicho mas de seis, + E ahora me pedis dos? + De fuera podeis dormir, + Que entrar no podeis ac. + +AMPHITRIO. + + Ora acabae, abri l. + +MERCURIO. + + Digo que no quiero abrir: + Dije dos palabras ya. + +AMPHITRIO. + + Ora sus, bargante, abri. + +MERCURIO. + + Si no te vuelves de aqui, + gran peligro te ofreces. + +AMPHITRIO. + + Velhaco, no me conheces. + Ou ests fra de ti? + +MERCURIO. + + Bonito venis, amor. + Quien sois, que hablais tan osado? + +AMPHITRIO. + + Abre, que sou teu Senhor. + +MERCURIO. + + Vulvase de esotro lado, + Y conocerleh mejor. + +AMPHITRIO. + + Ssea moo. + +MERCURIO. + + As me llamo, + Hulgome que lo sepais; + Empero digo que os vais, + Que Amphitrion es mi amo; + Vos id buscar quien seais. + +AMPHITRIO. + + Pois quero saber de ti: + Eu quem sou? + +MERCURIO. + + Y quien sois vs? + Como os llaman? + +AMPHITRIO. + + Abri. + +MERCURIO. + + vos os llaman Abri? + Pues, Abri, andad con Dios. + +AMPHITRIO. + + Quem ha, que possa soffrer + Em sua honra tal destro, + Que para me endoudecer + Me tee negado a mulher, + E agora me nega o moo? + +MERCURIO. + + Mira el encantador + Como se lastima y llora, + Y fuese tomar ahora + La forma de mi Seor, + Para engaar mi Seora. + Pues esperad, y no os vais, + Por un espacio pequeo; + Vern quien representais, + Y l os har que volvais + El falso gesto su dueo. + +AMPHITRIO. + + Vae, velhaco, e chama c + Esse falso feiticeiro; + Que se elle l dentro est, + Esta espada julgar + Qual de ns he o verdadeiro. + + +SCENA IV. + +_Amphitrio, Sosea e Belferro._ + +BELFERRO. + + Ora ninguem presumra + Que tinhas to pouco siso; + Pois vs achar d'improviso + To bem forjada mentra, + Que me faz cahir de riso. + Hum moo, que alevantou + Tal graa, nunca nasceo: + Porque vos jura que achou + Que ou elle em dous se perdeo, + Ou de hum dous se tornou. + +SOSEA. + + Patron, que no burlo, no: + En uno son dos unidos, + Y en dos cuerpos repartidos; + Yo soy l, y l es yo, + De un padre y madre nacidos. + +BELFERRO. + + Esse tu que l ests, + To velhaco he como ti? + +SOSEA. + + Mas aun pienso que es mas: + Por delante y por detrs + Todo se parece m. + Y fue gran merced de Dios + Ayuntar m mas uno, + Que peor fuera de nos, + Si Dios me hiciera ninguno, + Que no de uno hacer dos. + +BELFERRO. + + Assi que, se te perdeste + Vieste a cobrar mais hum: + Mui gentil conta fizeste, + Pois que perdido soubeste + Que eras dous, sendo nenhum. + +SOSEA. + + Pues teneis por abusion + Verdad tan clara, y tan rasa, + Aunque pone admiracion; + Quiera Dios, que all en casa + No halleis otro Patron. + +AMPHITRIO. + + O Patro, que fui buscar, + Parece que vejo vir: + No sei quem o foi chamar; + Mas que me ha de aproveitar + Se me no querem abrir? + Ah Belferro! + +BELFERRO. + + Ah Senhor! + Ja sinto que fui culpado; + Porque quem he convidado, + Se to vagaroso for, + Merece no ser chamado. + +AMPHITRIO. + + A vs quem vos convidou? + +BELFERRO. + + Ssea, por mandado seu. + +AMPHITRIO. + + Disso, Patro, no sei eu; + Que Ssea ja me negou, + E ja se no d por meu. + E se alguem vos foi dizer + Qu'eu vos chamo minha mesa; + Mal vos dara de comer + Quem de todo lhe he defesa + A casa, e mais a mulher. + +BELFERRO. + + Quem he esse to ousado, + Que vos isso faz, Senhor? + +AMPHITRIO. + + Ssea, creio que enganado + Por algum encantador, + Que a honra me tee roubado. + +BELFERRO. + + Se elle aqui comigo vem, + Isso como pde ser? + +AMPHITRIO. + + Ah! que a ra que vou ter, + To cega a vista me tem, + Que mo no deixava ver. + Porque razo, cavalleiro, + No me abris quando vos mando? + Vs fazeis-vos chocarreiro? + +SOSEA. + + Yo Seor? y como? y cuando? + +AMPHITRIO. + + Quereis-lo saber primeiro? + Esperae, dir-se-vos-ha, + Mas ser por outro son. + +SOSEA. + + Ah Seor Amphitrion, + Porque matndome est, + Sin delito, y sin razon? + +AMPHITRIO. + + Agora que vos eu dou + Me chamais Amphitrio, + E para me abrirdes no? + +BELFERRO. + + Este moo em que peccou? + Porque pena sem razo? + No mais por amor de mi. + +AMPHITRIO. + + No, que no sou seu Senhor; + Eu sou hum encantador. + No o dizeis vs assi, + Ladro, perro, enganador? + +SOSEA. + + Porque fuy presto llamar + Por su mandado al Patron, + Me quiere ahora matar? + +AMPHITRIO. + + Quem vo-lo mandou buscar? + +SOSEA. + + Si no hay otro Amphitrion, + Vuestra merced sin dudar. + +AMPHITRIO. + + Eu te mandei? + +SOSEA. + + Si Seor, + Si otro no. + +AMPHITRIO. + + Outro ha aqui, + Por quem tu zombes de mi? + Pois s desse encantador + Me quero vingar em ti. + +SOSEA. + + Oh Jpiter, quien bramo + Por su bondad que me vala! + Pues porque Ssea me llamo, + Yo mismo, y despues mi amo, + Me dieron venida mala! + + + + +ACTO QUINTO. + + +SCENA I. + +_Jupiter, Belferro, Sosea e Amphitrio._ + +JUPITER. + + Quem he o to atrevido, + Que aqui ousa de fazer + To revoltoso arruido + Com meus moos, sem temer, + Que fui sempre to temido? + Quem aqui faz unio, + Toma mui grande despejo. + +BELFERRO. + + Oh grande admirao! + Vejo eu outro Amphitrio, + Ou he sonho isto que vejo? + +SOSEA. + + No mirais la encantacion, + Que aquel hizo mi Seor? + El que sale, Belferron, + Es el cierto Amphitrion, + Que estotro es encantador. + +JUPITER. + + Ssea? + +SOSEA. + + Mi Seor, ya v. + +JUPITER. + + Patro, s por vs espero. + +SOSEA. + + No os lo dicia yo, + Que este era el verdadero, + Y esse que all queda, no? + +AMPHITRIO. + + Bargante, aonde te vs? + Fazes teu Senhor sandeu? + Pois espera, e levars. + +JUPITER. + + l, tornae por detrs, + No deis no moo, que he meu. + +AMPHITRIO. + + Vosso? + +JUPITER. + + Meu. + +AMPHITRIO. + + Pde isto haver, + Que outrem minhas cousas tome? + Vs galante haveis de ser, + O que me tomais o nome, + Casa, moos e mulher. + Eu vos farei conhecer + Com quem tendes esse trato. + +JUPITER. + + Ssea? + +SOSEA. + + Seor. + +JUPITER. + + Vae dizer, + Que apparelhem de comer, + Em quanto este doudo mato. + +BELFERRO. + + Oh Senhor, no seja assim, + Haja em vs concrto algum! + E seno, pois aqui vim, + Farei que s tome em mim + Os golpes de cada hum. + +JUPITER. + + Patro, vossa boa estrella + Me fara deixar com vida + Quem me no merece tella. + +AMPHITRIO. + + No a tenho eu merecida, + Pois que vos deixo com ella. + +BELFERRO. + + O homem que for sisudo, + N'huma to grande questo + Ha de tomar por escudo + A justia, e a razo; + Que estas armas vencem tudo. + E pois essa natureza + Muitos homens faz iguais, + D qualquer de vs signais + De quem he, para certeza + Da frma que ambos mostrais. + +JUPITER. + + Sou contente de mostrar + Polos sinaes que vos dou, + Que so estes sem faltar. + +AMPHITRIO. + + Que sinaes podeis vs dar, + Para que sejais quem sou? + +JUPITER. + + Estes, que logo vereis + Se so vos, se de raiz. + Patro, vs sde juiz, + Que vs logo enxergareis + Qual mais verdade vos diz. + +BELFERRO. + + Eu no sinto onde consista + A cura desta doena, + Que ha to pouca differena, + Que aquelle em que ponho a vista, + Por esse dou a sentena. + Mas, Senhor, vs que ordenastes + Que o juiz disto fosse eu, + Quando se a batalha deu, + Dizei, que m'encommendastes + Que ficasse a cargo meu? + +JUPITER. + + + Dei-vos cargo, qu'estivesse + Toda a Armada a bom recado, + E, se mal nos succedesse, + Que para os vivos houvesse + O refugio apparelhado. + +BELFERRO. + + Ora vs quantos dobres + Esse dia m'entregastes? + +AMPHITRIO. + + Tres mil; e vs os contastes. + +BELFERRO. + + Ambos sois Amphitries + Pelos sinaes que mostrastes. + +JUPITER. + + Para ser mais conhecida + A teno deste sandeu, + Vde est'outro sinal meu, + Que he neste brao a ferida + Que me ElRei Terela deu. + +BELFERRO. + + Mostrae vs, Senhor, tambem. + +AMPHITRIO. + + Aqui o podeis olhar. + +BELFERRO. + + Oh cousa para espantar! + Que ambos a ferida tem + D'hum tamanho, em hum lugar! + + +SCENA II. + +_Jupiter, Amphitrio e Sosea._ + +SOSEA. + + Dice mi Seora Alcmena + Que no se ha de as de estar + Con un bobo razonar, + Que se le enfria la cena. + +JUPITER. + + Belferro, vamos cear. + +AMPHITRIO. + + Belferro, no me deixeis. + Como? tambem me negais? + +JUPITER. + + Andae, no vos detenhais, + Vamos comer, se quereis, + No ouais hum doudo mais. + +AMPHITRIO. + + Ah maos! assi me ordenais + Offensa to mal olhada? + Eu farei, se m'esperais, + Com que todos conheais + Os fios da minha espada. + +JUPITER. + + As portas prestes fechemos, + No entre este doudo c. + +SOSEA. + + De fuera se dormir: + Entre tanto que cenemos, + Puede pasearse all. + + +SCENA III. + +AMPHITRIO _s_. + + Oh ira para no crer, + Em que minh'alma se abraza, + Que me faz endoudecer, + E no me ajuda a romper + As paredes desta casa! + E porque? No tenho eu + Foras, que tudo destrua? + Pois que tanto a salvo seu, + Outrem acho que possua + A melhor parte do meu; + Eu irei hoje buscar + Quem me ajude a vir queimar + Toda esta casa sem pena, + Donde veja arder Alcmena, + Com quem a vejo enganar. + + +SCENA IV. + +_Aurelio e Moo._ + +AURELIO. + + No hallo mis males culpa, + Para que merezca pena + La causa que me condena. + +MOO. + + Essa est gentil desculpa + Para hoje dar a Alcmena! + Tee-no mandado chamar, + E elle est to descuidado! + +AURELIO. + + Moo, queres-me matar? + Que desculpa posso eu dar + Melhor qu'este meu cuidado? + +MOO. + + E no ha mais que fazer? + Com isso a boca me tapa + Para mais nada dizer? + +AURELIO. + + Ora d-me c essa capa + E vamos ver o que quer: + No trates de mais razo, + Pois no ha quem te resista. + Que vejo? outra novao! + +MOO. + + Que he? + +AURELIO. + + Ou me mente a vista, + Ou eu vejo Amphitrio. + +MOO. + + Eu ouvi a Feliseo, + Quando c trouxe o recado, + Como elle era chegado, + E quiz-me dizer que veo + Do siso desconcertado. + +AURELIO. + + Isso quero eu ir saber, + Pois que tal cousa se sa. + + +SCENA V. + +_Aurelio e Amphitrio._ + +AURELIO. + + Senhor, pde-se dizer + Que a vinda seja mui boa? + +AMPHITRIO. + + Essa no pde ella ser. + +AURELIO. + + Porque no? + +AMPHITRIO. + + Porque he roubada + Minha honra sem temor, + E minha casa tomada, + E vossa Prima enganada + Por hum grande encantador. + +AURELIO. + + Isso he certo? + +AMPHITRIO. + + E manifesto: + E tudo tee ja por seu + Adltero e deshonesto: + Tee-me tomado o meu gesto, + E faz-lhe crer que sou eu. + +AURELIO. + + Contais hum caso d'espanto! + E pois no podeis entrar, + Defendei-me por em tanto, + Que eu hei l de chegar + Para ver quem pde tanto, + + +SCENA VI. + +AMPHITRIO _s_. + + Se ver deshonra to clara + Me no tivera o sentido + Totalmente endoudecido, + Que gravemente chorra + Ver to grande amor perdido! + E quando vejo a verdade + Do nosso amor e amizade + Desfeita com tanta mgoa + Enchem-se-me os olhos d'goa, + E a alma de saudade. + Assi que quiz minha estrella, + Para nunca ser contente, + Que agora, estando presente + Viva mais saudoso della, + Que quando della era ausente. + Esta porta vejo abrir + Com impeto demasiado, + Que poderei presumir, + Que vejo Aurelio sahir, + Como homem desatinado? + + +SCENA VII. + +_Amphitrio, Aurelio, Belferro e Sosea._ + +AURELIO. + + Oh estranha novidade! + Oh cousa para no crer! + +BELFERRO. + + Venho cego de verdade, + Que no pudero soffrer + Meus olhos a claridade. + +SOSEA. + + Oh triste, que vengo ciego + Con rayos, y con visiones! + Y destas encantaciones, + Si nuestra casa arde en fuego, + Han se de arder mis colchones. + +AURELIO. + + Vamos a Amphitrio + Contar-lhe cousas tamanhas. + +AMPHITRIO. + + Que vai l? que cousas vo? + +AURELIO. + + Maravilhas to estranhas, + Que me treme o corao. + Porque aquelle homem, que assi + Tantos enganos teceo, + Como era cousa do Ceo, + Tanto qu'eu appareci, + Logo desappareceo. + E em desapparecendo + Com ruido grande e horrendo, + Toda a casa allumiou; + E de arte nos inflammou, + Que nos vimos acolhendo + Do raio que nos cegou. + Estes acontecimentos + No so de humana pessoa. + Vs ouvis a voz que soa? + Escutae, estae attentos; + Vejamos o que prega. + +JUPITER, _de dentro_. + + Amphitrio, qu'em teus dias + Vs tamanhas estranhezas, + No t'espantem phantasias, + Que s vezes grandes tristezas + Parem grandes alegrias. + Jupiter sou manifesto + Nas obras de admirao, + Que por mi causadas so: + Quiz-me vestir em teu gesto, + Por honrar tua gerao. + Tua mulher parir + Hum filho de mi gerado, + Que Hercules se chamar, + O mais valente e esforado, + Que no mundo se achar. + Com este, teus successores + Se honraro de serem teus; + E dar-lhe-ho os escriptores, + Por doze trabalhos seus, + Doze milhes de louvores. + E dessa illustre fadiga + Colhers mui rico fruito: + Enfim, a razo me obriga + Que to pouco delle diga, + Porque o tempo dir muito. + + * * * * * + + + + +FILODEMO, + +COMEDIA. + + +INTERLOCUTORES. + + FILODEMO. + VILARDO, seu moo. + DIONYSA. + SOLINA, sua moa. + VENADORO. + MONTEIRO. + DORIANO, amigo de Filodemo. + HUM PASTOR. + HUM BOBO, filho do pastor. + FLORIMENA, pastora. + DOM LUSIDARDO, pae de Venadoro. + DOLOROSO, amigo de Vilardo. + TRES PASTORES. + + +ARGUMENTO. + +Hum Fidalgo Portuguez, que acaso andava nos Reinos de Dinamarca, como +por largos amores e maiores servios, tivesse alcanado o amor de huma +filha d'el Rei, foi-lhe necessario fugir com ella em huma gal, por +quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo chegados costa +de Hespanha, onde elle era senhor de grande patrimonio, armou-se-lhe +grande tormenta, que sem nenhum remedio, dando a gal costa, se +perdro todos miseravelmente, seno a Princeza, que em huma taboa foi +praia: a qual, como chegasse o tempo de seu parto, junto de huma fonte +pario duas crianas, macho e femia; e no tardou muito que hum pastor +Castelhano, que naquellas partes morava, ouvindo os tenros gritos dos +meninos, lhe acudio a tempo que a me ja tinha espirado. Crescidas, +emfim, as crianas debaixo da humanidade e criao daquelle pastor, o +macho que Filodemo se chamou vontade de quem os baptizra, levado da +natural inclinao, deixando o campo, se foi para a cidade, aonde por +musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo, irmo de seu +Pae, a quem muitos annos servio sem saber o parentesco que entre ambos +havia. E como de seu Pae no tivesse herdado nada mais que os altos +espiritos, namorou-se de Dionysa, filha de seu Senhor e Tio, que +incitada ao que por suas obras e boas partes merecia, ou porque ellas +nada engeito, lhe no queria mal. Aconteceo mais, que Venadoro, filho +de D. Lusidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao exercicio da caa, +andando hum dia no campo apos hum cervo, se perdeo dos seus; e indo dar +em huma fonte, onde estava Florimena, irma de Filodemo (que assim lhe +pozero o nome) enchendo huma talha de goa, se perdeo de amores por +ella, que se no soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava, +at que seu Pae o no foi buscar. O qual informado pelo pastor que a +crira (que era homem sabio na Arte Magica) de como a achra e como a +crira, no teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha, e +prima de Filodemo; e a Venadoro seu filho, com Florimena sua sobrinha, +irma de Filodemo pastor; e tambem pela muita renda que tinha e de seu +Pae ficra, de que elles ero verdadeiros herdeiros. Das mais +particularidades da Comedia, fara meno o Auto, que he o seguinte. + + + + +FILODEMO, + +COMEDIA. + + + + +ACTO PRIMEIRO. + + +SCENA I. + +_Filodemo e Vilardo._ + +FILODEMO. + + Moo Vilardo? + +VILARDO. + + Ei-lo vae. + +FILODEMO. + + Fallae era m, fallae, + E sahi c para a sala. + O villo como se cala! + +VILARDO. + + Pois, Senhor, sahi a meu pae, + Que quando dorme no fala. + +FILODEMO. + + Trazei c huma cadeira: + Ouvis, villo? + +VILARDO. + + Senhor, sim. + (Se m'ella no traz a mim. + Vejo-lh'eu ruim maneira.) + +FILODEMO. + + Acabae, villo ruim. + Que moo para servir + Quem tee as tristezas minhas! + Quem pudesse assi dormir! + +VILARDO. + + Senhor, nestas manhzinhas + No ha hi seno cahir: + Por demais he trabalhar + Qu'este somno se me ausente. + +FILODEMO. + + Porque? + +VILARDO. + + Porque ha d'assentar + Que se no for com po quente, + No ha de desaferrar. + +FILODEMO. + + Ora hi pelo que vos mando, + Villo feito de fermento. _Sahe Vilardo._ + Triste do que vive amando + Sem ter outro mantimento, + Qu'estar s phantasiando! + S hua cousa me desculpa + Deste cuidado que sigo, + Ser de tamanho perigo, + Que cuido que a mesma culpa + Me fica sendo castigo. + +_Vem o moo, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante_ + +FILODEMO. + + Ora quero praticar + S comigo hum pouco aqui; + Que despois que me perdi, + Desejo de me tomar + Estreita conta de mi. + Vae para fra, Vilardo. + Torna c: vae-me saber + Se se quer ja l erguer + O Senhor Dom Lusidardo, + E vem-mo logo dizer. _Vai-se o moo._ + Ora bem, minha ousadia, + Sem azas, pouco segura, + Quem vos deo tanta valia, + Que subais a phantasia + Onde no sobe a ventura? + Por ventura eu no nasci + No mato, sem mais valer, + Que o gado ao pasto trazer? + Pois donde me veio a mi + Saber-me to bem perder? + Eu, nascido entre pastores, + Fui trazido dos currais, + E d'entre meus naturais + Para casa dos Senhores, + Donde vim a valer mais. + E agora logo to cedo + Quiz mostrar a condio + De rustico e de villo! + Dando-me ventura o dedo, + Lhe quero tomar a mo! + Mas oh! qu'isto no he assi, + Nem so villos meus cuidados, + Como eu delles entendi; + Mas antes, de sublimados, + Os no posso crer de mi. + Porque como hei eu de crer + Que me faa minha estrella + To alta pena soffrer, + Que somente pola ter + Mereo a gloria della? + Seno se amor, d'attentado, + Porque me no queixe delle, + Tee por ventura ordenado + Que merea o meu cuidado, + S por ter cuidado nelle. + + +SCENA II. + +_Vilardo e Filodemo._ + +VILARDO. + + O Senhor Dom Lusidardo + Dorme com todo o convento; + E elle com o pensamento + Quer estar fazendo alardo + De castellinhos de vento! + Pois to cedo se vestio, + Com seu damno se conforme, + Pezar de quem me pario; + Que ainda o sol no sahio: + Se vem mo, tambem dorme. + Elle quer-se levantar + Assi pela manhzinha! + Pois quero-o desenganar: + Nem por muito madrugar + Amanhece mais asinha. + +_Filodemo._ + + Traze-me a viola c. + +VILARDO. + + (Voto a tal que me vou rindo.) + Senhor, tambem dormir. + +FILODEMO. + + Traze-a, moo. + +VILARDO. + + Si, vir, + Se no estiver dormindo. + +FILODEMO. + + Ora hi polo que vos mando: + No gracejeis. + +VILARDO. + + Eis-me vou: + Pois, pezar de So Fernando! + Por ventura sou eu grou? + Sempre hei d'estar vigiando? _Sahe._ + +FILODEMO. + + Ah Senhora, que podeis + Ser remedio do que peno, + Quo mal ora cuidareis + Que viveis e que cabeis + N'hum corao to pequeno! + Se vos fosse apresentado + Este tormento em que vivo, + Crerieis que foi ousado + Este vosso, de criado + Tornar-se vosso captivo? + + +SCENA III. + +_Filodemo e Vilardo._ + +VILARDO. + + Ora eu creio, se he verdade + Qu'estou de todo acordado, + Que meu amo he namorado; + E a mi d-me na vontade + Que anda hum pouco abalado. + E se tal he, eu daria + Por conhecer a donzella + A rao d'hoje este dia; + Porque a desenganaria, + Somente por ter d della. + Havia-lhe perguntar: + Senhora, de que comeis? + Se comeis d'ouvir cantar, + De fallar bem, de trovar, + Em boa hora casareis. + Porm se vs comeis po, + Tende, Senhora, resguardo; + Qu'eis-aqui est Vilardo, + Qu'he como hum camaleo, + Por isso, bus, fazei fardo. + E se vs sois das gamenhas, + E houverdes d'attentar + Por mais que por manducar, + Mi cama son duras peas, + Mi dormir siempre es velar. + A viola, Senhor, vem + Sem primas, nem derradeiras: + Mas sabe o que lhe convem? + Se quer, Senhor, tanger bem, + Ha de haver mister terceiras. + E se estas cantigas vossas + No forem para escutar, + E quizerdes espirar; + Ha mister cordas mais grossas, + Porque no posso quebrar. + +FILODEMO. + + Vae para fra. + +VILARDO. + + Ja venho. + +FILODEMO. + + Qu'eu s desta phantasia + Me sostenho e me mantenho. + +VILARDO. + + Quamanha vista que tenho, + Que vejo a estrella do dia! _Sahe._ + + +SCENA IV. + +FILODEMO, _cantando_. + + Ad sube el pensamiento, + Seria una gloria inmensa + Si all fuese quien lo piensa. + +_Falla._ + + Qual espirito divino + Me far a mi sabedor + Deste meu mal, se he amor, + Se por dita desatino? + Se he amor, diga-me qual + Pde ser seu fundamento, + Ou qual he seu natural, + Ou porque empregou to mal + Hum to alto pensamento. + Se he doudice, como em tudo + A vida me abraza e queima, + Ou quem vio n'hum peito rudo + Desatino to sisudo, + Que toma to doce teima? + Ah Senhora Dionysa, + Onde a natureza humana + Se mostrou to soberana! + O que vs valeis me avisa, + Mas o qu'eu peno m' engana. + + +SCENA V. + +_Solina e Filodemo._ + +SOLINA. + + Tomado estais vs agora, + Senhor, co'o furto nas mos. + +FILODEMO. + + Solina, minha Senhora, + Quantos pensamentos vos + Me ouvirieis lanar fra? + +SOLINA. + + Oh Senhor, quo bem que sa + O tanger de quando em quando! + Bem sei eu huma pessoa, + Que haja huma hora, e boa, + Que vos est escutando. + +FILODEMO. + + Por vida vossa, zombais? + Quem he? quereis-mo dizer? + +SOLINA. + + No o haveis vs de saber, + Bof se me no peitais. + +FILODEMO. + + Dar-vos-hei quanto tiver, + Para taes tempos como estes. + Quem tivera voz dos Ceos, + Pois escutar me quizestes! + +SOLINA. + + Assi parea eu a Deos, + Como lhe vs parecestes. + +FILODEMO. + + A Senhora Dionysa + Quer-se ja alevantar? + +SOLINA. + + Assi me veja eu casar, + Como despida em camisa + Se ergueo por vos escutar. + +FILODEMO. + + Em camisa levantada! + To ditosa he minha estrella? + Ou mo dizeis refalsada? + +SOLINA. + + Pois bem me defendeo ella + Que vos no dissesse nada. + +FILODEMO. + + Se pena de tantos annos + Merecer algum favor, + Para cura de meus dannos + Fartae-me desses engannos, + Que no quero mais de Amor. + +SOLINA. + + Agora quero eu fallar + Neste caso com mais tento; + Quero agora perguntar: + E de siso his vs tomar + Hum to alto pensamento? + Certo he minha maravilha, + Se vs isto no sentis + Bem: vs como no cahis + Que Dionysa qu'he filha + Do Senhor a quem servis? + Como? Vs no attentais + Os Grandes, de qu'he pedida? + Peo-vos que me digais + Qual he o fim que esperais + Neste caso, em vossa vida. + Que razo boa, ou que cr + Podeis dar a esta affeio? + Dizei-me vossa teno. + +FILODEMO. + + Onde vistes vs amor + Que se guie por razo? + Se quereis saber de mi + Que fim, ou de que theor + O pretendo em minha dor; + S'eu neste amor quero fim, + Sem fim me atormente Amor. + Mas vs com gloria fingida + Pretendeis de m'enganar, + Por assi mal me tratar: + Assi que me dais a vida + Somente por me matar. + +SOLINA. + + Eu digo-vos a verdade. + +FILODEMO. + + Da verdade fujo eu, + Porque se o Amor me deu + Pena de tal qualidade, + Assaz me custa do meu. + +SOLINA. + + Flgo muito de saber + Que sois amante to fino. + +FILODEMO. + + Pois mais vos quero dizer, + Que s vezes no imaginar + No ouso de m' estender. + Na hora que imaginei + Na causa de meu tormento, + Tamanha gloria levei, + Que por onas desejei + De lograr o pensamento. + +SOLINA. + + Se me vs a mi jurardes + De me terdes em segredo + Huma cousa... mas hei medo + De logo tudo contardes. + +FILODEMO. + + A quem? + +SOLINA. + + quelle enxovedo. + +FILODEMO. + + Qual? + +SOLINA. + + Aquelle mao pezar, + Que ant'hontem comvosco hia. + Quem se fosse em vs fiar! + O que vos disse o outro dia, + Tudo lhe fostes contar. + +FILODEMO. + + Que lhe contei? + +SOLINA. + + Ja lh'esquece? + +FILODEMO. + + Por certo qu'estou remoto. + +SOLINA. + + Hi, que sois hum cesto roto. + +FILODEMO. + + Esse homem tudo merece. + +SOLINA. + + Vs sois muito seu devoto. + +FILODEMO. + + Senhora, no hajais medo: + Contae-m'isso, e far-me-hei mudo. + +SOLINA. + + Senhor, o homem sisudo, + Se em taes cousas tee segredo, + Saiba que alcanar tudo. + A Senhora Dionysa + Crede que mal vos no quer: + No vos posso mais dizer. + Isto tende por balisa + Com que vos saibais reger. + Qu'em mulheres, se attentais, + O querer est visibil; + E se bem vos governais, + No desespereis do mais, + Porque, emfim, tudo he possibil. + +FILODEMO. + + Senhora, pde isso ser? + +SOLINA. + + Si, que tudo o mundo tem: + Olhae no o saiba alguem. + +FILODEMO. + + E que maneira hei de ter + Para crer tamanho bem? + +SOLINA. + + Vs, Senhor, o sabereis; + E ja que vos descobri + Tamanho sogredo aqui, + Huma merc me fareis + Em que me vai muito a mi. + +FILODEMO. + + Senhora, a tudo me obrigo + Quanto for em minha mo. + +SOLINA. + + Pois dizei a vosso amigo + Que no gaste tempo em vo, + Nem queira amores comigo. + Porque eu tenho parentes, + Que me podem bem casar; + E mais que no quero andar + Agora em boca de gentes + A quem s'elle vai gabar. + +FILODEMO. + + Senhora, mal conheceis + O que vos quer Duriano: + Sabei-o, se o no sabeis, + Qu'em sua alma sente o dano + Do pouco que lhe quereis; + E que outra cousa no quer, + Que ter-vos sempre servida. + +SOLINA. + + Pola sua negra vida, + Isso havia eu bem mister. + +FILODEMO. + + Vs sois desagradecida! + +SOLINA. + + Si, que tudo so enganos + Em tudo quanto fallais. + +FILODEMO. + + No quero que me creais: + Crede o tempo; que ha dous anos + Que vos serve, e inda mais. + +SOLINA. + + Senhor, bem sei que m'engano; + Mas a vs, como a irmo, + Descubro este corao: + Sabei que a Duriano + Tenho sobeja affeio. + Olhae que lhe no digais + Isto que vos aqui digo. + +FILODEMO. + + Senhora, mal me tratais: + Inda que sou seu amigo, + Sabei que vosso sou mais. + +SOLINA. + + E ja que vos confessei + Aquestas fraquezas minhas, + Que ha tanto que de mi sei; + Fazei vs nas cousas minhas + O qu'eu nas vossas farei. + +FILODEMO. + + Vs enxergareis, Senhora, + O qu'eu por vs sei fazer. + +SOLINA. + + Como me deixo esquecer! + Aqui estivera agora + Fallando t anoitecer. + Vou-me; e olhae quanto val + O que passou entre ns. + +FILODEMO. + + E porque vos ides vs? + +SOLINA. + + Porque parece ja mal + Estar aqui ambos ss. + E mais vou vestir agora + A quem vos d to m vida. + Ficae-vos, Senhor, embora. + +FILODEMO. + + Nessa ide vs, Senhora, + Que ja vos tenho entendida. + + +SCENA VI. + +FILODEMO _s_. + + Ora se pde isto ser + Do qu'esta moa me avisa, + Que a Senhora Dionysa, + Por me ouvir, se fosse erguer + Da sua cama em camisa! + E diz que mal me no quer. + No queria maior gloria; + Mas o que mais posso crer, + Que nem para lhe esquecer + Lhe passo pela memoria. + Mas ter Solina tambem + Em Duriano o intento, + He levar-me a lenha o vento; + Porque s'ella lhe quer bem, + Para bem vai meu tormento. + Mas foi-se este homem perder + Neste tempo, de maneira, + Por huma mulher solteira, + Que no me atrevo a fazer + Que hum pequeno bem lhe queira. + Porm far-lhe-hei hum partido, + Porqu'ella no se querelle: + Que se mostre seu perdido, + Inda que seja fingido, + Como lh'outrem faz a elle. + E ja que me satisfaz, + E tanto nisto se alcana, + D-lhe fingida esperana: + Do mal que lhe outrem faz, + Tomar nella vingana. + + +SCENA VII. + +VILARDO _s_. + + Ora boa est a cilada + De meu amo com sua ama, + Que se levantou da cama + Por ouvi-lo! Est tomada: + Assi a tome m trama. + E mais crede que quem canta, + Ainda descantar; + E quem do leito, onde est, + Por ouvi-lo se levanta, + Mor desatino far. + Quem havia de cuidar, + Que dama formosa e bella + Saltasse o demonio nella, + Para a fazer namorar + De quem no he igual della? + Que me dizeis a Solina? + Como se faz Celestina, + Que por no lhe haver inveja + Tambem para si deseja + O que o desejo lh'ensina! + Crede que se me alvoro, + Que a hei de tomar por dama; + E no ser gro destro, + Pois o amo quer a ama, + Que a moa queira o moo. + Vou-me; que vejo l vir + Venadoro, apercebido + Para a caa se partir: + E voto a tal, que he partido + Para ver e para ouvir. + Que he razo justa e rasa + Que seu folgar se desconte + Em quem arde como brasa; + Que se vai caar ao monte, + Fique outrem caando em casa. + + +SCENA VIII. + +VENADORO _s_. + + Aprovada antiguamente + Foi, e muito de louvar + A occupao do caar, + E da mais antigua gente + Havida por singular. + He o mais contrrio officio + Que tee a ociosidade, + Me de todo o bruto vcio: + Por este limpo exercicio + Se reserva a castidade. + Este dos grandes Senhores + Foi sempre muito estimado; + E he grande parte do estado + Ter monteiros, caadores, + Como officio qu'he prezado. + Pois logo porque razo + A meu pae ha de pezar + De me ver ir a caar? + E to boa occupao + Que mal me pde causar? + + +SCENA IX. + +_Venadoro e o Monteiro._ + +MONTEIRO. + + Senhor, venho alvoroado, + E mais com muita razo. + +VENADORO. + + Como assi? + +MONTEIRO. + + Que me he chegado + O mais extremado co, + Que nunca caou veado. + Vejamos que me ha de dar. + +VENADORO. + + Dar-vos-hei quanto tiver; + Mas ha-se d'exprimentar, + Para se poder julgar + As manhas que pde ter. + +MONTEIRO. + + Pde assentar qu'este co, + Que tee das manhas a chave. + Bem feito? Em admirao. + Pois em ligeiro? He huma ave. + Em commetter? Hum leo. + Com porcos? Maravilhoso. + Com veados? Extremado. + Sobeja-lhe o ser manhoso. + +VENADORO. + + Pois eu ando desejoso + D'irmos matar hum veado. + +MONTEIRO. + + Pois, Senhor, como no vae? + +VENADORO. + + Vamos, e vs mui ligeiro + O necessario ordenae; + Qu'eu quero chegar primeiro + Pedir licena a meu pae. + + + + +ACTO SEGUNDO. + + +SCENA I. + +DURIANO. + +Pois no creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pr p em ramo verde, t +lhe dar trezentos aoutes. Despois de ter gastado perto de trezentos +cruzados com ella, porque logo lhe no mandei o setim para as mangas, +fez de mim mangas ao demo. No desejo eu de saber, seno qual he o +galante que me succedeo; que se vo-lo eu colho a balravento, eu lhe +farei botar ao mar quantas esperanas lhe a fortuna tee cortado +minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com o dinheiro, como a +mar com a lua: bolsa cheia, amor em goas vivas; mas se vasa, vereis +espraiar este engano, e deixar em scco quantos gostos andavo como o +peixe na goa. + + +SCENA II. + +_Filodemo e Duriano._ + +FILODEMO. + + l! c sois vs? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me +sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos +tire como huma alma. + +DURIANO. + +Oh maravilhosa pessoa! Vs he certo que vos prezais de mais certo em +casa, que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem mo, os +pensamentos com os focinhos quebrados, de cahirem onde vs sabeis. Pois +sabeis, Senhor Filodemo, quaes so os que me mto? Huns muito bem +almofaados, que com dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezo de +brandos na conversao, e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo +que no daro meia hora de triste pelo thesouro de Veneza; e gbo mais +Garcilasso que Bosco; e ambos lhe sahem das mos virgens; e tudo isto +por vos meterem em consciencia que se no achou para mais o gro Capito +Gonalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia do mundo +faro altos espiritos: e eu no trocarei duas pescoadas da minha etc., +depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e +fingir-se-me bebada, porque o no parea, por quantos Sonetos esto +escriptos polos troncos dos rvores do vale Luso, nem por quantas +Madamas Lauras vs idolatrais. + +FILODEMO. + +T, t, no vades avante, que vos perdeis. + +DURIANO. + +Aposto que adivinho o que quereis dizer? + +FILODEMO. + +Que? + +DURIANO. + +Que se me no acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a +herege de amor. + +FILODEMO. + +Oh que certeza tamanha, o muito peccador no se conhecer por esse! + +DURIANO. + +Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinio! Mas +tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he +cousa de vossa saude, tudo farei. + +FILODEMO. + +Como templar el destemplado? Quem poder dar o que no tee, Senhor +Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo: no pde ser que a natureza no +faa em vs o que a razo no pde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porm +he necessario que primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis +para hum canto da casa todos esses maos pensamentos; porque segundo +andais mal avinhado, damnareis tudo aquillo que agora lanarem em vs. +Ja vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra cousa que no he +servir a Senhora Dionysa; e postoque a desigualdade dos estados o no +consinta, eu no pretendo della mais que o no pretender della nada, +porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que este meu amor he como +a ave Phenix, que de si s nasce, e no de outro nenhum interesse. + +DURIANO. + +Bem praticado est isso; mas dias ha que eu no creio em sonhos. + +FILODEMO. + +Porque? + +DURIANO. + +Eu vo-lo direi: porque todos vs-outros os que amais pela passiva, +dizeis que o amor fino como melo, no ha de querer mais de sua dama que +am-la; e vir logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a +trezentos Plates, mais afado que as luvas de hum pagem d'arte, +mostrando razes verisimeis e apparentes, para no quererdes mais de +vossa dama que v-la; e ao mais at fallar com ella. Pois inda achareis +outros esquadrinhadores d'amor, mais especulativos, que defendero a +justa por no emprenhar o desejo; e eu (fao-vos voto solemne) se a +qualquer destes lhe entregassem sua dama tosada e apparelhada entre dous +pratos, eu fico que no ficasse pedra sbre pedra: e eu ja de mi vos sei +confessar que os meus amores ho de ser pela activa, e que ella ha de +ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu de, +v v. m. co'a historia por diante. + +FILODEMO. + +Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dvida entre os +Doctores: assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mo, +bem trinta ou quarenta legoas pelo serto dentro de hum pensamento, +seno quando me tomou traio Solina; e entre muitas palavras que +tivemos, me descobrio que a Senhora Dionysa se levantra da cama por me +ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando quasi hora e meia. + +DURIANO. + +Cobras e tostes, sinal de terra: pois ainda vos no fazia tanto avante. + +FILODEMO. + +Finalmente, veio-me a descobrir, que me no queria mal, que foi para mi +o maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a +soffrer por sua causa, e no tenho agora sogeito para tamanho bem. + +DURIANO. + +Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser so. Se vos +deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca +chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanas ao leme; +que eu vos fao bom que s duas enxadadas acheis goa. E que mais +passastes? + +FILODEMO. + +A maior graa do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vs; e +me quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vs merecesseis. + +DURIANO. + +Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor? +porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que +dizer poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella +quer que eu caia. + +FILODEMO. + +Nem eu no quero que lho queirais, mas que lhe faais crer que lho quereis. + +DURIANO. + +No... quant dessa maneira me offereo a romper meia duzia de servios +alinhavados s panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais +fiel amante que nunca calou esporas; e se isto no bastar, salgan las +palabras mas sangrientas del corazon, entoadas de feio, que digo que +sou hum Mancias, e peor ainda. + +FILODEMO. + +Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro, +irmo da Senhora Dionysa, he fra caa; e sem elle fica a casa +despejada; e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu +passatempo he enxertar e dispr, e outros exercicios d'agricultura, +naturaes a velhos: e pois o tempo nos vem medida do desejo, vamo-nos +l; e se puderdes fallar, fazei de vs mil manjares, porque lhe faais +crer que sois mais esperdiado d'amor que hum Braz Quadrado. + +DURIANO. + +Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas, +com que vosso feito venha luz. + + +SCENA III. + +_Dionysa e Solina._ + +DIONYSA. + + Solina, mana. + +SOLINA. + + Senhora. + +DIONYSA. + + Trazei-me c a almofada; + Que a casa est despejada, + E esta varanda c fra + Est melhor assombrada. + Trazei a vossa tambem + Para estarmos c lavrando; + Em quanto meu pae no vem, + Estaremos praticando, + Sem nos estorvar ninguem. + +SOLINA. + + Este he o mesmo lugar + Onde estava o bem logrado, + Tal que de muito enlevado + Se esquecia do cantar + Por se enlevar no cuidado. + +DIONYSA. + + Vs, mana, sois mui ruim! + Logo lhe fostes contar + Que me ergui polo escutar. + +SOLINA. + + Eu o disse? + +DIONYSA. + + Eu no o ouvi? + Como mo quereis negar? + +SOLINA. + + E pois isso que releva? + Que se perde nisso agora? + +DIONYSA. + + Que se perde! Assi, Senhora, + Folgareis vs que se atreva + A cont-lo l por fra? + Que se lhe meta em cabea + Alguma parvoa teno? + Que faa, se vem mo, + Algua cousa que parea? + +SOLINA. + + Senhora, no tee razo. + +DIONYSA. + + Eu sei mui bem attentar + Do que se ha de ter receio, + E do que he para estimar. + +SOLINA. + + No he o demo to feio + Como alguem o quer pintar; + E no se espera isso delle, + Que no he ora to moo. + E Vossa Merc asselle + Que qualquer segredo nelle + He como huma pedra em poo. + +DIONYSA. + + E eu que segredo quero + Co'hum criado de meu pae? + +SOLINA. + + E vs, mana, fazeis fero? + Ao diante vos espero, + Se adiante o caso vae. + +DIONYSA. + + O madrao! quem o vir + Fallar de siso co'ella... + Ento vs, gentil donzella, + Folgais muito de o ouvir? + +SOLINA. + + Si, porque me falla nella; + E eu como ouo fallar + Nella, como quem no sente, + Folgo de o escutar, + S para lhe vir contar + O que della diz a gente; + Qu'eu no quero nada delle. + E mais, porque est fallando? + No m'esteve ella rogando + Que fosse fallar com elle? + +DIONYSA. + + Disse-vo-lo assi zombando. + Vs logo tomais em grosso + Tudo quanto me escutais. + Parvo! que v-lo no posso. + +SOLINA. + + Ella alli, e o co co'o osso! + Inda isto ha de vir a mais. + Pois que tal odio lhe tem, + Fallemos, Senhora, em al; + Mas eu digo que ninguem + Merece por querer bem + Que a quem lho quer, queira mal. + +DIONYSA. + + Deixae-o vs doudejar. + Se meu pae, ou meu irmo, + O vierem a aventar, + No ha elle de folgar. + +SOLINA. + + Deos meter nisso a mo. + +DIONYSA. + + Ora hi polas almofadas, + Que quero hum pouco lavrar; + Por ter em que me occupar; + Qu'em cousas to mal olhadas + No se ha o tempo de gastar. + +SOLINA. + + Que cousa somos mulheres! + Como somos perigosas! + E mais estas to viosas + Qu'esto boca _que queres_ + E adoecem de mimosas! + Se eu no caminho agora + A seu desejo e vontade; + Como faz esta Senhora, + Fazem-se logo nessa hora + Na volta da honestidade. + Quem a vira o outro dia + Hum poucochinho agastada, + Dar no cho com a almofada, + E enlevar a phantasia, + Toda n'outra transformada! + Outro dia lhe ouviro + Lanar suspiros a mlhos, + E com a imaginao + Cahir-lhe a agulha da mo, + E as lagrimas dos olhos. + Ouvir-lhe-heis derradeira + A ventura maldizer, + Porque a foi fazer mulher. + Ento diz que quer ser Freira; + E no se sabe entender. + Ento gaba-o de discreto, + De musico e bem disposto, + De bom corpo e de bom rosto. + Quant ento eu vos prometo, + Que no tee delle desgsto. + Despois, se vem a attentar, + Diz que he muito mal feito + Amar homem deste geito; + E que no pde alcanar + Pr seu desejo em effeito. + Logo se faz to Senhora, + Logo lhe ameaa a vida, + Logo se mostra nessa hora + Muito segura de fra, + E de dentro est sentida. + Bof, segundo vou vendo, + Se esta postema vier, + Como eu suspeito, a crescer, + Muito ha que della entendo + O fim que pde vir ter. + + +SCENA IV. + +_Duriano e Filodemo._ + +DURIANO. + +Ora deixae-a ir, que vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como +hei de fazer; que no ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se. + +FILODEMO. + +Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a d Senhora +Dionysa; que me vai nisso muito. + +DURIANO. + +Por mulher de to bom engenho a tendes? + +FILODEMO. + +E porque me perguntais isso? + +DURIANO. + +Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta +mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta. + +FILODEMO. + +No lhe digais que vos disse nada, porque cuidar que por isso lhe +fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fao + vossa teno. + +DURIANO. + +Deixae-me vs a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes +vintes, que vs; e eu vo-la farei hoje vir a ns sem gafas; e vs +entretanto acolhei-vos a sagrado, porque ei-la l vem. + +FILODEMO. + +Olhae l: fazei que a no vdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a +nosso caso. + +DURIANO. + +Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia +no la espero remediar. Pois no devia assi de ser, polos santos +Evangelhos! mas muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos, +ando s vessas. Ora, emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen +aflojar cuando mas duelen.) + + +SCENA V. + +_Solina e Duriano._ + +SOLINA, _com a almofada_. + + Aqui anda passeando + Duriano, e s comsigo + Pensamentos praticando: + Daqui posso estar notando + Com quem sonha, se he comigo. + +DURIANO. + + Ah quo longe estar agora + Minha Senhora Solina + De saber que estou bem fra + De ter outra por senhora, + Segundo o amor determina! + Porm se determinasse + Minha bem-aventurana + Que de meu mal lhe pezasse. + At que nella tomasse + Do que lhe quero vingana!... + +SOLINA. + + (Comigo sonha por certo. + Ora quero-me mostrar, + Assi como por acrto: + Chegar-me-hei mais ao perto, + Por ver se me quer fallar.) + Sempre esta casa ha d'estar + Acompanhada de gente, + Que no possa homem passar! + +DURIANO. + + traio vindes tomar + Quem ja feridas no sente? + +SOLINA. + + Logo me a mi parecia + Que era elle o que passeava. + +DURIANO. + + E eu mal adivinhava + Que me viesse este dia, + Que ha tantos que desejava. + Se huns olhos por vos servir, + Com o amor que vos conquista, + Se atrevro a subir + Os muros da vossa vista, + Que culpa tee quem vos vir? + E se esta minha affeio, + Que vos serve de giolhos, + No fez rro na teno, + Tomae vingana nos olhos, + E deixae o corao. + +SOLINA. + + Ora agora me vem riso. + Assi que vs sois, Senhor, + De siso meu servidor? + +DURIANO. + + De siso no, porque o siso + Me tee tirado o amor. + Porque o amor, se attentais, + N'hum to verdadeiro amante + No deixa siso bastante; + Seno se siso chamais + A doudice to galante. + +SOLINA. + + Como Deos est nos Ceos, + Que se he verdade o que temo, + Que fez isto Filodemo. + +DURIANO. + + Mas f-lo o dmo; que Deos + No faz mal tanto em extremo. + +SOLINA. + + Bem. Vs, Senhor Duriano, + Porque zombareis de mim? + +DURIANO. + + Eu zombo? + +SOLINA. + + Eu no m' engano. + +DURIANO. + + S' eu zombo, inda em meu dano + Vejais vs mui cedo a fim. + Mas vs, Senhora Solina, + Porque me querereis mal? + +SOLINA. + + Sou mofina. + +DURIANO. + + Oh! real. + Assi que minha mofina + He minha imiga mortal. + Dias ha qu'eu imagino + Qu'em vos amar e servir + No ha amador mais fino; + Mas sinto que de mofino + Me fino sem o sentir. + +SOLINA. + + Bem derivais: quant assi + popa o dito vos veio. + +DURIANO. + + Vir-me-ha de vs, porque creio + Que vs fallais dentro em mi, + Como esprito em corpo alheio. + E assi que em estas pis + A cahir, Senhora, vim; + Bem parecer entre ns, + Pois vs andais dentro em mim, + Que ande eu tambem dentro em vs. + +SOLINA. + + He bem: que fallar he esse? + +DURIANO. + + Dentro na vossa alma, digo, + L andasse, e l morresse! + E se isto mal vos parece, + Dae-me a morte por castigo. + +SOLINA. + + Ah mao! Como sois malvado! + +DURIANO. + + Mas vs como sois malvada, + Que de hum pouco mais de nada + Fazeis hum homem armado, + Como quem 'st sempre armada! + Dizei-me, Solina, mana. + +SOLINA. + + Qu'he isso? Tirae l a mo: + Oh! vs sois mao cortezo. + +DURIANO. + + O que vos quero m'engana, + Mas o que desejo no. + No ha aqui seno paredes, + As quaes no fallo, nem vem. + +SOLINA. + + Est isso muito bem. + Bem: e vs, Senhor, no vdes + Que poder vir alguem? + +DURIANO. + + Que vos custo dous abraos? + +SOLINA. + + No quero tantos despejos. + +DURIANO. + + Pois que faro meus desejos, + Que querem ter-vos nos braos, + E dar-vos trezentos beijos? + +SOLINA. + + Olhae que pouca vergonha! + Hi-vos d'hi, boca de praga. + +DURIANO. + + Eu no sei certo a que ponha + Mostrardes-me a triaga, + E virdes-me a dar peonha. + +SOLINA. + + Ora ide rir feira, + E no sejais dessa laia. + +DURIANO. + + Se vdes minha canseira, + Porque lhe no dais maneira? + +SOLINA. + + Que maneira? + +DURIANO. + + A da saia. + +SOLINA. + + Por minha alma, hei de vos dar + Meia duzia de porradas. + +DURIANO. + + Oh que gostosas pancadas! + Mui bem vos podeis vingar, + Qu'em mim so bem empregadas. + +SOLINA. + + Ao diabo, que o eu dou. + Como me doeo a mo! + +DURIANO. + + Mostrae c, minha affeio, + Que essa dor me magoou + Dentro no meu corao. + +SOLINA. + + Ora hi-vos embora asinha. + +DURIANO. + + Por amor de mi, Senhora, + No fareis huma cousinha? + +SOLINA. + + Digo que vades embora. + Que cousa? + +DURIANO. + + Esta cartinha. + +SOLINA. + + Que carta? + +DURIANO. + + De Filodemo + A Dionysa vossa ama. + +SOLINA. + + Dizei, que tome outra dama, + E d os amores ao dmo. + +DURIANO. + + No andemos pola rama. + Senhora, (aqui para ns) + Que sentis della com elle? + +SOLINA. + + Grandes alforges sois vs! + Pois hi-lhe dizer que appelle. + +DURIANO. + + Fallae, que aqui 'stamos ss. + +SOLINA. + + Qualquer honesta se abala, + Como sabe que he querida. + Ella he por elle perdida: + Nunca n'outra cousa falla. + +DURIANO. + + Ora vou-lhe dar a vida. + +SOLINA. + + E eu no lhe disse ja + Quanta affeio lh'ella tem? + +DURIANO. + + No se fia de ninguem, + Nem cr que para elle ha + No mundo tamanho bem. + +SOLINA. + + Dir-vos-hia de mim l + O que lh'eu disse zombando? + +DURIANO. + + No disse, por S. Fernando! + +SOLINA. + + Ora ide-vos. + +DURIANO. + + Que me va! + E mandais que torne? Quando? + +SOLINA. + + Quando eu c vir lugar, + Vo-lo mandarei dizer. + +DURIANO. + + Se o quizerdes buscar, + No vos deve de faltar, + Se no faltar o querer. + +SOLINA. + + No falta. + +DURIANO. + + Dae-me hum abrao + Em sinal do que quereis. + +SOLINA. + + T, que o no levareis. + +DURIANO. + + De quantos servios fao + Nenhum pagar me quereis? + +SOLINA. + + Pagar-vos-ho algum'hora, + Que isso a mi tambem me toca; + Mas agora hi-vos embora. + +DURIANO. + + Essas mos beijo, Senhora, + Em quanto no posso a boca. + + +SCENA VI. + +_Solina que traz a almofada, e Dionysa._ + +SOLINA. + + Ja Vossa Merc dir + Qu'estive muito tardando. + +DIONYSA. + + Bem vos detivestes l. + Bof que estava cuidando + Em no sei que. + +SOLINA. + + Que ser? + Aqui somos. (Quant agora + Est ella transportada.) + +DIONYSA. + + Que rosnais vs l, Senhora? + +SOLINA. + + Digo que tardei l fra + Em buscar esta almofada. + Que estava ella agora s + Comsigo phantasiando? + +DIONYSA. + + Bof que estava cuidando + Qu'he muito para haver d + Da mulher que vive amando. + Que hum homem pde passar + A vida mais occupado: + Com passear, com caar, + Com correr, com cavalgar, + Frra parte do cuidado. + Mas a coitada + Da mulher sempre encerrada, + Que no tee contentamento, + No tee desenfadamento, + Mais que agulha e almofada? + Ento isto vem parir + Os grandes erros da gente: + Foro mil vezes cahir + Princezas d'alta semente. + Lembra-me que ouvi contar + De tantas affeioadas + Em baixo e pobre lugar, + Que as que agora vo errar + Podem ficar desculpadas. + +SOLINA. + + Senhora, a muita affeio + Nas Princezas d'alto estado + No he muita admirao; + Que no sangue delicado + Faz amor mais impresso. + Mas deixando isto parte, + Se m'ella quizer peitar, + Prometto de lhe mostrar + Huma cousa muito d'arte, + Que l dentro fui achar. + +DIONYSA. + + Que cousa? + +SOLINA. + + Cousa d'esprito. + +DIONYSA. + + Algum panno de lavores? + +SOLINA. + + Inda ella no deo no fito? + Cartinha sem sobre-escripto, + Que parece ser de amores. + +DIONYSA. + + Essa he a boa ventura? + +SOLINA. + + Bof que mo pareceo. + +DIONYSA. + + E essa donde nasceo? + +SOLINA. + + No meu cesto da costura: + No sei quem m'alli meteo. + +DIONYSA. + + Mostrae-ma; no hajais medo, + Mana. Eu que vos descobri... + +SOLINA. + + E se ella vem para mi, + Logo quer ver meu segredo? + No a veja: v-se d'hi. + Ei-la-ahi. + +DIONYSA. + + Cuja ser? + +SOLINA. + + No sei certo cuja he. + +DIONYSA. + + Si; sabeis. + +SOLINA. + + No sei, bof. + +DIONYSA. + + Ora a carta mo dir. + +SOLINA. + + Pois leia Vossa Merc. + +_Abre Dionysa a carta, e l-a._ + +Se para merecer minha pena me no falta mais que viver contente della, +ja logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo +triste, seno por no ser para to doce tristeza. Se tendes por offensa +commetter tamanha ousadia; por maior a devieis ter, se a no +commettesse; que amor acostumado he fazer os extremos medida das +affeies, e as affeies medida da causa dellas. Pois logo, nem o meu +amor pde ser pouco, nem fazer menos: se este no bastar para +consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o que pelo ter +mereo; e seno muitas graas ao Amor, que me soube dar hum cuidado, que +com t-lo se paga o trabalho de soffr-lo. + +SOLINA. + + Quanta parvoice diz! + +DIONYSA. + + Ora muito boa est! + Como vs, mana, sois m! + No sejais vs to biliz; + Que bem vos entendo ja. + Cuja he? + +SOLINA. + + E eu que sei? + +DIONYSA. + + Pois quem o sabe? + +SOLINA. + + O dmo. + +DIONYSA. + + Certo que he de quem temo; + Que os ditos que nella achei + So todos de Filodemo. + Este homem, que atrevimento + He este que foi tomar? + Qual ser seu fundamento? + Que mil vezes me faz dar + Mil voltas ao pensamento. + No entendo delle nada. + Mas inda qu'isto he assi, + Disso que delle entendi, + Me sinto to alterada, + Que me arreceio de mi. + Eu inda agora no creio + Que he verdade este amor; + Mas praza a Deos, se assi for, + Que inda este meu arreceio + Se no converta em temor. + +SOLINA. + + Ja vs, ja sdes, + Peixes, nas redes. + Senhora, quem mais confia, + Mais asinha a cahir vem: + Natural he o querer bem; + Que o amor n'alma se cria, + Sem o sentir quem o tem. + Filodemo, no que ouvi, + Tee-lhe sobeja affeio; + E postoque o creia assi, + Ou eu sonhei, ou ouvi. + Que era d'alta gerao. + Logo na phisionomia, + Nas manhas, artes e geito, + Mostra mui grande respeito: + Nem to alta phantasia + No se pe em baixo peito. + +DIONYSA. + + Tudo isso cuido, e vi + Mil vezes miudamente; + Mas estas mostras assi + So desculpas para mi, + E no para toda a gente. + +SOLINA. + + O seu moo vejo vir + A ns, seu passo contado: + Este he muito para ouvir, + Que diz que me quer servir + D'amores esperdiado. + + +SCENA VII. + +_Vilardo, Solina e Dionysa._ + +VILARDO. + + Senhora, o Senhor seu pae, + Mesmo de Vossa Merc, + Ja l para casa vae: + Por isso, Senhora, andae, + Que elle me mandou n'hum p; + E diz que fosse jantar + Vossa Merc mesmamente. + +SOLINA. + + E ja veio do pomar? + +DIONYSA. + + Oh quem pudra escusar + De comer, nem de ver gente! + (Nenhuma cr de verdade + Tenho do que m'elle manda.) + +VILARDO. + + S'ella sem vontade anda, + Eu lh'emprestarei vontade, + Empreste-m'ella a vianda. + +SOLINA. + + Va, Senhora, por no dar + Mais em que cuidar gente. + +DIONYSA. + + Irei, mas no por jantar; + Que quem vive descontente + Mantem-se de imaginar. + +VILARDO. + + Pois tambem c minhas dores + Me no deixo comer po; + Nem come minha affeio + Seno sopadas d'amores, + E mil postas de paixo. + Das lagrimas caldo fao, + Do corao escudella; + Esses olhos so panella + Que coze bofes e bao, + Com toda a mais cabedella. + + +SCENA VIII. + +_O Monteiro, um pastor e um bobo._ + +MONTEIRO. + + Perdeo-se por esta brenha + Venadoro, meu Senhor, + Sem que novas delle tenha: + Queira Deos que inda no venha + Desta perda outra maior. + Contra esta parte daqui + Des pos hum cervo correo, + Logo desappareceo: + Como da vista o perdi, + O gosto se me perdeo. + Eu, e os mais caadores, + Corremos montes e covas; + Fallamos com lavradores + Deste valle, e com pastores, + Sem acharmos delle novas. + Quero ver nestes casais + Que cobre aquelle arvoredo, + Se acharei pastores mais, + Que me dem alguns sinais + Que me posso tornar ledo. + +_Chama._ + + dos casaes, de l: + Ah pastores, no fallais? + +PASTOR. + + Quien sois, lo que buscais? + +MONTEIRO. + + Ouvis? Chegae para c. + +PASTOR. + + Dicid vos lo que mandais. + +BOBO. + + No vayais ad os llam, + Padre, sin saber quien es. + +PASTOR. + + Porque? + +BOBO. + + Porque este es + Aquel ladron que hurt + El asno del Portugues. + Y se vais ad estan, + Os juro al cuerpo sagrado + De San Pisco, y San Juan, + Que tambien os hurtarn, + Que sois asno mas honrado. + +PASTOR. + + Djame ir, que me llam. + +BOBO. + + No, por vida de mi madre; + Que si all vais, muerto so', + Y desta vez quedo yo, + Sin asno, triste! y sin padre. + +MONTEIRO. + + Vinde, que vo-lo encommendo, + E em vossas mos me ponho. + +BOBO. + + No vais, que dijo _en comiendo_. + Encomiendoos al demonio! _(Ao Monteiro.)_ + Y esso es lo que andais haciendo? + +PASTOR. + + Djame ir ad est, + Que no es cosa que me espante. + +BOBO. + + No quereis sino ir all? + Pues echadle pan delante, + Puede ser amansar. + +PASTOR. + + Dios os guarde! Qu cosa es + Esa por que voceais? + +MONTEIRO. + + Dar-m'heis novas, ou sinais + D'hum Fidalgo Portugues, + Se passou por onde andais? + +BOBO. + + Yo so' Hidalgo Portugues: + Que manda su Seoria? + +PASTOR. + + Cllate: oh que nescio es! + +BOBO. + + Padre, no me dejars + Ser lo que quisiere un dia? + Ah Santo Dios verdadero! + No ser lo que otros son? + Digo ahora que no quiero + Ser Alonsico, el vaquero. + +PASTOR. + + Cllate ya, bobarron. + +BOBO. + + Ya me callo: ahora un poco + He de ser lo que yo quisiere. + +PASTOR. + + Seor, diga lo que quiere, + Porque este mochacho es loco, + Y muero porque no muere. + +MONTEIRO. + + Digo, que se por ventura + Sabeis o que ando buscando: + Hum Fidalgo, que caando + Se perdeo nesta espessura + Apos hum cervo andando. + Tenho esta parte corrida, + Sem delle poder saber: + Trago a alegria perdida; + E se de todo a perder, + Perca-se tambem a vida. + Porque s polo buscar + Tenho trabalhos asss. + +BOBO. + + (Yo no puedo callar mas.) + +PASTOR. + + (Como no puedes callar? + Qutate all para tras.) + Cuanto por aquesta tierra, + No siento nueva ninguna. + +MONTEIRO. + + Oh trabalhosa fortuna! + +PASTOR. + + Mas detras daquesta sierra + Hallareis, por dicha, alguna; + Que unas choas de vaqueros + Portugueses all estan; + Y ah muchas veces van + Cazadores Cavalleros: + Puede ser que lo sabran. + +MONTEIRO. + + Quero-me ir l saber. + Ficae-vos a Deos, pastor. + +PASTOR. + + Dios os livre de dolor. + +BOBO. + + Y nos d siempre comer + Pan y sopas, qu'es mejor. + Mirad lo que os notifico: + En aquel valle, acull, + Anda paciendo un burrico, + Hidalgo, manso, y bonico; + Puede ser que ese ser. + +PASTOR. + + Calla, y acaba de andar. + +BOBO. + + Ya ando. + +PASTOR. + + Quieres callar? + Bobo, que tan poco sabe! + +BOBO. + + No diceis que ande y acabe? + Ando, y no quiero acabar. + + + + +ACTO TERCEIRO. + + +SCENA I. + +_Florimena, pastora, com hum pote que vai fonte._ + +FLORIMENA. + + Por este formoso prado + Tudo quanto a vista alcana + To alegre est tornado, + Que a qualquer desesperado + Pde dar certa esperana. + O monte, e sua aspereza, + De flores se veste ledo; + Reverdece o arvoredo, + Somente em minha tristeza + Est sempre o tempo quedo. + Junto desta fonte pura, + Segundo a muitos ouvi, + D'altos parentes nasci: + Foi como quiz a Ventura, + Mas no como eu mereci. + O dia que fui nascida, + Minha me do parto forte + Foi sem cura fallecida; + E o dia que me deo vida + Lhe dei eu a ella a morte. + Do mesmo parto nasceo + Meu irmo, que entre os cabritos + Comigo tambem viveo; + Mas, assi como cresceo, + Crescro nelle os espritos. + Foi-se buscar a cidade; + Teve juizo e saber; + Eu fiquei, como mulher, + E no tive faculdade + Para poder mais valer. + A hum pastor obedeo + Por pae, que d'outro no sei; + E, pola me que matei, + A huma cabra conheo, + De cujo leite mamei. + Mas porm, ja qu'este monte + Me obriga e meu nascimento, + Quero, pois quer meu tormento, + Encher a talha na fonte + Que co'os olhos accrescento. + +_Finge que enche a talha._ + + +SCENA II. + +_Venadoro e Florimena._ + +VENADORO. + + Pois que me vim alongar + Dos caminhos e da gente, + Fortuna, que o consente, + Se devia contentar + De me ter to descontente. + Porm, segundo adivinho, + Por to espsso arvoredo, + Por to aspero rochedo, + Quanto mais busco o caminho, + Tanto mais delle me arredo. + O cavallo, como amigo, + Ja cansado me trazia: + Mas deixou-me todavia; + Que mal pudera comigo + Quem comsigo no podia. + Quero-me aqui assentar + sombra, nesta hervinha, + Porque canso ja de andar; + Mas inda a fortuna minha + No cansa de me cansar. + Junto desta fonte pura + No sei quem cuido qu'est; + Mas no corao me d + Que aqui me guarda a Ventura + Alguma ventura m. + Ou ganhado, ou bem perdido, + Faa, emfim, o que quizer, + Qu'eu o fim disto hei de ver? + Que ja venho apercebido + A tudo quanto vier. + Oh que formosa serrana + vista se me offerece! + Deosa dos montes parece; + E se he certo que he humana, + O monte no a merece. + Pastora to delicada, + De gesto to singular, + Parece-me qu'em lugar + De perguntar pola estrada, + Por mim lhe hei de perguntar. + Atqui sempre zombei + De qualquer outra pessoa + Que affeioada topei; + Mas agora zombarei + De quem se no affeioa. + Serrana, cuja pintura + Tanto a alma me moveo, + Dizei-me: Por qual ventura + Andareis nesta espessura, + Merecendo estar no ceo? + +FLORIMENA. + + Tamanho inconveniente + Andar na serra parece? + Pois a ventura da gente + Sempre he mui diferente + Do que, ao parecer, merece. + +VENADORO. + + Tal resposta he manifesto + No se parecer co'as cabras. + Pois no vos parece honesto + Saberdes matar co'o gesto, + Seno inda com palabras? + No mato tudo he rudeza. + Ha tal gesto e discrio? + No o creio. + +FLORIMENA. + + Porque no? + No supprir natureza + Onde falta criao? + +VENADORO. + + Ja logo nisso, Senhora, + Dizeis, se no sinto mal, + Que do vosso natural + No era serdes pastora. + +FLORIMENA. + + Digo, mas pouco me val. + +VENADORO. + + Pois quem vos pde trazer + conversao do monte? + +FLORIMENA. + + Perguntae-o a essa fonte; + Que as cousas duras de crer, + Hum as faa, outro as conte. + +VENADORO. + + Esta fonte, que est aqui, + Que sabe do que dizeis? + +FLORIMENA. + + Senhor, mais no pergunteis. + Porque outra cousa de mi + Sabei que no sabereis. + De vs agora sabei, + O que no tendes sabido: + Se quereis goa, bebei; + Se andais por dita perdido, + Eu vos encaminharei. + +VENADORO. + + Senhora, eu no vos pedia + Que ninguem m'encaminhasse; + Que o caminho qu'eu queria, + Se o eu agora achasse, + Mais perdido me acharia. + No quero passar daqui; + E no vos parea espanto + Qu'em vos vendo me rendi; + Porque quando me perdi, + No cuidei de ganhar tanto. + +FLORIMENA. + + Senhor, quem na serra mora + Tambem entende a verdade + Dos enganos da cidade: + V-se embora, ou fique embora, + Qual for mais sua vontade. + +VENADORO. + + Oh lindissima donzella, + A quem a ventura ordena + Que me guie como estrella! + Quereis-me deixar a pena, + E levar-me a causa della? + E ja que vos conjurastes + Vs e Amor para matar-me, + Oh no deixeis d'escutar-me! + Pois a vida me tirastes, + No me tireis o queixar-me! + Qu'eu, em sangue e em nobreza + O claro Ceo me extremou; + E a Fortuna me dotou + De grandes bens e riqueza, + Que sempre a muitos negou. + Andando caando aqui, + Apos hum cervo ferido, + Permittio meu fado assi, + Que andando dos meus perdido, + Me venha perder a mi. + E porqu'inda mais passasse + Do que tinha por passar, + Buscando quem m'ensinasse, + Por que via me tornasse, + Acho quem me faz ficar. + Que vingana permittio + A fortuna n'hum perdido! + Oh que tyranno partido, + Que quem o cervo ferio, + V como cervo ferido! + Ambos feridos n'hum monte, + Eu a elle, outrem a mi: + Huma differena ha aqui, + Qu'elle vai sarar fonte, + E eu nella me feri. + E pois que to transformado + Me tee vossa formosura, + Hum de ns troque o estado. + Ou vs para o povoado, + Ou eu para a espessura. + +FLORIMENA. + + Dos arminhos he certeza, + Se lhe a cova alguem ujar, + Morar fra, antes d'entrar: + D'estimar muito a limpeza + Pola vida a vai trocar: + Tambem quem na serra mora + Tanto estima a honestidade, + Que antes toma ser pastora, + Que perder a honestidade + A trco de ser Senhora. + Se mais quereis, esta fonte + Vos descubra o mais de mim: + O que ella vio, ella o conte; + Porque eu vou-me para o monte, + Porque ha ja muito que vim. + + +SCENA III. + +VENADORO. + + linda minha inimiga, + Gentil pastora, esperae! + Pois que tanto amor me obriga, + Consenti-me que vos siga; + V o corpo onde alma vae. + E pois por vs me perdi, + E neste estado Amor ps + Os olhos com que vos vi, + Pois os deixaste sem mi, + Oh no os deixeis sem vs! + Porque a Fortuna me disse + Que nas serras, onde andais, + Em estes extremos tais, + No era bem que vos visse + Para no ver de vs mais. + E pois Amor se quiz ver + Da livre vida vingado, + Em que eu sohia viver; + Faa em mi o que quizer, + Que aqui vou ao jugo atado. + + +SCENA IV. + +_Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo._ + +LUSIDARDO. + + Oh Santo Deos verdadeiro, + A quem o mundo obedece! + Meu filho no apparece. + E que me dizeis, Monteiro? + +MONTEIRO. + + Digo-lhe que m' entristece. + Qu'eu corri por esses montes, + Bem quinze leguas, ou mais, + E busquei polos casais, + Por serras, montes e fontes, + Sem ver novas, nem sinais. + Toda a gente que levou, + Buscando-o, muito cansada + Pelo mato anda espalhada; + Mas ainda ninguem tomou, + Que soubesse delle nada. + +LUSIDARDO. + + Oh fortuna nunca igual! + Quem me fara sabedor + De meu filho e meu amor? + Que se he muito grande o mal, + Muito mor he o temor. + Quem tolhe que no achasse + Algum leo temeroso + N'algum monte cavernoso, + Que sua fome fartasse + Em seu corpo to formoso? + Quem ha que saiba, ou que visse, + Que das montanhas erguidas + Algum monstro no sahisse, + E com seu sangue tingisse + As hervas nellas nascidas? + Oh filho! vai-me a lembrar + Quantas vezes os mandava + Que deixasseis o caar! + No cuidei de adivinhar + O que Fortuna ordenava. + Eu irei, filho, buscar-vos + Por esses montes, por hi, + Ou a perder-me, ou cobrar-vos; + Que morte que quiz matar-vos, + Quero que me mate a mi. + Onde fostes fenecido, + Seja tambem vosso pae; + Ser-me-ha acontecido, + Como a virote que vae + Buscar outro que he perdido. + Vs s haveis de ficar, + Filodemo, encarregado + Para esta casa guardar; + Que de vosso bom cuidado + Tudo se pde fiar. + Ide-vos a fazer prestes, + Mandae cavallos sellar; + Pois ach-lo no pudestes, + Ir-m'heis buscar o lugar + Onde da vista o perdestes. + + +SCENA V. + +_O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o seu._ + +_Canta._ + + Los mochachos del Obispo + No comen cosa mimosa, + Ni zanca d'araa, ni cosa mimosa. + +_Falla._ + + De su sayo colorado + Tan lozano me vesti, + Que yo ya no soy yo, + Ya por otro estoy trocado; + Que este sayo me troc. + Oh qu asno Portugues, + Que loco por Florimena, + Dese zamarra agena, + Y dame por enters + Una zamarra tan buena! + Como yo vi la bobilla + Andar con l en questiones, + Y parrsele amarilla, + Djele: Florimenilla, + Andais en dongolondrones? + l me dijo: Matalote, + No tengais dello desmayo. + Y en esto, como un rayo, + Tomme mi capirote, + Y dime su capisayo. + Capirote, en buena f, + Si vos, cuando en mi entrastes, + Capisayo vos tornastes, + Que yo por eso cantar, + Pues ans me mejorastes. + +_Canta._ + + Lyrio, lyrio, lyrio loco, + Con qu? Con capirotada. + Por hablar con la golosa + De amores, mirad la cosa! + Zamarrilla tan hermosa, + Que me ha dado tan honrada, + Con qu? Con capirotada. + +_Falla._ + + Yo entonces respond: + Seor, dame pan y queso, + Mas despues que lo entend, + Dije ella: Dale un beso, + Que l me di zamarra m. + Ahora me mirarn + Cuantos la eglesia fueren; + Y aquellos que no me quieren, + Ahora me rogarn. + Sabeis porque no querr? + Porque estoy ahidalgado; + Y cuando fuere rogado, + Cantando responder, + Que ya estoy otro tornado. + +_Canta e baila._ + + Soropicote, picote, mozas, + Ahora quiero amores con vosotras. + + +SCENA VI. + +_O Pastor e o Bobo._ + +PASTOR. + + Hijo Alonsillo. + +BOBO. + + Hijo Alonsillo. + +PASTOR. + + No me quieres escuchar? + +BOBO. + + Pues djame suspirar. + +PASTOR. + + Escchame ahora, asnillo, + Lo que te quiero mandar. + Vte al valle de las rosas, + Y di Anton del Lugar + Que si puede ac llegar, + Porque tengo muchas cosas + Que importan para le hablar. + Porque es aqui llegado + este valle un hombre honrado, + Mancebo de casta buena, + Que amores de Florimena + Le traen loco y penado. + Dice que quiere casar + Con ella, que su tormento + No le deja reposar; + Y que venga festejar + Tan dichoso casamiento. + +BOBO. + + Dicid, padre, tambien vos, + No quereis casar comigo? + Casemos ambos ads. + +PASTOR. + + V, y haz lo que te digo. + +BOBO. + + Responde, padre, por Dios. + +PASTOR. + + V luego, y vuelve apresado. + Anda. No quieres andar? + +BOBO. + + Pues que me habeis empujado, + Juro mi de desandar + Todo cuanto tengo andado. + +PASTOR. + + Trabajoso es este insano! + Nunca hace lo que quereis. + +BOBO. + + Ora no os apasioneis, + Mi padrecico lozano: + Que burlaba, no lo veis? + +PASTOR. + + Vte dahi. + +BOBO. + + Hme aqui. + +PASTOR. + + V donde te dije. + +BOBO. + + Ya vengo. + Oh que padrasto que tengo, + Que asi me manda por ahi, + Siendo camino tan luengo! + + + + +ACTO QUARTO. + + +SCENA I. + +_Dionysa e Solina._ + +DIONYSA. + + Oh Solina, minha amiga, + Que todo este corao + Tenho posto em vossa mo; + Amor me manda que diga, + Vergonha me diz que no. + Que farei? + Como me descobrirei? + Porque a tamanho tormento + Mais remedio lhe no sei, + Que entreg-lo ao soffrimento. + Meu pae muito entristecido + Se vai pela serra erguida, + Ja da vida aborrecido, + Buscando o filho perdido, + Tendo a filha c perdida! + Sem cuidar, + Foi a casa encommendar + A quem destruir lha quer: + Olhae que gentil saber, + Que vai comigo deixar + Quem me no deixa viver. + +SOLINA. + + Senhora, em tanto desgsto. + No posso meter a mo; + Mas como diz o rifo, + Mais val vergonha no rosto, + Que mgoa no corao. + E bof, se eu tanto amasse, + E visse tempo e sazo, + Sem seu pae, sem seu irmo, + Que a nuvem triste tirasse + De cima do corao. + +DIONYSA. + + Ah mana! que tenho medo, + Que s'eu em tal consentisse + Que logo o mundo o sentisse, + Porque nunca houve segredo, + Que, emfim, se no descobrisse. + +SOLINA. + + Se eu tantas dobras tivesse + Como quantas houve erradas, + Sem que o mundo o soubesse, + f qu'eu enriquecesse, + E fosse das mais honradas. + +DIONYSA. + + Sabeis que tenho em vontade? + +SOLINA. + + Que podeis, Senhora, ter? + +DIONYSA. + + Fallar-lhe, s para ver + Se he por ventura verdade + O que dizeis que me quer. + +SOLINA. + + Bof, mana, dizeis bem, + E eu o mandarei chamar, + Como para lhe rogar + Que hum annel, que l me tem, + Que mo mande concertar. + +DIONYSA. + + Dizeis mui bem. + +SOLINA. + + Vou-me l + Chamar o seu moo sala; + E s'este parvo vem c, + Com elle hum pouco rir, + Que sempre amores me fala. + Vilardo, moo? + + +SCENA II. + +_Vilardo e Solina._ + +VILARDO. + + Quem chama? + +SOLINA. + + Vem c, moo; eu te chamo. + Qu'he de teu amo? + +VILARDO. + + Ah que dama! + Perguntais-me por meu amo, + E no por hum que vos ama? + +SOLINA. + + E quem he esse amador, + Que quer ter comigo passo? + Ser elle algum madrasso? + +VILARDO. + + Eu sou o mesmo, que o amor + Me quebra pelo espinhasso. + E mais vs sabei de mi, + Se eu a diz-lo me atrevo, + Que desque esses olhos vi, + Que yo ni como, ni bebo, + Ni hago vida sin ti. + E mais para namorado + No sou ora to madrao. + +SOLINA. + + Sois muito desmazelado. + +VILARDO. + + Mas antes, de delicado + Caio pedao a pedao. + E mais eu soffrer no posso + Que me faais tanto fero, + Qu'estou ja posto no osso, + Porque sou vosso e revosso, + Por vida de quanto quero. + +SOLINA. + + Feros est cheia a rua. + Ora estou bem aviada! + +VILARDO. + + Cupido, por vida tua, + Que a no faas to crua, + Pois que te no fao nada! + Amor, Amor, mas te pido, + Que quando se for deitar, + Que le digas al oido: + Devieis-vos de lembrar + Neste tempo de hum perdido. + +SOLINA. + + E tu ja fazes coprinhas? + Ainda tu trovars? + +VILARDO. + + Quem eu? Por estas barbinhas, + Que se vs virdes as minhas, + Que digais que no so ms. + +SOLINA. + + Ora, pois me quereis bem, + Dizei-me huma. + +VILARDO. + + Ei-la aqui; + E veja o saibo que tem; + Porque esta trovinha assi, + Saiba qu'he trova do assem. + +_Trova._ + + Passarinhos, que voais + Nesta manha to serena, + Sabei que s minha pena + Pde encher mil cabeais. + +SOLINA. + + O rifo est salgado. + Essa pena te dou eu? + +VILARDO. + + Vs e Amor, que de malvado, + Me tee melhor empennado, + Que nenhum virote seu. + Pois se me ouvreis cantar! + +SOLINA. + + E tu es tambem cantor? + +VILARDO. + + Canto melhor que hum aor. + Quereis que vos venha dar + Musiqueta de primor, + E que vos mande tanger + Muito melhor que ninguem? + +SOLINA. + + Ja isso quizera ver. + +VILARDO. + + Querer-me-heis, se o eu fizer, + Algum pedao de bem? + +SOLINA. + + Querer-te-hei trinta pedaos. + +VILARDO. + + E esse querer dar fruito, + Que me tire destes laos? + +SOLINA. + + E que fruito? + +VILARDO. + + Dous abraos. + +SOLINA. + + Esse fruito custa muito. + +VILARDO. + + Esse he o amor qu'em vs ha? + Pezar de minha me torta! + +SOLINA. + + Ora hi, chamae logo l + Vosso amo que venha c, + Porque he cousa que importa. + +VILARDO. + + Logo? + +SOLINA. + + Logo nessas horas. + +VILARDO. + + No estarei aqui mais? + +SOLINA. + + No. Ainda ahi estais? + Vs haveis mister esporas. + +VILARDO. + + Irei, porque me mandais. + + +SCENA III. + +_O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor._ + +PASTOR. + + Mas de un mez es ya pasado + Que en esta sierra andais; + Y es caso mal mirado + Que andeis guardando ganado + Por una que tanto amais. + Y si os determinais + En querer casar con ella, + Juro mi que nada errais; + Y si eso es para habella, + En vano cabras guardais. + Ya me distes vuestra f + (Sbenlo estas tierras todas): + Yo con ella me enga, + Que luego mandar llam + Quien festejase las bodas. + Y agora dicis con pena, + Que es dura cosa casar: + Pues volveos hora buena, + Que no habeis de engaar + Con palabras Florimena. + +VENADORO. + + Quem se ha de ter corao + Para tamanho temor? + Que em mim pegando esto. + De huma parte a razo. + E d'outra parte o Amor. + Tambem vejo que perdella + Ser minha perdio; + Que bem me diz a affeio, + Que pouco fao por ella, + Pois no desfao em quem so. + +PASTOR. + + Digoos, si por bajeza + Dicis que no os conviene, + Daros h una certeza, + Que en sangre y en nobleza, + Tanto como vos la tiene. + +VENADORO. + + Pastor, digo que daqui + Farei tudo que quizerdes; + E se mais quereis de mi, + Digo que vos dou o si + Para tudo o que quizerdes. + +PASTOR. + + Dios os d su bendicion; + Y pues que casais con ella, + Yo os afirmo en conclusion, + Que aun de vos y mas della + Vern gran generacion. + Yo me voy por ella, hijo, + Tomadla asi mal compuesta; + Vern quien haga la fiesta; + Que en placer y regocijo + Nos festeje esta floresta. + + +SCENA IV. + +VENADORO _s_. + + ribeiras to formosas, + Valles, campos pastoris, + Porque vos no revestis + De novas flores e rosas, + Se minha gloria sentis? + Porque no seccais, abrolhos? + E vs, goa, que regando, + Os olhos his alegrando, + Correi, que tambem meus olhos + D'alegres esto manando. + Ah pastora, em quem espero + Poder viver descansado! + Comtigo guardarei gado, + Que ja eu sem ti no quero + Nenhuma alteza d'estado. + Diga o que quizer a gente, + Tudo terei n'huma palha, + Porque est claro e evidente + Que no ha honra que valha + Contra a vida descontente. + + +SCENA V. + +_Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante do pastor, que +traz Florimena._ + +PASTOR. + + Pues el amor os obliga + que hagais tan buena liga, + Tomando Dios por testigo, + Daqui os la entrego, amigo, + Por muger y por amiga. + +VENADORO. + + Consentis nisto, Senhora? + +FLORIMENA. + + Senhor, em tudo consento. + +VENADORO. + + Oh grande contentamento! + +FLORIMENA. + + Saiba que nunca tgora + Lhe houve inveja ao tormento. + +PASTOR. + + Asi lo dices, bobilla? + Oh! mala dolor os duela! + Pero no es maravilla + Quien consiente ansi la silla, + Consienta tambien la espuela. + + +SCENA VI. + +_Torno a bailar e cantar, e acabado, entra D. Lusidardo, e o Monteiro, +que ando em busca de Venadoro._ + +LUSIDARDO. + + Tres dias ha ja que ando + Por esta larga espessura + A Venadoro buscando; + E o que delle vou achando + He como quer a Ventura. + +MONTEIRO. + + Senhor, cuido que l vejo + Huns lavradores cantar. + +LUSIDARDO. + + Hi diante perguntar. + +MONTEIRO. + + Cumprido he seu desejo, + Se a vista no m'enganar. + +LUSIDARDO. + + Como assi? + +MONTEIRO. + + Elle no v + Aquelle pastor louo + Com huma moa pela mo? + Se Venadoro no he, + Nem eu o Monteiro so. + +PASTOR. + + Quien veo all asomar, + Que se viene nuestras bodas? + +BOBO. + + No los dejemos llegar, + Que nos vernan roubar, + Juro mi, las migas todas. + +LUSIDARDO. + + Oh Venadoro, meu filho! + Es tu este? + +VENADORO. + + Tal estou, + Que cuido que este no sou. + +LUSIDARDO. + + Certo que me maravilho + De quem tanto te mudou. + Como estais assi mudado + No rosto e mais no vestido! + +VENADORO. + + Ando ja n'outro trocado, + Tanto, que fiquei pasmado + De como fui conhecido. + E se Vossa Merc vem + Para me levar daqui, + Mais ha de levar que a mi; + E ha de ser quem me tem + Todo transformado em si. + +BOBO. + + Eso porque lo entendeis? + Por las migas por ventura? + Voto tal no llevareis: + Por mas y por mas que andeis + No hareis tal travesura. + +VENADORO. + + Esta formosa donzella + Em mi teve tal poder, + Que folguei de me perder; + Pois, emfim, vim achar nella + O que no cuidei de ser. + Tanto em mi pde este amor, + Que a tenho recebida; + E se o rro grave for, + Aqui quero ser pastor: + Deixe-me ter esta vida. + +LUSIDARDO. + + He certo tal casamento? + +VENADORO. + + Tenha-o por cousa segura. + +LUSIDARDO. + + Oh grande acontecimento! + Dest'arte sabe a ventura + Aguar hum contentamento! + +PASTOR. + + igame, Seor, mi, + Como hombre sabio, discreto, + Porque acaeci as, + Y lo que supo hasta aqui + Lo puede tener por cierto. + Muchos aos son corridos + Que en esta fuente abierta, + En estos valles floridos + Hall dos nios nascidos, + Y su madre casi muerta. + Los nios chicos cri, + (Y desto cierto me arreo) + Y la madre sepult; + Y despues un gran deseo + De saber esto tom. + Como yo fuese enseado + De chico la mgica arte + Por mi padre, que es finado; + Muy conoscido y nombrado + Soy por tal en toda parte. + Yo con yervas de la sierra, + Animales y otras cosas + Har, si el arte no se yerra, + Que desciendan la tierra + Las estrellas luminosas. + Soy, en fin, certificado + Que la madre de los dos + Fu Princeza de alto estado. + Y por un caso nombrado + La trajo esta tierra Dios. + El macho, como creci, + Deseoso de otro bien, + la Corte se parti: + La hembra es esta por quien + Vuestro hijo se perdi. + Y si mas quiere, Seor, + De mi arte, prestamente + Dello le har sabedor; + Mas ha de ser de tenor + Que no lo sepa la gente. + +LUSIDARDO. + + Mas vamos-nos, se quereis, + Que no soffro dilao, + A minha casa, e ento + L disso me informareis, + Que caso he de admirao. + E vs, filho, no cuideis + Que a gloria de vos achar + No he tanto d'estimar, + Qu'em qualquer 'stado que esteis, + No folgue de vos levar. + + + + +ACTO QUINTO. + + +SCENA I. + +_Solina, Dionysa e Filodemo._ + +SOLINA. + + Eis Filodemo l vem: + Asinha acudio ao leme. + +DIONYSA. + + Isso he de quem quer bem; + Mas no sei se o vio alguem, + Porque quem espera teme. + Agora me quizera eu + Daqui cem mil leguas ver. + +FILODEMO. + + Folgra eu assi de ser, + Porqu'este cuidado meu + Fra mais de agradecer. + Que quando por accidente + A Fortuna desastrada + Vos apartasse da gente + N'hum deserto, onde somente + Das feras fosseis guardada; + L por ferro, fogo e goa + Buscar minha morte iria; + A voz ronca, a lingua fria, + Tamanho mal, tanta mgoa + s montanhas contaria. + L, mui contente e ufano + De mostrar amor to puro, + Poderia ser que o dano, + Que no move hum peito humano, + Que movesse hum monte duro. + +DIONYSA. + + Nesse deserto apartado + De toda a conversao + Merecieis degradado + Por justia, com prego + Que dissesse: _Por ousado_. + E eu tambem merecia + Metida a grave tormento, + Pois que, como no devia, + Vim a dar consentimento + A to sobeja ousadia. + +FILODEMO. + + Senhora, se me atrevi, + Fiz tudo o que Amor ordena; + E se pouco mereci, + Tudo o que perco por mi, + Mereo por minha pena. + E se Amor pde vencer, + Levando de mi a palma, + Eu no lho pude tolher; + Que os homens no tee poder + Sbre os affectos da alma. + E ainda que pudera + Resistir contra o mal meu. + Saiba que o no fizera; + Que pouco valra eu, + Se contra vs me valra. + No deve logo ter culpa + Quem se venceo d'armas tais: + Assi que nisto, e no mais, + Tomo por minha desculpa + Vs mesma que me culpais. + E se este atrevimento + Com tudo for de culpar, + Acabae de me matar; + Que aqui tenho hum soffrimento + Que tudo pde passar. + E se esta penitencia, + Que fao em me perder, + Algum bem vos merecer, + Fique em vossa consciencia + O que me podeis dever. + Que dizeis a isto, Senhora? + +DIONYSA. + + Eu que vos posso dizer? + Ja no tenho em mi poder, + Segundo me sinto agora, + Para poder responder. + Respondei-lhe, vs Solina, + Pois que a vs me entreguei. + +SOLINA. + + Bof no responderei: + Veja ella o que determina. + +DIONYSA. + + No o vejo, nem o sei. + +SOLINA. + + Pois eu tambem no sei nada. + +DIONYSA. + + Porque? + +SOLINA. + + Do que eu fizer, + Se despois se arrepender, + Dir qu'eu fui a culpada. + +DIONYSA. + + Eu s quero a culpa ter. + +SOLINA. + + Senhora, por no errar, + No quero que fique em mim. + Esta noite no jardim + Ambos podem praticar + Como isto venha a bom fim. + L podero ajustar + Entr'ambos o parecer; + Qu'eu no m'hei nisso de achar, + Que no quero temperar + O que outrem ha de comer. + +DIONYSA. + + Vs vdes a torvao, + Que l nessa casa vae? + +SOLINA. + + D-me c no corao + Que he vindo o Senhor seu pae + Com o Senhor seu irmo. + +DIONYSA. + + Filodemo, hi-vos embora, + Fallae depois com Solina. + +SOLINA. + + Vamos-nos tambem, Senhora. + Receber seu pae l fra; + No venha sentir a mina. + + +SCENA II. + +_Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina com os Musicos._ + +VILARDO. + +Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre ando rugindo as sedas. + +DOLOROSO. + +Avante, que bem sei que o no dizeis polas sedas de Veneza. + +VILARDO. + +Ja sabeis que esta nossa Solina he to Celestina, que no ha quem a +traga a ns. + +DOLOROSO. + +Logo parece moa brigosa, que por d c aquellas palhas, dar e tomar +quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher +de sua arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes +so como homens sisudos; se de noite se acho em algum arruido, onde +posso fugir sem serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia +quem ha de cuidar que hum to honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem +pode ser, porque noite escura he capa de Judeos e de envergonhados. + +VILARDO. + +Mui gentil comparao he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi +zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous +meus amigos, que logo ho de vir aqui ter comnosco. + +DOLOROSO. + +Que tal he a musica que determinas de lhe dar? No seja de siso; porque +ser a maior parvoice do mundo, porque no concerta com a parvoice que +tu finges. + +VILARDO. + +A musica no he seno das nossas; mas fao-te queixume, que nem com hum +co de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra. + +DOLOROSO. + +Nem as achars seno alugadas; mas eu no sou de opinio que teus amores +te custem dinheiro. Ora ja l apparecem os outros companheiros, e eu +tambem ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto popa, porque +daqui iremos porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum +certo requerimento. + +VILARDO. + +Vossas Mercs vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem +temperadas? + +DOLOROSO. + +Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justia entretanto. + +VILARDO. + +Ora sus: fazei como se temperasseis cabea de pescada com seu figado e +bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa +nova. + +_Neste passo se d a musica com todos quatro, hum tange guitarra, outro +pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito velhas, e no melhor +diz Vilardo:_ + +Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he. + +DOLOROSO. + +Justia, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui no ha outro valhacouto que +nos valha, que pr os ps ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras. + + +SCENA III. + +O MONTEIRO _s_. + +Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quo gracioso sera +quem o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoo, porque +no podessem entender nelle Meirinhos, Almotacs da limpeza, trabalhos, +esperanas, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora +notae bem de quantas cres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo: +perdeo-se Venadoro na caa, eis a casa toda envolta como rio: o pae +enfadado, a irma triste, a gente desgostosa; tudo, emfim, fra do +couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados como +camaleo, decepado dos ps e das mos, por huma serranica d'Alentejo; e +veio acaso a sahir de maneira fra da madre, que a recebeo por mulher; e +rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as lembranas de seu pae; +pois tanto tomou ao p da letra o que Deos disse: _Por esta deixars teu +pae e me_. E attentae isto por me fazer merc: cuidareis que este caso +era _solus peregrinus_: sabei que os no d a fortuna seno aos pares, +como qudas. Dionysa mais mimosa e mais guardada de seu pae que bicho de +seda, moa sem fel como pombinha, que nos annos no tinha feito inda o +enequim; mais formosa que huma manha do S. Joo, mais mansa que o Rio +Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso, mais delicada que hum +pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua conversao se +poder soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a parricida, +com tanto que dissesse o prego o porque; porque vos no fieis em +castanhas (no sei se diga, se o cale, que de magoado me trava pola +manga a falla da garganta; mas, com tudo, no ha quem se tenha) seu pae +a achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo que +perdra, que do que alli perdia: eu, coitado de mi, que meta os dentes +nos cabeaes se desejar ave de penna. + + +SCENA IV. + +_Duriano e o Monteiro._ + +DURIANO, _como cantando_. + +Ti ri ri, ti ri ro. + +MONTEIRO. + +Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos so esses? Onde he c a ida +agora? + +DURIANO. + +Vou assi como parvo, porque o melhor he no saber homem nada de si. + +MONTEIRO. + +Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo +que ficou s em casa? + +DURIANO. + +Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se no he isso +caso para sahir com elle a desafio. + +MONTEIRO. + +Porque? + +DURIANO. + +Porque no basta que lhe d a Fortuna gostos to medidos sbre o funil, +que lhe pe nos braos Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou +cabellos ao vento, seno ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe +vem a descobrir, que he filho de no sei quem, nem quem no. + +MONTEIRO. + +Esses so outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja +sbre isso no sei que fbulas. + +DURIANO. + +Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que no he menos que Principe, e peor ainda. +Nunca ouvistes dizer de hum irmo do Senhor Dom Lusidardo que aggravado +del Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca? + +MONTEIRO. + +Tudo isso ouvi ja. + +DURIANO. + +Pois esse galante, em satisfao de muitas mercs que ElRei de Dinamarca +lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moa; e como +era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher +abalo, desejou ella de ver gerao delle; seno quando, livre-nos Deos! +se lhe comeou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos no se +desistem em nove dias, seno em nove mezes, foi-lhe a elle ento +necessario acolher-se com ella, porque no colhessem a ella com elle: +acolheu-se em huma gal; e vde la Princeza em huma galera nueva, con el +marinero ser marinera. Finalmente, vindo navegando todo esse Oceano +Germanico, bancos de Frandes, mar d'Inglaterra, e trazidos costa +d'Hespanha, no os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella +buscavo: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a +gal costa, onde feita pedaos, morrro todos desastradamente, sem +escapar mais que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece +que a Fortuna guardava para dar o descanso, que a seu pae e me negra. +Sahio finalmente a moa na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria +huma Princeza mais delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher +pola terra estranha e despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde, +despois de ter perdido toda a esperana de ter algum remedio, dero-lhe +as dores de parto junto de huma fonte, aonde em breve espao lanou duas +crianas, macho e femia, como vizagras. E como a fraca compreio da +delicada mulher no pudesse sustentar tantos e to desacostumados +trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia que desejava de dar, +deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae, que por causa +de seus nascimentos a vida lhe tirro, como acontece a viboras. E como +as crianas fossem destinadas ao que vdes, no faltou hum pastor que as +criasse, que alli veio ter, dando a me a alma a Deos: de maneira que, +por no gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e a femia +he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro. + +MONTEIRO. + +Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo +namorar a filha do Senhor que serve: no haver logo por mal o Senhor +Dom Lusidardo tomar por genro e nora, quem acha por sobrinhos. + +DURIANO. + +Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se +parece natural com seu irmo, e Florimena com sua me. + +MONTEIRO. + +Dae-me a entender, como se creo to de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de +quem isso contou. + +DURIANO. + +No caso no ha dvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou +todo o caso; e fez ao pastor muitas mercs, e mandou fazer muitas festas +solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o +mesmo parentesco tee com a Senhora Dionysa, esto fra de crer tamanho +contentamento; cuido que zombo delle. + +MONTEIRO. + +Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu +matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo: +dissimulemos. + + +SCENA V. + +_Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela mo, e Filodemo a +Dionysa._ + +LUSIDARDO. + + Quem no ficar pasmado + De ver que por tal caminho + Tee a Ventura ordenado + Filodemo, meu criado, + Vir ser meu genro e sobrinho! + Quem no pasmar agora + De ver a ventura minha, + Que tee tornado n'hum'hora + Florimena, huma pastora, + Ser minha nora e sobrinha! + Dem-se graas ao Senhor, + Cujo segredo he profundo; + Pois que vemos que quiz dar + A ventura e o amor + Por prazeres deste mundo. + + * * * * * + + + + +CARTAS. + + + + +CARTAS. + + +CARTA I. + +Desejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito desejar a no vi; +porque este he o mais certo costume da Fortuna, consentir que mais se +deseje o que mais presto ha de negar. Mas porque outras naos me no +fao tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar que vos no lembro, +determinei de vos obrigar agora com esta; na qual pouco mais ou menos +vereis o que quero que me escrevais dessa terra. Em pago do qual, d'ante +mo vos pago com novas desta, que no sero ms no fundo de huma arca +para aviso de alguns aventureiros, que cuido que todo o mato he +ouregos, e no sabem que c e l ms fadas ha. + +Despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo, +mandei enforcar a quantas esperanas dera de comer at ento, com prego +pblico: _Por falsificadoras de moeda_. E desenganei esses pensamentos, +que por casa trazia, porque em mim no ficasse pedra sobre pedra. E assi +posto em estado, que me no via seno por entre lusco e fusco, as +derradeiras palavras que na nao disse, foro as de Scipio Africano: +_Ingrata patria, non possidebis ossa mea_. Porque quando cuido, que sem +peccado que me obrigasse a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de +ms linguas, peores tenes, damnadas vontades, nascidas de pura inveja, +de verem _su amada yedra de s arrancada, y en otro muro asida_.... Da +qual tambem amizades mais brandas que cera, se accendio em odios que +disparavo lume que me deitava mais pingos na fama, que nos couros de +hum leito. Ento ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude +de Achilles, que no podia ser cortado seno pelas solas dos ps; as +quaes de mas no verem nunca, me fez ver as de muitos, e no engeitar +conversaes da mesma impresso, a quem fracos punho mao nome, vingando +com a lingua o que no podio com o brao. Emfim, Senhor, eu no sei com +que me pague saber to bem fugir a quantos laos nessa terra me armavo +os acontecimentos, como com me vir para esta, onde vivo mais venerado +que os touros de Merceana, e mais quieto que a cella de hum Frade +Prgador. Da terra vos sei dizer que he me de villes ruins, e madrasta +de homens honrados. Porque os que se c lano a buscar dinheiro, sempre +se sustento sobre goa como bexigas; mas os que sua opinio deita las +armas Mouriscote, como mar corpos mortos praia, sabei que antes que +amadureo, se secco. Ja estes que tomavo esta opinio de valentes s +costas, crede que nunca riberas de Duero arriba cavalgaron Zamoranos, +que roncas de tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem ao +effeito da obra, salvo-se com dizer que se no podem fazer tamanhas +duas cousas, como he, prometter e dar. Informado disto veio a esta terra +Joo Toscano, que, como se achava em algum magusto de rufies, +verdadeiramente que alli era su comer las carnes crudas, su beber la +viva sangre. Callisto de Siqueira se veio c mais humanamente, porque +assi o prometteo em huma tormenta grande em que se vio. Mas hum Manoel +Serro, que, _sicut et nos_, manqueja de hum olho, se tee c provado +arrezoadamente, porque fui tomado por juiz de certas palavras, de que +elle fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de sua pessoa era +c tido em boa conta. Se das damas da terra quereis novas, as quaes so +obrigatorias a huma carta, como marinheiros festa de S. Frei Pero +Gonalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de maduras, que no ha +cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quizerem lanar pedao. Pois as que +a terra d? alm de serem de rala, fazei-me merc que lhe falleis alguns +amores de Petrarca, ou de Bosco; respondem-vos huma linguagem meada de +hervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lana goa +na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgae, Senhor, o que sentir +hum estomago costumado a resistir s falsidades de hum rostinho de +tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho novo com goa, +vendo-se agora entre esta carne de sal, que nenhum amor d de si. Como +no chorar las memorias de in illo tempore! Por amor de mi, que s +mulheres dessa terra digais de minha parte que se querem absolutamente +ter alada com barao e prego, que no receiem seis mezes de m vida +por esse mar, que eu as espero com procisso e palio, revestido em +pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe iro entregar as chaves da +cidade, e reconhecero toda a obediencia, a que por sua muita idade so +ja obrigadas. Por agora no mais, seno que este Soneto[3] +que aqui vai, que fiz morte de Dom Antonio de Noronha, vos mando em +sinal de quanto della me pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a +qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe, que me parece +melhor que quantas fiz. Tambem vo-la mandra para a mostrardes l a +Miguel Dias, que pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver; +mas a occupao de escrever muitas cartas para o Reino, me no deo +lugar. Tambem l escrevo a Luis de Lemos em resposta d'outra que vi sua: +se lha no derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual tudo se perde. + +Vale. + +[3] He o Soneto 12. + + * * * * * + + +CARTA II. + +Esta vai com a candeia na mo morrer nas de v. m.; e se dahi passar, +seja em cinza; porque no quero que do meu pouco como muitos. E se +todavia quizer meter mais mos na escudella, mande-lhe lavar o nome, e +valha sem cunhos. + + La mar en medio y tierras, he dejado + cuanto bien cuitado yo tenia: + Cuan vano imaginar, cuan claro engao + Es darme yo entender que con partirme + De m se ha de partir un mal tamao! + +Quo mal est no caso quem cuida que a mudana do lugar muda a dor do +sentimento! E seno, diga-o quien dijo que la ausencia causa olvido. +Porque emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes +cuidados jogo meus pensamentos barreira, tendo-me ja, pelo costume, +to contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo +uso dos annos se converte em natureza. Pois o que he para mor mal, tenho +eu para mor bem. Aindaque, para viver no mundo, me debruo d'outro panno, +por no parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum para ser outro, +sendo outro para ser hum; mas a dor dissimulada dara seu fruito; que a +tristeza no corao, he como a traa no panno. + + E por to triste me tenho, + Que se sentisse alegria, + De triste no viviria. + Porque a tal sorte vim, + Que no vejo bem algum + Em quanto vejo, + Que no nasceo para mim; + E por no sentir nenhum, + Nenhum desejo. + +Porque cousas impossiveis, he melhor esquec-las que deseja-las. E por isso + + S, tristeza, vos queria, + Pois minha ventura quer + Que s ella + Conhea por alegria; + E que se outra quizer, + Morra por ella. + +Pouco sabe da tristeza quem (sem remedio para ella) diz ao triste que se +alegre. Pois no v que alheios contentamentos a hum corao +descontente, no lhe remediando o que sente, lhe dbro o que padece. +Vs, se vem mo, esperais de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de +bons propositos. Pois desenganae-vos, que desque professei tristeza, +nunca mais soube jogar a outro fito. E porque no digais, que no sou +gente fra do meu bairro, vdes, vai huma volta feita a este mote, que +escolhi na manada dos engeitados; e cuido que no he to dedo queimado, +que no seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi: + + No quero, no quero + Jubo amarello. + + Se de negro for, + To bem me parece, + Quanto me aborrece + Toda alegre cr: + Cr que mostra dor, + Quero, e no quero + Jubo amarello. + +Parece-vos que se pde dizer mais? No me respondais: Quem gabar a +noiva? porque assentae, que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que +no he to pequena habilidade. E porque vos no parea, que foi mais +acertar, que quer-lo fazer; vdes, vai outra do mesmo jaez, com tanto +que se no v a pasmar. + + Perdigo perdeo a penna, + No ha mal, que lhe no venha. + + Em hum mal outro comea, + Que nunca vem s nenhum; + E o triste que tee hum, + A soffrer outro se offrea; + E s pelo ter conhea, + Que basta hum s que tenha, + Para que outro lhe venha. + +Que graa ser esperardes de mim propositos em cousa que os no tee +para comigo? Pois ainda que queira, no posso o que quero; que hum sentido +remontado, de no pr p em ramo verde, tudo lhe succede assi; e cada +hum acode ao que lhe mais doe; e mais eu, que o que mais me entristece +he ter contentamento, pois fujo delle, que minha alma o aborrece, porque +lhe lembra que he virtude viver sem elle. Que ja sabeis que mgoa he, +v-lo-has e no o papars. Por fugir destes inconvenientes, + + Toda a cousa descontente + Contentar-me s convinha + De meu gsto: + Que o mal, de que sou doente, + Sua mais certa mzinha + He desgsto. + +Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que no podes haver, d-o pola tua alma. O +mal sem remedio, o mais certo que tee, he fazer da necessidade virtude: +quanto mais, se tudo to pouco dura, como o passado prazer. Porque, +emfim, allegados son iguales los que viven por sus manos etc. A este +proposito, pouco mais ou menos, se fizero humas voltas a hum mote +d'enchemo, que diz por sua arte zombando, mais que no de siso (que +toda a galantaria he tir-la donde se no espera), o qual crede que tee +mais que roer do que hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida, +e mande escumar o entendimento, que d'outra maneira, de fuera +dormiredes, pastorcico. E o meu Senhor diz assi: + + Dava-lhe o vento no chapeiro, + Quer lhe d, quer no. + + Bem o pde revolver, + Que o vento no traz mais fruito; + E mais vento he sentir muito + O que, emfim, fim ha de ter. + O melhor, he melhor ser, + Que o vento no chapeiro, + Quer lhe d, quer no. + +Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem do mal, que o mal do +bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado; e a morte at +matar, mata. No sei se sereis marca de voar to alto; porque para tomar +a palha a esta materia, so necessarias azas de Nebri. Mas vs sois +homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mi vos +sei dar he: + + Que esperana me despede, + Tristeza no me fallece, + E tudo o mais me aborrece. + Ja que mais no mereceo + Minha estrella, + S a tristeza conheo, + Pois que para mi nasceo, + E eu para ella. + +No mundo no tee boa sorte, seno quem tee por boa a que tee. E +daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhae de que maneira: + + Vivo assi ao revs, + Tomando por certa vida + Certa morte, + Com que flgo em que me ps; + Pois minha sorte he servida + De tal sorte. + +Huma cousa sabei, que o mal, inda que s vezes o vejais louvar, no ha +quem o louve com a boca, que o no tache com o corao. + + Ajuda-me a soffrer + Vida to sem soffrimento, + E to sem vida, + Ver que, emfim, fim ho de ter + Desgsto e contentamento + Sem medida. + +Attentae que no so maos confeitos de enforcado, para os que esto com +o barao na garganta, cuidar que o bem e o mal, aindaque sejo +differentes na vida, so conformes na morte; porque vemos + + Que no ha to alta sorte, + Nem ventura to subida, + Ou desastrada, + A quem o asspro da morte + No sopre o fogo da vida. + + A seu fim todas cousas vo correndo; + Nem ha cousa, que o tempo no consuma, + Nem vida, que de si tanto presuma, + Que se no veja nada, em se vendo. + + Que o mais certo que temos, + He no termos nada certo + C na terra. + Pois para seus no nascemos; + Se o seu nos d incerto, + Nada erra. + +Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se fez a hum certo +recontro que se teve com este destruidor de bons propositos, e no se +acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte: + + Forou-me amor hum dia, que jogasse; + Deo as cartas, e az de ouros levantou; + E sem respeitar mo, logo triumphou, + Cuidando que o metal, que me enganasse. + + Dizendo, pois triumphou, que triumphasse + A huma sota de ouros, que jogou, + Eu ento por burlar quem me burlou, + Tres paos joguei, e disse que ganhasse. + +Principes de condio, ainda que o sejo de sangue, so mais enfadonhos +que a pobreza: fazem com sua fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias +de seus avs, onde no ha trigo to joeirado, que no tenha alguma +hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim, para dar que fallar a +hum convento. Duas cousas no se soffrem sem discordia; companhia no +amar, mandar villo ruim sbre cousa de seu interesse. No se pde ter +paciencia com quem quer que lhe fao o que no faz. Desagradecimentos +de boas obras destruem a vontade para no faz-las a amigo, que tee +mais conta com o interesse, que com a amizade: rezae delle, que he dos c +nomeados. + +Grande trabalho he querer fazer alegre rosto, quando o corao est +triste: panno he, que no toma nunca bem esta tinta; que a lua recebe a +claridade do sol, e o rosto do corao. Nada d quem no d honra no que +d: no tee que agradecer, quem, no que recebe, a no recebe; porque +bem comprado vai o que com ella se compra. No se d de graa o que se +pede muito. Estai certo, que quem no tee huma vida, tee muitas. Onde +a razo se governa pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que +louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto comsigo, como males de que +se no guardro, podendo. No ha alma sem corpo, que tantos corpos faa +sem almas, como este purgatorio, a que chamais honra: onde muitas vezes +os homens cuido que a ganho, ahi a perdem. Onde ha inveja, no ha +amizade; nem a pde haver em desigual conversao. Bem mereceo o engano, +quem creo mais o que lhe dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver +no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual, +perguntae-lhe donde vem: vereis que algo tiene en el cuerpo, que le +duele. Ora temperae-me l esta gaita, que nem assi, nem assi achareis +meio real de descanso nesta vida; ella nos trata somente como alheios de +si, e com razo; + + Pois somente nos he dada + Para que ganhemos nella + O que sabemos. + Se se gasta mal gastada, + Juntamente com perdella + Nos perdemos. + +Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, he a mais +fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quo breve he, + + Ponderemos e vejamos + Que ganhamos em viver + Os que nascemos: + Veremos, que no ganhamos, + Seno algum bem fazer, + Se o fazemos. + +E por isso respeitando, + + Que o por vir tal ser, + Enthesouremos; + Porque ao certo no sabemos + Quando a morte pedir + Que lhe paguemos. + +Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte: sendo +mais aborrecida que a verdade, tee-se em menos conta que a virtude. Mas +com tudo, com seu pensamento, quando lhe vem vontade, acarreta mil +pensamentos vos; que tudo para com ella he hum lume de palhas. Nenhuma +cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem na mor bonana, +como ella; porque quando lhe menos lembra, ento lhe arranca as amarras, +dando com os corpos costa; e, se vem mo, com as almas no inferno, +que he bem ruim gasalhado. + + E pois todos isto temos, + No nos engane a riqueza, + Por que tanto esmorecemos, + Traz que vamos; + Ja que temos por certeza + Que quando mais a queremos, + A deixamos. + + Gastmos em alcan-la + A vida; e quando queremos + Usar della, + Nos tira a morte logr-la: + Assi que a Deos perdemos, + E a ella. + +Porque ja ouvirieis dizer: _Ninho feito, pga morta_. Que me dizeis ao +contentamento do mundo, que toda a dura delle est emquanto se alcana? +Porque acabado de passar, acabado de esquecer. E com razo, porque +acabado de alcanar, he passado; e maior saudade deixa, do que he o +contentamento que deo. Esperae, por me fazer merc, que lhe quero dar +humas palavrinhas de proposito. + + Mundo, se te conhecemos, + Porque tanto desejamos + Teus enganos? + E se assi te queremos, + Mui sem causa nos queixamos + De teus danos. + + Tu no enganas ninguem; + Pois a quem te desejar, + Vemos que danas: + Se te querem qual te vem, + Se se querem enganar, + Ninguem enganas. + + Vejo-se os bens que tivero + Os que mais em alcanar-te + Se esmerro; + Que huns vivendo, no vivro, + E outros, s com deixar-te, + Descansro. + + Se esta to clara f + Te pe claros teus enganos, + Desengana: + Sobejamente mal v, + Quem com tantos desenganos + Se engana. + + Mas como tu sempre mores + No engano em que andamos, + E que vemos, + No cremos o que tu podes, + Seno o que desejamos + E queremos. + + Nada te pde estimar + Quem bem quizer conhecer-te + E estimar-te; + + Qu'em te perder ou ganhar, + O mais seguro ganhar-te + He perder-te. + + E quem em ti determina + Descanso poder achar, + Saiba que erra; + Que sendo a alma divina, + No a pde descansar + Nada da terra. + + Nascemos para morrer, + Morremos para ter vida, + Em ti morrendo: + O mais certo he merecer + Ns a vida conhecida, + Ca vivendo. + + Emfim, mundo, es estalagem, + Em que pouso nossas vidas + De corrida: + De ti levo de passagem + Ser bem ou mal recebidas + Na outra vida. + + fuera, fuera Rodrigo, que eu se muito for por este caminho, darei em +enfadonho, de que me parece me no livrar, nem ainda privilegio de +Cidado do Porto. E pois me vendo a vs, soffrei-me com meus encargos. E +porque no digais que sou herege de amor, e que lhe no sei oraes, +vdes, vai huma: _Di, Juan, de qu muri Blas?_ com hum p Portugueza, +e outro Castelhana: e no vos espanteis da libr, que eu em qualquer +palmo desta materia perco o norte. E os supplicantes dizem assi: + + Di, Juan, de que muri Blas, + Tan nio y tan mal logrado? + Gil, muri de desamado. + + Dime, Juan, quien se enga, + Que con amor se engaase, + Pensando que el bien hallase, + Adonde el mal cierto hall? + Despues que el engao vi, + Que hizo desenganado? + Gil, muri de desamado. + + Travou com elle pendena, + Em ter razo confiado; + Mas Amor, como he letrado, + Houve contr'elle a sentena: + E co'aquella differena, + Disse entre si o coitado: + Gil, morreo de desamado. + + Quem tee razo to cerrada, + Que no saiba, sendo rudo + E sem respeito, + Que sem Deos he tudo nada, + E nada com elle tudo + Sem defeito? + + E sendo isto assi to certo, + Como todos confessamos + E sabemos; + No troquemos pelo incerto + O em que to certo estamos, + Pois o vemos. + +A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Phaeton, +porque del dicho al hecho, v gran trecho. E de saber as cousas a passar +por ellas, ha mais differena, que de consolar a ser consolado. Mas assi +entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos a reprehend-lo, e poucos a +emend-lo. E com isto amaino, beijando essas poderosas mos huma +quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa nosso Senhor etc. + + * * * * * + +_O seguinte fragmento de uma composio satyrica em prosa e verso, em +que Luis de Cames descreve uns jogos de canas, com que na cidade de Goa +se festejou a successo de Francisco Barreto no governo daquelle Estado, +appareceo na 3. edio das suas Rimas, com as duas antecedentes cartas, +e em seguimento da ultima. O intento do poeta he mostrar por meio das +divisas que tirro os Justadores, que todos elles ero ou sacerdotes de +Baccho, ou parvos, ou homens perdidos._ + +.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa hum morcego; ave +em que foi convertida Alcithoe com as irmas, por desprezarem os +sacrificios de Baccho. E como aquelle, que se em tal rro cahisse, no +queria ser convertido em to baixo animal e to nojoso, dizia a sua +letra assi em Castelhano: + + Si yo desobedeciere + tu deidad santa y pura, + En al mudes mi figura. + +Alguns praguentos quizero dizer que esta letra era maliciosa, e que no +queria dizer tanto desejar este galante de ser mudado em al, como que +desejava almudes deste licor. Mas he muito grande falsidade, que sendo a +letra assi feita, acaso acertou de sahir aquella palavra, com que +molhava as suas quem tirava a divisa. Do que o innocente Autor, despois +ficou para se enforcar. Mas outro galante, que de fino bebado ja passava +os limites do bom e costumado beber, tirou por divisa huma palmeira; +rvore, que entre os Antigos significava victoria; e ao p della alguns +ramos de vides e de parreiras pizadas; e dizia a letra assi: + + Ficae vencidas, sem gloria, + Vs vides e vs parreiras; + Porque os ramos das palmeiras + So os que tee a victoria. + +Tambem aqui no faltro praguentos, que quizero dizer que este devoto, +deixando ja atraz Portugal, commettia com valeroso animo Orracas e +Fullas, tendo em pouco Caparicas e Seixaes. Mas quem ha que fuja de ms +linguas, ou de mal costumadas gargantas? + +Outro galante, a quem fazia mal ao estomago beber o vinho agoado, tirou +por divisa huma pea de chamalote sem goas, que apresentava Baccho; e +dizia a letra, como por parte do mesmo Baccho: + + Sem goas, Senhor, levaio + Se for bom, + Que las aguas de Moncaio + Frias son. + +Aqui no tivero praguentos que dizer, por ser opinio de physica, serem +melhores os mantimentos simples, que os compostos. + +Outro, que no beber lanava a barra inda mais alm que os acima +escritos, tirou por divisa huma salamandra, passeando por cima de humas +brazas de fogo; e a letra dizia: + + En el fuego vivo yo. + +Mas o pintor errando as letras, acertou de pr: _De fuego la bebo yo_. +Donde os praguentos quizero adivinhar que este galante bebia Orraca de +fogo. O demonio foi fazer tal rro, para delle sahir tamanho acrto. + +Outro devoto, que desque estava quente, dizia dos companheiros, +quaesquer que fossem, o que de cada hum saba, sem respeito, tirou por +divisa hum demoninhado, lanando os olhos em alvo, escumando e apontando +com o dedo para hum frasco de vinho; e dizia a letra: + + Se fallar demasiado, + No mo tachem, porque, emfim, + Aquella alma falla em mim. + +Sendo atqui introduzidos os religiosos de Baccho, pedro dous d'outra +religio que tambem os deixassem jogar as canas, e que elles tirario +tal divisa, com que se tirasse a limpo sua habilidade; e sendo entrados +ambos juntos, por certa conformidade que havia entre ambos, trouxero +pintados nas bandeiras cada hum seu par de pombas; e dizia a letra: + + Se como vs ha hi par, + Vs o podereis julgar. + +Certo, que atqui chegou a malicia dos homens, porque to subtilmente +quizero interpretar a innocencia desta letra, que tomro a derradeira +syllaba da primeira regra, e ajuntro-na com a primeira da derradeira, +que vem a dizer _parvos_; e dissero que juntos significavo isso +aquelles dous innocentes. Mal peccado! to errada anda a maldade humana, +que logo tee por parvos aos que sabem pouco! + +Outro homem entrou tambem por adherencia nas canas, o qual dizem que +tinha partes maravilhosas; porque era to perfeito em suas cousas, que o +seu comer havia de ser o melhor temperado e o mais suave do mundo; e os +seus vestidos ero sempre dos mais finos pannos e sitins, que se +podessem descobrir; e esta perfeio at nos amores e amizades se lhe +estendia, porque com os amigos sempre tinha subtilezas de conversao, e +com as amigas hum fingir que queria o que no queria. E, emfim, at no +jogar usava daquellas manhas todas, as que para ganhar ero necessarias. +E tinha mais hum revez da fortuna recebido, que se lhe estendia desde a +ponta do nariz at huma orelha. Este Senhor tirou por divisa huma camisa +toda lavrada de pontinhos, lavor antigo; e a letra dizia assi: + + Pontos de honrado e sisudo + Sempre na vida quiz ter; + Apontado no viver, + Apontado mais que tudo + Em meu vestir e comer. + Pontos subtis no meu gsto, + Mais subtis no conversar: + Tanto me vim a apontar, + Que apontado trago o rosto, + E as cartas para jogar. + +Muitos outros homens illustres quizero ser admittidos nestas festas e +canas, e que se fizera memoria delles, conforme suas qualidades; mas +infinita escritura fra, segundo todos os homens da India so +assinalados; e por isto esses bastem para servirem de amostra do que ha +nos mais. + +FIM. + + + * * * * * + + + + +NOTAS. + + + + +NOTAS. + +Pag. 16. V. 17. _No do sol, mas da candea._] Todas as ed.; mas he lio +viciosa, porque se a luz do sol no he sombra daquella idea, que em Deos +est mais perfeita, menos o ser a da candea. Exclue o poeta uma e outra +destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto c nos +seduz e encanta. Corrigimos portanto: + + *No do sol, nem da candea.* + + +P. 67. V. 4. _De mim to longe._] Todas as ed.; mas he rro, porque o +poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e +pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si to longe? Corrigimos: + + *De si to longe.* + + +P. 123. V. 25. + + _Vs na minha gloria posto. + Eu na vossa sepultura._] + +Todas as ed. Mas he justamente o contrrio: + + *Vs na vossa gloria posto, + Eu na minha sepultura.* + + +P. 124. V. 9. + + _Mas se esse rosto fingido + Quizereis representar, + Houvera por bom partido + Dar-lho a alma do sentido + Para a gloria do lugar._] + +Assim ando corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos: + + *Mas se esse rosto fingido + Quizero representar, + E houvero por bom partido + Dar-vos a alma do sentido + Para a gloria do lugar: + Vreis etc.* + + +P. 148. V. 1. _Vai o bem fugindo etc._] Estas endeixas, que +evidentemente so do poeta, ando na 1. e 2. edio das Rimas; na 3. +aindaque apontadas no index, foro supprimidas por descuido: ns as +restituimos. + + +P. 164. V. 23. _E amor he effeito d'alma._] Todas as ed. Parece que deve +ser _affeito d'alma_. + + +P. 183. V. 7. _Sem saber do cuidado o que sentia._] Todas as ed.; mas he +rro: corrigimos: + + *Sem saber de cuidado o que sentia;* + +isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia. + + +P. 185. V. 20. _Ao p d'uma alta faia etc._] Esta que inadvertidamente +aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes edies, +propriamente no he seno uma Egloga, que se deve ajuntar s mais. + + +P. 185. V. 24. _To queixoso d'Amor_] Faria e Sousa. He vicio: +corrigimos: _Mui queixoso d'Amor_. + + +P. 186. V. 8. _As roxas brancas Nymphas_] Faria e Sousa. He corrupo de +texto: corrigimos: + + *Brancas, roxas, as Nymphas mais colhio,* + +porque se entende flores. + + +P. 188. V. 15. _Junto do rosmaninho, que he crescer_] Faria e Sousa. He +corrupo de texto: corrigimos: + + *Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.* + + +P. 191. V. 25. _Ai que me deras vida a morte dar-me_] Faria e Sousa. He +corrupo de texto: corrigimos: + + *Ai que me deras vida em morte dar-me.* + + +P. 197. V. 23. _E como debil flamma a quem fallece O radical humor de +que vivia_] Faria e Sousa. He corrupo de texto; porque o radical humor +s pode faltar as plantas: corrigimos: + + *E como debil flor etc.* + + +P. 215. V. 15. + + _Por qual, Senhor, algum eu me trocra. Ou por qual algum rei de + mais grandeza_] + +Faria e Sousa. No julgamos correcto o dizer: _por qual algum_: devem +portanto estes versos ler-se como nas primeiras edies: + + *Por que Rei, por que duque eu me trocra, + Por que Senhor de grande fortaleza?* + + +P. 220. V. 30. + + _Se o successo he contrrio da vontade As obras que so boas, e o + desvio_] + +Faria e Sousa. He corrupo de texto: corrigimos: + + *Se o successo he contrrio da vontade + Nas obras que so boas, e ha desvio etc.* + + +P. 221. V. 41. _Quanto de infamia_] Faria e Sousa. Qumanha infamia, 3. +ed. Esta ultima nos parece ser a lio do poeta. + + +P. 222. V. 29. _Populares a Pallas._] Todas as ed. He vicio de texto: +corrigimos: + + *Populares ( Pallas) etc.* + + +P. 223. V. 17. _E pois que tudo em vos se permittio_] Faria e Sousa. _No +qual, pois tudo em vs etc._] 3. ed. Preferimos esta lio, que nos +parece ser a do poeta. + + +P. 224. V. 11. + + _O querido de Deos por quem peleja + O ar tambem, e o vento socegado, + Ao atambor acode, porque veja + Que quem a Deos ama, he de Deos amado_ + +Assim se lio estes quatro versos na 3. edio. Manoel de Faria corrigio: + + _Oh querido de Deos, por quem peleja + O ar tambem, e o vento socegado! + Ao tambor acode, porque veja + Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado._ + +Mas esta apostrophe, por elle introduzida, no tem aqui lugar; porque o +poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas +praias da Persia conseguia victoria daquellas naes to remotas, as +settas, que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravo no +ar, pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravo; e contina, +observando que o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o +vento conjurado em seu favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja +que o que a Deos ama, he delle amado e favorecido. Este he o sentido +natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo que estes versos ero imitao +dest'outros de Claudiano: + + _O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris + Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether, + Et conjurati veniunt ad classica venti._ + +julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e no accommod-los +ao seu intento, metteo aqui esta exclamao forada, sem nem ao menos +saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: _Yo dudo si esta +exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian._ E assim +estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Ns seguimos a +lio antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue +vicio de cpia, corrigimos: + + *O querido de Deos, por quem peleja, + O ar tambem e o vento socegado + Ao atambor lhe acodem, porque veja + Que o que a Deos ama, he de Deos amado.* + + +P. 225. V. 3. _Com louvores de Apollo celebrado._] Todas as ed.; mas +aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos: + + *Com louvores de Apollo, e celebrado.* + + +P. 228. V. 1. _Depois que a clara aurora a noite escura._] Esta glosa do +Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente no he +obra do poeta: por inadvertencia as conservmos nesta edio. + + +P. 257. L. 7. _Que so muito e valem pouco._] Todas as ed.; mas o que o +poeta quer dizer, he que um par de reales so cousa pouca, mas para um +escudeiro pobre valem muito. Corrigimos: + + *Que so pouco, e valem muito.* + + +P. 258. L. 17. _Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal._] Todas as +ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos: + + *Que tal dizem, que he?* + + +P. 259. L. 1. _E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como +Apostolo, mais piedosa que huma lamentao._] Todas as ed.; mas he +vicio: corrigimos: + + *Que vem podre de amor etc.* + + +P. 259. L. 8. _Ol, Senhores._] Lio vulgar. He viciosa: corrigimos: + + *Ol, Senhoras.* + + +P. 286. V. 1. _Mas qu amo y cararon._] Lio vulgar. He grande estrago +de texto: corrigimos: + + *Mas qu amo y qu cabron!* + + +P. 369. V. 11. _Esperai, dir-vo-lo-ha._] Faria. He rro: deve ler-se: + + *Dir-se-vos-ha.* + + +P. 370. V. 14. + + _Pois s desse encantador + Me quero vingar de ti._] + +Lio vulgar: he viciosa: corrigimos: + + *Pois so desse encantador + Me quero vingar em ti.* + + +P. 374. V. 48. _E se mal vos succedesse._] Lio vulgar: he rro de +cpia ou de impresso: corrigimos: + + *E se mal nos succedesse.* + + +P. 386. L. 11. _O qual informado pelo pastor que a achra, (que era +homem sabio na arte magica) e como a crira._] Lio vulgar; mas a +orao esta imperfeita: corrigimos: *O qual informado pelo pastor etc.; +de como a achra e como a crira.* + + +P. 402. V. 17. _E levar-me a lenha o vento._] Lio vulgar: He viciosa, +porque falta a clausula da orao: corrigimos: + + *He levar-me a lenha o vento.* + + +P. 418. L. 5. _Pois no devia assi de ser posantos e vanselos._] Lio +vulgar. Estranha corrupo de texto: corrigimos: + + *Pois no devia assi de ser, polos Santos Evangelhos.* + + +P. 418. V. 6. _Que os amos e os cangrejos._] Lio vulgar. He viciosa: +corrigimos: + + *Que o amor e os cangrejos.* + + +P. 447. V. 16. + + _Que das montanhas erguidas + D'algum monte no sahisse._] + +Lio vulgar. No he menos notavel esta corrupo: corrigimos: + + *Que das montanhas erguidas + Algum monstro no sahisse.* + + +P. 453. V. 20. _Se tanto amasse._] Lio vulgar; mas aqui ha vicio de +texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma +exprimir-se. Corrigimos: + + *Se eu tanto amasse.* + + +Pag. 467. V. 12. + + _Que quando por accidente + Da fortuna desastrado + Fosse apartado da gente + N'um lugar onde somente + Das feras fosse guardado: + E por ferro, fogo e goa + Buscar minha morte iria._] + +Lio vulgar. Mas a corrupo de texto no pde ser mais visivel. +Comtudo no difficil atinar-se com o sentido do poeta. + +Acaba de dizer Dionysa a Filodemo que tomra ver-se dalli cem mil +leguas, pelo perigo que corria a sua honestidade. Responde-lhe este, que +isso desejava tambem elle que succedesse; porque nesse caso teria +occasio de fazer por ella uma fineza, que fosse mais de agradecer; e +vem a ser, que quando ella por algum caso da fortuna fosse apartada da +gente n'um deserto onde no tivesse por guarda, seno as feras; por +ferro, fogo e goa l iria elle buscar a sua morte. E porque no pde +ser outro o sentido do poeta, corrigimos: + + *Que quando por accidente + A fortuna desastrada + Vos apartasse da gente + N'um deserto, onde somente + Das feras fosseis guardada; + L por ferro, fogo e goa + Buscar minha morte iria etc.* + + +P. 475. L. 20. _Que estas cidras no se desistem em nove dias, seno em +nove mezes._] Lio vulgar. No ha maior corrupo de texto. Que tem as +cidras que desistir? Que o poeta no disse um tal absurdo, he fra de +toda a dvida. O que elle disse foi isto: + +*E porque estes sirgos no se desistem em nove dias, seno em nove +mezes, foi-lhe a elle necessario acolher-se com ella etc.* + +Sirgo he o envolucro, onde se encerra o bicho da seda, quando passa ao +estado de metamorphose, e onde se conserva doze dias, ou nove, como diz +o poeta. Mas a ignorancia transformou sirgos em cidras. + + +P. 482. L. 7. Porque quando cuido que sem peccado que me obrigasse a +tres dias de purgatorio, passei tres mil de ms linguas, peores tenes, +damnadas vontades, nascidas de pura inveja de verem _su amada yedra de +si arrancada, y en otro muro asida..._ Aqui ha lacuna porque falta o +verbo da orao. + + +P. 489. V. 28. + + _A quem no assopre a morte + Nem sopre o fogo da vida._] + +Lio vulgar; mas a do poeta he: + + *A quem o asspro da morte + No sopre o fogo da vida.* + + +P. 490. L. 26. _Tres cousas no se soffrem sem discordia; companhia, +namorar, mandar villo ruim sobre cousa de seu interesse._] Todas as ed. +Mas o vicio he palpavel: corrigimos: *Duas cousas no se soffrem sem +discordia; companhia no amar, mandar villo ruim sobre cousa de seu +interesse.* + + + + +INDEX. + + +REDONDILHAS &c. + + Pag. + + 100 A alma que est offrecida + 61 A dor que a minha alma sente + 113 A morte, pois que sou vosso + 71 Amor loco, amor loco + 57 Amor que todos offende + 63 Amores de huma casada + 66 Apartro-se os meus olhos + 126 Aquella captiva + + 107 Campos bem-aventurados + 99 Catharina bem promette + 98 Cinco gallinhas e meia + 136 Coifa de beirame + 103 Com razo queixar-me posso + 76 Com vossos olhos, Gonalves + 38 Conde, cujo illustre peito + 33 Corre sem vela e sem leme + 93 Crescem, Camilla, os abrolhos + + 53 Da doena em que ora ardeis + 62 D'alma e de quanto tiver + 28 Dama d'estranho primor + 56 De atormentado e perdido + 70 De dentro tengo mi mal + 65 De pequena tomei amor + 76 De que me serve fugir + 70 De vuestros ojos centellas + 54 Deo, Senhora, por sentena + 91 Deos te salve, Vasco amigo + 60 Descala vai pela neve + 102 Descala vai para a fonte + 143 D la mi ventura + + 63 Enforquei minha esperana + 80 Esconjuro-te, Domingas + 101 Esperei, ja no espero + 46 Este mundo es el camino + + 67 Falso cavalleiro ingrato + 101 Ferro, fogo, frio e calma + 125 Foi-se gastando a esperana + + 78 Ha hum bem que chega e foge + + 132 Irme quiero, madre + + 112 Ja no posso ser contente + 119 Justa fue mi perdicion + + 105 Mas porm a que cuidados + 140 Menina formosa + 52 Menina formosa e crua + 75 Menina, no sei dizer + 129 Menina dos olhos verdes + 118 Minh'alma, lembrae-vos della + + 86 Na fonte est Leonor + 57 No estejais aggravada + 89 No posso chegar ao cabo + 74 No sei se m'engana Helena + + 104 Ojos, herido me habeis + 55 Olhae que dura sentena + 94 Olhos em que esto mil flores + 78 Olhos, no vos mereci + 79 Os bons vi sempre passar + + 69 Para que me dan tormento + 145 Pastora da serra + 43 Peo-vos que me digais + 83 Pequenos contentamentos + 84 Perdigo perdeo a penna + 80 Perguntais-me quem me mata + 85 Pois a tantas perdies + 73 Pois damno me faz olhar-vos + 72 Pois he mais vosso que meu + 92 Porqu no miras, Giraldo + 64 Puz o corao nos olhos + + 60 Qual ter culpa de ns + 77 Quando me quer enganar + 87 Que diabo ha to damnado + 122 Qu ver que me contente + 103 Quem disser que a barca pende + 58 Quem no mundo quizer ser + 128 Quem ora soubesse + 94 Quem se confia em huns olhos + 21 Querendo escrever hum dia + + 123 Retrato, vs no sois meu + + 134 Saudade minha + 81 Se a alma ver-se no pde + 68 Se de meu mal me contento + 41 Se derivais da verdade + 137 Se Helena apartar + 83 Se me desta terra for + 128 Se me levo agoas + 45 Se n'alma e no pensamento + 35 Se no quereis padecer + 51 Se vossa Dama vos d + 45 Sem olhos vi o mal claro + 117 Sem ventura he por demais + 116 Sem vs, e com meu cuidado + 59 Senhora, pois me chamais + 73 Senhora, pois minha vida + 40 Senhora, s'eu alcanasse + 95 Sois formosa e tudo tendes + 9 Sbolos rios que vo + 30 Suspeitas, que me quereis + + 141 Tende-me mo nelle + 121 Todo es poco lo posible + 109 Trabalhos descansario + 110 Triste vida se me ordena + 131 Trocae o cuidado + 118 Tudo pde huma affeio + 98 Tudo tendes singular + + 148 Vai o bem fugindo + 72 Vde bem se nos meus dias + 115 Vejo-a n'alma pintada + 79 Venceo-me Amor, no o nego + 132 Ver e mais guardar + 138 Verdes so os campos + 139 Verdes so as hortas + 90 Vi chorar huns claros olhos + 135 Vida da minha alma + 68 Vs, Senhora, tudo tendes + 146 Vs sois huma Dama + 122 Vos teneis mi corazon + 88 Vossa Senhoria creia + 82 Vosso bem querer, Senhora + +SEXTINAS. + + 152 A culpa de meu mal s tem meus olhos + 151 Foge-me pouco a pouco a curta vida + 154 Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia + 155 Sempre me queixarei desta crueza + +ELEGIAS. + + 194 A vida me aborrece, a morte quero + 185 Ao p d'hum'alta faia vi sentado + 160 Aquella que de amor descomedido + 175 Aquelle mover de olhos excellente + 190 Belisa, unico bem desta alma minha + 172 Depois que Magalhes teve tecida [4] + 177 Entre rusticas serras e fragosas + 208 Juizo extremo, horrifico e tremendo + 164 O poeta Simonides fallando + 157 O sulmonense Ovidio desterrado + 196 Que tristes novas, ou que novo damno [5] + 202 Se quando contemplamos as secretas + + [4] A D. Leoniz Pereira, havendo-lhe Pedro de Magalhes + Gandavo dedicado o seu livro intitulado: _Historia da + Provincia de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos + Brasil_. Impresso em Lisboa 1576. + + [5] morte de D. Miguel de Menezes na India, filho de D. + Henrique de Menezes, Governador da casa do Civil. Foi + dirigida a seu irmo D. Philipe de Menezes. + +EPISTOLAS. + + 217 Como nos vossos hombros to constantes [6] + 223 Mui alto Rei a quem os ceos em sorte [7] + 210 Quem pde ser no mundo to quieto [8] + 225 Senhora se encobrir por alguma arte + + [6] A D. Constantino de Bragana, Viso-Rei da India. + + [7] Sobre a setta que o Papa enviou a ElRei D. Sebastio + no anno de 1575. + + [8] A D. Antonio de Noronha, sbre o desconcrto do mundo. + +OITAVAS. + + 232 C nesta Babylonia adonde mana + 228 Despois que a clara Aurora a noite escura + 234 D'huma formosa virgem desposada + +COMEDIAS. + + 255 ElRei Seleuco + 301 Os Amphitries + 385 Filodemo + +CARTAS. + + 481 Carta 1. + 484 Carta 2. + + 503 NOTAS + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Cames + Tomo III, by Lus Cames + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMES *** + +***** This file should be named 37192-8.txt or 37192-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/7/1/9/37192/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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V. Barreto Feito e J. G. Monteiro."> + <meta name="Edition" + content="Paris. 1843. Officina Typographica de Fain e Thunot"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8"> + <style type="text/css"> + body {margin-left: 3em; + width: 30em; + margin-right: auto; + font-family: sans-serif; + } + .pn { + text-indent: 0em; + + + position: absolute; + + left: 0.5em; + font-size: 0.6em; + text-align: right; + color: silver; + } + a {text-decoration: none;} + h1, h2, h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + + +/* blockquote {border-left: solid 4px maroon; padding-left: 4px; border-bottom: solid 1px maroon;} */ + + p.separador {text-align: center; color: gray; margin-bottom: 3em;} + #redondilhas p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + #redondilhas p.centrado {text-indent: 0;text-align: center;} + + #sextinas p.centrado {text-indent: 0;text-align: center; } + + #cartas p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + #cartas p.ni {text-align: justify; text-indent: 0;} + #cartas p.centrado {text-align: center;} + + + +/* p {text-align: justify;text-indent: 1.5em;}*/ + p.centrado {text-align: center;} + p.ni {text-indent: 0em;} + .verso {margin-left: 20%; font-size: 0.8em;} + + #notas p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + #notas p.ni {text-indent: 0;} + #notas p.par_nota {margin-top: 2em;} + + + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .rodape p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + p.indice {text-indent: 4em; font-size: 0.8em; margin: 0;} + h4.indice {text-indent: 4em; font-size: 0.8em; text-align: left;} + .lpn {position: absolute; left: 0em; color: gray;} + +/* estilos para as comédias*/ + + #comedias p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + #comedias p.ni {text-align: justify; text-indent: 0;} + #comedias p.inst_cena {text-align: center; font-size: 0.9em; margin-top: 2em;margin-bottom: 2em;} + #comedias p.personagem {text-align: center; margin:0em;} + #comedias p.espacado {text-align: center; letter-spacing: 0.3em;} + + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III, by +Luís Camões + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III + +Author: Luís Camões + +Release Date: August 24, 2011 [EBook #37192] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<div class="fbox"><p><b>Notas de transcrição:</b></p> + + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro +impresso em 1843.</p> + +<p>Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns +pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, +e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos +inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em +particular quanto à acentuação.</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> + +<p style="font-size: 1.1em;">CLASSICOS</p> + +<p style="font-size: 1.6em;">PORTUGUEZES.</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">TOMO III.</p> + +<hr style="width: 20%"> + +<p style="font-size: 1.4em;">CAMÕES.</p> + +<p style="font-size: 1em;">III.</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr> +<p style="text-align: center; font-size: small;">PARIZ.—NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,<br> +Rua Racine, 26, junto ao Odeon.</p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">OBRAS COMPLETAS</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DE</p> + +<p style="font-size: 2em;"><strong>LUIS DE CAMÕES,</strong></p> + +<p style="font-size: 0.8em;">CORRECTAS E EMENDADAS</p> + +<p>PELO CUIDADO E DILIGENCIA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DE</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.</p> + +<p style="font-size: 1em;">TOMO TERCEIRO.</p> + +<p> </p> + + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.3em;">LISBOA.</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,<br> +<span style="font-size: 1.1em;">NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,</span><br> +3, quai Malaquais, près le pont des Arts.</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">1843</p> + +</div> + + +<p> <span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span></p> + + + + +<h1><big>RIMAS.</big></h1> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span></p> + + + + +<h1>RIMAS.</h1> + +<h2>REDONDILHAS.</h2> + + +<div id="redondilhas"> + +<blockquote><big>S</big>ôbolos rios que vão<br> +Por Babylonia, me achei,<br> +Onde sentado chorei<br> +As lembranças de Sião,<br> +E quanto nella passei.<br> +Alli o rio corrente<br> +De meus olhos foi manado;<br> +E tudo bem comparado,<br> +Babylonia ao mal presente,<br> +Sião ao tempo passado.<br> + <br> +Alli lembranças contentes<br> +N'alma se representárão;<br> +E minhas cousas ausentes<br> +Se fizerão tão presentes,<br> +Como se nunca passárão.<br> +Alli, despois d'acordado,<br> +Co'o rosto banhado em ágoa,<br> +Deste sonho imaginado,<br> +Vi que todo o bem passado<br> +Não he gôsto, mas he mágoa. <span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span><br> + <br> +E vi que todos os danos<br> +Se causavão das mudanças,<br> +E as mudanças dos anos;<br> +Onde vi quantos enganos<br> +Faz o tempo ás esperanças.<br> +Alli vi o maior bem<br> +Quão pouco espaço que dura;<br> +O mal quão depressa vem;<br> +E quão triste estado tem<br> +Quem se fia da ventura.<br> + <br> +Vi aquillo que mais val<br> +Qu'então s'entende melhor,<br> +Quando mais perdido for:<br> +Vi ao bem succeder mal,<br> +E ao mal muito peor.<br> +E vi com muito trabalho<br> +Comprar arrependimento:<br> +Vi nenhum contentamento;<br> +E vejo-me a mi, qu'espalho<br> +Tristes palavras ao vento.<br> + <br> +Bem são rios estas ágoas<br> +Com que banho este papel:<br> +Bem parece ser cruel<br> +Variedade de mágoas,<br> +E confusão de Babel.<br> +Como homem, que por exemplo<br> +Dos trances em que se achou,<br> +Despois que a guerra deixou,<br> +Pelas paredes do templo<br> +Suas armas pendurou:<br> + <br> +Assi, despois qu'assentei <span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span><br> +Que tudo o tempo gastava,<br> +Da tristeza que tomei,<br> +Nos salgueiros pendurei<br> +Os orgãos com que cantava.<br> +Aquelle instrumento ledo<br> +Deixei da vida passada,<br> +Dizendo: Musica amada,<br> +Deixo-vos neste arvoredo<br> +Á memoria consagrada.<br> + <br> +Frauta minha, que tangendo<br> +Os montes fazieis vir<br> +Par'onde estaveis, correndo;<br> +E as ágoas, que hião descendo,<br> +Tornavão logo a subir;<br> +Jamais vos não ouvirão<br> +Os tigres, que s'amansavão;<br> +E as ovelhas, que pastavão,<br> +Das hervas se fartarão,<br> +Que por vos ouvir deixavão.<br> + <br> +Ja não fareis docemente<br> +Em rosas tornar abrolhos<br> +Na ribeira florecente;<br> +Nem poreis freio á corrente,<br> +E mais se for dos meus olhos.<br> +Não movereis a espessura,<br> +Nem podereis ja trazer<br> +Atraz vós a fonte pura;<br> +Pois não pudestes mover<br> +Desconcertos da ventura.<br> + <br> +Ficareis offerecida<br> +Á Fama, que sempre vela, <span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span><br> +Frauta de mi tão querida;<br> +Porque mudando-se a vida,<br> +Se mudão os gostos della.<br> +Acha a tenra mocidade<br> +Prazeres accommodados;<br> +E logo a maior idade<br> +Ja sente por pouquidade<br> +Aquelles gostos passados.<br> + <br> +Hum gôsto, que hoje s'alcança,<br> +Á manhãa ja o não vejo:<br> +Assi nos traz a mudança<br> +D'esperança em esperança,<br> +E de desejo em desejo.<br> +Mas em vida tão escassa<br> +Qu'esperança será forte?<br> +Fraqueza da humana sorte,<br> +Que quanto da vida passa<br> +Está recitando a morte!<br> + <br> +Mas deixar nesta espessura<br> +O canto da mocidade:<br> +Não cuide a gente futura<br> +Que será obra da idade<br> +O que he fôrça da ventura.<br> +Qu'idade, tempo, e espanto<br> +De ver quão ligeiro passe,<br> +Nunca em mi puderão tanto,<br> +Que, postoque deixo o canto,<br> +A causa delle deixasse.<br> + <br> +Mas em tristezas e nojos,<br> +Em gôsto e contentamento;<br> +Por sol, por neve, por vento, <span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span><br> +<em>Tendré presente á los ojos<br> +Por quien muero tan contento.</em><br> +Orgãos e frauta deixava,<br> +Despôjo meu tão querido,<br> +No salgueiro que alli'stava,<br> +Que para tropheo ficava<br> +De quem me tinha vencido.<br> + <br> +Mas lembranças da affeição<br> +Que alli captivo me tinha,<br> +Me perguntárão então,<br> +Qu'era da musica minha,<br> +Que eu cantava em Sião?<br> +Que foi daquelle cantar,<br> +Das gentes tão celebrado?<br> +Porque o deixava de usar,<br> +Pois sempre ajuda a passar<br> +Qualquer trabalho passado?<br> + <br> +Canta o caminhante ledo<br> +No caminho trabalhoso<br> +Por entre o espêsso arvoredo;<br> +E de noite o temeroso<br> +Cantando refreia o medo.<br> +Canta o preso docemente,<br> +Os duros grilhões tocando;<br> +Canta o segador contente;<br> +E o trabalhador, cantando,<br> +O trabalho menos sente.<br> + <br> +Eu qu'estas cousas senti<br> +N'alma de mágoas tão cheia,<br> +Como dirá, respondi,<br> +Quem alheio está de si <span class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span><br> +Doce canto em terra alheia?<br> +Como poderá cantar<br> +Quem em chôro banha o peito?<br> +Porque, se quem trabalhar<br> +Canta por menos cansar,<br> +Eu só descansos engeito.<br> + <br> +Que não parece razão,<br> +Nem sería cousa idonia,<br> +Por abrandar a paixão<br> +Que cantasse em Babylonia<br> +As cantigas de Sião.<br> +Que quando a muita graveza<br> +De saudade quebrante<br> +Esta vital fortaleza,<br> +Antes morra de tristeza,<br> +Que por abrandá-la cante.<br> + <br> +Que se o fino pensamento<br> +Só na tristeza consiste,<br> +Não tenho medo ao tormento:<br> +Que morrer de puro triste,<br> +Que maior contentamento?<br> +Nem na frauta cantarei<br> +O que passo, e passei ja,<br> +Nem menos o escreverei;<br> +Porque a penna cansará,<br> +E eu não descansarei.<br> + <br> +Que se vida tão pequena<br> +S'accrescenta em terra estranha;<br> +E se Amor assi o ordena,<br> +Razão he que canse a penna<br> +D'escrever pena tamanha. <span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span><br> +Porém, se para assentar<br> +O que sente o coração,<br> +A penna ja me cansar,<br> +Não canse para voar<br> +A memoria em Sião.<br> + <br> +Terra bem-aventurada,<br> +Se por algum movimento<br> +D'alma me fores tirada,<br> +Minha penna seja dada<br> +A perpétuo esquecimento.<br> +A pena deste destêrro,<br> +Qu'eu mais desejo esculpida<br> +Em pedra, ou em duro ferro,<br> +Essa nunca seja ouvida,<br> +Em castigo de meu êrro.<br> + <br> +E se eu cantar quizer<br> +Em Babylonia sujeito,<br> +Hierusalem, sem te ver,<br> +A voz, quando a mover,<br> +Se me congele no peito;<br> +A minha lingua se apegue<br> +Ás fauces, pois te perdi,<br> +S'em quanto viver assi<br> +Houver tempo, em que te negue,<br> +Ou que m'esqueça de ti.<br> + <br> +Mas ó tu, terra de glória.<br> +S'eu nunca vi tua essencia,<br> +Como me lembras na ausencia?<br> +Não me lembras na memoria,<br> +Senão na reminiscencia:<br> +Que a alma he taboa rasa, <span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span><br> +Que com a escrita doutrina<br> +Celeste tanto imagina,<br> +Que vôa da propria casa,<br> +E sobe á patria divina.<br> + <br> +Não he logo a saudade<br> +Das terras onde nasceo<br> +A carne, mas he do Ceo,<br> +Daquella santa Cidade,<br> +Donde est'alma descendeo.<br> +E aquella humana figura,<br> +Que cá me póde alterar,<br> +Não he quem se ha de buscar;<br> +He raio da formosura,<br> +Que só se deve d'amar.<br> + <br> +Que os olhos, e a luz que ateia<br> +O fogo que cá sujeita,<br> +Não do sol, nem da candeia,<br> +He sombra daquella ideia,<br> +Qu'em Deos está mais perfeita.<br> +E os que cá me captivárão,<br> +São poderosos affeitos<br> +Qu'os corações tẽe sujeitos;<br> +Sophistas, que m'ensinárão<br> +Maos caminhos por direitos.<br> + <br> +Destes o mando tyrano<br> +M'obriga com desatino<br> +A cantar ao som do dano<br> +Cantares d'amor profano,<br> +Por versos d'amor divino.<br> +Mas eu, lustrado co'o santo<br> +Raio, na terra de dor, <span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span><br> +De confusões e d'espanto<br> +Como hei de cantar o canto,<br> +Que só se deve ao Senhor?<br> + <br> +Tanto póde o beneficio<br> +Da graça que dá saude,<br> +Que ordena que a vida mude:<br> +E o qu'eu tomei por vício,<br> +Me faz grao para a virtude;<br> +E faz qu'este natural<br> +Amor, que tanto se préza,<br> +Suba da sombra ao real,<br> +Da particular belleza<br> +Para a belleza geral.<br> + <br> +Fique logo pendurada<br> +A frauta com que tangi,<br> +Ó Hierusalem sagrada,<br> +E tome a lyra dourada<br> +Para só cantar de ti;<br> +Não captivo e ferrolhado<br> +Na Babylonia infernal,<br> +Mas dos vicios desatado,<br> +E cá desta a ti levado,<br> +Patria minha natural.<br> + <br> +E s'eu mais der a cerviz<br> +A mundanos accidentes,<br> +Duros, tyrannos e urgentes,<br> +Risque-se quanto ja fiz<br> +Do grão livro dos viventes.<br> +E, tomando ja na mão<br> +A lyra santa e capaz<br> +D'outra mais alta invenção, <span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span><br> +Calle-se esta confusão,<br> +Cante-se a visão de paz.<br> + <br> +Ouça-me o pastor e o rei,<br> +Retumbe este accento santo,<br> +Mova-se no mundo espanto;<br> +Que do que ja mal cantei<br> +A palinodia ja canto.<br> +A vós só me quero ir,<br> +Senhor, e grão Capitão<br> +Da alta tôrre de Sião,<br> +Á qual não posso subir,<br> +Se me vós não dais a mão.<br> + <br> +No grão dia singular,<br> +Que na lyra em douto som<br> +Hierusalem celebrar,<br> +Lembrae-vos de castigar<br> +Os ruins filhos de Edom.<br> +Aquelles que tintos vão<br> +No pobre sangue innocente,<br> +Soberbos co'o poder vão,<br> +Arrazá-los igualmente:<br> +Conheção que humanos são.<br> + <br> +E aquelle poder tão duro<br> +Dos affectos com que venho,<br> +Qu'encendem alma e engenho;<br> +Que ja m'entrárão o muro<br> +Do livre arbitrio que tenho;<br> +Estes, que tão furiosos<br> +Gritando vem a escalar-me,<br> +Maos espiritos damnosos,<br> +Que querem como forçosos <span class="pn"><a name="pag_19">{19}</a></span><br> +Do alicerce derribar-me;<br> + <br> +Derribae-os, fiquem sós,<br> +De fôrças fracos, imbelles;<br> +Porque não podemos nós,<br> +Nem com elles ir a vós,<br> +Nem sem vós tirar-nos delles.<br> +Não basta minha fraqueza<br> +Para me dar defensão,<br> +Se vós, santo Capitão,<br> +Nesta minha Fortaleza<br> +Não puzerdes guarnição.<br> + <br> +E tu, ó carne, qu'encantas,<br> +Filha de Babel tão feia,<br> +Toda de miseria cheia,<br> +Que mil vezes te levantas<br> +Contra quem te senhoreia;<br> +Beato só póde ser<br> +Quem co'a ajuda celeste<br> +Contra ti prevalecer,<br> +E te vier a fazer<br> +O mal que lhe tu fizeste:<br> + <br> +Quem com disciplina crua<br> +Se fere mais que huma vez;<br> +Cuja alma, de vicios nua,<br> +Faz nodas na carne sua,<br> +Que ja a carne n'alma fez.<br> +E beato quem tomar<br> +Seus pensamentos recentes,<br> +E em nascendo os affogar,<br> +Por não virem a parar<br> +Em vicios graves e urgentes: <span class="pn"><a name="pag_20">{20}</a></span><br> + <br> +Quem com elles logo der<br> +Na pedra do furor santo,<br> +E batendo os desfizer<br> +Na Pedra, que veio a ser<br> +Emfim cabeça do canto:<br> +Quem logo, quando imagina<br> +Nos vicios da carne má,<br> +Os pensamentos declina<br> +Áquella Carne divina,<br> +Que na Cruz esteve ja.<br> + <br> +Quem do vil contentamento<br> +Cá deste mundo visibil,<br> +Quanto ao homem for possibil,<br> +Passar logo entendimento<br> +Para o mundo intelligibil;<br> +Alli achará alegria<br> +Em tudo perfeita, e cheia<br> +De tão suave harmonia,<br> +Que nem por pouca recreia,<br> +Nem por sobeja enfastia.<br> + <br> +Alli verá tão profundo<br> +Mysterio na summa Alteza,<br> +Que, vencida a natureza,<br> +Os mores faustos do mundo<br> +Julgue por maior baixeza.<br> +Ó tu, divino aposento,<br> +Minha patria singular,<br> +Se só com te imaginar,<br> +Tanto sobe o entendimento,<br> +Que fara se em ti se achar?<br> + <br> +Ditoso quem se partir <span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span><br> +Para ti, terra excellente,<br> +Tão justo e tão penitente,<br> +Que despois de a ti subir,<br> +Lá descanse eternamente!</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + + +<p class="centrado">C<small>ARTA A HUMA</small> D<small>AMA.</small></p> + +<blockquote><big>Q</big>uerendo escrever hum dia<br> +O mal, que tanto estimei;<br> +Cuidando no que poria,<br> +Vi Amor que me dizia:<br> +Escreve, qu'eu notarei.<br> +E como para se ler<br> +Não era historia pequena<br> +A que de mi quiz fazer,<br> +Das azas tirou a penna<br> +Com que me fez escrever.<br> + <br> +E, logo como a tirou,<br> +Me disse: Aviva os espritos;<br> +Que pois em teu favor sou,<br> +Esta penna, que te dou,<br> +Fara voar teus escritos.<br> +E dando-me a padecer<br> +Tudo o que quiz que puzesse,<br> +Pude emfim delle dizer,<br> +Que me deo com qu'escrevesse<br> +O que me deo a escrever.<br> + <br> +Eu qu'este engano entendi,<br> +Disse-lhe: Qu'escreverei?<br> +Respondeo, dizendo assi:<br> +Altos effeitos de mi. <span class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span><br> +E daquella a quem te dei.<br> +E ja que te manifesto<br> +Todas minhas estranhezas,<br> +Escreve, pois que te prézas,<br> +Milagres d'hum claro gesto,<br> +E de quem o vio, tristezas.<br> + <br> +Ah Senhora, em quem se apura<br> +A fé de meu pensamento!<br> +Escutae e estae a tento,<br> +Que com vossa formosura<br> +Iguala Amor meu tormento.<br> +E, postoque tão remota<br> +Estejais de m'escutar<br> +Por me não remediar,<br> +Ouvi, que pois Amor nota,<br> +Milagres se hão de notar.<br> + <br> +Escrevem varios Authores,<br> +Que junto da clara fonte<br> +Do Ganges, os moradores<br> +Vivem do cheiro das flores<br> +Que nascem naquelle monte.<br> +Se os sentidos podem dar<br> +Mantimento ao viver,<br> +Não he logo d'espantar,<br> +S'estes vivem de cheirar,<br> +Que viva eu só de vos ver.<br> + <br> +Huma árvore se conhece,<br> +Que na geral alegria<br> +Ella tanto s'entristece,<br> +Que, como he noite, florece,<br> +E perde as flores de dia. <span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span><br> +Eu, qu'em ver-vos sinto o preço<br> +Qu'em vossa vista consiste,<br> +Em a vendo m'entristeço,<br> +Porque sei que não mereço<br> +A glória de ver-me triste.<br> + <br> +Hum Rei de grande poder<br> +Com veneno foi criado,<br> +Porque, sendo costumado,<br> +Não lhe pudesse empecer,<br> +Se despois lhe fosse dado.<br> +Eu, que criei de pequena<br> +A vista a quanto padece,<br> +Desta sorte m'acontece,<br> +Que não me faz mal a pena,<br> +Senão quando me fallece.<br> + <br> +Quem da doença Real<br> +De longe enfêrmo se sente,<br> +Por segredo natural<br> +Fica são vendo somente<br> +Hum volatil animal.<br> +Do mal, que Amor em mi cria,<br> +Quando aquella Phenix vejo,<br> +São de todo ficaria;<br> +Mas fica-me hydropesia,<br> +Que quanto mais, mais desejo.<br> + <br> +Da vibora he verdadeiro,<br> +Se a consorte vai buscar,<br> +Qu'em se querendo juntar,<br> +Deixa a peçonha primeiro,<br> +Porque lh'impede o gerar.<br> +Assi quando m'apresento <span class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span><br> +Á vossa vista inhumana,<br> +A peçonha do tormento<br> +Deixo á parte, porque dana<br> +Tamanho contentamento.<br> + <br> +Querendo Amor sustentar-se,<br> +Fez huma vontade esquiva<br> +D'huma estatua namorar-se:<br> +Despois, por manifestar-se,<br> +Converteo-a em mulher viva.<br> +De quem m'irei eu queixando,<br> +Ou quem direi que m'engana<br> +Se vou seguindo e buscando<br> +Huma imagem, que d'humana<br> +Em pedra se vai tornando?<br> + <br> +D'huma fonte se sabía,<br> +Da qual certo se provava<br> +Que quem sôbre ella jurava,<br> +Se falsidade dizia,<br> +Dos olhos logo cegava.<br> +Vós, que minha liberdade,<br> +Senhora, tyrannizais,<br> +Injustamente mandais,<br> +Quando vos fallo verdade,<br> +Que vos não possa ver mais.<br> + <br> +Da palma s'escreve e canta<br> +Ser tão dura e tão forçosa,<br> +Que pêzo não a quebranta,<br> +Mas antes, de presunçosa,<br> +Com elle mais se levanta.<br> +Co'o pêzo do mal que dais,<br> +A constancia qu'em mi vejo, <span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span><br> +Não somente ma dobrais,<br> +Mas dobra-se meu desejo,<br> +Com qu'então vos quero mais.<br> + <br> +Se alguem os olhos quizer<br> +Ás andorinhas quebrar,<br> +Logo a mãe, sem se deter,<br> +Huma herva lhe vai buscar<br> +Que lhes faz outros nascer.<br> +Eu que os olhos tenho attento<br> +Nos vossos, qu'estrellas são,<br> +Cegão-se os do entendimento,<br> +Mas nascem-me os da razão<br> +De folgar com meu tormento.<br> + <br> +Lá para onde o sol sahe,<br> +Descobrimos, navegando,<br> +Hum novo rio admirando,<br> +Que o lenho que nelle cahe,<br> +Em pedra se vai tornando.<br> +Não s'espantem disto as gentes;<br> +Mais razão será qu'espante<br> +Hum coração tão possante,<br> +Que com lagrimas ardentes<br> +Se converte em diamante.<br> + <br> +Póde hum mudo nadador<br> +Na linha e cana influir<br> +Tão venenoso vigor,<br> +Que faz mais não se bulir<br> +O braço do pescador.<br> +Se começão de beber<br> +Deste veneno excellente<br> +Meus olhos, sem se deter, <span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span><br> +Não se sabem mais mover<br> +A nada que se apresente.<br> + <br> +Isto são claros sinais<br> +Do muito qu'em mi podeis:<br> +Nem podeis desejar mais;<br> +Que se ver-vos desejais,<br> +Em mi claro vos vereis.<br> +E quereis ver a que fim<br> +Em mi tanto bem se pôs?<br> +Porque quiz Amor assim,<br> +Que por vos verdes a vós,<br> +Tambem me visseis a mim.<br> + <br> +Dos males que m'ordenais,<br> +Qu'inda tenho por pequenos,<br> +Sabei, se mos escutais,<br> +Que ja não sei dizer mais,<br> +Nem vós podeis saber menos.<br> +Mas ja que a tanto tormento<br> +Não se acha quem resista,<br> +Eu, Senhora, me contento<br> +De terdes meu soffrimento<br> +Por alvo de vossa vista.<br> + <br> +Quantos contrarios consente<br> +Amor, por mais padecer!<br> +Que aquella vista excellente,<br> +Que me faz viver contente,<br> +Me faça tão triste ser!<br> +Mas dou este entendimento<br> +Ao mal, que tanto m'offende,<br> +Como na vela s'entende,<br> +Que se se apaga co'o vento, <span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span><br> +Co'o mesmo vento se accende.<br> + <br> +Exprimentou-se algum'hora<br> +D'ave, que chamão Camão,<br> +Que se da casa, onde mora,<br> +Vê adúltera senhora,<br> +Morre de pura paixão.<br> +A dor he tão sem medida,<br> +Que remedio lhe não val.<br> +Mas oh ditoso animal,<br> +Que póde perder a vida,<br> +Quando vê tamanho mal!<br> + <br> +Nos gôstos de vos querer<br> +Estava agora enlevado,<br> +Se não fôra salteado<br> +Das lembranças de temer<br> +Ser por outrem desamado.<br> +Estas suspeitas tão frias,<br> +Com que o pensamento sonha,<br> +São assi como as harpias,<br> +Que as mais doces iguarias<br> +Vão converter em peçonha.<br> + <br> +Faz-me este mal infinito<br> +Não poder ja mais dizer,<br> +Por não vir a corromper<br> +Os gostos que tenho escrito,<br> +Co'os males qu'hei d'escrever.<br> +Não quero que s'apregôe<br> +Mal tanto para encobrir,<br> +Porque em quanto aqui s'ouvir<br> +Nenhuma outra cousa sôe,<br> +Que a glória de vos servir. <span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span></blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">Á <small>MESMA</small>.</p> + +<blockquote><big>D</big>ama d'estranho primor,<br> +Se vos for<br> +Pezada minha firmeza,<br> +Olhae não me deis tristeza,<br> +Porque a converto em amor.<br> +E se cuidais<br> +De me matar, quando usais<br> +D'esquivança,<br> +Irei tomar por vingança<br> +Amar-vos cada vez mais.<br> + <br> +Porém vosso pensamento,<br> +Como isento,<br> +Seguirá sua tenção,<br> +Crendo qu'em tanta affeição<br> +Não haja accrescentamento.<br> +Não creais<br> +Que desta arte vos façais<br> +Invencibil;<br> +Que Amor sôbre o impossibil<br> +Amostra que póde mais.<br> + <br> +Mas ja da tenção que sigo,<br> +Me desdigo;<br> +Que se ha tanto poder nelle,<br> +Tambem vós podeis mais qu'elle<br> +Neste mal que usais comigo.<br> +Mas se for<br> +O vosso poder maior<br> +Entre nós,<br> +Quem poderá mais que vós, <span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span><br> +Se vós podeis mais que Amor?<br> + <br> +Despois que, Dama, vos vi,<br> +Entendi,<br> +Que perdêra Amor seu preço;<br> +Pois o favor que lh'eu peço,<br> +Vos pede elle para si.<br> +Nem duvido<br> +Que não póde, de sentido,<br> +Resistir;<br> +Pois em vez de vos ferir,<br> +Ficou de vos ver ferido.<br> + <br> +Mas pois vossa vista he tal<br> +Em meu mal,<br> +Que posso de vós querer?<br> +Que mal poderei valer,<br> +Onde o mesmo Amor não val.<br> +Se attentar,<br> +Nenhum bem posso esperar:<br> +E oxalá<br> +Que vos alembrasse ja,<br> +Sequer para me matar.<br> + <br> +Mas nem com isto creais<br> +Que façais<br> +Meus serviços mais pequenos;<br> +Porqu'eu, quando espero menos,<br> +Sabei qu'então quero mais.<br> +Nada espero;<br> +Mas de mi crede este fero,<br> +Qu'em ser vosso,<br> +Vos quero tudo o que posso,<br> +E não posso quanto quero. <span class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span><br> + <br> +Só por esta phantasia<br> +Merecia<br> +De meus males algum fruito;<br> +E não era certo muito<br> +Para o muito que queria.<br> +De maneira,<br> +Que não he, na derradeira,<br> +Grande espanto,<br> +Que quem, Dama, vos quer tanto,<br> +Que outro tanto de vós queira.</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A <small>HUMAS SUSPEITAS</small>.</p> + +<blockquote><big>S</big>uspeitas, que me quereis?<br> +Qu'eu vos quero dar lugar<br> +Que de certas me mateis,<br> +Se a causa, de que nasceis,<br> +Vós quizesseis confessar.<br> +Que de não lhe achar desculpa,<br> +A grande mágoa passada<br> +Me tẽe a alma tão cansada,<br> +Que se me confessa a culpa,<br> +Te-la-hei por desculpada.<br> + <br> +Ora vêde que perigos<br> +Tẽe cercado o coração,<br> +Que no meio da oppressão<br> +A seus proprios inimigos<br> +Vai pedir a defensão!<br> +Que, suspeitas, eu bem sei,<br> +Como se claro vos visse,<br> +Que he certo o que ja cuidei; <span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span><br> +Que nunca mal suspeitei,<br> +Que certo me não sahisse.<br> + <br> +Mas queria esta certeza<br> +Daquella que me atormenta;<br> +Porque em tamanha estreiteza<br> +Ver que disso se contenta,<br> +He descanso da tristeza.<br> +Porque se esta só verdade<br> +Me confessa limpa e nua<br> +De cautela e falsidade,<br> +Não póde a minha vontade<br> +Desconforme ser da sua.<br> + <br> +Por segredo namorado<br> +He certo estar conhecido<br> +Que o mal de ser engeitado<br> +Mais atormenta sabido<br> +Mil vezes, que suspeitado.<br> +Mas eu só, em quem se ordena<br> +Novo modo de querella,<br> +De medo da dor pequena,<br> +Venho a achar na maior pena<br> +O refrigerio para ella.<br> + <br> +Ja nas iras m'inflammei,<br> +Nas vinganças, nos furores,<br> +Que ja doudo imaginei;<br> +E ja mais doudo jurei<br> +De arrancar d'alma os amores.<br> +Ja determinei mudar-me<br> +Para outra parte com ira;<br> +Despois vim a concertar-me<br> +Que era bom certificar-me <span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span><br> +No que mostrava a mentira.<br> + <br> +Mas despois ja de cansadas<br> +As furias do imaginar,<br> +Vinha emfim a rebentar<br> +Em lagrimas magoadas,<br> +E bem para magoar.<br> +E deixando-se vencer<br> +Os meus fingidos enganos<br> +De tão claros desenganos,<br> +Não posso menos fazer,<br> +Que contentar-me co'os danos.<br> + <br> +E pedir que me tirassem<br> +Este mal de suspeitar<br> +Que me vejo atormentar,<br> +Indaque me confessassem<br> +Quanto me póde matar.<br> +Olhae bem se me trazeis,<br> +Senhora, pôsto no fim;<br> +Pois neste estado a que vim,<br> +Para que vós confesseis,<br> +Se dão os tratos a mim.<br> + <br> +Mas para que tudo possa<br> +Amor, que tudo encaminha,<br> +Tal justiça lhe convinha;<br> +Porque da culpa, qu'he vossa,<br> +Venha a ser a morte minha.<br> +Justiça tão mal olhada<br> +Olhae com que côr se doura,<br> +Que quero, ao fim da jornada,<br> +Que vós sejais confessada,<br> +Para qu'eu seja o que moura! <span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span><br> + <br> +Pois confessae-vos jagora,<br> +Indaque tenho temor<br> +Que nem nesta última hora<br> +Me ha de perdoar Amor<br> +Vossos peccados, Senhora.<br> +E assi vou desesperado,<br> +Porque estes são os costumes<br> +D'amor que he mal empregado;<br> +Do qual vou ja condemnado<br> +Ao inferno de ciumes.</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">L<small>ABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO</small>.<sup><a href="#rodape1" name="m_rodape1">[1]</a></sup></p> + +<blockquote><big>C</big>orre sem vela e sem leme<br> +O tempo desordenado,<br> +D'hum grande vento levado:<br> +O que perigo não teme,<br> +He de pouco exprimentado.<br> +As redeas trazem na mão<br> +Os que redeas não tiverão:<br> +Vendo quanto mal fizerão<br> +A cobiça e ambição,<br> +Disfarçados se acolhêrão.<br> + <br> +A nao, que se vai perder,<br> +Destrue mil esperanças: <span class="pn"><a name="pag_34">{34}</a></span><br> +Vejo o mao que vem a ter;<br> +Vejo perigos correr<br> +Quem não cuida que ha mudanças.<br> +Os que nunca em sella andárão,<br> +Na sella postos se vem:<br> +De fazer mal não deixárão;<br> +De demonio hábito tem<br> +Os que o justo profanárão.<br> + <br> +Que poderá vir a ser<br> +O mal nunca refreado?<br> +Anda, por certo, enganado<br> +Aquelle que quer valer,<br> +Levando o caminho errado.<br> +He para os bons confusão,<br> +Ver que os maos prevalecêrão;<br> +Que, pôsto se detiverão<br> +Com esta simulação,<br> +Sempre castigos tiverão:<br> + <br> +Não porque governe o leme<br> +Em mar envolto e turbado,<br> +Que tẽe seu rumo mudado,<br> +Se perece grita e geme<br> +Em tempo desordenado.<br> +Terem justo galardão,<br> +E dor dos que merecêrão,<br> +Sempre castigos tiverão<br> +Sem nenhuma redempção,<br> +Postoque se detiverão.<br> + <br> +Na tormenta, se vier,<br> +Desespere na bonança,<br> +Quem manhas não sabe ter: <span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span><br> +Sem que lhe valha gemer,<br> +Verá falsar a balança.<br> +Os que nunca trabalhárão,<br> +Tendo o que lhe não convem,<br> +Se ao innocente enganárão,<br> +Perderão o eterno bem,<br> +Se do mal não s'apartárão.</blockquote> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_rodape1" name="rodape1">[1]</a></sup> Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não +parece obra do poeta. Nelle não fazemos emenda alguma, +porque a unica judiciosa seria passar-lhe um traço por cima: +o que não ousamos fazer por andar em todas as edições.</p> + +<p style="text-align: right;"><em>Nota dos editores.</em></p> +</div> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">C<small>ONVITE QUE FEZ NA</small> I<small>NDIA +A CERTOS</small> F<small>IDALGOS</small>.</p> + +<p class="centrado"><em>A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:</em></p> + +<blockquote><big>S</big>e não quereis padecer<br> +Huma, ou duas horas tristes,<br> +Sabeis que haveis de fazer?<br> +Volveros por dó venistes,<br> +Que aqui não ha que comer.<br> +E, postoque aqui leais<br> +Trovinha que vos enleia,<br> +Corrido não estejais;<br> +Porque por mais que corrais,<br> +Não heis de alcançar a ceia.</blockquote> + +<p class="centrado"><em>A segunda a D. Francisco de Almeida.</em></p> + +<blockquote>Heliogabalo zombava<br> +Das pessoas convidadas;<br> +E de sorte as enganava,<br> +Que as iguarias que dava,<br> +Vinhão nos pratos pintadas. <span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span><br> +Não temais tal travessura,<br> +Pois ja não póde ser nova;<br> +Porque a cêa está segura<br> +De vos não vir em pintura;<br> +Mas ha de vir toda em trova.</blockquote> + +<p class="centrado"><em>A terceira a Heitor da Silveira.</em></p> + +<blockquote>Cêa não a papareis:<br> +Com tudo, porque não minta,<br> +Para beber achareis,<br> +Não Caparica, mas tinta,<br> +E mil cousas que papeis.<br> +E vós torceis o focinho<br> +Com esta amphibologia?<br> +Pois sabei que a Poesia<br> +Vos dá aqui tinta por vinho,<br> +E papéis por iguaria.</blockquote> + +<p class="centrado"><em>A quarta a João Lopes Leitão, a quem o Author fez +huns versos, que vão adiante, sôbre huma peça de +cacha, que deo a huma Dama.</em></p> + +<blockquote>Porque os que vos convidárão<br> +Vosso estomago não danem,<br> +Por justa causa ordenárão,<br> +Se trovas vos enganárão,<br> +Que trovas vos desenganem.<br> +Vós tereis isto por tacha,<br> +Converter tudo em trovar;<br> +Pois se me virdes zombar,<br> +Não cuideis, Senhor, que he cacha,<br> +Que aqui não ha que cachar. <span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></blockquote> + +<p class="centrado"><em>Responde João Lopes.</em></p> + +<blockquote>Pezar ora não de são,<br> +Eu juro pelo Ceo bento,<br> +Se de comer não me dão,<br> +Qu'eu não sou camaleão,<br> +Que m'hei de manter do vento.</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Responde o Author.</em></p> + +<blockquote>Senhor, não vos agasteis,<br> +Porque Deos vos proverá;<br> +E se mais saber quereis,<br> +Nas costas deste lereis<br> +As iguarias que ha.</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Virado o papel, dizia assi:</em></p> + +<blockquote>Tendes nem migalha assada;<br> +Cousa nenhuma de môlho;<br> +E nada feito em empada;<br> +E vento de tigelada;<br> +Picar no dente em remôlho:<br> +De fumo tendes taçalhos;<br> +Ave da pena que sente<br> +Quem da fome anda doente;<br> +Bocejar de vinho e d'alhos;<br> +Manjar em branco excellente.</blockquote> + +<p class="centrado"><em>A derradeira a Francisco de Mello.</em></p> + +<blockquote>D'hum homem, que teve o scetro<br> +Da vêa maravilhosa,<br> +Não foi cousa duvidosa, <span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span><br> +Que se lhe tornava em metro<br> +O qu'hia a dizer em prosa.<br> +De mi vos quero affirmar<br> +Que faça cousas mais novas,<br> +De quanto podeis cuidar;<br> +E esta cêa, que he manjar,<br> +Vos faça na boca em trovas.</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">N<small>A</small> I<small>NDIA AO </small>V<small>ISO-</small>R<small>EI, COM O MOTE ADIANTE.</small></p> + +<blockquote><big>C</big>onde, cujo illustre peito<br> +Merece nome de Rei,<br> +Do qual muito certo sei<br> +Que lhe fica sendo estreito<br> +O cargo de Viso-Rei;<br> +Servirdes-vos d'occupar-me<br> +Tanto contra meu Planeta,<br> +Não foi senão azas dar-me,<br> +Com as quaes vou a queimar-me,<br> +Como o faz a borboleta.<br> + <br> +E s'eu a penna tomar,<br> +Que tão mal cortada tenho,<br> +Será para celebrar<br> +Vosso valor singular<br> +Dino de mais alto engenho.<br> +Que se o meu vos celebrasse,<br> +Necessario me sería<br> +Que os olhos d'aguia tomasse,<br> +Só para que não cegasse<br> +No sol de vossa valia.<br> + <br> +Vossos feitos sublimados <span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span><br> +Nas armas, dignos de gloria,<br> +São no mundo tão soados,<br> +Qu'em vós de vossos passados<br> +Se resuscita a memoria.<br> +Pois aquelle ânimo estranho,<br> +Prompto para todo effeito,<br> +Espanta todo o conceito:<br> +Como coração tamanho<br> +Vos póde caber no peito?<br> + <br> +A clemencia, que asserena<br> +Coração tão singular,<br> +S'eu nisso puzesse a penna,<br> +Sería encerrar o mar<br> +Em cova muito pequena.<br> +Bem basta, Senhor, que agora<br> +Vos sirvais de me occupar;<br> +Que assi fareis aparar<br> +A penna, com que algum'hora<br> +Vos vereis ao ceo voar.<br> + <br> +Assi vos irei louvando,<br> +Vós a mi do chão erguendo,<br> +Ambos o mundo espantando;<br> +Vós com a espada cortando,<br> +Eu com a penna escrevendo.</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Mote que lhe mandou o Viso-Rei.</em></p> + +<blockquote>Muito sou meu inimigo,<br> +Pois que não tiro de mi<br> +Cuidados, com que nasci,<br> +Que põe a vida em perigo.<br> +Oxalá que fôra assi! <span class="pn"><a name="pag_40">{40}</a></span></blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote>Viver eu, sendo mortal,<br> +De cuidados rodeado,<br> +Parece meu natural;<br> +Que a peçonha não faz mal<br> +A quem foi nella criado.<br> +Tanto sou meu inimigo,<br> +Que por não tirar de mi<br> +Cuidados, com que nasci,<br> +Porei a vida em perigo.<br> +Oxalá que fôra assi!<br> + <br> +Tanto vim a accrescentar<br> +Cuidados, que nunca amansão<br> +Em quanto a vida durar,<br> +Que canso ja de cuidar<br> +Como cuidados não cansão.<br> +S'estes cuidados, que digo,<br> +Dessem fim a mi e a si,<br> +Farião pazes comigo;<br> +Que pôr a vida em perigo,<br> +O bom fôra para mi.</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS +OBRAS SUAS.</small></p> + +<blockquote><big>S</big>enhora, s'eu alcançasse<br> +No tempo que ler quereis,<br> +Que a dita dos meus papéis<br> +Pola minha se trocasse;<br> +E por ver <span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span><br> +Tudo o que posso escrever<br> +Em mais breve relação,<br> +Indo eu onde elles vão,<br> +Por mi só quizesseis ler;<br> +<br> +Despois de ver hum cuidado<br> +Tão contente de seu mal,<br> +Verieis o natural<br> +Do que aqui vêdes pintado;<br> +Que o perfeito<br> +Amor, de que sou sogeito,<br> +Vereis aspero e cruel,<br> +Aqui com tinta e papel,<br> +Em mi com sangue no peito.<br> +<br> +Que hum continuo imaginar<br> +Naquillo que Amor ordena,<br> +He pena, que emfim por penna<br> +Se não póde declarar;<br> +Que se eu levo<br> +Dentro n'alma quanto devo<br> +De trasladar em papéis,<br> +Vêde que melhor lereis,<br> +Se a mi, se aquillo qu'escrevo?</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A <small>HUMA</small> S<small>ENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO DE +SITIM AMARELLO.</small></p> + +<blockquote> +<big>S</big>e derivais da verdade<br> +Esta palavra <em>Sitim</em>,<br> +Achareis sem falsidade,<br> +Que apos o <em>si</em> tẽe o <em>tim</em>,<br> +Que tine em toda a Cidade. <span class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span><br> +Bem vejo que m'entendeis;<br> +Mas porque não falle em vão,<br> +Sabei que a esta Nação<br> +Tanto que o <em>si</em> concedeis,<br> +O <em>tim</em> logo está na mão.<br> +<br> +E quem da fama s'arreda,<br> +Que tudo vai descobrir,<br> +Deve sempre de fugir<br> +De sitins, porque da seda<br> +Seu natural he rugir.<br> +Mas panno fino e delgado,<br> +Qual a raxa e outros assi,<br> +Dura, aquenta, e he callado,<br> +Amoroso, e dá de si<br> +Mais que <em>sitim</em>, nem brocado.<br> +<br> +Mas estes, que sedas são<br> +Com quem s'enganão mil Damas,<br> +Mais vos tomão, do que dão;<br> +Promettem, mas não darão,<br> +Senão nodoas para as famas.<br> +E se não me quereis crer,<br> +Ou tomais outro caminho,<br> +Por exemplo o podeis ver,<br> +Quando lá virdes arder<br> +A casa d'algum vizinho.<br> +<br> +Oh feminina simpreza,<br> +Donde estão culpas a pares,<br> +Que por hum Dom de nobreza,<br> +Deixão dões da natureza,<br> +Mais altos e singulares!<br> +Hum Dom, que anda enxertado <span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span><br> +No nome, e nas obras não.<br> +Fallo como exprimentado;<br> +Que <em>sitim</em> desta feição<br> +Eu tenho muito cortado.<br> +<br> +Dizem-me qu'era amarello;<br> +E quem assi o quiz dar,<br> +Só para me Deos vingar,<br> +Se vem á mão amarê-lo,<br> +O qu'eu não posso cuidar.<br> +Porque quem sabe viver<br> +Por estas artes manhosas,<br> +(Isto bem póde não ser)<br> +Dá a meninas formosas,<br> +Somente polas fazer.<br> +<br> +Quem vos isto diz, Senhora,<br> +Servio nas vossas armadas<br> +Muito, mas anda ja fóra;<br> +E póde ser qu'inda agora<br> +Traz abertas as fréchadas.<br> +E, postoque desfavores<br> +O tirão de servidor,<br> +Quer-vos ventura melhor;<br> +Que dos antigos amores<br> +Inda lhe fica este amor.</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A <small>HUMA</small> S<small>ENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS.</small></p> + +<blockquote> +<big>P</big>eço-vos que me digais<br> +As orações que rezastes,<br> +Se são polos que matastes,<br> +Se por vós que assi matais? <span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span><br> +Se são por vós, são perdidas;<br> +Que qual será a oração,<br> +Que seja satisfação,<br> +Senhora, de tantas vidas?<br> +<br> +Que se vêdes quantos vem<br> +A só vida vos pedir,<br> +Como vos ha Deos de ouvir,<br> +Se vós não ouvis ninguem?<br> +Não podeis ser perdoada<br> +Com mãos a matar tão prontas,<br> +Que se n'huma trazeis contas,<br> +Na outra trazeis espada.<br> +<br> +Se dizeis que encommendando<br> +Os que matastes andais;<br> +Se rezais por quem matais,<br> +Para que matais rezando?<br> +Que se na fôrça do orar<br> +Levantais as mãos aos Ceos,<br> +Não as ergueis para Deos,<br> +Erguei-las para matar.<br> +<br> +E quando os olhos cerrais,<br> +Toda enlevada na fé,<br> +Cerrão-se os de quem vos vê,<br> +Para nunca verem mais.<br> +Pois se assi forem tratados<br> +Os que vos vem quando orais,<br> +Essas horas que rezais,<br> +São as horas dos finados.<br> +<br> +Pois logo, se sois servida<br> +Que tantos mortos não sejão,<br> +Não rezeis onde vos vejão, <span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span><br> +Ou vêde para dar vida.<br> +Ou se quereis escusar<br> +Estes males que causastes,<br> +Resuscitae quem matastes,<br> +Não tereis por quem rezar. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A <small>HUMA</small> D<small>AMA QUE LHE DEO HUMA PENNA.</small></p> + +<blockquote> +<big>S</big>e n'alma e no pensamento<br> +Por vosso me manifesto,<br> +Não me peza do que sento;<br> +Que se não soffrer tormento,<br> +Faço offensa a vosso gesto.<br> +E, pois quanto Amor ordena,<br> +E quanto est'alma deseja,<br> +Tudo á morte me condena,<br> +Não quero senão que seja<br> +Tudo pena, pena, pena. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A <small>HUMA</small> D<small>AMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS.</small></p> + +<blockquote> +<big>S</big>em olhos vi o mal claro,<br> +Que dos olhos se seguio:<br> +Pois cara sem olhos vio<br> +Olhos, que lhe custão caro.<br> +D'olhos não faço menção,<br> +Pois quereis que olhos não sejão;<br> +Vendo-vos, olhos sobejão,<br> +Não vos vendo, olhos não são. <span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span> +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">D<small>ISPARATES NA</small> I<small>NDIA.</small></p> + +<blockquote> +<big>E</big>ste mundo es el camino<br> +Adó hay ducientos váos,<br> +Ou por onde bons e maos,<br> +Todos somos del merino.<br> +Mas os maos são de teor,<br> +Que desque mudão a côr,<br> +Chamão logo a ElRei compadre;<br> +E emfim dejadlos, mi madre,<br> +Que sempre tẽe hum sabor<br> +De quem torto nasce, tarde s'endireita.<br> +<br> +Deixae a hum que se abone:<br> +Diz logo de muito sengo,<br> +Villas y castillos tengo,<br> +Todos á mi mandar sone.<br> +Então eu, qu'estou de môlho,<br> +Com a lagrima no ôlho,<br> +Polo virar do envés,<br> +Digo-lhe: <em>tu ex illis es</em>,<br> +E por isso não te ólho;<br> +Pois honra e proveito não cabem n'hum saco.<br> +<br> +Vereis huns, que no seu seio<br> +Cuidão que trazem París,<br> +E querem com dous ceitís,<br> +Fender anca pelo meio.<br> +Vereis mancebindo de arte,<br> +Com espada em talabarte:<br> +Não ha mais Italiano.<br> +A este direis: Meu mano,<br> +Vós sois galante que farte;<br> +Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido. <span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span><br> +<br> +Outros em cada theatro,<br> +Por officio lhe ouvirês<br> +Que se matarán con tres,<br> +Y lo mismo haran con cuatro.<br> +Prezão-se de dar respostas,<br> +Com palavras bem compostas;<br> +Mas se lhe meteis a mão,<br> +Na paz mostrão coração,<br> +Na guerra mostrão as costas;<br> +Porque aqui torce a porca o rabo.<br> +<br> +Outros vejo por ahi,<br> +A que se acha mal o fundo,<br> +Que andão emendando o mundo,<br> +E não se emendão a si.<br> +Estes respondem a quem<br> +Delles não entende bem<br> +El dolor que está secreto;<br> +Mas porém quem for discreto,<br> +Responder-lhe-ha muito bem:<br> +Assi entrou o mundo, assi ha de sahir.<br> +<br> +Achareis rafeiro velho,<br> +Que se quer vender por galgo:<br> +Diz que o dinheiro he fidalgo,<br> +Que o sangue todo he vermelho.<br> +Se elle mais alto o dissera,<br> +Este pelote puzera:<br> +Que o seu eco lhe responda;<br> +Que su padre era de Ronda,<br> +Y su madre de Antequera,<br> +E quer cobrir o ceo co'huma joeira.<br> +<br> +Fraldas largas, grave aspeito, <span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span><br> +Para Senador Romano.<br> +Oh que grandissimo engano!<br> +Que Momo lhe abrisse o peito!<br> +Consciencia, que sobeja,<br> +Siso, com que o mundo reja,<br> +Mansidão outro que si;<br> +Mas que lobo está em ti,<br> +Metido em pelle de oveja!<br> +E sabem-no poucos.<br> +<br> +Guardae-vos de huns meus Senhores,<br> +Que ainda comprão e vendem;<br> +Huns, qu'he certo, que descendem<br> +Da geração de pastores:<br> +Mostrão-se-vos bons amigos;<br> +Mas se vos vem em perigos,<br> +Escarrão-vos nas paredes;<br> +Que de fóra dormiredes,<br> +Irmão, que he tempo de figos;<br> +Porque de rabo de porco nunca bom virote.<br> +<br> +Que direis d'huns, que as entranhas<br> +Lh'estão ardendo em cobiça,<br> +E se tẽe mando, a justiça<br> +Fazem de teas de aranhas?<br> +Com suas hypocrisias,<br> +Que são de vossas espias:<br> +Para os pequenos huns Neros,<br> +Para os grandes tudo feros.<br> +Pois tu, parvo, não sabías,<br> +Que lá vão leis, onde querem cruzados?<br> +<br> +Mas tornando a huns enfadonhos,<br> +Cujas cousas são notorias; <span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span><br> +Huns, que contão mil histórias<br> +Mais desmanchadas que sonhos;<br> +Huns mais parvos que zamboas,<br> +Qu'estudão palavras boas,<br> +A que ignorancia os atiça:<br> +Estes paguem por justiça,<br> +Que tẽe morto mil <span class="typo" title="no original: possoas">pessoas</span>,<br> +Por vida de quanto quero.<br> +<br> +Adonde tienen las mentes<br> +Huns secretos trovadores,<br> +Que fazem cartas d'amores,<br> +De que ficão mui contentes?<br> +Não querem sahir á praça;<br> +Trazem trova por negaça;<br> +E se lha gabais, qu'he boa,<br> +Diz qu'he de certa pessoa.<br> +Ora que quereis que faça,<br> +Senão ir-me por esse mundo?<br> +<br> +Ó tu, como me atarracas,<br> +Escudeiro de Solia,<br> +Com bocaes de fidalguia,<br> +Trazido quasi com vacas;<br> +Importuno a importunar,<br> +Morto por desenterrar<br> +Parentes, que cheirão ja!<br> +Voto a tal, que me fara<br> +Hum destes nunca fallar<br> +Mais com viva alma.<br> +<br> +Huns, que fallão muito, vi,<br> +De que quizera fugir;<br> +Huns que, emfim, sem se sentir, <span class="pn"><a name="pag_50">{50}</a></span><br> +Andão fallando entre si;<br> +Porfiosos sem razão;<br> +E desque tomão a mão,<br> +Fallão sem necessidade;<br> +E se algum'hora he verdade,<br> +Deve ser na confissão;<br> +Porque quem não mente... Ja m'entendeis.<br> +<br> +Oh vós, quem quer que me lerdes,<br> +Qu'haveis de ser avisado,<br> +Que dizeis ao namorado<br> +Que caça vento com redes?<br> +Jura por vida da Dama;<br> +Falla comsigo na cama;<br> +Passêa de noite e escarra;<br> +Por falsete na guitarra<br> +Põe sempre: Viva que ama,<br> +Porque calça a seu proposito.<br> +<br> +Mas deixemos, se quizerdes,<br> +Por hum pouco as travessuras,<br> +Porqu'entre quatro maduras<br> +Leveis tambem cinco verdes.<br> +Deitemos-nos mais ao mar;<br> +E se algum se arrecear,<br> +Passe tres ou quatro trovas.<br> +E vós tomais côres novas?<br> +Mas não he para espantar;<br> +Que quem porcos ha menos,<br> +Em cada mouta lhe roncão.<br> +<br> +Ó vós, que sois Secretarios<br> +Das consciencias Reais,<br> +E que entre os homens estais <span class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span><br> +Por Senhores ordinarios;<br> +Porque não pondes hum freio<br> +Ao roubar, que vai sem meio,<br> +Debaixo de bom governo?<br> +Pois hum pedaço de inferno<br> +Por pouco dinheiro alheio<br> +Se vende a Mouro e a Judeo.<br> +<br> +Porque a mente, affeiçoada<br> +Sempre á Real dignidade,<br> +Vos faz julgar por bondade<br> +A malicia desculpada.<br> +Move a presença Real<br> +Huma affeição natural,<br> +Que logo inclina ao Juiz<br> +A seu favor: e não diz<br> +Hum rifão muito geral,<br> +Que o Abbade donde canta, dahi janta?<br> +<br> +E vós bailais a esse som:<br> +Por isso, gentís pastores,<br> +Vos chama a vós mercadores<br> +Hum que só foi pastor bom. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + + +<p class="centrado">A J<small>OÃO</small> L<small>OPES</small> L<small>EITÃO,<br> +SÔBRE HUMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU A HUMA</small> D<small>AMA, +QUE SE LHE FAZIA DONZELLA.</small></p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +Se vossa Dama vos dá<br> +Tudo quanto vós quizestes,<br> +Dizei-me: p'ra que lhe déstes<br> +O que vos ella fez ja? <span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>S</big>endo os restos envidados,<br> +E vós de cachas mil contos<br> +Sabeis com quão poucos pontos,<br> +Que lhos achastes quebrados;<br> +Se o que tẽe, isso vos dá,<br> +Vós mui bem lho merecestes,<br> +Porque se a cacha lhe déstes<br> +Tinha-vo-la feita ja. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Menina formosa e crua,<br> +Bem sei eu<br> +Quem deixará de ser seu,<br> +Se vós quizereis ser sua. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>M</big>enina mais que na idade,<br> +Se para me querer bem<br> +Vos não vejo ter vontade,<br> +He porque outrem vo-la tem;<br> +Tẽe-vo-la, e faz-vo-la crua.<br> +Porém eu<br> +Ja tomára não ser meu,<br> +Se vós não foreis tão sua.<br> +<br> +Nos olhos, e na feição<br> +Vos vi, quando vos olhava,<br> +Tanta graça, que vos dava<br> +De graça este coração:<br> +Não o quizestes de crua, <span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span><br> +Por ser meu:<br> +Se outrem vos dera o seu,<br> +Póde ser foreis mais sua.<br> +<br> +Menina, tende maneira,<br> +Que ainda não venha a ser,<br> +Pois não quereis quem vos quer,<br> +Que queirais quem vos não queira.<br> +Olhae não me sejais crua,<br> +Que pois eu<br> +Quero ser vosso, e não meu,<br> +Sêde vós minha, e não sua. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA DOENTE</small></p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +Da doença, em que ora ardeis,<br> +Eu fôra vossa mézinha<br> +Só com vós serdes a minha. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>H</big>e muito para notar<br> +Cura tão bem acertada,<br> +Que podereis ser curada<br> +Somente com me curar.<br> +Se quereis, Dama, trocar,<br> +Ambos temos a mézinha,<br> +Eu a vossa, e vós a minha.<br> +<br> +Olhae, que não quer Amor,<br> +(Porque fiquemos iguais)<br> +Pois meu ardor não curais,<br> +Que se cure vosso ardor. <span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span><br> +Eu cá sinto vossa dor;<br> +E se vós sentis a minha,<br> +Dae e tomae a mézinha. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRO</small></p> + +<blockquote> +Deo, Senhora, por sentença<br> +Amor, que fosseis doente,<br> +Para fazerdes á gente<br> +Doce e formosa a doença. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>N</big>ão sabendo Amor curar,<br> +Foi a doença fazer<br> +Formosa para se ver,<br> +Doce para se passar.<br> +Então vendo a differença<br> +Que ha de vós a toda a gente,<br> +Mandou, que fôsseis doente,<br> +Para glória da doença.<br> +<br> +E digo-vos de verdade,<br> +Que a saude anda invejosa,<br> +Por ver estar tão formosa<br> +Em vós essa enfermidade.<br> +Não façais logo detença,<br> +Senhora, em estar doente,<br> +Porque adoecerá a gente,<br> +Com desejos da doença.<br> +<br> +Qu'eu por ter, formosa Dama,<br> +A doença, qu'em vós vejo,<br> +Vos confesso, que desejo <span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span><br> +De cahir comvosco em cama.<br> +Se consentis, que me vença<br> +Deste mal, não houve gente<br> +Da saude tão contente,<br> +Como eu serei da doença. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>O MESMO</small></p> + +<blockquote> +<big>O</big>lhae que dura sentença<br> +Foi amor dar contra mi!<br> +Que porqu'em vós me perdi,<br> +Em vós me busque a doença.<br> +Claro está,<br> +Que em vós só me achará;<br> +Qu'em mi, se me vem buscar,<br> +Não poderá mais achar,<br> +Que a fórma do que foi ja.<br> +<br> +Que s'em vós Amor se pôs,<br> +Senhora, he forçado assi,<br> +Que o mal, que me busca a mi,<br> +Que vos faça mal a vós.<br> +Sem mentir,<br> +Amor me quiz destruir<br> +Por modo nunca cuidado,<br> +Pois ha de ser ja forçado<br> +Pezar-vos de vos servir.<br> +<br> +Mas sois tão desconhecida,<br> +E são meus males de sorte,<br> +Que vos ameaça a morte,<br> +Porque me negais a vida.<br> +Se por boa <span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span><br> +Tal justiça se pregoa;<br> +Quando desta sorte for,<br> +Havei vós perdão de Amor,<br> +Que a parte ja vos perdoa.<br> +<br> +Mas o que mais temo, emfim,<br> +He que nesta differença,<br> +Que se não torne a doença,<br> +Se me não tornais a mim.<br> +De verdade,<br> +Que ja vossa humanidade<br> +De que se queixe não tem;<br> +Pois para as almas tambem<br> +Fez Amor enfermidade. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA VESTIDA DE DÓ</small>.</p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +De atormentado e perdido,<br> +Ja vos não peço, senão<br> +Que tenhais no coração<br> +O que tendes no vestido. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>S</big>e de dó vestida andais<br> +Por quem ja vida não tem<br> +Porque não o haveis de quem<br> +Vós tantas vezes matais?<br> +Que brado sem ser ouvido,<br> +E nunca vejo senão<br> +Cruezas no coração,<br> +E grande dó no vestido. <span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A D<small>ONA</small> G<small>UIOMAR DE</small> B<small>LASFÉ, QUEIMANDO-SE COM +HUMA VÉLA NO ROSTO</small>.</p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +Amor, que todos offende,<br> +Teve, Senhora, por gôsto,<br> +Que sentisse o vosso rosto<br> +O que nas almas accende. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>A</big>quelle rosto que traz<br> +O mundo todo abrazado,<br> +Se foi da flamma tocado,<br> +Foi porque sinta o que faz.<br> +Bem sei que Amor se vos rende;<br> +Porém o seu presupposto<br> +Foi sentir o vosso rosto<br> +O que nas almas accende. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + + +<p class="centrado">A <small>HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, QUE +CHAMAVÃO QUARESMA.</small></p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +Não estejais aggravada,<br> +Senão se for de vós mesma;<br> +Porqu'a mulher, que he errada,<br> +Com razão pela Quaresma<br> +Deve ser disciplinada. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>Q</big>uererdes profano amor<br> +Em Quaresma, he consciencia:<br> +Açoutes e penitencia <span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span><br> +Vos está muito melhor.<br> +Não fiqueis disto affrontada,<br> +Pois a culpa he vossa mesma;<br> +Que mulher, que he tão malvada,<br> +He bem que pela Quaresma<br> +Seja bem disciplinada.<br> +<br> +Se a penitencia vos val,<br> +Mui bem açoutada estais;<br> +Pois por Quaresma pagais<br> +Vossos vicios do carnal.<br> +Não torneis a ser errada,<br> +Nem condemneis a vós mesma,<br> +Pois estais ja emendada;<br> +E não sereis por Quaresma<br> +Outra vez disciplinada. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A <small>HUM</small> F<small>IDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, +QUE LHE PROMETTEO.</small></p> + +<blockquote> +<big>Q</big>uem no mundo quizer ser<br> +Havido por singular,<br> +Para mais s'engrandecer,<br> +Ha de trazer sempre o dar<br> +Nas ancas do prometter.<br> +E ja que vossa mercê,<br> +Largueza tẽe por divisa,<br> +Como o mundo todo vê,<br> +Ha mister que tanto dê,<br> +Que venha a dar a camisa. <span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + + +<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME</small> +F<small>OÃ DOS ANJOS</small></p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +Senhora, pois me chamais<br> +Tão sem razão tão mão nome,<br> +Inda o diabo vos tome. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>Q</big>uem quer que vio, ou que leo,<br> +Terá por novo e moderno,<br> +Ter quem vive no inferno,<br> +O pensamento no ceo.<br> +Mas se a vós vos pareceo,<br> +Que m'estava bem tal nome,<br> +Esse diabo vos tome.<br> +<br> +Perdido mais que ninguem<br> +Confesso, Senhora, ser;<br> +Mas o diabo não quer<br> +Aos Anjos tamanho bem.<br> +Pois logo não me convem,<br> +Ou se me convem tal nome,<br> +Será para que vos tome.<br> +<br> +Se vos benzeis com cautella,<br> +Como de Anjo, e não de luz,<br> +Mal póde fugir da Cruz,<br> +Quem vós tendes pôsto nella.<br> +Mas ja que foi minha estrella<br> +Ser diabo, e ter tal nome,<br> +Guardae-vos, que vos não tome.<br> +<br> +Ja que chegais tanto ao cabo,<br> +Com as mãos, postas aos ceos<br> +Vou sempre pedindo a Deos, <span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span><br> +Que vos leve este diabo.<br> +Eu, Senhora, não me gabo;<br> +Mas pois que me dais tal nome,<br> +Tomo-o, para que vos tome. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A <small>HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR</small>.</p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +Qual terá culpa de nós<br> +Neste mal, que todo he meu?<br> +Quando vindes, não vou eu,<br> +Quando vou, não vindes vós. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>R</big>einando Amor em dous peitos,<br> +Tece tantas falsidades,<br> +Que de conformes vontades<br> +Faz desconformes effeitos.<br> +Igualmente vive em nós;<br> +Mas por desconcêrto seu<br> +Vos leva, se venho eu,<br> +Me leva, se vindes vós. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE SEU</small>.</p> + +<blockquote> +Descalça vai pela neve:<br> +Assi faz quem Amor serve. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>O</big>s privilegios, que os Reis<br> +Não pódem dar, póde amor, <span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span><br> +Que faz qualquer amador<br> +Livre das humanas leis.<br> +Mortes e guerras crueis,<br> +Ferro, frio, fogo e neve,<br> +Tudo soffre quem o serve.<br> +<br> +Moça formosa despreza<br> +Todo o frio, e toda a dor.<br> +Olhae quanto póde Amor<br> +Mais que a propria natureza.<br> +Medo, nem delicadeza<br> +Lh'impede que passe a neve.<br> +Assi faz quem Amor serve.<br> +<br> +Por mais trabalhos que leve,<br> +A tudo se off'receria;<br> +Passa pela neve fria,<br> +Mais alva que a propria neve;<br> +Com todo frio se atreve.<br> +Vêde em que fogo ferve<br> +O triste, que a Amor serve. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRO ALHEIO</small></p> + +<blockquote> +A dor que a minha alma sente,<br> +Não na sabe toda a gente. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>Q</big>u'estranho caso de Amor!<br> +Que desejado tormento!<br> +Que venho a ser avarento<br> +Das dores de minha dor!<br> +Por me não tratar peor, <span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span><br> +Se se sabe, ou se se sente,<br> +Não na digo a toda a gente.<br> +<br> +Minha dor e causa della<br> +De ninguem ouso fiar;<br> +Que sería aventurar<br> +A perder-me, ou a perdella.<br> +E pois só com padecella,<br> +A minha alma está contente,<br> +Não quero que o saiba a gente.<br> +<br> +Ande no peito escondida,<br> +Dentro n'alma sepultada;<br> +De mi só seja chorada,<br> +De ninguem seja sentida.<br> +Ou me mate, ou me dê vida,<br> +Ou viva triste ou contente,<br> +Não ma saiba toda a gente. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p> + +<blockquote> +D'alma, e de quanto tiver,<br> +Quero que me despojeis,<br> +Com tanto, que me deixeis<br> +Os olhos para vos ver. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>C</big>ousa este corpo não tem,<br> +Que ja não tenhais rendida:<br> +Despois de tirar-lhe a vida,<br> +Tirae-lhe a morte tambem.<br> +Se mais tenho que perder,<br> +Mais quero que me leveis, <span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span><br> +Com tanto que me deixeis<br> +Os olhos para vos ver. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Amores de huma casada,<br> +Que eu vi pelo meu mal. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>N</big>'huma casada fui pôr<br> +Os olhos, de si senhores:<br> +Cuidei que fossem amores,<br> +Elles fizerão-se amor.<br> +Faz-se o desejo maior<br> +Donde o remedio não val,<br> +Em perigo de meu mal.<br> +<br> +Não me paraceo que Amor<br> +Pudesse tanto comigo,<br> +Que donde entra por amigo,<br> +Se levante por senhor.<br> +Leva-me de dor em dor,<br> +E de final em final,<br> +Cada vez para mor mal. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p> + +<blockquote> +Enforquei minha esperança;<br> +Mas Amor foi tão madraço,<br> +Que lhe cortou o baraço. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>F</big>oi a esperança julgada<br> +Por sentença da Ventura, <span class="pn"><a name="pag_64">{64}</a></span><br> +Que pois me leve á pendura,<br> +Que fosse dependurada:<br> +Vem Cupido com a espada,<br> +Corta-lhe cerce o baraço.<br> +Cupido, foste madraço. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p> + +<blockquote> +Puz o coração nos olhos,<br> +E os olhos puz no chão,<br> +Por vingar o coração. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>O</big> coração invejoso<br> +Como dos olhos andava,<br> +Sempre remoques me dava<br> +Que não era o meu mimoso:<br> +Venho eu de piedoso<br> +Do Senhor meu coração,<br> +E boto os olhos no chão. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRO SEU</small></p> + +<blockquote> +Puz meus olhos n'huma funda,<br> +E fiz hum tiro com ella<br> +Ás grades d'huma janella. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + + +<blockquote> +<big>H</big>uma Dama, de malvada,<br> +Tomou seus olhos na mão;<br> +E tirou-me huma pedrada <span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span><br> +Com elles ao coração.<br> +Armei minha funda então,<br> +E puz os meus olhos nella,<br> +Trape, quebrei-lhe a janella. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +De pequena tomei amor,<br> +Porque o não entendi;<br> +Agora que o conheci,<br> +Mata-me com desfavor. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>V</big>i-o moço e pequenino,<br> +E a mesma idade ensina<br> +Que s'incline huma menina<br> +Ás amostras d'hum menino:<br> +Ouvi-lhe chamar Amor,<br> +Pelo nome me venci;<br> +Nunca tal engano vi,<br> +Nem tamanho desamor.<br> +<br> +Cresceo-me de dia em dia<br> +Com a idade a affeição,<br> +Porque amor de criação,<br> +N'alma, e na vida se cria.<br> +Criou-se em mi este amor,<br> +E senhoreou-se de mi:<br> +Agora que o conheci,<br> +Mata-me com desfavor.<br> +<br> +As flores me torna abrolhos,<br> +A morte me determina<br> +Quem eu trouxe de menina <span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span><br> +Nas meninas de meus olhos.<br> +Desta mágoa e desta dor<br> +Tenho sabido que emfim<br> +Por amor me perco a mim<br> +Por quem de mi perde amor.<br> +<br> +Parece ser caso estranho<br> +O que Amor em mi ordena,<br> +Qu'em idade tão pequena<br> +Haja tormento tamanho.<br> +Sejão milagres d'Amor,<br> +Hei-os de soffrer assi,<br> +Até que haja dó de mi<br> +Quem entender esta dor. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">C<small>ANTIGA VELHA.</small></p> + +<blockquote> +Apartárão-se os meus olhos<br> +De mi tão longe.<br> +Falsos amores,<br> +Falsos, maos, enganadores. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>T</big>ratárão-me com cautella,<br> +Por m'enganar mais asinha;<br> +Dei-lhe posse d'alma minha,<br> +Forão-me fugir com ella.<br> +Não ha vê-los, nem ha vella,<br> +De mi tão longe.<br> +Falsos amores,<br> +Falsos, maos, enganadores!<br> +<br> +Entreguei-lhe a liberdade,<br> +E, emfim, da vida o melhor; <span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span><br> +Forão-se; e do desamor<br> +Fizerão necessidade.<br> +Quem teve a sua vontade<br> +De si tão longe?<br> +Falsos amores,<br> +E oxalá enganadores! +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRA.</small></p> + +<blockquote> +Falso Cavalheiro, ingrato,<br> +Enganais-me,<br> +Vós dizeis, que eu vos mato,<br> +E vós matais-me. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>C</big>ostumadas artes são<br> +Para enganar innocencias,<br> +Piedosas apparencias<br> +Sôbre isento coração.<br> +Eu vos amo, e vós ingrato<br> +Magoais-me,<br> +Dizendo, que eu vos mato,<br> +E vós matais-me.<br> +<br> +Vêde agora qual de nós<br> +Anda mais perto do fim,<br> +Que a justiça faz-se em mim,<br> +E o pregão diz que sois vós.<br> +Quando mais verdade trato<br> +Levantais-me<br> +Que vos desamo e vos mato,<br> +E vós matais-me. <span class="pn"><a name="pag_68">{68}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">P<small>ROPRIO.</small></p> + +<blockquote> +Se de meu mal me contento,<br> +He porque para vós vejo<br> +Em todo o mundo desejo,<br> +E em ninguem merecimento. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + + +<blockquote> +<big>P</big>ara quem vos soube olhar<br> +Tão impossivel foi ser<br> +O poder-vos merecer,<br> +Como o não vos desejar.<br> +Pois logo a meu pensamento<br> +Nenhum remedio lhe vejo,<br> +Senão se der o desejo<br> +Azas ao merecimento. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Vós, Senhora, tudo tendes,<br> +Senão que tendes os olhos verdes. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>D</big>otou em vós natureza<br> +O summo da perfeição;<br> +Que o qu'em vós he senão,<br> +He em outras gentileza:<br> +O verde não se despreza,<br> +Que, agora que vós os tendes,<br> +São bellos os olhos verdes.<br> +<br> +Ouro e azul he a melhor<br> +Côr, por que a gente se perde;<br> +Mas a graça desse verde <span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span><br> +Tira a graça a toda côr.<br> +Fica agora sendo a flor<br> +A côr, que nos olhos tendes,<br> +Porque são vossos e verdes. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Para que me dan tormento,<br> +Aprovechando tan poco?<br> +Perdido, mas no tan loco,<br> +Que descubra lo que siento. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>T</big>iempo perdido es aquel<br> +Que se passa en darme afan,<br> +Pues cuanto más me lo dan,<br> +Tanto menos siento dél.<br> +Que descubra lo que siento?<br> +No lo haré, que no es tan poco;<br> +Que no puede ser tan loco<br> +Quien tiene tal pensamiento.<br> +<br> +Sepan que me manda Amor,<br> +Que de tan dulce querella,<br> +A nadie dé parte della,<br> +Porque la sienta mayor.<br> +Es tan dulce mi tormento,<br> +Que aun se me antoja poco;<br> +Y si es mucho, quedo loco<br> +De gusto de lo que siento. <span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +De vuestros ojos centellas,<br> +Que encienden pechos de hielo,<br> +Suben por el aire al cielo,<br> +Y en llegando son estrellas. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>F</big>alsos loores os dan,<br> +Que essas centellas tan raras<br> +No son nel cielo mas claras<br> +Que en los ojos donde estan.<br> +Porque cuando miro en ellas<br> +Lo como alumbran al suelo,<br> +No sé que seran nel cielo;<br> +Mas sé que acá son estrellas.<br> +<br> +Ni se puede presumir<br> +Que al cielo suban, Señora;<br> +Que la lumbre que en vós mora,<br> +No tiene más que subir;<br> +Mas pienso que dan querellas<br> +Á Dios nel octavo cielo,<br> +Porque son acá en el suelo<br> +Dos tan hermosas estrellas. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +De dentro tengo mi mal,<br> +Que de fuera no hay señal. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + + +<blockquote> +<big>M</big>i nueva y dulce querella<br> +Es invisible á la gente; <span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span><br> +El alma sola la siente,<br> +Que el cuerpo no es dino della.<br> +Como la viva centella<br> +Se encubre en el pedernal,<br> +De dentro tengo mi mal. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + + +<blockquote> +Amor loco, amor loco,<br> +Yo por vós, y vós por otro. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>D</big>ióme Amor tormentos dós,<br> +Para que pene doblado;<br> +Uno es verme desamado,<br> +Otro es mancilla de vós.<br> +Ved que ordena Amor en nós!<br> +Porque vós haceisme loco,<br> +Que seais loca por otro.<br> +<br> +Tratais Amor de manera,<br> +Que porque asi me tratais,<br> +Quiere que, pues no me amais,<br> +Que ameis otro que no os quiera.<br> +Mas con todo, si no os viera<br> +De todo loca por otro,<br> +Con mas razon fuera loco.<br> +<br> +Y tan contrario viviendo,<br> +Alfin, alfin, conformamos;<br> +Pues ambos a dós buscamos<br> +Lo que mas nos vá huyendo.<br> +Voy tras vós siempre siguiendo, <span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span><br> +Y vós huyendo por otro:<br> +Andais loca, y me haceis loco. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + + +<blockquote> +Vêde bem se nos meus dias<br> +Os desgostos vi sobejos,<br> +Pois tenho medo a desejos,<br> +E quero mal a alegrias. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + + +<blockquote> +<big>S</big>e desejos fui ja ter,<br> +Servírão de atormentar-me;<br> +Se algum bem póde alegrar-me,<br> +Quiz-me antes entristecer.<br> +Passei annos, passei dias<br> +Em desgostos tão sobejos,<br> +Que só por não ter desejos,<br> +Perderei mil alegrias. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">P<small>ROPIO</small>.</p> + +<blockquote> +Pois he mais vosso que meu,<br> +Senhora, meu coração,<br> +Eu vosso captivo são,<br> +Meus olhos, lembre-vos eu. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>L</big>embre-vos minha tristeza,<br> +Que jamais nunca me deixa;<br> +Lembre-vos com quanta queixa <span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span><br> +Se queixa minha firmeza:<br> +Lembre-vos que não he meu<br> +Este triste coração;<br> +E pois ha tanta razão,<br> +Meus olhos, lembre-vos eu. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRO</small>.</p> + +<blockquote> +Senhora, pois minha vida<br> +Tendes em vosso poder;<br> +Por serdes della servida,<br> +Não queirais que destruida<br> +Possa ser. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>I</big>sto não por me pezar<br> +De morrer, se vós quizerdes;<br> +Que melhor me he acabar<br> +Mil vezes, que supportar<br> +Os males que me fizerdes;<br> +Mas só por serdes servida<br> +De mi, em quanto viver,<br> +Vos peço que minha vida<br> +Não queirais que destruida<br> +Possa ser. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRO</small>.</p> + + +<blockquote> +Pois damno me faz olhar-vos,<br> +Não quero, por não perder-vos,<br> +Que ninguem me veja ver-vos. <span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span> +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>D</big>e ver-vos a não vos ver<br> +Ha dous extremos mortaes;<br> +E são elles em si taes,<br> +Que hum por hum me faz morrer;<br> +Mas antes quero escolher,<br> +Que possa viver sem ver-vos,<br> +Minh'alma, por não perder-vos.<br> +<br> +Deste tamanho perigo<br> +Que remedio posso ter,<br> +Se vivo só com vos ver,<br> +Se vos não vejo, perigo?<br> +Mas quero acabar comigo,<br> +Que ninguem me veja ver-vos,<br> +Senhora, por não perder-vos. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A <small>TRES</small> D<small>AMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVÃO.</small> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +Não sei se m'engana Helena,<br> +Se Maria, se Joanna;<br> +Não sei qual dellas m'engana. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>H</big>uma diz que me quer bem,<br> +Outra jura que <span class="typo" title="no original: mo">me</span> quer;<br> +Mas em jura de mulher<br> +Quem crerá, se ellas não crem?<br> +Não posso não crer a Helena,<br> +A Maria, nem Joanna;<br> +Mas não sei qual mais m'engana.<br> +<br> +Huma faz-me juramentos <span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span><br> +Que só meu amor estima,<br> +A outra diz que se fina,<br> +Joanna, que bebe os ventos.<br> +Se cuido que mente Helena,<br> +Tambem mentirá Joanna;<br> +Mas quem mente não m'engana. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA MAL EMPREGADA.</small></p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +Menina, não sei dizer,<br> +Vendo-vos tão acabada,<br> +Quão triste estou por vos ver<br> +Formosa e mal empregada. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>Q</big>uem tão mal vos empregou,<br> +Pouco de mi se dohia,<br> +Pois não vio o quanto me hia<br> +Em tirar-me o que tirou.<br> +Obriga o primor que tem<br> +Lindeza tão extremada<br> +Que digão quantos a vem,<br> +Formosa e mal empregada!<br> +<br> +Tomastes da formosura<br> +Quanto della desejastes,<br> +E com ella me guardastes<br> +Para tão triste ventura.<br> +Mataveis sendo solteira,<br> +Matais agora em casada;<br> +Matais de toda a maneira,<br> +Formosa e mal empregada. <span class="pn"><a name="pag_76">{76}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small> HUMA</small> F<small>oãa</small> G<small>onçalves.</small> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +Com vossos olhos, Gonçalves,<br> +Senhora, captivo tendes<br> +Este meu coração Mendes. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>E</big>u sou boa testimunha,<br> +Que Amor tem por cousa má,<br> +Que olhos, que são homens ja,<br> +Se nomeiem sem alcunha;<br> +Pois o coração apunha,<br> +E diz, olhos, pois vós tendes,<br> +Chamae-me coração Mendes. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRO</small></p> + +<blockquote> +De que me serve fugir<br> +De morte, dor e perigo,<br> +Se me eu levo comigo? +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>T</big>enho-me persuadido,<br> +Por razão conveniente,<br> +Que não posso ser contente,<br> +Pois que pude ser nascido.<br> +Anda sempre tão unido<br> +O meu tormento comigo,<br> +Qu'eu mesmo sou meu perigo.<br> +<br> +E se de mi me livrasse,<br> +Nenhum gôsto me sería:<br> +Quem, senão eu, não teria <span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span><br> +Mal, que esse bem me tirasse?<br> +Fôrça he logo que assi passe,<br> +Ou com desgôsto comigo,<br> +Ou sem gôsto e sem perigo. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + + +<p class="centrado">A<small> HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.</small></p> + +<blockquote> +<big>Q</big>uando me quer enganar<br> +A minha bella perjura,<br> +Para mais me confirmar<br> +O que quer certificar,<br> +Polos seus olhos me jura.<br> +Como meu contentamento<br> +Todo se rege por elles,<br> +Imagina o pensamento,<br> +Que se faz aggravo a elles<br> +Não crer tão grão juramento.<br> +<br> +Porém como em casos tais<br> +Ando ja visto e corrente,<br> +Sem outros certos sinais,<br> +Quanto me ella jura mais,<br> +Tanto mais cuido que mente.<br> +Então vendo-lhe offender<br> +Huns taes olhos como aquelles,<br> +Deixo-me antes tudo crer,<br> +Só pola não constranger<br> +A jurar falso por elles. <span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small> + +<blockquote> +Ha hum bem, que chega e foge;<br> +E chama-se este bem tal,<br> +Ter bem para sentir mal. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>Q</big>uem viveo sempre n'hum ser,<br> +Inda que seja em pobreza,<br> +Não vio o bem da riqueza,<br> +Nem o mal d'empobrecer:<br> +Não ganhou para perder;<br> +Mas ganhou com vida igual<br> +Não ter bem, nem sentir mal. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.</small></p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +Olhos, não vos mereci<br> +Que tenhais tal condição,<br> +Tão liberaes para o chão,<br> +Tão irosos para mi. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>B</big>aixos e honestos andais,<br> +Por vos negardes a quem<br> +Não quer mais que aquelle bem,<br> +Que vós no chão espalhais?<br> +Se pouco vos mereci,<br> +Não m'estimeis mais que o chão,<br> +A quem vós o galardão<br> +Dais, e mo negais a mi. <span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">P<small>ROPRIO.</small></p> + +<blockquote> +Venceo-me Amor, não o nego;<br> +Tẽe mais fôrça qu'eu assaz;<br> +Que como he cego e rapaz,<br> +Dá-me porrada de cego. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>S</big>ó porque he rapaz ruim,<br> +Dei-lhe hum boféte zombando.<br> +Diz-me: Ó mao, estais me dando,<br> +Porque sois maior que mim?<br> +Pois se eu vos descarrégo,<br> +E em dizendo isto, chaz;<br> +Torna-me outra; tá rapaz,<br> +Que dás porrada de cego. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>O DESCONCERTO DO MUNDO.</small></p> + +<blockquote> +<big>O</big>s bons vi sempre passar<br> +No mundo graves tormentos;<br> +E para mais m'espantar,<br> +Os maos vi sempre nadar<br> +Em mar de contentamentos.<br> +Cuidando alcançar assi<br> +O bem tão mal ordenado,<br> +Fui mao; mas fui castigado.<br> +Assi, que só para mi<br> +Anda o mundo concertado. <span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.</small></p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + +<blockquote> +Perguntais-me, quem me mata?<br> +Não quero responder nada,<br> +Por vos não fazer culpada. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>E</big> se a penna não me atiça,<br> +A dizer pena tão forte,<br> +Quero-me entregar á morte,<br> +Antes que a vós á justiça.<br> +Porém se tendes cobiça<br> +De vos verdes tão culpada,<br> +Direi que não sinto nada. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE.</small></p> + +<blockquote> +Esconjuro-te, Domingas,<br> +Pois me dás tanto cuidado,<br> +Que me digas se te vingas,<br> +Viverei menos penado. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>J</big>uravas-me, que outras cabras<br> +Folgavas de apascentar;<br> +Eu por não me magoar,<br> +Fingia qu'erão palabras.<br> +Agora d'arte te vingas<br> +D'algum meu doudo peccado,<br> +Qu'inda que queiras, Domingas,<br> +Não posso ser enganado. <span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span><br> +<br> +Qualquer cousa busca o seu;<br> +A fonte vai para o Tejo,<br> +E tu para o teu desejo,<br> +Por te vingares do meu.<br> +De mi t'esqueces, Domingas,<br> +Como eu faço do meu gado:<br> +Praza a Deos, que se te vingas,<br> +Que morra desesperado.<br> +<br> +Na phantasia te pinto,<br> +Fallo-te, responde o monte,<br> +Busco o rio, busco a fonte,<br> +Endoudeço, e não o sinto:<br> +Domingas no valle brado,<br> +Responde o eco Domingas;<br> +E tu inda te não vingas<br> +De me ver doudo tornado! +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Se a alma ver-se não póde<br> +Onde pensamentos ferem,<br> +Que farei para me crerem? +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>S</big>e n'alma huma só ferida<br> +Faz na vida mil sinais,<br> +Tanto se descobre mais,<br> +Quanto he mais escondida.<br> +S'esta dor tão conhecida<br> +Me não vem, porque não querem,<br> +Que farei para ma crerem? <span class="pn"><a name="pag_82">{82}</a></span><br> +<br> +Se se pudesse bem ver<br> +Quanto callo, e quanto sento,<br> +Despois de tanto tormento<br> +Cuidaria alegre ser.<br> +Mas se não me querem crer<br> +Olhos, que tão mal me ferem,<br> +Que farei para me crerem? +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Vosso bem querer, Senhora,<br> +Vosso mal melhor me fôra. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>J</big>a agora certo conheço<br> +Ser melhor todo tormento,<br> +Onde o arrependimento<br> +Se compra por justo preço.<br> +Enganou-me hum bom comêço;<br> +Mas o fim me diz agora<br> +Que o mal melhor me fôra.<br> +<br> +Quando hum bem he tão damnoso,<br> +Que sendo bem, dá cuidado,<br> +O damno fica obrigado<br> +A ser menos perigoso.<br> +Mas se a mi por desditoso,<br> +Co'o bem me foi mal, Senhora,<br> +Co'o vosso mal bem me fôra. <span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Se me desta terra for,<br> +Eu vos levarei, amor. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>S</big>e me for, e vos deixar,<br> +(Ponho por caso, que possa)<br> +Est'alma minha, qu'he vossa,<br> +Comvosco m'ha de ficar.<br> +Assi que só por levar<br> +A minha alma, se me for,<br> +Vos levarei, meu amor.<br> +<br> +Que mal póde maltratar-me,<br> +Que comvosco seja mal?<br> +Ou que bem póde ser tal,<br> +Que sem vós possa alegrar-me?<br> +O mal não póde enojar-me,<br> +O bem me será maior,<br> +Se vos levar, meu amor. +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Pequenos contentamentos,<br> +Hi buscar quem contenteis,<br> +Que a mi não me conheceis. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>O</big>s gostos, que tantas dores<br> +Fizerão ja valer menos,<br> +Não os acceita pequenos,<br> +Quem nunca teve maiores:<br> +Bem parecem vãos favores, <span class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span><br> +Pois tão tarde me quereis,<br> +Qu'inda me não conheceis.<br> +<br> +Offereceis-me alegria,<br> +Tendo-me ja cego e mouco:<br> +He baixeza acceitar pouco,<br> +Quem tanto vos merecia.<br> +Ide-vos por outra via,<br> +Pois o bem que me deveis,<br> +Nunca mo satisfareis. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Perdigão perdeo a penna,<br> +Não ha mal que lhe não venha. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>P</big>erdigão, que o pensamento<br> +Subio a hum alto lugar,<br> +Perde a penna do voar,<br> +Ganha a pena do tormento:<br> +Não tẽe no ar, nem no vento,<br> +Azas com que se sostenha:<br> +Não ha mal que lhe não venha.<br> +<br> +Quiz voar a huma alta torre,<br> +Mas achou-se desasado;<br> +E vendo-se despennado,<br> +De puro penado morre.<br> +Se a queixumes se soccorre,<br> +Lança no fogo mais lenha:<br> +Não ha mal que lhe não venha. <span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A <small>HUMAS</small> S<small>ENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA +COM HUMA</small> D<small>AMA.</small> + +<blockquote> +<big>P</big>ois a tantas perdições,<br> +Senhoras, quereis dar vida,<br> +Ditosa seja a ferida,<br> +Que tẽe taes Cirurgiões!<br> +Pois ventura<br> +Me subio a tanta altura,<br> +Que me sejais valedoras,<br> +Ditosa seja a tristura,<br> +Que se cura<br> +Por vossos rogos, Senhoras!<br> +<br> +Ser minha pena mortal,<br> +Ja qu'entendeis, que he assi,<br> +Não quero fallar por mi,<br> +Que por mi falla meu mal.<br> +Sois formosas,<br> +Haveis de ser piedosas,<br> +Por ser tudo d'huma côr;<br> +Que pois Amor vos fez rosas<br> +Milagrosas,<br> +Fazei milagres de Amor.<br> +<br> +Pedi a quem vós sabeis,<br> +Que saiba de meu trabalho,<br> +Não pelo qu'eu nisso valho,<br> +Mas pelo que vós valeis.<br> +Que o valer<br> +De vosso alto merecer,<br> +Com lho pedir de giolhos,<br> +Fara qu'em meu padecer <span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span><br> +Possa ver<br> +O poder que tẽe seus olhos.<br> +<br> +Vossa muita formosura<br> +Com a sua tanto val,<br> +Que me rio de meu mal,<br> +Quando cuido em quem me cura.<br> +A meus ais,<br> +Peço-vos que lhe valhais,<br> +Damas de Amor tão valídas,<br> +Que nunca tal dor sintais,<br> +Que queirais,<br> +Onde não sejais queridas. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">C<small>ANTIGA ALHEIA.</small></p> + +<blockquote> +Na fonte está Leonor<br> +Lavando a talha, e chorando,<br> +Ás amigas perguntando:<br> +Vistes lá o meu amor? +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>P</big>ôsto o pensamento nelle,<br> +Porque a tudo o Amor a obriga,<br> +Cantava, mas a cantiga<br> +Erão suspiros por elle.<br> +Nisto estava Leonor<br> +O seu desejo enganando,<br> +Ás amigas perguntando:<br> +Vistes lá o meu amor?<br> +<br> +O rosto sôbre hũa mão,<br> +Os olhos no chão pregados, <span class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span><br> +Que de chorar ja cansados,<br> +Algum descanso lhe dão;<br> +Desta sorte Leonor<br> +Suspende de quando em quando<br> +Sua dor; e em si tornando,<br> +Mais pezada sente a dor.<br> +<br> +Não deita dos olhos ágoa,<br> +Que não quer que a dor s'abrande<br> +Amor, porque em mágoa grande<br> +Sécca as lagrimas a mágoa.<br> +Despois que de seu amor<br> +Soube novas perguntando,<br> +D'improviso a vi chorando.<br> +Olhae que extremos de dor! +</blockquote> + + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">E<small>STAS TROVAS MANDOU O</small> +A<small>UTOR DA CADEIA, EM QUE O +TINHA EMBARGADO POR HUMA DIVIDA</small> M<small>IGUEL</small> +R<small>OIZ,</small> F<small>IOS</small> +S<small>ECOS D'ALCUNHA, AO</small> C<small>ONDE DO</small> R<small>EDONDO</small> D. F<small>RANCISCO</small> +C<small>OUTINHO</small>, V<small>ISO</small>-R<small>EI, QUE SE EMBARCAVA PARA +FÓRA, PEDINDO-LHE O FIZESSE DESEMBARGAR.</small></p> + +<blockquote> +<big>Q</big>ue diabo ha tão damnado,<br> +Que não tema a cutilada<br> +Dos fios seccos da espada<br> +Do fero Miguel armado?<br> +Pois se tanto hum golpe seu<br> +Sôa na infernal cadeia;<br> +Do que o demonio arreceia<br> +Como não fugirei eu? <span class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span><br> +<br> +Com razão lhe fugiria,<br> +Se contr'elle, e contra tudo<br> +Não tivesse hum forte escudo<br> +Só em Vossa Senhoria.<br> +Por tanto, Senhor, proveja,<br> +Pois me tẽe ao remo atado,<br> +Que antes que seja embarcado,<br> +Eu desembargado seja. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">E<small>STAS TROVAS MANDOU</small> H<small>EITOR DA</small> S<small>ILVEIRA AO MESMO</small> +C<small>ONDE, INVERNANDO EM</small> G<small>OA.</small></p> + +<blockquote> +<big>V</big>ossa Senhoria creia<br> +Que não apura o engenho<br> +Fome, se he como a que tenho,<br> +Mas afraca e corta a veia.<br> +E quem o contrário sente,<br> +Está farto em toda a hora,<br> +Como estou faminto agora:<br> +Mas Martha, se está contente,<br> +Dá-lhe pouco de quem chora.<br> +<br> +E pois Vossa Senhoria<br> +Em geral a tudo acode,<br> +Acuda a mi, que só póde<br> +Dar-me no engenho valia.<br> +Esperte esta Musa minha,<br> +Que o tempo traz somnolenta;<br> +Valha-lhe nesta tormenta<br> +Com essa doce mézinha,<br> +Que só dá vida e contenta. <span class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span><br> +<br> +Acuda com provisão,<br> +Não de papel, mas provída<br> +D'ouro e prata; que esta vida<br> +Não sustentão papéis, não.<br> +De feitor a thesoureiro<br> +Ser-me-hia trabalho grande;<br> +Vossa Senhoria mande<br> +Algum remedio, primeiro,<br> +Com que a morte o ferro abrande. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Ajuda de Luis de Camões.</em></p> + +<blockquote> +Nos livros doutos se trata<br> +Que o grande Achilles insano<br> +Deo a morte a Heitor Troiano;<br> +Mas agora a fome mata<br> +O nosso Heitor Lusitano.<br> +Só ella o póde acabar,<br> +Se essa vossa condição<br> +Liberal e singular<br> +Não mete entr'elles bastão,<br> +Bastante para o fartar. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A <small>HUMA</small> S<small>ENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.</small></p> + +<p class="centrado"><em>Esparsa.</em></p> + +<blockquote> +<big>N</big>ão posso chegar ao cabo<br> +De tamanho desarranjo,<br> +Que sendo vós, Senhora, Anjo,<br> +Vos queira tanto o Diabo. <span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span><br> +Dais manifesto sinal<br> +De minha muita firmeza,<br> +Que os diabos querem mal<br> +Aos Anjos por natureza. +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">C<small>ANTIGA.</small></p> + +<blockquote> +Vi chorar huns claros olhos,<br> +Quando delles me partia.<br> +Oh que mágoa! Oh que alegria! +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>P</big>olo meu apartamento<br> +Se arrazárão todos d'ágoa.<br> +Quem cuidou qu'em tanta mágoa<br> +Achasse contentamento?<br> +Julgue todo entendimento<br> +Qual mais sentir se devia,<br> +Se esta dor, se esta alegria?<br> +<br> +Quando mais perdido estive,<br> +Então deo a est'alma minha<br> +Na maior mágoa que tinha,<br> +O maior gôsto que tive.<br> +Assi, se minha alma vive,<br> +Foi porque me defendia<br> +Desta dor esta alegria?<br> +<br> +O bem, que Amor me não deu<br> +No tempo que desejei,<br> +Quando delle me apartei,<br> +Me confessou, qu'era meu.<br> +Agora que farei eu, <span class="pn"><a name="pag_91">{91}</a></span><br> +Se a fortuna me desvia<br> +De lograr esta alegria?<br> +<br> +Não sei se foi enganado,<br> +Pois me tinha defendido<br> +Das íras de mal querido,<br> +No mal de ser apartado.<br> +Agora peno dobrado,<br> +Achando no fim do dia<br> +O princípio da alegria. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">V<small>ILLANCETE PASTORIL.</small></p> + +<blockquote> +Deos te salve, Vasco amigo.<br> +Não me fallas? Como assi?<br> +Bofé, Gil, não 'stava aqui. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>P</big>ois onde te hão de fallar,<br> +Se não 'stás onde appareces?<br> +Se Magdanela conheces,<br> +Nella me pódes achar.<br> +E como te hão d'ir buscar<br> +Aonde fogem de ti?<br> +Pois nem eu estou em mi.<br> +<br> +Porque te não acharei<br> +Em ti, como em Magdanela?<br> +Porque me fui perder nella<br> +O dia que me ganhei.<br> +Quem tão bem falla, não sei<br> +Como anda fóra de si.<br> +Ella falla dentro em mi. <span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span><br> +<br> +Como estás aqui presente,<br> +Se lá tens a alma e a vida?<br> +Porqu'he d'hum'alma perdida<br> +Apparecer sempre á gente.<br> +Se es morto, bem se consente<br> +Que todos fujão de ti.<br> +Eu tambem fujo de mi. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRO PASTORIL.</small></p> + +<blockquote> +Porque no miras, Giraldo,<br> +Mi zampoña como suena?<br> +Porque no me mira Elena. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>V</big>uelve acá, no estês pasmado,<br> +Mira que gentil sonar!<br> +Como te podrá mirar<br> +Quien no puede ser mirado?<br> +Y que bueno enamorado!<br> +No dirás, si es mala, o buena?<br> +No, que me hizo mudo Elena.<br> +<br> +Mira tan dulce armonía,<br> +Déjate dessos enojos.<br> +Tengo clavados los ojos<br> +Con que mirar te podia.<br> +Ansí Dios te dé alegría:<br> +No vés cuan dulce que suena?<br> +No, porque no veo Elena. <span class="pn"><a name="pag_93">{93}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">O<small>UTRO PASTORIL.</small></p> + +<blockquote> +Crescem, Camilla, os abrolhos<br> +De chorares por Cincero:<br> +Não he muito, que lhe quero,<br> +Belisa, mais que meus olhos. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>S</big>empre os teus olhos estão,<br> +Camilla, d'ágoas banhados.<br> +De se verem desamados<br> +Póde ser que chorarão.<br> +Si, mas crescem os abrolhos,<br> +E tu cegas por Cincero.<br> +S'eu não vejo quem mais quero,<br> +Para que quero mais olhos?<br> +<br> +Se se foi ha mais d'hum mês,<br> +Teus olhos não cansarão?<br> +Não, que apos elle se vão<br> +Estas lagrimas que vês.<br> +Fazem logo estes abrolhos<br> +O mato espinhoso e fero.<br> +Pois eu não vejo a Cincero,<br> +Isso só verão meus olhos.<br> +<br> +Chorando queres morrer?<br> +Mais quero viver chorando.<br> +Tu não vês que vás cegando?<br> +Se cego, como hei de ver?<br> +Põe na vista outros antolhos.<br> +Não posso, nem menos quero.<br> +Outra para outro Cincero,<br> +Antes não quero ter olhos. <span class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A <small>HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA</small> G<small>RACIA DE</small> M<small>ORAES.</small></p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + + +<blockquote> +Olhos, em qu'estão mil flores,<br> +E com tanta graça olhais,<br> +Que parece que os Amores<br> +Morão onde vós morais. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>V</big>em-se rosas e boninas,<br> +Olhos, nesse vosso ver;<br> +Vem-se mil almas arder<br> +No fogo dessas meninas.<br> +E di-lo-hão minhas dores,<br> +Meus suspiros e meus ais;<br> +E dirão mais, que os amores<br> +Morão onde vós morais. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Quem se confia em huns olhos,<br> +Nas meninas delles vê<br> +Que meninas não tẽe fé. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>Q</big>uem põe suas confianças<br> +Em meninas sem assento,<br> +Offereça o soffrimento<br> +A duzentas mil mudanças.<br> +Mostrão no ar esperanças;<br> +Mas em seus olhos se vê<br> +Como não tẽe n'alma fé.<br> +<br> +Enganão ao parecer, <span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span><br> +Porque no caso d'amar,<br> +São mulheres no matar,<br> +E meninas no querer.<br> +Quem em seus olhos se crer,<br> +Cem mil graças nelles vê;<br> +Vê-las sim, mas não ter fé.<br> +<br> +Amostrão-vos n'hum momento<br> +Favores assi a mólhos;<br> +Mas na mudança dos olhos<br> +Se lhe muda o pensamento.<br> +Em nada ja tẽe assento,<br> +E o que mais nelles se vê<br> +He formosura sem fé. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">L<small>OUVANDO E DESLOUVANDO UMA</small> D<small>AMA.</small></p> + +<p class="centrado"><em>Cantiga Velha.</em></p> + +<blockquote> +Sois formosa, e tudo tendes,<br> +Senão que tendes os olhos verdes, +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>N</big>inguem vos póde tirar<br> +Serdes tão bem assombrada;<br> +Mas heis-me de perdoar,<br> +Que os olhos não valem nada.<br> +Fostes mal aconselhada<br> +Em querer que fossem verdes:<br> +Trabalhae de os esconderdes.<br> +<br> +A vossa testa he jardim,<br> +Onde Amor se desenfada;<br> +He tão branca e bem talhada,<br> +Que parece de marfim. <span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span><br> +Assi he; e quanto a mim,<br> +Isso vos nasce de a terdes<br> +Tão perto dos olhos verdes.<br> +<br> +Os cabellos desatados<br> +O mesmo sol escurecem;<br> +Senão que por ser ondados,<br> +Algum tanto desmerecem:<br> +Mas á fé, que se parecem<br> +A furto dos olhos verdes,<br> +Não vos peze, não, de os terdes.<br> +<br> +As pestanas tẽe mostrado<br> +Ser raios, que abrazão vidas:<br> +Se não forão tão compridas,<br> +Tudo o mais era pintado:<br> +Ellas me tinhão levado<br> +A alma, sem o vós saberdes,<br> +Se não forão os olhos verdes.<br> +<br> +O mimo desse carão<br> +Nem pôr-lhe os olhos consente:<br> +O ser liso e transparente<br> +Rouba todo o coração:<br> +Inda assi achareis nação,<br> +Que lhe não peze de os verdes;<br> +Mas não seja co'os olhos verdes.<br> +<br> +Esse riso, que he compôsto<br> +De quantas graças nascêrão,<br> +Senão que alguns me disserão,<br> +Vos faz covinhas no rôsto.<br> +Na vontade tenho posto<br> +Dar-vos a alma, se quizerdes,<br> +A trôco dos olhos verdes. <span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span><br> +<br> +Nunca se vio, nem se escreve<br> +Boca co'huma graça igual,<br> +Se não fôra de coral,<br> +E os dentes de côr de neve.<br> +Dou-me eu a Deos, que me leve!<br> +Soffrerei quanto tiverdes,<br> +Não me tenhais olhos verdes.<br> +<br> +Essa garganta merece<br> +Outras palavras não minhas,<br> +Senão qu'he feita em rosquinhas<br> +D'alfenim, ao que parece.<br> +Eu sei bem quem se offerece<br> +A tomar tudo o que tendes,<br> +E tambem os olhos verdes.<br> +<br> +Essas mãos são ferropeas:<br> +Só o vê-las enfeitiça;<br> +Senão que são alvas, cheias,<br> +E tẽe a feição roliça;<br> +Com que appellais por justiça,<br> +Para com ellas prenderdes<br> +Quem vê vossos olhos verdes.<br> +<br> +A vossa galantaria<br> +Matará a quem fallardes:<br> +Tendes huns desdens e tardes,<br> +Que eu logo vos roubaria.<br> +Oh dou-me a Santa Maria!<br> +Sou cujo de quanto tendes,<br> +E tambem desses olhos verdes. <span class="pn"><a name="pag_98">{98}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>O MESMO.</small></p> + +<blockquote> +<big>T</big>udo tendes singular,<br> +Com que os corações rendeis,<br> +Senão que rindo, fazeis<br> +Covinhas para enterrar:<br> +E para resuscitar<br> +Tẽe força a graça que tendes;<br> +Senão que tendes os olhos verdes.<br> +<br> +Tudo, Senhora, alcançais,<br> +Quanto o ser formosa alcança,<br> +Senão que dais esperança<br> +Co'os olhos com que matais.<br> +Se acaso os alevantais,<br> +He para as almas renderdes;<br> +Senão que tendes os olhos verdes. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A D<small>OM</small> A<small>NTONIO, SENHOR DE</small> C<small>ASCAES, QUE TENDO-LHE +PROMETTIDO SEIS GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA +QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR PRINCÍPIO DA PAGA +MEIA GALLINHA RECHEADA.</small></p> + +<blockquote> +<big>C</big>inco gallinhas e meia<br> +Deve o Senhor de Cascais;<br> +E a meia vinha cheia<br> +De appetite para as mais. <span class="pn"><a name="pag_99">{99}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Catharina bem promette;<br> +Ora má! como ella mente! +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>C</big>atharina he mais formosa<br> +Para mi, que a luz do dia;<br> +Mas mais formosa sería,<br> +Se não fosse mentirosa.<br> +Hoje a vejo piedosa,<br> +Á manhãa tão differente,<br> +Que sempre cuido que mente.<br> +<br> +Prometteo-me hontem de vir,<br> +Nunca mais appareceo;<br> +Creio que não prometteo,<br> +Senão só por me mentir.<br> +Faz-me, emfim, chorar e rir;<br> +Rio, quando me promette,<br> +Mas chóro quando me mente.<br> +<br> +Jurou-me aquella cadella<br> +De vir, pela alma que tinha;<br> +Enganou-me; tinha a minha;<br> +Deo-lhe pouco de perdella.<br> +A vida gasto apos ella,<br> +Porque ma dá, se promette,<br> +Mas tira-ma, quando mente.<br> +<br> +Má, mentirosa, malvada,<br> +Dizei, porque me mentis?<br> +Prometteis, e então fugis?<br> +Pois sem tornar, tudo he nada.<br> +Não sois bem aconselhada; <span class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span><br> +Que quem promette, se mente,<br> +O que perde não o sente.<br> +<br> +Tudo vos consentiria<br> +Quanto quizesseis fazer,<br> +Se este vosso prometter<br> +Fosse por me ter hum dia.<br> +Todo então me desfaria<br> +Com gôsto; e vós de contente,<br> +Zombarieis de quem mente.<br> +<br> +Mas pois folgais de mentir,<br> +Promettendo de me ver,<br> +Eu vos deixo o prometter,<br> +Deixae-me vós o servir:<br> +Haveis então de sentir<br> +Quanto a minha vida sente<br> +O servir a quem lhe mente.<br> +<br> +Catharina me mentio<br> +Muitas vezes, sem ter lei,<br> +E todas lhe perdoei<br> +Por huma só que cumprio.<br> +Se como me consentio<br> +Fallar-lhe, o mais me consente,<br> +Nunca mais direi que mente. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +A alma, qu'está offrecida<br> +A tudo, nada lhe he forte;<br> +Assi passa o bem da vida,<br> +Como passa o mal da morte. <span class="pn"><a name="pag_101">{101}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>D</big>e maneira me succede<br> +O que temo, e o que desejo,<br> +Que sempre o que temo, vejo,<br> +Nunca o que a vontade pede.<br> +Tenho tão offerecida<br> +Alma e vida a toda a sorte,<br> +Que isso me dera da morte,<br> +Como ja me dá da vida. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Ferro, fogo, frio e calma,<br> +Todo o mundo acabarão;<br> +Mas nunca vos tirarão,<br> +Alma minha, da minha alma. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>N</big>ão vos guardei, quando vinha,<br> +Em tôrre, fôrça, ou engenho;<br> +Que mais guardada vos tenho<br> +Em vós, que sois alma minha.<br> +Alli nem frio, nem calma,<br> +Não podem ter jurdição;<br> +Na vida sim, porém não<br> +Em vós que tenho por alma. +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Esperei, ja não espero<br> +De mais vos servir, Senhora; <span class="pn"><a name="pag_102">{102}</a></span><br> +Pois me fazeis cada hora<br> +Tanto mal, que desespéro. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>P</big>ois sei certo que folgais,<br> +Quando mais mal me fazeis,<br> +E que nunca descansais,<br> +Senão quando me mostrais<br> +Quão pouco bem me quereis;<br> +Servir-vos mais não espero<br> +Pois meu viver empeora<br> +Com me fazerdes, Senhora,<br> +Tanto mal, que desespéro. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Descalça vai para a fonte<br> +Leonor pela verdura;<br> +Vai formosa, e não segura. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>L</big>eva na cabeça o pote,<br> +O testo nas mãos de prata,<br> +Cinta de fina escarlata,<br> +Sainho de chamalote:<br> +Traz a vasquinha de cote,<br> +Mais branca que a neve pura;<br> +Vai formosa, e não segura.<br> +<br> +Descobre a touca a garganta,<br> +Cabellos de ouro entrançado,<br> +Fita de côr d'encarnado,<br> +Tão linda que o mundo espanta:<br> +Chove nella graça tanta, <span class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span><br> +Que dá graça á formosura;<br> +Vai formosa, e não segura. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Quem disser que a barca pende,<br> +Dir-lhe-hei, mana, que mente. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>S</big>e vos quereis embarcar,<br> +E para isso estais no caes,<br> +Entrae logo: que tardaes?<br> +Olhae qu'está preamar:<br> +E se outrem, por vos fretar,<br> +Vos disser qu'esta que pende,<br> +Dir-lhe-hei, mana, que mente.<br> +<br> +Esta barca he de carreira;<br> +Tẽe seus apparelhos novos:<br> +Não ha como ella outra em Povos<br> +Boa de leme, e veleira:<br> +Mas, se por ser a primeira,<br> +Vos disser alguem que pende,<br> +Dir-lhe-hei, mana, que mente. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Com razão queixar-me posso<br> +De vós, que mal vos queixais;<br> +Pois, Senhora, vos sangrais,<br> +Que seja n'hum corpo vosso. <span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span> +</blockquote> + + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>E</big>u para levar a palma,<br> +Com que ser vosso mereça,<br> +Quero que o corpo padeça<br> +Por vós, que delle sois alma.<br> +Vós do corpo vos queixais,<br> +Eu queixar-me de vós posso,<br> +Porque, tendo hum corpo vosso,<br> +Na minha alma vos sangrais.<br> +<br> +E sem fazer differença<br> +No que de mi possuis,<br> +Pelo pouco que sentis,<br> +Dais á minh'alma doença.<br> +Porque dous aventurais?<br> +Oh não seja o damno nosso!<br> +Sangre-se este corpo vosso,<br> +Porque, minha alma, vivais.<br> +<br> +E inda, se attentardes bem,<br> +Seguis medicina errada,<br> +Porque para ser sangrada<br> +Hum'alma sangue não tem.<br> +E pois em mi sarar posso<br> +Males, que á minha alma dais,<br> +Se inda outra vez vos sangrais,<br> +Seja neste corpo vosso. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Ojos, herido me habeis,<br> +Acabad ya de matarme; <span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span><br> +Mas muerto volved á mirarme,<br> +Porque me resusciteis. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>P</big>ues me distes tal herida,<br> +Con gana de darme muerte,<br> +El morir me es dulce suerte,<br> +Pues con morir me dais vida.<br> +Ojos, qué os deteneis?<br> +Acabad ya de matarme;<br> +Mas muerto volved á mirarme,<br> +Porque me resusciteis.<br> +<br> +La llaga cierto ya es mia,<br> +Aunque, ojos, vós no querrais;<br> +Mas si la muerte me dais,<br> +El morir me es alegría.<br> +Y así digo que acabeis,<br> +O ojos, ya de matarme;<br> +Mas muerto volved á mirarme,<br> +Porque me resusciteis. +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A D<small>ONA</small> F<small>RANCISCA DE</small> A<small>RAGÃO, QUE LHE MANDOU +GLOSAR ESTE VERSO:</small></p> + +<blockquote> +Mas porém a que cuidados?<br> +</blockquote> + +<blockquote> +<big>T</big>anto maiores tormentos<br> +Forão sempre os que soffri,<br> +Daquillo que cabe em mi,<br> +Que não sei que pensamentos<br> +São os para que nasci. <span class="pn"><a name="pag_106">{106}</a></span><br> +Quando vejo este meu peito<br> +A perigos arriscados<br> +Inclinado, bem suspeito<br> +Que a cuidados sou sujeito,<br> +<em>Mas porém a que cuidados?</em> +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Ao mesmo.</em></p> + +<blockquote> +Que vindes em mi buscar,<br> +Cuidados, que sou captivo?<br> +Eu não tenho que vos dar:<br> +Se vindes a me matar,<br> +Ja ha muito que não vivo:<br> +Se vindes, porque me dais<br> +Tormentos desesperados,<br> +Eu, que sempre soffri mais,<br> +Não digo que não venhais;<br> +<em>Mas porém <span class="typo" title="no original: a que, cuidados">a que cuidados</span>?</em> +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Ao mesmo.</em></p> + +<blockquote> +Se as penas que Amor me deu,<br> +Vem por tão suaves meios,<br> +Não ha que temer receios;<br> +Que val hum cuidado meu<br> +Por mil descansos alheios.<br> +Ter n'huns olhos tão formosos<br> +Os sentidos enlevados,<br> +Bem sei qu'em baixos estados<br> +São cuidados perigosos;<br> +<em>Mas porém a que cuidados?...</em> +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Carta com a glosa acima.</em></p> + +<p>Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. +crendo me sería assi mais seguro: mas agora que he <span class="pn"><a name="pag_107">{107}</a></span> +servida de me tornar a resuscitar, por me mostrar +seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa +he menos de agradecer, que huma morte descansada. +Mas se esta vida, que agora de novo me dá, for +para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me +fica mais que desejar, que poder acertar com este +mote de v. m., ao qual dei tres entendimentos, segundo +as palavras delle pudérão soffrer: se forem bons, he +mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas.</p> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small> + +<blockquote> +Campos bem-aventurados,<br> +Tornae-vos agora tristes;<br> +Que os dias, em que me vistes,<br> +Alegres ja são passados. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>C</big>ampos cheios de prazer,<br> +Vós qu'estais reverdecendo,<br> +Ja m'alegrei com vos ver;<br> +Agora venho a temer<br> +Qu'entristeçais em me vendo.<br> +E pois a vista alegrais<br> +Dos olhos desesperados,<br> +Não quero que me vejais,<br> +Para que sempre sejais,<br> +<em>Campos, bem-aventurados.</em><br> +<br> +Porém se por accidente<br> +Vos pezar de meu tormento,<br> +Sabereis que Amor consente <span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span><br> +Que tudo me descontente,<br> +Senão descontentamento.<br> +Por isso vós, arvoredos,<br> +Que ja nos meus olhos vistes<br> +Mais alegria, que medos,<br> +Se mos quereis fazer ledos,<br> +<em>Tornae-vos agora tristes.</em><br> +<br> +Ja me vistes ledo ser,<br> +Mas despois que o falso Amor<br> +Tão triste me fez viver,<br> +Ledos folgo de vos ver,<br> +Porque me dobreis a dor.<br> +E se este gôsto sobejo<br> +De minha dor me sentistes,<br> +Julgae quanto mais desejo<br> +As horas que vos não vejo,<br> +<em>Que os dias em que me vistes.</em><br> +<br> +O tempo, qu'he desigual,<br> +De seccos, verdes vos tem;<br> +Porqu'em vosso natural<br> +Se muda o mal para o bem,<br> +Mas o meu para mor mal.<br> +Se perguntais, verdes prados,<br> +Pelos tempos differentes<br> +Que de Amor me forão dados,<br> +Tristes, aqui são presentes,<br> +<em>Alegres, ja são passados.</em> <span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small> + +<blockquote> +Trabalhos descansarião<br> +Se para vós trabalhasse;<br> +Tempos tristes passarião,<br> +Se algum'hora vos lembrasse. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>N</big>unca o prazer se conhece,<br> +Senão despois da tormenta:<br> +Tão pouco o bem permanece,<br> +Que se o descanso florece,<br> +Logo o trabalho arrebenta.<br> +Sempre os bens se lograrião,<br> +Mas os males tudo atalhão;<br> +Porém ja que assi porfião,<br> +Onde descansos trabalhão,<br> +<em>Trabalhos descansarião.</em><br> +<br> +Qualquer trabalho me fôra<br> +Por vós grão contentamento:<br> +Nada sentira, Senhora,<br> +Se víra disto algum'hora<br> +Em vós hum conhecimento.<br> +Por mal que o mal me tratasse,<br> +Tudo por bem tomaria;<br> +Postoque o corpo cansasse,<br> +A alma descansaria,<br> +<em>Se para vós trabalhasse.</em><br> +<br> +Quem vossas cruezas ja<br> +Soffreo, a tudo se poz;<br> +Costumado ficará;<br> +E muito melhor será,<br> +Se trabalhar para vós. <span class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span><br> +Tristezas esquecerião,<br> +Postoque mal me tratárão;<br> +Annos não me lembrarião,<br> +Que como est'outros passarão,<br> +<em>Tempos tristes passarião.</em><br> +<br> +Se fosse galardoado<br> +Este trabalho tão duro,<br> +Não vivêra magoado.<br> +Mas não o foi o passado,<br> +Como o será o futuro?<br> +De cansar não cansaria,<br> +Se quizereis, que cansasse;<br> +Cavar, morrer, fa-lo-hia;<br> +Tudo, emfim, esqueceria,<br> +<em>Se algum'hora vos lembrasse.</em> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small> + +<blockquote> +Triste vida se me ordena,<br> +Pois quer vossa condição<br> +Que os males, que dais por pena,<br> +Me fiquem por galardão. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>D</big>espois de sempre soffrer,<br> +Senhora, vossas cruezas,<br> +A pezar de meu querer,<br> +Me quereis satisfazer<br> +Meus serviços com tristezas.<br> +Mas, pois em balde resiste<br> +Quem vossa vista condena, <span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span><br> +Prestes estou para a pena;<br> +Que de galardão tão triste<br> +<em>Triste vida se me ordena.</em><br> +<br> +De contente do mal meu<br> +A tão grande extremo vim,<br> +Que consinto em minha fim:<br> +Assi que vós e mais eu,<br> +Ambos somos contra mim.<br> +Mas que soffra meu tormento,<br> +Sem querer mais galardão,<br> +Não he fóra de razão<br> +Que queira meu soffrimento,<br> +<em>Pois quer vossa condição.</em><br> +<br> +O mal, que vós dais por bem,<br> +Esse, Senhora, he mortal;<br> +Que o mal, que dais como mal,<br> +Em muito menos se tem,<br> +Por costume natural.<br> +Mas porém nesta victoria,<br> +Que comigo he bem pequena,<br> +A maior dor me condena<br> +A pena, que dais por gloria,<br> +<em>Que os males, que dais por pena.</em><br> +<br> +Que mor bem me possa vir,<br> +Que servir-vos, não o sei.<br> +Pois que mais quero eu pedir,<br> +Se quanto mais vos servir,<br> +Tanto mais vos deverei?<br> +Se vossos merecimentos<br> +De tão alta estima são,<br> +Assaz de favor me dão <span class="pn"><a name="pag_112">{112}</a></span><br> +Em querer que meus tormentos<br> +<em>Me fiquem por galardão.</em> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small> + +<blockquote> +Ja não posso ser contente,<br> +Tenho a esperança perdida;<br> +Ando perdido entre a gente,<br> +Nem morro, nem tenho vida. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>D</big>espois que meu cruel Fado<br> +Destruio huma esperança,<br> +Em que me vi levantado,<br> +No mal fiquei sem mudança,<br> +E do bem desesperado.<br> +O coração, que isto sente,<br> +Á sua dor não resiste,<br> +Porque vê mui claramente<br> +Que pois nasci para triste,<br> +<em>Ja não posso ser contente.</em><br> +<br> +Por isso, contentamentos,<br> +Fugi de quem vos despreza:<br> +Ja fiz outros fundamentos,<br> +Ja fiz senhora a tristeza<br> +De todos meus pensamentos.<br> +O menos que lh'entreguei,<br> +Foi esta cansada vida:<br> +Cuido que nisto acertei,<br> +Porque de quanto esperei<br> +<em>Tenho a esperança perdida.</em> <span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span><br> +<br> +Acabar de me perder<br> +Fôra ja muito melhor;<br> +Tivera fim esta dor,<br> +Que não podendo mor ser,<br> +Cada vez a sinto mor.<br> +De vós desejo esconder-me,<br> +E de mi principalmente,<br> +Onde ninguem possa ver-me;<br> +Que pois me ganho em perder-me,<br> +<em>Ando perdido entre a gente.</em><br> +<br> +Gostos de mudanças cheios,<br> +Não me busqueis, não vos quero:<br> +Tenho-vos por tão alheios,<br> +Que do bem que não espero,<br> +Inda me ficão receios.<br> +Em pena tão sem medida,<br> +Em tormento tão esquivo<br> +Que morra, ninguem duvída;<br> +Mas eu se morro, ou se vivo,<br> +<em>Nem morro, nem tenho vida.</em> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small> HUMA</small> D<small>AMA, QUE SE CHAMAVA</small> A<small>NNA.</small></p> + +<p class="centrado"><em>Mote.</em></p> + + +<blockquote> +A morte, pois que sou vosso,<br> +Não a quero; mas se vem,<br> +Ha de ser todo meu bem. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>A</big>mor, qu'em meu pensamento<br> +Com tanta fé se fundou, <span class="pn"><a name="pag_114">{114}</a></span><br> +Me tẽe dado hum regimento,<br> +Que quando vir meu tormento<br> +Me salve com cujo sou.<br> +E com esta defensão,<br> +Com que tudo vencer posso,<br> +Diz a causa ao coração:<br> +Não tẽe em mi jurdição<br> +<em>A morte, pois que sou vosso.</em><br> +<br> +Por exprimentar hum dia<br> +Amor se me achava forte<br> +Nesta fé, como dizia,<br> +Me convidou com a morte,<br> +Só por ver se a temeria.<br> +E como ella seja a cousa<br> +Onde está todo meu bem,<br> +Respondi-lhe, como quem<br> +Quer dizer mais, e não ousa:<br> +<em>Não a quero, mas se vem...</em><br> +<br> +Não disse mais, porque então<br> +Entendeo quanto me toca;<br> +E se tinha dito o não,<br> +Muitas vezes diz a boca,<br> +O que nega o coração.<br> +Toda a cousa defendida<br> +Em mais estima se tem:<br> +Por isso he cousa sabida,<br> +Que perder por vós a vida<br> +<em>Ha de ser todo meu bem.</em> +</blockquote> + <span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">Á <small>MESMA</small> D<small>AMA.</small></p> + +<blockquote> +Vejo-a n'alma pintada,<br> +Quando me pede o desejo<br> +O natural que não vejo. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + + +<blockquote> +<big>S</big>e só de ver puramente<br> +Me transformei no que vi,<br> +De vista tão excellente<br> +Mal poderei ser ausente,<br> +Em quanto o não for de mi.<br> +Porque a alma namorada<br> +A traz tão bem debuxada,<br> +E a memoria tanto voa,<br> +Que se a não vejo em pessoa,<br> +<em>Vejo-a n'alma pintada.</em><br> +<br> +O desejo, que s'estende<br> +Ao que menos se concede,<br> +Sôbre vós pede e pretende,<br> +Como o doente que pede<br> +O que mais se lhe defende.<br> +Eu, qu'em ausencia vos vejo,<br> +Tenho piedade e pejo<br> +De me ver tão pobre estar,<br> +Qu'então não tenho que dar,<br> +<em>Quando me pede o desejo.</em><br> +<br> +Como áquelle que cegou,<br> +He cousa vista e notoria,<br> +Que a natureza ordenou<br> +Que se lhe dobre em memoria<br> +O qu'em vista lhe faltou:<br> +Assi a mi, que não vejo <span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span><br> +Co'os olhos o que desejo,<br> +Na memoria e na firmeza<br> +Me concede a natureza<br> +<em>O natural que não vejo.</em> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small> + +<blockquote> +Sem vós, e com meu cuidado,<br> +Olhae com quem, e sem quem. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>V</big>endo Amor que com vos ver<br> +Mais levemente soffria<br> +Os males que me fazia,<br> +Não me pôde isto soffrer;<br> +Conjurou-se com meu Fado;<br> +Hum novo mal me ordenou:<br> +Ambos me levão forçado,<br> +Não sei onde, pois que vou<br> +<em>Sem vós e com meu cuidado.</em><br> +<br> +Não sei qual he mais estranho<br> +Destes dous males que sigo,<br> +Se não vos ver, se comigo<br> +Levar imigo tamanho.<br> +O que fica, e o que vem,<br> +Hum me mata, outro desejo:<br> +Com tal mal, e sem tal bem,<br> +Em taes extremos me vejo:<br> +<em>Olhae com quem, e sem quem</em>! +</blockquote> + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>O MESMO.</small> + +<blockquote> +<big>A</big>mor, cuja providencia<br> +Foi sempre que não errasse, <span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span><br> +Porque n'alma vos levasse,<br> +Respeitando o mal d'ausencia,<br> +Quiz qu'em vós me transformasse.<br> +E vendo-me ir maltratado,<br> +Eu e meu cuidado sós,<br> +Proveo nisso de attentado,<br> +Por não me ausentar de vós,<br> +<em>Sem vós, e com meu cuidado.</em><br> +<br> +Mas est'alma, qu'eu trazia,<br> +Porque vós nella morais,<br> +Deixa-me cego, e sem guia;<br> +Que ha por melhor companhia<br> +Ficar onde vós ficais.<br> +Assi me vou de meu bem,<br> +Onde quer a forte estrella,<br> +Sem alma, qu'em si vos tem,<br> +Co'o mal de viver sem ella:<br> +<em>Olhae com quem, e sem quem</em>! +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small> + +<blockquote> +Sem ventura he por demais. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + + +<blockquote> +<big>T</big>odo o trabalhado bem<br> +Promette gostoso fruito;<br> +Mas os trabalhos, que vem,<br> +Para quem dita não tem<br> +Valem pouco, e custão muito.<br> +Rompe toda a pedra dura,<br> +Faz os homens immortais <span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span><br> +O trabalho quando atura;<br> +Mas querer achar ventura,<br> +<em>Sem ventura, he por demais.</em> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small> + +<blockquote> +Minh'alma, lembrae-vos della. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>P</big>ois o ver-vos tenho em mais<br> +Que mil vidas que me deis,<br> +Assi como a que me dais,<br> +Meu bem, ja que mo negais,<br> +Meus olhos, não mo negueis.<br> +E se a tal estado vim<br> +Guiado de minha estrella,<br> +Quando houverdes dó de mim,<br> +Minha vida, dae-lhe a fim,<br> +<em>Minh'alma, lembrae-vos della.</em> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE ALHEIO.</small> + +<blockquote> +Tudo póde huma affeição. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>T</big>ẽe tal jurdição Amor<br> +N'alma donde se aposenta,<br> +E de que se faz senhor,<br> +Que a liberta e isenta<br> +De todo humano temor.<br> +E com mui justa razão,<br> +Como senhor soberano, <span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span><br> +Que Amor não consente dano.<br> +E pois me soffre tenção,<br> +Gritarei por desengano:<br> +<em>Tudo póde huma affeição.</em> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">T<small>ROVA DE</small> B<small>OSCÃO.</small> + +<blockquote> +Justa fué mi perdicion;<br> +De mis males soy contento;<br> +Ya no espero galardon,<br> +Pues vuestro merecimiento<br> +Satisfizo mi pasion. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>D</big>espues que Amor me formó<br> +Todo de amor, cual me veo,<br> +En las leyes, que me dió,<br> +El mirar me consintió,<br> +Y defendióme el deseo.<br> +Mas el alma, como injusta,<br> +En viendo tal perfeccion,<br> +Dió al deseo ocasion:<br> +Y pues quebré ley tan justa,<br> +<em>Justa fué mi perdicion.</em><br> +<br> +Mostrándoseme el Amor<br> +Mas benigno que cruel,<br> +Sobre tirano traidor,<br> +De zelos de mi dolor,<br> +Quiso tomar parte en él.<br> +Yo que tan dulce tormento<br> +No quiero dallo, aunque peco, <span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span><br> +Resisto, y no lo consiento;<br> +Mas si me lo toma á trueco<br> +<em>De mis males, soy contento.</em><br> +<br> +Señora, ved lo que ordena<br> +Este Amor tan falso nuestro!<br> +Por pagar á costa agena,<br> +Manda que de un mirar vuestro<br> +Haga el premio de mi pena.<br> +Mas vos, para que veais<br> +Tan engañosa intencion,<br> +Aunque muerto me sintais,<br> +No mireis, que si mirais,<br> +<em>Ya no espero galardon.</em><br> +<br> +Pues que premio (me direis)<br> +Esperas que será bueno?<br> +Sabed, sino lo sabeis,<br> +Que es lo mas de lo que peno<br> +Lo menos que mereceis.<br> +Quien hace al mal tan ufano,<br> +Y tan libre al sentimiento?<br> +El deseo? No, que es vano.<br> +El amor? No, que es tirano.<br> +<em>Pues? Vuestro merecimiento.</em><br> +<br> +No pudiendo Amor robarme<br> +De mis tan caros despojos,<br> +Aunque fué por mas honrarme,<br> +Vos sola para matarme<br> +Le prestastes vuestros ojos.<br> +Matáranme ambos á dos;<br> +Mas á vos con mas razon<br> +Debe el la satisfaccion; <span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span><br> +Que á mi por él, y por vos,<br> +<em>Satisfizo mi pasion.</em> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Todo es poco lo posible. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>V</big>ed que engaño señorea<br> +Nuestro juicio tan loco,<br> +Que por mucho que se crea,<br> +Todo el bien, que se desea,<br> +Alcanzado, queda poco.<br> +Un bien de cualquiera grado,<br> +Si de haberse es imposible,<br> +Queda mucho deseado.<br> +Mas para mucho, alcanzado,<br> +<em>Todo es poco lo posible.</em> +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Outro.</em></p> + +<blockquote> +Posible es á mi cuidado<br> +Poderme hacer satisfecho,<br> +Si fuera posible al hado<br> +Hacer no hecho lo hecho,<br> +Y futuro lo pasado.<br> +Si olvido pudiera haber,<br> +Fuera remedio sufrible;<br> +Mas ya que no puede ser,<br> +Para contento me hacer,<br> +<em>Todo es poco lo posible.</em> <span class="pn"><a name="pag_122">{122}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Vos teneis mi corazon. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>M</big>i corazon me han robado;<br> +Y Amor viendo mis enojos,<br> +Me dijo: Fuéte llevado<br> +Por los mas hermosos ojos,<br> +Que desque vivo he mirado.<br> +Gracias sobrenaturales<br> +Te lo tienen en prision.<br> +Y si Amor tiene razon,<br> +Señora, por las señales,<br> +<em>Vos teneis mi corazon.</em> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Qué veré que me contente? +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>D</big>esque una vez yo miré,<br> +Señora, vuestra beldad,<br> +Jamas por mi voluntad<br> +Los ojos de vos quité.<br> +Pues sin vos placer no siente<br> +Mi vida, ni lo desea,<br> +Si no quereis que yo os vea,<br> +<em>Qué veré que me contente?</em> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Sem vós, e com meu cuidado. <span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span> +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>Q</big>uerendo Amor esconder-vos<br> +Em parte que vos não visse,<br> +Co'o extremo de querer-vos<br> +Cegou-me os olhos com ver-vos,<br> +Levou-vos, sem que vos visse.<br> +Eu cego, mas atinado,<br> +Quando vi que vos não via,<br> +Do mesmo Amor indignado,<br> +Ja vêdes qual ficaria<br> +<em>Sem vós e com meu cuidado.</em> +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Retrato, vós não sois meu;<br> +Retratárão-vos mui mal;<br> +Que a serdes meu natural,<br> +Foreis mofino como eu. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>I</big>ndaqu'em vós a arte vença<br> +O que o natural tẽe dado,<br> +Não fostes bem retratado;<br> +Que ha em vós mais differença,<br> +Que no vivo do pintado.<br> +Se o lugar se considera<br> +Do alto estado, que vos deu<br> +A sorte, qu'eu mais quizera;<br> +Se he qu'eu sou quem d'antes era,<br> +<em>Retrato, vós não sois meu.</em><br> +<br> +Vós na vossa glória pôsto,<br> +Eu na minha sepultura, <span class="pn"><a name="pag_124">{124}</a></span><br> +Vós com bens, eu com desgôsto;<br> +Pareceis-vos ao meu rosto,<br> +E não ja á minha ventura.<br> +E pois nella e vós errarão<br> +O qu'em mi he principal,<br> +Muito em ambos s'enganárão.<br> +Se por mi vós retratárão,<br> +<em>Retratárão-vos mui mal.</em><br> +<br> +Mas se esse rosto fingido<br> +Quizerão representar,<br> +E houverão por bom partido<br> +Dar-vos a alma do sentido<br> +Para a glória do lugar;<br> +Víreis, pôsto nessa alteza,<br> +Que vos não ha cousa igual;<br> +E que nem a maior mal<br> +Podeis vir, nem mor baixeza,<br> +<em>Que a serdes meu natural.</em><br> +<br> +Por isso não confesseis<br> +Serdes meu, qu'he desatino,<br> +Com que o lugar perdereis:<br> +Se conservar-vos quereis,<br> +Blazonae que sois divino.<br> +Que se nesta occasião<br> +Conhecessem qu'ereis meu,<br> +Por meu vos derão de mão,<br> +. . . . . . . . . .<br> +<em>Fôreis mofino, como eu.</em> <span class="pn"><a name="pag_125">{125}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Foi-se gastando a esperança,<br> +Fui entendendo os enganos;<br> +Do mal ficárão-me os danos,<br> +E do bem só a lembrança. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Glosa.</em></p> + +<blockquote> +<big>N</big>unca em prazeres passados<br> +Tive firmeza segura.<br> +Antes tão arrebatados,<br> +Qu'inda não erão chegados,<br> +Quando mos levou ventura.<br> +E como quem desconfia<br> +Ter em tal sorte mudança,<br> +No meio desta porfia,<br> +De quanto bem pretendia<br> +<em>Foi-se gastando a esperança.</em><br> +<br> +Não tive por desatino<br> +A occasião de perdella;<br> +Mas foi culpa do destino,<br> +Que a ninguem, como mais dino,<br> +Amor pudéra sostella.<br> +Dei-lhe tudo o qu'era seu,<br> +Não receando taes danos<br> +Deste, a quem alma lhe deu:<br> +Quando ja não era meu,<br> +<em>Fui entendendo os enganos.</em><br> +<br> +Fiquei deste mal sobejo<br> +A quem a causa compete<br> +Dizer-lhe tudo o que vejo,<br> +Que Amor acceita o desejo,<br> +Mas mente no que promete. <span class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span><br> +Que se a mi se me obrigou<br> +A dar-me bens soberanos,<br> +Foi engano que ordenou;<br> +Que do bem tudo levou,<br> +<em>Do mal ficárão-me os danos.</em><br> +<br> +E se dor tão desigual<br> +Soffro em mi com padecellos,<br> +Quero de novo soffrellos;<br> +Que por a causa ser tal,<br> +Não determino offendellos.<br> +Dobre-se o mal, falte a vida,<br> +Cresça a fé, falte a esperança,<br> +Pois foi mal agradecida;<br> +Fique a dor n'alma imprimida,<br> +<em>E do bem só a lembrança.</em> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">E<small>NDECHAS A</small> B<small>ARBARA</small> E<small>SCRAVA.</small></p> + +<blockquote> +<big>A</big>quella captiva,<br> +Que me tẽe captivo,<br> +Porque nella vivo,<br> +Ja não quer que viva.<br> +Eu nunca vi rosa<br> +Em suaves mólhos,<br> +Que para meus olhos<br> +Fosse mais formosa.<br> +<br> +Nem no campo flores,<br> +Nem no ceo estrellas,<br> +Me parecem bellas,<br> +Como os meus amores. <span class="pn"><a name="pag_127">{127}</a></span><br> +Rosto singular,<br> +Olhos socegados,<br> +Pretos e cansados,<br> +Mas não de matar.<br> +<br> +Huma graça viva,<br> +Que nelles lhe mora,<br> +Para ser senhora<br> +De quem he captiva.<br> +Pretos os cabellos,<br> +Onde o povo vão<br> +Perde opinião,<br> +Que os louros são bellos.<br> +<br> +Pretidão de Amor,<br> +Tão doce a figura,<br> +Que a neve lhe jura<br> +Que trocára a cór.<br> +Leda mansidão,<br> +Que o siso acompanha,<br> +Bem parece estranha,<br> +Mas barbara não.<br> +<br> +Presença serena,<br> +Que a tormenta amansa:<br> +Nella emfim descansa<br> +Toda minha pena.<br> +Esta he a captiva,<br> +Que me tẽe captivo;<br> +E pois nella vivo,<br> +He fôrça que viva. <span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Quem ora soubesse<br> +Onde o Amor nasce,<br> +Que o semeasse! +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>D</big>'Amor e seus danos<br> +Me fiz lavrador;<br> +Semeava amor,<br> +E colhia enganos;<br> +Não vi, em meus anos,<br> +Homem que apanhasse<br> +O que semeasse.<br> +<br> +Vi terra florída<br> +De lindos abrolhos,<br> +Lindos para os olhos,<br> +Duros para a vida.<br> +Mas a rez perdida,<br> +Que tal herva pasce,<br> +Em forte hora nasce.<br> +<br> +Com quanto perdi,<br> +Trabalhava em vão:<br> +Se semeei grão,<br> +Grande dor colhi.<br> +Amor nunca vi<br> +Que muito durasse,<br> +Que não magoasse. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Se me levão ágoas,<br> +Nos olhos as levo. <span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span> +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>S</big>e de saudade<br> +Morrerei ou não,<br> +Meus olhos dirão<br> +De mi a verdade.<br> +Por elles me atrevo<br> +A lançar as ágoas,<br> +Que mostrem as mágoas<br> +Que nesta alma levo.<br> +<br> +As ágoas, qu'em vão<br> +Me fazem chorar,<br> +Se ellas são do mar,<br> +Estas de amar são.<br> +Por ellas relévo<br> +Todas minhas mágoas;<br> +Que se fôrça d'ágoas<br> +Me leva, eu as levo.<br> +<br> +Todas me entristecem,<br> +Todas são salgadas;<br> +Porém as choradas<br> +Doces me parecem.<br> +Correi, doces ágoas,<br> +Que se em vós m'enlévo,<br> +Não doem as mágoas,<br> +Que no peito levo. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Menina dos olhos verdes,<br> +Porque me não vedes? +</blockquote> <span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>E</big>lles verdes são,<br> +E tẽe por usança<br> +Na côr esperança,<br> +E nas obras não.<br> +Vossa condição<br> +Não he d'olhos verdes,<br> +Porque me não vêdes.<br> +<br> +Isenções a mólhos<br> +Qu'elles dizem terdes,<br> +Não são d'olhos verdes,<br> +Nem de verdes olhos.<br> +Sirvo de giolhos,<br> +E vós não me credes,<br> +Porque me não vêdes.<br> +<br> +Havião de ser,<br> +Porque possa vê-los,<br> +Que huns olhos tão bellos<br> +Não se hão d'esconder:<br> +Mas fazeis-me crer,<br> +Que ja não são verdes,<br> +Porque me não vêdes.<br> +<br> +Verdes não o são,<br> +No que alcanço delles;<br> +Verdes são aquelles<br> +Qu'esperança dão.<br> +Se na condição<br> +Está serem verdes,<br> +Porque me não vedes? <span class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Trocae o cuidado,<br> +Senhora, comigo;<br> +Vereis o perigo,<br> +Qu'he ser desamado. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>S</big>e trocar desejo<br> +O amor entre nós,<br> +He para qu'em vós<br> +Vejais o que vejo.<br> +E sendo trocado<br> +Este amor comigo,<br> +Ser-vos-ha castigo<br> +Terdes meu cuidado.<br> +<br> +Tendes o sentido<br> +D'Amor livre e isento,<br> +E cuidais qu'he vento<br> +Ser tão mal querido.<br> +Não seja o cuidado<br> +Tão vosso inimigo,<br> +Que queira o perigo<br> +De ser desamado.<br> +<br> +Mas nunca foi tal<br> +Este meu querer,<br> +Que a quem tanto quer,<br> +Queira tanto mal<br> +Seja eu maltratado,<br> +E nunca o castigo<br> +Vos mostre o perigo,<br> +Qu'he ser desamado. <span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">Á <small>TENÇÃO DE</small> M<small>IRAGUARDA.</small> + +<blockquote> +Ver, e mais guardar<br> +De ver outro dia,<br> +Quem o acabaria? +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>D</big>a lindeza vossa,<br> +Dama, quem a vê,<br> +Impossivel he<br> +Que guardar-se possa.<br> +Se faz tanta mossa<br> +Ver-vos hum só dia,<br> +Quem se guardaria?<br> +<br> +Melhor deve ser<br> +Neste aventurar<br> +Ver, e não guardar,<br> +Que guardar e ver.<br> +Ver e defender,<br> +Muito bom sería,<br> +Mas quem poderia? +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Irme quiero, madre,<br> +Á aquella galera,<br> +Con el marinero,<br> +Á ser marinera. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>M</big>adre, si me fuere,<br> +Do quiera que vó,<br> +No lo quiero yo, <span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span><br> +Que el Amor lo quiere.<br> +Aquel niño fiero,<br> +Hace que me mueva<br> +Por un marinero<br> +Á ser marinera.<br> +<br> +El que todo puede,<br> +Madre, no podrá,<br> +Pues el alma vá,<br> +Que el cuerpo se quede.<br> +Con él por que muero<br> +Voy, porque no muera;<br> +Que si es marinero,<br> +Seré marinera.<br> +<br> +Es tirana ley<br> +Del niño Señor,<br> +Que por un amor<br> +Se deseche un Rey.<br> +Pues desta manera<br> +Quiero irme, quiero<br> +Por un marinero<br> +Á ser marinera.<br> +<br> +Decid, ondas, cuando<br> +Vistes vos doncella,<br> +Siendo tierna y bella,<br> +Andar navegando?<br> +Mas qué no se espera<br> +Daquel niño fiero?<br> +Vea yo quien quiero,<br> +Sea marinera. <span class="pn"><a name="pag_134">{134}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Saudade minha,<br> +Quando vos veria? +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>E</big>ste tempo vão,<br> +Esta vida escassa,<br> +Para todos passa,<br> +Só para mi não.<br> +Os dias se vão<br> +Sem ver este dia,<br> +Quando vos veria.<br> +<br> +Vêde esta mudança<br> +Se está bem perdida,<br> +Em tão curta vida<br> +Tão longa esperança.<br> +Se este bem se alcança,<br> +Tudo soffreria,<br> +Quando vos veria.<br> +<br> +Saudosa dor,<br> +Eu bem vos entendo;<br> +Mas não me defendo,<br> +Porque offendo Amor.<br> +Se fôsseis maior,<br> +Em maior valia<br> +Vos estimaria.<br> +<br> +Minha saudade,<br> +Charo penhor meu,<br> +A quem direi eu<br> +Tamanha verdade?<br> +Na minha vontade <span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span><br> +De noite e de dia<br> +Sempre vos teria. +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Vida da minha alma,<br> +Não vos posso ver:<br> +Isto não he vida<br> +Para se soffrer. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>Q</big>uando vos eu via,<br> +Esse bem lograva,<br> +A vida estimava,<br> +Pois então vivia;<br> +Porque vos servia<br> +Só para vos ver.<br> +Ja que vos não vejo<br> +Para qu'he viver?<br> +<br> +Vivo sem razão,<br> +Porqu'em minha dor<br> +Não a poz Amor;<br> +Que inimigos são.<br> +Mui grande traição<br> +Me obriga a fazer<br> +Que viva, Senhora,<br> +Sem vos poder ver.<br> +<br> +Não me atrevo ja,<br> +Minha tão querida,<br> +A chamar-vos vida,<br> +Porque a tenho má. <span class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span><br> +Ninguem cuidará,<br> +Que isto póde ser,<br> +Sendo-me vós vida,<br> +Não poder viver. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Coifa de beirame<br> +Namorou Joanne. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>P</big>or cousa tão pouca<br> +Andas namorado?<br> +Amas o toucado,<br> +E não quem o touca?<br> +Ando cega e louca<br> +Por ti, meu Joanne,<br> +Tu pelo beirame.<br> +<br> +Amas o vestido?<br> +Es falso amador.<br> +Tu não vês que Amor<br> +Se pinta despido?<br> +Cego e mui perdido<br> +Andas por beirame,<br> +E eu por ti, Joanne.<br> +<br> +A todos encanta<br> +Tua parvoice;<br> +De tua doudice<br> +Gonçalo s'espanta,<br> +E zombando canta:<br> +Coifa de beirame,<br> +Namorou Joanne. <span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span><br> +<br> +Eu não sei que viste<br> +Neste meu toucado,<br> +Que tão namorado<br> +Delle te sentiste.<br> +Não te veja triste;<br> +Ama-me, Joanne,<br> +E deixa o beirame.<br> +<br> +Joanne gemia,<br> +Maria chorava,<br> +E assi lamentava<br> +O mal que sentia:<br> +(Os olhos feria,<br> +E não o beirame,<br> +Que matou Joanne)<br> +<br> +Não sei do que vem<br> +Amares vestido;<br> +Que o mesmo Cupido<br> +Vestido não tem.<br> +Sabes de que vem<br> +Amares beirame?<br> +Vem de ser Joanne. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Se Helena apartar<br> +Do campo seus olhos,<br> +Nascerão abrolhos. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>A</big> verdura amena,<br> +Gados, que pasceis, <span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span><br> +Sabei que a deveis<br> +Aos olhos d'Helena.<br> +Os ventos serena,<br> +Faz flores d'abrolhos<br> +O ar de seus olhos.<br> +<br> +Faz serras florídas,<br> +Faz claras as fontes:<br> +S'isto faz nos montes,<br> +Que fara nas vidas?<br> +Tra-las suspendidas,<br> +Como hervas em mólhos,<br> +Na luz de seus olhos.<br> +<br> +Os corações prende<br> +Com graça inhumana;<br> +De cada pestana<br> +Hum'alma lhe pende.<br> +Amor se lhe rende,<br> +E pôsto em giolhos,<br> +Pasma nos seus olhos. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Verdes são os campos<br> +De côr de limão;<br> +Assi são os olhos<br> +Do meu coração. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>C</big>ampo, que t'estendes<br> +Com verdura bella;<br> +Ovelhas, que nella <span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span><br> +Vosso pasto tendes;<br> +D'hervas vos mantendes<br> +Que traz o verão;<br> +E eu das lembranças<br> +Do meu coração.<br> +<br> +Gados, que pasceis<br> +Com contentamento,<br> +Vosso mantimento<br> +Não no entendeis.<br> +Isso que comeis,<br> +Não são hervas, não;<br> +São graça dos olhos<br> +Do meu coração. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Verdes são as hortas<br> +Com rosas e flores:<br> +Moças, que as régão,<br> +Matão-me d'amores. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>E</big>ntre estes penedos<br> +Que daqui parecem,<br> +Verdes hervas crescem,<br> +Altos arvoredos.<br> +Vai destes rochedos<br> +Ágoa, com que as flores<br> +D'outras são regadas,<br> +Que mátão d'amores.<br> +<br> +Com ágoa, que cai<br> +Daquella espessura, <span class="pn"><a name="pag_140">{140}</a></span><br> +Outra se mistura,<br> +Que dos olhos sai:<br> +Toda junta vai<br> +Regar brancas flores;<br> +Onde ha outros olhos,<br> +Que mátão d'amores.<br> +<br> +Celestes jardins,<br> +As flores estrellas:<br> +Hortelôas dellas<br> +São huns seraphins.<br> +Rosas e jasmins<br> +De diversas côres,<br> +Anjos, que as régão,<br> +Mátão-me d'amores. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Menina formosa,<br> +Dizei de que vem<br> +Serdes rigorosa<br> +A quem vos quer bem? +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>N</big>ão sei quem assella<br> +Vossa formosura;<br> +Que quem he tão dura<br> +Não póde ser bella.<br> +Vós sereis formosa;<br> +Mas a razão tem<br> +Que quem he irosa,<br> +Não parece bem. <span class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span><br> +<br> +A mostra he de bella,<br> +As obras são cruas:<br> +Pois qual destas duas<br> +Ficará na sella?<br> +Se ficar <em>irosa</em>,<br> +Não vos está bem:<br> +Fique antes <em>formosa</em>,<br> +Que mais fôrça tem.<br> +<br> +O Amor formoso<br> +Se pinta e se chama:<br> +Se he amor, ama,<br> +Se ama, he piedoso.<br> +Diz agora a grosa<br> +Que este texto tem,<br> +Que quem he formosa<br> +Ha de querer bem.<br> +<br> +Havei dó, menina,<br> +Dessa formosura;<br> +Que se a terra he dura,<br> +Secca-se a bonina.<br> +Sêde piedosa;<br> +Não veja ninguem<br> +Que por rigorosa<br> +Percais tanto bem. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">A<small>LHEIO</small>.</p> + +<blockquote> +Tende-me mão nelle,<br> +Que hum real me deve. <span class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span> +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + +<blockquote> +<big>C</big>'hum real d'amor,<br> +Dous de confiança,<br> +E tres d'esperança,<br> +Me foge o trédor.<br> +Falso desamor<br> +S'encerra naquelle<br> +Que hum real me deve.<br> +<br> +Pedio-mo emprestado,<br> +Não lhe quiz penhor:<br> +He mao pagador;<br> +Tendo-mo afferrado.<br> +C'hum cordel atado,<br> +Ao Tronco se leve;<br> +Que hum real me deve.<br> +<br> +Por esta travéssa<br> +Se vai acolhendo:<br> +Ei-lo vai correndo,<br> +Fugindo a grã pressa.<br> +Nesta mão, e nessa<br> +O falso se atreve,<br> +Que hum real me deve.<br> +<br> +Comprou-me o amor,<br> +Sem lhe fazer preço:<br> +Eu não lhe mereço<br> +Dar-me desfavor.<br> +Dá-me tanta dor,<br> +Que ando apos elle<br> +Pelo que me deve.<br> +<br> +Eu de cá bradando,<br> +Elle vai fugindo; <span class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span><br> +Elle sempre rindo,<br> +Eu sempre chorando.<br> +E de quando em quando<br> +No amor se atreve,<br> +Como que não deve.<br> +<br> +A fallar verdade<br> +Elle ja pagou;<br> +Mas ainda ficou<br> +Devendo ametade.<br> +Minha liberdade<br> +He a que me deve:<br> +Só nella se atreve. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Dó la mi ventura,<br> +Que no veo alguna? +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>S</big>epa quien padece,<br> +Que en la sepultura<br> +Se esconde ventura<br> +De quien la merece.<br> +Allá me parece,<br> +Que quiere fortuna<br> +Que yo halle alguna.<br> +<br> +Naciendo mesquino,<br> +Dolor fué mi cama;<br> +Tristeza fué el ama,<br> +Cuidado el padrino.<br> +Vestióse el destino <span class="pn"><a name="pag_144">{144}</a></span><br> +Negra vestidura,<br> +Huyó la ventura.<br> +<br> +No se halló tormento,<br> +Que alli no se hallase;<br> +Ni bien, que pasase,<br> +Sinó como viento.<br> +Oh qué nacimiento,<br> +Que luego en la cuna<br> +Me siguió fortuna!<br> +<br> +Esta dicha mia,<br> +Que siempre busqué,<br> +Buscándola, hallé<br> +Que no la hallaria;<br> +Que quien nace en dia<br> +D'estrella tan dura,<br> +Nunca halla ventura.<br> +<br> +No puso mi estrella<br> +Mas ventura em min:<br> +Ansí vive en fin<br> +Quien nace sin ella.<br> +No me quejo della;<br> +Quéjome que atura<br> +Vida tan escura. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">M<small>OTE</small>.</p> + +<blockquote> +Vida de minha alma. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Volta.</em></p> + +<blockquote> +<big>D</big>ous tormentos vejo<br> +Grandes por extremo:<br> +Se vos vejo, temo, <span class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span><br> +E se não, desejo.<br> +Quando me despejo,<br> +E venho a escolher,<br> +Temendo o desejo,<br> +Desejo temer. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">C<small>ANTIGA ALHEIA.</small></p> + +<blockquote> +Pastora da serra,<br> +Da serra da Estrella,<br> +Perco-me por ella. +</blockquote> + +<p class="centrado"><em>Voltas.</em></p> + + +<blockquote> +<big>N</big>os seus olhos bellos<br> +Tanto Amor se atreve,<br> +Que abraza entre a neve<br> +Quantos ousão vellos.<br> +Não sólta os cabellos<br> +Aurora mais bella:<br> +Perco-me por ella.<br> +<br> +Não teve esta serra<br> +No meio d'altura<br> +Mais que a formosura,<br> +Que nella se encerra.<br> +Bem ceo fica a terra,<br> +Que tẽe tal estrella:<br> +Perco-me por ella.<br> +<br> +Sendo entre pastores<br> +Causa de mil males,<br> +Não se ouvem nos vales<br> +Senão seus louvores.<br> +Eu só por amores <span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span><br> +Não sei fallar nella,<br> +Sei morrer por ella.<br> +<br> +D'alguns, que sentindo<br> +Seu mal vão mostrando.<br> +Se ri, não cuidando<br> +Qu'inda paga rindo.<br> +Eu triste, encobrindo<br> +Só meus males della,<br> +Perco-me por ella.<br> +<br> +Se flores deseja<br> +Por ventura bellas,<br> +Das que colhe dellas<br> +Mil morrem d'inveja.<br> +Não ha quem não veja<br> +Todo o melhor nella:<br> +Perco-me por ella.<br> +<br> +Se n'ágoa corrente<br> +Seus olhos inclina,<br> +Faz a luz divina<br> +Parar a corrente.<br> +Tal se vê, que sente<br> +Por ver-se a ágoa nella:<br> +Perco-me por ella. +</blockquote> + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">E<small>NDECHAS.</small></p> + +<blockquote> +<big>V</big>ós sois huma Dama<br> +Das feias do mundo;<br> +De toda a má fama<br> +Sois cabo profundo. <span class="pn"><a name="pag_147">{147}</a></span><br> +<br> +A vossa figura<br> +Não he para ver;<br> +Em vosso poder<br> +Não ha formosura.<br> +<br> +Vós fostes dotada<br> +De toda a maldade;<br> +Perfeita beldade<br> +De vós he tirada.<br> +<br> +Sois muito acabada<br> +De taixa e de glosa:<br> +Pois quanto a formosa,<br> +Em vós não ha nada.<br> +<br> +Do grão merecer<br> +Sois bem apartada;<br> +Andais alongada<br> +Do bem parecer.<br> +<br> +Bem claro mostrais<br> +Em vós fealdade:<br> +Não ha hi maldade,<br> +Que não precedais.<br> +<br> +De fresco carão<br> +Vos vejo ausente;<br> +Em vós he presente<br> +A má condição.<br> +<br> +De ter perfeição<br> +Mui alheia estais;<br> +Mui muito alcançais<br> +De pouca razão. <span class="pn"><a name="pag_148">{148}</a></span> +</blockquote> + + + +<p class="separador">—oOo—</p> + +<p class="centrado">E<small>NDECHAS.</small></p> + +<blockquote> +<big>V</big>ai o bem fugindo,<br> +Cresce o mal co'os annos,<br> +Vão-se descubrindo<br> +Co'o tempo os enganos.<br> +<br> +Amor e alegria.<br> +Menos tempo dura.<br> +Triste de quem fia<br> +Nos bens da ventura!<br> +<br> +Bem sem fundamento<br> +Tẽe certa a mudança,<br> +Certo o sentimento<br> +Na dor da lembrança.<br> +<br> +Quem vive contente,<br> +Viva receoso:<br> +Mal que se não sente,<br> +He mais perigoso.<br> +<br> +Quem males sentio,<br> +Saiba ja temer;<br> +E pelo que vio<br> +Julgue o qu'ha de ser.<br> +<br> +Alegre vivia,<br> +Triste vivo agora;<br> +Chora a alma de dia,<br> +E de noite chora.<br> +<br> +Confesso os enganos<br> +De meu pensamento:<br> +Bem de tantos annos<br> +Foi-se n'hum momento.<br> +<br> +Meus olhos, que vistes?<br> +Pois vos atrevestes, <span class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span><br> +Chorae, olhos tristes,<br> +O bem que perdestes.<br> +<br> +A luz do sol pura<br> +Só a vós se negue;<br> +Seja noite escura,<br> +Nunca a manhãa chegue.<br> +<br> +O campo floreça,<br> +Murmurem as ágoas,<br> +Tudo me entristeça,<br> +Cresção minhas mágoas.<br> +<br> +Quizera mostrar<br> +O mal que padeço;<br> +Não lhe dá lugar<br> +Quem lhe deu comêço.<br> +<br> +Em tristes cuidados<br> +Passo a triste vida;<br> +Cuidados cansados,<br> +Vida aborrecida.<br> +<br> +Nunca pude crer<br> +O que agora creio:<br> +Cegou-me o prazer<br> +Do mal que me veio.<br> +<br> +Ah ventura minha,<br> +Como me negaste!<br> +Hum so bem que tinha,<br> +Porque mo roubaste?<br> +<br> +Triste fantasia<br> +Quanta cousa guarda!<br> +Quem ja visse o dia,<br> +Que tanto lhe tarda!<br> +<br> +Nesta vida cega <span class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span><br> +Nada permanece;<br> +O qu'inda não chega,<br> +Ja desaparece.<br> +<br> +Qualquer esperança<br> +Foge como o vento:<br> +Tudo faz mudança,<br> +Salvo meu tormento.<br> +<br> +Amor cego e triste,<br> +Quem o tẽe padece:<br> +Mal quem lhe resiste!<br> +Mal quem lhe obedece!<br> +<br> +No meu mal esquivo<br> +Sei como Amor trata:<br> +E pois nelle vivo,<br> +Nenhum amor mata. <span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span> +</blockquote> + +</div> + + +<div id="sextinas"> + + +<h2>SEXTINAS.</h2> + + +<h3>SEXTINA I.</h3> + + +<blockquote> +<big>F</big>oge-me pouco a pouco a curta vida,<br> +Se por caso he verdade qu'inda vivo;<br> +Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos;<br> +Chóro por o passado; e em quanto fallo,<br> +Se me passão os dias passo a passo.<br> +Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena.<br> +<br> +Que maneira tão aspera de pena!<br> +Pois nunca hum'hora vio tão longa vida<br> +Em que do mal mover se visse hum passo.<br> +Que mais me monta ser morto que vivo?<br> +Para que chóro, emfim? para que fallo,<br> +Se lograr-me não pude de meus olhos?<br> +<br> +Oh formosos, gentís e claros olhos,<br> +Cuja ausencia me move a tanta pena,<br> +Quanta se não comprende em quanto fallo!<br> +Se no fim de tão longa e curta vida<br> +De vós m'inflammasse inda o raio vivo,<br> +Por bem teria todo o mal que passo.<br> +<br> +Mas bem sei que primeiro o extremo passo<br> +Me ha de vir a cerrar os tristes olhos,<br> +Que Amor me mostre aquelles por quem vivo.<br> +Testimunhas serão a tinta e penna, <span class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span><br> +Qu'escrevêrão de tão molesta vida<br> +O menos que passei, e o mais que fallo.<br> +<br> +Oh que não sei qu'escrevo, nem que fallo!<br> +Pois se d'hum pensamento em outro passo,<br> +Vejo tão triste genero de vida,<br> +Que se lhe não valerem tanto os olhos,<br> +Não posso imaginar qual seja a penna<br> +Qu'esta pena traslade com que vivo.<br> +<br> +N'alma tenho contino hum fogo vivo,<br> +Que se não respirasse no que fallo,<br> +Estaria ja feita cinza a pena;<br> +Mas sôbre a maior dor que soffro e passo,<br> +O temperão com lagrimas os olhos:<br> +Com que, se foge, não se acaba a vida.<br> +<br> +Morrendo estou na vida, e em morte vivo;<br> +Vejo sem olhos, e sem lingua fallo;<br> +E juntamente passo gloria e pena. +</blockquote> + + +<h3>SEXTINA II.</h3> + +<blockquote> +<big>A</big> culpa de meu mal só tẽe meus olhos,<br> +Pois que derão a Amor entrada n'alma,<br> +Para que perdesse eu a liberdade.<br> +Mas quem póde fugir a huma brandura,<br> +Que despois de vos pôr em tantos males,<br> +Dá por bens o perder por ella a vida?<br> +<br> +Assaz de pouco faz quem perde a vida<br> +Por condição tão dura e brandos olhos;<br> +Pois de tal qualidade são meus males, <span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span><br> +Que o mais pequeno delles toca n'alma.<br> +Não s'engane com mostras de brandura<br> +Quem quizer conservar a liberdade.<br> +<br> +Roubadora he de toda liberdade<br> +(E oxalá perdoasse á triste vida!)<br> +Esta que o falso Amor chama brandura,<br> +Ai meus antes imigos, que meus olhos!<br> +Que mal vos tinha feito esta vossa alma,<br> +Para vós lhe fazerdes tantos males?<br> +<br> +Cresção de dia em dia embora os males;<br> +Perca-se embora a antigua liberdade;<br> +Transforme-se em Amor esta triste alma;<br> +Padeça embora esta innocente vida;<br> +Que bem me págão tudo estes meus olhos,<br> +Quando de outros, se os vem, vem a brandura.<br> +<br> +Mas como nelles póde haver brandura,<br> +Se causadores são de tantos males?<br> +Engano foi d'Amor, porque meus olhos<br> +Dessem por bem perdida a liberdade.<br> +Ja não tenho que dar senão a vida,<br> +Se a vida ja não deo, quem ja deo a alma.<br> +<br> +Que póde ja'sperar quem a sua alma<br> +Captiva eterna fez d'huma brandura,<br> +Que quando vos dá morte, diz qu'he vida?<br> +Forçado me he gritar nestes meus males,<br> +Olhos meus: pois por vós a liberdade<br> +Perdi, de vós me queixarei, meus olhos.<br> +<br> +Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma,<br> +Pois dais a liberdade a tal brandura,<br> +Que para dar mais males, dá mais vida. <span class="pn"><a name="pag_154">{154}</a></span> +</blockquote> + + + +<h3>SEXTINA III.</h3> + +<blockquote> +<big>O</big>h triste, oh tenebroso, oh cruel dia,<br> +Amanhecido só para meu damno!<br> +Pudeste-me apartar daquella vista<br> +Por quem vivia com meu mal contente?<br> +Ah se o supremo fôras desta vida,<br> +Qu'em ti se começára a minha glória!<br> +<br> +Mas como eu não nasci para ter glória,<br> +Senão pena que cresça cada dia,<br> +O ceo m'está negando o fim da vida,<br> +Porque não tenha fim com ella o damno:<br> +Para que nunca possa ser contente,<br> +Da vista me tirou aquella vista.<br> +<br> +Suave, deleitosa, alegre vista,<br> +Donde pendia toda a minha gloria,<br> +Por quem na mor tristeza fui contente;<br> +Quando será que veja aquelle dia<br> +Em que deixe de ver tão grave damno,<br> +E em que me deixe tão penosa vida?<br> +<br> +Como desejarei humana vida,<br> +Ausente d'hũa mais que humana vista,<br> +Que tão glorioso me fazia o damno!<br> +Vejo o meu damno sem a sua glória;<br> +Á minha noite falta ja seu dia:<br> +Triste tudo se vê, nada contente.<br> +<br> +Pois sem ti ja não posso ser contente,<br> +Mal posso desejar sem ti a vida;<br> +Sem ti ja ver não posso claro dia, <span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span><br> +Não posso sem te ver desejar vista;<br> +Na tua vista só se via a glória,<br> +Não ver a glória tua he ver meu damno.<br> +<br> +Não via maior glória que meu damno,<br> +Quando do damno meu eras contente:<br> +Agora me he tormento a maior glória,<br> +Que póde prometter-me Amor na vida,<br> +Pois tornar-te não póde á minha vista,<br> +Que só na tua achava a luz do dia.<br> +<br> +E pois de dia em dia cresce o damno,<br> +Nem posso sem tal vista ser contente,<br> +Só com perder a vida acharei glória. +</blockquote> + + +<h3>SEXTINA IV.</h3> + +<blockquote> +<big>S</big>empre me queixarei desta crueza<br> +Que Amor usou comigo quando o tempo,<br> +A pezar de meu duro e triste fado,<br> +A meus males queria dar remedio,<br> +Em apartar de mi aquella vista,<br> +Por quem me contentava a triste vida.<br> +<br> +Levára-me, oxalá, traz ella a vida,<br> +Para que não sentira esta crueza<br> +De me ver apartado de tal vista!<br> +E praza a Deos não veja o proprio tempo<br> +Em mi, sem esperança de remedio,<br> +A desesperação d'hum triste fado!<br> +<br> +Porém ja acabe o triste e duro fado! <span class="pn"><a name="pag_156">{156}</a></span><br> +Acabe o tempo ja tão triste vida,<br> +Qu'em sua morte só tẽe seu remedio.<br> +O deixar-me viver he mor crueza,<br> +Pois desespéro ja d'em algum tempo<br> +Tornar a ver aquella doce vista.<br> +<br> +Duro Amor! se pagava só tal vista<br> +Todo o mal que por ti me fez meu fado,<br> +Porque quizeste que a levasse o tempo?<br> +E se o assi quizeste, porque a vida<br> +Me deixas para ver tanta crueza,<br> +Quando em não vê-la só vejo o remedio?<br> +<br> +Tu só de minha dor eras remedio,<br> +Suave, deleitosa e bella vista.<br> +Sem ti, que posso eu ver senão crueza?<br> +Sem ti, qual bem me póde dar o fado,<br> +Se não he consentir que acabe a vida?<br> +Mas elle della me dilata o tempo.<br> +<br> +Azas para voar vejo no tempo,<br> +Que com voar a muitos foi remedio;<br> +E só não vôa para a minha vida.<br> +Para que a quero eu sem tua vista?<br> +Para que quer tambem o triste fado<br> +Que não acabe o tempo tal crueza?<br> +<br> +Não poderão fazer crueza, ou tempo,<br> +Fôrça de fado, ou falta de remedio,<br> +Qu'essa vista m'esqueça em toda a vida. <span class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span> +</blockquote> + + +</div> + + +<div id="elegias"> + +<h2>ELEGIAS</h2> + + +<h3>ELEGIA I.</h3> + + +<blockquote> +<big>O</big> sulmonense Ovidio desterrado<br> +Na aspereza do Ponto, imaginando<br> +Ver-se de seus Penates apartado;<br> +<br> +Sua chara mulher desamparando,<br> +Seus doces filhos, seu contentamento,<br> +De sua Patria os olhos apartando;<br> +<br> +Não podendo encobrir o sentimento,<br> +Aos montes ja, ja aos rios se queixava<br> +De seu escuro e triste nascimento.<br> +<br> +O curso das estrellas contemplava,<br> +E aquella ordem com que discorria<br> +O ceo e o ar, e a terra adonde estava.<br> +<br> +Os peixes por o mar nadando via,<br> +As feras por o monte procedendo<br> +Como o seu natural lhes permittia.<br> +<br> +De suas fontes via estar nascendo<br> +Os saudosos rios de crystal,<br> +Á sua natureza obedecendo.<br> +<br> +Assi só, de seu proprio natural<br> +Apartado, se via em terra estranha,<br> +A cuja triste dor não acha igual. <span class="pn"><a name="pag_158">{158}</a></span><br> +<br> +Só sua doce Musa o acompanha<br> +Nos soidosos versos qu'escrevia,<br> +E nos lamentos com que o campo banha.<br> +<br> +Dest'arte me figura a phantasia<br> +A vida com que morro, desterrado<br> +Do bem qu'em outro tempo possuia.<br> +<br> +Aqui contemplo o gôsto ja passado,<br> +Que nunca passará por a memoria<br> +De quem o traz na mente debuxado.<br> +<br> +Aqui vejo caduca e debil glória<br> +Desenganar meu êrro co'a mudança<br> +Que faz a fragil vida transitoria.<br> +<br> +Aqui me representa esta lembrança<br> +Quão pouca culpa tenho; e m'entristece<br> +Ver sem razão a pena que m'alcança.<br> +<br> +Que a pena que com causa se padece,<br> +A causa tira o sentimento della;<br> +Mas muito doe a que se não merece.<br> +<br> +Quando a roxa manhãa, dourada e bella,<br> +Abre as portas ao sol e cahe o orvalho,<br> +E torna a seus queixumes Philomela;<br> +<br> +Este cuidado, que co'o somno atalho,<br> +Em sonhos me parece; que o que a gente<br> +Por seu descanso tẽe me dá trabalho.<br> +<br> +E despois de acordado cegamente,<br> +(Ou, por melhor dizer, desacordado,<br> +Que pouco acôrdo logra hum descontente)<br> +<br> +Daqui me vou, com passo carregado,<br> +A hum outeiro erguido, e alli m'assento,<br> +Soltando toda a redea a meu cuidado.<br> +<br> +Despois de farto ja de meu tormento, <span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span><br> +Estendo estes meus olhos saudosos<br> +Á parte donde tinha o pensamento.<br> +<br> +Não vejo senão montes pedregosos;<br> +E sem graça e sem flor os campos vejo,<br> +Que ja floridos víra, e graciosos.<br> +<br> +Vejo o puro, suave e rico Tejo,<br> +Com as concavas barcas, que nadando<br> +Vão pondo em doce effeito o seu desejo.<br> +<br> +Humas com brando vento navegando,<br> +Outras com leves reinos brandamente<br> +As crystallinas ágoas apartando.<br> +<br> +D'alli fallo com a ágoa que não sente<br> +Com cujo sentimento est'alma sae<br> +Em lagrimas desfeita claramente.<br> +<br> +Ó fugitivas ondas, esperae;<br> +Que pois me não levais em companhia,<br> +Ao menos estas lagrimas levae.<br> +<br> +Até que venha aquelle alegre dia<br> +Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo.<br> +Mas tanto tempo, quem o passaria?<br> +<br> +Não póde tanto bem chegar tão cedo:<br> +Porque primeiro a vida acabará,<br> +Que se acabe tão aspero degredo.<br> +<br> +Mas essa triste morte que virá,<br> +S'em tão contrário estado me acabasse,<br> +Est'alma assi impaciente adonde irá?<br> +<br> +Que se ás portas Tartaricas chegasse,<br> +Temo que tanto mal por a memoria<br> +Nem ao passar do Lethe lhe passasse.<br> +<br> +Que se a Tantalo e Ticio for notoria<br> +A pena com que vai, e que a atormenta, <span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span><br> +A pena que lá tẽe, terão por glória.<br> +<br> +Essa imaginação, emfim, me augmenta<br> +Mil mágoas no sentido, porque a vida<br> +De imaginações tristes se contenta.<br> +<br> +Que pois de todo vive consumida,<br> +Porque o mal que possue se resuma,<br> +Imagina na glória possuida.<br> +<br> +Até que a noite eterna me consuma,<br> +Ou veja aquelle dia desejado<br> +Em que a Fortuna faça o que costuma;<br> +<br> +Se nella ha hi mudar-se hum triste estado. +</blockquote> + + +<h3>ELEGIA II.</h3> + +<blockquote> +<big>A</big>quella que d'amor descomedido<br> +Por o formoso moço se perdeo,<br> +Que só por si d'amores foi perdido;<br> +<br> +Despois que a deosa em pedra a converteo<br> +De seu humano gesto verdadeiro,<br> +A última voz só lhe concedeo.<br> +<br> +Assi meu mal do proprio ser primeiro<br> +Outra cousa nenhũa me consente,<br> +Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.<br> +<br> +E se huma pouca vida, estando ausente,<br> +Me deixa Amor, he porque o pensamento<br> +Sinta a perda do bem d'estar presente.<br> +<br> +Senhor, se vos espanta o soffrimento<br> +Que tenho em tanto mal para escrevê-lo, <span class="pn"><a name="pag_161">{161}</a></span><br> +Furto este breve espaço a meu tormento.<br> +<br> +Porque quem tẽe poder para soffrê-lo,<br> +Sem se acabar a vida co'o cuidado,<br> +Tambem terá poder para dizê-lo.<br> +<br> +Nem eu escrevo hum mal ja acostumado;<br> +Mas n'alma minha triste e saudosa<br> +A saudade escreve, e eu traslado.<br> +<br> +Ando gastando a vida trabalhosa,<br> +E esparzindo a contínua soidade<br> +Ao longo d'huma praia soidosa.<br> +<br> +Vejo do mar a instabilidade,<br> +Como com seu ruido impetuoso<br> +Retumba na maior concavidade.<br> +<br> +De furibundas ondas poderoso,<br> +Na terra, a seu pezar, está tomando<br> +Lugar, em que s'estenda, cavernoso.<br> +<br> +Ella, como mais fraca, lh'está dando<br> +As concavas entranhas, onde esteja<br> +Sempre com som profundo suspirando.<br> +<br> +A todas estas cousas tenho inveja<br> +Tamanha, que não sei determinar-me,<br> +Por mais determinado que me veja.<br> +<br> +Se quero em tanto mal desesperar-me,<br> +Não posso, porque Amor e saudade<br> +Nem licença me dão para matar-me.<br> +<br> +Ás vezes cuido em mi, se a novidade<br> +E estranheza das cousas, co'a mudança,<br> +Poderião mudar huma vontade.<br> +<br> +E com isto figuro na lembrança<br> +A nova terra, o novo trato humano,<br> +A estrangeira progenie, a estranha usança. <span class="pn"><a name="pag_162">{162}</a></span><br> +<br> +Subo-me ao monte que Hercules Thebano<br> +Do altissimo Calpe dividio,<br> +Dando caminho ao mar Mediterrano;<br> +<br> +D'alli'stou tenteando adonde vio<br> +O pomar das Hesperidas, matando<br> +A serpe que a seu passo resistio.<br> +<br> +Estou-me em outra parte figurando<br> +O poderoso Anteo, que derribado<br> +Mais fôrça se lhe vinha accrescentando;<br> +<br> +Porém do Herculeo braço sobjugado,<br> +No ar deixando a vida, não podendo<br> +Dos soccorros da mãe ser ajudado.<br> +<br> +Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo,<br> +Nem com as armas tão continuadas,<br> +D'amorosas lembranças me defendo.<br> +<br> +Todas as cousas vejo demudadas,<br> +Porque o tempo ligeiro não consente<br> +Qu'estejão de firmeza acompanhadas.<br> +<br> +Vi ja que a Primavera, de contente,<br> +Em variadas côres revestia<br> +O monte, o campo, o valle, alegremente.<br> +<br> +Vi ja das altas aves a harmonia,<br> +Que até duros penedos convidava<br> +A algum suave modo d'alegria.<br> +<br> +Vi ja que tudo, emfim, me contentava,<br> +E que, de muito cheio de firmeza,<br> +Hum mal por mil prazeres não trocava.<br> +<br> +Tal me tẽe a mudança e estranheza,<br> +Que se vou por os prados, a verdura<br> +Parece que se sécca de tristeza.<br> +<br> +Mas isto he ja costume da ventura; <span class="pn"><a name="pag_163">{163}</a></span><br> +Porque aos olhos que vivem descontentes,<br> +Descontente o prazer se lhes figura.<br> +<br> +Oh graves e insoffriveis accidentes<br> +De Fortuna e d'Amor! que penitencia<br> +Tão grave dais aos peitos innocentes!<br> +<br> +Não basta examinar-me a paciencia<br> +Com temores e falsas esperanças,<br> +Sem que tambem me tente o mal de ausencia?<br> +<br> +Trazeis hum brando espirito em mudanças,<br> +Para que nunca possa ser mudado<br> +De lagrimas, suspiros e lembranças.<br> +<br> +E s'estiver ao mal acostumado,<br> +Tambem no mal não consentis firmeza,<br> +Para que nunca viva descansado.<br> +<br> +Ja quieto m'achava co'a tristeza;<br> +E alli não me faltava hum brando engano.<br> +Que tirasse desejos da fraqueza.<br> +<br> +Mas vendo-me enganado estar ufano,<br> +Deo á roda a Fortuna; e deo comigo<br> +Onde de novo chóro o novo dano.<br> +<br> +Ja deve de bastar o que aqui digo,<br> +Para dar a entender o mais que calo<br> +A quem ja vio tão aspero perigo.<br> +<br> +E se nos brandos peitos faz abalo<br> +Hum peito magoado e descontente,<br> +Que obriga a quem o ouve a consolá-lo;<br> +<br> +Não quero mais senão que largamente,<br> +Senhor, me mandeis novas dessa terra;<br> +Que alguma dellas me fara contente.<br> +<br> +Porque se o duro Fado me desterra<br> +Tanto tempo do bem, que o fraco esprito <span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span><br> +Desampare a prisão onde s'encerra;<br> +<br> +Ao som das negras ágoas do Cocito,<br> +Ao pé dos carregados arvoredos<br> +Cantarei o que n'alma tenho escrito.<br> +<br> +E por entre estes horridos penedos<br> +A quem negou Natura o claro dia,<br> +Entre tormentos asperos e medos,<br> +<br> +Com a trémula voz, cansada e fria,<br> +Celebrarei o gesto claro e puro,<br> +Que nunca perderei da phantasia.<br> +<br> +O Musico de Thracia, ja seguro<br> +De perder sua Eurydice, tangendo<br> +Me ajudará ferindo o ar escuro.<br> +<br> +As namoradas sombras, revolvendo<br> +Memorias do passado, me ouvirão;<br> +E com seu chôro o rio irá crescendo.<br> +<br> +Em Salmonêo as penas faltarão,<br> +E das filhas de Belo juntamente<br> +De lagrimas os vasos s'encherão.<br> +<br> +Que se amor não se perde em vida ausente,<br> +Menos se perderá por morte escura:<br> +Porque, emfim, a alma vive eternamente,<br> +<br> +E amor he effeito d'alma, e sempre dura. +</blockquote> + + +<h3>ELEGIA III.</h3> + +<blockquote> +<big>O</big> poeta Simonides fallando<br> +Co'o Capitão Themistocles hum dia,<br> +Em cousas de sciencia praticando; <span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span><br> +<br> +Hum'arte singular lhe promettia,<br> +Qu'então compunha, com que lh'ensinasse<br> +A lembrar-se de tudo o que fazia;<br> +<br> +Onde tão subtis regras lhe mostrasse,<br> +Que nunca lhe passassem da memoria<br> +Em nenhum tempo as cousas que passasse.<br> +<br> +Bem merecia, certo, fama e gloria<br> +Quem dava regra contra o esquecimento,<br> +Que sepulta qualquer antigua historia.<br> +<br> +Mas o Capitão claro, cujo intento<br> +Bem differente estava, porque havia<br> +Do passado as lembranças por tormento;<br> +<br> +Oh illustre Simonides! (dizia)<br> +Pois tanto em teu engenho te confias,<br> +Que mostras á memoria nova via;<br> +<br> +Se me désses hum'arte, qu'em meus dias<br> +Me não lembrasse nada do passado,<br> +Oh quanto melhor obra me farias!<br> +<br> +S'este excellente dito ponderado<br> +Fosse por quem se visse estar ausente,<br> +Em longas esperanças degradado;<br> +<br> +Oh como bradaria justamente,<br> +Simonides, inventa novas artes;<br> +Não midas o passado co'o presente!<br> +<br> +Que se he forçado andar por várias partes<br> +Buscando á vida algum descanço honesto,<br> +Que tu, Fortuna injusta, mal repartes;<br> +<br> +E se o duro trabalho, he manifesto<br> +Que por grave que seja, ha de passar-se<br> +Com animoso esprito e ledo gesto;<br> +<br> +De que serve ás pessoas o lembrar-se <span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span><br> +Do que se passou ja, pois tudo passa,<br> +Senão d'entristecer-se e magoar-se?<br> +<br> +S'em outro corpo hum'alma se traspassa,<br> +Não como quiz Pythagoras na morte,<br> +Mas como quer Amor na vida escassa;<br> +<br> +E s'este Amor no mundo está de sorte,<br> +Que na virtude só d'hum lindo objecto<br> +Tẽe hum corpo, sem alma, vivo e forte;<br> +<br> +Onde este objecto falta, qu'he defecto<br> +Tamanho para a vida, que ja nella<br> +M'está chamando á pena a dura Alecto;<br> +<br> +Porque me não criára a minha Estrella<br> +Selvatico no mundo, e habitante<br> +Na dura Scythia, e no mais duro della?<br> +<br> +Ou no Caucaso horrendo, fraco infante<br> +Criado ao peito d'huma tigre Hircana,<br> +Homem fôra formado de diamante;<br> +<br> +Porque a cerviz ferina e inhumana<br> +Não submettêra ao jugo e dura lei<br> +Daquelle que dá vida quando engana.<br> +<br> +Ou em pago das ágoas qu'estilei,<br> +As que passei do mar, forão do Lete,<br> +Para que m'esquecêra o que passei.<br> +<br> +Porque o bem que a esperança vãa promette,<br> +Ou a morte o estorva, ou a mudança,<br> +Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete.<br> +<br> +Ja, Senhor, cahirá como a lembrança,<br> +No mal, do bem passado he triste e dura,<br> +Pois nasce aonde morre a esperança.<br> +<br> +E se quizer saber como se apura<br> +Em almas saudosas, não s'enfade <span class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span><br> +De ler tão longa e misera escriptura.<br> +<br> +Soltava Eolo a redea e liberdade<br> +Ao manso Favonio brandamente,<br> +E eu a tinha ja sôlta á saudade.<br> +<br> +Neptuno tinha pôsto o seu tridente;<br> +A proa a branca escuma dividia,<br> +Com a gente maritima contente.<br> +<br> +O côro das Nereidas nos seguia;<br> +Os ventos, namorada Galatêa<br> +Comsigo socegados os movia.<br> +<br> +Das argenteas conchinhas Panopêa<br> +Andava por o mar fazendo mólhos,<br> +Melanto, Dinamene, com Ligea.<br> +<br> +Eu, trazendo lembranças por antolhos,<br> +Trazia os olhos n'ágoa socegada,<br> +E a ágoa sem socêgo nos meus olhos.<br> +<br> +A bem-aventurança ja passada<br> +Diante de mi tinha tão presente,<br> +Como se não mudasse o tempo nada.<br> +<br> +E com o gesto immoto e descontente,<br> +Co'hum suspiro profundo e mal ouvido,<br> +Por não mostrar meu mal a toda a gente,<br> +<br> +Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido<br> +Em puro amor tivestes, e inda agora<br> +Da memoria o não tendes esquecido;<br> +<br> +Se por ventura fordes algum'hora<br> +Adonde entra o grão Tejo a dar tributo<br> +A Tethys, que vós tendes por Senhora;<br> +<br> +Ou ja por ver o verde prado enxuto,<br> +Ou ja por colher ouro rutilante,<br> +Das Tagicas areias rico fruto; <span class="pn"><a name="pag_168">{168}</a></span><br> +<br> +Nellas em verso erotico e elegante<br> +Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes;<br> +Póde ser que algum peito se quebrante.<br> +<br> +E contando de mi memorias tristes,<br> +Os pastores do Tejo, que me ouvião,<br> +Oução de vós as mágoas que me ouvistes.<br> +<br> +Ellas, que ja no gesto m'entendião,<br> +Nos meneios das ondas me mostravão<br> +Qu'em quanto lhes pedia consentião.<br> +<br> +Estas lembranças, que me acompanhavão<br> +Por a tranquillidade da bonança,<br> +Nem na tormenta triste me deixavão.<br> +<br> +Porque chegando ao Cabo da Esperança,<br> +Comêço da saudade que renova,<br> +Lembrando a longa e aspera mudança;<br> +<br> +Debaixo estando ja da estrella nova<br> +Que no novo Hemispherio resplandece,<br> +Dando do segundo axe certa prova;<br> +<br> +Eis a noite com nuvens s'escurece;<br> +Do ar subitamente foge o dia;<br> +E todo o largo Oceano s'embravece.<br> +<br> +A máchina do mundo parecia<br> +Qu'em tormentas se vinha desfazendo;<br> +Em serras todo o mar se convertia.<br> +<br> +Lutando Boreas fero e Noto horrendo.<br> +Sonoras tempestades levantavão,<br> +Das naos as velas concavas rompendo.<br> +<br> +As cordas co'o ruido assoviavão;<br> +Os marinheiros, ja desesperados,<br> +Com gritos para o ceo o ar coalhavão.<br> +<br> +Os raios por Vulcano fabricados <span class="pn"><a name="pag_169">{169}</a></span><br> +Vibrava o fero e aspero Tonante,<br> +Tremendo os Polos ambos de assombrados.<br> +<br> +Amor alli, mostrando-se possante,<br> +E que por algum medo não fugia,<br> +Mas quanto mais trabalho, mais constante;<br> +<br> +Vendo a morte presente, em mi dizia:<br> +Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse,<br> +Nada do que passei me lembraria.<br> +<br> +Emfim, nunca houve cousa que mudasse<br> +O firme amor intrinseco daquelle<br> +Em quem alguma vez de siso entrasse.<br> +<br> +Huma cousa, Senhor, por certa asselle,<br> +Que nunca amor se affina, nem se apura,<br> +Em quanto está presente a causa delle.<br> +<br> +Dest'arte me chegou minha ventura<br> +A esta desejada e longa terra,<br> +De todo pobre honrado sepultura.<br> +<br> +Vi quanta vaidade em nós s'encerra,<br> +E nos proprios quão pouca; contra quem<br> +Foi logo necessario termos guerra.<br> +<br> +Huma Ilha que o Rei de Porcá tem,<br> +E que o Rei da Pimenta lhe tomára,<br> +Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem.<br> +<br> +Com huma grossa armada, que juntára<br> +O Viso-Rei, de Goa nos partimos<br> +Com toda a gente d'armas que se achára.<br> +<br> +E com pouco trabalho destruimos<br> +A gente no curvo arco exercitada:<br> +Com morte, com incendios os punimos.<br> +<br> +Era a Ilha com ágoas alagada,<br> +De modo que se andava em almadias: <span class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span><br> +Emfim, outra Veneza trasladada.<br> +<br> +Nella nos detivemos sós dous dias,<br> +Que forão para alguns os derradeiros,<br> +Pois passárão da Estyge as ondas frias.<br> +<br> +Qu'estes são os remedios verdadeiros<br> +Que para a vida estão apparelhados<br> +Aos que a querem ter por cavalleiros.<br> +<br> +Oh Lavradores bem-aventurados!<br> +Se conhecessem seu contentamento,<br> +Como vivem no campo socegados!<br> +<br> +Dá-lhes a justa terra o mantimento;<br> +Dá-lhes a fonte clara d'ágoa pura;<br> +Mungem suas ovelhas cento a cento.<br> +<br> +Não vem o mar irado, a noite escura,<br> +Por ir buscar a pedra do Oriente;<br> +Não temem o furor da guerra dura.<br> +<br> +Vive hum com suas árvores contente,<br> +Sem lhe quebrar o somno repousado<br> +A grã cobiça d'ouro reluzente.<br> +<br> +Se lhe falta o vestido perfumado,<br> +E da formosa côr de Assyria tinto,<br> +E das torçaes Attalicos lavrado;<br> +<br> +Se não tẽe as delicias de Corinto,<br> +E se de Pario os marmores lhe faltão,<br> +O pyropo, a esmeralda e o jacinto;<br> +<br> +Se suas casas de ouro não s'esmaltão,<br> +Esmalta-se-lhe o campo de mil flores,<br> +Onde os cabritos seus comendo sáltão.<br> +<br> +Alli lhe mostra o campo várias côres;<br> +Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno;<br> +Alli se affina o canto dos pastores. <span class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span><br> +<br> +Alli cantára Tityro e Sileno.<br> +Emfim, por estas partes caminhou<br> +A sãa Justiça para o ceo sereno.<br> +<br> +Ditoso seja aquelle que alcançou<br> +Poder viver na doce companhia<br> +Das mansas ovelhinhas que criou!<br> +<br> +Este bem facilmente alcançaria<br> +As causas naturaes de toda cousa;<br> +Como se gera a chuva e neve fria:<br> +<br> +Os trabalhos do sol, que não repousa;<br> +E porque nos dá lũa a luz alhêa,<br> +Se tolher-nos de Phebo os raios ousa:<br> +<br> +E como tão depressa o ceo rodêa;<br> +E como hum só os outros traz comsigo;<br> +E se he benigna ou dura Cytherêa.<br> +<br> +Bem mal póde entender isto que digo,<br> +Quem ha de andar seguindo o fero Marte;<br> +Que sempre os olhos traz em seu perigo.<br> +<br> +Porém seja, Senhor, de qualquer arte,<br> +Pois postoque a Fortuna possa tanto,<br> +Que tão longe de todo o bem me aparte;<br> +<br> +Não poderá apartar meu duro canto<br> +Desta obrigação sua, em quanto a morte<br> +Me não entrega ao duro Radamanto;<br> +<br> +Se para tristes ha tão leda sorte. <span class="pn"><a name="pag_172">{172}</a></span> +</blockquote> + + + +<h3>ELEGIA IV.</h3> + +<blockquote> +<big>D</big>espois que Magalhães teve tecida<br> +A breve historia sua, que illustrasse<br> +A Terra Santa Cruz, pouco sabida;<br> +<br> +Imaginando a quem a dedicasse,<br> +Ou com cujo favor defenderia<br> +Seu livro d'algum zoilo que ladrasse;<br> +<br> +Tendo nisto occupada a phantasia,<br> +Lhe sobreveio hum somno repousado,<br> +Antes que o sol abrisse o claro dia.<br> +<br> +Em sonhos lhe apparece todo armado<br> +Marte, brandindo a lança furiosa,<br> +Com que fez quem o vio todo enfiado;<br> +<br> +Dizendo em voz pezada e temerosa:<br> +Não he justo que a outrem se offereça<br> +Obra alguma que possa ser famosa,<br> +<br> +Senão a quem por armas resplandeça<br> +No largo inundo com tal nome e fama,<br> +Que louvor immortal sempre mereça.<br> +<br> +Disse assi: quando Apollo, que da flama<br> +Celeste guia os carros, de outra parte<br> +Se lhe presenta, e por seu nome o chama,<br> +<br> +Dizendo: Magalhães, postoque Marte<br> +Com seu terror t'espante, todavia<br> +Comigo deves só de aconselhar-te.<br> +<br> +Hum Varão sapiente, em quem Thalia<br> +Poz seus thesouros, e eu minha sciencia,<br> +Defender tuas obras poderia. <span class="pn"><a name="pag_173">{173}</a></span><br> +<br> +He justo que a escriptura na prudencia<br> +Ache só defensão; porque a dureza<br> +Das armas he contrária da eloquencia.<br> +<br> +Assi disse: e tocando com destreza<br> +A cithara dourada, começou<br> +A mitigar de Marte a fortaleza.<br> +<br> +Mas Mercurio, que sempre costumou<br> +Pacificar porfias duvidosas,<br> +Co'o Caducêo na mão, que sempre usou,<br> +<br> +Determina compor as perigosas<br> +Opiniões dos deoses inimigos<br> +Com suaves razões e ponderosas.<br> +<br> +E disse: Bem sabemos dos antigos<br> +Heroes, e dos modernos, que provárão<br> +De Belona os gravissimos perigos,<br> +<br> +Como tão bem mil vezes concordárão<br> +As armas com as letras; porque as Musas<br> +A muitos na milicia acompanhárão.<br> +<br> +Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas<br> +Guerras o estudo deixão grande espaço;<br> +Que as armas jamais delle são escusas.<br> +<br> +N'huma mão livros, n'outra ferro e aço;<br> +Aquella rege e ensina; est'outra fere:<br> +Mais co'o saber se vence, que co'o braço.<br> +<br> +Pois, logo, hum Varão grande se requere,<br> +Que com teus dões (Apollo) illustre seja,<br> +E de ti (Marte) palma e glória espere.<br> +<br> +Este vos darei eu, em quem se veja<br> +Saber e esfôrço no sereno peito,<br> +Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja.<br> +<br> +Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito, <span class="pn"><a name="pag_174">{174}</a></span><br> +Todas nove nos braços o tomárão,<br> +Criando-o co'o seu leite no seu leito:<br> +<br> +As Artes e as Sciencias lh'ensinárão;<br> +Inclinação divina lh'influírão<br> +Ás virtudes moraes, que logo o ornárão.<br> +<br> +Daqui nos exercidos o seguírão<br> +Das armas no Oriente, onde primeiro<br> +Hum soldado gentil instituírão.<br> +<br> +Alli taes provas fez de Cavalleiro,<br> +Que, de Christão magnanimo e seguro,<br> +A si mesmo venceo por derradeiro.<br> +<br> +Despois, ja Capitão forte e maduro,<br> +Governando toda a Aurea Chersoneso,<br> +Lhe defendeo co'o braço o debil muro.<br> +<br> +Porque vindo a cercá-la todo o pêso<br> +Do poder dos Achens, que se sustenta<br> +De alheio sangue, em furia todo acceso;<br> +<br> +Este só que a ti, Marte, representa,<br> +O castigou de sorte, que vencido<br> +De ter quem vivo fique se contenta.<br> +<br> +E logo qu'este Reino defendido<br> +Deixou, segunda vez com maior glória<br> +Para o ir governar foi elegido.<br> +<br> +Mas não perdendo ainda da memoria<br> +Os amigos o seu govêrno brando,<br> +Os imigos o damno da victoria;<br> +<br> +Huns com amor intrinseco esperando<br> +Estão por elle, e os outros congelados<br> +O estão com frio medo receando.<br> +<br> +Vêde pois se serião debellados<br> +Por seu claro valor, se lá tornasse, <span class="pn"><a name="pag_175">{175}</a></span><br> +E dos Indicos mares degradados.<br> +<br> +Porqu'he justo que nunca lhe negasse<br> +O conselho do Olympo alto e subido<br> +Favor e ajuda com que pelejasse.<br> +<br> +Aqui só póde ser bem dirigido<br> +De Magalhães o estudo: este só deve<br> +Ser de vós, claros deoses, escolhido.<br> +<br> +Assi Mercurio disse; e em termo breve<br> +Conformados se vem Apollo e Marte;<br> +E voou juntamente o somno leve.<br> +<br> +Acorda Magalhães, e ja se parte<br> +A offrecer-vos, Senhor claro e famoso,<br> +Tudo o que nelle poz sciencia e arte.<br> +<br> +Tẽe claro estylo, e engenho curioso,<br> +Para poder de vós ser recebido,<br> +Com mão benigna, de ânimo amoroso.<br> +<br> +Pois se só de não ser favorecido<br> +Hum alto esprito fica baixo e escuro;<br> +Este seja comvosco defendido,<br> +<br> +Como o foi de Malaca o debil muro. +</blockquote> + + +<h3>ELEGIA V.</h3> + +<blockquote> +<big>A</big>quelle mover de olhos excellente,<br> +Aquelle vivo espirito inflammado<br> +Do crystallino rosto transparente;<br> +<br> +Aquelle gesto immoto e repousado,<br> +Qu'estando n'alma propriamente escrito,<br> +Não póde ser em verso trasladado; <span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span><br> +<br> +Aquelle parecer, que he infinito<br> +Para se comprender d'engenho humano;<br> +O qual offendo em quanto tenho dito;<br> +<br> +Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano,<br> +E tanto a engrandecer-me a phantasia,<br> +Que não vi maior glória que meu dano.<br> +<br> +Oh bem-aventurado seja o dia<br> +Em que tomei tão doce pensamento,<br> +Que de todos os outros me desvia!<br> +<br> +E bem-aventurado o soffrimento<br> +Que soube ser capaz de tanta pena,<br> +Vendo que o foi da causa o entendimento!<br> +<br> +Faça-me quem me mata, o mal que ordena,<br> +Trate-me com enganos, desamores;<br> +Qu'então me salva, quando me condena.<br> +<br> +E se de tão suaves desfavores<br> +Penando vive hum'alma consumida,<br> +Oh que doce penar! que doces dores!<br> +<br> +E se huma condição endurecida<br> +Tambem me nega a morte por meu dano,<br> +Oh que doce morrer! que doce vida!<br> +<br> +E se me mostra hum gesto lindo humano,<br> +Como que de meu mal culpada se acha,<br> +Oh que doce mentir! que doce engano!<br> +<br> +E s'em querer-lhe tanto ponho tacha,<br> +Mostrando refrear o pensamento,<br> +Oh que doce fingir! que doce cacha!<br> +<br> +Assi que ponho ja no soffrimento<br> +A parte principal de minha glória,<br> +Tomando por melhor todo tormento.<br> +<br> +Se sinto tanto bem só co'a memoria <span class="pn"><a name="pag_177">{177}</a></span><br> +De ver-vos, linda Dama, vencedora;<br> +Que quero eu mais que ser vossa victoria?<br> +<br> +Se tanto a vossa vista mais namora,<br> +Quanto eu sou menos para merecer-vos;<br> +Que quero eu mais que ter-vos por senhora?<br> +<br> +Se procede este bem de conhecer-vos,<br> +E consiste o vencer em ser vencido,<br> +Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?<br> +<br> +S'em meu proveito faz qualquer partido,<br> +Só na vista d'huns olhos tão serenos,<br> +Que quero eu mais ganhar que ser perdido?<br> +<br> +Se, emfim, os meus espritos, de pequenos,<br> +A merecer não chegão seu tormento,<br> +Que quero eu mais, que o mais não seja menos?<br> +<br> +A causa, pois, m'esforça o soffrimento;<br> +Porque, a pezar do mal que me resiste,<br> +De todos os trabalhos me contento;<br> +<br> +Que a razão faz a pena alegre, ou triste. +</blockquote> + + +<h3>ELEGIA VI.</h3> + +<blockquote> +<big>E</big>ntre rusticas serras e fragosas,<br> +Compostas d'asperissimos rochedos,<br> +De salitradas lapas cavernosas;<br> +<br> +Onde gretando os humidos penedos<br> +Orvalhados de neve branca e fria,<br> +Brotando estão de si mil arvoredos;<br> +<br> +Huma floresta fez verde e sombria<br> +A natureza experta, que rodeia, <span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span><br> +Como elevado muro, a serrania.<br> +<br> +Neste formoso sítio se recreia<br> +O lascivo Cupido entre as boninas,<br> +Que sempre hum brando Zephyro meneia.<br> +<br> +Da candida cecem, das clavellinas,<br> +Da salva, mangerona e das mosquetas,<br> +Das rubicundas flores hyacinthinas,<br> +<br> +Muitas capellas tece, que de setas<br> +Lhe servem contra peitos de donzellas,<br> +A quem d'inveja traz sempre inquietas.<br> +<br> +Não são d'huma só côr as flores bellas;<br> +Que humas esmalta verde, outras rosado,<br> +Entre as azues crescendo as amarellas.<br> +<br> +Dos agrestes loureiros rodeado,<br> +Faz o valle huma sombra deleitosa,<br> +Quando apparece o sol mais levantado.<br> +<br> +E por cima da relva bem graciosa<br> +As gottas de crystal quasi imitando<br> +Estão do aljofar puro a luz formosa.<br> +<br> +As crystallinas fontes, que brotando<br> +Por entre alvos seixinhos se derivão,<br> +Das árvores os troncos vão banhando.<br> +<br> +Entre as limpidas ágoas, qu'inda esquivão<br> +O formoso pastor que se perdeo,<br> +Preso das falsas mostras que o captivão,<br> +<br> +Cresce a por cuja causa s'esqueceo<br> +A linda Cytherêa de Vulcano,<br> +Quando presa d'Amor se lhe rendeo.<br> +<br> +Na brancura do rosto soberano,<br> +Inda as crueis feridas apparecem<br> +Do javali cerdoso e deshumano. <span class="pn"><a name="pag_179">{179}</a></span><br> +<br> +As rosas que de sangue resplandecem,<br> +As candidas boninas marchetadas,<br> +Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem.<br> +<br> +Do matutino orvalho rociadas,<br> +As flores rutilantes e cheirosas<br> +Estão como por cima prateadas.<br> +<br> +Os humidos botões abrindo as rosas,<br> +Que os agudos espinhos vão cercando,<br> +No prado se vem rindo deliciosas.<br> +<br> +A mellifera abelha, susurrando<br> +Por cima das boninas que rodeia,<br> +Está co'o som das ágoas concertando.<br> +<br> +Do trémulo regato a branda areia<br> +De jacinthos se cobre e de vieiras,<br> +Qu'encrespão da corrente a branca veia.<br> +<br> +Os álamos s'abração co'as videiras<br> +De sorte, que s'enxérga escassamente<br> +Se são os cachos seus, se das parreiras;<br> +<br> +E pendendo por cima da corrente,<br> +Outro formoso bosque debuxando<br> +Estão no fundo della brandamente.<br> +<br> +Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando<br> +Do perfido cunhado a crueldade,<br> +Mágoas em melodias transformando.<br> +<br> +A solitaria rôla com soidade<br> +Desfaz o rouco peito, ja cansada<br> +De que não move a morte a piedade.<br> +<br> +A domestica Progne anda banhada<br> +No sangue de seus filhos, em vingança<br> +Da triste Philomela profanada.<br> +<br> +De competir co'o merlo não descança <span class="pn"><a name="pag_180">{180}</a></span><br> +O garrulo calhandro, qu'enrouquece<br> +Por não perder callado a confiança.<br> +<br> +Em quanto o pobre ninho ajunta e tece<br> +O sonoro canario, modulando<br> +Engana a grave pena que padece.<br> +<br> +Alguns versos s'escuta derramando<br> +O vário pintasirgo, tão saudaveis,<br> +Que produzem memorias d'amor brando.<br> +<br> +Por os direitos troncos ha notaveis<br> +Epigrammas; alguns d'antigua historia,<br> +Que contra o duro tempo são duraveis.<br> +<br> +Huns de cruel tormento, outros de glória,<br> +Conforme a liberdade do qu'escreve,<br> +Estranhos casos mostrão á memoria.<br> +<br> +O que neste lugar contente esteve,<br> +Contente declarou seu pensamento,<br> +E os prazeres tambem que nelle teve.<br> +<br> +Mas outros, declarando o sentimento<br> +Que dos olhos destila tristes ágoas,<br> +Deixárão mil lembranças de tormento.<br> +<br> +Abrazando-se alguns em vivas frágoas,<br> +Escrevêrão do bosque em muitas partes<br> +Gostos d'Amor agora, agora mágoas.<br> +<br> +Porque, cruel menino, o premio partes<br> +A quem serás<sup><a href="#rodape2" name="m_rodape2">[2]</a></sup> tyranno se lho negas, <span class="pn"><a name="pag_181">{181}</a></span><br> +E injusto e desigual, se lho repartes?<br> +<br> +Porqu'enganas as almas que tão cegas<br> +Arrastas apos ti, de error captivas?<br> +Porque a crueis rigores as entregas?<br> +<br> +Para que contra hum peito assi t'esquivas,<br> +Que humilde se sujeita a teu cuidado,<br> +Com enganos de sombras fugitivas?<br> +<br> +Levas, como a menino, hum pobre a nado,<br> +N'huma apparencia falsa embevecido,<br> +Quando co'os braços corta o mar inchado.<br> +<br> +Querendo-se tornar, vê-se perdido;<br> +Ja grita que se affoga; e tu zombando,<br> +Da praia entre os penedos escondido!<br> +<br> +O triste, que conhece ir-se affogando,<br> +No meio da arriscada zombaria<br> +Por divino soccorro está clamando.<br> +<br> +Mas eu de que m'espanto, se dizia<br> +Hum sabio que d'enganos se temesse<br> +O que tomasse a hum cego tal por guia?<br> +<br> +Nunca nelle a firmeza permanece;<br> +Se nos dá gôsto algum, muda-se logo;<br> +Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece.<br> +<br> +Anda co'os corações sempre em hum jôgo;<br> +Humas vezes os faz de pedra fria,<br> +Outras os faz de neve, outras de fogo.<br> +<br> +Tornando ao bosque meu que descrevia,<br> +Despois de ter contado da frescura<br> +Que nelle tão pomposa apparecia,<br> +<br> +Referir quero agora huma aventura<br> +Que nelle ao vão Narciso aconteceo,<br> +Digna de se chorar com mágoa pura. <span class="pn"><a name="pag_182">{182}</a></span><br> +<br> +Castigo foi que o moço mereceo<br> +Por se mostrar esquivo com aquella,<br> +Qu'em viva pedra Juno converteo.<br> +<br> +Ardia em fogo d'alma a vãa donzella,<br> +Soffrendo hum duro peito; que a Narciso,<br> +Quando ella mais se abraza, mais congela.<br> +<br> +E quando a fraca Nympha mais de siso<br> +Mostrava hum signal certo de firmeza,<br> +Então se provocava o moço a riso.<br> +<br> +Ja d'huma profundissima tristeza<br> +A descora o rigor que a consumia.<br> +Como diz desfavor mal com belleza!<br> +<br> +O gelado pastor folgava e ria;<br> +Mas vendo-a de seu gôsto andar contente,<br> +Por não a contentar s'entristecia.<br> +<br> +He tal o seu rigor, que não consente<br> +Que seja o gôsto proprio festejado;<br> +Antes disso se mostra descontente.<br> +<br> +Mas o cego Cupido, d'affrontado,<br> +Em vingança da fé que desprezou,<br> +Fez que fosse de si mesmo enganado.<br> +<br> +Casualmente hum dia se chegou<br> +A beber n'huma fonte crystallina,<br> +Que de si nova sêde lhe causou.<br> +<br> +Vendo a sua figura peregrina<br> +Que a fonte dentro em si representava,<br> +Se perdeo por imagem tão divina.<br> +<br> +Como ja, d'enlevado, não cuidava<br> +Nos enganos que a sombra lhe fazia,<br> +Vendo o formoso rosto, suspirava.<br> +<br> +Por as avaras ágoas se metia; <span class="pn"><a name="pag_183">{183}</a></span><br> +E quanto mais molhava os tenros braços,<br> +Então mais vivamente o fogo ardia.<br> +<br> +Vendo-se assi prender em duros laços,<br> +Ao sentimento obriga a paciencia,<br> +Dando, fóra de si, ao vento abraços.<br> +<br> +Embevecido todo n'apparencia,<br> +Sem saber de cuidado o que sentia,<br> +Não fez ao doce engano resistencia.<br> +<br> +Ao ver-se longe mais, mais perto via<br> +O peregrino gesto; e se chegava,<br> +Então para mais longe lhe fugia.<br> +<br> +Vendo, emfim, como em tudo o remedava<br> +Cahio no torpe engano que tivera,<br> +A tempo que de si ja preso estava.<br> +<br> +A belleza que a tantas morte dera,<br> +De si mesma se abraza e se captiva.<br> +Quão longe então de si ver-se quizera!<br> +<br> +Ella se abranda propria; ella se esquiva;<br> +E sendo ella somente a que se amava,<br> +Ella se chama ingrata e fugitiva.<br> +<br> +A formosura, pois, que namorava,<br> +Com tal difficuldade era seguida,<br> +Qu'estando dentro em si, mui longe estava.<br> +<br> +A solitaria Nympha, qu'escondida<br> +Ja nas cavernas concavas se via,<br> +Dos males que lhe ouvio foi commovida.<br> +<br> +Das namoradas mágoas que dizia<br> +O namorado moço, ella somente<br> +Os ultimos accentos repetia.<br> +<br> +Elle vendo-se estar alli presente,<br> +As crystallinas ágoas accusava <span class="pn"><a name="pag_184">{184}</a></span><br> +De que ellas o fazião descontente.<br> +<br> +Outras vezes á fonte, quando a olhava,<br> +Ja cego, e sem juizo, agradecia<br> +A figura que dentro lhe mostrava.<br> +<br> +Mas vendo qu'ella em nada se dohia<br> +De seu grave tormento, grita e chora.<br> +Quanto erra quem de sombras se confia!<br> +<br> +Ja lhe pede que saia para fóra.<br> +Ignorando que sempre fóra esteve<br> +A belleza que nelle proprio mora.<br> +<br> +Despois que longo espaço se deteve<br> +Nestes queixumes seus tão lastimosos,<br> +Que com tão longo ser, julgou por breve;<br> +<br> +Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos,<br> +Do valle se despede e da espessura,<br> +Dando soluços da alma vagarosos.<br> +<br> +Entregue na vontade da ventura,<br> +Ou, por melhor dizer, de seus enganos,<br> +Ao centro se arrojou da fonte pura.<br> +<br> +Dest'arte feneceo em tenros anos<br> +Narciso, dando exemplo á formosura<br> +De que tema, se he tal, tambem seus danos.<br> +<br> +Sentimento mostrou da sorte dura<br> +O namorado Jupiter, mudando<br> +Ao moço em flor purpurea, qu'inda dura.<br> +<br> +Aquellas claras ágoas rodeando,<br> +Onde por seus amores se perdeo,<br> +Está despois da morte acompanhando.<br> +<br> +Tanto no seu engano procedeo,<br> +Que não sabe na morte inda apartar-se<br> +Dos erros que na vida commetteo. <span class="pn"><a name="pag_185">{185}</a></span><br> +<br> +Bem póde o coração desenganar-se,<br> +Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado,<br> +Não costuma na morte resfriar-se.<br> +<br> +Porque despois do corpo sepultado,<br> +Prisão onde s'encerra o fraco esprito,<br> +Eternamente chora o seu cuidado.<br> +<br> +E das escuras ágoas do Cocito<br> +A rapida corrente refreando,<br> +Celebra o lindo gesto n'alma escrito.<br> +<br> +Lá se está co'os favores recreando;<br> +E se foi desprezado, lá padece,<br> +As duras esquivanças lamentando.<br> +<br> +Nem dos avaros olhos lá s'esquece,<br> +Que de formoso verde a terra esmaltão,<br> +Por não ver os do triste qu'endoudece.<br> +<br> +Assi que os desfavores nunca faltão,<br> +Até despois da morte perseguindo<br> +Hum triste coração que desbaratão.<br> +<br> +Triste de quem em vão lhe vai fugindo! +</blockquote> + + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_rodape2" name="rodape2">[2]</a></sup> Este terceto foi viciado na cópia e depois, ao que +parece, corrigido por mão estranha. A versificação está certa, +mas o sentido he absurdo: e se a verdadeira lição não he:</p> + +<blockquote> +Porque, cruel menino, o premio partes<br> +De modo que es tyranno, quando o negas,<br> +E injusto e desigual, quando o repartes? +</blockquote> + +<p class="ni">não podemos adivinhar qual seja. <em>Nota dos Editores.</em></p> +</div> + + +<h3>ELEGIA VII.</h3> + +<blockquote> +<big>A</big>o pé d'hum'alta faia vi sentado,<br> +N'hum valle deleitoso e bem florido,<br> +A Almeno, pastor triste e namorado.<br> +<br> +Outro no mundo póde haver nascido<br> +Mui queixoso de Amor; porém não tanto,<br> +Como este amante, por amar perdido.<br> +<br> +Ja Venus hia recolhendo o manto <span class="pn"><a name="pag_186">{186}</a></span><br> +Escuro com que a terra se mostrava,<br> +Para ajudar d'Almeno o triste pranto.<br> +<br> +Apollo sôbre os montes derramava<br> +Seus dourados cabellos, que fazião<br> +Ao triste inda mais triste do qu'estava.<br> +<br> +As flores por o prado s'estendião.<br> +E das que finas mais erão as côres,<br> +Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião.<br> +<br> +Ja guiavão seus gados os pastores,<br> +Que, deixando-os no campo deleitoso,<br> +Com ellas praticavão só d'amores.<br> +<br> +Mas era esta alegria hum perigoso<br> +Estado para Almeno entristecido;<br> +E por isso a deixava pressuroso,<br> +<br> +Buscando outro lugar: contra Cupido<br> +Claramente exclamava, e o arguia<br> +De contrário, d'astuto e fementido.<br> +<br> +De quando em quando a frauta que tangia.<br> +Numeros dava ao ar tão docemente,<br> +Que as aves provocava a melodia.<br> +<br> +Cego assi desta dor, deste accidente,<br> +Com os olhos em lagrimas banhados,<br> +Postos no ceo, dizia tristemente:<br> +<br> +Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados,<br> +Porque mos déste tu para offender-te,<br> +Quando livre vivia nestes prados?<br> +<br> +Não vês quanto me negas merecer-te<br> +O bem que me mostravas, se deixasse<br> +Ferir meu coração para soffrer-te?<br> +<br> +Qual bem me has dado, Amor, que me durasse?<br> +Ou qual me has promettido, que hajas dado? <span class="pn"><a name="pag_187">{187}</a></span><br> +Ou qual déste, que muito não custasse?<br> +<br> +Mostra-me quem puzeste em tal estado,<br> +Que pudesse viver de ti contente,<br> +Ou quem de ti não fosse lastimado?<br> +<br> +Inimigo cruel de toda a gente,<br> +Ja não quero teu bem, só meu mal quero;<br> +Se de ti nem meu mal se me consente.<br> +<br> +Inda que de teus bens ja desespéro,<br> +Não desprézo dos males o tormento;<br> +Antes o prezo mais, quando he mais fero.<br> +<br> +Arrebatado deste pensamento<br> +Hia o triste pastor com hum contino<br> +Pranto, que lhe avivava o sentimento.<br> +<br> +Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino,<br> +Qu'era de Amor plantado; e parecendo<br> +Lhe está menos humano que divino.<br> +<br> +Nelle a dor sua esteve suspendendo:<br> +Porém não, como cervo, está ferido,<br> +Reparo ao mal que leva pretendendo.<br> +<br> +Apparecia o sítio tão florído,<br> +Que provocava a não vulgar espanto,<br> +Entre huns altos ulmeiros escondido.<br> +<br> +D'hum crystallino orvalho tinha o manto,<br> +Quando entrou nelle o misero pastor,<br> +E as tenções explicou neste seu canto.<br> +<br> +Ó bellas rosas, vós que sois amor,<br> +He por dita humildade, ou he baixeza,<br> +O ter apar de vós murta, que he dor?<br> +<br> +Papoulas conversais, que são tristeza!<br> +Não desprezais o cardo, que he tormento!<br> +Admittis a hortelãa, sendo crueza! <span class="pn"><a name="pag_188">{188}</a></span><br> +<br> +Dos goivos longe vejo o sentimento;<br> +Dos jasmins perto estou vendo o perigo;<br> +<span class="typo" title="no original: Do">Dos</span> malmequeres vejo o soffrimento.<br> +<br> +Deste me temerei como inimigo;<br> +Mas traz por armas salva, que he razão:<br> +Com ella acabará tambem comigo.<br> +<br> +As minhas vem a ser huma affeição,<br> +Que são os puros cravos misturados<br> +Co'a vontade sujeita, que he limão.<br> +<br> +Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados!<br> +Ai crespa mangerona, que es prazer!<br> +Vós sós devieis adornar os prados.<br> +<br> +Não pódem dous oppostos juntos ser:<br> +Onde se põe giesta, que he lembrança,<br> +Junto do rosmaninho, que he 'squecer?<br> +<br> +Bem peza do leve álamo a mudança;<br> +Do roxo goivo anima o pensamento<br> +Do cypreste odorifero a esperança.<br> +<br> +O trevo, que he sentido apartamento,<br> +Cérca o mangericão, que se interpreta<br> +Memoria a quem offende o esquecimento.<br> +<br> +Mais importuna que o jardim de Creta,<br> +A ameixieira a flor está soltando:<br> +A segurelha vejo, que he discreta.<br> +<br> +As hervas que daqui irei tomando,<br> +São a pura cecem, qu'he saudade;<br> +Cravos, medo de ver qual de amor ando.<br> +<br> +E, de ter mui perdida a liberdade,<br> +Tomarei madresylva entendimento;<br> +Legação tomarei, porqu'he verdade.<br> +<br> +Marmeleiro me dá arrependimento: <span class="pn"><a name="pag_189">{189}</a></span><br> +Por a salva, que he gôsto, tomarei<br> +Coentro opposto ao meu contentamento.<br> +<br> +Conhecimento firme nunca achei,<br> +Que violetas são; e, quando o houvera,<br> +Qual meu damno então fôra, bem o sei.<br> +<br> +Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera<br> +Ver-vos aqui menor, pois sois victória,<br> +Que de mi alcançou chamma severa!<br> +<br> +Mas se quereis que tenha alguma glória,<br> +Por galardão d'amar e ser sujeito,<br> +Perderei de tormentos a memoria.<br> +<br> +Porém, pois mo negais, de todo engeito<br> +A palma, qu'he ventura; e na parreira,<br> +Qu'he'sperança perdida, me deleito.<br> +<br> +Entretanto co'a flor da laranjeira,<br> +Qu'he desafio duro e arriscado,<br> +Posso arguir da hora derradeira.<br> +<br> +Ja não se quer deter o meu cuidado<br> +Com a romãa descanso: a brevidade<br> +Das maravilhas só tẽe desejado.<br> +<br> +E vós, ovelhas minhas, sem piedade<br> +Vos apartae de mi, se algum desejo<br> +Tendes de ter do pasto mais vontade.<br> +<br> +Se muita de me verdes em vós vejo,<br> +Toda a minha de ver-vos hei perdido<br> +Á força do poder d'amor sobejo.<br> +<br> +Lograe do Tejo o placido ruido;<br> +Sós lograe estas veigas florecidas:<br> +Pois se perde o pastor vosso querido,<br> +<br> +Não gosteis de com elle ser perdidas. <span class="pn"><a name="pag_190">{190}</a></span> +</blockquote> + + + +<h3>ELEGIA VIII.</h3> + +<blockquote> +<big>B</big>elisa, unico bem desta alma triste,<br> +Descanso singular de minha vida,<br> +Throno donde o poder d'Amor consiste;<br> +<br> +Formosa fera, a quem está rendida<br> +D'Amor a que he mais livre liberdade,<br> +Ganhada mais, se mais por ti perdida;<br> +<br> +Quão contrário parece na beldade,<br> +Que os corações captiva com brandura,<br> +Alguma nódoa haver de crueldade!<br> +<br> +Quão contrário parece em formosura,<br> +Que deixa muito atraz quanto he humano,<br> +Esquiva condição, ou alma dura!<br> +<br> +Quão mal parece em quem só co'hum engano<br> +Póde dar vida ao coração sujeito,<br> +Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano!<br> +<br> +Quão mal parece que hum amor perfeito<br> +Não seja d'outro igual remunerado,<br> +Inda que seja, acaso, contrafeito!<br> +<br> +Quão mal parece estar desesperado<br> +Quem tanto por ti soffre e tẽe soffrido,<br> +Devendo estar de penas alliviado!<br> +<br> +Porém peor parece quem rendido<br> +Não for a hum parecer que tudo rende,<br> +Por mais qu'em seu rigor viva offendido.<br> +<br> +E inda peor parece quem defende<br> +O ser essa belleza sempre amada,<br> +Por mais qu'em vão se canse o que a pretende.<br> +<br> +Se quem te mostra amor te desagrada,<br> +Só pódes pretender o não ser vista, <span class="pn"><a name="pag_191">{191}</a></span><br> +Mas não despois de vista o ser deixada.<br> +<br> +Quão mal sabe o valor de tua vista<br> +Quem cuida que o que della acaso alcança<br> +Póde achar coração que lhe resista!<br> +<br> +Quão bem pareceria huma esperança<br> +Ja concedida a meu amor ardente,<br> +Não sempre huma mortal desconfiança!<br> +<br> +Se hum padecer por ti constantemente<br> +Pudesse ser reparo a quem mais te ama,<br> +Inda esperar pudera o ser contente.<br> +<br> +Mas eu temo que aquella immensa chama<br> +Com que a teu bello imperio me levaste,<br> +Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama.<br> +<br> +Se a Olympica belleza assi imitaste,<br> +Que brandamente move hum amor puro,<br> +Porque tão dura condição tomaste?<br> +<br> +Qual elevado, qual soberbo muro<br> +Este mal, que m'occupa o pensamento,<br> +Contado, não tornára menos duro?<br> +<br> +Tu, qu'es a causa só de meu tormento,<br> +Tu, que somente podes gloriar-me,<br> +Queres que as minhas queixas leve o vento?<br> +<br> +Tu, que me pagarias com matar-me,<br> +Inda a morte me negas vezes tantas?<br> +Ai, que me deras vida em morte dar-me!<br> +<br> +Usa piedade, tu, que o mundo espantas<br> +Co'os bellos olhos, com que o douras tanto,<br> +Se acaso a vê-lo brandos os levantas.<br> +<br> +Estende-se na terra o negro manto,<br> +E á noute dá alegria a luz alheia;<br> +Mas nos meus olhos tristes dura o pranto. <span class="pn"><a name="pag_192">{192}</a></span><br> +<br> +Torna a manhãa despois alegre e cheia<br> +Da luz que o chôro enxuga á bella Aurora;<br> +Mas do meu chôro nunca enxuga a veia.<br> +<br> +Lagrimas ja não são qu'esta alma chora,<br> +Mas amor he vital que dentro arde,<br> +E por a luz dos olhos salta fóra.<br> +<br> +Como inda a morte quer que mais aguarde?<br> +Não tarde ja, mas corra a mal tão fero.<br> +Mas ja por mais que corra virá tarde.<br> +<br> +Nem no supremo trance de ti 'spero<br> +Qu'inda com ver o estado em que me has pôsto<br> +Queiras, crua, entender quanto te quero.<br> +<br> +Ai! se volveres esse bello rosto<br> +Ao lugar triste em que morrer me vires,<br> +Não por desgôsto teu, mas por teu gôsto,<br> +<br> +Não quero de ti, não, que alli suspires,<br> +Nem que de dar-me a morte te arrependas,<br> +Mas que os olhos de ver-me então não tires.<br> +<br> +Assi nunca pastor a quem te rendas,<br> +Te faça conhecer o que me fazes,<br> +Para que com teu mal meu mal entendas!<br> +<br> +Como ja agora não te satisfazes<br> +Das penas deste amor, que por querer-te,<br> +De teu merecimento são capazes?<br> +<br> +Pois quem com outro merito render-te<br> +Presume, (oh raro monstro de belleza!)<br> +Muito mais longe está de merecer-te.<br> +<br> +Este si, que merece a grã crueza<br> +Com que tu d'acabar-me a vida tratas,<br> +Pois diante de ti, de si se preza.<br> +<br> +Se cuidas que com isto desbaratas <span class="pn"><a name="pag_193">{193}</a></span><br> +O meu constante amor, porque não viva,<br> +Elle mais vive quando mais me matas.<br> +<br> +Se o dar-me morte tens por glória altiva,<br> +Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina<br> +A matar mais de branda que d'esquiva.<br> +<br> +S'esta alma tua julgas por indina<br> +Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde,<br> +Do descoberto mal a faze dina.<br> +<br> +Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde,<br> +A poder reduzir-te a ser piedosa?<br> +Ou m'acaba de todo, ou me responde.<br> +<br> +Mas por mais que te mostres rigorosa,<br> +Deixar meu pensamento m'he impossivel,<br> +Igualmente que a ti não ser formosa.<br> +<br> +E por mais qu'esta dor seja terrivel,<br> +Somente o contemplar a causa della,<br> +Inda que a faz maior, a faz soffrivel<br> +<br> +Porém chegando a não poder soffrê-la,<br> +Perdendo a vida; quando a morte chame,<br> +Não perderei o gôsto de perdê-la.<br> +<br> +He justo qu'eu por ti mil mortes ame:<br> +Mas vê tu se te illustra, quando offensa<br> +Minha mortal o teu valor se chame.<br> +<br> +Bem vês que huma beldade tão immensa<br> +De vencer-me tẽe glória bem pequena,<br> +Pois só render-me tomo por defensa.<br> +<br> +Mas ja que amor tão puro me condena,<br> +Contente fico assaz desta victoria;<br> +Que não me dão meus males tanta pena,<br> +<br> +Quanto o serem por ti me dá de glória. <span class="pn"><a name="pag_194">{194}</a></span> +</blockquote> + + + +<h3>ELEGIA IX.</h3> + +<blockquote> +<big>A</big> vida me aborrece, a morte quero:<br> +Será eterno o meu mal, segundo entendo,<br> +Pois na mor esperança desespéro.<br> +<br> +Sem viver vivo, por morrer vivendo<br> +Por não verdes, Senhora, como eu vejo,<br> +Quanto de mi por vós me ando esquecendo.<br> +<br> +Seja-me agradecido este desejo;<br> +Ingrata não sejais a quem vos ama<br> +Com puro e honestissimo despejo.<br> +<br> +A culpa que me pondes, ponde-a á fama,<br> +Que pregôa de vós celeste vida<br> +Que os corações d'amor divino inflama.<br> +<br> +Humana, quando não agradecida,<br> +Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso,<br> +Antes que a alma do corpo se despida.<br> +<br> +Mas que posso eu fazer, pois ja não posso<br> +Hum tormento domar tão forte e duro,<br> +Homem formado só de carne e de osso?<br> +<br> +Em minha fé segura me asseguro;<br> +Porqu'esta, quando he grande, jamais erra,<br> +Se resulta d'amor sincero e puro.<br> +<br> +Essa beldade santa me faz guerra;<br> +Por ella hei de morrer, inda que veja<br> +Tornar o brando rio em dura serra.<br> +<br> +Que cousa tenho eu ja que minha seja?<br> +Quem não deseja a vossa formosura,<br> +Não póde assegurar que o ceo deseja.<br> +<br> +De qu'eu sempre a deseje estae segura: <span class="pn"><a name="pag_195">{195}</a></span><br> +Neste desejo meu nunca mudança<br> +Hão de ver as mudanças da ventura.<br> +<br> +A vida tenho posta na balança<br> +Da glória singular, do damno esquivo;<br> +Que o perdê-la por vós he mor bonança.<br> +<br> +Se vos offendo, cuido que não vivo:<br> +Olhae se muito mais que de offender-vos,<br> +Das esperanças do viver me privo.<br> +<br> +O que temo somente he só perder-vos;<br> +O que quero somente he só adorar-vos;<br> +O que somente adoro he só querer-vos.<br> +<br> +Querer-vos sem deixar de venerar-vos;<br> +Desejar-vos somente por servir-vos;<br> +Por servir a amor vil não desejar-vos:<br> +<br> +Somente ver-vos, e somente ouvir-vos<br> +Pretendo; e pois somente isto pretendo,<br> +Deveis a estes sentidos permittir-vos.<br> +<br> +Isto somente, (oh cego!) estou dizendo,<br> +Como se fôra pouco isto somente!<br> +Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo?<br> +<br> +Se o não merece o meu amor decente;<br> +Se morte por amar-vos se merece,<br> +Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.<br> +<br> +Se vos aggrava quem por vós padece;<br> +Se vos vẽe a offender quem vos quer tanto,<br> +Quem desta sorte errou não desmerece.<br> +<br> +Que quando os olhos da razão levanto<br> +Ao ceo d'essa rarissima belleza,<br> +De não morrer por ella só m'espanto.<br> +<br> +Deixae-me contentar desta tristeza,<br> +E fazer de meus olhos largo rio; <span class="pn"><a name="pag_196">{196}</a></span><br> +Se algum póde abrandar vossa dureza.<br> +<br> +Correndo sempre as lagrimas em fio,<br> +Farei crescer as hervas por os prados,<br> +Pois ja d'outra alegria desconfio.<br> +<br> +No monte darei pasto a meus cuidados;<br> +E serão de mi sempre entre os pastores<br> +Esses divinos olhos celebrados.<br> +<br> +Aprenderão de mi os amadores<br> +Aquillo que se chama amor sublime,<br> +Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores.<br> +<br> +E nenhum havera que a pena estime<br> +Mais soberana por a causa della,<br> +Que a que teve até então não desestime;<br> +<br> +E qu'inveja não mostre á minha estrella. +</blockquote> + + +<h3>ELEGIA X.</h3> + +<blockquote> +<big>Q</big>ue tristes novas, ou que novo dano,<br> +Qu'inopinado mal incerto sôa,<br> +Tingindo de temor o vulto humano?<br> +<br> +Que vejo? as praias humidas de Goa<br> +Ferver com gente attonita e turbada<br> +Do rumor que de boca em boca vôa!<br> +<br> +He morto D. Miguel (ah crua espada!)<br> +E parte da lustrosa companhia<br> +Que alegre s'embarcou na triste Armada:<br> +<br> +E d'espingarda ardente e lança fria<br> +Passado por o torpe e iniquo braço,<br> +Que nossas altas famas injuría. <span class="pn"><a name="pag_197">{197}</a></span><br> +<br> +Não lhe valeo escudo, ou peito d'aço,<br> +Não ânimo d'avós claros herdado,<br> +Com que temer se fez por longo espaço.<br> +<br> +Não ver-se em de redor todo cercado<br> +D'irados inimigos, qu'exhalavão<br> +A negra alma do corpo traspassado.<br> +<br> +Não as fortes palavras que voavão<br> +A animar os incertos companheiros,<br> +Que timidos as costas lhe mostravão.<br> +<br> +Mas ja postos, nos termos derradeiros,<br> +(Rotos por partes mil e traspassados<br> +Os membros, no valor somente inteiros)<br> +<br> +Os olhos (de furor acompanhados,<br> +Qu'inda na morte as vidas amedrentão<br> +Dos duros inimigos espantados)<br> +<br> +Postos no ceo, parece que presentão<br> +A alma pura á suprema Eternidade,<br> +Por quem os ceos e a terra se sustentão.<br> +<br> +E pedindo dos erros, que na idade<br> +Immatura e innocente ja fizera,<br> +Perdão á pia e justa Magestade,<br> +<br> +As rosas apartou da neve fria;<br> +E, como debil flor, a quem fallece<br> +O radical humor de que vivia,<br> +<br> +Nas mãos do Coro Angelico, que dece,<br> +S'entrega; e vai lograr a vida eterna,<br> +Que com morte tão justa se merece.<br> +<br> +Vai-te, alma, em paz á gloria sempiterna;<br> +Vai, que quem por a Lei sacra e divina<br> +A sólta, áquelle a dá que o ceo governa.<br> +<br> +Mas se de tal valor foi morte dina, <span class="pn"><a name="pag_198">{198}</a></span><br> +A ausencia que do gôsto nos saltêa,<br> +A perpétua saudade nos inclina.<br> +<br> +Deixa pois tu, formosa Cytherêa,<br> +Do gentil filho e neto de Cyniras<br> +O pranto por a morte horrida e fêa.<br> +<br> +E tu, dourado Apollo, que suspiras<br> +Por o crespo Jacintho, moço charo,<br> +Por quem a clara luz ao mundo tiras;<br> +<br> +Vinde e chorae hum moço em tudo raro,<br> +Não de ferino dente vulnerado,<br> +Nem de risco sujeito a algum reparo:<br> +<br> +Mas só de ferro imigo traspassado;<br> +Que sem duvida incerta, ou frio medo,<br> +A vida poz nas mãos de Marte irado.<br> +<br> +Tambem tu, moço Idalio, assiste quedo;<br> +Deixa de dar o venenoso mel<br> +A beber por os olhos, triste e ledo.<br> +<br> +Pois os formosos olhos de Miguel<br> +Ja cobertos se vem do escuro manto<br> +Da lei geral a todos mais cruel.<br> +<br> +E vós, filhas de Thespis, que co'o canto<br> +Podeis bem mitigar a dor immensa<br> +Dos irmãos generosos e alto pranto;<br> +<br> +Não consintais que fação larga offensa<br> +Á grande integridade, a que se devem<br> +Ágoas não só, do damno recompensa.<br> +<br> +Que ja diante os olhos me descrevem,<br> +Quando as bocas da Fama voadora<br> +Ao patrio e claro Tejo as novas levem,<br> +<br> +A profunda tristeza; qu'em hum'hora<br> +Tal posse tomará dos altos peitos, <span class="pn"><a name="pag_199">{199}</a></span><br> +Que delles o discurso lance fóra.<br> +<br> +Alli de dor os corações sujeitos<br> +Hão de lançar de si toda a memoria<br> +D'exemplos claros, solidos respeitos.<br> +<br> +Mas, porém se igualais a vida á glória,<br> +Ó claro Dom Philippe, e pretendeis<br> +Deixar-nos de acções vossas larga historia;<br> +<br> +Eu não vos persuado a que estreiteis<br> +O coração na Estoica disciplina,<br> +Onde livre d'affectos vos mostreis.<br> +<br> +Que mal a natureza determina<br> +Medo, esperanças, dores e alegria,<br> +Como o Cynico velho nos ensina.<br> +<br> +Immanidade estupida (dizia<br> +O Sulmonense canto) e vil rudeza,<br> +He não sentir affectos que a alma cria.<br> +<br> +Porém se o sentir nada for bruteza,<br> +E se paixão devida se consente,<br> +Tambem o sentir muito he ja fraqueza.<br> +<br> +Em vós hum soffrer alto s'exprimente,<br> +Qual nos fortes Varões foi conhecido,<br> +Como em estranha, em Lusitana gente.<br> +<br> +Bem conheço que o corpo assi perdido,<br> +Como de illustre tumulo carece,<br> +Será de brutas feras consumido.<br> +<br> +Mas consola-me, emfim, que se parece<br> +Ao grande bisavô, que por a vida<br> +Real, a sua á Maura lança offrece.<br> +<br> +Em pedaços a gente enfurecida<br> +O corpo alli lhe deixa; e com mão dura<br> +Lhe nega a sepultura merecida. <span class="pn"><a name="pag_200">{200}</a></span><br> +<br> +Facil he a perda aqui da sepultura:<br> +Diogenes prudente, e Theodoro<br> +Pouco sentem do corpo essa jactura.<br> +<br> +Assi formoso e inteiro, assi decoro<br> +Adorna quem o tẽe, como o tomou,<br> +Quando se ouvir o extremo som canoro.<br> +<br> +Mas ai! qual terror subito occupou<br> +O vosso claro peito, ó Portuguezes?<br> +Qual pavido temor vos congelou?<br> +<br> +Que lançadas, que golpes, que revézes<br> +Vos fizerão fazer tamanha injúria<br> +Aos fortes Lusitanicos arnezes?<br> +<br> +Ou ja de Capitão sobeja incuria,<br> +Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava<br> +Com seu peito dos barbaros a furia.<br> +<br> +Ou ja do ferreo cano a fôrça brava<br> +Com estrondos que atroão mar e terra,<br> +Os corações ardentes congelava?<br> +<br> +Ah! quem vos fez que os impetos da guerra<br> +Não sustentasseis com valor ousado,<br> +Desprezando o temor que a vida encerra?<br> +<br> +A vida por a Patria e por o Estado<br> +Pondo nossos avós, a nós deixárão,<br> +Em terra e mar, exemplo sublimado.<br> +<br> +Elles a desprezar nos ensinárão<br> +Todo temor. Pois como agora os netos<br> +Subitamente assi degenerárão?<br> +<br> +Não pódem, certo, não, viver quietos<br> +Com feia infamia peitos generosos,<br> +Ja em publicos lugares, ja em secretos.<br> +<br> +Mortos d'Esparta os Héroes valerosos <span class="pn"><a name="pag_201">{201}</a></span><br> +Da fera multidão, fazendo extremos,<br> +Taes Epitaphios tinhão gloriosos:<br> +<br> +<em>Dirás, Hóspede, tu, que aqui jazemos<br> +Passados do inimigo ferro, em quanto<br> +Ás santas Leis da Patria obedecemos.</em><br> +<br> +Fugindo os Persas vão com frio espanto,<br> +Mas achão as mulheres no caminho,<br> +Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto.<br> +<br> +Pois do damno fugís, vendo-o visinho,<br> +Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizião)<br> +Outra vez no materno e escuro ninho.<br> +<br> +Vêde quaes com mais glória ficarião,<br> +Se aquelles que morrêrão por o Estado,<br> +S'estes a quem mulheres injurião?<br> +<br> +Mas tu, claro Miguel, que ja acordado<br> +Deste sonho tão breve, estás naquella<br> +Tôrre do ceo, seguro e repousado;<br> +<br> +Onde, com Deos unida a forte e bella<br> +Alma, com teus Maiores reluzindo,<br> +Trocaste cada chaga em clara estrella;<br> +<br> +Co'os pés o crystallino ceo medindo,<br> +Nada d'essas altissimas Espheras,<br> +Nem da terreste aos olhos encobrindo;<br> +<br> +Agora hum curso e outro consideras,<br> +Agora a vaidade dos mortaes,<br> +Que tu tambem passáras se vivêras,<br> +<br> +. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .<span class="pn"><a name="pag_202">{202}</a></span> +</blockquote> + + + +<h3>ELEGIA XI.</h3> + +<blockquote> +<big>S</big>e quando contemplamos as secretas<br> +Causas, por que este mundo se sustenta,<br> +E o revolver dos ceos e dos planetas;<br> +<br> +E se quando á memoria se presenta<br> +Este curso do sol tão bem medido,<br> +Que hum ponto só não míngua, nem s'augmenta;<br> +<br> +Aquelle effeito, tarde conhecido,<br> +Da lua na mudança tão constante,<br> +Que minguar e crescer he seu partido;<br> +<br> +Aquella natureza tão possante<br> +Dos ceos, que tão conformes e contrarios<br> +Caminhão, sem parar hum breve instante;<br> +<br> +Aquelles movimentos ordinarios,<br> +A que responde o tempo, que não mente,<br> +Co'os effeitos da terra necessarios;<br> +<br> +Se quando, emfim, revolve subtilmente<br> +Tantas cousas a leve phantasia,<br> +Sagaz escrutadora e diligente;<br> +<br> +Bem vê, se da razão se não desvia,<br> +Aquelle unico Ser, alto e divino,<br> +Que tudo póde, manda, move e cria.<br> +<br> +Sem fim e sem princípio, hum Ser contino;<br> +Hum Padre grande, a quem tudo he possibil,<br> +Por mais que o difficulte humano atino:<br> +<br> +Hum saber infinito, incomprehensibil;<br> +Huma verdade que nas cousas anda,<br> +Que mora no visibil e invisibil.<br> +<br> +Esta potencia, emfim, que tudo manda, <span class="pn"><a name="pag_203">{203}</a></span><br> +Esta Causa das causas, revestida<br> +Foi desta nossa carne miseranda.<br> +<br> +Do amor e da justiça compellida,<br> +Por os erros da gente, em mãos da gente<br> +(Como se Deos não fôsse) deixa a vida.<br> +<br> +Oh Christão descuidado e negligente!<br> +Pondera-o com discurso repousado;<br> +E ver-te-has advertido facilmente.<br> +<br> +Ólha aquelle Deos alto e increado,<br> +Senhor das cousas todas, que fundou<br> +O ceo, a terra, o fogo, o mar irado;<br> +<br> +Não do confuso caos, como cuidou<br> +A falsa Theologia, e povo escuro,<br> +Que nesta só verdade tanto errou;<br> +<br> +Não dos atomos leves d'Epicuro;<br> +Não do fundo Oceano, como Thales,<br> +Mas só do pensamento casto e puro.<br> +<br> +Ólha, animal humano, quanto vales,<br> +Pois este immenso Deos por ti padece<br> +Novo estylo de morte, novos males.<br> +<br> +Ólha que o sol no Olympo s'escurece,<br> +Não por opposição de outro Planeta;<br> +Mas só porque virtude lhe fallece.<br> +<br> +Não vês que a grande máchina inquieta<br> +Do mundo se desfaz toda em tristeza,<br> +E não por causa natural secreta?<br> +<br> +Não vês como se perde a Natureza?<br> +O ar se turba? o mar batendo geme,<br> +Desfazendo das pedras a dureza?<br> +<br> +Não vês que cahe o monte, a terra treme?<br> +E que lá na remota e grande Athenas <span class="pn"><a name="pag_204">{204}</a></span><br> +O docto Areopagita exclama e teme?<br> +<br> +Oh summo Deos! tu mesmo te condenas,<br> +Por o mal em qu'eu só sou o culpado,<br> +A tamanhas affrontas, tantas penas?<br> +<br> +Por mi, Senhor, no mundo reputado<br> +Por falso, e violador da sacra Lei?<br> +A fama a ti se põe do meu peccado?<br> +<br> +Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei.<br> +Pois como entre ladrões eu não padeço?<br> +A pena a ti se dá do qu'eu errei?<br> +<br> +Eu servo sem valor, tu immenso preço,<br> +Em preço vil te pões, por me tirares<br> +Do captiveiro eterno que mereço?<br> +<br> +Eu por perder-te, e tu por me ganhares<br> +Te dás aos soltos homens, que te vendem,<br> +Só para os homens presos resgatares?<br> +<br> +A ti, que as almas sóltas, a ti prendem?<br> +A ti summo Juiz, ante Juizes<br> +Te accusão por o error dos que te offendem?<br> +<br> +Chamão-te malfeitor; não contradizes:<br> +Sendo tu dos Prophetas a certeza,<br> +Dizem que quem te fere prophetizes.<br> +<br> +Rim-se de ti; tu choras a crueza<br> +Que sôbre elles virá: a gente dura,<br> +Por quem tu vens ao mundo, te despreza.<br> +<br> +O teu rosto, de cuja formosura<br> +Se veste o ceo e o sol resplandecente,<br> +Diante quem pasmada está a Natura,<br> +<br> +Com cruas bofetadas da vil gente,<br> +De precioso sangue está banhado,<br> +Cuspido, atropellado cruelmente. <span class="pn"><a name="pag_205">{205}</a></span><br> +<br> +Aquelle corpo tenro e delicado,<br> +Sôbre todos os Santos sacrosanto,<br> +A açoutes rigorosos desangrado;<br> +<br> +Despois coberto mal d'hum pobre manto,<br> +Que se pegava ás carnes magoadas<br> +Para dobrar-lhe as dores outro tanto.<br> +<br> +Magoavão-no as chagas não curadas,<br> +Hum tormento causando-lhe excessivo<br> +Ao despir por as mãos crueis e iradas.<br> +<br> +As venerandas barbas de Deos vivo<br> +De resplandor ornadas, s'arrancavão<br> +Para desempenhar a Adão captivo.<br> +<br> +Com cordas por as ruas o levavão,<br> +Levando sôbre os hombros o trophéo<br> +Da victoria qu'as almas alcançavão.<br> +<br> +Ó tu, que passas, homem Cyrenêo,<br> +Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro,<br> +Que agora, como humano, enfraqueceo.<br> +<br> +Ólha que o corpo afflicto do marteiro,<br> +E dos longos jejuns debilitado,<br> +Não póde ja co'o pêso do madeiro.<br> +<br> +Oh não enfraqueçais, Deos incarnado!<br> +Essas quédas, que tanto vos magôão,<br> +Supportae Cavalleiro sublimado.<br> +<br> +Aquellas altas vozes, que lá sôão,<br> +Dos Padres são, que o Limbo tẽe escuro,<br> +E ja de louro e palma vos corôão.<br> +<br> +Todos vos bradão que subais o muro<br> +Da cidade infernal, e que arvoreis<br> +Em cima essa bandeira mui seguro.<br> +<br> +Oh Santos Padres! não vos apresseis; <span class="pn"><a name="pag_206">{206}</a></span><br> +Pois muito mais a Deos, que a vós, custárão<br> +Essas duras prisões em que jazeis.<br> +<br> +Aquellas mãos que o mundo edificárão,<br> +Aquelles pés que pízão as estrellas,<br> +Com durissimos pregos s'encravárão.<br> +<br> +Mas qual será o humano qu'as querellas<br> +Da angustiada Virgem contemplasse,<br> +Sem se mover a dor e mágoa dellas?<br> +<br> +E que dos olhos seus não destillasse<br> +Tanta cópia de lagrimas ardentes,<br> +Que carreiras no rosto sinalasse?<br> +<br> +Oh quem lhe víra os olhos refulgentes<br> +Convertendo-se em fontes, e regando<br> +Aquellas faces bellas e excellentes!<br> +<br> +Quem a ouvíra com vozes ir tocando<br> +As estrellas, a quem responde o ceo,<br> +Co'os accentos dos Anjos retumbando!<br> +<br> +Quem víra quando o puro rosto ergueo<br> +A ver o Filho, que na Cruz pendia,<br> +Donde a nossa saude descendeo!<br> +<br> +Que mágoas tão chorosas que diria!<br> +Que palavras tão miseras e tristes<br> +Para o ceo, para a gente espalharia!<br> +<br> +Pois que sería, Virgem, quando vistes<br> +Com fel nojoso, e com vinagre amaro<br> +Matar a sêde ao Filho que paristes?<br> +<br> +Não era este o licor suave e claro,<br> +Que para o confortar então darieis<br> +A quem vos era, mais que a vida, charo.<br> +<br> +Como, Virgem Senhora, não corrieis<br> +A dar as puras tetas ao Cordeiro, <span class="pn"><a name="pag_207">{207}</a></span><br> +Que padecer na Cruz com sêde vieis?<br> +<br> +Não era só, não, esse o verdadeiro<br> +Poto, que vosso Filho desejava,<br> +Morrendo por o mundo em hum madeiro;<br> +<br> +Mas era a salvação que alli ganhava<br> +Para o misero Adão, que alli bebia<br> +Na fonte que do peito lhe manava.<br> +<br> +Pois, ó pura e Santissima Maria,<br> +Que, emfim, sentistes esta mágoa, quanto<br> +A grave causa della o requeria;<br> +<br> +D'essa Fonte sagrada e peito santo<br> +M'alcançae huma gotta, com que lave<br> +A culpa que me aggrava e pesa tanto.<br> +<br> +Do licor salutifero e suave<br> +M'abrangei, com que mate a sêde dura<br> +Deste mundo tão cego, torpe e grave.<br> +<br> +Assi, Senhora, toda criatura<br> +Que vive e vivirá, e não conhece<br> +A Lei de vosso Filho, a abrace pura;<br> +<br> +O falsissimo herege, que carece<br> +Da graça, e com damnado e falso esprito<br> +Perturba a Santa Igreja, que florece;<br> +<br> +O povo pertinaz no antiguo rito,<br> +Que só o destêrro seu, que tanto dura,<br> +Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito;<br> +<br> +O torpe Ismaelita, que mistura<br> +As Leis, e com preceitos tão viciosos<br> +Na terra estende a seita falsa e impura;<br> +<br> +Os idolatras maos, supersticiosos,<br> +Varios de opiniões e de costumes,<br> +Levados de conceitos fabulosos; <span class="pn"><a name="pag_208">{208}</a></span><br> +<br> +As mais remotas gentes, onde o lume<br> +Da nossa Fé não chega, nem que tenhão<br> +Religião alguma se presume;<br> +<br> +Assi todos, emfim, Senhora, venhão<br> +A confessar hum Deos crucificado,<br> +E por nenhum respeito se detenhão.<br> +<br> +E d'hum e d'outro o vício ja deixado,<br> +O seu Nome, co'o vosso nesse dia,<br> +Seja por todo o mundo celebrado;<br> +<br> +E respóndão os ceos: J<small>ESUS,</small> M<small>ARIA.</small> +</blockquote> + + +<h3>ELEGIA XII. ACROSTICA.</h3> + +<blockquote> +<big>J</big>uizo extremo, horrifico e tremendo,<br> +E Juiz sempiterno, alto e celeste,<br> +Significará a terra, humedecendo.<br> +Ver-se-ha nella hum suor que manifeste<br> +Como em carne vem Deos, para que o veja<br> +Homem toda esta máchina terreste;<br> +Rei justo, que dos corpos e almas seja<br> +Juiz; e quando o mundo cego e inculto<br> +Sôbre espinhos crueis deitado seja,<br> +Todo vão simulacro e gentil culto<br> +Ousará engeitar a gente; e guerra<br> +Fará co'o mar o fogo, e cru tumulto.<br> +Immensa luz, que as carnes desenterra,<br> +Lançará fóra as portas vãas do Averno,<br> +Hum Justo e outro alçando á santa terra. <span class="pn"><a name="pag_209">{209}</a></span><br> +Outros, que são os maos, no fogo eterno<br> +Deitará, descobrindo-se os segredos,<br> +E sendo claro todo feito interno.<br> +Desfeitos serão montes e penedos,<br> +E será tudo pranto e estridor duro;<br> +Obras de grande dor e tristes medos.<br> +Será tornado o sol de todo escuro,<br> +E destruida a máchina do mundo,<br> +Sem luz as luzes todas do Orbe puro;<br> +Altos serão os valles, e em profundo<br> +Lugar se abaterão os altos montes;<br> +Vibrará mares vento furibundo:<br> +Haverá só de chammas vivas fontes:<br> +De trombeta tremenda som terribil,<br> +Ouvido, fara pallidas as frontes.<br> +Responderá dos maos gemido horribil. <span class="pn"><a name="pag_210">{210}</a></span> +</blockquote> + +</div> + + +<div id="epistolas"> + +<h2>EPISTOLAS.</h2> + + +<h3>EPISTOLA I.</h3> + +<blockquote> +<big>Q</big>uem póde ser no mundo tão quieto,<br> +Ou quem terá tão livre o pensamento,<br> +Quem tão exprimentado, ou tão discreto,<br> +Tão fóra, emfim, de humano entendimento,<br> +Que ou com público effeito, ou com secreto,<br> +Lhe não revolva e espante o sentimento,<br> +Deixando-lhe o juizo quasi incerto,<br> +Ver e notar do mundo o desconcêrto?<br> +<br> +Quem ha que veja aquelle que vivia<br> +De latrocinios, mortes e adulterios,<br> +Que ao juizo das gentes merecia<br> +Perpétua pena, immensos vituperios,<br> +Se a Fortuna em contrário o leva e guia,<br> +Mostrando, emfim, que tudo são mysterios,<br> +Em alteza d'estados triumphante,<br> +Que por livre que seja não s'espante?<br> +<br> +Quem ha que veja aquelle, que tão clara<br> +Teve a vida, qu'em tudo por perfeito<br> +O proprio Momo ás gentes o julgára,<br> +Inda quando lhe visse aberto o peito,<br> +Se a má Fortuna, ao bom somente avara,<br> +O reprime, e lhe nega seu direito, <span class="pn"><a name="pag_211">{211}</a></span><br> +Que lhe não fique o peito congelado,<br> +Por mais e mais que seja exprimentado?<br> +<br> +Democrito dos deoses proferia<br> +Que erão sós dous; a Pena, e o Beneficio.<br> +Segredo algum será da phantasia,<br> +De qu'eu achar não posso claro indicio.<br> +Que se ambos vem por não cuidada via<br> +A quem os não merece, he grande vício<br> +Em deoses sem-justiça e sem-razão.<br> +Mas Democrito o disse, e Paulo não.<br> +<br> +Dir-me-heis, que s'este estranho desconcêrto<br> +Novamente no mundo se mostrasse,<br> +Que por livre que fosse e mui experto,<br> +Não era d'espantar se m'espantasse.<br> +Mas que se ja de Socrates foi certo<br> +Que nenhum grande caso lhe mudasse<br> +O vulto, ou de prudente, ou de constante,<br> +Exemplo tome delle, e não m'espante.<br> +<br> +Parece a razão boa; mas eu digo<br> +Deste uso da Fortuna tão damnado<br> +Que quanto he mais usado e mais antigo,<br> +Tanto he mais estranhado e blasphemado.<br> +Porque, se o Ceo, das gentes tão amigo<br> +Não dá á Fortuna tempo limitado,<br> +Não he para causar mui grande espanto,<br> +Que mal tão mal olhado dure tanto?<br> +<br> +Outro espanto maior aqui m'enleia,<br> +Que com quanto Fortuna tão profana<br> +Com estes desconcertos senhoreia,<br> +A nenhuma pessoa desengana.<br> +Não ha ninguem, que assente, nem que creia <span class="pn"><a name="pag_212">{212}</a></span><br> +Este discurso vão da vida humana,<br> +Por mais que philosophe, nem qu'entenda,<br> +Que algum pouco do mundo não pretenda.<br> +<br> +Diogenes pisava de Platão<br> +Com seus sordidos pés o rico estrado,<br> +Mostrando outra mais alta presumpção<br> +Em desprezar o fausto tão prezado.<br> +Diogenes, não vês que extremos são<br> +Esses que segues, de mais alto estado?<br> +Pois se de desprezar te prezas muito,<br> +Ja pretendes do mundo fama e fruito.<br> +<br> +Deixo agora Reis grandes, cujo estudo<br> +He fartar esta sêde cubiçosa<br> +De querer dominar e mandar tudo,<br> +Com fama larga e pompa sumptuosa.<br> +Deixo aquelles que tomão por escudo<br> +De seus vicios e vida vergonhosa<br> +A nobreza de seus antecessores,<br> +E não cuidão de si que são peores.<br> +<br> +Aquelle deixo, a quem do somno esperta<br> +O grão favor do Rei que serve e adora,<br> +E se mantẽe dest'aura falsa e incerta,<br> +Que de corações tantos he senhora.<br> +Deixo aquelles qu'estão co'a boca aberta<br> +Por s'encher de thesouros de hora em hora,<br> +Doentes desta falsa hydropesia,<br> +Que quanto mais alcança, mais queria.<br> +<br> +Deixo outras obras vãas do vulgo errado,<br> +A quem não ha ninguem que contradiga,<br> +Nem de outra cousa alguma he governado,<br> +Que d'huma opinião e usança antiga. <span class="pn"><a name="pag_213">{213}</a></span><br> +Mas pergunto ora a Cesar esforçado,<br> +Ora a Platão divino, que me diga,<br> +Este das muitas terras em que andou,<br> +Aquelle de vencê-las, que alcançou?<br> +<br> +Cesar dirá: Sou digno de <span class="typo" title="no original: momoria">memoria</span>:<br> +Vencendo povos varios e esforçados,<br> +Fui Monarca do mundo; e larga historia<br> +Ficará de meus feitos sublimados.<br> +He verdade: mas esse mando e glória,<br> +Lograste-o muito tempo? Os conjurados<br> +Bruto e Cassio dirão que, se venceste,<br> +Emfim, emfim, ás mãos dos teus morreste.<br> +<br> +Dirá Platão: Por ver o Etna e o Nilo<br> +Fui a Sicilia, Egypto e outras partes,<br> +Só por ver e escrever em alto estilo<br> +Da natural sciencia e muitas artes.<br> +O tempo he breve, e queres consumi-lo,<br> +Platão, todo em trabalhos? e repartes<br> +Tão mal de teu estudo as breves horas,<br> +Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras?<br> +<br> +Pois quanto des que vive ja apartada<br> +A alma desta prisão terreste e escura;<br> +Está em tamanhas cousas occupada,<br> +Que da fama, que fica, nada cura.<br> +E se o corpo terreno sinta nada,<br> +O Cynico dirá se por ventura<br> +No campo, onde lançado morto estava,<br> +De si os cães, ou as aves enxotava.<br> +<br> +Quem tão baixa tivesse a phantasia,<br> +Que nunca em mores cousas a metesse,<br> +Qu'em só levar seu gado á fonte fria, <span class="pn"><a name="pag_214">{214}</a></span><br> +E mungir-lhe do leite que bebesse,<br> +Quão bem-aventurado que sería!<br> +Que por mais que a Fortuna revolvesse,<br> +Nunca em si sentiria maior pena,<br> +Que pezar-lhe de a vida ser pequena.<br> +<br> +Veria erguer do sol a roxa face,<br> +Veria correr sempre a clara fonte,<br> +Sem imaginar a ágoa donde nace,<br> +Nem quem a luz occulta no Horizonte.<br> +Tangendo a frauta donde o gado pace,<br> +Conheceria as hervas do alto monte,<br> +Em Deos creria simples e quieto,<br> +Sem mais especular algum secreto.<br> +<br> +D'hum certo Trasilao se lê e escreve<br> +Entre as cousas da velha antiguidade,<br> +Que perdido grão tempo o siso teve<br> +Por causa d'huma grave enfermidade;<br> +E em quanto, de si fóra, doudo esteve,<br> +Tinha por teima, e cria por verdade,<br> +Qu'erão suas, das naos que navegavão,<br> +Quantas no porto Píreo ancoravão.<br> +<br> +Por hum Senhor mui grande se teria,<br> +(Além da vida alegre que passava)<br> +Pois nas que se perdião não perdia,<br> +E das que vinhão salvas se alegrava.<br> +Não tardou muito tempo, quando hum dia<br> +Huncrito, seu irmão, que ausente estava,<br> +Á terra chega; e vendo o irmão perdido,<br> +Do fraternal amor foi commovido.<br> +<br> +Aos Medicos o entrega, e com aviso<br> +O faz estar á cura refusada. <span class="pn"><a name="pag_215">{215}</a></span><br> +Triste! que por tornar-lhe o antigo siso<br> +Lhe tira a doce vida descansada.<br> +As hervas Apollineas d'improviso<br> +O tornão á saude ja passada.<br> +Sisudo Trasilao, ao charo irmão<br> +Agradece a vontade, a obra não.<br> +<br> +Porque despois de ver-se no perigo<br> +Do trabalho a que o siso o obrigava,<br> +E despois de não ver o estado antigo,<br> +Que a louca presumpção lhe apresentava:<br> +Oh inimigo irmão, com côr de amigo!<br> +Para que me tiraste (suspirava)<br> +Da mais quieta vida e livre em tudo,<br> +Que nunca pôde ter nenhum sisudo?<br> +<br> +Por qual Senhor algum eu me trocára,<br> +Ou por qual algum Rei de mais grandeza?<br> +Que me dava que o mundo se acabára,<br> +Ou que a ordem mudasse a natureza?<br> +Agora me he penosa a vida chara;<br> +Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza.<br> +Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso<br> +Que na doudice só consiste o siso.<br> +<br> +Vêdes aqui, Senhor, bem claramente<br> +Como a Fortuna em todos tẽe poder,<br> +Senão só no que menos sabe e sente;<br> +Em quem nenhum desejo póde haver.<br> +Este se póde rir da cega gente;<br> +Neste não póde nada acontecer;<br> +Nem estara suspenso na balança<br> +Do temor mao, da perfida esperança.<br> +<br> +Mas se o sereno Ceo me concedêra <span class="pn"><a name="pag_216">{216}</a></span><br> +Qualquer quieto, humilde e doce estado,<br> +Onde com minhas Musas só vivêra,<br> +Sem ver-me em terra alheia degradado;<br> +E alli outrem ninguem me conhecêra,<br> +Nem eu conhecêra outro mais honrado,<br> +Senão a vós, tambem como eu contente;<br> +Que bem sei que o serieis facilmente:<br> +<br> +E ao longo d'huma clara e pura fonte,<br> +Qu'em borbulhas nascendo, convidasse<br> +Ao doce passarinho, que nos conte<br> +Quem da chara consorte o apartasse;<br> +Despois, cobrindo a neve o verde monte,<br> +Ao gasalhado o frio nos levasse,<br> +Avivando o juizo ao doce estudo,<br> +Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo.<br> +<br> +Cantára-nos aquelle, que tão claro<br> +O fez o fogo da árvore Phebêa,<br> +A qual elle em estylo grande e raro<br> +Louvando, o crystallino Sorga enfrêa;<br> +Tangêra-nos na frauta Sanazaro,<br> +Ora nos montes, ora por a arêa;<br> +Passára celebrando o Tejo ufano<br> +O brando e doce Lasso Castelhano.<br> +<br> +E comnosco tambem se achára aquella,<br> +Cuja lembrança, e cujo claro gesto<br> +N'alma somente vejo, porque nella<br> +Está em essencia puro e manifesto;<br> +Por alta influição de minha estrella<br> +Mitigando o rigor do peito honesto,<br> +Entretecendo rosas nos cabellos,<br> +De que tomasse a luz o sol em vellos; <span class="pn"><a name="pag_217">{217}</a></span><br> +<br> +E em quanto por Verão flores colhesse,<br> +Ou por Inverno ao fogo accommodado,<br> +O que de mi sentíra nos dissesse,<br> +De puro amor o peito salteado;<br> +Não pedíra então eu, que Amor me désse<br> +Do insano Trasilao o doudo estado;<br> +Mas que alli me dobrasse o entendimento,<br> +Por ter de tanto bem conhecimento.<br> +<br> +Mas por onde me leva a phantasia?<br> +Porqu'imagino em bem-aventuranças,<br> +Se tão longe a Fortuna me desvia,<br> +Qu'inda me não consente as esperanças?<br> +Se hum novo pensamento Amor me cria<br> +Onde o lugar, o tempo, as esquivanças<br> +Do bem me fazem tão desamparado,<br> +Que não póde ser mais qui'maginado?<br> +<br> +Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou<br> +Contra mi, porque mais me magoasse:<br> +Amor a hum vão desejo me obrigou,<br> +Só para que a Fortuna mo negasse.<br> +O tempo a tal estado me chegou;<br> +E nelle quiz que a vida se acabasse;<br> +Se ha em mi acabar-se, o qu'eu não creio;<br> +Que até da muita vida me receio. +</blockquote> + + +<h3>EPISTOLA II.</h3> + +<blockquote> +<big>C</big>omo nos vossos hombros tão constantes<br> +(Principe illustre e raro) sustenteis <span class="pn"><a name="pag_218">{218}</a></span><br> +Tantos negocios arduos e importantes,<br> +Dignos do largo Imperio, que regeis;<br> +Como sempre nas armas rutilantes<br> +Vestido, o mar e a terra segureis<br> +Do pirata insolente, e do tyrano<br> +Jugo do potentissimo Othomano;<br> +<br> +E como com virtude necessaria,<br> +Mal entendida do juizo alheio,<br> +Á desordem do vulgo temeraria<br> +Na santa paz ponhais o duro freio;<br> +Se com minha escriptura longa e vária<br> +Vos occupasse o tempo, certo creio<br> +Que com vagante e ociosa phantasia<br> +Contra o commum proveito peccaria.<br> +<br> +E não menos sería reputado<br> +Por doce adulador, sagaz e agudo,<br> +Que contra meu tão baixo e triste estado<br> +Busco favor em vós que podeis tudo,<br> +Se contra a opinião do vulgo errado<br> +Vos celebrasse em verso humilde e rudo.<br> +Dirão, que com lisonja ajuda peço<br> +Contra a miseria injusta que padeço.<br> +<br> +Porém, porque a verdade póde tanto<br> +No livre arbitrio, (como disse bem<br> +Ao Rei Dario o moço sabio e santo,<br> +Que foi reedificar Hierusalem)<br> +Esta m'obriga a qu'em humilde canto,<br> +Contra a tenção que a plebe ignara tem,<br> +Vos faça claro a quem vos não alcança;<br> +E não de premio algum vil esperança.<br> +<br> +Romulo, Baccho e outros que alcançárão <span class="pn"><a name="pag_219">{219}</a></span><br> +Nomes de semideoses soberanos,<br> +Em quanto por o mundo exercitárão<br> +Altos feitos, e quasi mais que humanos,<br> +Com justissima causa se queixárão<br> +Que não lhes respondêrão os mundanos<br> +Favores do rumor justos e iguaes<br> +A seus merecimentos immortaes.<br> +<br> +Aquelle, que nos braços poderosos<br> +Tirou a vida ao Tingitano Anteo,<br> +E a quem os seus trabalhos tão famosos<br> +Fizerão Cidadão do claro ceo;<br> +Achou que a má tenção dos invejosos<br> +Não se doma, senão despois que o véo<br> +Se rompe corporal: porque na vida<br> +Ninguem alcança a glória merecida.<br> +<br> +Pois logo, se Barões tão excellentes<br> +Forão do baixo vulgo molestados,<br> +O vituperio vil das rudas gentes,<br> +He louvor dos Reaes, e sublimados.<br> +Quem no lume dos vossos Ascendentes<br> +Poderá pôr os olhos, que abalados<br> +Lhes não fiquem da luz, vendo os maiores<br> +Vossos passados, Reis e Imperadores?<br> +<br> +Quem verá aquelle Pae da Patria sua,<br> +Açoute do soberbo Castelhano,<br> +Que o duro jugo só, co'a espada nua,<br> +Removeo do pescoço Lusitano,<br> +Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua<br> +Memoria causará, se não m'engano,<br> +Que qualquer teu menor tanto s'estime,<br> +Que nunca possa ser senão sublime? <span class="pn"><a name="pag_220">{220}</a></span><br> +<br> +Nisto não fallo mais, porque conheço<br> +Que da materia se me baixa o engenho.<br> +Mas, pois a dizer tudo m'offereço,<br> +E dias ha que no desejo o tenho,<br> +Sendo vós de tão alto e illustre preço,<br> +A vida fostes pôr n'hum fraco lenho,<br> +Por largo mar e undosa tempestade,<br> +Só por servir á Regia Magestade.<br> +<br> +E despois de tomar a redea dura<br> +Na mão, do povo indomito qu'estava<br> +Costumado a larguezas, e á soltura<br> +Do pezado govêrno que acabava;<br> +Quem não terá por santa e justa cura,<br> +Qual do vosso conceito s'esperava,<br> +A tão desenfreada enfermidade<br> +Applicar-lhe contrária qualidade?<br> +<br> +Não he muito, Senhor, se o moderado<br> +Govêrno se blasphema e se desama;<br> +Porque o povo á largueza costumado,<br> +Á lei serena e justa, dura chama.<br> +Pois o zelo em virtude só fundado<br> +De salvar almas da Tartarea flama<br> +Com a ágoa salutifera de Christo,<br> +Poderá por ventura ser malquisto?<br> +<br> +Quem quizesse negar tão grã verdade,<br> +Qual he o seu effeito santo e pio;<br> +Negue tambem ao sol a claridade,<br> +E certifique mais que o fogo he frio.<br> +Se o successo he contrário da vontade<br> +Nas obras que são boas, e ha desvio; <span class="pn"><a name="pag_221">{221}</a></span><br> +Está nas mãos dos homens comettellas,<br> +E nas de Deos está o successo dellas.<br> +<br> +Sei eu, e sabem todos que os futuros<br> +Verão por vós o Estado accrescentado,<br> +Serão memoria vossa os fortes muros<br> +Do Cambaico Damão bem sustendado:<br> +Da ruina mortal serão seguros,<br> +Tendo todo o alicerce seu fundado<br> +Sôbre orfãas amparadas com maridos,<br> +E pagos os serviços bem devidos.<br> +<br> +Quãmanha infamia ao Principe he perder-se<br> +Pouco do Estado seu, que inteiro herdou,<br> +Tanto por glória grande deve ter-se<br> +Se accrescentado e próspero o deixou.<br> +Nunca consentio Roma ennobrecer-se<br> +Com triumphos alguem, se não ganhou<br> +Provincia com que o Imperio s'augmentasse,<br> +Por maiores victorias qu'alcançasse.<br> +<br> +Póde tomar o vosso nome dino<br> +Damão, por honra sua clara e pura,<br> +Como ja do primeiro Constantino<br> +Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura.<br> +E tu, Rei, que no Reino Neptunino,<br> +Lá no seio Gangetico a Natura<br> +Te aposentou, de ser tão inimigo<br> +Deste Estado não ficas sem castigo.<br> +<br> +Bem viste contra ti nadantes aves<br> +Cortar a espumosa ágoa navegando;<br> +Ouviste o som das tubas, não suaves,<br> +Mas com temor horrifero soando;<br> +Sentiste os golpes asperos e graves <span class="pn"><a name="pag_222">{222}</a></span><br> +Do Lusitano braço nunca brando.<br> +Não soffreste o grão brado penetrante,<br> +Que os trovões imitava do Tonante.<br> +<br> +Mas antes dando as costas e a victoria<br> +Á Bragancez ventura não corrido,<br> +Déste bem a entender quão grande glória<br> +He de tal vencedor o ser vencido.<br> +Quem faz obras tão dignas de memoria<br> +Sempre será famoso e conhecido,<br> +Onde os altos juizos o estimarem,<br> +Qu'estes sós tẽe poder de fama darem.<br> +<br> +Não vos temais, Senhor, do povo ignaro,<br> +Tão ingrato a quem tanto faz por elle;<br> +Mas sabei qu'he signal de serdes claro<br> +O ser agora tão malquisto delle.<br> +Themistocles, da patria sua amparo,<br> +O forte e liberal Cimon, e aquelle<br> +Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo,<br> +Testimunhas serão de quanto digo.<br> +<br> +Pois ao justo Aristídes hum robusto,<br> +Votando no ostracismo costumado,<br> +Lhe disse claro assi: Porque era justo<br> +Desejava que fosse desterrado.<br> +Pachitas por fugir do povo injusto<br> +Calumnioso, dando no Senado<br> +Conta de Lesbos, qu'elle ja mandára,<br> +Se tirou co'o seu ferro a vida chara.<br> +<br> +Demosthenes, lançado das tormentas<br> +Populares, Ó Pallas! foi dizendo,<br> +Que de tres monstros grandes te contentas,<br> +Do drago e moucho, e do vil povo horrendo! <span class="pn"><a name="pag_223">{223}</a></span><br> +Que glórias immortaes houve, qu'isentas<br> +Do veneno vulgar fossem, vivendo?<br> +Pois mil exemplos deixo de Romanos,<br> +E vós tambem sois hum dos Lusitanos. +</blockquote> + + +<h3>EPISTOLA III.</h3> + +<blockquote> +<big>M</big>ui alto Rei, a quem os Ceos em sorte<br> +Derão o nome augusto e sublimado<br> +Daquelle Cavalleiro que na morte,<br> +Por Christo, foi de settas mil passado;<br> +Pois delle o fiel peito, casto e forte,<br> +Co'o nome Imperial tendes tomado,<br> +Tomae tambem a setta veneranda<br> +Que a vós o Successor de Pedro manda.<br> +<br> +Ja por ordem do Ceo, que o consentio,<br> +Tendes o braço seu, reliquia chara,<br> +Defensor contra o gladio que ferio<br> +O povo que David contar mandára.<br> +No qual, pois tudo em vós se permittio,<br> +Presagio temos, e esperança clara,<br> +Que sereis braço forte e soberano<br> +Contra o soberbo gladio Mauritano.<br> +<br> +E o que hum presagio tal agora encerra,<br> +Nos faz ter por mais certo e verdadeiro<br> +A setta, que vos dá quem he na terra<br> +Dos celestes thesouros Dispenseiro:<br> +Que as vossas settas são na justa guerra<br> +Agudas, e entrarão por derradeiro <span class="pn"><a name="pag_224">{224}</a></span><br> +(Cahindo a vossos pés povo sem lei)<br> +Nos peitos que inimigos são do Rei.<br> +<br> +Quando vossas bandeiras despregava<br> +Albuquerque fortissimo com glória<br> +Por as praias de Persia, e alcançava<br> +De Nações tão remotas a victoria;<br> +As settas embebidas, que tirava<br> +O arco Armusiano (he larga historia)<br> +Nos ares, Deos querendo, se viravão,<br> +Pregando-se nos peitos que as tiravão.<br> +<br> +O querido de Deos, por quem peleja,<br> +O ar tambem e o vento conjurado<br> +Ao atambor lhe acodem, porque veja<br> +Que o que a Deos ama, he de Deos amado:<br> +Os contrarios revéis á Madre Igreja<br> +Atroarão co'o tom do Ceo irado.<br> +Que assi deo ja favor maior que humano<br> +A Josué Hebreo, Teodosio Hispano.<br> +<br> +Pois se as settas tiradas da inimiga<br> +Corda, contra si só nocivas são,<br> +Que farão, Rei, as vossas que tẽe liga<br> +Com a que ja tocou Sebastião?<br> +Tinta vem do seu sangue, com que obriga<br> +A levantar a Deos o coração,<br> +Crendo bem que as que vós despedireis,<br> +No sangue Sarraceno as tingireis.<br> +<br> +Ascanio, (se trazer me he concedido<br> +Entre santos exemplos hum profano)<br> +Rei do Imperio, despois tão conhecido,<br> +De Roma, e só reliquia do Troiano,<br> +Vingou com setta e ânimo atrevido <span class="pn"><a name="pag_225">{225}</a></span><br> +As soberbas palavras de Numano;<br> +E logo foi dalli remunerado<br> +Com louvores de Apollo, e celebrado.<br> +<br> +Assi vós, Rei, que fostes segurança<br> +De nossa liberdade, e que nos dais<br> +De grandes bens certissima esperança;<br> +Nos costumes, e aspecto que mostrais,<br> +Concebemos segura confiança<br> +Que Deos, a quem servis e venerais,<br> +Vos fara vingador dos seus revéis,<br> +E os premios vos dará que mereceis.<br> +<br> +Estes humildes versos, que pregão<br> +São destes vossos Reinos com verdade,<br> +Recebei com benigna e Real mão,<br> +Pois he devida a Reis benignidade.<br> +Tenhão (se não merecem galardão)<br> +Favor sequer da Regia Magestade:<br> +Assi tenhais de quem ja tendes tanto,<br> +Com o nome e reliquia, favor santo. +</blockquote> + + +<h3>EPISTOLA IV.</h3> + +<blockquote> +<big>S</big>enhora, s'encobrir por algum'arte<br> +Pudera esta occasião de meu tormento,<br> +Não creias que chegára a declarar-te<br> +Este meu perigoso pensamento.<br> +Mas por mais que te offenda, não sou parte<br> +No crime de tamanho atrevimento: <span class="pn"><a name="pag_226">{226}</a></span><br> +Elle he d'amor; e delle fui forçado<br> +A que te declarasse o meu cuidado.<br> +<br> +Se merece castigo a confiança<br> +Com que descubro agora o que padeço,<br> +Aqui prompto me tens; toma a vingança<br> +Que por tão grave culpa te mereço.<br> +Bem me podes negar toda esperança,<br> +Mas eu não desistir deste comêço;<br> +Porque tempo e Fortuna não são parte<br> +Para deixar hum'hora só de amar-te.<br> +<br> +Ja que ver-te os meus olhos alcançárão,<br> +Descansem neste bem com alegria,<br> +Pois ja com ver os teus tanto ganhárão,<br> +Quanto, estando sem vê-los, se perdia.<br> +Que glória querem mais, se a ver chegárão<br> +Aquella pura luz que vence ao dia?<br> +Qual mor bem ha no mundo que querer-te,<br> +Se não ha mais que ver despois de ver-te?<br> +<br> +Minhas dores mortaes, bella Senhora,<br> +Tirárão a virtude ao soffrimento;<br> +E fazendo-se mais em qualquer hora,<br> +Levando vão traz ti meu pensamento:<br> +Porém soberbos vejo desde agora,<br> +Por a causa gentil de seu tormento,<br> +Minha alma, meu desejo, meu sentido,<br> +Porque á tua belleza se hão rendido.<br> +<br> +A par de tua rara formosura<br> +Se desconhece o mor merecimento;<br> +A tua claridade torna escura<br> +Do sol a clara luz em hum momento.<br> +Se Zeuxis ao formar bella figura, <span class="pn"><a name="pag_227">{227}</a></span><br> +A vista em ti pudera pôr attento,<br> +Mais alto original houvera achado<br> +Para admirar o mundo co'o traslado.<br> +<br> +Aquelles qu'escrevêrão mil louvores<br> +De formosura, graça e gentileza,<br> +Todos forão, Senhora, huns borradores<br> +De tua perfeitissima belleza.<br> +Agora se vê claro em teus primores<br> +Qu'em ti s'esmerou mais a natureza;<br> +E qu'erão os seus cantos prophecias<br> +Do que havias de ser em nossos dias.<br> +<br> +Vê, pois, se vinha a ser culpavel falta<br> +Em mi o não render-te amante a vida,<br> +E se deixar d'amar glória tão alta<br> +Era digno da pena mais crescida.<br> +Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta<br> +Co'o castigo de culpa assi atrevida:<br> +E quando della caia, maior glória<br> +Tera o Tejo, que o Pó, com sua historia. <span class="pn"><a name="pag_228">{228}</a></span> +</blockquote> + + +</div> + + + +<div id="oitavas"> + +<h2>OITAVAS.</h2> + + +<h3>GLOSA DO SONETO 14.</h3> + +<blockquote> +<big>D</big>espois que a clara Aurora a noite escura<br> +Com novo resplandor foi desfazendo,<br> +E Phebo por os montes e espessura<br> +Os seus dourados raios estendendo;<br> +Se buscava nos valles a verdura<br> +O manso gado a luz serena vendo,<br> +Quando a férvida sésta ja abrazava,<br> +<em>Todo animal da calma repousava.</em><br> +<br> +Ja por fugir do sol o fogo ardente,<br> +As sombras os rebanhos vão buscando;<br> +Os tenros cabritinhos juntamente<br> +Apos as mansas mães hião saltando;<br> +Tangendo as suas frautas docemente<br> +Os pastores, estavão enganando<br> +A grã chamma solar qu'então ardia;<br> +<em>Só Liso o ardor della não sentia.</em><br> +<br> +Tristes lembranças tanto o traspassavão,<br> +Que a dura sésta nelles só passava;<br> +O tempo qu'em prazer outros gastavão,<br> +Em celebrar seu mal elle o gastava;<br> +As festas que com jogos celebravão,<br> +Elle com suspirar as celebrava: <span class="pn"><a name="pag_229">{229}</a></span><br> +Nada buscava mais, mais não queria<br> +<em>Que o repouso do fogo em qu'elle ardia.</em><br> +<br> +Os repetidos jogos dos pastores,<br> +As lutas entre a rama repetidas,<br> +Em nada lhe divertem suas dores;<br> +Mas antes n'alegria as vê crescidas.<br> +Como o repouso roubão os amores<br> +Ás almas que para elles são nascidas,<br> +Elle, todo o repouso qu'esperava,<br> +<em>Consistia na Nympha que buscava.</em><br> +<br> +Com o chôro, que ja corria em fio<br> +Por o pallido rosto, augmenta as fontes,<br> +Que levão ágoa estranha ao claro rio<br> +Que os valles vai regando entre altos montes.<br> +Com suspiros a quem o ecco pio<br> +Responde de apartados horizontes,<br> +Os ventos parecia qu'enfreava,<br> +<em>Os montes parecia que abalava.</em><br> +<br> +Que ás queixas de seus doces pensamentos<br> +Se movessem os montes mais constantes,<br> +Se parassem os mais veloces ventos,<br> +Qu'estavão, que corrião circumstantes,<br> +Bem se devia á dor de seus tormentos,<br> +E inda que fosse em peitos de diamantes;<br> +Que hum peito de diamante abrandaria<br> +<em>O triste som das mágoas que dizia.</em><br> +<br> +Porém elle as dizia a outro peito,<br> +Mais, que diamante, inexpugnavel, duro:<br> +A fé lh'encarecia, a que sogeito<br> +O tinha em pena eterna o amor puro;<br> +Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito, <span class="pn"><a name="pag_230">{230}</a></span><br> +Quanto mais offendido, mais seguro:<br> +A Nympha mais segura tudo ouvia,<br> +<em>Mas nada o duro peito commovia.</em><br> +<br> +As lástimas aqui tanto crescêrão,<br> +Que s'em montes de Hircania s'escuitárão,<br> +Tigres nos seios seus mover puderão,<br> +E pedras nos seus cumes abrandárão.<br> +Mas se no peito as tristes vozes dérão<br> +Daquella fera humana que buscárão,<br> +Elle d'as admittir se retirava;<br> +<em>Que na vontade de outro pôsto estava.</em><br> +<br> +Desenganado ja da triste sorte,<br> +De que mal fino amor se desengana,<br> +Com a desperança só de sua morte<br> +Aquellas penas últimas engana.<br> +Deixando na espessura o claro Norte,<br> +Para elle de outra luz mais soberana,<br> +A hum valle aberto então sahir procura,<br> +<em>Cansado ja de andar por a espessura.</em><br> +<br> +Deixando as suas cabras que pascessem<br> +Naquelle verde prado as frescas flores;<br> +Porque os Satyros leves o soubessem,<br> +E os sylvestres Faunos amadores;<br> +Tambem porque os pastores o entendessem,<br> +Todo o processo e fim de seus amores<br> +Escreveo (sem em nada haver mudança)<br> +<em>No tronco d'huma faia por lembrança.</em><br> +<br> +Por lembrança no tronco d'huma faia,<br> +Que vai sahindo ao ceo de puro altiva<br> +Na verde, prateada e aurea praia,<br> +Por onde o claro Tejo se deriva; <span class="pn"><a name="pag_231">{231}</a></span><br> +Porque tambem ao ceo sua dor saia<br> +Sôbre aquella corrente fugitiva,<br> +Escrita no papel da natureza;<br> +<em>Escreve estas palavras de tristeza:</em><br> +<br> +Natercia, Nympha bella, por quem vivo<br> +Em tal tormento, tempo algum me olhou;<br> +Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo<br> +Daquelle brando olhar que m'enganou,<br> +O amor tornava em desamor esquivo;<br> +E d'hum tormento tal a outro passou.<br> +Em cousas tão sujeitas a mudança<br> +<em>Nunca ponha ninguem sua esperança.</em><br> +<br> +Para dar proveitosos desenganos<br> +Dos enganos que são de Amor effeitos,<br> +E dos dous sexos publicar, humanos,<br> +A origem das mudanças de seus peitos;<br> +Estas letras aqui por longos anos<br> +Digão a corações a amar sujeitos<br> +Em peito varonil, que de ventura,<br> +<em>Em peito feminil, que de natura...</em><br> +<br> +Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado<br> +Cahio ao pé da faia em qu'escrevia,<br> +Não podendo seguir o começado,<br> +Porque a alma ja do corpo lhe sahia.<br> +Tres vezes, com accento mal formado,<br> +Para exemplo futuro repetia:<br> +Amantes, entendei que a mór belleza<br> +<em>Somente em ser mudavel tem firmeza.</em> <span class="pn"><a name="pag_232">{232}</a></span> +</blockquote> + + +<h3>GLOSA DO SONETO 194.</h3> + +<blockquote> +<em><big>C</big>á nesta Babylonia adonde mana</em><br> +Hypocrisia, engano e falsidade;<br> +Cá donde ousada toda carne humana<br> +A todo arbitrio vive da vontade;<br> +Cá donde enrouqueceo da Lusitana<br> +Musa o furor heroico e suavidade;<br> +Cá donde se produz por cega via<br> +<em>Materia a quanto mal o mundo cría</em>;<br> +<br> +<em>Cá donde o puro Amor não tẽe valia</em>,<br> +Porque Baccho o tẽe hoje desterrado;<br> +Cá donde a frecha d'ouro não feria,<br> +Senão cabello preto e alfenado;<br> +Cá donde a loura trança não se via,<br> +Nem o rosto de sangue matizado;<br> +Cá donde nada val a glória humana,<br> +<em>Que a mãe, que manda mais, tudo profana</em>;<br> +<br> +<em>Cá donde o mal se affina, o bem se dana</em>,<br> +Se algum a terra em si quer produzir;<br> +Cá donde a falsa gente Mahometana<br> +A glória toda funda em adquirir;<br> +Cá donde multiplica a mão tyrana,<br> +Professa em mais crescer, matar, mentir;<br> +Cá donde o fazer bem he villania,<br> +<em>E póde mais que a honra a tyrannia</em>;<br> +<br> +<em>Cá donde a errada e cega Monarchia</em><br> +De fabulosas leis está vivendo,<br> +E á fôrça d'hum amor engrandecia<br> +O nefando Alcorão em qu'está crendo; <span class="pn"><a name="pag_233">{233}</a></span><br> +Cá donde nada val a Poesia,<br> +E s'está da lei della escarnecendo;<br> +Cá donde a fidalguia Mahometana<br> +<em>Cuida qu'um nome vão a Deos engana.</em><br> +<br> +<em>Cá nesta Babylonia, onde a Nobreza</em><br> +Da Lusitana gente se perdeo;<br> +E do grão Sebastião toda a grandeza<br> +Irreparavelmente se abateo;<br> +Cá donde algum mentir não he baixeza,<br> +E os meritos esmola (assi cresceo<br> +Da cobiça mortal a semrazão)<br> +<em>Co'o esfôrço e saber, pedindo vão.</em><br> +<br> +<em>Ás portas da cobiça e da vileza</em><br> +Estes netos de Agar estão sentados<br> +Em bancos de torpissima riqueza,<br> +Todos de tyrannia marchetados.<br> +He do feio Alcorão summa a largueza<br> +Que tẽe para que sejão perdoados<br> +De quantos erros commettendo estão<br> +<em>Cá neste escuro cáos de confusão.</em><br> +<br> +<em>Cumprindo o curso estou da natureza</em>,<br> +Illustre Dama, neste labyrintho;<br> +Mas quem usa comigo mais crueza,<br> +He tua condição, que n'alma sinto.<br> +Acabe-se algum dia tal tristeza,<br> +E este sentido mal qu'em versos pinto:<br> +E pois n'alma he sentido e coração,<br> +<em>Ve se m'esquecerei de ti, Sião.</em> <span class="pn"><a name="pag_234">{234}</a></span> +</blockquote> + + +<h3>A SANTA URSULA.</h3> + +<blockquote> +<big>D</big>'huma formosa virgem desposada,<br> +Que d'outras onze mil, tambem formosas,<br> +Entrou no claro Olympo acompanhada,<br> +Com corôas de lyrios e de rosas;<br> +De Christo Esposo seu tão namorada,<br> +Que delle as quiz fazer todas esposas;<br> +Amor, vida e martyrio cantar quero,<br> +Fiado no favor que della espero.<br> +<br> +Alcança, Ursula bella, (que diante<br> +De tão bello esquadrão foste por guia)<br> +De teu suave Amor, que de ti cante<br> +O seu amor que no teu peito ardia.<br> +Meu verso para ti mais se levante,<br> +Ó Christifera, ó heroica companhia;<br> +Tanto se mostre aqui mais soberano,<br> +Quanto o divino Amor excede o humano.<br> +<br> +E vós, unica Mãe e Virgem pura,<br> +Pois sois das que tal ordem escolhêrão,<br> +Que fostes, sois, sereis guarda segura<br> +Da pureza que a Deos offerecêrão;<br> +Neste canto me dae melhor ventura<br> +Do que atégora as Musas vãas me derão:<br> +Vossas servas serão de mi servidas,<br> +Cantadas suas mortes, suas vidas.<br> +<br> +Serenissima Infante, produzida<br> +Do grão Tronco Real, sublime Planta;<br> +No titulo, nas obras e na vida, <span class="pn"><a name="pag_235">{235}</a></span><br> +Retrato natural de Ursula Santa,<br> +Desta virgem, tambem de Reis nascida,<br> +Ouvi com ledo rosto o que se canta;<br> +Dae o sentido hum pouco a tal sogeito:<br> +Não lhe tire seu preço o meu defeito.<br> +<br> +No tempo que Ciriáco se sentava<br> +Na Cadeira de Pedro pescador,<br> +De que com sãa doutrina apascentava<br> +As Ovelhas de Christo, Bom Pastor;<br> +Teve Bretanha hum Rei, que professava<br> +A Lei que deo no mundo o Redemptor,<br> +Justo e temente ao Ceo, pio e devoto,<br> +Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto.<br> +<br> +De virtudes hum novo exemplo e raro,<br> +Em idade e belleza florecia<br> +Ursula, por quem Noto era mais claro,<br> +Que por todo o poder que possuia;<br> +Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro,<br> +Com quem todas as graças repartia;<br> +Prudente, honesta e docta a maravilha,<br> +De tão ditoso pae ditosa filha.<br> +<br> +Aquella que por o ar com ligeireza<br> +As pennas de mil azas abre e cerra,<br> +E que com velocissima presteza<br> +Com outros tantos pés corre por terra;<br> +Aquella, que de sua natureza<br> +Não cuida em quanto diz se acerta ou erra,<br> +E d'huma em outra boca se derrama:<br> +Aquella, emfim, a quem chamamos Fama;<br> +<br> +Hia por todo o mundo divulgando<br> +Extremos desta virgem soberana, <span class="pn"><a name="pag_236">{236}</a></span><br> +Aquella formosura celebrando<br> +Com que Amor cego a tanta vista engana:<br> +Mais hia a d'alma sua publicando,<br> +Porqu'era mais divina do que humana:<br> +Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto,<br> +Qu'em huns criava amor, n'outros espanto.<br> +<br> +Ouvidos seus louvores, muitas vezes<br> +Desejou desta virgem fazer nora<br> +Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes,<br> +Idolatras então, cegos agora.<br> +Ó povo cego e leve! as torpes fezes<br> +Aparta do ouro puro e lança fóra,<br> +Torna-te ao teu pastor, perdido gado!<br> +Ólha que vás sem elle mal guiado.<br> +<br> +Hum filho deste Rei (de quem dizia<br> +Que ser de Ursula sogro desejava)<br> +Movido do rumor que della ouvia,<br> +Ja dentro no seu peito a namorava.<br> +Alli seu amor, delle, lhe offrecia;<br> +Alli por o amor della suspirava.<br> +Suspira elle por ella; ella suspira<br> +Tambem por outro amor que nunca vira.<br> +<br> +Mandou o Rei Inglez Embaixadores<br> +Com pompa Regia e lustre sumptuoso,<br> +(Do grande Reino seu grandes Senhores)<br> +A Noto, Rei não tanto poderoso.<br> +Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores<br> +Ardia toda do celeste Esposo)<br> +Para esposa do filho, que sabia<br> +Que ja d'amores della todo ardia.<br> +<br> +O Rei Bretão se achava descontente <span class="pn"><a name="pag_237">{237}</a></span><br> +Com a nova embaixada de Inglaterra:<br> +Receia que se nella não consente,<br> +O gentio lhe mova cruel guerra:<br> +Porque sendo mais rico e mais potente,<br> +Assi no largo mar, como na terra,<br> +Quando desprezos visse de seu rôgo,<br> +Podia pôr Bretanha a ferro e fogo.<br> +<br> +Sôbre este não errado pensamento<br> +Do medo de perder seu senhorio,<br> +Novo discurso tinha e novo intento,<br> +Com que se achava mais medroso e frio.<br> +Estranhava o fazer ajuntamento<br> +Da catholica filha co'hum gentio;<br> +Pois nem a Lei de Christo o permittia,<br> +Nem Ursula fiel o admittiria.<br> +<br> +Estando o pae em tal angústia pôsto,<br> +Divinamente a filha ja inspirada,<br> +Lhe assegurava com sereno rosto<br> +Que consentir podia na embaixada;<br> +Dizendo que se o Inglez levava gôsto<br> +D'ella com seu herdeiro ser casada,<br> +Primeiro lhe mandasse dez donzellas,<br> +Do Reino as mais illustres, as mais bellas.<br> +<br> +Que mil daria a cada virgem destas,<br> +E que a ella outras mil tambem daria,<br> +Todas de claro sangue, e em vista honestas.<br> +(Dest'arte a conta de onze mil fazia)<br> +Que por trez annos dilação nas festas,<br> +Além do ja pedido, lhe pedia;<br> +E naos e mantimentos, porque todas<br> +Fossem com ella a Roma antes das bodas. <span class="pn"><a name="pag_238">{238}</a></span><br> +<br> +Alli sua pureza e virgindade<br> +Queria com solemne e sacro voto<br> +Consagrar á divina Potestade,<br> +Que o ceo e a terra fez de proprio moto.<br> +E que deixasse a vãa gentilidade<br> +Seu filho, para genro ser de Noto,<br> +Para que neste espaço doutrinado<br> +Fosse na Fé de Christo, e baptizado.<br> +<br> +Com estas condições Ursula disse<br> +Ao charo pae, que, a ser dellas contente,<br> +Podia responder; e despedisse<br> +A proposta daquelle Rei potente:<br> +Ou porque ouvindo-as elle desistisse,<br> +Podendo-se acceitar difficilmente;<br> +Ou porque, quando as virgens concedesse,<br> +Comsigo a seu Senhor onze mil désse.<br> +<br> +Oh Divino saber, quão soberano<br> +Conselho he sempre o teu! quão remontado!<br> +Oh quanto o mor saber te cede humano,<br> +Por mais que de razões vá mais ornado!<br> +Ja dos idolos deixa o cego engano<br> +O Principe, da virgem namorado;<br> +Ja terno pede ao pae quanto ella pede;<br> +Ja o pae quanto lhe roga lhe concede.<br> +<br> +Ja para ti, ó virgem bella e branda,<br> +Com huma singular velocidade,<br> +Juntar se via d'huma e d'outra banda<br> +De feminil nobreza tenra idade.<br> +As naos apparelhar o Rei ja manda;<br> +Ja nellas se recolhe a Virgindade; <span class="pn"><a name="pag_239">{239}</a></span><br> +Ja dão para Bretanha ao vento velas.<br> +O coração do noivo vai com ellas.<br> +<br> +Ja vem a tomar porto onde esperava<br> +Ursula alvoroçada em grã maneira;<br> +Que para as receber alli se achava,<br> +Como senhora não, mas companheira.<br> +Quão falsa era a Lei dellas lhes mostrava,<br> +A de Christo quão pura e verdadeira.<br> +Ja se baptiza huma e outra Dama;<br> +Damas Ursula ja do ceo lhes chama.<br> +<br> +A Fama, que não sabe repousar,<br> +Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha;<br> +A gente que concorre não tẽe par,<br> +Por ver a nunca vista maravilha.<br> +Outros vem por servir e acompanhar<br> +A Virgem de Rei nora, de Rei filha.<br> +Movem-se muitos Bispos de Bretanha;<br> +Pantalo em vida e morte os acompanha.<br> +<br> +Por ti, deixando o Reino, co'a familia<br> +E quatro filhas suas, s'embarcou,<br> +Juliana, Victoria, Aurea, Babilia;<br> +(Hum filho tinha mais que mais levou)<br> +Gerasina, Rainha de Sicilia,<br> +E com devido amor te acompanhou;<br> +Qu'he justo que comtigo vão Rainhas,<br> +Quando tu para o Rei dos Reis caminhas.<br> +<br> +Ja se partem as bellas peregrinas,<br> +As mãos ao claro Empyreo levantadas;<br> +Ja rompem, ja, por ondas crystallinas<br> +As naos de formosura carregadas.<br> +Quando, dizei, ó ágoas Neptuninas, <span class="pn"><a name="pag_240">{240}</a></span><br> +Fostes de tal belleza navegadas?<br> +Nunca, despois que a terra descobristes,<br> +A tal frota por vós caminho abristes.<br> +<br> +Com vento sempre igual, com mar bonança,<br> +Sem perigos alguns, sem algum pejo,<br> +Ceyla forão tomar, porto de França,<br> +Onde pouca demora fazer vejo.<br> +O coração da virgem não descança,<br> +Saudosa do fim de seu desejo;<br> +Manda que levem ferro, soltem linho<br> +Que leve por o mar o negro pinho.<br> +<br> +O vento nova posse vai tomando<br> +Das virgens que lhe são encommendadas:<br> +Com tal prosperidade vão voando,<br> +Que ja deixão atraz ondas salgadas:<br> +Ja nas doces do Rheno estão entrando,<br> +Onde tẽe suas vidas limitadas:<br> +Huma cidade vem á lingua da ágoa,<br> +Que de vê-las morrer não teve mágoa.<br> +<br> +Ah Colonia cruel, que não t'encobres<br> +A tão formosos olhos, que seguros<br> +As altas tôrres vião que descobres,<br> +Lustrosos edificios, fortes muros!<br> +Permitte o largo Ceo que fama cobres<br> +De ser tão dura mãe de peitos duros?<br> +Duros peitos, que a tantos, limpos de êrro<br> +Virão abrir sem dor com impio ferro!<br> +<br> +Estando neste porto a bella Armada<br> +Tomando o necessario mantimento,<br> +Para poder seguir sua jornada,<br> +E dar terceira vez o treu ao vento; <span class="pn"><a name="pag_241">{241}</a></span><br> +Sendo parte da noite ja passada,<br> +A virgem lá no seu retrahimento,<br> +Quando estava dormindo toda a frota,<br> +A Christo orou assi, branda e devota:<br> +<br> +Amor, divino Amor, Amor suave,<br> +Amor, que amando vou toda rendida;<br> +Com quem não ha na vida pena grave,<br> +Sem quem glória real não ha na vida;<br> +Amor, que do meu peito tens a chave,<br> +Amor, de cujo amor ando ferida,<br> +Quando verei, Amor, o que desejo,<br> +Para que veja, Amor, o que não vejo?<br> +<br> +Amor, que d'amor cheio e de brandura,<br> +D'amor enches est'alma saudosa;<br> +Amor, sem cujo amor e formosura,<br> +Não póde nunca haver cousa formosa;<br> +Amor, com cujo amor anda segura<br> +Huma vida tão fraca e duvidosa,<br> +Quando verei, Amor, o que desejo,<br> +Para que veja, Amor, o que não vejo?<br> +<br> +Amor, que por amor te dispuzeste<br> +A restaurar o mundo errado e triste;<br> +Amor, que por amor do ceo desceste;<br> +Amor, que por amor á Cruz subiste;<br> +Amor, que por amor a vida déste;<br> +Amor, que por amor a glória abriste,<br> +Quando verei, Amor, o que desejo,<br> +Para que veja, Amor, o que não vejo?<br> +<br> +Amor, que mais e mais sempre te augmentas<br> +No coração que lá comtigo trazes;<br> +Amor, que d'amor puro te sustentas <span class="pn"><a name="pag_242">{242}</a></span><br> +No fogo em que tu mesmo arder me fazes;<br> +Amor, que sem amor não te contentas,<br> +De tudo com amor te satisfazes,<br> +Quando verei, Amor, o que desejo,<br> +Para que veja, Amor, o que não vejo?<br> +<br> +Amor, que com amor me captivaste;<br> +(Se livre póde ser quem não captivas)<br> +Amor, qu'em taes prisões m'asseguraste<br> +As esperanças d'antes fugitivas:<br> +Amor, que suspirando m'ensinaste<br> +A derramar por ti lagrimas vivas,<br> +Quando verei, Amor, o que desejo,<br> +Para que veja, Amor, o que não vejo?<br> +<br> +Quando verei hum dia em que offereça<br> +Por ti ao cruel ferro o peito forte,<br> +E cercada de virgens appareça<br> +Na tua soberana e eterna Corte;<br> +Onde lá cada huma te mereça,<br> +Cá passando comigo a propria morte;<br> +E todas dando o sangue juntas, todas<br> +Celebremos comtigo eternas bodas?<br> +<br> +Faze-me ja, Senhor, esta vontade<br> +Que tenho de te ver, que sempre tive,<br> +Des que me deo lugar a tenra idade,<br> +E lume de razão nesta alma vive.<br> +Não queiras, meu Amor, que a saudade<br> +Sem tal bem a mi só da vida prive;<br> +Que se muito se alarga este destêrro,<br> +Por ella irei a ti, não por o ferro.<br> +<br> +Desata o meu espirito saudoso,<br> +Do nó mortal em que se vai detendo, <span class="pn"><a name="pag_243">{243}</a></span><br> +Primeiro que tres vezes pressuroso<br> +O sol os doze Signos vá correndo.<br> +Espaço he que tomei, meu doce Esposo,<br> +Para outro esposo meu ir entretendo:<br> +Mas a meu amor crendo, de ti creio<br> +Que acabes com a vida o meu receio.<br> +<br> +Inda neste fervente e justo rôgo<br> +Ursula suspirando procedia,<br> +Quando d'hum resplandor como de fogo<br> +Divina voz ouvio, que assi dizia:<br> +Ó virgem, que soubeste fazer jôgo<br> +Do que no mundo tẽe maior valia,<br> +Entende que da volta que fizeres,<br> +Aqui quero que seja o que tu queres.<br> +<br> +Tanto que tal resposta do Ceo teve,<br> +Não quiz do que esperava perder hora:<br> +Ja lhe parece larga a noite breve,<br> +E que ja tarda muito a bella aurora.<br> +Em descobrindo Apollo o carro leve,<br> +Do porto de Colonia sahio fóra.<br> +Ja Basilêa em breve tempo toma:<br> +E a pé d'alli partirão para Roma.<br> +<br> +O Pastor summo, Ciriáco santo,<br> +As sahe a receber, e as acompanha<br> +Com gôzo espritual, com grande espanto<br> +De ver em tal idade fé tamanha.<br> +Dizer se póde mal, mal cuidar quanto<br> +Se goza o Real sangue de Bretanha,<br> +Os veneraveis Templos visitando<br> +Daquelles que tambem foi imitando.<br> +<br> +Na propria noite deste proprio dia <span class="pn"><a name="pag_244">{244}</a></span><br> +Que Roma ver as virgens mereceo,<br> +A quem de Pedro a Barca então regía<br> +Revelou o que rege a terra e ceo<br> +Que martyrio tambem receberia<br> +Onde Ursula co'as mais o recebeo:<br> +Deixa contente o grão Pontificado,<br> +Desejoso de ser martyrizado.<br> +<br> +Por mais que todo o Clero soffre mal<br> +Mover-se por aquellas Estrangeiras,<br> +Movido da Vontade divinal<br> +O bom Pastor se vai com as Cordeiras.<br> +Hum Arcebispo leva, hum Cardeal:<br> +Tres Bispos deixão vagas tres Cadeiras,<br> +De Luca, Ravicana e de Ravenna:<br> +Mauricio me ficava ja na penna.<br> +<br> +Despois de n'ágoa entrar, donde sahírão,<br> +Com tão formoso sol tantas estrellas,<br> +Ja as ancoras debaixo acima tirão,<br> +E de cima ja abaixo soltão vellas.<br> +Estas naos lá adiante outras naos vírão,<br> +Que fazendo-se vem na volta dellas;<br> +Conhecêrão-se logo as duas frotas:<br> +Ambas d'hum Reino são, ambas devotas.<br> +<br> +Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra,<br> +Vinha de Ursula bella o bello esposo,<br> +Que reinar não queria ja na terra,<br> +Do ceo ja namorado e saudoso.<br> +Do seu primeiro amor venceo a guerra<br> +A fôrça d'outro amor mais poderoso:<br> +Amando ja em seu Deos a esposa bella,<br> +Para o poder achar, buscava a ella. <span class="pn"><a name="pag_245">{245}</a></span><br> +<br> +A mãe, ja convertida, traz comsigo;<br> +O pae, ja Christão feito, fallecêra,<br> +Com que soube evitar o grão castigo<br> +Que, morrendo Gentio, não soubera.<br> +Amor celeste, como aqui não digo<br> +O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!)<br> +Por meio d'huma virgem foste meio<br> +Com que gente copiosa a Christo veio.<br> +<br> +Vinha mais nesta nova companhia<br> +Florencia, irmãa do Rei, da mãe cuidado;<br> +Florencia, qu'em belleza florecia,<br> +Como flor em jardim bem cultivado.<br> +Tambem a frota Bispos dous trazia,<br> +Hum Marcello, Clemente outro chamado:<br> +O primeiro ja em Grecia bago teve;<br> +Do segundo o Bispado não s'escreve.<br> +<br> +Outra Virgem viuva alli mais vinha,<br> +Que desposada sendo em tenra idade,<br> +Antes das bodas enviuvado tinha,<br> +E promettida a Christo a castidade.<br> +Esta do mesmo Rei era sobrinha,<br> +Filha da Imperatriz da grã cidade,<br> +Onde por culpa nossa, ou pouca dita,<br> +Seu throno agora tẽe o fero Scita.<br> +<br> +Estes, que adverte repetida historia<br> +Deixárão só por Deos altos Estados,<br> +Com outros, de que he menos a memoria,<br> +Forão divinamente amoestados<br> +Que todos, para entrar juntos na glória,<br> +Ao côro virginal fossem juntados, <span class="pn"><a name="pag_246">{246}</a></span><br> +Com quem na terra Martyres serião,<br> +E no ceo para sempre reinarião.<br> +<br> +Sería estranho o gôzo que sentírão<br> +Aquellas bem nascidas almas santas,<br> +Quando juntas alli todas se vírão<br> +De partes tão remotas, e de tantas.<br> +Sem estorvos, que d'antes o impedírão,<br> +As duas, mais que todas, bellas plantas<br> +Alli abraços se dão sem algum pejo,<br> +Ambas conformes ja n'hum só desejo.<br> +<br> +Alli faria o Rei acatamento<br> +A quem deixou da Barca o grão govêrno;<br> +E elle, conforme a seu merecimento,<br> +Responderia com amor paterno.<br> +Não faltaria em tal recebimento<br> +Prazer exterior, prazer interno;<br> +Inda que nos estados differentes,<br> +Todos serião huns em ser contentes.<br> +<br> +O vento as brancas velas não enchia,<br> +Corria o frio Rheno então mais quedo;<br> +Antes para Colonia não corria,<br> +Porque as virgens não fossem lá tão cedo.<br> +Parece que ja claro conhecia<br> +(Oh côro virginal, sereno e ledo!)<br> +Que lá vos esperava a impia morte.<br> +Agora, ó Musa, conta de que sorte.<br> +<br> +Aquelle que na fórma de serpente<br> +Deixou aos dous primeiros enganados,<br> +Invejoso de ver que tanta gente<br> +Se convertia á Lei dos Baptizados;<br> +No caração entrou manhosamente <span class="pn"><a name="pag_247">{247}</a></span><br> +De dous gentios Principes damnados,<br> +Da soberba Romãa Cavaleria,<br> +Por encurtar a Fé que s'estendia.<br> +<br> +A Fama os assegura com certeza<br> +Que a virgem a Colonia ja voltava,<br> +Com toda a casta juvenil belleza<br> +Que por amor do Ceo peregrinava.<br> +Fizerão avisar com grã presteza<br> +A hum parente, que Julio se chamava,<br> +Soberbo Capitão dos Hunnos feros;<br> +Que todos para todas forão Neros.<br> +<br> +Eis logo o cego Principe gentio,<br> +Com gente innumeravel de seu mando,<br> +A praia a tomar vem do mesmo rio<br> +Por onde as virgens vinhão navegando.<br> +Ja descobrem aquelle, este navio<br> +Os qu'estão do mais alto atalaiando:<br> +Ás armas veloz corre o bruto povo,<br> +Por de novo as tingir no sangue novo.<br> +<br> +Vindo a frota a surgir junto do muro,<br> +Onde lhe parecia estar segura,<br> +(Oh virgens que buscais? lugar seguro<br> +Adonde vos espera a sepultura!)<br> +Entra com mão armada o povo duro<br> +Por esta peregrina formosura:<br> +Ja começa a provar os aços fortes;<br> +Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes.<br> +<br> +Ja nu todas as virgens offrecião<br> +O delicado collo, o tenro peito:<br> +Era para caber quantas cahião,<br> +Todo largo lugar lugar estreito. <span class="pn"><a name="pag_248">{248}</a></span><br> +Do puro sangue os rios que corrião,<br> +Outro vermelho mar ja tinhão feito.<br> +Tu só, Córdula, á morte t'escondeste;<br> +Mas despois a buscaste e recebeste.<br> +<br> +Ciriáco o primeiro, bem constante,<br> +A vida ao ferro offrece sem espanto:<br> +O moço Rei Inglez cahio diante<br> +Daquelles castos olhos que amou tanto.<br> +Espera, brando esposo, hum breve instante;<br> +Espera a tua doce esposa, em tanto<br> +Que outro Amor outro golpe lhe prepara;<br> +E juntos entrareis na Patria chara.<br> +<br> +Em qual terra, ó crueis, em qual cidade,<br> +Entre quaes gentes mais a furor dadas,<br> +Se não usou d'amor e de piedade<br> +Com formosas donzellas desarmadas?<br> +Como belleza tanta e tal idade<br> +Vos deixou arrancar vossas espadas?<br> +Ah lobos carniceiros, tigres bravos,<br> +Filhos da crueldade, d'ira escravos!<br> +<br> +De quantos animaes sustenta a terra<br> +Nunca tanta crueza foi usada;<br> +Inda que tenhão huns com outros guerra,<br> +Nunca do macho a femia he lastimada:<br> +Anda a cerva co'o cervo por a serra,<br> +A novilha do touro acompanhada,<br> +Á leoneza o leão defender preza:<br> +Vós sós quebrais as leis da natureza?<br> +<br> +Puderão outros olhos por ventura<br> +De lagrimas divinas escusar-se,<br> +Vendo, cuberta ja de névoa escura, <span class="pn"><a name="pag_249">{249}</a></span><br> +A luz de tantos bellos apagar-se?<br> +Vendo a purpurea rosa, a cecem pura<br> +Em tão formosas faces descorar-se?<br> +As tranças d'ouro vendo, espedaçadas,<br> +Por debaixo dos pés andar pizadas?<br> +<br> +Na fôrça desta furia accesa e brava<br> +O Tyranno cruel a vista ergueo<br> +Á virgem, qu'invencivel animava<br> +As almas que juntára para o Ceo.<br> +Assi ja envolta em sangue como andava,<br> +Da sua formosura se venceo;<br> +E com doces razões, que Amor ensina,<br> +A vencê-la d'amor se determina.<br> +<br> +Fingindo se arrepende do passado,<br> +(E de fingi-lo se arrepende azinha)<br> +Sua vida lhe offrece e seu Estado,<br> +Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha.<br> +O seu amor lhe pede confiado;<br> +O seu amor que dado a seu Deos tinha:<br> +Pede-lhe o seu amor; antes não seu,<br> +Porque ja dado o havia a quem lho deu.<br> +<br> +Usa de mil lisonjas, mil enganos,<br> +Por conseguir o seu desejo bruto.<br> +A flor logra (dizia) de teus anos,<br> +Colhe d'essa belleza o doce fruto:<br> +Não dês materia nova a novos danos,<br> +Não pagues verde á morte o seu tributo:<br> +Olha que tens em mi (não são cautelas)<br> +Outro Reino, outro esposo, outras donzelas.<br> +<br> +Não faças mentirosa a natureza<br> +Que dá d'amor em ti grande esperança. <span class="pn"><a name="pag_250">{250}</a></span><br> +Que se póde alcançar d'essa belleza,<br> +Se ja piedade della não s'alcança?<br> +Aos tigres, aos leões deixa a braveza,<br> +E deixa aos meus soldados a vingança.<br> +Se por ver-me cruel queres ser crua,<br> +Ja te vingas de mi em cousa tua.<br> +<br> +Volve esses olhos ja com mais brandura;<br> +Esses olhos, d'Amor doce morada:<br> +Delles não faça em mi a formosura,<br> +O qu'em tantos ja fez a minha espada.<br> +Se queres derribar minha ventura,<br> +Que delles estar vejo pendurada,<br> +Acabarei de ver quão pouca tenho,<br> +Pois donde a matar vim a morrer venho.<br> +<br> +Como do rôgo meu não te aproveitas,<br> +Quando o teu risco a me rogar te obriga?<br> +Ou não conheces bem a quem engeitas,<br> +Ou m'engeitas por mais que seja e diga.<br> +Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas?<br> +Mais proprio era chamar-te dura imiga.<br> +Mas não consente Amor nome tão duro<br> +Em parecer tão brando e tão seguro.<br> +<br> +Os raios desses olhos ja serenos<br> +Enxuguem desse rosto as puras rosas;<br> +O triste suspirar ja sôe menos<br> +Nestas concavidades saudosas.<br> +Não fação grande mal males pequenos;<br> +Que não soffre esperanças vagarosas<br> +Quem anda costumado em seus amores<br> +A medir por seu gôsto seus favores.<br> +<br> +Que gôsto podes ter de maltratar-me, <span class="pn"><a name="pag_251">{251}</a></span><br> +Vendo-me do passado arrependido?<br> +Attenta que mais ganhas em ganhar-me,<br> +Do que neste destrôço tens perdido.<br> +Se queres insistir em desprezar-me,<br> +Ver-me-has, sôbre amoroso, enfurecido.<br> +Não me declaro mais, porque não quero<br> +Que o medo faça o que d'amor espero.<br> +<br> +Ah perfido amador! deixa o teu êrro.<br> +Não vês quanto enganado e cego andas?<br> +Aquella a quem não vence o duro ferro,<br> +Como a podem vencer palavras brandas?<br> +Manda a sua alma ja deste destêrro,<br> +Com essas que a seu doce Esposo mandas.<br> +Não a detenhas mais em teus amores,<br> +Se dobrar-lhe não queres suas dores.<br> +<br> +Vendo o cruel, emfim, que o que dizia,<br> +Tomava a bella virgem por affronta,<br> +E que quanto d'amor mais se accendia,<br> +Ella delle fazia menos conta;<br> +No concavo arco que na mão trazia,<br> +Huma setta embebeo d'aguda ponta,<br> +E o peito lhe passou de banda a banda.<br> +Assi rendeo o esprito a virgem branda.<br> +<br> +Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza;<br> +As azas abre ja, ja a luz derrama;<br> +Vôa com desusada ligeireza<br> +Onde o teu Bem t'espera, onde te chama.<br> +Verás baixa do mundo a mór alteza;<br> +Verás qu'engana mais a quem mais ama;<br> +E lá do teu Amor, cá suspirado,<br> +O fructo colherás tão desejado. <span class="pn"><a name="pag_252">{252}</a></span><br> +<br> +Em paz te vae, ó alma pura e bella,<br> +Mais bella inda no sangue que verteste;<br> +Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella<br> +Formosa Região, alta e celeste.<br> +Coroada de glória immortal, nella<br> +Com Christo lograrás, a quem te déste<br> +Com tantas e tão bem nascidas almas,<br> +(Formosura do Ceo) onze mil palmas. +</blockquote> + +</div> + + + +<p> <span class="pn"><a name="pag_255">{255}</a></span></p> + +<div id="comedias"> +<h1>COMEDIAS.</h1> + +<h2>INTERLOCUTORES.</h2> + +<h3>DO PROLOGO.</h3> + +<p class="ni">O M<small>ORDOMO</small>, ou D<small>ONO DA</small> +C<small>ASA</small>.<br> +M<small>ARTIM</small> C<small>HINCHORRO</small>.<br> +A<small>MBROSIO</small>, Escudeiro.<br> +L<small>ANÇAROTE</small>, Moço.</p> + +<h3>DA COMEDIA.</h3> + +<p class="ni">E<small>L</small>R<small>EI</small> S<small>ELEUCO</small>.<br> +A R<small>AINHA</small> E<small>STRATONICA.</small><br> +O P<small>RINCIPE</small> A<small>NTIOCHO.</small><br> +L<small>EOCADIO</small>, Pagem do Principe Antiocho.<br> +F<small>ROLALTA</small>, Criada da Rainha Estratonica.<br> +H<small>UM</small> P<small>ORTEIRO DA</small> C<small>ANA.</small><br> +H<small>UMA</small> M<small>OÇA DA</small> C<small>AMARA.</small><br> +H<small>UM</small> P<small>HYSICO</small>, ou M<small>EDICO</small>.<br> +S<small>ANCHO</small>, Moço do Physico.<br> +A<small>LEXANDRE DA</small> F<small>ONSECA</small>, hum dos Musicos.</p> + + +<h1>ELREI SELEUCO.</h1> + +<h3>COMEDIA.</h3> + +<h2>PROLOGO.</h2> + +<p class="inst_cena"><em>Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa.</em></p> + +<p class="ni"><big>E</big>is, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival +noite, me quiz representar huma Farça; e diz, que por não se encontrar com +outras ja feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo +assi arrazoado satisfazer. E diz que quem se della não contentar, querendo +outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da +Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do +Boticario; e não lhe faltará que conte. Porém diz o Autor que usou nesta +obra da maneira de Isopete. Ora quanto á obra, se não parecer bem a todos, o +Autor diz que entende della menos que todos os que lha puderem emendar. +Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que responde com hum dito de +hum Philosopho, que diz: <em>Vós outros estudastes para praguejar, e eu para +desprezar praguentos?</em> Eu com tudo quero saber da Farça, em que ponto vai. +Lançarote? <span class="pn"><a name="pag_256">{256}</a></span></p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Senhor.</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>São ja chegadas as figuras?</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida.</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Como assi?</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com friza, nem talão de +çapato, que não sahisse fóra do couce. Ora vierão huns embuçadetes, e +quizerão entrar por fôrça; ei-lo arrancamento na mão: derão huma pedrada +na cabeça ao Anjo, e rasgárão huma meia calça ao Ermitão; e agora diz o +Anjo que não ha de entrar, até lhe não darem huma cabeça nova, nem o +Ermitão até lhe não pôrem huma estopada na calça. Este pantufo se perdeo +alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que não quero nada do +alheio.</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Se elle fôra outra peça de mais valia, tu botáras a consciencia pela +porta fóra, para o metteres em tua casa.</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Oh! se o elle fôra, mais consciencia sería torná-lo a seu dono, quem o +havia mister para si.</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Ora vem cá: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos cá +Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê para cá, e que traga comsigo +o Senhor Romão d'Alvarenga, para que sôbre <span class="pn"><a +name="pag_257">{257}</a></span> o Canto-chão botemos nosso contraponto de +zombaria. Ouves, Lançarote? ir-lhe-has abrir a porta do quintal, porque +mudemos o vinte aos que cuidão de entrar por fôrça.</p> + +<p class="inst_cena"><em>Indo-se o Moço diz:</em></p> + +<p>Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma bolsa +com hum par de reales, que são bons para Escudeiro hypocrita; que são pouco, +e valem muito?</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Moço, que estás fazendo que não vás?</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fôra aquelle +tempo, em que corrião as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para humas +palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste?</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dirá.</p> + +<p class="inst_cena"><em>Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moço, e +diz o Mordomo:</em></p> + +<p>Não ha mais mao conselho, que ter hum villão destes mimoso, porque logo +passão o pé além da mão, e zombão assi da gravidade de seu amo. Mas +tornando ao que importa; vossas mercês he necessario que se cheguem huns para +os outros, para darem lugar aos outros Senhores que hão de vir; que de outra +maneira, se todo o corro se ha de gastar em <span class="pn"><a +name="pag_258">{258}</a></span> palanques, será bom mandar fazer outro +alvalade; e mais, que me hão de fazer mercê, que se hão de desembuçar, +porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer mal: este só desgôsto +tẽe hum Auto, que he como offício de Alcaide; ou haveis deixar entrar a +todos, ou vos hão de ter por villão ruim.</p> + +<p class="inst_cena"><em>Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro +Ambrosio, e diz:</em></p> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>Entre v. m.</p> + +<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p> + +<p>Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou diante. +Beijo as mãos a v. m. A verdade he esta, passear em casa juncada, fogueira com +castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; além disto Auto para esgaravatar +os dentes: esta he a vida, de que se ha de fazer consciencia.</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Senhor, o descanso dizem lá, que se ha de ter em quanto homem puder, porque +os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu nome he.</p> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho +traz mais somno comsigo que huma prégação comprida.</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Senhor, por bom mo vendêrão, e eu o tomei á cala de sua boa fama. E se +tal he, eu acho que, por outra parte, não ha tal vida, como ouvir hum villão, +que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que <span class="pn"><a +name="pag_259">{259}</a></span> huma pera-pão, e huma donzella, que vem podre +de amor, fallando como Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.</p> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>Para estes taes he grande peça rapaz travesso com mólho de junco, porque +não andem mais ao coscorrão, mais roucos que huma cigarra, trazendo de si +enfadamento.</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>O lá Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro. Ora +sus, ha hi quem dê mais? que ainda vos veja todas a mim ás rebatinhas: ora +sus, venhão de mano em mano, ou de mana em mana.</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Moço, falla bem ensinado.</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Senhor, não faz ao caso; que os erros por amores tẽe privilegio de +Moedeiro.</p> + +<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p> + +<p>Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito por entrar.</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão.</p> + +<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p> + +<p>Oh que salgado moço! Zombas de mi? Vem cá. Donde es natural?</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Donde quer que me acho.</p> + +<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p> + +<p>Pergunto-te onde nasceste. <span class="pn"><a +name="pag_260">{260}</a></span></p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Nas mãos das parteiras.</p> + +<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p> + +<p>Em que terra?</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida daquella +hora, que não havia palmo de terra nella.</p> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para ver +com que disparate respondes.</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio.</p> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>Vem cá. De teu tio! E isso como?</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Como? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não entendem. Meu +pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamão aos filhos sobrinhos; e daqui me +ficou a mi ser filho de meu tio.</p> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este?</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Aqui me veio ás mãos sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e mais +tẽe outra cousa, que huma trova fa-la tão bem como vós, ou como eu, ou como +o Chiado. <span class="pn"><a name="pag_261">{261}</a></span></p> + +<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p> + +<p>Não! quanté disso nós havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto se +vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este?</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste á moça Briolanja, por amor +de mi!</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Senhor, si, direi; mas aquella trova não he senão para quem a entender.</p> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>Como! Tão escura he ella?</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu não sei escrever +senão com carvão; e porém diz assi:</p> + +<blockquote> + Por amor de vós, Briolanja,<br> + Ando eu morto,<br> + Pezar de meu avô torto.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>Oh como he galante! Que descuido tão gracioso! Mas vem cá: que culpa te +tẽe teu avô nos desfavores que te tua dama dá?</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, não pezarei eu antes dos meus +parentes, que dos alheios?</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de gavetas, que +trombeta de Serenissimo de la Valla. <span class="pn"><a +name="pag_262">{262}</a></span></p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de mergulho +a entenderão. E por isso mandem assoar os engenhos, e metão mais huma +sardinha no entendimento; e póde ser que com esta servilha lhe calçará +melhor: e todavia palra assi:</p> + +<blockquote> + Vossos olhos tão daninhos<br> + Me tratárão de feição,<br> + Que não ha em meu coração<br> + Em que atem dous reis de cominhos.<br> + Meu bem anda sem focinhos<br> + Por vós morto,<br> + Pezar de meu avô torto.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>Ora bem: que tẽe de ver os cominhos com o teu coração?</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedella, não +se podem comer senão com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era tendeira; +e este he o verdadeiro entendimento.</p> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>E aquella regra que diz, <em>Meu bem anda sem focinhos</em>, me dá tu a +entender; que ella não dá nada de si.</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Nunca vossas mercês ouvirão dizer: <em>Meu bem e meu mal lutárão hum +dia; meu bem era tal, que meu mal o vencia?</em> Pois desta luta foi tamanha a +quéda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por +ficarem tão esfarrapados, que lhe <span class="pn"><a +name="pag_263">{263}</a></span> não podião botar pedaço; por conselho dos +Physicos lhos cortárão por lhe nelles não saltarem erpes; e daqui ficou: +<em>Meu bem anda sem focinhos</em>, como diz o texto.</p> + +<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p> + +<p>Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por dia de S. +Nicolao.</p> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natural para Logico.</p> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<p>Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas não tão fria como vossas +mercês.</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por +baixo desta mesa, e ouçamos este Representador, que vem mais amarrotado dos +encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira da arca de +cedro.</p> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM.</small></p> + +<p>Senhor, elle parece que aprende a cirurgião.</p> + +<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p> + +<p>Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos +verdes.</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Emfim, parece figura de Auto em verdade.</p> + +<p class="inst_cena"><em>Entra o Representador.</em></p> + +<blockquote> + He lei de direito, assaz verdadeira,<br> + Julgar por si mesmos aquillo que vem;<br> + Peloque, se cuidão que zombo de alguem,<br> + Eu cuido que zombão da mesma maneira. <span class="pn"><a + name="pag_264">{264}</a></span></blockquote> + +<p class="ni">E assi a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum +conhecer seu proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me +esquece o dito todo de ponto em claro: mas não sou de culpar, porque não ha +mais que tres dias que mo derão. Mas em breves palavras direi a vossas mercês +a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo até á ponta. Entrarão logo +primeiramente quinze donzellas que vão fugidas de casa de seus paes, e vão +com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos, metidos em +hum covão, cantando: <em>Quem os amores tẽe em Cintra</em>; e despois de +cantarem farão huma dança de espadas; cousa muito para ver: entra mais ElRei +Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo Catharina Real com huns poucos +de parvos n'huma joeira; e semeá-los-ha pela casa, de que nascerá muito +mantimento ao riso. E nisto fenecerá o Auto, com musica de chocalho e buzinas, +que Cupido vem dar a huma alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-hão vossas +mercês cada hum para suas pousadas, ou consoarão cá comnosco disso que ahi +houver. Parece-me que nenhum diz que não. Ora pois ficareis <em>in vanum +laboraverunt</em>, porque atégora zombei de vós, por me forrar do êrro da +representação, como quem diz, <em>digo-to, antes que mo digas.</em></p> + +<p class="personagem">A<small>MBROSIO.</small></p> + +<p>Ora vos digo, Senhores, que se as figuras são todas taes, que acertarião +em errar os ditos; aindaque me parece que este o não fez, senão a ser mais +galante. Mas se assi he, ella he a melhor invenção que eu vi; porque jagora +representações, todas he <span class="pn"><a name="pag_265">{265}</a></span> +darem por praguentos; e são tão certas, que he melhor errá-las, que +acertá-las.</p> + +<p class="personagem">M<small>ORDOMO.</small></p> + +<p>Parece-me que entrão as figuras de siso: vejamos se são tão galantes na +prática, como nos vestidos.</p> + +<p class="centrado inst_cena">—</p> + +<p class="inst_cena"><em>Entra El Rei Seleuco, com a Rainha +Estratonica.</em></p> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + <big>S</big>enhora, desque a ventura<br> + Me quiz dar-vos por mulher,<br> + Me sinto emmeninecer;<br> + Porqu'em vossa formosura<br> + Perde a velhice seu ser.<br> + Hum homem velho, cansado,<br> + Não tẽe fôrça, nem vigor,<br> + Para em si sentir amor:<br> + Se não he qu'estou mudado<br> + Com ser vosso n'outra côr.<br> + Muito grande dita tem<br> + A mulher que he formosa.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, grande: mas porém<br> + Se a tal he virtuosa,<br> + Quer-lhe a ventura mor bem.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Si, mas porém nunca vemos<br> + A natureza esmerar<br> + Adonde haja que taxar;<br> + Que quando ella faz extremos, <span class="pn"><a + name="pag_266">{266}</a></span><br> + Em tudo quer-se extremar.<br> + Eu fallo como quem sente<br> + Em vós está calidade,<br> + Pelo que vejo presente;<br> + E se me esta mostra mente,<br> + Mente-me a mesma verdade.<br> + Huma só tristeza tenho<br> + Que não tẽe a meninice,<br> + Que no mor contentamento<br> + O trabalho da velhice<br> + Me embaraça o sentimento.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, novidades tais<br> + Far-me-hão crer de verdade...</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Novidades lhe chamais!<br> + Folgo, Senhora, que achais<br> + Na velhice novidades.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, dias ha que sento<br> + Em o Principe Antiôcho<br> + Certo descontentamento:<br> + Dera alguma cousa a trôco<br> + Por saber seu sentimento.<br> + Vejo-lhe amarello o rosto,<br> + Ou de triste, ou de doente:<br> + Ou elle anda mal disposto,<br> + Ou lá tẽe certo desgôsto<br> + Que o não deixa ser contente.<br> + Mande, Senhor, vossa Alteza<br> + A chamá-lo por alguem, <span class="pn"><a + name="pag_267">{267}</a></span><br> + Saberemos que mal tem,<br> + Se he doença de tristeza,<br> + De que nasce, ou de que vem.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Certo qu'eu me maravilho<br> + Do que vos ouço dizer.<br> + Que mal póde nelle haver?<br> + Ide dizer a meu filho<br> + Que me venha logo ver.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Se curar não se procura<br> + Huma cousa destas tais,<br> + Vem despois a crescer mais.<br> + Quando ja não se acha cura,<br> + Toda a cura he por demais.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome +Leocadio.</em></p> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Leocadio, se es avisado,<br> + E não te falta saber,<br> + Saber-me-has dar a entender,<br> + Quem ama desesperado,<br> + Que fim espera de haver?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, não.<br> + Mas porém porque razão<br> + Lhe avem sabê-lo, ou de que?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Pergunto-te a conclusão;<br> + Não me perguntes porque. <span class="pn"><a + name="pag_268">{268}</a></span><br> + Porque he minha pena tal,<br> + E de tão estranho ser,<br> + Que me hei de deixar morrer;<br> + E por não cuidar no mal<br> + O não ouso de dizer.<br> + Que maneira de tormento<br> + Tão estranho e evidente,<br> + Que nem cuidar se consente!<br> + Porque o mesmo pensamento<br> + Ha medo do mal que sente.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Não entendo a Vossa Alteza.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Assi importa á minha dor.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + E porque razão, Senhor?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Para que seja a tristeza<br> + Castigo do meu temor.<br> + Porque ordena<br> + O Amor, que me condena,<br> + Que se haja de sentir,<br> + E sem dizer nem ouvir.<br> + Bem-aventurada a pena<br> + Que se póde descobrir!<br> + Oh caso grande e medonho!<br> + Oh duro tormento fero!<br> + Verdade he isto, qu'eu quero?<br> + Não he verdade, mas sonho<br> + De que acordar não espero.<br> + Quero-me chegar a ElRei <span class="pn"><a + name="pag_269">{269}</a></span><br> + Meu pae, que ja m'está vendo.<br> + Mas onde vou? Não m'entendo.<br> + Com que olhos eu olharei<br> + Hum pae, a quem tanto offendo?<br> + Que novo modo de antolhos!<br> + Porque neste atrevimento<br> + Devêra meu sentimento<br> + Para elle não ter olhos,<br> + Nem para ella pensamento.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Chega aonde está ElRei, e diz:</em></p> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Filho, como andais assi?<br> + Que tanto desgôsto tomo<br> + De vos ver como vos vi!</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Não sei eu tanto de mi,<br> + Que possa saber o como.<br> + Dias ha ja, Senhor, que ando<br> + Mal disposto, sem saber<br> + Este mal que possa ser;<br> + Que se nelle estou cuidando,<br> + Quasi me vejo morrer.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Pois, filho, será razão<br> + Que meus Physicos vos vejão.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Os Physicos, Senhor, não;<br> + Que os males qu'em mi estão,<br> + São curas que me sobejão. <span class="pn"><a + name="pag_270">{270}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Deite-se; que na verdade<br> + Hum corpo, deitado e manso,<br> + Descansa á sua vontade.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, esta enfermidade<br> + Não se cura com descanso.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Todavia, bom será<br> + Que lhe fação huma cama.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + (Hum coxim abastará,<br> + Que assi não descansará<br> + O repouso de quem ama.)</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Vamos, filho, para dentro,<br> + Em quanto a cama se faz:<br> + Repousae como capaz;<br> + Que a mi me dá cá no centro<br> + A pena que assi vos traz.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Vão-se, e vem huma moça a fazer a cama e +diz:</em></p> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Mimos de grandes Senhores,<br> + E suas extremidades,<br> + Me hão de matar de amores,<br> + Porque de meros dulçores<br> + Adoecem.<br> + Então logo lhes parecem<br> + Aos outros, que são mamados;<br> + E os que são mais privados, <span class="pn"><a + name="pag_271">{271}</a></span><br> + Sôbre elles estremecem.<br> + Certo (e assi Deos me ajude!)<br> + Que são muito graciosos,<br> + Porque de meros viçosos,<br> + Não podem com a saude.<br> + Mas deixallos,<br> + Porque elles darão nos vallos,<br> + Donde mais não se erguerão,<br> + Inda que lhe dem a mão<br> + Os seus privados vassallos.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e +diz:</em></p> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Traz, traz.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Jesu! Quem'stá ahi?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Ja vós, mana, ereis mamada:<br> + Para vos levar furtada<br> + Nunca tal ensejo vi.<br> + E vós estais descuidada!</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + E meus descuidos que fazem?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Vossos descuidos? cadella!<br> + Ah minh'alma! Sois tão bella,<br> + Qu'esses descuidos me trazem<br> + Dous mil cuidados á vela.<br> + Pois sou vosso ha tantos annos,<br> + Mana, tirae os antolhos,<br> + E vereis meus tristes dannos. <span class="pn"><a + name="pag_272">{272}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Não tenhais esses enganos.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Nem vós tenhais esses olhos;<br> + Que de vossos olhos vem<br> + Esta minha pena fera.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + De meus olhos? Assim era.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Moça, que taes olhos tem,<br> + Nenhuns olhos ver devêra.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + E porque?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Porque cegais<br> + A quantos olhos olhais,<br> + Postoque por vós padecem.<br> + Olhos, que tão bem parecem,<br> + Porque não os castigais?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Deos dê siso, pois de vós<br> + Tirou o que aos outros deu.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Desatae-me lá esses nós.<br> + Que mais siso quero eu,<br> + Que não ter siso por vós?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Fallais d'arte; eu vos prometo<br> + Que a resposta vem á vela.<br> + Isso he ôlho de panella.<br> + Quanto ha ja que sois discreto? <span class="pn"><a + name="pag_273">{273}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Quanto ha ja que vós sois bella?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Dais-me logo a entender<br> + Que eu sou feia, a meu ver.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + E isso porque o entendeis?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Porque? Porque me dizeis<br> + Que só de meu parecer<br> + Vos procede o que sabeis.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + He verdade.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Pois bem sento<br> + Que o vosso saber he vento.<br> + Fica a cousa declarada,<br> + Meu parecer não ser nada.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Olhae aquelle argumento:<br> + Além de bella, avisada!<br> + Oh nem tanto, nem tão pouco!<br> + Vêde vós o que fallais.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Cego no saber andais.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + No siso, mas não tão louco<br> + Como vós, mana, cuidais.<br> + Ora dizei, duna má:<br> + Que não amais, quem vos ama? <span class="pn"><a + name="pag_274">{274}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Ouvistes vós cantar ja,<br> + <em>Velho malo, em minha cama?</em><br> + Ja m'entendereis.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Ha, ha.<br> + Senhora, estais enganada;<br> + Que com huma capa e espada,<br> + E com este capuz fóra...</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Ora bem: tirae-o ora,<br> + E fazei huma levada.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Não: se m'eu hoje alvoróço,<br> + Achar-me-heis d'outra feição.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Aqui tira o capuz e diz:</em></p> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Tenho má disposição?<br> + Estas obras são de moço,<br> + Se as mostras de velho são.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Tendes mui gentis meneios.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Não, Senhora; faço extremos.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Passeae ora, veremos<br> + Se tendes tão bons passeios.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Tudo, Senhora, faremos. <span class="pn"><a name="pag_275">{275}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Virae ora a essoutra mão.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Esta disposição vêde-a;<br> + Que tenho gentil feição.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Tendes vós mui boa redea.<br> + Soffreis ancas?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Isso não.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Por certo que tendes graça<br> + Em tudo quanto fizerdes.<br> + Fazei mais o que souberdes.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Não sei cousa que não faça,<br> + Senhora, por me quererdes.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + Tendes vós muito bom ar.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Mais qu'isto faz quem quer bem.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇA.</small></p> + +<blockquote> + I-vos asinha, que vem<br> + O Principe a se deitar.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Nunca huma pessoa tem<br> + Hum'hora para fallar!</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e +diz:</em></p> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Seja a morte apercebida, <span class="pn"><a + name="pag_276">{276}</a></span><br> + Porque ja o Amor ordena<br> + A dar a meu mal sahida;<br> + Porque o fim da minha vida<br> + O seja da minha pena.<br> + Não tarde, para tomar<br> + Vingança de meu querer,<br> + Pois não se póde dizer<br> + Que não tẽe ja que esperar,<br> + Nem com que satisfazer?<br> + Os Physicos vem e vão,<br> + Sem saberem minhas mágoas,<br> + Nem o pulso me acharão;<br> + E se o querem ver nas ágoas,<br> + As dos olhos lho dirão.<br> + Se com sangrias tambem<br> + Procurão ver-me curado;<br> + O temor de meu cuidado<br> + O mais do sangue me tem<br> + Nas veias todo coalhado.<br> + Quero-me aqui encostar,<br> + Que ja o esprito me cae.<br> + Leocadio, vae-me chamar<br> + Os Musicos de meu Pae;<br> + Folgarei de ouvir cantar.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo +assi:</em></p> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, qual desatino<br> + Me trouxe a tanta tristura?<br> + Foi, Senhora, por ventura <span class="pn"><a + name="pag_277">{277}</a></span><br> + A fôrça do meu destino,<br> + Como vossa formosura?<br> + Bem conheço que não posso<br> + Ter tão alto pensamento;<br> + Mas disto só me contento,<br> + Que se paga com ser vosso<br> + O mor mal de meu tormento.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Entrão os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum +delles:</em></p> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, de que se acha mal<br> + O Principe, ou que mal sente?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, sei que está doente;<br> + Mas sua doença he tal,<br> + Qu'entender se não consente.<br> + Os Physicos vem e vão,<br> + Huns e outros a meude,<br> + Sem o poderem dar são.<br> + Quanto mais cura lhe dão,<br> + Então tẽe menos saude.<br> + O Pae anda em sacrificios<br> + Aos deoses, que lhe dem<br> + A saude que convem;<br> + Dizendo que por seus vicios<br> + O mal a seu filho vem.<br> + Eu suspeito qu'isto são<br> + Alguns novos amorinhos,<br> + Que tera no coração. <span class="pn"><a name="pag_278">{278}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Amores! com quem serão,<br> + Que lhe não dem de focinhos?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Senhores, que lhe parece<br> + Da doença de Antiôcho?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Diga-lha quem lha conhece.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Que toma morrer a trôco<br> + De callar o que padece.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Isso he estar emperrado<br> + Na doença; que he peor.<br> + Tẽe-no os Physicos curado?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Oh! que de mal del amor<br> + No ha, Señor, sanador.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Fallais como exprimentado;<br> + Qu'eu cuido que esta fadiga,<br> + Que o faz com que desespere;<br> + Y por mas tormento quiere<br> + Que se sienta, y no se diga.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Pois, Senhor meu, isso asselle,<br> + Porque a pena, que sabeis,<br> + Que eu cuido que está nelle,<br> + Dar-lhe-ha penas crueis,<br> + Pues no hay quien la consuele. <span class="pn"><a + name="pag_279">{279}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Folgo, porque m'entendeis.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Hemo-nos, Senhores, de ir,<br> + Porque nos está 'sperando.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Pois eu tambem hei de ir;<br> + Que não me posso espedir<br> + Donde vejo estar cantando.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Cantae, por amor de mi,<br> + Alguma cantiga triste;<br> + Que todo meu mal consiste<br> + Na tristeza em que me vi.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Mande-lhe cantar hum chiste.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Chiste não, que he deshonesto,<br> + E não tẽe esses extremos:<br> + Outro canto mais modesto;<br> + Porém não sei que diremos.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Gaoleão o dirá presto.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Dá licença V. Alteza<br> + Que diga minha tenção?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Dizei: seja em canto-chão.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Pois crede qu'he subtileza.<br> + Qu'os Anjos a comerão. <span class="pn"><a name="pag_280" + id="pag_280">{280}</a></span><br> + Digão esta:<br> + <em>Enforquei minha esperança,<br> + E o Amor foi tão madraço,<br> + Que lhe cortou o baraço.</em></blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Não me parece essa boa.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Haja eu perdão,<br> + Porque não a entenderão.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Entender!</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Bofé qu'he boa:<br> + Não lhe cahis na feição?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Dizei ora outra melhor,<br> + Com que nos atarraqueis.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Ora esperae, e ouvireis:<br> + Se a esta não dais louvor,<br> + Quero que me degolleis.</blockquote> + +<p class="espacado">Cantiga.</p> + +<blockquote> + Com vossos olhos Gonçalves,<br> + Senhora, captivo tendes<br> + Este meu coração Mendes.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Essa parece mui taibo,<br> + Porque mostra bom indicio.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Vós cuidareis qu'eu que raivo. <span class="pn"><a + name="pag_281">{281}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Todavia tẽe mao saibo.<br> + Ora mal lhe corre o offício.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Tá, não vá mais por diante<br> + A zombaria, que he má:<br> + Cantae qualquer dellas ja;<br> + Qu'esse Porteiro he galante,<br> + Ninguem o contentará.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Aqui cántão, e em acabando, diz o</em></p> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Parece que adormeceo.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Pois será bom que nos vamos.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LEXANDRE.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, quer que nos vejamos?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor vir-me-ha do ceo:<br> + Releva-me que o façamos.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta, +e diz:</em></p> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Frolalta, como ficava<br> + Antiôcho em te tu vindo?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p> + +<blockquote> + Ficava-se despedindo<br> + Da vida qu'então levava,<br> + E assi seus dias cumprindo.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Oh grave caso d'amor! <span class="pn"><a name="pag_282">{282}</a></span><br> + Desesperada affeição!<br> + Oh amor sem redempção,<br> + Que alli te fazes maior<br> + Onde tens menos razão!<br> + No mais alto e fundo pégo<br> + Alli tens maior porfia:<br> + Razão de ti não se fia.<br> + Quem a ti te chamou cego,<br> + Mui bem soube o que dizia.<br> + Por ventura hia chorando?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p> + +<blockquote> + Chorando hia e chamando<br> + Ao Amor, Amor cruel;<br> + E em, Senhora, se deitando<br> + Lhe cahio este papel.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Que papel?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p> + +<blockquote> + Este, Senhora.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Amostra, que quero lê-lo.<br> + Agora acabo de crê-lo;<br> + Que ao que mostra por fóra,<br> + Aqui lhe lançou o sello.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Aqui lê o papel e diz:</em></p> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Oh estranha pena fera!<br> + Desditosa vida chara!<br> + Oh quem nunca cá viera, <span class="pn"><a + name="pag_283">{283}</a></span><br> + E com seu Pae não casára,<br> + Ou em casando morrêra!</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p> + +<blockquote> + Aindaque eu pêca são,<br> + Senhora, tudo bem vejo.<br> + Attente, que na eleição<br> + O que lhe pede o desejo<br> + Não consente o coração.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Frolalta, pois qu'es discreta<br> + Nada te posso encobrir;<br> + Porque, se queres sentir,<br> + A huma mulher discreta<br> + Tudo se ha de descobrir.<br> + O dia qu'entrei aqui,<br> + Que a Seleuco recebi,<br> + Logo nesse mesmo dia<br> + No Principe filho vi<br> + Os olhos com que me via.<br> + Este principio soffri-lho,<br> + Para ver se se mudava;<br> + Antes mais se accrescentava:<br> + Eu amava-o como filho,<br> + E elle d'outr'arte me amava.<br> + Agora vejo-o no fim<br> + Por se me não declarar.<br> + E pois ja que a isso vim,<br> + A morte que o levar,<br> + Me leve tambem a mim.<br> + Porque ja que minha sorte<br> + Foi tão crua e desabrida, <span class="pn"><a + name="pag_284">{284}</a></span><br> + Que me não quer dar sahida;<br> + Sejamos juntos na morte,<br> + Pois o não somos na vida.<br> + Oh quem me mandou casar,<br> + Para ver tal crueldade!<br> + Ninguem venda a liberdade,<br> + Pois não póde resgatar<br> + Onde não tẽe a vontade.<br> + Que não ha mor desvario,<br> + Que o forçado casamento<br> + Por alcançar alto assento;<br> + Que, emfim, todo o senhorio<br> + Está no contentamento.<br> + Não sei se o vá ver agora,<br> + Se será tempo conforme,<br> + Ou se imos a deshora.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ROLALTA.</small></p> + +<blockquote> + Despois iremos, Senhora,<br> + Que agora dizem que dorme.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o +diz:</em></p> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Su madrasta oyó nombrar,<br> + Y el pulso se le alteró:<br> + Esto no entiendo yo,<br> + Porque para le alterar<br> + El corazon le obligó.<br> + Pues que el corazon se altere,<br> + Es porque en un momento<br> + Algun nuevo vencimiento<br> + De aficion terrible le hiere, <span class="pn"><a + name="pag_285">{285}</a></span><br> + Que causa tal movimiento.<br> + Pues que aficion cabe así<br> + Con madrasta? Digo yo,<br> + Dos razones hay aqui:<br> + La una dice, que sí,<br> + La otra dice, que no.<br> + Empero yo determino<br> + De exprimentar la verdad,<br> + Y hacer una habilidad,<br> + Que declare es agua, ó vino<br> + Esta su enfermedad.<br> + Porque toda esta mañana<br> + Tengo estudiado su mal,<br> + Sin ver causa efectual<br> + De su dolencia inhumana,<br> + Ni otra de su metal.<br> + Llamar quiero este asnejon;<br> + Mas aun debe de dormir,<br> + Segun que es dormilon.<br> + Sancho? ó Sancho?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Ah Señor.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Ea, aun estás dormiendo?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Estoyme, Señor, vestiendo.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Pues vellaco y sin sabor,<br> + No me respondes dormiendo?<br> + Vestios presto, ladron.<br> + Oh qué mozo, y qué ventura! <span class="pn"><a + name="pag_286">{286}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + (Mas qué amo y qué cabron!)<br> + Embíeme acá el ropon,<br> + Que no hallo mi vestidura.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Que embie el ropon acá?<br> + Parece que os desmandais.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Que vaya, Señor? ha, ha.<br> + Que buenos dias hayais.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Entra o moço embrulhado em huma manta, e diz:</em></p> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Di como vienes así<br> + Con la manta, y para qué?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Yo, Señor, se lo diré:<br> + Por venir presto vestí<br> + Lo que mas presto me hallé:<br> + Porque viendo que él me llama,<br> + Dormiendo yo sin afan,<br> + Salté presto de la cama,<br> + Que parezco un gavilan,<br> + Hermoso como una dama.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Mas es tu bovedad tanta,<br> + Que vienes desta facion?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + De mi vestido se espanta?<br> + De noche sirve de manta,<br> + Y de dia de ropon. <span class="pn"><a name="pag_287">{287}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Embióme ElRey á llamar<br> + Otra vez.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Y á mí?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Y á ti!</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Y él qué presta allá sin mí?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Qué puedes tu aprovechar?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Yo se lo diré de aqui:<br> + Si por la ventura quiere<br> + Para que le dé consejo,<br> + Cuando doliente estuviere;<br> + Digo, coma, si pudiere,<br> + Y beba buen vino anejo;<br> + Porque este es el licor<br> + Que dá fuerza, y es sabroso;<br> + Que segun dicen, Señor,<br> + <em>Vinum lœtificat cor<br> + Hominis</em>, y le es provechoso.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Ya sabes la medicina,<br> + Que Avicena nos refiere.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Pues, Señor! porque es divina.<br> + Pero ElRey qué le quiere,<br> + Qué manda, ó qué determina? <span class="pn"><a + name="pag_288">{288}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + El Principe está doliente.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Oh mesquino! Y qué mal ha?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Y á ti, necio, que te vá?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + O Señor, que es mi pariente!</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Gracioso el bovo está.<br> + Y pues díme por tu fé:<br> + Llorarás si se muriere?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + No, Señor, no lloraré;<br> + Empero, Señor, haré<br> + La peor cara que pudiere.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Ea, bovo, vé corriendo,<br> + Y ensilla la mula ayna.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Véngala ensillar mejor.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Oh velhaco, y sin sabor!</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Yo por cierto no lo entiendo.<br> + Pero una medicina<br> + Le he de pedir, Dios queriendo,<br> + (Porque ando atribulado,<br> + Y no sé parte de mi<br> + Con este nuevo cuidado) <span class="pn"><a + name="pag_289">{289}</a></span><br> + Para un sayo esfarrapado,<br> + Que me dicen hay allí.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Ora ensilla; y nunca viva,<br> + Pues sufro tus desatinos.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>ANCHO.</small></p> + +<blockquote> + Señor, pasion no reciva:<br> + <em>Ya cavalga Calaínos<br> + A la sombra de una oliva.</em></blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Aqui sahe bolindo com a almofaça, e acorda o Principe +e diz:</em></p> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Oh bella vista e humana,<br> + Por quem tanto mal sostenho!<br> + Oh Princeza soberana!<br> + Como? nos braços vos tenho,<br> + Ou este sonho m'engana?<br> + Pois como, sonho, tambem<br> + Me queres vir magoar?<br> + E para me atormentar<br> + Mostras-me a sombra do bem<br> + Para assi mais m'enganar?<br> + Assi que, com quanto canso,<br> + Ja não posso achar atalho,<br> + Pois que o somno quieto e manso,<br> + Que os outros tẽe por descanso,<br> + Me vem a mi por trabalho.<br> + Pois ha hi tantos enganos<br> + Que condemnão minha sorte;<br> + Não o tenho ja por forte, <span class="pn"><a + name="pag_290">{290}</a></span><br> + Se á volta de tantos danos<br> + Viesse tambem a morte.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:</em></p> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Andae e vêde se achais<br> + O rasto deste segredo,<br> + Que me dizem que alcançais;<br> + Ainda que tenho medo<br> + Que lhe seja por demais.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Plega á Dios que aqueste sea<br> + Para salud y remedio<br> + Desta dolencia tan fea.<br> + Yo buscaré todo el medio,<br> + Que presto sano se vea.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:</em></p> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Aflojen, Señor, sus ais.<br> + Como se halla en su penar?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Como me acho perguntais?<br> + E como se póde achar<br> + Quem sempre se perde mais?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + (La respuesta abre el camino.)<br> + Imagina de contino?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Não tenho outro mantimento, <span class="pn"><a + name="pag_291">{291}</a></span><br> + Nem outro contentamento,<br> + Senão o em que imagino.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Aqui entra a Rainha e diz:</em></p> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Como se sente, Senhor?<br> + Tẽe a febre mais pequena?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Responda-lhe minha pena.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + (Conocido es su dolor.<br> + Ora sea en hora buena,<br> + Tomada está la tristeza<br> + Á las manos.) Qué sentió?<br> + (Usaré de subtileza.)</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Diz contra ElRei:</em></p> + +<blockquote> + Cúmpleme que solo yo<br> + Platique con Vuestra Alteza.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Cheguemos-nos para cá.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Não deve desesperar,<br> + Qu'em fim, se bem attentar,<br> + Para tudo o tempo dá<br> + Tempo para se curar.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>RINCIPE.</small></p> + +<blockquote> + Que cura poderá ter<br> + Quem tẽe a cura, Senhora,<br> + No impossivel haver? <span class="pn"><a name="pag_292">{292}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>AINHA.</small></p> + +<blockquote> + Ficae-vos, Senhor, embora,<br> + Que vos não sei responder.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Vai-se a Rainha, e diz ElRei:</em></p> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Neste mal, que não comprendo,<br> + Que meio dais de conselho?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Señor, nada entiendo dello;<br> + Y supuesto que lo entiendo,<br> + Yo quisiera no entendello.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Porque?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Porque he entendido<br> + Lo mas malo de entender,<br> + Para lo que puede ser,<br> + Porque anda, Señor, perdido<br> + De amores por mi muger.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Santo Deos! que! tal amor<br> + Lhe dá doença tão fera!<br> + Que remedio achais melhor?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Forçado será que muera,<br> + Porque no muera mi honor.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Pois como! a hum só herdeiro<br> + Deste Reino não dareis<br> + Vossa mulher, pois podeis; <span class="pn"><a + name="pag_293">{293}</a></span><br> + Que tudo faz o dinheiro?<br> + Pois este não o engeiteis;<br> + Dae-lha, porque eu espero<br> + De vos dar dinheiro e honra,<br> + Quanto eu para elle quero.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + No tira el mucho dinero<br> + La mancha de la deshonra.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Ora bem pouco defeito!<br> + He pequice conhecida,<br> + Quando deixa de ser feito;<br> + Porque com elle dais vida<br> + A quem vos dara proveito.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Cuan facilmente aporfia<br> + Quien en tal nunca se vió!<br> + Del consejo que me dió,<br> + Vuestra Alteza que haria<br> + Si agora fuese yo?</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + A mulher que eu tivesse<br> + Dar-lha-hia. Oxalá<br> + Que elle a Rainha quizesse!</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Pues déla, si le parece,<br> + Que por ella muerto está.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Que me dizeis?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + La verdad. <span class="pn"><a + name="pag_294">{294}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Sem dúvida, tal sentistes?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Sin duda, sin falsedad.<br> + Pues, Señor, ahora tomad<br> + Los consejos que me distes.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Certamente, qu'eu o via<br> + Em tudo quanto fallava.<br> + Como o vistes? porque via?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>HYSICO.</small></p> + +<blockquote> + Nel pulso, que se alterava<br> + Si la via, ó si la oia.</blockquote> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Que maneira ha de haver?<br> + Qu'eu certo me maravilho,<br> + Possa mais o amor do filho,<br> + Do que póde o da mulher.<br> + Finalmente hei-lha de dar,<br> + Que a ambos conheço o centro.<br> + Quero-o ir alevantar,<br> + E iremos para dentro<br> + Neste caso praticar.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Diz contra o Principe:</em></p> + +<blockquote> + Levantae-vos, filho, d'hi<br> + O melhor que vós puderdes,<br> + E vindo-vos para aqui;<br> + Porque, emfim, o que quizerdes<br> + Tudo havereis de mi. <span class="pn"><a name="pag_295">{295}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Ah Senhores, oulá, ou?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Viestes em conjunção<br> + A melhor que póde ser:<br> + Haveis aqui de fazer<br> + A tosquia a hum rifão.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Deixae-me, Senhor, dizer:<br> + Haveis isto de acabar,<br> + Coração, hi bugiar,<br> + No esteis preso en cadenas,<br> + Que pois o amor vos deo penas,<br> + Que vos lanceis a voar.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Por certo que bem comprou.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Ora sabeis o que vai?<br> + Antiocho que casou<br> + Com a mulher de seu Pai,<br> + E o mesmo Pae o ordenou.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Isso como?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Não o sei;<br> + Porque dizem que a amava,<br> + E que só por ella andava<br> + Para morrer; e ElRei<br> + Deo-a a quem a desejava.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Se o casa por querer bem <span class="pn"><a + name="pag_296">{296}</a></span><br> + Com a moça, a quem elle ama,<br> + Direi eu que a mim me inflama<br> + O amor mais que a ninguem.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>AGEM.</small></p> + +<blockquote> + Pois pedi-lhe a nossa dama.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ORTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Por São Gil, que ei-los cá vem,<br> + Elle pela mão com ella.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mão, e +diz:</em></p> + +<p class="personagem">R<small>EI.</small></p> + +<blockquote> + Que mais ha hi que esperar?<br> + Olhae qu'estranheza vai!<br> + O muito amor ordenar,<br> + Ir-se o filho namorar<br> + D'huma mulher de seu Pai!<br> + Querer bem foi sua dor,<br> + Negar-lha será crueldade;<br> + Assi que ja foi bondade<br> + Usar eu de tal amor,<br> + E de tal humanidade.<br> + Ella deixou de reinar<br> + Como fazia primeiro<br> + Por se com elle casar;<br> + E por amor verdadeiro<br> + Tudo se póde deixar.<br> + Eu que nella tinha pôsto<br> + Todo o bem de meu cuidado,<br> + Deixei mais que ella ha deixado;<br> + Que mais se deixa no gôsto,<br> + Que no poderoso estado. <span class="pn"><a + name="pag_297">{297}</a></span><br> + Mas ja que tudo isto vemos,<br> + Hajão festas de prazer,<br> + As que melhor possão ser;<br> + Porqu'em tão grandes extremos,<br> + Extremos se hão de fazer.<br> + Hajão cantos para ouvir,<br> + Jogos, prazeres sem fundo;<br> + Porque, se quereis sentir,<br> + Deste modo entrou o mundo,<br> + E assi ha de sahir.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Aqui vem os Musicos e cántão, e depois de cantarem, +sahem-se todas as figuras, e diz</em></p> + +<p class="personagem">M<small>ARTIM</small> C<small>HINCHORRO.</small></p> + +<p>Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos; ou +vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor festa que +póde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das figuras nos +acolheremos. Moço, accende esse mólho de cavacos, porque faz escuro, não +vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço e as canastras.</p> + +<p class="personagem">E<small>STACIO DA</small> F<small>ONSECA.</small></p> + +<p>Não, Senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par de tições na +mão; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvão-se desta pousada; +e não tenhão isto por palavras, porque essas e plumas, o vento as leva. <span +class="pn"><a name="pag_298">{298}</a></span> <span class="pn"><a +name="pag_299">{299}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_301">{301}</a></span></p> + +<h1>OS AMPHITRIÕES,</h1> + +<h2>COMEDIA.</h2> + +<h3>INTERLOCUTORES.</h3> + +<p class="ni">A<small>MPHITRIÃO</small>.<br> +A<small>LCMENA</small>, sua mulher.<br> +C<small>ALLISTO</small>.<br> +F<small>ELISEO</small>.<br> +S<small>OSEA</small>, moço de Amphitrião.<br> +B<small>ROMIA</small>, sua criada.<br> +B<small>ELFERRÃO</small>, Patrão.<br> +A<small>URELIO</small>, Primo de Alcmena.<br> +H<small>UM MOÇO DE</small> A<small>URELIO.</small><br> +J<small>UPITER</small>.<br> +M<small>ERCURIO</small>.</p> + +<h1>OS AMPHITRIÕES,</h1> + +<h3>COMEDIA.</h3> + +<h2>ACTO PRIMEIRO.</h2> + +<h3>SCENA I.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e +Bromia.</em></p> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + <big>A</big>h Senhor Amphitrião,<br> + Onde está todo meu bem!<br> + Pois meus olhos vos não vem,<br> + Fallarei co'o coração,<br> + Que dentro n'alma vos tem.<br> + Ausentes duas vontades,<br> + Qual corre mores perigos,<br> + Qual soffre mais crueldades,<br> + Se vós entre os inimigos,<br> + Se eu entre as saudades?<br> + Que a ventura, que vos traz<br> + Tão longe de vossa terra,<br> + Tantos desconcertos faz,<br> + Que se vos levou á guerra,<br> + Não me quiz leixar em paz. <span class="pn"><a + name="pag_302">{302}</a></span><br> + Bromia, quem com vida ter,<br> + Da vida ja desespera,<br> + Que lhe poderás dizer?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Que nunca se vio prazer,<br> + Senão quando não se espera.<br> + E por tanto não devia<br> + De ter triste a phantasia;<br> + Porque Vossa Mercê creia,<br> + Que o prazer sempre salteia<br> + Quem delle mais desconfia.<br> + Eu tenho no coração,<br> + Do Senhor Amphitrião<br> + Venha hoje alguma nova:<br> + Não receba alteração,<br> + Que a verdadeira affeição<br> + Na longa ausencia se prova.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Dizei logo a Feliseo<br> + Que chegue muito apressado<br> + Ao caes, e busque mêo<br> + De saber se algum recado<br> + Do porto Persico vêo:<br> + E mais lhe haveis de dizer,<br> + (Isto vos dou por offício)<br> + D'alguma nova saber,<br> + Em quanto eu vou fazer<br> + Aos Deoses o sacrificio. <span class="pn"><a name="pag_303">{303}</a></span> +</blockquote> + +<h3>SCENA II.</h3> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Saudades de minh'ama,<br> + Chorinhos e devoções,<br> + Sacrificios e orações,<br> + Me hão de lançar n'huma cama,<br> + Certamente.<br> + Nós mulheres de semente<br> + Somos sedenho mui tosco:<br> + Com qualquer vento que vente,<br> + Queremos forçadamente<br> + Que os Deoses vivão comnosco.<br> + Quero Feliseo chamar,<br> + E dizer-lhe aonde ha de ir.<br> + Mas elle como me vir,<br> + Logo ha de querer rinchar,<br> + De travesso.<br> + Eu que de zombar não cesso,<br> + Por ficar com elle em salvo,<br> + Lanço-lhe hum e outro remêsso;<br> + Aos seus furto-lhe o alvo;<br> + E então elle fica avesso.<br> + Porque o melhor destas danças,<br> + Com huns vindiços assi,<br> + He trazê-los por aqui<br> + Ó cheiro das esperanças,<br> + Por viver.<br> + Ha-os homem de trazer<br> + Nos amores assi mornos,<br> + Só para ter que fazer; <span class="pn"><a + name="pag_304">{304}</a></span><br> + E despois ao remetter<br> + Lançar-lhe a capa nos cornos.<br> + Feliseo, se estais á mão,<br> + Chegae cá, vem como hum gamo:<br> + Bem sei que não chamo em vão.</blockquote> + +<h3>SCENA III.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Feliseo e Bromia.</em></p> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Chamais-me? tambem vos chamo;<br> + Porém eu ouço, e vós não:<br> + Senhora, que me matais,<br> + Se vós ja nunca me ouvis,<br> + Ou me ouvis, e vos callais,<br> + Dizei: porque me chamais<br> + Se me vós a mim fugis?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Eu vos fujo?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Fugis, digo,<br> + De dar a meus males cabo.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Sabei que desse perigo<br> + Não fujo como de imigo,<br> + Fujo como do diabo.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Dae ao demo essa tenção,<br> + Usae antes de cortês,<br> + Cahi vós nesta razão. <span class="pn"><a name="pag_305">{305}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Do p'rigo fogem os pés,<br> + Do diabo o coração.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Dizeis-me que nessa briga<br> + Do meu coração fugis.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Ainda qu'eu isso diga...</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Ah minha doce inimiga!<br> + Bem sinto que me sentis.<br> + Mas para que me chamais?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Manda-vos minha Senhora<br> + Que chegueis daqui ao cais,<br> + E algumas novas saibais<br> + D' Amphitrião nesta hora.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Quem as não sabe de si,<br> + D'outrem como as sabera?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Não as sabeis vós de mi.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Má trama venha por ti,<br> + Duna feiticeira má!<br> + Porque não me ólhas direito,<br> + Cadella, que assi me cortas?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Porque vos quero dar portas;<br> + Que s'eu olhar d'outro geito,<br> + Trarei cem mil vidas mortas. <span class="pn"><a + name="pag_306">{306}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + E pois para que me andais<br> + Enganando ha cem mil annos?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Dou-vos vida com enganos.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Nesses enganinhos tais<br> + Acho crueis desenganos.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Quant'esses vos quero eu dar:<br> + Vós cuidais que estais na sella?<br> + Pois podeis-vos descer della;<br> + Qu'eu nunca vos pude olhar.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Jogais comigo á panella?<br> + Tendes-me ha tanto captivo,<br> + E desenganais-me agora?<br> + Tudo isto he o que privo.<br> + Assi que he isso, Senhora,<br> + Dochelo morto, dochelo vivo?<br> + Se me vós desenganais<br> + No cabo de tantos annos,<br> + Direi, se licença dais,<br> + Dais-me vida com enganos,<br> + Desenganos, ja chegais.<br> + Mas se isso havia de ser,<br> + Dizei, má desconhecida,<br> + Destêrro de meu viver,<br> + Que vos custava dizer<br> + Amor, vae buscar tua vida? <span class="pn"><a +name="pag_307">{307}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Zombais? Fallais-me coprinhas?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Rir-vos-heis se vem á mão:<br> + Copras não, mas isto são<br> + Ansias y pasiones minhas<br> + Dos bofes e coração.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Is-vos fazendo d'huns sengos.....</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Perdóneme Dios si peco.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Nesses dentinhos framengos<br> + Conheço que sois hum pêco<br> + De todos quatro avoengos.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Tudo vos levo em capelo,<br> + Ja qu'estais tanto em agraço.<br> + Porém, fallando singelo,<br> + A furto desse mao zêlo,<br> + Quereis-me dar hum abraço?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Ora digo que não posso<br> + Usar comvosco de fero:<br> + Tomae-o.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Ja o não quero,<br> + Porque esse abraço vosso,<br> + Sabei que he engano mero.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Oh! vós sois d'huns sensabores... <span class="pn"><a + name="pag_308">{308}</a></span><br> + Abraço pedis assim?<br> + S'eu remango d'hum chapim...</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Tudo isso são favores:<br> + Zombae, vingae-vos de mim.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Vós de furioso touro<br> + As garrochas não sentis.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Vedes, com isso sé mouro:<br> + Quando cuido que sois ouro,<br> + Acho-vos toda ceitis.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Emfim, sanha de villão<br> + Vos fez perder hum bom dia.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Jagora o eu tomaria;<br> + Quereis-mo dar?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Ora não.<br> + Cocei-vos eu todavia.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Pois, Senhora, a quem vos ama<br> + Sois tão desarrazoada,<br> + Quero tomar outra dama;<br> + Que não digão os d'Alfama<br> + Que não tenho namorada.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Deixae-me.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Vós me deixais. <span class="pn"><a + name="pag_309">{309}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Deixae-me.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Zombais de mi?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Deixae-me. Pois m'engeitais,<br> + Eu me ausentarei daqui<br> + Onde me mais não vejais.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Boa está a zombaria!</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Não são essas minhas manhas.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Porém is-vos todavia?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Voyme á las tierras estrañas.<br> + Adó ventura me guia.</blockquote> + +<h3>SCENA IV.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Feliseo só.</em></p> + +<blockquote> + Phantasias de donzellas,<br> + Não ha quem como eu as quebre;<br> + Porque certo cuidão ellas,<br> + Que com palavrinhas bellas<br> + Nos vendem gato por lebre.<br> + Esta tẽe lá para si<br> + Qu'eu sou por ella finado;<br> + E crê que zomba de mi;<br> + E eu digo-lhe que, si, <span class="pn"><a name="pag_310">{310}</a></span><br> + Sou por ella esperdiçado.<br> + Preza-se d'humas seguras;<br> + E eu não quero mais Frandes:<br> + Dou-lhe trela ás travessuras,<br> + Porque destas coçaduras<br> + Se fazem as chagas grandes.<br> + Qu'estas, que andão sempre á vela,<br> + Estas vos digo eu que coço;<br> + Porque de firmes na sella,<br> + Crem que falsão a costella,<br> + E ficão pelo pescoço.<br> + Que quando estas damas tais<br> + Me cachão, então recacho.<br> + Mas disto agora nó mais.<br> + Quero-me ir daqui ao cais<br> + Ver se algumas novas acho.</blockquote> + +<h3>SCENA V.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Jupiter e Mercurio.</em></p> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Oh grande e alto destino!<br> + Oh potencia tão profana!<br> + Que a setta d'hum menino<br> + Faça que meu ser divino<br> + Se perca por cousa humana!<br> + Que m'aproveitão os ceos,<br> + Onde minha essencia mora<br> + Com tanto poder, se agora <span class="pn"><a + name="pag_311">{311}</a></span><br> + A quem me adora por deos,<br> + Sirvo eu como a senhora?<br> + Oh quão estranha affeição!<br> + Quem em baixa cousa vai pôr<br> + A vontade e o coração,<br> + Sabe tão pouco d'Amor,<br> + Quão pouco Amor de razão.<br> + Mas que remedio hei de ter<br> + Contra mulher tão terribil,<br> + Que se não póde vencer?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Alto Senhor, teu poder<br> + O difficil faz possibil.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Tu não vês qu'esta mulher<br> + Se preza de virtuosa?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, tudo póde ser;<br> + Que para quem muito quer,<br> + Sempre a affeição he manhosa.<br> + Seu marido está ausente<br> + Na guerra, longe daqui;<br> + Tu, qu'es Jupiter potente,<br> + Tomarás sua fórma em ti;<br> + Que o farás mui facilmente.<br> + E eu me transformarei<br> + Na de Sósea, criado seu;<br> + E ao arraial me irei,<br> + Onde logo saberei<br> + Como se a batalha deu.<br> + E assi poderás entrar, <span class="pn"><a + name="pag_312">{312}</a></span><br> + Em lugar de seu marido;<br> + E para que sejas crido,<br> + Poderás tambem contar<br> + Quanto eu lá tiver sabido.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Quem arde em tamanho fogo<br> + Tira-lhe a virtude a côr<br> + De subtil e sabedor;<br> + E quem fóra está do jôgo<br> + Enxérga o lanço melhor.<br> + Mas tu, que dos sabedores<br> + Tanto avante sempre estás,<br> + Se deos es dos mercadores,<br> + Sê-lo-has dos amadores,<br> + Pois tal remedio me dás.<br> + Ponha-se logo em effeito;<br> + Que não soffre dilação<br> + Quem o fogo tẽe no peito;<br> + E tu vae logo direito<br> + Aonde anda Amphitrião.</blockquote> + +<h3>SCENA VI.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Feliseo e Callisto.</em></p> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Adó bueno por aqui,<br> + Tão longe do acostumado?</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Mais longe vou eu de mi,<br> + D'ir perto de meu cuidado. <span class="pn"><a +name="pag_313">{313}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + No andar vos conheci.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + E vós onde vos lançais,<br> + Com vossa contemplação?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Eu chego daqui ao cais<br> + A saber de Amphitrião:<br> + Não sei se vou por demais.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Porque por demais dizeis?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Porque nada alli ha certo.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Novas lá não as busqueis,<br> + Que aqui as tendes mais perto.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Pois dae-mas ja, se as sabeis.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Hum navio he ja chegado<br> + Á barra, que vem de lá;<br> + Traz de Amphitrião recado,<br> + Diz que o deixa embarcado<br> + Para se vir para cá.<br> + Tẽe vencido aquelle Rei;<br> + E diz, segundo lhe ouvi,<br> + Qu'esta noite será aqui.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Essas novas levarei<br> + A Alcmena, que torne em si,<br> + Porque ella tẽe maior guerra <span class="pn"><a + name="pag_314">{314}</a></span><br> + Co'os temores de perdello,<br> + Qu'elle co'o Rei dessa terra.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Onde amor lançar o sello,<br> + Nenhuma cousa o desterra.<br> + Porqu'inda que o pensamento<br> + Vos fique, Senhor, em calma,<br> + Por morte ou apartamento;<br> + Sempre vos lá ficão n'alma<br> + As pégadas do tormento.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Isso he hum segredo mero,<br> + A que o amor nos obriga:<br> + Por isso em caso tão fero,<br> + Senhor, nunca ninguem diga,<br> + Ja lho quiz, e não lho quero.<br> + Eu quiz bem a huma mulher,<br> + Que vós conhecestes bem,<br> + E, com muito lhe querer,<br> + Casou-se.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Oh! e com quem?<br> + Que ainda o não posso crer.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Com hum Mercador, que veio<br> + Agora do Egypto, rico.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Isso traz ágoa no bico.<br> + Esse homem he parvo, ou feio?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Pois vêdes? disso me pico. <span class="pn"><a + name="pag_315">{315}</a></span><br> + E em pago desta traição,<br> + Afóra outros mil descontos<br> + Que traz comsigo a affeição,<br> + Sempre os signaes destes pontos<br> + Trarei no meu coração.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Viste-la mais?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, vi,<br> + Na janellinha da grade;<br> + Passei, e disse-lhe assi:<br> + Casada sem piedade,<br> + Porque não a haveis de mi?</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Que vos disse?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Lá no centro<br> + Lh'enxerguei pouca alegria;<br> + E como quem lhe dohia,<br> + Metendo-se para dentro<br> + Disse: Ja pasó folia.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Ah má sem conhecimento!<br> + Quem lhe désse mil chofradas!</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, como são casadas,<br> + Casão-se co'o esquecimento<br> + Das cousas que são passadas.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Lembranças de vos deixar<br> + Picar-vos-hão como tojos. <span class="pn"><a +name="pag_316">{316}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, haveis d'assentar<br> + Que onde amor vos quer matar,<br> + Siempre allá miran los ojos.<br> + Hum motete lhe mandei<br> + Hum dia, estando com febre,<br> + Só da paixão que tomei.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Pois vejamos quem tẽe lebre.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, eu vo-lo direi.</blockquote> + +<p class="espacado">Mote.</p> + +<blockquote> + Vós por outrem, e eu por vós;<br> + Vós contente, e eu penado;<br> + Vós casada, eu cansado.<br> + Polos santos de minha dona!</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, vós só o fizestes?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Si, que ninguem me ajudou.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Se vós só o compuzestes,<br> + Crede, que extremos dissestes.<br> + Nunca Orlando tal fallou.<br> + Senhor, fizestes-lhe pé?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, si; e todo hum anno...<br> + Vós zombais, se não m'engano? <span class="pn"><a + name="pag_317">{317}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Não, mas dou-vos minha fé<br> + Que nunca vi tão bom panno.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Ora olhe vossa mercê.</blockquote> + +<p class="espacado">Volta.</p> + +<blockquote> + Olhae em quão fundos vaos<br> + Por vossa causa me affógo,<br> + Que outro me ganha no jôgo,<br> + E eu triste pago os paos.<br> + Olhos travessos e maos,<br> + Inda eu veja o meu cuidado<br> + Por esse vosso trocado.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Não mais, qu'isso me degola.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, eu haja perdão.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Fizestes esse rifão<br> + Em algum jôgo de bola?<br> + E foi-lhe elle ter á mão?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Digo-vos que o vio, e lho leo<br> + Hum moçozinho d'escola.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Está isso assi do ceo.<br> + Sabe ella jogar a bola?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Não. <span class="pn"><a name="pag_318">{318}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Pois não vos entendeo.<br> + Ora eu ja cheguei a ler<br> + Petrarca, e crede de mi<br> + Que nunca tal cousa vi.<br> + Onde mora o bom saber,<br> + Logo dá sinal de si.<br> + Onde <em>casada</em> puzestes,<br> + Dizei, porque não dissestes<br> + <em>La que yo vi por mi mal.</em></blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Renunciava o metal;<br> + Qu'em rifõeszinhos como estes,<br> + Ha-se-de pôr tal com tal.<br> + Que a trova trigo-tremez<br> + Ha de ser toda d'hum pano;<br> + Que parece muito Ingrez<br> + N'hum pelote Portuguez<br> + Todo hum quarto Castelhano.<br> + Ouvi outra tambem minha,<br> + Que fiz a certa tenção,<br> + Clara, leve, bonitinha,<br> + De feição, que esta trovinha,<br> + He trovinha de feição.<br> + Como eu hum dia me visse<br> + Morto, e a mão na candêa,<br> + E ella não me acodisse;<br> + Fiz-lhe esta, porque sentisse<br> + Que dava os fios á têa.<br> + E o propósito he<br> + Andar eu hum dia só; <span class="pn"><a name="pag_319">{319}</a></span><br> + E para que houvesse dó<br> + De mi e de minha fé,<br> + Lamentei-lhe como Jó.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Andastes, Senhor, mui bem.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Ora, Senhor, attentai,<br> + E vêde o saibo que tem;<br> + Se he para a ver alguem.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Ora dizei.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Ei-la vai.</blockquote> + +<p class="espacado">Trova.</p> + +<blockquote> + Coração de carne crua,<br> + Vê-lo teu amor aqui,<br> + Que esmorecido por ti<br> + Jaz no meio desta rua?</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Na rua, Senhor, jazia?<br> + E era em tempo de lama?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, quem falla a quem ama,<br> + De si mesmo se não fia:<br> + Haveis de mentir á dama.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Volta disso?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Singular, <span class="pn"><a + name="pag_320">{320}</a></span><br> + Senão que he muito sentida;<br> + Far-vos-ha, Senhor, chorar.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Oh! diga, por sua vida!</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Farei o que me mandar.</blockquote> + +<p class="espacado">Volta.</p> + +<blockquote> + Porque não has delle mágoa,<br> + Ó dura mais que ninguem,<br> + Que anda o triste, que não tem<br> + Quem lhe dê huma vez d'ágoa?<br> + Não lhe negues teu querer,<br> + Pois te não custa dinheiro;<br> + Que, emfim, por derradeiro<br> + A terra te ha de comer.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Tal trova nunca se vio.<br> + Agorentaste-la ja?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, não; ainda está<br> + Como a sua mãe pario;<br> + E não está muito má.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + He trova, que tẽe por seis;<br> + Não a posso mais gabar.<br> + Mas, pois, tal cousa fazeis,<br> + Senhor, não m'ensinareis<br> + Donde vem tão bem trovar?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Não he a cousa tão pequena, <span class="pn"><a + name="pag_321">{321}</a></span><br> + Como, Senhor, a fizestes,<br> + Essa que agora dissestes.<br> + Mas porém vou dar a Alcmena<br> + Estas novas que me déstes.<br> + Despois, Senhor, nos veremos;<br> + Ficae ja roendo esse osso.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + O roer, Senhor, he vosso.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ELISEO.</small></p> + +<blockquote> + Pois eu, por mais que zombemos,<br> + Hei de ser vosso e revosso.</blockquote> + +<p class="personagem">C<small>ALLISTO.</small></p> + +<blockquote> + Oh!.. Escusae-vos d'extremos,<br> + Qu'isso, Senhor, me atarraca.<br> + Mas nós nos encontraremos,<br> + E sôbre isso envidaremos<br> + Dous reales mais de saca.</blockquote> + +<h2>ACTO SEGUNDO.</h2> + +<h3>SCENA I.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na fórma de +Amphitrião, Mercurio na de Sosea escravo.</em></p> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + <big>M</big>ercurio, pois sou mudado<br> + Nesta fórma natural,<br> + Ólha e nota com cuidado, <span class="pn"><a + name="pag_322">{322}</a></span><br> + Se está em mi o pintado<br> + Apparente co'o real.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Quem tão proprio se transforma.<br> + Tenho por opinião,<br> + Que na tal transformação<br> + Lhe prestou natura a fôrma,<br> + Com que fez Amphitrião.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Pois tu no gesto e na côr<br> + Estás Sósea escravo seu.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Muito mais faras, Senhor.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Não o faz senão o Amor,<br> + Que nisto póde mais qu'eu.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Ja, Senhor, te fiz menção<br> + Como deo Amphitrião<br> + A ElRei Terela a morte;<br> + Que, na guerra igual, a sorte<br> + Póde mais que o coração.<br> + E despois de ser tomada<br> + Toda a Cidade, com gloria<br> + D'Amphitrião bem ganhada,<br> + Como em sinal de victoria,<br> + Esta copa lhe foi dada.<br> + Por ella bebia ElRei,<br> + Em quanto a vida queria;<br> + E eu, porque te cumpria,<br> + A seu escravo a furtei, <span class="pn"><a + name="pag_323">{323}</a></span><br> + Que n'huma caixa a trazia.<br> + Esta poderás levar<br> + A Alcmena, por lhe mostrar<br> + Verdadeiro, o que he fingido;<br> + E dest'arte serás crido,<br> + Sem mais outro ardil buscar.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Pois tudo tens ordenado<br> + Por tão nova e subtil arte;<br> + Como me vires entrado,<br> + Irás dar este recado<br> + A Phebo de minha parte:<br> + Que faça mais devagar<br> + Seu curso neste Hemispherio.<br> + Que o que soe acostumar;<br> + Qu'esta noite hei de ordenar<br> + Hum caso de alto mysterio.<br> + E á Esphera mais alta<br> + Mandarás que fixa esteja,<br> + Porque a noite maior seja:<br> + Porque sempre o tempo falta,<br> + Onde a alegria he sobeja.<br> + E terás tamanho tento,<br> + Que como isto se ordenar,<br> + Venhas aqui vigiar,<br> + Porque meu contentamento<br> + Ninguem mo possa estorvar.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Seja feito sem debate<br> + Tudo como te convem. <span class="pn"><a name="pag_324">{324}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Pois não parece ninguem,<br> + Como homem de casa bate,<br> + E muda a falla tambem.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO</small>, <em>batendo à porta</em>.</p> + +<blockquote> + Ó de la casa, en buena hora,<br> + Darmehan de cenar aqui?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA</small> <em>dentro</em>.</p> + +<blockquote> + Sósea parece que ouvi:<br> + Alviçaras, minha Senhora,<br> + Que na falla o conheci.</blockquote> + +<h3>SCENA II.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio.</em></p> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Zombais, Bromia, por ventura?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, não zombo, não.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Vejo eu Amphitrião,<br> + Ou a vista me afigura<br> + O qu'está no coração?</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Olhos, diante dos quais<br> + Desejei mais este dia,<br> + Que nenhuma outra alegria,<br> + Senhora, nunca creais<br> + Que lhe minta a phantasia.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Oh presença mais querida <span class="pn"><a + name="pag_325">{325}</a></span><br> + Que quantas formou Amor!<br> + Isto he verdade, Senhor?<br> + Acabe-se aqui a vida,<br> + Por não ver prazer maior.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Pois esta hora de vos ver<br> + Alcançar, Senhora, pude;<br> + Para mais contente ser,<br> + Conformem co'este prazer<br> + Novas de vossa saude.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Vida foi pezada e crua<br> + A saude qu'eu sostinha;<br> + Qu'em quanto, Senhor, a tinha,<br> + Temer perigo na sua,<br> + Me fez descuidar da minha.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Y pues, mi Señora Alcmena,<br> + Pese al demonio malvado,<br> + No dirá á un su criado,<br> + Vengais Sósea norabuena?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Sejais, Sósea, bem chegado.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Bem mal cri eu, que pudesse<br> + Ver-te, Sósea, hoje aqui.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Pues tambien yo no creí<br> + Que en mi vida te viese,<br> + Segun las muertes que vi. <span class="pn"><a name="pag_326">{326}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Muito, Senhor, folgarei<br> + Com novas do vencimento.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + De tudo quanto passei,<br> + Por vos dar contentamento,<br> + Em summa vos contarei.<br> + Trago, Senhora, a victoria<br> + Daquelle Rei tão temido,<br> + Com fama clara e notoria.<br> + Porém maior foi a gloria<br> + De me ver de vós vencido.<br> + Sem me terem resistencia,<br> + Os Grandes me obedêcerão,<br> + Como ElRei morto tiverão:<br> + Em sinal de obediencia<br> + Esta copa me trouxerão.<br> + ElRei por ella bebia:<br> + (Ella, e tudo o mais he nosso)<br> + Por onde claro se via,<br> + Que tudo me obedecia,<br> + Pois tinha nome de vosso.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Si, mas luego de rondon<br> + La fortuna dió la vuelta.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Como?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Fué gran perdicion,<br> + Porque en aquella revuelta,<br> + Me hurtaron mi jubon. <span class="pn"><a name="pag_327">{327}</a></span><br> + Pero bien me lo pagaron,<br> + Cuando comigo riñeron;<br> + Que aunque me despojaron<br> + Si uno de seda llevaron,<br> + Otro de azotes me dieron.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, não posso gostar<br> + De gôsto, que he tão immenso,<br> + Senão muito devagar:<br> + Faça-me mercê d'entrar,<br> + E contar-mo-ha por extenso.</blockquote> + +<h3>SCENA III.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Mercurio e Bromia.</em></p> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Yo tambien te contaria,<br> + Bromia, si quedas atrás,<br> + Que una noche... enojartehas?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Que?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Soñaba, que te tenia...<br> + No me atrevo á decir mas.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Dize.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Pardies, no diré.<br> + Soñaba... <span class="pn"><a name="pag_328">{328}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Bem: que sonhavas?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Que cuando en la cama estavas<br> + Que yo... enfin recordé.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Pois tudo isso receavas?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Sabe Dios qué yo acá siento:<br> + Sola una alma vive en dos,<br> + La cual anda dentro en vos.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + E que quer ella cá dentro?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Tambien eso sabe Dios.</blockquote> + +<h3>SCENA IV.</h3> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Bem se poderá enganar<br> + Bromia, segundo ora estou,<br> + Como Alcinena s'enganou;<br> + Mas cumpre-me ir ordenar<br> + O que meu Pae me mandou.<br> + E porque seja guardada<br> + Esta porta e vigiada<br> + De toda a gente nascida,<br> + Me será cousa forçada,<br> + Ser tão depressa a tornada,<br> + Quão prestes faço a partida. <span class="pn"><a + name="pag_329">{329}</a></span></blockquote> + +<h3>SCENA V.</h3> + +<p class="personagem">S<small>OSEA</small>, <em>cantando</em>.</p> + +<blockquote> + Amphitrion esforzado<br> + Bravo vá por la batalla,<br> + Siete cabezas llevaba,<br> + De las mejores que ha hallado.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p> + +<blockquote> + Quien viene de tierra agena,<br> + Y de la muerte escapó,<br> + La razon le permitió<br> + Que cante como sirena,<br> + Como agora hago yo.<br> + Y pues canto tan gentil,<br> + Fuera llanto si muriera.<br> + Quiero cantar como quiera,<br> + Una y otra, y mas de mil,<br> + Que digan desta manera:</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Canta.</em></p> + +<blockquote> + Dongolondron, con dongolondrera,<br> + Por el camino de Otera,<br> + Rosas coge en la rosera,<br> + Dongolondron, con dongolondrera.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p> + +<blockquote> + Cuando yo vengo á pensar<br> + Que uno matarme quisiera,<br> + No hago sino temblar,<br> + Porque creo si muriera, <span class="pn"><a + name="pag_330">{330}</a></span><br> + No pudiera mas cantar.<br> + Porque estando á un rincon<br> + De la casa adó quedé,<br> + Senti muy grande ronron,<br> + Y mirando, que miré?<br> + Vi que era un gran raton.<br> + Empero yo nunca sigo,<br> + Sino consejos muy sanos;<br> + Que en estes casos levianos,<br> + Quien desprecia el enemigo,<br> + Mil veces muere á sus manos.<br> + Pero mi Señor alli<br> + Mató al Rey de los Glipazos:<br> + Yo como muerto le vi,<br> + Juro á mi fé, que le dí<br> + Mas de dos mil cuchillazos.<br> + Y por me librar de afan,<br> + Me voy siempre á cosa hecha<br> + Probar mi mano derecha;<br> + Que aquel es buen capitan,<br> + Que del tiempo se aprovecha.<br> + Que quien ha de pelear,<br> + Ha de buscar tiempo y hora.<br> + Pero quiero caminar,<br> + Que me muero por contar<br> + Todo aquesto á mi Señora. <span class="pn"><a + name="pag_331">{331}</a></span><br> +</blockquote> + +<h3>SCENA VI.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Mercurio e Sósea.</em></p> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Mil vezes comigo vejo,<br> + Para que meu Pae se affoute;<br> + Pois em tão pequeno ensejo<br> + Lhe mandei talhar a noute<br> + Á medida do desejo.<br> + E pois que como possante,<br> + A mi tudo se reporta,<br> + Chego agora neste instante<br> + A estorvar qu'este bargante<br> + Me não chegue a esta porta.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + No sé que miedo, ó locura,<br> + Neste pecho se me cria:<br> + Por Dios que se me afigura,<br> + Que ha mucho que es noche escura,<br> + Sin que venga el claro dia.<br> + Mas sabed, que pienso yo<br> + Que el sol que no se acordó<br> + De con el dia venir,<br> + Que á noche cuando cenó<br> + Algun buen vino bebió,<br> + Que le hace tanto dormir.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Ja sentes comprida a noute,<br> + Qu'eu assi mandei fazer?<br> + Pois mais te quero dizer,<br> + Que sentirás muito açoute, <span class="pn"><a + name="pag_332">{332}</a></span><br> + Se cá quizeres vir ter.<br> + Porém, pois este bargante<br> + Tẽe medroso coração,<br> + Quero-me fingir ladrão,<br> + Ou phantasma, e por diante<br> + Não irá, se vem á mão.<br> + E com tudo se passar,<br> + A falla quero mudar<br> + Na sua de tal feição,<br> + Que couces, e porfiar,<br> + Lhe fação hoje assentar<br> + Que sou Sósea, e elle não.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Falla Castelhano.</em></p> + +<blockquote> + No veo pasar ninguno,<br> + En quien yo me pueda hartar.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Á quien oigo aqui hablar?<br> + Mande Dios no sea alguno<br> + Que me quiera aporrear.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + La carne de algun humano<br> + Me seria muy sabrosa.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Oh quê voz tan temerosa!<br> + Hombres comes, ó mi hermano?<br> + No es mejor otra cosa?<br> + Carne humana es muy mezquina.<br> + Oh no comas deso, no!<br> + Antes carne de gallina. <span class="pn"><a + name="pag_333">{333}</a></span><br> + Pero se mas se avecina,<br> + Qué mas gallina, que yo?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Una voz de hombre ahora<br> + Á la oreja me voló.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Pésete quien me parió:<br> + La voz traigo boladora?<br> + Ella quisiera ser yo.<br> + Pues mi voz pudo volar<br> + Do la pudieses oir;<br> + Por contigo no reñir,<br> + Me debiera de prestar<br> + Las alas para huir.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Qué buscas cabe esa puerta,<br> + Hombre? Sé que eres ladron.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Ay que el alma tengo muerta!<br> + Oh Júpiter me convierta<br> + Las tripas en corazon!</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Quien eres? quieres hablar?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Soy quien mi voluntad quiere.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Piensas que puedas burlar?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Y tú puédesme quitar<br> + Que yo sea quien quisiere? <span class="pn"><a +name="pag_334">{334}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Osas hablar tan osado,<br> + Don vellaco bovarron?<br> + Dí, quien eres?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Un criado<br> + Del Señor Amphitrion,<br> + Por nombre Sósea llamado.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Pienso que el seso perdiste.<br> + Como te llamas, mal hombre?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Sósea soy, si no me oiste.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Como? en persona tan triste<br> + Osas d'ensuciar mi nombre?<br> + Estos puños llevarás,<br> + Pues tener mi nombre quieres.<br> + Quiéresme dicir quien eres?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + O Señor, no me dés mas,<br> + Que yo seré quien tú quisieres.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Con tan nueva falsedad<br> + Andais por esta Ciudad,<br> + Delante de quien os mira?<br> + Pues si sois Sosea, tomad.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Si me dás por la verdad,<br> + Que me harás por la mentira? <span class="pn"><a + name="pag_335">{335}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Y qué verdad es la tuya?<br> + Que te quiero dar castigo.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Si no soy Sósea que digo,<br> + Que Júpiter me destruya.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Mirad el falso enemigo:<br> + Tomad este bofeton,<br> + Que yo soy Sósea, y no vos.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Tu Sósea?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Sósea por Dios,<br> + Escravo de Amphitrion.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + De modo que tiene dos?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + No tendrá, aunque tú quieres;<br> + Que á mi solo conoció.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Pues luego de quien soy yo?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Si tú no sabes quien eres,<br> + Quieres que yo lo sepa? No.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Enfin, has me de hacer crer<br> + Que yo no soy quien ser solia?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Quien solias tú de ser? <span class="pn"><a name="pag_336">{336}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Tregoas me has de prometer,<br> + Dirtelohé sin profia.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Prometo.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + No me darás?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + No, si no fuere razon.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Pues, hermano, tú sabrás<br> + Que mi amo Amphitrion...</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Tu amo? Pues llevarás.<br> + Mi amo es, que tuyo no.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Ay que un brazo me quebró!</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Mas que luego te matase.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Ojalá Dios ordenase<br> + Que tú ahora fueses yo,<br> + Y yo que te desmembrase!</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Esa tu tema tan loca,<br> + Puños te la han de quitar.<br> + Dime, di, vergũenza poca,<br> + Qué hablas?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Qué puedo hablar,<br> + Si me has quebrado la boca? <span class="pn"><a + name="pag_337">{337}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Di quien eres, sin fatiga.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Soy un hombre, en quien tú dás.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Díme pues, qué nombre has.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Como quieres tú que diga,<br> + Para que no me dés más?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + No me has de hablar contrahecho.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Toda mi vida pasada<br> + Sósea fuy, y con despecho<br> + Ahora soy... qué? No nada;<br> + Que tus manos me han deshecho.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Cuyo eres, pues las sientes,<br> + Dejando consejos vanos?<br> + La verdad; que si me mientes,<br> + Dás con la lengua en los dientes,<br> + Y yo dóyte con las manos.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + No conoces Amphitrion?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Hombre sin seso te llamo.<br> + Tan fuera estás de razon!<br> + Piensas de mí, bovarron,<br> + Que no conozco á mi amo?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + En su casa conociste <span class="pn"><a name="pag_338">{338}</a></span><br> + Uno, que es Sósea llamado,<br> + Hombre despreciado y triste?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Desa suerte lo dijiste?<br> + Yo soy triste y despreciado?<br> + Pues sabe que te llegó<br> + Á la muerte tu fortuna.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Pues logo si yo no soy yo,<br> + Aunque nadie me mató;<br> + Soy luego cosa ninguna.<br> + Oh dioses, que desconcierto!<br> + Yo por ventura soy muerto,<br> + Ó murióme la razon?<br> + Yo no soy de Amphitrion?<br> + Él no me mandou del puerto?<br> + Yo sé que no estoy loco.<br> + De mi madre no naci?<br> + No ando? No hablo aqui?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Pues sosiega ahora un poco,<br> + Que yo tambien diré de mí.<br> + Yo no sé que yo soy yo?<br> + Yo no te dí con mis manos?<br> + Mi Señor no me llevó<br> + Á la guerra, adó mató<br> + Aquel Rey de los Thebanos?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Yo eso muy bien lo sé.<br> + Empero tú qué hacias<br> + Cuando la batalla vias? <span class="pn"><a name="pag_339">{339}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Escucha: yo lo diré,<br> + Y cesaran tus porfías.<br> + Cuando mi Señor andaba<br> + Peleando, y derramaba<br> + La sangre de algun mezquino;<br> + Con una bota de vino<br> + Yo la mia acrescentaba.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + (Dice lo que yo hacia)<br> + Con todo, saber queria<br> + Sola una cosa, si puedo:<br> + Tu pecho entonces sentia?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Del beber grande alegria,<br> + Y del pelear gran miedo.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Y despues?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Muy reposado<br> + Á dormir me eché de grado,<br> + Desde el sol hasta la luna.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + (Todo lo tiene contado.<br> + Enfin, tengo averiguado<br> + Que yo no soy cosa ninguna)<br> + Pues de todo en un instante<br> + Me has echado de mí fuera,<br> + Aconséjame si quiera,<br> + Quien seré daqui adelante,<br> + Pues no soy quien de antes era. <span class="pn"><a + name="pag_340">{340}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Cuando yo no ser quisiere<br> + Ese, que tú ser deseas,<br> + Despues que ya Sósea no fuere,<br> + Dartehé, si te pluguiere,<br> + Licencia que todo seas.<br> + Y acógete luego, amigo,<br> + Á buscar tu nombre, digo,<br> + Pues Dios vida te dejó;<br> + Que el Sósea queda comigo.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Pues contigo quedo yo,<br> + Dios quede, hermano, contigo.<br> + Ahora quiero ir allá<br> + Adó mi Señora está,<br> + Contarle como es venido<br> + Mi Señor. Mas, oh perdido!<br> + Si un otro yo tiene allá,<br> + Todo lo terná sabido.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Ah hombre.....</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Mi voz sonó.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Aonde vuelves ahora?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Por Dios no sé onde vó,<br> + Porque si yo no soy yo,<br> + Ni Alcmena es mi Señora.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Adonde vas? <span class="pn"><a name="pag_341">{341}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Con mensaje<br> + Del Señor Amphitrion<br> + Para Alcmena.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Adó, salvaje?<br> + Pues quebraste la omenaje,<br> + Ahí verás tu perdicion.<br> + Yo doyte consejos sanos,<br> + Y porfias otra vez?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Altos dioses soberanos!<br> + Pues me no valen las manos,<br> + Aqui me valgan los pies. <em>Foge.</em></blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Desta arte enseñan aqui<br> + Á hurtar el nombre ageno?</blockquote> + +<h3>SCENA VII.</h3> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Ay Dios, como me acogí!<br> + Ó Júpiter alto y bueno,<br> + Cuan cerca la muerte vi!<br> + Quiérome ir á mi Señor<br> + Contarle cuanto hé pasado;<br> + Y él me dirá de grado,<br> + Si yo soy su servidor,<br> + En que cosa me hé tornado. <span class="pn"><a + name="pag_342">{342}</a></span></blockquote> + +<h2>ACTO TERCEIRO.</h2> + +<h3>SCENA I.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Jupiter e Alcmena.</em></p> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + <big>T</big>oda a pessoa discreta<br> + Terá, Senhora, assentado,<br> + Que hum bem muito desejado<br> + Se ha de alcançar por dieta,<br> + Para ser sempre estimado.<br> + E quem alcançado tem<br> + Tamanho contentamento;<br> + Por conservá-lo convem<br> + Que tome por mantimento<br> + A fome de tanto bem.<br> + E por isso hei de tomar<br> + Este tempo tão ditoso<br> + Para a frota visitar;<br> + E despois quando tornar,<br> + Tornarei mais desejoso.<br> + Que pois tão bom captiveiro<br> + Me tẽe presa a liberdade,<br> + Eu lhe prometto em verdade<br> + Que torne ainda primeiro,<br> + Que mo peça a saudade.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Aindaque se possa ir<br> + Mais asinha do que creio,<br> + Como hei d'eu consentir <span class="pn"><a + name="pag_343">{343}</a></span><br> + Que se haja de partir<br> + Na mesma noite que veio?</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Forçada he minha tornada,<br> + Mas muito cedo virei;<br> + Porque desque foi chegada<br> + A este porto a Armada,<br> + Ainda a não visitei.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Pois, Senhor, tão pouco estais<br> + Com quem vistes inda agora?<br> + Faça-se como mandais.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Vós me vereis cá, Senhora,<br> + Primeiro do que cuidais.</blockquote> + +<h3>SCENA II.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Amphitrião e Sosea.</em></p> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Emfim tu, que estás aqui,<br> + Estavas ja lá primeiro?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Señor, crea que es ansí.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Eu nunca entendi de ti,<br> + Qu'eras tambem chocarreiro.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Señor, yo que estoy presente,<br> + No soy Sósea su criado? <span class="pn"><a name="pag_344">{344}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Creio que não certamente,<br> + Porque Sósea era avisado,<br> + E tu es mui differente.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Pues, Señor, si en mí se vé<br> + Que no soy quien de antes era,<br> + Vuélvome.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + E para que?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Ver se á dicha me quedé<br> + Durmiendo por la galera.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Pois me queres fazer crer<br> + Huma doudice tão rasa,<br> + Mais quero de ti saber:<br> + Como não entraste em casa<br> + D'Alcmena minha mulher?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Aunque Sósea quisiese,<br> + La verdad no negará:<br> + Aquel yo que allá está,<br> + No quiso que á casa fuese<br> + Estotro yo, que iba allá.<br> + Y con furia tan crecida<br> + Á mí se vino aquel hombre,<br> + Que yo me puse en huida,<br> + Y ansí le dejé mi nombre,<br> + Por me dejar él la vida. <span class="pn"><a name="pag_345">{345}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Quem seria tão ousado,<br> + Que tanto mal te fizesse?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Yo mismo Sósea llamado,<br> + Que á casa era ya llegado,<br> + Antes que de acá partise.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Tu chegaste antes de ti?<br> + Este he gentil disparate.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Pues mas le digo daqui,<br> + Que vengo huyendo de mí,<br> + Porque yo mismo no me mate.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Erão dous, ou era hum só,<br> + Quem te fez assi fugir?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Pésete quien me parió:<br> + Digo, que era un solo yo:<br> + Mil veces lo hé de decir?<br> + Puede ser que naceria<br> + De aquel hombre otro alguno,<br> + Como aquel de mí nacia;<br> + Porque aunque fuese él uno,<br> + Por mas de cuatro tenia.<br> + Él tenia mi aparencia,<br> + Empero yo nunca vi<br> + Tal fuerza, ni tal potencia:<br> + Esta sola diferencia<br> + Le tengo hallado de mí. <span class="pn"><a name="pag_346">{346}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Pudeste delle saber<br> + Cujo era?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Quien? aquel yo?<br> + Tuyo, Señor, dijo ser.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Nunca eu tive mais que hum só,<br> + E esse não quizera ter.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Pues, Señor, si el bien doblado<br> + Te le muestra agora Dios,<br> + Debe ser de ti alabado;<br> + Pues de uno solo criado<br> + Te ha hecho agora dos.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Antes para que conheças,<br> + Que cousa he mao servidor,<br> + Me pezará se assi for;<br> + Que de tão ruins cabeças,<br> + Quantas mais, tanto peor.<br> + E ja que são tão incertos<br> + Teus ditos para se crer;<br> + Muito melhor deve ser<br> + Que deixe teus desconcertos,<br> + E va ver minha mulher. <span class="pn"><a name="pag_347">{347}</a></span> +</blockquote> + +<h3>SCENA III.</h3> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Que fado, que nascimento<br> + De gente humana nascida,<br> + Que d'escasso e avarento,<br> + Nunca consentio na vida<br> + Perfeito contentamento!<br> + Amphitrião, que mostrou<br> + Hum prazer tão desejado<br> + A quem tanto o desejou;<br> + Na noite, que foi chegado,<br> + Nessa mesma se tornou!<br> + De se tornar tão asinha<br> + Sinto tanto entristecer<br> + O sentido e alma minha,<br> + Que certo que me adivinha<br> + Algum novo desprazer.<br> + Mas parece este que vem,<br> + Se não estou enganada:<br> + Se elle he, venha com bem,<br> + Pois que com sua tornada<br> + Tão transtornada me tem.</blockquote> + +<h3>SCENA IV.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Alcmena e Sosea.</em></p> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Com que palavras, Senhora,<br> + Poderei engrandecer<br> + Tão sublimado prazer, <span class="pn"><a name="pag_348">{348}</a></span><br> + Como he ver chegada a hora,<br> + Em que vos pudesse ver?<br> + Certo grão contentamento<br> + Tive de meu vencimento;<br> + Mas maior o hei de mim,<br> + De me ver pôsto no fim<br> + De tão longo apartamento.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Ja eu disse o que sentia<br> + De vinda tão desejada.<br> + Mas diga-me todavia:<br> + Como não foi ver a Armada,<br> + Que me disse hoje este dia?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Della venho eu inda agora<br> + Desejoso de vos ver,<br> + Muito mais que de vencer.<br> + Mas que me dizeis, Senhora,<br> + Que hoje me ouvistes dizer?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Se não estava remota,<br> + Certamente que lhe ouvi,<br> + Quando hoje partio daqui,<br> + Que tornava a ver a frota.<br> + Porque era forçado assi.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Sósea.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Señor, aqui estoy yo.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Tu ouves tal desconcêrto? <span class="pn"><a +name="pag_349">{349}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Grandes orejas ganó,<br> + Pues estando en casa oyó<br> + Quien estava allá nel puerto!</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Quando dizeis, que m'ouvistes?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Hoje, quando vos partistes.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Donde?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Daqui, de me ver.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Nunca vi grande prazer,<br> + Que não tenha os cabos tristes.<br> + Quantos males d'improviso<br> + Que causão grandes mudanças!<br> + Que mulher de tanto aviso,<br> + Agora minhas lembranças<br> + A tẽe fóra de juizo!</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Quereis-me fazer cuidar<br> + Que poderia sonhar<br> + O que pelos olhos vi?<br> + Nunca vos eu mereci<br> + Quererdes-me exprimentar.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Postoque he para pasmar<br> + Ver hum caso tão estranho,<br> + Todavia hei de attentar,<br> + Se poderei concertar <span class="pn"><a name="pag_350">{350}</a></span><br> + Hum desconcêrto tamanho.<br> + Quando dizeis que vim cá?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Esta noite que passou.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Dae-me alguem que aqui se achou,<br> + Que me visse.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Esse que hi está,<br> + Sósea que comvosco andou.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Sósea, podes-te lembrar,<br> + Que hontem me vistes aqui?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Nunca yo supe de mí<br> + Que me pudiese acordar<br> + De aquello que nunca vi.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Ora eu creo, e he assi,<br> + Que ambos vindes conjurados,<br> + Para zombardes de mi;<br> + Mas eu darei hoje aqui<br> + Sinaes que sejão provados.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Que sinaes póde ahi haver<br> + De mentira tão notoria,<br> + Que nem foi, nem póde ser?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Donde vim eu a saber<br> + Novas de vossa victoria? <span class="pn"><a name="pag_351">{351}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Que novas?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Dir-vo-las-hei,<br> + Assi como mas contastes:<br> + Que na batalha matastes<br> + Aquelle soberbo Rei,<br> + E tudo desbaratastes:<br> + Não fazendo resistencia<br> + N'huma batalha tão crua,<br> + Dando-vos obediencia,<br> + Vos derão huma copa sua,<br> + Lavrada por excellencia.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Sósea he culpado só<br> + Nestes acontecimentos.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Señor, son encantamientos,<br> + Porque aquel hombre, que es yo,<br> + Le contaria estos cuentos.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Quem he esse, que vos deu<br> + Taes novas, saber queria?<br> +</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Quem mo pergunta.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Quem? Eu!<br> + Quereis-me fazer sandeu?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Mas vós me fazeis sandia. <span class="pn"><a +name="pag_352">{352}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Ora quero perguntar:<br> + Que fiz sendo aqui chegado?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Puzemos-nos a cear.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + E despois de ter ceado?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Fomos-nos ambos deitar.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Nunca queira Deos que possa<br> + Achar-se na minha honra<br> + Nenhuma falta nem mossa:<br> + Seja isto doudice vossa,<br> + Antes que minha deshonra.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Bien lo supe yo entender,<br> + Que era esto encantaciones;<br> + Y ahora me habrá de crer<br> + Que dos Sóseas puede haber,<br> + Pues hay dos Amphitriones.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Com me quererdes tentar<br> + Tão torvada me fizestes,<br> + Que me não pôde lembrar<br> + Que vos mandasse mostrar<br> + A copa que me hontem déstes.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Eu? copa? Se isso ahi ha,<br> + Que estou doudo cuidarei. <span class="pn"><a name="pag_353">{353}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Señor, bien guardada está.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Bromia?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA</small>, <em>de dentro</em>.</p> + +<blockquote> + Senhora.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Dae cá<br> + A copa que hontem vos dei.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Pues yo parí otro yo,<br> + Y vós otro Amphitrion,<br> + No es mucha admiracion,<br> + Si la copa otra parió,<br> + Ni aun fuera de razon.</blockquote> + +<h3>SCENA V.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Alcmena, Sosea e Bromia.</em></p> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Eis-aqui a copa vem,<br> + Testimunho da verdade.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Oh estranha novidade!</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Poder-me-ha dizer alguem<br> + Que o que digo he falsidade?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Sósea, quando hontem cá vinhas,<br> + Poder-me-has negar, ladrão, <span class="pn"><a + name="pag_354">{354}</a></span><br> + Que lhe déste as novas minhas,<br> + E mais a copa que tinhas<br> + Guardada na tua mão?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Señor, que no pude, no,<br> + Ver á mi Señora Alcmena:<br> + Si aquel eso acá ordenó,<br> + No lleve este yo la pena<br> + Del mal que hizo el otro yo.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Ora eu não sei entender<br> + Tal caso, nem lhe acho fundo:<br> + Com tudo venho a dizer,<br> + Que ha tantos males no mundo,<br> + Que tudo se póde crer.<br> + Se vos trouxer quem vos diga<br> + Como esta noite dormi<br> + Na nao, crereis que he assi?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Nenhuma cousa me obriga<br> + A que não creia o que vi.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Se o Patrão aqui vier,<br> + Que he homem d'autoridade,<br> + Crereis o que vos disser?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Sim, que ninguem póde haver<br> + Que me negue esta verdade.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Eu estou em concrusão<br> + D'hoje desembaraçar <span class="pn"><a name="pag_355">{355}</a></span><br> + Tão enleada questão:<br> + Á nao me quero tornar<br> + A trazer cá Belferrão.<br> + Sósea, até minha tornada<br> + Fica nesta casa em vela;<br> + Qu'eu armarei tal cilada<br> + A quem ma a mim tẽe armada,<br> + Que venha hoje a cahir nella.</blockquote> + +<h3>SCENA VI.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Alcmena e Bromia.</em></p> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Oh mulher triste e suspensa<br> + Da mais alta confusão<br> + Que nunca vio coração!<br> + Em que mereces a offensa,<br> + Que te faz Amphitrião?<br> + Sempre de mi foi amado,<br> + Tanto quanto em mi se sente,<br> + Co'o coração tão liado,<br> + Que se de mi era ausente,<br> + Nelle o via figurado.<br> + E pois mulher, que cumprisse<br> + Melhor qu'eu fidelidade,<br> + Não a vi, nem quem me visse<br> + Que dos limites sahisse<br> + Hum pouco da honestidade.<br> + Pois porque he tão maltratada<br> + Innocencia tão singella? <span class="pn"><a + name="pag_356">{356}</a></span><br> + Que a pena mais apertada,<br> + He a culpa levantada<br> + Ao coração livre della.<br> + Mas ja que minh'alma está<br> + Sem culpa do que padeço,<br> + Seja o que for; qu'eu conheço<br> + Que a verdade me porá<br> + No qu'eu pola ter mereço.<br> + Bromia?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ROMIA.</small></p> + +<blockquote> + Senhora.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Hi mandar<br> + A Feliseo, que vá<br> + Meu primo Aurelio chamar;<br> + Que lhe quero perguntar<br> + Que conselho me dará.<br> + E pois que Amphitrião<br> + Vai buscar somente quem<br> + Lhe ajude a sua tenção,<br> + Quero eu ter aqui tambem<br> + Quem me defenda a razão. <span class="pn"><a name="pag_357">{357}</a></span> +</blockquote> + +<h2>ACTO QUARTO.</h2> + +<h3>SCENA I.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Jupiter, Alcmena e Sosea.</em></p> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + <big>G</big>rão desconcêrto tẽe feito<br> + Amphitrião com Alcmena!<br> + Qualquer delles tẽe direito:<br> + Eu sou o que venço o preito,<br> + E ambos págão a pena.<br> + Quero-me ir lá desfazer<br> + Tão trabalhosa demanda,<br> + Por nos tornarmos a ver;<br> + Porque, emfim, quem muito quer<br> + Com qualquer desculpa abranda.<br> + E pois ja que a affeição<br> + Ha de mudar tão asinha,<br> + Quero ir alcançar perdão<br> + Da culpa, que sendo minha,<br> + Parece d'Amphitrião.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Parece que torna cá<br> + Amphitrião, que ja se hia:<br> + Não sei a que tornará.<br> + Senão se lhe peza ja<br> + Dos enganos que tecia.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, não haja error<br> + Que tantos males me faça, <span class="pn"><a + name="pag_358">{358}</a></span><br> + Porque se o contrário for,<br> + Pequeno será o amor,<br> + Que manencória desfaça.<br> + E pois com tanta alegria<br> + De tantos perigos vim,<br> + Pezar-me-ha se achar no fim,<br> + Que huma leve zombaria<br> + Vos possa aggravar de mim.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Com palavras de deshonra<br> + Não se ha de tratar quem ama;<br> + Nem zombaria se chama,<br> + Por exprimentar a honra,<br> + Pôr em tal perigo a fama.<br> + Bem tive eu para mim,<br> + Que era aquillo experiencia.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Errei no que commetti:<br> + Bem me basta a penitencia<br> + De quanto me arrependi.<br> + E se fiz algum error,<br> + Com que vosso amor se mude<br> + De quem vo-lo tẽe maior;<br> + Não exprimentei virtude,<br> + Mas exprimentei amor.<br> + Que se com caso tão vário<br> + Folguei de vos agastar,<br> + Foi amor accrescentar;<br> + Porque ás vezes hum contrário<br> + Faz seu contrário avisar.<br> + Daqui vem, que a leve mágoa <span class="pn"><a + name="pag_359">{359}</a></span><br> + Firmeza e affeições augmenta,<br> + Como bem se vê na frágoa,<br> + Onde o fogo se accrescenta,<br> + Borrifando-o com pouca ágoa.<br> + Se hum mal grande se alevanta<br> + N'hum coração que maltrata,<br> + A affeição se desbarata;<br> + Porque onde a ágoa he tanta<br> + O fogo d'amor se mata.<br> + E pois tive tal tenção,<br> + Perdoae, Senhora, a culpa<br> + Deste vosso coração.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Não se alcança assi perdão<br> + D'erro que não tẽe desculpa.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Ora pois assi tratais<br> + Quem em tanto risco pôs<br> + O amor que vós negais,<br> + Eu m'ausentarei de vós<br> + Onde mais me não vejais.<br> + Que, pois desculpa não tem<br> + Coração que tanto quer,<br> + Vou-me; que não será bem<br> + Que quem vós não podeis ver,<br> + Que possa mais ver ninguem.<br> + Se algum'hora meu cuidado<br> + Vos der dor, em que pequena;<br> + Peço-vos, pois fui culpado,<br> + Que vos não peze da pena<br> + De quem vos foi tão pezado. <span class="pn"><a + name="pag_360">{360}</a></span><br> + E despois que a desventura<br> + Puzer este coração<br> + Debaixo da sepultura,<br> + As letras na pedra dura<br> + Vossa dureza dirão.<br> + Isto vos hei de dizer,<br> + Que m'ensinou minha dor:<br> + Se quizerdes leda ser,<br> + Nunca exprimenteis amor<br> + Em quem vo-lo não tiver.<br> + Deixae-me ir; não me tenhais.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Amphitrião, não choreis!<br> + Amphitrião!</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Que quereis,<br> + Ou para que nomeais<br> + Homem, que ver não podeis?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Amphitrião, s'eu causei<br> + Com manencória pequena<br> + Cousa, com que o magoei;<br> + Eu quero cahir na pena<br> + Dessa culpa que lhe dei.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Sempre serei magoado<br> + Se vossa má condição<br> + Me não perdôa o passado.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>LCMENA.</small></p> + +<blockquote> + Perdôo, e peço perdão<br> + De lhe não ter perdoado. <span class="pn"><a name="pag_361">{361}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + No le perdone, Señora,<br> + Hasta que con devocion<br> + Tambien me pida perdon;<br> + Que bien se me acuerda ahora<br> + Que me ha llamado ladron.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Sósea?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Señor.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Vae buscar<br> + O Piloto Belferrão;<br> + Dir-lhe-has, se desembarcar,<br> + Que me parece razão<br> + Que venha hoje cá cear.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Si, Señor, voy á la hora.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + De nenhuma qualidade<br> + Cure de fazer demora.<br> + E nós vamos-nos, Senhora,<br> + Confirmar nossa amizade.</blockquote> + +<h3>SCENA II.</h3> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Grandes revoltas vão lá.<br> + Grandes acontecimentos!<br> + Cumpre-me que esteja cá,<br> + Em quanto meu pae está <span class="pn"><a + name="pag_362">{362}</a></span><br> + Em seus desenfadamentos.<br> + Porque vi Amphitrião<br> + Vir da nao mui apressado;<br> + E tendo corrido e andado,<br> + Não pôde achar Belferrão,<br> + Que lhe era bem escusado.<br> + Parece-me que virá<br> + Ver se lhe abre aqui alguem;<br> + Mas, porém, se chega cá,<br> + Ja póde ser que se vá<br> + Mais confuso do que vem.</blockquote> + +<h3>SCENA III.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Mercurio e Amphitrião.</em></p> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Quiz-nos nossa natureza<br> + Com tal condição fazer,<br> + Que ja temos por certeza<br> + Não haver grande prazer,<br> + Sem mistura de tristeza.<br> + Este decreto espantoso,<br> + Que instituio nossa sorte,<br> + He tal e tão rigoroso,<br> + Que ninguem antes da morte<br> + Se póde chamar ditoso.<br> + Com esta justa balança<br> + O Fado grande e profundo<br> + Nos refreia a esperança,<br> + Porque ninguem neste mundo<br> + Busque bem-aventurança. <span class="pn"><a + name="pag_363">{363}</a></span><br> + Eu, que cuidei de viver<br> + Sempre contente de mi<br> + Com tamanho Rei vencer,<br> + Venho achar minha mulher<br> + De todo fóra de si.<br> + Mas d'outra parte, que digo?<br> + Que s'he verdade o que vi,<br> + E o que ella diz he assi;<br> + Virei a cuidar comigo<br> + Qu'eu sou o fóra de mi.<br> + Quero ver se a acho ja<br> + Fóra de tão seccos nós.<br> + Ó de casa?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + O de allá?<br> + Quien sois?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Abre.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Santo Dios!<br> + Pues no os conocen acá.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Oh que gentil desvario!<br> + Abri-me ora se quizerdes.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + No haré, que en mí confio<br> + Que de fuera dormiredes,<br> + Que no comigo, amor mio.<br> + (Que cancion para oir!)</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Ah Sósea! zombas de mi? <span class="pn"><a + name="pag_364">{364}</a></span><br> + (Ora quero-me fingir<br> + Que ainda o não conheci,<br> + Por ver se me quer abrir)<br> + Ah Senhor, não abrireis?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Qué quereis, hombre, por Dios?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Duas palavras de vós.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Tengo dicho mas de seis,<br> + E ahora me pedis dos?<br> + De fuera podeis dormir,<br> + Que entrar no podeis acá.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Ora acabae, abri lá.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Digo que no quiero abrir:<br> + Dije dos palabras ya.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Ora sus, bargante, abri.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Si no te vuelves de aqui,<br> + Á gran peligro te ofreces.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Velhaco, não me conheces.<br> + Ou estás fóra de ti?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Bonito venis, amor.<br> + Quien sois, que hablais tan osado?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Abre, que sou teu Senhor. <span class="pn"><a name="pag_365">{365}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Vuélvase de esotro lado,<br> + Y conocerlehé mejor.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Sósea moço.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Así me llamo,<br> + Huélgome que lo sepais;<br> + Empero digo que os vais,<br> + Que Amphitrion es mi amo;<br> + Vos id buscar quien seais.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Pois quero saber de ti:<br> + Eu quem sou?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Y quien sois vós?<br> + Como os llaman?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Abri.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Á vos os llaman Abri?<br> + Pues, Abri, andad con Dios.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Quem ha, que possa soffrer<br> + Em sua honra tal destrôço,<br> + Que para me endoudecer<br> + Me tẽe negado a mulher,<br> + E agora me nega o moço?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ERCURIO.</small></p> + +<blockquote> + Mira el encantador<br> + Como se lastima y llora, <span class="pn"><a + name="pag_366">{366}</a></span><br> + Y fuese tomar ahora<br> + La forma de mi Señor,<br> + Para engañar mi Señora.<br> + Pues esperad, y no os vais,<br> + Por un espacio pequeño;<br> + Verná quien representais,<br> + Y él os hará que volvais<br> + El falso gesto á su dueño.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Vae, velhaco, e chama cá<br> + Esse falso feiticeiro;<br> + Que se elle lá dentro está,<br> + Esta espada julgará<br> + Qual de nós he o verdadeiro.</blockquote> + +<h3>SCENA IV.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Sosea e Belferrão.</em></p> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Ora ninguem presumíra<br> + Que tinhas tão pouco siso;<br> + Pois vás achar d'improviso<br> + Tão bem forjada mentíra,<br> + Que me faz cahir de riso.<br> + Hum moço, que alevantou<br> + Tal graça, nunca nasceo:<br> + Porque vos jura que achou<br> + Que ou elle em dous se perdeo,<br> + Ou de hum dous se tornou.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Patron, que no burlo, no: <span class="pn"><a + name="pag_367">{367}</a></span><br> + En uno son dos unidos,<br> + Y en dos cuerpos repartidos;<br> + Yo soy él, y él es yo,<br> + De un padre y madre nacidos.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Esse tu que lá estás,<br> + Tão velhaco he como ti?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Mas aun pienso que es mas:<br> + Por delante y por detrás<br> + Todo se parece á mí.<br> + Y fue gran merced de Dios<br> + Ayuntar á mí mas uno,<br> + Que peor fuera de nos,<br> + Si Dios me hiciera ninguno,<br> + Que no de uno hacer dos.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Assi que, se te perdeste<br> + Vieste a cobrar mais hum:<br> + Mui gentil conta fizeste,<br> + Pois que perdido soubeste<br> + Que eras dous, sendo nenhum.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Pues teneis por abusion<br> + Verdad tan clara, y tan rasa,<br> + Aunque pone admiracion;<br> + Quiera Dios, que allá en casa<br> + No halleis otro Patron.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + O Patrão, que fui buscar,<br> + Parece que vejo vir: <span class="pn"><a name="pag_368">{368}</a></span><br> + Não sei quem o foi chamar;<br> + Mas que me ha de aproveitar<br> + Se me não querem abrir?<br> + Ah Belferrão!</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Ah Senhor!<br> + Ja sinto que fui culpado;<br> + Porque quem he convidado,<br> + Se tão vagaroso for,<br> + Merece não ser chamado.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + A vós quem vos convidou?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Sósea, por mandado seu.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Disso, Patrão, não sei eu;<br> + Que Sósea ja me negou,<br> + E ja se não dá por meu.<br> + E se alguem vos foi dizer<br> + Qu'eu vos chamo á minha mesa;<br> + Mal vos dara de comer<br> + Quem de todo lhe he defesa<br> + A casa, e mais a mulher.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Quem he esse tão ousado,<br> + Que vos isso faz, Senhor?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Sósea, creio que enganado<br> + Por algum encantador,<br> + Que a honra me tẽe roubado. <span class="pn"><a + name="pag_369">{369}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Se elle aqui comigo vem,<br> + Isso como póde ser?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Ah! que a íra que vou ter,<br> + Tão cega a vista me tem,<br> + Que mo não deixava ver.<br> + Porque razão, cavalleiro,<br> + Não me abris quando vos mando?<br> + Vós fazeis-vos chocarreiro?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Yo Señor? y como? y cuando?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Quereis-lo saber primeiro?<br> + Esperae, dir-se-vos-ha,<br> + Mas será por outro son.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Ah Señor Amphitrion,<br> + Porque matándome está,<br> + Sin delito, y sin razon?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Agora que vos eu dou<br> + Me chamais Amphitrião,<br> + E para me abrirdes não?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Este moço em que peccou?<br> + Porque pena sem razão?<br> + Não mais por amor de mi.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Não, que não sou seu Senhor;<br> + Eu sou hum encantador. <span class="pn"><a name="pag_370">{370}</a></span><br> + Não o dizeis vós assi,<br> + Ladrão, perro, enganador?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Porque fuy presto á llamar<br> + Por su mandado al Patron,<br> + Me quiere ahora matar?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Quem vo-lo mandou buscar?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Si no hay otro Amphitrion,<br> + Vuestra merced sin dudar.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Eu te mandei?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Si Señor,<br> + Si otro no.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Outro ha aqui,<br> + Por quem tu zombes de mi?<br> + Pois só desse encantador<br> + Me quero vingar em ti.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Oh Júpiter, á quien bramo<br> + Por su bondad que me vala!<br> + Pues porque Sósea me llamo,<br> + Yo mismo, y despues mi amo,<br> + Me dieron venida mala! <span class="pn"><a name="pag_371">{371}</a></span> +</blockquote> + +<h2>ACTO QUINTO.</h2> + +<h3>SCENA I.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Jupiter, Belferrão, Sosea e Amphitrião.</em></p> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + <big>Q</big>uem he o tão atrevido,<br> + Que aqui ousa de fazer<br> + Tão revoltoso arruido<br> + Com meus moços, sem temer,<br> + Que fui sempre tão temido?<br> + Quem aqui faz união,<br> + Toma mui grande despejo.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Oh grande admiração!<br> + Vejo eu outro Amphitrião,<br> + Ou he sonho isto que vejo?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + No mirais la encantacion,<br> + Que aquel hizo á mi Señor?<br> + El que sale, Belferron,<br> + Es el cierto Amphitrion,<br> + Que estotro es encantador.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Sósea?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Mi Señor, ya vó.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Patrão, só por vós espero. <span class="pn"><a + name="pag_372">{372}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + No os lo dicia yo,<br> + Que este era el verdadero,<br> + Y esse que allá queda, no?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Bargante, aonde te vás?<br> + Fazes teu Senhor sandeu?<br> + Pois espera, e levarás.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Ó lá, tornae por detrás,<br> + Não deis no moço, que he meu.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Vosso?</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Meu.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Póde isto haver,<br> + Que outrem minhas cousas tome?<br> + Vós galante haveis de ser,<br> + O que me tomais o nome,<br> + Casa, moços e mulher.<br> + Eu vos farei conhecer<br> + Com quem tendes esse trato.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Sósea?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Señor.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Vae dizer,<br> + Que apparelhem de comer,<br> + Em quanto este doudo mato. <span class="pn"><a +name="pag_373">{373}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Oh Senhor, não seja assim,<br> + Haja em vós concêrto algum!<br> + E senão, pois aqui vim,<br> + Farei que só tome em mim<br> + Os golpes de cada hum.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Patrão, vossa boa estrella<br> + Me fara deixar com vida<br> + Quem me não merece tella.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Não a tenho eu merecida,<br> + Pois que vos deixo com ella.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + O homem que for sisudo,<br> + N'huma tão grande questão<br> + Ha de tomar por escudo<br> + A justiça, e a razão;<br> + Que estas armas vencem tudo.<br> + E pois essa natureza<br> + Muitos homens faz iguais,<br> + Dê qualquer de vós signais<br> + De quem he, para certeza<br> + Da fórma que ambos mostrais.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Sou contente de mostrar<br> + Polos sinaes que vos dou,<br> + Que são estes sem faltar.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Que sinaes podeis vós dar,<br> + Para que sejais quem sou? <span class="pn"><a name="pag_374">{374}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Estes, que logo vereis<br> + Se são vãos, se de raiz.<br> + Patrão, vós sêde juiz,<br> + Que vós logo enxergareis<br> + Qual mais verdade vos diz.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Eu não sinto onde consista<br> + A cura desta doença,<br> + Que ha tão pouca differença,<br> + Que aquelle em que ponho a vista,<br> + Por esse dou a sentença.<br> + Mas, Senhor, vós que ordenastes<br> + Que o juiz disto fosse eu,<br> + Quando se a batalha deu,<br> + Dizei, que m'encommendastes<br> + Que ficasse a cargo meu?</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + <br> + Dei-vos cargo, qu'estivesse<br> + Toda a Armada a bom recado,<br> + E, se mal nos succedesse,<br> + Que para os vivos houvesse<br> + O refugio apparelhado.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Ora vós quantos dobrões<br> + Esse dia m'entregastes?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Tres mil; e vós os contastes.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Ambos sois Amphitriões<br> + Pelos sinaes que mostrastes. <span class="pn"><a + name="pag_375">{375}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Para ser mais conhecida<br> + A tenção deste sandeu,<br> + Vêde est'outro sinal meu,<br> + Que he neste braço a ferida<br> + Que me ElRei Terela deu.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Mostrae vós, Senhor, tambem.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Aqui o podeis olhar.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Oh cousa para espantar!<br> + Que ambos a ferida tem<br> + D'hum tamanho, em hum lugar!</blockquote> + +<h3>SCENA II.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Jupiter, Amphitrião e Sosea.</em></p> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Dice mi Señora Alcmena<br> + Que no se ha de así de estar<br> + Con un bobo á razonar,<br> + Que se le enfria la cena.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Belferrão, vamos cear.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Belferrão, não me deixeis.<br> + Como? tambem me negais?</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + Andae, não vos detenhais, <span class="pn"><a + name="pag_376">{376}</a></span><br> + Vamos comer, se quereis,<br> + Não ouçais hum doudo mais.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Ah maos! assi me ordenais<br> + Offensa tão mal olhada?<br> + Eu farei, se m'esperais,<br> + Com que todos conheçais<br> + Os fios da minha espada.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER.</small></p> + +<blockquote> + As portas prestes fechemos,<br> + Não entre este doudo cá.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + De fuera se dormirá:<br> + Entre tanto que cenemos,<br> + Puede pasearse allá.</blockquote> + +<h3>SCENA III.</h3> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO</small> <em>só</em>.</p> + +<blockquote> + Oh ira para não crer,<br> + Em que minh'alma se abraza,<br> + Que me faz endoudecer,<br> + E não me ajuda a romper<br> + As paredes desta casa!<br> + E porque? Não tenho eu<br> + Forças, que tudo destrua?<br> + Pois que tanto a salvo seu,<br> + Outrem acho que possua<br> + A melhor parte do meu;<br> + Eu irei hoje buscar <span class="pn"><a name="pag_377">{377}</a></span><br> + Quem me ajude a vir queimar<br> + Toda esta casa sem pena,<br> + Donde veja arder Alcmena,<br> + Com quem a vejo enganar.</blockquote> + +<h3>SCENA IV.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Aurelio e Moço.</em></p> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + No hallo á mis males culpa,<br> + Para que merezca pena<br> + La causa que me condena.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<blockquote> + Essa está gentil desculpa<br> + Para hoje dar a Alcmena!<br> + Tẽe-no mandado chamar,<br> + E elle está tão descuidado!</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + Moço, queres-me matar?<br> + Que desculpa posso eu dar<br> + Melhor qu'este meu cuidado?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<blockquote> + E não ha mais que fazer?<br> + Com isso a boca me tapa<br> + Para mais nada dizer?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + Ora dá-me cá essa capa<br> + E vamos ver o que quer:<br> + Não trates de mais razão,<br> + Pois não ha quem te resista.<br> + Que vejo? outra novação! <span class="pn"><a +name="pag_378">{378}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<blockquote> + Que he?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + Ou me mente a vista,<br> + Ou eu vejo Amphitrião.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>OÇO.</small></p> + +<blockquote> + Eu ouvi a Feliseo,<br> + Quando cá trouxe o recado,<br> + Como elle era chegado,<br> + E quiz-me dizer que veo<br> + Do siso desconcertado.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + Isso quero eu ir saber,<br> + Pois que tal cousa se sôa.</blockquote> + +<h3>SCENA V.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Aurelio e Amphitrião.</em></p> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, póde-se dizer<br> + Que a vinda seja mui boa?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Essa não póde ella ser.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + Porque não?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Porque he roubada<br> + Minha honra sem temor,<br> + E minha casa tomada,<br> + E vossa Prima enganada<br> + Por hum grande encantador. <span class="pn"><a +name="pag_379">{379}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + Isso he certo?</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + E manifesto:<br> + E tudo tẽe ja por seu<br> + Adúltero e deshonesto:<br> + Tẽe-me tomado o meu gesto,<br> + E faz-lhe crer que sou eu.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + Contais hum caso d'espanto!<br> + E pois não podeis entrar,<br> + Defendei-me por em tanto,<br> + Que eu hei lá de chegar<br> + Para ver quem póde tanto,</blockquote> + +<h3>SCENA VI.</h3> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO</small> <em>só</em>.</p> + +<blockquote> + Se ver deshonra tão clara<br> + Me não tivera o sentido<br> + Totalmente endoudecido,<br> + Que gravemente chorára<br> + Ver tão grande amor perdido!<br> + E quando vejo a verdade<br> + Do nosso amor e amizade<br> + Desfeita com tanta mágoa<br> + Enchem-se-me os olhos d'ágoa,<br> + E a alma de saudade.<br> + Assi que quiz minha estrella,<br> + Para nunca ser contente, <span class="pn"><a + name="pag_380">{380}</a></span><br> + Que agora, estando presente<br> + Viva mais saudoso della,<br> + Que quando della era ausente.<br> + Esta porta vejo abrir<br> + Com impeto demasiado,<br> + Que poderei presumir,<br> + Que vejo Aurelio sahir,<br> + Como homem desatinado?</blockquote> + +<h3>SCENA VII.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea.</em></p> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + Oh estranha novidade!<br> + Oh cousa para não crer!</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>ELFERRÃO.</small></p> + +<blockquote> + Venho cego de verdade,<br> + Que não puderão soffrer<br> + Meus olhos a claridade.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OSEA.</small></p> + +<blockquote> + Oh triste, que vengo ciego<br> + Con rayos, y con visiones!<br> + Y destas encantaciones,<br> + Si nuestra casa arde en fuego,<br> + Han se de arder mis colchones.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + Vamos a Amphitrião<br> + Contar-lhe cousas tamanhas.</blockquote> + +<p class="personagem">A<small>MPHITRIÃO.</small></p> + +<blockquote> + Que vai lá? que cousas vão? <span class="pn"><a + name="pag_381">{381}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">A<small>URELIO.</small></p> + +<blockquote> + Maravilhas tão estranhas,<br> + Que me treme o coração.<br> + Porque aquelle homem, que assi<br> + Tantos enganos teceo,<br> + Como era cousa do Ceo,<br> + Tanto qu'eu appareci,<br> + Logo desappareceo.<br> + E em desapparecendo<br> + Com ruido grande e horrendo,<br> + Toda a casa allumiou;<br> + E de arte nos inflammou,<br> + Que nos vimos acolhendo<br> + Do raio que nos cegou.<br> + Estes acontecimentos<br> + Não são de humana pessoa.<br> + Vós ouvis a voz que soa?<br> + Escutae, estae attentos;<br> + Vejamos o que pregôa.</blockquote> + +<p class="personagem">J<small>UPITER</small>, <em>de dentro</em>.</p> + +<blockquote> + Amphitrião, qu'em teus dias<br> + Vês tamanhas estranhezas,<br> + Não t'espantem phantasias,<br> + Que ás vezes grandes tristezas<br> + Parem grandes alegrias.<br> + Jupiter sou manifesto<br> + Nas obras de admiração,<br> + Que por mi causadas são:<br> + Quiz-me vestir em teu gesto,<br> + Por honrar tua geração.<br> + Tua mulher parirá <span class="pn"><a name="pag_382">{382}</a></span><br> + Hum filho de mi gerado,<br> + Que Hercules se chamará,<br> + O mais valente e esforçado,<br> + Que no mundo se achará.<br> + Com este, teus successores<br> + Se honrarão de serem teus;<br> + E dar-lhe-hão os escriptores,<br> + Por doze trabalhos seus,<br> + Doze milhões de louvores.<br> + E dessa illustre fadiga<br> + Colherás mui rico fruito:<br> + Enfim, a razão me obriga<br> + Que tão pouco delle diga,<br> + Porque o tempo dirá muito. <span class="pn"><a + name="pag_383">{383}</a></span></blockquote> + + +<p> <span class="pn"><a +name="pag_385">{385}</a></span></p> + +<h1>FILODEMO,</h1> + +<h2>COMEDIA.</h2> + +<h3>INTERLOCUTORES.</h3> + +<p class="ni">F<small>ILODEMO</small>. <br> +V<small>ILARDO</small>, seu moço. <br> +D<small>IONYSA</small>. <br> +S<small>OLINA</small>, sua moça. <br> +V<small>ENADORO</small>. <br> +M<small>ONTEIRO</small>. <br> +D<small>ORIANO</small>, amigo de Filodemo. <br> +H<small>UM</small> P<small>ASTOR</small>. <br> +H<small>UM</small> B<small>OBO</small>, filho do pastor. <br> +F<small>LORIMENA</small>, pastora. <br> +D<small>OM</small> L<small>USIDARDO</small>, pae de Venadoro. <br> +D<small>OLOROSO</small>, amigo de Vilardo. <br> +T<small>RES</small> P<small>ASTORES</small>.</p> + +<h3>ARGUMENTO.</h3> + +<p class="ni"><big>H</big>um Fidalgo Portuguez, que acaso andava nos Reinos de +Dinamarca, como por largos amores e maiores serviços, tivesse alcançado o +amor de huma filha d'el Rei, foi-lhe necessario fugir com ella em huma galé, +por quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo chegados á costa +de Hespanha, onde elle era senhor de grande patrimonio, armou-se-lhe grande +tormenta, que sem nenhum remedio, dando a galé á costa, se perdêrão todos +miseravelmente, senão a Princeza, que em huma taboa foi á praia: a qual, como +chegasse o tempo de seu parto, junto de huma fonte pario duas crianças, macho +e femia; e não tardou muito que hum pastor Castelhano, que naquellas partes +morava, ouvindo os tenros gritos dos meninos, lhe acudio a tempo que a mãe ja +tinha espirado. Crescidas, emfim, as crianças debaixo da humanidade e +criação daquelle pastor, o macho que Filodemo se chamou á vontade de quem os +baptizára, levado da natural inclinação, deixando o campo, se foi para a +cidade, aonde por musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo, +irmão de seu Pae, a quem muitos annos servio sem saber o parentesco que entre +ambos havia. E como de seu Pae não tivesse herdado nada mais que os altos +espiritos, namorou-se de Dionysa, filha de seu Senhor e Tio, que incitada ao +que <span class="pn"><a name="pag_386">{386}</a></span> por suas obras e boas +partes merecia, ou porque ellas nada engeitão, lhe não queria mal. Aconteceo +mais, que Venadoro, filho de D. Lusidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao +exercicio da caça, andando hum dia no campo apos hum cervo, se perdeo dos +seus; e indo dar em huma fonte, onde estava Florimena, irmãa de Filodemo (que +assim lhe pozerão o nome) enchendo huma talha de ágoa, se perdeo de amores +por ella, que se não soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava, +até que seu Pae o não foi buscar. O qual informado pelo pastor que a criára +(que era homem sabio na Arte Magica) de como a achára e como a criára, não +teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha, e prima de Filodemo; e +a Venadoro seu filho, com Florimena sua sobrinha, irmãa de Filodemo pastor; e +tambem pela muita renda que tinha e de seu Pae ficára, de que elles erão +verdadeiros herdeiros. Das mais particularidades da Comedia, fara menção o +Auto, que he o seguinte. <span class="pn"><a name="pag_387">{387}</a></span></p> + +<h1>FILODEMO,</h1> + +<h3>COMEDIA.</h3> + +<h2>ACTO PRIMEIRO.</h2> + +<h3>SCENA I.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Filodemo e Vilardo.</em></p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + <big>M</big>oço Vilardo?</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Ei-lo vae.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Fallae era má, fallae,<br> + E sahi cá para a sala.<br> + O villão como se cala!</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Pois, Senhor, sahi a meu pae,<br> + Que quando dorme não fala.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Trazei cá huma cadeira:<br> + Ouvis, villão? <span class="pn"><a name="pag_388">{388}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, sim.<br> + (Se m'ella não traz a mim.<br> + Vejo-lh'eu ruim maneira.)</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Acabae, villão ruim.<br> + Que moço para servir<br> + Quem tẽe as tristezas minhas!<br> + Quem pudesse assi dormir!</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, nestas manhãzinhas<br> + Não ha hi senão cahir:<br> + Por demais he trabalhar<br> + Qu'este somno se me ausente.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Porque?</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Porque ha d'assentar<br> + Que se não for com pão quente,<br> + Não ha de desaferrar.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Ora hi pelo que vos mando,<br> + Villão feito de fermento. <em>Sahe Vilardo.</em><br> + Triste do que vive amando<br> + Sem ter outro mantimento,<br> + Qu'estar só phantasiando!<br> + Só hũa cousa me desculpa<br> + Deste cuidado que sigo,<br> + Ser de tamanho perigo,<br> + Que cuido que a mesma culpa<br> + Me fica sendo castigo. <span class="pn"><a name="pag_389">{389}</a></span> +</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz +avante</em></p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Ora quero praticar<br> + Só comigo hum pouco aqui;<br> + Que despois que me perdi,<br> + Desejo de me tomar<br> + Estreita conta de mi.<br> + Vae para fóra, Vilardo.<br> + Torna cá: vae-me saber<br> + Se se quer ja lá erguer<br> + O Senhor Dom Lusidardo,<br> + E vem-mo logo dizer. <em>Vai-se o moço.</em><br> + Ora bem, minha ousadia,<br> + Sem azas, pouco segura,<br> + Quem vos deo tanta valia,<br> + Que subais a phantasia<br> + Onde não sobe a ventura?<br> + Por ventura eu não nasci<br> + No mato, sem mais valer,<br> + Que o gado ao pasto trazer?<br> + Pois donde me veio a mi<br> + Saber-me tão bem perder?<br> + Eu, nascido entre pastores,<br> + Fui trazido dos currais,<br> + E d'entre meus naturais<br> + Para casa dos Senhores,<br> + Donde vim a valer mais.<br> + E agora logo tão cedo<br> + Quiz mostrar a condição<br> + De rustico e de villão!<br> + Dando-me ventura o dedo, <span class="pn"><a + name="pag_390">{390}</a></span><br> + Lhe quero tomar a mão!<br> + Mas oh! qu'isto não he assi,<br> + Nem são villãos meus cuidados,<br> + Como eu delles entendi;<br> + Mas antes, de sublimados,<br> + Os não posso crer de mi.<br> + Porque como hei eu de crer<br> + Que me faça minha estrella<br> + Tão alta pena soffrer,<br> + Que somente pola ter<br> + Mereço a gloria della?<br> + Senão se amor, d'attentado,<br> + Porque me não queixe delle,<br> + Tẽe por ventura ordenado<br> + Que mereça o meu cuidado,<br> + Só por ter cuidado nelle.</blockquote> + +<h3>SCENA II.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Vilardo e Filodemo.</em></p> + +<p class="personagem">VILARDO.</p> + +<blockquote> + O Senhor Dom Lusidardo<br> + Dorme com todo o convento;<br> + E elle com o pensamento<br> + Quer estar fazendo alardo<br> + De castellinhos de vento!<br> + Pois tão cedo se vestio,<br> + Com seu damno se conforme,<br> + Pezar de quem me pario;<br> + Que ainda o sol não sahio: <span class="pn"><a + name="pag_391">{391}</a></span><br> + Se vem á mão, tambem dorme.<br> + Elle quer-se levantar<br> + Assi pela manhãzinha!<br> + Pois quero-o desenganar:<br> + Nem por muito madrugar<br> + Amanhece mais asinha.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Filodemo.</em></p> + +<blockquote> + Traze-me a viola cá.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + (Voto a tal que me vou rindo.)<br> + Senhor, tambem dormirá.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Traze-a, moço.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Si, virá,<br> + Se não estiver dormindo.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Ora hi polo que vos mando:<br> + Não gracejeis.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Eis-me vou:<br> + Pois, pezar de São Fernando!<br> + Por ventura sou eu grou?<br> + Sempre hei d'estar vigiando? <em>Sahe.</em></blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Ah Senhora, que podeis<br> + Ser remedio do que peno,<br> + Quão mal ora cuidareis<br> + Que viveis e que cabeis<br> + N'hum coração tão pequeno!<br> + Se vos fosse apresentado <span class="pn"><a + name="pag_392">{392}</a></span><br> + Este tormento em que vivo,<br> + Crerieis que foi ousado<br> + Este vosso, de criado<br> + Tornar-se vosso captivo?</blockquote> + +<h3>SCENA III.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Filodemo e Vilardo.</em></p> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Ora eu creio, se he verdade<br> + Qu'estou de todo acordado,<br> + Que meu amo he namorado;<br> + E a mi dá-me na vontade<br> + Que anda hum pouco abalado.<br> + E se tal he, eu daria<br> + Por conhecer a donzella<br> + A ração d'hoje este dia;<br> + Porque a desenganaria,<br> + Somente por ter dó della.<br> + Havia-lhe perguntar:<br> + Senhora, de que comeis?<br> + Se comeis d'ouvir cantar,<br> + De fallar bem, de trovar,<br> + Em boa hora casareis.<br> + Porém se vós comeis pão,<br> + Tende, Senhora, resguardo;<br> + Qu'eis-aqui está Vilardo,<br> + Qu'he como hum camaleão,<br> + Por isso, bus, fazei fardo.<br> + E se vós sois das gamenhas, <span class="pn"><a + name="pag_393">{393}</a></span><br> + E houverdes d'attentar<br> + Por mais que por manducar,<br> + Mi cama son duras peñas,<br> + Mi dormir siempre es velar.<br> + A viola, Senhor, vem<br> + Sem primas, nem derradeiras:<br> + Mas sabe o que lhe convem?<br> + Se quer, Senhor, tanger bem,<br> + Ha de haver mister terceiras.<br> + E se estas cantigas vossas<br> + Não forem para escutar,<br> + E quizerdes espirar;<br> + Ha mister cordas mais grossas,<br> + Porque não possão quebrar.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Vae para fóra.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Ja venho.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Qu'eu só desta phantasia<br> + Me sostenho e me mantenho.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Quamanha vista que tenho,<br> + Que vejo a estrella do dia! <em>Sahe.</em></blockquote> + +<h3>SCENA IV.</h3> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO</small>, <em>cantando</em>.</p> + +<blockquote> + Adó sube el pensamiento,<br> + Seria una gloria inmensa<br> + Si allá fuese quien lo piensa. <span class="pn"><a + name="pag_394">{394}</a></span></blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p> + +<blockquote> + Qual espirito divino<br> + Me fará a mi sabedor<br> + Deste meu mal, se he amor,<br> + Se por dita desatino?<br> + Se he amor, diga-me qual<br> + Póde ser seu fundamento,<br> + Ou qual he seu natural,<br> + Ou porque empregou tão mal<br> + Hum tão alto pensamento.<br> + Se he doudice, como em tudo<br> + A vida me abraza e queima,<br> + Ou quem vio n'hum peito rudo<br> + Desatino tão sisudo,<br> + Que toma tão doce teima?<br> + Ah Senhora Dionysa,<br> + Onde a natureza humana<br> + Se mostrou tão soberana!<br> + O que vós valeis me avisa,<br> + Mas o qu'eu peno m' engana.</blockquote> + +<h3>SCENA V.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Solina e Filodemo.</em></p> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Tomado estais vós agora,<br> + Senhor, co'o furto nas mãos.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Solina, minha Senhora,<br> + Quantos pensamentos vãos<br> + Me ouvirieis lançar fóra? <span class="pn"><a + name="pag_395">{395}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Oh Senhor, quão bem que sôa<br> + O tanger de quando em quando!<br> + Bem sei eu huma pessoa,<br> + Que haja huma hora, e boa,<br> + Que vos está escutando.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Por vida vossa, zombais?<br> + Quem he? quereis-mo dizer?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Não o haveis vós de saber,<br> + Bofé se me não peitais.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Dar-vos-hei quanto tiver,<br> + Para taes tempos como estes.<br> + Quem tivera voz dos Ceos,<br> + Pois escutar me quizestes!</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Assi pareça eu a Deos,<br> + Como lhe vós parecestes.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + A Senhora Dionysa<br> + Quer-se ja alevantar?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Assi me veja eu casar,<br> + Como despida em camisa<br> + Se ergueo por vos escutar.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Em camisa levantada!<br> + Tão ditosa he minha estrella?<br> + Ou mo dizeis refalsada? <span class="pn"><a name="pag_396">{396}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Pois bem me defendeo ella<br> + Que vos não dissesse nada.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Se pena de tantos annos<br> + Merecer algum favor,<br> + Para cura de meus dannos<br> + Fartae-me desses engannos,<br> + Que não quero mais de Amor.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Agora quero eu fallar<br> + Neste caso com mais tento;<br> + Quero agora perguntar:<br> + E de siso his vós tomar<br> + Hum tão alto pensamento?<br> + Certo he minha maravilha,<br> + Se vós isto não sentis<br> + Bem: vós como não cahis<br> + Que Dionysa qu'he filha<br> + Do Senhor a quem servis?<br> + Como? Vós não attentais<br> + Os Grandes, de qu'he pedida?<br> + Peço-vos que me digais<br> + Qual he o fim que esperais<br> + Neste caso, em vossa vida.<br> + Que razão boa, ou que côr<br> + Podeis dar a esta affeição?<br> + Dizei-me vossa tenção.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Onde vistes vós amor<br> + Que se guie por razão? <span class="pn"><a + name="pag_397">{397}</a></span><br> + Se quereis saber de mi<br> + Que fim, ou de que theor<br> + O pretendo em minha dor;<br> + S'eu neste amor quero fim,<br> + Sem fim me atormente Amor.<br> + Mas vós com gloria fingida<br> + Pretendeis de m'enganar,<br> + Por assi mal me tratar:<br> + Assi que me dais a vida<br> + Somente por me matar.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Eu digo-vos a verdade.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Da verdade fujo eu,<br> + Porque se o Amor me deu<br> + Pena de tal qualidade,<br> + Assaz me custa do meu.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Fólgo muito de saber<br> + Que sois amante tão fino.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Pois mais vos quero dizer,<br> + Que ás vezes no imaginar<br> + Não ouso de m' estender.<br> + Na hora que imaginei<br> + Na causa de meu tormento,<br> + Tamanha gloria levei,<br> + Que por onças desejei<br> + De lograr o pensamento.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Se me vós a mi jurardes <span class="pn"><a + name="pag_398">{398}</a></span><br> + De me terdes em segredo<br> + Huma cousa... mas hei medo<br> + De logo tudo contardes.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + A quem?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Áquelle enxovedo.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Qual?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Aquelle mao pezar,<br> + Que ant'hontem comvosco hia.<br> + Quem se fosse em vós fiar!<br> + O que vos disse o outro dia,<br> + Tudo lhe fostes contar.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Que lhe contei?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ja lh'esquece?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Por certo qu'estou remoto.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Hi, que sois hum cesto roto.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Esse homem tudo merece.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Vós sois muito seu devoto.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, não hajais medo:<br> + Contae-m'isso, e far-me-hei mudo. <span class="pn"><a + name="pag_399">{399}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, o homem sisudo,<br> + Se em taes cousas tẽe segredo,<br> + Saiba que alcançará tudo.<br> + A Senhora Dionysa<br> + Crede que mal vos não quer:<br> + Não vos posso mais dizer.<br> + Isto tende por balisa<br> + Com que vos saibais reger.<br> + Qu'em mulheres, se attentais,<br> + O querer está visibil;<br> + E se bem vos governais,<br> + Não desespereis do mais,<br> + Porque, emfim, tudo he possibil.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, póde isso ser?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Si, que tudo o mundo tem:<br> + Olhae não o saiba alguem.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + E que maneira hei de ter<br> + Para crer tamanho bem?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Vós, Senhor, o sabereis;<br> + E ja que vos descobri<br> + Tamanho sogredo aqui,<br> + Huma mercê me fareis<br> + Em que me vai muito a mi.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, a tudo me obrigo<br> + Quanto for em minha mão. <span class="pn"><a name="pag_400">{400}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Pois dizei a vosso amigo<br> + Que não gaste tempo em vão,<br> + Nem queira amores comigo.<br> + Porque eu tenho parentes,<br> + Que me podem bem casar;<br> + E mais que não quero andar<br> + Agora em boca de gentes<br> + A quem s'elle vai gabar.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, mal conheceis<br> + O que vos quer Duriano:<br> + Sabei-o, se o não sabeis,<br> + Qu'em sua alma sente o dano<br> + Do pouco que lhe quereis;<br> + E que outra cousa não quer,<br> + Que ter-vos sempre servida.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Pola sua negra vida,<br> + Isso havia eu bem mister.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Vós sois desagradecida!</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Si, que tudo são enganos<br> + Em tudo quanto fallais.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Não quero que me creais:<br> + Crede o tempo; que ha dous anos<br> + Que vos serve, e inda mais.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, bem sei que m'engano; <span class="pn"><a + name="pag_401">{401}</a></span><br> + Mas a vós, como a irmão,<br> + Descubro este coração:<br> + Sabei que a Duriano<br> + Tenho sobeja affeição.<br> + Olhae que lhe não digais<br> + Isto que vos aqui digo.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, mal me tratais:<br> + Inda que sou seu amigo,<br> + Sabei que vosso sou mais.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + E ja que vos confessei<br> + Aquestas fraquezas minhas,<br> + Que ha tanto que de mi sei;<br> + Fazei vós nas cousas minhas<br> + O qu'eu nas vossas farei.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Vós enxergareis, Senhora,<br> + O qu'eu por vós sei fazer.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Como me deixo esquecer!<br> + Aqui estivera agora<br> + Fallando té anoitecer.<br> + Vou-me; e olhae quanto val<br> + O que passou entre nós.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + E porque vos ides vós?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Porque parece ja mal<br> + Estar aqui ambos sós.<br> + E mais vou vestir agora <span class="pn"><a + name="pag_402">{402}</a></span><br> + A quem vos dá tão má vida.<br> + Ficae-vos, Senhor, embora.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Nessa ide vós, Senhora,<br> + Que ja vos tenho entendida.</blockquote> + +<h3>SCENA VI.</h3> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO</small> <em>só</em>.</p> + +<blockquote> + Ora se póde isto ser<br> + Do qu'esta moça me avisa,<br> + Que a Senhora Dionysa,<br> + Por me ouvir, se fosse erguer<br> + Da sua cama em camisa!<br> + E diz que mal me não quer.<br> + Não queria maior gloria;<br> + Mas o que mais posso crer,<br> + Que nem para lhe esquecer<br> + Lhe passo pela memoria.<br> + Mas ter Solina tambem<br> + Em Duriano o intento,<br> + He levar-me a lenha o vento;<br> + Porque s'ella lhe quer bem,<br> + Para bem vai meu tormento.<br> + Mas foi-se este homem perder<br> + Neste tempo, de maneira,<br> + Por huma mulher solteira,<br> + Que não me atrevo a fazer<br> + Que hum pequeno bem lhe queira.<br> + Porém far-lhe-hei hum partido, <span class="pn"><a + name="pag_403">{403}</a></span><br> + Porqu'ella não se querelle:<br> + Que se mostre seu perdido,<br> + Inda que seja fingido,<br> + Como lh'outrem faz a elle.<br> + E ja que me satisfaz,<br> + E tanto nisto se alcança,<br> + Dê-lhe fingida esperança:<br> + Do mal que lhe outrem faz,<br> + Tomará nella vingança.</blockquote> + +<h3>SCENA VII.</h3> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO</small> <em>só</em>.</p> + +<blockquote> + Ora boa está a cilada<br> + De meu amo com sua ama,<br> + Que se levantou da cama<br> + Por ouvi-lo! Está tomada:<br> + Assi a tome má trama.<br> + E mais crede que quem canta,<br> + Ainda descantará;<br> + E quem do leito, onde está,<br> + Por ouvi-lo se levanta,<br> + Mor desatino fará.<br> + Quem havia de cuidar,<br> + Que dama formosa e bella<br> + Saltasse o demonio nella,<br> + Para a fazer namorar<br> + De quem não he igual della?<br> + Que me dizeis a Solina?<br> + Como se faz Celestina, <span class="pn"><a name="pag_404">{404}</a></span><br> + Que por não lhe haver inveja<br> + Tambem para si deseja<br> + O que o desejo lh'ensina!<br> + Crede que se me alvoróço,<br> + Que a hei de tomar por dama;<br> + E não será grão destrôço,<br> + Pois o amo quer a ama,<br> + Que a moça queira o moço.<br> + Vou-me; que vejo lá vir<br> + Venadoro, apercebido<br> + Para a caça se partir:<br> + E voto a tal, que he partido<br> + Para ver e para ouvir.<br> + Que he razão justa e rasa<br> + Que seu folgar se desconte<br> + Em quem arde como brasa;<br> + Que se vai caçar ao monte,<br> + Fique outrem caçando em casa.</blockquote> + +<h3>SCENA VIII.</h3> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO</small> <em>só</em>.</p> + +<blockquote> + Aprovada antiguamente<br> + Foi, e muito de louvar<br> + A occupação do caçar,<br> + E da mais antigua gente<br> + Havida por singular.<br> + He o mais contrário officio<br> + Que tẽe a ociosidade,<br> + Mãe de todo o bruto vício: <span class="pn"><a + name="pag_405">{405}</a></span><br> + Por este limpo exercicio<br> + Se reserva a castidade.<br> + Este dos grandes Senhores<br> + Foi sempre muito estimado;<br> + E he grande parte do estado<br> + Ter monteiros, caçadores,<br> + Como officio qu'he prezado.<br> + Pois logo porque razão<br> + A meu pae ha de pezar<br> + De me ver ir a caçar?<br> + E tão boa occupação<br> + Que mal me póde causar?</blockquote> + +<h3>SCENA IX.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Venadoro e o Monteiro.</em></p> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, venho alvoroçado,<br> + E mais com muita razão.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Como assi?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Que me he chegado<br> + O mais extremado cão,<br> + Que nunca caçou veado.<br> + Vejamos que me ha de dar.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Dar-vos-hei quanto tiver;<br> + Mas ha-se d'exprimentar,<br> + Para se poder julgar<br> + As manhas que póde ter. <span class="pn"><a name="pag_406">{406}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Póde assentar qu'este cão,<br> + Que tẽe das manhas a chave.<br> + Bem feito? Em admiração.<br> + Pois em ligeiro? He huma ave.<br> + Em commetter? Hum leão.<br> + Com porcos? Maravilhoso.<br> + Com veados? Extremado.<br> + Sobeja-lhe o ser manhoso.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Pois eu ando desejoso<br> + D'irmos matar hum veado.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Pois, Senhor, como não vae?</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Vamos, e vós mui ligeiro<br> + O necessario ordenae;<br> + Qu'eu quero chegar primeiro<br> + Pedir licença a meu pae.</blockquote> + +<h2>ACTO SEGUNDO.</h2> + +<h3>SCENA I.</h3> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p class="ni"><big>P</big>ois não creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pôr +pé em ramo verde, té lhe dar trezentos açoutes. Despois de ter gastado perto +de trezentos cruzados <span class="pn"><a name="pag_407">{407}</a></span> com +ella, porque logo lhe não mandei o setim para as mangas, fez de mim mangas ao +demo. Não desejo eu de saber, senão qual he o galante que me succedeo; que se +vo-lo eu colho a balravento, eu lhe farei botar ao mar quantas esperanças lhe +a fortuna tẽe cortado á minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com +o dinheiro, como a maré com a lũa: bolsa cheia, amor em ágoas vivas; mas se +vasa, vereis espraiar este engano, e deixar em sêcco quantos gostos andavão +como o peixe na ágoa.</p> + +<h3>SCENA II.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Filodemo e Duriano.</em></p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Ó lá! cá sois vós? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me +sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos tire +como huma alma.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Oh maravilhosa pessoa! Vós he certo que vos prezais de mais certo em casa, +que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem á mão, os pensamentos com +os focinhos quebrados, de cahirem onde vós sabeis. Pois sabeis, Senhor +Filodemo, quaes são os que me mátão? Huns muito bem almofaçados, que com +dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezão de brandos na conversação, +e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo que não darão meia hora de +triste pelo thesouro de Veneza; e gábão mais Garcilasso <span class="pn"><a +name="pag_408">{408}</a></span> que Boscão; e ambos lhe sahem das mãos +virgens; e tudo isto por vos meterem em consciencia que se não achou para mais +o grão Capitão Gonçalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia +do mundo farão altos espiritos: e eu não trocarei duas pescoçadas da minha +etc., depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e +fingir-se-me bebada, porque o não pareça, por quantos Sonetos estão +escriptos polos troncos dos árvores do vale Luso, nem por quantas Madamas +Lauras vós idolatrais.</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Tá, tá, não vades avante, que vos perdeis.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Aposto que adivinho o que quereis dizer?</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Que?</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Que se me não acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a +herege de amor.</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Oh que certeza tamanha, o muito peccador não se conhecer por esse!</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinião! Mas +tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he cousa de +vossa saude, tudo farei.</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Como templará el destemplado? Quem poderá dar o que não tẽe, Senhor +Duriano? Eu quero-vos <span class="pn"><a name="pag_409">{409}</a></span> +deixar comer tudo: não póde ser que a natureza não faça em vós o que a +razão não póde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porém he necessario que +primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis para hum canto da casa todos +esses maos pensamentos; porque segundo andais mal avinhado, damnareis tudo +aquillo que agora lançarem em vós. Ja vos dei conta da pouca que tenho com +toda a outra cousa que não he servir a Senhora Dionysa; e postoque a +desigualdade dos estados o não consinta, eu não pretendo della mais que o +não pretender della nada, porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que +este meu amor he como a ave Phenix, que de si só nasce, e não de outro nenhum +interesse.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Bem praticado está isso; mas dias ha que eu não creio em sonhos.</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Porque?</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Eu vo-lo direi: porque todos vós-outros os que amais pela passiva, dizeis +que o amor fino como melão, não ha de querer mais de sua dama que amá-la; e +virá logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a trezentos +Platões, mais çafado que as luvas de hum pagem d'arte, mostrando razões +verisimeis e apparentes, para não quererdes mais de vossa dama que vê-la; e +ao mais até fallar com ella. Pois inda achareis outros esquadrinhadores +d'amor, mais especulativos, que defenderão a justa por não emprenhar o +desejo; e eu (faço-vos voto solemne) se a qualquer <span class="pn"><a +name="pag_410">{410}</a></span> destes lhe entregassem sua dama tosada e +apparelhada entre dous pratos, eu fico que não ficasse pedra sôbre pedra: e +eu ja de mi vos sei confessar que os meus amores hão de ser pela activa, e que +ella ha de ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu +de, vá v. m. co'a historia por diante.</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida entre os Doctores: +assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mão, bem trinta ou +quarenta legoas pelo sertão dentro de hum pensamento, senão quando me tomou +á traição Solina; e entre muitas palavras que tivemos, me descobrio que a +Senhora Dionysa se levantára da cama por me ouvir, e que estivera pela greta +da porta espreitando quasi hora e meia.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Cobras e tostões, sinal de terra: pois ainda vos não fazia tanto +avante.</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Finalmente, veio-me a descobrir, que me não queria mal, que foi para mi o +maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a soffrer por +sua causa, e não tenho agora sogeito para tamanho bem.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser são. Se vos +deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca +chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanças ao leme; que eu +vos faço bom que ás duas enxadadas acheis ágoa. E que mais passastes? <span +class="pn"><a name="pag_411">{411}</a></span></p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>A maior graça do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vós; e me +quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vós merecesseis.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor? +porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que dizer +poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella quer que eu +caia.</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Nem eu não quero que lho queirais, mas que lhe façais crer que lho +quereis.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Não... quanté dessa maneira me offereço a romper meia duzia de serviços +alinhavados ás panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais fiel +amante que nunca calçou esporas; e se isto não bastar, salgan las palabras +mas sangrientas del corazon, entoadas de feição, que digão que sou hum +Mancias, e peor ainda.</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro, +irmão da Senhora Dionysa, he fóra á caça; e sem elle fica a casa despejada; +e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu passatempo he enxertar e +dispôr, e outros exercicios d'agricultura, naturaes a velhos: e pois o tempo +nos vem á medida do desejo, vamo-nos lá; e se puderdes fallar, fazei de vós +mil manjares, porque lhe façais crer que sois mais esperdiçado d'amor que hum +Braz Quadrado. <span class="pn"><a name="pag_412">{412}</a></span></p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas, com +que vosso feito venha á luz.</p> + +<h3>SCENA III.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Dionysa e Solina.</em></p> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Solina, mana.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Senhora.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Trazei-me cá a almofada;<br> + Que a casa está despejada,<br> + E esta varanda cá fóra<br> + Está melhor assombrada.<br> + Trazei a vossa tambem<br> + Para estarmos cá lavrando;<br> + Em quanto meu pae não vem,<br> + Estaremos praticando,<br> + Sem nos estorvar ninguem.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Este he o mesmo lugar<br> + Onde estava o bem logrado,<br> + Tal que de muito enlevado<br> + Se esquecia do cantar<br> + Por se enlevar no cuidado.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Vós, mana, sois mui ruim!<br> + Logo lhe fostes contar<br> + Que me ergui polo escutar. <span class="pn"><a +name="pag_413">{413}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Eu o disse?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Eu não o ouvi?<br> + Como mo quereis negar?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + E pois isso que releva?<br> + Que se perde nisso agora?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Que se perde! Assi, Senhora,<br> + Folgareis vós que se atreva<br> + A contá-lo lá por fóra?<br> + Que se lhe meta em cabeça<br> + Alguma parvoa tenção?<br> + Que faça, se vem á mão,<br> + Algũa cousa que pareça?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, não tẽe razão.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Eu sei mui bem attentar<br> + Do que se ha de ter receio,<br> + E do que he para estimar.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Não he o demo tão feio<br> + Como alguem o quer pintar;<br> + E não se espera isso delle,<br> + Que não he ora tão moço.<br> + E Vossa Mercê asselle<br> + Que qualquer segredo nelle<br> + He como huma pedra em poço. <span class="pn"><a + name="pag_414">{414}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + E eu que segredo quero<br> + Co'hum criado de meu pae?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + E vós, mana, fazeis fero?<br> + Ao diante vos espero,<br> + Se adiante o caso vae.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + O madraço! quem o vir<br> + Fallar de siso co'ella...<br> + Então vós, gentil donzella,<br> + Folgais muito de o ouvir?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Si, porque me falla nella;<br> + E eu como ouço fallar<br> + Nella, como quem não sente,<br> + Folgo de o escutar,<br> + Só para lhe vir contar<br> + O que della diz a gente;<br> + Qu'eu não quero nada delle.<br> + E mais, porque está fallando?<br> + Não m'esteve ella rogando<br> + Que fosse fallar com elle?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Disse-vo-lo assi zombando.<br> + Vós logo tomais em grosso<br> + Tudo quanto me escutais.<br> + Parvo! que vê-lo não posso.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ella alli, e o cão co'o osso!<br> + Inda isto ha de vir a mais. <span class="pn"><a + name="pag_415">{415}</a></span><br> + Pois que tal odio lhe tem,<br> + Fallemos, Senhora, em al;<br> + Mas eu digo que ninguem<br> + Merece por querer bem<br> + Que a quem lho quer, queira mal.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Deixae-o vós doudejar.<br> + Se meu pae, ou meu irmão,<br> + O vierem a aventar,<br> + Não ha elle de folgar.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Deos meterá nisso a mão.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Ora hi polas almofadas,<br> + Que quero hum pouco lavrar;<br> + Por ter em que me occupar;<br> + Qu'em cousas tão mal olhadas<br> + Não se ha o tempo de gastar.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Que cousa somos mulheres!<br> + Como somos perigosas!<br> + E mais estas tão viçosas<br> + Qu'estão á boca <em>que queres</em><br> + E adoecem de mimosas!<br> + Se eu não caminho agora<br> + A seu desejo e vontade;<br> + Como faz esta Senhora,<br> + Fazem-se logo nessa hora<br> + Na volta da honestidade.<br> + Quem a vira o outro dia<br> + Hum poucochinho agastada, <span class="pn"><a + name="pag_416">{416}</a></span><br> + Dar no chão com a almofada,<br> + E enlevar a phantasia,<br> + Toda n'outra transformada!<br> + Outro dia lhe ouvirão<br> + Lançar suspiros a mólhos,<br> + E com a imaginação<br> + Cahir-lhe a agulha da mão,<br> + E as lagrimas dos olhos.<br> + Ouvir-lhe-heis á derradeira<br> + A ventura maldizer,<br> + Porque a foi fazer mulher.<br> + Então diz que quer ser Freira;<br> + E não se sabe entender.<br> + Então gaba-o de discreto,<br> + De musico e bem disposto,<br> + De bom corpo e de bom rosto.<br> + Quanté então eu vos prometo,<br> + Que não tẽe delle desgôsto.<br> + Despois, se vem a attentar,<br> + Diz que he muito mal feito<br> + Amar homem deste geito;<br> + E que não póde alcançar<br> + Pôr seu desejo em effeito.<br> + Logo se faz tão Senhora,<br> + Logo lhe ameaça a vida,<br> + Logo se mostra nessa hora<br> + Muito segura de fóra,<br> + E de dentro está sentida.<br> + Bofé, segundo vou vendo,<br> + Se esta postema vier,<br> + Como eu suspeito, a crescer, <span class="pn"><a + name="pag_417">{417}</a></span><br> + Muito ha que della entendo<br> + O fim que póde vir ter.</blockquote> + +<h3>SCENA IV.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Duriano e Filodemo.</em></p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Ora deixae-a ir, que á vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como hei +de fazer; que não ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se.</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a dê á Senhora +Dionysa; que me vai nisso muito.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Por mulher de tão bom engenho a tendes?</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>E porque me perguntais isso?</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta +mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta.</p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Não lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por isso lhe +fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fação á +vossa tenção.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Deixae-me vós a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes +vintes, que vós; e eu vo-la farei hoje vir a nós sem gafas; e vós entretanto +acolhei-vos a sagrado, porque ei-la lá vem. <span class="pn"><a +name="pag_418">{418}</a></span></p> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<p>Olhae lá: fazei que a não vêdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a +nosso caso.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia no +la espero remediar. Pois não devia assi de ser, polos santos Evangelhos! mas +muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos, andão ás vessas. Ora, +emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen aflojar cuando mas +duelen.)</p> + +<h3>SCENA V.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Solina e Duriano.</em></p> + +<p class="personagem">S<small>OLINA</small>, <em>com a almofada</em>.</p> + +<blockquote> + Aqui anda passeando<br> + Duriano, e só comsigo<br> + Pensamentos praticando:<br> + Daqui posso estar notando<br> + Com quem sonha, se he comigo.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Ah quão longe estará agora<br> + Minha Senhora Solina<br> + De saber que estou bem fóra<br> + De ter outra por senhora,<br> + Segundo o amor determina!<br> + Porém se determinasse<br> + Minha bem-aventurança<br> + Que de meu mal lhe pezasse. <span class="pn"><a + name="pag_419">{419}</a></span><br> + Até que nella tomasse<br> + Do que lhe quero vingança!...</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + (Comigo sonha por certo.<br> + Ora quero-me mostrar,<br> + Assi como por acêrto:<br> + Chegar-me-hei mais ao perto,<br> + Por ver se me quer fallar.)<br> + Sempre esta casa ha d'estar<br> + Acompanhada de gente,<br> + Que não possa homem passar!</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Á traição vindes tomar<br> + Quem ja feridas não sente?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Logo me a mi parecia<br> + Que era elle o que passeava.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + E eu mal adivinhava<br> + Que me viesse este dia,<br> + Que ha tantos que desejava.<br> + Se huns olhos por vos servir,<br> + Com o amor que vos conquista,<br> + Se atrevêrão a subir<br> + Os muros da vossa vista,<br> + Que culpa tẽe quem vos vir?<br> + E se esta minha affeição,<br> + Que vos serve de giolhos,<br> + Não fez êrro na tenção,<br> + Tomae vingança nos olhos,<br> + E deixae o coração. <span class="pn"><a name="pag_420">{420}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ora agora me vem riso.<br> + Assi que vós sois, Senhor,<br> + De siso meu servidor?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + De siso não, porque o siso<br> + Me tẽe tirado o amor.<br> + Porque o amor, se attentais,<br> + N'hum tão verdadeiro amante<br> + Não deixa siso bastante;<br> + Senão se siso chamais<br> + A doudice tão galante.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Como Deos está nos Ceos,<br> + Que se he verdade o que temo,<br> + Que fez isto Filodemo.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Mas fê-lo o démo; que Deos<br> + Não faz mal tanto em extremo.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Bem. Vós, Senhor Duriano,<br> + Porque zombareis de mim?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Eu zombo?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Eu não m' engano.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + S' eu zombo, inda em meu dano<br> + Vejais vós mui cedo a fim.<br> + Mas vós, Senhora Solina,<br> + Porque me querereis mal? <span class="pn"><a name="pag_421">{421}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Sou mofina.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Oh! real.<br> + Assi que minha mofina<br> + He minha imiga mortal.<br> + Dias ha qu'eu imagino<br> + Qu'em vos amar e servir<br> + Não ha amador mais fino;<br> + Mas sinto que de mofino<br> + Me fino sem o sentir.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Bem derivais: quanté assi<br> + Á popa o dito vos veio.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Vir-me-ha de vós, porque creio<br> + Que vós fallais dentro em mi,<br> + Como esprito em corpo alheio.<br> + E assi que em estas piós<br> + A cahir, Senhora, vim;<br> + Bem parecerá entre nós,<br> + Pois vós andais dentro em mim,<br> + Que ande eu tambem dentro em vós.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + He bem: que fallar he esse?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Dentro na vossa alma, digo,<br> + Lá andasse, e lá morresse!<br> + E se isto mal vos parece,<br> + Dae-me a morte por castigo. <span class="pn"><a + name="pag_422">{422}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ah mao! Como sois malvado!</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Mas vós como sois malvada,<br> + Que de hum pouco mais de nada<br> + Fazeis hum homem armado,<br> + Como quem 'stá sempre armada!<br> + Dizei-me, Solina, mana.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Qu'he isso? Tirae lá a mão:<br> + Oh! vós sois mao cortezão.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + O que vos quero m'engana,<br> + Mas o que desejo não.<br> + Não ha aqui senão paredes,<br> + As quaes não fallão, nem vem.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Está isso muito bem.<br> + Bem: e vós, Senhor, não vêdes<br> + Que poderá vir alguem?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Que vos custão dous abraços?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Não quero tantos despejos.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Pois que farão meus desejos,<br> + Que querem ter-vos nos braços,<br> + E dar-vos trezentos beijos?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Olhae que pouca vergonha!<br> + Hi-vos d'hi, boca de praga. <span class="pn"><a + name="pag_423">{423}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Eu não sei certo a que ponha<br> + Mostrardes-me a triaga,<br> + E virdes-me a dar peçonha.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ora ide rir á feira,<br> + E não sejais dessa laia.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Se vêdes minha canseira,<br> + Porque lhe não dais maneira?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Que maneira?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + A da saia.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Por minha alma, hei de vos dar<br> + Meia duzia de porradas.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Oh que gostosas pancadas!<br> + Mui bem vos podeis vingar,<br> + Qu'em mim são bem empregadas.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ao diabo, que o eu dou.<br> + Como me doeo a mão!</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Mostrae cá, minha affeição,<br> + Que essa dor me magoou<br> + Dentro no meu coração.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ora hi-vos embora asinha. <span class="pn"><a name="pag_424">{424}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Por amor de mi, Senhora,<br> + Não fareis huma cousinha?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Digo que vades embora.<br> + Que cousa?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Esta cartinha.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Que carta?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + De Filodemo<br> + A Dionysa vossa ama.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Dizei, que tome outra dama,<br> + E dê os amores ao démo.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Não andemos pola rama.<br> + Senhora, (aqui para nós)<br> + Que sentis della com elle?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Grandes alforges sois vós!<br> + Pois hi-lhe dizer que appelle.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Fallae, que aqui 'stamos sós.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Qualquer honesta se abala,<br> + Como sabe que he querida.<br> + Ella he por elle perdida:<br> + Nunca n'outra cousa falla. <span class="pn"><a +name="pag_425">{425}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Ora vou-lhe dar a vida.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + E eu não lhe disse ja<br> + Quanta affeição lh'ella tem?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Não se fia de ninguem,<br> + Nem crê que para elle ha<br> + No mundo tamanho bem.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Dir-vos-hia de mim lá<br> + O que lh'eu disse zombando?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Não disse, por S. Fernando!</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ora ide-vos.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Que me va!<br> + E mandais que torne? Quando?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Quando eu cá vir lugar,<br> + Vo-lo mandarei dizer.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Se o quizerdes buscar,<br> + Não vos deve de faltar,<br> + Se não faltar o querer.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Não falta.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Dae-me hum abraço<br> + Em sinal do que quereis. <span class="pn"><a name="pag_426">{426}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Tá, que o não levareis.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + De quantos serviços faço<br> + Nenhum pagar me quereis?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Pagar-vos-hão algum'hora,<br> + Que isso a mi tambem me toca;<br> + Mas agora hi-vos embora.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<blockquote> + Essas mãos beijo, Senhora,<br> + Em quanto não posso a boca.</blockquote> + +<h3>SCENA VI.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Solina que traz a almofada, e Dionysa.</em></p> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ja Vossa Mercê dirá<br> + Qu'estive muito tardando.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Bem vos detivestes lá.<br> + Bofé que estava cuidando<br> + Em não sei que.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Que será?<br> + Aqui somos. (Quanté agora<br> + Está ella transportada.)</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Que rosnais vós lá, Senhora?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Digo que tardei lá fóra <span class="pn"><a + name="pag_427">{427}</a></span><br> + Em buscar esta almofada.<br> + Que estava ella agora só<br> + Comsigo phantasiando?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Bofé que estava cuidando<br> + Qu'he muito para haver dó<br> + Da mulher que vive amando.<br> + Que hum homem póde passar<br> + A vida mais occupado:<br> + Com passear, com caçar,<br> + Com correr, com cavalgar,<br> + Fórra parte do cuidado.<br> + Mas a coitada<br> + Da mulher sempre encerrada,<br> + Que não tẽe contentamento,<br> + Não tẽe desenfadamento,<br> + Mais que agulha e almofada?<br> + Então isto vem parir<br> + Os grandes erros da gente:<br> + Forão mil vezes cahir<br> + Princezas d'alta semente.<br> + Lembra-me que ouvi contar<br> + De tantas affeiçoadas<br> + Em baixo e pobre lugar,<br> + Que as que agora vão errar<br> + Podem ficar desculpadas.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, a muita affeição<br> + Nas Princezas d'alto estado<br> + Não he muita admiração;<br> + Que no sangue delicado <span class="pn"><a name="pag_428">{428}</a></span><br> + Faz amor mais impressão.<br> + Mas deixando isto á parte,<br> + Se m'ella quizer peitar,<br> + Prometto de lhe mostrar<br> + Huma cousa muito d'arte,<br> + Que lá dentro fui achar.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Que cousa?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Cousa d'esprito.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Algum panno de lavores?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Inda ella não deo no fito?<br> + Cartinha sem sobre-escripto,<br> + Que parece ser de amores.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Essa he a boa ventura?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Bofé que mo pareceo.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + E essa donde nasceo?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + No meu cesto da costura:<br> + Não sei quem m'alli meteo.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Mostrae-ma; não hajais medo,<br> + Mana. Eu que vos descobri...</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + E se ella vem para mi,<br> + Logo quer ver meu segredo? <span class="pn"><a + name="pag_429">{429}</a></span><br> + Não a veja: vá-se d'hi.<br> + Ei-la-ahi.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Cuja será?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Não sei certo cuja he.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Si; sabeis.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Não sei, bofé.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Ora a carta mo dirá.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Pois leia Vossa Mercê.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Abre Dionysa a carta, e lê-a.</em></p> + +<p>Se para merecer minha pena me não falta mais que viver contente della, ja +logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo triste, senão +por não ser para tão doce tristeza. Se tendes por offensa commetter tamanha +ousadia; por maior a devieis ter, se a não commettesse; que amor acostumado he +fazer os extremos á medida das affeições, e as affeições á medida da +causa dellas. Pois logo, nem o meu amor póde ser pouco, nem fazer menos: se +este não bastar para consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o +que pelo ter mereço; e senão muitas graças ao Amor, que me soube dar hum +cuidado, que com tê-lo se paga o trabalho de soffrê-lo.</p> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Quanta parvoice diz! <span class="pn"><a name="pag_430">{430}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Ora muito boa está!<br> + Como vós, mana, sois má!<br> + Não sejais vós tão biliz;<br> + Que bem vos entendo ja.<br> + Cuja he?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + E eu que sei?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Pois quem o sabe?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + O démo.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Certo que he de quem temo;<br> + Que os ditos que nella achei<br> + São todos de Filodemo.<br> + Este homem, que atrevimento<br> + He este que foi tomar?<br> + Qual será seu fundamento?<br> + Que mil vezes me faz dar<br> + Mil voltas ao pensamento.<br> + Não entendo delle nada.<br> + Mas inda qu'isto he assi,<br> + Disso que delle entendi,<br> + Me sinto tão alterada,<br> + Que me arreceio de mi.<br> + Eu inda agora não creio<br> + Que he verdade este amor;<br> + Mas praza a Deos, se assi for,<br> + Que inda este meu arreceio<br> + Se não converta em temor. <span class="pn"><a +name="pag_431">{431}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ja vós, ja sêdes,<br> + Peixes, nas redes.<br> + Senhora, quem mais confia,<br> + Mais asinha a cahir vem:<br> + Natural he o querer bem;<br> + Que o amor n'alma se cria,<br> + Sem o sentir quem o tem.<br> + Filodemo, no que ouvi,<br> + Tẽe-lhe sobeja affeição;<br> + E postoque o creia assi,<br> + Ou eu sonhei, ou ouvi.<br> + Que era d'alta geração.<br> + Logo na phisionomia,<br> + Nas manhas, artes e geito,<br> + Mostra mui grande respeito:<br> + Nem tão alta phantasia<br> + Não se põe em baixo peito.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Tudo isso cuido, e vi<br> + Mil vezes miudamente;<br> + Mas estas mostras assi<br> + São desculpas para mi,<br> + E não para toda a gente.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + O seu moço vejo vir<br> + A nós, seu passo contado:<br> + Este he muito para ouvir,<br> + Que diz que me quer servir<br> + D'amores esperdiçado. <span class="pn"><a name="pag_432">{432}</a></span> +</blockquote> + +<h3>SCENA VII.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Vilardo, Solina e Dionysa.</em></p> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, o Senhor seu pae,<br> + Mesmo de Vossa Mercê,<br> + Ja lá para casa vae:<br> + Por isso, Senhora, andae,<br> + Que elle me mandou n'hum pé;<br> + E diz que fosse jantar<br> + Vossa Mercê mesmamente.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + E ja veio do pomar?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Oh quem pudéra escusar<br> + De comer, nem de ver gente!<br> + (Nenhuma côr de verdade<br> + Tenho do que m'elle manda.)</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + S'ella sem vontade anda,<br> + Eu lh'emprestarei vontade,<br> + Empreste-m'ella a vianda.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Va, Senhora, por não dar<br> + Mais em que cuidar á gente.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Irei, mas não por jantar;<br> + Que quem vive descontente<br> + Mantem-se de imaginar.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Pois tambem cá minhas dores <span class="pn"><a + name="pag_433">{433}</a></span><br> + Me não deixão comer pão;<br> + Nem come minha affeição<br> + Senão sopadas d'amores,<br> + E mil postas de paixão.<br> + Das lagrimas caldo faço,<br> + Do coração escudella;<br> + Esses olhos são panella<br> + Que coze bofes e baço,<br> + Com toda a mais cabedella.</blockquote> + +<h3>SCENA VIII.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>O Monteiro, um pastor e um bobo.</em></p> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Perdeo-se por esta brenha<br> + Venadoro, meu Senhor,<br> + Sem que novas delle tenha:<br> + Queira Deos que inda não venha<br> + Desta perda outra maior.<br> + Contra esta parte daqui<br> + Des pos hum cervo correo,<br> + Logo desappareceo:<br> + Como da vista o perdi,<br> + O gosto se me perdeo.<br> + Eu, e os mais caçadores,<br> + Corremos montes e covas;<br> + Fallamos com lavradores<br> + Deste valle, e com pastores,<br> + Sem acharmos delle novas.<br> + Quero ver nestes casais <span class="pn"><a + name="pag_434">{434}</a></span><br> + Que cobre aquelle arvoredo,<br> + Se acharei pastores mais,<br> + Que me dem alguns sinais<br> + Que me possão tornar ledo.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Chama.</em></p> + +<blockquote> + Ó dos casaes, ó de lá:<br> + Ah pastores, não fallais?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Quien sois, ó lo que buscais?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Ouvis? Chegae para cá.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Dicid vos lo que mandais.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + No vayais adó os llamó,<br> + Padre, sin saber quien es.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Porque?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Porque este es<br> + Aquel ladron que hurtó<br> + El asno del Portugues.<br> + Y se vais adó estan,<br> + Os juro al cuerpo sagrado<br> + De San Pisco, y San Juan,<br> + Que tambien os hurtarán,<br> + Que sois asno mas honrado.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Déjame ir, que me llamó.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + No, por vida de mi madre; <span class="pn"><a + name="pag_435">{435}</a></span><br> + Que si allá vais, muerto so',<br> + Y desta vez quedo yo,<br> + Sin asno, triste! y sin padre.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Vinde, que vo-lo encommendo,<br> + E em vossas mãos me ponho.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + No vais, que dijo <em>en comiendo</em>.<br> + Encomiendoos al demonio! <em>(Ao Monteiro.)</em><br> + Y esso es lo que andais haciendo?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Déjame ir adó está,<br> + Que no es cosa que me espante.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + No quereis sino ir allá?<br> + Pues echadle pan delante,<br> + Puede ser amansará.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Dios os guarde! Qué cosa es<br> + Esa por que voceais?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Dar-m'heis novas, ou sinais<br> + D'hum Fidalgo Portugues,<br> + Se passou por onde andais?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Yo so' Hidalgo Portugues:<br> + Que manda su Señoria?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Cállate: oh que nescio es!</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Padre, no me dejarés <span class="pn"><a name="pag_436">{436}</a></span><br> + Ser lo que quisiere un dia?<br> + Ah Santo Dios verdadero!<br> + No seré lo que otros son?<br> + Digo ahora que no quiero<br> + Ser Alonsico, el vaquero.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Cállate ya, bobarron.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Ya me callo: ahora un poco<br> + He de ser lo que yo quisiere.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Señor, diga lo que quiere,<br> + Porque este mochacho es loco,<br> + Y muero porque no muere.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Digo, que se por ventura<br> + Sabeis o que ando buscando:<br> + Hum Fidalgo, que caçando<br> + Se perdeo nesta espessura<br> + Apos hum cervo andando.<br> + Tenho esta parte corrida,<br> + Sem delle poder saber:<br> + Trago a alegria perdida;<br> + E se de todo a perder,<br> + Perca-se tambem a vida.<br> + Porque só polo buscar<br> + Tenho trabalhos assás.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + (Yo no puedo callar mas.)</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + (Como no puedes callar? <span class="pn"><a + name="pag_437">{437}</a></span><br> + Quítate allá para tras.)<br> + Cuanto por aquesta tierra,<br> + No siento nueva ninguna.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Oh trabalhosa fortuna!</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Mas detras daquesta sierra<br> + Hallareis, por dicha, alguna;<br> + Que unas choças de vaqueros<br> + Portugueses allí estan;<br> + Y ahí muchas veces van<br> + Cazadores Cavalleros:<br> + Puede ser que lo sabran.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Quero-me ir lá saber.<br> + Ficae-vos a Deos, pastor.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Dios os livre de dolor.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Y á nos dé siempre comer<br> + Pan y sopas, qu'es mejor.<br> + Mirad lo que os notifico:<br> + En aquel valle, acullá,<br> + Anda paciendo un burrico,<br> + Hidalgo, manso, y bonico;<br> + Puede ser que ese será.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Calla, y acaba de andar.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Ya ando. <span class="pn"><a name="pag_438">{438}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Quieres callar?<br> + Bobo, que tan poco sabe!</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + No diceis que ande y acabe?<br> + Ando, y no quiero acabar.</blockquote> + +<h2>ACTO TERCEIRO.</h2> + +<h3>SCENA I.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Florimena, pastora, com hum pote que vai á +fonte.</em></p> + +<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p> + +<blockquote> + <big>P</big>or este formoso prado<br> + Tudo quanto a vista alcança<br> + Tão alegre está tornado,<br> + Que a qualquer desesperado<br> + Póde dar certa esperança.<br> + O monte, e sua aspereza,<br> + De flores se veste ledo;<br> + Reverdece o arvoredo,<br> + Somente em minha tristeza<br> + Está sempre o tempo quedo.<br> + Junto desta fonte pura,<br> + Segundo a muitos ouvi,<br> + D'altos parentes nasci:<br> + Foi como quiz a Ventura, <span class="pn"><a + name="pag_439">{439}</a></span><br> + Mas não como eu mereci.<br> + O dia que fui nascida,<br> + Minha mãe do parto forte<br> + Foi sem cura fallecida;<br> + E o dia que me deo vida<br> + Lhe dei eu a ella a morte.<br> + Do mesmo parto nasceo<br> + Meu irmão, que entre os cabritos<br> + Comigo tambem viveo;<br> + Mas, assi como cresceo,<br> + Crescêrão nelle os espritos.<br> + Foi-se buscar a cidade;<br> + Teve juizo e saber;<br> + Eu fiquei, como mulher,<br> + E não tive faculdade<br> + Para poder mais valer.<br> + A hum pastor obedeço<br> + Por pae, que d'outro não sei;<br> + E, pola mãe que matei,<br> + A huma cabra conheço,<br> + De cujo leite mamei.<br> + Mas porém, ja qu'este monte<br> + Me obriga e meu nascimento,<br> + Quero, pois quer meu tormento,<br> + Encher a talha na fonte<br> + Que co'os olhos accrescento.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Finge que enche a talha.</em> <span class="pn"><a +name="pag_440">{440}</a></span></p> + +<h3>SCENA II.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Venadoro e Florimena.</em></p> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Pois que me vim alongar<br> + Dos caminhos e da gente,<br> + Fortuna, que o consente,<br> + Se devia contentar<br> + De me ter tão descontente.<br> + Porém, segundo adivinho,<br> + Por tão espêsso arvoredo,<br> + Por tão aspero rochedo,<br> + Quanto mais busco o caminho,<br> + Tanto mais delle me arredo.<br> + O cavallo, como amigo,<br> + Ja cansado me trazia:<br> + Mas deixou-me todavia;<br> + Que mal pudera comigo<br> + Quem comsigo não podia.<br> + Quero-me aqui assentar<br> + Á sombra, nesta hervinha,<br> + Porque canso ja de andar;<br> + Mas inda a fortuna minha<br> + Não cansa de me cansar.<br> + Junto desta fonte pura<br> + Não sei quem cuido qu'está;<br> + Mas no coração me dá<br> + Que aqui me guarda a Ventura<br> + Alguma ventura má.<br> + Ou ganhado, ou bem perdido,<br> + Faça, emfim, o que quizer, <span class="pn"><a + name="pag_441">{441}</a></span><br> + Qu'eu o fim disto hei de ver?<br> + Que ja venho apercebido<br> + A tudo quanto vier.<br> + Oh que formosa serrana<br> + Á vista se me offerece!<br> + Deosa dos montes parece;<br> + E se he certo que he humana,<br> + O monte não a merece.<br> + Pastora tão delicada,<br> + De gesto tão singular,<br> + Parece-me qu'em lugar<br> + De perguntar pola estrada,<br> + Por mim lhe hei de perguntar.<br> + Atéqui sempre zombei<br> + De qualquer outra pessoa<br> + Que affeiçoada topei;<br> + Mas agora zombarei<br> + De quem se não affeiçoa.<br> + Serrana, cuja pintura<br> + Tanto a alma me moveo,<br> + Dizei-me: Por qual ventura<br> + Andareis nesta espessura,<br> + Merecendo estar no ceo?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p> + +<blockquote> + Tamanho inconveniente<br> + Andar na serra parece?<br> + Pois a ventura da gente<br> + Sempre he mui diferente<br> + Do que, ao parecer, merece.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Tal resposta he manifesto <span class="pn"><a + name="pag_442">{442}</a></span><br> + Não se parecer co'as cabras.<br> + Pois não vos parece honesto<br> + Saberdes matar co'o gesto,<br> + Senão inda com palabras?<br> + No mato tudo he rudeza.<br> + Ha tal gesto e discrição?<br> + Não o creio.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p> + +<blockquote> + Porque não?<br> + Não supprirá natureza<br> + Onde falta criação?</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Ja logo nisso, Senhora,<br> + Dizeis, se não sinto mal,<br> + Que do vosso natural<br> + Não era serdes pastora.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p> + +<blockquote> + Digo, mas pouco me val.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Pois quem vos pôde trazer<br> + Á conversação do monte?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p> + +<blockquote> + Perguntae-o a essa fonte;<br> + Que as cousas duras de crer,<br> + Hum as faça, outro as conte.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Esta fonte, que está aqui,<br> + Que sabe do que dizeis?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, mais não pergunteis.<br> + Porque outra cousa de mi <span class="pn"><a + name="pag_443">{443}</a></span><br> + Sabei que não sabereis.<br> + De vós agora sabei,<br> + O que não tendes sabido:<br> + Se quereis ágoa, bebei;<br> + Se andais por dita perdido,<br> + Eu vos encaminharei.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, eu não vos pedia<br> + Que ninguem m'encaminhasse;<br> + Que o caminho qu'eu queria,<br> + Se o eu agora achasse,<br> + Mais perdido me acharia.<br> + Não quero passar daqui;<br> + E não vos pareça espanto<br> + Qu'em vos vendo me rendi;<br> + Porque quando me perdi,<br> + Não cuidei de ganhar tanto.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, quem na serra mora<br> + Tambem entende a verdade<br> + Dos enganos da cidade:<br> + Vá-se embora, ou fique embora,<br> + Qual for mais sua vontade.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Oh lindissima donzella,<br> + A quem a ventura ordena<br> + Que me guie como estrella!<br> + Quereis-me deixar a pena,<br> + E levar-me a causa della?<br> + E ja que vos conjurastes<br> + Vós e Amor para matar-me, <span class="pn"><a + name="pag_444">{444}</a></span><br> + Oh não deixeis d'escutar-me!<br> + Pois a vida me tirastes,<br> + Não me tireis o queixar-me!<br> + Qu'eu, em sangue e em nobreza<br> + O claro Ceo me extremou;<br> + E a Fortuna me dotou<br> + De grandes bens e riqueza,<br> + Que sempre a muitos negou.<br> + Andando caçando aqui,<br> + Apos hum cervo ferido,<br> + Permittio meu fado assi,<br> + Que andando dos meus perdido,<br> + Me venha perder a mi.<br> + E porqu'inda mais passasse<br> + Do que tinha por passar,<br> + Buscando quem m'ensinasse,<br> + Por que via me tornasse,<br> + Acho quem me faz ficar.<br> + Que vingança permittio<br> + A fortuna n'hum perdido!<br> + Oh que tyranno partido,<br> + Que quem o cervo ferio,<br> + Vá como cervo ferido!<br> + Ambos feridos n'hum monte,<br> + Eu a elle, outrem a mi:<br> + Huma differença ha aqui,<br> + Qu'elle vai sarar á fonte,<br> + E eu nella me feri.<br> + E pois que tão transformado<br> + Me tẽe vossa formosura,<br> + Hum de nós troque o estado. <span class="pn"><a + name="pag_445">{445}</a></span><br> + Ou vós para o povoado,<br> + Ou eu para a espessura.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p> + +<blockquote> + Dos arminhos he certeza,<br> + Se lhe a cova alguem çujar,<br> + Morar fóra, antes d'entrar:<br> + D'estimar muito a limpeza<br> + Pola vida a vai trocar:<br> + Tambem quem na serra mora<br> + Tanto estima a honestidade,<br> + Que antes toma ser pastora,<br> + Que perder a honestidade<br> + A trôco de ser Senhora.<br> + Se mais quereis, esta fonte<br> + Vos descubra o mais de mim:<br> + O que ella vio, ella o conte;<br> + Porque eu vou-me para o monte,<br> + Porque ha ja muito que vim.</blockquote> + +<h3>SCENA III.</h3> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Ó linda minha inimiga,<br> + Gentil pastora, esperae!<br> + Pois que tanto amor me obriga,<br> + Consenti-me que vos siga;<br> + Vá o corpo onde alma vae.<br> + E pois por vós me perdi,<br> + E neste estado Amor pôs<br> + Os olhos com que vos vi, <span class="pn"><a + name="pag_446">{446}</a></span><br> + Pois os deixaste sem mi,<br> + Oh não os deixeis sem vós!<br> + Porque a Fortuna me disse<br> + Que nas serras, onde andais,<br> + Em estes extremos tais,<br> + Não era bem que vos visse<br> + Para não ver de vós mais.<br> + E pois Amor se quiz ver<br> + Da livre vida vingado,<br> + Em que eu sohia viver;<br> + Faça em mi o que quizer,<br> + Que aqui vou ao jugo atado.</blockquote> + +<h3>SCENA IV.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo.</em></p> + +<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p> + +<blockquote> + Oh Santo Deos verdadeiro,<br> + A quem o mundo obedece!<br> + Meu filho não apparece.<br> + E que me dizeis, Monteiro?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Digo-lhe que m' entristece.<br> + Qu'eu corri por esses montes,<br> + Bem quinze leguas, ou mais,<br> + E busquei polos casais,<br> + Por serras, montes e fontes,<br> + Sem ver novas, nem sinais.<br> + Toda a gente que levou,<br> + Buscando-o, muito cansada <span class="pn"><a + name="pag_447">{447}</a></span><br> + Pelo mato anda espalhada;<br> + Mas ainda ninguem tomou,<br> + Que soubesse delle nada.</blockquote> + +<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p> + +<blockquote> + Oh fortuna nunca igual!<br> + Quem me fara sabedor<br> + De meu filho e meu amor?<br> + Que se he muito grande o mal,<br> + Muito mor he o temor.<br> + Quem tolhe que não achasse<br> + Algum leão temeroso<br> + N'algum monte cavernoso,<br> + Que sua fome fartasse<br> + Em seu corpo tão formoso?<br> + Quem ha que saiba, ou que visse,<br> + Que das montanhas erguidas<br> + Algum monstro não sahisse,<br> + E com seu sangue tingisse<br> + As hervas nellas nascidas?<br> + Oh filho! vai-me a lembrar<br> + Quantas vezes os mandava<br> + Que deixasseis o caçar!<br> + Não cuidei de adivinhar<br> + O que Fortuna ordenava.<br> + Eu irei, filho, buscar-vos<br> + Por esses montes, por hi,<br> + Ou a perder-me, ou cobrar-vos;<br> + Que morte que quiz matar-vos,<br> + Quero que me mate a mi.<br> + Onde fostes fenecido,<br> + Seja tambem vosso pae; <span class="pn"><a name="pag_448">{448}</a></span><br> + Ser-me-ha acontecido,<br> + Como a virote que vae<br> + Buscar outro que he perdido.<br> + Vós só haveis de ficar,<br> + Filodemo, encarregado<br> + Para esta casa guardar;<br> + Que de vosso bom cuidado<br> + Tudo se póde fiar.<br> + Ide-vos a fazer prestes,<br> + Mandae cavallos sellar;<br> + Pois achá-lo não pudestes,<br> + Ir-m'heis buscar o lugar<br> + Onde da vista o perdestes.</blockquote> + +<h3>SCENA V.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o +seu.</em></p> + +<p class="inst_cena"><em>Canta.</em></p> + +<blockquote> + Los mochachos del Obispo<br> + No comen cosa mimosa,<br> + Ni zanca d'araña, ni cosa mimosa.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p> + +<blockquote> + De su sayo colorado<br> + Tan lozano me vestió,<br> + Que yo ya no soy yo,<br> + Ya por otro estoy trocado;<br> + Que este sayo me trocó.<br> + Oh qué asno Portugues,<br> + Que loco por Florimena,<br> + Deseó zamarra agena, <span class="pn"><a name="pag_449">{449}</a></span><br> + Y dame por enterés<br> + Una zamarra tan buena!<br> + Como yo vi la bobilla<br> + Andar con él en questiones,<br> + Y parársele amarilla,<br> + Díjele: Florimenilla,<br> + Andais en dongolondrones?<br> + Él me dijo: Matalote,<br> + No tengais dello desmayo.<br> + Y en esto, como un rayo,<br> + Tomóme mi capirote,<br> + Y dióme su capisayo.<br> + Capirote, en buena fé,<br> + Si vos, cuando en mi entrastes,<br> + Capisayo vos tornastes,<br> + Que yo por eso cantaré,<br> + Pues ansí me mejorastes.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Canta.</em></p> + +<blockquote> + Lyrio, lyrio, lyrio loco,<br> + Con qué? Con capirotada.<br> + Por hablar con la golosa<br> + De amores, mirad la cosa!<br> + Zamarrilla tan hermosa,<br> + Que me ha dado tan honrada,<br> + Con qué? Con capirotada.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Falla.</em></p> + +<blockquote> + Yo entonces respondí:<br> + Señor, dame pan y queso,<br> + Mas despues que lo entendí,<br> + Dije á ella: Dale un beso,<br> + Que él me dió zamarra á mí. <span class="pn"><a + name="pag_450">{450}</a></span><br> + Ahora me mirarán<br> + Cuantos á la eglesia fueren;<br> + Y aquellos que no me quieren,<br> + Ahora me rogarán.<br> + Sabeis porque no querré?<br> + Porque estoy ahidalgado;<br> + Y cuando fuere rogado,<br> + Cantando responderé,<br> + Que ya estoy otro tornado.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Canta e baila.</em></p> + +<blockquote> + Soropicote, picote, mozas,<br> + Ahora quiero amores con vosotras.</blockquote> + +<h3>SCENA VI.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>O Pastor e o Bobo.</em></p> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Hijo Alonsillo.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Hijo Alonsillo.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + No me quieres escuchar?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Pues déjame suspirar.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Escúchame ahora, asnillo,<br> + Lo que te quiero mandar.<br> + Véte al valle de las rosas,<br> + Y di á Anton del Lugar<br> + Que si puede acá llegar,<br> + Porque tengo muchas cosas <span class="pn"><a + name="pag_451">{451}</a></span><br> + Que importan para le hablar.<br> + Porque es aqui llegado<br> + Á este valle un hombre honrado,<br> + Mancebo de casta buena,<br> + Que amores de Florimena<br> + Le traen loco y penado.<br> + Dice que quiere casar<br> + Con ella, que su tormento<br> + No le deja reposar;<br> + Y que venga festejar<br> + Tan dichoso casamiento.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Dicid, padre, tambien vos,<br> + No quereis casar comigo?<br> + Casemos ambos adós.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Vé, y haz lo que te digo.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Responde, padre, por Dios.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Vé luego, y vuelve apresado.<br> + Anda. No quieres andar?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Pues que me habeis empujado,<br> + Juro á mi de desandar<br> + Todo cuanto tengo andado.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Trabajoso es este insano!<br> + Nunca hace lo que quereis.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Ora no os apasioneis, <span class="pn"><a name="pag_452">{452}</a></span><br> + Mi padrecico lozano:<br> + Que burlaba, no lo veis?</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Véte dahi.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Héme aqui.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Vé donde te dije.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Ya vengo.<br> + Oh que padrasto que tengo,<br> + Que asi me manda por ahi,<br> + Siendo camino tan luengo!</blockquote> + +<h2>ACTO QUARTO.</h2> + +<h3>SCENA I.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Dionysa e Solina.</em></p> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + <big>O</big>h Solina, minha amiga,<br> + Que todo este coração<br> + Tenho posto em vossa mão;<br> + Amor me manda que diga,<br> + Vergonha me diz que não.<br> + Que farei?<br> + Como me descobrirei? <span class="pn"><a name="pag_453">{453}</a></span><br> + Porque a tamanho tormento<br> + Mais remedio lhe não sei,<br> + Que entregá-lo ao soffrimento.<br> + Meu pae muito entristecido<br> + Se vai pela serra erguida,<br> + Ja da vida aborrecido,<br> + Buscando o filho perdido,<br> + Tendo a filha cá perdida!<br> + Sem cuidar,<br> + Foi a casa encommendar<br> + A quem destruir lha quer:<br> + Olhae que gentil saber,<br> + Que vai comigo deixar<br> + Quem me não deixa viver.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, em tanto desgôsto.<br> + Não posso meter a mão;<br> + Mas como diz o rifão,<br> + Mais val vergonha no rosto,<br> + Que mágoa no coração.<br> + E bofé, se eu tanto amasse,<br> + E visse tempo e sazão,<br> + Sem seu pae, sem seu irmão,<br> + Que a nuvem triste tirasse<br> + De cima do coração.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Ah mana! que tenho medo,<br> + Que s'eu em tal consentisse<br> + Que logo o mundo o sentisse,<br> + Porque nunca houve segredo,<br> + Que, emfim, se não descobrisse. <span class="pn"><a + name="pag_454">{454}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Se eu tantas dobras tivesse<br> + Como quantas houve erradas,<br> + Sem que o mundo o soubesse,<br> + Á fé qu'eu enriquecesse,<br> + E fosse das mais honradas.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Sabeis que tenho em vontade?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Que podeis, Senhora, ter?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Fallar-lhe, só para ver<br> + Se he por ventura verdade<br> + O que dizeis que me quer.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Bofé, mana, dizeis bem,<br> + E eu o mandarei chamar,<br> + Como para lhe rogar<br> + Que hum annel, que lá me tem,<br> + Que mo mande concertar.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Dizeis mui bem.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Vou-me lá<br> + Chamar o seu moço á sala;<br> + E s'este parvo vem cá,<br> + Com elle hum pouco rirá,<br> + Que sempre amores me fala.<br> + Vilardo, moço? <span class="pn"><a name="pag_455">{455}</a></span> +</blockquote> + +<h3>SCENA II.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Vilardo e Solina.</em></p> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Quem chama?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Vem cá, moço; eu te chamo.<br> + Qu'he de teu amo?</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Ah que dama!<br> + Perguntais-me por meu amo,<br> + E não por hum que vos ama?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + E quem he esse amador,<br> + Que quer ter comigo passo?<br> + Será elle algum madrasso?</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Eu sou o mesmo, que o amor<br> + Me quebra pelo espinhasso.<br> + E mais vós sabei de mi,<br> + Se eu a dizê-lo me atrevo,<br> + Que desque esses olhos vi,<br> + Que yo ni como, ni bebo,<br> + Ni hago vida sin ti.<br> + E mais para namorado<br> + Não sou ora tão madraço.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Sois muito desmazelado.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Mas antes, de delicado <span class="pn"><a name="pag_456">{456}</a></span><br> + Caio pedaço a pedaço.<br> + E mais eu soffrer não posso<br> + Que me façais tanto fero,<br> + Qu'estou ja posto no osso,<br> + Porque sou vosso e revosso,<br> + Por vida de quanto quero.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Feros está cheia a rua.<br> + Ora estou bem aviada!</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Cupido, por vida tua,<br> + Que a não faças tão crua,<br> + Pois que te não faço nada!<br> + Amor, Amor, mas te pido,<br> + Que quando se for deitar,<br> + Que le digas al oido:<br> + Devieis-vos de lembrar<br> + Neste tempo de hum perdido.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + E tu ja fazes coprinhas?<br> + Ainda tu trovarás?</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Quem eu? Por estas barbinhas,<br> + Que se vós virdes as minhas,<br> + Que digais que não são más.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ora, pois me quereis bem,<br> + Dizei-me huma.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Ei-la aqui;<br> + E veja o saibo que tem; <span class="pn"><a + name="pag_457">{457}</a></span><br> + Porque esta trovinha assi,<br> + Saiba qu'he trova do assem.</blockquote> + +<p class="inst_cena"><em>Trova.</em></p> + +<blockquote> + Passarinhos, que voais<br> + Nesta manhãa tão serena,<br> + Sabei que só minha pena<br> + Póde encher mil cabeçais.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + O rifão está salgado.<br> + Essa pena te dou eu?</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Vós e Amor, que de malvado,<br> + Me tẽe melhor empennado,<br> + Que nenhum virote seu.<br> + Pois se me ouvíreis cantar!</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + E tu es tambem cantor?</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Canto melhor que hum açor.<br> + Quereis que vos venha dar<br> + Musiqueta de primor,<br> + E que vos mande tanger<br> + Muito melhor que ninguem?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ja isso quizera ver.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Querer-me-heis, se o eu fizer,<br> + Algum pedaço de bem?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Querer-te-hei trinta pedaços. <span class="pn"><a + name="pag_458">{458}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + E esse querer dará fruito,<br> + Que me tire destes laços?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + E que fruito?</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Dous abraços.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Esse fruito custa muito.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Esse he o amor qu'em vós ha?<br> + Pezar de minha mãe torta!</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Ora hi, chamae logo lá<br> + Vosso amo que venha cá,<br> + Porque he cousa que importa.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Logo?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Logo nessas horas.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Não estarei aqui mais?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Não. Ainda ahi estais?<br> + Vós haveis mister esporas.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<blockquote> + Irei, porque me mandais. <span class="pn"><a name="pag_459">{459}</a></span> +</blockquote> + +<h3>SCENA III.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor.</em></p> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Mas de un mez es ya pasado<br> + Que en esta sierra andais;<br> + Y es caso mal mirado<br> + Que andeis guardando ganado<br> + Por una que tanto amais.<br> + Y si os determinais<br> + En querer casar con ella,<br> + Juro á mi que nada errais;<br> + Y si eso es para habella,<br> + En vano cabras guardais.<br> + Ya me distes vuestra fé<br> + (Sábenlo estas tierras todas):<br> + Yo con ella me engañé,<br> + Que luego mandar llamé<br> + Quien festejase las bodas.<br> + Y agora dicis con pena,<br> + Que es dura cosa casar:<br> + Pues volveos hora buena,<br> + Que no habeis de engañar<br> + Con palabras Florimena.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Quem se ha de ter coração<br> + Para tamanho temor?<br> + Que em mim pegando estão.<br> + De huma parte a razão.<br> + E d'outra parte o Amor.<br> + Tambem vejo que perdella <span class="pn"><a + name="pag_460">{460}</a></span><br> + Será minha perdição;<br> + Que bem me diz a affeição,<br> + Que pouco faço por ella,<br> + Pois não desfaço em quem são.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Digoos, si por bajeza<br> + Dicis que no os conviene,<br> + Daros hé una certeza,<br> + Que en sangre y en nobleza,<br> + Tanto como vos la tiene.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Pastor, digo que daqui<br> + Farei tudo que quizerdes;<br> + E se mais quereis de mi,<br> + Digo que vos dou o si<br> + Para tudo o que quizerdes.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Dios os dé su bendicion;<br> + Y pues que casais con ella,<br> + Yo os afirmo en conclusion,<br> + Que aun de vos y mas della<br> + Verná gran generacion.<br> + Yo me voy por ella, hijo,<br> + Tomadla asi mal compuesta;<br> + Verná quien haga la fiesta;<br> + Que en placer y regocijo<br> + Nos festeje esta floresta. <span class="pn"><a +name="pag_461">{461}</a></span></blockquote> + +<h3>SCENA IV.</h3> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO</small> <em>só</em>.</p> + +<blockquote> + Ó ribeiras tão formosas,<br> + Valles, campos pastoris,<br> + Porque vos não revestis<br> + De novas flores e rosas,<br> + Se minha gloria sentis?<br> + Porque não seccais, abrolhos?<br> + E vós, ágoa, que regando,<br> + Os olhos his alegrando,<br> + Correi, que tambem meus olhos<br> + D'alegres estão manando.<br> + Ah pastora, em quem espero<br> + Poder viver descansado!<br> + Comtigo guardarei gado,<br> + Que ja eu sem ti não quero<br> + Nenhuma alteza d'estado.<br> + Diga o que quizer a gente,<br> + Tudo terei n'huma palha,<br> + Porque está claro e evidente<br> + Que não ha honra que valha<br> + Contra a vida descontente.</blockquote> + +<h3>SCENA V.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante +do pastor, que traz Florimena.</em></p> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Pues el amor os obliga<br> + Á que hagais tan buena liga, <span class="pn"><a + name="pag_462">{462}</a></span><br> + Tomando á Dios por testigo,<br> + Daqui os la entrego, amigo,<br> + Por muger y por amiga.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Consentis nisto, Senhora?</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, em tudo consento.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Oh grande contentamento!</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>LORIMENA.</small></p> + +<blockquote> + Saiba que nunca tégora<br> + Lhe houve inveja ao tormento.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Asi lo dices, bobilla?<br> + Oh! mala dolor os duela!<br> + Pero no es maravilla<br> + Quien consiente ansi la silla,<br> + Consienta tambien la espuela.</blockquote> + +<h3>SCENA VI.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Tornão a bailar e cantar, e acabado, entra D. +Lusidardo, e o Monteiro, que andão em busca de Venadoro.</em></p> + +<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p> + +<blockquote> + Tres dias ha ja que ando<br> + Por esta larga espessura<br> + A Venadoro buscando;<br> + E o que delle vou achando<br> + He como quer a Ventura. <span class="pn"><a name="pag_463">{463}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Senhor, cuido que lá vejo<br> + Huns lavradores cantar.</blockquote> + +<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p> + +<blockquote> + Hi diante perguntar.</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Cumprido he seu desejo,<br> + Se a vista não m'enganar.</blockquote> + +<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p> + +<blockquote> + Como assi?</blockquote> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<blockquote> + Elle não vê<br> + Aquelle pastor loução<br> + Com huma moça pela mão?<br> + Se Venadoro não he,<br> + Nem eu o Monteiro são.</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Quien veo allá asomar,<br> + Que se viene á nuestras bodas?</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + No los dejemos llegar,<br> + Que nos vernan á roubar,<br> + Juro á mi, las migas todas.</blockquote> + +<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p> + +<blockquote> + Oh Venadoro, meu filho!<br> + Es tu este?</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Tal estou,<br> + Que cuido que este não sou.</blockquote> + +<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p> + +<blockquote> + Certo que me maravilho <span class="pn"><a name="pag_464">{464}</a></span><br> + De quem tanto te mudou.<br> + Como estais assi mudado<br> + No rosto e mais no vestido!</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Ando ja n'outro trocado,<br> + Tanto, que fiquei pasmado<br> + De como fui conhecido.<br> + E se Vossa Mercê vem<br> + Para me levar daqui,<br> + Mais ha de levar que a mi;<br> + E ha de ser quem me tem<br> + Todo transformado em si.</blockquote> + +<p class="personagem">B<small>OBO.</small></p> + +<blockquote> + Eso porque lo entendeis?<br> + Por las migas por ventura?<br> + Voto á tal no llevareis:<br> + Por mas y por mas que andeis<br> + No hareis tal travesura.</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Esta formosa donzella<br> + Em mi teve tal poder,<br> + Que folguei de me perder;<br> + Pois, emfim, vim achar nella<br> + O que não cuidei de ser.<br> + Tanto em mi pôde este amor,<br> + Que a tenho recebida;<br> + E se o êrro grave for,<br> + Aqui quero ser pastor:<br> + Deixe-me ter esta vida.</blockquote> + +<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p> + +<blockquote> + He certo tal casamento? <span class="pn"><a name="pag_465">{465}</a></span> +</blockquote> + +<p class="personagem">V<small>ENADORO.</small></p> + +<blockquote> + Tenha-o por cousa segura.</blockquote> + +<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p> + +<blockquote> + Oh grande acontecimento!<br> + Dest'arte sabe a ventura<br> + Aguar hum contentamento!</blockquote> + +<p class="personagem">P<small>ASTOR.</small></p> + +<blockquote> + Óigame, Señor, á mi,<br> + Como hombre sabio, discreto,<br> + Porque acaeció así,<br> + Y lo que supo hasta aqui<br> + Lo puede tener por cierto.<br> + Muchos años son corridos<br> + Que en esta fuente abierta,<br> + En estos valles floridos<br> + Hallé dos niños nascidos,<br> + Y á su madre casi muerta.<br> + Los niños chicos crié,<br> + (Y desto cierto me arreo)<br> + Y á la madre sepulté;<br> + Y despues un gran deseo<br> + De saber esto tomé.<br> + Como yo fuese enseñado<br> + De chico á la mágica arte<br> + Por mi padre, que es finado;<br> + Muy conoscido y nombrado<br> + Soy por tal en toda parte.<br> + Yo con yervas de la sierra,<br> + Animales y otras cosas<br> + Haré, si el arte no se yerra,<br> + Que desciendan á la tierra <span class="pn"><a + name="pag_466">{466}</a></span><br> + Las estrellas luminosas.<br> + Soy, en fin, certificado<br> + Que la madre de los dos<br> + Fué Princeza de alto estado.<br> + Y por un caso nombrado<br> + La trajo á esta tierra Dios.<br> + El macho, como creció,<br> + Deseoso de otro bien,<br> + Á la Corte se partió:<br> + La hembra es esta por quien<br> + Vuestro hijo se perdió.<br> + Y si mas quiere, Señor,<br> + De mi arte, prestamente<br> + Dello le haré sabedor;<br> + Mas ha de ser de tenor<br> + Que no lo sepa la gente.</blockquote> + +<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p> + +<blockquote> + Mas vamos-nos, se quereis,<br> + Que não soffro dilação,<br> + A minha casa, e então<br> + Lá disso me informareis,<br> + Que caso he de admiração.<br> + E vós, filho, não cuideis<br> + Que a gloria de vos achar<br> + Não he tanto d'estimar,<br> + Qu'em qualquer 'stado que esteis,<br> + Não folgue de vos levar. <span class="pn"><a name="pag_467">{467}</a></span> +</blockquote> + +<h2>ACTO QUINTO.</h2> + +<h3>SCENA I.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Solina, Dionysa e Filodemo.</em></p> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + <big>E</big>is Filodemo lá vem:<br> + Asinha acudio ao leme.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Isso he de quem quer bem;<br> + Mas não sei se o vio alguem,<br> + Porque quem espera teme.<br> + Agora me quizera eu<br> + Daqui cem mil leguas ver.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Folgára eu assi de ser,<br> + Porqu'este cuidado meu<br> + Fôra mais de agradecer.<br> + Que quando por accidente<br> + A Fortuna desastrada<br> + Vos apartasse da gente<br> + N'hum deserto, onde somente<br> + Das feras fosseis guardada;<br> + Lá por ferro, fogo e ágoa<br> + Buscar minha morte iria;<br> + A voz ronca, a lingua fria,<br> + Tamanho mal, tanta mágoa<br> + Ás montanhas contaria.<br> + Lá, mui contente e ufano<br> + De mostrar amor tão puro, <span class="pn"><a + name="pag_468">{468}</a></span><br> + Poderia ser que o dano,<br> + Que não move hum peito humano,<br> + Que movesse hum monte duro.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Nesse deserto apartado<br> + De toda a conversação<br> + Merecieis degradado<br> + Por justiça, com pregão<br> + Que dissesse: <em>Por ousado</em>.<br> + E eu tambem merecia<br> + Metida a grave tormento,<br> + Pois que, como não devia,<br> + Vim a dar consentimento<br> + A tão sobeja ousadia.</blockquote> + +<p class="personagem">F<small>ILODEMO.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, se me atrevi,<br> + Fiz tudo o que Amor ordena;<br> + E se pouco mereci,<br> + Tudo o que perco por mi,<br> + Mereço por minha pena.<br> + E se Amor pôde vencer,<br> + Levando de mi a palma,<br> + Eu não lho pude tolher;<br> + Que os homens não tẽe poder<br> + Sôbre os affectos da alma.<br> + E ainda que pudera<br> + Resistir contra o mal meu.<br> + Saiba que o não fizera;<br> + Que pouco valêra eu,<br> + Se contra vós me valêra.<br> + Não deve logo ter culpa <span class="pn"><a + name="pag_469">{469}</a></span><br> + Quem se venceo d'armas tais:<br> + Assi que nisto, e no mais,<br> + Tomo por minha desculpa<br> + Vós mesma que me culpais.<br> + E se este atrevimento<br> + Com tudo for de culpar,<br> + Acabae de me matar;<br> + Que aqui tenho hum soffrimento<br> + Que tudo póde passar.<br> + E se esta penitencia,<br> + Que faço em me perder,<br> + Algum bem vos merecer,<br> + Fique em vossa consciencia<br> + O que me podeis dever.<br> + Que dizeis a isto, Senhora?</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Eu que vos posso dizer?<br> + Ja não tenho em mi poder,<br> + Segundo me sinto agora,<br> + Para poder responder.<br> + Respondei-lhe, vós Solina,<br> + Pois que a vós me entreguei.<br> +</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Bofé não responderei:<br> + Veja ella o que determina.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Não o vejo, nem o sei.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Pois eu tambem não sei nada.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Porque? <span class="pn"><a name="pag_470">{470}</a></span></blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Do que eu fizer,<br> + Se despois se arrepender,<br> + Dirá qu'eu fui a culpada.<br> +</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Eu só quero a culpa ter.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Senhora, por não errar,<br> + Não quero que fique em mim.<br> + Esta noite no jardim<br> + Ambos podem praticar<br> + Como isto venha a bom fim.<br> + Lá poderão ajustar<br> + Entr'ambos o parecer;<br> + Qu'eu não m'hei nisso de achar,<br> + Que não quero temperar<br> + O que outrem ha de comer.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Vós vêdes a torvação,<br> + Que lá nessa casa vae?</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Dá-me cá no coração<br> + Que he vindo o Senhor seu pae<br> + Com o Senhor seu irmão.</blockquote> + +<p class="personagem">D<small>IONYSA.</small></p> + +<blockquote> + Filodemo, hi-vos embora,<br> + Fallae depois com Solina.</blockquote> + +<p class="personagem">S<small>OLINA.</small></p> + +<blockquote> + Vamos-nos tambem, Senhora.<br> + Receber seu pae lá fóra;<br> + Não venha sentir a mina. <span class="pn"><a name="pag_471">{471}</a></span> +</blockquote> + +<h3>SCENA II.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina +com os Musicos.</em></p> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<p>Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre andão rugindo as +sedas.</p> + +<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p> + +<p>Avante, que bem sei que o não dizeis polas sedas de Veneza.</p> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<p>Ja sabeis que esta nossa Solina he tão Celestina, que não ha quem a traga +a nós.</p> + +<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p> + +<p>Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, dará e tomará +quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher de sua +arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes são como homens +sisudos; se de noite se achão em algum arruido, onde possão fugir sem serem +conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia quem ha de cuidar que hum tão +honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem pode ser, porque noite escura he capa +de Judeos e de envergonhados.</p> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<p>Mui gentil comparação he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi +zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous meus +amigos, que logo hão de vir aqui ter comnosco.</p> + +<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p> + +<p>Que tal he a musica que determinas de lhe dar? <span class="pn"><a +name="pag_472">{472}</a></span> Não seja de siso; porque será a maior +parvoice do mundo, porque não concerta com a parvoice que tu finges.</p> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<p>A musica não he senão das nossas; mas faço-te queixume, que nem com hum +cão de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra.</p> + +<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p> + +<p>Nem as acharás senão alugadas; mas eu não sou de opinião que teus amores +te custem dinheiro. Ora ja lá apparecem os outros companheiros, e eu tambem +ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto á popa, porque daqui iremos +á porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum certo requerimento.</p> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<p>Vossas Mercês vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem +temperadas?</p> + +<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p> + +<p>Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justiça entretanto.</p> + +<p class="personagem">V<small>ILARDO.</small></p> + +<p>Ora sus: fazei como se temperasseis cabeça de pescada com seu figado e +bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa +nova.</p> + +<p class="inst_cena"><em>Neste passo se dá a musica com todos quatro, hum +tange guitarra, outro pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito +velhas, e no melhor diz Vilardo:</em></p> + +<p class="ni">Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he.</p> + +<p class="personagem">D<small>OLOROSO.</small></p> + +<p>Justiça, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui não ha outro valhacouto que nos +valha, que pôr os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras. <span +class="pn"><a name="pag_473">{473}</a></span></p> + +<h3>SCENA III.</h3> + +<p class="personagem">O M<small>ONTEIRO</small> <em>só</em>.</p> + +<p>Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quão gracioso sería quem +o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoço, porque não +podessem entender nelle Meirinhos, Almotacés da limpeza, trabalhos, +esperanças, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora notae bem +de quantas côres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo: perdeo-se Venadoro na +caça, eis a casa toda envolta como rio: o pae enfadado, a irmãa triste, a +gente desgostosa; tudo, emfim, fóra do couce; e o galante aposentado nos matos +com trajos mudados como camaleão, decepado dos pés e das mãos, por huma +serranica d'Alentejo; e veio acaso a sahir de maneira fóra da madre, que a +recebeo por mulher; e rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as +lembranças de seu pae; pois tanto tomou ao pé da letra o que Deos disse: +<em>Por esta deixarás teu pae e mãe</em>. E attentae isto por me fazer +mercê: cuidareis que este caso era <em>solus peregrinus</em>: sabei que os +não dá a fortuna senão aos pares, como quédas. Dionysa mais mimosa e mais +guardada de seu pae que bicho de seda, moça sem fel como pombinha, que nos +annos não tinha feito inda o enequim; mais formosa que huma manhãa do S. +João, mais mansa que o Rio Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso, +mais delicada que hum pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua +conversação se poderá soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a +parricida, <span class="pn"><a name="pag_474">{474}</a></span> com tanto que +dissesse o pregão o porque; porque vos não fieis em castanhas (não sei se +diga, se o cale, que de magoado me trava pola manga a falla da garganta; mas, +com tudo, não ha quem se tenha) seu pae a achou esta noite no jardim com +Filodemo, mais arrependida do tempo que perdêra, que do que alli perdia: eu, +coitado de mi, que meta os dentes nos cabeçaes se desejar ave de penna.</p> + +<h3>SCENA IV.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Duriano e o Monteiro.</em></p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO</small>, <em>como cantando</em>.</p> + +<p>Ti ri ri, ti ri rão.</p> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<p>Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos são esses? Onde he cá a ida +agora?</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Vou assi como parvo, porque o melhor he não saber homem nada de si.</p> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<p>Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo que +ficou só em casa?</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se não he isso +caso para sahir com elle a desafio.</p> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<p>Porque? <span class="pn"><a name="pag_475">{475}</a></span></p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Porque não basta que lhe dê a Fortuna gostos tão medidos sôbre o funil, +que lhe põe nos braços Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou +cabellos ao vento, senão ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe vem a +descobrir, que he filho de não sei quem, nem quem não.</p> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<p>Esses são outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja sôbre +isso não sei que fábulas.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que não he menos que Principe, e peor ainda. +Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor Dom Lusidardo que aggravado del +Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca?</p> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<p>Tudo isso ouvi ja.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que ElRei de Dinamarca +lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moça; e como era bom +justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher abalão, +desejou ella de ver geração delle; senão quando, livre-nos Deos! se lhe +começou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos não se desistem em nove +dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle então necessario acolher-se com +ella, porque não colhessem a ella com elle: acolheu-se em huma galé; e vêde +la Princeza em huma galera nueva, con el marinero á ser marinera. Finalmente, +vindo navegando todo esse Oceano Germanico, bancos de Frandes, <span +class="pn"><a name="pag_476">{476}</a></span> mar d'Inglaterra, e trazidos á +costa d'Hespanha, não os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella +buscavão: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a galé á +costa, onde feita pedaços, morrêrão todos desastradamente, sem escapar mais +que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece que a Fortuna +guardava para dar o descanso, que a seu pae e mãe negára. Sahio finalmente a +moça na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria huma Princeza mais +delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher pola terra estranha e +despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde, despois de ter perdido toda a +esperança de ter algum remedio, derão-lhe as dores de parto junto de huma +fonte, aonde em breve espaço lançou duas crianças, macho e femia, como +vizagras. E como a fraca compreição da delicada mulher não pudesse sustentar +tantos e tão desacostumados trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia +que desejava de dar, deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae, +que por causa de seus nascimentos a vida lhe tirárão, como acontece a +viboras. E como as crianças fossem destinadas ao que vêdes, não faltou hum +pastor que as criasse, que alli veio ter, dando a mãe a alma a Deos: de +maneira que, por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e +a femia he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro.</p> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<p>Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo +namorar a filha do Senhor <span class="pn"><a name="pag_477">{477}</a></span> +que serve: não haverá logo por mal o Senhor Dom Lusidardo tomar por genro e +nora, quem acha por sobrinhos.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se +parece natural com seu irmão, e Florimena com sua mãe.</p> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<p>Dae-me a entender, como se creo tão de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de +quem isso contou.</p> + +<p class="personagem">D<small>URIANO.</small></p> + +<p>No caso não ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou +todo o caso; e fez ao pastor muitas mercês, e mandou fazer muitas festas +solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o mesmo +parentesco tẽe com a Senhora Dionysa, estão fóra de crer tamanho +contentamento; cuido que zombão delle.</p> + +<p class="personagem">M<small>ONTEIRO.</small></p> + +<p>Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu +matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo: +dissimulemos.</p> + +<h3>SCENA V.</h3> + +<p class="inst_cena"><em>Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela +mão, e Filodemo a Dionysa.</em></p> + +<p class="personagem">L<small>USIDARDO.</small></p> + +<blockquote> + Quem não ficará pasmado<br> + De ver que por tal caminho <span class="pn"><a + name="pag_478">{478}</a></span><br> + Tẽe a Ventura ordenado<br> + Filodemo, meu criado,<br> + Vir ser meu genro e sobrinho!<br> + Quem não pasmará agora<br> + De ver a ventura minha,<br> + Que tẽe tornado n'hum'hora<br> + Florimena, huma pastora,<br> + Ser minha nora e sobrinha!<br> + Dem-se graças ao Senhor,<br> + Cujo segredo he profundo;<br> + Pois que vemos que quiz dar<br> + A ventura e o amor<br> + Por prazeres deste mundo.</blockquote> +</div> + + + +<div id="cartas"> + +<h1>CARTAS.</h1> + + <span class="pn"><a name="pag_481">{481}</a></span> + + +<h2>CARTAS.</h2> + + +<h3>CARTA I.</h3> + +<p class="ni"><big>D</big>esejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito +desejar a não vi; porque este he o mais certo costume +da Fortuna, consentir que mais se deseje o que mais +presto ha de negar. Mas porque outras naos me não +fação tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar +que vos não lembro, determinei de vos obrigar +agora com esta; na qual pouco mais ou menos vereis +o que quero que me escrevais dessa terra. Em +pago do qual, d'ante mão vos pago com novas +desta, que não serão más no fundo de huma arca +para aviso de alguns aventureiros, que cuidão que +todo o mato he ouregãos, e não sabem que cá e lá +más fadas ha.</p> + +<p>Despois que dessa terra parti, como quem o fazia +para o outro mundo, mandei enforcar a quantas esperanças +dera de comer até então, com pregão público: +<em>Por falsificadoras de moeda</em>. E desenganei esses +pensamentos, que por casa trazia, porque em mim não +ficasse pedra sobre pedra. E assi posto em estado, que +me não via senão por entre lusco e fusco, as derradeiras <span class="pn"><a name="pag_482">{482}</a></span> +palavras que na nao disse, forão as de Scipião +Africano: <em>Ingrata patria, non possidebis ossa mea</em>. +Porque quando cuido, que sem peccado que me obrigasse +a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de más +linguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas +de pura inveja, de verem <em>su amada yedra de sí arrancada, +y en otro muro asida</em>.... Da qual tambem +amizades mais brandas que cera, se accendião em +odios que disparavão lume que me deitava mais pingos +na fama, que nos couros de hum leitão. Então +ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude +de Achilles, que não podia ser cortado senão +pelas solas dos pés; as quaes de mas não verem +nunca, me fez ver as de muitos, e não engeitar conversações +da mesma impressão, a quem fracos punhão +mao nome, vingando com a lingua o que não podião +com o braço. Emfim, Senhor, eu não sei com que +me pague saber tão bem fugir a quantos laços nessa +terra me armavão os acontecimentos, como com me +vir para esta, onde vivo mais venerado que os touros +de Merceana, e mais quieto que a cella de hum +Frade Prégador. Da terra vos sei dizer que he mãe +de villões ruins, e madrasta de homens honrados. +Porque os que se cá lanção a buscar dinheiro, sempre +se sustentão sobre ágoa como bexigas; mas os que +sua opinião deita á las armas Mouriscote, como maré +corpos mortos á praia, sabei que antes que amadureção, +se seccão. Ja estes que tomavão esta opinião +de valentes ás costas, crede que nunca riberas de +Duero arriba cavalgaron Zamoranos, que roncas de +tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem <span class="pn"><a name="pag_483">{483}</a></span> +ao effeito da obra, salvão-se com dizer que se não +podem fazer tamanhas duas cousas, como he, prometter +e dar. Informado disto veio a esta terra João Toscano, +que, como se achava em algum magusto de rufiões, +verdadeiramente que alli era su comer las carnes +crudas, su beber la viva sangre. Callisto de Siqueira +se veio cá mais humanamente, porque assi o prometteo +em huma tormenta grande em que se vio. Mas +hum Manoel Serrão, que, <em>sicut et nos</em>, manqueja de +hum olho, se tẽe cá provado arrezoadamente, porque +fui tomado por juiz de certas palavras, de que elle +fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de +sua pessoa era cá tido em boa conta. Se das damas +da terra quereis novas, as quaes são obrigatorias a +huma carta, como marinheiros á festa de S. Frei Pero +Gonçalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de +maduras, que não ha cabo que lhe tenha os pontos, +se lhe quizerem lançar pedaço. Pois as que a terra +dá? além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe +falleis alguns amores de Petrarca, ou de Boscão; respondem-vos +huma linguagem meada de hervilhaca, +que trava na garganta do entendimento, a qual vos +lança ágoa na fervura da mor quentura do mundo. +Ora julgae, Senhor, o que sentirá hum estomago costumado +a resistir ás falsidades de hum rostinho de +tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho +novo com ágoa, vendo-se agora entre esta +carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como não +chorará las memorias de in illo tempore! Por amor +de mi, que ás mulheres dessa terra digais de minha +parte que se querem absolutamente ter alçada com baraço <span class="pn"><a name="pag_484">{484}</a></span> +e pregão, que não receiem seis mezes de má vida +por esse mar, que eu as espero com procissão e palio, +revestido em pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe +irão entregar as chaves da cidade, e reconhecerão +toda a obediencia, a que por sua muita idade são ja +obrigadas. Por agora não mais, senão que este Soneto<sup><a href="#rodape3" name="m_rodape3">[3]</a></sup> +que aqui vai, que fiz á morte de Dom Antonio +de Noronha, vos mando em sinal de quanto della me +pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a +qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe, +que me parece melhor que quantas fiz. Tambem vo-la +mandára para a mostrardes lá a Miguel Dias, que +pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver; +mas a occupação de escrever muitas cartas para o +Reino, me não deo lugar. Tambem lá escrevo a Luis +de Lemos em resposta d'outra que vi sua: se lha +não derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual +tudo se perde.</p> + +<p style="text-align: right; margin-right: 5em;">Vale.</p> + + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_rodape3" name="rodape3">[3]</a></sup> He o Soneto 12.</p> +</div> + + +<h3>CARTA II.</h3> + +<p class="ni"><big>E</big>sta vai com a candeia na mão morrer nas de v. m.; +e se dahi passar, seja em cinza; porque não quero +que do meu pouco comão muitos. E se todavia quizer +meter mais mãos na escudella, mande-lhe lavar +o nome, e valha sem cunhos. <span class="pn"><a name="pag_485">{485}</a></span></p> + +<blockquote class="verso"> +La mar en medio y tierras, he dejado<br> +Á cuanto bien cuitado yo tenia:<br> +Cuan vano imaginar, cuan claro engaño<br> +Es darme yo á entender que con partirme<br> +De mí se ha de partir un mal tamaño! +</blockquote> + +<p class="ni">Quão mal está no caso quem cuida que a mudança +do lugar muda a dor do sentimento! E senão, diga-o +quien dijo que la ausencia causa olvido. Porque +emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha. +Ao alvo destes cuidados jogão meus pensamentos á +barreira, tendo-me ja, pelo costume, tão contente de +triste, que triste me faria ser contente; porque o longo +uso dos annos se converte em natureza. Pois o que +he para mor mal, tenho eu para mor bem. Aindaque, +para viver no mundo, me debruo d'outro panno, por +não parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum +para ser outro, sendo outro para ser hum; mas a dor +dissimulada dara seu fruito; que a tristeza no coração, +he como a traça no panno.</p> + +<blockquote class="verso"> +E por tão triste me tenho,<br> +Que se sentisse alegria,<br> +De triste não viviria.<br> +Porque a tal sorte vim,<br> +Que não vejo bem algum<br> +Em quanto vejo,<br> +Que não nasceo para mim;<br> +E por não sentir nenhum,<br> +Nenhum desejo. +</blockquote> + +<p class="ni">Porque cousas impossiveis, he melhor esquecê-las que +deseja-las. E por isso</p> + +<blockquote class="verso"> +Só, tristeza, vos queria,<br> +Pois minha ventura quer <span class="pn"><a name="pag_486">{486}</a></span><br> +Que só ella<br> +Conheça por alegria;<br> +E que se outra quizer,<br> +Morra por ella. +</blockquote> + +<p class="ni">Pouco sabe da tristeza quem (sem remedio para ella) +diz ao triste que se alegre. Pois não vê que alheios +contentamentos a hum coração descontente, não lhe +remediando o que sente, lhe dóbrão o que padece. +Vós, se vem á mão, esperais de mim palavrinhas +joeiradas, enforcadas de bons propositos. Pois desenganae-vos, +que desque professei tristeza, nunca mais +soube jogar a outro fito. E porque não digais, que não +sou gente fóra do meu bairro, vêdes, vai huma volta +feita a este mote, que escolhi na manada dos engeitados; +e cuido que não he tão dedo queimado, que não +seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi:</p> + +<blockquote class="verso"> +Não quero, não quero<br> +Jubão amarello.<br> +<br> +Se de negro for,<br> +Tão bem me parece,<br> +Quanto me aborrece<br> +Toda alegre côr:<br> +Côr que mostra dor,<br> +Quero, e não quero<br> +Jubão amarello. +</blockquote> + +<p class="ni">Parece-vos que se póde dizer mais? Não me respondais: +Quem gabará a noiva? porque assentae, que fui +comendo e fazendo, ou assoprando, que não he tão +pequena habilidade. E porque vos não pareça, que +foi mais acertar, que querê-lo fazer; vêdes, vai outra +do mesmo jaez, com tanto que se não vá a pasmar. <span class="pn"><a name="pag_487">{487}</a></span></p> + +<blockquote class="verso"> +Perdigão perdeo a penna,<br> +Não ha mal, que lhe não venha.<br> +<br> +Em hum mal outro começa,<br> +Que nunca vem só nenhum;<br> +E o triste que tẽe hum,<br> +A soffrer outro se offreça;<br> +E só pelo ter conheça,<br> +Que basta hum só que tenha,<br> +Para que outro lhe venha. +</blockquote> + +<p class="ni">Que graça será esperardes de mim propositos em +cousa que os não tẽe para comigo? Pois ainda que +queira, não posso o que quero; que hum sentido remontado, +de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe succede +assi; e cada hum acode ao que lhe mais doe; e +mais eu, que o que mais me entristece he ter contentamento, +pois fujo delle, que minha alma o aborrece, +porque lhe lembra que he virtude viver sem elle. +Que ja sabeis que mágoa he, vê-lo-has e não o paparás. +Por fugir destes inconvenientes,</p> + +<blockquote class="verso"> +Toda a cousa <span class="typo" title="no original: desontente">descontente</span><br> +Contentar-me só convinha<br> +De meu gôsto:<br> +Que o mal, de que sou doente,<br> +Sua mais certa mézinha<br> +He desgôsto. +</blockquote> + +<p class="ni">Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que não podes haver, +dá-o pola tua alma. O mal sem remedio, o mais certo +que tẽe, he fazer da necessidade virtude: quanto mais, +se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque, +emfim, allegados son iguales los que viven por +sus manos etc. A este proposito, pouco mais ou + <span class="pn"><a name="pag_488">{488}</a></span> +menos, se fizerão humas voltas a hum mote d'enchemão, +que diz por sua arte zombando, mais que não +de siso (que toda a galantaria he tirá-la donde se não +espera), o qual crede que tẽe mais que roer do que +hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida, +e mande escumar o entendimento, que d'outra +maneira, de fuera dormiredes, pastorcico. E o meu +Senhor diz assi:</p> + +<blockquote class="verso"> +Dava-lhe o vento no chapeirão,<br> +Quer lhe dê, quer não.<br> +<br> +Bem o póde revolver,<br> +Que o vento não traz mais fruito;<br> +E mais vento he sentir muito<br> +O que, emfim, fim ha de ter.<br> +O melhor, he melhor ser,<br> +Que o vento no chapeirão,<br> +Quer lhe dê, quer não. +</blockquote> + +<p class="ni">Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem +do mal, que o mal do bem; porque muito mais se +sente o por vir, que o passado; e a morte até matar, +mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; +porque para tomar a palha a esta materia, são necessarias +azas de Nebri. Mas vós sois homem de prol, +e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que +de mi vos sei dar he:</p> + +<blockquote class="verso"> +Que esperança me despede,<br> +Tristeza não me fallece,<br> +E tudo o mais me aborrece.<br> +Ja que mais não mereceo<br> +Minha estrella,<br> +Só a tristeza conheço, <span class="pn"><a name="pag_489">{489}</a></span><br> +Pois que para mi nasceo,<br> +E eu para ella. +</blockquote> + +<p class="ni">No mundo não tẽe boa sorte, senão quem tẽe por boa +a que tẽe. E daqui me vem contentar-me de triste. +Mas olhae de que maneira:</p> + +<blockquote class="verso"> +Vivo assi ao revés,<br> +Tomando por certa vida<br> +Certa morte,<br> +Com que fólgo em que me pês;<br> +Pois minha sorte he servida<br> +De tal sorte. +</blockquote> + +<p class="ni">Huma cousa sabei, que o mal, inda que ás vezes o +vejais louvar, não ha quem o louve com a boca, que +o não tache com o coração.</p> + +<blockquote class="verso"> +Ajuda-me a soffrer<br> +Vida tão sem soffrimento,<br> +E tão sem vida,<br> +Ver que, emfim, fim hão de ter<br> +Desgôsto e contentamento<br> +Sem medida. +</blockquote> + +<p class="ni">Attentae que não são maos confeitos de enforcado, +para os que estão com o baraço na garganta, cuidar +que o bem e o mal, aindaque sejão differentes na +vida, são conformes na morte; porque vemos</p> + +<blockquote class="verso"> +Que não ha tão alta sorte,<br> +Nem ventura tão subida,<br> +Ou desastrada,<br> +A quem o assópro da morte<br> +Não sopre o fogo da vida.<br> +<br> +A seu fim todas cousas vão correndo;<br> +Nem ha cousa, que o tempo não consuma, <span class="pn"><a name="pag_490">{490}</a></span><br> +Nem vida, que de si tanto presuma,<br> +Que se não veja nada, em se vendo.<br> +<br> +Que o mais certo que temos,<br> +He não termos nada certo<br> +Cá na terra.<br> +Pois para seus não nascemos;<br> +Se o seu nos dá incerto,<br> +Nada erra. +</blockquote> + +<p class="ni">Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se +fez a hum certo recontro que se teve com este destruidor +de bons propositos, e não se acabou, porque se +teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte:</p> + +<blockquote class="verso"> +Forçou-me amor hum dia, que jogasse;<br> +Deo as cartas, e az de ouros levantou;<br> +E sem respeitar mão, logo triumphou,<br> +Cuidando que o metal, que me enganasse.<br> +<br> +Dizendo, pois triumphou, que triumphasse<br> +A huma sota de ouros, que jogou,<br> +Eu então por burlar quem me burlou,<br> +Tres paos joguei, e disse que ganhasse. +</blockquote> + +<p class="ni">Principes de condição, ainda que o sejão de sangue, +são mais enfadonhos que a pobreza: fazem com sua +fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias de seus avós, +onde não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma +hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim, +para dar que fallar a hum convento. Duas cousas +não se soffrem sem discordia; companhia no amar, +mandar villão ruim sôbre cousa de seu interesse. +Não se póde ter paciencia com quem quer que lhe +fação o que não faz. Desagradecimentos de boas +obras destruem a vontade para não fazê-las a amigo, + <span class="pn"><a name="pag_491">{491}</a></span> +que tẽe mais conta com o interesse, que com a amizade: +rezae delle, que he dos cá nomeados.</p> + +<p>Grande trabalho he querer fazer alegre rosto, +quando o coração está triste: panno he, que não toma +nunca bem esta tinta; que a lua recebe a claridade +do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá +honra no que dá: não tẽe que agradecer, quem, no +que recebe, a não recebe; porque bem comprado vai +o que com ella se compra. Não se dá de graça o +que se pede muito. Estai certo, que quem não tẽe +huma vida, tẽe muitas. Onde a razão se governa +pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que +louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto +comsigo, como males de que se não guardárão, podendo. +Não ha alma sem corpo, que tantos corpos +faça sem almas, como este purgatorio, a que chamais +honra: onde muitas vezes os homens cuidão que a +ganhão, ahi a perdem. Onde ha inveja, não ha amizade; +nem a póde haver em desigual conversação. +Bem mereceo o engano, quem creo mais o que lhe +dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver no +mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. +E para muito pontual, perguntae-lhe donde vem: vereis +que algo tiene en el cuerpo, que le duele. Ora +temperae-me lá esta gaita, que nem assi, nem assi +achareis meio real de descanso nesta vida; ella nos +trata somente como alheios de si, e com razão;</p> + +<blockquote class="verso"> +Pois somente nos he dada<br> +Para que ganhemos nella<br> +O que sabemos.<br> +Se se gasta mal gastada, <span class="pn"><a name="pag_492">{492}</a></span><br> +Juntamente com perdella<br> +Nos perdemos. +</blockquote> + +<p class="ni">Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que +mais fazemos, he a mais fraca alfaia de que nos servimos. +E se queremos ver quão breve he,</p> + +<blockquote class="verso"> +Ponderemos e vejamos<br> +Que ganhamos em viver<br> +Os que nascemos:<br> +Veremos, que não ganhamos,<br> +Senão algum bem fazer,<br> +Se o fazemos. +</blockquote> + +<p class="ni">E por isso respeitando,</p> + +<blockquote class="verso"> +Que o por vir tal será,<br> +Enthesouremos;<br> +Porque ao certo não sabemos<br> +Quando a morte pedirá<br> +Que lhe paguemos. +</blockquote> + +<p class="ni">Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, +que a morte: sendo mais aborrecida que a verdade, +tẽe-se em menos conta que a virtude. Mas com +tudo, com seu pensamento, quando lhe vem á vontade, +acarreta mil pensamentos vãos; que tudo para com +ella he hum lume de palhas. Nenhuma cousa me +enche tanto as medidas para com estes que vivem na +mor bonança, como ella; porque quando lhe menos +lembra, então lhe arranca as amarras, dando com os +corpos á costa; e, se vem á mão, com as almas no +inferno, que he bem ruim gasalhado.</p> + +<blockquote class="verso"> +E pois todos isto temos,<br> +Não nos engane a riqueza,<br> +Por que tanto esmorecemos, <span class="pn"><a name="pag_493">{493}</a></span><br> +Traz que vamos;<br> +Ja que temos por certeza<br> +Que quando mais a queremos,<br> +A deixamos.<br> +<br> +Gastâmos em alcançá-la<br> +A vida; e quando queremos<br> +Usar della,<br> +Nos tira a morte lográ-la:<br> +Assi que a Deos perdemos,<br> +E a ella. +</blockquote> + +<p class="ni">Porque ja ouvirieis dizer: <em>Ninho feito, pêga morta</em>. +Que me dizeis ao contentamento do mundo, que toda +a dura delle está emquanto se alcança? Porque +acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, +porque acabado de alcançar, he passado; e maior +saudade deixa, do que he o contentamento que deo. +Esperae, por me fazer mercê, que lhe quero dar humas +palavrinhas de proposito.</p> + +<blockquote class="verso"> +Mundo, se te conhecemos,<br> +Porque tanto desejamos<br> +Teus enganos?<br> +E se assi te queremos,<br> +Mui sem causa nos queixamos<br> +De teus danos.<br> +<br> +Tu não enganas ninguem;<br> +Pois a quem te desejar,<br> +Vemos que danas:<br> +Se te querem qual te vem,<br> +Se se querem enganar,<br> +Ninguem enganas.<br> +<br> +Vejão-se os bens que tiverão<br> +Os que mais em alcançar-te<br> +Se esmerárão;<br> +Que huns vivendo, não vivêrão, <span class="pn"><a name="pag_494">{494}</a></span><br> +E outros, só com deixar-te,<br> +Descansárão.<br> +<br> +Se esta tão clara fé<br> +Te põe claros teus enganos,<br> +Desengana:<br> +Sobejamente mal vê,<br> +Quem com tantos desenganos<br> +Se engana.<br> +<br> +Mas como tu sempre mores<br> +No engano em que andamos,<br> +E que vemos,<br> +Não cremos o que tu podes,<br> +Senão o que desejamos<br> +E queremos.<br> +<br> +Nada te póde estimar<br> +Quem bem quizer conhecer-te<br> +E estimar-te;<br> +<br> +Qu'em te perder ou ganhar,<br> +O mais seguro ganhar-te<br> +He perder-te.<br> +<br> +E quem em ti determina<br> +Descanso poder achar,<br> +Saiba que erra;<br> +Que sendo a alma divina,<br> +Não a póde descansar<br> +Nada da terra.<br> +<br> +Nascemos para morrer,<br> +Morremos para ter vida,<br> +Em ti morrendo:<br> +O mais certo he merecer<br> +Nós a vida conhecida,<br> +Ca vivendo.<br> +<br> +Emfim, mundo, es estalagem,<br> +Em que pousão nossas vidas<br> +De corrida: <span class="pn"><a name="pag_495">{495}</a></span><br> +De ti levão de passagem<br> +Ser bem ou mal recebidas<br> +Na outra vida. +</blockquote> + +<p class="ni">Á fuera, á fuera Rodrigo, que eu se muito for por +este caminho, darei em enfadonho, de que me parece +me não livrará, nem ainda privilegio de Cidadão do +Porto. E pois me vendo a vós, soffrei-me com meus +encargos. E porque não digais que sou herege de +amor, e que lhe não sei orações, vêdes, vai huma: +<em>Di, Juan, de qué murió Blas?</em> com hum pé á Portugueza, +e outro á Castelhana: e não vos espanteis +da libré, que eu em qualquer palmo desta materia +perco o norte. E os supplicantes dizem assi:</p> + +<blockquote class="verso"> +Di, Juan, de que murió Blas,<br> +Tan niño y tan mal logrado?<br> +Gil, murió de desamado.<br> +<br> +Dime, Juan, quien se engañó,<br> +Que con amor se engañase,<br> +Pensando que el bien hallase,<br> +Adonde el mal cierto halló?<br> +Despues que el engaño vió,<br> +Que hizo desenganado?<br> +Gil, murió de desamado.<br> +<br> +Travou com elle pendença,<br> +Em ter razão confiado;<br> +Mas Amor, como he letrado,<br> +Houve contr'elle a sentença:<br> +E co'aquella differença,<br> +Disse entre si o coitado:<br> +Gil, morreo de desamado.<br> +<br> +Quem tẽe razão tão cerrada,<br> +Que não saiba, sendo rudo<br> +E sem respeito, <span class="pn"><a name="pag_496">{496}</a></span><br> +Que sem Deos he tudo nada,<br> +E nada com elle tudo<br> +Sem defeito?<br> +<br> +E sendo isto assi tão certo,<br> +Como todos confessamos<br> +E sabemos;<br> +Não troquemos pelo incerto<br> +O em que tão certo estamos,<br> +Pois o vemos. +</blockquote> + +<p class="ni">A tudo isto podeis responder, que todos morremos do +mal de Phaeton, porque del dicho al hecho, vá gran +trecho. E de saber as cousas a passar por ellas, +ha mais differença, que de consolar a ser consolado. +Mas assi entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos +a reprehendê-lo, e poucos a emendá-lo. E com isto +amaino, beijando essas poderosas mãos huma quatrinqua +de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa +nosso Senhor etc.</p> + +<p class="centrado">——</p> + + +<p class="ni" style="font-size: small; margin-left: 2em; text-indent: -2em;"><em>O seguinte fragmento de uma composição satyrica em +prosa e verso, em que Luis de Camões descreve uns +jogos de canas, com que na cidade de Goa se festejou +a successão de Francisco Barreto no governo daquelle +Estado, appareceo na 3.ª edição das suas Rimas, com +as duas antecedentes cartas, e em seguimento da ultima. +O intento do poeta he mostrar por meio das divisas +que tirárão os Justadores, que todos elles erão ou +sacerdotes de Baccho, ou parvos, ou homens perdidos.</em></p> + +<p class="ni">.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa +hum morcego; ave em que foi convertida Alcithoe com +as irmãas, por desprezarem os sacrificios de Baccho. +E como aquelle, que se em tal êrro cahisse, não <span class="pn"><a name="pag_497">{497}</a></span> +queria ser convertido em tão baixo animal e tão +nojoso, dizia a sua letra assi em Castelhano:</p> + +<blockquote class="verso"> +Si yo desobedeciere<br> +Á tu deidad santa y pura,<br> +En al mudes mi figura. +</blockquote> + +<p class="ni">Alguns praguentos quizerão dizer que esta letra era +maliciosa, e que não queria dizer tanto desejar este +galante de ser mudado em al, como que desejava almudes +deste licor. Mas he muito grande falsidade, que +sendo a letra assi feita, acaso acertou de sahir aquella +palavra, com que molhava as suas quem tirava a +divisa. Do que o innocente Autor, despois ficou +para se enforcar. Mas outro galante, que de fino +bebado ja passava os limites do bom e costumado +beber, tirou por divisa huma palmeira; árvore, que +entre os Antigos significava victoria; e ao pé della +alguns ramos de vides e de parreiras pizadas; e dizia +a letra assi:</p> + +<blockquote class="verso"> +Ficae vencidas, sem gloria,<br> +Vós vides e vós parreiras;<br> +Porque os ramos das palmeiras<br> +São os que tẽe a victoria. +</blockquote> + +<p class="ni">Tambem aqui não faltárão praguentos, que quizerão +dizer que este devoto, deixando ja atraz Portugal, +commettia com valeroso animo Orracas e Fullas, tendo +em pouco Caparicas e Seixaes. Mas quem ha que +fuja de más linguas, ou de mal costumadas gargantas?</p> + +<p>Outro galante, a quem fazia mal ao estomago +beber o vinho agoado, tirou por divisa huma peça de +chamalote sem ágoas, que apresentava Baccho; e dizia +a letra, como por parte do mesmo Baccho: <span class="pn"><a name="pag_498">{498}</a></span></p> + +<blockquote class="verso"> +Sem ágoas, Senhor, levaio<br> +Se for bom,<br> +Que las aguas de Moncaio<br> +Frias son. +</blockquote> + +<p class="ni">Aqui não tiverão praguentos que dizer, por ser opinião +de physica, serem melhores os mantimentos simples, +que os compostos.</p> + +<p>Outro, que no beber lançava a barra inda mais +além que os acima escritos, tirou por divisa huma +salamandra, passeando por cima de humas brazas de +fogo; e a letra dizia:</p> + +<blockquote class="verso"> +En el fuego vivo yo. +</blockquote> + +<p class="ni">Mas o pintor errando as letras, acertou de pôr: <em>De +fuego la bebo yo</em>. Donde os praguentos quizerão +adivinhar que este galante bebia Orraca de fogo. +O demonio foi fazer tal êrro, para delle sahir tamanho +acêrto.</p> + +<p>Outro devoto, que desque estava quente, dizia +dos companheiros, quaesquer que fossem, o que de +cada hum sabía, sem respeito, tirou por divisa hum +demoninhado, lançando os olhos em alvo, escumando +e apontando com o dedo para hum frasco de vinho; +e dizia a letra:</p> + +<blockquote class="verso"> +Se fallar demasiado,<br> +Não mo tachem, porque, emfim,<br> +Aquella alma falla em mim. +</blockquote> + +<p>Sendo atéqui introduzidos os religiosos de Baccho, +pedírão dous d'outra religião que tambem os deixassem +jogar as canas, e que elles tirarião tal divisa, +com que se tirasse a limpo sua habilidade; e sendo +entrados ambos juntos, por certa conformidade que + <span class="pn"><a name="pag_499">{499}</a></span> +havia entre ambos, trouxerão pintados nas bandeiras +cada hum seu par de pombas; e dizia a letra:</p> + +<blockquote class="verso"> +Se como vós ha hi par,<br> +Vós o podereis julgar. +</blockquote> + +<p>Certo, que atéqui chegou a malicia dos homens, +porque tão subtilmente quizerão interpretar a innocencia +desta letra, que tomárão a derradeira syllaba +da primeira regra, e ajuntárão-na com a primeira da +derradeira, que vem a dizer <em>parvos</em>; e disserão que +juntos significavão isso aquelles dous innocentes. Mal +peccado! tão errada anda a maldade humana, que +logo tẽe por parvos aos que sabem pouco!</p> + +<p>Outro homem entrou tambem por adherencia nas +canas, o qual dizem que tinha partes maravilhosas; +porque era tão perfeito em suas cousas, que o seu +comer havia de ser o melhor temperado e o mais +suave do mundo; e os seus vestidos erão sempre dos +mais finos pannos e sitins, que se podessem descobrir; +e esta perfeição até nos amores e amizades se lhe +estendia, porque com os amigos sempre tinha subtilezas +de conversação, e com as amigas hum fingir que +queria o que não queria. E, emfim, até no jogar +usava daquellas manhas todas, as que para ganhar +erão necessarias. E tinha mais hum revez da fortuna +recebido, que se lhe estendia desde a ponta do +nariz até huma orelha. Este Senhor tirou por divisa +huma camisa toda lavrada de pontinhos, lavor antigo; +e a letra dizia assi:</p> + +<blockquote class="verso"> +Pontos de honrado e sisudo<br> +Sempre na vida quiz ter;<br> +Apontado no viver, <span class="pn"><a name="pag_500">{500}</a></span><br> +Apontado mais que tudo<br> +Em meu vestir e comer.<br> +Pontos subtis no meu gôsto,<br> +Mais subtis no conversar:<br> +Tanto me vim a apontar,<br> +Que apontado trago o rosto,<br> +E as cartas para jogar. +</blockquote> + +<p>Muitos outros homens illustres quizerão ser admittidos +nestas festas e canas, e que se fizera memoria +delles, conforme suas qualidades; mas infinita +escritura fôra, segundo todos os homens da India são +assinalados; e por isto esses bastem para servirem +de amostra do que ha nos mais.</p> + +</div> + + +<p class="centrado">FIM.</p> + + <span class="pn"><a name="pag_501">{501}</a></span> + + + + +<h1>NOTAS.</h1> + + +<span class="pn"><a name="pag_503">{503}</a></span> + + +<div id="notas"> +<h2>NOTAS.</h2> + +<p class="par_nota">Pag. 16. V. 17. <em>Não do sol, mas da candea.</em>] Todas as ed.; mas he +lição viciosa, porque se a luz do sol não he sombra daquella idea, que em +Deos está mais perfeita, menos o será a da candea. Exclue o poeta uma e outra +destas luzes, para que se entenda a da belleza mortal, que tanto cá nos seduz +e encanta. Corrigimos portanto:</p> + +<blockquote> + <strong>Não do sol, nem da candea.</strong> </blockquote> + +<p class="par_nota">P. 67. V. 4. <em>De mim tão longe.</em>] Todas as ed.; mas he êrro, porque +o poeta diz que, tinha posto a sua vontade em quem lhe fugio com ella, e +pergunta depois se alguem vio a sua vontade de si tão longe? Corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>De si tão longe.</strong> </blockquote> + +<p class="par_nota">P. 123. V. 25.</p> + +<p></p> + +<blockquote> + <em>Vós na minha gloria posto.<br> + Eu na vossa sepultura.</em>] </blockquote> + +<p class="ni">Todas as ed. Mas he justamente o contrário:</p> + +<p></p> + +<blockquote> + <strong>Vós na vossa gloria posto,<br> + Eu na minha sepultura.</strong> </blockquote> + +<p class="par_nota">P. 124. V. 9. </p> + +<blockquote> + <em>Mas se esse rosto fingido<br> + Quizereis representar,<br> + Houvera por bom partido<br> + Dar-lho a alma do sentido<br> + Para a gloria do lugar.</em>] </blockquote> + +<p class="ni">Assim andão corrompidos estes versos em todas as ed. Corrigimos: +<span class="pn"><a name="pag_504">{504}</a></span> </p> + +<blockquote> + <strong>Mas se esse rosto fingido<br> + Quizerão representar,<br> + E houverão por bom partido<br> + Dar-vos a alma do sentido<br> + Para a gloria do lugar:<br> + Víreis etc.</strong> </blockquote> + +<p class="par_nota">P. 148. V. 1. <em>Vai o bem fugindo etc.</em>] Estas endeixas, que +evidentemente são do poeta, andão na 1.ª e 2.ª edição das Rimas; na 3.ª +aindaque apontadas no index, forão supprimidas por descuido: nós as +restituimos. </p> + +<p class="par_nota">P. 164. V. 23. <em>E amor he effeito d'alma.</em>] Todas as ed. Parece que +deve ser <em>affeito d'alma</em>. </p> + +<p class="par_nota">P. 183. V. 7. <em>Sem saber do cuidado o que sentia.</em>] Todas as ed.; mas +he êrro: corrigimos: </p> + +<blockquote> + <strong>Sem saber de cuidado o que sentia;</strong></blockquote> + +<p class="ni">isto he um saber de pensado, ou sem examinar, o que sentia. </p> + +<p class="par_nota">P. 185. V. 20. <em>Ao pé d'uma alta faia etc.</em>] Esta que +inadvertidamente aqui vai com o nome de Elegia, por assim andar nas precedentes +edições, propriamente não he senão uma Egloga, que se deve ajuntar ás +mais. </p> + +<p class="par_nota">P. 185. V. 24. <em>Tão queixoso d'Amor</em>] Faria e Sousa. He vicio: +corrigimos: <em>Mui queixoso d'Amor</em>. </p> + +<p class="par_nota">P. 186. V. 8. <em>As roxas brancas Nymphas</em>] Faria e Sousa. He +corrupção de texto: corrigimos: </p> + +<blockquote> + <strong>Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião,</strong></blockquote> + +<p class="ni">porque se entende flores. </p> + +<p class="par_nota">P. 188. V. 15. <em>Junto do rosmaninho, que he crescer</em>] Faria e Sousa. +He corrupção de texto: corrigimos: </p> + +<blockquote> + <strong>Junto do rosmaninho qu'he 'squecer.</strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 191. V. 25. <em>Ai que me deras vida a morte dar-me</em>] Faria e Sousa. +He corrupção de texto: corrigimos: </p> + +<blockquote> + <strong>Ai que me deras vida em morte dar-me.</strong><span class="pn"><a + name="pag_505" id="pag_505">{505}</a></span> </blockquote> + +<p class="par_nota">P. 197. V. 23. <em>E como debil flamma a quem fallece O radical humor de que +vivia</em>] Faria e Sousa. He corrupção de texto; porque o radical humor só +pode faltar as plantas: corrigimos: </p> + +<blockquote> + <strong>E como debil flor etc. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 215. V. 15. </p> + +<blockquote> + <em>Por qual, Senhor, algum eu me trocára. Ou por qual algum rei de mais + grandeza</em>] </blockquote> + +<p class="ni">Faria e Sousa. Não julgamos correcto o dizer: <em>por qual +algum</em>: devem portanto estes versos ler-se como nas primeiras edições:</p> + +<blockquote> + <strong>Por que Rei, por que duque eu me trocára, <br> + Por que Senhor de grande fortaleza? </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 220. V. 30.</p> + +<blockquote> + <em>Se o successo he contrário da vontade As obras que são boas, e o + desvio</em>] </blockquote> + +<p class="ni">Faria e Sousa. He corrupção de texto: corrigimos: </p> + +<blockquote> + <strong>Se o successo he contrário da vontade <br> + Nas obras que são boas, e ha desvio etc. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 221. V. 41. <em>Quanto de infamia</em>] Faria e Sousa. Quãmanha infamia, +3.ª ed. Esta ultima nos parece ser a lição do poeta.</p> + +<p class="par_nota">P. 222. V. 29. <em>Populares a Pallas.</em>] Todas as ed. He vicio de texto: +corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Populares (ó Pallas) etc. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 223. V. 17. <em>E pois que tudo em vos se permittio</em>] Faria e Sousa. +<em>No qual, pois tudo em vós etc.</em>] 3.ª ed. Preferimos esta lição, que +nos parece ser a do poeta.</p> + +<p class="par_nota">P. 224. V. 11. </p> + +<blockquote> + <em>O querido de Deos por quem peleja <br> + O ar tambem, e o vento socegado, <span class="pn"><a name="pag_506" + id="pag_506">{506}</a></span><br> + Ao atambor acode, porque veja <br> + Que quem a Deos ama, he de Deos amado</em> </blockquote> + +<p class="ni">Assim se lião estes quatro versos na 3.ª edição. Manoel de +Faria corrigio:</p> + +<blockquote> + <em>Oh querido de Deos, por quem peleja <br> + O ar tambem, e o vento socegado! <br> + Ao tambor acode, porque veja <br> + Que o qu'a Deos ama, he de Deos amado.</em> </blockquote> + +<p class="ni">Mas esta apostrophe, por elle introduzida, não tem aqui lugar; +porque o poeta acaba de dizer na Oitava antecedente que quando Albuquerque nas +praias da Persia conseguia victoria daquellas nações tão remotas, as settas, +que tirava o arco Ormusiano, por milagre de Deos, se viravão no ar, +pregando-se nos peitos dos mesmos que as tiravão; e continúa, observando que +o querido de Deos que por elle peleja, o mesmo ar e o vento conjurado em seu +favor, ao atambor lhe acodem, para que elle veja que o que a Deos ama, he delle +amado e favorecido. Este he o sentido natural e obvio. Mas Faria e Sousa, vendo +que estes versos erão imitação dest'outros de Claudiano:</p> + +<blockquote> + <em>O nimium dilecte Deo, cui fundit ab antris <br> + Aeolus armatas hiemes! tibi militat aether, <br> + Et conjurati veniunt ad classica venti.</em> </blockquote> + +<p class="ni">julgando que o poeta os devia traduzir servilmente, e não +accommodá-los ao seu intento, metteo aqui esta exclamação forçada, sem nem +ao menos saber a quem ella se refere, porque diz elle mesmo: <em>Yo dudo si +esta exclamacion mira al Albuquerque, si al Rey Don Sebastian.</em> E assim +estando ja viciado o texto, muito mais o ficou ainda. Nós seguimos a lição +antiga, mas como a falta de clareza que nella se encontra, argue vicio de +cópia, corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>O querido de Deos, por quem peleja, <br> + O ar tambem e o vento socegado <br> + Ao atambor lhe acodem, porque veja <br> + Que o que a Deos ama, he de Deos amado.</strong> <span class="pn"><a + name="pag_507" id="pag_507">{507}</a></span> </blockquote> + +<p class="par_nota">P. 225. V. 3. <em>Com louvores de Apollo celebrado.</em>] Todas as ed.; mas +aqui ha vicio, porque falta a clareza: corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Com louvores de Apollo, e celebrado. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 228. V. 1. <em>Depois que a clara aurora a noite escura.</em>] Esta glosa +do Soneto 14 bem como a do 194 que vai a pag. 132, evidentemente não he obra +do poeta: por inadvertencia as conservámos nesta edição.</p> + +<p class="par_nota">P. 257. L. 7. <em>Que são muito e valem pouco.</em>] Todas as ed.; mas o +que o poeta quer dizer, he que um par de reales são cousa pouca, mas para um +escudeiro pobre valem muito. Corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Que são pouco, e valem muito. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 258. L. 17. <em>Ora, pois, Senhor, o Auto dizem, que he tal.</em>] Todas +as ed. Mas he vicio manifesto: corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Que tal dizem, que he? </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 259. L. 1. <em>E huma donzella que vem mais podre de amor, fallando como +Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.</em>] Todas as ed.; mas he vicio: +corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Que vem podre de amor etc. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 259. L. 8. <em>Olá, Senhores.</em>] Lição vulgar. He viciosa: +corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Olá, Senhoras. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 286. V. 1. <em>Mas qué amo y cararon.</em>] Lição vulgar. He grande +estrago de texto: corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Mas qué amo y qué cabron! </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 369. V. 11. <em>Esperai, dir-vo-lo-ha.</em>] Faria. He êrro: deve +ler-se:</p> + +<blockquote> + <strong>Dir-se-vos-ha. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 370. V. 14.</p> + +<blockquote> + <em>Pois só desse encantador <br> + Me quero vingar de ti.</em>] <span class="pn"><a name="pag_508" + id="pag_508">{508}</a></span> </blockquote> + +<p class="ni">Lição vulgar: he viciosa: corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Pois so desse encantador <br> + Me quero vingar em ti. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 374. V. 48. <em>E se mal vos succedesse.</em>] Lição vulgar: he êrro +de cópia ou de impressão: corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>E se mal nos succedesse. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 386. L. 11. <em>O qual informado pelo pastor que a achára, (que era +homem sabio na arte magica) e como a criára.</em>] Lição vulgar; mas a +oração esta imperfeita: corrigimos: <strong>O qual informado pelo pastor +etc.; de como a achára e como a criára.</strong></p> + +<p class="par_nota">P. 402. V. 17. <em>E levar-me a lenha o vento.</em>] Lição vulgar: He +viciosa, porque falta a clausula da oração: corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>He levar-me a lenha o vento. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 418. L. 5. <em>Pois não devia assi de ser posantos e vanselos.</em>] +Lição vulgar. Estranha corrupção de texto: corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Pois não devia assi de ser, polos Santos + Evangelhos. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 418. V. 6. <em>Que os amos e os cangrejos.</em>] Lição vulgar. He +viciosa: corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Que o amor e os cangrejos. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 447. V. 16.</p> + +<blockquote> + <em>Que das montanhas erguidas <br> + D'algum monte não sahisse.</em>] </blockquote> + +<p>Lição vulgar. Não he menos notavel esta corrupção: corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Que das montanhas erguidas <br> + Algum monstro não sahisse. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 453. V. 20. <em>Se tanto amasse.</em>] Lição vulgar; mas aqui ha vicio +de texto, porque falta a clareza, com que o poeta sempre costuma exprimir-se. +Corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Se eu tanto amasse.</strong> <span class="pn"><a + name="pag_509" id="pag_509">{509}</a></span> </blockquote> + +<p>Pag. 467. V. 12.</p> + +<blockquote> + <em>Que quando por accidente <br> + Da fortuna desastrado <br> + Fosse apartado da gente <br> + N'um lugar onde somente <br> + Das feras fosse guardado: <br> + E por ferro, fogo e ágoa <br> + Buscar minha morte iria.</em>] </blockquote> + +<p class="ni">Lição vulgar. Mas a corrupção de texto não póde ser mais +visivel. Comtudo não difficil atinar-se com o sentido do poeta.</p> + +<p>Acaba de dizer Dionysa a Filodemo que tomára ver-se dalli cem mil leguas, +pelo perigo que corria a sua honestidade. Responde-lhe este, que isso desejava +tambem elle que succedesse; porque nesse caso teria occasião de fazer por ella +uma fineza, que fosse mais de agradecer; e vem a ser, que quando ella por algum +caso da fortuna fosse apartada da gente n'um deserto onde não tivesse por +guarda, senão as feras; por ferro, fogo e ágoa lá iria elle buscar a sua +morte. E porque não póde ser outro o sentido do poeta, corrigimos:</p> + +<blockquote> + <strong>Que quando por accidente <br> + A fortuna desastrada <br> + Vos apartasse da gente <br> + N'um deserto, onde somente <br> + Das feras fosseis guardada; <br> + Lá por ferro, fogo e ágoa <br> + Buscar minha morte iria etc. </strong></blockquote> + +<p class="par_nota">P. 475. L. 20. <em>Que estas cidras não se desistem em nove dias, senão em +nove mezes.</em>] Lição vulgar. Não ha maior corrupção de texto. Que tem +as cidras que desistir? Que o poeta não disse um tal absurdo, he fóra de toda +a dúvida. O que elle disse foi isto:</p> + +<p><strong>E porque estes sirgos não se desistem em nove dias, senão em nove +mezes, foi-lhe a elle necessario acolher-se com ella etc.</strong> <span +class="pn"><a name="pag_510">{510}</a></span></p> + +<p class="ni">Sirgo he o envolucro, onde se encerra o bicho da seda, quando +passa ao estado de metamorphose, e onde se conserva doze dias, ou nove, como +diz o poeta. Mas a ignorancia transformou sirgos em cidras.</p> + +<p class="par_nota">P. 482. L. 7. Porque quando cuido que sem peccado que me obrigasse a tres +dias de purgatorio, passei tres mil de más linguas, peores tenções, damnadas +vontades, nascidas de pura inveja de verem <em>su amada yedra de si arrancada, +y en otro muro asida...</em> Aqui ha lacuna porque falta o verbo da +oração.</p> + +<p class="par_nota">P. 489. V. 28.</p> + +<blockquote> + <em>A quem não assopre a morte <br> + Nem sopre o fogo da vida.</em>] </blockquote> + +<p class="ni">Lição vulgar; mas a do poeta he:</p> + +<blockquote> + <strong>A quem o assôpro da morte <br> + Não sopre o fogo da vida.</strong> </blockquote> + +<p class="par_nota">P. 490. L. 26. <em>Tres cousas não se soffrem sem discordia; companhia, +namorar, mandar villão ruim sobre cousa de seu interesse.</em>] Todas as ed. +Mas o vicio he palpavel: corrigimos: <strong>Duas cousas não se soffrem sem +discordia; companhia no amar, mandar villão ruim sobre cousa de seu +interesse.</strong> <span class="pn"><a name="pag_511">{511}</a></span></p> +</div> + + + + + +<h2>INDEX.</h2> + + +<h4 class="indice">REDONDILHAS &c.</h4> + +<p class="indice"><span class="lpn">Pag.</span> </p> + +<p class="indice"><a href="#pag_100"><span class="lpn">100</span> A alma que está offrecida</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_61"><span class="lpn">61</span> A dor que a minha alma sente</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_113"><span class="lpn">113</span> A morte, pois que sou vosso</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_71"><span class="lpn">71</span> Amor loco, amor loco</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_57"><span class="lpn">57</span> Amor que todos offende</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_63"><span class="lpn">63</span> Amores de huma casada</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_66"><span class="lpn">66</span> Apartárão-se os meus olhos</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_126"><span class="lpn">126</span> Aquella captiva</a></p> + + +<p class="indice"> </p> + +<p class="indice"><a href="#pag_107"><span class="lpn">107</span> Campos bem-aventurados</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_99"><span class="lpn">99</span> Catharina bem promette</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_98"><span class="lpn">98</span> Cinco gallinhas e meia</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_136"><span class="lpn">136</span> Coifa de beirame </a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_103"><span class="lpn">103</span> Com razão queixar-me posso</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_76"><span class="lpn">76</span> Com vossos olhos, Gonçalves</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_38"><span class="lpn">38</span> Conde, cujo illustre peito</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_33"><span class="lpn">33</span> Corre sem vela e sem leme</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_93"><span class="lpn">93</span> Crescem, Camilla, os abrolhos</a></p> + +<p class="indice"> </p> + + +<p class="indice"><a href="#pag_53"><span class="lpn">53</span> Da doença em que ora ardeis</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_62"><span class="lpn">62</span> D'alma e de quanto tiver</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_28"><span class="lpn">28</span> Dama d'estranho primor</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_56"><span class="lpn">56</span> De atormentado e perdido</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_70"><span class="lpn">70</span> De dentro tengo mi mal</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_65"><span class="lpn">65</span> De pequena tomei amor</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_76"><span class="lpn">76</span> De que me serve fugir</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_70"><span class="lpn">70</span> De vuestros ojos centellas</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_54"><span class="lpn">54</span> Deo, Senhora, por sentença</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_91"><span class="lpn">91</span> Deos te salve, Vasco amigo</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_60"><span class="lpn">60</span> Descalça vai pela neve</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_102"><span class="lpn">102</span> Descalça vai para a fonte</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_143"><span class="lpn">143</span> Dó la mi ventura</a></p> + +<p class="indice"> </p> + + +<p class="indice"><a href="#pag_63"><span class="lpn">63</span> Enforquei minha esperança</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_80"><span class="lpn">80</span> Esconjuro-te, Domingas</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_101"><span class="lpn">101</span> Esperei, ja não espero</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_46"><span class="lpn">46</span> Este mundo es el camino</a></p> + + +<p class="indice"> </p> + +<p class="indice"><a href="#pag_67"><span class="lpn">67</span> Falso cavalleiro ingrato</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_101"><span class="lpn">101</span> Ferro, fogo, frio e calma</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_125"><span class="lpn">125</span> Foi-se gastando a esperança</a></p> + +<p class="indice"> </p> + + +<p class="indice"><a href="#pag_78"><span class="lpn">78</span> Ha hum bem que chega e foge</a></p> + + +<p class="indice"> </p> + +<p class="indice"><a href="#pag_132"><span class="lpn">132</span> Irme quiero, madre</a></p> + + +<p class="indice"> </p> + +<p class="indice"><a href="#pag_112"><span class="lpn">112</span> Ja não posso ser contente</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_119"><span class="lpn">119</span> Justa fue mi perdicion</a></p> + +<p class="indice"> </p> + + +<p class="indice"><a href="#pag_105"><span class="lpn">105</span> Mas porém a que cuidados</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_140"><span class="lpn">140</span> Menina formosa</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_52"><span class="lpn">52</span> Menina formosa e crua</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_75"><span class="lpn">75</span> Menina, não sei dizer</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_129"><span class="lpn">129</span> Menina dos olhos verdes</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_118"><span class="lpn">118</span> Minh'alma, lembrae-vos della</a></p> + +<p class="indice"> </p> + + +<p class="indice"><a href="#pag_86"><span class="lpn">86</span> Na fonte está Leonor</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_57"><span class="lpn">57</span> Não estejais aggravada</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_89"><span class="lpn">89</span> Não posso chegar ao cabo</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_74"><span class="lpn">74</span> Não sei se m'engana Helena</a></p> + + +<p class="indice"> </p> + +<p class="indice"><a href="#pag_104"><span class="lpn">104</span> Ojos, herido me habeis</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_55"><span class="lpn">55</span> Olhae que dura sentença</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_94"><span class="lpn">94</span> Olhos em que estão mil flores</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_78"><span class="lpn">78</span> Olhos, não vos mereci</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_79"><span class="lpn">79</span> Os bons vi sempre passar</a></p> + +<p class="indice"> </p> + + +<p class="indice"><a href="#pag_69"><span class="lpn">69</span> Para que me dan tormento</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_145"><span class="lpn">145</span> Pastora da serra</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_43"><span class="lpn">43</span> Peço-vos que me digais</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_83"><span class="lpn">83</span> Pequenos contentamentos</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_84"><span class="lpn">84</span> Perdigão perdeo a penna</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_80"><span class="lpn">80</span> Perguntais-me quem me mata</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_85"><span class="lpn">85</span> Pois a tantas perdições</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_73"><span class="lpn">73</span> Pois damno me faz olhar-vos</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_72"><span class="lpn">72</span> Pois he mais vosso que meu</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_92"><span class="lpn">92</span> Porqué no miras, Giraldo</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_64"><span class="lpn">64</span> Puz o coração nos olhos</a></p> + + +<p class="indice"> </p> + +<p class="indice"><a href="#pag_60"><span class="lpn">60</span> Qual terá culpa de nós</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_77"><span class="lpn">77</span> Quando me quer enganar</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_87"><span class="lpn">87</span> Que diabo ha tão damnado</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_122"><span class="lpn">122</span> Qué veré que me contente</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_103"><span class="lpn">103</span> Quem disser que a barca pende</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_58"><span class="lpn">58</span> Quem no mundo quizer ser</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_128"><span class="lpn">128</span> Quem ora soubesse</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_94"><span class="lpn">94</span> Quem se confia em huns olhos</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_21"><span class="lpn">21</span> Querendo escrever hum dia</a></p> + +<p class="indice"> </p> + + +<p class="indice"><a href="#pag_123"><span class="lpn">123</span> Retrato, vós não sois meu</a></p> + + +<p class="indice"> </p> + +<p class="indice"><a href="#pag_134"><span class="lpn">134</span> Saudade minha</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_81"><span class="lpn">81</span> Se a alma ver-se não póde</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_68"><span class="lpn">68</span> Se de meu mal me contento</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_41"><span class="lpn">41</span> Se derivais da verdade</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_137"><span class="lpn">137</span> Se Helena apartar</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_83"><span class="lpn">83</span> Se me desta terra for</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_128"><span class="lpn">128</span> Se me levão agoas</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_45"><span class="lpn">45</span> Se n'alma e no pensamento</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_35"><span class="lpn">35</span> Se não quereis padecer</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_51"><span class="lpn">51</span> Se vossa Dama vos dá</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_45"><span class="lpn">45</span> Sem olhos vi o mal claro</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_117"><span class="lpn">117</span> Sem ventura he por demais</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_116"><span class="lpn">116</span> Sem vós, e com meu cuidado </a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_59"><span class="lpn">59</span> Senhora, pois me chamais</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_73"><span class="lpn">73</span> Senhora, pois minha vida</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_40"><span class="lpn">40</span> Senhora, s'eu alcançasse</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_95"><span class="lpn">95</span> Sois formosa e tudo tendes</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_9"><span class="lpn">9</span> Sôbolos rios que vão</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_30"><span class="lpn">30</span> Suspeitas, que me quereis</a></p> + +<p class="indice"> </p> + +<p class="indice"><a href="#pag_141"><span class="lpn">141</span> Tende-me mão nelle</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_121"><span class="lpn">121</span> Todo es poco lo posible</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_109"><span class="lpn">109</span> Trabalhos descansarião</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_110"><span class="lpn">110</span> Triste vida se me ordena</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_131"><span class="lpn">131</span> Trocae o cuidado</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_118"><span class="lpn">118</span> Tudo póde huma affeição</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_98"><span class="lpn">98</span> Tudo tendes singular</a></p> + +<p class="indice"> </p> + +<p class="indice"><a href="#pag_148"><span class="lpn">148</span> Vai o bem fugindo</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_72"><span class="lpn">72</span> Vêde bem se nos meus dias</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_115"><span class="lpn">115</span> Vejo-a n'alma pintada</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_79"><span class="lpn">79</span> Venceo-me Amor, não o nego</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_132"><span class="lpn">132</span> Ver e mais guardar</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_138"><span class="lpn">138</span> Verdes são os campos</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_139"><span class="lpn">139</span> Verdes são as hortas</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_90"><span class="lpn">90</span> Vi chorar huns claros olhos</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_135"><span class="lpn">135</span> Vida da minha alma</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_68"><span class="lpn">68</span> Vós, Senhora, tudo tendes</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_146"><span class="lpn">146</span> Vós sois huma Dama</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_122"><span class="lpn">122</span> Vos teneis mi corazon</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_88"><span class="lpn">88</span> Vossa Senhoria creia</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_82"><span class="lpn">82</span> Vosso bem querer, Senhora</a></p> + + +<h4 class="indice">SEXTINAS.</h4> + +<p class="indice"><a href="#pag_152"><span class="lpn">152</span> A culpa de meu mal só tem meus olhos</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_151"><span class="lpn">151</span> Foge-me pouco a pouco a curta vida</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_154"><span class="lpn">154</span> Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_155"><span class="lpn">155</span> Sempre me queixarei desta crueza</a></p> + + +<h4 class="indice">ELEGIAS.</h4> + +<p class="indice"><a href="#pag_194"><span class="lpn">194</span> A vida me aborrece, a morte quero</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_185"><span class="lpn">185</span> Ao pé d'hum'alta faia vi sentado</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_160"><span class="lpn">160</span> Aquella que de amor descomedido</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_175"><span class="lpn">175</span> Aquelle mover de olhos excellente </a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_190"><span class="lpn">190</span> Belisa, unico bem desta alma minha</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_172"><span class="lpn">172</span> Depois que Magalhães teve tecida</a><sup><a href="#rodape4" name="m_rodape4">[4]</a></sup></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_177"><span class="lpn">177</span> Entre rusticas serras e fragosas</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_208"><span class="lpn">208</span> Juizo extremo, horrifico e tremendo</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_164"><span class="lpn">164</span> O poeta Simonides fallando</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_157"><span class="lpn">157</span> O sulmonense Ovidio desterrado</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_196"><span class="lpn">196</span> Que tristes novas, ou que novo damno</a><sup><a href="#rodape5" name="m_rodape5">[5]</a></sup></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_202"><span class="lpn">202</span> Se quando contemplamos as secretas</a></p> + + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_rodape4" name="rodape4">[4]</a></sup> A D. Leoniz Pereira, havendo-lhe Pedro de Magalhães Gandavo +dedicado o seu livro intitulado: <em>Historia da Provincia de Santa +Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil</em>. Impresso em +Lisboa 1576.</p> + +<p><sup><a href="#m_rodape5" name="rodape5">[5]</a></sup> Á morte de D. Miguel de Menezes na India, filho de D. Henrique +de Menezes, Governador da casa do Civil. Foi dirigida a +seu irmão D. Philipe de Menezes.</p> +</div> + +<h4 class="indice">EPISTOLAS.</h4> + +<p class="indice"><a href="#pag_217"><span class="lpn">217</span> Como nos vossos hombros tão constantes</a><sup><a href="#rodape6" name="m_rodape6">[6]</a></sup></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_223"><span class="lpn">223</span> Mui alto Rei a quem os ceos em sorte</a><sup><a href="#rodape7" name="m_rodape7">[7]</a></sup></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_210"><span class="lpn">210</span> Quem póde ser no mundo tão quieto</a><sup><a href="#rodape8" name="m_rodape8">[8]</a></sup></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_225"><span class="lpn">225</span> Senhora se encobrir por alguma arte</a></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_rodape6" name="rodape6">[6]</a></sup> A D. Constantino de Bragança, Viso-Rei da India.</p> + +<p><sup><a href="#m_rodape7" name="rodape7">[7]</a></sup> Sobre a setta que o Papa enviou a ElRei D. Sebastião no anno +de 1575.</p> + +<p><sup><a href="#m_rodape8" name="rodape8">[8]</a></sup> A D. Antonio de Noronha, sôbre o desconcêrto do mundo.</p> +</div> + +<h4 class="indice">OITAVAS.</h4> + +<p class="indice"><a href="#pag_232"><span class="lpn">232</span> Cá nesta Babylonia adonde mana</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_228"><span class="lpn">228</span> Despois que a clara Aurora a noite escura</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_234"><span class="lpn">234</span> D'huma formosa virgem desposada</a></p> + +<h4 class="indice">COMEDIAS.</h4> + +<p class="indice"><a href="#pag_255"><span class="lpn">255</span> ElRei Seleuco</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_301"><span class="lpn">301</span> Os Amphitriões</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_385"><span class="lpn">385</span> Filodemo</a></p> + +<h4 class="indice">CARTAS.</h4> + +<p class="indice"><a href="#pag_481"><span class="lpn">481</span> Carta 1.ª</a></p> + +<p class="indice"><a href="#pag_484"><span class="lpn">484</span> Carta 2.ª</a></p> + +<p class="indice"> </p> + +<p class="indice"><a href="#pag_503"><span class="lpn">503</span> N<small>OTAS</small></a></p> + + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões + Tomo III, by Luís Camões + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUIS DE CAMÕES *** + +***** This file should be named 37192-h.htm or 37192-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/7/1/9/37192/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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